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EDITORIAL

SUMÁRIO
MAIOR QUE A POLÍTICA MARÇO/ABRIL/MAIO 2020/02

C
omo forma de combater a pandemia do Covid-19,
o mundo tem acompanhado declarações públicas
evocando razões de ordem pessoal, estatística
e ideológica. Mas, o ápice do absurdo desabou
quando vimos tomadas de posições médicas
sobre a pandemia vindas de celebridades, empresários
e banqueiros que aparentam não entender nada de
ciências médicas. Mas, gostaríamos de começar este
Quarentena e isolamento
espaço fazendo uso das palavras da irmã Anair Voltolini, forçado podem ser vistos
missionária da Consolata em Moçambique: “A palavra como oportunidade para
rever valores.
Missão, embora inflacionada na linguagem atual, continua
Arte: Cleber Pires
indicando um dinamismo de vida interior e fascinante”.
Nesse sentido, na presente edição damos continui-
dade sobre a imigração dos venezuelanos abrigados
em Boa Vista, RR, em 13 abrigos sob coordenação do
Exército brasileiro. A edição traz também a realidade
 ATUALIDADE----------------------------------------------03
pós-sinodal a partir da Exortação Apostólica do papa Impossível a "dispensa" da missa
Francisco, Querida Amazônia em quatro dimensões: so- Edson Luiz Sampel
cial, cultural, ecológica e eclesial. Isto vem confirmar que  INFÂNCIA MISSIONÁRIA-------------------------------04
Quem viu Mustapha?
a causa indígena está no processo sinodal da Amazônia. Grace Ncekei Mugambi
 ODISSEIA WARAO---------------------------------------06
DIVULGAÇÃO

As regras de Pintolândia
Marco Bello e Paolo Moiola
 CIDADANIA-----------------------------------------------08
O vírus e as Fake News
Carlos Roberto Marques
 INTENÇÃO MISSIONÁRIA -----------------------------09
Joseph Kihiko
 ESPIRITUALIDADE----------------------------------------10
Quaresma em tempos de pandemia
Alfredo J. Gonçalves

 TESTEMUNHO-------------------------------------------12
Alegria da Missão
Anair Voltolini
 FORMAÇÃO MISSIONÁRIA----------------------------14
Sonhos de Francisco para a Amazônia
As diferenças da dura realidade social dos brasileiros Alfredo J. Gonçalves
têm sido mostradas através desta matemática sinis-  FAMÍLIA CONSOLATA-----------------------------------17
tra que tem feito com que o número de vítimas pelo Fidelidade às regras
Redação
coronavírus cresça em média 20%, ao dia. Por isso, a
Missão não nos permite que deixemos de erradicar  MISSÕES RESPONDE-----------------------------------21
Católicos que insultam Lula, cuidado!
as diferenças sociais brasileiras. Antes pelo contrário, Edson Luiz Sampel
deve ser uma oportunidade para pensar como cuidar  ESPECIAL--------------------------------------------------22
de ricos e pobres, exigindo a quem de direito, políticas Em defesa da vida e do equilíbrio planetário
Nei Alberto Pies e Marcus Eduardo de Oliveira
públicas includentes. Porque é um falso dilema de que
se deve escolher entre a saúde ou a economia, entre a  DESTAQUE------------------------------------------------24
Aprendendo a caminhar juntos
saúde ou o emprego. Afinal de contas, o sucesso tanto Roque Paloschi
de uma como do outro, depende da primeira.  ENTREVISTA-----------------------------------------------28
Em torno dos necessitados econômicos e da saúde, Novos caminhos
Oscar Elizalde Prada
a questão não é simplesmente de saúde e de economia.
O momento não é de confronto, mas de união. Porque  VOLTA AO BRASIL-----------------------------------------30
Jornal Folha de São Paulo
a vida é o bem maior de todos. Boa leitura! 

2 MARÇO/ABRIL /MAIO 2020 MISSÕES


ATUALIDADE

Impossível
a "dispensa" da missa
de Edson Luiz Sampel Missa não pode ser dispensada
por causa do coronavírus. O
que fazer, então?

N
ão há dúvida de que o cânon 1247, que obriga
os fiéis a participarem da missa aos domingos,
é norma de direito eclesiástico (humano), e poder de dispensar os fiéis deste mandamento da
não de direito divino. Por exemplo, na arqui- lei de Deus. Aparece, então, dilema terrível para os
diocese de São Paulo, certa feita, a Paróquia nossos amantíssimos pastores: permitir a missa nas
São Judas Tadeu (Região Episcopal Ipiranga, Setor Vila igrejas, mas, ao mesmo tempo, contribuir para a
Mariana) propiciava o cumprimento do preceito da proliferação da pandemia.
"missa semanal" às quintas-feiras, a fim de atender Juridicamente falando, creio que a melhor solução
aos fiéis que, compulsoriamente, têm de trabalhar não consiste na dispensa facultada pelo cânon 87,
aos domingos. Desta feita, os bispos, ao lume do §1º, pois, dever-se-ia, então, eleger outro dia para a
observância do terceiro mandamento do
decálogo, o qual não pode ser dispensado.
CLEBER PIRES

Sugiro, destarte, aos senhores bispos


que emitam comunicados e expeçam
decretos, esclarecendo que, em virtude
da situação grave da pandemia, os fiéis
cumprem o preceito de direito divino se
assistirem à missa ao vivo pela televisão,
deixando claro que se cuida de dever mo-
ral e jurídico, e não mera recomendação,
como se tem lido nalguns comunicados.
Em minha opinião, não se deve mais falar
em dispensa, simplesmente porque não
é o caso de dispensa. Aliás, segundo o
direito canônico, os fiéis estão obrigados
a comungar uma vez por ano, e não uma
vez por semana (cânon 920, §1º). Este
dispositivo legal patenteia a validade da
missa televisionada. Reflitamos um pou-
cânon 87, §1º, podem dispensar do cumprimento do O que
co. Os primeiros cristãos, importa
perseguidos é o
pelo Império
preceito no primeiro dia da semana, como ocorria Romano, não recorreriam à televisão (visão de longe)
na paróquia supramencionada. se lhes fosse amor queépoca
possível àquela oferecemos
contar com tal
O problema surge ao verificarmos que a participação
da missa uma vez por semana é preceito de direito
recurso? Não seria aludido meio aos comunicação
de outros.
expediente maravilhoso de se unirem ao bispo, que
divino. Reza o terceiro mandamento do decálogo: concentrava em si a celebração eucarística? 
"Guardar 'domingos' e festas". O descumprimen-
to voluntário deste mandamento provoca pecado Edson Luiz Sampel é professor da Faculdade de Direito Canônico São Paulo Apóstolo
mortal. Nenhum bispo, nem mesmo o papa, tem o (da arquidiocese de São Paulo)

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INFÂNCIA MISSIONÁRIA

Quem viu
MAXWELL MARIANO

Mustapha? de Grace Ncekei Mugambi

"V
ocês viram Mustapha
em algum lugar? Talvez
no mercado onde fo-
ram fazer as compras?
Ou talvez à beira das
estradas onde costumam passar?
É provável que o viram enquanto
pedia esmola para poder comprar
um pouco de comida ou ao menos
um pedaço de pão. Olhem ao redor:
talvez Mustapha esteja dormindo
sob algum carro quebrado e aban-
donado: eu sei que ele poderia estar
em busca de algum lugar ou casa
onde se abrigar. Deem ainda uma
olhada: será que conseguirão vê-lo?”
Com certeza vocês estão curiosos
para saber quem é Mustapha. Vou
contar-lhes então o meu encontro
com um pequeno menino que se
chama assim, também não sei se
este é o seu verdadeiro nome. Ele é Menino em uma das ruas de
um menino de rua de 8 anos. Quando São Luís, Maranhão, Brasil.
o vi pela primeira vez, me pareceu
muito pequeno para estar ali, na
estrada, ao invés de encontrar-se tinha entre as mãos um pequeno perguntei o seu nome. Enquanto
na escola ou, ao menos, com sua frasco com cola de sapateiro que pensava que talvez ele não iria me
mãe. Mustapha aproximou-se de cheirava para conter o ímpeto da responder, ele me disse em somalo:
mim para pedir-me uma banana, fome. Pareceu-me muito cordial Magacaygu waa Mustapha, isto é,
mesmo no momento em que eu e inocente. Experimentei muita “Me chamo Mustapha”. O nosso
comprava algumas bananas para a pena em ver um menino assim tão diálogo continuou por um pouco
minha comunidade. Dei-lhe o que pequeno lutando para sobreviver. e eu o convidei para vir à escola da
pedia e aproveitei a ocasião para Servindo-me do meu muito reduzido nossa Missão, em Ali Sabieli. O meu
conversar um pouco com ele. Ele conhecimento da língua somali, lhe pequeno “amigo” me respondeu

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mas tudo foi em vão. Voltei para
casa com a esperança no coração
Quantos de um dia o meu pequeno amigo
voltar e se fazer vivo.
Mustaphas existem Alguns dias depois, o nosso
guarda noturno me informou que
pelo mundo, estava lá no portão um rapazinho
que pedia por mim e desejava ser
abandonados em registrado na escola. Fui ver de quem
se tratava e descobri que era mesmo
terna idade? ele, Mustapha. Oh! Fiquei cheia de
alegria ao vê-lo. Estava muito sujo
e tinha na mão o pequeno frasco
de cola. Fiquei chocada e muito
feliz quando me disse que queria
vir à escola. Dei-lhe as minhas boas
vindas e também um pouco de
água para que se lavasse e fosse um
pouco mais apresentável. Ofereci a
ele ainda um caderno e um lápis e
o acompanhei até a sala de aula.
Pedi aos seus companheiros que
fossem acolhedores e prontos a
ajudá-lo. Mustapha frequentou a
escola por mais ou menos um mês.
Um dia o professor mandou me
chamar para dizer que o menino era
muito desatento e dormia durante
as aulas. Imediatamente pensei que
era o efeito de ter cheirado muita
cola. Fui até a sua sala e o encontrei
profundamente adormecido. Saindo
fora me disse que tinha mastigado,
junto com sua mãe, folhas de uma
planta que tem a ação estimulante
como de uma droga e este era o
motivo do seu sono na sala de aula.
Não lhe respondi nenhuma palavra
pois não sabia o que lhe dizer. Dei-
-lhe somente um pouco de água
fresca, pensando que esta haveria
de atenuar o efeito da droga: de-
pois ele voltou para a sala de aula.
Depois deste dia Mustapha não
voltou mais na escola.
Quantos Mustaphas existem
que viria à escola, pois desejava esperança de encontrar a sua mãe pelo mundo, abandonados por
ser um policial quando crescesse. e falar-lhe do desejo de Mustapha seus próprios pais ainda em tenra
Perguntei-lhe pelos seus pais e ele de frequentar a escola. A um certo idade? Olhemos ao nosso redor e
me respondeu que sua mãe estava ponto do nosso caminho, o menino procuremos oferecer-lhes o nosso
em casa. Com sempre maior inte- fugiu, deixando-me sozinha e de- apoio. Eles têm necessidade de
resse propus-lhe de acompanhá- saparecendo da minha vista. Ficou todos nós. 
-lo até sua casa para saudar a sua claro que não queria que eu falasse
mãe. Caminhamos juntos para a com sua mãe. Girei um pouco aqui Traduzido por Benildes Clara Capellotto, da revista “Andare”
sua casa, enquanto eu alimentava a e ali, esperando de encontrá-lo, edição janeiro/fevereiro 2020.

