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Ele é o guru da nova direita brasileira. Durante anos foi o principal crítico da intelectualidade de esquerda e
do projeto de poder do PT. Sempre implacável nos embates, comprou brigas com boa parte do
establishment cultural do país. Seus admiradores o classificam como “nosso maior filósofo e educador”.
Seus detratores o relegam à categoria de “astrólogo”.
Eis Olavo de Carvalho, o autonomeado “filósofo”, que foi militante do PCB nos Anos de Chumbo e duas
décadas mais tarde transmutou-se no mais temível inimigo do “marxismo cultural”. Ele mesmo explica as
razões dessa chrysopoeia filosofal:
“Os senhores não têm a menor ideia de como é bom, para um sujeito que ajudou a construir uma
mentira na juventude, poder desmontá-la na maturidade, tijolo a tijolo, com a meticulosidade sádica do
demolidor.”
Por um quarto de século, o autor de O imbecil coletivo (1996) e O mínimo que você precisa saber para não
ser um idiota (2013) tem-se empenhado em dar novos contornos à práxis nietzschiana da filosofia a
marretadas. Sempre enérgico na denúncia do comunismo, dedicou-se a expor a articulação continental
dos partidos e agremiações de esquerda, que caracterizou como o Foro de São Paulo:
“Um dos instrumentos mais engenhosos utilizados para isso foi a duplicação das vias de ação
partidária, uma nacional e ostensiva, denominada oficialmente PT ou ‘governo’, a outra internacional e
discretíssima chamada ‘Foro de São Paulo’, o mais importante e poderoso órgão político latino-
americano.”
Cedo também condenou o sistema político da Nova República, apontando a suposta repartição do poder
entre a esquerda moderada e a esquerda radical:
Outras obsessões de Olavo de Carvalho têm sido o “globalismo”, que ele acredita ser o projeto de governo
mundial, conduzido por elites transnacionais de inspiração maçônica; e as “técnicas de manipulação das
massas”, desenvolvidas pela psicologia moderna e por filósofos de esquerda como Antonio Gramsci e os
integrantes da Escola de Frankfurt:
“Os acontecimentos mais básicos dos últimos 50 anos são: primeiro, a ascensão de elites globalistas,
desligadas de qualquer interesse nacional identificável e empenhadas na construção não somente de
um Estado mundial, mas de uma pseudocivilização planetária unificada, inteiramente artificial,
concebida não como expressão da sociedade, mas como instrumento de controle da sociedade pelo
Estado; segundo, os progressos fabulosos das ciências humanas, que depositam nas mãos dessas
elites meios de dominação social jamais sonhados pelos tiranos de outras épocas.”
Conhecido por seus amores inventados e paixões cruéis desenfreadas, Olavo recusa o rótulo de
“exagerado”. Assim ele justifica seu proverbial destempero vocabular:
“É verdade que Olavo de Carvalho usa às vezes palavras duras, deprimentes, humilhantes. Mas jamais
elevou a voz em público para condenar qualquer conduta privada, por abominável que lhe parecesse.”
A realidade se mostra um tanto distinta. A saraivada de insultos e impropérios saídos de sua metralhadora
giratória já atingiu nomes como Gilberto Gil, Chico Buarque, Dorival Caymmi, Dias Gomes, Janete Clair, José
Américo Pessanha, Gerd Bornheim, Leandro Konder, José Arthur Giannotti, Wilson Martins e Reinaldo
Azevedo, entre outros. Isso sem contar os inúmeros golpes abaixo da cintura que desfere diariamente
contra os próceres do esquerdismo moreno. Vejamos o que disse do sempre lúcido e ponderado Fernando
Gabeira:
“É uma vergonha nacional que um sujeito obviamente desqualificado, tolo, descoordenado de cabeça,
seja aceito como intelectual por conta de antigos feitos de armas que um analfabeto poderia realizar
com iguais méritos, e que, aliás, por mais autênticos que tenham sido, mal o habilitariam ao título de
sargento honorário do exército de libertação da Zâmbia. O prestígio de Gabeira como ‘pensador’ é
exemplo típico do nosso provincianismo cultural, onde popularidade é sinônimo de elevação intelectual.”
