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Ser protagonista : geografia


André Baldraia, Fernando dos Santos Sampaio, Ivone Silveira Sucena
SM
Pá gina 1

ser Protagonista

Geografia
3
ENSINO MÉDIO

GEOGRAFIA
3º ANO

MANUAL DO PROFESSOR

Organizadora:
Edições SM
Obra coletiva concebida, desenvolvida e produzida por Ediçõ es SM.

Editor responsá vel:


Flávio Manzatto de Souza
• Bacharel em Geografia pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciê ncias Humanas da Universidade de Sã o Paulo (USP).
• Licenciado em Geografia pela Faculdade de Educaçã o da USP.
• Editor de livros didá ticos.

André Baldraia
• Bacharel e Licenciado em Geografia pela USP.
• Doutor em Ciê ncias – Geografia Humana pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciê ncias Humanas da USP.
• Professor no Ensino Superior.

Fernando dos Santos Sampaio


• Doutor em Ciê ncias – Geografia Humana pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciê ncias Humanas da USP.
• Professor no Ensino Superior.

Ivone Silveira Sucena


• Licenciada em Geografia pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciê ncias Humanas da USP.
• Professora no Ensino Fundamental e Mé dio.

3ª ediçã o
Sã o Paulo
2016

Editora SM
Pá gina 2

Ser protagonista – Geografia – 3


© Ediçõ es SM Ltda.
Todos os direitos reservados

Direção editorial Juliane Matsubara Barroso


Gerência editorial Roberta Lombardi Martins
Gerência de design e produção Marisa Iniesta Martin
Edição executiva Flá vio Manzatto de Souza
Ediçã o: Ana Carolina F. Muniz, Daniella Almeida Barroso, Felipe Khouri Barrionuevo, Gisele Manoel, Stela Kuperman Pesso
Colaboraçã o técnico-pedagó gica: Daniel Zungolo, Felipe Azevedo de Souza Mattos, Maria Izabel Simõ es Gonçalves, Michelle Maria
Biajante, Simone Affonso da Silva
Coordenação de controle editorial Flavia Casellato
Suporte editorial: Alzira Bertholim, Camila Cunha, Giselle Marangon, Mô nica Rocha, Talita Vieira, Silvana Siqueira, Fernanda
D’Angelo
Coordenação de revisão Clá udia Rodrigues do Espírito Santo
Preparação e revisã o: Ana Paula Ribeiro Migiyama, Berenice Baeder, Eliana Vila Nova de Souza, Eliane Santoro, Fá tima Carvalho, Lu
Peixoto, Mariana Masotti, Sâ mia Rios, Vera Lú cia Rocha Marco Aurélio Feltran (apoio de equipe)
Coordenação de design Rafael Vianna Leal
Apoio: Didier Dias de Moraes
Design: Leika Yatsunami, Tiago Stéfano
Coordenação de arte Ulisses Pires
Ediçã o executiva de arte: Melissa Steiner
Ediçã o de arte: Pablo Braz
Coordenação de iconografia Josiane Laurentino
Pesquisa iconográ fica: Bianca Fanelli, Susan Eiko, Caio Mazzilli
Tratamento de imagem: Marcelo Casaro
Capa Didier Dias de Moraes, Rafael Vianna Leal
Imagem de capa John Harper /Getty Images
Projeto gráfico cldt
Editoração eletrônica Setup Bureau Editoraçã o Eletrô nica
Ilustrações Adilson Secco, Thiago Lyra, Setup Bureau
Fabricação Alexander Maeda
Impressão

Dados Internacionais de Catalogaçã o na Publicaçã o (CIP)


(Câ mara Brasileira do Livro, SP, Brasil)
Baldraia, André Ser protagonista : geografia, 3° ano : ensino médio / André Baldraia, Fernando dos Santos Sampaio, Ivone Silveira Sucena ; organizadora
Ediçõ es SM ; obra coletiva concebida, desenvolvida e produzida por Ediçõ es SM ; editor responsá vel Flá vio Manzatto de Souza. – 3. ed. – Sã o Paulo :
Ediçõ es SM, 2016. – (Coleçã o ser protagonista)
Suplementado pelo manual do professor.
Bibliografia.
ISBN 978-85-418-1367-9 (aluno)
ISBN 978-85-418-1368-6 (professor)
1. Geografia (Ensino médio) I. Baldraia, André. II. Sampaio, Fernando dos Santos. III. Sucena, Ivone Silveira. IV. Souza, Flávio Manzatto de. V. Título. VI.
Série.
16-02552
CDD-910.712
Índices para catá logo sistemá tico: 1. Geografia : Ensino mé dio 910.712

3ª ediçã o, 2016

Edições SM Ltda.
Rua Tenente Lycurgo Lopes da Cruz, 55
Á gua Branca 05036-120 São Paulo SP Brasil
Tel. 11 2111-7400
edicoessm@grupo-sm.com
www.edicoessm.com.br

Editora SM
Em respeito ao meio ambiente, as folhas deste livro foram produzidas com fibras das árvores de florestas plantadas, com origem certificada.

ABDR - Associaçã o Brasileira de Direitos Reprográ ficos


Pá gina 3

Apresentação
É no espaço geográ fico que caminha a vida, ensinou o geó grafo brasileiro
Milton Santos.

Nesse espaço existem rios e montanhas, ruas, edifícios e plantaçõ es; há


também técnicas e prá ticas de trabalho, laços familiares, manifestaçõ es
religiosas, relaçõ es de igualdade ou de desigualdade entre pessoas, grupos e
naçõ es. Nos mú ltiplos espaços da superfície terrestre estã o representados,
em íntima associaçã o, elementos naturais e sociais, que se constroem e
reconstroem o tempo todo.

Nesta coleçã o, o espaço geográ fico é estudado em seus mú ltiplos aspectos,


sem separar a natureza da dinâ mica social. Assim, a populaçã o, os aspectos
econô micos, os problemas ambientais ou as questõ es geopolíticas sã o
analisados, em seus respectivos contextos histó ricos e naturais, de forma
integrada.

Desse modo, o estudo de Geografia feito nesta obra oferece ferramentas para
entender a realidade em que estamos mergulhados e, dessa forma,
apreender o lugar de cada um. Mais ainda, possibilita refletir e atuar sobre
essa realidade.

É este o principal objetivo da coleçã o: contribuir para a formaçã o crítica de


indivíduos capazes de entender o lugar em que vivem e agir nele de forma
responsá vel. Cidadã os que possam atuar verdadeiramente no espaço em que
caminha a vida.

Equipe editorial
Pá gina 4

A organização do livro
Pilares da coleção

Essa coleçã o organiza-se a partir de quatro pilares, cada qual com objetivo(s) pró prio(s):

CONTEXTUALIZAÇÃO E INTERDISCIPLINARIDADE
Relacionar o estudo dos conteú dos de Geografia ao de outras disciplinas, á reas do conhecimento e temas atuais, construindo,
assim, uma visã o ampla e integrada dos fenô menos estudados.

COMPROMISSO
Despertar a consciê ncia da responsabilidade e incentivar a reflexã o e o entendimento do mundo, para que você se torne um
cidadã o responsá vel.

VISÃO CRÍTICA
Contribuir para que você seja capaz de entender a realidade que o cerca e refletir sobre seu papel nessa realidade,
desenvolvendo, dessa maneira, sua visã o crítica.

INICIATIVA
Incentivar a atitude proativa diante de situaçõ es-problema, contribuindo para que você tome decisõ es e participe de forma
ativa em diversos contextos sociais.

As seçõ es e os boxes que se propõ em a trabalhar esses eixos estã o indicados pelos ícones que os representam.

Páginas de abertura
Abertura da unidade
Elaborada em pá gina dupla, apresenta um texto introdutó rio da temá tica da unidade articulado a uma imagem para levantar
seus conhecimentos pré vios. Em Questõ es para refletir você é convidado a pensar e a se manifestar sobre o tema.

Abertura do capítulo
Texto, imagens e questõ es se relacionam e introduzem o assunto específico do capítulo.
Apresentação dos conteúdos
O texto didá tico é complementado por imagens (ilustraçõ es, fotos, mapas) e boxes variados, a fim de estimular a sua
participaçã o e facilitar a compreensã o.

Cada volume da coleçã o traz infográ ficos, em pá ginas duplas, com riqueza de imagens (fotografias, mapas, grá ficos) e
pequenos textos que auxiliam na compreensã o do fenô meno representado.
Pá gina 5

A coleçã o conta com boxes para apresentar assuntos complementares aos temas (Saiba mais); sugerir filmes, livros e sites
para ampliaçã o dos estudos (Assista, Leia e Navegue); e destacar no texto didá tico glossá rios sobre termos que você talvez
nã o conheça.

Os boxes vinculados aos pilares contribuem para articular o tema estudado ao cotidiano (Conexã o); refletir sobre a
construçã o da cidadania e o convívio social (Açã o e cidadania); e associar os estudos a outras á reas do conhecimento
(Geografia e...).

Atividades
Atividades
Ao final dos capítulos, um conjunto de atividades possibilita a consolidaçã o, a retomada, a aná lise, a síntese e a pesquisa dos
assuntos abordados. Há trê s subseçõ es nesse conjunto: Revendo conceitos, Lendo mapas, grá ficos e tabelas e
Interpretando textos e imagens.

Vestibular e Enem
A seçã o apresenta questõ es de vestibulares do país e de vá rios Enem (Exame Nacional do Ensino Mé dio) realizados até hoje,
de acordo com o que foi estudado em cada unidade.

Seções especiais
Presença da África e Presença Indígena
Textos e atividades que valorizam a diversidade e combatem o preconceito e a discriminaçã o ao longo dos capítulos.

Em análise
Traz atividades sobre a construçã o de procedimentos e conhecimentos geográ ficos, como a elaboraçã o e interpretaçã o
cartográ fica, no final de cada unidade.

Síntese da Unidade
Atividades esquemá ticas que retomam conceitos bá sicos de cada capítulo.
Informe e Mundo Hoje
Seçõ es destinadas ao desenvolvimento do senso crítico a partir, respectivamente, de textos científicos e textos jornalísticos,
geralmente no final dos capítulos.

Geografia e...
Relaciona a Geografia com outras disciplinas do Ensino Mé dio, por meio de textos, imagens e propostas de atividades em
comum.

Projeto
Propõ e a resoluçã o de uma situaçã o-problema, que promove a iniciativa e o compartilhamento de seus estudos. Sã o
apresentados dois projetos por ano, estruturados em pá ginas duplas.
Pá gina 6

Sumário
Unidade 1 A produção do espaço político 10

Capítulo 1 Territórios e fronteiras 12


Estado e territó rio nacional 13
O papel do Estado na produçã o do espaço geográ fico 14
O mundo sem fronteiras do capital transnacional 16
O mundo com fronteiras do trabalho: as migraçõ es internacionais 17
Informe: O solo, a sociedade e o Estado 18
Mundo Hoje: Baarle: fronteiras distribuídas entre dois países 19
Atividades 20

Capítulo 2 As grandes guerras e a reordenação do espaço mundial 22


O imperialismo e a Primeira Guerra Mundial 23
A Revoluçã o Russa 25
A crise no período entre guerras 26
A Segunda Guerra Mundial 27
Informe: Da paz à guerra 28
Mundo Hoje: A Conferência de Bretton Woods 29
Presença da África: O grande massacre no Congo 30
Atividades 32

Reuters/Latinstock

Queda do Muro de Berlim, Alemanha. Foto de novembro de 1989.


Capítulo 3 A geopolítica no pós-guerra 34
A Guerra Fria 35
A descolonizaçã o 36
O movimento dos nã o alinhados 37
A divisã o da Alemanha 37
O fim da URSS e a nova ordem mundial 38
As transformaçõ es no Leste Europeu 40
As guerras do século XXI 42
Informe: Guerra como prestaçã o de serviços 43
Atividades 44

Capítulo 4 A geopolítica no Brasil 46


Analisando o Brasil por meio da geopolítica 47
As desigualdades regionais 48
A açã o estatal 49
A construçã o de Brasília e a geopolítica nacional 50
Amazô nia: riquezas e conflitos 51
Presença Indígena: Sã o Gabriel da Cachoeira: uma cidade diferente 52
As questõ es fronteiriças da Amazô nia 54
Informe: Geopolítica da Amazô nia 55
Atividades 56

Em análise: Construir e interpretar anamorfoses 58


Síntese da Unidade 60
Vestibular e Enem 61
Geografia e Arte: Bombas e tintas 65
Projeto Infográ fico: povos apá tridas, refugiados e deslocados internos 66
Pá gina 7

Unidade 2 A nova ordem internacional 68

Capítulo 5 Globalização 70
Os principais fundamentos e atores da globalizaçã o 71
Os grandes grupos econô micos globais 72
A concentraçã o do capital 73
A ocidentalizaçã o do mundo 74
A globalizaçã o financeira 76
Presença da África: O Islã na Á frica 78
Informe: A interdependência global 80
Mundo Hoje: O mundo muçulmano em uma era global: a proteçã o dos direitos das mulheres 81
Atividades 82

Capítulo 6 Diferentes dimensões da globalização 84


A ascensã o dos EUA como potência hegemô nica 85
Aspectos controversos da globalizaçã o 87
Os movimentos antiglobalizaçã o 89
Infográfico: Causas globais, açõ es locais 90
Informe: Sobre o fim dos impérios 93
Atividades 94

Capítulo 7 A formação dos blocos econômicos 96


Níveis de integraçã o econô mica 97
Formaçã o da Uniã o Europeia 97
O Mercado Comum do Sul (Mercosul) 99
Outros blocos do continente americano 100
Outros blocos econô micos 101
Novos blocos 102
Mundo Hoje: Mercosul: avanços, retrocessos e novos desafios 103
Atividades 104

Capítulo 8 As grandes potências globais 106


Estados Unidos 107
China 108
Japã o 110
A Uniã o Europeia 112
As potências regionais 114
Informe: O crescimento dos emergentes 116
Mundo Hoje: Brics: conquistas e fracassos no grupo dos emergentes 117
Atividades 118

Em análise: Interpretando o comércio internacional por meio de grá ficos 120


Síntese da Unidade 122
Vestibular e Enem 123
Geografia e Matemática: Desigualdades sociais nos Brics 126
Jacky Naegelen/Reuters/Latinstock

Manifestaçã o por medidas de controle das mudanças climáticas, em Le Bourget, França. Foto de 2015.
Pá gina 8

Unidade 3 O espaço político: focos de tensão 128

Capítulo 9 Europa 130


O novo papel internacional da Alemanha 131
Disputa por hegemonia no Leste Europeu 132
A imigraçã o e os conflitos étnicos 133
Atentados terroristas na Europa 135
Mundo Hoje: As raízes do conflito na Ucrâ nia 136
Informe: Crise dos refugiados testa a Uniã o Europeia 137
Atividades 138

Capítulo 10 África 140


A Á frica e a globalizaçã o 141
Os conflitos no continente africano 142
O papel da China na Á frica 146
Mundo Hoje: Em Ruanda, mulheres sã o maioria no Parlamento 148
Informe: A educaçã o tradicional na Á frica 149
Atividades 150

Capítulo 11 América Latina 152


Nacionalismo na América Latina 153
México: economia e sociedade 154
Os focos de tensã o na América Latina hoje 156
Informe: América Latina e a colonialidade do poder 159
Atividades 160

Capítulo 12 Ásia 162


O Oriente Médio 163
Conflitos á rabe-israelenses 165
Israelenses e palestinos: uma relaçã o conflituosa 166
Índia: país emergente 167
Índia: situaçã o geopolítica 167
O Sudeste Asiá tico e os novos Tigres 168
Informe: O terror 169
Atividades 170

Em análise: Construir e interpretar mapas de síntese 172


Síntese da Unidade 174
Vestibular e Enem 175
Geografia e Sociologia: As mulheres nã o sã o homens 179
Projeto Dô ssie “Disputas territoriais no século XXI” 180
Musa Al-Shaer/AFP

Mulheres palestinas diante do muro entre Cisjordâ nia e Israel. Foto de 2015.
Pá gina 9

Unidade 4 Os desafios geopolíticos do século XXI 182

Capítulo 13 Geopolítica dos recursos naturais 184


A disputa pela á gua e os conflitos 185
Geopolítica dos recursos minerais e energéticos 187
As fontes alternativas de energia 189
A biomassa e a produçã o energética 190
Informe: Os senhores da á gua 192
Mundo Hoje: Geopolítica e ecologia dos mares fechados 193
Atividades 194

Capítulo 14 Geopolítica do petróleo 196


A disputa mundial pelo petró leo 197
A organizaçã o da Opep e os choques do petró leo 198
Açõ es militares motivadas pelo interesse por petró leo 200
Mundo Hoje: Nova guerra fria começa a despontar no Á rtico 202
Informe: Cartas da zona de guerra...203
Atividades 204

Capítulo 15 Geopolítica dos alimentos 206


Soberania e segurança militar 207
Infográfico: Demandas globais, impactos locais 208
O comércio mundial de alimentos 210
O papel das empresas globais 211
Presença Indígena: A casa de Maní 212
O uso geopolítico dos alimentos e a fome 214
Mundo Hoje: Segurança alimentar urbana 215
Atividades 216

Capítulo 16 Geopolítica da produção 218


A indú stria de armamentos 219
O poder nuclear: produçã o de energia e armamentos 220
A geopolítica do conhecimento: a produçã o de ciência e tecnologia 222
Informe: Patentes: para que servem? A quem servem? 224
Mundo Hoje: Kim Jong-un justifica teste nuclear norte-coreano 225
Atividades 226

Em análise: Construindo mapa geopolítico: O mundo visto por... 228


Síntese da Unidade 230
Vestibular e Enem 231
Geografia e Física: Energia fotovoltaica 236
Referências bibliográficas 238
Siglas dos exames e das universidades 240
VCG/Getty Images

Central de geraçã o fotovoltaica, em Lianyungang, China. Foto de 2016.

Leo Caldas/Pulsar Imagens

Criaçã o de gado de corte em Xexéu (PE). Foto de 2015.


Pá gina 10

A produção do
UNIDADE 1

espaço político
NESTA UNIDADE
1 Territórios e fronteiras
2 As grandes guerras e a reordenação do espaço mundial
3 A geopolítica no pós-guerra
4 A geopolítica no Brasil

A história da humanidade é marcada por conflitos. Mas foi somente a


partir de 1815, com o Congresso de Viena, que as nações buscaram
constituir fóruns multilaterais para estabelecer acordos de paz e
discutir a ordem internacional do pós-guerra.

Foi, sobretudo, a partir do século XIX que os conhecimentos acerca dos


territórios e de seus recursos naturais passaram a legitimar a ação dos
Estados. Conhecer os fatores econômicos, demográficos e territoriais
que podem influenciar a política e as relações internacionais tornou-se
cada vez mais importante. Assim, a geopolítica constituiu-se como um
campo de estudos e práticas úteis aos Estados nacionais no
estabelecimento de seus interesses territoriais e estratégias
diplomáticas ou de guerra.

O século XX, com duas guerras mundiais e a Guerra Fria, mostrou que o
caminho para o consenso geopolítico é difícil e que as soluções
encontradas em longas negociações podem não agradar a todos os
países envolvidos.

QUESTÕES PARA REFLETIR

1. Cite dois conflitos motivados pelo nacionalismo.

2. Nos dias atuais, como os países debatem e solucionam questõ es internacionais?


Pá gina 11

Sergei Poliakov/AP/Glow Images

Manifestantes ucranianos, carregando a bandeira nacional, protestam contra a anexação da Crimeia pela
Rússia, na cidade de Odessa, Ucrânia. Foto de 2014.
Pá gina 12

Territórios e
CAPÍTULO 1

fronteiras
O QUE VOCÊ VAI ESTUDAR
Os conceitos de fronteira, Estado, territó rio nacional e naçã o.
O papel do Estado na produçã o do espaço geográ fico.
A circulaçã o dos grandes capitais.
As barreiras para as migraçõ es internacionais.

Ale Ruaro/Pulsar Imagens

No Brasil, as cidades com populaçã o superior a 2 mil habitantes, cortadas pela linha de fronteira e que apresentam
grande potencial de integraçã o econô mica e cultural com os países vizinhos, são consideradas cidades-gêmeas.
Essas cidades exigem atençã o especial do poder pú blico por possuir forte interaçã o com os países fronteiriços, seja
no comércio e nos serviços pú blicos, como os de saú de e educaçã o, seja nos fluxos financeiros, de pessoas,
mercadorias, etc. Na foto, trecho da fronteira entre Uruguaiana (RS), no Brasil (em primeiro plano), e Paso de Los
Libres, na Argentina (ao fundo), 2014.

O mapa-mú ndi mostra os vá rios países do mundo. As linhas que delimitam esses países sã o as fronteiras. Elas
dão aos países a forma representada nos mapas, podendo ser naturais (uma cordilheira ou um rio, por
exemplo) ou artificiais (uma construção humana).

Embora as fronteiras pareçam elementos fixos, a realidade da divisão política demonstra o contrá rio. Por
serem está ticos, os mapas passam essa falsa impressã o de fixidez, mas basta nos lembrarmos das guerras para
contradizê-la.

Em geral, apó s o término dos conflitos, as partes beligerantes negociam um acordo de paz. Muitas vezes,
impõ e-se ao perdedor alguma sanção relativa a seu territó rio, que pode ser subdividido ou até perdido em
benefício das partes vencedoras. O territó rio do antigo Império Austro-Hú ngaro, por exemplo, foi
desmembrado apó s a Primeira Guerra Mundial (1914-1918) em três Estados independentes: a Á ustria, a
Tchecoslová quia e a Hungria.

Beligerante: que está em luta, conflito ou guerra.


A questã o das fronteiras é muito complexa e nã o se restringe à linha que demarca os territó rios. Em regiõ es de
fronteira, é comum as línguas, os costumes e até as moedas se misturarem. Diversos estados brasileiros
apresentam essas regiõ es fronteiriças em que a linha divisó ria dos países permite o fluxo diá rio de pessoas,
mercadorias e dinheiro (legais e ilegais) de um lado para o outro.

Analise a fotografia e responda.

1. Classifique como natural ou como artificial o tipo de fronteira mostrado na imagem.

2. Quais regiõ es brasileiras fazem fronteira com outros países?


Pá gina 13

Estado e território nacional

As fronteiras podem ser internas ou externas. As primeiras subdividem um país em


subespaços, como os estados brasileiros. As fronteiras externas sã o as divisas entre Estados –
entidades soberanas com estrutura e organizaçã o política pró prias, um territó rio e um povo.
Constitui o Estado o conjunto das instituiçõ es nacionais, como os três poderes (Executivo,
Legislativo e Judiciário), as Forças Armadas e os demais ó rgã os que administram uma naçã o.

Executivo: poder do Estado com a funçã o de executar as leis e administrar os interesses da sociedade, de acordo com a
legislaçã o do país.

Legislativo: poder estatal responsá vel pela elaboraçã o de leis e normas que regem a sociedade. No Brasil, está a cargo do
Congresso Nacional (Câ mara dos Deputados e Senado Federal), das Assembleias Legislativas estaduais e das Câ maras
Municipais.

Judiciário: poder do Estado com a funçã o de promover a justiça, interpretando e aplicando as leis de modo a garantir os
direitos de todos os cidadã os.

O território nacional é, portanto, a á rea apropriada, controlada e administrada por um


Estado, na qual este exerce sua soberania e à qual se limita o exercício da lei.

A soberania consiste na liberdade de um Estado exercer poder político sobre seu territó rio,
sem intervençã o de outros países ou grupos. As leis sã o aplicadas aos indivíduos que se
encontram nos limites territoriais de cada Estado.

Nação
A populaçã o de um país é constituída por diferentes grupos. Quando partilham a mesma
origem, língua, religiã o ou cultura, esses grupos formam uma nação. Esta, por sua vez,
submete-se à Constituiçã o, ao governo e à s instituiçõ es do país onde se localiza. Assim, um
mesmo país pode abrigar em seu territó rio naçõ es distintas. O Brasil, por exemplo, abriga
diversas naçõ es indígenas, que, por se localizarem no territó rio brasileiro, respondem aos
desígnios do Estado nacional brasileiro.

Há casos em que o sentimento e a identificaçã o nacional ultrapassam a fronteira de um país,


como é o caso da naçã o basca.

Os bascos povoam o extremo norte da Espanha e o sudoeste da França. Mais de 90% do


territó rio que ocupam está na Espanha (veja o mapa). Esse povo possui uma cultura com
traços pró prios. A língua basca, o euskara, que nã o faz parte do grupo de línguas indo-
europeias, é um bom exemplo. Embora estejam divididos em dois países, os bascos
compartilham características que os unificam, partilhando sentimentos de identidade e
nacionalidade.
João Miguel A. Moreira/ID/BR

Fonte de pesquisa: CALDINI, Vera Lú cia de Moraes; ÍSOLA, Leda. Atlas geográfico Saraiva. Sã o Paulo: Saraiva, 2013. p. 127.

Existe um movimento separatista que defende a criaçã o de um Estado basco autô nomo. O
principal grupo que luta por essa causa é o ETA (Euskadi Ta Askatasuna, que, na língua basca,
significa “Pá tria Basca e Liberdade”), que, desde 1959, reivindica a independência do territó rio
basco. Envolvido em diversos atentados violentos ao longo dos anos, o grupo anunciou em
2011 o fim da luta armada.

SAIBA MAIS

Um time, uma nação, duas seleções nacionais

Bixente Lizarazu, o primeiro basco de origem francesa a jogar pelo Athletic Bilbao, foi campeã o do
mundo de futebol em 1998 na seleçã o francesa. Em 2010, o jogador basco Fernando Llorente
conquistou o campeonato mundial de futebol na seleçã o da Espanha.

O Athletic Bilbao, tradicional clube de futebol da cidade de Bilbao (província de Biscaia), nã o aceita
em sua equipe jogadores que nã o sejam bascos. O time conta apenas com jogadores franceses e
espanhó is nascidos dentro dos limites do País Basco.

Mas, se um jogador basco se destacar, ele pode jogar pela seleçã o espanhola ou francesa, dado que o
País Basco, embora tenha um povo, nã o é uma naçã o soberana e autô noma.

Juan Manuel Serrano Arce/Getty Images

Jogadores do Bilbao durante jogo contra o Granada. Bilbao, Espanha. Foto de 2016.

Leia
Mapas e História: construindo imagens do passado, de Jeremy Black. Florianó polis: Edusc, 2005.
O livro é uma importante referê ncia nos estudos de histó ria da cartografia. O autor mostra como as fronteiras foram se
modificando ao longo do tempo.
Pá gina 14

O papel do Estado na produção do espaço geográfico

O espaço geográ fico é produzido por toda a sociedade. Sã o agentes da produçã o do espaço
tanto os indivíduos, as organizaçõ es e as empresas como os organismos do Estado. É este o
responsá vel pela formulaçã o e fiscalizaçã o das normas que orientam o processo de produçã o
do espaço geográ fico.

Atualmente, as grandes empresas desempenham um papel significativo na produçã o do


espaço. E essas empresas adquiriram tanta importâ ncia política que os Estados organizam o
territó rio de modo a criar as melhores condiçõ es para que elas se instalem. Assim, a efetivaçã o
de grandes projetos de infraestrutura responde, em grande parte, aos interesses das grandes
corporaçõ es econô micas, nacionais ou transnacionais.

Planejamento estratégico
Uma das principais formas de atuaçã o estatal é o planejamento estratégico. Ele engloba todas
as açõ es que um Estado desenvolve, desde as diretrizes educacionais até a planificaçã o da
economia nacional. Esta, aliá s, tem sido o principal objeto de planejamento, visto que o avanço
dos outros setores depende do sucesso econô mico de um país.

Os ó rgã os de planejamento, em grande parte, estã o associados à s á reas de produçã o, defesa,


ciência, tecnologia, bem-estar social, educaçã o e outras esferas consideradas estratégicas para
a naçã o.

Planejamento urbano
No início do século XXI, a populaçã o urbana ultrapassou a populaçã o rural. Como as á reas
urbanas concentram grande nú mero de pessoas, surge a necessidade de estruturar o territó rio
para abrigar todos os seus habitantes. Em muitas situaçõ es, o Estado nã o consegue prover os
espaços urbanos de infraestrutura necessá ria e adequada para que a populaçã o tenha boa
qualidade de vida.

Em grandes á reas urbanas, serviços essenciais, como saneamento, educaçã o, saú de, transporte
e habitaçã o necessitam de planeja mento do Estado. Nas ú ltimas décadas, o planejamento
também se tornou fundamental para a questã o da mobilidade urbana, visto que é necessá rio
oferecer melhores condiçõ es de deslocamento da populaçã o para o trabalho, o lazer, etc.

GEOGRAFIA E ARQUITETURA

Arquitetura e planejamento urbano

O Estado pode ter papel decisivo na produçã o do espaço, como no caso das cidades planejadas. Na
fotografia abaixo, vemos um dos aspectos de Brasília, um ícone do planejamento e da arquitetura
no Brasil. Em muitas cidades planejadas brasileiras, o processo de urbanizaçã o foi tã o intenso que
nã o seguiu o planejamento urbano proposto originalmente. O resultado foi o surgimento de muitos
bairros periféricos sem infraestrutura urbana.
Thomas Koehler/Photothek/Getty Images

Vista do eixo monumental, em Brasília (DF). Foto de 2015.

1. Pesquise outras cidades planejadas no país e analise suas características urbanísticas. Em sua
pesquisa, avalie também o modo como essas cidades se desenvolveram ao longo do tempo.

AÇÃO E CIDADANIA

Os Jogos Paraolímpicos de 2016

Em 2012, Leonardo Gryner, diretor-geral do comitê organizador das Olímpiadas 2016 no Rio de
Janeiro, afirmou: “Nó s vamos fazer do Rio uma cidade muito acessível [...]. Todas as sedes serã o
acessíveis para deficientes, assim como o transporte pú blico e as principais ruas da cidade”.
(Disponível em: <http://www1.folha.uol.com.br/esporte/2012/09/1150314-brasil-promete-
acessibilidade-no-rio-na-paraolimpiada-16.shtml>. Acesso em: 28 jan. 2016). Para isso, foi
necessá rio aumentar os investimentos em acessibilidade.

1. Em grupos, pesquisem quais foram as principais necessidades de acessibilidade para a


Paraolimpíada de 2016.

2. Pesquisem também as condiçõ es de acessibilidade na cidade onde vocês vivem e façam um


pequeno planejamento propondo açõ es de melhoria.
Pá gina 15

Desenvolvimento regional
Todos os países convivem ou conviveram com desigualdades regionais. No caso do Brasil, essa
questã o é antiga e tem suas raízes na formaçã o territorial do país, cuja origem como colô nia de
exploraçã o nã o estabeleceu uma unidade de objetivos, interesses e açõ es comuns em todo o
territó rio.

Com o objetivo de estimular o desenvolvimento de á reas historicamente desfavorecidas, o


Estado brasileiro formula políticas que buscam equilibrar o desenvolvimento em diferentes
á reas nas esferas federal, regional, estadual ou municipal. Assim, visa estimular as atividades
econô micas locais e a integraçã o do territó rio, além de garantir a disponibilidade de trabalho,
renda e serviços de educaçã o, saneamento bá sico e assistência médica, entre outros, a toda
populaçã o.

A importância dos recursos naturais

Os recursos naturais sã o fatores extremamente importantes na definiçã o de um projeto de


desenvolvimento regional. Muitos países organizam sua política territorial tendo os recursos
naturais como objeto principal. No caso do Brasil, a importâ ncia dessa questã o pode ser
percebida pelas constantes discussõ es sobre a biodiversidade da Amazô nia e sobre o potencial
das reservas de á gua doce que o país possui.

A defesa e a conquista de territó rios ricos em recursos naturais foram, e muitas vezes ainda
sã o, motivos de disputa e conflito entre países. No século XIX, por exemplo, os Estados Unidos
guerrearam com o México e, ao final do conflito, anexaram a seu territó rio á reas ricas em
minerais preciosos, como o estado da Califó rnia.

Leia
Territórios alternativos, do geó grafo Rogé rio Haesbaert. Sã o Paulo: Contexto, 2006.
A obra propõ e um debate transdisciplinar acerca do territó rio e discute outros conceitos da Geografia sob uma perspectiva
atual.

Organização espacial da indústria


A distribuiçã o das indú strias pelo territó rio também está relacionada à açã o do Estado. O
exemplo dos Estados Unidos pode ajudar a compreender isso.

Na regiã o nordeste estadunidense ocorre a industrializaçã o mais tradicional. Em 1900, boa


parte da produçã o industrial do país estava concentrada ali. Alguns fatores facilitaram a
implantaçã o da indú stria naquela regiã o: existiam muitos recursos minerais, com destaque
para as jazidas de minério de ferro e de carvã o, que se situavam, respectivamente, pró ximo aos
Grandes Lagos e aos montes Apalaches.

Ao redor dessa regiã o, constituiu-se o chamado Manufacturing Belt (Cinturã o Fabril), á rea de
tradicional produçã o industrial.

Apó s a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), o governo dos Estados Unidos implantou uma
política territorial que privilegiava a expansã o da indú stria para o sul do país, criando-se o
chamado Sun Belt (Cinturã o do Sol).
Outros fatores contribuíram para essa expansã o, como a exploraçã o das reservas de petró leo
no centro-sul, por exemplo, no estado do Texas, e a presença de prestigiadas universidades na
Califó rnia, como as de Stanford e Berkeley.

Luke Sharrett/Bloomberg/Getty Images

A partir da década de 1960, o crescimento demográ fico do Sun Belt tornou-se mais intenso. Na regiã o,
desenvolveram-se indú strias dos setores siderú rgico, petroquímico, aeroná utico e aeroespacial, entre outras que
empregam alta tecnologia. Foto de indú stria aeroná utica no Texas, Estados Unidos, em 2016.
Pá gina 16

O mundo sem fronteiras do capital transnacional

A partir dos anos 1990, houve uma grande flexibilizaçã o do controle dos Estados perante as
aplicaçõ es financeiras mundiais. Tal flexibilizaçã o fazia parte do processo de globalização e
facilitou a circulaçã o de capitais por um mundo praticamente sem fronteiras. No entanto, essa
desregulamentaçã o gerou crises econô micas graves devido à falta de controle da entrada e
saída dos capitais, o que prejudicou as economias nacionais.

Quando há pouca regulamentaçã o para o fluxo de capitais, estes podem se deslocar de um país
a outro com grande facilidade. Além disso, o avanço das telecomunicaçõ es tornou
praticamente instantâ neo o movimento de retirada de capitais investidos no mercado de um
país e de entrada desses capitais no mercado de outro país. Os países emergentes, como Brasil,
Rú ssia, China e Índia, sã o bastante procurados para esse tipo de aplicaçã o financeira.

Os investimentos de curtíssimo prazo sã o chamados de capitais especulativos ou voláteis e


circulam mais rapidamente que os capitais investidos no setor produtivo. Esses capitais
transitam diariamente, em grande volume, pelas bolsas de valores do mundo visando
encontrar melhor rentabilidade.

As economias menores e menos está veis sã o mais vulnerá veis a esse tipo de investimento. De
um dia para outro, um país pode ter uma saída de capital tã o forte que pode abalar sua
economia.

As reservas econômicas
A vitalidade econô mica de um país depende em parte do capital que ele mantém à sua
disposiçã o para usar em situaçõ es de necessidade. Sã o as chamadas reservas monetárias e
cambiais, cuja manutençã o é gerenciada pelo banco central do país.

Os governos nã o mantêm o dinheiro em moeda corrente guardado em uma caixa-forte. Ao


contrá rio, procuram seguir a ló gica dos grandes investidores e diversificam suas aplicaçõ es,
investindo em títulos da dívida de diversos países (desenvolvidos e emergentes); em açõ es de
grandes empresas transnacionais, adquirindo parcelas de seus capitais; em ouro e moedas
fortes, como o dó lar e o euro.

Com isso, muitas vezes, países de economia mais forte detêm boa parte dos títulos da dívida
pública de outras naçõ es. Dessa maneira, passam a se interessar diretamente pela conduçã o
da política econô mica e pelos rumos de sua economia. Além disso, os países que vendem os
títulos necessitam desse capital para garantir a saú de de sua economia.

Dívida pública: dinheiro que os governos tomam emprestado de entidades e da sociedade para financiar gastos que nã o sã o
cobertos com a arrecadaçã o de impostos, para captar divisas no exterior e para equilibrar a gestã o financeira.

É o caso da China, que investiu grande parte de suas reservas em papéis dos Estados Unidos e
de países europeus. Esses investimentos evitaram que as crises que atingiram tanto os Estados
Unidos como a Europa a partir de 2008 se tornassem ainda mais graves.
João Miguel A. Moreira/ID/BR

Fonte de pesquisa: U. S. Department of the Treasury. Disponível em: <http://ticdata.treasury.gov/Publish/mfh.txt>. Acesso em: 8 jan.
2015.
Pá gina 17

O mundo com fronteiras do trabalho: as migrações internacionais

Ao contrá rio da quebra de fronteiras no mercado financeiro mundial que permite a livre
circulaçã o do capital, os fluxos migrató rios populacionais sã o repletos de barreiras.

A maior parte das migraçõ es ocorre por questõ es econô micas, e a pobreza é um dos principais
fatores que levam uma pessoa ou um grupo a se deslocar de um país para outro. Em geral, os
países que atraem migrantes têm economia mais desenvolvida e oferecem mais oportunidades
de emprego e melhores condiçõ es de trabalho.

As populaçõ es também tendem a se afastar dos locais de crise, como os países em guerra, dos
locais afetados por desastres naturais ou onde ocorre perseguiçã o a determinados grupos
étnicos, religiosos ou sociais.

Alguns países, como os Estados Unidos e vá rios países europeus, criaram leis e barreiras para
evitar a entrada de imigrantes porque se tornaram destino de grandes movimentos
migrató rios. Muitos deles utilizam sistemas de vigilância, empregam forte aparato policial e
constroem muros e cercas em suas fronteiras.

Na fronteira entre o México e os Estados Unidos, há um grande muro que divide os dois países.
Existem projetos que visam aumentá -lo e controlar de maneira mais eficaz a entrada de
imigrantes ilegais.

Na Europa, a regiã o do estreito de Gibraltar e o litoral dos países banhados pelo mar
Mediterrâ neo sã o as á reas de maior fluxo de pessoas. Nelas, os países utilizam um forte
aparato policial para evitar a entrada de imigrantes ilegais.

O governo grego, por exemplo, instalou cercas de arame farpado na fronteira com a Turquia,
além de câ meras de vigilâ ncia, para coibir a entrada de imigrantes ilegais vindos do Oriente
Médio e da Á frica.

A Hungria construiu cercas na fronteira com a Sérvia com o mesmo objetivo de impedir o
afluxo de imigrantes ilegais, especialmente aqueles originá rios do conflito na Síria que, entre
2011 e 2015, fez milhares de vítimas e milhõ es de refugiados.

A partir da crise mundial deflagrada em 2008, muitos migrantes retornaram ao país de origem.
Em outros casos, países emergentes, como Brasil, China e Índia, tornaram-se destinos de
migraçã o.

No Brasil, a vinda de imigrantes haitianos e bolivianos ilegais tem sido uma preocupaçã o para
as autoridades, pois essas pessoas, em muitos casos, sã o empregadas na economia local em
condiçõ es precá rias, muitas vezes aná logas à escravidã o.
João Miguel A. Moreira/ID/BR

Fonte de pesquisa: The Economist, 7 jan. 2016. Disponível em: <http://www.economist.com/blogs/graphicdetail/2016/01/daily-


chart-5>. Acesso em: 11 jan. 2016.

Leia
Planeta favela, de Mike Davis. Sã o Paulo: Boitempo, 2006.
O livro mostra o avanço do processo de pauperizaçã o da populaçã o mundial paralelamente ao avanço do neoliberalismo.
Pá gina 18

Informe
O solo, a sociedade e o Estado
Como o Estado nã o é concebível sem territó rio e sem fronteiras, constitui-se bastante
rapidamente uma geo grafia política, e ainda que nas ciências políticas em geral se tenha
perdido de vista com frequência a importâ ncia do fator espacial, da situaçã o, etc., considera-se
entretanto como fora de dú vida que o Estado nã o pode existir sem um solo. Abstraí-lo numa
teoria do Estado é uma tentativa vã que nunca pô de ter êxito senã o de modo passageiro. Pelo
contrá rio, tem havido muitas teo rias da sociedade que permaneceram completamente alheias
a quaisquer consideraçõ es geográ ficas; estas têm mesmo tão pouco lugar na sociologia
moderna que é inteiramente excepcional se encontrar uma obra em que elas desempenham
algum papel. A maior parte dos soció logos estuda o homem como se ele se tivesse formado no
ar, sem laços com a terra. O erro dessa concepçã o salta aos olhos, é verdade, no que concerne
à s formas inferiores da sociedade, porque sua extrema simplicidade faz com que sejam
semelhantes à s formas mais elementares do Estado. Mas entã o, se os tipos mais simples de
Estado sã o irrepresentá veis sem um solo que lhes pertença, assim também deve ser com os
tipos mais simples da sociedade; a conclusã o se impõ e. Num e noutro caso, a dependência em
relaçã o ao solo é um efeito de causas de todo gênero que ligam o homem à terra. Sem dú vida, o
papel do solo aparece com mais evidência na histó ria dos Estados que na histó ria das
sociedades, e isso seria devido aos espaços mais considerá veis de que o Estado tem
necessidade. As leis da evoluçã o geográ fica sã o menos fá ceis de se perceber no
desenvolvimento da família e da sociedade que no desenvolvimento do Estado; e o sã o
justamente porque aquelas estã o mais profundamente enraizadas ao solo e mudam menos
facilmente do que este. É mesmo um dos fatos mais considerá veis da histó ria a força com a
qual a sociedade permanece fixada ao solo, mesmo quando o Estado dele se destacou. Quando
o Estado romano morre, o povo romano lhe sobrevive sob a forma de grupos sociais de todo
tipo e é pelo intermédio desses grupos que se transmitiu à posteridade uma multiplicidade de
propriedades que o povo havia adquirido no Estado e pelo Estado.

Assim, quer seja o homem considerado isoladamente ou em grupo (família, tribo ou Estado),
por toda parte em que se observar se encontrará algum pedaço de terra que pertence ou à sua
pessoa ou ao grupo de que ele faz parte. No que diz respeito ao Estado, a geografia política
apó s longo tempo se habituou a levar em consideraçã o a dimensã o do territó rio ao lado da
cifra da populaçã o. Mesmo os grupos, como as tribos, a família, a comuna, que não sã o
unidades políticas autô nomas, somente sã o possíveis sobre um solo, e seu desenvolvimento
não pode ser compreendido senã o com respeito a esse solo; assim como o progresso do Estado
é ininteligível se nã o estiver relacionado com o progresso do domínio político. Em todos esses
casos, estamos na presença de organismos que entram em intercâ mbio mais ou menos durá vel
com a terra, no curso do qual se troca entre eles e a terra todo gênero de açõ es e de reaçõ es. E
quem venha a supor que, num povo em vias de crescimento, a importâ ncia do solo nã o seja tã o
evidente, que observe esse povo no momento da decadência e da dissoluçã o! Nã o se pode
entender nada a respeito do que entã o ocorre se nã o for considerado o solo. Um povo regride
quando perde territó rio. Ele pode contar com menos cidadã os e conservar ainda muito
solidamente o territó rio onde se encontram as fontes de sua vida. Mas se seu territó rio se
reduz, é, de uma maneira geral, o começo do fim.

RATZEL, Friedrich. Revista do Departamento de Geografia, Sã o Paulo, USP, n. 2, p. 93, 1983.


Ullstein Bild/Getty Images

Friedrich Ratzel (1844 -1904) foi um importante geó grafo alemã o. Ele viveu o momento da constituiçã o do Estado
nacional alemã o, e sua obra está marca da por um projeto estatal que defende a relaçã o fun damental entre o povo, o
Estado e seu territó rio. Foto de c. 1900.

PARA DISCUTIR

1. Em grupo, discuta e responda: Ratzel considera importante a definiçã o de um territó rio com
limites precisos?

2. De acordo com o texto, qual foi a importâ ncia dos grupos remanescentes do antigo Império
Romano, mesmo apó s sua dissoluçã o?

3. Por que, para o autor, a reduçã o do territó rio é o “começo do fim” de um povo?
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Mundo Hoje
Baarle: fronteiras distribuídas entre dois países
Baarle-Nassau e Baarle-Hertog sã o dois municípios que dividem a cidade de Baarle, na
fronteira entre os Países Baixos e a Bélgica. Baarle-Nassau está localizada no sul dos Países
Baixos na província de Brabante do Norte, e Baarle-Hertog está na província belga de
Antuérpia. As duas cidades compartilham uma fronteira comum, mas a fronteira internacional
que separa a cidade belga de Baarle-Hertog da cidade neerlandesa de Baarle-Nassau não é
retilínea. Nem sequer curva.

Neerlandês: relativo aos Países Baixos.

Em vez disso, há 26 territó rios separados entre si – pequenos fragmentos da Bélgica e dos
Países Baixos distribuídos por Baarle. Há um trecho principal chamado Zondereigen,
localizado ao norte da cidade belga de Merksplas, e 22 exclaves belgas nos Países Baixos além
de três outros trechos na fronteira belgo-neerlandesa. [...]

Exclave: porçã o de um país separada do territó rio principal, encravada em territó rio estrangeiro. Em relaçã o ao territó rio
estrangeiro, pode ser considerada um enclave, ou seja, um territó rio encravado em outro.

A fronteira é demarcada por cruzes brancas nas calçadas e sinalizadores de metal nas vias, e
serpenteia pela cidade sem obedecer ao traçado de casas, jardins ou ruas. Uma linha cruza um
quarteirã o por dentro de uma loja de presentes e sai no outro lado, em um supermercado.
Muitas casas sã o cortadas ao meio pela fronteira e, por convençã o, a nacionalidade é
identificada com base na fachada frontal de cada uma. Se a fronteira cruza a porta da rua, seus
lados pertencem a diferentes Estados, e isso é indicado por uma dupla numeraçã o na fachada
do edifício.

As cidades atraem muitos turistas. Por muitos anos, as lojas da Bélgica abriam aos domingos,
enquanto as dos Países Baixos nã o – com exceçã o daquelas em Baarle. À s vezes, os impostos na
Bélgica e nos Países Baixos diferem muito e um consumidor pode encontrar dois regimes de
taxaçã o diferentes em lojas de uma mesma rua. Por um período, de acordo com as leis
neerlandesas, os restaurantes deviam fechar mais cedo. Para alguns estabelecimentos situados
na fronteira, isso significava que os clientes precisavam simplesmente mudar suas mesas para
o lado belga. Com a entrada na Uniã o Europeia, entretanto, algumas dessas diferenças
deixaram de existir.

A estranha geografia entre Baarle-Hertog e Baarle-Nassau é resultado de tratados e acordos


medievais, trocas e vendas de terra igualmente complexos entre os lordes de Breda e os
duques de Brabante, que remontam ao século XII. Apó s a divisã o entre Países Baixos e Bélgica,
estabelecida em 1839, impô s-se a necessidade de determinar a fronteira. Foram necessá rias
três comissõ es para solucionar as questõ es fronteiriças. A ú ltima delas delimitou 36 km de
divisas e foi concluída somente em 1995.

KAUSHIK. The curious case of Baarle-Nassau and Baarle-Hertog. Amusing Planet, 6 nov. 2012. Disponível em:
<http://www.amusingplanet.com/2012/11/the-curious-case-of-baarle-nassau-and.html>. Acesso em: 11 jan. 2016. (Traduçã o dos
autores.)
Yves Logghe/AP/Glow Images

As marcas no chã o representam os limites entre Baarle-Hertog, Bélgica (“B”), e Baarle-Nassau, Países Baixos (“NL”).
Foto de 2013.

João Miguel A. Moreira/ID/BR

Fonte de pesquisa: Google Maps. Disponível em: <http://www.google.com.br>. Acesso em: 11 jan. 2016.

PARA ELABORAR

1. Você conhece as fronteiras de seu município? Faça uma pesquisa sobre os limites do
município em que vive e também os do seu bairro.

2. Pesquise também outras fronteiras que tiveram uma fixaçã o problemá tica como a descrita
no texto.
Pá gina 20

Atividades
Não escreva no livro.

Revendo conceitos

1. Defina Estado e dê exemplos das instituiçõ es que o compõ em.

2. O que é naçã o?

3. Relacione territó rio com fronteiras.

4. Qual é o papel desempenhado pelas empresas na produçã o do espaço?

5. Cite algumas formas de atuaçã o do Estado na produçã o do espaço no que se refere ao


planejamento estratégico.

6. Explique por que os bancos centrais têm sua dinâ mica monitorada pelos investidores das
bolsas de valores.

7. Explique a importâ ncia do planejamento econô mico para o desenvolvimento do país.

8. De que maneira a presença de recursos naturais pode influenciar na estratégia de


desenvolvimento regional do Estado? Que outros fatores podem ser levados em conta no
momento de planejar o desenvolvimento regional de um país?

9. Qual é a importâ ncia das reservas monetá rias e cambiais para um país?

10. Relacione migraçõ es internacionais com desenvolvimento econô mico.

Lendo mapas

11. O mar territorial corresponde à s á reas marítimas que se encontram sob a soberania
absoluta de cada Estado. De acordo com a Convençã o das Naçõ es Unidas sobre o Direito do
Mar, de 1982, essa á rea corresponde à s 12 milhas ná uticas adjacentes ao litoral de cada país e
compreende o espaço aéreo, o leito e o subsolo marinhos. É , portanto, uma á rea estratégica
para defesa militar e para a exploraçã o e gestã o dos recursos naturais. O mapa a seguir mostra
o territó rio marítimo brasileiro e a proposta de sua ampliaçã o apresentada pelo país à ONU.
Observe-o e responda à s questõ es.
João Miguel A. Moreira/ID/BR

Fonte de pesquisa: CASTRO, Fá bio de. Brasil propõ e uma ‘Venezuela’ a mais de á rea marítima. O Estado de S. Paulo, 19 jan. 2015.
Disponível em: <http://politica.estadao.com.br/noticias/geral,brasil-propoe-uma-venezuela-a-mais-de-area-maritima-
imp-,1621717>. Acesso em: 12 jan. 2016.

a) Comente a importâ ncia de essa reivindicaçã o ser analisada por conselhos internacionais.
b) Como a expansã o do territó rio marítimo pode afetar a exploraçã o brasileira de recursos
naturais?
Pá gina 21

Interpretando textos e imagens

12. Observe a charge a seguir e escreva um texto relacionando-a com:

Stuart Carlson © 2005 Carlson/Dist. by Universal Uclick

Charge de Carlson, de 2005, sobre produtos importados nos EUA.

a) a temá tica das fronteiras externas;


b) a questã o da soberania nacional;
c) a globalizaçã o.

13. Leia o trecho abaixo e faça o que se pede.

[…] em 1922, Kiev e a Ucrâ nia foram incorporadas formalmente à Uniã o das Repú blicas Socialistas
Soviéticas (URSS). Os ucranianos estavam entã o na URSS, mas nã o pareciam ser de lá.
Obstinadamente as sucessivas mudanças de governo e de controles ajudaram a promover um
sentimento crescente de nacionalismo ucraniano. Nã o fazia diferença quem estava no poder: no
final do dia eles ainda eram ucranianos e sua lealdade a seu país, assim como sua lealdade recíproca
e à sua terra, era tudo o que importava. [...]

DOUGAN, Andy. Futebol e guerra: resistência, triunfo e tragédia do Dínamo na Kiev ocupada pelos nazistas. Rio de Janeiro: Jorge Zahar,
2001. p. 23-24.

Com base na situaçã o descrita no texto (a dominaçã o dos ucranianos pelos soviéticos), reflita
sobre o nacionalismo e aponte algumas razõ es que contribuíram para seu aparecimento e
difusã o no mundo.

14. A foto a seguir mostra a fronteira entre dois países. Com base nela e em seus
conhecimentos, faça o que se pede.
Erich Schlegel/Corbis/Fotoarena

Muro na fronteira entre Estados Unidos e México. Foto de 2014.

a) Classifique a fronteira em natural ou artificial.


b) Analise a situaçã o política e social que envolve os países e faça consideraçõ es sobre a
fronteira que os separa.

15. Analise a tira de Chip Sansom, a seguir, e redija um breve texto comentando a dinâ mica dos
fluxos financeiros na atualidade.

© 2000 Art & Chip Sansom/Dist. by Universal Uclick for UFS


Pá gina 22

As grandes guerras e a
CAPÍTULO 2

reordenação do espaço mundial


O QUE VOCÊ VAI ESTUDAR
A partilha da Á frica.
A Primeira Guerra Mundial.
A formaçã o da URSS.
O período entre guerras.
A Segunda Guerra Mundial.

Rue des Archives/Tallandier/Latinstock

Aviã o da Força Aérea Real britâ nica sobrevoando o Egito, em 1942. Fabricado pelos Estados Unidos a partir de 1938,
esse modelo de aeronave militar era destinado a patrulhas marítimas e bombardeios.

No século XIX, houve grande desenvolvimento industrial, principalmente na Europa. A industrializaçã o dos
países europeus gerou uma crescente demanda por matérias-primas e, como resultado, os Estados europeus
buscaram ampliar seus domínios para outras á reas do globo e se lançaram à conquista de territó rios nos
continentes africano e asiá tico.

Assim, o quadro geopolítico mundial do final do século XIX até a metade do século XX foi marcado pelo
neocolonialismo. França e Inglaterra, potências até entã o mais industrializadas, garantiram a exploraçã o
econô mica e a dominaçã o política de extensas á reas, estabelecendo colô nias desde a Á frica até o Extremo
Oriente.

Com base no texto e na imagem acima, responda à s questõ es.


1. Qual conflito internacional estava em curso no momento em que a fotografia foi obtida?

2. Com base na fotografia, comente a relaçã o entre Reino Unido e Egito na primeira metade do século XX.
Pá gina 23

O imperialismo e a Primeira Guerra Mundial

A segunda metade do século XIX foi pontuada por acontecimentos importantes, como os
movimentos de unificaçã o alemã e italiana. A consolidaçã o da Alemanha e da Itá lia como
Estados nacionais contribuiu para a formaçã o do quadro político europeu, no qual se
expressaram com intensidade o nacionalismo e o imperialismo.

Essas duas manifestaçõ es sociais se desenvolveram devido ao processo de formaçã o e


fortalecimento dos Estados nacionais que ocorreu na Europa desde o fim da Idade Média.

Desde entã o, o Estado nacional tornou-se um dos principais vetores de onde partem forças
capazes de difundir entre os habitantes de seu territó rio a noçã o de pertencimento a um
conjunto maior, que compartilha uma histó ria e uma cultura.

O nacionalismo serviu de princípio para a criaçã o de identidades e a consequente consolidaçã o


de novos países, a exemplo da Itá lia e da Alemanha.

A partilha da África
Ao passarem pelo processo de unificaçã o, Alemanha e Itália incorporaram á reas que já
possuíam indú strias. Foi assim com o vale do Ruhr, na Alemanha, e com a regiã o norte da Itália.
Os dois países entraram no jogo geopolítico e passaram a desafiar o poderio de França e
Inglaterra, as naçõ es hegemô nicas naquele momento. Essas naçõ es vinham constituindo vastos
impérios, formados por colô nias espalhadas por outros continentes, sobretudo na Á sia, onde a
França se apoderou da Indochina, e a Inglaterra, da Índia. Em escala menor, Bélgica, Portugal
e Espanha também participaram dessa divisã o do mundo.

Indochina: península situada no Sudeste Asiá tico, ocupada por países como Tailâ ndia, Laos, Camboja, Vietnã , Malá sia e
Cingapura. O domínio francê s se estendeu gradualmente por Laos, Camboja e Vietnã , perdurando de 1858 a 1954.

Assim como os outros países europeus citados, Itá lia e Alemanha também objetivavam
adquirir novas fontes de matérias-primas e novos mercados consumidores. Ou seja, buscavam
meios para concorrer em melhores condiçõ es com os outros países industrializados.

Entre 1884 e 1885, realizou-se a Conferência de Berlim, que culminou com a divisã o do
continente africano entre as principais potências da época. Desse encontro participaram
Dinamarca, Rú ssia, Países Baixos, Estados Unidos, Suécia, os impérios Austro-Hú ngaro e
Turco-Otomano, além de Inglaterra, França, Portugal, Espanha, Bélgica, Itá lia e a anfitriã ,
Alemanha.

Como a partilha da África reproduziu a importâ ncia geopolítica e econô mica dos países
participantes, França e Inglaterra ficaram com as maiores possessõ es, ao passo que Portugal,
Espanha, Bélgica, Itá lia e Alemanha dividiram o restante entre si. Os demais participantes nada
receberam.

A partilha da Á frica foi a demonstraçã o do imperialismo em todas as suas dimensõ es. Nã o se


tratava apenas de uma dominaçã o cultural e econô mica, mas também do envio de homens e
mulheres para se fixarem nos novos territó rios e da montagem de uma estrutura
administrativa e militar nessas á reas.
João Miguel A. Moreira/ID/BR

Fonte de pesquisa: Philip’s atlas of world history – concise edition. 2. ed. London: Philip’s, 2007. p. 206.
Pá gina 24

Antecedentes da Primeira Guerra Mundial


A Primeira Guerra Mundial começou em 1914, mas os blocos beligerantes formaram-se muito
antes. Em 1882, Alemanha, Itá lia e Império Austro-Hú ngaro formaram a Tríplice Aliança e,
em 1907, França, Inglaterra e Rú ssia constituíram a Tríplice Entente ou Entente Cordiale.

Os blocos antagô nicos expressavam diferentes interesses. Na Entente Cordiale, França e


Inglaterra visavam manter sua hegemonia como países industrializados. A Rú ssia se associou a
eles porque disputava com a Alemanha a influência sobre o Leste Europeu. Na Tríplice Aliança,
Itá lia e Alemanha pretendiam angariar novos mercados que estavam sob o domínio francês e
inglês; o Império Austro-Hú ngaro acreditava que a Alemanha o protegeria em caso de alguma
ameaça russa.

Leia
A Primeira Guerra Mundial e o declínio da Europa, de Paulo Fagundes Visentini. Rio de Janeiro: Alta Books, 2014.
A obra apresenta uma perspectiva crítica dos fatos que levaram ao conflito.
Vozes esquecidas da Primeira Guerra Mundial, de Max Arthur. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2011.
O livro traz fotos e narrativas de pessoas que vivenciaram a guerra: soldados, costureiras, estudantes, políticos, entre outros.

O início da Primeira Guerra Mundial


O estopim da Primeira Guerra Mundial foi o assassinato do arquiduque Francisco Ferdinando,
príncipe herdeiro do trono do Império Austro-Hú ngaro, na cidade de Sarajevo, na Sérvia, em
1914.

Apoiado pela Alemanha, o Império Austro-Hú ngaro declarou guerra à Sérvia. Em nome da
defesa da etnia eslava e de seus pró prios interesses, a Rú ssia declarou guerra ao Império
Austro-Hú ngaro, e a Alemanha entrou na guerra para defender seu aliado. De imediato, a
França honrou os acordos com a Rú ssia e a apoiou no conflito; a Alemanha entã o lhe declarou
guerra e atacou a fronteira leste da França, violando o territó rio belga. Em seguida, temendo o
poderio marítimo alemã o, a Inglaterra lhe declarou guerra. O Império Turco-Otomano, por sua
vez, aliou-se à Alemanha, fortalecendo a frente oriental contra a Rú ssia. O conflito bélico se
generalizou por toda a Europa.

Os Estados Unidos não entraram na guerra imediatamente. Em 1917, porém, os alemã es


afundaram 21 embarcaçõ es comerciais, algumas estadunidenses. Em resposta, os Estados
Unidos declararam guerra à Alemanha. Nesse mesmo ano, a Rú ssia abandonou o conflito
devido à Revoluçã o Socialista. Com o apoio estadunidense, a Alemanha foi derrotada em 1918.

Em 1919, foi assinado o Tratado de Versalhes, na França, que formalizou os entendimentos


para o fim da guerra e criou a Liga das Nações. A Alemanha foi considerada culpada pela
guerra e sofreu pesadas sançõ es, como o pagamento de 33 bilhõ es de dó lares aos países da
Entente, a título de reparaçã o.

Liga das Nações: entidade internacional que teve como objetivo assegurar a paz mundial e promover a resoluçã o de
conflitos por meio da diplomacia, evitando a guerra. Atuou de 1920 a 1942 e, em 1946, foi sucedida pela Organizaçã o das
Naçõ es Unidas (ONU).

O documento também determinou alteraçõ es fronteiriças: a Alemanha cedeu a regiã o da


Alsá cia-Lorena à França, e as possessõ es alemã s na Á frica passaram para o domínio de França,
Inglaterra e Bélgica.
Outros acordos fragmentaram o Império Turco-Otomano em um conjunto de países.

O Império Austro-Hú ngaro se dissolveu e a Hungria perdeu territó rios para as atuais Croá cia,
Á ustria, Romênia e Eslová quia.

Allmaps/ID/BR

Fonte de pesquisa: ARRUDA, José Jobson de A. Atlas histórico básico. Sã o Paulo: Á tica, 2007. p. 27.
Pá gina 25

A Revolução Russa

A Rú ssia passou por profundas transformaçõ es durante o século XX.

Na Primeira Guerra Mundial, as fá bricas russas voltaram sua produçã o para o esforço de
guerra, e o envio de soldados reduziu a produçã o de alimentos no país. Resultado: fome
generalizada. O conflito ampliou a insatisfaçã o popular e agravou a situaçã o política interna.
Manifestaçõ es e greves eclodiram em todo o país, e, em fevereiro de 1917, a situaçã o chegou ao
clímax. Diante das pressõ es, o czar Nicolau II acionou as forças do exército, mas estas se
recusaram a atacar a populaçã o. Sem apoio, o czar renunciou e a repú blica foi proclamada.

Esforço de guerra: mobilizaçã o de recursos e infraestrutura de um país em favor da construçã o de equipamentos e do


preparo logístico para um conflito armado.

O governo provisó rio que se instalou na ocasiã o, controlado pelos liberais moderados, não
atendeu à s reivindicaçõ es populares – em especial, a retirada dos soldados russos da guerra.

Leon Trotski comandava a Guarda Vermelha, uma milícia revolucioná ria formada por
camponeses e operá rios. Em 25 de outubro de 1917, os guardas vermelhos tomaram os pontos
estratégicos da capital russa (Sã o Petersburgo, na época Petrogrado), e o governo provisó rio
foi deposto.

Vladimir Lênin assumiu o governo e pouco tempo depois assinou um armistício com a
Alemanha. A Rú ssia estava oficialmente fora da Primeira Guerra Mundial.

Armistício: acordo que suspende as hostilidades ou os conflitos armados entre países.

Um dos mais sérios problemas enfrentados pelo governo revolucioná rio foi a guerra civil, que
durou até 1921 e opô s o Exército Vermelho, comandado por Trotski, e as forças
contrarrevolucioná rias do Exército Branco, que contava com o apoio de Inglaterra, França,
Japã o e Estados Unidos.

Leia
Rumo à estação Finlândia, de Edmund Wilson. Sã o Paulo: Companhia de Bolso, 2006.
O livro aborda a histó ria do socialismo até o momento em que Lênin partiu da Estaçã o Finlâ ndia para liderar a Revoluçã o
Russa em 1917.

A formação da URSS e do bloco socialista


Terminada a guerra civil, Lênin instituiu a Nova Política Econô mica (NEP), que implantou
algumas prá ticas capitalistas para resolver graves problemas econô micos originados do
período de conflito interno.

Em 1922, Lênin fundou a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) sobre a base
do antigo Império Russo.

A URSS era um conjunto multifacetado de etnias e religiõ es que, desde o início, mantiveram
relaçõ es conturbadas com o governo central, sediado em Moscou.
Com a morte de Lênin em 1924, Josef Stalin saiu vencedor nas disputas internas e assumiu o
governo da URSS.

A partir de 1927, a economia soviética passou a ser gerida por meio de planejamentos estatais
centralizados, os planos quinquenais. No campo, as terras foram transformadas em
propriedades estatais (sovkhozes) e em cooperativas agrícolas (kolkhozes).

Com o objetivo de fazer da URSS uma liderança mundial, foram feitos investimentos pú blicos
maciços na indú stria.

Em 1936, uma nova Constituiçã o estabeleceu plenos poderes para Stalin, que passou a
perseguir e a eliminar seus opositores e a sufocar manifestaçõ es sociais.

Apó s a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), em muitos países vizinhos à URSS, nos quais os
alemã es foram vencidos graças à atua çã o do exército soviético, os novos governos
implementaram o regime socialista. Esses países formaram, com a URSS, o bloco socialista.
Veja o mapa ao lado.

ID/BR

Fonte de pesquisa: Antô nio do Carmo Reis. Atlas de história da Europa. Porto: Porto Editora, s. d. p. 59.
Pá gina 26

A crise no período entre guerras

A Primeira Guerra Mundial deixou graves sequelas na sociedade europeia. O intervalo entre os
anos de 1918 e 1939 foi marcado por crises econô micas e pela ascensã o de regimes
nacionalistas, especialmente na Itália e na Alemanha, derrotadas na guerra.

A Itália
Na Itá lia, a ascensã o do fascismo foi liderada por Benito Mussolini, que, em 1921, fundou o
Partido Nacional Fascista. No poder a partir de 1922, Mussolini imprimiu as principais
características do fascismo: nacionalismo exacerbado, controle do sistema sindical, proibiçã o
das greves e perseguiçã o à imprensa. Além disso, reprimiu violentamente seus opositores e
levou o país ao regime de partido ú nico, em 1929.

A Alemanha
Na década de 1920, a Alemanha passou por uma grave crise econô mica. A arrecadaçã o do
Estado alemã o diminuiu, a moeda alemã perdeu totalmente o valor e houve desemprego em
massa. Tal crise culminou com um pedido de moratória da dívida referente à s indenizaçõ es
aos países vencedores da Primeira Guerra.

Moratória: acordo estabelecido entre credores e devedores para o adiamento do pagamento de uma dívida.

Em 1923, alheia aos problemas alemã es, a França ocupou a regiã o mais rica e industrializada
da Alemanha, o vale do Ruhr, para garantir o recebimento dessas indenizaçõ es.

Nesse cená rio, surgiu e cresceu rapidamente o nazismo, um movimento nacionalista com
fortes ideias totalitá rias e racistas, sob a liderança de Adolf Hitler. Em janeiro de 1933, Hitler
foi nomeado chanceler pelo presidente Hindenburg. No mês seguinte, atribuiu aos comunistas
um incêndio ocorrido no Parlamento e, a partir de entã o, passou a perseguir todas as forças de
oposiçã o. Nas eleiçõ es de março, o Partido Nazista conquistou a maioria dos votos e Hitler
assumiu o governo com poderes ditatoriais.

Os nazistas ampliaram sua política de expansã o do “espaço vital” (territó rio que estaria
destinado à manutençã o e ao domínio dos povos germâ nicos) e de valorizaçã o da “raça pura”,
perseguindo violentamente os grupos que consideravam “raças inferiores” (judeus, ciganos e
outras minorias).

A crise da Bolsa de Nova York


Enquanto a Europa sofria as consequências da crise proveniente da destruiçã o provocada pela
Primeira Guerra Mundial, os Estados Unidos viviam um período pró spero apó s sua vitoriosa
intervençã o no conflito.

Houve um significativo aumento de recursos financeiros, graças ao recebimento dos


empréstimos feitos aos países europeus, o que estimulou o crescimento da indú stria. Porém, a
capacidade de consumo da populaçã o nã o acompanhou o ritmo da produçã o industrial, o que
gerou excedente e a consequente queda dos preços. Muitas indú strias demitiram funcioná rios
e muitos fazendeiros foram à bancarrota devido aos preços baixos dos produtos agrícolas.

Pela difícil situaçã o das empresas, os acionistas passaram a vender em massa suas açõ es, cujos
preços baixaram até os papéis perderem praticamente todo o valor. O crash (quebra) da Bolsa
de Nova York, em outubro de 1929, causou uma crise econô mica em países capitalistas do
mundo todo.

Ao longo dos anos 1930, a economia estadunidense se recuperou graças ao New Deal, plano
econô mico realizado pelo presidente Franklin Delano Roosevelt.

Three Lions/Getty Images

A alta inflaçã o na Alemanha, nos primeiros anos da década de 1920, provocou uma extrema desvalorizaçã o da moeda
alemã . Na foto, crianças utilizam cédulas como brinquedo. Foto de 1923.
Pá gina 27

A Segunda Guerra Mundial

Em 1938, a Alemanha iniciou sua política expansionista, anexando regiõ es em países vizinhos
cuja populaçã o tivesse ascendência germâ nica – os primeiros foram a Á ustria e parte da
Tchecoslová quia. Em 1939, com a iminência de um conflito armado, Uniã o Soviética e
Alemanha assinaram um tratado que previa a não agressã o mú tua. Para a Alemanha isso
garantia uma ú nica frente de batalha.

Ainda em 1939, as tropas alemã s invadiram a Polô nia. A França e a Inglaterra formaram o
bloco dos Aliados e declararam guerra à Alemanha. Alegando interesses coloniais em
territó rios franceses, a Itá lia entrou na guerra ao lado da Alemanha. Era o início de um novo
conflito que atingiria escala mundial.

Em 1940, o exército alemã o invadiu o territó rio francês e, em junho desse ano, a França se
rendeu assinando um desonroso armistício. Um governo colaboracionista (pró -alemã o) foi
instalado na cidade de Vichy.

Ainda em 1940, o Japã o, que também tinha aspiraçõ es imperialistas, assinou um tratado com a
Alemanha e a Itália. Estava formado o bloco das potências do Eixo.

A entrada efetiva dos Estados Unidos na guerra deu-se em 1941, apó s os japoneses bombardea
rem Pearl Harbor, base naval estadunidense no Havaí. No mesmo ano, o exército alemã o
quebrou o pacto de nã o agressã o e atacou a URSS. Esta declarou guerra à Alemanha e entrou
no conflito ao lado dos Aliados. As forças alemã s avançaram em territó rio soviético, mas desde
o início encontraram dificuldades, devido nã o apenas à açã o do exército soviético, mas também
à forte resistência popular.

O início do fim
No fim de 1942 e início do ano seguinte, desenvolveu-se a batalha de Stalingrado. Os alemã es
iniciaram um ataque à cidade, mas aos poucos perderam força e o exército soviético os obrigou
a recuar. Em maio de 1943, a URSS já havia recuperado grandes extensõ es de seu territó rio e
avançava para o territó rio do inimigo.

Na outra frente, os alemã es também foram derrotados a partir do famoso Dia D, em 6 de junho
de 1944, quando tropas estadunidenses desembarcaram no norte da França, na Normandia, e
tomaram a direçã o de Berlim com o apoio dos Aliados.

Dia D: expressã o utilizada para designar o dia em que é desencadeada uma açã o militar. Abreviaçã o da expressã o, em inglê s,
departed day (D-Day), ou dia da partida.

Com a ocupaçã o da Alemanha em ambas as frentes e as tropas soviéticas entrando em Berlim,


Hitler cometeu suicídio em seu bunker, no dia 30 de abril de 1945. Um dia antes, a Itá lia havia
assinado sua rendiçã o apó s o assassinato de Benito Mussolini. Apenas o Japã o resistia, embora
já praticamente vencido.

Bunker: abrigo geralmente subterrâ neo construído com paredes fortificadas para suportar ataques inimigos.

Em 6 e 9 de agosto do mesmo ano, as cidades de Hiroshima e Nagasaki, respectivamente,


foram atacadas pelos Estados Unidos com bombas atô micas. No dia 15, o imperador Hiroíto
anunciou pelo rá dio a rendiçã o do país. Em 2 de setembro, a bordo de um navio estadunidense,
foi assinada a ata de rendiçã o. Terminava a Segunda Guerra Mundial.

João Miguel A. Moreira/ID/BR

Fonte de pesquisa: ARRUDA, José Jobson de A. Atlas histórico básico. Sã o Paulo: Á tica, 2007. p. 30.
Pá gina 28

Informe
Da paz à guerra
Enquanto apenas alguns observadores civis compreendiam o cará ter catastró fico da futura
guerra, governos que nã o o entendiam se lançaram entusiasticamente à corrida para se
equipar com os armamentos cuja nova tecnologia o propiciaria. A tecnologia da morte, já em
processo de industrializaçã o em meados do século, avançou notavelmente nos anos 1880, não
apenas devido a uma verdadeira revoluçã o na rapidez e no poder de fogo das armas pequenas
e da artilharia, mas também através da transformaçã o dos navios de guerra por meio de
motores-turbina, de uma blindagem protetora mais eficaz e da capacidade de carregar muito
mais armas. […]

Os gastos militares britâ nicos permaneceram está veis nos anos 1870 e 1880, tanto em termos
de porcentagem do orçamento total como per capita em relaçã o à populaçã o. Mas passou de
32 milhõ es em 1887 a 44,1 milhõ es de libras esterlinas em 1898-1899, e a mais de 77 milhõ es
em 1913-1914. E o crescimento mais espetacular foi o da marinha, o que nã o é surpreendente,
pois se tratava da ala de alta tecnologia de guerra, correspondente aos mísseis nos gastos
modernos de armamentos […].

A simbiose entre guerra e produçã o da guerra transformou inevitavelmente as relaçõ es entre


governo e indú stria, pois, como observou Friedrich Engels em 1892, “como a guerra se tornou
um setor da grande industrie... la grande industrie... se tornou uma necessidade política”. E,
reciprocamente, o Estado se tornou essencial para certos setores da indú stria, pois quem,
senã o o governo, constitui a clientela dos armamentos? Os bens que essa indú stria produzia
eram determinados nã o pelo mercado, mas pela interminá vel concorrência dos governos, que
os fazia procurar garantir para si um fornecimento satisfató rio das armas mais avançadas e,
portanto, mais eficientes. E mais, o que os governos precisavam nã o era tanto da produçã o real
de armas, mas sim da capacidade de produzi-las numa escala compatível com uma época de
guerra, se fosse o caso; isso quer dizer que eles tinham que zelar para que suas indú strias
mantivessem uma capacidade de produçã o altamente excedente para tempos de paz […].

Como o moderno “complexo industrial-militar” dos EUA, essas concentraçõ es industriais


gigantescas nã o teriam sido nada sem a corrida armamentista dos governos. Assim sendo, é
tentador responsabilizar tais “mercadores da morte” (a expressã o se popularizou entre os
pacifistas) pela “guerra de aço e ouro”, como a denominou um jornalista britâ nico. Nã o era
ló gico que a indú stria de armas incentivasse a aceleraçã o da corrida armamentista,
inventando, se necessá rio, inferioridades nacionais ou “janelas de vulnerabilidade”, que
podiam ser removidas através de lucrativos contratos? Uma firma alemã , especializada na
fabricaçã o de metralhadoras, conseguiu inserir uma nota no jornal Le Figaro para que o
governo francês planejasse duplicar seu nú mero de metralhadoras […].

Corrida armamentista: fase marcada pelo maciço investimento dos países em armamentos e demais tecnologias militares
para a formaçã o de poderosos arsenais.

Pessoas elegantes e pouco visíveis, como o grego Basil Zaharoff, atuando em nome de Vickers
(e que mais tarde recebeu o título de cavaleiro pelos serviços prestados aos aliados durante a
Primeira Guerra Mundial), tomaram as providências necessá rias para que a indú stria de
armamentos das grandes naçõ es vendessem seus produtos menos vitais ou obsoletos a
Estados do Oriente Pró ximo e da América Latina, que já estavam em condiçõ es de comprar tais
utensílios. Em suma, o comércio internacional moderno da morte já estava bem encaminhado.

[…] Nã o há dú vida de que havia chegado o momento, ao menos no verã o europeu de 1914, em
que a má quina inflexível que mobilizava as forças da morte nã o poderia ser mais estocada.
Porém a Europa nã o foi à guerra devido à corrida armamentista como tal, mas devido à
situaçã o internacional que lançou as naçõ es nessa competiçã o.

HOBSBAWN, Eric. A era dos impérios: 1875-1914. 7. ed. Sã o Paulo: Paz e Terra, 2002. p. 424-427.

Hulton-Deutsch Collection/Corbis/Fotoarena

Comemoraçã o da vitó ria francesa na Primeira Guerra Mundial. Paris, foto de novembro de 1918.

PARA DISCUTIR

1. O texto ressalta uma forte ligaçã o entre Estado e indú stria bélica. Essa relaçã o ainda existe
em nossos dias? Justifique sua resposta com um caso concreto.

2. Discuta com os colegas: No momento histó rico abordado, os países se preparavam para uma
guerra?
Pá gina 29

Mundo Hoje
A Conferência de Bretton Woods
A Segunda Guerra Mundial ainda nã o havia acabado, mas líderes de 44 países já estavam
decidindo, em julho de 1944, o futuro do planeta. Na Conferência de Bretton Woods, realizada
há sete décadas no Estado de New Hampshire, nos Estados Unidos, os representantes das
naçõ es, incluindo o Brasil, estabeleceram as diretrizes de uma nova ordem econô mica global.
Um dos objetivos da reuniã o era a reconstruçã o do capitalismo, estabelecendo regras
financeiras e comerciais e evitando crises como as registradas apó s a Primeira Guerra (1914-
1918), notadamente a Grande Depressã o dos anos [19]30. Durante o encontro de cú pula foram
criadas instituiçõ es voltadas para tentar alcançar essa estabilidade: o Fundo Monetá rio
Internacional (FMI) e o Banco Internacional para a Reconstruçã o e o Desenvolvimento (Bird ou
Banco Mundial).

A criaçã o formal das duas instituiçõ es ocorreria em 27 de dezembro de 1945, quando foi
assinada em Bretton Woods a ata de fundaçã o do FMI e do Bird, com papéis e perfis de
financiamento distintos. Mas mesmo com a assinatura do Acordo de Bretton Woods, os dois
organismos levaram ainda dois anos para começar a entrar em operaçã o, em 1946,
aguardando a sua ratificaçã o pelos países.

[...] No Hotel Mount Washington, na pequena localidade de Bretton Woods, os mais de 700
delegados discutiram os graves problemas provocados pela eclosã o do conflito em escala
global e os caminhos para superá -los. Um dos objetivos era evitar a repetiçã o de crises geradas
pelas fortes flutuaçõ es cambiais no período entreguerras. O mundo queria fugir do caos
monetá rio, de grandes recessõ es e surtos de hiperinflaçã o – cená rio capaz de facilitar a
ascensã o de governos autoritá rios. Na época, os especialistas se perguntavam: encerrada a
guerra contra a Alemanha de Hitler, como a estabilidade das moedas poderia ajudar na
retomada do comércio e no crescimento econô mico sustentá vel, em países devastados e em
outros ainda em desenvolvimento, com a necessidade de criaçã o de empregos?

Duas propostas, basicamente, estavam à mesa: de um lado a dos EUA, representados por seu
secretá rio do Tesouro, Harry Dexter White. Do outro, a britâ nica, do célebre John Maynard
Keynes. Venceu o mais forte, a potência que sairia vitoriosa da Segunda Guerra: o plano de
White, que temia restriçõ es ao comércio americano terminado o conflito, em oposiçã o a Lord
Keynes, mais intervencionista. O projeto americano previa a criaçã o de uma instituiçã o capaz
de evitar mudanças cambiais bruscas nos países provocadas por desvalorizaçõ es, o que afetava
naçõ es vizinhas.

Ao mesmo tempo, esse ó rgã o teria capacidade para socorrer, temporariamente, governos em
dificuldades de honrar os seus compromissos financeiros. Nas décadas seguintes, esse papel
foi desempenhado pelo FMI, em meio a críticas de governos e setores da sociedade. Ao fim do
encontro, no dia 22 de julho de 1944, ficou decidido que o dó lar passaria a ser a moeda forte
no mundo. Para isso, foi instituído um conjunto de regras para regular a política econô mica dos
países. A moeda americana, nova referência internacional, estava atrelada ao ouro. Um dó lar
equivalia a 31,1 gramas do metal.

[...]
Uma das preocupaçõ es do plano do Brasil na conferência era ajudar as naçõ es latino-
americanas, garantindo mercados constantes para as suas matérias-primas no pó s-guerra. [...]

O chamado Sistema Bretton Woods para gerenciar a economia global obrigava os países a
adotarem uma política monetá ria. A taxa de câ mbio de suas moedas era mantida dentro de
uma faixa, indexada ao dó lar [...] cujo valor, por sua vez, estaria ligado ao ouro. Mas em agosto
de 1971, diante de pressõ es crescentes na demanda global por ouro, o presidente dos EUA,
Richard Nixon, decretou o fim do padrã o-ouro. De forma unilateral, suspendeu o sistema
monetá rio dos acordos de Bretton Woods, cancelando a conversibilidade direta do dó lar em
ouro.

Indexar: considerar um valor como índice; tomar como valor de referê ncia.

VILLELA , Gustavo. Conferência de Bretton Woods decidiu rumos do pó s-guerra e criou FMI. O Globo, 18 jul. 2014. Disponível em:
<http://acervo.oglobo.globo.com/fatos-historicos/conferencia-de-bretton-woods-decidiu-rumos-do-pos-guerra-criou-fmi-
13310362>. Acesso em: 20 jan. 2016.

Bettmann/Corbis/Fotoarena

Conferência de Bretton Woods, em New Hampshire, nos Estados Unidos. Foto de 1944.

PARA ELABORAR

1. O texto afirma que, apesar das críticas de governos e setores da sociedade, o FMI seria a
instituiçã o responsá vel pelo socorro monetá rio a países em crise financeira nas décadas
seguintes à Segunda Guerra Mundial. Faça uma pesquisa sobre o funcionamento do FMI e
sobre as críticas feitas à instituiçã o e crie uma lista de argumentos favorá veis e contrá rios à
atuaçã o do fundo.
Pá gina 30

Presença da África
O grande massacre no Congo
A presença europeia na Á frica Negra por muito tempo seguiu um padrã o inaugurado pelos
portugueses em meados do século XV. Lá não houve um esforço de colonizaçã o, como nas
Américas. Na Á frica, os portugueses mantinham apenas á reas fortificadas permanentes no
litoral e enviavam expediçõ es ao interior para tratar com os líderes locais, com o objetivo de
organizar redes de suprimentos de escravos, marfim, peles e outros produtos.

Exceto poucos representantes comerciais e missioná rios, nã o havia assentamentos europeus


permanentes no interior da Á frica. Primeiro, porque as redes de comércio baseadas em
alianças entre portugueses e líderes africanos garantiam lucros imensos. O trá fico de pessoas
escravizadas para a América era a atividade mais rentá vel do mundo. Além disso, a Á frica era
uma imensidã o desconhecida. E havia as doenças. Até o século XIX, os europeus não sabiam
como evitar moléstias como a malá ria, a febre amarela e a doença do sono.

Os fatos começaram a mudar na segunda metade do século XIX. Naquela época, a economia e a
sociedade capitalistas difundiam-se pela Europa Ocidental. A nova indú stria trazia consigo
uma voracidade cada vez maior por matérias-primas que só podiam ser encontradas fora da
Europa.

O desenvolvimento técnico revolucionou os transportes. Continentes inteiros estavam sendo


cobertos por malhas ferroviá rias, e os mares e rios eram singrados por embarcaçõ es movidas a
vapor. O interior da Á frica despontava como uma fonte de matérias-primas e mã o de obra.

É claro que a pura e simples ganâ ncia nunca foi usada como argumento principal da aventura
africana. A presença mais intensa de europeus na Á frica era justificada como busca de
conhecimento ou desejo de levar a civilizaçã o aos “pobres nativos” e convertê-los ao
cristianismo.

Enfrentando perigos, doenças e isolamento, expediçõ es lideradas por exploradores, como o


francês Pierre Brazza e o anglo-americano Henry Morton Stanley, avançaram continente
adentro. Eram patrocinadas por sociedades geográ ficas ou por governos á vidos por encontrar
novas riquezas. Na esteira das expediçõ es vinham os soldados e os gerentes de
empreendimentos econô micos.

No Congo, a face mais cruel do imperialismo


Um dos grandes interessados na Á frica foi o rei dos belgas, Leopoldo II (1835-1909), que
jamais se contentou em ser simplesmente o soberano da Bélgica. Para ele, seu reino era
pequeno e excessivamente controlado pelo sistema parlamentar, que fazia dele mais um
símbolo do Estado do que uma força política com verdadeiro poder. Assim, desejava mandar e
enriquecer mais ainda.

No início da década de 1870, Leopoldo II ouviu falar do Congo. Tratava-se de uma regiã o que
se estendia pelo centro do continente africano, banhada pelo grande rio Congo e seus
afluentes. A regiã o hoje é territó rio da Repú blica Democrá tica do Congo.
De acordo com as notícias das expediçõ es de Brazza e de Stanley, existiam no Congo cerca de
du zentos grupos étnicos e mais de quatrocentas línguas e dialetos. E a regiã o não pertencia a
nenhum dos impérios europeus. O Congo despertava no rei grande cobiça, pois ele o queria
não para a Bélgica, mas para si mesmo.

Leopoldo II iniciou uma campanha para estabelecer permanentemente empreendimentos


europeus no Congo. Como justificativa, exibia o desejo de conhecimento e a filantropia.
Organizou entã o uma Conferência Geográ fica Africana em Bruxelas, no ano de 1876,
convidando importantes personagens do campo geográ fico e científico da época, pagando suas
passagens e hospedando-as. Os estudiosos, encantados com o interesse e a acolhida do rei,
elegeram-no presidente de honra da Associaçã o Internacional Africana (AIA).

Photo by Apic/Getty Images

Grupo de prisioneiros fotografados em c. 1900 no Estado Livre do Congo.


Pá gina 31

Com o tempo, Leopoldo II obteve a aprovaçã o das grandes potências para suas pretensõ es no
Congo. Como resultado da Conferência de Berlim, o rei da Bélgica conseguiu autorizaçã o para a
criaçã o do Estado Livre do Congo.

O fato é que a presença dos representantes belgas e das empresas europeias no Congo nã o foi
de modo algum filantró pica. Milhares de chefes, em troca de garrafas de gim ou de velhos
uniformes europeus, eram estimulados a assinar documentos em que cediam a soberania de
seus territó rios e de seus povos ao Estado Livre. Muito provavelmente, os chefes africanos nã o
tinham uma ideia clara do significado de sua assinatura, já que o conceito político de soberania,
como entendido na Europa, nã o tinha sentido para eles.

Os representantes do Estado Livre do rei Leopoldo, quando deparavam com a resistência das
tribos em ceder trabalhadores para as companhias europeias, ordenavam mutilaçõ es, a
exemplo de algumas etnias do Congo que, em suas guerras, tinham o há bito de reunir as
orelhas de inimigos mortos.

As autoridades do Estado Livre do Congo obrigavam os africanos a abandonar suas plantaçõ es


de subsistência e os cuidados com seus rebanhos para servir os europeus. Sem agricultura e
rebanhos, as famílias dos congoleses passavam fome.

As rebeliõ es mais contundentes eram reprimidas com a eliminaçã o de aldeias inteiras. Jamais
se saberá com exatidã o quantos dos cerca de 20 milhõ es de africanos do Congo pereceram nos
massacres patrocinados pela “filantropia” do rei Leopoldo.

Uma matança de tais proporçõ es seria difícil de esconder por muito tempo. No início do século
XX, viajantes e missioná rios europeus e estadunidenses, horrorizados com o que haviam
testemunhado, denunciaram nos jornais os massacres, as mutilaçõ es e a exploraçã o do
trabalho escravo no Estado Livre do Congo. Foi a primeira grande campanha internacional em
favor dos direitos humanos no século XX. A campanha surtiu algum efeito. A opiniã o pú blica
internacional passou a acreditar que Leopoldo II era um hipó crita mentiroso. Já a histó ria
desvenda a imagem de um verdadeiro monstro.

Leia
Coração das trevas, de Joseph Conrad. Sã o Paulo: Companhia de Bolso, 2008.
O livro retrata a violê ncia extrema praticada na Á frica pelos colonizadores.
Um pedaço de bolo no meio da África
Reportagem de Marcelo Galli, sobre a exploraçã o colonial do Congo Belga. Disponível em:
<http://civilizacoesafricanas.blogspot.com.br/2010/06/um-pedaco-de-bolo-no-meio-da-africa.html>. Acesso em: 25 maio
2016.

Para discutir

1. Leia atentamente os textos abaixo e comente-os com os colegas.

a) O Congo foi explorado por grandes empresas. Em 1890, a exportaçã o de borracha do Congo foi
de 100 toneladas. Esse nú mero subiu para 1,3 milhã o de toneladas em 1896, chegou a 2 milhõ es em
1898, e em 1901 atingiu 6 milhõ es de toneladas.
b) Anotaçã o extraída do diá rio do missioná rio batista inglês A. E. Scrivener, em 1903:

[…] Da forma como foi trazido, cada homem tinha um cestinho contendo mais ou menos quatro
ou cinco libras de borracha. […] O antigo homem branco (eu me sinto envergonhado de minha
cor todas as vezes em que penso nele) se postava na porta do armazé m para receber a
borracha dos pobres coitados trêmulos, que, depois de semanas de privaçõ es nas florestas,
tinham ousado chegar com o que foram capazes de coletar. Quando um homem trazia menos
que a porçã o apropriada, o homem branco encolerizava-se e, tomando um rifle de um dos
guardas, fuzilava-o na hora. Raramente a quantidade de borracha aumentava, mas um ou mais
eram fuzilados na porta do armazém “para fazer os sobreviventes trazerem mais na pró xima
vez”. […]

GALLI, Marcelo. Um pedaço de bolo no meio da Á frica. Disponível em: <http://civilizacoesafricanas.blogspot.com.br/2010/06/um-


pedaco-debolo-no-meio-da-africa.html>. Acesso em: 27 jan. 2016.

c) Declaraçã o de Leopoldo II quanto aos seus objetivos no Congo: “Abrir para a civilizaçã o a ú nica
parte do globo que ela ainda nã o penetrou, atravessar a escuridã o na qual populaçõ es inteiras estã o
envolvidas [...]”.

GALLI, Marcelo. Um pedaço de bolo no meio da Á frica. Disponível em: <http://civilizacoesafricanas.blogspot.com.br/2010/06/um-


pedaco-debolo-no-meio-da-africa.html>. Acesso em: 27 jan. 2016.

2. A ideia de que se estaria levando progresso para as populaçõ es locais era um dos
argumentos utilizados por Leopoldo II para justificar seus empreendimentos no Congo. Com
base em todas as informaçõ es de que você dispõ e sobre o assunto, elabore uma histó ria em
quadrinhos com o seguinte título: O rei Leopoldo II leva a civilizaçã o ao Congo. O trabalho
poderá ser feito em grupo.
Pá gina 32

Atividades
Não escreva no livro.

Revendo conceitos

1. O que é o nacionalismo?

2. O que foi a Conferência de Berlim?

3. Quais foram as principais consequências da Primeira Guerra Mundial?

4. Como se formaram a Tríplice Entente e a Tríplice Aliança?

5. Cite as principais características da crise econô mica ocorrida no período entre guerras.

6. Quais foram as principais causas da Segunda Guerra Mundial?

7. Indique os fatores que contribuíram para o fim da Segunda Guerra Mundial em 1945.

Lendo mapas

8. Compare os dois mapas que mostram a situaçã o da Europa antes e depois da Primeira
Guerra Mundial e explique o que ocorreu com o Império Austro-Hú ngaro e com o Império
Russo.

Allmaps/ID/BR

Fonte de pesquisa: ARRUDA, José Jobson de A. Atlas histórico básico. Sã o Paulo: Á tica, 2007. p. 27.
Allmaps/ID/BR

Fonte de pesquisa: ARRUDA, José Jobson de A. Atlas histórico básico. Sã o Paulo: Á tica, 2007. p. 27.

9. Com base no mapa, descreva a expansã o da crise provocada pela quebra da Bolsa de Nova
York em 1929.

João Miguel A. Moreira/ID/BR

Fonte de pesquisa: VICENTINO, Clá udio. Atlas histó rico: geral e do Brasil. São Paulo: Scipione, 2011. p. 143.
Pá gina 33

Interpretando textos e imagens

10. Leia o texto, observe a imagem e responda à s questõ es.

[...] Em troca do reconhecimento do Estado do Congo, sob controle de Leopoldo II, os belgas tiveram
que aceitar a política de “Portas Abertas”, admitindo a navegaçã o e o comércio internacional no rio
Congo para todas as naçõ es europeias. Da mesma forma, capitais francesas e belgas associar-se-iam
rapidamente para a exploraçã o das riquezas minerais do país, conformando, um pouco mais tarde,
a empresa Union Minière, que passa a exercer o verdadeiro controle sobre o cobre, o ouro e os
diamantes do Congo. Na direçã o leste, contudo, a expansã o francesa deparou-se com a forte
projeçã o de força do Império Britâ nico, que fazia a subida do rio Nilo, estabelecendo uma longa
linha férrea paralela ao rio como principal ferramenta de dominaçã o do rico e estratégico Vale do
Nilo. Ambas as frentes imperialistas encontrar-se-iam na junçã o dos dois Nilos, em Fachoda, no
Sudã o. Estavam em jogo, aí, em 1898, dois ambiciosos projetos geopolíticos: a travessia francesa da
Á frica no sentido Atlâ ntico/Índico ou a travessia britâ nica da Á frica no sentido Alexandria/Cidade
do Cabo, através de uma longa ferrovia, que deveria ligar o Cairo à Cidade do Cabo, idealizada por
Cecil Rhodes (1853-1902). [...]

SILVA, Francisco Carlos Teixeira da et al (Org.). Enciclopédia de guerras e revoluções: vol. I: 1901-1919: a época dos imperialismos e da
Grande Guerra (1914-1919). 1. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2015. E-book.

Universal History Archive/UIG/Bridgeman Images/Easypix Brasil

O empresá rio inglês Cecil John Rhodes atuou no setor de mineraçã o em regiõ es africanas sob domínio britâ nico e foi
primeiro-ministro da Colô nia do Cabo (que atualmente integra a Á frica do Sul) entre 1890 e 1896. Gravura de
Edward Linley Sambourne, 1892.

a) Quais projetos geopolíticos para o continente africano opuseram França e Inglaterra?


b) Cite dois exemplos da dominaçã o europeia sobre a Á frica mencionados no texto.
c) Quais elementos da caricatura estã o relacionados à s informaçõ es apresentadas no texto?

11. Associe a capa da revista abaixo ao desfecho da Segunda Guerra Mundial.


Marvel. Fac-símile: ID/BR

Captain America Comics, n. 1, mar. 1943.

12. Analise as fotos a seguir, associando-as aos tratados estabelecidos por Hitler e Stalin e à
entrada da URSS na Segunda Guerra Mundial.

Bettmann/Corbis/Fotoarena

Joachim von Ribbentrop (à esq.), ministro de relaçõ es exteriores da Alemanha nazista, e Josef Stalin (à dir.) apó s a
assinatura do tratado de nã o agressã o, em Moscou, URSS. Foto de 1939.

