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Dossiê:

Sociologia das práticas policiais e judiciais


pedrogeraldo@id.uff.br

CONFLUÊNCIAS EDITORIAL
Revista Interdisciplinar de Prezados Leitores,
Sociologia e Direito É com muita satisfação que apresen-
www.confluencias.uff.br tamos os números da Confluências 2016.
Apesar dos números de 2016 atrasarem,
Programa de Pós-Graduação em devido à problemas técnicos no sistema
Sociologia e Direito - UFF Open Journal System e atrasos no retorno
ISSN 1678-7145 || EISSN 2318-4558 da revisão de muitos artigos, isso não pre-
Av. Prof. Marcos Waldemar de Freitas judicou em nada a continuidade e periodi-
Reis s/n - Campus do Grágoatá - Blo- cidade dos números e volumes da Revista.
co O Sala 309 - São Domingos - Ni- Vale lembrar que a Confluências
terói - RJ - CEP: 24.210-340 ganhou visibilidade ao ser lançada pelo
Telefone: (***21) 2629-2869 sistema OJS, foi indexada em muitos re-
positórios de revistas, como Latindex,
E-mail: sociologia_direito@yahoo.com.br
Periódicos CAPES, Index Copernicus,
EXPEDIENTE IBCT, Diadorim, Base, dentre outros.
Além disso, a Revista circulou em redes
Editor 2016: Vívian G. F. Paes nacionais e internacionais permitindo
E-mail: vivianpaes@id.uff.br que muitos autores estrangeiros tenham
Editor 2016: Vladimir de C. Luz submetido seus artigos por meio do pró-
E-mail: vladimirluz@hotmail.com prio sistema. Por fim, fizemos o esforço
de passar a publicar eletronicamente três
Diagramação: Pedro Henrique S. de Assis números por ano. A adoção da política de
CONSELHO EDITORIAL publicação de dossiês permitiu a maior cir-
culação e visibilidade da Revista aprovei-
Adalberto Cardoso (IESP‐UERJ) tando trabalhos apresentados em Grupos
Baudouin Dupret (CNRS, França) de Trabalhos de seminários e congressos,
Delton Meirelles (UFF) que são geralmente, subaproveitados.
Edmundo Daniel dos Santos (Université As presentes edições de 2016 são
d’Ottawa, Canadá) frutos do trabalho árduo dos professo-
Eliane Junqueira (PUC-RJ) res do PPGSD Vívian Gilbert Ferreira
Henri Acserald (UFRJ) Paes e Vladimir de Carvalho Luz e con-
Juliana N. Magalhães (UFRJ, Brasil) tam com a diagramação do aluno Pedro
Luís Antônio Cardoso (UFF) Henrique S. de Assis (InEAC). Aprovei-
tamos o ensejo para agradecer aos leito-
Marcelo da Costa Pinto Neves (UnB)
res, autores, pareceristas e todos aqueles
Marcelo Pereira de Mello (UFF) que apoiam essa iniciativa.
Mónica María B. Rúa (Universidad de Muito obrigado a todos e boa leitura!
Medellín, Colômbia)
Napoleão Miranda (UFF)
Raul Francsico Magalhães (UfJF)
Sumário
Introdução
SOCIOLOGIA DAS PRÁTICAS POLICIAIS E JUDICIAIS: NOVOS ATORES, VELHAS PRÁTICAS?...05
Vivian G. F. Paes e Ludmila M. L. Ribeiro

Artigos Dossiê
QUEIXAS DUPLAS: VIOLÊNCIA DE GÊNERO E PRÁTICA POLICIAL EM UMA DELEGACIA
ESPECIALIZADA DE ATENDIMENTO À MULHER......................................................21
Paola Stuker

OITIVAS CERIMONIAIS: RELATOS DESCRITIVOS DO SISTEMA DE JUSTIÇA


JUVENIL PAULISTANO ..............................................................................44
Thiago Rodrigues Oliveira

SOCIOLOGIA DA PUNIÇÃO E A CONTRIBUIÇÃO DE PIERRE BOURDIEU: FORMULAÇÃO


TEÓRICA DA DECISÃO JUDICIAL PUNITIVA COMO OBJETO DE PESQUISA.........65
Eduardo Gutierrez Cornelius

A AFIRMAÇÃO DO PERSONALISMO JURÍDICO NA JUDICIALIZAÇÃO DA


EDUCAÇÃO EM FLORIANÓPOLIS .................................................................92
Treicy Giovanella da Silveira

“UMA BRIGA CORPORATIVA” DENTRO DO TRIBUNAL DO JÚRI: NOTAS E REFLEXÕES


SOBRE UM CASO JULGADO NA COMARCA DO RIO DE JANEIRO............................117
Izabel Saenger Nuñez

O USO DO CAPITAL SOCIAL NOS DISTRITOS POLICIAIS E CONSELHOS COMUNITÁRIOS


DE SEGURANÇA (CONSEGS) DE SÃO PAULO................................................................137
Vanessa Orban Aragão Santos
Artigo CONFLUÊNCIAS
SOCIOLOGIA DAS PRÁTICAS POLICIAIS E JUDICIAIS: NOVOS ATORES, VELHAS PRÁTICAS?
Revista Interdisciplinar de Sociologia e Direito
Quando os professores Eros Grau incorporados às discussões os profes-
ISSN 1678-7145 || EISSN 2318-4558
(USP) e Antoine Jeammaud (Univer- sores Cristina Mangarelli (Universidad
sité Lyon III) propuseram a realização de la Republica, Uruguai), Eric Soriano
SOCIOLOGIA DAS PRÁTICAS POLICIAIS
de um colóquio em março de 2011, na (Université Montpellier III), Fernando
cidade de Tiradentes (MG), com o pro- Fontainha (FGV-RJ), Maria Cristina
E JUDICIAIS: novos atores, velhas práticas?
pósito de discutir trinta anos de traba- Vidotte (UFG), Olivier Leclerc (Uni-
lho crítico sobre o direito, não imagina- versité Nancy II), Pedro Heitor Barros
vam que estivessem lançando a semente Geraldo (UFF), Ronaldo Lobão (UFF)
Vivian Gilbert Ferreira Paes
de uma reunião anual perene em que e Tatiana Sachs (Université Paris X). Na
diferentes professores brasileiros e fran- ocasião, todos foram instados a reagir
Professora adjuntaadacompartilhar
ceses passassem Universidade umaFederalaoFluminense
texto base (UFF).
de Michel Miaille, cuja lei-
E-mail: vivianfpaes@gmail.com
agenda comum de pesquisas. Naquela tura é agora oferecida ao leitor de Con-
ocasião, entusiasmados com as possibi- fluências. Para além deste texto base, o
Ludmila Mendonça Lopes Ribeiro
lidades de cooperação, seus nove parti- leitor poderá ainda conhecer as contri-
cipantes – Antoine Jeammaud (Univer- buições realizadas por Cristina Man-
Professora adjunta da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).
sité Lyon III), Eric Millard (Université garelli, Eric Millard, Eros Grau, Leonel
E-mail: ludmila.ribeiro@gmail.com
Paris X), Eros Grau (USP), Evélyne Sé- Alvim, Maria Cristina Vidote, Rabah
vérin (Université Paris X), Leonel Al- Belaidi, Ronaldo Lobão, Tatiana Sachs
vim (UFF), Michel Miaille (Université e Olivier Leclerc. Nelas, discutem-se
RESUMO
Montpellier
A proposta I), Rabah
deste artigoBelaidi (UFG),como
é apresentar questões epistêmicas
um campo sobre as socio-
de investigação noções
Roberto Fragale
lógica tem Filho (UFF)
se constituído e Tércio
no Brasil, de direito
destinado e redistribuição,
a compreender como aosarticula-
atores
Sampaio Ferraz (USP) – propuseram-se ção entre direito
que operam o Sistema de Segurança Pública e Justiça Criminal constroem e sociedade, além dee
a racionalizam
renovar o encontro no ano seguinte. questões específicas relacionadas
suas práticas. Em seguida, destacamos como os trabalhos reuni- à dis-
Assim, em março de 2012, agora
dos neste dossiê contribuem parasob
umao melhor
tribuição agrária e dos
compreensão à existência de dis-
significados da
tema
categoria justiça ao desvelarem como policiais, promotores, defensores e juízesO
“Redistribuir por meio do direi- positivos incitativos à distribuição.
to?”, ocorreusuas
descrevem um segundo
ações e, deencontro em cardápio
que maneira, reafirmam dosseustemas
lócustratados é amplo,
de autoridade a
Tiradentes (MG) cuja organização foi convidativo
partir dos discursos sobre criminalidade e legalidade. e antecipa as discussões
assegurada pelos professores Roberto que animariam o grupo em seu encon-
Fragale
ABSTRACTFilho, Leonel Alvim e Ronal- tro subsequente, sempre em Tiradentes
doTheLobão,
purposecoordenadores dotoNúcleo
of this article is (MG),
present how agora
a field sob o tema investigation
of sociological “O poder e o
dehasPesquisas
been constituted in Brazil, aimed at understanding how the actorsem
sobre Práticas e Institui- papel político dos juízes”, abril
that ope-de
ções
rateJurídicas
the Public(NUPIJ)
Securitydoand
Programa
Criminal deJustice
2014,System
quando buildo presente dossiê, their
and rationalize cons-
Pós-Graduação
practices. Thus,em weSociologia
enhance how e Direito
the worktruído entre
gathered in 2012 e 2013,contributes
this dossier ganhou fôlegoto
(PPGSD) da Universidade Federal Flu- para sua apresentação em
a better understanding of the meanings of the category of justice by revealing how Confluên-
minense (UFF). O grupo
police, prosecutors, defendersoriginal foi describe
and judges cias. Quetheir
o leitor possa
actions saboreá-lo
and, como
in what way,
ampliado, não obstante a ausência jus- antecipação de uma
reaffirm their locus of authority from discourses on crime and legality. próxima rodada éo
tificada de Evélyne Sévérin, pois foram nosso maior desejo.
CONFLUÊNCIAS | Revista Interdisciplinar de Sociologia e Direito. Vol. 18, nº 3, 2016. pp. 05-20 5
PAES, Vivian Gilbert F.; RIBEIRO, Ludmila M. L.

INTRODUÇÃO oriundo das relações pessoais. Legali-


Em seu artigo sobre as interfa- dade e criminalidade seriam, assim, ca-
ces entre direito e sociedade em uma tegorias com significados variáveis, de-
perspectiva comparada, Douglas Hay pendendo de quem as opera e de quais
(2001) caracteriza a América Latina demandas esse sujeito pretende res-
como uma localidade marcada pela ponder a partir de seu trabalho como
interseção e pelo conflito entre a lei funcionário de uma repartição pública,
estatal e a lei popular, ou seja, uma lo- como é o caso de policiais, promotores,
calidade marcada pelo intercâmbio en- defensores, juízes e desembargadores.
tre a lei tal como prevista nos códigos Um dos clássicos da sociologia já
e a lei na prática. Para o autor, o Brasil apostava na distinção analítica entre
seria um país em que a legislação e a o processo de criação do direito volta-
estrutura de administração da justiça, do para o processo de universalização
importadas da Europa com o começo e abstração de comportamentos que
da colonização, se situam em extremo pode ser analisado com a formulação
oposto às práticas de nossos operado- das leis e o processo de aplicação do
res, voltadas para a implantação de uma direito para analise dos contextos em
série de políticas que visam à satisfação que as regras abstratas são aplicadas
de interesses, indivíduos e grupos bas- aos casos concretos (Weber, 2004). Nas
tante diversos, no tempo e no espaço. ciências sociais, o estudo do primeiro
Como destaca Kant de Lima (1995), conjunto de fenômenos comumente
o sistema brasileiro é peculiar porque tem sido associado à ciência politica e
a lei não tem uma origem popular: é o estudo do segundo conjunto de fe-
resultado de uma elaboração feita por nômenos às disciplinas da sociologia e
notáveis, cabendo a eles dizer qual é a antropologia. Em conjunto, essas três
melhor forma de interpretar a lei. Em searas das ciências sociais contribuí-
terras tupiniquins, “a regra da igualda- ram para apresentar os contextos em
de não consiste senão em quinhoar de- que há vazio legislativo, os contextos
sigualmente aos desiguais, na medida em que há uma pluralidade jurídica, os
em que se desigualam” (Barbosa, 1957, contextos em que há divergências so-
p. 26). Este aspecto faz parte da nos- ciais profundas quanto às leis vigentes
sa história enquanto sociedade, sendo e os contextos em que podem ser uti-
também descrito por Schwartz (2011) lizadas leis divergentes para a interpre-
quando este trata do “abrasileiramen- tação dos fenômenos sociais.
to da burocracia”, ao sublinhar como o A legislação pode ser percebida
modelo impessoal burocrático é inter- aqui como um universo de possibili-
penetrado por outro sistema de poder dades, que gera uma miríade conflitos
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SOCIOLOGIA DAS PRÁTICAS POLICIAIS E JUDICIAIS: NOVOS ATORES, VELHAS PRÁTICAS?

interpretativos. A lei não é realidade de que a única forma de se compreen-


objetiva: só ganha sentido quando in- der como a justiça é interpretada e te-
terpretada e posta em prática. Por isso matizada pelas agências que operam as
a importância de se analisar a subjeti- ações de prevenção e repressão à cri-
vidade dos operadores institucionais e minalidade é a partir da compreensão
o mapeamento dos conflitos e interes- de como agem seus operadores, além
ses em disputa. Os usos da lei são dife- do entendimento das representações
renciados e esses dispositivos acionam destas práticas pela população.
práticas e comportamentos imprevistos No dicionário Aurélio1, o primeiro
e garantem a margem de interpretação/ significado da palavra prática é “aplica-
ação dos operadores. Existe um campo ção das regras e dos princípios de uma
de indeterminações, que dão lugar a arte ou de uma ciência”, o que seria a
disputas de significados nas práticas. materialização das leis relacionadas à
É a partir de um estoque de conhe- administração da justiça (como o Có-
cimento sobre a realidade que os ope- digo Penal, de Processo Penal ou a Lei
radores procedem a classificações no de Execuções Penal) em uma dada re-
dia a dia do seu trabalho, compondo alidade. O segundo é “ato ou efeito de
um quadro dos passos percorridos por praticar”, que diz respeito aos efeitos
documentos e pessoas até uma senten- práticos, por exemplo, de uma Delega-
ça final ou decisão de arquivamento cia Especial de Atendimento à Mulher
das queixas. Algumas questões deri- enquadrar (ou não) uma dada violên-
vam dessas atividades, quais sejam: cia como “Maria da Penha”. O terceiro,
Como os operadores operacionalizam “maneira habitual de proceder”, é em
as categorias jurídicas e nativas? Como certa medida o que mais nos interessa,
são construídos esses casos? Como são partindo do reconhecimento de que as
percebidas as pessoas e como isso in- regras nos Códigos encontram uma res-
fluencia nos processos de tomada de sonância bastante diversificada de prá-
decisão? Estes processos não só evi- ticas, dependendo de quem é o sujeito
denciam a prática e a lógica de funcio- que demanda tais direitos e como esse
namento das instituições de segurança acesso à justiça é demandado. O quar-
e justiça, mas dão voz a interpretações to significado é “conversação, palestra,
de direito, posto que partem de um co- discurso, fala”, que reconhece como as
nhecimento tácito dos operadores, de reflexões dos operadores evidenciadas
estereótipos e do senso comum. em seus lugares de fala revelam, mui-
Os estudos reunidos sob o título de tas vezes, segredos e programas de ação
sociologia das práticas policiais e judi- 1
Nesse sentido, ver: https://dicionariodoaurelio.com/prati-
ciais convergem para o entendimento ca, último acesso em 04 de julho de 2017.

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PAES, Vivian Gilbert F.; RIBEIRO, Ludmila M. L.

ocultos, mas indispensáveis para a com- O QUE É A SOCIOLOGIA DAS


preensão das perspectivas de justiça. PRÁTICAS POLICIAIS E JUDICIAIS?
A partir desses quatro significados Em sua revisão sobre a trajetória
da palavra praticar, que são os primei- do campo da sociologia das profis-
ros atribuídos ao termo pelo dicionário sões, Campos (2016) destaca que para
Aurélio, é possível evidenciar como o entender qualquer categoria ocupa-
campo da sociologia das práticas po- cional é preciso considerar três di-
liciais e judiciais se destina a descor- mensões específicas. O primeiro nível
tinar a forma como os operadores do diz respeito à “análise do processo e
Sistema de Segurança Pública e Justiça das condições do estabelecimento efe-
Criminal entendem o seu trabalho e a tivo de uma profissão e da manuten-
maneira a partir da qual as missões de ção da sua jurisdição” (Idem, p. 395),
“manter a ordem pública” e “fazer justi- o que no âmbito das práticas policiais
ça” são consubstanciadas em ações vol- e judiciais poderia ser dado pela com-
tadas para determinados territórios ou binação de dois atributos: o ser ho-
indivíduos. Embora possamos identifi- mem e o ter um diploma de direito.
car poucos estudos sobre esse tema, os Tradicionalmente, as funções de
questionamentos em torno dos efeitos aplicação da justiça são entendidas
práticos das atividades das instituições como masculinas, dado o imaginá-
não são vistos como um problema de rio de que a força seria um requisito
investigação no universo jurídico e sim indispensável para a boa realização
no campo de pesquisa privilegiado das do trabalho (Calazans, 2005). Essa é,
ciências sociais, como atesta o trabalho inclusive, uma característica que per-
desenvolvido por Fontainha e Geraldo meia ainda hoje a composição das po-
(2015). É essa área de fronteira que se lícias, promotorias e serviços de justiça
encontra em franca expansão, contan- no Brasil (Lemgruber el at, 2016). Ao
do com diversos grupos cadastrados na critério da masculinidade soma-se o
plataforma do CNPq, como demonstra requisito implícito ou explícito da for-
o levantamento realizado por Madeira e mação em direito. Como a titularidade
Engelmann (2013). É ainda um campo deste diploma é requisito para acesso às
que procura combinar conceitos da so- ocupações mais prestigiosas do sistema
ciologia das profissões com a sociologia de justiça criminal (Bonelli, 2002)2,
da administração de justiça, na tenta- 2
Inclusive, Almeida (2014) argumenta como essa o requisito
tiva de demonstrar como uma mesma de um tipo específico de formação leva a constituição de um
regra produz resultados diferenciados “espaço de poder, no qual transitam agentes com estruturas
de capitais semelhantes” o que “ajuda a entender como se dá a
de acordo com a forma como os atores unidade política nacional de um sistema de justiça formalmente
a interpretam em sua atividade prática. fragmentado, tendo em vista sua estrutura federativa e dual”.

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SOCIOLOGIA DAS PRÁTICAS POLICIAIS E JUDICIAIS: NOVOS ATORES, VELHAS PRÁTICAS?

como é o caso da magistratura e pro- uma estratégia de equiparação salarial


motoria de justiça (as mais valoriza- com os membros do judiciário.
das em termos salariais e simbólicos), Ainda no contexto da sociologia
ela se torna objeto de disputa dentro das profissões, o segundo elemento a
das polícias. Assim, se ser bacharel em ser considerado para entendimento de
direito era prerrogativa dos delegados como se conformam as práticas profis-
de polícia que durante o Império exer- sionais “relaciona-se com as fontes de
ciam as funções de justiça (Holloway, mudança operadas no interior do siste-
1998), essa titularidade era dispensável ma das próprias profissões” (Campos,
às outras carreiras na Polícia Civil e ao 2016, p. 392) e, nesse caso, as polícias
acesso na Polícia Militar. Todavia, hoje talvez sejam as mais afetadas. Desde os
são diversas as forças policiais que plei- anos 1980, os policiais têm sido deman-
teiam o seu enquadramento na carreira dados a apresentar uma maior efetivi-
jurídica como forma de acesso a bene- dade em seus serviços, o que seria men-
fícios objetivos e simbólicos, a exemplo surado não mais pela quantidade de
do quadro de oficiais da Polícia Militar prisões ou crimes registrados, mas por
de Minas Gerais (Simões, 2017). sua capacidade em garantir seguran-
O que queremos reforçar aqui é ça, em afastar a criminalidade de cer-
como os policiais têm procurado apro- tos locais e sujeitos de nossa sociedade
ximar a sua formação dos demais ope- (Oliveira Júnior, 2012). Neste contexto
radores do sistema de justiça como de alterações profundas, os demais in-
forma de tornar a sua ocupação mais tegrantes do sistema de justiça criminal
distante da acepção de “lixeiro da so- – como promotores, defensores e juízes
ciedade” (Paixão, 1982). Prova disso é – permaneceram ilesos à pressão por
o fato de que a exigência da titulação transformações mais substantivas em
em direito também apareceu em 2017 suas práticas (Azevedo, 2008), caben-
como um critério para o concurso ao do às polícias responder a essas novas
quadro de oficiais da Policia Militar do demandas com seus velhos estoques de
Rio de Janeiro com a justificativa de que conhecimento, de primeiro encontrar
compete a estes quadros a condução de o criminoso para depois entender qual
processos disciplinares e judiciários mi- foi o crime que ele praticou (Paixão,
litares. Concomitantemente, observa-se 1982; Mingardi, 1992), fazendo com
a disputa na competência de condução nº 395, de 2015, de autoria do Senador Romário, que al-
tera o art. 69 da Lei nº 9.099, de 26 de setembro de 1995
de inquéritos e elaboração de Termos (Lei dos Juizados Especiais Cíveis e Criminais), para per-
Circunstanciados de Ocorrência (TCO) mitir que nos crimes de menor potencial ofensivo qual-
quer policial lavre termo circunstanciado de ocorrência
entre Polícia Militar e Civil3, além de ser (TCO), o que outorgaria competências investigativas (tí-
3
Nesse sentido, temos o Projeto de Lei do Senado (PLS) picas da Polícia Civil) à polícia ostensiva (PM).

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PAES, Vivian Gilbert F.; RIBEIRO, Ludmila M. L.

que as investigações estejam orienta- Se a sociologia das profissões nos


das às pessoas e não aos fatos (Kant de ajuda a entender as diferenças existen-
Lima, 1995 e Misse et al, 2010). tes do ponto de vista das funções e do
O terceiro elemento a ser conside- prestígio ocupacional dos agentes que
rado para entendimento das práticas operam o sistema de segurança pública
ocupacionais dentro da sociologia das e justiça criminal, seu arcabouço con-
profissões “diz respeito às fontes de mu- ceitual não permite uma melhor com-
dança localizadas no exterior do siste- preensão de como situações semelhan-
ma das profissões” (Campos, 2016, p. tes produzem resultados diferenciados,
392), o que significa considerar o que como os atores são orientados por uma
a sociedade espera de cada uma dessas interpretação seletiva e, muitas vezes,
categorias. As mensurações anuais de conflitiva de um determinado disposi-
confiança nas agências do sistema de tivo legal. Para tanto, é preciso recorrer
justiça, empreendidas pela Fundação aos constructos teóricos de outro cam-
Getulio Vargas, são muito reveladoras po da sociologia: o que diz respeito à
deste item: as polícias são as agências administração da justiça.
mais desacreditas, seguidas do Judici- Sociologia da administração da
ário. Neste contexto, o Ministério Pú- justiça foi o termo cunhado por Boa-
blico possui posição de destaque, ocu- ventura de Souza Santos (1986) para
pando o terceiro lugar num ranking de enquadramento dos estudos que procu-
11 entidades, abaixo apenas das For- ram compreender como funcionam as
ças Armadas e da Igreja Católica (ICJ, instituições que compõem o sistema de
2016). Neste caldo de desconfiança nas justiça em um contexto de aumento do
polícias, a pressão por mudanças nessas número de processos, crescimento das
instituições se torna ainda mais pre- violações de direitos humanos, e redu-
mente, na tentativa de resgatar um pou- ção da capacidade dos mecanismos ju-
co de sua legitimidade (Beato e Ribeiro, diciais em responder às demandas por
2016). Outro problema é que as institui- garantia das promessas da cidadania,
ções não levam em consideração para sobretudo a civil. Trata-se, assim, do
a avaliação e planejamento o nível de desenvolvimento de uma perspectiva
confiança depositado pela população, teórica que combina a importância de
tendo suas atividades mais vinculadas se pensar as estruturas, as interações en-
às necessidades urgentes de respostas tre os atores burocráticos e os cidadãos
ao clamor público quanto a eventos ex- e, ainda, a necessidade de se promover
cepcionais, fazendo com que suas ações justiça entre sujeitos tradicionalmente
terminem divorciadas das expectativas excluídos das políticas públicas crian-
rotineiras da população (Paes, 2013). do um vocabulário sociológico que tem
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SOCIOLOGIA DAS PRÁTICAS POLICIAIS E JUDICIAIS: NOVOS ATORES, VELHAS PRÁTICAS?

como premissa a ênfase nos resultados são presos em flagrante em situações


promovidos pelas agências do sistema que deveriam ser consideradas uso de
de segurança pública e justiça criminal drogas. Além disso, esses últimos têm
em detrimento de qualquer dimensão processos excessivamente rápidos, com
normativa (Azevedo, 2014). duração inferior a seis meses (Jesus et
Inclusive, o trabalho de Jacqueline al, 2015), sendo encerrados com uma
Sinhoretto (2011) sobre os diferentes condenação à pena privativa de liber-
tipos de justiça disponíveis em nossa dade, fenômeno esse que contribuiu
sociedade é bastante representativo das para galgar o Brasil ao terceiro lugar no
preocupações da sociologia da admi- ranking mundial de encarceramento4.
nistração da justiça. Segundo a autora, Um leitor mais desavisado poderia
a densidade dos procedimentos mobi- se perguntar: se a lei processual penal
lizados por cada um dos operadores do aplicável à maioria dos crimes é a mes-
sistema de administração de conflitos ma, como explicar esses resultados tão
existente no Brasil é variável para que díspares em termos de tempo de pro-
cada cidadão receba o tipo de justiça cessamento e padrão de decisão final?
que ele merece. Nesta dimensão, um A resposta encontra-se nas práticas
tema explorado pelos estudos sobre as diferenciadas que os operadores do
práticas da polícia é a seletividade de sistema de segurança pública e justiça
suas atividades e a desigualdade de tra- criminal delineiam perante políticos,
tamento das pessoas pela polícia. geralmente oriundos das camadas mais
Segundo Oliveira (2004), a polícia elevadas da população, e pequenos tra-
atua como justiça para as classes po- ficantes de drogas, recrutados entre os
pulares enquanto as classes mais altas indivíduos mais vulneráveis de nossa
utilizam a policia de forma mais ins- sociedade (Kant de Lima e Mouzinho,
trumental como forma de acesso pos- 2017). Por isso, Sinhoretto (2011, p.
terior a justiça. Também é assim que 11) argumenta que as “práticas infor-
casos de corrupção envolvendo políti- mais, ilegais ou não, referenciadas às
cos de destaque têm tratamento dife- leis escritas não são apenas defeitos
renciado dos casos de tráfico de drogas de aplicação do direito ou falhas na
de pequeníssima quantidade (menos implementação da lei cometidas por
de 10 gramas de drogas): enquanto maus profissionais, mas são parte não
os acusados de corrupção aguardam negligenciável de rituais de adminis-
o andamento do processo em liberda- tração de conflitos que estão em dispu-
de e, geralmente, são agraciados com 4
Nesse sentido, ver: http://www.prisonstudies.org/hi-
a extinção da punibilidade em razão ghest-to-lowest/prison-population-total, último acesso
da prescrição, os pequenos traficantes em 06 de julho de 2017.

CONFLUÊNCIAS | Revista Interdisciplinar de Sociologia e Direito. Vol. 18, nº 3, 2016. pp. 05-20 11
PAES, Vivian Gilbert F.; RIBEIRO, Ludmila M. L.

ta no interior do campo”. É a partir da que trabalham nestas instituições, com


interpretação diferenciada acumulada vistas a explicitar suas ferramentas, re-
ao longo do fluxo do sistema de justi- gras, normas e proibições e evidenciar
ça criminal que resultados diversos são os processos que são construídos por
apresentados ainda que o problema em esses sujeitos com vistas ao alcance dos
questão seja essencialmente o mesmo: resultados, sejam eles voltados aos in-
que resposta dar a uma conduta previs- teresses públicos, organizacionais ou
ta como crime em uma lei penal. particulares, é o segundo tema que in-
Logo, a diferenciação da sociologia terliga os artigos deste número.
das práticas policiais e judiciais em re-
lação à sociologia das profissões e da A SOCIOLOGIA DAS PRÁTICAS
administração da justiça diz respeito POLICIAIS E JUDICIAIS NA ANPOCS
à necessidade de se compreender de Nesta edição da revista Confluên-
forma bastante específica, desde uma cias, reunimos os trabalhos apresen-
perspectiva essencialmente microsso- tados no Simpósio de Pesquisas Pós-
ciológica, como se dá a interação en- -Graduadas, espaço de discussão que
tre os diferentes agentes e as distintas coordenamos nos Encontros da Asso-
agências que compõem o sistema de ciação Nacional de Pós-Graduação e
segurança pública e justiça criminal, Pesquisa em Ciências Sociais (ANPO-
quais são as práticas delineadas por es- CS), realizados nos anos de 2015 e
ses atores e como eles constroem suas 2016. Antes da apresentação dos traba-
narrativas para justificar suas ações vol- lhos propriamente ditos, gostaríamos
tadas para a produção da justiça. Mais de sublinhar alguns dos temas mais
do que destacar como os profissionais cadentes no campo da sociologia das
que viabilizam o fluxo de processa- práticas policiais e judiciais.
mento se constroem enquanto catego- O fazer justiça em nosso país é resul-
ria ocupacional e, ainda, destacar quais tado de práticas sequenciais e, simulta-
são os resultados gerados por suas prá- neamente, conflitantes de policiais, pro-
ticas, nos interessa descortinar como motores, defensores e juízes, dentro de
eles agem, de que maneira interpretam uma sistemática que pode ser caracteri-
e resignificam a sua atuação, sendo este zada de duas maneiras distintas, porém
um dos temas deste dossiê. Além disso, complementares. Desde uma perspec-
compreender o ponto de vista do públi- tiva organizacional, essas práticas são
co (com ênfase nas vítimas, grupos de descritas como frouxamente articulada
pressão e controle das ações do estado (Coelho, 1986), posto que as agências
e as pessoas submetidas a controle pelas não se comunicam para a realização de
mesmas instituições) e dos operadores funções conjuntas. Já a vertente cultura-
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SOCIOLOGIA DAS PRÁTICAS POLICIAIS E JUDICIAIS: NOVOS ATORES, VELHAS PRÁTICAS?

lista entende tais práticas como um mo- mediações de conflitos de proximida-


saico de verdades (Kant de Lima, 2008), de de forma a evitar que o acionamento
já que cada um dos atores que atua no da polícia aconteça novamente. Muitas
fluxo do sistema de justiça criminal pos- vezes, esses policiais consideram as suas
sui uma lógica própria de produção da ações (a margem e para além as deter-
verdade sobre o crime e sobre o crimi- minações legais) políticas mais eficien-
noso. Qualquer que seja o referencial te- tes de controle da criminalidade do que
órico adotado, o resultado analítico é o as empreendidas pelo Poder Executivo
mesmo: a interação entre diferentes ato- (municipal, estadual ou federal).
res significa a constante reinterpretação A forma como os policiais adminis-
sobre “o que foi que aconteceu” (Silva, tram os conflitos, interpretando o que
2013), o que pode constituir entendi- aconteceu e, ainda, decidindo se a situ-
mentos díspares sobre um mesmo fenô- ação é digna de um registro formal que
meno, a depender de quem é o suspeito significará desdobramentos ao longo
do crime e a sua vítima. do fluxo do sistema de justiça crimi-
Os desentendimentos sobre “o que nal (Poncioni, 2014) evidencia como
foi que aconteceu” (Silva, 2013), a se- esses operadores se utilizam do esto-
rem revelados pela sociologia das práti- que de conhecimento acumulado com
cas policiais e judiciais, começam já nas o exercício das atividades cotidianas
primeiras etapas do fluxo do sistema de para definir qual tipo de procedimen-
justiça criminal. Como os policiais ten- to pode ou deve ser acionado em uma
dem a encarar o atendimento ao público situação específica. O artigo “Queixas
como uma tarefa subalterna em compa- duplas: violência de gênero e prática
ração com as atividades de policiamento policial em uma Delegacia Especializa-
ostensivo (realizada pela Polícia Militar) da de Atendimento à Mulher” salienta
e de elucidação de crimes (realizada pela como essa racionalização, por parte
Polícia Civil), as queixas de delitos vis- dos policiais, sobre que situações me-
tos como de menor potencial ofensivo recem uma atenção mais qualificada é
são desprezadas, como ocorre nos casos produzida tendo em mente os objetivos
de violência doméstica, quando o poli- principais do processo decisório, quais
cial tenta convencer a vítima a desistir sejam, manter a ordem e evitar a desor-
de seu registro. Em lugar da formalida- dem decorrente da criminalidade.
de indispensável para o acesso à justiça, Inclusive, quando entrevistados
os policiais oferecem aos indivíduos sobre a discrepância entre os procedi-
que solicitam seu atendimento conse- mentos estabelecidos legalmente e os
lhos sobre como se comportar diante critérios práticos que justificam a to-
de determinadas situações, ou ainda, mada de decisão, os operadores do sis-
CONFLUÊNCIAS | Revista Interdisciplinar de Sociologia e Direito. Vol. 18, nº 3, 2016. pp. 05-20 13
PAES, Vivian Gilbert F.; RIBEIRO, Ludmila M. L.

tema de segurança pública e justiça cri- analisar a subjetividade dos agentes ins-
minal tendem a justificar suas escolhas titucionais e o mapeamento dos confli-
afirmando que a ação para além da lei tos e interesses em disputa. O Direito é
produz mais eficiência do que uma ação direito de especialistas que manipulam
dentro das molduras legais. Muitas ve- o saber especializado, mas também o sa-
zes reivindicam que uma qualidade ne- ber oriundo de senso comum informa-
cessária para ser um bom policial é agir do por outros critérios de relevância e
conforme o bom senso e nas margens por essas experiências acumuladas para
do que está ou não regulamentado do produzir justiça (Paiva, 2009).
que de acordo com os critérios de lega- É bom lembrar que o dicionário
lidade. Portanto, a análise sociológica Aurélio define como eficiência5 “qua-
de como os policiais constroem as suas lidade do que é eficiente”, o que seria
práticas não deve se basear apenas no equivalente à capacidade do sujeito de
discurso de busca pela efetividade leis. demonstrar que sabe o que faz, de de-
A discricionariedade e oportunidade monstrar que o tirocínio policial (Min-
de selecionar as ocorrências, definir o gardi, 1992) é mais eficiente do que as
ritmo e o curso dos procedimentos e regras do Código de Processo Penal. O
o quadro normativo que estes devem segundo significado é “capacidade para
percorrer informa o poder que os ope- produzir realmente um efeito”, o que se-
radores do sistema de segurança públi- ria a redução do crime na localidade a
ca e justiça criminal experimentam no partir das mediações policiais não con-
cotidiano (Paes, 2013, Misse, 2010). templadas por nosso arcabouço jurídi-
Os operadores percebem e tomam co (Durão, 2013) ou realização da justi-
decisões sobre os casos concretos con- ça como forma de satisfazer os desejos
siderando, entre outros aspectos, as ca- de que “bandido bom é bandido morto”
racterísticas das trajetórias das pessoas de uma determinada parcela da popula-
envolvidas nos eventos e as conformida- ção (Spensy, 2017). A última definição
des ou prioridades organizacionais. Por de eficiência é a “qualidade de algo ou
isso, é importante analisar o processo de alguém que produz com o mínimo de
construção social das categorias dentro erros ou de meios” e, talvez, essa seja a
do Judiciário e como os operadores ar- melhor moldura para enquadramento
ticulam um conjunto de categorias ju- dos policiais. Em uma realidade de ex-
rídicas abstratas com categorias nativas cesso de demandas e carência de recur-
oriundas de seu estoque de experiência sos (materiais e humanos), na visão dos
para poder produzir decisões sobre os operadores do sistema de segurança
casos concretos. Os estudos aqui reu- 5
Nesse sentido, ver: https://dicionariodoaurelio.com/
nidos consideram a relevância de se eficiencia, último acesso em 05 de julho de 2017.

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SOCIOLOGIA DAS PRÁTICAS POLICIAIS E JUDICIAIS: NOVOS ATORES, VELHAS PRÁTICAS?

pública e justiça criminal, mediar con- le do crime ou da realização da justiça.


flitos de forma extralegal a fim de evitar Saindo da seara policial e adentran-
a sua recorrência é prestar à sociedade do a fase judicial, como pressupõe o
um serviço melhor do que garantir o re- fluxo de processamento de um sistema
gistro da ocorrência e, por conseguinte, que combina lógicas inquisitoriais com
o encaminhamento do caso ao judiciá- lógicas acusatoriais de produção da
rio (Nobre e Barreira, 2008). verdade (Kant de Lima, 2008), os tra-
Nesse contexto, ganha destaque a balhos realizados no campo da sociolo-
análise das dinâmicas organizacionais gia das práticas judiciais examinam as
que interferem nos processos cognitivos estratégias de ação dos representantes
de tomada de decisão por esses atores. do Ministério Público, que ganharam
Políticas de redução dos homicídios e o qualificativo de promotores de justi-
de instalação de Conselhos Comunitá- ça com a Constituição Federal de 1988.
rios de Segurança Pública em determi- A Carta Magna concedeu a tais atores
nadas áreas da cidade ganham contor- uma miríade de responsabilidades a es-
nos muito específicos dependendo dos ses sujeitos, que incluem a tradicional
policiais encarregados de sua operação. função de acusação no processo penal,
Os conselhos podem incidir não só na a fiscalização da aplicação da lei e, tam-
gestão da desmobilização do efetivo e bém, a defesa da sociedade, mais espe-
dos recursos da polícia em um territó- cificamente, a proteção e garantia dos
rio, mas também na resolução dos ca- direitos difusos, coletivos, e individuais
sos, devendo ser analisados os quadros homogêneos (Ribeiro, 2017).
empíricos nos quais os Conseps atuam, Com tantas atribuições reunidas
além do papel pedagógico que essas ins- em uma mesma organização, combi-
tituições exercem ao ensinar as ocasiões nada com a quase absoluta ausência
em que seus protocolos de atendimento de mecanismos de prestação de con-
e a forma como as redes de relações se tas e controle externo, o Ministério
realizam. Como sublinha o texto “O uso Público se conformou em um verda-
do capital social nos distritos policiais deiro quarto poder (Arantes, 1999),
e Conselhos Comunitários de Seguran- que privilegia determinadas searas
ça (CONSEGs) de São Paulo”, formas de atuação. Se a acusação no proces-
lícitas e ilícitas de obtenção das metas so penal permanece como rainha das
passam a se intercambiar produzindo competências do promotor de justiça,
os indicadores necessários para a satis- o “combate à corrupção” tem dispu-
fação das demandas do governo, ainda tado este primeiro lugar, na tentativa
que os próprios atores reconheçam seu de institucionalizar o papel do MP em
reduzido impacto em termos de contro- sua competência de “defesa da socie-
CONFLUÊNCIAS | Revista Interdisciplinar de Sociologia e Direito. Vol. 18, nº 3, 2016. pp. 05-20 15
PAES, Vivian Gilbert F.; RIBEIRO, Ludmila M. L.

dade” (Lemgruber et al, 2016). Como ca do Rio de Janeiro”, nessa instância,


argumentado no estudo “A afirmação os bacharéis em direito ainda se veem
do personalismo jurídico na judiciali- como verdadeiros nobres, como eram
zação da educação em Florianópolis”, quando considerados profissionais
em que pese os direitos sociais básicos imperiais (Coelho, 1999), valorizando
como saúde, educação e meio ambien- seus saberes específicos e seus segre-
te serem reconhecidos como indispen- dos, decorrentes das redes de relações
sáveis à qualidade de vida do cidadão, pessoais muitas vezes acionadas para a
eles podem ser relegados a segundo e solução de um problema público.
terceiro planos dependendo de como Na proposta de valorização de sabe-
o promotor de justiça entende e hie- res específicos, um elemento se destaca:
rarquiza suas prerrogativas se função. a linguagem jurídica, que garante flui-
Ao invés do exercício do controle das dez na comunicação entre os que estão
politicas públicas e da judicialização dentro do campo jurídico ao mesmo
dos conflitos, estamos mais aproxima- tempo em que bloqueia a compreensão
dos à ideia de politização da justiça. por aqueles que estão fora dele (Almei-
A partir da acusação do Ministério da, 2010). Assim, advogados, defenso-
Público, muitas vezes formuladas com res, promotores e juízes se apropriam
base nas representações sociais de de- do ritual que deveria fazer justiça pu-
legados de polícia, materializadas nos blicamente de uma forma bastante par-
Inquéritos Policiais sobre “o que foi que ticular, inteligível aos que estão envol-
aconteceu” (Silva, 2013), é que o juiz vidos no conflito, sendo esse um dos
passa a ser o responsável pela admi- elementos que garante a estabilidade
nistração da justiça. É neste momento da relação entre saber e poder. Neste
que os jogos de poder entre advogados diapasão, o artigo “Oitivas cerimoniais:
de defesa e promotores são mediados relatos descritivos do sistema de justi-
por este terceiro que está longe de ser ça juvenil paulistano” nos brinda com
considerado um ator imparcial, como uma descrição de como a decisão de
demonstram as diversas etnografias um dado processo é construída antes
sobre funcionamento das audiências mesmo de os envolvidos serem ouvi-
de custódia, instrução e julgamento e, dos. Tal como na fase policial, o esto-
em especial, as audiências de júri que que de conhecimento adquirido com
procuram “controlar o poder de matar” o exercício da profissão faz com que
(Schritzmeyer, 2007). Como detalhado os operadores decidam quem merece
no texto “Uma briga corporativa den- ser condenado e quem será absolvido
tro do Tribunal do Júri: notas e refle- a partir da representação teatral, para
xões sobre um caso julgado na Comar- além das provas e dos documentos in-
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SOCIOLOGIA DAS PRÁTICAS POLICIAIS E JUDICIAIS: NOVOS ATORES, VELHAS PRÁTICAS?

seridos dentro de um processo penal. so à direitos por parte de uma camada


É a partir de um saber prático trans- da população constantemente normali-
mutado em saber jurídico a partir da zada pela polícia ou encarcerada pelas
linguagem que as condenações se tor- decisões do poder judiciário. O que
nam resultado de acordos entre advo- assistimos atualmente é a emergência
gados e promotores, explícitos antes das de mais uma agência extramente cor-
audiências de instrução e julgamento porativista, cujas demandas não são a
ou implícitos na encenação que se des- maior igualdade de todos os indivídu-
cortina nos Tribunais do Júri diante dos os ou o efetivo acesso à justiça para a
jurados e da plateia. Como salientado população mais pobre e sim a conces-
pelo estudo “Sociologia da punição e a são de auxílios típicos da carreira jurí-
contribuição de Pierre Bourdieu: For- dica para os indivíduos que pertencem
mulação teórica da decisão judicial pu- a esses quadros (Cardoso, 2017).
nitiva como objeto de pesquisa”, punir Neste dossiê procuramos revelar
tem pouca consonância com o delito, como o campo da sociologia das prá-
sendo uma resposta a determinados ticas policiais e judiciais é, em verda-
segmentos sociais, vistos como aqueles de, uma tentativa de descortinar práti-
que produzem o crime. É importan- cas de poder, no sentido de evidenciar
te entendermos os saberes práticos e a quais são os problemas sociais que
competência da documentação admi- alcançam a população pobre que me-
nistrativa conjugando os processos, de- recem ser registrados pela polícia, acu-
cisões, normativas, como são formula- sados ou protegidos através da ação do
das orientações, doutrinas e opiniões e promotor de justiça, negociados com a
quais são as consequências das decisões intermediação do juiz, resultando em
no julgamento de casos concretos. uma decisão judicial. Além disso, trata-
Interessante destacar que nessa edi- -se de um campo que procura entender
ção os estudos de sociologia das prá- como esses profissionais percebem e
ticas policiais e judiciais têm uma au- categorizam essas violações de direitos,
sência muito marcante em termos de dando-lhes encaminhamentos diversi-
categorias profissionais não abrangidas: ficados, que muitas vezes vão além de
a defensoria pública. Talvez, a falta de responsabilizar alguém por uma deter-
pesquisas sobre essa agência, que cuida minada conduta. Por fim, são estudos
da defesa dos interesses dos hipossufi- que descortinam as racionalizações fei-
cientes, diz muito sobre um determina- tas por esses atores para justificar suas
do vazio de poder, ou ainda, da dificul- práticas desiguais, que contribuem
dade em se constituir uma organização para reificar a desigualdade social e ju-
que efetivamente procure garantir aces- dicial dos cidadãos brasileiros.
CONFLUÊNCIAS | Revista Interdisciplinar de Sociologia e Direito. Vol. 18, nº 3, 2016. pp. 05-20 17
PAES, Vivian Gilbert F.; RIBEIRO, Ludmila M. L.