Mas Olavo não se restringe ao pessoal. Ele, com frequência, desfere ataques ainda mais ferozes contra
seus inimigos coletivos:
“Não conheço um só líder esquerdista, petista, gayzista, africanista ou feminista que não corresponda
ponto por ponto a essa descrição, que corresponde por sua vez ao quadro clássico da histeria. (...) A
presença de um grande número de histéricos nos altos postos de uma sociedade é garantia de
deterioração de todas as relações humanas, de proliferação incontrolável da mentira, da desonestidade
e do crime.”
Seu instinto de criar polêmicas ao estilo do “velho da montanha” se mostra especialmente virulento no
combate às ambições políticas ou culturais de algumas minorias:
“Alguém tem de dizer aos negros a verdade: a verdade é que todos os ritos iorubás não valem uma
página de Jalal ad-Din Rumi e a história inteira do samba não vale três compassos de Bach.”
“Não se encontrará nas fileiras gays um único santo, místico ou homem espiritual de elevada estatura.
Iguais aos outros no mal, os gays têm escassa folha de serviços na prática do bem.”
Tão compassivo ativismo filosófico custou a Olavo de Carvalho não poucos desafetos. Talvez por isso ele
tenha decidido mudar-se, em 2003, para os Estados Unidos. Estabelecido em Richmond, na Virgínia, surfou
com destreza a onda da internet, tornando-se um pioneiro youtuber. A despeito de seu imenso sucesso de
público, ou talvez por causa dele, passou a lamentar o estado da cultura brasileira:
“Desde que me distanciei do Brasil, tenho visto a inteligência dos meus compatriotas cair para níveis
que às vezes ameaçam raiar o sub-humano.”
Aos poucos, Olavo construiu uma verdadeira legião de seguidores on-line. Em seu Seminário de Filosofia,
formou toda uma nova geração de políticos, ativistas e burocratas de direita. Termos como “engenharia
social”, “ideologia de gênero” e “marxismo cultural” entraram para o léxico político brasileiro. E sua refinada
mensagem ecoou pelo país:
“Há quatro décadas a tropa de choque acantonada nas escolas programa esses meninos para ler e
raciocinar como cães que salivam ou rosnam ante meros signos. (...) Um deles ouve, por exemplo, a
palavra ‘virtude’. Pouco importa o contexto. Instantaneamente produz-se em sua rede neuronal a cadeia
associativa: virtude-moral-catolicismo-conservadorismo-repressão-ditadura-racismo-genocídio. E o
bicho já sai gritando: É a direita! (...) De maneira oposta e complementar, se ouve a palavra ‘social’,
começa a salivar de gozo, arrastado pelo atrativo mágico das imagens: social-socialismo-justiça-
igualdade-liberdade-sexo-e-cocaína-de-graça-oba!”
Após quase três décadas de incessantes combates, Olavo de Carvalho chegou enfim ao topo do mundo.
Ungido sacerdote, profeta e conselheiro-mor do novo governo, sente-se autorizado a indicar ministros de
Estado, passar pitos em deputados federais, desafiar juízes do Supremo, confrontar generais de quatro
estrelas e espinafrar publicamente o vice-presidente da República:
Logo após a vitória eleitoral, Olavo recomendou ao presidente eleito “quebrar as pernas de seus inimigos,
impiedosamente”. Desferiu também críticas aos servidores públicos de inclinação weberiana, vistos como
simpatizantes do “marxismo cultural” e membros do “deep state”. Transcendendo o mero papel de
intelectual engajado, almeja converter-se em ideólogo do novo governo:
“Se esbarrasse na rua com algum dos nossos políticos ditos ‘de direita’, eu lhe perguntaria o seguinte:
‘Você quer destruir a esquerda, destruí-la politicamente, socialmente, culturalmente, de modo que
nunca mais se levante e que ser esquerdista se torne uma vergonha que ninguém ouse confessar em
público?’.”
“Se me perguntarem quais são os problemas essenciais do Brasil, responderei sem a menor dificuldade:
(...) A destruição completa da alta cultura, num estado catastrófico de favelização intelectual onde a
função de respiradouro para a grande circulação de ideias do mundo, que caberia à classe acadêmica
como um todo, é exercida praticamente por um único indivíduo, um último sobrevivente.”
