Você está na página 1de 150

A COMENDA SECRETA

Maria João Pardal e Ezequiel Passos Marinho

Título: A Comenda Secreta


Autores: Maria João Pardal e Ezequiel Passos Marinho

Projecto Gráfico: Gabinete gráfico da ESQUILO


Design da Capa: Ana Isabel Vieira, com base na cruz orbicular, utilizada
pelos Templários em Portugal.

Revisão: Rosário Morais da Silva


Impressão: Rolo & Filhos
Distribuição: Sodilivros - Tel.: 213 813 60
1ª Edição: Setembro 2005
ISBN: 972-8603-58-1
Depósito Legal: 231913/05
E-mail: multimedia@esquilo.com - Endereço na Web: www.esquilo.com

MARIA JOÃO MARTINS PARDAL


EZEQUIEL PASSOS MARINHO

Non nobis Domini, non nobis Sed nomine tuo da gloriam


( Não a nós, Senhor, não a nós, mas ao teu nome dá glória,
por amor da tua benignidade e da tua verdade(...)nós, porém,
bendiremos ao Senhor, desde agora e para sempre. Louvai ao
Senhor ).
(Salmo bíblico, divisa da Ordem do Templo)

ÍNDICE

INTRODUÇÃO……………………………………………………………………… 11
1 - PUEBLA DE SANABRIA……………………………………… 15
2 - O REENCONTRO……………………………………………………… 21
3 - O MENSAGEIRO……………………………………………………… 29
4 - DESTINO SOMBRIO……………………………………………… 39
5 - A FUGA……………………………………………………………………… 45
6 - A VIAGEM………………………………………………………………… 57
7 - O ENCONTRO COM EL-REI……………………………… 67
8 - O PLANO…………………………………………………………………… 75
9 - A MISSÃO DO MESTRE……………………………………… 81
10 – PREMONIÇÃO………………………………………………………… 91
11 - GUIADOS PELA FÉ…………………………………………… 95
12 - A HOSPITALIDADE DE D. FUAS……………… 101
13 - OS PEDREIROS…………………………………………………… 107
14 - OS PLANOS DE CASTELA……………………………… 113
15 - A SIMBOLOGIA DOS NÚMEROS…………………… 121
16 - A COMENDA DE TOMAR…………………………………… 125
17 - A CONSPIRAÇÃO………………………………………………… 133
18 - A CAÇADA……………………………………………………………… 137
19 - SANTA MARIA DO OLIVAL…………………………… 145
20 - UM LOCAL PARA O CASTELO……………………… 155
21 - OS CÃES GODOS………………………………………………… 159
22 - O ENIGMA……………………………………………………………… 165
23 - A TRAIÇÃO…………………………………………………………… 169
24 - A BUSCA………………………………………………………………… 173
25 – O POÇO…………………………………………………………………… 177
26 - A MENSAGEM POR REVELAR………………………… 181
27 - JUSTIÇA PARA O TRAIDOR………………………… 185
28 - PLANOS DE VINGANÇA…………………………………… 193
29 - DESTINOS CRUZADOS……………………………………… 197
30 - UMA NOITE JUNTO AO RIO………………………… 201
31 - OS TESTEMUNHOS……………………………………………… 209
32 - A ESPADA MÁGICA…………………………………………… 219
33 - UMA VISITA IMPREVISTA…………………………… 229
34 - A REUNIÃO DO CAPÍTULO…………………………… 237
35 - A CONSAGRAÇÃO………………………………………………… 241
36 - SEXTA-FEIRA SANTA……………………………………… 247
37 - O CAVALEIRO RENATO MONIZ…………………… 251
38 - O JURAMENTO DA GLÓRIA…………………………… 257
39 - A IDADE DO ESPÍRITO SANTO………………… 261
40 - OUTRA VEZ LIXBUNA……………………………………… 265
41 - A GEOMETRIA SAGRADA………………………………… 269
42 – ALMOROLAN…………………………………………………………… 275
43 - A COMENDA SECRETA……………………………………… 283
44 - O MEU CORAÇÃO É ÁRABE…………………………… 289

BIBLIOGRAFIA

Ninguém sabe que coisa quer. Ninguém conhece que alma tem, Nem o que é
mal, nem o que é bem. (Que ânsia distante perto chora?) Tudo é incerto e
derradeiro.
Tudo é disperso, nada é inteiro. O Portugal, Tu, hoje, és nevoeiro...
« É a Hora! » - Fernando Pessoa, in Mensagem

Este romance, com carácter histórico, pretende ser um apelo. Um apelo


nobre ao mais fundo da alma portuguesa à nossa História mística. Aquela
que muitos já revelaram ser o objectivo de Portugal, a sua missão.
O Conde D. Henrique ao morrer, pediu a D. Afonso Henriques que não
perdesse sequer um palmo da terra que ele lhe dera. A lenda de Ourique
consagra a vocação do império espiritual português. O mesmo império que
ganha novo fôlego com a Rainha Santa Isabel e que se estende depois em
direcção ao Mar. Mas o que é feito desse império que se vê imerso nas
brumas de há uns séculos para cá? Está perdido nas memórias de
visionários que alimentam, com palavras, um sonho de nobreza extrema. O
sonho de um Portugal livre, respeitador das suas mais profundas raízes e
tradições, de um Portugal rico em passados gloriosos e esquecidos, de um
Portugal tão à frente e tão dentro do seu tempo!
Será que perdemos o rumo, ou andamos apenas desviados de um caminho, para
novamente o retomarmos?
11
Acreditamos que a vocação portuguesa é espiritual, mariana e marítima,
como assim tem revelado o passado em que nos projectamos enquanto
portugueses.
O povo português sempre soube estar ao nível da sua história; assim a
tenha na memória, quem esteja na primeira linha e, sabiamente, dê o
exemplo.
No decorrer desta leitura, poderá ser encontrada uma linguagem simbólica
e iniciática, na qual os sinais, símbolos e mistérios, ora reais ora
pertença de um imaginário enriquecido, pretendem conduzir, num percurso
definido, a um objectivo único. Esse objectivo quer-se comum a todos nós,
enquanto seres humanos livres e pensadores, devendo incitar-nos a
aprofundar o desenvolvimento do livre arbítrio e ao enriquecimento de uma
vontade de mudar aquilo que nos foi dado, e que temos vindo a construir,
durante séculos infinitos - a nossa História. A história de homens
simples, de um país, da humanidade fraterna e universal à qual
pertencemos.
Não queremos com isto revelar nada - aliás, o termo revelar, entendido
num sentido mais abrangente, é re-velar, ou seja, voltar a esconder.
Queremos, isso sim, que o sagrado volte a fazer parte da nossa vida,
devolvendo o significado perdido a muitos gestos, que representam o
esforço de gerações inteiras no sentido de preservar costumes, rituais e
tradições.
Convém ainda referenciar que neste romance se misturam personagens reais
e fictícias, de um talhe que esperamos seja agradável ao leitor.
Saliente-se ainda a forma quase inequívoca como procuramos seguir os
meandros da história, tão de perto quanto possível, recorrendo no entanto
ao privilégio do romancista em transpor a realidade imprimindo novas
tónicas e possíveis soluções e hipóteses à temática abordada, acordando-
se com o rumo da história que aqui se propõe.
Deixamos um agradecimento muito especial a todos aqueles que, antes de
nós, já escreveram sobre este assunto. E não foram poucos!
Um agradecimento ainda para aqueles que, com o seu entusiasmo, partilha e
apoio incondicional nos motivaram a chegar onde chegamos.
Muito obrigado!
A Patrícia Assis Teixeira e à Rita Colen, pela incontornável paciência na
leitura, revisão e apreciação do manuscrito, ao Paulo Alexandre Loução e
à editora Esquilo, pela oportunidade de publicação deste livro e pelo
apoio incondicional, e a tantos outros amigos
12
que, com as suas inúmeras sugestões, enriqueceram enormemente esta obra
que aqui se publica.
Um agradecimento especial ao Prof. José Anes pela forma com que apoiou
este projecto desde o início.

Os autores,

Maria João Barroso Martins e Pardal


Ezequiel Maria de Passos Marinho
13
Capítulo 1
PUEBLA DE SANABRIA.
- Quase quinze anos! Quinze anos! - pensava Afonso VII de Castela, com as
mãos entre a cabeça. - A minha família é a minha desgraça... ainda por
cima o Arcebispo de Braga é o Primaz das Espanhas!...
Decorria o ano de 1157. D. Afonso VII, filho de Afonso VI e primo d'El-
Rei D. Afonso Henriques, naquele dia estava de mau humor.
Depois das batalhas de Cerneja e Arcos de Valdevez, Guido de Vico, legado
do papa, tinha convocado uma reunião tripartida no dia 5 de Outubro de
1143, em Zamora. Afonso VII fora obrigado a aceitar a independência do
Condado Portucalense. O seu primo Afonso arvorara-se de censual ( nota 1)
e estragara-lhe os sonhos de um império maior.
- 0 Papa ainda não lhe respondeu a reconhecê-lo!... Talvez ainda seja
possível tramar algo!... pensava, enquanto a sua mão, pejada de anéis,
agarrava, de forma rude, um cálice de vinho.
O Inverno em Sanabria cobria tudo de branco. Desde Tui a Puebla de
Sanabria os irmãos Trava tinham percorrido, numa semana, algumas léguas.
Iriam encontrar-se com o Imperador de Leão e Castela na barbacã de
Sanabria, junto ao rio e sobre uma ligeira colina, que tinha por detrás a
serra da Culebra, coberta de branco. Entraram pela porta de armas e
dirigiram-se para o macho ( Nota 2 ). Ponce Fernandizi, Conde de Sanabria
e Carvaleda, tinha cedido o seu castelo ao Rei de Leão e Castela. Já os
tinha observado de longe e esperava-os.
- Senhor D. Ponce... - cumprimentaram-no, respeitosamente, os dois
irmãos.

( Nota 1) - Censual - Aquele que só respondia perante o Papa.


( Nota 2 )- Torre de Menagem.
15
- D. Fernan... e D. Bernardo... o Rei espera-vos e, cá para nós, não está
muito bem-humorado! disse, em género de segredo gracejado.
Os três homens subiram a escada de pedra, acompanhados de um criado e, no
salão do trono estava Afonso VII, impaciente e irritado; as notícias
foram mais ligeiras que eles.
- Imbecis!!!... Incompetentes!!!... Tenho tudo perdido! O meu primo
prepara qualquer coisa, não sei o que é... e vocês... seus estúpidos...
não percebem nada... Nada! Deixam fugir tudo... imbecis!!!
- Mas... Senhor D. Alfonso... - tentaram argumentar Fernão e Bernardo
Peres de Trava.
- Qual mas... seus ignorantes... existe a certeza de terras além-mar e
vocês só pensam na minha tia Teresa. Primeiro casaste tu com ela, de
seguida o teu irmão põe-te os cornos e deixam-me fugir um império pela
cama abaixo!... Corso, tudo corre mal!!!... Mas isto não fica assim..,
quero informações precisas sobre o que se vai passar!
- Senhor... - disse Fernão, baixando a cabeça - ... podemos saber
informações através de Joaquim Munoz, que já enviámos para Portucale. Ele
vai manter-nos informados. Temos tudo controlado, estai descansado!
- Tenham cuidado! Quem traiu uma vez pode trair segunda. Não confio nesse
D. Joaquim! - disse Afonso de Castela e Leão. - D. Pedro Robera ( Nota 3)
tem-me colocado ao corrente... arranjem maneira de saber que passos dá
esse... pulha... - afirmou, balbuciando alguns palavrões, enquanto
cerrava os punhos e espumava de raiva.
O Conde de Sanabria tomou a palavra:
- Senhor D. Alfonso, se me permitis... Vossa Majestade... - disse,
gaguejando.
- Falai, hombre! - ordenou-lhe o rei.
- Vós sabeis que Afonso Henriques, para vos irritar, quis ter em Lisboa
um santo que rivalizasse com o nosso Santiago, assim aparece o S.
Vicente. Podíamos arranjar uns peregrinos que nos trouxessem informações,
Majestade... - disse, com um sorriso maquiavélico.
- Tu também rasas a estupidez, Ponce! Não é em Lixbuna, é noutro lugar e
não sei onde... os Templários sabem-no de certeza... Mexam-se seus
imbecis... mexam-se!

( Nota 3) - Mestre da Ordem do Templo em Castela Leão, entre os anos de


1152 e 1177.

Já se fazia tarde e El-Rei D. Afonso convidou-os para manjarem. Sobre a


mesa estavam grossas fatias de pão que iriam comer com vitela assada. Os
hábitos rudes faziam com que utilizassem as mãos no manjar da iguaria.
Regaram-na com vinho. O cheiro a cão sobrepunha-se ao da carne assada. Os
animais, com as patas, tentavam tirar os restos de comida do soalho. Como
estava frio tinha sido colocada palha no chão, mas esta estava impregnada
de diferentes cheiros.
- Então digam lá, suas cabeças buenas... o que vão fazer? - perguntava D.
Afonso, enquanto atirava um grande osso aos cães, que guerreavam entre si
rosnando e soltando alguns latidos.
Bernardo de Trava suscou os dentes com a língua, limpou a boca à manga do
gibão, bebeu um trago de vinho, arrotou, e disse:
- Bom, vamos organizar uma peregrinação a S. Vicente de Lixbuna, passando
pelo mosteiro de Cister em Al-Cobaxa, e vamos saber o que se passa... a
única maneira de sermos discretos é passarmos por gente do povo.
- Preocupem-se mas é com o que se passa à volta dos monges de Cister!!..
Nós também os cá temos e ouço muitas coisas! - disse El-Rei.
Subitamente um criado entrou na sala e segredou algo a Fernandizi.
- Que se passa hombre??? perguntou Sua Majestade, El-Rei D. Afonso, a
Ponce Fernandizi.
- Senhor D. Alfonso... chegou um emissário de Roma - respondeu-lhe o
anfitrião.
As duas portas do salão abriram-se de par em par. Um homem alto, esguio,
de barba rala, ar frio e distante entrou na sala. Ao ver aquele padre
vestido de negro, o rei teve um sobressalto. As botas negras ressoavam no
chão de madeira.
- Senhor D. Alfonso - saudou o eclesiástico, baixando ligeiramente a
cabeça, em tom de reverência. - Um só reino e uma só religião!... Posso
tomar lugar à vossa mesa? - perguntou.
O rei levantou-se e os restantes ficaram mudos de susto.
- Senhor D. fr. Raimundo, tomai assento disse o monarca.
O homem sentou-se e descalçou as luvas negras, que colocou em cima da
mesa. Enquanto comia frugalmente ninguém dizia palavra. Todos se olhavam
com desconfiança, sorrindo entre dentes. De repente o silêncio foi
interrompido:
17
- Que novas me contais desde a última visita? - perguntou D. Raimundo,
enquanto estalava os dedos das mãos.
- Bom, Senhor D. Raimundo... - O rei não se mostrou muito seguro.
- Não sabeis, Vossa Majestade?... Digo-vos eu. O herético do vosso primo
anda a fazer pactos com as trevas. Há vinte anos que nomeou um Bispo
Negro, um moçárabe e obrigou, à força da espada, o legado do Papa a
retirar-lhe a excomunhão. Em vez de esmagar os culpados da morte de Nosso
Senhor Jesus Cristo dá-lhes prerrogativas. Até tem um que lhe trata das
finanças. A Santa Igreja não está contente! - subitamente, deu um murro
na mesa, fazendo estremecer todos os presentes. - E os vossos druidas
galegos estão bons? - perguntou.
- Não tenho conhecimento que haja druidas e bruxas no meu reino... Ou
atreveis-vos a duvidar de mim?!!! - exclamou El-Rei D. Afonso.
- Claro que não, Majestade! - disse D. Raimundo, enquanto cofiava o
queixo. - Não vos esqueçais que faz frio e as fogueiras aquecem. É
preciso proteger os pescoços, podeis constipar-vos! - ameaçou, em tom
irónico.
- Mas ao que vindes?... Deixai-vos de histórias... - D. Afonso começava a
ficar perturbado com aquela visita.
- Venho avisar-vos, pessoalmente, para que cuideis bem de Compostela,
Majestade. É um lugar da igreja romanal... Tende cuidado convosco. Podeis
ser excomungado!... Não vos esqueceis que sem religião, não tendes reino,
Vossa Alteza.
- Mas, Senhor D. Raimundo, continuamos a praticar o Ordálio ( Nota 4 )-
ripostou o rei.
- Bem sei, D. Alfonso, bem sei Vossa Majestade... mas os portucalenses
têm documentos que devem ser destruídos! Lembrai-vos que antes de Roma
existiram mais três impérios, que se digladiaram, e o cristianismo ainda
não é a religião universal, Vossa Alteza! Os Templários sonham com um
novo império... o quinto... Começais a perceber-me Majestade ? O seu tom
maquiavélico soava de forma inequívoca.
El-Rei D. Afonso levantou-se lívido e disse:
- Senhores, vou retirar-me... tenho de ir para Zamora, portanto... boas
noites a todos! Senhor D. Ponce com a vossa licença... meus senhores...
- Acompanho-vos aos vossos aposentos, Majestade... afirmou Ponce
Fernandizi, o anfitrião. Os nobres soergueram-se e quando o rei saiu, e
voltaram a sentar-se.
Os irmãos Trava aproveitaram o momento:
- Nós também saímos. Já se faz tarde! - disseram.
Fernão virou-se para Bernardo e disse-lhe em sussurro:
- A nossa Galiza vai morrer às mãos dos Castelhanos! Começo a ter inveja
dos homens de Afonso Henriques!

(Nota 4 ) – Ordálio - Julgamento de hereges. Técnica de execução pela


água e pelo fogo. O clero oficial esperava que o clamor popular
entregasse os hereges para julgamento.
19

Capítulo 2
O REENCONTRO
Dois anos depois, corria o ano da graça de 1159 e Gualdim Pais era o
Mestre da Ordem do Templo no reino de Portugal.
Nesse Domingo de Outono, tinha terminado a missa na Igreja de Santa
Maria, nas encostas da serra e o Mestre que tutelava Cintra ( Nata 5 )
orava em silêncio, quando Renato Moniz, seu escudeiro, o interrompeu:
- Senhor, perdoai-me... - curvou-se respeitosamente e continuou ...mas
chegou um emissário do rei. Aguarda lá fora e deseja falar-vos.
Gualdim, quase imóvel, sem mexer a cabeça, ergueu a mão em silêncio, num
gesto de recolhimento. Por hora, não queria ser interrompido.
- Digo-lhe que aguarde Mestre? perguntou Renato em voz baixa.
Gualdim moveu novamente a mão, continuando as suas preces em silêncio.
Renato curvou-se perante o altar, fez o sinal da cruz e saiu. Dirigiu-se
ao emissário que se encontrava junto ao adro e disse-lhe:
- Perdoai-me senhor, o Mestre pede que o espereis aqui fora.
O misterioso homem assentiu e Renato retirou-se silenciosamente. Já
tinham praticamente saído todas as pessoas da Igreja. Apenas alguns
grupos conversavam tranquilamente no exterior, entre vendedores
ambulantes, crianças descalças que corriam de um lado para o outro
soltando gargalhadas, belas damas que exibiam os seus dotes femininos,
que apesar de cobertos atraíam os olhares dos homens que passavam. Todo o
movimento caracterizava o ambiente daquela manhã solarenga de domingo.

( Nota 5 ) - Cintra (Sintra) já fazia parte dos Mapas de Ptolomeu e era


referenciada como «Montanha da Lua». «Sin» é um termo mesopotâmeo, que
significa Lua.

O jovem escudeiro colocou-se novamente junto da montada do seu senhor e


continuou a conversar com Abel. Os dois amigos tinham travado
conhecimento doze anos antes, em Lixbuna ( Nota 6 ) e sempre que se
reencontravam, partilhavam a mesma história, recordando o curto, mas
fraterno, passado que os unia.

Depois da conquista de Santarém, El-Rei D. Afonso Henriques dirigiu-se


para Lixbuna, em Abril de 1147, e iniciou um longo cerco à cidade. Não a
tratou como a Santarém, a ferro e fogo, teve antes o cuidado de preservar
bens e pessoas. Este precioso posto comercial tinha de ser mantido com as
suas características.
Renato, juntamente com seu pai, acompanhava o rei na conquista. Contava
apenas seis anos, apesar de aparentar mais idade do que na realidade
tinha, era ainda uma criança e a seu conselho, tinha posto de parte o
alaúde e pegado na espada. Era um jovem alto e franzino na sua
constituição, sensível e meigo, com uns enormes olhos castanhos
amendoados, que não escondiam o que de mais nobre lhe ia na alma.
Revelava já um espírito forte e uma coragem rara, que o tornavam capaz de
se bater pelos valores em que acreditava.
Sua Majestade El-Rei D. Afonso Henriques estabeleceu o seu posto de
comando no Monte da Graça. Eram de tal forma violentas as incursões e
tamanho o número de mortos, que mandou edificar duas zonas para
cemitérios, nas quais mandou erigir duas igrejas: dedicadas, uma a S.
Vicente e outra aos Mártires. Pediu apoio a vários cruzados que estavam
estacionados no Porto e se dirigiam para a Terra Santa. Em menos de um
mês estavam em Lixbuna colonienses, escoceses, flamengos, normandos e
ingleses. Todos ao serviço d'El-Rei. Tinha superado os 15.000 homens de
armas que se encontravam na Almedina. As forças eram de tal ordem, que
iniciou um período de negociações. Durante os sucessivos tratos de
tréguas e combates, os muçulmanos, comandados por Abu Ma famede trouxeram
reféns. Entre os homens, mulheres e crianças que foram entregues estava
Abel, um jovem judeu sefardita, que vivia na judiaria do local que viria
a ser a capital.
Renato ainda não tinha convertido o jeito de dedilhar o alaúde em

( Nota 6 ) - Lixbuna; Olisipo; Felicitas Júlia; Lissabona foram os nomes


atribuídos à cidade de Lisboa ao longo dos tempos.

manejo de armas. Tinha no peito mais coração que couraça. Foi-lhe


incumbida a vigilância dos reféns. Era necessário protegê-los das in-
tenções, por vezes duvidosas, dos cruzados. O cerco já durava há seis
meses, os colonienses amotinaram-se e queriam levar reféns para seu uso
pessoal. Renato ao ver um possante coloniense agarrar, pelo pescoço, um
rapaz que aparentava ter a sua idade largou a correr na sua direcção e,
concentrando em si toda a revolta que conseguiu, interpôs-se entre os
dois e disse-lhe:
- Para onde levais o refém d' El-Rei? Se lhe tocais trespasso-vos... juro
que o faço! - disse com bravura e valentia, mal conseguindo suster o peso
da lança que empunhava em tão tenra idade. Os seus olhos chamejavam, mas
as mãos tremiam-lhe!
O homenzarrão ainda avançou na sua direcção... mas Renato não vergou com
a investida. Retirando as mãos de cima do rapaz, disse qualquer coisa que
este não percebeu e retirou-se, balbuciando alguns palavrões. Os dois
jovens trocaram um olhar e Renato, nervoso, correu para um canto e chorou
de raiva. Não estava habituado aquelas lides... era ainda muito jovem e
encarava o seu primeiro confronto. Foi a primeira vez que se cruzou com
Abel. Mal sabia por esta altura que ainda haviam de se voltar a
encontrar. Recomposto, contou o sucedido a seu pai, que posteriormente
informou o rei.
- Senhor meu Rei, alguns dos cruzados começam a perder o controlo, tendes
de tomar uma atitude! O meu filho conta que maltratam mulheres e crianças
sem olhar à sua condição... ainda agora um jovem da sua idade foi
agarrado pelo pescoço e arrancado à família... sabe-se lá com que
destino... não fosse o meu filho interpor-se...e... só Deus sabe senhor!
D. Afonso Henriques mandou chamar os chefes dos cruzados e num tom
áspero, disse-lhes:
- Bons homens, vos afirmo por Nosso Senhor Jesus Cristo que antes prefiro
retirar o cerco a combater nestas condições! A palavra aqui é minha.
Soltem os reféns, preparem as torres e comecemos o assalto. Quem me
desobedecer será tratado de pior forma que os sarracenos!
Depois de conquistada Lixbuna a 21 de Outubro, uma terça feira,
estabeleceu-se o acordo de rendição e os termos da entrega deste novo
território conquistado, o que veio a acontecer no dia 25 de Outubro de
1147.
23
Abertas as portas da cidade formou-se o cortejo solene. À frente ia D.
João Peculiar, Arcebispo de Braga e Primaz das Espanhas, amigo e
conselheiro de D. Afonso Henriques, seguido do restante clero, com o
estandarte da Cruz do Senhor. Compunham a comitiva real os que, estando
com o rei, tinham sido escolhidos para o acompanhar; entre eles estava
Fernão Afonso, de sete anos, filho primogénito do rei, nascido da união
com D. Flâmula Gomes, viúva de D. Paio Soares, irmão de D. Pêro Pais,
Alferes-mor do reino, antes de casar com a rainha Mafalda de Sabóia e
Gualdim Pais, cavaleiro templário.
Celebrada a missa no terreiro da Alcáçova, o estandarte da cruz foi
colocado no topo da mais alta torre da barbacã, para que, de toda a
parte, fosse visto como símbolo do domínio da cidade. O rei passeou a pé
pelas muralhas da cidadela. Renato, sempre junto de seu pai, Mestre de
armas, seguiu com a comitiva.
Durante o percurso, qual não é o espanto d'El-Rei D. Afonso Henriques ao
verificar que alguns cruzados saciaram os apetites, saqueando o que foi
possível, arrombando portas e entrando no interior das casas, destruindo
roupas e utensílios, violando mulheres e tratando as virgens
vergonhosamente, contra o juramento que antes haviam prestado junto da
sua pessoa.
- De quem foi mister este trabalho? perguntou Sua Majestade. Raimundo
Moniz, o pai de Renato, chegou-se junto do rei e afirmou:
- Senhor, contra o que vós determinastes e contra o direito divino e
humano, os colonienses e os flamengos agiram desta forma, abandonaram a
cidade e regressaram às suas terras.
Afonso Henriques olhou consternado à sua volta, e verificou que os
cruzados normandos e ingleses permaneciam firmes nos seus postos,
conforme determinado, preferindo manter as mãos limpas. Tomou então a
palavra e disse:
- Aqueles que quiserem ficar podem fazê-lo extramuros, na encosta de
Poente. Montai guarda aos celeiros desta praça-forte! e continuou, logo
estabelecendo a forma como a guarnição árabe deveria deixar o castelo.
Os dias eram cada vez mais curtos e sentia-se ainda a humidade da chuva
que caíra miudinha durante quase toda a tarde, deixando as estreitas ruas
cheias de lama até à altura dos tornozelos.
Estava uma noite de lua cheia. Com o cair da penumbra, a comitiva real
tinha-se instalado no Alcáçar (7 ), tendo ficado na guarda da cidade uma
guarnição de companheiros de armas chefiados por Raimundo Moniz.
No acampamento tudo estava silencioso. Distinguiam-se apenas os contornos
das tendas de campanha, iluminadas pela luz ténue das candeias e os
vultos das sentinelas que guardavam a tenda real, agora desabitada.
Renato teve curiosidade de verificar a degradação da cidade. O seu dever
a isso o obrigava - ajudar os mais fracos. Do alto do Monte da Graça
observava o castelo que tinha por fundo o Tejo. A noite estava chuvosa,
mas o céu achava-se limpo, iluminado pelo grande astro branco.
Cobriu-se com a capa que a mãe lhe oferecera antes de morrer e com o
calor da sua respiração, tentou aquecer as mãos que lhe congelavam. Um
suspiro brotou-lhe do pensamento, sentia saudades dela agora que estava
sozinho com seu pai. Faltava-lhe a alegria daquele sorriso jovial, que
conservava em memória no seu coração. Tinham já passado dois anos, e
parecia ainda sentir o cheiro do pão quente acabado de cozinhar no forno
a lenha e dos petiscos que inundavam a casa de satisfação... mas quis o
destino que assim fosse... e contra isso ele nada podia fazer.
Entrou pela porta oriental e nas ruas da Al-harrm ( 8 ), viam-se aqueles
a quem a sorte não sorriu; homens e mulheres pobres, velhos moribundos e
algumas famílias desalojadas, buscando o consolo de uma noite aquecida.
Alguns conseguiram salvar parte dos seus haveres, outros haviam perdido
tudo e olhavam, desolados, as chamas que lhes consumiam as casas. Choros,
tristezas e mágoas conjugavam-se num cenário de desespero.
Ao passar por uma rua junto à mesquita, onde estavam os feridos, doentes
e mortos, ouviu um canto de lamento, em tom monocórdico, dentro de uma
casa pequena situada junto à muralha. Atraído pelo som, aproximou-se da
porta e reparou no umbral que tinha um desenho em forma de estrela, com
seis pontas. Abriu a porta de madeira lentamente e viu uma família em
volta de uma mesa, frente a uma

(7). Alcáçar- Residência do governador muçulmano.


(8). Al-harrm - O topónimo Alfama é frequentemente atribuído à evolução
do árabe Al-harna, que significa fonte termal, embora não haja consenso
quanto à origem etimológica.
25
lareira. O lume crepitante trouxe-lhe boas recordações. Podia ver um
homem mais velho, a quem as rugas carregadas faziam transparecer algumas
mágoas, mas também sabedoria. Junto dele reconheceu o jovem de pele clara
e cabelo escuro, que tinha salvo das mãos do coloniense nesse mesmo dia.
Entreolharam-se e num gesto automático, Renato fechou a porta lentamente
procurando não fazer barulho.
Desceu a encosta mais um pouco e sentiu o calor da fonte de água quente
nas alcaçarias. Aproximou-se, pôs as mãos na água e colocou-as, quentes,
debaixo dos sovacos. Ouviu um barulho... os patrulheiros faziam a ronda.
Acompanhou-os até ao acampamento e deitou-se.
Uns anos depois encontrava-se em Cintra com seu pai, que tinha passado ao
serviço de Gualdim Pais, por recomendação d'El-Rei.
Depois do cerco à vila de Cintra, os habitantes fizeram a entrega da
cidade a D. Afonso Henriques, juntamente com a guarnição, sem
derramamento de sangue.
Agora, a viver no topo daquela serra que tinha a forma de uma bola, como
um coelho, altar de vários cultos, sentia que podia tocar no ar, na terra
e no mar. Ao conviver com tanta gente diferente, o seu coração sentia-se
cheio!
Certo dia, numa manhã de neblina em que tudo parecia imerso num fino véu
de mistério, uma vontade súbita atravessou-o. Ao acordar, dirigiu-se à
janela do seu quarto e viu dois pássaros chilreando num galho solto que
se amontoava junto à lenha no pátio; sorriu. Passou a cara e o pescoço
por água e vestiu-se rapidamente, saindo de rompante, quase tropeçando no
banco em madeira que se encontrava junto à cama. Era quase um homem
feito. Tinha-se transformado num belo e promissor jovem.
Sentindo-se sereno e em paz com o mundo, sentiu um forte apelo de sair e
cavalgar nesse dia. Desceu a encosta do castelo, passou pela gafaria e
dirigiu-se ao castro de Santa Eufémia, descendo pelo caminho da ermida de
S. Lázaro. Acalmou o passo, puxando as rédeas do cavalo e encostando os
calcanhares ao animal, deteve-se um pouco, reparando no movimento de
pessoas do campo, logo voltando a retomar o caminho, galopando em sua
direcção. Os pregões anunciavam dia de feira.
O cheiro húmido da bruma, agora mais dissipada, misturava-se com o aroma
das frutas, e distinguia-se na profusão de vozes que ressoavam do
mercado, o riso inocente dos catraios.
A sua presença junto do comendador da vila, bem como a sua maneira de
ser, tinham-no tornado numa figura popular junto dos vicus (9 ). As
pessoas eram as mesmas, as crianças de cara suja de terra brincavam à
volta dos cestos, as mais pequenas dormiam envoltas em cobertores. Olhou
em volta, mantendo-se em cima do cavalo enquanto acompanhava serenamente
o seu passo cadenciado e notou sim que havia uma coisa diferente, uma
tenda árabe com tecidos. Aproximou-se e reparou numa coberta semelhante a
outra que vira sua mãe bordar, para acompanhar o seu pai nas campanhas.
Eram cores diferentes, alegres. Mais uma vez a sua curiosidade impeliu-o
para a descoberta. Um monge de branco (10 ) negociava tecidos.
Reconheceu-o de imediato.
- Irmão Antunes Duval, por aqui? Também hoje descestes ao povoado?
perguntou Renato, com um sorriso, apoiando os pulsos na cela do cavalo.
Oh... jovem Renato... bons olhos te vejam rapaz! Sabes, o frio assim me
obriga. As esteiras de palha não são suficientes e gostava de tapar as
frinchas das portadas da janela. O meu amigo Abel tem uns preços óptimos!
Mantendo-se em cima do seu cavalo, com os punhos sobre a cela e a
expressão curiosa, Renato aproximou-se de Abel, abordando-o com um certo
ar de familiaridade.
- Conheço-te? O teu olhar não me é estranho! Parece-me que já nos
cruzamos!
Jovem senhor; se bem me recordo, numa noite de Sábado
entraste-me pela porta adentro. Não te lembras? Já foi há uns tempos...
mas a minha gratidão para contigo é maior! respondeu-lhe Abel, olhando-o
directamente nos olhos, com uma simpática expressão de agradecimento.
Para comigo? Gratidão? Como assim? inquiriu Renato,
com espanto.
Senhor, foi em Lixbuna. Salvaste-me das mãos de um cruzado...
não te lembras? Nessa mesma noite eu e a minha família cumpríamos o
preceito do Sábado. Nunca cheguei a ter uma oportunidade para te
agradecer... é curioso voltarmos a encontrar-nos! Olha, este é o meu tio
Abraão, que também estava comigo... como te chamas tu?
(9). Vicio - Vizinho s: associação de vilões que tinham deveres civis e
militares para com o rei.
(10). Alguns monges de Cister foram o apoio espiritual das cruzadas e dos
templários.
27
Renato ergueu o sobrolho numa expressão de curiosidade e, soltando uma
gargalhada, levantou a perna esquerda, passando-a por cima do pescoço do
cavalo, e deu um salto para o chão ficando mesmo em frente de Abel.
Cumprimentou o homem mais velho com uma vénia respeitosa e dirigiu-se ao
jovem:
- Renato... chamo-me Renato Moniz... e tu? O que fazes aqui?
- Sabes senhor, a minha família chegou cá quando a Torah ( 11 )era livro
único entre nós, os Judeus. Depois, alguns mercadores da minha parentela
seguiram a mensagem do Profeta (12), mas não deixaram de ser a minha
estirpe.
Os dois jovens cumprimentaram-se num abraço fraterno e ficaram a
conversar por longos minutos.
- Chamo-me Abel... ainda bem que nos encontramos de novo, Renato.
Com dois cobertores debaixo do braço, o monge cisterciense afastou-se.
Tinha dado por hem empregue o uso de duas moedas. Renato e Abel
continuaram a conversar.
- Para onde vais? - perguntou Abel.
- Vou lá acima ao castro de Santa Eufemia, tenho saudades de ver Lixbuna.
Nunca lá foste?
- Não!!! Não conheço!
- Então monta comigo no meu cavalo e subimos os dois. As nuvens estão a
desaparecer e como paira no ar uma bruma húmida, a paisagem é bem bonita.
E assim iniciaram uma longa e bonita amizade, marcada por inúmeros
encontros e desencontros, que durariam toda a vida.

Capítulo 3
O MENSAGEIRO
Naquele dia de Todos os Santos tinha-se celebrado um Te Deum (13) na
Igreja de Santa Maria de Cintra e o cheiro a incenso ainda pairava no ar.
Tal era a frequência de pessoas nas celebrações litúrgicas que muitas
vezes, o incenso tinha a função de purificador do ar.
Gualdim Pais, sexto Mestre dos Templários portugueses (14), tinha
dedicado uns momentos de silêncio e oração à memória do seu antecessor D.
fr. Pedro Arnaldo. Este falecera um ano antes, no dia de São João, em
combate contra os muçulmanos, aquando da primeira tentativa de conquista
de Alcácer do Sal, durante a escalada às muralhas. Gualdim estivera com
ele nesse dia fatídico, tendo lutado juntos ao lado d'El-Rei D. Afonso
Henriques.
Lá fora, o mensageiro aguardava, enquanto apreciava o magnífico trabalho
de escultura do pórtico da igreja. Era lindíssimo; todo ele em pedra, com
um frontão triangular, onde se inscrevia um arco contra-curvado,
suportado por cinco colunas, duas de cada um dos lados da entrada e ao
centro da porta, um mainel ( 15 ), imediatamente abaixo da intercepção
dos dois tramos dos arcos; quase a construção de um triângulo apoiado por
cinco colunas.
Renato e Abel detiveram-se junto do pequeno adro. O jovem escudeiro ouviu
o barulho das esporas nas lajes de pedra da igreja e ficou atento:
- O Mestre aproxima-se! - pensou.
Quase de imediato, em passo cadenciado, Gualdim Pais surgiu à porta da
igreja, do lado direito do parte-luz. Era um homem alto e a

(11). Torah - Livro sagrado dos judeus. Corresponde aos cinco primeiros
livros do Antigo Testamento, onde são narrados a história do mundo, a
história dos homens, os manda-mentos divinos e as relações entre o homem
e o divino.
(12). Profeta Maomé.
(13). Te Deum - Missa de acção de graças.
(14). Os templários estabeleceram-se no Condado Portucalense por volta de
1124 e até D. fr. Pedro Arnaldo, os Mestres foram franceses e
borgonheses.
(15). Mainel ou parte-luz - Coluna colocada no meio do vão de uma porta.
29
sua pose impunha respeito. Sobre a cota de malha tinha uma túnica branca,
com uma cruz vermelha arredondada sobre o peito. Exactamente o mesmo tipo
de cruz que o mensageiro trazia no seu escudo. Ajeitou a capa branca de
lã cardada e colocou-a sobre os ombros.
Senhor, é este o mensageiro - disse-lhe Renato, segurando as rédeas do
cavalo.
Gualdim cumprimentou-o com um forte aperto de mão e subiu para o animal.
O outro homem acompanhou-o.
Renato, não identificando o mensageiro, notou alguma familiaridade entre
ambos. Quem seria o misterioso homem? - pensava.
Os dois cavaleiros seguiam par a par. Renato e Abel, ligeiramente mais
atrás. Tomaram o caminho que levava à fontinha da Sabuga e desceram uma
alameda com plátanos frondosos.
- Que novas trazeis d'El-Rei, meu bom Lopo? - perguntou o Mestre, com
visível entusiasmo.
- Trago uma missiva e saudações corteses. E vós, como tendes passado D.
fr. Gualdim Pais? - perguntou Lopo Fernandes, com respeito e reverência.
- Recomendo-me!
A neblina tinha acalmado e o sol parecia querer surgir a medo. Os
cavaleiros prosseguiam caminho e Lopo Fernandes continuava a conversa com
Gualdim Pais.
- A lápide que ordenastes que fosse colocada em Santa Maria da Alcáçova,
onde repousa D. fr. Pedro Arnaldo, está concluída senhor. Tal como
determinastes, assim se colocaram os dizeres:
ANNO AB INCARNATIONE MCL IV AB URBE ISTA CAPTA VII. REGNANTE D. ALFONSO
REGE COMITIS HENRICI FILIO, ET UXORE EJUS REGINA MAHALDA: HAEC ECCLESIA
FUNDATA EST IN HONOREM S. MARIAE VIRGINIS, MATRIS CHRISTI, A MILL TIBUS
TEMPLI HIEROSOLOMITANI, JUSSU MAGISTRI UGONIS: PETRO ARNALDO AEDIFICH
CURAM GERENTE.
ANIME EORUM REQUIESCANT IN PACE. AMEN.
- « No ano do Senhor de 1154, e havendo sete anos Que esta cidade se
ganhara, reinando El-Rei Dom Afonso, filho do conde Dom Henrique e sua
mulher a rainha Dona Mafalda, foi fundada esta igreja em honra de Santa
Maria Virgem Mãe de Cristo, pelos cavaleiros do Templo de Jerusalém,
mandando o Mestre Hugo, e tendo dirigido a construção Pedro Arnaldo. Suas
almas descansem em paz. Amen.»

- Folgo em sabê-lo. Paz à alma do nosso Mestre e irmão! disse Gualdim,


benzendo-se e baixando a cabeça em sinal de pesar, gesto que Lopo
Fernandes acompanhou.
- Mas dizei-me bom Lopo, o que vos trás a estas paragens? - inquiriu o
Mestre.
Ao chegarem ao Paço, cedido pelo rei para residência de Gualdim
Pais, moços de estrebaria agarraram os cavalos para que se apeassem.
- Acompanhai-me então, para que falemos sobre essa missiva. Gualdim
notava no ar algum gosto de mistério. Conhecia perfeita-
mente o rei e sabia que aquela visita não poderia ser um acaso. Algo
de novo começava a soar!
Era agora no antigo Alcáçar Walli que Gualdim Pais vivia. Subiram a
escada e dirigiram-se para a sala de refeições. À frente da lareira
crepitante estava uma robusta mesa de madeira e algumas cadeiras de
permeio. Pendurados sobre a lareira, encontravam-se dois estandartes
brancos com cruz de Cristo em azul; era o pavilhão do Senhor D. Afonso e
ao seu lado, a balsa' templária. Distinguia-se claramente a insígnia
rectangular, dividida em dois campos horizon-tais, sendo o inferior preto
e o superior branco, tendo no meio a cruz templária, salientada a
vermelho.
No salão existiam duas filas de janelas, uma de onde se podia ver o
castelo e outra, com vista desafogada até à várzea.
Gualdim estava de pé e, de olhos postos no infinito, olhava o castelo,
pensativo.
- Que mistérios nos contemplam, amigo Lopo? Que mistérios???..

(16). Em Santarém - Sede dos templários, logo a seguir à conquista da


cidade.
(17). Balsa - Bandeira Templária.
- Senhor, o que está em cima também está em baixo. Dizem que o castelo é
uma das cem portas do reino de Agharta (18).
- Eu sei Lopo, eu sei... falta-nos a palavra certa para acedermos ao
império da sabedoria subterrânea... mas vinde sentar-vos, assim falaremos
sobre essa missiva de que sois portador. Aqui estaremos em segurança -
disse Gualdim Pais, enquanto ordenava a Renato que fechasse a porta.
Os dois homens sentaram-se junto à lareira, ficando Renato de pé, a uma
distância respeitosa. Aquilo que o Mestre tinha dito ecoava-lhe na
cabeça.
Lopo Fernandes lançou um olhar ao jovem e, enquanto se dirigia a Gualdim,
buscava sinais de confiança que lhe permitissem realizar a sua missão. -
Mestre... o assunto que aqui me traz reveste-se de al-gum secretismo,
tenho orientações precisas para o comungar apenas convosco, senhor.
- Renato... - disse Gualdim, com voz calma - ... aviva o lu-me e senta-te
connosco. Sabes amigo... - afirmou para o mensageiro - ... o pai de
Renato era Mestre de Armas d'El-Rei D. Afonso e encarregou-me da sua
educação antes de morrer. Deus o guarde era um bom homem! Não vos
preocupeis com ele... podeis falar, estimo-o como a um filho.
- Pois bem meu bom Mestre, como sabeis o nosso Rei tem a preocupação de
consolidar o território. Depois das vossas campanhas no Egipto e na
Síria, El-Rei D. Afonso necessita de vós para algo grandioso! - os olhos
de Lopo Fernandes brilhavam e, ao fitar o Mestre, aumentava a imensa
curiosidade deste.
- E o que espera o Rei de mim?... Falai homem de Deus!
- Tomai - proferiu o mensageiro. E entregou-lhe um rolo de pele de porco,
no qual se via claramente o emblema real, com um manuscrito dentro.
Gualdim pegou no canudo de pele desenrolou-o, olhando surpreso para Lopo
Fernandes. Em silêncio leu o documento... e estacou.
Renato estava curioso. Não podia conter o visível entusiasmo... durante o
tempo que passara com o Mestre, desde que o pai faleceraquando contava
catorze anos, nunca tinha sido assistido a nada semelhante. Gualdim Pais
nunca lhe permitira participar assim em assuntos da máxima importância,
muito menos em matéria que envolvesse Sua Majestade. Quando vivia com o
pai tornara-se perspicaz o suficiente para compreender a natureza dos
acontecimentos, mas daí a deixarem-no participar deles... era um homem
feito, é certo... fazia dezoito anos nesse mesmo ano... talvez tivesse
chegado a sua hora, também, de provar a devoção que mantinha por aquele
Mestre que tanto já lhe dera. Talvez... - pensava.
- Reconstruir uma igreja?!!! - exclamou, de repente, Gualdim,
estupefacto, depois de ter lido a mensagem contida no manuscrito. - Em
Nabância(19) ?!!!
Gualdim Pais continuou a ler e a sua expressão tornou-se mais séria
ainda. Deu dois passos em direcção à luz e repousou, por breves minutos,
o olhar pensativo no castelo que se avistava lá ao longe, através de uma
das janelas do salão.
Os olhares dos dois homens que o acompanhavam com a presença naquele
salão recaíam sobre si próprio.
- Será que...? - o relinchar dos cavalos lá fora interrompeu-lhe os
pensamentos. Um homem embriagado caíra nos bebedouros, onde os animais
saciavam a sede, e provocara uma algaraviada de risos e comentários, que
vinham da rua.
- Renato... - falou o Mestre num tom decidido conduz o nosso convidado às
cozinhas. Que lhe seja servida uma refeição e concedido descanso. Quero
ficar a sós!
O jovem escudeiro levou o homem a uma cozinha farta, onde sobressaíam as
cores e paladares do campo. Num pequeno alguidar de madeira, podia ver-se
o tom rosado das amoras silvestres, noutro um pouco maior, a frescura das
verduras, noutro ainda o peixe seco variado e pairando no ar, um saboroso
aroma a galo do campo assado.
O mensageiro sentou-se e, duas mulheres fortes, de faces rosadas e
atributos salientes, colocaram-lhe sobre a mesa pratos e copos de barro,
onde lhe verteram, de uma quartinha, um aromático vinho de Collares.

(18). Agharta - Reino Subterrâneo, composto por cidades míticas, ligadas


através de túneis, cuja capital é Shambalah (símbolo do centro do mundo)
onde, segundo a tradição oriental, vive o Rei do Mundo.
(19). Nabeincia, Theodomuar, Thanrar ou Sellium são os nomes que tomou a
cidade de Tomar ao longo dos tempos.
33
A comitiva de D. Henrique de Borgonha tinha-se feito acompanhar, desde
Dijon, de alguns oleiros e ceramistas, por isso, no conda-do, desde cedo
as refeições começaram a ser servidas em pratos.
Entretanto no salão, Gualdim imobilizava-se junto à janela... não tinha
manifestado todo o conteúdo da missiva. Estava apreensivo. Olhou
novamente para o manuscrito que segurava nas mãos. Enquanto lia e relia
as palavras de Sua Majestade andava em círculos pela sala, detendo-se, de
quando em quando, junto à janela. Seguido do selo do monarca, de leitura
quase imperceptível, via-se escrito Santa Maria e imediatamente abaixo,
via-se o desenho de uma serpente no qual estava assinalada a letra "M",
tudo no canto inferior direito.
- O Abraxas! pensou Gualdim, recordando a sua passagem pelo Egipto, onde
tomara contacto com as crenças gnósticas. Já tinha visto um selo
semelhante àquele no qual figurava uma personagem com cabeça de galo,
cujo corpo estava coberto por uma armadura, do qual saíam duas serpentes
em vez de duas pernas, cada uma com duas cabeças. Mas esse era um dos
símbolos secretos da Ordem. A cruz figurava nele por cima do ser com
cabeça de galo e era acompanhado da inscrição Secretum Templi.
Cria-se que o Abraxas dava vigilância, poder e sabedoria. Aquele que
anuncia a chegada da Luz, a personagem com cabeça de galo, era aqui
representada como o «despertado». Mas a serpente... - pensava ele ... era
o símbolo da salvação, que Moisés tinha colocado sobre um pau. Quem
olhasse para ela seria salvo do seu infortúnio. Era a protectora da
sabedoria escondida. A serpente... letra "M"... qual seria o objectivo do
rei? Teria por certo a ver com o reino... a Ofiusa... a terra da serpente
- pensava Gualdim, em silêncio.
- Temos de partir quanto antes... tenho que reunir a comparsaria, e
preparar a viagem. Não há tempo a perder, quero ver se partimos em menos
de uma semana! disse para si, Gualdim Pais, enquanto se dirigia à porta.

Hugues de Payns havia chefiado alguns anos antes um conjunto de


cavaleiros, ordenados para o seu serviço, renunciando ao mundo e

(20). Na época era frequente utilizar a côdea do pão, como prato.

consagrando-se a Cristo, na protecção dos peregrinos e da Cidade Santa de


Jerusalém. Entre esses homens que se dirigiam ao monte Moriah estavam
André de Montbard, Geoffroy de Saint-Omer,, Hugues Rigaud, Archambaud de
Saint-Aignan, Nivard de Montdidier, Rossal, Geoffroy Bissol e Gondomar
(21), que se presume ser português. Dirigiu-se à Terra Santa, nesta
cruzada, um grupo de nove cavaleiros, todos homens veneráveis. Tomando o
tríplice voto de Castidade Pobreza e Obediência, dedicaram as suas vidas,
dali até à morte, à protecção dos peregrinos e à garantia do Reino de
Cristo. Foram mais tarde chamados «os Cavaleiros do Templo de Salomão»,
ou simplesmente «os Templários».
A nobre missão destes nove homens foi dignificada com a atribuição de
terras e benefícios por parte de reis e cónegos, para proverem às suas
necessidades, merecendo o reconhecimento elo patriarca de Jerusalém, às
mãos de quem prestaram juramento de obediência. O então novo Rei de
Jerusalém, Balduíno Il, que sucedera seu primo Balduíno I, logo viu na
atitude dos nobres e valorosos cavaleiros algo de grande valor e
importância.
O Concílio de Troves, trouxe-lhes a «Regra» e o «hábito branco», símbolo
de inocência, no qual foi inscrita a cruz vermelha, pelo martírio. Por
outro lado, também se sabe que estes nove cavaleiros entraram muito
poucas vezes em campanha, enquanto estiveram na Terra Santa.

Gualdim assistira, em Braga, ao juramento d'El-Rei D. Afonso Henriques,


familiar em segundo grau de Hugues de Payns e do Abade de Claraval. Era
ainda companheiro de Pedro Afonso, filho bastardo

(21). Há algumas divergências nos diversos autores consultados,


relativamente à designação dos nomes dos nove cavaleiros. Assim sendo.
adoptamos a designação explicita na obra de Michel LAMY.OsTemplários -
Esses Grandes Senhores de Mantes Brancos. Lisboa, Editorial Notícias,
2000.
(22). Há alguns autores (Cf. José Manuel CAPELO, Portugal Templário
Relação e Surgis são do.s seus Mestres (1124-1314], Arion Publicações.
Lisboa, 2003) que fazem referência ao cavaleiro e 5° Mestre da Ordem do
Templo em Portugal, D. fr. Pedro Arnaldo, como sendo o nono cavaleiro:
Gondomar, provavelmente, visto ser natural desta terra, ao que tudo
indica, e haver documentação que se refere a um dito cavaleiro D. Arnaldo
Ida Rochaj, que poderá guiar-nos até à sua pessoa.
35
do monarca e Mestre de Avis (23). Sabia que o rei tinha uma missão maior.
Sua Majestade queria encontrar-se com ele em Al-Cobaxa (24)!
O seu olhar era agora de esperança. Estava na hora... tinha chegado o
momento... a sua missão começava aqui! Estando certo do seu dever para
com o rei e dos ideais que juntos partilhavam e defendiam, começou a
preparar mentalmente a viagem. Necessitava de pessoal para trabalhar e de
um Mestre canteiro.
Mandou chamar o seu capitão da guarda e ordenou-lhe:
- 0 Mestre Abraão que se apronte! Preparai uma guarnição de homens e
mandai-me chamar o meu pajem.
- Sim Mestre, farei como ordenais! e retirou-se, com uma vénia.
Alguns minutos depois, Renato abeirou-se da porta e perguntou se podia
entrar.
- Entra Renato... - disse-lhe Gualdim, franzindo a testa - ... quero
falar contigo.
Depois de uma breve pausa continuou. - Em breve farás dezoito anos; és já
um homem feito! Demonstras bravura e valentia... também inteligência...
características que fazem de ti um bom e gentil-homem.
- Obrigado, senhor disse Renato, com um enorme orgulho e alguma timidez.
- Estás há algum tempo junto de mim; tenho acompanhado a tua educação,
conforme me pediu teu pai... paz à sua alma... mas ainda não estás
comigo! Já passaram quatro anos desde a sua morte, e sabes que delegou em
mim a responsabilidade da tua educação, pouco antes do seu passamento.
Ambos se benzeram, e Renato não escondeu algum pesar.
- Há muitas coisas que ainda não sabes a meu respeito... - continuou
Gualdim - ... mas que a seu tempo, te revelarei. Apesar de ainda não
teres sido armado cavaleiro, dominas já a lide das armas e reconheço em
ti outras características que serão úteis a este projecto do Rei. Estou
seguro de que serás capaz de honrar a minha escolha, quando o dever te
chamar. És filho de teu pai, um homem justo e virtuoso, e certo disso,
não tenho dúvidas que o destino se te revelará. Estás à minha guarda e
vais começar comigo uma viagem. Vais comigo para Theodomar!
- Theodomar, senhor?... aqui no condado?... mas... será uma viagem longa?
- O entusiasmo do jovem era bem visível.
- Sim Renato. Theodomar, Nabancia,.. ou Sellium são nomes para o mesmo
lugar. Os antigos chamam-lhe Theo - mar, o mar de Deus... conto contigo
Renato, meu jovem amigo? Estás comigo?
- Claro, senhor, acompanhar-vos-ei, se preciso for, até ao infinito.
Irei, se assim o desejardes. Estou convosco. Sois meu Mestre e Senhor,
farei o que vos aprouver! - Renato sabia que muitos perigos se iriam, por
certo, atravessar no caminho, mas estava confiante. Tinha fé.
Ambos levaram a mão ao peito em sinal de promessa, tocando os corações
com o punho fechado. Em breve começariam a viagem.
Gualdim Pais, com a sua voz forte e possante cantarolava, feliz, uma
melodia antiga. Sentia-se cheio de energia.

(23). A Ordem de Avis é dissidente da Ordem de Calatrava, que teve origem


em Espanha. Foi fundada por D. Afonso Henriques quando alguns frades se
radicaram em Évora, tendo ficado conhecidos pelos ,Freires de Évora» . Em
1211, D. Afonso II doou-lhes o lugar de Avis, e pensa-se que nessa época,
a ordem portuguesa já tivesse um estatuto independente embora continuasse
subordinada à castelhana.
(24). Al-Cobaxa - Designação árabe para Alcobaça.
37

Capítulo 4
Destino sombrio
O dia nascia, anunciando-se sombrio. Atiçado pelo vento, o fogo rangia
furiosamente, carregando os céus de uma atmosfera densa e alaranjada. O
fumo tornava o ar irrespirável.
Na granja de Turquel dos coutos de Al-Cobaxa alguns casebres eram
consumidos pelas chamas, deixando diversas famílias em alvoroço. As
pessoas da aldeia vizinha contemplavam, amedrontadas, o cenário de
terror, e comentavam os acontecimentos da noite anterior. Era já a
terceira vez esse ano que as populações de Turquel, Maiorga e Evora de
Al-Cobaxa se rebelavam contra a prepotência dos monges.
Supervisionados pelos irmãos conversos (26), que por causa da sua barba
comprida e bigode receberam a alcunha de «barbudos», homens e mulheres
eram explorados a troco de quase nada; trabalhavam para que o excedente
da produção agrícola enriquecesse a Ordem. Os ir-mãos conversos eram a
segunda comunidade do mosteiro. A sua função nos lugares conventuais era
de subalternidade estando-lhes destinados os trabalhos mais rudes.
No dia anterior, depois de uma tarde de provocações junto ao Mosteiro de
Santa Maria de Al-Cobaxa, em que as populações unidas, procuravam junto
da comunidade cisterciense (27) o apoio para os seus males e injúrias, a
tragédia aconteceu! Um grupo de camponeses
25. Existiam três tipos de monges: os noviços, que ainda não tinham
professado: os professos, que recebiam o hábito branco e faziam os votos
de pobreza, castidade e obediência e os conversos, que se caracterizavam
por usar barba, renunciar aos seus bens pessoais e fazer trabalhos
servis.

(26). Ordem de Cister.


(27). Os monges de Cister (Cistel) ou de Cluny têm origem nos
beneditinos. Cistel uma localidade ao Sul de Dijon, onde nasce o Conde D.
Henrique. Mantêm o mesmo lema dos seus antecessores ora lega et labora
(reza lê e trabalha).
40
Combinara juntar-se ao pôr-do-sol, no final dos trabalhos, armado de
utensílios agrícolas e carregando consigo a vontade de justiça que
animava os seus corações famintos. Vestiam roupagens pobres e defendiam
apenas as necessidades básicas que ansiavam proporcionar às suas
famílias. Tinham fome e os tributos que pagavam aumentavam
assustadoramente.
Ao fim de algumas horas de protesto, os homens de Maiorga, animados já
pelo vinho, começaram numa troca de violências verbais que acabaram em
conflito com as restantes gentes das granjas vizinhas. Sem explicação
aparente, num acto de deplorável desespero, viram-se, ao fim de breves
minutos, envoltos em acesas e inúteis escaramuças, resultando daí um
triste cenário de rostos ensanguentados, corpos feri-dos, roupagens
desfeitas e um cheiro de vingança que viria a encobrir as verdadeiras
razões do massacre que se aproximava.
Sancho Viegas, um camponês robusto, de carácter firme e decidi-do,
encabeçava a revolta do povoado de Turquel. O seu lavor era o trabalho do
ferro e demais metais. A sua impulsividade nem sempre lhe trouxera bons
augúrios, no entanto, era um homem capaz de lutar até ao seu limite pelas
causas em que acreditava e isso merecia a admiração dos restantes
aldeões. Já se habituara a contar com diversos inimigos, especialmente
aqueles que ficavam incomodados com o facto de ser irmão do Mestre dos
Conversos, fr. Martinho Viegas, monge de coro que chefiava as granjas de
Maiorga e Turquel.
Era também o camponês mais rico das redondezas, facto que estimulava
ainda mais invejas, dado que possuía terras suas e estava isento de
impostos. Tinha uma particularidade, ao que se dizia provocada por uma
antiga ferida de guerra que lhe tolhia os movimentos do braço esquerdo e
lhe valera a alcunha de «maneta» por parte dos aldeões.
Vivia junto de sua mulher, Carmen, e sua filha, Catarina, jovem de rara
beleza, cobiçada por todos os homens dos arredores pelos seus finos
traços e brancura cândida. O seu cabelo de fogo, comprido e ondulado,
contrastava com a pele clara marcada por sinais visíveis que, naqueles
tempos, eram considerados impuros. O azul cristalino dos seus olhos, no
entanto, em nada revelava essa impureza, de que tantas vezes tinha sido
acusada. No braço direito, a jovem transportava um sinal que, no dia do
seu nascimento, a condenara a um destino peculiar, profetizado ao ser
concebida naquele solstício.
Ao cair da noite Carmen limpava as feridas de Sancho Viegas, que chegara
a casa coberto de sangue em virtude das escaramuças junto ao mosteiro.
Catarina aquecia água para embeber as compressas que a mãe colocava nas
costas de seu pai.
- Mais devagar mulher! - protestava Sancho, que não disfarçava as dores,
percebendo-se na sua voz a irritação que lhe provocavam - Assim ainda me
esfolas a carne! Cuidado mulher, o meu ombro! As tuas mãos cortam como
lâminas!continuava a protestar.
- Já falta pouco... está quase... Catarina, essa água vem ou não vem? -
Carmen mantinha a calma. Já sabia que de nada adiantava exaltar-se,
especialmente na situação em que o marido se encontrava... só provocaria
maior irritação e agressividade.
- Vou a caminho, minha mãe... aqui está a água! - Catarina estava
apreensiva! Os acontecimentos da tarde tinham-na feito pressentir más
notícias.
- Ajuda-me filha, molha essa compressa e coloca-lhe o unguento enquanto
eu... - foram interrompidas por violentas pancadas na porta. - Quem será
a esta hora da noite?
- Quem está aí? - perguntou Carmen enquanto pegava instintivamente numa
forquilha. Ninguém respondeu e os fortes embates que ameaçavam arrombar a
porta voltaram a ecoar por toda a casa.
- Catarina, depressa... o alçapão... mete-te lá dentro... esconde-te!
ordenou, baixinho, Sancho Viegas, adivinhando que a insistente violência
das pancadas nada teria a ver com as escaramuças dessa tarde.
Levantando-se com algum esforço, Sancho, envolto em ligaduras, deixava
transparecer o estado de fragilidade em que se encontrava. Teve ainda
tempo de pegar numa adaga, na vã tentativa de defender a sua família,
quando quatro forasteiros, envergando capuchos brancos que lhes escondiam
os rostos e um manto que lhes cobria todo o corpo, invadiram a casa, tal
era a violência dos seus actos. Dois deles agarraram Carmen pelos braços,
deixando-lhe pouca manobra para se defender. Ainda tentou usar a
forquilha que segurava na mão, mas esta escapara-
-lhe com a pancada seca que os homens lhe deram na nuca e que quase a fez
perder os sentidos.
- 0 que quereis de nós?... É a mim que procurais? Largai-a! - Sancho,
apesar da fraqueza, não se deixava vencer pela derrota.
- Onde está a rapariga? - perguntaram os atacantes. - Diz-nos! Onde está
a rapariga?
- Nuncal... nunca vos direi! Largai essa mulher se sois homens! Levai-me
a mim! Deixai-a ir em paz e tomai-me a mim! - Sancho Viegas continuava a
lutar.
- Onde guardais a chave dos mistérios? insistiam os agressores.
Carmen recuperava agora as forças. Apesar de cambaleante, foi arrastada
pelos homens até à mesa, derrubando, com o movimento do seu corpo, as
tinas que continham os unguentos e as compressas usadas momentos antes
para aliviar as dores de Sancho.
- Não... não... Largai-me! - Carmen tentava defender-se sem efeito. Os
homens levavam a melhor.
Catarina, escondida dentro do compartimento que ficava por baixo da casa
ouvia, aterrorizada, os gritos de seus pais. Uma nesga de luz entrava
pelas frinchas da madeira do soalho por onde podia espreitar e deixava-a
ver os homens que violentamente desrespeitavam a sua mãe e maltratavam o
seu pai. Conteve a custo um gemido de sofrimento, limpando as lágrimas
que lhe escorriam pela face abaixo. Viu a mãe ser brutalmente espancada e
violada e por fim, os braços inertes e o rosto inexpressivo, acusavam um
corpo já sem vida.
- Mãe... balbuciou, contendo o pranto.
Seu pai, sem forças, dominado por aqueles homens que o obrigavam a
ajoelhar, chamava em vão por Carmen.
- Procuramos a chave... diz-nos onde está!
- Qual chave? Não sei do que falais... replicava Sancho.
- Não zombeis de nós... a chave que trouxestes do Egipto... sabeis bem a
que chave me refiro! - insistiram os forasteiros, mostrando saber bem o
que procuravam.
Não sei ao que vos referis... largai-me! - Sancho mantinha-se firme.
- Diz-nos onde está a rapariga! Não pode andar longe. Diz-nos onde está!
insistiram os homens de capuz, ameaçando-o com uma espada.
- Nunca vos direi onde ela está! Nunca... ouvistes bem? Nunca! - disse
Sancho Viegas, vencendo todas as debilidades e continuando a lutar. Tinha
sangrado muito... a fraqueza apoderava-se dele... e o físico de um homem
de quarenta anos, naquelas condições, pouco podia perante os quatro
forasteiros.
O olhar de Catarina cruzou-se, por breves e últimos instantes, como de
seu pai, subjugado e em sofrimento, e a impotência perante tal situação
provocou-lhe uma angústia que guardaria até à morte. Contudo, tamanho
sacrifício não poderia ser em vão. Os pais davam a vida pela sua
segurança e, mesmo sem compreender o que se estava a passar, o seu dever
era pôr-se a salvo. Nada mais podia fazer por aquelas duas almas que eram
a razão da sua existência.
Em surdina, Catarina soluçava compulsivamente. Limpou mais uma vez os
olhos lacrimosos, acenando um último adeus ao pai. A sua tristeza era
profunda e ainda não digerira todas as imagens que se gravavam na sua
mente. As palavras daqueles homens ecoavam na sua cabeça... era atrás
dela que andavam... mas porquê? Que poderiam querer de uma simples
rapariga como ela? Falavam de uma chave... que chave seria essa? Não
compreendia! O medo tornara-se aterrador ao perceber que os dois homens
haviam assassinado o seu pai. Ouvira os seus passos em direcção à porta
e, de repente, tudo ficara silencioso.
Onde estará a rapariga? Vamos, vinde por aqui... não pode andar longe...
vamos procurá-la! exclamaram os carrascos que, não satisfeitos com a
chacina, antes de partirem, lançaram fogo à casa, provocando um corrupio
na vizinhança, que depois do troar do alarme na aldeia, se aproximou,
tentando perceber o que se passava.
Catarina apercebeu-se subitamente que estava encurralada na loja onde seu
pai guardava os víveres. Era impossível atravessar as chamas que
consumiam já toda a divisão. Sem alternativa, ajoelhou-se e rezou,
rogando a Deus que lhe desse forças para enfrentar toda a desgraça que
sobre ela se abatia.
Fr. Martinho Viegas, tio de Catarina, sabendo das contendas dessa tarde
resolvera visitar o seu irmão Sancho para saber o que se passara. Ao
chegar junto à casa onde este vivia foi surpreendido pelo fogo e pelo
frenesim da vizinhança que, tentava em vão combater as chamas. Foi de
imediato informado que se desconhecia o paradeiro da sua família. As
forças começavam a falhar-lhe. - O que teria acontecido? pensava. Foi
então que de súbito, se lembrou do túnel. Este fora escavado, uns anos
antes, por ele e pelo irmão, como resposta a uma eventual necessidade de
fuga. Será que a família se tinha refugiado aí? O que teria acontecido'?
Dirigiu-se assim, para o local onde se alcançava a entrada do túnel,
dissimulada por detrás de uma cascata, a fim de confirmar todas as suas
inquietações. Estava visivelmente consternado
43
e, segurando um rosário na mão direita, rezava fervorosamente enquanto
caminhava em passos apressados.
Catarina chorava baixinho e rezava encurralada na loja, por baixo da casa
dos pais.
O monge aproximava-se agora da entrada do túnel. Atravessara a queda de
água e alcançara a entrada, por entre as pedras cobertas de musgo.
Tacteando com as suas mãos as paredes húmidas da cavidade prosseguiu,
estranhando o facto de ainda não se haver cruzado com o irmão ou a
cunhada e receando o pior. Chegado ao final do túnel ajoelhou-se, e
procurou o acesso à loja da casa do irmão. Sem grande dificuldade
rastejou pela pequena abertura que se encontrava ao nível do chão,
afastando em simultâneo o pequeno baú que, anos antes, ambos lá haviam
colocado para encobrir a entrada.
Catarina, aterrorizada com o som do arrastar do baú, rezou ainda com mais
afinco, para que os caminhos do Céu se lhe abrissem, na hora em que
julgou ser descoberta pelos carrascos de seus pais.
Subitamente uma mão pousa sobre o seu ombro e uma voz familiar ressoa:
- Catarina, minha filha... estás bem? Os teus pais? O que se passou? -
fr. Martinho encontrara a sobrinha.
- Oh! Meu tio, ainda bem que vos encontro, pois já não posso mais conter
este sofrimento que sobre mim se abate!!! - e desaba num pranto, correndo
para os braços do monge, que a abraça com ternura. Por entre soluços e
breves palavras, Catarina relatou ao tio o sucedido.
- Minha querida Catarina! Que grande desgraça se abate sobre nós!!! - a
consternação do monge era visível.