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20 CONFLUÊNCIAS | Revista Interdisciplinar de Sociologia e Direito. Vol. 18, nº 3, 2016. pp. 05-20
Artigo CONFLUÊNCIAS
SOCIOLOGIA DAS PRÁTICAS POLICIAIS E JUDICIAIS: NOVOS ATORES, VELHAS
QUEIXAS
PRÁTICAS?
DUPLAS
Revista Interdisciplinar de Sociologia e Direito
Quando os professores Eros Grau incorporados às discussões os profes-
ISSN 1678-7145 || EISSN 2318-4558
(USP) e Antoine Jeammaud (Univer- sores Cristina Mangarelli (Universidad
sité Lyon III) propuseram a realização de la Republica, Uruguai), Eric Soriano
QUEIXAS DUPLAS:
de um colóquio em março de 2011, na (Université violência de gênero
Montpellier III), eFernando
prática
cidade de Tiradentes (MG), com o pro- Fontainha (FGV-RJ), Maria Cristina1
policial
pósito deem umatrinta
discutir Delegacia
anos deEspecializada
traba- Vidottede Atendimento
(UFG), Olivier Leclerc à Mulher (Uni-

Paola Stuker
lho crítico sobre o direito, não imagina- versité Nancy II), Pedro Heitor Barros
vam que estivessem lançando a semente Geraldo (UFF), Ronaldo Lobão (UFF)
Universidade
de uma reunião Federal do Rio
anual Grandeem
perene do que
Sul. e Tatiana Sachs (Université Paris X). Na
E-mail: stukerp@gmail.com
diferentes professores brasileiros e fran- ocasião, todos foram instados a reagir
ceses passassem a compartilhar uma ao texto base de Michel Miaille, cuja lei-
RESUMO
agenda comum de pesquisas. Naquela tura é agora oferecida ao leitor de Con-
A criação de delegacias especializadas de atendimento às mulheres e a criminalização das
ocasião,
violênciasentusiasmados com assofridas
domésticas e familiares possibi- fluências.
por estas através Para
da LeialémMariadeste textoembora
da Penha, base, o
lidades
apresentem de cooperação, seus nove
significativos avanços parti- leitor
no enfrentamento poderá
a esta aindanoconhecer
problemática Brasil, nãoas contri-
garantem
a efetividade
cipantes dessas ações
– Antoine se os profissionais
Jeammaud (Univer-quebuiçõestrabalhamrealizadas
nesta área não porforem preparados
Cristina Man-
em questões de gênero. Nesta pesquisa, investigaram-se as práticas
sité Lyon III), Eric Millard (Université garelli, Eric Millard, Eros Grau, Leonel policiais e as dinâmicas dos
registros das queixas em uma Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher, através de
Paris X), Eros
observações dosGrau
registros(USP), Evélynee de
de ocorrência Sé-depoimentos
Alvim, das Maria
mulheresCristina Vidote,A ênfase
denunciantes. Rabah
vérin
deste (Université
trabalho consiste Parisem X),
umaLeonel
abordagem Al-queBelaidi, Ronaldo Lobão,
busca compreender Tatiana
os elementos Sachs
formais e
informais que influenciam a aplicação da Lei Maria da
vim (UFF), Michel Miaille (Université e Olivier Leclerc. Nelas, discutem-sePenha no espaço da delegacia, visto que
o campo policial é perpassado por aspectos simbólicos, sociais e culturais, que reproduzem uma
Montpellier I), Rabah Identificou-se
determinada moralidade. Belaidi (UFG), questõespara
que o despreparo epistêmicas
atuação emsobre casos deasviolência
noções
Roberto
de gêneroFragale
por parteFilho
de alguns(UFF) e Tércio
profissionais de direito
e a cultura repressiva e faz
redistribuição,
da prática policial a mais
articula-
um
motivo deFerraz
Sampaio queixa (USP)
das mulheres, paralelo às violências
– propuseram-se ção que entreestasdireito
foram àedelegacia
sociedade,denunciar.
além de
a Palavras
renovarchave: prática policial;
o encontro no anodelegaciaseguinte. da mulher;
questões relações de gênero.
específicas relacionadas à dis-
ABSTRACT
Assim, em março de 2012, agora sob o tribuição agrária e à existência de dis-
The creation of specialized police stations for the care of women and the criminalization of
tema
domestic“Redistribuir por meio
and family violence do direi-
suffered by thempositivos
through theincitativos
Maria da Penha à distribuição.
Law, althoughO
to?”,
theyocorreu um segundo
present significant advancesencontro em with
in coping cardápio
this problemdos temasin Brazil,tratados é amplo,
do not guarantee
the effectiveness
Tiradentes (MG) of these
cuja actions
organizaçãoif the professionals who work eIn antecipa
foi convidativo this area areasnotdiscussões
prepared
on gender issues.
assegurada pelosInprofessores
this research, Roberto
the police practices and the dynamics
que animariam o grupoofem the seu
complaints
encon-
records were investigated in a Specialized Police Station for Assistance to Women, through
Fragale Filho, Leonel Alvim e Ronal- tro subsequente,
observations of the occurrence records and testimony of the women complainants. The sempre em Tiradentes
do Lobão,of coordenadores
emphasis this work is on an do Núcleo
approach (MG),
that seeks agora sobthe
to understand o tema
formal“O andpoder
informal eo
deelements
Pesquisas that influence the application
sobre Práticas of the Maria
e Institui- papel da Penha
político Lawdosin the police station,
juízes”, em abril sincede
the police field is permeated by symbolic, social and cultural aspects that reproduce a certain
ções Jurídicas
morality. It was(NUPIJ)
identifieddo thatPrograma
the lack of de 2014, for
preparation quando
action oin presente dossiê,
cases of gender cons-
violence
Pós-Graduação
by some professionals em Sociologia e Direito
and the repressive truído
culture makes entre
police2012 e 2013,
practice moreganhou
a motive fôlego
for
women’s complaints,
(PPGSD) da Universidadeparallel toFederal
the violence
Flu-theyparawent sua
to theapresentação
police station toem report..
Confluên-
Keywords:
minense police O
(UFF). practice;
grupoWomen’soriginalpolicefoi station;
cias. Que gender relations.
o leitor possa saboreá-lo como
ampliado, não obstante a ausência jus- antecipação de uma próxima rodada é o
1 Este trabalho é um subproduto da dissertação de mestrado “Entre a Cruz e a Espada: significados da renúncia à representação
tificada de Evélyne
criminal por mulheres Sévérin,
em situação pois
de violência foram
conjugal nosso
no contexto maior
da Lei Maria desejo.
da Penha” produzida no Programa de Pós-Gra-
duação em Sociologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, que pode ser acessada pelo seguinte endereço: http://www.
CONFLUÊNCIAS | Revista Interdisciplinar de Sociologia
lume.ufrgs.br/bitstream/handle/10183/142468/000993751.pdf?sequence=1. Uma versãoe Direito. Vol. 18,
preliminar nºartigo
deste 3, 2016.
foi pp. 21-43 21
apresentada no
Simpósio de Pesquisas Pós-Graduadas “Sociologia das Práticas Policiais e Judiciais” do 39º Encontro Anual da Anpocs em 2015.
STUKER, Paola

INTRODUÇÃO ção da Lei Maria da Penha no contex-


A administração pública da violência to de uma Delegacia Especializada de
contra mulheres é sempre desafiadora. Atendimento à Mulher. Produto de uma
Trata-se de um conflito complexo, con- dissertação de mestrado que investigou
figurado como um problema sociocul- os significados dos casos de renúncia à
tural, que abrange relações de desigual- representação criminal por mulheres
dade e aspectos afetivos dos envolvidos. em situação de violência conjugal no
Os desafios a seu enfrentamento se dão, momento do registro de ocorrência,
sobretudo, devido a três aspectos: em através de observações participantes de
âmbito macrossocial, a uma cultural de cunho etnográfico e de entrevistas em
dominação machista fortalecida ao lon- profundidade com mulheres denun-
go nos milênios em nossas sociedades; ciantes, este artigo apresenta o cenário
em âmbito doméstico, por uma série de de atendimento às mulheres no espa-
envolvimentos e dependências que difi- ço de uma Delegacia Especializada de
cultam a emancipação feminina destas Atendimento à Mulher, como também,
situações; e em nível da atuação de ope- o que as manifestações das mulheres em
radores(as) do direito, pela necessida- torno da representação criminal signifi-
de de compreensão destes dois últimos cam nesse contexto. A pesquisa empírica
pontos, que demanda preparo destes(as) se deu durante todo o primeiro semestre
profissionais sobre as questões de gênero. de 2015, através de uma etnografia que
Dois grandes e fundamentais mar- possibilitou observar as relações entre
cos do enfrentamento à violência contra policiais e vítimas no espaço da dele-
mulheres no Brasil são a fundação de de- gacia e entrevistar mulheres que recor-
legacias especializadas a partir de 1985 e reram à instituição para realizar uma
a promulgação da lei que criminalizou denúncia. Vivenciou-se o cotidiano da
este tipo de violência, Lei 11.340 em 2006 delegacia em todos os seus espaços, com
(Lei Maria da Penha). Marcos das lutas atenção a falas, gestos, relações, proce-
de movimentos feministas e louvadas dimentos, acontecimentos e estruturas.
por grandes instituições de direitos das Em especial, foram acompanhados 96
mulheres, torna-se importante saber- momentos de registro de ocorrência po-
mos se suas aplicações estão ao alcance licial e entrevistadas 19 mulheres.
de suas propostas e de que forma isto se Demonstra-se aqui uma compreen-
relaciona com as demandas das mulhe- são dos elementos formais e informais
res que recorrem ao serviço policial para que influenciam a aplicação da Lei Ma-
registrar uma queixa de violência. ria da Penha no espaço da delegacia e
Diante disso, este trabalho oferece suas relações com os casos de renúncia
subsídios para compreensão da aplica- à representação criminal. Não cabe e
22 CONFLUÊNCIAS | Revista Interdisciplinar de Sociologia e Direito. Vol. 18, nº 3, 2016. pp. 21-43
QUEIXAS DUPLAS

nem é o objetivo fazer uma crítica ao o poder é articulado. De acordo e adian-


trabalho policial no atendimento às te, através das observações feitas nesta
mulheres, mas demonstrar o quanto al- pesquisa, percebeu-se que o gênero é
gumas dinâmicas dessas relações ainda forma que se expressa em diversas for-
se dão em tensão no espaço na delega- mas, é campo que se reforça em outros
cia, devido a dois aspectos culturais: de campos. No caso pesquisado, é forma
um lado, uma tradição policial repres- de significar as relações de poder entre
siva e burocrática; e, de outro lado, as homens e mulheres nos relacionamen-
relações de desigualdades entre os gê- tos de conjugalidade que se reproduzem
neros, consequente de uma construção na forma das relações de poder entre
social do que é ser homem e do que é policias e mulheres denunciantes; é um
ser mulher na sociedade, que, além de campo situado no ambiente privado que
explicar os números alarmantes de vio- se repercute no campo institucional.
lências contra mulheres, justifica a par- Nestas páginas oferecem-se re-
ticularidade destes conflitos e os desa- cursos empíricos e teóricos para com-
fios aos seus enfrentamentos. preensão de como tem ocorrido o aten-
Interessa neste trabalho contribuir dimento policial aos casos de violências
com o oferecimento de respostas à pro- de gênero contra mulheres. Na primeira
vocação de Scott (1995: 93): “como as seção, demonstra-se como a cultura po-
instituições sociais incorporam o gênero licial de repressão ao crime se encontra
nos seus pressupostos e nas suas organi- em confronto com as demandas e ações
zações?”. Para isso, é importante atender das mulheres denunciantes, mesmo que
que as instituições sociais estão inseridas elas estejam de acordo com a crimina-
em uma conjuntura social mais ampla, lização deste tipo de violência. No se-
onde o gênero opera como uma cons- gundo momento, dá-se voz a estas mu-
trução social do que é ser homem ou lheres e apresentam-se suas percepções
mulher na sociedade e atua como uma sobre a Lei Maria da Penha e os serviços
categoria de desigualdade social, que oferecidos aos seus casos.
vulnerabiliza as mulheres e impera uma
vigilância moral de seus comportamen- DA REGRA LEGAL ÀS PRÁTICAS
tos, enquanto tende a naturalizar com- REAIS: elementos formais e in-
portamentos masculinos agressivos. formais no atendimento policial
Scott (1995) definiu uma das mais aos casos de violência conjugal
clássicas conceptualização sobre gênero, O campo policial é um espaço
como uma forma primária de dar signi- perpassado por aspectos simbólicos,
ficado às relações de poder, um campo sociais e culturais. Esses aspectos, no
no interior do qual, ou por meio do qual, contexto de uma Delegacia Especiali-
CONFLUÊNCIAS | Revista Interdisciplinar de Sociologia e Direito. Vol. 18, nº 3, 2016. pp. 21-43 23
STUKER, Paola

zada de Atendimento à Mulher, repro- delegacias para denunciar seus agresso-


duzem uma moralidade constituída, res o fazem com o intuito de vê-los pro-
por um lado, pela representação do pa- cessados, julgados e, quem sabe, conde-
pel da polícia como repressão ao que é nados” (Izumino, 1998: 45).
historicamente considerado como cri- Se no contexto de criação das de-
me e, por outro, pela insuficiente com- legacias especializadas o objetivo das
preensão das configurações de poder mulheres não estava na condenação
nas relações de gênero. do acusado, dez anos após, com a ins-
Em 1985, grupos feministas virtuo- tituição da Lei 9.099/95, essas escolhas
samente conseguiram junto ao gover- ganham outra possibilidade: a “conci-
no do Estado de São Paulo, que fosse liação”. A Lei 9.099/95 criou os Juiza-
criada a primeira Delegacia de Polícia dos Especiais Cíveis e Criminais – já
de Defesa da Mulher do país e do mun- previstos no art. 98 da Constituição de
do, visando dar um atendimento dife- 1988 - como alternativa ágil aos confli-
renciado às mulheres em situação de tos sociais de menor potencial ofensi-
violência. A partir de então, diversas vo, orientados pelo princípio da busca
delegacias especializadas foram cria- de conciliação, entre os envolvidos de
das no Brasil. No entanto, como indi- “infrações penais de menor potencial
ca Izumino (1998), a abertura dessas ofensivo” (Brasil, 1995, Art. 60).
delegacias não bastou, já que para au- Conforme Debert (2006), estes jui-
tora, a polícia brasileira desempenha zados passaram por um processo de
um papel mais de repressão do que de “feminização”, no momento em que
prevenção da violência. Conforme esta a maioria das audiências eram sobre
pesquisadora, os profissionais que tra- violência conjugal contra mulher. Para
balham nas delegacias da mulher são Debert e Gregori (2008), a Lei 9.099/95
antes de tudo policiais e buscam essa tem como objetivos centrais ampliar o
profissão porque desejam “combater o acesso da população à Justiça e promo-
crime”, o que dificulta o enfrentamento ver a rápida e efetiva atuação do direito,
à violência contra a mulher, que muitas simplificando os procedimentos com o
vezes demanda um tratamento extrape- intuito de dar maior celeridade ao anda-
nal. Em contrapartida, Izumino (1998) mento dos processos. Segundo as auto-
demonstra que a solicitação da mulher ras, o efeito dessa lei sobre as delegacias
ao sistema judiciário para solucionar o de defesa da mulher foi extraordinário,
conflito de violência conjugal não signi- sobretudo porque a maioria dos casos
fica necessariamente a punição do autor atendidos por elas passaram a ser tam-
da violência, afirmando que “(...) nem bém objeto de atendimento pelos no-
sempre as mulheres que procuram as vos juizados. Debert e Gregori (2008)
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QUEIXAS DUPLAS

identificaram - através de pesquisa em o processo de diálogo entre policiais e


processos de audiência preliminar no denunciantes pode propiciar a transfor-
Jecrim do Fórum de Itaquera em São mação da queixa em registro e posterior
Paulo em 2002 - uma “feminização” da inquérito policial ou pode desencadear
clientela atendida pelos juizados espe- um momento do bloqueio da queixa, e o
ciais e, em particular, uma acentuada registro não é feito. Esse é o cenário que
concentração de casos relativos à vio- antecede à criminalização da violência
lência conjugal contra a mulher, resul- doméstica e familiar contra mulher e o
tante do expressivo encaminhamento estabelecimento dos procedimentos de
dos casos das delegacias da mulher para atendimentos às mulheres nessas situa-
os juizados especiais, que atuavam na ções através da Lei Maria da Penha, que
resolução de casos de menor potencial probabiliza um novo contexto.
ofensivo. Contudo, os juízes não esta- Duas décadas depois, com a pro-
vam preparados para trabalhar com mulgação desta Lei, estabelecem-se
esta questão. Além disso, o pagamento os procedimentos formais de atendi-
de uma cesta básica era a pena imputa- mento a esses casos, inclusive, pelos/
da com maior frequência aos casos de as profissionais da polícia. A Lei Maria
violência doméstica, produzindo um da Penha conta com um capítulo que
efeito de invisibilidade e banalização prevê como se deve dar o atendimento
desses delitos (Debert; Gregori, 2008). pela autoridade policial a mulheres em
Ainda no contexto de aplicação situação de violência doméstica e fami-
da Lei 9.099/95, Lia Zanotta Machado liar. O capítulo intitula-se “Do Atendi-
(2002) relatou que o dia-a-dia de uma mento pela Autoridade Policial” e está
delegacia da mulher é constituído por inserido no Título III “Da assistência
uma série de atividades que se distan- à mulher em situação de violência do-
ciam muito do cerne definido como o méstica e familiar”. Neste capítulo estão
principal eixo das atividades policiais expressos os procedimentos legais que
precípuas: registro, apuração e investi- os/as profissionais da polícia devem to-
gação. Nesse espaço e contexto, a escuta mar no atendimento às mulheres que
de uma queixa se desdobra em ativida- denunciam casos de violência domésti-
des “extrapoliciais”, como encaminha- ca e familiar. O capítulo conta com três
mentos a outros órgãos ou mediação artigos, que se citam a seguir:
e conciliação. Conforme Machado
(2002), a interlocução entre agentes e Art. 10.  Na hipótese da
usuárias é um evento crítico que define iminência ou da prática de
o nascimento ou a morte de um even- violência doméstica e familiar
tual processo de queixa-crime, onde contra a mulher, a autoridade
CONFLUÊNCIAS | Revista Interdisciplinar de Sociologia e Direito. Vol. 18, nº 3, 2016. pp. 21-43 25
STUKER, Paola

policial que tomar conheci- I - ouvir a ofendida, lavrar


mento da ocorrência adotará, o boletim de ocorrência e to-
de imediato, as providências mar a representação a termo,
legais cabíveis. se apresentada;
Art. 11.  No atendimento à II - colher todas as provas
mulher em situação de violên- que servirem para o esclare-
cia doméstica e familiar, a au- cimento do fato e de suas cir-
toridade policial deverá, entre cunstâncias;
outras providências: III - remeter, no prazo de
I - garantir proteção policial, 48 (quarenta e oito) horas, ex-
quando necessário, comunican- pediente apartado ao juiz com
do de imediato ao Ministério o pedido da ofendida, para a
Público e ao Poder Judiciário; concessão de medidas proteti-
II - encaminhar a ofendida vas de urgência;
ao hospital ou posto de saúde e IV - determinar que se pro-
ao Instituto Médico Legal; ceda ao exame de corpo de delito
III - fornecer transporte para da ofendida e requisitar outros
a ofendida e seus dependen- exames periciais necessários;
tes para abrigo ou local seguro, V - ouvir o agressor e as
quando houver risco de vida; testemunhas;
IV - se necessário, acompa- VI - ordenar a identifica-
nhar a ofendida para assegurar ção do agressor e fazer juntar
a retirada de seus pertences do aos autos sua folha de antece-
local da ocorrência ou do do- dentes criminais, indicando a
micílio familiar; existência de mandado de pri-
V - informar à ofendida os são ou registro de outras ocor-
direitos a ela conferidos nesta rências policiais contra ele;
Lei e os serviços disponíveis. VII - remeter, no prazo le-
Art. 12.  Em todos os ca- gal, os autos do inquérito po-
sos de violência doméstica e licial ao juiz e ao Ministério
familiar contra a mulher, feito Público. (Lei Maria da Penha,
o registro da ocorrência, deve- Capítulo III do Título III, 2006).
rá a autoridade policial adotar,
de imediato, os seguintes pro- Percebeu-se através da pesquisa que
cedimentos, sem prejuízo da- todos estes aspectos são respeitados
queles previstos no Código de e cumpridos no ambiente da DEAM,
Processo Penal: uma vez que as providências legais são
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QUEIXAS DUPLAS

adotadas. Do contrário, enquanto os as- Íris: o meu medo é que as


pectos formais são cumpridos, aspectos violências psicológicas se tor-
informais se apresentam como obstácu- nem violências físicas.
los ao efetivo enfrentamento aos casos Policial: mas eu estou
de violência contra mulher. E esses as- olhando aqui a ficha poli-
pectos representam uma dupla cultura: cial dele e não tem nenhuma
de um lado uma cultura específica da ocorrência contra ele. Ele não
prática policial, de repressão à crimi- é uma pessoa agressiva. Se a
nalidade; e, de outro lado, uma cultu- gente registrar a delegada vai
ra social ampla, das representações de olhar e vai arquivar, não vai
gênero, que se introjetam nas práticas adiantar em nada. A gente
policiais no atendimento a esses casos. pode até forçar a situação e fa-
De acordo com Poncioni (2014), zer um B.O., mas acho que não
encontra-se ainda na formação pro- é o caso (Íris, caso 74, violên-
fissional do policial no Brasil um forte cias psicológicas, simbólicas e
apelo ao “combate ao crime”, ou melhor, morais, grifo nosso).
aquilo que é tradicionalmente consi-
derado como crime. Sendo a violência Este caso nos demonstra que apesar
contra mulher recentemente criminali- dos avanços em termos de lei, a prática
zada e sucedida em relações onde estão no atendimento aos casos de violência
em jogo diferentes envolvimentos, im- contra mulher alude uma cultural po-
peram descompassos entre as ações das licial que muitas vezes reduz a questão
mulheres denunciantes e as práticas po- da violência a uma questão social e não
liciais no atendimento a esses casos. De também criminal, conforme já havido
um lado, há ainda uma resistência dos/ exposto Machado (2002) no contexto
as profissionais da polícia em conside- anterior à Lei Maria da Penha.
rarem algumas violências como crimes; No caso de Íris, o constrangimen-
de outro lado, quando assim conside- to do policial para ela não registrar a
ram, expressam o desejo de enfren- ocorrência se deu visualmente por três
ta-los de acordo com outros tipos de motivos: por não considerar as violên-
crimes, mas se tensionam com as ações cias psicológicas como violências reais
cautelosas das mulheres que dificilmen- e como crimes, em discordância com
te visualizam na condenação a primeira a própria Lei Maria da Penha; por de-
opção de enfrentamento. Um exemplo finir que o acusado não é agressivo em
contundente para entendermos como razão dele não apresentar antecedentes
os policiais recusam algumas violências policiais; e, por antecipar à mulher que
como crime é o caso de Íris. sua ocorrência será arquivada. Os dois
CONFLUÊNCIAS | Revista Interdisciplinar de Sociologia e Direito. Vol. 18, nº 3, 2016. pp. 21-43 27
STUKER, Paola

primeiros motivos são incisivos e mui- policiais não desvinculam a violência


to frequentes na DEAM e demonstram urbana da violência doméstica e não
uma cultura policial que ainda não está percebem as suas diferentes lógicas.
preparada para lidar com os casos de O mesmo ocorre no âmbito judicial,
violência contra mulher, pois não reco- como torna visível o caso de Hortência,
nhece sua gravidade mesmo nas mais que em outra situação desejava a conde-
singelas manifestações e não classifica nação com pena de prisão ao acusado,
um homem que age com violência no resistida pelo Juiz, sob a justificativa de
ambiente doméstico como agressivo, se que ele não apresentava perfil de quem
ele não agir da mesma forma fora do lar. é condenado à prisão. Ainda buscando
Enquanto isso, o segundo motivo acusa por isso, Hortência registra nova ocor-
uma incompreensão do que foi com- rência policial, mas se vê novamente
preendido com a pesquisa da disser- desencorajada a representar criminal.
tação: o boletim de ocorrência mesmo
arquivado tem significados e usos reais Hortência: Tu sabe assim
para as mulheres denunciantes. ó, o Juiz não quis prender ele,
Ficou nítido na pesquisa de campo pelo simples fato que ele expli-
na DEAM que as/os policiais conside- cou assim pra mim, que ele ti-
ram os crimes envolvendo a crimina- nha quatorze anos de casa [de
lidade urbana e o narcotráfico como serviço em um restaurante],
mais dignos de enfrentamento crimi- que ele é trabalhador, ele disse
nal. Em muitos casos em que as mu- “é um cara que a gente vê que
lheres solicitam a prisão preventiva do é bem apresentável, que ele é
acusado, relatando que estavam sen- uma pessoa que não tem pas-
tindo-se inseguras diante de violências sagem pela polícia, tu mesma
constantes e ameaças de morte, as/os disse que ele é um bom pai”.
escrivãs/ãos recorriam à ficha policial Porque se eu te disser que al-
do acusado e muitas vezes afirmam às gum dia faltou alguma coisa
mulheres que eles não tinham poten- para os meus filhos, eu vou te
cial agressivo, pois não possuíam an- mentir, ele nunca deixou faltar
tecedentes policiais. Quando havendo, nada. Se faz presente? se faz.
alguma das delegadas era acionada O mau dele é ele beber, achar
por telefone, onde se relatava o caso que tem que me ter e me inco-
da mulher e se complementava com modar. Daí o Juiz conversou
a ficha policial do acusado. Além de comigo e disse: “Como que eu
considerarem os crimes urbanos como vou pegar uma pessoa dessas
mais dignos de enfrentamento, as/os e largar no presídio com todo
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QUEIXAS DUPLAS

tipo de gente que tem lá?” licial, que em vários casos reagem aos
(Hortência, caso 70, perturba- casos de renúncia alegando que essas
ção de tranquilidade, violência ações ressignificam o trabalho da polí-
patrimonial, violência psicoló- cia, que é criminal; e, em outros casos,
gica e ameaça, grifo nosso). quando as mulheres de fato desejam
um tratamento repressivo as suas ocor-
Diferente das situações de criminali- rências, as/os próprias/os policiais, em
dade urbana, onde há uma rotulação dos diferentes cargos na corporação, po-
agentes que cometem os crimes à la teo- dem julgar não ser apropriado.
ria do etiquetamento social ou rotulação Nessas situações se dá muitas vezes
(Labelling Approch Theory1), nas situa- um jogo de poder entre os diferentes
ções de violência doméstica os sujeitos cargos ocupados na hierarquia da cor-
autores dos crimes não são etiquetados, poração, como bem desenvolveu Vieira
se quer, são visibilizados muitas vezes. (2011) ao falar de prestígio na função
Identificando e reconhecendo isso, nes- e de diferente grau de importância nas
se contexto onde poderes são articula- construções jurídicas entre delegadas e
dos, as mulheres muitas vezes afirmam escrivãs nos crimes de violência sexual
estrategicamente o envolvimento dos contra mulheres. Na presente pesquisa,
companheiros com o tráfico de drogas, chama a atenção a arena de poder que
de forma a conseguirem o enfrentamen- se constitui com essas/es profissionais
to que desejam aos seus casos, de acordo em torno da possibilidade de prisão
com o enfrentamento de casos tradicio- preventiva ou em flagrante do acusado.
nalmente considerados crimes, de maio- Estas prisões se dão por interposição
res reações sociais e judiciais. de delegada, que costuma ficar sabendo
Isso também serve para percebemos dos casos por telefone, já que permane-
que se em muitos casos as mulheres ce no Cartório enquanto as/os escrivãs/
renunciam à representação criminal, ãos no Plantão. Nos casos em que a mu-
em tantos outros elas imploram pela lher solicita a prisão preventiva e a/o
penalização de seus companheiros, en- policial que atendeu o caso julga não
contrando um paradoxo na prática po- ser necessária, ela/e ameniza o ocorrido
1 Esta teoria é marcada pela ideia de que as noções de crime por telefone à delegada. Ao contrário, se
e criminoso não são inerentes a determinados indivíduos,
mas são construções sociais a partir do que se considera
julgam que é caso de prender o acusa-
como tais, asseguradas por uma “etiqueta” ou um “rótulo”. do preventivamente, pois reconhecem
Nas palavras de um clássico desta teoria “o desvio não é
uma qualidade do ato que a pessoa comete, mas uma con-
que está representando risco à mulher,
sequência da aplicação por outros de regras e sanções a narram o ocorrido de forma fiel à dele-
um ‘infrator’. O desviante é alguém a quem esse rótulo foi
aplicado com sucesso; o comportamento desviante é aquele
gada. Contudo, foi perceptível que em
que as pessoas rotulam como tal” (BECKER, 2008, p. 22). muitas situações em que as/os escrivãs/
CONFLUÊNCIAS | Revista Interdisciplinar de Sociologia e Direito. Vol. 18, nº 3, 2016. pp. 21-43 29
STUKER, Paola

ãos sugerem à delegada o uso de prisão grando não”, “sim, sempre me bate”,
preventiva, ela discorda, impondo a sua “não, não denunciei antes”, “é que ele
soberania no campo policial. sempre me prometia que ia mudar”.
Em exemplo está o seguinte caso Depois dessas respostas, ela passa no-
observado, levado pela polícia militar vamente o telefone à policial que pro-
à DEAM. A mulher se relacionou du- fere “sim senhora, delegada” e anuncia
rante dois meses com o acusado e o que a delegada disse que não é caso de
deixou quando descobriu que ele usava prisão em flagrante e o acusado ri en-
crack. A mãe dele foi atrás dela, pedin- carando a mulher. No registro de ocor-
do para ela dar uma nova chance, para rência, a mulher diz que está com mui-
ele se recuperar das drogas e ela relata: to medo e reclama do fato da delegada
“eu apaixonadinha aceitei, a gente con- ter dito que não era caso de prisão,
versou e eu voltei”. Estavam juntos há afirmando “que adianta eu fazer esta
dois meses novamente e há três dias ela ocorrência, não dar em nada e amanhã
estava em cárcere privado. O filho dela ele me matar!?”. Chorando ela diz: “ele
notou a ausência da mãe e acionou a disse que hoje era meu último dia, que
polícia militar que trouxe ele algemado eu nunca mais veria meu filho, nem
e ela muito machucada. Assim que eles acreditei quando ouvia a voz do meu
ingressam na delegacia, as/os policiais filho chegando lá na frente com a po-
de plantão julgam que é caso de prisão lícia”. O homem é liberado e ela levada
em flagrante, uma vez que estava visível até a casa do filho pela polícia militar.
que ela havia sofrido violências físicas Quando saem, a escrivã diz:
e a polícia militar flagrou que ele havia
mantido ela todo o fim de semana em Eu confesso que fico com
cárcere privado. Uma das policiais que vergonha. Vergonha de não ter
trabalha no Plantão ligou para uma das o que fazer, o que dizer para
delegadas e relatou o caso, sugerindo a ela. Dá vontade de dizer ‘olha,
prisão do acusado. A delegada solicita saí daqui e passa numa fune-
que passem o telefone para a mulher e rária escolher teu caixão, pelo
a faz algumas perguntas. De frente para menos tu vai poder escolher’,
o acusado que a intimida pelo olhar, a porque dá para ver né, que o
mulher responde aos questionamentos cara vai matar ela. Mas, o que
da delegada com a seguinte sequência eu vou fazer? Se a delegada
de frases, que nos permitem supor as disse que não é para pren-
perguntas: “não, não estou sangrando, der, quem sou eu para dizer
estou com roxos de socos e pontapés e o contrário? Eu não entendo
com marcas de mordidas”, “não, san- sabe, tem casos que não é de
30 CONFLUÊNCIAS | Revista Interdisciplinar de Sociologia e Direito. Vol. 18, nº 3, 2016. pp. 21-43
QUEIXAS DUPLAS

prender e prendem e tem ca- Uma mulher ingressa na delegacia


sos que tu vê que precisa e não entoando em desespero e euforia: “va-
prendem. Tá tudo errado (Fala mos tirar ele de lá! eu quero tirar ele de
de uma policial escrivã, caso lá”. O policial que fazia plantão naque-
81, dia 20/06/15, grifo nosso). le dia questiona o que aconteceu e ela
respondeu “aconteceu que ele me bateu
Mais do que a dada banalização e foi preso. Agora tá lá na cadeia e eu
do caso, a situação narrada demonstra quero tirar ele de lá”. No dia anterior ela
conflitos na disposição hierárquica de foi vítima de violência física pelo com-
postos na delegacia, entre superiores e panheiro, acionou a polícia militar e ele
subordinados. De acordo com Kant de foi preso em flagrante. No dia do fato
Lima (1989), esta é uma das caracterís- observado ela compareceu à delegacia
ticas da cultura policial brasileira que pedindo que o soltassem. Quando ela
empresta à instituição um caráter de- solicitou isso ao policial de plantão, ele
sorganizador da ordem. Em termos pre- pegou os documentos que estavam em
cisos, o autor refere que “a Polícia Civil suas mãos, disse que iria verificar o que
vê-se às voltas, inclusive internamente, poderia fazer e ingressou à parte priva-
com a identidade dos delegados, que da da delegacia, onde permaneceu por
fazem concurso não para policiais, mas longos minutos. Enquanto isso, na sala
para delegados, e comandam os ‘tiras’.” de espera, a mulher estava inquieta e
(Kant de Lima, 1989: 13). Nesses jogos nervosa. Outra policial se aproxima do
de poder na hierarquia policial e desar- balcão e se sucede o seguinte diálogo:
ticulação entre os diferentes postos des-
ta disposição, quem sai perdendo são as Policial: Por que tu quer
mulheres que têm seus casos negligen- soltar ele se ele te bate? Se tu
ciados, como o narrado anteriormente. soltar ele, ele vai voltar a bater
Já os casos de renúncia e retratação na senhora.
parecem serem percebidos da mesma for- Mulher: Tu não entende!
ma pelos profissionais de diferentes esca- [chorando].
lões. É nítida a intransigência da maioria Policial: Quem não enten-
das/os policiais com os casos de renúncia de é tu. A gente te ajudou, pren-
à representação criminal e de retratação. deu ele e agora tu quer soltar!
Muitos profissionais se queixam que não
veem sentido nestas ações das mulheres e Depois de um longo tempo, o poli-
que isso significa desperdício de trabalho cial regressa da parte interna da dele-
policial. O acontecimento narrado a se- gacia, entrega os documentos à mulher,
guir deixa clara esta posição. não diz nada e vira as costas. Ela, mui-
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to eufórica, pergunta se vão conseguir menos não em suas complexidades, já


soltar o marido e recebe a seguinte res- que apenas acreditam que elas utilizam
posta do policial: “Não sei, não vi nada, da ocorrência para “dar um susto” no
apenas estava lá dentro com seu papel. companheiro e diante disso defendem-
Isto foi para senhora ver como é bom -se que “a polícia não é bicho papão”,
gastar tempo à toa. Ontem a senhora mas que existe para trabalhar de acor-
nos fez perder três horas em vão para do com as lógicas do sistema penal e
prender o seu marido”. não simplesmente assustar um acusa-
Este não é um fato isolado. A into- do. Do mesmo modo, a polícia parece
lerância policial aos casos de renúncia e não compreender o quanto a repre-
retratação se torna muitas vezes explí- sentação criminal pode se configurar
cita. Frequentemente a/o policial que como um dilema para as mulheres que
está atendendo apressa a mulher na de- denunciam casos de violência e que de
cisão sobre representar criminalmente qualquer forma o registro de ocorrên-
ou não, dizendo que o sistema parou cia é uma etapa de um processo de en-
naquele pergunta e que ela/e só pode corajamento frente a essas situações.
continuar quando colocar resposta. E, De acordo com Muniz et al (2014),
na maioria das vezes, reagem mal com há uma expectativa social do uso de
as mulheres que não desejam o pro- força e repressão por parte da polícia.
cesso, a não ser que julguem que não Nesses aspectos, a polícia está auto-
se trata de um crime, então a reação rizada a usar a força, e se demanda e
era em razão da mulher registrar uma se espera que ela o faça. Todavia, o
ocorrência “desnecessária”. Posterior- que podemos afirmar é que os crimes
mente, costumavam comentar que não de violência conjugal por apresenta-
entendiam tal atitude da mulher. rem configurações distintas dos cri-
A prática policial ainda está muito mes convencionais, especialmente por
vinculada ao tratamento de casos tra- ocorrem em relações íntimas de afeto
dicionalmente considerados crimes, e em relações de desigualdade de po-
em que majoritariamente as pessoas re- der, nem sempre demandam este tipo
gistram boletins de ocorrência para dar de tratamento e isto se tensiona com a
início a uma investigação e a um pos- cultura policial. De todo modo, dife-
terior processo criminal. Inclusive, esta rente do que a sociologia identifica em
é em tese a função de uma ocorrência outros casos, é importante para mulhe-
policial. Com isso, os profissionais da res em situação de violência conjugal
polícia não compreendem os usos não este ethos policial, mesmo em tensões
convencionais do registro de ocorrên- no momento do registro de ocorrência,
cia pelas mulheres renunciantes, ao pois o recurso à polícia com a imagem
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repressiva que se tem dela, empodera realmente precisa”, suas falas e ações
as mulheres nas relações conjugais. desencobrem moralidades que reve-
É nesse sentido que Rifiotis (2008) lam as violências que consideram como
afirma que os serviços de polícia são “realmente” dignas de “ajuda” e atua-
ressignificados pelas mulheres que re- ções que dispensam do trabalho poli-
gistram ocorrências de violência do- cial. Três diálogos chamam a atenção.
méstica. Conforme o autor, as mulheres Em um deles um policial perguntou à
se apropriam das delegacias especiali- denunciante “você quer processar ele?”
zadas em desacordo com o uso que a e ela respondeu “não, só quero que ele
sociedade costuma fazer de delegacias fique longe de mim”, “para isso precisa
comuns. Desta forma, há “diferença processar” rebateu o policial. Em outro
entre a perspectiva que fundamenta a caso, a denunciante disse “eu só quero
criação das Delegacias da Mulher, vi- que vocês deem um susto nele” e a po-
sando a luta contra a impunidade nos licial respondeu “nós não somos bicho
casos de ‘violência de gênero’, e as prá- papão”. Da mesma forma, outra mulher
ticas policiais concretas na DM” (Rifio- afirmou “eu só vim aqui para alguém
tis, 2008: 208). Com efeito, ele constata conversar com ele” e o policial respon-
que o papel policial de investigação e deu “mas a polícia não é psicólogo”.
produção de provas se torna secundá- As características específicas dos
rio e dá lugar a serviços de orientação casos de violência conjugal, devido aos
e apoio psicológico. No entanto, o que envolvimentos e complexidades desses
se percebeu na delegacia pesquisada é conflitos, demandam um atendimento
uma resistência a essas ressignificações, diferenciado dos crimes convencionais.
de acordo com o próprio título desta se- Com isso não se está colocando em
ção. Esta característica do atendimento questão o tipo de sistema de justiça -
policial é tornada explícita por um car- como fazem muitas publicações ao de-
taz na parede que diz: “Fale apenas o bater em torna da justiça retributiva e
indispensável. Respeite o trabalho de da justiça restaurativa -, mas sua forma
quem ouve suas dificuldades”. de atuação nesses casos. Sendo assim,
Desse modo, a relação entre o aten- é necessário expandir a discussão do
dimento policial e as mulheres denun- tipo de enfrentamento para como este
ciantes se dá com algumas tensões, enfrentamento é realizado.
especialmente nos casos em que as mu- Kant de Lima (1989) nos oferece em-
lheres não desejam representar crimi- basamento para compreender que essa
nalmente contra o acusado. Embora al- prática policial em delegacia da mulher
gumas/ns policias tenham relatado que é constituinte de uma cultura policial
“é satisfatório ajudar uma mulher que configurada em um ethos repressivo e
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punitivo, relacionado a aspectos das processo criminal, elas colocam em ris-


tradições judiciárias presentes no Bra- co a tradicional tarefa policial e desa-
sil, que constituem um “código de hon- coplam a polícia do sistema judiciário.
ra” das ações policiais. De acordo com Se para Kant de Lima (1989), a tradição
a produção sociológica neste tema, em inquisitorial marca a prática policial ju-
exemplo de Kant de Lima (2004), o tipo diciária no Brasil, as ações e demandas
de formação institucional que os poli- das mulheres em situação de violência
ciais militares e civis recebem é de ca- conjugal tencionam este paradigma à
ráter dogmático e instrucional inspira- polícia. A própria Lei Maria da Penha
da na formação militar, enfatizando os prevê este ofício no inciso VII, artigo
modelos repressivos de controle social. 12, do capítulo e título III, citado nesta
Assim, quando um novo crime seção. Do contrário, este é um procedi-
emerge e demanda das próprias víti- mento não realizado em muitos casos,
mas muitas vezes um enfrentamento já que muitas mulheres renunciam à
diferenciado, isso sacode as práticas representação criminal. Em efeito, as/
tradicionais e a cultura da polícia que, os profissionais da polícia desaprovam
se para alguns poucos/as policiais re- estas ações das mulheres denunciantes.
presenta a reconfiguração de seus tra- A não ser que elas/es mesmo julguem
balhos, para outras/os, um enfrenta- que não se tratam de situações dignas
mento a seus “reais” ofícios. de inquérito policial e processo crimi-
Além do mais, a polícia judiciária nal e nesses aspectos também recrimi-
no Brasil se caracteriza pela tradição nam as ações das denunciantes. Desse
inquisitorial, de investigação, produção modo, não somente as renúncias das
e reprodução de certezas. As caracterís- mulheres barram um enfrentamento
ticas inquisitoriais denotam ao inquéri- policial das violências, como em mui-
to policial a principal tarefa da polícia tas vezes a própria concepção policial
judiciária, que deverá produzi-lo e en- do que é digno de enfrentamento, le-
caminha-lo à sua fase verdadeiramen- vando a um paradoxo das práticas po-
te judicial, com a instauração de um liciais em uma DEAM.
processo judicial, que é presidido pelo Contudo, como já alertou Saffioti
juiz (Kant de Lima, 1989). Para Kant (2002), não se pode imputar responsa-
de Lima (1989), esta função policial é o bilidade às/aos policiais, mas ao sistema
verdadeiro elo da policia ao sistema ju- que constrói, sustenta e naturaliza cul-
dicial. Com isso, no momento em que turas de preconceitos e opressões que
as mulheres renunciam à representação invadem e se reproduzem nas diversas
criminal e evitam a produção do inqué- esferas sociais, inclusive em instituições
rito policial que ofereceria bases para o de políticas públicas como é o caso de
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delegacias da mulher. De todo modo, casos de violência doméstica e familiar


individual ou estrutural, estamos fa- contra mulher. Surpreendentemente,
lando de práticas policiais em desacor- todas as mulheres entrevistadas avalia-
do com os propósitos de fundação das ram positivamente a Lei e enalteceram
delegacias da mulher, que não tiram os a importância de sua existência, mesmo
méritos e importâncias destas, mas re- que escolham não processar o acussado.
produzem muitas vezes o que deveriam Nesse sentido, independente das moti-
combater. Consequentemente, assim vações que guiaram as mulheres no re-
como a violência conjugal não é só físi- gistro de ocorrência e, por sua vez, na
ca, a violência policial pode ser mais do renúncia ao direito de processar o acu-
o uso intencional de força excessiva. E, sado, todas elas julgaram a Lei Maria da
como veremos na seção seguinte, mui- Penha como importante e necessária, a
tas mulheres percebem isso. exemplo da entrevista a seguir:

DAS VOZES DE QUEM MAIS IN- Violeta: eu acho que foi


TERESSA: percepções das denun- uma lei que veio muito a ca-
ciantes sobre as respostas institu- lhar para a situação da mulher,
cionais oferecidas aos seus conflitos porque tem muita mulher que
Dito isso, nada mais justo do que as vezes sofre agressão e não
apresentar algumas percepções dos su- sabe que sofre, por causa as
jeitos em favor dos quais a Lei Maria da vezes da falta de conhecimen-
Penha e as Delegacias da Mulher foram to, da aceitação, e essa lei, eu
criadas: as mulheres em situação de acho que ela trouxe uma força
violência. Seus posicionamentos sobre maior de atendimento mais
os serviços oferecidos aos seus confli- rápido para a necessidade
tos se classificam em duas categorias da mulher, não que a mulher
(legislação e prática) e denunciam um seja uma vítima, mas ela pre-
deslocamento entre regra legal e práti- cisa de uma atenção especial,
ca policial, que reforçam as observações porque acontece muito, muita
etnográficas cidadãs anteriormente. coisa contra a mulher, abuso,
Por algum momento, nas reflexões violência, muita coisa assim
que deram origem ao projeto que se no lar. Coisas que as vezes as
materializou na dissertação da qual pessoas estão passando e estão
este artigo é fruto, pensou-se que os achando que é comum, que é
casos de renúncia à representação cri- normal, mas a lei mostra que
minal poderiam significar subversões à nem tudo tem que ser aceitado
Lei Maria da Penha, que criminaliza os como normal, na convivên-
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cia do dia a dia (Violeta, caso matar mesmo. E aí, essa foi a
25, difamação, perturbação e primeira e única vez, porque
agressão mútua passada). quando ele foi a juízo ele viu
que a coisa era séria, né. Acho
A fala da entrevistada Violeta é que ele viu que a Lei Maria
exemplificadora do posicionamento da Penha, ela realmente faz
das demais mulheres pesquisadas sobre alguma coisa. Ela protege
a Lei Maria da Penha. Todas elas ava- a mulher e, dependendo de
liaram de forma positiva a existência de cada caso, se a pessoa quer
uma lei específica sobre violência do- levar a diante, a coisa vai até
méstica e familiar contra a mulher. Mais mais séria, né. Então, exis-
do que opiniões, os relatos das mulheres te realmente uma Lei e uma
demonstram a importância da referida proteção que hoje nos favore-
lei em suas experiências. Como exem- ce, né. Diante disso, eu acho
plo, têm-se o caso de Orquídea que nar- que ele teve um temor, sabe.
ra o real efeito da Lei Maria da Penha Até porque ele é taxista, ele
para sua situação de violência mesmo trabalha com pessoas, ele viu
sem a condenação do acusado: que isso foi para o histórico
dele. Então, essa foi a primei-
Orquídea: A primeira vez ra e única vez. Mas, as agres-
que ele me bateu eu estava be- sões verbais sempre teve, dia-
bendo naquele dia e a gente riamente, sempre ocorreram.
começou a discutir, eu não me Muita humilhação, me botan-
lembro porque motivo. E eu do pra baixo (Orquídea, caso
me lembro que quando ele me 16, lesão corporal e tentativa
agrediu, ele conta, que quando de feminícidio, grifo nosso).
eu fui fazer a ocorrência, cla-
ro, foi a juízo, né, ele conta que Com a mesma avaliação sobre a Lei
ele tentou fazer eu desmaiar. Maria da Penha, Girassol comenta que
Só que não, ele não deixava eu houve um grande avanço no enfrentamen-
nem gritar para pedir socorro. to aos casos de violência contra mulher e
Ele tapava a minha boca. Mes- menciona sua popularidade e seus reais
mo alcoolizada eu me lembro efeitos mesmo que não seja acionada.
dessa cena, que ele tentava
me enforcar, me sufocar e ele Girassol: O que eu vejo
conta que ele tentou fazer eu hoje é que teve um grande
desmaiar. Não, ele tentou me avanço. (...) Então, isso tem
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sido bem positivo e acho que e esse negócio de agressão. An-


a ideia é ter maiores avanços tigamente os homens faziam
e cada vez mais. (...) E aí, com filho, batiam na mulher, iam
a Lei ficou mais claro ainda. embora e nada acontecia. Eu
Todo mundo sabe “ah, mas tenho um amigo que tá pre-
tem a lei”. E até mesmo para so, que ele não tava pagando a
o homem, né, para o agressor pensão e bateu na mulher. Mas,
“ah, eu sei da lei”, daí as vezes ele bateu bastante, várias vezes.
pensa uma, duas, três vezes an- E daí ela decidiu registrar e ele
tes de fazer alguma coisa. In- tá preso. Aí a gente fica con-
felizmente não são todos, mas tente, né (Kalanchoe, caso 52,
pensam muito. Essa lei dá essa violência física e psicológica).
proteção com certeza (Giras-
sol, caso 77, difamação, “agres- Passagens como esta demonstram
sividade”, ameaça de agressão e como a Lei Maria da Penha agre-
perturbação de tranquilidade). ga poder às mulheres em situação de
violência conjugal, independente de
Todavia, não é só a existência de representarem criminalmente ou de
uma lei específica para mulheres que renunciarem a este direito, ou então do
é valorizada pelas pesquisadas. Suas tipo de renúncia que mobilizam (estra-
reais possibilidades de condenação com tégica ou dilemática, conforme catego-
pena de prisão aos acusados são esti- rizado na pesquisa da dissertação). Al-
madas pelas mulheres em situação de gumas mulheres afirmam que “antes eu
violência, mesmo quando renunciam apanhava calada, agora tem este recurso
à representação criminal. Este dado é que é a Lei Maria da Penha”. Da mesma
assaz fortuito: renunciar à representa- forma, as mulheres em geral valorizam
ção criminal não significa descreditar a a existência de delegacias da mulher.
pena de prisão para casos de violência Nesse sentido, os avanços são ine-
contra mulher. Vejamos a percepção de gáveis. O caso de Rosa que recorreu ao
Kalanchoe, que por sinal renunciou à enfrentamento público em um contex-
representação criminal: to de aplicação da Lei 9.099/95 é uma
evidência disso. A pesquisada relata que
Kalanchoe: Eu acho que é fez uma ocorrência de uma violência fí-
legal, que tá bom. Porque anti- sica grave e se deu a seguinte sucessão
gamente as mulheres apanha- de fatos: depois de um ano ele foi cha-
vam e nada acontecia e agora o mado na delegacia, houve audiência de
que tá dando cadeia é pensão conciliação, ele não quis assinar o acor-
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do, “ficou tudo assim, por isso mesmo” lá?”, eu disse “tirei”, se não eu
e ele ainda a ameaçou de morte. ia morrer. Mas, eu não tirei né.
(Rosa, caso 86, violências físi-
Rosa: Daí um dia, depois cas e psicológicas e ameaça de
de UM ANO, chamaram ele morte, grifo nosso).
na delegacia. Aí ele disse as-
sim pra mim “se é por causa A vigência da Lei Maria da Penha
da tua causa que eu recebi essa simboliza um novo contexto no en-
intimação, tu te prepara, faz o frentamento a violência contra mu-
sinal da cruz porque hoje tu lher. Contudo, muitos descasos ainda
vai morrer”. Aí eu peguei a mi- imperam. O exemplo de Íris é incisivo,
nha filha de nove meses e fui quando o policial a constrange a não
lá na minha mãe. Cheguei em registrar ocorrência das violências psi-
casa no outro dia e ele já não cológicas. Sobre isso, ela comenta que:
estava mais. Chegou era meia
noite e eu fiquei em casa com Íris: Eu vim aqui mais
a minha filha dormindo. Daí como uma forma protetiva.
a outra vez era o processo no Eu queria deixar uma coisa re-
fórum. Eu quis que ele assinas- gistrada, caso viesse acontecer
se uma coisa para não me ba- [uma violência mais grave].
ter mais e ele não quis assinar. Mas, eu acho que eu vou ter
(...) O promotor disse “eu só que esperar acontecer. (...)
quero que tu assine um papel Desde que existe a Lei, eu vejo
para não bater mais nela”. Ele por reportagens, né, até teve
disse “eu não assino merda uma vizinha minha que teve
nenhuma”, bateu a porta e problemas e sempre foi muito
foi embora. E ficou tudo as- bem amparada e eu vim na De-
sim, por isso mesmo. (...) Eu legacia da Mulher justamente
cheguei em casa e ele já tinha por isso, para me sentir prote-
tomado meio litro de uísque. gida, porque eu sei que ela pro-
Botei a minha filha dormir, tege as mulheres e isso é funda-
peguei o machado e fui picar mental, mas no meu caso, não
lenha com o machado e ele pe- pude registrar a ocorrência.
gou o machado assim ó [imita (...) Olha, no momento que ele
como ele usou o machado para me disse que não ia adiantar de
ameaçar e intimidar ela], “tu nada eu fazer esse registro, que
tirou ou não tirou os papel de ele disse “a delegada vai ver e
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QUEIXAS DUPLAS

vai arquivar”, eu pensei não o despreparo da delegacia e


adianta fazer nada. Mas, eu dos policiais. Achei eles muito
acho que adianta SIM, porque frios. Inclusive, na primeira vez
tem um REGISTRO. Existe um que eu registrei a policial deu
registro. Mas, como, POR EN- risada, foi debochada, como se
QUANTO, não houve nenhu- o que eu tivesse contando para
ma agressão física assim, va- ela não fosse sério. Eu sei que
mos ver no que vai dar, né. Eu tem casos muito mais graves
vim aqui por achar que eu me que o meu, mas se eu vim até
sentiria mais protegida se eu aqui fazer uma ocorrência é
fizesse o registro (Íris, caso 74, porque eu me senti violentada
violências psicológicas, simbó- e quis me resguardar disso de
licas e morais, grifo nosso). alguma forma, mas parece que
eles não entendem. Já é uma si-
Sendo assim, se a existência da Lei tuação muito constrangedora
Maria da Penha e das delegacias da mu- e humilhante falar sobre isso
lher é valorizada pelas mulheres, o que e eles sendo despreparados
acionou reclamações de algumas foi sua assim, fica ainda pior (Acácia,
aplicação prática, expressa essencial- caso 71, “agressividade” e vio-
mente na forma como se dá em algumas lências psicológicas).
situações o atendimento na delegacia,
exaltados pelas incompreensões da/o Similarmente, a entrevistada Perpé-
policial com a sua renúncia à represen-
tua exclama durante a entrevista: “tu viu
tação criminal ou com a sua “ressigni-o jeito que ela [policial] falou comigo?
ficação” da delegacia ao registrar um o jeito que ela falou, eu não gostei, me
boletim de ocorrência para uma causa deu vontade de levantar e ir embora”.
cível e não criminal. O posicionamentoPor outro lado, há mulheres que não
da entrevistada Acácia demonstra essa reclamaram explicitamente do aten-
insatisfação, afirmando que não gostoudimento, mas fazem referência de que
do atendimento na delegacia. não veem diferença entre uma delega-
cia comum e a delegacia da mulher, ou
Acácia: Para falar bem a então, comentam que seria melhor se
verdade, eu não gostei, não. houvesse psicólogas e assistentes sociais
Achei completamente despre- na instituição, demonstrando que os
parados. Nas duas vezes que conflitos de ordem conjugal e de gênero
precisei registrar ocorrência demandam intervenções que extrapo-
eu fiquei impressionada com lam a prática tradicional da polícia.
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Nesses aspectos, Lírio se queixa do uma mulher, mas se me aten-


atendimento na instituição, expressan- desse um homem, dependendo
do suas demandas de um trabalho mais da situação eu não falaria, eu fi-
acolhedor na delegacia. Sagazmente, caria constrangida. Então, acre-
ela reflete que a falta de atenção dos/as dito que seria bem melhor para
policiais para ouvirem as queixas das o trabalho da polícia alguém
mulheres interfere na qualidade de seus que ouvisse e que tivesse prepa-
próprios trabalhos, uma vez que as mu- rada para isso, para ouvir, para
lheres se inibem para relatarem algu- fazer a mulher se sentir bem e
mas situações. Em suas palavras: colocar para fora aquilo que tá
incomodando ela, porque tem
Lírio: Ah, eu te digo assim, muitos detalhes que a pessoa
que, que... que falta esta parte. se inibe de falar e isso acaba
Como tu estás aqui fazendo dificultando muitas vezes o tra-
uma pesquisa, tu está me ou- balho da polícia. Eu sinto isso
vindo, né. E quantas mulheres (Lírio, caso 37, “agressividade”,
não têm ninguém que ouça violência psicológica e pertur-
elas, que escute elas. Eu acho bação de tranquilidade).
que isso a polícia tem que pa-
rar para refletir um pouco, no Lírio traz um interessante fato para
ACOLHIMENTO. Porque eu discussão: o gênero da/o policial que
tenho uma mãe, eu tenho ir- atua na delegacia da mulher. No seu
mãos, eu tenho uma família caso foi uma mulher, mas em um qua-
que me acolhe, mas quantas dro de oito plantonistas na instituição
mulheres não têm nem isso. estudada, três são homens. Através das
Não têm alguém que converse observações, não se identificou diferen-
com elas. E eu acredito tam- ças no atendimento de policiais homens
bém que seria bem interessante e policiais mulheres. De todo modo, é
até para o próprio trabalho da evidente que muitas denunciantes não
polícia essa ouvidoria, porque se sentem a vontade em relatar seus ca-
com alguém para isso, talvez sos a homens, especialmente quando se
eles poderiam solucionar coi- trata de violência sexual. Este é mais um
sas de forma mais rápida e mais dado em desacordo com as propostas
eficaz. Que eu acho que é onde de criação das delegacias da mulher.
a mulher se sente mais a von- O trabalho de campo demonstrou
tade, porque querendo ou não, que o despreparo para atuação em casos
por exemplo, ali me atendeu de violência de gênero e a cultura re-
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QUEIXAS DUPLAS

pressiva faz da prática policial mais um dem a tradição inquisitorial da polícia


motivo de queixa das mulheres, parale- judiciária, gerando tensões nas práticas
lo às violências que estas foram à dele- policiais. Ademais, a hierarquia na cor-
gacia denunciar, levando a constatação poração, outro elemento que bem carac-
de que a classificação de “especializada” teriza a polícia, dificulta o atendimento
apenas representa a distinção dos casos efetivo aos casos. São situações que pas-
que são atendidos na instituição e não a sam a discussão acadêmica do tipo para
qualificação do atendimento. a forma como se dá o enfrentamento à
violência contra mulheres no país.
CONSIDERAÇÕES FINAIS Não há dúvidas de que mesmo que
Este trabalho acusa um desloca- a Lei Maria da Penha não cumpra em
mento entre regra legal e prática real no muitos casos o seu papel de forma pre-
enfrentamento à violência contra mu- vista, ela cumpre agregando poder às
lheres, à luz da aplicação da Lei Maria mulheres nas suas relações de conju-
da Penha na atuação de uma Delegacia galidade. Se isso se efetiva nos casos
Especializada de Atendimento à Mu- em que há condenação é matéria para
lher. Se por um lado se identificou que outras pesquisas. O que se pode dizer
o trabalho formal é cumprido de acor- é que no contexto de uma delegacia es-
do com as orientações previstas na Lei, pecializada, mesmo com uma atuação
por outro, aspectos informais insurgem policial que muitas vezes desqualifica
apresentando-se como limitações às as ações de renúncia pelas mulheres,
próprias práticas legais. os mecanismos policiais exaltados pela
Diversos elementos que revelam este popularidade da Lei Maria da Penha
resultado foram identificados na pesqui- nas relações conjugais, concede poder
sa. Há um paradoxo na prática policial às mulheres. São efeitos simbólicos que,
que, por uma via, reproduz uma cultura se não interessam a outras ciências, in-
repressiva e, por outra, apresenta resis- teressam e muito às ciências sociais.
tência para o enfrentamento criminal de Está se falando de um novo contex-
certos tipos de violência contra mulher; to, em que as mulheres já percebem as
o que é revelado, em certa medida, pela situações mais invisíveis e simbólicas
não rotulação do acusado como crimi- como atos de violência e que de dife-
noso, reforçando os pressupostos da rentes modos, dos mais singelos aos
teoria do etiquetamento social; e, tam- mais contundentes, resistem a essas
bém, pela intransigência policial com violências. Do mesmo modo, também
os casos de renúncia e retratação. Essas percebem e se insatisfazem com a des-
manifestações pela não representação qualificação do atendimento de alguns
criminal por parte das mulheres saco- profissionais da delegacia da mulher.
CONFLUÊNCIAS | Revista Interdisciplinar de Sociologia e Direito. Vol. 18, nº 3, 2016. pp. 21-43 41
STUKER, Paola