Ele mesmo, obviamente. Mas o conceito que o mago de Richmond nos apresenta de “alta cultura” tem suas
sutilezas. Como herdeiro da augusta tradição do pensamento metafísico, Olavo não perde uma
oportunidade de demonstrar ao mundo a elegância de sua dialética:
“Combater o consumo de drogas por meio da liberação é tão inteligente quanto defender-se da tentação
do adultério comendo a mulher do vizinho três vezes por semana, no intuito de tornar-se imune aos
encantos das demais esposas dos arredores. Pode-se também suprimir o homossexualismo dando o
traseiro por aí até que ele se torne insensível.”
O trecho acima não é um caso isolado. É antes um traço essencial, um cacoete ontológico, um jeito de ser
nascido da própria natureza do autor de A nova era e a revolução cultural (1994):
“Aí é que entra a missão providencial dos intelectuais. Sua função é precisamente pôr um fim a essa
suruba ideológica. (...) São lições de Antônio Só-a-Cabecinha Gramsci.”
A incompatibilidade desse modo de ser com o ideal cristão é patente. Mas o “filósofo” de O jardim das
aflições (1995) não compreende os ensinamentos daquele que agonizou no Getsêmani:
“Quando reagem aos ataques cada vez mais virulentos que a religião sofre da parte de gayzistas,
abortistas, feministas enragées, neocomunistas, iluministas deslumbrados etc., certos católicos e
protestantes invertem a ordem das prioridades: colocam menos empenho em vencer o adversário do
que em evitar, por todos os meios, ‘combatê-los à maneira do Olavo de Carvalho’. O que querem dizer
com isso é que Olavo de Carvalho é violento, cruel e impiedoso, humilhando o inimigo até fazê-lo fugir
com o rabo entre as pernas, ao passo que elas, as almas cristianíssimas, piedosíssimas, boníssimas,
preferem ‘odiar o pecado, jamais o pecador’.”
Exatamente. Ser cristão requer esse tipo de discernimento. Mas, para explicar ao leitor a recusa de Olavo de
Carvalho em compreender seu próprio insight, será preciso recuar no tempo e demonstrar de onde veio e
em que consiste o pensamento desse vitriólico filósofo das multidões.
Olavo de Carvalho é um produto da contracultura. No final dos anos 60, sem ter sequer o primeiro grau
completo, começou a ganhar a vida como jornalista. Após breve envolvimento com o Partido Comunista
Brasileiro (PCB), optou pelo “desbunde”, entregando-se de corpo e alma ao esoterismo.
Com base nos ensinamentos de Guénon e seus seguidores, Olavo publicou uma série de artigos sobre o
perenialismo na revista Planeta, além de seis livros sobre astrologia e esoterismo: A imagem do homem na
astrologia (1980), Questões de simbolismo astrológico (1983), Astros e símbolos (1985), Astrologia e
religião (1986), Fronteiras da tradição (1986) e O caráter como forma pura da personalidade: elementos
para uma astrocaracterologia (1992). Sobre essa fase, ele explica:
“Os livros que escrevi sobre Astrologia foram redigidos para um grupo de pessoas que estavam metidas
até a goela no esoterismo islâmico. Para entender-se o que está escrito, é preciso saber para quem foi
escrito.”
Nos anos 80, por influência do perenialista Frithjof Schuon (1907-1998), Olavo passou a viver em uma
comunidade mística islâmica (tariqa), em São Paulo. Nesse período, praticou o poliamor, tiranizou a família
e aprofundou-se no estudo da gnose sufi. Os episódios foram relatados por sua filha mais velha, Heloísa
de Carvalho, em entrevista à revista Carta Capital e em carta aberta ao pai, publicada nas redes sociais.
Embora um autor não deva ser criticado por seus erros passados, o incidente nos remete à passagem de A
nova era e a revolução cultural em que Olavo especula:
“O que Gramsci fez com a própria filha, por que não o faria com os filhos dos outros?”
“As instruções de Jacques de Molay, comunicadas a Guénon durante sessão em 1908, foram de
restabelecer a Ordem do Templo. Guénon prosseguiu com a criação da Ordem Renovada do Templo,
com a ajuda de cinco outros martinistas.”
