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Bebê com risco de autismo em tratamento conjunto: visa-se a reversibilidade total?

Clínica Psicanalítica

Bebê com risco de autismo em tratamento conjunto:


visa-se a reversibilidade total?
Marie-Christine Laznik
Tradução: Maria Dolores Lustosa Cabral

Resumo
A questão do autismo é abordada a partir de um tratamento conjunto mãe-bebê, no qual a
autora relata as sessões conjuntas mãe-bebê-analista, e as intercorrências durante o processo de
cura.

Palavras-chave
Autismo, Tratamento conjunto, Relação mãe-bebê, Intercorrências, Olhar, Isolamento.

Marina e sua mãe frequentavam na seu bebê por causa de dores abdominais
PMI1 de seu bairro um grupo mãe-bebê. Os intensas. Ela falou disso ao pediatra, que
monitores estavam inquietos perante este minimizou a queixa explicando que isto
bebê que não tinha nenhuma troca de olhar era frequente nos bebês, e com o tempo
com sua mãe e cujo olhar tornava-se cada resolveria. Marina chora por longo tempo
vez mais difícil de ser captado pela equipe. e de maneira muito intensa. A mãe é atra-
Eles pediram a presença da psicóloga da vessada por seus choros e tomada de afli-
PMI. Ela também ficou muito inquieta. A ção diante dos berros da filha, não conse-
psicóloga, de formação psicanalítica, soli- gue acalmá-la.
citou-me para o dia seguinte. Logo que sua mãe a toma sobre seus
Percebendo que esse bebê apresenta- joelhos de frente para ela, para que possa
va piscadelas indicativas de risco autista, captar seu olhar, Marina se joga para trás.
os recebi o mais rápido possível. Eu consigo captar seu olhar, mas com a
condição de colocá-la num bebê confor-
to, diante de mim.
Primeira sessão (2/1/02) Eu conto para Marina o que sua mãe
Marina chega no porta bebê, no colo acaba de me explicar. Minhas frases são
de sua mãe. Ela se curva para trás, de uma simples e penso que Marina está, sobretu-
maneira que evoca um epistótonos, e seu do, fixada à entonação da minha voz. Ela
olhar parece querer se grudar ao teto. se acalma lentamente. Eu introduzo sua
No consultório, a mãe me diz que ela mãe para quem ela olha, fazendo peque-
não consegue encontrar seu olhar. Ela me nos movimentos com os braços. Eu os tra-
fala das enormes dificuldades que teve com duzo imediatamente:

1. Trata-se de um centro de Prevenção Materno-Infantil da Cruz Vermelha.

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Marie-Christine Lazinik – Tradução: Maria Dolores Lustosa Cabral

“Mamãe, eu quero ir para seu colo”. Segunda sessão, quinze dias depois
Sua mãe, que não podia interpretar Os pais mudaram de pediatra, o novo
esses movimentos como dirigidos a ela, me receitou um medicamento para dor (cóli-
dirá várias vezes: ca) e as crises de Marina desapareceram.
“Ela não me pede nada, ela não me Depois da primeira sessão, a mãe conse-
chama”. guia captar um pouco o seu olhar, depois
Como eu falo no lugar de Marina, que de alguns dias o olhar plana de novo. Era
aos três meses e meio não sabe fazer mo- hora de retornar a Mme Laznik2.
vimentos melhores que isso, a mãe como- Eu repito para Marina que está num
vida a toma em seus braços. Estou surpre- bebê conforto diante de nós três – a psi-
sa com o que se passa. O bebê hipertônico quiatra infantil está presente – o que sua
se entrega nos braços de sua mãe como se mãe acaba de me contar. Eu tenho o olhar
relaxasse, e enquanto eu lhe falo suave- de Marina que me faz largos sorrisos
mente o quanto ela está bem ali, ela ador- Marina que acaba de completar qua-
mece. tro meses, chupa suas mãos que lhe esca-
A mãe me conta, então, quanto se pam. Muito atenta, sua mãe lhe ajuda a
sentiu perdida, seu marido trabalhando o reter suas mãozinhas junto da boca. De
dia inteiro. Ela tem seus pais, mas não pode repente, Marina se põe a sugar o dedo de
contar com eles. Sua mãe lhe disse que os sua mãe com um prazer evidente.
bebês a fadigam. A mãe teve Marina per- Eu falo no lugar de Marina: “Hum!
to dos quarentas anos, foi sua primeira fi- Como é bom o dedo de minha mamãe! É
lha. Quando ela lhes comunicou sua gra- gostoso!”
videz, eles lhe perguntaram por que ela não Marina o suga ainda com mais vonta-
tinha engravidado mais cedo, era tarde de.
para eles, isso iria fatigá-los. Sobre o fato, A mãe: “Mas se ela gosta tanto disto,
ela associa que a única coisa que sua mãe será preciso lhe oferecer um pirulito”.
pôde lhe dizer do seu próprio nascimento Eu falo ainda no lugar de Marina:
era quanto isso tinha lhe cansado, exauri- “Mas, mamãe, é do seu dedo que eu gos-
do. to! É tudo de bom o dedo da mamãe!”
Eu escuto, mas, apenas sublinho a ter- A mãe: “Ah! Sim, é verdade, os piruli-
rível dificuldade na qual ela está diante tos ainda não são para sua idade”.
da dor de sua filha, e lhe peço para insistir Eu me volto, então, para a mãe, para
junto ao pediatra, para que ele faça um lhe mostrar quanto ela, Marina, gosta do
tratamento para suas dores (cólicas). Nada dedo de sua mãe que é bom como um pi-
mais. rulito.
Eu sinto que esse bebê que berra de Num tom confidencial, a mãe me diz:
dor, vem confirmar sua fantasia de ser uma “Eu vou lhe confessar, eu também acho o
mãe má. dedinho de Marina bom como um docinho”.
No fim de uma meia hora, Marina No mesmo tom confidencial, eu per-
despertou por causa de suas cólicas: ela gunto: “E o pezinho?”.
se retorce agitada pelos espasmos, en- A mãe cuja filha sempre chupa o dedo,
quanto sua mãe está numa confusão to- confessa com um cacarejo de prazer: “E
tal. Eu lhe falo, retomando o ritmo e a às vezes até mesmo a barriquinha!”.
intensidade de seu sofrimento. Eu consi-
go captá-lo e acalmá-la, mas a mãe não
consegue mais captar seu olhar, Marina
continua com os olhos no teto e o tronco 2. A mãe repetirá isto durante três meses, no fim de
muito para trás. cada sessão.

