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O coração de Thelema

Michael Staley
Tradução: I156 e VVV

0.

Todo evento é a união da mônada de alguém com uma das experiências possíveis a ela.
“Todo homem e toda mulher é uma estrela” - isto é, um agregado de tais experiências,
constantemente mudando a cada novo evento, que afeta ele ou ela consciente ou
inconscientemente. Cada um de nós tem um universo próprio, mas é o mesmo universo para cada
um de nós assim que ele inclui todas as experiências possíveis. Isso implica a extensão da
consciência para incluir todas as outras consciências. – Introdução do Crowley ao Livro da Lei

Thelema é frequentemente entendida apenas em termos da soberania do indivíduo, e dos


direitos inalienáveis que dela provêm. Isso, é claro, é perfeitamente válido, e leva a valiosos
insights. É um ponto de partida inevitável. No entanto, ficar apenas nessa interpretação é ignorar a
riqueza de nuances e ressonâncias mais sutis. Curiosamente, há uma grande resistência as tentativas
de alargar o entendimento geral de Thelema. Isso é sem dúvida um reflexo da tendência inata de se
agarrar a uma cara identidade – e em termos mais pessoais, buscar refúgio no gueto da
individualidade.

Thelema é uma chave universal, e tem uma aplicação muito mais ampla do que seus
confinamentos ao círculo oculto pode sugeri. Esse ensaio foca quase estritamente da ideia de
Verdadeira Vontade, a essência dessa está contida mais Ir do que em Ser. Seu símbolo é o ankh, a
cruz ansata, o símbolo egípcio do “ir”. Através da experiência, nós participamos no Sacramento de
Ser no seu aspecto dinâmico como Ir. Isso é maya, lila, a ilusão da manifestação. É uma Peça
Divina que Ser apresenta, para poder apreciar a si mesmo. Em última análise, a manifestação tem
um fim em si mesma, e em essência pura alegria, total abandono, vontade absoluta. Existência é no
fundo ausente de propósito. Aqui reside a inocência de Harpócrates, o Bebê no Ovo Azul, Hoor-
paar-kraat. Manifestação é Criança gerada pela eterna, incessante, interação ou acoplamento de Nuit
e Hadit, e a mais alta consecução é recuperar a consciência dessa identidade.

Matéria é energia. A intrincada, interligada, extática ondulação e rodopio da energia dá


origem a ilusão da forma. Esse processo é sempre dinâmico, sempre transformativo. Nós estamos
eternamente chegando, incarnando um novo evento a cada instante. A forma aparece, floresce, decai
e dissolve. A energia que Enforma ou Incarna é todavia eterna, e cria, de novo, novas formas, novos
padrões. A ampulheta da existência é virada, de novo e novamente. A menos que despertemos para
esse eterno passatempo, a essência da magick ou maya, então nunca veremos além da sedução da
forma. Despertar, no entanto, é ainda participar nessa peça, mas participar conscientemente. Nós
surfamos nas ondulações do tecido, sabendo seu lugar no todo. “Mas vós, Ó meu povo, levanta-te e
acorda !”.

Esse ensaio busca traçar o fio dourado do êxtase através de vários níveis – do Ser ao Não-
Ser, do Dois ao Zero. Essas nuances mais sutis de Thelema podem ser iluminadas pelas referências
a várias ideias do misticismo oriental. Em última análise, no entanto, a riqueza de Thelema
transcende mesmo estas tradições, e pode ser vista como a sua recessão ocidental. Por fim, por meio
de um apêndice, uma passagem de Crowley é citada. Isso foi tirado do “Ritual da Marca da Besta”,
e é anexada para demonstrar que a interpretação de Thelema aqui apresentada está em pleno acordo
com seus principais proponentes nos tempos modernos.
I.

“A palavra da Lei é Thelema.


Quem nos chamar Thelemitas não estará errada, pois se olhar próximo a palavra (…)
Faze o que tu queres há de ser tudo da Lei.” (AL I:39-40)

Thelema é o nome dado ao corpo da doutrina mística e mágica que veio a estar associada a
Aleister Crowley. Isso é de muitas formas compreensível, pois foi ele o seu principal expoente nos
tempos modernos, e deu coerência, clareza e glamour ao que veio a ser chamado de Culto de
Thelema. No entanto, como é frequentemente apontado, ela não originou dele, e não foi de forma
alguma sua invenção. Pelo contrário, ele estava essencialmente transmitindo uma corrente que já
estava lá. Ver Thelema como sendo de alguma forma criação de Crowley, e então focar nele como
núcleo central da doutrina[1] a torna nada mais que Crowleanismo. Isto serve apenas para diminuir
e obscurecer as profundas ramificações e sutilezas. A força de Thelema deriva de sua universalidade
essencial, suas afinidades com outras tradições, e é nesse contexto que ela pode ser melhor
entendida.

