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BOLETIM DEPE

Maio de 2020

PUC-SP
Programa de Estudos Pós-Graduados em Economia Política
Departamento De Economia

DEPE
Grupo de Pesquisas sobre Desenvolvimento Econômico e Política Econômica

Ano V, número 27
DEPE | PUC-SP

Nesta Edição
Brasil: Nível de Atividade.................................................................................................................... 2
IBC-Br......................................................................................................................................................... 2
Serviços ..................................................................................................................................................... 2
Comércio ................................................................................................................................................... 3
Indústria .................................................................................................................................................... 4
Mercado de Trabalho ............................................................................................................................ 6
Emprego .................................................................................................................................................... 6
Inflação ...................................................................................................................................................... 9
IPCA ............................................................................................................................................................ 9
IPCA-15...................................................................................................................................................... 9
IGP-M ........................................................................................................................................................ 10
Política Monetária ................................................................................................................................. 10
Juros.......................................................................................................................................................... 10
Crédito – Sistema Financeiro Nacional ........................................................................................ 12
Crédito – Debêntures ......................................................................................................................... 15
Crédito - Análise ................................................................................................................................... 15
Contas Nacionais .................................................................................................................................. 16
Contas Públicas ..................................................................................................................................... 16
Contas Externas ................................................................................................................................... 18
Internacional e Política ...................................................................................................................... 21
Internacional .......................................................................................................................................... 21
Política ...................................................................................................................................................... 22
Espaço Opinião ..................................................................................................................................... 25
“A tragédia da pandemia do Covid-19 sobreposta a uma crise da economia
brasileira.” .............................................................................................................................................. 25
A economia a serviço da vida: o recado do Covid-19 para os economistas ................ 30
Expediente .............................................................................................................................................. 32

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Mai/2020
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Brasil: Nível de Atividade

IBC-Br
Suspiro de alta ante uma queda iminente?

Em fev/20 o IBC-Br apresentou variação mensal positiva de 0,35% na séria com ajuste sazonal,
a mais alta neste tipo de comparação desde set/19 quando o indicador cresceu 0,5% frente ao mês
anterior. Interrompeu-se também a queda de 3 meses seguidos neste tipo de comparação. Importante
lembrar que enquanto estes dados são divulgados, “olhando pelo retrovisor”, a economia brasileira
começa a sentir os fortes impactos das medidas restritivas derivadas da quarentena, produto do covid-
19, deixando a dúvida do tamanho do impacto que será observado em uma economia que vivia a mais
lenta recuperação pós recessão da sua história.
Isso posto, em fev/20 o índice dessazonalizado ficou em 139,67 pontos, patamar apenas 4,15
pontos acima de fev/16 – menor indicador para o mês de fevereiro desde a recessão de 2016/2017 – e
ainda substancialmente abaixo do verificado em fev/14, o melhor da série histórica, quando o índice
verificado foi de 147,97.
Com relação a série observada, sem ajustes, no acumulado dos 12 meses, o IBC-Br apresentou
alta de 0,66%, no ano a variação é positiva em 0,33%, enquanto que a média móvel trimestral ficou
estável.

IBC-Br
índice mensal dessazonalidado - fevereiro 2010 a 2020
147,97

143,85 144,35
140,73 140,4 139,67
137,17 137,43
135,18 135,52 135,92

2010 2011 2012 2013 2014 2015 2016 2017 2018 2019 2020

Fonte: BCB

Serviços
Fonte: IBGE

A variação no volume total de serviços contratados no Brasil foi negativa em 1,0%, no confronto
com o mês anterior, na série livre de influências sazonais. O resultado freou a ligeira reação apresentada
em janeiro/20, quando na oportunidade havia registrado alta de 0,4%. É o pior resultado para um mês

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Mai/2020
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desde julho/18. Na comparação com igual período do ano anterior, sem ajuste sazonal, o setor assinalou
alta de 0,7%, engrenando a sexta alta consecutiva neste critério.
Apesar de ter avançado 0,7% nos últimos doze meses, houve perda de dinamismo. A mesma
comparação do ano encerrado em janeiro/20 apontou aumento de 1,0%.
Voltando à análise de fevereiro/20, em termos setoriais, três das cinco áreas da pesquisa
contribuíram para a queda total no mês. O maior recuo foi nos Serviços profissionais, administrativos e
complementares (-0,9%), seguidos de Informação e comunicação (-0,5) e Serviços prestados às famílias
(-0,1%). Por outro lado, as atividades de Transporte, serviços auxiliares de transportes e correios
contribuíram para aliviar a queda no resultado geral, registrando alta de 0,4%.
As próximas pesquisas trarão os resultados econômicos da pandemia e o setor de serviços terá
papel ainda mais importante na análise de seus efeitos. Deveremos ter a dimensão real da situação
através das grandes oscilações previstas para este campo, abrindo os dados, por exemplo, nos serviços
referentes à alimentação e lazer, afetados diretamente pelo isolamento social. E, dentro dos Serviços
pessoais e de educação continuada (subdivisão dos Serviços prestados às famílias), lamentavelmente,
os dados dos serviços funerários. Para os economistas que utilizam da realidade como fator primordial
no exame e na formulação de políticas, é impossível realizar uma análise fria e “puramente econômica”
(como dizem os neoclássicos) em tempos como este. Aguardemos os índices.

Brasil: PMS - Variação Mensal (%) - Fevereiro/20


Com ajuste sazonal

0,6%
0,4%
0,4%
0,2%
0,2%
0,0%
-0,2% -0,1%
-0,4%
-0,6% -0,5%
-0,8%
-1,0% -0,9% -1,0%
-1,2%
Serviços prestados Transp., aux. Serviços Outros Serv. de Total
às famílias transp. e correio profissionais, adm. informação e
e comp. comunicação
Fonte: IBGE

Comércio
Em fevereiro/20 houve aumento no volume de vendas do comércio varejista, a alta foi de 1,2%
em comparação com o mês imediatamente anterior, na série dessazonalizada. No mês antes do início
das medidas de isolamento social em razão do novo coronavírus, o comércio mostrava reação após
registrar queda de 1,4% em janeiro/20. Apesar da melhora, a elevação ainda não foi suficiente para que
a média móvel do trimestre encerrado em fevereiro/20 se recuperasse. A variação neste índice foi de -
0,2%. Na análise feita incluindo as atividades de Veículos, motos, partes & peças e de Material de
construção, chamado comércio varejista ampliado, a variação foi mais discreta, ainda que positiva (0,7%).
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Na comparação com fevereiro/19, portanto, sem ajuste sazonal, o comércio varejista acusou alta
de 4,7%, e o comércio varejista ampliado 3,3%, mesmo com dois dias úteis a menos no período
confrontado do ano anterior. Em termos setoriais, com ajuste sazonal, houve aumento em cinco das oito
atividades que compõem a pesquisa. Os destaques foram Móveis e eletrodomésticos (1,6%) e Tecidos,
vestuários e calçados (1,6%). Negativamente, o ressalto ficou por conta dos Livros, jornais, revistas e
papelaria, que registrou queda de 3,8%.
Analisar os índices pré-pandemia, portanto, antes de uma quebra estrutural, por mais que possa
não atrair tanta atenção, também é importante para entendermos os rumos que o setor estava tomando
a partir das medidas já tomadas. A partir da pesquisa de março/20 começaremos a conhecer os efeitos
causados pela pandemia do covid-19 em todos os setores da economia brasileira, e as diretrizes
governamentais na busca pela recuperação passam necessariamente pela compreensão dos números
apresentados e por ações concretas por parte do Governo Federal.

Brasil: PMC - Variação Mensal (%) - Fevereiro/20


Com ajuste sazonal
2,0% 1,5% 1,6% 1,6% 1,5%
1,2%
1,0% 0,6%
0,0%

-1,0% -0,6%
-1,1%
-2,0%

-3,0%

-4,0% -3,8%
-5,0%
Outros arts. Livros, Móveis e Tecido, vest. Hiper, Farm., med., Combust. e Equip. Total
uso pessoal jornais, eletro e calçados super, prod. perfumaria lub. Escrit.
e doméstico papelaria Alim. Informatica
Fonte: IBGE

Indústria

Para dar início aos comentários do desempenho da indústria do mês de março, iremos trazer
algumas informações do último Boletim Focus do Banco Central, datado de 04/05/2020 que traz a
expectativa do mercado do último dia do mês de abril.
As previsões de desaceleração da economia para o ano de 2020 se intensificaram no decorrer do
mês de abril. De forma que as expectativas para o desempenho do produto nacional e da indústria no dia
30/04/2020 eram respectivamente -3,76% e -2,75%.
As expectativas para o desempenho da economia nacional e da indústria para o final do ano de
2021 permanecem positivas e otimistas, apontando crescimento de 3,20% e 3,00%, respectivamente.

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Fator que nos chamou atenção durante os primeiros meses do ano foi o comportamento do Índice
de Preços ao Produtor (PPI), que traduzem os preços que chegam aos fabricantes sem considerar os
impostos e o frete, que tiverem acréscimo de 1,32% no mês de março. Aumento expressivo na
comparação mês a mês em relação aos dois meses que o antecederam uma vez que o mesmo índice
em janeiro havia aumentado 0,35% e em fevereiro 0,81%.
Parte considerável do aumento nos preços do mês de março decorre da variação positiva do dólar
e o seu impacto sob os preços de alguns produtos alimentícios ligados à exportação, que só não
impactaram de forma mais acentuada o índice por conta da queda nos preços do óleo bruto do petróleo
que refletiu diretamente no preço do setor de refino de petróleo e de do álcool.
O tom político e o descompasso nas decisões entre as esferas de governo no combate à pandemia
diante o aumento no número de casos, a aprovação do auxílio aos estados e municípios e a instabilidade
no governo tem incrementado o cenário econômico em um momento em que o que não nos falta é
preocupação com o futuro.
Ao contrário do que prevíamos, os impactos econômicos da pandemia do Coronavírus já foram
percebidos no resultado da produção industrial do mês de março que encerrou com desempenho
negativo da ordem de 9,1%. Suficiente para contribuir com o resultado negativo do primeiro trimestre do
ano (-1,7%).