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A voz da mãe que revela seu prazer é Marina instaurou um roteiro nas ses-
envolvente; Marina olhando para ela se sões:
põe a vocalizar com todas suas forças: Ela começa por estar conosco, sobre-
“Guo, te, re te”. tudo ligada no meu olhar, depois nós fala-
A mãe muito comovida lhe diz: “Mas mos dos cuidados da mamãe. Sua mãe a
seria preciso um tradutor para me explicar acalenta, ela relaxa nos braços maternos
tudo o que você me conta!”. sua hipertonicidade e adormece frequen-
Eu então digo a Marina que sua mãe temente ao som de minha voz, que se faz
ficou muito infeliz quando ela sofria de voluntariamente baixa e monocórdia.
cólicas e que ela se sentiu tão impotente Durante o sono de sua filha, ela me fala
para aliviar sua dor que perdeu toda con- dela própria, de sua vida conjugal, de seus
fiança na sua capacidade de ser uma ma- pais e do que a magoa. São sessões muito
mãe. Marina olha alternadamente ora para longas, de mais de uma hora.
mim, ora para sua mãe, que consente, lhe Algum tempo mais tarde, Marina é
sorrindo. Sua filhinha reponde ao seu sor- colocada na creche e a mãe retoma seu
riso. trabalho. A equipe da creche não perce-
A mãe chora: “Você sabe Marina, é de berá as inquietações pelas quais passamos.
alegria que a mamãe chora.” Diz ela a sua Ela destacará, no entanto, que Marina faz
filha. o que lhe “dá na cabeça.” Existem senho-
Esse reconhecimento de seu bebê ras às quais ela não corresponde nunca,
como fonte de alegria (de grande prazer) como se não existissem; e a outras, parti-
para a mãe deve provavelmente induzir cularmente uma, Maria, ela vai se ligar de
uma modificação na prosódia materna. O uma maneira especial.
bebê é chamado por essa voz e entra numa Numa outra sessão, enquanto Mari-
verdadeira “protoconversação”. A colo- na dorme, sua mãe me contará a história
cação do terceiro tempo do circuito pulsi- de sua avó, nascida de uma família de agri-
onal introduziu uma nova dinâmica entre cultores de umas das regiões mais remo-
esse bebê e sua mãe. tas da França. A mãe da sua avó (portan-
Observemos que nosso trabalho de to sua bisavó) foi casada com este campo-
analista aqui, parece com o que fazemos nês cuja fazenda era muito distante. Ele
em psicodrama analítico: representar pa- lhe tinha feito três filhas, uma atrás da
péis para passar as possibilidades de repre- outra. Tudo leva a crer que ela teria dese-
sentações que não se dirigem necessaria- jado uma outra vida, e que seus bebês não
mente ao eu consciente, vigil da mãe. foram grande fonte de alegria. Duas de
Eu recebo Marina e sua mãe três suas filhas nunca tiveram filhos. Somente
vezes por mês. Ela me diz que Marina a avó teve uma filha: ela, bebê fatigante.
está sempre “disponível” nos dias que Ao contrário, evocando os pais de seu
se seguem à sessão. Mas no final de uns pai, seu olhar se ilumina, ela chega a rir
dez dias, seu olhar tende a planar de lembrando-se de como seu avô havia en-
novo. ganado os alemães durante a guerra. Ma-
Nas sessões, Marina pode permane- rina se volta espantada ao ouvir o riso de
cer ligada no meu olhar durante longo sua mãe, a olha, e por sua vez, também ri.
tempo, sobretudo se eu lhe falo, mas ela Quando Marina tinha dez meses, a
retira o olhar de sua mãe muito mais rapi- mãe me conta que brincando com ela fez
damente. de conta que estava bebendo na mama-
Eu lhe digo que ela deve ler nos olhos deira. Diante de tal audácia lúdica de sua
da mamãe as preocupações que não gosta mãe, Marina, a princípio espantada, logo
de ver aí. se pôs a rir. Mas isso só foi possível depois
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que sua mãe começou um trabalho mais se confirma e Marina vagueia sem parar.
pessoal, que se deu da seguinte maneira: A mãe me pede para revê-la.
Ela chega para uma sessão e anuncia: Quando eu a recebo, vejo-me diante
“Marina, vai muito bem”. de uma menininha vagando por toda par-
Ela coloca sua filha no chão. Marina te, e que não me endereça um olhar. O
tem nove meses, engatinha e mostra inte- mesmo na sessão seguinte: Marina não
resse por mim e também pelos objetos. Eu parece um bebê de 15 meses, em vias de
retomo: “Marina, com efeito, está bem, e se tornar autista, como se nunca tivesse
você?”. sido cuidada, já que sua recusa de se co-
A mãe esconde seu rosto com as mãos municar não a impede de seguir intelec-
e se põe a chorar. Ela jamais se entregara tualmente o que se passa, mas eu devo
dessa maneira. Marina vai em direção à sua reconhecer que ela fez uma recaída grave.
mãe e lhe estende os braços. Amavelmen- O pai veio me falar de sua inquieta-
te, aninha-se em sua mãe, enquanto eu ção em relação a sua filha que passou o
nomeio o que ela faz. Entre lágrimas a mãe fim de semana a empilhar – sozinha no
tenta lhe sorrir. Nesse momento e para seu canto – caixas de videocassete. Ele me
nossa grande surpresa, Marina aponta para pergunta se eu nunca havia pensado em
sua mãe um belo móbile colorido depen- autismo. Eu lhe respondo que esta doen-
durado no teto do meu consultório. A cada ça só é diagnosticada enquanto tal aos três
vez que Marina chorava, a mãe ia lhe anos e que nós fazemos o que é preciso
mostrar o belo móbile, para consolá-la. para que este diagnóstico não possa ser