Capítulo 5
A FUGA
Catarina e seu tio, fr. Martinho Viegas, seguiam agora o curso da
ribeira, aproveitando a escuridão que restava para não serem vistos. Para
trás ficavam as ruínas da casa consumida pelas chamas e a aldeia onde
Catarina vivera toda a sua vida.
As pernas fraquejavam-lhes, especialmente as de Catarina, ainda combalida
pelo choque. As urtigas picavam-lhe os pés e tornozelos, mas ela
continuava a caminhada, de mão dada com o tio, imune à dor, ao frio e à
fome. Pensava nos pais, na saudade que tinha deles. Estavam mortos. Já
nada havia a fazer!
- Catarina, tenho que te falar de um assunto... - disse o monge,
quebrando o silêncio e aproveitando o conforto de duas grandes pedras no
leito da ribeira, para descansarem e se refrescarem um pouco.
- Dizei, meu tio... havia na voz da jovem um tom de tristeza.
- Minha pobre Catarina... a tua vida corre perigo! Agora que teu pai já
não está entre nós tenho o dever de zelar pela tua segurança. Os irmãos
do mosteiro acolher-te-ão, e dar-te-ão alimento... mas... temos uma
pequena dificuldade...
- Dizei, meu tio...
- Não poderás revelar a tua identidade. Corres grande perigo... os homens
que mataram teus pais é a ti que procuram agora, filha... vamos ter de te
esconder.
- Oh!... Meu tio, explicai-me porque me procuram... falaram de uma
chave... porque corro perigo... explicai-me! Deveis-me isso, por Deus!
- Sim, minha filha. A seu tempo revelar-te-ei esses porquês... mas por
agora vamos deixar-te chegar ao final do nosso destino, para que repouses
convenientemente.
Catarina olhava para o seu braço direito enquanto caminhava. Os seus pés
tropeçavam nas heras que cresciam junto à ribeira e, ao olhar para baixo,
já nem se reconhecia nas vestes sujas e rasgadas. A marca
45
que tinha no seu braço tinha uma forma bizarra. Parecia uma constelação
de estrelas. Vários sinais acastanhados, juntos numa composição que
lembrava um homem caçador. Nunca percebera muito bem o significado
daquele símbolo a que o pai chamava Orion, muito menos o do crescente
lunar que tinha tatuado no pulso, mas sabia que os devia esconder bem,
para que não lhe fizessem mal. Tinha aquelas marcas desde que se conhecia
e, para grande desgosto de sua mãe, outros sinais que a condenavam. A cor
do seu cabelo já a incriminara diversas vezes da prática de bruxaria, e o
seu espírito rebelde confundido com uma certa luxúria, e até mesmo,
perversão. Diziam-lhe frequente-mente que os seus cabelos se assemelhavam
às chamas que ardiam no inferno, visão que a atormentava e que, durante
os anos de meninice, a levara por uma vez, a tingi-los de preto.
Tinham já alcançado a floresta, quando Catarina, esgotada por todos os
acontecimentos das últimas horas, implorou a seu tio que descansassem.
- Só mais um esforço, filha... em breve chegaremos ao nosso destino ! -
respondeu-lhe fr. Maninho.
Momentos depois, avistaram um pequeno casebre de madeira, debruçado sobre
a ribeira. Era um pequeno moinho de água onde uma mulher, envergando uma
expressão serena e confiante, os aguardava à porta.
- Chegámos! É aqui que deverás restabelecer-te, ficarás ao cuidado desta
amiga que tratará de ti, e quando estiveres capaz, retomarás a estrada
até ao mosteiro, onde os irmãos te acolherão e onde deverás procurar-me.
- Sim meu tio, assim farei!
Catarina olhava intrigada para aquela doce senhora de cabelos ruivos que
lhe segurava na mão e a tranquilizava. Havia nela algo de familiar.
Estranhamente, sentia-se bem com esta mulher que nunca vira.
Ao entrarem no velho moinho, Clara levou Catarina a um pequeno aposento
onde se via um grande alguidar de madeira, cheio de água, um jarro e um
pequeno móvel em cima do qual se encontravam alguns utensílios, tais como
um pente, uma escova, um espelho e uma navalha.
- Catarina, aqui tens tudo o que necessitas para te refrescares. Quando
terminares serás bem vinda à minha mesa - disse-lhe a estranha mulher,
estendendo-lhe uma velha toalha de linho. Foi nessa altura que Catarina
reparou num sinal que aquela mulher tinha no
46
braço e lhe era familiar. Agradeceu e, sem questionar, fez como Clara lhe
ordenou. Despiu-se, deixou as roupagens sujas no chão e enfiou-se dentro
da cilha, com vontade de se sentir novamente limpa.
- Há quanto tempo! - exclamou o monge, mal podendo acreditar que a
passagem dos anos não se tivesse feito notar no rosto daquela bela
mulher. Obrigada por nos receberes, Clara!
- Já sabia que vínheis. Aquilo que mais temíamos aconteceu, não foi?
- Sim, é verdade. Sancho e Carmen já não se encontram entre nós. Lamento!
Clara estremeceu perante a confirmação das suas premonições.
- Não me posso demorar... o importante agora é Catarina! Sancho nunca lhe
contou a verdade. É já uma mulher, tem o direito de saber. Penso que
deverás ser tu a contar-lhe, Clara.
- Não te preocupes, aguardei por este momento toda a minha vida!
Depois de ter tomado banho, Catarina reuniu-se-lhes no salão onde se
encontravam.
- Folgo em encontrar-te refeita, Catarina! - saudou o tio. - Partilha
connosco esta refeição, pois não posso alongar-me por muito mais tempo.
Tenho que partir.
À medida que recuperava um certo conforto, após o banho e a ansiada
refeição, reparou num móvel que exibia aquilo que ela julgava serem
instrumentos de magia: dois cálices, um contendo água, outro vinho, um
punhal, uma pequena taça com sal, uma varinha em madeira, velas de
inúmeras cores, um queimador de incenso que libertava o seu aroma
purificador por toda a divisão, mas reparou sobretudo no pentóculo que se
encontrava desenhado na parede. Parecia um altar. Junto à chaminé, via-se
um enorme caldeirão fumegante.
- Pretendeis abandonar-me aqui, meu tio? - exclamou em pânico, Catarina,
recordando-se das inúmeras situações em que fora acusada de práticas de
bruxaria.
- Minha filha, terás de confiarem mim. Peço-te! Nada te acontecerá de
mal. Em local nenhum estarás em tão grande segurança como aqui... na
companhia de Clara. Rogo-te que a oiças. Em breve compreenderás e serás
capaz de tomar as tuas próprias decisões.
Dito isto, o monge levantou-se, preparando-se para partir; olhou uma
última vez para Catarina e disse-lhe:
47
- Espero ver-te muito em breve no mosteiro.
- Ide em segurança, fr. Martinho, que a luz vos ilumine os passos - disse
Clara, num tom doce e melodioso.
As duas mulheres ficaram sozinhas.
- Que pretendia meu tio, ao dirigir-me tais palavras?
- Sossega minha filha, vai descansar. Teremos tempo para tudo. Agora
precisas de recuperar as forças.
Catarina nem teve tempo de rever os acontecimentos dessa noite. O sono
alcançou-a impiedosamente. Acordou após algumas horas, mais calma, com o
aroma da comida recordando-lhe a parca refeição daquela madrugada e o
misterioso local onde se encontrava.
- Dormiste bem?
Catarina com os olhos entreabertos assentiu, aproximando-se a medo da
estranha anfitriã.
- Vem, minha filha... não tenhas medo. Come qualquer coisa. Estou a
preparar um guisado que te irá saber bem.
Catarina retomou a confiança naquela mulher de cabelos ruivos e sentou-se
à mesa para comer.
- Vou ter de te cortar esse cabelo rapariga! - exclamou Clara, num tom
casual. - De hoje em diante não deverás revelar a tua identidade. É mais
seguro vestir-te com roupas de homem... se pareceres um rapaz, terás
maiores hipóteses de passar despercebida!
- Devo esconder-me? Vestir-me de homem? - perguntou Catarina,
horrorizada.
- Não levantarás suspeitas se assim for... uma mulher da tua idade a
viajar por aí sozinha está sujeita a males e perigos, dos quais deves
saber preservar-te. De outra forma, como entrarias no mosteiro de teu
tio? Não tenhas medo! Tu és forte Catarina!
- Mas não me conheceis... como podereis saber como sou? - Catarina estava
ainda desconcertada com o que lhe sucedera.
- Já te esperava, Catarina... já sabia que vinhas. O destino havia de te
trazer a mim novamente - Clara sorria, ao pronunciar estas palavras.
- Novamente? Como é possível já saberdes que ia chegar? Como?... -
Catarina estava bastante confusa, e os últimos acontecimentos tornavam-
se, eles próprios, mais confusos ainda.
- Antes de mais, temos que te arranjar um nome... tens alguma sugestão?
- Eu já tenho um nome... chamo-me Catarina Viegas, senhora.
- Bem sei... mas o nome que deves utilizar daqui em diante é nome de
homem... tens sugestões? - voltou a perguntar Clara, enquanto aparava o
cabelo de Catarina.
- Minha senhora, não sei que vos diga...
- Pensa num nome, Catarina... de hoje em diante será esse o disfarce que
te protegerá!
- Não sei, senhora... talvez... João... sim, gosto de João...
- João... então seja. Agrada-me! disse Clara, com orgulho.
- João... Sanches, como meu pai, será! - Catarina não escon-
dia uma certa tristeza.
- Pobre Catarina! - Clara sorriu e fez-lhe uma festa no rosto. Também o
coração lhe doía. - Há muitos anos que conheço o teu pai, sabias? Esse
homem que te criou com tanto amor, deu-me aquilo que de mais precioso um
homem pode dar a uma mulher - disse Clara, sorrindo.
- O meu pai? - Catarina continuava confusa.
- Sim, está na hora de conheceres a verdade! Conheci o teu pai e o teu
tio Martinho, eram eles dois belos cavaleiros Templários. Ambos, quando
podiam, vinham conversar comigo. Tinham regressado da batalha em Soure,
onde o teu pai foi ferido em combate. Procuraram-me para que o tratasse
com ervas que eu conheço. Martinho, olhava para mim embevecido, sempre me
reservou uma certa timidez, mas o teu pai deu-me o seu coração... deu-me
o seu amor... e desse amor... nasceste tu Catarina. Há precisamente
dezasseis anos, nasceste tu, filha da lua, Catarina Viegas.
- Mas então... a minha mãe...
- Carmen criou-te como uma mãe. Foste entregue aos seus cuidados...
- Porquê? questionou Catarina, cada vez percebendo menos do que se estava
a passar - Mas então... o meu pai... a minha mãe... como se conheceram
vocês?... Como nasci eu?... Quem sou eu? Na cabeça de Catarina surgiam
agora muitas dúvidas. Tantas e tantas respostas a procurar.
- Tudo aconteceu numa noite junto ao rio. Calma e serena... é assim que
recordo essa noite mágica... foi então que o vi... ele circulava por
entre o denso arvoredo e, ao ver-me, ficou a observar-me atrás de uma
árvore. Ao saber-me observada mergulhei na água a minha
49
nudez, procurando esconder-me do seu olhar curioso. Os seus olhos meigos
cativaram-me. O luar reflectia-se na água e iluminava os nossos vultos de
contornos pardos, dando-lhes um brilho ténue e uma certa nota de
mistério. Lentamente, ele aproximou-se, os nossos olhares prenderam-se e
o nosso breve encontro durou uma eternidade. Sem nada dizer entrou na
água e nadou até mim. Aquele homem, que imediatamente reconheci, pôs os
braços à minha volta, e nesse momento senti que chorava. Levantou-me
bruscamente o rosto para o dele e beijou-me. Senti nos meus lábios o
sabor do sal das lágrimas dele. Ergui os meus braços e invoquei a Deusa:
( Nota – 28 )
Mãe floresta verde como os prados da Primavera, abençoai esta água, peço-
vos.
Grandiosa das estrelas, tecelã de todos os destinos,
a vós vos dou a honra e invoco-vos nos vossos antigos nomes, conhecidos e
desconhecidos.
Poderoso Deus Sol, deus da fertilidade e da abundância, estai agora aqui
comigo, ajudai-me... peço-vos! A vós, vos dou a honra e invoco-vos também
nos vossos antigos nomes,
conhecidos e desconhecidos.
Sou pagã, uma pedra no antigo círculo, firme e solidamente equilibrado
sobre a Terra,
porém, aberto aos ventos dos céus e perseverando através dos tempos
imemoráveis.
Servirei a Grande Deusa Mãe e prestarei
veneração ao Grande Deus.
Que os Antigos Deuses testemunhem as minhas palavras!"

Catarina escutava atentamente.


- Os nossos corpos nus misturaram-se numa luz cúmplice continuou Clara. -
e, unidos numa paixão fugaz, amaram-se ardentemente, junto à água,
abençoados pela deusa da terra. A grande mãe

(28). Oração que, segundo alguns autores, era dedicada à Grande Deusa e
ao Grande Deus por altura do solstício de Verão, que acontece por volta
de 21 de Junho.

que nos protege quis unir-nos com um qualquer propósito... e desse breve
encontro nasceste tu, Catarina. Honra aos Antigos Deuses! Que alegres se
encontrem, alegres se separem e alegres se encontrem de novo. Quando tudo
terminou, sabia já que te carregava no meu ventre, semente germinada
daquele enlace. Restou-me agradecer a todos os seres e poderes do visível
e do invisível... parti em paz! Que possa haver sempre harmonia entre
nós. Em toda a minha vida nunca conheci um beijo tão apaixonado como
aquele, e no entanto, parecia que alguma essência, muito para além da
simples luxúria, nos mantinha unidos.
- Então eu... a minha mãe... o meu tio Martinho - Catarina estava
incrédula. Não sei nada de mim... tantos anos passaram e eu... sem saber
de nada. Nunca me contaram... nunca soube verdadeira-mente quem era.
Reparei que tendes no braço o mesmo sinal que eu...
- É um crescente lunar, filha. Quando nasceste tatuei-te esse símbolo
que, por séculos e séculos, tem sido relacionado com a feminilidade. A
lua cresce, decresce, e desaparece: a sua vida depende da lei universal,
do nascimento e da morte... a lua conhece uma história semelhante à dos
homens... mas a sua morte nunca é definitiva... enquanto a nossa, a dos
homens e mulheres, é. Esta periodicidade sem fim faz com que a lua seja o
astro dos ritmos da vida... ela controla todos os planos cósmicos regidos
por ciclos: águas, chuva, vegetação, fertilidade.
Catarina ouvia com atenção e espanto.
- O teu pai pediu ao irmão para o ouvir em confissão prosseguiu Clara.
Mesmo não sendo ele padre. Disse-lhe que queria deixar a Ordem e
renunciar aos votos, porque estava apaixonado. Deu um grande desgosto ao
teu tio, que também gostava de mim e por isso ingressou na Ordem de
Cister. Eu já estava grávida de ti e tinha que manter este segredo. Não
me arrependo de nada! Como posso arrepender-me? A verdadeira alegria só é
encontrada na liberdade em relação à grande roda da vida que gira,
alternando estados de consciência. morte e renascimento... devemos
aspirar apenas à paz da presença do eterno. Eu amei sempre o teu pai. Um
amor maior do que a morte. E se o pecado é o preço da nossa união, vida
após vida, ao longo dos tempos, pecarei alegre e sem remorsos para que
isso me leve de volta ao meu amor. Por ter estes conhecimentos, tenho
sido acusada de heresia e o destino condenou-me à fogueira, mas pior do
que isso, condenou-me à distância face àqueles que amo e sempre amei.
Infame crueldade! O teu pai nunca soube. mas sobrevivi.
50
- Mãe... - e abraçaram-se, ambas comovidas com o reencontro.
- Eu sabia que não poderia criar-te isolada do mundo, afastada de uma
realidade que te seria necessária. Escondida da vida, numa fuga constante
a uma fatalidade que me perseguiu desde sempre. Fugi e escondi-me neste
bosque, para que não fosse queimada viva. Vejo coisas, pressinto
acontecimentos, sinto os sinais que vibram com a energia da terra. Assim,
e por zelar pela tua segurança, deixei-te ir... O meu coração ficou
contigo no dia em que te deixei aos cuidados de teu pai. Mais tarde,
depois de me julgar morta, levou-te para junto de Carmen, com quem se
casou. Era uma boa alma... sempre soube de tudo mas nunca compreendeu o
que nos unia. Por várias vezes me visitou, trazia roupa e comida e
falava-me de ti, com a condição de eu não interferir na vossa vida. Tenho
estado como que desaparecida do mundo. A última vez que vi o teu pai foi
na noite em que te deixei nos seus braços, chorei todas as lágrimas nesse
dia e não voltei a chorar por muito, muito tempo.
Catarina, emocionada, mal podia acreditar no que ouvia, as lágrimas
corriam-lhe pela face.
- O teu pai julgou sempre que eu tinha morrido na fogueira, foi o que
Carmen lhe disse e eu concordei para te proteger a ti - Clara estava
feliz. Voltara a reencontrar o seu coração.
E ali ficaram o resto da tarde junto da lareira conversando, trocando
carícias e ternuras perdidas, com saudades de um passado que não viveram
e de um futuro que desconheciam. Catarina contava o que aprendera com o
pai. Manejar o arco e a flecha com o máximo rigor; conhecer o significado
dos números e seguir as estrelas.
Já a noite principiava quando Clara perguntou a Catarina:
- Filha, quando fugiste de casa passaste pelo túnel?
- Sim, passei... o meu tio foi lá ter comigo.
- O teu pai tinha uma arca... sabes do que falo?
- Sim, havia um velho baú que estava na loja onde me refugiei... -
recordando-se do episódio do dia anterior, Catarina sentiu que a tristeza
voltava a invadir o seu coração.
- Deve ser o que procuramos e é exactamente disso que te quero falar... O
teu pai tinha algumas regalias por ter sido cavaleiro da Ordem do Templo,
e creio que se manteve sempre ligado aos irmãos da Ordem como filiado,
mesmo estando casado, continuou a sua actividade à revelia de Carmen.
Temos de voltar a tua casa.
52
Catarina fechou os olhos como que a aceitar um grande sacrifício. Cerrou
os lábios e abanou afirmativamente com a cabeça.
- Eu tenho a chave dessa arca, filha.
- A chave?... Porquê, o que se encontra nessa arca?
- O teu pai deu-me a chave no dia em que renunciou à Ordem, como que a
recusar todo o seu passado. Depois, refugiamo-nos aqui. A chave ficou
sempre nesta casa. Como foi duro todos estes anos viver com tamanho
segredo! Ele nunca soube que eu sobrevivera, pensou que a fogueira me
levara e comigo, a chave de um baú, que encerrava atrás de si todo o
nosso passado... afinal ainda foi ele que partiu primeiro. Pobre alma.
Que a Deusa mãe o guarde para sempre!
- Seria essa a chave que procuravam aqueles carrascos? Quem seriam e o
que pretendiam? - pensava a jovem.
Ao cair da noite, Catarina e a mãe empreenderam a viagem de regresso à
aldeia, dirigiram-se ao túnel, a coberto da escuridão.
Quando chegaram à loja onde Sancho guardava os víveres, sentiram o cheiro
a madeira queimada, que testemunhava a barbárie do dia anterior. Às
apalpadelas, Clara tirou de uma bolsa que trazia no regaço, uma pequena
chave dourada. Abriu a tampa do baú e tirou aquilo que parecia um pano e
um embrulho comprido. Descobriu-o e Catarina arregalou os olhos ao ver a
beleza do punho da espada de seu pai. Voltaram a encerrar tudo dentro do
baú e, arrastando-o, regressaram ao túnel. Em direcção ao velho moinho,
sempre com a cautela necessária para não serem descobertas, as duas
sombras deslizavam de tal forma no escuro, que pareciam não ter pés.
Da povoação até à floresta ainda iam uns bons quilómetros. As duas
mulheres encurtaram caminho, metendo por atalhos que Clara conhecia, de
forma a não serem vistas.
Abriram a porta do casebre e colocaram o baú em cima da mesa, retirando
os objectos que lá se encontravam dentro. Em cima da mesa estava um manto
branco de templário e um embrulho de serapilheira. Quando Catarina o
abriu, duas lágrimas silenciosas rolaram-lhe pela face: era uma bela
espada templária.
- Catarina... - disse Clara - ... esta arma tem os seus próprios
desígnios, tens de devolvê-la ao Mestre do Templo. Terás a protecção das
estrelas e da lua... a boa sorte guiar-te-á até ele!
Ao olhar a beleza da espada, Catarina reparou numa pequena inscrição no
punho da mesma e, instintivamente. olhou para o seu
53
braço... ORION... as letras entrelaçadas permitiam ler claramente...
não havia dúvidas!... Olhou para Clara... surpresa... como se pedisse
uma explicação lógica para tudo aquilo.
- Orion???
- Uma constelação de estrelas, filha...
- Sim... - interrompeu Catarina - ... que tem a forma de um homem
caçador, o meu pai explicou-me! ... E ?
- Esta espada foi forjada pelo teu pai. Quando nos conhecemos formou
intenções de a fazer à semelhança da espada do Rei Salomão de Jerusalém,
e levou muitos anos a aperfeiçoar o seu lavrar. O punho esconde uma série
de mensagens, assumidas nos símbolos que aqui vês, filha... uma dessas
mensagens tem a ver com os mistérios que teu pai procurou na sua viagem
ao Egipto.
- Mas o que têm as estrelas a ver com a espada? perguntou Catarina,
visivelmente confusa.
- Diz a lenda que Orion era o filho do deus grego do mar, Posídon. Orion
era um gigante e um poderoso caçador, porém, não possuía o dom da
imortalidade, como sua mãe, dizia-se que era filho também de Gaio, a Mãe
Terra, e veio a conhecer a morte, ainda que temporariamente, por ter
ofendido Artemis, a deusa da caça. Dizia-se que era a deusa da Lua, tal
como o seu irmão Apolo era o deus do sol - e a verdade é que ela se
passeava nas noites de lua cheia. Enciumada pelo facto de Eos, a aurora,
amar o caçador, enviou então um escorpião para picar Orion, como punição
por seu comportamento orgulhoso e arrogante face às suas faculdades de
grande caçador. Orion morreu, contudo, não ficou morto para sempre! Foi
ressuscitado por ()Mica, o «portador da serpente». Ofiríco tratou Orion
com um remédio especial, que agiu como antídoto contra o veneno do
escorpião. Por isso, no céu. Ofïúco é hoje visto como que a esmagar o
Escorpião sob seu calcanhar.
- Mãe... e se eu não for capaz? Se não conseguir? Isto não me parece
tarefa para uma simples rapariga e...
- O que precisas é de uma boa noite de sono - interrompeu-a a mãe.
Amanhã estarás preparada para encontrar o teu destino e cumprir os
propósitos de teu pai. Nas tuas veias corre o sangue místico da deusa.
Nas tuas veias, Catarina, corre um destino grandioso que deverás
resgatar. No teu âmago, corre tudo aquilo por que deverás lutar. Corre a
coragem, o amor, a busca de valores mais profundos... corre a magia da
lua... porque possuis o dom da visão e esse dom ser-te-á revelado quando
dele precisares, para um propósito maior - e ali ficou junto a ela,
protegendo-a e velando pelo seu destino sombrio.
55

Capítulo 6
A VIAGEM
Uma semana após a visita do mensageiro real, chegara o dia da partida.
Animado pela viagem e impaciente de curiosidade, Renato dirigiu-se ao
largo do picadeiro, onde encontrou o seu amigo Abel.
O nevoeiro continuava a acompanhá-lo e a humidade gelava-lhe os pés. A
garganta arranhava-lhe com o frio e tossiu. Quando falou, a sua voz soou
límpida e serena. De sorriso nos lábios perguntou:
- Abel, que fazes aqui? Também vais?
- Vou com o meu tio Abraão, que é Mestre na arte da pedra.
- O teu tio? Que bom! Então vamos viajar juntos! Não estava à espera
desta surpresa! - disse Renato, com visível entusiasmo.
Entretanto chegaram os carregadores, com mulas; uma guarnição de sete
cavaleiros, de mantos brancos, e um monge de origem francesa, que trazia
no peito o símbolo da Ordem. Renato aproximou-se do frade, e disse:
- Fr. Antunes Duval... que bom vires connosco!
Os cascos dos cavalos ecoavam na praça; das narinas saíam jactos de fumo,
as orelhas arrebitadas, um ou outro relinche. Os animais pareciam estar
nervosos com a abalada. Os cavaleiros refrearam os cavalos rapidamente,
receosos de calcar os homens que se juntavam para a partida.
- Por El-Rei D. Afonso e D. fr. Gualdim Pais, nosso Mestre, iniciemos
juntos esta empresa! - gritou Lopo Fernandes, de espada levantada,
juntando-se-lhe os restantes companheiros. E assim, dispostos em círculo,
ergueram as espadas em sinal de juramento, juntando as lâminas ao centro.
Entre os cavaleiros contavam-se João Arnaldo Domingues, primo de Pedro
Arnaldo, Lopo Fernandes e Nuno Fafes; estava ainda presente Fernão
Afonso, primogénito do rei, agora com 19 anos, que fora enviado à guarda
de Gualdim Pais e acompanharia também o séquito.
57
Todos apertavam e aparelhavam os cavalos, preparando-se para o caminho,
quando surge Gualdim Pais, trajado de branco, com o seu cavalo pela mão.
Saudou todos os presentes e dirigindo-se ao velho canteiro, disse-lhe:
- Mestre Abraão, sabia que contava contigo. A tua lealdade é apreciada!
- Senhor, estou sempre às vossas ordens! - disse Abraão, com um sorriso,
inclinando a cabeça e depois olhando Gualdim directamente nos olhos.
Os dois homens cumprimentaram-se. Agarraram simultaneamente os pulsos,
com as mãos direitas e apertaram-se, fazendo cada um, pressão nas costas
do outro, com as mãos esquerdas.
- Já passaram seis anos desde a última vez que nos encontrámos, e quis o
destino voltar a levar-nos a Al-Cobaxa - disse Mestre Abraão a Gualdim
Pais.
- É verdade, meu velho amigo... meu irmão!
Abraão tinha um aspecto altivo, de quem preferia partir a vergar. Tinha
trabalhado na construção de um mosteiro provisório no campo de Chaqueda,
com a criação de uma abadia para cerca de quarenta monges, e estivera na
fundação do Mosteiro de Santa Maria, seis anos antes, quando o rei, para
comemorar a vitória aos mouros na conquista da cidade de Xantarim (29),
cumpriu a promessa que fizera de oferecer um grande mosteiro aos
Cistercienses (30). Em 1153, D. Afonso Henriques fez doação a São
Bernardo de Claraval (31), que viria a falecer nesse mesmo ano, do couto
para a construção do mosteiro. A sua arte e mestria levaram-no, tantas e
tantas vezes, a partilhar com religiosos de outras crenças esta alegria,
que era ver a obra divina nascer das suas mãos, calejadas e imperfeitas,
e das de tantos outros irmãos que com ele colaboravam. Para Abraão e
Gualdim o trabalho,

(29). Xantarim - Santarém, em árabe.


(30). Segundo a lenda, D.Afonso Henriques entrou em contacto telepático
com S.Bernardo, e este prontamente enviou monges com os planos do
mosteiro. Anos antes, o Prior Bernardo Paganelli - familiar de Afonso
Henriques - tinha-se tornado no Papa Eugénio l[[, que protegeu o
crescimento da Ordem de Cister por toda a Europa. Os Cistercienses (que
formaram uma rede de quinhentas ahadias) e os templários ascenderam a
prelatura pessoal do Papa.
(31). Reforma a Ordem de S. Bento e na sua estrita observância dá um
impulso à Ordem de Cister.

qualquer que ele fosse, era a exaltação da sabedoria. E a Sabedoria


Divina estava com Deus, que agia como um Arquitecto (32).
- Está tudo pronto? - perguntou Gualdim, em voz alta. Um uníssono «sim»
ecoou pela natureza envolvente. Estavam todos de acordo.
- Então vamos... partamos sem demora e que Deus seja o nosso guia!
O cortejo começou a descer em direcção aos campos da várzea, saindo pelo
lado Poente.
Abel e Renato conversavam, com os cavalos quase colados.
- Como é que o teu tio está aqui? Como é que vocês vieram aqui parar? -
perguntou Renato, surpreendido.
- Tu queres saber a minha história, ou a história do meu povo?
- Acho que tens tempo suficiente para falar, Abel! Temos uma longa
caminhada pela frente, não te parece?
- Bom, o meu povo veio para a Península no tempo de Salomão. Sabias que o
apóstolo Paulo queria vir para a Ibéria converter a comunidade judaica?
Não, não fazia a menor ideia.
- Olha Renato, Ibéria, lbrva, Hebreia, lbrim soa-te a quê?
- Hebreus? - disse Renato, a medo.
- Exacto. A Península Hebreia era o nome que os navegantes fenícios davam
à Ibéria dos Romanos.
- Estou a ver! E o teu tio... o que faz o teu tio, a propósito? E tu,
porque o acompanhas?
- Mas tu queres é ouvir falar de mim! O mister da minha família é o corte
da pedra. O Senhor D. Gualdim conheceu o meu tio na Terra Santa, em
Jerusalém, vivia num bairro junto ao bairro cristão. Encontrava-se lá já
há alguns anos com o intuito de aprofundar os seus conhecimentos da
Torah. Depois acompanhou-o ao Egipto e a Antioquia em algumas missões.
Sabes que normalmente somos nós, os judeus, que pagamos aos
trabalhadores, mas também podemos trabalhar a pedra. Esta arte requer
saber. Depois, regressou com ele da Terra Santa e ajudou-o na construção
do Castelo de Pombal. A última vez que se viram parece que foi em Al-
Cobaxa. O meu tio esteve lá durante as

(32). Provérbios 8,30-31.


59

obras do mosteiro. Já conhece o Senhor D. Gualdim há muitos anos!


- Então a estrela de seis pontas que estava na tua porta, em Lixbuna, foi
o teu tio que a esculpiu?
- Foi. Nós, os judeus, assinalamos sempre as nossas portas. E tu, porque
vens?
- O meu pai, Raimundo Moniz, era Mestre de Armas d'El-Rei D. Afonso,
aquando da conquista de Lixbuna. Antes de falecer entregou-me aos
cuidados de Mestre Gualdim. Por último, o Mestre julgou-me à altura de o
acompanhar nesta jornada... e aqui estou!
- Se calhar... - disse Abel, calando-se de seguida.
- Se calhar o quê? - interrogou Renato, impaciente. - Responde-me Abel!
- Logo verás por ti Renato... é uma sensação que tenho...
- Tu e os teus segredos, Abel! Sempre misterioso e surpreendente! -
exclamou, contrafeito.
Renato não escondeu uma pontinha de irritação e um misto de interesse e
curiosidade.
Antes de começarem a descer a encosta íngreme que os levava à várzea
apearam-se dos cavalos. Os cascos começavam a escorregar na lama do
caminho, provocada pela água que corria livremente pela encosta. Renato
estava como que atraído pela velocidade com que as folhas e paus
deslizavam. Ninguém falava, o único barulho era o da água cortada pelos
cascos dos cavalos. Renato segurava as rédeas junto ao freio e sentia a
mão quente; a respiração do cavalo aquecia-lhe a luva que aconchegava a
mão.
- Aaaaalto! Alto!
Renato, como que acordou. Gualdim Pais dava ordem para montar. O grupo
dirigia-se para Collares. O ar era agora menos frio. O orvalho da manhã
dissipara-se aos primeiros raios de sol.
O Comendador de Cintra seguia à frente. Começava a habituar-se ao local.
Longos prados verdejantes, animados por colinas pitorescas onde os
animais colhiam o seu alimento. Uma águia voava sobre o grupo de
cavaleiros e Gualdim olhou para o céu erguendo o braço para se proteger
do sol. Poderia ser um sinal... estavam no bom caminho... a boa estrela
protegia-lhes os passos e guardava as suas almas nesta missão que lhe
tinha sido confiada por El-Rei D. Afonso. Se fosse outro homem, esta era
a sua grande oportunidade de se tornar rico e poderoso; afinal aquelas
terras eram suas, por doação directa do rei. Osárabes tinham convertido a
várzea num celeiro. Já começava a ter bom vinho e a serra tinha caça
suficiente.
A comitiva passava agora junto à ermida de Collares e tomava a direcção
da ribeira das maçãs. O sol ia já alto e o nevoeiro desaparecera. A fome
apertava e já sabia bem presentear o estômago com qual-quer iguaria.
Gualdim ia absorto nos seus pensamentos. O seu juramento era de pobreza,
não tinha nada de seu, era um mero fiel depositário.
Mais à frente, já adiantados no caminho, depois de percorridas as
primeiras milhas de terra, aquecidos pelo sol da tarde e com a fraqueza a
talhar-lhes o pensamento, chegaram a uma colina verdejante, rodeada de
arvoredo.
- Bom dia senhor! - disseram uns camponeses que trabalhavam a terra.
- Bom dia nos dê Deus - disse Gualdim. - Dás-nos umas maçãs?
- Não só maçãs, como pão e um trago de vinho, senhor!
- Não, bom homem. As maçãs chegam, somos muitos.
O camponês pegou num grande saco de serapilheira caído junto ao riacho
que mantinha os campos húmidos e férteis e, sentando-se numa pedra,
começou a enchê-lo de maçãs vermelhas e reluzentes, que tinha acabado de
apanhar nesse dia. Dois dos outros homens que trabalhavam a terra foram
ajudá-lo e uma rapariga jovem que os acompanhava entregou o saco, depois
de cheio, ao grupo de cavaleiros, para que desafaimassem o seu apetite.
- Deus vos pague a gentileza! Esteja Ele sempre convosco! - disse
Gualdim, já de partida.
Seguiam agora para o lado do mar, tomando a direcção da Ericeira. João
Arnaldo Domingues juntou-se a Gualdim Pais e recordavam o tempo em que,
juntamente com seu companheiro, amigo e ir-mão Pedro Arnaldo cumpriam
serviço junto do rei. João Arnaldo Domingues era ainda primo do Mestre
antecessor da Ordem do Templo. Em crianças, muitas foram as vezes que
brincaram juntos na terra que os viu crescer, Gondomar. Aprenderam a arte
do manejo de armas lado a lado, como irmãos de sangue, e respeitavam-se
nos seus diferentes modos de ser. A diferença de idades nunca foi
impeditiva do seu bom relacionamento.
o pai de Pedro Arnaldo, homem largamente respeitado e com
61
poder considerável, era primo direito de seu pai e muito ligado a D.
Teresa, mãe d'El-Rei D. Afonso.
Quis a sorte e o destino, e valeram-lhe os bons relacionamentos
familiares com a corte, que Pedro Arnaldo se juntasse à comitiva que
seguiu para o Médio Oriente, onde se tornou companheiro de jornada do
segundo primo do rei, juntamente com André de Montbard e Geoffroy de
Saint-Omer. Voltaram a reencontrar-se mais tarde, no ano da graça de
1125, quando este regressou ao Condado Portucalense, integrando a pequena
hoste da Milícia do Templo, comandada por Guilherme Ricardo.
- Recordo-o envolto na sua discrição, mas consciente do seu trabalho e
encargo! - observou João Domingues, com a face assinalada pela dor.
- Tens que continuar a grande obra divina, Gualdim! Quando o vi definhar-
se em Alcácer do Sal, essas foram as suas últimas palavras. Estávamos
juntos e a mágoa do seu abandono consumiu-me o coração. Temos que
continuar João... ele estava certo!
O céu estava limpo e o sol caía sobre o denso oceano. Ainda ao la-do de
Abel, Renato contemplava o pôr-do-sol e, apesar de só ter comi-do maçãs,
sentia-se cheio. Quando falava com o amigo e descobria as suas tradições,
sentia o coração aquecer. Desde que o conheceu pôs de parte a malfadada
sina de ter que o condenar, a ele, por os Judeus terem morto Cristo. Além
disso, se a sua família tinha chegado no tempo de Salomão, não podia ser
condenado por uma coisa que ainda não tinha acontecido. Cada vez que
Renato olhava o sagrado lenho, não via a morte como destino; mas a vida.
Ao chegarem ao local, Gualdim procurou um sítio abrigado para passarem a
noite e mandou montar tendas. Seguidamente pediu aos homens da guarnição
para procurarem os jagozes (33)e comprarem peixe. Íam comer peixe assado.
Prepararam-se as fogueiras, atiçou-se o fogo e, sobre o carvão,
cozinhava-se o peixe. Sentia-se no ar o cheiro do alecrim que utilizavam
para aromatizar o petisco. Desde a Primeira Cruzada que naquele lugar se
comia e conservava peixe. Os noruegueses tinham deixado algumas técnicas
e Gualdim sabia o que procurava.

33. Jagozes - Comunidade piscatória da Ericeira.


62

Descansavam agora depois de um longo dia de caminhada. Riam e bebiam


cidra, à saúde do seu Mestre e d'El-Rei D. Afonso, a quem juraram servir
com honra e dedicação. Depois de comerem juntaram-se ao monge, junto a
uma fogueira, e rezaram as completas.
As comunidades monacais marcavam o ritmo diário com o Oficio Divino ou
Liturgia das Horas. A associação dos toques dos sinos originou o «dia
agrícola».
Eram assinaladas as Vigílias a meio da noite; Prima primeira hora, ao
nascer do sol; Matinas oração da manhã, antes da primeira refeição;
Laudes - oração de louvor que consiste num hino dos salmos, uma leitura
bíblica, o Benedictus (34), Responsório, o Pai-nosso e uma oração
conclusiva; Tertia - terceira hora depois da aurora; Sexta - sexta hora,
aproximadamente ao meio do dia; Nona - aproximadamente a meio da tarde;
Vésperas - o ofício da tarde consistia num hino dos salmos, uma leitura
bíblica, o Magniftcat da Virgem, Responsório, Intercessões, o Pai-nosso e
uma oração conclusiva e, finalmente, as Completas - oração do Ofício
Divino ao deitar, pôr-do-sol.
Abel e o Tio levantaram-se discretamente.
- Podeis ficar! - disse Gualdim.
A noite já ia alta, sem ser velha. Dois cruzados montavam guarda. Junto à
fogueira, dois homens conversavam. Não eram somente um templário e um
judeu, eram dois homens a quem a experiência muito ensinara. Gualdim
tomou a palavra, quebrando o silêncio:
- Lembras-te Abraão quando estivemos no Egipto?
- Lembro-me muito bem. Descemos o Nilo. Connosco também viajava Sancho
Viegas!
- E verdade, o que será feito desse nosso irmão? Faz tempo que não o
vejo!... Descemos até Assuão na Núbia e foi ele o primeiro a avistar a
Ilha do Templo de Isiso, mesmo no meio do rio Nilo.
- A beleza e a paz espiritual que ali se viviam eram engrandecedoras. De
tal forma que Sancho não queria deixar o lugar - disse Abraão, com ar
saudoso.

(34). Benedictus - Também conhecido como cântico das criaturas do profeta


Daniel, mais tar-de cântico do Irmâo sol de Francisco de Assis.
35. Ilha de Philae.
63
- Tivemos a sorte de participar no antigo culto da deusa Isis e tivemos
alguns contactos com grupos Gnósticos. Ainda te lembras do que eu te
disse?
- Como se fosse hoje. Que o culto de Hathor (36) não era muito diferente
daqueles primitivos que existiam, clandestinamente, nos castros depois
ocupados pela Ordem do Templo.
- É a grande devoção à deusa mãe, criadora da Terra. O princípio feminino
e a representação das «Virgens Negras». As coisas que os nossos
camponeses já faziam antes de chegarmos ao Egipto. Abraão, nunca percebi
porque não te juntaste a nós! O nosso projecto espiritual não te impedia
de estares connosco - disse Gualdim em sussurro, enquanto com um pequeno
pau brincava com os tições incandescentes da fogueira.
- Contingências, meu bom Gualdim... contingências!
- Houve uma coisa que nunca cheguei a compreender Abraão... As Pirâmides
do Egipto inspiraram maravilhas e assombros durante milhares de anos,
porém, surpreendem com outras evidências e até mesmo intrigantes
mistérios... o nosso irmão Sancho sabia qualquer coisa... naquele dia em
que fomos surpreendidos por tribos núbias e tivemos de fugir...
atravessamos a montanha de Gebel Barkal (37) a pé... já nem sei quantos
dias andamos... ainda nos comiam vivos, com aqueles costumes bárbaros...
recordas-te? O irmão Sancho seguiu para Dunqulah (38), no reino de Al-
Mukurra (39). Depois do bakt (40 ), o clima de paz com o Egipto daria
alguma protecção aos seus estudos entre os coptas (41). Antes de nos
separarmos, ele ainda disse algo sobre

(36). Hathor- Deusa da Música, do Amor e da Dança. É também Deusa do Céu


e é associada a Isis como a mãe de Horus.
(37). Gebel Barkal - Pequena montanha situada a cerca de 400 km a norte
de Khartoum, no Sudão, região anteriormente conhecida por Núbia.
(38). Dunqulah ou Dongola - Capital do reino de Al-Mukurra ou Makuria,
que existiu entre os séculos IV e XIV na Núbia, a região do vale do rio
Nilo, actualmente partilhada pelo Egipto e Sudão.
(39). AI-Mukurra ou Makuria - Reino que existiu na Núbia, entre os
séculos IV e XIV.
(40). Bakt Tratado de paz assinado no ano 651 entre os líderes do reino
de Al-Mukurra, na Núbia, depois de terem adoptado a Igreja Copta.
(41). Coptas - A Igreja Copta ortodoxa foi estabelecida pelo apóstolo S.
Marcos no Egipto, durante a época do Imperador Nero. De acordo com a
tradição, em meados do século 1 (aproximadamente no ano 60). E a igreja
cristã oficial do Egipto («Copta» significa «Egipto»).

o posicionamento e estrutura detalhada das Pirâmides de Gizé... qual-quer


coisa sobre a precisão das posições de corpos astronómicos na constelação
de Orion... nunca mais me esqueci daquilo, por estranho que pareça!
- Será que ele encontrou a chave? perguntou o Mestre Abraão.
- Como sabes, nunca foi possível recuperá-la, Abraão... quem sabe... El-
Rei D. Afonso saberá, por certo... disso não tenho dúvidas... há muito
tempo que não sei nada de Sancho... faz tempo que abandonou a Ordem,
também... creio que por um mal de saias... ai as mulheres, meu amigo...
têm sido a perdição de muitos irmãos!
Ambos soltavam gargalhadas cúmplices, enquanto decorria a conversa.
- Mestre, citando Hermes, o Trismegisto, "Sob as aparências de Universo,
de Tempo, de Espaço e de Mobilidade está sempre encoberta a Realidade
Substancial, a Verdade Fundamental." Já lá vão quase quatro mil anos e
continua actual, meu amigo! - trocaram um sorriso cúmplice e continuaram
a conversar... entretanto, Antunes Duval aproximou-se dos dois homens...
- A Paz seja convosco!
- Convosco também! - disseram os dois companheiros. Gualdim tomou a
palavra e disse-lhe para tomar assento.
O monge sentou-se, deixando-se cair no chão e soltou um suspiro,
dizendo:
- Finalmente temos um momento nosso.
Abraão continuou a conversa:
- Duval, o Mestre continua com a mesma prosa.... Vós sabeis perfeitamente
que aquilo que nos une é mais importante do que aquilo que nos separa. O
conhecimento que fomos adquirindo torna-nos cúmplices; mas como sabem um
judeu só se ajoelha perante Adonai (42)... além do mais, foi entre nós,
os judeus, que o Senhor da Cruz aprendeu. Eu também nunca concordei com a
mortandade que os cruzados fizeram na Terra Santa. Não era necessário tão
grande mar de sangue...mas uma coisa é certa, nós três mantivemo-nos
superiores a

(42). Adonai (O Senhor) - Um dos nomes de Deus em hebraico. Os judeus não


dizem o nome para não o profanarem.
65

isso! - respondeu Abraão, mantendo o perfil recto e sóbrio que o


caracterizava. Gualdim engoliu em seco, sentindo o sabor amargo daquelas
palavras.
- Eu sei Abraão, eu sei... afirmou Antunes Duval - ... para os nossos
propósitos não era necessária aquela atitude.
Gualdim Pais, dando-lhe uma leve palmada nas costas, levantou-se e
desejou-lhes uma tranquila e santa noite.
- Até amanhã - disse.
Abraão não acrescentou mais nada à conversa, ficando mais um pouco a
falar com o monge, enquanto se aqueciam junto ao lume.
- Irmão Abraão, sabes ao que vamos?
- Não sei meu irmão; mas acho que nos vamos reunir outra vez, está-me cá
a parecer!

Capítulo 7
O encontro com el-rei
Diz a lenda que, do alto da Serra de Albardos, D. Afonso Henriques
prometeu a S. Bernardo que, caso tomasse Santarém, todas as terras que
avistava dos montes seriam entregues aos monges da Ordem de Cister.
Consumada a vitória sobre os mouros em Santarém, Deus terá mandado descer
do Céu uma legião de anjos "arquitectos" que levaram nas suas mãos rendas
brancas sustentadas por asas. A teia celeste pousou nos terrenos onde foi
construído o Mosteiro, tendo maravilhado o povo que só muitos anos depois
veria construído o edifício real.
Outra lenda sobre a fundação do mosteiro relata que D. Afonso Henriques
atirou uma lança do topo da Serra de Albardas, para determinar o local da
construção da futura abadia.
A lança terá caído no lugar de Chiqueda mas, por se ter julgado
impróprio, atirou-a uma segunda vez tendo caído no local onde foi
efectivamente construído o mosteiro.
Lenda da Fundação do Mosteiro de Alcobaça.
Tinham passado três dias desde que a comitiva saíra de Cintra e, nessa
noite, pernoitaram nos cónegos regrantes(43) da Tamuja (44). Ao final do
sexto dia estavam em Óbidos e tomaram a estrada de trás do outeiro e
seguiram na direcção das Caldas de Óbidos (45). Em Alfeizerão,

43. Instituição criada por Godofredo de Bulhão, inspirado na Regra de


Santo Agostinho.
44. Tamuja - Torres Vedras.
45. Caldas da Rainha
67

passaram por Cela Velha e subiram o vale do Alcoa, rumando depois para a
Abadia de Santa Maria-a-Velha, nos coutos de Al-Cobaxa.
A Ordem de Cister também tinha o seu lado misterioso! De forma quase
directa, o seu percurso tinha começado com S. Pacómio, no ano 320, que
procurou no exemplo de Cristo, a sabedoria do deserto na Síria, no Egipto
e na Palestina. Com S. Basílio, em 357, na Capadócia (46) é aprimorada a
experiência monástica. S. Jerónimo traz o espírito monástico para a
Europa, englobando no reino Franco S. Martinho, soldado romano que se
torna Bispo e, em 529, S. Bento de Núrsia, que redige a primeira regra.
Em 1112, Bernardo de Claraval reformula a regra de S. Bento e cria a
Ordem de Cister, que tem vários apelos dos papas para os combates da fé.
Era já noite quando chegaram à pequena Abadia, onde iria ser construído o
“ noy' monasterio “. Ouviam-se os grilos junto ao arvoredo e o som das
corujas inquietava os cavalos. Foram recebidos pouco tempo depois por um
dos conversos, que, em silêncio, os encaminhou ao claustro. Os monges
professos rezavam as completas e em breve regressariam às suas camas. No
ar pairava o aroma de fruta misturado com o cheiro a gado. Ao longe um
cão ladrava. Ninguém dizia nada, tudo corria a seu tempo de forma
cerimoniosa: parecia que já eram esperados.
Dirigiram-se ao pequeno claustro iluminado por archotes, onde um moço de
estrebaria os aguardava. Desapareceu com os cavalos e um dos cenobitas,
com um archote na mão, conduziu-os ao lavabo dos frades. Seguidamente, e
sempre em silêncio, foram para o refeitório, onde comeram um caldo quente
de legumes, pão e fruta, acompanhado de cerveja fria.
Renato estava sentado a um dos topos da mesa, em madeira e no outro
estava Gualdim Pais. Os outros membros do grupo estavam sentados nos
lados da banca. A sala era rectangular, feita em pedra e por detrás de
Gualdim estava uma lareira acesa. Por cima da lareira um crucifixo e numa
das paredes que ladeava a lareira havia uma fresta pequena, por onde
passava a comida.
Como estava frio, o criado que os servia estava de pé junto à
(46). Turquia.
(47). Mosteiro novo.
68
lareira com as mãos metidas nas espessas mangas de um grosso capote.
Repararam que era o mesmo moço que lhes tinha guardado os cavalos.
Depois da refeição foram conduzidos a um dormitório, junto ao dos
noviços, no andar térreo da abadia. Gualdim e Antunes Duval fizeram
menção de entrar; mas o frade que os acompanhava barrou-lhe a entrada com
a mão, pedindo que o seguissem para o piso superior. Assim, o Comendador
e o monge que veio de Cintra foram conduzidos ao dormitório dos frades da
Ordem; mas Gualdim foi instalado sozinho num aposento.
João Arnaldo Domingues partilhou os aposentos com Lopo Fernandes, Nuno
Fafes, Fernão Afonso, Estêvão Martins, Paio Sanches e Gaspar Gomes, os
outros cavaleiros que seguiam com a comitiva, tendo ficado todos na
camarata dos noviços.
Renato não conseguia dormir. Estava deitado de barriga para cima, na sua
esteira, a olhar para o vazio de um tecto que não via. A luz do luar
entrava pelas portadas e frinchas do telhado.
Através de um buraco na parede, por onde circulava o ar quente vindo da
lareira, ouviu um murmúrio. Parecia alguém a chorar. Deixou-se ficar à
escuta por alguns instantes, mas o murmúrio cessou.
- Abel...? sussurrou. - Abel... estás a dormir? interpelou em surdina,
mas não obteve resposta. Subitamente pareceu que tudo tinha desaparecido.
Adormeceu.
Entretanto, Gualdim e Antunes Duval tinham feito as suas orações e
preparavam-se para adormecer, quando sentiram um ligeiro arrastar no
corredor. Gualdim estava deitado sobre o seu lado direito e destapou
lentamente o ouvido esquerdo, para poder distinguir os sons. Sentiu frio
na orelha.
- Duval...? Ouviste'?
- Sim, o que será?
- Mestre? murmurou alguém, batendo levemente.
Gualdim levantou-se e, com um gesto, abriu a porta. Viu somente o capelo
que cobria a cabeça de um monge. Este tinha um archote na mão
ligeiramente acima da cabeça.
- O Prior (48) chama-vos - disse-lhes o monge.

(48). Os monges de Cluny foram os primeiros a usar a designação de Prior


para o Abade.
69
Gualdim cobriu as costas com a sua capa. Duval fez o mesmo e seguiram o
frade misterioso. A figura de Prior, ou de Abade, tinha equivalência a
Bispo, pelo que assentiram de imediato ao seu pedido. Estavam a fazer o
caminho inverso para o cenáculo da abadia.
O monge bateu à porta com dois toques e, passados alguns segundos, deu um
terceiro, como se fosse um sinal combinado. Ninguém respondeu. Abriu a
porta e Gualdim entrou. A lareira estava agora mais viva. Da entrada via-
se toda a sala, pouco iluminada, mas quente. A mesa comprida, dois monges
do lado esquerdo; um terceiro do lado direito e no topo da mesa, um
outro, de pé, aquecia as mãos ao lume.
- Entra Gualdim... e senta-te connosco à mesa.
Ele conhecia aquela voz... parou estacado junto à porta. O monge
lentamente tirou o capucho e de imediato Gualdim e Duval ajoelharam a
perna direita no chão e baixaram a cabeça.
- Senhor D. Afonso, meu Mestre e meu Rei - disse Gualdim, com a voz vinda
do coração.
Gualdim sentou-se e os outros monges levantaram as cabeças e tiraram os
capelos. À sua esquerda, o Prior de Cister; à frente deste, Pedro Afonso,
Mestre de Avis e mesmo frente a si, Fuas Roupinho, Alcaide de Portus
Molis (49), membro de S. Miguel da Ala (50).
O comendador e amigo pessoal do rei pensou para consigo:
- Se os mouros iniciassem a reconquista, por ali e agora, o reino levaria
um grande rombo.
- Gualdim, meu Mestre disse o Rei. - Todos somos um só. Pertencemos a
ordens diferentes, unidas numa só vontade; mas convosco e no templo sou
irmão. O nosso sonho espiritual está em causa. O meu juramento feito em
Braga corre risco. O reino da Galiza foi ocupado por Castela... -
continuou o rei - ... o território que meu pai me deixou não pode perder
nem a sua característica, nem um palmo de terra sequer. Trata-se de
transformar este reino numa nação consistente. Há quase quinze anos... -
continuou El-Rei D. Afonso - prestei vassalagem à Santa Sé e Afonso VII
de Leão reconheceu-me como rei. No entanto, tem movido influências para
que o Papa

(49). Portos Molis - Porto de Mós.


(50). Primeira Ordem Militar portuguesa. Criada por D. Afonso Henriques a
seguir à batalha de Ourique. A sua função era proteger o Rei.

não me conceda essa nobreza; mas Nosso Senhor Jesus Cristo deu-me
reconhecimento antes de todos. Depois da morte de minha mãe, Fernão Peres
de Trava e o seu irmão Bernardo uniram-se aos filhos de Afonso VII. O
Tejo é a nossa fronteira a Sul. Alcácer do Sal, com muito sangue
derramado, está tomada; dirijo-me para Ebora (58) e para Pax Julia (59).
Mas algo de mais grave se passa que deveis saber, meu bom Gualdim... Fuas
Roupinho, tens a palavra.
- Senhor meu Rei, meus irmãos. O meu vice-almirante caiu ao mar do monte
de S. Bartolomeu (60) e morreu... Deus o guarde! - disse, baixando a
cabeça e fazendo o sinal da cruz. - Mas há mais!... a minha câmara
pessoal foi remexida.
- Os Mapas?... perguntou Gualdim, de olhos esbugalhados.
- Os Mapas estão em boas mãos! tranquilizou-o o Rei. - Mas estamos aqui
por causa dos Testemunhos. A tua missão é construir um castelo em
Nabância e instalar, nesse lugar sacro, um convento para os nossos
irmãos. Aí será o centro do nosso projecto espiritual!... aí, inscrita na
pedra, estará a nossa mensagem. Sabes que os segredos se guardam lá bem
guardados... mas a chave... deves recuperá-la Gualdim... há que reunir
tudo, e construir uma fortaleza segura...
- Senhor, mas... na vossa missiva falastes de uma igreja...
- É por aí que vais começar. Os espiões de Castela acharão menos
estranho. Irás reconstruir a Igreja de Santa Maria, nos olivais. Os
irmãos que aqui estão hoje proteger-te-ão à distância, para que possas
concluir, em sossego, o teu trabalho. Doarei à Ordem o Castelo de Ceras,
para que possas agir a partir daí. A serpente triunfará e os nossos
irmãos copistas continuarão a tarefa na perfeição. É importante
prosseguir o trabalho com os nossos irmãos judeus e muçulmanos!... Irmão
Duval que novas nos trazeis?
- Senhor meu Rei. A Cidade de Deus aperta o seu cerco e temo que iremos
ter sofrimento e perseguição. Temos de preservar os nossos Testemunhos e
fontes.
- O que se passa no condado é cuidado do condado. A nossa soberania está
acima de Papas e de Reis.

(58). Ebora - Évora.


(59). Pax Julia - Beja.
(60). Monte da Nazaré.
(61). Roma.
70
- Bem sei, Majestade...
- Preocupai-vos mas é com a chave - disse, voltando-se agora para
Gualdim. - Sei que já se encontra no reino... mas tu saberás melhor que
eu Gualdim... há um irmão que te pode ajudar... sabes bem onde encontrá-
lo.
- Majestade... nem sei sequer se esse irmão de que falais regressou do
Egipto... fomos obrigados a separar-nos, como sabeis!... - respondeu
Gualdim Pais.
E dirigindo-se novamente para o monge, Sua Majestade, El-Rei D. Afonso
Henriques, disse:
- O Segredo que Gualdim e eu partilhamos deverá ser desvelado em altura
propícia. É grande demais para morrer connosco... confio em vós para que
rezeis pela sorte do reino, fr. Duval. Ajudai, com a vossa fé, Mestre
Gualdim Pais nesta missão.
- Senhor D. Afonso... estarei sempre ao lado de Vossa Majestade e zelarei
pela fé de todos os nossos irmãos.
Apesar de dedicados ao trabalho no campo, os monges cumpriam
rigorosamente a liturgia das horas. O Sino tinha tocado para as vigílias.
O Prior levantou-se e disse:
- Senhor meu Rei, devo juntar-me aos meus irmãos. Não posso desvelar a
minha presença.
- Eu sei, na hora de laudes, nós partimos para Sul, com destino a Ebora.
Que este encontro permaneça em segredo. Não reveleis a ninguém aquilo que
aqui foi falado. Gualdim, confio-te esta missão pela firmeza que em ti
deposito e também pelas provas que já demonstras-te, de fidelidade à
causa maior deste reino.
O prelado dirigiu-se para a pequena capela, e convidou Gualdim a segui-
lo. Ambos se retiraram-se com reverência juntando-se discretamente às
cerimónias que começavam.
El-Rei D. Afonso fixou o olhar na chama crepitante da lareira. Os seus
olhos brilhavam de emoção. No fogo via um presságio favorável indicando
que a missão deveria prosseguir. Aquele que lhe aparecera em visões, qual
divindade mística, qual senhor absoluto de todas as coisas, havia de
proteger os seus homens.
Estava chegada a hora... não tinha dúvidas!
Entretanto na capela, os monges estavam preparados para começar a leitura
dos salmos. O prior ajoelhou-se frente ao altar; Gualdim e Antunes Duval
tomavam lugar junto aos monges, do lado direito. O abade entoou o Venite
Creator Spiritus (vem ó espírito criador). Os monges respondiam em coro
cantando, cada um dos lados, a respectiva antífona. Findo o canto do
salmo, os irmãos sentaram-se, o abade dirigiu-se ao mosteiro:
- Cristo pode salvar, até ao fim dos tempos, os que por seu intermédio se
vão aproximando de Deus; pois está sempre vivo para interceder por eles.
Meus irmãos... continuou - ... estamos aqui, mas não estamos isolados.
Trabalhamos com os do mundo. Eles trabalham no mundo; nós aqui rezamos
pelo mundo, para que o Espírito renove a face da Terra.
Os irmãos seguidamente cantaram o Ave Stella Caeli (Ave Rainha do Céu) e
o Abade abençoou-os. Restavam-lhes mais três horas até à próxima hora do
Ofício Divino. Tinham de preparar o dia que principiava.
72

Capitulo 8
O PIANO
Que vamos dizer ao Rei? - dizia Joaquim Mufioz para José. Quem os
observasse diria que eram um respeitável cavaleiro Templário e o seu
escudeiro que se dirigiam para Santiago.
Para não serem apanhados na sua passagem, esperaram pela maré baixa e
atravessaram o rio Minho. Tinham entrado no Condado Galego a medo. Ao
chegarem a Tomino junto ao Monte de Santa Tegra pararam numa taberna.
Prenderam os cavalos e entraram.
- Boa noite Paco! Cheira a peixe e pimentos de padrón fritos. Traz dois
copos de cidra.
- Sim, D. Joaquim - disse o taberneiro.
Os dois homens sentaram-se a uma mesa no canto da taberna.
- Joaquim... disse José, também conhecido como Pepe - ... não percebo
como, sendo tu um cavaleiro, te podes rebaixar a tudo isto?!!!
- Não percebes, Pepe? Vendi a minha alma ao diabo, ao dinheiro. Estava
farto de andar ao sabor do Mestre da Ordem; de não ter nada meu; de ser
um pau mandado. Estou cansado de aturar D. Pedro Robera... esses dias já
lá vão... mas deixa estar que tu também não podes falar muito... mataste
um homem, sem contar com os outros que, por esta altura, ficaram
reduzidos a cinzas!... os homens já devem ter feito o trabalho... como
sabes!
Entretanto o taberneiro chegava com a cidra. Lançou um olhar de
disfarçada surpresa a Pepe... Aqui têm! - disse, com ar comprometido, por
ter escutado a conversa.
- Eu sei!... Obrigaste-me a empurrar o vice-almirante do monte de S.
Bartolomeu. E agora estou nas tuas mãos.
75
- Estás comigo, estás com Deus!... ainda havemos de ser bem pagos! disse
Joaquim, dando-lhe uma palmada nas costas e soltando umas sonoras
gargalhadas.
- Bem pagos como? perguntou Pepe em tom afirmativo, dando um murro na
mesa e mostrando-se visivelmente nervoso. Tudo por causa de uns
Testemunhos... que nem sequer se sabe o que são...
- Acalma-te hombre! Deixa comigo - Joaquim olhava para todo o lado e
fazia gestos ao amigo, para que falasse baixo - Shiu!!! Fala baixo...
- Deixa, deixa... Deixa contigo... a última vez que deixei contigo... -
pensava Pepe.
- Bom, os genoveses também querem os Mapas secretos e os documentos, e
dão mais dinheiro! Os Travas já têm o suficiente. Cá nos havemos de
arranjar. Já bebeste?... Vamos embora, já é muito escuro. Paga ao
taberneiro enquanto vou tirar esta farpela de templário.
- ...
- Pepe resmungou baixinho e retirou um saco que trazia pendurado à
cintura, enquanto chamava o taberneiro. Entregou-lhe duas moedas e saiu
com Joaquim.
- Muchas gracias, senores! - despediu-se Paco, arrecadando o pagamento.
Os dois homens dirigiam-se ao monte Oia, onde existia um mosteiro. Oia
ficava do outro lado do monte de Santa Tegra, junto ao mar. A ondulação
era de tal forma que parecia que as vagas queriam fustigá-los. Ali
estariam protegidos, pois com a noite que estava, ninguém sairia de casa.
- Temos de ter cuidado, porque os monges de Oia são da mesma Ordem dos
que Afonso Henriques pôs em Al-cobaxa. - disse Joaquim.
- Ouve lá... se os homens já limparam o sebo àquele irmão dos
hortucalen.ses... em breve teremos a chave... será verdade, o que por aí
se diz?
- Sei lá... parece que veio do Egipto... em breve chegarão os pombos com
notícias, Pepe, aguardemos serenos... ainda havemos de ser bem pagos,
hombre... escreve o que te digo!
O vento soprava, cavalos e cavaleiros estavam assustados. A lenda queria
tornar-se viva; as éguas de Oia eram fecundadas pelo vento.
- Tenho uma amiga que mora por estes lados!- afirmou Joaquim. Vamos mas é
pedir-lhe para passar a noite... está cá um temporal!
76
Pepe concordou.
Depois de andarem cerca de uma hora a cavalo, ensopados até aos ossos,
encontraram uma casa. Um forte cheiro a cera pairava no ar. Ao ver um
caco de barro em chamas, Joaquim mudou de direcção. Pepe nunca se tinha
visto numa coisa assim. Bem picava a barriga do cavalo, mas o animal
teimava em andar.
- Meiga!... Ó Meiga... (56)Estás em casa? gritou Joaquim. Uma mulher
idosa apareceu à porta.
- Já sabia que vinhas! A santa compana (57) trouxe-te até mim. Entra
disse a estranha mulher.
Ao entrarem na pequena casa, de uma só divisão, verificaram que tinha a
forma de um círculo. Pepe sentou-se ao pé do lume e olhou para as paredes
de pedra. Alhos, cornos de vaca, vassouras diversas, cabeças de porco-
bravo... um cenário, no mínimo, bizarro!
- Podemos pernoitar aqui? perguntou Joaquim.
- Fica... Joaquim! Bebam esta tisana de ervas, que está frio - disse a
anciã.
Pepe estava a olhar para a fogueira e sentia a cabeça a andar à roda.
- Deixaste a cruz e já não tens protecção! - exclamou a mulher, virando-
se para Joaquim.
A chama da fogueira elevou-se e Pepe parecia ver olhos e línguas no lume.
Tudo era muito confuso e estranho. Ele já tinha ouvido falar das meigas
galegas; mas não sabia que existiam! Subitamente ouviram um sussurro, uma
rajada de vento abriu a porta do casebre e sentiram um ligeiro arrastar,
no exterior.
Vai espreitar Joaquim... mas fecha a porta - disse a velha mulher,
fazendo gestos estranhos com as mãos e expressões bizarras com os olhos.
Ele esgueirou-se, e viu duas filas de corpos luminosos e transparentes.
Ficou com os cabelos em pé. Os seres estranhos levavam um ataúde. Voltou
para dentro...
E um funeral!... - sussurrou Joaquim, com todo o corpo gelado.