Neste novo cenário, é limitado classi- Acesso em: março de 2014.


ficar as mulheres em situação de vio- ______________________. Lei
lência conjugal como meras vítimas, n. 9.099, de 26 de setembro de 1995.
ao menos, não todas, uma vez que elas Disponível em: <www.planalto.gov.br/
contam cada vez mais com possibilida- ccivil_03/leis/l9099.htm>. Acesso em:
des de articulação de poder nas rela- março de 2014.
ções, advindas de recursos como a Lei DEBERT, Guita Grin. 2006. “Confli-
Maria da Penha e as delegacias especia- tos Éticos nas Delegacias de Defesa da
lizadas de atendimento á mulher. Mulher”. In: DEBERT, Guita Grin et al
Contudo, se aqui não se questionam (org). Gênero e distribuição da justiça:
propriamente a Lei e a existência dessas as delegacias de defesa da mulher na
delegacias, coloca-se em questão suas construção das diferenças. Campinas,
aplicações práticas a partir das morali- Pagu/Unicamp.
dades reproduzidas pela prática policial ___________________; GREGO-
no contexto de aplicação da Lei Maria da RI, Maria Filomena. 2008. “Violência e
Penha nesse espaço. As representações Gênero”: novas propostas, velhos dile-
do papel da polícia como repressão ao mas. RBCS, v. 23, n. 66, p. 165-211.
que é historicamente considerado como IZUMINO, Wânia Pasinato. 1998.
crime e as incompreensões das relações Justiça e violência contra a mulher: o
de gênero e dos casos de renúncia fazem papel do sistema judiciário na solução
do trabalho policial em muitos casos um dos conflitos de gênero. São Paulo: An-
distanciamento do que se projetou com nablume/FAPESP.
as criações de delegacias especializadas KANT DE LIMA, Roberto. 1989.
e com a promulgação da Lei Maria da “Cultura Jurídica e Práticas Policiais”: a
Penha, revelando sistemas de significa- tradição inquisitorial. Revista Brasileira
dos distintos entre as mulheres denun- de Ciências Sociais, v.10, n.4, p.65-84.
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Paola Stuker
Doutoranda e Mestra em Sociologia
pela Universidade Federal do Rio Gran-
de do Sul (UFRGS). Cientista Social pela
Universidade Federal de Santa Maria
(UFSM). Integrante do Grupo de Pesquisa
Violência e Cidadania (GPVC-UFRGS).
CONFLUÊNCIAS | Revista Interdisciplinar de Sociologia e Direito. Vol. 18, nº 3, 2016. pp. 21-43 43
Artigo
OLIVEIRA,Vítor
RIBEIRO, Thiago
Eduardo
Rodrigues
Alessandri
CONFLUÊNCIAS

Revista Interdisciplinar de Sociologia e Direito
ISSN 1678-7145 || EISSN 2318-4558

OITIVAS CERIMONIAIS:
relatos descritivos do sistema de justiça juvenil paulistano

Thiago Rodrigues Oliveira


Núcleo de Estudos da Violência da Universidade de São Paulo.
E-mail: oliveira.thiago.x@gmail.com

RESUMO
O presente artigo discute o funcionamento do sistema de justiça juvenil a partir de relatos
descritivos de observações diretas no âmbito do Fórum responsável por adolescentes em
conflito com a lei no município de São Paulo. O desenho de pesquisa proposto configura
um estudo exploratório, cujo objetivo consiste em apontar a plausibilidade da explicação a
respeito da dinâmica de funcionamento da justiça juvenil. Nesse sentido, foram realizadas
observações diretas de audiências de apresentação e de continuação nas Varas da Infância e
da Juventude e, particularmente, de oitivas informais no Ministério Público - as observações
foram realizadas semanalmente durante quatro meses em 2014. Além da centralidade do
Ministério Público no processo decisório, a investigação concluiu que as oitivas informais
acontecem cerimonialmente, de modo a preservar o mito de uma justiça individualizada,
mas sem efeitos diretos sobre as decisões em si, dado que elas são tomadas aprioristicamente.
Palavras-chave: Justiça juvenil; Práticas judiciais; Processo decisório; Estatuto da Criança e
do Adolescente; Sistema frouxamente ajustado.

ABSTRACT
This paper discusses the daily routines of the juvenile justice system from descriptive reports
of direct observations within the court responsible for the juvenile offenders in the city of
São Paulo. The research design consists of an exploratory study which aims at demonstrating
the plausibility of the explanation regarding the juvenile justice daily dynamics . Thus, direct
observations of both the judicial hearings and the informal hearings at the State’s Attorney
office were done -- observations consisted of weekly visits to the juvenile courtroom for four
months in 2014. Not only does the paper conclude with the centrality of the State’s Attorney
office, but it also concludes that the informal hearings happen ceremonially, in order to keep
the myth of an individualized justice, but with no actual effects over the decisions themsel-
ves, since they are actually taken beforehand.
Key words: Juvenile Justice; Judicial Practices; Decision-making process; Children and
Adolescent
44 CONFLUÊNCIASStatute; Loosely
| Revista coupled
Interdisciplinar system. e Direito. Vol. 16,
de Sociologia 18, nº 3, 2014.
2016. pp. 60-85
44-64
OITIVAS CERIMONIAIS

INTRODUÇÃO Essas são algumas das questões que


Como se dá a rotina do proces- orientaram a ida a campo.
so decisório no sistema de justiça ju- O artigo está dividido da seguinte
venil? O presente artigo apresenta os maneira. Em primeiro lugar, tem-se
resultados de uma observação direta uma discussão bibliográfica a respeito
ocorrida no Fórum responsável pelos da temática geral do sistema de justiça
adolescentes em conflito com a lei no juvenil e dos adolescentes em conflito
município de São Paulo. Durante 4 com a lei sob a ótica das Ciências So-
meses em 2014, audiências de apresen- ciais, particularmente da Sociologia.
tação e de continuação no âmbito das Ainda nessa seção, tem-se a discussão
Varas Especiais da Infância e da Juven- do arcabouço teórico-metodológico
tude e oitivas informais no Ministério de que parte a presente pesquisa, a So-
Público foram semanalmente visitadas ciologia das Práticas Judiciais -- aqui
para observação. As idas ao Fórum se há ainda uma discussão importante a
inserem em uma pesquisa mais ampla, respeito da abordagem organizacional
que contou com outras frentes investi- no estudo sobre sistemas de justiça
gativas (Oliveira, 2016); mas a discus- criminal. Em seguida, o estudo con-
são que se propõe no presente artigo duzido é apresentado, descrevendo o
diz respeito exclusivamente aos relatos acesso ao campo e como se deram as
descritivos dessas observações diretas. observações diretas no Fórum.
Como os operadores decidem A discussão conclui propondo a
as medidas socioeducativas a serem compreensão de que as oitivas infor-
aplicadas aos adolescentes em confli- mais ocorrem cerimonialmente, de
to com a lei? As decisões são tomadas modo a manter o mito de uma justiça
na hora, após conversas, testemunhos juvenil individualizadora e que conta
e questões respondidas pelos indiví- com a participação dos adolescentes,
duos envolvidos? Ou, ao contrário, mas sem atrapalhar na eficiência do
as decisões são tomadas aprioristica- processo decisório, a qual é dada pela
mente, de modo que a própria exis- importância dos documentos poli-
tência das audiências vira uma ques- ciais e judiciais.
tão? Qual o papel dos atores ligados
ao Ministério Público, à Defensoria LITERATURA
Pública e ao magistrado nesse pro- As Ciências Sociais e o sistema de jus-
cesso decisório? Como se dão as in- tiça juvenil
terações sociais entre os operadores O tema relacionado, de manei-
do Direito e os adolescentes acusados ra geral, aos adolescentes em conflito
de cometimento de ato infracional? com a lei é bastante comum no Brasil.
CONFLUÊNCIAS | Revista Interdisciplinar de Sociologia e Direito. Vol. 18, nº 3, 2016. pp. 44-64 45
OLIVEIRA, Thiago Rodrigues

Especialmente desde a promulgação mas também a pouca preocu-


do Estatuto da Criança e do Adoles- pação com as garantias proces-
cente (ECA), em 1990, o tema se po- suais. (Miraglia 2005: 94)
pularizou nas mais diversas disciplinas
científicas direta ou indiretamente re- Essa pouca preocupação com as
lacionadas às Ciências Sociais: campos garantias processuais era acompanha-
como Psicologia, Pedagogia, Direito, da por uma espécie de paternalismo
Antropologia, Ciência Política, além por parte dos juízes. A autora identifi-
da Sociologia, passaram a desenvolver ca que a única medida socioeducativa
pesquisas sobre distintas abordagens a interpretada – tanto pelos adolescentes
respeito do sistema de justiça juvenil. quanto pelos profissionais do Direito
Talvez o principal estudo de orien- envolvidos – como uma punição de
tação antropológica concernente às fato era a internação; dessa maneira, a
relações entre o jovem e a Justiça no sentença relativa a outras medidas era
Brasil seja de Miraglia (2005). Nessa comumente seguida de uma espécie de
pesquisa, a autora executa uma etno- lição de moral do juiz, o qual fazia co-
grafia nas Varas Especiais da Infância mentários sobre a conduta do jovem,
e da Juventude, assistindo a diversas mas não sobre o ato infracional em
audiências de apresentação e conti- si. Ressalta-se um caso específico em
nuação com adolescentes em conflito que a jurisprudência não cabia nem
com a lei. Trata-se de um interessante mesmo àquela Comarca, devendo o
trabalho para averiguar as dificuldades adolescente ser encaminhado a outro
de implementação prática do ECA e juízo, e ainda o assim o juiz permane-
para discutir as especificidades de uma ceu vinte minutos criticando as condu-
etnografia quando o Direito é o objeto. tas do jovem e lhe recomendando um
Miraglia, em sua etnografia, averi- novo estilo de vida (Miraglia 2005).
guou um sistema de justiça juvenil com- Há também trabalhos sobre o sis-
pletamente baseado na informalidade. tema de justiça juvenil provenientes
da área de Ciência Política. Campos
O que estamos chamando (2009), por exemplo, analisou 21 Pro-
de informalidade inclui atender postas de Emenda à Constituição (PEC)
ao celular no meio da audiên- que, apenas entre 1993 e 2004, propõem
cia, falar alto com a mãe do a redução da idade de inimputabilidade
adolescente, tecer comentários penal para 16 ou mesmo 14 anos de ida-
com o escrivão, a breve duração de. O principal argumento utilizado pe-
(normalmente, as audiências los deputados quando dessas propostas
duram cerca de 20 minutos), é a noção de discernimento: jovens com
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OITIVAS CERIMONIAIS

menos de 18 anos já conseguem julgar como a medida ideal para a recupera-


as suas ações como certas ou erradas. ção do jovem (Paula 2011), por outro,
Um dos estudos sociológicos que conforme apontado acima, entre 1993
tiveram como objeto o adolescente em e 2004 houve mais de vinte Propostas
conflito com a lei foi de Alvarez (1989), de Emenda à Constituição argumen-
a respeito da emergência do Código de tando pela redução da idade de inim-
Menores de 1927. Na fronteira entre putabilidade penal (Campos 2009). A
uma sociologia histórica e uma socio- tensão entre essas duas concepções de
logia da punição, o trabalho analisa as punição fica evidente no estudo de Fá-
transformações discursivas – de juris- vero (2012), que analisa, em seu artigo
tas, médicos, jornalistas etc. – entre “Entre proteção e punição: o controle
fins do século XVIII e início do século sociopenal dos adolescentes”, o sistema
XIX relativas aos indivíduos com me- de justiça juvenil sob essa óptica.
nos de 18 anos abandonados e delin- A pesquisa desenvolvida por Vinu-
quentes; ressalta-se que, então, não se to (2014) busca compreender como o
fazia distinção alguma entre o jovem adolescente em cumprimento de me-
abandonado e o jovem que cometeu dida socioeducativa de internação é
qualquer crime, configurando uma es- socialmente construído pelos funcio-
pécie de criminalização da miséria. O nários que atuam na ponta do proces-
autor insere a emergência do Código so de implementação desse dispositivo.
de Menores de 1927 em um contexto Psicólogos, assistentes sociais, profes-
de discursos que, justamente, tiveram sores e agentes de apoio socioeducati-
como consequência a sujeição do me- vo, responsáveis pelo contato cotidiano
nor. Nesse sentido, propõe que a jus- com os jovens internados, são quem
tiça para menores instaurada naquele efetivamente vivenciam, a partir de suas
momento seja interpretada como um próprias experiências, a medida aplica-
dispositivo de poder. da pelo Poder Judiciário. Por meio da
Talvez o principal tema, no âmbito análise documental das pastas e dos
da Sociologia, a respeito do sistema de prontuários do “Complexo do Tatuapé”,
justiça juvenil seja a constante tensão referente a jovens que tiveram alguma
entre as concepções repressiva e edu- passagem pela FEBEM-SP entre 1990
cadora na punição de adolescentes (Al- e 2006, Vinuto conclui que os funcio-
meida 2010). Se por um lado o ECA re- nários, ao atribuir sentido às atitudes
futa as próprias terminologias de ‘crime’ dos internados com quem interagem,
e ‘pena’, enfatiza o caráter reabilitativo criam dois tipos ideais de adolescentes
das medidas socioeducativas e elege a em conflito com a lei: aqueles já ‘estru-
Liberdade Assistida, e não a internação, turados’ no mundo crime, para quem
CONFLUÊNCIAS | Revista Interdisciplinar de Sociologia e Direito. Vol. 18, nº 3, 2016. pp. 44-64 47
OLIVEIRA, Thiago Rodrigues

a função socioeducativa da medida se Um autor que trata das grandes


faz inútil; e aqueles ‘recuperáveis’, ain- transformações ocorridas recentemen-
da não inseridos na carreira criminosa te no âmbito dos sistemas de justiça
e que podem ser ressocializados. Essas juvenil é o criminólogo Álvaro Pires
classificações produzidas e reprodu- (2006). O autor argumenta que uma
zidas pelos funcionários acabam por noção de ‘responsabilidade’ começa a
determinar sua própria atuação em re- emergir nos anos 1960 nas legislações
lação aos jovens, delimitando seus di- voltadas a crianças e adolescentes, ad-
reitos e deveres (Vinuto 2014). quirindo caráter central na década de
O estudo de Almeida (2014; 2016) 1980, momento em que a concepção
analisa práticas judiciais no âmbito do de uma justiça especializada passa a
sistema de justiça juvenil. Com o obje- sofrer grandes transformações – em
tivo de estudar o que sustenta a racio- que o sistema de justiça criminal pas-
nalidade prática do isolamento institu- sa a implantar esse valor no próprio
cional como medida para adolescentes programa de justiça dos menores (Pi-
autores de atos infracionais e o proces- res 2006: 623). Conforme defende o
so de execução da medida socioeduca- criminólogo, “a justiça criminal juve-
tiva de internação, a autora, partindo nil está sendo invadida ou colonizada
do arcabouço teórico-metodológico da pelo sistema de pensamento da justiça
etnometodologia, realizou uma pesqui- criminal dos adultos tal como ele se
sa empírica, de estilo qualitativo, no constituiu durante os séculos XVIII e
Fórum e na Fundação CASA -- foram XIX” (Pires 2006: 623), hipótese essa
realizadas entrevistas em profundidade que também foi considerada por ou-
com magistrados, operadores e funcio- tros autores (cf. Trépanier 1999).
nários e análises documentais dos re- Apoiando-se no texto ‘The psycho-
gistros institucionais. Como, de acordo logy of punitive justice’ (Mead 1918),
com o ECA, não há determinação do Pires argumenta que a justiça juvenil,
tempo de internação quando da apli- no começo do século XX, evoluiu mais
cação da medida -- os adolescentes são do que a justiça de adultos – tanto no
institucionalizados por tempo indeter- sentido de ‘compreender e corrigir as
minado, sendo reavaliados pelos juízes desgraças sociais’ (Mead 1918: 594),
de execução semestralmente --, a auto- quanto no que diz respeito “a criar um
ra buscou investigar as “teorias nativas” quadro que faz com que o transgressor
que orientam a construção racional e das normas não seja visto (. . . ) como um
a tomada de decisões sobre manter ou inimigo da sociedade, mas sim como
não o adolescente na unidade de inter- um membro do grupo. Para Mead, a
nação (Almeida 2014; 2016). justiça juvenil deveria então servir de
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OITIVAS CERIMONIAIS

modelo para a justiça dos adultos e não Sociologia das Práticas Judiciais
o inverso” (Pires 2006: 629). A despei- O presente trabalho se insere no
to dessa constatação ainda em 1918, âmbito da Sociologia das Práticas Ju-
no final do século XX a justiça juvenil diciais. Em artigo intitulado “Some
estaria adotando o modelo do Direito current developments in Brazilian
Penal clássico e transformando-se em Sociology of Crime: towards a Crimi-
uma justiça criminal não especializada; nology?”’, Freitas e Ribeiro (2014) dis-
a ideia da reforma iniciada em diversos cutem o desenvolvimento dos estudos
países na década de 1980 consistiria em sociológicos brasileiros que se inserem
aplicar a linguagem, teorias e princí- nas temáticas da criminalidade, das
pios de intervenção do direito criminal punições e dos sistemas de justiça cri-
adulto do século XVIII no sistema de minal, de maneira geral. Em particular,
justiça voltado para crianças e adoles- buscam discutir por que não se desen-
centes (Pires 2006: 637). volveu formalmente, no Brasil, o cam-
Também a respeito dos efeitos das po de pesquisas circunscrito na Crimi-
mudanças legislativas a respeito da nologia, até hoje inexistente, indicando
política securitária voltada a jovens como, no início das investigações bra-
infratores, Marinho e Vargas (2015), sileiras em meados do século XX, parte
ao contrapor as realidades brasileira do desenvolvimento internacional foi
e francesa, concluem que, a despeito ignorado na busca de uma espécie de
das radicais transformações promo- “teoria nativa do crime”.
vidas com a promulgação do Estatuto O primeiro apontamento do con-
da Criança e do Adolescente, o tra- trário, trazendo diálogo com a literatu-
tamento punitivista se mantém, es- ra internacional, teria ocorrido com o
pecialmente dada a incompletude da trabalho de Coelho (1978). De acordo
adoção da Doutrina da Proteção Inte- com Freitas e Ribeiro, o autor criticou
gral. Esse aspecto pode ser visualizado os estudos sobre criminalidade nos anos
especialmente pelas possibilidades de 1970 e 1980 que usavam estatísticas cri-
reformas na legislação de tendência minais sem qualquer senso crítico, en-
repressiva, como a redução da idade quanto uma vasta literatura produzida
de imputabilidade penal (Marinho e nos Estados Unidos nos anos 1960 e
Vargas 2015). Essa política, em par- 1970 já alertava para o viés introduzido
ticular, foi analisada por Sposato e pelos dados oficiais. O universo de pes-
Matos (2015), que tratam tanto o re- soas que cometeram crimes é absoluta-
baixamento da idade penal quanto a mente diferente do universo de pessoas
ampliação dos prazos de internação de acusadas de cometimento de crimes
adolescentes como uma falsa solução. -- tanto no sentido de que há crimino-
CONFLUÊNCIAS | Revista Interdisciplinar de Sociologia e Direito. Vol. 18, nº 3, 2016. pp. 44-64 49
OLIVEIRA, Thiago Rodrigues

sos não registrados, quanto no sentido tana”. Em uma análise mais descritiva,
de que há acusados sem que qualquer o autor relata os modos de funciona-
infração tenha sido cometida. Nesse mento dos juízes e dos promotores de
sentido, Coelho traz a proposta de uma justiça que atuam nas cortes criminais,
nova agenda de pesquisas, em sintonia detalhando, por exemplo, como seu
com o desenvolvimento criminológico trabalho se divide em participação em
internacional: a busca pelos mecanis- audiências e despacho de processos. E
mos por meio dos quais a produção de especialmente nos momentos em que
leis criminais é informada e formada se dedicam a esse segundo aspecto,
(Freitas e Ribeiro 2014: 177). Sapori argumenta -- numa espécie de
Outro trabalho que, na contramão embasamento conceitual para um futu-
da maior parte dos estudos brasileiros ro teste dessa hipótese -- que o sistema
à época, não buscou estabelecer uma de justiça funciona como se fosse uma
teoria nativa que explicasse as causas do linha de montagem (Sapori 1995).
comportamento criminal no Brasil foi A partir de diálogos com a teoria or-
elaborado por Paixão (1982). Em diálo- ganizacional e com trabalhos mais crimi-
go com a literatura internacional, espe- nológicos que partem do arcabouço con-
cialmente com Cicourel (1968), o autor ceitual da Sociologia das Organizações
buscou argumentar que a polícia, en- (ver Hagan et al. 1979; Coelho 1986), o
quanto primeira entrada do sistema de autor sustenta que a eficiência é um dos
justiça criminal, acaba, na impossibili- fatores mais centrais para os operadores
dade de estar em todos os lugares a todo do Direito no dia-a-dia das Varas crimi-
momento, por selecionar alguns espaços nais, a qual é dada tanto por acordos in-
e indivíduos para a sua ação. Nesse sen- formais realizados pelos próprios atores
tido, demonstra como a organização po- legais (acelerando o processo) quanto
licial fornece os mecanismos por meio mediante a adoção de receitas práticas
dos quais alguns comportamentos são que indicam como elaborar rapidamen-
considerados criminosos e outros, por te os documentos oficiais (denúncias,
mais parecidos que sejam, não. defesas, sentenças etc.) (Sapori 1995).
A partir da década de 1990 e, espe- O diálogo de investigações a res-
cialmente, de 2000, o estudo sociológico peito do funcionamento do sistema de
das práticas judiciais se consolidou no justiça criminal com a Sociologia das
Brasil enquanto uma agenda de pesqui- Organizações já havia se iniciado há al-
sas. Um dos primeiros trabalhos nessa guns anos nos Estados Unidos. Feeley
perspectiva foi realizado por Sapori (1979), por exemplo, analisa o funcio-
(1995), intitulado “A administração da namento de uma corte criminal “me-
justiça criminal numa área metropoli- nor”[1] na cidade de New Haven, nos
50 CONFLUÊNCIAS | Revista Interdisciplinar de Sociologia e Direito. Vol. 18, nº 3, 2016. pp. 44-64
OITIVAS CERIMONIAIS

Estados Unidos -- um tribunal reser- ganização de acordo com a expectativa


vado para crimes de menor gravidade geral. Essas regras institucionalizadas,
e que não demandam todo o trabalho no entanto, funcionam como mitos in-
investigativo que um homicídio, por corporados: as pessoas acreditam neles,
exemplo, demandaria. De acordo com conferem legitimidade e recursos, mas
o autor, entre 90\% e 95\% dos casos são o real funcionamento do sistema é dife-
julgados ali, dada a excepcionalidade de rente do previsto. Os mitos de uma or-
infrações como roubo, estupro e outros ganização ocorrem cerimonialmente e
crimes contra a vida (Feeley 1979). mantém o sistema funcionando, ainda
Feeley argumenta que há uma série que, para manter a eficiência organiza-
de nuances e informalidades nas cortes cional, se trate apenas de uma cerimônia
criminais que só podem ser verificadas (Meyer e Rowan 1977).
via observação direta, isto é, o soció- A partir dessa delimitação concei-
logo argumenta que, para estudar os tual, Hagan e colegas argumentam que
determinantes das decisões judiciais, muitas dessas características de orga-
não basta analisar os resultados das nizações formais podem ser manifes-
decisões em si -- deve-se analisar todo tas no sistema de justiça criminal -- e
o contexto organizacional em que se que as consequências desse sistema de
inserem as pessoas que vão tomar as justiça frouxamente ajustado podem
decisões. Nesse sentido, a proposta de ser reconhecidas no nível das deter-
Feeley (1979) converge com os interes- minações de sentenças a indivíduos
ses da Sociologia das Organizações. (Hagan et al. 1977).
Ao se problematizar aspectos orga- A perspectiva organizacional pode-
nizacionais das decisões judiciais, no en- ria contribuir com a interpretação de
tanto, há um debate específico já clássico que o processo de tomada de decisões
na literatura sobre sentencing. Trata-se na justiça criminal é o produto de um
da discussão que Hagan et al. (1979) fa- sistema frouxamente ajustado. Os agen-
zem a respeito da obra de Meyer e Rowan tes da condicional consistiriam no mito
(1977): a interpretação da justiça criminal de uma justiça individualizada, uma re-
como um sistema frouxamente ajustado. gra institucionalizada consensualmente
Meyer e Rowan (1977) fizeram um defendida, mas a eficiência organizacio-
estudo bastante conhecido a respeito nal do sistema se daria de fato pela con-
de como organizações formais de fato fissão de culpa por parte dos réus:
funcionam. Eles argumentam que todas
essas organizações têm regras institucio- Um meio de resolver essa
nalizadas, que são o aspecto normativo contradição envolve a desarticu-
de como as coisas devem ocorrer na or- lação do trabalho de condicional
CONFLUÊNCIAS | Revista Interdisciplinar de Sociologia e Direito. Vol. 18, nº 3, 2016. pp. 44-64 51
OLIVEIRA, Thiago Rodrigues

de grande parte do processo de tanto, tudo é documentado tais quais as


tomada de decisões da corte, expectativas (cerimoniais) em torno de
substituindo a influência do um processo criminal. Por esse motivo,
promotor pela do agente da con- esses relatos oficiais e a intensa produ-
dicional na etapa pré-sentença. ção de documentos têm como produto
O impacto distintivo do Pro- a garantia da eficiência na justiça e, em
motor de Justiça na determina- alguma medida, a cooperação entre os
ção das sentenças se reflete na subsistemas, configurando o sistema de
necessidade de a corte premiar justiça criminal enquanto frouxamente
e punir os infratores por sua ajustado (Vargas e Rodrigues 2011).
disposição em resolver os casos
eficientemente. Enquanto isso, ESTE ESTUDO: dados e métodos
a manutenção do envolvimento Com o objetivo de investigar a orga-
formal dos agentes de condicio- nização social do sistema de justiça ju-
nal no processo pré-sentenças venil, este estudo configura um desenho
permite a perpetuação do mito exploratório cujo objetivo, ao contrário
de individualização, ainda que de aplicar o método hipotético-dedutivo
em forma cerimonial. (Hagan mais comum nas Ciências Sociais, se dá
et al. 1979: 524)[2] justamente no levantamento de hipóte-
ses plausíveis que poderiam ser poste-
No Brasil, houve um esforço si- riormente testadas com outros desenhos
milar de usar a teoria organizacional de pesquisa. Para tal, foram realizadas
para compreender o sistema de justiça observações diretas no fórum judicial
criminal. Vargas e Rodrigues (2011) responsável pelos adolescentes em con-
argumentam que há uma intensa de- flito com a lei no município de São Paulo.
sarticulação entre os subsistemas que Nesse contexto, há há 4 Varas Espe-
compõem o sistema de justiça crimi- ciais da Infância e da Juventude (VEIJ),
nal: sem ajustes, seria um sistema sem um juiz para cada, que julgam todos
qualquer cooperação interna. O que os adolescentes apreendidos pelos po-
fica, pois, responsável por conferir essa liciais militares no município de São
cooperação por frouxamente ajustar Paulo. Há também 9 promotores de jus-
esse sistema são os papéis, e particular- tiça atuando nessas 4 varas, além de um
mente o inquérito policial. A investiga- número indefinido de defensores públi-
ção policial, normalmente, ocorre de cos[3]. E essas quatro Varas, o Ministé-
uma maneira bastante distinta daquela rio Público e a Defensoria Pública, além
como deveria ocorrer; no registro ofi- das quatro Varas de Execução, integram
cial do processo investigativo, no en- o Fórum em questão -- o fórum judicial
52 CONFLUÊNCIAS | Revista Interdisciplinar de Sociologia e Direito. Vol. 18, nº 3, 2016. pp. 44-64
OITIVAS CERIMONIAIS

paulistano exclusivamente destinado semanalmente. Trata-se da corte res-


aos adolescentes em conflito com a lei.
ponsável por todos os processos envol-
A observação proposta para a inves-
vendo adolescentes em conflito com a
tigação se deu justamente nesse Fórum.lei no município de São Paulo. No Fó-
O acesso ao campo não foi fácil, uma rum, foram observadas as audiências
vez que a entrada nesse ali não é livre e,
de apresentação -- momento em que o
em particular, as audiências nas VEIJ e
juiz decide se vai aplicar a internação
as oitivas informais no Ministério Pú-provisória ou não --, as audiências de
blico são segredos de justiça -- qual-continuação -- momento em que o juiz
quer presença de público é proibida, aaplica a medida socioeducativa -- e as
não ser que expressamente autorizada oitivas informais -- uma conversa, an-
pelo juiz. A autorização da entrada setes da audiência de apresentação, entre
deu por meio de um contato com o juiz o adolescente e o Promotor de Justiça,
quando este decide se vai representar
Caio, da Nª VEIJ[4]: ele foi contatado e
exposto ao problema de pesquisa aqui (ou seja, acusar formalmente) o jovem
delimitado, ao que reagiu positivamente
--, além da própria dinâmica de funcio-
concedendo acesso total às audiências namento daquele tribunal.
de apresentação e de continuação de sua Tudo que diz respeito ao Direito da
Vara. Possivelmente por ter se interessa-
Criança e do Adolescente é, segundo o
do pela investigação, o juiz Caio ainda
próprio ECA, segredo de Estado. Nes-
se voluntariou a entrar em contato comse sentido, não apenas as audiências de
outros juízes e promotores e lhes pedir
apresentação e de continuação e as oiti-
acesso às suas audiências e oitivas. vas informais eram fechadas ao públi-
Ao final do processo, duas das quatro
co, mas a própria entrada no Fórum era
Varas Especiais da Infância e da Juventu-
proibida a pessoas que não estivessem
de, bem como oitivas informais de cinco
de alguma forma envolvida com os pro-
dos nove promotores de justiça, foram cessos em julgamento. Era comum, por
observadas. Durante quatro meses, entre
exemplo, ver uma fila de pessoas bas-
abril e agosto de 2014, as visitas ao Fórum
tante grande à porta do Fórum um pou-
ocorreram semanalmente para realizar co antes das 14h -- horário de abertura
essas observações diretas -- buscando ao ‘público’. Eram pessoas, usualmente
uma alternância entre o acompanhamen- familiares de adolescentes em conflito
to de audiências e o de oitivas informais.
com a lei, que precisavam comprovar
que seus filhos estavam sendo julgados
RESULTADOS antes de entrar no estabelecimento.
Durante quatro meses, entre abril A influência que os juízes exercem
e agosto de 2014 o Fórum foi visitado nos funcionários em geral pôde ser infe-
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OLIVEIRA, Thiago Rodrigues

rida rapidamente. Em um primeiro mo- vo, todo o fluxo do Fórum estava inter-
mento, os funcionários abordavam as rompido. Os jovens eram conduzidos
pessoas com certa desconfiança, como enfileirados, uniformizados (vestimen-
se não houvesse motivos para entrar no ta da Fundação CASA), com as mãos
Fórum; ao mencionar o nome de algum para trás, juntas, e a cabeça para baixo;
juiz, no entanto, o tratamento se alte- enquanto isso, o restante das pessoas
rava completamente e as portas eram não poderia sequer chegar perto das
abertas. Literalmente: cada corredor do escadas, como enfatizavam os segu-
Fórum era separado por grossas portas ranças. Os adolescentes estavam sendo
com avisos explícitos de “É proibida a conduzidos do Ministério Público para
entrada de pessoas não autorizadas”. So- o corredor das VEIJ para que fossem
mente após a autorização desses funcio- julgados, mas o tratamento a eles ofe-
nários é que era permitida a passagem. recidos ali evidenciava como o adjetivo
Também é perceptível, ainda como “infrator” já fazia parte de suas identi-
uma primeira impressão geral, o tipo dades. Apenas após eles estarem a uma
de tratamento oferecido aos adoles- distância considerável, a passagem foi
centes em conflito com a lei. O Fórum “reaberta” e o fluxo pôde ser reestabe-
consiste em um casarão antigo de dois lecido -- sendo possível, assim, subir as
andares. No primeiro andar, logo após escadas em direção à Nª Vara para con-
o local de revista das pessoas que en- versar com o juiz sem maiores riscos.
tram no estabelecimento, fica o Minis- O fato de as audiências serem fecha-
tério Público -- outro local com duas das ao público e consistirem em segredo
portas grossas e avisos explícitos de de Estado é refletido na própria arquite-
que a entrada é proibida, além da sala tura das salas em que elas ocorrem. São
de esperas para o público geral. Subin- salas bastante pequenas, contando com:
do a escadaria, tem-se o acesso às Varas uma mesa central em que se sentam o
Especiais da Infância e da Juventude e Promotor de Justiça e o representante
às varas de execução. Ao chegar ao Fó- da Defensoria Pública; algumas, nor-
rum, logo após passar o local da revis- malmente três ou quatro, cadeiras ao
ta[5], deve-se seguir em direção às es- lado reservadas para familiares do ado-
cadas; no entanto, em um dos dias, um lescente, cuja entrada é permitida ex-
segurança rapidamente se aproximou e clusivamente quando o adolescente está
impediu a passagem, solicitando que se depondo; uma cadeira no meio da sala
aguardasse atrás de determinado pon- reservada para o adolescente ou para as
to: naquele momento, um funcionário testemunhas depondo; duas pequenas
do Fórum estava conduzindo os ado- mesas com computadores reservadas
lescentes pelas escadas e, por esse moti- para os dois escrivães; e, enfim, uma
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OITIVAS CERIMONIAIS

mesa maior, com outros dois compu- Nesse momento, o juiz ouve algumas
tadores e em uma espécie de tablado, testemunhas -- em todas as audiências
onde fica o juiz. Não há espaço, nas de continuação observadas, a presença
salas de audiência, para público -- as do policial militar que acompanhou o
observações aconteceram a partir das caso foi obrigatória -- e eventualmente a
mesmas cadeiras em que eventualmen- vítima. O adolescente também participa
te se sentavam os familiares dos ado- desse momento, à exceção de quando o
lescentes, o que em si já fornecia certo depoente solicita sua retirada (situação
constrangimento à situação. bastante comum quando se tratava da
As audiências na Nª Vara foram ob- vítima, mas absolutamente rara no que
servadas semanalmente. Após algumas se refere aos policiais militares).
semanas, o juiz Alessandro estabeleceu Após os casos agendados, normal-
contato também com outro juiz, da Mª mente algo como cinco casos por dia,
Vara, que permitiu acompanhar audiên- por volta das 16h têm início os casos que
cias de apresentação e de continuação os funcionários todos do Fórum deno-
por ele presididas. De maneira geral, minam grade. Trata-se das audiências
foi possível notar um padrão na rotina de apresentação dos adolescentes que
dessas VEIJ, o que torna o fato de as foram apreendidos pela Polícia Militar
outras duas Varas não terem sido obser- um ou dois dias antes e encaminhados
vadas (por falta de autorização) menos a uma Unidade de Atendimento Ini-
problemático. Foi estabelecido contato, cial (UAI) da Fundação CASA -- estão
ainda, com cinco dos nove Promotores agora no Fórum para sua audiência de
de Justiça que atuam no Fórum. apresentação, momento em que o juiz
O fluxo de processos no dia é bas- decide, ou não, pela internação provi-
tante padronizado nas quatro VEIJ de sória e agenda uma audiência de conti-
São Paulo. As atividades têm início às nuação para (algo em torno de) 40 dias
14h, com as audiências de continua- depois. Esses casos são mais rápidos,
ção. Essas são audiências agendadas, duram por volta de 5 minutos cada um
normalmente com adolescentes que já -- não foi diretamente observado, mas
estão internados provisoriamente há diversos funcionários informaram que
(no máximo) 45 dias, com o objetivo o juiz da Pª Vara, por exemplo, sequer
de decidir qual medida socioeducativa ouve os adolescentes nesse momen-
será aplicada (ou se o caso será arqui- to, tomando sua decisão a respeito da
vado, por exemplo). As audiências de internação provisória única e exclusi-
continuação são as mais demoradas -- a vamente a partir dos documentos for-
moda de sua duração provavelmente se- necidos pelo Ministério Público. Os ca-
ria algo em torno de 10 ou 15 minutos. sos da grade normalmente vão até por
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OLIVEIRA, Thiago Rodrigues

volta das 17h, quando o expediente do chamados, os adolescentes encaminha-


Fórum é encerrado. dos da UAI, todos uniformizados com
Essa é a rotina do ‘corredor das vestimenta da Fundação CASA.
Varas’ do Fórum, que fica no segundo O fluxo no Ministério Público tam-
andar do casarão. No primeiro andar, bém começava no período vesperti-
tem-se um fluxo diferente: é lá que fica o no, a partir das 14h. Em todos os dias,
Ministério Público, contando com nove quatro dos promotores iam direto para
promotores de justiça encarregados de o segundo andar acompanhar as au-
lidar com os adolescentes em conflito diências, enquanto os outros cinco fi-
com a lei. Também com entrada rigo- cavam em suas salas realizando oitivas
rosamente controlada, essa divisão do informais. Estas começavam atendendo
Fórum tem um fator adicional em re- os adolescentes da grade. Esses adoles-
lação ao segundo andar: a presença de centes, conforme descrito acima, esta-
público. Exatamente à frente da porta vam uniformizados com a vestimenta
do Ministério Público, há uma sala de da Fundação CASA e, por estarem em
espera relativamente grande e, ao me- uma sala isolada, chegavam à oitiva de-
nos nos dias em que houve observação sacompanhados. Quando havia fami-
e coleta de dados, completamente lota- liares presentes, estes eram chamados
da. O público que aguardava ansiosa- e era justamente nesse momento que
mente algum tipo de chamado consistia ocorria o primeiro encontro entre eles,
em dois grandes grupos: adolescentes, na frente do Promotor de Justiça. Fin-
sem qualquer vestimenta específica, dos os casos da grade, o Promotor pas-
que receberam notificação judicial para sava a atender o outro grupo de adoles-
comparecer à oitiva naquele dia, acom- centes: jovens que, depois da apreensão
panhados de seus familiares; e familia- por policiais militares, foram liberados
res de jovens que foram pegos por po- na Delegacia de Polícia (não tendo sido
liciais militares (normalmente no dia encaminhados à UAI) e receberam uma
anterior) e não foram liberados, tendo data-limite para comparecimento no
sido encaminhados a uma UAI da Fun- Ministério Público, a fim de proceder
dação CASA e, dali, ao Ministério Pú- sua oitiva informal -- esses adolescen-
blico para as oitivas informais. Alguns tes normalmente compareciam ao Fó-
policiais militares faziam o controle rum acompanhados de seus familiares
do público ali presente. Já na parte de e eram diferenciados daqueles da grade
dentro da porta que separava as pessoas particularmente por não estarem uni-
cuja entrada era ‘autorizada’, havia uma formizados. Ao que se pôde notar, dia-
outra sala com outro policial na frente: riamente chegavam a cada Promotor
ali ficavam, também esperando serem em torno de quatro ou cinco adolescen-
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OITIVAS CERIMONIAIS

tes na grade, enquanto os outros casos tilhado não só pelos operadores, mas
não seguiam uma tendência geral -- se- pelos funcionários do Fórum, a respei-
gundo um dos Promotores, havia dias to de qual deve ser a decisão judicial
em que nenhum outro jovem chegava, em cada caso. Significa também que as
ao passo que eventualmente havia um oitivas, enquanto uma conversa infor-
considerável número de casos. mal entre Promotor e adolescente, têm
pouco ou nenhum impacto real sobre
Oitivas informais no Ministério Público o processo decisório. Trata-se de uma
As observações diretas no Fórum situação similar à encontrada por Bati-
apontam para uma característica geral tucci e colegas (Batitucci et al. 2010) no
do funcionamento da corte juvenil que é Juizado Especial Criminal do municí-
bastante central para a presente análise. pio de Belo Horizonte/MG.
Foi possível constatar que há uma regra Conforme discutido anterioemente,
geral, formal, a respeito de como os ca- uma das abordagens teórico-metodo-
sos devem ser processados, seguida por lógicas mais comuns no âmbito da So-
todos os funcionários do Fórum, a qual ciologia das Práticas Judiciais é aquela
deriva das próprias prescrições do ECA; que advém da teoria organizacional.
e há outras normas, que não são formais Partindo do clássico estudo de Meyer
nem previstas, mas que também regem e Rowan (1977), que analisa como or-
o funcionamento do tribunal. A relação ganizações formais de fato funcionam
entre o formal e o informal é essencial em termos de regras institucionalizadas
para a compreensão da dinâmica do sis- e mitos incorporados, Hagan e colegas
tema de justiça juvenil. buscaram analisar o sistema de justiça
Considerando o modo como as criminal como um sistema frouxamen-
representações contra os adolescen- te ajustado: a inclusão dos agentes de
tes, usualmente, já estão prontas antes probation consistiria em um mito de
mesmo da realização das oitivas in- justiça individualizada defendido con-
formais, é viável supor que na maioria sensualmente, mas não diretamente
dos casos a decisão concernente à me- aplicado por conta de questões de efi-
dida socioeducativa sugerida é tomada ciência (Hagan et al. 1979). Nesse mes-
aprioristicamente. E em muitos casos mo debate, mas já no caso brasileiro,
o Promotor de Justiça nem mesmo lê Vargas e Rodrigues argumentam que há
a representação: o escrivão a escreve e uma constante desarticulação entre os
a encaminha ao juízo, sem passar pe- subsistemas que compõem o sistema de
las mãos ou pelos olhos do membro do justiça criminal, mas que os papéis -- os
Ministério Público. Isso significa que documentos oficiais -- desempenham o
há um conhecimento tácito, compar- papel de ajustar frouxamente esses sub-
CONFLUÊNCIAS | Revista Interdisciplinar de Sociologia e Direito. Vol. 18, nº 3, 2016. pp. 44-64 57
OLIVEIRA, Thiago Rodrigues

sistemas, gerando algum tipo de coope- apresente informalmente a sua versão


ração (Vargas e Rodrigues 2011). ao Ministério Público em relação ao ato
A conclusão de que também a jus- infracional de que está sendo acusado
tiça juvenil paulistana seria um siste- antes da própria decisão e da escrita
ma frouxamente ajustado é factível. Os representação contra ele por parte do
ideais de uma justiça individualizadora Promotor de Justiça. Como declarou o
-- dado que o contexto social deve ser Promotor Gutierrez, descrito acima, “a
problematizado e levado em considera- 179[6] é um benefício, é um direito do
ção -- e participativa -- dado que os pró- adolescente. Às vezes, a gente ouve o
prios adolescentes têm a oportunidade, menino e dá remissão, arquiva… Posso
nas oitivas, de conversar informalmen- até pedir uma medida mais leve”.
te sobre a acusação de ato infracional Assim, é possível afirmar que há
e explicar sua versão ao Promotor de um mito de uma justiça juvenil indi-
Justiça -- são particularmente fortes vidualizadora e participativa. E as oiti-
aqui: juridicamente, crianças e adoles- vas informais, nesse sentido, são parte
centes são penalmente inimputáveis, central desse mito, já que consistem no
aos adolescentes em conflito com a lei momento em que os adolescentes mais
sendo destinadas as medidas socioe- têm participação no processo -- parti-
ducativas; essas medidas, inclusive a cipação essa supostamente caracteriza-
de internação, seriam pedagógicas, da pela informalidade, diferentemente
avaliando as necessidades particulares das audiências, quando o jovem já é
de cada jovem; não há aqui uma mate- encaminhado como réu e tem menor
mática penal, isto é, uma prescrição de oportunidades de fala. No entanto, as
qual medida aplicar para cada infração, descrições apresentadas acima eviden-
justamente porque os operadores do ciam que, na verdade, as oitivas infor-
Direito devem avaliar o contexto social mais não promovem essa participação
e individual daquele adolescente em mitificada do adolescente na justiça,
particular, aplicando-lhe a medida que tampouco são centrais para o processo
melhor convir à situação, independen- de tomadas de decisões do Promotor
temente do ato infracional cometido. de Justiça; ao contrário, em uma par-
Em especial, a própria formulação cela dos casos observados as decisões
das oitivas informais no Ministério Pú- já estavam tomadas e as representações
blico serve justamente para satisfazer o já estavam escritas antes do início das
ideal de uma justiça idealizadora e par- oitivas informais. Não foram frequen-
ticipativa nos moldes da Doutrina da tes os casos em que de fato houve uma
Proteção Integral. Elas servem, afinal, conversa informal entre adolescente
para que o adolescente em conflito a lei e Promotor, assim como não foram
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OITIVAS CERIMONIAIS

frequentes os casos em que de fato a tos de rotina padronizados.


