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Ficha Técnica

Capa: Anchieta Rolim


Diagramação: Thiago Jefferson Galdino

É livre a reprodução para fins não comerciais, desde que o autor e a fonte
sejam citados e esta nota seja incluída.
Em memória às vítimas da COVID-19.
Agradecemos ao artista plástico Anchieta Rolim que, em gesto de
solidariedade, concebeu a capa deste nosso trabalho. Estendemos o
reconhecimento aos escritores Oreny Júnior e Thiago Gonzaga: sem o
apoio de ambos, certamente naufragaríamos.
Apresentação

“A sensação mais precisa e mais aguda, para quem vive neste


momento, é não saber onde está pisando a cada dia. O terreno é frágil,
as linhas se dividem, os tecidos se esgarçam, as perspectivam oscilam
[…]”.

O inominável atual, Roberto Calasso.

As velas estão, agora, colhidas. Impossível marear sem que


o barco encontre, longe do porto, salvação. Atracamos, pois, ao cais. O
homem que, outrora, insinuava a conquista dos oceanos, percebe a si
mesmo reduzido. Em sua pequenez, o vírus denotou toda a fragilidade
humana.
Ancorados (como veleiros) em nossas casas e protegendo-
nos dos anzóis pandêmicos, fomos capazes de ressignificar o abraço. A
presente coletânea foi, em sua totalidade, elaborada através de recíproca
assistência. Acreditamos que a distribuição gratuita da obra digital
coopere com a democratização do acesso ao livro e à leitura em
momento de incertezas.
Continuamos no aguardo da cura. Em “O velho e o mar”, de
Ernest Hemingway, “O velho sabia que o tubarão estava bem morto,
mas o tubarão, ele mesmo, não queria acreditar”. No clássico da
literatura árabe “As mil e uma noites”, por sua vez, Sherazade constrói,
seguidas madrugadas, trechos de um interminável conto, garantindo, a
cada dia, com a narrativa, o adiamento de sua morte. Talvez o que
precisamos hoje, afinal, se assemelhe a isto: um poema que surja feito
ode à vida.

Thiago Jefferson Galdino


Sumário

11 | Alexandre Filho
15 | Anchella Monte
22 | Ângela Rodrigues Gurgel
28 | Bárbara Fonseca
29 | Caio César Muniz
33 | Camila Paula
38 | Carlos Guerra Júnior
40 | Carmen Vasconcelos
44 | Cefas Carvalho
48 | Cellina Muniz
50 | Clauder Arcanjo
55 | David de Medeiros Leite
57 | Demétrio Diniz
60 | Dulce Cavalcante
66 | Gessyka Santos
69 | Gonzaga Neto
74 | Gustavo Luz
78 | Humberto Hermenegildo
80 | Iara Maria Carvalho
85 | Jeanne Araújo
88 | João Andrade
94 | José de Castro
96 | Junior Dalberto
99 | Kalliane Amorim
103 | Leonam Cunha
107 | Lívio Oliveira
108 | Lucas Rafael
111 | Marcos Ferreira
114 | Marcos Medeiros
119 | Margareth Freire
123 | Maria Maria Gomes
127 | Marina Rabelo
130 | Nivaldete Ferreira
133 | Rizolete Fernandes
136 | Salizete Freire Soares
139 | Theo G. Alves
148 | Thiago de Goés
152 | Thiago Medeiros
155 | Vanda Maria Jacinto
158 | Wescley J. Gama
Cena

Alexandre Filho

O sol voltou a castigar a cidade


A rua do centro tomada de automóveis
Na parada de ônibus
Pessoas esperam seus coletivos
Ao meio dia,
Só queremos ir para casa.
Sentados no banco da parada
Ele e ela estão distantes daquilo tudo
As mãos dadas
Os olhares cúmplices
A conversa baixinha
Os sorrisos nos olhos e lábios.
O casal é estranho à cena
Eles subvertem o comum
Em pleno horário de pico
Eles se amam.

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Esperando

Espero nesse texto não me alongar demais


Rabiscarei ele o tanto que for capaz
Provavelmente, o rejeitarei antes do penúltimo verso
Cansarei dele ainda neste verso
Palavras não casarei
Não rimarei
Além de fingidor
Sou poeta mentiroso
Não há vontade nesse lápis
Nem nessa tinta advinda da gráfica
Esse texto é uma espera
De não sei o que.
Espero enquanto ponho café na caneca de porcelana
Enquanto estou na varanda antiga cercada de verde
Quando observo um transeunte
Na praça logo em frente
Espero procrastinando no celular
Quando estou lendo
Quando estou escrevendo
Mas esse texto quase autobiográfico
Desconheço o que espero

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Apenas aceito meu estado
A única certeza é a espera
Ela é inevitável
Então,
Estarei nos instantes vindouros
Esperando.

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Um beijo, baby

Baby, não precisa desse beijo apressado


Temos a tarde inteira
Então não há besteira
Diminuamos o ritmo.
Sinta as minhas mãos
Segurando com delicadeza o seu quadril
Sua nuca arrepia
Quando estas mãos
Sobem e descem suas costas.
Um encontro entre lábios deve ter placidez
Toca a minha alma com o teu tato
Para tornar esse episódio em um retrato
Quando me convir será revisitado.
Então, baby
Carpe diem.

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Retratos

Anchella Monte

Retrato 1

Dona Tereza criou os filhos costurando


cresceram e costuram também
fantasias, roupas de dormir, roupas de festa
costuram e bordam juntos, sem
descanso, mas até antes com alegria.

Antes de viajar o inimigo de todos


para todo lugar, incansavelmente.
As festas acabaram, as brincadeiras
não saem porta afora,
as pessoas dormem sem sonhos,
as pessoas temem a hora de acordar.

Dona Tereza e seus filhos costureiros


fecharam a loja de fantasias e fazem máscaras
coloridas e tristonhas.
Mas a vida ficou difícil, o ofício posto de lado
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pouco paga o pão, os carnês e a alegria.

Dona Tereza chorou e eu chorei


surpresas e tristes, sabendo que existe
o medo, a falta, o aprisionamento, a dor
costurada na máscara que nos esconde
e confunde — até quando não se sabe, não sei.

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Retrato 2

Minha mãe tem 80 anos e uma luz sempre ardente


às vezes não quero lembrar de mamãe jovem
porque lembro suas lutas e sua luz acesa
mesmo quando escasso o pão na mesa e a paz.
Agora seus dias eram de presença, plural
de coisas felizes: amigas, cabelo e unha, cantos na igreja
filhos, netos, bisnetos, liberdade de lucidez e alegria.
Mas veio o vento, e com ele apartamentos fechados
sandálias postas na porta, ausência de abraços,
nenhum café com a família, sozinha, dias lentos.
Continua feliz, com sua luz absoluta que sai
da redoma, posto que canta para fora e ora.

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Retrato 3

Você entra nos lugares


olhando de lado, temendo gente
você se afasta se alguém se aproxima
tem medo do que lhe é dado
na boca uma máscara
nos dedos uma sutileza de tocar não tocando.
Você entra nos lugares
Achando que vive uma perigosa aventura
uma odisseia que derruba gregos e troianos
frágil presa nas mãos do imponderável destino.
Retrato de 2020: a morte presente
em cada vida, como sempre, porém frente a frente
intensa, exigente.
Você precisa ficar sozinho, precisa de poucos
somente loucos violam a lei da necessidade
usando máscaras para um carnaval de rua
quando agora a máscara não é fantasia.
Saudade do mundo como um teatro brincante,
cortinas abertas convidando para a alegria.

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Retrato 4

A morte viaja
visita a China e seus rios deslumbrantes
o sol sobre muralhas, seus picos nevados.
E mata.
A morte viaja
visita a Itália e suas catedrais
os sinos tocando sobre a história e a hóstia.
E mata.
A morte viaja
visita a França e se lança sobre perfumes
torres e praias, música e poesia.
E mata.
A morte visita o Brasil e surpresa encontra um rei
que não se importa com a viajante
para o rei só interessa o espelho, o cetro e a coroa.
A morte se instala com avidez
A gente do país já não pode acompanhar
os mortos, postos nas covas sem canto e cortejo
sem cruz e último beijo.
Quando irá embora a morte, para viajar
Somente a distâncias no tempo?
As orações das mães são alimento
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A magia da ciência, a esperança.
A morte não abre as malas, não se cansa.

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Retrato 5

Da varanda, décimo andar


o som do saxofone atravessa o fim da tarde
emocionado o músico se curva
quase voando.
De um outro edifício, mares adiante
a cantora deixa ecoar o seu canto
enquanto replicantes vozes fazem
lírico um mundo claudicante.
O padeiro faz o pão e o doce
No campo o agricultor colhe nosso sustento
Nos hospitais o ritmo passa do relógio
Cuidado e risco no ofício do salvamento
Nas ruas passam dia após dia os coletores de lixo
Nos cemitérios as covas são abertas e fechadas
Continuamente, fechadas e abertas.

Música, poesia, livros, cores nas telas


Saltam para o mundo aberto, num tempo incerto.

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Castradoras amarras

Ângela Rodrigues Gurgel

Dentro de mim as palavras


vão emudecendo e morrendo.
As estrofes silenciam,
as frases não criam forma,
os poemas são abortados…
isoladas, separadas umas das outras,
as palavras se escondem dentro de mim
e não conseguem se expressar…
com olhos de pavor,
elas observam os hospitais e cemitérios
e se recusam a descrever esse holocausto…
não querem testemunhar a dor
dos que ficam nem o terror
dos que não querem ir…
minhas mãos,
sempre molhadas,
impedem o deslizar das letras…
Enxuguem minhas mãos,
devolvam-me as palavras!
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Quero, outra vez, minha voz,
meu grito poético, minha alegria…
Eu ainda preciso escrever um poema
que preencha minhas ausências…
ainda quero rabiscar minhas linhas,
quero recuperar meu olhar
e livrar-me das sombras
que não me deixam sonhar
e sempre me mostram
o mundo sombrio e assustador
como uma folha em branco
ou um bloco vazio,
jogado sobre a escrivaninha,
coberto de poeira
amarrotado pela força
das mãos improdutivas,
gotejado pelas nuvens
do nada mais.