(56). Meiga - Nome dado às bruxas na rendia da Calina, em Espanha.


(57). Santa Campana - Crença galega: as almas dos mortos caminham em fila
pela noite.
77
- Pois é, Joaquim. É o teu funeral! A cruz vai vencer-te! - disse a
anciã, soltando uma gargalhada.
Nisto, a mulher elevou-se, como que em transe, do mocho em que estava
sentada, e começou a vociferar:

« En las noches de Invierno


La muerte descalza Afila con celo
La plateada gtiadana,
Frequenta caminos Y encrucijadas
Yendo al encuentro
De la Santa Comparsa ».

Joaquim, de pé, aconchegou-se com a manta e teve um arrepio. Apesar de


estar quase em cima do lume, Pepe estava gelado, o terror paralisava-lhe
o cérebro! Teve um tremor e adormeceu aterrorizado.
- O teu amigo é fraco! afirmou a meiga. - Toma um cobertor e dorme...Eu
tenho de sair. De manhã vai-te, que a morte segue-te hombre!
Quando amanheceu, a porta abriu-se e entrou uma bela mulher. Pepe acordou
sobressaltado e perguntou:
- Quem é?
- Deixa lá - disse-lhe Joaquim. Vamos mas é embora! Puseram-se a caminho,
calados. Uns metros à frente, Pepe virou-se para Joaquim e perguntou-lhe:
- O que se passou ontem? Ainda tenho a cabeça a andar à roda.
- Por ventura foi da tisana? indagou Joaquim, rindo. Ao chegarem a Tui
dirigiram-se à catedral e passaram pelo Paço,
onde se encontravam os irmãos Trava. Fernão Peres estava à porta, viu-os
e interpelou-os.
- Os Mapas? Onde estão as cartas do Egipto?
- Não as temos! Os homens de Afonso Henriques têm-nos bem escondidos.
Devem estar com o rei, em Coimbra. Irmos a Coimbra é morte certa! Na
câmara do comandante da frota templária também não estavam... viramos
tudo ao contrário!
- melhor nem aparecerem ao Rei. Vamos falar com o meu irmão Bernardo.
Subiram as escadas do paço e entraram numa sala, onde este se encontrava.
- Bernardo, eles não têm os Mapas... temos que fazer qualquer coisa!
Depois de conjecturarem várias hipóteses e de argumentarem em voz alta,
Bernardo, o mais velho, tomou a palavra e disse:
- Tendes que regressar... temos que ter os segredos dos portucalenses...
se o nosso Rei sabe que chegam de mãos vazias... é o vosso fim!... ele
não tem andado bem disposto, como sabeis!... Joaquim, passas pela
catedral. Levas três pedreiros contigo e vão oferecer-se aos
portucalenses para trabalhar. Não te esqueças de levar os pombos para
mandar notícias. Vão! Desapareçam!
Pepe estava desgostoso, com frio e com fome. Quando pegaram novamente nos
cavalos e montaram, virou-se para Joaquim e disse-lhe:
- Joaquim, não vou! Vai sem mim... - Picou o cavalo e desatou a galope,
enquanto gritava - Vou cumprir uma promessa a Santiago. Antes quero ir
vivo do que morto!!!
79
Capítulo 9
A MISSÃO DO MESTRE
Depois de uma noite mal dormida, Renato e Abel levantaram-se. O sino
tocou para a hora prima.
- Não consegui dormir, Abel... não é fácil, com o sino a tocar toda a
noite! Não ouviste nada de estranho?
- Estranho???!! !...Como assim? perguntou Abel, intrigado.
- Ontem à noite pareceu-me ouvir um lamento... um choro triste, como que
um murmúrio de alguém ferido ou marcado por uma pesada maldição! Depois
adormeci e não voltei a ouvir nada.
- Não me pareceu ouvir ninguém a chorar... se calhar era um gato lá fora.
Seja como for, nada poderemos fazer, não fiques tão perturbado! - disse
Abel, enquanto se arranjava para sair.
Depois de lavarem a cara e cobrirem o corpo com as suas vestes,
encontraram-se com Gualdim Pais no refeitório. João Arnaldo Domingues
estava sentado junto ao Mestre e, lado a lado, viam-se também Lopo
Fernandes, protegido de Gualdim, e Nuno Fafes. Fernão Afonso estava
sentado à frente destes, era ainda muito jovem, mas revelava já a bravura
e robustez que davam tónica ao seu carácter. Estêvão Martins e Paio
Sanches chegaram entretanto, acompanhados de Gaspar Gomes. Tinham estado
a conversar com fr. Antunes Duval, o monge cisterciense que acompanhava a
comitiva. Este juntara-se aos restantes monges da comunidade, e
partilhava com eles os preceitos religiosos da Ordem.
Tinham sobre a mesa leite, pão e queijo. No caminho cruzaram-se com um
jovem franzino de cabelo ruivo e tez clara animada por alguns sinais de
nascença, que aparentava ter pouco menos idade que eles. Estava vestido
com roupas pobres, remendadas e andava descalço. Ficou a olhar para eles
fixando-lhes os rostos, mas afastou-se assim que repararam nele.
O refeitório estava agora mais composto. Estavam à volta da mesa
mais dez monges, parecia não caber mais ninguém. Aproveitaram dois
pequenos espaços e encaixaram-se entre os comensais. O astro-rei começava
a entrar pelas janelas e à sua volta viam extensos campos trabalhados e
com árvores de fruto. Enquanto comiam em silêncio um monge lia em voz
alta.
Cá fora, depois da refeição, Gualdim Pais chamou-os:
- Meus amigos e companheiros, daqui a dois dias partiremos. Preciso de
pôr as ideias em ordem e peço-vos que descanseis e vos prepareis para o
encargo que vamos empreender. Preparai os vossos espíritos e serenai!
- Mestre, estamos contigo e unimo-nos ao teu ideal e d'El-Rei D. Afonso,
a quem serviremos acima de tudo. Pedi-nos qualquer coisa, que possamos
fazer digna do estandarte que empunhamos! Os cavaleiros estavam unidos
por um ideal comum. Um desígnio que cimentava os objectivos d'El-Rei para
Portugal.
A face do Mestre descontraiu-se. Tinha agora que pensar na viagem até
Nabância. Afastou-se lentamente e, sem se deter, subiu as escadas. Entrou
no seu quarto e acostou-se, como a querer repousar um pouco. Não se
ajeitava à cama; nem a cama se moldava a ele. A palha da esteira
incomodava-o. Levantou-se, voltou a descer a escada e dirigiu-se aos
estábulos. O seu cavalo, quando o sentiu, bateu com os cascos no chão e
relinchou. Gualdim acariciou-lhe a cabeça, e com calma, preparou-o,
montando-o de seguida. Desatou numa correria desenfreada. Parecia que
fugia de qualquer coisa, ao mesmo tempo que procurava atinar com algo.
Parou junto às nascentes da Piedade.
- Meu bom amigo... - disse, enquanto afagava a cabeça do animal - ...
agora somos só nós os dois! Companheiro de tantas aventuras... espero que
esta não me falhe!
Como resposta, o animal soltou um sonoro relinchar. Gualdim desmontou,
sentou-se numa pedra à sombra de uma oliveira e deixou o cavalo passear.
O dia estava fresco, mas, como a nascente era de água quente, sentia-se
no ar um vapor acolhedor, borrifado pelo cheiro a hortelã brava. Baixou o
gorro da cota de malha e sentiu a brisa fresca na face. Era o momento
ideal para alinhar as suas ideias.
- O que quererá o Rei de mim? perguntou-se a si próprio Gualdim Pais, com
uma expressão enigmática estampada na face. Começou, mais uma vez, a
analisar o seu percurso pessoal:
Nascera em Amares, perto de Braga, tinha agora 41 anos. Aos doze anos
entrara ao serviço do rei, sendo seu escudeiro. Fora armado cavaleiro por
D. Afonso Henriques depois da Batalha de Ourique. Após ser neófito na
Ordem do Templo estivera em Jerusalém, no Egipto e na Síria. Lutara
contra reis, assistira a muita crueldade! Depois da rendição de Ascalona
57
partiu para Sidon. Fora discípulo do Mestre Geral do Templo, Bernardo
Trémelai, e fora incumbido da formação da Ordem, em Portugal. Fora
iniciado num alto grau da Ordem do Templo, tendo acesso aos mistérios
antigos. A Sabedoria antiga, sem dúvida, era a sua grande paixão!...
Acautelou-se. Pareceu-lhe ouvir um barulho estranho... olhou em redor, e
nada viu. Voltou aos seus pensamentos:...
… a Ordem estava estabilizada, apesar dos Hospitalários de S. João já
estarem no reino desde o tempo em que D. Teresa era regente, as duas
ordens entendiam-se bem. Tinham acordos de actuação. O rei era seu Senhor
e Mestre. Senhor porque era rei e Mestre porque a Ordem a que pertencia -
a de Mariz estava acima da sua. Essa estava no reino há alguns anos.
Mestre Pedro Arnaldo tinha morrido em combate, em Alcácer do Sal, no ano
anterior e era agora sobre os seus ombros que residia a responsabilidade
da Ordem. Tinha no imenso território da Ordem o poder temporal e
espiritual sobre pessoas, terras e bens, que possuíssem ou viessem a
possuir. Nesse momento era senhor de um reino dentro de outro reino, mas
a sua amizade e fidelidade a Sua Majestade, El-Rei D. Afonso Henriques,
estavam acima de tudo. Era isso mesmo, e só isso, que o unia ao rei...
58.
Em 1157, Gualdim Pais sucedeu ao primeiro Mestre Português Pedro Arnaldo.
Educado na nobre arte da guerra. foi companheiro fiel d'El-Rei D. Afonso
Henriques. Como detensor e guerreiro realizou prodígios. na célebre
tomada de Ascatona no cerco de Gaza e na rendição de Sidon segundo reza a
lápide que se encontra no Castelo de Al mourol, pelo seu grande valor
histórico, transcrevemos na íntegra, em linguagem corrente: "Era de
MCCVIII 11208 da era de César, 1170 da era de Cristo]. O Mestre Gualdira,
certão te nobre geração natural de Braga existiu no tempo de Afonso,
ilustríssimo Rei de Portugal. Abandonando a milícia secular, em breve se
elevou como um estro, porquanto soldado do Templo, dirigiu-se a Jerusalém
onde durante cinco anos levou vida trabalhosa. Com seu Mestre e seus
irmãos, entrou em renhidas batalhas, movendo-se contra os reis do Egipto
e da Súcia. Como fosse tomado Ascalona, partindo logo para Antiogaia
pelejou muitas vezes pela rendição de Sidon. Cinco anos passados, voltou
então para o Rei que o criara e fizera cavaleiro. Feito Procurador da
Casa do templo em Portugal. Fundou, neste, os castelos de Pombal, Thonun:
e este que é chamado Ahnoriol, e Idanha e Monte Santo.
59
A obediência tinha como propósito preservar os segredos cristãos, judeus
e muçulmanos e a protecção do Cálice Sagrado (60); por isso o rei tinha
PORTUGRAL no seu selo. Mas o que significava a expressão Gral (Graal)? A
palavra que ele conhecia mais parecida era gradalis, que significava
cálice. O reino seria o porto do cálice e deveria ser construído o seu
templo sagrado, abrigo secreto, onde este, e os restantes magníficos
tesouros Templários repousariam, longe dos olhares gananciosos e desejos
de poder. Não teria sido em vão que o Rei Salomão reunira os melhores
artífices, arquitectos e sábios de seu tempo, com a ajuda da Rainha de
Sabá, detentora do saber original do mundo e das tradições das primeiras
idades, conhecimento esse, codificado hermeticamente (61)- Mas o tesouro
não era apenas material!...
Acautelou-se novamente. De novo o ruído estranho o incomodava. Levantou-
se para ver se havia alguém por perto... mas nada viu. Voltou então, mais
uma vez, às suas análises pessoais:
Lembrou-se novamente do juramento do rei na Batalha de Ourique: Ele e a
sua descendência deveriam estabelecer um império espiritual, que seria
luz das nações! Mas a serpente... onde entraria aqui a serpente? Era o
símbolo do feminino, é certo, da Mãe universal - a Mãe criadora e
protectora dos mundos subterrâneos, onde corre a água que purifica.
Gualdim sabia que havia territórios onde a energia telúrica (62)se fazia
sentir de forma mais intensa. A serpente simbolizava a ligação entre dois
mundos... no Egipto tinha visto a sua representação em muitos locais
sagrados... mas que mundos seriam esses, e o que teria este símbolo a ver
com o reino e as intenções de Sua Majestade? Também a serpente que morde
a própria cauda, a Ouroborus, e muda a pele representa a continuidade, a
firmeza, e o fluxo ininterrupto da vida... os ciclos... o feminino... já
os povos hindus falavam de Shakti, a energia feminina dinâmica que anima
o mundo. Aos sábios

(60). Graal / Cálice sagrado, fonte do saber. Lenda que só começou a


circular em 1180. O Santo Graal era o cálice pelo qual Cristo bebeu na
última ceia, recolhido por José de Arimateia, junto com gotas de seu
sangue. Além do cálice Arimateia levou a lança, a espada, o prato e o
caldeirão, como relíquias para Glastonbury, no País de Gales, onde fun-
dou uma pequena comunidade cristã que se tornou foco de peregrinação
religiosa.
(61). Rezam as lendas que entre muitas preciosidades incalculáveis, as
Túbuas da Lei, gravadas por Moisés no Monte Sido, o Candelabro de Ouro de
Sete Braços e outras relíquias do Templo constituíam esse tesouro.
(62). Energia vinda do interior da Terra. Emanação telúrica é a radiação
de essência divina proveniente da terra.
84
do antigo Oriente também se dava o nome de Nagas ou serpentes, porque a
mudança de pele significava uma evolução no conhecimento. A pele do «ter»
dá lugar à pele do «ser». Voltava ao mesmo raciocínio.
Gualdim Pais continuava sentado junto à oliveira, interiorizando o
assunto que tinha em mãos e analisando os últimos acontecimentos. O vapor
quente que se sentia no ar levou-o a descobrir completamente o rosto.
Estava calor! Em silêncio, continuou em busca de respostas conclusivas às
suas questões:
Quando nos aproximamos da nossa dimensão corporal, a serpente mostra-se
associada à coluna vertebral... é a Kundalini, ser mortal e curativo ao
mesmo tempo... para os Gnósticos era considerada como um representante do
tronco cerebral e da medula espinhal... um excelente símbolo do
inconsciente, que exprime a presença inesperada e repentina do mesmo...
A matéria e o espírito fundiam-se neste símbolo de transformação e de
regeneração. Mas o que teria o mundo inferior e o superior a ver com o
projecto do rei?
Gualdim continuava imerso nos seus pensamentos:
... a serpente associava-se ao sagrado feminino dos antigos ritos,
personificada e identificada com Maria, mas antes de mais, era o símbolo
do Cristo salvador, o sinal que Moisés tinha colocado no deserto para a
salvação do povo... A sua mensagem seria sem dúvida nesse sentido... mas
o reino? Onde entraria o reino de Sua Majestade ?... Estacou... tinha-se
feito luz!
Claro!... Portugal, a Ofiusa, era a terra da serpente! Aí se uniriam dois
propósitos... claro... o reino seria essa união! Seria afinal essa a
intenção d'El-Rei? Da sua experiência face às antigas tradições, Gualdim
sabia que a serpente era o símbolo da sabedoria. "M", Mari;- era Maria,
era Mar, era a Mãe a quem era dedicada toda e qualquer comenda templária.
Qual rosa imersa em fino véu de mistério!... teria percebido finalmente o
propósito de Sua Majestade ? Levantou-se admirado com o seu raciocínio...
tinha-se feito, finalmente, luz!... Portugal deveria ser um porto. Um
ponto de partida para um império espiritual virado ao mar! Para isso era
necessário preservar os Mapas Templários. Mas onde concretamente ? O
reino seria também o eixo entre os dois mundos sagrados. Mas como? Como
construir um eixo sólido e firme que nos dê orientação e organização
interna, mas que ao mesmo tempo seja maleável e flexível como a serpente?
Quando a energia da serpente começa a envolver esse eixo, ele começa a
mover-se,
85
e todas as nossas certezas, laboriosamente construídas ao longo da vida,
começam a ser abaladas. A vivência da coluna vertebral na sua
verticalidade remete-nos ao Axis Mundi (63), ao pilar cósmico e à
montanha e árvore sagradas. A serpente coloca-nos em contacto com a nossa
coragem, determinação, precisão e firmeza, nossa capacidade de
crescimento e desenvolvimento. Não é fácil, portanto, suportar o
despertar da serpente, no entanto, se a estrutura do eixo for forte ela
não se desmanchará, apenas se tornará flexível. Começava a compreender o
monarca... e a sua própria missão em toda aquela demanda!
Gualdim Pais estava sereno e confiante. Esboçava um sorriso de
entendimento enquanto continuava imerso nos seus pensamentos.
... a segurança constrói-se na contínua dança entre o que sabemos e o que
não sabemos. Sairemos do equilíbrio central e a ele voltaremos inúmeras
vezes, porque ele sempre estará lá...- Pensava para si.
...sem mais divisões entre superior e inferior ou interior e exterior,
tudo será unificado em luz e esplendor. Essa parece ser a lição da
serpente! Agora sim, tinha algum sentido a sua preocupação com os
Mapas... os Mapas secretos... trazidos do Egipto pelo Gondomar...claro...
por isso o vice-almirante de Fuas Roupinho tinha sido morto... mas por
quem? - interrogava Gualdim . Sabia que o rei se pelejava por uma boa
agitação. O grande amor de D. Afonso não era exactamente a Rainha D.
Mafalda de Sabóia. Especialmente agora, que havia perecido fazia já dois
anos! Porque é que ele tinha de ainda estar apaixonado por Flâmula Gomes,
de quem já tinha dois filhos, e que... pertencia ao poderoso clã dos
Travas, seus inimigos de estimação?!!!!
Gualdira continuava absorto nos seus pensamentos:
...mas os documentos? Os Testemunhos? Onde andaria a chave... o irmão
Sancho sabia qualquer coisa... No Egipto tentara falar-lhe, mas fora
impossível... viram-se obrigados a fugir... tinha que o procurar... onde
andaria ele... há muito que abandonara a Ordem... qual seria agora o seu
paradeiro?... Fr. Martinho é seu irmão... deverá saber... tenho de lhe
falar... mas por hora, vamos ao projecto d'El-Rei ...- pensava o Mestre.
Tinha tudo na cabeça... construir uma Escritura na pedra, uma mensagem
que só alguns entendessem.

(63). Axis Mundi - O eixo do mundo.


Um código que fosse transmitido de geração em geração. A Jerusalém
Ibérica, dedicada ao Espírito Santo, Senhor do Império do Mar. Havia que
transferir os segredos para um local mais seguro. Tinha que ter cuidado,
os inquisidores começavam a apertar a sua malha. Não era a primeira vez
que a Ordem era acusada de heresia!
Os seus pensamentos tinham-no tornado como que adormecido. Levavam-no por
um transe quase hipnótico que o alheava completamente do mundo, de tão
abstraído que estava nas suas ideias. Nisto... ouviu um barulho... uma
pedra na água.
- Quem está aí?... - perguntou Gualdim, sobressaltado. Ninguém lhe
respondeu...
- Quem está aí?... - insistiu.
De repente, viu surgir dois vultos, disfarçados pela imensa nuvem de
vapor que se levantava à sua frente.
- Vocês?!!!... Que fazem aqui?!!! - eram os seus dois jovens amigos, Abel
e Renato.
- Senhor, andávamos a passear e vimos o vosso cavalo sozinho. Primeiro
estáveis sentado e não vos mexíeis, depois ficámos mais descansados
quando vos levantastes.
Gualdim não pode deixar de sorrir.
- Bom, companheiros, voltemos à abadia que é hora de cear! - disse para
os dois jovens.
Quando se preparavam para regressar, repararam que alguém os seguira até
aquele lugar recôndito. Viram um vulto desaparecer no meio das árvores.
Ficaram intrigados e tentaram descobrir quem seria... mas sem efeito; ao
penetrarem no arvoredo não avistaram vivalma. Tinham que estar atentos
dali para a frente... a missão revestia-se de uma enorme importância e o
Mestre não pôde deixar de lhes expressar a sua preocupação.
O sol ia alto. Subiram calmamente para a abadia. Enquanto os jovens
conversavam, logo a seguir a Gualdim, este, teve um último pensamento:
- Quem quereria os Mapas?!!!... O rei falou nos espiões de Castela...
bom, agora tenho de pensar o que fazer com estes dois que vêm aqui atrás
- pensou.
Depois da refeição chamou o Mestre Abraão e dirigiram-se aos seus
aposentos.
- Abraão, meu velho amigo, entra e senta-te!
87
Na pequena sala havia uma mesa e dois bancos toscos. Enquanto se sentava,
o velho judeu, arregalava os olhos de contente por voltar a privar com o
Mestre templário.
- Abraão... agora que estamos os dois sozinhos... diz-me, que idade tem o
teu sobrinho? - interrogou Gualdim.
Abraão nem queria acreditar que Gualdim lhe estava a fazer aquela
pergunta.
- ah... Que idade?... A que idade te referes, Gualdim? - perguntou.
- Sabes bem a que idade eu me refiro, Abraão! - disse o Mestre.
- Tem cinco anos... cinco anos de aprendizagem dos segredos antigos -
Abraão sorria orgulhoso, enquanto respondia à pergunta.
- Sabes, Mestre Abraão, chegou a altura de Renato ser ordenado cavaleiro;
mas isso é comigo! Contigo deixo a outra parte... a primeira parte do seu
acesso ao Conhecimento.
- E o jovem ajeita-se? - inquiriu Abraão.
- Julgo que sim... parece-me talhado... veremos! - respondeu Gualdim.
Os dois continuaram a falar em voz baixa. Depois da conversa Abraão saiu,
e foi chamar Renato.
- Renato... - apelou ele para o jovem .Gualdim chama-te. Apressa-te!
Um instante depois, o jovem batia à porta do quarto do Mestre do Templo.
- Ordenastes que me chamassem, Mestre? - perguntou, respeitosamente.
- Sim, entra...
Renato entrou e ficou ao pé da porta. Gualdim também estava de pé, com as
mãos atrás das costas.
- Há quanto tempo estás comigo? perguntou-lhe o Mestre.
- Faz quatro anos - disse o jovem.
- Lembras-te de eu te ter mencionado que ias fazer uma viagem? -perguntou
Gualdim.
- Sim, Mestre!
- Pois chegou a altura de fazeres a tua demanda, Renato.
- Qual empresa?... - perguntou o jovem, meio incomodado.
- A procura do Conhecimento, meu amigo.
- Então falai-me desse Conhecimento, Mestre.
Naquele momento, muitas interrogações atravessavam o seu espírito jovial.
88
- Se eu te falar dele, falo-te do meu Conhecimento, do que aprendi com a
minha experiência, e não pode ser, tens que ser tu a descobrir o teu
próprio Conhecimento. Diz-me Renato, em quem acreditas? Em quem tens
fé?...
- Em Deus! - disse o jovem, prontamente.
- E em quem mais?...
- Em Nosso Senhor Jesus Cristo.
- Óptimo. Agora vai descansar. A partir deste momento, se alguém tiver
contigo uma conversa mais estranha, guarda silêncio absoluto, porque nem
todos são Filhos da Luz! Amanhã de manhã partimos! Vai com Deus e que
Nosso Senhor Jesus Cristo esteja sempre contigo. Lembra-te que podes ser
sábio, mas só Deus é a Sabedoria.
89

Capítulo 10
PREMONIÇÃO
Mais uma noite passada naquela cela fria e sem conforto... os monges de
Al-Cobaxa tinham sido bons com ela, de qualquer forma era ainda estranho
para Catarina conviver com esta nova identidade.
Na noite anterior, agora na pele do moço ruivo que tinha por nome João
Sanches, a jovem tinha dormido mal. Depois de ter estado com os viajantes
no refeitório, não conseguia esquecer aquele rapaz de olhos amendoados.
Reparara nele assim que o vira. As suas faces ruborizavam quando
recordava o seu rosto fino.
Dirigiu-se para o dormitório dos noviços, após a refeição e, aproveitando
o facto de estar escuro, retirou a faixa de tecido que lhe comprimia o
peito e deitou-se. Sentia-se perder os seus traços femininos a cada novo
dia que passava. As suas maneiras desajeitadas, o seu modo de andar, o
próprio som da sua voz... tudo era diferente! Agora vivia como um
homem... um rapaz... e observava, tentando aprender, os costumes que
deveria seguir dali em diante.
No outro canto do grande dormitório estavam os dois jovens, Renato e
Abel, e o velho Abraão. Já dormiam.
Catarina passara a noite anterior a chorar. Quando fechava os olhos via a
imagem do pai. Lembrava o seu olhar, carregado de tristeza, naquele
momento breve em que se cruzou com o seu, quando estava escondida debaixo
do alçapão... os seus olhos enchiam-se de lágrimas ao pensar nas saudades
que sentia dele... e de Carmen, que a criara como uma mãe. - Como sofrera
aquela mulher nas últimas horas! - pensou.
A vida de Catarina tinha levado uma grande volta nos últimos dias...
precisaria de tempo para recuperar as forças e coragem para voltar a
encarar o futuro.
Há duas noites que não dormia quase nada. Sentia-se cansada. Precisava de
descansar... fechou os olhos na esperança de adormecer
91
rapidamente, mas ainda demorou bastante tempo até os seus pensamentos se
libertarem e se entregar, finalmente, ao repouso. Cerrou as pálpebras e
deixou-se levar. Pensava em tudo o que lhe fora dito nos últimos dias. A
sua mãe... a mulher que a criara... e tudo aquilo que de bom recebera de
seu pai. A sua mãe verdadeira... Clara... aquele encontro
reconfortante... um ligeiro tremor percorreu-lhe o corpo e sentiu-se
pairar. Pela primeira vez na vida, e sem saber como nem porquê, conseguia
ver-se a si própria deitada. O seu corpo flutuava. Pairava acima do nível
da realidade e elevava-se num plano mais etéreo. Esta nova sensação
colocava-a com os pés bem acima do chão. O seu coração batia a um ritmo
mais acelerado que o habitual. De repente sentiu que não estava
sozinha....
- Catarina, Catarina - O seu nome vinha como uma ligeira brisa.
Começou a entoar baixinho uma ladainha que até então desconhecia:

« Este é um tempo que não é um tempo,


Num lugar que não é um lugar,
Num dia que não é um dia.
Estou no limiar entre os mundos,
Frente ao véu dos mistérios.
Que os antigos me ajudem
E protejam na minha viagem mágica».

- Pai?! Que fazeis aqui?


Sentiu uma ligeira aragem, consoladora, percorrer-lhe o corpo.
- Minha filha... minha Catarina... doce Catarina...
- Pai?! Como é possível, como podeis ser vós?
Catarina conseguia ver o seu pai, Sancho Viegas, de uma forma tão
brilhante, como nunca antes vira. Estava deslumbrada por aquela luz
azulada e, num misto de temor e alegria, tocou a marca do crescente lunar
que tinha no seu pulso, sentindo um calor penetrá-la.
- Minha filha, não te preocupes comigo, que eu estou bem. Estás a sonhar.
Sossega. Tenho uma mensagem para ti - O espectro sussurrava-lhe ao
ouvido... não se fazia esperar... atravessava o tempo e o espaço - O
reino está em perigo! A missão profética do reino está ameaçada! ... Já
tens a espada que foi minha... deves entregá-la a
92
Gualdim Pais, Mestre da Ordem do Templo, e acompanhar os jovens que
chegaram ao mosteiro. No cinturão de Orion encontrarás a resposta...
segue as três Marias... levar-te-ão à Rosa... Agora vai!
- Mas... meu pai... - Ela queria atacá-lo com mil perguntas, mas, ao
invés, limitou-se a ouvi-lo. - As três Marias?!... Quem são ? - Catarina
não entendia o que queria o pai dizer com aquilo.
- Confia em mim, minha filha, que o Altíssimo confia em ti! - Ao dizer
estas palavras, sorriu-lhe com ternura e estendeu-lhe a mão luminosa.
Quando Catarina quis tocá-la a figura de Sancho Viegas esfumou-se no ar.
Ela ouviu um sussurrar e foi sugada para o seu corpo que estava deitado.
Acordou estremunhada, com a sensação de que estava mal encaixada. Dormiu
mais um pouco, e quando teve melhor noção do que se passara, começou a
chorar baixinho. Na sua cabeça ecoava uma oração:

« Abri a porta da minha vida interior,


ó Mãe, revelai-me o mistério do passado,
Abri a porta da minha vida interior;
Para que o meu caminho seja libertado.
Enviai-me, Senhora, a luz do vosso fogo cósmico,
ó Mãe, tomai o meu caminho bem iluminado.
Dai-me um sinal e cuidai para que não me possa enganar;
Saber, ó Mãe, que o momento da vossa presença é chegado».

No seu sono leve, durante os breves minutos que se sucederam à aparição


de seu pai, uma outra imagem soava como um apelo... era... talvez... a
resposta às suas preces:

Viu um cavaleiro, armado, montado num cavalo negro, num galope veloz que
se movia em sua direcção e tomava roupagens de guerra e ostentava o
estandarte de Castela.
O corpo de Catarina era o de um jovem franzino, de cabelo ruivo e sardas,
vestia roupas masculinas e chamavam-lhe João Sanches. Segurava na mão a
espada que tinha sido de seu pai e transportava no coração a fé e o
desejo profundo de a entregar ao Mestre do Templo e cumprir, assim, a
missão que seus pais lhe confiaram.
Ao seu lado estavam os dois jovens que vira no dia anterior no
93
corredor do mosteiro e um vulto... o vulto de um homem que os protegia...
o cavaleiro avançava na sua direcção, de espada erguida aos céus, pronto
para lhe retirar o bem precioso que carregava consigo.
Fugia agora por entre o denso arvoredo, na companhia dos dois jovens...
durante a fuga caiu no chão e, com um olhar assustado, sentindo a
proximidade do cavaleiro, lançou no ar a espada de seu pai... e...
Acordou em sobressalto. Aquela espada era tudo o que possuía de seu pai.
Ele confiara-lhe uma missão... deveria proteger aquele bem precioso, e
entregá-lo ao Mestre do Templo. Chorou convulsivamente, até não ter mais
lágrimas para chorar, e libertou a sua alma de todos os tormentos que lhe
oprimiam o espírito. Naquele lugar desconhecido, queria morrer! Queria
esquecer tudo o que vivera e voltar a ser a criança de longas tranças,
enfeitadas com grinaldas de flores. Doce inocência... a de Catarina!
Mas essa morte era necessária. Na verdade, a jovem teria de morrer... uma
morte simbólica, é certo... para tudo o que fora a sua vida até então. E
neste processo vital, recordou a lua... recordou o que a mãe lhe dissera
antes de se separarem; a lua nasce, cresce, decresce... e desaparece...
atravessa diversas fases e, terminando um ciclo, volta à forma inicial.
Demorou-se numa breve retrospectiva do passado que já não voltaria
mais... para então depois, renascer!
Assim foi.

Capítulo 11
GUIADOS PELA FÉ

A noite foi longa e o dia amanheceu com uma chuva miudinha. A comitiva
reuniu-se, como de costume, junto do refeitório. Desta vez, fr. Antunes
Duval estava com eles. Aparelharam os cavalos e tomaram a primeira
refeição. Gualdim Pais afastou-se, por momentos, do grupo, dirigindo-se a
um grupo de monges que estava no refeitório. Voltando-se para eles,
perguntou:
- Irmãos... acaso sabeis dizer-me onde poderei encontrar fr. Martinho
Viegas?
- Está em recolhimento, senhor. Faleceu-lhe o irmão... a família foi
vítima de uma terrível calamidade!
- O irmão... dizeis? - Gualdim mostrava-se apreensivo... não sabia se
falariam do homem que ele procurava.
- Como se chamava esse irmão? - perguntou o Mestre.
- Não sei o nome dele... apenas sei que vivia no povoado de Turquel,
senhor - disse um dos monges, com a concordância dos restantes.
- Obrigado, irmãos... ficai em paz! - rematou o Mestre, enquanto
regressava para junto dos seus companheiros.
Depois, o Abade acompanhou-os à saída, desejando-lhes que Deus os
acompanhasse.
Do ainda pequeno mosteiro subiram o vale de Chiqueda, pequeno ribeiro que
abastece a abadia. A água corria a bom correr e o grupo ainda não tinha
percebido que em breve teriam uma tarefa difícil. A paisagem era o
prolongamento do paraíso. Os pássaros chilreavam, era um autêntico
santuário de aves, que aqui tinham os seus ninhos durante o Inverno.
Subiram o vale do Mogo até às nascentes do Alcoa e, no poço Suão, rumaram
depois em direcção às pedreiras. Gualdim Pais, na dúvida quanto à
identidade do falecido irmão de fr. Martinho, enviara um dos homens que
seguiam na sua comitiva ao povoado de Turquel, em busca de mais
informações.
95
- Que tamanha tragédia teria sucedido à família de fr. Martinho? -
pensava, enquanto acompanhava, com o corpo, o trote do seu cavalo.
À frente ia o Mestre, seguido por Fernão Afonso e os restantes
cavaleiros. João Arnaldo Domingues ia a seu lado. Lopo Fernandes e Nuno
Fafes conversavam. Paio Sanches e Gaspar Gomes tinham-se deixado ficar
para trás e Estêvão Martins acompanhava agora os jovens Renato e Abel,
seguido pelo velho judeu, tio de Abel, e fr. Antunes. A restante comitiva
assegurava o bom transporte da carga e dos haveres necessários à viagem.
Os burros e mulas de carga não tinham descanso, transportando barris
recheados do mais puro néctar, comida para fazer frente às necessidades -
carnes secas e salgadas, fruta que os monges de Al-Cobaxa providenciaram,
pão de centeio e trigo e todos os utensílios necessários para cozinhar.
Transportavam consigo as tendas e archotes, bem como duas arcas nas quais
se guardavam panos, cobertas e outras roupagens.
Renato e Abel continuavam com a estranha sensação de estarem a ser
acompanhados por alguém; o vulto que os seguira no dia anterior,
possivelmente. Por vezes viam-no esgueirar-se por entre o denso arvoredo
e galopavam na sua direcção, com a esperança de descobrir quem, já há
algum tempo, se movia pelos passos de um grupo de cavaleiros que
ostentavam o estandarte da grande cruz templária.
Ao longo do caminho, era perfeitamente visível o trabalho dos monges e de
alguns servos que trabalhavam na extracção de pedra calcária para a
futura abadia. Durante todo este percurso tiveram a companhia de carros
que carregavam e descarregavam a pedra, num movimento ascendente e
descendente.
À medida que começavam agora a subida, a vegetação alta ia desaparecendo,
tornando-se mais rasteira; os carvalhos e os plátanos davam lugar a
moitas, azinheiras e carrasqueiras. A chuva tornara-se agora em espesso
nevoeiro. Não se via um palmo em frente do nariz. Os cavalos intimidavam-
se, sentindo-se o seu respirar agitado. A cada subida correspondia um
covão. O frio começava a gelar as pontas dos dedos e as montadas já
estavam cansadas. Apearam-se para facilitar a caminhada; mas para as
pedras húmidas, botas e cascos tinham a mesma virtude, escorregavam.
A chegada da noite tinha-os apanhado no alto daquela serra. Era
importante arranjar um abrigo; a noite estava fria e precisavam de se
96
alimentar e dar conforto aos animais.
- Gualdim, meu irmão, será prudente arranjarmos um local para pernoitar!
- disse Paio Sanches, enquanto se aproximava do cavalo do Mestre.
- A noite já vai alta e o nevoeiro aumenta a olhos vistos! - acrescentou
Gaspar Gomes, enquanto tentava controlar o seu cavalo, que relinchava sem
parar.
- Tendes razão, meus bons amigos!... Renato e Abel arranjem-nos um sítio
para pernoitarmos ordenou Gualdim Pais aos dois jovens.
Desmontaram e pegaram em cobertores; puseram-nos pela cabeça e costas e
procuraram um abrigo. Andaram às voltas no local, cheios de frio e com o
estômago a queixar-se, até que encontraram um pastor que regressava a
casa com as suas cabras.
- Pastor, bom pastor... dizei-nos... sabeis de algum lugar onde podemos
pernoitar?
- Boas noites, senhores. Conheço uma lapa aqui perto... ide por esse
carreiro que chegais lá e despediu-se dos jovens, desejando-lhes uma
noite santa e percorrendo o seu caminho até à aldeia onde vivia.
- Renato... olha... - Abel ia mais à frente e apercebeu-se do lugar que o
pastor lhes indicara. Como que por milagre, por detrás de uma árvore,
viram uma loca que formava um abrigo acolhedor com capacidade para todos.
Voltaram a correr para junto da comitiva.
- Mestre... aqui... encontrámos qualquer coisa... vinde ver! - disseram
os jovens em uníssono.
O grupo chegou à entrada de uma fabulosa caverna. Renato gritou lá para
dentro e a gruta devolveu-lhe o eco da sua voz. Ainda devia ter uma
profundidade considerável!
- Iluminem a entrada! gritou Gualdim, para que o ouvissem.
- Parece-me um bom abrigo!... Seguro! - disse Paio Sanches, homem
bonacheirão e amante de um certo conforto.
Todos concordaram.
- Muito bem... prendam os cavalos e as mulas de carga e descarreguem-nos
- disse o Mestre.
Já dentro da gruta, acenderam uma fogueira, sentaram-se no chão e comeram
pão, fruta e carnes frias. Colocaram as esteiras no chão, cobriram-nas de
mantas para se protegerem do frio e ficaram a conversar
97
sobre a subida, enrolando-se em cobertores. Abel e Renato pegaram numa
tocha e foram espreitar o interior. A grande qualidade do Mestre do
Templo era estar atento a todos e a cada um dos seus homens. Afinal
Renato e Abel não passavam de dois jovens que faziam a aprendizagem da
vida. Uma ligeira fenda dava acesso a um corredor. A altura não era
muita, tinham que caminhar curvados. De repente um salão enorme esperava-
os. Renato olhou para cima e não podia acreditar no que via. Com a tocha
na mão tinha à sua frente mil outras pequenas tochas de várias cores.
- Parecem vidros de cores - disse Renato. - Passam de amarelo a vermelho,
de azul a verde.
- Toca numa delas disse-lhe Abel.
De imediato Renato levantou o braço e tocou com o indicador num cristal
de quartzo e sentiu uma picada no dedo.
- Picam! - disse, voltando-se para o amigo.
- Agora, Renato, toma uma das pedras que estão no chão... -
Ele assim fez
- ... fecha os olhos e... diz-me o que tens na mão? - ...???!!! -
Renato franziu a testa, estranhando aquela conversa. - O que tens na mão,
Renato? - voltou a insistir Abel, convicto.
- Uma pedra?!!! respondeu.
- E o que é essa pedra? - continuou Abel.
Renato pensou naquilo que Gualdim lhe tinha dito; nunca tinha tido uma
conversa assim. Se tirou uma pedra da rocha então tinha na mão uma rocha.
- Uma rocha! - disse, com prontidão.
- E se é uma rocha... continuou Abel - ... o que é que tens na mão?
- A montanha! - disse Renato, num misto de alegria e espanto. Abel
esboçou um sorriso.
- O Universo... - continuou o amigo, sentindo o coração a aquecer pela
alegria da descoberta. O Universo vasto e desconhecido!
- Agora diz-me Renato, se tu és uma parte desse universo, como podes
conter o todo? Como?... Se estás dentro da montanha, como podes conter a
montanha? Diz-me - inquiriu Abel.
- Porque eu também sou o todo - Renato estava espantado consigo mesmo.
Afinal, sempre soubera as respostas àquele estranho questionário... -
Para que seria toda aquela conversa? - interrogava-se.
- Isso!... Acabaste de passar a tua segunda prova!
98
- Segunda???!!! - exclamou.
- Sim, meu amigo, a primeira foi quando Mestre Gualdim te perguntou em
que acreditavas.
- Como é que sabes, Abel? - questionou.
Abel esboçou outro sorriso e, com uma enorme cumplicidade, virou-se para
Renato e gracejou:
- Disse-me um passarinho!... Vamos Renato. É melhor regressarmos - disse-
lhe Abel, calmamente.
Fizeram o caminho de regresso. Renato guardou o cristal. Já quase todos
dormitavam. Lembrou-se de uma brincadeira que costumava fazer em criança,
ensinara-lhe a mãe, era ele ainda muito jovem. “ Ajoelhava-se no chão em
posição fetal, relaxava o corpo e, esquecendo todas as pressões,
imaginava-se uma semente, envolvida pelo conforto da terra. De repente o
rebento começava a querer nascer e o corpo, devagar, ia-se soltando em
espasmos involuntários como que a percorrer o espaço inferior,
contornando cada grão de terra e afastando cada raiz no sentido
ascendente da claridade. O rebento queria nascer, queria deixar de ser
semente. Os seus braços começavam a mexer-se, e aos poucos, o corpo
erguia-se até romper a terra por completo e começar a crescer, vencendo o
equilíbrio e imaginando todo o mundo que se desenvolvia em torno deste
rebento que florescia. O céu resplandecente, os pássaros no ar, as
borboletas esvoaçantes, o vento que fazia oscilar os ramos da planta, que
se avivava pela força da água que lhe proporcionava o alimento. Aos
poucos, os braços iam-se erguendo em direcção aos céus, a imensidão
tomava conta desta nova forma de vida, até transcender o limite que lhe
era imposto... aí, num grito mudo, abria os olhos, e sentia-se uma parte
deste universo tão grandioso que nos dá abrigo “ (64). Era curioso ter-se
lembrado da mãe, mais uma vez.
O pai de Renato conhecera a mulher nas terras do Norte, quando
acompanhava o exército real nas imediações de Guimarães, berço da nação.
Quando D. Afonso Henriques, depois da Batalha de Ourique, proclamou
Portugal um reino independente, permaneceu algum tempo em Guimarães,
cidade enquadrada por suaves vertentes, capital do condado, mudando
depois o seu centro para Coimbra. Aí nas imediações,
(64). Adaptado do «Exercício da Semente», in COELHO, Paulo, O Diário de
um Mago, 2a Edição, Lisboa, Pergaminho, 1996.
99
a influência dos velhos ritos populares permanecia ainda com forte
expressão. O culto da natureza e da grande Deusa, a Terra mãe, a magia
dos povos celtas e das antigas religiões era vivida em harmonia com as
práticas cristãs. O fogo, a água, a terra e o ar fundiam-se numa só
expressão, carregando consigo o emblema de Cristo, o espírito, como
quinto elemento síntese dos restantes quatro.
Abel acostou-se ao pé do tio e disse-lhe:
- Podemos avançar, meu tio... piscou-lhe o olho, enquanto olhava para
Renato.
Renato enrolou-se no cobertor, com a sensação de, também ele, ser obra
divina e adormeceu em paz.

Capítulo 12
A HOSPITALIDADE DE D. FUAS

Apesar de a noite ter sido fria e húmida, o dia amanheceu límpido. O


nevoeiro tinha cessado. Ao saírem da gruta viam todo o espectáculo até ao
mar. Renato foi o primeiro a acordar. Estava frio e as poças de água
estavam cobertas por uma fina camada de gelo. O cheiro a urze
intensificava-se com a humidade que ainda se fazia sentir. O sol batia
ainda na encosta Nascente da serra de Albardos, quando começaram a descer
até à Corredora. Cerca de uma hora depois, já com o sol a bater-lhes de
frente, tinham a vista do Castelo de Portia Molis (65).
- Iriam comer qualquer coisa quente com D. Fuas Roupinho - pensava
Gualdim Pais, à medida que o dia avançava e o sol se punha alto.
Situado sobre um pequeno morro, o castelo de planta pentagonal,
originalmente um forte mourisco, tinha como função especial vigiar os
fartos campos de cultura. Gualdim afastou-se dos demais para apreciar
melhor as vistas. Deu uma pancada seca no dorso do seu cavalo e largou a
galope pelos pastos verdejantes de urze e rosmaninho, saltando pequenos
muros de pedra e sentindo no rosto o vento forte e o doce sabor da
liberdade. Renato seguiu-o, mas por pouco tempo. Apesar do esforço, o seu
cavalo não conseguiu acompanhar o Mestre. Deteve-se junto a um morro, de
onde se avistava bem a colina com o castelo.
João Arnaldo Domingues, Paio Sanches e os restantes cavaleiros de branco
seguiram a rota que levava ao fortim, onde seriam recebidos. No rio Lena,
D. Fuas Roupinho tinha embarcações, e vários carpinteiros calafetavam os
barcos com resina.
Por ordem do rei começava a preparar uma frota.
Portia Molis era um verdadeiro entreposto comercial, mas o grande
(65). Portia Molis - Porto de Mós.
101
de porto era na Serra d'El-Rey, garantia o apoio à rota de Inglaterra. A
guarnição templária tinha como finalidade garantir a segurança comercial
e social. A estrutura social vigente, em que muito poucos detinham a
terra e eram senhores de servos e de escravos, permitia alguns assaltos e
roubos.
A comitiva reuniu-se e, acompanhando o trote dos cavalos, avançou colina
adentro, na esperança de uma recepção calorosa por parte do bom D. Fuas.
As chaminés fumegavam, a fome e o frio cerceavam e o sol adivinhava já o
início da tarde.
- A fome aperta, meus amigos! Já comia qualquer coisa... - gracejou
Gaspar Gomes, o mais forte e entroncado dos cavaleiros. Os seus seis
palmos e meio bem medidos e a sua volumosa constituição, não perdoavam o
espaçamento entre refeições, a que estas viagens obrigavam!
- Lá estás tu a dar sinal, Gaspar! - riram os outros, à medida que se
aproximavam do destino.
Ao subirem o morro, a pesada porta do castelo abriu-se. O estandarte com
a cruz templária evitava perguntas. À frente iam Gualdim Pais e Lopo
Fernandes, seguidos de Fernão Afonso e da restante comitiva. Entraram no
pátio de armas e viram uma guarnição bem reforçada. Os homens treinavam o
manejo das armas; cada sargento tinha uma divisão de homens a seu cargo.
Arqueiros, lanceiros e milicianos. Os cavaleiros, do alto das montadas
controlavam a evolução dos exercícios.
- Alto!!! - gritou o capitão da guarda para os Mestres de armas.
De repente instalou-se o silêncio. Os homens ali presentes nunca tinham
visto o Mestre português da Ordem do Templo. O Pátio parecia como que
repleto de estátuas. O espanto e admiração estampados no rosto de cada um
daqueles homens não o intimidaram. Seguiam-lhe os passos com o olhar.
Muitos eram os trabalhos que se faziam nos arredores do castelo: os
ferreiros e sapateiros cumpriam os seus ofícios, faziam-se barris e
machados, as crianças brincavam após o término das lições, alguns cães
ladravam, anunciando a chegada dos «homens de branco».
Na porta da torre de menagem estava Fuas Roupinho, que de imediato foi ao
encontro do Mestre e, de braços abertos e sorriso nos lábios, disse:
- Entrai e aconchegai-vos... comei qualquer coisa connosco - abraçaram-se
fraternalmente e D. Fuas saudou respeitosamente Fernão Afonso, o filho
primogénito d'El-Rei, bem como os restantes amigos.
Os moços de estrebaria agarraram os cavalos e eles apearam-se, seguidos
de Fernão Afonso, João Arnaldo Domingues, Lopo Fernandes, Nuno Fafes,
Estêvão Martins, Paio Sanches e Gaspar Gomes, os sete cavaleiros que
seguiam com o Mestre. Dirigiram-se então para a sala de banquetes.
- Como tem corrido a viagem? perguntou D. Fuas Roupinho.
- Temos vindo com sorte e saúde, bom amigo. Com a graça de Deus ainda não
tivemos baixas e também não nos tem faltado alimento! - respondeu Gualdim
Pais, com orgulho. - Fala-se no entanto de um vulto que insiste em
acompanhar-nos desde Al-Cobaxa. O meu escudeiro avistou-o já por algumas
vezes e isso preocupa-me! O Rei tem inimigos espalhados pelo
território... o clima não é de paz e a missão que nos confiou é demasiado
importante e sigilosa... devemos apelar à cautela!
- Estou a ver... por certo nada será! Imaginação, ou receios dos teus
homens se calhar! Que a divina providência continue a orientar a tua
caminhada sem males maiores... mas agora come e descansa, amigo.
Sentaram-se à mesa, uma extensão considerável de madeira de carvalho que
ocupava grande parte do salão, assente em cavaletes e sobre a qual
assentava loiça de barro e algumas travessas nas quais se dispunham
iguarias que despertaram, desde logo, a gula de Gaspar Gomes e seus
companheiros. Perdizes, faisões, lebres e outra caça, faziam as delícias
deste templário bonacheirão.
A sala tinha dimensões generosas e era marcada pela rudeza da pedra que
forrava paredes e chão. Algumas tapeçarias, feitas pelas damas como forma
de entretenimento, enquanto os homens combatiam ausentes dos seus lares,
animavam, com o seu colorido, as paredes frias deste aposento. Na lareira
de grandes dimensões, também de pedra, ardiam pesados toros de madeira
velha, aquecendo todo o espaço em seu redor.
Todos os homens estavam sentados à volta da mesa rectangular, comendo e
bebendo alegremente e conversando sobre as suas façanhas e conquistas.
Depois de retemperados com um bom caldo de came e pão fresco, Gualdim
chamou Fuas Roupinho de parte e perguntou-lhe:
103
- Mestre Fuas, não me quereis contar o que se passou?
- Mestre Gualdim, eu tinha saído para ver a frota na Serra d'El-Rey. O
meu vice-almirante foi passar inspecção à fortificação do Monte de S.
Bartolomeu. Pegou num grupo de cruzados e partiu. Dois dias depois, os
homens chegaram sem ele, dizendo que tinha caído ao mar. Questionei os
homens e não me souberam responder o que se passara. O meu camareiro,
entretanto, informou-me que durante a minha ausência me remexeram o
quarto.
- Mas que tipo de homens tens tu?!
- Sabes, Mestre... disse Fuas Roupinho - ... os cruzados são diferentes
de nós, os Templários! Entre eles há ladrões e assassinos que, a troco
das indulgências, se juntam às nossas empresas. Não posso acusar ninguém!
- Quem são os cruzados que tens contigo, Fuas?
- São colonienses e flamengos!
- Mas esses não foram os que saquearam Lixbuna?! - perguntou Gualdim.
- Supostamente, esses, partiram para as suas terras - continuou Fuas
Roupinho. - Como sabes, o Rei tinha prometido o saque da cidade e depois
mudou de ideias...
Gualdim fez uma pausa - Mas o Rei tem os Mapas bem guardados... não tem?!
- Tu sabes muito bem que os Mapas estão guardados, Gualdim! Ainda há
dias, em Al-Cobaxa, El-Rei o afirmou, meu irmão - finalizou Fuas Roupinho
olhando em volta, para que houvesse certeza de que estavam sozinhos.
- D. Fuas, estamos a falar dos mesmos Mapas?! - perguntou Gualdim,
levantando o sobrolho.
Fuas Roupinho olhou novamente em seu redor, de forma a confirmar que
estavam a seguro, e disse:
- Estamos a falar dos Mapas secretos. Aqueles que nos chegaram do Egipto
e que já serviram para algumas expedições. Mas... Mestre... e os
Testemunhos?... O que é feito dos Testemunhos de que fala D. Afonso...
ainda estão no local que sabemos'?...
- Temos que ter cuidado! - acautelou Gualdim Pais. - Sabes que até agora,
oficialmente, só existe o conhecimento da mapeação do hemisfério Norte
e... não é bem assim, como sabemos! Os Testemunhos, esses sei do que
tratam, e sei onde estão!... Falta-nos a chave... sem ela nunca lá
chegaremos... foi levada para a Cidade Santa, depois daí para o Egipto...
da última vez que lá estive com Mestre Abraão não a conseguimos
localizar... mas conheço um local que nos levará a ela... talvez... um
irmão nosso... aguardo notícias, bom Fuas... continuamos à procura,
amigo... continuamos à procura daquela que nos devolverá o acesso à
herança do velho Gondomar e seus companheiros, nossos irmãos.
- Tens razão... Gualdim... cuidado redobrado, meu amigo! - concordou D.
Fuas.
- Bom, vamos seguir viagem, não temos tempo a perder! - rematou Gualdim
Pais. Ele sabia que na própria Ordem as coisas não iam famosas. Bernard
Blanchefort, Mestre Geral do Templo, tinha introduzido o costume de
acolher profanos como Mestres do Templo. Era uma maneira de a Ordem
manter influência e controlo nas instituições e agremiações da época. Daí
o cuidado necessário com as traições, vícios e atitudes arrogantes dentro
da própria Ordem. Por isso a sabedoria secreta estava mais hermética. -
D. Fuas, quanto te devo? - perguntou, dirigindo-se ao amigo.
- Mestre, tive muito gosto em acolher-te. Vai em paz! - respondeu Fuas
Roupinho a Gualdim, enquanto se despediam.
- Eu sei... mas a arte de administrar passa por não carregares os
camponeses com impostos! Por isso, toma uma ordem de pagamento para o que
te aprouver, irmão! - disse Gualdim Pais, dando a D. Fuas um documento
com uma quantia inscrita.
105

Capítulo 13
OS PEDREIROS

João Sanches seguia já o grupo desde o mosteiro e calculava que a próxima


paragem deveria ser pelos lados de Aurem(66). Por isso não entrou em
Portus Molis, para não ser descoberto, rumando para a serra árida, sempre
a coberto da noite.
Tomando esta nova identidade, Catarina pensava consigo mesma que a dureza
que a vida lhe tinha ensinado, os conselhos do seu pai e as tentativas
falhadas de violação, em parte, já a tinham preparado para a
sobrevivência. Consigo transportava um arco e a espada de seu pai,
respeitosamente embrulhada em serapilheira. Este João Sanches, de pé
ligeiro, transportava tudo às costas!
Mais acostumada à sua nova parecença masculina, Catarina já se sentia
mais forte e aguçavam-se-lhe agora os sentidos. Sentia todos os cheiros e
movia-se com muito cuidado por entre os terrenos agrestes da montanha,
tal como um ser selvagem, desperto para todos os perigos e surpresas. De
repente, ouviu um latido... parou e baixou-se. A sua frente com ar
perdido estava uma cria de lobo, que fazia a aprendizagem do seu mundo.
Olharam-se os dois e a pequenez do animal levou-o a retrair as patas da
frente, mas a sua natureza fez com que rosnasse. Catarina descobriu a
cabeça, agachou-se, olhou-o nos olhos e ele baixou as orelhas em sinal de
medo.
- Não tenhas medo!!!... E com a sua mão fina fez-lhe uma festa na cabeça.
Pegou no animal ao colo e, subitamente, uns olhos brilhantes rasgaram a
escuridão. A jovem não escondeu um certo temor e recuou... deu um passo
atrás... e, muito cautelosa, murmurou baixinho.
- Sei que é teu, minha irmã... tem calma, que eu não te faço mal...

(66). Aurem - ourém.


107
Então respeita-o, respeita-me e dá-mo... - julgou ter ouvido, no seu
entendimento.
Alarmada com esta sensação, pôs calmamente a cria no chão, que correu
para a sua mãe. A loba avançou com os dentes bem visíveis... e rosnou.
Catarina baixou as mãos de mansinho, rodou calmamente os pulsos para a
frente, como que a mostrar que tinha as mãos vazias.
- Meu Deus... - pensou ... se sair desta viva... nem acredito!!!...
A loba olhou-a, abriu a boca e, num gesto maternal, pegou na sua cria e
retirou-se. Continuaram o seu caminho.
A rapariga tapou novamente a cabeça e continuou a subir a serra. Sem
saber porquê sentia uma grande força interior. A subida era pouco
íngreme, mas fazia-se bem... abria-lhe o apetite... Já comia qual-
quer coisa! pensou. A última vez que comera nem tinha dado para
cobrir a fome, saber-lhe-ia bem uma refeição cozinhada!
Uns metros à frente, ouviu uma grande algazarra. Acostou-se! Escondeu-se
atrás de uns arbustos, onde podia ver sem ser vista... – Quem será ???
- pensou.
Aproximou-se e, à volta de uma grande fogueira, viu quatro homens que
conversavam. Reparou que tinham um sotaque estranho. Os cavalos ficaram
inquietos quando a pressentiram e relincharam.
Os homens ergueram as cabeças.
- Quem está aí?! perguntou um deles.
- É melhor surpreendê-los, do que ser surpreendido! pensou Catarina. -
Boa noite, senhores! - disse.
Os homens estranharam aquela aparição repentina. Pegaram em armas e
perguntaram-lhe:
- Quem és tu? Que quieres?
- Sou João Sanches, caçador de lobos - disse, lembrando-se da história de
Orion, o caçador, que sua mãe lhe contara, e olhando para a qualidade das
armas que o grupo possuía.
- Por supuesto... jovem Sanches... junta-te a nós. Quédate esta noche!
- E vós, quem sois? - perguntou Catarina, a medo.
Uma breve troca de olhares antecedeu-se à resposta.
- Somos pedreiros livres, nos bamos procurar trabalho nalguna obra que
requeira o nosso mister. Em Lixbuna talvez. Come qualquer coisa con nos
outros, amigo Sanches.
Catarina, sentou-se no chão, junto da fogueira e deram-lhe um naco de
toucinho e pão. Não se podia esquecer que agora era João Sanches... era
um homem!
- És muy novo para caçador! - Os homens olhavam o jovem com desconfiança.
- A minha sina assim me obriga, disse, estranhando o excesso de simpatia
dos forasteiros. - Os lobos mataram o meu pai e eu formei-lhes promessa
de morte - a jovem viu-se obrigada a mentir, não confiava naqueles
estranhos.
- Já nos preparávamos para dormir. Toma um cobertor e passa la noche com
nos outros. Quédate.
Um dos homens estendeu-lhe uma coberta, olhando fixamente para o embrulho
de serapilheira que o jovem carregava consigo.
- Então dormi, que vou ainda dar uma vista de olhos pelas redondezas -
disse a jovem, engrossando a voz com um ar confiante, apesar das
incertezas. Sentiu que pisava terreno escorregadio.
Pegou no arco e nas flechas, colocou o embrulho de serapilheira às
costas, protegendo-o dos olhares de cobiça e fingiu que ia verificar se
havia lobos. Um estranho nevoeiro começava a levantar-se do chão. Ao
longe conseguiu avistar dois pares de olhos. Sabia que eram os lobos; de
certa forma sentiu protecção. Baixinho, começou a entoar um cântico
antigo:

« Lobo e cavalo, antigos sinais de poder.


Emprestai-me a vossa força esta noite.
Preciso de coragem e de um poder de aço,
De sentir energia, poder e capacidade de defesa.
Respondei à chamada, Grandes Poderes! »

Quando regressou ao local onde estavam os homens, já estes dormiam.


Deitou-se longe deles e fechou os olhos. Não conseguia dormir. A meio da
noite ouviu vozes a falar em tom baixo. Virou a cabeça de lado para ouvir
melhor, mas não compreendia quase nada do que diziam...
- No, no puede ser... hermanos... tenemos de conocer los projectos d'El-
Rei de los portucalenses...
- Shiu... fala mais baixo!
- Ainda me aparece en los sonos aquela matrona aos gritos,
109
hombres!... E chave... nem vê-la! D. Joaquim deve estar a chegar... E
estamos tramados!
- Esses já não voltam a falar mais... já retornaram ao pó... onde andará
a rapariga?
- O que será de nós, quando D. Joaquim chegar???... espero que ninguém
nos tenha visto! dizia um dos homens, visivelmente preocupado.
- Onde deixaste o hombre d'El-Rique?
- Tivemos sorte... mas fomos obrigados a calá-lo de vez... já andava no
nosso encalço desde Turquel...
- Enterrei-o lá perto, durante a noite... a esse já ninguém o encontra...
- respondeu um dos homens de estranho sotaque.
Os homens agiam de forma comprometida e Catarina achou estranho.
Primeiro, os pedreiros não usavam armas daquelas; segundo, os cavalos
eram muito bons e estavam bem apetrechados; terceiro, tinham um sotaque
estranho... e mais... que andariam eles a fazer com dois pombos dentro de
uma gaiola? Aquilo soou-lhe mal. Algo não batia certo!... Teve um
sobressalto. O sonho com o pai era um aviso... tinha que fugir dali.
Lembrou-se então do cavalo negro do sonho e do estandarte de Castela.
Aqueles homens seriam castelhanos? O que estariam ali a fazer? Andariam
em busca de algo? pensou. Assustou-se ao lembrar o olhar arregalado que
um deles fizera à espada de seu pai. - Seriam ladrões? Caçadores de
tesouros?... - adormeceu por breves instantes, guiada por estes
pensamentos e sonhou com a mãe. Clara segurava-lhe a mão e ambas, Clara e
Catarina, entoavam cânticos à grande Deusa Mãe.
Subitamente sentiu algo frio e húmido na cara. Pôs a mão no rosto e viu
que estava molhado. Um bafo quente chegou-lhe às faces. Abriu melhor os
olhos e à sua frente tinha um vulto escuro e peludo. Os mesmos olhos que
tinha visto nas redondezas, estranhamente sorriam-lhe. Era a loba que a
acordava. Percebeu que era a altura ideal para fugir. Aproveitando o
nevoeiro gatinhou. Dirigiu-se a um dos cavalos. A sua mão tocou-lhe nas
narinas que aspergiam vapor, fez-lhe uma festa na cabeça e levou-o. Mais
à frente montou-o e cavalgou. Fugiu daquele lugar obscuro. A paisagem
agreste parecia levantar mais nevoaça, cada vez que os cascos batiam no
solo; a loba corria a seu lado e acompanhou o seu galope por momentos.
Mais à frente, uma matilha de lobos uivava.
- Levaram-me el caballo!... Foi o petiz... el caçador! Filho da mãe!...
Vais pagar-mas! - disse um dos homens em tom de vingança.
- Porra, son lobos, por Dios! Peguem em paus da fogueira. Escondam os
pombos. Estamos cercados!
- Fujam!!! - gritavam os homens, motivados pelo pânico. - Fujam!!!...
Catarina já ia longe, tinha escapado incólume àquela cilada. Tinha agora
que prosseguir caminho e reencontrar a comitiva do Mestre da Ordem do
Templo. Não havia tempo a perder.

« Oh Caçadora de prata, dama da lua encantada,


Senhora dos sábios mistérios e eterna senhora do futuro,
Dotai-me com o Saber, para que bem possa predizer.
Mãe do seio reconfortante, mãe do braço protector,
Inspirai-me nos meus sonhos.
Sou vossa filha... Ó Mãe... Protegei-me de todo o mal!
Dai-me a chave mágica que abrirá o portão.
Senhora, ajudai-me!»

Pouco tempo tinha passado desde o último minuto de consciência do local


onde se encontrava, no entanto pareceram-lhe horas.
111

Capítulo 14
OS PLANOS DE CASTELA

Afonso VIII, agora Rei de Castela, contava apenas quatro anos de idade. O
seu pai, D. Sancho III, filho mais velho de D. Afonso VII de Castela e
Leão, deixara a corte havia um ano, partindo inesperadamente para o reino
dos céus, após um breve governo.
Os dois grandes partidos nobiliárquicos que disputavam o poder em
Castela, digladiavam-se pela influência junto do jovem rei: Os Lara e os
Castro. Além disso, o seu tio Fernando II, irmão de seu pai, reclamava
igualmente a regência do reino, situação que poderia levar a uma guerra
civil.
Neste contexto, El-Rei D. Afonso de Castela foi salvo por um escudeiro da
casa real, que o levou para as cidades de San Esteban de Gormaz e Avila,
leais ao rei. Precisaria de reconquistar paulatinamente o seu reino,
desde a mais jovem adolescência.
O castelo de San Esteban de Gormaz ergue-se sobre uma elevação rochosa
que domina a localidade com o mesmo nome e o curso do rio Douro, na
província de Soria.
Depois de ser conquistada pelas tropas cristãs aos muçulmanos e repovoada
no ano de 912 por Gonzalo Fernández, San Esteban de Gormaz foi invadida
por Abderramán III nos anos de 917 e 920, sendo tomada na segunda
ocasião. Pouco depois foi recuperada pelos cristãos, e perdida novamente
às mãos do conde Garcia Fernández, até que finalmente, no ano de 1011,
Suleimão entregou-a a Sancho Garcia, membro da Casa de Lara, como parte
do pacto pela ajuda recebida contra o Califado de Córdoba.

