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tempoe presença

Publicação do CEDI • Núm ero 206 • M arço de 1986 • Cz$ 10.00


cartas cortas cartas cartas cartas cartas
Fui sempre le ito r assíduo no ser Igreja hoje. Pedimos honra de escrever para vocês,
tempo e presença
desta valiosa revista. No en­ desculpas pelo papel pois es­ m an ifestan do o sagrado servi­
tan to , por algum tem po, estou tam os em trâ n sito , voltando ço que vocês vêm fazendo, ju n ­ Revista mensal
desinform ado. Desejando m an­ para a Bahia. to com todas as igrejas, pois do CEDI
ter-me atualizado dian te dos
problem as que afligem o nosso
Irm ãs Dulcilene de F átim a e
N eide Turra, Lages, SC.
acre dito que èste é o traba lh o
que o Senhor Jesus deseja pa­
.m arço de 1986
povo bra sile iro e la tino -am eri­ ra seus filh o s, pois sou a s s i­
cano e, tam bém , em relação ao M ais uma vez peço que co n ­ nante da revista ‘Tem po e Pre­ CEDI Centro Ecumênico de
m undo, num a ó tica lib e rta d o ­ tin u e is a enviar esta revista e sen ça’. Leio e em presto aos Doctimrntaçãu e Informação
ra, para desenvolvim ento da re­ m ais outra lite ra tu ra de im p or­ am igos e irm ãos da ca m in h a ­
fle xã o c rític a , desejo fazer tâ n cia evangélica que possa da. Nós, cristã o s de tod as as
duas assinaturas. me ajudar a com preender me­ pa storais e das CEBs, estam os Kua t osnie V elho, 9«, fundos
Sílvio Pedreira Ferreira lhor a palavra de Deus e para com nossos corações pa rtido s T elefo n e: 205-5197
Presidente M édici, RO que eu possa ajudar m elhor a de tristeza pelo que vem o co r­ 22241 - Rio cie J a n e iro - R.l
m inha congregação. Que Deus rendo com nossos m estres e
P articipam os, com alegria, vos dê m ais força e longa vida. profetas, os irm ãos m uito am a­ ■\v. H ig ien ó p o lis, 9H3
que, em estudos realizados em Do vosso cooperante em C ris­ dos frei Leonardo e frei Clodo- le le lo n e : 66-7273
grupos, nesta tem porada de fé ­ to, vis. A cred ito que os irm ãos 0123« S ão P a u lo SP
rias, aqui no Sul, vários textos Lucas M oisés Am osse B off estão carregando as cru ­
desta revista serviram -nos de Beira, M oçam bique zes de 163 teó log os, assim c o ­
base de estudos, ap ro fu n d a ­
Parabéns pelo vosso tra b a ­
mo Jesus carregou, nos om ­
bros e no coração, a cruz im ­
Conselho Editorial
m entos e debates. Por isso, H eloiza de S o u z a M artin s
despertou em nós grande in te ­ lho pela ju s tiç a e a verdade. posta pelos herodianos. Me Jo sé O scar B eozzo
resse em term os a m esm a em C ontinuem firm es. lem bro de uma passagem das
Jo sé R ica rd o R a m a lh o
nossas mãos, nas nossas c o ­ Cesário Vieira Santos Filho Sagradas Escrituras, quando Jo sé R o b e rto P e re ira N ovaes
m unidades, no nosso dia-a-dia' B u tan tã, São Paulo Jesus dizia: “ Q uando taparem P ed ro P o n tu a l
pastoral m issioná rio . Quere­ as bocas dos profetas, as pe­
R ubem A lves
m os nos a p rese ntar com o Recebi todos os núm eros da dras se le van ta rão” . Com o po­ Z w inglio M o ta D ias
duas com unidades religiosas e revista, por in icia tiva e atenção der de Deus e de Jesus C risto,
m issionárias. Nossa m issão é de vocês, bem com o ou tra s co­ nós, cristã o s das Com uniJa-
no sertão da Bahia, ju n to ao m unicações de grande im p or­ des E ciesiais de Base, não nos Editores
povo pescador, lavrador e ga­ tân cia. É uma riqueza! Que calarem os, dian te desta g ra n­ Derm i A zevedo
rim peiro. Povo explorado, s o fri­ cresça sem pre esse ardor e en­ de in ju stiça , con tra esses ir­ Je th e r P e re ira R a m a lh o
do, abandonado em todas as tusia sm o p ro fé tico pelo Reino mãos. No silê n cio de frei Leo­
dim ensões de sua vida sócio- de Deus. Um abraço fraterno, nardo surgem os g rito s e os ge­
e c o n ô m ic o -p o litic o -c u ltu ra l e Irm ã Nelly M aia Fonseca m idos de nós, oprim idos. M ui­ Jornalista Responsável
religiosa. Por isso, vocês serão Brum adinho, MG to agradecido pela atenção D erm i A zevedo
uma ajuda nesta nossa ca m i­ José N ilo Soares de Freitas Reg. p ro f, n? 239
nhada, através deste meio de C om panheiros do CEDI, Parque Paulista,
com unicação tão sig n ifica tivo , Pela prim eira vez, tenho a Duque de C axias, RJ
Secretário de Redação
Flávio Ira la

Cadernos do CEDI 14 Produção Gráfica


Sérgio A lli
CANAVIEIROS EM GREVE
Campanha Salariais Diagraniação c
e Sindicalismo Secretaria Gráfica
Liste C a d e rn o d o C E D I é um registro das M arco A n to n io T eixeira

discussões travadas no E ncontro de C ana-


vieiros p ro m o v id o pela Federação dos Sagarana Editora I.tda.
T rab alh ad ores da Agricultura do E stad o Av. N a /a re P a u lista , 146
da P a raíb a (F E T A G -P B ). sala 4