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Tempo de reclusão

É tempo de reclusão,
isolamento, medo, tensão
tempos cinzas, assustadores…
É tempo de desacelerar os “motores”,
não temos para onde ir,
melhor pararmos para refletir…
É tempo de olhar em volta, reconhecer
o lugar que habitamos,
quem sabe refazer alguns planos!?…
Mas, também podemos
permanecer doentes, atingidos
pelos já conhecidos vírus
e nada de novo, a nossa vida, acrescentar…
Não é apenas a COVID-19
que precisamos derrotar,
há, mais, muito mais,
que precisamos recuperar,
ou, morre
em nós, toda a humanidade…

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Viralizando o pavor

Um, dois, três, centenas de vídeos,


quatro, cinco, milhares de mensagens
seis, sete, nove, dezenas de notícias,
e ainda tem as fake news, as piadas,
os áudios anunciando o colapso
os especialistas anunciando o holocausto…
todos estão seguros de suas informações,
não importam as fontes.
De repente todo mundo conhece
alguém, que conhece uma prima
que também conhece outra pessoa,
que é amiga de uma profissional
que contou a outra conhecida
que estamos todos perdidos…
todos, sem exceção.
A vizinha ouviu de uma amiga
que mora noutro condomínio,
que tem um parente distante,
amigo de alguém importante,
que tudo isso é culpa da mídia,
isso é coisa de satanás,

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disse o pastor da igreja…
Encontraram a cura,
juro que é verdade,
diz alguém em algum lugar.
ufa, ainda bem, estamos salvos…
Não? Como assim?
Essa não é mais a última notícia?
Então, o que faço com essa angústia
que arrombou a porta de meu peito,
ignorando meus gritos de protestos,
minha prece vazia
e minha esperança contaminada?
Não posso abrir, não posso abrir,
murmuro em lamento,
mas a porta foi jogada
contra a parede…
entre soluços pedi,
feche a porta,
abre só a janela,
dela eu vejo o amanhecer
e deixo o sol entrar,
na esperança de deixar
sair a ameaça e,
mesmo a gente sabendo
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que vai demorar,
é preciso resistir, acreditar
não sei em quem ou o que…
mas vou permanecer aqui,
com uma oração nos lábios,
sem abrir vídeos ou áudios,
implorando ao Deus da vida
que cuide de todos nós!

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Valores reais

Bárbara Fonseca

É fato de que a terra passa por uma enorme transformação


Para que nós, semelhantes, irmãos
Vivamos em plena comunhão.
Desde o princípio o dinheiro e o triunfo, eram dignos de deslumbre.
Os valores reais, o que ninguém compra… Tão somente recupera. É a
nossa saúde.
Oremos pelos nossos irmãos enfermos.
Saibamos ter esperança, mesmo perante o medo.
“Toda doença no corpo
é processo de cura para alma.”
Limitados, não compreendemos
Que o outro necessita de nosso amor, de nosso perdão e de nossa
palavra.
É fato de que a terra passa por uma grande provação
Virá um novo tempo! Uma nova era!
De COMPAIXÃO.

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Um abraço a todos

Caio César Muniz

De Wuhan à Cabrobó,
De Codó ao Reino Unido,
Segue o Homem apavorado
Com seu peito dolorido,
Aturdido e acuado,
Preso em casa, assustado
Num planeta adoecido.

Do tamanho de um nada,
Mas feroz feito um tufão,
Surge um vírus poderoso
Que nem toda evolução
Da pesquisa e inteligência,
Tomaram ainda ciência
Desta sua dimensão.

Nas duas pontas da vida


Os cuidados redobrados:
As crianças, os idosos,
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Todos, todos isolados,
Como um filme de terror,
Até os toques do amor
Seguem assim, monitorados.

E aquilo que até ontem


Julgávamos essencial,
Agora é dispensável
E ponto fundamental:
A distância e não presença,
A ciência e não só crença,
Para não fazer o mal.

Então eu posso estar longe,


Mas me sinta aí bem perto,
Bote um som do Belchior,
Leia um livro, faça o certo,
Fique em casa, deixe a rua,
Essa causa é minha e sua,
Seja luz neste deserto.

Lave sempre bem as mãos,


Use sempre álcool em gel,
Use máscara se sair,
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Cumpra bem o seu papel,
Nos ajude, se ajudando,
Como eu estou falando,
Pra você, neste cordel.

E mantenha a sua fé,


Neste momento em Deus,
Se apegue às suas crenças
E aos ritos que sejam seus.
É momento de união,
De judeu e de cristão,
De agnósticos e de ateus.

Eu ouço daqui seu riso,


Ouça minha oração,
Sossegue seu pensamento,
Acalme seu coração,
Vamos todos ajudar
E receba em qualquer lugar
Meu abraço, meu irmão.

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Foi preciso que um vírus
Carregado de perigo
Isolasse todo mundo
Cada um no seu abrigo
Pra que nossa ignorância
Percebesse a importância
De viver e ter AMIGO.

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Quando passa das dez

Camila Paula

Quando passa das dez


Você volta pra casa,
Abre a porta
E vê que tudo é nada.
E nada é tudo que você tem.
Você procura a mãe,
o gato, o irmão… Alguém?
Você procura por você
Em nome de quem?
Já é tarde
E tantas noites ainda virão.
Você mora de favor.
Você só quer amor
Mas também precisa de pão.
Teu ofício, teu vício,
Tua poesia não vale um tostão.
Enquanto os teus pertences
São uns livros que você nem lê mais,
tá sempre correndo pra dar conta
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De pagar a conta da cerveja barata
Que amortece de paz e alivia o cansaço.
Trabalhadora não é feita de aço.
São dias difíceis para problematizar
Quando você não tem o controle do carro,
As chaves do portão.
Os papeis estão todos espalhados…
Se morrer hoje onde teu nome estará escrito?
Sem a luta ninguém deixa legado.
Há quem deixe herança:
Ouro, ilhas, países…
Existem países que há séculos só fomentam a guerra.
Quantas guerras ainda existirão?
Contra a guerra a gente é flor ou canhão?
Em meio aos tiros
A gente vai ao chão.
E num delírio lembra de fazer uma prece:
Se amanhã eu acordar viva,
Me dê mais sede do que água,
Mais fome que comida,
Mais esperança que saída,
Mais pecado que salvação.
Porque saciada é quem não vive a contradição
Dos quereres e não teres
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Da loucura que é ter razão.
A graça é, assim, escurecer a vista
E acender a fé
Para enfrentar a escuridão de lá…
… Dos dias que não conhecemos
E que não sabemos se vamos alcançar.

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Coisa de saudade

Hoje eu quis encaixar


Minha esperança, meu amor e todo o meu v e r s o
no teu abraço.
Onde estão teus braços? Olhei pros meus, aqui.
Os teus braços…
… não vi.
Saudade é coisa de braços vazios.

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Entre Mundos

Este mundo…
Drummond disse vasto.
E ainda que digam: — tá gasto
E que não vale a minha poesia,
Meu suor,
Minha lágrima
E a minha utopia,
Neste mundo há você!
Então que seja neste mundo que façamos o outro.
O nosso.
Que valha mais a fé, o amor e o encanto.
Que não fique pra tanto depois.
Que este mundo um dia seja o mundo
Que mereça todo mundo
E nós dois.

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19-COVID

Carlos Guerra Júnior

C ada C apitão C apitalistas C rise?


O utra O rdinário O bcecados O portunistas
V ovó V omita V alorizam V endem
I ndo I diotices I bovespa e I ndependente de
D e repente! D iscursivas! D ólar! D eterminações.

C analhas em C ircule no C onhece C ontabilizamos


O utlander O nibus, O nde O bitos!
V ão V igarista! V ai V emos
I nterromper I ndividualista! I mputar? I ndiferença
D istanciamento? D emônio! D omésticas! D oentil!

C edemos C aem C onsciência C onheceremos


Ou O utros O rganizativa Os
V eremos V elhinhos V ersus V erdadeiros
I nferno I mportantíssimos I ndividualismo I dolos,
D iário? D iabéticos! D emente D edicados!

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C hiques C enário C iência C lamo
O ntem, O briga O ferecerá O bediência!
V iraram V oltarmos a V iragem? V idas
I mpotentes I nteligência de I munizaremos a I mportam!
D esesperados! D outores. D oença! D oe-se!

C aminhar C onvívio é
O misso O pressão
V ivendo V endo :

I nformado da I nocentes
D estruição? D espedindo

C omece
O bedecendo o
V eto:
I sole-se
D iariamente!

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Era só uma canção de lamento

Carmen Vasconcelos

Eu ainda posso abrir a boca


estarrecida com a violência do mundo
ainda posso erguer as mãos
e pedir delicadezas
Eu ainda posso abrir os olhos
e procurar os silêncios
de que careço permanentemente
como se permanecer fosse uma palavra com algum sentido
posso dizê-la, ainda
E ainda escolher, neste caminho estreito e sujo
as pedras mais leves
e desenhar uma trilha
e até fazer paisagismo
Mas pra ela as pedras cessaram
e o caminho cessou
Ela já não sente os pés cortados
ela já não pode mais sangrar
porque só há tempo coagulado
no seu vestido
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no seu corpo
Eu posso sentir o ferimento dos espinhos
mas pra ela dúzias de flores não bastarão
dúzias de flores ocas e cansadas
plantadas no vazio mais denso
Ainda posso escolher entre o mau e o terrível
e isso pode ser um alívio
Ela já não escolhe
nem entre posses, nem sensações
nem entre pertencimentos.

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Ausência

Mães entardecidas recolhem suas crianças a casa.


Menos as crianças que morreram no começar do dia,
as que não podem mais ser chamadas.

As crianças que não podemos mais recolher


vão perdurar, no entanto,
como estios na nossa alma,
como raízes fundas de plantas ressecadas.

Vai invadir nossas narinas


o cheiro seco de suas ausências,
de seus ossos,
cada vez que o vento
levantar as cortinas da sala.

Suas empoeiradas ausências


vão continuar conosco
em cada breve soluçar de espelhos,
na luz e na sombra de cada olheira nossa.

As crianças idas continuarão no poente.

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Todo poema é perjuro

Todo poema é perjuro,


todo poema é corpo.
E o corpo, esse passante…
Por quanto tempo suportará o corpo
a decomposição da alma?
Que é alma, senão aquilo
que não se põe no poema?
Não é fácil compor a alma,
nem compor o verso,
o medo de existir nos acossa.
Acordei tarde com medo de existir,
o sono era grave, com pesadelos.
O medo de existir não cicatriza.

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Às vezes

Cefas Carvalho

às vezes
a alma sai do corpo
e no limbo se demora

às vezes
os gritos são sussurros
e não querem ir embora

às vezes
o vinho vira água
não mata a sede, nem embriaga

às vezes
a mão que apedreja
não é a que afaga

às vezes nada faz sentido


nem o vício, nem abstinência
eis-me aqui: confinado, perdido
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entre o equilíbrio e a demência

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De esfinges

meus olhos em profano


estarrecimento
meio de soslaio

detém-se, ano após ano


à imagem do que adoro

de desgosto, de passamento
em fundo poço caio

cá me demoro
em agosto, abril ou maio
mas não me apavoro

ouço seu chamamento


seu enigma, seu plano
decifra-me ou te devoro

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Acessos

havia uma passagem secreta por trás


da porta
um atalho, uma trilha
uma armadilha

havia um labirinto em meio


à tempestade
uma antecâmara, um altar
um santuário…

havia uma fresta, uma janela


um salto para o abismo
havia o lirismo, os retalhos
a poeira no chão…
mas não havia um mapa
sem acessos, sem desvios

todos os caminhos levam


realmente a roma?
(e que estrada me levará
ao fim dessa história?)