A partir de então, Guénon deu início a intensa atividade intelectual. Em seus artigos e livros, empenhou-se
em criticar maçons, kardecistas e teosofistas, denunciando-os como adeptos de vertentes
contrainiciáticas do esoterismo, corrompidas pelo evolucionismo darwinista e por ideias socialistas. Nesse
embate, desenvolveu uma lendária paranoia, passando a ver conspirações por toda parte:
“A Inglaterra é chamada a ditar suas leis para o mundo inteiro (...). Esta será a realização dos ‘Estados
Unidos do Mundo’, mas sob a égide da ‘nação dirigente’ e para seu exclusivo benefício; assim o
internacionalismo dos chefes do teosofismo se revela no imperialismo britânico levado ao seu grau
mais extremo.”
Em sua busca espiritual, Guénon elaborou uma nova síntese ocultista, supostamente “metafísica” e
influenciada por elementos vindos de doutrinas orientais e da gnose clássica. Imbuído de fortíssimo
idealismo romântico e de igual dose de revisionismo histórico, passou a fundir todos os caminhos
espirituais em uma única e secreta “filosofia perene”, que tudo engloba e nada explica.
“Por Gnose aqui se deve entender o Conhecimento tradicional que constitui o fundo comum de todas as
iniciações, cujas doutrinas e símbolos foram transmitidos, desde a mais remota antiguidade até nossos
dias, através de todas as Confraternidades secretas, cuja longa corrente jamais foi interrompida.”
O pensamento de René Guénon chegou à maturidade com A crise do mundo moderno (1927). Nesse
volume, ele mescla sua crença em uma “sabedoria perene” com o pessimismo histórico e o ideário
antidemocrático de Oswald Spengler, autor da obra em dois tomos O declínio do Ocidente (1918 e 1923),
que serviu de inspiração para o nazifascismo. Ao debruçar-se sobre o mal-estar da cultura moderna,
Guénon centra sua crítica na perda de contato do Ocidente com a base espiritual tradicional:
“O moderno Ocidente é dito cristão, mas isso não é verdade: a visão moderna é anticristã, porque é
essencialmente antirreligiosa; e é antirreligiosa porque, de modo ainda mais geral, é antitradicional.”
Valendo-se de conceitos da mística hinduísta, Guénon propõe uma visão cíclica da história. Nesse
arcabouço, a cultura ocidental, dominante no planeta, estaria às portas de um colapso civilizacional:
“De acordo com todas as indicações fornecidas por doutrinas tradicionais, entramos de fato na última
fase do Kali-Yuga, o mais escuro período da atual ‘idade das trevas’, o estado de dissolução do qual é
impossível emergir senão mediante um cataclisma, pois não é apenas de um mero reajustamento que
necessitamos neste estágio, mas de uma completa renovação. (...) Não chegamos acaso à terrível era
anunciada nos Livros Sagrados da Índia, em que ‘as castas irão misturar-se, e em que mesmo a família
deixará de existir’? Basta olhar em torno para convencer-se de que este é o estado do mundo de hoje, e
para notar em todos os lados a profunda degeneração.”
“Uma progressiva mudança de poder e de tipo de civilização produziu-se de uma casta para a outra,
desde os tempos pré-históricos (dos líderes sagrados para a aristocracia guerreira, para os
comerciantes, e finalmente para os servos); estas castas correspondiam, em civilizações tradicionais, à
diferenciação qualitativa das principais possibilidades humanas. Em face desse movimento geral, tudo
o que diz respeito aos vários conflitos entre os povos, a vida das nações e outros acidentes históricos
desempenha um papel apenas secundário e contingente.”
Comparemos os textos acima com aquilo que Olavo de Carvalho nos ensina em seu principal livro, O jardim
das aflições, uma obra perenialista de cabo a rabo:
“Acima das religiões, acima das consciências individuais, é ao Estado — casta dirigente ou aristocrática
— que cabe, sob as bênçãos da intelectualidade — casta sacerdotal — dirigir o processo de
modernização, e portanto, determinar o sentido da vida coletiva, os valores e critérios morais, o certo e
o errado, o verdadeiro e o falso.” “Essa ideologia (...) não podendo eliminar as castas governantes,
ocultou-as, aumentando assim o seu poderio. E, quando elas ressurgem sob nomes como ‘burocracia
estatal’ e intelligentsia, ninguém as reconhece, pois todos creem que castas só existem na Índia ou no
passado medieval.”