O rei brincava inocentemente dentro das muralhas do castelo, seguido


pelas aias que controlavam todos os seus movimentos, enquanto, no
interior da fortificação eram discutidos os assuntos do reino. Os irmãos
Trava tinham-se deslocado a San Esteban de Gormaz, a fim de dar notícias
sobre os seus informadores.
- A situação é preocupante... hai que tener cuidado! Desde a morte d'El-
Rei D. Sancho que o tratado de Sahagún foi esquecido. D. Fernan de Leão
quer o trono do sobrinho que é ainda uma criança. Quer abarcar tudo
esse... cala-te boca... perdoai-me a irreverência... - dizia Bernardo de
Trava para D. fr. Raimundo.
- Deixai lá... ainda nos resta aquele Joaquim Mufoz, que mandastes para
Portucale faz dois anos. Tendes sabido notícias dele? A Ordem já lhe
acompanha os passos, faz tempo. D. Pedro Robera comunicou-me alguns
assuntos de máxima importância sobre esse tal Joaquim. Parece que a
avareza tomou conta do desgraçado. É um vendido... um traidor sem
escrúpulos! No entanto, há instruções para que o deixemos andar... pode
vir a ser útil! - afirmou o abade.
- Não o matemos por hora... ele e um tal de José Esteban... ou Pepe, como
é conhecido, andam atrás dos Mapas e dos Testemunhos, que os homens de
Afonso Henriques protegem. Já mataram um vice-almirante... oxalá Afonso
Henriques não desconfie dos nossos planos! - Fernão Peres de Trava olhava
preocupado para ambos os homens, que consigo se encontravam no salão.
- Mas isso são boas notícias!... Além de que poderá informar-nos das
passadas de Leão e das manobras dos Lara! - o olhar de satisfação do seu
irmão Bernardo era visível.
- Escrivão... escrivão... chamou Bernardo - ... mandai-me chamar o
escrivão do reino! - disse para um criado.
E, após breves instantes, logo surgiu à porta o escrivão de Sua
Majestade.
- Ordenai, senhores. Encontro-me ao vosso inteiro dispor disse.
Entretidos com a conversa, nem deram pela entrada de um pombo pela
janela, pousando sobre o parapeito e fazendo-se notar com suave cantoria.
Levantou voo e pousou sobre o ombro de Fernão Trava, erguendo uma das
patas, atada à qual se podia ver um manuscrito enrolado e lacrado.
- Parece que temos notícias!... Falando nas bestas... eis que las surgen!
disse Bernardo.
Dirigiu-se ao escrivão e ordenou-lhe:
- Podeis retirar-vos! Gracias O homem assim fez, retirando-se com uma
vénia.
- O que foi agora... este Joaquim não acerta uma !!... hombre miserable!
- continuou.
- Deve ser dele... a mensagem... por supuesto que si! - disse Bernardo
para o irmão.
Pegou no manuscrito enrolado, desenrolou-o e começou a lê-lo:

« Senhores, vos saluto, Com la graça de Dios.


A sorte e a boa graça não nos acompanham! Os Mapas ainda não são nossos!
Fomos atacados por lobos na serra árida e perdi alguns dos meus melhores
homens e haveres. Seguíamos caminho até aos monges de Cister e, perto de
Al-Cobaxa, cruzamo-nos com um jovem estranho. Dizia-se caçador de
lobos... João Sanches de seu nome. Roubou-nos um cavalo e, fez-se ao
caminho com um embrulho de serapilheira, suspeito, às costas. Atentai aos
espiões portucalenses. Se desconfiarem de nós... estamos perdidos!
Enviai reforços a Al-Cobaxa e moeda para provir às necessidades. Homens
dispostos ao trabalho, fortes e bons de porte.
Grato a vos outros, senhores. Respeitosamente, um fiel servidor,
Joaquim Munoz ».

- Incompetente! Malfeitor! resmungou Fernão Peres de Trava.O que fazemos


agora? - inquiriu, voltando-se para o abade.
- Sua Majestade enviará o que ele pede, mas é bom que não falhe desta
vez... o tempo urge e tenho sabido pelos irmãos de Al-Cobaxa que se
prepara a construção de uma igreja! Escolhei quatro ou cinco homens para
armar de pedreiros e enviai-os a esse tal D. Joaquim. Vou procurar saber
mais informações... mas por agora, nada mais vos posso dizer - disse D.
fr. Raimundo com ar apreensivo.
- E o que diremos a Sua Majestade? - voltou a insistir Bernardo.
115
Fr. Raimundo, cofiando o queixo, olhou-o pensativo. - Logo veremos... por
agora tratai de encontrar os homens!
- Que gente poderemos enviar para Portucale? Uma visita aos calabouços do
reino seria conveniente, talvez... - Bernardo não perdia tempo. - Haveria
por certo muito trapaceiro disposto a fazer uns favores ao reino a troco
de uns cobres. Fazia-lhes falta um homem de poder e influência, naquela
missão.
- Fosse isto noutros tempos! Houvera ainda homens de coragem como já no
nosso reino houvera! - disse Fernão Peres de Trava, começando a entoar um
poema sobre El Cid, a propósito da «jura da Santa Gadea» (67)

« Poderoso vencedor, jamós derrotado, baluarte de nuestra tierra,


escudo de Espana, su orgullo y su gloria, caballero del ejército más
temido, vengador de moron y traidores,poderoso raw de guerra,
espejo brillante de la caballería,
Ruv, mi Cid Campeador!
Por tanto, si eres inocente te pilo que jures,
tá V doce de estos caballeros,
quienes estarban contigo em el exilio, que ern la muerte de tu hermano no
tomaste parte
yue ninguno de vosotros su asesinato conocíais o consentisteis».

Cala-te Fernan... nem os portucalenses são mouros, nem a tua

(67).«Cantar de mio Cid» é uma composição literária de grande importância


para o povo espanhol

inteligência ajudará se continuares com a cantoria. Esse Cid de que falas


não nos poderá salvar agora! - Bernardo começava a ficar impaciente com o
irmão!
Nisto, uma presença impôs-se no salão. Os três homens entreolharam-se e
curvaram-se perante a rainha D. Branca de Navarra, viúva de D. Sancho e
mãe d'El-Rei D. Afonso de Castela, que a acompanhava. Com eles, duas aias
seguiam caminho, levando o jovem monarca pela mão.
- Vossa alteza... disseram os três homens, curvando-se respeitosamente.
- Deixai, senhores disse prontamente a rainha. - Na qualidade de
representante de Sua Majestade reclamo a vossa presença. Consta-me que
chamastes o escrivão do reino... passa-se algo? - perguntou, directamente
ao abade, D. fr. Raimundo.
- Vinde meu jovem rei... vinde até junto de mim Vossa Majestade... - fr.
Raimundo chamava o jovem rei para junto de si, e olhava de soslaio para
os irmãos Trava, que seguravam entre mãos o manuscrito que o pombo
mensageiro ainda há pouco trouxera.
- Falávamos das intenções de Sua Alteza Real, o vosso falecido marido, ao
fazer o acordo com El-Rei D. Fernan de Leão. Os portucalenses preparam
algo! Há já uns anos que temos espiões a indagar! - disse Bernardo para a
rainha.
- E o que atentam esses nossos vizinhos? perguntou Sua Majestade, a
rainha.
- O meu irmão na Regra (68), D. fr. Maurício, sabe que preparam a
reconstrução de uma igreja em Nabnncia - disse o abade.
- E desconfiais de algo?... não me parece suspeito! insistiu a rainha.
- Talvez, Majestade... devo regressar ao Castelo de Calatrava (69). Aí
procurarei novidades junto de D. fr. Maurício. Eu e os meus irmãos
aguardamos o reconhecimento da Ordem pelo Bispo de Roma (70). Continuamos
a seguir a Regra de Cister e mantemos contactos com os

(68). Regra de Cister.


(69). Ordem de Calatrava.
(70). Papa.
117
monges de Al-Cobaxa. Se me derdes licença Majestades... retirar-me-ei de
imediato. E com uma vénia retirou-se, trocando um olhar cúmplice com os
dois irmãos.
- E vós senhores? Tendes novidades para mim? - perguntou novamente a
rainha, voltando-se agora para os irmãos Peres de Trava.
Bernardo tomou a palavra, e disse, curvando-se perante Sua Majestade:
- Senhora, necessitamos da vossa permissão para continuar uma missão que
vosso falecido sogro, nosso rei, nos confiou...
- Uma missão, dizeis? - a rainha mostrava-se curiosa. Já tinha ouvido
qualquer coisa sobre as intenções de Castela face aos planos de Afonso
Henriques. - Mas dizei...
- Majestade, temos em terras vizinhas um enviado de Castela que prepara
uma emboscada aos homens d'El-Rei portucalense. Procuramos uns Mapas e
uns Testemunhos... e para tal necessitamos de homens capazes de ir até
Al-Cobaxa, onde se encontra D. Joaquim Munoz, o nosso homem, bem como
moeda... para que não lhes falte atractivo à tarefa. Permita-me Vossa
Alteza que visite, com meu irmão, os calabouços do reino em busca
daqueles que assintam fazer um favor a Vossa Realeza, trabalhando para o
engrandecimento deste vosso digníssimo reino.
- Falais de uns Mapas? Que Mapas? Que Testemunhos são esses? - perguntou
Sua Alteza Real.
- Parece que os portucalenses conhecem territórios novos, desconhecidos
para Vossa Majestade. Fala-se no advento do Império do Divino Espírito
Santo - disse, em tom de segredo, Bernardo Peres de Trava, dirigindo-se à
rainha. Majestade, quem alcançar os Testemunhos secretos, ver-se-á
portador de uma verdade que durará até ao fim dos tempos, apenas
terminado com a glória da segunda vinda do Redentor.
- Tendes o meu apoio! Chamai o escrivão para que vos redija essa ordem -
D. Afonso olhava para a mãe, que estava a seu lado, enquanto esta
ordenava que chamassem o escriba do reino.
O escrivão surgiu no salão, pela segunda vez, confirmando, junto da
rainha, o facto de ter sido evocado e, conforme ordenado, redigiu o
pedido de Sua Majestade e retirou-se, depois de a rainha assinar a ordem
e lhe introduzir o selo da casa real que comandava.
- Ide-vos agora... e voltai em breve com novidades desse tal D. Joaquim
de que falais! - afirmou, estendendo a Bernardo o manuscrito que continha
os seus desígnios. - Ide-vos! - ordenou a rainha.
119

Capítulo 15
A SIMBOLOGIA DOS NÚMEROS

Depois do almoço e já descansados da noite anterior, os cavaleiros da


comitiva de Gualdim Pais seguiram a estrada romana até ao Alqueidão e
tomaram a direcção a Aurem, terra agreste e de difícil produção agrícola.
Tinham agora por fundo a Serra de Aire.
Abel ia mergulhado nos seus pensamentos:
Fizera dezoito anos. O seu tio Abraão tinha-o iniciado nos antigos
mistérios judaicos. Em Lixhuna, junto da comunidade judaica tinha
estudado a Kabbalah. Estava já familiarizado com a magia dos números e o
simbolismo das letras. Tudo se podia converter em números e a unidade
continha todos os números (71). Entendia que Deus é a unidade absoluta, e
a unidade é o princípio da síntese dos números: as crenças isoladas não
passavam de dúvidas. Para si, tudo estava com Deus e Ele estava em tudo.
Sabia que a Kabbalah era o conhecimento milenar que o ajudava a
compreender a forma como Deus criara o universo e como, através do Seu
nome, devia ser entendida a «energia criadora e reguladora da matéria».
Sabia que a Kabbalah narrava o universo e, ao fazê-lo, narrava a génese
do pensamento. Defendia, tal como seu tio, uma máxima: experiência é
ciência e tudo o resto é fé! A verdadeira ciência admite a fé e a
verdadeira fé admite a ciência. Mas acima de tudo, fé é força de
espírito, experiência pessoal, relação com o divino. Também tinha
conhecimento do alfabeto de Henoch (72). Para ele, um jovem extremamente
calmo e ponderado, havia uma certeza: crer e saber são duas palavras que
não se podem, nem devem

(71). Na língua hebraica, como na grega ou latina, cada letra corresponde


a um número. As somas numéricas que certos nomes e textos sagrados
desvelam alguns sentidos secretos das escrituras, segundo a Kabbalah.
(72). Henoch - Diz a lenda que o alfabeto e a língua de Henoch foram
transmitidos pelos anjos.
121
confundir. O tetragrama hebraico, “IHWH" (73), compreendia quatro
características: Sabedoria, Ousadia, Vontade e Silêncio. Cada letra do
alfabeto hebraico tem um sentido privilegiado... lembrou-se da conversa
com Renato. Abel, num acto de intuição, tinha feito o amigo compreender o
significado do número « 1», o primeiro. Continuou com os seus
pensamentos:
Abraão, seu tio, além de saber tudo isto, tinha outros conhecimentos.
Dominava os ensinamentos dos pitagóricos. Já sabia que na dimensão de
espaço e tempo o número «1» era o ponto; o «2», a linha; o «3», o plano e
o «4», o volume. Tinha aprendido com os Gnósticos; conhecia o Sufismo
(74)...
Abel recordou-se, na sua memória, da forma como o tio conhecera o Mestre,
e continuou imerso nas suas reflexões:
Durante a sua viagem à Terra Santa, Abraão conhecera Gualdim Pais e os
dois compreenderam o que se passara no Monte Sião: estava ali instalado
um convento de carmelitas há alguns anos, onde antes se estabelecera um
ermitério de cristãos gregos. Aquele era o monte sobre o qual o profeta
Elias tinha desafiado os sacerdotes de Baal. S. João Baptista, esse santo
tão amado pelos Templários, foi um deles. Os dois homens sabiam que o
grande segredo dos Templários era a compreensão das «Tábuas da Lei», em
especial aquelas que tinham ensinamentos reservados sobre a interpretação
da «Lei Divina». Verdades, quase científicas, da maneira como governar o
mundo com justiça e equidade.
Ao chegar a Aurem, a comitiva procurou um lugar fresco para repousar.
Dirigiram-se a uma fonte, junto à qual estava uma jovem moura.
Desmontaram dos cavalos, beberam água e refrescaram-se. Renato,
gentilmente, pediu à jovem um alguidar para dar de beber ao cavalo.
- Cedes-me o teu alguidar? - olhou-a e reparou que ela corou. Nunca tinha
visto uma expressão tão bonita. Era esguia, alta, morena, com olhos
verdes. Naqueles tempos os Templários possuíam, nas suas comendas,

(73).O tetragrama hebraico IHWH (Yave, ou Jaré) tem o mesmo simbolismo


que a Tetraktis pitagórica (1+2+3+4= 10).
(74). O Sufismo é uma corrente mística e esotérica do Islão onde rituais,
santos e irmandades são correntes. No séc. Xll, havia Sufis a Sul do
território do reino de Portugal. É conhecido o caso do Sufi Ibn Qasi que
terá feito uma aliança com D. Afonso Henriques.

mão-de-obra local, obedecendo aos costumes e preceitos da região,


usualmente servos ou vilãos alforriados, pertença destes em consequência
de heranças ou doações. Os escravos compravam-se ou vendiam-se, tratando-
se geralmente de prisioneiros muçulmanos que cultivavam e valorizavam as
propriedades, mediante determinadas condições de submissão.
- Como te chamas? - perguntou Renato, a medo.
- Hatíma - disse ela, sorrindo e baixando o rosto.
Ao entregar o alguidar a Renato, as mãos de ambos tocaram-se levemente.
Depois de tantos dias frios e agrestes sentia um calor que, provocado por
um olhar, lhe dava a sensação de conforto e confiança em si próprio. Já
tinha ouvido os viajantes falarem em mouras encantadas por aquelas
paragens, mas não sabia que podiam ser tão reais. Os seus deveres de
futuro cavaleiro diziam que devia de ser cortês para com as mulheres; mas
ali, tinha que inventar algo para ser cortês. Devolveu-lhe o sorriso, um
sorriso sereno, e logo foi dar de beber ao cavalo.
- Descobriste agora o número «2», meu amigo... continuando aquela nossa
conversa! - disse-lhe Abel, abeirando-se dele.
- O dois? - Renato estava visivelmente confuso!
- Sim, o «1» mais «1» são «2». Complementam-se! Revelam a dualidade e
asseguram o equilíbrio entre duas metades opostas. O «2» é o número do
feminino - disse Abel.
Renato continuava a achar estranha toda aquela conversa... mas começava
agora a fazer-lhe algum sentido.
- Porque é que vocês fazem voto de castidade? - perguntou Abel.
- Bom, eu ainda não o fiz... só quando entrar para a Ordem do Templo
disse Renato, prontamente.
- Mas queres entrar? indagou Abel.
- Sempre desejei ser cavaleiro e ter acesso à sabedoria antiga. Para mim
a pureza está acima da castidade. Posso ter uma mulher e ser puro...
assim julgo! - Renato afirmava valores profundos.
- Mas e... se quiseres casar? continuou Abel.
- Creio que tenho de deixar a Ordem. Os Templários professam a castidade
a pobreza e a obediência e consagram-se a Cristo ao envergar o hábito
branco marcado pela cruz.
- E não queres ter mulher? Não desejas estabelecer família, Renato? -
Abel enchia o amigo de questões. - E no caso de seres já
123
casado, é-te vedado o acesso à Ordem? -indagou ainda Abel, movido pela
curiosidade.
- Nesse caso era necessário que a minha mulher aceitasse entrar para um
convento, ou, caso contrário, seria repudiada - Renato respondia às
questões de Abel e a conversa mantinha-se serenamente, enquanto
descansavam junto à fonte. - Mas há os filiados que formam a parte
externa da Ordem. São os denominados «irmãos casados» ou «irmãos ad
terminum». Estão de alguma forma ligados à Ordem, mas por não poderem, ou
não quererem, fazer os três votos, ficam ligados apenas por um período de
tempo previamente estabelecido.
- Se ela não fosse muçulmana, podíamos ter algum futuro - gracejou Abel,
olhando para a jovem de olhos verdes.
- Essa é que eu não percebo!... - ripostou Renato, com ar furioso.
- É melhor deixarmos de falar no «2» - disse Abel, rindo.
- Zombas de mim, Abel? Olha que não sendo ainda cavaleiro professo,
possuo alguns dotes na lide das armas... aprendi com meu pai e Mestre
Gualdim. Ainda te desafio para um duelo! - Renato olhava Abel nos olhos
e, com um ar sério, impunha a sua fúria.
- Calma, jovem senhor!... Esqueceis-vos de que somos amigos? Precisais
que vos recorde há quantos anos nos conhecemos? - respondeu-lhe Abel,
incomodado.
Renato acalmou-se.

Capítulo 16
A COMENDA DE TOMAR

Seguiam então para a serra. Chegaram junto de uma colina e, ao longe,


avistaram umas construções em pedra, ruídas.
- Rica prenda a do Senhor nosso Rei! - disse Gualdim Pais, ao ver o
castelo em completa ruína. Já sabia que a Ordem detinha aquela comenda
desde Fevereiro daquele ano, mas ainda não a visitara.
- Parece-me que vamos ficar por aqui algum tempo! - pensou.
O castelo, com uma torre pentagonal, estava bem situado numa elevação
junto ao rio, na margem esquerda do rio Nabanus (75). Na serra tinham
encontrado ao longo do trajecto vários castros e capelas visigóticas.
Ao começarem a subir a encosta da serra, notaram um movimento estranho de
homens junto ao rio, acautelaram-se. Gualdim tinha ali consigo quase
todos os postos necessários a qualquer guerra. Nada deveria temer.
Naqueles tempos, os homens iam para a guerra felizes. Existia uma grande
polarização: enquanto os camponeses sofriam com as mortes e as
devastações dos campos, os cavaleiros cantavam, caminhando e cavalgando
ansiosos para a luta. A Primavera era o tempo propício. Havia também um
grande paradoxo: enquanto as flores desabrochavam e a natureza renascia
do Inverno hibernante, os poetas e trovadores do espírito cavaleiresco
anunciavam a chegada da vida e o momento do combate. Essa excitação, esse
sentimento de euforia eram frequentes naqueles homens rudes e violentos,
sempre dispostos ao combate corpo-a-corpo e ao tilintar viril das espadas
e dos escudos.
Nisto, o som do galope de cavalos ecoou pela serra. Um grupo a cavalo
vinha ao encontro da comitiva. Um lugar-tenente e sete cavaleiros.

(75). Rio Nabão, em Tomar. Terá dado o nome à antiga Nabância.


125
- Amigos, Irmãos... um grupo de cavaleiros desconhecidos a nós se
dirige... estai preparados e atentos... não sabemos quem os ordena!
Gualdim desembainhou a sua espada e elevou-a no ar. Lopo Fernandes,
Gaspar Gomes, João Arnaldo Domingues e os restantes cavaleiros do séquito
d'El-Rei levantaram também as suas espadas, preparando-se para o pior.
Os cavaleiros aproximavam-se a galope, arrastando consigo uma imensa
nuvem de poeira. Ao longe mal se podiam distinguir. Estavam junto ao rio
e subiam agora a encosta, na direcção de Gualdim Pais e seus homens. À
medida que se aproximavam da comitiva, Estêvão Martins avistou o alferes
e verificou que ostentava o estandarte da Ordem.
- Senhor D. Gualdim... disse - são dos nossos. São cavaleiros Templários.
O alferes ostenta a cruz do Senhor... parece não haver perigo! - disse
para o Mestre.
Gualdim Pais e os restantes cavaleiros baixaram as espadas e aguardaram.
Ficaram à espera que o grupo se aproximasse. Àquela distância podiam
confirmar o que Estêvão Martins lhes acabara de dizer.
- Senhor D. fr. Gualdim Pais, estávamos à vossa espera. Finalmente que
chegastes. Recebemos ordens para que vos encontrássemos aqui! - disse o
lugar-tenente, que comandava o grupo de sete homens que ao longe
avistaram. - Sede bem-vindo a esta comenda! Acompanhamo-vos até ao
castelo, Mestre. Vinde connosco...
Aquele exército escondido na floresta, junto ao rio, mostrava-se alinhado
e disciplinado. Todos os cavaleiros, ao chegar junto de Gualdim e da
comitiva que com ele seguia mostraram firmeza e dedicação. Colocaram a
mão no peito, junto ao coração, e baixaram levemente a cabeça em sinal de
respeito.
- Mestre!... - disseram, em uníssono.
Agora seguia Gualdim à frente, seguido dos oito cavaleiros da Ordem do
Templo e da comitiva que o acompanhava desde Cintra. A cada cavaleiro
respondiam três sargentos de manto castanho, com a cruz de goles debruada
no peito e no ombro, do lado esquerdo, que tinham a seu cargo vinte e uma
milícias.
Gualdim parou o cavalo. Apoiou-se nos estribos, esticou as pernas e
elevou-se:
- Irmãos em Cristo Nosso Senhor e em armas: Esta é a nossa comenda; esta
é a nossa terra... a terra que Deus, por intermédio d'El-Rei D. Afonso
nos designou. O reino assenta em nós a esperança! Por Santa Maria, S.
Jorge e S. Miguel. Por D. Afonso Henriques, El-Rei de Portugal! - clamou,
erguendo a sua espada aos céus, gesto acompanhado por todos.
- Por vós, nosso Mestre, Por Nosso Senhor Jesus Cristo e El-Rei D.
Afonso! Entremos juntos nesta comenda e iniciemos os desígnios que nos
trouxeram aqui! Bradou o grupo de cavaleiros que se encontravam junto de
Gualdim Pais.
- Ala, Ala! - gritava o Mestre, entusiasmado. E os restantes paladinos
respondiam com potentes clamores, batendo com as espadas nos escudos. -
Arriba! Arriba! Arriba!
As milícias e os sargentos permaneceram junto ao rio. Os cavaleiros, a
comitiva de Gualdim, que incluía o senescal, os cavaleiros professos,
capelães, sargentos, um alferes, um turcópulo, escudeiros, serventes,
criados e artesãos, Abraão, Abel e Renato, acompanhavam agora o Mestre às
ruínas do castelo de Ceras (76) .
Depois de terem subido toda a encosta a cavalo, chegaram à Mata dos Sete
Montes. Abraão, Abel e Renato abeiraram-se da amurada e contemplavam a
vista para o rio, com o sol a pôr-se em direcção ao caminho que tinham
feito. O Mestre, acompanhado do lugar-tenente deu uma volta às
redondezas, para se inteirar do estado da construção. Ali, num morro a
duas léguas do local construir-se-ia o Castelo de Nabância, nova sede da
Ordem.
A comitiva montou acampamento junto ao castro. Passado algum tempo,
Gualdim Pais entrou sozinho numa das tendas. Reunia-se agora com os
capelães da Ordem (77) e conversavam sobre o ânimo das dezenas de homens
colocadas na sua alçada.
- Senhor, como sabeis o grande centro espiritual da Ordem do Templo tem
sido a Borgonha. Com a indisciplina, as perseguições e a constante quebra
de sigilo que se instalaram, os Mestres do Templo querem deslocar esse
centro para Portugal. Em breve irá começar a Era do Espírito Santo! -
disse fr. Antunes Duval, voltando-se para o seu Mestre e Senhor.

(76). O Castram Caeseris pré-romano.


(77). Capelães da Ordem - Eram eleitos pelo Mestre. Eram os padres da
Ordem, os únicos a receber as confissões dos irmãos e também a celebrarem
os ofícios religiosos.
127
Bem sei... Duval... o nosso Rei tem uma missão maior! Prepara a chegada
desse grande império que um dia levará o reino de Portugal à grandeza e
ao esplendor. Samsara, a roda da vida, chamam-lhe os povos do extremo
oriente... fortuna e glória, meus caros!
- Mas Senhor, futuramente a Ordem transferirá o seu poderio para as
terras de Nabância e nelas depositará os tesouros dos Céus. Para isso há
um longo trabalho a ser empreendido. Teremos que designar um comendador
para esta comenda templária, deveremos centrar aqui toda a sabedoria
dispersa... os mistérios do Templo de Salomão... os ensinamentos antigos!
- continuou um dos capelães da Ordem.
- Tudo a seu tempo, amigos! Ainda agora aqui chegamos! - disse Gualdim,
aos monges Templários.
A noite aproximava-se e, no acampamento, começava a preparar-se a ceia.
Um perfume a carne assada pairava no ar. Tinham montado uma tenda para
refeitório. Ao cair da noite todo o grupo se sentou nos bancos de madeira
que se juntavam às mesas corridas, improvisadas com tábuas e cavaletes,
cobertas de panejamento. Gualdim estava sentado a um dos topos da mesa,
levantou-se e todos repetiram o seu gesto. Voltou-se para os companheiros
e tomou a palavra:
- Senhor Jesus, ensina-me a ser caridoso, a servir-Te como o mereces, a
dar-me sem medo, a combater sem tratar das feridas, a trabalhar sem
procurar repouso, a gastar-me sem esperar outro prémio se não o de saber
que faço a Tua vontade Santa.
- Ámen - responderam todos, em uníssono.
Voltaram a sentar-se e começaram a comer carne assada, acompanhada de
castanhas, pão e vinho. Era visível o cansaço da viagem, depois de cear,
os homens de Gualdim foram-se deitar; mas antes de se recolher o Mestre
chamou os dois jovens amigos, Renato e Abel, para junto de si.
- Amanhã tenho uma surpresa para vocês! Durmam bem - disse-lhes.
Os dois amigos, surpreendidos e animados de uma certa curiosidade, antes
de se espraiarem, foram novamente à amurada da torre do castelo e,
conversando sobre as palavras do Mestre, apreciaram o reflexo da lua no
rio. Em baixo, a guarda acendia fogueiras e montava patrulhas nocturnas.
Na manhã seguinte, mal clareou ouviram o toque de um corno, que anunciava
a alvorada. Celebrou-se a missa da manhã e tomaram juntos a primeira
refeição. Alguns momentos depois, enquanto comiam, um barulho
ensurdecedor tomou conta do local. Lenhadores cortavam árvores;
carpinteiros serravam e aparelhavam a madeira; canteiros cortavam a
pedra; ferreiros batiam e temperavam o ferro. Agora, percebiam
exactamente o que se passava, parecia que em breve iria rebentar uma
guerra. Nas zonas arruinadas do castelo estavam as cavalariças, para onde
os servos levavam palha e água. Numa outra parte, os bois e vacas que
saíam para puxar os carros de carga.
- Então rapazes, dormiram bem? - perguntou Gualdim Pais, voltando-se para
Renato e Abel. - Tenho aqui a vossa surpresa... apontou para dois belos
cavalos e disse-lhes:
- Vão caçar! (79) Precisamos de provisões. Estão aqui dois caçadores
armados com arcos e vamos tratar de arranjar dois cães para vos
acompanharem - Gualdim estava a pedir, mesmo sem o afirmar, que os dois
rapazes mostrassem a sua destreza e habilidade.
Enquanto os quatro cavaleiros desciam a encosta do castelo, Gualdim
virou-se para Fernão Afonso e ordenou:
- Reúne os cavaleiros da Ordem e os capelães!
Passados alguns minutos estavam reunidos, à volta da mesa: os capelães;
os cavaleiros; e o lugar-tenente. Gualdim tomou a palavra:
- Meus irmãos e meus amigos, façamos um ponto da situação... em primeiro
lugar El-Rei D. Afonso ordena que se reconstrua a Igreja de Santa Maria
do Olival. Como sabem, o olival é o lugar onde se cultivam as azeitonas,
ou seja, onde se produz o azeite. Do azeite faremos lâmpadas, luz. E de
que serve uma lamparina se nós não a colocarmos em cima de um ponto alto?
De nada, pois então!... Portanto estamos ao serviço da Luz e da
Sabedoria. A responsabilidade da obra será minha!
- Senhor, quem será o arquitecto? - perguntou um dos Mestres.
- Como é nosso uso e tradição, cada edifício tem a sua vocação específica
e por isso escolhemos anonimamente aquele que irá trabalhar

(79). Aos templários era estipulada a proibição de caçar qualquer animal,


à excepção do leão, de acordo com a regra (o que deveria ser simbólico).
129
connosco. Tudo será feito em nome da Ordem, para louvar o nome de Deus
nosso Senhor.
- Mas já tendes alguém? - perguntaram alguns dos homens.
- Tenho. É o Mestre Abraão, o judeu que me acompanha. Ele é um «Filho de
Salomão» (80) e será o magister lapidarium, ficará responsável pela arte
da obra, pela distribuição das tarefas e coordenação do trabalho
individual dos homens destacados para servir El-Rei D. Afonso neste
propósito. Para já, vamos reconstruir a Igreja e depois, começaremos o
castelo, reconstruiremos então as duas obras em simultâneo.
Ninguém ousou contrariar o Mestre.
- Se temos pedreiros e carpinteiros vamos começar o trabalho! Mandai
chamar o Mestre Abraão para que possamos fazer o elenco das necessidades.
O nosso apoio para o trabalho será a torre. Montaremos o estaleiro junto
ao rio e as oficinas ficarão no terreiro da torre. Amanhã, os serventes
que preparem as instalações.
Naqueles tempos, era comum os artistas e artesãos unirem-se em
organizações corporativas, contratadas para a construção de igrejas ou
realização de grandes obras. Eram as chamadas Guildas (81). O objectivo
era conseguir uma divisão e integração do trabalho, com a maior
especialização possível e a mais completa harmonia entre diferentes
indivíduos. Este fim só podia ser atingido onde se verificasse uma
unidade de espírito, e uma subordinação voluntária dos desejos pessoais à
vontade do arquitecto. O Mestre chamou a si e a reservado um grupo de
cavaleiros mais velhos.
Passado algum tempo de conversa Gualdim afirmou:
- Meus irmãos, temos que preparar o futuro!
Gaspar Gomes, João Arnaldo Domingues, Fernão Afonso, Lopo Fernandes e
Antunes Duval olharam-se entre si.
- Antunes Duval, assumirás por direito as funções de capelão. Cuidarás
que nada falte às nossas almas.
- Ao vosso dispor, Mestre - disse fr. Antunes, prontamente. - Gaspar
Gomes, a tua boa disposição permite-te o contacto humano. Terás a teu
cargo a administração das pessoas que vivem na comenda. Assumirás funções
de gonfaloneiro. Cuidarás da logística e da disciplina!
- Assim será feito, Mestre! - afirmou Gaspar Gomes, a contento de
Gualdim.
- Arnaldo Domingues, terás a teu cargo a gestão dos dinheiros e
acumularás as funções de esmoler (83).
- Será como dizeis, D. fr. Gualdim - disse João Arnaldo Domingues.
- Tu, Fernão Afonso, terás a teu cargo o treino dos cavaleiros. Serás o
lugar-tenente. A nossa experiência de vida em comunidade já nos mostrou
as capacidades e qualidades de cada um. Sabei que esta é a designação do
Capítulo Geral, qualquer assunto deve ser resolvido entre nós, sendo que,
como sabeis, deveis guardar sigilo absoluto.
Fernão Afonso assentiu.
- E finalmente tu, Lopo Fernandes, proponho-te Comendador(84)desta
comenda templária, pelos poderes que possuo e pela dedicação que tens
revelado a El-Rei D. Afonso e à nossa Ordem. Continuarás meu senescal!
Levantai-vos e vinde comigo!
Todos aclamaram o futuro comendador, Lopo Fernandes. De seguida, Antunes
Duval levantou-se e, dirigindo-se ao Mestre, disse-lhe:
- Mestre, peço-vos para usar da palavra. O que pretendeis concretamente
de nós?
- Iremos formar uma comenda no Espinheiro (85) da serra, será a nossa
Abadia da Serra (86).
Pelas palavras do Mestre, Duval sabia exactamente o que significava.
Normalmente os lugares especiais e reservados das comendas estavam
protegidos por espinhos ou espinheiros. A sabedoria antiga tinha de estar
protegida. Era uma metáfora.
- Pela doação do Senhor D. Afonso, nosso Rei... continuou Gualdim temos a
nosso cargo o poder temporal e espiritual das gentes que por aqui
habitam. Lenhadores, carpinteiros, canteiros,

(80). Filhos de Salomão - Grupo de construtores que trabalhavam para a


Ordem do Templo.
(81). Mestre pedreiro.
(82). Guildas - Durante a Idade Média as corporações de ofício,
corporação artesanal ou guildas eram associações de artesãos de um mesmo
ramo, que procuravam garantir os interesses de classe e regulamentar a
profissão.
(83). Esmoler - Aquele que está atento às necessidades dos irmãos.
(84). Grau imediatamente a seguir ao de Mestre. Substituía-o quando este
se encontrava ausente.
(85). Espinheiro - Lugar da actual freguesia da SeiTa.
(86). Abadia da Serra - Nome primitivo da freguesia da Serra.
131
pedreiros, ferreiros e agricultores são os ofícios daqueles que nos
rodeiam. Todos eles são nossos servos. Como os pões a produzir mais e
melhor, Gaspar Gomes?
- Mestre, se permitis a minha ousadia, digo-vos que, se eles deixarem de
ser servos, e trabalharem por sua conta, produzirão mais.
- Parece-te?... Então que seja. Óptimo Gaspar Gomes, ainda me consegues
espantar ao fim destes anos todos! Que lhes seja dada a Carta de
Alforria... João Arnaldo Domingues?...
- Teremos de cobrar os impostos devidos e promover a instalação de feiras
- disse o esmoler.
- Meus Irmãos, teremos que ter condições de auto-suficiência. Recolher
lenha; criar tanques de cultura de peixes; produzir vinho; criar estradas
e zelar pela segurança dos caminhos comerciais; criar gado... muito há a
fazer! El-Rei D. Afonso colocou em nossas mãos a construção do reino e
nós vamos consegui-lo, com a ajuda de Santa Maria!
- Que assim seja! disseram os homens em conjunto. Estabeleceremos aqui
uma comenda rica e virtuosa! e assim, depois da sua fundação, foi
organizada a Comenda do lugar de Nabnncia, ou Tomar, como mais tarde
seria conhecida.
- Dai três «vivas» ao nosso Comendador... Viva! Viva! Viva!
- Viva! Viva! Viva! - bradou o grupo, em uníssono. D. fr. Lopo Fernandes
era então aclamado por todos.

Capítulo 17
A CONSPIRAÇÃO

Gualdim Pais tinha acabado de dar as instruções aos seus homens para a
construção da igreja. Haviam descido a encosta da serra e encontravam-se
no meio do olival de Nabância. Nessa manhã os serventes tinham começado a
limpeza do local, conforme ordenado. Um dos cavaleiros do grupo esperou
que o grupo acabasse de falar e, finalmente, interrompeu-o:
- Mestre, conforme ordenastes, já mandamos chamar o Mestre Abraão.
- Óptimo! - disse Gualdim, satisfeito. - Santa Maria do Olival... serás o
futuro panteão da Ordem, entre nós! Aqui repousarei um dia entre tantos
irmãos...
Entretanto chegava Abraão.
- Mestre, já observei o local e tenho algumas ideias...
- Abraão... este local foi escolhido para que os corpos dos ini-
ciados voltem à Mãe. Há aqui uma energia especial... não sentes? Gualdim
falava com discrição, enquanto se dirigia ao Mestre Abraão.
- O templo será construído sob o signo do pentagrama e será guardado pelo
Arcanjo S. Miguel.
- Dizem que nesta zona poderá ficar uma das portas para o reino
subterrâneo... fala-se em cavernas comunicantes que se estendem pelo
interior da terra - Abraão sabia do que falava.
- Temos que descobrir essa porta, Abraão. Não será impossível, por certo
- Gualdira continuava o discurso de Abraão. Ambos sabiam...
Enquanto prosseguia a conversa, foram interrompidos:
- Mestre! - chamou Renato. - Partimos então para a caçada, conforme
ordenastes levamos connosco as munições necessárias! Logo regressaremos
carregados de farta caça... assim o esperamos!
- Ide, meus amigos e companheiros. Renato, meu fiel escudeiro, confio
133
em ti!- afirmou Gualdim Pais, voltando-se para o jovem.
- Dizia eu... amigo Abraão... quando descobrirmos essa porta mágica, e
vamos descobri-la, iniciaremos aí a construção do templo. A Senhora do
leite, sobre o altar, alimentará os peregrinos...
Voltaram a ser interrompidos, desta feita, por fr. Duval:
- Mestre, estão aqui quatro homens que desejam falar-vos - proferiu o
monge, que já acompanhava os forasteiros de sotaque estranho havia tempo.
Tinham-se abeirado dele, metendo conversa, enquanto o monge lia o seu
breviário, alheio a tudo. Joaquim, apercebendo-se que ele era
cisterciense, tomou a palavra e disse:
- Irmão, boa tarde! Por supuesto... sabeis se precisam aqui de
trabalhadores? Vimos da catedral de Tui, que já não precisa de mais mão-
de-obra, somos pedreiros livres do Norte...
- Boa tarde, meus filhos. Não sei, perguntai lá em cima... é quase certo
que sim... se quiserdes, acompanhar-vos-ei a Mestre Gualdim e Mestre
Abraão. o canteiro.
- Viajamos desde o convento do Lago de Sanabria... - continuou Joaquim
Munoz, acompanhado dos outros três desconhecidos - e passámos por Tui,
mas a catedral está acabada. Por isso procuramos trabalho.
Duval arregalou os olhos, como que remexendo numa saudade bem guardada.
- Sanabria... - disse, com os olhos fixos no céu. Sanabria... quando vim
do reino dos francos estive em Sanabria, junto ao lago. Maravilha...
aquele Inverno que deixa tudo branco. Bela terra... E vós de onde sois? -
perguntou.
- Puebla de Sanabria... por supuesto! - disseram os quatro, em coro.
- Bonito! Linda terra! - concordava Antunes Duval. - O que quereis
então?.
- Olhai frade... ainda temos aqui um pouco de cidra. Vai um trago?
- Aceito de bom grado!
Bebeu um, dois... e mais outro trago...
- Sabeis tratar-vos, sim senhor disse fr. Antunes, com ar bonacheirão.
- Olhai lá irmão, o que andais a fazer aqui? perguntou Joaquim Munoz,
procurando informações seguras sobre os portucalenses.
- Estamos a reconstruir o Castelo de Ceras! informou o monge
cisterciense.
- Só??? - espantaram-se os quatro homens misteriosos.
- E achais pouco? - fr. Antunes Duval respondia-lhes.
- E precisam de trabalhadores? - voltou a questionar Joaquim.
- Ouvimos falar numa igreja...
- melhor perguntarem a Abraão, o judeu. Já disse que vos levava até ele
insistia o religioso, começando a estranhar tanta pergunta.
- Um judeu é que é o arquitecto? - indagou Joaquim Munoz, insistindo
fortemente em busca de informações cabíveis.
- Vamos, senhores... eu acompanho-vos! - O monge fechou o breviário,
guardou o rosário no bolso e caminhou em direcção ao olival, onde se
encontravam os amigos. Já junto de Gualdim Pais e Abraão, dirigiu-se ao
Mestre:
- Aqui estão os homens de que vos falei, Senhor.
Gualdim olhou para Abraão e o Mestre canteiro voltou-se para os quatro
homens e perguntou:
- A que classe de trabalhadores pertencem?
- Eu, Joaquim, sou companheiro e os meus homens são aprendizes.
Joaquim fez um sinal que Abraão reconheceu como sendo da classe.
- Eu sou o responsável pelas obras. É perante mim que têm que se
apresentar. Assumo o vosso encargo. Procurem os outros trabalhadores.
Os homens foram procurar os companheiros de ofício e Abraão voltou à
conversa com Gualdim. Enquanto se afastavam comentavam entre dentes:
- D. Joaquim... os homens d'El-Rei portucalense escondem algo! D.
Raimundo falou de uma igreja... e pelos vistos deve ser importante...
senão para quê tanto segredo!
- Tens razão Pepe!... ainda bem que mudaste de ideias... em Santiago
pouca ajuda me darias!... Ainda bem que não foste!... Cumprir promessas
para quê?... aqui é que está o dinheiro... o tesouro... estes homens
devem saber onde estão os Mapas...
- D. Joaquim... esses Mapas levam-nos ao tal tesouro? - perguntou Pepe.
- Tu rasas a estupidez... Pepe! Não te disse já que mostram
135
caminhos desconhecidos do nosso Rei? - Joaquim dirigia-se a Pepe, com
arrogância.
- Pronto, pronto... e os Testemunhos?
- Esses, não sei... El-Rei... repouse em paz... sabia bem o que
procurava... as instruções levam para uma chave, guardada pelos irmãos
portucalenses da Ordem... foi levada para a Terra Santa e dispersa pelo
Egipto... mas alguém a recuperou!... Em breve lá chegaremos, é o que vos
digo! - disse Joaquim, com um sorriso malicioso.
- Lá chegaremos, lá chegaremos... promessas... há dois anos que andamos
nisto... ainda havemos de ser bem pagos... começo a duvidar!!!...- disse
Pepe.
- Vamos lá ter com a pandilha... temos que descobrir mais qual-quer
coisa... onde deixaram os pombos? - perguntou Joaquim Munoz, virando-se
para os outros dois homens.
- Ficaram escondidos junto a umas árvores ali na serra responderam.
- Incompetentes! Ignóbeis!... Não fazeis nada de jeito!... E se alguém os
vê? Se os descobrem? Joaquim começava a ficar nervoso, precisava dos
pombos para comunicar com os Trava.
Posto isto, os homens acobardaram-se. Não queriam irritar D. Joaquim... a
sua ira era bem conhecida deles. Puseram-se a caminho de imediato, tinham
que recuperar os animais.
136

Capítulo 18
A CAÇADA

Enquanto decorria a reunião preparatória dos trabalhos, Renato e Abel,


com os dois cavaleiros seguiam o latir dos cães em alegre cavalgada.
De vez em quando, os animais sentiam coelhos e pequenas presas e corriam
atrás deles, como se quisessem brincar. Subitamente os cães pararam,
levantaram as orelhas, começaram a ganir e depois a ladrar. Eles seguiam
os animais à distância. Pararam o galope por instantes e ficaram à
escuta. Quase no alto da serra, um javali bebia água numa poça. Os
mastins, habituados a caçar, avançaram e rodearam o porco selvagem, como
eles diziam. Os animais olharam-se nos olhos e o javali perecia cuspir
fogo. Começou a correr em direcção a um dos cães e o animal estacou, como
que gelado. Foi contra ele com toda a força e cravou-lhe as presas no
peito. O animal foi levantado no ar e só se ouviu um latido de dor;
quando caiu junto a um pinheiro estava sem vida. O outro cão correu em
direcção aos cavaleiros, como que a pedir ajuda. Renato e Abel pegaram em
lanças e cavalgaram sobre o porco selvagem. Renato baixara-se demais e ao
querer espetar a lança no animal, esta falhou o alvo e partiu-se. Com o
impacto, o cavalo assustou-se e empinou-se sobre as patas de trás e ele
caiu. A situação não era favorável, um javali quase com cem quilos estava
em frente de um jovem com um pedaço de pau na mão. Abel saltou do cavalo,
deu-lhe uma palmada na garupa e colocou-se com a sua lança ao lado de
Renato, o javali recuou; mas para tomar balanço. Começou a correria
mortífera. Abel colocou a lança em riste e de repente, duas setas
atingiram-no no coração e o animal caiu em movimento, deixando os dois
jovens de tal forma petrificados, que fecharam os olhos com o susto. O
corpo do javali só parou o seu anda-mento ao tocar-lhes nos pés. Não
queriam acreditar. Estavam vivos e o javali morto, caíram de cócoras e
suspiraram de alívio.
- Então rapazes? - disse um dos arqueiros. - Isso é que foi! Já têm que
contar aos netos.
137
Ou mostrando medo ou querendo fazer valer a sua importância, o cão
sobrevivente correu para junto do javali e, ao olhar a fera já sem vida,
rosnou. Renato reparou que a seta que matara o javali não tinha sido
disparada do local onde Abel se encontrava... era impossível, tinha sido
disparada do lado oposto e era diferente das demais. Olhou em volta
assustado, comentando com Abel e com os dois cavaleiros as suas
suspeitas. Viram um vulto esgueirar-se por entre a densa mata. Abel
correu atrás dele. O arqueiro saltou do ginete, amarrou o javali e atou-o
ao seu cavalo com uma corda e ao cavalo do seu colega de armas.
- Abel... - chamou Renato. - Não me quero ver noutra destas. Onde vais?
Bem pedi a Deus que me ajudasse, mas estava a ver que Ele não me ouvia.
Afinal ouviu. Abel! -voltou a chamar Renato. - Espera por mim!
Os dois jovens corriam agora atrás do vulto que viram surgir por detrás
da vegetação. Estavam quase a alcançá-lo, mas ele movia-se bem.
- O que andas aqui a fazer? És tu que nos persegues há já uns dias?... o
que queres'? - gritava Abel enquanto corria, a toda a velocidade, por
entre o arvoredo.
- Abel, agarra-o!... Não o deixes fugir! - gritou Renato.
Os jovens corriam o mais que podiam, mas o vulto misterioso ganhava-lhes
velocidade. Tropeçavam em ramos caídos no chão, que o fugitivo lançava
como armadilhas para os demover daquela perseguição desenfreada. Tinham
as vestes cobertas de sujidade, mas não desistiam. Renato ia um pouco
mais atrás, mas Abel estava quase a alcançá-lo. Por súbito, concentrando
em si todas as forças possíveis naquele momento, o jovem judeu ganhou
balanço, deu um salto e atirou-se aos pés daquela figura misteriosa que
perseguiam.
- Já não escapas... quem és tu e o que pretendes de nós'? Diz-nos...
diz-nos... Porque nos salvaste?... Porque foges ? - inquiriu em tom
ameaçador, enquanto corria.
- O que quereis'? Largai-me! - O vulto que se escondia por debaixo de uma
capa escura que lhe cobria a cabeça, debatia-se, procurando ver-se livre
das mãos de Abel. Tinha batido com o peito violentamente no chão e, com a
pancada, ferira-se na cara.
Alguns segundos depois, Renato amarrou-lhe as pernas e os braços e
imobilizou-o. Os dois jovens, seguidos pelos cavaleiros que os
alcançavam, descobriram-lhe a cara e... qual não foi o seu espanto,
138
quando reconheceram o jovem ruivo de tez clara que com eles se cruzara na
abadia, em Al-Cobaxa.
- Tu aqui?... Andas a seguir-nos ? - perguntou Renato, fazendo corar o
jovem.
- Quem te ensinou a manejar o arco com tanta destreza? Quem és tu ? -
questionou Abel.
O jovem protegia-se dos atacantes, esbracejando insistentemente. Sentia o
sabor do sangue na boca, devido ao ferimento.
- Largai-me senhores, sou só João Sanches, caçador de lobos.
- Caçador de lobos?... Tu'?
- Sim, os lobos mataram o meu pai e eu formei-lhes promessa de morte -
mentiu o jovem, encobrindo o seu disfarce.
- Junta-te a nós, levar-te-emos até ao nosso Mestre. D. fr. Gualdim
poderá ajudar-te, há quantos dias andas no mato'? - Os jovens olhavam
para o aspecto do rapaz. O cabelo desalinhado, a cara suja e
ensanguentada e as mãos feridas, a roupa rota e a capa rasgada. Parecia
ter sido atacado por uma alcateia inteira, tal era o seu aspecto!
- Gualdim... dissestes ? - O jovem ruivo arregalava os olhos de
esperança... aquele nome... sim aquele nome não lhe era nada estranho.
Orion, o caçador, tinha revelado ali a sua força. Estava no bom caminho!
- Sim, Mestre Gualdim Pais poderá ajudar-vos... estou certo que sim -
voltou a repetir Renato, sorrindo-lhe.
João Sanches concordou acompanhar os jovens no regresso ao castelo.
- Obrigado por nos teres salvo - agradeceu Abel. - Estavas no local certo
na hora certa!
O pequeno cortejo triunfal dirigia-se agora de volta ao castro. Conforme
se aproximavam, os homens gritavam vivas.
Gualdim, ao ouvir o arraial, saiu da tenda e ficou contente com o que
via. Os rapazes tinham passado uma prova difícil.
- Então? Já começam a ser homens! - exclamou Gualdim, rindo-se para eles.
Ficamos todos animados, porque vamos ter refeição melhorada!
Esse dia dezoito de Dezembro iria ficar-lhes na memória!
- Quem é esse rapaz que vos acompanha'? - perguntou Gualdim Pais.
- É um amigo que encontramos no...
139
Renato fora interrompido pelo jovem, que se dirigia a Gualdim Pais
visivelmente excitado:
- Senhor, o meu nome é João Sanches, e teria toda a honra em juntar-me à
vossa comitiva... deixais? Trabalharei com afinco naquilo que desejardes.
- O que fazeis por aqui? - Gualdim olhava-o, intrigado.
- Sou caçador de lobos - voltou a mentir. - Os lobos mataram o meu pai e
eu formei-lhes promessa de morte!
- Renato e Abel... o que vos parece?
- Mestre, quer-nos parecer que este amigo já nos acompanha faz alguns
dias! - respondeu Renato, olhando para o Mestre com ar de cumplicidade.
- Como assim?... É verdade o que acabo de ouvir? inquiriu ao
jovem Sanches, olhando-o desconfiado e, ao mesmo tempo, surpreso. - Devo
concordar, Mestre!... Quando saístes de Al-Cobaxa segui
viagem, ao abrigo da comitiva que comandais disse o Ruivo. Gualdim
trocou um último olhar com Renato e Abel.
- Fica então connosco esta noite. Vai lavar-te no rio e vem comer! -
assentiu, por fim.
Antes de revelar a sua verdadeira identidade, Catarina, na pele do jovem
João Sanches, precisaria de se saber segura. Tinha cumprido a primeira
etapa da sua jornada encontrara o Mestre do Templo. Agradeceu a
hospitalidade, despediu-se do Mestre e dos dois jovens e dirigiu-se ao
rio, a fim de se recompor.
No acampamento, os serventes chamuscavam o javali. Penduraram-no numa
árvore, sagraram-no e abriram-no. Os dois jovens assistiam a tudo. Quando
se preparavam para lhe retirar as vísceras, Gualdim abeirou-se daquele
açougue improvisado e tomou a palavra:
- Se quereis conhecer o vosso corpo, matai o vosso porco!
Pela primeira vez os dois amigos viram um coração, pulmões, fígado,
intestinos e desataram a fugir quando, depois de retiradas, as tripas
foram limpas, ficando as fezes do animal no chão.
Depois de tudo limpo tiraram o animal da árvore e colocaram-no num espeto
que o atravessava pela boca, começando a colocar-lhe brasas por baixo;
foram necessários dois homens para o rodarem. Nessa noite comeram javali
assado no espeto, beberam vinho e recontaram a aventura do dia. Todos
riam da história do pau partido.
140
Abel e o tio não estavam muito pelos ajustes. A sua religião não lhes
permitia comer aquela carne. Felizmente havia peixe do rio, que comeram
assado.
Gualdim estava orgulhoso. Aqueles dois tinham apanhado um susto; mas
haviam conseguido o reconhecimento de toda a gente.
Um dos cavaleiros foi buscar um alaúde. Os olhos de Renato brilharam e a
saudade chegou-lhe ao coração e aos dedos.
- Posso? - perguntou Renato.
O cavaleiro deu-lhe o instrumento. Ele olhou-o saudoso, lembrando-se de
seu pai por instantes, e começou a tocar e a cantar trovas antigas.
Aquela noite que acontecera de improviso, por instantes, levou os homens
às suas casas, às suas famílias e ao aconchego do lar. Alguns tinham a
emoção estampada no rosto.
- Boa noite rapazes! - diziam uns.
- Boa noite gentis-homens diziam outros, de condição inferior.
Abel e o tio, afastando-se um pouco do grupo, procuraram um local
sossegado onde pudessem dedicar-se às suas preces. Voltaram-se para
oriente, com os olhos elevados aos céus, e rezaram a oração cabalística
da noite:

« Sejam favoráreis a mim, Oh Poderes do Reino Divino


Possam a Glória e a Eternidade estar em minhas mãos,
esquerda e direita,
para que eu possa obter a Vitória
Possam a Piedade e a Justiça restaurarem
minha alma à sua pureza original
Possam o Entendimento e a Sabedoria Divinos
conduzirem-me à eterna Coroa
Espírito de Malkuth, Tu que trabalhastes e conquistastes;
colocai-me no Caminho do Bem
Guiai-me aos dois pilares do Templo, Jakirn e Boaz,
para que possa repousar sobre eles Anjos de Netzah e Hod,
sejais meus pés,
para que possa postrar-rne firme sobre Yesod
Anjo de Gedulah, consolai-me.
Anjo de Geburah, atinji-me, se necessório, e fazei-me mais forte,
para que eu possa merecer a influência de Tifereth
Oh Anjo de Binah, dai-me Luz
141
Oh Anjo de Chokmah, dai-me Amor
Oh Anjo de Kether, concedei-me a Fé e a Esperança
Espíritos do Mundo Yetzirático, retirai-me das trevas de Assiah
Oh triângulo luminoso do Mundo de Briah,
fazei-me ver e entender os mistérios de Yetzirah e Atziluth
Oh Sagrada Letra Shin
Oh Ishim, assisti-me pelo nome de Shadai
Oh Kerubin, dai-me força através de Adonai
Oh Beni Elohim, sejais meus irmãos em nome de Tzevaot
Oh Elohim, lutai por mim, pelo Sagrado Tetragramaton
Oh Melakim, protejei-me através de Jehovah
Oh Seraphim, dai-me amor sagrado em nome de Eloha
Oh Chashmalim, iluminai-me pelas tochas de Eloi e da Shekinah
Oh Aralim, anjos de poder, sustentai-me por Adonai
Oh Ophanim, Ophanim, Ophanim, não esquecei de mim,
e não me retirai do Santuário
Oh Chaiot ha Kadosh, gritai alto como águia,
falai como homem, rugi e abaixo
Kadosh, Kadosh, Kadosh, Shadai
Adonaim Jehovah, Ehveh asher Ehveh
Haleluia. Haleluia. Haleluia.
Amen. Amen. Amen».

Catarina, junto ao rio, assegurou-se que não era vista e despiu-se. Lavou
as feridas que tinha na cara, nas mãos e no peito. Já recomposta, juntou-
se à comitiva e regalou-se com uma refeição farta, como há já muito não
fazia. Depois, acostou-se junto ao fogo e, cansada, deixou-se dormir.
Sentia-se acompanhada e em segurança.
No dia seguinte, após a primeira refeição, Gualdim encontrava-se a
trabalhar nos desenhos para a construção da igreja com Mestre Abraão.
- Abraão, parece-me bem que a igreja fique situada no terreiro frente à
torre. Que dizes? Vamos continuar a limpar o local. Retiraremos os
escombros e as pedras. Aproveitaremos as colunas existentes e faremos
três naves. Na parte do altar construiremos uma abside de cinco faces. Na
face da fachada principal uma rosácea com o equivalente no tímpano. A
nossa referência é a simbologia dos números. Sabes o que tens a fazer,
não sabes?
- Sim, Mestre. Dá-me uns dias para que possa trabalhar com o meu
sobrinho, Abel.
- Abraão, não te esqueças do que falámos sobre a sabedoria escrita na
pedra. A mensagem para quem a souber ler... não há nada oculto que não
deva ser conhecido e não há nada guardado que não possa ser revelado.
Dizer a verdade para aqueles que não podem en-tendê-la, é mentir para
eles. Desvelar a verdade para estas pessoas, é profaná-la.
- Bem sei, Mestre... a propósito... o que faço com Renato?
- Ele que trabalhe com os outros e, quando a obra começar, ele que pegue
num escopro e num maço.
O Ruivo acompanhava os dois jovens, Renato e Abel, quando chegaram ao
terreiro fronteiro à torre, próximo do olival. Deu de caras com os homens
de sotaque estranho...
- Os forasteiros que vira perto de Aurem! pensou, escondendo-se para que
não o reconhecessem. Estava desconfiado... pareciam ser os mesmos.
Os homens pararam um instante, estacando frente ao jovem.
- Mas... não é o mesmo rapaz que vimos... o dos lobos? - disse Joaquim,
intrigado.
- É melhor irmos embora... - continuou Pepe.
- Cala-te! - disse o capataz do grupo. - Se calhar não nos reconheceu!...
Deixai-vos estar... não podemos deitar tudo a perder. Devemos ser
discretos... o moço ainda nos pode vir a ser útil... parece que se dá com
aqueles dois! - Joaquim referia-se a Abel e Renato.
143

Capítulo 19
SANTA MARIA DO OLIVAL

Os trabalhos de limpeza duraram três dias. Gualdim acompanhava de longe


os trabalhos, na velha igreja visigótica. O local era bafejado de
espiritualidade. A igreja ficava como que numa cova, com orientação
Nascente Poente. Protegida pela Terra Mãe. Constava que por baixo dela
passavam veios de água subterrâneos, de modo que todos os fluidos eram
purificados. No local sentia-se a emanação telúrica do útero materno, de
onde provém a vida, mas também a sepultura para onde voltará.
- Os visigodos já sabiam o que faziam! pensava Gualdim para consigo. É
certo que estes locais não eram escolhidos ao acaso.
Enquanto apreciava a construção existente no local, pensava na forma como
poderia, ali em Theodomar, concretizar os desígnios d'El-Rei D. Afonso
Henriques. Os números... a Regra... pensava para consigo. - O «5»
simboliza a Luz da Sabedoria. O espírito que age sobre os quatro
elementos. O pentáculo sagrado... a sagrada união do humano com o divino.
Os quatro membros do corpo, mais a cabeça que o controla.
Voltou-se para Abraão e disse-lhe:
- O «5» é o número sagrado de Portugal... sabias, velho amigo?
A tarde do dia vinte e um de Dezembro passava depressa. Abraão abeirou-se
de Gualdim Pais e disse-lhe que tinha concluído os planos da obra. Já há
alguns dias que trabalhava o sonho do Mestre.
- Mestre, tenho os projectos prontos para discutir convosco! - disse.
- Hoje não, Abraão. Amanhã de manhã veremos isso juntos... se
concordares, claro!... para hoje... já tenho algo em mente!
- Claro, Mestre... amanhã será!
- Sabes, velho amigo... enviei um mensageiro ao povoado de Turquel, perto
de Al-Cobaxa, para saber novas de Sancho Viegas...
145
parece que fr. Martinho tinha lá um irmão que já faleceu... infeliz-
mente... julgo que poderia ser Sancho... mas nada sei por hora... ainda
não regressou!
- Estranho, Mestre... a caminhada não duraria tanto tempo... o que teria
sucedido? - questionou Abraão.
- Aguardemos, meu velho... aguardemos... mas se queres saber... devemos
redobrar cuidados... Gualdim tinha outros planos para aquela noite. Ao
terminar a conversa com o velho judeu, solicitou que todos os cavaleiros
da Ordem e respectivos capelães estivessem prontos para sair ao cair da
noite, e que não jantassem.
- Renato e Abel... hoje vão recolher-se mais cedo! Espero que façam como
vos peço... não quero surpresas! ordenou o Mestre.
- Mas... Mestre... passa-se algo'? - perguntaram os jovens.
- Nada, nada se passa... vou retirar-me com os cavaleiros da Ordem...
iremos reunir para discutir uns assuntos...
- Compreendemos... interromperam os jovens. - Não vos preocupeis,
Mestre... faremos como ordenastes! - responderam em uníssono, trocando um
olhar cúmplice e afoito, que preocupou Gualdira.
Assim foi. Quando escureceu todos os Templários estavam a postos,
montados a cavalo com os seus trajes brancos. Era noite de breu e cada um
tinha um archote na mão, estavam alinhados de acordo com as suas
categorias. Quando o Mestre chegou junto deles, aguardavam em silêncio.
Os cavalos quando respiravam pelas narinas, deitavam fumo de vapor, tal
era o frio! Gualdim ordenou que fossem dois cavaleiros em cada montada.
Todos obedeceram sem questionar.
- Capelão-mor, fr. Duval, montarás comigo no meu cavalo. Abraão, montarás
tu com o lugar-tenente, D. Fernão Afonso - ordenou o Mestre.
Assim fizeram, e partiram em marcha muito lenta, para não cansarem os
cavalos. Àquela hora já não se via vivalma. Desceram a Mata dos Sete
Montes, passaram a ponte de madeira, sobre o Nabanu.s, e os cascos dos
animais matraqueavam. O Mestre seguia à frente, com um livro agarrado ao
peito. Quando chegaram junto da torre, sabiam o que tinham de fazer.
Desmontaram, deixaram as armas à porta da igreja e seguiram o Mestre.
- Calcemos as nossas luvas, para que não nos apresentemos diante do
Criador com as mãos manchadas de sangue - disse Gualdim.
Formaram em duas filas e entraram. Gualdim foi o último a entrar,
acompanhado do Capelão-mor. Abraão ficou do lado de fora; mas desta vez
tinha uma espada consigo.
A velha igreja visigótica estava em ruínas; não havia telhado, as colunas
eram troncos de colunas e as paredes tinham altura suficiente para lhes
cobrir as cabeças.
Renato e Abel, movidos pela curiosidade, não obedeceram ao Mestre, como
já era esperado. Seguiram a comitiva, silenciosamente, acompanhados do
Ruivo, o recente amigo, e após longa caminhada, quando se aproximaram da
igreja, viram o tio de Abel cá fora, à porta, com uma espada na mão. Uma
grande luz saía da igreja em ruínas. Os Templários, em coro quase surdo,
cantavam o Salmo Venite Creatore Spiritus (mandai Senhor o Vosso Espírito
e renovai a Terra). Seguidamente entoaram o Salmo 115... Non nobis
Domini, Non nobis sed nomine tuo ad gloriam (não a nós, Senhor, não a
nós, mas ao Teu nome dá glória)... e calaram-se. Estavam todos virados
para o antigo altar. Do local onde se encontravam os três jovens, via-se
mal. Tentaram aproximar-se e viram Gualdim virar-se para trás, olhar para
os seus monges-guerreiros, abrir o livro no Evangelho de S. João, e ler
algumas passagens:
"Ele deve crescer e eu diminuir. Aquele que vem do Alto está acima de
todos; aquele que pertence à Terra é da Terra e fala das coisas da Terra.
Porque o que vem do Céu dá testemunho do que viu e ouviu".
Parou um pouco e depois continuou, com a voz forte e calma:
- Esta é a noite das trevas. É a noite em que o astro-rei está no seu
ocaso por mais tempo. Viemos dois cavaleiros num só cavalo, porque temos
dois objectivos: um terreno e outro espiritual. Por isso estamos aqui,
para o convocar a fazer o seu novo ciclo. Por isso estamos aqui, na noite
mais longa, para evitar que as trevas invadam o mundo:
- Salvator mundi, salva-nos! clamava Gualdim, enquanto os restantes
respondiam:
- Luce mundi, salva-nos!
- Meus irmãos... - continuou o Mestre estamos aqui para evocar a Mãe...a
Grande Mãe da Luz! Esta igreja será consagrada a Nossa Senhora do Olival,
Senhora da Luz, Senhora da Sabedoria. Amanhã, um novo período começa!
Comecemos a nossa obra com o crescer do sol invicto.
Renato e Abel não conseguiam ver nada e só ouviram vozes baixas.
147
Estavam a arrefecer e foram para as tendas. Ainda tinham duas boas horas
de caminho até ao acampamento. João Sanches acompanhava-os. Procurava
compreender tudo aquilo e sobretudo, o melhor momento para revelar a sua
identidade. Enquanto caminhavam dirigiu-se aos dois jovens:
- Pareceu-me que estavam a falar da Grande Mãe... e do Astro-rei...
- E que sabes tu sobre isso? perguntou-lhe Abel, intrigado. O jovem não
respondeu. Ainda era cedo para falar sobre os seus propósitos. A altura
certa chegaria... até lá... aguardava.
- Retiremo-nos em paz! disse o capelão para os Templários.
Saíram, pegaram nas armas e montaram os cavalos. Esperaram por Gualdira
que retomou o seu lugar frente à coluna da Ordem.
Entretanto, Renato e Abel chegavam ao acampamento junto do castelo, foram
deitar-se à pressa, para que não fossem apanhados. O séquito só chegaria
mais tarde!
O dia seguinte amanheceu claro e Abraão, o Mestre canteiro, apresentou-se
com os seus desenhos, junto de Mestre Gualdim.
- Bom dia Abraão... manda também chamar o teu sobrinho Abel, e Renato.
Após breves instantes, os quatro homens estavam a sós numa tenda. Quando
Abraão começava a abrir os desenhos, Gualdim solicitou que dessem todos a
sua palavra de honra, em como não diriam nada do que ali vissem. Assim o
fizeram, e Abraão retornou a intenção... quando o Mestre o interrompeu.
- Rapazes... tu, Abel, deves saber; mas o Renato não sabe de certeza. É
preciso que estejais informados...
Abraão encheu o peito de ar e, com orgulho, disse:
- Eu sou um «Filho de Salomão». O meu sobrinho já o sabia... - olhando
para Abel, sorriu ... Renato é que não, mas como só eu posso dizer que
sou...
- E que significa isso? questionou Renato.
- Até que enfim, tio. Agora sinto-me mais aliviado!... Escuta Renato, o
meu tio só te diz isto uma vez... apenas uma vez!
- Bom, Renato, quando leres o «Livro dos Reis» verás que o Rei Salomão
construiu uma casa dedicada ao Senhor: o Templo de Jerusalém. No decorrer
da obra foi cometido um crime. Três companheiros mataram um Mestre, o
Mestre Hiram. Os companheiros e alguns
Mestres, que lhe eram fiéis, choraram a sua morte e formaram um grupo que
se chama «Companheiros do Dever e da Liberdade» ao qual, entre nós,
chamamos «os Filhos de Salomão».
- E qual é o lavor desses homens, «os Filhos de Salomão»? - insistiu
Renato.
- Por agora só te posso dizer que todo o ofício ou profissão possui o seu
próprio dever... mas Mestre... disse, voltando-se para Gualdim - ...
penso que tenho o que me pediste. Como sabeis a igreja está orientada de
oriente para Poente Abraão abriu os desenhos: uma planta da igreja, o
alçado principal, e um alçado lateral, à parte, uns esboços
pormenorizados da fachada.
- Mestre, tenho para vos apresentar uma sequência de números:
«1,5,8,8,12,3 e 4». A luz criadora e absoluta do «1» penetra no pentáculo
que representa aqui o «5», levando o homem a um crescimento, a uma tomada
de consciência de que algo acima dele se sobrepõe como presença de
espírito o quinto elemento como vedes, as-sim... liberta-se a energia do
«8» infinito e regenerador, memória dos tempos, luz e trevas, que depois
de um longo processo de regeneração, amadurecimento, e até mesmo
metamorfose, se desdobra na harmonia
perfeita do «12» disse Abraão, visivelmente excitado, referindo-se
ao projecto para Santa Maria do Olival.
- Explica-te melhor, Abraão - disse Gualdim, impressionado.
- Mestre, é perfeito!... a sequência de números, a mensagem a transmitir,
a vontade da Ordem em transformar este local imaculado na sua sede
espiritual... tudo faz sentido!... não fosse a porta...
- Abraão, meu amigo... então? Não queremos confundir ainda mais os
espíritos inquietos dos nossos jovens!... - disse Gualdim, olhando de
soslaio para Renato.
- Claro, Mestre... claro! Abraão, com o entusiasmo, falara demais.
- Falais numa porta... - Renato lembrara-se da conversa que o Mestre
tinha tido com o mensageiro em Cintra, pouco antes de ser lida a missiva
real que ali os levara... também eles falavam de uma porta... de um reino
subterrâneo... teria alguma relação?
- Abel, continua por favor o meu raciocínio... - pediu o Mestre
Abraão, deixando Renato sem resposta.
- Eu, tio?... sobre os números? Sobre os planos para a igreja?
questionou.
149
- Claro, rapaz... os números...
- Bom, no meu entendimento o número «1»... e apontava para Nascente
representa o poder criador, a unidade, o astro-rei que se levanta a
Nascente e nos dá alimento à vida; o número «5»... indicando o tímpano da
igreja, continuou - ... que terá como representação um pentagrama, é o
número do homem total, cabeça e os quatro membros, o Espírito como quinto
elemento; o «8», representativo do número de colunas, é símbolo do
infinito regenerado, do regresso à estabilidade e ordem numa dimensão
mais consciente; o «8» estará também presente nos degraus da escada de
acesso à igreja; descer-se-ão os oito degraus que levam o homem de volta
à Terra Mãe, subir-se-ão os oito degraus que devolvem o espírito desse
homem regenerado, à vida; o «12», vê-lo-emos na rosácea, símbolo da
harmonia perfeita, representativa dos doze meses do ano, os doze signos
do Zodíaco, os doze discípulos de Jesus; o número «3», estará presente
nos arcos da entrada, representa os ciclos da vida, é o resultado da
união de polaridades entre o «1» masculino e o «2» feminino, a
manifestação, a forma, a Santíssima Trindade e, por fim, o «4»,
evidenciado na torre sineira, representativo da Terra em sentido cósmico,
da estabilidade, do equilíbrio da matéria. Na igreja traçaremos um
percurso evolutivo.
- Perfeito! disse Gualdim.- Queres dizer alguma coisa, Renato?
- Não, Mestre disse, olhando para Abel. Tinha ficado a pensar na porta...
o que seria?
- Vou explicar-te melhor continuou Gualdim. Esta igreja tem dois
sentidos; o de entrada, caminho terreno e o da saída, caminho espiritual.
O caminho sagrado, para que o homem e o mundo se renovem, terá de aceitar
a natureza tríplice de Deus e descer à sua consciência original. Para que
o trigo dê fruto é necessário que morra! Através da pedra de soleira o
homem faz um caminho de elevação espiritual. A criação, através da Terra
Mãe, atinge o cosmos.
- É este o esboço da fachada, Abraão?... Bom... - continuou Gualdim - ...
o teu frontão parece uma seta a indicar o cosmos! - subitamente olhou
melhor para o desenho e viu um "T" junto ao vértice do frontão. Arregalou
os olhos e disse:
- Tu, Abraão, nunca me desiludiste... é esta a chave do frontão.
Colocaste aqui o sinal da redenção e da esperança. É um «Tau»'"', por
Deus!
- Mestre... interrompeu Abraão. - Se juntarmos a rosácea ao «Tau» tens a
cruz de Osíris, a Ankh, ou chave da Vida, nas devidas proporções.
- Abraão, a torre é para manter? - perguntou Gualdim Pais.
- Sim, a sabedoria deve ficar preservada! respondeu-lhe o velho canteiro.
Abraão sabia qual era o estilo de arquitectura a utilizar. Durante a sua
estada na Terra Santa tinha adquirido conhecimentos sobre estruturas e
resistência dos materiais. Ao substituir o granito por calcário, obtinha
resultados espantosos. Também se tornava importante o conhecimento dos
monges de Cister nesta área e aí... fr. Duval poderia ajudar.
- Entretanto, preciso que me acompanhes no meu raciocínio... - continuou
Gualdim - Onde vai ser erigido o castelo? Mantém-se o local de que falei,
Abraão? Como sabes e já deves ter reparado, à noite por cima de nós,
temos a Estrada de Santiago, ou se quiseres. a Rota de Santiago.
- A Via Láctea, quereis vós dizer, Mestre...
- Isso mesmo, Abraão. Tu a partir da Igreja deste-me uma linha de
orientação Nascente-Poente; para ter um ponto preciso da intersecção de
duas linhas Gualdim colocou um mapa da Península Ibérica sobre a mesa,
desenrolando-o calmamente. Depois, abriu as suas vestes e tirou um colar
que tinha suspensa uma cruz templária Três triângulos unidos pelos
vértices - continuou. - Terra, Agua, Fogo e Ar - a cruz tinha um pequeno
orifício no meio. - Sabes que o nosso ponto de maior carga telúrica é
Ucero? Os seus minérios magnetizam a Terra.
- Sim... - continuou Abraão - ... é o eixo da Península.
- Qual é o valor do ângulo interno da cruz? - inquiriu Gualdira.
- É quarenta graus - disse Abel, prontamente.
- Então vamos orientar o mapa para Norte, e colocaremos a cruz
150
também orientada com o orifício sobre a vila de Ucero,(89) em Soria...
alinharemos o bordo superior do tramo esquerdo com Santiago, e o que
teremos no bordo inferior?... continuou Gualdim.
Renato estava de boca aberta. Estava tão baralhado, que não conseguia
dizer nada.
- Sellium, Theodomar! - disse Abraão, como se tirasse uma conclusão
óbvia.
- Já temos o ponto! A tal porta de que falávamos Abraão... agora falta
localizá-la melhor - argumentou Gualdim enquanto olhava a torre da
igreja, no exterior.
- Mãos à obra, Mestre... - rematou Mestre Abraão, sorrindo.
As obras começavam enfim. Abraão tinha acolhido quatro pedreiros galegos,
que solicitaram trabalho. Como traziam boas referências, falou com o seu
capataz e, posto isto, aceitou-os. Destinou-lhes uma coluna no interior
da igreja. Abel e Renato também ajudavam. Estavam no seu local de
trabalho. Tinham na mão esquerda um escopro e na mão direita um maço. A
primeira pancada de Renato foi directa aos dedos.
- Chiça! - disse, com os dedos vermelhos e ligeiramente ensanguentados.
- Então? - Abel brincava com a situação.
- Então o quê, ó judeu? Estás a rir-te?!!! Ainda te dou com o maço é a
ti! - ripostou o outro jovem.
Abraão apareceu no meio deles, acalmando os ânimos e levando na mão um
triângulo. Deu-o a Renato.
- Diz-me o que é isto, rapaz! questionou.
- Isto?... Isto é um triângulo disse Renato prontamente.
- Isso sei eu!... bem vejo... mas o que representa para ti, Renato? -
perguntou Abraão.
- E uma figura com três lados iguais.
- Certo... estamos de acordo. Supõe agora que, no teu ponto de vista, o
triângulo representa Deus. O que me dirias?
Renato já tinha algum à vontade com os seus dois amigos. Olhou para
ambos, surpreendido, e respondeu:

(89). Ucero - Vila localizada na região de Soria, a mais pequena capital


da província de Castela e Leão, Espanha.