Bettmann/Corbis/Fotoarena

Os líderes dos Aliados (da esq. para a dir.): Josef Stalin, da URSS, Franklin Roosevelt, dos EUA, e Winston Churchill, do
Reino Unido, em Teerã , Irã . Foto de 1943.
Pá gina 34

A geopolítica no pós-
CAPÍTULO 3

guerra
O QUE VOCÊ VAI ESTUDAR
A geopolítica durante a Guerra Fria.
A descolonizaçã o da Á sia e da Á frica.
O movimento dos países nã o alinhados.
A divisã o da Alemanha.
O desmembramento da URSS.
As transformaçõ es no Leste Europeu.
As guerras do sé culo XXI.

Universal History Archive/UIG/Getty Images

Reproduçã o de cartaz de propaganda soviética, dos anos 1960, com os dizeres “Cidadã os da URSS, orgulhem-se:
vocês abriram o caminho da Terra à s estrelas”.
Time Magazine/Arquivo da editora

Reproduçã o de capa da revista estadunidense Time (dez. 1968), com a manchete “Corrida para a Lua”.

Com o fim da Segunda Guerra Mundial, Estados Unidos e Uniã o Soviética despontaram como potências
hegemô nicas no quadro político mundial. Nas conferências de Yalta e de Potsdam (realizadas
respectivamente em fevereiro e julho de 1945), os limites da divisã o do mundo em dois blocos antagô nicos, o
socialista e o capitalista, foram esboçados. Também se delineou, nessas conferências, a divisão da Europa em
á reas de influência soviética e estadunidense.

A rivalidade entre Estados Unidos e URSS pela “conquista” do espaço durante a Guerra Fria levou as duas
potências a investir maciçamente em pesquisa e desenvolvimento tecnoló gico. Nesta fase, a disputa pela
exploraçã o do espaço, representada nas duas imagens acima, recebeu o nome de “corrida espacial”. Apontava-se
para uma bipolarização com situaçõ es de conflito nos campos ideoló gico, econô mico e político, assim como
nas dimensõ es militar e estratégica. Na segunda metade do século XX, as duas potências buscaram a
consolidação e difusã o de seus regimes e ideologias. O mundo assistiu, entã o, à formaçã o de dois blocos de
países com sistemas políticos e econô micos diferentes.

Observe as imagens e responda às questõ es.

1. Comente a importâ ncia da conquista espacial para os blocos em disputa.

2. No cartaz soviético, o que se entende como “o caminho da Terra às estrelas”?


Pá gina 35

A Guerra Fria

Em disputa por supremacia, Estados Unidos e Uniã o Soviética tornaram-se antagonistas entre
1945 e 1991, conflito que ficou conhecido como Guerra Fria.

Dada a capacidade bélica das duas potências, uma guerra efetiva nunca ocorreu, mas o clima
de tensã o permanente, típico dos conflitos armados, foi mantido enquanto as posiçõ es políticas
não foram alteradas.

Os conflitos da Guerra Fria


Supunha-se inicialmente que, devido à s perdas soviéticas na guerra, a URSS não conseguiria
enfrentar os Estados Unidos e suas bombas atô micas, como as lançadas sobre o territó rio
japonês em 1945. Mas, já na década de 1950, os soviéticos possuíam tecnologia suficiente para
o desenvolvimento da bomba atô mica e apresentaram seus primeiros artefatos nucleares. Em
seguida, lançaram o primeiro satélite na ó rbita terrestre, enviaram o primeiro ser vivo ao
espaço (a cadela Laika) e o primeiro cosmonauta, Yuri Gagarin.

Cosmonauta: termo utilizado na antiga Uniã o Sovié tica para designar tripulante de nave espacial; sinô nimo de astronauta.

Posteriormente, ocorreram as missõ es espaciais estadunidenses – a Apollo 8 sobrevoou o


entorno da Lua e a Apollo 11 pousou em solo lunar. Os Estados Unidos ganhavam a dianteira
da corrida espacial. Paralelamente, ocorria o crescimento dos arsenais militares criando o
chamado equilíbrio do terror: as duas potências reuniam arsenais capazes de destruir uma à
outra e ao mundo.

Ainda que nã o tenha havido guerras entre elas, houve momentos de grande tensã o, como a
crise dos mísseis, em 1962, quando mísseis nucleares soviéticos foram instalados em Cuba,
sob o pretexto de auxiliar a ilha a defender seu territó rio, que sofrera uma tentativa de invasã o
com o apoio do governo estadunidense.

Houve também guerras em que Estados Unidos e URSS tiveram participaçã o direta ou indireta,
apoiando oponentes para manter sua influência sobre o maior nú mero possível de países,
como na Coreia, no Vietnã e no Afeganistã o. Veja o mapa.
João Miguel A. Moreira/ID/BR

Fonte de pesquisa: BONIFACE, Pascal; VÉDRINE, Rubert. Atlas do mundo global. Sã o Paulo: Estaçã o Liberdade, 2009. p. 18.

Leia
Guerra Fria, de José Arbex Jr. Sã o Paulo: Moderna, 2005.
O livro faz uma análise profunda da Guerra Fria, estabelecendo os nexos que fundamentaram a constituiçã o de dois blocos
antagô nicos de poder.

A cortina de ferro
Apó s o fim da Segunda Guerra Mundial, o governo estadunidense propô s e implementou o
Plano Marshall, programa de ajuda econô mica para a reconstruçã o dos países europeus
destruídos pela guerra. No â mbito político-militar, sob a liderança dos Estados Unidos, foi
fundada, em 1949, a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), cujo objetivo era
proteger os países aliados e capitalistas.

A resposta soviética foi a constituiçã o de organizaçõ es similares: o Conselho para Assistência


Econômica Mútua (Comecon), em 1949, e o Pacto de Varsóvia (1955) – uma aliança militar
de defesa e ajuda mú tua em caso de ataque a um dos países do bloco socialista.

A fronteira entre os países socialistas e capitalistas, tã o bem definida pelas alianças militares,
constituía o que veio a ser chamada de Cortina de Ferro.
Pá gina 36

A descolonização

O processo de descolonizaçã o ocorrido na Á sia e na Á frica está relacionado aos conflitos da


Segunda Guerra Mundial. Os líderes dos países colonizados pelas potências europeias
perceberam que seus dominadores não poderiam despender energia para confrontá -los. Isso
fortaleceu os movimentos internos de libertaçã o das colô nias na Á frica e no Sudeste Asiá tico.

A descolonização da Ásia
As Filipinas tornaram-se independentes em 1946. Antiga colô nia estadunidense, o
arquipélago foi pioneiro no processo de independência. Em 1949, foi a vez da Indonésia.
Apesar de perder uma guerra travada com os holandeses, as forças nacionalistas conseguiram
formar um governo reconhecido pela antiga metró pole.

Denominada Indostão, a regiã o que hoje abrange os territó rios da Índia, de Bangladesh e do
Paquistão tornou-se independente no fim dos anos 1940. Durante o conflito mundial,
acentuara-se a luta dos indianos pela independência, sob a liderança de Mahatma Gandhi – que
pregava a resistência pacífica contra o domínio inglês – e Jawaharlal Nehru, entre outros.

Na Indochina, entre 1946 e 1954, a França entrou em um violento conflito com as forças
locais. A derrota do exército francês resultou na independência da regiã o e no surgimento de
três países: Laos, Camboja e Vietnã. Este ú ltimo dividiu-se em Vietnã do Norte e Vietnã do
Sul, cada qual sob a influência de uma das potências da Guerra Fria. Mais tarde, foi palco de
violenta guerra (1962-1975), que impô s aos Estados Unidos uma grande derrota. Em 1976,
ocorreu a reunificaçã o do país.

A descolonização da África
O processo de descolonizaçã o da Á frica iniciou-se nos anos 1950. Alguns movimentos de
libertaçã o conquistaram a independência de seus países de modo rá pido e relativamente
pacífico, como na Líbia, em Gana e na Nigéria. Já os países da regiã o do Magreb, no norte da
Á frica, principalmente os colonizados pela França, como Argélia, Marrocos e Tunísia, tiveram
conflitos intensos com suas metró poles.

Magreb: regiã o situada no norte do continente africano, que abrange Marrocos, Saara Ocidental, Argé lia, Tunísia, Mauritâ nia
e Líbia.

As colô nias portuguesas (Angola, Guiné Bissau, Moçambique, Cabo Verde e São Tomé e
Príncipe) foram as que mais demoraram a se libertar. Até 1974, Portugal foi dirigido pela
ditadura salazarista, que manteve com mã o de ferro seus domínios na Á frica. Portugal nunca
fora uma potência industrial e mantinha um vínculo com as colô nias ao estilo antigo, como o
do tempo das Grandes Navegaçõ es (séculos XV e XVI). Somente apó s a Revoluçã o dos Cravos,
que derrubou a ditadura, as colô nias portuguesas alcançaram a independência.

Ditadura salazarista: regime ditatorial que vigorou em Portugal entre 1933 e 1974. O nome faz referê ncia a Antó nio de
Oliveira Salazar, que governou Portugal de 1932 a 1968.

A independência do Congo Belga (atual Repú blica Democrá tica do Congo) também ocorreu de
modo violento. Apó s a morte de Leopoldo II, o territó rio tornou-se herança do rei para o
Estado da Bélgica. Nos anos 1950, eclodiram os movimentos de libertaçã o nacional, e em 1960
a independência foi reconhecida.

Os anos seguintes foram marcados por guerras e massacres levados a cabo por Mobutu Sese
Seko, que tomou o poder, mudou o nome do país para Zaire e governou até sua ditadura ser
derrubada, em 1997.

Assista
Hotel Ruanda. Direçã o de Terry George, 2004, 121 min.
Retrata os conflitos entre tú tsis e hutus ocorridos em Ruanda em 1994. O filme apresenta um microcosmo do mosaico é tnico
que compõ e a populaçã o de grande parte dos países africanos.

Allmaps/ID/BR

Fonte de pesquisa: VICENTINO, Clá udio. Atlas histórico: geral e Brasil. Sã o Paulo: Scipione, 2011. p. 154; CIA. The World Factbook.
Disponível em: <https://www.cia.gov/library/publications/the-world-factbook/geos/od.html>. Acesso em: 15 fev. 2016.
Pá gina 37

O movimento dos não alinhados

O movimento dos países africanos e asiá ticos nã o alinhados teve suas origens na Conferência
de Bandung, em 1955, quando 29 países se posicionaram contra um alinhamento aos blocos
capitaneados pelas grandes potências, Estados Unidos e Uniã o Soviética.

Durante a Guerra Fria, era comum dividir-se o mundo em três blocos: Primeiro Mundo (países
capitalistas desenvolvidos), Segundo Mundo (países socialistas) e Terceiro Mundo (países
capitalistas subdesenvolvidos). Foram fundamentalmente os países pertencentes a este ú ltimo
grupo que formaram o bloco dos nã o alinhados.

Ser um país nã o alinhado tinha, inicialmente, muitos significados: a manutençã o de uma


posiçã o anti-imperialista; a possibilidade de abstençã o à s políticas e estratégicas dos blocos
antagô nicos; ou, ainda, a postura de nã o assumir posiçõ es militares de apoio a uma ou outra
potência. Ou seja, esses países nã o adeririam a nenhum tratado militar que fosse proposto
pelas potências nem cederiam suas bases territoriais para atividades militares de países
pertencentes a um dos blocos.

Atualmente, o movimento dos países nã o alinhados conta com mais de cem países. O ímpeto
inicial anti-imperialista e anti-Guerra Fria se alterou com as mudanças ocorridas nas relaçõ es
internacionais nas ú ltimas décadas. Hoje, as principais causas do grupo se relacionam à defesa
do multilateralismo político e à promoçã o da paz e do diá logo entre as naçõ es.

João Miguel A. Moreira/ID/BR

Fontes de pesquisa: 16th Summit of the Non-Aligned Movement – Final document, Teerã , 31 ago. 2012. Disponível em:
<www.mea.gov.in/Images/pdf/final-document-of-xvi-namsummit.pdf>; Non-Aligned Movement – Centre for South-South Technical
Cooperation. Disponível em: <http://csstc.org/v_ket1.asp?info=13&mn=1#>. Acessos em: 2 fev. 2016.

A divisão da Alemanha
Ao fim da Segunda Guerra, na Conferência de Potsdam, em julho de 1945, a Alemanha foi
dividida em zonas de ocupaçã o militar: três zonas, na porçã o ocidental, ficaram sob a
administraçã o dos Estados Unidos, do Reino Unido e da França. A porçã o oriental ficou sob a
administraçã o da Uniã o Soviética.
As três zonas ocidentais se fundiram em 1949, constituindo a Repú blica Federal da Alemanha
(RFA ou Alemanha Ocidental), tutelada pelos Estados Unidos. A parte oriental, sob a tutela
soviética, deu origem à Repú blica Democrá tica Alemã (RDA ou Alemanha Oriental). A capital
Berlim também foi dividida entre os Aliados. Berlim Oriental ficou sob influência da Uniã o
Soviética. Berlim Ocidental, integrante da RFA e sob influência de Estados Unidos, França e
Reino Unido, tornou-se um enclave capitalista em territó rio comunista.

As repú blicas alemã s passaram a apresentar processos de reconstruçã o diferentes. Entre 1945
e 1948, cerca de 9 milhõ es de pessoas partiram da RDA rumo ao lado ocidental. Em 1961, a
Alemanha Oriental construiu um muro que durante quase três décadas dividiu a cidade de
Berlim e interrompeu o movimento migrató rio.

João Miguel A. Moreira/ID/BR

Fontes de pesquisa: Atlas da história do mundo. Sã o Paulo: Folha da Manhã , 1995. p. 270-271; Almanaque Abril 2014. 40. ed. Sã o
Paulo: Abril, 2014. p. 304.
Pá gina 38

O fim da URSS e a nova ordem mundial

Por quase setenta anos (de 1922 a 1991), a Uniã o Soviética constituiu um sistema antagô nico
ao capitalismo. O país fez frente aos Estados Unidos em vá rios níveis, da ideologia política aos
processos industriais, desenvolvendo poderio atô mico e forte indú stria aeroespacial.

Durante as décadas de 1970 e 1980, o planejamento estatal dava sinais de fadiga. A excessiva
burocracia político-administrativa gerava corrupçã o e causava desperdícios de matéria-prima,
levando à diminuiçã o da produtividade e à falta de produtos.

Envolvido em conflitos externos e em disputas políticas internas, o país assistiu ao fracasso de


seus planos de melhoria em setores como habitaçã o e transporte. Os recursos disponíveis
eram alocados principalmente em outros setores, especialmente no setor militar.

Além disso, a populaçã o estava insatisfeita com a falta de liberdade e de participaçã o política,
que era subordinada ao partido ú nico, o Partido Comunista.

Diante desses desafios, Mikhail Gorbachev assumiu a liderança da URSS, em 1985. Seu plano
era fortalecer a economia, diminuindo o peso dos gastos militares.

Em 1987, a Uniã o Soviética assinou um tratado de eliminaçã o de mísseis de médio alcance e


retirou as tropas do Afeganistã o (invadido em 1979). Paralelamente, o líder soviético colocou
em prá tica uma reforma interna pautada na reestruturaçã o econô mica (aperestroika) e na
abertura política (a glasnost). Reduziu ainda a estrutura estatal repressiva e as atribuiçõ es da
KGB (polícia secreta da URSS), liberou a formaçã o de novos partidos políticos e reduziu o
controle sobre os países satélites europeus.

País satélite: país que apresenta situaçã o política ou econô mica dependente de outro mais poderoso.

As reaçõ es foram diversas. Os conservadores eram contra as mudanças; outros setores


queriam que se estabelecesse o capitalismo. Quando as repúblicas bálticas defenderam sua
autonomia, a pressã o interna aumentou.

Repúblicas bálticas: Estô nia, Letô nia e Lituâ nia, países banhados pelo mar Bá ltico que fizeram parte da URSS até 1991.

Em agosto de 1991, Gorbachev sofreu um golpe de Estado e foi restituído ao poder. Mas,
enfraquecido, em dezembro passou o cargo a Boris Yeltsin, presidente da Rú ssia. Era o fim da
URSS, que se fragmentou em 15 Estados nacionais.

Nasceu assim a Comunidade de Estados Independentes (CEI), bloco que reú ne ex-
repú blicas soviéticas e que teve como objetivo inicial garantir a integraçã o econô mica e
assegurar a transiçã o dos ex-membros da Uniã o Soviética para a economia de mercado. Veja o
mapa abaixo.

A dissoluçã o da URSS demarcou o término da Guerra Fria e estabeleceu a ideia de uma nova
ordem mundial, na qual o capitalismo prevaleceu como sistema econô mico. Nesse cená rio, os
Estados Unidos ganharam destaque como potência hegemô nica, e a Otan figura como
importante aliança militar, tendo agregado membros do antigo bloco socialista, como as
repú blicas bá lticas, a Polô nia e a Hungria.
Há estudiosos que identificam uma multipolaridade na nova ordem mundial; segundo essa
perspectiva, os Estados Unidos dividem a proeminência política e econô mica com outras
potências como a Uniã o Europeia, o Japã o e a China.

João Miguel A. Moreira/ID/BR

Fontes de pesquisa: CALDINI, Vera Lú cia de Moraes; ÍSOLA, Leda. Atlas geográfico Saraiva. Sã o Paulo: Saraiva, 2013. p. 126; CEI.
Disponível em: <http://www.cis.minsk.by>. Acesso em: 12 fev. 2016.
Pá gina 39

A reunificação alemã
O fim da divisã o da Alemanha constituiu um marco da dissoluçã o do bloco socialista. Desde a
década de 1970, as duas Alemanhas vinham estreitando suas relaçõ es comerciais. Na década
seguinte, o enfraquecimento da Uniã o Soviética tornou possível o processo de reunificaçã o,
inicialmente tratado com grande euforia, pois significava o fim de um período de quarenta
anos de separaçã o. No entanto, concretizada a unificaçã o em 1990, surgiram problemas
relacionados principalmente à s grandes desigualdades econô micas e sociais entre as duas
partes.

Os parques industriais do leste alemã o apresentavam menor produtividade e competitividade


que os do lado ocidental. Isso levou a um processo de significativa estagnaçã o industrial, que
culminou no aumento do desemprego no país.

Em termos sociais, os impactos foram enormes. Os alemã es orientais viviam sob um Estado
que aparentemente lhes garantia segurança e proporcionava um padrã o de vida modesto,
menos sujeito ao risco do desemprego. A unificaçã o transformou sua vida de forma radical. Os
bens de consumo, antes apenas desejados, tornaram-se disponíveis, mas a um custo alto
demais para os baixos salá rios.

A transição para a economia de mercado


O período de transiçã o que se iniciou na década de 1990 teve repercussõ es socioeconô micas
imediatas nã o somente na Alemanha como em todos os países da Europa Oriental, embora
seus efeitos tenham sido muito diferentes em cada um deles.

Os anos de má gestã o econô mica tornaram a transiçã o muito penosa para a populaçã o. O fim
da proteçã o do Estado e a adoçã o de políticas neoliberais reduziram os benefícios sociais na
educaçã o e na saú de, entre outros. Esse foi um dos principais fatores responsá veis pela forte
emigraçã o de trabalhadores do Leste Europeu, sobretudo jovens, rumo aos países da Europa
Ocidental. Também como consequência das crises sociais, ocorreu no Leste Europeu uma
sensível queda nas taxas de natalidade.

A transiçã o teve grandes repercussõ es na economia. O acesso à propriedade e aos bens de


consumo ampliou os mercados e permitiu a rá pida entrada dessas naçõ es no processo de
globalizaçã o.

Por outro lado, a antiga prá tica do pleno emprego do período socialista deu lugar ao
desemprego em massa, que chegou aos patamares de respectivamente 37% e 44% na
Macedô nia e na Bó snia-Herzegovina em 2006. Estimativas do Banco Mundial revelaram que,
entre 1988 e 1998, a proporçã o de pobres saltou de 2% para 21%, recuando a partir da década
de 2000.

A transiçã o política e econô mica do Leste Europeu foi favorecida por grandes investimentos
realizados pelos países da Europa Ocidental. Novas indú strias foram instaladas, inclusive
aproveitando o menor custo de mã o de obra qualificada da regiã o.

As privatizaçõ es tornaram-se prá tica comum em todos os países do Leste Europeu. Inú meras
fá bricas foram fechadas, tendo em vista a baixa produtividade e a obsolescência dos métodos
produtivos. Ambas as situaçõ es promoveram crises sociais, manifestaçõ es e greves de
trabalhadores. No aspecto político, o partido ú nico e as eleiçõ es de pequena
representatividade popular cederam lugar ao pluralismo político-partidá rio.

Reuters/Latinstock

Em novembro de 1989, a queda do Muro de Berlim – que dividia Berlim Oriental (comunista) de Berlim Ocidental
(capitalista) – foi o mais evidente símbolo do fim da hegemonia da Uniã o Soviética. Foto de 1989.
Pá gina 40

As transformações no Leste Europeu

Simultaneamente ao processo de desmonte das estruturas comunistas e de adaptaçã o ao


capitalismo houve uma redefiniçã o das fronteiras nacionais da Europa e a busca de um
rearranjo étnico nos países que integravam o bloco socialista.

Na Tchecoslováquia, a Revoluçã o de Veludo (1989) derrubou o comunismo. Em 1993, por


motivos de ordem econô mica, cultural e social, o país foi dividido em dois: República Tcheca
e Eslováquia. A Polônia, também em 1989, proclamou a chamada Terceira Repú blica e, em
1990, instituiu um programa de reformas internas para se adequar à s estruturas capitalistas.

Na Romênia, a derrubada do regime comunista ocorreu de maneira violenta. Nicolae


Ceausescu, líder do país por mais de duas décadas, foi fuzilado pelo Exército romeno apó s ser
julgado e culpado de genocídio e outros crimes.

A desagregação da Iugoslávia
Entre os rearranjos políticos no Leste Europeu no contexto pó s-Guerra Fria, a situaçã o mais
dramá tica aconteceu na Iugoslá via. Norman Stone escrevia, em 1992, no jornal inglês Sunday
Times: “Na Iugoslá via havia seis repú blicas, cinco povos, quatro idiomas, três religiõ es, dois
alfabetos e um partido – o comunista”. A frase sintetiza o caldeirã o étnico-cultural que
compunha o país.

Historicamente, a regiã o dos Bálcãs esteve sob o domínio dos impérios Turco-Otomano e
Austro-Hú ngaro. Terminada a guerra em 1945, o croata Josip Broz Tito, que havia comandado
o movimento de resistência contra os nazistas, assumiu o governo e instaurou um regime
comunista. A Repú blica Popular Federal da Iugoslá via era entã o composta de seis repú blicas:
Eslovênia, Sérvia, Croá cia, Bó snia-Herzegovina, Montenegro e Macedô nia.

Bálcãs: regiã o no sudeste da Europa, entre os mares Adriá tico e Mediterrâ neo, que compreende Gré cia, Bulgá ria, Albâ nia,
Macedô nia, Montenegro, Sé rvia, Bó snia-Herzegovina, Croá cia, Eslovê nia e Kosovo.

A posiçã o privilegiada da Iugoslá via despertou interesse geopolítico nos soviéticos. Seu litoral
no mar Adriá tico oferecia á reas estratégicas para abrigar submarinos, além de permitir a
circulaçã o pelo mar Mediterrâ neo. No entanto, Tito nã o cedeu à s pressõ es soviéticas e,
rompendo com a URSS, manteve a Iugoslá via como país nã o alinhado.

Com a morte do marechal Tito, em 1980, surgiram os primeiros problemas relacionados à


xenofobia interna, embora o comunismo ainda fosse o sustentá culo do Estado.

SAIBA MAIS

O aumento da religiosidade na Europa Oriental

Durante a década de 1990, enquanto na Europa Ocidental foi percebido um acentuado declínio das
religiõ es, na porçã o oriental ocorreu o contrá rio, com a retomada excepcional da religiosidade apó s
a queda do regime comunista.
Além do crescimento das religiõ es tradicionais, foi substancial o aumento das novas religiõ es
protestantes, introduzidas por numerosos grupos de missioná rios que chegaram aos países do
Leste Europeu.

Em algumas sociedades, a religiã o é defendida, ainda hoje, como uma bandeira e um símbolo de
identidade nacional e étnica que ficou em estado latente durante os anos de regime socialista.

David W. Cerny/Reuters/Latinstock

Durante procissã o cató lica, os homens nos camelos representam os Três Reis Magos, personagens bíblicos. Praga,
Repú blica Tcheca. Foto de 2015.

Allmaps/ID/BR

Fonte de pesquisa: LACOSTE, Yves. Géopolitique: la longue histoire d’aujourd’hui. Paris: Larousse, 2006. p. 245.
Pá gina 41

As guerras nos Bálcãs

Prevendo possíveis desentendimentos apó s sua saída, Tito havia criado um sistema de
presidência rotativa entre os governantes das seis repú blicas, que foi posto em prá tica e
funcionou até 1991 – ano em que as repú blicas da Croá cia e da Eslovênia declararam
independência.

A Croá cia foi entã o invadida por milícias e tropas sérvias que iniciaram uma guerra civil,
controlada em 1992 pelas tropas da ONU. Em seguida, parte das tropas sérvias ocupou a
Bó snia-Herzegovina, onde a maioria da populaçã o era muçulmana. A guerra assumiu
proporçõ es maiores, pois os sérvios que viviam na Bó snia-Herzegovina, adeptos do
cristianismo ortodoxo, nã o admitiam um governo muçulmano.

Para tentar impedir que as guerras civis se alastrassem, a Uniã o Europeia – que já havia
reconhecido a independência das duas repú blicas – convocou a França e o Reino Unido a
enviar tropas sob a égide da ONU para a regiã o em conflito.

No territó rio bó snio, desenvolvia-se uma guerra étnico-religiosa entre croatas (cató licos),
sérvios (cristã os ortodoxos) e bó snios (muçulmanos). Foi necessá ria a intervençã o aérea da
Otan e dos Estados Unidos para obrigar as partes a negociar acordos de paz, que foram obtidos
em 1995 apó s um massacre no qual cerca de 8 mil muçulmanos (principalmente homens e
meninos) foram mortos. O balanço final dessa guerra chegou a 250 mil mortos e centenas de
milhares de refugiados.

A Otan manteve tropas na Bó snia-Herzegovina entre 1995 e 2004, com o objetivo de garantir a
segurança e o estabelecimento da democracia. O fim do conflito confirmou a independência da
Bó snia-Herzegovina.

Ainda em 1992, a Macedô nia conseguiu autonomia por acordo político. Em 2003, o territó rio
remanescente da Iugoslá via passou a chamar-se Sérvia e Montenegro. Depois de um plebiscito,
em 2006 Montenegro separou-se da Sérvia.

DPA/Album/Fotoarena

Helicó ptero do exército alemã o, a serviço da Otan, sobrevoa Sarajevo, Bó snia-Herzegovina. Foto de 2002.

Assista
A vida é um milagre. Direçã o de Emir Kusturica, França/Sé rvia, 2004, 155 min.
O filme mostra a vida de um engenheiro que constró i uma ferrovia no interior da Iugoslá via e nã o percebe a guerra nem o
que se passa a seu redor.
O resgate de Harrison. Direçã o de Elie Chouraqui, França, 2000, 130 min.
O filme conta a histó ria de uma mulher que vai à Bó snia à procura de seu marido, um fotó grafo que morreu durante a guerra.
Terra de ninguém. Direçã o de Danis Tanovic, Bó snia/ Eslovê nia/Itá lia/ Reino Unido/ Bé lgica, 2001, 98 min.
O filme relata a histó ria de dois soldados, um bó snio e um sé rvio, que acabam isolados em uma trincheira.

A questão do Kosovo

O Kosovo, regiã o encravada no sul da Sérvia, era habitado por albaneses que representavam
uma minoria. Em 1999, essa minoria se insurgiu contra os sérvios, que reagiram com violência,
enviando tropas para a regiã o. Esse confronto provocou um forte êxodo de albaneses em
direçã o à Macedô nia. A comunidade internacional acusou a Sérvia de genocídio, e a Otan
declarou guerra ao país, bombardeando Belgrado – apesar da oposiçã o da Rú ssia, aliada da
Sérvia.

Com a atuaçã o da Otan, cerca de 900 mil albaneses voltaram ao Kosovo. A ONU decretou um
governo provisó rio na regiã o e, em fevereiro de 2008, o Kosovo declarou unilateralmente sua
independência da Sérvia. Sua autonomia, porém, não é reconhecida por todos os membros das
Naçõ es Unidas. Em 2016, cerca de 110 países haviam reconhecido a independência do Kosovo.

Os Bálcã s ainda sã o uma regiã o de conflitos em estado latente. O Kosovo, atualmente com
minoria sérvia, e a Bó snia, onde persistem equilíbrios étnicos muito frá geis, demonstram a
permanência de uma instabilidade geopolítica na Europa.
Pá gina 42

As guerras do século XXI

Apó s o fim da Guerra Fria, a natureza dos conflitos modificou-se. Anteriormente, a maior parte
dos conflitos estava associada à s guerras de libertaçã o nacional ou à s disputas de territó rios
entre naçõ es. Já no final do século XX e início do século XXI, guerras civis, religiosas ou étnicas
tornaram-se mais numerosas. Esses conflitos caracterizaram-se pelo aumento do nú mero de
vítimas civis e do nú mero de refugiados.

Intensificaram-se nesse período as chamadas açõ es humanitá rias, por vezes denominadas
“missõ es civilizató rias” ou operaçõ es de “manutençã o da paz”, como as açõ es da Otan na ex-
Iugoslá via e em vá rios países africanos. Cresceram também a “guerra ao trá fico” e a “guerra ao
terror”. Nessas guerras, o inimigo não é um Estado ou um país, mas, sim, um conjunto disperso
de atores, espalhados por vá rios territó rios.

Apesar da dificuldade de identificaçã o do inimigo, diversas vezes o trá fico e o terrorismo foram
utilizados como pretexto para intervençõ es militares estadunidenses e europeias em vá rios
países, como o Afeganistã o, o Iraque, a Líbia e o Panamá , entre outros.

A “guerra preventiva” – realizada por meio de ataques e intervençõ es militares anteriores à


declaraçã o de uma guerra efetiva entre dois países – também foi utili zada de maneira
unilateral pelos Estados Unidos. Especula-se que esse tipo de açã o tenha servido como
pretexto para a ocupaçã o de países ricos em recursos naturais, como foi o caso da guerra do
Iraque.

O uso da tecnologia e a terceirização da guerra


Além de terem se tornado muito mais tecnoló gicas, as guerras sã o atualmente grandes
negó cios, que proporcionam enormes lucros para os setores militares e industriais ligados ao
desenvolvimento tecnoló gico, à geraçã o de energia e à prestaçã o de serviços, entre outros.

O uso de robô s e de aviõ es nã o tripulados (drones) tornou-se comum nos conflitos atuais. Tais
tecnologias permitem aos países agressores fazer uma guerra por meio de ataques controlados
a distâ ncia, reduzindo a exposiçã o e o nú mero de vítimas de seus exércitos.

Apó s os ataques sofridos pelos Estados Unidos em 11 de setembro de 2001, houve também um
processo de privatizaçã o do aparato militar americano. Aumentou-se o nú mero de exércitos
privados que têm atuado nas guerras e na proteçã o aos governos e à s empresas.

Muitas empresas passaram a oferecer serviços de guerra, como o fornecimento de


especialistas em simulaçã o, analistas, técnicos, programadores e mesmo homens que atuam no
campo de batalha.

Leia
Estado de exceção, de Giorgio Agamben. Sã o Paulo: Boitempo, 2007.
O livro analisa os mecanismos utilizados pelos Estados para a manutençã o do poder. Entre os vá rios exemplos, o autor
aborda a prisã o de suspeitos de terrorismo mantidos na prisã o de Guantá namo pelos Estados Unidos.
João Miguel A. Moreira/ID/BR

Fonte de pesquisa: Reference World Atlas. London: Dorling Kindersley, 2013. p. xxxii.
Pá gina 43

Informe
Guerra como prestação de serviços
Empresas militares privadas e “novos mercená rios” sã o fenô menos pouco conhecidos. […] O
que sã o essas empresas militares privadas, de onde vêm, quem lhes dá as incumbências? Em
meio a pesquisas, nó s nos deparamos com sites bem configurados e constatamos, espantados,
que os líderes desse ramo estã o cotizados na bolsa e que os valores dos seus títulos se
elevaram rapidamente à s alturas, enquanto todas as outras açõ es despencaram depois do 11
de setembro de 2001. Muitas recebem seus contratos de instituiçõ es governamentais, por
exemplo, do Departamento de Defesa norte-americano ou do Ministério da Defesa Britâ nico.
No entanto, nã o se fica sabendo oficialmente de lado algum quais contratos específicos sã o
fechados. […] Apesar das cotizaçõ es na bolsa e dos contratos governamentais, o ramo militar
privado é um campo cercado de mistérios. […]

Nos palcos e nas regiõ es em guerra deste mundo, o cronista se depara cada vez menos com
membros de exércitos regulares. O que contribui para isso é o rá pido crescimento do nú mero
de soldados privados. Muito raramente se tem clareza acerca de para quem eles lutam, quem
os paga e quem os mandou para lá . Ninguém sabe dizer corretamente se e por quem eles sã o
responsá veis. E ninguém quer responder também, de maneira inequívoca, de onde eles
receberam o seu aparato de guerra que se encontra no mais moderno está gio tecnoló gico –
tanques, helicó pteros de combate, granadas, mísseis.

Antigamente, eles eram chamados de mercená rios. Hoje, sã o empregados de empresas que
possuem nomes fictícios, como Blue Sky, Genric, Logicon ou Pistris, e não se suporia que, por
detrá s deles, se escondem empresas de guerra privadas. Em sua grande maioria, esses
soldados privados nã o fazem parte de nenhuma força-tarefa nacional. Ao vermos um
combatente croata, paquistanês, colombiano, irlandês ou ucraniano, nã o conseguiremos
constatar nem pela vestimenta nem pelo passaporte se de fato se trata de um membro de um
exército regular, de um mercená rio, de um rebelde ou de um terrorista.

Onde outrora ex-soldados procuravam aventura e felicidade ou antigos membros da Legiã o


Estrangeira se vendiam livremente para conduzir guerras em nome de clientes invisíveis, hoje
temos à disposiçã o empregados militarmente bem formados de empresas militares privadas.
[…] Mas tais empresas nã o empregam apenas pessoas que entendem do ofício militar.
Managers perspicazes sã o tão procurados quanto traficantes de armas argutos, engenheiros
especializados em armamento, especialistas em computaçã o, tradutores, pilotos experientes e
pessoas que conhecem profundamente logística ou transmissã o via satélite. […] O ofício da
guerra e todas as atividades que estã o em conexã o com conflitos armados transformaram-se
em prestaçõ es de serviço normais. O que conta para quem encomenda a missã o é a execuçã o
profissional e o sucesso; o que interessa aos executores é o pagamento.

UESSELER, Rolf. Guerra como prestação de serviços: a destruiçã o da democracia pelas empresas militares privadas. Sã o Paulo: Estação
Liberdade, 2008. p. 11-12, 17-18.
João Miguel A. Moreira/ID/BR

Fonte de pesquisa: Stockholm International Peace Research Institute (Sipri). Disponível em:
<http://www.sipri.org/research/armaments/milex/research/armaments/milex/milex_database>. Acesso em: 7 abr. 2016.

PARA DISCUTIR

1. O texto apresenta uma das novas características da guerra no século XXI. Quais sã o as
principais diferenças em relaçã o à s guerras tradicionais?

2. Discuta com os colegas quais sã o as possíveis consequências geopolíticas desse tipo de


prestaçã o de serviços.
Pá gina 44

Atividades
Não escreva no livro.

Revendo conceitos

1. O que foi a Guerra Fria?

2. Explique o significado da expressã o “equilíbrio do terror” usada no contexto da Guerra Fria.

3. Cite as características do processo de descolonizaçã o ocorrido apó s a Segunda Guerra


Mundial. Em que continentes esse processo se desenvolveu de maneira mais intensa?

4. Indique os motivos que levaram à criaçã o do movimento dos países nã o alinhados.

5. O que foram a perestroika e a glasnost?

6. Associe o fim da URSS, em 1991, com a ascensã o de uma “nova ordem mundial”.

7. Quais foram as principais dificuldades enfrentadas pelos países ex-socialistas durante a


transiçã o para a economia de mercado?

8. Indique as principais características das guerras do final do século XX e início do século XXI.

Lendo mapas, gráficos e tabelas

9. Observe a tabela ao lado e explique a elevaçã o do nú mero de operaçõ es de manutençã o da


paz sob o comando das Naçõ es Unidas nos anos de 1995 e 2015, em comparaçã o com os dados
de anos anteriores.

Número de operações da paz sob comando das Nações Unidas (1948-2015)


Ano Número cumulativo de Número de operações em curso
operações lançadas
1948 1 1
1956 3 3
1963 7 5
1974 12 5
1987 13 5
1995 39 20
2007 63 16
2015 71 16

Fontes de pesquisa: ONU. Year in review 2012. Disponível em:


<http://www.un.org/en/peacekeeping/publications/yir/yir2012.pdf>; United Nations peacekeeping operations – fact sheet.
<http://www.un.org/en/peacekeeping/documents/bnote0216.pdf>. Acessos em: 7 abr. 2016.

10. O mapa a seguir mostra a chamada Cortina de Ferro. Explique essa expressã o,
contextualizando-a historicamente, e aponte seus limites, tendo como base o mapa
apresentado.
João Miguel A. Moreira/ID/BR

Fonte de pesquisa: VICENTINO, Clá udio. Atlas histórico: geral e Brasil. Sã o Paulo: Scipione, 2011. p. 149.
Pá gina 45

11. Observe o grá fico a seguir e comente a evoluçã o dos testes nucleares realizados no mundo
dando especial atençã o ao período da Guerra Fria.

Adilson Secco/ID/BR

Fonte de pesquisa: CTBTO. Disponível em: <http://www.ctbto.org/nucleartesting/history-of-nuclear-testing/nuclear-testing-1945-


today>. Acesso em: 12 fev. 2016. Segundo a fonte, apó s 1998, somente a Coreia do Norte realizou testes nucleares (em
2006, 2009 e 2013).

Interpretando textos e imagens

12. Observe a charge de Alfredo Martirena abaixo e, considerando o contexto político pó s-


Segunda Guerra Mundial, proponha uma interpretaçã o para ela.

Alfredo Martirena/CartoonStock
13. Leia a letra de uma cançã o do grupo Legiã o Urbana, transcrita a seguir, prestando atençã o
ao trecho sublinhado. Depois, faça no caderno uma reflexã o relacionando a questã o da guerra
ao avanço tecnoló gico.

A canção do senhor da guerra


Existe alguém
Esperando por você
Que vai comprar
A sua juventude
E convencê-lo a vencer…
Mais uma guerra sem razã o
Já sã o tantas as crianças
Com armas na mã o
Mas explicam novamente
Que a guerra gera empregos
Aumenta a produçã o...
Uma guerra sempre avança
A tecnologia
Mesmo sendo guerra santa
Quente, morna ou fria
Pra que exportar comida?
Se as armas dã o mais lucros
Na exportaçã o…
Existe alguém
Que está contando com você
Pra lutar em seu lugar
Já que nessa guerra
Nã o é ele quem vai morrer…
E quando longe de casa
Ferido e com frio
O inimigo você espera
Ele estará com outros velhos
Inventando
Novos jogos de guerra…
Que belíssimas cenas
De destruiçã o
Nã o teremos mais problemas
Com a superpopulaçã o…
Veja que uniforme lindo
Fizemos pra você
Lembre-se sempre
Que Deus está
Do lado de quem vai vencer […]

MANFREDINI JR., Renato (Renato Russo). A canção do senhor da guerra. Intérprete: Legiã o Urbana. Rio de Janeiro: Ediçõ es Musicais
Tapajó s Ltda., 1985.
Pá gina 46

A geopolítica no
CAPÍTULO 4

Brasil
O QUE VOCÊ VAI ESTUDAR
O Brasil como potê ncia regional.
As desigualdades regionais.
A açã o do Estado.
A construçã o de Brasília.
A geopolítica da Amazô nia.

Berk Ozkan/Anadolu Agency/AFP

A presença do Brasil em fó runs internacionais demonstra a notoriedade do país no contexto global. Na foto, Dilma
Rousseff, entã o presidente do Brasil, é retratada ao lado de Barack Obama e Vladimir Putin (presidentes dos Estados
Unidos e da Rú ssia, respectivamente) e entre os dirigentes dos demais membros do G-20, em reuniã o ocorrida em
Antá lia, Turquia. Foto de 2015.

Embora o termo potência tenha surgido fortemente associado à ideia de hegemonia militar, na atualidade o
conceito de potência está relacionado ao conjunto de fatores que possibilitam que um país exerça influência
sobre outros. Além do poderio militar, o cená rio diplomá tico, a atuaçã o estratégica dos Estados e o
desenvolvimento econô mico sã o elementos importantes para avaliar se um país cumpre os requisitos que o
identificam como potência em escala regional ou mundial.

O Brasil pode ser considerado uma potência regional da América do Sul e Latina, título que também pode ser
conferido ao México e à Argentina. A economia brasileira, for temente industrializada e com um setor
agropecuá rio muito produtivo, está entre as maiores do mundo.

O país tem melhorado sua inserçã o nas relaçõ es internacionais. Isso pode ser verificado pelo alto nú mero de
acordos bilaterais fechados na década de 2000 e pela participaçã o de representantes do governo brasileiro em
vá rias reuniõ es do G-20, grupo dos países com as maiores economias do mundo.
Com base na imagem e no texto acima, faça o que se pede.

1. Cite três organizaçõ es internacionais das quais o Brasil faz parte.

2. Em sua opiniã o, qual é a importâ ncia da participação brasileira em organizaçõ es econô micas
internacionais? Pesquise e justifique sua resposta com exemplos.
Pá gina 47

Analisando o Brasil por meio da geopolítica

O tamanho do territó rio, o poder econô mico e o militar sã o os fatores mais importantes para
que um Estado possa agir de maneira independente e exercer influência sobre os outros
Estados.

As vantagens estratégicas da extensã o territorial devem-se ao fato de o territó rio congregar


recursos naturais que podem incrementar o desenvolvimento econô mico de um país e ser a
base que possivelmente venha a condicionar a prosperidade de sua populaçã o. Um grande
territó rio propicia ampla variedade de aspectos naturais, que se reflete no potencial produtivo
e restringe menos o crescimento demográ fico.

O poderio econô mico de um país está ligado a sua importâ ncia no mercado global. O poderio
militar manifesta-se nos conflitos armados e também na capacidade de negociaçã o política
internacional. Um bom exemplo é o Conselho de Segurança da ONU(responsá vel por arbitrar
e adotar medidas para solucionar desavenças entre países), cujos membros permanentes sã o
as maiores potências militares: Estados Unidos, Rú ssia, China, Reino Unido e França.

O tamanho do territó rio brasileiro (o 5º maior do mundo), a extensa faixa fronteiriça e


litorâ nea, o elevado nú mero de habitantes e os fartos recursos hídricos e minerais sã o
atributos que possibilitam ao Brasil uma posiçã o de destaque na América Latina. Apesar de
facilitar trocas comerciais com os países vizinhos, a grande linha fronteiriça traz dificuldades
para as Forças Armadas fiscalizarem toda sua extensã o. Tal fato deixa o territó rio vulnerá vel a
açõ es ilícitas, como o trá fico de drogas provenientes de países vizinhos e o contrabando de
mercadorias.

O controle sobre os crimes ambientais nas regiõ es onde há abundâ ncia de riquezas naturais,
sobretudo na regiã o Amazô nica, também é bastante frá gil. Uma das consequências dessa
realidade é a biopirataria, realizada por meio da retirada ilegal de matéria-prima de nossas
florestas para exploraçã o, comercializaçã o ou para o registro de patentes em outros países.

Ainda que o Brasil apresente algumas fragilidades, a economia do país é bastante forte, e seu
parque industrial é amplo e diversificado. O Brasil produz desde alimentos e tecidos até itens
que requerem altos investimentos em pesquisa e tecnologia, como aviõ es e produtos
farmacêuticos. Também possui grandes empresas de exploraçã o mineral, como a Petrobras e a
Vale, de significativa presença internacional.

Além disso, há no país uma importante produçã o científica. Sã o exemplos as pesquisas de


ponta relacionadas à s células-tronco, o Projeto Genoma e as pesquisas desenvolvidas pela
Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuá ria (Embrapa). Por meio dessa instituiçã o, o Brasil
tem ampliado sua participaçã o internacional estabelecendo acordos de cooperaçã o técnica e
científica com países da Á frica, América Latina e Caribe. Todos esses fatores contribuem para
que, embora enfrente dificuldades políticas e econô micas, o Brasil seja considerado uma
potência regional no contexto latino-americano.

Projeto Genoma: pesquisa internacional que tem como objetivo mapear e interpretar o material gené tico de diferentes
seres vivos, para auxiliar a medicina a compreender a origem de doenças e o desenvolvimento de características individuais
das espé cies.

SAIBA MAIS
O gasoduto Brasil-Bolívia

Diante da necessidade de diversificar suas fontes energéticas, o Brasil estabeleceu acordos com a
Bolívia para a importaçã o de gá s natural e, para isso, construiu um gasoduto entre os dois países.

No início do século XXI, com a chegada de um novo governo, a Bolívia questionou o preço do gá s
pago pelo Brasil, exigindo a sua elevaçã o. O fato chegou a afetar o fornecimento de gá s, mas as
negociaçõ es avançaram e o fornecimento foi restabelecido.

Como o Brasil dispõ e de outras fontes energéticas e importantes reservas de gá s foram descobertas,
a dependência em relaçã o ao gá s boliviano tende a diminuir.

GOSMANN, Hugo Leonardo. Integração gasífera na América do Sul. 2011. Disponível em:
<http://bdm.unb.br/bitstream/10483/2422/1/2011_HugoLeonardoGosmann.pdf>. Acessos em: 18 fev. 2016.

João Miguel A. Moreira/ID/BR

Fontes de pesquisa: TBG. Disponível em: <http://www.tbg.com.br/pt_br/o-gasoduto/tracado.htm>;


Pá gina 48

As desigualdades regionais

A integraçã o nacional é um bom parâ metro para analisar a organizaçã o espacial do país. É
ainda um fator vinculado aos fluxos econô micos inter-regionais que evidenciam aspectos do
desenvolvimento brasileiro. Entre esses aspectos destacam-se as desigualdades regionais.

O desenvolvimento nã o uniforme do país está relacionado, entre outros aspectos, a sua grande
extensã o territorial. Determinar a origem histó rica das desigualdades regionais não é tarefa
fá cil, pois se trata de um processo complexo, resultante da combinaçã o de contrastes naturais,
articulaçõ es políticas e da dinâ mica econô mica, que se transformou muito desde o início da
colonizaçã o portuguesa.

A integraçã o entre as regiõ es tende a se constituir a partir da expansã o da á rea de influência de


uma regiã o hegemô nica, que passaria a envolver as demais. Esse processo manifesta-se com a
formaçã o de redes de comunicaçã o e transportes entre as diferentes regiõ es do país,
intensificando a circulaçã o de capitais, mercadorias e pessoas. O controle desse fluxo cabe,
sobretudo, a agentes situados na regiã o considerada hegemô nica.

Atualmente, a Regiã o Sudeste do Brasil desempenha o papel de líder na formaçã o do mercado


interno; as demandas nela geradas influenciam a ocupaçã o de importantes espaços
econô micos do país. Por isso, os dados sobre o desempenho econô mico do Sudeste sã o
comumente usados como referência para a avaliaçã o da economia do país.

A polarizaçã o em torno da Regiã o Sudeste começou a se formar a partir da consolidaçã o da


economia cafeeira entre os séculos XIX e XX, que forneceu as bases para o desenvolvimento
industrial, principalmente no estado de Sã o Paulo.

Nas ú ltimas décadas tem-se verificado um movimento de desconcentraçã o das atividades


industriais rumo a outras regiõ es brasileiras. Essa tendência, de certa forma, fortalece a
integraçã o nacional, pois abre novas frentes de desenvolvimento sem desarticular o
dinamismo econô mico do Sudeste. Isso porque muitas indú strias que migraram para outras
regiõ es mantiveram sua sede administrativa no Sudeste.

Medindo as desigualdades
O Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) é um indicador adotado pela ONU para avaliar a
qualidade de vida de uma populaçã o. Três variá veis sã o utilizadas: educaçã o, expectativa de
vida e nível de renda. Seus índices podem ser aferidos nas escalas nacional, estadual, municipal
e regional. No Brasil, a coleta de dados é realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e
Estatística (IBGE).

Como o IDH é composto de médias estatísticas e a realidade social no Brasil é muito


heterogênea, é preciso analisá -lo com ressalvas, para evitar distorçõ es: embora nos ú ltimos
anos o país tenha alcançado um índice de desenvolvimento humano considerado elevado
(0,755, em 2014), isso não corresponde à realidade encontrada em todo o territó rio.
João Miguel A. Moreira/ID/BR

Fonte de pesquisa: Índice de Desenvolvimento Humano Municipal Brasileiro. Brasília: Pnud/Ipea/FJP, 2013. p. 42. Disponível
em:<http://www.pnud.org.br/arquivos/idhm-brasileiro-atlas-2013.pdf>. Acesso em: 17 fev. 2016.
Pá gina 49

A ação estatal

Em vá rios momentos da histó ria, o Estado brasileiro lançou mã o de medidas políticas e


econô micas com o objetivo de atenuar as desigualdades regionais no país.

No início do século XX, com base nas informaçõ es de que a seca era o principal motivo do
subdesenvolvimento do Nordeste, foi criada a Superintendência de Estudos e Obras contra a
Seca, atual Departamento Nacional de Obras contra a Seca (DNOCS).

Para a Amazô nia, foi criada em 1912 a Superintendência de Defesa da Borracha, quando a base
da economia local era a exploraçã o do lá tex, matéria-prima para a fabricaçã o de borracha.

Diferentemente das intervençõ es pon tuais do início do século passado, açõ es mais abran
gentes e estruturadas por amplas operaçõ es no territó rio marcaram os governos de Getú lio
Vargas, Juscelino Kubitschek e dos presidentes militares, estendendo as fronteiras do
desenvolvimento econô mico para todas as regiõ es do país.

Durante o governo Vargas, foram criadas empresas estatais como a Companhia Siderú rgica
Nacional (1941) e a Petrobras (1953), que, apesar de sediadas na Regiã o Sudeste, serviram
para alavancar a produçã o nacional e atuam hoje, direta ou indiretamente, em diversas partes
do territó rio brasileiro.

No governo de Juscelino Kubitschek (1956-1961) foi implantado o Plano de Metas, cujo lema
era desenvolver o Brasil “cinquenta anos em cinco”. Um conjunto de obras estava
contemplado, com investimentos em diversos setores de infraestrutura, o que incluía a
construçã o de uma nova capital. JK promoveu também a entrada de capital estrangeiro
destinado ao desenvolvimento de setores produtivos, como a indú stria automobilística.

Durante a ditadura militar, foram realizadas grandes obras estatais, como a construçã o da
usina hidrelétrica de Itaipu e da ponte Rio-Niteró i. Confira o boxe abaixo, sobre a usina
binacional de Itaipu.

Em 1970, foi lançado o Plano de Integraçã o Nacional (PIN), que congregava investimentos na
abertura de rodovias. A mais destacada foi a Transamazô nica, idealizada para interligar a
Paraíba ao Acre, contribuindo para a migraçã o do Nordeste para a Amazô nia. Foram lançados
os Planos Nacionais de Desenvolvimento (PNDs) e os polos de desenvolvimento, como o
Poloamazônia, o Polocentro e o Polonoroeste, que incentivavam a exploraçã o mineral e os
projetos agropecuá rios direcionados à exportaçã o.

Os governos civis brasileiros seguiram com a ideia de reduzir as desigualdades regionais.


Fernando Henrique Cardoso privatizou empresas, tendo como objetivo a reduçã o do papel do
Estado em todos os setores.

Nos governos subsequentes, de Luiz Iná cio Lula da Silva e Dilma Rousseff, o Estado ampliou
sua atuaçã o em obras pú blicas, sobretudo com o lançamento do Programa de Aceleraçã o do
Crescimento (PAC), um conjunto de obras planejadas para estimular o desenvolvimento
econô mico e social.

Leia
O Estado e as políticas territoriais no Brasil, de Wanderley Messias da Costa. Sã o Paulo: Contexto, 2000.
O autor apresenta uma reflexã o a respeito do processo de intervençã o estatal no planejamento territorial brasileiro. Em um
livro abrangente e sinté tico, ele desenvolve o tema em uma perspectiva histó rica ampliada, desde o Impé rio até a atualidade.

CONEXÃO

Itaipu e a produção energética nacional

A usina de Itaipu, que produz cerca de 15% da energia elétrica consumida no Brasil e 75% da
consumida no Paraguai, começou a ser projetada na década de 1960, por meio de acordos entre os
dois países. Desde o início do funcionamento da usina, em 1984, a energia gerada é dividida em
partes iguais entre os dois países, mas o Paraguai consome apenas 5%. Por contrato, deve vender o
restante à Eletrobras a preço de custo, pois, na época da construçã o, o Brasil financiou toda a obra,
inclusive a parte relativa ao país vizinho. Em 2009, o entã o presidente do Paraguai colocou em
xeque os acordos firmados inicialmente, e os valores pagos pelo Brasil foram reajustados.

1. Onde você mora existe alguma usina de geraçã o de energia elétrica? Pesquise de onde vem a
energia elétrica que você consome.

Ernesto Reghran/Pulsar Imagens

Usina hidrelétrica binacional de Itaipu. Em primeiro plano, aparece o territó rio paraguaio e, à direita, o territó rio
brasileiro, em Foz do Iguaçu (PR). Foto de 2015.
Pá gina 50

A construção de Brasília e a geopolítica nacional

A mudança da capital federal para uma á rea interiorana era um projeto antigo, elaborado
ainda no século XIX. Em 1891, a mudança da capital foi formalizada em dois artigos da
Constituiçã o recém-adotada.

Em 1892, uma comissã o exploradora demarcou a á rea destinada à criaçã o de uma nova capital
para o país. No entanto, somente em 1956, o Congresso brasileiro aprovou a lei que criava a
Companhia Urbanizadora da Nova Capital (Novacap). O ó rgã o seria responsá vel pela
construçã o da nova capital, inaugurada em 1960.

O projeto urbanístico de Brasília foi criado por Lú cio Costa. Oscar Niemeyer projetou os
principais edifícios. Seu estilo é marcado pelo uso do concreto armado, empregado na
configuraçã o de formas curvas, e pela valorizaçã o da monumentalidade.

Os ideais geopolíticos e a inovaçã o artística das edificaçõ es resultaram em um grandioso


conjunto arquitetô nico, que hoje constitui uma das principais atraçõ es turísticas do Brasil.

A nova capital: fatores geopolíticos


A construçã o de Brasília surgiu não apenas como um símbolo do progresso econô mico, mas
também de uma concepçã o estratégica de que a localizaçã o é um fator de proteçã o. As cidades
litorâ neas teoricamente sã o mais vulnerá veis a ataques estrangeiros em eventuais conflitos.

O deslocamento da base do poder nacional para o centro do país também possibilita maior
coesã o territorial, integrando regiõ es distantes, e aproxima o governo federal das zonas mais
isoladas, situadas nas regiõ es Centro-Oeste e Norte.

Como grande parte das á reas pouco ocupadas estava mais pró xima da faixa de fronteira, era
fundamental aumentar a presença do Estado nessas regiõ es e promover sua ocupaçã o, o que
seria viabilizado pela transferência da capital do país para o Planalto Central. Além disso, o
deslocamento da capital expressa uma estratégia de atenuar as grandes manifestaçõ es
populares, muito comuns na época em que o Rio de Janeiro era a capital.

Leia
Geopolítica do Brasil: a construção da soberania nacional, de Edu Silvestre de Albuquerque. Sã o Paulo: Atual, 2006.
O livro trata das relaçõ es internacionais do Brasil e de sua posiçã o no panorama geopolítico mundial.

Brasília: crescimento e desigualdade


Paralelamente à construçã o de Brasília, começaram a se formar as cidades-satélites ao redor
do Plano Piloto, nú cleo original do Distrito Federal.

Nas cidades-satélites fixaram-se os trabalhadores que migraram para Brasília a fim de


trabalhar nas obras durante a implantaçã o do projeto e que ficaram conhecidos como
candangos. Concluída a grande obra, nã o havia um plano de assentamento definitivo desses
migrantes. Com isso, eles deram origem a formaçõ es urbanas desordenadas, que contrastavam
fortemente com o planejamento e a racionalidade do Plano Piloto. E assim surgiram cidades-
satélites como Ceilâ ndia, Taguatinga, Guará , Cruzeiro e Sobradinho.
Atualmente, além de deficiências na infraestrutura urbana, Brasília apresenta problemas
sociais, principalmente nas á reas de saú de, educaçã o e segurança. Soma-se a esse quadro o
abismo socioeconô mico entre o nú cleo original e as á reas do entorno.

Com mais de meio século de existência, Brasília e as cidades-satélites vivem hoje uma
realidade muito semelhante à de outras grandes capitais do país, cujos problemas o
planejamento urbano inicial nã o foi capaz de evitar.

João Miguel A. Moreira/ID/BR

Fonte de pesquisa: FERREIRA, Graça Maria Lemos. Atlas geográfico: espaço mundial. 4. ed. Sã o Paulo: Moderna, 2013. p. 163.

Navegue
Museu Virtual Brasília
O site do museu apresenta documentos, imagens e depoimentos sobre a construçã o e o crescimento da capital brasileira.
Disponível em: <http://linkte.me/mbsb>. Acesso em: 9 abr. 2016.
Pá gina 51

Amazônia: riquezas e conflitos

O dimensionamento da á rea ocupada pela floresta Amazô nica fornece elementos fundamentais
para abordar as questõ es geopolíticas que a envolvem. Sã o mais de 5,5 milhõ es de km² de á rea,
dos quais cerca de 60% se encontram em territó rio brasileiro. A floresta estende-se também
pelo territó rio da Bolívia, Colô mbia, Equador, Peru, Venezuela, Guiana, Guiana Francesa e
Suriname.

A floresta Amazô nica, além de ser a maior floresta equatorial do mundo, é constituída por uma
rica diversidade de espécies da fauna e da flora e por uma imensa rede de recursos hídricos.
Essa riqueza natural é complementada por outros recursos de grande interesse econô mico,
como as jazidas minerais de ferro, manganês, ouro, bauxita, cobre, petró leo, etc.

Em grande parte por causa da Amazô nia, o Brasil é considerado detentor de uma
megadiversidade e divide essa posiçã o com outros poucos países. A grande biodiversidade
da Amazô nia é garantida pela abundante quantidade de espécies endêmicas, isto é, exclusivas
da regiã o.

Todo esse potencial coloca a Amazô nia no centro da geopolítica global. O grande conjunto de
recursos é foco de cobiça nas mais diversas escalas e, nesse contexto, além da biopirataria,
ocorre a apropriaçã o indevida dos conhecimentos tradicionais dos povos locais.

A convivência com os nativos e a compreen sã o de seu relacionamento com a natureza


possibilitam verificar na prá tica os resultados da utilizaçã o de espécies que despertam
interesse para fins comerciais ou pesquisas acadê micas.

O potencial econô mico contido na diversidade da Amazô nia fomenta iniciativas internacionais
que visam estabelecer meios indiretos de influência sobre os recursos da regiã o. Sã o tratados e
acordos que versam sobre as mais diversas questõ es relativas à floresta equatorial, mas que
também trazem em seu bojo temores relacionados à capacidade do Estado brasileiro de gerir
seu pró prio territó rio.

Para fins de planejamento e promoçã o do desenvolvimento social e econô mico da regiã o, o


Estado brasileiro instituiu a Amazônia Legal, que abrange, além dos sete estados da Regiã o
Norte, o estado de Mato Grosso e parte do Maranhã o.
2016 Data SIO, NOAA, U. S. Navy, NGA, GEBCO/Landsat/Google Earth/Digital Globe. Ilustraçõ es sobre imagem: João Miguel A. Moreira/ID/BR

Limites da Amazô nia Legal em imagem de satélite de 2015.

Leia
Amazônia, Amazônias, de Carlos Walter Porto Gonçalves. Sã o Paulo: Contexto, 2001.
Fruto de mais de duas dé cadas de pesquisa, o livro apresenta um retrato profundo da Amazô nia. Questõ es contemporâ neas
latentes sã o apresentadas numa perspectiva que nos permite compreender a importâ ncia da regiã o Amazô nica para o país e
para o mundo.

SAIBA MAIS

A luta de um homem da floresta

O líder seringueiro Francisco Alves Mendes Filho, mais conhecido como Chico Mendes, foi uma das
principais vozes a denunciar a devastaçã o da Amazô nia e as condiçõ es dos trabalhadores da regiã o,
que eram e ainda sã o submetidos a situaçõ es de trabalho escravo. Por suas açõ es, foi reconhecido
nacional e internacionalmente.

Percorreu o mundo defendendo a causa dos povos da floresta e recebendo prêmios por sua
atuaçã o. Mesmo diante de pressõ es e ameaças, continuou a questionar o predató rio modelo de
desenvolvimento praticado na regiã o. Em dezembro de 1988, foi morto a tiros nos fundos de sua
casa, em Xapuri, no Acre. Era o trá gico fim da saga de um homem corajoso e comprometido com a
defesa da floresta e dos trabalhadores.

Fernando Marques/Estadão Conteú do

Chico Mendes no Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Xapuri (AC). Foto de 1988.
Pá gina 52

Presença Indígena
São Gabriel da Cachoeira: uma cidade diferente
Uma grande cobra vinda de muito longe, do começo do mundo. Uma grande cobra-canoa,
subindo pelo fundo do rio, saindo pelo buraco das pedras e vomitando as pessoas que estavam
dentro dela. Esse povo formou uma aldeia, que se comunicava com as outras aldeias que
também saíram da Cobra Grande. Assim o mundo foi habitado e encheu-se de lugares e
histó rias sagradas.

Essa pequena histó ria é o resumo do mito de criaçã o de muitos povos indígenas que habitam o
estado do Amazonas. Narrada de diferentes maneiras, segundo cada povo, a histó ria da Cobra
Grande conta como se formou a regiã o onde atual mente convivem 23 povos indígenas
diferentes, com idiomas pertencentes a três troncos linguísticos: maku, aruak e tukano. Sã o
mais de quinhentas comunidades em Sã o Gabriel da Cachoeira, o “município mais indígena do
país”.

Sã o Gabriel é parecida com outras cidades do país, com uma grande diferença: 85% dos
habitantes sã o indígenas. E jovens: metade da populaçã o tem até 19 anos. Em Sã o Gabriel, eles
têm muitos costumes dos jovens de outros centros urbanos: andam de skate e de bicicleta,
praticam esportes, usam o computador e procuram se vestir seguindo a moda. Há grupos de
street dance e de quadrilha de festa junina formados só por indígenas. Casamentos entre
indígenas e nã o indígenas sã o comuns.

No giná sio da cidade, os festivais culturais indígenas misturam carros alegó ricos e fantasias
coloridas com as tradicionais danças e ritos da regiã o, em um impressionante espetá culo.
Rodeadas pelas corredeiras do rio Negro, nos fins de semana as “praias” da cidade se enchem
de guarda-só is, onde indígenas e nã o indígenas ouvem mú sica em alto volume, fazem
churrasco e levam os filhos para passear.

João Ramid/Amazon Image Bank

Festival Cultural das Tribos Indígenas do alto rio Negro (Festribal), em Sã o Gabriel da Cachoeira (AM). Foto de 2009.
Localizada na regiã o chamada de Cabeça do Cachorro, no alto rio Negro, Sã o Gabriel é um dos
maiores municípios do país, com á rea maior que a de Pernambuco. Para chegar lá , leva-se
algumas horas de aviã o partindo de Manaus ou vá rios dias de barco, que é praticamente o
ú nico meio de transporte, pois há poucas estradas ou pistas de pouso nas comunidades. De
barco se vai a todas.

A chegada dos não indígenas


Os primeiros registros da regiã o datam de 1639, quando a expediçã o do bandeirante Pedro
Teixeira atravessou o rio onde hoje é a fronteira entre Brasil e Colô mbia. Nos três séculos
seguintes, a histó ria da regiã o é parecida com a de muitas outras regiõ es da América:
exploraçã o comercial e guerras por territó rio, escravidã o indígena, extinçã o de povos inteiros
e migraçã o em massa. Em razã o do isolamento, porém, as mudanças foram bem menos
intensas que em outros lugares. Só a partir de 1914, com a chegada das primeiras missõ es
cató licas, os modos de vida dos indígenas começaram a sofrer visíveis mudanças.

A chegada dos salesianos ajudou a combater a semiescravidã o em que muitos grupos


indígenas viviam. No entanto, alterou profundamente seu modo de vida, já que os religiosos
buscavam eliminar as manifestaçõ es culturais desses povos. Os missioná rios proibiam os
indígenas de falarem sua língua, de morarem em suas casas coletivas e de manterem suas
formas de religiosidade.

Outra importante atuaçã o missioná ria na regiã o foi a Missã o Novas Tribos do Brasil, que, a
partir da década de 1950, pregou o protestantismo entre diversos grupos e formou dezenas de
pastores indígenas.

Além da mudança nas relaçõ es dentro das comunidades, as missõ es religiosas contribuíram
para aumentar a dependência dos indígenas das “coisas do branco”. Com a chegada dos
pregadores, muitos grupos nô mades passaram a viver perto das missõ es, num processo de
sedentarizaçã o e de concentraçã o populacional que alterou profundamente o modo de vida
indígena.

A caça e a pesca ficaram escassas, e os indígenas passaram a ter de ir muito longe para
conseguir comida e material para fazer suas casas. Como os religiosos têm recursos, mandam
vir de fora comida, material de construçã o, ferramentas, roupas e demais objetos, aumentando
a dependência dos indígenas em relaçã o à s missõ es. A situaçã o piora quando os indígenas
ficam doentes, já que o contá gio se alastra mais rapidamente, com a proximidade de muitas
pessoas em torno das missõ es.
Pá gina 53

Nas décadas de 1970 e 1980, esse processo de mudança se ampliou com a chegada dos
militares para implementar o Plano de Integração Nacional e o Projeto Calha Norte. A
militarizaçã o trouxe também um grande nú mero de não indígenas, tanto militares como
trabalhadores do Nordeste para as construçõ es. Em 1983 foi descoberto ouro na regiã o, o que
atraiu mais migrantes.

Plano de Integração Nacional: projeto criado em 1970 com o objetivo anunciado de fomentar a integraçã o e o
desenvolvimento das regiõ es Norte e Nordeste. Promoveu um extenso plano de obras, como a rodovia Transamazô nica, e a
migraçã o de grandes contingentes de populaçã o para a Amazô nia.

Projeto Calha Norte: plano criado em 1985, prevendo a ocupaçã o militar de uma faixa de 160 quilô metros de largura e 6
500 quilô metros de extensã o ao norte dos rios Solimõ es e Amazonas, nas fronteiras do Brasil com a Guiana Francesa, o
Suriname, a Guiana, a Venezuela e a Colô mbia.

Essa movimentaçã o foi responsá vel por uma explosã o demográ fica e econô mica em Sã o
Gabriel. Em 1980, a populaçã o urbana era de menos de 4 mil pessoas. Em 2010, já ultrapassava
19 mil. A predominâ ncia indígena também é explicada pelo êxodo de comunidades para o meio
urbano.

João Miguel A. Moreira/ID/BR

Fonte de pesquisa: IBGE Cidades@. Disponível em: <http://cidades.ibge.gov.br/xtras/perfil.php?


lang=&codmun=130380&search=amazonas|saogabriel-da-cachoeira>. Acesso em: 19 fev. 2016.

Em busca de soluções
Indígenas, religiosos cató licos e evangélicos, comerciantes, garimpeiros e militares, migrantes
brasileiros e latino-americanos convivem lado a lado. A cidade tem como línguas correntes,
além do português, o nheengatu, o tukano e o baniwa.

Mas essa proximidade nã o significa igualdade. A falta de respeito com o indígena e sua cultura
ainda está muito presente na cidade. Os valores reproduzidos pelo exército e pelos migrantes
de outras regiõ es desqualificam os costumes indígenas como atrasados e sem serventia.
Muitos religiosos continuam a impor uma crença que vê o modo de vida indígena como algo a
ser combatido.

Mas os indígenas se mobilizam para superar as condiçõ es adversas e têm conquistado cada vez
mais protagonismo político, inclusive conseguindo a demarcaçã o de vá rias terras indígenas.
A Federaçã o das Organizaçõ es Indígenas do Rio Negro (Foirn) reú ne organizaçõ es que
desenvolvem trabalhos de valorizaçã o cultural e defesa dos direitos das comunidades. Projetos
de valorizaçã o do artesanato tradicional, de criaçã o de peixes, de fortalecimento das línguas
indígenas e outros têm sido desenvolvidos para melhorar a vida nas inú meras comunidades
distribuídas pelos rios do município. Essa atuaçã o visa também garantir a qualidade de vida e a
permanência das pessoas nessas comunidades para que elas nã o sejam obrigadas a migrar
para as cidades.

De Sã o Gabriel têm saído propostas inovadoras de educaçã o diferenciada, com currículos


pró prios e materiais didá ticos em línguas indígenas, valorizando os conhecimentos
tradicionais. Esse material serve de modelo para outros municípios. Há vá rios indígenas
estudando em universidades de grandes centros do país, e existe um projeto do primeiro
campus universitá rio em terra indígena.

Foi em Sã o Gabriel que, em 2008, pela primeira vez foram eleitos indígenas para os cargos de
prefeito e vice-prefeito. O município mais indígena do Brasil mostra que é possível conviver de
modo positivo com a diversidade cultural.

Para discutir

1. Com base nas informaçõ es contidas no texto, reflita sobre o processo pelo qual passaram
muitos grupos indígenas de Sã o Gabriel, que deixaram de levar uma vida autô noma na floresta,
passaram a ter um modo de vida dependente de ajuda exterior e do sistema monetá rio e hoje
estã o envolvidos em processos de valorizaçã o cultural e afirmaçã o de suas identidades
indígenas. Discuta com os colegas esses processos.

2. Escolha e comente dois aspectos citados no texto que mais chamaram sua atençã o para o
mundo indígena de Sã o Gabriel da Cachoeira.

Navegue
Blog do Rio Negro
O blog do Instituto Socioambiental (ISA) traz informaçõ es atualizadas e fotos da regiã o do rio Negro. Disponível em:
<http://linkte.me/blogrn>. Acesso em: 8 abr. 2016.
Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro
Site da Foirn, com informaçõ es e notícias sobre os indígenas da regiã o de Sã o Gabriel da Cachoeira. Disponível em:
<http://linkte.me/foirn>. Acesso em: 8 abr. 2016.
Pá gina 54

As questões fronteiriças da Amazônia

As fronteiras da Amazô nia constituem um dos pontos mais importantes na questã o geopolítica
local. A imensa extensã o de fronteira externa ocupada pela floresta fechada dificulta sua
fiscalizaçã o e sua defesa. Visualmente, é quase impossível determinar os limites territoriais
entre os países amazô nicos, o que exige investimentos em equipamentos como radares e
aviõ es.

Por isso, o governo brasileiro colocou em operaçã o, no início da década de 2000, o Sistema de
Vigilâ ncia da Amazô nia (Sivam) e o Sistema de Proteçã o da Amazô nia (Sipam). O primeiro
tem como objetivo controlar o espaço aéreo sobre a Amazô nia e ampliar a presença das Forças
Armadas na regiã o; o segundo promove o levantamento de informaçõ es que subsidiam as
açõ es de proteçã o da Amazô nia.

Com exceçã o de momentos pontuais na histó ria do Brasil, a exemplo do ciclo da borracha, a
Amazô nia passou a mobilizar políticas estatais efetivas apenas a partir da segunda metade do
século XX, sobretudo durante a vigência da ditadura militar.

Segundo os militares, era preciso integrar o territó rio para nã o deixá -lo vulnerá vel. Assim,
foram criadas a Superintendência para o Desenvolvimento da Amazô nia (Sudam) e a
Superintendência da Zona Franca de Manaus (Suframa). Essas açõ es resultaram em obras
pú blicas, como a rodovia Transamazônica e a infraestrutura para viabilizar a Zona Franca
de Manaus.

Zona Franca de Manaus: á rea situada no município de Manaus na qual vigoram condiçõ es fiscais diferenciadas, com o
objetivo de atrair indú strias e outras empresas e gerar emprego e renda para a populaçã o local.

O capital externo também financiou o desenvolvimento regional e, em contrapartida, a


exploraçã o de minérios foi aberta à s empresas estrangeiras. Isso impulsionou, junto com
investimentos nacionais, grandes projetos extrativos, como o Grande Carajás.

Assista
Brincando nos campos do Senhor. Direçã o de Hector Babenco, EUA, 1991, 189 min.
Ambientado na Amazô nia, o filme mostra a tentativa de catequizaçã o dos povos indígenas Nianura por missioná rios
evangé licos estadunidenses. Apresenta os conflitos decorrentes das relaçõ es entre os nativos, o poder político local, a Igreja
e os missioná rios. O drama é baseado no livro homô nimo do escritor Peter Matthiessen.

A Amazônia contemporânea
A questã o amazô nica continua em pauta, pois suas riquezas, sua cultura e seus recursos
hídricos despertam a constante cobiça de pessoas, que agem por conta pró pria ou em nome de
corporaçõ es. A busca pelo lucro, seja pela exploraçã o de matérias-primas, seja pela ampliaçã o
das terras destinadas à agropecuá ria, é mantida à custa de desmatamentos e tensõ es sociais.
Como consequência do agravamento desses problemas, abrem-se pretextos para proposiçõ es
como a participaçã o da comunidade internacional no gerenciamento da floresta, que colocam
em xeque a integridade da soberania nacional.

A Amazô nia possui diversas terras indígenas, cujas á reas precisam ser protegidas para nã o
sofrerem açõ es predató rias. A reserva Raposa Serra do Sol (1,7 milhã o de hectares), em
Roraima, é um bom exemplo. Demarcada em 1998 e reconhecida oficialmente em 2005, só foi
homologada por decisã o do Supremo Tribunal Federal (STF) em 2009. Os mais de 18 mil
indígenas que ali vivem tiveram assegurados seus direitos diante dos fazendeiros plantadores
de arroz que haviam invadido seu territó rio.

Allmaps/ID/BR

Fonte de pesquisa: SANTOS, Breno Augusto dos. Recursos minerais da Amazô nia. Disponível em: <http://dx.doi.org/10.1590/S0103-
40142002000200009>. Acesso em: 19 fev. 2016.
Pá gina 55

Informe
Geopolítica da Amazônia
De início, cabe uma pequena explanaçã o sobre geopolítica: trata-se de um campo de
conhecimento que analisa relaçõ es entre poder e espaço geográ fico. Foi o fundamento do
povoamento da Amazô nia, desde o tempo colonial, uma vez que, por mais que quisesse a
Coroa, nã o tinha recursos econô micos e populaçã o para povoar e ocupar um territó rio de tal
extensã o. Portugal conseguiu manter a Amazô nia e expandi-la para além dos limites previstos
no tratado de Tordesilhas, graças a estratégias de controle do territó rio. Embora os
interesses econô micos prevalecessem, não foram bem-sucedidos, e a geopolítica foi mais
importante do que a economia no sentido de garantir a soberania sobre a Amazô nia, cuja
ocupaçã o se fez, como se sabe, em surtos ligados a demandas externas seguidos de grandes
períodos de estagnaçã o e de decadência.

A geopolítica sempre se caracterizou pela presença de pressõ es de todo tipo, intervençõ es no


cená rio internacional desde as mais brandas até guerras e conquistas de territó rios.
Inicialmente, essas açõ es tinham como sujeito fundamental o Estado, pois ele era entendido
como a ú nica fonte de poder, a ú nica representaçã o da política, e as disputas eram analisadas
apenas entre os Estados. Hoje, essa geopolítica atua, sobretudo, por meio do poder de influir na
tomada de decisã o dos Estados sobre o uso do territó rio, uma vez que a conquista de
territó rios e as colô nias tornaram-se muito caras. […]

Há , hoje, portanto, dois movimentos internacionais: um em nível do sistema financeiro, da


informaçã o, do domínio do poder efetivamente das potências; e outro, uma tendência ao
internacionalismo dos movimentos sociais. Todos os agentes sociais organizados, corporaçõ es,
organizaçõ es religiosas, movimentos sociais, etc., têm suas pró prias territorialidades, acima e
abaixo da escala do Estado, suas pró prias geopolíticas, e tendem a se articular, configurando
uma situaçã o mundial bastante complexa. […]

Hoje, o imperativo é modificar esse padrã o de desenvolvimento que alcançou o auge nas
décadas de 1960 a 1980. É imperativo o uso nã o predató rio das fabulosas riquezas naturais
que a Amazô nia contém e também do saber das suas populaçõ es tradicionais que possuem um
secular conhecimento acumulado para lidar com o tró pico ú mido. Essa riqueza tem de ser mais
bem utilizada. Sustar esse padrã o de economia de fronteira é um imperativo internacional,
nacional e também regional. Já há na regiã o resistências à apropriaçã o indiscriminada de seus
recursos e atores que lutam pelos seus direitos. Esse é um fato novo porque, até entã o, as
forças exó genas ocupavam a regiã o livremente, embora com sérios conflitos. […]

Com as resistências regionais os conflitos na regiã o alcançam um patamar mais elevado. Nã o se


trata mais apenas de conflito pela terra; é o conflito de uma regiã o em relaçã o à s demandas
externas. Esses conflitos de interesse, assim como as açõ es deles decorrentes, contribuem para
manter imagens obsoletas sobre a regiã o, dificultando a elaboraçã o de políticas pú blicas
adequadas ao seu desenvolvimento.

Para que se possa mudar esse padrã o de desenvolvimento é necessá rio entender os diferentes
projetos geopolíticos e seus atores, que estã o na base dos conflitos, para tentar encontrar
modos de compatibilizar o crescimento econô mico com a conservaçã o dos recursos naturais e
a inclusã o social. Enfim, nã o se trata de mero ambientalismo, muito menos de mais um
momento destrutivo.

[…]

BECKER, Bertha K. Geopolítica da Amazô nia. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-


40142005000100005>. Acesso em: 16 fev. 2016.

Ernesto Reghran/Pulsar Imagens

Vista aérea da floresta Amazô nica, em Manaus (AM). Foto de 2015.

PARA DISCUTIR

1. Com base no texto, o que é possível depreender das dificuldades histó ricas de o Estado
brasileiro manter o controle sobre a Amazô nia?

2. Apresente suas conclusõ es a respeito da seguinte questã o: É possível manter o domínio


sobre as terras amazô nicas e preservar seus recursos?
Pá gina 56

Atividades
Não escreva no livro.

Revendo conceitos

1. O que caracteriza um país que se identifica como potência regional?

2. Cite dois fatores relacionados à geopolítica e contextualize a importâ ncia de cada um.

3. Quais sã o os pontos fracos mais perceptíveis das fronteiras nacionais?

4. O que sã o o PIN e os PNDs? Qual é a importâ ncia desses projetos?

5. Quando Brasília foi construída? Explique as razõ es geopolíticas que fundamentaram a


construçã o de uma nova capital brasileira.

6. Cite os países que abrigam á reas da floresta Amazô nica. No Brasil, que á reas sã o abrangidas
pela Amazô nia Legal?

7. O que é um país megadiverso? Quais fatores explicam essa característica?

8. Comente os problemas fronteiriços que ocorrem na regiã o Amazô nica.

9. Qual é o papel do capital internacional na exploraçã o dos recursos minerais na Amazô nia?

10. Cite as açõ es territoriais adotadas pelo Estado brasileiro associadas à regiã o Amazô nica.

Lendo mapas e tabelas

11. Uma das questõ es mais debatidas ao longo da histó ria do Brasil é a desigualdade regional
existente no país. Analise a tabela a seguir e faça o que se pede.

Distribuição percentual do Produto Interno Bruto (PIB) por macrorregiões (1960-2010)


1960 1970 1980 1991 2000 2010
Norte 2,6 2,3 3,3 4,7 4,6 5,3
Nordeste 14,7 11,7 12,0 13,4 13,1 13,5
Sudeste 62,6 65,4 62,3 58,7 57,8 55,4
Sul 17,6 16,6 17,0 17,1 17,6 16,5
Centro-Oeste 2,5 4,0 5,4 6,1 6,9 9,3

Fontes de pesquisa: GOMES, Gustavo Maia. A economia regional do Brasil: o que mudou nos ú ltimos cinquenta anos? p. 3. Disponível
em: <http://www.econometrix.com.br/publicacoes_academicas/arquivos/1fe0f125badfc4dc108beb8123e316be93fdcda0.pdf>;
IBGE. Contas Regionais do Brasil 2010. Disponível em: <http://biblioteca.ibge.gov.br/visualizacao/livros/liv62688.pdf>. Acessos em:
8 abr. 2016.

a) Separe as regiõ es brasileiras em dois blocos, agrupando no primeiro as regiõ es com baixo
percentual do PIB e, no segundo, as regiõ es com alto percentual do PIB.
b) Escolha uma regiã o de cada grupo e comente sua situaçã o econô mica.
12. A Iniciativa para a Integraçã o da Infraestrutura Regional Sul-Americana (Iirsa) foi criada
em 2000, na 1ª Reuniã o dos Presidentes da América do Sul, realizada em Brasília. Com o
objetivo de reforçar a uniã o entre os países sul-americanos a partir da melhoria das
infraestruturas de transporte, energia e comunicaçã o, o acordo estabeleceu eixos de integraçã o
e desenvolvimento entre os países do subcontinente. Observe o mapa e responda.

João Miguel A. Moreira/ID/BR

Fonte de pesquisa: Iirsa. Cartera de proyectos 2010. p. 19. Disponível em:


<http://www.iirsa.org/admin_iirsa_web/Uploads/Documents/lb10_completo_baja.pdf>. Acesso em: 19 fev. 2016.

a) Quantos sã o os eixos de integraçã o da Iirsa?


b) O Brasil faz parte de quantos eixos de integraçã o? Quais sã o eles?
c) Em 2009, a Iirsa foi incorporada ao Conselho Sul-Americano de Infraestrutura e
Planejamento (Cosiplan). Pesquise quais foram os projetos mais recentes do Cosiplan e, em
grupos, discutam os possíveis efeitos locais das obras realizadas.
Pá gina 57

13. Analise o mapa para resolver as questõ es a seguir.

João Miguel A. Moreira/ID/BR

Fonte de pesquisa: Universidade de Maryland. Global Forest Change. Disponível em:


<http://earthenginepartners.appspot.com/science-2013-global-forest?hl=pt_br&llbox=18.09%2C-35.37%2C-8.62%2C-
100.2&t=TERRAIN&layers=layer0%2C12%3A99%2Clayer8%2C8%3A100%2C2%3A100>. Acesso em: 8 abr. 2016.

a) Elabore um texto que comente os usos da terra no territó rio brasileiro com base na
comparaçã o das informaçõ es apresentadas.
b) Qual processo em curso na Amazô nia Legal é evidenciado pelo mapa?

Interpretando textos e imagens

14. Leia o texto a seguir e responda à s questõ es.

[…] A ideia inicial era vencer a floresta e povoar as porçõ es desconhecidas – e habitadas apenas por
índios – da Amazô nia brasileira. Sob o slogan nacionalista: “integrar para nã o entregar”, também é
desta época a abertura de estradas que cortaram a Amazô nia de norte ao sul […]. Cidades com
nomes curiosos, como Sinop (Sociedade Imobiliá ria Noroeste do Paraná ), Porto dos Gaú chos, Nova
Maringá e Porto Alegre do Norte, explicam as origens de seus fundadores.

Mas, justamente esse desenvolvimento proposto pelos militares, também é apontado como o início
da destruiçã o da floresta. Atraídos pela promessa de terras baratas e riquezas, milhares de colonos
chegavam com suas famílias vindos do Sul e alguns do Sudeste do país. E a floresta, até entã o
impenetrá vel, desaparecia rapidamente dando lugar a imensos campos de grã os (tendo a soja como
principal cultura) e pastagens. Até mesmo os projetos que visavam ao aproveitamento da madeira
de lei eram financiados pelo Governo Federal, sob a tutela da Superintendência de
Desenvolvimento da Amazô nia – Sudam. Com isso, guarantã s, mognos e castanheiras se
transformavam no cobiçado “ouro verde”, sem que se tivesse qualquer preocupaçã o com a
sustentabilidade da atividade ou impactos ambientais.

Os povos indígenas foram os que mais sentiram a chegada dos colonos e muitas tribos, como os
Panará , Kayabi e Tapaiuna, só nã o foram completamente dizimadas porque foram levadas pelos
sertanistas Villas Boas para o Parque Nacional do Xingu. Relatos dramá ticos de índios morrendo à
míngua e mendigando à s margens das recém-criadas estradas chamaram a atençã o da opiniã o
pú blica mundial para o que acontecia na Amazô nia. [...]

WWF-Brasil. “Integrar para nã o entregar”. Disponível em:


<http://www.wwf.org.br/informacoes/noticias_meio_ambiente_e_natureza/?2866>. Acesso em: 19 fev. 2016.

a) Qual era a preocupaçã o do governo militar em sua política para a Amazô nia?
b) Quais foram as populaçõ es mais atingidas por essa política? De que forma foram afetadas?

15. Alemanha, Brasil, Índia e Japã o formam o G-4, grupo de países que defendem reformas no
Conselho de Segurança da ONU que garantam a ampliaçã o no nú mero de assentos
permanentes e maior poder de deliberaçã o aos membros rotativos. A estrutura original do
ó rgã o prevê a existência de assentos rotativos distribuídos regionalmente com mandatos de
dois anos para cada país. Pesquise e responda.

Adilson Secco/ID/BR

Fonte de pesquisa: Deutsche Welle. Disponível em: <http://www.dw.com/en/germany-to-use-its-un-security-council-seat-to-make-


case-forreform/a-6106011>. Acesso em: 20 maio 2016.

a) Qual é a atual composiçã o do Conselho de Segurança da ONU?


b) Por quantas vezes o Brasil compô s o Conselho?
c) Considerando o grupo regional no qual o Brasil se insere, avalie quais seriam os principais
rivais na disputa a uma vaga permanente no Conselho de Segurança da ONU.
Pá gina 58

Em análise
Construir e interpretar anamorfoses

A cartografia pauta suas representaçõ es em padrõ es geométricos, ou seja, as imagens


retratadas em um mapa sã o estruturadas em procedimentos matemá ticos.

Todos os mapas apresentam distorçõ es, que variam de acordo com o objetivo para o qual ele
foi feito. Um bom exemplo de distorçã o sã o as projeçõ es elaboradas pelos cartó grafos Gerard
Mercator (1512-1594) e Arno Peters (1916-2002). Nas projeçõ es de Mercator, as formas
foram privilegiadas, e a proporçã o das á reas foi distorcida, enquanto, nas projeçõ es de Peters,
as proporçõ es entre os territó rios foram resguardadas, ao passo que as formas dos territó rios
foram distorcidas. O resultado de qualquer projeçã o é uma transiçã o do esférico ao plano,
buscando a coincidência entre as duas imagens. A causa dessas distorçõ es reside no fato de a
Terra ser esférica e os mapas serem representaçõ es planas.

Allmaps/IDBR

Fonte de pesquisa: Atlas geográfico escolar. 6. ed. Rio de Janeiro: IBGE, 2012. p. 32.

Podemos também alterar as formas de um mapa por meio de um procedimento geométrico


conhecido como anamorfose. Há diversas aplicaçõ es das anamorfoses, por exemplo, ao
selecionar um fenô meno, como o tamanho da populaçã o, e determinar a á rea a ser ocupada no
mapa por um país, não de acordo com a á rea, mas com o nú mero de habitantes. Assim, o Brasil,
que possui pouco mais de 200 milhõ es de habitantes, deve ocupar uma á rea seis vezes menor
que a da Índia, que possui mais de 1,2 bilhã o de habitantes.

Ao retratar a populaçã o mundial, por exemplo, China e Índia ocupam á reas imensas na
anamorfose, ao passo que os países de pequena populaçã o ocupam pequenas á reas. Veja as
imagens abaixo. Na primeira, temos a proporçã o real dos territó rios e, na segunda, a
anamorfose.
João Miguel A. Moreira/ID/BR

Fonte de pesquisa: ONU. Disponível em: <http://esa.un.org/unpd/wpp/Download/Standard/Population/>. Acesso em: 10 mar.


2016.

Também é possível representar a populaçã o com figuras geométricas proporcionais, como na


imagem abaixo.

João Miguel A. Moreira/ID/BR

Fonte de pesquisa: ONU. Disponível em: <http://esa.un.org/unpd/wpp/Download/Standard/Population/>. Acesso em: 10 mar.


2016.
Pá gina 59

Proposta de trabalho

1. Utilizando blocos geométricos, elabore três anamorfoses que retratem os dados da tabela.

a) Na primeira, represente a proporçã o do Produto Interno Bruto (PIB) – soma de todos os


bens e serviços produzidos – dos estados.
b) Na segunda, apresente o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), indicador que utiliza
como critérios de avaliaçã o a educaçã o, a renda e a longevidade.
c) Na terceira, represente a populaçã o estadual em 2015.

2. Verifique qual o menor valor para cada um dos dados da tabela abaixo e determine um
tamanho que represente esse valor. A menor populaçã o em 2015 estava em Roraima, com
cerca de 505 mil habitantes. Use uma á rea de 1 mm2 para representar esse estado e calcule os
demais. O Rio de Janeiro, por exemplo, terá 33 mm2, pois sua populaçã o é de cerca de 16,5
milhõ es de habitantes.

3. Faça os cá lculos para todos os estados e represente-os nas anamorfoses. Agrupe os estados
de acordo com a regionalizaçã o oficial do IBGE.

4. Com base nas anamorfoses, avalie a situaçã o socioeconô mica de cada regiã o e faça uma
análise intrarregional, explicitando quais unidades da federaçã o se destacam em cada regiã o
brasileira.

PIB, IDH e população das unidades federativas brasileiras


PIB, em milhões R$ IDH (2010) População (2015)
(2013)
Acre 11 440 0,663 803 513
Alagoas 37 223 0,631 3 340 932
Amapá 12 762 0,708 766 679
Amazonas 83 293 0,674 3 938 336
Bahia 204 265 0,660 15 203 934
Ceará 108 796 0,682 8 904 459
Distrito Federal 175 363 0,824 2 914 830
Espírito Santo 117 043 0,740 3 929 911
Goiás 151 010 0,735 6 610 681
Maranhão 67 593 0,639 6 904 241
Mato Grosso 89 124 0,725 3 265 486
Mato Grosso do Sul 69 118 0,729 2 651 235
Minas Gerais 486 955 0,731 20 869 101
Pará 120 949 0,646 8 175 113
Paraíba 46 325 0,658 3 972 202
Paraná 332 837 0,749 11 163 018
Pernambuco 140 728 0,673 9 345 173
Piauí 31 240 0,646 3 204 028
Rio de Janeiro 626 320 0,761 16 550 024
Rio Grande do Norte 51 446 0,684 3 442 175
Rio Grande do Sul 331 095 0,746 11 247 972
Rondônia 31 092 0,690 1 768 204
Roraima 9 027 0,707 505 665
Santa Catarina 214 217 0,774 6 819 190
São Paulo 1 708 222 0,783 44 396 484
Sergipe 35 193 0,665 2 242 937
Tocantins 23 778 0,699 1 515 126
Fontes de pesquisa: IBGE Estados@. Disponível em: <http://www.ibge.gov.br/estadosat/>; IBGE. Contas Regionais do Brasil 2010-
2013. Disponível em: <http://biblioteca.ibge.gov.br/visualizacao/livros/liv94952.pdf>; Pnud. Atlas do Desenvolvimento Humano no
Brasil. Disponível em: <http://www.atlasbrasil.org.br/2013/consulta/>. Acessos em: 22 fev. 2016.
Pá gina 60

Síntese da Unidade
Capítulo 1 Territórios e fronteiras

• A partir do esquema abaixo, escreva frases que sintetizem o conteú do do capítulo.


Territó rio, Estado, naçã o e fronteira

Estado-naçã o

Estado e produçã o do espaço

Desenvolvimento regional e planejamento

Capítulo 2 As grandes guerras e a reordenação do espaço mundial

• Com base nas informaçõ es do capítulo, preencha no caderno o quadro-síntese abaixo.


Primeira Guerra Mundial
Países envolvidos
Consequências
Período entre guerras
Principais fatos na América
Principais fatos na Europa
Segunda Guerra Mundial
Países envolvidos
Consequências

Capítulo 3 A geopolítica no pós-guerra

• Observe estas imagens e escreva um texto sintetizando os principais assuntos desenvolvidos no


capítulo.

Bettmann/Corbis/Fotoarena

Jawaharla Nehru (à esquerda) e Mahatma Gandhi (à direita), em Mumbai, Índia. Foto de 1946.
Allmaps/ID/BR

Fonte de pesquisa: Atlas geográfico escolar. 6. ed. Rio de Janeiro: IBGE, 2012. p. 43.

Capítulo 4 A geopolítica no Brasil

• Escreva no caderno pelo menos duas frases com cada palavra-chave ou expressã o abaixo,
sintetizando as informaçõ es do capítulo.

• Potência regional

• IDH

• Fatores geopolíticos

• Planejamento estatal

• Produçã o energética nacional

• Brasília

• Amazô nia Legal

• Arquitetura

• Megadiversidade

• Localizaçã o

• Fronteira

• Geopolítica
Pá gina 61

Vestibular e Enem
Atenção: todas as questões foram reproduzidas das provas originais de que fazem parte. Responda a todas as questões no caderno.

1. (PUC-RJ)

PUC-RJ/2008. Fac-símile: ID/BR

Fonte [de pesquisa disponível em]: <http://www.mundogeo.com.br>.

O processo de organizaçã o político-territorial dos Estados nacionais é bastante dinâ mico, na


histó ria das sociedades ocidentais.
No caso brasileiro, a reordenaçã o do seu espaço territorial poderá acarretar transformaçõ es
expressivas no contexto da representaçã o político-administrativa do país. A partir dessa
afirmaçã o, identifique e explique:
a) um impacto político sobre o poder pú blico brasileiro, na esfera federal, com a definiçã o dos
novos estados na macrorregiã o Norte do país;
b) um impacto sobre os recursos pú blicos dos estados nortistas do Pará e do Amazonas com a
consolidaçã o das novas organizaçõ es político-administrativas na regiã o.

2. (Ufal/PSS) “Os ú ltimos anos da década de [19]80 foram decisivos para determinar o final da
Guerra Fria.”
Apresente pelo menos 4 fatores que explicam esse fato.

3. (Enem) Em discurso proferido em 17 de março de 1939, o primeiro-ministro inglês à época,


Neville Chamberlain, sustentou sua posiçã o política:

Nã o necessito defender minhas visitas à Alemanha no outono passado, que alternativa existia?
Nada do que pudéssemos ter feito, nada do que a França pudesse ter feito, ou mesmo a Rú ssia, teria
salvado a Tchecoslová quia da destruiçã o. Mas eu também tinha outro propó sito ao ir até Munique.
Era o de prosseguir com a política por vezes chamada de “apaziguamento europeu”, e Hitler repetiu
o que já havia dito, ou seja, que os Sudetos, regiã o de populaçã o alemã na Tchecoslová quia, eram a
sua ú ltima ambiçã o territorial na Europa, e que nã o queria incluir na Alemanha outros povos que
nã o os alemã es.