“O mais decisivo argumento contra a democracia pode ser resumido em poucas palavras: o superior não
pode proceder do inferior, porque o maior não pode proceder no menor; esta é uma absoluta certeza
matemática que nada pode questionar. (...) O povo não pode conferir um poder que ele mesmo não
possui; o verdadeiro poder somente pode vir de cima, e é por isso que ele apenas pode ser legitimado
por algo pairando acima da ordem social, ou seja, por uma autoridade espiritual.”
Diante de tão reacionário credo, não surpreende que René Guénon tenha colaborado com 25 artigos para a
revista Il Regime Fascista, editada por Julius Evola, entre 1934 e 1942. A tentativa de alguns dos seguidores
de Guénon de ocultar a natureza antidemocrática de seu pensamento chega a ser risível, especialmente
quando se analisa o conteúdo de suas obras da maturidade. Em O reino da quantidade e os sinais dos
tempos (1945), a fantasia tradicionalista resulta em uma ruptura completa com a modernidade. Guénon
investe contra a sociedade de consumo, a ciência moderna, o darwinismo, a psicanálise e a filosofia
ocidental, aproveitando o ensejo para denunciar os “sábios do Sião”:
“Por que será que os principais representantes das novas tendências, como Einstein na física, Bergson
na filosofia, Freud na psicologia, e muitos outros de menor importância, são quase todos judeus de
origem, senão pelo fato de que há algo envolvido que está intimamente ligado ao aspecto ‘maléfico’ e
corrosivo do nomadismo quanto ele é desviado, e porque esse aspecto deve inevitavelmente
predominar em judeus desgarrados de sua tradição?”
Note-se que o texto foi publicado em 1945, já com a Segunda Guerra Mundial terminada, os nazistas
vencidos e o Holocausto perpetrado. Sem dúvida, um autor sintonizado com os sinais dos tempos. Em
Metafísica da guerra, uma coletânea de artigos escritos entre 1935 e 1950, Julius Evola explica o horror que
os membros da escola perenialista sentem das ideologias revolucionárias:
“A civilização de tipo puramente heróico-sacral somente pode ser encontrada no período mais ou
menos pré-histórico da tradição ariana. Ela foi sucedida por civilizações no topo das quais já não estava
a autoridade dos líderes espirituais, mas de expoentes da nobreza guerreira — e esta foi a era das
monarquias históricas, que se estendeu até o período das revoluções. Com as revoluções francesa e
americana, o Terceiro Estado tornou-se o mais importante, determinando o ciclo das civilizações
burguesas. Finalmente, o marxismo e o bolchevismo parecem levar à queda final, com a passagem do
poder e da autoridade às mãos da última das castas na antiga hierarquia ariana.”
Diante dessa ameaça à harmonia hierática das sociedades, Julius Evola não hesita em propor:
“O Fascismo se nos mostra como uma revolução reconstrutiva, dado que afirma um conceito
aristocrático e espiritual da nação, oposto tanto ao coletivismo socialista e internacionalista quanto à
noção democrática e demagógica da nação.”
A opção da maior parte dos perenialistas pelo islã deriva sobretudo da incompatibilidade de suas ideias
com a ortodoxia cristã. Sendo gnósticos e ocultistas, os perenialistas enxergam uma antinomia
incontornável entre a religião oficial, com seus ritos formais e sua moral rígida (modalidade exotérica), e a
espiritualidade superior, marcada pela iluminação intelectual, pelos ritos iniciáticos e pela teurgia
(modalidade esotérica). Eis o que nos diz Frithjof Schuon, em Gnose: sabedoria divina (1959):
“A distinção exotérica entre ‘religião verdadeira’ e ‘falsas religiões’ é substituída para o gnóstico pela
distinção entre ‘gnose’ e ‘crença’ ou entre ‘essência’ e ‘formas’. Somente a perspectiva sapiencial é um
esoterismo no sentido absoluto; em outras palavras, somente ela é necessária e integralmente
esotérica, pois somente ela se projeta além de todo relativismo.”