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ODISSEIA WARAO 2ª PARTE

As regras
de Pintolândia
de Marco Bello e Paolo Moiola
No estado de Roraima das para os Refugiados), faz parte
da Operação Acolhida, criada em
existem 13 abrigos fevereiro de 2018 pelo governo

B
oa Vista (capital de Roraima). para os imigrantes brasileiro para acolher e assistir
Nacalçadaoposta,bemàbei- venezuelanos. Foram aos imigrantes venezuelanos. Mas
ra de uma grande praça sem construídos pela é o Ministério da Defesa que tem
adornos, grupos formados a responsabilidade da logística e o
por pessoas com crianças e Operação Acolhida, comando completo da operação.
sacolas cheias de poucos pertences iniciada em fevereiro
estão sempre acampados. Ficam ali, de 2018 e coordenada Um mar de redes
na esperança de entrar no abrigo pelo Exército brasileiro. A primeira coisa que vemos ao
que fica em frente, do outro lado entrar no abrigo de Pintolândia –
da rua. São todos indígenas, porque Em Boa Vista visitamos impossível de não se notar – é uma
Pintolândia – o nome tem origem no o de Pintolândia, que faixa pendurada sobre a marquise.
bairro com o mesmo nome – é um acolhe, sobretudo, Na entrada também estão lista-
abrigo que foi aberto especialmente indígenas. das as regras do abrigo. Severas
para acolher etnias indígenas. e detalhadas, como por exemplo:
A entrada fica aberta, porém não se pode entrar entre às 22h
existem barreiras e controle para militares de prontidão, preen- e 5h30; não é permitido nenhum
acesso. Os hóspedes mostram um chemos um registro, e pudemos visitante externo, nem fumo, nem
cartão que contém foto e dados passar e nos encontrar com nossa álcool no interior do abrigo.
pessoais. Quem não é hóspede não guia, Meire. Ela trabalha para a Dentro do galpão, alto, escuro
entra, a menos que passe por uma Fraternidade – Federação Huma- e triste foram montadas estrutu-
solicitação longa, formal e compli- nitária Internacional (Ffhi), uma ras simples em ferro – verticais
cada, e a resposta nem sempre é organização humanitária brasileira e horizontais – com um objetivo
positiva. ligada à igreja independente Rede fundamental: permitir que os in-
Nós fomos agraciados com uma Luz, fundada por José Trigueirinho dígenas possam pendurar suas
autorização de visita pelas vias Netto, do estado de Minas Gerais. redes. Que são tantas. Um mar
menos formais e mais rápidas. A Ffhi, junto com o Exército e a de redes. Ao redor delas, roupas,
Mostramos um documento aos ACNUR (Agência das Nações Uni- sapatos, bolsas. E, como sempre,

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tantas crianças que brincam, não fala das dificuldades: "a partir de Yakera?
obstante tudo o que se passa. 2017, a principal ajuda dada pelo No nosso passeio entre os ha-
Estado aos imigrantes foi o abri- bitantes de Pintolândia, chegamos
A palavra do cacique go. Um sistema caracterizado por a um grupo de tendas onde os
Em Pintolândia há nove caciques uma grande rigidez administrativa. indígenas estavam fazendo limpe-
(aidamo, em língua warao), e cada Visava impedir o movimento dos za. Os saudamos com um Yakera
um coordena um grupo de cerca warao e a liberdade de acesso (expressão usada pelos warao),
de 70-80 indígenas. Em resumo, os entre eles mesmos e também suas pensando de sermos gentis e fa-
caciques fazem o trâmite entre os relações com entidades como o zer um agrado. Mas, qual o que!
hóspedes e as organizações. CIMI e outras da sociedade civil. O “Somos E'ñepa”, grita uma jovem.
Euligio Baez, 34 anos, mulher e fato do acesso ao abrigo ser muito O erro comum de nós, brancos, é
seis filhos, é um deles. "Estar bem controlado é uma dificuldade que de não fazer distinção, para nós os
– explica – quer dizer ter um lugar impede uma relação fluída entre indígenas são todos iguais. Erra-
onde viver com a família. E um abri- eles. Seria importante entender mos. Aqui os E'ñepa (conhecidos
go com 700 pessoas não é um bom que a organização dos warao pre- como o nome de Panare) não são
lugar. Faz muito calor, seja de dia, cisa ser respeitada, seus desejos e warao: outra língua, outra zona de
seja de noite e temos um cartão necessidades ouvidos. Em 2018, os procedência, outros costumes. Até
para entrar e sair. Quando a família warao denunciaram ao CIMI uma os produtos do artesanato deles
vem nos visitar devemos ficar fora. série de situações que aconteciam são diferentes. Na Venezuela são
Precisamos de um espaço para nós, no abrigo e tentamos conversar com cerca de cinco mil, localizados,
para continuar a nossa vida, como a entidade que naquele momento sobretudo, na parte ocidental do
indígenas e como warao. Precisa- estava dirigindo Pintolândia, mas estado de Bolívar. De fato, se ob-
mos de terra. Porque da terra vem não foi possível. Intervimos quando servarmos, os traços somáticos
tudo. Entre Brasil e Venezuela não os direitos fundamentais não são são bem diferentes.
existiam fronteiras. Os nossos avós respeitados pelo Estado, apelando Saímos do abrigo no começo
contavam que entre os indígenas se aos mecanismos democráticos de da noite e a escuridão é quebrada
podia andar e viver como se a terra garantia que o sistema brasileiro pelos lampiões da praça. Em frente
fosse de todos. Agora chegam às coloca à disposição". à entrada, na outra parte da rua,
fronteiras e não os deixam passar. Os voluntários do CIMI têm difi- notamos outro grupinho de indíge-
Pedem pela terra e dizem que não culdade para se encontrar com os nas. São duas mulheres, uma delas
é mais deles". hóspedes de Pintolândia e devem jovem, e sete crianças, O menor
fazê-lo no exterior do abrigo, qua- tem poucos meses de vida. Eles
Sob as tendas se que escondido. Muitos deles, estão sentados em alguns bancos
Foram montadas tendas e mais afirma Ventura – sentem que esta de concreto, junto com vários sacos
tendas do lado de fora do grande rigidez está bloqueando a própria e sacolas com o símbolo da Orga-
galpão. Aqui, os hóspedes estão mais possibilidade e capacidade de sonhar nização Mundial para a Migração
expostos às intempéries do tempo, e de decidir as coisas. “Disseram (OIM). "Chegamos a poucos dias
mas também têm mais luz e mais que não podem continuar a viver da Venezuela. Estávamos no meio
mobilidade de área. Encontramos simplesmente pela garantia de um do trânsito da rodovia. Disseram
algumas mulheres warao que, ao prato de comida”. E continua: “quase que havia lugar em Pintolândia e
lado de alguma dessas tendas estão sempre temos que escolher entre a viemos para ver se conseguíamos
fazendo objetos em artesanato como garantia de haver comida, que existe entrar" – explica uma senhora mais
bandejas, pulseiras etc. usando as somente no abrigo e a garantia de velha. "Mas, chegamos tarde e não
fibras de palmeira. O artesanato haver autonomia e liberdade para conseguimos. Devemos voltar à
é uma das poucas atividades de tomar suas próprias decisões”. rodovia, para passar a noite (pelo
trabalho que os migrantes warao Esta é a grande contradição: menos lá conseguimos tendas, há
conseguem desenvolver no Brasil. a alimentação é dentro de Pin- possibilidade de tomar um banho e
O futuro parece muito incerto, ten- tolândia, enquanto em Ka Uba- ter alimento), porém, é necessário
do em vista o provável término da noko existe autonomia, mas não pagar dois taxis, pois é um pouco
Operação Acolhida. se tem garantia de nada. “Nós longe. Retornaremos outro dia".
dizemos – conclui Ventura que se Uma pequena história de rejeição
Alimento ou liberdade a política migratória é só isso, faliu que nos faz refletir sobre o sentido do
Luís Ventura, coordenador do completamente, porque impõe "humanitário", sem humanidade. 
regional Norte I do Conselho Indi- uma escolha difícil, sobretudo, às
genista Missionário (CIMI), assim famílias com crianças”. Marco Bello e Paolo Moiola são jornalistas italianos.

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CIDADANIA

O vírus
Os filhos das trevas
são mais espertos
que os filhos da
luz. (Lc 16, 8)

de Carlos Roberto Marques

E
u tinha perto dos oito ou nove anos, moran- mas informações, algumas úteis, outras que nada
do numa cidade do interior paulista, quando acrescentam, e muitas delas altamente perniciosas,
adotei um formigueiro. Parece estranho, mas, porém falsas, ardilosamente montadas e divulgadas
verdadeiramente, eu adotei um formigueiro no aos milhares, ou milhões. O que antes podia ser uma
quintal de casa. Eram formigas pequenas, de brincadeira – de mau gosto, por certo – tornou-se um
coloração tendente ao branco, pouco maiores que as negócio, pois são grupos organizados que disto se en-
conhecidas lava-pés, mas sem a mesma ferocidade. carregam. E para alcançarem objetivos ainda maiores,
Não parecia serem em grande número na colônia. contam com a parceria involuntária de terceiros, que
Meu passatempo era ver seu trabalho, que eu as repassam aos seus grupos familiares, de amigos ou
facilitava colocando próximo da entrada qualquer conhecidos. Uns as repassam por compartilharem dos
coisa que pudesse lhes servir de alimento, e que objetivos, outros o fazem apenas por maldosa diversão.
conseguissem carregar para dentro do buraco. Podia Mas tem aqueles ingênuos, inocentes, que acreditam
ser um pedaço de fruta ou de qualquer coisa que eu e as divulgam como se estivessem fazendo um gran-
estivesse comendo, ou mesmo algum outro inseto, que de favor, dando uma grande contribuição; são estes,
eu capturava para lhes oferecer. As formigas são, de talvez, os mais perigosos, pois são pessoas que gozam
fato, muito trabalhadoras, mas isto não impede que de amizade, de respeito e, portanto, de credibilidade.
aceitem certas facilidades. Porém, está aí um grande A orientação que se dá, insistentemente, é nada
problema: elas levam para o formigueiro também o divulgar sem antes refletir sobre a importância e os
veneno que o homem lhes dá, quando se transformam possíveis efeitos da informação, consultando os vários
em praga para as lavouras. Com mais clareza, percebo sites que se especializaram em investigar a veracidade
que talvez tenha eu sido também causa de problema de notícias e informações. Com isso, não correremos o
para aquelas criaturinhas, na medida em que interferi risco de levar para dentro do nosso formigueiro o veneno
na sua vida ou lhes dei algo que não lhes fizesse bem; que nos está sendo servido, seja por maldade, seja por
mas fiz tudo de muito boa intenção. diversão, seja por ingenuidade e boa intenção, que só
caberia mesmo naquele garoto de oito anos, que insistia
Formigueiro em alimentar seu formigueiro. Cautela sempre! 
Estou hoje me sentindo parte de um grande e ingê-
nuo formigueiro. O que agora estamos recebendo já Carlos Roberto Marques é Leigo Missionário da Consolata (LMC), bacharel em Direito
não é um pedaço de fruta ou algum pequeno inseto, pela USP e membro da equipe de redação.