perspectiva do adolescente foi levada (Vargas e Rodrigues 2011: 93)
em consideração. Nesse e nos outros
momentos do processo decisório na É possível fazer um paralelo: a
justiça juvenil, as decisões são tomadas mesma importância que o inquérito
a partir das informações oficiais docu- assume na fase policial, a represen-
mentadas -- a partir dos papéis. Não há tação do Ministério do Ministério
de fato qualquer tipo de individualiza- Público assume na fase judicial -- na
ção ou participação. justiça juvenil, ao menos. Trata-se de
A respeito da função central exercida um sistema tão desarticulado quanto
pelo inquérito policial na investigação o outro, ambos frouxamente ajustados
criminal, Vargas e Rodrigues comentam: por meio de papéis que relatam algo tal
qual deveria ser, não como foi -- isto é,
...o inquérito policial de- as representações relatam, em parte, os
sempenha um papel crucial acontecimentos das oitivas informais
de articulação das atividades e as perspectivas do adolescente. Ao
dos operadores da fase de in- acusar formalmente o adolescente de
vestigação policial (que, como cometimento de ato infracional depois
vimos, atuam seguindo, alte- de ouvi-lo e encaminhar essa acusação
rando ou desviando-se das re- às próximas instâncias, obtém-se al-
gras estabelecidas ou criando gum grau de cooperação e articulação
regras próprias). De um lado, entre os subsistemas do Fórum -- além
ele permite que a investiga- do Ministério Público, a Defensoria
ção criminal seja apresenta- Pública e o próprio magistrado. A re-
da como ela deveria ser e não presentação, assim, mantém a eficiên-
como foi realizada efetiva- cia do sistema de justiça juvenil.
mente (de forma cerimonial). E às oitivas informais, cabe a sus-
De outro, restringe e sanciona tentação do mito de uma justiça indi-
o comportamento dos opera- vidualizada e participativa. A impor-
dores, de forma a conseguir tância da ‘179’ é ressaltada por todos
algum grau de cooperação e os funcionários do Fórum, operadores
controle das ações realizadas, ou não, ainda que efetivamente elas
cooperação esta obtida mui- tenham pouca eficácia. Nesse sentido,
to mais por meio de relações tal qual os agentes de condicional que
construídas a partir de con- Hagan e colegas analisaram (Hagan et
tatos pessoais, do que aquelas al. 1979), as oitivas informais são ceri-
decorrentes de comportamen- moniais. Assumem papel central, nesse
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OLIVEIRA, Thiago Rodrigues

sentido, em toda a dinâmica do sistema e fim das audiências. É evidente que


de justiça juvenil: ocorrem cerimonial- não foi objetivo do trabalho verificar a
mente para sustentar o mito de uma efetividade do ECA e a aplicação das
justiça para adolescentes que leve em normas legais no cotidiano do tribu-
consideração sua condição de ‘pessoa nal, dado que partiu de um arcabouço
em desenvolvimento’, conforme pres- teórico-metodológico ligado à Socio-
creve o ECA, gerando uma represen- logia das Práticas Judiciais (e não às
tação judicial que garante a eficiência pesquisas empíricas em Direito, por
desses sistema frouxamente ajustado. exemplo); ainda assim, é importante
notar que as interações observadas no
CONSIDERAÇÕES FINAIS âmbito do juízo divergiam considera-
O presente artigo discutiu a dinâ- velmente dos preceitos ideais das ga-
mica de funcionamento do sistema rantias processuais e oficiais.
de justiça juvenil no município de O principal resultado obtido, no
São Paulo. Durante quatro meses em entanto, diz respeito à centralidade do
2014, foram realizadas visitas sema- Ministério Público no processo de-
nais ao Fórum paulistano responsável cisório do sistema de justiça juvenil.
por lidar com os casos de adolescen- Grosso modo, a ideia de que quem de-
tes em conflito com a lei. Audiências cide de fato as medidas socioeducati-
de apresentação e de continuação no vas a serem aplicadas aos adolescentes
âmbito das Varas Especiais da Infân- é o Promotor de Justiça do caso é plau-
cia e da Juventude e oitivas informais sível. É no Ministério Público o pri-
no âmbito do Ministério Público fo- meiro contato do adolescente -- ainda
ram observadas diretamente, além acusado, não réu -- com o Poder Ju-
do funcionamento nos corredores do diciário; cabe exclusivamente ao Pro-
Fórum em questão. motor de Justiça decidir se aquele caso
Conforme já havia sido relatado será remetido, arquivado ou represen-
por Miraglia (2005), o sistema de jus- tado ao juiz; em caso de representação
tiça juvenil de São Paulo funciona a judicial, cabe ao Promotor de Justiça
partir de uma extrema informalidade. iniciar uma negociação informal com
Audiências duram poucos minutos, a Defensoria Pública, para que o juiz
com frequência um representante do nem mesmo leia o processo, ou sugerir
Ministério Público ou da Defensoria uma medida socioeducativa mais dura
Pública não estão presentes, os ope- para o magistrado, situações em que
radores do Direito mantêm conversas normalmente a sugestão da Promoto-
informais constantes ao longo do dia, ria configura de fato a decisão judicial.
sem qualquer distinção entre início Nesse sentido, é plausível afirmar que
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OITIVAS CERIMONIAIS

o núcleo do processo decisório no sis- tir dessa representação, assim como o


tema de justiça juvenil de São Paulo se juiz toma sua decisão a partir desse
dá no âmbito do Ministério Público, documento; e mesmo em outros es-
particularmente das oitivas informais. tágios do processo judicial, pesquisas
Não obstante, ao observar as inte- indicam que os juízes analisam os do-
rações ocorridas durante as oitivas in- cumentos técnicos das unidades no
formais, o modo de funcionamento do âmbito da execução das medidas so-
processo decisório se mostrou distinto cioeducativas (Almeida 2014; 2016).
daquele esperado: as oitivas, em si, têm Trata-se da garantia de eficiência de
pouca importância nas tomadas de de- um sistema que, ainda que frouxa-
cisões dos Promotores, uma vez que, mente, mantém seu mito de uma jus-
como relatado acima, as decisões estão tiça individualizadora e participativa.
tomadas antes mesmo do início dessas Importante enfatizar, por fim, que
audiências. Era frequente a situação de o desenho da pesquisa resumida neste
uma oitiva informal ter início já com artigo consiste em um desenho explo-
sua ata preenchida e a representação ratório. É justamente a evidente plau-
judicial contra o adolescente impres- sibilidade dos argumentos levantados,
sa, o que significa que os Promotores com a descrição detalhada da dinâmi-
de Justiça, de maneira geral, tomavam ca de funcionamento da justiça juve-
suas decisões a partir da documenta- nil, que justifica a investigação. Ainda
ção recebida pelo sistema policial. que seja possível tratar os pontos le-
É possível, assim, compreender vantados aqui como hipóteses a serem
que as oitivas informais ocorrem ce- testadas por outras pesquisas que apli-
rimonialmente. Sua importância no quem o método hipotético-dedutivo
processo se dá de modo a sustentar os mecanismos da rotina do processo
o mito de uma justiça juvenil indivi- decisório no âmbito do sistema de jus-
dualizadora que conta com a parti- tiça juvenil ficam evidentes.
cipação dos adolescentes durante o
processo, mas sem prejudicar o fluxo NOTAS
e a eficiência da produção decisória [1] Trata-se de um fórum análogo aos
no âmbito da justiça juvenil. Eficiên- Juizados Especiais Criminais no Brasil.
cia essa dada especialmente pelos [2] Tradução nossa. No original em
documentos: Promotores de Justiça Língua Inglesa: “...One means of re-
analisam o boletim de ocorrência e o solving this contradiction involves the
inquérito policial e escrevem a repre- decoupling of probation work from
sentação judicial; Promotores e De- much of the court’s decision-making,
fensores negociam justamente a par- substituting the influence of the prose-
CONFLUÊNCIAS | Revista Interdisciplinar de Sociologia e Direito. Vol. 18, nº 3, 2016. pp. 44-64 61
OLIVEIRA, Thiago Rodrigues

cutor for that of the probation officer cução da medida socioeducativa de


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compliance in efficiently resolving ca- cionalidade prática do isolamento ins-
ses. Meanwhile, the maintenance of titucional: um estudo da execução da
the formal involvement of probation medida socioeducativa de internação
officers in the presentencing process em São Paulo. Tese de doutorado, Uni-
allows perpetuation of the myth of in- versidade de São Paulo.
dividualization, if only in a ceremonial ALVAREZ, Marcos César. 1989. A
form” (Hagan et al. 1979: 524) emergência do Código de Menores de
[3] Evidentemente, há um número 1927: uma análise do discurso jurídico
definido de defensores. No entanto, não e institucional da assistência e proteção
foi possível, de maneira alguma, deter- aos menores. Dissertação de mestrado,
minar qual é esse número. Universidade de São Paulo.
[4] Tanto o nome do juiz quanto a BATITUCCI, Eduardo; CRUZ, Vini-
atribuição de VEIJ aqui mencionados cius; SANTOS, Andréia; RIBEIRO, Lud-
são fictícios, de modo a preservar a mila; SOUZA, Letícia. 2010. “A justiça
identidade dos indivíduos que partici- informal em linha de montagem Estudo
param da pesquisa. de caso da dinâmica de atuação do JE-
[5] Não fui revistado vez alguma, Crim de Belo Horizonte”. Civitas - Revis-
provavelmente por causa da citação do ta de Ciências Sociais, 10(2): 245-269.
juiz Caio no momento de entrada CAMPOS, Marcelo. 2009. “Mídia
[6] “179” é como os funcionários do e política: a construção da agenda nas
Fórum se referem às oitivas informais, propostas de redução da maioridade
numa alusão ao artigo 179 do ECA. penal na Câmara dos Deputados”. Opi-
nião Pública, 15(2).
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OITIVAS CERIMONIAIS

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CONFLUÊNCIAS | Revista Interdisciplinar de Sociologia e Direito. Vol. 18, nº 3, 2016. pp. 44-64 63
OLIVEIRA, Thiago Rodrigues

Juliana. 2011. “Controle e cerimônia:


o inquérito policial em um sistema de
justiça criminal frouxamente ajustado”.
Sociedade e Estado, 26(1): 77-96.
VINUTO, Juliana. 2014. Entre o ‘re-
cuperável’ e o ‘estruturado’: classificações
dos funcionários da medida socioeduca-
tiva de internação acerca do adolescen-
te em conflito com a lei. Dissertação de
mestrado, Universidade de São Paulo.

Thiago Rodrigues Oliveira


Pesquisador do Núcleo de Estudos
da Violência da Universidade de São
Paulo. É graduado em Ciências Sociais
pela Universidade de São Paulo (2013) e
mestre em Sociologia pela Universida-
de de São Paulo (2016).

64 CONFLUÊNCIAS | Revista Interdisciplinar de Sociologia e Direito. Vol. 18, nº 3, 2016. pp. 44-64
Artigo CONFLUÊNCIAS
SOCIOLOGIA DA PUNIÇÃO E A CONTRIBUIÇÃOOITIVAS
DE PIERRE
CERIMONIAIS
BOURDIEU
Revista Interdisciplinar de Sociologia e Direito
Quando os professores Eros Grau incorporados às discussões os profes-
ISSN 1678-7145 || EISSN 2318-4558
(USP) e Antoine Jeammaud (Univer- sores Cristina Mangarelli (Universidad
sité Lyon III) propuseram a realização de la Republica, Uruguai), Eric Soriano
SOCIOLOGIA DA PUNIÇÃO E
de um colóquio em março de 2011, na (Université Montpellier III), Fernando
cidade de Tiradentes (MG), com o pro- Fontainha (FGV-RJ), Maria Cristina
A CONTRIBUIÇÃO DE PIERRE
pósito de discutir trinta anos de traba- Vidotte (UFG), Olivier Leclerc (Uni-

BOURDIEU: Formulação teórica da de-


lho crítico sobre o direito, não imagina- versité Nancy II), Pedro Heitor Barros
vam que estivessem lançando a semente Geraldo (UFF), Ronaldo Lobão (UFF)
de uma reunião anual perene em que e Tatiana Sachs (Université Paris X). Na
cisão judicial punitiva como objeto de pesquisa
diferentes professores brasileiros e fran- ocasião, todos foram instados a reagir

Eduardo Gutierrez Cornelius


ceses passassem a compartilhar uma ao texto base de Michel Miaille, cuja lei-
agenda comum de pesquisas. Naquela tura é agora oferecida ao leitor de Con-
Universidade de São Paulo.
ocasião, entusiasmados com as possibi- fluências. Para além deste texto base, o
E-mail: gutierrezegc@gmail.com
lidades de cooperação, seus nove parti- leitor poderá ainda conhecer as contri-
cipantes – Antoine Jeammaud (Univer- buições realizadas por Cristina Man-
RESUMO
sité Lyon III), Eric Millard (Université garelli, Eric Millard, Eros Grau, Leonel
O trabalho propõe uma formulação teórica sobre a punição e sobre a decisão judicial, enfatizando
Paris X), Eros Grau (USP), Evélyne Sé- Alvim, Maria Cristina Vidote, Rabah
a importância de se observar as declarações oficiais dos atores do sistema de justiça criminal. Na in-
vérin (Université
tersecção Paris X),
entre uma sociologia do Leonel Al-sociologia
direito e uma Belaidi, Ronaldo
da punição, Lobão, Tatiana
demonstra-se Sachs
como diversos
vim (UFF),
aspectos Michel
da teoria Miaille
de Pierre (Université
Bourdieu e compreender
são úteis para Olivier Leclerc.
a decisãoNelas, discutem-se
judicial punitiva. Sus-
Montpellier I), Rabah Belaidi (UFG), questões epistêmicas
tenta-se que esta pode ser pensada como um ato de Estado, produto de disputas, que detémsobre as noções
o mo-
Roberto
nopólio da Fragale
violênciaFilho
física e(UFF)
simbólicae legítima.
Tércio A partir
de direito e redistribuição,
dessa construção, propõe-se quea articula-
decisões
Sampaio Ferrazser
judiciais podem (USP) – propuseram-se
analisadas, ção entre
de modo que se identifique direitoseue resultado,
não apenas sociedade, além de
mas também
a como elas são
renovar justificadas, atentando-se
o encontro para as categorizações
no ano seguinte. questões realizadas
específicaspelosrelacionadas
atores, sobretudo à em
dis-
relação ao crime, ao criminoso e ao papel da punição. Para demonstrar
Assim, em março de 2012, agora sob o tribuição agrária e à existência de dis- o potencial dessa construção,
ao longo
tema da reflexão teórica,
“Redistribuir por sãomeioapresentados
do direi- exemplos de análises
positivos realizadas em
incitativos à pesquisa empíricaO
distribuição.
sobre decisões acerca da punição de adolescentes proferidas pelo
to?”, ocorreu um segundo encontro em cardápio dos temas tratados é amplo, Superior Tribunal de Justiça.
Palavras-chave:
Tiradentes (MG) sociologia da punição; decisão
cuja organização foi judicial; Pierre Bourdieu.
convidativo e antecipa as discussões
ABSTRACT
assegurada pelos professores Roberto que animariam o grupo em seu encon-
This paper
Fragale presents
Filho, Leonel a theoretical
Alvim eperspective
Ronal- on tropunishment
subsequente, andsempre
judicial decisions,
em Tiradenteswith
the goal of emphasizing the importance of legal actors’
do Lobão, coordenadores do Núcleo (MG), agora sob o tema “O poder e o justifications for their decisions.
deAtPesquisas
the intersection of the sociology of law and the sociology of punishment, it explores
sobre Práticas e Institui- papel político dos juízes”, em abril de
how several aspects of Pierre Bourdieu’s theory are useful for studying judicial decisions
ções Jurídicas (NUPIJ) do Programa de 2014, quando o presente dossiê, cons-
on punishment. Such decisions are framed as acts of state, as the products of struggles
Pós-Graduação
that possess the em Sociologia
monopoly e Direito
of legitimate truído
physical and entre 2012
symbolic e 2013,From
violence. ganhou
this fôlego
pers-
(PPGSD) da Universidade Federal Flu- para sua apresentação
pective, judicial decisions are studied not only by their outcome, but also by the motiva- em Confluên-
minense
tions that(UFF). O grupo
follow them. original
This means thatfoi cias. Quelegal
the categories o leitor
actorspossa
use tosaboreá-lo como
describe crime,
ampliado, não obstante a ausência jus- antecipação de uma próxima
the criminal and the role of punishment are of utmost importance. In order to demons- rodada éo
tificada
trate thedepotential
EvélyneofSévérin, pois foram
this theoretical nossoexamples
proposition, maior desejo.
from an empirical research
about youth punishment in the Brazilian Superior Court of Justice are provided.
CONFLUÊNCIAS | Revista Interdisciplinar de Sociologia e Direito. Vol. 18, nº 3, 2016. pp. 65-91 65
Keywords: sociology of punishment; judicial decision; Pierre Bourdieu.
CORNELIUS, Eduardo Gutierrez

INTRODUÇÃO ber. Neste trabalho, demonstra-se que


Importa o que os juízes dizem? É esse tema pode, igualmente, ser abor-
relevante estudar as justificativas que dado de maneira frutífera a partir de
magistrados dão as suas decisões? Do- elementos da teoria de Bourdieu.
cumentos elaborados pelo judiciário Utilizando de elementos da socio-
merecem atenção das ciências sociais logia do autor, sobretudo de suas consi-
mesmo quando seu processo de elabo- derações sobre o campo jurídico (2010)
ração não é observado? Os estudos que e sobre o Estado (1994; 2015), busca-se
têm por objeto o funcionamento da construir a decisão judicial teoricamente
justiça criminal costumam dar pouca como um ato de Estado, um produto de
atenção a perguntas como estas (Rau- disputas internas no campo jurídico que
pp, 2015a). Este trabalho, porém, res- carrega o monopólio da violência física
ponde positivamente a essas questões, e simbólica legítima. Essa construção
demonstrando como elementos da chama atenção para a necessidade de se
teoria de Pierre Bourdieu podem ser observar o que as partes em um proces-
utilizados para construir teoricamente so criminal defendem como resultado
a decisão judicial no âmbito da justiça da decisão (por exemplo, a prisão ou a
criminal1. Tal construção visa a permi- soltura de um réu) e como argumen-
tir que determinadas perguntas de pes- tam que esse resultado é o correto (por
quisa sejam formuladas e respondidas exemplo, recorrendo a argumentos de
por meio da análise documental das crítica à dureza ou à leniência da legisla-
decisões, focalizando a relação entre as ção). Ou seja, observar não apenas o que
práticas de juízes e tribunais e as justifi- está em disputa na decisão, mas também
cativas que estes conferem a elas. em como essa questão é colocada, ou
A construção teórica exposta ali- traduzida, juridicamente. Além disso,
nha-se com a proposta de David Gar- a construção proposta demonstra a im-
land (1993) de uma sociologia da pu- portância de se observar como a deci-
nição, a qual busca aproximar a teoria são final, aquela que declara uma versão
social desse objeto, cuja compreensão oficial do Estado sobre a questão, define
é frequentemente relegada a uma tare- o que deve acontecer e como a ques-
fa técnica conduzida por instituições tão é oficialmente construída, ou seja,
especializadas. Nessa tentativa, o autor quais argumentos fundamentam a de-
sugere que temas como o direito penal, cisão final (e quais não são utilizados),
a justiça penal e a sanção penal (Gar- legitimando a punição estatal. Desse
land, 1993: 10) podem ser mais bem modo, chama atenção não apenas para
estudados em diálogo com as obras de observar as consequências das decisões
Durkheim, Marx, Elias, Foucault e We- judiciais (que podem ser mais ou menos
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SOCIOLOGIA DA PUNIÇÃO E A CONTRIBUIÇÃO DE PIERRE BOURDIEU

punitivas), como também as categorias mento, foram examinadas três obras ju-
construídas como legitimas, principal- rídicas que comentam sobre o funcio-
mente sobre o crime, o criminoso, o ob- namento da justiça juvenil, apontando
jetivo da punição e o papel do Estado e questões controversas que foram obje-
da legislação frente à criminalidade. tos de disputa judicial2. Após a identifi-
Portanto, embora essa construção cação dessas questões apontadas como
possa servir para pensar teoricamente controversas, foi realizada busca no
quaisquer decisões judiciais, o foco do sítio eletrônico do Superior Tribunal
trabalho reside em decisões do siste- de Justiça, de modo a identificar quais
ma de justiça criminal e, mais especi- casos mencionados nas obras jurídicas
ficamente, de cortes de apelação, isto foram objeto de decisão do tribunal. A
é, aquelas que, para além dos casos partir dessa busca, foram identificados
individuais, buscam definir os rumos 53 grupos de decisões, cada um deles
mais gerais do direito por meio do jul- referente a uma questão jurídica para-
gamento de casos paradigmáticos. De digmática decidida pelo tribunal3. Tal
modo a ilustrar como tal perspectiva pesquisa não será apresentada exausti-
pode auxiliar na compreensão do fenô- vamente em uma seção específica deste
meno da punição em decisões judiciais, trabalho, visto que o objetivo é somen-
são trazidos exemplos de uma pesquisa te o de ilustrar o potencial da constru-
empírica em andamento que tem por ção teórica realizada. Assim, ao longo
objeto decisões do Superior Tribunal do texto serão fornecidas informações
de Justiça sobre a justiça juvenil. sobre a investigação, demonstrando
Em tal pesquisa, foram analisadas como a construção teórica proposta
decisões paradigmáticas desde a pro- possibilitou a construção do problema
mulgação do ECA. A seleção de quais de pesquisa e sua resposta por meio da
decisões do tribunal representavam ca- análise das decisões.
sos paradigmáticos foi realizada a partir A primeira seção deste trabalho tra-
das indicações feitas pelo próprio tribu- ça breve revisão sobre pesquisas que to-
nal, por meio de suas súmulas (enun- mam a decisão judicial punitiva como
ciados que apresentam a orientação da objeto, demonstrando que as justifica-
corte após o julgamento de diversos ca- tivas oficiais apresentadas pelos juízes
sos semelhantes) e de seu informativo não costumam ser abordadas pela lite-
de jurisprudência (documento elabora- ratura. Essa constatação não visa a criti-
do pela Secretaria de Jurisprudência do car tais estudos, mas a abrir possibilida-
tribunal, a qual reúne precedentes sobre des para outro tipo de pesquisa, que, em
o mesmo tema e comunica a orientação complemento a eles, pode auxiliar na
da corte sobre esse tema). Em comple- compreensão do fenômeno da punição.
CONFLUÊNCIAS | Revista Interdisciplinar de Sociologia e Direito. Vol. 18, nº 3, 2016. pp. 65-91 67
CORNELIUS, Eduardo Gutierrez

A segunda e a terceira seções apresen- de, restrição de direitos, multa, etc.)


tam a construção teórica da decisão ju- ou quantidade de pena (Raupp, 2015a:
dicial punitiva como ato de Estado. Na 177). Segundo Dixon (1995), estudos
quarta seção, observa-se como a cons- sobre o sentencing podem ser classifica-
trução pode ser utilizada para pensar dos de acordo com o tipo de teoria (ou
o contexto brasileiro. Na quinta seção, hipótese) que buscam testar. Segunda a
considerando-se que essa construção é teoria “jurídico-formal”, fatores previs-
feita a partir de elementos da sociolo- tos na lei como relevantes na escolha
gia de Pierre Bourdieu, faz-se a ressalva da sentença, como gravidade do crime
de que a abordagem deste trabalho não e antecedentes do réu, determinam o
segue exatamente o procedimento de resultado das decisões. Já a teoria po-
pesquisa proposta pelo autor e por seus lítico-substantiva afirma que fatores
seguidores que se dedicaram à sociolo- como classe e raça influenciam o des-
gia do direito, demonstrando que isso fecho das sentenças. Por fim, a teoria da
não impede a investigação. Por fim, é manutenção organizacional argumenta
apresentada a conclusão, retomando os que fatores processuais, como o réu ter
argumentos tecidos ao longo do texto. se declarado culpado, por exemplo, são
bons preditores do resultado da senten-
OS ESTUDOS SOBRE A DECISÃO ça. Apesar de apresentadas de modo
JUDICIAL E SUAS LIMITAÇÕES separado, essas teorias podem ser testa-
Entre os estudos das ciências so- das em conjunto (Dixon, 1995).
ciais sobre como criminosos são puni- No Brasil, esse tipo de pesquisa, se-
dos que têm por centralidade a decisão gundo Raupp, desenvolveu-se a partir
judicial no âmbito da justiça criminal, da questão do fluxo de justiça do sis-
destacam-se as pesquisas sobre o sen- tema criminal, cujo desenvolvimen-
tencing, ou seja, sobre o modo como to se dá a partir de meados da década
indivíduos condenados pelo sistema de 1980. Seu objeto pode ser definido
de justiça são sentenciados por magis- como o “fluxo de pessoas e procedi-
trados de primeira instância. Em revi- mentos que atravessam as diferentes or-
são sobre esses estudos, Raupp (2015a) ganizações que compõem o sistema de
destaca uma divisão entre as aborda- justiça criminal” (Ribeiro; Vargas, 2008:
gens quantitativas e qualitativas. 5). Assim, o sentenciamento e a conde-
As primeiras buscam descobrir a in- nação seriam apenas duas das fases que
fluência de certas variáveis no resultado esse tipo de estudo focaliza (além do
da decisão, compreendido a partir do esclarecimento e do processamento).
seu desfecho (absolvição/condenação), Conforme Ribeiro e Vargas, a grande
tipo de punição (privação de liberda- vantagem desse tipo de estudo consis-
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SOCIOLOGIA DA PUNIÇÃO E A CONTRIBUIÇÃO DE PIERRE BOURDIEU

te em reconstruir o formato de funil mente (1968: 292-327). Em abordagem


do sistema de justiça e em identificar semelhante, David Sudnow buscou
os determinantes do encerramento do desvendar como o Código Penal é apli-
processo em cada fase (2008: 6). cado no trabalho da defensoria pública.
Retomando a classificação de Rau- O autor demonstra, por exemplo, que
pp, as abordagens qualitativas, por sua o crime que os réus devem confessar,
vez, caracterizam-se pela ênfase na se quiserem entrar em acordo com a
complexidade do processo de tomada promotoria, não são os indicados na
de decisão. A partir do uso da entre- legislação, mas aqueles consolidados
vista e da observação direta, focalizam ao longo do tempo na interação entre
a figura do juiz, bem como a cultura defesa e acusação (1965: 263).
judiciária em que este se insere, para Antes de se apresentar a crítica de
explicar como o processo de decisão Raupp aos trabalhos sobre o senten-
é conduzido. Segundo a autora, “essas cing, é importante observar que há ou-
pesquisas levantam crenças, atitudes tro grupo de pesquisas sobre o sistema
e percepções dos juízes em especial e de justiça que, embora não tenham
destacam o processo de interpretação como principal objeto as decisões da
dos fatos e das categorias legais pelos justiça criminal, compartilham da li-
magistrados” (Raupp, 2014: 180). mitação de não atentar para o que os
Embora não mencionados por Rau- juízes dizem em suas decisões. São os
pp, entre os estudos qualitativos sobre trabalhos que dizem respeito a cortes
o funcionamento da justiça criminal, de apelação, ou seja, a tribunais cujo
podem-se destacar as abordagens etno- foco não são casos individuais, mas
metodológicas4. Esses trabalhos obser- aspectos gerais sobre do direito. Em
vam quais são as expectativas prévias relação à punição, portanto, esses tri-
dos atores e como elas são utilizadas bunais decidem sobre questões como
em distintas situações para orientar sua “é possível a prisão para o crime x?”, ou
ação e justificá-la de modo coerente. “réus têm direito à garantia processual
Entre eles, pode-se citar o estudo de y?”, ou ainda “condenados em segunda
Aaron Cicourel (1968) sobre a organi- instância podem cumprir a pena ime-
zação da justiça juvenil. Neste o autor diatamente ou devem esperar ser jul-
demonstra, por exemplo, o que oficiais gados por todas as instâncias?”. Trata-
de probation esperam de determina- -se, portanto, de casos paradigmáticos.
dos depoimentos de adolescentes, exa- Esses trabalhos podem ser chama-
minando como essa expectativa guia dos de estudos sobre o judicial decision-
as perguntas que formulam e o modo -making. Inaugurados com o trabalho
como relatam o depoimento posterior- de Pritchett (1948) sobre a Suprema
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CORNELIUS, Eduardo Gutierrez

Corte estadunidense, têm como objeti- tado pelos juristas. Os modelos do se-
vo explicar o que determina o compor- gundo tipo, por outro lado, acreditam
tamento dos juízes e da corte como um que argumentos jurídicos utilizados
todo. Assim como os estudos sobre o para fundamentar decisões não cons-
sentencing, utilizam abordagens quan- tituem uma explicação de porque se
titativas (sobretudo a análise de regres- chegou a determinado resultado, mas
são) para observar como determinadas uma mera racionalização da decisão
variáveis independentes influenciam (Segal; Spaeth, 2005: 53).
no resultado da decisão. Tais estudos No teste de hipóteses pelos modelos
podem ser classificados de acordo com do segundo e do terceiro tipo, destacam-
os fatores considerados relevantes para -se como variáveis indepedententes: a)
a explicação da atuação dos tribunais. a ideologia dos juízes, medida frequen-
Nesse sentido, destacam-se três di- temente pelo partido do presidente que
ferentes modelos de explicação (Oli- os indicou para o posto, o que é de difí-
veira, 2014: 2): a) o modelo legal ou cil medida no Brasil, dado a ausência de
formalista, que se baseia na crença de dicotomização dos partidos; b) o modo
que as decisões judiciais são explicadas como os juízes decidiram em casos an-
pelo próprio direito, isto é, pelo signi- teriores semelhantes, argumento que é
ficado da lei, pelos precedentes e pela criticado pela sua circularidade (Olivei-
intenção do legislador; b) o modelo ra, 2014: 3) e considerado impossível de
atitudinal, segundo o qual as decisões ser falseado visto que dizer que um juiz
podem ser explicadas a partir dos va- decidirá assim, pois decidiu dessa for-
lores ideológicos dos juízes (e.g., Schu- ma anteriormente não explica porque
bert, 1958; Segal; Spaeth, 2005); c) o ele decide dessa maneira (Spaeth; Segal,
modelo estratégico, semelhante ao ati- 2005: 47); c) o ambiente político em que
tudinal, no sentido de considerar rele- a corte decide, medido a partir do par-
vantes os fatores ideológicos, mas que tido do presidente em exercício à época
focaliza as estratégias adotadas pelos da decisão (e.g, Epstein et al, 1989).
juízes para favorecer suas visões polí- Embora não sejam voltados exclu-
ticas (e.g., Epstein et al., 1989). sivamente para casos criminais, esses
Embora o primeiro modelo apre- estudos buscam explicá-los também.
sente algumas variações, sua premissa Assim, Epstein, por exemplo, conclui
básica é a dos operadores jurídicos, de que o fato de a maioria da Suprema
que o direito, se não é o fator exclusi- Corte ser republicana ou democrata é
vo, pelo menos é o mais importante na um bom preditor – controladas outras
explicação de como os juízes decidem. variáveis – de se ela decidirá contra ou
Esse seria o modelo de explicação ado- a favor de réus em casos penais. Igual-
70 CONFLUÊNCIAS | Revista Interdisciplinar de Sociologia e Direito. Vol. 18, nº 3, 2016. pp. 65-91
SOCIOLOGIA DA PUNIÇÃO E A CONTRIBUIÇÃO DE PIERRE BOURDIEU

mente, Randazzo e Waterman (2008) fluenciam o comportamento dos tribu-


buscaram observar se o legislativo é nais, inclusive em casos criminais. Con-
capaz de constranger a Suprema Corte tudo, não se preocupam em observar as
dos Estados Unidos a decidir de uma declarações oficiais dos atores. Assim,
ou de outra forma. Para tanto, acei- Raupp (2015) propõe que decisões ju-
tando que os juízes julgam de acor- diciais punitivas sejam estudadas a par-
do com suas preferências ideológicas, tir da noção de vocabulário de motivos,
os autores buscam observar como o de Charles Wright Mills (1940), desen-
grau de discricionariedade conferido volvida por Pires em outros trabalhos5
pela legislação (medida em número (1998; 2013 apud Raupp, 2015a)6. A
de palavras que ums lei contém) pode proposta de Mills consiste em inver-
influenciar no modo como os juízes ter a pergunta sobre o comportamento
exercem suas preferências ideológicas humano do “por quê?” para o “como?”.
em diversas áreas do direito, inclusive Assim, busca enfatizar não os supostos
criminal. Uma de suas conclusões é a motivos interiores aos indivíduos que
de que juízes liberais que votam com os levam a agir, mas os vocabulários que
a maioria da corte têm menos proba- acompanham sua ação para justificá-la
bilidade de votar de acordo com suas e que, por sua vez, influenciam futuras
preferências quando estão diante de condutas, já que determinados moti-
uma legislação criminal com um maior vos passam a ser socialmente legitima-
número de palavras (2008: 15). Outro dos em determinadas situações (Mills,
exemplo é o trabalho de Segal (1984) a 1940). Desse modo, a tarefa sociológica
respeito do julgamento de casos sobre a seria justamente a de investigar quais
legalidade de buscas e apreensões pela espécies de vocabulários de motivos
Suprema Corte estadunidense. O autor são utilizadas em determinadas épocas
buscou testar um modelo de previsão históricas e em determinadas situações
do resultado das decisões da corte, uti- (as quais Mills chama de situated ac-
lizando como variáveis independentes tions). A partir dessa construção, Rau-
as características do caso, como por pp sugere que as “teorias modernas da
exemplo, local onde ocorreu a busca pena (retribuição, dissuasão, denuncia-
e a existência ou não de um mandado, ção, ressocialização prisional)” (2015:
concluindo que seu modelo apresenta 186) expressas em decisões judiciais
uma boa explicação do comportamen- sejam pensadas como vocabulários de
to da Corte (Segal, 1984: 899). motivos, chamando atenção para ne-
Estudos sobre o sentencing e sobre cessidade de se observar quais teorias
o judicial decision-making apresentam sobre a pena são privilegiadas pelos
o mérito de observar quais fatores in- magistrados e quais não são.
CONFLUÊNCIAS | Revista Interdisciplinar de Sociologia e Direito. Vol. 18, nº 3, 2016. pp. 65-91 71
CORNELIUS, Eduardo Gutierrez

Compartilhando da proposta da teve como um de seus objetivos obser-


autora, de se observar como juízes var se essa tendência se verifica empiri-
justificam suas decisões, este trabalho camente, atentando igualmente para as
busca construir, em outro registro7, justificativas do tribunal em suas deci-
uma proposta teórica para se pensar as sões. Desse modo, além de observar o
decisões judiciais punitivas. De modo a padrão decisório do tribunal (decidir a
ilustrar como a construção teórica rea- favor da defesa ou da acusação em ca-
lizada pode ser pertinente para pensar sos relativos ao procedimento e à pu-
as decisões do judiciário brasileiro, ao nição), buscou-se observar como essas
longo do texto serão trazidos exemplos decisões são justificadas8. A constru-
de pesquisa empírica sobre decisões ção teórica que levou a este problema
paradigmáticas do Superior Tribunal de pesquisa e o modo como resultado
de justiça sobre a punição de adoles- e justificação das decisões são com-
centes. Essas decisões são consideradas preendidos teoricamente são apresen-
paradigmáticas, pois extrapolam os ca- tados na seção seguinte.
sos individuais que as originaram, di-
zendo respeito a situações sobre como A DECISÃO JUDICIAL COMO
a lei (no caso o Estatuto da Criança e ATO DE ESTADO PRODUZIDO
do Adolescente) deve ser interpretada. POR DISPUTAS
O problema que norteou tal pesquisa A proposta teórica deste trabalho
foi como o STJ decide e como legitima situa-se na intersecção entre a sociolo-
suas decisões em relação às garantias gia da punição e a sociologia do direi-
processuais a que adolescentes têm di- to. Portanto, as considerações a seguir
reito (por exemplo, direito a advogado têm por objetivo propor uma forma
em determinadas fases do procedimen- de abordar ambos os fenômenos de
to) e em relação à intensidade da puni- maneira coerente e que apresente uma
ção estabelecida (observado, por exem- alternativa às limitações dos trabalhos
plo em decisões sobre a possibilidade revisados na seção anterior. Assim,
de encarceramento em determinados busca-se construir a decisão judicial
crimes). Partindo de certo consenso na punitiva como objeto teórico a par-
literatura jurídica de que os tribunais tir da sociologia da punição (Garland,
costumam tratar adolescentes de modo 1993), que procura aproximar a teoria
severo (como é a tendência atual da social a esse objeto. Para tanto, lança-
justiça criminal adulta), mas ao mesmo -se mão das considerações teóricas de
tempo negar-lhes garantias processuais Pierre Bourdieu sobre o Estado e sobre
(como é a tendência histórica desde a o direito e das de Loïc Wacquant sobre
formação da justiça juvenil) a pesquisa o fenômeno da punição.
72 CONFLUÊNCIAS | Revista Interdisciplinar de Sociologia e Direito. Vol. 18, nº 3, 2016. pp. 65-91
SOCIOLOGIA DA PUNIÇÃO E A CONTRIBUIÇÃO DE PIERRE BOURDIEU

Nos cursos lecionados no Collège dicial ou a punição como algo que “o Es-
de France entre 1989 e 1992, reunidos tado” faz, é pensá-la como um ato de Es-
na obra Sobre o Estado (2015 [2002]), tado, que não emana de um ente uno e
Bourdieu busca trilhar caminhos para divino, mas que é produto das lutas que
se pensar esse objeto “impensável”. Esse ocorrem no interior do campo jurídico9.
objeto seria impensável, pois, por já es- Pensar a decisão judicial punitiva
tar instituído nas estruturas sociais e como produto de disputa tem como con-
mentais já adaptadas a eles, é concebido sequência a necessidade de se observar
a partir de suas próprias categorias. Uma não só as opiniões jurídicas vencedoras,
solução para tornar esse objeto pensável mas também as que a elas se opuseram,
é observar a sua gênese. Esta é entendi- ou seja, observar o que está em disputa
da por Bourdieu como “a culminação em cada decisão entre os magistrados.
de um processo de concentração de di- Olhar para os votos dissidentes (ou as
ferentes espécies de capital” (Bourdieu, dissenting opinions, na literatura esta-
2015: 4), sendo estes os capitais de força dunidense) permite, portanto, observar
física, econômico, cultural e simbólico. como o conflito se estabelece dentro do
O último, na verdade, é uma proprieda- próprio tribunal. Embora o judiciário
de que outros capitais adquirem quan- deva chegar a decisões unívocas, o fato
do reconhecidos como legítimos pelos de haver divergências em alguns casos,
agentes sociais (Bourdieu, 2015: 8). A mas não em outros, e o modo como es-
essa concentração dos diferentes capitais sas divergências são pautadas em termos
por essa instituição, que passou a se cha- discursivos revelam como a questão se
mar de Estado, correspondeu um pro- traduz no tribunal. Além disso, significa,
cesso de autonomização dos respectivos antes de observar como o judiciário, de
campos nos quais ocorrem lutas pelo fato, pune, atentar para o que as partes
controle do poder (Bourdieu, 2015: 4-5). (defesa e acusação) solicitaram ao judi-
Esse retorno à gênese do Estado ciário – o que, em geral, é negligenciado
permite, portanto, defini-lo como um pelos estudos sobre a punição, os quais
campo de poder, isto é, “um espaço es- costumam focalizar apenas o resultado.
truturado segundo oposições ligadas a Na disputa normativa sobre a jus-
formas de capital específicas, interesses tiça juvenil, por exemplo, há intenso
diferentes” (Bourdieu, 2015: 50). Aban- debate sobre se a medida socioeduca-
donando a visão unitária do Estado, tiva (punição destinada a adolescentes)
Bourdieu propõe que se pense em atos possui um caráter punitivo ou somente
de Estado, atos políticos com pretensões educativo. Cappi (2013), ao analisar os
a ter efeitos no mundo social. Assim, discursos de parlamentares sobre a re-
mais preciso do que pensar a decisão ju- dução da idade de imputabilidade penal
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CORNELIUS, Eduardo Gutierrez

no Brasil, observou que determinados permite considerá-la como um ato que


atores políticos viam a resposta a ado- produz uma violência física (a punição)
lescentes como punitiva, levando-os a e que é simbolicamente legitimada. Em
defender um aumento da punição. Por uma conceituação provisória do Esta-
outro lado, há juristas que argumentam do, Bourdieu, complementando a defi-
que a resposta estatal deve ser conside- nição de Max Weber, define este como
rada uma punição, para que os direitos ente possuidor do “monopólio da vio-
e garantias próprios do direito penal lência física e simbólica legítima” (2015
adulto sejam estendidos a adolescentes [2002]: 30). Essa definição reúne os
(e.g. Sposato, 2013). Outros autores do méritos da formulação weberiana, pois
direito defendem que ver a medida so- considera o Estado como detentor da
cioeducativa como punição acarretaria possibilidade de imposição de coerção
contaminar o sistema de justiça juvenil física, bem como da durkheimiana, que
com as mazelas punitivas do direito pe- o considera fundamento de integração
nal adulto, devendo ela ser vista como lógica e moral da vida social, o que não
uma medida reabilitadora. Por outro significa ignorar que o Estado pode ter
lado, ao longo da história, foi comum, a função que a tradição marxista lhe
entre os críticos da punição estatal, a confere, de estar a serviço da classe do-
denúncia de que práticas reabilitadoras minante (Miceli, 2015 [2012]: 20).
são extremamente violentas e servem Nesse sentido, Bourdieu reconhece
para legitimar punições mais duras a existência do monopólio do exercício
(Valverde, 2012: 247). Assim, percebe- da violência física, de que trata Weber,
-se que a defesa de uma ou outra justi- que pode ser percebido na concentra-
ficação para a punição pode estar asso- ção por um grupo (polícia, judiciário,
ciada tanto a uma postura que defende etc.) especializado e centralizado es-
maior punição quanto menor punição. pecificamente imbuído de tal função,
Observar como, na prática, defesa e e que é claramente identificado na
acusação mobilizam essas justificativas sociedade (Bourdieu, 1994 [1991]: 5).
pode revelar como esse debate se tra- Em relação à punição, a qual é exercida
duz nos processos judiciais. pelo Estado, isso significa reconhecer
que esta produz efeitos físicos no mun-
A PUNIÇÃO COMO ATO DE do, como fazer um indivíduo passar
ESTADO PORTADOR DA VIO- por um processo penal, permanecer
LÊNCIA FÍSICA E SIMBÓLICA privado de liberdade nesta ou naquela
LEGÍTIMAS condição, por este ou aquele período
Pensar a decisão judicial a partir da de tempo. Isso significa, igualmente,
teorização de Bourdieu sobre o Estado reconhecer que esses atos de Estado
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SOCIOLOGIA DA PUNIÇÃO E A CONTRIBUIÇÃO DE PIERRE BOURDIEU

podem também possuir os efeitos de mundo social. Pensar as decisões judi-


proteger, inclusive com a ameaça da ciais como atos que carregam o mono-
violência física, a dominação de um pólio da violência simbólica legítima,
determinado grupo sobre outro – afi- portanto, significa enfatizar que essas
nal, esse monopólio é exercido por decisões não apenas refletem concep-
um grupo social específico, em geral ções sociais sobre crime, criminoso e
contra outro grupo –, como enfatiza- punição, mas também contribuem para
do pela tradição marxista (e.g. Rusche; que essas concepções se sedimentem
Kirchheimer, 2003 [1939])10. socialmente, dada a autoridade que
Todavia, a construção de Bourdieu carregam os atos de Estado.
permite também focalizar a dimensão Em síntese, as abordagens marxis-
simbólica da punição, em aproxima- tas sobre o Estado costuma conferir
ção à formulação teórica de Durkheim. maior importância para a forma como
Segundo este autor, o crime seria uma as classes despossuídas são fisicamente
violação ao sentimento coletivo, isto punidas pelo sistema penal, ou, como
é, do “conjunto das crenças e dos sen- sustenta Bourdieu, tendem a valorizar
timentos comuns à grande média o capital físico do Estado em suas aná-
de indivíduos da mesma sociedade” lises (1994: 5). Já a abordagem durkhei-
(Durkheim, 1999 [1893]: 44). Assim, miana focaliza os efeitos simbólicos
a punição consistiria em uma reação da punição. O objetivo de Bourdieu,
passional a esse crime, tendo a função portanto, é o de considerar ambas as
de preservar a consciência coletiva da dimensões em sua análise12. O que se
sociedade e, portanto, sua própria coe- propõe neste trabalho, assim, é a rea-
são11. Por um lado, essa posição pode lização deste mesmo movimento em
ser criticada por não perceber que o relação à punição e à decisão judicial.
processo de criminalização de condu- Desse modo, conceber as ações estatais
tas não corresponde necessariamente como atos de Estado representa a valo-
ao que a média dos indivíduos pensa rização e a união de ambos os aspectos
ou sente sobre elas (e.g., Becker, 2014 da punição e da decisão judicial:
[1963]). Ela ignora, portanto, que a pu-
nição possui um caráter de dominação convém tomar como ponto
social, de imposição de determinados de partida o fato de que as re-
indivíduos a outros, como enfatizado lações de força são relações de
pela tradição marxista. Por outro, po- comunicação, isto é, que não há
de-se reconhecer nela uma importante antagonismo entre uma visão
relação entre a punição e as atitudes e fisicalista e uma visão semio-
pensamentos das pessoas em relação ao lógica ou simbólica do mundo
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CORNELIUS, Eduardo Gutierrez

social. É preciso recusar a op- tar cada vez mais a pena de prisão como
ção entre dois tipos de modelos resposta à criminalidade (Azevedo;
entre os quais toda a tradição Cifali, 2015: 113), afirma sua legitimi-
do pensamento social sempre dade social como resposta ao crime e,
oscilou, (...) As relações de força ao enviar pessoas ao cárcere, contribui
mais brutais (...) são ao mes- para a formação de um consenso social
mo tempo relações simbólicas sobre essas pessoas. Da mesma forma,
(Bourdieu, 2015: 176). quando o Superior Tribunal de Justiça
opta por decidir majoritariamente con-
Assim, as decisões judiciais podem tra a defesa de jovens em casos relati-
ser entendidas como atos de Estado, vos à punição e às garantias processuais
isto é, “atos políticos com pretensões (como se observou em pesquisa empíri-
a ter efeitos no mundo social” (Bour- ca), está legitimando essa punição mais
dieu, 2015: 40). Tais atos “têm em co- intensa e esse procedimento mais infor-
mum ser ações feitas por agentes do- mal, ao mesmo tempo que, em suas jus-
tados de uma autoridade simbólica, tificativas, contribui para o modo como
e seguidas de efeitos. Essa autoridade essas questões são pensadas.
simbólica, pouco a pouco, remete a Esse reconhecimento da autorida-
uma espécie de comunidade ilusória, de simbólica do Estado, por outro lado,
de consenso último” (Bourdieu, 2015: não significa que as práticas e os discur-
40). Desse modo percebe-se que seus sos do Estado sejam aceitos pela média
efeitos no mundo social se manifes- dos indivíduos, ou que simplesmente
tam tanto na forma de violência física derivem da consciência coletiva. Con-
(como a imposição de privação de li- tudo, permite observar o que Bourdieu
berdade), quanto de violência simbóli- chama de função gnosiológica (relativa
ca, que confere legitimidade a esse ato. ao conhecimento) dos sistemas simbóli-
Essa legitimidade, é importante obser- cos (Bourdieu, 2010 [1989]: 9), ou seja,
var, é de natureza dupla. Tanto o ato permite verificar que os atos de Estado,
em si ganha legitimidade social por ser de fato, influenciam no modo como os
exercido pelo Estado, quanto a própria indivíduos concebem o mundo. Por
justificativa para esse ato torna-se uma outro lado, tal perspectiva não ignora
justificativa legitima, e que, portanto, o que o autor concebe como funções
contribui para que o mundo social seja políticas dos sistemas simbólicos, isto
pensado de uma forma e não de outra. é, de servir para legitimar as atitudes da
Por exemplo, considerando os classe dominante, tal como ressaltado
atuais contornos da punição no Brasil, pela tradição marxista, por meio da no-
pode-se concluir que o Estado, ao ado- ção de ideologia (Bourdieu, 2010: 10).
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SOCIOLOGIA DA PUNIÇÃO E A CONTRIBUIÇÃO DE PIERRE BOURDIEU