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No rastro do nada

Cellina Muniz

Numa tarde de domingo faz


— como fez e fará —
outra vez: calor.
E eu suava,
eu fedia.
Era eu isso ali, antes de sumir
revolvida em terra:
apenas um fedor.
Corpo que sou,
cheirei assim minha condição:
matéria,
imperfeita,
pequena possível podridão.
E antes que poeira
sejam os poros desta pele
que por ora visto
eu insisto:
eu suo.
Eu sou.
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E sendo carne e sangue,
sendo cheiro vil,
assumo ser isso somente:
incômodo em narina servil
que, satisfeita de si,
não aceita estranheza.
Essa narina eu renego,
prefiro, antes, perfumar alhures,
ser outros olores, dizer não a esta venta vil.
Vou antes voar com o vento
e rir de nariz que espera sonho impossível
de perfume-salvação.
Eu?
Não.
Vou antes feder bem muito
pois logo mais
serei somente aquilo:
Matéria morta.
Sem vida, sem cheiro
sem sequer sombra do corpo que fui
serei nada.

Antologia Poética quarenta em quarentena 49


Vozes da quarentena

Clauder Arcanjo

Prelúdio

Lá fora a morte me espreita,


Cá dentro a solidão se insurge.
Grito… Um poema de esguelha
A duvidar se eu morrerei mudo.
Lá fora a sorte me alivia,
Cá eu cismo, o acaso se me rebela.
O poeta é arauto da liberdade
E duvido da força desta procela.
Quedo, a garganta se insurge.
Sopro dois tercetos de esmola
— Remédio para este moribundo.
Lá fora a morte me agonia.
Cá dentro a solidão ruge…
A brisa da fé não me alivia.

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Do vivo

Valei-me, Nossa Senhora do Desterro!


Valei-me, médicos angustiados!
Valei-me, maqueiros sem rumo!
Valei-me, enfermeiros em alerta!
Confesso, pus a máscara, fugi da rua,
Mas me encontraram na feira.
As frutas estavam maduras,
O caixa isolado, e com receio…
Na esquina, o vírus me abraçou;
O espirro na chegada me denunciou.
Há uma febre dentro de mim:
O corpo, cansado; e a alma, condenada.
Valei-me, todos os santos! Irei ao desterro.
Lá os homens de branco me entubarão;
Eu, angustiado, me renderei, pois me calarão.

Antologia Poética quarenta em quarentena 51


Do coveiro

Nunca vi tanto movimento


Nunca vi tamanha pressa
Nem nos chega o caixão
Sem reza, sem oração
Já nos ordenam: “Enterra!”

Nunca vi coisa assim


Onde está a família deste homem?
Onde está a mãe deste menino?
Para onde foi o filho deste velho?
Sepultaremos todos, sem bênção?…
E outros mais se apresentam
Enquanto uma voz rude impera:
“Valas maiores e fundas, soterrem!”

Nunca vi coisa igual


Vão para o Céu, meu Pai,
Enterrados assim como bichos?

Antologia Poética quarenta em quarentena 52


Do anjo

Quem te ensinou, homem


A te livrares dos teus mortos,
A enterrare-los em vagas abertas,
Sem vigília, nem oração;
Sem te relembrares dos feitos deles,
Sem lhes abonares as faltas ou os pecados,
Sem dares a teus entes um terço
Ou uma ave-maria de consolação?

Quem te ensinou tamanha brutalidade:


A congelares teus parentes em câmeras frias,
A não recolheres os cadáveres sob choro e vela,
A colocares código de barras nas frias testas,
A dares velocidade no crematório insano
— a queimares as carnes da humanidade —
Ou a jogá-las nas valas dos cemitérios ímpios,
A evitares tão só corvos, hienas e urubus?

Saibas tu, filho ingrato de Cristo,


Que as almas haverão de retornar,
A fim de ajustarem contigo as contas
De enterro correto: condigno e bendito!
Antologia Poética quarenta em quarentena 53
Epílogo

Na porta da dor,
há sempre o capacho da esperança.
Na janela do sofrer,
trina o canto do pássaro temporão.
No alpendre da desventura,
surge a lua cheia da ventura.
Na sala de estar da saudade,
revelam-se o abraço e o afago.
No quarto principal,
abeirado ao leito, o amor em espera.
Na noite, afinal, sem estrelas nem brilho,
a certeza do batismo da alvorada.

Antologia Poética quarenta em quarentena 54


Púrpuras tardes

David de Medeiros Leite

No silêncio turvo e gélido,


espelhos e sorrateiros passos melódicos,
fundem-se em enigmática noite.

Serenata indesejada à janela,


assobios de ventos são augúrios
a arrepiar a epiderme da madrugada.

Com gotas de claridade,


Vaga-lumes,
Sintagmas-luzes,
ponteiam o manto negro
do cio da escuridão.

E surgem
murmúrios de brisa
a balançar o escuro véu,
soprando vida,
despedaçando a solidão,
Antologia Poética quarenta em quarentena 55
em tímidos veios de cor.

O dia avança,
com a liberdade de um condor,
sabendo que outra vez morrerá.

Púrpuras tardes,
prelúdios e presságios,
que outros passos e espelhos
urdirão de mistérios
outras noites sem estrelas…

Antologia Poética quarenta em quarentena 56


Encantamento

Demétrio Diniz

Da janela do hospital
Milhares de prédios de cor cinza
Por onde a vista não alcança.
Um ou outro helicóptero sobrevoa distante a cidade monstruosa.

Um pequeno sobrado
De duas janelas e uma árvore na frente que dá flores amarelas
Se espreme entre dois arranha-céus.
As janelas são da cor de ferrugem, de tão velhas.
Entre cimento e pedra
Entre cimento e ferro
Um encantamento.

Antologia Poética quarenta em quarentena 57


Gentileza

A verdade é que Jesus Cristo esteve sempre lá por casa


nas saias compridas das crentes
nos cabelos em trança, penteados com óleo de ovo
nos velhos hinos repetidos
nos livros de capa preta e letra miúda
nas orações que faziam ao redor da cama da irmã Toinha.

O pai, eternamente descrente


deixava que cantassem e orassem a tarde inteira
e à saída das mulheres
que se despediam com café e bolo
agradecia, humilde, o favor religioso.

Antologia Poética quarenta em quarentena 58


Do outro lado da rua

Calidônia fica no Panamá


No Michigan, a vila Caledônia
E por acaso ficou rodando no meu sonho
Essa palavra que não me recordo bem agora
Se Calidônia ou Caledônia
Sem sentido
Inexistente como substantivo comum.
Dormia e sonhava
Enquanto lá fora, do outro lado da rua
Estrondavam foguetões
Pela vitória de Jair Bolsonaro.

Antologia Poética quarenta em quarentena 59


A jasmineira solitária

Dulce Cavalcante

Estremeço ante a passagem


Do escuro pelas ruas
Dos pesadelos
Enfraqueço vagando
pelas avenidas
distraída
entre postes de lâmpadas pendentes,
enquanto as mariposas noturnas
disputam um lugar ao redor
donde emana uma luz bruxuleante.
Envelheço
na dor de praças,
aonde antes, somente os sonhos,
tontos, passeavam
de mãos dadas ao amor…
hoje resta solidão
esquecida nos bancos
há muito envernizados
pelas nádegas vagabundas
Antologia Poética quarenta em quarentena 60
de outrem.
Esqueço
e, quero voltar
ao passado de fantasias
mas os fantasmas me assombram
estão todos mortos, tanto quanto
as jasmineiras do quintal
tão sem flor,
tão sem perfume,
sem viço.
Só o pensamento branco arranha
o espaço que me arrasta pelas calçadas…

Antologia Poética quarenta em quarentena 61


É proibido seguir

A minha alma
não se quer emparedada.
Trespassa o muro
e cinza de tinta sai por aí
a alçar voos brancos
Que ardem nos olhos…
E lépidos varam paredes de mil anos luz
Invólucros de lembranças e vontades

A alma atropela os malditos males


que a cerca e aborrece
e, os lançam
no precipício dos infortúnios,
aqueles onde vivem
alijados do convívio.
Serão com certeza
devidamente esquecidos.

Não é fácil furar o cerco que a detém.


Rompam os braços, cordas, galhos
e fios de seda, de ouro

Antologia Poética quarenta em quarentena 62


até os fios de puro algodão
a acorrentam sem dó minha alma,
minha pobre alma numa caixa…
Embora sinta o calor da ternura,
a mão de ferro da firmeza me castiga
Fustiga sem dó minha pobre alma
Já ferida e cabisbaixa.

Senhor!
Congela por favor a pandemia
num planeta inóspito
onde não quero ir
onde ninguém, ninguém possa ir
e, minha alma não ultrapasse
pela lei do não pode: é proibido seguir

Antologia Poética quarenta em quarentena 63


Mil saudades

Vivo com muita saudade.


Saudade de um tempo
não este que corre ao lado,
Saudade de lugares onde nunca pisei
de caminhos que me perderam
e por puro enfado não retornei…
De amores, de sonhadas completudes.

Saudades de coisas pequenas,


transparentes, emplumadas,
que de tão leves, não pesaram nos olhos
apenas cravaram como ínfimos amuletos
e se eternizaram como pássaros
em revoada de sonhos.

Saudade das paisagens noturnas,


nascidas como sobras de gestos
esquecidos de dizerem adeus…

Saudades, apenas vislumbradas


nos desenhos antigos,

Antologia Poética quarenta em quarentena 64


mesmo borradas me diz
a sombra é meu tempo…
vontade, meu destino
sonho, um bálsamo
ao aliviar a descrença
e matar de vez essa saudade
que mata sem ter a morte decretada

Antologia Poética quarenta em quarentena 65


Gessyka Santos

não houve tempo pra despedidas


os sapatos ficaram forçadamente encostados no canto da sala
os cinzeiros repletos de cigarros
e o peito com pouco ar para vazios inteiros

hoje
vejo o céu pela moldura do quarto
as nuvens não tem mais
o formato do teu rosto

Antologia Poética quarenta em quarentena 66


“escrevo pra não durar” ¹

na fumaça ansiosa
que vai até meus brônquios semiabertos
respirar é difícil quando se divide espaços

duas pessoas
ocupando doze centímetros de um peito
dois corpos
sem caber inteiro
que respiram

quando estão fora

¹ Citação: Eveline Sin.