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Intenção Missionária

DIVULGAÇÃO
Rezemos para que todas as
pessoas sob a influência de
dependências sejam bem
ajudadas e acompanhadas.

de Joseph Kihiko

A
dependência química é um con-
junto de fenômenos comporta-
mentais, cognitivos e fisiológicos
que se desenvolvem após o uso
repetido de determinada substân-
cia. A dependência química é uma doença
crônica e multifatorial, isso significa que
diversos fatores contribuem para o seu
desenvolvimento, incluindo a quantida-
de e frequência de uso da substância, a
condição de saúde do indivíduo e fatores
genéticos, psicossociais e ambientais.
Mas, além da dependência química,
existem outras, como afirmou o Santo Pa-
dre: “as dependências afetivas, que tantas
vezes acontecem em contextos de relação
de namoro ou de violência doméstica;
a dependência do jogo, quer nas casas
de jogo, quer nas casas da sorte, onde
se gasta o que se tem e, tantas vezes, o
que não se tem; a dependência dos jogos
online, da internet, da pornografia, que
levam a graves problemas de bem estar
psíquico, de horários, de cumprimentos
de deveres, de negligências em relação
a si mesmo e aos que vivem na mesma
casa”.
Todas essas dependências são des-
trutivas. Somos convidados a evitar as
dependências de substâncias ou compor-
tamentos que podem causar danos nas
nossas vidas. É por essa intenção que o
Santo Padre convida toda a Igreja a rezar
no mês de abril de 2020, para que todas
as pessoas sob a influência de dependên-
cias sejam ajudadas e acompanhadas. 

Joseph Kihiko, imc, é diácono em Jaguarari, BA.

MARÇO/ABRIL /MAIO 2020 MISSÕES 9


ESPIRITUALIDADE

Quaresma em
tempos de Pandemia
Tempo quaresmal nentemente conectados, subme- certamente nos ajudou a partilhar
tidos a um bombardeio estridente com aqueles que habitam sob o
em meio ao de notícias, publicidade e apelos. mesmo teto o valor mais secreto
isolamento social Semelhante correria, como não de que dispomos, o qual, convém
impôs resgate podia deixar de ser, dispersa e des- não esquecer, é sempre um dom
gasta nossa atenção. A pandemia de Deus no íntimo de nosso ser.
sobre o que é mais e a consequente quarentena, em A pandemia associada à quares-
importante em pleno tempo da quaresma impôs ma nos ofereceu a oportunidade de
a necessidade urgente de resgatar descobrir, ao lado das pérolas que
nossa vida. o núcleo da existência, cultivar a nós mesmos possuímos, o brilho e
memória e a utopia e manter os o calor dos valores que os demais
olhos fixos no foco. carregam. Este confinamento pode
de Alfredo J. Gonçalves
ter sido “o tempo favorável” para
Núcleo da existência o encontro recíproco com aqueles
Qual o núcleo mais íntimo de que, embora no dia a dia se es-

O
s tempos modernos, entre cada um de nós? Qual o miolo de barrem o tempo todo, jamais se
outras coisas, caracteri- nossas preocupações e ativida- encontram. Somente assim nossas
zam-se pela velocidade, des diárias? Por que a pressa, a casas deixam de ser meras pensões
pelos ruídos, pelo consu- ansiedade e a busca? Vale iniciar – onde cada qual entra e sai para
mo e pelo descarte fácil. com uma máxima: quando nos comer e dormir – para se conver-
A relação com as coisas e com as sentimos atropelados pela velo- terem em um verdadeiro lar.
pessoas são dominadas pela pres- cidade dos tempos que correm
sa. As agendas e atividades, não é sinal de que estamos à procura Memória e utopia
raro, superam o espaço de que a de nós mesmos. Não nos damos A trajetória pessoal de cada
natureza nos dispõe. Os meios de conta que, por vezes, o melhor de um, com seus relacionamentos e
transporte, a internet e a eletrici- cada pessoa encontra-se na sua suas experiências, representa um
dade aboliram o tempo e a noite. casa. Quantas energias gastamos poço de recordações: nele há muita
A prática de alguns supermercados em idas e vindas sem fim ao redor água que pode ser reaproveitada
e postos de gasolina – abertos 24h de nosso núcleo mais sagrado! em tempos difíceis. Aliás, nesse
por dia – torna-se uma espécie de A reclusão e o retiro desta qua- poço individual coexistem água e
metáfora também para as ações dos rentena forçada, justamente no sede, lições de sabedoria e lacunas
seres humanos. Estamos perma- decorrer do período quaresmal, de carência. Neste momento de

10 MARÇO/ABRIL /MAIO 2020 MISSÕES


recolhimento, pouca coisa pode en-
treter tanto quanto rever e reciclar
Encontro pessoal
a própria memória. Desta última consigo mesmo
foi possível identificar experiências e com Deus.
dolorosas que, apesar de tudo e Espaço povoado ou
às vezes contra toda esperança,
encontraram solução. Constituem o despovoado, o que
céu estrelado e luminoso de nosso importa é o cultivo
passado: pequenas luzes que nos profundo do silêncio
ajudaram a vencer túneis de dor,
sofrimento e escuridão. Também e da escuta.
pudemos identificar, a partir dessas
mesmas experiências, os anjos
que nos ajudaram a sair do escuro vai a história? – eis que emergem
e até do desespero. Retiro é mo- com força redobrada as perguntas
mento de conversar com os anjos fundamentais da existência, aque-
e relembrar as estrelas que até las que apontam para o significado
agora iluminaram nosso caminho. oculto e misterioso da vida humana.
Temos aí um grande acúmulo de Somos então catapultados da
iluminações a serem resgatadas superfície das águas rasas, em que
e recicladas, seja no sentido de tranquilamente nos movíamos,
enfrentar os embates do presente, para o subterrâneo das correntes
seja na perspectiva de manter viva profundas. De uma relativa indife-
a esperança e a utopia do futuro. rença, para um engajamento cheio
de compromisso. No turbilhão dos
Olhos fixos no foco ventos contrários, não há meio ter-
Foco se identifica com meta, mo, é preciso tomar partido. E nesta
com horizonte a ser alcançado. altura impõe-se outra máxima: em
Facilmente o foco tende a se perder terreno minado, recomenda-se
em meio às tormentas da existên- não correr nem caminhar em linha
cia. Fica sempre a lição de que reta. Toda travessia, efetivamente,
quanto mais escura a noite, tanto tem seus reveses. Por vezes faz-se
maior o brilho das estrelas. De necessário parar, avaliar, silenciar
igual modo, embora os tempos e escolher qualquer atalho, uma
sombrios possam nos tornar cegos vereda alternativa. Esta quarentena
e surdos, costumam clarear me- e o isolamento forçado, em meio
lhor os contornos da meta e dos à preparação para Festas da Pás-
valores inegociáveis. A pressão das coa, podem ser vistos com outros
dificuldades exige concentrar-se olhos, positivamente, como uma
sobre o que é essencial. oportunidade para rever os valores
Quem sou, de onde vim, para centrais que nos podem levar ao
onde vou, o que posso oferecer, horizonte fixado e almejado. 
do que necessito, que caminho
seguir, com quem partilhar a os Alfredo J. Gonçalves, cs, é vice-presidente do Serviço de
passos e os tropeços, para onde Proteção ao Migrante (SPM), Rio de Janeiro, RJ.

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TESTEMUNHO

Alegria da Missão
A palavra Missão,
embora inflacionada
na linguagem atual,
continua indicando
um dinamismo
de vida interior e
fascinante. Melhor,
o seu significado
atinge uma dimensão
sempre mais ampla
e profunda na vida
cristã, hoje.

de Anair Voltolini

E
u era uma adolescente de
13 anos quando pela primei- Após os anos de formação e que constrói a comunhão e a fra-
ra vez senti brilhar a faísca depois da Profissão Religiosa, o em- ternidade universal, que sustenta
da vocação – o desejo de penho missionário intensificou-se o evangelizador até o dom da vida.
consagrar a vida ao Senhor e assumiu formas novas e urgentes A Vida Missionária, creio de
para a Missão. que envolveram toda a minha vida poder dizer, exprime-se, sobretudo,
Nascida numa família de fé pessoal e para sempre. em três dimensões claras, concretas
simples, mas profunda, recebi ali e criativas: no testemunho de uma
e na comunidade cristã uma sóli- Partir para a África vida profundamente evangélica;
da formação humana e evangé- Ser missionária em Moçambi- na oração constante ao Pai com
lica que me abriu a estrada para que onde agora me encontro, ou em Cristo em favor da humanidade e
uma resposta. As Missionárias da qualquer parte do mundo, implica no anúncio de Jesus Cristo, o Filho
Consolata estavam presentes em cultivar uma profunda experiência redentor e do Seu Evangelho de
minha pequena cidade natal – Ca- do amor de Deus, alimentar um salvação.
felândia, Paraná, no sul do Brasil forte espírito de Fé e reavivar uma
e com o seu testemunho de Vida sempre mais viva sensibilidade ao Missão é Alegria
Consagrada Missionária e com o sopro do Espírito, que gera vida A Missão vive de uma grande
seu apoio, decidi seguir a aventura nova. Supõe um olhar sem confins paixão por Jesus Cristo e, ao mesmo
de andar pelas estradas do mundo de esperança, mesmo quando pa- tempo, de uma verdadeira paixão
partilhando com outras pessoas e rece que pouco ou nada mude ao pela pessoa, pelo povo. Não é
outros povos a alegria de crer em seu redor não obstante os anos de o proselitismo que transforma o
um Deus que nos ama e deu a Sua serviço e dedicação. Implica uma coração da pessoa, mas a atração
Vida para que todos tenham vida caridade evangélica que cresce ao de um verdadeiro testemunho
e vida em abundância. redor da Palavra e da Eucaristia, de quem sabe “dar as razões da

12 MARÇO/ABRIL /MAIO 2020 MISSÕES


própria Fé e Esperança” (cf 1 Pd sempre um princípio, que tenho gélica a diversidade de religiões e
3,15). Ser missionária é ser assim, bem gravado no coração: a missão de Igrejas.
ser presença, estar com o povo. não consiste somente em anunciar • A promoção e formação in-
a Palavra de Deus, isto é, falar de tegral da pessoa, em particular
Consolação, dom especial Deus às pessoas, mas é funda- da mulher, de modo que possa
Para nós, missionárias e mis- mental para o anunciador falar das conhecer e assumir a sua dignidade
sionários da Consolata, o carisma, pessoas com Deus. Os missionários e vocação na Igreja e na sociedade.
(dom de graça específico) que nos sabem que a obra de conversão e • A atençao à pessoa que será
de salvação não é deles, mas vem evangelizada e à formação de pe-

