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Questão: Explicar como Hans Urs von Balthasar apresenta a estrutura dialógica da fé cristã.

O autor começa por afirmar que a manifestação do amor de Deus pelo mundo só existe se puder ser
reconhecido. Assim, é necessário que o amado (homem/mundo) tenha uma predisposição para se
colocar à altura da revelação do amor de Deus. A preparação que deve estar presente no homem para
o primeiro encontro com Deus é a trindade: Fé, Esperança e Amor. E esta está presente porque a
graça de Deus cria as próprias condições para a sua cognoscibilidade. Estas condições existem na
medida em que o homem é imagem de Deus. No entanto, estas condições precisam de ser
despertadas, o que sucede uma vez mais, pela oferta da graça de Deus.
Antes do encontro entre Deus e o homem individual, Hans Balthasar defende que é necessário que
haja um encontro originário e arquetípico. Este encontro é de um movimento unilateral do amor
de Deus. A própria resposta, ou reconhecimento, é originada e posta no movimento unilateral de
Deus que preparou o seu acolhimento. Assim, a resposta originária da criatura é como um “deixar
acontecer (fiat)”, um “estar à inteira disposição”. Esta relação originária congrega todas as
condições da perceção do amor divino pelo homem: a) a Igreja como esposa imaculada; b) Maria,
Mãe-esposa, como lugar do fiat; c) a Bíblia, enquanto testemunho do Espírito (não como letra que
mata), que inclui em si a revelação e a resposta da fé, enquanto pertencente à igreja-Esposa; d) a
Palavra viva de Deus, trazida ao indivíduo pela Igreja, Mãe-esposa.
Assim, apesar de a resposta de fé estar incutida na criatura e portanto ser verdadeiramente resposta
das suas forças naturais, esta só é possível pela “aptidão originária” que é dom de Deus e acontece
em unidade com o fiat arquetípico e originário.
Jesus, o Verbo feito homem, é ele mesmo originalmente Palavra dialogal, afirmação de si mesmo e
ao mesmo tempo Palavra já ouvida, entendida e acolhida (na graça) pelo homem encontrado,
abordado e resgatado no amor, ou seja, só no amor, o amor pode ser reconhecido. O amor de Deus é
um amor que se comunica de forma absoluta em Jesus, na medida em que este é obediente ao Pai,
por uma disposição amorosa criada pelo próprio amor absoluto. A disposição de Jesus vai a tal ponto
que permite a entrada do pecado do mundo em Si, para que o mundo seja liberto do pecado. O
dogma da possibilidade de em Jesus se tirar o pecado do mundo vai além da razão, só podendo ser
acolhido pela fé. Fé significa, neste sentido, o próprio diálogo, ou resposta posterior ao amor que se
entregou por mim. Também a experiência é limitada para alcançar o amor de Deus.
Para o autor, a resposta humana da fé Cristã deve ultrapassar o que normalmente é alcançável quer
pela experiência quer pela razão, pois por crer num Amor absoluto o homem tem total liberdade
para amar. O amor justificante de Deus é como uma “geração originária” da resposta de fé do
homem ao Amor. Esta resposta é plena na fé em Jesus. Em Jesus há uma correspondência total entre
o Amor divino e o humano. Para o humano, o Amor absoluto do Pai, Filho e Espírito Santo é pura
maravilha inconcebível, mas mistério que se propõe a crer.

Marta Domingos