Internet: <johndclaire.net> (com adaptaçõ es).


Sabendo-se que o compromisso assumido por Hitler em 1938, mencionado no texto, foi
rompido pelo líder alemã o em 1939, infere-se que:
a) Hitler ambicionava o controle de mais territó rios na Europa além da regiã o dos Sudetos.
b) a aliança entre a Inglaterra, a França e a Rú ssia poderia ter salvado a Tchecoslová quia.
c) o rompimento desse compromisso inspirou a política de apaziguamento europeu.
d) a política de Chamberlain de apaziguar o líder alemã o era contrá ria à posiçã o assumida
pelas potências aliadas.
e) a forma que Chamberlain escolheu para lidar com o problema dos Sudetos deu origem à
destruiçã o da Tchecoslová quia.

4. (Unicamp-SP) Em seu livro A capital da geopolítica, J. W. Vesentini elabora um mapa, como o


que é mostrado [...] [a seguir], localizando as instalaçõ es militares da regiã o de Brasília.

Unicamp-SP/1992. Fac-símile: ID/BR

Que preocupaçõ es estratégicas estã o representadas nessa organizaçã o espacial?

5. (Unicamp-SP) A queda do muro de Berlim, ocorrida no dia 9 de novembro de 1989, pode ser
considerada como um marco que separa duas épocas: a época de vigência da Ordem da Guerra
Fria e a época da assim chamada Nova Ordem Mundial.
a) Explique o que foi a Ordem da Guerra Fria.
b) Como a chamada Nova Ordem Mundial se diferencia da Ordem da Guerra Fria?
Pá gina 62

Vestibular e Enem
6. (UFSCar-SP) A industrializaçã o norte-americana começou no nordeste do país e se espalhou
pela regiã o dos Grandes Lagos, com setores como o siderú rgico, o naval e o automobilístico.

Esse foi, durante muito tempo, o padrã o espacial predominante nos Estados Unidos. Contudo,
com a revoluçã o técnico-científica e informacional, novos padrõ es de distribuiçã o industrial
foram produzidos, gerando um processo de descentralizaçã o e de reorganizaçã o territorial da
atividade produtiva. Considerando o processo descrito, responda:
a) Quais tipos de indú strias caracterizam o novo padrã o industrial americano?
b) Onde se localizam essas indú strias e quais fatores justificam tal localizaçã o?

7. (PUC-SP) Observe o mapa a seguir.

PUC-SP. Fac-símile: ID/BR

Fonte de pesquisa: REKACEWICZ, Philippe. Le Monde, maio 2000.

Como se observa, há uma situaçã o geral, no continente africano, de instabilidade democrá tica.
Sobre esse quadro, é correto afirmar que:
a) uma das causas dessa situaçã o é a ineficá cia do regime democrá tico para organizar a vida
em países pobres.
b) a democracia nã o se organiza no continente africano, mesmo com a substancial ajuda
financeira e apoio tecnoló gico dos ex-países colonizadores.
c) uma das causas dessa situaçã o é a herança colonial que legou à Á frica fronteiras políticas
que dividiram diferentes naçõ es e grupos étnicos africanos.
d) a resistência das sociedades africanas em se incorporar ao processo de globalizaçã o é a
grande responsá vel pela fragilidade democrá tica.
e) a descolonizaçã o tardia nã o é um fator da crise democrá tica, pois a longa permanência do
colonizador ampliou o tempo de contato com a democracia.

8. (Enem) Em dezembro de 1998, um dos assuntos mais veiculados nos jornais era o que
tratava da moeda ú nica europeia. Leia a notícia destacada abaixo.

O nascimento do Euro, a moeda ú nica a ser adotada por onze países europeus a partir de 1º de
janeiro, é possivelmente a mais importante realizaçã o deste continente nos ú ltimos dez anos que
assistiu à derrubada do Muro de Berlim, à reunificaçã o das Alemanhas, à libertaçã o dos países da
Cortina de Ferro e ao fim da Uniã o Soviética. Enquanto todos esses eventos têm a ver com a
desmontagem de estruturas do passado, o Euro é uma ousada aposta no futuro e uma prova da
vitalidade da sociedade Europeia. A “Euroland”, regiã o abrangida por Alemanha, Á ustria, Bélgica,
Espanha, Finlâ ndia, França, Holanda, Irlanda, Itá lia, Luxemburgo e Portugal, tem um PIB (Produto
Interno Bruto) equivalente a quase 80% do americano, 289 milhõ es de consumidores e responde
por cerca de 20% do comércio internacional. Com este cacife, o Euro vai disputar com o dó lar a
condiçã o de moeda hegemô nica.

Gazeta Mercantil, 30 dez. 1998.

A matéria refere-se à “desmontagem das estruturas do passado” que pode ser entendida como:
a) o fim da Guerra Fria, período de inquietaçã o mundial que dividiu o mundo em dois blocos
ideoló gicos opostos.
b) a inserçã o de alguns países do Leste Europeu em organismos supranacionais, com o intuito
de exercer o controle ideoló gico no mundo.
c) a crise do capitalismo, do liberalismo e da democracia levando à polarizaçã o ideoló gica da
antiga URSS.
d) a confrontaçã o dos modelos socialista e capitalista para deter o processo de unificaçã o das
duas Alemanhas.
e) a prosperidade das economias capitalista e socialista, com o consequente fim da Guerra Fria
entre EUA e URSS.

9. (Cesgranrio-RJ) A criaçã o de Brasília, na década de 60, representa uma açã o que teve fortes
conse - quên cias na organizaçã o do espaço brasileiro. Assinale a afirmativa que não
corresponde a este fato.
a) Colocou em pleno Planalto Central uma cidade, hoje com cerca de 1,5 milhã o de habitantes,
de alto poder de consumo, ampliando o mercado regional.
b) Permitiu melhor planejamento econô mico das diversas regiõ es brasileiras, feito de acordo
com as peculiaridades de cada á rea (Sudene, Sudam – por exemplo).
c) Gerou uma malha rodoviá ria, que dela parte e que permitiu a melhor integraçã o das
diversas regiõ es brasileiras e do conjunto do territó rio nacional.
Pá gina 63

Atenção: todas as questões foram reproduzidas das provas originais de que fazem parte. Responda a todas as questões no caderno.

d) Valorizou espaços como os do sul de Goiá s, Triâ ngulo Mineiro, leste de Mato Grosso, que
desenvolveram suas cidades e sua produçã o.
e) Facilitou, a longo prazo, a ocupaçã o agrícola das á reas dos cerrados, hoje um dos novos
espaços incorporados a uma agricultura mais moderna.

10. (Enem)

Os 45 anos que vã o do lançamento das bombas atô micas até o fim da Uniã o Soviética nã o foram um
período homogêneo ú nico na histó ria do mundo. […] dividem-se em duas metades, tendo como
divisor de á guas o início da década de 70. Apesar disso, a histó ria deste período foi reunida sob um
padrã o ú nico pela situaçã o internacional peculiar que o dominou até a queda da URSS.

HOBSBAWM, Eric J. Era dos extremos. Sã o Paulo: Companhia das Letras, 1996.

O período citado no texto e conhecido por “Guerra Fria” pode ser definido como aquele
momento histó rico em que houve:
a) corrida armamentista entre as potências imperialistas europeias ocasionando a Primeira
Guerra Mundial.
b) domínio dos países socialistas do Sul do globo pelos países capitalistas do Norte.
c) choque ideoló gico entre a Alemanha Nazista/ Uniã o Soviética Stalinista, durante os anos 30.
d) disputa pela supremacia da economia mundial entre o Ocidente e as potências orientais,
como a China e o Japã o.
e) constante confronto das duas superpotências que emergiram da Segunda Guerra Mundial.

11. (Unifesp) Nas ú ltimas décadas, as Forças Armadas brasileiras alteraram a distribuiçã o do
efetivo militar no país. Isso decorre da:
a) crise do Mercosul e do retorno das tensõ es entre vizinhos da bacia do Prata, como a
Argentina e o Uruguai.
b) legalizaçã o dos partidos de esquerda na década de 1980, que eliminou as guerrilhas
revolucioná rias que agiam nos centros urbanos do país.
c) identificaçã o de pontos do narcotrá fico na faixa litorâ nea do país, para atender o intenso
fluxo de turistas estrangeiros.
d) maior tolerâ ncia ao capital internacional desde o início da ditadura militar, agravada pela
globalizaçã o da economia.
e) escolha da Amazô nia para instalar uma estrutura de vigilâ ncia e defesa frente à ameaça de
ocupaçã o externa.

12. (Ufal/PSS)

Uma expansã o violenta por parte dos Estados, ou de sistemas políticos aná logos, da á rea territorial
da sua influência ou poder direto, e formas de exploraçã o econô micas em prejuízo dos Estados ou
povos subjugados, geralmente conexas com tais fenô menos...

O texto, de autoria de Norberto Bobbio, expressa o conceito de:


a) liberalismo.
b) dependência.
c) imperialismo.
d) socialismo.
e) globalizaçã o.
13. (Fuvest-SP)

Fosse com militares ou civis, a Á frica esteve por vá rios anos entregue a ditadores. Em alguns países,
vigorava uma espécie de semidemocracia, com uma oposiçã o consentida e controlada, um regime
que era, em ú ltima aná lise, um governo autoritá rio. A ú nica saída para os insatisfeitos e também
para aqueles que tinham ambiçõ es de poder passou a ser a luta armada. Alguns países foram
castigados por ferozes guerras civis, que, em certos casos, foram alongadas por interesses
extracontinentais.

COSTA E SILVA, Alberto da. A África explicada aos meus filhos. Rio de Janeiro: Agir, 2008. p. 139.

Entre os exemplos do alongamento dos conflitos internos nos países africanos em funçã o de
“interesses extracontinentais”, a que se refere o texto, pode-se citar a participaçã o:
a) da Holanda e da Itá lia na guerra civil do Zaire, na década de 1960, motivada pelo controle
sobre a mineraçã o de cobre na regiã o.
b) dos Estados Unidos na implantaçã o do apartheid na Á frica do Sul, na década de 1970,
devido à s tensõ es decorrentes do movimento pelos direitos civis.
c) da França no apoio à luta de independência na Argélia e no Marrocos, na década de 1950,
motivada pelo interesse em controlar as reservas de gá s natural desses países.
d) da China na luta pela estabilizaçã o política no Sudã o e na Etió pia, na década de 1960,
motivada pelas necessidades do governo Mao Tse-Tung em obter fornecedores de petró leo.
e) da Uniã o Soviética e Cuba nas guerras civis de Angola e Moçambique, na década de 1970,
motivada pelas rivalidades e interesses geopolíticos característicos da Guerra Fria.

14. (UFF-RJ) A respeito dos Estados Unidos e de seu papel na nova ordem mundial, é correto
afirmar que o país:
a) instituiu uma nova relaçã o de dependência com os países periféricos através do
fornecimento de matérias-primas.
b) consolidou sua liderança econô mica através da criaçã o de um bloco comercial com a
Europa.
c) construiu um bloco com os países da Á sia Oriental para manter seu controle econô mico
sobre o Japã o.
Pá gina 64

Vestibular e Enem
Atenção: todas as questões foram reproduzidas das provas originais de que fazem parte. Responda a todas as questões no caderno.

d) fortaleceu sua hegemonia político-militar em relaçã o à Europa e ao Japã o.


e) estabeleceu uma aliança militar com a Rú ssia para exercer sua hegemonia política nos
Balcã s.

15. (Unesp) Apó s a II Guerra Mundial, a Alemanha Ocidental recuperou-se em curto espaço de
tempo, transformando-se na mais importante potência econô mica da Europa.

Assinale a alternativa que mais corretamente explica as causas do crescimento da economia


alemã .
a) Abundâ ncia de recursos minerais, ajuda financeira dos Estados Unidos, criaçã o do Mercado
Comum Europeu, agricultura itinerante, grande fluxo migrató rio.
b) Existência de mã o de obra qualificada, reforma agrá ria, infraestrutura de transportes,
criaçã o do Mercado Comum Europeu, altas taxas de populaçã o rural.
c) Combustíveis fó sseis, qualificaçã o da mã o de obra, densa rede de transportes, recursos do
Plano Marshall, participaçã o do Mercado Comum Europeu.
d) Densa rede hidroviá ria, investimentos em pesquisa científica e tecnoló gica, qualificaçã o da
mã o de obra, altas taxas de natalidade.
e) Carvã o de excelente qualidade, petró leo em abundâ ncia, mã o de obra qualificada, tradiçã o
industrial, altos índices de desmatamento.

16. (UFRGS-RS) Considere as afirmaçõ es abaixo, sobre as fronteiras brasileiras.

I. A Zona Econô mica Exclusiva (ZEE) corresponde a 200 milhas marítimas, das quais 12 milhas
compreendem o mar territorial.
II. A Faixa de Fronteira é a faixa interna de 150 km de largura, paralela à linha divisó ria
terrestre do territó rio nacional, que engloba a á rea total ou parcial dos municípios brasileiros.
III. A legislaçã o brasileira atual considera territó rio nacional as á reas de propriedade de
brasileiros natos em países limítrofes ao Brasil.

Quais estã o corretas?


a) Apenas I.
b) Apenas II.
c) Apenas I e II.
d) Apenas II e III.
e) I, II e III.

17. (UFPE) Essa organizaçã o foi um acordo militar ocorrido em 1949, entre Estados Unidos,
Canadá , Islâ ndia, Portugal, França, Reino Unido, Holanda, Bélgica, Itália, Dinamarca, Noruega e
Luxemburgo, com a finalidade de defesa e auxílio mú tuo, em caso de ataque a um dos países-
membros. Sua primeira intervençã o armada aconteceu na Guerra da Bó snia. A denominaçã o
correta dessa organizaçã o é:
a) ONU.
b) Otan.
c) OEA.
d) Pacto Centro-europeu.
e) Pacto de Varsó via.
18. (UFPel-RS) Observe o quadro apresentado a seguir.

Taxa de crescimento do PIB na África Subsaariana (média anual em %)


Países selecionados 1980-1990 1990-2000 2000-2005
Angola 3,5 1,6 9,1
Moçambique — 0,1 6,4 8,6
Sudão 2,3 5,4 6,1
Nigéria 1,6 2,5 5,9
Ruanda 2,2 — 0,3 4,9
República Democrática 1,6 — 4,9 4,4
do Congo
África do Sul 1,0 2,1 3,7
República Centro-- 1,4 2,0 — 1,4
Africana
Zimbábue 3,6 2,1 — 6,1

Fontes de pesquisa: World Development Indicators 2005 e 2006. World Bank; World Development Report 2007. World Bank.

Para crescer no processo de globalizaçã o, é necessá rio que o país “candidato” preencha certos
requisitos obrigató rios: sã o necessá rios recursos técnicos, econô micos, sociais, políticos e
culturais. Assim há países que ficam fora desse processo de crescimento. É correto afirmar que
sã o características do continente africano, no contexto histó rico da globalizaçã o, exceto:
a) uma longa desestruturaçã o social e econô mica, resultante da colonizaçã o europeia nos
séculos XV ao XIX, que marcou o continente com guerras civis e conflitos étnicos e religiosos.
b) a existência de fronteiras artificiais impostas pelos países colonizadores europeus
(Conferência de Berlim 1884-1885), que nã o levaram em conta os territó rios das tribos e das
etnias nativas.
c) um processo de descolonizaçã o na segunda metade do século XX que não alterou o papel da
Á frica na divisã o internacional do trabalho: seus países continuaram como fornecedores de
produtos primá rios.
d) uma das mais elevadas taxas de crescimento apresentada pela Á frica, entre as regiõ es que
compõ em o mapa do Banco Mundial, na primeira metade da década de 2000. Embora seja um
crescimento ainda desigual, é indicador de gradativa entrada do continente no mapa do
capitalismo organizado.
e) a entrada do continente no mapa do capitalismo globalizado, tirando-o da exclusã o, que se
deve em grande parte ao crescente interesse da China. Esse país, em troca de financiamentos e
acordos comerciais, nã o impõ e nenhuma contrapartida para a realizaçã o de seus
investimentos.
Pá gina 65

Geografia e Arte
Bombas e tintas
[…] o bombardeio de Guernica, ocorrido em 26 de abril de 1937, foi o prelú dio para outros
episó dios parecidos, promovidos pelos dois lados envolvidos na Segunda Grande Guerra.
Amplamente registrado pelos correspondentes internacionais que cobriam a guerra civil
espanhola, o episó dio foi eternizado no famoso quadro de Pablo Picasso.

[…]

Os protagonistas do bombardeio foram aviadores da Alemanha e da Itá lia, países aliados do


general espanhol Francisco Franco, e o planejamento do ataque é atribuído a Wolfram von
Richthofen (primo menos famoso do lendá rio Barã o Vermelho). Apesar de representar pouco
valor militar, Guernica era uma importante referência para o povo basco, que lutava pela causa
republicana. O episó dio também serviu para ensaiar novos sistemas de bombardeio, conforme
admitiu Hermann Goering, comandante da Luftwaffe (a força aérea alemã ), durante o
julgamento de Nuremberg.

Apesar de ter deixado o mundo estarrecido, o que imortalizou o ataque talvez nã o tenham sido
explosõ es e chamas, mas tinta e genialidade. O repú dio provocado pelas notícias fez Picasso
aceitar o convite republicanopara pintar uma obra que mostrasse o horror da guerra. Guernica
traz dor e agonia em formas dramá ticas e violentas e foi exibido na Exposiçã o Internacional em
Paris, ainda em 1937. Porém, o quadro demoraria quase 50 anos para chegar à Espanha,
somente apó s a queda da ditadura. Hoje, encontra-se no Museu Reina Sofia, em Madri.

Instituto Ciência Hoje. Disponível em: <http://cienciahoje.tumblr.com/post/21879714576/bombas-e-tintas-ha-exatos-75-anos-o-


mundo>. Acesso em: 22 fev. 2016.

© Jimmy Villalta/Age Fotostock/Easypix Brasil


SuperStock/Glow Images

No ó leo sobre tela Guernica (349,3 cm × 776 cm), de 1937, Picasso utilizou apenas o preto, o branco e alguns tons de
cinza, criando detalhes impressionantes. Há imagens de desespero e impotência, como a de uma mulher que segura
uma criança e olha para cima. Parece querer localizar de onde vêm as bombas. Na foto de cima, visitantes do museu
Reina Sofia em Madri, Espanha. Foto de 2013.

Atividades

1. Observe com atençã o a foto que retrata a obra Guernica, de Picasso. Depois, discuta com os
colegas o que você sente e pensa sobre essa obra. Que “personagens” você distingue nela? O
que eles podem significar? Expresse livremente sua opiniã o.

2. Quem foi Pablo Picasso? Quais foram as principais influências em sua arte? Em grupo,
pesquise e escreva sobre a vida de Pablo Picasso. Faça cartazes e apresente-os à turma.

3. Pesquise em jornais, revistas e na internet: Por que Guernica levou quase 50 anos para
chegar à Espanha?
Pá gina 66

Projeto
Infográfico: povos apátridas, refugiados e deslocados
internos
O que você vai fazer

Neste projeto, você e os colegas vã o elaborar um infográ fico sobre a situaçã o e


distribuiçã o dos povos apá tridas, dos refugiados e dos deslocados internos por
guerras e conflitos. Tais problemas atingem uma parte significativa da populaçã o
mundial e sã o motivados por conflitos internos e externos aos países onde ocorrem.
Entre suas causas, encontram-se questõ es étnicas, políticas, religiosas e ambientais.

Vocês terã o como objetivo pesquisar as causas e as consequências da apatridia e dos


deslocamentos forçados a fim de obter uma visã o geral sobre esse tema por meio do
levantamento de dados e de um mapeamento.

A elaboraçã o do projeto contará com as etapas descritas a seguir.

1. Levantamento de dados

Organizem-se em grupos. Cada grupo ficará responsá vel pela elaboraçã o de um


infográ fico que apresente uma breve descriçã o e dados sobre o tema escolhido.

Consultem sites, jornais, documentá rios, livros, artigos científicos e relató rios de
organizaçõ es internacionais. Publicaçõ es e sites de ó rgã os internacionais, como a ONU,
sã o os mais indicados.

2. Escolha do tema

As causas que levam ao deslocamento forçado de pessoas de suas á reas de origem sã o


diversas. Para eleger o tema de trabalho, seu grupo deve optar por um dos fenô menos
apresentados a seguir e definir um recorte espacial: um continente, uma regiã o ou um
país.

• Apatridia – condiçã o do indivíduo que se vê sem proteçã o de um Estado nacional por


ter nascido sem nacionalidade, por ter sua nacionalidade retirada pelo Estado, por nã o
ter sua condiçã o cidadã reconhecida quando há conflitos entre Estados ou quando um
Estado se torna independente.

• Refú gio – circunstâ ncia daquele que se desloca para outro país, ao qual solicita
proteçã o ao fugir de guerras ou por temer perseguiçõ es que têm a etnia, a religiã o, a
nacionalidade ou motivos políticos como fator de discriminaçã o.
• Deslocamento interno – situaçã o das pessoas que exigem auxílio e proteçã o ao fugir
de conflitos ou desastres naturais dentro das fronteiras de seu país.

Leia
Atlas dos conflitos mundiais, de Dan Smith. Sã o Paulo: Companhia Editora Nacional, 2007.
Tendências globais 2009: refugiados, solicitantes de refúgio, repatriados, pessoas deslocadas, do Alto Comissariado das
Naçõ es Unidas para Refugiados (Acnur). Disponível em: <http://linkte.me/tgacnur>. Acesso em: 23 fev. 2016.
Doze milhões de apátridas vivem em limbo geral, do Acnur. Disponível em: <http://linkte.me/infacnur>. Acesso em: 23
fev. 2016.

Navegue
Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (Acnur)
O site traz documentos, relató rios e estudos estatísticos relativos, com dados e informaçõ es sobre refugiados e apá tridas no
Brasil e no mundo. Disponível em: <http://linkte.me/acnurpt>. Acesso em: 23 fev. 2016.
Pá gina 67

3. Elaboração do infográfico

Com os dados coletados, elaborem um mapa da regiã o escolhida em um cartaz.


Destaquem e identifiquem os locais de origem do fenô meno pesquisado e criem uma
legenda.

Elaborem pequenos textos descritivos sobre o tema estudado, posicionando-os


corretamente no cartograma. Linhas e setas podem ser ú teis para evidenciar a
correspondência entre textos e a localizaçã o dos fenô menos. Os textos devem
apresentar comentários acerca das causas e consequências do caso abordado, além de
apresentar datas e dados estatísticos que auxiliem a compreender o tema.

Na parte superior do infográ fico, adicionem um pequeno texto de apresentaçã o que


destaque a relevâ ncia do fenô meno estudado no mundo atual. Na parte inferior,
incluam grá ficos, tabelas ou mapas complementares. Fotos e ilustraçõ es também sã o
ú teis para incrementar visualmente o infográ fico e podem ser aproveitadas na
exploraçã o de exemplos.

Má rio Kanno /ID/BR

Observe, neste exemplo, a variedade e a disposiçã o de elementos no infográ fico. Sobre o mapa, estã o dispostos
grá ficos de diferentes tipos e textos que auxiliam a compreensã o do tema pelo leitor.

Nã o se esqueçam de inserir:

• um título para o infográ fico;

• as fontes dos dados apresentados;

• as datas correspondentes aos dados e imagens;


• a rosa dos ventos;

• se possível, a escala do mapa.

4. Exposição dos infográficos e análise dos resultados

Apó s a confecçã o dos infográ ficos, montem uma exposiçã o agrupando os cartazes de
acordo com a regiã o do mundo representada.

Examinem atentamente os dados apresentados nos infográ ficos. Utilizem seus


conhecimentos para refletir sobre as causas e consequências dos fenô menos
abordados por cada grupo. Redijam um texto analítico sobre os deslocamentos
forçados no mundo, com base nas informaçõ es e nos dados exibidos nos cartazes.
Destaquem a distribuiçã o espacial desses fenô menos, os principais casos e as reflexõ es
do grupo sobre o assunto.
Pá gina 68

A nova ordem
UNIDADE 2

internacional
NESTA UNIDADE
5 Globalização
6 Diferentes dimensões da globalização
7 A formação dos blocos econômicos
8 As grandes potências globais

A globalização está associada a uma grande interdependência de


países, à diminuição das distâncias espaciais e à evolução das
tecnologias de transporte e comunicação.

Já se tornou clássico o exemplo de que, em 1865, a notícia da morte de


Abraham Lincoln, então presidente dos Estados Unidos, levou 13 dias
para chegar à Europa. Já os eventos que cercaram a morte de Michael
Jackson, em 2009, foram transmitidos ao vivo para quase todo o
mundo.

As tecnologias de informação – constituídas por diferentes sistemas de


transmissão, armazenamento e processamento de informações por
meios eletrônicos – permitem a transmissão quase instantânea de
dados para o mundo todo. Assim, as transações financeiras e a
prestação de serviços adquiriram escala global e estabeleceram
conexões entre diferentes locais.

Sob o comando do neoliberalismo, a globalização também fragilizou


economias tradicionais e gerou desemprego e exclusão, entre outros
malefícios.

QUESTÕES PARA REFLETIR

1. Em sua opiniã o, os países se inserem por igual no processo de globalizaçã o? Por


quê?

2. Qual é a relaçã o entre a situaçã o mostrada na imagem e a globalizaçã o?


Pá gina 69

South America/Alamy/Fotoarena

Contêineres em porto da cidade de Buenos Aires, Argentina. Foto de 2016.


Pá gina 70

CAPÍTULO 5 Globalização
O QUE VOCÊ VAI ESTUDAR
A globalizaçã o e a evoluçã o da economia globalizada.
A concentraçã o do capital.
A ocidentalizaçã o do mundo.
A globalizaçã o financeira.

Imagine um carro de uma empresa dos Estados Unidos, projetado por um arquiteto italiano, montado no Brasil
com autopeças chinesas e comercializado em países do Mercosul. Ou, entã o, uma teleconferência entre um
presidente de empresa na França, um diretor canadense e executivos mexicanos. Na pauta, a estratégia de
corte de funcioná rios na filial brasileira. Esses sã o dois exemplos de situaçõ es relacionadas ao processo de
globalização ou mundialização.

O comércio entre as diversas regiõ es do mundo ocorre desde as Grandes Navegaçõ es, no fim do século XV.
Mas, naquele momento, muitas á reas ainda estavam fora do mercado capitalista global e as viagens entre
diferentes pontos do mundo eram longas.

O avanço da globalizaçã o deu-se apó s o fim da Guerra Fria. A conversã o de países ex-socialistas à economia de
mercado permitiu que passasse a existir, de fato, um sistema econô mico integrando a maior parte do globo
terrestre. Outro fator foi o avanço da informá tica e dos meios de transporte, que facilitou, como nunca na
histó ria, a circulação internacional de informaçõ es, produtos, capitais, serviços e pessoas.

Os processos envolvidos na globalizaçã o nã o seriam possíveis sem o avanço das tecnologias de informação. A
internet teve um papel fundamental, por permitir a comunicaçã o entre pessoas e empresas, facilitando a
circulaçã o internacional de capitais e a prestaçã o de serviços. Atualmente, cerca de 99% do fluxo internacional
de dados telefô nicos, de internet e televisã o circula pelo globo por meio de cabos submarinos de fibra ó ptica.

João Miguel A. Moreira/ID/BR

Fonte de pesquisa: TeleGeography. Submarine Cable Map. Disponível em: <http://www.submarinecablemap.com>. Acesso em: 24
fev. 2016.
Observe o mapa acima e responda às questõ es.

1. Quais á reas apresentam maior concentraçã o de rede de cabos submarinos de fibra ó ptica? O que isso
representa?

2. Quais sã o as conexõ es do Brasil e onde estã o os pontos de confluência da rede no país?


Pá gina 71

Os principais fundamentos e atores da globalização

O capitalismo trilhou um longo percurso até atingir o que hoje chamamos de globalização, ou
seja, a crescente interdependência das economias de todos os países. Embora os fundamentos
desse sistema político-econô mico, como a propriedade privada dos meios de produçã o e a
busca de lucro, nã o tenham sido substancialmente alterados, o papel do Estado e as condiçõ es
geopolíticas e tecnoló gicas passaram por grandes mudanças.

O avanço das tecnologias de transporte e informaçã o “encurtou” as distâ ncias e mudou a


geografia do planeta.

Entre os fundamentos do processo de globalizaçã o, estã o:

• o grande avanço dos transportes e das tecnologias de informaçã o;

• a integraçã o mundial da produçã o e do consumo;

• a grande expansã o do comércio internacional;

• o fluxo intenso de informaçõ es em quase todo o mundo;

• a formaçã o ou a consolidaçã o de blocos econô micos regionais de países;

• as tendências de padronizaçã o de equipamentos e de homogeneidade cultural;

• o acirramento da concorrência entre empresas, países e blocos econô micos.

Entre os atores principais destacam-se os Estados nacionais; as multinacionais; os organismos


internacionais (a Organizaçã o das Naçõ es Unidas, a Organizaçã o Mundial do Comércio e o
Fundo Monetá rio Internacional, por exemplo); as ONGs e os movimentos sociais.

Nas fases mais recentes da globalizaçã o, os Estados Unidos estiveram na liderança da


economia mundial (veja o mapa). Esse papel acentuou-se a partir da Segunda Guerra Mundial
(1939-1945), que provocou o enfraquecimento dos países europeus, enquanto os EUA
planejavam estratégias para tornarem-se líderes na nova ordem econô mica mundial.

A Conferência de Bretton Woods, realizada nos Estados Unidos em 1944, definiu as bases do
sistema econô mico-financeiro internacional: criou o Fundo Monetá rio Internacional (FMI), o
Banco Mundial ou Banco Internacional para a Reconstruçã o e o Desenvolvimento (Bird) e o
Acordo Geral de Tarifas e Comércio (GATT), a partir do qual seria constituída, em 1995, a
Organizaçã o Mundial do Comércio (OMC).

Todas essas organizaçõ es foram concebidas para manter a saú de financeira da economia
capitalista internacional e evitar crises graves como a que sucedeu à Quebra da Bolsa de Nova
York, em 1929. A missã o do FMI é conceder empréstimos a países-membros cujo
endividamento possa comprometer o equilíbrio econô mico. O Banco Mundial concede
empréstimos a programas sociais e de infraestrutura; a OMC regula o comércio internacional e
atua como á rbitro dos conflitos comerciais entre países e entre blocos regionais.
A criaçã o dessas instituiçõ es serviu também para traçar políticas econô micas que envolviam os
países capitalistas periféricos, criando um ambiente favorá vel ao grande capital e à atuaçã o de
empresas que passaram a operar em diversos países do mundo – asmultinacionais.

João Miguel A. Moreira/ID/BR

Fonte de pesquisa: FT Global 500 2014. Financial Times. Disponível em: <http://www.ft.com/intl/cms/s/0/988051be-fdee-11e3-
bd0e-00144feab7de.html#axzz41Ct67tW2>. Acesso em: 25 fev. 2016.
Pá gina 72

Os grandes grupos econômicos globais

O nú mero de empresas que operam internacionalmente, as chamadas multinacionais ou


transnacionais, aumentou muito nas ú ltimas décadas. O cená rio de sua expansã o foi o
período de paz entre as principais potências econô micas apó s a Segunda Guerra Mundial.
Apesar das tensõ es da Guerra Fria e de conflitos regionais, as grandes empresas industriais e
financeiras montaram filiais em diversos países e obtiveram lucros gigantescos.

No pó s-guerra, os Estados Unidos investiram pesadamente na recuperaçã o econô mica da


Europa Ocidental e do Japã o, empregando uma estratégia de fortalecimento do sistema
capitalista. Segundo o historiador Eric Hobsbawm, apó s o conflito, as empresas estadunidenses
com filiais no exterior passaram de 7,5 mil, em 1950, para mais de 23 mil, em 1966.

As empresas perceberam que, para entrar em mercados nã o atendidos por suas exportaçõ es, o
ideal seria estarem presentes em outros países. Isso se deu por meio do investimento
estrangeiro direto.

Um exemplo histó rico é o de uma indú stria automobilística alemã que, atendendo ao pedido do
presidente Juscelino Kubitschek, montou uma fá brica no Brasil, no fim dos anos 1950. Nessa
época, a economia brasileira era bastante protecionista, isto é, fechada à importaçã o de bens
de consumo.

Protecionismo: mecanismo de proteçã o econô mica que pode ser adotado pelos Estados a fim de evitar ou reduzir a
concorrê ncia com produtos estrangeiros. Pode basear-se em medidas como: a elevaçã o da tarifaçã o sobre produtos
estrangeiros, a concessã o de subsídios (ajuda governamental) à s empresas nacionais, o estabelecimento de cotas de
importaçã o e até mesmo a proibiçã o da importaçã o de determinado produto.

Apesar do surgimento de companhias internacionais nos países emergentes, o maior nú mero


de multinacionais ainda se concentra na chamada tríade do mundo desenvolvido: América
Anglo-Saxô nica, Europa Ocidental e Japã o (reveja o mapa na pá gina anterior).

Embora atuem em numerosos países, as multinacionais centralizam o poder decisó rio e o


planejamento de suas operaçõ es no país-sede. Uma grande indú stria suíça, considerada uma
das companhias mais internacionalizadas do mundo, tem 95% de seus empregados fora da
Suíça. Entretanto, sua administraçã o e seus principais acionistas estã o concentrados no país de
origem.
Eduardo Zappia/Pulsar Imagens

Indú stria automobilística multinacional em Resende (RJ). Foto de 2015.

CONEXÃO

Ciberbullying – a violência se espalha na rede

Bullying é uma palavra inglesa que significa “intimidaçã o”. Ele se desenvolve com base em relaçõ es
desiguais de poder em que uma pessoa sofre uma agressã o intencional (física, moral ou material).
Pode acontecer no ambiente escolar ou de trabalho e em outras relaçõ es interpessoais.

Os protagonistas do bullying sã o a vítima, o agressor e os espectadores, que assistem à agressã o e


podem mesmo participar dela ou incentivá -la. A vítima é humilhada, ridicularizada e muitas vezes
caluniada, resultando dessa situaçã o a insegurança e o constrangimento. O bullyingé um problema
antigo, mas recentemente a tecnologia da informaçã o renovou essa prá tica. E-mails ameaçadores,
fotos e textos com o objetivo de constranger a vítima e mensagens negativas em redes sociais
formam o que se denonima cyberbullying.

O aumento do nú mero de casos de violência desse tipo no Brasil levou à elaboraçã o da Lei n. 13
185, que instituiu o Programa de Combate à Intimidaçã o Sistemá tica (Bullying).

Mais do que leis, no entanto, o importante é que o grupo no qual ocorre uma situaçã o de bullying
assuma uma atitude de nã o violência, combatendo todas as formas de rejeiçã o, preconceito e
intimidaçã o.

1. A globalizaçã o expandiu o acesso à rede mundial de internet e o compartilhamento de


informaçõ es. Nota-se também que alguns comportamentos sociais hostis foram reinventados e
atingem um maior nú mero de pessoas. Com um grupo de colegas, discuta a prá tica de bullying no
contexto escolar e as formas de superar esse problema.
Pá gina 73

A concentração do capital

O processo de fusã o de empresas tem sido uma tendência do capitalismo desde o século
passado. Em quase todos os campos nota-se a presença de grandes grupos econô micos capazes
de controlar os mercados. Algumas formas de organizaçã o das empresas sã o:

• Truste. Caracteriza-se pela fusã o de empresas, criando grupos que tendem a monopolizar
mercados e a regular o preço dos produtos.

• Cartel. Consiste na associaçã o de empresas que definem preços e repartem mercados (em
geral, por meio de acordos secretos entre elas).

• Oligopólio. O mercado é controlado por um grupo reduzido de empresas que atua em


determinados setores, limitando o grau de concorrência.

• Monopólio. Domínio de uma empresa privada ou estatal que controla totalmente um


mercado.

• Holding. Grupo empresarial que controla açõ es de vá rias empresas.

As grandes empresas tendem a estruturar-se sob a forma de conglomerados. Atuando em


ramos diversos, elas reduzem bastante seus riscos, já que, quando um setor quebra,
dificilmente todos os setores da economia enfrentam crise. Esses grandes grupos,
especialmente os asiá ticos, estã o mais presentes no segmento automobilístico, mas também
atuam nos segmentos de eletroeletrô nicos, má quinas, componentes aeroná uticos, material
escolar, bancos, entre outros.

A integraçã o dos processos produtivos e o avanço das tecnologias de informação


estimularam as transaçõ es dentro da mesma empresa ou em redes por elas formadas. As
multinacionais aumentaram sua influência na economia global por meio de trocas diretas
entre a matriz e suas filiais ou subsidiá rias. A atuaçã o dessas empresas apresenta grande
permeabilidade à s fronteiras nacionais e, muitas vezes, elas escapam das regras econô micas
impostas pelos Estados.

Assista
Uma empresa decente. Direçã o de Thomas Balmè s, Finlâ ndia/ França, 2004, 79 min.
O documentá rio discute os limites é ticos da atuaçã o de empresas transnacionais no contexto da globalizaçã o.

O Brasil no jogo global


O Brasil é o segundo maior exportador e importador de bens da América Latina, ficando atrá s
apenas do México. Em termos mundiais, a participaçã o do país ainda é modesta. Em 2014, as
exportaçõ es brasileiras representaram 1,2% do mercado mundial, percentual muito pró ximo
ao de 2005 (1,1%). É quase a mesma fatia do mercado exportador ocupada pela Tailâ ndia e
pela Polô nia, países de importâ ncia econô mica menor que a do Brasil.

Por outro lado, as grandes empresas nacionais atuam cada vez mais no exterior,
transformando-se também em multinacionais.
As principais multinacionais brasileiras operam negó cios principalmente no setor industrial e
têm destaque nas á reas de tecnologia de informaçã o, comunicaçã o, alimentos e bebidas,
siderurgia, metalurgia, construçã o, veículos, aeronaves, calçados, tecidos e no setor financeiro
(bancos e seguradoras).

João Miguel A. Moreira/ID/BR

Fonte de pesquisa: Fundaçã o Dom Cabral (FDC). Ranking FDC das Multinacionais Brasileiras 2015. Disponível em:
<https://www.fdc.org.br/blogespacodialogo/Documents/2015/ranking_fdc_multinacionais_brasileiras2015.pdf>. Acesso em: 26
fev. 2016.

A fonte considera multinacionais do Brasil as “empresas de capital e controle majoritariamente brasileiro que desenvolvam
atividades internacionais de manufatura, montagem e prestaçã o de serviços ou que possuam centros de pesquisa e desenvolvimento,
agências bancá rias, franquias, escritó rios comerciais, depó sitos e centrais de distribuiçã o no exterior”.
Pá gina 74

A ocidentalização do mundo

O termo “Ocidente” tem um significado que vai além da simples referência ao sentido oeste da
rosa dos ventos. O chamado mundo ocidental identifica-se com a civilizaçã o construída pelos
europeus desde a Grécia e Roma antigas e que, com as Grandes Navegaçõ es, influenciou
diversas regiõ es do mundo. Assim, é possível reconhecer aspectos da cultura ocidental no
Japã o, embora o país esteja localizado no Oriente, em razã o de seu alinhamento político e
econô mico com a Europa Ocidental e os Estados Unidos apó s a Segunda Guerra Mundial.

A ocidentalizaçã o do mundo decorreu, portanto, da incorporaçã o de territó rios de todos os


continentes ao capitalismo europeu. As grandes empresas estenderam seus domínios sobre o
globo e esse movimento foi acompanhado de grande tendência de padronizaçã o de há bitos
culturais e de consumo. A literatura, o teatro e o cinema da Europa e dos Estados Unidos
tiveram papel decisivo nesse aspecto. A presença das multinacionais e de seus produtos
também contribuiu para essa situaçã o.

No atual cená rio da globalizaçã o, as forças da ocidentalizaçã o intensificaram-se em


decorrência do avanço das tecnologias de informaçã o. No entanto, muitas vezes, a força das
culturas locais é capaz de se opor à imposiçã o da cultura ocidental. O mundo islâ mico, um arco
que se estende desde a Á frica Setentrional, passando pelo Oriente Médio e por diversos países
da Á sia, é o melhor exemplo dessa resistência (veja o mapa na pá gina seguinte).

O local e o global
O confronto entre comunidades locais e as forças globalizantes nunca foi tã o intenso como
atualmente. Os Estados Unidos sã o os principais difusores da cultura ocidental. Porém, até
mesmo suas poderosas empresas precisam, à s vezes, adaptar-se aos imperativos das culturas
locais onde atuam. Grandes redes de fast-food (comida rá pida, servida em lanchonetes), ao se
instalarem na Índia, por exemplo, adaptam seu cardá pio, já que os indianos nã o comem carne
bovina, e a globalizaçã o nã o conseguiu mudar os fundamentos dessa cultura.

Como em alguns segmentos a globalizaçã o pode ser uma via de mã o dupla, o Ocidente nunca
teve tanta informaçã o e acesso à s mais diversas culturas de todos os continentes e regiõ es.

David Bokuchava/Shutterstock.com/ID/BR

Nessa vista de Mangalore, na Índia, é possível observar elementos da cultura ocidental, como a publicidade em
outdoors. Foto de 2015.
Leia
Técnica, espaço, tempo: globalização e meio técnico-científico informacional, de Milton Santos. Sã o Paulo: Edusp, 2004.
Nesse livro, o geó grafo Milton Santos estabelece importantes crité rios para a aná lise das dinâ micas espaciais transformadas
pela globalizaçã o.
Pá gina 75

SAIBA MAIS

Os indianos e a globalização

“[...] Hoje temos ar-condicionado em todo lugar e é tudo bem mobiliado, e nã o somos os ú nicos
que demos certo.” [diz Shyama Bharti, uma indiana nascida numa aldeia perto de Délhi]. Toda
manhã e toda tarde Shyama vai até a pequena sala com um altar atrá s da cozinha para
agradecer a Ganesha, o deus-elefante. [...] Shyama diz que o país lhe deu muito e que agora é
sua vez de retribuir. Shyama tem um orgulho enorme de seus filhos. O mais velho também
escolheu uma carreira no serviço pú blico e foi aceito no prestigioso Serviço Administrativo
Indiano, que só admite 300 candidatos por ano. Quando a nomeaçã o foi anunciada no jornal,
Shyama e seu marido foram inundados – para deleite dela – com ofertas de noivas para o
rapaz. Mas e o amor? “Os indianos não apreciam os casamentos por amor”, diz. “Preferem
casamentos arranjados. É mais seguro.” O casamento dela também foi arranjado. As tradiçõ es
da Índia não estã o desaparecendo com seu sucesso econô mico. Na verdade, os jornais
registram uma nova tendência: famílias de classe média que se arruínam financeiramente para
pagar o dote de suas filhas. A família da noiva de seu filho pagou um dote? “Nã o aceitamos”, diz
Shyama. “Só as pessoas mesquinhas fazem isso.” Ela e o marido escolheram uma bela garota
para seu filho. [...]

ROHR, Mathieu von. Índia: a potência mundial do futuro faz 60 anos. Disponível em:
<https://noticias.uol.com.br/midiaglobal/derspiegel/2007/08/10/ult2682u535.jhtm>. Acesso em: 26 fev. 2016.

Integração econômica × fragmentação cultural


Uma evidente contradiçã o do atual cená rio global é a persistência de movimentos separatistas
dentro dos Estados nacionais, enquanto estes atuam no sentido da integraçã o econô mica. Os
exemplos dessa contradiçã o se multiplicam pelo mundo.

No Canadá , os habitantes da província de Quebec, de língua francesa, não deixaram de pensar


em separatismo. A pró pria Bélgica, que sedia instituiçõ es da Uniã o Europeia, é dividida em
duas re giõ es que entram em conflito por serem de ori gens culturais diferentes: Flandres, no
norte, onde se fala flamengo, e Valô nia, no sul, em que se fala francês. A Índia, país em ascensã o
na globalizaçã o econô mica, é marcada por graves conflitos entre hindus, muçulmanos e sikhs.

Sikh: grupo é tnico-religioso com intençõ es separatistas que habita a regiã o de Punjab, na Índia, e representa cerca de 8% da
populaçã o indiana.

A liçã o que se extrai desses casos é que aspectos culturais ainda têm forte influência no cená rio
global. Ou seja, o mundo é apenas parcialmente comandado pelo poder do dinheiro ou da força
econô mica.

As causas dos grandes conflitos atuais


Nos anos 1990, o cientista político estadunidense Samuel Huntington, autor do livro O choque
de civilizações, previu que, apó s a Guerra Fria, os conflitos internacionais nã o mais seriam
disputas entre Estados nacionais, mas guerras provocadas por diferenças culturais e religiosas
entre as grandes civilizaçõ es.
A ideia de Huntington ganhou força depois dos atentados de 11 de setembro de 2001,
quando ataques atribuí dos à organizaçã o terrorista Al-Qaeda destruíram as torres gêmeas do
World Trade Center (símbolo do poder econô mico em Nova York) e atacaram o Pentá gono
(Departamento de Defesa dos Estados Unidos), em Washington. As guerras subsequentes ao
atentado, no Afeganistã o e no Iraque, além do fortalecimento de políticas anti-imigraçã o nos
Estados Unidos e na Europa, também contribuíram para a repercussã o das análises de
Huntington.

Por outro lado, os atentados terroristas aos Estados Unidos têm fundo político e econô mico.
Também os interesses estadunidenses no Oriente Médio têm motivos que vã o além das
diferenças culturais e envolvem aspectos econô micos. Por isso, muitos teó ricos colocam em
dú vida a teoria de Huntington e afirmam que ela encobre os reais motivos dos conflitos.

Por essa outra visã o, os grandes conflitos atuais, de maneira geral, continuam a ser motivados
muito mais por fatores políticos e econô micos, que opõ em um Estado a outro, do que por
questõ es predominantemente culturais. A Ará bia Saudita e o Paquistã o, por exemplo, apesar
de fazerem parte do mundo islâ mico, sã o aliados dos Estados Unidos nos conflitos do Iraque e
do Afeganistã o. A pró pria Al-Qaeda nã o representa um determinado país, tampouco toda a
cultura islâ mica.

Assista
Babel. Direçã o de Alejandro Gonzá lez Iñ á rritu, França/EUA/Mé xico, 2006, 143 min.
Gravado em quatro países, o filme mostra como um fato aparentemente isolado afeta a vida de pessoas em pontos diferentes
do mundo.
Pá gina 76

A globalização financeira

Nã o é difícil perceber a rede de relaçõ es financeiras que abrange todo o planeta. A circulaçã o
de capitais, também chamada de ciranda financeira, acelerou com as tecnologias de
informaçã o, que possibilitaram as transferências virtuais de dinheiro.

Hoje, investidores dos países mais desenvolvidos podem transferir rapidamente parte de seus
recursos para países emergentes, onde as taxas de juros costumam ser vantajosas. Podem
também retirar o dinheiro desses países do dia para a noite, gerando instabilidades
econô micas.

Investidores estrangeiros compram açõ es de empresas brasileiras, que vendem commodities


para os países desenvolvidos e para a China; chineses compram títulos (papéis negociados na
bolsa de valores) do governo dos Estados Unidos, que importa bilhõ es de dó lares em produtos
chineses. Toda a atividade econô mica depende do crédito de bancos nacionais e internacionais.
Basta retirar uma peça para gerar desequilíbrios nessa complexa rede financeira.

A globalizaçã o financeira possibilita a transferência de um substancial volume de capital do


mundo rico para os países emergentes. Esse capital passa a integrar as reservas financeiras
desses países, o que pode beneficiá -los. O problema é que nã o há garantias de que os recursos
permaneçam aplicados neles por um tempo maior. É o que se chama de volatilidade.

A liberalização do sistema financeiro atual


Com a falência dos regimes socialistas, ganharam força as ideias neoliberais, base de
sustentaçã o do processo de mundializaçã o. Elas foram defendidas no Consenso de
Washington, série de reuniõ es realizadas no início da década de 1990 com representantes do
governo dos Estados Unidos e de organismos internacionais, que chegaram a um consenso
quanto a vá rias medidas.

Entre essas medidas figuravam a diminuiçã o da participaçã o do Estado na economia; a


privatizaçã o de empresas estatais; a desregulamentaçã o das atividades econô micas; a
supressã o e a modificaçã o dos direitos trabalhistas; a remoçã o de obstá culos comerciais
protecionistas; a restriçã o dos gastos do governo com saú de, educaçã o e pagamento de
aposentadorias; maior liberdade para o fluxo internacional de capitais e para as empresas
transnacionais.

Os Estados nacionais, embora ainda gestores do territó rio e das operaçõ es econô micas,
perderam força diante das transaçõ es financeiras internacionais, já que sã o as grandes
multinacionais que têm maior capacidade de investimento (em tecnologia, por exemplo).
Entretanto, apesar das enormes pressõ es exercidas pelo capital estrangeiro, sã o os governos
que definem as regras do jogo. Eles decidem, por exemplo, se haverá reduçã o de impostos para
investimentos externos, se as leis ambientais serã o flexíveis ou rígidas, se a remessa de lucros
para o exterior será taxada.

Sã o poucos os países com expressã o econô mica que se fecham à economia global. Quando o
fazem, perdem mercados para seus produtos, créditos e investimentos.
Fábio Motta/Estadã o Conteú do/AE

Casa de câ mbio apresenta a cotaçã o do real em comparaçã o a moedas estrangeiras no Rio de Janeiro (RJ). Foto de
2015.

SAIBA MAIS

O risco-país

A intensa movimentaçã o do dinheiro no mundo atual gera um clima de insegurança. Assim como se
pode ganhar muito dinheiro em pouco tempo, pode-se perdê-lo rapidamente.

Existem agências especializadas em avaliar o risco que um país oferece aos investidores
internacionais. O índice, conhecido como risco-país, é calculado levando em consideraçã o
principalmente os seguintes fatores: relaçã o entre o PIB e a dívida do país; histó rico financeiro –
sobretudo a verificaçã o de que o país pagou suas dívidas no passado ou decretou morató ria
(adiamento do pagamento da dívida); situaçã o política interna; conjuntura internacional (em
momentos de crise, por exemplo, os capitais tendem a migrar para a segurança de países mais
ricos).

Assista
Trama internacional. Direçã o de Tom Tykwer, EUA/Alemanha/ Inglaterra, 2009, 118 min.
No filme sã o investigadas as operaçõ es ilícitas de uma corporaçã o bancá ria internacional. Um agente da Interpol sai em
busca de um banqueiro suspeito de estar envolvido em lavagem de dinheiro, trá fico de drogas e armas e prá ticas de
terrorismo. Alguns críticos afirmam que o vilã o da histó ria é o capitalismo internacional.
Pá gina 77

As oscilações entre crescimento econômico e crise


É uma característica do sistema capitalista a existência de ciclos de expansã o e queda no ritmo
de crescimento econô mico. No período de maior avanço da globalizaçã o, a partir da década de
1990, vá rias crises ocorreram, inicialmente em determinado país ou regiã o e, depois, com
desdobramentos globais.

Uma crise econô mica caracteriza-se por um profundo retrocesso da situaçã o econô mica de um
país ou de uma zona geográ fica. Para alguns economistas, quando o crescimento econô mico for
negativo durante dois trimestres consecutivos, o país está em situaçã o de recessã o, se
perdurar, pode tornar-se uma crise.

Em 1994, por exemplo, a crise econô mica no México contaminou a América Latina e teve
repercussã o global; em 1997, houve a desvalorizaçã o das moedas da Tailâ ndia e da Coreia do
Sul, em um episó dio conhecido como crise asiática; em 1998, foi a vez da Rú ssia, cujos
problemas financeiros afetaram as bolsas de valores em todo o mundo.

Na década de 2000, o crescimento econô mico global foi liderado pela China e pela Índia, com
médias expressivas de 10% e 7%, respectivamente. A economia brasileira também se
beneficiou, por meio da exportaçã o de commodities e de produtos industrializados. O preço do
petró leo ultrapassou o valor de 100 dó lares o barril e enriqueceu os países exportadores.

Nos ú ltimos anos, entretanto, o cená rio começou a mudar. O ano de 2008 ficará marcado como
aquele que deu início a uma grave crise financeira do capitalismo e recolocou no debate a
importâ ncia da intervençã o estatal na economia.

Os Estados Unidos foram os primeiros a entrar em recessã o em 2008, seguidos no ano seguinte
pela zona do euro. Essa crise tem sido considerada a mais grave depois da quebra da bolsa de
Nova York em 1929.

A crise teve início quando as instituiçõ es financeiras estadunidenses concederam empréstimos


com poucas garantias a pessoas e empresas. Quando as dívidas deixaram de ser pagas,
sobretudo no setor imobiliá rio, os bancos passaram a ter sérios problemas, e o sistema
financeiro como um todo foi abalado, com desvalorizaçã o de açõ es e falência de bancos. A crise
financeira se espalhou por outros setores da economia, causando desemprego e fechamento de
empresas. O colapso do sistema financeiro estadunidense refletiu-se imediatamente no mundo
inteiro.

Em vá rios países, os governos desenvolveram mecanismos para salvar os bancos,


comprometendo enormes somas de fundos pú blicos. Por algum tempo conseguiram impedir
que o mercado financeiro entrasse em colapso. No entanto, a crise se agravou e atingiu uma
nova fase: a disparada da dívida pública, que afetou em particular países ricos, como os
Estados Unidos, o Japã o e, de forma extremamente grave, a Uniã o Europeia.

Bancos europeus e o FMI promovem empréstimos aos países mais endividados, mas exigem
dos governos uma série de medidas que atingem gravemente a populaçã o, como controle de
salá rios, cortes nas políticas sociais, diminuiçã o dos ganhos das aposentadorias, aumento de
impostos, entre outras.
Grécia, Portugal e Espanha foram atingidos de maneira particularmente intensa pela crise. Na
Espanha, a taxa de desemprego passou de 8,4%, em 2007, para 24,7%, em 2014.

No início da década de 2010, China, Índia e Brasil continuavam apresentando crescimento


econô mico, este ú ltimo com crescimento de 7,5% do PIB.

Em 2015, a desaceleraçã o da economia chinesa e a consequente queda na demanda por


commodities (petró leo, minério de ferro, soja, açú car) afetaram os países emergentes,
especialmente o Brasil, que exportam mercadorias para o país asiá tico.

Kyodo/AP Photo

O movimento Occupy Wall Street (Ocupe a Wall Street) tem por objetivo demonstrar a insatisfaçã o diante do crescimento da
desigualdade social e econô mica devido à crise. “Nó s somos 99%” significa que apenas 1% da populaçã o é beneficiada em
detrimento dos 99% restantes. Nova York, Estados Unidos. Foto de 2012.
Pá gina 78

Presença da África
O Islã na África
“Deus é grande!” Em á rabe, Allah hu akbar! É o que os muezins entoam nas mesquitas, do alto
dos minaretes – torres construídas mostrando a direçã o da cidade sagrada de Meca, para onde
os muçulmanos devem voltar-se durante a oraçã o. Cinco vezes ao dia, os fiéis sã o convocados
para esse modo de orar.

Muezim: muçulmano que chama os fié is para a oraçã o.

A presença da religiã o islâ mica na Á frica é marcante, especialmente nas regiõ es norte e central
do continente.

O termo Islã significa “submissã o a Deus”. Segundo os muçulmanos, no século VII d.C., Maomé,
um comerciante que vivia na cidade de Meca, na península Ará bica, recebeu a revelaçã o da
Palavra Divina. Para os muçulmanos, como sã o chamados aqueles que creem nessa revelaçã o,
Maomé passou a ser conhecido como o Mensageiro de Deus ou o Profeta de Alá . O conjunto das
revelaçõ es ditadas pelo pró prio profeta a seus seguidores, que as registraram por escrito,
constitui o livro sagrado dos muçulmanos, o Corão ou Alcorão.

Os povos á rabes, empolgados pela nova religiã o de que eram portadores, nã o tardaram a
empreender um vasto movimento militar de conquistas territoriais e conversõ es de
populaçõ es inteiras ao Islã . A Á frica Setentrional foi uma das primeiras regiõ es quase
inteiramente conquistadas e convertidas – do Egito, no leste, ao Marrocos, no oeste do
continente.

Em alguns países dessa regiã o, não só o islamismo tornou-se a religiã o majoritá ria, como seus
povos se arabizaram, ou seja, adotaram a língua á rabe e vá rios há bitos culturais dos
conquistadores. No Egito, a cidade do Cairo tornou-se um dos mais importantes centros de
reflexã o religiosa do mundo muçulmano, condiçã o que mantém até hoje.

A expansã o do Islã nas á reas da Á frica Negra pouco dependeu da força das armas. Na verdade,
o fenô meno teve como fio condutor a açã o dos mercadores muçulmanos e de missioná rios. A
irradiaçã o do islamismo começou no norte da Á frica ou se deu por meio de mercadores á rabes
que cruzavam o mar Vermelho ou o oceano Índico, instalando enclaves comerciais no litoral
oriental do continente.

Entre os séculos X e XVI, estabeleceu-se uma forte influência muçulmana entre as populaçõ es
de á reas que correspondem atualmente aos territó rios do Sudã o e Sudã o do Sul, Chade, Gana,
Níger, Mali e Mauritâ nia. Na Tanzâ nia, os mercadores á rabes fundaram o importante
entreposto comercial de Zanzibar e foram os principais responsá veis pelas conversõ es dos
povos que habitam a Somá lia e a Eritreia. No Mali, destaca-se a cidade de Tombuctu, fundada
por muçulmanos por volta do século XII, hoje considerada Patrimô nio da Humanidade pela
Unesco.
Fadel Senna/AFP

Mulheres muçulmanas oram em Salé, Marrocos. Foto de 2015.


Pá gina 79

Dominação europeia
Com a intensificaçã o da presença dos europeus na Á frica a partir do século XV, choques entre
muçulmanos e cristã os nã o tardaram a acontecer. A questã o, contudo, nã o se restringia ao
embate das religiõ es. Ocorriam disputas pela posse de á reas estratégicas no litoral e à margem
dos grandes rios, pelo domínio de minas de ouro e pelo controle do comércio, especialmente o
trá fico de escravizados.

Tradicionalmente, mercadores muçulmanos con trolavam o trá fico de escravizados para os


países do Mediterrâ neo oriental e do golfo Pérsico. Com a chegada dos europeus, tendo os
portugueses na vanguarda, e com a abertura de novas á reas de exploraçã o econô mica nas
Américas, era intençã o dos lusos arrebatar o controle do trá fico e desviar o fluxo de
escravizados do eixo mar Mediterrâ neo-mar Vermelho para o oceano Atlântico e as Américas.

Assim, por meio do comércio, escorado na força das armas, e graças também ao esforço de
missioná rios, o cristianismo estendeu-se especialmente na Á frica Negra.

No século XIX, o continente africano tornou-se um dos principais alvos da expansã o


imperialista europeia. Mesmo os países fortemente islamizados do norte da Á frica passaram a
fazer parte de impérios coloniais europeus, principalmente da França, da Grã -Bretanha e da
Espanha. A religiã o muçulmana acabou tornando-se também um emblema cultural de
resistência à dominaçã o estrangeira.

Durante os processos de independência dos países da Á frica do Norte, apó s a Segunda Guerra
Mundial, as comunidades islâ micas tiveram um papel importante nas lutas de libertaçã o
nacional. O mesmo ocorreu na Á frica Negra, nas regiõ es majoritariamente islâ micas ou com
importantes minorias muçulmanas.

Hoje, o islamismo é uma das muitas religiõ es presentes na Á frica. Assim como em outras partes
do mundo, ao instalar-se entre diferentes comunidades dotadas de variadas culturas, o Islã
assimilou aspectos dessas culturas. Contribui para isso o fato de nã o haver, no mundo
muçulmano, uma autoridade má xima ou instituiçã o centralizadora, como ocorre, por exemplo,
na Igreja cató lica.

Assista
Ceddo. Direçã o de Ousmane Sembene, Senegal, 1977, 120 min.
O filme retrata a resistê ncia da cultura local africana diante das incursõ es tanto do Islã quanto dos europeus.

Conflitos
Nem sempre, contudo, o debate religioso entre os muçulmanos ocorreu de modo harmonioso.
Especialmente na Á frica Negra, os defensores de uma concepçã o religiosa mais rigorosa e
ortodoxa criticam duramente as prá ticas que incluem no Islã aspectos das antigas tradiçõ es
locais pré-islâ micas.

Existem ainda conflitos graves entre comunidades muçulmanas e adeptos de outras religiõ es.
Esse problema pode ocorrer entre grupos populacionais de um mesmo país. Exemplo notó rio é
Darfur, uma vasta regiã o no oeste do Sudã o. Ali ocorre um violento conflito, que tem como um
dos componentes as diferenças culturais e religiosas entre a populaçã o.
Nã o importa o prisma pelo qual se olhe, o Islã é uma das realidades cristalinas do continente
africano, uma á rea do mundo que se caracteriza por uma rica multiplicidade cultural. As
comunidades muçulmanas não só se consolidaram ao longo do tempo, mas também promovem
ainda hoje uma dinâ mica bastante ativa de conversõ es. Assim sendo, conforme ocorre em
outras partes do mundo, também na Á frica o islamismo é um credo religioso em expansã o.

Para discutir

1. Muçulmanos ou cristã os, á rabes ou portugueses, na expansã o colonial, levaram seus há bitos,
seus valores e suas crenças religiosas, muitas vezes impondo-os, junto com o estabelecimento
de atividades comerciais e econô micas. Encontraram, por sua vez, há bitos, valores e crenças
partilhados pelas comunidades com as quais realizavam o comércio. É possível que tenham
permanecido imunes à s trocas culturais? Do contato com o diferente apenas um dos lados
resultou modificado? Redija um pequeno texto com sua opiniã o sobre essas questõ es,
buscando exemplos histó ricos que as justifiquem.

Navegue
O islamismo no mundo
O especial da BBC Brasil apresenta um amplo panorama sobre o Islã . Disponível em: <http://linkte.me/isla>. Acesso em: 29
fev. 2016.
Instituto Brasileiro de Estudos Islâmicos (Ibei)
O site reú ne informaçõ es, textos e notícias sobre a religiã o e a cultura islâ mica. Disponível em: <http://linkte.me/ibei>.
Acesso em: 29 fev. 2016.
Pá gina 80

Informe
A interdependência global
Hoje a globalizaçã o faz parte da estratégia de todas as sociedades pela sobrevivência e pelo
progresso. Enquanto manifestantes protestavam durante as reuniõ es de cú pula da
Organizaçã o Mundial do Comércio para tentar mudar as regras do jogo, os pequenos
produtores de açú car e algodã o que diziam representar estavam preocupados em tocar seus
negó cios, pois era o que tinham de fazer para sobreviver. Nem mesmo os atentados terroristas
de 11 de setembro de 2001 impediram a queda dos custos dos transportes, a liberalizaçã o do
comércio e a explosã o das tecnologias de comunicaçã o que impulsionam a globalizaçã o. A
globalizaçã o também gerou um mundo demograficamente misturado, o que significa que o
“inimigo” está ao mesmo tempo do lado de fora e do lado de dentro. Os três impérios se
misturam cada vez mais profundamente com as populaçõ es de suas periferias: os Estados
Unidos com a América Latina, a Europa com o mundo á rabe e a China com o Sudeste Asiá tico. A
expressã o “nó s somos o mundo” nunca foi tão certa.

Os interesses econô micos que fomentam a interdependência também poderiam evitar as


tensõ es geopolíticas que se prenunciam, transformando-as para sempre em competiçã o não
violenta. Na verdade, a economia global nã o poderá se acelerar nem ir muito longe com motor
ú nico, e as economias das três superpotências encontram-se tã o profundamente interligadas
que os custos do conflito aumentaram consideravelmente. Esses impérios comerciais abrigam
corporaçõ es globais que controlam cadeias mundiais de abastecimento nã o raro sediadas em
domínios dos outros impérios, o que significa que a manutençã o de sua prosperidade depende
da força – e não da fraqueza – dos outros. Quarenta por cento do comércio da América se dá
com a Á sia Oriental, e quase todo o restante, com a Europa. A América [Estados Unidos]
depende dos produtos chineses baratos e do apetite da China pelas Obrigaçõ es do Tesouro
americano; a China depende dos investimentos europeus e americanos, e atualmente exporta
mais para a Europa do que os Estados Unidos; a Europa e a América reduzem custos e
aumentam lucros transferindo sua produçã o para a China. [...]

As ondas posteriores da globalizaçã o foram puramente mercantilistas, com as potências


europeias aprofundando o controle de recursos estrangeiros – naturais e humanos – a serviço
do império. Toynbee escreveu em 1950 que “uma civilizaçã o ocidental já agora onipresente
tinha nas mã os o destino de toda a Humanidade”. Ainda que o mundo se tornasse plano –
totalmente integrado, na linguagem de Thomas Friedman –, não seriam apagados essa
hierarquia econô mica e política e o sentimento de injustiça que dá origem aos conflitos, pois,
em ú ltima aná lise, tanto a geopolítica quanto a globalizaçã o sã o governadas pelas mesmas
forças: medo e cobiça. A interdependência de hoje é efetivamente uma teia, mas sã o muitas as
aranhas. [...]

KHANNA, Parg. O segundo mundo: impérios e influência na nova ordem global. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2008. p. 25-26.
Godong/UIG/Getty Images

Marcha de abertura do Fó rum Social Mundial em Tú nis, na Tunísia. O Fó rum, realizado anualmente, tem açã o
mundial e discute questõ es socioeconô micas, étnicas e ambientais. Foto de 2013. No cartaz, lê-se em francês a
mensagem: “globalizar a paz”.

PARA DISCUTIR

1. A globalizaçã o é um fenô meno que pode ser revertido no mundo atual? O que acontece com
países cujas economias estã o pouco integradas à economia internacional?

2. Dada a intensa competiçã o entre as potências do mundo globalizado, a possibilidade de


conflitos armados, e mesmo de uma guerra mundial, tornou-se mais ou menos prová vel? Com
um grupo de colegas, discuta as respostas que você deu, no caderno, a essas questõ es.
Pá gina 81

Mundo Hoje
O mundo muçulmano em uma era global: a proteção
dos direitos das mulheres
As mulheres muçulmanas, historicamente vistas como transmissoras de cultura e protetoras
de valores nacionais, transformaram-se em um novo tema de discussã o. O entusiasmo do
debate sobre o papel da mulher no Islã é, porém, visto por muitos como fonte de desordem
social e moral. Ao desafiarem as ideologias patriarcais e também as convencionais, as mulheres
muçulmanas transformaram-se em uma poderosa voz no sentido da mudança. É interessante
notar que certos elementos do feminismo islâ mico e do feminismo secular têm trabalhado
juntos de modo a forçar reformas educacionais e legais.

A difusã o da educaçã o e da comunicaçã o em massa vem propiciando uma nova forma de


consciência entre os muçulmanos, dissolvendo obstá culos (de espaço e de distâ ncia) e abrindo
novos campos para a interaçã o e para o reconhecimento mú tuo, tanto dentro desses países
como para além de suas fronteiras. Cada vez mais, questõ es locais têm assumido dimensõ es
transnacionais (Eickelman, 2003:206). Essas transformaçõ es sociais têm tido um profundo
impacto nas sociedades muçulmanas. Nenhum grupo foi influenciado de maneira mais drá stica
e imediata por essas mudanças que as mulheres, que têm lutado por reformas legais e pela
construçã o de novas regras.

Ao lidarem com problemas compartilhados, tais como a prevençã o de violência doméstica e a


discriminaçã o por gênero, as mulheres muçulmanas mantêm contato com movimentos e
organizaçõ es de mulheres por todo o mundo, e assim desenvolvem vínculos e identidades. Há
algumas divisõ es evidentes entre organizaçõ es e grupos de mulheres sobre questõ es como o
hijab (modo de vestir islâ mico), que se tornou o símbolo para a defesa da fé, da integridade
familiar e da identidade islâ mica, assim como sobre certas crenças religiosas. Apesar disso, a
convergência de alguns elementos comuns à s feministas islâ micas e à s seculares tem apontado
para a existência de bases pragmá ticas que possibilitam a cooperaçã o entre ambos os grupos.

As mulheres muçulmanas enfrentam, simultaneamente, três desafios. Em primeiro lugar, elas


representam uma identidade islâ mica que, com frequência, está em conflito com regimes
políticos modernos e com as elites dos Estados. Em segundo lugar, elas devem lutar contra os
fundamentalistas islâ micos, cujas ideias, instituiçõ es e objetivos sã o por elas rejeitados com
veemência. Por fim, e tão importante quanto os outros desafios, elas enfrentam no dia a dia a
cultura patriarcal dominante nos lugares onde vivem. As questõ es relacionadas aos direitos
das mulheres sã o agravadas pelas dificuldades que as mulheres muçulmanas encontram em
uma cultura patriarcal na qual a mulher é geralmente caracterizada por estereó tipos.

Se, por um lado, a “solidariedade sem fronteiras” possibilitou a promoçã o de direitos das
mulheres dentro e por via das culturas, por outro, ela também se depara com questõ es sociais
mais amplas e mais complexas. Embora essa solidariedade global sofra resistências em muitas
partes do mundo muçulmano, o empoderamento das mulheres é visto como o antídoto mais
eficaz contra o extremismo no mundo muçulmano. [...]

Empoderamento: palavra derivada do termo inglê s empowerment, que significa o movimento de conferir poder ou
autoridade a algué m. Refere-se també m à tomada de consciê ncia de um indivíduo sobre uma situaçã o a ser superada.
MONSHIPOURI, Mahmood. Contexto Internacional, Rio de Janeiro, v. 26, n. 1, jan./jun. 2004. Disponível em:
<http://dx.doi.org/10.1590/S0102-85292004000100005>. Acesso em: 29 fev. 2016.

Issouf Sanogo/AFP

Saindo dos estereó tipos de submissã o e de dedicaçã o exclusiva ao lar, em todo o mundo islâmico muitas mulheres
lutam pelo reconhecimento e pela ampliaçã o de seus direitos. Na foto, mulher vota em eleiçõ es presidenciais na
Repú blica Centro-Africana, 2016.

PARA ELABORAR

1. Em sua opiniã o, a relaçã o entre o local e o global na questã o dos direitos das mulheres
auxilia na conquista dos direitos? Justifique.
Pá gina 82

Atividades
Não escreva no livro.

Revendo conceitos

1. Defina globalizaçã o, de acordo com as informaçõ es do capítulo.

2. Mencione três fatores que contribuíram para o avanço da globalizaçã o.

3. Indique os motivos que levaram à criaçã o de ó rgã os de regulaçã o econô mica internacional,
como o Banco Mundial, o FMI e a OMC. Explique a funçã o de cada um deles.

4. O que sã o empresas multinacionais?

5. Cite dois tipos de organizaçã o entre empresas no sistema capitalista e explique suas
características.

6. O que significa a “ocidentalizaçã o do mundo”? Dê exemplos.

7. Por que as tecnologias de informaçã o contribuíram decisivamente para a globalizaçã o das


atividades financeiras?

8. Faça um comentá rio sobre crescimento econô mico e crises financeiras.

Lendo gráficos

9. O grá fico a seguir apresenta o comércio de mercadorias em 2014. Observe-o com atençã o e
responda à s questõ es.

Adilson Secco/ID/BR

Fonte de pesquisa: International trade statistics 2015. Genebra: OMC, 2015. p. 24. Disponível em:
<https://www.wto.org/english/res_e/statis_e/its2015_e/its2015_e.pdf>. Acesso em: 29 fev. 2016.
a) Em quais regiõ es é mais intenso o fluxo intra-regional?
b) Quais sã o os maiores exportadores? E os maiores importadores?
c) Relacione os dados apresentados com o processo de globalizaçã o.

10. Analise o grá fico, resultante de uma pesquisa feita em vá rios países, e responda à s
questõ es abaixo.

Setup Bureau/ID/BR

Fonte de pesquisa: WorldPublicOpinion.org. Disponível em: <http://www.worldpublicopinion.org/>. Acesso em: 29 fev. 2016.

a) Como pode ser explicada a posiçã o da China nessa pesquisa?


b) Em sua opiniã o, em que posiçã o ficaria o Brasil?

Interpretando textos e imagens

11. Leia o texto a seguir e faça o que se pede.

“[...] [Dois grandes bancos brasileiros anunciaram um acordo de unificaçã o] de modo a formar o
maior conglomerado financeiro privado do hemisfério Sul, cujo valor de mercado fará com que ele
fique situado entre os 20 maiores do mundo. Trata-se de uma instituiçã o financeira com a
capacidade de competir no cená rio internacional com os grandes bancos mundiais”, informaram as
duas empresas em comunicado ao mercado.[...]”

Folha de S.Paulo, Sã o Paulo, 3 nov. 2008. Disponível em: <http://www1.folha.uol.com.br/folha/dinheiro/ult91u463386.shtml>.


Acesso em: 29 fev. 2016.

A notícia acima teve grande impacto sobre empresas e consumidores brasileiros em 2008, e o
fato descrito nos faz compreender melhor os rumos do sistema econô mico capitalista. Sobre o
assunto, responda: Que tendência do capitalismo pode-se depreender da notícia? Analise as
prová veis consequências dessa tendência para a economia e para o mundo do trabalho.
Pá gina 83

12. Leia a notícia e faça o que se pede.

A telepresença dá a sensaçã o, para pessoas que podem estar a milhares de quilô metros de
distâ ncia, de que estã o frente a frente, na mesma sala. É um sistema que combina tecnologia da
informaçã o e cenografia: uma conexã o de internet de alta capacidade liga duas salas que têm
iluminaçã o, paredes, carpetes e mó veis iguais. As pessoas veem seus interlocutores em telas
grandes de alta definiçã o, em tamanho real. O sistema de som [...] faz com que o som venha da
direçã o correta, reforçando a impressã o de que todo mundo está no mesmo lugar. [...]

Cruz, Renato. Uma nova tecnologia para reuniã o à distâ ncia. O Estado de S. Paulo, Sã o Paulo, p. B12, 8 fev. 2009. Disponível em:
<http://economia.estadao.com.br/noticias/geral,uma-nova-tecnologia-para-reuniao-a-distancia,320075>. Acesso em: 19 maio de
2016.

Relacione o texto e a foto a seguir, apontando as vantagens da reduçã o de custos que o sistema
de teleconferência ou de telepresença oferece à s empresas globalizadas.

Albin Lohr-Jones/Pacific Press/Alamy/Latinstock

Reuniã o do Conselho de Segurança da ONU feita por meio de teleconferê ncia. Nova York, Estados Unidos. Foto de
2016.

13. Analise a charge abaixo e escreva um texto sobre o tema nela abordado.
Ebert/Acervo do artista

Charge de Ebert, de 2012. Na charge lê-se, em inglês: “Eu quero uma partida justa, OK?”/Globalizaçã o/ Localismo.
BIZ é a abreviaçã o de business (negó cios).
Pá gina 84

Diferentes dimensões da
CAPÍTULO 6

globalização
O QUE VOCÊ VAI ESTUDAR
O processo de globalizaçã o e o imperialismo.
A hegemonia dos Estados Unidos.
Aspectos controversos da globalizaçã o.
Movimentos antiglobalizaçã o.

A globalizaçã o pode ser considerada a partir de pelo menos dois pontos de vista: como um fenô meno recente
de aceleraçã o da economia capitalista, que encontrou um ambiente favorá vel apó s a desintegraçã o do bloco
socialista, na década de 1990, e foi propiciado pelo avanço dos transportes e das tecnologias de informação; ou
como uma nova roupagem do velho imperialismo, que sofreu avanços e retrocessos nos ú ltimos séculos —
enfoque que será examinado mais detidamente neste capítulo.

O primeiro avanço do sistema capitalista rumo à globalizaçã o ocorreu no período das Grandes Navegaçõ es.
Vastos territó rios da América, da Á frica e da Á sia passaram a integrar as relaçõ es econô micas empreendidas
pelas potências europeias. Com o advento da Revoluçã o Industrial, a partir do século XVIII, o desenvolvimento
dos transportes marítimo e ferroviá rio permitiu um alcance ainda maior à s potências econô micas da época.

A partir de meados do século XIX, o termo imperialismo passou a ser usado para identificar a expansã o das
grandes potências industriais em busca do controle político e do domínio econô mico sobre outros países. No
século XX, a palavra foi empregada como expressã o da fase monopolista do capitalismo, na qual uma
concentraçã o sem precedentes do capital industrial e financeiro criou grupos de grande controle sobre a
economia mundial.

Allmaps/ID/BR

Fonte de pesquisa: Le Monde Diplomatique. L’ Atlas histoire: histoire critique du XXe siècle. Paris: Le Monde Diplomatique, 2010. p.
10.

Analise o mapa para responder à s questõ es.


1. Quais á reas sã o representadas como regiõ es sob domínio do imperialismo europeu?

2. Descreva o processo de expansã o da hegemonia estadunidense com base nas informaçõ es apresentadas.

3. Comente o destaque dado à costa leste dos Estados Unidos.


Pá gina 85

A ascensão dos EUA como potência hegemônica

Apó s a independência, em 1776, os Estados Unidos empreenderam uma política expansionista,


estendendo seu territó rio do ocea no Atlâ ntico em direçã o à costa oeste, no oceano Pacífico,
porçã o conquistada em meados do século XIX. No fim desse século e no início do século XX,
também compraram o Alasca da Rú ssia (1867) e anexaram o arquipélago do Havaí (1900).

Os Estados Unidos exerciam grande influência sobre a América Central e o Caribe, fazendo uso
da chamada Doutrina Monroe (1823), que pregava “a América para os americanos”, e da
política do big stick. Inspirados nessa política, a partir do fim do século XIX, os Estados Unidos
empreenderam intervençõ es militares na regiã o do Caribe, expandindo o poder geopolítico do
país.

Big stick: política estadunidense lançada pelo presidente Theodore Roosevelt, em 1904, que justificava a intervençã o
armada em países da Amé rica quando fosse necessá rio “restabelecer a ordem” ou “manter a democracia”. O nome (em
portuguê s, “grande porrete”) refere-se a uma frase atribuída ao presidente: “Fale macio e use um porrete”.

O século dos Estados Unidos


No século XX, o rumo das relaçõ es internacionais favoreceu muito os Estados Unidos.
Inicialmente, o país tinha poucas perspectivas de domínio fora de sua á rea de influência mais
imediata, ou seja, as porçõ es centrais e setentrionais da América. A eclosã o da Primeira Guerra
Mundial (1914-1918) representou sua primeira oportunidade de envolvimento em disputas
no continente europeu. O país ingressou no conflito em 1917 e teve peso decisivo na vitó ria
dos aliados britâ nicos e franceses.

Na Segunda Guerra Mundial (1939-1945), os Estados Unidos, inicialmente neutros, declararam


guerra ao Eixo (Alemanha, Itá lia e Japã o) apó s o ataque da marinha japonesa à base militar de
Pearl Harbor, no Havaí. A Segunda Guerra enfraqueceu a hegemonia mundial das potências
europeias, esgotadas apó s mais de seis anos de luta. Aos poucos, as antigas colô nias foram
conquistando independência e abrindo caminho para a influência e para as empresas
estadunidenses.

Durante a Guerra Fria, a Uniã o Soviética conteve as pretensõ es estadunidenses no chamado


Terceiro Mundo (conjunto de países considerados subdesenvolvidos). Ainda assim, os Estados
Unidos assumiram uma posiçã o imperialista sobre as relaçõ es internacionais, vista
internamente e por seus aliados como a açã o de uma superpotência benevolente.

Os críticos dos Estados Unidos enxergaram nessas açõ es uma nova versã o do antigo
imperialismo europeu. O capitalismo, sob essa perspectiva, conduziria à concentraçã o do
capital e do poder. O que nem os críticos nem os aliados contestaram é o fato de a supremacia
econô mica dos Estados Unidos ter tido como suporte a hegemonia militar.

A superpotência estadunidense envol veu-se em diversas guerras apó s 1945, tanto para deter
a expansã o de regimes socialistas quanto para impor seus interesses estratégicos e
econô micos. Entre as princi pais intervençõ es, destacam-se a Guerra da Coreia (1950-1953); a
Guerra do Vietnã (1961-1975); a primeira Guerra do Golfo, contra o Iraque (1991); a
intervençã o militar no Afeganistã o (2001); e a ocupaçã o militar do Iraque (2003-2011).
O imperialismo estadunidense assumiu também uma dimensã o cultural, com a exportaçã o de
filmes, mú sicas, livros, expressõ es de linguagem, roupas, calçados, entre outros itens, para o
mundo todo.

Stringer/Imaginechina/AFP

A influência cultural dos Estados Unidos no mundo é tão intensa, que é possível falar da existência de uma verdadeira
indú stria cultural. Na foto, pessoas se fantasiam, durante uma feira de quadrinhos em Hong Kong, em 2015, de
personagens criadas na cultura estadunidense.

Leia
Globalização, cultura e identidade, de vá rios autores. Curitiba: Ibpex, 2012.
O livro apresenta reflexõ es acerca dos conceitos de cultura e identidade no contexto da globalizaçã o.

Assista Leões e cordeiros. Direçã o de Robert Redford, EUA, 2007, 92 min.


O filme aborda a importâ ncia da imprensa no mundo globalizado e as incoerê ncias da estraté gia político-militar dos Estados
Unidos no Afeganistã o.
Pá gina 86

O predomínio global do capitalismo


Com o fracasso da economia socialista e o fim da Uniã o Soviética, nã o restaram grandes
alternativas à maioria dos países, a nã o ser realizar reformas econô micas liberalizantes. As
principais medidas adotadas pelos paí ses nesse sentido foram:

• o ingresso na Organizaçã o Mundial do Comércio (OMC) e a adoçã o de suas regras;

• a permissã o de entrada de empresas e capitais estrangeiros, sob o risco de boicote dos


produtos nacionais no mercado externo;

• a reduçã o do protecionismo comercial, facilitando a entrada de produtos importados;

• a adoçã o de medidas sugeridas por organismos internacionais, como o Banco Mundial e o


Fundo Monetá rio Internacional (FMI), como contrapartida de empréstimos que poderiam
contribuir para o desenvolvimento interno.

A liderança sobre os organismos financeiros internacionais é desempenhada pelo Grupo dos


Sete, conhecido como G-7. O grupo reú ne os países mais industrializados do mundo: Estados
Unidos, Japã o, Alemanha, Reino Unido, França, Itá lia e Canadá .

O Fórum Econômico Mundial de Davos


Anualmente, políticos dos países ricos e principais líderes empresariais debatem sobre os
rumos da economia internacional no Fó rum Econô mico Mundial de Davos, na Suíça. Essas
reuniõ es visam promover um modelo de desenvolvimento econô mico com base nos princípios
corporativos das maiores empresas mundiais. Nos ú ltimos anos, mais sensível à s críticas a essa
postura, o Fó rum de Davos passou a convidar os paí ses emergentes para participar dos
encontros a fim de ouvir suas propostas.

A tríade
Ao longo da histó ria, os países mais poderosos desenvolveram diversas formas de exercício de
sua hegemonia. Entre elas é possível destacar o processo de colonizaçã o; o controle militar; a
hegemonia cultural; e o controle dos meios econô micos, pela imposiçã o de regras para o
comércio e as finanças.

As constantes inovaçõ es também colocam os países em desenvolvimento em permanente


situaçã o de dependência tecnoló gica. Nesse contexto, a chamada tríade (Estados Unidos, Uniã o
Europeia e Japã o) ainda exerce grande domínio sobre o processo da globalizaçã o econô mica.

O Japã o, por exemplo, difunde seus avanços tecnoló gicos para diversos países; a Uniã o
Europeia tem influência política e econô mica sobre o mundo. Os Estados Unidos, mesmo
vivenciando crises econô micas, continuam sendo a potência com maior preponderâ ncia global.
O dó lar estadunidense é a principal moeda de troca no mundo, o que reforça a importâ ncia do
Banco Central dos Estados Unidos – o Federal Reserve (FED).

CONEXÃO
As críticas ao livre-comércio

Os críticos do livre-comércio consideram que ele traria vantagens somente para os países mais
desenvolvidos. Aprofundaria a Divisã o Internacional do Trabalho (DIT), na qual a pobreza seria
mantida em algumas partes do globo, enquanto outras se beneficiariam da riqueza gerada nos
países pobres.

Noor Khamis/Reuters/Latinstock

Manifestaçã o contra a Organizaçã o Mundial do Comércio, por ocasiã o de uma reuniã o ministerial da organizaçã o em
Nairó bi, Quênia. Foto de 2015. Nas placas, a mensagem em inglês diz: “Nã o à OMC”.

1. Converse com os colegas sobre manifestaçõ es de protesto. Na regiã o onde você vive, tem
ocorrido algum tipo de protesto? Nesse caso, quais sã o as reivindicaçõ es? Caso contrá rio, por que
razã o elas nã o ocorrem?

SAIBA MAIS

G-7 e G-8

O G-7 é formado pelas naçõ es de maior influência sobre a economia mundial, com elevados PIB
(Produto Interno Bruto) e PIB per capita (PIB dividido pelo nú mero de habitantes): Estados
Unidos, Japã o, Alemanha, Reino Unido, França, Itá lia e Canadá .

O G-8 é o G-7 acrescido da Rú ssia, que passou a integrar o grupo em 1994, pelo reconhecimento de
sua importâ ncia militar e geopolítica. O país é o segundo maior exportador mundial de armamentos
e é membro permanente do Conselho de Segurança da ONU. Em 2014, os países do G-7
suspenderam a Rú ssia do grupo, por nã o aprovarem sua intervençã o nos conflitos político-militares
em curso na Ucrâ nia.
Pá gina 87

Aspectos controversos da globalização

As soberanias nacionais em debate


Entende-se por soberania nacional o poder dos Estados de tomar decisõ es e fazer-se respeitar
por meio de seus governos, exercendo sua independência em relaçã o a outros países.

Com o avanço da globalizaçã o, surgiu a ideia de que o Estado desapareceria em favor da


liberdade de açã o das empresas e que as fronteiras nacionais estariam se tornando
irrelevantes.

No entanto, pode-se argumentar que, apesar de haver pressõ es internacionais sobre os


governos dos países, ainda sã o eles que estabelecem as regras que facilitam ou restringem o
fluxo de capitais e produtos, a liberdade de migraçã o de pes soas e a aceitaçã o ou nã o das
regras sugeridas pelos organismos internacionais.

Portanto, é possível dizer que houve um relativo enfraquecimento do poder dos Estados, mas
não há indícios de que eles vã o desaparecer ou de que sua soberania será substituída pelas
regras de um mercado global.

Integração global, benefícios desiguais


Na época de grande vigor do liberalismo (século XIX e início do XX), grande parte da Á sia e a
quase totalidade da Á frica estavam sob o domínio do imperialismo europeu. Todavia,
indiretamente, elas estavam ligadas ao capitalismo global, já que as potências mantinham
relaçõ es econô micas entre si e trocavam mercadorias.

Liberalismo: doutrina filosó fica ou corrente política originada na Europa, no sé culo XVII, que defende a liberdade individual
e de pensamento e a mínima participaçã o do Estado na economia; caberia a este apenas o controle sobre á reas essenciais.

O atual processo de globalizaçã o intensificou, de forma jamais vista, a integraçã o econô mica.
Esta, porém, nã o pode ser considerada inédita na histó ria do capitalismo.

Hoje, sabe-se que, além dos países mais ricos, naçõ es como Índia e China também se
beneficiaram com a globalizaçã o, ampliando as exportaçõ es de bens e serviços. Até mesmo o
Brasil acumulou um grande estoque de divisas, sobretudo com a exportaçã o decommodities e
a projeçã o internacional de grandes empresas nacionais.

Divisa: reserva de moeda estrangeira obtida pelas entidades pú blicas ou privadas de uma naçã o em transaçõ es comerciais.

Porém, quando se olha para o mundo de modo geral, verifica-se que vastas re giõ es da Á frica,
da Á sia e da América Central nã o se beneficiaram como aqueles países. A economia dessas
regiõ es ainda é pouco desenvolvida, de base predominantemente primá ria, oscilando muito
em funçã o dos preços das matérias-primas e dos alimentos. Além disso, a rapidez das
inovaçõ es do mundo globalizado aumenta a dependência tecnoló gica e financeira das naçõ es
mais pobres. Veja o mapa abaixo.
João Miguel A. Moreira/ID/BR

Fontes de pesquisa: Ferreira, Graça Maria Lemos. Atlas geográfico: espaço mundial. 4. ed. Sã o Paulo: Moderna, 2013. p. 53. Banco
Mundial. Disponível em: <http://data.worldbank.org/indicator/TX.VAL.FUEL.ZS.UN>;
<http://data.worldbank.org/indicator/TX.VAL.MMTL.ZS.UN>; <http://data.worldbank.org/indicator/TX.VAL.FOOD.ZS.UN>;
<http://data.worldbank.org/indicator/TX.VAL.MANF.ZS.UN>. Acessos em: 7 jul. 2017.
Pá gina 88

Pobreza e desigualdade social


Muitos críticos do processo de globalizaçã o apontam o aumento da pobreza e da desigualdade
no mundo. Embora, em muitos casos, a geraçã o de riqueza de diversos países tenha crescido,
isso nem sempre se traduziu em melhorias para todos os cidadã os.

A China é um exemplo disso. Nesse país, a abertura econô mica criou um grupo de empresá rios
milioná rios, que convive com milhõ es de camponeses pobres e de pessoas que deixaram a
zona rural para viver nas cidades em péssimas condiçõ es.

Adilson Secco/ID/BR

Fonte de pesquisa: Gapminder. Disponível em: <http://www.gapminder.org/world>. Acesso em: 4 mar. 2016.

Interferência do Estado na economia


Os defensores do neoliberalismo afirmam que no capitalismo a interferência do Estado na
economia é prejudicial e deve ser evitada.

No entanto, a realidade tem mostrado que, sem a mediaçã o dos governos, as forças de mercado
(a livre-iniciativa econô mica de empresas e pessoas) podem gerar crises e ampliar as
distorçõ es sociais.

Há grandes exemplos histó ricos, como a crise de 1929, cujo fato mais conhecido foi a quebra da
Bolsa de Nova York – que gerou impactos por quase todo o mundo. Outro exemplo, este bem
recente, é a grande recessã o iniciada em 2008. Em ambos os casos, os governos foram levados
a intervir amplamente na economia para controlar os efeitos danosos da crise.

O capitalismo dos países europeus destacou-se pelos benefícios sociais que o Estado garantiu
aos trabalhadores. Trata-se do chamado welfare state (Estado de bem-estar social), que,
muito combatido pelo neoliberalismo, propicia aos trabalhadores garantias como seguro-
desemprego, assistência médica e jornada de trabalho reduzida.

A globalização e os trabalhadores dos países ricos


Os trabalhadores dos países ricos, como os Estados Unidos, o Japã o e as naçõ es europeias,
também sã o atingidos pelo desemprego, especialmente em momentos de crise. Muitos
sindicatos de trabalhadores dessas regiõ es se opõ em à globalizaçã o por temer que os postos de
trabalho sejam transferidos para países emergentes onde, geralmente, a legislaçã o trabalhista
é menos rigorosa, os salá rios sã o mais baixos, as leis ambientais menos rígidas, etc. A crise
global iniciada em 2008 causou altíssimas taxas de desemprego na Europa.

Leia
A sociedade global, do soció logo Octavio Ianni. Rio de Janeiro: Civilizaçã o Brasileira, 2005.
O livro analisa com clareza o avanço da globalizaçã o em vá rios setores econô micos e sociais, com vá rios exemplos, incluindo
brasileiros.
Quais as mudanças tecnológicas, econômicas e sociais da globalização?, de Ricardo Dreguer e Roberto Caner. Sã o Paulo:
Moderna, 2014.
Os autores analisam as transformaçõ es provocadas pela globalizaçã o sob uma perspectiva multidisciplinar.
Pá gina 89

Os movimentos antiglobalização

Desde a falência dos regimes socialistas que vigoraram até os anos 1990, os movimentos
anticapitalistas tomaram rumos diferenciados.

Muitos ativistas concentram-se em aspectos como a cultura e o meio ambiente, julgando nã o


haver uma alternativa viá vel à economia de mercado. Outros defendem o socialismo, em bases
diferentes daquelas adotadas pela antiga Uniã o Soviética. Há também os que propõ em
governos centralizados e nacionalistas, porém capazes de conviver com a iniciativa privada. De
qualquer maneira, a globalizaçã o consolidou novas formas de ativismo compatíveis com o
aumento da interdependência econô mica dos países.

Problemas globais, ativismo internacional


Nas ú ltimas décadas surgiram questõ es transnacionais, ou seja, que ultrapassam as fronteiras
dos Estados nacionais. Isso é muito evidente na á rea ambiental. O risco de aquecimento do
planeta, a destruiçã o da camada de ozô nio e a poluiçã o, por exemplo, sã o problemas que não
distinguem fronteiras, podendo originar-se em um país e afetar países vizinhos ou até mesmo
distantes. Problemas como esses contribuíram para o aparecimento de uma “opiniã o pú blica
transnacional” e de movimentos sociais que não se restringem a apenas um país.

O Fórum Social Mundial


Principal encontro de movimentos antiglobalizaçã o, o Fó rum Social Mundial (FSM) surgiu em
Porto Alegre (RS) em 2001. Seu objetivo central era estabelecer um espaço de oposiçã o ao
Fó rum Econô mico Mundial de Davos (Suíça), em que os líderes dos países capitalistas debatem
os rumos da economia internacional.

Desde entã o, o FSM tem realizado atividades anualmente. Além de Porto Alegre, já sediaram o
fó rum as cidades de Belém (PA), Mumbai (Índia), Nairó bi (Quênia), além de outras, de forma
descentralizada.

Nã o há uma agenda consensual entre os participantes do Fó rum Social Mundial. As principais


críticas e sugestõ es normalmente debatidas no evento coincidem com as propostas e
demandas dos movimentos antiglobalizaçã o que ocorrem em todo o mundo.

Sã o exemplos dessas propostas: o rompimento com o programa econô mico neoliberal; a


proposta de alternativas à s políticas ambientais vigentes e o combate à s atividades econô micas
geradoras do aquecimento global; a defesa das minorias étnicas, da diversidade cultural e
sexual; a ética e o controle da ciência sobre as atividades produtivas (nanotecnologia,
transgênicos, etc.); a liberdade de migraçõ es internacionais e o afrouxamento das políticas
restritivas dos países desenvolvidos; a quebra de patentes de remédios; osoftware livre; a
economia solidá ria e o apoio à s causas feministas.

Nanotecnologia: tecnologia que atua sobre minú sculas partículas, até a escala atô mica, para criar estruturas e materiais
empregados em diversas á reas, como computaçã o, medicina e engenharia.

Quebra de patente: suspensã o da exclusividade de fabricaçã o de um determinado produto.


Software livre: programa de computador cujos uso, có pia, compartilhamento ou estudo nã o sã o restritos por impedimentos
comerciais.

Os ativistas costumam realizar grandes manifestaçõ es de rua para obter visibilidade na mídia
internacional, chamando a atençã o da opiniã o pú blica para as causas que defendem.

Ricardo Giusti/PMPA

Fó rum Social Mundial realizado em Porto Alegre (RS). Foto de 2016.

AÇÃO E CIDADANIA

A Cúpula dos Povos na Rio+20

A Cú pula dos Povos é a convergência de diversos movimentos sociais e ambientais de todo o


mundo, que se reú nem durante eventos de grande porte desde 1992, quando se deu a importante
reuniã o sobre problemas ambientais na cidade do Rio de Janeiro (Rio-92).