ARQUIVO MC
do Espírito de Deus que se move quenas comunidades que crescem
como, quando e onde quer. ao redor da Palavra, da Eucaristia
e do serviço da caridade fraterna.
A Missão é de Deus Parece-me de poder dizer que o
O evangelizador é mediador, anúncio do Evangelho toca o co-
é ponte, está a serviço da missio ração da pessoa e se torna eficaz
Dei. A missão é de Deus. O Salva- quando é feito diretamente em pe-
dor é Jesus. Os missionários têm quenos grupos e não às multidões.
uma tarefa preciosa e fundamen-
tal: apresentar a Deus, levar para Gratidão e Alegria
diante Dele a realidade do povo e Na conclusão desta conversa,
do mundo. Por isso a sua oração é fruto de experiência e reflexão
ora de agradecimento e de louvor, sobre a missão hoje no mundo,
ora de súplica e de intercessão, ora quero expressar a minha gratidão
de lamento e de oferta, de entrega e a minha alegria, antes de tudo
de si para que a vida atinja a sua por ser membro de um Institu-
plenitude. to Missionário, com um carisma
A missão alarga o coração e o específico de serviço à missão
horizonte de quem a abraça como Ad Gentes. Depois por estar em
o seu ritmo de dança cotidiana, flui missão em Moçambique, especifi-
no seu espírito como uma respira- camente em Maúa na província do
ção vital e determina cada escolha Niassa. Estou aqui nesta realidade
do seu coração. A missão implica missionária pela segunda vez.
caracteriza é aquele de evangelizar a contemplaçao. Depois de ter deixado Moçambi-
no sinal da consolação. Ser presen- que para uma missão diversa em
ça de consolação é antes de tudo, Alguns Pilares outros campos, voltei para estar
ser sinal da maior consolação que A minha experiência de missão entre o povo Macua, uma grande
é Cristo Jesus. O modo de estar seja em Moçambique como no Brasil, etnia ao norte do país. É aqui, no
no meio das pessoas, a relação percorre este novo processo cons- meio deste povo, nesta porção
de fraternidade, a proximidade truído sobre alguns pilares-chave: da Igreja, que me foi oferecida a
respeitosa de cada pessoa e de sua • O inserimento nas culturas oportunidade de viver a missão
cultura, a condivisão de qualquer com grande respeito, com “pés nestas dimensões que procurei
vivência do outro, seja de dor ou descalços e mãos vazias” para reco- apresentar-lhes e de perceber a
de alegria, o acolhimento da di- nhecer e acolher ali a presença de beleza e a grandeza de uma voca-
versidade como riqueza, a atenção Deus e a atenção a uma inculturaçao çaã que investe tudo na pessoa.
aos mais pobres e marginalizados, gradual da mensagem evangélica. Agradeço tambem de vivê-la em
isso tudo nos abre às pessoas e • A formação de uma Igreja uma comunidade missionária in-
aos povos a estrada que conduz ministerial, num empenho não ternacional, intercultural e interge-
ao encontro com o Mistério do negociável de colaboração e par- neracional. Agrada-me poder dizer
Reino de Deus. ticipação dos leigos na diversida- com clareza e convicção: “Nunca
de de pastorais que constituem mais a missão de navegadores so-
Alma da Evangelização a comunidade - comunhão dos litários, embora cheios de amor e
Uma segunda dimensão mis- discípulos de Jesus. de ardor para a evangelizaçao”. 
sionária que ilumina e facilita o • O diálogo ecumênico e interre-
processo de evangelização é a Vida ligioso que une na fé e na caridade, Anair Voltolini é missionária da Consolata em Moçam-
de Oração do enviado. Recordo no respeito e na tolerância evan- bique. Texto trduzido por Benildes Clara Capellotto, MC.

MARÇO/ABRIL /MAIO 2020 MISSÕES 13


FORMAÇÃO

Sonhos de
Francisco
para a
Amazônia

de Alfredo J. Gonçalves manter viva a utopia do Reino, recai sobre as comunidades indí-
como herança da Boa Nova de genas, quilombolas e ribeirinhas.
Jesus Cristo. Tal sistema cria ao mesmo tempo

T
oda e qualquer formação concentração e exclusão social.
missionária que tenha Um sonho social Disso resulta a necessidade de
como base a Exortação É a utopia de uma “Amazônia retomar a profecia missionária e
Apostólica pós-sinodal que integre e promova todos os evangélica em sua dupla dimensão.
Querida Amazônia, pu- seus habitantes, para poderem De um lado, a denúncia corajosa e
blicada pelo papa Francisco em consolidar o bem viver”. Para isso, veemente dos empreendimentos
fevereiro de 2020, deve levar em “impõe-se um grito profético e privados e públicos que visam, antes
conta necessariamente os quatro um árduo empenho em prol dos de qualquer coisa, explorar todas
sonhos do Pontífice. A palavra so- mais pobres” (QA, nº 8). A política as potencialidades da região, em
nho nos alerta para o fato de que ideológica do “viver bem”, além de detrimento de quem, há séculos,
o texto apresenta uma tonalidade extorquir,acumular e concentrar habita esse solo. Incluem-se aí a
contemporaneamente poética e todos os bens que a natureza nos produção maciça de carne bovina,
utópica, lembrando os profetas oferece, devasta e deteriora o meio o plantio de grãos particularmente
do Antigo Testamento. Em tempos ambiente, polui o ar e as águas, para exportação e a mineração
de nuvens sombrias e de esforços desencadeia a desertificação do indiscriminada. De outro lado, na
conjuntos para conter a pandemia solo. Os efeitos são conhecidos e dimensão do anúncio, é preciso
do Covid-19, o Santo Padre procura notórios: o peso socioeconômico repensar um modo de inclusão

14 MARÇO/ABRIL /MAIO 2020 MISSÕES


costumes e valores. O desafio neste Daí a insistência do Pontífice
sonho é levar muito a sério o que de que essa economia “exclui,
se entende por “inculturação do descarta e mata”. O desafio social,
Exortação Evangelho”. pastoral e missionário consiste
De fato, o processo missionário em superar a “globalização da
Apostólica da evangelização tem sempre mão indiferença” por uma cultura de
dupla. Quem se diz evangelizador, acolhida, de diálogo, de encontro
Querida ao final termina por ser também e de cuidado – seja este último
Amazônia evangelizado. E inversamente,
quem se considera evangelizado,
com a natureza, seja com o ou-
tro, o diferente, o estrangeiro.
retrata quatro ao final também se torna evange-
lizador. O motivo é simples. Basta
Nesse processo de superação, as
comunidades indígenas da região
sonhos do prestar atenção no encontro de
Jesus com a Samaritana, junto ao
amazônica têm muito a nos ensi-
nar. Há séculos vivem e convivem
papa: social, poço de Jacó. João, o evangelista
dos símbolos, “brinca” com dois
com as diversas formas de vida
– a biodiversidade – tentando
cultural, tipos de água e dois tipos de sede. respeitar as leis da natureza e os
Água e sede materiais e água e sede direitos de todo cidadão.
ecológico e espirituais. No fundo, ninguém é só
Um sonho eclesial
eclesial. água nem só sede; ninguém é água
o tempo todo nem sede o tempo “A Igreja é chamada a caminhar
todo. Todos somos uma mistura com os povos da Amazónia. Na
de água e sede. Até mesmo Jesus América Latina, esta caminhada
revela sua sede, enquanto oferece teve expressões privilegiadas, como
a água viva da vida eterna. A mu- a Conferência dos Bispos em Me-
lher, por seu lado, busca a água dellín (1968) e a sua aplicação à
do poço com um balde, porém, Amazônia em Santarém (1972); e,
acaba recebendo uma água bem depois, em Puebla (1979), Santo Do-
mais profunda. O poço representa mingo (1992) e Aparecida (2007)”,
simbolicamente o lugar do encon- (QA, nº 61). Retorna neste ponto
tro. Ali água e sede se fundem e a preocupação com o processo de
indicam o horizonte da salvação. “inculturação” e seus diferentes
caminhos. Um princípio pétreo
Um sonho ecológico é o de que esse processo será
“Numa realidade cultural como sempre e simultaneamente social
dos povos amazônicos. Neste caso, a Amazônia, onde existe uma re- e espiritual, como se lê a partir do
convém ter em conta a utopia lação tão estreita do ser humano nº 75 do texto.
centenária da “terra sem males”. com a natureza, a vida diária é Não basta traduzir o Evangelho
O desenvolvimento da região ama- sempre cósmica. Libertar os ou- na língua, na cultura e nos valores
zônica deve respeitar o ritmo e as tros das suas escravidões implica dos povos da região amazônica.
prioridades de sua população. certamente cuidar do seu meio Tampouco basta a luta legítima e
ambiente e defendê-lo” (QA, nº socioeconômica por seus direitos
Um sonho cultural 41). Vem naturalmente à tona e sua dignidade humana. Espiritu-
“O objetivo é promover a Ama- “o cuidado com a casa comum”, alidade evangélica e ensino social
zônia; isto, porém, não implica co- fio condutor da Carta Encíclica da Igreja devem caminhar lado a
lonizá-la culturalmente, mas fazer Laudato Si’, publicada pelo papa lado. Melhor, devem entrelaçar-
de modo que ela própria tire fora o Francisco em maio de 2015. O -se, interpelar-se e fortalecer-se
melhor de si mesma. Tal é o sentido sistema de produção da economia reciprocamente. Ao se comple-
da melhor obra educativa: cultivar globalizada, de filosofia neoliberal, mentarem, se enriquecem. Trata-
sem desenraizar, fazer crescer sem tem como motor a maximização do -se de fundir num só horizonte a
enfraquecer a identidade, promo- lucro e a acumulação do capital. Boa Nova de Jesus e a “terra sem
ver sem invadir” (QA, nº 28). Não Ao levar à exaustão as potenciali- males”. 
dá para esquecer que o “poliedro dades do planeta e a mão-de-obra
cultural da Amazônia” reúne uma humana, semelhante política não Alfredo J. Gonçalves, cs, é vice-presidente do Serviço de
multiplicidade de povos, línguas, se sustenta a médio e longo prazo. Proteção ao Migrante (SPM), Rio de Janeiro, RJ.

