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ISSN 2179-6637 Rio de Janeiro, v. 4, n. 2, p. 75-87, jul./dez. 2013 Legis Augustus

SUJEITO DE DIREITO E PESSOA:


CONCEITOS DE IGUALDADE?

Lorena Xavier da Costa


Mestranda em Hermenêutica Jurídica e Direitos Fundamentais pela Universidade
Presidente Antônio Carlos (UNIPAC)
Especialista em Direito Tributário pela Universidade Anhanguera (UNIDERP)
Bacharel em Direito pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF)
Professora na Faculdade de Ciências Gerenciais de Manhuaçu (FACIG)
Advogada
lorenaxavier@msn.com

RESUMO
Existem certos conceitos jurídicos indeterminados que,
apesar de sua larga utilização, não possuem um sentido
sedimentado. O conceito jurídico de pessoa é um deles.
Em razão disso, esse conceito muitas vezes é confundido
com outro que lhe é próximo, o de sujeito de direito. Esses
conceitos, muitas vezes, referem-se ao mesmo ente, in
concreto, porém não se tratam de sinônimos. Há entre
eles uma série de diferenças. Primeiramente, tem-se um
significativo lapso temporal entre o surgimento de ambos.
Tem-se, ainda, a localização de cada um deles em diferentes
institutos de Direito Privado: pessoa insere-se no tópico
personalidade, enquanto sujeito de direito liga-se às relações
jurídicas. Por fim, tem-se a abrangência destes institutos,
sendo que o conceito de sujeito de direito é mais amplo do
que o de pessoa, pois podem figurar como sujeitos de direito
tanto entes personalizados quanto entes despersonalizados
aos quais o ordenamento conceda direitos, inserindo-os em
uma determinada relação jurídica.

Palavras-chave: Relação Jurídica. Sujeito de direito. Direitos.


Obrigações. Pessoa. Personalidade.

1 CONSIDERAÇÕES INICIAIS

Há certos conceitos básicos em direito que, apesar de


amplamente utilizados, não têm um sentido sedimentado.
O conceito jurídico de pessoa é um desses conceitos básicos
extremamente tormentosos aos estudiosos do direito.
O tema pessoa tem sido objeto de estudo de várias
ciências, como a filosofia, psicologia e a teologia. A noção
jurídica de pessoa deve apartar-se das noções dadas pelas
outras áreas de conhecimento, sem, contudo, negar-lhes
a existência.
Inicialmente, o conceito de pessoa não era jurídico.
Esse conceito somente passou a ter uma acepção técnica no
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período pós-clássico. Nesse período passou-se a entender


o ser pessoa como aquele apto a figurar como titular de
direitos e obrigações.
No período clássico, os romanos utilizavam o termo
persona para designar os seres humanos em geral,
diferenciando-os, assim, dos animais. Contudo, nem
todas essas personas eram pessoas no sentido técnico, os
escravos eram chamados personas, mas eram considerados
coisas despersonalizadas.
No decorrer da Idade Média, principalmente na
ótica do Cristianismo, houve uma ampliação quantitativa
do conceito de pessoa, que passou a ser estendido a
todos os seres humanos. A amplitude da abrangência da
personalidade variava de acordo com a noção de igualdade
de cada sociedade. Quanto mais igualitária, maior a
abrangência do referido conceito.
Sobretudo após a 2ª Guerra Mundial, com os movimentos
humanitários, viu-se uma tendência inexorável de se ver todo ser
humano como ente dotado de personalidade. Apesar de antigo,
o conceito de pessoa ainda não goza de uma definição jurídica
universalmente aceita, se é que tal definição seria possível.
Grande parte da doutrina trata os conceitos de pessoa
e de sujeito de direito como sinônimos. Apesar de tais
conceitos estarem intimamente ligados e, muitas vezes,
referirem-se a uma mesma realidade, não são idênticos.
Enquanto o conceito de pessoa é antiquíssimo,
o conceito de relação jurídica é extremamente novo,
formulado pela pandectística alemã, sofreu grande
evolução no século XIX. O sujeito de direito deve ser
analisado como parte da relação jurídica, pois ele traduz
uma posição abstrata dentro dessa relação, que poderá ser
concretamente ocupada por uma série de entes.
O conceito de pessoa utilizado pelos ordenamentos
jurídicos é um conceito técnico-jurídico, mas isso não
quer dizer que ele não encontre limites metafísicos.
A personalidade das pessoas naturais e das pessoas
jurídicas assemelha-se operacionalmente, mas difere-se
no plano das essências. A personalidade do ser humano,
em decorrência da dignidade que lhe é imanente, é uma
realidade que antecede ao direito. Desse modo, impõe-se
ao legislador o reconhecimento da personalidade de todos
os seres humanos. Já as pessoas jurídicas são uma criação
do legislador para atender às necessidades do homem,
assim, o ordenamento lhes concede a personalidade.
Além disso, podem figurar como elemento subjetivo
das relações jurídicas, titularizando direitos e contraindo
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obrigações, tanto pessoas quanto entes despersonalizados,