Nós compreendemos, ao mesmo tem- colocado. Observemos de passagem quan-
po, que Marina, identificada com sua mãe, to os pais não são ingênuos em relação aos
tenta consolá-la. A mãe está muito como- problemas de suas crianças, quando eles
vida, e diz que ela é ainda muito pequena ousam falar deles.
para querer consolar sua mãe. Melhor se- Durante os dois anos que se seguiram
ria que ela viesse falar com madame Laz- à recaída de Marina, nós filmamos prati-
nik, diz ela. O que fazemos. camente todas as sessões. Eis alguns ex-
Aos 11 meses, Marina procura sua tratos da terceira, a que se segue à entre-
mãe com o olhar, a cada vez que vai co- vista com os pais.
meçar uma ação, ou mesmo entrar em Ao chegar, a mãe comenta num tom
contato comigo. O laço entre as duas me que tenta ser alegre: “Vindo, ela olhou muito
parece estabelecido, mas eu continuarei a o teto do metrô, do elevador”. Eu lhe res-
segui-las depois das férias. pondo no mesmo tom: “Coisa para provar
à mamãe que ela tem toda razão de se dar
ao trabalho de trazê-la para ver Mme La-
“Marina por ocasião de sua recaída znik”.
aos quinze meses” Esta jovialidade serve para fazer face
Depois das férias de verão, eu encon- à ausência total de contato com Marina.
tro uma adorável menininha de 13 meses Esta, instalada diante de uma mesinha de
que anda e se dirige a mim e a sua mãe jogo, coloca e retira incansavelmente
num tônico diálogo sonoro. Sua filha lhe grandes feltros num pote que se encontra
parecendo muito bem, a mãe me pede para diante dela. Marina, que tem um pouco
continuar a vir, mas para falar dela pró- de febre, recusou lanchar na creche. A
pria. Eu aceito. mãe começa a lhe dar um iogurte; esta será
Mas desde o final da primeira sessão, a única vez que ela a alimentará na ses-
a mãe comenta certo fechamento em são. Marina se deixa tirar a chupeta sem
Marina. No fim de um mês, o fechamento desviar o olhar por um só instante dos
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grandes feltros e sempre os olhando, ela presente, desde o nascimento. O que não
abre a boca para a colher de iogurte, en- exclui que fatores complexos que nós ain-
quanto sua mãe se queixa de não conse- da não conhecemos possam desempenhar
guir captar seu olhar: “às vezes eu tento, um papel durante a gravidez. Geneviève
mas não chego lá. Ela vira a cabeça”. Quan- Haag fala de uma raiz pré-natal do pro-
do me dirijo a ela, ela não reponde mais. blema sonoro que lhe pareceu como mui-
Como se minha voz fosse apenas um ba- to importante5.
rulho entre outros. As colheradas se su- Minha experiência com Marina e sua
cedem na boca de Marina que se deixa recaída me ensinaram que deve haver um
alimentar inteiramente, não retirando fator suplementar em jogo, além daquele
nem sua atenção, nem seu olhar dos gran- demonstrado por Zilbovicius e outros pes-
des feltros. Um lápis cai da mesa, Marina quisadores com imagem cerebral. Mesmo
choraminga, tentando pegá-lo. Eu lhe depois de o bebê ter descoberto sua atra-
digo: “Pegue Marina”. Ela o pega sem um ção pela voz e o rosto humano, Marina foi
olhar. Eu comento no seu lugar: “Não, eu capaz de se fechar. Eu muitas vezes, me
não olho Mme Laznik. A mãe, com quem coloquei questões sobre as causas dessa
eu trabalhei durante o primeiro ano de recaída. Certamente, tanto o fato de ter
vida de Marina, responde no seu lugar: concordado em parar de vê-la, a pedido
“Não, eu achei minha cadeirinha, eu estou da mãe, o que aceitei de bom grado, quan-
bem instalada, tá?”. Este tipo de jogo de pa- to a interrupção de 50 dias para as férias
lavra que tanto tinha divertido o bebê3 cai de verão não me pareciam tê-la afetado.
agora no vazio. A mãe, que continua a ali- Mais tarde, eu aprenderei que ela só tinha
mentá-la, calcula mal e o iogurte cai no voltado à creche após o meu retorno, vol-
seu rosto. Marina não tem nenhuma rea- ta particularmente difícil, porque as duas
ção. referências às quais ela estava habituada
Há dez minutos a sessão começou e não estavam mais lá. Eu aprenderei tam-
parece que deve se passar da mesma ma- bém que para a mãe, a retomada do tra-
neira que as duas precedentes, sem ne- balho tinha sido marcada pela mudança
nhum laço entre nós e Marina. Eu reflito de seu superior hierárquico e pelo senti-
que esta situação não pode durar, pois a mento de ter sido colocada à parte. Em
criança está em perigo. Este fechamento novembro, a mãe estava deprimida, mas é
reinstalado há quase dois meses não pode difícil saber o que tinha acarretado essa
de maneira nenhuma prejudicar seu apa- espiral descendente. Em todo caso, devo
relho psíquico. sublinhar um fator de uma maior sensibi-
O Prof. René Daktine e o Dr. Jean lidade nesta criança, do que em outras, às
Bergès diziam, tanto um como outro4, que mudanças de seu ambiente. Face a uma
devia haver uma “psicossomática” do au- fragilidade tal da criança, nós podemos
tismo, que o não uso do órgão podia lesar mesmo nos interrogar sobre a oportuni-
o órgão. dade de aceitar sua mãe numa psicotera-
Há muito tempo que a minha leitura pia analítica. Todos nós sabemos que no
dos filmes familiares de bebês que se tor- início de um processo pessoal dessa ordem,
naram autistas me ensinou que o fato de o sujeito está frequentemente perdido em
eles não irem em direção ao Outro está aí seus pensamentos. Isso não teria sido in-