Como é bem sabído, Thelema é uma palavra grega que significa Vontade, e é um resumo bem
apropriado do culto e seu significado e aplicação fundamentais. Também é as vezes referido como a
Corrente 93, pois pela Qabalah grega a palavra Thelema corresponde a 93. Novamente, Crowley
não chegou a essa palavra como sumário da doutrina. Invés disso, ela é um termo central no Livro
da Lei, ou Liber AL, um complexo e profundo texto em três curtos capítulos comunicado a Crowley
em Abril de 1904 por uma inteligência praeter-humana chama Aiwass. A palavra Thelema é um
excelente sumário de duas frases chaves desse texto: “Faze o que tu queres há de ser tudo da lei”, e
“Amor é a lei, Amor sob Vontade”. Críticos tem demonstrado sua própria superficialidade e falta de
percepção ao confundir querer e precisar, e interpretam “Faze o que tu queres” como “Faça o que
quiser”. Eles assim perdem a razão de uma forma que surpreende em sua suprema banalidade.

Vontade é vista como uma profunda, fundamental força diretora que meros caprichos e fantasias,
que são simples e transitórias ondas ou perturbações na superfície da piscina. Em termos de
Thelema, a Verdadeira Vontade é implicitamente dinâmica e vem do centro do indivíduo. Liber AL
expressa isso de forma muito bela ao dizer que somos cada um uma estrela no espaço, com nossa
própria órbita e um verdadeiro caminho. Essa órbita é nossa trajetória, nossa Verdadeira Vontade, o
impulso ou dinamismo que nos define como indivíduos. Deve ser o negócio de cada um de nós
descobrir nossa verdadeira orbita, e buscar segui-la de todo o nosso ser. Colocando de outra forma,
nossa Verdadeira Vontade pode ser entendida como nosso lugar natural no universo, nosso curso
alocado, nosso inerente e peculiar movimento pelo firmamento estrelado de Nuit. Verdadeira
Vontade pode então ser entendida como destino, função natural Como Crowley coloca, é permitir as
estrelas brilharem, vinhas produzir uvas, e água buscar o seu nível.

Verdadeira Vontade, então, pode ser vista como uma profunda, inconsciente força que as vezes grita
no seu sangue como instinto. Mais comumente, no entanto, encontra uma imperfeita, insípida,
refração consciente e difusa em uma pletora de desejos e quereres, um balaio de puxões e impulsos
em direções difusas. Quando a consciente e superficial vontade de um indivíduo está em jogo com
sua corrente subjacente, sua inconsciente Verdadeira Vontade, então ele está nadando contra a
correnteza, e assim não só gastando suas energias, mas também ficando no caminho de outros. Cada
um tem sua Verdadeira Vontade ou nossa linha natural de desenvolvimento, e é evidentemente de
interesse que descubramos nossa tendência natural e nos alinhemos conscientemente com a ela. Ele
irá então, continuando a analogia, nadar com a correnteza ao invés de contra ela, perseguindo seu
correto caminho ou órbita.

Vista neste contexto, thelema é evidentemente bem mais profundo que a imaginam os críticos de
Crowley. No entanto, há ainda uma questão: Porque a diferença entre desejo consciente e
Verdadeira Vontade ? Se a Verdadeira Vontade é a vontade natural por que não somos aberta e
conscientemente governados por ela; e por que não vamos, alegremente, em nosso caminho ? A
razão reside primariamente em condicionamento social, uma conformidade imposta de valores e
ideias com as quais todos estamos infectados em maior ou menor grau. Desde o nascimento somos
encorajados a seguir um código artificial de conduta, ao invés do curso ou proclividade que nos dita
ser natural o nosso instinto. Em verdade somos encorajados a não confiar em nossos instintos, e nos
fiarmos na “lógica”, “razão”, ou “consciência” como guias para um comportamento “apropriado”.
Isto foi caracterizado por Nieztsche e outros como “instinto de rebanho”, que pode ser natural para
vacas ou ovelhas, mas que dificilmente se encaixa na mais exaltada ideia thelêmica de “homem
régio” ou “mulher régia”. A relação entre a consciente, continuada vontade e a Verdadeira Vontade
pode ser melhor concebida pela imagem do sol num dia nublado, lutando para encontrar um
caminho através da densa nuvem. Luz do dia, é claro, é luz solar; e quanto mais o sol é obscurecido
pelas nuvens, mais fraca e insípida essa luz do dia se torna. Similarmente, nossa Verdadeira Vontade
é coberta por uma densa camada de condicionamento social, e sua intensidade natural é
consequentemente enfraquecida e distorcida. É essa mescla de comportamento condicionado, com
leves temperos de Verdadeira Vontade diluída, que forma nossa vontade consciente. Nós somos
então privados de nosso direito de nascença, ao invés de queimarmos com verdadeira intensidade da
ígnea energia criativa em nosso núcleo, apenas uma pequena fração consegue encontrar seu
caminho através das camadas de isolamento, produzindo um débil, ofuscado brilho. Isso pode
parecer mais conveniente quando olhamos de um ponto de vista exclusivamente político,
econômico e/ou social, e nada além. O resultado prático é que somos débeis como indivíduos.
Alquimicamente, ouro é transformado em chumbo.

