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A dor universal é a angústia de tudo por ser tudo o mais sem poder consegui-

lo, de ser cada um o que é, sendo ao mesmo tempo o que não é e sendo-o
para sempre. A angústia de não ser não é apenas um empenho em
permanecer para sempre, mas, além disso, o empenho em universalizar-se; é
a fome e a sede de eternidade e de infinitude. Todo ser criado tende não só a
se conservar em si, como a se perpetuar e, além disso, a invadir todos os
outros, a ser os outros sem deixar de ser ele, a ampliar seus limites ao infinito,
mas sem rompê-los. Ele não quer romper seus muros e tornar tudo terra plana,
comunal, indefesa, confundindo-se e perdendo sua individualidade, mas quer levar
seus muros ao extremo do criado e abarcar tudo dentro deles. Quer o máximo de
individualidade com o máximo, também, de personalidade; aspira a que o Universo
seja consciente, aspira a Deus. E o amor a Deus, a obra da caridade, é tratar de
libertar da matéria bruta, tratar de espiritualizar, conscientizar ou universalizar tudo;
é sonhar com que as pedras venham a significar e agir conforme esse sonho, que
todo o existente se tome consciente, que o Verbo ressuscite.
(Miguel de Unamuno, Do sentimento trágico da vida)
É, como dizia Anaxágoras, ser o todo em tudo ou, nos dizeres de João Damasceno,
ser a Terra ícone vivo da face de Deus.

Na cosmologia medieval, cada elemento da criação possuía um significado


simbólico ou alegórico. Assim, por exemplo, o pássaro representava a alma,
por pertencer a um duplo domínio (celestial e terreno), a árvore simbolizava
uma espécie de microcosmo (por ser o lar de uma infinidade de seres e por
fazer parte dos três domínios — o subterrâneo (as raízes), o intermediário (o
tronco) e o elevado (a copa) —, e assim por diante. O interessante desse tipo
de cosmovisão é que a existência assume uma dimensão transcendente e tudo
passa a ser pleno de sentido.
É verdade que essa ideia já estava expressa na Tábua de Esmeralda de Hermes,
através da qual Emanuel Swedenborg a conheceu, transmitindo-a a Baudelaire, por
intermédio de suas obras místicas. No séc. 20, Fernando Pessoa sintetiza a Teoria
das Correspondências de maneira admirável, em seu Fausto:
"Ah, tudo é símbolo e analogia!
O vento que passa, a noite que esfria,
São outra coisa que a noite e o vento —
Sombras de vida e de pensamento.
Tudo o que vemos é outra coisa.
A maré vasta, a maré ansiosa,
É o eco de outra maré que está
Onde é real o mundo que há."
A Civitas Dei, de Santo Agostinho, também está impregnada desta
concepção, cujo criador parece ter sido Platão, embora a semente já
estivesse presente em Pitágoras de Samos.
Para mim, o conhecimento dessas coisas é, para o poeta, mais importante do
que o domínio das técnicas de versificação.
Isabela Abes Casaca, [13.04.20 14:16]

A Idéia

POIS que os deuses antigos e os antigos

Divinos sonhos por esse ar se somem,

E à luz do altar da fé, em Templo ou Dólmem,

A apagaram os ventos inimigos;

Pois que o Sinai se enubula e os seus pascigos,

Secos à míngua de água, se consomem,

E os profetas d’outrora todos dormem

Esquecidos, em terra sem abrigo;

Pois que o céu se fechou e já não desce

Na escada de Jacó ( na de Jesus!)

Um só anjo, que aceite a nossa prece;

É que o lírio da Fé já não renasce:

Deus tapou com a mão a sua luz

E ante os homens velou a sua face!

Isabela Abes Casaca, [13.04.20 14:16]

II

PÁLIDO Cristo, oh condutor divino!


A custo agora a tua mão tão doce

Incerta nos conduz, como se fosse

Teu grande coração perdendo o tino...

A palavra sagrada do Destino

Na boca dos oráculos secou-se:

A luz da sarça ardente dissipou-se

Ante os olhos do vago peregrino!

Ante os olhos dos homens ¾ porque o mundo

Desprendido rolou das mãos de Deus,

Como uma cruz das mãos d’um moribundo!

Porque já se não lê seu nome escrito

Entre os astros... e os astros, como ateus,

Já não querem mais lei que o infinito.

