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Nosso país não pode deixar de colocar acima de qualquer outra coisa o

apreço pelas leis e o seu fiel seguimento. Passamos por tempo em que as leis são
aviltadas e com isso a moral e a ética estão abandonadas. A hierarquia legal nos mostra
que a Constituição é o alicerce de todo o arcabouço legal e que nada pode ser construído
afastado ou divergente dela.

A acumulação de cargos, empregos ou funções públicos é um direito


assegurado pelo artigo 37 da Constituição Federal. Nele há, como regra, a vedação da
acumulação e cita as exceções possíveis, dentre as quais a de profissionais da área de
saúde com profissão regulamentada. A única exigência que há é a compatibilidade de
horários.

Ora, criar quaisquer obstáculos que não estejam explicitados em lei constitui
um distanciamento perigoso do legal. As interpretações enviesadas, em que não há
qualquer fundamentação na letra da lei, podem criar um estado de exceção, onde quem
interpreta dá o tom na medida da conveniência.

No caso específico dos técnicos em radiologia há uma interpretação de que a


lei 7.394/1985, que regulamenta a profissão, limita a carga horária a 24 horas semanais
e essa limitação não permite a acumulação. Vejam que a carga horária especial para os
técnicos em radiologia foi fruto de ganho trabalhista, depois de muita luta e negociação.
Da mesma forma, temos os profissionais de enfermagem e os assistentes sociais, por
exemplo, com carga horária máxima semanal de 30 horas, o que não é alvo da mesma
interpretação.

Há algumas interpretações que alegam que a limitação da carga horária se


dá por conta da insalubridade da atividade, o que não está explicitado na lei, que, por
conta desta insalubridade, exige o pagamento do adicional de 40%. Mesmo o serviço
público Federal, que por alguns poucos anos sustentou essa interpretação, reformou o
entendimento desde 2011, assegurando licitude da acumulação aos técnicos em
radiologia aos seus serviços.

Abordando o caráter técnico da radioproteção, não há nenhuma prescrição


em que se reduza a carga horária de indivíduos ocupacionalmente expostos para
prevenir ou reparar danos causados pela exposição. A proteção da saúde é dada através
da limitação de dose. Tanto que, em ambientes com alta taxa de dose de exposição,
algumas instalações industriais notadamente, utilizam-se dosímetros de leitura direta
com alarme para avisar quando o limite diário de dose foi ultrapassado, afastando esse
trabalhador imediatamente da exposição à radiação, sem que sua jornada de trabalho
seja previamente reduzida.

O tribunal guardião da Constituição, STF, já decidiu por várias vezes que a


acumulação é direito das profissões arroladas como exceção à proibição e que a única
exigência é a compatibilidade de horários. Até a extrapolação do limite máximo de
horas, 65 na esfera estadual, que era exigido com o mesmo pretexto da salubridade, não
impede a acumulação, segundo o STF.
A insistência em manter postura interna de ilicitude da acumulação para a
categoria traz dois resultados negativos para a UERJ. O primeiro é uma enxurrada de
ações judiciais que vão escoar recursos financeiros e não financeiros sem necessidade.
O segundo é a seleção ao contrário, pois somente profissionais que não consigam
aprovação em concurso para ter vínculo duplo é que ficarão na universidade. Já há caso
de desistência do vínculo na UERJ por conta dessa dificuldade. Não há vedação
semelhante em nenhum outro ente, de qualquer esfera. O grupo que hoje trabalha na
radiologia da UERJ é certamente o mais bem preparado do estado.

Além de todo o aspecto legal, há um aspecto prático que pode levar à


paralisação das atividades do Hospital Universitário Pedro Ernesto. Há, hoje, no serviço
de radiologia diagnóstica em torno de 72 técnicos, dos quais cerca de 40 foram
contratados no último concurso, em 2015 e mais de 95% dos novos contratados tem
duplo vínculo e estão sob a espada da ilicitude de acumulação. A exoneração em massa
paralisa, imediatamente, os serviços de Ressonância Nuclear Magnética e
Hemodinâmica, além de ferir de morte a Radiologia Geral, Tomografia
Computadorizada e a radiologia em Centro Cirúrgico. Nove dos dez técnicos lotados no
serviço de radioterapia tem duplo vínculo.

Pelo exposto, pedimos que este Conselho Universitário revogue a AEDA


26/2015 e, para evitar a anomia, aprove uma resolução de igual conteúdo omitindo
apenas a observação do item 4.3 em que há a vedação específica para a categoria.