3. Para descrição do tratamento de Marina, durante seu


primeiro ano de vida, ver Lês Cahiers de Preaut, n.1, 5. HAAG, G. Reflexões de psicoterapeutas de formação
idem. psicanalítica que se ocupam de sujeito com autismo; ain-
4. Os dois tinham sido alunos do Prof. J. de Ajuriaguerra da não publicado.

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terpretado pela criança como uma perda cer uma verdadeira relação com ela, ela
do laço com a mãe? pôde me falar de seu núcleo depressivo,
Em todo o caso, o que eu posso afir- muito anterior ao nascimento de sua fi-
mar é que, diante deste conjunto de difi- lha.
culdades, Marina, tal qual um pequeno Mas é, sobretudo, pela vontade que a
submarino, tinha fechado as escotilhas e entrada de sua filha no maternal se fizesse
mergulhado. Nesta sessão, toda sua aten- da melhor maneira possível que ela deci-
ção, visual e auditiva, se concentrava nos de tomar “alguma coisinha” antes das fé-
grandes feltros que ela colocava e retirava rias de verão. Que não me façam dizer que
do pote, visivelmente atenta ao barulhi- esta estrutura mais depressiva da mãe pos-
nho que isto provocava e à sua cor. Pode- sa ser a causa da patologia de sua filha; se
ríamos pensar numa vontade de um pro- tal fosse o caso, uma grande parte da hu-
to-sujeito de não ouvir esta voz humana? manidade seria autista. Antes me parece
Haveria um fator de hipersensibilidade6 que este elemento despertava na criança
nesses bebês que os levaria a evitar uma alguma coisa de análogo e intolerável para
voz humana contanto que ela fosse porta- ela.
dora do menor sinal depressivo? Como se
isso não pudesse não acarretar no bebê
uma resposta do tipo depressivo intolerá- Retorno ao material clínico
vel? A ideia de Mônica Zilbovicius de usar Abrindo inteiramente a boca para as
antidepressivos nas crianças implica na colheradas de iogurte, Marina olha aten-
hipótese de processos metabólicos deste tamente para a câmera diante dela.
tipo. Se eu permaneço muito reservada A mãe falando no lugar da criança:
quanto ao uso deste tipo de medicamento “Pelo contrário, a tomada de cena, isso me
para os pequenos, eu devo reconhecer que intriga”7.
para a mãe o uso do antidepressivo me- Não obstante, ao lado conciliador e
lhorou sua relação interpessoal. Mas isto empático dos nossos discursos, Marina
somente pôde acontecer quinze meses permanece petrificada como se nossas vo-
mais tarde, quando Marina já havia saído zes fossem apenas um barulho de fundo
há muito da situação. Num primeiro mo- do ambiente. Ela não presta atenção aos
mento, a questão não é que eu fale com a barulhos dos carros na rua. É evidente que
mãe, que a veja aliás todas as semanas, pois a clínica com estas crianças confirma as
isto equivaleria a lhe atribuir uma respon- descobertas de Zilbovicius: “nossa voz é,
sabilidade indevida neste caso, posto que com efeito, tratada como se tratam os baru-
o estado de fechamento de Marina teria lhos exteriores.
deprimido não importa qual pai. Mais tar- Não é com isto que ela iria se tornar
de, quando sua filha conseguiu estabele- “expert em voz e rostos humanos”, como diz

6. Frances Tustin tinha evocado alguma coisa parecida


a propósito dessas crianças – futuras autistas – muito
vulneráveis, crianças que ele queria guardar numa
redoma. Ver; Tustin F: Conversação psicanalítica, As-
sociação Audit anduze,1944. Ao contrário, eu não a 7. Nos filmes de bebês que se tornaram autistas mais
acompanho quando ela imagina um período prévio tarde, nós observamos este interesse pela câmera. Na
no qual a mãe e a criança teriam vivido um laço anor- época em que se devia colocá-la diante do rosto hu-
malmente estreito cuja ruptura teria sido traumática. mano, a dúvida era possível quanto ao objeto de in-
Isto não é absolutamente o que se decifra tanto nos vestimento do olhar do bebê. Mas agora que as câ-
filmes familiares quanto na minha experiência analí- meras se colocam mais longe, não é o rosto daquele
tica com esses bebês e suas mães. que filma que é olhado, mas a câmera.