No entender dos “homens espirituais” — assim os perenialistas chamam a si mesmos —, a religião oficial
seria uma forma superficial da vivência espiritual, concebida em benefício dos homens inferiores,
incapazes de acessar o conhecimento superior. A philosophia perennis, em contraste, seria a essência
gnóstica da espiritualidade universal. Disse Olavo de Carvalho, em artigo na revista Planeta:
“Já o esoterismo, ao contrário, sendo um único em sua essência (ele é a Philosophia Perennis, a
verdade metafísica una, eterna, supraformal e transcendente), varia, entretanto, nas distintas formas
históricas que o expressam, havendo, portanto, um esoterismo cristão, um islâmico, um judaico, etc.”
Engana-se Olavo. Enquanto o cristianismo real (seja ele católico, ortodoxo ou protestante) se funda na
humildade, na igualdade entre todos e no amor ao próximo, a gnose conduz a uma espiritualidade elitista e
arrogante, que divide os seres humanos em diferentes categorias e que advoga a superioridade dos
homens “espirituais” sobre os homens “psíquicos” e “carnais”. Mais importante ainda, a visão gnóstica da
espiritualidade é incompatível com os mistérios da Encarnação e da Trindade, conforme demonstrou Irineu
de Lyon, em Adversus haereses (c. 180 d.C.).
“Nós, porém, anunciamos Cristo crucificado, que para os judeus é escândalo, para os gentios é loucura,
mas para aqueles que são chamados, tanto judeus como gregos, é Cristo, poder de Deus e sabedoria de
Deus.” (1 Coríntios 1: 23, 24)
O perenialismo de Guénon, Evola e Schuon, por mais que se esforce em demonstrar a unidade das grandes
tradições, fundindo teísmo e panteísmo em um mesmo amálgama inconsistente, tende inexoravelmente a
aderir ao esoterismo islâmico como única vertente universal da gnose. Para os cristãos, a gnose é
anátema. Para israelitas, hindus e chineses, ela não é universalizável. Daí a opção de René Guénon pelo
esoterismo sufi. Em 1930, ele se muda para o Cairo e converte-se ao islã:
“Devemos outra vez recordar que o significado adequado da palavra islã é ‘submissão à Vontade Divina’;
portanto, diz-se, em certos ensinamentos esotéricos, que todo ser é muçulmano, no sentido de que
claramente ninguém pode escapar a essa Vontade; e, desse modo, cada um necessariamente ocupa o
lugar que lhe cabe no Universo como um todo.”
A adesão de Guénon ao islã não representa, contudo, a opção por um exclusivismo maometano. Desde
suas origens, no primeiro século da era cristã, a gnose tem o vício de atuar como uma espiritualidade
parasitária, que vive à sombra de grandes religiões. Ela se apropria dos símbolos, conceitos, práticas e
textos sagrados formulados pela ortodoxia originária, transmutando-os em uma religiosidade
completamente distinta. Sendo uma perspectiva pseudofilosófica, ligada à magia e aos cultos de mistérios,
a gnose usa as grandes tradições religiosas para esconder-se. O gnóstico é, antes de tudo, um mago
dissimulado, cuja suposta espiritualidade não passa de pura egolatria. Eis um trecho sintomático de Olavo
de Carvalho:
“Note-se que essa possibilidade de transitar livremente de uma Tradição a outra é, hoje como sempre,
apanágio exclusivo dos grandes mestres espirituais.
Ao envolver-se com o esoterismo perenialista, Olavo de Carvalho converteu-se ao islã. Foi uma conversão
meia-sola, aberta a todo tipo de influência “metafísica”, mas foi uma conversão. Esse período rendeu-lhe,
além de diversos livros sobre astrologia, um volume sobre o profeta Maomé:
“Meu livro O profeta da paz: estudos sobre a interpretação simbólica da vida do profeta Mohammed
(Maomé), ainda inédito nove anos após ter recebido um prêmio do governo da Arábia Saudita, é um
estudo sobre a significação da profecia na História, ilustrado pelo caso do único profeta de cujos atos e
palavras restou para o historiador moderno uma documentação abundante. Foi esse estudo que me
persuadiu, de uma vez para sempre, de que o fenômeno da profecia é o gonzo sobre o qual gira o portal
da compreensão histórica, e de que a história reduzida às dimensões natural e civil (...) é apenas uma
crônica provinciana, sem qualquer poder de elucidar os fatores decisivos, os retornos cíclicos, as
ascensões e quedas dos impérios e das doutrinas.”