o que evidencia desconexão entre os conceitos.

2 O CONCEITO JURÍDICO DE SUJEITO DE DIREITO

Etimologicamente, o termo “sujeito” advém do latim


escolástico subjectum, termo utilizado por volta de 1370.
O seguinte trecho de Judith Martins-Costa (2003, p. 55)
elucida esta origem:

Subjectum indica “o que está subordinado”, distinto


de objectum, “o que está colocado adiante”,
derivado do verbo latino objiecere. Essa é a linha
que interessa, pois, no séc. XVI, ganha o sentido de
“causa, motivo” e, mais tarde, o de “pessoa que é
motivo de algo” para, finamente, designar “pessoa
considerada nas suas aptidões”.

A maioria da doutrina equipara pessoa a sujeito


de direito, olvidando-se de que ele é um dos elementos
estruturais da relação jurídica, desempenhando o papel de
centro de imputação de direitos e deveres.
Para entender-se o conceito de sujeito de direito, faz-
se mister conhecer o conceito de relação jurídica. A vida
em sociedade é baseada em relações, porém nem todas
as relações que ocorrem no plano fático são elevadas ao
plano jurídico. Assim, considera-se relação jurídica aquela
relação regulada pelo direito, ou seja, aquela que possui
efeitos jurídicos.
Relação jurídica social regulada pelo direito
objetivo. A vida em sociedade estabelece, entre
os participantes, um número infinito de vínculos,
como resultado imediato do processo de interação
social. Dentre esses vínculos há os relevantes para
o direito, pelos efeitos eventualmente decorrentes.
Sobre eles incide a norma jurídica que, bilateral,
confere aos sujeitos da relação poderes e deveres. A
relação social assim regulada denomina-se relação
jurídica (AMARAL NETO, 1977, p. 407).

A relação jurídica é composta de três elementos


estruturais: o sujeito de direito, o objeto e o vínculo de
atributividade. Esses três elementos apresentam-se
necessariamente como categorias abstratas, configurando
uma estrutura simples e estática da relação jurídica, cujo
conteúdo apenas se pode precisar concretamente.
Francisco Amaral Neto (2006, p. 170-171), ao tratar da
estrutura da relação jurídica, ensina que:
Qualquer relação jurídica, principalmente de
direito privado, representa uma situação em que
duas ou mais pessoas (elemento subjetivo) se
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encontram a respeito de uns bens ou interesses


jurídicos (elemento objetivo). O conjunto desses
elementos, mais um vínculo intersubjetivo que
traduz o conjunto de poderes e deveres dos sujeitos
constitui a chamada estrutura da relação jurídica.

Sendo o sujeito de direito, tal qual os demais elementos


estruturais da relação jurídica, uma noção abstrata, ele
não poderia igualar-se à pessoa, que é o ente que possui
existência fática e participa concretamente da relação
jurídica. Dependendo da relação jurídica pode-se ter como
sujeito de direito uma pessoa natural ou uma pessoa jurídica
e, até mesmo, um ente despersonalizado.