- Que Deus está... usado!


Simultaneamente Abel e o tio deram-lhe uma pancada na cabeça e disseram:
- Com o nome de Deus não se brinca... então, rapaz?!!!
- Perdão - desculpou-se Renato, atrapalhado. - Um ser com três naturezas
distintas - rematou ainda.
- Bom, vamos lá a ver... é por isso que nós os judeus não dizemos muitas
vezes o nome de Deus. Para que não o profanemos.
153

Capítulo 20
UM LOCAL PARA O CASTELO

Mais uma vez Gualdim tinha convocado os seus cavaleiros. Apesar de as


obras terem começado há dois dias, quis celebrar com eles o Natal e o
Solstício de Inverno.
Estavam todos na Igreja e leu-lhes o Evangelho de S. João:

«No princípio era o Verbo,


e o Verbo estava com Deus,
e o Verbo era Deus.
Tudo começou a existir por meio d'Ele,
E, sem Ele nada foi criado.
N'Ele estava a Vida
E a Vida era a Luz dos Homens ».
Parou um pouco a leitura, pousou o livro e perguntou:
- O que é o Cálice de José de Arimateia? Dizei-me irmãos...
Primeiro, um silêncio de morte fez-se anunciar, depois...
- O cálice... o cálice sagrado por onde Nosso Senhor Jesus Cristo bebeu
na última ceia com os apóstolos! - disse um dos irmãos Templários.
- Uma fonte da juventude eterna! disse outro.
- Um tesouro incomparável que tem inspirado cruzadas! - acrescentou ainda
outro.
- Meus irmãos, esta igreja é da Senhora do Olival. Se olharmos aos seus
mistérios chamar-lhe-emos Senhora da Conceição ou se calhar... Senhora do
Cálice. A taça é a procura. Tu dás o primeiro passo, e ela encontra-te.
Sou eu, és tu. É o Abraão que é judeu. Nós somos o recipiente que é onde
o Espírito exerce a sua acção. Cristo é na verdade o primogénito. É
n'Ele, homem como nós, que Deus faz a sua experiência de Amor. Sem
Espírito de Deus não há recipiente. Há barro, pó... Santo Natal para
todos vós, meus irmãos! Não sabeis, como disse
155
S. Paulo, que sois um templo de Deus? E que o Espírito de Deus mora
dentro de vós.
De seguida o capelão celebrou uma missa solene, e todos pareciam
satisfeitos, mesmo por entre os andaimes.
Quando a missa acabou, saíram todos da igreja e, de repente, um guincho
que parecia um porco a ser morto ressoou, seguido de um valente estrondo.
Uma parte dos andaimes tinha caído. Abraão não queria acreditar, levava
as mãos à cabeça e dizia:
- Adonai, não me abandoneis agora!
- Mestre Abraão... os andaimes foram cortados! gritou alguém que estava
no fundo da igreja.
- Cortados?... Como é possível?
- Sim, estas pontas estão serradas. Vede.
- Reconstruam os andaimes de imediato ordenou aos seus colaboradores.
Teriam sabotado a obra? pensou.
Abraão foi ter com Mestre Gualdira e informou-o do sucedido.
- Como é que isso foi possível, Abraão? perguntou, visivelmente
consternado.
- Não sei, Senhor. Alguém com maus intentos!
- Não podemos permitir que o projecto d'El-Rei seja arruinado!... Temos
que perceber o que se passa aqui, Abraão.
- O que fazemos agora, Mestre?
- A partir de agora Abel e Renato ficam a fiscalizar todos os materiais,
desde o momento em que dão entrada na obra, até à hora da sua aplicação.
Conforme já disse, temos que descobrir o que se passa!
No mês seguinte, Janeiro de 1160, a obra decorreu sem mais incidentes.
Todos os dias eram verificados os materiais e os trabalhadores. Abel e
Renato repararam que um monte de lenha que estava na torre, onde eram
guardadas as ferramentas, estava sempre fora do sítio. Começaram a
pernoitar na Obra.
Uma noite, sentiram um barulho estranho e foram ver. Era o vulto de um
homem, assim que os viu desatou a correr em direcção ao rio. Dirigiram-se
de imediato ao local onde dormiam os serventes mas, apesar dos diferentes
ressonares e do cheiro a gente mal lavada, confirmaram que estavam todos.
- Quem seria, Abel? - perguntou Renato.
- Sei lá, se calhar alguém a espreitar. Não dos nossos... - respondeu-lhe
o amigo.
- Já se falou várias vezes em espiões que atentam contra El-Rei...
estaremos a ser observados, Abel?
- De que falais? - Um amigo juntara-se ao grupo.
- Ruivo... estavas aí?... nem te vi - respondeu Abel.
- Vim ter convosco... afinal... podiam precisar de ajuda caso aparecesse
alguma fera indomável! gracejou.
- Não abuses da sorte!... - responderam os outros dois jovens, em
uníssono.
- Tenho uma coisa para vos contar... quando vinha para aqui, vi um facto
suspeito. Dois homens acostavam-se junto ao rio... um parecia cansado e o
outro exigia-lhe explicações...
Isto é tudo muito estranho!... acabamos de ver aqui um vulto... seria
algum desses homens?... Cá para mim ainda vamos ter surpresas! - disse
Abel preocupado.
- Vamos mas é ter calma, amigos. Estaremos unidos para o melhor e o
pior... ou não?... Juntos? - Renato esticou o braço, olhando fixamente
para o Ruivo e aguardando pela resposta dos amigos.
Olharam-se os três por momentos... e uniram as mãos ao centro, tocando na
de Renato com convicção, e concordando:
- Juntos!!!
Com o passar do tempo, tinha começado o mês de Fevereiro, e no primeiro
dia, logo pela manhã, Abraão chegou-se ao pé dos jovens Renato e Abel e
disse-lhes:
- O Mestre Gualdim pede que o acompanhemos!... Estais prontos para
partir? Aprontai-vos!...
Os três montaram a cavalo, e encontraram-se com Mestre Gualdim junto à
ponte do rio.
- Sigam-me, vamos até à Mata dos Sete Montes - disse o Mestre.
Começaram a subir a pequena encosta. A área começava já a ser povoada.
Camponeses, lavradores, lavadeiras, criadores de gado estavam ocupados
nas suas tarefas. Quando o grupo de homens chegou ao topo, fez uma breve
paragem para contemplar a paisagem. Lá em baixo o rio corria alheio a
tudo o que se passava. O local estava deserto.
- Abraão... - disse Gualdim - ... este é mais ou menos o ponto de
intercessão das nossas linhas, recordas-te'?
- Sim Mestre, falta agora encontrar o local exacto.
Abraão e Gualdim passeavam a cavalo, na esperança de encontrar
157
algum sinal. Abel e Renato desmontaram e deram uma volta pelo local.
Estavam sentados a olhar para o céu, quando ouviram o balido de um
cordeiro.
- Este cordeiro não estava aqui ainda agora, pois não? - Renato olhava o
pequeno animal, enquanto falava com o amigo.
- Eu não o tinha visto - disse Abel.
O cordeiro estava calmamente, a beber água de um poço.
- O que é isso aí? perguntou, de longe, Mestre Gualdim, apercebendo-se da
curiosidade dos companheiros.
- Parece ser um poço! - disseram os dois jovens.
- O quê? - repetiu ele.
- Um poço!!! gritaram os jovens, com entusiasmo.
Abraão e Gualdim olharam um para o outro, picaram os cavalos e foram
direitos ao dito poço que, na verdade, era uma cisterna natural.
- Será aqui? - questionou Gualdim, rindo e olhando para dentro da
cavidade.
- Será aqui o quê, Mestre? - perguntaram os dois jovens.
Gritou lá para dentro e o poço devolveu-lhe o eco da sua voz:
- O Castelo rapazes... o Castelo de Thomar vai ser neste local. Dentro de
um mês começaremos a construir aqui! - disse o Mestre, com alegria.
- Nem posso acreditar que um cordeiro... um cordeiro... de Deus... nos
tenha mostrado o caminho! disse Renato, com espanto.
- Abraão, meu velho... acabamos por demorar-nos pouco tempo!...
- Mestre Gualdim... tivemos sorte... não vos parece? Afinal, fala-se da
existência de subterrâneos que ligam, através das profundezas da terra,
os locais sagrados desta terra mística. A lenda parece dar lugar à
verdade!
- A cruz protege-nos... a cruz protege-nos... oiçam o que vos digo!
Gualdim Pais não continha o furor.
Era já noite escura quando regressaram, contentes, à obra que agora
decorria a bom ritmo. Como de costume, foram inspeccionar os trabalhos.
Voltaram novamente à torre e verificaram que a lenha tinha sido mexida
novamente. Abel e Renato estavam cada vez mais próximos. De tal forma que
se diziam irmãos.
Nessa noite, ao jantar, houve refeição reforçada. Comeram carne assada,
pão, fruta e beberam vinho.
158
Capítulo 21
OS CÃES GODOS

O mês de Janeiro tinha passado com alguma brevidade. O final do mês


anunciava-se a cada dia que passava e as obras decorriam com alguma
serenidade. Abraão e Gualdim conversavam junto à torre da igreja do
Olival, quando deles se abeirou fr. Antunes Duval.
- Estão de prosa? - perguntou o monge.
- Estamos, amigo. Senta-te connosco. Abraão... continuai o que dizíeis -
disse o Mestre.
- Bom, Duval... acaso sabeis que dia é hoje?
- É dia de S. Sebastião, caríssimos irmãos... pelo meu breviário, estamos
a 20 de Janeiro, correcto?... E mais... no dia 17 celebrou-se o dia de
Sto. Antão, teremos o S. Vicente a 22 e o de S. Brás a 3 de Fevereiro...
e se não me falha a memória... haverá também a festa da Senhora das
Candelárias, no próximo dia 2 de Fevereiro...
- É o Entrudo! - disse Gualdim, interrompendo o discurso do monge - A luz
começa a vencer as trevas e o mundo parece estar in-vertido. Por uns
tempos, até à Páscoa, o calendário solar dá lugar ao calendário lunar. É
a jornada das almas depois da morte, a descida aos infernos do «mundo
invertido» e o ressurgimento glorioso.
- Exacto! continuou Abraão. Dentro de cinco dias os cogots estarão
connosco.
- Os cannis gothi, cães dos Godos - pensava o frade Antunes, esboçando
uma expressão preocupada.
Duval estalava os nós dos dedos e batia com o pé direito no chão. Estava
nervoso. Gualdim, por sua vez, viu os dois jovens amigos ao longe e
chamou-os. Renato e Abel pelavam-se por participar nas conversas daqueles
homens. Vieram a correr.
- Rapazes... sentem-se aqui ao pé de nós... já sabeis das novas? Em
breve... - continuou Gualdim - ... virá ter connosco um grupo
159
de pessoas que precisa de palhotas, de comida e de roupa. Esses homens
terão de ficar isolados de todos.
- Um grupo de pessoas?... E que pessoas são essas de que falais, Mestre?
- perguntou Abel, olhando para Renato intrigado.
- São leprosos afirmou Gualdim Pais.
- Leprosos??? Não agoireis, Senhor D. Gualdim... essa agora! - Abel não
estava muito pelos ajustes.
Nos dias que se passaram, os rapazes andaram atarefados a preparar umas
palhotas e mal haviam colocado comida em diversos potes, no interior das
palhotas, logo fugiram a sete pés.
Tinha chegado o dia da conversão de S. Paulo. Pela tardinha ouviram-se as
sinetas que anunciavam a presença dos ditos leprosos. Toda a gente
desapareceu e, durante o jantar, a tensão pairava no ar. Depois da
refeição, Gualdim chamou os amigos e, mais uma vez, pediu-lhes que o
acompanhassem. Partiram com a certeza de que não eram seguidos. Todo o
cuidado era pouco. O Mestre seguia à frente com Abraão e Duval. Renato e
Abel seguiam nervosos, mais atrás.
- Então? Estais com medo?... Duval, trouxestes as cordas? - indagou o
Mestre.
- Nada temos de nervoso, Mestre... parece-me no entanto prudente não
agoirar sobre estes assuntos - Renato mostrava-se confiante, apesar da
insegurança que sentia perante o desconhecimento de toda a situação em
que se viam envolvidos.
- Para onde vamos, Mestre? - perguntavam entre si, Abel e Renato.
Quando repararam que se dirigiam para o local onde estavam os leprosos,
os jovens pararam. Os três homens fizeram uma inflexão no caminho e
dirigiram-se aos companheiros.
- Então? Ficais-vos já por aí? - gracejaram, dando, em conjunto, umas
boas gargalhadas.
- Mas, Senhor...são leprosos... é contagioso... afirmou Renato, retraído.
- Não são, não! disse Gualdim Pais, num tom sério. - São cagots.
- Cá quê?... - perguntou Renato.
- No tempo de Nosso Senhor Jesus Cristo... - começou por contar Antunes
Duval - ... existiu um grupo de artífices que foi amaldiçoado, por ter
construído a cruz onde o Senhor foi pregado...
- ... Esses homens eram pedreiros, carpinteiros e trolhas... - continuou
o Mestre, com calma que pela sua profissão tinham feridas, a pele a
escamar e outros males de pele, confundidos com lepra. Foram segregados
pela Igreja e nós, os Templários, aproveitámo-los como obreiros
especializados. Associamo-nos a mesteirais cagots, detentores de alguns
segredos da arte da construção. Como a lepra foi uma doença trazida pelos
Godos, daí o nome de «cagots», Cannis Gothi ou cães dos Godos,
perceberam?
- Sim, Mestre! Agora estamos mais aliviados... leprosos é que não! -
disseram os jovens, refeitos da surpresa.
Calmamente, Abraão tomou a palavra, e disse:
- Os cagots são possuidores de segredos de construção e dos trabalhos em
pedra. Desde os tempos mais remotos que os carregam con-sigo... são os
possíveis antecessores dos pedreiros livres. Assim ficaram conhecidos
estes homens, unidos em confrarias de artesãos, considerados marginais e
heréticos. Ainda hoje assim se designam... Esta noite é especial para
eles. É a noite dos cordoeiros.
- Dos cordoeiros?... Tendes que vos explicar melhor, Mestre Abraão -
disse Renato.
- As cordas são feitas com cânhamo e o seu manusear causa problemas na
pele - constatou Abel.
- Isso mesmo! - disse Gualdim. Esta é a noite da sua purificação
simbólica.
Ao se aproximarem dos visitantes verificaram que tinham mau aspecto e que
traziam um capote castanho com uma pata de ganso vermelha cosida.
- Boa noite! - disseram em conjunto.
- Boa noite, Mestre. Boa noite, senhores. Estamos prontos para a
cerimónia.
Gualdim virou-se para os dois rapazes e disse-lhes para manterem silêncio
e segredo sobre o que vissem. E eles assim prometeram.
- Colocai dentro das palhotas as cordas que Duval trouxe - ordenou-lhes
Gualdim Pais.
Os dois jovens dividiram as cordas entre si e, a medo, avançaram. A lua
nova escondia as sombras. Abel e Renato passaram por uma fileira de dez
homens, onde a luz do fogo só permitia ver as suas caras. Colocaram as
cordas dentro das duas palhotas e regressaram para junto do Mestre.
161
Gualdim tomou a palavra e disse com voz firme:
- Dentro de instantes o sol irá mostrar-nos o caminho.
Abel sabia que nessa noite o sol atravessava o topo Norte da via láctea.
Subitamente as estrelas, uma a uma, começaram a brilhar mais. A estrada
de Santiago mostrava o seu esplendor. Renato não conseguia esconder o seu
espanto. Vivia experiências verdadeiramente maravilhosas, desde que se
lançara nesta viagem com o seu Mestre. Gualdim deu um archote a cada um
dos moços.
- Agora... queimem as casas - ordenou-lhes.
- ...???!!!... Como assim, Mestre? Não compreendo? - disse Renato,
estupefacto.
- Sim... não tenhais medo. Celebramos o queimar das casas dos ditos
leprosos. Aqueles que aceitaram a morte em vida. Purifiquemos as almas
dos mortos.
Aproximaram-se das casas e deitaram-lhes fogo. Os cagots movimentavam-se
em redor das palhotas e os vapores do cânhamo queimado fazia com que
ficassem inebriados.
Abel e Renato sentiram-se tontos. Mais atordoados ficaram quando viram os
cagots entrarem e saírem das choças em chamas. Tinham sido purificados.
- Retiremo-nos - disse Gualdim.
Ao chegarem ao acampamento, Renato interpelou Gualdim.
- Mestre, quereis dizer-me o que significa a pata de ganso? - perguntou,
intrigado.
- Primeiro, é conveniente que saibas, Renato, que estes homens escondem
uma instituição que acolheram há muitos anos «os Filhos de Salomão». O
que é para ti o jogo do ganso, amigo?
- É um jogo que tem 63 casas; mas se o jogador cai na 58a casa, tem de
começar tudo de novo.
E...?
- Não sei muito mais, Mestre respondeu o jovem.
- Renato, Renato. O jogo tem 63 casas (9x7). Sete são as portas
que tens de passar antes de atingir a vida eterna. «9» é o número da
realização do espírito. Os construtores chamam à divisão do círculo
90. Segundo muitos autores, o Jogo do Ganso também simboliza as
necessárias reencarnações que a alma tem de passar para chegar à
perfeição espiritual. Esta ideia está patente no ZOHAR da tradição
hebraica, em «9», a «pata de ganso». De nove em nove casas começa um
período novo de jogo. Depois, que representações encontras?
- Uma hospedaria, uma ponte, uma prisão, e um labirinto, Mestre -
continuou Renato, movido pela curiosidade.
- Também há um poço! - disse Abel, que também escutava atento.
- Aquele que morre... - acrescentou Abraão renasce com o espírito
renovado e começa o jogo.
O que não cai na 58a casa, e passa por cima da morte... - continuou Duval
- ... tem cinco casas para chegar à perfeição. O «5» é o número do sopro,
da inspiração.
- Bom, mas vós não vos quereis deitar hoje? perguntou Gualdim, rindo.
- Até amanhã, Mestre! - disseram os dois jovens. - Sabeis, Mestre, é
que... quando começamos a falar destas coisas... aquece-nos o coração.
- Eu sei o que acontece quando a sabedoria e o conhecimento despertam.
Deixamos de ser os mesmos... a propósito, para pensarem de noite... já
ouviram falar na linguagem dos pássaros?
- Mestre... disse Renato - ... a minha cabeça, esta noite, parece um
tição. E eu não sei se os pássaros falam!
Dizendo isto, retiraram-se para os seus catres. Deitaram-se, e Renato,
que ficara a pensar no que Gualdim lhe dissera, perguntou a Abel:
- Olha Abel, sabes o que é que o Mestre queria dizer com a linguagem dos
pássaros?
Abel levantou-se, chegou junto do leito de Renato, agarrou-lhe nos
ombros, e disse:
- Renato... meu irmão, pára por hoje! Não podes saber tudo no mesmo dia.
- Desculpa... tens razão... deixa-me mas é descansar... até amanhã.
- Adeus, Aprendiz! - disse baixinho Abel, para si mesmo.
163

Capítulo 22
O ENIGMA
Nesse dia de lua nova, Catarina não acompanhara os dois jovens que havia
conhecido há já alguns dias. Acordara cedo, pegara no seu cavalo e
decidira seguir a pista da noite anterior. Dirigiu-se ao rio a fim de
encontrar vestígios dos homens suspeitos que ali avistara um dia antes.
Estava desconfiada dos galegos que trabalhavam na obra e ainda não
percebera se a tinham ou não reconhecido, depois daquela noite no alto da
serra. Ao chegar à margem do riacho, dirigiu-se ao local onde lhe
parecera ter visto os vultos que discutiam. Nada encontrou, além de
restos de comida e vestígios de uma fogueira.
- Tinham ali pernoitado, possivelmente - pensou.
Desmontou do cavalo e andou mais um pouco, procurando qualquer coisa que
lhe desse indicações... deteve-se junto a uma cavidade, ligeiramente
disfarçada por grandes rochas, olhou em redor e avançou. Gritou para
dentro da caverna, esperando obter, através do eco, alguma resposta
relativamente à profundidade da mesma. Pareceu-lhe funda.
De repente, lembrou-se do seu cavalo... distraída... voltou atrás de modo
a prender o animal, antes de partir para a exploração do misterioso
achado. Tinha-se esquecido por completo. Por vezes ainda lhe falhavam
certas tarefas que nunca antes lhe haviam cabido. Foi então que se
deparou com uma surpresa...
- Pombos... o que farão aqui estas gaiolas?
Lembrou-se então que aquele grupo de homens de sotaque estranho e olhar
de cobiça, a quem fora obrigada a mentir sobre a sua identidade, na noite
dos lobos, carregava também consigo alguns pombos. Já na altura lhe
parecera estranho. Os homens de facto disseram-se pedreiros livres em
busca de trabalho, e isso fazia algum sentido, mas havia ali algo que não
encaixava. Tinha que compreender. Voltou à suposta brecha na rocha. A
curiosidade não a detinha.
- Creio que não conseguirei passar por esta abertura... talvez se
me encolher... - pensou, enquanto procurava uma posição do corpo que lhe
permitisse passar pela estreita fenda.
À medida que se posicionava, pressionava com o seu corpo a rocha que
encobria a entrada. Estava quase a conseguir... parecia-lhe que a rocha
se movia... mas não. Tudo continuou na mesma. Eis senão quando, como que
por milagre, reparou numa pequena inscrição, quase imperceptível,
escavada na rocha e ligeiramente coberta pelo verdete do musgo. Começou a
limpar a pedra com as mãos, usando uma pedra para a auxiliar na tarefa e,
por fim, observou...
V.I.T.R.I.O.L
Diante de si, um enigma para resolver...
- O que quereriam dizer aqueles caracteres? - pensava. - V.I.T.R.I.O.L.?
O que seria aquilo?...
De repente, ouviu um ruído e assustou-se... o seu cavalo relinchara,
tinha que sair dali... ainda a descobriam... havia de regressar... tinha
que compreender o que queria aquilo dizer.
- Ainda me descobrem o cavalo! - pensou. - Os galegos hão-de voltar a
este local, tenho que ter cuidado! - lembrou-se então do seu sonho, no
preciso instante em que viu surgir atrás de si um dos homens, montado num
cavalo negro, empunhando uma espada e dirigindo-se a si em jeito
ameaçador, dizendo:
- Voltamos a encontrar-nos... caçador de lobos!... o que fazes aqui?
Catarina recuava, enquanto agarrava as rédeas do seu cavalo. Colocava a
mão sobre o embrulho de serapilheira, que insistia em car-regar às
costas, e que continha a espada que fora de seu pai.
- O que fazes com a comitiva do Mestre?... Procuras alguma coisa?... A
quem serves? - insistiu o homem.
Catarina não respondia. Preparava-se para o momento em que teria de
desembainhar aquela espada que tanto preservava, para se defender.
- Sou João Sanches, tenho a força do caçador... - repetia para si,
baixinho -... tenho a força do caçador... sou João Sanch...
- Não ouves, hombre ? O que fazes aqui... para quem trabalhas ?
166
O que procuras? - continuava o homem, em tom ameaçador, descendo do
cavalo e avançando em sua direcção de espada em punho. Nisto, numa só
investida esticou o braço desafiando o seu adversário...
- Vamos lá ver os teus dotes de caçador de lobos, petiz!
Catarina, sem alternativas, pegou na espada de seu pai e defendeu-se. Mal
podia conter o seu peso enquanto lutava, sem qualquer tipo de protecção,
com aquele homem, que lhe levava vantagem. No ar ressoavam alguns gritos
de guerra e o intenso tilintar das lâminas.
- Pelo poder de Orion... - clamava Catarina - ... por meus pais... não
levareis a melhor! - esgrimia-se com o homem, da melhor forma que
conseguia. Os ensinamentos de seu pai não poderiam ter sido em vão! Caíam
sobre os seus ombros as maldições do mundo. Todo o seu universo estava
ali, naquela espada, e a sua força vinha daí... passando por Orion, o
jovem caçador.
- Bates-te bem rapaz! Tiveste Mestre?
- Para que quereis os pombos ? Se vós sois pedreiros... - perguntava
Catarina enquanto se defendia das investidas do agressor.
- Cala-te... não sabes o que dizes! - interrompeu o homem de estranha
pronúncia, que a espadeirava cada vez com mais raiva.
Catarina, na pele do jovem João Sanches, não se deixava desconcentrar...
mas as forças começavam a faltar-lhe e, nesse instante, foi-lhe deferido
o primeiro golpe. Recuou. Agarrou o braço ferido e continuou a lutar.
- Queres mais ? Ou dizes-me ao que vens?... insistiu o agressor.
- Nunca vos direi... nunca! Já vos disse o suficiente. Sou João Sanches e
sou caçador de lobos! - à medida que pronunciava estas palavras, enchia-
se novamente de força e coragem, segurando com mais aferro a espada que
fora de seu pai.
O homem, cego pela raiva, não pode evitar, de raspão, passar-lhe a lâmina
aguçada pelo pescoço, aproveitando aquele momento de fraqueza e ferindo
Catarina, fazendo-a largar a espada, sem intuito. Ao agachar-se para a
apanhar, o homem apontou-lhe o gládio em direcção ao coração,
pressionando a ponta da lâmina sobre as suas vestes rasgadas.
- Não tens salvação... rende-te, hombre caçador de lobos! - disse o
homem, inchado de glória.
- Nunca! - respondeu a jovem, agarrando novamente na espada e, com uma
rapidez quase mágica, espetando-a na perna do homem que começou
imediatamente a sangrar.
167
- Estúpido!... Cretino. Vais pagar-mas! - ripostava o agressor, enquanto
se debatia com as dores violentas que o ferimento lhe causava e, a algum
custo, fazia a si próprio um torniquete para que o sangue estancasse.
Catarina aproveitou o momento para se colocar a salvo. Pegou nas suas
coisas e dirigiu-se ao cavalo. O homem, pegando num punhal que escondia
dentro da bota, fez pontaria à jovem. Catarina, ao ver o punhal voar na
sua direcção, deu um salto e, perdendo o equilíbrio, rebolou até ao rio,
com todos os seus haveres. Foi arrastada pela corrente, lutando com as
forças que ainda lhe restavam para que, ainda viva, conseguisse alcançar
a margem, em busca de quem a socorresse.
168

Capítulo 23
A TRAIÇÃO

" Em Janeiro vai uma hora e, quem bem contar,


hora e meia vai encontrar. "

Aquela Quaresma veio apanhá-los no final de Fevereiro e já havia luz até


cerca da hora das completas. Abraão estava satisfeito com o trabalho.
Tinha na mão os desenhos da igreja, e enquanto o grupo dos quatro
pedreiros galegos trabalhava na coluna que lhes tinha sido incumbida, ele
pensava que tudo estava preparado para os carpinteiros começarem a
colocar o vigamento no tecto.
Como era a primeira Quaresma que passavam juntos, Gualdim tinha
solicitado ao Capelão-mor que celebrasse uma missa evocativa da condição
de «pó que ao pó há-de tornar». Assim, a maior parte dos trabalhadores já
tinha saído para se preparar para a celebração.
- Vamos, já é hora de acabardes o trabalho! - Abraão dirigia-se aos
quatro homens.
- Já vos sigo! - disse Joaquim, o encarregado dos galegos, coxeando
ligeiramente.
Abel e Renato estavam contentes com a satisfação do Mestre Abraão.
Juntamente com o Mestre Abraão, montaram os cavalos e partiram e os
restantes três galegos seguiram-nos nas suas mulas. O outro, Joaquim, o
encarregado, dirigiu-se ao seu cavalo com lentidão, enquanto coxeava.
Dentro da igreja nem se aperceberam que o céu estava carregado, e que
apresentava um tom de azul muito escuro. Começaram a cair umas gotas de
chuva e, já a meio do percurso, Abraão lembrou-se dos desenhos.
- Esqueci-me dos desenhos e está a chover. Vão ficar encharcados! Vou
voltar atrás, já vos apanho - disse, visivelmente preocupado.
- Quereis que fique convosco, tio? - interrogou Abel.
- Não, Abel. Segue caminho com o Renato... já vos apanho... - afirmou
Abraão, aborrecido com a situação.
169
O jovem judeu despediu-se de Abraão, virou-se para a frente, endireitou-
se no cavalo e continuou a sua marcha. De há algum tempo para cá,
parecia-lhe que o Mestre Abraão andava desconfiado. Não era só a chuva
que o preocupava, queria-lhe parecer.
Abraão chegou à torre que ficava defronte da igreja e desmontou do seu
cavalo, encharcado até aos ossos. Verificou se ninguém estava por perto e
desceu os degraus da capela. Dirigiu-se a uma caixa de ferramentas que
ali guardava, pegou num compasso, numa régua, num maço e num cinzel,
muito antes de procurar os desenhos. Sensivelmente entre as colunas do
lado esquerdo, na metade inferior da igreja escolheu um local e começou a
desenhar círculos, como se fosse um desenho auxiliar de uma construção.
Ajoelhou-se, pegou no escopro e no cinzel e começou a gravar uma figura
no chão. Pousou as ferramentas e, com a mão esquerda, limpou o baixo-
relevo; baixou-se mais ainda e soprou o seu trabalho. Insuflou de tal
forma que parecia expirar sobre o cálice que tinha gravado no chão. Para
o velho judeu, o cálice era o símbolo da aliança de Deus com o Homem,
pois de acordo com a tradição judaica, continha o sangue da vítima. Sem
saber como, sentiu-se violentamente empurrado para a frente e o seu rosto
bateu no chão. Virou-se assustado, limpou a cara, e deu de caras com um
dos galegos.
- Joaquim... que fazeis aqui? perguntou, estupefacto.
- Desenhos curiosos, Mestre Abraão... dizei-me lá o que tendes para me
dizer... onde guardais os planos da igreja... e os Mapas?
Abraão sabia que o pior poderia acontecer. Levantou-se e correu para a
mesa onde estavam os desenhos. Passou por umas tábuas e atirou-as para
cima do homem. Chegou perto dos planos, rabiscou qual-quer coisa com
carvão e agarrou-os junto ao peito, como se guardasse a sua própria vida.
- Dá cá isso! ordenou-lhe Joaquim Munoz, caminhando em sua direcção,
empunhando uma adaga, com a qual ameaçava o velho judeu. Armado com uma
régua impediu-lhe a passagem, pedindo-lhe os segredos da construção e os
Mapas d'El-Rei. Apesar da atitude defensiva do Mestre canteiro, ao fugir
em direcção à porta, um dos galegos que voltara para trás, desferiu-lhe
um golpe no ombro direito, enquanto lhe fazia a mesma exigência. Abraão
contorceu-se com a dor da clavícula partida e nesse instante, coxeando
novamente em sua direcção, o homem tirou-lhe os desenhos com tal força,
que se rasgaram.
- Estúpido! Imbecil! - gritava Joaquim, enquanto o empurrava.
O Mestre estatelou-se de costas no chão. O galego aproveitou a ocasião e
pôs-lhe o joelho sobre o peito, sem que o velho homem pudesse respirar.
- O que andais a fazer aqui? - perguntou Joaquim, em tom de ameaça.
- Voltei para recuperar os desenhos! - respondeu.
- Zombas de mim... velho judeu de um raio!... zombas de mim hombre? -
insistiu o ofensor, pressionando ainda mais o joelho sobre o peito do
Mestre Abraão.
- A qua...dratu...ra do cír...culo... fazia a quadratu... disse Mestre
Abraão, com a voz aspirada.
De repente, Pepe surge à porta.
- D. Joaquim... Joaquim... chamou.
- Pepe, depressa... aqui... disse Joaquim Munoz para o amigo, apontando
para o escopro.
Pepe pegou no maço, olhou para o judeu, que mal podia respirar, e bateu-
lhe na fronte.
- Onde estão os Mapas? perguntou Joaquim, batendo-lhe ainda mais.
Os dois cúmplices levantaram-no em peso, um de cada lado. Joaquim estava
decidido, pegou no maço e, mais uma vez, virou-se para Abraão e insistiu:
- Estúpido judeu, falas ou não falas?
Abraão abriu os olhos ensanguentados, suspirou e disse:
- Não falo! Não me arrancais nada e não vou trair uma nação que fiz
minha... Podeis matar-me, mas não passará um mês sem que sintais a
justiça divina!
Joaquim, irritado, desferiu-lhe um golpe na nuca e ele desfaleceu.
- Mataste-o hombre. Porra!!! disse Pepe.
- Não, ainda não está morto! Levanta a pedra que está por baixo daquela
lenha, junto ao altar. Escondamo-lo debaixo do alçapão, que ele acabará
por morrer sozinho. Abraão, aos poucos, recuperava a consciência.
- Velho de um raio... falas ou não falas? Como vai ser? - voltou a
insistir Joaquim.
Sem resposta, os dois galegos levantaram a pedra e atiraram o corpo
moribundo do velho canteiro para o túnel. Abraão recobrou, minutos
depois, com o barulho da pedra a ser colocada no lugar.
171
-Adonai, escuta o teu servo, chegou a hora de me vires buscar... não
abandones aqueles que amam a Tua Verdade! - foram os últimos pensamentos
de um homem justo. Desfaleceu novamente e foi arrastado, ao longo do
subterrâneo, pela água que corria.
A Igreja de Santa Maria do Olival tinha sido palco de um horrendo
atentado e de seguida, instalou-se no local um silêncio mórbido.
O velho judeu tinha convocado o Deus de Abraão, de Isaac e de Jacob para
que o assistisse.
- Vamos embora, temos que fugir! disse Pepe para Joaquim. - Se nos
apanham, matam-nos!
- Pega nos desenhos, Pepe... Vamos sair daqui quanto antes!
172

Capítulo 24
A BUSCA

Enquanto Abraão se afastava com ar preocupado, os cavaleiros continuaram


a caminhada até ao abrigo onde ia ser celebrada a missa.
Abel ficou ligeiramente para trás, numa atitude de respeito. Continuava a
pensar no tio.
A missa já tinha começado quando chegaram e, naquele dia, o acto
penitencial era marcado pela imposição das cinzas na testa. O monge
dizia:

«Lembra-te que és pó e em pó te hás-de tornar!»


Todos os homens tinham uma pinta escura na testa. A seguir à leitura do
evangelho do «Sermão da Montanha», o capelão provocou um momento de
silêncio, que levou os participantes à reflexão. Depois de acabada a
celebração, Abel temia pelo tio. Abraão ainda não tinha aparecido! Nem
ele, nem Joaquim, o galego. Os homens de Gualdim começaram a procurá-lo,
mas ele não tinha regressado. A chuva continuava a cair.
- O que se passou? perguntou Renato a Abel. Parece que Mestre Abraão, o
meu tio, desapareceu!
- Se calhar parou em algum sítio para se abrigar da chuva - disse Renato,
tranquilizador.
Já era escuro no momento em que se preparavam para tomar a refeição da
noite, quando, de repente, o cavalo de Abraão chegou sozinho ao
acampamento.
- Mau... passa-se alguma coisa... o cavalo vem sozinho... o que terá
acontecido ao meu tio? - questionou-se Abel. visivelmente preocupado.
- Tem calma, Abel. Vamos procurá-lo...
Os dois amigos montaram o cavalo de Abraão.
173
- Onde ides? - perguntou Gualdim Pais, apercebendo-se da situação.
- Mestre Gualdim, o tio de Abel não regressou da obra, e o cavalo chegou
aqui sozinho. Vamos procurá-lo.
- Ide então, que já vou ao vosso encontro. Vou buscar reforços - disse o
Mestre, com inquietação visível.
A chuva continuava a cair e ameaçava trovejar. Após algum tempo de
caminhada, ao chegarem junto da porta da igreja do Olival, o cavalo
parou. Desmontaram à pressa e começaram a procurar, mas a igreja estava
completamente vazia. Pegaram num archote aceso que se encontrava junto da
entrada e repararam que havia desordem nas coisas. Aperceberam-se, ainda,
que havia manchas de sangue no chão, junto ao altar. Parecia que tinha
havido uma luta com derramamento de sangue. Olharam mais atentamente e
notaram que havia pingos vermelhos desde o altar até à porta, continuando
rua fora, apesar de serem pouco visíveis com a escuridão da noite.
- Mestre Abraão? Tio? gritavam os dois jovens, temendo o pior. Mas
nada... nada.
- Aqui há obra do diabo. Está tudo desarrumado! dizia Abel, aflito.
O monte de lenha, como costume, estava remexido, mas não viram nada. Abel
sentou-se nos degraus da igreja, com as mãos na cabeça.
- O meu tio? perguntava ele em jeito de sussurro, como que esperando que
Alguém em cima lhe desse a resposta.
- Abel! - chamou Renato, pondo-lhe a mão na cabeça. - Vamos regressar aos
abrigos e informar o Mestre Gualdira que o teu tio desapareceu.
Abel concordou.
Iam quase a meio do caminho e cavalgavam completamente encharcados,
quando Gualdim veio a galope ao seu encontro, acompanhado de Lopo
Fernandes, Estêvão Martins e os restantes cavaleiros Templários da
comitiva.
- Mestre, o meu tio desapareceu! disse Abel, consternado e com um nó na
garganta.
- Vamos procurar o Mestre Abraão. Vamos dividir-nos por grupos. Faremos
dois grupos... um procurará na igreja... e o outro verá nas redondezas...
onde poderá estar Abraão? interrogava-se, desalentado.
174
Os cavaleiros viraram a igreja de uma ponta à outra e não descobriram
vestígios do Mestre Abraão... mas ele tinha que estar ali...
- Não é possível... ele tem que estar aqui... - dizia Gaspar Gomes para
os restantes cavaleiros.
- Irmão... vede o rasto de sangue até à porta... Mestre Abraão terá
fugido? - continuava Lopo Fernandes.
- Assim ferido não poderá andar longe! ... o cavalo regressou sozinho...
- rematou Estêvão Martins.
A chuva caía com força. Os dois jovens, alagados, procuravam o Mestre
canteiro no exterior, por entre o olival, na esperança que este tivesse
fugido, escondendo-se por ali. Gualdim estava com eles. Perto da meia-
noite, as patrulhas reuniram junto à torre da igreja e, pelo ar de todos
os presentes, os jovens nem se atreveram a fazer perguntas.
Olharam um para o outro e disseram em simultâneo - O poço!
lembraram-se de ter ouvido o tio dizer que havia uma galeria no fundo do
poço... podia ser... mas teria o tio subido toda a encosta até à Mata dos
Sete Montes, ferido e cambaleante? Não era provável.
O poço situava-se em Sellium, antigo povoado romano, que tinha sido
baptizado de Theodomar pelos visigodos e onde Gualdim, uns dias antes,
tinha determinado a construção do novo castelo.
Agarraram numa tocha, embeberam-na em resina, acenderam-na e partiram com
o consentimento do Mestre. Com a pressa, nem repararam que eram seguidos
à distância.
- Forme-se ainda uma patrulha que se mova na direcção do rio! Veremos se
o velho Abraão se refugiou junto às águas disse Gualdim Pais, para a
comitiva de cavaleiros que tinha consigo.
- Sim, Mestre... concordaram todos.
A chuva caía mais forte ainda; raios e relâmpagos rasgavam e iluminavam o
céu e as copas das árvores. Renato e Abel esperavam que esta água que
caía do céu os lavasse e que tudo não passasse de um pesadelo.
Atravessaram o rio Nabanus e começaram a subir o pequeno monte. Chegaram
ao cimo e avistaram o pequeno poço.
Desmontaram dos cavalos. Na cisterna havia uma vara alta e fina, que
tinha um pequeno balde metálico na ponta, usado geralmente para a rega.
Abel colocou a mão sobre a vara. Simultaneamente, Renato colocou a sua
mão sobre o ombro de Abel e disse-lhe:
- Abel, encontremos o que encontrarmos, Deus nos ajude! Nesse mesmo
instante, disparou um relâmpago e, logo de seguida,
175
um trovão que fez vacilar tudo à volta. Sentiram-se iluminados. A ponta
da vara luzia agora em tons de azul misturados com amarelo. Nesse
momento, uma terceira mão juntou-se à vara e ouviram:
- Estou convosco!
Os dois jovens saltaram e, refeitos do susto, perguntaram:
- Ruivo? O que fazes aqui?
- Segui-vos até aqui e venho ajudar-vos a descobrir o Mestre Abraão,
amigos! Afinal... estamos juntos ou não estamos?
Capítulo 25
O POÇO

Junto ao poço, na Mata dos Sete Montes, havia uma corda. Atravessaram a
vara e nela prenderam a corda.
- Desçam primeiro, que eu vou depois! disse João Sanches para os dois
amigos.
Abel e Renato desceram através do poço, até encontrarem a água, que lhes
dava pelos joelhos. O Ruivo foi o último a chegar.
- Estamos todos?... Podemos então continuar... - disse Abel para os
amigos.
Entraram na galeria, que se elevava ligeiramente acima do nível da água.
Naquele momento, Abel quase se esquecera do tio ao questionar os outros:
- O que acham que aconteceu? perguntou.
Sentiam-se, os três, no mesmo nível de conhecimento e de angústia. Abel
não conseguia raciocinar. O desaparecimento do tio tinha-o bloqueado
completamente. Renato também estava desconcertado. Tinha-se habituado a
ver naquele homem seguro uma figura respeitada. João também se movia com
medo... ainda estava débil devido aos ferimentos do dia anterior. A lama
da galeria arrefecia-lhes os pés e, consequentemente, a alma. À medida
que caminhavam pelo interior, reparavam no tecto, onde se viam resquícios
calcários que formavam estalactites.
- Ruivo... ontem não te vimos! Desapareceste?
Não obtiveram resposta. O amigo reservou-se.
O ar começava a rarear e a chama da tocha queria desaparecer. Após uma
boa andadura, tropeçaram em algo.
- Iluminem aqui... aqui... - pediu Renato, que seguia mais à frente, a
Abel, que segurava a tocha.
Parecia ser um corpo inerte! Aproximaram o archote e voltaram os rostos
alarmados pelo pânico e pela saudade. O velho Abraão jazia naquela
escuridão.
177
- Tio... tio-Abel soltou um suspiro, não podendo conter a sua dor.
O corpo do Mestre Abraão ainda estava quente e parecia querer balbuciar
uma palavra; mas a morte impôs-se à vida. Abel acompanhou os três últimos
suspiros do tio e agarrou-se a ele, chorando copiosamente.
- Meu Deus, o que fizeram ao Mestre Abraão! exclamou Renato. - Quem terá
feito isto?
- Valha-me Deus! - disse o Ruivo. - Tanta desgraça! Abel estava virado
sobre si mesmo, junto do corpo do tio, visivelmente abalado pelo
sucedido.
- Ó Ruivo, ajuda-me... temos que pegar no corpo do Mestre para o levar
daqui! A esta altura já não consigo discernir nada - disse Renato.
- Eu ajudo... - disse Abel, sentindo uma mão sobre o seu ombro; era João
Sanches.
O corpo do Mestre apresentava pancadas na cabeça, no ombro e na nuca.
Tinha sangue na cara. Fora arrastado, pelas marcas que se viam no chão.
Junto dele, viam-se algumas ferramentas. Abraão tinha uma mão junto ao
peito, por debaixo de si. Tinha um papel na mão. Retiraram-no, com
cuidado. Era a planta da igreja de Santa Maria do Olival. Abriram-na e
viram que estava desenhado, na parte superior um círculo com o número «9»
inscrito. E uma das colunas estava assinalada com um círculo.
De repente a chama da tocha pareceu avivar-se. Do lado contrário à
entrada soprava uma lufada de ar.
- Que se passa? perguntou Renato - Parece haver aqui uma entrada de ar...
Ruivo, fica aqui com o Abel que eu vou mais à frente.
Teve a sensação de estar a meio caminho entre a igreja e o monte,
partilhou esta questão com os amigos, guardou religiosamente o desenho e
disse por fim:
- Temos que ir avisar o Mestre Gualdim.
- Eu fico aqui disse Abel.
- Não ficas nada - disse o Ruivo.
- Ruivo, vai tu avisar o Mestre que eu fico aqui com o Abel.
- Amigos... tenhamos bom senso! ... Se o Renato julga estarmos a meio
caminho entre a igreja e o monte... porque não empreendermos curso até ao
fim... havemos de encontrar uma entrada junto à igreja! exclamou Abel.
- Tens razão Abel... e para além disso a luz já rareia... ficaríamos às
escuras, enquanto ninguém aqui chegasse - concordou Renato. - Abel, não
sei mais o que te dizer. Tudo o que possa exprimir é... sei que aprendi a
admirar o teu tio, como se fosse meu.
Não resistindo ao ar rarefeito, a tocha apagou-se e eles estremeceram.
Tinham que terminar o percurso às escuras! Estranhamente, no meio de toda
aquela escuridão, uma pequena luz brilhou dentro do corpo do Mestre.
Tinha o tamanho de uma pinha, elevou-se e, ao chegar ao topo da galeria,
desfez-se em mil luzes, como se fossem pirilampos, depois desapareceu no
ar. Seguidamente, sentiram uma leve brisa de ar quente. Os três amigos,
num misto de susto e surpresa, uniram as mãos. Fez-se um silêncio
profundo.
- Renato!... - chamou Abel, com a voz embargada e rouca; engoliu em seco
e continuou a falar. O meu tio partiu para o Sanctus Sanctorum, o lugar
onde nos havemos de encontrar todos. Temos de descobrir quem fez isto! -
afirmou, como que a jurar promessa!
O silêncio impôs-se novamente.
- "Bendito seja o Juiz da Verdade!" - Abel quebrou o silêncio.
Sentiam agora uma ligeira pressão sobre os olhos; o facto de não verem,
não os impedia de sentirem, ouvirem e cheirarem o que os rodeava.
Apercebiam-se de tudo o que estava à sua volta.
- Acham mesmo que há uma entrada pela igreja... para este túnel? O Ruivo
compôs o cobertor que o cobria e continuou a andar, às apalpadelas,
tacteando as paredes frias da cavidade com as suas mãos. Aquele episódio
recordara-lhe algo.
- Já vamos descobrir... - disse Abel, respirando de forma ofegante. O
peso do tio dificultava a caminhada.
Cerca de duas horas depois de terem partido do largo da igreja, os
jovens, carregando o corpo do velho Abraão por entre a infindável
caverna, avistaram luz. O interior da igreja estava alumiado com archotes
e o clarão passava por entre as frinchas de um velho alçapão que se
escondia junto ao altar.
- Renato e Abel, já cansados, pousaram o corpo do velho judeu no chão.
Podiam ver a luz, mas não chegavam à pedra que os tiraria daquele túnel
húmido e escuro.
- Temos que nos elevar; sozinho nenhum de nós consegue... Ruivo... tu,
que és mais leve, sobe para as minhas costas... - pediu Renato - ... vê
se consegues chegar àquela pedra!
Assim fizeram. Pouco depois a luz entrava pela galeria dentro,
179
iluminando o Mestre Abraão e os três jovens que chegavam ao seu destino.
O primeiro a saltar foi João Sanches, que saiu em busca do Mestre do
Templo e dos seus homens.
- Estamos aqui! - gritou Renato, sentindo os passos dos cavaleiros.
Dois deles ajudaram Renato e Abel a sair com o Mestre Abraão. Quando
viram o corpo benzeram-se. Tomaram o cadáver e, segurando um de cada
lado, levaram-no para o interior da igreja, deitaram-no no chão, com os
pés virados para o local onde ia ser o altar.
Os restantes seguiram-nos. Estavam agora todos em seu redor. Gualdim,
colocado entre os seus pés e o local do altar, tomou a palavra:
- Meus irmãos, é a primeira vez que vejo o corpo de um judeu numa igreja.
Mas, para o Senhor Deus da vida e da morte não há judeus nem cristãos,
nem pobres nem ricos. Todos somos iguais. Quando amanhecer levai o corpo
do Mestre para o local do castelo, faremos aí uma sepultura condigna
ordenou D. fr. Gualdim aos seus homens.
Entretanto Abel abeirou-se do corpo do tio, colocou um pano na cabeça e,
com a mão direita, entre movimentos oscilantes para a frente e para trás,
recitou o Kaddish, para encomendar a alma do tio a Deus. Enquanto o
recitou, em hebraico, nem uma vez foi referida a palavra «morte».
A noite chuvosa há muito que terminara. Agora o dia despontava, começando
a clarear. Nessa noite, os homens de Gualdim pouco descansaram. Ninguém
dormira. Tinham passado a noite na igreja, junto do velho canteiro. Pela
manhã, colocaram o corpo do Mestre Abraão num carro puxado por cavalos e
formou-se um cortejo fúnebre. Ao chegarem ao castelo a consternação era
grande. Coube a Abel fazer a preparação do corpo do tio e dar-lhe um
local discreto para descanso.
- Hoje não há trabalho! disse Gualdim.
No final da cerimónia, João Sanches juntou-se aos dois amigos e, os três,
partiram a cavalo, em silêncio, só parando no alto de uma serra, onde
contemplaram a vida. Ali estiveram até ao fim do dia.

Capítulo 26
A MENSAGEM POR REVELAR

Aquele momento era único, quase religioso. Abel e Renato, apesar de


acreditarem nos mesmos princípios, não tinham a mesma expressão
religiosa. Aquele ritual, useiro e vezeiro, só não se cumpria quando o
tempo o não permitia. Ali estavam de olhos postos no horizonte. As
árvores formavam as paredes daquela catedral construída por Deus; o céu,
a abóbada, e o sol que se punha, a rosácea. No final de cada momento,
costumavam dar as mãos, como se entre eles houvesse uma comunhão
espiritual da mesma essência. Desta vez, o instante que era normalmente
partilhado a dois, tinha mais um interveniente o Ruivo. Assim, Renato
quando lhe deu a mão, teve a sensação de um calor profundo, de apelo à
confiança.
A morte tem a vantagem de apelar à vida, por isso, Abel pensava no seu
tio Abraão Zarco, irmão de seu pai. Tudo o que havia de mau, morrera com
o velho tio. Sempre calmo, reservado e discreto. Agora, todos os defeitos
tinham sido lavados e Abel decidira continuar a sua obra. Os segredos da
arte que aprendera com ele deveriam ser colocados em prática.
Renato, por sua vez, apreciava aquela liberdade. O facto de ser daqueles
que ainda não usavam o manto branco dos Templários tinha algumas
vantagens. Quando fosse cavaleiro-monge Templário, deixaria de ter
vontade própria e passaria a viver sob uma rigorosa disciplina. O seu
manto castanho dispensava-o da vida em comunidade fechada, onde tudo era
decidido e resolvido no Capítulo, devendo estar sempre à ordem do Mestre
e cumprir a Liturgia das Horas.
Encostou-se para trás e olhou o céu. Por Amor a Deus e à forte
espiritualidade que possuía, estava disposto a sacrificar-se a tudo isso
o seu coração estava embebido de ideais nobres; mas também estava cheio
de dúvidas. Tinha a sensação de estar meio de uma porta, sem saber se
deveria entrar ou sair.
180
Sabia que o sino para o jantar iria tocarem breve e alertou os
companheiros para se porem a caminho. Depois do jantar, Renato dirigiu-se
a Abel, dizendo-lhe que precisava de falar com ele, depois dos Templários
se deitarem, a seguir às vésperas.
- E o Ruivo? Que fazemos com ele? perguntou Abel.
- Se calhar é melhor vir também! - disse Renato. - Três a pensar são
melhores que dois!
Encontraram-se junto à amurada do castelo, como era normal.
- Precisamos de ir para um sítio que tenha luz disse Renato - ... o
melhor é irmos para a torre, além disso, não verificámos hoje a obra.
- Não sei se consigo! afirmou Abel. Ainda está tudo muito fresco na minha
memória!
- Eu sei, meu amigo. É um grande esforço que te peço, mas tem de ser,
acredita!
- Talvez seja uma maneira de ultrapassares essa dor - disse João Sanches,
o Ruivo.
Passados longos instantes estavam à porta da torre. Entraram e Renato
acendeu uma tocha. Abel entrou a medo, depois soltou um grande suspiro e
fecharam a porta.
- O que se passa? perguntaram Abel e o Ruivo, ao mesmo tempo.
- Bom, a questão é esta... - começou Renato, com o coração a bater ... na
noite em que encontramos o Mestre Abraão... ele tinha isto na mão -
Renato meteu a mão no gibão e retirou de lá um desenho e colocou-o numa
mesa que ali existia; era o projecto da Igreja de Santa Maria do Olival -
Um «9» inscrito num círculo e a primeira coluna, do lado direito de quem
entra na igreja, assinalada com uma cruz. O que quererá isto dizer? -
inquiriu.
- Acho que o meu tio nos queria dizer algo... disse Abel, voltando-se
para os dois amigos.
- Tu é que percebes os segredos dos números, Abel.
- «9»... o número da humanidade! - exclamou o Ruivo. Os outros jovens
olharam-no surpresos.
Pelos vistos não és o único a compreender o segredo dos números, Abel!
- Tens concorrência! - disse Renato - Afinal, ainda bem que vieste,
Ruivo! - constatou.
É o número de Adão, da iniciação, o fim de uma fase de desenvolvimento
espiritual e o começo de outra superior. As nove esferas celestes e os
número dos espíritos elevados que as governam. É o número do ilimitado.
Os nove meses da gravidez, os ciclos humanos temporais - continuou Abel.
- Mas também pode ser o «6» que é o selo de Salomão! afirmou Renato.
- Não pode ser só isso, o meu tio queria dizer mais...
- Mas «9»... disse o Ruivo também é três vezes três. A energia, a
expansão, a criação e o poder. Nunca ouviram falar no «Eneagrama
Sagrado»?
- Sim, claro, a figura de nove lados! disse Abel, como se tivesse sido
apanhado em falso. E começou a desenhar no chão, com a ajuda de um pau, a
figura de que falavam.
- Ou a estrela de nove pontas. A pata de ganso... - corrigiu o Ruivo.
- Sim, o Eneagrama estrelado é feito pela rotação de três triângulos
continuou Abel.
- Vocês importam-se de me dizer o que se passa, em vez de esgrimirem
teorias um com o outro pediu Renato, incomodado.
- O Ruivo que te explique! disse Abel, quase amuado Eu não estou com
cabeça para isso agora! - rematou.
O Ruivo tomou a palavra e disse:
- Os três triângulos têm um significado. O primeiro é água (sal); o
segundo o fogo (enxofre) e o terceiro o mercúrio. Isto é alquimia meus
senhores! - dizia o Ruivo, satisfeito, recordando algumas das conversas
que mantinha em segredo com o pai, quando ele ainda era vivo. - A água-
Oceano é o destino do reino, constituído na era de Peixes. O fogo-
Paráclito é a inspiração divina. A água tem origem no céu e abençoa a
terra; o fogo tem origem na terra e tem o céu como limite continuou. -
"Quem nascer da Água e do Espírito não pode entrar no Reino de Deus.''
Renato e Abel estavam boquiabertos com o que o Ruivo dizia.
- Continua Ruivo, continua... - disseram eles.
- Se inscreverem o Eneagrama estrelado num círculo, é o mesmo que dividi-
lo por nove. Que ângulo se obtém assim?
183
- Quarenta graus - disse Abel. - Qual é o ângulo interno da Cruz
Templária?
- Quarenta graus! disseram os seus dois amigos.
- Qual será a mensagem que devemos entender?
- A coluna... disse Abel. - Antes de mais temos que ver o que tem a
coluna!
- Saíram a correr, desceram os degraus da torre e foram à Igreja de Santa
Maria. Olharam para o frontão que parecia uma seta a indicar o mundo.
Voltaram a descer os degraus da Igreja e...
- A coluna não tem nada! disse Renato, depois de a ter verificado.
- Quem trabalha essa coluna? Quem ficou encarregue desse mis-
ter? - perguntou o Ruivo, desconfiando dos supostos pedreiros gale-
gos chefiados por Joaquim, com quem já vivera alguns dissabores.
- São os galegos! - disseram os dois jovens em uníssono. O Ruivo
continuou a procurar...
- Isto está fresco. O que é?... perguntou, olhando e mexendo no baixo-
relevo -... parece um cálice! exclamou.
- Acho que é mesmo um cálice! Tens razão, amigo. - afirmou Abel com
visível pesar - O meu tio sabia que ia morrer! O cálice para nós, os
judeus, é sinal de sacrifício.
Já o sol começava a despontar quando acabaram esta descoberta espantosa:
alguém colocava o futuro do reino em risco!
- Temos que falar com o Mestre! disse Renato. - Ficámos sem perceber o
que será ao certo o «9»...
- Mas é certo que o meu tio quereria dizer quem o matou... afinal... há
disso sinais claros! afirmou Abel.
- Não há dúvidas... não há dúvidas! o Ruivo parecia apreensivo, aqueles
galegos não eram para brincadeira... deveriam acautelar-se e estar
atentos, de ora em diante.