No cristianismo real, a profecia não se confunde com vidência política ou determinismo histórico. A
profecia, na perspectiva cristã, fala do Cristo e de seu Reino. Os perenialistas nada entendem do tema. Mas
Olavo de Carvalho, eterno discípulo do mago francês, pensa de modo distinto. Assim ele explica, em O
jardim das aflições:
“O grande reformador maçônico do século XX, René Guénon, encontrou a organização num estado de
vácuo doutrinal. (...) Guénon preenche esse vácuo com a mais densa metafísica. (...) A polêmica
católica contra René Guénon continua impressionando pela sua incapacidade de enfrentá-lo no terreno
propriamente metafísico. As célebres objeções de Mons. Daniélou quanto ao simbolismo da cruz
mostram apenas uma inferioridade de QI. Assim como Daniélou, Paul Sérant e outros adversários
católicos de Guénon fogem para o terreno teológico e moral, onde se sentem abrigados sob
pressupostos de fé que, no entanto, não são metafisicamente válidos.”
Ou seja, segundo Olavo de Carvalho, a cristologia e o mistério da Trindade não são temas válidos.
Metafísico, para ele, é o “islamismo cultural” de René Guénon. Em O simbolismo da cruz (1931), livro escrito
após sua conversão, o bruxo francês tece incontáveis loas aos elementos místicos do taoismo, do
hinduísmo e do islamismo, enquanto projeta sobre essas tradições religiosas os conceitos unificantes
inventados por ele mesmo. Quanto ao cristianismo, busca diluí-lo nessa geleia geral, relegando a figura
ímpar do Cristo a uma única menção em todo o volume:
“A cruz é um símbolo que, em suas várias formas, pode ser encontrado praticamente por toda parte, e
desde o mais remoto tempo; está, portanto, longe de pertencer de modo particular ou exclusivo à
tradição cristã como alguns podem ser tentados a acreditar. (…) Em particular, se Cristo morreu na cruz,
pode-se dizer que isso ocorreu em razão do valor simbólico que a cruz possui em si mesma, o qual foi
sempre reconhecido por todas as tradições.”
Em suma, temos em René Guénon a trajetória exemplar de um herege gnóstico em upgrade para a classe
de apóstata. Sua opção recorda aquelas de Sabbatai Zevi, mestre cabalista e falso messias, convertido ao
islã em 1666; e de seu seguidor Jacob Frank, nominalmente convertido ao catolicismo em 1759. Conforme
demonstrou o estudioso Gershom Scholem em seu livro Major trends in Jewish mysticism, ambos os
místicos se converteram por mero cálculo político, mantendo suas práticas gnóstico-cabalistas de modo
oculto, enquanto professavam uma fé pública que lhes era conveniente. Os perenialistas agem exatamente
assim.
Alguém poderá perguntar: e quem se importa com isso? Qual o problema de uma falsa conversão, de uma
religiosidade apenas de fachada? O problema está nas consequências lógicas da fraude. Uma
espiritualidade enganosa e dissimulada gera, necessariamente, maus frutos. O próprio Cristo nos ensina:
“Guardai-vos dos falsos profetas, que vêm a vós disfarçados de ovelhas, mas por dentro são lobos
ferozes. Pelos seus frutos os conhecereis.” (Mateus 7: 15,16).
O critério evangélico fica evidente no caso dos principais expoentes do perenialismo. René Guénon
desenvolveu uma paranoia patológica, que deu origem a toda uma tradição de teóricos da conspiração,
além de flertar com ideias antidemocráticas e antissemitas. Julius Evola uniu o fermento dos fariseus ao
fermento de Herodes, para tornar-se um entusiasta de Mussolini, um colaborador da SS nazista e o
principal teórico do neofascismo europeu no pós-guerra. Frithjof Schuon, por sua vez, elevou à máxima
potência o charlatanismo intelectualizado da escola perenialista.
Em 1991, um dos discípulos de Schuon deixou a comunidade que ele havia criado nos EUA, em
Bloomington, Indiana. Em seguida, levou o “filósofo” aos tribunais, acusando-o de haver abusado de três
adolescentes, nas cirandas místicas ou “encontros primordiais” que promovia. A acusação acabou sendo
retirada, após acordo amigável. Mas diversos testemunhos corroboraram a informação de que havia
contatos íntimos entre o mestre e as jovens durante esses eventos. O escândalo destruiu a reputação de
Schuon e amargurou o restante de sua vida.
Igualmente reveladoras eram as supostas visões místicas do mestre de Olavo de Carvalho. Schuon
afirmava que a “Virgem Maria” lhe aparecera, por diversas vezes, inteiramente nua, ocasiões nas quais o
envolvia em dança inebriante. Em Against the modern world, Mark Sedgwick conta sobre as fotos que lhe
foram enviadas logo ao início de sua pesquisa. O choque provocado pelas revelações fez com que o
estudioso abandonasse a ideia de escrever apenas um artigo acadêmico e passasse à tarefa mais
exaustiva de um livro sobre a escola perenialista:
“Numa certa manhã, encontrei em minha caixa de correio um robusto envelope enviado por Rawlinson,
contendo cópias de algumas fotografias. Sentei-me em minha escrivaninha e pus-me a,
alternadamente, enterrar as fotografias debaixo de outros papéis e tirá-las dali novamente, entre
fascinado e horrorizado. Lá estava Schuon vestido como chefe de uma tribo de índios americanos,
cercado de jovens mulheres em biquínis. Havia também Schuon completamente nu, exceto pelo que
parecia ser um capacete viking. E havia ainda uma pintura feita por Schuon da Virgem Maria, igualmente
nua, com a genitália claramente exposta.”
Tais revelações, além de repugnantes em si, nos mostram bem em que consiste a síntese perenialista. O
quadro a que se refere Mark Sedgwick nos mostra não a Virgem Maria real, mas o conceito que Frithjof
Schuon tem de uma Grande Deusa, sensual e devoradora. Ela se mostra sexualizada ao iniciado
precisamente porque vai com ele operar uma hierogamia mística — que o levará a ascender a planos
superiores do conhecimento. Assim atua o misticismo gnóstico: deturpando a simbologia de todas as
religiões, apropriando-se indevidamente e corrompendo o que elas têm de mais sagrado, apenas para
projetar nesse furto “metafísico” os conceitos inerentes a seu pretenso saber oculto.
Foi nesse meio extremamente problemático que Olavo de Carvalho se formou. E são ainda hoje os
preconceitos perenialistas que moldam seu pensamento e sua visão de mundo. Em especial, foram as
obsessões guenonianas que informaram sua principal obra, O jardim das aflições:
A filiação perenialista de Olavo de Carvalho foi examinada à exaustão pelo professor Orlando Fedeli,
historiador competente e tomista de mão-cheia, em seu devastador artigo “A gnose ‘tradicionalista’ de
René Guénon e Olavo de Carvalho”, publicado em 2001:
“A doutrina de Guénon, como a de Olavo, não tem apenas alguns pontos gnósticos isolados, mas os
princípios gnósticos que eles adotam formam um sistema coerente, que exige chamá-los de gnósticos,
ainda que eles não explicitem alguns pontos próprios da Gnose completa. Essa falta de explicitação de
alguns pontos da totalidade do sistema gnóstico se nota especialmente em Olavo, que tem uma Gnose
menos elaborada pela sua inferioridade em relação a Guénon, quer quanto à inteligência, quer quanto à
cultura, quer ainda quanto ao valor de seus livros.”
Engana-se quem acredita ser Olavo de Carvalho um filósofo católico, de linhagem aristotélica. Criado à
sombra de René Guénon, Julius Evola e Frithjof Schuon, o alegado fervor cristão do mago de Richmond se
revela mera pantomima. Por detrás de suas teorias conspiratórias, de seu desconforto com a modernidade,
de seu anticomunismo ferrenho e de sua agressividade verbal reside a gnose obscura da escola
perenialista. Basta notar que sua obra não evoca qualquer das virtudes cristãs, mas antes aponta para o
inverso delas: em lugar da humildade, a soberba; ao invés da compaixão, o rancor; não havendo mansidão,
a violência; na ausência da caridade, a pura vontade de poder. Assim é Olavo, o demolidor.