Concebido o sujeito de direito como o “portador de


direitos ou deveres na relação jurídica”, “um centro
de decisão e de ação”, tem-se necessariamente um
conceito vazio, um invólucro sem conteúdo, que pode
ser preenchido por qualquer ente que, a convite do
legislador, venha a ocupar a posição de destinatário
das normas jurídicas (EBERLE, 2006, p. 28).

Desse modo, o sujeito de direito é apenas o ente ao


qual o legislador outorga direitos, independentemente de
ser este ente pessoa ou não. Ele é apenas o destinatário
dos comandos legais que regulam determinada relação
jurídica, tornando-se, assim, seu elemento subjetivo,
nos dizeres de Clóvis Beviláqua (1951, p. 64): “Sujeito de
direito é o ser a que a ordem jurídica assegura o poder de
agir contido no direito”.

3 O CONCEITO JURÍDICO DE PESSOA

O sentido vulgar de pessoa alterou-se significativamente


ao longo dos anos. Etimologicamente, refere-se à máscara,
com sua origem na obra fundamental de Boécio, segundo
a qual: “O nome pessoa parece tomado de outra fonte, a
saber, aquelas máscaras que, nas comédias e tragédias,
representavam os homens que se interessavam representar”
(BOÉCIO, 1897 apud STANCIOLI, 2010, p. 29).
Os romanos utilizavam, originariamente, o termo
persona referindo-se a todos os homens, no intuito de
diferenciá-los dos animais. O fato de serem chamados
personas não tirava dos escravos a condição de coisa.

No direito romano o escravo era tratado como


coisa, era desprovido da faculdade de ser titular de
direitos, e na relação jurídica ocupava a situação
de seu objeto, e não de seu sujeito. Enquanto
durou a instituição da escravidão, e onde ainda
subsiste, na Idade Moderna, a situação jurídica do
que a ela é submetido importa em permanente e
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inegável inferioridade, não obstante os esforços


contrários dos espíritos bem formados (PEREIRA,
2001, p. 142-143).

Esta ideia perdurou até o período pós-clássico, no


qual o vocábulo passou a designar o homem, enquanto ser
dotado de personalidade jurídica, adquirindo assim uma
acepção técnica.
Tem-se, nesse momento, um conceito jurídico de
pessoa desvinculado das outras acepções dadas ao termo,
passando a designar o ente ao qual são atribuídos direitos
e obrigações. “O ser pessoa naquele momento histórico
resultava não de um fato da natureza, mas de um ato de
personificação jurídica que só a ordem jurídica poderia
praticar” (EBERLE, 2006, p. 30).
Houve uma cisão entre os conceitos de ser humano e
pessoa, este último não designava mais a generalidade dos
seres humanos, mas apenas a parcela desses seres que fosse
livre (status libertatis) e ser cidadão romano (status civilitatis).
Apenas a estes privilegiados era outorgada a personalidade.
Diante desse sistema excludente e injusto os
clamores por igualdade, sobretudo os cristãos, levaram
os ordenamentos jurídicos a reconhecer como pessoas
todos os seres humanos. O pensamento cristão segundo o
qual todo homem é filho de Deus e criado à sua imagem
e semelhança chocava-se com a exclusão de classes sociais
ao direito de ser pessoa, pois todo ser humano tem sua
dignidade imanente decorrente do simples fato de ter
nascido como tal.
Mesmo durante a escravidão negra no Brasil, vigia
esta ideia de extensão da personalidade a todos os seres
humanos, contudo, o tratamento jurídico dado aos escravos
não era o mesmo dado aos homens livres. Positivando o
entendimento cristão acima exposto, o Código Civil brasileiro
de 1916, em seu artigo 2º, garantiu a personalidade a todos
os seres humanos.

