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UFMT - DENC - Estruturas de concreto armado 1 Torção em vigas de concreto 1

armado

Estudo elementar da torção em peças de concreto armado

1. Considerações iniciais

Os momentos de torção que aparecem nas estruturas de edifícios podem ser


classificados em dois grupos: momentos de torção de equilíbrio e os momentos
de torção de compatibilidade, conforme se ilustra na figura 1.

a P

T b = P c a /(a + b )

Torção de compatibilidade
T a = P c b /(a + b )
Torção de equilíbrio
Figura 1 – Tipos de momento de torção.

As vigas de concreto armado devem ser dimensionadas e detalhadas para


resistirem a torção de equilíbrio. A torção de compatibilidade, que aparece em
decorrência do cruzamento de vigas, pode ser ignorada, em virtude da pouca
magnitude porque a rigidez à torção das peças das vigas dos edifícios ser
pequena, conforme indica o novo texto da NBR 6118, “ ... nas grelhas e nos pórticos
espaciais pode-se reduzir a rigidez à torção das vigas por fissuração utilizando-se 15% da rigidez
elástica...”. Mais adiante:
“ Quando a torção não for necessária ao equilíbrio, caso da torção de compatibilidade, é possível
desprezá-la,desde que o elemento estrutural tenha a adequada capacidade de adaptação plástica e que
todos os outros esforços sejam calculados sem considerar os efeitos por ela provocados.”

2. Aspectos do comportamento à torção das vigas de concreto armado

Há muita comprovação experimental mostrando que a resistência à torção de


uma viga de concreto armado é mobilizada numa porção relativamente delgada
periférica da peça, não existindo diferenças significativas de comportamento
entre uma peça de seção retangular maciça e uma peça de seção retangular
vazada.
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h
he

he

Figura 2 – Semelhança entre a seção maciça e seção em caixão.

O método de projeto da NBR 6118, seção 17.5, admite:


a) que a torção não produz empenamento da seção transversal,
b) em conseqüência disso, mais o fato da resistência à torção ser
mobilizada parte periférica da peça, constituindo uma seção tubular no
caso geral, é válida a teoria de Bredt para determinar as tensões de
cisalhamento que atuam na seção transversal e,
c) há a formação de um mecanismo de treliça capaz de resistir a torção,
configurado por armações longitudinais e transversais mais as partes
íntegras de concreto.

A teoria de Bredt é uma solução aproximada do problema de torção em peças


tubulares formadas de paredes delgadas.

hi
s
hi
L
s  r

T
T
s hj L
hi i
a) b) hi i
Figura 3 – Teoria de Bredt.

Na figura 3 tem-se a representação do fluxo de cisalhamento = hii na seção


de um tubo com espessura variável.

Na teoria de Bredt considera-se a tensão de cisalhamento constante ao longo


da espessura e ao se analisar o equilíbrio do elemento, conclui-se que o fluxo
de cisalhamento  também é constante.
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O equilíbrio da solicitação é dado por:  rs  T , como o fluxo é constante:


  rs  T . A integral  rs  2 A e , sendo Ae a área delimitada pela linha
pontilhada, assim sendo a tensão de cisalhamento é dada por:
T T
= hi = 2A i  2A h .
e e i

T T
 i 
2A e 2 A ehi
Em uma peça de concreto armado com seção retangular maciça a aplicação
desse modelo leva ao seguinte.

b
b'

h' h

he

he

Figura 4 – Modelo de Bredt aplicado a uma peça de concreto armado.

Imagina-se uma seção tubular equivalente com espessura h e da parede,


conforme a figura 4. A estimativa do fluxo de cisalhamento produzido por um
momento de torção Td é feita com a fórmula de Bredt tomando-se Ae = b’ h’,
Td
então:   .
2bh

Para resistir os fluxos atuantes em cada uma das paredes da seção tubular
equivalente admite-se a formação de um mecanismo de treliça situado no
plano médio de cada parede.

16 16
13
13
17
17 10
10 14
14 7
7 11
11 4
18 8 18
4
8 1 15
15 5
1 12
5 12 2
9
2 9
6
6 3

a) 3
b)
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Figura 5 – Mecanismo de treliças mobilizadas.

Para entender o desenvolvimento das solicitações nos elementos das treliças,


considere uma viga com seção transversal quadrada. As treliças formadas
estão esquematizadas na figura 6.

b 'c o t g 

1 4 7 10 13 16 2 5 8 11 14 17

b'

2 5 8 11 14 17 3 6 9 12 15 18
Figura 6 – Treliças.

As solicitações nos elementos da treliça são determinadas por equilíbrio de


partes separadas por seções de Ritter convenientemente posicionadas.

Considerando a treliça formada no plano horizontal.


1 4 1 4 1 4 7

V 1 -2 V 1 -2 V 1 -2
2 5 2 5 2 5
C o rte I C o rte II C o rte III
Figura 7 – Treliça horizontal.