Durante a Rio+20 – evento ocorrido em 2012, também na cidade do Rio de Janeiro e promovido
pela ONU –, a Cú pula discutiu questõ es ambientais, entre as quais o aquecimento global, suas
causas e algumas propostas viá veis para superá -lo, incluindo as medidas de pressã o aos
governantes e às autoridades internacionais que participavam daquela conferência.

Além da denú ncia dos problemas ambientais, sã o temas das reuniõ es da Cú pula as propostas para
tornar os impactos ambientais mínimos, para distribuir a riqueza e para defender os direitos
humanos. Um instrumento de participaçã o política da sociedade civil e do governo para encontrar
caminhos para o desenvolvimento sustentá vel é a Agenda 21. É um conjunto de açõ es e propostas
com a finalidade de promover o desenvolvimento socioeconô mico e proteçã o ambiental.

1. A Agenda 21 está presente em mais de 100 municípios brasileiros. Em grupos, pesquisem se em


seu município ela já existe. Se nã o, tomem como exemplo a Agenda de outro município e verifiquem
se os grandes temas discutidos se contextualizam na realidade do seu município.
Pá gina 90

Causas globais, ações locais


Por todo o mundo, ativistas com causas e formas de atuação diversas unem-
se na defesa de iniciativas que privilegiam a justiça social e o cuidado com o
meio ambiente.

Para muitos críticos da globalizaçã o, a adoçã o de políticas econô micas neoliberais é entendida
como causa de diferentes efeitos negativos, como o aumento das desigualdades sociais, o
acirramento de conflitos políticos e a homogeneizaçã o cultural.

Por meio das redes sociais e de eventos como o Fó rum Social Mundial, ativistas têm trocado
experiências, percebido o que há de particular e o que há de comum na forma como diferentes
grupos sã o explorados num contexto de globalizaçã o econô mica. Conheça a seguir algumas
açõ es que combinam essa visã o crítica global e soluçõ es locais.

Ilustraçõ es: Maikon Nery

Ilustraçõ es: Maikon Nery

Fontes de pesquisa: BIRCH, Simon. How activism forced Nike to change its ethical game. The Guardian, 6 jul. 2012. Disponível em:
<http://www.theguardian.com/environment/green-living-blog/2012/jul/06/activism-nike>; C ARRILLO, Raú l. Alternative currencies are bigger
than bitcoin. Yes! Magazine, 12 mar. 2015. Disponível em: <http://www.yesmagazine.org/commonomics/alternative-currencies-bigger-than-
bitcoin-bangla-pesa-brixton>; Projeto Sies. Atlas digital da economia solidária. Disponível em: <http://sies.ecosol.org.br/atlas>; Sangat. Vision
& History. Disponível em: <http://www.sangatnetwork.org/vision-history.html>. Acessos em: 24 maio 2016.
Pá gina 91

FIGURA EM PÁ GINA DUPLA COM A PÁ GINA ANTERIOR


Pá gina 92

As ONGs
Organizaçõ es Nã o Governamentais sem fins lucrativos (ONGs) sã o instituiçõ es de natureza
não estatal, criadas para atuar em vá rios setores, como saú de, educaçã o, meio ambiente,
direitos humanos, proteçã o à mulher, à criança, aos homossexuais, aos refugiados, aos
dependentes químicos, entre outros. No Brasil, as primeiras organizaçõ es surgiram nas
décadas de 1960 e 1970, voltadas para a educaçã o popular. A maioria dessas organizaçõ es era
financiada pela Igreja cató lica e por agências internacionais que denunciavam as violaçõ es dos
direitos humanos e o empobrecimento da populaçã o.

A atuaçã o das ONGs tem gerado controvérsias. Os que as defendem afirmam que muitas
organizaçõ es em todo o mundo se dedicam a defender os direitos humanos e atuam no sentido
de chamar a atençã o da comunidade internacional quando esses direitos sã o violados. Outras
ainda estã o voltadas ao atendimento humanitá rio em regiõ es muito pobres ou em á reas de
conflito.

Entre as críticas, menciona-se a falta de transparência em vá rias ONGs, cujas açõ es não sã o
criteriosamente avaliadas pelos beneficiá rios e pela sociedade. No caso de ONGs ligadas ao
meio ambiente, os críticos afirmam que muitas dessas organizaçõ es apenas transferem
estudos realizados nos países desenvolvidos para os países pobres, ignorando os
conhecimentos, as prá ticas e os direitos das comunidades locais.

Afirma-se ainda que, nos países em desenvolvimento, essas ONGs promovem mudanças nas
prá ticas sociais e na relaçã o com a natureza, facilitando, dessa maneira, a expansã o do capital
transnacional nessas regiõ es. Praticariam, assim, uma espécie de colonialismo ambiental.

Sabah Arar/AFP

A organizaçã o Médicos Sem Fronteiras (MSF) surgiu na França, na década de 1970. Atualmente, desenvolve açõ es em
dezenas de países onde a atuaçã o do Estado nã o é suficiente para atender às populaçõ es carentes ou em situaçõ es de
guerra ou conflitos internos. Clínica em Bagdá , Iraque. Foto de 2015.

Assista
Encontro com Milton Santos: o mundo global visto do lado de cá. Direçã o de Silvio Tendler, Brasil, 2007, 89 min.
Nesse documentá rio, o famoso geó grafo Milton Santos expõ e muitas de suas ideias sobre a globalizaçã o

AÇÃO E CIDADANIA

O movimento LGBT

Com a globalizaçã o e a informatizaçã o, os movimentos sociais tendem a se diversificar e se articular


por meio de redes – construindo reivindicaçõ es coletivas, organizando açõ es conjuntas e
estendendo-se por mais de um país. Assim, expandiram-se movimentos sociais específicos para
determinadas questõ es, como a defesa do meio ambiente, os direitos das mulheres, o pacifismo.

Entre esses movimentos, que legitimamente buscam visibilidade e apoio social para suas causas,
cita-se o movimento LGBT – lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais. No Brasil, a luta pelo
direito das pessoas LGBT tem alcançado importantes avanços, como a união estável homoafetiva,
reconhecida em 2011 por decisã o do Supremo Tribunal Federal.

No entanto, as pessoas LGBT ainda sã o vítimas de preconceito e discriminaçã o. A homofobia (ó dio,


aversã o ou discriminaçã o contra homossexuais) existe no mundo todo. No Brasil, é a causa de
grande nú mero de crimes. Em 2015, foram assassinados no país 318 homossexuais.

Entre as lutas do movimento LGBT, destaca-se a aprovaçã o da lei que torna crime a homofobia,
prevendo a puniçã o das manifestaçõ es de preconceito em razã o da orientaçã o sexual e identidade
de gênero.

1. Com um grupo de colegas, discuta a prá tica de homofobia na escola ou nos lugares onde você
vive. Procurem responder à seguinte questã o: Como cada um de nó s pode acabar com os
preconceitos contra as pessoas que têm orientaçã o sexual diferente da maioria?

Daniel Cymbalista/Pulsar Imagens

A Parada do Orgulho LGBT de Sã o Paulo acontece todos os anos desde 1997, reivindicando a garantia dos direitos
civis das pessoas LGBT. Movimentos semelhantes realizam-se em vá rias partes do Brasil e do mundo. A primeira
parada foi em Nova York, EUA, em 1969. Foto em Sã o Paulo (SP), 2015.
Pá gina 93

Informe
Sobre o fim dos impérios
O relacionamento entre os impé rios e seus sú ditos é complexo porque as bases do poder dos
impérios duradouros também sã o complexas. O poder militar e a decisã o de empregar a
coerçã o e o terror podem permitir breves períodos de ocupaçã o estrangeira, mas nã o uma
dominaçã o duradoura, especialmente quando essa dominaçã o é exercida, como quase sempre
aconteceu, por um nú mero muito reduzido de estrangeiros, tanto em termos relativos quanto
absolutos, na generalidade dos casos. Lembremo-nos de que o nú mero de civis britâ nicos que
se ocupavam em governar os 400 milhõ es de indianos do império nunca foi superior a uns 10
mil.

Historicamente, os impérios podem ter sido formados pela força militar e consolidados pelo
terror – “choque e perplexidade”, na expressã o do Pentá gono dos Estados Unidos –, mas, para
perdurar, eles careciam de dois instrumentos principais: a cooperaçã o com os interesses locais
e a legitimidade do poder efetivo, em conjugaçã o com a exploraçã o da desuniã o dos
adversá rios e dos sú ditos [...]. A situaçã o atual no Iraque ilustra as dificuldades que até o mais
poderoso dos ocupantes enfrenta quando esses fatores não estã o presentes.

Mas, por essa mesma razã o, a era dos impérios nã o pode ser revivida, e menos ainda por uma
ú nica superpotência. Um dos maiores trunfos do imperialismo ocidental, formal ou informal,
era o de que, na sua primeira acepçã o, a “ocidentalizaçã o” era a ú nica forma pela qual as
economias atrasadas podiam modernizar-se e os paí ses fracos podiam fortalecer-se. Isso dava
aos impérios ocidentais e à s metró poles modernizantes dos impérios tradicionais a boa
vontade implícita das elites locais que se interessavam em superar o atraso. E isso acontecia
mesmo quando os modernizadores nativos voltavam-se contra os governantes estrangeiros,
como na Índia e no Egito.

Paradoxalmente, o hino nacional indiano foi escrito por um antigo funcioná rio civil nativo do
Raj britâ nico. Contudo, a globalizaçã o da economia industrial internacionalizou a
modernizaçã o. A Coreia do Sul tem pouco a aprender dos Estados Unidos, que importam seus
técnicos em computaçã o da Índia e exportam os trabalhos feitos por eles para o Sri Lanka,
enquanto o Brasil produz nã o só café, mas também jatos executivos.

Os asiá ticos podem acreditar ainda na utilidade de mandar seus filhos para estudar no
Ocidente, onde com frequência têm como professores acadêmicos asiá ticos emigrados, mas a
presença dos ocidentais nos seus países, para nã o falar do exercício da influência e do poder
político local, já nã o é necessá ria para a modernizaçã o das suas sociedades.

No entanto, os candidatos à constituiçã o de novos impérios enfrentam um obstá culo ainda


maior. Já não podem contar com a obediência dos sú ditos. E, graças à herança da Guerra Fria,
os que se recusam a obedecer têm agora acesso a armas suficientemente poderosas para
manter a distância os países fortes.

No passado, os países podiam ser administrados por um nú mero comparativamente mínimo


de estrangeiros porque a dominaçã o de qualquer regime com poder efetivo era aceita pelos
povos que estavam acostumados a ser governados hierarquicamente, ou por nativos, ou por
estrangeiros. O governo imperial, uma vez estabelecido, normalmente só encontrava
resistência por parte de pessoas que rejeitavam todo tipo de poder central, nativo ou
estrangeiro, e que em geral viviam em á reas montanhosas, como os berberes, afegã os ou
curdos, fora do controle das capitais.

[...] Hoje, como se vê nos antigos territó rios franceses da Á frica, a presença das tropas
francesas, por si só , não pode garantir a manutençã o dos regimes locais, como aconteceu nas
décadas posteriores à descolonizaçã o formal. [...]

HOBSBAWM, Eric. Globalização, democracia e terrorismo. Sã o Paulo: Companhia das Letras, 2008. p. 82-84.

PARA DISCUTIR

1. Ao longo deste capítulo, foi colocada a questã o do poder e do imperialismo. Pesquise e faça
uso dos exemplos histó ricos ou atuais apresentados no capítulo que possibilitem analisar e
justificar o significado da seguinte frase:

“O poder militar e a decisã o de empregar a coerçã o e o terror podem permitir breves períodos
de ocupaçã o estrangeira, mas nã o uma dominaçã o duradoura […]”

Leia
Globalização, democracia e terrorismo, de Eric Hobsbawm. Sã o Paulo: Companhia das Letras, 2007.
O livro traz uma coletâ nea de palestras sobre temas importantes da política internacional.
Pá gina 94

Atividades
Não escreva no livro.

Revendo conceitos

1. Explique os significados mais frequentes do termo imperialismo.

2. Quando e de que forma a hegemonia mundial das potências imperialistas europeias foi
superada pela hegemonia dos Estados Unidos?

3. Pode-se afirmar que a grande ascensã o de países emergentes, como a China e a Índia,
rompeu a dominaçã o econô mica dos países desenvolvidos?

4. Explique as diferenças entre o Fó rum Econô mico Mundial de Davos e o Fó rum Social
Mundial.

5. O que sã o ONGs?

6. Aponte três fatores que contribuíram para a ascensã o dos Estados Unidos como
superpotência.

Interpretando textos e imagens

7. Leia o trecho da reportagem abaixo, observe a imagem e responda à s questõ es.

[...] Uma em cada sete pessoas do mundo carece de luz elétrica. De acordo com o Banco Mundial,
mais de 1 bilhã o de pessoas, a maioria na Á sia e Á frica, nã o contam com eletricidade confiá vel. A
preocupaçã o foi levantada pelo diretor executivo do Programa da ONU para o Meio Ambiente,
Achim Steiner, durante o Fó rum Econô mico Mundial, em Davos, Suíça, que aconteceu entre os dias
20 e 23 de janeiro [2016].

“Muitos de nó s vivemos em um mundo que desconhece a escuridã o real. Os moradores das cidades
do mundo – mais de 54% da populaçã o global, de acordo com o Departamento de Assuntos
Econô micos e Sociais da ONU – sã o menos propensos a verem a luz de uma estrela do que uma luz
de rua”, disse Steiner [...].

ONUBR – Naçõ es Unidas no Brasil, 29 jan. 2016. Disponível em: <https://nacoesunidas.org/falta-de-eletricidade-obstaculopara-


desenvolvimento-sustentavel-pnuma/>. Acesso em: 26 maio. 2016.
NOAA/NASA Earth Observatory

A Terra à noite, composiçã o formada por imagens de satélite obtidas em 2012.

a) É possível identificar um perfil de uso da terra nas regiõ es “iluminadas” e nas regiõ es
“escuras”? Justifique sua resposta com exemplos.
b) Aponte possíveis problemas enfrentados pelas populaçõ es de regiõ es onde nã o há
fornecimento de energia elétrica.

8. Nos dois trechos a seguir, o soció logo Octavio Ianni (1926-2004) comenta diferentes
aspectos da globalizaçã o. Leia-os para responder à s questõ es.

[...] Nã o se trata de negar a vigência do Estado-naçã o, assim como do grupo social, classe social,
partido político, movimento social. Tanto o indivíduo como a coletividade, assim como a naçã o e a
nacionalidade continuam ativos, presentes e decisivos. Mas todos estã o inseridos no â mbito do
globalismo, adquirindo significados e possibilidades no â mbito das configuraçõ es e dos
movimentos da sociedade global. Nesse sentido é que a sociedade global é o novo palco da histó ria,
das realizaçõ es e lutas sociais, das articulaçõ es e contradiçõ es que movimentam uns e outros:
indivíduos e coletividades, naçõ es e nacionalidades. [...]

IANNI, Octavio. Globalizaçã o e imperialismo. Disponível em:


<http://www.ifch.unicamp.br/criticamarxista/arquivos_biblioteca/debate13Debate1.pdf>. Acesso em: 4 mar. 2016.
Pá gina 95

[...] Na base da emergente estrutura da ordem mundial, encontram-se forças sociais ... Novos
movimentos sociais, convergentes com relaçã o a questõ es específicas, tais como o ambientalismo, o
feminismo e o pacifismo, surgiram em diferentes escalas em distintas partes do mundo. [...] Estes
movimentos evocam identidades particulares, podendo ser étnicas, nacionais, religiosas ou de
gêneros. Manifestam-se no â mbito de estados nacionais, mas sã o transnacionais em essência. [...]”.
[...].

IANNI, Octavio. A era do globalismo. Rio de Janeiro: Civilizaçã o Brasileira, 1999. p. 227-228.

a) De acordo com o autor, qual é a influência da globalizaçã o sobre o Estado nacional, os


grupos sociais, os partidos políticos e outras instituiçõ es da sociedade? Dê exemplos.
b) Sintetize as consideraçõ es do autor acerca dos movimentos sociais diante do processo de
globalizaçã o.

Lendo mapas e gráficos

9. Analise o mapa a seguir e compare os dados relativos aos anos de 1980 e 2013.
Considerando os efeitos do processo de globalizaçã o sobre as diferentes regiõ es e países,
comente as mudanças observadas.

João Miguel A. Moreira/ID/BR

Fonte de pesquisa: DOBBS, Richard; KOLLER, Tim; RAMASWAMY, Sree. Como sobreviver no futuro. Harvard Business Review Brasil, out.
2015. Disponível em: <http://hbrbr.com.br/comosobreviver-nofuturo/>. Acesso em: 4 mar. 2016.

10. O grá fico ao lado apresenta informaçõ es sobre o Fó rum Econô mico Mundial, realizado em
Davos no ano de 2014.
a) A parcela de representaçã o das diferentes regiõ es é equilibrada? Justifique.
b) Qual dos dados do grá fico exerce mais influência na proporçã o de representantes do
Fó rum?
Adilson Secco/ID/BR

Fonte de pesquisa: Who’s on the magic mountain? The Economist, 25 jan. 2014. Disponível em:
<http://www.economist.com/news/international/21595032-whos-magic-mountain>. Acesso em: 3 mar. 2016.
Pá gina 96

A formação dos
CAPÍTULO 7

blocos econômicos
O QUE VOCÊ VAI ESTUDAR
A formaçã o de blocos econô micos regionais.
Os principais blocos do mundo atual.
O papel dos blocos no cená rio da globalizaçã o.

Adilson Secco/ID/BR

Fonte de pesquisa: FRANKEL, Jeffrey A. et al. Regional trading blocs in the world economic system. Washington DC: IIE, 1997. p. 10.
Disponível em: <http://www.piie.com/publications/chapters_preview/72/6iie2024.pdf>. Acesso em: 7 mar. 2016.

A partir das ú ltimas décadas do século XX, boa parte do mundo conheceu um forte crescimento do comércio,
sobretudo quando as barreiras comerciais foram reduzidas como resultado das políticas neoliberais adotadas
em muitos países.

A reduçã o do controle alfandegá rio e o aumento dos fluxos comerciais internacionais são aspectos importantes
no processo de globalizaçã o, assim como a mobilidade da produçã o e, em particular, dos capitais. Esses
aspectos da globalizaçã o sã o propícios à formaçã o de blocos econômicos. Nos blocos, as fronteiras nacionais
tendem a ser flexibilizadas, com o objetivo de estimular o intercâ mbio econô mico entre os países e ampliar sua
competitividade no mercado global.

No atual está gio da globalizaçã o, os blocos constituem um importante modo de interaçã o internacional. No
entanto, tal processo nã o ocorre de maneira sempre hamoniosa. Nos blocos e nas organizaçõ es também se
manifestam interesses econô micos e políticos conflitantes.
No diagrama acima, estã o representados os acordos de integraçã o econô mica entre países americanos.
Analise-o e responda.

1. Qual bloco reú ne o maior nú mero de países?

2. Brasil, Estados Unidos, Cuba, México, Chile, Colô mbia e Argentina integram quais blocos?

3. Que bloco reú ne os países do Caribe? Avalie a importâ ncia da integraçã o econô mica para essa regiã o.
Pá gina 97

Níveis de integração econômica

Há tipos de acordos econô micos regionais que representam diferentes formas de integraçã o
entre os países participantes. Sã o eles:

• Zona de livre-comércio. As barreiras tarifá rias e nã o tarifá rias de produtos originá rios dos
países-membros sã o reduzidas ou eliminadas.

• União aduaneira. Além de permitir o livre-comércio, uniformiza as tarifas alfandegá rias


para produtos de países de fora do bloco (Tarifa Externa Comum – TEC).

• Mercado comum. Permite a livre circulaçã o de mercadorias, serviços, capitais e pessoas.


Adota-se uma legislaçã o comum aos países-membros para determinados setores.

• União monetária. Estabelecem-se a coordenaçã o das políticas econô micas dos países-
membros e a criaçã o de um ú nico banco para emitir a moeda comum.

O pró ximo está gio de integraçã o seria a uniã o política, isto é, a unificaçã o das políticas de
relaçõ es internacionais, defesa, segurança interna e externa. Atualmente, a Uniã o Europeia
apresenta o maior nível de integraçã o entre os blocos econô micos existentes, tendo
estabelecido a uniã o monetá ria entre parte de seus países-membros.

Formação da União Europeia


Em 1951, Alemanha Ocidental, França, Itá lia, Bélgica, Países Baixos e Luxemburgo fundaram a
Comunidade Europeia do Carvã o e do Aço (Ceca), instituindo uma zona de livre-comércio e
lançando as bases para a constituiçã o de um mercado comum na Europa. A Comunidade
Econô mica Europeia (CEE), também chamada Mercado Comum Europeu (MCE), seria
estabelecida em 1957, com a assinatura do Tratado de Roma.

Em 1992, quando 12 países compunham o bloco, foi assinado o Tratado de Maastricht. A


assinatura desse tratado esteve relacionada ao contexto de fortes mudanças na Europa, devido
ao colapso do comunismo na porçã o oriental do continente e à necessidade de o bloco
promover reformas internas e ampliar seu papel de liderança internacional. Em Maastricht,
nos Países Baixos, nasceu a União Europeia (UE), substituindo a CEE.

Entre os objetivos do tratado, estavam a criaçã o de uma política de segurança comum, o


desenvolvimento de uma vertente social, que incluiu a criaçã o de uma cidadania europeia, e a
instauraçã o da uniã o econô mica e monetá ria, que previa a criaçã o de uma moeda ú nica – o
euro (€) – implementada a partir de 1999. O tratado entrou em vigor em 1993 e, a partir de
entã o, novos países ingressaram na Uniã o Europeia. Em 2015, o bloco contava com 28
membros. Veja o mapa ao lado.
João Miguel A. Moreira/ID/BR

Fontes de pesquisa: IBGE Países@.

Disponível em <http://www.ibge.gov.br/paisesat/main.php>; Banco Mundial. Disponível em:


<http://data.worldbank.org/indicator/NY.GDP.MKTP.CD>. Uniã o Europeia. Disponível em: <http://europa.eu/index_pt.htm>.
Acessos em: 10 abr. 2016.
Pá gina 98

Os antigos países socialistas


Em 1989, a queda do Muro de Berlim iniciou um processo de atenuaçã o das diferenças entre a
Europa Ocidental e o Leste Europeu. A expansã o da UE para o leste – ocorrida principalmente
em 2004 – teve entre seus objetivos assegurar a paz no continente; ampliar a esfera de
influência do bloco sobre territó rios de antigos países satélites da ex-URSS; expandir os
mercados consumidores das grandes empresas da Europa Ocidental; dispor de mã o de obra de
menor custo.

Contudo, em 2013, a aproximaçã o entre a Uniã o Europeia e a Ucrâ nia gerou graves conflitos
nesse país. Sob a influência russa, o entã o presidente ucraniano, Viktor Yanukovich, cancelou
um acordo de cooperaçã o econô mica entre a Ucrâ nia e o bloco europeu, o que gerou grande
insatisfaçã o popular. As manifestaçõ es civis, duramente reprimidas pelo governo, resultaram
na morte de mais de 70 pessoas e na deposiçã o do presidente. Em 2016, o acordo foi
implementado e a Rú ssia, em retaliaçã o, impô s embargos comerciais à Ucrâ nia.

O futuro ameaçado
Nenhum modelo de integraçã o regional pode resistir ileso a uma crise econô mica da
magnitude da que se iniciou em 2008. Os membros da Uniã o Europeia passam por enormes
problemas econô mico-financeiros e têm divergido quanto à s soluçõ es para minimizar os riscos
de desastre econô mico. Isso tem colocado em risco o futuro do bloco.

A atençã o dos mercados e da imprensa tem se concentrado sobre a zona do euro, com
destaque para a Irlanda, a Grécia, a Espanha e Portugal, os países com os problemas mais
graves. As dificuldades econô mico-financeiras dessas naçõ es acabam se irradiando para os
demais membros do bloco.

A crise da Uniã o Europeia tem colocado em destaque a Alemanha. O país manteve as melhores
condiçõ es econô mico-financeiras e se tornou hegemô nico ao liderar as principais medidas
para o saneamento dos problemas do bloco.

A crise europeia provoca elevados níveis de desemprego, particularmente entre os jovens. A


Espanha apresentava, em 2014, 24,7% da populaçã o ativa desempregada. Situaçã o semelhante
ocorria na Grécia (26,3%) e em Portugal (14,2%). Nesses países, a populaçã o saiu à s ruas em
protesto contra as medidas de austeridade tomadas pelos governos, que atingem sobretudo os
setores de previdência, saú de e educaçã o. Nessa Europa em dificuldades, a xenofobia
(hostilidade em relaçã o aos imigrantes) tem encontrado terreno fértil.

A interferência do FMI e do Banco Central Europeu nos bancos e nos governos mostra a
gravidade da crise, que colocou em risco a permanência de alguns membros no bloco, com
destaque para a Grécia.
The Asahi Shimbun/Getty Images

Manifestantes protestam contra as medidas de austeridade que o governo grego propô s diante das dívidas do país
com instituiçõ es internacionais. Atenas, Grécia. Foto de 2015.

SAIBA MAIS

Cronologia da União Europeia


1951: Fundaçã o da Comunidade Europeia do Carvã o e do Aço (Ceca).
1957: Os integrantes da Ceca assinam o Tratado de Roma e criam a Comunidade Econô mica
Europeia (CEE).
1973: Ingresso de Reino Unido, Irlanda e Dinamarca.
1979: Primeiras eleiçõ es diretas para o Parlamento Europeu.
1981: Adesã o da Grécia.
1986: Ingresso de Portugal e Espanha.
1993: O mercado comum realiza-se plenamente com a livre circulaçã o de produtos, serviços,
capitais e pes soas. Entra em vigor o Tratado de Maastricht, instituindo a Uniã o Europeia.
1995: Adesã o de Finlâ ndia, Sué cia e Á ustria. A UE passa a contar com 15 membros.
1999- Introduçã o da moeda ú nica -2002: (euro), em 12 países da UE.
2004: Grande expansã o da Uniã o Europeia para o Leste Europeu e o Mediterrâ neo, com a adesã o
de dez países.
2007: Ingresso da Romênia e da Bulgá ria.
2013: A Croá cia passa a integrar o bloco, totalizando 28 países-membros.
Pá gina 99

O Mercado Comum do Sul (Mercosul)

De forma geral, o encerramento do ciclo de regimes militares na América do Sul coincidiu com
o avanço da globalizaçã o. Com suas economias despreparadas para a ampla abertura comercial
e a crescente competitividade empresarial, os governos da regiã o empreenderam uma série de
reformas neoliberais para se ajustar ao capitalismo global. Esse ajuste incluía a necessidade de
os países atuarem em conjunto para melhor posicionamento na economia internacional.

Foi nesse contexto que se criou o Mercosul, com a assinatura do Tratado de Assunçã o (1991),
reunindo Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai.

Inicialmente, foi estabelecida uma zona de livre-comércio, eliminando tarifas e restriçõ es


comerciais a produtos dos quatro países. Em 1995, o Mercosul transformou-se em uma uniã o
aduaneira, com a adoçã o progressiva de uma Tarifa Externa Comum (TEC). Com essa iniciativa,
as tarifas cobradas no comércio com países externos ao bloco foram padronizadas.

João Miguel A. Moreira/ID/BR

Fonte de pesquisa: Portal Brasil. Disponível em: <http://www.brasil.gov.br/governo/2015/07/mercosul-e-o-principal-mercado-de-


manufaturadosbrasileiros>. Acesso em: 8 mar. 2016.

Expansão e dificuldades do bloco


Com o tempo, outros países se tornaram membros associados e puderam participar de alguns
acordos. Em 2006, a Venezuela foi convidada a aderir como membro pleno, iniciando-se um
longo processo de aceitaçã o do país pelos congressos nacionais dos membros do bloco.
Em junho de 2012, o presidente paraguaio, Fernando Lugo, foi destituído pelo Congresso de
seu país, em um processo em que ele teve menos de dois dias para apresentar sua defesa. Isso
foi considerado um golpe pelos membros do Mercosul e o Paraguai foi suspenso do bloco. Um
mês depois, o ingresso da Venezuela no Mercosul foi confirmado.

Esse fato recebeu críticas, já que o Congresso paraguaio nã o deu sua aprovaçã o; para alguns,
isso fere as normas do bloco, que preveem a concordâ ncia de todos os membros nas decisõ es.

Brasil e Argentina sã o os países mais industrializados e têm as economias mais diversificadas


do bloco. Os rumos do Mercosul dependem da liderança desses dois países. Em alguns
momentos, o governo argentino deixou de seguir as regras do bloco, impondo cotas de
importaçã o e outras barreiras aos produtos brasileiros. Para o Brasil, o Mercosul representa
um importante mercado para produtos manufaturados.

Adilson Secco/ID/BR

Fonte de pesquisa: Mercosul. Disponível em: <http://www.mercosur.int/innovaportal/v/3862/2/innova.front/en-pocas-palabras>.


Acesso em: 8 mar. 2016.

Navegue
Mercosul
Este é o site brasileiro oficial do Mercosul, com diversas informaçõ es e dados sobre o bloco. Disponível em:
<http://linkte.me/mercosul>. Acesso em: 8 mar. 2016.
Pá gina 100

Outros blocos do continente americano

Duas iniciativas de integraçã o econô mica na América Latina foram prejudicadas por conflitos
de interesses e pela diversidade dos países envolvidos: a Associação Latino-Americana de
Livre-Comércio (Alalc), que durou de 1960 a 1980, formada por México, Argentina, Brasil,
Chile, Peru, Paraguai e Uruguai; e a Associação Latino-Americana de Integração (Aladi),
criada em 1980, reunindo os membros da Alalc, além de Bolívia, Colô mbia, Cuba, Equador,
Panamá e Venezuela.

O Mercosul é a experiência mais bem-sucedida da América Latina, mas outros blocos se


formaram: o Pacto Andino, criado em 1969 pelo Acordo de Cartagena e atualmente chamado
de Comunidade Andina das Nações (CAN); o Mercado Comum e Comunidade do Caribe
(Caricom); o Mercado Comum Centro-Americano (MCCA), composto de países da América
Central; e a Aliança Bolivariana para os Povos da Nossa América (Alba), que integra países
latino-americanos e dispõ e de um acordo econô mico entre alguns membros, o Tratado de
Comércio dos Povos.

Acordo de Livre-Comércio da América do Norte (Nafta)


O Nafta é a zona de livre-comércio que reú ne México, Estados Unidos e Canadá . Entrou em
vigor em 1994 e, ao contrá rio de blocos como a Uniã o Europeia, não pretende aprofundar a
integraçã o no campo político nem permitir a livre circulaçã o de pessoas, apenas visa
consolidar o livre comércio de mercadorias.

O México destoa dos países desenvolvidos do Norte. O Nafta surgiu com o receio de que a
economia mexicana fosse prejudicada pela força econô mica dos canadenses e estadunidenses.
O aumento da exportaçã o de commodities e a transferência de empresas (as maquiladoras) dos
Estados Unidos para a fronteira norte do México nã o sã o suficientes para solucionar as
desigualdades existentes entres seus países-membros.
João Miguel A. Moreira/ID/BR

Fontes de pesquisa: The UC Atlas of Global Inequality. Disponível em: <https://ccrec.ucsc.edu/news_item/uc-atlas-global-inequality-


0>. Acesso em: 18 dez. 2012. Bolivarian Alliance for the peoples of Our America Peoples’ Trade Treaty (Alba-TCP). Disponível em: <
http://alba-tcp.org/>.Acesso em: 20 abr. 2016.

Alca, um projeto frustrado


A Á rea de Livre Comércio das Américas (Alca) foi concebida na reuniã o da Cú pula das
Américas, realizada em Miami em 1994. A ideia fundamental era derrubar gradualmente as
barreiras comerciais entre os países do continente americano, criando uma grande zona de
livre-comércio.

A Alca nunca passou da condiçã o de projeto. Ela sofreu profundas críticas, especialmente dos
movimentos sociais latino-americanos, que se opunham ao aumento do poder e da influência
dos Estados Unidos promovido pelo bloco.

SAIBA MAIS

A Unasul

Em 2008, foi assinado em Brasília o tratado que deu origem à Uniã o de Naçõ es Sul-Americanas
(Unasul). A organizaçã o é formada por todos os países independentes da América do Sul (exceto a
Guiana Francesa). O México e o Panamá sã o países observadores.

Um de seus objetivos é criar no continente sul-americano um espaço de articulaçã o cultural, social,


econô mica e política entre seus povos. De forma ambiciosa, a Unasul apresenta como prioridades as
políticas sociais, a educaçã o, a energia, a infraestrutura, as finanças e o meio ambiente, elementos
que podem reduzir a desigualdade socioeconô mica do continente.

Sob o aspecto político, visa ao fortalecimento da soberania e da independência dos Estados.

Leia
Unasul: sua implementação, de Rodrigo Rios Faria de Oliveira. Sã o Paulo: Baraú na, 2014.
Nessa obra, o autor aborda a possibilidade de criaçã o de um mercado interno sul-americano e discute os obstá culos para sua
implantaçã o.
Pá gina 101

Outros blocos econômicos

Comunidade de Estados Independentes (CEI)


Criada em 1991, a CEI reú ne ex-repú blicas da Uniã o Soviética: Armênia, Azerbaijã o, Belarus,
Casaquistã o, Moldá via, Quirguistã o, Rú ssia, Tadjiquistã o, Turcomenistã o, Ucrâ nia e
Uzbequistã o. A Geó rgia passou a fazer parte do bloco em 1993 e retirou-se em 2009. As
decisõ es da CEI dependem de interesses comuns. Cada Estado avalia a adesã o aos acordos
estabelecidos pelo bloco. Apesar de possuir tratados na á rea de segurança militar, o
estabelecimento de uma zona de livre-comércio ainda não conta com a participaçã o de todos
os países-membros.

Associação de Nações do Sudeste Asiático (Asean)


Criada em 1967, a Asean reú ne as economias emergentes do Sudeste Asiá tico. Ela tem como
objetivos a estabilidade e o desenvolvimento econô mico da regiã o e a constituiçã o de um
mercado comum. Seus paí ses-membros sã o os seguintes: Mianma, Camboja, Tailâ ndia, Vietnã ,
Malá sia, Laos, Filipinas, Cingapura, Indonésia e Brunei.

Allmaps/ID/BR

Fonte de pesquisa: Asean. Disponível em: <http://www.asean.org/asean/aseanmember-states>. Acesso em: 8 mar. 2016.

Cooperação Econômica da Ásia e do Pacífico (Apec)


Em reuniõ es realizadas desde 1989, vá rios países asiá ticos e economias importantes do
oceano Pacífico resolveram criar uma á rea de livre-comércio. A eliminaçã o gra dual das tarifas
alfandegá rias contribuirá para atingir essa meta em 2020.

A Apec é um bloco bastante heterogêneo, pois inclui países desenvolvidos, como Japã o,
Austrá lia, Estados Unidos, Canadá ; Tigres Asiá ticos, como Coreia do Sul, Taiwan, Cingapura e
Hong Kong (devolvido à China em 1997, mas com autonomia até 2047); e países em
desenvolvimento, como China, Chile, Filipinas, Indonésia, Malá sia, México, Peru, Tailâ ndia e
Vietnã.

Allmaps/ID/BR

Fonte de pesquisa: Apec. Disponível em: <http://www.apec.org/About-Us/About-APEC/Member-Economies.aspx>. Acesso em: 8


mar. 2016.

Leia
O segundo mundo: impérios e influência na nova ordem global, de Parag Khanna. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2008.
O livro aborda a substituiçã o de uma era de hegemonia dos Estados Unidos por um padrã o multipolar mundial.
Pá gina 102

Comunidade de Desenvolvimento da África Austral (SADC)


Principal bloco econô mico do continente africano, a SADC conta com diversos países da
porçã o sul do continente. Um de seus principais objetivos é promover o desenvolvimento
industrial local, para diminuir a dependência em relaçã o aos países externos e também a
hegemonia regional exercida pela Á frica do Sul (ver mapa ao lado).

Vale destacar a existência de uniõ es monetá rias entre países africanos que, ao estabelecerem
moedas comuns e um controle financeiro unificado, buscam fortalecer suas economias no
mercado internacional. Um exemplo é a União Econômica e Monetária do Oeste Africano
(Uemoa), que reú ne Benin, Burkina Faso, Costa do Marfim, Mali, Níger, Senegal, Togo e Guiné
Bissau.

Allmaps/ID/BR

Fonte de pesquisa: Southern African Development Community (SADC). Disponível em: <http://www.sadc.int/member-states/>.
Acesso em: 8 mar. 2016.

Novos blocos

Aliança do Pacífico
Criada em 2012, a Aliança do Pacífico é um bloco formado por Chile, Peru, Colô mbia e
México, que reú ne cerca de 37% do PIB da América Latina, movimenta cerca de 50% do
comércio exterior latino-americano e constitui um mercado de 222 milhõ es de consumidores.
Tendo Costa Rica e Panamá como candidatos ao ingresso, o bloco busca estabelecer a livre
circulaçã o de bens, serviços, capitais e pessoas, em um projeto semelhante ao do Mercosul.

O acordo de formaçã o do bloco prevê a integraçã o das economias dos países banhados pelo
oceano Pacífico, com a reduçã o inicial de 90% das tarifas de importaçã o de mercadorias entre
os membros.
A Aliança do Pacífico apresenta uma dupla funçã o: ao mesmo tempo que prevê a diversificaçã o
de suas relaçõ es comerciais para conter o avanço chinês na regiã o, também se beneficia com a
demanda asiá tica por commodities.

Além da ampliaçã o do comércio intra-regional, o bloco deverá dar forte atençã o à integraçã o
energética e à infraestrutura, para incrementar as trocas.

Parceria Transpacífico
A acelerada ascensã o econô mica da China, observada nas ú ltimas décadas, contribuiu para o
surgimento de um grande bloco econô mico, em uma iniciativa liderada pelos Estados Unidos e
pelo Japã o. A Parceria Transpacífico (també m conhecida por TPP, na sigla em inglês) foi
instituída a partir de 2015 e procura garantir a competitividade comercial de seus países-
membros: Austrá lia, Brunei, Canadá , Chile, Cingapura, Estados Unidos, Japã o, Malá sia, México,
Nova Zelâ ndia, Peru e Vietnã . O acordo prevê o estabelecimento de uma zona de livre-comércio
e a criaçã o de normas comuns nas á reas financeira, ambiental, sanitá ria, trabalhista e de
propriedade intelectual.

A criaçã o do bloco gera preocupaçõ es a outros países, como o Brasil, que temem a reduçã o de
suas exportaçõ es dirigidas aos signatá rios do novo acordo.

Leia
Integração regional: uma introdução, de Paulo Roberto de Almeida. Sã o Paulo: Saraiva, 2013.
Nesse livro, o autor descreve o processo de formaçã o dos blocos regionais e analisa sua importâ ncia no cená rio político e
econô mico global.
Pá gina 103

Mundo Hoje
Mercosul: avanços, retrocessos e novos desafios
[...]

O Tratado de Assunçã o visava [quando foi fundado], entre outros pontos, inserir de forma mais
competitiva a economia desses quatros países [Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai] no
mercado internacional, aumentar a produtividade e tornar a regiã o mais atraente para
investidores privados. [...]

A estruturaçã o de um bloco como o Mercosul pode ser vista como uma forma de defesa dos
países [...] principalmente em relaçã o à maior potência mundial, que tinha interesse em
negociar com as naçõ es sul-americanas. Os Estados Unidos, contudo, primavam por negociar
acordos de livre-comércio de uma forma bilateral, o que na realidade dava ampla vantagem
para os americanos em suas negociaçõ es, quando feitas de maneira individual. Para enfrentar
esse tipo de negociaçã o, a opçã o do governo brasileiro pautou-se pela criaçã o de um bloco
regional, o Mercosul, que seria um importante meio de afirmaçã o e de barganha [...].

[...] o crescimento e declínio do bloco foi resultado dos fenô menos políticos e econô micos que
eram produzidos nacionalmente e exportados para a estrutura do bloco. Para a sua construçã o,
muito importante foi a efetivaçã o do Plano Real na economia brasileira, em 1994. A
estabilidade brasileira nesse período, bem como o fortalecimento do bloco, pode ser
notabilizada pelas iniciativas de outros países sul-americanos em fazer negó cios, e o interesse
apresentado pela Uniã o Europeia em participar de algumas negociaçõ es.[...]

Todavia, sua histó ria também foi caracterizada por retrocessos. Esse irregular processo de
integraçã o pode ser apontado devido à s assimetrias econô micas dos países, que provocaram
grandes divergências de interesses entre os integrantes. Outro ponto que retardou essa
integraçã o foram os efeitos de crises domésticas ocorridas principalmente no seio dos dois
principais vetores, Brasil e Argentina. A crise do real em 1999 foi um verdadeiro teste que
ameaçou romper com a estrutura econô mica do bloco e a pró pria integraçã o deste. No ano
seguinte, o Mercosul foi novamente ameaçado com a grande crise econô mica que ocorreu na
Argentina, provocando incertezas sobre como iria ser o caminho futuro da integraçã o.

[...]

Pode-se afirmar que [,] ao longo desses 20 anos, embora mediante problemas que ocorreram,
as bases para a integraçã o foram se formando. A relaçã o comercial é vista com um saldo
positivo, na medida em que se percebem consolidaçõ es nas amarras do bloco. Com as
estruturas econô micas avançando, qual o desafio do Mercosul para os pró ximos 20 anos? [...]

O pró ximo desafio será a integraçã o da cidadania do Mercosul. Questã o de teor mais difícil de
ser aplicada, haja vista que para haver uma cidadania é necessá rio que haja uma instituiçã o
com poderes institucionais mais abrangentes, supranacionais. Diferente da Uniã o Europeia, as
medidas aplicadas pelo bloco sulista, até o momento, se processaram pelo aval de interesses
dos governos nacionais. Por isso, o Mercosul foi limitado aos interesses das soberanias
nacionais.
Ter como objetivo focar a figura do cidadã o do Mercosul, com registro unificado de veículos,
identidades, etc., passa por um processo em que os interesses nacionais devem ser
complementados a um interesse de cunho maior, supranacional. Esse deve ser o grande
desafio dos articuladores do bloco. Nesse sentido, a formaçã o de um Parlamento (2005), com
países tendo suas bancadas, ressalta a possibilidade de um ó rgã o que seja elemento catalisador
[...] um Parlamento que defenda os interesses da integraçã o, em que o elemento supranacional
terá um grande respaldo.

SECUNDINO NETO, Manoel Paulino. Disponível em: <http://mundorama.net/2011/04/03/mercosul-avancos-retrocessos-e-novos-


desafios-por-manoel-paulinosecundino-neto/>. Acesso em: 11 mar. 2016.

Carlos Lebrato/Anadolu Agency/AFP

Sede do Parlamento do Mercosul (Parlasul), em Montevidéu, Uruguai. Foto de 2016.

PARA ELABORAR

1. Em mais de duas décadas desde sua criaçã o, quais foram os principais problemas
enfrentados pelo Mercosul?

2. Discuta com os colegas a seguinte questã o: Em sua opiniã o, será possível criar uma
cidadania do Mercosul? Depois, escrevam um texto coletivo com as conclusõ es a que chegaram.
Pá gina 104

Atividades
Não escreva no livro.

Revendo conceitos

1. Em que contexto histó rico os europeus se decidiram pela criaçã o da Comunidade Econô mica
Europeia, que futuramente originaria a Uniã o Europeia?

2. O ano de 2004 teve um significado especial para a ampliaçã o da Uniã o Europeia. Explique
por quê.

3. Compare os está gios de integraçã o da Uniã o Europeia e do Mercosul.

4. Explique o projeto da Aliança do Pacífico e seus objetivos.

5. Qual é o motivo principal para o fracasso do projeto da Alca?

6. Sobre a crise econô mica que atingiu profundamente a Uniã o Europeia, responda:
a) Qual é a razã o das grandes mobilizaçõ es populares que ocorreram em muitos países do
bloco?
b) Quais países passaram por maiores dificuldades?

7. Aponte a regiã o abrangida pelos blocos abaixo e indique seus principais objetivos.
a) Asean
b) Apec
c) SADC
d) Parceria Transpacífico

Lendo mapas e gráficos

8. O mapa abaixo representa o G-20 e o G-7, grupos que reú nem paí ses de grande poder
econô mico. Estabeleça uma comparaçã o entre Mercosul, Nafta, Apec e Uniã o Europeia,
avaliando o peso de cada um desses blocos na economia internacional.
Allmaps/ID/BR

Fontes de pesquisa: Council on Foreign Relations. Disponível em: <https://www.cfr.org/backgrounder/group-seven-g7>; Banco


Central do Brasil. Grupo dos 20 (G-20). Disponível em: <http://www.bcb.gov.br/?G20>. Acessos em: 20 abr. 2016.

9. Analise o grá fico ao lado e responda à s questõ es.

Adilson Secco/ID/BR

Fonte de pesquisa: Banco Mundial. Global Economic Prospects, p. 221, jan. 2016. Disponível em:
<http://www.worldbank.org/content/dam/Worldbank/GEP/GEP2016a/Global-Economic-Prospects-January-2016-Implications-
Trans-Pacific-Partnership-Agreement.pdf>. Acesso em: 10 mar. 2016.

a) Qual dos blocos apresentados atingiu a menor média tarifá ria no comércio intrabloco?
b) Quais sã o as consequências da reduçã o tarifá ria para os países que integram blocos
econô micos?
Pá gina 105

Interpretando textos e imagens

10. Leia o trecho a seguir e elabore uma breve avaliaçã o acerca da posiçã o socioeconô mica do
México no Nafta. Realize uma pesquisa sobre a atual condiçã o do bloco para complementar sua
resposta.

[...] De fato, [o] comércio bilateral entre mexicanos e americanos cresce, em média, mais de 10% ao
ano. [...] O tratado [Nafta] também possibilitou aumentar muito o investimento direto estrangeiro
(IDE). [...]

Mas os nú meros brutos nã o revelam a realidade vivida pela populaçã o: o “sucesso” do Nafta nã o
criou os empregos esperados. Apenas 80 mil dos 730 mil mexicanos que entram no mercado de
trabalho anualmente conseguem vagas. Além disso, os novos postos sã o abertos principalmente nas
maquiladoras, fá bricas que se restringem a montar componentes importados dos Estados Unidos e
reexportá -los de volta. [...]

Tal sistema fragilizou as finanças do México, obrigando-o a cortar os gastos sociais e demandar
mais receita do petró leo, para equilibrar o orçamento. [...]

Decorrência disso, a desigualdade nã o para de crescer nos países que integram o Nafta,
especialmente no México. Em comparaçã o com o período anterior (1984-1994), 90% das famílias
mexicanas viram sua renda cair ou estagnar. Para sobreviver, metade da populaçã o ativa extrai
uma receita complementar de um emprego informal, e um terço depende também do auxílio
financeiro dos parentes emigrados, as famosas remesas.[...]

VIGNA, Anne. Triste balanço do “livre” comércio. Disponível em: <http://diplo.org.br/2008-04,a2328>. Acesso em: 22 maio 2016.

11. Leia o texto e responda à s questõ es.

[...] Crescem as manifestaçõ es populares em grupos de senhores e senhoras com mais de 65 anos
que, por conta pró pria, planejam suas açõ es deixando o governo espanhol surpreso diante dos
indignados “yayos” (vovô s em espanhol). Afinal esta geraçã o de avó s, quando jovem, lutou pela
queda da ditadura franquista, batalhou pela construçã o de um sistema de saú de e educaçã o
abrangente e de qualidade e por açõ es sociais que trouxeram benefício à populaçã o.

Mas, no momento em que a Uniã o Europeia atravessa grave crise econô mica e que a Espanha, em
particular, se ressente com as medidas de ajuste fiscal, exigidas pelo bloco econô mico europeu, os
vovô s espanhó is voltam à luta pela preservaçã o das conquistas sociais pelas quais tanto lutaram na
juventude [...].

Os avó s descolados da Espanha. Disponível em: <http://www.oieduca.com.br/artigos/convivendo-com-a-diferenca/os--avos-


descolados-daespanha.html>. Acesso em: 9 mar. 2016.

a) De que trata o texto?


b) Quais sã o os motivos das mobilizaçõ es?

12. Analise a charge do cartunista francês Frep e, no caderno, sintetize o assunto tratado.
Frep/Crayon de nuit

Nota: O BCE é o Banco Central Europeu. Charge de 2012.

13. Com base em seus conhecimentos e na leitura do texto e do esquema a seguir, faça o que se
pede.

No processo de formaçã o de blocos regionais os objetivos de integraçã o entre as naçõ es diferem.


Em processos mais ambiciosos, que vã o além de acordos de preferência tarifá ria, a integraçã o
produtiva – explorando complementaridades de cadeias e mesmo as especializaçõ es de cada naçã o
e regiã o – é um componente essencial. No contexto, portanto, de formaçã o e consolidaçã o de níveis
de integraçã o mais avançados como uniõ es aduaneiras e mercados comuns, a integraçã o da
infraestrutura, em especial de transportes, desempenha um papel chave para permitir e estimular a
mobilidade de bens, capitais e pessoas no â mbito do bloco.[...]

Adilson Secco/ID/BR

SEABRA, Fernando et al. A grande cabotagem no Mercosul: a importância da navegaçã o costeira para a integraçã o do bloco. In:
Encontro Nacional da Abri, 5., 2015, Belo Horizonte. Anais eletrô nicos. Belo Horizonte: UFSC, 2015. Disponível em:
<http://www.encontronacional2015.abri.org.br/>. Acesso em: 22 maio 2016.

a) Realize uma pesquisa e descreva a atual situaçã o da infraestrutura de transportes associada


ao comércio internacional nos países do Mercosul.
b) Comente o surgimento de novos blocos econô micos na regiã o do oceano Pacífico,
considerando a importâ ncia dos transportes para o estabelecimento de acordos regionais.
Pá gina 106

As grandes potências
CAPÍTULO 8

globais
O QUE VOCÊ VAI ESTUDAR
As grandes potê ncias e as relaçõ es de força no mundo contemporâ neo.
Novas potê ncias e países emergentes.
Desenvolvimento econô mico e poderio militar.
Hegemonias e conflitos regionais.

Muitos fatores contribuem para que um país exerça influência sobre outros: o desempenho econô mico, o
poderio militar, o desenvolvimento tecnoló gico, o contingente populacional, a dimensã o territorial e a
disponibilidade de recursos naturais sã o alguns dos principais aspectos que reforçam a hegemonia de uma
nação.

Os Estados Unidos detêm o maior Produto Interno Bruto (PIB) do planeta, aproximadamente sete vezes maior
que o da economia brasileira. Considerado uma superpotência global, o país tem as Forças Armadas mais
poderosas do mundo, o maior nú mero de empresas multinacionais e exerce influência direta sobre
importantes ó rgã os internacionais como a Organizaçã o das Naçõ es Unidas (ONU), o Fundo Monetá rio
Internacional (FMI) e o Banco Mundial.

Nas ú ltimas décadas, outros países vêm ganhando destaque por meio de seu desempenho econô mico.
Simultaneamente, a constituição de novos arranjos político-econô micos, com a constituiçã o de acordos
internacionais, tem garantido a proeminência de alguns blocos regionais, como é o caso da Uniã o Europeia.

Entre os países em desenvolvimento, destacam-se aqueles com economias emergentes, como Brasil, Rú ssia,
Índia, China, que apresentaram elevadas taxas de crescimento do PIB nos ú ltimos anos. Além do desempenho
econô mico recente, tais países despontam no cená rio global devido a fatores como a dimensão territorial e
populacional que, por sua vez, também representa um vultoso mercado interno.

Fonte de pesquisa: Banco Mundial. Disponível em: <http://databank.worldbank.org/data/download/GDP.pdf>. Acesso em: 14 mar.
2016.
Grá ficos: Adilson Secco/ID/BR

Fonte de pesquisa: Banco Mundial. Disponível em: <http://data.worldbank.org/indicator/NY.GDP.MKTP.KD.ZG>. Acesso em: 14 mar.
2016.

Analise os grá ficos acima e responda.

1. Em 2014, o Brasil ocupava qual posiçã o no ranking mundial do PIB?

2. Entre os países com maior PIB, quais podem ser considerados países desenvolvidos ou países em
desenvolvimento?

3. Quais países apresentaram maior crescimento do PIB no ano de 2010?


Pá gina 107

Estados Unidos

Poucos países reú nem tantas características geográ ficas favorá veis para o desenvolvimento
econô mico como os Estados Unidos. O país é o quarto do mundo em extensã o terri torial (9,3
milhõ es de km²), tem saída para dois oceanos, possui extensas planícies favorá veis à
agricultura e é detentor de grandes reservas de recursos minerais. Constitui, ainda, o mais rico
mercado consumidor do planeta (com mais de 300 milhõ es de habitantes), o que o torna um
grande importador de commodities e bens industrializados.

Os Estados Unidos têm muitas vantagens em relaçã o à s demais potências: estã o na vanguarda
da inovaçã o científica desde a metade do século XX; ocupam um papel de liderança na
Organizaçã o do Tratado do Atlâ ntico Norte (Otan), criada em 1949; seu imenso territó rio tem
fronteiras com apenas dois países, os aliados México e Canadá . Além disso, os Estados Unidos
situam-se fora do eixo de tensõ es da Eurá sia, onde se travaram os maiores conflitos mundiais.

O gasto militar anual dos Estados Unidos equivale a cerca de 38% do total mundial. Em 2014,
esse gasto foi de aproximadamente 610 bilhõ es de dó lares, o que corresponde a 3,5% do PIB
total do país.

A presença dos Estados Unidos no Oriente Médio


Desde a Guerra Fria, os Estados Unidos buscam impor seus interesses econô micos e
geopolíticos ao Oriente Médio, que abriga cerca de dois terços das reservas conhecidas de
petró leo.

Alguns países da regiã o têm particular importâ ncia, como Israel, aliado político e militar dos
Estados Unidos; Iraque, invadido por tropas estadunidenses de 2003 a 2011, sob forte
oposiçã o da comunidade internacional; Irã, principal inimigo dos Estados Unidos na regiã o
desde a Revoluçã o Islâ mica, em 1979; Afeganistão, país invadido por tropas estadunidenses
em 2001 que ainda abriga grupos extremistas como o Talibã .

Os atentados de 11 de setembro de 2001 provocaram uma escalada nos gastos militares. Em


resposta aos ataques do grupo terrorista Al-Qaeda (entã o chefiado por Osama bin Laden), o
país empreendeu intervençõ es bélicas no Afeganistã o – para destruir o poder dos talibã s e da
Al-Qaeda – e no Iraque, quando depô s o ditador Saddam Hussein. Essas açõ es implicaram
gastos gigantescos, que comprometeram a saú de financeira do país. Veja o mapa abaixo.

Rumo a um mundo multipolar?


A crise financeira iniciada em 2008 gerou maior instabilidade na economia dos Estados
Unidos. A falência de bancos e os problemas financeiros nas três grandes montadoras
automobilísticas, o desemprego e os pacotes de ajuda governamental se somaram a outros
sintomas da deterioraçã o da posiçã o de superpotência dos Estados Unidos, como o
endividamento excessivo do país; a desvalorizaçã o do dó lar diante das moedas de outras
potências econô micas; e o crescimento econô mico de países emergentes, em ritmo superior ao
dos Estados Unidos.
João Miguel A. Moreira/ID/BR

Fonte de pesquisa: FERREIRA, Graça Maria Lemos. Atlas geográfico: espaço mundial. São Paulo: Moderna, 2013. p. 73.

Assista
Guerra ao terror. Direçã o de Kathryn Bigelow, EUA, 2009, 131 min.
O filme aborda a histó ria de um grupo de soldados estadunidenses cuja missã o é desativar bombas no Iraque.
Pá gina 108

China

O “socialismo de mercado”
Até a década de 1970, a China era um país praticamente fechado para o mundo. Mao Tsé-tung,
o líder da Revoluçã o Chinesa de 1949, estabeleceu um regime político e econô mico de
inspiraçã o socialista comandado quase integralmente pelo Estado, seguindo, nos primeiros
anos, o modelo soviético. O projeto de desenvolvimento industrial, o chamado Grande Salto
para a Frente (1958-1960), mostrou-se um fracasso.

Em 1978, dois anos apó s a morte de Mao Tsé-tung, o Partido Comunista Chinês surpreendeu o
mundo com o anú ncio de reformas econô micas de mercado.

Foi um apelo atrativo para milhares de empresas estadunidenses, europeias e japonesas.


Capitalistas de vá rias partes do mundo perceberam que poderiam dispor de um enorme
contingente de mã o de obra (barata e altamente disciplinada), além de energia subsidiada e
uma baixa carga tributá ria.

Nascia dessa forma um regime inédito no mundo: o “socialismo de mercado”, combinaçã o da


política centralizadora do Partido Comunista Chinês com a abertura ao capital internacional e
a restauraçã o da propriedade privada em certas á reas estratégicas do territó rio chinês – as
Zonas Econô micas Especiais (ZEEs).

A nova potência
A China tem se destacado como uma potência econô mica e geopolítica, em condiçõ es muito
especiais. Trata-se de um país em desenvolvimento, com grandes disparidades regionais e
elevado nú mero de pessoas na pobreza, sobretudo nas á reas rurais.

Apesar de a agricultura ainda ocupar grande parcela da populaçã o, é a atividade industrial o


principal motor do crescimento econô mico chinês. As exportaçõ es chinesas sã o muito
competitivas e garantem um superávit que possibilita a criaçã o de reservas monetá rias que
tornam o país uma potência financeira.

No período recente, o país tem ampliado sua atuaçã o no comércio internacional por meio de
empresas multinacionais nas á reas automobilística, de eletroeletrô nicos, informá tica e
telecomunicaçõ es.

Os parceiros comerciais
O intenso ritmo da produçã o industrial faz que a economia chinesa tenha uma grande
demanda por matérias-primas. Essa situa çã o levou a diplomacia chinesa a se mover em
muitas direçõ es, estabelecendo relaçõ es com Brasil, Venezuela, Angola, países do golfo Pérsico
e do golfo da Guiné, entre outros.

Nos anos 1980, a China começou a investir no continente africano, intensificando suas relaçõ es
comerciais a partir da década de 2000. No Sudeste Asiá tico, a fabricaçã o e a exportaçã o de
produtos manufaturados mobilizam as relaçõ es comerciais entre China e outros países da
regiã o.

Sua relaçã o com os Estados Unidos é particularmente interessante: os chineses sã o grandes


credores desse país, por meio da compra de títulos públicos, enquanto os Estados Unidos
importam grandes volumes de produtos chineses, que predominam em redes varejistas.

Título público: documento emitido pelos governos que certifica o empré stimo de um valor a ser pago com juros ao
comprador.

João Miguel A. Moreira/ID/BR

Fonte de pesquisa: SIMIELLI, Maria Elena Ramos. Geoatlas. 34. ed. Sã o Paulo: Á tica, 2013. p. 98.
Pá gina 109

As questões geopolíticas
No fim dos anos 1970, quando teve início o impulso de desenvolvimento, a China já enfrentava
alguns conflitos geopolíticos: movimentos separatistas no Tibete, possessõ es europeias no
territó rio chinês e o inconformismo pela independência de Taiwan.

Na regiã o autô noma de Xinjiang, a oeste do país, a populaçã o muçulmana, formada pela etnia
uigure (maioria na regiã o), sofre discriminaçã o por parte da etnia han, predominante no
restante do país. Sã o frequentes os episó dios de repreensã o e violência étnica na regiã o,
apoiados pelo governo.

O conflito do Tibete

O Tibete, na fronteira da China com a Índia e o Nepal, foi um país independente de 1912 a
1950. Pouco depois da revoluçã o comunista, em 1949, o governo chinês o transformou em
uma regiã o autô noma da China.

Em 1959, o Dalai Lama – líder religioso e político dos tibetanos – exilou-se na Índia. Desde
entã o, é crescente a reivindicaçã o pela retomada da independência do país. Com o sucesso
econô mico da China nas ú ltimas décadas, Beijing tentou, por meio de investimentos na regiã o,
atenuar o sentimento nacionalista no Tibete, mas nã o obteve sucesso.

Hong Kong e Macau

A ilha de Hong Kong foi cedida aos britâ nicos em 1848, de acordo com o Tratado de Nanquim.
Porto de importâ ncia estratégica, a possessã o recebeu vultosos investimentos financeiros e
tornou-se um Tigre Asiático. Em 1997, Hong Kong foi devolvida à China, sob a condiçã o de
manter autonomia (exceto em questõ es de segurança e política externa) por cinquenta anos.

Macau, controlado por Portugal desde o século XVI, foi reintegrado à China em 1999, em bases
semelhantes a Hong Kong.

Allmaps/ID/BR

Fonte de pesquisa: Universidade do Texas. Disponível em:


<http://www.lib.utexas.edu/maps/middle_east_and_asia/hongkongmacau.jpg>. Acesso em: 15 mar. 2016.
Taiwan: a “província rebelde”

Taiwan, ou Formosa, pertencente à China até 1949, foi onde se reuniram dissidentes
nacionalistas chineses apó s a revoluçã o liderada por Mao Tsé-tung.

Com a proteçã o militar dos Estados Unidos, em plena Guerra Fria, a ilha desenvolveu-se
economicamente como país independente (é um Tigre Asiá tico). A China nã o aceita a
soberania de Taiwan, considerada uma “província rebelde”.

Uma lei estadunidense obriga os Estados Unidos a defender Taiwan em caso de um ataque
chinês. Apesar das ameaças recíprocas, o continente e a ilha mantêm relaçõ es comerciais e
financeiras.

Os problemas ambientais
A China é o segundo maior consumidor de energia do planeta. Na matriz energética chinesa, o
carvã o mineral tem um peso muito grande, o que provoca forte poluiçã o atmosférica. Desde os
anos 2000, a China é a maior emissora mundial de CO2.

Também constituem problemas ambientais a poluiçã o das á guas dos principais rios, devido ao
lançamento de rejeitos industriais sem tratamento, e a contaminaçã o das á guas subterrâ neas
por fertilizantes químicos.

Xiao Lu Chu/Getty Images

Em 2015, a poluiçã o atmosférica atingiu níveis alarmantes em Beijing e o governo chinês suspendeu o funcionamento
de fábricas, escolas e o trâ nsito de veículos. Na foto, pessoas em visita ao Centro Olímpico da cidade, em dezembro de
2015.

Leia
O século XXI pertence à China? Um debate sobre a grande potência asiática. Rio de Janeiro: Elsevier, 2012.
Nesta obra, diversos autores analisam a ascensã o da China como força global e abordam problemas enfrentados pelo país,
desde a demanda por recursos energé ticos até a degradaçã o ambiental.
Pá gina 110

Japão

Ao abordar as características do Japã o, é comum que se enfatizem os aspectos geográ ficos,


como a pequena dimensã o do territó rio, a carência de combustíveis fó sseis, a propensã o
geoló gica a vulcanismo e terremotos, o relevo montanhoso e a estreita faixa de planície que
não permite aos japoneses a autossuficiência agrícola e alimentar.

Quanto à s relaçõ es internacionais, o país passou por grandes transformaçõ es apó s a abertura,
em 1853, de seus portos ao comércio exterior, sob forte pressã o dos Estados Unidos. A partir
de 1910 até a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), o Japã o desenvolveu uma política
expansionista e militarmente agressiva, e as conquistas territoriais (na China, na Indochina, na
Malá sia e na Indonésia) resolveram temporariamente as carências de espaço, alimentos e
recursos naturais (veja o mapa abaixo).

Houve investimentos maciços em material bélico. As ambiçõ es imperialistas levaram o país a


se associar à Alemanha nazista e à Itá lia fascista, constituindo o Eixo – um dos blocos que
participaram do segundo conflito mundial.

Com a guerra, o Japã o foi vítima de um ataque com bombas atô micas (lançadas pelos Estados
Unidos), em agosto de 1945. Na cidade de Hiroshima morreram cerca de 140 mil pessoas e na
de Nagasaki, aproximadamente 70 mil. As explosõ es forçaram a rendiçã o imediata do país. As
Forças Armadas foram reduzidas, em troca da garantia da proteçã o militar dos Estados Unidos.

Em 1946, o governo de ocupaçã o militar impô s ao Japã o uma Constituiçã o democrá tica e um
regime parlamentarista. Entre 1947 e 1950, o Japã o recebeu dos Estados Unidos uma ajuda de
2 bilhõ es de dó lares, impulsionando assim a sua economia. Esse crescimento maciço foi
chamado de “milagre japonês”.

Assista
Cartas de Iwo Jima. Direçã o de Clint Eastwood, EUA, 2006, 140 min.
O filme mostra a histó ria real da famosa batalha entre os Estados Unidos e o Japã o na ilha de Iwo Jima, pela perspectiva dos
japoneses. Iwo Jima foi considerada decisiva na Segunda Guerra Mundial, pois era estraté gica para ambos os lados.
Pouquíssimos soldados japoneses sobreviveram à batalha, e a reconstituiçã o histó rica dos acontecimentos foi possível por
meio de relatos feitos em cartas.
Allmaps/ID/BR

Fonte de pesquisa: ARRUDA, José Jobson de A. Atlas histórico básico. Sã o Paulo: Á tica, 2007. p. 31.

Saiba Mais

Um sobrevivente das duas bombas atômicas

Tsutomu Yamaguchi, o ú nico sobrevivente oficialmente reconhecido das duas bombas


atô micas que atingiram o Japã o no final da Segunda Guerra Mundial, morreu aos 93 anos [em
2010].

Na época dos bombardeios, em agosto de 1945, Yamaguchi estava em Hiroshima para uma
viagem de negó cios [...]. Ele teve queimaduras graves e passou a noite lá. Quando voltou para
sua cidade, Nagazaki, foi atingido pela segunda bomba, três dias depois. [...]

A identificaçã o oficial dá ao sobrevivente compensaçõ es financeiras, exames médicos gratuitos


e pagamento dos custos funerá rios.

[...]

G1, 6 jan. 2010. Mundo. Disponível em: <http://g1.globo.com/Noticias/Mundo/0,,MUL1436341-5602,00-


SOBREVIVENTE+DE+DUAS+BOMBAS+ATOMICAS+MORRE+AOS+ANOS+NO+JAPAO.html>. Acesso em: 17 mar. 2016.
Pá gina 111

A expansão da economia japonesa


Com o apoio dos Estados Unidos, os japoneses aproveitaram a base industrial anterior à guerra
e tornaram-se exportadores de produtos industrializados.

Na década de 1960, a economia japonesa cresceu em ritmo superior ao dos países europeus e
dos Estados Unidos. Até entã o, os produtos japoneses eram considerados de qualidade
inferior, porém com preços imbatíveis (algo como o que ocorre com a China atual).

Antigas empresas familiares – os zaibatsus –, que constituíam grandes conglomerados, foram


dissolvidas ao fim da Segunda Guerra, o que diminuiu a concentraçã o de capital e estimulou a
concorrência entre as empresas. O desenvolvimento do Japã o em bases capitalistas e sua
posiçã o como naçã o forte na regiã o interessavam aos Estados Unidos, que visavam à expansã o
e ao fortalecimento de sua á rea de influência.

Nos anos 1970, o Japã o tornou-se o segundo país mais industrializado do mundo, perdendo,
como potência econô mica, apenas para os Estados Unidos.

Na década seguinte, porém, o crescimento japonês passou a incomodar os Estados Unidos.


Veículos das montadoras japonesas ganhavam a preferência de muitos consumidores
estadunidenses, e as multinacionais japonesas projetavam-se em regiõ es antes dominadas por
empresas dos Estados Unidos.

Durante a década de 1990, o Japã o entrou em uma fase de estagnaçã o econô mica, ligada a
fatores como: os altos custos de produçã o do país; o envelhecimento da populaçã o, com
impactos sobre a populaçã o ativa; a concorrência da China e dos Tigres Asiá ticos; o quadro de
intervencionismo estatal; e a defasagem do sistema bancá rio, que já nã o respondia à s
necessidades da concorrência mundial.

A indú stria japonesa, desenvolvedora de produtos de alta tecnologia, concentra-se na porçã o


sul do arquipélago japonês, em á reas de elevada densidade populacional. O setor industrial
japonês atrai mã o de obra proveniente de outros países, com destaque para os países do
Sudeste Asiá tico e para o Brasil – onde muitos brasileiros de ascendência japonesa (os
decasséguis) optam por migrar em busca de melhor remuneraçã o. A partir de 2003, o Japã o
realizou uma ampla reforma no sistema bancá rio, e a economia deu sinais de recuperaçã o. A
feroz concorrência internacional impô s uma reduçã o dos custos de produçã o, e os
conglomerados japoneses perderam espaço para as potências emergentes da Á sia. A crise
financeira mundial iniciada em 2008 reduziu ainda mais as exportaçõ es do Japã o, mas o país
manteve sua força tecnoló gica para se impor no cená rio internacional.

GEOGRAFIA E FÍSICA

Energia nuclear e contaminação por radiação

Em março de 2011, um terremoto de magnitude 9 na escala Richter abalou o litoral nordeste do


Japã o. O tremor também causou um tsunami que varreu a costa japonesa e destruiu milhares de
casas, além de danificar reatores da usina nuclear de Fukushima. Em consequência, a regiã o foi
contaminada por radiaçã o e cidades e vilas precisaram ser evacuadas.
Logo apó s o terremoto e o tsunami, as autoridades japonesas deram início à reconstruçã o das á reas
afetadas, mas o programa nuclear japonês passou a ser questionado. Ainda em 2011, quatro usinas
nucleares foram desativadas, e a populaçã o passou a pressionar o governo para que o Japã o
abandonasse esse tipo de fonte energética.

O governo japonês tem buscado reduzir o peso da energia nuclear na matriz energética do país, já
que o arquipélago, localizado nos limites de quatro placas tectô nicas – Euro-Asiá tica, das Filipinas,
do Pacífico e Norte-Americana –, está permanentemente sujeito a novos abalos sísmicos e a
possíveis acidentes em outras usinas nucleares.

1. Em grupos, pesquisem eventos que resultaram na contaminaçã o ambiental por radiaçã o nuclear.

2. Listem os efeitos nocivos da contaminaçã o por radiaçã o para a populaçã o e para o meio
ambiente.

Rie Ishii/AFP

Em dezembro de 2012, dezenove meses apó s a catástrofe de Fukushima, milhares de pessoas se reuniram em Tó quio
(foto) para pedir o fim das atividades nucleares do Japã o.
Pá gina 112

A União Europeia

Poder econômico  poder militar

A integraçã o dos países europeus em uma uniã o monetá ria criou uma considerá vel força
econô mica, capaz de enfrentar a concorrência dos Estados Unidos, do Japã o e dos países
emergentes.

Entretanto, o poder econô mico da Uniã o Europeia (UE) nã o se traduz diretamente em poder
militar. A Europa Ocidental, desde o fim da Segunda Guerra Mundial, se manteve na ó rbita
político-militar dos Estados Unidos. Em outras palavras, ela sempre contou com a proteçã o dos
Estados Unidos no â mbito da Otan, pacto militar dos países ocidentais.

Dois países europeus têm uma influência política internacional mais destacada, por serem
membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU, com poder de vetar intervençõ es
militares internacionais a serem realizadas por essa organizaçã o: Reino Unido e França. Eles
sã o também os ú nicos países da UE que dispõ em de armas nucleares.

João Miguel A. Moreira/ID/BR

Fonte de pesquisa: Banco Mundial. Disponível em: <http://databank.worldbank.org/data/download/GDP.pdf>. Acesso em: 16 mar.
2016.

A política de defesa da União Europeia


É notá vel o avanço da cooperaçã o econô mica, comercial e monetá ria da Uniã o Europeia.
Porém, os países-membros do bloco sã o soberanos para decidir suas políticas de defesa e
segurança.

A Uniã o Europeia ainda nã o chegou a um consenso sobre a formaçã o de uma força militar
supranacional, capaz de intervir em questõ es de segurança internacional. Nessa á rea, os
europeus geralmente atuam em conjunto com os Estados Unidos ou com a ONU, com destaque
para a atuaçã o em missõ es de paz e humanitá rias realizadas na Á frica.
Em alguns casos extremos, como os conflitos da Bó snia-Herzegovina (1992-1995) e do Kosovo
(1999), os europeus mostraram-se politicamente afinados. Forças militares da UE substituíram
as forças de manutençã o de paz da Otan na regiã o a partir de 2004.

Mas nem sempre há consenso: na intervençã o militar no Iraque, em 2003, o Reino Unido uniu-
se à s tropas estadunidenses, enquanto a França se opô s enfaticamente à guerra.

Adilson Secco/ID/BR

Fontes de pesquisa: ROSS, Eleanor. The nine countries that have nuclear weapons. The Independent, 6. jan. 2016. Disponível em:
<http://www.independent.co.uk/news/world/politics/the-nine-countries-that-have-nuclear-weapons-a6798756.html>;
International campaign to abolish nuclear weapons (Ican). Disponível em: <http://www.icanw.org/the-facts/nuclear-arsenals/>.
Acessos em: 16 abr. 2016.
Pá gina 113

Os países europeus e a Otan


A Otan, organizaçã o militar criada em 1949, tinha inicialmente a funçã o de proteger a Europa
Ocidental de possíveis ataques da Uniã o Soviética ou ataques de países que compunham o
bloco socialista, no contexto da Guerra Fria.

Com a desintegraçã o da URSS, em 1991, e o consequente desmantelamento do socialismo no


Leste Europeu, a Otan continuou existindo como um pacto militar que visa garantir a
segurança internacional dos países-membros. Desde sua fundaçã o, a organizaçã o incorporou
novos integrantes. Observe o mapa ao lado.

Allmaps/ID/BR

Fonte de pesquisa: Otan. Disponível em: <http://www.nato.int/cps/en/natolive/nato_countries.htm>. Acesso em: 28 mar. 2016.

A expansã o da Otan para o Leste Europeu tem acirrado as tensõ es entre essa organizaçã o e a
Rú ssia.

A inclusã o de países como Albâ nia e Croá cia e a pretensã o de incluir países da antiga Uniã o
Soviética, como Geó rgia e Ucrâ nia, podem comprometer os acordos entre Estados Unidos e
Rú ssia para a reduçã o de arsenais nucleares. Os russos querem evitar a qualquer custo a
reduçã o de sua á rea de influência e, nesse sentido, sã o rivais da Uniã o Europeia.

O futuro da União Europeia


Quando se observa a histó ria mundial nos séculos XIX e XX, logo se constata que os europeus
foram protagonistas de importantes acontecimentos geopolíticos, exercendo grande influência
em todo o mundo. As guerras mundiais e a Guerra Fria tiveram como palco principal o
territó rio europeu.
No século XXI, todavia, surgiram novos polos de poder. Um exame dos indicadores econô micos
e demográ ficos confirma essa tendência: o crescimento econô mico é muito maior na Á sia e a
populaçã o da Europa deve declinar.

O modelo de capitalismo com redes de proteçã o social (welfare state) levou os países europeus
ao topo da classificaçã o do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), criado pela ONU. Os
trabalhadores da UE contam com jornadas de trabalho menores, seguro-desemprego e
benefícios geralmente superiores aos dos trabalhadores do restante do mundo.

Porém, o avanço da concorrência econô mica no mundo globalizado gerou sérios problemas
para a economia da UE: os custos de produçã o tornaram-se muito elevados, e o
envelhecimento da populaçã o reduziu a oferta de mã o de obra para as empresas.

Acrescenta-se a esses problemas a forte crise econô mico-financeira que se abateu sobre os
países-membros da UE a partir de 2008. Essa crise provocou estagnaçã o e retrocesso em
muitas economias, abalando a coesã o interna do bloco.

A instabilidade financeira reforçada pela crise a partir de 2008, os atentados terroristas


ocorridos em Paris (2015) e na Bélgica (2016) colocaram em questã o a uniã o monetá ria e o
acordo que regulamenta a livre circulaçã o de pessoas entre países do bloco europeu
(Schengen).

Mais do que isso, a Uniã o Europeia terá de decidir se acolhe com dignidade os milhõ es de
imigrantes que ali vivem e formam uma força de trabalho capaz de impulsionar a economia
numa época de forte concorrência internacional.

Navegue
Centro de Informação Europeia Jacques Delors
O portal traz informaçõ es sobre as políticas da UE em diversas á reas, como migraçõ es, controle financeiro e educaçã o.
Disponível em: <http://linkte.me/ciejd>. Acesso em: 16 mar. 2016.
Pá gina 114

As potências regionais

Apesar das distorçõ es sociais e econô micas reforçadas pela globalizaçã o, um exame da década
de 2000 mostra que aumentou o peso relativo dos países emergentes na dinâ mica das
potências mundiais.

A ascensã o econô mica de um país altera substancialmente a geopolítica global. É o que se


espera também com a ascensã o dos emergentes.

O grande crescimento econô mico observado nas ú ltimas décadas expandiu as exportaçõ es de
matérias-primas e alimentos, favorecendo diversos países. Além disso, os baixos custos de
produçã o desses paí ses (especialmente o custo da mã o de obra) estimularam a transferência
de indú strias dos países desenvolvidos para os países em desenvolvimento. Vá rios países da
América Latina, do sul e sudeste da Á sia e a Á frica do Sul expandiram seus setores industriais.

Essa alteraçã o no quadro global impõ e a necessidade de relaçõ es internacionais pautadas pelo
multilateralismo. Cada vez mais as grandes potências necessitam consultar os países
emergentes e estabelecer regras econô micas e acordos comerciais com eles.

Nesse cená rio surgiu o G-20, grupo que reú ne os sete países mais ricos (que formam o G-7) e as
principais economias industrializadas emergentes. O G-20 representa cerca de 90% do PIB
mundial, 80% do comércio e dois terços da populaçã o do planeta.

Índia
A regiã o conhecida como subcontinente indiano – atuais Paquistã o, Índia, Bangladesh, Sri
Lanka, Nepal e Butã o – tornou-se independente da Inglaterra em 1947.

A Índia, que tem hoje mais de 1 bilhã o de habitantes, sofreu muitos conflitos políticos, étnicos e
religiosos. Nos anos 1990, começou a ajustar sua economia ao processo de globalizaçã o. O
resultado foi quase imediato: tal como a China, o país tornou-se um grande produtor de
manufaturados.

Além de seus imensos recursos humanos, a Índia conta com um sistema educacional
qualificado e com á reas de excelência tecnoló gica que contrastam com a pobreza vigente.

A média indiana de crescimento econô mico na década de 2000 foi de 7% ao ano (7,3% em
2014). As projeçõ es indicam que, nesse ritmo, a Índia será a quarta economia do mundo em
2050.

O país possui bombas atô micas, mas nã o assinou o Tratado de Nã o Proliferaçã o de Armas
Nucleares (TNP), que legaliza a posse de armas nucleares só para os países que as tinham até
1968: Estados Unidos, Rú ssia, França, China e Reino Unido. Veja o mapa abaixo.
João Miguel A. Moreira/ID/BR

Fonte de pesquisa: FERREIRA, Graça Maria Lemos. Atlas geográfico: espaço mundial. 4. ed. Sã o Paulo: Moderna, 2013. p. 59.

Leia
O mundo pós-americano, de Fareed Zakaria. Sã o Paulo: Companhia das Letras, 2008.
O livro analisa a hegemonia estadunidense no mundo contemporâ neo, em diversos planos. Para o autor, os Estados Unidos
ainda mantê m sua posiçã o de superpotê ncia militar e política. Poré m, nas dimensõ es da economia, das finanças e da cultura,
está em curso uma distribuiçã o de poder.
Pá gina 115

Rússia
Grande ator geopolítico da Guerra Fria, quando era a repú blica líder da Uniã o Sovié tica,
atualmente a Rú ssia tem uma influência relativamente menor no mundo.

Os russos ainda detêm, no entanto, um significativo arsenal de bombas atô micas herdadas do
período soviético.

O domínio de fontes de energia, sobretudo do gá s natural, também é um fator pelo qual a


Rú ssia exerce seu poder na Europa.

À instalaçã o de um escudo antimísseis na Europa Central (Polô nia e Repú blica Tcheca), por
parte da Otan a partir de 2012, os russos reagiram com a colocaçã o de mísseis em
Kaliningrado, enclave territorial do país entre a Lituâ nia e a Polô nia, países da Uniã o Europeia.

Embora os Estados Unidos argumentem que o escudo tem por objetivo se proteger de inimigos
como o Irã , as autoridades de Moscou consideram que o projeto visa intimidar a Rú ssia.

O poderio dos demais emergentes


Paquistã o e Coreia do Norte também desenvolveram armas atô micas. Os paquistaneses alegam
que essas armas sã o vitais para a defesa do país diante da inimiga Índia. Esta controla a
Caxemira, cuja separaçã o da Índia e anexaçã o ao Paquistã o é reivindicada pela maioria
muçulmana.

O arsenal nuclear norte-coreano, por sua vez, é um resquício da Guerra Fria, que dividiu o
territó rio coreano em dois países: a Coreia do Norte, socialista, e a Coreia do Sul, capitalista.

O Brasil e a Á frica do Sul almejam a condiçã o de membros permanentes no Conselho de


Segurança da ONU, o que reforçaria sua posiçã o de potências regionais. Isso dependeria de
uma reforma dessa organizaçã o internacional. Rú ssia, Estados Unidos, China, Reino Unido e
França ainda nã o deram sinais claros de aceitaçã o de uma profunda mudança na ONU. Os
emergentes, por enquanto, tentam aumentar sua influência sobre os organismos
internacionais.

O grupo Brics
A sigla Brics refere-se aos cinco países emergentes de grande expressã o populacional e
territorial, que, por apresentarem grande crescimento econô mico e recursos produtivos,
passaram a participar com maior intensidade na dinâ mica global: Brasil, Rú ssia, Índia,China e
Á frica do Sul (South Africa).

Esse grupo já demonstrou que tem força econô mica capaz de impor seus interesses no cená rio
global. Brasil, Rú ssia, Índia, China e Á frica do Sul dispõ em de considerá veis recursos
econô micos, humanos e naturais e têm obtido maior protagonismo político diante de
organismos internacionais, como o FMI e o Banco Mundial.

Assista
Salada russa em Paris. Direçã o de Youri Mamine, França/Rú ssia, 1994, 97 min.
Filme divertido sobre a difícil passagem do comunismo para o capitalismo na Rú ssia do início dos anos 1990. Conta a
histó ria de um professor de mú sica que descobre, no quarto que aluga, uma passagem que liga sua cidade a Paris. Com seus
amigos faz viagens clandestinas à capital francesa.

João Miguel A. Moreira/ID/BR

Fonte de pesquisa: CIA. The World Factbook. Disponível em: <https://www.cia.gov/library/publications/the-world-


factbook/geos/in.html>. Acesso em: 16 mar. 2016.
Pá gina 116

Informe
O crescimento dos emergentes
Houve três mudanças de poder tectônicas nos ú ltimos quinhentos anos, alteraçõ es
fundamentais na distribuiçã o de poder que reformularam a vida internacional – sua política,
sua economia e sua cultura.

Tectônico: no sentido aplicado no texto, significa “drá stico” ou “profundo”.

A primeira foi a ascensã o do mundo ocidental, um processo que começou no século XV e se


acelerou imensamente no final do século XVIII. Ela produziu a modernidade, tal como a
conhecemos: ciência e tecnologia, comércio e capitalismo, as revoluçõ es agrícola e industrial.
Produziu também o prolongado domínio político das naçõ es do Ocidente.

A segunda mudança, que aconteceu nos ú ltimos anos do século XIX, foi a ascensã o dos Estados
Unidos. Logo depois de se industrializar, os Estados Unidos se tornaram a naçã o mais poderosa
desde a Roma imperial, e a ú nica mais forte do que qualquer combinaçã o prová vel de outras
naçõ es. Durante boa parte do ú ltimo século, os Estados Unidos dominaram a economia, a
política, a ciência e a cultura mundiais. Nos ú ltimos vinte anos, esse domínio foi sem rival, um
fenô meno inédito na histó ria moderna.

Estamos agora passando pela terceira grande mudança da era moderna. Ela poderia ser
chamada de “a ascensã o do resto”. Ao longo das ú ltimas décadas, países de todo o mundo vêm
experimentando taxas de crescimento econô mico que eram outrora impensá veis.

Embora tenham passado por elevaçõ es e quedas, a tendência geral tem sido indiscutivelmente
para cima. Esse crescimento tem sido mais visível na Á sia, mas nã o está mais restrito a ela.

Por isso, chamar essa mudança de “ascensã o da Á sia” nã o a descreve corretamente. Em 2006 e
2007, 124 países cresceram a uma taxa de 4% ou mais. Esse nú mero inclui mais de trinta
países da Á frica, dois terços do continente. Antoine van Agtmael, o administrador de fundos
que cunhou o ter mo “mercados emergentes”, identificou as 25 empresas que serã o
provavelmente as pró ximas grandes multinacionais. Sua lista contém quatro companhias do
Brasil, México, Coreia do Sul e Taiwan; três da Índia; duas da China e uma de Argentina, Chile,
Malá sia e Á frica do Sul. [...]

Administrador de fundos: pessoa ou empresa que administra recursos financeiros de outrem.

Pode parecer estranho centrar-se na prosperidade crescente quando ainda existem centenas
de milhõ es de pessoas vivendo na mais profunda miséria. Mas, na verdade, a proporçã o de
pessoas que vivem com um dó lar ou menos por dia despencou de 40% em 1981 para 18% em
2004 [...].

Só o crescimento da China tirou mais de 400 milhõ es de pessoas da pobreza. A miséria está
diminuindo em países que abrigam 80% da populaçã o mundial. Os cinquenta países em que
vivem as pessoas mais pobres do mundo sã o casos gravíssimos que precisam de atençã o
urgente. Nos outros 142 – que incluem China, Índia, Brasil, Rú ssia, Indonésia, Turquia, Quênia
e Á frica do Sul –, os pobres estã o sendo lentamente absorvidos por economias produtivas e
crescentes.

Pela primeira vez na histó ria, estamos testemunhando um genuíno crescimento global. Isso
está criando um sistema internacional em que países de todos os cantos do mundo não sã o
mais objetos ou observadores, mas atores por seus pró prios méritos. É o nascimento de uma
ordem realmente global. [...]

Que tipos de oportunidades e desafios representam essas mudanças?

ZAKARIA, Fareed. Mundo pós-americano. Sã o Paulo: Companhia das Letras, 2008. p. 11-15.

PARA DISCUTIR

1. Discuta com um colega respostas possíveis à questã o formulada por Fareed Zakaria ao final
do texto. Faça anotaçõ es durante a discussã o e, em seguida, escreva um texto expondo suas
conclusõ es. Para isso, pense nas possíveis mudanças culturais e geopolíticas que a “ascensã o
do resto do mundo” pode gerar.
Pá gina 117

Mundo Hoje
Brics: conquistas e fracassos no grupo dos emergentes
Rú ssia e Brasil devem ter recessã o este ano [2015]. A China está desaquecendo e a economia
sul-africana deve crescer cerca de 2%. Dos cinco Brics, o ú nico que ainda empolga investidores
é a Índia, com um crescimento esperado de quase 8% para 2015.

Até o criador do termo Bric, [...] Jim O’Neill, disse recentemente que se sentiria tentado a
reduzi-lo para “IC” – iniciais de Índia e China – se os outros países nã o retomarem sua
trajetó ria de crescimento até o fim da década. [...]

Mas apesar dessas diferenças, analistas consultados [...] apontam quatro avanços que teriam
marcado esses sete primeiros anos dos Brics, juntamente com os problemas econô micos de
alguns de seus integrantes [...].

Avanços
1) Banco dos Brics

Os Brics já assinaram um acordo para a criaçã o de um banco que financiará obras de


infraestrutura em países pobres e em desenvolvimento, embora o projeto ainda precise ser
ratificado pelo Legislativo de alguns países. O chamado Novo Banco de Desenvolvimento
(NBD), uma espécie de Banco Mundial dos emergentes, terá sede em Xangai, na China, e um
capital inicial de US$ 50 bilhõ es, dividido igualmente entre os Brics.

Do ponto de vista financeiro, o banco é interessante porque pode receber uma classificaçã o de
risco melhor que as economias do grupo, captando recursos no mercado a um custo mais
baixo. Mas analistas também veem sua criaçã o como parte de uma açã o política que teria como
objetivo criar alternativas à hegemonia americana e europeia no sistema financeiro
internacional. [...]

2) Arranjo de Contingente de Reservas (ACR)

Além da abertura do banco, os líderes também já acertaram a criaçã o de uma espécie de fundo
para socorrer membros dos Brics que tenham graves desequilíbrios em suas balanças de
pagamentos ou estejam à beira de um calote.

O esquema, batizado de Arranjo de Contingente de Reservas (ACR), contará com um total de


US$ 100 bilhõ es para essas operaçõ es de resgate financeiro. A China se comprometeu com US$
41 bilhõ es; Brasil, Rú ssia e Índia, com US$ 18 bilhõ es cada; e a Á frica do Sul, com US$ 5 bilhõ es.
“Trata-se de uma espécie de Fundo Monetá rio Internacional (FMI) dos emergentes, que nã o
impõ e tantas condicionalidades para a liberaçã o dos recursos”, diz [Marcos] Troyjo [diretor do
BricLab da Universidade Columbia].
Alexander Nemenov/AFP

Logotipo da Sétima Cú pula do Brics, realizada em Ufa, Rú ssia, 2015.

3) Abertura de canais de diálogo

Segundo [Oliver] Stuenkel [especialista em Brics da Fundaçã o Getú lio Vargas], os líderes dos
Brics também perceberam ao longo desses sete anos que podem conseguir “benefícios
mú tuos” com uma maior coordenaçã o e a abertura de mais canais de diá logos. “A Rú ssia, por
exemplo, procurou o apoio do grupo quando tentava evitar o isolamento internacional em
meio à crise na Ucrâ nia”, diz ele. [...]

4) Cooperação em áreas diversas

Além do banco e do ACR, integrantes do bloco também têm feito avanços na cooperaçã o em
outras á reas, como educaçã o, políticas de inovaçã o, turismo e desenvolvimento de
infraestrutura [...]. Em fevereiro [de 2015], os cinco ministros de educaçã o se encontraram
para discutir a criaçã o de uma rede universitá ria dos Brics, a cooperaçã o na á rea de educaçã o
técnica e profissional e a elaboraçã o de metodologias de avaliaçã o do ensino.

Na á rea de comércio, um dos projetos sobre a mesa é o uso de moedas locais para as operaçõ es
de exportaçã o e importaçã o entre países dos Brics.[...]

“Os encontros dos Brics também criaram oportunidades para a reuniã o de empresá rios e
acadêmicos, e até ONGs se mobilizaram, de modo que a sociedade civil acabou incluída nessa
agenda de cooperaçã o”, diz [Paulo] Wrobel [pesquisador do Brics Policy Center].

Fracasso
1. Crescimento econômico

Ainda que a falta de crescimento em alguns países nã o pareça atrapalhar a institucionalizaçã o


e consolidaçã o dos Brics no curto prazo há certo consenso entre especialistas de que, no longo
prazo, poderia ampliar desequilíbrios que ajudam a minar a base de coesã o do grupo.

Wrobel […] lembra que o PIB da China já é maior que o de todas as outras economias dos Brics
juntas.

E com as economias da Rú ssia e do Brasil se enfraquecendo, segundo ele, nã o é difícil imaginar


que esse país possa acabar tendo uma presença dominante no grupo, transformando o Brics
em um “C+4”.

COSTAS, Ruth. Brics: quatro conquistas e um fracasso do grupo dos emergentes. BBC Brasil, 7 jul. 2015. Disponível em:
<http://www.bbc.com/portuguese/noticias/2015/07/150706_avancos_brics_ru>. Acesso em: 16 mar. 2016.

PARA ELABORAR

1. Em grupos, pesquisem iniciativas do Brics que poderiam abalar a hegemonia econô mica das
demais potências econô micas mundiais. Reú nam o resultado das pesquisas em cartazes,
apresentando-os à sala.
Pá gina 118

Atividades
Não escreva no livro.

Revendo conceitos

1. Mencione três fatores que reforçam a hegemonia política e militar dos Estados Unidos em
comparaçã o com outras potências.

2. Que açõ es empreendidas pelo governo dos Estados Unidos comprometeram a estabilidade
financeira do país na década de 2000?

3. Escreva um texto sobre o Japã o contemplando seu desenvolvimento industrial a partir dos
anos 1960 até a década de 2000.

4. O que sã o as ZEEs chinesas?

5. A China é o país que mais cresce no mundo. Que fatores podem ser enumerados como
propulsores desse crescimento?

6. Quais questõ es podemos listar como problemas a serem enfrentados pela China, apesar de
seu enorme crescimento econô mico?

7. Quais sã o os países mais poderosos da UE no plano político-militar? Por quê?

8. O que significa a sigla Brics? Explique a importâ ncia desse grupo no mundo atual.

Lendo mapas e tabelas

9. Compare os mapas a seguir para responder à s questõ es.

Mapas: João Miguel A. Moreira/ID/BR


Fonte de pesquisa: Banco Mundial. Disponível em: <http://data.worldbank.org/indicator/NV.IND.TOTL.KD?
order=wbapi_data_value_2013+wbapi_data_value&sort=desc>; <http://data.worldbank.org/indicator/TX.VAL.MANF.ZS.UN?
order=wbapi_data_value_2013+wbapi_data_value&sort=desc>. Acessos em: 16 mar. 2016.

Fonte de pesquisa: Banco Mundial. Disponível em: <http://data.worldbank.org/indicator/NV.IND.TOTL.KD?


order=wbapi_data_value_2013+wbapi_data_value&sort=desc>; <http://data.worldbank.org/indicator/TX.VAL.MANF.ZS.UN?
order=wbapi_data_value_2013+wbapi_data_value&sort=desc>. Acessos em: 16 mar. 2016.

a) Quais países e regiõ es têm destaque na produçã o e exportaçã o de manufaturas?


b) Indique a proporçã o de produtos manufaturados exportados pelos países do grupo Brics e
comente os dados apresentados.
Pá gina 119

10. Examine os dados da tabela e faça o que se pede.

Líderes do comércio global (2013) (fatia do comércio global, em %)


Principais exportadores Principais importadores
1º China 11,8 1º Estados Unidos 12,4
2º Estados Unidos 8,4 2º China 10,3
3º Alemanha 7,7 3º Alemanha 6,3
4º Japã o 3,8 4º Japã o 4,4
5º Países Baixos 3,5 5º França 3,6
6º França 3,1 6º Reino Unido 3,5
7º Coreia do Sul 3,0 7º Hong Kong 3,3
8º Reino Unido 2,9 8º Países Baixos 3,1
9º Hong Kong 2,9 9º Coreia do Sul 2,7
10º Rú ssia 2,8 10º Itá lia 2,5
22º Brasil 1,3 21º Brasil 1,3
2% foi o crescimento das exportaçõ es globais em 2013 1% foi o avanço das importaçõ es no mundo em 2013

Agência Brasil. Disponível em: <http://agenciabrasil.ebc.com.br/internacional/noticia/2015-08/poluicao-atmosferica-mata-


diariamente-cerca-de-4-milpessoas-na-china>. Acesso em: 16 mar. 2016.

a) De acordo com o perfil socioeconô mico e com o processo de desenvolvimento dos países
apresentados na tabela, organize-os em três grupos, justificando suas escolhas.\

b) No caderno, avalie o que tais dados revelam sobre a regionalizaçã o do comércio global.