No direito brasileiro, a ideia da concessão de


personalidade a todo ser humano vigorou mesmo
ao tempo da escravidão negra, muito embora o
regime jurídico do escravo não o equiparasse ao
homem livre. Hoje o direito reconhece os atributos
da personalidade com um sentido de universalidade,
e o Código Civil de 1916 o exprime, afirmando que
todo homem é capaz de direitos e obrigações na
ordem civil (art. 2°), empregada a palavra homem
na acepção de todo ser humano, todo indivíduo
pertencente à espécie humana, ao humanum
genus, sem qualquer distinção de sexo, idade,
condição social ou outra, conceito aconselhável no
novo Código (PEREIRA, 2001, p. 143).
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A personalidade é um atributo jurídico, porém, a pessoa


física nasce e morre com a sua personalidade, esta não lhe é dada
e, em momento algum, pode lhe ser retirada. “A personalidade
é um atributo jurídico. Todo homem, atualmente, tem aptidão
para desempenhar na sociedade um papel jurídico, como sujeito
de direito e obrigações” (GOMES, 2010, p. 78).
Por razões até mesmo metafísicas, anteriores ao
Direito, a personalidade é um atributo intrínseco à pessoa
física, em decorrência de sua dignidade. Não é dada ao
legislador qualquer margem de discricionariedade quanto
ao reconhecimento de personalidade às pessoas físicas no
ordenamento jurídico pátrio. Os seres humanos, dotados de
uma dignidade imanente, são pessoas, independentemente
de qualquer lei ou procedimento.

O direito não tem poder nem legitimidade para


atribuir a personalidade individual. Limita-se a
constatar, a verificar a hominidade, qualidade
de ser humano. Não tem, também, legitimidade
nem poder para a excluir, extinguir ou deixar
de reconhecer a personalidade de uma pessoa
humana, nem por isso a sua personalidade deixa de
existir. Continua tal como antes. Apenas terá sido
desrespeitada ou perturbada. Se, pelo exercício
do poder, a personalidade for desrespeitada, se a
pessoa for tratada como não-pessoa, como animal
ou como coisa, nem por isso deixa de ser o que é:
uma pessoa, com toda dignidade que lhe é inerente.
(VASCONCELOS, 2006, p. 126).

Com isso, o homem assumiu a posição central no


direito. Este existe para servir às necessidades humanas.
Simone Eberle, ao tratar do tema, ensina que:

Ao reconhecer a condição de pessoa ao homem,


o legislador, na verdade, atesta que esse homem
é o foco central das atenções do Direito. A
personalidade, nessa circunstância, revela-se
instrumento direto de efetivação e plenificação dos
direitos humanos (EBERLE, 2006, p. 32).

Sendo o homem o foco central do Direito, este último


deve servir ao primeiro, atendendo às suas necessidades,
essa é a razão que justifica a personificação de entes diversos
dos seres humanos. O homem sentiu a necessidade de uma
conjugação de esforços e recursos para a consecução de
seus objetivos, e, para tanto o Direito optou pela criação
da pessoa jurídica. Esse instituto foi a melhor maneira
encontrada para a tutela desses interesses do homem.
Diante da superioridade técnica da personalidade,
optou o legislador por permitir que essas realidades
galgassem ao posto de pessoa, com vistas a lhes
dispensar uma tutela mais abrangente e acurada.
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Surge assim uma nova categoria de pessoa: a


pessoa jurídica (EBERLE, 2006, p.33).