PIM - Produção Física


Variação Mensal (%) - Série com ajuste sazonal

12,9

1,2 1,3 0,7


0,5 0,7 0,5 0,3 0,5 0,5 0,5 0,3 1,0

-0,3 -0,1 -0,9 -0,1 -0,6 -0,2


-1,1 -1,1 -1,6 -1,0
-2,5 -2,6

-9,1
-11,0
ago/18

mar/19

ago/19
fev/18
mar/18

jun/18

dez/18

fev/19

dez/19
nov/18

jun/19

nov/19

fev/20
mar/20
jan/18

abr/18

jul/18

jan/19

abr/19

jul/19

jan/20
mai/18

mai/19
set/18
out/18

set/19
out/19

Fonte: IBGE

Das quatro grandes categorias econômicas acompanhadas na pesquisa do IBGE, “Bens de


Capital” foi a categoria que apresentou o pior resultado, com queda de 15,2% em relação a produção
aferida em fevereiro, seguida de perto por “Bens de Consumo” que teve a produção reduzida em 14,5%
e por fim, “Bens Intermediários” que caiu 3,8%.
A produção industrial de Bens de Consumo engloba a produção de produtos “Duráveis” e
“Semiduráveis e não Duráveis”. Sendo que a produção de produtos duráveis reduziu expressivos 23,5%
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em relação ao mês anterior enquanto que a produção de semiduráveis e não duráveis reduziu 12,0% na
mesma base de comparação.
Dos 26 ramos contemplados na pesquisa, 23 encerraram o mês de março com resultado negativo.
Ao analisarmos as seções da indústria, identificamos que as que mais contribuíram para o baixo
desempenho no mês de março foram “Confecção de artigos do vestuário e acessórios”, “Preparação de
couros e fabricação de artefatos de couro, artigos para viagem e calçados”, “Fabricação de veículos
automotores, reboques e carrocerias”, “Fabricação de móveis” com os respectivos resultados negativos
quando comparados ao fechamento do mês anterior “37,8%”, “31,5%”, “28,0%” e “27,2%”.
Em retrospectiva, embora o resultado obtido nos dois primeiros meses do ano tenha sido
significativo no sentido de ter interrompido a trajetória negativa da produção industrial por conta de
resultados desfavoráveis nos dois últimos meses de 2019, quando acumulava queda de -2,5%, os
impactos da pandemia já se mostraram presentes no resultado do primeiro trimestre do ano e voltamos
ao valor histórico de maio/2018 quando a produção industrial chegou a apontar uma queda de -11,0% na
série com ajuste sazonal.
A exemplo do desempenho da produção do mês de março. As quatro grandes categorias
econômicas encerraram o primeiro trimestre do ano com resultados negativos e no total, a produção
industrial amargou queda de 1,7% quando comparada ao fechamento do trimestre anterior, encerrado
em dezembro/2019 com -0,5%.

3,6
2,1

-0,5 -0,2
-1,8 -1,7 -1,5
-3,6 -3,2

-6,4
Bens de Consumo Bens de Capital Bens de Consumo Indútria Geral Bens Intermediários
Duráveis Semi e Não Duráveis
4. Trimestre/2019 Jan-Mar/2020

Fonte: IBGE

Mercado de Trabalho

Emprego
De acordo com os últimos dados divulgados na PNAD (Pesquisa Nacional por Amostra de
Domicílios), o número de desocupados atingiu cerca de 12,9 milhões de brasileiros, um aumento de

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10,5% - 1,2 milhão de pessoas - em relação ao último trimestre móvel de 2019. Na comparação com o
mesmo trimestre de 2019 há queda da desocupação em 4% (-500 mil pessoas). Esse é um movimento
típico para essa época, na comparação com o trimestre anterior e as contratações de final de ano, porém
o número de desocupados poderia ser bem maior se não fosse crescimento de 2 milhões de pessoas
que saíram da força de trabalho em 12 meses.
Os números ainda não refletem os efeitos causados pela pandemia, pois englobam as
informações de janeiro a março de 2020, e apenas a segunda quinzena de março foi impactada pelas
restrições, portanto nos próximos 2 meses ainda não teremos um quadro completo dos impactos da
pandemia no mercado de trabalho.
Dessa forma, a taxa de desocupação atingiu 12,2% da força de trabalho, um aumento de 1,3 p.p.
em relação ao trimestre móvel imediatamente anterior e queda de 0,5 p.p. sobre o mesmo trimestre de
2019.
A população ocupada totalizou 92,2 milhões de pessoas, apresentando queda de 2,5%, uma
redução de 2,3 milhões de pessoas na comparação com o trimestre imediatamente anterior. Na
comparação com o mesmo trimestre de 2019 há um aumento de 360 mil, ou 0,4%.
Entre os tipos de ocupação o que chama a atenção é queda da ocupação em quase todos os
tipos, com exceção do “conta própria” com CNPJ, que apresentou aumento de 6,7% na comparação com
o trimestre anterior e 14,3% (680 mil pessoas) em relação ao mesmo período de 2019, esse crescimento
tem relação as novas exigências de criação de CNPJ de microempreendedor individual para motoristas
de aplicativos.
Entre as quedas, a maior foi nas ocupações de empregado no setor privado com -1,4 milhões de
pessoas, tanto com carteira de trabalho assinada (- 572 mil), quanto sem carteira (-862 mil). Outras duas
quedas importantes foram verificadas no emprego doméstico (-385 mil) e conta própria sem cnpj (-742
mil).
O total de pessoas subutilizadas (pessoas desocupadas, subocupadas por insuficiência de horas
trabalhadas e na força de trabalho potencial) alcançou o contingente de 27,6 milhões de pessoas, um
aumento de 1,46 milhão de pessoas (5,6%) na comparação com o mesmo trimestre de 2019 e queda de
700 mil pessoas (2,5%), em relação ao trimestre imediatamente anterior.
Em relação ao rendimento do trabalho, a média real de todos os trabalhos (R$ 2.398), e
permanece muito próxima da estabilidade, com crescimento de 1,1% sobre o trimestre imediatamente
anterior e queda de 0,3% na comparação com o mesmo trimestre de 2019.
A massa real de rendimentos totalizou R$ 216,3 bilhões, aumento de 1,5% sobre o mesmo
trimestre de 2019 e queda de 1,3% em relação ao trimestre imediatamente anterior.

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‘Mercado de trabalho – Indicadores selecionados


Trim.
Posição no mercado de trabalho/Período set-out- Trim. Atual/Trim.
dez-jan- nov dez-jan- Atual/Trim. igual ano
fev 2019 2019 fev 2020 Anterior(%) anterior (%)
Na força de trabalho 105.250 106.184 105.073 -1,0 -0,2
Ocupadas 91.863 94.552 92.223 -2,5 0,4
Subocupadas por insuficiência de horas
6.768 6.792 6.467 -4,8 -4,4
trabalhadas
Desocupadas 13.387 11.632 12.850 10,5 -4,0
Fora da força de trabalho 65.250 65.429 67.281 2,8 3,1
Na força de trabalho potencial 8.169 7.735 8.303 7,3 1,6
Desalentadas 4.843 4.620 4.770 3,2 -1,5
Desocupadas ou subocupadas por
insuficiência de horas trabalhadas ou na 28.324 26.158 27.620 5,6 -2,5
força de trabalho potencial
Empregado C/ carteira setor privado 32.918 33.668 33.096 -1,7 0,5
Empregado S/ carteira setor privado 11.124 11.855 11.023 -7,0 -0,9
Emprego doméstico 6.108 6.356 5.971 -6,1 -2,2
Setor publico 11.362 11.641 11.652 0,1 2,6
Empregador 4.435 4.442 4.385 -1,3 -1,1
Conta própria 23.750 24.557 24.159 -1,6 1,7
Conta própria com CNPJ 4.762 5.101 5.444 6,7 14,3
Conta própria sem CNPJ 18.988 19.456 18.714 -3,8 -1,4
Trab. familiar auxiliar 2.166 2.033 1.938 -4,7 -10,5
Rendimento real médio (R$) 2.378 2.371 2.398 1,1 0,8
Massa de rendimento real habitual de todos
os trabalhos das pessoas ocupadas (R$ 213.079 219.172 216.290 -1,3 1,5
milhões)
Fonte: IBGE – PNAD Contínua

Além dos dados do mercado de trabalho serem preocupantes mesmo ainda sem os efeitos da
pandemia, outra questão que preocupa é não divulgação dos dados do CAGED (Cadastro Geral de
Empregados e Desempregados), que tinha periodicidade mensal e por ser registro administrativo (e não
pesquisa amostral como a PNAD) permitiria na crise atual acompanhar com muito mais rapidez os efeitos
da crise no mercado de trabalho formal. Como a PNAD é uma média móvel trimestral só teremos os
dados, sobre o trimestre abril, maio e junho, com os efeitos da pandemia no final de julho apenas. Somado
a isso ainda teremos os problemas relacionados às entrevistas telefônicas, que podem gerar dificuldades
na confirmação que o pesquisador é realmente do IBGE, o que pode ter impactos nas respostas dos
entrevistados.

