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O samba carioca e o legado da última geração de africanos escravizados do


sudeste.
Martha Abreu – Departamento de História da UFF
Pesquisadores: Anthony Nadaes Pereira e Eline Cypriano

Os especialistas em cultura negra nas Américas dividem-se entre os que


defendem as continuidades e persistências do legado africano – os chamados
africanismos – e os que argumentam que tudo o que os africanos criaram nas Américas
é novo e original. Esses últimos - que buscaram entender os chamados processos de
crioulização - levam em conta as heranças africanas sim, mas destacam a criatividade e
inovação dos africanos e seus descendentes, a partir de trocas e negociações, na luta
pela sua afirmação no Novo Mundo.1
Os estudos sobre a história do samba, ou dos sambas, no Brasil e no Rio de
Janeiro, podem ser situados nessa encruzilhada, entre africanismos e crioulizações, entre
continuidades e mudanças – pares inseparáveis de qualquer História. Nos termos
propostos por Nei Lopes, “entre tradições e recriações”;2 nos termos de Robert Slenes,
entre “recordações e esperanças”, bases para a formação de memórias, identidades e
projetos futuros3.
Nei Lopes procurou mostrar, há algum tempo, o quanto o chamado samba
moderno e urbano do Rio de Janeiro, e o partido-alto em particular, nasceu, ao mesmo
tempo negro e “absolutamente novo e carioca”4, pouco tempo depois da abolição da
escravidão, em 1888. Como arte e cultura política, esse samba tornou-se um dos
melhores caminhos para os descendentes de africanos projetarem seu mundo e suas
esperanças nas primeiras décadas do século XX.  

                                                                                                                       
1
Ver Price, Richard. O Milagre da Crioulização: Retrospectiva. Estudos Afro-asiáticos, ano 25,
n. 3, 2003, p. 383-419.
2
Lopes, Nei. O Negro no Rio de Janeiro e sua Tradição Musical. Partido-Alto, Calango, Chula
e outras Cantorias. Rio de Janeiro, Pallas, 1992, p.61.
3
Slenes, Robert. Na Senzala, uma Flor. Esperanças e Recordações na Formação da Família
Escrava, Brasil, Sudeste, século XIX. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999, p .13.
4
Embora novo, o autor não descartou a ideia de que esse mesmo samba devia muito a
“tradições e matérias primas anteriores”, criadas pelos africanos e seus descendentes em várias
partes do Brasil, sempre em diálogo com os batuques de Angola e Congo. “O Negro no Rio de
Janeiro”, p. 53.
 
 

Mas como foi possível surgir um produto negro, ao mesmo tempo novo e
moderno, chamado de samba, nas primeiras décadas do século XX?
Para Nei Lopes, valorizando o protagonismo dos atores sociais, as novidades
devem ser buscadas e explicadas a partir da chegada de novas migrações de
trabalhadores negros - baianos, fluminenses, mineiros e paulistas - ex-escravos, seus
filhos e netos, para a então capital do país, a partir do final do século XIX e primeiras
décadas do século XX. Os novos migrantes, com diferentes recordações negras, não
apenas da África, trariam suas famílias, memórias, patrimônio cultural, musical e
artístico - expressões duramente construídas nos tempos de cativeiro em diferentes
partes do Brasil.
Para além da reconhecida importância dos baianos no nascimento do samba
carioca, entendemos que é importante destacar a atuação de um grupo específico de
migrantes negros: os descendentes da última geração de africanos e escravizados do
sudeste, oriundos dos velhos vales de café do interior do estado do Rio de Janeiro,
Minas Gerais e São Paulo (grupo formado por fluminenses, mineiros e paulistas). Seus
representantes provinham de diferentes áreas do sudeste, mas trouxeram para a cidade
do Rio de Janeiro uma experiência histórica e cultural comum, logo visível e localizável
nos morros, subúrbios e áreas rurais da Baixada fluminense5, através de seus jongos,
calangos, folias de reis, macumbas e umbandas. O calango e principalmente o desafio
calangueado, já mostrou Nei Lopes, teria sido decisivo para a formatação do partido-
alto.6 Por outro lado, como nossa pesquisa tem indicado, fluminenses, mineiros e
paulistas, também calangueiros, jongueiros e foliões de reis, foram presença dominante
na fundação de blocos e de escolas de samba, a partir do final da década 1920, como os
exemplos da Mangueira, Portela, Império Serrano e Salgueiro têm indicado.
E o que esses migrantes, descendentes da última geração de africanos e
escravizados do sudeste, tinham em comum?  
A grande maioria dos escravizados do sudeste cafeeiro, na primeira metade do
século XIX, veio da África centro ocidental, região conhecida como Congo-Angola –

                                                                                                                       
5
Sobre a Baixada Fluminense, principalmente a região de Nova Iguaçu, ver Costa, Carlos
Eduardo. Campesinato Negro no Pós Abolição: Migração, Estabilização e os Registros Civis de
Nascimento. Vale Paraíba e Baixada Fluminense, RJ (1888-1940). Dissertação de Mestrado em
História. Rio de Janeiro: UFRJ,2008.
http://teses2.ufrj.br/Teses/IFCS_M/CarlosEduardoCoutinhodaCosta.pdf
6
Lopes, Nei. Partido Alto: Samba de Bamba. Rio de Janeiro, Pallas, 2005.
 