Esse conceito, porém, é rejeitado por nal para a situação das classes trabalha-
Bourdieu, na medida em que leva a crer doras, baseada na responsabilidade in-
que existe uma base material anterior dividual e diferenciando categorias de
aos discursos – a estrutura econômica. pessoas socialmente desonradas. O au-
Para o autor, o poder de anunciar aquilo mento de pessoas encarceradas, a ace-
que será considerado verdadeiro per- leração do processo com a remoção de
mite tornar verdadeiro o que se anun- barreiras à condenação e o aumento do
cia (Bourdieu, 2015: 356). Portanto, as tempo das sentenças ocorreram junta-
construções jurídicas que levam à puni- mente ao que Wacquant chama de uma
ção não servem de mero encobrimento pornografia de lei e ordem (o autor dá
de uma dominação, mas fundam a pró- o exemplo do sucesso dos programas
pria dominação ao instituir um modo televisivos sobre crime) e um discurso
legítimo de se pensar sobre a sociedade. de insegurança, com a estigmatização
Essa forma de enxergar os atos de de moradores de rua, prostitutas e imi-
Estado permite a Wacquant (que parte grantes (Wacquant, 2009: 2).
da teoria bourdieusiana) concluir que
“a prisão simboliza divisões materiais A DECISÃO JUDICIAL PUNI-
e materializa relações de poder sim- TIVA COMO ATO DE ESTADO
bólico; seu funcionamento une desi- PORTADOR DA VIOLÊNCIA FÍ-
gualdade e identidade, funda domina- SICA E SIMBÓLICA LEGÍTIMAS
ção e significação” (2009: xvi; em livre Se o direito – assim como a lingua-
tradução). Nesse sentido, Wacquant gem, a arte e a religião, entre outros – for
demonstra que o recrudescimento das entendido como um sistema simbólico,
práticas punitivas, que nos Estados isto é, como um instrumento de conhe-
Unidos ocorreu a partir da década de cimento e de comunicação, que torna
1970, deve ser compreendido a partir possível um consenso acerca do mundo
de um duplo movimento. Por um lado, social e que contribui para a reprodução
houve transformações que conduziram da ordem social (Bourdieu, 2010: 10),
a um hiperencarceramento, sobretu- pode-se observar que ele exerce um po-
do de pessoas negras e pobres – uma der simbólico: o de impor determinadas
divisão física da população. Por outro, formas de conhecimento da realidade.
essas transformações impulsionaram Essa imposição, porém, não é percebida
uma divisão de cunho simbólico. Des- como construção social arbitrária – ou
se modo, os aparelhos da justiça penal seja, que poderia ser de outro modo –,
passaram a produzir um discurso ofi- mas como algo inquestionável, natural.
cial do Estado sobre o papel da punição, Isso é especialmente verdade no
conferindo uma justificativa institucio- caso do direito, considerado por Bour-
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CORNELIUS, Eduardo Gutierrez

dieu o poder simbólico por excelência reabilitador ou de afastamento do cri-


(Bourdieu, 2010: 237). Tal ocorre de- minoso da sociedade, etc.
vido à legitimidade social atribuída a Mas há outro efeito simbólico igual-
ele e é reforçado por seus atributos es- mente importante da decisão judicial.
pecíficos, como a linguagem jurídica. Não apenas ela categoriza, hierarquiza
Por meio de características sintáticas o mundo, como institui o critério le-
como construções passivas e frases im- gítimo dessa categorização. Assim, na
pessoais, a linguagem jurídica marca utilização das categorias punir/prote-
a impessoalidade do enunciado nor- ger, criminoso/necessitado, por exem-
mativo e faz do enunciador um sujeito plo, “não se apresenta a questão da
universal, simultaneamente imparcial pertinência dessa oposição” (Bourdieu,
e objetivo. A utilização desses recursos 2015: 40). Ou seja, além de apresentar
linguísticos outorgam generalidade e a visão oficial sobre quem é perigoso
omnitemporalidade às leis e às deci- e quem não é, a decisão, como ato de
sões, conferindo a impressão de que Estado, declara que essa diferenciação é
estas apresentam uma visão de mundo fundamental. Ela traduz o caso que jul-
universal sobre as situações tratadas, ga para os termos do direito, declaran-
apagando o processo político de con- do o que é pertinente juridicamente e o
fecção da norma e de sua interpretação. que não é (Bourdieu, 2010: 230).
Especificamente sobre o julgamento Por exemplo, se o judiciário julga
da justiça, Bourdieu afirma que “esta- afirmando que um adolescente deve
mos diante de atos de categorização; a ser internado porque o crime de tráfi-
etimologia da palavra ‘categoria’ — de co de drogas é grave (como se obser-
categorein — é ‘acusar publicamente’, e vou em pesquisa empírica)13, ele não
mesmo ‘insultar’; o categorein de Estado apenas apresenta a visão oficial de que
acusa publicamente, com a autoridade esse é um crime grave. Principalmente,
pública: ‘Eu o acuso publicamente de ele afirma que o fato de um crime ser
ser culpado’” (2015: 40). Desse modo, as grave é fundamental para decidir pela
categorizações oficiais utilizadas pelos internação. Essa questão não é trivial,
juízes são fundamentais para entender sobretudo no caso da justiça juvenil, em
a punição. Elas apresentam a definição que há intenso debate normativo sobre
oficial sobre criminalidade, punição e os critérios que devem orientar a impo-
significado da lei. A decisão, portanto, sição da punição: se o ato cometido ou
pode definir quem é considerado peri- a situação pessoal do adolescente. Ou
goso ou não, quem merece ser punido seja, a decisão do STJ não apenas au-
com prisão ou com uma punição em toriza o encarceramento de jovens por
meio aberto, se a pena tem um caráter esse delito – responsável por 25% do to-
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SOCIOLOGIA DA PUNIÇÃO E A CONTRIBUIÇÃO DE PIERRE BOURDIEU

tal de internações (SDH, 2015) –, como adolescente, a defesa tem que provar que
também afirma que se trata de um deli- foi efetivamente prejudicado para que o
to grave e que a gravidade é o critério – processo seja anulado e inicie novamen-
legitimado – que deve ser utilizado para te, desta vez com presença dos pais.
se decidir sobre a internação. O fato de o STJ se inclinar a deci-
Igualmente, é interessante observar dir mais a favor da segunda construção
que nos casos relativos a garantias pro- que da primeira revela não apenas que o
cessuais, a questão frequentemente é tribunal tende a decidir a favor da acu-
traduzida juridicamente de modo que o sação em casos processuais, mas que
aspecto substantivo sobre essa garantia esses casos são colocados a partir dessa
é completamente apagado. Por exemplo, teoria. É interessante observar que essa
uma das decisões analisadas teve de de- construção jurídica é muito diferente,
cidir se adolescentes acusados criminal- por exemplo, da defendida pelos ideali-
mente têm direito a ser acompanhado zadores do Código de Menores de 1927,
pelos pais ao longo do procedimento. que instituiu a criação da justiça juvenil
Trata-se de uma questão bastante es- no Brasil. Àquela época, os juristas de-
pecífica, que poderia envolver diversas fendiam abertamente que os jovens não
considerações, tanto da parte da defesa deveriam possuir garantias processuais,
quanto da acusação. A defesa poderia pois não havia nada contra o que ser ga-
argumentar, por exemplo, que passar rantido, já que a função do procedimen-
por um procedimento sem a assistência to era ajudar e não punir o jovem (Alva-
dos pais poderia ser muito traumático rez, 1990). Assim, a construção teórica
para o jovem. Já a acusação poderia ar- proposta permite observar que a perma-
gumentar que chamar os pais do ado- nência da negação histórica de garantias
lescente pode demorar muito e tornar o processuais a adolescentes atualmente é
processo muito lento. Contudo, questões legitimada a partir de outras justificati-
relativas ao procedimento como esta são vas, de uma retradução jurídica cuja tec-
frequentemente traduzidas juridica- nicidade faz parecer óbvia a imposição
mente a partir da contradição “direito de determinado modelo de justiça que
constitucional ao devido processo legal” já se fazia presente antigamente, mas
versus “teoria jurídica das nulidades”. A por meio de outra argumentação.
primeira posição constitui o argumento
da defesa de que o jovem tem direito a A PECULIARIDADE DAS DECI-
garantias processuais, pois isso é o que SÕES JUDICIAIS NO BRASIL:
estabelece a Constituição. A segunda exemplo de análise
representa o argumento da acusação A partir dessa construção, entende-
de que, se o juiz não chamou os pais do -se que não apenas as decisões sobre a
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CORNELIUS, Eduardo Gutierrez

punição de indivíduos específicos (ob- tros países em que teóricos do Direito


jeto dos estudos sobre o sentencing), com maior influência são professores de
mas também as decisões paradigmá- grandes faculdades (Engelmann, 2008:
ticas sobre o funcionamento da justiça 38), esses tribunais influenciam na pró-
criminal tomada por cortes de apela- pria forma como o direito é pensado.
ção (objeto dos estudos sobre o judicial Desse modo, é ainda mais relevante ob-
decision-making) devem ser estudadas servar o que juízes de cortes como essa
com enfoque no que os magistrados manifestam em suas decisões.
dizem. Isso é ainda mais relevante Isso é verdadeiro mesmo conside-
quanto mais se sobe à hierarquia judi- rando que “a formação de jurispru-
ciária, isto é, à medida que aumenta a dência no Brasil se faz principalmen-
autoridade do tribunal. Os dois exem- te pela via de súmulas e enunciados e
plos mais altos da hierarquia judiciária não pela reconstrução argumentativa
brasileira são o Superior Tribunal de de casos paradigmáticos” (Rodriguez,
Justiça e o Supremo Tribunal Federal. 2013: 7). Em Como decidem as Cortes?,
O primeiro possui a missão formal de Rodriguez defende que os tribunais
unificar a interpretação de leis federais brasileiros não buscam construir ar-
no país (como é o caso da legislação pe- gumentativamente suas decisões e que
nal), ao passo que o segundo é formal- valorizam mais o seu resultado do que
mente encarregado de fornecer uma sua fundamentação. Em casos fáceis,
interpretação sobre a constituição. os tribunais tenderiam a argumentar
Assim, embora o Brasil não adote de maneira pobre e, em casos difíceis, a
um sistema de obrigatoriedade de pre- argumentação seria centrada na autori-
cedentes, esses dois tribunais possuem dade dos argumentos (Rodriguez, 2013:
certa influência na decisão de juízes e 52). Ainda assim, textos extremamente
tribunais hierarquicamente inferiores. breves podem ser reveladores de como
Além disso, seus julgados são extensa- as decisões são legitimadas.
mente utilizados por atores do sistema Por exemplo, o STJ teve de decidir
de justiça para embasar suas argumen- se, antes de o juiz escolher qual medida
tações, ainda mais considerando que a socioeducativa aplicar ao adolescente,
“racionalidade jurisdicional” no Brasil este deve solicitar uma avaliação so-
é fortemente vinculada à utilização de bre o jovem feita por profissionais, tais
argumentos de autoridade (Rodriguez, como psicólogos e assistentes sociais. A
2013: 51). Igualmente, considerando presença dessa avaliação no Estatuto da
que os tribunais têm uma importância Criança e do Adolescente pode ser lida
muito grande na própria produção jurí- como um atributo típico de um modelo
dica sobre o direito, ao contrário de ou- de punição voltado para as característi-
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SOCIOLOGIA DA PUNIÇÃO E A CONTRIBUIÇÃO DE PIERRE BOURDIEU

cas pessoais do criminoso, chamado por a ele não se vincula a decisão.


Garland de “previdenciarismo penal”, Nesse sentido: [citação de
que, segundo boa parte da literatura so- precedentes]
bre a punição de adolescentes, é o mo- O art. 186, caput, do Esta-
delo do qual o ECA se aproxima (e.g., tuto da Criança e do Adoles-
Oliveira, 2016: 35). Uma decisão extre- cente (Lei n.º 8.069/90) é claro
mamente curta, contudo, foi bastante ao dispor que “comparecendo
reveladora do como a referida questão o adolescente, seus pais ou res-
foi construída juridicamente. Em 733 ponsável, a autoridade judiciá-
palavras (cerca de duas páginas), a de- ria procederá à oitiva dos mes-
cisão conclui que o relatório não é ne- mos, podendo solicitar opinião
cessário. A parte da decisão que aborda de profissional qualificado”.
mais diretamente a questão pode ser re- Logo, o verbo “poder” indica
sumida nos seguintes parágrafos: mera faculdade do juiz, que
não está obrigado a solicitar a
O acórdão recorrido, por realização de laudo avaliativo.
sua vez, baseado no conjunto Ao julgador compete a aplica-
probatório contido nos autos, ção da medida mais adequada
entendeu que é “impositiva a para o infrator, devendo fazê-lo
medida extrema, pois nos ter- segundo seu livre convencimen-
mos do preconizado pelo art. to (Brasil, 2008).
122, I, do Estatuto Menorista,
o ilícito é grave, praticado em A despeito de considerações jurídi-
concurso de agentes, mediante cas sobre a correção legal ou não dessa
violência e grave ameaça à pes- decisão segundo esta ou aquela teoria
soa e, ainda, com uso de arma do direito, é interessante observar o que
de fogo” (fls. 44-v). essa decisão revela. Em primeiro lugar,
(...) ela tem um efeito específico no mundo
Assim, entendo que, neste social, que é declarar que juízes não são
caso, a realização do laudo de obrigados a solicitar tal relatório. Assim,
avaliação é apenas mais um dos embora essa decisão não seja obrigató-
elementos de convicção do pro- ria, ela autoriza que juízes de primeiro
cesso, pois cabe ao julgador re- grau não solicitem o referido relatório
quisitá-lo sempre que entender antes de escolher qual medida aplicar.
conveniente ou necessário, não Em segundo lugar, ela enfatiza o que
sendo, em absoluto, uma provi- é considerado grave: o fato de o ato ter
dência indispensável, porquanto sido cometido com violência, em con-
CONFLUÊNCIAS | Revista Interdisciplinar de Sociologia e Direito. Vol. 18, nº 3, 2016. pp. 65-91 81
CORNELIUS, Eduardo Gutierrez

junto com outras pessoas e com uso de ce ser ajudada a partir de suas caracte-
uma arma de fogo como algo que auto- rísticas pessoais ou um criminoso que
riza a punição. Embora possa parecer merece ser punido a partir da gravida-
óbvio a qualquer pessoa que essas são de de seus atos (Muncie, 2008). A deci-
características que tornam um crime são mencionada parece fazer a balança
grave, isso não deve ser naturalizado pender para a segunda posição.
pelo pesquisador. Por exemplo, o fato de Em terceiro lugar, o fato de que em
que um crime seja cometido juntamen- nenhum momento as condições pes-
te com outros indivíduos torne-o mais soais do adolescente (se estuda, se tra-
grave parece vir de uma construção ju- balha, se possui boas notas, se tem uma
rídica que se consolidou historicamente boa relação com os pais, para citar al-
e foi acrescentada ao Código Penal adul- gumas das características comumente
to (mas que está ausente no ECA). Essa elencadas nesse tipo de relatório) se-
forma de conceber as condutas ilícitas jam mencionadas, mesmo quando se
de adolescentes de maneira aproxima- está tratando de um relatório sobre as
da à de adultos não é algo trivial. Em condições pessoais do adolescente, de-
outras decisões, magistrados chegam a monstram que, pelo menos nessa deci-
se referir aos atos de adolescentes como são, essa questão não é sequer colocada.
“majorados” ou “qualificados”, com re- Assim, se a menção à gravidade pode
ferência a circunstâncias fáticas que au- ser vista como uma aproximação a uma
mentam a pena no caso do direito pe- justiça mais “punitiva”, a ausência de
nal adulto, muito embora não haja um menção às condições pessoais do jovem
cálculo de pena no sistema de justiça de parece reforçar essa aproximação.
adolescentes, os quais são sentenciados Dessa forma, a referida decisão,
a punições por tempo indeterminado. apesar de pouco extensa, é capaz de
Desse modo, ao anunciar a questão revelar não apenas o aspecto físico da
em termos penais, o tribunal contribui punição (no sentido de instituir a des-
– com toda a sua força simbólica – para necessidade do relatório), mas como
fomentar o entendimento de que a jus- ele é simbolicamente legitimado, con-
tiça juvenil deve se aproximar da justi- tribuindo para que a punição de jovens
ça penal adulta. De uma maneira bas- seja pensada de uma maneira e não de
tante reducionista, pode-se considerar outra. Contudo, apesar de ser impor-
que a grande disputa normativa desde tante a análise individual de decisões
a criação da justiça juvenil – e pelo como a esboçada nos parágrafos an-
menos no plano da instituição de um teriores, é importante considerar que
modelo de justiça – é entre considerar tribunais decidem sobre diversas ques-
o jovem como uma vítima que mere- tões nem sempre adotando práticas
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SOCIOLOGIA DA PUNIÇÃO E A CONTRIBUIÇÃO DE PIERRE BOURDIEU

unívocas (como decidir sempre a favor no da punição de adolescentes por meio


da acusação ou da defesa), nem sem- da análise documental difere do modo
pre adotando fundamentações unívo- como Bourdieu sugere pesquisar as dis-
cas (como sempre reforçar um ou ou- putas no campo jurídico. Para o autor, é
tro caráter da punição). Tribunais são fundamental compreender a hierarquia
organizações complexas, pelas quais das posições dos diferentes atores, seus
passam inúmeras pessoas ao longo do interesses e como esses são mobilizados
tempo e que nem sempre decidem da de acordo com essa hierarquia e com as
mesma forma (Rodriguez, 2013). É in- regras do campo. O foco principal, por-
teressante, portanto, estender o exer- tanto, é nos interesses desses atores em
cício realizado acima para as demais competição e nas estratégias utilizadas
decisões do tribunal e compará-los, de nessa competição. Nesse sentido, a pes-
modo a perceber se na maioria das ve- quisa de Hagan e Levi (2005) sobre o
zes o tribunal pende para determinada Tribunal Internacional para a ex-Iogus-
prática ou discursos, e quais são as prá-
lávia pode ser classificada como típica
ticas e discursos que estão colocados da abordagem proposta por Bourdieu14.
juridicamente e quais não estão. O autor, invocando explicitamente
Portanto, a vantagem de se pensar a
as contribuições de Bourdieu, teve por
punição como um ato de Estado carre- objetivo investigar como o tribunal foi
gado de uma eficácia simbólica é confe-bem-sucedido na acusação e condena-
rir importância para as justificativas dos
ção por crimes de guerra. Sua pesquisa
magistrados em suas decisões. Ou seja, baseou-se em mais de 100 entrevistas
tomar o que os juízes dizem não como gravadas com promotores, juízes, advo-
explicação fundamental de sua decisão, gados e seus respectivos assistentes. Fo-
como fazem, em geral, os trabalhos do ram também realizadas etnografias no
direito, nem como mera justificativa tribunal. O autor concluiu que o sucesso
feita a posteriori e que serve apenas para
do Tribunal de deveu a uma série de prá-
dar legitimidade à decisão, como fazem ticas lideradas pelos diferentes promoto-
os trabalhos sobre o sentencing e sobre o
res, explicadas a partir de seus diferentes
judicial decision-making, mas como um habitus jurídicos, com a mobilização de
ato de Estado portador do monopólio estratégias das duas grandes tradições do
direito (civil law e common law).
da violência física e simbólica legítima.
Yves Dezalay, provavelmente o pes-
RESSALVA TEÓRICO-METO- quisador com maior destaque a condu-
DOLÓGICA zir investigações sobre o direito a partir
É fundamental observar que essa da contribuição de Bourdieu, defende
apreensão da lógica da disputa em tor- justamente esse tipo de estudo realizado
CONFLUÊNCIAS | Revista Interdisciplinar de Sociologia e Direito. Vol. 18, nº 3, 2016. pp. 65-91 83
CORNELIUS, Eduardo Gutierrez

por Hagan e Levi. Para Dezalay, as con- Assim, não são respondidas perguntas
siderações de Bourdieu sobre o direito como: Quais questões relativas à puni-
em geral são utilizadas pelos trabalhos ção estavam em disputa? Quais réus fo-
apenas para “teorizar o direito em um ram condenados por esse crime? O que
nível mais geral” (2012: 446; em livre o tribunal disse sobre eles?
tradução). Entretanto, o autor sugere É verdade que um trabalho como o
que a maior contribuição de Bourdieu de Hagan não impossibilita a investiga-
para o direito reside na aplicação empí- ção sobre tais questões. Porém, um es-
rica de suas considerações, o que con- tudo que dê primazia a elas – valendo-
siste, primordialmente, em focalizar as -se da contribuição de Bourdieu sobre
disputas entres os atores, sobretudo no o direito – pode ser feito por meio de
momento de formação do campo jurí- uma pesquisa documental. Isso se justi-
dico. Não à toa, seguindo as lições de fica não apenas a partir da constatação
Bourdieu sobre o papel dos juristas na de que pouco se sabe acerca de como o
formação do Estado, seu principal obje- judiciário decide sobre a punição, mas,
to de estudo é a formação de um campo principalmente, de que suas decisões
jurídico internacional e seu impacto nos possuem uma eficácia simbólica que in-
campos locais (Dezalay, Garth, 2014). fluencia o modo como a punição é pen-
Todavia, demonstrou-se, neste ar- sada também em outros campos (como
tigo, que é possível utilizar aspectos o legislativo). É necessário, pois, indicar
contribuições de Bourdieu não apenas o que está em disputa e o que não está,
como uma agenda de pesquisa a ser verificando como a visão oficial do Es-
seguida, mas como meio de repensar tado sobre a punição é construída, ain-
teoricamente a decisão judicial sobre a da que se deixe de lado questões mais
punição. Desse modo, pode-se estabe- específicas dessas disputas (o que, por
lecer uma abordagem distinta das tradi- exemplo, trabalhos etnometodológicos
cionalmente utilizadas pelos estudos da poderiam elucidar melhor).
área. Estudos como os defendidos por
Dezalay, por levarem em conta inúme- CONCLUSÃO
ras questões prévias ao resultado jurídi- Neste trabalho propôs-se aborda-
co (decisão), dizem pouco sobre como gem distinta das de outros que focali-
o direito afeta a vida dos justiciáveis. zam a decisão judicial. Argumentou-se
Isso pode ser observado na pesquisa de que punição e decisão judicial podem
Hagan e Levi (2005). O autor não abor- ser concebidas como atos de Estado,
da, por exemplo, o debate sobre como o produtos de disputa, que detém o mo-
tribunal decidiu não enquadrar os atos nopólio da violência física e simbóli-
de determinados réus como genocídio. ca legítima. Demonstrou-se que tal
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SOCIOLOGIA DA PUNIÇÃO E A CONTRIBUIÇÃO DE PIERRE BOURDIEU

construção permite unir, sob a mesma basar teoricamente pesquisa sobre a


abordagem teórica, as dimensões polí- prisão preventiva em decisões judiciais
ticas – de dominação – e gnosiológicas (2008). Contudo, a construção proposta
– de conhecimento – dos atos de Es- neste trabalho enfatiza outros elemen-
tado. Como consequência aos estudos tos da teoria do autor.
de decisões do sistema de justiça cri- 2 Essas obras foram escolhidas
minal, demonstrou-se a importância pelo detalhamento com que descre-
de se observar o que está em disputa vem as questões jurídicas relativas à
pelas partes envolvidas (e o que não justiça juvenil no Brasil.
está). Igualmente, por meio de exem- 3 Considerando-se que o tribunal
plos baseados em pesquisa empírica, costuma julgar a mesma questão mais
demonstrou-se a possibilidade de se de uma vez, identificaram-se modifi-
observar não apenas o resultado de de- cações de entendimento ao longo do
cisões judiciais, mas também suas jus- tempo, bem como divergências entre
tificativas. Portanto, é importante ob- os dois órgãos julgadores do tribunal.
servar que, embora se possa concordar Após essa identificação, foi selecionada
com a pressuposição dos estudos revi- a decisão com data de publicação mais
sados de que os motivos apresentados antiga de cada um dos 53 grupos para
nas decisões não são necessariamente análise, entre as que expressam a orien-
o que levam os juízes a decidir, eles, tação mais recente do tribunal. A esco-
ainda assim, apresentam uma eficácia lha pelas decisões mais antigas deve-se
simbólica. Logo, “conquanto todas es- ao fato de que se observou, em etapa ex-
sas manifestações simbólicas não pas- ploratória da pesquisa, que tais decisões
sem de boas intenções ou de manifes- costumam ser mais extensas e fornecer
tações de hipocrisia, mesmo assim elas fundamentações mais elaboradas do
agem” (Bourdieu, 2015: 60). que as que lhe sucedem. Essas últimas
costumam limitar-se apenas a mencio-
NOTAS nar as decisões anteriores. Entre esses
1 Outros trabalhos também se de- 53 grupos, foi identificada divergência
dicaram a analisar decisões judiciais da de orientação entre os órgãos julgado-
justiça criminal a partir de elementos res do tribunal em dois grupos. Assim,
da teoria de Bourdieu. Costa Ribeiro, foi analisada uma decisão de cada órgão
por exemplo, buscou demonstrar como para esses dois grupos de decisões, tota-
a dualidade entre ação e estrutura pode lizando 55 decisões analisadas.
ser compreendida nos julgamentos do 4 Para uma revisão sobre trabalhos
tribunal do júri (1999). Vasconcelos que utilizaram abordagem semelhante
utilizou a teoria de Bourdieu para em- no Brasil, cf (Paes; Ribeiro, 2014).
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CORNELIUS, Eduardo Gutierrez

5 A proposição teórica de Pires, em cidido pelo tribunal: se relativos à dis-


realidade, não se limita ao estudo da cussão sobre as garantias processuais
decisão judicial. O autor busca explicar do procedimento da justiça juvenil ou
o que chama de dificuldades cognitivas se relativos à possibilidade de aplicação
de evolução do sistema penal ociden- de determinada medida socioeducativa
tal, propondo a teoria da racionalidade para certo grupo de adolescentes. Um
penal moderna. Assim, a partir de um exemplo do primeiro tipo de caso é o
quadro teórico mais amplo, que envolve em que o STJ decidiu se adolescentes
elementos da sociologia de Luhmann e têm direito a ser representados por ad-
de Durkheim, o autor propõe que a no- vogado quando cometem atos infracio-
ção de vocabulários de motivos pode ser nais considerados leves. Um exemplo
empregada para compreender como as do segundo tipo de caso é o em que o
teorias sobre a pena (como a da reabili- STJ teve de decidir se o ato infracional
tação e a da retribuição, por exemplo) de ameaçar alguém pode levar à inter-
são utilizadas na atuação do sistema de nação de adolescentes. Para observar
justiça penal (Raupp, 2015b: 15-36). a inclinação do tribunal a ampliar ou
6 Pires não é o único autor a propor restringir garantias e controle penal, as
a utilização da noção de vocabulários de decisões foram classificadas de acordo
motivos de Mills para estudar o fenôme- com a solução literal prevista no Esta-
no da punição. Nesse sentido, conferir, tuto da Criança e do Adolescente para
por exemplo (Melossi, 1992; 1993). cada caso. O contraste entre o resulta-
7 Embora seja possível compatibili- do indicado pelo ECA e o comunica-
zar a noção de vocabulários de motivos do pela corte permite identificar se o
com a construção teórica a partir de tribunal está mais disposto a construir
Bourdieu apresentada neste trabalho uma interpretação criativa em relação
– assim como Pires o fez em relação à à legislação para decidir de uma ou de
teoria Luhmaniana – esse exercício me- outra forma. Além disso, classificaram-
receria um trabalho teórico próprio. -se os casos de acordo com a gravida-
8 Na pesquisa utilizada para ilus- de da situação, de modo a se identificar
trar esse trabalho, buscou-se observar se o tribunal atua de modo distinto em
como o STJ se comporta em situações casos graves e leves. Para identificar o
em que pode escolher ampliar ou res- padrão de decisão do tribunal, foi utili-
tringir o controle penal de adolescentes zada a qualitative comparative analysis,
e ampliar ou restringir a proteção pro- técnica que, a partir da teoria dos con-
cessual conferida a adolescentes. Assim, juntos, permite a apreensão de associa-
as decisões analisadas foram classifica- ções entre fenômenos em estudos de n
das de acordo com o tipo de caso de- pequeno ou médio (Ragin, 1987).
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SOCIOLOGIA DA PUNIÇÃO E A CONTRIBUIÇÃO DE PIERRE BOURDIEU

9 Embora a questão das lutas que variou ao longo da história de acordo


ocorrem no campo jurídico seja mais com determinadas leis. Desse modo,
extensamente abordada em O Poder em As duas leis da evolução penal, o
Simbólico (1989: 209-254), falta a essa autor formula duas leis que explicam
obra posicionar o direito em relação ao porque a qualidade das penas (tipo de
Estado, de modo que é importante a lei- castigo imposto) e sua quantidade (em
tura dessas obras em conjunto. termos de privação de liberdade) varia-
10 Com isso, não se quer dizer que ram ao longo das épocas (2014 [1900]).
Marx e a tradição que o seguiu negli- Sua explicação, porém, não foge a sua
genciaram completamente a dimensão percepção, já mencionada, do crime
simbólica da dominação. É verdade como ofensa à consciência coletiva.
que a principal obra da tradição mar- 12 É importante observar que essa
xista a abordar a questão é Punição e perspectiva de unir ambas dimensões
Estrutura Social, que busca demonstrar não é exclusiva ao pensamento bour-
como a variação na quantidade de pes- dieusiano. Embora a partir de outra
soas punidas, bem como na qualidade abordagem teórica, foi a análise de prá-
do castigo adotado é explicada funda- ticas discursivas e não discursivas que
mentalmente por variações demográfi- permitiram a Foucault compreender a
cas e no mercado de trabalho (Rusche; transformação da punição nas socie-
Kirchheimer, 2003 [1939]). Contudo, dades modernas. Conforme Alvarez, à
é possível construir, a partir da teoria emergência da prisão como instituição
marxiana, abordagens distintas. Nesse central, articulou-se “um novo con-
sentido, Pashukanis, por exemplo, ao junto de práticas de poder disciplina-
criticar as abordagens marxistas que res, suporte também de novas relações
veem o direito somente como uma for- de conhecimento” (Alvarez, 2013: 25).
ma de dominação de classe, demonstra O autor pode, portanto, levar em con-
como a forma da mercadoria faz com ta como “um saber, técnicas, discurso
que os indivíduos, no capitalismo, ‘científicos’ se formaram e se entrelaça-
pensem a punição a partir do princí- ram com a prática do poder de punir”
pio da proporcionalidade entre delito e (Foucault, 2011 [1975]: 26). A recusa a
pena, tal como ocorre na troca de mer- uma visão fisicalista, para usar o termo
cadorias (1980 [1924]). de Bourdieu, permitiu, por exemplo,
11 Isso não significa que Durkheim que Foucault percebesse no suplício
tenha ignorado completamente o as- e depois na disciplina, algo que repre-
pecto físico da punição. O autor dedi- sentava mais que uma passagem de um
cou-se, ainda que brevemente, a anali- castigo bárbaro a outro mais suave.
sar como a imposição física da punição 13 Cf. Brasil, 2010.
CONFLUÊNCIAS | Revista Interdisciplinar de Sociologia e Direito. Vol. 18, nº 3, 2016. pp. 65-91 87
CORNELIUS, Eduardo Gutierrez

14 Hagan chega a comparar seu ra- São Paulo: Companhia das Letras.
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Artigo
SILVEIRA,Vítor
RIBEIRO, Treicy
Eduardo
Giovanella
Alessandri
Da
CONFLUÊNCIAS
Revista Interdisciplinar de Sociologia e Direito
ISSN 1678-7145 || EISSN 2318-4558

A AFIRMAÇÃO DO PERSONALISMO
JURÍDICO NA JUDICIALIZAÇÃO DA
EDUCAÇÃO EM FLORIANÓPOLIS
Treicy Giovanella da Silveira
Universidade Federal da Santa Catarina.
E-mail: treicy.gs@gmail.com

RESUMO
Este artigo tem o objeto de caracterizar a judicialização da educação em Florianópolis
por meio de uma pesquisa empírica com 43 processos envolvendo este tema na 25a
Promotoria de Justiça do Ministério Público da Capital. A partir da análise dos textos
de abertura e encerramento dos processos verificou-se o individualismo da atividade-
-fim do MP, o privilégio da fase pré-processual (extrajudicial) dos casos e um acentu-
ado distanciamento da instituição em relação à sociedade. A denúncia de origem dos
processos analisados vem principalmente do próprio Ministério Público e ressignifica
a instituição como aquela que fornece resposta para o agente em destaque nas relações
entre a justiça e a educação. O estudo feito entre 2015 e 2016 contou exclusivamente
com processos abertos entre 2004 a 2015 presentes na promotoria de educação.
Palavras-chave: Judicialização da educação, 25a Promotoria, Ministério Público.
ABSTRACT
This article aims to characterize the judicialization of education in Florianópolis
through a research with 43 cases involving this issue in the 25th Prosecutor’s of Justice
of the Public Ministry of the Capital. From the analysis of the opening and closing texts
of the processes, the individualism of the PM’s activity-end, the privilege of the pre-ju-
dicial (extrajudicial) phase of the cases and a marked distancing of the institution from
society were verified. The complaint of origin of the analyzed processes comes mainly
from the Public Ministry itself and re-signifies the institution as the one that provides
response to the agent in prominence in the relations between justice and education.
The study conducted between 2015 and 2016 counted exclusively on cases opened be-
tween 2004 and 2015 present in the education prosecution.
Key-words: Judicialization of education; Public Ministry; 25th Florianópolis
92 CONFLUÊNCIAS | Revista Interdisciplinar de Sociologia e Direito. Vol. 16,
18, nº 3, 2014.
2016. pp. 60-85
92-116
Prosecution of Justice.
A AFIRMAÇÃO DO PERSONALISMO JURÍDICO NA JUDICIALIZAÇÃO DA EDUCAÇÃO EM FLORIANÓPOLIS

APRESENTAÇÃO A DIMENSÃO POLÍTICA DO


Este artigo é resultado do trabalho MINISTÉRIO PÚBLICO
realizado na dissertação (Giovanel- A judicialização das relações sociais
la 2017) assim como, de uma primei- é um tema de interesse relativamente
ra reflexão dos dados apresentados no recente dentro da pesquisa em Ciên-
encontro anual da ANPOCS de 2016. cias Socais. A judicialização da políti-
Busco abarcar aqui os pontos principais ca inaugura o termo a partir de Tate e
acerca da judicialização da educação elu- Vallinder (1995), nos Estados Unidos,
cidados pela pesquisa, os apontamentos numa pesquisa sobre a expansão do Po-
decorrentes destes dois espaços, tanto der Judiciário. Vejamos a clássica defi-
das discussões no SPG 30 (Sociologia nição de judicialização da política feita
das práticas policiais e judiciais) quanto por Vallinder (1994):
das contribuições da banca na defesa.
O material analisado na pesquisa (a) a expansão do alcance
conta com 43 processos que envolvem a das cortes ou dos juízes em de-
educação e se encontravam na 25a Pro- trimento dos políticos e/ou ad-
motoria de Justiça de Florianópolis no ministradores, isto é, a transfe-
período da pesquisa (2015-2016). Ainda rência do direito de decisão do
que a promotoria tenha sido criada so- legislativo, de gabinete, ou o ser-
mente em 2013, há processos com datas viço civil de corte, ou ao menos;
de abertura que variam entre os anos de (b) a difusão dos métodos de de-
2004 e 2015 e entre eles alguns ainda se cisão judiciária fora do alcan-
encontravam abertos. Após a classifica- ce do judiciário propriamente
ção dos processos conforme a origem da dito. Em resumo podemos dizer
denúncia, quais direitos eram violados e que a judicialização essencial-
as partes envolvidas, a pesquisa voltou- mente envolve transformar algo
-se para os termos de justificativa de na forma de processo judicial.
abertura e encerramento dos processos (p. 91, tradução nossa)1
afim de destacar concepções de educa-
ção mobilizada pelos promotores. A judicialização da educação, ou
O objeto central deste artigo re- dos processos escolares como preten-
fere-se a reflexões sobre o desdobra- 1 (a) the expansion of the province of the courts or the judges
mento desta última parte da investi- at the expense of the politicians and/or the administrators,
that is, the transfer of decision-making rights from the legis-
gação, qual seja, a atuação personalis- lature, the cabinet, or the civil service to the courts, or at least;
ta que impera sobre a instituição em (b) the spread of judicial decision-making methods outside
the judicial province proper. In summing up we might say
detrimento de práticas de atividade that judicialization essentially involves turning something
padronizadas pelo MP. into a form of judicial process. (Vallinder 1994: 91)

CONFLUÊNCIAS | Revista Interdisciplinar de Sociologia e Direito. Vol. 18, nº 3, 2016. pp. 77-101 93
SILVEIRA, Treicy Giovanella Da

do demonstrar, está mais próxima da ca por democracia e cidadania tiveram


segunda parte desta explicação e assu- sua maior esperança no judiciário para
me ainda um caráter de politização de a garantia de tais mudanças.
tal direito. Além de uma ampliação dos Neste sentido, Vianna (2014) aponta
métodos de baliza ou da mediação do que num contexto em que há uma deli-
conflito por meio do judiciário fora do berada ausência do Estado e de outras
seu alcance como explicitado por Val- organizações como a religião para o for-
linder, a judicialização da educação será necimento de sentido, ou de ideologias
a utilização do saber do direito e de suas nas palavras do autor, há uma maior
práticas como referência para o trata- aproximação e tendência da população
mento de conflitos escolares. Mesmo de recorrer a bandeira do direito para
não sendo operacionalizada pelo Judi- pleitear as promessas democráticas ainda
ciário, judicializar a educação também não realizadas na modernidade. (p. 149).
pode ser entendida como uma prática A judicialização, ou a busca pelo acesso
dos operadores do direito dentro do a justiça para a garantia e conquista de
MP, isto é, dos próprios promotores. direitos básicos estaria atrelada a falta de
A judicialização significa, desta tal provimento pelo Estado, assim como
forma, uma classificação ampla de um às profundas desigualdades sociais e de
fenômeno crescente nas democracias acesso a justiça da sociedade brasileira.
ocidentais. Vianna (2014) sobrescreve Esta aproximação institucional pelo
Antonie Garapon para afirmar que a ju- MP com a sociedade civil que, em tese
dicialização das relações sociais e a cen- não ocorreria no Poder Judiciário per-
tralidade do direito se constituem como mite que os promotores arroguem para
características marcantes das socieda- si também o estabelecimento de deman-
des democráticas modernas. O autor das sociais que não aparecem como de-
ainda afirma que esta questão advém núncias da própria população, mas que
de uma agenda igualitária de lutas por prescindem de uma agência maior da
grupos e indivíduos em suas demandas própria sociedade civil. Esta definição
por direitos, por regulação de comporta- do MP como defensor da democracia,
mentos e reconhecimento de identidades, da cidadania e dos direitos civis (como
mesmo que em um plano exclusivamente guardião dos direitos difusos e coleti-
simbólico (p. 150). No Brasil, o período vos) é instituída somente pela Consti-
posterior a ditadura militar e o proces- tuição de 1988 (CF/1988)2.
so de democratização social (que inclui 2 Cabe ao MP a defesa dos direitos sociais e individuais in-
as características de ordem legislativas disponíveis, isto é, os direitos que não podem ser adquiri-
dos, comprados ou vendidos, como a liberdade e o direito à
e políticas) evidenciaram demandas vida; e direitos que estão além da vontade própria do indiví-
sociais por justiça assim como, a bus- duo (Mazzilli 2008). O artigo 129o da CF/1988 prevê como

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A AFIRMAÇÃO DO PERSONALISMO JURÍDICO NA JUDICIALIZAÇÃO DA EDUCAÇÃO EM FLORIANÓPOLIS

Arantes (2002) demonstra que a cia da sociedade civil). Além disto, ha-
fim de constituir o MP nos moldes de via uma avaliação negativa da capacida-
um “quarto Poder” (nos termos de au- de de garantia de direitos fundamentais
tonomia e independência) do Estado à sociedade pelo Estado, por isto, cabe-
brasileiro, ou melhor, de uma institui- ria ao MP tutelar tais direitos na busca
ção autônoma em relação aos outros pela defesa da sociedade civil diante da
Poderes, houve um lobby3 dos interes- falta de atuação do Estado e de institui-
sados por este modelo de instituciona- ções políticas recorrentemente corrom-
lização dentro do MP, assim como um pidas por interesses individuais. Ao MP
voluntarismo político de seus agentes. caberia a função de ocupar um “espaço
A ideologia do voluntarismo político vazio” entre o Estado e a sociedade na
na institucionalização do Ministério garantia de direitos e, acima de tudo,
Púbico pela CF/1988 é composta, se- defender o Estado democrático.
gundo o autor, por três elementos: (a) a Nesta ordem permanece o “slogan”
crítica aos poderes políticos, (b) a ideia do MP como “guardião da lei e dos di-
de hipossuficiência da sociedade civil reitos; promotor e conscientizador da
e (c) o papel estratégico do MP como cidadania; vocalizador e canalizador de
defensor dos interesses sociais. Em úl- demandas sociais” (Arantes 2002: 20).
tima instância o voluntarismo político A Constituição de 1988 criou oportuni-
nada mais é do que a pretensão dos dades de ação política do MP deixando
agentes (promotores e procuradores do lacunas que foram cobertas pelas Leis
MP) engajados em se transformarem Orgânicas da instituição (da União,
em agentes políticos responsáveis pela Nacional e estadual) e estendendo ao
defesa da cidadania (Arantes 2002: 20). máximo os princípios constitucionais fa-
A atuação dos promotores diante voráveis ao Ministério Público (Arantes
da formulação da Constituição de 1988 2002: 25). Instrumentos como o inqué-
pressupunha uma leitura pessimista da rito civil público e a Lei da Ação Civil
sociedade civil, isto é, de que a popu- Pública (LACP) representam estes avan-
lação seria incapaz de uma mobilização ços em favor da instituição – ainda que
política frente o Estado na exigência de este último tenha ocorrido já em 1985.
garantia de seus direitos (hipossuficiên- É a partir da promulgação da Lei da
função do MP III - promover o inquérito civil e a ação civil
Ação Civil Pública (Lei n. 7.347/1985)4
pública, para a proteção do patrimônio público e social, do 4 Segundo Arantes (1999, 2012), ainda que a LACP seja pro-
meio ambiente e de outros interesses difusos e coletivos. mulgada em 1985, a função do MP de promover a Ação Civil
Pública já aparece no texto da Lei Complementar n. 40, de
3 O poderoso lobby do MP brasileiro encontrou resultados dezembro de 1981 que dá nova organização nacional para
no texto Constitucional de 1988 que garantiu um estatuto a instituição e, antes disso em 1973 com o Código do Pro-
de autonomia funcional e administrativa para a instituição cesso Civil que autoriza o MP a intervir nos casos em que
(Arantes 2002). o interesse público estivesse presente. Arantes (2012) ainda

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SILVEIRA, Treicy Giovanella Da

que ao MP é atribuída a função de defe- Como direito social e de expressão


sa dos direitos difusos e coletivos carac- social, a atuação da instituição na de-
terizada principalmente por conflitos fesa do direito à educação é demarcada
sociais coletivos (como meio ambiente, diretamente pela CF/1988 no seu artigo
educação, saúde, eleições, consumidor, 129 que trata das funções institucionais
povos indígenas, entre outras). do MP: III - promover o inquérito civil
A função do MP de defesa dos in- e a ação civil pública, para a proteção do
teresses difusos, coletivos e individuais patrimônio público e social, e d e outros
homogêneos tem como questão base a interesses difusos e coletivos. Para tan-
expressão social de tal direito/interesse. to, o MP trabalha com procedimentos
Segundo Mazzilli (2008: 108) judiciais e extrajudiciais.
O inquérito civil público é um pro-
Deve-se levar em conta, em cedimento administrativo que permi-
concreto, a efetiva conveniência te exclusivamente ao MP investigar e
social da atuação do Ministério coletar informações que lhe sirvam de
Público em defesa de interesses base para a proposição de uma Ação
transindividuais. Essa conve- Civil Pública, além de permitir que
niência social em que sobre- se intensifique a busca por solução de
venha atuação do Ministério conflito de forma extrajudicial. Estes
Público deve ser afetada em instrumentos são poderosos na medida
concreto a partir de critérios em que possibilitam a instituição cole-
como estes: a) conforme a natu- tar provas e informações que compõem
reza do dano (p. ex., saúde, se- os laudos dos processos que o próprio
gurança e educação públicas); MP preside. Sobre a criação da lei da
b) conforme a dispersão dos le- Ação civil Pública, Streck (1999) afir-
sados (a abrangência social do ma que ela só passou a existir porque no
dano, sob o aspecto dos sujeitos contrato social – do qual a Constituição
atingidos); c) conforme o inte- é a explicitação – há uma confissão de
resse social no funcionamento que as promessas da realização da fun-
de um sistema econômico, so- ção social do Estado não foram (ainda)
cial ou jurídico (previdência so- cumpridas (Streck 1999: 37). Ainda as-
cial, captação de poupança po- sim, um possível pacto de garantias so-
pular, questões tributárias etc.) ciais do Estado Democrático de Direito
continua em descumprimento mesmo
acrescenta que a definição de MP na lei de 1981 é a mesma após o avanço da LACP.
que remanesceu na Carta de 1988. A única diferença é que o
texto de 1988 acrescentou a expressão “defesa do regime de-
A instituição trabalha com proce-
mocrático”, algo que seria insólito no regime anterior. (s/ p.) dimentos judiciais e extrajudiciais de
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A AFIRMAÇÃO DO PERSONALISMO JURÍDICO NA JUDICIALIZAÇÃO DA EDUCAÇÃO EM FLORIANÓPOLIS

ação. Segundo o Manual da Taxonomia ambiente e da saúde. Mas é somente em


do MP Nacional que apresenta e instrui 2013 que o Conselho Nacional de Pro-
os promotores acerca da forma como curadores-Gerais (CNPG), por meio da
devem ser tratadas as demandas que Comissão Permanente de Educação des-
chegam as promotorias: te órgão, faz uma recomendação de que
os MPs dos estados criem promotorias
As demandas recebidas pelo especializadas em educação5. Já no ano
Ministério Público, como aque- seguinte, em 2014, surge o projeto nacio-
las oriundas de atendimento de nal de defesa da educação pelo MP6.
pessoas, documentos ou repre- Considerando que o MP assume o
sentações recebidas, notícias de papel de defensor dos direitos coletivos
jornais etc, deverão ser cadas- e civis já com a Constituição de 1988
tradas como ‘Notícia de Fato’. e que a educação é colocada no Artigo
Os procedimentos destinados 4o desta Carta7 cabe o questionamento:
ao acompanhamento de fisca- por que o MP leva 25 anos para come-
lizações; de cunho permanente çar a atuar de forma mais direta, ou for-
ou não; de fatos, instituições e malizada como política institucional,
políticas públicas, assim como
outros procedimentos não su- 5 Em 2013 o Conselho Nacional de Procuradores-Gerais
(CNPG) faz uma recomendação de que todos os órgãos do
jeitos a inquérito civil, que não MP Brasileiro criem promotorias especializadas em educa-
tenham o caráter de investiga- ção, assim como de Centros de Apoio Operacional Especia-
lizados em Educação. Esta orientação do órgão superior aos
ção cível ou criminal de deter- Ministérios Públicos estaduais ainda não foi atendida em
minada pessoa; em função de todo o território nacional.
um ilícito específico; deverão 6 O projeto “Ministério Público pela educação” (MPEduc)
ser cadastrados como ‘Procedi- possui abrangência nacional e tem como objetivo efetivar
mento Administrativo’. O pro- oentre direito à educação básica a partir de uma aproximação
o Ministério Público e a realidade escolar. Atualmen-
cedimento formal, prévio ao te o projeto está presente em mais de 270 cidades, porém
Inquérito Civil, que visa apurar somente 200 municípios iniciaram a execução das ações. O
projeto funciona a partir de uma parceria entre as cidades
elementos para identificação e o Ministério Público, uma vez que se busca construir um
dos investigados ou do obje- diagnóstico das condições de funcionamento das escolas
públicas de ensino básico no país por meio de questioná-
to [...], deverá ser cadastrado rios respondidos pelas instituições escolares. Os dados dos
como ‘Procedimento Prepara- questionários eram públicos e de acesso livre pelo site do
programa até outubro de 2016.
tório’. (Ministério Público do
Estado de Rondônia 2010: 23). 7emArt. 4º: É dever da família, da comunidade, da sociedade
geral e do poder público assegurar, com absoluta prio-
ridade, a efetivação dos direitos referentes à vida, à saúde,
à alimentação, à educação, ao esporte, ao lazer, à profissio-
A partir dos anos 1990 o MP tem nalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à
uma densa atuação na defesa do meio convivência familiar e comunitária. (CF/1988)

CONFLUÊNCIAS | Revista Interdisciplinar de Sociologia e Direito. Vol. 18, nº 3, 2016. pp. 77-101 97
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na educação?8 Como o MP se torna um cional do MP de 2016 com dados de


agente relevante no debate e efetivação 2015, os processos voltados à educação
do direito à educação e colabora para a em Santa Catarina representam 3,6%
politização deste direito? (1.078) no total de procedimentos ins-
Para Arantes (1999: 90), o fato de a taurados na região (30.347). (CNMP
CF/1988 ter definido de forma ampla e 2016: 81). O que repete a porcentagem
genérica os direitos individuais, coleti- de casos envolvendo a educação no
vos e sociais (por exemplo o art. 6: São quadro nacional em relação ao núme-
direitos sociais a educação, a saúde, o tra- ro total de procedimentos instaurados,
balho, o lazer, a segurança, a previdência também 3,6 % (7.511 de 208.820).
social, a proteção à maternidade e à in- O levantamento feio por Lemgruber
fância, a assistência aos desamparados, (et al 2016: 24-5) afirma que o número
na forma dessa Constituição) conforma de promotorias no país que atuam espe-
tais direitos em normas programáticas cificamente na área da educação é de 29.
inseridas como uma espécie de ‘conselho’ Na lista de áreas de atuação de todas as
aos governantes, que devem perseguir promotorias a educação está em 7o lugar
esses objetivos como forma de promover e a área de defesa da infância e juventu-
o bem comum (Arantes 1999: 90). Con- de está entre as três áreas presentes em
tudo a sua atribuição de defesa como todos o MP estaduais e do DF (as outras
função institucional do MP transforma duas são criminal e meio ambiente).
um direito que dependia da vontade do Se asseverarmos que a educação está
governante para ser atingido em função próxima do rol de direitos da criança e
constituinte de ação de um órgão do do adolescente e, na medida em que
Estado. Esta transformação do “status” estes direitos compõem uma área mar-
de tal direito faz com que a sua viola- ginal e sensível em torno das diretrizes
ção seja investigada e, se constatada, co- voltadas a proteção desta população, as
brada do poder público por um órgão do posições radicalmente distintas permi-
próprio Estado numa instância não polí- tem também que esta seja uma área ain-
tica de resolução de conflitos: a instância da sensível à intervenção do MP.
judicial (Arantes 1999: 90).
A intervenção do MP no direito à A 25A PROMOTORIA DE JUSTIÇA
educação deve ser destacada. Segundo DE FLORIANÓPOLIS
os dados do anuário do Conselho Na- A 25a PJ foi criada em 2013 e tem
8 Isto não significa que o Ministério Público não atuava em
como atributos tratar dos casos envol-
educação antes de 2013, mas que é recente a demanda in- vendo o direito a educação, fundações e
terna do MP de criação de promotorias especializadas neste
atendimento assim como existem para a área de direito do
terceiro setor (Ato n. 249/2013 MPSC).
consumidor, da criança e do adolescente, por exemplo. Seu surgimento está atrelado ao movi-
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A AFIRMAÇÃO DO PERSONALISMO JURÍDICO NA JUDICIALIZAÇÃO DA EDUCAÇÃO EM FLORIANÓPOLIS

mento nacional do MP de uma tutela Infância e Juventude11. Neste banco foi


cada vez maior dos direitos voltados à possível buscar apenas os casos da 25a
infância e a adolescência e da busca pela Promotoria que envolviam o tema da
garantia do direito fundamental à edu- educação e estavam classificados pelos
cação básica, previsto pela Constituição assuntos: Ensino Fundamental e Ensi-
de 1988, como mostram as pesquisas no Médio; Educação pré-escolar; Pós-
sobre a judicialização das políticas pú- -Graduação; Ensino Superior; Direito
blicas educacionais9. A criação desta da Criança e do Adolescente. Do total
promotoria especializada em educação de 205 documentos processuais encon-
é decorrente de uma exigência de que trados apenas 43 foram disponibiliza-
os casos que envolvem um mesmo tema dos com acesso integral para a pesquisa
central sejam tratados de maneira uni- pela promotoria com a justificativa de
forme ou semelhante pelos promotores. que parte do material solicitado estava
As denúncias que chegam à pro- cadastrado de forma duplicada no sis-
motoria de educação abarcam não só a tema ou corriam em segredo de justiça.
cidade de Florianópolis, mas também Os processos analisados tratam dos
outras comarcas do estado de Santa seguintes assuntos: referentes ao “Ensi-
Catarina. Dependendo do objeto do no Fundamental e Médio” somam 25,
processo, as comarcas de fora da capital “Educação pré-escolar” 14 e dois casos
enviam o material que estava sob sua ju- do “Ensino Superior”. Já os assuntos
risdição para a 25a promotoria. Os pro- “Direito da Criança e do Adolescente”
cedimentos extrajudiciais são recorren- e “Violação aos princípios administrati-
tes na promotoria ao serem utilizados vos” têm um caso cada um.
instrumentos de resolução de conflitos Cinco processos foram encaminhados
que não encaminham os casos para o para a 25a Promotoria por outras promo-
Judiciário10. Dentre estes instrumentos torias, algumas de fora da capital do esta-
o inquérito civil é o mais utilizado (20 do, já com um longo histórico de atuação
casos) dos 43 casos analisados. de outros promotores. Deste material 20
A seleção dos dados foi feita a par- são inquéritos civis, onze procedimentos
tir da base de dados disponibilizada preparatórios, oito procedimentos admi-
pelo Centro de Apoio Operacional da 11 Segundo a Lei Orgânica Nacional do Ministério Pú-
blico (nº 8.625, de 12 de fevereiro de 1993), o Centro de
9 Silveira (2006), Oliveira (2011), Barreto (2003), Rosa (1999). Apoio Operacional tem como funções principais estimular
a integração entre os órgãos que atuem na mesma área de
10 Há um indicativo de que os casos envolvendo o Ensi- atuação, remeter informações técnico-jurídicas, sem cará-
no Básico permaneçam na promotoria e não sigam para ter vinculativo, aos órgãos ligados à sua atividade (art. II),
atendimento no judiciário. Dentre os casos encontrados na estabelecer intercâmbio permanente com entidades ou ór-
promotoria com assuntos voltados para a educação (total gãos públicos ou privados que atuem em áreas afins, para
de 163) apenas 37 foram encaminhados para o Poder Judi- obtenção de elementos técnicos especializados necessários
ciário, mas estes não foram analisados pela pesquisa. ao desempenho de suas funções (art. III).

