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CAEL

Concepção e Avaliação em E-learning


Mestrado de Pedagogia do E-learning
Dezembro de 2010

Perspectivas sobre avaliação pedagógica:


a avaliação das aprendizagens em contexto online

Ana Maria Marmeleira


Margarida Marmeleira

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Introdução

As questões da avaliação das aprendizagens têm despertado muito interesse tanto no que diz respeito à
educação tradicional presencial como ao ensino online. Nesse sentido, ao longo deste breve artigo vamos
analisar as perspectivas apresentadas a este propósito em três artigos: “Aportaciones de la tecnología a la
e-Evaluación”, de E.Barbera, “Avaliação em processos de educação problematizadora online”, de Alex
Primo, e “Problemáticas da avaliação online”, de M.J. Gomes.

Destacaremos os aspectos essenciais destes artigos no que diz respeito às principais questões que se
levantam no âmbito da avaliação das aprendizagens, à abordagem pedagógica subjacente às formas de
avaliação adoptadas em cada curso e aos instrumentos que podem ser utilizados na avaliação em
contextos online, finalizando com uma breve reflexão sobre este tema.

A problemática da avaliação das aprendizagens

Antes de se poder falar em instrumentos de avaliação, é importante analisar algumas questões prévias,
para as quais estes três artigos chamam a nossa atenção. Uma das questões prende-se com a finalidade
da avaliação. Esta serve vários fins diferentes, que condicionam as escolhas feitas por cada educador. A
avaliação pode ser encarada, por exemplo, como um estímulo para que os alunos se envolvam de forma
mais activa nas actividades propostas, como um instrumento para a consolidação das aprendizagens, como
um meio para detectar as dificuldades dos alunos dando pistas para a actuação do professor, ou como um
mecanismo de aferição das aprendizagens efectuadas, entre outros fins.

Nesta linha de sentido, podemos falar em diferentes tipos de avaliação, como a diagnóstica, a formativa e a
sumativa, consoante se pretenda obter informações sobre as aprendizagens anteriores dos alunos de modo
a poder seleccionar os conteúdos e/ou tarefas a incluir no curso, conduzir o processo de ensino-
aprendizagem reorientando-o para que as dificuldades possam ser superadas ou reunir elementos para
atribuir uma classificação aos alunos.

Além disso, é importante que se defina de forma clara que tipo de aprendizagens se pretende efectivamente
avaliar – as que dizem respeito a conteúdos, às competências de resolução de problemas, à capacidade de
trabalhar colaborativamente, etc. –, pois é disso que dependerá a selecção dos instrumentos de avaliação.
Este aspecto está intimamente relacionado com a abordagem pedagógica que está subjacente a cada
curso, como veremos na secção seguinte.

Finalmente, há a considerar a especificidade do ensino online a distância. Sendo que não há um contacto
visual entre professor e alunos, há algumas questões que se podem colocar, como a dificuldade de
verificação da identidade dos estudantes e a dificuldade em notar o interesse ou desinteresse dos
estudantes e as suas dificuldades, pelo que nem sempre se torna fácil apoiar e orientar os alunos de modo
a alcançarem uma aprendizagem mais significativa.

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A abordagem pedagógica

Muito frequentemente, tem-se utilizado a avaliação como uma forma de verificar se os alunos são capazes
de reproduzir o mais fielmente possível os conteúdos que os educadores lhes transmitiram. Nesta
perspectiva (de carácter behaviorista), o desempenho dos alunos não passa de uma mera automatização,
sem que se valorize a atitude crítica e reflexiva dos alunos quanto às aprendizagens. No ensino presencial,
os testes de avaliação tradicionais são utilizados na maior parte das vezes como instrumentos de aferição
desta capacidade de reprodução dos conteúdos. No ensino online a distância, esse papel é muitas vezes
desempenhado por testes de escolha múltipla, de verdadeiro/falso, de preenchimento de lacunas,
frequentemente corrigidos automaticamente pelo sistema informático. No entanto, tanto num caso como
noutro, neste tipo de avaliação os melhores resultados não são necessariamente atingidos pelos alunos
com maiores capacidades, mas por aqueles que têm uma melhor memória.