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Zilbovicius, e “o desenvolvimento de seu cé- MCL: “Pra Mme Laznik! Eu também,


rebro corria o risco de não se fazer da manei- eu quero! Hum! É bom”. Desde o meu
ra habitual”. Os primeiros resultados em hum! de surpresa e prazer, Marina me olha
imagem cerebral valorizaram a dificulda- de novo nos olhos com um largo sorriso,
de de emparelhar uma voz e uma imagem como partilhando do meu prazer. Mas isto
visual no autismo. Laurent Mottron8 faz não dura mais que dois segundos.
um recenseamento dos trabalhos a pro- Minha transferência me aponta que
pósito das dificuldades de percepção in- este novo sucesso suscita uma aflição na
termodal. mãe; eu chego aí; ela não. Decido inver-
Portanto, mais do que nunca a ordem ter o jogo. Tomando o iogurte e a colher,
do dia é de tentar devolver às pequenas Ma- eu falo:
rinas com menos de dois anos, a vontade de MCL: “Bem, é Mme Laznik que vai
ouvir a voz humana e olhar o aspecto do seu dar a mamãe”.
entorno mais próximo. É o que pôde se pas- Mãe: “Ah! Mudaram de distribuidor!”,
sar na sequência desta sessão, verdadeira a mãe exclama. Graças ao nosso laço an-
reanimação psíquica. tigo, esta situação insólita – uma mulher
Eu faço semblante de tomar a colhe- de quarenta anos, para quem isto não po-
rada seguinte de iogurte. dia acontecer ha décadas – desencadeia
MCL: “Bem, é Mme Laznik que vai em Marina uma exclamação de surpresa e
comer. Hum! Hum! Hum!. É gostosa com divertimento. Marina nos olha, uma e
baunilha!. outra rindo, aproximando seus braços com
Este fragmento portador de minha ritmo, como se fossem bater palmas. Eu
surpresa e prazer diante deste cheiro de comento.
baunilha suscita desde o primeiro hum! um MCL: “Isto dá certo se mamãe encon-
olhar sorridente em Marina como que par- tra prazer, mas se mamãe alimenta a si
tilhando do meu prazer. Mas ele desapa- mesma isto não tem graça”.
rece logo no final da frase. Como sempre, ela me olha quando
Para tentar captar o olhar de sua fi- seguro o iogurte, lhe ofereço uma colhe-
lha, a mãe por sua vez faz semblante de rada de verdade. Marina abre minha boca,
tomar o iogurte, dizendo: baixando o olhar em sua habitual indife-
Mãe: “Eu tomo um pouco? Eu tenho o rença. Eu comento:
direito de tomar deste iogurte tão bom? Não MCL: “Eu só como quando se faz pe-
tem um pouco de morango dentro...”, acres- quenas palhaçadas”.
centa ela, fingindo saborear. Esta criança distingue claramente o
Nada em Marina demonstra que te- registro da necessidade alimentar daque-
ria percebido o jogo de sua mãe. Tentan- le da pulsão oral. Não é com iogurte que
do não perder a cabeça, a mãe lhe dá uma se pode alimentar sua vontade de ver e de
nova colherada de iogurte. Marina é per- escutar: é de uma particular prosódia em
feitamente capaz de antecipar a aproxima- nossas vozes, portadoras de picos alterna-
ção da colher abrindo a boca, mas nada dos entre surpresa e prazer. Estes picos são
nela revela qualquer prazer partilhado. característicos do que se chamou ha mui-
Eu decido de novo fazer semblante de to tempo de mamanhês e há pouco se cha-
comer. ma parentês, pois os pais também são ca-
pazes de produzi-los, tanto quanto as mães.
Nós sabíamos desde há muito tempo (A.
Fernald, 1979) que a prosódia que provém
8. Mottron.L: O autismo: uma outra inteligência. Idem.
Ele cita o trabalho de boucher, J. Lewis, V. Collis. G., disso não podia se encontrar na fala de um
1998. adulto com outro adulto, a não ser em si-
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tuações excepcionais nas quais a surpresa do eu sonho agora, eu percebo que isso
e o prazer se conjugariam. Há pouco N. parece com uma imensa gardênia. O bran-
Reissland, (2002) provou que a surpresa co das flores sendo suscitado provavel-
produz na voz do pai de um bebê, um pico mente pela cor do iogurte. Eu nunca vi
de energia elevada, enquanto que o pra- um pé de baunilha e ignoro com o que ela
zer produz um pico muito baixo. Eu cons- se parece. Não importa, rapidamente eu
tato que, quando os dois se produzem su- sou lançada num mundo mágico de sur-
cessivamente, isto dá a aparência de coli- presa e de prazer. Eu me ouço dizer a
nas recortadas própria da prosódia do pa- Marina a quem ofereço uma colher de io-
rentês. Mas antes de abordar a análise de gurte, para aspirar sob seu nariz:
nossas vozes, voltemos ao fio da sessão. MCL: “Olhe o cheiro!” Não falta en-
Eu devolvo o iogurte para a mãe, que tusiasmo no meu enunciado e os picos pro-
lhe propõe: sódicos de minha voz devem condizer, pois
Mãe: “Mais um pouquinho?”. Tentan- a menininha me olha sorridente. Quanto
do captar seu olhar, ela retira a colher ao aparente absurdo do meu enunciado,
quando a boca se abre perguntando: “Onde ele seguramente reenvia a uma conden-
está a boca?” Marina, impassível, continua sação do meu desejo de lhe fazer sentir a
a manipular os grandes feltros, enquanto alegria do perfume e a beleza das flores.
sua boca se abre quando a colher se apro- Eu ousarei propor a hipótese que a pulsão
xima. E tendo engolido sua colherada, eu quando ela prende o Outro em seu circuito, é
lhe pergunto: produtora de co-modalidade. Uma pulsão
MCL: “Estava bom? Estava bom?”. Ela oral está necessariamente intrincada com
permanece impassível. O contato estava as pulsões escópica e invocante.
rompido. Vinte minutos mais tarde, é Marina
MCL: “E eu”?! E eu?! E eu?! Eu rece- que, com a ajuda de uma comidinha, me
bo um pequeno olhar, mas na tentativa oferece prato e colher, fazendo por sua vez
seguinte a manobra não dá mais certo. semblante de me alimentar.
Estou inquieta, temendo que ela se Mas antes de analisar o valor desta
feche por muito tempo. Apoiada então no cena, vale sublinhar que ela teve lugar
que eu sei sobre o efeito “voz de sereia” – depois de uma outra, ei-la aqui: Marina
que uma prosódia portadora de “sidera- quer empurrar uma cadeirinha pelo cômo-
ção e luz” pode ter, mesmo nos bebês que do. Na época ela deslocava os móveis por
se tornaram autistas mais tarde –, eu ten- toda parte, um grande prejuízo para seus
to criar em mim uma imagem interna ca- pais, que viam aí, e com toda razão, uma
paz de me colocar num estado deste tipo. ação de fechamento de sua parte. Isto ti-
Eu retomo o pote de iogurte e aspiro seu nha acontecido também nas sessões pre-
cheiro: a baunilha me invade. Eu imagino cedentes, mas aí, em vez de jogar no chão
um belo parque com uma plantação de o boneco que lhe ocupa a cadeira, Marina
baunilha. Um ambiente tropical se des- o deposita sobre meus joelhos. Decido lhe
prende deste parque, estilo cartaz do “Club cantar uma canção de ninar: “Câlin, câli-
Méd”. Ainda que eu nunca tenha estado nou, câlinette, câlinette, câlin, câlinou, câli-
lá, não deixo de sentir o impacto publici- nou pour le poupon” *. O ritmo é lento, mas
tário de seus grandes cartazes feitos para
provocar o sonho de outros lugares des-
conhecidos. Meu pé de baunilha imagi-
nário parece com um grande arbusto com * N.T. Trata-se de uma canção usada para acalmar as
crianças e ajudá-las a adormecer: Câlin – carinhoso,
folhas brilhantes, verde-escuro; ele está meigo, doce e carinhoso. Câliner – acariciar doce-
coberto com belas flores brancas. Quan- mente.