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nistrativos e quatro notícias de fato. Al- As denúncias que chegam à 25a pro-
guns processos já foram concluídos (19), motoria da capital têm alguma diversida-
dezoito deles continuam em andamento e de de origem, mas, como se observa na
seis evoluíram para outros feitos. tabela a baixo, os processos instaurados a
Entre os 18 processos já finalizados o partir da própria promotoria são a ampla
tempo de conclusão é entre menos de um maioria. A Secretaria Municipal de Edu-
anos e até 10 anos. A grande maioria (14) cação aparece como originária de nove
é finalizada com até dois anos a partir da processos, mas foi uma única denúncia
data da denúncia. Estes processos são prin- que produziu estes processos diferentes.
cipalmente voltados à fiscalização em cre- Dentre os promovidos pela própria pro-
ches irregulares, que não possuem registro motoria somente um teve origem em de-
na Secretaria Municipal de Educação. núncia veiculada pela mídia.

Fonte: processos da 25a PJ. Elaboração da autora.

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A AFIRMAÇÃO DO PERSONALISMO JURÍDICO NA JUDICIALIZAÇÃO DA EDUCAÇÃO EM FLORIANÓPOLIS

Assim como demonstrado pela curados do RJ e de Minas Gerias que


pesquisa de Rafaela Reis Azevedo de foram entrevistados, menos da metade
Oliveira (2011), que discorre sobre a concordavam com a afirmativa de que a
atuação do MP na garantia do direito pressão dos cidadãos é que move o tra-
à educação básica no município de Juiz balho do órgão na defesa de direitos co-
de Fora, a judicialização da educação letivos da população (p. 48-9).
tem se dado não só por ações movidas Podemos levantar outra dimensão
pelo MP, mas também por Conselhos da questão com base na pesquisa nacio-
Tutelares, Defensoria Pública e outros nal de 2013 feita pelo CEBRAP a qual
operadores do direito. Em relação as afirma que, o distanciamento entre o
demandas que originam a judicializa- MP e a sociedade civil é demarcado não
ção, a pesquisa de Oliveira (2011) rei- simplesmente por um desinteresse de
tera outros trabalhos na área que des- um dos lados ou da total tutela do lado
tacam a busca por vagas na educação do MP, mas da frequente criminaliza-
infantil e no Ensino Fundamental. ção de movimentos sociais por parte
Ao mesmo tempo em que 20% das dos membros da instituição. Neste sen-
denúncias venham diretamente do tido, a interação entre a instituição e a
próprio MP corroborando com a tese sociedade civil tende a ser dependente
de Arantes (2002) acerca da atuação do pelo posicionamento político do agen-
MP pós CF/1988 ser demarcada pela te da instituição em relação ao tema em
postura tutelar e voluntarista como re- questão ou também a parceria (ou au-
flexo da percepção da sociedade civil sência dela) entre as entidades e o MP.
como hipossuficiente, na 25a PJ quase Como resumo geral dos proces-
80% das denúncias são externas à pro- sos da 25a PJ, podemos destacar que
motoria. Mas quando olhamos para as os procedimentos tratam de questões
denúncias vindas da sociedade civil de ordem da fiscalização de políticas
organizada como associação de pais e públicas, de reformas estruturais, vio-
professores (uma ocorrência), sindi- lência, gestão escolar, entre outros as-
cato dos trabalhadores em educação suntos. Os problemas educacionais,
(uma ocorrência) e grupo de alunos segundo os processos, são mapeados
(também uma ocorrência) vemos que principalmente pelos mecanismos de
o MP tutela os direitos e ainda se en- avaliação educacional nacional (IDEB)
contra distante da sociedade. e internacional (PISA) e os baixos índi-
Sobre esta distância entre o MP e ces conquistados pelo país.
a sociedade civil a pesquisa do CESeC Os processos que envolvem algum
(Lemgruber et alii 2016) traz dados tipo de agressão somam quatro, sendo
interessantes. Entre promotores e pro- dois deles denúncias de agressão por
CONFLUÊNCIAS | Revista Interdisciplinar de Sociologia e Direito. Vol. 18, nº 3, 2016. pp. 92-116 101
SILVEIRA, Treicy Giovanella Da

parte de funcionários das creches e ção. Além disso, com a trans-


os outros dois entre alunos. É comum ferência da aluna para outro
nesta promotoria, que em caso como estabelecimento de ensino e
estes de agressão, por exemplo, sejam com a entrega do Boletim Es-
acompanhados pelo MP com vistas colar supostamente retido, não
a solucionar o conflito num primei- se vislumbra a necessidade de
ro momento. Em seguida é feita uma novas diligências (princípio da
investigação sobre o regimento da es- razoabilidade). (PP 169: 30)
cola em relação ao comportamento e
disciplina exigidos dos alunos, am- O mesmo promotor que tratou des-
pliando o foco do processo. te caso também utiliza de argumentos
Estes casos de violência no espaço de Gustavo Ioschpe para delimitar o
escolar envolvem relações de agressão problema da violência escolar:
entre funcionários das creches (não
regularizadas) e crianças (dois casos); Sobre a violência nas esco-
num procedimento preparatório e num las, vai abaixo a lição de Gus-
inquérito civil que trata de agressões tavo Ioschpe:
entre alunos; além de outros dois in- “É necessário dizer que os
quéritos civis que não tratam da vio- jovens que infringem a lei e os
lência em si, mas abordam a questão na códigos de civilidade devem
justificativa de abertura. Num dos casos ser punidos. Lugar de infra-
de agressão entre dois alunos foi veri- tor não é no banco da escola,
ficado que por falta de medicamento mas em centros de reclusão. É
para o tratamento psicológico a agres- óbvio também que há jovens
sividade de um dos alunos aumentava e desajustados, e também que a
ele se envolvia em conflitos. Houve uma convivência em um entorno de
situação de denúncia de bullying come- violência e a degradação so-
tido por uma professora contra sua alu- cial favorece a criminalidade.
na que não foi tratado como violência, É igualmente certo que todos
mas como um comentário inoportuno os professores e funcionários do
feito em momento descontraído sem a Estado devem ser protegidos da
intenção de agredir a estudante: violência pela polícia - em seu
local de trabalho e fora dele
[...] embora reprováveis os como qualquer cidadão.” (O
fatos, tudo leva a crer que o que o Brasil quer ser quando
lamentável episódio ocorreu crescer? Editora Paralela, 2012,
num ambiente de descontra- p. 72). (IC 199:18-9)
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A AFIRMAÇÃO DO PERSONALISMO JURÍDICO NA JUDICIALIZAÇÃO DA EDUCAÇÃO EM FLORIANÓPOLIS

O combate à violência nas escolas que baixa, que a população poderia


é defendido em outros processos com ter em relação a instituição. Ou, como
base em uma das metas do Plano Na- afirma a pesquisa de Lemgruber (et
cional de Educação12, no qual [...] Uma alii 2016: 27-8) a autonomia do órgão
das estratégias (a 14ª) pretende ‘Garantir em relação aos outros poderes confere
políticas de combate à violência na escola uma “sensação” de autonomia funcio-
e construção de uma cultura de paz e um nal de seus próprios membros em rela-
ambiente escolar dotado de segurança ção às suas atividades-fim.
para a comunidade escolar’. (IC 105: 4). Além da autonomia a própria estru-
As diferentes fontes de referências para tura organizacional do MP contribui
a justificativa de abertura e encerramen- para a politização da instituição. Como
to dos processos, como nestes casos de demonstra Arantes (1999), ao lado das
violência, demonstram uma arbitrarie- atribuições de funções que o MP ad-
dade atrelada a agência dos promotores quire com a CF/1988, promotores e
e sua tendência ao personalismo. procuradores são instituídos de prerro-
Esta noção parece levantar um pro- gativas de autonomia e independência
blema de accountability, isto é, de res- no exercício de suas funções, além da
ponsividade e uma espécie de presta- irredutibilidade de vencimentos que se
ção de contas com a sociedade. Ora, se assemelham as encontradas no Judiciá-
a defesa de tais direitos se pauta menos rio. Esta organização mais autônoma
numa política padrão da instituição e da função permite aos promotores e
mais na individualização dos casos há procuradores que, principalmente nos
problemas de descontinuidades das conflitos de dimensão social e política,
ações quando os processos mudam de não sofram interferências externas ao
promotoria ou mesmo quando ocor- seu trabalho, seja da própria instituição
re a mudança de promotor dentro de ou da sociedade civil.
uma mesma promotoria. Para além disto, Arantes (1999) che-
A individualização das ações e falta ga a afirmar com base em Mazzilli que
de padronização por parte da institui- os princípios de autonomia e indepen-
ção influi num problema de quebra de dência que recaem não só sobre o MP
expectativa ou previsibilidade, ainda como instituição, mas também sobre os
12 O Plano Nacional de Educação (MEC) define as estra-
promotores e procuradores garantem
tégias e metas das políticas nacionais de educação durante que seja pouco profícua a afirmação so-
10 anos. As metas incluem a garantia de acesso a educação
básica, a redução das desigualdades, valorização da diversi-
bre a existência de uma hierarquia in-
dade e dos profissionais de educação. As últimas metas do terna da instituição, isto é, ela ocorre no
Plano estão voltadas à educação no Ensino Superior. Para
mais informações sobre o PNE, ver: http://pne.mec.gov.br/
sentido administrativo sem reverberar
Acesso em: dezembro de 2016. a esfera funcional de seus agentes.
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Não são raros os processos que tem municipais de educação (p. 3). Também
uma transição para outro modelo de estão presentes no Plano a função de
acompanhamento do MP pelo térmi- fiscalizar a aplicação dos recursos do
no do período permitido em lei para Fundo de Manutenção e Desenvolvi-
decorrer o tipo de mecanismo jurídico mento da Educação Básica (FUNDEB)
de ação. À troca de promotor se asso- e o cumprimento dos planos nacional,
ciam as mudanças de alguns processos estaduais e municipais de educação.
de Procedimento Preparatório para In- O mapeamento das violações do di-
quérito Civil, ou a prorrogação de pra- reito à educação nestes casos se dá de
zo para o término de Inquérito Civil. O forma proativa. Não é possível traçar
que significa dizer que as alterações de um paralelo direto com os tipos ideais
abordagem não estão necessariamen- de promotores (promotor de fatos e pro-
te associadas ao investimento de uma motor de gabinete) construídos por Cátia
investigação mais profunda do caso, Aida Silva (2001), uma vez que a partir
mas, também, à própria dinâmica de do contexto de pesquisa da autora surge
demandas da promotoria. como uma das características marcan-
São sete os processos que possuem tes de diferenciação entre as formas de
um caráter de maior abrangência e tem atuação a preferência pelo uso de ferra-
o objetivo de cumprir com as metas do mentas extrajudiciais (como o inquérito
Plano Nacional de Atuação do MP na civil ou outros procedimentos adminis-
Defesa do Direito à Educação (CNPG trativos que não levam a demanda ao
s/ ano). O Plano possui vinte diretri- juiz) ou pelo maior uso de ferramentas
zes que devem ser atendidas pelos MPs judiciais. Segundo a autora,
dos estados por meio, quando ocorrer,
de suas promotorias especializadas em O promotor de gabinete não
educação. Entre as metas estão a fisca- usa os procedimentos extraju-
lização dos sistemas federal, estadual e diciais como meios de negocia-
municipal de ensino zelando pelo res- ção, articulação e mobilização
peito ao princípio da igualdade de condi- de organismos governamentais
ções para acesso e permanência na escola e não-governamentais. Já o
(p. 3); o controle pela manutenção da promotor de fatos, conquanto
gestão democrática do ensino público proponha medidas judiciais e
fiscalizando o funcionamento dos conse- realize atividades burocráticas
lhos de controle social da educação, bem ligadas às suas áreas, dá tanta
como observando a composição paritária ou mais importância ao uso de
e com efetiva representação da sociedade procedimentos extrajudiciais,
civil nos conselhos nacional, estaduais e mobilizando recursos da comu-
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A AFIRMAÇÃO DO PERSONALISMO JURÍDICO NA JUDICIALIZAÇÃO DA EDUCAÇÃO EM FLORIANÓPOLIS

nidade, acionando organismos não tem como proposta a criação de no-


governamentais e não-gover- vos tipos ideais alternativos aos de Silva
namentais e agindo como arti- (2001a e 2001b), mas definem de forma
culador político. (2001b:135) mais adequada a realidade da 25a PJ.
É possível que aquele Plano Nacio-
Todos os processos analisados pela nal de atuação do MP seja visto como
pesquisa na 25a PJ são extrajudiciais e, uma tentativa de padronização das ati-
por isso, tal diferenciação de tipos ideias vidades da instituição, mas se conside-
de atuação não seja tão proveitosa, mas rarmos que tais metas são anunciadas
podemos afirmar que ao implemen- nas justificativas de abertura e de en-
tar procedimentos de investigação que ceramento de processos pelos diversos
busquem levantar o estado da educação promotores, mas com finalidades dife-
em Santa Catarina (como um daqueles rentes, será necessário afirmar que ain-
que buscam cumprir as metas do Plano da estamos longe de uma atuação insti-
mencionado a cima) há, inspirada em tucional do MP em defesa da educação
Silva (2001a e 2001b), tipos de ativida- ao passo que não se distanciam das ati-
de que se diferenciam. São atividades da vidades individualistas.
promotoria que buscam antecipar de-
núncias sobre problemas de estrutura fí- CARACTERÍSTICAS DA JUDI-
sica das escolas ou de má administração, CIALIZAÇÃO DA EDUCAÇÃO
atuando como fiscal e, possivelmente, EM FLORIANÓPOLIS
propondo ações por parte do poder pú- A judicialização da educação por
blico para melhoria destes espaços os meio da 25a Promotoria de Florianópo-
processos que buscam cumprir as metas lis segue um movimento de privilégio
do Plano Nacional de Atuação do MP da fase “pré-processual”, isto é, extra-
na Defesa do Direito à Educação. Já os judicial ao trabalhar de forma inten-
processos “reativos” seriam aqueles que sa com procedimentos preparatórios,
tratam de denúncias externas ao Minis- administrativos e inquéritos civis. Em
tério Púbico e à promotoria. alguns casos, a lentidão do método de
A diferenciação entre uma atitude trabalho do Judiciário foi repetida pela
“proativa”, que parte do princípio de fis- promotoria configurando na perda do
calização e acompanhamento do direito objeto e no distanciamento da proposta
à educação que antecipa a denúncia e se de aproximação do MP a educação, re-
assemelha a uma atividade de tutela do petindo o que faz o Judiciário.
cidadão e, a atitude “reativa”, que parte No inquérito civil que trata da
da denúncia para então verificar e inves- exigência de divulgação das notas do
tigar a violação do direito à educação, IDEB a Secretaria do Estado de Educa-
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ção foi questionada sobre a não divul- reito do consumidor, por exemplo, em
gação nas escolas primeiro por meio do que há campanhas para a conscientiza-
Ministério Público Federal (através da ção de seus direitos para a população, a
Procuradoria Regional dos Direitos do área dos direitos da infância e do ado-
Cidadão), em resposta a SED afirmou lescente e, por conseguinte da educação
que o próprio MEC indica que não se é profundamente afetada por posicio-
publique as notas nas escolas de for- namentos políticos distintos, e por en-
ma descontextualizadas para que não tendimentos diametralmente opostos
sejam criadas situações vexatórias ou acerca das funções da escola e da edu-
depreciativas tanto das escolas quanto cação. Ou seja, podemos demarcar uma
de seus alunos. O caso foi encaminha- relação pedagógica assimétrica entre as
do para a 25a promotoria que exigiu duas “instituições”. Por assumirem po-
as mesmas respostas da Secretaria por sições hierárquicas distintas na socie-
mais de uma vez até que o MP enten- dade, esta relação de aprendizagem não
desse as determinações do MEC. acontece de modo equivalente entre o
Como podemos observar no trecho contexto escolar e o MP.
a seguir, o promotor assume o posicio- Quando a escola ensina ao MP
namento da Secretaria de Educação e sobre sua própria forma de funciona-
aborda a exigência de divulgação do ín- mento – como num caso em que após
dice em termos distintos daqueles exi- vários pedidos do MP para que as es-
gidos no início do procedimento (que colas colassem os resultados do IDEB
era de rígida cobrança de cumprimento em cartazes, a Secretaria de Educação
das determinações de divulgação): [...] afirmou (repetidas vezes) que é con-
o índice, calculado com base nas notas senso nacional do MEC de que tais da-
dos alunos, pode e deve ser usado e de- dos não sejam publicados desta foram
batido internamente pelos professores, para que não hajam possíveis situações
pelos alunos e até mesmo pela comuni- vexatórias tanto da escola quanto entre
dade, mas nunca para mobilizar o cons- os alunos da escola – há um indicativo
trangimento. (IC 179: 102). de que isto aconteça por dois motivos.
Outra faceta da judicialização é a A defesa da educação pela instituição
função pedagógica que se estabelece de forma especializada, isto é, por meio
entre o MP e a escola. No caso anterior, de promotorias específicas, ainda é re-
por exemplo o MP passa a enxergar a cente, por isso falta conhecimento es-
divulgação dos índices do IDEB atra- pecífico e profissional sobre a realida-
vés dos códigos do mundo escolar, ao de escolar, o que demandaria inclusive
qual a própria Secretaria de Educação que a promotoria buscasse consulto-
faz parte. Mas, diferente da área do di- rias fora do âmbito jurídico fornecido
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A AFIRMAÇÃO DO PERSONALISMO JURÍDICO NA JUDICIALIZAÇÃO DA EDUCAÇÃO EM FLORIANÓPOLIS

pelo Centro de Apoio Operacional de na instituição é possível a candidatura


Infância e juventude. Atrelado a isto, a a uma comarca maior, geralmente si-
trajetória profissional dos promotores tuada na região metropolitana poden-
que atuaram na 25a PJ entre 2013 (ano do assim o (a) promotor (a) se espe-
de criação) até 2016 (data da pesquisa) cializar numa área especial de atuação
é muito diversa, o que caracteriza um (Lemgruber et alii 2016: 131).
conhecimento pouco especializado em Dada esta configuração os Centros
educação. Entre os 6 promotores13 que de Apoio Operacional são fundamen-
estiveram a frente da promotoria desde tais para auxiliar os promotores nas
sua criação há trajetórias laborais nas suas demandas, pois possuem uma
áreas de: direito penal, justiça criminal, equipe voltada para fazer uma aproxi-
saúde e fazenda pública.14 mação entre as promotorias que traba-
A dinâmica das carreiras dentro do lham com demandas próximas, assim
MP15 não prevê que seja necessário um co- como, seus profissionais fazem estudos
nhecimento ou formação específica para legislativos mais profundos sobre os ob-
atuação em promotorias especializadas. jetos dos processos, quando solicitados.
No início da carreira os promoto- A ausência de informações e co-
res atuam no que chama de “clínica ge- nhecimentos produzidos por pesquisas
ral”, ou seja, atendem vários casos sem acadêmicas sobre o sistema educacional
especialidade em nenhuma área. Se brasileiro nos fornece pistas sobre o re-
houve vaga para remoção após alguns gime de verdades que opera nestas fa-
anos, o (a) promotor (a) pode passar las. Tanto é vasta a produção científica
para comarcas maiores, isto é, com sobre o campo escolar no Brasil que, se-
mais de uma vara (onde é possível um gundo o levantamento de Daros (2016),
trabalho com maior especialidade e
menor abrangência temática). Em tor- A Comissão de Periódicos
no de 10 anos depois de seu ingresso da ANPED identificou, no biê-
13 Este número foi obtido através da leitura integral dos nio 2006-2007, a existência de
43 processos e da observação acerca dos promotores que 746 periódicos em que se pu-
assinavam cada um dos procedimentos.
blicaram ensaios e pesquisas
14 Os dados informados sobre as carreiras e áreas de atuação de professores e alunos da pós-
dos promotores foram retirados de sites que possuem um pe-
queno resumo profissional como Escavador, Plataforma La-
-graduação. Desses periódicos,
ttes, LinkedIn e notícias de divulgação de promoção de car- 190 eram da área da educação
reira dos promotores no próprio site do Ministério Público.
(ZAKIA; BIANCHETTI, 2007,
15 Para ingressar na carreira de promotor no Ministério p. 396). No ano de 2013, havia,
Público é necessário bacharelado em direito, três anos
de experiência prévia em atividades jurídicas e submis-
na região sul, na área de edu-
são a prova de títulos e conteúdo. cação, 32 cursos de mestrado
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acadêmico, 16 cursos de dou- Conselho Nacional de Justiça o autor


torado e 4 cursos de mestrado indaga acerca do ponto de equilíbrio
profissional e mais de 40 re- possível, grande desafio do órgão, entre
vistas vinculadas a programas independência e accountability. Guar-
de pós-graduação. (STRECK, dadas as devidas proporções, o desafio
2015, p. 264). (Daros 2016: 19) pode ser colocado ao MP nos termos
em que não somente a atividade insti-
A despeito de toda esta produção tucional enfrenta resistências nas ati-
acadêmica que versa sobre educação vidades individuais, ou seja, problema
nos seus mais variados aspectos, o da independência levada aos meios de
discurso sobre a escola e a educação é organização interna da instituição, mas
afirmado por uma mescla de concep- a população é impedida de expectativas
ções jurídicas (o que é previsto em lei) com alguma previsibilidade em relação
e informações de origem midiática. Já a atuação da instituição, outros termos
quando se referem a estudos empíri- para a necessidade de accountability.
cos sobre a educação, são os sistemas A distância entre o MP e a socieda-
de valores cooptados pelo regime de de pode ocorrer pelo perfil dos agentes
mercado que são utilizados como pa- que ocupam os cargos de promotores e
râmetros pelos formatos de avaliação procuradores, ou seja, de uma seleção
do ensino. Não se descarta a capacida- de pessoal que tende repetir os parâ-
de de absorção de pautas políticas por metros meritocráticos de exclusão de
aqueles que lidam com a educação no uma parcela da população. A pesquisa
direito – compreendido pela ideia per- de Lemgruber (et alii 2016) aponta para
sonalista de atuação – uma vez que, no a elitização da profissão uma vez que
caso do MP, seus agentes ainda fazem as exigências de três anos de experiên-
pouco uso do conhecimento especiali- cia prévia na área jurídica e sucesso nas
zado produzido pelo assunto. provas de títulos e conteúdo constitui
A quem os promotores do MP res- forte barreira à entrada de pessoas oriun-
pondem na defesa da educação? Trata-se das de segmentos menos favorecidos da
de uma autuação judicial independente população (p. 15). E, para além disso,
sem pautas externas ao texto da lei ou
a judicialização da educação permite o Essa elitização é perceptível,
crescimento da politização da justiça de por exemplo, na alta escolari-
direito à educação. Façamos este ques- dade da geração precedente à
tionamento à luz de Roberto Fragole dos promotores e procuradores
Filho (2013). Ao estudar o debate sobre entrevistados, cujos pais, em
a reforma do Judiciário e a criação do 60% dos casos, e cujas mães, em
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A AFIRMAÇÃO DO PERSONALISMO JURÍDICO NA JUDICIALIZAÇÃO DA EDUCAÇÃO EM FLORIANÓPOLIS

47%, haviam completado curso suas metas. Ainda tínhamos em


superior. No conjunto da popu- torno de 14 milhões de analfa-
lação brasileira com 50 anos ou betos (IBGE 2010). A meta 9 do
mais de idade – faixa em que novo Plano Nacional de Edu-
provavelmente se situa a maior cação pretende elevar a taxa de
parte dos genitores dos entrevis- alfabetização da população com
tados –, a proporção de homens 15 anos ou mais para 93,5% até
e mulheres com formação supe- 2015 e erradicar a taxa de alfa-
rior gira em torno de 9% (p. 15) betização da população com 15
anos ou mais para reduzir em
Os textos de abertura e encerra- 50% a taxa de analfabetismo
mento de cada procedimento possuem funcional. (IC 105)
uma gama de elementos textuais que
tem como objetivo fundamentar a ins- Neste processo é utilizada como refe-
tauração de uma investigação sobre o rência uma reportagem da revista Época
objeto apreciado na denúncia. Ao mes- sobre o ranking de educação construí-
mo tempo em que apresentam o objeto, do pelo PISA – Programa Internacio-
também trazem informações sobre a si- nal de Avaliação de Estudantes criado
tuação da educação no país. pela Organização para a Cooperação e
Entre as principais referencias nes-Desenvolvimento Econômico (OCDE)
tes elementos dos processos que versam em 1997. O programa busca avaliar o
sobre educação estão dados sobre os conhecimento adquirido por alunos de
rankings nacionais e internacionais de 15 anos para o que chamam de conhe-
educação como IDEB, ENEM e PISA. cimentos e habilidades essenciais para
Ao menos quatro inquéritos civis fazem a completa participação na sociedade
uso destes dados para a fim de afirmar moderna16 por meio de uma avaliação
sua atuação nos casos denunciados. trienal em três áreas de conhecimento:
Como podemos observar a seguir: ciências, leitura e matemática.
Estas informações contribuem para a
Considerando a baixa mé- contextualização do objeto, mas também
dia nacional do Índice de De- revelam a origem dos dados que o pro-
senvolvimento da Educação motor responsável pelo processo está se
Básica (IDEB), que é de 4,2 pautando, além do arcabouço jurídico,
numa escala que vai de 0 a 10. para tratar da denuncia. Entre as refe-
O Plano Nacional de Educação
(PNE) Lei n. 10.172/2000, com 16 Fonte: http://download.inep.gov.br/acoes_internacio-
nais/pisa/resultados/2015/pisa2015_completo_final_bai-
vigência até 2010, não atingiu xa.pdf Acesso em: dezembro de 2016.
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rências utilizadas da mídia há o editorial discurso emanado dali, que se contrapõe


da Folha de São Paulo e Revista Veja. ao fundamento de abertura, intensifica
Há uma mudança de abordagem o elemento político que dispõe sobre a
considerável a partir de meados de promotoria e, por conseguinte, o MP.
2014 na mudança de gestão da promo- Esta relação direta entre o enten-
toria. A característica do personalismo dimento de educação do promotor e a
de atuação da instituição fica marca- sua atuação, reitera a afirmativa de que
da com esta mudança de trabalho da não só os direitos da infância e adoles-
promotoria uma vez que, por exemplo, cência são confrontados com diferen-
um processo que tinha como objetivo tes entendimentos e posicionamentos
investigar o “patrulhamento ideológi- políticos, mas também os direitos que
co” nas escolas é arquivado quando da envolvem a educação são balizados e
mudança de promotor. No documento mediados muito mais por dissensos do
de arquivamento, o texto atenta para o que por consensos. Nos termos de Sil-
fato de que o IC se ampliou para além va (2001b: 127), o estilo de atuação dos
das capacidades de sua atuação e em promotores que fazem uso de procedi-
seguida alertou para o problema da va- mentos extrajudiciais
gueza e indeterminação das expressões
‘ideologização’, ‘politização’ e doutri- [...] possui contornos flui-
nação’, que tal qual as palavras ‘ideolo- dos, uma vez que, entre as
gia’, política’ e ‘doutrina’ podem assumir atribuições constitucionais e
inúmeros significados, não raras vezes a letra da lei [...], o promotor
antagônicos (PP 169: 895). de justiça tem um significativo
Diferente da justificativa de abertu- espaço para definir suas prio-
ra que se cita o movimento “Escola sem ridades e criar métodos de tra-
Partido” além de trechos do livro “O balho. Neste espaço vão operar
que o Brasil quer ser quando crescer” de vários elementos, como suas
Gustavo Ioschpe, no encerramento são convicções, experiências ad-
citados apenas autores da área do direito, vindas das diferentes áreas de
além dos artigos da CF/1988 e das deter- especialização e escolhas feitas
minações da Lei de Diretrizes e Bases da durante a carreira.
Educação Nacional de 1996. A fluidez
com que a promotoria se porta diante As afirmações sobre a escola nes-
de uma demanda como esta demonstra tes processos demonstram uma defesa
a relação estreita entre o agente que as- da educação por meio do direito como
sume o cargo de promotor e os encami- prática e técnica sem deixar de cons-
nhamentos que dá para as demandas. O truir visões com distintas referências.
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Os olhares lançados para a educação A prática que revela a atuação indi-


têm a propriedade de separar e circuns- vidualista dos juízes do Supremo ajuda
crever os conflitos aos agentes envolvi- a compreender que a atuação menos
dos sem apresentar de forma contextual colegiada e mais “ilhada” demarca a
a educação como resultado de um con- Justiça no país em suas várias instân-
junto de fatores e de agentes engajados. cias ao assumir o peso do agente ora em
Se for possível pensarmos nos fins destaque na mediação de determinado
da educação para a promotoria consi- conflito. Isto confere um caráter ain-
derando o personalismo institucional, da mais político às decisões de justiça
podemos afirmar que ela se associa e uma faceta da própria judicialização
tanto à uma racionalidade de lógica também encontrada na promotoria es-
econômica, a defesa de uma educação tudada, a falta de unidade. Prevalecem
conservadora – ao se alinhar ao discur- os posicionamentos pessoais e indivi-
so do movimento da “Escola sem Parti- duais sobre a unidade institucional le-
do” – quanto aos preceitos técnicos de vando a defesa da educação à marca de
defesa da educação são desenvolvidos uma politização do debate.
e aprimorados no contato direto com Sob outro aspecto do mesmo fenô-
o contexto escolar na medida em que a meno, a recente atuação na defesa do
promotoria aprende sobre ele. direito a educação17 pressupõe não só a
A característica do personalismo falta de conhecimento técnico na área,
em outras instâncias da justiça é ense- mas também da própria realidade edu-
jada por posicionamentos tomados no cacional no que tange os problemas em
próprio Supremo Tribunal Federal: disputa. Estes problemas podem ser o
acesso universal ao ensino que implica
Em vez de levar suas teses a necessidade de a escola lidar com as
para disputa com o voto de seus distintas realidades de seus alunos que
colegas, no confronto democrati- são mobilizadas no cotidiano escolar.
camente controlado do colegia- Não há consenso sobre a necessidade
do, o ministro ganha pelo con- de a escola homogeneizar o ensino e/ou
trole individual do destino dos os próprios alunos, assim como não há
autos. Apropriação individual consensos sobre os sistemas de avalia-
de um poder institucional. [...]. ção escolar como o IDEB e o PISA. Os
Uma desinstitucionalização do índices de avaliação do sistema escolar
Supremo como instituição co- do país, que, atrelados a rankings e pa-
legiada, é um perigoso exemplo
para as instâncias inferiores. 17 Considero recente não a promulgação de função de de-
fesa da educação pelo MP de 1988, mas a criação de promo-
(Falcão, et al 2017: 20-4) torias especializadas assim como

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râmetros internacionais de educação cia do papel e da função do promotor se


ensejam um diagnóstico do contexto es- intensifica ao contribuir de forma decisi-
colar assumem um olhar objetivado das va para a defesa da educação.
avaliações e notas e desconsideram os A promotoria como parte consti-
contextos sociais e históricos de cada lu- tuinte do MP, se encontra no lugar in-
gar que compõem e explicam tais notas. termediário entre o Estado e sociedade
As prerrogativas de defesa dos direi- civil permitindo que indique as respos-
tos fundamentais e da democracia cedi- tas das demandas que chegam até ela.
dos ao MP permitem que as relações de A autoridade e legitimidade adquirida
força personalista se destaquem, ou que pela instituição permitem que estas “es-
sejam acirrados os aspectos constitutivos colhas” sejam feitas, como no caso da
de classe e de origem de seus promoto- escola paralisada por decisão da comu-
res; e que, sendo assim, a forma como a nidade escolar. Desta forma, a promoto-
educação é defendida pelo MP, esteja in- ria parece reproduzir o posicionamento
trinsecamente ligada a práticas profissio- em relação à sociedade civil, como afir-
nais individuais. Ainda que no decorrer mado por Arantes (2002) de uma socie-
do tempo a instituição vá se consolidan- dade civil hipossuficiente. Ela retira o
do através da implementação de pro- protagonismo dos agentes escolares na
gramas de acompanhamento tanto da defesa da educação para traçar a “edu-
frequência escolar (APOIA – Programa cação democrática” com seus próprios
de Combate a Evasão Escolar promovi- limites. Como autoridade, define a re-
do pelo Centro de Apoio Operacional levância jurídica dos objetos e confron-
da Infância e Juventude) quanto no pro- ta as partes como mediador. Cumpre
tagonismo de fiscalização de políticas a função de desafogar o judiciário ao
educacionais orçamentárias, de acesso inquirir os agentes, chamando-os para
ou das inspeções estruturais a decisão prestar esclarecimentos na promotoria,
acerca do objeto com maior ou menor fazendo uso do poder simbólico18 de
relevância para ser atendido pelo MP fala e institucional para exigir determi-
ainda decorre de uma tarefa individual nados posicionamentos e ações. Ainda
do promotor. Como afirmado por Cátia que se distancie do poder do juiz de
Aida Silva (2001: 110), por mais regula- sentenciar, o promotor adquire práticas
mentados que interesses metaindividuais que colaboram com a “obediência” da-
e direitos dos cidadãos estejam na legisla- queles questionados na medida em que
ção, a decisão sobre a maior ou menor re- reconhecem o poder do MP.
levância dos interesses a serem defendidos 18 Segundo Bourdieu (1989: 8), o poder simbólico é, com
efeito, esse poder invisível o qual só pode ser exercido com
será tarefa dos promotores de justiça em a cumplicidade daqueles que não querem saber que lhe es-
cada situação correta. Ou seja, a relevân- tão sujeitos ou mesmo que o exercem.

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A AFIRMAÇÃO DO PERSONALISMO JURÍDICO NA JUDICIALIZAÇÃO DA EDUCAÇÃO EM FLORIANÓPOLIS

A incidência da instituição no con- seu quadro de funcionários colabora


texto escolar frisa possibilidades am- para a politização e para a dissociação
bíguas de uma educação a serviço de da instituição em relação a sociedade.
lógicas externas à educação e próprias A partir de uma pesquisa empírica
às relações de mercado, ou ainda, de na 25a PJ de Florianópolis de que forma
reafirmação da potência de uma edu- a defesa da educação é operacionalizada,
cação de elite, no sentido de rearticular assim como os princípios de atuação que
as práticas e demandas das escolas às delineiam as práticas dos promotores.
relações de dominação. O fenômeno da judicialização das
A defesa da educação pública e gra- relações sociais entendido como uma
tuita ainda é um tema pouco presente na ampliação do formato jurídico de re-
promotoria. Se os promotores passam solução de conflitos adquire novos for-
para defensores da cidadania por meio matos com a atuação do MP e coloca
da promulgação do MP como defensor a defesa de direitos sociais constitucio-
da Constituição eles também constroem nais sob sua própria perspectiva. Este
uma cidadania a seu modo no sentido crescimento institucional do MP por
de delinear os problemas concernentes via da judicialização reforça práticas
a democracia e a garantia de direitos. É judiciais sob nova roupagem, e reafir-
possível que se evidencie cada vez mais ma o saber do direito sobre a socieda-
o poder da instituição transformado em de. O estudo da judicialização da edu-
ações particulares de um engajamen- cação em Florianópolis permitiu que
to personalista. Não se trata, então, de se levantassem alguns fatores tanto de
observar os avanços democráticos des- aspectos institucionais sobre a orga-
conexos de suas práticas de garantia de nização do MP enquanto estrutura de
direitos. As garantias constitucionais de poder, quanto aspectos mais próximos
direito a educação fazem parte do plano da agência no que tange as diferentes
de ordem política de agenda do país e, formas de atuação e engajamentos nos
por isso, estão tão vulneráveis às maze- casos. O que está em jogo é a falta de
las da judicialização. conformidade com o princípio de uni-
cidade do modelo estrutural do MP.
CONSIDERAÇÕES FINAIS O aparente efeito democrático da
O “cheque em branco” fornecido judicialização das relações sociais para
para o MP a partir da CF/1988 outorga conquista de direitos pode justificar a
aquilo que em grande medida define a presença do MP para a resolução de
instituição: o individualismo de atuação. conflitos, mas pode não suprimir o
A falta de padronização da atividade fim problema do personalismo presente na
dos promotores ao lado da elitização de instituição, assim como subtrair a rela-
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tiva autonomia e agência da sociedade desgaste das instituições que devem


num modo amplo e das instituições es- responder por algo que já cumprem.
colares no caso desta pesquisa. Embora a judicialização da educa-
O grau de autonomia previsto para ção, a partir da perspectiva dos traba-
o MP faz com que sua definição como lhos feitos na área da educação – Silveira
uma instituição jurídica careça de mais (2006), Oliveira (2011), Barreto (2003),
precisão para pensarmos a sua atuação Rosa (1999) –, seja afirmada como um
na educação. A instituição possui sua importante passo para a democracia no
técnica voltada para a forma do direito país, pois, aproxima o MP da sociedade,
que afirma seus limites de ação e inter- e pela ampliação de acesso entre aqueles
venção nos conflitos. Estabelece, sem o que são menos assistidos juridicamen-
poder e prerrogativa de juiz, mas, com te, é necessário ressaltar que existe uma
o poder simbólico legitimado institu- questão fundamental a ser discutida: a
cionalmente, quais serão os mecanis- elitização da carreira. Silva (2001a) in-
mos utilizados para suprir as deman- dica que o formato de organização da
das que lhe são investidas. carreira dentro do MP aumenta o dis-
A autoridade simbólica do MP per- tanciamento em relação a população
mite que sua arbitragem seja feita não na medida em que o profissional avan-
só por uma instrumentalidade técni- ça na instituição. A possível imersão na
ca do conhecimento jurídico sobre a realidade durante a “clínica geral” se
educação, mas também faz uso de um perde e, mais do que isso, é fortalecido
arcabouço de fundamento moral sobre o afastamento da instituição da popu-
a escola e a educação. Sua função de lação mais pobre e vulnerável.
mediador como discurso de autoridade
entre as partes em conflito não se dis- REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
tancia amplamente do modelo jurídico ARANTES, Rogério Bastos. Minis-
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116 CONFLUÊNCIAS | Revista Interdisciplinar de Sociologia e Direito. Vol. 18, nº 3, 2016. pp. 92-116
Artigo
RIBEIRO, Vítor Eduardo Alessandri

CONFLUÊNCIAS
“UMA BRIGA CORPORATIVA”DENTRO DO TRIBUNAL DO JÚRI
Revista Interdisciplinar de Sociologia e Direito
ISSN 1678-7145 || EISSN 2318-4558

“UMA BRIGA CORPORATIVA”


DENTRO DO TRIBUNAL DO JÚRI:
notas e reflexões sobre um caso julgado na
Comarca do Rio de Janeiro
Izabel Saenger Nuñez
Universidade Federal Fluminense.
E-mail: izabelsn@gmail.com

RESUMO
Tendo como eixo do trabalho a descrição de um julgamento realizado no Tribunal do
Júri do Rio de Janeiro, este artigo analisa a forma como este caso especifico foi admi-
nistrado, em contraste com os demais julgamentos acompanhados durante a realiza-
ção da pesquisa de campo. Por meio de sua apresentação e análise, busco demonstrar
o que de excepcional e de ordinário pode ser identificado. Assim, se por um lado o
caso contrasta com as demais práticas que observei, tais como a longa duração do jul-
gamento, a quantidade de defensores, a inocorrência de acordo e a “carga” feita pelos
agentes durante a sessão, por outro demonstra a já conhecida desconexão entre os
fazeres e saberes policial e judicial, dificultando a maneira como o sistema de justiça
criminal executa as diferentes fases da persecução criminal.
Palavras-chave: tribunal do júri, administração de conflitos, etnografia.

ABSTRACT
This paper describes and analyzes a Trial that took place in Rio de Janeiro’s Criminal
Court. Through its analysis, I identify the way it was conducted by the police officers,
judge, public defender and prosecutor who acted on it. By contrasting the observed
Trial to the wider fieldwork I realized there, for one year and a half, I highlight its
particularities and also show the ordinary way cases are processed. This case shows
a very important feature of Brazilian Criminal System: the disconnection between
police and judicial institutions.
Key-words: Trial by Jury, Conflicts administration, ethnography.
117 CONFLUÊNCIAS
CONFLUÊNCIAS
| Revista Interdisciplinar
| Revista Interdisciplinar
de Sociologia
de Sociologia
e Direito. eVol.
Direito.
16, nºVol.
3, 2014.
18, nºpp. 60-85 pp. 117-136 117
3, 2016.
NUÑEZ, Izabel Saenger

INTRODUÇÃO pela Defensoria Pública e o Ministé-


No dia 17 de março de 2015 foi leva- rio Público, e se sustentam na relação
da a julgamento no Tribunal do Júri da preexistente entre os atores envolvidos,
Comarca do Rio de Janeiro uma “ten- que se conhecem e estabelecem laços de
tativa de homicídio”. Nesta data foram cotidianos de convivência, as vezes até
sentenciados os supostos mandantes do mesmo de amizade. A maior parte dos
crime, ocorrido na Favela de Rio das Pe- casos acaba em acordo, pois gera menos
dras, no Bairro de Jacarepaguá. Figura- “desgaste” em ambas as partes.
vam como réus dois irmãos, apontados Tais acordos são firmados quando
como “chefes da milícia” local. A vítima acusação e defesa encontram um resul-
teria sofrido tal violência por ser esposa tado que ambos considerem satisfatório
de um miliciano rival. Este julgamento para o caso, evitando os júris de “briga”
pode ser analisado por duas perspec- que levam mais tempo para serem fina-
tivas: ao mesmo tempo que confirma lizados. Os acordos muitas vezes aca-
o desacerto entre as fases policial e ju- bam também por reduzir o número de
dicial de administração dos conflitos e testemunhas a serem ouvidas em ple-
evidencia o funcionamento das insti- nário, o que agiliza o tempo do julga-
tuições do sistema de justiça criminal mento. Desse modo, um júri “de acor-
brasileiro, também se configurou como do” costuma levar muito menos tempo
algo inédito, tanto pela sua duração, pois para ser finalizado do que um júri “de
levou dezoito horas para ser concluído, briga” ou “as bolas divididas” como de-
tendo acabado somente na manhã se- finiu o defensor titular da Vara. O júri
guinte ao seu início1, quanto em razão que mencionei não resultou em acordo,
dos argumentos que foram utilizados o que explica em parte a sua duração.
durante a sessão plenária e da dinâmica Por outro lado, se o caso é excep-
adotada ao longo do julgamento. cional quanto à sua duração e quanto à
A excepcionalidade, no que concer- existência de divergência entre acusa-
ne à duração desse julgamento, o mais ção e defesa, o julgamento demonstra o
longo que assisti durante toda a pesqui- quanto o “fato” que está sendo julgado
sa de campo, deveu-se a diversos fato- fica escondido, diante de outros argu-
res tais como a inexistência de acordo, a mentos que surgem na sustentação, tais
oitiva de muitas testemunhas e a plura- como a atuação da polícia nas inves-
lidade de réus e defensores. Os acordos tigações e as disputas entre os agentes
são muito comuns nos júris realizados que integram diferentes instituições do
1 É muito difícil precisar a duração de um julgamento “sistema” de justiça criminal. Essa “bri-
pois depende de muitos fatores. Mas em geral acabam no
mesmo dia, pois iniciam por volta das 14 horas e acabam
ga corporativa”, trazida à tona durante o
no início da noite. julgamento confirma que, assim como
118 CONFLUÊNCIAS | Revista Interdisciplinar de Sociologia e Direito. Vol. 18, nº 3, 2016. pp. 117-136
“UMA BRIGA CORPORATIVA”DENTRO DO TRIBUNAL DO JÚRI

apontado histórica e contemporanea- do cotidiano de trabalho dos agentes,


mente por diversas pesquisas (Paixão, em seu dia-a-dia.
1982; Kant de Lima, 2004; e Paes, 2006) O Júri é um “procedimento espe-
não se pode falar em um “sistema de cial” previsto no sistema processual
justiça criminal” no Brasil. Isso porque penal brasileiro para “processar e jul-
a ideia de sistema presume uma conti- gar” apenas alguns crimes cometidos
nuidade e uma integração institucio- no Brasil, isto é, trata-se de uma for-
nal, que não acontece no caso brasilei- ma de processar e administrar confli-
ro, que se apresenta de modo partido e tos, dirigida não a todos os casos cri-
cujas agências (polícia, ministério pú- minais, como se dá em outros países,
blico e judiciário) não se comunicam mas somente ao julgamento dos cha-
de forma articulada e competem entre mados “crimes dolosos contra a vida4”.
si no exercício das suas funções. Essa classificação nativa implica, con-
Necessário dizer que este artigo é sequentemente, numa hierarquiza-
parte de uma reflexão maior que será ção (Durkheim e Mauss, 2009, p. 450;
produzida em minha tese de dou- Dumont, 1997, p. 373) em relação aos
torado2, desenvolvida no âmbito do tipos de conflitos que podem ser pro-
Programa de Pós-Graduação em An- cessados e julgados por esse processo.
tropologia da Universidade Federal Trata-se, ainda, de um procedimento
Fluminense. A tese parte de pesquisa “bifásico5” conforme define a classifi-
empírica realizada em uma Vara do
procedimento trata-se do fato do julgamento se dar de for-
Tribunal do Júri da Comarca do Rio ma oral e contar com a participação de sete jurados “leigos”
de Janeiro. A metodologia utilizada para a produção da verdade e decisão do processo. Crimes
dolosos contra a vida, por sua vez, são todos aqueles em que
no trabalho é a da etnografia, tratan- há a intenção, por parte do agente, do autor, de “produzir
do-se, principalmente, de observação o resultado” ou quando o agente “assumiu o risco de pro-
duzi-los” (art. 17 do Código Penal). Vão a júri, portanto, os
participante de audiências e sessões de homicídios dolosos contra a vida, sendo eles: a) homicídio;
julgamento no Tribunal do Júri3, além b) infanticídio; c) participação em suicídio; d) aborto.

2 A pesquisa de doutorado trata da administração de con- 4 Crimes dolosos contra a vida são todos aqueles em que
flitos no espaço do Tribunal do Júri, isto é, a partir de obser- há a intenção, por parte do agente, do autor, de “produzir o
vação participante e posterior descrição densa, busco com- resultado” ou quando o agente “assumiu o risco de produ-
preender as peculiaridades e o fenômeno de administração zi-los” (art. 17 do Código Penal). Vão a júri os homicídios
de conflitos que se estabelece naquele espaço, a partir das dolosos contra a vida, sendo eles: a) homicídio; b) infanticí-
práticas dos agentes que ali atuam. dio; c) participação em suicídio; d) aborto.

3 O Tribunal do Júri é um procedimento penal especial 5 É bifásico porque se divide na fase anterior à pronúncia
previsto no artigo 5º da Constituição Federal e no Código e na fase posterior à pronúncia. A “pronúncia” é a decisão
de Processo Penal brasileiro (art. 406 e seguintes). Trata-se do juiz quanto à “competência” do júri para julgar o caso,
de um tipo de julgamento utilizado exclusivamente para os isto é, nesta fase o juiz decide se o caso será, ou não, levado
crimes dolosos contra a vida, e que difere dos outros pro- à julgamento pelos jurados. Na fase seguinte, caso o réu seja
cedimentos previstos no processo penal brasileiro em razão pronunciado, ele será submetido à julgamento por sete ju-
de muitas das suas características. Uma das diferenças deste rados, numa sessão especial para esse fim.