Giorgio Gianpiccolo sintetiza dois interesses humanos


fundamentais que justificam a personalidade, como um
atributo do ser humano, e a concessão da personalidade
jurídica a outros entes que não os seres humanos, para o
desenvolvimento da vida em sociedade:

O homem, como pessoa, manifesta dois interesses


fundamentais: como indivíduo, o interesse a uma
existência livre; como partícipe do consórcio
humano, o interesse ao livre desenvolvimento
da “vida em relações”. A esses dois aspectos
essenciais do ser humano podem substancialmente
ser reconduzidas todas as instâncias específicas
da personalidade. (GIANPICCOLO, 1997, apud
TEPEDINO, 2001, p. 24-25)

É importante ressaltar que para o Direito pessoa


natural e jurídica assemelham-se, pois ambas são capazes
de titularizar direitos e contrair obrigações.
Há entre elas, contudo, diferenças metajurídicas, no
plano das essências. O ser humano, por sua substancialidade
e por sua dignidade imanente, impõe-se ao legislador como
uma realidade irrefutável, sua personalidade é reconhecida
e não concedida. Já às pessoas jurídicas é a lei quem concede
a personalidade para o atendimento dos anseios humanos.
Em suma, embora pessoa natural e pessoa jurídica
assemelhem-se pelo fato de ambas serem pessoas, ou
seja, serem detentoras de personalidade, aptas à aquisição
de direitos e assunção de obrigações, há que se notar que
isso se dá por razões amplamente distintas. A primeira é
pessoa independentemente de qualquer manifestação de
vontade, sua personalidade deriva do simples fato de ser
humana, de sua substancialidade e da dignidade que lhe
é imanente. Já a segunda é pessoa pela manifestação de
vontade de pessoas físicas em unirem esforços para atingir
um objetivo comum.
Para a diferenciação das duas espécies de pessoas
existentes no ordenamento jurídico pátrio Edgar de Godoi
Matta-Machado (1954) se vale da analogia, aplicando
o conceito analógico de pessoa. Ao tratar das pessoas
jurídicas, este ensina que entre elas e as pessoas físicas
há uma analogia de proporcionalidade imprópria ou
metafórica, que se verifica quando um conceito unívoco,
ou seja, um conceito que se aplica com o mesmo nome e
sentido a diversas situações se transfere a outros sujeitos
em decorrência das semelhanças que estes apresentam:
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A metáfora se baseará, pois: 1º, numa univocidade


uma vez que - lembremos a instituição que a
teoria de Kelsen realçou - jurídica é tanto a pessoa
considerada individualmente quanto a entidade
pública ou privada a que se dá o nome de pessoa
jurídica; e, 2º, numa analogia de proporcionalidade
imprópria, exatamente porque, termo de um
conceito análogo, pessoa é, no caso da aplicação
às pessoas jurídicas, tomado, a princípio
univocamente. (MATTA-MACHADO, 1954, p. 76)

Desse modo, valendo-se do conceito análogo de


pessoa, o autor demonstra que entre a pessoa natural e a
pessoa jurídica existe uma analogia de proporcionalidade
imprópria, pois o termo pessoa é tomado univocamente
para designar ambas. Ressalta ainda que tanto uma quanto
a outra gozam de existência real e diferem-se apenas
quanto à sua essência, pois, quanto à maneira de atuar
juridicamente, à sua operacionalidade, assemelham-se.
Já entre homem e pessoa natural há uma analogia
de proporcionalidade própria, pois, trata-se de conceitos
essencialmente semelhantes, sendo assim, cabe ao
legislador reconhecer a personalidade do homem, sendo-
lhe vedada qualquer alternativa, pois a personalidade é
ínsita ao homem. É ler:

E a personalidade civil do homem [...] é de tal modo


ínsita ao ser humano, que a lei a reconhece desde
o nascimento com vida, pondo, além disso, a salvo
desde a concepção os direitos do nascituro (é o art.
4º do C.C.B.). A comparação homem - pessoa natural
- faz-se, portanto, entre semelhanças essenciais. É
propriedade do conceito de pessoa a capacidade
de direitos e obrigações. A pessoa natural dos
códigos não é simples construção do pensamento
jurídico. É reflexo da imagem e semelhança de Deus,
análogo ao supremo, ato puro em que se realiza
plena e absolutamente a noção da Pessoa. (MATTA-
MACHADO, p. 77-78).

Logo, tamanha é a semelhança entre o ser humano


e a pessoa natural que sua dissociação pelo legislador é
impossível, a personalidade é ínsita ao ser humano, pois se
trata essencialmente da mesma realidade.