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marcado pelas repetições e as vogais são oferecer, para este jogo pulsional do Ou-
particularmente acentuadas e aumenta- tro, não mais um pedaço do corpo, mas
das. Marina não tira os olhos de mim en- um objeto sublimado. Quando Marina
quanto dura a canção, mas os retira ins- me alimenta com a colher, eu represen-
tantaneamente assim que termina. Entre- to comer uma deliciosa omelete imagi-
tanto, ela retomará, ela mesma, a toada nária. Marina segue atentamente as
doce algumas sessões mais tarde, ninando marcas do prazer em meu rosto e na mi-
um minúsculo bebê de dois centímetros, nha voz.
num berço também minúsculo. Segura- Na sessão seguinte, é seu pai que a
mente, ter-se-ia que refletir muito sobre o acompanha. Ela retoma o jogo do restau-
poder desses ritmos nos acompanhamen- rante, nos alimentando alternadamente,
tos deste tipo de criança. encantada em nos dar tanto prazer.
Mas voltemos à cena na qual ela me Marina confirma minha hipótese atual
alimenta. Uma grande esperança me in- sobre o estabelecimento do aparelho psí-
vade então: ela acaba, espontaneamente, quico: seu prazer de funcionar é tributá-
de ter êxito numa das questões-chave do rio do prazer que ele suscita no Outro.
C.H.A.T9, questão validada para bebês Formulação não sem analogia àquela que
mais velhos que ela. Sua capacidade de fa- prevalecerá para todos e que nós devemos
zer semblante se estabeleceu. Minha alegria a Lacan: o desejo do sujeito é o desejo do
interna diante do êxito num teste cogni- Outro.
tivo repousa no fato que desde há muito Mas em Marina, estes momentos feli-
eu penso que a questão: “A criança capaz zes são apenas ilhotas emergentes de um
de oferecer uma comidinha, um café ou mar de indiferença. Mesmo a sessão de que
um chá à sua mãe vai muito além de sua eu acabo de descrever alguns fragmentos
capacidade de fazer semblante?” Seu funda- está pesadamente comprometida, o que
mento é apenas o fecho do terceiro tem- fará Pierre Ferrari dizer quando ele a visi-
po da pulsão oral. Quando uma criança onará: “Você acredita que se possa chegar aí
oferece, pelo jogo, alguma coisa de bom em relação a ela?”. A frase enunciada em
para sua mãe, ela se encontra além do re- um tom afetuoso deixa transparecer sua
gistro da satisfação da necessidade. Mas, inquietude legítima. Eu também, no mo-
trata-se aqui de um objeto bom para a mãe mento, não sei nada, a não ser que aos
e não para a criança, que nesta idade não quinze meses ela está muito mais difícil de
gosta nem de chá nem de café. O funda- mobilizar que aos três meses. Somente um
mento da capacidade de responder positi- ano mais tarde é que eu poderei dizer que
vamente a esta questão do C.H.A.T. de- ela parece ter saído do processo. Nunca é
pende, pois, da capacidade da criança de demais dizer aos pediatras quanto seria
desejar se fazer portadora do objeto, que importante nos encaminhá-los nos seus
responde à pulsão oral de sua mãe. Se o primeiros meses de vida.
lactente oferece seu pezinho ou seus de- O trabalho de reanimação psíquica
dos para que sua mãe se alegre, repre- efetuado nesta sessão repousa nas pesqui-
sentando comê-los, a criança maior vem sas multidisciplinares, das quais eu parti-
cipo.
Por exemplo: quando ela para de res-
9. Trata-se de um questionário cognitivo construído por ponder ao meu jogo, isto me faz pensar
S.Baron Chen, que permite avaliar aos dezoito meses que eu perdi o frescor da verdadeira sur-
as crianças que foram autistas aos três anos. Nas pes-
presa com ela, e procuro então me reasse-
quisas de “PreAut” sobre os sinais de autismo, nos
utilizamos uma variante francesa um pouco modifi- gurar nas representações que chegam a
cada. mim.
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Marie-Christine Lazinik – Tradução: Maria Dolores Lustosa Cabral

