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Na obra São Bernardo, de Graciliano Ramos, o personagem-narrador Paulo

Honório, um indivíduo autoritário, bruto, rústico, grotesco, ambicioso, após alcançar o

sucesso de sua vida profissional de forma antiética e amoral, transformando-se de

trabalhador braçal a proprietário de latifúndios, depara-se com um episódio trágico, mas

que dá início a uma nova fase de sua trajetória: a morte da esposa, Madalena. Esta

personagem tem um papel de fundamental importância para o desenvolvimento da

história, porque sua morte representa o motor de transformação de Paulo Honório, a

alavanca para o seu processo de humanização. Paulo, motivado por um impulso interior

busca através da escrita uma compreensão dos acontecimentos, uma recomposição da

imagem difusa de Madalena e mais do que isso, a escrita torna-se uma ferramenta de

auto conhecimento, de construção do sujeito, de constituição de um novo homem, já que

a partir dela, o personagem se afasta do aspecto de reificação o qual estava imbuído em

seu caráter. Em outras palavras, a perda de sua esposa somada ao período de decadência

da fazenda são os propulsores para a decisão de Paulo Honório em escrever o livro.

Entretanto, esses acontecimentos deixam-no completamente atordoado.

Assim, devido à natureza e a dificuldade do assunto abordado; ao seu estado

emocional e psicológico angustiado, conflituoso, perturbado; e ainda, ao fato do homem

não estar acostumado à escrever, a escrita apresenta-se dificultosa, caótica. O caos na

tentativa de ordenação do passado e a incapacidade em recordar com nitidez todos os

eventos de sua vida são reflexos da perturbação psicológica em que Paulo Honório se

encontrava e pode ser observado nos trechos: “Emoções indefiníveis me agitam

inquietação terrível, desejo doido de voltar, tagarelar novamente com Madalena, como

fazíamos todos os dias, a esta hora. Saudade? Não, não é isto: é desespero, raiva, um

peso enorme no coração. Procuro recordar o que dizíamos. Impossível. As minhas

palavras eram apenas palavras, reprodução imperfeita de fatos exteriores, e as dela


tinham alguma coisa que não consigo exprimir. Para senti-las melhor, eu apagava as

luzes, deixava que a sombra nos envolvesse até ficarmos dois vultos indistintos na

escuridão. [...] A voz dela me chega aos ouvidos. Não, não é aos ouvidos. Também já

não a vejo com os olhos. Estou encostado à mesa, as mãos cruzadas. Os objetos

fundiram-se, e não enxergo sequer a toalha branca.” Tal descompasso foi

brilhantemente cristalizado por Graciliano Ramos através da mistura de tempos verbais,

pela mescla entre o tempo do enunciado (pretérito imperfeito do indicativo) e o tempo

do enunciador (presente do indicativo). Esse recurso estilístico aproxima passado e

presente, apagando as fronteiras temporais.