Expresso dessa forma, pode parecer que tudo que temos que fazer é deixar de lado nosso
condicionamento social e desfrutar de nossa radiante Verdadeira Vontade. No entanto, isso é
subestimar seriamente a profundidade que o condicionamento permeia. É de fato raro alguém
acordar repentinamente para sua Verdadeira Vontade, e então prosseguir regozijante em seu
caminho natural. O despertar embora possa parecer súbito, como um raio; mas é a culminação, um
clímax, e glorifica em solo bem preparado. Nós temos que aprender a viver mais naturalmente outra
vez, a aprender a confiar mais em nossos instintos, a dar mais ouvidos a nossa voz interior. Mais
apropriadamente seria o caso de desaprender, de descartar as falsas camadas de comportamento
condicionado então permitindo a estrela interior brilhar, em sua natural intensidade.

Muitos temeriam isso como sendo anarquia, como arrancar as traves, confundindo ausência de
restrição interna como licenciosidade. Em certo sentido isso É anarquia – a anarquia do carvalho,
que floresce na temporada de acordo com seu ritmo natural. É anarquia no sentido de ausência de
restrição artificial, de disciplina imposta por uma “autoridade” externa pode ser triste que Liber AL
é direcionado ao homem régio, o indivíduo que está comprometido com a busca da descoberta de
sua Verdadeira Vontade e realização dessa. “Mas você, Ó meu povo, levante e acorde!”. Assim que
um indivíduo faz isso, e opera com a intensidade de uma fantástica usina elétrica interior – então
essa Vontade não pode falhará em seu cumprimento, pois ele está ciente de sua função natural no
universo e de sua necessidade – de fato, inevitável – do comprimento dessa. Liber AL, esse potente
somatório de Thelema, sinaliza apaixonada e sensualmente para o “o coração de cada homem”, que
nós devemos acordar para a verdadeira identidade e viver nossa vida completamente. No momento
Thelema é elitista, mas apenas no sentido que poucos estão ouvindo sua mensagem e menos ainda
entendendo. “Os escravos servirão” - mas apenas enquanto ele se mantiver contente em permanecer
preso a servidão, e em ignorância de sua esplendorosa identidade régia.
Thelema é uma chama radiante, uma potente convocação, e pode ser vista como o próximo passo
para a humanidade. Crowley supôs que com a transmissão de Liber AL nós teríamos entrado numa
nova era – o Aeon de Hórus, a Criança. Esso, ele explicou, foi precedido pelo Aeon de Osíris, o Pai
– sendo ele precedido pelo Aeon de Isis, a Mãe. Hórus é em algum sentido o produto dos dois, e
partilha de suas essências, mas se torna mais cônscio de sua natureza como ente independente dos
dois. Crowley fez algumas conexões entre a sucessão dos aeons e a precessão dos equinócios, então
associando a cada período aproximadamente 2000 anos. No entanto, esses aeons se relacionam
primariamente com as fases da evolução da consciência humana, assim como o desenvolvimento da
consciência num nível individual desde o nascimento. Há um indicativo nisso – que a sucessão dos
aeons não está ligado a precessão dos equinócios no “Comento antigo” de Crowley sobre o Liber
AL III, verso 34. Onde ele afirma, acerca do Aeon de Hórus: “Seguindo esse nascerá o Equinócio
de Ma, a deusa da Justiça, pode ser daqui a centenas ou dez milhares de anos; pois o Computo do
Tempo não está aqui como Lá”. O crescimento do a Criança é sempre uma matéria dolorosa, e
Crowley supôs que o Novo Aeon seria inaugurado com caos e com um banho de sangue como seu
batismo. Isso não é difícil de ver. As correntes que prendem os escravos são forjadas por falsos
deuses – consumismo, materialismo, respeito a “autoridade” política e coisas do tipo. Esses deuses
não se contentarão em derreter como a neve, e o começo do Aeon do Filho parecerá escuro e
disruptivo aos remanescentes do patriarcal Aeon de Osíris. Séculos de repressão, do represamento
de forças e instintos naturais, resultaram provavelmente numa explosão externa, e o colapso da
sociedade nos padrões conhecidos.