11. Analise o mapa e comente a importâ ncia da China no mercado regional asiá tico.

João Miguel A. Moreira/ID/BR

Fonte de pesquisa: OMC. Trade Profiles. Disponível em: <http://stat.wto.org/CountryProfile/WSDBCountryPFReporter.aspx?


Language=E>. Acesso em: 29 mar. 2016.

Interpretando textos e imagens

12. Leia o texto e responda à s questõ es.


Um aspecto relacionado dessa nova era é a difusã o do poder dos Estados para outros atores. O
“resto” que está em ascensã o inclui muitos atores que nã o sã o naçõ es. Grupos e indivíduos
ganharam poder e a hierarquia, a centralizaçã o e o controle estã o sendo minados. Funçõ es que
outrora eram controladas pelos governos sã o agora compartilhadas com organismos
internacionais, como a Organizaçã o Mundial do Comércio e a Uniã o Europeia. Grupos nã o
governamentais proliferam todos os dias, ocupando-se de todas as questõ es em todos os países.
Corporaçõ es e capitais mudam de lugar em lugar, em busca da melhor localizaçã o para fazer
negó cios, recompensando alguns governos e punindo outros.

ZAKARIA, Fareed. Mundo pós-americano. Sã o Paulo: Companhia das Letras, 2008. p. 11-12.

a) Segundo o autor, quais sã o os novos arranjos políticos que se configuraram no contexto da


globalizaçã o?
b) O texto menciona alguns atores nã o estatais. Quais sã o eles? Com base em seus
conhecimentos, dê exemplos das á reas em que atuam.

13. Observe a foto a seguir e responda.

François Pauletto/Citizenside/AFP

Simpatizantes pela causa tibetana erguem a bandeira do Tibet em Paris, França, 2015.

a) O que motivou a manifestaçã o retratada acima?


b) Qual país tem controle sobre a regiã o em questã o e como o conflito foi originado?
c) Faça uma pesquisa e cite ocasiõ es em que este tema ganhou destaque global e gerou outras
manifestaçõ es em diferentes países.
Pá gina 120

Em análise
Interpretando o comércio internacional por meio de gráficos

Os grá ficos sã o ferramentas de grande importâ ncia na observaçã o e na interpretaçã o de


informaçõ es e dados acerca da realidade socioeconô mica do mundo atual. Eles permitem, por
exemplo, compreender a intensidade, as variaçõ es com o tempo e a distribuiçã o de um
fenô meno entre países em diferentes graus de desenvolvimento. Consistem basicamente na
representaçã o de fenô menos por meio de formas geométricas organizadas de maneira precisa,
com dados numéricos levantados por institutos de pesquisa estatística governamentais,
internacionais, educacionais, entre outros.

No exercício da pá gina seguinte, utilizaremos os três tipos de grá ficos explicados a seguir.

• Gráfico de linha

É formado por um eixo vertical, que expressa quantidades, e um eixo horizontal, que mostra a
variaçã o do tempo. A linha a ser construída representará as mudanças ou variaçõ es de
determinado fenô meno ou assunto ao longo do tempo. Veja, por exemplo, no grá fico
reproduzido ao lado, como o arsenal nuclear variou desde o final da Segunda Guerra Mundial
(1939-1945) até a década de 2010.

Setup Bureau/ID/BR

Fonte de pesquisa: Atualidades vestibular 2013. Sã o Paulo: Abril, 2014. p. 97.

• Gráfico de barras

Semelhante ao grá fico de colunas, esse grá fico é construído a partir de barras horizontais, cuja
extensã o representa 100%. As barras podem ser divididas para expressar determinadas
subdivisõ es de um fenô meno de interesse geográ fico. No grá fico ao lado, tem-se a receita das
exportaçõ es do Brasil, dividida por tipo de produto, de 2002 a 2012.
Setup Bureau/ID/BR

Fonte de pesquisa: Almanaque Abril 2014. Sã o Paulo: Abril, 2013. p. 86.

• Gráfico circular

Também chamado de gráfico de setores ou ainda gráfico de pizza, é elaborado utilizando-se


circunferências divididas em setores de acordo com a proporçã o de um fenô meno ou tema. Os
dados devem ser expressos em nú meros relativos ou percentuais. Veja, por exemplo, os
principais destinos das exportaçõ es brasileiras em 2014, observando o grá fico reproduzido ao
lado.

Adilson Secco/ID/BR

Fonte de pesquisa: OMC. Trade Profiles. Disponível em: <http://stat.wto.org/CountryProfile/WSDBCountryPFView.aspx?


Language=E&Country=BR>. Acesso em: 16 mar. 2016.
Pá gina 121

Proposta de trabalho

Para construir os grá ficos, propomos o tema comércio internacional. Utilize os dados das
tabelas abaixo.

1. Grá fico de linha: Exportação por continentes ou regiões do mundo. Utilize os dados de
exportaçã o por regiõ es do mundo em porcentagem (%).

1973 1983 1993 2003 2013


Mundo 100,O 100,0 100,0 100,0 100,0
América do 17,3 16,8 18,0 15,8 13,2
Norte
América do 4,3 4,5 3,0 3,0 4,0
Sul e Central
Europa 50,9 43,5 45,3 45,9 36,3
CEI – – 1,5 2,6 4,3
África 4,8 4,5 2,5 2,4 3,3
Oriente Médio 4,1 6,7 3,5 4,1 7,4
Ásia e Oceania 14,9 19,1 26,0 26,1 31,5

Fonte de pesquisa: OMC. International Trade Statistics 2014, p. 24. Disponível em:
<https://www.wto.org/english/res_e/statis_e/its2014_e/its2014_e.pdf>. Acesso em: 14 mar. 2016.

a) Trace dois eixos: um vertical de 0 a 100, que indicará as porcentagens, e um horizontal, com
cinco marcaçõ es, referentes aos anos indicados na tabela. Utilize uma escala em que as
alteraçõ es no grá fico fiquem visíveis. Para cada regiã o, no ponto em que um percentual do eixo
vertical encontra um ano do horizontal, faça uma marcaçã o.

b) Depois de marcar todos os pontos, trace uma linha ligando-os. Como no exemplo da pá gina
anterior, diferencie as linhas usando cores. Faça a legenda indicando a cor de cada regiã o.

2. Grá fico de barras: Composição das exportações de blocos econômicos selecionados


para o mundo (2014).

Gênero de comércio por bloco econômico


Agrícola Combustíveis/minérios Manufaturados Outros produtos
Nafta 11,1% 16,7% 67,6% 4,6%
Mercosul 35,6% 34,8% 26,3% 3,3%
Comunidade 20,5% 59,6% 12,0% 7,9%
Andina das
Nações (CAN)
Asean 12,6% 18,4% 65,7% 3,3%

Fonte de pesquisa: OMC. International Trade Statistics 2015, p. 55-58. Disponível em:
<https://www.wto.org/english/res_e/statis_e/its2015_e/its2015_e.pdf>. Acesso em: 14 mar. 2016.

A construçã o inicial será similar à do grá fico de linha, mas as porcentagens estarã o no eixo
horizontal.

a) No eixo vertical, identifique os blocos econô micos.


b) Utilize os dados para construir as colunas horizontais. Estipule uma cor para cada gênero de
comércio e preencha cada coluna com o valor de cada um. Elabore a legenda com diferenciaçã o
de cores para cada grupo de gêneros.
3. Grá fico circular: Estrutura do comércio mundial (% do valor dos produtos exportados).

a) Com um transferidor, divida os dados abaixo proporcionalmente aos graus de uma


circunferência. Por exemplo, se 100% é relativo a 360 graus, 20% é relativo a 72 graus.
Marque cada divisã o com um ponto.

Produtos agrícolas Combustíveis/minério Manufaturados Outros produtos


s
9,5% 20,5% 66,2% 3,8%

Fonte de pesquisa: OMC. International Trade Statistics 2015, p. 71. Disponível em:
<https://www.wto.org/english/res_e/statis_e/its2015_e/its2015_e.pdf>. Acesso em: 17 mar. 2016.

b) Una os pontos, construindo a circunferência. Identifique por cores cada um dos segmentos
que representam o percentual de participaçã o dos produtos exportados; faça a legenda (veja o
exemplo na pá gina anterior).

4. Faça uma análise comparativa dos três grá ficos e escreva um texto com as suas conclusõ es.
Pá gina 122

Síntese da Unidade
Capítulo 5 Globalização

• Com base no esquema abaixo, escreva frases que sintetizem o conteú do do capítulo.

Capítulo 6 Diferentes dimensões da globalização

• Com base nas fotos abaixo, escreva um texto sintetizando os principais assuntos desenvolvidos
ao longo do capítulo.

Stringer/AFP

Protesto contrá rio à Organizaçã o Mundial do Comércio, em Nairó bi, Quênia. Foto de 2015.

Jacky Naegelen/Reuters/LatinstocK

“Açã o climática já , para o bem de todos”. Manifestaçã o por medidas de controle das mudanças climáticas, em Le
Bourget, França. Foto de 2015.
Capítulo 7 A formação dos blocos econômicos

• Copie no caderno a tabela a seguir e, com base no que foi estudado no capítulo, preencha-a com
exemplos de blocos regionais que estejam atualmente nos está gios nela indicados.

Estágio Blocos regionais


I. Zonas de livre-comércio
II. União aduaneira
III. Mercado comum
IV. União monetária

Capítulo 8 As grandes potências globais

• Utilizando as expressõ es abaixo, construa frases que sintetizem as informaçõ es do capítulo.


• Superpotência global

• Poder militar

• Organismos internacionais (ONU, OMC, FMI)

• Protecionismo comercial

• Inovaçã o tecnoló gica

• Potências regionais
Pá gina 123

Vestibular e Enem
Atenção: todas as questões foram reproduzidas das provas originais de que fazem parte. Responda a todas as questões no caderno.

1. (Enem) Na imagem, é ressaltado, em tom mais escuro, um grupo de países que na atualidade
possuem características político-econô micas comuns, no sentido de:

Enem/2014. Fac-símile: ID/BR

a) adotarem o liberalismo político na dinâ mica dos seus setores pú blicos.


b) constituírem modelos de açõ es decisó rias vinculadas à social-democracia.
c) instituírem fó runs de discussã o sobre intercâ mbio multilateral de economias emergentes.
d) promoverem a integraçã o representativa dos diversos povos integrantes de seus territó rios.
e) apresentarem uma frente de desalinhamento político aos polos dominantes do sistema-
mundo.

2. (Fuvest-SP) As bombas atô micas, lançadas contra Hiroshima e Nagasaki em 1945,


resultaram na morte de aproximadamente 300 000 pessoas, vítimas imediatas das explosõ es
ou de doenças causadas pela exposiçã o à radiaçã o. Esses eventos marcaram o início de uma
nova etapa histó rica na corrida armamentista entre as naçõ es, caracterizada pelo
desenvolvimento de programas nucleares com finalidades bélicas. Considerando essa etapa e
os efeitos das bombas atô micas, analise as afirmaçõ es abaixo.

I. As bombas atô micas que atingiram Hiroshima e Nagasaki foram lançadas pelos Estados
Unidos, ú nico país que possuía esse tipo de armamento ao fim da Segunda Guerra Mundial.
II. As radiaçõ es liberadas numa explosã o atô mica podem produzir mutaçõ es no material
genético humano, que causam doenças como o câ ncer ou sã o transmitidas para a geraçã o
seguinte, caso tenham ocorrido nas células germinativas.
III. Desde o fim da Segunda Guerra Mundial, vá rias naçõ es desenvolveram armas atô micas e,
atualmente, entre as que possuem esse tipo de armamento, têm-se China, Estados Unidos,
França, Índia, Israel, Paquistã o, Reino Unido e Rú ssia.

Está correto o que se afirma em:


a) I, somente.
b) II, somente.
c) I e II, somente.
d) II e III, somente.
e) I, II e III.

3. (UFV-MG)
Vistos durante a Revoluçã o Cultural (1966-76) como o símbolo do colonialismo britâ nico e
desperdício da escassa terra agricultá vel da China, os campos de golfe se espalharam rapidamente
apó s 1984, data da abertura do primeiro clube depois da revoluçã o de 1949.

A China tem hoje 176 campos de golfe [...]. A rá pida proliferaçã o dos campos levou o governo a
suspender a construçã o de novos clubes, com o objetivo de preservar terra para a agricultura e
poupar á gua. Os clubes atuais ocupam 37 000 hectares e há dezenas de outros em construçã o. [...]

Até pouco tempo, os chineses eram minoria nos campos locais, mas a relaçã o hoje se inverteu. A
Associaçã o de Jogadores de Golf da China estima em 24 mil o nú mero de chineses entre os
praticantes, 58% do total de jogadores no país.

TREVISAN, Clá udia. China teme “latinizaçã o” da sociedade. Folha de S.Paulo, 9 maio 2004. Mundo, p. 21.

O texto acima se refere à s contradiçõ es do processo de modernizaçã o em curso na China.


Entretanto, esse processo vem sendo elogiado por especialistas em mercado como exemplo de
modernizaçã o bem-sucedida, devido à s elevadas taxas de crescimento econô mico sustentado
por um longo período. Das alternativas abaixo, assinale aquela que não apresenta
contradiçõ es sociais, resultantes do processo de modernizaçã o acelerada da China:
a) Apresenta um crescimento econô mico de cerca de 7% ao ano, porém 800 milhõ es de
chineses vivem com menos de dois dó lares por dia.
b) O crescimento dos ú ltimos anos está relacionado à abertura econô mica e sua posterior
aceitaçã o na Organizaçã o Mundial de Comércio.
c) É hoje um dos principais mercados de produtos de luxo do mundo, embora grande parte de
sua populaçã o resida no campo.
d) O PIB per capita ultrapassou os 1 000 dó lares, embora o salá rio médio seja de 134 dó lares.
e) A sua economia atingiu 1,41 trilhã o de dó lares, no entanto ocupa o 104º lugar na
classificaçã o do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) da ONU.
Pá gina 124

Vestibular e Enem
4. (Enem) Segundo Samuel Huntington (autor do livro O choque das civilizações e a
recomposição da ordem mundial), o mundo está dividido em nove “civilizaçõ es”, conforme o
mapa abaixo.

Enem/2003. Fac-símile: ID/BR

Na opiniã o do autor, o ideal seria que cada civilizaçã o principal tivesse pelo menos um assento
no Conselho de Segurança das Naçõ es Unidas. Sabendo-se que apenas EUA, China, Rú ssia,
França e Inglaterra sã o membros permanentes do Conselho de Segurança, e analisando o mapa
acima pode-se concluir que:
a) atualmente apenas três civilizaçõ es possuem membros permanentes no Conselho de
Segurança.
b) o poder no Conselho de Segurança está concentrado em torno de apenas dois terços das
civilizaçõ es citadas pelo autor.
c) o poder no Conselho de Segurança está desequilibrado, porque seus membros pertencem
apenas à civilizaçã o Ocidental.
d) existe uma concentraçã o de poder, já que apenas um continente está representado no
Conselho de Segurança.
e) o poder está diluído entre as civilizaçõ es, de forma que apenas a Á frica não possui
representante no Conselho de Segurança.

5. (FGV-SP) Algumas das características do que se tem denominado de processo de


globalizaçã o sã o: o avanço das tecnologias de informaçã o, a convergência dos momentos (a
compressã o do tempo), a unificaçã o dos mercados e o questionamento do poder do Estado.
Algumas das consequências desse processo sã o:
a) a inserçã o igualitá ria de todos os Estados na economia globalizada e a formaçã o de blocos
econô micos regionais como forma de garantir a competitividade econô mica.
b) o expressivo aumento do emprego urbano, a ampliaçã o da pobreza e o surgimento das
cidades regionais.
c) a maior previsibilidade da situaçã o econô mica mundial, a reduçã o das drogas e doenças
contagiosas e a neoliberalizaçã o dos mercados.
d) a ampliaçã o de capitais diretamente produtivos, o acesso universal à s técnicas de
informaçã o e o surgimento das cidades globais.
e) o expressivo aumento das atividades imateriais urbanas, a reduçã o da aplicaçã o dos capitais
diretamente produtivos, a especulaçã o financeira e a crescente massa de excluídos dos
benefícios desse processo.
6. (UEPB)

O processo de globalizaçã o, em sua fase atual, revela uma vontade de fundar o domínio do mundo
na associaçã o entre grandes organizaçõ es e uma tecnologia cegamente utilizada. Mas a realidade
dos territó rios e as contingências do meio associado asseguram a impossibilidade da desejada
homogeneizaçã o.

SANTOS, Milton. A natureza do espaço, 1997.

Na afirmativa do geó grafo Milton Santos sobre a globalizaçã o, fica evidente que:
I. a globalizaçã o só se tornou possível porque todos os territó rios se tornaram homogêneos.
II. os Estados Naçõ es sã o os elementos mais importantes do processo de globalizaçã o, por
imporem as regulamentaçõ es que acham necessá rias para entrada das grandes corporaçõ es
nos seus territó rios.
III. os aspectos econô micos, culturais e até de ordem natural das diversas regiõ es do planeta
impedem a completa homogeneizaçã o do espaço mundial sob o comando da globalizaçã o.
IV. o atual processo de globalizaçã o tem como marca o emprego das mesmas técnicas para
qualquer territó rio, independente das características que os mesmos possuam.

Estã o corretas apenas as proposiçõ es:


a) I, II e IV.
b) I e III.
c) II e IV.
d) II e III.
e) III e IV.

7. (PUC-SP) Sobre o processo de consolidaçã o e ampliaçã o da Uniã o Europeia é correto


afirmar que:
a) o objetivo da UE é a constituiçã o de bloco militar cuja atuaçã o permita a implementaçã o de
uma política externa e de segurança comum entre os membros, como já demonstrou a questã o
da Guerra no Iraque.
b) a Uniã o Europeia é uma das zonas mais ricas do mundo. Entretanto, existem disparidades
internas significativas entre as suas regiõ es, em termos de rendimentos e de oportunidades,
que foram agravadas com a recente ampliaçã o de seus membros.
Pá gina 125

Atenção: todas as questões foram reproduzidas das provas originais de que fazem parte. Responda a todas as questões no caderno.

c) na Uniã o Europeia os Estados componentes abrem mã o de sua soberania em temas


militares e, por isso, passam a cumprir decisõ es coletivas. Foi como uma entidade ú nica que a
UE votou, por exemplo, a favor da invasã o do Iraque na ONU.
d) a UE vem, recentemente, estimulando as naçõ es da Europa do leste (Hungria, Eslová quia,
Repú blica Checa, Albâ nia e Romênia, por exemplo) a ingressarem na entidade, por temer que
elas caiam sob o controle da Rú ssia.
e) por causa de objetivos geopolíticos relacionados ao combate ao terrorismo, a UE está
relaxando nas exigências para os países que querem uma vaga no “clube”, tal como no caso
atual da candidatura da Turquia, país antidemocrá tico pelo fato de ser uma repú blica islâ mica.

8. (PUC-RS) Instrução: Para responder à questã o, considere o mapa e as afirmativas.

PUC-RS/2006. Fac-símile: ID/BR

I. O mapa evidencia uma regiã o fronteiriça entre dois países pertencentes ao NAFTA.
II. As setas indicam os principais eixos de entrada de imigrantes mexicanos para os Estados
Unidos da América do Norte.
III. No México, nas á reas pró ximas à fronteira com os Estados Unidos da América do Norte,
estã o concentradas as indú strias “maquiladoras”, responsá veis por significativa parcela de
exportaçõ es mexicanas.
IV. Os estados norte-americanos assinalados pelos nú meros 1 e 2, receptores de imigrantes
ilegais mexicanos, sã o o Texas e a Califó rnia, respectivamente.

Pela aná lise do mapa e das afirmativas, conclui-se que somente estã o corretas:
a) I, II e III.
b) I e III.
c) I e IV.
d) II, III e IV.
e) II e IV.

9. (Fuvest-SP)
Há oitenta anos, a Rú ssia era forte por causa do dinamismo revolucioná rio do comunismo,
incluindo o poder de atraçã o da sua ideologia. Há quarenta anos, a Rú ssia Soviética era forte por
causa do poderio do Exército Vermelho. Hoje, a Rú ssia de Putin é forte por causa do gá s e do
petró leo.

ASH, Timothy Garton (historiador inglês).

Do texto, depreende-se que a Rú ssia:


a) manteve inalterada sua posiçã o de grande potência em todo o período mencionado.
b) recuperou, na atualidade, o seu papel de país líder da Europa.
c) conheceu períodos de altos e baixos em funçã o das conjunturas externas.
d) passou de força política a força militar e, desta, a força econô mica.
e) conservou, sempre, a sua preeminência graças ao incompará vel poderio militar.

10. (PUC-RJ) A Índia, um país de fortes tradiçõ es e de cultura milenar, tornou-se, nas ú ltimas
décadas, um polo de tecnologia de informaçã o. Este avanço tecnoló gico vem repercutindo na
economia e na sociedade indianas.

A partir do texto, podemos afirmar que o setor de tecnologia de informaçã o:


I. gerou, com a produçã o de software e serviços, milhares de empregos qualificados, o que
acentuou ainda mais as diferenças sociais.
II. foi o setor que mais cresceu na economia, mas, como está orientado para a exportaçã o, sua
influência nã o atinge o dia a dia da maior parte dos indianos.
III. criou uma nova classe social empreendedora e de perfil global, num país em que ainda
persiste a divisã o em castas.
IV. resultou dos incentivos governamentais na formaçã o de um grande nú mero de
pesquisadores no exterior e que retornaram ao país.

Assinale:
a) se somente a afirmativa IV está correta.
b) se somente as afirmativas I e II estã o corretas.
c) se somente as afirmativas II e III estã o corretas.
d) se somente as afirmativas I e IV estã o corretas.
e) se as afirmativas I, II, III e IV estã o corretas.
Pá gina 126

Geografia e Matemática
Desigualdades sociais nos Brics
Os Brics, grupo formado por Brasil, Rú ssia, Índia, China e recentemente Á frica do Sul, vêm se
destacando no cená rio internacional devido ao crescimento econô mico acelerado das duas
ú ltimas décadas, principalmente na China, Índia e Brasil. [...] Por isso, o grupo se transformou
em tema de muitos estudos e matérias jornalísticas ao redor do mundo, tendo quase sempre
como ponto de análise o seu desenvolvimento econô mico. [...]

Pobreza e desenvolvimento econômico


[...] consideraremos como ponto de corte a renda real de até US$ 1,25 por dia, valor que
determina a linha internacional de pobreza. Dentre os Brics, a Rú ssia é o ú nico país que em
2008 nã o possuía nenhuma percentagem da populaçã o vivendo nessas condiçõ es. Já [...] outros
[...] membros do grupo sã o caracterizados por uma grande parcela de seus cidadã os vivendo na
extrema pobreza. De acordo com o Banco Mundial, 60,2% dos chineses ganhavam menos de
US$ 1,25 por dia em 1990 [a partir de 2015, o Banco Mundial passou a considerar o valor de
US$ 1,90 diá rio como referência para os estudos sobre pobreza nos diferentes países]. Isso
corresponde a cerca de 686 milhõ es de pessoas. Este nú mero caiu consideravelmente para
cerca de 209,2 milhõ es em 2005, o que equivale a 15,9% da populaçã o da época.

Já na Índia, [...] a situaçã o é mais crítica. Os dados referentes ao país sã o de 2005 e apontam
que 41,6% da populaçã o está abaixo da linha da pobreza. Isso equivale a 461,76 milhõ es de
pessoas, nú mero superior à soma de todos os habitantes do Brasil, Rú ssia e Á frica do Sul do
mesmo período, que totalizava cerca de 327 milhõ es de pessoas. No Brasil, terceiro país mais
populoso dos Brics, esse índice caiu de 15,5% em 1990 para 3,2% em 2009. Em outras
palavras, a queda foi de cerca de 24,625 milhõ es para 6,127 milhõ es de brasileiros. A Á frica do
Sul é o ú nico país onde ocorreu uma ascensã o no nível de pobreza entre 1995 e 2000,
passando de 21,4% da populaçã o (8,776 milhõ es de pessoas), para 26,2% (11,665 milhõ es).
Em 2006, o índice caiu para 17,4%, o que equivale a 8,246 milhõ es. Nota-se, portanto, que, em
um período de onze anos, a reduçã o da pobreza na Á frica do Sul foi irrisó ria.

Em relaçã o à distribuiçã o de renda, o abismo entre ricos e pobres continua crescendo em


quatro países do grupo. [...] O Brasil é o ú nico país que conseguiu diminuir consideravelmente
a desigualdade de renda nos ú ltimos 20 anos, saindo de um Gini de 0,61 em 1990 para 0,54 em
2009 – menor índice de sua histó ria [...]. Outra conquista do país é que os 20% mais pobres e
os 20% de renda média foram os principais beneficiados. De acordo com a Fundaçã o Getú lio
Vargas (FGV), na primeira década do século XXI, os 10% mais ricos tiveram um crescimento na
renda real de 10,03% contra 67,9% na renda dos 50% mais pobres, o que significa um
crescimento 577% maior do que o alcançado pela parcela no topo da pirâ mide social. Apesar
de tais conquistas, o país ainda está entre os mais desiguais do mundo e os 20% mais ricos
concentram cerca de 60% da renda.

Educação
[...] A taxa de alfabetizaçã o de maiores de 15 anos vem crescendo ao longo das décadas, porém
não abrange 100% da populaçã o em nenhum dos cinco países [...]. A Rú ssia é o que apresenta
melhor desempenho, com 99,6% dos cidadã os aptos a ler e a escrever. Já na Índia, quase 40%
da populaçã o adulta é analfabeta. No que diz respeito à média de anos de escolaridade
recebida por pessoas com idade acima de 25 anos, usando a duraçã o nacional oficial de cada
nível, os índices ascenderam consideravelmente, porém ainda estã o aquém dos países
desenvolvidos. [...]

Para se ter uma ideia, a média de anos de escolaridade nas atuais potências globais é de 12,4
anos nos Estados Unidos, 11,6 no Japã o, 12,2 na Alemanha e 10,6 na França.

Vida, saúde e morte


A desigualdade vital [...] pode ser medida pelos anos de expectativa de vida dos cidadã os,
mortalidade infantil, incidência de desnutriçã o e doenças [...].

Desigualdade de recursos educacionais


Média de anos de escolaridade – Adultos Taxa de alfabetização de adultos
País/ano 1980 1980 1990 2000 2010
1990 2000 2010 2014
Brasil 2,6 3,8 5,6 7,0* 7,7 74,6% — 86,4% 90,4%
Rú ssia 7,2 8,5 9,6 12,0 12,0 — — — 99,6%
Índia 1,9 3,0 3,6 — 5,4 — — — 69,3%
*
China 3,7 4,9 6,6 7,1 7,5 — 77,8% 90,9% 95,1%
Á frica do Sul 4,8 6,5 8,2 9,6 9,9 76,2% — — 92,9%

* Dados relativos a 2011.

Fontes de pesquisa: Pnud. Relatório de Desenvolvimento Humano 2011; Relatório de Desenvolvimento Humano 2015. Nova York:
ONU, 2011- 2015; Unesco. Disponível em: <http://data.uis.unesco.org/index.aspx?queryid=166&lang=en#>. Acessos em: 29 mar.
2016.
Pá gina 127

[...] A idade de morte de uma criança reflete a disponibilidade tanto de comida quanto de
cuidados com a saú de [...]. Além disso, a incidência de mortalidade infantil é muito mais alta em
populaçõ es pobres. Sendo assim, a queda nesse índice pode indicar, também, uma melhora nas
condiçõ es econô micas dos indivíduos.

Já a expectativa de vida aumenta, por exemplo, quando o sistema pú blico de saú de dos países
oferece serviços de qualidade e quando o índice de violência apresenta queda. [...] Á frica do Sul
[...] chama a atençã o por apresentar piora nos dois índices. A expectativa de vida no país caiu
cerca de nove anos entre 1990 e 2011, e o nú mero de mortes entre as crianças de até cinco
anos é atualmente o mesmo que o de duas décadas atrá s, apresentando grande elevaçã o no
ano 2000.

Mulheres e desigualdades
O Índice de Desigualdade de Gênero vem caindo nos Brics, mas as mudanças sã o lentas devido
à forte interseçã o das desigualdades. A falta de oportunidade das mulheres é intensificada pela
pobreza, diferenças de cor e castas, regiõ es geográ ficas, patriarcalismo etc. Este índice é
mensurado pela ONU a partir de três dimensõ es: capacitaçã o, saú de reprodutiva e mercado de
trabalho. Quanto mais pró ximo de 0, maior o equilíbrio entre homens e mulheres [...].

SILVÉRIO, Maria. Brics: desigualdades sociais nos países emergentes. Cies-IUL. Observató rio das Desigualdades. Lisboa, 2010.
Disponível em: <http://observatorio-das-desigualdades.cies.iscte.pt/index.jsp?page=projects&id=123>. Acesso em: 29 mar. 2016.

Desigualdades vitais
Expectativa de vida (em anos) Mortalidade infantil*
País 1990 2000 2014 1990 2000 2013
Brasil 66,3 70,1 74,5 56 34 14
Rú ssia 68,0 65,0 70,1 27 24 10
Índia 58,3 61,6 68,0 118 93 53
China 69,4 71,2 75,8 46 36 13
Á frica do Sul 61,5 54,8 57,4 62 77 44

*Crianças até 5 anos para cada mil nascimentos.

Fontes de pesquisa: Pnud. Relatório de Desenvolvimento Humano 2011; Relatório de Desenvolvimento Humano 2015. Nova York: ONU,
2011-2015.

Desigualdades de gênero
Índice de desigualdade de Taxa feminina com Taxa de participação
gênero educação secundária feminina no mercado de
completa* trabalho
País 1995 2005 2014 1990 200 2010 1990 200 2009
0 0
Brasil 0,523 1,085 1,054 0,524 0,734
0,471 0,457 1,086 0,667
Rú ssia 0,429 0,358 0,276 0,851 0,908 0,948 0,791
0,793 0,830
Índia 0,692 0,563 0,394 0,471 0,404 0,404
0,646 0,528 0,401
China 0,267 0,191 0,683 0,860
0,224 0,713 0,778 0,848 0,845
Á frica do 0,518 0,407 0,943 0,928 0,976 0,576 0,727
Sul 0,520 0,740
*Proporçã o de mulheres para cada homem. Fonte de pesquisa: Pnud. Relatório de Desenvolvimento Humano 2011; Relatório
de Desenvolvimento Humano 2015. Nova York: ONU, 2011-2015.

ATIVIDADES

1. Reú na todos os indicadores relativos ao Brasil apresentados nas tabelas acima. Depois,
escreva um texto comentando a evoluçã o desses índices. Sabe-se, por exemplo, que a
expectativa de vida do brasileiro ao nascer era de apenas 43,3 anos em 1950 (disponível em:
<http://linkte.me/tdembr>; acesso em: 16 mar. 2016). Apresente suas conclusõ es em sala de
aula e ouça as opiniõ es dos colegas sobre o assunto.

2. “A taxa de alfabetizaçã o de maiores de 15 anos vem crescendo ao longo das décadas, porém
não abrange 100% da populaçã o em nenhum dos cinco países [...]. A Rú ssia é o que apresenta
melhor desempenho, com 99,6% dos cidadã os aptos a ler e a escrever”. Na realidade, sã o
poucos os países com populaçã o 100% alfabetizada. Verifique quais sã o as taxas de
alfabetizaçã o nos Estados Unidos, no Canadá , no Japã o e em países da Uniã o Europeia, como a
França e a Alemanha. Construa uma tabela com os resultados e discuta-os em classe.

3. Na Á frica do Sul, “A expectativa de vida [...] caiu cerca de nove anos entre 1990 e 2011, e o
nú mero de mortes entre as crianças de até cinco anos é atualmente o mesmo que o de duas
décadas atrá s, apresentando grande elevaçã o no ano 2000”. Indique algumas razõ es para que a
Á frica do Sul apresente tal situaçã o em seus indicadores sociais.
Pá gina 128

O espaço político:
UNIDADE 3

focos de tensão
NESTA UNIDADE
9 Europa
10 África
11 América Latina
12 Ásia

Em 1971, o ex-beatle John Lennon compôs a canção “Imagine”, cuja


letra tinha versos como: “Imagine todas as pessoas vivendo a vida em
paz” [...]. “Imagine todas as pessoas compartilhando o mundo” [...].

Quando Lennon escreveu esses versos, várias regiões do planeta


viviam guerras e tensões político-ideológicas, que se contrapunham ao
desejo de milhões de pessoas de viver em um mundo de paz.

Alguns dos conflitos daquela época terminaram, mas muitos outros


surgiram. As lutas por territórios, as diferenças étnicas, políticas
sociais, e econômicas atingem milhões de pessoas em todo o planeta.

No século XXI, ainda é possível apenas “imaginar” as pessoas vivendo


em paz e compartilhando o mundo.

QUESTÕES PARA REFLETIR

1. No século XX, parte da América Latina apresentou conflitos políticos. O que você
sabe sobre isso?

2. O que você sabe sobre a Á frica globalizada?

3. Quais regiõ es do mundo se encontram em guerra atualmente? Quais sã o as


causas desses conflitos?
Pá gina 129

Haytham Pictures/Alamy /Fotoarena

Manifestação em favor da paz e da liberdade de imprensa, em Paris, França, realizada após o ataque à
redação de um jornal satírico francês por extremistas islâmicos. No cartaz em francês, lê-se “Nós somos
fraternidade, união e paz”. Foto de 2015.
Pá gina 130

CAPÍTULO 9 Europa
O QUE VOCÊ VAI ESTUDAR
O novo papel internacional da Alemanha.
A disputa por hegemonia no Leste Europeu.
Imigraçã o ilegal, refugiados e minorias é tnicas.
Terrorismo na Europa.

Aris Messinis/AFP

Em julho de 2015, por meio de um referendo, a maioria da populaçã o grega se mostrou contrá ria à s medidas de
ajuste fiscal propostas pelo Fundo Monetá rio Internacional (FMI) e pelo Banco Central Europeu (BCE) para o
refinanciamento das dívidas da Grécia. Tais medidas tinham como objetivo equilibrar a economia grega e conter a
crise econô mica do país. Na foto, manifestaçã o contrá ria ao ajuste fiscal, em Atenas, Grécia, 2015.

Na década de 2010, a Europa esteve submetida a sucessivas crises políticas e econô micas, muitas das quais
resultantes de sua diversidade cultural e econô mica, mas também da dificuldade de responder rapidamente a
essas crises.

O endividamento da Grécia, provocado por sucessivos empréstimos externos, agravou-se a partir de 2008,
gerando uma forte crise econô mico-financeira que abalou as estruturas da Uniã o Europeia, tendo afetado
países como Espanha, Portugal, Itá lia e Irlanda. Apenas em 2015, apó s acordos de refinanciamento das dívidas
gregas, a crise foi circunstancialmente controlada.

No entanto, para os gregos, os custos sociais e econô micos dos acordos são altos, pois incluem o aumento de
impostos, a reduçã o de investimentos em setores sociais e cortes de benefícios, como aposentadorias, sendo
denominados “medidas de austeridade fiscal”.

A soluçã o encontrada pelo bloco europeu para evitar novas crises foi a adoçã o de uma série de legislaçõ es
visando controlar o setor bancá rio e, principalmente, as dívidas internas dos países da zona do euro.

Com base no texto e na imagem, responda.


1. Em sua opiniã o, por que o bloco europeu encontra dificuldades para solucionar crises em setores políticos e
econô micos?

2. As naçõ es europeias apresentam grandes desigualdades econô micas entre si? Justifique.
Pá gina 131

O novo papel internacional da Alemanha

Do ponto de vista econô mico, a Alemanha está entre os países mais importantes da Europa.
Suas grandes empresas multinacionais, seu papel destacado no comércio mundial e seu
desenvolvimento tecnoló gico transformaram o país na primeira potência europeia e na quarta
potência mundial (apó s Estados Unidos, China e Japã o). Apesar da pouca expressividade na
política internacional nas quatro décadas que sucederam a Segunda Guerra Mundial, a
Alemanha reunificada passou gradativamente a reas sumir um papel geopolítico de destaque.
Neste início de século XXI, a Alemanha tem participado mais frequentemente da Otan
(Organizaçã o do Tratado do Atlântico Norte) e, no contexto da Uniã o Europeia, ocupou uma
posiçã o de protagonismo.

Durante a crise financeira grega, que colocou em risco o equilíbrio do euro entre 2008 e 2015,
foi de Berlim que partiram as principais diretrizes de contençã o da crise, embora Bruxelas, na
Bélgica, seja considerada a capital da Uniã o Europeia, por abrigar seus principais ó rgã os
administrativos. Veja a foto abaixo.

Os principais críticos deste papel de vanguarda desempenhado pela Alemanha afirmam que o
país, além de representar cerca de 30% da produçã o econô mica do bloco, também pretende
determinar regras para conter crises, muitas das quais com severas consequências aos setores
sociais dos países europeus.

Nas negociaçõ es políticas europeias extra-bloco, a Alemanha também se destaca. Um exemplo


foram os contatos entre Angela Merkel, entã o chanceler alemã , e Vladimir Putin, presidente da
Rú ssia à época, quando do início da crise ucraniana, em 2013, antes do pronunciamento dos
demais dirigentes europeus.

Apesar da consolidaçã o da posiçã o de protagonismo no continente europeu, o Estado alemã o


parece conter sua participaçã o no cená rio internacional. Quando comparada a outras
potências, como Estados Unidos e Rú ssia, a atuaçã o militar da Alemanha nã o apresenta grande
destaque.

Tobias Schwarz/AFP
Angela Merkel, chanceler alemã , e Alexis Tsipras, primeiro-ministro grego, apó s conferência em Berlim, Alemanha,
onde discutiu-se um programa de reformas econô micas para a Grécia. Foto de 2015.

SAIBA MAIS

Os turcos na Alemanha

A Alemanha é um dos países europeus com maior proporçã o de imigrantes residentes em seu
territó rio, aproximadamente 9 milhõ es de estrangeiros, em 2015. Desse total, quase a metade é de
turcos. Berlim é considerada a maior cidade turca fora da Turquia. Essa forte presença tem uma
razã o histó rica que remonta ao fim do século XIX, quando Alemanha e Turquia mantiveram um
relacionamento bem pró ximo.

Apesar disso, grupos simpá ticos ao nazismo e contra a permanência dos estrangeiros na Alemanha,
como os skinheads (“carecas”), costumam perpetrar atos de violência contra os turcos, como
incendiar pontos comerciais dos imigrantes e, até mesmo, cometer assassinatos. De modo geral, os
habitantes de origem turca costumam ser menos bem-sucedidos profissionalmente: há muitos
desempregados, o nú mero de mulheres que nã o trabalham fora de casa é elevado e muitos
dependem da previdência social.

Carsten Koall/Getty Images

Na cidade de Berlim vivem cerca de 140 mil eleitores turcos. Na foto, família participa da eleiçã o presidencial da
Turquia em Berlim, Alemanha. Foto de 2014.

Leia
Cabeça de turco, de Gü nter Walraff. Sã o Paulo: Globo, 2006.
O livro narra a histó ria de um alemã o que se passa por turco para investigar o tratamento dado aos imigrantes nas
indú strias da Alemanha.
Pá gina 132

Disputa por hegemonia no Leste Europeu

Desde o desmembramento da Uniã o Soviética em numerosas repú blicas, ocorrido a partir do


final da década de 1980, a Rú ssia tenta restabelecer sua hegemonia.

A partir dos anos 2000, teve início o processo de recuperaçã o da Rú ssia como potência com
projeçã o regional e mundial. Entre as estratégias utilizadas para essa recuperaçã o, estavam o
reaparelhamento das Forças Armadas e a reaproximaçã o com a China – uma mobilizaçã o de
forças políticas para fazer frente à hegemonia da Otan e dos Estados Unidos no continente
europeu.

Em 2009, uma intervençã o política e militar na Geó rgia e, em 2014, na Ucrâ nia, confirmaram a
intençã o da Rú ssia de manter sob sua ó rbita os países que no período da Guerra Fria estavam
sob sua tutela.

O conflito na Ucrânia
Em novembro de 2013, o cancelamento de um acordo econô mico com a Uniã o Europeia pelo
entã o presidente ucraniano Viktor Yanukovich, aliado do governo russo, deu origem a grandes
manifestaçõ es populares em Kiev, capital da Ucrâ nia.

Naquela ocasiã o, uma parcela da populaçã o favorá vel à aproximaçã o com a Uniã o Europeia
teve frustradas suas esperanças de um futuro ingresso ao bloco europeu.

O conflito entre civis e as forças de repressã o do governo resultou na morte de cerca de 100
pessoas, a maioria civis, e culminou na deposiçã o de Yanukovich.

A ocasiã o colocou em evidência a diversidade étnica ucraniana e opô s diferentes setores da


populaçã o em relaçã o à s alianças histó ricas com a Rú ssia. A populaçã o do sul e do leste da
Ucrâ nia, culturalmente pró xima à Rú ssia, defendeu a influência da antiga potência soviética e
se aliou à s forças militares russas em oposiçã o ao exército ucraniano.

A interferência militar e paramilitar russa no sul e leste do país promoveu um conflito interno
de grandes proporçõ es. Em março de 2014, um referendo aprovou a anexaçã o da península da
Crimeia ao territó rio russo, decisã o que não foi reconhecida pelo governo da Ucrâ nia e pelas
potências ocidentais.

O avanço russo sobre a Ucrâ nia pode ser explicado geopoliticamente. Além de servir como rota
de escoamento de petró leo e gá s provenientes da Rú ssia rumo aos países europeus, a Ucrâ nia e
outras antigas repú blicas soviéticas, como Geó rgia e Armênia, têm se aproximado da Otan e da
á rea de influência econô mica da Uniã o Europeia, abalando as pretensõ es de retomada da
hegemonia russa sobre o Leste Europeu.

Nesse contexto, a movimentaçã o russa foi interpretada pelos europeus e outros países
ocidentais como violaçã o do direito internacional e chegou a ser denunciada no Conselho de
Segurança da ONU. Como retaliaçã o pelo avanço russo em territó rio ucraniano, a Uniã o
Europeia e os Estados Unidos decidiram promover sançõ es econô micas e políticas à Rú ssia,
inclusive com sua exclusã o do G-8 (grupo dos oito países mais industrializados e
desenvolvidos economicamente do mundo).
João Miguel A. Moreira/ID/BR

Fonte de pesquisa: Le Monde Diplomatique. Disponível em: <http://mondediplo.com/maps/ukrainepivot>. Acesso em: 25 abr. 2016.
Pá gina 133

A imigração e os conflitos étnicos

Grande parte das políticas de restriçã o à imigraçã o efetuada pelos países europeus responde
aos desejos de parte de sua populaçã o, que encara os imigrantes como uma ameaça à sua
identidade cultural, à oferta de empregos e à infraestrutura social.

Tem-se observado, nesta ú ltima década, que as políticas de imigraçã o nã o sã o neutras e que
boa parte dos recursos destinados à s regiõ es em desenvolvimento, sobretudo aos países mais
pobres da Á frica Subsaariana, tem como objetivo frear a imigraçã o para a Europa.

Africanos provenientes de antigas colô nias europeias, bem como latino-americanos e asiá ticos
do sul e do sudeste, compõ em um numeroso grupo de imigrantes ilegais que buscam fixar
residência em territó rio europeu. Os fluxos migrató rios sã o contínuos e tendem a permanecer
intensos, enquanto houver profundas diferenças socioeconô micas entre os países.

A crise migratória
Desde o início da segunda década do século XXI, instalou-se no mundo, e particularmente na
Europa, uma “crise de imigraçã o” que gerou um forte debate sobre como lidar com o elevado
nú mero de imigrantes e refugiados que chegam ao continente diariamente. Segundo
estimativas da Organizaçã o Internacional de Migraçã o, somente em 2015, mais de 1 milhã o de
pessoas chegaram à Europa em busca de refú gio ou de melhores condiçõ es de vida e trabalho.

Segundo dados da ONU, a maior parte dos imigrantes é composta de homens com idade entre
20 e 65 anos, que nã o trazem a família pelos perigos da viagem até a Europa.

Outro problema recente enfrentado pelo bloco está relacionado ao grande fluxo de refugiados
originá rios de regiõ es de conflito, como a Síria e o Afeganistã o. Anteriormente, a maior parte
dos refugiados provinha de á reas vizinhas, no Leste Europeu. Fugindo de guerras e
perseguiçõ es, muitos dos refugiados acreditam que, desembarcando em terras europeias,
encontrarã o melhores condiçõ es de vida e poderã o escolher onde vã o ficar.

As principais portas de entrada dos imigrantes e refugiados sã o Itá lia, Grécia, Croá cia e
Hungria, países mediterrâ neos ou que se encontram nos limites do Espaço Schengen. A
Alemanha, no entanto, é o destino mais procurado pelos solicitantes de asilo.

O fluxo maciço de refugiados colocou em xeque as tradicionais políticas europeias de asilo e


não houve tempo para a elaboraçã o de novas alternativas de acolhimento. Muitos países-
membros da Uniã o Europeia passaram a adotar medidas emergenciais que envolvem a
reintroduçã o do controle fronteiriço, a construçã o de barreiras físicas nas fronteiras (com
muros, cercas e policiamento) ou o estabelecimento de cotas nacionais de refugiados.

A intolerâ ncia é crescente no continente, e proliferam os centros de internamento para


imigrantes ilegais e campos de refugiados, além da vigilâ ncia contínua em estaçõ es de trem e
aeroportos.

Em consequência direta dessas medidas, o direito de asilo e o simples direito humanitá rio de
ajuda à s pessoas vulnerá veis foram reduzidos, e e alguns países europeus, como a Bulgá ria e a
Hungria, aparecem aos olhos do mundo negando seus valores humanitá rios.
Assista
Mediterrânea. Direçã o de Jonas Carpignano, Itá lia/França/Estados Unidos/Alemanha/Catar, 2015, 107 min.
O filme conta a histó ria de dois imigrantes africanos que saem de seus países em busca de melhores condiçõ es de vida na
Europa.

João Miguel A. Moreira/ID/BR

Fontes de pesquisa: Eurostat. Disponível em: <http://ec.europa.eu/eurostat/web/products-datasets/-/migr_asyappctzm>;


<http://ec.europa.eu/eurostat/web/products-datasets/-/tps00001>; Frontex. Migratory routes map. Disponível em:
<http://frontex.europa.eu/trends-and-routes/migratory-routes-map>. Acessos em: 27 abr. 2016.
Pá gina 134

As minorias étnicas: integração e conflitos


Os membros de uma minoria étnica se caracterizam pelas diferenças linguísticas e culturais em
relaçã o ao restante da populaçã o local. Assim, os imigrantes que chegam aos países europeus,
embora numerosos, constituem minorias e geralmente sã o tratados de forma diferente, sendo-
lhes negados certos direitos sociais e políticos concedidos à populaçã o local.

Frequentemente, as mi norias étnicas formadas pe los imigrantes sã o alvo de violência, e a


xenofobia e a discriminaçã o dificultam o acesso dessas pessoas à s oportunidades de emprego,
à educaçã o e aos serviços de saú de.

Assim, o desemprego, a pobreza, o fracasso escolar, bem como a exclusã o política e financeira,
atingem em cheio as minorias étnicas, que acabam constituindo grupos socialmente
marginalizados e de menor poder aquisitivo na sociedade europeia.

Para esses imigrantes, integrar-se socialmente tem se tornado uma questã o fundamental para
sua permanência na Europa. Essa atitude, em muitos casos, permite aos imigrantes uma
convivência menos traumá tica com seus pares e com a sociedade local, já que o
multiculturalismo é proclamado como um valor em muitos países europeus.

A partir da década de 2000, apó s os ataques terroristas ao World Trade Center, em Nova York,
um grupo de imigrantes em especial tem sido tratado de forma discriminató ria. Trata-se dos
á rabes muçulmanos, que, embora numerosos, constituem uma minoria étnica de difícil
integraçã o à s sociedades locais.

A nã o aceitaçã o das culturas minoritá rias leva muitas vezes à formulaçã o de leis que
expressam claramente a intransigência da sociedade nacional. Em 2004, por exemplo, o
parlamento francês decretou a proibiçã o do uso do véu islâ mico nas escolas francesas. O véu
(hijab) é parte integrante da cultura muçulmana, assim como o niqab e a burca, vestimentas
femininas que cobrem todo o corpo e o rosto. O uso do véu, do niqab e da burca também foi
banido ou sofreu restriçõ es locais em outros países europeus, como Itá lia, Bélgica e Suíça.
Mike Kemp/In Pictures/Getty Images

Passeata favorá vel à recepçã o de refugiados em Londres, Reino Unido. Leem-se nas placas: “Refugiados, bem-vindos.
Abram as fronteiras. Lutem contra o racismo e a islamofobia”. Foto de 2016.
Pá gina 135

Atentados terroristas na Europa

Costuma-se afirmar que terrorismo é um conjunto de atos de violência cometidos por uma
organizaçã o para criar um clima de insegurança e exercer uma chantagem sobre um governo
ou determinado grupo ou comunidade.

Neste início de século, já ocorreram na Europa diversos atos terroristas. Considerando o ano
de 2013, foram contabilizados cerca de 150 ataques terroristas, a grande maioria executados
por grupos separatistas ou grupos políticos de extrema direita. Desse total, uma pequena
parcela teve motivaçã o étnica ou religiosa.

Estudos realizados sobre os atos terroristas e os extremistas violentos mostram que a internet
e, em particular, as mídias sociais sã o ferramentas importantes para o planejamento, o
recrutamento, a instruçã o e a execuçã o dos ataques.

Os atentados ocorridos na cidade de Paris, na França, em 13 novembro de 2015, e em Bruxelas,


na Bélgica, em 22 de março de 2016, e mesmo os que foram abortados anteriormente,
mostram que a troca de informaçõ es entre as polícias europeias foi ineficiente na detecçã o das
redes terroristas.

O afluxo de refugiados para o continente e o terrorismo estã o diretamente ligados a uma série
de crises geopolíticas em regiõ es vizinhas à Europa: a Primavera Á rabe, iniciada em 2011, que
resultou em guerras civis na Líbia e na Síria; as intervençõ es militares no Iraque e no
Afeganistã o; os conflitos no Chifre da Á frica e o aumento do terrorismo islâ mico no Oriente
Médio e no Sahel sã o alguns exemplos.

Guillaume Payen/LightRocket/Getty Images

Homenagens às vítimas dos ataques terroristas que vitimaram 130 pessoas em Paris, França. Foto de 19 de
novembro de 2015.

AÇÃO E CIDADANIA

Terrorismo em Paris: nova onda de xenofobia na Europa?


Em novembro de 2015, um ataque terrorista em Paris deixou pelo menos 130 mortos e mais de 180
feridos. O atentado foi publicamente assumido pelo grupo extremista sunita Isis (sigla em inglês
para Islamic State of Iraq and Syria – Estado Islâ mico no Iraque e na Síria), que afirmou que os
ataques em Paris foram uma resposta aos bombardeios contra muçulmanos em regiõ es do Iraque e
da Síria controladas pelo grupo.

Esse atentado em Paris contribuiu para o aumento da islamofobia (ó dio aos muçulmanos) e da
xenofobia na Europa, vitimando principalmente os milhares de refugiados no continente europeu e
em outros países que também receberam pessoas que fugiram de guerras e perseguiçõ es.

1. Como você analisa o aumento da islamofobia e da xenofobia na Europa? Pesquise notícias sobre o
tema e discuta essa questã o com os colegas.
Pá gina 136

Mundo Hoje
As raízes do conflito na Ucrânia
A [...] crise na Ucrâ nia teve início oficial em fevereiro de 2014, quando manifestantes
invadiram a Praça Maidan na capital Kiev. Eles protestavam contra a decisã o do entã o
presidente Viktor Yanukovich de nã o assinar um acordo com a Uniã o Europeia (UE) no final de
2013. Como resultado, Yanukovich deixou a presidência e fugiu de Kiev um ano antes do
término de seu mandato. Com o vá cuo de poder criado pela situaçã o, a Rú ssia passou a
interferir mais ativamente no país. O posicionamento russo (incluindo a anexaçã o da regiã o da
Crimeia) desencadeou um dos mais sérios conflitos [...] no Leste Europeu. [...] a guerra levanta
questõ es sobre as reais causas das tensõ es, as implicaçõ es na dinâ mica de poder da regiã o e
possíveis caminhos a serem trilhados pela Ucrâ nia em um futuro pró ximo.

Em novembro de 2013, a Ucrâ nia encontrava-se à beira de uma forte crise econô mica e o
presidente Yanukovich enfrentava um dilema: firmar um acordo com a UE ou aceitar um
empréstimo de cerca de US$ 15 bilhõ es da Rú ssia. A aproximaçã o com a Rú ssia sinalizaria uma
movimentaçã o para formar a chamada Uniã o Eurá sia, integrada por Rú ssia, Cazaquistã o e
Bielorrú ssia. O acordo com a UE, por sua vez, extrapolava o â mbito comercial, partindo do
pressuposto de que a Ucrâ nia aderiria também a princípios e valores políticos do bloco
europeu [...]. O entã o presidente, cujas alianças políticas eram pró -Rú ssia, nã o aderiu ao acordo
com a UE, acirrando divisõ es preexistentes dentro do país.

Para entender melhor o porquê da recusa de Yanukovich, é preciso olhar para a histó ria do
país, desde sua separaçã o da Uniã o Soviética (URSS) em 1991. Pode-se afirmar que a opiniã o
pú blica na Ucrâ nia é extremamente dividida em relaçã o a alianças políticas e econô micas.
Fatores que influenciam essas divisõ es sã o as diferentes etnias, idiomas, religiõ es, identidades
histó ricas e aspectos culturais.

O oeste do país juntou-se ao que hoje é a Ucrâ nia em 1940, apó s dois séculos sob domínio do
Império Austro-Hú ngaro e, por um período, da Polô nia. Nesta regiã o, o idioma predominante é
o ucraniano, a religiã o é cató lica grega e, devido a forte influência do ocidente, a populaçã o é
majoritariamente pró -integraçã o com a Uniã o Europeia. Por outro lado, as regiõ es leste e sul
integraram o país imediatamente apó s a guerra civil russa, em 1920. Nestas regiõ es o principal
idioma é o russo e as inclinaçõ es políticas da populaçã o estã o aliadas à s da Rú ssia.

A Ucrâ nia passou a existir de fato como Estado apó s 1991, quando a populaçã o votou em um
plebiscito que tornou o país independente do bloco soviético. [...]. Apó s a independência, houve
uma série de crises políticas e econô micas, cujos principais motivos foram as divisõ es internas,
como afirma Eugene B. Rumer, diretor do Programa de Rú ssia e Eurá sia do Carnegie
Endowment for International Peace.

Rumer argumenta que a antiga elite oligá rquica dominante na política desde a época da URSS
não foi removida com a independência, tendo sido apenas substituída majoritariamente por
uma nova geraçã o que, apesar de ter assumido a bandeira de nacionalista, ainda defendia os
interesses soviéticos. Segundo o autor, os líderes do Rukh – um dos mais importantes
movimentos nacionalistas do país – não buscaram criar um partido de oposiçã o ao do entã o
presidente Kravchuk. Como resultado, as antigas elites permaneceram no poder e reformas
necessá rias nã o ocorreram, levando à forte estagnaçã o da economia do país. A instabilidade
econô mica e a consequente crise agravaram ainda mais as disputas entre as regiõ es.

Observando a histó ria e a formaçã o do país, é possível afirmar que a disputa entre as regiõ es
faz parte de um questionamento muito maior sobre o que é de fato a Ucrâ nia. Rumer
argumenta que, sem uma histó ria mais densa de soberania, identidade nacional e noçã o de
Estado, ambas as regiõ es leste e oeste possuem legitimidade para tentar definir a agenda
doméstica e externa do país. [...]

As raízes do conflito na Ucrânia. Carta Capital. Politike, 1º abr. 2015. Disponível em: <http://politike.cartacapital.com.br/as-raizes-
do-conflito-na-ucrania>. Acesso em: 25 abr. 2016.

Vasily Fedosenko/REUTERS/Latinstock

Praça da Independência (Maidan), em Kiev, Ucrâ nia, durante os conflitos entre a populaçã o e a polícia sob o comando
de Yanukovich. Foto de 20 de fevereiro de 2014.

PARA ELABORAR

1. Com base nas informaçõ es apresentadas no texto, crie uma lista indicando as principais
questõ es que opõ em diferentes setores da populaçã o ucraniana.
Pá gina 137

Informe
Crise dos refugiados testa a União Europeia
Existem hoje, em todo o mundo, 19,5 milhõ es de refugiados, que escaparam de guerras civis,
genocídios, colapso de Estados ou perseguiçõ es a segmentos políticos ou minorias religiosas.
Nã o devem ser confundidos com os 40 milhõ es de migrantes por razõ es econô micas [...].

Sã o dados do Alto Comissariado das Naçõ es Unidas para Refugiados (Acnur). Segundo a
agência, com a atual crise, de janeiro a agosto deste ano [2015], bem mais de 300 mil pessoas
cruzaram algum pedaço do Mediterrâ neo – 200 mil na direçã o da Grécia, 110 mil na da Itá lia. E
o mais dramá tico: 2,5 mil deixaram seus países de origem à s pressas, mas nã o chegaram ao
destino. Morreram com o naufrá gio das embarcaçõ es precá rias que os transportavam. [...]

A Alemanha, com a economia mais dinâ mica da Uniã o Europeia, revê para cima suas previsõ es
de acolhimento. Contava receber neste ano 400 mil imigrantes e refugiados. Já subiu o nú mero
para 750 mil. [...]

Podemos nos perguntar qual a reaçã o mais típica dos europeus “invadidos” por essa massa de
infelizes. Há , de um lado, grupos de cidadezinhas da Á ustria e da Alemanha que cercaram e
aplaudem trens e ô nibus para oferecer aos recém-chegados flores, alimentos, agasalhos e
brinquedos. Mas há, de outro lado, a Hungria, que ameaçou de fechamento da fronteira com a
Sérvia, levantando um muro de 175 quilô metros, ou a Bulgá ria, que deslocou o exército para
tentar impedir a entrada de refugiados vindos da Grécia. E há sobretudo os partidos de
extrema direita, assanhados na França, Grã -Bretanha, Á ustria e Holanda, refletindo o temor de
que os refugiados muçulmanos ameacem culturalmente suas nacionalidades basicamente
brancas e cristã s.

A verdade é que as duas reaçõ es convivem em planos paralelos, à falta de cumprimento


tranquilo da legislaçã o humanitá ria da Uniã o Europeia ou da Convençã o de 1951, da ONU, que
impede a rejeiçã o desses estrangeiros pelos países de asilo. A pró pria Uniã o Europeia nã o se
entende internamente com o crescimento do problema. A Grã -Bretanha recuou da
intransigência e se disse disposta a acolher 15 mil sírios [...], enquanto o presidente da França e
a primeira-ministra da Alemanha [respectivamente, François Hollande e Angela Merkel]
retomam o há bito de desemperrar uma questã o espinhosa, com propostas mais flexíveis que
possam se espalhar como exemplo.

Por mais paradoxal que pareça, em termos demográ ficos, o fluxo de refugiados é bem menos
um problema e bem mais uma soluçã o. A Europa experimenta um declínio acentuado de suas
taxas de natalidade. As mulheres têm menos de dois filhos, e, com isso, nã o há reposiçã o de
populaçã o. Os imigrantes – e, entre eles, os refugiados – garantem que na pró xima geraçã o as
economias nã o entrem em recuo e percam espaço global para a Á sia ou a Á frica, onde as
populaçõ es continuam a crescer.

No entanto, quanto aos atuais refugiados, a questã o que se coloca de imediato é também outra:
qual é a responsabilidade da Europa nessa maré humana que bate à s suas portas?
A maneira mais tosca de responder consiste em dizer que os refugiados partem de antigos
territó rios coloniais para escapar de problemas semeados no passado pelas antigas
metró poles. A crise seria, assim, mais um subproduto tardio do colonialismo ocidental.

Mas na outra ponta geográ fica desse drama humanitá rio existem os conflitos espalhados pelo
mundo muçulmano.

NATALI, Joã o Batista. Crise dos refugiados testa a Uniã o Europeia. Mundo: Geografia e Política Internacional, ano 23, n. 6, p. 6-7, out.
2015.

Denis Charlet/AFP

Campo de refugiados em Dunquerque, França. Foto de 2016. Os abrigos foram construídos por uma ONG, em
associaçã o com a prefeitura local, sem apoio do governo federal francês.

PARA DISCUTIR

1. O texto defende a presença dos imigrantes na Europa? Justifique.

2. Em grupo, discuta as informaçõ es do texto, relacionando-as com as informaçõ es do capítulo.


Pá gina 138

Atividades
Não escreva no livro.

Revendo conceitos

1. Nas ú ltimas décadas, quais fatores propiciaram a proeminência da Alemanha no contexto


europeu?

2. Quais potências disputam a hegemonia sobre os países do Leste Europeu? Justifique sua
resposta com exemplos.

3. Comente a situaçã o geopolítica da Ucrâ nia.

4. Quais países europeus se destacam como receptores de fluxos migrató rios? Explique sua
resposta considerando os aspectos territoriais dos países mencionados.

5. Quais sã o os problemas enfrentados pelas minorias imigrantes na Europa?

6. Defina terrorismo e dê exemplos de ataques recentes ocorridos em territó rio europeu.

Lendo mapas e gráficos

7. Analise o grá fico e faça o que se pede.

Adilson Secco/ID/BR

Fonte de pesquisa: The Economist. Disponível em: <http://www.economist.com/blogs/economist-explains/2015/09/economist-


explains-4>. Acesso em: 26 abr. 2016.

a) Aponte as diferenças entre os grupos que desembarcaram por via marítima na Grécia e na
Itá lia no primeiro semestre de 2015.
b) Considerando as informaçõ es do grá fico e o que você estudou neste capítulo, onde deve ter
ocorrido maior desembarque de pessoas em busca de refú gio nos países europeus?
c) No caderno, comente a situaçã o de imigrantes e de refugiados em relaçã o aos países de
destino. Quais sã o as dificuldades enfrentadas por esses grupos?

8. Escreva, no caderno, uma breve aná lise sobre as informaçõ es apresentadas no grá fico a
seguir. Identifique os períodos com maiores afluxos de refugiados para os países da Uniã o
Europeia e, se preciso, retome os conteú dos estudados em capítulos anteriores para justificar
sua resposta.

Adilson Secco/ID/BR

Fonte de pesquisa: Les décodeurs, Le Monde.fr, 4 set. 2015. Disponível em: <http://www.lemonde.fr/les-
decodeurs/article/2015/09/04/comprendre-la-crise-des-migrants-en-europe-en-cartes-graphiques-
etvideos_4745981_4355770.html>. Acesso em: 26 abr. 2016.

9. Segundo dados da Organizaçã o Internacional de Migraçã o, em 2015, mais de 1 011 700


pessoas chegaram à Europa por mar, em busca de trabalho ou de refú gio, enquanto o nú mero
de pessoas nessas condiçõ es que ingressaram no continente por terra foi de cerca de 34 900.
Considerando essas informaçõ es, analise o mapa a seguir e responda à s questõ es.

João Miguel A. Moreira/ID/BR

Fonte de pesquisa: BBC, 4 mar. 2016. Disponível em: <http://www.bbc.com/news/world-europe-34131911>. Acesso em: 26 abr.
2016.
Pá gina 139

a) Quais países da Uniã o Europeia se destacaram como destinatá rios dos pedidos de asilo em
2015?
b) Discuta com os colegas os motivos que levam os solicitantes a buscar refú gio nos países
mencionados na resposta do item anterior.
c) Faça uma pesquisa em jornais, revistas e sites e comente as medidas tomadas pelos países
europeus em relaçã o à chamada “crise migrató ria”.

Interpretando textos e imagens

10. Leia o texto a seguir para responder à s questõ es.

A desigualdade corrói o projeto europeu

Dados da Eurostat, da Comissã o Europeia, da OCDE, do Banco Mundial e os relató rios do


Luxemburg Income Studies sã o contundentes. Os índices de desigualdade cresceram durante os
anos 1980 e caíram na década de noventa, em geral, nos países desenvolvidos – ainda que na
Espanha tenha ocorrido justamente o contrá rio –, para voltarem a subir nos anos anteriores à crise.
Em 2007, a Europa era mais desigual do que em 1970. Uma vez iniciada a Grande Recessã o, a
distâ ncia entre ricos e pobres continuou crescendo levemente até 2010, e ganhou impulso com o
estouro da crise da dívida – embora neste caso os dados ainda precisem confirmar oficialmente os
já numerosos indícios –, levando o continente a adotar severas políticas de austeridade.

Entre os países mais desiguais do continente estã o os bálticos, os latinos – a Espanha ocupa o
segundo lugar e, entre os 28 países, também apresenta a segunda maior taxa de aumento da
desigualdade – e os do Leste Europeu, juntamente com os anglo-saxõ es Reino Unido e Irlanda. Os
menos desiguais estã o na Europa Central que, em alguns casos, como Alemanha e Holanda,
aproveitaram a crise para reduzir a distâ ncia entre ricos e pobres.

PEREZ, Claudi. A desigualdade corró i o projeto europeu. El País, 6 jan. 2014. Disponível em:
<http://brasil.elpais.com/brasil/2014/01/05/economia/1388953809_021102.html>. Acesso em: 14 fev. 2016.

Países bálticos: Lituâ nia, Letô nia e Estô nia; países banhados pelo mar Bá ltico e localizados no nordeste do continente
europeu.

a) Explique o que seria o “projeto europeu” mencionado no texto. Em seguida, diga se você
concorda com o título da reportagem.
b) Analise a localizaçã o dos países mais desiguais do bloco. Essa distribuiçã o espacial é
histó rica ou tem sido produzida recentemente, no contexto da crise econô mica desencadeada
em 2008? Explique.

11. Leia o texto e observe a imagem. Em seguida, escreva um texto apontando os principais
problemas que envolvem as imigraçõ es ilegais na Europa, tanto do ponto de vista dos
imigrantes quanto dos países que os recebem.

Barcos fantasmas com imigrantes: um problema à deriva no Mediterrâneo

Eram por volta das 23h quando, na escuridã o do mar, começaram a tomar forma diante dos olhos
de André Jonsen centenas de famílias suplicando que lhes tirassem daquele barco sem combustível
e à deriva no meio do temporal.

– Muitos estavam em jaulas de animais. Havia gente desidratada. Outros tremiam de frio.
O navio Ezadeen, interceptado em janeiro em alto-mar com quase 500 pessoas a bordo, foi o
terceiro barco fantasma que o marinheiro islandês viu desde dezembro.

– As condiçõ es dos três eram péssimas – contou o jovem de 26 anos.

A técnica de abordagem ele conhece muito bem, mas enfrentar cara a cara o desespero extremo é
uma novidade.

– Isso nã o é lugar para seres humanos – estima.

CARBAJOSA, Ana. Barcos fantasmas com imigrantes: um problema à deriva no Mediterrâ neo. O Globo, 16 fev. 2015. Disponível em:
<http://oglobo.globo.com/mundo/barcos-fantasmas-com-imigrantes-um-problemaderiva-no-mediterraneo-15343348>. Acesso
em: 13 fev. 2016.

Norman Wald/Germany Navy/AFP

Resgate de imigrantes no mar Mediterrâ neo. Para chegar à Europa, muitos imigrantes se submetem a viagens
arriscadas, em que enfrentam desidrataçã o e o risco de naufrá gio. Foto de 2016.

12. Analise a charge a seguir. Depois, no caderno, descreva o conteú do da imagem e resuma o
tema abordado.

Carlos Latuff/Acervo do artista

Charge de Carlos Latuff, de 2014.


Pá gina 140

CAPÍTULO 10 África
O QUE VOCÊ VAI ESTUDAR
A Á frica no mundo globalizado.
Conflitos é tnicos no continente.
O papel da China no continente africano.

Darko Vrcan/Shutterstock.com/ID/BR

Vista da capital do Quê nia, Nairó bi. Foto de 2016.

Para a Á frica, o século XXI começou com mudanças positivas na economia e na política. O crescimento
econô mico de muitos países da Á frica Subsaariana – porção do continente situada ao sul do Saara – tem se
mantido acima dos 5% ao ano desde o início dos anos 2000, e as eleiçõ es se multiplicaram, embora a
democracia ainda seja um objetivo longínquo para muitos países africanos que se encontram sob regimes
ditatoriais.

Diversos projetos do Banco Mundial têm sido propostos para minimizar problemas que afetam a populaçã o e a
economia dos países africanos. Entre esses projetos, estã o a recuperação de terras degradadas no Senegal,
programas de melhoria na merenda escolar na Costa do Marfim e o apoio à produção agrícola de Moçambique,
entre 2014 e 2015.

As variaçõ es no preço do petró leo também têm consequências sobre as economias africanas. O alto preço do
produto observado até 2014 também promoveu o crescimento econô mico na Á frica. Os países exportadores de
petró leo abrangem cerca de 30% da população do continente. Um processo de crescimento semelhante
ocorreu com os países exportadores de minérios, como cobre e ouro.

Esse crescimento ainda nã o foi suficiente para promover a ascensão social da população. Isso ocorre em parte
porque as riquezas minerais estimulam, além do crescimento econô mico, a corrupçã o, as desigualdades sociais
e os conflitos. Tal contradiçã o manifesta-se no crescimento urbano de cidades como Dacar (Senegal), Lagos
(Nigéria) ou Nairó bi (Quênia), nas quais a valorizaçã o imobiliá ria vem acompanhada de um crescente processo
de favelizaçã o.

Com base na imagem e no texto, responda.


1. Em sua opiniã o, a fotografia acima evidencia o crescimento econô mico em países do continente africano
conforme o texto indica? Justifique.

2. Discuta com mais um colega como a ajuda de ó rgã os internacionais pode afetar o crescimento
socioeconô mico dos países africanos.
Pá gina 141

A África e a globalização

Diante da globalizaçã o, as naçõ es da Á frica mantêm seu destaque como exportadoras de


matérias-primas e gêneros alimentícios. O sistema global diminui o poder de negociaçã o dos
países em desenvolvimento e favorece as grandes potências econô micas. Muitos países que
atualmente se beneficiam das riquezas minerais africanas sã o os mesmos que participaram da
sua colonizaçã o nos séculos XIX e XX. As elites africanas se associaram aos colonizadores e,
posteriormente, aos capitais externos e multinacionais para a exploraçã o dos recursos do
continente.

Há sobre o continente pressõ es neoliberais, que exigem mudanças nas políticas econô micas.
Em 2005, o G-8 condicionou o perdã o das dívidas externas de 18 países à privatizaçã o de
empresas estatais.

O crescimento econô mico, em um contexto de alta das commodities, nã o foi capaz de reduzir as
desigualdades sociais e dificultou o acesso a alimentos.

As fortes elevaçõ es nos preços do petró leo e dos alimentos fomentaram crises no setor
alimentar. Entre 2005 e 2007, a tonelada de trigo passou de 150 para 370 dó lares, e o preço do
arroz dobrou em 2008.

Os produtos alimentícios têm enorme peso nas importaçõ es de muitos países africanos, o que
gerou grandes déficits em suas balanças comerciais (ou seja, o valor das importaçõ es superou
o das exportaçõ es). Em países como Etió pia, Zimbá bue, Quênia e Senegal, houve aumentos
expressivos no preço dos alimentos, o que agravou o problema da fome.

Allmaps/ID/BR

Fonte de pesquisa: FERREIRA, Graça Maria Lemos. Atlas geográfico: espaço mundial. Sã o Paulo: Moderna, 2013. p. 82.

Em muitos países do continente, a escassez de alimentos é explicada por uma complexa


combinaçã o de fatores. A suscetibilidade a eventos climá ticos (secas e inundaçõ es), a baixa
disponibilidade de terras férteis para o cultivo de alimentos destinados ao mercado interno
(grande parcela das terras férteis sã o utilizadas para cultivos de exportaçã o) e instabilidades
políticas locais contribuem para a ocorrência de desnutriçã o e para o aumento da demanda de
importaçã o de alimentos.

Pius Utomi Ekpei/AFP

Na foto, área de produçã o de gás liquefeito de uma subsidiá ria multinacional do ramo petrolífero em ilha de Bonny,
Nigéria, 2013.

SAIBA MAIS

A presença de empresas brasileiras na África

A Petrobras está presente em quatro países africanos: Angola (desde 1979), Nigéria (desde 1998),
Tanzâ nia (desde 2004) e Líbia (desde 2005).

Sua empresa subsidiá ria, a Petrobras Biocombustível, também estuda investimentos na á rea dos
biocombustíveis na Á frica, principalmente para a produçã o de etanol.

Grandes empresas brasileiras de mineraçã o estã o presentes em países como Á frica do Sul, Guiné,
Angola e Moçambique.

Outro setor que marca presença é o da construçã o civil, desenvolvendo obras de infraestrutura em
vá rios países.

Desde 2006, a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuá ria (Embrapa) mantém escritó rio em Gana
para desenvolver cooperaçã o científica e tecnoló gica no setor agrícola na Á frica Subsaariana.

Navegue
Nova África
O site apresenta uma sé rie de vídeos que retratam aspectos culturais, econô micos e políticos dos países africanos na
atualidade. Disponível em: <http://linkte.me/nafrica>. Acesso em: 29 abr. 2016.
Pá gina 142

Os conflitos no continente africano

O espaço africano foi estruturado para atender à s necessidades externas desde o período de
colonizaçã o. Entre os séculos XVI e XIX, o continente foi ocupado por europeus, que
permaneceram principalmente na faixa do litoral atlâ ntico.

Em meados do século XIX, acentuou-se a interiorizaçã o do processo de ocupaçã o colonial pelas


grandes potências imperialistas europeias. Somente a partir da segunda metade do século XX
ocorreram os processos de independência, muitos dos quais realizados à custa de violentos
conflitos.

Grande parte das dificuldades de desenvolvimento da Á frica tem origem geopolítica. Muitos
países apresentam graves tensões étnicas decorrentes da convivência forçada de diferentes
culturas e de rivalidades histó ricas. A origem dessas tensõ es foi a delimitaçã o defronteiras
artificiais pelos colonizadores europeus. Algumas delas fragmentaram grupos que
constituíam uma unidade étnica; outras reuniram no mesmo territó rio grupos étnicos
inimigos.

Mas os conflitos na Á frica nã o resultam apenas das questõ es étnicas. A corrupção e a


desigualdade social também sã o fatores de descontentamento de setores menos favorecidos
da populaçã o contra os que dã o sustento aos governos, gerando ou ampliando animosidades.

O papel devastador da corrupçã o pode ser exemplificado com o caso da Libéria, país que viveu
uma intensa guerra civil entre 1989 e 2003. A exportaçã o de diamantes serviu para o
enriquecimento ilícito de integrantes do governo e para o financiamento dos conflitos. Por esse
motivo, em 2001, a atividade sofreu um embargo imposto pelo Conselho de Segurança da
ONU.

Outro motivo de tensã o é o petróleo. A valorizaçã o do preço do barril no mercado


internacional representa um forte atrativo para a exploraçã o do produto. Nessas ocasiõ es,
multiplicam-se as pesquisas explorató rias nas bacias sedimentares (como no Sudã o ou no
Chade) e, sobretudo, na plataforma continental do Atlântico. A possibilidade de sucesso dessas
pesquisas e da exploraçã o do recurso estimula a competiçã o entre os Estados. També m
incentiva as rivalidades internas entre as etnias que se sentem preteridas na futura
distribuiçã o da renda derivada da exploraçã o petrolífera.

Outro recurso natural que é alvo de disputas é a água, que apresenta distribuiçã o
extremamente desigual no continente. Enquanto a Repú blica Democrá tica do Congo dispõ e de
25% dos recursos hídricos africanos, a Mauritâ nia dispõ e de apenas 0,001%.

No norte africano, as á guas do Nilo, entre o Sudã o e os outros países da bacia, têm sido
permanente motivo de tensã o. Desde a independência, em 1956, os sudaneses reclamam a
renegociaçã o de um tratado de 1929, que garantia ao Egito, à época protetorado inglês, maior
disponibilidade da á gua do Nilo. Em 1959, outro acordo diminuiu as tensõ es entre o Sudã o e o
Egito, mas ignorou os demais países da bacia do Nilo. Assim, criou novos pontos de atrito com
outros países da regiã o, como a Etió pia, que têm projetos de uso das á guas do Nilo.

Entre outros motivos de conflito no continente, podem ser lembradas ainda a globalização e a
liberalização das trocas comerciais. Em certos países, esses processos reduzem as
exportaçõ es e, em consequência, a capacidade de manter o aparelho de Estado (funcionalismo,
Forças Armadas, etc.), gerando sérias questõ es internas.

João Miguel A. Moreira/ID/BR

Fonte de pesquisa: Senado Francês. Disponível em: <http://www.senat.fr/rap/a12-150-4/a12-150-4_mono.html>. Acesso em: 28


abr. 2016.

Leia
África e Brasil africano, de Marina de Mello e Souza. Sã o Paulo: Á tica, 2013.
Livro que aborda, entre outros assuntos, a histó ria do continente africano, seus aspectos geográ ficos, como se dividiam as
sociedades africanas (das mais simples à s mais complexas), a escravidã o no Brasil e o negro na atual sociedade brasileira.
Pá gina 143

Conflitos na África Subsaariana


Depois da Segunda Guerra Mundial, a histó ria da Á frica, principalmente a da parte subsaariana
do continente, foi marcada por diversas guerras de independência. Concluídos os processos de
libertaçã o, novos conflitos surgiram.

Ruanda e Burundi

Em 1994, ocorreu em Ruanda um dos mais graves genocídios da histó ria recente da Á frica.
Dois grupos étnicos, os hutus e os tútsis, entraram em confronto. Apó s a independência de
Ruanda, em 1962, os tú tsis foram vítimas de atrocidades cometidas pelos hutus que
assumiram o poder.

Os conflitos internos duraram cerca de vinte anos e vitimaram entre 800 mil e 1 milhã o de
pessoas, sobretudo da etnia tú tsi. Durante os conflitos, um grande contingente de tú tsis e hutus
migrou para países vizinhos, como Uganda e Zaire (atual Repú blica Democrá tica do Congo).

Concomitantemente ao que acontecia em Ruanda, no vizinho Burundi também ocorreram


conflitos entre tú tsis e hutus com pelo menos 300 mil mortos. Assassinatos de presidentes
eleitos e golpes de Estado levaram a uma sucessã o de governantes de um e outro grupo, sem
que se conseguisse a paz. Em 2004, forças da ONU instalaram-se no país, estabelecendo desde
entã o um tênue cessar-fogo.

República Democrática do Congo

O conflito nesse país já deixou mais de 5 milhõ es de mortos e continuou provocando mortes
apó s 2003, quando foi dado como finalizado. A instabilidade está associada ao genocídio
ocorrido em Ruanda, em 1994, quando muitos grupos armados hutus, responsá veis pelo
genocídio, exilaram-se na Repú blica Democrá tica do Congo, onde formaram grandes campos
de refugiados e promoveram ataques à s comunidades locais em busca de terras e de alimentos.

No entanto, além das questõ es étnicas e políticas, o fator econô mico é relevante, pois a parte
oriental do país abriga uma grande concentraçã o de minérios, e o controle dos recursos
naturais no país também é alvo de disputas.

Darfur

O conflito de Darfur, no Sudã o, que teve início em 2003, já fez mais de 300 mil vítimas e 2,7
milhõ es de refugiados e deslocados internos. O conflito opõ e grupos rebeldes à s forças do
governo do Sudã o e à s milícias Janjaweed. Essas milícias sã o grupos de paramilitares
formados por nô mades recrutados, armados, treinados e apoiados pelo governo do Sudã o. Sua
açã o tem se caracterizado pela extrema violência, sobretudo contra as mulheres.

Nesse conflito, estã o em jogo vá rios interesses, entre os quais os problemas fundiá rios – que
opõ em criadores de gado de origem á rabe e agricultores de outras etnias – e a partilha das
concessõ es de exploraçã o de petró leo no sul do país e na regiã o de Darfur. Veja o mapa abaixo.
Allmaps/ID/BR

Fonte de pesquisa: Le Monde Diplomatique. L’ Atlas 2010. Paris: Armand Colin, 2009. p. 160.

Em 2008, tropas de paz da Uniã o Africana (UA) e da ONU se instalaram na regiã o de Darfur,
onde milhõ es de refugiados vivem em condiçõ es sub-humanas.

No entanto, a situaçã o evidencia a dificuldade enfrentada por organismos internacionais em


evitar que armamentos e muniçõ es comprados da China, da Rú ssia e de Belarus cheguem ao
conflito.

Assista
Diamante de sangue. Direçã o de Edward Zwick, Estados Unidos, 2006, 143 min.
Ambientado em Serra Leoa, durante o período da guerra civil (1991-2002), o filme relata a procura por um valioso
diamante, acompanhando os conflitos em curso.
Mulheres africanas – a rede invisível. Direçã o de Carlos Nascimbeni, Brasil, 2012, 80 min.
O documentá rio retrata a condiçã o de cinco mulheres em diferentes países da Á frica, por meio de entrevistas.
Pá gina 144

Sudão do Sul

O Sudã o do Sul é o mais novo país africano. Em 2011, realizou-se um referendo para a
populaçã o da porçã o sul decidir entre sua permanência no Sudã o ou a formaçã o de um novo
país. Com expressivos 98% favorá veis à independência, o Sudã o do Sul transformou-se em
nova naçã o, sendo logo aceito como membro da ONU e da Uniã o Africana.

Apesar das grandes reservas de petró leo, o Sudã o do Sul enfrenta sérios problemas
socioeconô micos: elevada mortalidade infantil, analfabetismo e pouquíssima infraestrutura
médico-sanitá ria.

Entre as principais questõ es geopolíticas do Sudã o do Sul, pó s-independência, está o conflito


com a Etió pia, país vizinho situado a leste, que também enfrenta conflitos separatistas em sua
porçã o sul, onde vivem grupos étnicos com muitas afinidades com os sudaneses do Sul. O
reconhecimento da independência pela Etió pia ficou condicionado à desistência do Sudã o do
Sul de colaborar com os revoltosos etíopes.

África do Sul

Entre 1948 e 1991, instalou-se na Á frica do Sul o regime do apartheid, um sistema de


segregaçã o racial no qual a minoria branca impô s à populaçã o negra (80% do total) uma série
de restriçõ es de cará ter político, econô mico e social.

Vá rios acontecimentos ocorridos durante o período de vigência do apartheid, como os


processos de independência na Á frica e o ativismo político de Martin Luther King contra a
segregaçã o racial nos Estados Unidos, motivaram a intensificaçã o das críticas contra o governo
sul-africano. Sançõ es internacionais, o embargo da ONU e o isolamento político no continente
levaram o país a tomar medidas para pô r fim ao apartheid. Nesse processo, foi decisiva a
atuaçã o de Nelson Mandela, que, em 1994, tornou-se o primeiro presidente negro do país.

Embora tenham se passado quase três décadas do fim do apartheid, ainda se observam na
Á frica do Sul enormes diferenças socioeconô micas entre brancos e negros. Cerca de 31% dos
53 milhõ es de habitantes vivem com menos de 2 dó lares por dia e, em 2014, o país tinha uma
taxa de desemprego da ordem de 25%, atingindo principalmente a populaçã o negra.

A Á frica do Sul, graças ao crescimento econô mico da ú ltima década, é considerada um país em
desenvolvimento e o de maior expressã o no continente africano.

Paradoxalmente, a populaçã o africana, que esteve submetida durante décadas ao regime


racista do apartheid, tem desenvolvido atitudes xenó fobas em relaçã o aos imigrantes de outros
países africanos. Para alguns sul-africanos, os imigrantes disputam os empregos disponíveis e
aumentam a onda de violência que permeia as relaçõ es sociais no país.

Nigéria

A Nigéria, país mais populoso da Á frica, foi colonizada por ingleses e se tornou independente
em 1960. Desde entã o, passa por instabilidades políticas.
O país tem sua economia fortemente baseada na exploraçã o de petró leo. Em 2013, ultrapassou
a economia da Á frica do Sul, até entã o, detentora do maior PIB do continente. Seu territó rio é
habitado por cerca de 500 grupos étnicos. As religiõ es cristã s predominam na porçã o sul, e os
muçulmanos estã o concentrados no norte. Nessa regiã o formou-se, em 2002, o grupo Boko
Haram.

O grupo jihadista tem como um de seus principais objetivos a instauraçã o de um califado em


todo o territó rio nigeriano, ou seja, a criaçã o de um Estado teocrá tico regido por leis
tradicionais islâ micas. Esse objetivo já foi parcialmente atingido no norte nigeriano, mas é
amplamente rechaçado no sul, predominantemente cristã o.

Jihadista: pessoa ou grupo de religiã o muçulmana que defende a luta violenta como forma de instauraçã o de leis islâ micas
tradicionais.

O Boko Haram professa um islamismo rigoroso inspirado nos talibã s afegã os e se associa à s
teses jihadistas da Al-Qaeda e do Isis. Em 2014, o grupo sequestrou mais de 200 meninas e
jovens de uma escola como parte de uma campanha contra a educaçã o cristã ocidental. O
sequestro mobilizou a opiniã o pú blica internacional contra a organizaçã o, que apoia
abertamente o terrorismo contra civis e usa meios violentos e coercitivos para atingir seus
objetivos político-religiosos. No início de 2015, o Boko Haram associou-se ao Isis.

Assista
Invictus. Direçã o de Clint Eastwood, Estados Unidos, 2009, 135 min.
O presidente Nelson Mandela vê a possibilidade de reduzir as diferenças é tnicas do apartheid por meio do esporte: na Copa
do Mundo de rú gbi, incentiva a seleçã o nacional a ser campeã .

GEOGRAFIA E SAÚDE PÚBLICA

A aids e a quebra de patentes de remédios

Na Á frica Subsaariana, encontra-se o maior nú mero de pessoas contaminadas com o vírus HIV no
mundo. A Á frica do Sul, com 12% da populaçã o infectada, é um dos países que, a exemplo do Brasil,
se valem da quebra de patentes para produzir medicamentos a baixo custo para o controle da
doença. Tem-se observado a reduçã o do nú mero de mortes em decorrência da aids na Á frica.
Segundo a ONU, em 2005 ocorreram 2,2 milhõ es de ó bitos e, em 2013, o nú mero diminuiu para 1,1
milhã o de mortes.

1. Em grupos, façam uma pesquisa sobre os efeitos da quebra de patentes de remédios e discutam
as consequências desse fato para o avanço do tratamento da aids em diferentes países.
Pá gina 145

A Primavera Árabe
Recebeu esse nome o conjunto de movimentos populares que se iniciaram no norte da Á frica
em dezembro de 2010. A expressã o faz referência à Primavera de Praga, movimento de
reformas democrá ticas ocorrido em 1968 na entã o Tchecoslová quia.

As primeiras grandes manifestaçõ es ocorreram na Tunísia, em dezembro de 2010, e tinham


como objetivo principal depor Ben Ali, ditador do país por quase 30 anos.

A deposiçã o do ditador tunisiano serviu de exemplo para as populaçõ es de outros países do


norte da Á frica. Na Argélia e no Marrocos, as manifestaçõ es trouxeram mudanças políticas. No
Egito, a grande mobilizaçã o popular e os fortes conflitos culminaram na deposiçã o de Hosni
Moubarak, que governara o país por três décadas. Foram realizadas novas eleiçõ es
presidenciais.

Os movimentos chegaram à Líbia, onde Muammar Kadhafi se manteve no poder por quatro
décadas. Ocorreu uma violenta guerra civil entre as forças aliadas ao ditador e os rebeldes,
apoiados por forças internacionais. Os conflitos cessaram apó s oito meses, com a morte de
Kadhafi.

Em comum, esses movimentos tiveram como causas sociais: a falta de liberdades individuais e
pú blicas, o desemprego, a corrupçã o, a pobreza, e o desejo de substituir os governos
despó ticos por democracias.

As manifestaçõ es da Primavera Á rabe fizeram uso das novas tecnologias, como o celular e a
internet, utilizando-se das redes sociais para sensibilizar e convocar a populaçã o a participar,
além de informar a comunidade internacional dos acontecimentos e da repressã o que os
manifestantes sofriam.

A Primavera Á rabe teve desdobramentos no Oriente Médio, onde provocou mudanças em


alguns países como Barein, Iêmen, Jordâ nia e Omã , embora em menor escala. Na Síria, as
manifestaçõ es marcaram o início de um grave conflito civil que opô s as forças militares pró -
governo e civis.

O Saara Ocidental
A regiã o foi colonizada pelos espanhó is desde 1884. Em 1975, a Espanha desocupou a regiã o,
deixando para trá s um país sem infraestrutura, com muitas carências e taxa de analfabetismo
de 90%.

Os países vizinhos Marrocos e Mauritâ nia aproveitaram a saída da Espanha e ocuparam o


territó rio, com a maior parte dele ficando sob domínio marroquino. Ambos os países
utilizaram argumentos histó ricos para invadir o territó rio. No entanto, há fortíssimos
interesses econô micos, em uma regiã o rica em recursos minerais, entre os quais os fosfatos.

Desde a ocupaçã o marroquina, a Argélia tem apoiado o movimento rebelde de libertaçã o do


Saara Espanhol – a Frente Polisá rio – e abriga acampamentos de refugiados saarauis em seu
territó rio.
Em fevereiro de 1976, foi proclamada a Repú blica Á rabe Saaraui Democrá tica, que tem um
governo no exílio na Argélia. Cerca de 80 países reconhecem o Saara Ocidental como país
independente. No entanto, o Marrocos continua ocupando o país.

Mohammed Abed/AFP

No Egito e na Líbia, longos regimes ditatoriais foram sucedidos por grupos militares que frustraram as esperanças
das manifestaçõ es da Primavera Á rabe por avanços democrá ticos nesses países. Na foto, protesto na Praça Tahir,
Cairo, Egito, em 2011.
Pá gina 146

O papel da China na África

Na época da Guerra Fria, sobretudo nas décadas de 1960 e 1970, a China apoiou vá rios
movimentos de libertaçã o e vendeu armamento para países recém-independentes da Á frica.

Na década de 1980, os chineses começaram a direcionar investimentos para o continente


africano, mas foi a partir do século XXI que se pô de assistir a uma verdadeira explosã o nas
relaçõ es sino-africanas.

O rá pido crescimento industrial chinês transformou o país em um á vido consumidor de


petró leo. A China buscou diversificar seus fornecedores, reconhecendo na Á frica grandes
possibilidades de ver parte de seus interesses econô micos atendidos.

A carência de infraestrutura, que restringe a capacidade de exploraçã o dos recursos naturais


do continente africano, é compensada pela intensificaçã o dos investimentos chineses, que,
além de empréstimos monetá rios, fornecem recursos materiais e técnicos.

Essa maneira de atuar coloca a China em uma posiçã o estratégica, pois ela se consolida como
um dos países com maior acesso à s riquezas africanas. Como efeito desse processo, as trocas
comerciais entre as duas partes passaram de 9 bilhõ es de dó lares em 2001 para 172 bilhõ es
em 2013, segundo dados do Banco Mundial.

O setor da construçã o civil chinês é um dos mais atuantes na Á frica. Os chineses têm investido
na construçã o de rodovias e ferrovias que ligam as á reas de extraçã o mineral aos portos.

Essas vias de circulaçã o estimulam o desenvolvimento do continente, ao mesmo tempo que


facilitam o escoamento das exportaçõ es para a China. Cerca de 35 países africanos têm
recebido investimentos chineses ou estudam a possibilidade de recebê-los.

Além da construçã o civil, alguns setores em especial têm sido priorizados pelos chineses. Um
deles é o de geraçã o de energia, principalmente hidreletricidade, em razã o da existência de
rios favorá veis à construçã o de usinas hidrelétricas em países africanos. Os chineses também
investiram na construçã o de usinas termelétricas no Sudã o e no Sudã o do Sul, aproveitando
o petró leo extraído nesses países.

Outro campo de atividade que vem recebendo a participaçã o chinesa é o de


telecomunicações, por meio da venda de equipamentos e da prestaçã o de serviços, sejam
pú blicos, sejam privados.

O agronegócio também recebeu investimento dos chineses, que se aproveitam da variedade


dos tipos de clima no continente, além da disponibilidade de terras à venda para a produçã o de
diferentes produtos.

É importante observar que, como o interesse chinês está bastante ligado ao incremento dos
setores produtivos, os financiamentos voltados à captaçã o e ao tratamento de á gua potá vel ou
a outras infraestruturas sociais, quando existem, sã o muito reduzidos.

A partir de 2014, as relaçõ es comerciais e o volume de investimentos chineses na Á frica


tiveram uma leve reduçã o. A queda do preço do petró leo e de outras commodities e o menor
crescimento da economia da China frearam as iniciativas chinesas nos países do continente de
maneira a garantir um balanço comercial positivo (superá vit) para o país asiá tico.

Allmaps/ID/BR

Fontes de pesquisa: REKACEWICZ, Philippe. Pour une nouvelle géopolitique africaine. Le Monde Diplomatique. Disponível em:
<http://www.monde-diplomatique.fr/cartes/frontieresafrique>. Acesso em: 6 maio 2015; BONIFACE, Pascal. L’année stratégique 2009.
Paris: Dallos, 2008.
Pá gina 147

As críticas às políticas chinesas na África


Durante mais de um século, os países ocidentais, em especial as grandes potências europeias,
exploraram os recursos naturais do continente sob condiçõ es pouco vantajosas para os
africanos. No entanto, a partir da década de 2000, a atuaçã o dos chineses tem representado
motivo de preocupaçã o para os países europeus, que foram, até a década de 1990,
considerados os principais investidores na Á frica.

Os países ocidentais têm apresentado uma série de críticas à s políticas chinesas de


investimento e exploraçã o. Uma dessas críticas se refere à postura de não interferência sobre
as políticas internas dos países, e, outra, ao desrespeito aos direitos humanos. Isso porque o
governo de Beijing tem investido sistematicamente em Estados com governos ditatoriais ou
onde há conflitos e massacres de civis, como é o caso do Sudã o (Darfur).

Também há críticas em relaçã o aos empréstimos bancá rios chineses, que contrariam a
tendência traçada pelos bancos internacionais de perdoar dívidas de países africanos mediante
reformas em suas políticas sociais. Para os críticos, os empréstimos chineses favorecem os
governos corruptos e a ampliaçã o das dívidas externas dos países mais carentes.

Os regimes de trabalho impostos aos africanos também seriam inadequados, sobretudo em


relaçã o aos baixos salá rios (inferiores aos dos trabalhadores chineses), ao elevado nú mero de
horas de trabalho semanais, à falta de contratos de trabalho legalizados, à proibiçã o de
sindicalizaçã o e à ausência de equipamentos de segurança no trabalho.

Jenny Vaughan/AFP

Fá brica chinesa de sapatos na Etió pia. Foto de 2012.

Muitos empresá rios africanos também fazem críticas à presença chinesa, com sua agressiva
política de exportaçã o de produtos baratos, que inundam os mercados africanos e acabam por
desestruturar as indú strias de bens de consumo locais, fato que resulta em maiordesemprego.