Antologia Poética quarenta em quarentena 67


na insustentável contagem dos dias
a ausência do teu nome
ocupa cômodos inteiros

Antologia Poética quarenta em quarentena 68


Gonzaga Neto

eu não me arrisco a calçar os tênis


e brincar de passear no parapeito da janela
por isso fecho as cortinas todas as noites
e deduzo que seria um prejuízo enorme
para o serviço de limpeza maputense
ninguém sai de casa de manhã
pensando em limpar restos latino-americanos
antes do pequeno almoço
um abraço do outro lado da rua
a mandíbula perto da barraca
de frutas da mamana
que exclamaria, talvez,
se pudesse reconhecer meu rosto
partido em três pedaços
era um puto tão nice
e me comprava banana todos os dias
domingo passado até tirou uma foto
do meu sorriso e me marcou no instagram
mas ela não teria como saber
Antologia Poética quarenta em quarentena 69
seria preciso ter habilidade profissional
de um jogador de tetris
quebra-cabeça, quem sabe
o pé direito escondido debaixo do carro
ainda calçado me faria ter certeza
de que fiz bem ao pagar tão caro por isso
mas eu não me arrisco a calçar os tênis
e brincar de qualquer coisa no parapeito da janela
tenho medo de altura, como bem sabem
e de saltos em locais ocos em direção a lugar nenhum
já me bastam os para dentro de mim

Antologia Poética quarenta em quarentena 70


o quarteirão deseja dar a volta em mim
toda vez que vou à padaria do outro lado da rua
pois os pés estão cansados do mesmo chão
das facas na parede
dos pelos crescendo nos ombros
dos dedos cheirando a manteiga

eu mesmo
só quero dar a volta nele
sem pressa
e me encontrar por aí
perdido em alguma esquina

Antologia Poética quarenta em quarentena 71


quando falaram que o mundo ia acabar
imaginei que estaria a olhar pela janela
e uma bola de fogo do tamanho de são paulo
se chocaria com o prédio mais alto da minha cidade
imaginei que alienígenas surgiriam do asfalto
no fim de uma tarde de calor e nos fariam de escravos
ou de pilhas para recarregar as suas naves neon
imaginei novas hiroshima novas nagasakis
mísseis americanos coreanos e russos
fazendo arco-íris nos céus avermelhados
imaginei que pudesse ser algo lento e doloroso
como uma pandemia com nome de cerveja
ou uma guerra biológica em prol da liberdade
de um país no oriente médio rico em petróleo
ontem eu vi espancarem um homem com um cassetete
do conforto do meu sexto andar eu vi espancarem um homem
e nada fiz além de me sentir mal
hoje cedo chorei por conta de tudo aquilo que sinto
e não pelo homem espancado
ou pelo projeto ditatorial que está a se instalar no brasil
quando falaram que o mundo ia acabar

Antologia Poética quarenta em quarentena 72


eu imaginei que saberia a hora
e que daria tempo de me despedir daqueles que amo
agora sem poder dar adeus a ninguém
percebo que provavelmente
o mundo já acabou

Antologia Poética quarenta em quarentena 73


Quarentena

Gustavo Luz

Estou em casa e você?


Também, deitada na minha cama,
comemorando um aninho do meu gatinho Nanã.
— Estávamos com dez dias de quarentena.

Antologia Poética quarenta em quarentena 74


De tantos dias

De tantos dias
existem aqueles acidentados
passei pelas avenidas endereçadas ao futuro
deveria compor frases e formar palavras-chaves
Sento na mesma cama e o comentário
é coisa conhecida
não consigo renovar minha paciência
carrego das avenidas o pó preto
e bebo em goles a paixão — fumo o dia
O sol não mudou sua estrutura
a cor é de chumbo
e as calçadas, as árvores, os idosos, as motos,
o vento sem iniciativa, a menina que eu deveria
enamorar, os trechos, as linhas e os sonhos
são apenas diálogos
mas vidas que tentam ser
Na fala alheia soluço
e sinto o cansaço roncar no peito
A música não consegue a gratidão
encontra-se viajando na menina
da casa da esquina

Antologia Poética quarenta em quarentena 75


Todo o momento tem um significado perdido
a vida que não encontro no minuto.

Antologia Poética quarenta em quarentena 76


A semana

Na segunda quero morrer


Na terça a vida é possível
Na quarta alimento os gatos
Na quinta chama o celular
Na sexta as estrelas ganham nome
No sábado acode os amigos
No domingo o buraco é fundo
acabou-se o mundo.

Antologia Poética quarenta em quarentena 77


Cinzas

Humberto Hermenegildo

Eu isolado
Eu conformado
Eu intocado
Eu imolado.

Porta cerrada
Asas nas brechas.
Janela aberta
Giro nas trevas.
Tão longe o próximo
De antes da quebra.

Eu renascido
Eu ressurgido
Eu insurgido
Eu conseguido.

Fênix perdida
No agora pronto.
Antologia Poética quarenta em quarentena 78
Alma inventada
No reencontro
Perto a lonjura
De um grave sonho?

Antologia Poética quarenta em quarentena 79


Ainda viva

Iara Maria Carvalho

no fim, tudo morre.


mas o fim ainda não chegou.
eu, que tão natureza morta já fui,
ainda estou viva.
eu, que já fui impermeável à vida,
hoje me vejo líquida,
lírica.
uma maçã com escuros
à espera de um aboio que amanheça
o sol.

Antologia Poética quarenta em quarentena 80


É primavera noutros cantos.

No meu canto de aqui,


é uma estação
funda
sem versos
que a traduzam.

Mas sinto de longe


nascer um
perfume.

Um perfume de flor
que não existe
no meu canto de
aqui.

Talvez em lugar nenhum


haja o cheiro que
ora atravessa
minhas narinas.

Antologia Poética quarenta em quarentena 81


A solidão nunca foi
tão palpável.

Antologia Poética quarenta em quarentena 82


Se eu dançar em meio ao caos,
não me cure.
Não me cure de ser alegre,
ainda que reticente.
Não me cure de amar
entre cuidados exagerados.

Não me cure.

Eu sou terra, eu sou a Terra.

O meu corpo dança


entre os hemisférios.
O meu corpo ri do pandemônio.
Falta-me o ar e me sobra chão
pra dançar com os pés
em febre.
Tenho a fibra das mãos gastas,
tão alvas quanto
o cabelo das avós.

Antologia Poética quarenta em quarentena 83


Eu dançaria agora mesmo
com vovó se ela não tivesse morrido.

Permissão pra dançar.


Permissão pra adoecer de amor.
Permissão pra beijar quem eu ainda não beijei.
Permissão pra cair do planeta
e ir vagar noutros sistemas:
alegre
entre tijolos
intergalácticos.

Antologia Poética quarenta em quarentena 84


Quem é essa?

Jeanne Araújo

Quem é essa que me busca


desde a hora em que a claridade
cega meus olhos?

Quem é essa que me espreita


e me oferece rendas, flores e névoas
se eu a abraçar delicadamente?

Mas de que me servirá


o cálice,
o beijo,
o penhasco se estarei hirta?

Ouça.
Não quero lápide.
A palavra imortaliza.

Antologia Poética quarenta em quarentena 85


Rito de Passagem

Quando vens
liberta-me do medo
dos tropeços
dos desertos
tudo é névoa
naufrágio
rios de areia nos olhos
tudo é silêncio
nada ouço
apenas percebo tua sombra
escrevendo em pergaminhos
minha angústia velada
minha alma frívola
e minha condenação.

Antologia Poética quarenta em quarentena 86


Senhora

Passei em claro escuras madrugadas


e esta tem sido minha sina:
a palavra inacabada
um outro rosto, abismado
sequóia sagrada
coroa diáfana
uma voz áspera
um gesto tosco
mãos em calafrio

Do vento, da vida e do tempo:


Senhora

Antologia Poética quarenta em quarentena 87


1.

João Andrade

Meu verso é fratura exposta,


nervo partido,
hemorragia borbulhante,
punhal cravado
sobre a ferida aberta,
ácido sobre as vísceras.

Eu canto o grito mudo


que salta aos olhos
dos que se esgueiram invisíveis
pelos becos e esgotos.

Eu canto
os humanos-helmintos
encharcados de não,
os famintos de amor e pão,
os que trazem, no corpo
e na alma, chagas e cicatrizes.

Antologia Poética quarenta em quarentena 88


Eu canto o canto imundo
dos que fedem,
dos que azedam
e dos que sujam
a tediosa normalidade azul
dos belos,
dos salvos
e dos felizes.

Antologia Poética quarenta em quarentena 89


2.

Não me importo com o punhal


dilacerando a carne,
rasgando fibras,
cortando nervos
em seu balé insano
de sangue e metal.

Importo-me com efeito


estético da dor.
Interesso-me pela hemorragia
encarnada e borbulhante
de hemoglobinas
sobre a face branca
e estéril da ordem.

Preocupo-me com a beleza


rubra dos pássaros sanguíneos
em uma revoada caótica
e escarlate
salpicando de carmim
a tediosa normalidade

Antologia Poética quarenta em quarentena 90


azul do certo.

Antologia Poética quarenta em quarentena 91


3.

O rio de minha aldeia


não é mais belo que o tejo.
Nunca me banhei nele
nem sequer serviu
para matar minha sede.

O rio de minha aldeia


não suporta grandes navios.
É raso como rasos
são os ribeirinhos,
como raso sou.

O rio de minha aldeia


é um rio qualquer
como tantos outros no mundo.
Não é sagrado,
não guarda segredos
e nada de útil
ou de relevante
é possível retirar
de suas águas fétidas.

Antologia Poética quarenta em quarentena 92


O rio de minha aldeia
não merece constar em atlas
ou em manuais de história.

A ponte sobre o rio de minha aldeia


serve de trampolim para os suicidas.

Os esgotos e os esgotados jogados nele


afagam e afogam minha alma inútil
em um vórtice de merda,
abortos, agonia,
desespero e solidão.

A única qualidade
que lhe justifica um poema
é que suas águas imundas empestam
o cínico e indecente azul-turquesa
do mar de minha aldeia.

Antologia Poética quarenta em quarentena 93


ao degredo

José de Castro

um vírus me condena
salva-me!
suplico ao poema

Antologia Poética quarenta em quarentena 94


recluso, longe do sertão

onde está meu boi de reis


xote, forró — meu baião?
saudades dançam aqui

Antologia Poética quarenta em quarentena 95


Solidão.

Junior Dalberto

Gosto de atravessar fronteiras, oceanos e almas.


Gosto de viajar lugares e percorrer pessoas, me acalma.
Mas hoje me sinto acorrentado,
Meu corpo preso a paredes faz
minha alma desejar voar,
Abro janelas e fujo de mim.
Olho ao infinito e ensaio voos incertos, bonitos,
Vou até você e te carrego nessa viagem.
Viajamos felizes, mãos dadas sobre montanhas, marés, nuvens e
fantasias.
Um par de desesperados sonhando acordados, torcendo para esse
pesadelo passar.
Solidão é uma tristeza quente que salga os olhos da gente,
tem que dormir para passar.

Antologia Poética quarenta em quarentena 96


Abandono.

Dói abrir a porta e nada enxergar.


Olhar pra rua e ela estar nua, despida de gente,
Apenas paralelepípedos quentes
e poeira nos narizes da gente.
Nem os gatos vagabundos,
Nem os cães vira-latas.
A vida sumiu,
Estou só envolto em pensamentos estranhos,
Por que não me levaram?
Será que foram todos abduzidos?
O vento rodopia folhas,
Eu sigo,
Não sei para onde nem por que
Apenas sigo,
Logo será noite,
Vou dormir novamente,
Quero um sonho cheio de gente
Para quando acordar,
Ter razão para seguir em frente.

Antologia Poética quarenta em quarentena 97


Big Bang.

Somos instantes
Explodimos em coisas
Refletimos ocasos
Multiplicamos viventes
Conflitantes amores
Somos sabores e cores
Errantes estranhos
Elegantes passantes
Somos terráqueos
Eternos ausentes
Luzeiros nessa escuridão
Que chamamos vida.

Antologia Poética quarenta em quarentena 98


Foice

Kalliane Amorim

Tua ausência me comove


como uma estrada em linha reta.

Os cercados, como ouvidos,


espreitam meu caminhar
rente às flores amarelas
e roxas que vou pisando.

Tua ausência me comove…


a cor murcha dessas flores…

Tua ausência é meu limite —


intervalo entre o verde e a foice.