Capítulo 27
JUSTIÇA PARA O TRAIDOR

Os monges tinham acabado o ofício de laudes. Renato dirigiu-se ao Mestre,


tomou a palavra, e disse-lhe:
- Mestre, sem a vossa autorização, eu, Abel e o Ruivo passámos a noite na
torre da Igreja de Santa Maria do Olival - A voz faltava-lhe e tremiam-
lhe as mãos.
- Abel, devo dizer-te que o teu tio Abraão era para mim um irmão. Lastimo
a tua e a nossa perda. Lembra-te do jogo do ganso... e perceberás tudo.
Afinal o que se passa?
- Desculpai-nos Mestre, por não vos termos mencionado, mas encontrámos
este desenho nas mãos do Mestre Abraão, no dia em que foi morto.
Gualdim olhou para os sinais e percebeu o que se passava relativamente ao
«9», dentro da circunferência.
- E a coluna... viram a coluna? - perguntou.
Abel disse-lhe que eram os galegos que trabalhavam nela. O Ruivo contou o
episódio que tinha vivido junto ao rio e como se tinha encontrado com
aquele grupo de pedreiros livres de estranho sotaque, na serra, perto de
Aurem. Depois de saber as terríveis notícias, Gualdim Pais mandou chamar
os galegos.
Os três jovens, agora sempre juntos, dirigiram-se à obra e verificaram
que três dos pedreiros galegos estavam no seu local de trabalho, mas um
deles, o tal Joaquim que os dirigia, não se encontrava ali.
- O Mestre quer falar convosco!... Ordenou-nos que vos chamássemos -
disseram os jovens, dirigindo-se aos homens de estranho sotaque.
Olharam uns para os outros, com um olhar incomodado. Arrumaram as
ferramentas e seguiram-nos até junto do Mestre.
Ao chegarem junto de Gualdim, este parecia bastante irritado. Com ele
estava o lugar-tenente e três cavaleiros.
- Onde está o vosso encarregado? - perguntou.
185
Não sabemos senhor, há dois dias que não o vemos! Desapareceu.
- O que sabeis dele ? - continuou Gualdim.
- O Mestre Joaquim contactou-nos em Tui. Soubemos que ele estivera com os
irmãos Trava e Sua Majestade, o Rei de Castela. Ele não é galego senhor.
E genovês. Contratou-nos, com a promessa de bom dinheiro, e viemos para
aqui.
- E que mais?... insistiu Gualdim, impaciente, batendo com o punho na
mesa. - Falai, homens! Sabei que tenho poder para vos mandar
chicotear!...
- Tende piedade de nós, senhor! disseram os homens, ajoelhando-se no
chão. - O Mestre Joaquim é reservado e arrogante, pouco fala connosco. A
única coisa que sabemos dele é que é muito religioso.
Gualdim franziu o sobrolho.
- Religioso, dizeis ? Como assim ? - Gualdim inquiria os três galegos.
- Quando os vossos homens rezavam, ele afastava-se sempre e ia rezar
sozinho.
- Percebo... disse Gualdim baixinho, em tom pensativo. - Tinha algum
sinal especial? - indagou Gualdim.
- Não sabemos, Mestre - responderam dois dos homens. O outro, Pepe,
mantinha-se calado. - A única coisa que vimos, Mestre, uma vez em que ele
estava de tronco nu, foi que tinha golpes nas costas.
- Não pode ser!... - pensava Gualdim, enquanto cofiava a barba.
- Lugar-tenente, manda que estes homens tomem castigo. O Mestre da Ordem
tem um pau na mão e a vergasta na outra. O pau é para amparar os aflitos,
os fracos e os necessitados, a vergasta é para castigar os maus. Se somos
exigentes connosco é porque também seremos implacáveis com os outros,
caso haja disso necessidade. Levem-nos daqui imediatamente! ordenou,
virando-se para os três jovens e dizendo-lhes, com a voz exaltada:
- E que ninguém lhes leve água ou comida... Ouvistes ?
O oficial de Gualdim tratou de que levassem os homens. Pegou numa corda e
seguiu com o grupo. Ao chegarem a um arvoredo, prenderam-nos, de braços e
pernas abertas, a quatro árvores, os três em linha, e aí ficaram.
Os três amigos olharam para os três homens com desdém. Eram cúmplices da
morte de Abraão, mereciam castigo!
Por seu lado, Gualdim estava agora sentado no topo da mesa, com os
cotovelos a apoiarem-lhe a cabeça. Sentia que algo de terrível se
passava.
Por várias vezes os rapazes foram espreitar os pedreiros, de longe, e
verificavam que o frio que fazia os tornava quase azuis. Os homens
enregelavam!
A obra da Igreja continuava a bom ritmo. Os carpinteiros acabavam as
traves do telhado e os mestres canteiros mais especializados iriam
começar a «escrever» os segredos na fachada, trabalho que levaria ainda
muitos meses mais. Os outros iriam começar a construir a torre de menagem
do castelo em Theodomar. O processo seria semelhante ao da construção da
igreja: instalar o estaleiro e começar a preparação da obra.
Passados dois dias, regressou ao acampamento uma das patrulhas que
Gualdim tinha mandado para os limites da comenda, na Frei-vianda. Esta
vigia tinha feito uma incursão até à Senhora do Pranto e retornava agora
com um ferido numa padiola.
O lugar-tenente foi chamar o Mestre e dirigindo-se a ele, disse:
- Mestre Gualdim, acaba de chegar uma patrulha, que traz um ferido!
Gualdim ficou admirado, pois não tinha notícias de qualquer contenda.
- Quem é o ferido? - perguntou.
- Não sabemos, senhor. Encontraram o homem moribundo, junto à ermida da
Senhora do Pranto. O cavalo estava morto, parece que comido pelos lobos.
- Que o levem depressa para a enfermaria e o físico que trate dele! -
ordenou prontamente.
Passadas umas horas, Gualdim foi até à enfermaria e procurou novidades
sobre o ferido, junto do físico.
- De que mal sofre este homem ? - perguntou.
- Senhor, nunca nada assim vi... o homem tem o corpo numa chaga única! -
exclamou o físico, visivelmente impressionado.
O Mestre entrou na enfermaria prevenido e viu o que nunca tinha visto na
guerra: as pernas, os braços e o pescoço ensanguentados
187
daquele indivíduo estavam mordidos com dentadas de lobo. Faltava-lhe
músculo na barriga das pernas e o homem estava inconsciente, mas
demonstrava ainda ter vida.
Olhou para o braço que pendia do catre e verificou que este tinha gravado
junto ao pulso uma cruz da Ordem do Templo.
Admirado, mas já esperando alguma novidade semelhante, virou-se para o
físico e disse-lhe:
- É um irmão nosso... fazei o vosso melhor! - Gualdim confirmara aquilo
de que já suspeitava.
A curiosidade de Renato, Abel e Ruivo levou-os à enfermaria. Quando iam a
entrar entreolharam-se intrigados. Pouco tempo depois viram o homem
enfermo deitado e...
- Não pode ser!... Aquele é o encarregado dos galegos... o Joaquim -
exclamou Abel.
- É ele!... Não há enganos!... É a visão do inferno na terra! - afirmou
João Sanches, com segurança, mas impressionado com o que via.
Saíram daquele lugar a correr. Abel expulsou das entranhas um grito de
dor e raiva e, logo de imediato, Renato tapou-lhe a boca. Não queriam
acreditar no que viam os seus olhos.
- Javé devolveu-me o assassino do meu tio. Vou fazer justiça! - disse
Abel, com o ódio visceral estampado no rosto.
- Não vais fazer coisa nenhuma! - disse Renato, entre dentes - Vamos mas
é contar ao Mestre... cala-te, Abel!
- Há-de sofrer!... Merece morrer.., desaparecer da face deste mundo... o
desgraçado! - Abel continuava a alimentar sentimentos de vingança por
aquele indivíduo combalido.
- Ele já está a sofrer, Abel... a justiça divina é poderosa... não temas!
- insistiu Renato, travando os movimentos do amigo.
O Mestre ouviu barulho cá fora e saiu, para ver o que se passava. De
imediato, Abel gritou bem alto:
- Justiça! É ele o assassino do meu tio. Clamo por justiça, Mestre!
- É o quê, Abel? Por Deus, homem... falais a verdade? - questionou
Gualdim, sentindo-se como se tivesse levado com um cavalo em cima.
Carregava agora, sem assim o desejar, nas suas costas um pesado fardo de
responsabilidade.
- É ele, reconheço-o e acuso-o!... Peço a Justiça de Elohim!
188
Gualdim estava pálido.
- Um Templário?... pensava. Havia aqui uma história muito mal contada.
Alguma coisa lhe falhava e ainda não sabia o que era.
Mandou, de imediato, chamar os galegos, para que lhe dessem
reconhecimento. Eles chegaram junto do Mestre, dirigiram-se à enfermaria
e reconheceram-no de imediato.
- Que reúna o Capítulo! disse Gualdim, de forma decidida. - Este assunto
tem que levar desenvolvimento!
Momentos depois, os cavaleiros estavam reunidos em Capítulo. Segundo a
tradição, os Templários obedeciam ao seu Mestre e este obedecia ao
Capítulo. Era a assembleia magna da comenda. Todos os assuntos
importantes eram discutidos no Capítulo, que se realizava à porta
fechada. Foi improvisada uma tenda no acampamento para o efeito e a
reunião tomou início.
- Meus irmãos, rezemos para que o Senhor Deus nos ilumine - disse o
Capelão-mor.
Os frades-cavaleiros, rezavam para que o Espírito Santo lhes desse a
sensatez necessária. Gualdim tomou a palavra e disse:
- Irmãos, conforme sabeis houve um assassínio na pessoa do nosso amigo
Mestre Abraão. Aprouve a graça divina trazer-nos o assassino ao nosso
seio; mas o pior de tudo é que é um irmão nosso. O plano traçado por El-
Rei D. Afonso para Portugal, como eu calculava, está em risco de ser
revelado. Os planos da igreja desapareceram, apenas temos a planta que se
encontrava junto do corpo de Mestre Abraão. A missão profética não pode
cair noutras mãos. Seria demasiado perigoso...
Os monges-guerreiros começaram a falar entre si.
- Mestre... - disse um dos monges mais velhos - para nós, está correcta
a vossa vontade, se a fizerdes por Amor a Deus.
Gualdim sentiu cair sobre si toda a responsabilidade do assunto. Sabia
que a «Regra» exigia disciplina. Sabia que a «Regra» dizia para não se
incomodarem se saíssem da missa para fazer justiça. O destino do reino
estava nas suas mãos. Ele sabia o que devia fazer. Deu por concluída a
reunião do Capítulo.
Gualdim ficou em oração uns momentos e depois saiu. Foi sozinho para a
enfermaria.
- Mestre, o homem deu cor de si - disse o físico, ao ver entrar Gualdim.
189
- Irmão, como te chamas? - perguntou o Mestre templário ao enfermo.
O homem ao vê-lo gritou com as poucas forças que lhe restavam:
- Mestre, perdoai-me!... Traí-vos, traí os meus irmãos, e vejo-me
vivo nesta angústia... não mereço viver... o que fiz não tem perdão!
Gualdim pegou numa garrafa de vinho azedo e verteu-a sobre as feridas do
indivíduo. O homem gritou ainda mais.
- Sabes qual é o sabor amargo da traição?
- Sei sim, Mestre dizia Joaquim, contorcendo-se com dores.
- Diz-me porque nos traíste! insistiu Gualdim.
- Mestre, por causa dos Mapas... os genoveses e os castelhanos também
querem os Mapas. Vendi-me a troco de riquezas. Conspurquei o Santo nome
do senhor!... D. Pedro Robera manga de mim... Os reis de Leão e Castela
queriam vingar-se do vosso Rei Afonso, por isso fizeram o acordo de
Sahagun. Os irmãos Trava ofereceram-me dinheiro, para que eu vos
estragasse os planos... perdoai-me!
- Foste tu que serraste os andaimes?
- Fui D. fr. Gualdim, perdoai-me! disse o débil homem.
- Quem mais sabe o que tu sabes?
- Mais ninguém, Mestre. Na ermida da Senhora do Pranto fui atacado por
uma matilha de lobos... estou nesta condição... sofro aqui deitado e
impotente.
- O primo d'El-Rei não perdeu tempo... e agora... o filho e o neto... El-
Rei D. Afonso Henriques tinha que ser informado. Teria que enviar
notícias urgentes a Sua Majestade.
Gualdim não queria acreditar no que ouvia. Sabia que existiam Templários
renegados e a «Regra» estabelecia castigos rigorosos para esse
comportamento. Os Templários tinham três armas brancas. Uma para o
combate, uma mais pequena para cortar o pão, uma ainda mais pequena para
os feridos em combate. Era o golpe de misericórdia.
- Sabes para que serve isto, não sabes... irmão? - disse Gualdim,
mostrando-lhe a arma da misericórdia.
- Sei Mestre, chamai-me um confessor... peço-vos... chamai-o pelo amor
que tendes a Deus, Nosso Senhor!
Mais uma vez ele, Gualdim Pais, tinha a responsabilidade nas suas mãos.
Sabia que não podia negar os sacramentos aquela alma, mesmo que se
tratasse de um homem que formava intenções de atraiçoar uma nação
inteira. Saiu para chamar um capelão, surgindo pouco tempo depois à porta
da enfermaria, acompanhado do sacerdote designado para confessar o
enfermo. Ficou no exterior, deixando os dois homens a sós. Horrorizado,
ao entrar e ver o homem estendido e coberto de sangue, o religioso deu um
grito surdo, dirigindo-se a Gualdim, pouco tempo depois de sair da
enfermaria.
- Mestre, ele cortou a garganta. Está morto! disse o capelão. - Agiu por
amor a Deus. Fez justiça por suas próprias mãos. Acabou com a vida.
- Paz à sua alma! - respondeu Gualdim, sentindo que lhe saía de cima dos
ombros um enorme peso.
Gualdim dirigiu-se a Abel e disse-lhe:
- Meu amigo, por tudo o que aconteceu e em nome do nosso Rei D. Afonso,
estou-te agradecido. A memória do teu tio estará sempre comigo e o reino
de Portugal ficar-lhe-á, mesmo sem o saber, eternamente agradecido. Vai
descansar, porque bem o mereces.
Gualdim mandou que lhes servissem uma boa refeição. Comeram, quase com a
cabeça a cair-lhes nos pratos, deitaram-se e adormeceram.
191

Capítulo 28
PLANOS DE VINGANÇA

Os três companheiros de Joaquim Munoz, agora morto, encontravam-se já a


safo. O Mestre tinha ordenado que os soltassem e disse-lhes que
regressassem a casa, que não mais os queria ver por aquelas paragens.
Pepe e os dois companheiros deslocaram-se às margens do rio afim de se
lavarem e procurarem alimento, bem como encontrar as gaiolas com os
pombos. Tinham que enviar notícias urgentes aos Travas, agora que o seu
encarregado, D. Joaquim, já não estava entre eles.
- Onde tendes os pombos, hombres?
- Junto à ponte, Pepe... esperamos que ainda não tenham sido descobertos,
senão...
- Tenemos que vingar nuestro D. Joaquim! disse Pepe para os outros dois
galegos.
- Os homens do Mestre deles estão por toda a parte! Seremos apanhados!
- Estúpido... cala-te!... Imbecil...
- Pepe... te lo digo, por supuesto!
Pepe avistara, ao longe, as gaiolas e dirigiu-se de imediato para o local
onde se encontravam. Um dos pombos estava morto e o outro, com a falta de
alimento, havia já dias, e a sede, esfaimava. - Deixastes morrer os
pombos!...
- Como Pepe, se estivemos à mercê dos castigos do Mestre deles, durante
todo este tempo?
- Calai-vos... deixai-me pensar... pode ser que este ainda se salve! -
Pegou no pequeno animal e levou-o até à margem do rio, para que bebesse
um pouco de água.
Um dos homens tirou da sacola um pedaço de pão, já duro e seco,
esmigalhou-o e deu-o ao pombo.
- Onde guardava D. Joaquim a pena e os pergaminhos? - perguntou Pepe.
193
- Vede nos seus haveres... está aí o seu alforge, o desgraçado... nunca
chegou a regressar ao esconderijo... os lobos atacaram-no junto à ermida.
Pepe não perdeu tempo. Com a sua letra mal desenhada escreveu:

Ilustres Senhores,
D. Fernan e D. Bernardo,
Serve a missiva para vos dar conhecimento da desgraça que sobre nós se
abateu.
De novo os lobos importunaram o nosso caminho, desta feita para levar o
nosso encarregado D. Joaquim Munhoz, vosso servo, para junto do Senhor
Paz à sua alma!
Enfrentou o pior dos terrores e foi capturado pelos portucalenses, que
lhe trataram da saúde. Se é que me faço entender perante vossas
senhorias.
O corpo que recordamos imita chaga única, e as dores insuportáveis do
nosso irmão antes de deixar este mundo, trazem-nos desejos de vingança e
vontade de prosseguir o trabalho de que incumbistes este vosso servo.
A honra de D. Joaquim será desforrada!
Se vos aprouver mandar ao nosso poder mais moeda cunhada, para fazer face
às vicissitudes... ficaremos gratos.
Mandai reforços para a emboscada que planeio aos homens de El-Rique.
Continuamos na busca dos Mapas de que falavam vossas senhorias, e dos
Testemunhos.
Respeitosamente
José Esteban (Pepe) Fiel servidor d'El-Rei.
Por Castela... siempre!

Enrolou a missiva e atou-a ao pé do pequeno pássaro, ordenando-lhe que


seguisse viagem até ao seu destino. O pombo, já refeito da fraqueza, voou
bem alto e desapareceu nos céus.
- Vamos, vinde... temos que procurar alimento... disse Pepe, olhando para
a forma grosseira como os outros dois homens se atiravam às côdeas de pão
rijo, que haviam sobrado dos seus haveres.
Selvagens!... - murmurou entre dentes. - Estou eu aqui com estes dois
desprezíveis!... Sorte desgraçada... que sina a minha!
- Tenho que pensar num plano... devemos agir rapidamente!
Os homens olhavam-no aterrados... lembravam-se do que dizia a «Paz de
Deus»:

« Todo aquele que violar uma Igreja Santa ou lhe tirar qualquer coisa
pela força que seja expulso da comunidade cristã.
Todo aquele que roubar aos camponeses ou a qualquer outro pobre, ovelha,
boi, burro, vaca, cabra ou porco se não reparar completamente o que fez,
seja expulso da comunidade cristã.
Todo aquele que atacar, aprisionar ou ferir um padre (.., ou qualquer
outro clérigo que não esteja armado, que se encontre em viagem, ou na sua
casa seja considerado estranho à Santa Igreja de Deus ».
- Ainda nos excomungam Pepe!... Já não bastou o nosso encarregado ter
morrido da forma horrenda como morreu? Não te chega, hombre?
- Se não vos calais, quem vos mata sou eu! - A raiva cegava-o. - Ou
pensais que aparecendo diante dos Travas de mãos vazias, tendes o
caldeirão dourado à espera?... Imbecis... não vedes que está em jogo a
nossa própria vida!
Foram então procurar alimento. Em breve retomariam o encalço dos homens
de Afonso Henriques.
195

Capítulo 29
DESTINOS CRUZADOS

Como era costume, de manhã, depois da primeira refeição, foram para a


obra. A igreja continuava em bom ritmo. Cada vez que olhavam para ela,
parecia que já tinham passado cem anos. Agora já não faziam ali falta.
As obras do castelo tinham começado no dia 1 de Março do ano da graça de
1160. Estavam a começar o embasamento da torre de menagem e ao mesmo
tempo construíam uma cisterna. Se tudo corresse bem, daí a dois meses
estariam a construir a torre da entrada e a fechar a muralha.
Àquele castro, que já tivera o nome de Sellium para os romanos e
Theodornar para os visigodos, e depois Nabância, Gualdim iria dar o nome
que os árabes chamavam ao rio Nabanus Thomar.
Os dias eram passados de uma forma simpática. De manhã verificavam o
andamento dos trabalhos e à tarde praticavam luta, aprendiam o manejo da
espada e do arco.
Abel e Renato saíam-se muito bem com a espada. Os dois estavam admirados
com o jeito que o Ruivo tinha para aquelas lides. Mal levantava a espada,
deixava-a cair e os dois amigos riam-se descarada-mente dele. Quando
passaram ao manejo do arco, puseram-se de parte quando o Ruivo pegou no
arco e na flecha. Já lhe conheciam alguns dotes. O Ruivo esticou o braço
esquerdo, colocou a flecha entre os dedos e lentamente, puxou o braço
direito para trás, de tal forma que a vista direita estava alinhada com a
ponta da seta e sentia na cara os poucos pelos eriçados da mão direita.
Rodou sobre o pé esquerdo e apontou para eles.
- Ruivo, Ruivo... gracejaram os dois jovens. - Vê lá, não faças alguma
asneira!
Ergueu a cabeça e o movimento foi acompanhado pelo corpo, até fazer um
ângulo de quase 72 graus. Nesse momento largou a flecha.
197
- Oh Ruivo, o alvo não é ali... - disse Renato, em tom de brincadeira,
olhando o amigo com verdadeira alegria.
Olharam para cima de repente, e viram que na direcção deles descia
apressadamente um pato bravo, atravessado pela seta do Ruivo. Ficaram
estupefactos!
- Tu és... tu... - Renato olhava-o com orgulho.
O amigo corou e baixou levemente a cabeça, gesto feminino que rapidamente
disfarçou. Quando recuperou a postura habitual, deu com Abel a olhar para
si de forma estranha. Abel ficou a apreciar aqueles dois rindo e trocando
gracejos um com o outro durante grande parte do dia. Ficou admirado com a
alegria extasiante que se juntava entre ambos.
Quando surgiu a corrida à quintana, a confusão foi maior. Corriam em
direcção a um boneco de madeira, de forma a espetarem-lhe uma lança.
Primeiro começaram com uma vara e uma bola de pano. O boneco estava bem
feito. Tinha de um lado um escudo e do outro lado um pau. Ou deitavam
abaixo o boneco ou se batiam nele sem o derrubar, ele rodava e, ou se
baixavam de imediato, ou então levavam com o pau nas costas.
Renato foi o primeiro a tentar. Mal bateu com a bola no boneco, sem saber
como nem porquê, levou com um pau nas costas com tanta força, que caiu
estatelado no chão. Abel e o Ruivo riam a bandeiras despregadas.
- Vinde cá vós agora... dizia Renato, furioso.
- Não posso... disse Abel, rindo cada vez mais - ... a minha religião não
me permite! Depois da morte do tio era a primeira vez que se sentia
descontraído.
- Oh Ruivo, anda cá! - teimava Renato.
- Eu? Tu é que queres ser cavaleiro!
A cavalaria é uma instituição nobre. A grande escola dos Mestres na arte
da guerra. Só podiam ascender a cavaleiros os jovens de origem nobre, ou
então plebeus que estivessem ao serviço de um senhor e Renato reunia
todas as condições. Ser armado cavaleiro era chegar à honra e à glória na
Terra.
Uma tarde, enquanto viam o ferreiro a desempenar os ferrolhos de uma
porta, Gualdim chamou-os, e os três amigos dirigiram-se ao Mestre:
- Senhor, estamos ao vosso dispor.
198
- A ti, Ruivo, não tenho muita coisa para dizer, há pouco que te conheço,
mas vocês os dois o que pensam fazer da vossa vida?
- Eu, senhor? questionou Abel. - Penso continuar a profissão do meu tio
Abraão Zarco. Se permitirdes que continue ao vosso serviço - disse ao
Mestre.
- Congratulo-te e até te agradeço! Quanto a ti Renato, o teu destino está
traçado há muito tempo. Irás para a Ordem do Templo. Serás armado
cavaleiro, conforme o desejo de teu pai. Se Raimundo Moniz aqui estivesse
haveria de ficar orgulhoso, não te parece?
- Sim Mestre, é esse o meu desejo - respondeu o jovem, educadamente, não
mostrando contudo muita convicção.
- Então, como se aproxima a Páscoa, vamos começar a tua preparação.
Renato recebeu esta notícia como que se uma seta atravessasse o seu
peito. Apesar de ser esse o seu antigo desejo, sentia o coração apertado.
A partir desse dia começou a estar mais calado. Fugidio. No domingo que
antecedeu a Páscoa, o Domingo de Ramos, no final da missa saiu da igreja
ainda mais triste. Quando os monges cantavam o Christus factus est
pronobis obediens, o seu coração ficou ainda mais espartado. Cristo fez-
se obediente por nós, cantavam os frades e ele estava a sentir aquilo que
ouvira numa leitura do profeta Isaías: "(Cristo) foi levado como que um
cordeiro ao matadouro." Porque estranha razão estava ele com aquele
pressentimento? Seria por perder a liberdade? Seria por deixar de
partilhar a companhia dos amigos? Tudo era confuso.
Nunca se tinha apaixonado. E se encontrasse algum dia alguém que o
fizesse mudar de intenções? Porque é que ele sentia uma amizade tão
grande por Abel e pelo Ruivo, que conhecera há tão pouco tempo? Pensava
muitas vezes nisso. Não sabia se estava assim por perder a liberdade ou
por eles. De qualquer forma, o sentimento era diferente entre Abel e o
Ruivo. O Abel era aquele companheiro de tantos anos e de algumas
aventuras e descobertas, no Ruivo havia algo mais... uma cumplicidade
diferente. Quando falava com o Ruivo, olhava-o nos olhos e acompanhava o
movimento dos seus lábios.
- Meu Deus, meu Deus. Perdoai-me que sou pecador! - pensava ele de forma
constante. - Como posso sentir-me assim por um homem? Eu vou para a
Ordem, tenho de fugir a esta angústia.
A Semana Santa daquele ano foi uma autêntica paixão. Depois da missa da
Ceia do Senhor, D. Gualdim dirigiu-se a Renato e disse-lhe:
199
Amanhã vais estar presente no Capítulo.
Renato já era adulto e por isso, e só por isso, podia ser cavaleiro da
Ordem do Templo.
Também sabia que só seria cavaleiro, aquele que fosse suficientemente
desprendido. Não aqueles que queriam sê-lo, mas os que mereciam sê-lo.
Pelo conhecimento que tinha, existiam dois tipos de cavalaria: a secular
e os cavaleiros do templo. À militia secular, não podia aceder por não
ser de linhagem nobre, portanto, só lhe restava a outra opção.
Naquela noite em que comemorava a agonia de Cristo em Getsémani, já todos
dormiam. Renato sentia a amargura da escolha que tinha que fazer.
« Faça-se Senhor de acordo com a Tua vontade ». Pensava ele enquanto
olhava pela última vez, naquela condição, o rio que tantas vezes o ouvira
rir. Nesse instante sentiu um barulho, olhou para trás e viu um vulto que
reconheceu de imediato.
- Ruivo? Que fazes aqui? A partir de amanhã vou ser um estranho para ti!
Não sei o que tenho. Não sei o que quero. Não posso estar sem ti... e
Abel, nem estar contigo... e... com o meu amigo Abel.
Aquele vulto que surgira com pés de lã, esquecendo-se por momentos da sua
própria condição, e olhando o amigo que tanto estimava, colocou os seus
dedos nos lábios dele e disse:
- Não digas nada.
Ele reparou que o Ruivo também tinha os olhos molhados. Por um instante
os dois amigos abraçaram-se e Renato soluçava enquanto chorava. Sentia
pela última vez o conforto que aquela amizade lhe transmitia. João
Sanches retirou-se e Renato, resignado, acalmou-se.

Capítulo 30
UMA NOITE JUNTO AO RIO

Catarina estava sentada junto ao rio. Atirava pequenas pedras à água,


seixos de forma arredondada, ligeiramente espalmados, fazendo-as saltitar
e rodopiar, provocando ondulações ligeiras. Este gesto ajudava a acalmar
as suas emoções exaltadas. Tinha passado ali toda a tarde. Precisava de
estar só e aquele local trazia-lhe uma recordação especial. Nunca mais
ali regressara desde que D. Joaquim a ferira e a fizera cair ao rio.
Ainda tinha o seu enigma para resolver, ainda não tinha revelado a sua
identidade ao Mestre, o que quereria dizer V.I.T.R.I.O.L.?
Pensava em Renato, nos sentimentos que por ele cresciam no seu coração,
nas memórias que lhe chegavam do dia anterior. Se ao menos naquele abraço
pudesse revelar que não era João Sanches, mas sim Catarina Viegas. Tudo
se equilibrava... mas não era ainda tempo. Sentia que ainda não deveria
revelar a sua identidade. Essa doce entrega ao amor que a despertava
ainda não tinha encontrado a sua hora e ela sabia que o tempo trabalhava
para ela... tinha que ser paciente, respeitar o seu trabalho, aprender a
dominar as suas emoções, os seus ímpetos entusiastas. Ela era uma
guerreira, uma mulher de batalhas e ao vestir a pele de João Sanches
aprendera a comportar-se dessa forma, aprendera a mostrar-se forte,
independentemente das adversidades, aprendera a exaltar as suas
características masculinas; mas a sua vida pedia-lhe que escutasse o lado
frágil e meigo... doce e sereno... despertava em si novamente a Catarina
que já fora... o seu lado mulher.
O sol punha-se. O encarniçado do céu misturava-se com a palidez azul do
rio e conjugavam-se num cenário de rara beleza.
Catarina, mergulhada nos seus pensamentos, tocava com os dedos finos os
seus cabelos ruivos. Estavam tão curtos! Via a sua imagem projectada na
água e recordava o tempo em que os penteava longamente, olhando-se num
minúsculo espelho de prata, decorado
201
minuciosamente com rosas cravejadas, umas de pétalas abertas, outras
fechadas, que lhe dera seu pai. Escovava-os cem vezes, à noite, antes de
se deitar, para que ficassem lisos e sedosos.
Não muito longe dali, encontrava-se o acampamento onde a comitiva que
acompanhava Gualdim Pais repousava. Naquela altura preparava-se o jantar.
Abel estava sentado numa pedra, em silêncio, olhando o fogo e recordando
o seu tio Abraão. Renato afastara-se do grupo para pensar um pouco. Andar
a pé ajudava-o a colocar as ideias em ordem.
- Onde andaria o Ruivo? Não o via desde essa manhã pensou.
Os seus passos aproximavam-no do rio. Recordava a noite anterior com a
mente um tanto confusa e assumia a sua vontade de ingressar na Ordem,
como forma de fugir à sina maldita em que se via mergulhar, de dia para
dia.
- O que diria sua mãe se fosse viva? - continuou imerso nos seus
pensamentos.
Sentia vergonha de si próprio, mas como poderia negar os sentimentos que
aquele abraço lhe revelara? João Sanches tornava-se aos poucos um amigo
por quem ele, Renato Moniz, nutria sentimentos demasiadamente complexos
para o ver apenas como um amigo.
- Estaria a apaixonar-se por um homem? - interrogou-se, confuso.
De repente, enquanto caminhava por entre o arvoredo, ouviu um barulho que
parecia vir do rio e lhe chamou de imediato a atenção. Franziu
ligeiramente a testa e ficou alerta. Resolveu esconder-se atrás de uma
árvore. Olhou discretamente para a margem e viu um vulto. Permaneceu
escondido. Parecia uma mulher, mas não conseguia ver bem. Estava
demasiado escuro.
Era já noite, viam-se apenas os reflexos das árvores na água brilhante do
rio e a sombra de Catarina, tremendo sem nitidez precisa, com a ondulação
que o vento provocava. Com a escuridão ninguém a podia ver, pensava ela.
Se se banhasse no rio não corria muitos riscos de ser descoberta. Podia
arriscar... já sentia saudades de alguma liberdade, de sentir-se
novamente mulher. Despiu as suas vestes, retirou a faixa de tecido que
lhe comprimia o peito, descalçou-se e olhando em sua volta, assegurando-
se que ninguém a observava, cobriu-se com o manto que trazia consigo e
colocou os pés na água. Estava gelada. Um calafrio percorreu-lhe a
espinha. As noites costumavam estar já muito frias. Catarina avançava
para o rio, tocando as águas com a brancura dos seus dedos finos. Sentia-
se pequena perante aquele universo tão imenso. A lua ocultava o seu
rosto, via as estrelas pálidas na grande cúpula azul, sentia o vento
sussurrando-lhe ao ouvido. A natureza à sua volta envolvia-a de uma forma
mágica, bela, fazendo-a sentir-se parte dela. Por momentos veio-lhe à
memória a história que sua mãe lhe contara sobre o encontro com seu pai.
Também ela amava um homem, mas não podia revelar esse amor... ainda não!
O destino impunha-lhe uma dura prova, mas o seu coração estava repleto de
esperança e o momento certo chegaria.
Renato permanecia imóvel. Aquele momento dava-lhe uma estranha sensação
de alegria. Não conseguia explicar, mas aquele vulto parecia-lhe
familiar.
- Como está tudo tão calmo! pensou. - É como se naquele momento fossem as
únicas pessoas no mundo, longe de tudo, de todos... vencendo o tempo, o
espaço, as circunstâncias que vivia na sua vida, até aquela imagem surgir
no seu caminho... por magia.
Catarina entrava na água e olhava em seu redor, com receio que aparecesse
alguém. Não via ninguém e o seu temor tranquilizava-se. Retirou o manto
que a cobria e pendurou-o num galho que estava ali perto. À medida que
mergulhava naquelas águas límpidas o seu corpo nu, sentia saudades do
calor do lar, dos banhos quentes, dos cabelos compridos, das grinaldas de
flores que os enfeitavam ao Domingo, do enxoval de linho que a sua mãe,
que afinal não era a sua mãe verdadeira, conforme lhe fora revelado, com
tanto amor e carinho bordou. Sim, sentia saudades de todo esse universo
feminino que há muito não encontrava na sua vida. Estava há demasiado
tempo rodeada de homens. Tudo era novo para ela, vivia tempos de mudança.
Sentiu em si um apelo forte de agradecer toda essa mudança. Ergueu os
seus braços ao céu estrelado e disse:

« Eu, Catarina Viegas, filha da Lua,


Venho a este local mágico e sagrado de livre vontade.
Venho dedicar a minha vida,
Aos antigos Deuses, cujo poder é ainda forte e vital.
Aqui empenho a minha palavra de honra,
Em como seguirei os antigos caminhos
que conduzem à Verdadeira sabedoria e conhecimento.
203
Servirei a Grande Deusa e reverenciarei o Grande Deus.
Sou como uma pedra no antigo círculo,
firmemente equilibrado sobre a terra,
Porém aberto aos ventos dos céus e perseverando através dos tempos.
Que os Antigos Deuses testemunhem as minhas palavras! »

Renato olhava para aquele vulto, esbelto e delicado, e percebia que se


tratava de facto de uma mulher. Nunca tinha visto uma mulher nua. Como
era bela, aquela silhueta tão familiar! Esse facto provocava-lhe alguma
estranheza... era um sentimento de familiaridade tão forte, que, em
silêncio absoluto, dava com as suas mãos tacteando os troncos de árvore
no meio da escuridão, de forma a aproximar-se e ver melhor de quem se
tratava. A medida que se aproximava, a sua visão ganhava nitidez.
- Mas parece... parece-me que... não... não pode ser! - os seus
pensamentos confusos tornavam-se ainda mais confusos. - Não pode... não
pode ser João San... uma mulh... não...!
Estava imerso nos seus pensamentos quando foi interrompido pelo seu amigo
Abel.
- Renato!... Renato!
- Shiu Abel... não fales alto...
Colocou-se estrategicamente, para que o amigo não visse a figura que se
banhava no rio.
- Que se passa Renato? Estávamos todos a jantar e não regressavas. O
Ruivo desapareceu! Não sabes o que se passa, pois não?
- Shiu! insistia Renato. - Não faças barulho, Abel!
- Porquê Renato, estás com ar de caso, o que aconteceu? - perguntou Abel
em surdina, escondendo-se atrás dos arbustos, junto a Renato.
- Não foi nada... pareceu-me ver ali um javali... mas se calhar foi
impressão minha... não foi nada! - Renato olhava discretamente para o
rio, tentando perceber se o vulto ainda lá estava.
- Estás muito esquisito Renato. Ages de forma estranha, parece
204
que estás comprometido com alguma coisa. O que se passa? –
Abel espreitava por cima do ombro de Renato balançando-se de um lado para
o outro com um olhar curioso, tentando compreender o que se passava com o
amigo. Mas não via nada.
- Vamos jantar Abel, vamos embora...
- Vamos sim, mas vais-me explicar o que aconteceu aqui hoje, começo a
ficar preocupado contigo... estás pálido, parece que viste uma alma
penada rapaz!
- Não foi nada, a sério... foi um javali... se calhar pareceu-me ver
alguma coisa e não vi... deve ter sido isso... vamos comer... - E o
Ruivo? Sabes dele?
Renato estava ausente, ostentava um ar perfeitamente deslumbrado e
continuava a ver o rio por entre a folhagem densa do arvoredo da região.
- Renato? Estás a ouvir-me? - insistia Abel, num tom ligeiramente
irritado com a situação. - Estou a falar contigo!
- Shiu, fala baixo! insistia Renato de forma automática, sem pensar na
estranheza que toda aquela situação provocava ao outro jovem.
- Desculpa Abel... desculpa... Sim, vamos embora... vamos...
Catarina tinha já a água pela cintura, quando ouviu uma voz lá ao longe.
- Renato? Terei ouvido bem? Alguém chama pelo Renato? - A expressão
surpresa de Catarina revelava alguma ansiedade.
Encolheu-se e escondeu-se dentro de água, olhando fixamente o lado de
onde parecia chegar o som e ficando à escuta, em silêncio.
- Outra vez... sim, estão a chamar pelo Renato... tenho que me
apressar... ninguém me pode ver aqui! - a sua expressão era agora de
pânico!
Começou a nadar devagar até à pedra onde guardara a sua roupa.
- Ai... preciso de voltar atrás! - Catarina lembrara-se da manta que
ficara pendurada num galho, enquanto se preparava para banhar o seu corpo
nas margens do rio. Tinha que ir buscá-la. Não podia deixá-la ali...
fazia-lhe falta!
Um grito seco fizera Catarina cair à água, encharcando completamente o
cabelo, enquanto tentava puxar pela manta, e lhe surgia pela frente um
morcego, cujo repouso fora interrompido por aquele puxão.
- Que susto! - exclamou Catarina tentando acalmar a respiração ofegante.
Espero que ninguém me tenha ouvido, tenho que
205
sair daqui, imediatamente!
E começou a nadar silenciosamente, com a cabeça coberta por aquela manta
que já lhe estava a provocar demasiados sarilhos! Ela e as suas
liberdades... não podia arriscar-se ao ponto de ser vista nas redondezas
na sua condição de mulher.
- Será que... Renato andaria ali por perto? Afinal ouvira chamar o nome
dele...
Entretanto os dois amigos preparavam-se já para regressar ao acampamento,
pensando nas iguarias que Jonas, o cozinheiro, preparara para essa noite.
- Escuta... Renato, não ouviste um grito? perguntou Abel, com ar
intrigado.
- Pareceu-me ouvir qualquer coisa, realmente respondeu Renato com uma
expressão preocupada.
Pararam e ficaram à escuta durante breves minutos, mas não ouviram mais
nada. Resolveram continuar a sua caminhada até ao acampamento. Já se
sentia o cheiro a peixe assado.
- O que se teria passado com o Ruivo... ou dizendo melhor... a Ruiva?
pensava Renato intrigado.
- Renato, não te estou a reconhecer! Andas com uma expressão aterrada...
eu é que deveria estar assim com a morte do meu tio... e no entanto estou
aqui a tentar perceber o que se passa contigo! - Abel revelava a sua
preocupação com o amigo.
- Já passou, já estou bem, pareceu-me ver qualquer coisa junto ao rio...
mas deve ter sido um javali.
Catarina tremia de frio ao sair da água. Com a pele arrepiada, enxaguou-
se e vestiu-se num ápice. Tinha que regressar ao acampamento, antes que
dessem pela sua falta. Já conhecia de cor aquele percurso e não tardaria
a chegar. Apesar da escuridão, movia-se silenciosamente, sem precisar de
ver. Estava cheia de fome e saberia bem rechear o estômago com qualquer
coisa quente. Ao avistar o acampamento, depressa reparou que Renato e
Abel já se encontravam sentados junto dos outros, enquanto jantavam.
- Ruivo... desapareceste? perguntou Abel, em tom de curiosidade.
- Andei por aí... - João Sanches preferiu esquivar-se à pergunta.
- Senta-te connosco. O Jonas preparou-nos um banquete muito saboroso,
hoje - acrescentou Abel, enquanto se desviava para o lado, na esteira que
partilhava com Renato, para que Sanches se sentasse com eles.
Enquanto comiam, Renato não pode deixar de reparar que o amigo tinha o
cabelo molhado, e depois da sensação que tinha tido no rio... muita coisa
começava a fazer sentido na sua cabeça.
- Estás tão calado, Renato! - Abel estava intrigado com o comportamento
do amigo. Sabia que algo de estranho se tinha passado, mas preferiu não
voltar a tocar no assunto.
- Estou bem, Abel! Tenho estado aqui a pensar... Sabes, o passeio junto
ao rio ajudou-me a perceber algumas dúvidas na minha vida - Renato falava
enquanto olhava fixamente para aquela mulher que, disfarçada de homem,
convivia com eles há já alguns dias.
Nesse instante, João Sanches... ou melhor... Catarina Viegas, levantou o
olhar e, por momentos, cruzou-o com o de Renato. Ambos coraram,
denunciando os seus sentimentos retraídos. Tornavam-se agora cúmplices.
207

Capítulo 31
OS TESTEMUNHOS

Catarina contava as horas, os minutos, o tempo que passava de forma


lenta, nessa noite. Estava decidida a voltar ao rio e à falha que
descobrira nas rochas da margem do Nabanus.
- V.I.T.R.I.O.L.... - pensava. - O que quererá dizer?
Precisava da ajuda de alguém. Não estava familiarizada com aquelas
palavras escritas em sigla. Sozinha não conseguiria descobrir o enigma.
Lembrou-se de falar com os amigos, seria agradável fazerem um passeio até
ao rio. Renato e Abel poder-lhe-iam dar uma enorme ajuda. Além do mais,
queria parecer-lhe que aquela descoberta ainda os viria a surpreender a
todos, não só a ela.
- Renato?... Estás acordado? - Catarina levantou-se sorrateiramente e
dirigiu-se, ainda de noite, ao local onde os amigos tomavam descanso.
- Abel?... Renato?... Acordem... - insistiu em sussurro, de forma
ansiosa, abanando-os, mas procurando ser discreta, por forma a não
incomodar os restantes homens que dormiam naquela tenda.
Renato acordou aturdido pelos abanões e sussurros constantes.
- Ruivo... que fazes aqui? Ainda é noite - disse, bocejando e voltando-se
a deitar.
Entretanto Abel também acordava.
- Amigos, preciso de vos falar. Há um local onde quero levar-vos -
Catarina levava o dedo indicador ao rosto, fazendo um gesto de silêncio.
De novo, gesticulando, pediu-lhes que a seguissem.
Os amigos olharam em volta, levantaram-se sem emitir qualquer som, e
assegurando-se que ninguém os via, gatinharam até à saída da tenda.
- Temos que levar umas tochas! - disse Catarina, colocando às costas o
embrulho de serapilheira que carregava quase sempre consigo.
- O que levas aí nesse embrulho ? - perguntou-lhe Renato, intrigado. -
Andas sempre com ele às costas!
209
Não obteve resposta, apenas um olhar evasivo que o fez encolher os
ombros, resignado, enquanto mirava Abel de forma cúmplice.
- Bom, o que vou partilhar convosco é de importância maior, espero que
guardeis segredo daquilo que encontrarmos. Em primeiro lugar pergunto-vos
se sabeis o que quer isto dizer?... - E começou a desenhar, com um pau,
no chão, as iniciais: V.I.T.R.I.O.L. .
Os amigos entreolharam-se surpresos. Nenhum sabia do que o Ruivo falava.
Foram interrompidos por uma presença inesperada...
- Então rapazes? Acordados a uma hora destas? - Antunes Duval saía da
tenda do Mestre e regressava à sua alcova, surpreendendo-se ao vê-los
ali.
- Boas noites, fr. Duval!... - disseram os jovens, com ar comprometido.
O monge intrigou-se ainda mais e resolveu aproximar-se. Apercebeu-se que
um dos jovens tinha na mão uma vara comprida e havia qualquer coisa
escrita no chão. De súbito, à medida que chegava junto deles, apercebeu-
se que, com os pés, um dos jovens tentava apagar aquilo que escrevera.
Surpreendeu-os inusitadamente.
- O que fazeis aqui?... O que escondeis vós? - interrogou-os, enquanto
lia no chão aquilo que restava de uma expressão extinta:
- O que escrevestes aqui? Exijo uma resposta! - fitou os três amigos,
ansiando por uma resposta que clarificasse toda aquela ambiguidade.
Os jovens olharam-se, revelando o descontrolo a que aquela situação os
poderia levar e resolveram encarar o monge com sinceridade.
- Fr. Duval... - começou o Ruivo - acaso sabeis dizer-nos o que
significam estas iniciais? - questionou, reescrevendo as letras em falha
na terra do chão, com a ajuda da vareta que segurava entre mãos.
- Por Deus!... exclamou o religioso, com assombro.
- Então... o que nos dizeis? interrogou Renato.
- Onde vistes estes dizeres, rapazes? voltou a questionar fr. Duval.
Abel e Renato olharam para o amigo, apenas o Ruivo poderia responder
aquela pergunta. Todos aguardavam, interessados.
- Ali pelas margens do Nabanus, numa pedra... respondeu entre dentes.
- O que mais sabeis? insistiu o monge.
- Nada mais sei! exclamou o Ruivo. Pareceu-me ser uma passagem para um
qualquer local. Os dizeres eram quase imperceptíveis. O musgo cobria-os e
mal se viam.
- V.I.T.R.I.O.L.... quereis então saber o que significam estes
dizeres?... Devemos chamar o Mestre... parece-me do seu interesse tomar
conhecimento desta preciosa descoberta!
Os jovens acederam e o monge retornou à tenda de Gualdim Pais,
regressando pouco depois para chamar os companheiros.
- Chegai-vos aqui!... O Mestre chama-vos!
Quando entraram, demoraram algum tempo a adaptar-se à claridade provocada
pela iluminação dos aposentos do Mestre. Os olhos estavam habituados à
escuridão da noite.
- A expressão V.I.T.R.I.O.L.... meus jovens amigos... explicai-vos... é
verdade o que me conta fr. Duval'?
- Mestre, o Ruivo descobriu uma caverna junto ao rio... uma passagem
marcada pela expressão que aqui vos trazemos... é do vosso conhecimento,
o seu significado ? antecipou-se Renato, movido pela curiosidade.
- Fr. Antunes... explicai aos nossos aprendizes aquilo que sabeis.
- Mestre, dar-lhes-ei referências quanto à designação... o seu
significado... esse... deverão procurá-lo junto ao rio... disse o
eclesiástico, trocando um piscar de olho conivente com o Mestre. - Não
vos parece ?
- Seja, irmão - disse Gualdim, com um brilho nos olhos.
- Em latim a expressão significa « Visita Interiora Terrae, Rectificando
Invenies Occultum Lapidem » ("Visita o interior da Terra, e rectificando
descobrirás a Pedra oculta"). Nada mais posso dizer-vos.
Os três jovens sorriram. Um passo estava dado. Era um começo, cabia-lhes
agora descobrir aquilo que simbolizava o seu conteúdo.
Renato chegou-se junto do Mestre, dirigindo-se-lhe respeitosamente:
- Mestre, dirijo-me a vós para vos fazer um pedido...
- Fala, Renato...
- Mestre, em meu nome pessoal e dos meus amigos, peço-vos permissão para
que nos desloquemos à lapa de que falamos, a fim de melhor conceber este
enigma. Se julgareis por bem, iremos os três: eu, Abel e João Sanches.
- Devo, antes de mais, interrogar-te Renato - o Mestre fitava-o,
procurando testar a sua vontade. - Diz-me... como podes tu ter tal
aspiração?
211
- Respeito os meus amigos e partilho com eles a vontade de combater a
ignorância, a tirania e os preconceitos e erros. Juntos defendemos o
direito à verdade, à razão... e à justiça. Acreditamos que esta
descoberta não é um acaso... e estou seguro de que o sabeis... meu bom
Mestre!
- Vejo que estás seguro da tua vontade, Renato... meu jovem escudeiro...
muito me apraz essa tua posição. Deverão ir sozinhos, de coração limpo e
cientes do objectivo que carregam - e dirigindo-se aos três jovens,
continuou. Vou contar-vos uma velha fábula:
Em tempos idos, num lugar remoto, três canteiros lavravam uma pedra. Um
passante interpelou-os:
- O que fazeis vós? perguntou.
- Trabalho para ganhar a vida - respondeu o primeiro.
- Talho uma pedra - disse o segundo.
- Construo uma catedral - disse o terceiro, - porque nada me prende e sou
um homem bom, Mestre.
E continuou, voltando-se agora para Renato:
- Apenas um dos homens compreendeu a verdadeira missão do seu lavor,
Renato... sabes qual foi?
- O terceiro, Mestre... foi o terceiro homem que respondeu que construía
uma catedral.
- Neste caminho, meu amigo... há uma prova que deverás passar. Tal como o
terceiro homem, nunca esqueças a consciência do todo... e nessa dimensão,
encontrarás os mais belos desígnios. As tentações do mundo são vencidas
assim que essa corrente universal de fraternidade tomar a sua expressão.
Todos temos o nosso papel no «Todo»... e somos parte desse «Todo»...
contemos assim a totalidade, nessa parte que somos.
Renato recordava-se de uma conversa que tinha tido com Abel, durante a
viagem até Nabfincia. Também o amigo lhe falara dessa totalidade
universal contida em cada homem.
- Recordarei as vossas sábias palavras, Mestre - disse Renato, baixando
ligeiramente a cabeça, em sinal de apreço.
- Finda esta conversa, meus jovens aliados, julgo ser de máxima
importância que vos desloqueis ao local. Autorizo que partais – disse o
Mestre, com seriedade. - Digo-vos apenas uma coisa, meus amigos...
212
- acrescentou, detendo os três jovens junto à saída do tentório, por
alguns instantes. - A verdadeira salvação, encontrá-la-eis onde germina a
nossa memória arcaica. Através da descida ao interior da consciência,
compreendereis onde reside o verdadeiro mistério. Agora ide... parti o
quanto antes.
- Sim Mestre, honraremos o vosso saber, a vossa compreensão e dar-vos-
emos notícias.
- Tende cuidado. Pensai, antes de agir! - lembrou o Mestre, ao despedir-
se.
Os três jovens retiraram-se, deixando Gualdim Pais a sós com o monge.
- Que me dizes a isto, Duval?
- Os rapazes são perspicazes, Mestre. Em breve nos surpreenderão!
- Duval... sou forçado a concordar contigo... não esperei que tão cedo
chegassem a esta descoberta... veremos se estão preparados para
prosseguir no caminho insondável dos mistérios, meu irmão... veremos!
Trocaram umas valentes gargalhadas. Estavam ambos surpresos com aquele
achado inesperado.
- E se não estiverem preparados, Mestre?... Sabeis bem que poderemos não
voltar a vê-los!
- Nada podemos fazer por hora, meu amigo. Cada um vem a este mundo com um
percurso definido e terá as suas provações a vencer. Deixemos que seja o
destino a ditar a sorte destes jovens. Sois um homem de fé... tende então
fé, fr. Duval... é aquilo que nos resta agora! Nós próprios não
completámos ainda a nossa busca... sabes que nos falta a espada...
- Sim, Mestre... bem sei... deixemo-los chegar a esse nível, para que
compreendam os mistérios que a nossa Ordem protege e defende... e até
mesmo os Testemunhos que ainda não alcançou! - disse fr. Duval.
- Os tão cobiçados Testemunhos, amigo... tudo temos para chegar às três
idades do Divino Espírito Santo... falta apenas a espada.
- Anos da nossa vida nessa busca. Mestre... tanto passastes com Mestre
Abraão no Egipto... e nada... ainda não alcançámos esses Testemunhos, tão
benquistos a El-Rei.
- Pela manhã juntar-nos-emos a eles... parece-te bem? Por essa
213
altura já devem ter alcançado o segundo nível - disse o Mestre.
- Sim, Mestre... nove cavaleiros... como no princípio foi... nove.
Despediram-se com um peso no olhar. Deveriam rezar por aquelas almas...
para que juntas encontrassem o caminho que as conduziria à verdade
suprema.
Entretanto Renato, Abel e Catarina, ainda encoberta pela figura de João
Sanches, o Ruivo, preparavam-se para partir. Junto dos cavalos,
carregavam já com eles tudo o que julgavam necessitar. Verificaram se os
animais estavam bem aparelhados e montaram, rumo ao local assinalado,
junto às margens do Nabanus. Catarina ia à frente, segurando uma tocha,
era a única que conhecia o caminho, Renato e Abel, seguiam atrás.
Caminhavam a trote. A noite era escura e nem o brilho das estrelas lhes
devolvia a claridade. Na descida, os cascos dos cavalos escorregavam por
entre as folhagens húmidas que se depositavam no chão. A terra molhada
tornava a caminhada mais difícil. Ao alcançarem a margem do rio, o
terreno modificou-se, facilitando a andadura. Os cascos dos corcéis
pisavam agora pequenos seixos, atravessados por densa, mas rasteira,
vegetação, que lhes servia de alimento. Andaram uns bons quilómetros até
à paragem, finalmente, o Ruivo deu ordem para desmontar.
- É aqui! - disse, desmontando do cavalo com um salto certeiro e
decidido, gesto acompanhado pelos restantes dois.
- Vinde... continuou. - Já não estamos longe... o restante caminho fá-lo-
emos a pé.
Prenderam os animais e seguiram os três juntos, iluminados pela luz da
tocha. Os olhos já se tinham adaptado à visão nocturna e distinguiam-se
claramente todos os contornos. Não lhes foi difícil alcançar a fenda.
- Temos um problema... Deve haver alguma forma de mover a pedra que cobre
a entrada... julguei que a palavra nos desse alguma pista! De que forma
aquilo que fr. Antunes nos disse, nos poderá aqui ajudar? disse a jovem
encoberta.
- Visita o interior da Terra e rectificando descobrirás a Pedra oculta...
o que será a pedra oculta? - perguntava-se Abel.
- Será que esta abertura nos levará a algum mistério oculto... mas... uma
pedra? Terá de ser algo muito valioso... - Catarina detinha-se junto da
passagem onde se lia a inscrição, procurando com as
214
mãos algum tipo de mecanismo que lhe permitisse rodar a pedra que travava
o acesso ao interior da terra.
- Amigos, temos que nos unir e pensar em conjunto - disse Renato. -
Lembrai-vos do que disse o Mestre!..."o verdadeiro mistério revelar-se-á
no interior da consciência..." Não julgo que se trate de um qualquer
tesouro!
- Parece-me que o principal agora é descobrir como poderemos entrar? -
disse Abel, movido pelo seu sentido prático.
Catarina insistia junto da abertura... a aurora começava a despontar e já
havia mais luz. Apercebeu-se de súbito, que por cima dos dizeres, existia
uma outra imagem. Com a ajuda de um punhal limpou os restos de musgo que
dificultavam a sua percepção e... qual não é o seu espanto, quando vê a
imagem de um galo, em silhueta, gravada na rocha, com uma profundidade de
aproximadamente cinco centímetros. À volta do galo, um círculo, também
ele escavado, como se deixasse adivinhar um qualquer mecanismo para a
abertura da porta de acesso à caverna.
- Renato, Abel... aproximem-se, venham ver... - chamou.
- Mas é um... galo!... exclamou Renato.
- O galo é símbolo da ousadia e da vigilância... personifica a
ressurreição solar e espiritual e com o seu canto anuncia isso mesmo: a
entrada do novo dia depois de um período de trevas, por isso é o arauto
da Luz. - disse Abel, prontamente.
- Faz sentido! disse Renato. - Como se protegesse a entrada... Eu gostava
era de perceber é como é que vamos entrar...
- Pois... também eu, Renato... também eu! - respondeu Abel.
Catarina continuou a limpeza da pedra com a ajuda do punhal. A medida que
retirava o musgo que suavemente cobria a laje, ia tornando os contornos
da inscrição mais visíveis. Reparou entretanto que por detrás de uns
arbustos que encobriam aquela rocha existia um pequeno buraco, onde cabia
apenas uma mão. Espreitou lá para dentro, assegurando-se que não havia
nenhum animal indesejado e fechando os olhos e semicerrando os dentes,
enfiou lá o braço, tacteando, até encontrar algo. Segundos depois, sob os
olhares atentos e expectantes dos amigos, sentiu-se agarrar qualquer
coisa.
- Uma pedra... parece que há aqui uma pedra! - exclamou.
- Puxa-a cá para fora... agarra-a... - disseram os dois jovens.
215
Nem queriam acreditar no que viam, quando por fim, Catarina retirou o
braço daquele orifício.
- Mas é... é um galo! - exclamaram, em uníssono.
Catarina, olhando atentamente para a pedra, verificou que era de um tipo
diferente, mais escuro... a textura polida da pequena escultura fazia
crer que aquela peça encaixava em algum local... como... uma chave. Foi
então que, agarrando-a com ambas as mãos, a colocou no orifício onde se
via um galo semelhante aquele, por cima da palavra V.I.T.R.I.O.L... Nada
aconteceu. Reparou ainda que a peça, ao invés de encaixar na perfeição
dentro do buraco existente na rocha, saía ligeiramente. Agarrou-a e
sentiu que toda aquela estrutura girava. Começou a rodar, dando-lhe uma
volta completa, até dar um estalido.
Estacou a olhar para Renato e Abel, verdadeiramente maravilhados com
aquela surpresa.
- Continua... dá mais uma volta... diziam.
Catarina deu mais uma volta, até fazer soar novamente o estalido, e ainda
outra, e ao terceiro estalido, subitamente a porta começou a deslizar,
abrindo-se totalmente diante do olhar fascinado e aturdido dos três
jovens, deixando revelar uma enorme e íngreme escadaria que descia até às
profundezas.
- E agora?... Descemos? - perguntou Abel.
- Amigos... - disse Renato - ... vamos prometer uma coisa... vamos fazer
aqui uma jura... e começou a proferir algumas palavras, pedindo aos
amigos que o acompanhassem. - "Prometo guardar o mais profundo silêncio
sobre todas as exigências a que, for exposta minha coragem".
- Juro! disseram os outros jovens em uníssono, colocando a mão direita
sobre o peito.
E iniciaram a descida, logo de seguida, iluminados pelos archotes.
Desceram em espiral, de quinze em quinze degraus, os nove patamares desta
imensa galeria e viram-se, momentos depois, num amplo recinto, rasgado
por inúmeros túneis labirínticos que perfuravam o mundo subterrâneo. Sete
portas, no total, todas elas fechadas, à excepção da primeira, que se
abria para o centro da Mãe Terra. No centro da sala, uma pequena nascente
natural. Gota a gota, a água pendia do tecto húmido, depositando-se num
pequeno charco que se formava, no centro do compartimento.
Os três amigos correram para a pequena poça de água límpida e ajoelharam-
se, observando o reflexo dos seus rostos na água. Catarina remexeu a
limpidez do fluido, julgando ali encontrar a pedra oculta a que a
mensagem se referia, mas nada encontrou, apesar do lamaçal revolvido.
- Não há aqui nada! - exclamou.
- Tal como disse o Mestre... apenas nós e a nossa consciência interior. É
isso que nos lembra o reflexo na água. Tal como Narciso... olhamos o
nosso rosto reflectido na água... disse Renato. - Não nos devemos, no
entanto esquecer do objectivo que aqui nos trouxe... senão incorremos no
mesmo erro do rio de Narciso... - e começou a falar sobre aquela antiga
lenda aos dois amigos:

« Narciso era um belo rapaz que, todos os dias, ia contemplar a sua


beleza num lago. Era tão fascinado por si mesmo que certo dia caiu dentro
do lago e morreu afogado. No lugar onde caiu, nasceu uma flor, que
chamaram de narciso.
Quando Narciso morreu, vieram as deusas do bosque e viram o lago
transformado, de um lago de água doce, num cântaro de lágrimas salgadas.
- Por que chorais? - perguntaram as Oreiades (94) ?
- Choro por Narciso! - respondeu o lago.
- Ah, não nos espanta que choreis por Narciso - continuaram elas. Se,
afinal de contas, apesar de todas nós sempre corrermos atrás dele pelo
bosque, vós éreis o único que tinha a oportunidade de contemplar de perto
a sua beleza.
- Mas Narciso era belo? - perguntou o lago.
- Quem mais do que o lago poderia saber disso? - responderam surpresas as
Oreiades. Afinal era em suas margens que ele se debruçava todos os dias.
O lago ficou algum tempo quieto e por fim disse:
- Eu choro por Narciso, mas jamais havia percebido que Narciso era belo.
Choro por Narciso porque, todas as vezes que ele se deitava sobre minhas
próprias margens eu podia ver, no fundo dos seus olhos, minha própria
beleza reflectida ».
- Vede... - gritou Abel, repentinamente, ao reparar nas inscrições que

(94). Oreiades - Deusas do Bosque.


217
se liam sobre cada uma das sete ombreiras. Começou a entoar em voz alta:

« Pelos quatro elementos te purificarás... pelas três virtudes


passarás... do terceiro raio te libertarás... e no cinturão do caçador
encontrarás... as três idades do Divino Espírito Santo... o Testemunho de
verdade e fé... cuja chave das estrelas libertará ».

Cada uma das expressões se inscrevia sobre cada uma das portas, mostrando
um percurso, um caminho a percorrer dentro daquele enorme subterrâneo.