Mas, será que reencontraríamos isso A mamãe pônei: “Eu o joguei fora, no
na análise das vozes? lixo!”.
Os registros desses fragmentos de ses- Pequeno pônei: “Então vamos procu-
são foram confiados a uma psicolinguísta rá-lo dentro!”.
para análise em laboratório. Eles confir- Mamãe pônei: “Muito tarde. Ele par-
maram as hipóteses por mim formuladas. tiu no caminhão de lixo”.
Mas, em Marina, esses momentos fe- O pequeno pônei, choramingando:
lizes foram durante muito tempo apenas “Mas então pode-se ir ao porão procurá-
ilhotas emergindo de um mar de indife- lo na grande lixeira!”.
rença. Aos quinze meses era muito mais Mamãe pônei: “Tarde demais. O cami-
difícil mobilizá-la do que aos três meses. nhão de lixo já passou!”.
Mas, sobretudo, a menor contrarieda- Como pequeno pônei, eu percebo tal
de da mãe – uma greve de transporte, um abatimento que não sei mais o que fazer.
ônibus que parte num dia de chuva, algu- Paro de jogar. Marina pega o pequeno
ma coisa desagradável no metrô – acarre- pônei e o faz jogar, ela mesma. Ela o faz
tava imediatamente um fechamento total caminhar, subir no espaldar de uma ca-
de sua parte, que em geral durava 24 ho- deira, comentando: “O poneizinho vai pas-
ras, às vezes até mesmo 48. A mãe conta- sear. Olhe! Ele vê uma ponte! Olhe! Ele sobe
va como tentava entrar de novo em rela- em cima! Olhe! Ele se joga da ponte no rio!”.
ção com ela. E o pequeno pônei, com efeito, cai do
Somente um ano mais tarde é que eu espaldar da cadeira.
poderei dizer que ela me parecia ter saído Marina continua sua história, fazen-
do processo. do os personagens jogarem: “A mamãe se
Mas ela ainda guarda, até os cinco precipita à beira do rio, ela corre para retirar
anos, uma falta de interesse pelas crian- seu pequeno pônei e o traz para a margem”.
ças de sua idade, o que contrastava, aliás, O pequeno pônei não mexe mais. Está
com habilidades extraordinárias para uma morto.”
menininha. A partir daí, contracenando com os
Eis o exemplo mais surpreendente: dois pequenos pôneis, Marina começa um
Marina chega à sessão e anuncia: longo monólogo, absolutamente trágico,
“Hoje eu tenho quatro anos e meio”. da mãe do pônei, que se dirige ao seu filho
O que era verdade. Depois, ela me inerte: “Poneizinho, olhe para mim. Poneizi-
dá um pequeno pônei, e pegando um ou- nho fale comigo! Poneizinho você está me
tro, diz: ouvindo? Poneizinho, abra seu olhinho! Eu
“Eu sou a mamãe pônei e você é o pe- lhe suplico! Mexa uma patinha!”.
queno pônei”. Enquanto ela continua esse lamento
Nós começamos a jogar. maternal, as lágrimas caem de seus olhos.
Ela faz a mamãe pônei dizer: “Eu com- “Mexa pelo menos sua orelhinha, eu
prei um novo ‘doudou’, o seu estava sujo, eu lhe suplico!”
o joguei fora. Este aqui é o mesmo”. A cena dura alguns bons cinco minu-
A mãe, que sempre prestava muita tos, o que para a mãe e para mim – brancas
atenção no velho “doudou”, cuja impor- e petrificadas – nos parece uma eternidade.
tância ela conhecia e a quem ela sempre Eu pergunto à mãe se ela teve alguma
tinha recorrido, me olha um pouco apa- experiência de uma mãe que tenha perdi-
vorada. do seu filho, tal o tom de lamento, perfei-
Eu digo do lugar do pequeno pônei: tamente justo. Não.
“Mas eu quero meu velho ‘doudou’. É dele O monólogo se interrompe quando eu
que eu gosto!”. digo: “Está na hora”. Marina então se le-
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Bebê com risco de autismo em tratamento conjunto: visa-se a reversibilidade total?