Antologia Poética quarenta em quarentena 99


Remissão

O dia termina de pernas cansadas


O dia com suas varizes profundas
A agenda vestida de náufragas horas

E à tona das horas, uns versos que boiam


À tona dos dias, canções se recordam
À tona de mim, solidões que se acolhem

Antologia Poética quarenta em quarentena 100


Oração

Dá-me flores,
quando meus olhos só virem pedras,
ainda que sejam
essas pétalas ressequidas,
lembranças de sol e vento
que na curva da estrada
ficaram,
à beira de meu olhar peregrino.

Dá-me flores,
quando minhas mãos só guardarem o pó
de meus próprios passos
e meus braços se estenderem, abertos,
esperando, quase inutilmente,
uma resposta,
vinda de qualquer lugar,
de onde nem ouso imaginar…

Dá-me flores,
que minhas sandálias já estão gastas,
que meus lábios já entoam canções antigas,

Antologia Poética quarenta em quarentena 101


que uma outra curva já se aproxima,
e eu quero florescer
em pleno estio.

Antologia Poética quarenta em quarentena 102


Observações prosaicas em tempos de

suspensão

Leonam Cunha

Corona vírus (relato núm. 1)

As ruas estão roxas de sossego. Rodeia a praça um cão — estou vendo


da minha janela — que levou sua dona a passear. Há que haver uma boa
desculpa para percorrer os cantinhos de solidão da cidade; por exemplo,
faltou abacaxi em casa e eu sem suco de abacaxi não aguento a vida; ou
preciso levar minha mãe ao interior mas vamos sozinhos no carro e nós
dois estamos protegidos pelo paninho das máscaras — tá vendo, seu
polícia?; ou também: sou agricultor, tenho que carregar sobre os
ombros umas cidades inteiras um sem fim de mundo.
Além disso, estamos rodeados de nossos livros, nossos jornais, nossas
notícias, o eco da casa sem muitos passos, o ruído de uma porta batendo
à distância ou o murmúrio de uma pomba (sons aos que não podemos
nos dedicar devido ao trabalho, à agonia, ao trânsito, à embriaguez, à
disciplina, aos turistas, aos sinos das igrejas, etc. etc.) Nesses momentos
em que direitos estão suspensos, a gente tem que redescobrir e
promulgar novas conquistas — não para o tempero de meras ilusões,

Antologia Poética quarenta em quarentena 103


mas como alento, como cafuné. Hoje quis deixar claro que ESTOU
EXERCENDO MEU DIREITO DE OUVIR O RESSONAR DE UMA
JOANINHA.
Mas ao redor tudo ardequeima. O menino da loja de embutidos foi
dispensado e a irmã do meu amigo demitida temporariamente. Os
antigos pedintes da cidade ou já morreram de fome ou de vírus ou
talvez os albergues municipais os tenham acolhido (não se sabe em que
condições estão). Todos os dias dá no jornal da manhã o número de
pessoas que por tanto tempo suportaram o mundo e de repente lhes
decretaram que sua perseverança não mais valia. O governo apela para
várias medidas que durante minha vida chamei de estratégias
socialistas. Mas a revolução agora é a do medo.

O território está dividido aos cacos. Sobra dinheiro de um lado e há


árvores demais neste quintal.
À mulher que quer falar sobre violência lhe dirão que não. Ao casal que
quer falar de amor (não obstante a maquinaria torpe da psiquiatria)
também lhe dirão que não.
Os corpos voam num espiral de incertezas: amanhã alguns milhões de
pessoas não saberão se vão comer. Hoje à noite outros tantos não
saberão se sua pele será tatuada com um projétil comprado por gente
decente.
Antologia Poética quarenta em quarentena 104
Dessa gente, o saco do país está cheio. Estamos diante de um telão
posto aqui por incentivo do governo e dentro da tela surgem uns olhos
enormes, assustadiços, surge um grito dentro da sala vazia, dentro da
fortaleza da falta de som.
E vamos aplaudir! como cidadãos que querem retirar o status quo até do
cu, se necessário. (O cu não. Aí não se pode mexer. Também não se
pode pôr o dedo no apart-hotel onde dorme um senhor sonhando
tranquilamente com sua carga de cocaína que chegará a Sevilha no dia
seguinte).
Terminamos os dias assistindo a uma ruína espetacular que sussurra que
o futuro não será aquilo, e não terá aquele brilho que havíamos previsto.

Corona vírus (relato núm. 2)

Hoje vi um menino sendo multado pela polícia: parece que não


conseguiu se explicar direito, estava em um local muito afastado de sua
casa. Tudo isso ainda dá muito medo mas eu tive pena do menino.
Parecia querer formar-se uma cara de lágrima no rosto redondo dele.
Tive pena porque ninguém sabe bem — mesmo auscultando direitinho
e rebuscando pelo de dentro — a dor do outro, não dá pra se saber bem
direitinho.
Faz bem um mês que escrevi o primeiro relato (não sei bem, acabaram-
se os dedos de contar). Alguma coisa mudou, parece que o silêncio se
Antologia Poética quarenta em quarentena 105
está diluindo. Em alguns pontinhos da cidade parece formigar uma
esperança, que coça o pé de manhã. Só não sabemos o quanto durará
esse tremelique, se nos afetará inexoravelmente, se será apenas um
devaneio favorecido pelo momento…
Mas finalmente parece que está sendo mais possível pensar n’O Depois.
Não sabemos como vai ser a vida n’O Depois, é certo. Se o que vai vir
do após-calipse vamos continuar chamando vida, tal qual entendíamos
esse tão aludido conceito. O certo também é que vamos voltar pouco a
pouco à merda de antes: vamos reparar na merda que não reparávamos?
Não sei o que nos dirão os quatro cavaleiros quando levantemos um sol
forte como o sol de outros anos. Vai ser o mesmo verão? Acho que a
vida mudou pra sempre. Espero. Pelo menos espero que os laços que
unem as vidas tenham mudado pra sempre, mudado pra serem laços
duros que nem a vontade contra a morte. Pelos menos, estou esperando.

Antologia Poética quarenta em quarentena 106


Haicais

Lívio Oliveira

Gado velho pasta


mato sem dono: avenida
da palavra gasta.

No planeta um vírus
invade casas, abrigos
reinos vãos: exílios.

Vapor de dor: gás


pulmões secam, almas caem
E DAÍ? Engasgo!

Antologia Poética quarenta em quarentena 107


Lucas Rafael

“O que vou falar aqui é tipo um desabafo… nada de ser um oportunista


literário,
desses que aproveita o tema do momento pra fazer texto… famoso
escritor midiático.

É que meu amigo disse que se pega chorando, desesperado e assustado,


porque sabe que pra gente não há nenhum amparo.

Se aqui, o primeiro que morreu tava no hospital mais caro,


quem dirá nós, com recursos em péssimo estado.

É de se preocupar a cada nova informação,


o outro chega e fala: “Como faz pra não surtar com toda essa situação?”

Não tiro isso da minha cabeça, principalmente quando tô só,


penso no meu pai, na minha mãe, nas minhas irmãs e na minha avó.

Sim, minha avó! Porque falam: “não se preocupem, essa doença só


mata quem é idoso”,
Antologia Poética quarenta em quarentena 108
quem pensa dessa forma é o mesmo que cometer um crime doloso.

A vida deles importa!


Cada um representa uma história!

Em relação a esse teu pensamento? Destrua!


Seus arrogantes! Querem saber sobre a história do mundo, quando não
sabem nem a da sua própria rua!

Nessas situações que só reforça o que eu já dizia:


O mal do mundo é a falta de empatia.

Aí, L7NNON, sabe o que é o causador de toda essa asma, mano?


É que os pulmões humanos têm dificuldade em conseguir ar suficiente
para que possamos pronunciar um simples “eu te amo”.

Irmão, sabe o que é lamentável?


É que quando as pessoas estão com o amor nas mãos, elas passam
álcool em gel.

Ninguém floresce sozinho aqui,


quem vai regar o jardim das flores que nascem das dores do fim?¹

Para sermos mais fortes precisamos formar uma aliança.


Antologia Poética quarenta em quarentena 109
Nosso corpo é uma caixa. Só por curiosidade, liberte a sua esperança.”

¹ Pergunta de um pensador desconhecido.

Antologia Poética quarenta em quarentena 110


Ofício poético

Marcos Ferreira

Sentado sobre a cama, à luz da vela


Duplica a solidão que o penaliza.
Escreve num papel, que se amarela
Ao foco dessa luz tão imprecisa.

Levanta e vai fumar junto à janela


— O peito aberto à esmola de uma brisa.
Recorda com desgosto o beijo dela
Ainda no batom preso à camisa.

Apoia os cotovelos no batente.


Inclina-se um bocado, espreita a rua
E cospe na roseira à sua frente.

É tarde… Um galo canta no vizinho.


Então ele retorna e continua
Os versos que deixou pelo caminho.

Antologia Poética quarenta em quarentena 111


O impaciente

Num triste e moribundo leito de hospital,


Tomado pela angústia e pela cefaleia,
Me chega esta esquisita e complicada ideia
Querendo fazer verso à minha dor renal.

Então, meio sem brilho e me sentindo mal


(A mão tremendo feito um bolo de geleia),
Puxei pela cabeça e dei na seborreia —
Em vez do metro certo e a rima original.

No entanto, julgo até que vou saindo bem


— Embora assim furado pela Voltaren
E um pouco sufocado pela mão do tédio.

Pois findo este soneto mesmo na carreira,


Agora quando chega a santa da enfermeira
Trazendo a bandejinha cheia de remédio.

Antologia Poética quarenta em quarentena 112


Horas mortas

Assim das águas desse mar de sonhos mortos,


Onde perdemos tantas vezes nossos barcos,
Eu vou levando minha nau para outros portos,
Eu vou deixando para trás todos os charcos…

Eu deixarei meus dez ou mais projetos tortos,


Os meus lamentos e prazeres muito parcos;
Hei de levar meus ferimentos, mas suporto-os,
Como você há de deixar também seus marcos.

Irei, talvez, no meu momento mais precário,


Quando me encontro tão perdido e solitário
Nas horas mortas desse cais da solidão.

E quando eu for, você dirá com jeito forte:


— Seja feliz!… Eu lhe desejo muita sorte… —
E eu levarei mais essa dor no coração.

Antologia Poética quarenta em quarentena 113


A vida está em casa

Marcos Medeiros

É triste essa Pandemia


Em que a gente todo dia
Tem que em casa estar trancado,
Mas o ponto positivo
É mesmo seguir bem vivo
E não ser contaminado.

Esse vírus é um danado


Porque vem de todo lado,
Entra em boca e em nariz.
Por isso máscara use,
Proximidade recuse,
Faça o que a Ciência diz.

Não siga o doido infeliz.


Não faça o que não condiz,
Nem saia do isolamento.
Faça o certo, peça a Deus,
Chame por vídeo aos seus,
Antologia Poética quarenta em quarentena 114
Mantenha o distanciamento.

Em casa, curta o momento,


Procure divertimento,
Veja “laive” na TV.
Faça uma boa leitura,
Brinque de forma segura,
Olhe mais para você.

Procure ver o que vê,


Buscar o quê e o cadê,
Na sua casa querida,
Pois assim vais descobrir
Que não deverás sair
Porque nela está sua vida.