CONFLUÊNCIAS | Revista Interdisciplinar de Sociologia e Direito. Vol. 18, nº 3, 2016. pp. 117-136 119
NUÑEZ, Izabel Saenger

cação nativa, dividido entre a fase de vei também o trabalho prévio daqueles
instrução e julgamento, seguido do jul- que lá atuam e busquei identificar o
gamento em plenário, caso o réu seja que de cotidiano - e não de excepcio-
“pronunciado” nesta primeira fase. nal - tem essa forma de julgar.
O dia-a-dia dos que trabalham no Assim, este artigo está dividido
Tribunal do Júri consiste, além das em três sessões. Na primeira, explico
movimentações processuais dos casos as razões pelas quais considero perti-
(elaboração de decisões interlocutó- nente utilizar um caso para explicitar
rias, recebimento das denúncias pelo as características da justiça criminal e
juiz, agendamento das audiências, re- as formas pelas quais os conflitos são
cebimento de ofícios e petições por nela administrados. Na segunda, des-
parte do cartório e do gabinete do juiz) crevo o julgamento que, por seus ele-
na realização das audiências de instru- mentos excepcionais e também pelos
ção, que ocorrem de uma a duas vezes ordinários, fala sobre o “fazer judicial”
por semana e, por fim, às sessões ple- e, ainda, sobre o “fazer policial” e o
nárias. Tais “sessões”, abertas ao pú- encontro entre esses dois saberes. Por
blico em geral, consistem em rituais fim, descrevo as exceções e as regula-
judiciários durante os quais os réus ridades tendo como eixo esse caso, em
acusados de cometer “homicídios” são contraste com o que de corriqueiro ob-
julgados por sete jurados leigos. servei ao longo da pesquisa de campo.
Durante a pesquisa de campo,
acompanhei também o trabalho dos a partir da análise do caso citado (Figueira, 2006).. Na Uni-
agentes que atuam no Júri – defensores versidade de São Paulo Ana Lúcia Pastore Schritzmeyer es-
creveu importante etnografia sobre o Tribunal do Júri, ana-
públicos, promotores, assessores dos lisando a forma como tais julgamentos se processam, seu
juízes em seus “gabinetes” e nas sedes caráter ritual e cerimonial (Schritzmeyer, 2001). Embora
essa certamente seja uma abordagem importante, uma vez
da Defensoria Pública e do Ministério que o júri apresenta claros elementos de ritual e teatraliza-
Público, localizadas também no centro ção, este projeto pretende focar não no ritual, mas na inte-
ração entre os agentes que fazem o júri e na forma como as
do Rio de Janeiro, a poucas quadras interações apontam para elementos cotidianos desse “fazer
do Tribunal de Justiça. E essa observa- justiça”, isto é, como as categorias jurídicas adquirem sen-
tindo, em contexto e em ação. Além dos dois autores antes
ção foi rica porque, diferentemente de citados, Roberto Arriada Lorea, também a partir da realiza-
muitas etnografias que focaram no “ri- ção de uma etnografia no Tribunal do Júri de Porto Alegre/
RS, verificou que, embora os jurados devessem assumir
tual teatralizado6” do plenário, obser- uma perspectiva “leiga” reproduziam a lógica jurídica na
6 Muitos trabalhos têm voltado o olhar para o Tribunal sua atuação no Tribunal (Lorea, 2003). Alessandra Rinaldi,
do Júri como campo empírico e são também fontes para por sua vez, pesquisou a oratória no Tribunal do Júri (Ri-
dialogar e pensar a pesquisa, no contexto brasileiro. Luiz naldi, 1999) e Angela Moreira Leite analisou as diferentes
Eduardo Figueira escreveu sua tese sobre o caso do “Ônibus fases pelas quais passa o processo durante a sua tramitação
174”, um caso de repercussão e, a partir de sua etnografia no Tribunal do Júri (Moreira-Leite, 2006). Ludmila Ribeiro
do ritual judiciário do Tribunal do Júri do Rio de Janeiro, Mendonça trata do Júri também como uma das formas de
descreveu as formas de produção da verdade nesse tribunal julgamento no processo penal brasileiro (Ribeiro, 2009).

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“UMA BRIGA CORPORATIVA”DENTRO DO TRIBUNAL DO JÚRI

OS “CASOS” partes envolvidas sejam vistas como


A opção por trabalhar um “caso”, as- “pessoas” e não tratadas como “indiví-
sim como fez Eilbaum (2012) na esteira duos”, diante da mobilização de algum
do que propõe Gluckman (1975), surge elemento, seja de identificação com os
por que essa categoria é também relevan- envolvidos no caso, seja com suas cir-
te para o campo do direito. Um “caso” é cunstâncias. Quando alguma vítima
a forma como são reunidos e tratados (ou réu, em casos mais raros) aciona
os “fatos” que chegam ao judiciário. Um valores morais que despertam a sensi-
processo se configura em um caso e é bilidade dos agentes, estes últimos são
nele que se conta a “história” que será afetados pelo caso e esses atores adotam
posta em julgamento. As pessoas que posturas diferentes nos processos.
atuam no Tribunal do Júri lidam com Os casos são, portanto, classificados
“os casos”, especialmente para pensar as pelos agentes de acordo com valores
estratégias que usarão na sua adminis- morais e emoções que neles desper-
tração, isto é, para por exemplo pensar tam e, em consequência disso, recebem
os argumentos que usarão ao longo da nomes que expressam os sentidos que
fase de instrução e, posteriormente, para têm para aqueles que neles trabalham.
sustentá-los na sessão plenária. O “caso do esqueleto”, por exemplo, ao
A partir da observação percebi que longo de sua administração tornou-se o
os agentes atribuem aos casos diferentes “caso da celíaca”. Essa mudança na sua
pesos que impactam na sua adminis- classificação deve-se às emoções que
tração. Essa atribuição se dá, principal- despertou na magistrada. Tratava-se,
mente, de acordo com as pessoas neles pois, de um homicídio em que, suposta-
envolvidas, isto é, os casos são lembra- mente, a esposa da vítima e o seu aman-
dos, como histórias, quando envolvem te, arquitetaram a morte do marido e,
pessoas e situações que acionam mora- porque o corpo da vítima foi encontra-
lidades e mobilizam esses agentes. Va- do em avançado estado de decomposi-
lho-me, aqui, da distinção, já bastante ção – apenas o esqueleto, com algumas
conhecida, entre pessoa e indivíduo, uti- falanges dos dedos dos pés intactos, a
lizada no trabalho de Roberto da Matta história ficou conhecida dentre os agen-
(1989) que posteriormente foi emprega- tes como o “caso do esqueleto”. O fato de
da por Kant de Lima (1995) no que se estarem intactos apenas os pés, foi o que
refere a forma como tais categorias apa- permitiu o reconhecimento do cadáver
recem no trabalho da polícia e do “sis- através de suas por impressões digitais.
tema de justiça” na sociedade brasileira. No decorrer da instrução, entretan-
Assim, alguns processos sensibi- to, durante a realização de uma audiên-
lizam os agentes, fazendo com que as cia, o advogado da ré dirigiu-se a juíza
CONFLUÊNCIAS | Revista Interdisciplinar de Sociologia e Direito. Vol. 18, nº 3, 2016. pp. 117-136 121
NUÑEZ, Izabel Saenger

para explicar que a acusada sofria de agentes, são também por eles lembrados
doença celíaca7 e relatar que, em razão em conformidade com o que neles mo-
do tratamento dispensado às presas no bilizam. Certo dia, a juíza chamou-me
sistema prisional brasileiro, a mulher para assistir uma sessão que, segundo
não vinha recebendo alimentação ade- ela, seria “muito interessante”. O julga-
quada para a sua patologia, causando- mento para o qual me convidara tratava
-lhe crises de diarreia e problemas de de uma tentativa de infanticídio. A ré
pele. A juíza, então, sensibilizada com em questão havia abandonado o filho
a questão, decidiu ir até a carceragem bebê, que foi encontrado no lixo, logo
para observar a acusada e analisar o es- depois do parto. A acusada alegava em
tado de saúde da ré. Sua percepção so- sua defesa que havia mantido a gravidez
bre a doença passava também pelo fato em segredo, pois ainda vivia na casa dos
da própria magistrada evitar o consumo pais, que não aceitariam a gestação da
de glúten na sua dieta, por sentir que moça. Para a juíza e a promotora, que
seu corpo era esteticamente afetado em “queriam muito fazer o julgamento”,
razão de tal ingestão, conforme me dis- aquele seria um caso importante pois,
se em conversa informal durante a pes- apesar da mãe estar vivendo com o filho
quisa. Assim, ao ver a acusada pessoal- atualmente, e ter respondido o processo
mente e comover-se com sua aparência em liberdade, a promotora acreditava
física, a juíza concedeu a “liberdade pro- na sua culpa e queria a sua condenação
visória”. A partir de então, o caso passou e, por isso, disse que iria sustentar seus
a ser conhecido como “o caso da celíaca” argumentos de forma aguerrida.
e não mais o “caso do esqueleto” ao me- O convite da juíza – que se deu
nos para a juíza e seus assessores. apenas aquela vez – aponta o quanto
Os casos, além de serem nomeados a situação mobilizava nela, também
de acordo com o que despertam nos mãe, valores morais8 a ponto deste tor-
8 É preciso que seja feita distinção entre moral, ética, va-
7 Trata-se de uma “desordem sistêmica autoimune, de- lores morais e as moralidades, propriamente ditas. Em
sencadeada pela ingestão de glúten. É caracterizada pela diálogo com Howell (1997) e outros autores que passa-
inflamação crônica da mucosa do intestino delgado que ram a dedicar-se sobre o tema, trata-se de pensar nessas
pode resultar na atrofia das vilosidades intestinais, com categorias de modo diferente da filosofia, voltando o olhar
consequente má absorção intestinal e suas manifestações para essas categorias analíticas a partir de contextos empí-
clínicas” Como o glúten é uma proteína que está presen- ricos, de modo a problematizar de forma contextual e lo-
te em alimentos contendo trigo, aveia, centeio, cevada e cal, como aparecem as relações entre elas. Valores morais,
malte, que são a base da alimentação nos presídios (pães aqui, são as representações que um grupo social faz e com-
e massas) a acusada não tinha alimentação especial e vi- partilha sobre o contexto que vivem. Assim, os trabalhos
nha então apresentando diarreia constante e outras de- que privilegiam a ideia de “moralidade” buscam analisar
sordens dermatológicas que surgem em razão de tal aler- a interação, de forma contextual, em relação a questões
gia. Informações disponíveis no site da FENACELBRA situacionais. Enquanto aqueles que trabalham com o sig-
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122 CONFLUÊNCIAS | Revista Interdisciplinar de Sociologia e Direito. Vol. 18, nº 3, 2016. pp. 117-136
“UMA BRIGA CORPORATIVA”DENTRO DO TRIBUNAL DO JÚRI

nar-se um “caso” importante a seu ver, zão do mesmo réu. Um deles, embora
capaz de gerar um maior envolvimen- anteriormente houvesse sido titular9
to, se comparado com os demais. Esses daquele tribunal, havia recentemente
exemplos mostram como os “casos” sido removido dali e passou a atuar em
acionam diferentes “moralidades si- uma Vara Criminal Comum. Porém,
tuacionais” (Eilbaum, 2012) nos agen- naquele dia foi “designado” para atuar
tes e, portanto, influenciam na forma especificamente neste júri.
como serão administrados esses con- O julgamento teve início às 13:50h,
flitos que chegam no júri. mais cedo do que o comum e, após o
sorteio dos jurados, passaram a “oitiva”
UMA “BRIGA CORPORATIVA” das cinco testemunhas. Como disse an-
O caso que descrevo nesse artigo, teriormente, nos casos de “briga” como
teve como réus dois irmãos, um preso esse as partes fazem questão de ouvir
em estabelecimento prisional e o outro todos depoentes arrolados que estejam
cumprindo pena em prisão domiciliar. presentes, não havendo acordo sobre a
Ambos eram acusados de serem “man- desistência da produção de algum de-
dantes” de uma tentativa de homicídio poimento. Esta parte do julgamento10,
contra a esposa de um miliciano rival. chamada “oitiva das testemunhas” es-
Os dois acusados eram mais velhos do tendeu-se por seis das dezoito horas
que os réus normalmente o são. O mais que durou a sessão. O julgamento se-
jovem deles aparentava ter por volta de guiu sem intervalo para que os jurados
50 anos, enquanto o mais velho parecia 9 Cada uma das Varas dos Tribunais do Júri da Comarca
estar na casa dos 70. O idoso foi escolta- do Rio de Janeiro conta com dois defensores públicos ti-
tulares que são aqueles que atuam permanentemente nela
do por policiais da Delegacia de Homi- e que tem, dentro da Defensoria Pública, a “titularidade”
cídios até o Tribunal, sob o argumento para atuar no respectivo órgão. A titularidade é atribuída
por concurso interno e leva em conta a antiguidade, no caso
de estar preso domiciliarmente, o que, da Defensoria. Quando os defensores titulares estão em fé-
por si só, é algo excepcional. O mais jo- rias ou de licença, eles são substituídos por outros colegas,
substitutos ou titulares de outras posições.
vem chegou ao Júri na escolta comum,
feita pela Polícia Militar. 10 O procedimento de julgamento de um caso pelo Tribunal
do Júri é dividido em duas partes. Depois do recebimento da
Atuaram na defesa dos acusados denúncia pelo juiz, são realizadas audiências de instrução e
dois advogados e dois defensores pú- julgamento, para que o juiz possa formar a sua convicção
quanto à competência do júri para processar e julgar o caso
blicos. Os advogados privados repre- em questão. Sendo considerado o juízo competente, isto é,
sentavam o réu mais jovem, enquanto por ser um crime doloso contra a vida, o juiz pronuncia o
réu e o leva a julgamento em plenário, em data agendada
os dois defensores faziam a defesa do por ele, para que o caso seja julgado pelos jurados. O caso de
idoso. Chamou minha atenção o fato que trata o presente artigo, é um julgamento, pelos jurados,
de um caso que já havia sido pronunciado. Durante a sessão
de haver dois defensores públicos pre- de julgamento as partes, acusação e defesa, podem produzir
sentes, para atuarem no caso em ra- provas, ouvir as testemunhas, diante dos jurados.

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NUÑEZ, Izabel Saenger

e os outros participantes pudessem dor- de polícia quanto os delegados. Estes


mir ou descansar, contando apenas com últimos foram os que por mais tempo
intervalos para as refeições. permaneceram aguardando para depor
Além do tempo dispensado nas oi- em plenário, já que a ordem da oiti-
tivas de cada testemunha, todas aque- va seguiu a hierarquia ascendente dos
las arroladas no dia eram policiais civis agentes dentro da polícia civil, sendo
(inspetores e delegados da polícia civil). primeiro ouvidos os inspetores e, por
Não é incomum que policias militares e último os delegados. Esta inversão na
civis sejam requisitados pelo juízo para ordem da oitiva dos policiais também
depor em processos criminais, sendo chamou minha atenção. Isso porque,
essa uma prática frequente e, além dis- quando são ouvidos esses agentes da se-
so, reconhecida e legitimada pelo dis- gurança pública, os juízes costumam co-
curso nativo11. Neste caso, porém, des- meçar pelos “mais graduados”. Segundo
pertou minha curiosidade o fato de que os magistrados, trata-se de uma questão
não eram os policiais que fizeram o fla- de “hierarquia” e de dar “preferência” ao
grante, ou que “registraram a ocorrên- oficial. Neste caso, o ato seguiu a ordem
cia”, tampouco aqueles que foram até o inversa, primeiro foram ouvidos os ins-
local do crime ou, ainda, aqueles que petores e depois os delegados.
elaboraram os laudos periciais – casos Dentre os delegados, essa inversão
estes nos quais os agentes da segurança na ordem que é normalmente segui-
pública são chamados a depor rotinei- da ficou ainda mais clara pois o rito
ramente, mas, sim, os inspetores e dele- se seguiu também por antiguidade.
gados que conduziram as investigações. Antiguidade esta que correspondia
Todos aqueles ouvidos no dia foram à hierarquia ascendente e também às
“arrolados” pela acusação, isto é, pelo mãos pelas quais passou o inquérito.
Ministério Público. Tanto os inspetores Primeiro foi ouvida a delegada mais
jovem, que à época dos fatos era subs-
11 Para os nativos súmulas são orientações sobre como os
magistrados devem julgar e proceder diante de determina- tituta; seguida do delegado titular da
dos casos que se repetem no processo. Quanto ao depoi- delegacia do bairro onde as investiga-
mento de policiais ser suficiente para embasar a condeção
dos réus, existe uma súmula no Tribunal de Justiça do Esta-
ções foram iniciadas, que presidiu o
do do Rio de Janeiro, que diz: “PROCESSO PENAL. PRO- Inquérito Policial que deu origem ao
VA ORAL. TESTEMUNHO EXCLUSIVAMENTE POLI-
CIAL. VALIDADE. O fato de restringir-se a prova oral a
processo e, por fim, o delegado que,
depoimentos de autoridades policiais e seus agentes não à época das investigações, ocupava o
desautoriza a condenação. Referência: Súmula da Juris-
prudência Predominante (Art. 122 RI) nº 2002.146.00001
cargo de titular da DRACO (Delegacia
(Enunciado Criminal nº 02, do TJRJ) - Julgamento em de Repressão e Combate ao Crime Or-
04/08/2003 - Votação: unânime - Relator: Des. J. C. Mur-
ta Ribeiro - Registro de Acórdão em 05/03/2004 - fls.
ganizado) e que, posteriormente, foi o
565/572. Detalhes do processo: 2002.146.00001 responsável por finalizar a investiga-
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“UMA BRIGA CORPORATIVA”DENTRO DO TRIBUNAL DO JÚRI

ção. A ordem, portanto, foi hierarqui- Durante a fala das testemunhas e as


camente inversa. E, embora seja bas- sustentações orais, pude compreender
tante comum os delegados titulares da que o Inquérito Policial que originou o
delegacia de homicídios serem chama- processo em julgamento no dia era resul-
dos para depor, é muito raro que eles tado de acontecimentos pouco comuns
de fato compareçam em plenário – ou nas delegacias de polícia. Os relatos so-
nas “audiências de instrução e julga- bre o caso não se assemelhavam com o
mento12”. Neste caso, estavam presen- que costumo ver e ouvir nos plenários
tes os três delegados que trabalharam do júri sobre as investigações. Foram fei-
nas investigações e, além disso, todos tas, permanentemente, perguntas sobre
esperaram bastante tempo para depor. como se deu a investigação, o proceder
A inversão seguiu também a ordem dos agentes, sobre como conduziram o
dos agentes e das delegacias pelas quais inquérito e, ainda, sobre a forma como
o inquérito passou. A oitiva das teste- colheram os depoimentos. As provas
munhas foi ditada não pelo cargo dos materiais não foram questionadas, ou
policiais, como normalmente os agen- não o foram na medida em que costu-
tes do judiciário o fazem, mas pelo an- mam ser nos demais julgamentos.
damento dado ao inquérito dentro da Neste momento estava em questão não
própria polícia. As investigações come- o que os réus, acusados de serem mandan-
çaram na delegacia do bairro e o pro- tes do crime, teriam feito no dia dos fatos,
cedimento foi posteriormente remetido mas sim a forma como as investigações
à DRACO. Primeiro foram ouvidos os haviam sido conduzidas. A impressão
agentes que lidaram com o inquérito na que tive era que o que estava sendo julga-
delegacia local, depois os delegados e, do não era a tentativa de homicídio, mas,
por fim, o delegado titular da DRACO. para os defensores, a forma como haviam
A estratégia adotada demonstrava os sido conduzidas as investigações, enquan-
caminhos e descaminhos que o caso se- to para o promotor, a função dos acusados
guiu dentro da estrutura da polícia civil. em uma “organização criminosa”.
12 O Tribunal do Júri é um procedimento “bifásico” por- No trecho abaixo o juiz que presidiu
que se divide na fase anterior à pronúncia e na fase poste-
rior à pronúncia. A “pronúncia” é a decisão do juiz quanto à
a sessão de julgamento questionava o
“competência” do júri para julgar o caso, isto é, nesta fase o inspetor de polícia, a segunda testemu-
juiz decide se o caso será, ou não, levado à julgamento pelos
jurados, neste momento ocorrem as “audiências de instru-
nha ouvida, sobre a confissão do supos-
ção e julgamento” quando são ouvidas as testemunhas e os to executor do crime, que foi julgado
réus, para que o juiz possa “firmar o seu convencimento” so-
bre a “competência” do Júri para julgar o crime em questão.
previamente e foi absolvido.
Na fase seguinte, caso o réu seja pronunciado, ele será sub-
metido à julgamento por sete jurados, numa sessão especial
para esse fim, quando também são ouvidas, novamente, as
Juiz – Policial, a pergunta
testemunhas que foram ouvidas na “primeira fase”. que não quer calar, o senhor
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NUÑEZ, Izabel Saenger

participou dessa investigação extrair os mandantes (…)


do caso em questão? J – Veja bem, eu também
Testemunha - (…) a úni- busco a verdade (…) eu pre-
ca coisa que eu presenciei foi o ciso entender o contexto. Por
[nome da testemunha] depois, que os senhores estavam numa
falando que eram os mandantes. sala, com computador, e certa-
J – Mas isso consta em ter- mente numa estrutura e por
mo circunstanciado? que não tomaram a termo?
(…) T – Nós sabíamos que ele
J – Mas isso não está nos queria falar, faltava um incen-
autos. Ele [nome da testemu- tivo (…) a gente continuou
nha] depois do depoimento a pressão lá fora (…) ele tava
resolve abrir o bico e citou os querendo falar.
dois acusados? J – O senhor participou da
T – Isso, a gente ouviu oitiva dele?
numa conversa informal. T – Não participei.
J – Senhor, os procedimen- (Diário de Campo)
tos são ditados por regras e o
artigo 199 do Código fala em Neste trecho, enunciado no início
confissão, que quando feita do julgamento, o juiz questionou a for-
será tomada a termo (…) a ma como foi produzida a prova que,
minha indagação é: os senho- em tese, apontava os dois réus como
res se depararam com uma mandantes da tentativa de homicídio:
informação relevante para a a confissão do executor, mencionando-
investigação e (…) o que os se- -os como mandantes. O fato de ter sido
nhores fizeram? O que foi feito colhida de maneira “informal” e, ainda,
para documentar? Eu sei que o fato do executor – foragido da justiça
o delegado que orquestra a in- quando ouvido em sede policial – não
vestigação, mas não foi feito o ter sido preso, foi questionado diversas
registro por que? vezes, pelos defensores e pelo juiz. Os
T – Não sei doutor. questionamentos do juiz ao policial de-
J – O que motivou aquela monstram as diferentes lógicas existen-
conversa? O delegado fica na tes para “pensar” o crime ao longo do
sua sala e os inspetores que o seu processamento no sistema de justi-
acompanham (…) que papo os ça criminal: enquanto o delegado quer
senhores travaram entre vocês? uma confissão, o juiz busca um rito
T – A gente sempre tentava adequado à forma e o promotor, por sua
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“UMA BRIGA CORPORATIVA”DENTRO DO TRIBUNAL DO JÚRI

vez, precisa demonstrar a existência de motoras de justiça que acompanhavam


um culpado. Essa desarticulação é a que a investigação e o delegado que a pre-
faz com que o nosso sistema de justiça sidia, ainda na delegacia do bairro13,
seja qualquer coisa, menos um sistema. algo igualmente extraordinário. Foi este
O promotor, a seu turno, indagava conflito, descrito pelos agentes da se-
as testemunhas sobre a identidade dos gurança pública durante suas falas em
réus e porque eles poderiam ser consi- plenário, o motivo para que o inquéri-
derados “chefes da milícia”. No trecho to fosse remetido para a DRACO, onde
abaixo questiona a delegada, a tercei- veio a ser posteriormente finalizado.
ra testemunha, se eram “conhecidos” Segundo exposto no plenário, foi
como “líderes da milícia”. uma dissonância existente sobre o
rumo das investigações, entre o dele-
Promotor - (…) Lá no hos- gado e as promotoras, que gerou um
pital, a senhora se recorda o processo de “calúnia qualificada pelo
que a [nome da vítima] disse? cargo14” movido pelas segundas con-
Ela definiu quem seriam os tra o primeiro, após a publicização do
mandantes? relatório final do inquérito. O docu-
T – Que seriam [nomes mento policial fazia menção ao fato de
dos réus] por essas disputas a “promotora não ter lido os autos do
que estavam acontecendo. Inquérito”. Abaixo seguem trechos do
(…) depoimento do delegado que investi-
P – Na época do fato quem gou os fatos inicialmente, sendo ques-
liderava a milícia eram os acu- tionado pelo promotor de justiça.
sados aqui presentes?
T – Sim. Promotor – Verifiquei
(…) que houve um pequeno de-
P – Eu gostaria que a se- 13 As delegacias da Polícia Civil do Estado do Rio de Janeiro
são separadas por departamentos, conforme se pode ver no
nhora me relatasse como fun- site da Instituição. Há Departamento Geral de Polícia da
ciona a milícia no local? Capital – DPGC, que abrange todas as delegacias da Capital
Fluminense que não são especializas, ou seja, atuam por área
(…) geográfica e não de acordo com o tipo de delito. E, além do
P – Há testemunhas dessas Departamento Geral de Polícia da Baixada – DPGB, Depar-
tamento Geral de Polícia do Interior, Divisão de Polícia de
execuções realizadas pela milícia? Atendimento à Mulher – DPAM; Departamento Geral de
T – É muito difícil. Polícia Especializada – DGPDE entre outros órgãos como
a Coordenadoria das Delegacias de Acervo Cartorário e o
(Caderno de Campo) Departamento de Polícia Técnica e Científica. Informações
disponíveis no site da Polícia Civil: <http://www.policiacivil.
rj.gov.br/delegacia.asp#topo>. Acesso em: 08, abr., 2015.
Além disso, foi posteriormente tra-
zido à tona um conflito entre as pro- 14 Tipificada no art. 138 c/c 141, II do Código Penal.

CONFLUÊNCIAS | Revista Interdisciplinar de Sociologia e Direito. Vol. 18, nº 3, 2016. pp. 117-136 127
NUÑEZ, Izabel Saenger

sentendimento entre o se- do eu concluí o inquérito, eu


nhor e as promotoras. rebato todas as acusações que
Testemunha – Não foi um elas fizeram contra a minha
pequeno desentendimento, foi pessoa e talvez eu tenha sido
um grande desentendimento viril nas minhas palavras e
(…) nós tínhamos um relacio- elas fizeram uma representa-
namento que passava o insti- ção contra mim por calúnia e
tucional e passava para o pes- fizemos uma transação penal,
soal, eu a [nome da promoto- eu não teria estômago (…)
ra] (…) nós depois tínhamos viraria algo institucional (…)
a confissão do [nome da teste- o que importa é que a minha
munha] (…) e quando faría- linha foi ratificada depois pela
mos a antecipação das provas DRACO e pelos promotores
ela simplesmente ignorou, não que fizeram a denúncia.
deu a menor atenção a esses
fatos (…) e dizia que tinha As disputas institucionais, nesse mo-
sido o [nome] que logo de- mento, aparecem ainda mais fortemen-
pois sofre o mesmo atentado, te. Além dos questionamentos acima
no coração de Rio das Pedras transcritos sobre o conflito que se esta-
(…) seria a Cinelândia de Rio beleceu entre o delegado e as promoto-
de Pedras, e as duas promoto- ras que acompanhavam o caso, o poli-
ras ignoraram esse fato (…) cial, ao responder uma pergunta, ques-
quando elas sequer sabiam, tiona a função e a presença dos defen-
não tinham acesso aos autos, sores públicos no caso. Nesse momento,
parecia que havia algo dire- tem início uma discussão entre a teste-
cionado para botar na conta munha – o delegado – e os defensores.
do [nome] (…) e as doutoras Contudo, este não foi o único momento
promotoras me parece que em que o delegado e o defensor troca-
elas estavam dispostas a colo- ram acusações, ao longo do julgamento.
car na conta do [nome] (…) e
a doutora promotora não quis T – Desculpe doutor ad-
ouvir essa versão. vogado.
P - (…) no seu entendimen- D – Não sou advogado,
to isso configurou um descaso? sou defensor público. Sou tão
T – Sim, um descaso (…) servidor público quanto o se-
que existia uma má vontade de nhor e quem paga o meu salá-
ambas de (…) e depois quan- rio é o governo.
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“UMA BRIGA CORPORATIVA”DENTRO DO TRIBUNAL DO JÚRI

T – Desculpe, eu não sabia O julgamento demonstra o foco


que o senhor era defensor pú- dado em cada caso, a partir das pessoas
blico, nunca imaginei que eles que estão envolvidas e, nesse especifi-
tivessem defensor público, eles camente, não em razão dos réus, sobre
não precisam. quem pouco se falou. Nesse caso trata-
D - (…) eu já defendi co- va-se da forma como se deu a investiga-
legas seus, eu defendo qual- ção, como se estivessem em julgamento
quer pessoa. as instituições, a maneira como cada
T – Também não precisam. uma delas fez o seu trabalho. O que es-
(Diário de Campo). tava em jogo, me parece, era mesmo a
pessoa da promotora que atuou nas in-
O bate boca entre o delegado e o vestigações, o delegado e a forma como
defensor foi encerrado pelo magistra- foram conduzidas as inquirições, para
do, dizendo que o policial talvez não além do que os réus de fato teriam fei-
soubesse das atribuições da defensoria to. A sustentação do defensor público
pública nos processos criminais que, di- apontou os “problemas” desse inquérito
ferentemente da esfera cível, não é ne- de forma ainda mais intensa, ao invés
cessário que o “assistido” seja declarado dos fatos propriamente ditos.
pobre. Face à garantia constitucional de
ampla defesa no processo penal, todos e esse processo é que de-
os cidadãos fazem jus à tutela pública, monstra a arte de não se in-
caso não nomeiem advogado particular. vestigar (…) houve, na matriz
Após a oitiva de todas as testemu- desse processo, uma severa
nhas, o promotor iniciou a sua sus- briga entre o Doutor [nome
tentação oral dizendo que deixava de do delegado] e a promotora
cumprimentar a Defensoria Pública de justiça (…) esse processo
por que estava “muito decepcionado”. A gerou um outro processo em
decepção alegada, segundo ele devia-se que o delegado figurou como
ao fato de dois defensores terem sido réu (…) o documento onde
designados para atuar no caso: “eu, que o promotor se baseia para
recebo do Estado para defender a socie- pedir a condenação desses
dade carioca estou sozinho aqui! O meu senhores gerou um processo
colega veio apenas me dar apoio por que contra o delegado (…) tenho
ele viu que a força do mal hoje é mui- certeza que os senhores nun-
to grande. Aqui é uma cabeça pensante ca viram isso (…) vira uma
contra quatro cabeças pensantes (…) lu- briga de corporações, uma
tar contra o mal as vezes é muito difícil”. briga corporativa. (…) Olha
CONFLUÊNCIAS | Revista Interdisciplinar de Sociologia e Direito. Vol. 18, nº 3, 2016. pp. 117-136 129
NUÑEZ, Izabel Saenger

o nível do que aconteceu chegar a acontecer até três vezes15. Essa


aqui (…) o outro delegado sessão, como disse inicialmente, pode
ia mudar a linha de investi- ser analisada tanto pelo que tem de ha-
gação? Ia concordar com as bitual, que é demonstrar a desconexão
promotoras? (…) Foi dentro entre o trabalho da polícia e da justiça e
dessa briga entre a polícia e o a forma como as instituições do sistema
MP que se deu esse processo. de justiça criminal não se comunicam,
(Diário de Campo). quanto pelo que tem de inusitado e que,
por isso, chamou minha atenção duran-
Tanto na réplica quanto na tréplica, te a pesquisa de campo.
o discurso de acusação e defesa mante- No que concerne ao incomum, foi
ve-se o mesmo. O membro do MP pe- inicialmente a duração do julgamento
diu a condenação dos réus por serem que despertou meu interesse. E um dos
“os chefes da milícia” e os defensores elementos para que tenha se estendido
sustentaram a forma como as investi- por dezoito horas, em contraste ao que
gações foram conduzidas para que se normalmente acontece, já que as ses-
chegasse até ali, como estratégia de de- sões costumam durar em torno de seis
fesa. Nenhuma das narrativas falou de a oito horas, foi a inexistência de acor-
provas, mas da forma como essas pro- do. Como disse anteriormente, na ses-
vas teriam sido produzidas. Nenhum são de julgamento as testemunhas são
argumento surgiu a partir da dinâmica ouvidas novamente, sob o argumento
dos fatos, ou de possíveis elementos que de que os jurados possam “apreciar” a
apontassem os réus como mandantes “prova testemunhal”. No entanto, em
do crime em julgamento. Os acusados júris “de acordo” é comum que algu-
foram absolvidos, depois das 6 horas mas, ou até mesmo todas, testemunhas
da manhã, quando todos os jurados sejam “dispensadas” e, por isso, os jul-
demonstravam claros sinais de exauri- gamentos acabem mais cedo.
mento pois não houve pausa para des- A média de duração de um julga-
canso, somente para refeições. mento “de briga” é, portanto, muito
maior que aqueles em que há acordo.
ENTRE HABITUALIDADES E
EXCEPCIONALIDADES: as ses- 15 A pauta cheia significa que há muitos casos que já fo-
ram pronunciados e, portanto, estão prontos para irem a
sões plenárias e os acordos julgamento na sessão plenária. O caso no Tribunal do Júri
só se extingue, só acaba, quando é feita a sessão plenária.
As “sessões plenárias” ou “sessões São esses dados, obviamente, que são registrados como a
de julgamento” como essa que descrevi, quantidade de trabalho produzido em uma Vara de Júri,
como é o caso da Vara Criminal que estudo. Fazer muitos
costumam ocorrer duas vezes na sema- júris é preciso para “desafogar a pauta” e reduzir o número
na e, quando a “pauta” está cheia, podem de casos que esperam por julgamento.

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“UMA BRIGA CORPORATIVA”DENTRO DO TRIBUNAL DO JÚRI

As sessões costumam terminar no mes- que os defensores sequer questionam


mo dia em que tiveram início, normal- os seus “assistidos” sobre tal e, quando
mente já à noite, por volta das 21 horas. o fazem, demonstram pouco acreditar
No tempo do julgamento interferem nas respostas. O que importa é o que
também outros fatores: a quantidade pode resultar de cada julgamento e que
de réus, se esses têm advogados e de- é aferido de acordo com a moralidade
fensores diferentes, assim como as pau- que o caso desperta nos agentes.
sas que são feitas para a “alimentação” Nesse sentido, muitas vezes o mem-
e “descanso” dos jurados. bro da defensoria pública pensa a defe-
De todo modo, é muito raro que sa a partir das estratégias que vislumbra
atualmente um julgamento “vire” a para reduzir o tamanho da condena-
madrugada e são os acordos que acele- ção, utilizando, por exemplo, a técnica
ram o tempo de realização das sessões. da “retirada de qualificadoras16 e outras
Acordou são as tratativas informais que circunstâncias agravantes”17 da pena.
acusação e defesa fazem sobre o que Há, ainda, a questão da “hediondez”,
será sustentado no dia do julgamento isto é, os homicídios qualificados são
havendo, portanto, “convergência” nos considerados “crimes hediondos” e por
pedidos de ambos, o que faz com que a isso a progressão do cumprimento da
sessão aconteça mais rapidamente. pena é mais lenta18. Tirar a (ou as) qua-
Nos casos cujos julgamentos assisti, 16 De acordo com o artigo 121, § 2o do Código Penal, há 5
percebi que tanto os promotores quan- “qualificadoras” previstas para o crime de homicídio na sua
forma consumada ou tentada. São elas: i) mediante paga ou
to os defensores podem ser os respon- promessa de recompensa ou por motivo torpe; ii) motivo
sáveis por propor ao colega um acordo. fútil; iii) com emprego de veneno, fogo, explosivo, asfixia,
tortura ou outro meio insidioso ou cruel ou que possa resul-
A forma como pensam suas atuações tar perigo comum; iv) à traição, de emboscada ou mediante
em cada caso parte da interpretação e dissimulação ou outro recurso que dificulte ou torne impos-
sível a defesa do ofendido; v) para assegurar a execução, a
da representação que fazem sobre os ocultação, a impunidade ou vantagem de outro crime.
fatos e sobre a autoria e não com aqui-
17 As agravantes estão previstas na “parte geral” do CP e se
lo que o réu porventura tenha a dizer aplicam a todos os crimes, além dessas citadas acima, nas
sobre os fatos. No caso dos defensores, qualificadoras do homicídio, há ainda, por exemplo, cometer
o crime contra ascendente, descendente, irmão ou cônjuge;
portanto, muitas vezes eles pensam es- contra criança ou mulher grávida, entre outros. Todas essas
trategicamente como podem reduzir “circunstâncias” revelam os valores morais da sociedade bra-
sileira, ao menos ao tempo da elaboração do Código Penal
a pena do acusado, ao invés de busca- (1940) mas que certamente se mantêm fortes ainda hoje.
rem a absolvição, já que, via de regra, 18 Foi a Lei 8.072/90, resultado de uma forte pressão social
encabeçada pela diretora de telenovelas veiculadas na Rede
a presunção é de culpa. São estratégias Globo, Glória Perez, cuja filha foi assassinada pelo namorado
de defesa e acusação que vão sendo e pela amante, dispõe que o crime de homicídio qualificado
é hediondo. E, por isso, a progressão de regime se dá “após
adotadas em cada caso. Desse modo, o cumprimento de 2/5 (dois-quintos) da pena, se o apenado
não são os fatos que importam, tanto for primário, e de 3/5 (três-quintos) da pena, se reincidente.

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NUÑEZ, Izabel Saenger

lificadora(s) dessas condenações é fazer aos “homicídios consumados”, pela sua


com que o crime deixe de ser hedion- “gravidade” pois têm a pena reduzida
do, progredindo o réu mais rapidamen- de um a dois terços (art. 14, p. único do
te para o regime semiaberto. Com isso, CP). Essa redução na pena pode fazer
quero dizer que as negociações citadas com que o tempo que esses réus ficarão
anteriormente passam pela avaliação se presos preventivamente, seja maior que
essa margem de manobra de fato existe, a pena objetivamente aplicada ao final
ou seja, se há alguma chance de absol- do processo, ainda que sejam condena-
ver o réu, se o caso é tido como “per- dos20. Assim, quando o caso é de um
dido”, se há alguma possibilidade de crime “tentado”, sua pena poderá ser
reduzir as qualificadoras descritas na rapidamente convertida em “regime
“denúncia19” resultando da negociação aberto”. No discurso do promotor e do
algo que, na interpretação do defensor, defensor, a “tentativa” ou a “consuma-
possa ser considerado como mais be- ção” falam sobre a “gravidade” do deli-
néfico para o seu assistido. to. Dito de outra forma, quando nego-
Outra característica que pesa duran- ciam entre eles, uma “tentativa” dá ao
te a avaliação da “melhor solução” para defensor um poder maior de barganha,
um caso, está relacionada com a sua face à sua menor gravidade.
“consumação” ou “tentativa. As “tentati- Em razão dessa distinção, em geral
vas”, isto é, quando não houve a morte são casos nos quais os agentes fazem
da vítima, costumam ser tratadas de for- menos “carga”, termo nativo que desig-
ma distinta dos casos “consumados” em na o esforço, o empreendimento feito
razão do tamanho da pena a ser aplica- pelo promotor e defensor em susten-
da. Inclusive, o fato de um réu poder, ou tarem suas teses. Quando um deles faz
não, responder o processo em liberdade, “muita carga” é por que colocou muita
normalmente está relacionado com a energia, sustentou todos os pontos da
“consumação” ou não do delito. denúncia, ou rebateu, com muito afin-
As “tentativas” de homicídio se co, algum ponto em especial. Nesse
apresentam no campo em oposição caso em especial, a despeito de ser uma
Essa disposição faz com que os condenados por um homicí-
“tentativa” que em geral não se faz “car-
dio qualificado demorem muito mais tempo para mudarem ga”, tanto a acusação quanto a defesa o
do regime fechado para o semi-aberto, fazendo com que esse
seja um elemento de “briga” e “barganha” pelos defensores. 20 A progressão do regime para o semi-aberto se dá de-
pois de cumprido 1/6 (um-sexto) da pena (art. 112 da Lei
19 A “denúncia” é a “peça processual” que abre o processo de Execução Penal). No caso da tentativa de homicídio,
criminal. Nela é descrito o “fato” na visão do Ministério Pú- que é normalmente reduzida a condenação, o réu pode
blico, a partir da interpretação do promotor que a elabora ser condenado por 4 anos, por exemplo, se ficar preso
e descritas essas “circunstâncias agravantes”. O promotor preventivamente por um ano, já sai do julgamento com a
pode sustentá-las, ou não, durante o júri, é sua escolha, as- decisão judicial para ser solto no dia seguinte. Esse é um
sim como o defensor pode escolher rebatê-las ou não. dos argumentos para a “barganha”.

132 CONFLUÊNCIAS | Revista Interdisciplinar de Sociologia e Direito. Vol. 18, nº 3, 2016. pp. 117-136
“UMA BRIGA CORPORATIVA”DENTRO DO TRIBUNAL DO JÚRI

fizeram, sustentando com afinco e por nativa que define o investimento argu-
longas horas, as suas respectivas teses. mentativo, de trabalho, que os agentes
Assim, a despeito de ser uma tentativa, fazem em cada processo. O caso que
isto é, não houve a morte da vítima, foi relatei nesse trabalho, demandou mui-
objeto de muito esforço, tanto do pro- ta “carga” por parte da defensoria pú-
motor, quanto dos defensores que nele blica e da acusação e foi essa uma das
atuaram. Não era, então, a “tentativa” excepcionalidades que percebi, além
que fazia daquele caso especial, mas o do tempo de duração do julgamento.
que acionava nos agentes em termos de Houve, como disse acima, até mesmo
disputas institucionais, entre essas di- a nomeação de um defensor especifica-
ferentes lógicas de funcionamento que mente para realizar a defesa de um dos
seguem os diferentes agentes do siste- acusados, reforçando a “carga” feita.
ma de justiça criminal. O argumento formal para esta ex-
O promotor que “sustentará” o caso cepcionalidade, a presença de dois
no dia é a outra parte para que essa ne- defensores, sendo um o antigo titular
gociação dos acordos possa, ou não, dessa Vara do Júri que havia dali se re-
ocorrer. A visão que ele tem do caso, movido e, o outro, titular da Vara ao
dos agentes envolvidos e do tipo de lado, era o fato do primeiro ter “funcio-
homicídio em jogo podem dar maior nado” como defensor em casos conexos
ou menor margem para que o defen- àquele – o julgamento dos executores
sor proponha um “acordo”. O promo- do crime. Mas meu estranhamento se
tor também pode ter uma proposta de deveu ao fato de que, em geral, mesmo
acerto, mas nem sempre o promotor é quando defendem mais de um réu os
aberto a essas tratativas. Com o tempo defensores atuam sozinhos. Isto é, em-
é possível perceber que são somente en- bora tenha visto outras vezes dois de-
tre alguns promotores e alguns defen- fensores atuarem em um mesmo caso,
sores que são produzidos mais acordos, isso só ocorreu quando, havendo dois
seja por seu posicionamento no campo réus, sucedia-se “colidência de defesa”
(uma promotora que jamais, segundo entre eles. Em outras palavras, quan-
ela mesma, pede absolvição) e outras do a defesa de um implica, necessaria-
questões relacionadas com a forma mente, em acusar o outro. Nesse caso,
como esses agentes se relacionam. São entretanto, não havia “colidência”, até
novamente os elementos informais que mesmo por que o outro réu constituiu
permeiam as formalidades do campo. um advogado particular. Nesse sentido,
E são esses elementos morais, in- a própria organização do plenário, com
formais, que determinam a “carga” feita quatro homens sentados na bancada da
sobre cada caso. “Carga” é a categoria defesa (dois advogados e dois defenso-
CONFLUÊNCIAS | Revista Interdisciplinar de Sociologia e Direito. Vol. 18, nº 3, 2016. pp. 117-136 133
NUÑEZ, Izabel Saenger

res) para a realização deste julgamento, de argumentos morais, como a suposta


ficava clara a excepcionalidade do caso. relação de chefia da milícia local, mes-
mo que não existam provas quanto a
CONCLUSÃO serem eles os mandantes do crime.
Tendo como eixo do trabalho a for- Busquei descrever então, a partir
ma como um caso especifico foi admi- do contraste entre esse e outros casos,
nistrado em uma Vara do Tribunal do a maneira como, via de regra, se dão
Júri do Rio de Janeiro, busquei demons- as sessões de julgamento que assisti no
trar o que de excepcional e de ordinário campo. Ao descrever os “acordos” que
esse julgamento teve, em contraste com geralmente acontecem entre acusação
o que percebi ao longo de um ano e meio e defesa, empenhei-me em destacar
de pesquisa de campo. Assim, se por um o quanto a existência ou inexistên-
lado o caso contrasta com muitas das cia desses arranjos informais, afeta o
práticas que observei (a longa duração tempo da sessão, bem como a maneira
do julgamento, a quantidade de defenso- como o caso é administrado. Os “casos”,
res, a inocorrência de acordo e a “carga” portanto, tratam de “conflitos” que são
feita pelos agentes durante a sessão), por administrados de diferentes formas, a
outro demonstra a já conhecida desco- partir de uma série de fatores (morais
nexão entre os fazeres e saberes policial e emocionais até) que impactam os
e judicial, dificultando a maneira como agentes e acionam “valores morais” e
o sistema de justiça criminal executa as “moralidades situacionais” durante o
diferentes fases da persecução criminal. “fazer judicial” (Eilbaum, 2012).
A excepcional “carga” aplicada ao Tentei mostrar como este julgamen-
julgamento justifica-se justamente to em especial não versou sobre “fatos”
para dar conta dessa desconexão. Por nem “provas” mas sobre “brigas corpo-
meio do esforço produzido pelos agen- rativas” que antecederam o julgamento.
tes durante o julgamento como um Não versar sobre fatos ou provas não
caso “de briga”, evidencia-se a neces- é o que esse caso tem de excepcional,
sidade de afirmação de cada uma das mas de corriqueiro. Nesse evento, en-
diferentes lógicas sobre as quais sus- tretanto, os fatos deram lugar às brigas
tentam-se esses diferentes saberes. En- institucionais e ao conflito entre as ló-
quanto a polícia busca uma confissão, gicas de funcionamento dessas institui-
o judiciário busca seguir, ou parecer ções, destacando não o que ocorreu no
seguir, todas as formalidades deman- dia do crime, mas a briga corporativa,
das para dar existência jurídica aos ri- travada entre esses agentes.
tos e o promotor, procura sustentar a Com a “briga”, as dimensões das
culpa dos acusados, ainda que a partir relações institucionais entre os agentes
134 CONFLUÊNCIAS | Revista Interdisciplinar de Sociologia e Direito. Vol. 18, nº 3, 2016. pp. 117-136
“UMA BRIGA CORPORATIVA”DENTRO DO TRIBUNAL DO JÚRI

da segurança pública ficam expostas. de Sociologia. 2ª ed. São Paulo: Pers-


Elas “vazam” do caso particular. A po- pectiva, 2009.
lícia civil obtém as provas por meios EILBAUM, Lucia. “O bairro fala”:
duvidosos, sem dotar os registros com conflitos, moralidades e justiça no co-
o mínimo de legalidade exigida, como nurbano bonaerense. São Paulo: Edito-
fica claro no depoimento do agente. A ra Hucitec, 2012.
promotora que acompanhava a investi- FIGUEIRA, Luiz Eduardo. O Ritual
gação, por sua vez, mede forças com o Judiciário do Tribunal do Júri. Porto Ale-
delegado responsável pelo caso, geran- gre: Sérgio Antonio Fabris Editor, 2008.
do até mesmo um processo de calúnia GLUCKMAN, Max. O material
em razão do cargo. Desse modo essas etnográfico na antropologia social in-
disputas são expostas no plenário, du- glesa. In: ZALUAR, Alba (ed). Desven-
rante o julgamento, quando a calúnia é dando Máscaras Sociais. Rio de Janei-
trazida à tona, em um bate boca entre ro: Francisco Alves, p. 63-76, 1975.
o defensor público que atua na defesa HOWELL, Signe (ed). The Ethno-
dos réus e o delegado que conduziu às graphy of Moralities. London and New
investigações. Por fim, o promotor, res- York: Routledge, 1997.
sentido a “carga” que a Defensoria Pú- KANT DE LIMA, Roberto. Direitos
blica faz na defesa, abre sua sustentação Civis e Direitos Humanos: uma tradição
oral queixando-se disso. Certo é que, jurídica pré-republicana? São Paulo em
em meio a tanto, se os réus eram cul- Perspectiva, 18, vol. 1, 2004, p. 49-59.
pados ou não, não importa. Eles foram ______ (1995). A polícia na cidade
absolvidos, diante do desenrolar de tan- do Rio de Janeiro. 2a ed. Rio de Janeiro:
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_____. Controlando o poder de
136 CONFLUÊNCIAS | Revista Interdisciplinar de Sociologia e Direito. Vol. 18, nº 3, 2016. pp. 117-136
Artigo
RIBEIRO, Vítor Eduardo Alessandri
CONFLUÊNCIAS
O USO DO CAPITAL SOCIAL NOS DISTRITOS POLICIAIS E CONSEGS DE SÃO PAULO
Revista Interdisciplinar de Sociologia e Direito
ISSN 1678-7145 || EISSN 2318-4558

O USO DO CAPITAL SOCIAL NOS


DISTRITOSPOLICIAISECONSELHOS
COMUNITÁRIOS DE SEGURANÇA
(CONSEGS) DE SÃO PAULO1
Vanessa Orban Aragão Santos
Universidade de São Paulo.
E-mail: vanessa.orban@gmail.com

RESUMO
Apesar das reclamações frequentes da população quanto a inoperância da delegacia no
encaminhamento dos casos, há uma porcentagem dos boletins de ocorrência que saem
da denúncia e iniciam a fase de inquérito. Haveria algum critério de escolha dos ca-
sos? A pesquisa investigou quais os critérios de seleção das delegacias para investigar
casos criminais. Observou-se critérios vinculados às redes de relações entre conselhos
de segurança e delegacias, possibilitando que decisões nos conselhos interfiram nas
investigações das delegacias, e, do mesmo modo, que representantes das delegacias
influam na dinâmica decisória dos conselhos.
Palavras-chave: conselho comunitário de segurança, capital social, distrito policial.