 

eram negros Bantus. Esses africanos, mesmo que de diferentes povos, como Benguelas,
Congos, Cabindas, compartilhavam proximidades linguísticas, religiosas, musicais e
políticas, que facilitaram a criação de elementos de coesão e solidariedade nas
experiências do cativeiro nos cafezais7. Entre as matrizes centro-africanas da cultura
escrava, os africanos escravizados reconstruíram em terras de café o canto responsório
(chamado e resposta), a interação entre o solista e o coro, o verso e o desafio verbal nos
momentos de trabalho, diversão ou devoção, expressos em seus jongos, calangos, folias
de reis e calangos8. Seus filhos e netos, ao migrarem para o Rio de Janeiro renovaram a
África dos povos Bantus e as fontes centro-africanas em plena Belle Époque carioca.
Mas além de compartilhavam expressões culturais e religiosas, os migrantes dos
velhos vales do café possuíam um passado e uma história comuns. Foram protagonistas
do desmonte e deslegitimação da escravidão, na segunda metade do século XIX,
através das lutas pela alforria, pelo acesso à roça, à família e pelo direito de festejar;
estiveram presentes nas lutas finais pela abolição, através de fugas coletivas e
desestabilização da dominação senhorial. As memórias do cativeiro e da vitória da
abolição não seriam esquecidas rapidamente9.
Assim, ao se encontrarem nos morros cariocas e nas periferias rurais da cidade,
os migrantes do interior do Rio de Janeiro e Minas Gerais poderiam facilmente
encontrar pontos em comum na bagagem cultural que traziam, tanto na lembrança de
seus antepassados, como nas memórias do cativeiro e da liberdade. Devem ter se
reconhecido rapidamente, formando redes de vizinhos, amigos e parceiros de rodas de
samba e trabalho, ao circularem entre a região do porto, dos morros da Tijuca e das
estações de trem dos subúrbios. Em diálogo com as expressões culturais negras da
cidade, com seus lundus, cordões e ternos de reis, e em diálogo com os baianos recém-
chegados10, esses migrantes, entre o final do século XIX e primeiras décadas do século

                                                                                                                       
7
Slenes, Robert. “Na Senzala”
8
Ver Passados Presentes (Mattos, H. e Abreu, Martha, orgs). Coletânea de Filmes. Labhoi/UFF.
http://www.labhoi.uff.br/passadospresentes/filmes_passados.php.
9
Mattos, Hebe e Rios, Ana Lugão, Memórias do Cativeiro. Família, Trabalho e Cidadania no
Pós-Abolição. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 2005.
10
Gomes, Tiago. Para Além da Casa da Tia. Outras Experiências no Universo Cultural Carioca,
1830-1930. Revista Afro-Asia 29/30 (2003).
http://www.afroasia.ufba.br/pdf/afroasia_n29_30_p175.pdf
 
 

XX, foram atores imprescindíveis na renovação e fundação dos patrimônios culturais


negros modernos: o samba de partido alto e as escolas de samba.
Eloy Anthero Dias, o Mano Elói, nascido em Engenheiro Passos, estado do Rio
de Janeiro, em 1889, e chegado ao Rio com 15 anos de idade pode ser citado como um
dos melhores representantes desta geração. Estivador, jongueiro, calangueiro, pai de
santo, macumbeiro, participou da fundação de blocos e escolas de samba na Tijuca e em
Madureira. Mano Eloi também gravou sambas, pontos de jongo e canções sobre a
liberdade dos escravos na moderna e nascente indústria fonográfica.
 
 

SEGUNDA PARTE - ANEXO

Acompanhar a trajetória desses grandes jongueiros, calangueiros e foliões de reis


de Minas Gerais e do interior do Rio de Janeiro - seus filhos e netos - ainda é um
desafio que anima a pesquisa. Seguindo as trilhas abertas por Nei Lopes, Haroldo Costa
e pelo Dossiê das Matrizes do Samba no Rio de Janeiro, realizado pelo Centro Cultural
Carioca, estamos conseguindo localizar algumas de suas ações, como a fundação de
blocos e de escolas de samba na cidade do Rio de Janeiro, a partir do final da década de
1920. Vários deles se tornaram importantes lideranças das nascentes escolas de samba
da cidade. Vejamos alguns exemplos.
Na Mangueira, Jorge Zagaia era de Santa Maria Madalena, no norte do estado do
Rio de Janeiro; Clementina de Jesus, nascida em Valença, também era figura assídua na
Mangueira. Papel importante ali tiveram os filhos e netos de migrantes do interior do
estado do Rio de Janeiro e Minas Gerais, como Cartola e Xangô da Mangueira. Na
Portela, entre os nascidos em Minas Gerais, podem ser citados Antonio Rufino dos
Reis, de Juiz de Fora, e Noca da Portela, de Leopoldina. Natal havia nascido em Queluz,
estado de São Paulo.
No Salgueiro, a lista impressiona. Neca da Baiana, Manuel Laurindo da
Conceição, que chegara ao morro por volta de 1910, havia nascido em Valença, estado
do Rio; Joaquim Casemiro, o Calça-Larga, havia nascido em Miracema, estado do Rio
de Janeiro, em 1908. Do interior do estado, também podem ser destacados Paula da
Silva Campos, a Paula do Salgueiro, de Cantagalo; D. Ana Bororó, de Campos; Manoel
Dionísio, de Além Paraíba. Geraldo de Souza, o Seu Geraldo do Caxambu, e Eduardo
do Salgueiro eram de Minas Gerais.
Na Serrinha, em Madureira, entre os fundadores da Escola de Samba Império
Serrano, Alfredo Costa, João Batista da Cruz, Antenor dos Santos e José Nascimento
Filho, o Nascimento da Eulália, eram de Minas Gerais. Do estado do Rio, Aloizio
Machado era de Campos, Teresa dos Santos, a Tia Tereza, era de Paraíba do Sul, e
Maria Joana Monteiro, a Vovó Maria Joana, era de Valença.