Antologia Poética quarenta em quarentena 115


À mulher vai(idosa) na quarentena

Vá idosa conversar
Com a mesa e o frigobar,
Sem pensar que está caduca.
Isso é fruto do momento,
Do profundo isolamento,
Tão longe de uma muvuca.

Procure arejar a cuca.


Para não ficar maluca,
Muito invente e exercite.
Use a criatividade.
Não acredite que a idade
Atividade limite.

Uma dançarina imite.


No seu gingado acredite.
Com sua vassoura dance
Ao bom som de Rita Lee.
Cante de si para si.
Só quando cansar descanse.

Antologia Poética quarenta em quarentena 116


Dia a dia nisso avance.
A tristeza braba amanse.
Não fique impressionada.
Renove-se a cada dia.
Durante essa pandemia
Mostre estar bem preparada.

Se estiver descabelada,
Finja ser bem penteada
Por sua cabelereira,
Ou coloque uma bandana
Só pra ver se ela engana
Numa selfie de primeira.

Antologia Poética quarenta em quarentena 117


Meu muito obrigado a Deus

Nesse meu confinamento,


De dentro do isolamento,
Muita coisa já escrevi.
Procurei a fantasia,
Vesti-me de poesia,
Para ver quem eu não vi.

Na maratona insisti,
Livros já li e reli.
Visitei novo universo.
Refleti bem de repente.
Pensei mais em minha gente,
Retratando em cada verso.

Meu viver ficou diverso


De qualquer modo transverso
Que eu tivesse exercitado.
Por isso a Deus agradeço
Poder do meu endereço
Dizer: MEU MUITO OBRIGADO.

Antologia Poética quarenta em quarentena 118


Dentro de mim

Margareth Freire

Quero rasgar teu peito


E me colocar lá dentro
Mesmo sem saber
Se tenho
Esse direito
Ficar presa no teu coração
Quero enveredar
Por tuas retinas
Para que nada vejas
Além de mim
Quero ser teu desejo
Teu pensamento
E teu único amor
A paixão que avassala sem medo
Quero ser tua órbita
Teu princípio
Meio e fim
Eu quero ser você
Bem aqui
Antologia Poética quarenta em quarentena 119
Dentro de mim.

Antologia Poética quarenta em quarentena 120


Sem medo de errar

Lembro a primeira vez


Em que você me amou
A magia do momento
Uma sensação esquisita
Onde se misturavam
Ao mesmo tempo
Medo e ansiedade
Eu te queria e sentia
Que você me desejava
Tuas mãos macias
Teu beijo quente
Fizeram-me esquecer
De todo o mundo
E de repente eu deixei
Que a emoção me conduzisse
E me deixei levar por você
Sem medo de errar
Naquele momento
Eu só queria
Amar e me deixar amar

Antologia Poética quarenta em quarentena 121


Desafio

Eu te desafio
A me mostrar
Quem neste mundo
Te ame mais que eu
Que seja capaz de se dar
Fazer loucuras
Ter coragem suficiente
De mostrar sem medo
Sem vergonha
O querer palpável
O desejo latente
O amor gritante
Que sinto por você
Eu te desafio
A me mostrar
Quem neste mundo
Te ame sem frescura
Te queira com loucura
Mais que eu.

Antologia Poética quarenta em quarentena 122


Os gatos voltam à meia-noite

Maria Maria Gomes

Os gatos se confundem
ante as situações
—nada triviais—
e rompem a escuridão
da noite seridoense
:
ambígua e solitária.

Mesmo que Netunos


e Afrodites se lamentem
—pelos falsos desejos—
há de se saber
:
os gatos voltam à meia-noite.

Antologia Poética quarenta em quarentena 123


Anúncio classificado

Preciso urgentemente de
um pintor:

que retoque,
toque,
pinte
o meu coração.

Preciso de um construtor
para ressurgir as ruínas

— Vendaval que passou.

Preciso de flores na casa,


cortinas divididas

Um sino do vento
Pendurado à janela,
preciso!

Preciso de luzes de velas

Antologia Poética quarenta em quarentena 124


para iluminar o telhado
e a mesa de jantar.

Preciso reconstruir
meu coração
com uma cama para amar

Preciso ser Cleópatra


e
em um tapete me enrolar.

Antologia Poética quarenta em quarentena 125


Desassossego

O instante
às vezes me atormenta:

toca-me o ombro,
desembala meu sono,
acorda o parceiro que dorme,
mexe na minha loucura,
rouba-me a solidão,
tira-me, escondido,
todos os meus sentidos.

O instante se afoga
nos fonemas da palavra.

Antologia Poética quarenta em quarentena 126


roda-gigante

Marina Rabelo

ao fechar os olhos
meu quarto gira
num redemoinho
de sensações indeléveis

uma oração sagrada


de palavras inauditas
quebra o silêncio
das paredes lacradas

mãos entrelaçam-se
à espera de uma luz
de ventos verdes
de esperança
que acolherão meus medos

para a roda-vida-gigante
continuar a girar

Antologia Poética quarenta em quarentena 127


um segundo de leveza

quero um poema leve


que me leve
feito espuma
um poema pluma
que me leve
para longe
um poema horizonte
que me leve
sobre um rio
um poema arrepio
quero um segundo
de paraíso

Antologia Poética quarenta em quarentena 128


entre os prédios

entre os prédios
ouço um ressoar de pássaros.

perguntam pra mim:


— por que não te migalhas
e fugiremos daqui?

Antologia Poética quarenta em quarentena 129


Noticiário

Nivaldete Ferreira

— o que é isso, mãe, tanto retângulo


cavado no chão?
a mãe mostrou ao menino os olhos
do gato nos buracos da caixa
e não disse que aquilo era
uma plantação de mortos

Antologia Poética quarenta em quarentena 130


algo

algo profundamente avançador


na rua aldeias nas águas poucas e inundações
na ventania na feira atrás da máquina e do céu
algo velozmente assombrador
nas máscaras brinquedos nas garrafas de crepúsculo
nos copos separados
cadernos e navios nos panos de dormir
nos ossos das calçadas nas invisitas e nas frutas
nas sirenes violinos no retângulo das varandas
. . . . . . . . . . .até o vento parece velho de repente

mas algo também que descansa respira espera


de olhos fechados debaixo de cada árvore------
alguém passou e viu
a esperança.

Antologia Poética quarenta em quarentena 131


não importa a biblioteca devorada.
as sensações continuam analfabetas
como a do vírus desse medo

Antologia Poética quarenta em quarentena 132


Quarentena

Rizolete Fernandes

Eu não devia lhe querer


porque meu peito
a cada desencanto
desritima
e por tal em quarentena
de paixão
deve permanecer

Não eu não devia


mas estou lhe querendo tanto
que qualquer dia destes
desafiando a gravidade
abandono minha nave
voo célere
até você

Antologia Poética quarenta em quarentena 133


Inclemência

Inda pensada
a dor
é ferroada

Quando sorrateira
se instala
gota à gota
vira enxurrada

Se de repente
aguda inteira
fica
sendo passageira

A dor
faz inclemente
quem a sente

Antologia Poética quarenta em quarentena 134


Certas palavras

Arrependo-me com frequência


de certas palavras ter pronunciado
outras vezes o desgosto
é por não as ter falado
doe-me porém a consciência
de muitas outras palavras
jamais haver formulado

Antologia Poética quarenta em quarentena 135


Quarentena

Salizete Freire Soares

Surpresa me vejo em casa


de uma hora para outra
como um pássaro sem asa
como uma concha sem ostra.

na mudança de rotina
rodei na rota caseira
lava, passa e cozinha
igual uma lançadeira.

Tentei brincar de infância


Quando vi as longas eras
nas mais compridas distâncias
A pouca força nas pernas.

Falta infância pra correr


Falta infância pra brincar
Baixar para me esconder
Degrau da escada alternar.
Antologia Poética quarenta em quarentena 136
Infância pra me esconder
Pular corda, cabra cega
Ou, ser Saci Pererê
Ou brincar de pega-pega.

Cadê brinquedos de outrora


cadê a capacidade?
existente em toda hora
dando conta da cidade?

Como me faltam pernas corredeiras


sem a malícia do olhar maduro
levar pra casa um tênis com poeira
jogar a roupa como um entulho.

furar o bolo de fubá no escuro


Lamber o dedo, limpar nas cadeiras
cruzar os dedos e dizer Eu Juro!
Que não fui eu nem de brincadeira.

Me falta infância só agora sinto


nas horas soltas no isolamento
E se passou um tempo que precinto
Antologia Poética quarenta em quarentena 137
só me dei conta no viral momento.

Antologia Poética quarenta em quarentena 138


as ruas

Theo G. Alves

as ruas da cidade
morta
operam silêncios
como máquinas
de empilhar
tempo e
vazio

as noites
acordam os gatos
mecânicos
às noites
mortos
silenciosos
como o ventre duro
de um besouro
— pedra

brota o silêncio
Antologia Poética quarenta em quarentena 139
morto
das ruas
mortas
da cidade cancerígena
— carcinoma

como uma flor preta


e podre
que nasce em suas/minhas
veias

Antologia Poética quarenta em quarentena 140


antes de haver a poesia

antes de haver
a poesia
o uivo ancestral dos cães
os passos metálicos dos gatos
a vidraça pedra estilhaçada enquanto correm os calcanhares
dos meninos rua abaixo
e ninguém viu nada

antes de haver
a poesia
o ganido arfante de um velho safado
o gemido mouco da puta que lhe toma uns tostões
o uivo
o grito
o silvo
as raízes fracas dos pés de manjericão
afundadas sob a terra:
só perfume/nenhum som

antes de haver
a poesia

Antologia Poética quarenta em quarentena 141


a cantiga de roda
a boneca que bate palmas
o choro do irmão
o ronco do tio
o tilintar dos garfos de cabos plásticos
em pratos de ágata
sofridos surrados cerzidos pelo tempo
a avó adormecida na rede
o sonho amarfanhado
como notas miúdas no bolso bêbado
do homem sem futuro

antes de haver
a poesia
o mito
o trágico
o eco
o drama
a sinopse
a hipótese
o clown
o take
o fade
in/out
Antologia Poética quarenta em quarentena 142
o reverso
o nervo
dormente

antes de haver
a poesia
o álbum de retratos
o pé de goiaba carregado
os banhos de mangueira
a areia do rio
a roda de meninos a correr sob a chuva
a chuva
a chuva
a chuva
as cinzas da fogueira de são joão
a tesoura aberta jogada à rua
o chão riscado à faca
a chuva
a chuva
a chuva
à noitinha

antes de haver
a poesia
Antologia Poética quarenta em quarentena 143
o estampido
o soco
o tiro
o bumbo
o braço
o golpe
a faca
a foice
a cana
a cama
a cama
a cama
sempre a cama

antes de haver
a poesia
o copo quebrado
o corpo esgarçado
a queda do clero
o grito de guerra
o grito de horror
o grito de dor
o grito abafado

Antologia Poética quarenta em quarentena 144


antes de haver
a poesia

silêncio
e
barulho.