T raz d epoim entos de Elizabeth Teixeira, 0544S - S ão P a u lo SP

de Álvaro Diniz (presidente da F E T A G - Composição e Impressão


PB), José de F a tim a (presidente do Sindi­ ( ia. E d ito ra Jo ru ê s
cato de T rab alh ad o res Rurais de G u arib a,
SP) e mais de u m a dezena de dirigentes de
sindicatos rurais representativos dos t r a ­
balhadores da cana. É u m instrum ento
fu nd am ental p ara o en ten dim en to d o sig­
A06 P à 9 'n f nificado da luta dos canavieiros em to d o o
CzS A»’00
Brasil, e p articularm ente na P araíba, P e r­
n a m b u c o , Rio de Janeiro e São Paulo.
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A v. H igienópolis, 983 — C EP 01238 — São P aulo — SP. P reço d o exem p lar avulso: CzS
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2 • tem p o e pr esença • m a r ç o / 8 6
Rubem Alves
Teologia
Teologia é um jeito de falar, coisa humana, muito
modesta...
Isto pode parecer pouco. Uma simples fala fará alguma
diferença? Parece que o mundo se fa z é com músculos,
ferramentas, trabalho, armas... No princípio está o A to...
Mas o evangelho de João diz o oposto, que o mundo
começa com a palavra: “N o princípio era o Verbo... ”.
Antes de todos os atos que se fazem está uma palavra que
se diz.
É assim que o corpo começa: com as palavras que ele
abriga as estórias de fadas, as canções de ninar, as
conversas, os segredos, as repreensões, as proibições, as

confissões de amor, as conspirações, as preces... Serão


estas palavras que se apossarão do corpo e farão dele algo
belo e amigo, portador de vida, ou algo feio e ameaçador,
arma de morte. Na verdade, somos sempre uma mistura
das duas coisas, amor e ódio, vida e morte, homem novo
e homem velho, simul justus et peccator...
Mas as palavras sãc coisas compartilhadas. Alguém fala
a alguém. Dizer é reconhecer um outro, que eu não me
basto, que necessito repartir os meus segredos. Assim,
nascem as comunidades. A partir dos amigos, dos
namorados, até dos povos... Contamos as mesmas
estórias, cantamos as mesmas canções, dizemos os
mesmos “sins” e os mesmos “nãos” e damos as mãos,
andando no mesmo caminho, lutando as mesmas lutas...
Mas as palavras têm o poder de enfeitiçar. Os mais
fortes envolvem os mais fracos com o encanto e o temor Nós acreditamos que os símbolos da tradição bíblica
da sua palavra. “Ordinário, marche”, e todos marcham, têm um poder mágico para ressuscitar os mortos, chamar
para a parada, para a m orte... De certa form a, toda a a liberdade dos desertos onde ela se perdeu, reacender o
educação é um sutil “ordinário, marche”, um esforço amor, invocar a vida... Fazer teologia é estar envolvido
para que as crianças marchem no ritmo dos adultos, na neste estranho ritual de palavras em que o que está em
sua direção, mesmas tarefas, mesmas idéias na cabeça, jogo é a vida e a morte. Elas permitem que vejamos tanto
mesmas ferramentas na mão. Tudo bem, porque se a vida quanto a morte com maior clareza. E as pessoas
cremos que a casa que construímos é coisa boa, é justo e ficam mais belas e fortes, em paz consigo mesmas,
inevitável que queiramos transformar nossos filhos em capazes de lutar pelas coisas justas, de ter compaixão
aliados e cooperadores... Acontece, entretanto, que é pelos p o ' es, de dizer não às botas e às espadas, de
freqüente que construamos prisões dentro das quais nos vislumbrar um mundo novo em que se abrirão as portas
encerramos. Ou que nosso trabalho seja preparar aos presos, os poderosos perderão o seu poder, os mansos
armadilhas para os incautos ou produzir ilusões para herdarão a terra e todos se parecerão com crianças nos
aqueles que se esqueceram dos seus desejos. As crianças seus risos e no seu sono...
deixam de ser crianças de carne e osso, tornam-se Estamos procurando esta linguagem com este poder
pinóquios, bonecos de pau, que falam as gravações mágico. Sabemos que não é suficiente que a verdade seja
eletrônicas que nós mesmos colocamos no oco das suas dita. É preciso que a linguagem tenha o poder de evocar
barrigas. Não é esta voz pinoquial que freqüentemente as coisas boas que existem adormecidas dentro das
ouvimos, até nas preces, no sermão, na confissão, na pessoas. Porque não é pelo conhecimento que os corpos
conversa? E ficam os a nos perguntar: se fosse a sua voz são ressuscitados mas pelo amor... É aí que se inicia o
verdadeira, que é que ela diria? E, por causa disto, vamos gesto, e não no saber. Teologia: saber transfigurado pelo
atrás de desejos que não são os nossos, rimos os risos que amor, saber saboroso, saber que tem gosto bom,
não nos pertencem, e travamos as batalhas que não sabedoria, palavras que se aninham no corpo e lhe dão
escolhemos... Enfeitiçados: homens transformados em nova vida...
sapos... Possuídos por demônios. Olhar para o presente,
E que aconteceu com a liberdade? Ouvir os gemidos dos que sofrem.
Onde se meteu o amor? Ouvir, do passado, os gemidos da Grande Vítima.
E a vida? Misturá-los.
Tudo perdido, nas armadilhas de palavras que outros Transformá-los num poema.
construíram ao nosso redor. Comê-lo, como se fosse um sacramento...
32 • tempo e presença • m arço/86