Uma perspectiva diametralmente oposta, de carácter construtivista, coloca o foco das aprendizagens não
nos conteúdos, mas no desenvolvimento de competências e no próprio processo de aprendizagem. Neste
sentido, a aprendizagem não implica repetir o que o professor ensinou ou o que vem nos materiais de
estudo, mas sim reconstruir o conhecimento, renová-lo através da invenção ou da permanente
reconstrução. O processo de ensino-aprendizagem passa pela problematização, em que são colocados
problemas que têm a ver com os próprios alunos, que podem até ser colocados por eles e para cuja
resolução os alunos terão de ter uma atitude activa perante o conhecimento e a aprendizagem,
seleccionando por si próprios os dados e as informações necessárias para resolver o problema, definindo
as estratégias de trabalho mais adequadas, discutindo com os colegas de grupo até se conseguir chegar a
uma solução.

O que está em causa não é, então, se o aluno adquiriu este ou aquele conteúdo, mas é a forma como
chegou ao conhecimento, é as competências que desenvolveu, é a capacidade que revelou de trabalhar em
equipa. Por isso, o trabalho de grupo deve ser privilegiado, pois permite uma construção colaborativa do
conhecimento uma vez que a discussão, a troca de ideias, a argumentação e contra-argumentação tornam
a aprendizagem mais efectiva. Por isso também a teoria não deve ser entregue previamente aos alunos
mas apenas durante o processo, para que não se tente reproduzir a teoria na elaboração das tarefas, mas
que se procure autonomamente as soluções possíveis.

Ora, perante esta abordagem pedagógica, tem de haver necessariamente uma adaptação dos métodos de
avaliação e dos instrumentos utilizados, pois os simples testes referidos anteriormente são manifestamente
insuficientes. Nesta perspectiva, o que deve ser avaliado não é apenas um produto final, mas todo o
processo. É o envolvimento do aluno nas actividades do grupo, é o seu contributo para a pesquisa de
informação e para a discussão. É a sua reflexão e análise crítica dos conteúdos e das informações
analisadas. É a sua auto-crítica relativamente ao seu trabalho e a reformulação dos seus próprios produtos.
É a sua perspectiva perante os trabalhos dos colegas. Assim, é necessário diversificar os instrumentos de
avaliação, tal como veremos na secção seguinte.

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Os instrumentos

Sendo que, como referimos anteriormente, não são os produtos finais isolados que importam, mas todo o
processo que conduziu até eles, há diferentes tipos de instrumentos que devem ser utilizados para uma
avaliação que corresponda aos objectivos traçados, que vão muito mais além do que os simples testes de
escolha múltipla, tipo quizz. Nesse sentido, podem ser utilizados:

- os registos automáticos gerados pelos LMS, que permitem verificar a actividade de cada aluno, o seu
tempo de permanência no sistema, o que consultou, a participação que teve em determinadas actividades,
etc. Embora não permitam aferir a qualidade das aprendizagens, permitem uma análise quantitativa que
pode ajudar a identificar alunos que estão a ter mais dificuldades em acompanhar o ritmo das actividades,
precisando assim de uma maior atenção do professor;

- a elaboração de artigos, que permitem o desenvolvimento de uma atitude reflexiva e crítica perante os
temas em análise;

- os fóruns electrónicos, que permitem o trabalho colaborativo, a participação reflexiva em discussões, a


argumentação e contra-argumentação. Ficando um registo permanente da participação dos alunos nesses
fóruns, torna-se possível avaliar o seu empenho, a forma como procuram e encontram soluções para os
problemas, o modo como cooperam com os outros e trabalham em equipa, entre outros aspectos;

- a conversação síncrona, que permite uma maior cooperação entre os membros do grupo/turma, dando a
conhecer de forma mais directa ao professor as características de cada aluno;

- os portefólios digitais (em blogs ou noutras ferramentas específicas), que permitem uma amostragem do
trabalho do aluno ao longo de todo o percurso, bem como uma reflexão crítica, tanto nos comentários que
apresenta, como nas escolhas que faz dos elementos que deve incluir nesse portefólio. São também uma
forma de o professor ir acompanhando a evolução do aluno, verificando se existem áreas onde é necessária
uma reorientação mais específica;

- os mapas conceptuais, que permitem evidenciar se as ideias-chave de determinado tema foram de facto
apreendidas.

As TIC e a Web 2.0 em particular oferecem um sem número de instrumentos que possibilitam diversificar a
avaliação e torná-la conforme ao tipo de trabalho desenvolvido numa abordagem construtivista.