Antologia Poética quarenta em quarentena 145


um monge

o sol
o acorda
ou o fim de seu sono
desperta o dia?

sorve
em silêncio seu café
e seu olhar
para as coisas

sozinho
arrasta os passos
pela casa imóvel
toda povoada de silêncios

organiza
lentamente suas estantes
e os livros
que se deitam em sua cama

sozinho

Antologia Poética quarenta em quarentena 146


em silêncio
ele não vence o dia
mas já dorme para amanhã.

Antologia Poética quarenta em quarentena 147


Pergolado

Thiago de Goés

Eu juro que não te havia reparado


A caminhar na parede
Do pergolado

E, no entanto, lá estavas
Solenemente imune
Às manchetes do jornal das dez

Não tenhas medo de mim


Quem sou eu? Inofensivo bípede
Fugitivo de pandemias

Hei de balançar-me na rede


Até que comas teu último
Inseto

Antologia Poética quarenta em quarentena 148


Revogação

Fica instituído
Que a partir de hoje
Todo dia é hoje

Antes de hoje, será hoje


Depois de hoje, será hoje
E hoje é um dia qualquer

Eu nasci hoje
Vou morrer hoje
E já sou pai de duas filhas

Não haverá mais dias do mês


Porquanto não haverá meses
Nem festas de aniversário

Não haverá mais feriados


Nem pontos facultativos
E todos os dias serão inúteis

A partir de hoje

Antologia Poética quarenta em quarentena 149


O dia começa
Quando o galo cantar

Não haverá tardes, noites ou manhãs


Apenas e tão somente
Os tempos do sol e da lua

Ficam revogados
Para todos os fins
Relógios e calendários

Antologia Poética quarenta em quarentena 150


Virá o dia

Virá o dia
Que a vida vai virar a mesa
Que o mundo vai virar a página
E quem viver virá

Virá o dia
Que o povo vai virar o jogo
Que o joio vai virar o trigo
E quem viver virá

Virá o dia
Viral dia
Viral

Antologia Poética quarenta em quarentena 151


rendeira

Thiago Medeiros

costuro a pele com cacos de vidro


ausência de agulhas
sobra de mãos
brinco de pontear o tempo
desaprendi a usar agulhas
e a não ensanguentar as mãos
o que é pele o que é caco o que é vidro?
ao invés de suturar o medo
exponho a carne e o nervo
sou mais forte do que imaginava.

Antologia Poética quarenta em quarentena 152


resiliência

pinto as paredes do quarto de cor de rosa


molho as plantas do jardim
acredito que o amor chegará
triunfante em todos os espaços deste país
há um território a ser dominado e é pelo amor que venceremos.

Antologia Poética quarenta em quarentena 153


enquanto a água escorre da louça
o cheiro de lavanda invade a casa
invento estórias que poderíamos ser
entre os produtos de limpeza
imagino você escorrendo entre os meus dedos
flores casa móveis
inquietos
nestes domingos onde todo o ritual é para amenizar esperas.

Antologia Poética quarenta em quarentena 154


Luz para o mundo

Vanda Maria Jacinto

Vibremos a luz
Para que o planeta
Volte a viver!

Antologia Poética quarenta em quarentena 155


Acalanto

Acalantarás
No refúgio do meu lar
A minha alma.

Antologia Poética quarenta em quarentena 156


Paisagem assimétrica

Através da janela
vasculho cada centímetro
com olhos de gazela.

A euforia de outrora
já não é mais visível
só o pavor nos controla.

A paisagem que aprecio


Literalmente assimétrica
calada nem balbucio.

Sei que tudo passará


e em breve estaremos
sorrindo a relembrar.

Que fiquem boas lições


guardadas a sete chaves
dentro dos corações.

Antologia Poética quarenta em quarentena 157


a tarde desmorona feito

Wescley J. Gama

a tarde desmorona feito

aves em revoada.

os meus olhos desenham


a paisagem desse bairro pobre

na américa do Sul.

as pessoas que passam (e as que jogam bila nas ruas de terra)


não sabem o quanto eu caibo nas eras (nesse exato instante),
e o quanto esse desmaio de tarde me comove.

Antologia Poética quarenta em quarentena 158


lembro da voz
do meu pai
e do meu avô,
mais do que outras coisas.

eles conversando
animados
muito cedo
ao pé do fogão a lenha.

lembro que acordar assim


na casa antiga do sítio
era como uma pequena dádiva:

as frestas das telhas de barro transluzidas pela luz-girassol


deixavam o quarto todo atravessado
por espadas de samurais intergalácticos.

e eu tomava café com língua


e bolacha-seca-gostosa
e assistia o “sítio do pica-pau amarelo” em sua primeira versão,

Antologia Poética quarenta em quarentena 159


em preto e branco,
na televisão grande encerrada numa grande caixa de madeira rajada.

viver bem é não ter que se perguntar pela vida


nem ver o tempo passar.

Antologia Poética quarenta em quarentena 160


nunca vi uma colheita de girassóis.

nunca vi uma colheita de girassóis.


deve ser lindo de doer os olhos, limpar a vista…

na vida há de haver coisas inalcançáveis:


dar dois passos em direção ao horizonte e não cansar.

Antologia Poética quarenta em quarentena 161


Sobre o organizador

Thiago Jefferson Galdino nasceu em Mossoró, RN, a


06 de setembro de 1993. Discente do Bacharelado
Interdisciplinar em Ciência e Tecnologia pela Universidade
Federal Rural do Semi-Árido, é autor do livro Suspeitas de um
mistério (Multifoco, 2012) e organizador da coletânea Novos
contos potiguares (CJA, 2017). Desde agosto de 2015, é sócio
efetivo do Instituto Cultural do Oeste Potiguar.

162
Sobre os autores

Alexandre Filho nasceu em Mossoró, RN, a 02 de


setembro de 1993. Graduando de Letras pela Universidade do
Estado do Rio Grande do Norte, é autor do livro Poesia na rua
(Coleção Mossoroense, 2019).

Anchella Monte nasceu em Fortaleza, CE, a 15 de outubro


de 1957. Graduada em Letras e Especialista em Educação pela
Universidade Federal do Rio Grande do Norte, é autora dos
livros A trama da aranha (Sebo Vermelho, 2001), Temas
roubados (Sebo Vermelho, 2006), Pesos & penas (Sebo
Vermelho, 2011) e Entre tempos (Sarau das Letras, 2015).

Ângela Rodrigues Gurgel nasceu em Mossoró, RN, a


06 de maio de 1963. Graduada em Ciências Sociais e Filosofia
pela Universidade Estadual do Rio Grande do Norte, é autora
dos livros Ensaio poético (2009) e Confissões crônicas (2014),
ambos pela Coleção Mossoroense.

163
Bárbara Fonseca nasceu em São Rafael, RN, a 19 de
maio de 1998. Participante ativa de batalhas de poesia falada,
representou a cidade de Currais Novos durante o Slam
Mossoró, torneio ocorrido em outubro de 2019.

Caio César Muniz nasceu em Iracema,


CE, a 17 de novembro de 1972. Graduado
em Jornalismo pela Universidade do Estado
do Rio Grande do Norte, é autor dos livros E
na solidão escrevi (Coleção Mossoroense,
1996), Notívago (Coleção Mossoroense,
1998), Sobre o tempo e as coisas (Coleção
Mossoroense, 2001), Crônicas a temporais (Edição do Autor, 2015) e Batendo à
porta do céu – a chegada de Belchior ao Paraíso (Coleção Mossoroense, 2019).

Camila Paula nasceu em Mossoró, RN, a 06 de julho de


1987. Graduada em Comunicação, mestra em Educação e
graduanda de Letras pela Universidade do Estado do Rio
Grande do Norte, é autora dos livros Poesia clandestina (2011)
e Espelhos (2017), ambos pela Queima-Bucha.

164
Carlos Guerra Júnior (mais conhecido
como Carlos Mossoró ou Mossoró
RAPentista) nasceu em Mossoró, RN, a 13
de novembro de 1988. Doutor em Ciências
da Comunicação pela Universidade de
Coimbra, é jornalista, rapper e ativista
cultural, sendo fundador do Slam de
Mossoró.

Carmen Vasconcelos nasceu em Angicos, RN, a 21 de


junho de 1965. Mestra em Direito Constitucional pela
Universidade Federal do Rio Grande do Norte, é autora dos
livros Chuva ácida (Fundação José Augusto, 2000), Destempo
(Fundação José Augusto, 2002), O caos no corpo (Ideia, 2010)
e Uma noite entre mil (Ideia, 2015).

Cefas Carvalho nasceu em São Paulo, SP, a 18 de maio de


1971. Jornalista autodidata, é autor dos livros Ponto de fuga
(DCA, 2001), Três (Livro Rápido, 2005), Reinvenções (PN,
2006), Encontos e desencontos (Mekong, 2009), Carla Lescaut
(Coleção Mossoroense, 2015), Os olhos salgados (Penalux,
2017), Combustão (Penalux, 2018) e Noite passada eu sonhei
que alguém me amava (Penalux, 2019).

165
Cellina Muniz nasceu em Brasília, DF, a
22 de janeiro de 1978. Pós-doutora em
Linguística pela Universidade Estadual de
Campinas, é autora d’O livro de contos de
Alice N. (Sebo Vermelho, 2012), Uns contos
ordinários (ED!BAR, 2014), Contos do
mundo delirante (ED!BAR, 2018) e O
bombo: Natal, 1945 (Sebo Vermelho, 2020).

Clauder Arcanjo nasceu em Santana do Acaraú, CE, a 03


de março de 1963. Graduado em Engenharia Civil pela
Universidade Federal do Ceará, é autor dos livros Licânia
(2007), Novenário de espinhos (2011), Pílulas para o silêncio/
Píldoras para el silencio (2014), Cambono (2016), Separação
(2017), Mulheres fantásticas (2019), Sinos/ Campanas (2019),
entre outros, todos pela Sarau das Letras.

David de Medeiros Leite nasceu em Mossoró, RN, a 17


de junho de 1966. Pós-doutor em Direito pela Universidad de
Salamanca, é autor dos livros Ombudsman Mossoroense (Sebo
Vermelho, 2003), Incerto Caminhar (Sarau das Letras, 2009),
Casa das lâmpadas (Sarau das Letras, 2013), Ruminar/ Rumiar
(Sarau das Letras e Trilce Ediciones, 2015), Rio do fogo (Sarau
das Letras e 8 Editora, 2017), entre outros.

166
Demétrio Diniz nasceu em Alexandria,
RN, a 28 de junho de 1946. Graduado em
Psicologia pela Faculdade de Ciências e
Letras de Olinda e Bacharel pela Faculdade
de Direito da Universidade Católica de
Pernambuco, é autor dos livros Um homem
sem poesia (Edição do autor, 1996), Haveres
(Barriguda, 2004), FerroVia (Bagaço, 2007), Sob o céu de Natal (Sarau das Letras,
2012), Idas e vindas de São Serapião (Edição do Autor, 2013), Nuno Labaredas e sua
paixão por Baba Yaga (Offset, 2018), entre outros.

Dulce Cavalcante nasceu em Cedro, CE, a 31 de março


de 1941. Graduada em Pedagogia pela Universidade do Estado
do Rio Grande do Norte, é autora dos livros Quatro estações
(Expressão Gráfica, 2002), Poltrona azul (Sarau das Letras,
2008), Bicicletas de papel (Sarau das Letras, 2012) e …um
chão para memórias soltas (Sarau das Letras, 2016).