MARÇO/ABRIL /MAIO 2020 MISSÕES 15


FÉ EM AÇÃO

Destino Sustentável
para todos
Estamos num momento crítico da relação Homem-Terra-Economia que se subscreve
na história da Terra. a tarefa final que espreita o ser humano, realizar-se
para uma vida plena. Essa é a questão definitiva.
Cabe chamar a atenção para um decisivo chamado:
de Marcus Eduardo de Oliveira se a nossa espécie ainda tem a intenção de continu-
ar fazendo parte do acervo biológico terreno, com
convicção tenaz deve ser pronunciado que já passou

F
ace à incisiva cultura capitalista e seu correlato da hora de mudar o comportamento existencial dos
paradigma dominante, a economia do cresci- primatas, a começar pelo abandono da ideia corrente
mento, não me parece descabido considerar de que o crescimento econômico, ícone da moder-
que cada um de nós, desde há muito, foi ha- nidade, irá nos completar.
bituado a pensar e olhar para a estrutura da O crescimento da economia, ao aumentar de forma
economia global exclusivamente pelo espectro do considerável a oferta de bens e serviços, pode até
crescimento, da expansão da atividade econômica. nos tornar mais ricos, aliás, disso ninguém duvida,
Ao sabor de uma boa discussão, tem sido dito nas mas está longe de ser a condição que nos tornará
entrelinhas que cada “homem econômico” foi devi- melhores. Com algum esforço, muitos afirmam que
damente doutrinado a enxergar o sucesso de uma nos tornaremos melhores, de fato, caso consigamos
determinada localidade da economia observando-se construir uma comunidade de destino sustentável
tão somente a tendência ascendente da produção para todos.
material e da geração de serviços. De tal modo, é desnecessário dizer às claras que
Pela visão economicista que predomina, o suces- isso exige imediata ação. Até mesmo porque, toman-
so econômico das nações (ou algo próximo disso), do como referência o que consta no preâmbulo da
advém do aumento produtivo, mesmo no caso de Carta da Terra, (...) estamos diante de um momento
se perceber, en passant, que isso tende a provocar crítico na história da Terra, numa época em que a hu-
certas ameaças à integridade do meio ambiente. manidade deve escolher o seu futuro [...] A escolha é
Mas como a própria história do futuro ainda está nossa: formar uma aliança global para cuidar da Terra
para ser devidamente escrita, esse delicado ponto, e uns dos outros ou arriscar a nossa destruição e a da
não obstante a comunidade de ambientalistas elevar diversidade da vida [...] 
a voz em tom de protesto, permanece em aberto.
No entanto, interessa destacar o seguinte: caso se Marcus Eduardo de Oliveira é economista e ativista ambiental
aprofunde a interação entre vida socioeconômica e Autor de “Economia Destrutiva” (ed. CRV) e “Civilização em desajuste com os limites
mundo natural, perceber-se-á que é do fino ajuste planetários” (ed. CRV). prof.marcuseduardo@bol.com.br

16 MARÇO/ABRIL /MAIO 2020 MISSÕES


Fidelidade às regras Família consolata
Segundo artigo da série sobre
recomendações de José Allamano aos
seus missionários e suas missionárias, e
a todos nós.
da Redação

N
o segundo artigo da série, publicamos o que José Allamano fala
sobre a fidelidade que os missionários devem ter (que servem
também para os leigos, pois tratam-se de regras de vida) às
diversas situações:

1. Fidelidade à vocação. Devemos estimar nossa vocação, (seja qual


for), e considerar-nos santamente orgulhosos de possuí-la; dessa
forma, conseguiremos amá-la de verdade.

2. Fidelidade às regras, inclusive pequenas; portanto, observá-las


todas, em tudo, até nos mínimos detalhes. Cada regra, por mínima
que seja, traz consigo uma graça de Deus.

3. Fidelidade às práticas comunitárias de piedade, pois a oração em


comum é mais abençoada por Deus.

4. Fidelidade nos momentos de folga e lazer: estes, com efeito, nos


oferecem boas ocasiões de adquirir méritos, mediante o exercício
da piedade, da prudência e da caridade.

5. Fidelidade no cumprimento das incumbências particulares; de-


sempenhá-las com diligência e desapego; não procurar a própria
comodidade, visto que a ocasião se apresenta tão facilmente.

6. Fidelidade no bom emprego do tempo: ocupá-lo inteira e intensa-


mente; aplicar nele toda nossa capacidade, vontade e disposições.

7. Fidelidade às graças de Deus.

8. Fidelidade às inspirações divinas. Deus bate frequentemente


à porta do nosso coração; estejamos atentos para abri-lhe sem
demora, porque se o deixarmos passar, perdemos a graça que
nos queira conceder; e se, em sua bondade infinita, o bom Jesus
nos der outras, não será mais a de primeiro. Nosso Senhor nos
apresenta e nos pede pequenos sacrifícios, que fazemos animados
de firme vontade; então ele nos proporciona sacrifícios maiores e
por fim os grandes, até conduzir-nos à virtude heroica. 
SHUTTERSTOCK

Extraído do livro A Vida Espiritual, de José Allamano, p. 176.

MARÇO/ABRIL /MAIO 2020 MISSÕES 17


Colégios Allamano sonhou

do Continente
com a fundação
de Colégios há
mais de um
século.

reunidos

CLEBER PIRES
de Pastoral Escolar

O
ano de 2020 é um ano
muito especial para a Co-
munidade Educativa do
Colégio Consolata, São
Paulo.
Começamos o ano letivo re-
pletos de alegria e entusiasmados
para escrevermos junto as próximas
páginas da nossa linda história de
71 anos, dedicados ao compromisso
com a fé e a educação.
Irmã Maria Schmitz e padre Paulo Mzé com alunos do Colégio Consolata, São Paulo, SP.
Nesta perspectiva, acreditando
que JUNTOS SOMOS MAIS, nos Brasil e Itália. A programação do comprometidos com a Pedagogia
unimos nos dias 8 a 14 de janeiro encontro foi ampla, alegre, di- Allamaniana.
para um importante encontro dos nâmica, orante e reflexiva, com Com certeza nosso pai fundador,
Colégios do Instituto das Irmãs Mis- destaque à partilha de experiências o Bem-aventurado Allamano, que
sionárias do Continente América. vivenciadas em cada realidade sonhou com a fundação desses
O encontro contou com a educativa, a continuidade da for- Colégios há mais de um século,
presença de representantes dos mação na Pedagogia Allamaniana e sorriu lá do céu, vendo sua proposta
Colégios: Consolata (SP - Brasil), o estabelecimento de prioridades muito bem concretizada.
Anjo da Guarda (Brasília - Brasil), e metas para a consolidação desta “E quando forem em maior nú-
Santa Terezita (Mendonza - Argen- Rede de Colégios da Consolata, do mero, irão à América e lá fundareis
tina), Colégio Nossa Senhora da Continente América. Os educado- Colégios, sempre com a mesma fina-
Consolata (Bogotá - Colômbia) e res e as Missionárias da Consolata lidade, a Missão!” Bem-aventurado
Ciudadela Juvenil Don Bosco (San partiram do Encontro Continental, Allamano, às primeiras Missionárias
Vicente Del Caguan - Colômbia), com os laços de Família Consolata no início do século XX. 
juntamente com as missionárias fortalecidos, com projetos interes-
da Direção Geral do Instituto no colares estabelecidos e ainda mais Equipe de Pastoral do Colégio Consolata, São Paulo, SP.

QUER
QUERSER MISSIONÁRIO?
SER MISSIONÁRIO? QUER
QUERSER MISSIONÁRIA?
SER MISSIONÁRIA?
TEL.: (11) 2232.2383 TEL.: (11) 2231.0500
E-mail: amv@consolata.org.br E-mail: mc@consolata.org.br

18 MARÇO/ABRIL /MAIO 2020 MISSÕES


40 anos do projeto:
“Uma Vaca para o Índio”

de Isaack Mdindile

P
ara marcar os 40 anos do Projeto pioneiro entre os dias 4 e 7 de fevereiro de
projeto “Uma Vaca para o desenvolvido pelos 2020, sob a cobertura de 18 mil
Índio”, iniciativa conjunta palhas de buriti do Malocão da
dos missionários da Con- missionários da Homologação, no coração da comu-
solata e das comunidades Consolata em nidade. O projeto do gado nasceu
indígenas de Roraima para a cria- Roraima completa na comunidade-matriz Maturuca,
ção comunitária de gado, os nove espalhou-se pela região das Serras
centros da etnoregião Serras da 40 anos. e posteriormente foi expandido a
Terra Indígena Raposa Serra do Sol outras regiões e terras indígenas.
(TIRSS) se reuniram durante quatro Com o tema “Presente de Deus
dias na comunidade Maturuca, aos Povos Indígenas, da opressão Essencial
no Norte da emblemática Terra à libertação: 40 anos na defesa da O projeto de criação de gado é
Indígena de Roraima. nossa terra-mãe”, o evento ocorreu historicamente essencial para os

MARÇO/ABRIL /MAIO 2020 MISSÕES 19


de fazendeiros e garimpeiros. Entre aos índios o que contribui com o
os presentes no encontro também êxito das ações” disse padre Giorgio
estava o padre Giorgio Dal Ben, durante a festa.
considerado articulador do projeto A criação de gado nas comuni-
do gado, implantado pela diocese dades indígenas foi uma estratégia
de Roraima em 4 de fevereiro de sapiencial, não apenas de reocu-
1980, data do primeiro lote de pação da terra como também de
gado doado para a comunidade emancipação e de recuperar a
Maturuca. Há dez anos longe da identidade e dignidade do povo.
região, ele foi recebido por uma Atualmente, só na região das Ser-
multidão que celebrou seu retorno ras são cerca de 16 mil cabeças de
com cantos e danças tradicionais. gado oriundas do projeto, alimen-
Se existe um sonho, utopia ou tando-se das pastagens nativas
projeto que deu certo na história dos Lavrados, e sendo a pecuária
da presença e evangelização dos a principal atividade desenvolvida
missionários da Consolata em Ro- pelos cerca de 26 mil indígenas das
raima, é esse projeto de gado. Ou etnias Macuxi, Wapichana, Inga-
seja, o projeto é “utopia que está rikó, Taurepang e Patamona, que
se realizando e esse projeto deu vivem na Terra Indígena localizada
indígenas, sobretudo no contexto frutos por causa do compromisso na tríplice fronteira entre Brasil,
das décadas de 70 e 80 do século que a comunidade assume diante Venezuela e Guiana. 
passado, quando a região esteve da Igreja, mas também por causa
sob intensa ameaça com a invasão da presença dos missionários junto Isaack Mdindile, imc, é missionário na Amazônia.