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Inflação

IPCA
O Índice de Preços ao Consumidor Amplo – IPCA - registrado em março de 2020 apresentou uma
variação de 0,07%. Entre os setores que registraram as maiores variações estão: Alimentos e Bebidas
(+1,13) e Educação (+0,59). Em março, três setores apresentaram deflação, sendo: Artigos de
Residência (-1,08), Transportes (-0,90) e Despesas Pessoais (-0,23). A inflação acumulada em 2020 é
de 0,53% e nos últimos doze meses chega a 3,30%.
O mês de março foi o primeiro a já apresentar alterações na rotina do IBGE devido ao Covid-19.
A continuidade da coleta dos dados teve de ser realizada através da internet ou telefone a partir do dia
18, por causa das primeiras medidas de Isolamento Social no país

BRASIL: IPCA
VARIAÇÃO MENSAL (%)

1,15
0,57

0,51

0,25
0,21
0,19
0,13

0,11

0,07
-0,04

0,1
0,01

ABR/19 MAI/19 JUN/19 JUL/19 AGO/19 SET/19 OUT/19 NOV/19 DEZ/19 JAN/20 FEV/20 MAR/20

Fonte: IBGE

A última edição do Boletim Focus, divulgada no dia 04/05/2020, prevê uma inflação de 1,97% para
esse ano. Há um mês essa projeção, já contando com o Covid-19, era de 2,94%, e a tendência é que
com o agravamento da crise, caso o governo continue lento na tomada de ações, ela fique cada vez mais
próxima de zero, demostrando a total paralisa na economia brasileira.
Com a inflação mensal cada vez mais próxima de zero e com o acumulado em doze meses ficando
ainda mais abaixo do que o previsto, está nítida a necessidade de medidas econômicas de curto prazo
para estimular a economia, e que em cenários como o atual não são capazes de comprometer o controle
da inflação no pais.

IPCA-15
O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo 15 – IPCA-15, registrado em abril de 2020
apresentou queda de -0,01%. Repetindo o ocorrido em março, o índice apresentou o menor resultado
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para o mesmo período desde o início do Plano Real. No ano, o acumulado é de 0,94% e o acumulado
nos últimos 12 meses é de 2,92%
O setor de Transportes, com queda de 1,47 e impacto negativo de -0,30, foi o setor que apresentou
o maior impacto para essa queda registrada para o IPCA-15 em abril. Em sentido oposto, os setores de
Alimentação e Bebidas (+2,46) e Habitação (+0,12) apresentaram variações positivas no período.

IGP-M
O Índice Geral de Preços – Mercado - IGP-M registrado em março foi de 0,80 %, e apresenta alta
de 6,68% em 12 meses. Em 2020 a alta chega a 2,50%.
O Índice de Preços ao Produtor Amplo – IPA, que corresponde a 60% do IGP-M, variou 1,12%; já
o Índice de Preços ao Consumidor – IPC, que representa 30% do índice geral, apresentou variação de
0,13% em abril. Por último, o Índice Nacional de Custo da Construção - INCC teve uma variação de
0,18%, bem abaixo dos 0,38% registrados em maço.

BRASIL: IGP-M
VARIAÇÃO MENSAL (%)

2,09

1,24
0,8
0,8 0,68
0,45 0,3 0,48
0,4
-0,01

mai/19 jun/19 jul/19 ago/19 set/19 out/19 nov/19 dez/19 jan/20 fev/20 mar/20 abr/20

-0,04
-0,67
Fonte: FGV

Política Monetária

Juros
Os últimos presidentes do Banco Central (BC) marcaram pelas suas posturas, prudentes e
cautelosas. Colhemos alguns frutos disso, alguns bons frutos, outros um tanto quanto amargos. Em
fev/16 tínhamos uma inflação anual de 10,4%, sendo que agora estamos em 3,3% em mar/20, com
projeção para encerrarmos o ano em 1,97%, de acordo o Boletim Focus de 04/05/2020. Por outro lado,
também em fev/16, a taxa meta Selic estava em 14,25% e a taxa de desemprego em 10,2%, alcançando
13,7% em mar/17, finalizando mar/20 em 12,2%.

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Diante dos efeitos da pandemia, com a redução da demanda externa, impacto sobre os preços
das commodities e a volatilidade dos produtos financeiros, se faz necessária uma atuação mais arrojada
do BC. A grande questão no momento não se resume às medidas adotadas, mas também a sua
velocidade de efetivação.
A autoridade monetária agiu com rapidez no aumento da liquidez do setor financeiro, garantindo
sua estabilidade. Porém, as ações, e aqui entra também os governos federal e regionais, para garantir a
renda e, assim, garantir o consumo, segue em ritmo muito lento. Muitos casos de problemas na liberação
do auxílio emergencial de R$ 600,00. Além de casos de pequenos empresários com dificuldades para
conseguir acesso às linhas emergenciais de crédito. Segundo levantamento do Datafolha, 3 em cada 4
pequenos industriais têm dificuldades no acesso aos créditos emergenciais.
Mesmo reconhecendo o aumento da potência da política monetária, defendida pelo BC, com o
aumento do crédito amplo, no caso, dos mercados de capitais e externo, ainda são praticamente
exclusivos às grandes empresas, sendo muito rara as operações com empresas de menor porte.
Em contrapartida, existe quem defenda que qualquer diminuição na meta Selic possa trazer mais
volatilidade à estrutura a termo, com aumento nos prêmios nos vértices futuros, dificuldades para a
“rolagem” da dívida, além de aumentar a velocidade de depreciação do real. Ainda, quem veja que
qualquer modificação seria inócua. Nesse ponto, destacaria o efeito positivo de uma redução da Selic no
custo da dívida.
A preocupação com a parte longa da curva é válida, ela serve de referencial para a concessão de
crédito, principalmente dos de longo prazo. O BC já afirmou a possibilidade de atuação na negociação
de títulos públicos e privados. Tal possibilidade pode ser benéfica, estabilizando a inclinação da curva e
dando liquidez no mercado secundário. Entretanto, levanta questionamento de como será a sua operação
e a qualidade dos ativos em questão.
Na última reunião (07/06/2020), a Comitê de Política Monetária, o Copom, decidiu pela redução
da taxa meta Selic em 0,75 p.p. para 3,0% a.a.. No seu comunicado, destacou a deterioração do cenário
desde a última reunião. Entretanto, ressalta que os fatores de riscos no balanço inflacionário segue em
ambas as direções. Ainda, destaca o risco com a política fiscal com o aumento dos gastos decorrente
das respostas ao Covid-19. Por fim, a autoridade monetária sinalizou uma provisão de estímulos
moderada, projetando para a próxima reunião um ajuste não muito distante do ocorrido, condicionado à
evolução do balanço de risco.
Apesar da necessidade de estímulos fiscais e monetários, com a meta Selic em sua mínima
histórica e as forte saída de capitais estrangeiros, levantou-se a dúvida quanto ao impacto dessa redução
da taxa no comportamento do câmbio, que poderia aumentar o fluxo de saída de moeda estrangeira,
pressionando ainda mais a depreciação do real. Porém, principalmente com a elevação dos prêmios nos
vértices futuros, desde o começo do ano o que observou-se foi um aumento no diferencial entre as taxas
de juros brasileira e norte-americana, tanto para as de dois anos, cinco anos e para a taxa básica de juros
(Selic e Fed Fund, respectivamente).

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Ano V, número 27
Mai/2020
DEPE | PUC-SP

Em um ambiente de elevadas incertezas, aumento da aversão ao risco e alta volatilidade nos


mercados, a corrida por “ativos seguros” se sobrepõe à rentabilidade. Nesse sentido, a instabilidade
política, tensões geopolíticas, contração do comércio mundial e a imprevisibilidade da duração da
pandemia tomam preponderância em relação à política monetária praticada.

Diferencial da taxa de juros: Brasil x EUA


Em p.p.
9,0
8,0
7,0
6,37
6,0
5,0
4,0 3,83
3,40
3,0
2,0
1,0
2-mar-20

9-mar-20

16-mar-20

23-mar-20

30-mar-20

4-mai-20
6-jan-20

3-fev-20

10-fev-20

17-fev-20

24-fev-20
30-dez-19

13-jan-20

20-jan-20

27-jan-20

6-abr-20

13-abr-20

20-abr-20

27-abr-20
2 anos 5 anos Selic

Fonte: ANBIMA/ Federal Reserve – Elaboração própria

Crédito – Sistema Financeiro Nacional


O gráfico abaixo, mostra o saldo do crédito no sistema financeiro nacional com relação ao PIB
desde 2015.O mês de março/20 ficou em 48,9% melhor resultados dos últimos anos, abaixo 4,8 p.p. do
início da série mostrada em dezembro/15. O saldo do crédito no Sistema Financeiro Nacional (SFN)
presentou um crescimento de 2,9% de fevereiro para março de 2020, sendo do total de R$ 3,6 trilhões
assim dividido; 42,8% fora destinado para pessoas jurídicas e 57,2% para pessoas físicas.
Brasil
Crédito Sistema Financeiro
Em (%) PIB
56,0
53,7
54,0
mar/20; 48,9
52,0
49,6
50,0
47,4 47,9
48,0 47,1

46,0
44,0
42,0

Fonte: BCB
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Ano V, número 27
Mai/2020
DEPE | PUC-SP

O segmento de crédito livre para pessoas jurídicas teve aumento de 9,9%, as influências maiores
ocorreram no desconto de duplicatas e recebíveis e antecipação de fatura de cartão (ambas com forte
componente sazonal), bem como, capital de giro e adiantamento de contrato de câmbio e financiamento
à exportação. Já para pessoas físicas crescimento não significativo de 0,1% entre fevereiro a março de
2020. Nos últimos 12 meses o crescimento foi de 21,7% e 15,7% respectivamente. A divisão dos valores
distribuídos em recursos livres ficou em R$ 979 bi para pessoas jurídicas e R$ 1,1 tri para pessoas físicas.
O segmento de crédito direcionado teve crescimento de 0,8% no mês e retração de –11,9% em
12 meses para pessoas jurídicas e de 0,6% no mês e aumento de 7,2% em 12 meses para pessoas
físicas.
A inadimplência apresentou um leve crescimento de 0,2% ficando em 3,2%.

Brasil
Crédito Sistema Financeiro
Taxa de Juros (%) a.a.
Recursos Livres 46,1
60
47,6 16,6
50
40
30
18,9
20
10
0

Pessoa Jurídica Pessoa Física

Fonte: BCB

O Spread bancário na ponderação geral (diferença entre a taxa de aplicação e captação de


recursos do banco) que estava 18.6 p.p em fevereiro de 2020 caiu para 18 p.p. em março de 2020.

Brasil
Crédito Sistema Financeiro
Spread p.p.
Recursos Livres 40,1
50
11,3
40
30
20
10
0

Pessoa Jurídica Pessoa Física

Fonte: BCB

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Ano V, número 27
Mai/2020
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Brasil: Taxa de Juros Pessoa Física (%) a.a.

Cartão
Período Juros Cheque CDC - bancos - Empréstimo pessoal
de
Comércio Crédito Especial financ.automóveis Bancos Financeira
Março / 20 75,52% 263,71% 134,22% 18,72% 48,67% 111,71%
Fevereiro / 20 71,12% 260,58% 133,70% 18,44% 48,33% 110,76%
Janeiro / 20 75,52% 261,36% 134,48% 18,72% 49,02% 111,95%
Dezembro / 19 75,93% 265,28% 272,02% 19,00% 49,36% 112,43%
Novembro / 19 76,33% 266,85% 273,63% 19,28% 49,71% 113,39%
Outubro / 19 77,14% 268,44% 274,43% 19,56% 50,41% 114,11%
Setembro / 19 77,95% 266,06% 275,24% 19,99% 51,81% 115,56%
Agosto / 19 78,36% 266,85% 277,26% 20,27% 52,16% 116,54%
Julho / 19 78,77% 267,64% 278,88% 20,56% 52,87% 117,02%
Junho / 19 79,59% 268,83% 280,92% 20,98% 53,58% 118,00%
Maio / 19 79,18% 265,67% 276,85% 21,56% 53,22% 116,78%
Abril / 19 79,38% 267,64% 278,07% 21,84% 53,58% 117,76%
Março / 19 79,59% 268,44% 279,29% 22,13% 53,93% 118,25%
Fevereiro / 19 80,00% 265,28% 276,45% 22,42% 55,01% 118,25%
Janeiro / 19 80,41% 270,03% 278,88% 22,85% 55,37% 118,74%
Março / 18 87,97% 322,98% 295,48% 26,08% 62,33% 136,06%
Fonte: Anefac - Associação Nacional dos Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade

Brasil: Taxa de Juros Pessoa Jurídica (%) a.a.

Período Capital Desconto Conta


de Giro de Duplicata Garantida
Março / 20 16,35% 18,86% 119,72%
Fevereiro / 20 15,80% 18,72% 117,76%
Janeiro / 20 16,21% 19,14% 118,49%
Dezembro / 19 16,49% 19,84% 118,99%
Novembro / 19 16,77% 20,41% 119,48%
Outubro / 19 17,32% 20,98% 120,22%
Setembro / 19 18,02% 21,84% 121,21%
Agosto / 19 18,30% 22,13% 122,96%
Julho / 19 18,58% 22,42% 124,21%
Junho / 19 18,86% 22,71% 125,22%
Maio / 19 19,42% 23,14% 126,23%
Abril / 19 19,70% 23,58% 127,25%
Março / 19 19,84% 23,87% 127,76%
Fevereiro / 19 20,13% 24,16% 128,27%
Janeiro / 19 20,41% 24,75% 130,07%
Março / 18 27,27% 34,33% 146,28%
Fonte: Anefac - Associação Nacional dos Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade

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Adicionamos a tabela das taxas de juros anuais cobradas pelo bancos, tanto para pessoa física e
pessoa jurídica por modalidade de produto, com isso, podemos observar os níveis elevadíssimos das
taxas ao longo dos meses, vale lembrar que a redução da taxa do cheque especial a partir de janeiro/20
ocorre em função de limite imposto pela Conselho Monetário Nacional. Até o dia 04 de maio, a meta de
juros determinada pelos membros do Copom do Banco Central do Brasil estava em 3,75% a.a..

Crédito – Debêntures
Debêntures são títulos de crédito (títulos emitidos por empresas para financiamento de longo
prazo, com um custo favorável). Em março/20 houve aumento de 18% nas emissões frente ao mês
anterior totalizando R$ 5.646 milhões, comparado o acumulado no primeiro trimestre de 2020 contra o
mesmo período de 2019 ocorreu um recuo de -40,2%.
A emissão de debêntures no setor de energia elétrica foi o destaque do mês, concentrando maior
emissão de todos os outros setores, com destaque para as empresas do grupo Energisa, uma das
maiores distribuidoras de energia do Brasil, que emitiu sozinha 31,6% das debêntures do segmento.

Brasil: Emissões de Debêntures - Evolução Mês - R$ milhões - 2020


Posição Setor jan/20 fev/20 mar/20 Total Geral
1 Energia Elétrica R$ 937,10 R$ 2.040,00 R$ 2.047,10 R$ 5.024,20
2 TI e Telecomunicações R$ 2.500,00 R$ 123,00 R$ 60,00 R$ 2.683,00
3 Comércio Atacadista e Varejista R$ 2.000,00 R$ 90,00 R$ 510,00 R$ 2.600,00
4 Locação de Veículos R$ 1.000,00 R$ 1.000,00
5 Transporte e Logística R$ 900,00 R$ 900,00
6 Financeiro R$ 45,75 R$ 832,00 R$ 877,75
7 Serviços Imobiliários R$ 450,00 R$ 185,00 R$ 185,00 R$ 820,00
8 Saneamento R$ 55,00 R$ 305,00 R$ 350,00 R$ 710,00
9 Comunicação R$ 660,00 R$ 660,00
10 Educação R$ 155,00 R$ 470,00 R$ 625,00
11 Empreendimentos e Participações R$ 260,00 R$ 260,00
12 Bioenergia R$ 200,00 R$ 200,00
13 Outros Serviços R$ 90,00 R$ 100,00 R$ 190,00
14 Indústria e Comércio R$ 40,00 R$ 100,00 R$ 140,00
15 Construção Civil R$ 132,00 R$ 132,00
Total Geral R$ 6.377,85 R$ 4.798,00 R$ 5.646,10 R$ 16.821,95
Fonte: Anbima - Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais

Crédito - Análise
O mês de março/20 começa a aparecer os primeiros sinais das restrições impostas pelo combate
ao Covid-19. De um lado, observamos um aumento do estoque de crédito no sistema financeiro nacional
para 48,9% o melhor resultado dos últimos anos, fruto provavelmente das medidas iniciais adotadas pelo
BCB, como por exemplo, redução da alíquota de depósito compulsório. Porém, o que seria uma notícia
positiva no curto prazo, deve ser observada com cuidado, sobretudo a partir dos próximos meses, pois,
dentro do grupo de recursos livres o crescimento ocorreu para pessoa jurídica, quando segmentado por

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Mai/2020
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tamanho de empresa, o saldo para micro, pequena e média empresa foi de 36% e da grande empresa
64%, contra 37,5% e 62,5% respectivamente no mês de fevereiro/20. Ou seja, temos uma recomposição
do empréstimo pelo porte da pessoa jurídica. O aumento do risco de crédito pode levar à uma
concentração maior do crédito nos próximos meses, deixando a pequena e média empresa em uma
situação ainda mais delicada, com taxas cobradas mais elevadas.
O crescimento das emissões de debêntures no mês de março/20 também apresenta suas
fragilidades, porque quase 11,50% do total das emissões foi concentrado em empresas de um mesmo
grupo econômico e as restrições mais severas na economia foram amadurecendo em meados do meio
do mês. A baixa liquidez das debêntures e o cenário econômico futuro, tem como consequência fortes
desequilíbrios observados nos preços dos papéis, aliado a pedidos de renegociação de taxas pagas e
postergação de pagamento de juros, isso tudo, levou ao anúncio de medidas de intervenção fortes por
parte do BC no mercado de crédito, ainda não totalmente implementadas. Com isso, cresceu o destino
destas novas emissões para “capital de giro” com 42,3%, refinanciamento do passivo em 15,7% e
recompra ou resgate de debêntures com 8,5%, apurada pela Anbima.
O governo Bolsonaro na figura de seu ministro Paulo Guedes, encontra-se diante de uma
encruzilhada, está sendo forçado a adotar medidas de protagonismo direto por parte do Estado (tanto
com recursos do Tesouro Nacional, como com o BNDES, Banco do Brasil e Caixa Econômica) na
economia que sempre combateu, com isso, acaba veladamente postergando medidas anunciadas de
combate à crise econômica ou mesmo aquelas aprovadas pela Câmara e Senado. Na verdade,
aprofundando a crise já esperada no mercado de crédito.

Contas Nacionais

Contas Públicas

No mês de março o resultado do setor público consolidado apresentou déficit primário de R$ 23,7
bilhões, composto pelo déficit de R$21,4 bilhões e R$2,7 bilhões no Governo Central e nos governos
regionais, respectivamente. Nas empresas estatais houve superávit de R$405 milhões. No acumulado do
ano, o resultado foi superavitário em R$11,7 bilhões, comparativamente a um superávit de R$13,3 bilhões
no mesmo período no ano passado. Vale ressaltar que no mês em questão os efeitos do novo coronavírus
sobre as contas públicas ainda são incipientes.
Os juros nominais do setor público consolidado, apropriados por competência, chegou a R$56
bilhões em março, apresentando aumento se comparado ao mesmo mês em 2019, quando os juros
nominais alcançaram R$43,5 bilhões. Essa elevação em parte é explicada pela perda de R$31,3 bilhões
das operações de swap cambial, mas que em contrapartida foi compensado pela redução da taxa Selic
e do IPCA no período. Nos últimos doze meses o resultado acumulado dos juros nominais foi de R$394,5
bilhões (5,37% do PIB), enquanto até março/19 o acumulado foi de R$384,5 bilhões (5,53% do PIB).

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Mai/2020
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Com relação ao resultado nominal do setor público consolidado, que é composto pelo resultado
primário acrescido dos juros nominais apropriados, houve déficit de R$79,7 bilhões em março/20. No
acumulado dos últimos doze meses o déficit nominal chegou a R$457, 9 bilhões (6,24% do PIB),
apresentando elevação de 0,22 p.p do PIB se comparado ao acumulado até fevereiro/20.
A Dívida líquida do setor público (DLSP), formada pelo endividamento líquido do Governo Federal
e dos governos estaduais e municipais, em conjunto ao sistema financeiro público e privado, setor privado
financeiro e restante do mundo, alcançou R$ 3.797,4 bilhões (51,7% do PIB), apresentando queda de 1,9
p.p do PIB comparativamente ao mês anterior, quando o valor da dívida em percentual do PIB foi de
53,5%. Esse resultado deve-se principalmente a desvalorização do câmbio em 15,6% no mês (redução
de 2,6 p.p. do PIB), o crescimento do PIB nominal (redução de 0,2 p.p.), o ajuste da paridade da cesta
de moedas que integram a dívida externa líquida (redução de 0,2 p.p.), o déficit primário (aumento de 0,3
p.p.) e os juros nominais apropriados (aumento de 0,8 p.p.).
A redução da relação DLSP/ PIB em 4,0 p.p. deve-se a desvalorização cambial acumulada de
29% (redução de 4,3 p.p.), ao ajuste da paridade da cesta de moedas da dívida externa líquida (redução
de 0,4 p.p.), o crescimento do PIB nominal (redução de 0,6 p.p.), o superávit primário acumulado (redução
de 0,2 p.p.) e aos juros nominais apropriados (aumento de 1,7 p.p.).

Evolução da dívida
Em relação ao PIB
90%
78,40%
80%

70%

60% 51,70%
50%

40%

30%

20%

10%

0%
mar/13 mar/14 mar/15 mar/16 mar/17 mar/18 mar/19 mar/20

DLSP DBGG

Fonte: BCB

A Dívida Bruta do Governo Geral (DBGG) que engloba o Governo Federal, o INSS e os governos
estaduais e municipais chegou a R$5.758,4 bilhões (78,4% do PIB) em março/20, um aumento de 1,7
p.p. do PIB se comparado ao mês anterior. Esse aumento está relacionado as emissões líquidas de dívida
bruta (aumento de 0,8 p.p.), aos juros nominais (aumento de 0,4 p.p.), a desvalorização cambial (aumento
de 0,8 p.p.), e ao crescimento do PIB nominal (redução de 0,3 p.p.). A relação DBGG/PIB, por sua vez,
apresentou aumento de 2,6 p.p. em decorrência da desvalorização cambial (aumento de 1,4 p.p.), dos
juros nominais (aumento de 1,2 p.p.), das emissões líquidas de dívida (aumento de 1,0 p.p.) e do
crescimento do PIB nominal (redução de 0,9 p.p.).

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Contas Externas
Análise mensal para o último mês encerrado: março/2020

Partindo da balança comercial, em março/2020 as exportações de bens totalizaram US$19,3


bilhões, aumento de quase 11% em relação ao mesmo mês em 2019. Já as importações, totalizaram
uma cifra de US$15,1 bilhões e aumentaram também quase 11% na comparação interanual. Esse
aumento deve-se, principalmente, as importações líquidas de bens no âmbito do Repetro, o que em
março/2019 não ocorreu. Nesse sentido, a balança comercial fechou o mês superavitária.
Outro destaque, é o desempenho da conta de serviços. Em março/2020 o déficit associado a essa
conta foi 24,2% inferior ao resultado de março/2019. A maior contribuição para esse recuo veio da
redução de 70,2% nas despesas líquidas de viagens, fruto da contenção do fluxo de viajantes por causa
da pandemia. Enquanto em março/2020 essa cifra totalizou US$227 milhões, em março/2019 ela ficou
em US$760 milhões. A elevação nas receitas líquidas de outros serviços de negócios, de US$491 milhões
para US$725 milhões, também auxiliou a redução do déficit em serviços.
Por fim, fechando o grupo das transações correntes, destaca-se que em março/2020, o déficit em
renda primária recuou 61,9% na comparação com março/2019, atingindo US$1,6 bilhões. Os gastos
líquidos com juros somaram US$837 milhões no mês, queda de 37,3% na comparação interanual, com
retração tanto das despesas quanto das receitas.
As despesas líquidas de lucros e dividendos foram estimadas em US$809 milhões, redução de
72,9% ante os US$3,0 bilhões observados em março/2019, explicando a maior parte da redução do déficit
em renda primária. Na mesma base de comparação, as receitas totais de lucros (remetidas e reinvestidas)
passaram de US$1,5 bilhão para US$257 milhões, e as despesas totais de lucros (remetidas e
reinvestidas) decresceram de US$4,5 bilhões para US$1,1 bilhão.
Assim, o saldo das transações correntes em março/2020 apresentou um superávit de US$868
milhões, ante déficit de US$2,7 bilhões, no mesmo mês de 2019. Esse foi o primeiro superávit desde
junho de 2017 (US$431 milhões). O que mais corroborou para esse superávit foi o recuo do déficit na
renda primária, US$2,7 bilhões e redução no déficit na conta de serviços, US$569 milhões.
Partindo para o grupo da conta capital e iniciando pelos capitais de curto prazo, a saídas de
investimento em portfólio atingiram US$ 22,2 bilhões só para o mês de março/2020. O cenário de
pandemia agravou os investimentos em portfólio aumentando a saída de capitais no acumulado de doze
meses em US$ 42,2 bilhões.
Especialmente as saídas na bolsa de valores somaram US$ 7,6 bilhões em março, novo recorde
de saídas. Esse movimento negativo nas aplicações em portfólio no mercado doméstico pode ser visto
como resultado de uma alta procura por ativos seguros e mais líquidos. Os capitais estrangeiros tendem
a buscar ativos de preferência em mercados do país de origem dos capitais, já que as incertezas sobre
a economia diante da pandemia só aumentam.

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Ano V, número 27
Mai/2020
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Já os ingressos líquidos em investimentos diretos no país (IDP), diferentemente do que ocorreu


com os investimentos em portfólio, apresentaram estabilidade. No acumulado de doze meses, o país
apresentou um total de US$ 4,0 bilhões de investimentos reversos, aqueles em que a empresa possui
matriz no Brasil e filiais no exterior. Os dados mostram um total de US$ 79,5 bilhões no acumulado de
dozes meses para o IDP, correspondendo a 4,49% do PIB. O ingresso desses investimentos mostra que
as empresas ainda mantem necessidade de manter os investimentos no momento de crise.
Análise trimestral para os três últimos meses encerrados: jan-mar/2020
O Banco Central tem soltado análises das contas para períodos bimestrais, trimestrais e
futuramente semestrais. Esse traço comparativo serve para que os efeitos da pandemia nas estatísticas
levantadas sejam melhores captados.
Nesse sentido, na comparação entre os primeiros trimestres de 2020 e 2019, as exportações
reduziram 3,0% - somando US$49,7 bilhões, enquanto as importações aumentaram 5,4%, totalizando
US$46,0 bilhões. O desempenho das importações está bastante associado às importações feitas no
âmbito do Repetro, que no primeiro trimestre deste ano foram de US$2,4 bilhões, ante US$797 milhões
no primeiro trimestre de 2019.
Quanto ao superávit comercial de bens do primeiro trimestre de 2020, este já mostra uma queda
em torno de 52% em relação ao primeiro trimestre de 2019. É um comparativo que evidencia os efeitos
da pandemia no comércio internacional. Dessa forma, o saldo comercial do primeiro trimestre de 2020
totalizou em US$3,6 bilhões contra U$7,6 bilhões na mesma base de comparação em 2019.
Quanto a conta de serviços e a conta renda, no primeiro trimestre de 2020, ambas recuaram seus
déficits em relação ao primeiro trimestre de 2019. O recuo para a conta de serviços, em linhas gerais, se
deu em função da contenção de fluxo de viagens para o exterior e pela elevação nas receitas líquidas de
outros serviços de negócios. Já para a conta renda, o déficit reduziu em razão da redução do pagamento
de juros, lucros e dividendos ao exterior.

Brasil: Transações Correntes


jan-mar 2019/2020

renda secundária

renda primária

serviços

importações

exportações

- 20 000 - 10 000 - 10 000 20 000 30 000 40 000 50 000 60 000

US$ bilhões: Brasil jan-mar/2020 US$ bilhões: Brasil jan-mar/2019

Fonte: BCB

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Por fim, o saldo em transações correntes do primeiro trimestre de 2020 fez-se deficitário e somou
US$15,2 bilhões, pouco acima dos US$15,0 bilhões ocorridos no mesmo período em 2019.
Enquanto no grupo da conta capital, o destaque do primeiro trimestre de 2020 vai para os capitais
de curto prazo, que mantiveram um desempenho seguindo a mesma lógica da análise mensal. Com isso,
somou-se saídas líquidas de US$24,1 bilhões em instrumentos de portfólio negociados no mercado
doméstico, comparativamente a ingressos líquidos de US$10,5 bilhões na mesma base de comparação.

Do acumulado de 12 meses

Segundo o presidente do COFECON, Antônio Lacerda, a base de comparação que mais pode
nos dar visão sobre os efeitos da pandemia, é o acumulado de 12 meses. Sabendo dessa importância, o
acumulado dos 12 meses encerrados em março/2020 para o déficit em transações correntes foi de
US$49,7 bilhões (2,80% do PIB), ante US$53,2 bilhões (2,96% do PIB), em fevereiro/2020. O presidente
ainda pontuou que os efeitos da doença nas contas externas serão melhores visualizados a médio e
longo prazo.
Outra conta que se destaca para análise dos doze meses encerrados em março/2020 é o IDP. Na
base de análise, essa conta totalizou uma cifra de US$79,5 bilhões, correspondendo a 4,5% do PIB, em
comparação a US$76,7 bilhões (4,27% do PIB) no mês anterior. Isso mostra que o IDP continua sendo
a conta que mais financia nosso balanço de pagamentos, mesmo em época de crise. Agora, resta o
questionamento de como ficará esse resultado a médio e longo prazo, uma vez que, em períodos assim,
podemos melhor visualizar os efeitos da pandemia, porém, por ser já uma conta que leva em
considerações decisões de prazos iguais, pode ser que ela não se altere tanto quanto as contas de
comércio internacional, por exemplo.

Capitais compensatórios – reservas internacionais

O estoque de reservas internacionais atingiu US$343,2 bilhões em março/2020. O decréscimo de


US$19,3 bilhões, relativamente à posição de fevereiro, decorreu principalmente da liquidação de US$22,5
bilhões em intervenções no mercado de câmbio. A variação por preço e a receita de juros contribuíram
para elevar o estoque de reservas em US$2,7 bilhões e em US$568 milhões, respectivamente.

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Mai/2020
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Internacional e Política

Internacional
Em abril foi divulgado o cenário trimestral para a economia global do Fundo Monetário
Internacional, o grande destaque na comparação com o relatório que havia sido publicado em janeiro é
a queda expressiva nas projeções de crescimento para 2020.
Apesar de reconhecerem a dificuldade em estabelecer um prognóstico para economia em um
período de tanta incerteza, e de reconhecer que os riscos de esse cenário ser pior que o esperado são
maiores do que ser melhor, mesmo assim ainda estamos falando de uma queda na economia global de
3,0% em 2020, isso representa uma redução de 6,3% em relação a mesma estimativa feita em janeiro.
No caso do Brasil o Fundo espera uma queda de 5,3% em 2020, em linha com a queda prevista
para América Latina e Caribe de 5,2%, a diferença aparece na retomada, para o FMI em 2021 a região
deve crescer 3,4% enquanto o Brasil deve crescer menos, 2,9%.
Algumas razões são apontadas como determinantes de uma retomada mais lenta, em primeiro
lugar o fato de a economia brasileira já estar apresentando um dinamismo menor que a região, mesmo
antes da pandemia, mas também fazem alusão à queda no preço das commodities e da falta de espaço
fiscal e outras particularidades, imagino políticas.
Por incrível que pareça a região que apresenta menor impacto nas previsões de crescimento é
justamente a região de origem da crise, a Ásia Emergente (que ainda inclui a desenvolvida China) a
expectativa é que a região cresça 1,0% em 2020 e acelere para 8,5%.
A Zona do Euro que foi fortemente afetada pela pandemia também teve revisões significativas, o
crescimento para a região foi reduzido em 8,8% em relação ao prognóstico de janeiro e a expectativa é
que a economia da região retraia 7,5% neste ano.

EUA: Mercado de Trabalho


160.000 8%
140.000 7%
120.000 6%
100.000 5%
Pedidos de Seguro / Total de Emprego registrado (Eixo da Direita)
80.000 4%
60.000 Folha de pagamento no mês (Milhares) 3%
40.000 2%
20.000 1%
0 0%
Apr-76

Apr-91
Apr-67

Apr-70

Apr-73

Apr-79

Apr-82

Apr-85

Apr-88

Apr-94

Apr-97

Apr-00

Apr-03

Apr-06

Apr-09

Apr-12

Apr-15

Apr-18

Fonte: Bloomberg

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Contudo a perspectiva é ruim e incerta para a economia global em 2020 e também nos próximos
anos, a revelia dessa dinâmica as bolsas se valorizaram em todo o mundo ao longo de abril, com altas
suportadas pelos governos e bancos centrais – que ficam à vontade de jogar dinheiro na economia sem
sofrer as críticas de moral hazard (risco moral) conforme aconteceu em 2008.
No detalhe do mercado de trabalho americano que estamos acompanhando de perto, pois, ainda
tem todos os dados à disposição – trouxemos essa analise que compara em termos relativos o
desempenho do emprego e dos pedidos de desemprego agora e em outros momentos da história nem
tão recente, vamos manter essa análise atualizada – no gráfico até março.

Política
A caneta do twitter tem tinta mas às vezes não funciona nem com Gin-Tônica

“Primeiro de Abril”. Dia da mentira. Dia das pegadinhas. Dia de colocar no twitter um vídeo de uma
central de abastecimento vazia #sóquenão.
Os 140 caracteres acima podem parecer brincadeira de rede social mas foi a forma como começou
a movimentação política do mês. O presidente postou na sua rede social um vídeo onde um consumidor
informava o desabastecimento do CEASA de Belo Horizonte como sendo do mesmo dia, mas a gravação
tinha sido feito no último fim de semana de março. O desmentido ocorreu depois que diversos jornalistas
foram ao local e reportaram o oposto do vídeo mas o presidente não usou a desculpa do primeiro de abril
pediu “sinceras desculpas pelo erro” no mesmo dia além de ter apagado a postagem.
Pela mesma rede social, no dia primeiro de abril, o presidente apresentava suas novas ações: a
compra do primeiro lote de testes rápidos e uma conversa com o presidente dos EUA onde os assuntos
tratados foram: “o impacto do covid 19, bem como experiências no uso da hidroxicloroquina”. O dia ainda
teve um pronunciamento atualizando as ações do governo onde o presidente estava acompanhado dos
ministros da Economia, Paulo Guedes, da Casa Civil, Braga Netto e do ministro da Cidadania, Onyx
Lorenzoni. Estes ministros continuaram nos seus cargos até o final do mês.
As medidas com as flexibilizações das leis trabalhistas passavam a valer. O governo agia para
evitar demissões em massa no mundo do Covid 19 que continuava crescendo e já passava a marca de
1 milhão de pessoas infectadas pelo vírus em todo mundo, mas os próximos passos eram incertos, o que
o Brasil faria? Será que a hidroxicloroquina é o caminho para o tratamento? Quem poderia nos responder
estas perguntas a não ser quem jurou: “saúde e o bem-estar de meu paciente serão as minhas primeiras
preocupações”, ou como disse o ainda ministro da Saúde o ex-deputado federal Luiz Henrique Mendetta:
“um médico não abandona o paciente”.
No congresso nacional o impacto do COVID 19 também determinava a pauta votando emendas
constitucionais em prazos recordes para enfrentar a doença. Não obstante a urgência do momento e a
boa vontade dos outros poderes o executivo produzia seus fantasmas.

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Já na primeira semana do mês com pesquisas indicando maior apoio popular ao seu ministro da
Saúde do que ao próprio presidente deixava transparecer que a relação entre os dois não era das
melhores, além disso, o presidente brasileiro era um dos poucos que não surfavam na onda da guerra
contra o vírus que fez com que presidentes, primeiros-ministros tivessem mundo a fora seus índices de
popularidade subindo. Sem contar que o mandato termina apenas em 2022 e será neste intervalo que
os primeiros impactos econômicos do pós-pandemia ocorrerão. Porque não focar na economia, será que
é mesmo necessário medidas tão restritivas? E a pergunta principal: Quem é que realmente manda em
quem?
O ministro ex-deputado, Luiz Henrique Mandetta, durou mais alguns dias, não foi pelo uso de um
colete do SUS, nem por seu passado político mas sim por sua atuação defendendo a ciência que foi bem
aceita pela população, com uma atuação que pouco se diferencia da atuação de Carlos Chagas em 1918
durante a gripe espanhola.
Não obstante seriam válidos questionamentos como: porque em um século uma doença
desconhecida continuava desconhecida? Quem sabe recorrer a história e buscar um tratamento antigo
com base na trituração de uma casca de uma árvore andina, misturar o pó branco resultante em água e
se curar-se, porque não fazer isso? Quem sabe o tratamento não seria beber gin-tônica ou caso a pessoa
seja dependente químico, apenas a água tônica e a substância andina – a quinina – base da cloroquina?
Se até a ciência tem limites, como não saber o que ainda é desconhecido, imagina um chefe
vendo um subordinado seu ir contra suas determinações? Ao ver em uma entrevista ao Fantástico seu
subordinado repreender seu comportamento, o presidente teve o sinal verde para agir e substituir o
ministro da Saúde, assim no meio de uma crise planetária Bolsonaro contribuía, por suas atitudes,
crenças em tratamentos ainda não verificados para uma crise política e trazia para o ministério apenas
um médico com bom currículo na área privada da medicina, sem carreira política, sem usar colete do
SUS e reduzindo o número de coletivas. Vale destacar que, também, saiu o número dois do ministério e
como um bom gerente o novo ministro aceitou a indicação do seu chefe.
Como ficou claro no episódio da troca do ministro da saúde a caneta do presidente é bem pesada,
não obstante ainda é dependente de tinta para assinar decretos, fazer nomeações, atos e muitas vezes
a tinta acaba. Um caso claro onde a tinta da caneta do presidente acabou deu-se quando de forma
unânime o STF tirou o poder do presidente de assinar um decreto que poderia flexibilizar as quarentenas
impostas pelos prefeitos e governadores.
No outro lado da praça dos três poderes a câmera dos deputados aprovava uma ajuda financeira,
por parte da união, sem a necessidade de contrapartidas, o que levou o ministro da economia a negociar
um acordo com a outra casa legislativa na segunda quinzena do mês para este socorro, lembrando que
caso seja aprovada pelo senado sem mudanças o socorro poderia ser vetado pelo presidente entretanto
o parlamento teria o direito de derrubar o veto.
“Amanhã é 23 faltam 8 dias para o fim do mês”
Manifestações. Confirmando sua frase de março, Bolsonaro não apenas foi a favor delas como
compareceu a elas. Mesmo o novo ministro confirmando a utilização da tecnologia usada em 1918 por