Gessyka Santos nasceu em Natal, RN,


a 17 de maio de 1990. Graduanda de
Produção Cultural pelo Instituto Federal de
Educação, Ciência e Tecnologia do Rio
Grande do Norte e organizadora do Sarau
das Minas, é autora do livro Autópsia
(Edição da Autora, 2019)

167
Gonzaga Neto nasceu em Natal, RN, a 29 de agosto de
1993. Graduado em Comunicação Social pela Universidade
Federal do Rio Grande do Norte, é autor do livro Hipérbole
(Jovens Escribas, 2016)

Gustavo Luz nasceu em Mossoró, RN, a


13 de maio de 1960. Fundador, diretor e
editor da Queima-Bucha, é autor dos livros
Chuva de palavras (Edição do Autor, 1983),
Queima-Bucha (Queima-Bucha, 1985),
Tempo (Queima-Bucha, 1986), Entressafras
(Queima-Bucha, 1988), Romão Rei e o
roqueiro da praça do Cid (Queima-Bucha, 1997), Chuva de palavras + alguns
poemas inéditos (Queima-Bucha, 2000), O poeta na sombra (Queima-Bucha, 2010),
entre outros.

Humberto Hermenegildo nasceu em


Acari, RN, a 15 de janeiro de 1959.
Graduado em Letras pela Universidade
Federal do Rio Grande do Norte, é autor dos
livros Modernismo: anos 20 no Rio Grande
do Norte (EDUFRN, 1995), Rastejo
(Caravela Selo Cultural, 2017) e
Argueirinha (UFG, 2017).

168
Iara Maria Carvalho nasceu em Currais Novos, RN, a 24
de dezembro de 1980. Mestra em Estudos da Linguagem pela
Universidade Federal do Rio Grande do Norte, é autora dos
livros Milagreira (Casarão da poesia, 2011) e Saraivada (Sarau
das Letras, 2015).

Jeanne Araújo nasceu em Acari, RN, a 20 de junho de


1968. Graduada em Letras pelo Instituto de Educação Superior
Presidente Kennedy e Especialista em Literatura e Ensino, é
autora dos livros Monte de Vênus (Edição da Autora, 2011),
Corpo Vadio (Penalux, 2015), e Cercas de pedras (Penalux,
2019).

João Andrade nasceu em Natal, RN, a 23 de dezembro de


1962. Graduado em Letras e Filosofia pela Universidade
Federal do Rio Grande do Norte e Especialista em Linguística
Aplicada, é autor dos livros Por sobre as cabeças (Edição do
Autor, 2005), Cantigas de mal dizer (Sol, 2010), Livro de
palavra (Edição do Autor, 2013), Contos de escuridão e
rutilância (CJA, 2017) e Estilhaços (Unilivreira, 2020).

169
José de Castro nasceu em Resplendor,
MG, a 23 de março de 1948. Graduado em
Comunicação pela Universidade de Brasília
e Mestre em Tecnologia da Educação pelo
Instituto de Pesquisas Espaciais, é autor dos
livros A marreca de Rebeca (Paulus, 2002),
O mundo em minhas mãos (Bagaço, 2005),
A cozinha da Maria Farinha (Paulinas, 2007), Poemares (Dimensão, 2007), Poetrix –
para adolescentes (Dimensão, 2012), Poemas brincantes (CJA, 2015) Brincadeiras
poemantes (CJA, 2019), entre outros.

Junior Dalberto nasceu em Natal, RN, a 30 de outubro de


1959. Graduado em Ciências Contábeis pela Universidade
Federal do Rio Grande do Norte, é autor dos livros Pipa voada
sobre bancas dunas (CJA, 2011), Cangaço e o carcará
sanguinolento (CJA, 2013), Leveza Infinita (CJA, 2014),
Reféns nos Andes (CJA, 2015), Blattodea (CJA, 2017), Titina e
a fada dos sonhos (CJA, 2017), entre outros.

Kalliane Amorim nasceu em Umarizal,


RN, a 14 de junho de 1982. Mestra em
Letras pela Universidade do Estado do Rio
Grande do Norte, é autora dos livros
Outonos (Coleção Mossoroense, 2003),
Exercício de silêncio (Queima-Bucha,
2007), Relicário (Sarau das Letras, 2015) e
Peregrina (Sarau das Letras, 2020).

170
Leonam Cunha nasceu em Areia
Branca, RN, a 01 de maio de 1995.
Graduado em Direito pela Universidade
Federal do Rio Grande do Norte e Mestre
em Estudos de Gênero pela Universidad de
Salamanca, é autor dos livros Gênese
(2012), Dissonante (2014) e Condutor de
tempestades (2016), todos pela Sarau das Letras.

Lívio Oliveira nasceu em Natal, RN, a 16 de agosto de


1969. Graduado em Direito pela Universidade Federal do Rio
Grande do Norte, é autor dos livros O colecionador de horas
(AS, 2002), Telha crua (Sebo vermelho, 2005), Pena mínima
(Sebo Vermelho, 2007), Dança em seda nua (Sela Azul, 2009),
O teorema da feira (Caravela Selo Cultural, 2012), Resma
(Caravela Selo Cultural, 2014), entre outros.

Lucas Rafael (mais conhecido como Artista Barroco)


nasceu em Mossoró, RN, a 17 de novembro de 1997.
Graduando de Letras pela Universidade do Estado do Rio
Grande do Norte, foi o primeiro representante do RN no
Campeonato Brasileiro de Poesia Falada, o SLAM BR.

171
Marcos Ferreira nasceu em Mossoró, RN, a 10 de abril de
1970. Na imprensa, foi revisor, copidesque, repórter e editor de
cultura. Fundador do selo Verboletras, é autor dos livros Um
poema de presente (Coleção Mossoroense, 1996),
Encantamento (Coleção Mossoroense, 1999) e A hora azul do
silêncio (Editora da Universidade Federal do Amazonas, 2006).

Marcos Medeiros nasceu em Natal,


RN, a 12 de setembro de 1953. Doutor em
Proteção de Plantas pela Universidade
Federal Rural do Semi-Árido, é autor dos
livros Vários tons da genética (EDUFRN,
2007), A dança dos cromossomos (Sarau das
Letras, 2010), O lagarto do folhiço (Sarau
das Letras, 2010), Guriatãs e Muçambês (EDUFRN, 2011), A formiguinha perdida
(LerMais, 2013), Trinta contas de um rosário (CJA, 2012), Aflições de um sonhador
(CJA, 2012), Contos do Zé da Jia (Solução, 2018), entre outros.

Margareth Freire nasceu em Pendências, RN, a 12 de


junho de 1966. Técnica em Tornearia Mecânica pelo Serviço
Nacional de Aprendizagem Industrial, é autora dos livros
Pedaços de mim (2000) e Curvas e retas (2003), ambos pela
Coleção Mossoroense.

172
Maria Maria Gomes nasceu em Currais Novos, RN, a 15
de outubro de 1966. Graduada em Letras pela Universidade
Federal do Rio Grande do Norte e Especialista em Literatura
Luso-Brasileira, é autora dos livros O despertar da crisálida
(Edição da Autora, 2006), Outônicas (Sebo Vermelho, 2011),
Proposta de chuva (8 Editora, 2014), TEMPORALIBUS: o
tempo das nuvens (8 Editora, 2019), entre outros.

Marina Rabelo nasceu em Fortaleza, CE, a 22 de dezembro


de 1981. Graduada em Engenharia Química pela Universidade
Federal do Rio Grande do Norte, é autora dos livros Por cada
uma (Una, 2011), Livro de sete cabeças (Kelps, 2016) e das
coisas que larguei na calçada (Caravela Selo Cultural, 2016).

Nivaldete Ferreira nasceu em Nova Palmeira, PB, a 02 de


dezembro de 1950. Graduada em Letras pela Universidade
Federal do Rio Grande do Norte e Doutora na interface
Literatura e Educação, é autora dos livros Sertanía (EDUFRN,
1972), Trapézio e outros movimentos (Fundação José Augusto,
1994), Entre o carrossel e a lei (EDUFRN, 2007), Memórias
de Bárbara Cabarrús (Capitania das Artes, 2008), entre outros.

173
Rizolete Fernandes nasceu em Caraúbas, RN, a 09 de
abril de 1949. Graduada em Ciências Sociais pela Universidade
Federal do Rio Grande do Norte, é autora dos livros A história
oficial omite, eu conto – Mulheres em luta no RN (EDUFRN,
2004), Luas nuas (Una, 2006), Canções de abril (Una, 2010),
Cotidianas (Sarau das Letras, 2012), Vento da tarde (Sarau das
Letras, 2013), e Tecelãs (Sarau das Letras, 2017).

Salizete Freire Soares nasceu em Alto do Rodrigues,


RN, a 01 de julho de 1956. Graduada em Letras pela
Universidade Federal do Rio Grande do Norte, é autora dos
livros Mundo pra que te quero (Paulinas, 1997), A lua no céu e
ela na terra (Paulinas, 2009), A semana tem sete sonhos
(Imeph, 2013), Reconto que passa (Paulinas, 2016), A idade da
poesia (Paulus, 2017), entre outros.

Theo G. Alves nasceu em Natal, RN, a


14 de dezembro de 1980. Graduado em
Letras pela Universidade Federal do Rio
Grande do Norte, é autor dos livros Pequeno
manual prático de coisas inúteis (Flor do
Sal, 2009), A máquina de avessar os dias
(Flor do Sal, 2015) e Doce azedo amaro
(Moinhos, 2018).

174
Thiago de Goés nasceu em Natal, RN, a 19 de julho de
1978. Graduado em Jornalismo pela Universidade Federal do
Rio Grande do Norte e Especialista em Mídias Sociais, é autor
dos livros Contos bregas (Jovens Escribas, 2006), Lobas,
deusas e ninfetas (Banco do Nordeste, 2007) e Cavalo Negro e
outras histórias fabulosas (Jovens Escribas, 2017).

Thiago Medeiros nasceu em Natal,


RN, a 14 de abril de 1989. Ator, poeta e
mediador cultural, é autor dos livros Para eu
parar de me doer (Caravela Selo Cultural,
2016), Meio-dia (Offset, 2018) e Ardência
(Offset, 2020).

Vanda Maria Jacinto nasceu em Auriflama, SP, a 15 de


dezembro de 1952. Graduada em Pedagogia pela Universidade
do Estado do Rio Grande do Norte e Especialista em Psicologia
da Educação, é autora dos livros Rabiscando os caminhos da
prosa (2016) e O amor no tempo e no espaço (2017), ambos
pela Sarau das Letras.

175
Wescley J. Gama nasceu em São Vicente, RN, a 10 de
junho de 1981. Graduado em Letras pela Universidade Federal
do Rio Grande do Norte e em Serviço Social pela Universidade
Potiguar, é autor dos livros Com a força das folhas que
estiverem vivas (Coleção Mossoroense, 2015) e Nove contos
serranos (Offset, 2017).

176
Este livro foi composto nas fontes Arial e Times New Roman, durante a pandemia
por SARS-CoV-2.