- Amigos, o Mestre falou numa prova! Creio que estamos perante ela mesma.
Devemos unir-nos a fim de a superarmos - disse Renato. Que os objectivos
maiores que aqui nos conduziram olhem pelas nossas almas nesta procura
que iniciamos, viagem ao eu profundo e aos sagrados mistérios que nesta
loca subterrânea se encerram.
- Estamos de acordo! - responderam Abel e o Ruivo. - Fazemos nossas, as
tuas palavras, Renato.
E juntos abriram a primeira porta: Pelos quatro elementos te
purificarás...
Ao atravessarem a primeira porta, a mão de Renato tocou levemente a mão
de Catarina, ainda na pele de João Sanches e ambos coraram. Estavam lado
a lado caminhando com os pés sobre a terra, procurando mantê-los
afastados dos pequenos círculos que escondiam armadilhas poderosas. Abel
seguia um pouco mais atrás e resolveu atirar uma pedra a um desses
círculos, para ver o que acontecia... foi surpreendido por um conjunto de
setas que se projectavam abruptamente sobre o preciso local onde o
círculo se localizava. Pisar uma dessas ciladas seria morte certa. À
medida que caminhavam, a terra ia-se tornando mais quente, até ficar em
brasa. Deveriam agora atravessar uma vasta extensão de incandescentes
ardências que lhes queimavam os pés, sempre flanqueados pela água
purificadora de um imenso rio interior que lhes reservara algumas
surpresas.
- Mal se aguenta o calor das brasas inflamadas que rolam sob os nossos
pés! exclamou a jovem dissimulada. - Porque não seguimos pela água. Por
certo seria mais suave o percurso.
A jovem parou para refrescar os pés que lhe queimavam, entrando na água e
avançando até esta lhe cobrir os joelhos.
- Não me arrisco a ser sugado para o interior da terra por estranhos
seres que não domino. Não colocarei um só pé nessas águas... correremos
sérios riscos se o fizermos, quer-me parecer - Abel estava decidido... ia
atrás dos amigos a testar as armadilhas e não detinha confiança nenhuma
naquele rio, pejado de perigos invisíveis.
- Não vejo aqui nenhum monstro, Abel. O único perigo que vislumbro, julgo
que é um jovem judeu de seu nome...
Foi surpreendida por uma estranha sensação. A terra movia-se sob os seus
pés, engolindo-a a cada movimento. Estava em areias movediças. Entrou em
pânico, debatendo-se para sair daquele local e amaldiçoando-se por
contrariar o amigo naquela hora.
219
- Socorro! - gritou. - As águas puxam-me para dentro de si... estou em
terreno movediço!
Renato, com os pés em brasa, queimados pelos tições, esqueceu-se
completamente do terreno acidentado que pisava, ao ver o amigo naquele
tormento.
- Aguenta-te Ruivo!... Vou tirar-te daí!... - disse, com preocupação
visível.
- Depressa... ajudai-me!...
- Estende-me o embrulho que carregas às costas!... é comprido... só assim
poderemos puxar-te! - disse Renato.
- Despacha-te!... É a única solução!... dá-nos o embrulho... se entramos
na água, morreremos todos, sem que nos possamos salvar - insistiu Abel.
Não havia tempo a perder e a jovem, com a ajuda das suas mãos, retirou o
embrulho de serapilheira que carregava às costas, contendo a espada de
seu pai, e esticou-o na direcção dos amigos. Renato e Abel puxavam-no com
toda a força que tinham, distraindo-se do chão em chamas que lhes
queimava os calcanhares. O limo alcançava já o Ruivo pelas coxas. Movia-
se com dificuldade, mas encontrava-se já mais próximo dos amigos. O plano
resultara. Aos poucos, estes iam-no puxando, conseguindo por fim alcançá-
lo e trazê-lo até à margem, onde lhes foi mais fácil resgatá-lo. Os três
juntos, amparando-se uns nos outros, fatigados e aturdidos, fugiram
daquele local inóspito até encontrarem terra firme. Esticaram-se então ao
comprido, recobrando forças para continuarem aquela empresa.
Não refeitos do susto, detiveram-se pouco tempo no descanso,
surpreendidos por um forte cheiro a enxofre, que lhes dificultava a
respiração. Tinham alcançado um pouco mais à frente, as fumarolas de água
quente, que libertavam os gases sulfúricos vindos das profundezas da
terra. O cheiro tornava-se insuportável à medida que avançavam, mas
aquele caminho era irreversível, não poderiam voltar para trás. A
dificuldade que sentiam ao respirar fazia-os tossir. Cobriam a boca com
as mãos e avançavam por entre as nascentes naturais aturdidos pelo cheiro
insuportável do enxofre.
Pelas suas contas, se tinham que passar por todos os quatro elementos, a
fim de se purificarem, já deviam estar no final daquele percurso.
Recordavam-se já do fogo, da terra, do ar... e até da água.
O cheiro a enxofre foi diminuindo, fazendo-se sentir com menos
220
impacto. Foi então que avistaram uma cascata natural numa sala
cilíndrica. Parecia ter terminado o trajecto. Exaustos, olharam a
limpidez daquela água e resolveram molhar os seus pés em ferida e
refrescar-se. Naquele cenário lindíssimo parecia já não haver perigo.
- Como se sairá daqui? Teremos de voltar para trás? - perguntou Abel.
- Provavelmente, daqui parece que não iremos a lado nenhum! - respondeu-
lhe Renato.
Deram pela falta do amigo. João Sanches havia desaparecido e isso
inquietou-os.
- Ruivo... ó Ruivo! - chamaram, olhando em todas as direcções.
A situação era preocupante e o Ruivo parecia de facto não estar em parte
alguma. Nem vestígios dele. Ouviram uma voz que lhes pareceu familiar uns
minutos depois:
- Ei... vinde por aqui!... há uma saída... - O amigo saía detrás da
cascata chamando-os. - Renato, Abel... aqui atrás da queda de água... Os
amigos entreolharam-se mais tranquilos. Respiraram fundo. Afinal tinha
sido apenas um susto.
- Sabeis, junto à casa de meus pais havia uma cascata semelhante a esta e
escondia uma passagem secreta no seu interior. Lembrei-me de confirmar se
aqui se passava o mesmo... e... surpresa!
- O que nos vale Abel... é que temos um amigo inteligente! - gracejou
Renato, orgulhoso.
Poucos minutos depois voltaram a encontrar-se dentro da sala de onde
haviam partido. Entravam na dita câmara, exactamente pelo mesmo local por
onde tinham entrado da primeira vez. Tudo aquilo era intrigante.
Restava-lhes agora seguirem até à porta número dois que lhes dizia: pelas
três virtudes passarás... Foi então que repararam que a primeira porta se
havia fechado.
A sala para onde abria a segunda porta era ampla e tinha apenas três
pilares, dispostos de maneira a formar um triângulo, símbolo máximo da
perfeição e do equilíbrio. O chão, organizando-se em amplas quadrículas
brancas e pretas assemelhava-se a um jogo. Parecia um imenso tabuleiro de
xadrez.
- Três colunas... três virtudes. Pelas três virtudes passarás... - dizia
221
a mensagem... - Catarina pensava alto e procurava entender aquele enigma.
Abel virou-se para os amigos e disse-lhes:
- Temos aqui o mundo físico ou natural representado pelo sustentáculo da
força; o mundo espiritual ou metafísico, simbolizado pelo esteio da
perfeição e o mundo divino, expresso pelo apoio da sabedoria...
omnipotência, omnisciência e omnipresença da essência do divino, porque
tudo está ligado e unido. Tudo isto se relaciona com a construção do
Templo de Jerusalém, no tempo de Salomão uma das primeiras casas de Deus.
Salomão, com toda a sua sabedoria é conhecedor da tríade (Força,
Perfeição, Sabedoria) e encarrega Hiram, um arquitecto de Tiro para a sua
construção. O templo foi fundado com base no Tabernáculo, erguido por
Moisés, para receber a Arca da Aliança e as Tábuas da Lei..
- Força, perfeição e sabedoria... as três virtudes - repetia Catarina,
fascinada.
- Estes ensinamentos, aprendi-os com o meu tio Abraão. No pilar da força,
repousa o punhal, símbolo da agressividade. Desta maneira, chega-se ao
pilar da perfeição, onde encontramos a pedra bruta, já com os
instrumentos de trabalho postos às nossas mãos a fim de que iniciemos o
trabalho árduo de desbastá-la, utilizando-se do malho e do cinzel que vêm
a ser, vontade e julgamento. Iniciando, pois a nossa jornada, auxiliada e
conferida pela rectidão do prumo, encontramos à nossa direita a lâmpada,
sua chama ilumina o saber ou o ser interno, pois só se pode caminhar nas
trevas em direcção à luz, a qual atrai nossa natureza espiritual e
material. Continuando nessa busca incessante, dirigimo-nos ao pilar da
sabedoria, reconhecemos, que a força verdadeira não se encontra no
exterior, no mundo dos efeitos, porém, "a fim de que vendo não vejam,
ouvindo, não ouçam", portanto "procurai e achareis, batei e abrir-se-vos-
á". Pela acção combinada dos dois instrumentos, colocamo-nos em harmonia
com nossos semelhantes, o que nos permite progredir na senda do bem.
Depois do homem bruto, conseguimos o homem com conhecimento que é, na
realidade, a pedra filosofal dos alquimistas.
- Mas o que devemos fazer para superar esta prova, que ensinamentos
deveremos tirar daqui? inquiriu Renato.
222
- Julgo que as três virtudes testam a nossa postura nesta demanda.
Devemos colocar à prova estas qualidades: Sabedoria, que orienta, Força,
que executa, e Perfeição, que embeleza as acções, para que possamos
realizar com exactidão os nossos trabalhos. O céu é a imagem do infinito,
as estrelas representam a ideia Divina que nos descobrem o mundo da
realidade e da verdade, porque a perfeição é infinita, representada pelo
sol que nasce no Oriente, fonte natural de luz e da sabedoria e do
princípio criador. Vinde, amigos.
Abel chegou-se à frente e colocou-se entre as colunas, juntamente com os
outros jovens, fechou os olhos, vociferou uns dizeres e à frente deles,
surgiu um enorme clarão de luz.
- Conseguiste Abel!... Conseguiste, amigo!... - exclamaram os seus
companheiros, com a alegria estampada na face. Renato e Catarina
abraçaram-se entusiasmados e deram vivas por mais aquela porta que abria
diante deles.
- Sabes Renato, entre os pedreiros livres há códigos de identificação
para que por todo o mundo se reconheçam aqueles que são detentores dos
segredos construtivos sagrados. Juntamente com o meu tio, fui iniciado
nesses mistérios e possuo alguns conhecimentos que nos poderão ajudar
aqui. O Templo de Jerusalém demorou sete anos a construir e empregou
cerca de 100.000 operários, incluindo 8.000 pedreiros. Como era
impossível reconhecer tantos servidores, o Mestre Hiram classificou-os em
várias classes ou categorias e deu-lhes, para os reconhecer e se
reconhecerem entre si, palavras que serviam de passe.
Os três jovens seguiram caminho e de novo se encontraram no salão de onde
haviam inicialmente partido. A segunda porta tinha-se fechado e abria-se
agora a terceira, por onde deveriam seguir.
- Do terceiro raio te libertarás... - Renato recordava o enigma a vencer.
Em silêncio, de novo entraram numa câmara, na qual se encontrava apenas
um altar, sob o qual repousava uma pedra, onde se lia:

« O Mar interior de Manitoba`99 recebe a chama rosa da coesão, da força


do amor e das actividades de construção ».
223
« Pelas três virtudes passarás,
três Marias encontrarás,
para chegar à Divindade estrelar,
O seu nome deverás entoar,
E o guardião de Winnipeg terás de passar ».

- Três Marias! - exclamou Catarina. - O seu pai dissera-lhe para seguir


as três Marias... que no cinturão de Orion encontraria a resposta... -
olhou para o seu braço e recordou a história que a mãe lhe contara sobre
aquele deus caçador.
- Como iremos saber onde fica Manitoba? O que será a chama rosa da
coesão? - questionavam-se Abel e Renato.
- Amigos... - disse-lhes Catarina - ... julgo que este enigma gira em
torno de uma constelação estrelar, que tenho gravada no meu braço!
Os seus companheiros entreolharam-se surpresos, segurando-lhe o braço e
observando os sinais a que se referia. Catarina contou-lhes a história
do deus caçador e ali se detiveram mais um pouco, procurando compreender
o que quereria o enigma dizer com o guardião de Winnipeg.
Renato, à medida que reflectia sobre aquelas palavras de sigilo,
circulava pela câmara, em círculo, detendo-se junto a uma pedra, onde viu
um símbolo que não lhe era estranho: um escorpião.
- Vinde ver... depressa... vinde aqui ver... - chamou os amigos. - Um
escorpião! - exclamou Abel.
- Claro... o guardião... o terrível combate que Orion travou com o
escorpião levou os deuses a separá-los. A constelação de escorpião
encontra-se realmente na região oposta da esfera celeste face à
constelação de Orion, daí nunca se conseguirem encontrar estas duas
constelações ao mesmo tempo acima do horizonte.
- Se encontrámos o guardião... resta-nos entoar o nome da divindade...
Orion!
- Estais preparados?... - em uníssono, repetiram o nome da constelação,
mas nada aconteceu.
Andaram às voltas, cada um pensando para si o que poderia querer dizer
aquele enigma. Passaram infindáveis minutos fechados naquela sala,
procurando chegar a uma resposta, um sinal... até que...
- Como não compreendemos logo? ... como foi possível?... - na mente de
Catarina fizera-se luz - ... Claro... se as constelações são opostas,
também aqui a representação da divindade estrelar será oposta! e dirigiu-
se para a parede contrária ao local onde Renato havia avistado o
escorpião, procurando aí a confirmação das suas expectativas.
Encontraram uma pilha de pedras, cada uma contendo um carácter simbólico.
- Mas... são as letras do alfabeto - disse Abel, admirado.
A parede de pedra apresentava um orifício rectangular, bastante
disfarçado e perfeitamente inserido na continuidade que formava, era
supostamente a porta que os tiraria dali, na qual figuravam seis
saliências dispostas em hexágono, com o exacto tamanho das pedras onde se
inscreviam os caracteres.
- Abel, essas pedras devem ser encaixadas nestas saliências para que
formem a chave que procuramos: Tudo nos leva a crer que seja Orion. É
necessário que faças as correspondências para que encaixemos as pedras.
Abel começou a pensar na forma como se deveriam dispor os caracteres. Aos
poucos foi passando pedra a pedra aos amigos, para que estes as
encaixassem nos orifícios. Ao colocarem a última pedra, verificaram que
Orion tinha apenas cinco letras... começavam a desanimar.
- O que poderá ter corrido mal? Abel, tens a certeza de que são estes os
símbolos? - perguntou Renato ao amigo.
- Tenho... só se falhamos o nome da divindade. O «Calendário em pedra» da
Grande Pirâmide de Gizé, no Egipto, descreve o chamado «Ciclo Phoenix».
Os egípcios registaram histórias de «caminhantes das estrelas»,
indivíduos ocasionais que, como Henoch, viajaram além do «Grande Olho de
Orion» e voltaram, para andar como deuses entre os homens. Segundo muitas
lendas da terra, estes seres retornam regularmente, no início e no fim de
cada ciclo. As três pirâmides de Gizé têm sido comparadas às três
estrelas que formam o cinturão de Orion, «as três Marias», visíveis no
céu entre Novembro e Abril, do lado do pôr-do-sol, no início da noite.
Henoch visitou assim sete mundos diferentes do nosso. Viu neles criaturas
aladas com cabeças de crocodilo e pés e caudas de leão. No sétimo mundo,
encontrou pessoalmente o criador dos mundos que lhe explicou a formação
da Terra e do Sistema Solar. Henoch afirma que, para ele, a viagem durou
poucos dias, mas quando voltou para Terra, séculos haviam passado.
- Mas então.., este conhecimento implica que os humanos
225
tinham a intenção de evoluir além da presente forma terrestre, como nos
ensinam as sagradas escrituras! - disse Renato.
- Acham que um homem se pode tornar maior que os anjos? - perguntou
Catarina.
- Meus amigos, creio que os antigos mistérios assim o dizem... podemos
tentar então agora colocar nos orifícios as seis letras que formam o nome
de HENOCH, recordando o facto deste homem se ter evidenciado para lá do
grande «Olho de Orion». Que dizeis?... Ainda temos que percorrer mais
quatro caminhos... depois, logo veremos se ganhamos asas!...-gracejou
Abel.
Todos concordaram... pouco mais poderiam fazer. E tinham razão. Segundos
depois de colocarem a última pedra, a porta moveu-se. Tinham superado
mais uma prova.
Entraram, através da sala da nascente de água, já deles bem conhecida,
pela quarta porta, que lhes dizia: «... e no cinturão do caçador
encontrarás... », e viram, esculpida em pedra, a imagem de um caçador, de
braço direito erguido, segurando na mão direita um pau e na mão esquerda
um arco. Às costas carregava as flechas e da sua cintura pendia o
referido cinturão, vazio, com um orifício escavado na pedra, no local
onde deveria estar a espada.
- Parece faltar aqui qualquer coisa... - disse Abel.
- Parece-me ser uma espada... - respondeu-lhe Renato, sentando-se no
chão, cansado, mas sobretudo desanimado. Nenhum deles tinha ali uma
espada que pudesse colocar no local... e... ou muito se enganava, ou não
poderia ser uma qualquer espada! Agora é que não prosseguiam mais naquela
descida ao interior da terra. A rectificação ficar-se-ia por ali mesmo.
Renato pensava, à medida que olhava para o Ruivo... ou a Ruiva. Ainda não
haviam falado sobre as novas descobertas que animavam o seu coração.
Seria o seu amor correspondido ?
Catarina, num impulso, com um sorriso rasgado e uma profunda serenidade
interior, retirou o pesado embrulho de serapilheira que carregava às
costas, e para grande surpresa dos amigos, revelou-lhes um achado
precioso: uma espada lindíssima, com um punho feito à semelhança da
espada do Rei Salomão, no qual figurava a estrela de David, o Menorah
judeu de sete braços, dois grifos alados, com corpo de leão e asas de
águia e uma inscrição, por baixo do «olho que tudo vê» que dizia: ORION.
Abel e Renato ficaram em silêncio, deslumbrados ante tamanha surpresa,
quando a jovem ergueu aquela espada com ambas as mãos, voltando-se para a
imagem do grande caçador, localizada a Sul, dizendo:
- Eis-me aqui ó poderes do Fogo!
Voltou-se para Norte, o lado oposto e disse:
- Eis-me aqui ó poderes da Terra!
Dirigiu o olhar para Nascente e disse:
- Eis-me aqui ó poderes do ar!
Por fim, virou-se para Oeste e disse:
- Eis-me aqui ó poderes da água!
E continuou:
- Que a minha mente se abra à vossa verdade, que a minha boca permaneça
silenciosa entre os descrentes, que o meu coração busque sempre a
sabedoria eterna...
Os dois jovens permaneciam em silêncio, enquanto a jovem incógnita
continuava:
- … que as minhas mãos se ergam em vosso louvor, que os meus pés trilhem
sempre os vossos secretos caminhos! Por meu pai... por Carmen e minha
mãe... pela tragédia e sofrimento... devolvo esta espada àquele que é o
seu lugar. Que repouse enfim, antes anunciando os insondáveis caminhos a
que aspira!
E com um gesto seguro, enfiou a espada no local que lhe estivera sempre
destinado. Durante tantos e tantos anos aquele gládio repousara no
secretismo, para enfim revelar o seu propósito.
Uma imensa luz despontou naquele aposento, enchendo todos os presentes de
uma imensa sensação de bem-estar interior. Naquela vibração de amor
divino, muito mais que um propósito simples era libertado. Havia-se
cumprido, através da coesão e unificação de vários símbolos perdidos, uma
descoberta preciosa e incalculável.

- Quem és tu ? - uma voz forte soou por trás dos jovens, fazendo-os
estremecer.
Catarina voltou-se para trás, e para enorme admiração sua, viu nove
homens veneráveis, que revelavam as suas conhecidas identidades ao
retirar o capuz com que se cobriam: Gualdira Pais, Lopo Fernandes, Fernão
Afonso, João Arnaldo Domingues, Nuno Fafes, Gaspar Gomes, Paio Sanches,
Estêvão Martins e por fim, fr. Antunes Duval. Ali, juntamente com Abel e
Renato, reunia-se toda a comparsaria.
Voltou-se para os cavaleiros, para o monge, e para os jovens amigos, e
disse, com orgulho:
227
- Senhores... sou Catarina Viegas, filha de Sancho Viegas... e juntei-me
a vós nesta empresa, enquanto portadora da sua espada mágica, que minha
mãe, Clara, depois da trágica morte de meu pai, me pediu para devolver ao
Mestre do Templo. Reconheço agora os seus desígnios... e por isso, e pelo
extremo pesar e saudade que sinto por meu pai, outrora cavaleiro do
templo, vo-la entrego, revelando a minha identidade oculta e pedindo que
me desculpeis por não ter sido inteiramente sincera convosco, senhor D.
Gualdim - Catarina dirigia-se agora a Gualdim Pais, entregando-lhe a
espada de Orion.
- Jovem Catarina... conheci muito bem o teu pai... estive com ele no
Egipto, juntamente com o Mestre Abraão. Era meu amigo pessoal... dizes
que já não se encontra entre nós?
E Catarina contou aos presentes a sua história, como tinha conseguido
escapar à sua sina maldita e como ali chegara.
Todos os presentes se ajoelharam diante daquela mulher, marcada pela
força e pela coragem, que sem saber, tinha consagrado um enorme préstimo
ao reino de Portugal.

Capítulo 33
UMA VISITA IMPREVISTA

Depois de terem saudado o Mestre Gualdim e todos os cavaleiros, os jovens


dirigiram-se à quinta sala, acompanhados dos nove, e falavam entre si.
- Abel... disse Renato. - O Ruivo é uma mulher!... Chama-se Catarina...
- Sentes-te triste com a descoberta, Renato? - perguntou Abel. - Não é
que me sinta triste... mas é tudo tão estranho...
- Deixa lá isso agora... teremos tempo de falar sobre o assunto quando
sairmos daqui, não te parece?
- Meus amigos... este momento solene merece ser festejado!... Erguei as
vossas espadas! - ordenou o Mestre.
E os cavaleiros assim fizeram.
- Catarina... pega na espada de teu pai... e representa, entre nós, esse
grande amigo que foi Sancho Viegas.
Ela assim fez, erguendo a espada.
- Irmãos... prestemos homenagem a este nosso irmão, Sancho, que dedicou
parte da sua vida à procura dos antigos mistérios - E continuou. - Por S.
Jorge, S. Miguel, e Santa Maria!
- Ala Ala, Arriba! responderam os restantes.
- Por D. Afonso, El-Rei de Portugal! - exclamou o Mestre.
- Ala Ala, Arriba! voltaram a responder os monges-guerreiros.
- Três portas se abrem diante nós: as três idades do Divino Espírito
Santo... testemunho de verdade e fé... cuja chave das estrelas libertará.
As três são uma só - disse o Mestre. - Duval, tens a palavra - disse
voltando-se para o monge.
- Irmãos, Joaquim de Flora nasceu em Celico, província de Cosenza, na
Calábria, por volta de 1132 e faleceu a 30 de Março de 1202, Sábado da
Aleluia daquele ano, na pequena abadia de San
229
Martino di Canale, também na Calábria. Em peregrinação à Terra Santa,
Joaquim aprofundou a sua fé, entregando-se a um intenso misticismo,
aparentemente em resultado de ter presenciado uma grande calamidade,
talvez uma epidemia de peste. Passou então a Quaresma desse ano em
contemplação no Monte Tabor, onde se diz ter recebido em visão a
inspiração divina que terá guiado o resto da sua vida...
- Mas, fr. Duval... o que tem esse Joaquim de Flora ver com os
Testemunhos! - disse Renato, procurando o sentido de tudo aquilo.
- Deixa-me continuar, filho... já vais perceber... tomou o hábito
beneditino de Cister na abadia de Corazzo e foi ordenado padre. Após a
ordenação, passou a dedicar-se inteiramente ao estudo das Sagradas
Escrituras, procurando o seu significado mais profundo. Alguns anos mais
tarde, tendo ganho fama de sábio virtuoso, foi eleito abade, embora
contra a sua vontade. Passou os anos seguintes na abadia de Casamari,
trabalhando de forma dedicada nos seus livros. No ano de 1200, Joaquim de
Flora submeteu publicamente os seus escritos ao exame do papa Inocêncio
III, mas faleceu no Sábado Santo desse ano, antes de ser proferido o
julgamento eclesiástico. Teve de imediato fama de santo e diz-se que
foram concedidos milagres por sua intercessão... Nessa interpretação do
texto sagrado existiriam três estádios, ou Idades da História, no
desenvolvimento do Mundo e da Igreja de Deus, correspondentes às três
Pessoas da Santíssima Trindade. A Primeira Idade, correspondeu ao governo
de Deus Pai, e é representada pelo poder absoluto, inspirador do temor
sagrado que perpassa o Velho Testamento. Correspondeu ao tempo anterior à
revelação de Jesus Cristo. A Segunda Idade inicia-se pela revelação do
Novo Testamento e pela fundação da Igreja de Cristo, em que, através de
Deus Filho, a sabedoria divina que tinha permanecido escondida da
humanidade se revela. A Terceira Idade que há-de vir, corresponde ao
domínio da Terceira Pessoa. Será o advento do Império do Divino Espírito
Santo, um tempo novo onde o Amor universal e a igualdade entre todos os
homens, isto é, entre os cristãos e os não cristãos, serão alcançados. No
Império do Divino Espírito Santo, as leis evangélicas serão finalmente
realizadas, não só na sua letra mas no seu espírito, isto é, a mensagem
que nelas está escondida será finalmente compreendida e aceite pela
humanidade. Na Terceira Idade, não haverá necessidade de instituições
disciplinadoras da fé, já que esta será universal e baseada directamente
na inspiração divina, pelo que poderão ser dispensadas as estruturas
institucionais do poder temporal da Igreja. Qualquer plebeu será
Imperador, já que a sabedoria divina a todos iluminará igualmente...
- E são precisamente os escritos deste homem, meus irmãos, que nos dão o
testemunho a que pretendemos chegar - rematou o Mestre, apontando para a
pomba branca que poisava sobre o altar sagrado, protegendo-o.
- Liher Concordiae Novi ac Veteris Testamenti, Expositio in Apocalipsim e
Psalterium Decem Chordarum! disse o monge, tomando nas suas mãos o
inestimável manuscrito de Joaquim de Flora - Enfim!...É esta a proposta
para que o Homem Novo ressurja da sua velha casca, pela acção do Espírito
Santo.
No sexto compartimento, deparavam-se novamente com um enigma. Tratava-se
de chegar à chave que abriria o acesso à leitura e conhecimento do
testemunho deste homem santificado. Lia-se, cravado numa pedra da parede
de um salão, completamente vazio:

« Na Espada reside a força,


Na espada, a sabedoria,
Na espada, a beleza também.
E tu possuis a espada!
Pelo cinturão de Orion passastes,
Às três idades chegastes,
Fogo, terra, ar e água enfrentastes.
Pelo quinto elemento ansiastes.
Irmão, pega na espada,
A rosa é a tua morada! »

Catarina leu alto o enigma. Posto isto, devolveu a espada de Orion ao


Mestre do Templo. A sua jornada tinha chegado ao final... agora pertencia
à Ordem prosseguir as descobertas que julgasse por bem. Gualdim olhou
para a espada e recordou a última conversa que tinha tido com Sancho
Viegas, o pai de Catarina, quando se separaram, junto à Núbia. Nunca mais
se voltaram a encontrar. Sancho Viegas, ao regressar ao reino, durante
anos forjou aquela espada e trabalhou o punho,
231
com base naquilo que conhecia da mítica espada do Rei Salomão, não
descurando nenhum pormenor. Sabia que um dia chegaria ao local onde se
encontravam nesse momento. Quis o destino que fosse sua filha a chegar
ali primeiro. Distraído nos seus pensamentos, reparou num pequeno
pormenor que encimava aquela lindíssima empunhadura.
- Mas é... uma rosa! ... - exclamou.
Olhou com mais atenção... e... qual não é o seu espanto... quando
descobre uma pequena fechadura, em torno daquela flor mágica. Muito
discretamente, Sancho Viegas tinha ali colocado aquela rosa, para
esconder um bem tão precioso quanto secreto. Dirigiu-se a todos os
presentes:
- Creio ter descoberto o enigma, irmãos!... a rosa é de facto a nossa
morada! abriu aquele fecho com o máximo cuidado e precisão, e retirou do
seu interior, uma pequena chave, que partilhou alegremente com os
restantes cavaleiros, Abel, Renato, Catarina e o monge fr. Duval.
Descontraídos, felizes e ansiosos por aquela descoberta, não contavam com
o imprevisto que o destino lhes preparara. No amplo salão da nascente
entravam agora sete homens que lhes perturbavam essa tão almejada
alegria.
- Ora, ora... se não é D. fr. Gualdim e os seus comparsas!... - exclamou
o homem, entoando um sotaque estranho.
- Pepe... que fazeis aqui ?
- Entrai, meus senhores, muy nobres hombres de la Casa Real de Castela...
Senhor D. Fernan e Senhor D. Bernardo... - continuou o galego traidor.
- D. Gualdim... entregai-me os Testemunhos! - ordenou-lhe Fernão Peres de
Trava.
- Julgais que vo-los dou assim?... Enganais-vos!
- Vimos vingar o nosso encarregado. D. Joaquim não terá morrido em vão...
- insistiu Pepe.
- D. Joaquim matou-se! - respondeu Gualdim. - Nada tenho a ver com a sua
morte!
- Mentis... - disse Fernão Peres de Trava, aproximando-se de Gualdim.
E os cavaleiros que acompanhavam o Mestre Gualdim Pais desembainharam
todos as espadas, preparando-se para o pior. Renato e Abel não tinham
qualquer forma de se defender e agarraram em algumas das tochas que
iluminavam o salão. Catarina segurava mais uma vez a espada de seu pai, e
ao ver Gualdim defender-se de uma investida que D. Fernão lhe empregara,
chegou-se para junto de fr. Duval. Os restantes cavaleiros afrontaram
sobre os homens de Castela, que acompanhavam os Trava.
- Em guarda... - gritaram em uníssono, avançando com as espadas
empunhadas.
Estava gerada a confusão. Cada homem defendia-se conforme podia, tomando
a espada e esgrimindo-se pela defesa de um tesouro disputado entre
reinos. De repente, Catarina vê um dos galegos abeirar-se de Renato e
este, sem espada, aplicar-lhe uma acometida com a tocha que agarrava,
queimando-o.
- Renato... aqui! - E atirou-lhe a espada de seu pai, que Renato apanhou,
e beijou no punho, em sinal de deferência.
Lopo Fernandes, Paio Sanches, João Arnaldo Domingues, Gaspar Gomes,
Estêvão Martins, Fernão Afonso e Nuno Fafes batiam-se contra os
castelhanos, junto do Mestre, enquanto o monge fr. Antunes Duval,
segurava os preciosos Testemunhos de Joaquim de Flora, junto de Catarina,
protegidos pelo séquito.
- Diz ao teu Rei, El-Rique, que a mãe dele é uma reles sem vergonha nem
pudor! dizia Bernardo, enquanto se esgrimia com Gualdim Pais.
- És um vendido Bernardo... mas o teu reinado em breve terminará... a
Ordem tem-te debaixo de olho!
Bernardo soltou umas boas gargalhadas! - Antes que a Ordem me condene, já
eu estarei a salvo, carregando comigo os Testemunhos para com eles
negociar!...
- Sois um crápula! Não mereceis dó, nem piedade!... - posto isto, Gualdim
Pais feriu-o no rosto, fazendo-o imobilizar-se por breves segundos.
Fernão veio em seu auxílio.
- Julgais-vos muito esperto... não é D. fr. Gualdim? disse, em tom
provocatório, enquanto fazia rodopiar a espada em incríveis malabarismos.
Assim, e no meio de uma enorme algaraviada de gritos, acometidas e o
barulho estridente das lâminas expungindo-se, Pepe, sorrateiramente,
gatinhou no sentido do monge e do jovem que se dizia caçador de lobos.
Não os julgava armados.
234
Surpreendeu-os lateralmente, não lhes dando muito tempo para qualquer
tipo de resposta.
- Os Testemunhos!... Dai-me os Testemunhos... pediu ao monge, em tom de
ameaça, enquanto agarrava Catarina pelos cabelos e lhe apontava um punhal
à garganta.
O monge, impotente para contrariar o inimigo clamou por socorro, fazendo
com que o homem agarrasse Catarina com mais força e firmasse a sua
vontade de lhe imprimir uma golpada.
- Socorro!... acudi-me... gritava Catarina, estampando no rosto uma
expressão de terror.
O monge viu-se obrigado a ceder. Fosse o que Deus nosso Senhor ordenasse.
À medida que Pepe caminhava para a saída, com o precioso manuscrito
debaixo do braço, o monge gritava:
- Acudi ao traidor!... Gatuno... Alguém nos leva os Testemunhos... que a
justiça divina caia sobre os homens que renunciam à verdade do coração!
- Mestre... estamos a ser roubados! gritou Renato, enquanto se
precipitava para o homem que fugia.
- A Divina Providência se encarregará de nós e... destes traidores!
Todos os agressores tinham fugido, à excepção de um dos galegos que
trabalhara com Mestre Abraão na construção da Igreja de Santa Maria.
Tinha sido feito prisioneiro.
- Mestre... e agora ? - Renato ajoelhou-se aos pés do seu senhor. - O que
será de nós e do reino ? Sua Majestade confiou em vós uma nobre tarefa...
não havia direito!
- Castelhanos malditos! disse Lopo Fernandes. - Cuspo-lhes em cima!
- Calma, amigos... - disse Gualdim Pais, conservando o bom senso. - Ainda
nos resta a chave... sem ela, os homens de Castela não poderão abrir os
Testemunhos! E com um sorriso matreiro retirou-a de uma bolsa que
guardava presa à cintura, fazendo-a brilhar diante dos seus companheiros.
Catarina chegou-se junto do Mestre e disse-lhe:
- Senhor... não demos por concluída ainda a jornada que aqui levámos por
diante! Ainda nos resta uma porta. A última, é certo... mas enquanto as
outras se abriam para nós mal conseguíssemos superar a prova respeitante
à porta anterior, esta permanecia fechada!

« … cuja chave das estrelas libertará...» - diz o enigma - lembrou Abel.

Gualdim olhou para a chave que segurava na sua mão e dirigiu-se à porta,
experimentando-a na pequena fechadura. Um sorriso denunciou a resposta
levando todos os presentes a suspirar de alívio. Pouco depois, ante uma
exclamação de surpresa geral, a porta abria-se para eles, revelando os
mais intrigantes mistérios ocultos. Tesouros de incalculável riqueza,
acumulados pelos Cavaleiros Templários ali aguardavam o seu resplendor.
Entre eles, a Arca da Aliança onde foram colocadas as Tábuas da Lei nas
quais Moisés gravara os Dez Mandamentos do Senhor, e aquela que era
considerada a maior relíquia cristã, o Cálice Sagrado por onde Jesus
Cristo bebera na última Ceia e onde foi recolhido o seu sangue na cruz. O
ouro brilhava e levava aqueles homens a honrar os irmãos que tinham dado
a vida pela causa que defendiam esses grandes senhores de manto branco. A
Ordem dos Pobres Cavaleiros de Cristo e do Templo de Salomão reencontrara
um dos mais valiosos tesouros da humanidade, depositado naquele lugar
sagrado de seu nome Thomar. Guardado pela Terra Mãe e protegido por
enigmas que testavam a verdade e a fé dos homens ali iria permanecer à
guarda do Mestre do Templo e do Comendador daquela comenda templária. Ao
entrarem no interior da sala, pendendo do tecto como um retrato de
esplendor, via-se um pequeno delta (97), trabalhado em madeira de acácia,
no qual se via representada uma pomba e a estrela flamejante que seria
por certo a chave dos Testemunhos de Joaquim de Flora. Os homens de
Castela haviam levado a obra, mas não possuíam a chave.
- Tinham que recuperar aquele achado! pensava Gualdim Pais. -
Brevemente... estou certo que em breve o recuperaremos!
Todos se ajoelharam humildemente diante daquele esplendor. Apenas ao
prisioneiro foi vedado o acesso à câmara. Rejubilavam com o aparato da
extraordinária revelação.
- Não esqueçamos as palavras do Senhor... - disse fr. Antunes Duval,
abençoando os presentes. - Amarás ao Senhor teu Deus de todo o teu
coração, de toda a tua alma e de toda a tua mente e amarás

(97). Delta - Triângulo equilátero luminoso.

a teu próximo como a ti mesmo. Que nenhuma riqueza do mundo vos faça
esquecer isso mesmo.
Gualdim Pais levantou-se, e dirigiu-se aos onze companheiros ali
presentes:
- Irmãos, nada daquilo que aqui se passou hoje deverá ser revelado lá
fora, no mundo profano. Jurai por Deus que guardareis segredo, por tudo
quanto achais mais sagrado, das revelações, segredos e símbolos que aqui
vos foram revelados!
- Juro! - disseram em conjunto.
- Jurai pela vossa honra! - insistiu o Mestre.
- Juro! - repetiram todos em conjunto.
- Cristo, ao escolher seus apóstolos, usou o número «12» - continuou
Gualdim. - Também aqui hoje nos reunimos doze homens, unidos por um
propósito comum. Nove monges-guerreiros, um judeu e dois homens de bom
coração; um deles descobriu-se ser afinal uma mulher! - exclamou Gualdim,
sorrindo, e provocando risos nos demais. Temos connosco um prisioneiro de
Castela que a tudo assistiu. Por ser verdade... e porque à mesa de Jesus
se sentaram treze homens na última ceia, contando com Cristo, selaremos
um pacto de sangue, testemunhado por estas paredes que a tudo, connosco,
assistiram. Que nenhum de nós faça como Judas!
236

Capítulo 34
A REUNIÃO DO CAPÍTULO

O Mestre Templário tinha na Ordem o poder sobre tudo e todos, no entanto,


diz a «Norma» que ele não pode fazer frades sem Capítulo, por isso,
naquela manhã de Sexta-feira Santa, o Capítulo estava reunido. Renato
encontrava-se sozinho numa sala. Os frades estavam solenemente colocados
no seu lugar. Esta sessão do Capítulo tinha uma razão de ser diferente da
que se realizara uns dias antes. Gualdim Pais levantou-se e voltou-se
para os seus irmãos, dizendo:
- Meus Irmãos, a maioria de vós acorda que Renato Moniz, filho de Ramiro
Moniz, seja freire connosco. Se entre vós existir algum irmão que saiba,
alguma coisa, de modo a que ele não possa, por direito, ser freire. Então
que o diga agora, antes que ele se apresente diante de nós.
Os monges permaneceram calados.
- Então, que três irmãos se dirijam ao postulante.
Três frades, de entre os mais velhos, levantaram-se, saíram da sala em
que estavam, e dirigiram-se ao pequeno quarto onde estava Renato.
- Irmão Renato, demandas a companhia da casa?
- Sim! - disse Renato, quase em acto de desespero.
- Fica sabendo que as nossas regras são estas... - e começou a mencioná-
las.
« O Cavaleiro de Cristo é um cruzado, que não receia nem homem nem
demónio, e está permanentemente empenhado num duplo combate: contra a
carne e o sangue e contra as potências malignas na terra ou nos céus.
Vive lealmente e em comunidade, uma vida alegre e sóbria, sem mulher e
sem filhos, onde tudo é decidido em comunidade. A disciplina é uma
constante e a obediência é sempre respeitada. Os irmãos devem obediência
firme e cega ao Mestre da Ordem. Vai-se e vem-se, consoante a ordem
daquele que tem autoridade. Anda-se vestido de acordo com o que ele
forneceu; nem sequer passa pela ideia de
237
um monge ir buscar comida ou vestuário a qualquer outro lugar. A ocupação
é uma constante na Ordem; não há inúteis nem preguiçosos. Não há
preferência por ninguém, todos somos iguais. Aquele que é honrado é o
mais valoroso e não o mais nobre. O cabelo é usado curto, ao contrário da
barba que é comprida. E preferível a limpeza da alma à limpeza do corpo.
A oração do Ofício Divino é obrigatória. Depois de a missa ter acabado,
nenhum dos irmãos se deve incomodar em partir para a guerra. Os irmãos
devem evitar conversas desonestas. Não devem pedir o cavalo ou a armadura
dos seus confrades. Deve-se sempre dar graças a Deus depois da refeição
do meio-dia e da noite. Depois de rezadas as completas reina o silêncio
absoluto. Aos confrades recomenda-se o silêncio, pois falar demais não é
isento de pecado. Durante as refeições não é permitido aos confrades
trocarem palavras, pois a presença e leitura da Sagrada Escritura são
mais importantes que a palavra humana. Por último, os frades que ainda
não sabem a «Norma», devem imitar aqueles que a dominam ».
- Estás disposto a tudo suportar, por Amor a Deus?
- Sim! - disse Renato, como que fosse um boneco mandado. - Tens mulher,
esposa ou noiva?
- Não senhor! respondeu.
- Já fizeste alguma promessa ou voto noutra ordem?
- Não senhor!
- Contraíste dívidas que não podes pagar?
- Não senhor!
- Tens alguma doença escondida?
- Não! - disse Renato, com uma grande mágoa na alma.
- És servo de algum homem?
- Não senhor!
Os monges retiram-se e deixaram-no sozinho. Renato estava cada vez mais
perdido e desorientado. Depois de saírem do quarto, os monges, entraram
na Sala do Capítulo e disseram:
- Mestre, falámos com esse homem que nos pareceu honesto, mostrámos-lhe
as severidades da morada e ele diz que quer ser escravo da casa.
Gualdim repetiu-lhes as perguntas, e eles responderam conforme Renato
dissera.
- Quereis que o façamos vir aqui, por amor de Deus, Mestre?
- Sim façam-no vir aqui, por amor de Deus.
238
Os três monges foram buscar Renato. Seguiam em forma de cunha, ou
triângulo. Um vinha à frente, Renato no meio, e dois atrás. Bateram à
porta e deram-lhes entrada. Seguidamente, Renato ajoelhou-se, juntou as
mãos e disse:
- Mestre... venho diante de Deus... de Nossa Senhora, e de vós...
- Então? Passa-se alguma coisa? perguntou Gualdim.
Renato deixou a posição onde estava, ajoelhando-se aos pés do Mestre.
- Mestre, pedis-me mais do que aquilo que Deus me pede. Eu não posso, não
consigo! dizia Renato, chorando amargamente. - O meu coração não está
convosco. Não posso continuar.
- Ubi caritas et Amor Deus fbi est - disse Gualdim. - Renato levanta-te!
Onde haja amor e caridade, Deus aí está, tu provaste-o. Uma das coisas
que exigimos a um cavaleiro templário é que seja verdadeiro. E tu foste-
o. Não te podemos pedir aquilo que Deus não te pede. Vai em Paz. Terás
sempre um lugar entre nós. Irmãos, acompanhai Renato à porta do Capítulo!
- e continuaram as suas orações.
Renato saiu completamente atordoado. Era tal o seu estado, que não se
lembrava de ver nenhum frade na Sala do Capítulo. Tal como deveria ter
corrido a cerimónia se ele anuísse, o Capítulo rezou por Renato o Pai
Nosso, e em seguida o Capelão levantou ligeiramente a mão direita e
invocou o Espírito Santo, o consolador, sobre o jovem, para que Ele o
assista sempre:

- Vinde Santo Espírito e renovai a Terra. Mandai Senhor o Vosso Espírito


para que esteja à sua frente para o guiar; Atrás para o proteger; E
dentro dele, para o aconselhar:

Renato saiu a correr para a catedral que a natureza tinha construído: a


amurada do castelo. Ali estavam os seus dois amigos.
Catarina, assim que o viu, correu para ele e abraçou-o. Levou os seus
lábios aos seus, num gesto de doce entrega, que assustou Renato.
Abel ria que nem um perdido e a dado momento disse:
- Vocês têm que conversar!...
Renato sentiu os cabelos do cocuruto eriçarem-se e disse-lhe:
- Judeu de um raio!
239

Capítulo 35
A CONSAGRAÇÃO

Renato olhou confuso para os dois amigos e largou a correr em direcção


aos cavalos. Agarrou-se ao estribo de um dos animais, montou-o, e desceu
a ladeira num galope acelerado. Das entranhas, soltou um grito de
incentivo ao belo exemplar lusitano, de pêlo dourado e sedoso e crinas
negras. Queria fugir, libertar-se de todas as privações a que se via
obrigado. O grito soava agora mais possante. Gritava a plenos pulmões
pela liberdade a que ansiava chegar.
Aquela noite junto ao rio revelava-se, aos seus olhos, como uma verdade
cada vez mais assumida. O Ruivo afinal... era uma mulher... linda... bela
e pura... de cabelos cortados pela tragédia... rosto vendado por um
passado... estava apaixonado!... Revia-se num misto de sorrisos e
lágrimas, revia-se algures entre a vertigem de uma alegria que não podia
conter e a dor profunda e incontornável que, por força das
circunstâncias, o levava a sentir o seu espírito reprimido e inseguro.
Que passado seria esse de que fugia aquela mulher... qual seria o seu
nome?... pensara durante tanto tempo... Catarina já se havia revelado,
bem como o seu propósito... o seu sentimento por aquele ser humano fazia-
lhe cada vez mais sentido... sentia-se abandonar a confusão... tudo se
esclareceria brevemente. Estava perdidamente enamorado! O seu coração
rejubilava!
Enquanto estes pensamentos se alinhavam na mente de Renato, o galopar do
corcel levava-o em direcção ao rio. Abria os braços, e de olhos fechados
inspirava os ventos do futuro. De repente o medo turvou-lhe na mente e
viu-se imerso num turbilhão de receios.
- Como poderia assumir os votos a que quase se submetera na cerimónia
dessa manhã? Como poderia ingressar na Ordem do Templo e renunciar ao seu
amor? Como poderia ele, Renato Moniz, viver separado daquela que era para
ele a mais bela entre as mais belas, a mulher que lhe roubara um beijo
nessa manhã... lhe roubara um sorriso,
241
um sopro de alma... o seu coração de homem - pensava para si mesmo.
Junto ao adro da igreja, Abel e Catarina olhavam um para o outro,
emudecidos. Os olhos da jovem humedeceram-se e, com a fúria de um
guerreiro, seguiu Renato, em direcção ao rio.
- Por Deus e Nossa Senhora, chamo-me Catarina Viegas... ali está o homem
que amo, Renato Moniz de seu nome, que o destino me guie até aos seus
braços, para que neles possa morrer... ou ser feliz! - gritou com todas
as suas forças, levantando o braço no ar e batendo com os calcanhares na
barriga do cavalo, à medida que este iniciava um galopar firme e
decidido, segredando depois ao animal a direcção que deveriam tomar.
Abel não escondeu a lágrima que lhe caía na face avermelhada pelo frio
que se fazia sentir. Eram os seus dois amigos... e via amor, amizade,
alegria, tristeza... também, é certo, sentimentos nobres vindos de dois
bons corações. Espectáculo de rara beleza que lhe comovia O espírito.
Renato galopava em direcção ao rio. O seu cavalo brilhava como o ouro
sagrado de todos os mistérios do mundo... descobria em si o mais incrível
dos enigmas, descobria em si a vida, a fonte dessa eterna juventude, de
que tanto se falava naqueles tempos. Lembrava-se das trovas que ensaiava
no seu alaúde, quando era ainda um garoto franzino. Ouvia música dentro
de si... cantava alto o seu amor...

« Oh bela Dama,
Oh Estrela encantada,
De teu amor espero,
Um sorriso, uma morada.
Oh coração daquele,
Que, sábio te possa amar,
Teus lábios, perfume raro,
Nos meus, possa sempre repousar.
Ai Deus, Ai Deus,
Glória à Rosa que nasceu,
Beleza pura, intemporal,
Da lua ao astro flamejante,
Rejubilemos!»

Catarina galopava sem olhar para trás. Carregava no coração o destino


marcado pelo seu amor. Estava cansada de viver entre homens... nunca
conseguiria ser igual àqueles que a natureza presenteara com essa
condição.
No seu espírito de mulher rasgava-se agora um brilho, dentro de si uma
chama crescia à medida que se aproximava do seu bem-querer. Vencia
barreiras de espaço e tempo, verdadeiros combates por entre caminhos
serrados, densos arvoredos... nada a detinha... nada.
- Renato! - gritava alto, com todas as forças que tinha aprisionadas
dentro de si. - Renato... espera!
Renato não parava. Com o tropel do cavalo não conseguia ouvir Catarina
chamar por si.
- Renato... sou eu... espera!
Apenas alguns metros separavam os dois cavalos. Renato virou-se para trás
e viu uma mão estendida em sua direcção. Agarrou-a com força, como se
fosse o bem mais precioso que alguma vez segurara. E seguiram lado a
lado, num galope compassado em direcção ao futuro incerto. Os seus rostos
espelhavam alegria... esperança... estavam verdadeiramente felizes. Assim
juntos, sentiam-se capazes de vencer o mundo, de ultrapassar todos os
limites, todas as fronteiras, vencer todas as batalhas. Naquele momento
nada mais importava... apenas o galope dos cavalos, os seus dois corações
unidos e o rio.
Ao avistar as águas onde, nessa noite, Catarina se tinha banhado na sua
pureza, puxaram as rédeas aos animais.
- Alto... Chegámos! - E o relinchar dos dois animais acompanhava os
olhares apaixonados que Renato e Catarina trocavam enquanto desmontavam.

Renato ajudou Catarina a descer do Cavalo. Desde que se vira obrigada a


viver como um homem, esquecera a forma feminina de montar, e sentava-se
de pernas abertas no dorso do animal.
Catarina deixou-se envolver pelos braços de Renato e abraçou-o também. Os
dois rostos tocaram-se. O calor húmido dos lábios de Catarina atraía
Renato para o mais precioso néctar da vida. Beijou-a com paixão,
envolvendo-a em mil carícias. A mão nervosa de Renato afagava o cabelo
ruivo de Catarina e sentia o seu perfume. As suas línguas cruzavam-se em
jogos mudos e envolventes. Brincavam com sorrisos, ora dóceis, ora
selvagens, murmúrios suaves, eternos delírios... viajavam
243
por universos mágicos, mundos de encanto. Descobriam-se juntos, em
múltiplos gestos, múltiplas essências. Despertavam sonhos adormecidos à
medida que prolongava o seu deleite naquele beijo intenso.
Ali ficaram toda a noite, junto ao rio... o rio a que chamavam seu...
tocando-se, descobrindo-se, amando-se sem limites.
Já tinham visto os seus caminhos correrem tão afastados, já tinham
sentido a distância travar-lhes os movimentos, mas naquele precioso
instante... isso já não importava. Naquele momento entregavam-se um ao
outro sem barreiras. Como homem e mulher, Renato e Catarina pertenciam um
ao outro por uma noite. O amanhã lhes mostraria o rumo a seguir... e eram
felizes daquela forma livre e apaixonada.
Catarina viu vagamente o rosto de sua mãe na neblina, abençoando-os com
um sorriso. Estava junto de seu pai e ambos sorriam.
O silêncio pairava, tornando o ambiente especial, onde as palavras se
revelavam desnecessárias. Renato sabia que os momentos verdadeiramente
importantes para o Homem eram feitos de silêncio.
E choravam... numa alegria imensa, feita desses silêncios, tecida por
entre teias e tramas de pequenas subtilezas, que transcendiam tudo aquilo
que é efémero, tudo aquilo que faz parte de quotidianos banais, fundindo-
se num imenso e eterno abraço celeste, numa dança de deuses espectrais,
num só ser, mais forte poderoso, e espiritual.
— Amo-te, sejas tu quem fores... aquela que chega sem anúncio! Amo-te de
todo o meu coração, com toda a fé que deposito nos céus... amo-te! -
disse Renato, sem reservas.
- E eu a ti, meu amor! Desde o primeiro dia, agora e sempre... amo-te,
Renato Moniz. Recebe o coração desta que a ti se entrega... Catarina
Viegas de sua graça.
Estavam ambos felizes. Nos seus corações, tomava forma um encantamento:

Uma luz para o procurar,


Uma para o encontrar,
Uma para o trazer,
Outra ainda para o prender.
Coração para coração,
Um para sempre.
Assim digo,
Este encantamento estar feito.

Renato tinha a certeza. Ao seu lado, estava agora a mulher por quem o seu
coração de homem esperara. Queria ficar a seu lado.
E selaram o compromisso num beijo, abençoado pelos céus, pela mãe
natureza, pelos fiéis antepassados, por um destino marcado... e
consagrado.
245

Capítulo 36
SEXTA-FEIRA SANTA

Como era normal na Sexta-feira Santa, a comunidade templária estava de


jejum. Estavam excluídos desse preceito os doentes, os mais idosos, os
operários braçais e os não cristãos. Por ordens do Mestre, todos se iriam
reunir em Santa Maria do Olival, à hora nona. Tinham como objectivo
celebrar o memorial da Paixão e a exaltação da cruz. A Igreja, tal como
os homens, continuava em construção.
A vontade do Mestre era que, ao celebrar a Paixão e despojamento de
Cristo, a comunidade ali reunida celebrasse a remissão do Homem, pelo
Homem que se tornou exemplo. Estavam todos reunidos na igreja, em
completo silêncio. Aquele grupo de cavaleiros já não estava sozinho.
Homens, mulheres e crianças, que começavam a povoar a comenda também
estavam presentes.
O clérigo entrou por último, solenemente e sozinho, na igreja. Trazia
consigo o madeiro da cruz, envolto num tecido roxo.
Assim que desceu os oito degraus, destapou ligeiramente a cruz e entoou:
- Ecce lignum crucis.
Ao que todos, ajoelhando-se por um momento e levantando-se de seguida,
responderam também cantando:
- Adoramos te, Christe, et benedicimus tibi, guia per sanctam crucem tuam
redemisti inundmn.
O religioso avançou até ao centro da igreja, destapou a cruz até aos
braços e repetiu:
- Eis o madeiro da Cruz... - novamente todos veneraram a cruz e
responderam cantando:
- Adoramos-Te e bendizemos-Te ó Cristo. Pela tua cruz redimiste o mundo.
Ao chegar ao altar, o clérigo virou-se lentamente para a assembleia,
descobriu completamente a cruz e entoou novamente.
247
Todos estavam em completo silêncio quando os monges entoaram o Gradual
daquele dia:

« Christus factus est pro nobis


obediens us que ad mortem,
mortem autem crucis.
Propter quod et Deus exaltavit ilium
et dedit nomen
quod est super omne nomen ».

Renato estava sentado juntamente com Catarina. A jovem vestia agora um


belo traje feminino, um vestido que lhe cobria os pés, marcado pelas
mangas em balão que lhe tapavam os braços, e tinha os seus cabelos
curtos, ainda, cobertos pelo toucado. Renato sentia-se a viver uma vida
renascida. Acreditava fervorosamente que a morte de Cristo tinha redimido
todas as mortes, e que por aquilo que tinha visto até agora levava-o a
concluir que existiam paixões e mortes mais dolorosas que a de Cristo.
- E todos aqueles que morreram? pensava Renato. - Terão eles esperado em
vão? Esquece Deus a sua fidelidade? - questionava-se. Acredito que Deus
não levou a Sua mensagem só aos vivos. Acredito que Jesus desceu à
«mansão dos mortos» e que ali proclamou também: Completou-se o tempo. O
Reino de Deus está a chegar, estais resgatados. Deus é misericordioso com
todos os que O amam. Isto quer dizer que a morte perdeu o seu poder: não
pode reter os que amam a Deus. Jesus Cristo, o Senhor, libertou-nos das
garras da morte. Todos pertencem à comunidade dos vivos fundada por Ele,
e onde Ele é o Vivo. Agora que conhecia Catarina podia compreender melhor
a relação de Cristo com Deus. Cada um se identificava tanto com o outro
que os dois se constituíam. Cristo continha divindade assim com Deus
continha humanidade.
Renato estava sentado, mas quase se sentia a planar, de tal forma estava
imerso nos seus pensamentos.
Depois de acabada a celebração, encontraram-se cá fora com Abel.
- Como celebras tu a Páscoa, amigo? - perguntou Renato, curioso.
- Para nós, judeus, a Páscoa, a Pessach, é a celebração da passagem da
escravidão para a liberdade. Celebramos a Páscoa de
248
Moisés. A saída do Egipto. Dentro de dias haverá lua cheia e esse é para
nós o sinal da Páscoa.
- Compreendo disse Renato.
- Quando o povo hebreu ainda era escravo no Egipto, Deus enviou através
de Moisés dez pragas para executar juízos sobre os deuses do Egipto, e
convencer o Faraó a libertar o povo. Antes da décima praga, Deus instruiu
Moisés a pedir para que cada família hebreia sacrificasse um cordeiro sem
mácula, e usasse o seu sangue para molhar as ombreiras e a verga da porta
de cada casa em que o comessem, para livrar seus moradores do anunciado
castigo divino. Chegada a noite, os escravos hebreus comeram a carne do
cordeiro, acompanhada de pães ázimos e ervas amargosas. A meia-noite
foram mortos todos os primogénitos egípcios, até mesmo os da até então
intocável casa do Faraó. Não houve casa onde a morte não tivesse chegado.
O clamor no Egipto foi tão grande, que o Faraó viu-se obrigado a ceder e
deixar o povo ir. Para que esse dia nunca fosse esquecido, foi instituída
a primeira Páscoa, em memória dos descendentes do povo que foi liberto
por Deus do cativeiro no Egipto, protegidos naquela noite fatídica pelo
sangue de um cordeiro - Abel, resumidamente, falava ao amigo sobre a sua
Páscoa.
- Então amanhã será a tua Páscoa... - concluiu Renato - ... e a nossa
também! - disse. Temos uma novidade para te contar! Abel olhou para
ambos os amigos e sorriu.
- Eu e Catarina vamos casar, amigo... és o primeiro com quem partilhamos
a nossa alegria. Estamos muito felizes!
- Fico contente por vós, amigos. Contai sempre aqui com o judeu! -
gracejou.
- Temos que falar com fr. Duval... Domingo seria um bom dia! - disse
Renato, com confiança.
- Isso sim, é uma alegria... festejemos então... - Abel fora interrompido
pelo Mestre.
Gualdim saiu da igreja e falou com Renato, dizendo-lhe:
- Meu amigo, fizeste a escolha de não ser cavaleiro da Ordem, no entanto
vais preparar-te, pois no Domingo de Páscoa dar-te-ei a honra, se assim o
desejares, de ser armado cavaleiro secular.
Renato ficou mudo, não conseguia exprimir qualquer palavra. Catarina, por
sua vez, estava orgulhosa. O facto de o seu amor ser cavaleiro fazia dela
uma dama. Daquelas que eram cantadas pelos
249
trovadores. Abel, sentia-se feliz pelo seu amigo. Era como se aquela
felicidade se passasse consigo. Quando as suas pernas deixaram de tremer
dirigiu-se ao Mestre, não antes, porém, de ordenar as suas ideias.
- Mestre é vontade de Catarina e minha unirmo-nos em Matrimónio.
- Até que enfim Renato. Há algum tempo que vos observo. Agora sim, tenho
por completa a obra que prometi a teu pai.
- Já agora senhor. Apadrinhas a minha vontade.
- Como se fora teu pai. Disse Gualdim com uma lágrima a querer-lhe saltar
da vista.
Disfarçou de imediato e disse por fim a Renato:
- Bom, vamos lá. Não há mais nada para fazer agora?
Dirigiram-se para o castelo e foram cear. Renato tinha apenas uma noite e
um dia para reflectir. Sentaram-se à mesa e comeram peixe, ovos, pão e
água. No tríduo pascal não havia vinho ou cerveja para ninguém.
Os três amigos foram, como de costume, para o seu lugar preferido naquele
lugar: a amurada do Castelo. Aí se juntaram a conversar.
- Então, meu amigo... como te sentes? perguntou Abel a Renato, dando-lhe
uma palmada nas costas. O que vais fazer agora?
- Ainda não estou em mim, Abel. Ascender à cavalaria é o desejo de
qualquer mortal nas minhas condições. Não basta ter um cavalo e uma
espada. Eu sei que, posso ascender a essa condição, não por direito, pois
minha linhagem não é fidalga, mas porque fui proposto por um cavaleiro
nobre.
- E podes ter a tua família, Renato. É diferente de seres cavaleiro da
Ordem - disse Catarina, bastante convicta.
- E se tiver sorte... uma casa, uma terra... - voltou a olhar Catarina,
directamente nos olhos.
A noite já ia alta quando se foram deitar. Perante todos os outros,
Catarina continuava a preservar a sua identidade. Só aqueles que tinham
estado na gruta da comenda no dia anterior, sabiam. Por hora manteriam
também em segredo o amor que nutriam um pelo outro. Renato deu-lhe
carinhosamente um beijo na testa e disse-lhe:
- Boa noite, Catarina. Amanhã vamos ter pouco tempo para nos vermos.
Descansa com os anjos minha... bela dama.
Ela sorriu apenas, adormecendo de seguida.
O dia de Sábado de Aleluia amanheceu com sol. Depois da primeira refeição
dirigiram-se, conforme o preceito, para a Igreja do Olival. Repararam que
estava engalanada. No dia seguinte viria o Bispo D. Çoleima, de Coimbra,
destinado a fazer a sagração solene. Celebrar-se-ia o Domingo da
ressurreição.
Dentro do templo cristão, os monges entoavam o salmo:
"Junto aos rios de Babilónia, ali nos assentamos e nos pusemos a chorar,
recordando-nos de Sião. Nos salgueiros que há no meio dela penduramos as
nossas harpas, pois ali aqueles que nos levaram cativos nos pediam
canções; e os que nos atormentavam, que nos alegrássemos, dizendo:
Cantai-nos um dos cânticos de Sião. Mas como entoaremos o cântico do
Senhor em terra estrangeira?
A igreja estava toda escurecida com panos pretos nas janelas. Fr. Antunes
Duval, o capelão do templo, acendia um grande círio e anunciava:
- Lucem Christus.
E todos respondiam Gratias Dominum. Depois, solenemente foi cantado o
Exultet Divinas, o anúncio solene da Páscoa. E no final cantaram uma
Aleluia.
Quando acabou a celebração, Abel perguntou a Renato:
- Como é possível aceitar que Cristo tenha ressuscitado?
Renato virou-se calmamente para o amigo, e disse-lhe:
- Todos nós temos um corpo. Jesus Cristo também o tinha, tal e qual como
nós; morreu e não reencarnou. A experiência da morte foi vivida por Ele e
por aqueles que viviam com Ele. O ressuscitar significa permanecer vivo,
não só na memória, mas na vida e nas acções do dia-a-dia. De uma forma
tão real que consegues senti-lo. Tal era a relação que tinha com Maria
Madalena, que foi a primeira a vê-lo, assim como aconteceu com os amigos.
251
Abel mostrou-se reticente. No judaísmo acreditava-se na ressurreição do
último dia e Renato tentava-lhe dizer que Deus não esteve à espera do
último dia.
Tinha que se preparar para a sua investidura de cavaleiro. Nesse dia a
refeição do meio-dia foi reparadora, pois comeram caldo de carne, carne,
pão, e beberam vinho.
Quando a noite chegou, Renato foi tomar um banho. Deveria lavar-se de
forma quase ritual. Gualdim mostrou empenho em ser o seu padrinho. Depois
de se ter lavado foi encontrar-se com o Mestre.
- Renato Moniz... disse calmamente Gualdim como sabes não tenho filhos. O
teu pai, Raimundo Moniz, Mestre de armas d'El-Rei D. Afonso e meu amigo
pessoal, não descendia de linhagem nobre. No entanto eu, pela estirpe que
envergo, sendo filho de Paio Ramires, cavaleiro nobre do condado, te
proponho para a nobre arte da cavalaria. Caber-me-á a mim fazer com que
sejas armado cavaleiro, cumprindo assim os desígnios de teu pai.
Raimundo, ao morrer, pediu-me que cuidasse da tua educação. Sempre te
eduquei como a um filho e tu sempre me respeitaste como a um pai. Tenho
para te ofertar as armas que deverás usar daqui em diante, Renato. Esta
noite, irás passá-la em vigília na Igreja de Santa Maria do Olival.
Começa por meditar na «Lei» a que te obrigarás a partir do momento em que
fores ordenado, por vontade própria - e continuou dizendo:

« Acreditarás em tudo quanto a Igreja te ensina e observarás todos os


seus mandamentos. Protegerás a Igreja. Respeitarás todas as fraquezas e
delas te tornarás defensor. Amarás a terra onde nasceste. Jamais
retrocederás diante do inimigo. Farás guerra onde o teu senhor precisar
de ti. Cumprirás os teus deveres para com o teu senhor, se estes não
forem contrários à Lei de Deus. Nunca mentirás e conservar-te-ás sempre
fiel à palavra dada. Serás liberal e generoso para com todos. Serás o
defensor do direito e do bem, contra a injustiça e contra o mal ».

- Compreendes o que te digo, Renato? - interrogou o Mestre.