No entanto, tudo isso é para que os padrões do Novo Aeon emerjam como devem. Thelema é
direcionada para o indivíduo, e busca despertar ele ou nela a realeza, criatividade e gênio.
Estabelecimento da Lei de Thelema não é no sentido do estabelecimento de um reinado político de
Ra-Hoor-Khuit, ou lançamento de um corpo de estado contra os presentes centros de poder da
sociedade. Ao invés disso, é o caso de trazer a Lei de Thelema para um conhecimento de todos; e
esse propósito é melhor servido aplicando-o a nós mesmos, através da descoberta e realização da
Verdadeira Vontade. Há uma analogia com a Lei da Gravidade, onde estabelecimento é o senso de
reconhecimento, de sua aceitação e uso como um princípio universal.

Thelema é a chae para a transformação da consciência, tanto individual quanto de espécie. Sua real
beleza, no entanto, reside em sua universalidade, sua aplicabilidade em todos os níveis. Tomada
como exotérica, ela reivindica a soberania do indivíduo, e nos exorta a todos nos tornamos um mais
como reis, mestres de nossos próprios destinos, triunfantes do Aeon da Criança Coroada e
Conquistadora. Num nível mais sutil e esotérico no entanto, ela é também uma chave para
transcender a individualidade – pois em níveis mais profundos o indivíduo se une ao coletivo, o
Todo. Aqui deve ser lembrado o princípio de “duas verdades” do Budismo. Não há dúvida de que a
chave para a promulgação de Thelema como princípio reside em expor sua aplicação para a
soberania do indivíduo, nossa identidade como gloriosa estrela no espaço, regozijante em sua órbita.
Essa estrela surge como o gênio criativo, e é direito nato de todo o indivíduo, desde que ele saiba
disso, para partilhar dessa brilhante natureza estelar. Magick é um sistema de iniciação, onde os
véus são dissolvidos e o Deus Oculto é liberado para seguir seu caminho desimpedido, de fazer sua
Vontade, como apenas um deus pode. Paradoxalmente, contudo, quando adentramos mais fundo no
núcleo do nosso ser, nós descobrimos que não há indivíduo ou coletivo, nem dentro ou fora, nem
exotérico ou esotérico. Thelema é o ponto de partida para essa jornada, iniciando como a apoteose
da individualidade, como também sua dissolução.

II.

“Eu sou a chama que arde em cada coração de homem, e o núcleo de cada estrela. Eu sou Vida, e o
doador de Vida, ainda assim o conhecimento de mim é o conhecimento da morte.” AL II:6
Nós vimos que a vontade consciente – mais comumente experimentada como um eco de
Choronzon, o empurrão de uma multiplicidade de vontades diversas, caprichos, impulsos e desejos
– é de algum modo a refração da profunda Verdadeira Vontade, se bem que distorcida, enfraquecida,
atrofiada. Em verdade, a Verdadeira Vontade se manifesta em níveis distintos, floresce das
profundezas secretas do ser, a semente oculta. Assim podemos conceber o indivíduo como algo
como uma cebola, camada sobre camada, véu sobre véu. Tal imagem sugere um núcleo. No núcleo
da estrela está Hadit, o assento e o ponto de apoio da Verdadeira Vontade.

A cosmologia de Liber AL nos dá Nuit e Hadit, as duas polaridades básicas, interação da qual a
manifestação surge. Nuit pode ser considerada como o somatório de todas as possibilidades, e Hadit
como qualquer ponto que experimenta essas possibilidades. Nuit é o círculo de infinita
circunferência, Hadit é o ponto infinitesimal que possui posição mas não tamanho. “Ainda assim ela
será conhecida e Eu nunca”, porque Hadit é o ponto do qual nós florescemos, o olho que não pode
ver a si mesmo. É o núcleo e o gênesis do ser, o bindu oculto, que apenas pode perceber ou se tornar
consciente de si mesmo pela união com as possibilidades de experiência. O núcleo da estrela é
essencialmente desconhecido e incognoscível, porque para possuir qualquer tipo de manifestação ou
consciência ele precisa já ser parte do Corpo de Nuit. Nós não podemos nunca retornar a fonte, mas
devemos sempre seguir, sempre, sempre em jornada adiante.

Nuit, Hadit, e sua conjunção e criança Ra-Hoor-Khuit, são princípios abstratos vestidos em
símbolos mais concretos. Eles são assim revestidos para que sejam mais inteligíveis a nós.
A mente racional entende pela expressão, percebendo de modo dualista. Nesse nível racional, o
melhor que pode ser feito é expressar as coisas de maneira simbólica. A esperança é que a intuição
possa trabalhar nas ardilosas, sugestivas, percepções fugazes que a contemplação de tais imagens
proporciona. Em verdade, esses símbolos são de certa forma intercambiáveis, e retem sua utilidade
apenas enquanto não são analisados por muito tempo ou muito profundamente. Eles falam com a
intuição, sonho e imaginação, e não – em nada além de um nível superficial – com a lógica e a
razão. Eles são melhores aproveitados quando penetram na consciência, dessa forma evitando as
intercepções de razão.

Mente, corpo e espírito são frequentemente vistos como coisas separadas, divisões rígidas,
entidades isoladas. Comumente, é como se o espírito vestisse sua mente e seu corpo como se
fossem um terno, eventualmente voando para trocar seus trapos velhos por novos. Essa concepção,
que vem do dualismo – a filosofia de oposto que são irreconciliáveis – torna-se questionável sobre
um exame mais próximo, e rapidamente se decompõe. Por exemplo, mesmo o mais cabeça dura dos
dualistas iria, admitir o princípio do psicossomatismo, ou a interação entre o mental o físico. Nesse
contexto, estados mental e emocional como estresse, ansiedade e daí por diante podem se
manifestar como doenças físicas. Um exemplo óbvio seria a úlcera estomacal produzida pelo
estresse. Não surpreendentemente, o princípio também opera na direção oposta, com estados físicos
afetando o equilíbrio emocional ou mental. Um resfriado, por exemplo, parece drenar nossas
energias, e pode nos deixar muito sensíveis. De tudo isso pode parecer, que há ao menos um grau
mínimo de influência mutua, com o plano mental e físico afetando um ao outro, interpenetrando e
interagindo. Pensado sobre isso, alguém pode se perguntar onde o mental termina e o físico começa
e vice-versa. Níveis de humor, para dar outro exemplo, parecem ter uma correlação bioquímica;
atividade hormonal tem um efeito profundo na consciência. Quanto mais esses pontos são levados
em conta, mais arbitrária se torna a linha entre mente e corpo, entre mental e físico, entre espírito e
matéria. As práticas do hatha yoga, por exemplo, quando devida e assiduamente executadas, parece
levar a uma maior consciência do sagrado – a unidade corpo/mente, uma noção de continuidade da
consciência em vez de multiplicidade de partes. Parece que temos, na verdade, um continuum, no
qual impomos divisões e classificações conceituais e arbitrárias, como mente, corpo, alma, etc.
Essencialmente há um combinado, e não tem importância alguma se vemos a mente como algo mais
sólido, ou o que seja.

A estrela é portanto, essencialmente coesa, um continuum; e o núcleo de cada estrela é Hadit, o


assento da Verdadeira Vontade, a força motora ou impulso dinâmico. Essencialmente, tudo o que
somos é uma expressão, desenvolvimento, materialização ou concretização dessa essência, esta
Verdadeira Vontade, essa chama que arde “no núcleo de cara estrela”. Tal como o cogumelo é o
fruto carnoso mais denso – uma intrincada, malha ou expressão do micélio – de forma semelhante é
cada indivíduo a expressão, frutificação e florescimento da Verdadeira Vontade, a chama que arde
no centro de cada estrela, o núcleo do ser. A partir de tais considerações, é evidente que a Verdadeira
Vontade não é meramente algum tipo de desejo profundo a espreita nas profundezas do indivíduo,
esperando ser descoberto e trazido a consciência por rituais apropriados e meditações. Ao invés
disso o caso é que o indivíduo é uma expressão da Verdadeira Vontade – e níveis, como vimos, são
classificações arbitrárias. A Verdadeira Vontade, portanto, não é algo que o indivíduo possui, como
um tesouro enterrado. Ela é em verdade a semente e essência do indivíduo, a fonte da qual ele
emana. A vontade consciente é então um reflexo, refração ou distorção da Verdadeira Vontade, não
importa quão obscura. Hadit é uma essencial e mais profunda identidade.

Tudo o que temos, e tudo o que somos, floresce desse núcleo. Como indivíduos, como entidades
manifestas nesse universo “concreto”, somos projeções, densamente cobertas, brilhando desse
diamante interior, essa semente secreta. “Seja tu Hadit, meu centro secreto, meu coração & minha
língua”. Isso é um entendimento mais profundo de Thelema; e é importante entender isso, pois
muitas pessoas parecem interpretar thelema num senso meramente comparativo e superficial:
descobrir o correto código de conduta no que pode ser erroneamente descrito como Exterior, e
segui-lo inexoravelmente, sem desvios. Isso é verdade num nível particular, mas não entra
profundamente na questão visceral – que é, obviamente, de onde os laços e espirais cintilantes e
glamorosos de maya florescem. Pois em verdade somos uma expressão de nosso núcleo, nossa
Verdadeira Vontade; nós somos o seu veículo, e assim não podemos fazer qualquer outra coisa que
não nossa Verdadeira Vontade. Nós estamos 93 milhões de quilômetros de Sir Peter Pendragon, que
no “Diário de um fanático por drogas” de Crowley se dá conta de que sua Verdadeira Vontade era
ser um engenheiro aeronáutico. E ainda talvez não tão longe, porque por mais exaltado que nosso
conceito de Verdadeira Vontade possa ter se tornado, ainda deve encontrar uma realização adequada
e merecedora no Exterior, ou a frustração será nosso prêmio.

Há aqui um paradoxo. Se tudo o que temos e tudo o que somos, são expressões de nossa Verdadeira
Vontade, então porque alguém se incomodaria em passar pelo sangue, suor e lágrimas na tentativa
de atingir o Conhecimento e Conversação do Sagrado Anjo Guardião, quando na verdade não está
conversando com esse e sim o sendo em essência ? A importante distinção reside, no entanto, na
percepção ou despertar para esta identidade. Há um paralelo aqui com tradições Budismo Ch’an,
onde é enfatizado que a chave para tudo é simplesmente despertar para a realidade, e perceber ou se
lembrar de quem se é. Um dos mais famosos koans do Zen, a mais famosa degeneração japonesa do
Ch’an, é sobre relembrar sua face antes do nascimento, sua verdadeira face. O sonhador acorda, e
percebe que esteve o tempo todo sonhando. A consciência esteve restrita, obscurecida, enlameada,
mas não mais. Agora ela arde em gloriosa intensidade, seu brilho natural. Em verdade, não há nada
além de consciência. Tudo o que existe, é manifestação da consciência, exatamente como o
cogumelo é uma manifestação mais densa do micélio.

A Verdadeira Vontade, então, não é uma coisa estática enterrada dentro de nós, e de alguma forma
aparte. Ela é dinâmica. Ela não é Ser, mas Ir, e pode ser representada pelo ankh, cruz ansata, o
símbolo egípcio para ir. Estrelas, por fim, não estão penduradas estáticas no espaço, mas estão num
estado de aceleração, de dinamismo, de movimento. A definição crowleyiana de magia como sendo
energia tendendo a mudança é relevante aqui, trazendo a mente a ideia de movimento, ou uma
sucessão de estados, de perpétua transformação. A essência da consciência estelar, que há no núcleo
de cada estrela, é uma contínua explosão de energia, sempre mutante, sempre dinâmica. O universo
inteiro está num perpétuo, dinâmico estado de subida e descida, nascimento e morte, de eterna e
infinita transformação, de criação e destruição. Nós como indivíduos temos uma tendência de
pensar em nós mesmo como não estando sujeitos a essa mudança, mas em verdade somos parte
desse turbilhão como tudo mais. Como energia tendendo a mudança, nós somos uma nova
encarnação a cada instante. Como magistas devemos receber bem essa corrente mutante, essa eterna
transformação, em vez de nos agarrarmos a uma persona ilusória – que no fim das contas, é apenas
uma máscara. A bolha é uma expressão transitória do fluxo, uma forma que surge no meio do
turbilhão, vórtice e rodopio, e que experimenta uma fugaz e caprichosa existência antes de sua
transformação, sua reencarnação em outra forma espontânea. Nós somos expressões externas de
uma força motriz interna, bolhas no fluxo, restrições transientes de consciência. “Pois eu estou
divida por amor, pela chance da união”. A aparente divisão do ser tem suas raízes num mais
profundo e interno Ser; e que é uma aparência florescendo do Ir, um padrão de energia tendendo a
mudança.

A chave para acordar do senho da consciência restrita é identificação com esse fluxo, que floresce
to núcleo de cada estrela, e portanto de Hadit. E a aplicação dessa chave consiste em ver
manifestação fenomenológica como a sombra transiente que é, e buscar penetrar em seu núcleo, na
essência da consciência estelar. Então nós cavamos mais, e mais profundamente, na esperança de
emergir na luz do dia.

V.

“O Perfeito e o Perfeito são um Perfeito e não dois; não, são nenhum! Nada é uma chave secreta
dessa lei. Sessenta e um os Judeus a chamam; eu a chamo oito, oitenta, quatrocentos & dezoito.
Mas eles têm a metade: una por tua arte para que tudo desapareça.” (AL I:45-47)

No coração de Thelema, como o coração da matéria – pois os dois não são diferentes – há
um vazio ou nada. Essa nada é também pleno, porque é desse nada que a completa panóplia da
manifestação provém. Paradoxalmente, o vazio contém a semente do todo, secretando a
manifestação ou lila do seu centro secreto. Isso nos dá a fórmula do coração de Thelema, o 0=2.
Quanto mais avançamos em Thelema mais paradoxais as coisas tendem a se tornar, e esses
paradoxos se aglutinam sobre o paradoxo primeiro dessa fórmula. Ele também é as vezes expresso
como NOX, 210. De forma simples, aparente diversidade é simbolizada como dois, florescendo e
sendo equivalente a zero. Essencialmente não há diferença entre o dois e o zero ou nada. 210 é um
subsequente refinamento, mostrando a redução de dois a um, e então a zero; no entanto, como
mencionado na introdução desta seção do artigo, redução ao um é mais um pseudoestágio do que
qualquer coisa. A fórmula é as vezes expressa como (+1)+(-1) = 0, onde +1 e -1 representam o dual,
polaridade, os dois polos de aparente diversidade, os princípios masculino e feminino. Isso também
expressa uma outra noção de equilíbrio, o vazio ou zero incluindo em si mesmo o Ser e o Não-Ser.
É na fórmula do 0=2 que a física quântica e thelema convergem. Isto não é de todo surpreendente,
porque é a energia do 93 ou Thelema que abriga tudo, que em seu núcleo, “é em toda parte o
centro”. No mundo da manifestação, polaridade é um conceito chave, o mecanismo através do qual
a manifestação emerge. Até onde podemos alcançar, manifestação é sempre polarizada ou
balanceada. Qualquer manifestação emergindo do vazio no coração da existência então, só pode ser
em termos de balanço ou polarização – daí a expressão 0 = (+i) + O Zero, nada ou vazio não é
meramente a negação da matéria ou algo, mas também contém o oposto ou não-manifestação. Isso
é, é claro, similar a chamada Dupla Negativa do Shen-Hui.

Quietude na matéria ou manifestação é apenas aparente, como se fosse algo distante. Num nível
subatomico, como vimos, partículas são pacotes de energia, num estado de velocidades
equilibradas. Manifestação é sempre dinâmica, sempre num estado de “ida”, e nunca estática.
Estabilidade é sempre produzida por um equilíbrio dinâmico de forças ou energia; em verdade, tudo
está num estado de fluxo e fluído. Novamente, isso ilustra a definição do Crowley de magick como
energia tendendo a mudança, tal como o insight de que magia não é Ser, mas Ir. A corrente 93 é
sempre dinâmica, sempre se renovando, sempre cambiando entre criação e dissolução. Revertendo
para uma analogia anterior, são as finas redes do micélio do qual o corpo carnoso ou cogumelo é
revestido, sucessivamente frutificando e morrendo. A matéria emerge, floresce, decai em
dissolução, e então emerge novamente em outra forma. Existem ondas de energia vestidas, em
perpétua danças extática, de alegria, de acasalamento, girando e rodopiando. Um dos textos
tântricos traduzidos por Woodroffe tem o título de Ondas de Benção. E esse título sugere a dança
de maya.

É inútil procurar propósito ou sentido nessa perpétua lila, essa dança sucessiva de criação e
destruição. Em última análise é auto amor ou êstase, “pois eu estou dividida pela chance de união”.
Uma vez que estivermos sintonizados com essa corrente, nós também podemos ter esse sentimento,
que é o mais alto deleite.

Manifestação floresce do zero, e retorna ao zero. Isso acontece não durante incontáveis aeons – pois
tempo é uma ilusão como a matéria – mas a cada instante. Um símbolo comum para o infinito é ∞,
o que guarda um senso de movimento perpétuo, da revolução da manifestação, um dinâmico e
polarizado equilíbrio. Nós estamos assim, sempre encarnando novamente nesse espetáculo de
deleite, nessa jornada extática através do oceano de benção. Nós estamos num contínuo estado de
mudança, de transformação, da magia no sacramento da existência. A vida não precisa de outro selo
ou sanção que não este.

“Também O Santo veio a mim, e eu contemplei um belo cisne flutuando no azul.


Entre suas asas eu sentei, e os æons iam passando.
Então o cisne voou e mergulhou e planou, ainda assim prosseguimos sem destino.
Um garotinho louco que montava comigo se dirigiu ao cisne, e falou:
Quem és tu que flutuas, e voas, e mergulhas e planas no vazio? Vede, estes muitos æons se
passaram; de onde tu vieste? Para onde vais?
E rindo eu o repreendi, dizendo: De nenhum lugar! Para nenhum lugar!
Estando o cisne silencioso, ele respondeu: Então, se não há um destino, por que esta eterna
viagem?
E eu repousei a minha cabeça contra a Cabeça do Cisne, e ri, dizendo: Não há prazer
inefável neste voo sem destino? Não haveria fadiga e impaciência para aquele que
alcançasse algum destino?
E o cisne estava sempre silencioso.
Ah! Mas nós flutuamos no Abismo infinito.
Prazer! Prazer! Cisne branco, que tu sempre me leves entre as tuas asas!” (LXV II:17-25)