Pelo Corte I ficam determinadas as forças: F2-4, F2-5 e F1-4, que valem
V
respectivamente: F2  4  1 2 , F25  V12 cot g e F1-4 = 0, sendo:
sen 
Td
V1-2 = b’ = b .
2A e

Pelo Corte II: F4-7 = F2-5 e F4-5 = V1-2.

Pelo Corte III: F5-8 = 2xF2-5 e F7-8 = F4-5 = V1-2.

Percebe-se que ficam constantes as solicitações nas diagonais e nos


montantes. Nos banzos, o tracionado e o comprimido, as solicitações são
crescentes e o par de forças em banzos paralelos numa mesma posição na
horizontal, os módulos das forças em cada um dos banzos são diferentes,
sendo a do banzo tracionado maior que a do comprimido.

Considerando agora a treliça formada no plano vertical, constata-se o mesmo


comportamento da treliça anterior. As forças nas diagonais e nos montantes
não variam ao longo da treliça e as forças nos banzos variam do mesmo modo
que as da treliça horizontal.
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Considerando o conjunto, constata-se que todos os banzos são tracionados e


que o valor da força de tração é constante valendo:
Td
FBANZO = b cotg.
2A e
A explicação disso é a seguinte:
a) na treliça horizontal o banzo inferior é tracionado e as solicitações são:
T
F2  5  b d cot g , F5-8 = 2xF2-5, F8-11 = 3xF2-5 e assim por diante.
2A e
b) na treliça vertical o banzo superior da mesma é comprimido e as
Td
solicitações valem F2-5 = 0, F58   b cot g , F8-11 = -2xF5-8 e assim
2A e
por diante.
c) logo a resultante da forças FBANZO em cada barra do banzo da treliça é
Td
sempre: b cotg de tração.
2A e

Concluindo esta análise preliminar, os aspectos básicos do comportamento de


uma viga de concreto armado de seção transversal quadrada são os seguintes:
a) É possível ter um mecanismo de treliça espacial formado pelas porções
íntegras de concreto e pelas armaduras em estribos e armaduras
longitudinais;
b) As solicitações dos elementos da treliça dependem do ângulo de
inclinação da diagonal comprimida;
c) As forças nas diagonais e nos montantes independem da posição dos
mesmos ao longo da peça e os valores são:
Tdb'
1. Resultante de compressão na diagonal - RBIELA  ,
2A e sen 
Td
2. Resultante de tração no montante – RMONTANTE = b .
2A e
d) Consegue-se verificar forças longitudinais de tração, normal à seção
transversal e uniformemente distribuída segundo o contorno da área A e,
conforme representado na figura 8, com intensidade
FBANZO T
 d cot g .
b 2A e

F BANZO T d
 cot g 
b 2A e

Figura 8. Representação das forças de tração longitudinais.


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No caso de seção transversal retangular maciça valem as mesmas idéias.

3. Dimensionamento

O dimensionamento deve atender às seguintes condições de resistência:


a) A tensão de compressão diagonal deve inferior à resistência convencional
de compressão;
b) Devem existir estribos longitudinalmente distribuídos necessários para
resistir a tensões de tração ao longo o contorno A e..;
c) Devem existir armaduras longitudinais suficientes para resistir a tração
longitudinal..

As condições analíticas correspondentes são:

Condição a: Td  TRd2, sendo TRd2 o momento resistente de cálculo à torção,


que representa o limite de resistência das diagonais comprimidas de concreto.
Condição b: Td  TRd3, sendo TRd3 o momento resistente de cálculo à torção,
que representa o limite para a parcela resistida pelos estribos normais ao eixo
da peça.
Condição c: Td  TRd4, sendo TRd4 o momento resistente de cálculo à torção,
que representa o limite para a parcela resistida pelas barras longitudinais.

Com o modelo de treliça determinam-se as solicitações e as expressões são a


seguir apresentadas.

3.1 Tensões de compressão

Tdb'
A força de compressão na biela vale: RBIELA  . A tensão de
2A e sen 
R BIELA
compressão é dada por:  C,BIELA  , sendo ABIELA = heb’cos, e a largura
A BIELA
da biela pode ser entendida observando a figura 9.

b' cos

b ' c o tg 

Figura 9 – Largura da biela.

Tdb' 1 Td
Então:  C,BIELA   .
2A e sen  h eb' cos  A ehe sen( 2)
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O valor do momento de torção resistente é aquele que produz tensão de


compressão igual à resistência à compressão do concreto da biela. Essa
resistência, conforme a NBR6118:2003, é dada por:

fck
BIELA ,R  0,50  V fcd , sendo  v  1  onde fck é dado em MPa.
250

Logo:
TRd  TRd,2  0,50 fcd  v A eh e sen( 2) , sendo  um valor entre 30o e 45o

A verificação de resistência consiste em satisfazer a:


Td  TRd2.