Ajude-nos e venha
fazer parte desta obra
Missões é o veículo de comunicação do Instituto Missões Consolata e retrata o
trabalho missionário de levar a consolação aos que sofrem, aos que andam tristes,
aos que estão sem esperança.
Torne-se um missionário membro da família Consolata, mantendo o
nosso trabalho, contribuindo financeiramente. Mediante a sua
contribuição, enviaremos Missões para você como forma de gratidão!
Veja como é fácil:
R$ 15,00 R$ 20,00 R$ 35,00 R$ 40,00 R$ 75,00 ou mais
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da última edição da última edição últimas edições últimas edições últimas edições
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Rua: Dom Domingos de Silos, 110 - 02526-030 - São Paulo - SP - Telefax: (11) 2238.4595 - E-mail: redacao@revistamissoes.org.br

20 MARÇO/ABRIL /MAIO 2020 MISSÕES


MISSÕES RESPONDE

RICARDO STUCKERT / EFE


Católicos que insultam Lula,
cuidado!
Foi o então presidente Lula que
O ex-presidente Lula durante encontro

(não levantar falso testemunho). Além disso, Jesus é


com o papa Francisco.

fez questão de assinar o acordo claríssimo: "Não julgueis para não serdes julgados.
Pois, com o julgamento com que julgais sereis julga-
Brasil-Santa Sé! dos, e com a medida com que medis sereis medidos"
(Mt 7, 1-2). Demais, preceitua o cânon 220 do CIC,
de Edson Luiz Sampel
ora traduzido em português: "A ninguém é lícito
lesar ilegitimamente a boa fama de outrem, nem
violar o direito de cada pessoa a proteger sua própria

É
intimidade."
comum ver na Internet e noutras mídias certos
católicos chamando o ex-presidente Lula de Papa Francisco
"criminoso". Argumentam que o petista foi Gostaria de acrescentar que Lula, segundo teste-
condenado pelo Poder Judiciário e, pronto, é munho dado por dom Odilo (palestra em Campinas),
criminoso. Raciocínio pueril! Em primeiro lugar, possibilitou exuberante conquista para nós, católicos, à
encontram-se sub judice (em andamento) as ações medida que, por iniciativa pessoal, contrariando mesmo
contra o ex-presidente da República, inclusive a que o parecer do então ministro das relações exteriores,
o conduziu temporariamente ao ergástulo. De acordo bateu energicamente na mesa e ordenou: "Eu quero o
com as leis de nosso país, ninguém será considerado Acordo-Brasil Santa Sé!" Os antecessores imediatos de
culpado até que haja sentença transitada em julgado Lula engavetaram o projeto e não demonstraram inte-
(Constituição Federal, art. 5.º, LVII). Em segundo lugar, resse na referida avença diplomática entre o Estado e a
o epíteto "criminoso" implica juízo de valor moral e é Santa Sé, atualmente tão benéfica para a Igreja no Brasil.
um xingamento que não costuma ser respaldado nas Por fim, se o Santo Padre, o papa Francisco, su-
sentenças judiciais, que se restringem a subsumir os cessor de São Pedro, maior autoridade da Igreja,
fatos provados ao tipo penal. houve por bem recepcionar Lula no Vaticano, pro-
Em terceiro lugar, do ponto de vista ético-religioso, vavelmente ao menos bispou alguma pulcritude na
temos de esclarecer que a pessoa que sai por aí alma do estadista! 
acusando Lula ou quem quer que seja de pecado
contra o sétimo mandamento (não furtar) pode estar Edson Luiz Sampel é professor da Faculdade de Direito Canônico São Paulo Apóstolo
cometendo um pecado contra o oitavo mandamento (da arquidiocese de São Paulo).

MARÇO/ABRIL /MAIO 2020 MISSÕES 21


ESPECIAL

Em defesa da vida e do
equilíbrio planetário
de Nei Alberto Pies e Marcus Eduardo de Oliveira
“Somente lutam bem
aqueles que têm
visões de beleza.

M
arcus Eduardo de Oliveira cido em alguma habilidade, desde
e eu, Nei Alberto Pies, os colegas da sala de aula. Até lá, será a luta
nos conhecemos há pelo Aos poucos, o escrever foi tor- contra o feitiço. Já
menos 7 anos, quando nando-se uma necessidade. Desde devastaram a terra.
passamos a dividir a edi- o ano de 2007, passei a escrever,
ficante responsabilidade de assinar sistematicamente, em forma de Que não devastem a
mensalmente, de forma intercalada, crônicas, aliando reflexão filosófica alma...”
a coluna Fé em Ação nessa revista. com realidades do cotidiano. Foi (Rubem Alves, em
Acreditamos, antes de mais nada, então que aprendi que ninguém “Conversas sobre política”)
no poder das palavras e por isso, escreve se não tiver alguém que lê
cada um de nós, de modo próprio, o que a gente produz. A partir desse
gostaria de relatar a importância momento, busquei espaços em de muita satisfação e alegria por
de fazer parte dessa história dos diferentes plataformas (analógicas, poder dividir parte do que creio e
missionários da Consolata ao assinar impressas ou digitais) para publicar do que cultivo como ser humano
essa rubrica, Fé em Ação. minhas reflexões. Descobri, ainda, e como cidadão do mundo.
Eu, Nei, me assumo como pro- que quem “escreve, pensa melhor”.
fessor, escritor e ativista de direitos Em 2014, já com mais de 150 Importância do conhecimento
humanos, sempre em formação. crônicas publicadas em jornais e Sou Marcus Eduardo de Olivei-
Sempre escrevi como um ato liber- revistas impressas ou digitais, criei ra, economista, professor e ativis-
tador. Desde a minha adolescência e site www.neipies.com que hoje ta ambiental. Assim como você,
juventude, escrevia para me tornar conta com mais de 40 convidados, prezado(a) leitor(a), eu também
belo aos olhares dos outros (como dentre eles, o amigo Marcus Edu- não passo de um grão de areia,
ensinou Rubem Alves). Diante da ardo de Oliveira. Convido vocês a habitando a Terra, esse “cenário
minha dificuldade de comunicação, visitarem meu site. muito pequeno numa vasta arena
por sofrer de gagueira, lia e escrevia Participar da Coluna “Fé em cósmica”, para fazer uso das pontuais
para me sentir acolhido e reconhe- Ação” nestes últimos 7 anos é motivo palavras de Carl Sagan.

22 MARÇO/ABRIL /MAIO 2020 MISSÕES


Indo direto ao ponto, sem con- A realidade está da cooperação/solidariedade, estí-
fabular com o pessimismo, o fato mulo à pesquisa e desenvolvimento,
é que estamos num momento bas- fazendo questão de ampliação da ciência e tecnologia,
tante delicado (e perigoso) em que nos dar uma lição consolidação dos valores morais,
a realidade está fazendo questão de atuação político-partidária, forta-
nos dar uma lição de humildade. E
de humildade e lecimento das instituições. É as-
mais que isso: está nos dando uma chance de resgatar sim que podemos consolidar nossa
incomensurável chance de resgatar- valores morais. participação na hercúlea tarefa de
mos certos valores morais (nosso “fortalecer” o Estado. Importa ter
edifício cultural, por assim dizer) há Temos necessidade em vista, sobretudo, que a qualidade
muito esquecidos. Portanto, preci- de aprimorar nosso de vida – legítimo anseio dos povos
samos aprender. Temos necessidade entendimento – vem a reboque disso tudo. Não
de aprimorar nosso entendimento duvidemos dessa assertiva.
e refinar nossa percepção. Urge e refinar nossa Por fim, pelas bandas de cá, e
lapidarmos nossa cosmovisão. percepção. em reforço ao presente argumen-
Mas veja, no entanto, que, ten- to, bastante simples e igualmente
tar dar respostas para tudo o que Grosso modo, é no capital cívico modesto, confesso, mas dotado de
está ocorrendo, convenhamos, é que precisamos nos apoiar, uma vez muita esperança, estou plenamente
tarefa quase impossível. Porém, não que isso ajuda até mesmo a identi- convencido de que esse conjunto
podemos nos esquivar à tentativa ficar as boas escolhas no campo da de ações, chamemos assim, nos
de procurar compreender o que ação política. Com essas, goste-se ajudará naquilo o que mais interes-
se passa lá fora. Para tanto, nem ou não, temos a possibilidade de sa aos povos, estejam esses onde
mesmo é preciso muita imaginação melhorar a qualidade do Estado estiverem: imprimir muita, mas
para logo compreender que os fatos e dos serviços por ele prestados. muita qualidade ao mais universal
confirmam a lógica: o CONHECI- Em outras palavras, a coisa toda, dos mistérios, A NOSSA EXISTÊNCIA.
MENTO – talvez a mais importan- salvo erro de interpretação, me Desnecessário dizer, às claras,
te ferramenta que a humanidade parece, à primeira vista, bastante que o desafio que temos pela frente
conhece - se bem usado, pode ser simples. Ouso dizer que não há é enorme. Difícil contestar, do pon-
a chave do paraíso; mas também segredo. No fundo, e a rigor, todos, to de vista lógico, que precisamos
pode abrir, dado o uso inadequado, sem exceção, precisamos de um agir com brevidade, uma vez que
os portões do inferno. Estado a serviço da sociedade, e somos constantemente convocados
Por isso, para não perder a opor- não de uma sociedade a serviço do ao entendimento de que as coisas
tunidade, afirmo em alta voz que Estado. Afinal, somos nós, atores seguem, e a nossa história, para o
sou daqueles que acreditam que sociais, que, dia a dia, ajudamos a bem maior da humanidade e de
o capital cívico (isto é, as crenças e “construir” o Estado em todas as necessários tempos de paz, não tem
os valores que estimulam a coope- vertentes conhecidas. fim. Sigamos cooperando. Temos o
ração, no qual o conhecimento se Em última análise, o Estado dever de continuar nossa evolução
destaca) faz a diferença. E repare depende de todos nós. Trabalho, moral. 
no detalhe: isso é algo que percep- cidadania, fortalecimento da de-
tivelmente encontra-se enraizado mocracia, do Estado de Direito, Nei Alberto Pies e Marcus Eduardo de Oliveira são
na cultura de certos povos. cumprimento dos deveres, prática colaboradores da Revista Missões.

MARÇO/ABRIL /MAIO 2020 MISSÕES 23


DESTAQUE

Aprendendo
a caminhar juntos
de Roque Paloschi

O
“Sínodo para a Amazô-
nia”, que se realizou entre
os dias 6 e 27 de outubro
de 2019, em Roma, é fruto
da caminhada pós-conci-
liar da Igreja latino-americana e
da Carta Encíclica Laudato Si´, do
papa Francisco. “Tudo está interli-
gado” é uma das frases marcantes
da Laudato Si´. A “preocupação
pelo meio ambiente”, o “amor
sincero pelos seres humanos” e o
“compromisso constante com os
problemas da sociedade” – tudo
está interligado (cf. LS 91). Também
na vida dos Povos Indígenas, tudo
está interligado: as questões políti-
cas, culturais, sociais e espirituais.
Para compreender corretamente o
processo sinodal e sua relevância
para a vida dos Povos Indígenas Povos Indígenas da região amazô- denominou quatro sonhos - sonho
é importante se lembrar dessa nica brasileira que o CIMI colecio- social, cultural, ecológico e eclesial
interligação das diferentes etapas nou. Na segunda etapa, nas três -, o papa retomou o conjunto do
e textos produzidos nesse proces- semanas do próprio Sínodo, em processo sinodal e devolveu às
so. Em vez de procurar o que nas amplas discussões foi construído Igrejas locais a concretização desse
diferentes etapas do Sínodo não o Documento Final do Sínodo para processo. Segundo a Constituição
foi dito e que talvez deveria ter a Amazônia (DFSA) que o papa Apostólica Episcopalis Communio,
sido, eu vou me contentar nesse recebeu com um discurso marcado “as Conferências Episcopais coor-
texto com alguns pronunciamentos por uma abertura espontânea e denam a atuação das referidas
consensuais. um discernimento sábio em que conclusões em seus territórios” (EC
Na etapa preparatória do Síno- nos disse: “estamos aprendendo a art. 19/2). Neste espaço vou me
do podemos destacar o “Discurso caminhar juntos”. A terceira etapa concentrar apenas em cinco des-
do papa Francisco com os Povos da foi aberta, mas não concluída, taques consensuais do processo
Amazônia”, no Coliseu de Puerto pela “Exortação Apostólica Pós- sinodal, que constam nos próprios
Maldonado/Peru (19.01.2018), e -Sinodal”, a “Querida Amazônia” textos oficiais e se relacionam aos
a Síntese das contribuições dos (QA). Em quatro capítulos, que Povos Indígenas.

24 MARÇO/ABRIL /MAIO 2020 MISSÕES


A escuta dos Povos A causa indígena da” (DFSA 47; cf. QA 14) antes de
Indígenas (cf. DFSA 3) qualquer intervenção territorial.
A realidade indígena da Ama- no processo A negação de direitos e recursos
zônia é multiétnica, multicultural sinodal da naturais sufocam a vida dos Povos
e multirreligiosa (cf. DFSA 23). Amazônia. Indígenas e “causa a migração das
Um ano e meio antes do Sínodo, novas gerações” (DPM). “Não po-
no dia 19 de janeiro de 2018, em esse grito no contexto do Êxodo: demos permitir que a globalização
Puerto Maldonado/Peru, o Papa “Para nós” o grito da Amazônia se transforme em um `novo tipo
Francisco se encontrou com líderes ao Criador é semelhante ao grito de colonialismo´” (QA 14).
dos povos da Amazônia e disse al- do Povo de Deus no Egito (cf. Ex
gumas palavras muito importantes 3, 7). É um grito desde a escra- A opção preferencial pelos
para o processo sinodal: “Quis vir vidão e o abandono, que clama Povos Indígenas (cf. DFSA
visitar-vos e escutar-vos, para [...] por liberdade” [DPSA 8]” (QA 52). 27)
solidarizarmo-nos com os vossos Desde a sua convocação, o
desafios” (DPM). A ameaça aos povos Sínodo radiava uma opção pelos
A “fase prepara- originários (cf. DPM) Povos Indígenas. O Instrumentum
ARQUIVO CIMI

tória envolveu Através da escuta atenta a Laboris ainda falava das opções
toda a Igreja no Igreja percebeu que “provavel- preferenciais pelos Povos Indí-
território. [...]. mente, nunca os povos originá- genas, pelas comunidades tradi-
Foi registrada a rios amazônicos estiveram tão cionais, pelos migrantes e pelos
participação ativa ameaçados nos seus territórios jovens como opções embutidas na
de mais de 87.000 como o estão agora. A Amazônia opção preferencial pelos pobres
pessoas, de dife- é uma terra disputada em várias (cf. ILSA 146 g). Em Puerto Maldo-
rentes cidades e frentes”: o extrativismo concentra nado, o papa Francisco reafirmou
culturas” (DFSA grandes interesses econômicos “uma opção sincera em prol da
3). Essa escuta no “petróleo, gás, madeira, ouro defesa da vida, defesa da terra
nos permitiu ver e monoculturas agroindustriais” e defesa das culturas” (DPM). E
a realidade em (DPM). A vida dos Povos Indígenas desta preocupação com a defesa
que os Povos In- “está ameaçada pela destruição, da vida “deriva a opção primor-
dígenas vivem e exploração ambiental e violação dial pela vida dos mais indefesos.
ouvir seu grito e o sistemática de seus direitos ter- Penso nos povos referidos como
grito de sua terra. ritoriais. É necessário defender “Povos Indígenas em Isolamen-
A “Querida Ama- os direitos à autodeterminação, to Voluntário” (PIAV). Sabemos
zônia” do papa à demarcação de territórios e à que são os mais vulneráveis dos
Francisco coloca consulta prévia, gratuita e informa- vulneráveis” (DPM; cf. ILSA 57).
Finalmente, o Documento Final
propõe explícita e especificamente
ARQUIVO

ao Sínodo uma “opção preferencial


pelos Povos Indígenas, com suas
culturas, identidades e histórias”
(DFSA 27). Essa opção “exige que
aspiremos a uma Igreja indígena
com seus próprios sacerdotes e
ministros” (ibid.).

A Igreja com rosto indígena


(ILSA 116; cf. QA 27)
“Tudo o que a Igreja oferece
deve encarnar-se de maneira ori-
ginal em cada lugar do mundo
[...]. Deve encarnar-se a pregação,
deve encarnar-se a espiritualidade,
devem encarnar-se as estruturas
da Igreja” (QA 6) e a teologia. “A
teologia índia, a teologia do rosto

MARÇO/ABRIL /MAIO 2020 MISSÕES 25


É importante registrar, que a
LÍRIO GIRARDI

pastoral indígena e/ou indigenista


não é uma pastoral genericamente
paroquial. É uma pastoral específi-
ca, integral, contextual e universal.
O Sínodo confirmou que “é urgente
dar à pastoral indígena o seu lu-
gar específico na Igreja. Partimos
de realidades plurais e culturas
diversas para definir, elaborar e
adotar ações pastorais que nos
permitam desenvolver uma pro-
posta evangelizadora em meio às
comunidades indígenas” (DFSA 27),
que deve ser específica e integral,
porque “toda autêntica missão uni-
fica a preocupação pela dimensão
transcendente do ser humano e
por todas as suas necessidades
concretas, para que todos alcan-
amazônico e a piedade popular já desafios pastorais e missionários” cem a plenitude que Jesus Cristo
são riquezas do mundo indígena, (DFSA 108). O Sínodo propõe um oferece” (DAp 176). “Isso exige
de sua cultura e espiritualidade” plano de formação que responda das comunidades cristãs um claro
(DFSA 54), porque “a Igreja possui às demandas pastorais da realidade empenho com o Reino de justiça
um rosto pluriforme” (QA 66). Por dos Povos Indígenas, “a partir das na promoção dos descartados”
isso, uma Igreja na Amazônia deve suas próprias línguas e culturas” (QA 75). “Organizações pastorais
ter entre muitos rostos também o (QA 39). O Instrumentum Laboris indígenas diocesanas devem ser
rosto de uma Igreja indígena encar- resume: “A Igreja percorreu um estabelecidas e consolidadas com
nada. “Só uma Igreja missionária longo caminho que deve ser apro- renovada ação missionária, que
inserida e inculturada fará emergir fundado e atualizado, até poder escuta, dialoga, está encarnada e
Igrejas particulares autóctones [...], chegar a ser uma Igreja com rosto com uma presença permanente”
enraizadas nas culturas e tradições indígena e amazônico” (ILSA 116). (DFSA 27) e acompanhada por
próprias dos povos, unidas na mes- agentes pastorais adequadamente
ma fé em Cristo e diferentes em A pastoral indígena/ formados na Doutrina Social da
seu modo de vivê-la, expressá-la e indigenista Igreja (cf. QA 75). Para a presença
celebrá-la” (DFSA 42). “O mundo in- “Todos nós somos convidados sacramental permanente “é neces-
dígena com seus mitos, narrativas, a nos aproximarmos dos povos sário conseguir que o ministério se
ritos, cantos, danças e expressões amazônicos de igual para igual, configure de tal maneira que esteja
espirituais enriquece o encontro respeitando sua história, suas a serviço de uma maior frequência
intercultural” (DFSA 54). O rosto culturas, seu estilo de `bem vi- da celebração da Eucaristia, mesmo
pluriforme e histórico da Igreja ver´” (DFSA 55). Esse `bem viver´ nas comunidades mais remotas e
nos permite e obriga buscar “no- “implica uma harmonia pessoal, escondidas” (QA 86; cf. DAp 100).
vos caminhos eclesiais, sobretudo, familiar, comunitária e cósmica e Partilhemos com o papa Fran-
na ministerialidade” (DFSA 86), manifesta-se no seu modo comu- cisco “o sonho com comunidades
“dando especial atenção à partici- nitário de conceber a existência, cristãs capazes [...] de se encarnar
pação efetiva dos leigos no discer- na capacidade de encontrar alegria na Amazônia” (QA 7)! “O caminho
nimento e na tomada de decisões, e plenitude numa vida austera e continua e o trabalho missionário,
potencializando a participação das simples, bem como no cuidado se quiser desenvolver uma Igreja
mulheres” (DFSA 92). A realização responsável da natureza que pre- com rosto amazônico, precisa cres-
dessa Igreja com rosto indígena serva os recursos para as gerações cer em uma cultura do encontro
vai depender muito da formação futuras” (QA 71). “Rejeitamos uma rumo a uma “harmonia plurifor-
dos futuros presbíteros. Exige-se evangelização de estilo colonialis- me” [EG 220]” (QA 61). 
uma formação “inserida e adapta- ta. [...] A evangelização que hoje
da à realidade, contextualizada e propomos para a Amazônia é o Roque Paloschi é presidente do CIMI e bispo da Igreja
capaz de responder aos inúmeros anúncio inculturado” (DFSA 55). que está em Porto Velho, RO.

26 MARÇO/ABRIL /MAIO 2020 MISSÕES


BÍBLIA

Bíblia:
história teológica
“Meu pai era um arameu errante… Deus em evidência
Gritamos ao Senhor, Deus de História teológica. Esta é uma história na qual
nossos pais…” (Deuteronômio 26,5.7) Deus está em evidência. Os personagens aparecem,
fazem ações, têm uma ética ou não a tem. O que é
importante é Deus em cada um deles. Este Deus se
de Mauro Negro
dando a conhecer e propondo um modo de pensar,
de sentir, ver e viver.
Na história teológica do Antigo Testamento encon-

A
palavra Bíblia significa “livros”. Estes são tram-se dois elementos fundamentais: a ideia de um
textos às vezes longos, às vezes curtos, que Deus único e a escolha deste Deus sobre seu povo,
apresentam, segundo se crê, a Palavra de o que se chama de “eleição”. Esta eleição é a origem
Deus. O que está em evidência nestes livros é, da Aliança. Outros temas são a liberdade, a terra, o
especialmente, dois elementos importantes: culto, as marcas que isso tudo deixa nos costumes etc.
a história e a revelação. Tem muitas outras coisas, Em Deuteronômio 26, 5 em diante nós lemos um
mas estas são importantes de serem compreendidas texto interessante. Ele começa assim: “Meu pai era
em um estudo básico da Bíblia. Vamos começar com um arameu errante: ele desceu ao Egito e ali residiu
a história. com poucas pessoas; depois tornou-se uma nação
História é a sucessão de fatos contados de modo grande, forte e numerosa. Os egípcios, porém, nos
a criar uma sequência, dar um sentido. Assim é que maltrataram e nos humilharam, impondo-nos uma
o Antigo Testamento apresenta, em grande medida, a dura escravidão. Gritamos então ao Senhor, Deus dos
história do Povo de Israel. Este povo tem a sua origem nossos pais…” No início se diz “meu pai”, depois se
em Abraão e reconhece seu Deus como único. Ele é muda para o plural, e a pessoa que fala se insere na
um Deus que caminha com seu povo, se envolve com história. Deus age de história deste povo, de modo
ele, chega a sofrer junto a seu povo ou por causa dele. direto, em todos os tempos. Este é um princípio da
Nesta história, os fatos apresentados têm sempre Bíblia: o Povo de Deus está na história, e Deus está
ligação com este Deus, tanto nas alegrias quanto nas com ele. É uma experiência feita de dentro, com
tristezas. Seria como dizer que o Antigo Testamento sofrimentos e alegrias. E é nisto que Deus se dá a
é a história de Israel com seu Deus e dele com seu conhecer. 
povo, Israel. Mas não é uma história como lemos nos
livros. Ela é “teológica”. Mauro Negro, OSJ. Biblista PUC São Paulo SP mauronegro@uol.com.br