Realizando nossa jornada extática no coração da matéria, nós chegamos ao seu centro, o vazio. É
importante, no entanto, que esse vazio não seja visto como “mais real” que a manifestação; ou ainda
que a matéria não seja de alguma forma diminuída de importância pela consideração daquilo que
existe por trás dela. Isso seria uma blasfêmia, uma negação da natureza sacramental da existência,
uma forma menos sutil de dualismo, e uma desastrosa e absurda incompreensão da situação. Pois
zero é igual a dois, e dois é igual a zero. Eles são idênticos, absolutamente idênticos, e assim ambos
aspectos e complementares de igual importância. Se isso não ficar claro, então podemos contemplar
o demônio maniqueísta despontando sedutoramente a distância.
Aqui há um princípio bem simples – esse de não confundir os planos. Uma ilustração básica será
suficiente. Nuit diz: “Que não haja diferença feita por vós entre uma coisa & qualquer outra coisa;
pois daí vem sofrimento”. Uma consideração simples do advaita sugere que, de fato, todas as
diferenças são imposições num continuum. De tudo isso, se eu escolher preparar uma infusão de um
a xícara quente de hemlock (cicuta ?), ao invés do meu usual ovaltine (?), então minha falha em
perceber a diferença entre as duas bebidas levaria a destruição do meu presente veículo de
manifestação. De um certo ponto de vista, é claro, pode ser dito que isso não faria muita diferença:
Eu como entidade aparente só possuo uma existência transiente de qualquer forma, um
insubstancial espectro na névoa da manhã. Logicamente, não há nenhum benefício no ponto de vista
que diz “todos nós vamos morrer cedo ou tarde, então por que isso importa?”. Existência é
essencialmente um sacramento, no entanto, para ser comungado em sua totalidade. Para citar
Nieztsche: “Toda alegria quer eternidade – quer profunda, profunda, profunda eternidade”.

Novamente, pode parecer paradoxal, mas uma vez que estivermos acordado, percebido a natureza
de lila, nós continuamos como antes – mas com a diferença de que sabemos que é uma peça. É
como a parábola Zen sobre montanhas e vales. Uma vez que vejo as montanhas como montanhas e
vales como vales. Então eu almejei a iluminação; e montanhas não são mais montanhas, e vales não
são mais vales. Uma vez despertos, nós continuamos a representar nossos papéis; mas não estamos
mais absorvidos no drama, perdidos no personagem; pois estamos despertos, e sabemos que se trata
apenas de um sonho. Essa é a mais alta alquimia. É importante alcançar esse ponto, caso contrário
uma grosseira confusão tomará lugar, e o sacramento será negado em sua natureza. Lila é uma
ilusão do ponto de vista que é o nada mascarado de alguma coisa, mas real no sentido que emerge
desse nada. O, apelidado, Wei Wu Wei diz “Eu sou, porque eu sou Não”. Isso soa paradoxal, e não
faz sentido ao intelecto. Pode, no entanto, ser intuído – e apreendido por um instante, fugazmente,
por alguma parte de nosso ser que é “além de tudo meu”.

Uma vez que acordamos, nós não permanecemos nessa percepção da nossa identidade subjacente.
Em vez disso, nós volitamos para dentro e para fora dessa realização, essa percepção – ou ainda,
assim parecemos para os nossos sentidos terrenos. Isso não pode ser agarrado, pois é um espírito
livre, escolhendo ir e vir quando lhe convém. Nós não vivemos – somos vividos. Lila manifesta-se
temporalmente tanto quanto carnalmente; e o tempo sendo ilusório, os flashes de despertar nos
parecem nem sequenciais nem consistentes. Isso é de fato patético, tentar vestir esses dardos de
insight numa linguagem, que por natureza são gaguejantes, incoerentes, soluçantes. No entanto,
talvez nessas tentativas nós apontemos o dedo para a lua, e talvez ao menos intuitivamente demos
algum tipo de direção indicativa.

Mas nós devemos nos contentar em tomar ocasionais mergulhos na piscina, no estase e milagre de
despertar para nossa identidade, no qual nós somos, ao mesmo tempo, concomitantes com o todo da
manifestação e não-manifestação, e ainda além de ambos. Tudo e Nada devem ser abraçados com
igual fervor, enquanto seguimos regozijantes no nosso caminho, rodopiando nesse e naquele
caminho no glorioso espetáculo que é a nossa criação, em comunhão com o hedonista e ascético,
ambos comungante e eremita – habitando os dois no todo, e aparte do todo.

Pois – não é essa a nossa Vontade ?