Para os ambientalistas, é preocupante a atuaçã o dos chineses no continente, pois os principais


setores de investimento chinês (energia, transportes, mineraçã o, exploraçã o de madeiras)
interferem em á reas ambientalmente ricas e frá geis. A postura pouco comprometida dos
chineses com as questões ambientais em seu pró prio país reforça os temores de que danos
irreversíveis possam ocorrer nos ecossistemas africanos.

Há vá rios indícios de que os interesses econô micos na Á frica também sã o conduzidos em


detrimento das questõ es ambientais. Sã o exemplos disso a exploraçã o de petró leo no interior
de um parque de conservaçã o nacional no Gabã o, realizada sem autorizaçã o do Ministério do
Meio Ambiente do país, e a construçã o de uma usina hidrelétrica no Sudã o, que deverá
desalojar cerca de 50 mil pequenos agricultores que vivem no vale do rio Nilo.

Leia
A força de Bedirya, de Gé rard Dhotel. Sã o Paulo: SM, 2007.
A narrativa ficcional é centrada na vida de uma menina, Bedirya, que mora em uma aldeia na Eritreia, país africano quase
destruído pela guerra contra a Etió pia e pela seca devastadora, e onde existe muita violê ncia contra as mulheres.

Assista
Batalha de Argel. Direçã o de Gillo Pontecorvo, Argé lia/ Itá lia, 1965, 117 min.
Um dos mais contundentes filmes sobre as lutas de independê ncia na Á frica, o documentá rio aborda a luta pela
independê ncia da Argé lia.

SAIBA MAIS

A União Africana

Em 1963, foi criada a Organizaçã o da Unidade Africana (OUA), que tinha como princípios eliminar
os ú ltimos traços do colonialismo e reforçar a unidade entre os 32 países africanos que faziam parte
da organizaçã o. Em 2002, a OUA foi substituída pela Uniã o Africana (UA), que atualmente congrega
53 países. Somente o Marrocos nã o faz parte da UA.

Entre os objetivos da Uniã o Africana, estã o a defesa da soberania dos países-membros, a aceleraçã o
das políticas de integraçã o socioeconô micas, a cooperaçã o internacional e a promoçã o da paz, da
segurança e da estabilidade no continente.

Pan Siwei/NurPhoto/AFP

Encontro da Uniã o Africana em Adis Abeba, Etió pia. Foto de 2016.


Pá gina 148

Mundo Hoje
Em Ruanda, mulheres são maioria no Parlamento
[...] [Ruanda] ostenta o título de possuir o Parlamento mais feminino do planeta: 63,8% da
câ mara baixa de Ruanda é composta por mulheres. Já no Senado, elas ocupam quase 40% das
vagas.

Segundo Nadine [Gasman, representante da ONU Mulheres], “a participaçã o das mulheres na


política de Ruanda é um caso concreto de que é possível elas ocuparem os postos de decisã o e
fazerem a diferença positiva na política nacional”.

No segundo lugar da lista, está a Bolívia, com 53% dos assentos. Logo atrá s, vêm Andorra, com
50%, e Cuba, com 49%.

Os primeiros países da lista implementaram cotas para mulheres no Parlamento: em Ruanda,


por exemplo, a Constituiçã o de 2003 instituiu vagas para mulheres, além de 30% de cotas no
serviço pú blico e igualdade de gênero na educaçã o e na compra de terras.

Desconsiderando açõ es afirmativas, o primeiro lugar ficaria com a Suécia, que tem 44% dos
assentos ocupados por mulheres.

No mundo todo, de acordo com a ONU Mulheres, há 37 países onde as mulheres ocupam
menos de 10% dos assentos parlamentares. [...] Segundo dados de setembro deste ano [2015],
o Brasil ocupa o nú mero 118 na lista, com 9,9% de participaçã o feminina na Câ mara e 16% no
Senado. De acordo com a ONU Mulheres, uma maior representaçã o feminina no Estado faz,
sim, muita diferença.

Pesquisas em conselhos locais indianos comprovam que o nú mero de projetos envolvendo


á gua potá vel em á reas com conselhos liderados por mulheres era 62% maior do que em locais
onde os homens estavam no comando. Já na Noruega, pesquisas encontraram uma relaçã o
direta entre a presença de mulheres nos conselhos municipais e a criaçã o de creches.

O Banco Mundial afirma que, em termos globais, as mulheres ocupam cerca de 20% dos
assentos parlamentares.

E como Ruanda se tornou a número 1?


Uma série de mecanismos legais, como o estabelecimento de cotas para mulheres no
Parlamento (e em todos os ó rgã os tomadores de decisã o) e a criaçã o de conselhos locais
exclusivamente femininos, foi fundamental para que [...] as mulheres atingissem uma fatia
superior a 60% do Parlamento do país.

Além disso, o genocídio também mudou o papel das mulheres na sociedade de Ruanda: dois
anos depois das mortes, cerca de 70% da populaçã o adulta do país era composta por mulheres.
Nesse contexto, elas assumiram papéis de liderança, tanto em termos econô micos quanto
sociais.
[...] Até o genocídio, que vitimou 800 mil pessoas (um décimo da populaçã o), em 1994, as
mulheres nunca haviam ocupado mais de 18% dos assentos no Parlamento.

Apó s as mortes, milhares delas ficaram viú vas e tiveram que criar seus filhos sozinhas, sem
nenhuma presença masculina. Muitos desses homens, criados pelas mã es viú vas, violentadas
ou soropositivas (infectadas em estupros), ocupam hoje importantes cargos políticos e lutam
por uma sociedade mais inclusiva. [...]

“A questã o nã o é o sexo. A questã o é a igualdade de oportunidades, de direitos humanos e dos


cidadã os, algo fundamental para qualquer cidadã o”, afirmou a parlamentar ruandesa Connie
Bwiza Sekemana ao Banco Mundial.

[...] a expectativa de vida no país aumentou dez anos na ú ltima década e um programa de
educaçã o compulsó ria fez que meninos e meninas tivessem a mesma presença nas escolas
primá rias e secundá rias do país. [...]

BAZZO, Gabriela. Como o parlamento em Ruanda se tornou o mais feminino do mundo. Huffpost Brasil, 11 nov. 2015. Disponível em:
<http://www.brasilpost.com.br/2015/11/11/mulheres-parlamentares-mu_n_8340686.html>. Acesso em: 2 maio 2016.

Denyse Uwera Kamugwiza/AP Photo/Glow Images

Parlamento em Ruanda, onde as mulheres sã o maioria. Kigali, Ruanda. Foto de 2015.

PARA ELABORAR

1. Em grupos, escolham um dos países mencionados no texto e pesquisem informaçõ es sobre a


participaçã o de mulheres em seus ó rgã os políticos. Na sala de aula, apresentem a pesquisa aos
colegas e comparem os dados levantados com os dos demais grupos.
Pá gina 149

Informe
A educação tradicional na África
[...]

O fato de nã o possuir uma escrita não priva a Á frica de ter um passado e um conhecimento. [...]

Evidentemente, este conhecimento herdado e transmitido oralmente pode desenvolver-se ou


estiolar-se [se enfraquecer]. Desenvolve-se onde existem centros de iniciaçã o e jovens para
receber a formaçã o. Perde-se sempre que a iniciaçã o desaparece.

O conhecimento africano é imenso, variado. Concerne a todos os aspectos da vida. [...] Podemos
falar, portanto, de uma “ciência da vida”: a vida sendo concebida como uma unidade onde tudo
está interligado, interdependente e interagindo.

Na Á frica, tudo é “Histó ria”. A grande Histó ria da vida comporta seçõ es que serã o, por
exemplo: a histó ria das terras e das á guas (a geografia), a histó ria dos vegetais (a botâ nica e a
farmacopeia), a histó ria dos “filhos do seio da terra” (a mineralogia), a histó ria dos astros
(astronomia, astrologia), etc. [...]

Mas a maior de todas as “histó rias”, a mais desenvolvida, a mais significativa, é a histó ria do ser
humano [...]

A histó ria do ser humano compreende, de um lado, os grandes mitos da criaçã o do homem e de
sua apariçã o sobre a terra, com o significado do lugar que ele ocupa no seio do universo, o
papel que ali ele deve desempenhar [...] e sua relaçã o com as forças de vida que o rodeiam e
que o habitam. Compreende, por outro lado, a histó ria dos grandes ancestrais. [...]

O conhecimento africano é um conhecimento global, um conhecimento vivo. É por isso que os


anciã os, os ú ltimos depositá rios desse conhecimento, podem ser comparados a vastas
bibliotecas, das quais as mú ltiplas prateleiras estã o ligadas entre si por relaçõ es invisíveis que
constituem precisamente esta “ciência do invisível”, autenticada pelas correntes de
transmissã o iniciá tica.

Outrora, este conhecimento era transmitido regularmente de geraçã o em geraçã o, mediante


ritos de iniciaçã o e pelas diferentes formas de educaçã o tradicional. Esta transmissã o regular
foi interrompida devido a uma açã o exterior, extra-africana: o impacto da colonizaçã o. Esta,
chegando com sua superioridade tecnoló gica, com seus métodos e seu ideal de vida pró prios,
fez de tudo para impor seu pró prio jeito de viver à quele dos africanos. [...]

[Foi] a época na qual se impedia as crianças de falar sua língua materna, com o propó sito de
afastá -las das influências tradicionais. Isso chegou a tal ponto que, na escola, a criança que
fosse surpreendida falando sua língua materna recebia pendurado no pescoço um quadro
chamado “símbolo”, no qual estava desenhada uma cabeça de burro, e ficava privada do
almoço [...]
Enquanto o colonialismo, com efeito, suscitava reservas e penetrava pouco no campo, estas
mesmas ideias europeias, veiculadas por partidos políticos modernos, mobilizaram massas até
o mais recô ndito vilarejo, de tal maneira que a transmissã o quase nã o encontra mais terreno
onde possa ser exercida.

Numa época em que diversos países do mundo, por intermédio da Unesco, consagram recursos
financeiros e esforços materiais para salvar os grandes monumentos histó ricos ameaçados,
não seria ainda mais urgente salvar o prodigioso capital de conhecimentos e de cultura
humana acumulado, ao longo de milênios, nesses frá geis monumentos que sã o os homens, e do
qual os ú ltimos depositá rios estã o desaparecendo? [...]

BÂ, Amadou Hampâ té. A educação tradicional na África. Disponível em: <http://www.casadasafricas.org.br/wp/wp-
content/uploads/2011/08/A-educacao-tradicional-na-Africa.pdf>. Acesso em: 10 maio 2016.

Gideon Mendel/Corbis/Fotoarena

Crianças ao redor da fogueira prestam atençã o à histó ria que uma mulher lhes conta. Mahwanke, Zimbá bue. Foto de
1994.

PARA DISCUTIR

1. Com base no texto, avalie a importâ ncia da transmissã o oral como fonte de conhecimento e
aprendizagem para os povos africanos.

2. Explique em que medida o colonialismo europeu interferiu na histó ria e na cultura das
populaçõ es africanas.

3. Com base em seus conhecimentos, responda à pergunta formulada no ú ltimo pará grafo do
texto e depois discuta-a com os colegas.
Pá gina 150

Atividades
Não escreva no livro.

Revendo conceitos

1. Comente a participaçã o dos países africanos no comércio mundial.

2. Por que os recursos oriundos das exportaçõ es nem sempre se refletem na melhoria de vida
das populaçõ es africanas?

3. Cite algumas causas da escassez de alimentos em países da Á frica Subsaariana.

4. Quando ocorreu a independência da maior parte dos países africanos?

5. Quais sã o as causas do conflito em Darfur?

6. O que foi o apartheid?

7. Em quais países teve início a Primavera Á rabe?

8. Quais sã o as principais á reas receptoras dos investimentos chineses na Á frica?

9. Quais sã o as principais críticas feitas à atuaçã o chinesa na Á frica?

Interpretando textos e imagens

10. Leia o texto e responda à s questõ es.

[...] Com mais de 19 milhõ es de pessoas a viver sob a ameaça de fome e malnutriçã o na regiã o do
Sahel de Á frica Ocidental, o relató rio do Banco insta aos líderes africanos que melhorem o comércio
de forma a que os alimentos possam circular livremente entre países e das á reas férteis para
aquelas em que as comunidades sofrem com a escassez alimentar. O Banco Mundial estima que a
procura de alimentos em Á frica duplique até 2020 à medida que as populaçõ es vã o cada vez mais
deixando as regiõ es rurais em prol das cidades do continente. [...]

Banco Mundial. Disponível em: <http://www.worldbank.org/pt/news/2012/10/24/africa-can-feed-itself-earn-billions-avoid-food-


crisesunblocking-regional-food-trade>. (Mantida a grafia original.) Acesso em: 3 maio 2016.

a) Pesquise em livros, revistas e na internet onde fica a regiã o do Sahel e qual é a sua
característica climá tica.
b) Considerando as informaçõ es do capítulo, quais sã o os fatores que podem comprometer as
relaçõ es comerciais entre países vizinhos no continente africano?

11. Interprete a imagem e escreva um texto relatando suas conclusõ es.


Junião/Acervo do artista

Charge de Juniã o, 2013. “Primavera Á rabe”.

12. Observe a foto e leia a legenda.

Dave G. Houser/Corbis/Fotoarena

Entrada de banheiro masculino na Á frica do Sul, com aviso indicando uso exclusivo para brancos. Foto de 1989.

Em que período da histó ria da Á frica do Sul foi tirada essa fotografia? Justifique sua resposta.

Lendo mapas e gráficos

13. Analise o grá fico e descreva as informaçõ es apresentadas com base em seus
conhecimentos. Comente as características do atual processo de desenvolvimento dos países
africanos.

Adilson Secco/ID/BR

Fonte de pesquisa: Cereais, Peixe, Dinheiro: financiar as revoluçõ es verde e azul de Á frica. Relatório do Progresso em África de 2014,
Genebra, Africa Progress Panel, p. 29, 2014.
Pá gina 151

14. Observe os grá ficos a seguir e elabore um texto comparando os dados apresentados,
relacionando-os ao conteú do estudado neste capítulo.

Adilson Secco/ID/BR

Fonte de pesquisa: The Economist. Disponível em: <http://www.economist.com/news/middle-east-and-africa/21574012-


chinesetrade-africa-keeps-growing-fears-neocolonialism-are-overdonemore>. Acesso em: 2 maio. 2016.

Adilson Secco/ID/BR

Fonte de pesquisa: ROMEI, Valentina. China and Africa: trade relationship evolves. Financial Times, 3 dez. 2015. Disponível em:
<http://www.ft.com/intl/csm/s/0/c53e7f68-9844-11e5-9228-87e603d47bdc>. Acesso em: 2 maio 2016.

15. Analise o mapa e responda à s questõ es.


Allmaps/ID/BR

Fonte de pesquisa: SciencesPo. Origines et destinations des migrantes africains: situation en 2010. Disponível em:
<http://cartographie.sciences-po.fr/fr/origines-etdestinationsdes-migrants-africainssituation-en-2010>. Acesso em: 8 maio 2016.

a) Quais sã o as principais causas dos deslocamentos forçados no continente africano?


b) Quais regiõ es e tipos de deslocamento se destacam no conjunto do continente?
Pá gina 152

CAPÍTULO 11 América Latina


O QUE VOCÊ VAI ESTUDAR
Políticas nacionalistas na Amé rica Latina: os casos da Argentina, Bolívia e Venezuela.
Situaçã o econô mica e social do Mé xico.
Focos de tensã o na Amé rica Latina.

Brice Peressini/Trading Voyageur

O nacionalismo faz parte do cená rio político latino-americano desde o período que precedeu a independê ncia dos
diferentes países da regiã o. Na foto, o tema é abordado em um grafite (dimensõ es nã o disponíveis) do artista italiano
Blu, em Buenos Aires, Argentina. Foto de 2012.

Em cada parte do mundo e em cada país ocorrem situaçõ es particulares que explicam o aparecimento do
nacionalismo. Na histó ria da América Latina pó s-colonial sã o encontrados tanto o nacionalismo vinculado a
princípios democrá ticos como o orquestrado para a legitimaçã o de governos autoritá rios.

Uma das formas de nacionalismo descritas na América Latina está associada ao populismo, fenô meno político
que possibilita a ascensã o de um líder carismático visto como defensor dos interesses das camadas menos
favorecidas. Sã o exemplos de nacionalismo populista o peronismo na Argentina e o varguismo no Brasil.
Ambos ocorreram entre as décadas de 1940 e 1950 e representaram momentos histó ricos importantes, pois
os líderes Juan Peró n (Argentina) e Getú lio Vargas (Brasil) tinham um forte apelo popular em regiõ es que
estavam em processo acentuado de urbanização e industrializaçã o.

O nacionalismo orquestrado para a legitimaçã o de governos autoritá rios pode ser ilustrado pelo cunho
patrió tico que caracterizava os discursos dos governos ditatoriais militares nas décadas de 1960 a 1980 na
Argentina, no Brasil, no Chile e no Uruguai. Esse nacionalismo, em plena época da Guerra Fria, prestava-se a
garantir a “segurança nacional” contra a “ameaça comunista”, mas aceitava a hegemonia dos Estados Unidos e
sua liderança no continente. Além do pretexto anticomunista, o nacionalismo na Argentina e no Brasil
impulsionava a busca pela liderança no cená rio geopolítico sul-americano.

Com base no texto e na imagem, responda.


1. Como você interpreta o grafite mostrado na fotografia?

2. Em sua opiniã o, como o nacionalismo interfere na política de um país e nas atitudes de seus cidadã os?
Pá gina 153

Nacionalismo na América Latina

Atualmente, o nacionalismo tem se manifestado na América Latina relacionado com o


fortalecimento da soberania dos países diante de políticas econô micas neoliberais. Nesse
quadro, têm destaque alguns países sul-americanos.

Argentina
Com o segundo maior IDH da América Latina (0,836, em 2014), a Argentina conheceu, durante
décadas, um grande crescimento econô mico, que se refletiu na melhoria das condiçõ es de vida
da populaçã o. No entanto, a partir da década de 1970, os governos militares e depois os
governos neoliberais, que promoveram privatizaçõ es e políticas cambiais equivocadas,
levaram a economia argentina ao colapso, em 2001.

A partir de 2003, o governo de Néstor Kirchner implementou reformas políticas e econô micas
que permitiram um novo período de crescimento. Em 2007, sua esposa, Cristina Kirchner,
venceu as eleiçõ es e assumiu posiçõ es mais nacionalistas, como a adoçã o de medidas
protecionistas, reduzindo a importaçã o de produtos industrializados. Porém, a crise
internacional de 2008, aliada a fatores como desemprego, inflaçã o, e a falta de investimentos
estrangeiros, deram continuidade à instabilidade econô mica argentina. Em 2015, Mauricio
Macri, opositor de Kirchner, foi eleito presidente, sob a expectativa de transformaçõ es políticas
e econô micas para o país.

Bolívia
A Bolívia está entre os países com piores indicadores sociais da América do Sul. No aspecto
político, a partir da década de 1960, o país viveu um período de forte instabilidade, com a
sucessã o de golpes de Estado promovidos por militares. Mesmo com o retorno da democracia,
na década de 1980, a política continuou instá vel por causa da insatisfaçã o popular diante da
pobreza e da desigualdade social.

Em 2005, pela primeira vez na histó ria boliviana, foi eleito um presidente de origem indígena,
Juan Evo Morales, apoiado por um partido político de linha socialista e nacionalista. Uma das
principais medidas que marcaram sua forma de governar foi o aumento do controle sobre a
exploraçã o de petró leo e gá s natural, que se encontravam em mã os de empresas estrangeiras,
entre as quais a brasileira Petrobras. Política semelhante, com base na estatização dos
recursos energéticos, também tem sido adotada no Equador, no Paraguai e na Venezuela.

Estatização: aquisiçã o pelo Estado de uma empresa privada que passa a ser uma empresa pú blica. També m pode ser uma
política de Estado voltada para o aumento da participaçã o do setor pú blico na economia. É o mesmo que nacionalizaçã o.

Venezuela
A Venezuela detém a maior reserva de petró leo da América Latina e, a partir de 1998, com a
eleiçã o de Hugo Chá vez à presidência, o nacionalismo se acentuou no cená rio político do país.
Chá vez implementou um extenso plano de mudanças, que incluiu a estatizaçã o dos setores de
telecomunicaçõ es e bancá rio, a distribuiçã o de terras, o controle estatal de frigoríficos e a
regulamentaçã o dos serviços médicos privados.
Com os ganhos do petró leo, nacionalizado desde 1976, Chá vez levou adiante um grande
programa de combate à pobreza, que incluiu a erradicaçã o do analfabetismo, o fornecimento
de alimentos subsidiados à populaçã o mais carente, a construçã o de moradias e a melhoria dos
serviços de saú de para as camadas populares. A proposta política de Chá vez baseia-se no que
chamou de Revolução Bolivariana. A adoçã o de dispositivos constitucionais lhe permitiram
sucessivas reeleiçõ es. Hugo Chá vez morreu em março de 2013, tendo sido sucedido por seu
partidá rio Nicolá s Maduro.

Desde 2014, o país enfrenta sucessivas crises: inflaçã o acelerada, desabastecimento e


insatisfaçã o popular com o governo de Maduro. Em 2015, partidos de oposiçã o ao governo
chavista alcançaram maioria nas eleiçõ es legislativas.

Afpaizar Raldes/AFP

Evo Morales, durante seu terceiro mandato consecutivo como presidente da Bolívia. Foto de 2016.

Assista
O abraço partido. Direçã o de Daniel Burman, Argentina, 2004, 99 min.
O filme relata a histó ria do jovem Ariel, descendente de poloneses, que pensa em conseguir a cidadania europeia e partir da
Argentina em busca de emprego.
No. Direçã o de Pablo Larrain, Chile, 2012, 118 min.
Um publicitá rio é convidado a criar uma campanha para um referendo sobre a permanê ncia do general Augusto Pinochet no
governo do Chile.
Pá gina 154

México: economia e sociedade

O México é o segundo país mais populoso da América Latina, com 119 milhõ es de habitantes
em 2015. Junto com o Chile, está entre os ú nicos países latino-americanos membros da
Organizaçã o para a Cooperaçã o e Desenvolvimento Econô mico (OCDE), que reú ne os países
mais desenvolvidos economicamente do mundo.

Colô nia espanhola entre os séculos XVI e XIX, o México teve grande parte de sua populaçã o
indígena dizimada por doenças e conflitos. Sua independência ocorreu em 1821. No decorrer
do século XIX, perdeu extensos territó rios para os Estados Unidos e sofreu grande
instabilidade política. De 1876 a 1911, foi governado de forma ditatorial por Porfirio Díaz,
latifundiá rio deposto durante a Revolução Mexicana, que contou com a participaçã o de
líderes ligados ao campo, como Emiliano Zapata e Pancho Villa. Em 1929, foi fundado o Partido
Revolucioná rio Nacional (PRN), depois transformado no Partido Revolucioná rio Institucional
(PRI), que dominou o cená rio político até o ano de 2000. Durante 71 anos, o PRI controlou o
Estado por meio de um sistema em grande parte baseado na corrupçã o.

Durante o período de governo do PRI, o México conheceu alguns governantes nacionalistas e


populistas que promoveram a reforma agrá ria e nacionalizaçõ es, incluindo a da exploraçã o do
petró leo, que ainda é uma das principais atividades econô micas do país, ao lado do turismo.

Apó s a segunda metade do século XX, o México viveu inú meras crises econô micas, que se
estenderam ao campo político, sobretudo em razã o das profundas desigualdades
socioeconô micas. Ao final da década de 1980, ocorreram maciças privatizaçõ es em vá rios
setores antes controlados por empresas estatais mexicanas. Nos anos 1990, os efeitos do
neoliberalismo foram observados na desvalorizaçã o da moeda e nos crescentes déficits
comerciais. A crise do país teve efeitos no mundo todo.

A adesão ao Nafta e o aumento da dependência


Em 1994, ocorreu a formaçã o do Nafta, bloco econô mico que reú ne o Canadá , os Estados
Unidos e o México. Uma de suas principais características é a desigualdade econô mica entre
seus membros, sendo o México o país com economia mais frá gil e com maiores problemas
sociais.

Com a adesã o ao Nafta, a dependência econô mica do México em relaçã o aos Estados Unidos se
acentuou. As exportaçõ es para esse país chegaram a representar 90% do comércio exterior
mexicano, situa çã o que só começou a mudar no início do século XXI, quando o México passou a
contar com novos parceiros comerciais.

Ainda como reflexo da integraçã o ao grupo do Nafta, existem no México, sobretudo nas
proximidades da fronteira com os Estados Unidos, cerca de 3 mil indú strias maquiladoras, que
importam componentes estadunidenses, montam os produtos e os exportam para os Estados
Unidos.

Embora criem empregos, as maquiladoras se aproveitam do baixo custo da mã o de obra no


país e já se verificaram casos de desrespeito à s leis trabalhistas e ambientais do México por
parte dessas transnacionais.
Allmaps/ID/BR

Fonte de pesquisa: FERREIRA, Graça Maria Lemos. Atlas geográfico: espaço mundial. Sã o Paulo: Moderna, 2013. p. 72.

Leia
As veias abertas da América Latina, de Eduardo Galeano. Porto Alegre: L&PM, 2010.
Um livro de leitura instigante sobre a histó ria da Amé rica Latina.
Cultura e comunicação na América Latina, de Emir Sader e Dennis de Oliveira (Org.). Sã o Paulo: Instituto Abya Yala, 2012.
A obra reú ne perspectivas de diversos autores sobre as transformaçõ es recentes na Amé rica Latina, como a inserçã o no
capitalismo global e a integraçã o dos mercados.
Pá gina 155

Os conflitos de Chiapas
Os estados de Chiapas, Oaxaca e Guerrero sã o considerados as regiõ es mais carentes do país.
Habitados principalmente por camponeses descendentes de indígenas, esses estados
promoveram um grande movimento popular armado na década de 1990.

Em 1982, formou-se em Chiapas o Exército Zapatista de Libertaçã o Nacional (EZLN), que


reivindicava a manutençã o das línguas, dos costumes e das tradiçõ es indígenas, o direito de
cultivar a terra, além de melhorias nos setores econô mico e social. A organizaçã o teve um
expressivo crescimento, pois recebeu a adesã o de diversas comunidades indígenas da regiã o.

Em 1994, explodiu a rebeliã o em Chiapas. Os integrantes do EZLN utilizaram armas de todos


os tipos, desde pedaços de madeira e espingardas de ar comprimido até metralhadoras de
ú ltima geraçã o. Quinze dias apó s o início da rebeliã o, o governo federal mexicano tomou a
iniciativa do cessar-fogo. Em todo o país ocorreram manifestaçõ es de apoio ao movimento de
Chiapas, assim como de protesto contra o Nafta.

Em 1996, o governo mexicano propô s alguns acordos garantindo direitos e autonomia aos
indígenas, os quais foram ratificados no ano de 2001.

Desde o início do movimento, os rebelados zapatistas declararam que nã o lutavam para se


separar do México, mas só para manter suas raízes indígenas e garantir autonomia e melhores
condiçõ es de vida.

O narcotráfico
Apesar da abertura comercial que fez crescer a economia mexicana, esse crescimento nã o foi
homogêneo. Nas duas ú ltimas décadas, enquanto na fronteira com os Estados Unidos e no
centro norte do país houve considerá vel aumento do PIB e das condiçõ es socioeconô micas, na
porçã o meridional foram mantidos os mesmos níveis de subdesenvolvimento.

À s condiçõ es de pobreza, somam-se em muitas ocasiõ es o narcotrá fico e seu domínio sobre as
autoridades locais. Dessa associaçã o surge uma violência generalizada que afeta
principalmente a populaçã o, refém dos grandes grupos narcotraficantes.

Os problemas socioeconômicos no México


Um dos principais problemas enfrentados pelo país é a desigualdade na distribuiçã o da renda.
É grande a diferença de desenvolvimento entre os estados do norte – mais industrializados e
urbanizados – e os estados do sul, onde se concentram as populaçõ es indígenas, mais carentes.

Em 2014, apesar de o México apresentar o segundo PIB da América Latina, cerca de 20 milhõ es
de pessoas estavam no limite da linha de pobreza, e aproximadamente 30% da populaçã o
economicamente ativa sobrevivia do trabalho informal. A economia mexicana é muito
dependente do dinheiro enviado pelos milhõ es de emigrantes (legais ou ilegais) que cruzam a
fronteira com os Estados Unidos em busca de trabalho.
No aspecto político, o México viveu um impasse em 2006. Realizadas as eleiçõ es presidenciais,
o candidato governista, Felipe Calderó n, ganhou com menos de 1% de vantagem sobre seu
principal opositor, sob denú ncias de fraude. A vitó ria de Calderó n só foi confirmada algumas
semanas apó s a eleiçã o, com a recontagem de votos.

Durante os seis anos de seu governo, Calderó n propô s modernizar a Pemex (Petró leos
Mexicanos), entregando a empresa estatal à iniciativa privada. Inú meras manifestaçõ es
populares rejeitaram a proposta.

Outro evento conturbado ocorrido no mandato de Calderó n foi a atuaçã o das Forças Armadas
contra o narcotrá fico e o crime organizado. Essa medida deixou pelo menos 60 mil mortos e 10
mil desaparecidos. Diante dos fracassos do governo de Calderó n, o tradicional partido PRI
obteve a vitó ria nas eleiçõ es para presidente em 2012 e voltou a governar o país.

A partir de 2014, o governo mexicano lançou uma série de reformas que tiveram reflexos na
reduçã o das taxas de violência, embora os níveis de insatisfaçã o popular permanecessem
elevados.

Sob o aspecto econô mico, a situaçã o do México pode ser considerada favorá vel: dívida pú blica
e inflaçã o controladas e a presença de um sistema bancá rio só lido.

A descoberta de novas reservas de petró leo geram novas perspectivas para o país, mas as
políticas governamentais que decretaram o fim do monopó lio do Estado sobre o setor
energético gerou protestos entre a populaçã o.

Pedro Pardo/AFP

Substâ ncias extraídas do bulbo da papoula servem como matéria-prima na produçã o de drogas, como heroína, ó pio e
morfina. Na foto, soldado do Exército durante destruiçã o de uma plantaçã o de papoulas em Zirá ndaro, México, em
2016.
Pá gina 156

Os focos de tensão na América Latina hoje

Os países que detêm certa liderança regional, como o Brasil, a Venezuela e a Argentina,
desenvolveram propostas de integraçã o política e econô mica entre os países latino-
americanos. É o caso do Mercosul, da Comunidade Andina de Nações (CAN), da Aliança
Bolivariana para os Povos de Nossa América (Alba), da Uniã o de Naçõ es Sul-Americanas
(Unasul) e, mais recentemente, da Aliança do Pacífico.

As crises no Mercosul
Apó s duas décadas de atuaçã o, o Mercosul já apresentou períodos de grandes avanços políticos
e econô micos. No entanto, desde meados da década de 2000, uma série de crises envolvendo
questõ es econô micas, ambientais e diplomá ticas tem abalado o bloco.

As questõ es energéticas também sã o fatores que geram tensõ es no Mercosul. A decisã o da


Bolívia de nacionalizar as atividades relacionadas ao petró leo e ao gá s e de exigir aumento no
preço do gá s exportado transformou em questã o diplomá tica as relaçõ es comerciais entre o
país e o Brasil, que supre boa parte de suas necessidades energéticas com o gá s boliviano.

Outra questã o energética tem sido causa de um impasse envolvendo o Brasil e o Paraguai. A
divergência teve início apó s a eleiçã o, em 2008, do presidente paraguaio Fernando Lugo.
Durante seu governo, foi fechado um acordo com o Brasil para elevar o preço da energia
paraguaia excedente de Itaipu, o qual foi praticamente triplicado. Um acordo assinado em
1973 determinava que o Paraguai deveria vender ao Brasil toda a energia que nã o consumisse.
A usina de Itaipu fornece cerca de 15% da energia consumida no Brasil e 75% da energia
consumida no Paraguai. O Paraguai também reivindica mudanças em seu acordo com a
Argentina em relaçã o à hidrelétrica de Yaciretá , na fronteira entre os dois países, que foi
concluída apenas em 2011, apó s inú meros escâ ndalos de corrupçã o e constantes paralisaçõ es.

Quanto à s questõ es econô micas, as relaçõ es entre Brasil e Argentina, mesmo com o Mercosul,
sempre foram permeadas de pequenos conflitos devido a medidas protecionistas. Diante da
crise econô mica mundial iniciada em 2008, a Argentina dificultou a entrada de produtos
importados no país, muitos deles brasileiros.

Em 2012, uma nova crise se instaurou, a partir da deposiçã o do presidente paraguaio


Fernando Lugo, o que levou à suspensã o do Paraguai do bloco entre 2012 e 2013. Na ocasiã o, a
Venezuela teve seu ingresso no Mercosul confirmado, uma vez que a aprovaçã o do Parlamento
paraguaio constituía a ú ltima etapa para o ingresso do país como membro pleno do bloco sul-
americano.

Na ú ltima década ocorreram tentativas fracassadas de acordo do Mercosul com a Uniã o


Europeia. Os problemas internos da economia argentina e as divergências político-econô micas
entre os países do bloco sul-americano dificultam o estabelecimento de um acordo.

Assista
A fronteira. Direçã o de Roberto Carminati, Brasil, 2003, 107 min.
O filme, rodado no Brasil, no Mé xico e nos Estados Unidos, aborda o drama de brasileiros que tentam atravessar a fronteira
Mé xico-Estados Unidos.

GEOGRAFIA E LITERATURA
Pablo Neruda (1904-1973), poeta chileno ganhador do Prêmio Nobel em 1971, foi uma das maiores
expressõ es latino-americanas no campo da literatura. Estes versos exprimem seu sentimento em
relaçã o à s desigualdades no continente.

Promulgação da Lei da Trapaça

[...] Por fim levaram ao Congresso


A Lei suprema, a famosa,
a respeitada, a intocá vel
Lei da Trapaça.
Foi aprovada.
Para o rico a boa mesa.
O lixo para os pobres.
O dinheiro para os ricos.
Para os pobres o trabalho.
Para os ricos a casa grande.
O tugú rio para os pobres.
O foro para o grã o ladrã o.
O cá rcere para quem furta um pã o.
Paris, Paris para os señoritos.
O pobre na mina, no deserto. [...]

NERUDA, Pablo. In: Canto geral. Rio de Janeiro: Record, s. d. p. 176.

1. Leia o poema e selecione três versos que abordam aspectos das desigualdades existentes entre
diferentes grupos sociais.

2. Os versos revelam uma indignaçã o do poeta com problemas sociais enfrentados pelo Chile.
Discuta com mais um colega se esse poema expressa alguma semelhança com a realidade social e
política no Brasil atual.
Pá gina 157

As tensões na América Central


A América Central é formada pelos países situados no istmo que liga a América do Sul à
América do Norte e por um conjunto de ilhas que compõ em a América Central Insular ou
Caribe, como também é chamada.

Istmo: estreita faixa de terra, cercada de á gua, que une duas porçõ es continentais.

Alguns países da porçã o continental passaram por instabilidades políticas nas ú ltimas décadas.

Na segunda metade do século XX, Nicará gua, Guatemala e El Salvador apresentaram histó rias
políticas semelhantes: períodos de ditadura, surgimento de grupos de guerrilheiros de
esquerda e paramilitares de direita, guerras civis, desestruturaçã o econô mica e intervençõ es
comandadas pelos Estados Unidos. No final da década de 1990, eleiçõ es livres retomaram a
normalidade nesses países.

No ano de 2009, ocorreram problemas políticos em Honduras, quando o presidente José


Manuel Zelaya foi deposto. Apó s meses de instabilidade política, nos quais Zelaya foi
deportado para Costa Rica e depois se manteve exilado na embaixada brasileira em Honduras,
novas eleiçõ es foram realizadas e a situaçã o se normalizou, ainda que sob contestaçã o de
outros países sul-americanos, incluindo o Brasil.

Haiti
Ex-colô nia francesa, o Haiti foi a primeira naçã o a tornar-se independente no continente
americano, em 1804. Atualmente, é o país com o mais baixo IDH da América Latina: 0,483, em
2014.

Na década de 1990, um golpe de Estado derrubou o presidente eleito e levou à intervençã o dos
Estados Unidos e da ONU. Em 2004, apó s breve governo de Jean-Bertrand Aristide, o Conselho
de Segurança da ONU decidiu a intervençã o de uma força multinacional com soldados dos
Estados Unidos, do Canadá e da China. Logo depois, essas tropas foram substituídas pela
Missã o de Estabilizaçã o das Naçõ es Unidas no Haiti (Minustah, na sigla em francês), sob a
liderança de militares brasileiros.

A Minustah teve papel fundamental na manutençã o da segurança do país. No entanto, os


esforços da comunidade internacional para estabilizar politicamente o Haiti foram postos em
risco, devido ao forte terremoto que devastou o país em janeiro de 2010. Cerca de 200 mil
pessoas morreram, entre elas 18 militares brasileiros.

Ao final de 2015, a situaçã o socioeconô mica e política no Haiti ainda era de grande
instabilidade. Milhares de haitianos têm emigrado para outros países latino-americanos, como
o Brasil.

As relações entre Cuba e Estados Unidos


No conjunto latino-americano, merece destaque também Cuba, cujo movimento nacionalista –
liderado por Fidel Castro e Che Guevara – depô s, em 1959, o governo do ditador Fulgêncio
Batista, defensor dos interesses dos Estados Unidos, e instaurou um regime socialista.
A partir da segunda metade do século XX, as relaçõ es entre Cuba e Estados Unidos foram
marcadas pela ruptura diplomá tica e pelo embargo econô mico estadunidense à ilha. No
momento da revoluçã o cubana, em 1959, as relaçõ es entre os dois países eram consideradas
normais. No entanto, deterioraram-se com a nacionalizaçã o de empresas estadunidenses e a
recusa dos Estados Unidos em comprar o açú car cubano (principal produto de exportaçã o do
país).

A partir dos anos de 1960, os Estados Unidos estabeleceram uma política de acolhida de
imigrantes cubanos que fugiam do regime socialista implantado na ilha por Fidel Castro. Miami
era o principal ponto de convergência dos cubanos, que ali instalaram uma forte comunidade
que se articulou para combater o governo castrista.

Em 2014, tiveram início as negociaçõ es para a reaproximaçã o entre os dois países e, em 2015,
foram reabertas as respectivas embaixadas.

Navegue
Memorial da América Latina
Site oficial do conjunto arquitetô nico situado na cidade de Sã o Paulo, que reú ne grande acervo de livros e estatísticas sobre a
Amé rica Latina. Disponível em: <http://linkte.me/memoal>. Acesso em: 28 maio 2016.

STR/AFP

Apesar da reaproximaçã o diplomática, até 2015 o embargo econô mico-financeiro imposto a Cuba pelos Estados
Unidos nã o havia sido suspenso. Na foto, o entã o presidente estadunidense, Barack Obama, em visita a Havana, Cuba.
Foto de 2016.
Pá gina 158

As tensões na Colômbia
Em toda a América Latina, a Colô mbia é o país com o mais elevado nível de violência. Segundo
cá lculos da ONU, existiam, em 2015, cerca de 5,7 milhõ es de deslocados internos no país,
pessoas que abandonaram suas terras, casas e pertences em razã o dos ataques de grupos
armados. Também se contabilizam cerca de 8 mil homicídios por ano, a maior parte deles por
causa de questõ es políticas.

A partir do século XIX, a histó ria política colombiana é marcada por instabilidades e conflitos
gerados pela alternâ ncia de grupos antagô nicos no poder.

Na segunda metade do século XX, organizaram-se no país numerosos grupos rebeldes, que
passaram a atuar de forma decisiva no destino político e econô mico da Colô mbia.

Em 1964, foram criadas as Forças Armadas Revolucioná rias da Colô mbia (Farc), de
posicionamento marxista, o maior e mais antigo grupo guerrilheiro da América. Ainda na
década de 1960, surgiram outros grupos revolucioná rios, de esquerda e de direita, porém sem
a mesma abrangência das Farc. Há vá rias décadas, instalou-se na Colô mbia um clima de guerra
civil, com confrontos entre grupos revolucioná rios e contrarrevolucioná rios, ataques
criminosos a vilas e povoados, saques e invasõ es de propriedade, etc.

Quando foram criadas, as Farc tinham como principal objetivo promover a reforma agrá ria na
Colô mbia. Com o passar do tempo, as pretensõ es da organizaçã o foram sendo ampliadas e,
atualmente, ela luta pelo poder político.

Embora essa informaçã o seja contestada por seus defensores, as Farc, que hoje somam quase
30 mil homens, têm seu sustento relacionado ao narcotráfico, uma das principais atividades
colombianas, uma vez que o país é responsá vel por cerca de 75% de toda a cocaína produzida
no mundo.

As açõ es desenvolvidas pelas Farc envolvem ataques a ó rgã os pú blicos, assassinatos e


sequestros de civis e políticos. Por isso, muitos classificam-na como organizaçã o terrorista.

Para combater as Farc, os Estados Unidos criaram o Plano Colômbia, uma intervençã o militar
em terras colombianas. Esse plano é bastante criticado pelos que defendem a soberania latino-
americana, pois os Estados Unidos financiam armas, helicó pteros e treinamento militar do
exército colombiano. Além disso, os estadunidenses instalaram-se na selva amazô nica
colombiana, em uma á rea de grande riqueza natural.

Em 2015, representantes do governo colombiano e líderes das Farc reuniram-se em Cuba para
negociar um pacto para a paz no país.

Colômbia e países vizinhos

Em março de 2008, o governo colombiano resolveu aumentar a pressã o sobre as Farc e, apó s
vá rias denú ncias sobre a presença de parte do grupo no Equador, as tropas colombianas
invadiram o territó rio equatoriano, destruíram uma base das Farc e mataram um de seus
principais líderes.
Essa invasã o de territó rio provocou uma crise diplomá tica entre a Colô mbia e o Equador, este
ú ltimo apoiado pelo entã o presidente venezuelano, Hugo Chá vez, que enviou tropas para a
fronteira entre seu país e a Colô mbia. Com a participaçã o da diplomacia brasileira, a tensã o
entre os governos da Colô mbia e do Equador diminuiu.

Apó s meia década de problemas envolvendo a regiã o de fronteira entre Colô mbia e Venezuela,
em 2015, a tensã o entre os dois países mobilizou a diplomacia sul-americana. Na presença dos
dirigentes do Equador e do Uruguai, os presidentes equatoriano e colombiano negociaram um
acordo de paz.

Allmaps/ID/BR

Fonte de pesquisa: Le Monde Diplomatique. L’ Atlas. Paris: Armand Colin, 2006. p. 187.

Navegue
Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal)
Site com informaçõ es sociais e econô micas sobre os países da Amé rica Latina.
Disponível em: <http://linkte.me/cepal>. Acesso em: 6 maio 2016.
Pá gina 159

Informe
América Latina e a colonialidade do poder
Os processos de integraçã o regional em curso hoje na América Latina têm sido marcados por
uma ló gica territorial que tem concebido grandes á reas do espaço geográ fico latino-americano
como “vazios demográ ficos” ou “terras disponíveis”. Entretanto, existe a concepçã o oculta de
que muitas dessas á reas nã o apenas sã o ocupadas por uma grande diversidade de populaçõ es,
como também sã o ricas em biodiversidade.

Nessa concepçã o de desenvolvimento e integraçã o regional, a natureza, com seus complexos


biomas e domínios morfoclimá ticos, é compreendida como simples obstá culo a ser superado
pela engenharia, e povos e comunidades os mais diversos, como povos originá rios,
comunidades remanescentes de quilombos, camponeses e tantos outros, sã o concebidos como
sendo prescindíveis. A expropriaçã o de muitas dessas populaçõ es de suas terras tem se
tornado comum a muitos dos empreendimentos de integraçã o regional. Nã o por acaso, a
execuçã o de grandes projetos de integraçã o física e de infraestrutura, em curso atualmente no
continente, tem sido acompanhada por intensos conflitos territoriais.

Essa forma de conceber o espaço latino-americano, entretanto, nã o é nova, ao contrá rio,


remonta-nos ao legado colonial que atravessa a formaçã o do sistema mundo moderno-
colonial, a partir de 1492. A atual integraçã o regional ocorre dentro de um novo cená rio
geopolítico no qual a Á sia e a China, em particular, passam a desempenhar importante
centralidade. Neste contexto, a integraçã o física da América Latina, e da América do Sul, em
específico, tem se apresentado como uma possibilidade de responder à s novas e crescentes
demandas asiá ticas por commodities. [...]

João Miguel A. Moreira/ID/BR

Fonte de pesquisa: BBC Brasil, 23 abr. 2012. Disponível em:


<http://www.bbc.com/portuguese/noticias/2012/04/120423_vale_mapa_indios_3.shtml>. Acesso em: 6 maio 2016.
Perspectivas da América do Sul diante da nova configuração
geográfica mundial
A integraçã o física nos marcos do livre-comércio e da abertura externa, tal como vem sendo até
aqui encaminhada, tende a atualizar uma histó ria de longa duraçã o [...] em que a Á sia, a China
principalmente, passa a ter um lugar de destaque, conforme já podemos identificar na nova
geografia comercial dos países latino-americanos, sul-americanos. [...] À medida que, hoje, a
Á sia (Japã o, Tigres Asiá ticos e a China, em particular) passa a ter grande dinamismo econô mico
a ponto de afirmar-se como polo na nova geopolítica multipolar, abrem-se para os países
latino-americanos, sul-americanos particularmente, novos horizontes que proporcionam
condiçõ es de romper com a dependência em relaçã o aos Estados Unidos. O Brasil [...] e a
Argentina, Uruguai e mesmo a Venezuela, sendo países atlâ nticos, se veem instados a uma
integraçã o regional cujas motivaçõ es nã o sã o necessariamente as mesmas que comandaram os
libertadores (Bolívar, Martí, Sucre, San Martin e tantos outros). Por outro lado, três dos quatro
países sul-americanos do Pacífico têm ligaçõ es fortes com os Estados Unidos (Colô mbia, Peru e
Chile) e, ainda, por sua pró pria localizaçã o geográ fica, independem da integraçã o física
regional sul-americana para aprofundar suas relaçõ es com a Á sia – afinal já estã o no Pacífico.

PORTO-GONÇALVES, Carlos Walter; QUENTAL, Pedro de Araú jo. América Latina e a colonialidade do poder. In: HAESBAERT, Rogério (Org.).
Globalização e fragmentação do mundo contemporâneo. 2. ed. Niteró i: UFF, 2013. p. 167; 179-180.

PARA DISCUTIR

1. No texto, os autores comentam a remoçã o de comunidades locais em consequência da


execuçã o de grandes projetos de integraçã o. Isso ocorre no Brasil?

2. A atual integraçã o regional tem se voltado para a Á sia e, em especial, para a China. Discuta
com os colegas e citem exemplos que justifiquem essa afirmaçã o.
Pá gina 160

Atividades
Não escreva no livro.

Revendo conceitos

1. Cite e comente duas manifestaçõ es nacionalistas em países da América Latina.

2. O que é populismo?

3. Em que se baseia o nacionalismo recente na Bolívia?

4. Quais as transformaçõ es ocorridas no México com a implantaçã o de políticas neoliberais?

5. Cite as principais pretensõ es dos zapatistas no conflito de Chiapas, no México.

6. Comente as relaçõ es entre Cuba e Estados Unidos a partir da década de 1960.

7. Qual é o papel das forças de paz da ONU no Haiti?

8. Indique as principais causas dos conflitos recentes na Colô mbia.

Lendo mapas, gráficos e tabelas

9. Com base no mapa, responda à s questõ es a seguir.

João Miguel A. Moreira/ID/BR

Fonte de pesquisa: Reconhecimento e acesso aos direitos indígenas aumentam, mas profunda desigualdade ainda persiste.
Amazônia, 2 out. 2014. Disponível em: <http://amazonia.org.br/2014/10/reconhecimento-e-acesso-aos-direitos-ind
%C3%ADgenas-aumentammas-profunda-desigualdade-persiste/>. Acesso em: 6 maio 2016.
a) Identifique os países com maior proporçã o de populaçã o indígena em relaçã o ao total do
país.
b) Trace um panorama das populaçõ es indígenas na América Latina a partir das informaçõ es
apresentadas no mapa.
c) Realize uma pesquisa e comente os principais problemas enfrentados pelas populaçõ es
indígenas latino-americanas em pelo menos 3 países.

10. Observe o mapa abaixo, que apresenta dados sobre o desenvolvimento humano entre as
mulheres no México, e escreva um texto analisando as desigualdades regionais no país.

Allmaps/ID/BR

Fonte de pesquisa: Pnud. Indicadores de desarrollo humano y género en México. Disponível em:
<http://www.mx.undp.org/content/dam/mexico/docs/ReduccionDePobreza/OIDH/infograf%C3%ADa_IDHg
%C3%A9nero_Vfinal.pdf>. Acesso em: 6 maio 2016.

11. Analise o mapa e responda à s questõ es.

Allmaps/ID/BR

Fonte de pesquisa: Banco Mundial. Disponível em: <http://data.worldbank.org/indicator/SI.POV.GINI>. Acesso em: 6 maio 2016.

a) Quais sã o os países com maior concentraçã o de renda na América Latina?


b) Quais as vantagens de uma renda bem distribuída entre a populaçã o?
Pá gina 161

12. Analise a tabela a seguir e faça uma aná lise sobre os Índices de Desenvolvimento Humano
nos países apresentados. É possível estabelecer uma relaçã o entre os conflitos recentes
ocorridos na América Latina e a posiçã o dos países no ranking do IDH?

Maiores e menores Índices de Desenvolvimento Humano (IDH) na América Latina (2014)


Posição no ranking mundial País IDH
40 Argentina 0,836
42 Chile 0,832
52 Uruguai 0,793
67 Cuba 0,769
125 Nicará gua 0,631
128 Guatemala 0,627
131 Honduras 0,606
163 Haiti 0,483

Fonte de pesquisa: Pnud. Relatório do Desenvolvimento Humano 2015. Disponível em:


<http://hdr.undp.org/sites/default/files/hdr_2015_report_pt.pdf>. Acesso em: 6 maio 2016.

Interpretando textos e imagens

13. Leia o texto e responda à s questõ es.

Regiã o mais desigual do mundo, a América Latina continua sendo a mais violenta. Se a insegurança
reflete a brutalidade dos índices sociais de países devastados pelo neoliberalismo, ela também
sublinha o fracasso de governos progressistas, muitas vezes envolvidos em corrupçã o.

Apesar de a América Latina e o Caribe serem considerados oficialmente regiõ es em estado de paz,
eles apresentam taxas de homicídio compará veis às de zonas de guerra. [...] Com 10% da populaçã o
mundial, a regiã o concentra 30% dos homicídios e apresenta uma taxa de 25 mortos por ano para
100 mil habitantes, o que significa mais de quatro vezes a taxa média mundial (6,2).

As atividades criminais nã o estã o espalhadas de maneira uniforme pelo territó rio geográ fico. A
América Central e o Caribe sã o particularmente afetados. O aumento das infraçõ es ligadas ao trá fico
de drogas e à s quadrilhas, que facilitam a impunidade e a circulaçã o de armas, nutre a espiral
infernal da criminalidade. Honduras, estatisticamente o país mais violento do mundo, possui uma
taxa de 90,4 homicídios por 100 mil habitantes, seguido por Venezuela (53,7), Belize (44,7) e El
Salvador (41,2).

Além dos mortos, a insegurança engloba extorsã o, sequestros, roubo, trá fico e violência contra a
mulher. As estatísticas oficiais, estabelecidas com base em informaçõ es incompletas, nã o fazem jus
à amplitude da situaçã o. Muitos crimes nã o sã o denunciados por medo de represá lia ou por
desconfiança em relaçã o às instituiçõ es que deveriam zelar pelo respeito à s leis. Por exemplo,
segundo o Envipe 2014 [Pesquisa Nacional de Vitimizaçã o e Percepçã o sobre Segurança Pú blica], o
ú ltimo estudo sobre atos de violência realizado pelo Instituto Nacional Mexicano de Estatística
(Inegi), cerca de 94% dos crimes cometidos em 2013 nã o foram denunciados à s autoridades. E
apenas metade dos casos relatados foi objeto de investigaçã o preliminar. [...]

SANTISO, Carlos; ALVARADO, Nathalie. Reduzir a pobreza nã o é suficiente. Insegurança endêmica na América Latina. Le Monde
Diplomatique Brasil, 8 jun. 2015. Disponível em: <https://www.diplomatique.org.br/print.php?tipo=ar&id=1895>. Acesso em: 30
maio 2016.

a) Algum dos tipos de violência mencionados no texto ocorre no lugar onde você vive?
b) É possível relacionar desigualdade socioeconô mica e violência?
c) Compare o Brasil com os demais países latino-americanos e aponte possíveis soluçõ es para
o problema da violência e da criminalidade no país e na regiã o.

14. Em 1982, a Argentina entrou em guerra com a Inglaterra pela posse das ilhas Malvinas
(Falklands). Observe a foto abaixo, faça uma pesquisa e escreva um texto sobre os resultados
do conflito e comente a relaçã o diplomá tica atual entre os dois países.

Daniel Garcia/AFP

Soldados argentinos carregam suprimentos nas Ilhas Malvinas, 1982. Durante a guerra, morreram 649 soldados
argentinos.
Pá gina 162

CAPÍTULO 12 Ásia
O QUE VOCÊ VAI ESTUDAR
Os conflitos no Oriente Mé dio.
A questã o palestina.
A Índia.
Sudeste Asiá tico e os novos Tigres Asiá ticos.

Este capítulo tem como tema países do Oriente Médio, da Á sia Meridional e do Sudeste Asiá tico (ver mapa
abaixo) no contexto internacional. Veremos que alguns conflitos internos tomam proporçõ es ainda maiores
em razã o dos interesses econô micos de outros países sobre a regiã o. No século XX e também neste século, o
Oriente Médio foi palco de inú meros conflitos envolvendo diversos países da regiã o, assim como de
intervençõ es internacionais.

O fato de 47,7% das reservas mundiais de petró leo se concentrarem no Oriente Médio confere à regiã o um
papel de destaque na geopolítica mundial. Diversos países da regiã o pertencem à Organizaçã o dos Países
Exportadores de Petró leo (Opep), que regula o preço do produto. Além disso, o crescimento do
fundamentalismo islâ mico é um ponto de atençã o à comunidade internacional em razão da violaçã o dos
direitos humanos e ao crescente nú mero de refugiados.

Na Á sia Meridional, ocorrem disputas geopolíticas na fronteira entre Paquistã o e Índia pela regiã o da
Caxemira. E no Sudeste Asiá tico, há o descompasso entre o alto desempenho industrial e o fraco
desenvolvimento social nos Tigres Asiá ticos. Esse quadro nos mostra o mosaico de conflitos e contextos sociais
em parte do continente.

João Miguel A.Moreira/ID/BR

Fonte de pesquisa: Atlas geográfico escolar. 4. ed. Rio de Janeiro: IBGE, 2007. p. 47.

1. Observe o mapa e mencione dois países:

a) do Oriente Médio, situados entre continentes;


b) que sofrem frequentes intervençõ es estrangeiras;

c) impactados por intensos e frequentes fenô menos, como monçõ es, prolongadas secas ou tsunamis;

d) com maiores níveis de desenvolvimento industrial.


Pá gina 163

O Oriente Médio

O Oriente Médio é formado por 15 países e a pequena porçã o asiá tica do Egito. A expansã o do
islamismo fez com que a religiã o se tornasse o elemento mais importante na definiçã o de
valores e normas sociais. Predominou também na legislaçã o dos Estados e na definiçã o das
relaçõ es, amistosas ou hostis, entre países ou entre grupos de um mesmo país. A partir do
século XV, os turco-otomanos ocuparam a regiã o, mas, ao final do século XIX, seu poderio foi
minado pelos europeus. Os franceses dominaram a Síria e o Líbano; os ingleses ocuparam o
Iraque, a Jordâ nia e o Iêmen. Ingleses e russos dividiram a influência no Irã e no Afeganistã o. A
retirada total dos otomanos ocorreu ao final da Primeira Guerra Mundial (1914-1918), e a
principal base de seu império deu origem à Turquia.

Turquia
Com uma populaçã o de cerca de 80 milhõ es de habitantes (2015), a Turquia é o principal país
emergente do Oriente Médio. Nesta ú ltima década, as reformas liberais promovidas pelo
Estado turco proporcionaram um forte crescimento econô mico.

Geopoliticamente, a Turquia tem estabelecido relaçõ es não conflituosas com todos os seus
vizinhos, exceto a Síria. Recebe elevado nú mero de refugiados de vá rias nacionalidades,
especialmente sírios, que percorrem seu territó rio para chegar aos países europeus.

Embora tenham sido aliadas no passado, Turquia e Síria romperam relaçõ es em 2012, devido
ao ataque sírio na fronteira turca e à s acusaçõ es de Bachar al-Assad, presidente da Síria, de que
Turquia, Estados Unidos e Ará bia Saudita apoiava os rebeldes sírios.

Mehmet Ozturk/Anadolu Agency/Getty Images

Muçulmanos rezam em mesquita, em Istambul, Turquia. A religiã o islâmica predomina na maioria dos países do
Oriente Médio. Foto de 2015.

A presença dos curdos

Um dos pontos de maior tensã o do Estado turco é o conflito, que já dura décadas, com os
curdos, a minoria étnica que reivindica mais autonomia. Os curdos somam mais de 30 milhõ es
de pessoas e ocupam um territó rio que engloba á reas da Turquia, da Síria, do Iraque e do Irã .
Esse grupo étnico formou organizaçõ es políticas como o Partido dos Trabalhadores do
Curdistã o (PKK), para se opor ao governo turco.

A Turquia e o Isis

A Turquia mantém relaçõ es ambíguas com o Isis, pois seu territó rio tem servido como ponto
de passagem para estrangeiros que se juntam aos jihadistas na Síria, assim como de armas e
fundos para fortalecer os grupos antigoverno.

O país tem sido criticado pelos aliados ocidentais, inclusive Estados Unidos, por ter facilitado a
ascensã o do Isis, que ameaça a á rea ocupada pelos curdos.

João Miguel A.Moreira/ID/BR

Fonte de pesquisa: France Inter.

Leia
Oriente Médio: uma região de conflitos e tensões, de Nelson Bacic e Beatriz Canepa. Sã o Paulo: Moderna, 2012.
O livro retrata os aspectos histó ricos e populacionais dos países que compõ em o Oriente Mé dio e o contexto geopolítico
dessa regiã o na atualidade.
Pá gina 164

Síria
Logo apó s a Primeira Guerra Mundial, configuraram-se novas fronteiras geográ ficas no Oriente
Médio, sob os mandatos britâ nico e francês, legitimadas pela Liga das Naçõ es (antiga ONU).
Houve o rompimento das fronteiras dos países que formavam a Grande Síria durante o
Império Otomano: Líbano, Síria, Jordâ nia, Palestina. Síria e Líbano ficaram sob o domínio
francês. Em 1946, depois de vá rios conflitos armados, a Síria finalmente conquistou sua
independência.

O país tem mais de 20 milhõ es de habitantes, a maioria deles á rabes que seguem o islamismo
(em torno de 85%), e está sob o governo de um sistema político ditatorial. Desde 2011, sua
populaçã o reivindica a instauraçã o de um sistema mais democrá tico. O conflito na Síria foi
deflagrado a partir da Primavera Árabe, período de revoltas e contestaçõ es populares que
culminaram com a derrubada de ditaduras em países como Tunísia, Egito e Líbia. Até 2016,
milhares de sírios se tornaram refugiados, devido aos conflitos violentos que se instauraram
no país entre os opositores e as forças do governo de Bashar al-Assad, que está no comando
do país desde 2000, quando sucedeu ao pai, o ditador Hafez al-Assad (cujo governo durou
trinta anos).

No cená rio geopolítico, o país ganha outra dimensã o pelos interesses antagô nicos das
potências ocidentais. A Rú ssia, por um lado, é o maior fornecedor de armas do governo de
Assad, mas os Estados Unidos e os países europeus têm a expectativa de que o governo de
Assad seja derrubado.

Outras questõ es de política interna e litigiosas com países fronteiriços na Síria, em evidência
desde o século passado, sã o:

• o uso das á guas do rio Eufrates, cuja nascente fica na Turquia;

• a disputa com Israel pelo controle da regiã o fronteiriça de Golã . Essa regiã o, pró xima à
nascente do rio Jordã o e ocupada desde 1967 por Israel, é considerada estratégica para açõ es
militares, por ser uma á rea montanhosa;

• as tensõ es com as minorias étnicas, como drusos, alauitas e curdos. Estes ú ltimos lutam pela
autonomia de seus territó rios, localizados ao norte do país.

NurPhoto/Getty Images
A populaçã o afegã sofre com uma economia muito frá gil e falta de infraestrutura. O país é devastado por consecutivas
guerras e intervençõ es militares estrangeiras. Cabul, Afeganistã o. Foto de 2014.

O Afeganistão
O Afeganistã o é o país mais pobre da regiã o. Seus habitantes estã o divididos em tribos, que,
apesar de terem em comum a religiã o islâ mica, sã o inimigas entre si. Do grupo da etnia
majoritá ria, os pashtuns, surgiu o grupo radical Talibã.

No século XIX, o Afeganistã o foi dominado pelos ingleses, que lá se mantiveram até a
independência do país, em 1919. Na segunda metade do século XX, sob influência da URSS,
formou-se no país o primeiro partido comunista.

Conflitos no partido e com grupos religiosos e étnicos impeliram a URSS a invadir o país em
1979, em apoio aos comunistas. Os russos permaneceram no Afeganistã o até 1989.

A instabilidade política favoreceu, em 1996, a tomada de poder pelos talibã s, que impuseram
um regime islâ mico fundamentalista. O grupo também apoiou o terrorista Osama bin Laden
(morto em 2011) em sua “guerra santa” contra o mundo ocidental, particularmente contra os
Estados Unidos. Os talibã s foram destituídos do poder em 2001, com a intervençã o militar dos
Estados Unidos e do Reino Unido, mas isso não significou a volta da paz. Os conflitos
continuaram ocorrendo, levando à permanência das tropas estadunidenses, da Otan e da ONU
em territó rio afegã o. Em 2014, as tropas da Otan se retiraram. Coincidentemente, houve
aumento da violência com o novo fortalecimento do Talibã , que mantém a tática de cometer
atentados contra a populaçã o civil.

Guerra santa: esforço coletivo de levar o islamismo aos nã o adeptos, muitas vezes associada à jihad islâmica, que faz uso de
açõ es armadas.

Assista
A caminho de Kandahar. Direçã o de Mohsen Makhmalbaf, Irã /França, 2001, 85 min.
O filme relata a viagem de uma jornalista afegã que mora no Canadá e, ao retornar ao Afeganistã o, se depara com o país
controlado pelos talibã s.
Violação de domicílio. Direçã o de Saverio Costanzo, Itá lia, 2004, 90 min.
O filme mostra a ocupaçã o por soldados israelenses da casa de uma família de palestinos na Faixa de Gaza.
Pá gina 165

Conflitos árabe-israelenses

Os conflitos entre á rabes e judeus iniciaram-se no século XIX quando, em 1882, foi fundada a
primeira colô nia judaica na Palestina, associada aos movimentos sionistas, que defendiam o
retorno dos judeus ao que afirmavam ser o seu territó rio histó rico. No entanto, a Palestina era
ocupada por uma maioria de origem á rabe, os palestinos.

Movimento sionista: criado no fim do sé culo XIX por Theodore Hertzl, defendia o direito de territó rio povoado por judeus
do mundo todo.

Em 1918, apó s a Primeira Guerra Mundial, esse territó rio ficou sob o controle do governo
britâ nico, que se opunha à formaçã o de um Estado judeu na regiã o. No fim da Segunda Guerra
Mundial, em 1945, a questã o da formaçã o do Estado judeu foi transferida para a ONU, que, em
1947, aprovou um plano de partilha do que até entã o era o territó rio palestino em dois
Estados: um á rabe e um judeu (Israel).

Apó s a aprovaçã o da partilha, em 1948, Israel proclamou sua fundaçã o, e os Estados á rabes
reagiram. Começava a Guerra de Independência, o primeiro confronto á rabe-israelense, que
envolveu, além dos palestinos, uma coalizã o de países á rabes formada por Egito, Jordâ nia,
Líbano, Síria e Iraque. Os israelenses saíram vitoriosos desse confronto e ocuparam parte do
territó rio palestino. Assim, teve início uma sucessã o de conflitos. Como a Jordâ nia anexou a
Cisjordânia, e o Egito, a Faixa de Gaza, os á rabes palestinos perderam o controle sobre seu
territó rio e só o recuperaram parcialmente com os acordos de paz estabelecidos a partir da
década de 1990.

Em 1967, houve novo conflito, denominado Guerra dos Seis Dias. Nesse confronto, o Exército
de Israel derrotou um conjunto de forças militares do Egito, da Jordâ nia e da Síria. Israel
ampliou seu territó rio anexando Jerusalém, transformada em sua capital oficial, além de
ocupar a península do Sinai (do Egito), as colinas de Golã (da Síria) e a Cisjordâ nia (da
Jordâ nia).

Em 6 de outubro de 1973, feriado judaico do Yom Kippur (Dia do Perdã o), Israel foi atacado de
surpresa pelo Egito e pela Síria, que pretendiam reconquistar os territó rios perdidos em 1967.
Era o início da Guerra do Yom Kippur. O conflito terminou 19 dias depois, com nova vitó ria
de Israel. Os países á rabes, em represá lia, elevaram o preço do petró leo, dando origem à
primeira crise do petróleo. Seis anos apó s o conflito, em 1979, foi assinado um tratado entre
Israel e Egito (Acordo de Camp David), pelo qual a península do Sinai foi devolvida ao Egito
em 1982. No mesmo ano, Israel invadiu o Líbano para cessar os ataques dos palestinos que
estavam no país e integravam a Organizaçã o de Libertaçã o da Palestina (OLP). Israel
permaneceu nesse país até 1985.
Mapas: Allmaps/ID/BR

Fonte de pesquisa: LACOSTE, Yves. Géopolitique: la longue histoire d’aujourd’hui. Paris: Larousse, 2006. p. 293.

Allmaps/ID/BR

Fonte de pesquisa: YAZBEK, Mustafa. Palestinos em busca da pátria. Sã o Paulo: Á tica, 1995. p. 29.

Assista
Inshallah. Direçã o de Anaïs Barbeau-Lavalette, França/ Canadá , 2014, 191 min.
Uma mé dica canadense vive em Jerusalé m e faz atendimentos em um campo de refugiados palestinos em Ramallah.
Diariamente, tem de atravessar a fronteira entre Israel e Palestina, e o convívio nas duas realidades a deixa dividida entre os
dois lados do conflito.
Pá gina 166

Israelenses e palestinos: uma relação conflituosa

Para a criaçã o de um Estado Palestino independente, depois da fundaçã o do Estado de Israel,


os palestinos organizaram, em 1964, a Organização para a Libertação da Palestina (OLP),
dirigida entre 1969 e 2004 por Yasser Arafat. No início, a OLP colocava entre seus objetivos o
fim do Estado de Israel. Atualmente, luta para a coexistência de um Estado palestino e um
israelense.

Em 1987, surgiu o Hamas, organizaçã o que faz oposiçã o à OLP desde sua criaçã o e tem sido
responsá vel por atentados suicidas em Israel.

O governo de Israel e representantes da OLP assinaram, em 1993, um acordo provisó rio pelo
qual os palestinos passariam a ter autonomia administrativa sobre as regiõ es da Cisjordânia e
da Faixa de Gaza, por meio da criaçã o da Autoridade Nacional Palestina (ANP). Em troca,
os palestinos reconheceriam o Estado de Israel. A assinatura desse acordo, no entanto,
provocou a reaçã o de grupos radicais de ambos os lados.

A sede da administraçã o da ANP passou a ser a cidade de Ramallah, e a capital, o setor oriental
de Jerusalém. Essa cidade, oficializada por Israel como sua “capital eterna e indivisível”, é
reivindicada pelos palestinos, o que gera discó rdia entre Israel e a ANP.

Em 2005, Israel promoveu uma açã o que indicava ser o início da soluçã o de parte significativa
dos conflitos: a retirada de colonos judeus da Faixa de Gaza, em uma á rea onde vivem mais de
1,4 milhã o de palestinos. Também houve a retirada de colonos da Cisjordâ nia, outra regiã o
com grande povoamento palestino.

Em 2006, representantes do Hamas saíram vitoriosos nas eleiçõ es parlamentares palestinas,


acirrando as disputas internas na ANP, principalmente com o partido político Al-Fatah. A partir
de entã o, as negociaçõ es de paz entre Israel e Palestina foram interrompidas. Israel atacou a
Faixa de Gaza, construiu novos assentamentos na Cisjordâ nia e retomou a construçã o de um
muro. Em 2016, a Cisjordâ nia era controlada pelo Fatah, enquanto Gaza estava sob o controle
do Hamas, que quer o fim do Estado de Israel.

A impossibilidade de negociaçã o e da garantia dos territó rios da Faixa de Gaza e da Cisjordâ nia
levou a ANP a recorrer à ONU. Em 2011, o Estado da Palestina se tornou membro pleno da
Organizaçã o das Naçõ es Unidas para a Educaçã o, a Ciência e a Cultura (Unesco) e, em 2012,
tornou-se Estado observador nã o membro da ONU, apesar da oposiçã o dos Estados Unidos, de
Israel e de mais alguns poucos países.

Os ú ltimos governos israelenses (2016), como o de Benjamin Netanyahu, mais conservadores,


apoiaram a expansã o das colô nias na Cisjordâ nia, acirrando o clima de hostilidade entre as
duas populaçõ es, a de palestinos e a de colonos judeus. Veja no mapa que o interesse
geopolítico pela Cisjordâ nia também está relacionado ao acesso à s á guas do rio Jordã o.
João Miguel A. Moreira/ID/BR

Fonte de pesquisa: BACIC, Nelson; CANEPA, Beatriz. Oriente Médio: uma região de conflitos e tensõ es. São Paulo: Moderna, 2012. p. 78.

Em 2014, foguetes foram lançados pelo Hamas contra Israel, e o país respondeu com ataques
aéreos. Em consequência, as fronteiras de Gaza foram fechadas e apenas organizaçõ es
internacionais tinham acesso à á rea. A situaçã o socioeconô mica da populaçã o na regiã o é
muito incerta, e sã o necessá rios um rá pido planejamento urbano das á reas destruídas em
2014 e uma reestruturaçã o econô mica.

CONEXÃO

O muro israelense condenado pela ONU

Sob a justificativa de proteger os assentamentos judaicos na Cisjordâ nia, ao longo dos ú ltimos anos,
o governo israelense deu andamento à construçã o de um muro, mesmo sob a condenaçã o da Corte
Internacional de Justiça da ONU. O muro limita o movimento e a vida dos palestinos, que passam
por um rigoroso controle ao atravessar os portõ es que dã o acesso à s á reas israelenses, e contribui
para a fragmentaçã o da Cisjordâ nia.

1. Discuta com um colega se esse muro contribui ou nã o para a coexistência dos dois Estados.
Justifique e anote suas conclusõ es no caderno.
Pá gina 167

Índia: país emergente

Com 3,2 milhõ es de km² e uma populaçã o de 1 205 bilhã o de habitantes (2014), a Índia é um
mosaico de povos e de línguas. É a maior democracia do mundo (em funçã o do elevado nú mero
de eleitores) e possui hoje uma das economias mais dinâ micas.

No final do século XX, o processo de globalizaçã o pressionou a liberalização da economia


indiana, que consistiu em maior abertura para os capitais internacionais e na modernizaçã o do
setor financeiro. A partir desse cená rio, o país desponta como uma futura potência econô mica.
Atualmente, é um dos membros do Brics, grupo dos principais países emergentes, ao lado de
Brasil, Rú ssia, China e Á frica do Sul.

A regiã o indiana de Bangalore é um dos mais importantes complexos de informá tica do


planeta. A Índia também tem se destacado nas á reas de biotecnologia, tecnologia espacial e
nuclear, além de contar com importante indú stria cinematográ fica, conhecida como
Bollywood. No entanto, apresenta elevado nú mero de habitantes em situaçã o de extrema
pobreza (cerca de 300 milhõ es de pessoas).

Radiokafka/Shutterstock.com/ID/BR

A cidade de Calcutá , com cerca de 4,5 milhõ es de habitantes, é um dos principais centros econô micos da Índia e
concentra escritó rios de diversas empresas multinacionais e de tecnologia. Foto de 2013.

Índia: situação geopolítica


Durante o período em que a Índia foi colô nia da Inglaterra, sua produçã o artesanal foi
desestruturada pelos ingleses para disseminar a venda de seus produtos no país. A partir da
segunda metade do século XIX, os ingleses passaram a instalar na Índia fá bricas para beneficiar
matérias-primas para exportaçã o.
Ainda nesse século, tiveram início rebeliõ es que visavam proclamar a independência e
promover a retirada dos ingleses. O principal líder do movimento de independência foi
Mahatma Gandhi. Ele pregava a desobediência civil (boicote aos produtos ingleses e nã o
pagamento de impostos) como forma de combater os vínculos coloniais.

A independência foi obtida em 1947. Em funçã o das divergências entre hinduístas e


islamitas, a península se dividiu em dois países: a Índia, com maioria hindu, e o Paquistão,
predominantemente muçulmano. Os conflitos decorrentes de tal divisã o provocaram a morte
de centenas de milhares de pessoas e um intenso êxodo de habitantes entre os dois novos
países. Em 1971, a parte oriental do Paquistã o deu origem a um terceiro país, Bangladesh.

A questão da Caxemira
Em 1947, quando ocorreu a divisã o entre os territó rios destinados ao controle da Índia e do
Paquistã o, a regiã o da Caxemira, apesar de majoritariamente muçulmana, era governada por
um hindu e foi anexada ao territó rio da Índia.

Em 1949, com um acordo entre os dois países, aproximadamente 40% de sua á rea passou para
o domínio do Paquistã o. Os conflitos entre Índia e Paquistã o tornaram-se frequentes e a
ameaça de ataques nucleares entre os dois países é extremamente preocupante. No entanto,
desde 2003, os dois países têm mantido conversaçõ es para promover a paz na regiã o.
Pá gina 168

O Sudeste Asiático e os novos Tigres

Historicamente, o Sudeste Asiá tico sofreu uma série de ocupaçõ es estrangeiras: franceses na
península da Indochina (atualmente, Tailâ ndia, Camboja, Vietnã e Laos), portugueses e
holandeses na Indonésia, espanhó is nas Filipinas e ingleses na Malá sia. Durante a Segunda
Guerra Mundial, os japoneses ocuparam a regiã o e, apó s 1945, ocorreu a descolonizaçã o.

Alguns países da regiã o tornaram-se socialistas e aliados da antiga URSS: foi o caso de Laos,
Camboja e Vietnã . Na década de 1990, a desintegraçã o do socialismo promoveu uma abertura
econô mica nesses países, que se integraram à Associaçã o de Naçõ es do Sudeste Asiá tico
(Asean) e à Cooperaçã o Econô mica Á sia-Pacífico (Apec). Em 2015, Brunei, Vietnã , Malá sia e
Cingapura integraram também o Acordo Transpacífico, com outros países do Pacífico.

Apenas Cingapura é considerado desenvolvido, e os demais encontram-se em diferentes


ritmos de crescimento econô mico e desenvolvimento social.

Os “Novos Tigres”
Malá sia, Tailâ ndia, Indonésia e, mais recentemente, Vietnã sã o apontados como os novos
Tigres Asiá ticos, pois têm se destacado pelo rá pido crescimento industrial desde a década de
1990. Esses países adotaram um modelo de industrializaçã o voltado para as exportaçõ es,
semelhante ao que já vinha sendo desenvolvido pelos Tigres Asiá ticos tradicionais, atraindo
elevados investimentos de empresas multinacionais, sobretudo japonesas e estadunidenses.

Essas grandes empresas beneficiaram-se dos baixos salá rios e da fragilidade ou da ausência de
leis trabalhistas que controlassem o nú mero de horas de trabalho ou oferecessem garantias
previdenciárias aos trabalhadores.

Garantia previdenciária: conjunto de benefícios concedidos aos trabalhadores e aposentados.

Entre os novos Tigres, a Malá sia é o país que tem apresentado o maior equilíbrio entre o
crescimento econô mico e a melhoria das condiçõ es de vida da populaçã o.

A Indonésia é o país que apresenta a maior populaçã o muçulmana do mundo. Seu expressivo
crescimento econô mico permitiu que a renda per capita fosse multiplicada por quatro, entre
1998 e 2007. No entanto, 45% da populaçã o vive com menos de 2 dó lares por dia e 60% da
Populaçã o Economicamente Ativa atua na informalidade.

Além de ter sido o país mais atingido pelo tsunami (onda gigantesca) de 2004, que provocou
elevado nú mero de mortes e destruiçã o de infraestrutura, a Indonésia apresenta enorme
endividamento externo, fatores que prejudicam o desempenho econô mico do país.

No campo político, apó s um período de trinta anos de ditadura de Suharto, o país mergulhou
em crescente instabilidade, e o governo foi alvo de sucessivas denú ncias de corrupçã o. A partir
dos anos 2000, a Indonésia sofreu atentados terroristas atribuídos à organizaçã o muçulmana
extremista Jemaah Islamiyah, apoiada financeiramente pela Al-Qaeda (dirigida por Osama
bin Laden até 2011).
Dario Pignatelli/Bloomberg/Getty Images

Trabalhadores na linha de produçã o de semicondutores em fá brica de eletroeletrô nicos em Ayutthaya, Tailâ ndia,
2014.
Pá gina 169

Informe
O terror
A globalizaçã o da “guerra contra o terror”, desde setembro de 2001, e a retomada das
intervençõ es armadas estrangeiras por parte de uma grande potência que condenou
formalmente em 2002 as regras e as convençõ es até entã o aceitas para os conflitos
internacionais pioraram a situaçã o. O perigo real das novas redes terroristas internacionais
para os regimes dos países está veis do mundo desenvolvido, assim como da Á sia, continua a
ser desprezível. As dezenas ou centenas de vítimas de bombas nos sistemas de transporte
pú blico em Londres e em Madri não sã o capazes de interromper a capacidade operacional de
uma cidade grande além de algumas horas. Por mais horripilante que tenha sido a carnificina
de 11 de setembro de 2001 em Nova York, o poder internacional dos Estados Unidos e suas
estruturas internas nã o foram afetados em nada. Se ocorreram efeitos negativos posteriores,
eles nã o se devem à açã o dos terroristas, e sim à do governo americano. A Índia, a maior
democracia do mundo, é um bom exemplo da capacidade de resistência de um país está vel.
Apesar de ter perdido dois chefes de governo nos ú ltimos vinte anos pela açã o de assassinos, o
país convive com uma situaçã o de guerra de baixa intensidade na Caxemira, com uma ampla
gama de movimentos guerrilheiros nas províncias do Nordeste e com uma insurreiçã o
marxista-leninista (naxalita) em certas á reas tribais – e ninguém sequer sonharia em dizer que
ela não é um país está vel e em perfeita ordem operacional.

Isso ressalta a fraqueza relativa e absoluta dos movimentos terroristas da fase atual. Eles sã o
sintomas, e nã o agentes histó ricos significativos. E isso nã o deixa de ser vá lido nem em razã o
de que, graças à s mudanças nos armamentos e nas táticas, pequenos grupos e até indivíduos
agora podem causar muito mais dano per capita do que antes, nem em funçã o de objetivos
utó picos sustentados por alguns grupos terroristas ou a eles atribuídos. Operando em países
está veis, com regimes está veis e sem o apoio de setores relevantes da populaçã o, eles sã o um
problema policial, e nã o militar. Mesmo quando o terrorismo de pequenos grupos faz parte de
um movimento geral de dissidência, como sã o os rebentos da Al Qaeda na resistência
iraquiana, eles nã o sã o a parte mais importante nem a parte militarmente mais efetiva do
movimento, e sim adendos marginais. Quanto à s operaçõ es conduzidas fora do ambiente de
uma populaçã o simpatizante, como os homens-bomba palestinos em Israel ou um punhado de
jovens muçulmanos faná ticos em Londres, pouco valor elas têm além da propaganda. Nada
disso significa que nã o sejam necessá rias importantes medidas policiais internacionais para
combater o terrorismo de pequenos grupos, especialmente do tipo transnacional, quanto mais
não seja pelo perigo que existe de que no futuro esses grupos logrem adquirir um artefato
nuclear e a capacidade de usá -lo. Seu potencial político, que é sobretudo destrutivo, é
claramente muito maior em países instá veis ou em decomposiçã o, em particular no mundo
muçulmano no oeste da Índia, mas nã o deve ser confundido com o potencial político de uma
mobilizaçã o religiosa maciça. [...]

HOBSBAWM, Eric. Globalização, democracia e terrorismo. Trad. José Viegas. São Paulo: Companhia das Letras, 2007. p. 134-136.

PARA DISCUTIR

1. No primeiro pará grafo do texto, Eric Hobsbawm afirma que, apesar das perdas humanas,
um ataque terrorista tem pequeno perigo real em um país está vel. Você concorda com essa
afirmaçã o? Justifique sua resposta.
2. Explique a seguinte afirmaçã o do autor: “Quanto à s operaçõ es [...] [de] um punhado de
jovens muçulmanos faná ticos em Londres, pouco valor elas têm além da propaganda”.
Pá gina 170

Atividades
Não escreva no livro.

Revendo conceitos

1. Explique os conflitos territoriais da Turquia.

2. Quais sã o as questõ es geopolíticas em que a Síria está envolvida nessa década?

3. Onde e quando foi criado o Estado de Israel?

4. Quais foram as á reas ocupadas por Israel apó s a Guerra dos Seis Dias, em 1967?

5. Quando foi criada a OLP e que objetivos conduziram a sua atuaçã o ao longo do tempo?

6. Quais sã o as á reas ocupadas pelos palestinos hoje?

7. Quem foi Mahatma Ghandi?

8. Quais fatores atraíram as multinacionais para os novos Tigres Asiá ticos?

Interpretando textos e imagens

9. Observe a fotografia abaixo e responda.

Beawiharta/Reuters/Latinstock

Linha de montagem de multinacional japonesa instalada em Purwakarta, Indonésia. Foto de 2014.

a) Além da Indonésia, cite outros países com semelhante desenvolvimento industrial.


b) Essas multinacionais beneficiam a populaçã o local dos países onde foram instaladas?
Justifique.

10. Leia o texto e responda à questã o.

Mulheres votam pela primeira vez em eleições na Arábia Saudita


[...] Mais de 900 mulheres, junto a cerca de 6 mil homens, buscam ocupar uma cadeira nas
assembleias locais, enquanto lidam com poderes limitados em termos de circulaçã o, jardins
pú blicos e coleta de lixo. [...]

A Ará bia Saudita era o ú ltimo país a negar à s mulheres o direito do voto.

Algumas mulheres afirmaram que o registro de eleitoras foi complicado em razã o dos obstá culos
burocrá ticos, da falta de informaçã o e porque as mulheres sã o proibidas de dirigir, o que dificulta a
locomoçã o.

Em um contexto onde menos de um eleitor em cada dez é mulher, poucas mulheres sauditas
esperam ser eleitas. [...]

G1. France Presse, 12 dez. 2015. Disponível em: <http://g1.globo.com/mundo/noticia/2015/12/mulheres-votam-pela-primeira-


vez-emeleicoes-na-arabia-saudita.html>. Acesso em: 18 abr. 2016.

Além da participaçã o política, que evidências o texto acima traz a respeito da desigualdade
entre homens e mulheres?

11. Escreva um texto apresentando a sua interpretaçã o da charge a seguir.

Angeli/Acervo do artista

Charge de Angeli, 2003.

12. Observe a imagem e, depois, responda.

Musa Al-Shaer/AFP
Muro entre Cisjordâ nia e Israel, em trecho na cidade de Belém. Foto de 2015.

Qual o significado, para a populaçã o palestina, do muro construído por Israel na Cisjordâ nia?
Pá gina 171

Lendo mapas

13. Observe o mapa abaixo e identifique:

João Miguel A. Moreira/ID/BR

Fonte de pesquisa: Le Monde Diplomatique. Disponível em: <http://mondediplo.com/IMG/arton8079.png>. Acesso em: 24 mar.
2016.

a) locais onde podem ocorrer ameaças nucleares;


b) países que têm os maiores gastos militares;
c) o motivo dos conflitos em dois lugares indicados no mapa;
d) possíveis motivos para haver refugiados paquistaneses na península Ará bica.

14. Analise o mapa ao lado e responda.


João Miguel A. Moreira/ID/BR

Fontes de pesquisa: Le Monde Diplomatique. L’ Atlas. Paris: Armand Colin, 2006. p. 197; AMIOT, Hervé. Eau et conflits dans le basin du
Jourdain. Les clés du Moyen-Orient, 12 dez. 2013. Disponível em: <http://www.lesclesdumoyenorient.com/Eau-et-conflits-dans-le-
bassin-du-Jourdain.html>. Acesso em: 28 mar. 2016.

a) Ao observar o mapa, qual é o interesse de Israel em ocupar as colinas de Golã ?


b) Quais sã o e onde se encontram os recursos hídricos da regiã o?
c) Produza um texto descrevendo a situaçã o dos israelenses e palestinos quanto ao acesso à
á gua.
Pá gina 172

Em análise
Construir e interpretar mapas de síntese

Um mapa é elaborado com base em dados quantitativos ou qualitativos. Esses dados


geralmente sã o dispostos em uma tabela, cujas informaçõ es serã o agrupadas em classes ou em
grupos que depois vã o compor a legenda.

Utilizando um mapa-base, isto é, um mapa da regiã o que estamos analisando, o passo seguinte
é dispor os grupos de dados de acordo com a legenda. Temos como resultado um mapa
temá tico sobre determinado assunto.

Sabemos que o espaço geográ fico é complexo e que, para analisá -lo, sã o necessá rias muitas
combinaçõ es de fatos que ocorrem de forma simultâ nea. Diante disso, podemos elaborar um
mapa de síntese, isto é, um mapa que reú na duas ou mais informaçõ es que se integram,
permitindo apreender novos aspectos da realidade. Vejamos um exemplo.

O continente africano apresenta uma grande diversidade de características demográ ficas e


econô micas. O norte da Á frica é formado por cinco países: Marrocos, Argélia, Tunísia, Líbia e
Egito. Tomemos dois dados socioeconô micos desses países: a taxa de alfabetizaçã o (%) e a taxa
de mortalidade infantil por mil crianças nascidas vivas (‰).

Analisemos inicialmente a tabela com os dados sobre a taxa de alfabetização. A menor taxa é
de 68,5% e a maior, de 91%. Podem-se dividir os dados em três classes: menos de 75%, de
75% a 85% e mais de 85%. Cada uma dessas classes será representada por uma hachura
diferente. Cada país do mapa é preenchido com a hachura correspondente à classe a que
pertence.

A segunda tabela também apresenta dados díspares, mas com informaçõ es sobre a taxa de
mortalidade infantil: de 11,48‰ a 23,60‰. Como na primeira tabela, serã o criadas três
classes para representar a taxa de mortalidade infantil: menos de 15‰, de 15‰ a 23‰ e
mais de 23‰. Serã o usadas três cores diferentes, uma para cada classe representando a
mortalidade infantil. Assim, as duas informaçõ es serã o apresentadas no mesmo mapa.

Na leitura e interpretaçã o do mapa, é possível compreender a relaçã o entre a taxa de


alfabetizaçã o e a de mortalidade infantil. Maior nível de instruçã o significa melhores condiçõ es
de vida e, em consequência, maiores cuidados médico-sanitá rios com as crianças.

Assim, a Líbia destaca-se por apresentar taxa de mortalidade infantil de 11,48‰ e a mais alta
taxa de alfabetizaçã o da regiã o mapeada (91%). Em oposiçã o, o Marrocos apresenta a menor
taxa de alfabetizaçã o (68,5%) e elevada taxa de mortalidade infantil (23,60‰).

Taxa de alfabetização (2014)


País Taxa de alfabetização (%)
Argélia 82,2
Egito 73,8
Líbia 91,0
Marrocos 68,5
Tunísia 81,8
Taxa de mortalidade infantil (2014)
País Taxa de mortalidade infantil (‰)
Argélia 20,98
Egito 21,55
Líbia 11,48
Marrocos 23,60
Tunísia 22,35

Fonte de pesquisa: CIA. The World Fact Book. Disponível em: <https://www.cia.gov/library/publications/the-world-
factbook/fields/2103.html>. Acesso em: 18 abr. 2016.

Allmaps/ID/BR

Fonte de pesquisa: CIA. The World Fact Book. Disponível em: <https://www.cia.gov/library/publications/the-world-
factbook/fields/2103.html>. Acesso em: 18 abr. 2016.
Pá gina 173

Proposta de trabalho

É possível estabelecer inú meras combinaçõ es de fenô menos demográ ficos com o objetivo de
analisar as condiçõ es socioeconô micas da populaçã o de determinado espaço geográ fico.
Mapear essa combinaçã o permite nã o só apreender características de um espaço, como
também compará -lo a outros espaços.

A proposta de trabalho consiste na elaboraçã o de um mapa de síntese da América Central,


combinando média de anos de escolaridade com o Rendimento Nacional Bruto per capita.

País Média de anos de escolaridade Rendimento Nacional Bruto


(2014) (RNB) per capita, em dólares
(2014)
Belize 10,5 7 614
Costa Rica 8,4 13 413
Cuba 11,5 7 301
El Salvador 6,5 7 349
Guatemala 5,6 6 929
Haiti 4,9 1 669
Honduras 5,5 3 938
Jamaica 9,7 7 415
Nicarágua 6,0 4 457
Panamá 9,3 18 192
República Dominicana 7,6 11 883

Fonte de pesquisa: Pnud. Relatório de Desenvolvimento Humano 2015. Disponível em:


<www.br.undp.org/content/brazil/pt/home/library/relatorio-de-desenvolvimento-humano/relatorio-do-
desenvolvimentohumano-200014.html>. p.231-232. Acesso em: 11 maio 2016.

1. Para elaborar um mapa de síntese da América Central, utilize os dados da tabela.

2. Observe a coluna referente à média de escolaridade e anote no caderno o nome de dois


países que apresentam os maiores e menores médias.

3. Adote o mesmo procedimento em relaçã o à coluna que apresenta o Rendimento Nacional


Bruto e separe os dois países com os maiores valores.

4. Cruze as informaçõ es, destacando os dois países com maior média de escolaridade e maior
RNB. Faça o mesmo com os dois países que estã o em situaçã o oposta. Destacados os países,
construa a legenda, escolhendo dois lá pis de cores diferentes.

5. Reproduza em sulfite ou em papel vegetal um mapa da América Central (continental e


insular).

6. Ao final, dê um título ao mapa, informando a regiã o representada, o tema, a data, etc. Nã o se


esqueça de indicar a fonte, que é a mesma da tabela.

7. Concluído o mapa, responda à s questõ es:


a) Quais relaçõ es podem ser estabelecidas entre a média de escolaridade e o RNB?
b) Quais sã o os países centro-americanos com melhores condiçõ es socioeconô micas? E com as
mais baixas?
c) Levante hipó teses de outras combinaçõ es de fenô menos demográ ficos que possibilitem
analisar as condiçõ es socioeconô micas de um país ou de uma regiã o.

Allmps/ID/BR

Fonte de pesquisa: Atlas geográfico escolar. 4. ed. Rio de Janeiro: IBGE, 2007. p. 39.
Pá gina 174

Síntese da Unidade
Capítulo 9 Europa

• Escreva duas ou três frases com cada palavra-chave ou expressão abaixo, sintetizando as informaçõ es do
capítulo.

• Alemanha e os imigrantes

• Imigraçã o ilegal

• Ucrâ nia e Rú ssia

• Conflitos étnicos

Capítulo 10 África

• Com base no esquema abaixo, escreva frases que sintetizem o conteú do do capítulo.

Capítulo 11 América Latina

• Com as informaçõ es do capítulo, preencha no caderno o quadro-síntese abaixo.


Nacionalismo na América Latina
Relaçõ es entre México e Estados Unidos
Focos de tensã o no México
Focos de tensã o na Colô mbia
Outros focos de tensã o na América Latina

Capítulo 12 Ásia

• A partir das fotografias abaixo, escreva um pequeno texto sintetizando os assuntos principais desenvolvidos
no capítulo.
Mehmet Ozturk/Anadolu Agency/Getty Images

Istambul, Turquia. Foto de 2015.

Radiokafka/Shutterstock.com/ID/BR

Calcutá , Índia. Foto de 2013.


Pá gina 175

Vestibular e Enem
Atenção: todas as questões foram reproduzidas das provas originais de que fazem parte. Responda a todas as questões no caderno.

1. (UFG-GO) Os recentes protestos de uma parte da populaçã o na Ucrâ nia contra o governo, a
partir de novembro de 2013, têm gerado tensõ es internacionais e atraído os interesses da
Uniã o Europeia, da Rú ssia e dos Estados Unidos. A atual situaçã o política na Ucrâ nia decorreu:
a) do conflito entre os governos da Ucrâ nia e da Rú ssia, a partir da ameaça do gabinete
presidencial russo em suspender o fornecimento de gá s.
b) da desistência do governo da Ucrâ nia em se associar à Uniã o Europeia (UE), o que provocou
a queda do primeiro-ministro ucraniano.
c) da mudança do comando administrativo da Rú ssia, o que impossibilitou novos
investimentos na Ucrâ nia.
d) do conflito russo da Chechênia, o que desencadeou crises econô micas nos países do
Cá ucaso.
e) do desentendimento entre os governos da Ucrâ nia e dos EUA, a partir da ameaça sobre
medidas protecionistas contra os produtos ucranianos.

2. (UFC-CE) A partir das ú ltimas décadas do século XIX, uma nova onda colonialista levou à
partilha quase total da Á frica e da Á sia entre países industrializados. Sobre esta fase
imperialista, é correto afirmar que foi motivada fundamentalmente:
a) pelo interesse de importar bens manufaturados da Índia, China e Á frica islâ mica e foi
estimulada pelos países industriais emergentes: Bélgica, Alemanha e Japã o.
b) pela política religiosa e missioná ria de difundir o cristianismo no mundo e foi liderada pelos
países cató licos europeus, como a França e a Bélgica.
c) pela exigência do conhecimento científico positivista de ocupar os territó rios a serem
estudados e foi impulsionada pela Grã -Bretanha.
d) pela necessidade de adquirir facilmente matéria-prima a baixo custo e foi facilitada pela
política imperialista dos Estados Unidos.
e) pelo interesse de continuar a expandir o capitalismo num período de crise e teve à sua
frente a França e a Grã -Bretanha.

3. (UFC-ce) A partir de 1989, a América Latina incorpora o neoliberalismo. Este modelo,


contestado por diferentes grupos e movimentos sociais, caracterizou-se, neste continente, por:
a) atenuar as diferenças sociais e a dependência em relaçã o ao capital internacional, ofertando
o pleno emprego.
b) estimular o desenvolvimento do campo social e político e implementar uma sociedade mais
justa e igualitá ria.
c) diminuir o poder da iniciativa privada transnacional, mediante a intervençã o do Estado a
favor da burguesia nacional.
d) ter uma base econô mica formada por empresas pú blicas que regularam a oferta e a
demanda, assim como o mercado de trabalho.
e) instaurar um conjunto de ideias políticas e econô micas capitalistas que defendeu a
diminuiçã o da ingerência do Estado na economia.