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Carlos Chagas, o presidente deu o ar de sua graça nelas todavia as manifestações e carreatas em
Brasília apareciam agora com novas cores: faixas não apenas com apoio ao governo, mas também
pedindo o fechamento do congresso, um novo AI-5, contra o STF se fizeram presente no ato do dia do
exército. O presidente não hesitou, subiu numa caminhonete e discursou com o auxílio de um megafone:
“não queremos negociar” foi uma de suas frases.
Por conta do conteúdo das faixas no protesto houve o pedido de investigação do procurador-geral
para o STF verificar quem foram os financiadores do ato, verificar se foram financiados por algum membro
do congresso ou se foram realmente espontâneas. O pedido foi aceito. O STF ainda pediu informações
ao presidente da câmera dos deputados sobre qual seria a resposta aos pedidos de impeachment que já
tinham chegado a sua mesa.
Contudo o noticiário continuava dividido, as mortes causadas pelo novo coronavírus multiplicavam
no país, a cidade de Manaus chegava próxima do limite, governadores driblavam o governo federal para
importação de equipamentos, isso sem contar outros países que confiscavam outras importações. A
pandemia continuava, mas tudo isso dividiu espaço com a conturbada saída de um dos pilares do
ministério de Jair Bolsonaro: o ex-juiz Sérgio Moro. A motivação a troca de comando na polícia federal.
A motivação pode ser simples, ocorre que com a independência do órgão algumas investigações
apontavam para deputados fiéis ao governo e por conta desta queixa o ministro não apenas pediu a sua
demissão como fez um pronunciamento na sua saída relatando o episódio. O juiz que fora prestigiado
pelo presidente no episódio da vaza-jato relatou a perda de poder nos 16 meses no cargo e viu na saída
de seu indicado e colega na operação lava-jato como a gota d´água. O presidente convocou para a tarde
do mesmo dia todos os ministros e reestabeleceu a verdade contando o corte do aquecimento (solar) da
piscina e o veto aos novos tacógrafos do Inmetro, mas todos os ministros estiveram na cerimônia.
O SuperMinistro que restou, também, sofreu um revés o ministro da Casa Civil Braga Netto
apresentou alguns slides e um plano “Marshall” de investimento para o país. Não houve detalhamento
das propostas.
Um terceiro impeachment!
Uma das possíveis motivações da “reforma” ministerial deste mês é a mesma que já vinha
ocorrendo em meses anteriores, um melhor relacionamento com o congresso.
Se na campanha, enquanto pode fazê-la, Jair Bolsonaro dizia que não agiria conforme todos os
presidentes da Nova República e depois de eleito trocou o presidencialismo de coalizão por uma tentativa
de relacionamento com os deputados por bancadas mesmo que nas manifestações tenha dito que não
negociaria ele está negociando.
Personagens da política como Roberto Jefferson, Valdemar da Costa Neto, foram visita-los no
Palácio do Planalto, nomes formados no presidencialismo de coalização, nomes acostumados a negociar
cargos, e receber cargos da máquina pública, nomes que estiveram na mira da justiça, inclusive sendo
encarcerados por Sérgio Moro, nomes que sabem que com a máquina podem conseguir êxito eleitoral.
A questão que se coloca então: será que a caneta tem tinta para garantir, pelo menos 171 votos?
Uma possível resposta pode vir com as eleições deste ano, além do engajamento do presidente temos a

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possibilidade de verificar, caso venha a tentar a reeleição, quantos votos terá Carlos Bolsonaro, vereador
pelo Rio de Janeiro. O percentual de votos recebido será o mesmo? Maior? Menor?
Além disso em 2022 teremos a proibição das coligações proporcionais e o presidente está no
meio do procedimento da criação de um novo partido político, o que por sua vez abre espaço para trocas
partidárias dos deputados eleitos sem o risco de perder o mandato, e a necessidade de se esperar o
período da janela partidária. Assim a votação do filho do presidente pode ser um bom termômetro da
quantidade de deputados que poderiam aderir ao novo partido, e como pode se formar uma configuração
para garantir a reeleição dos deputados sendo assim um primeiro indício de qual será a sua influência na
eleição em 2022, se adicionarmos uma possibilidade de o governo estar numa velocidade de crescimento
maior em 2022, e possivelmente melhores índices de ótimo/bom e ainda a adesão ao presidencialismo
de coalização que foram responsáveis pela manutenção da base parlamentar praticamente desde o início
da Nova República, a chance do governo conseguir ao menos 171 deputados e inviabilizar o
impeachment não pode ser desprezada. Não obstante de conseguir se manter no cargo será que o ritmo
de reformas seria o mesmo? Ou mesmo, será que o governo conseguiria aprovação dos seus projetos
ou enfrentaria uma série das chamadas “pautas bombas”? Esse equilíbrio poderia ser suportado por
quanto tempo?

Espaço Opinião

“A tragédia da pandemia do Covid-19 sobreposta a uma crise


da economia brasileira.”
Por: Profa. Dra. Norma Cristina Brasil Casseb; e Emerson Davi Pereira Braz aluno da graduação do
Departamento de Economia da PUC-SP

Keynes, talvez o economista mais relembrado nos últimos tempos em meio a essa situação que
o mundo, e especificamente agora o Brasil, se encontra denuncia, no capitulo 24 de sua Teoria Geral,
“Os defeitos flagrantes da sociedade econômica em que vivemos são a sua incapacidade para
proporcionar pleno emprego e a sua arbitrária e desigual repartição da riqueza e da renda”. Penso que a
devastação que essa pandemia está fazendo, é a síntese submersa da união perversa do Covid-19 e da
situação da economia.
Como primeiro destaque queremos reforçar a ideia que o desemprego involuntário é o mal
social global!

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No último trimestre do ano passado, a PNAD Contínua trouxe um pequeno recuo na taxa de
desempregados do país, evidenciando um processo de estagnação da taxa de desempregados, contudo,
nada que indique uma retomada do crescimento econômico. A PNAD também evidenciou que existe uma
maior dificuldade entre os mais jovens de adentrarem em seu primeiro emprego. O recuo no número de
demissões observado no último trimestre de 2019 não proporcionou expectativas e projeções favoráveis
para o emprego e a renda no início desse ano.
A situação do mundo do trabalho muitas vezes se disfarça de emprego temporário, parcial,
informal, enfim, precarizado. Precários tanto pelos baixos salários, insuficientes para a reprodução da
força de trabalho, como pela sua qualidade. No lastro disso, a miopia de um Estado do Bem Estar Social
(sic) atarefado com os desmanches das conquistas dos trabalhadores em tempos atrás e, na garantia do
crescimento das finanças globais. Enquanto isso, o homem procurando fazer desenvolver sua
humanidade através da centralidade de seu trabalho, se vê afetado físico, emocional e socialmente, o
que vai determinar a piora na sua condição de vida.
A concentração de renda e de riqueza que vem aumentando de maneira alarmante, tanto entre
regiões do globo como dentro dos países, apresentam um cenário onde as disputas distributivas se
acentuam e os problemas sociais se agravam. No Brasil, a última pesquisa do IBGE sobre renda do
trabalho, mostrou que, os 10% mais pobres obtinham 0,8% dos rendimentos, em comparação aos 10%
mais ricos, que concentravam 43,1% da riqueza. E, segundo o IBGE, o índice de GINI, que mede a
concentração e desigualdade econômica situa-se em patamares próximos de 2012, variando de 0,508
para 0,509 em 2018.
No terceiro trimestre de 2019, os micros dados da PNAD apontaram um recuo de -0,66% na maior
faixa de renda pesquisada e, como se não bastasse, o recuo também foi evidente na menor faixa salarial,
sendo de -0,34%, ficando no acumulado do ano superior a 0,87%.

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No caso do Brasil, além de uma das piores concentrações de renda do mundo, ainda tivemos uma
redução de quase 7% do PIB em 2015 e 2016, ficando com a economia praticamente estagnada desde
então, o que certamente leva a piora na distribuição pelo aumento do conflito distributivo. O Brasil,
segundo estimativas do FMI, deverá ter, em 2020, uma taxa de crescimento do PIB negativa em -9%
relativamente a 2014. O boletim Focus emitido pelo Banco Central, chega a ser otimista (e irreal),
projetando um recuo para o PIB de -3,76% para 2020, com um crescimento de 3,71% em 2021. Com
todas as disparidades econômicas e a eminência de uma crise política a frente, o câmbio foi projetado
próximo dos R$5,00/US$ evidentemente otimistas.
Nos últimos cinco anos o crescimento foi pífio, algo em torno de 1% ao ano. Em 2019 o PIB perca
pita ficou praticamente estagnado com apenas 0,3% positivo. Associado a isso, uma enorme taxa de
desemprego em torno de 12%, com aproximadamente 30 milhões de trabalhadores no mercado informal
e 6 milhões de desalentados. Ou seja, quase a metade da população economicamente ativa (PEA) já se
encontrava desempregada ou na informalidade antes mesmo dessa terrível pandemia. Esse quadro já
era por si muito grave.
Nada foi de fato proposto, em termos de política econômica, no governo de Michel Temer e muito
menos neste de Bolsonaro, para atacar essa situação que já se apresentava trágica. O foco do governo
se dirigia as “reformas”, sempre com o intuito de despejar o ônus de qualquer ajuste no mercado de
trabalho ou mais especificamente nos ombros daqueles menos protegidos nas estruturas de poder,
reduzindo drasticamente a proteção social e, ainda mais a segurança do trabalho do conjunto dos
trabalhadores.
Embora a economia brasileira já estivesse com uma grande capacidade ociosa, nada foi feito de
objetivo para a retomada do crescimento econômico e do emprego. O custo do trabalho se reduziu
significativamente, mas como ensina o velho Keynes, não é por aí que se estimula o crescimento do
emprego e, de fato, o emprego não cresceu de forma a propiciar que atividade econômica saísse de sua
inércia na estagnação.
Diante desta situação, a redução da demanda agregada é inevitável, deve ser feito um trabalho
que busque conter os danos de um longo ciclo de estagnação. Segundo a CNI, 2019 apresentou um
recuo de 2,6% na produção da indústria (considerando que valores acima de 50 indicam aumento na
produção frente a variação anterior, o ano de 2019 apresentou resultado de 47,4 pontos).