Isabela Abes Casaca, [13.04.20 14:16]

III

FORÇA é pois ir buscar outro caminho!

Lançar o arco de outra nova ponte

Por onde a alma passe ¾ e um alto monte

Aonde se abra à luz o nosso ninho.

Se nos negam aqui o pão e o vinho,

Avante! é largo, imenso esse horizonte...


Não, não se fecha o mundo! e além, defronte,

E em toda a parte há luz, vida e carinho!

Avante! os mortos ficarão sepultos...

Mas os vivos que sigam, sacudindo

Como o pó da estrada os velhos cultos!

Doce e brando era o seio de Jesus...

Que importa? Havemos de passar, seguindo,

Se além do seio d’ele houver mais luz!

Isabela Abes Casaca, [13.04.20 14:17]

IV

CONQUISTA pois sozinho o teu futuro,

Já que os celestes guias te hão deixado,

Sobre uma terra ignota abandonado,

Homem ¾ proscrito rei ¾ mendigo escuro!

Se não tens que esperar do céu (tão puro,

Mas tão cruel!) e o coração magoado

Sentes já de ilusões desenganado,

Das ilusões do antigo amor perjuro;

Ergue-te, então, na majestade estóica

D’uma vontade solitária e altiva,

N’um esforço supremo de alma heróica!


Faz um templo dos muros da cadeia,

Prendendo a imensidade eterna e viva

No círculo de luz da tua Idéia!

Isabela Abes Casaca, [13.04.20 14:17]

MAS a Idéia quem é? quem foi que a viu,

Jamais, a essa encoberta peregrina?

Quem lhe beijou a sua mão divina?

Com seu olhar de amor quem se vestiu?

Pálida imagem, que a água de algum rio,

Refletindo, levou... incerta e fina

Luz, que mal bruxuleia pequenina...

Nuvem, que trouxe o ar, e o ar sumiu...

Estendei, estendei-lhe os vossos braços,

Magros da febre d’um sonhar profundo,

Vós todos que a seguis n’esses espaços!

E entanto, oh alma triste, alma chorosa,

Tu não tens outra amante em todo o mundo

Mais que essa fria virgem desdenhosa!

Isabela Abes Casaca, [13.04.20 14:17]


VI

OUTRA amante não há! não há na vida

Sombra a cobrir melhor nossa cabeça,

Nem bálsamo mais doce, que adormeça

Em nós a antiga, a secular ferida!

Quer fuja esquiva, ou se ofereça erguida,

Como quem sabe mar e amar confessa,

Quer nas nuvens se esconda ou apareça,

Será sempre ela a esposa prometida!

Nossos desejos para ti, oh fria,

Se erguem, bem como os braços do proscrito

Para as bandas da pátria, noite e dia.

Podes fugir... nossa alma, delirante,

Seguir-te-á através do infinito,

Até voltar contigo, triunfante!

Isabela Abes Casaca, [13.04.20 14:17]

VII

OH! o noivado bárbaro! o noivado

Sublime! aonde os céus, os céus ingentes,

Serão leito de amor, tendo pendentes

Os astros por dossel e cortinado!


As bodas do Desejo, embriagado

De ventura afinal! visões ferventes

De quem nos braços vai de ideais ardentes

Por espaços sem termo arrebatado!

Lá, por onde se perde a fantasia

No sonho da beleza; lá, aonde

A noite tem mais luz que o nosso dia;

Lá, no seio da eterna claridade,

Aonde Deus à humana voz responde;

É que te havemos de abraçar, Verdade!

Isabela Abes Casaca, [13.04.20 14:17]

VIII

LÁ! Mas aonde é lá! aonde? ¾ Espera,

Coração indomado! o céu, que anseia

A alma fiel, o céu, o céu da Idéia,

Em vão o buscas n’essa imensa esfera!

O espaço é mudo: a imensidade austera

Debalde noite e dia se incendeia...

Em nenhum astro, em nenhum sol se alteia

A rosa ideal da eterna primavera!


O Paraíso e o templo da Verdade,

Oh mundos, astros, sóis, constelações!

Nenhum de vós o tem na imensidade...

A Idéia, o summo Bem, o Verbo, a Essência

Só se revela aos homens e às nações

No céu incorrutível da Consciência!

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