ABSTRACT
Despite frequent complaints from the population regarding the inoperativeness of
the police station in the referral of cases, there is a percentage of police occurrence
that do pass from the complaint level  to the investigation phase. Would there be
any criteria for choosing cases? The research investigated the selection criteria of
police stations to investigate criminal cases. It was observed criteria related to the
networks between security councils and police stations, allowing decisions in councils
to interfere in the investigations of the police stations. Likewise, representatives of
the police stations  could  influence the decision-making dynamics of the councils.
Key words: community council of security, social capital, police station

137 CONFLUÊNCIAS
1 O presente texto foi apresentado
CONFLUÊNCIAS no 40º Encontro
| Revista Interdisciplinar
| Revista deAnual dadeANPOCS
Interdisciplinar
duação em Sociologia das Práticas Policiais e Judiciais.
Sociologia emeVol.
Sociologia
e Direito. Caxambu,
Direito. 3,em
16, nºVol. 18,2016,
2014. 3,no
nºpp. Simpósio
2016.
60-85 137
de Pós-Gra-
pp. 137-156
SANTOS, Vanessa Orban Aragão

INTRODUÇÃO A metodologia consistiu em obser-


São recorrentes reclamações do vações exploratórias em dois distritos
atendimento nas delegacias quando policiais de São Paulo. O processo de
a população necessita fazer um bole- escolha dos distritos policiais se deu
tim de ocorrência. São descritos casos segundo critérios socioeconômicos e
de maus tratos e descaso dos funcio- socioculturais de cada região. Os dis-
nários e, algumas vezes, até abuso de tritos escolhidos foram o 14º DP de
poder. São comuns também, casos em Pinheiros2, região que concentra uma
que as vítimas de crimes reclamam da população com alto poder aquisitivo
inoperância do distrito policial no en- e alto grau de escolaridade; e o 73º DP
caminhamento do caso, quando não do Jaçanã3, região periférica que con-
adentra a etapa investigativa. Apesar centra grande quantidade de moradias
das reclamações frequentes da popula- irregulares e uma população com baixo
ção sabemos que há uma porcentagem poder aquisitivo e baixo nível de esco-
dos boletins de ocorrência que entram laridade. A intenção na escolha desses
na fase dos inquéritos policiais, ou seja, distritos policiais foi observar se havia
saem da denúncia e entram na fase in- diferença de atendimento conforme o
vestigativa, como consta nos arquivos perfil socioeconômico do público fre-
da polícia disponíveis para pesquisa pú- quentador, partindo-se da hipótese que
blica. Parece haver, então, uma seleção o capital social, cultural e/ou econômi-
dos casos que serão investigados, cujos co poderia ser um fator relevante.
critérios investigativos não estão claros Durante o observação nos distritos
para a população em geral. policiais verificou-se que uma parte da
As reclamações da população quan- população reclamante se dirigia dire-
to ao atendimento oferecido nos distri- tamente para a sala do delegado para
tos policiais vêm acompanhadas, com buscar uma solução para o seu caso em
frequência, de explicações que associam vez de ser atendida nos plantões, como
o mau tratamento à condição socioe- determina os protocolos de funciona-
conômica do solicitante. Seria esse um mento da instituição. A justificativa
fator determinante? Qual seria o critério para tal fato foi de que membros do
de seleção dos distritos policiais para in- Conselho Comunitário de Segurança
vestigar boletins de ocorrência de casos (CONSEG) tinham acesso direto ao
criminais? Este artigo foi inspirado em delegado. Foi nesse momento que se
uma pesquisa de mestrado realizada em abriu outra etapa da pesquisa, ques-
2011, que buscou investigar quais seriam tionando se o acesso dos membros do
os critérios dos distritos policiais para CONSEG ao delegado poderia de algu-
investigar os boletins de ocorrência. ma forma influenciar o processo inves-
138 CONFLUÊNCIAS | Revista Interdisciplinar de Sociologia e Direito. Vol. 18, nº 3, 2016. pp. 137-156
O USO DO CAPITAL SOCIAL NOS DISTRITOS POLICIAIS E CONSEGS DE SÃO PAULO

tigativo dos distritos policiais. Sendo Este artigo apresentará casos empí-
assim, paralelamente as observações ricos de redes duráveis de relações entre
realizadas nos distritos policiais, ocor- funcionários das delegacias de polícias
reram observações nos CONSEGs de e membros dos conselhos comunitários
ambas regiões. Sucederam-se, tam- de segurança capaz de propiciar agili-
bém, entrevistas com membros dos dade a alguns casos criminais em troca
CONSEGs, funcionários e público fre- de investimentos materiais, tema ex-
quentador dos distritos policiais4. planado na parte III do presente artigo.
Na tentativa de compreender a rede Nessa discussão, o conceito de capital
de relações que a pesquisa de campo social de Bourdieu será central e guiará
evidenciava utilizamos a teoria de Pier- teoricamente as análises. O conceito é
re Bourdieu, como principal referen- definido como: “o conjunto de recursos
cial teórico de análise. Os conceitos de atuais ou potenciais que estão ligados a
campo, capital social e capital cultural posse de uma rede durável de relações
foram importantes categorias socioló- mais ou menos institucionalizadas de
gicas para elucidar as observações em- interconhecimento e de inter-reconheci-
píricas das redes de relações que ocor- mento” (id., 2007: 67).
riam no interior dos distritos policiais e As considerações finais, expressa na
conselhos gestores de segurança. Nesse parte IV do artigo, traz um resumo do
sentido, as observações de campo pude- conteúdo observado em campo a luz
ram trazer leituras inovadoras quanto das análises teóricas.
ao conceito de capital social a partir das
interpretações da realidade. O ATENDIMENTO NOS
A parte II do artigo apresenta como a DISTRITOS POLICIAIS E
posse do capital cultural foi utilizado para O CAPITAL CULTURAL
se conseguir acessar informações rele- O nível de escolaridade da região de
vantes por parte da população frequenta- Pinheiros é bem superior ao restante da
dora dos distritos policiais. O conceito de população da cidade: 54% possui ensi-
capital cultural é baseado nas leituras de no superior completo em contraste aos
Pierre Bourdieu que o define como um 16% da população paulistana (DNA
conjunto de bens simbólicos observados Paulistano 2009). A renda acompa-
a partir das disposições duráveis de um nha os altos índices de escolaridade,
organismo, o conhecimento adquirido no qual há a predominância da classe
e guardado e a apreensão de códigos do B5, em contraste a média da população
conhecimento e as realizações materiais paulistana em que predomina a classe
por meio de um estado objetivado, patri- C. Outra característica é a boa quali-
mônio de bens culturais (2007b). dade de vida, pois a região concentra
CONFLUÊNCIAS | Revista Interdisciplinar de Sociologia e Direito. Vol. 18, nº 3, 2016. pp. 137-156 139
SANTOS, Vanessa Orban Aragão

quantidade considerável de parques, determinante nas observações da pes-


pontos culturais e boa mobilidade ur- quisa, indicando que este público em
bana, com linhas de metrô e ônibus. específico exerce poder decisório na
A região conseguiu agregar popula- política de segurança local, algo que
ções com este perfil devido a sua cons- veremos em detalhes mais a frente.
tituição histórica. Desde sua origem Já a região do Jaçanã tem outro per-
Pinheiros sempre foi uma região de ro- fil, em que a maioria da sua população
tas comerciais graças às boas condições possui ensino fundamental e médio e
geográficas para travessia. Este perfil apenas 13% possui ensino superior,
comercial cresceu ao longo dos séculos número abaixo da média da cidade. Os
e ganhou mais visibilidade na década baixos níveis também refletem na ren-
de 30 quando a região recebeu bondes da familiar, uma vez que 71% das fa-
e hospitais que mais tarde constituiriam mílias tem renda mensal até 5 salários
o complexo hospitalar das Clínicas e da mínimos (DNA Paulistano 2009). O
faculdade de Medicina. Foi o período perfil majoritário desta população é de
também em que os bairros de classe jovens (média de 36 anos), com ensino
média alta começaram a se aglutinar ao fundamental ou médio e pertencentes
redor por meio de loteamentos do que a classe C. Segundo a pesquisa do DNA
ficou conhecido como “bairros plane- Paulistano (2009: 45) o acesso desta
jados” (PONCIANO 2002). A região, população a espaços de lazer são escas-
desde seu nascimento, se constituiu sos com poucos espaços que possam
como um polo comercial da cidade que recebe-los. É, também, uma região que
garantiu a chegada de vias de acesso e apresenta grande quantidade de mo-
despertou o interesse das empreiteiras. radores por residência, com 44% deles
Os comerciantes sempre tiveram tendo 5 pessoas ou mais por habitação.
grande influência na modernização Uma das características da região é
local cobrando melhorias urbanas e sua distância do centro urbano da cida-
propagando seus ideais políticos pe- de, peculiaridade que ficou conhecida
los jornais locais a fim de garantir um graças a música Trem das Onze de Ado-
bom fluxo comercial. Esse conjunto niran Barbosa, em que é descrita como
de fatores foi se constituindo ao longo longe de tudo e com transporte público
de décadas em um processo lento que, escasso. A construção do trem da Canta-
aos poucos, foi transformando a região reira possibilitou a venda de lotes de ter-
em uma área de ativo comércio e boa ra baratos às famílias italianas pobres no
infraestrutura para os bairros. A in- início do século XX. A região se consti-
fluência dos comerciantes nos espaços tuiu como eminentemente residencial e
e equipamentos públicos na região foi com a inexistência de indústrias.
140 CONFLUÊNCIAS | Revista Interdisciplinar de Sociologia e Direito. Vol. 18, nº 3, 2016. pp. 137-156
O USO DO CAPITAL SOCIAL NOS DISTRITOS POLICIAIS E CONSEGS DE SÃO PAULO

A pesquisa de campo ocorreu du- logo mais argumentativo, uma narra-


rante quatro meses ao longo de 2011 tiva lógica, uma maior quantidade de
e foram observados 857 atendimentos propostas de resolução e possibilida-
dos plantões à população junto ao 14º des de negociação eram pessoas com
DP e ao 73º DP. As observações per- nível de instrução mais elevado. E no
mitiram perceber comportamentos do sentido oposto, observou-se que quan-
público que se diferenciavam conforme do o atendido tinha dificuldade de se
a forma como se expressavam, impac- expressar de forma clara, utilizando
tando na qualidade do atendimento descrições pouco detalhadas, narrativa
dado a essa população. pouco fluída sobre os fatos geralmen-
O 73º DP do Jaçanã, apresentou um te possuía um nível de instrução mais
público jovem majoritariamente cons- baixo. O esforço que o funcionário
tituído por pessoas entre 16 e 45 anos, fazia para entender o acontecido era
com nível de instrução até o ensino maior, produzindo irritação e um aten-
médio e residentes dos bairros do en- dimento de pior qualidade. Um dos re-
torno. O 14º DP de Pinheiros apresen- sultados desse atendimento era a pro-
tou públicos muito diversos, uma par- dução de boletins de ocorrência com
te significativa de moradores, outra de a descrição dos fatos não condizente
frequentadores dos bares e restaurantes com a narrativa do atendido, constan-
do entorno, sem a predominância de do informações sem relevância e, mui-
uma faixa etária. Contudo, o distrito tas vezes, contrária ao que foi dito.
policial de Pinheiros apresentou maior O público com nível de instrução
presença de pessoas com ensino supe- mais baixo, devido a sua dificuldade
rior completo quando comparado ao de possuir um vocabulário que per-
Jaçanã, acompanhando o perfil da po- mitisse se expressar de forma mais
pulação residente naquela região. clara, utilizavam outras ferramentas
A observação de ambos os distri- comunicacionais diferentes da nar-
tos policiais evidenciou que havia uma rativa descritiva dos fatos. O foco da
diferença no atendimento ao público narrativa deixava de ser o fato em si, e
conforme a maneira com que se ex- passava a ser as características pessoais
pressavam no plantão. A emotividade, dos envolvidos. Descreviam e adjetiva-
a clareza do vocabulário, o argumento vam os envolvidos da narrativa como
lógico utilizado eram quesitos que in- pessoas boas ou más, denotando forte
terferiam diretamente na qualidade do carga moralista na construção dos fa-
atendimento e nas informações repas- tos e na rotulação dos envolvidos. A
sadas pelos funcionários. Geralmente emotividade era um recurso utilizado
quem conseguia apresentar um diá- com frequência para se expressarem,
CONFLUÊNCIAS | Revista Interdisciplinar de Sociologia e Direito. Vol. 18, nº 3, 2016. pp. 137-156 141
SANTOS, Vanessa Orban Aragão

inclusive porque esta parecia ser uma ao se ver como vítima, estabelece com
importante ferramenta de linguagem o distrito policial grande expectativa na
com que se sentiam escutados. resolução do seu caso a partir de ele-
Eram recorrentes nos distritos situa- mentos morais, ligados a sua honestida-
ções em que este grupo identificava-se de e a atributos familiares (“ser pai ou
como vítima do fato. A construção do mãe de família”). Este comportamento
papel de vítima junto aos funcionários foi recorrentemente verificado em casos
aparecia como central no momento do de brigas em família e de brigas entre
atendimento, com lamentações e choros motoristas no trânsito, os quais se enca-
demandando do funcionário atenção e minhavam para o distrito policial na in-
compaixão. Observou-se a produção tenção de confeccionar um boletim de
de um “discurso de vitimização” como ocorrência que consolidasse seu ponto
principal ferramenta narrativa deste de vista como verdadeiro. Ter um do-
grupo social. Ocorria um momento de cumento apresentando o seu ponto de
teatralização que decorria, em parte, vista e com o timbre oficial do gover-
da necessidade de desabafar a angús- no era, para o declarante, uma espécie
tia vivida e, em parte, para convencer o de oficialização da sua versão como
funcionário da importância da sua ino- a verdadeira, era a legitimação do seu
cência. O processo que ocorria junto discurso. Nesses casos não havia a com-
a este grupo era similar a uma catarse, preensão, por parte dos declarantes, de
que, neste contexto, remete ao concei- que o boletim de ocorrência era apenas
to de Aristóteles, quando o define pelo uma das interpretações do conflito.
efeito de “purificação” produzido sobre Ir ao distrito policial para resolver
os expectadores por uma representação um conflito de relacionamento entre vi-
dramática. Para a psicologia, a catarse é zinhos, familiares e espaço de trabalho
um método terapêutico que visa resol- era, também, a busca por uma autorida-
ver um problema subjetivo por meio de de do Estado capaz de organizar a vida
uma crise emocional. Em certa medida, social e definir quem está certo ou quem
o atendimento se mostrava um recon- está errado. A procura da população
forto psicológico, em decorrência de se pelo distrito objetivava, muitas vezes,
poder falar e ter alguém para ouvir. O buscar uma autoridade externa ao con-
discurso de um escrivão evidencia esta flito para mediar qual das partes tinha
análise: “a delegacia é mais um espaço razão, a fim de finalizá-lo. Era comum
social e de assistência psicológica do que que as partes envolvidas no caso se diri-
um espaço de cunho criminal”. gissem ao distrito para que, no momen-
Uma das leituras para este compor- to do atendimento, as visões da situa-
tamento condiz quando esse público, ção fossem expostas e que o atendente
142 CONFLUÊNCIAS | Revista Interdisciplinar de Sociologia e Direito. Vol. 18, nº 3, 2016. pp. 137-156
O USO DO CAPITAL SOCIAL NOS DISTRITOS POLICIAIS E CONSEGS DE SÃO PAULO

pudesse tomar decisões para resolver o clareza de que o boletim de ocorrência


conflito, numa espécie de pequeno fó- não tinha valor resolutivo em si, mas
rum imediato de julgamento e decisão6. era uma das várias etapas necessárias
A maior presença de grupos sociais para o indivíduo acessar o sistema ju-
com menores recursos econômicos no diciário, ou para acionar a seguradora
distrito policial não é novidade, já evi- do carro, ou da casa, ou cumprir uma
denciado por alguns autores quando formalidade de roubo e repassar as ca-
afirmam que esses grupos procuram racterísticas do assaltante. Não havia
mais os distritos policiais, enquanto os expectativas desse grupo em convencer
estratos médios e altos da população o funcionário de que se fora vítima de
procuram mais os Juizados Especiais determinada situação injusta. A insti-
(PAIXÃO& BEATO 1997; VIANNA tuição policial, para esse grupo, assu-
2007; D’ARAÚJO Apud Oliveira 2003). mia uma função instrumental, ou seja,
Um indício disso condiz com a pesqui- a produção do boletim de ocorrência
sa de Vianna (loc. cit.) quando aponta era apenas uma pequena parte de um
que 32,6% da população que aciona o longo processo do judiciário para se
Judiciário têm curso superior, 51,4% conseguir resolver seu problema. Isto
têm ensino médio completo e somente permitia a este público, no momento
16% têm ensino fundamental completo de produção do boletim de ocorrência,
e incompleto. Isto evidencia que a Justi- uma aparente tranquilidade e descrever
ça ainda é pouco acionada pelos setores os fatos de forma detalhada e bastante
menos instruídos da população. técnica. Notou-se que este público se
As entrevistas realizadas com o relacionava com os funcionários do
público frequentador identificou que plantão em uma condição de igualdade
para os grupos com menor instrução e não de subalternidade como era ob-
a polícia representava o “acesso à justi- servado em alguns casos pelo público
ça”, ou seja, a possibilidade de, alguma com menor grau de escolaridade.
forma, ter acesso a uma instituição do Verificou-se que, tais práticas tipi-
Estado que poderia intervir e resolver camente “judiciárias” exercidas pela
seu problema. Outros órgãos, como o polícia, ocorriam na resolução dos ca-
judiciário, são vistos como distantes e sos vivenciados pelos grupos populares.
inacessíveis para este público, tendo di- Contudo, não podemos afirmar, sim-
ficuldade de identificar quais os órgãos plesmente, que a polícia não cumpre o
que poderiam ajuda-lo a solucionar determinado pela lei e assume um papel
sua dificuldade. Isto é o oposto do que que não lhe diz respeito, exercendo-o
ocorre com grupos com maior nível de de forma intransigente. O desempenho
instrução e poder econômico. Havia policial, desde suas origens, sempre res-
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SANTOS, Vanessa Orban Aragão

pondeu a essas demandas da popula- tem correspondência com a realidade.


ção por envolver-se em casos de cunho No entanto, essa correspondência deve
pessoal. O próprio Código do Proces- ser compreendida com ressalvas: me-
so Penal do Império, de 1830, atribuía lhor escolaridade e melhor condição
explicitamente à polícia competência socioeconômica, em si, não determi-
judicial sobre alguns pequenos delitos nam um melhor atendimento. Ou seja,
de que envolvem a pessoa, designados não podemos afirmar que pessoas com
como “crimes policiais”. A pesquisa tem maior escolaridade e com melhores re-
mostrado que esta realidade ainda per- cursos financeiros são, necessariamen-
manece no interior dos distritos poli- te, melhor atendidas pelos funcionários.
ciais, em boa parte devido a demanda Durante a pesquisa observamos situa-
da população. O que pudemos observar ções em que pessoas com essas condi-
ao longo da pesquisa de campo no Ja- ções receberam um mau tratamento,
çanã e em Pinheiros foi que os grupos assim como pessoas com o nível de ins-
com menor acesso ao universo da lei e trução e condição socioeconômica mais
do direito buscam formas alternativas baixa receberam um bom atendimento.
de resolver seus problemas, que não O que podemos afirmar é que pessoas
necessariamente passa pelo judiciário. que se expressam de forma mais clara
A polícia, representando o Estado, não e lógica geralmente tem mais acesso a
foi absolutamente excluído do proces- conhecimentos jurídicos (acesso à ad-
so, porque ainda se constitui como uma vogado, conhecimento das leis penais,
possível solução dos grupos com limi- funcionamento do distrito policial etc.),
tações de acesso aos órgãos judiciários. utilizando-os de forma mais funcional
Em suma, as observações de campo segundo suas necessidades e acessando
nos permitiram agrupar o público fre- códigos de conduta e de linguagem co-
quentador em dois tipos: aqueles que muns aos funcionários.
detêm melhor nível de instrução e con- O capital cultural, nessa perspecti-
dição socioeconômica e os que apresen- va, se revelou o principal mecanismo
tam nível de instrução e condição so- que interferia na forma como a pessoa
cioeconômica mais baixa. Observamos se expressava e conseguia um melhor
que a forma como o público se expressa atendimento nos distritos policiais. O
(com narrativa clara e sem emotivida- funcionário e o declarante acessavam
de) possibilita um melhor atendimento. códigos de linguagem similares, defini-
Isso indica que a percepção do senso das como um conjunto de práticas tais
comum que associa um melhor atendi- como a forma de se expressar, o conteú-
mento à condição socioeconômica do do exposto no momento do atendimen-
solicitante, levantadas na introdução, to, a base jurídica sobre o qual se baseia
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O USO DO CAPITAL SOCIAL NOS DISTRITOS POLICIAIS E CONSEGS DE SÃO PAULO

a confecção dos boletins de ocorrência. As pessoas portadoras de capital


Aqueles que não conseguem se comuni- cultural são, como apontado pela teoria
car pelos códigos de linguagem comuns de Pierre Bourdieu, portadores de ar-
aos funcionários do distrito tendem a mas simbólicas acionadas por meio das
sofrer sanções dos mais diferentes tipos, interpretações da lei, do conhecimento
desde ser ignorado nas suas solicitações técnico e dos recursos jurídicos. Essas
até sofrer um atendimento mais ríspido. armas simbólicas não estão disponí-
O conjunto destes capitais de co- veis a todos, mas somente aqueles que
nhecimento é o que Pierre Bourdieu são dotados de competências técnicas
classifica como capital cultural (2007), e sociais e podem mobilizar recursos
definido por um conjunto de bens sim- jurídicos e conhecimento para fazer
bólicos observados sob duas perspecti- triunfar a sua causa. O capital cultural
vas: de um lado as disposições duráveis se revela como resultado do esforço
de um organismo, o conhecimento ad- individual em adquirir patrimônio em
quirido e guardado e a apreensão dos bens culturais, investimento material e
códigos do conhecimento, que pode de tempo, a fim de obter conhecimento
dar-se através do domínio do saber de e guardá-lo por meio da apreensão dos
um mestrado, de línguas, de cultura códigos do saber. Seu conhecimento a
cultivada, viagens etc. De outro lado respeito do funcionamento do distrito
há as realizações materiais por meio de policial e do Código de Processo Penal
um estado objetivado, patrimônio de Brasileiro possibilita saber qual a fun-
bens culturais (livros, dicionários, ins- ção do distrito, do funcionário que lhe
trumentos máquinas). O capital cultu- atende e como pode utilizar estas in-
ral pode socialmente se encarnar num formações a seu favor para o bom de-
estado institucionalizado de títulos, di- senrolar do processo jurídico que virá
plomas, êxitos em concursos etc., que a posteriori. O conhecimento, utilizado
são objetivamente reconhecidos como como ferramenta para determinado fim
competências pela sociedade. Ele não no campo jurídico (campo com o qual
é algo que pode ser herdado sem um a instituição policial dialoga diretamen-
esforço dos agentes, pois demanda um te), é resultado do investimento que o
trabalho contínuo de aprendizagem e agente fez ao longo de sua trajetória de
aculturação, ou mesmo investimento vida quando adquiriu bens simbólicos
material e de tempo como parte in- como livros, diplomas, viagens, cursos,
tegrante do habitus (Id., 1985, 2000, aprendizagem escolar, êxitos em con-
2007). É um bem que pode ser adqui- cursos, cursos de línguas e tempo para
rido fora do âmbito da troca ou da total o estudo, que são objetivamente reco-
dependência do outro agente. nhecidos como competências pela so-
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SANTOS, Vanessa Orban Aragão

ciedade. Adquirir tais bens simbólicos 47). Como já apontado pelo autor, o
geralmente é possível quando se tem processo de distinção que os grupos
recursos econômicos para tanto. dominantes estabelecem em relação aos
Vimos que grupos sociais com me- dominados, tem como uma das princi-
nores recursos socioeconômicos e sim- pais características a distinção do mun-
bólicos utilizam a emotividade para se do da necessidade econômica. Esta dis-
manifestar, algo explanado por Bour- tinção se manifesta nas mais diferentes
dieu como princípio ético, definindo-o categorias sociais, da qual a linguagem
como um sistema das normas que nor- é uma das suas expressões. Isto indica
teia as explicações de mundo do grupo que, utilizar uma maneira mais clara e
dos dominados (2007 passim). Ou seja, objetiva de se expressar no momento
utilizam recursos linguísticos circuns- da confecção do boletim de ocorrên-
critos as expressões éticas e moralistas cia, é uma das maneiras pelas quais os
para classificar o mundo ao seu redor. agentes dominantes do campo jurídico
Quando se exprimem através de mani- se reconhecem. O melhor atendimento
festações corporais como o choro e o pelos funcionários surge como conse-
grito, estão utilizando as ferramentas quência desse reconhecimento entre
linguísticas que possuem. pares, preservando a exclusividade da-
No sentido inverso, vimos que os queles que detêm as armas simbólicas
grupos sociais com melhores recursos intrínsecas ao campo jurídico. Apesar
econômicos e culturais apresentam a de não podermos afirmar que fatores
antítese do comportamento catártico. como melhor escolaridade e condição
Observação constatada no DP de Pi- socioeconômica determinam por si só
nheiros. Expressam-se com uma apa- um bom atendimento, podemos afir-
rente neutralidade na descrição dos mar que possuir uma “bagagem” de
fatos, sem o uso de adjetivos ou expres- informações culturais os leva a saber
sões moralistas. À luz da teoria de Bour- como se expressar, a ter consciência dos
dieu, podemos interpretar que este gru- seus direitos e maior clareza de quais as
po classifica-se como os dominantes do expectativas capazes de serem supridas
campo jurídico, porque detêm o capital pelas instituições policiais.
cultural, econômico e simbólico. As fer-
ramentas linguísticas que utilizam para A INFLUÊNCIA DO CAPITAL
se expressar possuem características de SOCIAL NOS CONSELHOS
aparente neutralidade e imparcialidade. COMUNITÁRIOS DE SEGURANÇA
É por meio da “neutralização e distan- Durante o período de observação
ciamento que o discurso burguês7 supõe nos distritos policiais foi possível veri-
e opera sobre o mundo social” (Id. 2007: ficar que alguns dos demandantes não
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O USO DO CAPITAL SOCIAL NOS DISTRITOS POLICIAIS E CONSEGS DE SÃO PAULO

aguardavam atendimento na sala de litar estavam disponíveis para escutar


espera, como todos os solicitantes de e negociar com a população soluções
boletins de ocorrência. Eles se dirigiam para os problemas dos seus bairros,
diretamente a sala do delegado a fim de sendo, inclusive, estatutária a obrigato-
buscar uma solução para o seu caso em riedade da presença de representantes
particular. A justificativa dos funcioná- das polícias. A estrutura organizativa
rios para este ocorrido explicitava-se do conselho facilitava esse espaço de
pelo fato de que estes eram membros contato, cuja função era discutir, anali-
do CONSEG e tinham acesso direto ao sar, planejar, avaliar e acompanhar a so-
delegado para realizar suas demandas. lução dos problemas de proteção social
Foi nesse momento em que abriu-se um nos distritos e regiões onde a comuni-
novo campo de investigação na pesqui- dade local habita8. Observamos alguns
sa que buscou explorar se este vínculo fatores que influenciavam na dinâmica
direto com o delegado poderia de algu- do conselho, como as diferenças de per-
ma forma influenciar na resolução dos fil do público e a forma como os parti-
casos, e consequentemente no processo cipantes vivenciavam o espaço, se asso-
investigativo dos distritos policiais. ciavam a ele e criavam uma identidade
O nascimento no Brasil dos Con- com os outros frequentadores.
selhos Comunitários de Segurança em O público dos CONSEGs de Pinhei-
meados dos anos 80 objetivava respon- ros e Jaçanã constituía-se por membros
der a uma nova concepção de democra- itinerantes e fixos, os primeiros clas-
cia participativa dos estados modernos sificados como aqueles que participa-
que não fosse exclusivamente consti- vam de reuniões de forma pontual e os
tuído pelo modelo representativo, mas segundos aqueles presentes em quase
abarcasse mecanismos de participação todas as reuniões. Este último era um
direta da população nos assuntos que público majoritariamente de proprie-
lhe são de seu escrutínio, contemplan- tários de estabelecimentos comerciais
do minorias antes negligenciadas (MI- dos bairros e participavam com um
RANDA & TEIXEIRA 2006: 14). objetivo definido: garantir maior se-
Apesar da proposta participativa gurança para seus estabelecimentos
com que nascem os CONSEGs, nossa comerciais. Eles constituíam uma rede
pesquisa observou outras características de relações que lhes possibilitava saber
destas instituições, que vão na direção as regiões mais afetadas por assaltos,
de um espaço de articulação de relações quais as táticas dos assaltantes e quais
pessoais e o estabelecimento de conta- as ações utilizadas que poderiam inti-
tos estratégicos. Era nos CONSEGs que midar a ação dos criminosos. Os CON-
os representantes da polícia civil e mi- SEGs tinham uma dupla função para
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SANTOS, Vanessa Orban Aragão

este grupo: participação política deci- segundo a urgência do caso ou a vonta-


sória na comunidade local e espaço de de da maioria, mas conforme a influên-
disseminação de informações. Além cia pessoal que o solicitante tinha junto
de preocupações com a criminalidade, à diretoria do CONSEG e sua dedicação
suas reivindicações eram as mais diver- às atividades desse conselho.
sas como: problemas com mendigos O apoio dos comerciantes à manu-
nas ruas, festas em alguma praça da re- tenção dos CONSEGs era frequente e
gião que perturbava os moradores do traduzido por meio de gastos com even-
entorno, presença de camelôs, falta de tos, festas, presentes e material adminis-
iluminação, terreno baldio sujo etc. trativo. Os eventos e condecorações po-
Os comerciantes dos CONSEGs, liciais, os presentes natalinos doados as
principalmente de Pinheiros, possuíam polícias eram financiados pelos comer-
uma potente articulação com vereado- ciantes da região. Observou-se que não
res, secretários e deputados estaduais havia uma separação dos recursos do
para garantir que suas demandas pu- Estado e dos recursos da iniciativa pri-
dessem ser atendidas. Com frequência vada, estabelecendo um imbricamento
convidavam políticos para as audiências de ambos na manutenção desse espaço
a fim de dar esclarecimentos a respeito decisório, e permitindo, desta forma,
do andamento das suas demandas. E uma maior influência privada sobre as
como contrapartida, pedidos de apoio decisões desse conselho comunitário.
político lhes eram solicitados para pro- A pesquisa etnográfica de Ana Paula
jetos de lei, divulgar atividades parla- Galdeano (2009) também revelou o im-
mentares e alinhamento de objetivos. bricamento de relações entre o público
A frequência dos proprietários de frequentador do CONSEG e os policiais
estabelecimentos comerciais nos con- participantes. Ela revela a existência da
selhos de segurança revelou-se uma entrega de certificados para o policial
importante ferramenta na definição da do mês e jantares de confraternização,
pauta das reuniões e das urgências de que se caracterizavam como rituais que
ações locais. Permanecer como mem- os moradores organizavam para pac-
bro efetivo do CONSEG era garantir tuar apoio às polícias.
que suas demandas fossem escutadas O próprio nascimento do CON-
pela diretoria, e para isso necessitavam SEG de Pinheiros relevou a influência
realimentar constantemente as rela- dos comerciantes na sua construção. A
ções com outros donos de comércios entrevista realizada com um dos prin-
e representantes das polícias, a fim de cipais comerciantes, dono de oito res-
ter legitimidade nas suas demandas. As taurantes no bairro, revelou que foi ele
prioridades do CONSEG não ocorriam quem primeiro articulou com outros
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O USO DO CAPITAL SOCIAL NOS DISTRITOS POLICIAIS E CONSEGS DE SÃO PAULO

comerciantes e policiais as primeiras eram solicitadas aos comerciantes dos


reuniões que visavam garantir a segu- CONSEGs e não à Secretaria de Segu-
rança dos estabelecimentos comerciais rança Pública. Isto ocorria por diferen-
da região. Havia um acordo informal tes motivos, que iam desde o incômodo
que priorizava a proteção de alguns es- político junto ao DECAP quando soli-
tabelecimentos comerciais por meio de citavam recursos para os distritos, até
ações protetivas da polícia. Em 1985, a certeza da negativa de seus pedidos.
com a lei de criação dos CONSEGs, esta Nesse contexto, era para o CONSEG
parceria se formalizou transformando que os representantes dos distritos po-
um grupo já consolidado em uma ins- liciais encaminhavam suas demandas.
tituição comunitária. O CONSEG Pi- Foi o que se sucedeu quando um dos
nheiros assumiu as características do distritos policiais oficializou ao CON-
coletivo informal, reiterando a presença SEG o pedido por um automóvel para
e o poder dos comerciantes. realizar o deslocamento dos investiga-
Este mecanismo de funcionamento dores. Outro exemplo condiz com a
do Conselho que prioriza determinados instalação de câmaras de vigilância em
grupos em detrimento da população um dos distritos realizada por outro co-
em geral foi verificado em outras pes- merciante local. O próprio regulamen-
quisas, apontando que o conhecimento to do CONSEG possibilita estes acor-
sobre o funcionamento do CONSEG dos e formas de financiamento pelos
tem favorecido algumas lideranças lo- membros, quando afirma, no artigo 22,
cais em detrimento dos interesses cole- as competências dos membros natos9.
tivos. Como afirma Miranda & Teixeira Como contrapartida, os delegados re-
(2006: 61), verificou-se a apropriação cebiam nos distritos policiais membros
dos recursos públicos de forma particu- do CONSEG que, quando vítimas da
larizada nas reuniões entre a polícia e criminalidade, se dirigiam diretamen-
a comunidade, disputando recursos de te ao delegado titular e recebiam ótimo
policiamento escassos (homens, viatu- atendimento e a garantia de um maior
ras e instalações) e chocando-se com a empenho na investigação do caso.
ideia de uma segurança pública pensada As observações do campo releva-
de forma ampliada como inicialmente ram que as limitadas perspectivas de
proposta na sua concepção inicial. resolução dos problemas da população
A manutenção dos distritos poli- nos distritos policiais têm estimulado
ciais também era garantida pelos co- alguns indivíduos a procurar alterna-
merciantes. As entrevistas revelaram tivas para resolver seus casos, e nesse
que uma série de necessidades admi- sentido, os CONSEGs têm sido uma
nistrativas e estruturais dos distritos das principais formas de articulação.
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SANTOS, Vanessa Orban Aragão

As comparações realizadas entre os terísticas positivas porque é utilizado


CONSEGs do Jaçanã e Pinheiros re- para reforçar os espaços democráticos e
velaram similaridades e diferenças, aumentar o grau de mobilização e poli-
das quais a principal delas foi o uso do tização desses espaços. O capital possi-
capital social como principal elemento bilitaria a construção de espaços amplos
mobilizador no funcionamento desses de discussão e a capacidade de firmar
conselhos gestores e influenciando as vínculos de confiança entre indivíduos
políticas locais de segurança. que prioritariamente trazem benefícios
Cabe fazer uma distinção a respeito para a comunidade democrática, pro-
do conceito de capital social para ga- duzindo consequências positivas para
rantir a que ele nos ajude nas leituras o coletivo. Esta interpretação do con-
do campo. O capital social, diferente- ceito tem como principais teóricos Ro-
mente do capital econômico e cultural, bert Putman (1996), Francis Fukuyama
está calcado nas estruturas das relações (1996) e James Coleman (1987;1988).
com o outro. Sua fonte de poder e in- Já a interpretação francesa do con-
fluência se firma na relação dos agen- ceito de capital social teve como prin-
tes e não está neles próprios. Este capi- cipal precursor Pierre Bourdieu e o
tal só existe porque está em constante define como o grau de mobilização e
movimento. É a sua participação nos benefícios que o indivíduo consegue a
grupos que possibilita a construção de partir da sua pertença a um grupo ou
sociabilidades e solidariedades entre os rede social. O conceito é entendido por
agentes que se autoidentificam como meio de uma rede de relações sociais
iguais. A discussão teórica sobre o con- do agente para obter acesso a informa-
ceito tem centralmente duas interpre- ções e bens dos mais variados tipos. As
tações. Elas se diferem em relação às consequências desta obtenção podem
consequências do uso do capital social assumir características tanto positivas
que pode beneficiar ou prejudicar gru- quanto negativas para o entorno e para
pos e comunidades que interagem com a comunidade na qual o agente está in-
o agente portador desse capital. serido. Significa dizer que o acúmulo de
A primeira interpretação, a norte-a- capital social pode propiciar ações mo-
mericana, compreende o capital social nopolizadas junto a alguns agentes ou
como elemento colaborador para a par- grupos, bem como a exclusão ou a au-
ticipação social na gestão pública local, toexclusão de indivíduos não dotados
potencializando-o como um grande de capital das instâncias de participação
instrumento pedagógico na construção política ou instituições públicas. Nesta
de sujeitos politizados. Ou seja, nesse interpretação o capital social pode acar-
contexto o capital social assume carac- retar prejuízos à participação democrá-
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O USO DO CAPITAL SOCIAL NOS DISTRITOS POLICIAIS E CONSEGS DE SÃO PAULO

tica, configurando consequências nega- membros se reconheciam quando se


tivas para as instâncias sociais. ajudavam em questões mais pontuais,
Nossa pesquisa de campo revelou como a solicitação de novas viaturas
limitações por parte dos conselhos ges- ou maior atenção policial em deter-
tores de segurança em absorver a ampla minado local, sem, contudo, interferir
participação da comunidade nas reu- na dinâmica policial da região com
niões. Os CONSEGs se mostraram es- propostas muito transformadoras do
paços monopolizados por grupos cons- âmbito político e/ou social.
tituídos por donos de estabelecimentos As redes de relações se mantinham
comerciais da região que, por meio de graças ao investimento constante que
articulações políticas, objetivavam de- seus membros faziam quando partici-
fender suas prioridades. Eles se diri- pavam das reuniões mensais e quando
giam às reuniões dos conselhos visando procuravam criar um ambiente propí-
somente ratificar suas demandas, sem, cio àqueles que podiam oferecer algum
contudo, incorporar e discutir questões benefício ao grupo. A troca de favor era
pertinentes a outros grupos ali presen- elemento chave para a manutenção da
tes. Percebemos uma exclusão daqueles rede de relações e, consequentemente,
agentes ou grupos que não estivessem do capital social. É assim que o capi-
alinhados às suas demandas. Isto nos tal social era constantemente retroali-
revela que a interpretação norte-ameri- mentado, vinculando os membros do
cana que classifica o capital social como grupo por demandas similares e pelo
positivo para a coletividade e para cons- oferecimento de benefícios. Aqueles
trução de um modelo democrático não que não possuíam visões similares ao
se verifica nesse caso. A concepção de desenvolvimento das atividades ou a
Bourdieu que evidencia o capital social oferta de algum benefício eram, ge-
como mobilizador de benefícios indivi- ralmente, excluídos do grupo decisó-
duais ou de grupos específicos parece rio. Sendo assim, verificou-se que o
mais adequada a leitura da realidade. acúmulo de capital social era capaz de
A formação do capital social nos propiciar monopólios de decisão junto
conselhos gestores dava-se por meio a alguns grupos, bem como a exclusão
de articulações entre os donos de co- ou a auto exclusão de agentes sociais
mércios e pessoas chave dos CON- não dotados de capital social nas ins-
SEGs e distritos policiais. A partir daí, tâncias do CONSEG. As consequên-
firmava-se uma rede durável de rela- cias desse monopólio, como observa-
ções que permitia aos seus membros do, são negativas para a consolidação
se reconhecerem por meio de trocas, dos espaços democráticos por meio da
de lugares comuns ou de práticas. Os participação da comunidade.
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SANTOS, Vanessa Orban Aragão

Os agentes sociais pertencentes ao mas pessoas necessitavam de ajuda no


CONSEG e ao distrito policial estavam âmbito criminal, é no distrito policial
vinculados por meio de um “fluxo” do que buscavam soluções junto àqueles
capital social, que permitia seu trânsito que pertenciam a sua rede de relações,
de uma instituição à outra angariando como o delegado titular e os policiais.
benefícios ao grupo monopolizador. Em resumo, podemos afirmar que
Os benefícios podiam caracterizar-se quando apreendemos o fluxo do capital
pelas mais diferentes expressões, des- social que viabiliza o trânsito das pes-
de cargos e bens duráveis até acesso a soas nos distritos policiais e nos CON-
posições de poder no interior dessas e SEGs, estamos, na verdade, observan-
outras instituições públicas e privadas. do como esses grupos monopolizam o
Nesse “fluxo” do capital social o CON- poder de decisão e, consequentemente,
SEG figurava como o principal espaço mantêm suas posições de dominan-
onde se formava esse capital, enquanto tes do interior do campo jurídico10. A
os distritos policiais geralmente eram existência e a subsistência dos domi-
os espaços onde se mobilizava o capital nantes do interior deste campo só são
social. Isto significa que os indivíduos, possíveis por meio da diferenciação,
quando buscavam o CONSEG, preten- pois ocupam posições desiguais e re-
diam conhecer pessoas, articular rela- lativas em um espaço de relações. As-
ções e assumir posições de poder no sim, quando definimos o espaço onde
seu interior. O mesmo não foi observa- ocorrem as disputas entre as pessoas
do nos distritos, local de uso do capital no interior do campo jurídico, estamos
social, onde as pessoas, já detentoras analisando as relações de poder entre
desse capital, acessavam este espaço as pessoas, analisando como ocorre o
para adquirir informações e agilizar sistema de dominação uns sobre outros
casos de cunho criminal. e como essas relações são reproduzidas.
Apesar dos distritos policiais cons- O capital social encarna o poder que os
tituírem-se como um dos espaços onde agentes possuem num determinado es-
se usava o capital social, ressaltamos paço físico, simbólico e social. Quando
que há outros espaços que também po- analisamos tais relações estamos, no li-
deriam mobilizar esse mecanismo. O mite, analisando o exercício do poder.
CONSEG, por exemplo, revelou-se ou-
tro espaço de uso do capital social. Ele CONSIDERAÇÕES FINAIS
oferecia condições dinâmicas, capaz de Este artigo discutiu qual a influên-
produzir o capital ao mesmo tempo em cia do capital social na rede de relações
que criava condições para seu uso. Ob- dos distritos policiais e dos CONSEGs
servamos, contudo, que quando algu- em São Paulo. Vimos que há uma série
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O USO DO CAPITAL SOCIAL NOS DISTRITOS POLICIAIS E CONSEGS DE SÃO PAULO

de elementos ligados ao capital cultural gadores, reposição de material de es-


que interferem na qualidade do atendi- critório e garantindo as refeições dos
mento ao público nos distritos policiais. funcionários dos distritos policiais.
Durante o desenvolvimento da O vínculo entre os distritos policiais
pesquisa constatamos a necessidade e os CONSEGs permanecia por meio
de explorar novos cenários antes não da existência de um “fluxo” do capital
previstos decorrentes das relações en- social, que permitia o trânsito de bene-
tre alguns frequentadores do distrito fícios entre grupos sociais restritos. Este
policial e o delegado, o que poderia “fluxo” viabilizava que as decisões nos
de alguma forma influenciar na re- conselhos gestores interferissem nas
solução dos casos. Foi, então, que se atividades desenvolvidas nos distritos
abriu um novo campo investigativo policiais, e, do mesmo modo, que os re-
junto aos Conselhos Comunitários de presentantes dos distritos influíssem na
Segurança (CONSEGs). Informações dinâmica decisória dos CONSEGs.
de campo sugeriam que estes conse- Em suma, esta pesquisa refletiu
lhos gestores seriam espaços de pro- quanto à lógica das instituições brasilei-
dução de capital social, o que foi con- ras funcionarem conforme privilégios
firmado pela observação empírica. Os a determinados grupos. Questionamo-
CONSEGs se revelaram os principais -nos se as relações de favorecimento são
espaços de formação e articulação do parte da constituição cultural brasileira,
capital social, capazes, inclusive, de nos quais hábitos e costumes peculiares
interferir nas atividades investigativas são, posteriormente, consolidados e se
dos distritos policiais. tornam tradições. Referimo-nos espe-
A produção e a articulação do ca- cificamente as relações públicas que se
pital social era possível por meio de estabeleceram no âmbito da pessoali-
relações pessoais e do estabelecimento dade e da informalidade solapando a
de contatos estratégicos, que visavam, burocracia racional em determinados
em última análise, resolver proble- ambientes, constituindo um caráter
mas dos seus articuladores. Em troca particularista. Esta pesquisa teve a in-
da resolução do seu problema, os co- tenção de dar mais um passo no estudo
merciantes frequentadores garantiam deste universo temático.
financeiramente o funcionamento do
CONSEG e dos distritos policiais, fa- ENDNOTES
zendo investimentos na infraestrutura 2. O 14º DP de Pinheiros atende aos
dessas instituições, reformas físicas, seguintes bairros: Boaçava, Jardim Ca-
colocação de câmeras de vigilância, lifórnia, Vila Jataí, Jardim Jacarandás,
manutenção dos carros dos investi- Jardim Atibaia, Alto de Pinheiros, Su-
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marezinho e Parque Vila Lobos. sejava fazer um boletim de ocorrência


3. O 73º DP atende uma infinida- contra a mãe de seu filho que, segun-
de de bairros novos, que aumentam a do ele, havia espancado a criança que
cada ano, produto de novos loteamen- se encontrava em seus braços. Pouco
tos e de ocupação desordenada. Até o depois a mãe chegou ao distrito e ini-
final desta pesquisa os bairros listados ciou-se uma discussão no balcão de
foram: Vila Solemar, Furnas, Jardim atendimento. A mulher aparentava es-
Maria Cândida, Vila Pereira, Parque tar bastante preocupada com a possi-
Edu Chaves, Vila Nilo, Jardim Brasil, bilidade da confecção do boletim, dan-
Jardim Guapira, Jardim Cabuçu, Jar- do a entender que isto poderia fazê-la
dim Filhos da Terra, Jardim Modelo, perder o direito de permanecer com
Chácara São João, Conjunto Residen- a criança. A discussão iniciada seguia
cial Montépio, Jaçanã, Vila Carolina, no sentido de convencer os investiga-
Vila Paulistana, Vila Ester, Bartolândia, dores, escrivães e delegado sobre suas
Cohab Apuanã, Jardim Joana D’Arc, versões da história, a fim de que os
Jardim Piqueri, Vila Aurora, Vila Dor- funcionários pudessem determinar a
nas, Jardim Martins Silva, Chácara São guarda da criança naquele momento.
José, Sítio São João, Sítio Barrocada, O envolvimento de outros membros
Chácara Paraíso e Chácara Santa Sofia. das famílias que iam chegando tinha
4. A pesquisa etnográfica foi reali- por objetivo se tornarem testemunhas
zada durante quatro meses nos distritos da versão de uma das partes e definir
policiais de Pinheiros e Jaçanã e obser- qual dos lados possuía o discurso le-
vou 857 atendimentos dos plantões à gítimo. Este fato retrata um pouco da
população. Além disso, a pesquisa de pretensão da população em estabelecer
campo englobou entrevistas com fun- o espaço do distrito policial como um
cionários (n=17), com o público fre- pequeno fórum imediato de julgamen-
quentador dos distritos policiais (n=51) to e decisão, com direito a testemunhos
e com o público dos Conselhos Comu- e escuta das versões de ambos os lados.
nitários de Segurança (n=12). 7. Apesar de Bourdieu fazer refe-
5. Segundo a classificação dos cri- rência ao discurso burguês ou ao termo
térios da Associação Brasileira das classe burguesa em sua publicação A
Empresas de Pesquisa (ABEP), com Distinção (2007), ele nega a definição
base de dados de consumo, bens du- de classe social a partir da posse da pro-
ráveis, salário e emprego. priedade como único elemento classi-
6. No âmbito dessa percepção, um ficatório para este grupo social. Para o
dos casos acompanhados no 73º DP autor, sua definição se dá “pela estrutura
pode ser exemplar, no qual um pai de- das relações entre todas as propriedades
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O USO DO CAPITAL SOCIAL NOS DISTRITOS POLICIAIS E CONSEGS DE SÃO PAULO

pertinentes que confere seu valor próprio ções policiais. Apesar de Bourdieu em
a cada uma delas e aos efeitos que ela sua obra O Poder Simbólico não ter des-
exerce sobre as práticas” (op cit.: 101). crito em detalhes quais os agentes que
8. Os objetivos do CONSEG, se- compõem este campo, no caso brasilei-
gundo o Manual para fundação do ro sabemos que pela organização insti-
CONSEG, são: “1 - Planejar a ação co- tucional do Código Penal a polícia civil
munitária de segurança e avaliar seus tem por função a investigação de casos
resultados; 2 - Integrar a população e a criminais e encaminhamentos dos mes-
polícia na tarefa de conseguir seguran- mos ao judiciário. Logo esta instituição
ça para a população; 3 - Acompanhar estaria vinculada ao campo jurídico.
a ação da polícia em benefício da co-
munidade; 4 - Levar diretamente à Se- BIBLIOGRAFIA
cretaria de Segurança as reivindicações AMARAL, Antonio Barreto do.
e queixas da comunidade; 5 - Desen- 1969. O bairro de Pinheiros. Série His-
volver campanhas educativas, visando tórias dos bairros de São Paulo II. De-
orientar a população sobre condições e partamento de Cultura da Secretaria
formas de segurança; 6 - Trabalhar jun- de Educação e Cultura da Prefeitura do
to à população, à polícia e ao governo Município de São Paulo. São Paulo.
para combater as causas que gerem a BOURDIEU, Pierre. 2000. The for-
criminalidade e a violência em geral”. ms of capital IN RICHARDSON, J.G.
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do-um-consegs-manual.html5>. Con- ______. A força do direito: ele-
sulta realizada em: 29/4/2017. mentos para uma sociologia do campo
9. SEÇÃO V - DAS COMPETÊN- jurídico IN O Poder simbólico. Tradu-
CIAS, Artigo 22: XVII - Informar ao ção: Fernando Tomaz (português de
CONSEG, caso solicitado, sobre as neces- Portugal)- 3ª edição – Rio de Janeiro,
sidades materiais prioritárias da Polícia, Bertrand Brasil.
de modo a permitir que a Diretoria, caso ______. 2007. A Distinção: crítica
delibere e tenha êxito em captar recur- social do julgamento. São Paulo, Edusp,
sos para atendimento dessa necessidade, Porto Alegre, RS: Zouk.
possa dirigir esforços para suprir as ca- ______. 2007. Os três estados do
rências mais acentuadas da área. capital cultural IN NOGUEIRA, Maria
10. Podemos considerar que um dos Alice; CATANI, Afranio (orgs.). Escri-
vários elementos que compõem o cam- tos de Educação – Pierre Bourdieu. Pe-
po jurídico são as polícias e as institui- tropolis, Rio de janeiro. Vozes.
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sentidos da violência no Conselho Co- Vanessa Orban Aragão Santos
munitário de Segurança. Contemporâ- Doutoranda em Sociologia pela
nea. Dossiê Fronteiras Urbanas. V.3, n. Universidade de São Paulo (USP).
2, p. 335-357. Jul-dez. Possui graduação em Ciências Sociais
MIRANDA, Ana Paula Mendes de pela Universidade de São Paulo-USP
& TEIXEIRA, Paulo Augusto Souza (2007) e mestrado em Sociologia pela
(orgs.). 2006. Polícia e comunidade: Universidade Estadual de Campinas-
temas e desafios na implantação de -UNICAMP (2012). É consultora na
conselhos comunitários de segurança. Move Social - Avaliação e Estratégia
Rio de Janeiro: Instituto de Segurança em Desenvolvimento Social.
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