4. (UFMT) Sobre os processos de colonizaçã o e descolonizaçã o do continente africano, marque


V para as afirmativas verdadeiras e F para as falsas.

( ) Apó s o processo de descolonizaçã o, vá rios grupos étnicos foram forçados a conviver em um


mesmo Estado, intensificando os conflitos armados como o ocorrido entre as etnias Tú tsi e
Hutu, em Ruanda.
( ) O critério de regionalizaçã o do continente africano mais utilizado pó s-descolonizaçã o, com
base em elementos étnicos e culturais, classifica-o em Á frica Branca ou Setentrional e Á frica
Negra ou Subsaariana.
( ) As potências imperialistas europeias reunidas na Conferência de Berlim dividiram o espaço
da Á frica entre si, criando fronteiras sem respeitar a antiga organizaçã o tribal e a distribuiçã o
geográ fica das etnias no continente.

Assinale a sequência correta.


a) V, F, V
b) V, V, V
c) V, V, F
d) F, F, V
e) F, F, F

5. (UFMG) Todas as alternativas apresentam afirmaçõ es corretas ligadas ao final do apartheid


na Á frica do Sul, exceto:
a) A Á frica do Sul, com as eleiçõ es presidenciais de 1994, deu um passo importante para
romper com seu passado de discriminaçã o racial.
b) As restriçõ es comerciais impostas ao antigo regime racial foram suspensas, e a Á frica do Sul
restabeleceu suas relaçõ es comerciais internacionais.
c) O fim do apartheid gerou poucas mudanças para a populaçã o branca cuja elite continua a
controlar a economia e a burocracia do país.
d) O novo país passa a contar com uma populaçã o negra, etnicamente homogênea, uma vez
que os bantustõ es formaram países independentes.
e) O novo regime se deparou com a possibilidade de aproximaçã o entre as experiências sociais
e econô micas de brancos e negros.
Pá gina 176

Vestibular e Enem
6. (Uerj)

Uerj/2007. Fac-símile: ID/BR

Fonte de pesquisa: MORAES, Paulo Roberto. Geografia geral e do Brasil. Sã o Paulo: Harbra, 2003.

O narcotrá fico se expandiu por todo o mundo, promovendo diversos fluxos de circulaçã o de
drogas. Considerando a representaçã o feita no mapa, a geografia mundial da produçã o,
distribuiçã o e do consumo das drogas permite estabelecer a seguinte associaçã o entre agentes
e setor econô mico predominante nos países em que se encontram:

a) Fabricantes – terceiro setor.


b) Plantadores – setor secundá rio.
c) Consumidores – setor terciá rio.
d) Distribuidores – setor primá rio.

7. (Enem)

Em 1947, a Organizaçã o das Naçõ es Unidas (ONU) aprovou um plano de partilha da Palestina que
previa a criaçã o de dois Estados: um judeu e outro palestino. A recusa á rabe em aceitar a decisã o
conduziu ao primeiro conflito entre Israel e países á rabes.

A segunda guerra (Suez, 1956) decorreu da decisã o egípcia de nacionalizar o canal, ato que atingia
interesses anglo-franceses e israelenses. Vitorioso, Israel passou a controlar a Península do Sinai. O
terceiro conflito á rabe-israelense (1967) ficou conhecido como Guerra dos Seis Dias, tal a rapidez
da vitó ria de Israel.

Em 6 de outubro de 1973, quando os judeus comemoravam o Yom Kippur (Dia do Perdã o), forças
egípcias e sírias atacaram de surpresa Israel, que revidou de forma arrasadora. A intervençã o
americano-soviética impô s o cessar-fogo, concluído em 22 de outubro.
A partir do texto acima, assinale a opçã o correta.
a) A primeira guerra á rabe-israelense foi determinada pela açã o bélica de tradicionais
potências europeias no Oriente Médio.
b) Na segunda metade dos anos 1960, quando explodiu a terceira guerra á rabe-israelense,
Israel obteve rá pida vitó ria.
c) A guerra do Yom Kippur ocorreu no momento em que, a partir de decisã o da ONU, foi
oficialmente instalado o Estado de Israel.
d) A açã o dos governos de Washington e de Moscou foi decisiva para o cessar-fogo que pô s fim
ao primeiro conflito á rabe-israelense.
e) Apesar das sucessivas vitó rias militares, Israel mantém suas dimensõ es territoriais tal como
estabelecido pela Resoluçã o de 1947 aprovada pela ONU.

8. (Enem)

Os chineses nã o atrelam nenhuma condiçã o para efetuar investimentos nos países africanos. Outro
ponto interessante é a venda e compra de grandes somas de á reas, posteriormente cercadas. Por se
tratar de países instá veis e com governos ainda nã o consolidados, teme-se que algumas naçõ es da
Á frica tornem-se literalmente protetorados.

BRANCOLI, F. China e os novos investimentos na Á frica: neocolonialismo ou mudanças na arquitetura global? Disponível em:
<http://opiniaoenoticia.com.br>. Acesso em: 29 abr. 2010 (adaptado).

A presença econô mica da China em vastas á reas do globo é uma realidade do século XXI. A
partir do texto, como é possível caracterizar a relaçã o econô mica da China com o continente
africano?
Pá gina 177

Atenção: todas as questões foram reproduzidas das provas originais de que fazem parte. Responda a todas as questões no caderno.

a) Pela presença de ó rgã os econô micos internacionais como o Fundo Monetá rio Internacional
(FMI) e o Banco Mundial, que restringem os investimentos chineses, uma vez que estes nã o se
preocupam com a preservaçã o do meio ambiente.
b) Pela açã o de ONGs (Organizaçõ es Nã o Governamentais) que limitam os investimentos
estatais chineses, uma vez que estes se mostram desinteressados em relaçã o aos problemas
sociais africanos.
c) Pela aliança com os capitais e investimentos diretos realizados pelos países ocidentais,
promovendo o crescimento econô mico de algumas regiõ es desse continente.
d) Pela presença cada vez maior de investimentos diretos, o que pode representar uma ameaça
à soberania dos países africanos ou manipulaçã o das açõ es destes governos em favor dos
grandes projetos.
e) Pela presença de um nú mero cada vez maior de diplomatas, o que pode levar à formaçã o de
um Mercado Comum Sino-Africano, ameaçando os interesses ocidentais.

9. (Uerj) A ideia do “choque de civilizaçõ es” difundida na década passada pelo cientista
político Samuel Huntington, ainda que polêmica, tem o mérito de incentivar a reflexã o acerca
de uma ordem de poder mundial que não mais expressa apenas as diferenças econô micas
entre os países.

Um aspecto dessa ordem mundial pode ser observado na representaçã o abaixo.

Uerj/2007. Fac-símile: ID/BR

Adaptado de ALMEIDA, Lú cia Marina Alves; RIGOLIN, Tércio Barbosa. Fronteiras da globalização. Sã o Paulo: Á tica, 2004.

A escolha do título do mapa se justifica por expressar a diferença entre:


a) composiçã o étnica e identidade cultural.
b) afinidade ideoló gica e fragmentaçã o social.
c) estrutura institucional e complexidade social.
d) sistema de governo e configuraçã o territorial.

10. (Enem) Na América do Sul, as Forças Armadas Revolucioná rias da Colô mbia (Farc) lutam,
há décadas, para impor um regime de inspiraçã o marxista no país. Hoje, sã o acusadas de
envolvimento com o narcotrá fico, o qual supostamente financia suas açõ es, que incluem
ataques diversos, assassinatos e sequestros. Na Á sia, a Al Qaeda, criada por Osama bin Laden,
defende o fundamentalismo islâ mico e vê nos Estados Unidos da América (EUA) e em Israel
inimigos poderosos, os quais deve combater sem trégua. A mais conhecida de suas açõ es
terroristas ocorreu em 2001, quando foram atingidos o Pentá gono e as torres do World Trade
Center.

A partir das informaçõ es acima, conclui-se que:


a) as açõ es guerrilheiras e terroristas no mundo contemporâ neo usam métodos idênticos para
alcançar os mesmos propó sitos.
b) o apoio internacional recebido pelas Farc decorre do desconhecimento, pela maioria das
naçõ es, das prá ticas violentas dessa organizaçã o.
c) os EUA, mesmo sendo a maior potência do planeta, foram surpreendidos com ataques
terroristas que atingiram alvos de grande importâ ncia simbó lica.
d) as organizaçõ es mencionadas identificam-se quanto aos princípios religiosos que defendem.
e) tanto as Farc quanto a Al Qaeda restringem sua atuaçã o à á rea geográ fica em que se
localizam, respectivamente, América do Sul e Á sia.

11. (Fuvest-SP) O mundo tem vivido inú meros conflitos regionais de repercussã o global que,
por um lado, envolvem intervençõ es de tropas de diferentes países e, por outro lado, resultam
em discussõ es na Organizaçã o das Naçõ es Unidas.

Considere as seguintes afirmaçõ es:


I. Povos primitivos precisam ser tutelados pela diplomacia internacional ou reprimidos por
forças de naçõ es desenvolvidas, para que conflitos locais ou regionais nã o perturbem o
equilíbrio mundial.
II. Razõ es estratégicas, de localizaçã o geográ fica, de orientaçã o política ou de concentraçã o de
recursos naturais, fazem com que certas regiõ es ou países sejam alvo de interesses,
preocupaçõ es e intervençõ es internacionais.
III. Diferenças étnicas, culturais, políticas ou religiosas, com raízes histó ricas, têm resultado em
preconceito, desrespeito e segregaçã o, gerando tensõ es que repercutem em conflitos
existentes entre diferentes naçõ es.

O envolvimento global em conflitos regionais é, corretamente, explicado em:


a) I, apenas.
b) II, apenas.
c) I e III, apenas.
d) II e III, apenas.
e) I, II e III.
Pá gina 178

Vestibular e Enem
Atenção: todas as questões foram reproduzidas das provas originais de que fazem parte. Responda a todas as questões no caderno.

12. (Enem)

Um gigante da indú stria da internet, em gesto simbó lico, mudou o tratamento que conferia à sua
pá gina palestina. O site de buscas alterou sua pá gina quando acessada da Cisjordâ nia. Em vez de
“territó rios palestinos”, a empresa escreve agora “Palestina” logo abaixo do logotipo.

BERCITO, D. Google muda tratamento de territó rios palestinos. Folha de S.Paulo, 4 maio 2013 (adaptado).

O gesto simbó lico sinalizado pela mudança no status dos territó rios palestinos significa o:
a) surgimento de um país binacional.
b) fortalecimento de movimentos antissemitas.
c) esvaziamento de assentamentos judaicos.
d) reconhecimento de uma autoridade jurídica.
e) estabelecimento de fronteiras nacionais.

13. (Unesp) A crise se iniciou em julho de 1956 [...] temerosos do nacionalismo pan-á rabe
defendido por Nasser, França e Grã -Bretanha decidiram fazer uma intervençã o militar punitiva na
regiã o, contando para tanto com a ajuda de Israel. Assim, em outubro de 1956, Israel invadiu o
Sinai, península pertencente ao Egito, e em novembro tropas britânicas e francesas ocuparam a
regiã o [...]. Contudo, a manobra, que possuía clara motivaçã o colonialista, repercutiu muito mal
junto à opiniã o pú blica mundial, particularmente junto aos EUA.

MELLO E SILVA, Alexandra de. Disponível em: <http://www.cpdoc.fgv.br>. Acesso em: 18 maio 2006.

O fragmento faz referência:


a) ao início da Guerra do Yom Kippur.
b) ao início da Guerra dos Seis Dias.
c) à revoluçã o islâ mica do Egito.
d) à estatizaçã o do petró leo egípcio.
e) ao processo de nacionalizaçã o do canal de Suez.

14. (PUC-RS) Instrução: Responder à questã o […] considerando as relaçõ es entre as á reas
apresentadas e os fatos correspondentes.

Áreas Fatos
I Regiã o da Caxemira Fronteira entre Tensã o entre hinduístas e
a Índia e o Paquistã o muçulmanos descontentes com a
atual divisã o da Caxemira
II Regiã o da Catalunha (Espanha) Os protestantes desejam o poder
político e ameaçam os cató licos
III Turquia – Fronteira com a Síria Os turcos nã o aceitam a
independê ncia do Estado Palestino
IV Ruanda – país africano Ocorrem conflitos étnicos pelo
poder político

Existe correlaçã o adequada entre a á rea e a respectiva característica em:


a) I e II
b) I e IV
c) II e III
d) II e IV
e) I, III e IV

15. (FGV-SP) Sobretudo a partir da década de [19]60, o continente africano tem passado por
um processo de descolonizaçã o, isto é, de independência política formal que:
a) tem permitido à s jovens naçõ es superar o atraso econô mico motivado pela exploraçã o das
antigas metró poles.
b) desacompanhada da respectiva independência econô mica e financeira nã o conseguiu
alterar de forma efetiva as precá rias condiçõ es de vida da populaçã o.
c) reestruturou economicamente as novas naçõ es, uma vez que elas deixaram de produzir para
os mercados externos e voltaram-se para as necessidades da populaçã o local.
d) alterou sensivelmente o papel das antigas colô nias na divisã o internacional de trabalho,
uma vez que estas passaram a ter autonomia econô mica.
e) possibilitou a superaçã o das relaçõ es de subordinaçã o econô mica das antigas colô nias
através do desenvolvimento de atividades industriais modernas.
Pá gina 179

Geografia e Sociologia
As mulheres não são homens
[…] Sob formas que variam consoante o tempo e o lugar, as mulheres têm sido consideradas
como seres cuja humanidade é problemá tica (mais perigosa ou menos capaz) quando
comparada com a dos homens. À dominaçã o sexual que este preconceito gera chamamos
patriarcado e ao senso comum que o alimenta e reproduz, cultura patriarcal.

A persistência histó rica desta cultura é tã o forte que mesmo nas regiõ es do mundo em que ela
foi oficialmente superada pela consagraçã o constitucional da igualdade sexual, as prá ticas
quotidianas das instituiçõ es e das relaçõ es sociais continuam a reproduzir o preconceito e a
desigualdade. Ser feminista hoje significa reconhecer que tal discriminaçã o existe e é injusta e
desejar activamente que ela seja eliminada. Nas actuais condiçõ es histó ricas, falar de natureza
humana como se ela fosse sexualmente indiferente, seja no plano filosó fico seja no plano
político, é pactuar com o patriarcado.

A cultura patriarcal vem de longe e atravessa tanto a cultura ocidental como as culturas
africanas, indígenas e islâ micas. Para Aristó teles, a mulher é um homem mutilado e para Sã o
Tomá s de Aquino [...] o nascimento de uma mulher é sinal da debilidade do procriador. Esta
cultura, ancorada por vezes em textos sagrados (Bíblia e Corã o), tem estado sempre ao serviço
da economia política dominante que, nos tempos modernos, tem sido o capitalismo e o
colonialismo. [...]

[…] Em Portugal, morreram 43 mulheres em 2010, vítimas de violência doméstica. Na Cidade


Juarez (México) foram assassinadas nos ú ltimos anos 427 mulheres, todas jovens e pobres,
trabalhadoras nas fá bricas do capitalismo selvagem, as maquiladoras, um crime organizado
hoje conhecido por feminicídio. Em vá rios países de Á frica, continua a praticar-se a mutilaçã o
genital. Na Ará bia Saudita, até há pouco, as mulheres nem sequer tinham certificado de
nascimento. [...]

Mas a cultura patriarcal tem, em certos contextos, uma outra dimensã o particularmente
perversa: a de criar a ideia na opiniã o pú blica de que as mulheres sã o oprimidas e, como tal,
vítimas indefesas e silenciosas.

Este estereó tipo torna possível ignorar ou desvalorizar as lutas de resistência e a capacidade
de inovaçã o política das mulheres. É assim que se ignora o papel fundamental das mulheres na
revoluçã o do Egipto ou na luta contra a pilhagem da terra na Índia; a acçã o política das
mulheres que lideram os municípios em tantas pequenas cidades africanas e a sua luta contra
o machismo dos líderes partidá rios que bloqueiam o acesso das mulheres ao poder político
nacional; a luta incessante e cheia de riscos pela puniçã o dos criminosos levada a cabo pelas
mã es das jovens assassinadas em Cidade Juarez; as conquistas das mulheres indígenas e
islâ micas na luta pela igualdade e pelo respeito da diferença, transformando por dentro as
culturas a que pertencem […]

SANTOS, Boaventura de Sousa. As mulheres nã o sã o homens. [Mantida a grafia original.] Carta Maior, 9 mar. 2011. Disponível em:
<http://www.cartamaior.com.br/templates/colunaMostrar.cfm?coluna_id=4984>. Acesso em: 18 abr. 2016.
Khalil Senosi/AP Photo/Glow Images

Mulheres de vá rios países africanos participam da Marcha Mundial das Mulheres em protesto contra todas as formas
de violência e discriminaçã o por gênero, como a mutilaçã o ou o casamento precoce. Nairó bi, Quênia. Foto de 2015.

PARA ELABORAR

1. No ano de 2014, foi incluído no Art. 121 do Decreto-Lei n. 2 848, de 7 de dezembro de 1940
(Có digo Penal), o seguinte texto:

Feminicídio (incluído pela Lei n. 13 142, de 2015):


VI. contra a mulher por razõ es da condiçã o de sexo feminino:
[…]
§ 2º Considera-se que há razõ es de condiçã o de sexo feminino quando o crime envolve:
I. violência doméstica e familiar;
II. menosprezo ou discriminaçã o à condiçã o de mulher.
Em virtude desse novo decreto, estabeleceram o aumento da pena se o crime for cometido contra
gestantes, menores de 14 anos, pessoas com deficiência e na presença de parentes pró ximos.
Discuta com mais um colega quais os possíveis motivos para essa mudança na lei.

2. A brutalidade contra as mulheres, evidentemente, nã o é uma questã o apenas do México e


dos países menos desenvolvidos. Pesquise sobre o assunto em jornais, revistas e na internet.
Depois, em grupo, utilize um mapa-mú ndi para apontar a violência contra a mulher nos países
considerados mais desenvolvidos do mundo.
Pá gina 180

Projeto
Dossiê “Disputas territoriais no século XXI”
O que você vai fazer

Neste projeto semestral, você e os colegas vã o elaborar um dossiê sobre disputas


territoriais neste início de século envolvendo um ou mais países e, depois, vã o
apresentá -lo em forma de seminá rio.

O objetivo é utilizar os conhecimentos de Geografia e de outras disciplinas, como


Histó ria, Sociologia, Filosofia, Biologia e Química, para compreender os fatores
relacionados ao surgimento de tais disputas e à s dificuldades em resolvê-las.

A elaboração do projeto contará com as etapas descritas a seguir.

1. Levantamento de dados

Sua classe será organizada em seis grupos. Cada grupo vai escolher um dos
continentes a seguir para realizar uma pesquisa sobre disputas territoriais:

Grupo 1: Américas

Grupo 2: Europa

Grupo 3: Á sia

Grupo 4: Oceania

Grupo 5: Á frica

Grupo 6: Antá rtida

Apó s a identificaçã o das disputas territoriais que ocorrem no continente escolhido


pelo grupo, selecione com os colegas um desses conflitos para aprofundar as
pesquisas.

Levante dados e informaçõ es sobre:

• Causas – Contextualize a partir de fatos histó ricos os principais motivos para o litígio
na regiã o.

• Consequências – Quais os impactos que as populaçõ es dos países envolvidos


sofreram? Os embargos sã o exemplos ou ameaças de invasã o militar?
• Quais acordos de paz já foram feitos? Quais sã o as dificuldades para a resoluçã o e
qual é a situaçã o atual do conflito escolhido pelo grupo?

Busque mapas, grá ficos e outros tipos de imagens sobre o conflito.

Consulte sites, jornais, vídeos de programas de TV, livros, artigos científicos e


relató rios de organizaçõ es internacionais.

2. Elaboração do dossiê

Com as informaçõ es e os dados coletados, elaborem uma apresentaçã o,


preferencialmente a ser exibida em recurso audiovisual (vídeo, áudio, etc.) ou editor
de slides. Exponham um panorama geral das disputas territoriais presentes no
continente no século XXI, mencionando os principais conflitos, e, em seguida,
apresentem de forma detalhada a disputa selecionada pelo grupo. Utilizem mapas,
fotos, quadros, tabelas, grá ficos e demais recursos para ilustrar e organizar os dados e
as informaçõ es.
Pá gina 181

3. Apresentação do seminário

Ao longo da apresentaçã o do seminá rio, busquem expor, de forma crítica, a opiniã o do


grupo a respeito do perfil da disputa territorial selecionada. Façam uso de seus
conhecimentos geográ ficos, histó ricos, socioló gicos e filosó ficos para refletir sobre as
causas e as consequências de tais disputas, bem como para elaborar críticas sobre o
tema. Utilizem os seus conhecimentos de Geografia, Biologia e Histó ria para analisar
os conflitos envolvendo a posse, o controle e a exploraçã o de recursos naturais, como
terras agricultá veis, mananciais, espécies de fauna e flora, minérios, combustíveis
fó sseis, etc. Com o auxílio dos professores das disciplinas mencionadas, pesquisem a
importâ ncia econô mica e estratégica, em escala mundial, nacional e local, do controle e
da exploraçã o dos recursos naturais presentes nas á reas em disputa, como o seu uso
na produçã o de mercadorias.

Destaquem a distribuiçã o espacial dos conflitos, os principais casos e as reflexõ es do


grupo sobre o assunto.

JeremyRichards/Shutterstock.com/ID/BR

Desde o século XIX, a disputa entre Argentina e Reino Unido pelas estratégicas ilhas Malvinas (arquipélago localizado
no extremo sul da América do Sul) é um exemplo de á rea litigiosa sobre a qual a Argentina reivindica soberania. Em
poder dos britâ nicos, é um territó rio ultramarino, e sucessivos governos argentinos tentam uma soluçã o diplomá tica.
Foto da capital Stanley, das Falkland Islands, 2015.

4. Discussões

Depois da apresentaçã o do seminá rio, reú nam-se com os outros grupos e discutam as
semelhanças e as diferenças entre os conflitos apresentados. Busquem refletir sobre as
características econô micas, sociais, políticas e ambientais relacionadas à s disputas
territoriais.

Navegue
Environmental justice atlas
Atlas on-line (em inglê s) com mais de 1 500 conflitos relacionados a questõ es ambientais, mapeados em todos os
continentes. Disponível em: <http://linkte.me/ejatlas>. Acesso em: 19 abr. 2016.
Mundo tem 189 regiões de disputa territorial
O artigo da revista Exame relaciona alguns dos principais conflitos territoriais que se estendem há muitos anos. Disponível
em: <http://linkte.me/disputas>. Acesso em: 22 abr. 2016.
The World Factbook
Com enfoque em relaçõ es internacionais, o site da CIA (em inglê s) divulga informaçõ es sobre sociedade, economia e cultura
dos países do mundo e é atualizado anualmente.
Também traz uma lista dos principais conflitos internacionais contemporâ neos. Disponível em:
<http://linkte.me/factbook>. Acesso em: 9 abr. 2016.

Leia
Atlas da situação mundial, de Dan Smith. Sã o Paulo: Companhia Editora Nacional, 2007.
O livro aborda os conflitos geopolíticos do sé culo XXI, da Á frica aos países do Oriente Mé dio, Europa e Amé ricas.
Pá gina 182

Os desafios
UNIDADE 4

geopolíticos do século
XXI
NESTA UNIDADE
13 Geopolítica dos recursos naturais
14 Geopolítica do petróleo
15 Geopolítica dos alimentos
16 Geopolítica da produção

Há várias diferenças entre o conceito de geopolítica e o de geografia


política.

A geopolítica é um saber prático, comprometido com as estratégias de


poder dos Estados em sua dimensão espacial. Já a geografia política é
um ramo da ciência geográfica que estuda a distribuição dos Estados
no planeta, a organização dos territórios e as fronteiras.

Atualmente, uma das chaves das questões geopolíticas é o controle dos


recursos naturais, dos alimentos e da produção de armas, energia e
conhecimento. Tal controle tem caráter estratégico e, portanto, é
fundamental para o grupo que o detém, seja um Estado, seja uma
multinacional.

QUESTÕES PARA REFLETIR

1. O que distingue geografia política e geopolítica?

2. A produçã o de alimentos no mundo é questã o de soberania nacional e garantia


da qualidade de vida. Discuta com mais um colega sobre como essa produçã o pode
se transformar em uma questã o geopolítica.
Pá gina 183

Edwin Remsberg/Getty Images

Plantação de milho em Maryland, Estados Unidos. Foto de 2015. Nos Estados Unidos, cerca de metade do
milho cultivado é destinada à alimentação animal. O cereal também é aproveitado para alimentação humana
e para produção de adoçantes, amido e combustível.
Pá gina 184

Geopolítica dos
CAPÍTULO 13

recursos naturais
O QUE VOCÊ VAI ESTUDAR
O uso da á gua.
Á guas compartilhadas e águas fronteiriças – conflitos.
Geopolítica dos recursos minerais e energé ticos.
Fontes alternativas de energia.

O interesse de diferentes naçõ es pelos mesmos recursos faz da gestã o de recursos naturais uma questã o
geopolítica. Simultaneamente, o fato de muitos recursos serem finitos, quando se considera o ritmo de
exploraçã o econô mica, gera a necessidade de pensá -los como fatores estratégicos para o desenvolvimento
econô mico de um país.

A acelerada urbanizaçã o e novos há bitos de consumo, sobretudo a partir da segunda metade do século XX,
levaram a um aumento vertiginoso do consumo mundial de á gua e de recursos minerais como o petró leo. Além
de a á gua doce ser escassa e distribuir-se de forma irregular, a apropriaçã o indevida e o uso irracional desse
recurso podem deflagrar disputas.

A perspectiva de esgotamento das fontes de energia tradicionais, tais como carvã o e petró leo, assim como o
monopó lio de exploraçã o desses recursos e os graves impactos ambientais dela decorrentes têm impulsionado
a busca por outras fontes de energia. Da mesma forma, novas disputas geopolíticas podem ser motivadas pelo
domínio de recursos energéticos e posicionar algumas naçõ es em vantagem em relaçã o a outras.

De modo gradual, grande parte dos países está aderindo a políticas de incentivo ao uso de fontes energéticas
renová veis. Destas fontes, as mais utilizadas sã o as obtidas a partir da biomassa, da á gua (hidreletricidade) e
das energias solar e geotérmica.

João Miguel A. Moreira/ID/BR

Fonte de pequisa: GIWA. Mekong River – GIWA Regional assessment 55. Disponível em:
<www.unep.org/dewa/giwa/reports/r55/giwa_regional_assessment_55.pdf>. Acesso em: 29 maio 2015.
Thoai/Shutterstock.com/ID/BR

A cidade de Soc Trang, no Vietnã , está situada na foz do rio Mekong. Na foto, é possível observar o mercado flutuante
realizado nessa cidade, no delta do Mekong, em 2016.

Observe o mapa e a fotografia acima e responda à s questõ es.

1. Quantos e quais sã o os países abrangidos pela bacia do rio Mekong?

2. A foto mostra um local na foz do rio Mekong no Vietnã . Considerando que os países banhados por essa bacia
têm problemas de saneamento bá sico, como as populaçõ es que fazem uso da á gua desse rio podem ser
impactadas pela poluição hídrica?
Pá gina 185

A disputa pela água e os conflitos

Há no mundo 286 bacias compartilhadas por 151 países, sendo 64 na Á frica e 68 na Europa.
Observe a tabela a seguir. As á guas de rios, mares e lagos que dividem países sã o, por
convençã o internacional, consideradas compartilhadas – sã o as chamadas águas
transfronteiriças. Existem também aquíferos subterrâneos que, por vezes, abrangem vá rios
países, como é o caso do Aquífero Guarani, que se estende por quatro países: Brasil, Argentina,
Paraguai e Uruguai.

Em bacias hidrográ ficas que abrangem diferentes países, o uso das á guas de um rio pode levar
a conflitos internacionais. Um programa de irrigaçã o ou a construçã o de barragens que
ocorrem em um país a montante pode alterar a vazã o do rio e impedir a prá tica da irrigaçã o
em outro país a jusante.

Jusante: na direçã o da foz de um rio.

Montante: na direçã o da nascente de um rio.

O manejo inadequado dos recursos hídricos em um país pode comprometer a qualidade da


á gua que chega a outros países. Os rios podem transportar poluiçã o proveniente do uso de
pesticidas na agricultura, além de resíduos industriais ou á guas contaminadas pelo uso
doméstico, exemplo do que ocorreu em 2010 quando um vazamento de resíduos químicos na
Hungria contaminou o rio Danú bio, afetando mais cinco países banhados pelo rio.

Na América do Norte, o uso das á guas dos rios Colorado e Grande por indú strias e na
agricultura dos Estados Unidos diminuiu enormemente a quantidade de á gua recebida pelo
México. Esse fato é motivo permanente de tensõ es entre esses países. É importante que os
países que se enquadram nessas situaçõ es estabeleçam acordos diplomá ticos para a gestã o e a
proteçã o compartilhada do recurso, evitando assim o uso da á gua como instrumento de poder
de uma naçã o sobre outra.

Muitos países nã o dispõ em de mananciais dentro de suas fronteiras e, por isso, dependem do
abastecimento de países vizinhos. A fim de evitar essa dependência e visando à segurança
hídrica de sua populaçã o, os países afetados desenvolvem açõ es para prevenir a escassez e
abastecer a populaçã o, a indú stria e a agricultura. Entre as obras mais comuns estã o as usinas
de dessalinizaçã o, os projetos de transposiçã o de rios e mares e o uso de á gua subterrâ nea.

Bacias hidrográficas unem países

Bacia fluvial Número de dependentes Países e territórios


dependentes da bacia
Danúbio 18 Albâ nia, Alemanha, Á ustria, Bó snia-
Herzegovina, Bulgá ria, Croá cia,
Eslová quia, Eslovênia, Hungria,
Itá lia, Macedô nia, Montenegro,
Polô nia, Repú blica Tcheca, Romênia,
Sérvia, Suíça, Ucrâ nia
Congo 14 Angola, Burundi, Camarõ es, Congo,
Gabã o, Malauí, Repú blica Centro-
Africana, Repú blica Democrá tica do
Congo, Ruanda, Sudã o, Sudã o do Sul,
Tanzâ nia, Uganda, Zâmbia
Nilo 12 Burundi, Egito, Eritreia, Etió pia,
Quênia, Repú blica Centro-Africana,
Repú blica Democrá tica do Congo,
Ruanda, Sudã o, Sudã o do Sul,
Tanzâ nia, Uganda
Níger 11 Argélia, Benin, Burkina Faso,
Camarõ es, Chade, Costa do Marfim,
Guiné, Mali, Níger, Nigéria, Serra
Leoa
Amazonas 9 Bolívia, Brasil, Colô mbia, Equador,
Guiana, Guiana Francesa, Peru,
Suriname, Venezuela
Reno 9 Alemanha, Á ustria, Bélgica, França,
Itá lia, Liechtenstein, Luxemburgo,
Países Baixos, Suíça
Zambeze 9 Angola, Botsuana, Malauí,
Moçambique, Namíbia, Repú blica
Democrá tica do Congo, Tanzâ nia,
Zâmbia, Zimbábue
Lago Chade 8 Argélia, Camarõ es, Chade, Líbia,
Níger, Nigéria, Repú blica Centro-
Africana, Sudã o Mar de Aral 8
Afeganistã o, China, Casaquistã o,
Paquistã o, Quirguistã o, Tadjiquistã o,
Turcomenistã o, Uzbequistã o
Jordão 6 Egito, Israel, Jordâ nia, Líbano, Síria,
territó rios ocupados da Palestina
Mekong 6 Camboja, China, Mianma, Laos,
Tailâ ndia, Vietnã
Ganges-Brahmaputra-Meghna 6 Bangladesh, Butã o, China, Índia,
Mianma, Nepal
Tigre-Eufrates 6 Arábia Saudita, Irã , Iraque, Jordâ nia,
Síria, Turquia
Indo 5 Afeganistã o, China, Índia, Nepal,
Paquistã o
Neman 5 Belarus, Letô nia, Lituâ nia, Polô nia,
Rú ssia
Prata 5 Argentina, Bolívia, Brasil, Paraguai,
Uruguai

Fonte de pesquisa: UNEP-DHI and UNEP (2016). Transboundary river basins: status and trends. United Nations Environment
Programme (UNEP), Nairobi. Disponível em: <http://twap-rivers.org/assets/GEF_TWAPRB_FullTechnicalReport.pdf>. Acesso em:
27 mar. 2016.
Pá gina 186

Acordos internacionais pela gestão da água


A gestã o de á guas transfronteiriças deve ser compartilhada. Há mais de 3 mil acordos entre
países sobre o uso e a gestã o dessas á guas, tanto de rios como de lagos e mares internos.
Alguns exemplos de atividades reguladas por acordos em bacias compartilhadas sã o: o uso de
á gua para irrigaçã o, a pesca, a instalaçã o de indú strias, a navegaçã o, o controle de enchentes e
a instalaçã o de hidrelétricas.

Qualquer obra de engenharia em á guas transfronteiriças deve ser fruto de acordos de


cooperaçã o internacional. A usina hidrelétrica de Itaipu é um exemplo disso, pois está
localizada no rio Paraná , na fronteira entre o Brasil e o Paraguai, e foi construída com base em
um acordo estabelecido entre os dois países, o Tratado de Itaipu.

Em casos de vazamento químico ou derramamento de ó leo em um rio internacional, a


contaminaçã o resultante afeta a qualidade da á gua e coloca em risco a populaçã o dos países
em ambos os lados da fronteira.

A Convençã o pela Proteçã o do rio Danú bio é um exemplo de acordo internacional para a
navegaçã o e proteçã o do rio.

O compartilhamento de recursos hídricos também pode ser tema de acordos internacionais. O


protocolo de Damasco (1987), por exemplo, estabelece o uso da á gua do rio Eufrates pela
Turquia e pelo Iraque (leia o boxe a seguir). Entre Israel e Jordâ nia um Tratado de Paz dispõ e
regras sobre a gestã o das á guas do rio Jordã o.

Muitas vezes, porém, os acordos sã o desrespeitados. A gestã o de recursos hídricos


compartilhados pode ser um motivo para a consolidaçã o de relaçõ es de paz ou, ao contrá rio,
pretexto para conflitos e guerras. Cabe aos países decidir por qual via optar.

De Agostini/Getty Images

Vale do rio Eufrates na Turquia. Foto de 2016.

CONEXÃO

Projetos hidráulicos ambiciosos


Levar á gua para regiõ es onde o recurso é escasso é um desafio que tem sido enfrentado por muitos
países. É o que ocorre na bacia dos rios Tigre e Eufrates, cujas á guas irrigam á reas do Iraque, da
Síria e da Turquia e que pode ter sua vazã o reduzida nos pró ximos anos.

O governo turco prevê a construçã o de 22 barragens para irrigar uma á rea superior a 1,7 milhã o de
hectares de terra, que faz parte do Projeto da Grande Anató lia, até o fim de 2020. Se efetivado,
poderá reduzir o volume de á gua do rio Eufrates em até um terço, afetando regiõ es muito
populosas da Síria e do Iraque, que teriam menos á gua para seu abastecimento.

1. Analise o mapa e discuta com um colega se as á reas ocupadas pelo Isis em 2015 sã o importantes
do ponto de vista hídrico.

2. Em sua opiniã o, a á rea onde há maioria da populaçã o curda é estratégica em relaçã o aos recursos
hídricos?

3. Como o controle do acesso à á gua pode afetar a saú de da populaçã o que vive à jusante do rio
Eufrates?

João Miguel A. Moreira/ID/BR

Fonte de pesquisa: Bloomberg. Disponível em: <http://www.bloomberg.com/news/articles/2015-07-01/water-shortages-unite-


iraq-islamic-stateagainst-turkey>. Acesso em: 26 maio 2016.

Leia
O atlas da água, de Robin Clarke e Jannet King. Sã o Paulo: Publifolha, 2006.
O livro traz muitas informaçõ es, mapas e estatísticas sobre a escassez de á gua, secas, inundaçõ es e conflitos internacionais
por causa desse recurso natural, além de outros temas. Os autores també m comentam os modos como a á gua vem sendo
utilizada em vá rios países, além de oferecerem pá ginas exclusivas sobre o panorama brasileiro.
Pá gina 187

Geopolítica dos recursos minerais e energéticos

A energia é indispensá vel à s sociedades, seja para uso industrial, seja para uso doméstico. O
conhecimento e o domínio das técnicas de transformaçã o dos recursos naturais em fontes de
energia têm sido fatores de estímulo para o desenvolvimento de muitos países.

A soberania de um país se dá nã o somente pelo controle de suas fronteiras, mas também pelo
domínio de suas reservas naturais em benefício da populaçã o nacional. Em um país com
abundâ ncia em determinado recurso natural, é fundamental controlar o uso desse recurso, de
modo a minimizar os impactos ambientais decorrentes de sua extraçã o e evitar sua escassez.

Os recursos minerais apresentam importâ ncia estratégica para as sociedades. Uma das
principais indú strias do século XXI, a indú stria armamentista, depende diretamente desse tipo
de recursos. Em tempos de guerra, a disponibilidade de minérios pode ser decisiva para uma
campanha. A corrida nuclear implementada no período da Guerra Fria (1945-1991) dependia
da disponibilidade de minerais radioativos (urâ nio, por exemplo), matéria-prima para
construçã o de armas nucleares.

Mesmo que a tecnologia nuclear seja utilizada para fins pacíficos, como em equipamentos
médicos e na produçã o de eletricidade por usinas nucleares, sua posse é motivo de preo-
cupaçã o para a comunidade internacional, pois há riscos de que tal tecnologia venha a ser
usada com objetivos militares.

Guillaume Souvant/AFP

Central nuclear de Civaux, França. Foto de 2016. Atualmente, a França é o país mais dependente de fontes nucleares
de energia. Em 2016, cerca de 75% da produçã o de eletricidade francesa tinha origem nuclear.

GEOGRAFIA E HISTÓRIA

Recursos naturais na Bolívia

A Bolívia é um país rico em gá s natural, petró leo e outros recursos minerais. Entretanto, no período
colonial, essa riqueza foi motivo de sofrimento para seu povo. Primeiramente, houve o saque das
minas de prata do Potosí pelos colonizadores espanhó is.
Séculos depois, a Bolívia chegou a produzir mais da metade de todo o estanho consumido no
mundo. A extraçã o desse metal era feita em minas insalubres, e a atividade causava um nú mero
muito elevado de mortes. Quase todo o minério extraído era processado na Inglaterra.

Assim como a Bolívia, vá rios outros países passaram por expe riências semelhantes. Atualmente, o
gá s natural é a maior fonte de divisas da Bolívia. Grande parte desse gá s é exportada para países
vizinhos, como o Brasil e a Argentina.

1. Durante a década de 2010, sob pressã o dos movimentos populares, que reivindicavam a
apropriaçã o e distribuiçã o da renda gerada a partir das exportaçõ es dos recursos minerais, o
governo boliviano nacionalizou uma empresa canadense de petró leo e gá s natural. Na sua opiniã o,
quais sã o as consequências positivas e negativas dessa política?

The Granger Collection/Glow Images

Reproduçã o de xilogravura publicada no livro História do descobrimento e conquista das províncias do Peru, de
Augustin de Zarate (Londres, 1581), retratando a vila de Potosí, na atual Bolívia. A vila foi a maior produtora de prata
do mundo no século XVII.
Pá gina 188

A exploração de recursos naturais até o século XX


No período colonial, as investidas dos colonizadores europeus na América, Á sia e Á frica
retiraram desses continentes uma grande quantidade de ouro e prata, além de diamantes e
outras pedras preciosas. Também houve interesse pelo patrimô nio vegetal desses territó rios.
O pau-brasil é um exemplo, mas há muitos outros, como o chá , a canela, o cacau, a cana-de-
açú car e a banana, além do sal indiano, do estanho boliviano e do cobre chileno, que muitas
vezes foram explorados à exaustã o.

O fim do período colonial impô s à s grandes potências novas formas de relacionamento com os
países recém-independentes, visando à extraçã o de seus recursos naturais.

Com a Revoluçã o Industrial, o carvã o vegetal cedeu lugar ao carvã o mineral, que era utilizado
nos altos-fornos das siderú rgicas e formava a liga para o aço, que era amplamente empregado
na produçã o de má quinas, meios de transporte e mercadorias. Durante essa fase inicial do
capitalismo, a indú stria concentrava-se em um pequeno nú mero de países e utilizava matérias-
primas oriundas dos mais diversos lugares do mundo.

Ainda assim, a disputa pela posse de jazidas minerais levou a conflitos, como a Guerra Franco-
Prussiana (1870-1871), em que estavam em jogo as minas de ferro da regiã o de Lorena, na
fronteira entre a França e a Alemanha.

O petróleo e a eletricidade
No século XX, com a Segunda Revoluçã o Industrial, o petróleo e a eletricidade tornaram-se
bens preciosos.

O petró leo mudou a ordem geopolítica global – possuir esse recurso passou a ser uma
vantagem estratégica muito importante nessa nova fase do capitalismo financeiro, com a fusã o
entre indú strias e sistemas bancá rios. Associado a esse fato, a indú stria de automó veis cresceu
enormemente e gerou uma ampla reorganizaçã o do espaço em todo o mundo.

A eletricidade, por sua vez, foi sendo implementada em larga escala para usos industrial e
doméstico, causando também forte impacto na organizaçã o do espaço geo grá fico mundial. A
eletricidade era gerada por fontes térmicas (usinas termelétricas à base de carvã o mineral ou
vegetal e usinas nucleares) ou por força hidrá ulica (usinas hidrelétricas). O emprego da
eletricidade como força motriz libertou as indú strias da localizaçã o tradicional, nas
proximidades das bacias carboníferas, e ampliou de maneira significativa as opçõ es para sua
localizaçã o. Assim, a produção energética passou a ser extremamente importante para os
países.

Nas ú ltimas décadas, o debate em torno da questã o ambiental envolvendo os malefícios do uso
de combustíveis fó sseis (carvã o, petró leo e gá s natural) na produçã o de eletricidade revelou a
importâ ncia da geraçã o de energia a partir de fontes renová veis. Entretanto, como se pode ver
no grá fico a seguir, a energia de fontes convencionais ainda predomina no mundo.
Adilson Secco/ID/BR

Fonte de Pesquisa: Renewable Energy Policy Network for the 21st century (REN21). Renewables 2015 Global Status Report, p. 31.
Disponível em: <http://www.ren21.net/status-of-renewables/global-status-report/>. Acesso em: 30 mar. 2016.
Pá gina 189

As fontes alternativas de energia

A sociedade atual é muito dependente de fontes de energia. A possibilidade de esgotamento de


recursos energéticos – como o carvã o vegetal e o mineral, o petró leo e o gá s natural – e os
efeitos nocivos ao meio ambiente da queima de combustíveis fó sseis levaram à busca de
soluçõ es alternativas e economicamente viá veis de produçã o energética. Entre essas
alternativas, estã o o aproveitamento da energia solar, dos ventos (energia eó lica), das marés,
a energia geotérmica (obtida a partir do calor do interior da Terra) e abiomassa. Para
aproveitar ao má ximo essas alternativas, é necessá rio que um país disponha em seu territó rio
das condiçõ es apropriadas para sua obtençã o.

Países situados em á reas com atividade tectônica intensa, como Islâ ndia, Nova Zelâ ndia,
Japã o, México, Filipinas e Estados Unidos, podem utilizar o potencial geotérmico como fonte de
energia. Os países localizados na zona intertropical recebem grande insolaçã o o ano todo, o
que é uma enorme vantagem em relaçã o aos países das zonas temperadas e pró ximos das
zonas polares. O Sol, além de fornecer luz e calor, propicia o surgimento de densas florestas de
enorme biodiversidade. O aproveitamento da energia solar e da biomassa pode ser muito
importante para o desenvolvimento das naçõ es da zona intertropical.

A extensã o territorial também é uma vantagem estratégica no cená rio energético global. Brasil,
Índia, Austrá lia, Repú blica Democrá tica do Congo e Angola podem tornar-se importantes
produtores de energia solar. O uso da biomassa já é uma realidade em vá rios países, como
Brasil, China e Estados Unidos.

VCG/Getty Images

Painéis solares, posicionados em uma lagoa de pesca, para produçã o de energia elétrica em Lianyungang, China. Foto
de 2016.

AÇÃO E CIDADANIA

Energia renovável é opção para agricultores familiares

É na zona rural do município de Quixeré, a 218 quilô metros da capital cearense, Fortaleza, que
funciona a fá brica de polpa de frutas da Comunidade de Barreiras. Lá , toda a energia utilizada
na confecçã o do produto é renová vel.
[...] Francisco Ednaldo [agricultor] conseguiu o maquiná rio por meio do Fundo Estadual de
Desenvolvi mento da Agricultura Familiar (Fedaf). Mas, a partir de agora, agricultores
familiares e assentados da reforma agrá ria têm mais uma opçã o para adquirir equipamentos
de geraçã o de energia solar e eó lica, por um preço abaixo do praticado no mercado. O
programa [...] do Ministério do Desenvolvimento Agrá rio (MDA) incluiu essas opçõ es em seu
catá logo de má quinas disponíveis para financiamento. [...] A utilizaçã o de energia renová vel no
campo pode ajudar a aumentar a produtividade e também levar mais condiçõ es
ambientalmente corretas. Esse tipo de energia tem ampla variedade de aplicaçõ es no meio
rural, como as placas fotovoltaicas – agora disponíveis no catálogo do programa [...].

NAVARRO, Tá sia. Energia renovável é opçã o para agricultores familiares. Ministério do Desenvolvimento Agrá rio, 19 fev. 2016.
Disponível em: <http://www.mda.gov.br/sitemda/noticias/energia-renov%C3%A1vel-%C3%A9-op%C3%A7%C3%A3o-para-
agricultores-familiares>. Acesso em: 29 mar. 2016.

1. A agricultura familiar garante mais de 70% dos produtos alimentares dos brasileiros. Em sua
opiniã o, quais sã o as vantagens, nesse setor, dos investimentos em energia renová vel?

2. Pesquise se no município onde você vive há iniciativas de geraçã o de energia a partir de fontes
renová veis. Compartilhe as informaçõ es com os colegas.
Pá gina 190

A biomassa e a produção energética

Entre as alternativas de energia renová vel, a que suscita mais debates e tem o maior papel
estratégico como substituta dos combustíveis fó sseis é a biomassa.

A biomassa pode ser utilizada como fonte de energia. Ela pode ser de origem florestal, agrícola,
animal e também ser gerada dos resíduos urbanos, como o lixo. Para utilizá -la como fonte de
energia, o processo de transformaçã o química da matéria deve resultar em hidratos de
carbono, que sã o importantes reservas de energia. A formaçã o das plantas se dá por meio da
fixaçã o de CO2 do ar e da á gua, com absorçã o da energia proveniente do sol e a formaçã o de
hidratos de carbono.

Os principais produtos derivados da biomassa para a produçã o de biocombustíveis sã o o


etanol e os ó leos vegetais, como o biodiesel.

O etanol é a energia que passou da forma só lida (açú car) para a forma líquida, que sã o os
á lcoois, e é utilizado em substituiçã o à gasolina.

O biodiesel é produzido a partir de matérias-primas como a mamona, o girassol, a soja, o


dendê e o babaçu, e é utilizado em substituiçã o ao ó leo diesel. Outras alternativas estã o sendo
implementadas gradualmente, como o sorgo e a batata-doce na China, e a madeira e cereais na
Uniã o Europeia.

Grá ficos: Adilson Secco/ID/BR


Fonte de pesquisa: OECD/FAO (2015), Biofuels, in OECD-FAO Agricultural Outlook 2015, OECD Publishing, Paris. Disponível em:
<http://dx.doi.org/10.1787/agr_outlook-2015-13-en>. Acesso em: 26 maio 2016.

O Brasil e a biomassa
O á lcool e o biodiesel sã o produtos altamente estratégicos como alternativas ao petró leo,
podendo redirecionar o eixo geo político mundial. Nesse sentido, o Brasil desponta como a
grande potência mundial no uso de energia renová vel, já que possui o maior potencial de
exploraçã o de biomassa do planeta.

Além disso, o Brasil detém imensas florestas, fartura de á gua, energia solar abundante. Esse
conjunto de fatores coloca o país em condiçã o privilegiada em relaçã o a outros países.

É sempre importante observar que a geraçã o de energia limpa está relacionada não só à s
condiçõ es naturais dos países, mas também ao domínio tecnoló gico que permite seu
aproveitamento.

Em busca do aumento da eficá cia das fontes energéticas mais limpas e da reduçã o de custos, o
Brasil entrou em um novo ciclo na produçã o de etanol. O país é pioneiro na produçã o de
motores bicombustíveis e exporta tecnologia e equipamentos para países da Á sia e da Á frica,
tornando-se parceiro comercial estratégico deles. Veja, nos grá ficos ao lado, os países que
dominam a produçã o desse biocombustível e as estimativas de produçã o para 2024.

SAIBA MAIS

O programa Proálcool

Em 1975, em decorrência da primeira crise do petró leo, foi criado no Brasil o Programa Nacional
do Álcool (Proálcool), que tinha como objetivo substituir em larga escala os combustíveis
derivados do petró leo. Menos de dez anos depois, os elevados custos de produçã o na época e o
corte dos subsídios do governo levaram à falta do produto nas bombas. A produçã o de carros a
á lcool despencou, mas as pesquisas no setor continuaram. A popularizaçã o dos automó veis com
motores bicombustíveis deu novo impulso à produçã o e ao consumo de etanol no país.

Leia
A ordem ambiental internacional, de Wagner Costa Ribeiro. Sã o Paulo: Contexto, 2010.
O livro trata de modo didá tico de questõ es relativas ao ambiente e do papel geopolítico das açõ es ambientais em nível global.
Pá gina 191

Biocombustíveis e a Amazônia
As vantagens lucrativas da produçã o dos biocombustíveis, cuja demanda é cada vez mais
crescente, sã o atraentes aos produtores, que tendem a expandir as fronteiras agrícolas
brasileiras nas regiõ es Centro-Oeste e Norte. Trata-se de um processo polêmico, no qual a
expansã o de á reas agrícolas, com plantaçõ es de cana-de-açú car e soja, avança sobre terras da
Amazô nia e provoca a devastaçã o da floresta e de sua biodiversidade.

No entanto, há projetos de utilizaçã o de plantas nativas ou adaptá veis à regiã o, que podem ser
alternativas sustentá veis de produçã o de biodiesel. O dendê, por exemplo, é considerado uma
“prima-irmã ” das palmeiras amazô nicas, sendo possível seu plantio como forma de
recuperaçã o de á reas degradadas na regiã o.

O babaçu também é uma alternativa, pois é uma planta nativa da qual é possível extrair
biodiesel (da amêndoa) e etanol (do amido presente na polpa). Pode-se ainda fazer carvã o
vegetal de alto rendimento da casca do coco, já que esta concentra grande quantidade de
carbono.

Outra questã o relacionada à Amazô nia sã o as pesquisas sobre sua fauna e flora realizadas por
grupos estrangeiros sem a autorizaçã o do Estado. Por meio dessa prá tica, chamada de
biopirataria, esses grupos apropriam-se das potencialidades das riquezas naturais da regiã o.

Controle das fontes de biodiesel e segurança energética


A maior parte da produçã o de biodiesel tem como matriz a soja. O Brasil mantém-se como líder
em exportaçã o mundial do grã o. Isso traz vantagens em relaçã o a outros países, mas há um
risco grande de as empresas estadunidenses que controlam as patentes sobre asoja
transgênica monopolizarem e controlarem também a produçã o do biodiesel de soja.

A Embrapa vem desenvolvendo sementes oleaginosas e tecnologias para ampliar a capacidade


de produçã o e garantir que parte da produçã o de biodiesel seja feita utilizando-se outras
matrizes, como o dendê, o babaçu e o pinhã o-manso, todos eles muito mais produtivos que a
soja.

A segurança energética é a capacidade de um país de gerar de forma soberana e sustentá vel


a energia de que necessita para levar adiante seu desenvolvimento. Por meio da energia
renová vel, a segurança energética será alcançada quando forem desenvolvidas melhores
tecnologias para os motores a diesel, possibilitando a utilizaçã o de ó leo vegetal in natura.
Assim, os pequenos produtores poderã o produzir o ó leo que usam em seus equipamentos,
como tratores, caminhõ es e má quinas.
Antonio Scorza/AFP

Usina de biodiesel em Quixadá (CE). Foto de 2011.

Navegue
Portal brasileiro de energias renováveis
O portal conté m informaçõ es sobre vá rios tipos de energia renová vel, como biomassa, geoté rmica, hídrica e biogá s.
Disponível em: <http://linkte.me/pber>. Acesso em: 29 mar. 2016.
Pá gina 192

Informe
Os senhores da água
[...]

Desde tempos primó rdios, a á gua sempre foi um dos reguladores sociais mais importantes. As
estruturas das sociedades camponesas e das comunidades aldeã s, onde as condiçõ es de vida
estã o intimamente ligadas ao solo, eram organizadas ao redor da á gua. E, na grande maioria
dos casos, mesmo quando era considerada um bem comum, a á gua tornava-se uma fonte de
poder, tanto material quanto imaterial. Eram raros os casos em que todos os membros de uma
comunidade estivessem em um mesmo nível com relaçã o à á gua; o acesso a ela quase sempre
envolveu desigualdade.

[...]

Relaçõ es entre comunas sã o também, na grande maioria dos casos, marcadas por graus
variados de conflito. A palavra “rival” (ou “rivalidade”) vem do latim rivus (corrente ou
riacho); um rival, portanto, é alguém que, da margem oposta, usa a mesma fonte de á gua – daí
a ideia de perigo ou de ataque. Em suma, os senhores da á gua sempre existiram. [...]

O senhor da á gua obtém seu poder através da propriedade e do controle da á gua, ou através
dos mecanismos de acesso, apropriaçã o e uso em vigor, já que esses lhe permitem beneficiar-
se ao má ximo dos bens e serviços que a á gua gera ou faz ser possível gerar. O senhor da á gua é,
assim, capaz de ampliar sua capacidade de açã o (em termos de conhecimento, informaçã o,
tecnologia, finanças, relaçõ es sociais e poder cultural) e de perpetuar seu controle.

A legitimidade de seu poder depende, na maioria das vezes, de sua capacidade de prover
acesso (por mais desigual que esse seja) à s provisõ es de á gua para a comunidade sobre a qual
ele exerce sua autoridade, por meio de sistemas de captaçã o, bombeamento, canalizaçã o,
conservaçã o e manutençã o.

[...]

O tipo de conflito mais frequente nos dias de hoje envolve a competiçã o sobre os usos da á gua
que – como observamos brevemente antes – se tornam mutuamente exclusivos em uma
estrutura caracterizada pela falta de solidariedade e pela escassez crescente. [...]

O senhor da á gua nã o tem grande interesse na solidariedade demonstrada através de uma


distribuiçã o igualitá ria de bens e serviços gerados pela á gua, porque ele crê – e, portanto, teme
– que ela faria com que ele perdesse parte de sua riqueza. A seu ver, compartilhar é a origem
dos riscos, já que pode permitir que outros acumulem o suficiente e lhe tirem seu poder. Isso
explica por que, em todas as sociedades, o mais forte tende a manter ou a criar formas
desiguais de acesso aos recursos bá sicos.

Finalmente, os senhores da á gua obtêm seu poder através do aspecto simbó lico, sagrado,
místico da á gua. Em nossas pró prias sociedades de alta tecnologia, por exemplo, as barragens
desempenharam esse papel simbó lico ou místico; elas expressam o poder do homem de
controlar a á gua e de “alimentar” piscinas e reservató rios com ela.

Nos anos [19]50 e [19]60, principalmente no deserto californiano, a piscina particular juntou-
se ao carro como um símbolo de liberdade em um mundo “hollywoodiano” representativo da
América triunfante, que achava que merecia essa liberdade porque tinha demonstrado ser
mais poderosa tecnoló gica e economicamente que os demais. Hoje, uma forte e simbó lica carga
de poder e de progresso tecnoló gico também é atribuída à á gua mineral engarrafada, já que
essa é considerada á gua de alta qualidade, supostamente boa para a saú de e, por isso,
verdadeiramente uma fonte de vida.

PETRELLA, Riccardo. O manifesto da água: argumentos para um contrato mundial. Petró polis: Vozes, 2002. p. 59-63.

Câ ndido Neto/Opçã o Brasil Imagens

Indú stria de água mineral em Dom Expedito Lopes (PI). Foto de 2014.

PARA DISCUTIR

1. O texto faz uma crítica a respeito da apropriaçã o dos recursos hídricos como forma de
exercício do poder. As questõ es geopolíticas atuais envolvem nã o somente a disputa pela á gua
entre os Estados nacionais, mas também a mercantilizaçã o desse recurso. Como as empresas
podem acirrar os conflitos pela á gua?

2. Explique os interesses implícitos quando a á gua assume um “aspecto simbó lico, sagrado,
místico” nas diversas sociedades humanas.
Pá gina 193

Mundo Hoje
Geopolítica e ecologia dos mares fechados
Os mares fechados sã o superfícies líquidas que nã o possuem ligaçõ es com um outro mar ou
oceano. Por tradiçã o ou por sua dimensã o, nã o sã o identificados como lagos. Situados no
interior dos continentes, sã o “regulados” por rios que neles desá guam e, em alguns casos, por
á guas de degelo que descem das vertentes circundantes. Os mares Morto, Cá spio e de Aral sã o
exemplos típicos de mares fechados.

Situado entre Israel, a Cisjordâ nia e a Jordâ nia, o mar Morto é famoso por estar localizado na
maior depressã o continental do mundo e por seu alto índice de salinidade. No ú ltimo século,
perdeu cerca de 300 km2 de superfície e seu nível continua baixando, devido ao uso da á gua
dos rios que nele desá guam (especialmente o Jordã o) e à elevada evaporaçã o [ver mapa do
mar Morto].

Para evitar que o mar desapareça, as partes interessadas – Autoridade Palestina, Israel e
Jordâ nia – assinaram um acordo para “salvar” o mar. A ideia é desviar á gua do mar Vermelho
para o mar Morto por um canal de 80 quilô metros. [...]

Já o mar Cá spio localiza-se na Á sia Central e é dividido em três partes. Na parte norte, assenta-
se sobre uma depressã o absoluta com altitude média de 28 metros negativos. As porçõ es
central e sul apresentam profundidades bem maiores. Por conta do menor volume e
profundidade, e por estar junto a á reas continentais baixas, a porçã o norte é a mais vulnerá vel
à s variaçõ es de nível. É lá que desá gua o rio Volga, o mais importante afluente. Tudo o que
acontece ao longo dessa bacia, onde estã o as maiores concentraçõ es urbano-industriais da
Rú ssia, repercute sobre o mar [ver mapa da regiã o]. [...]

Ao longo do século XX, a soberania sobre o Cá spio foi compartilhada entre a Uniã o Soviética e o
Irã . Com a desintegraçã o da Uniã o Soviética, em 1991, o mar passou a banhar, além do litoral
do Irã , terras da Rú ssia, do Casaquistã o, do Turcomenistã o e do Azerbaijã o. A descoberta de
petró leo e gá s na á rea do Cá spio tornou mais complexo o quadro geopolítico. [...] Hoje, há
interesses conflitantes entre os cinco países no que se refere à definiçã o jurídica a ser aplicada,
especialmente em relaçã o à exploraçã o dos recursos da rica plataforma continental. [...]

Contudo, as tensõ es que cercam o Cá spio pouco significam se comparadas à crise que ameaça a
pró pria existência do mar de Aral. Situado no coraçã o da Á sia Central, o Aral se estende sobre
as terras á ridas das antigas repú blicas soviéticas do Casaquistã o e do Uzbequistã o. [...] Ele [mar
de Aral] foi vítima do planejamento ecologicamente irresponsá vel conduzido por Moscou [ver
mapa do desastre ambiental no Mar de Aral].

[...]

OLIC, Nelson Bacic. Geopolítica e ecologia dos mares fechados. Jornal Mundo Geografia e Política Internacional, ano 13, n. 5, p. 12, set.
2005. Disponível em: <http://www.clubemundo.com.br/pages/revistapangea/show_news.asp?n=312&ed=4>. Acesso em: 21 abr.
2016.
Allmaps/ID/BR

Allmaps/ID/BR

Allmaps/ID/BR

Fonte de pesquisa: Geopolítica e ecologia dos mares fechados. Jornal Mundo Geografia e Política Internacional, ano 13, p. 12, set.
2005. Disponível em: <http://www.clubemundo.com.br/pages/pdf/2005/mundo0505.pdf>. Acesso em: 26 maio 2016.

PARA ELABORAR
1. Com base no texto, responda: Qual é a importâ ncia dos mares fechados para os países que
possuem fronteiras nessas á reas?

2. Converse com os colegas sobre soluçõ es pacíficas de gestã o compartilhada para cada um
dos casos apresentados no texto.
Pá gina 194

Atividades
Não escreva no livro.

Revendo conceitos

1. O volume de á gua do planeta foi sempre o mesmo. No entanto, o acesso à á gua vem sendo
um dos grandes problemas da humanidade nas ú ltimas décadas. Explique por que isso ocorre.

2. Cite três características da á gua que fazem dela uma fonte de tensõ es e conflitos
geopolíticos.

3. O que é segurança hídrica?

4. O que é á gua transfronteiriça?

5. Por que é possível considerar a posse e o consumo dos recursos minerais uma questã o
geopolítica?

6. Qual é a importâ ncia das fontes de energia para os países?

7. Explique os principais motivos que levaram as fontes alternativas de energia, como a


biomassa, a ganharem importâ ncia geopolítica no mundo atual.

8. Que importâ ncia estratégica podem ter, atualmente, os recursos vegetais para um país?

9. O que é segurança energética?

Interpretando textos

10. Leia o texto e responda à questã o.

Entre abril e maio de 2015, o Nepal foi atingido por dois fortes terremotos – de 7,8 e 7,3 graus na
escala Richter, respectivamente – que devastaram o país, deixando mais de 8 mil mortos e
obrigando o governo nepalês a recorrer à s autoridades internacionais por ajuda para lidar com a
crise humanitá ria que se instalou no país. [...]

Historicamente, a Índia é o maior parceiro comercial do Nepal, sendo responsá vel por 66% do
comércio externo total do país, além de ser, também, a segunda maior fonte de investimento
estrangeiro nepalesa. [...]

Para a China deve-se considerar que o alcance estratégico de influência na regiã o do Nepal também
contribui para as ambiçõ es chinesas relativas ao estabelecimento de uma nova Rota da Seda
[projeto comercial para ligar a China à Europa], visto que parte do Himalaia encontra-se no Nepal,
assim como a nascente de importantes rios que garantem o abastecimento de á gua tanto da China
como da Índia. Portanto, pode-se notar que a ajuda humanitá ria apó s o terremoto está atrelada a
uma rede de interesses velados, que condicionam a açã o da China e da Índia no sistema regional
asiá tico.
FRANÇOZO, Helena Ribas; LIMA, Sofia Moreira. Terremoto no Nepal: a competiçã o entre China e Índia por influência regional. Conjuntura
Internacional, 13 jul. 2015. Disponível em: <https://pucminasconjuntura.wordpress.com/2015/07/13/terremoto-no-nepal-a-
competicao-entre-chinae-india-por-influencia-regional/>. Acesso em: 31 mar. 2016.

Que motivo de ordem geopolítica levou China e Índia a enviar ajuda ao Nepal?

11. Leia os dois trechos de uma reportagem e responda à s questõ es.

Trecho 1
Washington acusa Moscou de adotar uma política “imperialista” contra a Chechênia. William Safire,
um dos principais porta-vozes dessa linha de acusaçã o, diz que a guerra traduziu “a velha vontade
imperialista russa de dominar as fontes e as linhas de abastecimento de petró leo e gá s iranianos e
da bacia do mar Cá spio, e, com isso, garantir uma influência forte sobre a vida econô mica de seus
adversá rios.” [...]

Trecho 2
[...] em 1992, o senador americano Robert Dole declarou que as “preocupaçõ es” dos Estados Unidos
quanto à s reservas de petró leo e gá s mundial haviam se ampliado da regiã o do Golfo [Pérsico]
“rumo ao Norte, incluindo o Cá ucaso, o Cazaquistã o e a Sibéria”. E cinco anos depois, o senador Sam
Brownback fez aprovar uma nova resoluçã o, conhecida como “Estratégia da Rota da Seda”, segundo
a qual os Estados Unidos deveriam ampliar sua presença na bacia do Cá spio. [...]

Chechênia, aliá s, Eurá sia. Jornal Mundo Geografia e Política Internacional, ano 8, n. 1, p. 4, mar. 2000. Disponível em:
<http://www.clubemundo.com.br/pages/pdf/2000/mundo0100.pdf>. Acesso em: 21 abr. 2016.

a) Localize em um mapa os países e lugares citados nos dois textos.


b) Os textos apresentam visõ es opostas sobre o conflito entre a Rú ssia e a Chechênia. Quais os
possíveis interesses russos e estadunidenses na regiã o?
c) Faça uma pesquisa em livros, revistas e sites da internet sobre outros conflitos no mundo
que envolvem recursos naturais. Elabore um pequeno painel com um texto e imagens sobre o
conflito pesquisado e exponha para toda a classe. Depois que todos os colegas finalizarem a
exposiçã o dos conflitos pesquisados, elabore um quadro relacionando os casos apresentados e
indicando os países envolvidos e o objeto da disputa.

12. O texto abaixo é um dos artigos da Declaraçã o Universal dos Direitos da Á gua, da ONU.

[Art. 5º]– A á gua nã o é somente uma herança dos nossos predecessores; ela é, sobretudo, um
empréstimo aos nossos sucessores. Sua proteçã o constitui uma necessidade vital, assim como uma
obrigaçã o moral do homem para com as geraçõ es presentes e futuras.

Declaraçã o Universal dos Direitos da Á gua. Portal Amazô nia. Disponível em:
<http://www.portalamazonia.com.br/secao/amazoniadeaz/interna.php?id=840>. Acesso em: 20 abr. 2016.

Discuta com os colegas as afirmaçõ es desse artigo da Declaraçã o e escreva um texto sobre o
que foi discutido.
Pá gina 195

Lendo mapas e gráficos

13. Observe o mapa e responda à s questõ es.

João Miguel A. Moreira/ID/BR

Fonte de pesquisa: FERREIRA, Graça Maria Lemos. Atlas geográfico: espaço mundial. São Paulo: Moderna, 2013. p. 27.

a) Que tipo de “penú ria ambiental” pode acontecer nas á reas indicadas do mapa?
b) O conflito indicado no rio Amazonas ocorre a jusante ou a montante em relaçã o ao territó rio
brasileiro?

14. Analise o esquema ao lado para responder à s questõ es.

Adilson Secco/ID/BR

Fonte de pesquisa: GRID-Arendal. Disponível em: <http://www.grida.no/graphicslib/detail/estimated-feedstock-efficiency-and-


environmentalimpacts_1eea#>. Acesso em: 28 maio 2016.
a) Qual das matérias-primas tem o maior rendimento de combustível?
b) A longo prazo, qual biocombustível teria menos impacto nas á reas agrícolas? Por quê?
c) Considerando os insumos gastos, os impactos ambientais e a quantidade de produçã o, qual
desses biocombustíveis seria mais vantajoso ao produtor? Justifique.
d) Pesquise maneiras sustentá veis de produzir os mesmos biocombustíveis.

15. Em 2010, uma lama tó xica com resíduos industriais percorreu o rio Danú bio, a partir da
Hungria, comprometendo a qualidade da á gua de cidades à s suas margens e afetando a
qualidade dos solos, tornando-os inviá veis ao cultivo.
a) Quais outras consequências humanas e ambientais ocorreram no ecossistema dessa bacia
hidrográ fica?
b) Como os países deveriam agir para a recuperaçã o do rio?
c) Uma situaçã o como essa pode gerar conflitos internacionais? Justifique sua resposta.
Pá gina 196

Geopolítica do
CAPÍTULO 14

petróleo
O QUE VOCÊ VAI ESTUDAR
A indú stria petrolífera nos sé culos XIX e XX.
A formaçã o da Opep.
Crises mundiais do petró leo: causas e consequê ncias.
As açõ es militares ligadas ao petró leo.

Adilson Secco/ID/BR

Fonte de pesquisa: Organization of the Petroleum Exporting Countries (Opec). Disponível em:
<http://www.opec.org/opec_web/en/data_graphs/330.htm>. Acesso em: 3 abr. 2016.

Atualmente, quase 80% da energia utilizada no mundo é originá ria de combustíveis fó sseis. Os três principais
combustíveis fó sseis sã o o petróleo, o carvão e o gás natural. Eles constituem as fontes de energia mais
usadas tanto nos países com industrializaçã o avançada como naqueles de industrializaçã o tardia.

O petró leo, apó s a Segunda Guerra Mundial, tornou-se a fonte de energia dominante, predomínio que se
aprofundou a partir da década de 1960. Devido a sua facilidade de transporte e uso, ele substituiu o carvã o,
tornando-se um insumo-chave do desenvolvimento no século XX.

O desenvolvimento do motor à explosã o, no início do século XX, deu um grande impulso ao consumo de
petró leo. Ele passou a assegurar a propulsã o dos grandes navios transatlâ nticos e dos trens. Mais tarde, com a
popularizaçã o do automó vel e os novos produtos que surgiram a partir de seus derivados, o mercado de
hidrocarbonetos conheceu uma grande expansão.

A produçã o de petró leo aumentou e expandiu-se pelo mundo, mas permaneceu controlada por um pequeno
grupo de empresas. Durante a maior parte do século XX, elas controlaram o sistema internacional do petró leo,
dominando a tecnologia de exploração e refino, a regulaçã o da produçã o e a distribuiçã o do produto.
Expandiram seu domínio por toda parte, extraindo ó leo cru (bruto, sem refino), produzindo combustíveis,
montando refinarias, oleodutos, bancos e financeiras internacionais.

Analise o grá fico acima e responda à s questõ es.


1. O que você sabe sobre a Organizaçã o dos Países Exportadores de Petró leo (Opep)?

2. Com base no grá fico, o que é possível afirmar sobre as reservas de petró leo no mundo?

3. A disputa pelo petró leo revela a grande dependência da sociedade em relaçã o ao consumo de bens
produzidos a partir de seus derivados. De que forma podemos reduzir essa dependência? Converse com os
colegas.

Navegue
Agência Nacional do Petróleo
O site apresenta dados sobre a produçã o de petró leo no Brasil. Disponível em: <http://linkte.me/anp>. Acesso em: 2 abr.
2016.
Pá gina 197

A disputa mundial pelo petróleo

O primeiro poço de petró leo a ser explorado comercialmente foi aberto em 1859, na
Pensilvâ nia (EUA). O petró leo era utilizado principalmente como combustível para iluminaçã o.
A indú stria petrolífera só deixaria de ser estadunidense para se tornar uma indú stria global
com a descoberta de á reas de produçã o no Oriente Médio e com o aumento do consumo em
outras á reas geográ ficas.

Nos primó rdios da exploraçã o petrolífera, a competiçã o era predató ria: quando se anunciava
uma nova descoberta, havia uma corrida para comprar as terras vizinhas ao poço, com o
objetivo de explorá -las exaustivamente. O aumento da produçã o reduzia os preços, até que o
esgotamento dos poços provocasse nova alta. As dificuldades de estocagem faziam com que
toda a produçã o fosse imediatamente ofertada ao mercado.

Em 1870, John Rockefeller criou a empresa petrolífera Standard Oil, nos Estados Unidos. Ele
introduziu a atuaçã o verticalizadada da indú stria, ou seja, passou a organizar sua atuaçã o
estratégica por toda a cadeia produtiva, desde o refino até a distribuiçã o e o transporte. Assim,
Rockefeller conseguiu diminuir os riscos da atividade e a flutuaçã o dos preços do produto,
garantindo alta lucratividade. Nos anos seguintes, a Standard expandiu sua atuaçã o para
Europa, Á sia, Á frica do Sul e Austrá lia: em 1890, 70% de suas atividades estavam fora dos EUA.

As Sete Irmãs do petróleo


A atuaçã o monopolista da Standard Oil foi questionada por seus concorrentes, durante mais de
vinte anos, na Justiça dos Estados Unidos. Até que, em 1911, o Supremo Tribunal
estadunidense ordenou a divisã o da companhia em 34 novas empresas independentes. Mais
tarde, elas compuseram, com outras duas grandes empresas estadunidenses e mais duas
europeias, o cartel chamado de As Sete Irmãs: Exxon, Shell, BP, Mobil, Texaco, Gulf e Chevron.

As Sete Irmã s perceberam que o controle do suprimento de petró leo era importante para não
ocorrer superproduçã o e guerra de preços. Por isso, começaram a atuar de maneira integrada,
com o objetivo de eliminar a concorrência e controlar o mercado mundial. Como a oferta de
petró leo estava descentralizada em um nú mero crescente de países, essas companhias
passaram a adotar concessõ es, sobretudo no Oriente Médio. No regime de concessã o, uma das
Sete Irmã s “arrendava” a reserva e pagava uma pequena parte para o país onde se situava.
Assim, controlavam as reservas e os canais de distribuiçã o, coordenando suas açõ es para
evitar a concorrência. Os contratos de concessã o introduziram a estratégia do controle
geográ fico. Eles eram assinados por cem anos ou mais, cobrindo grandes á reas territoriais e
determinando preços baixos para os países produtores e exportadores de petró leo fora do
cartel.

Os governos dos países que sediavam essas empresas proporcionaram um ambiente político e
militar favorá vel para essas açõ es e apoiaram ativamente as companhias petrolíferas.

Atualmente, há uma maior diversificaçã o regional das maiores petrolíferas do mundo. As Sete
Irmã s concentravam-se praticamente nos Estados Unidos. Agora, a lista inclui muitos outros países.
Veja a tabela a seguir.

Nacionalidade das dez maiores petrolíferas (2014)


País Número de empresas
Estados Unidos 3
China 2
Reino Unido/Países Baixos 1
Ará bia Saudita 1
Brasil 1
França 1
Rú ssia 1

Fonte de pesquisa: Oil Price. Disponível em: <http://oilprice.com/Energy/Crude-Oil/Big-Oil-Which-Are-The-Top-10-Biggest-Oil-


Companies.html>. Acesso em: 2 abr. 2016.

Corbis/Fotoarena

Campo de extraçã o de petró leo Burk-Waggoner, no Texas, Estados Unidos. Foto de 1919.

AÇÃO E CIDADANIA

O petróleo e a sociedade do automóvel

No início do século XX, a popularizaçã o do automó vel provocou uma verdadeira revoluçã o nos
costumes e na organizaçã o do espaço: a urbanizaçã o acelerou-se; a cadeia de peças e serviços
automotivos multiplicou-se; milhõ es de quilô metros de vias asfaltadas foram construídas. Mas hoje
estamos diante dos limites dessa evoluçã o: é previsto o esgotamento dos combustíveis fó sseis, seu
uso é altamente poluidor, e a sociedade do automó vel sofre cada vez mais críticas por seu cará ter
excludente, pela poluiçã o e pelos congestionamentos.

1. Com um colega, reflitam sobre alternativas para diminuir a preponderâ ncia do automó vel na vida
cotidiana. Anotem suas ideias e compartilhem com a turma.
Pá gina 198

A organização da Opep e os choques do petróleo

O domínio das Sete Irmã s recuou por força de intervençã o política. Por exemplo, no início dos
anos 1950, o governo iraniano quebrou um acordo com uma empresa do Reino Unido e
nacionalizou as açõ es da companhia no Irã . Outros países produtores tomaram medidas
idênticas, colocando fim ao domínio absoluto do cartel.

Os países produtores de petró leo passaram, entã o, a reivindicar melhores condiçõ es de re


muneraçã o. Alguns deles, como Argentina, México e Irã , criaram empresas estatais para cuidar
da produçã o ou editaram leis de nacionalizaçã o do petró leo. Na Venezuela, houve uma
renegociaçã o dos contratos, com valores bem menores. Na década de 1950, o governo
brasileiro criou a estatal Petrobras.

Em virtude desse processo, países produtores do Oriente Médio conseguiram melhorar as


condiçõ es contratuais, diminuindo os prazos de concessã o e a á rea geográ fica e aumentando a
tributaçã o sobre os lucros das companhias petrolíferas.

Paralelamente, empresas petrolíferas menores passaram a conquistar espaço em mercados


internacionais, reduzindo gradativamente o poderio econô mico das Sete Irmã s.

Em 1960, alguns dos maiores exportadores mundiais de petró leo – Irã , Iraque, Kuwait, Ará bia
Saudita e Venezuela – reuniram-se para criar a Organização dos Países Exportadores de
Petróleo (Opep), com o objetivo de coordenar a política petrolífera dos países-membros,
aumentando a renda obtida com o petró leo.

Em 1962, a Organizaçã o das Naçõ es Unidas (ONU) reconheceu o direito de todo Estado
soberano poder dispor livremente de suas riquezas e recursos naturais, levando em
consideraçã o suas estratégias de desenvolvimento. Essa resoluçã o fortaleceu países
produtores de petró leo, sobretudo os da Opep.

Para os Estados do Oriente Médio, em particular, a situaçã o de soberania sobre os recursos


naturais e de fortalecimento da Opep correspondia a sua pró pria independência.

A Opep teve o importante papel político de enfraquecer o cartel das Sete Irmã s. Sua formaçã o
significou uma restriçã o das estratégias de controle total das reservas pelas grandes empresas.
Com o primeiro choque do petró leo (forte aumento dos preços), em 1973, o papel de regulaçã o
do mercado das Sete Irmã s foi transferido para a Opep, que também opera como um cartel
internacional. Em 2015, essa organizaçã o era formada por 13 países: Ará bia Saudita, Argélia,
Angola, Catar, Emirados Á rabes Unidos, Equador, Irã , Iraque, Kuwait, Líbia, Nigéria, Indonésia
e Venezuela.
Hasan Tosun/Anadolu Agency/Getty Images

Conferência ministerial da Opep em Viena, Á ustria. Foto de 2015.

SAIBA MAIS

Nacionalização do canal de Suez

Em 1956, o Egito nacionalizou o canal de Suez, que era até entã o administrado por uma empresa
anglo-francesa.

O canal constitui um ponto estratégico para o transporte do petró leo para a Europa e os Estados
Unidos. A interrupçã o do transporte levou ao aumento da cotaçã o internacional do produto.

Amr Abdallah Dalsh/Reuters/Latinstock

Vista para o canal de Suez, Egito. Foto de 2015.


Pá gina 199

O primeiro choque do petróleo


Em 1973, um fato político levou ao primeiro choque do petró leo. A Guerra do Yom Kippur,
entre Israel, Egito e Síria, envolveu vá rios países ocidentais, inclusive os Estados Unidos, em
açõ es de ajuda militar a Israel.

A Ará bia Saudita respondeu com um embargo a todos os embarques de petró leo para Estados
Unidos, Países Baixos (Holanda) e Portugal. Amsterdã , nos Países Baixos, constituía um
importante ponto estratégico, pois era o principal redistribuidor europeu de combustível. Em
Portugal, por sua vez, localiza-se a base aérea das Lajes, o principal ponto de abastecimento
estadunidense para o fornecimento de armas a Israel.

Com o objetivo de pressionar os Estados Unidos e a Europa (que apoiaram Israel nos
conflitos), os á rabes uniram-se, reduzindo a produçã o do petró leo, elevando os preços do
barril em mais de 400% em 3 meses (de US$ 2,90 para US$ 11,65) e dando origem à maior
crise do petró leo, que afetou toda a economia mundial.

Diante dessa situaçã o, a Europa e o Japã o foram obrigados a racionar energia, enquanto os
Estados Unidos travaram o consumo e investiram em suas reservas. Os países emergentes,
como o Brasil, foram muito afetados, pois o encarecimento dessa fonte de energia gerou um
desequilíbrio em suas frá geis economias.

Desde entã o, os países produtores de petró leo tornaram-se controladores do mercado, pois as
companhias petrolíferas perderam espaço diante das naçõ es produtoras. O Oriente Médio,
onde se localizam as maiores reservas mundiais, passou a ser visto como á rea prioritá ria das
estratégias geopolíticas mundiais.

O segundo choque do petróleo


Em janeiro de 1979, um evento político – a queda do xá (rei) Reza Pahlevi, no Irã , seguida da
instalaçã o de uma repú blica islâ mica, liderada pelo aiatolá (chefe religioso) Khomeini – levou
o mundo a um segundo choque do petró leo, com a paralisaçã o da produçã o iraniana. A guerra
entre Irã e Iraque, iniciada em 1980, agravou a situa çã o, elevando o preço médio do barril a
mais de US$ 80 (em 2015 o preço era de US$40,00). Tropas do Iraque, que contavam com o
apoio dos Estados Unidos e da ex-URSS, invadiram o vizinho Irã e nã o conseguiram derrubar o
governo islâ mico. A guerra estendeu-se por oito anos.

Consequências dos choques do petróleo


A nacionalizaçã o dos principais mercados produtores de petró leo provocou a horizontalizaçã o
das empresas petrolíferas mundiais, ou seja, elas passaram a se especializar em poucas etapas
da cadeia produtiva (produçã o, distribuiçã o, transporte, refino, etc.). As Sete Irmã s tiveram de
abandonar as prá ticas de “preços internos” e estabelecer contratos com as estatais dos países
hospedeiros (produtores e exportadores de ó leo cru) para obter a matéria-prima de sua
indú stria.

Uma das principais consequências dos choques do petró leo foi o surgimento de novas á reas
produtoras, nã o pertencentes ao cartel, como China e Rú ssia. Além disso, a crise suscitou
projetos de substituição energética – dos combustíveis fó sseis por fontes alternativas – e de
conservaçã o de energia.

No entanto, com o passar do tempo, os limites impostos pela Opep foram sendo desrespeitados
por alguns países, o que enfraqueceu a organizaçã o. Veja no grá fico alguns fatos que
influenciaram a variaçã o do preço do petró leo.

Adilson Secco/ID/BR

Fonte de pesquisa: BP Statistical Review of World Energy 2015. BP Global. Disponível em:
<http://www.bp.com/en/global/corporate/energy-economics/statisticalreview-of-world-energy/oilreview-by-energy-type/oil-
prices.html>. Acesso em: 4 abr. 2016.

Assista
Syriana – a indústria do petróleo. Direçã o de Stephen Gaghan, EUA, 2005, 128 min.
O filme mostra a açã o de um veterano agente da Agência Central de Inteligência (CIA) que percebe estar sendo usado para
interesses particulares ligados à indú stria petrolífera.
Pá gina 200

Ações militares motivadas pelo interesse por petróleo

O petró leo é um elemento central do interesse geopolítico das potências industriais.

Vimos que os choques do petró leo foram ocasionados principalmente pela açã o dos cartéis e
pelo uso político de seu poder de produçã o. Um novo choque do petró leo, ocorrido a partir de
1999, resultou do aumento do consumo mundial, inclusive por causa do desenvolvimento dos
países emergentes, como o intenso crescimento chinês.

Podemos destacar dois conflitos armados relacionados à posse do petró leo e ao controle
geopolítico: a primeira Guerra do Golfo (1990) e a invasão do Iraque nos anos 2000.

A Guerra do Golfo
Com o fim da Guerra Irã -Iraque (1980-1989), o Iraque estava endividado e precisava realizar
uma recuperaçã o econô mica. Assim, para aumentar seu poder regional e obter uma saída
maior para o golfo Pérsico, o presidente do Iraque, Saddam Hussein, anexou o Kuwait, em
agosto de 1990.

Os países á rabes e os Estados Unidos exigiram sançõ es da ONU, entre elas o embargo
comercial e a autorizaçã o para o envio de tropas. No início de 1991, forças militares lideradas
pelos estadunidenses invadiram o Kuwait, numa operaçã o conhecida comoTempestade no
Deserto, pondo fim à ocupaçã o iraquiana.

Vá rios países da regiã o abrigaram tropas estadunidenses, principalmente o Kuwait, onde os


Estados Unidos mantêm bases militares.

O cessar-fogo ficou condicionado ao aban dono, pelo Iraque, de suas armas de destruiçã o em
massa e das instalaçõ es capazes de produzi-las.

O controle da regiã o pelas tropas estadunidenses garantiu certa estabilidade na produçã o e na


açã o da Opep. O Iraque ficou proibido de comercializar petró leo sem autorizaçã o direta da
ONU, que apenas permitia a troca desse produto por alimentos e remédios.

A invasão do Iraque
Apó s os atentados de 11 de setembro de 2001, o entã o presidente dos Estados Unidos George
W. Bush mostrou-se determinado a invadir militarmente o Iraque. As justificativas eram o
apoio de Saddam Hussein ao terrorismo internacional, a defesa da democracia e a existência de
armas de destruiçã o em massa no territó rio iraquiano. Tais armas nunca foram encontradas.

Em março de 2003, tropas estadunidenses e inglesas invadiram o Iraque. Os Estados Unidos, a


partir daí, passaram a controlar as imensas reservas de petró leo iraquianas.

A guerra durou cerca de seis semanas e nã o teve o apoio da ONU. Vá rios países se
posicionaram contra a guerra, como França, China e Rú ssia. Em abril daquele ano, forças da
coalizã o lideradas pelos Estados Unidos tomaram a capital iraquiana, Bagdá , destituindo
Saddam Hussein. Preso em 2004, foi executado pelo governo iraquiano em 2006.
Segundo os dados da Organizaçã o Nã o Governamental, Iraq Body Count (IBC), o nú mero de
iraquianos mortos apó s a invasã o superou os 230 mil civis. As acusaçõ es de tortura e
desrespeito aos direitos humanos e a morte de jovens soldados fizeram com que a ocupaçã o
ganhasse pouco apoio popular.

Mesmo depois do fim da guerra com o Iraque, os Estados Unidos mantiveram uma forte
presença militar no Oriente Médio. Grande parte das reservas de petró leo do globo concentra-
se ali, o que torna vital o domínio da regiã o para os interesses estadunidenses.

Luke Frazza/AFP

Manifestantes protestam em Washington, capital dos Estados Unidos, contra a intervençã o militar estadunidense no
Iraque. Foto de 2003. Na faixa em primeiro plano, lê-se, em inglês: End the occupation of Iraq (“Fim da ocupaçã o do
Iraque”).

Leia
Guerra e globalização: antes e depois de 11 de setembro de 2001, de Michel Chossudovsky. Sã o Paulo: Expressã o
Popular, 2004.
Nesse livro, o autor aborda os principais conflitos mundiais apó s o ataque à s torres do World Trade Center, em Nova York.
Pá gina 201

A geopolítica do petróleo na África


A Á frica Subsaariana tornou-se uma das mais importantes á reas produtoras de petró leo.
Destacam-se Nigéria e Angola e ainda Sudã o, Sudã o do Sul, Guiné Equatorial e Chade.

Os conflitos pela disputa das riquezas geradas pelo petró leo têm sido um dos grandes
problemas da Á frica. Além dos conflitos internos entre rebeldes e governos de regiõ es
petrolíferas, o interesse de grandes potências econô micas tem aumentado a presença política e
militar dessas naçõ es no continente africano. Em vá rias guerras civis, como no Sudã o, no Sudã o
do Sul, em Angola e na Nigéria, o petró leo é o principal alvo da disputa.

A renda do petró leo permite comprar armas e fortalece certos grupos. Muitas ditaduras estã o
associadas ao poder das grandes empresas mundiais do petró leo. Sã o as chamadas
petroditaduras.

A presença militar dos Estados Unidos é marcante no golfo da Guiné e no estreito de Bab-el-
Mandeb, pró ximo ao Chifre da Á frica, por onde é transportado o petró leo. A Uniã o Europeia
também tem buscado estreitar o relacionamento com suas ex-colô nias africanas na busca de
fornecimento de petró leo.

O caso mais marcante nos ú ltimos anos foi a intensa participaçã o do Reino Unido, da França e
dos Estados Unidos no golpe de estado na Líbia (2011-2012), um dos principais produtores
mundiais de petró leo.

Já a açã o da China tem se dado principalmente pelo apoio diplomá tico e por investimentos em
infraestrutura.

Jenny Vaughan/AFP

Trabalhadores chineses e etíopes em construçã o de ferrovia de capital chinês em Dire Dawa, Etió pia. A nova ferrovia
deve ligar Adis Abeba, capital da Etió pia, ao porto no Djibuti, no mar Vermelho. Foto de 2013.

Geopolítica do petróleo na Europa e na América Latina


A questã o da geopolítica energética se manifesta também no territó rio europeu. A Ucrâ nia,
desde 2014, passa por um conflito interno grave, levando a uma guerra civil que propõ e a
divisã o do país. Pela Ucrâ nia passa boa parte dos oleodutos e gasodutos que levam gá s e
petró leo da Rú ssia para os consumidores da Europa Ocidental; dessa forma, a disputa de
interesses entre Rú ssia de um lado e Estados Unidos e Uniã o Europeia de outro tornou a regiã o
um palco dos novos conflitos geopolíticos.

Na América Latina, os principais produtores de petró leo sã o Venezuela, México e Brasil, e há


reservas significativas no Equador e na Bolívia. Esta se destaca na produçã o de gá s. Na ú ltima
década, um novo panorama nacionalista tem modificado a geopolítica dos recursos naturais na
América Latina. Políticas de integraçã o regional baseadas em parcerias para a exploraçã o de
petró leo e gá s têm sido adotadas por meio da atuaçã o das grandes empresas petrolíferas
desses países.

A descoberta de petró leo na camada pré-sal no Brasil também tem sido alvo de polêmicas em
razã o do impacto ambiental da sua exploraçã o e da disputa entre os estados e a Uniã o em
relaçã o aos royalties do petró leo.

Assista
Fahrenheit 11 de setembro. Direçã o de Michael Moore, EUA, 2004, 116 min.
O documentá rio trata dos acontecimentos ligados ao ataque à s torres do World Trade Center nos EUA, das relaçõ es entre a
família Bush e Bin Laden e da invasã o do Iraque.
Terra prometida. Direçã o de Gus Van Sant, EUA, 2013, 126 min.
Nesse filme, um homem que trabalha para uma empresa de extraçã o de petró leo e gá s tenta convencer os moradores de uma
pequena cidade a permitir a instalaçã o da empresa.
Pá gina 202

Mundo Hoje
Nova guerra fria começa a despontar no Ártico
A cooperaçã o e a rivalidade coexistem em proporçõ es variá veis no Círculo Polar Á rtico, a
regiã o que pode se tornar a maior fonte de petró leo e gá s do planeta e na qual a Rú ssia tem o
grosso de suas reservas de hidrocarbonetos (explorá veis e potenciais), além de 20 000
quilô metros de fronteira marítima.

[...] Desde 2008, as empresas Rosneft e Gazprom, controladas pelo Estado russo, têm o
monopó lio da exploraçã o de hidrocarbonetos no Á rtico e sã o parceiros compulsó rios para
todos os projetos na regiã o. Em 9 de agosto de 2014, Igor Sechin, chefe da petroleira russa
Rosneft, e Glenn Waller, diretor da norte-americana Exxon- Mobil na Rú ssia, mostravam-se
otimistas em relaçã o aos planos conjuntos criados em 2011. Naquele dia, no mar de Kara,
Sechin e Waller inauguraram a perfuraçã o submarina de petró leo mais ao Norte feita pela
Rú ssia. [...] Tratava-se do “acontecimento mais importante do ano para a indú stria de petró leo
e gá s”, nas palavras de Sechin, e o poço recém-perfurado foi batizado como Pobeda (vitó ria),
por ser uma “vitó ria conjunta” da Rú ssia e de um grupo de “amigos e parceiros” internacionais.
De Pobeda jorrou o primeiro fluxo de petró leo, mas no final de setembro, devido à s sançõ es
norte-americanas, a ExxonMobil teve que selar o poço e abandonar seus projetos na Rú ssia. [...]

[...] Os políticos e analistas russos se dividem entre os que acreditam que seja preciso forçar a
exploraçã o do Á rtico para quando o preço do petró leo subir e os que recomendam que se
concentre na Sibéria Ocidental, onde já existe infraestrutura de exploraçã o e transporte.

[...]

A exploraçã o do Á rtico é a locomotiva das regiõ es setentrionais, estimulando o


desenvolvimento da produçã o inovadora e a infraestrutura de transporte, incluindo o
Corredor Marítimo do Norte, e não deve ser interrompida, escreveu o jornal [russo] Rossískaia
Gazeta. Para o Kremlin, o Á rtico é uma regiã o de interesse estratégico que pela primeira vez foi
incorporada de forma explícita na nova concepçã o da doutrina militar da Rú ssia, estabelecida
por Putin em dezembro. Com nuances, Moscou retomou a política da Uniã o Soviética no Á rtico,
depois da decadência dos anos noventa, o que se traduz em militarizaçã o, adaptada aos novos
tempos, e industrializaçã o, em grande parte ainda a ser definida.

[…] “A regiã o tem grande importâ ncia estratégica para os Estados possuidores de frota de
submarinos nucleares. Das posiçõ es submarinas no Nordeste do mar de Barents é possível
alcançar a maioria dos alvos mais importantes do mundo, porque por ali passa a trajetó ria
mais curta para os mísseis balísticos em qualquer hemisfério da Terra”, destaca uma
monografia do Instituto Russo de Pesquisas Estratégicas.

A Rú ssia criou um novo comando militar para melhorar a coordenaçã o e o alcance no Á rtico e
planeja a alocaçã o de 6 000 soldados em duas brigadas de infantaria motorizada. Moscou está
restabelecendo a rede de bases que a URSS tinha no Á rtico, a regiã o geográ fica mais pró xima
aos EUA, mas também constró i novas bases, uma delas no arquipélago de Novosibirsk (ao
Norte da Sibéria Oriental) e outra na ilha de Wrangler, uma reserva natural protegida pela
Unesco.
A geopolítica da região
[...] Reservas energéticas: O US Geological Survey [Serviço Geoló gico dos Estados Unidos]
calcula que o Á rtico abrigue um quarto das reservas de petró leo e gá s do mundo ainda nã o
descobertas.

[...] Regulamentação: A Organizaçã o das Naçõ es Unidas (ONU) criou um marco normativo em
1982 e estabeleceu que os países lindeiros [fronteiriços] têm direitos econô micos sobre 200
milhas ná uticas (370 quilô metros) a partir de sua costa. [...]

BONET, Pilar. Nova guerra fria começa a despontar no Á rtico. El País, 4 abr. 2015. Disponível em:
<http://brasil.elpais.com/brasil/2015/04/02/internacional/1427998445_036342.html>. Acesso em: 27 maio 2016.

Dmitry Korotayev/Kommersant Photo/ Getty Images

Plataforma de petró leo russa Prirazlomnaya no mar de Barents, Rú ssia. Foto de 2014.

PARA ELABORAR

1. Cite os principais elementos apresentados no texto que justificam a disputa geopolítica no


Á rtico.

2. A nova corrida pela exploraçã o dos combustíveis fó sseis toma fô lego no Á rtico. Quais seriam
as vantagens em relaçã o a outras á reas de reservas de petró leo, como no Oriente Médio, onde
já existe uma infraestrutura de exploraçã o?