Reflexão Final

A avaliação das aprendizagens não é uma questão específica do ensino online, mas do próprio ensino em
geral. Valorizar os conteúdos ou, pelo contrário, o processo de aprendizagem é uma discussão que tem
vindo a interessar muitos dos que se preocupam com a educação. O ensino a distância, ao ter de
ultrapassar os constrangimentos que a distância provoca, acabou por dar uma importância maior ao tema e
pôr em prática modelos de avaliação que, a nosso ver, valorizam melhor o trabalho dos alunos, o seu
empenho e a sua aprendizagem.

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Mais do que reflectir sobre a análise de bibliografia teórica, pareceu-nos que reflectir sobre a aplicação
concreta destas teorias seria mais vantajoso. É inevitável compararmos o que estes três artigos (e a
restante bibliografia indicada abaixo) referem com aquilo que tem sido a nossa experiência nos últimos
meses, no Mestrado de Pedagogia do E-learning. Desde a pesquisa de informação, até à execução de
tarefas desafiadoras em grupo, tentando encontrar respostas a questões-problemas que nos foram
apresentados, passando pelo desenvolvimento de projectos em que colocamos as nossas aprendizagens
em prática, pela participação em fóruns onde discutimos as informações que pesquisámos ou os trabalhos
que realizámos individualmente ou em grupo, pela criação de portefólios/blogs reflexivos, etc., tudo isso se
adequa à abordagem construtivista que descrevemos acima e permitiu-nos construir a nossa aprendizagem
de uma forma que não supúnhamos inicialmente possível. E tudo isso foi objecto de avaliação. Como
alunos, sentimos que não trabalhámos em vão, mas que todo o nosso envolvimento foi levado em conta.
Acima de tudo, a avaliação assumiu um carácter verdadeiramente contínuo, que incluiu a nossa própria
perspectiva perante o nosso desempenho, tendo-nos sido dado inclusive a possibilidade, numa das
unidades curriculares, de reformularmos e melhorarmos os nossos trabalhos iniciais.

Em suma, se a sociedade actual exige uma atitude dinâmica da parte dos seus membros, uma capacidade
de trabalhar com outros e de colaborar na procura de soluções para problemas novos, a educação não
pode continuar centrada em conteúdos que se tornam obsoletos a uma velocidade impressionante. É o
desenvolvimento de competências que permitirá aos alunos adaptarem-se às exigências da sociedade.
Então é sobre isso que a avaliação se deve debruçar, valorizando os alunos que são efectivamente
empenhados, dinâmicos, inventivos. É isso que estes artigos tão bem evidenciaram.

Bibliografia

BARBERÀ, E. (2006) «Aportaciones de la tecnología a la e-Evaluación». RED. Revista de Educación a


Distancia, Año V. Número monográfico VI. Disponível em http://www.um.es/ead/red/M6/ (acedido a
5/12/2010)
COUTINHO, Clara; LISBÔA, Eliana; JUNIOR, João (2009). «Avaliação online através das ferramentas da
Web 2.0». Paidei@ - Revista Científica de Educação a Distância. Vol.2. n.º 1. Disponível em
http://revistapaideia.unimesvirtual.com.br/index.php?journal=paideia&page=article&op=view&path[]=79&p
ath[]=45 (acedido a 8/12/2010)
GOMES, M. J. (2009) «Problemáticas da avaliação online» Actas da VI Conferência Internacional das TIC
na Educação - Challenges 2009. Disponível em
http://repositorium.sdum.uminho.pt/bitstream/1822/9420/1/Challenges-09-mjgomes.pdf (acedido a
5/12/2010)
JUNIOR, Arnaud; ALVES, Lynn (203). «Educação e Contemporaneidade: novas aproximações sobre a
avaliação no ensino on-line». Disponível em http://www.lynn.pro.br/pdf/art_avaliacaoonline.pdf (acedido
em 19/12/2010)
LAGARTO, J. R. (2009). «Avaliação em e-learning». In Educação, Formação &Tecnologias; vol.2 (1); pp.
19-29, Maio de 2009. Disponível em http://eft.educom.pt (acedido a 12/12/2010)
PRIMO, Alex (2006) «Avaliação em processos de educação problematizadora online». In: Marco Silva;
Edméa Santos. (Org.). Avaliação da aprendizagem em educação online. São Paulo: Loyola, v. , p. 38-49.
Disponível em http://www6.ufrgs.br/limc/PDFs/EAD5.pdf (acedido a 5/12/2010)

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