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Fonte: CNI

A demanda efetiva arrefeceu com o Consumo das famílias em queda e o Investimento


apresentando as taxas mais baixas em décadas, situando-se num patamar em torno de 15,5% do PIB.
Nos últimos anos, segundo o IPEA, a taxa de investimento público a preços correntes, vem se mantendo
próxima a mínima histórica atingida em 2017 de aproximadamente 14,56% do PIB, seguido por aumentos
não substanciais de 15,22% em 2018 e 15,35% em 2019.
Ainda assim, o Governo praticava o teto dos gastos público, inovação de política fiscal do Brasil,
cortando gastos, inclusive com saúde, investimentos etc. Isto, a meu ver, num enorme equívoco de
entender que não existem fontes de recursos para, num programa econômico ousado, estimular o
investimento e o consumo de forma a estimular a retomada de um ciclo virtuoso de crescimento e
desenvolvimento.

TAXA DE INVESTIMENTO A
PÚBLICO (% PIB)
20,9175

19,8925

17,855

15,5425

15,2275
14,5625

15,355

2013 2014 2015 2016 2017 2018 2019

Fonte: BCB

Dessa forma, se algum dia o nosso atual Presidente da República se preocupou com o
desemprego dos milhares de trabalhadores e trabalhadoras, nada de objetivo em termos de política
econômica, de curtos e médios prazos, foi feito para amenizar essa tragédia.
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Como segundo destaque, queremos ressaltar que, sobre a tragédia do desemprego no Brasil,
se abate sobre nós o Covid-19, uma pandemia que devasta o mundo e, sobretudo os mais pobres e
desassistidos. O governo precisa injetar, urgentemente dinheiro nas famílias, nas empresas, nos
estados, nos municípios e, inclusive no SUS, modelo exemplar de saúde pública, que tem se
demonstrado essencial para salvar vidas em nosso país.
Pedir para que as pessoas fiquem em casa, é uma das funções primordiais do governo, do setor
de saúde pública, para evitar a morte pela Covid-19 e a falência do sistema de saúde público e privado.
Cabe a esse mesmo governo através dos responsáveis pela economia, criar de imediato às condições
para que esse isolamento social aconteça dentro de margens de segurança que reduza o contágio e
garanta o funcionamento do sistema de saúde.
Falar ou criar uma dicotomia entre saúde pública e a economia é falsear o problema que é
dramático e se eximir de forma irresponsável de uma situação de vida ou morte, onde estar ao lado da
vida significa abrir mão das crenças e ideologias e o governo assumir sua função de liderança nesse
processo. No âmbito da economia, cabem ao governo federal a emissão de dinheiro, endividamento, e
todas as armas fiscais, monetárias e cambiais para enfrentar com rapidez e eficiência a guerra com a
qual nos defrontamos. E só quem pode dispor dessa arma criadora de poder de compra, é o governo
federal, através do Banco Central.
A paralisia da economia, em decorrência dessa pandemia, será inversamente proporcional ao
nível do isolamento social. Lamentavelmente o Presidente da República não deu as devidas atenções
para medidas de prevenção aqui, como se fez em outros países vizinhos. Muito ao contrário,
desestimulou as recomendações dos organismos de saúde nacionais e internacionais quanto ao
isolamento social. Argentina, Chile, Paraguai, Uruguai, estão obtendo condições melhores de
enfrentamento dessa tragédia com um número proporcionalmente muito inferior de mortes. O sentido da
vida nesses países orientou as atitudes dos chefes do governo. O Brasil se encontra entre os países que
tem tido pior condução da pandemia junto à Venezuela e México.
Para concluir, queremos chamar a atenção para a necessidade da continuidade da “economia de
guerra” para além dessa pandemia, com o propósito de enfrentar a desindustrialização, o desemprego e
a imensa calamidade social em que vive amplo contingente da população com destaque para aqueles
chamados de invisíveis, algo em torno de 20 milhões de pessoas, escancarado agora pela situação que
enfrentamos no país.

Fontes:
Mercado de trabalho: http://www.ipea.gov.br/cartadeconjuntura/index.php/tag/taxa-de-desemprego/
Mercado de Trabalho: https://br.advfn.com/indicadores/pnad
Concentração de renda: https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-noticias/2012-agencia-de-
noticias/noticias/25702-renda-do-trabalho-do-1-mais-rico-e-34-vezes-maior-que-da-metade-mais-pobre

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Sondagem industrial CNI: https://bucket-gw-cni-static-cms-


si.s3.amazonaws.com/media/filer_public/b1/0e/b10e692b-9d5b-4a3f-9331-
92f072a2f3bc/sondagemindustrial_marco2020.pdf

A economia a serviço da vida: o recado do Covid-19 para os


economistas
Preservar a economia ou a saúde? Essa é uma pergunta que tem sido bastante divulgada nesse
período de pandemia. Uma resposta simples seria: A vida, acima de tudo!

Ricardo Reis – economista, mestrando em economia – PUC-SP

Com a pandemia causada pelo Covid-19 ficou impossível não discutir também os seus efeitos
econômicos. Muitos contrários ao isolamento social, seja por falta de conhecimento ou não, entre eles o
presidente Jair Bolsonaro, julgam que com a economia paralisada será ainda pior, que o remédio utilizado
para a saúde estaria sendo superdosado e os seus efeitos seriam sentidos pela economia. Na verdade,
superdosado está o remédio ortodoxo aplicado no Brasil desde 2015, mas isso seria um debate para
outro momento.
Antes de seguir em frente, não poderia deixar de destacar a letargia do ministro Paulo Guedes
em reconhecer os riscos econômicos e em tomar ações imediatas. O ministro, embora saibamos o quão
difícil para ele seja reconhecer que o caminho necessário nesse momento seja justamente no sentido
oposto ao que ele sempre defendeu, deve-se lembrar da grandiosidade que é ser ministro de Estado e
sua responsabilidade para o desenvolvimento econômico e social do país.
Argumentos como ‘‘quem vai pagar a conta?’’, ‘’ não temos dinheiro e ‘’ o país está quebrado’’
seriam muito interessantes, elementares, para um bom debate entre economistas, mas não temos mais
tempo a perder, sendo que, na verdade, todos esses argumentos já estão respondidos há décadas. É
preciso agir.
E para agir é necessário compreender que a crise já está aí e será, talvez, a pior em mais de 100
anos. Fora isso, o Brasil tem ainda um agravante: antes mesmo do Covid-19 já apresentávamos
indicadores preocupantes para a economia de um país com 210 milhões de habitantes e tão desigual
como o nosso.
Com a nova crise econômica, voltam-se as atenções para um senhor tão mal tratado nos últimos
anos e que sempre esteve ali nos melhores momentos de progresso econômico mundial: O Estado.
Apenas ele nesse momento será capaz de conduzir a economia rumo a um futuro melhor. Sendo que o
primeiro passado seria evitar um imenso caos social no Brasil caso nada seja feito.
Negar a necessidade do Estado na economia nesse momento é ir contra tudo o que tem sido feito
em grande parte do mundo e acreditar que chegaremos a algum bom lugar cometendo erros infantis,

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incabíveis para os economistas, principalmente o infeliz erro de se ater à Ciência Econômica como um
dogma.
Estamos perdendo a nossa capacidade de empatia e transformando a economia apenas em
estatísticas, esquecendo que, antes de tudo, ela é composta e direcionada para os seres humanos.
Talvez, a grande mensagem dessa crise para os gestores públicos, empresários e economistas é que
pensemos uma economia mais voltada para a vida e que começamos aqui a escrever um novo futuro
para o planeta.
Nesse novo mundo, o economista será ainda mais essencial; mas, para atuar nele será necessário
estar desprendido de convicções uniformes na economia, ter humildade, saber ouvir, ceder, aprender
com o oposto e, principalmente, reconhecer o papel social e político da Ciência Econômica. Aqueles
economistas que optarem a seguirem cegos, ou sob a luz do mesmo sol de outrora, nesse novo mundo,
correrão sérios riscos de serem substituídos por robôs e estarão em breve no ostracismo.
A história está sendo escrita. Aprendamos as lições agora para que o mundo dê esse salto de
humanidade e colha os seus frutos no futuro próximo, tornando-se, enfim, o mundo tão sonhado por todos
mas que guarda esse grito de liberdade há séculos.

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Expediente
Boletim DEPE, Ano V, n.27.
Professor responsável: Antonio Corrêa de Lacerda, Prof. Dr. da PUCSP
Equipe de redação:
Ana Paula Negreli Persici Vassallo, advogada e mestre em Economia Política pela PUC-SP;
Ana Carolina Gimenes dos Santos, economista e mestrando em Economia Política pela PUC-SP;
Andrey Barbato, economista e mestrando em Economia Política pela PUC-SP;
Cássio Oliveira, bacharel em RI e mestrando Economia PUC SP;
Emerson Braz, graduando em Economia pela PUC-SP;
Isadora Teixeira Araújo, economista e mestranda em Economia Política pela PUC-SP;
João Frazão, economista pela PUC-SP, com MBA em Gestão Empresarial pela ESPM;
José Victor Perroni Cassiolato, mestrando em Economia Política pela PUC-SP;
Lucas Colúcio, graduando em Economia Política pela PUC-SP;
Marcelo Eisenhower Farias, economista, com MBA em finanças (IBMEC) e mestre em Economia Política pela PUC-SP;
Miguel Huertas Neto, economista e mestre em Economia Política pela PUC-SP;
Rosangela de Medeiros Marques, graduanda em Economia pela PUC-SP;
Ricardo Reis, economista, mestrando em Economia pela PUC – SP;
Rodolfo Viana, economista e mestre em Economia Política pela PUC-SP;
Tiago Antônio de Oliveira, economista e mestre em Economia Política pela PUC-SP; (Coordenador);.

Grupo de Pesquisas em Desenvolvimento Econômico e Política Econômica (DEPE)


Programa de Estudos Pós-graduados em Economia Política da PUC-SP (PEPGEP)
Rua Ministro Godoi, 969, 4º andar, sala 4E17, Perdizes, São Paulo/SP
Tel. 11-3670-8516
E-mail ecopol@pucsp.br; boletimdepepucsp@gmail.com
Site http://www.pucsp.br/pos-graduacao/mestrado-e-doutorado/economia
Edição elaborada com informações disponíveis até 07/05/2020.

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