3. Quais sã o os possíveis riscos ambientais dessas exploraçõ es?


Pá gina 203

Informe
Cartas da zona de guerra
Crítico ferrenho do governo de George W. Bush, Michael Moore, documentarista e escritor
estadunidense, publicou cartas pessoais de soldados que lhe foram enviadas durante a Guerra
do Iraque. A seguir, trechos de uma das cartas.

De: Kyle Waldman

Enviado em: sexta-feira, 27 de fevereiro de 2004, 2:35 a.m.

[...] Michael Moore,

Tenho vivido em um mundo de contradiçõ es entre o meu compromisso como membro do


serviço militar e minha fidelidade à minha moral e aos meus valores. Primeiramente, devo
explicar por que optei por me alistar no exército.

Eu era um ingênuo rapaz de 19 anos à procura de um caminho diferente na vida. Como a


maioria dos soldados alistados, entregamos as nossas vidas antes de passar realmente por um
processo de autoexame para nos ajudar a entender o que é um compromisso exigente.
Certamente nã o sabíamos o que é ser soldado, mas iríamos descobrir muito em breve.

[...]

Quando a guerra foi declarada, os Estados Unidos pareceram desumanizar o povo iraquiano,
tornando todos inimigos. [...] O tempo que passei no Iraque me ensinou um pouco sobre o povo
iraquiano e a condiçã o desse país dilacerado pela guerra e assolado pela fome.

O índice de analfabetismo nesse país é extraordiná rio; a maioria dos civis completa um nível
de educaçã o equivalente à nossa quinta série. Há algumas famílias, para as quais fiz um
trabalho de assistência humanitá ria, que viviam sob os telhados de duas casas, e sã o elas que
mais sofrem em tempos de guerra, principalmente quando os motivos sã o totalmente
desnecessá rios.

Havia alguns agricultores que nem mesmo sabiam que houve uma Tempestade do Deserto ou
uma Operaçã o Liberdade do Iraque. Foi entã o que me dei conta de que essa guerra foi iniciada
pelos poucos que lucrariam com ela, e nã o pelo seu povo; nó s, como as Forças de Coalizã o, nã o
libertamos esse povo; nó s o mergulhamos ainda mais na pobreza. Nã o prevejo nenhuma ajuda
econô mica chegar em breve para esse povo, por causa do modo como Bush sempre desviou
sua renda com o petró leo para garantir que houvesse petró leo suficiente para os nossos
veículos utilitá rios-esportivos.

[...]

Estamos aqui tentando manter a paz quando só nos ensinaram como destruir. De que modo
200 mil soldados esperam assumir o controle desse país? Por que nã o temos um plano efetivo
para reconstruir a infraestrutura do Iraque? [...] Minha mulher e eu estamos pensando
seriamente em nos mudar para o Canadá na condiçã o de refugiados políticos.

Isto foi um pouco mais do que eu pretendia originalmente, mas espero ter transmitido a
mensagem. Quero agradecer a você por criar um site interativo onde soldados podem se
expressar livremente. Você certamente merece alguns “pontos positivos” de minha parte.

MOORE, Michael. Cartas da zona de guerra: algum dia voltarã o a confiar na América? Sã o Paulo: Francis, 2004. p. 29-31.

ALI AL SAADI / AFP

Soldado estadunidense faz guarda em escola pú blica de Al Iskandiriyah, Iraque. Foto de 2011.

PARA DISCUTIR

1. Considerando o texto, discuta com mais um colega sobre esta questã o: É possível falar em
um “custo humanitá rio do petró leo”? A seguir, escreva um texto no caderno expondo as
conclusõ es a que vocês chegaram.
Pá gina 204

Atividades
Não escreva no livro.

Revendo conceitos

1. Cite argumentos que justifiquem a importâ ncia estratégica do petró leo como fonte de
energia para o mundo atual.

2. Que eventos marcaram a transformaçã o do petró leo de um produto estadunidense para um


produto de consumo global?

3. Apresente dados que comprovem que a Standard Oil detinha o monopó lio da cadeia
produtiva do petró leo no fim do século XIX.

4. Por que é possível dizer que As Sete Irmã s do petró leo agiam como um cartel? Quais eram
os mecanismos utilizados por essas empresas nesse sentido?

5. Qual foi a importâ ncia da Opep no enfraquecimento das Sete Irmã s? Quais sã o seus métodos
de açã o?

6. O que foram os “choques do petró leo”?

7. Quais foram as principais consequências das crises do petró leo para o mundo atual?

8. Quais foram as justificativas para as açõ es militares ocorridas no Oriente Médio a partir da
década de 1980?

9. Qual é o impacto da exploraçã o petrolífera no contexto político dos países africanos?

Lendo mapas

10. Observe o mapa a seguir e responda à s questõ es.


Allmaps/ID/BR

Fonte de pesquisa: BP Statistical Review of World Energy. BP Global, jun. 2015. Disponível em:
<http://www.bp.com/content/dam/bp/pdf/energyeconomics/statisticalreview-2015/bp-statistical-review-of-world-energy-2015-
full-report.pdf>. Acesso em: 15 fev. 2016.

a) Quais sã o as principais regiõ es produtoras de petró leo?


b) Escreva um texto, traçando um panorama da geopolítica do petró leo do início do século XXI,
considerando o nível de dependência dos países consumidores em relaçã o aos países
produtores.

Interpretando textos e imagens

11. Observe a fotografia, leia o texto a seguir e faça o que se pede.

JAY DIRECTO/AFP

Ciclistas promovem manifestaçã o em solidariedade aos movimentos por justiça climá tica em Manila, Filipinas. Foto
de 2015.

Acordo de Paris obriga “transição energética”

Durante a COP-21 [Conferência do Clima, em Paris, 2015], líderes empresariais se mobilizaram


tendo em vista a irreversível mudança para uma economia de zero carbono.

GIRARDI, Giovana; NETO, Andei. Acordo de Paris obriga “transiçã o energética”. O Estado de S. Paulo, 14 dez. 2015. Disponível em:
<http://sustentabilidade.estadao.com.br/noticias/geral,acordo-de-paris-obrigatransicao-energetica,10000004759>. Acesso em: 5
abr. 2016.
Pá gina 205

a) Pesquise quais foram as medidas e estratégias estabelecidas pelo acordo de Paris para
combater as mudanças climá ticas.
b) Elabore um texto ressaltando os principais desafios e avanços relacionados à substituiçã o
do uso do petró leo como principal fonte de energia.

12. Leia o texto a seguir.

Se, em outubro de 1973, a Organizaçã o dos Países Exportadores de Petró leo (Opep) foi a
responsá vel pelo primeiro choque do petró leo, com brusca elevaçã o de preços e controle da oferta,
hoje, o cartel, que vem perdendo força, chega a ser comparado a um tigre sem alguns dentes.
Importantes descobertas em Estados Unidos, Canadá , Brasil e na costa Oeste da Á frica, dizem
especialistas, estã o promovendo uma verdadeira mudança na geopolítica mundial do petró leo, com
expectativas de aumento da produçã o em países fora da regiã o do Oriente Médio. As Américas vã o
ganhar força no novo mapa: nos Estados Unidos, com o shale gas (gá s nã o convencional) e o tight
oil (petró leo explorado de forma nã o convencional); no Canadá , com a produçã o de petró leo nas
areias betuminosas; e, no Brasil, com o pré-sal. […]

ORDOÑEZ, Ramona; ROSA, Bruno. Futura ‘nova Opep’ no Atlâ ntico Sul muda geopolítica do petró leo. O Globo, 7 out. 2013. Disponível em:
<http://oglobo.globo.com/economia/futura-nova-opep-no-atlantico-sulmuda-geopolitica-do-petroleo-10273212>. Acesso em: 6
abr. 2016.

a) É razoá vel supor que, do ponto de vista estratégico, o papel do Brasil venha a se modificar
no contexto mundial? Justifique sua resposta.
b) O Oriente Médio, tradicional regiã o produtora de petró leo, perde vertiginosamente sua
força, diante dessas novas exploraçõ es. Levante os aspectos negativos e positivos para a
economia tanto no Oriente Médio como nas novas á reas.

13. O trecho a seguir integra uma obra infantojuvenil que revela um importante debate na
sociedade brasileira na época em que foi publicado pela primeira vez (1937): a possibilidade
ou a impossibilidade de haver petró leo no Brasil. Leia-o atentamente e, depois, responda à s
questõ es propostas.

[...]
– E nó s, no Brasil, quantos poços abrimos?
– Que desse petró leo, nenhum. Até hoje foram abertos no territó rio brasileiro apenas sessenta e
poucos poços, na maioria rasos demais para atingir alguma camada petrolífera.
– Que vergonha! E a Argentina?
– A Argentina já abriu mais de quatro mil, quase todos produtivos.
– E os outros países da América?
– Todos estã o cheios de poços de petró leo, donde tiram milhõ es e milhõ es de barris. A Venezuela
conseguiu tornar-se o terceiro produtor do mundo, com mais de duzentos e oitenta milhõ es de
barris por ano. O Peru extrai milhõ es de barris. A Colô mbia extrai outros milhõ es. O Equador extrai
outros milhõ es. A Bolívia, idem. Todos os vizinhos do Brasil sã o grandes produtores de petró leo,
exceto o Uruguai e o Paraguai. [...]
– Entã o por que nã o se perfura no Brasil?
– Porque as companhias estrangeiras que nos vendem petró leo nã o têm interesse nisso. E como nã o
têm interesse nisso foram convencendo o brasileiro de que aqui, neste enorme territó rio, nã o havia
petró leo. E os brasileiros bobamente se deixaram convencer...
– Que araras! – exclamou Emília. – Mas nã o estã o vendo petró leo sair em todos os países vizinhos
do nosso?
– Estã o, sim, mas que quer você? Quando um povo embirra em nã o arregalar os olhos nã o há quem
o faça ver. As tais companhias pregaram as pá lpebras dos brasileiros com alfinetes. Ninguém vê
nada, nada, nada...

LOBATO, Monteiro. O poço do Visconde. Sã o Paulo: Brasiliense, 1963. p. 22-23.

a) Que argumento o texto traz para afirmar que certamente há petró leo no Brasil? Esse
argumento tem coerência, do ponto de vista científico?
b) E como o texto explica a obstinaçã o, na época, em negar a existência de petró leo no Brasil?
Essa negativa tinha motivaçõ es científicas ou políticas?

14. Analise a charge a seguir. Crie uma legenda para ela e escreva um texto sobre o tema
explorado.

Giacomo Cardelli/Acervo do cartunista

Charge de Giacomo Cardelli, de 2011.


Pá gina 206

Geopolítica dos
CAPÍTULO 15

alimentos
O QUE VOCÊ VAI ESTUDAR
Domínio da produçã o agrícola e segurança alimentar.
As empresas multinacionais e a produçã o agrícola.
Biocombustíveis e produçã o de alimentos.

Nos dias atuais, mesmo existindo uma capacidade de produzir alimentos além do necessá rio para toda a
populaçã o do globo, essa produção nã o se dá de forma homogênea, e o acesso à alimentaçã o nã o é igualitá rio
no mundo. Existem á reas onde a produção alimentícia gera excedentes, ao passo que há outras em que a fome
e a subnutriçã o sã o problemas graves e alarmantes.

A aplicaçã o de recursos em pesquisa e desenvolvimento na agricultura tornou-se indispensá vel para o


aumento planejado da produtividade agrícola. Os paí ses industrializados puderam investir na modernizaçã o
agrícola, o que possibilitou ampliar as safras sem depender da extensã o das terras agricultá veis.

Muitas vezes, a adoção de novas tecnologias na agricultura provoca o abandono das prá ticas tradicionais nos
países menos desenvolvidos, levando-os à dependência tecnoló gica em relaçã o aos países industrializados,
onde é produzida grande parte dos insumos.

Mesmo assim, nos ú ltimos sessenta anos, houve um aumento significativo na produtividade agrícola em
muitos países em desenvolvimento, o que gerou algumas melhorias para a populaçã o. Contudo, essa
modernizaçã o serviu principalmente à exportaçã o de alimentos e matérias-primas a baixos preços para os
países mais desenvolvidos. Associado a isso, observam-se uma enorme ampliaçã o do cultivo de espécies
utilizadas na produção de combustíveis (como o milho, a cana-de-açú car e a palma) e o uso de sementes
geneticamente modificadas, cujo cultivo é controlado por grandes empresas agroindustriais.

João Miguel A. Moreira/ID/BR

Fonte de pesquisa: FERREIRA, Graça Maria Lemos. Atlas geográfico: espaço mundial. Sã o Paulo: Moderna, 2013. p. 39.

Observe o mapa acima e responda às questõ es.


1. Quais cores identificam os países que exportaram mais produtos alimentares (em valor) do que
importaram?

2. Qual é a situaçã o do Brasil apresentada no mapa?

3. Você concorda com a afirmaçã o “Países com déficit na balança comercial sã o aqueles que nã o têm recursos
para acabar com a subnutriçã o em seu territó rio”?
Pá gina 207

Soberania e segurança alimentar

Suprir as necessidades alimentares da populaçã o com base em suas pró prias potencialidades
técnicas e naturais confere aos países a possibilidade de preservar com mais facilidade os
aspectos culturais relacionados à alimentaçã o. Se um país consegue, a partir da sua capacidade
produtiva e com recursos pró prios, abastecer a populaçã o sem depender totalmente dos
mercados internacionais, está a caminho de atingir a soberania alimentar. Essa soberania é
alcançada quando o sistema de produçã o também é sustentá vel, com uso cada vez menor de
agrotó xicos, substituiçã o de modelos de produçã o de monocultura, e quando o país decide a
sua própria política agrícola, ou seja, o que deve cultivar, como e quando comercializar,
como atender os mercados interno e externo, etc.

No entanto, a soberania alimentar de um país é ameaçada pela presença de empresas


estrangeiras em seus territó rios. Grandes importadores, como os Estados Unidos e os países
europeus, e suas multinacionais do ramo alimentício expandiram-se em países
agroexportadores e os transformaram em extensõ es de suas á reas produtivas.

Um exemplo disso é o impacto da produçã o de ó leo de palma. A aquisiçã o de terras de


comunidades locais por grandes empresas para intenso aproveitamento do cultivo da palma
provocou o esgotamento de solos e recursos hídricos e a destruiçã o de florestas, colocando em
risco a produçã o de alimentos de países como a Indonésia, Malá sia e Honduras, grandes
produtores de ó leo de palma. Veja no infográ fico da pró xima pá gina.

Em contraposiçã o ao mercado global, que absorve grande parte da produçã o dos países, os
sistemas produtivos locais – como a agricultura familiar no Brasil – sã o uma das principais
garantias de soberania alimentar, pois abastecem os mercados internos.

Como no mundo contemporâ neo as populaçõ es consomem também alimentos processados e


industrializados, a soberania alimentar também espelha a capacidade de processamento dos
produtos agrícolas e das redes de distribuiçã o. Nas diferentes regiõ es do mundo, os aspectos
ambientais, as tradiçõ es e até mesmo o nível de sofisticaçã o tecnoló gica alcançado se refletem
na seleçã o dos produtos consumidos e no modo como sã o preparados. E o comércio
internacional de alimentos nem sempre contempla essas especificidades regionais.

O acesso permanente a alimentos, em quantidade e qualidade suficientes para promover a


saú de da populaçã o, chama-se segurança alimentar. A conquista de um quadro de segurança
alimentar deve propiciar à populaçã o de um país, além de condiçõ es para se alimentar com
regularidade, o acesso a uma alimentaçã o saudá vel.

Ezequiel Becerra/AFP
A agroecologia apresenta-se hoje como alternativa de produzir alimentos de forma menos danosa ao ambiente, e
muitos movimentos sociais entendem essa prática como uma forma mais democrá tica e responsá vel do uso da terra.
Cultivo orgâ nico de couve-flor em Moravia, Costa Rica. Foto de 2014.

Assista
Nação fast food: uma rede de corrupção. Direçã o de Richard Linklater, Reino Unido/EUA, 2006, 116 min.
O filme critica a indú stria alimentícia estadunidense. Um funcioná rio de uma dessas empresas busca entender o processo
produtivo da mercadoria que vende e fica perplexo com as descobertas.

AÇÃO E CIDADANIA

Obesidade, o outro lado da questão

O aumento do consumo de produtos industrializados, assim como de congelados, com baixo valor
nutritivo e grande quantidade de açú car, gorduras e alto teor caló rico, tem sido um dos principais
responsá veis pelo crescimento do nú mero de pessoas obesas no mundo, sobretudo entre crianças e
adolescentes. Esses novos padrõ es de consumo contribuem para a “insegurança alimentar”, na
medida em que se constata um significativo aumento de vá rias doenças associadas à ingestã o
desequilibrada de nutrientes, como doenças cardíacas, hipertensã o e diabetes.

A Organizaçã o Mundial da Saú de tem proposto restriçõ es à s propagandas desses tipos de alimento
dirigidas à s crianças, por considerar que estas sã o mais suscetíveis aos apelos comerciais.

1. Reú na-se com os colegas para pesquisar o teor nutritivo dos alimentos que vocês costumam
consumir. Façam um cartaz mostrando as características principais desses alimentos e assinalem os
há bitos alimentares e comportamentais que podem evitar a obesidade.

Fernando Favoretto/Criar Imagem

Alimentos como frutas, hortaliças e carnes magras ajudam no controle do peso.


Pá gina 208

Demandas globais, impactos locais


O avanço das fronteiras agrícolas no mundo responde a demandas globais
por certos produtos e ocasiona profundas mudanças para o meio ambiente e
para as populações locais.

Certos recursos naturais se tornaram fundamentais para a economia mundial, devido


aos seus usos e às suas características e propriedades. A demanda mundial por esses
recursos, muitas vezes, provoca impactos sociais e ambientais negativos às regiões
produtoras. Esse é o caso de alguns recursos de origem vegetal, como o óleo de palma,
aproveitado para uso doméstico e industrial. É utilizado na produção de pães, sorvetes,
cosméticos, produtos de limpeza, entre outros.

Ilustraçõ es: Cássio Bittencourt

Ilustraçõ es: Cássio Bittencourt

Yann Arthus-Bertrand/Getty Images

Antara Foto/Reuters/Latinstock

Hansen/UMD/Google/USGS/NASA

Fonte de pesquisa: Divisã o de Estatísticas da FAO (Faostat). Disponível em: <http://faostat.fao.org>. Acesso em: 4 maio 2016.

Fonte de pesquisa: Atlas geográfico escolar. 6. ed. Rio de Janeiro: IBGE, 2012. p. 58.
Fontes de pesquisa: Unep. Oil palm plantations: threats and opportunities for tropical ecosystems. Disponível em:
<http://www.unep.org/pdf/Dec_11_Palm_Plantations.pdf>. Acesso em: 24 maio 2016; KOH, Lian Pin; WILCOVE, David S. Is oil palm
agriculture really destroying tropical biodiversity? Conservation letters, v. 1, n. 2, p. 60-64, 2008; ALBANO, Gleydson Pinheiro.
Globalizaçã o da agricultura na Oceania: ó leo de palma, a ú ltima fronteira. Geotemas, v. 2, n. 1, p. 37-59, 2012.
Pá gina 209

FIGURA EM PÁ GINA DUPLA COM A PÁ GINA ANTERIOR


Pá gina 210

O comércio mundial de alimentos

A produçã o de alimentos no mundo ocorre de forma bem dispersa. Alguns países com grande
capacidade de produçã o acabaram se tornando grandes exportadores mundiais de alimentos,
como a China e a Índia. Mesmo com alta demanda interna, passaram a se destacar como
exportadores de alimentos, entre outros fatores, em funçã o dos avanços tecnoló gicos. O
desenvolvimento da biotecnologia contribui fortemente para isso. Nesse setor, destacam-se os
Estados Unidos, grande exportador mundial de alimentos: das 15 principais empresas
mundiais, 13 sã o sediadas no país.

Nas ú ltimas décadas, foi expressivo o aumento da comercializaçã o de commodities agrícolas,


que sã o produtos primá rios com importante valor comercial, como café, algodã o, soja, etc.

Isso foi resultado, principalmente, da forte ampliaçã o do consumo de alimentos nos países
asiá ticos, como China e Índia, que provocou um intenso movimento especulativo e elevou o
preço dos alimentos no mundo todo.

Apesar do eventual enfraquecimento da soberania alimentar, a importaçã o de produtos


primá rios traz a vantagem de eliminar o custo social e ambiental de produzir internamente. É
possível adquirir alimentos a preços baixos no mercado externo e, assim, preservar recursos
naturais valiosos, como terra e á gua, muitas vezes escassos.

As negociaçõ es para a compra e venda de produtos variados, destacando-se as commodities,


sã o realizadas nas bolsas de mercadorias mundiais. Nos ú ltimos anos, houve um processo
significativo de fusã o de bolsas de vá rios países, permitindo o surgimento de bolsas de
mercadorias gigantescas, que passaram a concentrar cada vez mais a comercializaçã o dos
produtos agrícolas.

Isso faz com que o mercado internacional se torne palco de articulaçã o da geopolítica
alimentar mundial, determinando os destinos da produçã o, a logística dos fluxos comerciais, os
preços e até mesmo os aspectos técnicos dos sistemas agrícolas.

Uma prá tica recorrente nos países mais desenvolvidos, que têm produtores competindo no
comércio interno ou externo, é a adoçã o de medidas protecionistas que restringem a
importaçã o como barreiras tarifárias ou sanitárias. Apesar de essas medidas protecionistas
protegerem seus produtores, essas barreiras afetam as relaçõ es comerciais entre os países.

Barreira sanitária: restriçã o à entrada de alguns produtos visando à proteçã o da saú de humana e de animais. Um exemplo
é a restriçã o à importaçã o de carne bovina de locais afetados pela febre aftosa.

Barreira tarifária: restriçã o comercial por meio da cobrança de tarifas de importaçã o.


Leo Caldas/Pulsar Imagens

Criaçã o de gado de corte em Xexéu (PE). Foto de 2015.

Leia
O desencanto da terra: produção de alimentos, ambiente e sociedade, de Glaucio J. Marafon e outros. Rio de Janeiro:
Garamond, 2011.
O livro aborda os problemas e os conflitos socioambientais causados pela moderna produçã o agropecuá ria.

Navegue
Fórum Brasileiro de Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional
O site conté m diversos artigos e informaçõ es sobre o assunto.
Disponível em: <http://linkte.me/fbssan>. Acesso em: 27 maio 2016.

SAIBA MAIS

As trocas desiguais no comércio mundial

A relaçã o desigual entre os países no comércio internacional de alimentos pode ser explicada pela
teoria da deterioração dos termos de troca. Ao se estabelecer o comércio entre países cujas bases
de troca sejam, de um lado, industrial (maior valor agregado), e de outro agrícola, os países
essencialmente agrícolas tendem a ficar cada vez mais dependentes dos países importadores de
produtos primá rios, o que dificulta o crescimento econô mico. Esse processo ocorre principalmente
porque as inovaçõ es técnicas tornam os produtos primá rios cada vez mais baratos, enquanto os
produtos industrializados encarecem, por se tornarem mais sofisticados.
Pá gina 211

O papel das empresas globais

Boa parte da produçã o de alimentos realizada nos países em desenvolvimento, geralmente


com baixo nível tecnoló gio, ficou sob o controle das empresas multinacionais. Elas atuam em
todo o globo, aproveitando as matérias-primas baratas desses países e o poder de consumo
dos países desenvolvidos, onde estã o sediadas. Em 2015, em torno de 6 multinacionais
controlavam 75% dos pesticidas vendidos no mundo e 30% da produçã o de sementes (como
milho e soja) era feita por uma ú nica empresa dos Estados Unidos.

Transgênicos e biotecnologia

Apó s a Segunda Guerra Mundial, intensificaram-se o uso de agrotó xicos e fertilizantes


químicos, a mecanizaçã o de vá rias atividades agrícolas e, mais recentemente, a aplicaçã o da
engenharia genética. A esse conjunto de técnicas e tecnologias atribuiu-se a
designaçã opacote verde. É certo que, em razã o desse pacote, muitos países ampliaram sua
produçã o agropecuá ria, no entanto impactos ambientais surgiram pelo uso intensivo de
insumos químicos (fertilizantes e agrotó xicos). Implementados com mais força durante a
década de 1970, vá rios países tornaram-se dependentes desses pacotes tecnoló gicos.

A partir dos avanços da biotecnologia, na década de 1990 uma “segunda” revoluçã o surge com
plantas transgênicas (OGM). Podem tornar uma planta resistente a pragas e aumentar sua
capacidade de adaptaçã o climá tica. Mas a incerteza sobre a segurança de seu consumo e sobre
como as toxinas e outras substâ ncias afetam a cadeia alimentar e a saú de humana sã o os
principais argumentos contrá rios ao seu uso na agricultura.

Além disso, as poucas empresas de biotecnologia cobram royalties pelo uso de suas sementes
modificadas, e todos aqueles que as compram ficam impedidos de produzir suas pró prias
sementes para o plantio seguinte. O controle exercido por essas multinacionais pode fragilizar
a soberania alimentar de um país, ao estabelecer esse tipo de dependência.

As empresas de biotecnologia alegam que eles seriam uma alternativa aos problemas de
sustentabilidade na agricultura, pois podem proporcionar alta produtividade em menores
á reas e melhorar o potencial bioló gico do solo. O combate à fome no mundo é outro argumento
favorá vel, em virtude da melhoria expressiva da produtividade agrícola. A fome nã o é, em
essência, um problema decorrente da deficiência na produçã o alimentar, mas, sim, da escassez
de renda para obter alimentos, já que a produçã o atual é suficiente para alimentar a populaçã o
mundial.
Allmaps/ID/BR

Fonte de pesquisa: SIMIELLI, Maria Elena. Geoatlas. Sã o Paulo: Á tica, 2013. p. 31.

Assista
O veneno está na mesa. Direçã o de Silvio Tendler, Brasil, 2011, 50 min.
O documentá rio mostra que a populaçã o brasileira se alimenta mal e perigosamente, pois o Brasil é o país que mais utiliza
agrotó xicos no mundo.
Pá gina 212

Presença Indígena
A casa de Maní
Conta uma conhecida histó ria tupi que um dia nasceu uma linda indiazinha na aldeia. Era uma
criança diferente, muito branquinha, como um raiozinho da lua. Chamaram-na de Maní. Era
silenciosa e quieta. Parecia guardar um segredo. Um dia, para a tristeza de todos, sem ficar
doente, Maní morreu. Os pais a enterraram dentro da pró pria oca e regaram a sua cova todos
os dias com á gua e lá grimas de saudade. Algumas luas depois, no lugar onde jazia Maní nasceu
uma plantinha muito viçosa. Ao desenterrar suas raízes, os índios viram que sua casca era cor
de terra, mas por dentro eram branquinhas, da cor de Maní. Era a casa de Maní, a maní’oka. E
fizeram da planta seu alimento. Assim surgiu a mandioca.

Principal alimento cultivado pela maior parte dos povos indígenas do Brasil, a mandioca – mais
especificamente a farinha de mandioca – é a maior evidência da importâ ncia dos costumes
alimentares indígenas para a cultura brasileira. Alimento indígena por excelência, ela forma a
base alimentar de boa parte de nossa populaçã o.

Domesticada pelos ameríndios que viviam na Amazô nia há quatro ou cinco mil anos, a
mandioca e sua farinha acompanharam, como nenhum outro alimento, a formaçã o do povo
brasileiro.

Adotada pelos portugueses, a “farinha de guerra” foi a base alimentar das expediçõ es que
desbravaram o territó rio, passando a integrar a dieta alimentar dos colonizadores, de norte a
sul do Brasil. Hoje, sua presença é tã o generalizada e comum na mesa dos brasileiros que
quase passa despercebida.

Mas a influência indígena na culiná ria brasileira não se restringe à mandioca. Além dela, os
índios contribuíram com o palmito, a batata-doce, o milho, o feijã o, a pimenta, o amendoim, o
guaraná , o mate, a castanha-do-pará , o mel nativo e inú meras frutas, como a goiaba, a
jabuticaba, o abacaxi, o caju e o maracujá . Foi dos indígenas que vieram também muitas
técnicas de preparo de peixe e de carne e também os diferentes mingaus e pirõ es. Vêm dos
índios utensílios como panelas de cerâ mica, inú meras formas de colheres e instrumentos
trançados em palha, como peneiras, abanadores e o tipiti, longo tubo de palha onde é escorrida
a mandioca ralada para retirar seu líquido tó xico.

Esses exemplos sã o apenas uma pequenina amostra de uma incontá vel lista. Podemos afirmar
que é difícil entrar numa cozinha de nosso país e nã o encontrar algum elemento que tenha
origem no mundo indígena.

Pratos indígenas
Mais do que simples conjunto de ingredientes e técnicas ligadas ao nosso universo culiná rio, a
alimentaçã o é uma dimensã o de nossa cultura, que revela muito da histó ria e do modo de ser
dos brasileiros. Compreendendo como o saber culiná rio dos indígenas inspirou e marcou
nossos costumes, entendemos melhor a nossa histó ria e o nosso presente.
A histó ria da colonizaçã o do Brasil está ligada desde o início ao sistema alimentar indígena.
Durante os séculos XVI e XVII, para conseguir estabelecer seu domínio territorial, o invasor
português miscigenou-se com as mulheres indígenas. Aproveitando-se dos costumes
poligâ micos dos Tupi, os homens portugueses casavam-se com vá rias mulheres indígenas,
ganhando assim autoridade e poder de controle sobre os índios. Era o “cunhadismo”.

Como na época colonial havia poucas mulheres europeias nestas terras, e eram muito escassos
os elementos tradicionais da culiná ria europeia trazidos para cá , a cozinha e o cozinhar eram
atividades quase exclusivas das mulheres indígenas, que utilizavam praticamente só
ingredientes nativos.

Na impossibilidade de reproduzir a realidade do Velho Mundo, o colonizador adaptou-se


também à s formas de plantio, colheita, armazenamento, preparo e consumo do alimento que
os indígenas utilizavam. Durante os primeiros dois séculos de colonizaçã o, o sistema culiná rio
amplamente dominante era o indígena. Nos alimentos, nos modos de preparo e até nos
costumes à mesa, essa influência era evidente:

Mesmo em casas abastadas nã o havia mesa, nem bufete, nem aparadores. A comida era entã o
servida sobre esteiras indígenas colocadas no chã o, a cuia de farinha ao centro, cada comensal
com seu prato de barro, comendo com as mã os, aos bocados.

SILVA, Paula Pinto e. Farinha, feijão e carne-seca: um tripé culiná rio no Brasil colonial. Sã o Paulo: Senac, 2005. p. 32.

Apesar da grande presença dos costumes indígenas em nossa cultura alimentar, pouco
ouvimos falar dessa forte influência. Quando muito, é citado um ou outro ingrediente como
herança, como se o modo de vida indígena nã o estivesse mais entre nó s e se fizesse presente
apenas por meio de um ou outro traço. É como se a presença indígena em nossa identidade
fosse só um colorido a mais, algo superficial e nã o uma de suas raízes profundas.

Mas essa “ignorâ ncia” não é por acaso. A noçã o de superioridade da cultura “branca” esteve
presente desde o início da colonizaçã o, diminuindo ou apagando em nossa memó ria a
importâ ncia dos saberes indígenas. O colonizador dependia da força de trabalho e dos
conhecimentos tradicionais primeiramente dos povos indígenas e a seguir dos africanos
escravizados trazidos para cá . Apesar disso, a mentalidade de domínio dos valores ocidentais
sempre se impô s, deixando “invisíveis” a presença dessas outras duas matrizes étnicas.
Pá gina 213

Conforme a sociedade brasileira foi se modernizando, esse processo se acentuou, e muitas


técnicas rú sticas e de intensa interaçã o com a natureza passaram a ser vistas de maneira
negativa.

A vida moderna encobre ainda mais nossas raízes. No campo da alimentaçã o, essa dinâ mica se
realiza, por exemplo, por meio dos alimentos industrializados e das plantaçõ es monocultoras
mecanizadas. Como resultado desse longo processo histó rico, atualmente, é mesmo difícil
reconhecer em nosso cotidiano a permanência dos costumes que aprendemos com os
indígenas.

Sem fome nem obesidade


Apesar dessa “invisibilidade” que o mundo moderno parece impor, muitos grupos indígenas
têm retomado seus sistemas culiná rios tradicionais e de saú de. Um bom exemplo é o povo
Xavante da aldeia Wederã , em Mato Grosso. Em pouco mais de 50 anos de contato, alguns
grupos abandonaram sua culiná ria tradicional pela “comida do branco”. Em pouco tempo
surgiram crianças desnutridas e adultos com problemas de diabetes e obesidade. Porém, desde
2005, os Xavante vêm replantando suas roças de milho e feijã o, costume que tinha sido
abandonado desde que conheceram o arroz branco.

Também estã o retomando pratos e há bitos de sua culiná ria tradicional, como o consumo de
frutas do Cerrado e o uso de plantas medicinais, que estavam sendo esquecidas. Assim,
esperam retomar os antigos padrõ es de saú de, quando nã o havia desnutriçã o nas crianças nem
obesidade nos adultos.

Enquanto no universo cultural do não indígena a cultura do fast food parece alastrar-se (até
mesmo para algumas aldeias indígenas), muitas organizaçõ es indígenas buscam projetos como
os dos Xavante. Mediante plantios diversificados e a retomada de prá ticas rituais e culiná rias
que estavam postas de lado, eles tentam resistir à oferta de alimentos industrializados e
pobres de nutrientes e de histó ria.

Esse mesmo conflito acontece em muitas cozinhas das cidades brasileiras, todas um pouco
indígenas, mesmo que nã o saibam. Lá pelos cantos da cozinha, no tempero apimentado, na
colher de pau e na farinha de todo dia, resiste, silenciosa, a presença de Maní.
Renato Soares/Pulsar Imagens

Família indígena da etnia Aparai-wayana prepara a farinha de mandioca na aldeia Bona, em Laranjal do Jari (AP).
Foto de 2015.

Navegue
Nossa Tribo
Site da ONG Nossa Tribo, que realiza projetos relacionados à alimentaçã o com os Xavante, do Mato Grosso, e os Pankararu,
de Sã o Paulo. Disponível em: <http://linkte.me/ntri>.
Slow Food Brasil
Nesse site, insira na busca a palavra “indígena”, para acessar uma relaçã o de vá rios artigos relacionados à culiná ria indígena.
Disponível em: <http://linkte.me/sfbr>.
Acessos em: 27 maio 2016.

Leia
Antologia da alimentação no Brasil e História da alimentação no Brasil, de Luís da Câ mara Cascudo. Sã o Paulo: Global,
2008.
Profundo estudioso da cultura popular brasileira, o autor, nesse livro, explica a base da dieta brasileira, a partir das
influê ncias das culiná rias portuguesa, indígena e africana.
Feijão, farinha e carne-seca: um tripé culinário no Brasil colonial, de Paula Pinto e Silva. Sã o Paulo: Senac, 2005.
No livro sã o destacados elementos de outras culturas que foram incorporadas à gastronomia brasileira, como alimentos da
base das dietas indígena e africana.

Para discutir

1. De acordo com o texto, apesar de muito presente em nosso cotidiano, a culiná ria indígena é
“invisível” aos olhos da maioria. Com base nas informaçõ es do texto, discuta em grupo esta
questã o: Por que a culiná ria indígena nos passa tã o despercebida?
Pá gina 214

O uso geopolítico dos alimentos e a fome

Suprir as necessidades alimentares das populaçõ es tem sido um desafio desde o princípio da
humanidade. Porém, o que torna peculiar a ocorrência da fome nos tempos atuais é o fato de
ela coexistir com recursos tecnoló gicos que fazem da abundâ ncia de alimentos uma realidade.

A fome é um problema social grave, que pode até levar pessoas à morte por inaniçã o ou por
agravamento de doenças e ainda causar ou acirrar conflitos e guerras. A concentraçã o de
riquezas impede a superaçã o da carência alimentar que acomete principalmente países da
Á frica Subsaariana, da América Latina e de algumas regiõ es da Á sia.

A escassez de alimentos passa a ser uma das principais causas do deslocamento de imigrantes
e refugiados.

Os conflitos motivados pelo domínio de fontes de alimento ou a posse dessas fontes como
arma para enfraquecer os inimigos nas disputas territoriais sempre estiveram presentes ao
longo da histó ria.

O controle sobre a produçã o de alimentos essenciais para o consumo humano já foi utilizado
como estratégia geopolítica por naçõ es, por meio de bloqueios econô micos e embargos de
alimentos. A destruiçã o de plantaçõ es (por fatores climá ticos), a infraestrutura insuficiente de
transporte e a restriçã o do comércio internacional sã o grandes causadores da fome no mundo.

Produção de alimentos ou de biocombustíveis?


A produçã o de biocombustíveis tem gerado controvérsias entre ONGs, agricultores e governos.
Seus defensores argumentam dois principais aspectos: menor volume de emissã o de
poluentes, em comparaçã o ao petró leo, e diminuiçã o das reservas petrolíferas para atender a
demanda no futuro. Daí a necessidade de buscar formas alternativas de geraçã o de energia.

Já o principal questionamento diz respeito à possibilidade de o aumento das á reas plantadas


com matérias-primas para os biocombustíveis provocar a diminuiçã o da produçã o de
alimentos, elevando seu preço e, consequentemente, a fome no mundo. Outras críticas apoiam-
se na preferência pelo modelo da monocultura estimulada pela produçã o de biocombustíveis,
que reduz a diversidade de gêneros agrícolas disponíveis. Qual é, entã o, a prioridade?

O biocombustível mais consumido no mundo é o etanol, e os maiores produtores, Estados


Unidos e Brasil, o fabricam respectivamente a partir das matérias-primas do milho e da cana-
de-açú car. Nesses cultivos, e também para o cultivo de soja e canola (também utilizadas na
produçã o de biodiesel), sã o fortemente implementadas pesquisas de biotecnologia.

O milho é utilizado para vá rias funçõ es e, ao se priorizar seu uso em larga escala para a
produçã o de biocombustível, seu preço no mercado internacional aumenta, o que prejudica
quem o consome como alimento. Desse modo, é preciso que os países agroexportadores se
integrem com maior soberania ao comércio mundial, buscando combinar o plantio de
alimentos em grande quantidade com o estímulo a prá ticas racionais de produçã o de
biocombustíveis.
Ernesto Reghran/Pulsar Imagens

Extensas áreas de cultivo de cana-de-açú car. Praticado sob o modelo de monocultura, destina-se à produçã o de
etanol no Brasil. Florestó polis (PR). Foto de 2015.

Leia
Geografia da fome, de Josué de Castro. Rio de Janeiro: Civilizaçã o Brasileira, 2005.
Um dos principais livros do geó grafo que se transformou no maior especialista mundial em fome. Nesse livro, ele trata do
problema da fome no continente americano.
Pá gina 215

Mundo Hoje
Segurança alimentar urbana
[...]

As frutas e hortaliças sã o as fontes naturais que têm maior abundâ ncia de micronutrientes,
mas nos países em desenvolvimento o consumo diá rio de fruta e hortaliças é apenas de 20% a
50% do recomendado pela FAO e a Organizaçã o Mundial da Saú de (OMS). As refeiçõ es urbanas
baratas, ricas em gorduras e açú cares, também sã o responsá veis pelo aumento da obesidade e
sobrepeso. Na Índia, as doenças crô nicas relacionadas à alimentaçã o, como a diabetes, sã o um
problema de saú de cada vez maior, sobretudo nas zonas urbanas.

A horticultura urbana e periurbana ajuda as cidades em desenvolvimento a enfrentar esses


desafios. Primeiro, contribui para o fornecimento de produtos frescos, nutritivos e disponíveis
o ano todo. Segundo, melhora o acesso econô mico dos pobres aos alimentos quando a
produçã o familiar de frutas e hortaliças reduz os gastos com alimentos e quando os produtores
obtêm renda com as vendas.

[...]

A horticultura intensiva nas periferias urbanas faz sentido. Mas, à medida que as cidades
crescem, perdem-se valiosas terras agrícolas para a construçã o de casas, indú stria e
infraestrutura (a expansã o de Accra [capital de Gana, na Á frica] absorve cerca de 2 600
hectares de terras agrícolas a cada ano). Resultado: a produçã o de alimentos frescos está sendo
empurrada para as á reas rurais. O custo do transporte, empacotamento e refrigeraçã o, o mau
estado das estradas rurais e as vultosas perdas em trâ nsito aumentam a escassez e o custo de
frutas e hortaliças nos mercados urbanos.

Por isso, a China integra a produçã o de alimentos ao desenvolvimento urbano desde os anos
1960. Hoje, mais de metade das hortaliças consumidas em Pequim vem das pró prias hortas da
cidade e custa menos que os produtos transportados de á reas mais distantes. A horticultura
em Hanó i e seus arredores produz mais de 150 000 toneladas de frutas e hortaliças por ano.
Em Cuba, que promove a HUP [horticultura urbana e periurbana] intensiva desde o início dos
anos 1990, o setor responde por 60% da produçã o hortícola– e o consumo per capita de frutas
e hortaliças dos cubanos excede o mínimo recomendado pela FAO/OMS.

À medida que a urbanizaçã o se acelera na Á frica Subsaariana, muitos países estã o procurando
desenvolver sua pró pria horticultura comercial para assegurar a segurança alimentar urbana.
Muitas vezes o primeiro passo consiste em legalizar e proteger pequenas hortas que surgiram
sem planejamento ou licença.

Na Repú blica Democrá tica do Congo, por exemplo, a FAO prestou assessoria sobre medidas
para regularizar títulos de 1 600 ha de hortas cuidadas por cerca de 20 000 produtores em
cinco cidades. O projeto introduziu variedades melhoradas de hortaliças e instalou ou
melhorou 40 estruturas de irrigaçã o, que estenderam a disponibilidade de á gua, e a produçã o,
durante todo o ano.
Para assegurar a qualidade e segurança dos produtos, 450 associaçõ es de produtores
receberam capacitaçã o em boas prá ticas agrícolas, inclusive o uso de fertilizantes orgânicos e
biopesticidas. Hortas comerciais na capital, Kinshasa, agora produzem cerca de 75 000 a 85
000 toneladas de hortaliças por ano, ou 65% do abastecimento da cidade. [...]

FAO. Criar cidades mais verdes. Disponível em: <http://www.fao.org/docrep/015/i1610p/i1610p00.pdf>. Acesso em: 27 maio 2016.

Fiston Mahamba/NurPhoto/AFP

Estudantes aprendem técnicas de agricultura urbana em Butembo, Repú blica Democrá tica do Congo. Foto de 2015.

PARA DISCUTIR

1. Reú na-se com dois colegas para responder à s questõ es a seguir.

a) Qual é a relaçã o do texto com a questã o da soberania alimentar?

b) Quais sã o os benefícios que as hortas mencionadas no texto podem proporcionar ao espaço


urbano e à populaçã o em termos de sustentabilidade ambiental e social?
Pá gina 216

Atividades
Não escreva no livro.

Revendo conceitos

1. Que relaçõ es podem ser estabelecidas entre o desenvolvimento científico e a produçã o de


alimentos? Justifique.

2. Explique os conceitos de soberania e segurança alimentar.

3. O que sã o transgênicos e quais as principais críticas feitas a eles?

4. O que é a teoria da deterioraçã o dos termos de troca? Como isso atinge os países pobres?

5. Por que podemos falar em um uso geopolítico dos alimentos no mundo? Dê exemplos.

6. Por que a fome pode ser considerada um problema político?

7. Quais sã o os principais argumentos contrá rios e favorá veis aos biocombustíveis?

Interpretando textos

8. Leia o texto e responda à s questõ es.

Situação geopolítica russa se reflete nas prateleiras dos supermercados

Basta ir a um supermercado russo para saber com quais países o presidente Vladimir Putin se dá
bem, uma vez que ele costuma punir seus inimigos com embargos alimentares que transformaram
o carrinho de compras na Rú ssia em uma complexa babel geopolítica.

“O Senhor Tomate mudou de nacionalidade. Mais uma vez”, publicou a imprensa russa depois de o
Kremlin proibir a importaçã o de verduras e frutas turcas como sançã o à derrubada de um caça-
bombardeiro russo na fronteira síria. [...]

Uma visita à seçã o de hortifrú ti de uma mercearia ou de um supermercado é mais do que suficiente
para analisar detalhadamente a conjuntura geopolítica internacional.

O embargo contra a Uniã o Europeia já tinha mudado radicalmente o panorama das prateleiras de
produtos frescos de Moscou, mas a suspensã o das importaçõ es turcas complicou ainda mais a
escolha e encareceu significativamente o custo das compras.

[...]

Situaçã o geopolítica russa se reflete nas prateleiras dos supermercados. G1, 15 dez. 2015. Disponível em:
<http://g1.globo.com/economia/noticia/2015/12/situacao-geopolitica-russa-se-reflete-nas-prateleirasdos-supermercados.html>.
Acesso em: 8 abr. 2016.
a) Segundo o texto, a quais países a Rú ssia impô s embargo comercial?
b) De acordo com o texto, quais sã o os efeitos dessa decisã o geopolítica sobre o regime
alimentar da populaçã o russa?

9. Interprete a frase a seguir e exponha suas conclusõ es aos colegas.

“Quem controla o petró leo controla as naçõ es; quem controla os alimentos controla as pessoas.”

KISSINGER, Henry. Apud CHOSSUDOVSKY, Michel. Fome global. Disponível em:


<http://resistir.info/chossudovsky/global_famine_mai08_p.html >. Acesso em: 8 abr. 2016.

10. Associe o texto a seguir à s questõ es geopolíticas dos alimentos e responda à s questõ es.

[...] Agora, um importante artigo publicado pelo The Economist informa que uma Segunda
Revoluçã o Verde está em andamento diante da queda da produtividade, principalmente do arroz,
que ocorre em países asiá ticos por diversos motivos. Novas variedades foram e estã o sendo
desenvolvidas pelo IRRI – International Rice Research Institute nas Filipinas com diferentes
finalidades. Algumas delas sã o resistentes às inundaçõ es, outras à s secas, à s salinidades ou aos
calores extremos, problemas enfrentados pelos pequenos e pobres produtores asiá ticos cuja renda
procuram elevar. Além de melhorar seus nutrientes. [...]

YOKOTA, Paulo. A segunda revoluçã o verde e o combate à fome. Carta Capital, 19 maio 2014. Disponível em:
<http://www.cartacapital.com.br/economia/a-segunda-revolucao-verde-e-o-combate-a-fome-9205.html>. Acesso em: 8 abr. 2016.

a) Quais sã o os principais aspectos dessa “segunda” Revoluçã o Verde?


b) De acordo com o texto, as novas sementes poderiam resolver os problemas
socioeconô micos daquelas populaçõ es?
c) Quais sã o as vantagens e desvantagens da introduçã o de transgênicos nos cultivos?

Lendo mapas e gráficos

11. Observe o grá fico a seguir e responda: Quais medidas poderiam ser adotadas pelos
governos e por suas respectivas populaçõ es para combater os problemas da fome, da
desnutriçã o e da subnutriçã o em seus países?

Adilson Secco/ID/BR

Fonte de pesquisa: Portal Planalto. Disponível em: <http://www2.planalto.gov.br/noticias/2015/05/fome-cai-82-em-12-anos-no-


Brasilafirma-onu>. Acesso em: 27 maio 2016.
Pá gina 217

12. Analise os grá ficos e o mapa a seguir e responda à s questõ es.

Adilson Secco/ID/BR

Fonte de pesquisa: Folha de S.Paulo, 21 jul. 2014. Disponível em: <http://www1.folha.uol.com.br/mercado/2014/07/1488819-


mundo-desperdica-30-dosalimentos-produzidos.shtml>. Acesso em: 27 maio 2016.

João Miguel A. Moreira/ID/BR

Fonte de pesquisa: World Health Organization. Disponível em: <http://www.who.int/gho/ncd/risk_factors/overweight/en/>.


Acesso em: 20 jan. 2016.

a) Quais á reas possuem as maiores taxas de desperdício de alimentos?


b) Quais á reas possuem as menores taxas de desperdício de alimentos?
c) Que relaçã o é possível estabelecer entre as á reas com maiores e menores taxas de
desperdício e as á reas de populaçã o acima do peso?
Pá gina 218

Geopolítica da
CAPÍTULO 16

produção
O QUE VOCÊ VAI ESTUDAR
A indú stria de armamentos.
O poder nuclear.
A produçã o da ciê ncia e da tecnologia.

ID1974/Shutterstock.com/ID/BR

Exposiçã o de equipamentos e materiais bélicos no Fó rum Internacional de Tecnologia Militar, em Kubinka, Rú ssia.
Foto de 2015.

Um dos fatores mais representativos na comparaçã o do poder dos Estados nacionais é a sua capacidade bélica.
Possuir armas potentes ou a capacidade de produzi-las rapidamente pode ser decisivo em uma situaçã o de
guerra.

Na sociedade contemporâ nea, podemos destacar as inovaçõ es bélicas ocorridas durante a Primeira Guerra
Mundial (1914-1918) e a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), como a metralhadora, os fuzis, as granadas, o
lança-chamas, o gá s mostarda (uma das primeiras armas químicas), o tanque de guerra e o uso de aviõ es como
veículo de combate. Atualmente, as armas de destruiçã o em massa, como as nucleares, químicas e bioló gicas,
ameaçam Estados com á reas em litígio, como a fronteira entre a Índia e o Paquistã o, por exemplo.

Diversos confrontos armados geopolíticos aquecem a “economia de guerra”, ao impulsionar a indú stria e o
comércio de armamentos em países que têm interesses estratégicos nas á reas em conflitos.

O aperfeiçoamento militar necessariamente envolve a produçã o tecnoló gica, como se faz em Israel, Estados
Unidos e Rú ssia, reconhecidas potências bélicas da atualidade. Em algumas naçõ es, os gastos com a defesa
(compra de armamentos e manutençã o das Forças Armadas) chegam a ser superiores aos gastos com saú de ou
educaçã o.

Considere o texto acima e a fotografia para responder às questõ es a seguir.


1. O que justifica a produçã o dos equipamentos retratados?

2. Quais seriam as consequências para a geopolítica mundial se houvesse o desmantelamento das indú strias
bélicas de alguns países, como os Estados Unidos e a Rú ssia? Discuta com os colegas.

3. Pesquise algum país no mundo onde nã o haja exército. Descubra quais são os índices de violência e como a
soberania do territó rio é garantida.
Pá gina 219

A indústria de armamentos

Durante a Segunda Guerra Mundial, vá rias empresas civis estadunidenses passaram a produzir
equipamentos militares no que ficou conhecido como esforço de guerra. Com o fim do conflito,
a indú stria de armamentos dos Estados Unidos tornou-se uma das mais poderosas do mundo,
e vá rias empresas que participaram do esforço de guerra passaram a atuar no setor bélico
como fornecedoras do governo e de grandes exportadoras estadunidenses.

A ideologia belicista e o discurso da defesa faziam com que os gastos militares fossem cada vez
maiores, proporcionando enormes lucros para as indú strias de armamentos e dinamizando a
economia dos Estados Unidos.

A corrida armamentista do fim do século XIX e início do XX trouxe o desenvolvimento de


novos armamentos. Uma das inovaçõ es foram os foguetes V2, utilizados pela Alemanha. Eles
voavam a uma velocidade superior a 4 000 km/h, podendo atacar rapidamente vá rios pontos
da Europa.

As guerras internas, os conflitos com países vizinhos e mesmo o interesse das grandes
empresas de armamentos levam países muito pobres a manter altos gastos com armas. Muitos
deles nem sequer resolveram problemas centrais, como a fome, mas usam grande parte de
seus recursos em despesas militares.

A indú stria bélica se beneficia também do comércio ilegal. O trá fico de armas tem sido um dos
ramos do crime organizado mais lucrativos do globo, assemelhando-se ao do trá fico de drogas.
Fornecer armamentos para países em guerra civil, para traficantes de drogas e para milícias
ilegais em países com forte conturbaçã o social é uma grande fonte de lucros para os traficantes
e, consequentemente, para as empresas fabricantes.

Em alguns casos, os pró prios Estados nacionais apoiam o trá fico de armas. É o que tem
ocorrido no Oriente Médio, onde grupos de insurgentes sunitas, pertencentes ao Isis, recebem
apoio da Ará bia Saudita e de países do golfo Pérsico, como o Catar. Enquanto a Rú ssia fornece
armas para o exército sírio a favor de Bashar al-Assad, os Estados Unidos, por sua vez,
municiam militarmente Israel e grupos contrá rios ao governo sírio.

Gastos militares (2015)


País % do total do PIB
Sudã o do Sul 13,8
Ará bia Saudita 13,7
Iraque 9,1
Argélia 6,2
Israel 5,4
Rú ssia 5,4
Armênia 4,5
Estados Unidos 3,3
França 2,1
Turquia 2,1
Brasil 1,4
Alemanha 1,2

Fonte de pesquisa: Stockholm International Peace Research Institute (Sipri). Disponível em:
<http://www.sipri.org/research/armaments/milex/milex_database>. Acesso em: 13 abr. 2016.
Assista
O senhor das armas. Direçã o de Andrew Niccol, EUA, 2005, 122 min.
O filme narra a histó ria de um imigrante ucraniano que vai, ainda criança, com os pais, para os Estados Unidos e torna-se um
poderoso traficante internacional de armas. Retrata o trá fico de armas nos EUA, na antiga URSS e na Á frica.

SAIBA MAIS

Armas de destruição em massa

Com o desenvolvimento da tecnologia bélica, algumas armas passaram a ter o poder de destruir, em
uma só utilizaçã o, um grande nú mero de pessoas. Essas armas ficaram conhecidas como armas de
destruição em massa (ADM) e seu uso é condenado internacionalmente. Além das armas
nucleares, sã o consideradas ADMs as armas químicas e as bioló gicas.

As armas bioló gicas consistem em utilizar microrganismos que causam doenças como forma de
desestabilizar o inimigo. Sã o exemplos o antrax e as bombas com vírus de varíola e vírus ebola.

As armas químicas utilizam produtos tó xicos que provocam morte das populaçõ es ou grande
destruiçã o ambiental. Os mais conhecidos já utilizados foram o napalm e o agente laranja, usados
em larga escala pelos Estados Unidos na Guerra do Vietnã .

Underwood Archives/Getty Images

Aviõ es militares dos Estados Unidos lançam produtos químicos (o agente laranja) em territó rio vietnamita durante a
Guerra do Vietnã . Foto de 1966.
Pá gina 220

O poder nuclear: produção de energia e armamentos

A energia nuclear pode ser utilizada para fins pacíficos ou para fins militares. O princípio
bá sico de sua utilizaçã o é a fissão nuclear, ou seja, a quebra do nú cleo atô mico de um mineral
radiativo, como o urâ nio, causando uma reaçã o em cadeia que libera enorme quantidade de
energia.

Nas usinas nucleoelétricas, os reatores nucleares “quebram” os á tomos de minerais radiativos,


e essa energia é utilizada para aquecer um sistema fechado de á gua pressurizada. O vapor de
á gua, sob forte pressã o, movimenta turbinas ligadas a um gerador de energia elétrica. A
energia nuclear representava, em 2015, em torno de 10% da matriz energética mundial.
Confira no grá fico abaixo os países que mais produzem essa fonte.

As armas e as potências nucleares


Os armamentos nucleares sã o aqueles que, ao serem detonados, liberam grande quantidade de
energia proveniente da fissã o nuclear, capaz de destruir tudo à sua volta. As bombas
atômicas lançadas pelos Estados Unidos, em 1945, contra Hiroshima e Nagasaki, no Japã o,
arrasaram essas cidades, provocando a morte de mais de 100 mil civis. Durante a Guerra Fria,
foram construídas bombas com poder de destruiçã o muito maior que o das lançadas contra o
Japã o.

Apó s a Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos e a Uniã o Soviética passaram a exercer
poder sobre as demais naçõ es. Seus arsenais bélicos tornaram-se muito superiores aos de
qualquer outro país. A ex-URSS desenvolveu sua bomba atô mica em 1949, sendo seguida por
Inglaterra (1950), França (1960), China (1964) e Israel (década de 1960).

Os países periféricos com armamentos nucleares


Na década de 1970, a Índia entrou para o clube nuclear, ao desenvolver sua bomba atô mica. O
país estava envolvido em disputas territoriais com o Paquistã o pela posse da regiã o da
Caxemira, que era também parcialmente reivindicada pela China. A obtençã o da bomba
atô mica representava uma importante arma política. Na década de 1980, o Paquistão também
desenvolveu sua bomba atô mica, equilibrando forças e atemorizando os demais países do
mundo.

O equilíbrio do terror entre Estados Unidos e Uniã o Soviética passaria também a acontecer
de maneira regionalizada em países periféricos, como ocorreu com o Paquistã o e a Índia.

Países que possuem armamento nuclear (2015)


País Número estimado de ogivas
Rú ssia 7 500
Estados Unidos 7 200
França 300
China 250
Reino Unido 215
Paquistã o 100 - 120
Índia 90 - 110
Israel 80
Coreia do Norte 8
Fonte de pesquisa: ROSS, Eleanor. The nine countries that have nuclear weapons. The Independent, 6 jan. 2016. Disponível em:
<http://www.independent.co.uk/news/world/politics/the-nine-countries-that-havenuclear-weapons-a6798756.html>. Acesso em:
16 abr. 2016.

Adilson Secco/ID/BR

Fonte de pesquisa: World Nuclear Association. Disponível em: <http://www.world-nuclear.org/information-library/current-and-


futuregeneration/nuclearpower-in-the-worldtoday.aspx>. Acesso em: 11 abr. 2016.
Pá gina 221

O tratado de não proliferação nuclear


O temor de que a proliferaçã o de armas nucleares pudesse levar a uma situaçã o descontrolada,
aumentando o risco de uma guerra nuclear, levou à ideia de um tratado internacional,
intermediado pela ONU.

Em 1970, foi assinado o Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares (TNP), cujos
objetivos eram impedir maior disseminaçã o de armas nucleares e parar a corrida
armamentista entre Estados Unidos e ex-URSS. Assim, seria interrompido o equilíbrio do
terror e incentivada a cooperaçã o internacional para a utilizaçã o civil da energia nuclear. Pelo
TNP, seriam eliminados todos os estoques, assim como os arsenais nacionais de armas
nucleares. Veja o mapa abaixo.

A cada cinco anos há uma revisã o do Tratado. Em 2016, o Tratado foi ratificado por 189 países,
incluindo as cinco maiores potências nucleares: Estados Unidos, Rú ssia, Reino Unido, França e
China. Nos termos do tratado, as potências comprometem-se a não transferir armas nucleares
para ninguém nem ajudar nenhum país a adquiri-las. No entanto, o TNP é considerado injusto
e conveniente apenas para as grandes potências, pois garante a elas o monopó lio do
conhecimento nuclear.

Índia, Paquistã o, Israel e Coreia do Norte recusaram-se a assinar o acordo. Israel sempre negou
possuir arsenal nuclear.

O tratado contém também o compromisso de países que nã o possuem armas nucleares de nã o


desenvolvê-las nem comprá -las. Em compensaçã o, garante o acesso ao uso pacífico da energia
atô mica, condicionado-o ao controle da Agência Internacional de Energia Atô mica (Aiea).

Allmaps/ID/BR

Fontes de pesquisa: BONIFACE, Pascal; VÉDRINE, Hubert. Atlas do mundo global. Sã o Paulo: Estaçã o Liberdade, 2009. p. 52; Arms Control
Association. Disponível em: <https://www.armscontrol.org/factsheets/Nuclearweaponswhohaswhat>. Acesso em: 11 abr. 2016.

Focos de tensão: Irã e Coreia do Norte


Irã e Coreia do Norte assinaram o TNP, porém este ú ltimo país saiu do tratado, em 2003, como
protesto contra as sançõ es internacionais, motivadas pela desconfiança de que o país estivesse
produzindo energia nuclear para fins militares.

Em 2006, 2009, 2013 e 2016, a Coreia do Norte promoveu testes nucleares, ampliando as
tensõ es na regiã o. O país sofre sançõ es internacionais decretadas pelo Conselho de Segurança
da ONU. A Coreia do Norte é vizinha de dois países que participam do clube atômico (China e
Rú ssia) e também está muito pró xima do Japã o. Além disso, tem intensa rivalidade com a
Coreia do Sul, com a qual formou um ú nico país até a Guerra da Coreia (1950-1953).

O Irã desenvolveu um programa nuclear efetivamente para fins pacíficos, mas algumas
potências suspeitavam de que o país possuísse arsenal nuclear para fins militares. Isso serviu
de justificativa para que Uniã o Europeia e os Estados Unidos impusessem vá rias sançõ es
econô micas ao país, desde 1979.

Em 2015, o Irã assinou um acordo de programa nuclear com os G5+1, grupo formado por cinco
membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU (China, Estados Unidos, França,
Reino Unido, Rú ssia) e mais um, a Alemanha. O acordo prevê o controle de enriquecimento de
urâ nio e plutô nio, novas inspeçõ es pela Agência Internacional de Energia Atô mica e o embargo
de armamentos ofensivos. Em contrapartida, algumas sançõ es econô micas ao país serã o
amenizadas. Só a partir de 2016, depois do acordo, o Irã espera atrair investimentos
estrangeiros e alavancar o desenvolvimento econô mico do país, segundo o entã o presidente
Hassan Rohani, sucessor moderado de Mahmoud Ahmadinejad, que apoiava o programa
nuclear do país.
Pá gina 222

A geopolítica do conhecimento: a produção de ciência e tecnologia

A ciência e a tecnologia podem ser consideradas os pilares da sociedade moderna. Nesse


sentido, o acesso ao saber, à inovaçã o e, principalmente, à produçã o de conhecimento é uma
etapa para a autonomia e a autodeterminaçã o dos povos. Além disso, a ciência e a tecnologia
sã o as principais responsá veis pelas inovaçõ es na indú stria e sã o utilizadas nos produtos que
chegam até os consumidores em todo o mundo.

Quem produz ciência e tecnologia no mundo


Possuir tecnologia é uma vantagem econô mica e também geopolítica. A ONU, por meio do
Programa das Naçõ es Unidas para o Desenvolvimento (Pnud), criou o Índice de Realização
Tecnológica (IRT) para classificar os países de acordo com a produçã o de tecnologia e o
acesso ao conhecimento tecnoló gico. Esse índice se baseia: na criaçã o de tecnologias, por meio
de dados como o nú mero de patentes dos residentes e as receitas externas obtidas com as
patentes; na utilizaçã o e difusã o de inovaçõ es recentes, como o nú mero de sites per capita e a
proporçã o das exportaçõ es de tecnologia em relaçã o ao total das exportaçõ es; na difusã o de
inovaçõ es anteriores, como a quantidade de telefones fixos e celulares e o consumo de energia
elétrica per capita; e no indicador de capacitaçã o humana, que utiliza dados de escolaridade da
populaçã o e da taxa bruta de matrículas em cursos científicos de nível superior. Os países sã o
classificados como líderes (IRT maior que 0,499), líderes potenciais (de 0,350 a 0,499),
seguidores dinâmicos (de 0,200 a 0,349) e marginalizados (menor do que 0,200).

A produçã o do conhecimento tecnoló gico é fruto de toda a sociedade e nã o apenas da


genialidade de um indivíduo. Mesmo os grandes inventores só conseguiram criar suas
invençõ es porque tinham o conhecimento acumulado de muitos outros que os precederam.
Assim, o conhecimento pode ser considerado um bem de toda a humanidade, nã o apenas de
alguns.

A sociedade capitalista moderna atingiu um alto grau de produtividade por aplicar a ciência e a
tecnologia na esfera produtiva. Como grande parte das inovaçõ es se concentra nos países
industrializados, estes obtêm vantagens econô micas e geopolíticas em relaçã o aos demais. O
processo de dominaçã o entre as naçõ es também se dá na esfera tecnoló gica.

A inovaçã o tecnoló gica normalmente está ligada aos laborató rios de grandes empresas, à s
universidades, aos institutos de pesquisa e à s pequenas empresas empreendedoras. Vá rios
países incentivam a inovaçã o e a produçã o tecnoló gica como formas de atingir o crescimento
econô mico e melhorar o nível de vida da populaçã o. Veja a tabela abaixo e leia o boxe Saiba
mais.

Países com o maior número de pesquisadores, em milhares (2012-2013)


Israel 8,3
Dinamarca 7,3
Finlândia 7,2
Coreia do Sul 6,5
Cingapura 6,4
Noruega 5,6
Japão 5,2
Alemanha 4,5
Canadá 4,5
Estados Unidos 4,0
Fonte de pesquisa: Unesco. Institute for Statistics. Atlas of Research and Experimental Development. Disponível em:
<http://www.uis.unesco.org/ScienceTechnology/Pages/r-d-eatlas-launch.aspx>. Acesso em: 12 abr. 2016.

As vantagens da tecnologia nem sempre estã o acessíveis a toda a populaçã o, e a ideia de que
ela pode resolver todos os problemas é equivocada. Muitas vezes, o uso da tecnologia mantém
a desigualdade entre os povos ou entre as pessoas e as regiõ es de um país.

James MacDonald/Bloomberg/Getty Images

Pesquisadora faz testes em componentes utilizados em drones (ou veículo aéreo nã o tripulado – Vant), em
laborató rio de pesquisa de Waterloo, Canadá . Foto de 2016.

SAIBA MAIS

Silicon Wadi

Depois do Vale do Silício, nos Estados Unidos, a segunda regiã o no mundo que mais concentra
empresas de tecnologia e startups (modelo empresarial sob condiçã o de risco e incerteza de
sucesso) fica em Israel, no chamado Silicon Wadi. As cidades de Tel-Aviv e Haifa sã o grandes
incubadoras de projetos para a internet, cibersegurança e telefonia. O alto investimento pú blico em
pesquisa e desenvolvimento e elevado índice educacional do país abriram oportunidades
inovadoras e novos empregos.
Pá gina 223

A indústria farmacêutica e a saúde mundial


A indú stria farmacêutica tem um papel extremamente importante do ponto de vista
estratégico, uma vez que envolve a saú de das populaçõ es. Ter acesso à pesquisa e desenvolver
medicamentos a partir dela, evitando a dependência econô mica desses produtos, sã o
estratégias fundamentais para qualquer Estado.

Todos os anos, novos produtos sã o lançados com o objetivo de ajudar a resolver problemas
relacionados à saú de das pessoas. Mas nem sempre os interesses das empresas farmacêuticas
sã o compatíveis com as necessidades da saú de da populaçã o, sobretudo nos países menos
desenvolvidos.

Outro fator importante é que os preços dos medicamentos acabam sendo excessivamente
elevados. As mais recentes descobertas da ciência possibilitam a elaboraçã o de novos
remédios, mas eles costumam custar muito mais caro do que os que já estã o no mercado há
algum tempo.

Além disso, há , em muitos casos, a formaçã o de cartéis. No início dos anos 2000, apó s uma
onda de fusõ es e aquisiçõ es, as dez maiores empresas farmacêuticas passaram a dominar 50%
do mercado mundial de medicamentos, diminuindo a concorrência e facilitando esquemas de
preços combinados.

Lei de patentes e propriedade intelectual


Anualmente, a indú stria farmacêutica investe muito dinheiro para fomentar a pesquisa de
novos medicamentos. A propriedade intelectual é protegida pela lei de patentes, segundo a
qual todos os consumidores devem pagar por essas inovaçõ es.

Alguns poucos países, como o Brasil, em nome do interesse de toda a sociedade, aprovaram
leis que quebram as patentes e autorizam a produçã o de medicamentos genéricos para vá rias
enfermidades. É importante esclarecer que houve um debate internacional, no â mbito da ONU,
que culminou com o reconhecimento do direito à saú de como um direito humano, o que
possibilita a quebra oficial de uma patente em caso de emergência social que envolva a
saú de.

Outras naçõ es, como a Índia, nã o reconhecem a lei de patentes e fabricam medicamentos de
acordo com o interesse social. Por causa disso, os medicamentos na Índia sã o cerca de 10 vezes
mais baratos que no vizinho Paquistã o. Do mesmo modo, na França, onde os preços sã o
controlados pelo Estado, os medicamentos sã o muito mais baratos que na Alemanha, onde o
preço é determinado pela indú stria farmacêutica.

No entanto, muitos países nã o têm força política para enfrentar as empresas detentoras das
patentes de remédios e nã o aprovam leis que quebrem as patentes de interesse humanitá rio.
Além disso, nã o possuem capacidade econô mica para produzir os pró prios medicamentos.

Em alguns casos, graves epidemias tomam conta da populaçã o, e a frá gil gestã o de governos,
associada a corrupçõ es e a baixo investimentos em saú de, impede uma maior açã o dos
Estados. A disseminaçã o da aids em vá rios países da Á frica Subsaariana é o exemplo mais
claro. Lá , os preços elevados dos remédios e a precariedade no atendimento médico e
hospitalar sã o algumas das principais causas que impedem a existência de programas
eficientes de saú de pú blica para tratar a aids. Se as empresas fabricantes se negam a vender os
medicamentos a preços acessíveis à populaçã o, raras vezes o Estado consegue interferir.

Uma saída, ainda em discussã o na Organizaçã o Mundial do Comércio (OMC), é a licença


obrigató ria sobre remédios que visem proteger a saú de pú blica.

CONEXÃO

A ciência para auxiliar a humanidade pode ser controlada por empresas privadas?

Poucas indú strias farmacêuticas do minam a produçã o mundial de remédios. Quinze grandes
empresas, das quais 13 sã o estadunidenses, controlam as pesquisas em biotecnologia agrícola.

Assim como ocorre nessas duas á reas, em muitos setores de ponta, a aplicaçã o do conhecimento
oriundo de pesquisas em ciência e tecnologia está concentrada em poucas empresas. Isso leva a um
intenso debate sobre os benefícios e os malefícios de tal concentraçã o para a humanidade.

Um dos principais argumentos contrá rios é que o patenteamento genético, por exemplo, pode levar
a uma drá stica reduçã o da biodiversidade mundial, uma vez que muitas espécies de seres vivos
passarã o a ser produzidas segundo regras de mercado.

O conhecimento científico é transmitido entre povos e geraçõ es ao longo do tempo. Embora


reconheçam que o emprego de muitos milhõ es de dó lares para financiar novas descobertas é
importante, os críticos argumentam que é inaceitá vel que essas empresas se apropriem desse
conhecimento, restringindo seu uso social e humanitá rio.

1. Discuta essa questã o com os colegas e escreva um breve texto com sua opiniã o sobre o assunto.

Assista
O jardineiro fiel. Direçã o de Fernando Meirelles, EUA, 2005, 129 min.
Quando uma ativista é morta no Quê nia, desdobra-se toda a trama sobre a açã o de uma indú stria farmacê utica e seus
interesses na Á frica.
Pá gina 224

Informe
Patentes: para que servem? A quem servem?
Governos oferecem proteção às patentes porque, reza a lenda, elas estimulam a inovação. Mas
parece não ser bem assim

[...] Um dos argumentos que os defensores das patentes gostam de usar é o de que elas
contribuem para o bem pú blico. Nã o era esse o seu objetivo original. [...] quando [no século 19]
os soberanos instituíram as patentes, a intençã o era, antes de mais nada, criar um instrumento
de arrecadaçã o para os cofres reais; no início do século 17, o rei James I coletava 200 mil libras
por ano com a concessã o de patentes. Com o passar do tempo, porém, elas começaram a ser
vistas como algo que beneficiava não só o monarca, mas também o conjunto da sociedade – um
mecanismo para “promover o progresso da ciência e das artes ú teis” [...]. A ló gica do
argumento é bastante simples: em troca da iniciativa de registrar e publicar uma ideia, que
precisa ser nova e ú til e nã o pode ter nada de ó bvia, concede- se o direito a um monopó lio
temporá rio – de cerca de 20 anos, atualmente – em sua utilizaçã o. Assim, as patentes
incentivam as inovaçõ es, uma vez que proporcionam ganhos materiais quando estas ú ltimas
“caem no gosto do povo”. O sistema também estimula outras pessoas a inovar: a publicaçã o de
boas ideias aumenta o ritmo do avanço tecnoló gico, já que as inovaçõ es se impulsionam umas
à s outras.

O raciocínio é plausível. Mas será verdadeiro? [...]

Quando de fato se observam mudanças no ritmo de inovaçã o, elas parecem ter pouco a ver
com a presença ou nã o de um regime de patentes. Boldrin e Levine [economistas] dizem que,
na histó ria de setores que vã o da indú stria química à automobilística e ao segmento de
informá tica, as ondas de inovaçã o tiveram início com surtos de inventividade, em que se
observava a atuaçã o de grande nú mero de participantes. As patentes só passaram a ser
solicitadas anos depois, quando o ritmo de inovaçã o já era menor e as empresas que haviam
dominado o mercado tentavam, por um lado, impedir o ingresso de novos atores no segmento
e, por outro, proteger-se de açõ es judiciais movidas por concorrentes. As patentes foram o
resultado de inovaçõ es bem-sucedidas; sua causa foi a competiçã o. [...]

Mesmo que muitos setores no fundo não precisem de patentes – e alguns deles talvez
estivessem melhor sem elas – ainda é bastante enraizada a crença de que, em alguns
segmentos, elas sã o vitais. O exemplo a que sempre recorrem os defensores das patentes é o do
setor farmacêutico. Os medicamentos têm de passar por testes excepcionalmente dispendiosos
e demorados para que fique comprovada sua segurança e eficá cia. E, se nã o fosse pela proteçã o
garantida pela patente do medicamento, a empresa que se dá ao trabalho de demonstrar que
determinada molécula faz seu serviço com efeitos colaterais mínimos ou administrá veis nã o
teria como evitar que suas concorrentes se aproveitassem de seus esforços para produzir
có pias muito mais baratas da mesma molécula. [...]

[...] Até 1967, as empresas farmacêuticas alemã s podiam patentear apenas o método de
fabricaçã o de seus medicamentos, nã o a fó rmula em si. Qualquer pessoa que descobrisse outra
maneira de fabricá -los, estava autorizada a vender có pias deles. [...]
[...] Joseph Stiglitz, economista da Universidade de Columbia, e outros estudiosos sugerem
oferecer prêmios polpudos para incentivar o desenvolvimento de drogas inovadoras por
equipes de cientistas autô nomos.

Quando um medicamento promissor fosse descoberto, a etapa final, e mais dispendiosa, dos
testes clínicos, que é o momento em que se avalia a eficá cia de uma droga que já teve sua
segurança comprovada, poderia ser financiada com recursos pú blicos – provenientes de outra
parcela do enorme potencial de economia gerado pela utilizaçã o de medicamentos mais
baratos – e realizada por laborató rios independentes. [...]

De qualquer forma, determinar até que ponto as patentes e outras formas de proteçã o à
propriedade intelectual realmente cumprem o seu papel, e até mesmo se merecem existir, é
uma tarefa para ontem. A eliminaçã o pura e simples dos sistemas de patentes envolve
questõ es relacionadas à ética dos direitos de propriedade. [...]

DOWBOR, Ladislau. Questã o de utilidade. The Economist. Disponível em: <http://economia.estadao.com.br/noticias/geral,questao-de-


utilidade,1740482>. Acesso em: 14 abr. 2016.

Danish Siddiqui/Reuters/Latinstock

Laborató rio de indú stria farmacêutica em Mumbai, Índia. Foto de 2014.

PARA DISCUTIR

1. Reú na-se com dois colegas para discutir se o sistema de patentes beneficia as populaçõ es e
incentiva o compartilhamento do conhecimento, ou suas vantagens restringem-se à s grandes
corporaçõ es e fortalecem os monopó lios. Depois, apresentem as conclusõ es a que chegaram os
demais grupos.
Pá gina 225

Mundo Hoje
Kim Jong-un justifica teste nuclear norte-coreano
O dirigente norte-coreano Kim Jong-un justificou neste domingo (10) [jan. 2016] o primeiro
teste de bomba de hidrogênio de seu país, anunciado como uma necessidade para evitar uma
guerra nuclear com os Estados Unidos.

Esta foi a primeira declaraçã o do líder do regime norte-coreano desde que Pyongyang
anunciou, na quarta-feira (6), um teste bem-sucedido com a bomba H.

O anú ncio do quarto teste nuclear norte-coreano provocou muitas condenaçõ es internacionais,
mas quase todos os especialistas duvidam que a arma utilizada tenha sido uma bomba de
hidrogênio, como Pyongyang deseja que o mundo acredite. A tensã o com a Coreia do Sul
aumentou nos ú ltimos dias.

O teste nuclear era “uma medida de autodefesa para defender a paz de maneira eficaz na
península coreana e a segurança nacional ante os riscos de guerra nuclear provocados pelos
imperialistas liderados pelos Estados Unidos”, declarou Kim Jong-un, segundo a agência oficial
KCNA.

“Se trata do direito legítimo de um Estado soberano, de uma açã o justa que ninguém pode
criticar”, completou.

[...]

Pyongyang acusa regularmente de belicismo os Estados Unidos e sua aliada Coreia do Sul.

As declaraçõ es foram divulgadas apó s um comentá rio oficial publicado na sexta-feira [8] pela
KCNA, segundo o qual os destinos de Saddam Hussein no Iraque e de Muamar Khadafi na Líbia
mostram o que acontece quando um país renuncia a suas ambiçõ es nucleares.

Apó s o teste nuclear, muitas consultas diplomá ticas foram realizadas, depois de uma reuniã o
urgente do Conselho de Segurança da ONU, que prometeu endurecer o leque de sançõ es já
aplicadas contra a Coreia do Norte por seus testes anteriores (2006, 2009 e 2013).

O aliado mais importante da Coreia do Norte, a China, também expressou irritaçã o.

A Coreia do Sul retomou na sexta-feira a campanha de difusã o de mensagens de propaganda na


fronteira com a Coreia do Norte, que respondeu afirmando que a península se encontra “à
beira da guerra”.

Uma bomba H operacional, muito mais potente que a bomba atô mica comum, seria um enorme
passo adiante para Pyongyang, que está proibido pela ONU de desenvolver um programa
nuclear ou balístico.
Mas quase todos os especialistas consideraram muito reduzida para uma bomba H a energia
gerada pela explosã o, estimada inicialmente entre 6 e 9 quilotons.

KCNA/Reuters/Latinstock

Dirigente Kim Jong-un e soldados norte-coreanos em local desconhecido. Foto de 2013.

Allmaps/ID/BR

Fonte de pesquisa: Atlas geográfico escolar. 6. ed. Rio de Janeiro: IBGE, 2012. p. 68. G1, jan. 2016. Disponível em:
<http://g1.globo.com/mundo/noticia/2016/01/kim-jong-un-justifica-teste-nuclear-norte-coreano.html>. Acesso em: 14 abr. 2016.

PARA ELABORAR

1. Por que o teste nuclear representaria manter a soberania para a Coreia do Norte?

2. Levante hipó teses para explicar por que Kim Jong-un considera os Estados Unidos
“imperialistas”. Pesquise em livros e na internet quais sã o as diferenças ideoló gicas entre os
dois sistemas de governo e qual é a relaçã o disso com o texto acima.
Pá gina 226

Atividades
Não escreva no livro.

Revendo conceitos

1. Quais as principais características em relaçã o à s inovaçõ es na produçã o de armamentos no


mundo?

2. Quais sã o as principais formas de poder relacionadas à produçã o nuclear?

3. Quais sã o os objetivos do Tratado de Nã o Proliferaçã o de Armas Nucleares?

4. Por que a produçã o da ciência e da tecnologia pode ser considerada importante do ponto de
vista geopolítico?

5. Onde se produz tecnologia no mundo atualmente? A tecnologia é sempre vantajosa para


todos?

6. Defina patentes e propriedade intelectual.

Interpretando textos e imagens

7. Leia o texto a seguir que trata da lei de patentes e indú stria farmacêutica. Em seguida,
responda à s questõ es.

País premiado por programas pú blicos de saú de como o de atendimento universal aos doentes de
Aids, o Brasil é o maior comprador do mundo de medicamentos. [...]

As empresas internacionais correram para registrar aqui suas patentes e o País passou a concedê-
las, sem dar tempo à indú stria nacional para se adaptar. Assim, nã o havia um parque industrial que
pudesse atender à s necessidades do Ministério da Saú de. [...]

ALVES, Vâ nia. Rigor da Lei de Patentes compromete indú stria nacional; Brasil busca saídas. Câ mara dos Deputados. Rádio Câmara,
dez. 2013. Disponível em: <http://www2.camara.leg.br/camaranoticias/radio/materias/reportagem-especial/459062-rigor-da-lei-
de-patentescompromete-industria-nacional-brasil-busca-saidas.html>. Acesso em: 12 abr. 2016.

a) Considerando o texto, qual foi o estímulo dado à s empresas multinacionais de


medicamentos?
b) Como explicar a contradiçã o explícita no texto entre o acesso gratuito ao medicamento e a
dependência das empresas farmacêuticas multinacionais?

8. Leia o texto abaixo e faça o que se pede.

[...]

Desta vez, o avanço do grupo fundamentalista ultrarradical Estado Islâ mico (EI) sobre cidades
iraquianas fez o presidente dos Estados Unidos retroceder em sua estratégia de passividade. Na
semana passada [jun. 2015], Obama decidiu enviar 450 soldados americanos para treinar e orientar
o Exército iraquiano e milícias tribais. Os Estados Unidos também devem aumentar o nú mero de
bases americanas no Iraque. O objetivo é forçar o EI a recuar.

Pode parecer uma ajuda modesta, mas a virada estratégica é relevante. Desde o começo de seu
governo, o plano de Obama era se arrancar das areias movediças iraquianas em que os americanos
se enfiaram no governo de

George W. Bush, em 2003. Cerca de 465 mil pessoas morreram em oito anos de conflito, incluindo
cerca de 5 mil soldados americanos. Parecia fá cil justificar a saída das tropas dos Estados Unidos do
Iraque. A retirada terminou em 2011. A estratégia de Obama era deixar os iraquianos resolver os
problemas em seu territó rio. [...]

TURRER, Rodrigo. Os EUA partem para o ataque contra o Estado Islâ mico. Revista Época, 12 jun. 2015. Disponível em:
<http://epoca.globo.com/tempo/noticia/2015/06/os-eua-partem-para-o-ataquecontra-o-estado-islamico.html>. Acesso em: 5 abr.
2016.

De acordo com o texto e com seus conhecimentos, quais foram os principais argumentos do
governo estadunidense para realizar as intervençõ es militares de 2003 e 2015 no Iraque?

9. Observe o esquema a seguir, que representa as relaçõ es entre sociedade e novas


tecnologias. Depois, responda à s questõ es.

Setup Bureau/ID/BR

Fonte de pesquisa: Pnud. Relatório do Desenvolvimento Humano 2007-2008. Disponível em:


<http://www.pnud.org.br/hdr/arquivos/rdh20072008/hdr_20072008_pt_complete.pdf>. Acesso em: 12 abr. 2016.

a) Quais os fatores que impulsionam mudanças tecnoló gicas?


b) Quais sã o os impactos decorrentes da aplicaçã o de tecnologia em um país?
c) Em duplas, pesquisem cinco projetos de incubadoras de tecnologia no Brasil desenvolvidas
por jovens estudantes. Depois, verifiquem quais setores da economia, da educaçã o e do
desenvolvimento social poderã o ser beneficiados. Escrevam uma síntese de suas conclusõ es.

10. Leia o texto abaixo e responda à s questõ es.

Embora normalmente vinculados ao ensino, os programas de pesquisa universitá ria destinados a


atender as necessidades do setor produtivo local passaram a ter vida pró pria e se tornaram
institucionais. [...] A universidade de Oklahoma vem se destacando há muito tempo por suas
pesquisas no campo do petró leo, enquanto as universidades de Illinois e Purdue trabalham em
tecnologias de ferrovias, abrangendo desde projetos de caldeiras de locomotivas até sua
manutençã o e reparo. [...]

NELSON, Richard R. As fontes do crescimento econômico. Campinas: Ed. Unicamp, 2006. p. 310.
Pá gina 227

a) Qual é a importâ ncia da relaçã o entre as pesquisas das universidades e o desenvolvimento


tecnoló gico para a indú stria?
b) Do ponto de vista geopolítico, é importante ter universidades produzindo ciência? Justifique
sua resposta.

Lendo mapas

Analise os mapas para responder à s pró ximas questõ es.

João Miguel A. Moreira/ID/BR

João Miguel A. Moreira/ID/BR

Fonte de pesquisa: Le Monde Diplomatique. Disponível em: <http://mondediplo.com/maps/>. Acesso: 12 abr. 2016.

11. As armas convencionais (nã o atô micas) ainda representam uma força estratégica de
grande importâ ncia. Responda:
a) Quais sã o as á reas de maior concentraçã o na compra de armas convencionais?
b) Quais sã o as semelhanças entre essas á reas?
c) Rú ssia e Estados Unidos exportam para os mesmos países?
d) Os dois mapas representam o acesso a novos mercados em diferentes países. Esse fato pode
representar disputas ideoló gicas? Explique.

12. Leia a notícia abaixo.

O presidente dos EUA, Barack Obama, falou [...] com o seu colega turco, Recep Tayyip Erdogan
[presidente da Turquia], sobre a guerra na Síria e os esforços para combater os terroristas [...]. Os
dois líderes discutiram as oportunidades de aprofundar a cooperaçã o na luta contra todos os
grupos terroristas, inclusive o PKK [Partido dos Trabalhadores do Curdistã o]. [...]

O Partido dos Trabalhadores do Curdistã o (PKK) é um movimento separatista que luta pela
independência da etnia curda no sudeste da Turquia. [...]

Irãnews. Irã e Turquia intensificarã o luta contra terrorismo... e curdos? 19 maio 2016. Disponível em:
<http://www.iranews.com.br/eua-e-turquiaintensificarao-luta-contra-terrorismo-e-curdos/>. Acesso em: 29 maio 2016.

A partir da notícia e dos mapas, é possível estabelecer relaçõ es entre o contexto geopolítico da
Turquia e a indú stria bélica dos Estados Unidos? Justifique.
Pá gina 228

Em análise
Construindo mapa geopolítico: O mundo visto por…

Sabemos que os mapas podem representar as estratégias traçadas pelos Estados, sejam elas
políticas, econô micas, sejam de dominaçã o territorial. É o caso dos mapas geopolíticos, que
relacionam questõ es geográ ficas com o poder do Estado.

O mundo visto por... é uma forma de representaçã o cartográ fica na qual se dá centralidade a
um país indicando-se suas relaçõ es geopolíticas com o restante do mundo, em á reas nas quais
se destaca. Esse tipo de representaçã o cartográ fica é muito utilizado em mapas econô micos e
geopolíticos, pois permite agregar ao mapa diferentes tipos de informaçã o.

Os mapas a seguir mostram as estratégias geopolíticas e econô micas de dois países – Estados
Unidos e China – em relaçã o ao mundo.

Allmaps/ID/BR

Fonte de pesquisa: BONIFACE, Pascal; VÉDRINE, Hubert. Atlas do mundo global. Sã o Paulo: Estaçã o Liberdade, 2009. p. 68.

Nesse mapa, as relaçõ es entre os Estados Unidos e os demais países sã o destacadas do ponto
de vista geoestratégico. Sã o utilizados aqui os mais variados recursos da cartografia:
informaçõ es zonais, para indicar á reas econô micas estratégicas e privilegiadas, e informaçõ es
lineares, para indicar parcerias econô micas. Há também informaçõ es pontuais para indicar
membros da Otan e países aliados.
Trata-se de um mapa de síntese, e sua leitura deve ser feita com bastante atençã o, para que se
possam perceber todos os detalhes. Uma informaçã o importante que nã o está presente no
mapa é o nome de todos os países. Por isso, para que sua leitura ocorra com eficiência, é
necessá rio recorrer a um mapa-mú ndi.

Observe na pró xima pá gina o mapa que mostra a China como centro. Compare-o com o mapa
dos Estados Unidos. Perceba que, como as relaçõ es geopolíticas e estratégicas sã o diferentes, o
conjunto de informaçõ es e a representaçã o também sã o diferentes. Assim, O mundo visto
por... mostra para cada país um panorama geoestratégico específico.
Pá gina 229

Allmaps/ID/BR

Fonte de pesquisa: BONIFACE, Pascal; VÉDRINE, Hubert. Atlas do mundo global. Sã o Paulo: Estaçã o Liberdade, 2009. p. 96.

Proposta de trabalho

O mapa-mú ndi abaixo tem como centro o continente americano. Utilize esse mapa para
construir O mundo visto pelo Brasil. Copie o mapa em uma folha de papel vegetal.

Allmaps/ID/BR

Fonte de pesquisa: Atlas geográfico escolar. 6. ed. Rio de Janeiro: IBGE, 2012. p. 68.

1. Considere as relaçõ es geopolíticas do Brasil com os outros países com base no que foi
trabalhado na unidade: recursos minerais, produçã o de alimentos, petró leo, tecnologia,
armamentos, etc.
2. Pesquise também as relaçõ es estabelecidas pelo Brasil com as outras regiõ es do globo. Siga o
modelo apresentado nos casos dos Estados Unidos e China.

3. Concluído o mapa, compare-o com os mapas dos Estados Unidos e da China.

4. Produza no caderno um pequeno texto com suas opiniõ es sobre a situaçã o geopolítica
brasileira.
Pá gina 230

Síntese da Unidade
Capítulo 13 Geopolítica dos recursos naturais

• Escreva duas ou três frases com cada palavra-chave ou expressã o abaixo, sintetizando as
informaçõ es do capítulo.

• Segurança hídrica

• Á guas transfronteiriças

• Recursos minerais

• Patrimô nio vegetal

• Fontes alternativas de energia

• Biomassa

Capítulo 14 Geopolítica do petróleo

• A partir das imagens, escreva um pequeno texto sintetizando os assuntos principais


desenvolvidos ao longo do capítulo.

Corbis/Fotoarena

Texas, Estados Unidos. Foto de 1919.

Ali al Saadi/AFP
Al Iskandiriyah, Iraque. Foto de 2011.

Capítulo 15 Geopolítica dos alimentos

• Copie no caderno o quadro-síntese a seguir e preencha-o com as informaçõ es do capítulo.


Geopolítica dos alimentos
Avanço na ciência e produção alimentar
Segurança e soberania alimentar
Arsenal de alimentos
Transgênicos e biotecnologia
Geopolítica da fome
Produção mundial de alimentos

Capítulo 16 Geopolítica da produção

• Com base no esquema abaixo, escreva frases que sintetizem o conteú do do capítulo.
Pá gina 231

Vestibular e Enem
Atenção: todas as questões foram reproduzidas das provas originais de que fazem parte. Responda a todas as questões no caderno.

1. (Enem)

Enem/2012. Fac-símile: ID/BR

Na charge faz-se referência a uma modificaçã o produtiva ocorrida na agricultura. Uma


contradiçã o presente no espaço rural brasileiro derivada dessa modificaçã o produtiva está
presente em:
a) Expansã o das terras agricultá veis, com manutençã o de desigualdades sociais.
b) Modernizaçã o técnica do territó rio, com reduçã o do nível de emprego formal.
c) Valorizaçã o de atividades de subsistência, com reduçã o da produtividade da terra.
d) Desenvolvimento de nú cleos policultores, com ampliaçã o da concentraçã o fundiá ria.
e) Melhora da qualidade dos produtos, com retraçã o na exportaçã o de produtos primá rios.

2. (Enem)

A energia geotérmica tem sua origem no nú cleo derretido da Terra, onde as temperaturas atingem
4 000 °C. Essa energia é primeiramente produzida pela decomposiçã o de materiais radiativos
dentro do planeta. Em fontes geotérmicas, a á gua, aprisionada em um reservató rio subterrâ neo, é
aquecida pelas rochas ao redor e fica submetida a altas pressõ es, podendo atingir temperaturas de
até 370 °C sem entrar em ebuliçã o. Ao ser liberada na superfície, à pressã o ambiente, ela se
vaporiza e se resfria, formando fontes ou gêiseres. O vapor de poços geotérmicos é separado da
á gua e é utilizado no funcionamento de turbinas para gerar eletricidade. A á gua quente pode ser
utilizada para aquecimento direto ou em usinas de dessalinizaçã o.

HINRICHS, Roger A.; KLEINBACH, Merlin. Energia e meio ambiente. Ed. ABDR. (Adaptado.)

Depreende-se das informaçõ es anteriores que as usinas geotérmicas:


a) utilizam a mesma fonte primá ria de energia que as usinas nucleares, sendo, portanto,
semelhantes os riscos decorrentes de ambas.
b) funcionam com base na conversã o de energia potencial gravitacional em energia térmica.
c) podem aproveitar a energia química transformada em térmica no processo de
dessalinizaçã o.
d) assemelham-se à s usinas nucleares no que diz respeito à conversã o de energia térmica em
cinética e, depois, em elétrica.
e) transformam inicialmente a energia solar em energia cinética e, depois, em energia térmica.

3. (Enem)

O potencial brasileiro para gerar energia a partir da biomassa nã o se limita a uma ampliaçã o do
Pró -á lcool.

O país pode substituir o ó leo diesel de petró leo por grande variedade de ó leos vegetais e explorar a
alta produtividade das florestas tropicais plantadas. Além da produçã o de celulose, a utilizaçã o da
biomassa permite a geraçã o de energia elétrica por meio de termelétricas a lenha, carvã o vegetal ou
gá s de madeira, com elevado rendimento e baixo custo.

Cerca de 30% do territó rio brasileiro é constituído por terras impró prias para a agricultura, mas
aptas à exploraçã o florestal. A utilizaçã o de metade dessa á rea, ou seja, de 120 milhõ es de hectares,
para a formaçã o de florestas energéticas, permitiria produçã o sustentada do equivalente a cerca de
5 bilhõ es de barris de petró leo por ano, mais que o dobro do que produz a Ará bia Saudita
atualmente.

VIDAL, José Walter Bautista. Desafios internacionais para o século XXI. Seminá rio da Comissã o de Relaçõ es Exteriores e de Defesa
Nacional da Câ mara dos Deputados, ago. 2002. (Adaptado.)

Para o Brasil, as vantagens da produçã o de energia a partir da biomassa incluem:


a) implantaçã o de florestas energéticas em todas as regiõ es brasileiras com igual custo
ambiental e econô mico.
b) substituiçã o integral, por biodiesel, de todos os combustíveis fó sseis derivados do petró leo.
c) formaçã o de florestas energéticas em terras impró prias para a agricultura.
d) importaçã o de biodiesel de países tropicais, em que a produtividade das florestas seja mais
alta.
e) regeneraçã o das florestas nativas em biomas modificados pelo homem, como o Cerrado e a
Mata Atlâ ntica.
Pá gina 232

Vestibular e Enem
4. (UEL-PR) A política estadunidense de estímulo à produçã o de etanol está vinculada:
a) nã o apenas à procura de combustíveis alternativos, dos quais o etanol é um exemplo, mas
também a transformaçõ es no processo produtivo, beneficiando, assim, a proteçã o de reservas
florestais de países em desenvolvimento.
b) à busca de transformaçõ es culturais e políticas, de modo a promover uma verdadeira
“revoluçã o verde”, com mudanças permanentes de padrõ es e há bitos de produçã o,
distribuiçã o, circulaçã o e consumo de alimentos industrializados.
c) à ló gica de mercado, segundo a qual o cultivo de produtos agrícolas é direcionado para a
fabricaçã o de biocombustíveis, mais lucrativos, o que gera escassez e elevaçã o dos preços dos
alimentos.
d) à procura de combustíveis alternativo