4 A DIFERENÇA ENTRE OS CONCEITOS JURÍDICOS DE


SUJEITO DE DIREITO E PESSOA

Grande parte da doutrina sustenta a identidade entre


pessoa e sujeito de direito, pois, muitas vezes, ambos os
conceitos referem-se ao mesmo ente.
Porém, essa visão doutrinária mostra-se superficial,
pois em uma análise mais acurada dos dois conceitos,
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já se percebe, primeiramente, o grande lapso temporal


entre o surgimento de ambos e, ainda, a relação deles com
institutos diversos do direito, sendo o conceito de pessoa
tratado dentro da temática de personalidade e o conceito
de sujeito inserido nas relações jurídicas.
Grande defensor da diferença entre os conceitos de
pessoa e sujeito de direito foi Francisco Cavalcanti Pontes de
Miranda (1974, p. 153), que preleciona que o conceito de
sujeito de direito deveria ser tratado antes do conceito de
pessoa, pois ser pessoa constitui uma situação abstrata que
se concretizará quando essa pessoa estiver inserida numa
relação jurídica, tornando-se sujeito de direito.

Rigorosamente, só se devia tratar de pessoas, depois


de tratar dos sujeitos de direito; porque ser pessoa é
apenas ter a possibilidade de ser sujeito de direito.
Ser sujeito de direito é estar na posição de titular de
direito. Não importa se esse direito está subjetivado,
se é munido de pretensão e ação, ou de exceção.
Mas importa que haja ‘direito’. Se alguém não está
em relação de direito não é sujeito de direito: é
pessoa; isto é, o que pode ser sujeito de direito,
além daqueles direitos que o ser pessoa produz. O
ser pessoa é fato jurídico: com o nascimento, o ser
humano entra no mundo jurídico, como elemento do
suporte fático em que o nascer é o núcleo. Esse fato
jurídico tem a sua irradiação de eficácia. A civilização
contemporânea assegurou aos que nela nasceram
o serem pessoas e ter o fato jurídico do nascimento
efeitos da mais alta significação. Outros direitos,
porém, surgem de outros fatos jurídicos em cujos
suportes fáticos a pessoa se introduziu e em tais
direitos ela se faz sujeito de direito.

Já Simone Eberle (2006, p. 26) entende que a diferença


entre os referidos conceitos não se dá pela abstratividade
do sujeito de direito e pela concretude da pessoa:

Pessoa e sujeito de direito não se distinguem por


ser este último dotado de concretude e aquela
primeira de abstratividade, conforme ensina Pontes
de Miranda. Ao que se ensaiará expor no tópico
seguinte, a noção de sujeito de direito, enquanto
componente da tríade estrutural da relação
jurídica, traduz necessariamente uma situação
abstrata. Ser sujeito de direito assim como ser
pessoa são situações jurídicas que representam
potencialidades e que, como tais, encontram-
se plenamente efetivadas a despeito da prática
deste ou daquele ato jurídico: a rigor, decorrem
unicamente de um fato jurídico, que pode ser o
nascimento com vida de um homem ou um ato de
vontade do legislador, aliado ao preenchimento de
certos requisitos no caso das pessoas jurídicas.

Fábio Ulhôa Coelho (2006, p. 8-9) faz uma distinção clara


e didática acerca dos dois conceitos, informa que sujeito de
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direito é um conceito mais amplo do que o de pessoa, pois o


sujeito de direito pode ser uma pessoa ou também um ente
despersonalizado inserido numa relação jurídica:

Sujeito de direito é conceito mais amplo que pessoa: nem


todos os sujeitos são personalizados. Em outros termos,
os titulares de direitos e obrigações podem ou não ser
dotados de personalidade jurídica. Se se considerarem
todas as situações em que a ordem jurídica atribui o
exercício de direito ou (o que é o mesmo, visto pelo
ângulo oposto) o cabimento de prestação, o sujeito
será o titular do primeiro ou o devedor da última. No
conceito de sujeito de direito encontram-se, assim,
não só as pessoas, físicas ou jurídicas, como também
algumas entidades “despersonalizadas”.