MARÇO/ABRIL /MAIO 2020 MISSÕES 27


ENTREVISTA

Novos caminhos Julio Caldeira é missionário da


de Oscar Elizalde Prada Júlio Caldeira: "A Consolata, brasileiro de nascimento

D
REPAM é uma das e panamazônico por adoção, como
esde janeiro de 2020, o costuma se apresentar. Tem vivido
missionário da Consolata responsáveis por dar os últimos nove anos entre Colôm-
Júlio Caldeira faz parte um retorno aos que bia, Equador e Peru, como parte da
da secretaria executiva ficaram no território igreja em saída, que acompanha
da REPAM (Rede Eclesial as comunidades amazônicas e in-
Panamazônica) e assumiu a co- sobre o que foi dígenas em seus territórios.
ordenação de comunicação do compartilhado no Sua paixão pela Amazônia tam-
organismo. "Precisamos continuar processo pré-sinodal bém tem estado presente no seu
tecendo juntos novos caminhos e sinodal, nesta etapa itinerário acadêmico. Em 2019
para a Igreja e para uma ecología terminou o mestrado em comu-
integral", afirma o religioso. pós-sinodal". nicação, desenvolvido no campo

28 MARÇO/ABRIL /MAIO 2020 MISSÕES


O que significa para você esta com o comitê nuclear e ampliado,
nova missão na REPAM? juntamente com todos aqueles que
Sinto como um chamado a desejam contribuir para esta missão
cumprir um serviço missionário de comunicação. Um dos pedidos
e comunicativo, para seguir cons- do Sínodo era "promover uma
truindo uma pastoral de conjunto cultura comunicativa que favoreça
entre as Igrejas locais, congrega- o diálogo, a cultura da reunião e o
ções, pastorais e entre os povos cuidado da casa comum". E, como
amazônicos e de outros biomas e disse antes, espero contribuir com
redes eclesiais. meus dons e experiências amazôni-
cos e comunicativos, especialmente
Como a REPAM está situada no que diz respeito à comunicação
nesse estágio pós-sinodal? intercultural e ao caminho que
Em sua mensagem no final do está sendo feito para 'Amazonizar
Sínodo para a Amazônia, a REPAM o mundo', ou seja, para ajudar a
reconhece “que o Sínodo é um aumentar a conscientização sobre
processo contínuo” e reafirma que a importância da Amazônia para
“a fase pós-montagem do Sínodo toda a humanidade.
é a mais importante. Nele, como
Igreja no território, como REPAM, Do ponto de vista comunica-
e juntamente com os povos e co- tivo, onde a proposta dos padres
munidades, somos os principais sinodais avança em torno de uma
responsáveis, devemos retornar rede de comunicação eclesial pa-
àqueles que vivem no território e namenha?
esperam. Tragam de volta o que Penso que a primeira coisa é
eles nos confiaram com suas vidas, reconhecer e fortalecer os espaços
esperanças, gritos e alegrias, para de comunicação que já existem na
continuar tecendo juntos, agora que região, como os padres sinodais
a coisa mais importante começa”. solicitaram, e a partir daí trabalhar
Como disse o cardeal Hummes: para criar uma rede de comunicação
“como REPAM, devemos descer eclesial panamenha.
novamente, conversar novamen- A partir do mapeamento realiza-
te, ouvir novamente as pessoas, do nos últimos anos, identificou-se
as bases, para falar sobre como que na Panamazônia existem mais
faremos os novos caminhos. Não de mil mídias, demonstrando que te-
podemos construir esse processo mos grande potencial comunicativo
juntos por meio de decretos. Na no território. Temos que reconhecer
Panamazônia, a rede deve ser re- muitos trabalhos realizados em uma
construída, a rede deve ser cuidada, rede de comunicação, como povos
social, com a tese sobre comu- a rede deve ser fortalecida”. Uma indígenas reunidos na COICA, ALER
nicação intercultural e mudança das responsabilidades da REPAM (em sua seção da rede panamenha),
social no Putumayo equatoriano. é devolver ao território tudo o SIGNIS, FOSPA, entre outros.
Nos últimos anos, tem sido que foi compartilhado no processo Como dizia o Documento Final
diretor da Revista Dimensión Mi- pré-sinodal e sinodal, nesta etapa do Sínodo, "a REPAM pode colabo-
sionera (Colômbia) e membro da pós-sinodal, e continuar tecendo rar na assessoria e apoio aos proces-
equipe de comunicação da Rede esses novos caminhos para a Igreja sos de treinamento, monitorando
Eclesial Panamazônica. Participou e para uma ecologia integral. e fortalecendo a comunicação na
da cobertura de imprensa do Sí- região da Panamazônia". E aqui
nodo para a Amazônia no Vatica- Em que consistirá sua contribui- estamos nós para isso: articular
no, e das atividades da Amazônia: ção no secretariado da REPAM? essas forças e coordenar para que
Casa Comum, em Roma, espaço Venho com grande disponibi- realizemos um trabalho conjunto, a
coordenado pelos missionários lidade para continuar aprenden- partir de uma comunicação integral
e missionárias da Consolata para do e apoiando a coordenação e e não fragmentada. 
refletir sobre a importância do animação da equipe de trabalho
cuidado com o planeta. comunicativa da Panamazônica, Entrevista a Oscar Elizalde Prada - Vida Nueva Colombia.

MARÇO/ABRIL /MAIO 2020 MISSÕES 29


Rio de Janeiro (RJ) de 2020 apontam que elas são cerca de 20%
Publicidade racista do total de desembargadores - magistrados
Brancos ainda respondem pela maioria que julgam processos de segunda instância.
dos retratados na publicidade de veículos Maior do Brasil, o Tribunal de Justiça de São
de comunicação impressos, mostra estudo Paulo é um dos responsáveis por puxar esse
feito pelo Gemaa (Grupo de estudos de Ação percentual para baixo. São 31 mulheres entre
Afirmativa) da Universidade Estadual do Rio seus 360 desembargadores, menos de 9% do
de Janeiro (UERJ), que analisou a diversidade total. Há, em São Paulo, mais desembargadores
nos anúncios por um período de 30 anos. Os chamados Luiz (32), como primeiro nome ou
pesquisadores compararam as propagandas com nome composto do que mulheres (31).
publicadas na revista de maior circulação na-
cional no período, a Veja, entre 1987 e 2017. Roraima (RR)
O resultado mostra que, embora seja maioria Serra do Sol invadida por garimpo
na população, com 55,8% dos brasileiros, de Pela primeira vez desde a demarcação há
acordo com o IBGE, pretos e pardos ainda 11 anos, a Terra Indígena Raposa Serra do Sol
são subrepresentados como consumidores enfrenta o surgimento de um garimpo ilegal
de produtos. No primeiro ano analisado, de larga escala. Para lideranças da região, o
brancos eram 84% das figuras humanas em motivo é a expectativa gerada pela proposta
publicidade, ante 9% de pretos e pardos. do presidente Jair Bolsonaro para legalizar
VOLTA AO BRASIL

No último, foram 78%, ante 16% de pretos a atividade. Desde dezembro, centenas de
e pardos. garimpeiros buscam ouro em uma área da
terra indígena no município de Normandia,
Brasília (DF) na fronteira com a Guiana. A estrutura ilegal
Crescimento do feminicídio conta com maquinário, como escavadeiras e
Dados de 2019 mostram que as estatísticas moinho trituradores de pedra, pertencentes
do feminicídio triplicaram, na contramão dos a não indígenas segundo lideranças. O ga-
demais crimes violentos e cresceu 7,2% no rimpo está provocando estragos ambientais
país, com expansão expressiva em alguns e divisões internas, com o aliciamento de
estados. O jornal Folha de S. Paulo consultou indígenas. "É como se fosse uma Serra Pela-
as 27 unidades da federação e obteve dados da", afirma o macuxi Edinho Batista de Souza,
que atestam a morte de 1310 mulheres no vice-coordenador do Conselho Indígena de
ano passado vítimas de violência doméstica Roraima (CIR), criado em 1990 para lutar pela
ou por sua condição de gênero. Em 2018, demarcação da Raposa Serra do Sol, que abriga
foram 1222. Ou seja, de acordo com os re- cerca de mil indígenas. O CIR já protocolou
gistros oficiais, de três a quatro mulheres são denúncia, mas até agora nada foi feito. Por ter
assassinadas em média a cada dia no Brasil, poder de polícia em área de fronteira, cabe
na maioria dos casos por companheiros e principalmente ao Exército coibir o garimpo
ex-companheiros. Os números mostram que ilegal. A demarcação da Raposa Serra do Sol
2019 houve aumento de mais de 30% nos tem dois adversários históricos no Planalto:
registros em São Paulo, Santa Catarina, Ala- Bolsonaro e o ministro-chefe do GSI (Gabi-
goas, Bahia, Roraima, Amazonas e Amapá. nete de Segurança Institucional), o general
Augusto Heleno. Como deputado, Bolsonaro
Brasília (DF) se opôs à demarcação. Em dezembro de
Justiça sem mulheres 2018, então presidente eleito, disse que iria
Mulheres são apenas uma a cada cinco rever a medida que provocou a retirada de
desembargadores nos Tribunais do Brasil. A fazendeiros não indígenas, principalmente
proporção de mulheres entre os magistrados arrozeiros. Os indígenas votaram em peso
estaduais varia conforme a carreira atinge contra Bolsonaro em 2018. Ele obteve 71,5%
cargos mais altos nos Tribunais de Justiça do dos votos no segundo turno em Roraima,
Brasil, mostra levantamento feito pelo jornal mas perdeu para Fernando Haddad (PT) nos
Folha de S. Paulo. Segundo dados de 2018 do municípios da Raposa Serra do Sol, Pacaraima,
CNJ (Conselho Nacional de Justiça), 37,5% da Normandia e Uiramutã. 
magistratura estadual são compostas por mu-
lheres. No entanto, informações disponíveis
nos sites dos Tribunais de Justiça em fevereiro Fonte: jornal Folha de São Paulo.

30 MARÇO/ABRIL /MAIO 2020 MISSÕES


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