vanta para partir, como se nada tivesse um pouco além, pois eu lhe mostrei como
acontecido, deixando sua mãe e a mim mudar o modo de deglutição, a fim de pre-
mesma numa grande perturbação. Nós servar sua dentição por um tempo maior.
tentaremos durante duas semanas ligar Eu comecei o tratamento quando ela es-
este conhecimento de Marina com algum tava no início do CP. Atenta para que a
acontecimento da realidade. Em vão. aprendizagem da língua escrita se desen-
São meus alunos a quem informava rolasse bem, eu cheguei a lhe propor ler
que me fizeram ver que este pequeno pô- alguns quadros de leitura, a fim de me as-
nei, inerte como morto, parecia bastante segurar que suas habilidades, nesse domí-
com a própria Marina, tal como sua mãe nio, se desenvolvessem bem. Ela agora lê
nos descrevia durante os episódios de fe- muito bem, neste início do CE 1.
chamento. No decorrer da reeducação, Marina
Eu comuniquei à mãe, que concor- estava muito feliz em vir. Nós navegamos
dando, acrescenta: “Eu não sabia que eu entre as aprendizagens que eu lhe propu-
sofria tanto”. nha, um ritual que ela reencontrava com
Marina tinha tido, portanto, durante a maior satisfação, e um jogo de curta du-
seus momentos de fechamento, um aces- ração no fim da sessão. Esse ritual consis-
so a uma dimensão da angústia materna tia num reencontro com o desenrolar dos
cuja gravidade escapava até mesmo à pró- conjuntos das sessões, visto que ela reto-
pria mãe. mava a leitura de todos os quadros feitos
As pesquisas atuais de Laurent Mot- no início do tratamento (pouco numero-
tron, especialista em autistas em alto ní- sos!) e que estavam, evidentemente, bem
vel, o levam a afirmar a existência de fa- ultrapassados. Reencontrar o conjunto
tor de hiperdiscriminação perceptiva ne- das marcas assinalando a direção que nós
les. tínhamos percorrido permaneceu fonte de
Nossa Shakespeare em potencial man- um grande prazer ao longo do tratamen-
teria este talento? to. Este vai terminar em três sessões.
Nos dois anos que se seguiram, Mari- Marina partirá com seu dossiê como me
na começou, cada vez mais, a estabelecer pediu.”
relações sociais, se normalizou, ela se ba- Nas semanas que se seguiram ao tér-
nalizou. mino das sessões com sua ortofonista,
Uma simples menininha inteligente, Marina se mostrou bastante triste, dizen-
cuja mestra, no final do CP, se diz muito do que a escola não lhe agradava mais. Foi
satisfeita. A única censura que ela lhe lhe proposto reencontrar, se necessário,
podia fazer era de ser um pouco tagarela com madame Morillon. Logo, seu prazer
com suas companheiras. Marina, entre- de aprender e rever seus amigos voltou.
tanto, não compreende por que esta cen- Eu continuo recebendo a mãe de
sura deixava sua mãe e sua analista tão Marina uma vez por mês, pois a experiên-
felizes. cia de sua recaída me inquietou muito e
Eis o que escreve Catherine Morillon, porque é a primeira vez que vejo uma cri-
sua ortofonista: ança que havia tomado o caminho do au-
“Marina é uma criança agradável, que tismo sair dele, praticamente sem nenhu-
estabelece um bom contato com o adulto. ma sequela.
Ela veio me ver para resolver uma dificul- Como compreender este “milagre?”.
dade de linguagem (perturbação da arti- É verossímil que a plasticidade cere-
culação), uma vez por semana. Ela apren- bral dos primeiros meses de vida possa ser
deu e se apropriou do que eu lhe tinha fator importante. Mas as últimas pesqui-
proposto. Eu continuei com meu trabalho sas genéticas, às quais o professor Arnold
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Marie-Christine Lazinik – Tradução: Maria Dolores Lustosa Cabral

Munich faz alusão em suas recentes con-


ferências, parecem dar à epigênese um
papel preponderante nas patologias autis-
tas. Ora pareceria que a epigênese se pro-
longa durante os primeiros meses de vida.
O psicanalista que recebe neste período o
bebê e sua mamãe teria, portanto, a possi-
bilidade de intervir neste momento cruci-
al. Uma espécie de terapia gênica? Eis as
nossas perspectivas para o trabalho do psi-
canalista junto dos bebês e seus pais... ϕ

A BABY WHO RUNS THE RISK


OF BEING AUTISTIC,
AND MULTIPLE TREATMENT:
IS IT POSSIBLE TO REVERT
THIS CASE?

Abstract
The subject autism is discussed based on a
mother-baby treatment, in which the author
relates the mother-baby-analyst sessions and
the interactions during the curing process.

Keywords
Autism, Group treatment, Mother-baby
relationship, Interactions, Looking, Isolation.

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