Prosseguindo na análise do tema, o autor ainda


classifica as diferentes espécies existentes de sujeito de
direito, a partir dos seguintes critérios:

Os sujeitos de direito podem ser, inicialmente,


distinguidos em dois grupos: de um lado, a pessoa
física e o nascituro; de outro, a pessoa jurídica e as
demais entidades despersonalizadas. Chamem-se
os primeiros de sujeitos humanos, numa referência
ao objeto semântico do termo, o ser humano, e
os últimos, inanimados [...]. Os sujeitos de direito
podem também ser classificados em personalizados e
despersonalizados. Na primeira classe, as pessoas físicas
e jurídicas; na segunda, o nascituro, a massa falida, o
condomínio horizontal etc. (COELHO, 2006, p. 9).

Logo, as noções de sujeito de direito e pessoa não se


confundem, uma vez que existe a possibilidade de entes
despersonalizados figurarem como titulares de direitos e
deveres dentro de uma relação jurídica. O ser sujeito de
direito é uma possibilidade dada às pessoas, mas também
a outros entes aos quais o legislador outorgar o direito de
participar de relações jurídicas.

5 CONCLUSÃO

Como se viu, existem conceitos basilares e amplamente


utilizados em Direito que não possuem um sentido
sedimentado. Esse é o caso do conceito jurídico de pessoa.
Devido a essa falta de definição, os conceitos de
sujeito de direito e de pessoa, por se referirem muitas
vezes ao mesmo ente, acabam por ser confundidos pela
doutrina. Porém, tais conceitos não se confundem, por
diversas razões. A análise dessas diferenças passa por
vários aspectos.
Primeiramente, tem-se como uma das evidências
dessa diferença o lapso cronológico entre o surgimento
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desses conceitos. O conceito de pessoa surgiu na


antiguidade, enquanto o conceito de sujeito de direito foi
alcançado com a pandectística alemã, sofrendo grande
evolução no século XIX.
Tanto são conceitos distintos que são tratados em
temas apartados dentro do Direito Civil, ligando-se
pessoa ao instituto da personalidade e sujeito de direito
à relação jurídica.
Como demonstrado, sujeito de direito traduz uma
posição abstrata dentro das relações jurídicas, que poderá
ser concretamente ocupada por uma série de entes, sendo,
assim, um conceito mais amplo do que o de pessoa, pois o
sujeito de direito pode ser uma pessoa ou também um ente
despersonalizado inserido numa relação jurídica.
Portanto, os conceitos de sujeito de direito e pessoa
não são sinônimos. Pessoa é aquele ente que detém
personalidade, ou seja, aptidão para titularizar direitos
e contrair deveres. Já o sujeito de direito é apenas o ente
que o legislador escolheu para outorgar direitos em uma
determinada situação, independentemente de ser este
ente pessoa ou não, bastando que haja um único direito
outorgado. Nessa hipótese, ele figura como o elemento
subjetivo daquela relação jurídica, sendo a eles destinados
os comandos legais reguladores de tal relação.

SUBJECT OF LAW AND PERSON: CONCEPTS


OF EQUALITY?
ABSTRACT
There are certain indeterminate legal concepts that, despite
its widespread use, have no sense settled. The legal concept
of person is one of them. As a result, this concept is often
confused with another next to it, subject to law. These
concepts often refer to the same entity, in the reality, but
they are not synonyms. Amongst them there are a number
of differences. First, there is a significant time lapse between
the appearance of both. There is also the location of each
in different institutes of Private Law: person falls within the
topic personality and subject of law binds with the legal
relationships. Finally, this distinction remains clear since the
concept of the subject of law is broader than the concept
of person.

Keywords: Legal relationship. Subject of law. Rights. Obligations.


Person. Personality.
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