- Sim D. fr. Gualdim, meu senhor - respondeu o jovem.
- Então podes começar o teu caminho. Podes começar a demanda do teu
Cálice Sagrado!
- Mas, senhor... Dissestes que esse cálice não existe!
- E continuo a dizer-te que o cálice sagrado és tu. O que dá valor à taça
é o que ela contém, não a forma que tem. O «Cálice de Cristo» é todo
aquele em que o espírito de Deus actua. É a tua relação com Ele. A tua
demanda começa por perceber o que Deus quer de ti, depois deves deixá-lo
agir. Em breve terminará a «Trégua de Deus» e poderás livremente impor o
ideal de justiça da cavalaria … - e continuou, dizendo:
«Não assaltarei as mulheres nobres, nem os que circularem com elas, na
ausência dos seus maridos.... Observarei a mesma atitude para com as
viúvas e os monges...»
«Desde o começo da Quaresma até à Páscoa não assaltarei o cavaleiro que
não leve armas seculares e não lhe tirarei a subsistência que tiver com
ele».
Todos se acostumaram a chamar a este pacto, em língua vulgar, «Trégua de
Deus». (98)
Era já noite quando Renato se dirigiu, sozinho, para a igreja. Ao entrar,
verificou que junto ao altar estava uma armadura, uma espada, uma lança,
um escudo, um elmo e uma cota de malha. A sua espera estava o capelão da
Ordem do Templo, fr. Antunes Duval.
- Renato... - disse-lhe o monge - ... antes de começares a tua vigília de
oração, deves confessar-te. É esse o teu desejo?
- Sim, fr. Antunes, é esse o meu desejo!
- Então começa, filho... - disse o religioso, enquanto ambos faziam o
sinal da cruz.
- Não sei muito bem por onde hei-de começar - disse Renato. - A minha
vida nos últimos tempos deu uma volta muito grande...
- Renato alinhava os pensamentos para começar a partilhá-los com

(98). A Igreja esforçou-se por tornar menos rudes e brutais os costumes


da sociedade e para isso tomou algumas medidas. Pela «Trégua de Deus»,
proibia os combates em certos dias do ano e utilizou a «Cavalaria» para
impor aos nobres um ideal de justiça, procurando proteger os fracos e
carenciados.
253
fr. Antunes Duval - ... comecei uma grande viagem, nunca tive muito jeito
para guerrear, aprendi mistérios que não sabia que existiam, tenho um
amigo, quase irmão que é judeu, desisti no último momento de ser
cavaleiro da Ordem do Templo, desejo que sempre manifestei, honra à qual
sempre assenti, e por último, apaixonei-me por uma jovem, cuidando que
era um homem... julgais ser pouco?
- Agora percebo o teu desespero, quando te apresentaste perante o
Capítulo! Mas escuta Renato, nada acontece por acaso! A viagem que
começaste, continua, e esta é mais uma etapa dessa tua viagem. E só um
louco se disporia a fazer uma jornada sozinho. O Abel, o teu amigo judeu,
foi uma das pessoas que Deus pôs no teu caminho. O facto de ser judeu, ou
muçulmano mesmo, não significa que não seja filho de Deus. Todos os
mistérios que aprendeste servem para perceberes a grandeza desse mesmo
Deus que quer que combatas com o coração, que é o que sabes fazer. O
facto de teres desistido de ser cavaleiro da Ordem do Templo não é
importante, se não era essa a tua vocação. Também me parece que não
andavas fugido, ou excomungado para seres albergado e protegido por nós.
No entanto, apercebeste-te de alguns dos nossos mistérios, que não deves
nunca revelar. Quanto ao rapaz... O teu ideal templário não te deixou ver
que era uma rapariga que te falava. Renato, ama essa mulher com todo o
teu amor, se é esse o desejo do teu coração. Sê fiel a ti mesmo e irás
encontrar o caminho da luz...».
Continuaram os dois a falar por mais algum tempo. O monge também
partilhava a sua vida com o jovem. Às vezes riam-se, num riso que só as
paredes guardam.
- Estás mais tranquilo, meu filho? - perguntou o monge, a Renato.
- Fr. Duval, preciso falar-vos de um assunto... confessou Renato,
timidamente. - Sabeis... estou apaixonado!... é meu desejo e de Catarina
casarmos amanhã, depois da cerimónia.
- Amas essa mulher, meu filho?
- Bom... sim, amo... mas mal a conheço... recordo os belos momentos de
alegria e amizade que partilhei com o Ruivo, fr. Duval, mas depois disso
descobri que o Ruivo afinal era uma mulher. - disse o jovem.
- Deixa meu filho... deixa o tempo fazer o seu trabalho... em breve darás
largas ao que vai no coração... - respondeu o monge.
- Eu amo-a, fr. Duval... é nosso desejo ficarmos juntos... casais-nos
amanhã? - Renato, apesar de seguro, estava nervoso... o seu coração
precisava de respirar... tudo acontecera demasiado depressa.
- Se é vosso desejo, filho... claro que sim... rejubilemos com tamanha
alegria... o amor é o sentimento que mais alegrias trás aos homens! -
disse o monge.
- Obrigado por tudo, fr. Duval - disse Renato, agradecido.
- Vou em paz, meu filho... amanhã, havemos de celebrar aqui, em Santa
Maria do Olival, esta igreja santa, o primeiro casamento desta Comenda de
Thomar! - disse fr. Duval, sorrindo. - Deixa-me ir, filho... vou na paz
de Deus! Ego te absolvo in nomine patris et filius et spirictus santus...
- disse, por fim, fr. Antunes Duval. Depois retirou-se, fechando a porta
da igreja.
Renato estava agora sozinho dentro da igreja. A primeira coisa que fez
foi pegar na espada. Uma autêntica toledana, linda, que brilhava à luz
das velas. Tinha um botão de rosa no punho, tal como a espada de Sancho
Viegas, pai de Catarina. Depois, colocou o elmo. Era pesado e protegia-
lhe a cabeça. Agora com o elmo colocado, pegava na espada com a mão
direita e no escudo com a mão esquerda. Minutos depois colocou tudo
novamente no lugar e deteve-se a olhar para o escudo durante alguns
instantes: tinha mais de quatro pés de altura e dois pés e meio de
largura e cobria-o dos pés até ao queixo. Tinha a forma de uma amêndoa
pontiaguda na ponta e era feito em metal forrado a couro. Tinham pintado
o couro de branco e sobre a pele havia uma cruz pintada a vermelho, com o
braço horizontal ligeiramente inclinado para cima, de ambos os lados;
tinha a forma de um "V". No canto superior direito havia uma cruz mais
pequena, também em vermelho. Não era igual à dos cruzados e parecia a dos
Templários, de braços iguais; mas ao invés de ser redonda, tinha arestas.
Por fim, pegou nos dez pés de macieira, que formavam a lança, devia pesar
cerca de três quilos.
- Vou ter que arranjar alguém para me ajudar a levar isto! - pensou
Renato.
Sentou-se. Tudo à sua volta era obscuridade, as poucas velas existentes
deixavam só ver meias colunas, e o tecto parecia não ter fim. Agora que
estava ali de joelhos, voltado para o altar, tudo fazia sentido. Cristo,
a condição humana, Deus e a infinita sabedoria. A Luz que brilha nas
trevas. Cristo representou sempre a pressuposição da
255
natureza humana, encarnação e crucificação. O homem, na verdade, é a
imagem de Cristo, e este a do homem. Nada podia ser feito sem a
intervenção de Deus, era este o mistério do verdadeiro cálice sagrado. É
Ele que te encontra, é o Espírito que te encontra... não tu a ele. E a
sua capacidade criadora e regeneradora só pode ter as características da
grande Mãe. Olhou os vitrais, que deixavam passar a luz da lua... e mais
uma vez os pensamentos voavam para fora dali. Pensou em Abel, e de
repente, ao olhar à sua volta, viu o trabalho do Mestre Abraão, pensou em
Catarina e lembrou-se da simbologia dos números... Mestre Abraão falara
numa sequência de números... que o «1» fecundava o «5»... a energia
criadora... e o espírito... também ela, Catarina, iria ter, mais tarde,
filhos concebidos por amor. Pensava na sua vida futura, nos seus deveres
como cavaleiro, no código que devia respeitar e surgiram-lhe no
pensamento as palavras de Gualdim, quando falava sobre o código de honra
dos cavaleiros.
Estava tão envolvido nos seus pensamentos que não se apercebeu que, do
lado de fora da igreja, junto à porta, estava Abel. O jovem judeu estava
de pé, com a mão direita na ombreira da porta, como quem assenta a mão
num Zulah imaginário, dizendo:
- Senhor Deus... - ao dizer a palavra do nome do Senhor, colocou a mão
nos olhos, e continuou. - Deus de Abraão, de Isaac e de Jacob, eu Te
louvo e bendigo e peço-Te que acompanhes o meu amigo Renato nesta nova
etapa de sua vida. Depois de uma pequena prece retirou-se, ficando Renato
a sós, rezando e reflectindo, ali, naquela igreja do Olival, na qual se
tinha construído parte do discurso da voz interior. Um discurso feito de
silêncios e repleto de doces e sábias expressões que se cravavam na
pedra, como marcas do tempo indelével, sobre as quais S. Miguel, o
guardião do reino, imprimia uma forte aura de inquestionável protecção.
256

Capítulo 38
O JURAMENTO DA GLÓRIA

Com o romper do dia fr. Duval abria a porta da igreja de Santa Maria do
Olival e Renato acordou sobressaltado. As pessoas entravam para a grande
missa da Páscoa. O jovem voltou a ajoelhar-se no seu lugar. Vieram ter
com ele dois monges, que lhe disseram para se levantar e acompanharam-no
ao exterior da igreja. Nunca tinha visto tanta gente de sorriso na cara.
Chamaram-no de parte e deram-lhe água.
- Então passaste bem a noite?
- Passei, sim... irmãos respondeu Renato.
Quando regressou ao adro da igreja, via tudo com mais clareza. Já ali se
encontravam algumas pessoas. Os monges-guerreiros levaram-no a tomar
posição num cortejo solene. Em primeiro lugar uma cruz, duas filas de
monges Templários, com os seus mantos brancos e sobre o lado esquerdo a
cruz orbicular, seguidos dos monges de Cister, vestidos de branco com
velas e incenso, fr. Antunes Duval e por fim o Bispo de Coimbra.
Não conseguia ver nem Gualdim Pais, nem Catarina. Haviam-lhe dito para
ocupar o lugar vazio que separava os Templários dos monges de Cister. O
cortejo começava a entrar na igreja, agora já apinhada de gente e Renato,
antes de começar a descer os oito degraus reparou num rosto familiar...
Lá estava Abel à entrada da Igreja, com um sorriso de orelha a orelha. O
seu amigo tinha na mão uma túnica de veludo azul-escuro, a cota de malha
e o elmo. Ajudou-o a vesti-las e quando este ficou pronto, deu-lhe um
forte abraço e disse-lhe:
- Vai, meu irmão, se é essa a tua vocação!
Renato sorriu-lhe, e ao voltar-se para a frente, viu a igreja como nunca
tinha visto. Ao fundo, junto do altar, do lado direito, viu Gualdim Pais
e, a seu lado, Catarina, vestida de branco, com uma túnica comprida,
apertada à volta da cintura por um cingidouro azul-escuro. Como estava
bela! Era de certeza aquele o seu lugar. O cortejo
257
continuava a sua entrada solene. O seu padrinho, D. fr. Gualdim, deu-lhe
de seguida o cinturão da espada, ajudando-o a colocá-lo. Ao chegarem ao
altar, Renato ficou sozinho. O Bispo fez menção de que Abel se prostrasse
no chão.
O Bispo Çoleima deu início à cerimónia e dedicou-a a Santa Maria. Depois
de celebrada a missa, com a comunhão obrigatória, foram benzidos os ovos
que as pessoas levavam consigo. Eram símbolo de vida e renovação. O
candidato a cavaleiro percebeu então que era chegado o seu momento.
- Meus irmãos, rezemos por este jovem que mereceu a condição de ascender
à cavalaria. Renato Moniz... - continuou o Bispo. Levanta-te!... Prometes
servir a Deus e à sua Santa Madre Igreja?
- Sim, prometo!
- Prometes renunciar ao mal?
- Sim, prometo!
- Prometes servir o teu senhor?
- Sim, prometo!
- Prometes respeitar os homens, teus irmãos? Prometes respeitar os seus
bens? Espirituais e Materiais?
- Sim, prometo!
Depois, começou por benzer as armas. Aspergiu-as com água benta disse-
lhe:
- Renato, as armas têm duas funções. Proteger os fracos e castigar os
malfeitores.
Gualdim saiu do seu lugar, e deu-lhe a espada e as esporas.
- Ajoelha-te, Renato.
Ele obedeceu. Ajoelhou-se, colocou as mãos sobre o peito e inclinou a
cabeça.
- Renato Moniz, filho de Raimundo Moniz....
O Mestre tirou a sua espada, pousou a parte plana da lâmina sobre o ombro
esquerdo, depois no ombro direito e, por fim, deu-lhe um toque na cabeça,
ao que ia dizendo:
- Em nome de Deus, S. Miguel, S. Jorge e Santa Maria, eu te armo
cavaleiro e te concedo a localidade de Ceras.
- Cavaleiro Renato Moniz, senhor de Ceras, levanta-te.
Renato levantou-se e deu um forte abraço a Gualdim Pais, seu padrinho.
Todos os presentes o aclamavam e finalizado o acto solene todos gritavam:
- Por S. Jorge, S. Miguel, e Santa Maria!
- Ala Ala, Arriba !!...
- Por D. Afonso, Rei de Portugal.
- Ala Ala, Arriba!
Acalmaram-se e sentaram-se novamente.
Renato estava de pé junto ao altar. Gualdim, tomou a mão de Catarina e
conduziu-a até ao jovem. Quando a entregou levantou-lhe ligeiramente a
grinalda que tinha na cabeça e deu-lhe um beijo na testa.
- Renato, entrego-te Catarina Viegas para que os dois se façam um só.
Antunes Duval juntou-se a D. Çoleima e dirigiu-lhe a palavra:
- Senhor, estamos aqui reunidos para que possamos testemunhar a união
destes dois jovens.
O Bispo de Coimbra chegou-se junto dos jovens e disse-lhes:
- Sabei que só o Amor é eterno; mas para que o seja tem de ser
constantemente alimentado. Catarina Viegas... aceitas Renato Moniz como
teu marido?
- Sim, aceito.
- E tu? Renato Moniz. Aceitas Catarina Viegas como tua mulher?
- Sim, aceito.
Uni as vossas mãos direitas como sinal de consentimento... - disse
Çoleima colocando a estola sobre as mãos dos jovens - ... em nome do Pai,
do Filho e do Espírito Santo testemunho a união do vosso amor.
Renato e Catarina olharam enternecidos um para o outro. As lágrimas que
lhes humedeciam os olhos eram como a água que tudo limpa e unifica. Os
seus lábios tocaram-se de leve.
Cá fora, Abel estava tão contente que desatou a bater palmas e a gritar.
Os presentes na igreja olharam uns para os outros, incrédulos, e de
seguida também eles se juntaram à manifestação de Abel:
- Vivam os noivos... vivam!
O Bispo de Coimbra deu a bênção final e disse, voltando-se para a
assistência de homens e mulheres que ali se encontravam reunidos:
- Itae Missa est.
Todos os presentes rejubilaram!
Os cavaleiros da comitiva reuniam-se junto ao adro, aguardando a saída do
cavaleiro Renato Moniz. Lopo Fernandes, Estêvão Martins, Gaspar Gomes,
João Arnaldo Domingues, Nuno Fafes, Paio Sanches,
259
Ferrão Afonso e o Mestre Gualdim Pais, curvaram-se perante o antigo
escudeiro do séquito, saudando-o respeitosamente.
Renato, agora junto da mulher que amava, devolveu o cumprimento aos
amigos e companheiros, e de novo ouviu ressoar no ar entusiásticas
aclamações ao cavaleiro Renato Moniz.
- Por El-Rei D. Afonso, de Portugal.
- Ala Ala, Arriba!
- Viva! Viva! Viva!

Capítulo 39
A IDADE DO ESPÍRITO SANTO

O prisioneiro de Castela foi levado até ao Mestre. Estava há já alguns


dias em jejum, e a fraqueza apoderava-se do seu físico.
- Dizei-me... para onde seguem os homens que estavam contigo?
- Nada sei, senhor!... estava a mando de Pepe... ele é que falava com os
fidalgos d'El-Rei.
- Mas saberás por certo para onde seguem, não? insistia Gualdim Pais.
- Juro-vos que não, Mestre! respondia o galego, com a fraqueza a tolher-
lhe os movimentos.
Mandou chamar fr. Duval, ordenando-lhe:
- Dá a este homem a extrema-unção. Terá de morrer às portas da verdade. É
um traidor.
- Não... Mestre!... disse o forasteiro. Não me mateis, por Deus!
- Falai... ou calai-vos para sempre! - o Mestre não vergava. Fr. Duval...
prossegui, conforme vos ordenei!
E o monge preparava-se para começar, quando o prisioneiro falou:
- Não... eu falarei !
- Dizei-me de vossa justiça...
- Os Trava seguiam viagem até Castela. Deveriam encontrar-se com a rainha
no Castelo de San Esteban de Gormaz, em Soria. Pelas suas contas,
levariam uma semana a lá chegar. Os Testemunhos seguiam com eles, Pepe
acompanhá-los-ia, os restantes regressariam a suas casas.
Para recuperar os Testemunhos, Gualdim teria de organizar uma emboscada à
comitiva que viajava com os espiões de Castela.
- Mandai-me chamar o Comendador de Thomar!
Pouco depois, Lopo Fernandes escutava o que o Mestre tinha para lhe
dizer:
260
- Meu bom Lopo, há que reaver os Testemunhos que seguem a caminho de
Castela. Tenho informações de que a comitiva dos irmãos Trava chega por
esta altura à fronteira do condado. Peço-te que organizes uma emboscada a
fim de saquear aquele tesouro do qual guardamos já a chave. Vai...
arremete os teus homens a Vilar Formoso e diz-lhes que sigam na direcção
de Ciudad Rodrigo, até Soria.
- Sim, Mestre. Assim farei.
Gualdim pensava agora nos Testemunhos de Joaquim de Flora e no seu desejo
de encontrar um fio condutor para a história, capaz de manter viva a
esperança na existência de um plano redentor. Viviam-se tempos
conturbados, plenos de eventos que abalavam a cristandade e que, por
isso, não podiam deixar de suscitar a necessidade de os conciliar com o
plano divino, contrapondo a mudança à ordem e a estabilidade à
contingência. Afirmar-se que a obra do tempo se atribui à Santíssima
Trindade e que a unidade das Três Pessoas garante a ordem imutável,
enquanto a diferença entre as operações de cada uma delas explica a
variação temporal, é garantir-se que afinal a Providência não abandonou o
mundo e que os acontecimentos, por mais inesperados que sejam, são afinal
parte de um plano divino que visa a salvação. É a operação da Trindade no
tempo, no qual uma última e decisiva revelação: a iluminação generalizada
do espírito, está reservada para o tempo do Império do Divino Espírito
Santo em que a plenitude do tempo coincidirá com a plenitude do Espírito
ou do saber. Essa filosofia da história assenta numa concepção
trinitária, progressiva e orgânica da própria história, como natural
desenvolvimento do plano divino para a salvação da humanidade: é
trinitária pois a história é obra do Espírito através do Pai e do Filho,
até a revelação final do Divino Espírito Santo. É progressiva, pois a
história é o desenvolvimento temporal do aumento do saber, cuja plenitude
coincide com o tempo do fim, quando será aberto o livro dos segredos do
mundo; e orgânica pois a estrutura do tempo, simbolizada pela Árvore de
Jessé, garante que o tempo não é um ciclo perpétuo de tribulações e de
afastamento do absoluto, mas um arbusto florescente onde frutifica a
semente divina da verdade. Tornava-se necessário acomodar na visão cristã
a desordem patente no mundo: o crescimento do Islão, as cruzadas, os
cismas eclesiásticos, as guerras entre o Império e o Papado. Era
necessário enfrentar acontecimentos cujo sentido não estava dado, mas
que, à luz da crença cristã da existência de uma Providência, não podiam
escapar à ordem divina. Nesse contexto era imperiosa a busca do
conhecimento da estrutura secreta do tempo e do seu sentido. Possuidor de
três elementos que facultaram sua utilização pelos milenaristas mais
radicais: o refortalecimento dos temas apocalípticos, a ideia de que a
Igreja clerical seria substituída por um corpo místico contemplativo e
essencialmente igualitário e a de que os menos favorecidos reinariam no
mundo, dando expressão temporal ao Império do Divino Espírito Santo.
Ficaria a aguardar por notícias dos Testemunhos. Enquanto isso
entretinha-se a escrever uma missiva ao rei, relatando os últimos
acontecimentos a Sua Majestade... lembrara-se que ainda lhes restava D.
Urraca, filha d'El-Rei D. Afonso de Portugal, casada com D. Fernando de
Leão. Podia tentar saber novidades através dela.
- Assim que puderdes, enviai-me um mensageiro com esta carta a El-Rei.
Sua Majestade deverá estar informada relativamente àquela condição.
263

Capítulo 40
OUTRA VEZ LIXBUNA

Munir deslocava-se lentamente junto às muralhas do castelo, a coberto da


lua nova. O breu da noite permitia que não fosse avistado. Cautelosamente
dirigia-se para a judiaria.
Desde que seu pai, Ibn Wazir, entregara a Almedina a El-Rei D. Afonso
Henriques, assumira os destinos da comunidade muçulmana. Mestre Sufi
(99), de coração puro, não se achava sujeito a dogmas e o seu misticismo
respeitava todo o tipo de religiões. Ao abeirar-se da sinagoga contornou-
a e bateu a uma determinada porta.
- Rabi... - chamou em tom baixo - ... sou eu... Munir. - Shalom, Munir.
- Salahm alechum... - retorquiu Munir, enquanto entrava na casa do mais
importante judeu da comunidade, com a preocupação de que não ser visto.
- Que fazes a esta hora, rapaz?
- Rabi, tenho notícias da Terra Santa.
- Senta-te e fala... - dizia intrigado, Isaac.
- As coisas vão mudar. É necessário que estejais prevenido. As novas que
tenho da Terra Santa dizem que o Emir Nureddin e o seu sobrinho Saladino
controlaram Damasco. Os nassar (100) serão repelidos. Começou a jihad, a
guerra santa. Os meus irmãos começaram a fazer prisioneiros entre os
nassar, e alguns até são vendidos como escravos - disse Munir, muito
consternado.
- Mas isso não é bom para nós. Sofreremos na pele a retaliação! Eu sempre
afirmei o bom relacionamento entre os homens e agora

(99). Sufi - Membro da escola esotérica muçulmana.


(100). Nassar- Nome dado aos cristãos, seguidores do nazareno.
265
vamos ser perseguidos! Já nos começaram a obrigar ao repúdio da nossa fé.
Começou a tortura e a ignorância.
- Como assim? - insistiu Munir. Desde que haviam chegado à igreja de
Lixbuna três estrangeiros, a situação piorara. Vocês, os judeus, que
gerem o dinheiro dos nassar, têm mais sorte; mas há-de chegar a vez de
todos nós! - disse Munir, em tom levemente provocatório.
- Acalma-te Munir!
- Calma... Isaac? Pedis-me para ter calma?... Sabeis o que aconteceu um
destes dias? Acusaram um nassar meu amigo de ser leproso, só por ter a
pele escamada.
- Não é possível haver tamanha ignorância.
- Por Alá, Isaac. Fizeram-no comparecer perante um tribunal composto por
um padre, um físico e uma autoridade civil. Depois de o observarem
determinaram que se a maleita não passasse com a luz da lua deveria ser
condenado ao repúdio. No dia seguinte obrigaram-no a colocar-se dentro de
um esquife e em procissão, levaram-no para a porta da igreja. Celebraram
missa de defuntos e fizeram-no «morrer» em vida. Foi para a leprosaria de
Almada. Já arranjaram mecanismos de suplício, e confesso que tenho medo!
Eu, como responsável dos muçulmanos, serei o primeiro a pagar. Tenho de
fugir. Ajudai-me! Para nossa segurança, já disse aos meus para disfarçar
que aderem à doutrina dos nassar.
Isaac suspirou e disse para o jovem muçulmano:
- Também eu tenho medo, Munir. Não te quis alarmar mais; mas já começaram
a perseguir os judeus. Aqueles de mais baixa condição. Dizem que nos
querem lançar nas fogueiras, acusados de bruxaria e heresia. As
autoridades querem confiscar os nossos bens. Por enquanto o clero ainda
se mantém isento, discordando mesmo com as brutalidades. Eles confundem o
crime de lesa-divindade com o de lesa-majestade.
- As notícias que me chegam do Califado de Córdoba não são boas - disse
Munir, pensativo. Depois da guerra em Albi, no reino dos francos, as
perseguições aumentaram. Dizem que os heréticos são um problema social e
que os crimes sociais devem ser punidos de forma exemplar.
- Sabes, eu tenho um velho amigo que foi servir o Mestre do Templo. Eles
acolhem-te. Foge tu, que eu já estou velho!
- E quem é esse teu amigo?
Chama-se Abraão e anda acompanhado de um sobrinho... Abel. Vai Munir,
procura-o em Cintra. Que a Paz permaneça contigo!
- Insh' Alá, Deus queira, meu irmão - disse por fim o jovem, com a
voz embargada.
Os dois homens abraçaram-se num longo enleio. Tinham a certeza que nunca
mais se veriam. Munir fez o caminho inverso para a sua casa.
Quando o dia clareou levantou-se. Dirigiu-se a uma bacia com água e fez a
sua purificação. Lavou primeiro a boca, seguido lavou os olhos, o nariz e
a cabeça. Com nova água lavou os braços e de segui-da lavou os pés.
Colocou-se frente ao tapete, fechou os olhos, ajoelhou-se, colocou as
mãos sobre a alfombra e tocando levemente com a testa no solo, dizia:
- Alá Akbar! Deus é grande! Por três vezes executou o Salah (movimentos
durante as orações), seguidamente colocou-se de pé, com as mãos no
coração e em silêncio fez a sua Nyya (declaração de glorificar a Deus).
Depois de fazer o Iftar, o seu desjejum, pegou nas poucas coisas que
possuía e saiu de casa.
Sabia que Jacob, o feirante, ia buscar vinho a Cintra. Dirigiu-se a sua
casa.
- Bom dia Jacob! Que a Paz esteja contigo.
- Bom dia Munir. Tão cedo ?
- É verdade. Queres um almocreve(101) ?
- Tu?... Aceito, vens comigo a Cintra? - perguntou-lhe Jacob.
- É para aí mesmo que quero ir!
Subiu para a carroça e dirigiram-se para a saída da cidade. Depois de
terem descido o Monte da Graça pelo lado Poente, atravessaram o braço do
Tejo e tomaram a direcção aos Mártires.
- Bom, já que aqui estamos os dois... diz-me lá Munir, de que foges tu?
- Da ignorância e da intolerância. Desde que os nassar começaram a perder
terreno na Terra Santa, a situação mudou. Já não são os mesmos!
- Tens razão. Eu, como sou comerciante e taverneiro, dou-lhes jeito...
vou-me safando...

(101). Almocreve Carregador.


266
- Ouve cá... tu que costumas ir a Cintra, conheces por lá um judeu que se
chama Abraão? perguntou Munir.
- Conheço pois, é o Mestre Abraão. Mas olha que já não está lá, foi com o
Mestre dos Templários para Al-Cobaxa.
- Al-Cobaxa... hei-de lá chegar... preciso de lhe falar.
- Se aproveitares os caminhos comerciais chegarás a bom porto!
- Obrigado amigo... obrigado. Farei como dizes.

Capítulo 41
A GEOMETRIA SAGRADA

A construção do castelo continuava a bom ritmo, tendo-se dado início à


edificação do convento que albergaria os monges-guerreiros. A capela, de
planta octogonal, à semelhança do templo de Salomão, na Terra Santa,
estava com os alicerces preparados. Tinham passado já oito anos, e
Gualdim Pais tinha reunido a sua apresta de técnicos, agora mais
alargada. Mais uma vez Renato e Abel estavam com o Mestre. Juntos
apreciavam a inscrição de uma pedra epigráfica romana, em cuja superfície
se lia:

« GATTIO ATTIA
NO RV FINO
SABIN
VLA
MATTER » (102)

A torre de menagem, acabada de construir sobre ruínas do antigo povoado,


levantava-se a uma altura de vinte metros e era agora o local de
trabalho. Cheirava à resina do soalho e o ar fresco da manhã entrava
pelas janelas. Dividia-se em dois andares, nos quais se abriam duas
janelas defendidas por grossas grades de ferro e diversas seteiras e
barbacãs.

(102). In José Manuel CAPÊLO, Portugal Templário - Relação e Sucessão dos


seus Mestres /1124.1314/, Arion Publicações, Lisboa, 2003, pp. 107, 108,
segundo a obra de Francisco Soares de Lacerda MACHADO, intitulada: O
Castelo dos Templários.

No ângulo Norte elevava-se a cidadela, composta por fortes e altas


muralhas coroadas de ameias e flanqueadas de torres e a Sul, estende-
-se a muralha ziguezagueando pela crista do acidentado monte fechando a
fortaleza a Oeste, com o futuro oratório acastelado, previsto para
o local.
O tempo passado em aprendizagem contínua, com o tio Abraão, tinha dado a
Abel o conhecimento de obra necessário à construção. Lembrava-se do que
lhe tinha dito o velho judeu ..."em obra é que se aprende!". No entanto
Gualdim Pais, o Mestre Templário, parecia ter tudo na cabeça. Sempre com
o fito de que Abel e Renato se superassem a si próprios, cofiou a barba,
gesto que repetia frequentemente, olhou-os nos olhos e perguntou-lhes:
- Que me têm a dizer da ermida de Santa Iria1 (103)?
- Bom, Mestre... a ermida foi o local onde Iria, da Ordem de São Bento,
foi martirizada. Cortaram-lhe a cabeça. Santa Iria também tem o nome
árabe de Xantarim (104), sabíeis? - respondeu Abel.
- Nunca ouvistes o provérbio "pela Santa Eireia, toma os bois e semeia"?
- perguntou-lhes Gualdim Pais.
- Mestre... disse Abel - ... o nome Eireia, vem da palavra grega Eirené
que significa «Paz», tal como o nome «Jerusalém».
- Abel, tu fazes jus ao teu tio! Levemos por diante aquele que foi também
o seu sonho. Esta é a nova Jerusalém: Thomar. O conceito de Paz é dado
pelo ramo da oliveira.
Gualdim desenrolou uma carta onde se notavam o desenho do castelo, a
ermida de Santa Iria, a Igreja de Santa Maria do Olival e no meio a velha
capela de S. João, o Percursor.
- Mas senhor?... E os bois? perguntava Renato.
- Os bois? - dizia Gualdim, rindo. Olhem para o castelo...o que vos
parece o desenho?
Renato olhou para Abel e disse baixinho:
- A mim nada! E a ti?
- Não sei... a porta do sol... a porta de Santiago... isto é... parece-
-me... uma constelação!... É a isso que vos referis D. Gualdim?

(103). Junto à ponte velha onde segundo a tradição, Santa Iria foi
martirizada em 653, já existia uma ermida da sua evocação quando, em
1160, o castelo dos templários começou a ser construído.
(104). xantarim - Designação árabe que deu denominação à praça de
Santarém.
270
- Fala para fora Abel - disse o Mestre, orgulhoso.
- É uma constelação estrelar, Mestre.
- Isso eu sei... mas qual?
- Bois?... Boieiro?
- Exactamente Abel.
- Pela Ermida, vai ao castelo e semeia? - disse Renato, a medo.
- Tal como Roma e Jerusalém... - disse Gualdim - ... também Thomar tem
sete colinas. Esta zona é chamada, como sabeis, a Mata dos Sete Montes.
Tal como Jerusalém tem o vale do Ebron e, a Nascente, o Horto das
Oliveiras, o Getsémani (114), também Thomar tem o rio Nabanus e, a
Nascente, Santa Maria do Olival. O castelo é a nossa cúpula do rochedo
onde, à semelhança de Jerusalém, está a ser construída uma charola, cópia
mais ou menos fiel da mesquita (115) da Terra Santa.
Gualdim tirou do seu gibão um compasso, mediu a distância entre a ermida
e o castelo.
- Sabeis quanto mede?
- ...? - A resposta foi uma enorme interrogação.
- Sete léguas. Quanto é a metade?
- Três léguas e meia - disseram em uníssono, os jovens.
- Então vamos medir três léguas e meia.
E no meio estava a velha capela de S. João (107). Gualdim pegou novamente
no compasso, e com o centro nesse local, colocou a outra ponta em Santa
Iria e traçou uma circunferência que passava exactamente pelo Castelo.

(114). Jardim de Getsémani, em Jerusalém, onde está localizada a Basílica


da Anunciação, Nazaré, Israel, um dos mais importantes santuários do
cristianismo na Terra Santa, fica no lugar que os primeiros cristãos
identificaram como o lar de Maria e José. Ao pé do Monte das Oliveiras,
na parte árabe de Jerusalém Oriental, é onde segundo o Novo Testamento,
Jesus se recolheu com seus discípulos para meditar e orar na noite em que
foi preso, antes de ser levado à crucifixão.
(115). Mesquita conhecida hoje pela de Omar, em Jerusalém. Do Monte das
Oliveiras vê-se dentro da cidade velha de Jerusalem, a Mesquita de Omar,
também conhecida como Domo da Rocha, com sua enorme cúpula dourada. O
nome "Mesquita de Omar" é incorrecto. Omar Ibn AlKhattab, o segundo
califa, ao conquistar Jerusalém no ano 637, apenas identificou o local
onde Maomé tinha subido aos céus, segundo a tradição islâmica. Foi o
califa Abdel Malik Ibn Marwan, em 691, quem realmente construiu a
mesquita.
(116). A Igreja de S. João Baptista viria apenas a ser construída tal
como hoje a conhecemos no final do séc. XV, por ordem d'El-Rei D. Manuel
I, no entanto à época havia outras igrejas no local, testemunho de povos
ali já anteriormente estabelecidos.
271
- Mas a Senhora do Olival fica de fora - disse Renato.
- Estejam mais atentos. Não se esqueçam que Deus é o grande geómetra.
Gualdim tomou novamente as ferramentas, e com uma régua traçou uma linha,
em direcção a Norte, unindo Santa Maria do Olival e Santa Iria.
- Para obtermos um ponto o que precisamos?
- A intersecção de duas linhas - responderam os dois jovens. Percorrendo
a semicircunferência inferior alvitrou um ponto.
- Sabem-me dizer que ponto é este?
- A capela de S. Sebastião! exclamaram, em uníssono.
Então, também na direcção Sul-Norte traçou uma linha que uniu S.
Sebastião a S. João, e prolongando o traço, encontrou a linha de Santa
Maria na Capela da Senhora da Piedade.
- Agora só falta unir a Senhora da Piedade ao Castelo, e obteremos um
triângulo isósceles - disse Abel.
- Esta é a modelação de Thomar. Quem nos seguir deverá respeitar esta
orientação. Esta é a Geometria Sagrada.- atestou Gualdim. - E este é o
caminho do reconhecimento. Nesta peregrinação encontraremos a nossa
relação com o mundo que nos rodeia e este, ligar-nos-á às nossas origens
cósmicas, para entendermos a razão da vida. O conhecimento não se
transmite, adquire-se ao experimentar a informação recebida.
Renato estava confuso. Lembrava-se do Mestre Abraão e de quanto tinha
dito acerca dos «Filhos de Salomão». Subitamente tudo fazia sentido desde
que se respeitassem as proporções e a cosmologia.
- É este o segredo das nossas construções. Foi o conhecimento adquirido
pelos nossos irmãos que nos permitiu chegar hoje aqui. Cada lugar, para
nós Templários, é um lugar sagrado, Abel, deverás guardar estas normas de
ordenança do espaço disse Gualdim, enquanto entregava ao judeu o rolo
desenhado. Depois fez uma pausa, e voltando-se para ambos, disse-lhes:

(108). A capela de São Sebastião, no lugar de Cem Soldos, freguesia da


Madalena, em Tomar, é um templo posterior à época em que decorre esta
narrativa, do qual hoje se destaca somente uma porta manuelina alterada,
com uma flor de lis no remate desfigurada pela construção de duas colunas
que a ladeiam, sobre altos pedestais. Em 1160, pressupõe-se que
existissem ali umas ruínas de outros templos sagrados, legado de povos
anterior-mente estabelecidos na região.

- Preparai os vossos pertences, iremos sair em campanha, amanhã cedo!


Ao descerem a escada que levava à Alcáçova, não conseguiam dizer palavra.
Pensavam em tudo o que o Mestre tinha dito e ficavam com a noção de que
ele sabia o que dizia. Renato virou-se para Abel e questionou-o:
- Porque será que o Mestre confia tanto em nós?
- Não sei Renato, mas cada vez me sinto mais perto da sua forma de
pensar.
- Sabes Abel, acho que do seu ponto de vista tudo tem uma razão lógica de
ser como afinal é. Como se tudo o que há de mais singelo na vida e na
natureza se repetisse infindavelmente nos pequenos detalhes, desvelando-
se em símbolos, apenas perceptíveis para alguns, aqueles que os saibam
decifrar. Estamos na posse de grandes segredos, amigo.
- De nada te servirão, se não lhes deres uso, Renato.
Do alto da torre, Gualdim, observava os jovens. Virando-se para os irmãos
que consigo haviam ficado, disse-lhes:
- Meus irmãos em Jesus Cristo, e na Santíssima Trindade, em breve será a
altura de elevarmos estes dois a um conhecimento superior - e apontou
para Abel e Renato.
Antunes Duval, o monge, virando-se para o Mestre, afirmou:
- Mestre, vós sabereis quando será o tempo da colheita... já que tanto
semeais! - e soltou umas boas gargalhadas, que o fizeram tossir.
- Eu sei Duval!... Eu sei. Em breve reuniremos a Comenda.
273

Capítulo 42
ALMOROLAN

Abel e Renato haviam chegado de manhã cedo à Alcáçova entrando pela porta
do sol, virada a Nascente. Gualdim Pais e fr. Antunes Duval, com uma
pequena guarnição já ajeitada, esperavam-nos. A idade começava a pesar-
lhes. Os rapazes que foram outrora davam agora lugar aos homens que se
tinham tornado.
- O sol já vai alto! - disse Gualdim.
- Senhor... afirmou Renato - ... Catarina mostrou-se indisposta esta
manhã. O que comeu ontem, lançou fora hoje.
- Sabeis senhor D. Gualdim... retorquiu Abel - ... acho que vou ter mais
um sobrinho e Renato ainda não se apercebeu!
- Por Deus... é certo que as regras lhe faltam há já algum tempo... iria
de facto ter mais um filho de Catarina... já contava com um rancho de
herdeiros, podia dar-se por muito contente! - nos seus olhos, brilhava
uma secreta alegria e um feliz contentamento. A vida corria-lhe de
feição.
- Bom, apraz-me ver-vos portadores de tão alegre notícia! Se assim é, os
meus parabéns Renato. Juntai-vos a mim e a Duval, vamos seguir em
direcção ao Salgueiral (109). Iremos em direcção a Sul, pela estrada
romana de Scalabis (110), a Penela.
Os quatro cavaleiros seguiam ligeiramente mais afastados da guarnição.
Seguiam lado a lado. Gualdim e Duval no meio, ladeados por Abel e Renato.
- Devo partilhar convosco uma questão que me preocupa... - enquanto
Gualdira falava, os dois amigos mostravam-se curiosos e espevitavam os
ouvidos.

(109). Salgueiral - Actual freguesia de Asseiceira.


(110). Scalabis - Santarém.
275
- A nossa Ordem, por bula de Honório II, só ao Papa deve obediência. No
entanto, a confiança que El-Rei, o Senhor D. Afonso nos votou, obriga-nos
à fidelidade. Uma fidelidade que devemos garantir com a vida. El-Rei
confiou-nos a segurança da linha do Tejo. Devemos prevenir-nos contra as
invasões muçulmanas...
- Mestre desculpai-me se vos interrompo... - disse Renato, constrangido
mas nós damo-nos bem com os muçulmanos, não é assim? não vejo necessidade
de mais contendas!... gozemos a paz que é chegada, por Deus!
- Renato... é certo que sim, mas darmo-nos bem com os outros não
significa que eles tenham que tomar posse do que é nosso! Este é o sonho
d'El-Rei D. Afonso, e o sonho do Rei está acima da nossa dimensão.
Depois de passada aquela terra fértil e de bom cultivo, tratada por
homens e mulheres que pagavam o seu tributo à Ordem, a fome começou a
apertar.
- Já conheceis Santa Cita? - perguntou Gualdim.
- Não! - responderam Renato e Abel, em uníssono.
- É um lugar bem perto daqui. Tem uma ermida dedicada a uma santa de nome
Cita ou Zita. Uma serviçal caseira, que era temente a Deus. Os romanos de
Sellium moveram perseguição aos cristãos e ela foi martirizada num monte,
onde teve sepultura. Cavalguemos agora mais apressados...- disse o Mestre
-...enquanto o caminho se faz a descer, todos os santos ajudam!
Picaram os cavalos, seguraram firmemente as rédeas e correram livremente,
com o vento a bater-lhes nos rostos. Desciam em direcção ao rio. Gualdira
picou mais cavalo e distanciou-se do grupo. Sentia-se isento, solto e
rejuvenescido. Só conseguiu parar junto às ameias do castelo de Paio
Pelle (111). Desceu do cavalo e largou-o nas margens do rio, para que
refrescasse. Encheu o peito de ar e respirou fundo, ao começar a subida
até à fortaleza.
De súbito, as portas abriram-se e Paio veio ao seu encontro.
- Mestre. Vós por aqui? questionou, surpreso.
- Verdade, Paio, A Ordem deve assegurar a linha do Tejo. Venho

(1ll). Pay Pelle ou Pain de Peelle- Actualmente Praia do Rihatejo. Tomar.

acompanhado dos meus homens, que tens para comer?... Estou com uma fome
das antigas!
- Mestre, viestes ao lugar certo... muito me apraz receber-vos. Gostais
mais de achegã ou de fataça?
- Já não como achegã frito há muito tempo! - exclamou. Enquanto acabavam
esta pequena conversa, o grupo chegava à praça forte.
- Quem são os cavaleiros que vos acompanham? perguntou o anfitrião.
- Lembras-te de Raimundo Moniz?... É o seu filho, Renato!
- E o outro?
- O outro?... É tão-somente o sobrinho do velho Abraão Zarco.
- Ouvi dizer que foi assassinado. É verdade?
- É verdade... infelizmente tenho que o admitir... mas agora deixa isso.
Vinde... - disse Gualdim, enquanto punha a sua mão sobre o ombro do
companheiro. Apresento-vos Paio de Pelle. É o responsável por esta
fortificação junto ao rio. Vamos ter o prazer de comer com ele, concedeu-
nos essa honra.
Entretanto, enquanto chegavam à fortificação, moços de estrebaria vieram
buscar os cavalos e subiram a rampa para a Alcáçova. Renato e Abel
olhavam um para o outro e arregalaram as sobrancelhas. A paisagem era
deslumbrante. O cheiro a rio e a brisa quente que vinha de Sul, marcavam
o ritmo daquelas gentes. Entraram a porta e subiram à torre quadrangular,
onde estava uma mesa posta para comerem. Sentaram-se e continuaram a
conversar. Subitamente veio uma serviçal com um prato de peixe acabado de
fritar. Comeram-no acompanhado de pão de milho.
- Gostais? - perguntou Gualdim.
- É muito bom. Tem é muita espinha - disse Renato.
- Sabeis... afirmou Gualdim. - Paio é o Mestre desta fortaleza, baluarte
do Tejo. Ele é de origem francesa, na verdade chama-se Pay, mas gosto de
lhe chamar Paio. Mas dizei-me, velho amigo, que novas nos contais?
- Mestre, isto está calmo por aqui. Vêm-se uns movimentos de muçulmanos
para Sul, mas é tudo gente pacífica. A propósito, e por falarmos no
falecido Mestre Abraão... Chegou até nós, vindo numa caravana, um jovem
árabe que procurava o Mestre. Eu disse-lhe que Abraão tinha falecido e
ele desanimou completamente.
278
- Onde está esse jovem? - perguntou-lhe Gualdim.
- Vou mandar-to chamar, Mestre!
Pouco tempo depois, Munir, o Sufi, entrou na torre.
- Entra rapaz! - disse Gualdim, enquanto se levantava para o receber. -
Como te chamas?
- Munir Ibn bin Wazir, Senhor. Sou o responsável da comunidade muçulmana
de Lixbuna. Venho a mando de Isaac, o judeu.
- Isaac? exclamou Abel. Lembro-me vagamente de um Isaac, em Lixbuna. Era
amigo do meu falecido tio.
- Lamento a perda do teu tio! - disse Munir, dirigindo-se a Abel. - Deves
ser o Abel... certo?
- Conta-nos a tua história e ao que vens - pediu Gualdim.
Munir sentou-se com eles e contou a sua história; tinha fugido de
Lixbuna; ido para Cintra e dali, de caravana em caravana, tinha subido o
Tejo. A conversa durou muito mais tempo e Gualdim foi-se apercebendo da
têmpera de Munir. Virando-se para fr. Antunes Duval, o Mestre disse-lhe
em voz baixa:
- Temos que levar este jovem connosco, é interessante.
- Concordo convosco, senhor.
- Meu querido irmão Paio de Pelle, arranjai montada para Munir. Em breve
temos de seguir caminho e apraz-nos-ia que se juntasse a nós... se ele
assim o desejar.
Depois da refeição, os cinco cavaleiros, seguidos da guarnição templária,
desceram a rampa do castelo e alinharam-se com o rio, subindo em direcção
à nascente. Uma hora volvida e estavam junto de uma fortaleza situada no
meio do rio Tejo.
- Meus amigos, apresento-vos o fortim de Azmomzan. Rapaz... disse,
dirigindo-se a Munir - ... que sabes deste castelo dos teus antepassados?
- Senhor, sei que há uns anos habitava neste local um emir, que tinha o
nome de Azmomzan. Tinha uma filha lindíssima que se perdeu de amores por
um jovem cristão. A jovem conseguiu a escuro da noite introduzi-lo no
castelo, por mais de uma vez. Uma noite os seus companheiros
acompanharam-no e ele facilitou-lhes a entrada, tomando o castro de forma
traiçoeira. O emir e a filha, querendo salvar a sua dignidade, subiram à
torre quadrada e abraçados um ao outro atiraram-se ao rio, preferindo a
morte à desonra.
Começava a escurecer e ao chegarem junto à margem, Gualdim deu ordem para
montar um acampamento. Como era seu costume, Munir, foi junto do rio e
fez a sua purificação. De seguida, sem medo e de forma decidida, estendeu
um pequeno tapete no chão, virou-se para de onde vinha a lua e fez as
suas orações. Renato e Abel cochichavam um com o outro, com pequenos
risos. Gualdim aproximou-se e repreendeu-os:
- Calai-vos, línguas de víbora! disse o Mestre. Estou a gostar do que
vejo!... Antunes Duval, vamos rezar com o muçulmano?
Em breve todo o grupo estava silencioso, em pé, detrás de Munir. O jovem
virou-se e uma pequena lágrima rolou-lhe pelo canto do olho. Nunca tinha
feito aquela experiência. Quando acabaram, Gualdim colocou-lhe a mão no
ombro, e disse-lhe:
- Obrigado, Munir. Quantas vezes nos esquecemos que Deus se manifestou a
Abraão, nosso pai? E de que apesar das diferenças somos mais iguais do
que parecemos.
- Sabeis senhor, esta hora é sagrada para mim. Aprazei com os meus, que
quando a lua se levantar do Oriente, e através dela, nos sentirmos unidos
olhando na mesma direcção.
- Bom, a hora faz-se tardia e vamos pernoitar aqui nesta margem - disse o
Mestre.
Em breve estariam prontas as tendas e uma boa fogueira. Com o cair da
noite a luz da fogueira reflectia-se nas águas. Por seu lado, as árvores
pareciam gigantes que guardavam à distância o castelo. Munir sentia-se
bem com este grupo de pessoas e o seu coração foi-se abrindo. Quando a
noite desce, os corações aquecem, e falou-lhes de si, da maneira com
entendia a mensagem do Islão e da forma como compreendia as outras
religiões. Renato, Abel e Munir faziam um trio interessante.
- Julgo que pela primeira vez, de há uns tempos para cá, vou dormir uma
noite descansada - disse o jovem muçulmano.
A noite estava quente e acabaram por adormecer à volta da fogueira. Mal o
sol despontou, Antunes Duval abeirou-se de Renato e Abel, que dormiam
enrolados em cobertores junto de Munir.
- Rapazes, tendes que ir ao castelo. Em breve, o Mestre pretende reformar
este fortim. Mantende-o informado do estado em que está, e das medidas
que tem.
- Das medidas? interrogou Renato. - Como vamos saber as medidas?
- Amanhai-vos! - respondeu Antunes Duval.
- Dai-me um bocadinho de tempo - disse Munir.
Afastou-se do grupo, fez as suas orações e pouco depois apareceu junto
dos outros com uma vara na mão.
- Para que é esse pau? - perguntou Renato.
- Este pauzinho tem a medida de três pés... - respondeu, prontamente.
- Ah... uma bitola - disse Abel.
- Agora temos que ir para a ilhota.
Não muito longe dali, andava no rio um barqueiro à pesca.
- Senhor... Senhor... - chamaram os jovens.
Gualdim ouviu a algazarra e virou-se. Teve que se rir. Munir, aos pulos,
chamava o pescador e atirava pedras para a água na sua direcção. Vigiado
por Abel e Renato. O homem olhou para eles, fez-lhes sinal com o braço e
remou na direcção da margem. Quando chegou não vinha com boa cara.
- Agora que me afugentastes o ganha-pão, que quereis de mim?
- Bom homem, desculpai-nos. Levai-nos até ao castelo - disseram.
- E quem mo pede?
- Estamos ao serviço do Mestre do Templo, D. fr. Gualdim Pais - foi
Renato que falou.
- Subi... vamos lá...
Pela primeira vez estavam os três dentro de um pequeno barco. Apesar da
distância ser curta e das águas não serem muito mexidas, estavam com medo
de caírem, pois a profundidade era grande.
Ao descerem do barco encontraram uma ilha rochosa onde estavam as ruínas
daquilo que tinha sido, em tempos, um belo forte.
O conjunto engrandecia-se com uma torre de menagem quadrangular que
aparentava ter três pisos, as muralhas com oito torreões. Começaram as
medições. Vara no chão e começaram a contar. Cem varas de comprimento,
por oitenta e três de largura. O Mestre do Templo e a Ordem teriam muito
que fazer para reconstruir aquele castro!
O sol já anunciava a tarde e os três jovens estavam ruborizados pela
claridade tórrida. Ouviram um assobio. O pescador chamava-os. - Eh
rapazes, o Mestre pede-vos que venham...
Desceram a encosta que levava ao castelo, desviando-se da frondosa
vegetação, e ao entrarem no barco chegou-lhes ao nariz o cheiro a peixe
assado.
- Esse Mestre trata-vos bem... com os meus peixes!
A expedição ainda continuou por mais uns dias. Subiram rio e verificaram
as fortificações de Belver, regressando depois a Thomar.
Apesar da irregularidade do maciço granítico que lhe ditou as formas, o
castelo de 310 metros de comprimento, 75 de largura e 18 metros de altura
acima das rochas escarpadas, viria a tornar-se um exemplo notável de
arquitectura militar.
280

Capítulo 43
A COMENDA SECRETA

Mais um Inverno tinha passado, e a Primavera surgia em força. Catarina e


Renato estavam à porta da sua casa. Olhavam para o cesto de verga onde
dormia tranquilamente Clara, a sua filha mais nova. As restantes crianças
brincavam pela casa, soltando gargalhadas inocentes. Ao longe, viram
surgir um cavaleiro, que galopava em sua direcção.
- Catarina, vem aí alguém! Leva Clara para dentro disse Renato.
- Mas... é o meu tio Martinho!... exclamou Catarina, com uma lágrima
muito saudosa a querer saltar-lhe dos olhos.
- Meu tio... - gritava, acenando-lhe de longe.
O monge chegou junto deles e um criado amparou-lhe a montada.
- Querida sobrinha ! Há quanto tempo!
Os dois abraçaram-se e ternamente, ela apresentou-lhe a sua filha Clara.
- Clara... disse Martinho Viegas, olhando para a sobrinha. Tens o olhar
da tua avó!
- Que fazeis por aqui, tio?
- Venho visitar o Mestre...
Renato avançou para ele, interrompendo-o.
Cumprimentou-o com um valente abraço.
- Ao vosso serviço, senhor. Como tendes passado? Ceais connosco?
- Claro! E depois da janta ides acompanhar-me... preciso de vos falar.
Após a refeição e depois de colocarem a conversa em dia, Martinho Viegas
e Renato saíram.
- Para onde me levais fr. Martinho? perguntou Renato.
- Renato, recebi ordens para te acompanhar... vim porque me mandaram
buscar-te!
A lua cheia seguia-os e enquanto se dirigiam para a localidade de
S. Pedro, numa pequena encruzilhada, Abel e Munir acompanhados de fr.
Antunes Duval juntaram-se a eles. Cumprimentaram-se num enorme alvoroço.
Havia quase um ano que não se viam! Ao chegarem à Anta da Laje, Gualdim
esperava-os.
- Meus amigos, foi-vos confiada uma missão maior. Desmontai os vossos
cavalos e vesti estas túnicas brancas.
Os três amigos envergaram as vestes e Antunes Duval deu-lhes três cordas
que mandou colocarem à cintura. Eles não trocavam nenhuma palavra. Depois
mandaram-nos entrar para dentro da mamoa.
- Agora, atai as pontas das cordas.
Seguidamente, Antunes Duval pediu que se descalçassem e vendou-os.
- Meus amigos, é Pedro que tem as chaves de abrir e de fechar, é ele quem
abre a porta da iniciação. Tereis que compreender Pedro, para chegar a
João; compreender o mundo de cabeça para baixo para atingir o Espírito.
Confiai em nós! - disse, apoiado por fr. Duval e fr. Martinho.
Martinho Viegas deu a Renato a ponta de uma corda que segurava em cima da
sua montada. Renato, Abel e Munir seguiam em fila colocando, cada um, uma
mão no ombro daquele que o precedia.
- Agora segui-nos, sem medo e com calma.
Mais à frente, Antunes Duval, mandou-os parar.
A sabedoria e o conhecimento estão protegidos por espinhos. A sua
travessia pode ser dolorosa. Confiem em Maria, o lírio entre os
espinhos - disse Duval.
Avançaram calmamente e na verdade sentiram espinhos nos pés. Apesar de
serem pequenos alguns cravaram-se nos calcanhares. Os homens não tugiram
nem mugiram. Ao chegarem a chão limpo sentiram alívio. O ar fresco
denunciava a descida para uma gruta. Depois de descerem uns degraus,
foram-lhes retiradas as vendas. Cerca de trinta cavaleiros Templários
empunhavam archotes. Entre ele estavam Gaspar Gomes, João Arnaldo
Domingues, Fernão Afonso, Pedro Afonso, Fuas Roupinho. Gualdim Pais e
Antunes Duval ocupavam um lugar de destaque.
No chão tinham um objecto que representava uma cabeça. Era o Baphomet, a
cabeça que indicava a sabedoria ou a iniciação pela Luz. Baphê =baptismo,
metis=Sabedoria, era o sinónimo de Sofia, o Baptismo da Sabedoria.
284
- Esta é a imagem da cabeça do profetal... - disse Gualdim - ... a cabeça
daquele que assumiu a verdade. E sendo a representação daquele que amou O
Mestre, preferindo o martírio, é para nós um símbolo de coerência. " É
preciso que eu me baixe, para que outro mais alto se levante".
Antunes Duval pegou na imagem e levantou-a, e todos eles inclinaram as
suas cabeças.
- Que esta prece permaneça em silêncio - disse.
Em resposta, colocaram o dedo indicador junto dos lábios.
- Não vos pedimos que renegueis as vossas crenças... - disse Duval - ...
pedimos sim, que aceiteis algo maior... a sabedoria. Para se atingir o
conhecimento, é necessário que a morte vos atinja. Tal como Pedro deveis
renegar a Cristo, na forma como O conheceis, para conhecê-lo na sua forma
gloriosa e cósmica.
Depois colocaram um crucifixo no chão, e pediram para colocar o pé
direito em cima da imagem.
- Repeti comigo: Renego-vos como imagem e assumo-vos como arquétipo.Por
três vezes o repetiram. Depois Antunes Duval elevou o crucifixo e deu-o a
beijar.
Seguidamente retirou dos seus lábios um pouco de saliva e passou-a pelos
lábios deles dizendo: Recebei o carisma. Revivei neste grupo de irmãos
onde impera o segredo e o silêncio.
Gualdim tomou a palavra:
- Meus irmãos, fostes chamados a este círculo secreto da nossa Ordem,
para que perpetueis o conhecimento antigo. Aquele que é revelado de boca
em boca. Aos irmãos aqui presentes pergunto se reconhecem estes novos
irmãos, ao que eles anuíram elevando as tochas e gritando:
- Viva! Viva! Viva...
Gualdim Pais tomou mais uma vez a palavra, e disse:
- Da última vez que aqui estivemos reunidos, há quase dez anos atrás,
descobriu-se a chave dos Testemunhos do advento do Divino Espírito Santo.
Os espiões de Castela têm tido esse poderoso segredo em sua posse desde
então. Há já uns anos que foi enviada um emboscada a San Esteban de
Gormaz, em Soria, na província de Castela, a fim de resgatar a preciosa
relíquia. Essa comitiva ainda não regressou. Oremos pelos nossos irmãos,
para que regressem a salvo.
285
O Mestre continuou a falar.
- Há entre nós um irmão que deseja comunicar-vos um segredo. Meu irmão,
tendes a palavra.
Os cavaleiros afastaram-se e de entre eles saiu, para grande espanto de
todos, El-Rei D. Afonso Henriques.
O segredo que vos confio é o futuro do nosso reino. Gualdim Pais, nosso
Mestre, é o fiel depositário dos Testemunhos do advento da nova era e dos
tesouros dos nossos irmãos. Guarda também os Mapas secretos que contêm
representações astronómicas que permitem a navegação no oceano, no
entanto, não é sobre eles que vos quero falar, mas sim de S. Brandão, um
monge celta do séc. V. Desde o tempo dos gregos que o oceano ocidental é
associado com a morte. No entanto, a tradição que nos foi comunicada
pelos nossos irmãos, secretamente através de marinheiros celtas, afirma
que S. Brandão efectuou viagens pelo Oceano Ocidental e aportou em novas
paragens: terras rodeadas de mar a que chamou de Coelhos, Pombas e Corvo
(112).Encontrou uma terra de Vinhas (113) e estabeleceu um porto novo
(114). Não há qualquer registo destas viagens, nenhum tabelião as
registou, mas tenho informações seguras de que existe terra para lá do
oceano e tenho a certeza que o mar é navegável por Norte.
El-Rei continuou a falar, perante uma audiência interessada de irmãos.
- É este o sonho de meu pai, o Conde D. Henrique... foi sempre! Não
perder um só palmo, à terra que me deixou, mas sim acrescentá-la e dar-
lhe louvor e glória. Este segredo deve permanecer vivo nos vossos
corações e nunca deverá ser revelado. Só no tempo certo, quando este
houver chegado. Deverá ser sempre defendido, nem que seja a custo de
sangue. Vamos cumprir Portugal e vamos cumprir o Mar! Que este esforço
seja à Glória de Deus Nosso Senhor, de Jesus Cristo, de Sua Mãe e do
Espírito Santo. É este o nosso Graal, é esta a nossa nau... é este o
nosso testemunho!
Todos os cavaleiros estavam calados. O segredo que acabavam de escutar
era a sua esperança como povo e Thomar era agora um farol rumo ao oceano
de esperança.
Após a intervenção do rei, surge na sala uma figura já bem

(112). Arquipélago dos Açores.


(113). Vinland - América e Canadá.
(114). New Port - Boston.

conhecida e benquista de todos. Lopo Fernandes junta-se aos amigos,


acompanhado dos restantes cavaleiros do templo: Nuno Fafes, Estêvão
Martins e Paio Sanches. O primeiro voltou-se para todos os irmãos ali
presentes e soergueu um manuscrito que continha na capa um baixo-relevo
onde figurava a pomba branca do espírito santo.
- Amigos, volta à mesma morada aquilo que nunca dela deveria ter saído!
De hora em diante, não mais se percam preciosidades algumas, reflexo de
esplendor e graça e profunda sabedoria que rege e anima os puros de
coração.
E entregou, com uma vénia, a D. Gualdim Pais, o manuscrito revelador das
três idades da História. Este, por sua vez, passou-o a El-Rei, a quem deu
a honra de utilizar a chave, para, enfim, se lhe conhecer o conteúdo.
Juntamente com os tesouros e os Mapas, ao recuperar os Testemunhos de
Joaquim de Flora, a Ordem protegeria agora todo o património que detinha,
não só material mas também enormemente espiritual.
286

Capítulo 44
O MEU CORAÇÃO É ÁRABE

Afonso Henriques levantou serenamente a mão e todos se sentaram em


silêncio.
- Não me esqueço que convosco, e no Templo sou irmão, e para vós, Rei -
continuou calmamente a falar. - No entanto, também um coração de Rei tem
os seus segredos. De entre vós há dois; um, já não faço segredo, que
sabeis que eu tomo por filho... - olhavam todos para Pedro Afonso e
sussurravam entre si também o vosso Rei se perdeu de amores por uma
mulher árabe.... Também o vosso Rei se rendeu ao encanto das mulheres
árabes. Há outro filho que tenho, que vos vou revelar aqui. Digo-vos isto
para que o protejais, para que o ameis. Não seria conveniente criá-lo
como a Mestre Pedro Afonso. Dei-lhe o nome de Martim Afonso Chichorro,
mas o pai que o amou, em tão grande amor quanto o meu, chamou-lhe Munir
Ibn Wazir... Levanta-te Munir, filho d'El-Rei de Portugal.
Munir corou, engasgou-se com a surpresa, levantou-se e dirigiu-se a El-
Rei D. Afonso Henriques.
- Senhor, Qalbi Arabi (o meu coração é árabe)... só vos posso chamar
Rei... e continuou -... "Os caminhos para Deus são tantos como são as
respirações dos filhos dos homens" (115). O meu conceito de tolerância
não significa tolerar-vos e deixar que manifesteis a vossa opinião; é
mais abrangente, significa que a cada um é possibilitada a escolha do seu
caminho, sem que os outros interfiram nessa escolha.
- Eu sei, meu filho... também Nosso Senhor Jesus Cristo afirmou que "a
casa do Pai tem muitas moradas"... Por isso te chamo irmão.
Enquanto se abraçavam, Munir compreendeu a sua inquietação
(115). Provérbio Sufi.
290
espiritual. O facto de ser Sufi encontrava razão de ser nas memórias do
seu coração.
Conta-nos a tua história, Munir - disse Sua Majestade El-Rei D. Afonso.
- Senhor, não te conto a minha história, antes a história dos meus para
que os nossos sejam maiores. A cultura e a herança do meu povo são
ameaçadas. O Espírito de Alá não é só património do Islão, mas dos homens
todos.
Falastes em Mapas e viagens. Eu falo-vos de um marinheiro, Sindbad. Ele
fez sete viagens e chegou a uma ilha encantada. Al jazira, a ilha mágica.
Navegou pelo mar tenebroso, para ocidente e viu uma ilha sagrada, verde
porque era da cor santificada pelo profeta. Por isso vos digo, parti para
o ocidente e encontrareis terra firme. Aceitastes-me entre vós e em tudo,
pela sabedoria que vos vem do coração, me fizeste igual a vós. É este o
segredo que vos deixo. Os Mapas secretos e as viagens de que falais já
foram experimentados. A terra dos meus antepassados é navegável por Sul.
Já os fenícios e os egípcios navegaram até ao fim de África.
El-Rei estava agora sentado, o seu coração aquecia. Sentia o sonho de seu
pai tornar-se cada vez mais, uma realidade.
Gualdim levantou-se e dirigiu-se aos homens que ali se juntavam, dizendo-
lhes:
- Meus irmãos, o que aqui se passou, aqui deve ficar. A nossa empresa
está mais rica. Juremos silêncio sobre os trabalhos deste dia.
Regressemos à escuridão e que esta luz permaneça nos nossos corações.
Renato aproximou-se de Gualdim e interpelou-o em segredo:
- Mestre desculpai a minha pergunta... afinal... se Mestre Abraão não os
tinha... se El-Rei vo-los confiou, onde estão os Mapas?
- Renato, qual a melhor maneira de guardares uma coisa preciosa? -
perguntou-lhe o Mestre.
- É escondê-la num local seguro? - respondeu Renato. - Ou?...
- ... Trazê-la connosco?...
- Renato... quando somos portadores de um segredo de Estado, devemos tê-
lo sempre presente... nunca te esqueças! É esta a função da Comenda...
preservar os segredos da memória. Segredos que terão de ser transmitidos
de coração em coração, de geração em geração.

(116). Al-jazira - ilha verde, campo de produção, lezíria.


292

BIBLIOGRAFIA
Nova História Militar de Portugal, vol. 1, Lisboa, Círculo de Leitores,
2003.
AA.VV., Tesouros Artísticos de Portugal, Lisboa, Reader's Digest, 1976.
AA.VV., História de Portugal, Porto, Portucalense Editora, 1931. AA.VV.,
História de Portugal, Amadora, Ediclube 2004.
AA.VV., Portugal Misterioso, Lisboa, Reader's Digest, 1998.
AA.VV., Les Cisterciens, Vic-en-Bigorre França, MSM, 1998.
AA.VV., Los Cistercienses, França, MSM, 2003, Catálogo "In Situ Temas".
AA.VV., Cister no Vale do Douro, Porto, Edições Afrontamento, s.d.
ADRIÃO, Vitor Manuel, Mistérios Iniciáticos do Rei do Mundo, História
Oculta de Portugal, 1a Edição, S. Paulo, Brasil, Madras Editora Lda,
2002.
AMARAL, Diogo Freitas do, D. Afonso Henriques - Biografia, Lisboa,
Círculo de Leitores, 2001.
ANES, José Manuel, Re-criações herméticas II, Lisboa, Hugin, 2004.
ARNAUT, António, Introdução à Maçonaria, 4a Edição, Coimbra, Coimbra
Editora, 2003.
ATIENZA, Juan G., A Meta Secreta dos Templários, Lisboa, Litexa-Portugal,
1981.
BAIGENT, Michael; LEIGH, Richard; LINCOLN, Henry, O Sangue de Cristo e o
Santo Graal, Lisboa, Editora Livros do Brasil, 2004.
BARRETT, David V., Numerologia, la Edição, Lisboa, Editorial Presença,
1996. BERESNIAK, Daniel, A Cabala Viva, Lisboa, Editorial Estampa, 1998.
BORGES, Alexandre; ROSA, Hugo, Histórias Secretas de Reis Portugueses, 2a
Edição, Lisboa, Editorial Notícias, 2004.
CAPELO, José Manuel, Portugal Templário - relação e sucessão dos seus
Mestres [1124-1314], Lisboa, Aríon Publicações, 2003.
CONWAY, D. J., A Magia Celta, Lisboa, Editorial Estampa, 1994.
DOMINGUES, Joaquim, De Ourique ao Quinto Império - Para uma filosofia da
cultura portuguesa, Lisboa, INCM, 2002.
FRANCLIM, S., O Sonho do Portugal Templário, Lisboa, Hugin, 2004.
FUTTHARK, Run, A Misteriosa Ordem Templária, Lisboa, Esquilo, 2004.
FURTADO, Maria Zulmira, O Mosteiro de Alcobaça e a Dinastia Afonsina,
Batalha, ed. Autor, s.d.
GRAÇA, Luís Maria Pedrosa dos Santos, Convento de Cristo, Lisboa - Mafra,
IPPAR, 1994.
GUERBER, H. A., Edad Media Mitos v Levendas., Espanha, M E Editores,
1995.
HERCULANO, Alexandre O Bispo Negro, Biblioteca Básica Verbo, s.d.
HOWERTH, Stephen, A Verdadeira História dos Cavaleiros Templários,
Lisboa, Editora Livros do Brasil, 2004.
IRISANI, Angeles de La Reina Urraca, Madrid, Ediciones Temas de Hoy,
2000.
JAVEGA, Isabel Hervás, Judios en Al-Andalus, Revista História y Vida n°
433, Barcelona, s.d.
KAPÓN, Uriel Macías, La Cocina Judia, Girona, ALYMAR, s.d.
LAMY, Michel, Os Templários - Esses Grandes Senhores de Mantos Brancos,
3a Edição, Lisboa, Editorial Notícias, 2000.
LEADBEATER, C.W. , A Vida Oculta na Maçonaria, Tradução da 2a Edição de
1928, Editora Pensamento, S. Paulo, Brasil, s.d.
LIVING, Trevor, História das Religiões, la Edição, Colecção Fundamentos,
Lisboa, Editorial Presença, 1994.
LOUÇÃO, Paulo Alexandre Os Templários na Formação de Portugal, la Edição,
Lisboa, Esquilo, 1999.
LOUÇÃO, Paulo Alexandre Dos Templários à Nova Demanda do GRAAL, 2a
Edição, Lisboa, Esquilo, 2004.
MAALOUF, Amin, As Cruzadas Vistas pelos Árabes, 12a Edição, Algés, Difel,
2003.
MEDEIROS, José, Os Caminhos Esotéricos de Portugal - Sete Peregrinações
pelos Caminhos do Quinto Império, Cascais, Pergaminho, 2003.
MENDANHA, Victor, História Misteriosa de Portugal, 5a Edição, Lisboa,
Pergaminho, 1999.
MONTARES, Júlio Ignacio González; VAZQUEZ, Carlos Sastre Conventos e
Mosteiros de Galicia, Espanha, Edicións Nigratrea S.L., 1999.
OUAKNIN, Marc-Alain: ROTNEMER, Dory, A Bíblia do Humor Judaico, Lisboa,
Contexto Editora, 1996.
PAGELS, Elaine Os Evangelhos Gnósticos, 3a Edição, Porto, Via Optima,
2004.
PEREIRA, Paulo, De Áurea Aetate - O coro do Convento de Cristo em tomar e
a Simbólica Manuelina, Lisboa, IPPAR, 2003.
PERNOUD, Régine Os Templários, Mem Martins, Pub. Europa-América, 1996.
PESSOA, Fernando, Mensagem, 2a edição, Lisboa, Assírio e Alvim, 2000.
REID, Lori, A Magia da Lua, Lisboa, Círculo de Leitores, 2004.
SARAIVA, José Hermano, História Concisa de Portugal, Mem-Martins,
Publicações Europa-América, 1995.
SOUSA, Manuel de Reis e Rainhas de Portugal, Mem-Martins, SPORPRESS, s.d.
WILMSHURST, W.L., Maçonaria Raízes e Segredos da sua História, Lisboa,
Prefácio, 2002.
Esta bibliografia não inclui todas as obras ou artigos consultados.
Também não inclui inúmeros web sites perscrutados.
Outras obras editadas pela Esquilo:
RITOS DE INICIAÇÃO E SOCIEDADES SECRETAS
Mircea Eliade
BERNARDO DE CLARAVAL Marie-Madeleine Davy
O MISTÉRIO DE PORTUGAL NA HISTÓRIA E N'OS LUSÍADAS
António Telmo
FERNANDO PESSOA E OS MUNDOS ESOTÉRICOS
José Manuel Anes
VIDA DEPOIS DA MORTE - A CIÊNCIA NA FRONTEIRA DO MISTÉRIO
Ken Wilber, S. Grof, R. Sheldrake e outros
DOS TEMPLÁRIOS ,4 NOVA DEMANDA DO GRAAL
Paulo Alexandre Loução
OS TEMPLÁRIOS NA FORMAÇÃO DE PORTUGAL
Paulo Alexandre Loução
A ALMA SECRETA DE PORTUGAL
Paulo Alexandre Loução
PORTUGAL TERRA DE MISTÉRIOS
Paulo Alexandre Loução
VIRIATO - A LUTA PELA LIBERDADE
Mauricio Pastor Munoz
A GRANDE EPOPEIA DOS CELTAS
Jean Markale
A ALEGORIA DA CAVERNA
Platão
PARSIFAL E O MISTÉRIO DO GRAAL
Lindsay Clarke
294

Digitalizado por
Ana Filipa Graça

Corrigido por

Carla Maria Ferreira dos Mártires

José Alberto Canelas

Lisboa, 27 de Março de 2006.

Você também pode gostar