3.2 Determinação dos estribos

Na treliça os estribos formam o montante tracionado e a solicitação no mesmo


Td
é: RMONTANTE = b .
2A e

O momento de torção resistente é a solicitação que produz no montante a


tensão fywd.

A tensão no montante vale:


R b' cot g
 sw  MONTANTE , sendo AMONTANTE = A S,90 , onde AS,90 é a área de um
A MONTANTE s
ramo do estribo e s é o espaçamento dos estribos. Então:

R MONTANTE T s
 sw   b' d
b' cot g 2A e A s,90 b' cot g 
A s,90
s
T s
 sw  d .
2A e A s,90 cot g

Então o momento de torção resistente vale:

A s,90
TRd  TRd,3  2A e f yw,d cot g .
s

O dimensionamento é feito igualando-se a solicitação à resistência, então:


Td = TRd,3 

A s,90 Td
 .
s 2A e f yw,d cot g
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3.3 Armadura longitudinal

Conforme a discussão anterior, a força de tração distribuída no contorno da


área Ae deve ser resistida por uma armação longitudinal disposta no perímetro
Ae.

RLONGITUDINAL T
A força de tração no perímetro da área Ae vale  d cot g ,
ue 2A e
portanto o valor do momento de torção resistente é o que produz tensão nas
armaduras igual à resistência de tração fy,w,d. Assim sendo obtém-se:

A s,L f yw, d TRd


 cot g 
ue 2A e
2A e A s,L f yw,d A s,L f yw,d
TRd  TRd,4   2 A e tg  .
cot g ue ue

O dimensionamento é feito por meio da condição de resistência, então:

A s,L Td
 cot g .
ue 2A e f yw,d

A armadura longitudinal de torção de área total A sL pode ter arranjo distribuído


ou concentrado, mantendo-se obrigatoriamente constante a relação Asl /u,
onde u é o trecho de perímetro, da seção efetiva, correspondente a cada
barra ou feixe de barras de área AsL .

4. Definição da área Ae

Conforme a NBR 6118:2003, a seção vazada equivalente se define a partir da


seção cheia com espessura da parede equivalente h e dada por:
he A/e he 2 c1, onde:
A é a área da seção cheia;
é o perímetro da seção cheia;
c1 é a distância entre o eixo da armadura longitudinal do canto e a face lateral
do elemento estrutural.

5. Ação conjunta de torção e flexão simples

Na ação conjunta de torção e flexão simples o dimensionamento pode ser feito


supondo as solicitações atuando separadamente e verificando condições
adicionais.

5.1 Resistência das diagonais comprimidas

Os modelos cálculo à força cortante e à torção devem admitir diagonais com


mesma inclinação.
Adicionalmente deve-se satisfazer a seguinte condição:
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VSd T
 Sd  1 ,
VRd 2 TRd,2
sendo: VSd e TSd os valores de cálculo das solicitações que atuam na seção
dimensionada,
VRd2 = Força cortante resistente de cálculo, relativa à ruína das diagonais
comprimidas de concreto e,
TRd,2 = Momento de torção resistente de cálculo, relativa à ruína das diagonais
comprimidas de concreto.

O valor de VRd da NBR 6118:2003, para as vigas armadas com estribos, é dado
por:

VRd  0,27 v fcdb w d cos  ,


sendo:  o ângulo de inclinação da biela de compressão e,
f
 v  1  ck onde fck é dado em MPa.
250

Quando se admitir  = 45o:


VRd  0,2 v fcdb w d .

Observe que a versão de 2003 da NBR 6118 define um valor da resistência


convencional de compressão da biela menor que o da antiga versão.

5.2 Banzo comprimido

Em peças sujeitas a grandes compressões por solicitação normal (momento


fletor e ou força de compressão), principalmente as vigas em caixão e pilares
dos painéis de contraventamento, há a recomendação de verificar a tensão de
compressão do banzo. A condição de resistência impõe que a tensão principal
máxima de compressão não supere 0,85fcd, determinada para um estado plano
de tensões formado pelo cisalhamento puro da torção mais a tensão normal
decorrente da flexão simples ou da flexão composta.

O valor da tensão principal é:

2
  
 2  cd   cd    2Td ,
2  2 
sendo:
 cd = tensão normal produzida pelo momento fletor ou pela ação de força de
compressão centrada ou excêntrica e,
 Td = tensão de cisalhamento produzida pelo momento de torção T d.

5.3 Armaduras
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As armaduras transversais, no caso presente os estribos, devem corresponder


à soma dos estribos necessários para resistirem a torção e a força cortante.

As armaduras longitudinais de tração devido a flexão devem ser somadas às


armaduras longitudinais da torção. Na região comprimida da viga faculta-se
reduzir a armação de tração da torção.

5.3.1 Armaduras mínimas


As peças sujeitas à torção devem ter as seguintes quantidades mínimas de
armações: