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Copyright©

2007 Circe Bittencourt

Todos os direitos desta edição reservados à


Editora Contexto (Editora Pinsky Ltda.)

Ilustração de capa
Pedro Américo, “Independência ou morte”, mais conhecido como “O grito do Ipiranga”, 1888 (Óleo sobre tela).

Capa e diagramação
Gustavo S. Vilas Boas

Revisão
Daniela Marini Iwamoto
Lilian Aquino

Formato Digital
Schaffer Editorial

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)


(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

Dicionário de datas da história do Brasil / Circe Bittencourt (organizadora). – 2. ed. – São Paulo : Contexto, 2012.

Vários autores.
Bibliografia
ISBN 978-85-7244-512-2

1. Brasil – História 2. Datas especiais – Brasil – Dicionários I. Bittencourt, Circe.

06-6430 CDD-981.003

Índices para catálogo sistemático:


1. Brasil : Datas históricas : Dicionários 981.003
2. Datas históricas : Brasil : Dicionários 981.003
3. Dicionários : Datas históricas : Brasil 981.003

EDITORA CONTEXTO
Diretor editorial: Jaime Pinsky

Rua Dr. José Elias, 520 – Alto da Lapa


05083-030 – São Paulo – SP
PABX: (11) 3832 5838
contexto@editoracontexto.com.br
www.editoracontexto.com.br

2012
Proibida a reprodução total ou parcial.
Os infratores serão processados na forma da lei.
SUMÁRIO
Como usar o dicionário?
Introdução
Circe Bittencourt

Janeiro
CABANAGEM – 7 de janeiro de 1835
Magda Ricci
MORTE DE FREI CANECA – 13 de janeiro de 1825
Denis Bernardes
MORTE DE MANOEL FIEL FILHO – 17 de janeiro de 1976
Fábio Bezerra de Brito
MÚSICA POPULAR BRASILEIRA – 20 de janeiro 1917
José Geraldo V. de Moraes
FIM DO DOMÍNIO HOLANDÊS – 25 de janeiro de 1654
Regina Célia Gonçalves
LEVANTE DOS MALÊS EM SALVADOR – 25 de janeiro de 1835
João José Reis
ABERTURA DOS PORTOS – 28 de janeiro de 1808
João Paulo Pimenta

Fevereiro
GUERRA DOS SETE POVOS DAS MISSÕES – 10 de fevereiro de 1756
Heloisa Reichel
SEMANA DE ARTE MODERNA – 17 de fevereiro de 1922
Marialice Faria Pedroso
INSTITUIÇÃO DO VOTO SECRETO E FEMININO – 24 de fevereiro de 1932
Letícia Bicalho Canêdo
GUERRA DOS FARRAPOS – 28 de fevereiro de 1845
Eduardo Scheidt

Março
DIA INTERNACIONAL DA MULHER – 8 de março (1975)
Joana Maria Pedro
IMIGRAÇÃO NO BRASIL – 26 de março de 1902
João Fábio Bertonha
GOLPE DE 1964 – 31 de março de 1964
Ricardo Oriá

Abril
ABDICAÇÃO DE D. PEDRO I – 7 de abril de 1831
Noé Freire Sandes
DESCOBERTA DA DOENÇA DE CHAGAS – 14 de abril de 1909
Rozélia Bezerra
DIRETAS JÁ – 16 de abril de 1984
Conceição Aparecida Cabrini
MASSACRE DE ELDORADO DOS CARAJÁS – 17 de abril de 1996
Circe Bittencourt
DIA DO LIVRO INFANTIL – 18 de abril (2002)
Ricardo Oriá
DIA DO ÍNDIO – 19 de abril (1943)
Maria Elisa Ladeira e Luiz Augusto Nascimento
TIRADENTES – 21 de abril de 1792
Thais de Lima e Fonseca
INAUGURAÇÃO DE BRASÍLIA – 21 de abril de 1960
Luiz Sérgio Duarte
“DESCOBRIMENTO” DO BRASIL – 22 de abril de 1500
Pedro Puntoni
INAUGURAÇÃO DA PRIMEIRA ESTRADA DE FERRO – 30 de abril de 1854
Ana Maria Monteiro

Maio
TRATADO DA TRÍPLICE ALIANÇA – 1º de maio de 1865
Francisco Doratioto
DIA MUNDIAL DO TRABALHO – 1º de maio (1890)
Antonia Terra
GREVES DE 1978 – 12 de maio de 1978
Kazumi Munakata
CRIAÇÃO DA IMPRESSÃO RÉGIA – 13 de maio de 1808
Márcia Abreu
ABOLIÇÃO DA ESCRAVATURA – 13 de maio de 1888
Antonia Terra

Junho
FESTAS JUNINAS – 24 de junho
Jaime de Almeida
REFORMA POMBALINA – 28 de junho de 1759
Carlota Boto
DIA INTERNACIONAL DO ORGULHO GAY – 28 de junho (1969)
Luiz Mott

Julho
INDEPENDÊNCIA DA BAHIA – 2 de julho de 1823
Antônio Guerreiro de Freitas
INQUISIÇÃO NO BRASIL – 9 de julho de 1711
Rachel Mizrahi
REVOLUÇÃO CONSTITUCIONALISTA DE 1932 – 9 de julho de 1932
Ilka Stern
GREVE GERAL NO PAÍS – 12 de julho de 1917
Nicolina Luiza de Petta
PROMULGAÇÃO DO ESTATUTO DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE – 13 de julho de 1990
Maria Lygia Quartim de Moraes
A FINAL DA COPA DE 1950 – 16 de julho de 1950
Fábio Franzini
MAIORIDADE DE D. PEDRO II – 23 de julho de 1840
Ilmar Rohloff de Mattos

Agosto
GUERRA DOS BÁRBAROS – 4 de agosto de 1699
Maria Idalina Pires
BRASIL NA SEGUNDA GUERRA MUNDIAL – 22 de agosto de 1942
Jacob Gorender
DIA DO SOLDADO – 25 de agosto (1925)
Luiz de Alencar Araripe
GUERRA DA CISPLATINA – 27 de agosto de 1828
Heloisa Reichel
ANISTIA – 28 de agosto de 1979
Marcos Napolitano

Setembro
INDEPENDÊNCIA DO BRASIL – 7 de setembro de 1822
Cecília Salles Oliveira
DIA INTERNACIONAL DA ALFABETIZAÇÃO – 8 de setembro (1966)
Antonia Terra
TELEVISÃO NO BRASIL – 18 de setembro de 1950
Marcos Napolitano
DIA DO RÁDIO – 25 de setembro (1966)
Fernando Gurgueira
REVOLUÇÃO PRAIEIRA – 29 de setembro de 1848
Izabel Andrade Marson

Outubro
REVOLUÇÃO DE 1930 – 3 de outubro de 1930
Tania Regina de Luca
DESTRUIÇÃO DE CANUDOS – 5 de outubro de 1897
Kalina Vanderlei Silva
“DESCOBERTA” DA AMÉRICA – 12 de outubro de 1492
Maria Ligia Prado e Stella Scatena Franco
DIA DE NOSSA SENHORA APARECIDA – 12 de outubro (1980)
Jaime de Almeida
DIA DO PROFESSOR – 15 de outubro (1933)
Paula Perin Vicentini
GUERRA DO CONTESTADO – 22 de outubro de 1912
Paulo Pinheiro Machado
DIA DA AVIAÇÃO – 23 de outubro (1906)
Mauro Kyotoku

Novembro
REVOLTA DA VACINA – 9 de novembro de 1904
André Mota
PROCLAMAÇÃO DA REPÚBLICA – 15 de novembro de 1889
Suely Reis de Queiroz
DIA DA BANDEIRA – 19 de novembro (1889)
Circe Bittencourt
DIA DA CONSCIÊNCIA NEGRA – 20 de novembro (1995)
Marco Antonio de Oliveira
REVOLTA DA CHIBATA – 22 de novembro de 1910
Regina Behar
CINEMA BRASILEIRO – 27 de novembro de 1897
Eduardo Morettin

Dezembro
BALAIADA – 14 de dezembro de 1838
Rosa Godoy
MORTE DE CHICO MENDES – 22 de dezembro de 1988
Marcos Montysuma
Estreia da peça Vestido de noiva – 28 de dezembro de 1943
Alberto Guzik
Índice temático
Índice por ano
A organizadora
COMO USAR O DICIONÁRIO?

Há muitas maneiras de usar o Dicionário. Ao preparar um sumário e dois índices, nós sugerimos
três, mas há diversas outras possibilidades. O sumário ordena as datas por dia e mês. E é assim que está
organizado o livro: na sequência do calendário. Cada parte corresponde a um mês. Assim, o leitor pode
utilizar a obra para consulta de datas comemorativas e/ou fatos históricos ao longo do ano. O leitor
notará que há datas em que não há um ano definido, outras em que, entre parênteses, aparece o ano em
que a data foi instituída, por exemplo, Dia Internacional da Alfabetização – 8 de setembro (1966).
No entanto, se preferir, o leitor pode optar pela divisão temática (confira índice da página 297). Ali
as datas estão divididas em cultura, economia, guerras e revoluções, movimentos e lutas sociais,
política e tecnologia e ciência. Um mesmo verbete pode aparecer em mais de um tema. Portanto, é
possível identificar os assuntos conforme interesse de pesquisa ou de ensino.
O outro índice, por ano (p. 301), pode ser utilizado para fazer recortes temporais da História. Assim,
é possível estudar as grandes datas de um determinado século, por exemplo. Nesse caso, o ano aparece
em primeiro lugar e depois vem o tema do capítulo. Novamente os parênteses são colocados em caso de
ano em que a data foi instituída. As datas sem ano definido ficam no fim.
A obra, portanto, pode ser lida fora de ordem, por mês (e dia), ano e tema. Ou como parecer melhor
ao leitor.
INTRODUÇÃO
Circe Bittencourt



Datas históricas não constituem um tema ultrapassado para a compreensão da História? Não se
questionou muito sobre as inutilidades de um ensino de História voltado para a “decoração de nomes e
datas” e para as comemorações de feitos de heróis duvidosos, representantes, em sua maioria, de setores
de elite? Por que, então, a preocupação e, em certa medida, a ousadia em apresentar um Dicionário de
datas da história do Brasil?
Uma resposta a essas indagações deve partir de uma reflexão sobre a concepção de datas históricas e
o significado delas para a nossa sociedade. Queiramos ou não, as datas são suportes da memória. Essa
consideração é fundamental e realista. E, para nós, constitui uma forma de pensar sobre elas e sobre seu
papel na constituição de um tempo histórico. Por conta disso é que aceitei a proposta que me foi feita
pelo editor e historiador Jaime Pinsky, da Editora Contexto, para a organização deste livro.
Existem datas para marcar a vida das pessoas em uma sociedade caracterizada por delimitações
muito precisas de tempo, medido sempre por números que identificam anos, meses, dias, séculos.
Existem datas que marcam o nascimento e a morte dos indivíduos, das empresas, dos regimes políticos,
das guerras...

7 de setembro de 1822, o grito da Independência;


22 de agosto de 1942, o governo brasileiro declarou guerra ao Eixo na Segunda Guerra Mundial;
15 de novembro de 1889, foi proclamado o regime republicano no Brasil.

As datas, assim, podem ser entendidas como formas de registros do tempo que se ligam à memória
dos indivíduos e das sociedades e tornam-se marcos referenciais. Marcam acontecimentos variados e,
dessa forma, podem determinar maneiras de rememorar. Transformadas em comemorações, passam a ter
poder, a ser referência.
Na nossa história e nas demais histórias mundiais, muitas datas transformaram-se em marcos
comemorativos, criando-se rituais para que a sociedade se envolva e participe de maneira específica do
processo de rememoração. O poder governamental, ao longo da nossa história, institui as “datas
nacionais” ou as datas oficiais, muitas delas transformadas em dias especiais – os feriados – para
reforçar e consolidar o regime político em vigor. O poder religioso ou, dependendo da época, o poder
dos movimentos sociais da sociedade civil também criam suas “datas” e seus rituais para se comemorar
acontecimentos que devem ser – ou são – considerados necessários para estarem presentes na memória
de grupos sociais, para afirmarem suas identidades.
Ao acompanharmos as datas comemorativas estabelecidas após a criação do Estado-nação
brasileiro, podemos identificar como são mudadas, reforçadas, ou simplesmente desaparecem do
calendário oficial.
As comemorações pensadas e fundamentadas, majoritariamente, pelos historiadores do Instituto
Histórico e Geográfico eram voltadas para a valorização da monarquia. As memórias relacionavam-se
aos feitos dos monarcas, criadores da nação: o 7 de setembro, o 29 de junho, o Dia de São Pedro, o santo
protetor dos Pedros, imperadores brasileiros. O 7 de setembro manteve-se após a fase republicana,
modificando-se os homenageados e a concepção dos responsáveis pela criação da nação, enquanto o dia
29 de junho perdeu a importância política, mantendo-se como festividade religiosa. Tiradentes, alçado a
herói nacional após a implantação do regime republicano, não era personagem mencionado sequer nas
aulas de História no decorrer do período imperial do século XIX.
Pode-se constatar que as sociedades ocidentais tornaram as datas um referencial importante,
utilizadas pelo poder, marcadas em pedras, placas de bronze, em documentos assinados e todos eles
datados, transformadas em eventos. Tornam-se datas-símbolo. Essa função política essencial das datas
proporcionou também o seu reverso: muitas delas devem ser esquecidas,omitidas.Lembrar ou fazer
esquecer uma data é um ato político.
As datas históricas aqui apresentadas não têm a intenção de serem valorizadas em seus aspectos
comemorativos. São apresentadas tendo como concepção a famosa frase de Alfredo Bosi em O tempo e
os tempos: datas são pontas de icebergs.
Em cada data que marca um determinado acontecimento, em um determinado tempo, existem outros
tempos, outros acontecimentos submersos e muitas vezes invisíveis. As datas vislumbradas como pontas
de icebergs são possibilidades de imersão na vastidão de outros acontecimentos ligados de forma
compacta a elas. Esse sentido de imersão foi o percurso dos textos aqui apresentados sob forma de
verbetes. E, ainda, as datas concebidas como pontas de icebergs possibilitam sua transformação de
marcos de memória em datas históricas.
Resta ainda uma outra possível e complexa indagação: como as datas históricas foram selecionadas
para compor este dicionário? Por que são estas as datas que estão aqui e não outras?
Selecionar datas exige estabelecer critérios cuidadosos. Um critério que passa por uma concepção de
história e, mais ainda, por uma concepção de história nacional. A seleção foi de datas históricas
brasileiras, mesmo considerando que muitas delas não sejam exclusivamente nacionais.
O critério básico de seleção foi o da identificação. Seria desejável que qualquer um de nós pudesse
ver como sendo suas as datas e os acontecimentos a elas ligados. Crianças, populações de diferentes
etnias ou gênero, trabalhadores das cidades e do campo, políticos, militares, religiosos, intelectuais e
artistas são apresentados em diversas datas marcadas por lutas, confrontos, festas, mescladas de alegrias
e tristezas e mesmo de heroísmo e idealismos. A preocupação fundamental foi a de possibilitar uma
reflexão sobre cada data inserida nas ações diversas dos diferentes grupos e classes sociais que
compõem a nossa sociedade.
A seleção pautou-se em uma história social e cultural que tem possibilitado uma nova visão da
história política, cuja maior contribuição tem sido o entendimento das constituições das identidades de
uma nação e do papel do cidadão na contemporaneidade.
Foram privilegiadas datas que abordam acontecimentos de diferentes naturezas, apresentadas em 65
verbetes: os políticos e os econômicos expressos por legislações e atos governamentais com seus
decretos e leis; as guerras e as “revoluções”; os sociais, com suas lutas e movimentos de resistência em
suas diversas manifestações; os culturais, por intermédio de festas em diferentes espaços e em produções
artísticas.
As datas históricas,assinaladas por dia,mês e, geralmente,ano,foram indicadas por autores
especializados, oriundos das mais diversas instituições do país. Para a redação dos verbetes, procuramos
historiadores e outros cientistas sociais que tivessem condições de mostrar o significado dessas datas por
meio do que houvesse de mais atualizado na historiografia brasileira sobre cada tema. Não se trata
simplesmente de exaltar a importância da data, ou de negar tudo o que já se tenha sido escrito a respeito
dela,mas de oferecer ao leitor o “estado da arte”, o ponto em que os estudos estão no momento atual. Daí
este livro ser útil tanto para professores e alunos,como para responsáveis por políticas públicas,
educadores, jornalistas e historiadores.
E, claro, poderia haver uma última indagação: por que apenas 65 datas? Existem outras tantas
rememoradas, pouco conhecidas em âmbito nacional, que mereceriam estar compondo a lista dos
verbetes. Sem dúvida, para quem fizer essa pergunta, a resposta é de que tem toda a razão. Os limites,
entretanto, existem tanto para a produção de um verbete – produção não muito simples, por se tratar de
uma síntese delimitada por pouco espaço – quanto para abarcar um sem-número de datas representativas
de nossa sociedade em sua rica diversidade. Um livro como este implica escolhas, e é o que fizemos e a
responsabilidade assumimos. Estas que aqui estão ficam para marcar o momento da produção de uma
memória histórica que pretende estar à disposição de amplo e variado público. Esperamos que nosso
esforço conjunto (organizadora, autores, editora) tenha resultado num livro útil para todos.
7 DE JANEIRO DE 1835
CABANAGEM
Magda Ricci



oi no dia 7 de janeiro de 1835 que aconteceu o primeiro ataque e a conquista da
cidade de Belém do Pará pelos cabanos. A Cabanagem foi uma longa luta na
região do Grão-Pará, em prol da liberdade e contra os desmandos dos
presidentes de província, comandantes de armas, de milícias e diretores de
aldeamentos indígenas ou de senhores de escravos, em sua maioria identificados
com os brancos colonizadores.
O termo “cabano” designava os moradores de cabanas. O mesmo nome,
contudo, também significava um chapéu de palha de abas largas e caídas. A
palha do chapéu ou a que cobria a cabana era sinônimo de pobreza.
Essa alcunha relacionava os cabanos aos trabalhadores pobres livres e
escravos, que formavam a base da população do Grão-Pará. Os escravos de
origem africana eram numericamente menos significativos na Amazônia, sendo,
em 1833, cerca de 20% da população.Contudo eram fundamentais,pois a maioria deles já havia chegado
na Amazônia na segunda metade do século XVIII, constituindo uma população de origem africana em pleno
processo de “crioulização” ou mestiçagem com índios e brancos. A concentração dessa mão de obra em
propriedades açucareiras ou de produção de gado e ao redor de vilas e cidades mais povoadas como
Belém aumentava a capacidade de luta e de mobilização dos negros africanos, crioulos e de seus
descendentes mestiços.
Cabe lembrar, no entanto, que a presença indígena era muito forte em toda a região. Somente os
chamados “aldeados”, ou seja, os indígenas em processo de catequização, somavam, em 1833, 22% da
população paraense. Contudo, segundo Antonio Baena, um cronista da época, a parte majoritária da
população da Amazônia era mesmo constituída por povos indígenas que viviam “sem lei, sem rito”,
povoando a fração maior desse território. A colonização europeia conseguira dominar quase totalmente o
vale dos rios Amazonas e Tocantins, exterminando ou dispersando inúmeros povos indígenas que ali
residiam. Mesmo assim, ainda restava a esses povos, no início do século XIX, um território significativo
às margens de cerca de 46 rios. Do oeste do Pará até o alto rio Negro eram conhecidas cerca de 50 etnias
indígenas, as quais somadas àquelas já aldeadas formavam a massa mais significativa do povo cabano.
Se de um lado a Cabanagem foi um grito de independência do povo mais simples, por outro ela não
teria existido com toda sua força sem as divisões no seio da elite amazônica. Havia no Grão-Pará de
1835 uma disputa pelo controle político de uma região distante da corte carioca e que estava sendo
visada por franceses, ingleses e portugueses. A elite local poderia voltar para o governo português, ou
aceitar anexações ao território inglês ou ao francês na América, ou ainda podia optar por tentar uma
completa autonomia. Nesse contexto, o movimento social de 1835 na antiga província do GrãoPará fazia
parte do conjunto de tantos outros que eclodiram ao longo da primeira metade do século XIX no Brasil e
na América do Sul. O antigo Grão-Pará ligava-se pelo mar e pelos rios aos territórios coloniais na
América, mantendo comércio e trocas culturais com a região caribenha e com o que hoje chamamos de
Venezuela, Bolívia, Colômbia e Peru. Dessa forma, as turbulências nesses locais influenciaram
decisivamente o movimento cabano de 1835, criando na elite local e no povo cabano ideais de
revoluções políticas e sociais, abolicionismo e busca pelo fim do domínio colonial. No Brasil, o
movimento inseria-se no cenário do chamado período “regencial”, cuja abdicação do imperador D.
Pedro I foi o estopim de lutas políticas pelo domínio da nova nação.
De janeiro de 1835 a maio de 1836, os cabanos perderam dois importantes líderes, Felix Malcher e
Antonio Vinagre. O primeiro foi julgado um traidor por impor o fim da revolução e a retomada do
trabalho cotidiano à revelia da maioria da população e do próprio comandante das armas cabano,
Antonio Vinagre. Malcher abriu fogo contra seu comandante e acabou isolado, tendo que se abrigar em
um navio da marinha imperial. Dali foi resgatado e morto pela população cabana enfurecida. Seu
sucessor, Antonio Vinagre, negociou com as tropas imperiais um armistício que durou até agosto. Nesse
momento, houve a segunda tomada da cidade de Belém pelos cabanos, ocasião em que Vinagre morreu
em combate. O último líder cabano foi Eduardo Angelim, o qual empreendeu uma árdua tarefa de tentar
compatibilizar os ideais de luta pela liberdade de escravos, indígenas e mestiços com a manutenção de
autoridades e poderes políticos, considerada fundamental para o funcionamento da ordem e da produção
econômica local. Nesse embaraço, Angelim manteve sempre cheias as prisões, mandando prender e
julgar vários líderes negros e mestiços exaltados. Contudo, seus atos contra esse povo nunca poderão ser
comparados aos do líder da reconquista imperial, o general Francisco José Soares d’Andréa. O processo
de retomada de Belém e o fim da guerrilha no interior da Amazônia dizimou mais de 30 mil pessoas,
além de um incalculável número de indígenas, o que fez com que o Grão-Pará só voltasse a crescer
demograficamente nos anos de 1850 e economicamente apenas em meados de 1870, com a era da
borracha.
Os próprios cabanos proclamaram o 7 de janeiro de 1835 como o marco inaugural de seu governo.
Tornou-se sinônimo de insubordinação. O 13 de maio de 1836, data da retomada do poder pelas forças
imperiais, tornou-se o marco da reconquista da Amazônia. As comemorações da reconquista perduraram
por todo o período Imperial.
Foi somente por volta de 1935, época das comemorações do centenário da Cabanagem, que se
colocou em xeque a comemoração do aniversário do 13 de maio.Obras escritas pelo presidente do
Instituto Histórico e Geográfico do Pará, Henrique Jorge Hurley, redimensionaram a historiografia sobre
o tema. Segundo o ponto de vista por ele defendido, a Cabanagem teria sido um movimento social cujas
raízes remontavam à época da opressão portuguesa sobre os indígenas e tapuios do Pará. Hurley
procurava introduzir na História do Brasil a figura do cabano como objeto digno de estudo. Contudo,
apesar de revalorizar a data de 7 de janeiro,Hurley não desconsiderava totalmente o valor simbólico do
dia 13 de maio. Para ele, se a primeira data significava a luta histórica do povo do Pará contra o
processo de colonização europeia e branca,a segunda era sinônimo da reintegração, mesmo que forçada,
desse povo ao seio da “nação brasileira”.
O dia 7 de janeiro – positivado como monumento da vitória cabana em 1985 – só desbancou
definitivamente o 13 de maio – marco de sua derrota – quando a Cabanagem completava seus 150 e
passou a ser vista como um movimento positivo e digno de nota. Nesse momento, foram publicados
livros como os de Carlos Rocque, Júlio José Chiavenato, Pasquale Di Paolo e Vicente Salles. Cada qual
com suas perspectivas, todos elegeram os ideais cabanos de luta pela liberdade, como bandeira para
exprimir inquietações sociais e políticas do Brasil que saía de um longo período de ditadura militar nos
anos 80 do século XX.

B IBLIOGRAFIA
HURLEY, Henrique Jorge. A Cabanagem. Belém: Instituto Lauro Sodré, 1936.
RAIOL, Domingos Antonio. Motins políticos. 2. ed. Belém: UFPA, 1970, 3v.
RICCI, Magda. O fim do Grão-Pará e o nascimento do Brasil: movimentos sociais, levantes e deserções no alvorecer do novo Império (1808-
1840). In: P RIORE, Mary Del; GOM ES, Flávio (orgs.). Os senhores dos rios: Amazônia, margens e história. Rio de Janeiro: Campus, 2003, v.
1, pp. 165-93.
__________. Assombrações de um padre regente: Diogo Antonio Feijó (1784-1843). 2. ed. Campinas: Unicamp, 2005.
SALLES, Vicente. Memorial da cabanagem: esboço do pensamento político revolucionário no Grão-Pará. Belém: Cejup, 1992.

Magda Ricci – Professora do Departamento de História da Universidade Federal do Pará (UFPA) e coordenadora do
Programa de Pós-Graduação em História Social da Amazônia (UFPA). Autora de inúmeros textos (livro, artigos e capítulos de
livros) sobre o período regencial e, desde 1995, pesquisa o movimento cabano na Amazônia.
13 DE JANEIRO DE 1825
MORTE DE FREI CANECA
Denis Bernardes



dia 13 de janeiro de 1825, o frade carmelita recifense, de cerca de 46
anos, redator do jornal Typhis Pernambucano, professor de Geometria
desde 1821, o frei Joaquim do Amor Divino Caneca, foi executado por
um pelotão militar ao sul da vila do Recife. Ativo participante da
Confederação do Equador e, mesmo, seu principal ideólogo, exercia
uma militância política que remontava à revolução republicana de
1817, pela qual passara cerca de quatro anos preso na Bahia.
Libertado, juntamente com a maioria dos seus companheiros de prisão,
como conseqüência da Revolução do Porto, voltou ao seu Recife natal
e à militância política. Inicialmente, atuou no contexto do
constitucionalismo lusobrasileiro, que desde setembro de 1820 vinha
desmontando todo o arcabouço jurídico e político do Antigo Regime
em Portugal e, por consequência, o poder absoluto da monarquia lusa e, após o 7 de setembro, dentro da
existência da nova entidade política: a nação brasileira, sob a forma de um Estado imperial.
Foi depois de sua saída da prisão,em 1821,que ele começou a publicar sua obra política, revelando
um pensamento certamente maturado nos anos de cárcere, mas também promovido pelas novas condições
da vida política permitiam ao cidadão ter existência pública e legal.
Sua condenação à morte, por sumário julgamento de uma comissão militar que acompanhara as tropas
imperiais encarregadas de combater a Confederação do Equador, estava decidida desde o dia 26 de julho
de 1824, quando D. Pedro I criou tal comissão e sUSP endeu a vigência do § 8 do art. 179, título 8, da
Constituição, ou seja, o artigo dedicado às garantias dos direitos civis e políticos dos cidadãos
brasileiros. Além disso, a prévia decisão da condenação de frei Caneca comprova-se, ainda, por
delegação de 31 de julho de 1824, dada pelo bispo do Rio de Janeiro e capelão-mor do imperador para a
degradação canônica das ordens sacras de todos os sacerdotes implicados na Confederação do Equador
e que fossem condenados à pena capital.
Foi justificada a condenação à morte de frei Caneca e de seus companheiros por ser “crime de lesa
majestade”. A execução de frei Caneca, pelo caráter dramático de que foi revestida, e também pela
personalidade inegavelmente heróica e fora do comum do frade carmelita, levou muitas vezes ao
esquecimento do fato de dezenas de outros seus companheiros de luta, em Pernambuco e fora do estado,
terem sido igualmente condenados à morte, selando com sangue a unidade territorial e também a política
do Antigo Regime, que foi consolidada no governo imperial do Rio de Janeiro.
Vale conhecer o protocolar registro do escrivão do crime certificando:
[...] que o réu frei Joaquim do Amor Divino Caneca foi conduzido ao lugar da forca das Cinco Pontas, e aí pelas nove horas da manhã
padeceu morte natural, em cumprimento da sentença da comissão militar, que o julgou, depois de ser desautorado das ordens na igreja
do Terço, na forma dos sagrados cânones; e sendo atado a uma das hastes da referida forca, foi fuzilado de ordem do exmo. senhor
general e mais membros da dita comissão, visto não poder ser enforcado pela desobediência dos carrascos [...].

Desses e de outros elementos presentes em todo o processo do qual resultou o martírio de frei
Caneca e de seus companheiros, quais análises são possíveis, renovando o já sabido e trazendo novos
elementos até aqui pouco considerados pela historiografia?
Em primeiro lugar, o número de condenações à morte, com um total de 31, sendo 22 efetivadas e 9
não executadas porque os réus conseguiram escapar do alcance da repressão. Nenhum movimento
anterior, em toda a história do império luso-brasileiro – incluindo a Revolução de 1817 – sofreu uma tão
sanguinária repressão. Em seguida, a amplitude geográfica das execuções: 10 em Pernambuco, 3 no Rio
de Janeiro, 4 no Icó e 5 em Fortaleza. Por que essa nação, que nascia de alguma maneira sob os
desdobramentos de um rico processo constitucional, marcava sua gênese com uma ritualística política
repressiva no melhor estilo do Antigo Regime e do absolutismo? A resposta deve ser buscada no longo
processo de lutas políticas que foram os desdobramentos mundiais da Revolução Francesa, com períodos
de afirmação de correntes mais liberais e antiabsolutistas, mas também de sua derrota e tentativas de
volta a muitas das práticas do Antigo Regime.
A luta dos que haviam se empenhado na Confederação do Equador, cujo programa essencial estava
na continuidade da experiência da revolução liberal iniciada no Porto em 1820, com seu projeto de
limitação do poder real, implantação da divisão dos poderes e garantias dos direitos individuais,
notadamente a liberdade de opinião, e não no separatismo republicano, deu-se em um momento de refluxo
mundial das conquistas liberais e de tentativas de restauração da antiga ordem. A Confederação do
Equador foi a ruptura armada que buscou manter as conquistas liberais iniciadas em 1820 e que D. Pedro
I negara com a dissolução da Assembleia Constituinte em 1823. A trama histórica que fez das então
províncias do Norte a área do constitucionalismo mais radical é bastante complexa e remonta a uma
experiência cujas raízes mergulham no passado colonial e adquirem novas formas a partir da instalação
da corte portuguesa no Rio de Janeiro. Mas, no plano mais imediato e próximo dos acontecimentos que
nos ocupam, envolveu, sobretudo, em uma de suas fases, o confronto entre o projeto federalista dos que
apoiavam a Junta de governo presidida por Gervásio Pires Ferreira (outubro de 1821 a setembro de
1822) e o ministério presidido por José Bonifácio, ainda antes do 7 de setembro. Luta que atingia
também os liberais cariocas, cuja perseguição pelo Andrada, enfraqueceu o contraponto local às
posteriores afirmações absolutistas de D. Pedro I e, das quais, o próprio José Bonifácio seria vítima,
juntamente com os que o apoiavam e seguiam. Afastado do poder em julho de 1823, mas tendo
contribuído para enfraquecer em todo o Brasil as forças liberais mais radicais, José Bonifácio foi
substituído por políticos portugueses e brasileiros não apenas formados nos quadros do Antigo Regime,
mas com ele identificados e profundamente hostis ao que no liberalismo clássico significava limitação do
poder real, de privilégios nobiliárquicos e da alta burocracia, bem como de afirmação de direitos tal
como fora consagrado na Declaração dos Direitos do Homem de 1789 e fora retomado nas bases da
Constituição Política da Nação Portuguesa, de março de 1821. Bases que continuavam a ser a referência
dos que se mantinham no campo das lutas por um pacto constitucional em que a soberania estivesse na
Nação e o imperador fosse, como tantas vezes reafirmou frei Caneca, “sua criatura”.
A sanguinária repressão à Confederação do Equador foi a revanche tardia e, de certa maneira
deslocada, contra as cortes luso-brasileiras, de D. Pedro I e de todos os que eram criaturas nostálgicas
do Antigo Regime. Foi esse o aspecto de contrarrevolução que o historiador José Honório Rodrigues
identificou, com razão, no processo da Independência do Brasil e da montagem do Estado nacional.
São essas lutas, cujo desfecho, na gênese da nação, resultou na derrota da Confederação do Equador
e na condenação à morte de frei Caneca e de dezenas de outros de seus participantes, que dão a dimensão
política e o sentido dessa data, o 13 de janeiro de 1825. Elas devem fazer desse dia não apenas uma data
pernambucana ou nordestina, mas uma data nacional, na longa, inacabada e dolorosa série de lutas dos
brasileiros por um Estado que, enfim, seja o da cidadania de todos e não o sempre renovado instrumento
dos interesses particulares e dos privilégios de poucos.

B IBLIOGRAFIA
BERNARDES, Denis Antônio de Mendonça. A ideia do pacto social e o constitucionalismo em frei Caneca. São Paulo: Instituto de
Estudos Avançados/USP, 1996. (Coleção Documentos, Série Teoria Política, 21).
BRANDÃO, Ulysses. A Confederação do Equador. Recife: Governo do Estado/ Instituto Arqueológico, Histórico e Geográfico
Pernambucano, 1924.
LEITE, Glacyra Lazzari. Pernambuco 1824: a Confederação do Equador. Recife: Massangana, 1989.
MARTINS, Fernando José. O suplício de frei Caneca. In: SILVA, Leonardo Dantas (org.). A república em Pernambuco. Recife: Fundação
Joaquim Nabuco/Massangana, 1990.
MELLO, Evaldo Cabral de. A outra Independência: o federalismo pernambucano de 1817 a 1824. São Paulo: Editora 34, 2004.

Denis Bernardes – Doutor em História Social pela Universidade de São Paulo (USP), é professor do Departamento de Serviço
Social da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).
17 DE JANEIRO DE 1976
MORTE DE MANOEL FIEL FILHO
Fábio Bezerra de Brito



a sexta-feira, dia 16 de janeiro de 1976, o operário alagoano Manoel Fiel
Filho, de 49 anos, foi detido por agentes do DOI/CODI (Destacamento de
Operações de Informações/Centro de Operações de Defesa Interna), órgão
oficial de repressão política do regime militar, nas dependências da
Metalúrgica Metal Arte, em São Paulo. Fiel Filho trabalhava no local há 19
anos e exercia a função de chefe do setor de prensas hidráulicas. Foi preso
sob a acusação de recepção e distribuição clandestina do jornal Voz
Operária do Partido Comunista Brasileiro (PCB) e escoltado ao modesto
sobrado onde residia na Vila Guarani, em São Paulo. Apesar da revista
realizada em sua residência não ter descoberto nada de incriminador,
levaram-no sem qualquer mandado judicial à sede do DOI/CODI. Prometeu à
esposa que retornaria logo, mas suas palavras não serviram de consolação.
Tereza Fiel percebera as armas ocultadas por jornais nas mãos dos agentes da repressão e buscou
desesperada a ajuda de conhecidos para libertar o marido, temendo por sua vida. Procurou a delegacia
de polícia para denunciar o sequestro, mas não conseguiu registrar a ocorrência.
Em uma das câmaras de tortura do DOI/CODI, Manoel Fiel Filho foi espancado com socos, pontapés e
golpes de cassetete. Posto no pau de arara, teria confessado o recebimento de três exemplares do jornal
comunista, porém seu suplício não cessara. As sevícias continuaram até sua morte por estrangulamento no
dia seguinte.
Dia 17, à noite, um carro estacionou em frente à casa da família Fiel Filho, e um suposto funcionário
do Hospital das Clínicas informou à sua mulher o suicídio do marido e a seguir atirou na calçada um saco
plástico contendo seu uniforme, documentos pessoais e um envelope timbrado do Exército com uma nota
de 10 cruzeiros. Na madrugada do domingo, um irmão do metalúrgico foi ao Instituto Médico Legal (IML)
e após muita insistência obteve a liberação do corpo, sob a condição de não fazer alarde sobre o caso,
manter o caixão fechado e realizar um enterro rápido. O velório iniciou-se às 6h30 e o enterro foi feito às
8h, mas antes o caixão tinha sido aberto por pressão dos familiares, deixando entrever um cadáver com
marcas evidentes de tortura.
A prisão e morte sob tortura de Fiel Filho receberam discretíssima cobertura da imprensa. Parecia,
nesse primeiro momento, que o silêncio compulsório a encobriria para sempre. Entretanto, ela entraria
para a história devido a uma outra: a do jornalista Vladimir Herzog, ocorrida há menos de três meses, em
23 de outubro de 1975, sob circunstâncias semelhantes e no mesmo local. A junção dessas mortes –
ambas apresentadas à opinião pública como suicídios por enforcamento – teve importantes
consequências para o processo de abertura política do regime militar, transformando-se a dolorosa
coincidência em marco do início do fim de uma era de repressão e violação dos direitos humanos
plenamente instaurada a partir da decretação do AI-5 (Ato Institucional n.5) em 13 de dezembro de 1968.
De acordo com a contabilidade apresentada pelo jornalista Elio Gaspari, Herzog e Fiel Filho teriam
sido o 38o. e o 39o. “suicidas do regime militar”. Fora as desacreditadas versões dos inquéritos oficiais,
que atestaram o suicídio em ambos os casos, há versões vindas de setores militares sustentando a tese do
“acidente de trabalho” para explicar os “suicídios”. Teriam sido desfechos trágicos, mas não
deliberados, da tortura praticada nos porões da ditadura. As interpretações mais convincentes, contudo,
convergem na hipótese de que se não os dois “suicídios”, pelo menos um deles, o de Manoel Fiel Filho,
teve intenção política, refletindo o confronto de posições entre os militares da “linha-dura”, contrários à
abertura política, e os militares “moderados”, pró-abertura, tendo estes à frente o presidente Ernesto
Geisel (1974-1978).
A política de abertura proposta pelo presidente Geisel, que teve seu principal artífice no chefe do
Gabinete Civil, Golbery do Couto e Silva, incluía um conjunto de medidas liberalizantes e a elas se
opuseram os núcleos militares que defendiam o continuísmo da ditadura. Anticomunistas radicais, os
“duros” predominavam nos órgãos de repressão e de informação, como os DOI-CODI, e perfilavamse ao
lado do ministro do Exército de Geisel, general Silvio Frota.
O presidente Geisel equilibrava-se entre concessões à oposição consentida, em particular ao MDB, e
em “dar pasto às feras”, como costumava referir-se aos espaços cedidos à atuação da “linha-dura”. Esta,
porém, continuava refratária à abertura, elaborando estratagemas para desestabilizá-la. A morte de
presos políticos tornou-se nesse contexto uma das maneiras mais cruéis usadas pelo mecanismo de
repressão para incitar manifestações desenfreadas da oposição civil e criar o clima de insegurança e
crise social justificador da escalada autoritária que conduziria a “linha-dura” ao centro do poder
político. Embora admitisse a tortura, a presidência da República a queria sob controle e circunscrita a
casos específicos. A exacerbação deliberada da tortura nos calabouços em face da abertura era, portanto,
ato de indisciplina militar na medida em que significava flagrante contestação à autoridade de Geisel,
credora desse processo. Os episódios da morte de Vladimir Herzog e de Manoel Fiel Filho ilustram de
forma trágica o grau a que chegou a contenda existente no interior das Forças Armadas.
Vlado, como era conhecido o diretor de jornalismo da TV Cultura e professor da Universidade de
São Paulo, compareceu às oito horas do dia 25 de outubro de 1975 à sede do DOI/CODI, acatando
intimação feita no dia anterior para prestar esclarecimentos sobre suas ligações com o PCB. No
interrogatório, teria confessado militância no partido e a promoção de reuniões e ações clandestinas em
benefício deste. Por volta das dez horas da noite, nota oficial do comando do II Exército informou seu
suicídio, cometido com o cinto do macacão amarrado à grade inferior de sua cela, a uma distância de
1,63 metros do chão. Entretanto, os testemunhos das torturas a ele infringidas, o fato de que o macacão de
presidiário do DOI/CODI não tinha cinto e as condições físicas em que o “suicídio” se dera desmentiram
eloquentemente a versão oficial. Houve grande comoção social e repercussão na imprensa.
A reação da sociedade civil à morte de Vlado culminou na realização em 30 de outubro de tocante
ato ecumênico na Catedral da Sé assistido por cerca de dez mil pessoas que, vencendo o medo e a
intimidação da vigilância policial, explicitaram sua indignação ante as arbitrariedades cometidas pelos
órgãos de repressão, bem como a defesa da continuidade da abertura política.
Ernesto Geisel desconfiou da relação entre o “suicídio” de uma figura pública nos porões do
DOI/CODI e as posições de desestabilização de seu governo e reagiu severamente com demissão e

exoneração dos responsáveis pelas mortes no DOI/CODI.


Manoel Fiel Filho, uma pessoa comum, um operário metalúrgico, muito provavelmente teria sido
mais uma das cerca de trezentas vítimas fatais do mecanismo repressivo do regime militar que
permaneceria no anonimato se sua morte não tivesse sido o elemento determinante, em associação com a
de Herzog, da demissão do general D’Ávila Mello, o início do enquadramento dos torturadores da
“linha-dura” e passo decisivo para a sobrevivência e continuidade do processo de abertura política. A
morte de Fiel Filho marcou, nesse sentido, o prenúncio do fim de uma era.

B IBLIOGRAFIA
ARNS, P AULO EVARISTO. Brasil: nunca mais – um relato para a história. Petrópolis: Vozes, 1985.
D’ARAÚJO, M. C.; CASTRO, C. Ernesto Geisel. Rio de Janeiro: FGV, 1997.
DOSSIÊ DOS M ORTOS E DESAPARECIDOS POLÍTICOS A PARTIR DE 1964. Recife: Companhia Editora de Pernambuco, 1995.
GASPARI, E. A Ditadura encurralada. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.
SOARES, G. A. D.; D’ARAÚJO, M. C.; CASTRO, C. A volta aos quartéis: a memória militar sobre a abertura. Rio de Janeiro: Relume-
Dumará, 1995.

Fábio Bezerra de Brito – Professor de História, mestre em História Social pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências
Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP). Foi pesquisador do NEHO-USP e membro da Comissão de Direitos
Humanos da USP (2002-2004).
20 DE JANEIRO DE 1917
MÚSICA POPULAR BRASILEIRA
José Geraldo V. de Moraes



historiografia da música popular brasileira considera a gravação da canção
“Pelo telefone”, de autoria de Ernesto dos Santos, o Donga (1889/1974 – Rio
de Janeiro), realizada em janeiro de 1917, o primeiro registro fonográfico de
um samba. O lançamento do disco, de acordo com o pesquisador Flávio Silva,
teria ocorrido por volta de 20 de janeiro daquele ano e fez sucesso no
carnaval no mês seguinte, consagrando esse evento como um marco de nossa
história cultural. Porém, a existência dos registros fonográficos no país é
anterior e mais diversificada que esse único evento. Já em 1898, o empresário
Frederico Figner, proprietário da Casa Edison, após período de atividade
exclusiva de importação e comercialização de fonógrafos e cilindros, começou
a gravar e comercializar no Brasil seus próprios cilindros de cera. Contendo
sons, discursos e, sobretudo músicas populares, esses cilindros, tocados
publicamente em fonógrafos, tinham uma aura de magia e criavam extraordinária curiosidade na
população. Embora o aspecto mágico tenha gradativamente se perdido, o aparecimento no início do
século XX de registros sonoros em suporte na forma de disco, simplificou, consolidou e ampliou esse
grande interesse e mercado. Foi nesse contexto que se gravou o lundu de Xisto Bahia “Isto é bom”,
também interpretado por Baiano, considerado o primeiro registro fonográfico gravado em disco no
Brasil. A gravação da matriz original ocorreu em janeiro de 1902, no Rio de Janeiro, sob
responsabilidade da Casa Edison.
Apesar dessa trajetória, há uma série de fatores apresentados pela historiografia para justificar a
seleção de “Pelo telefone” como um marco da moderna música popular urbana. O primeiro deles está
relacionado com a intenção propositada do autor de registrá-la como um samba e a subsequente
indicação do gênero no selo do disco como “samba carnavalesco”, fato raro no início do século XX, já
que o samba urbano ainda não era um gênero muito bem definido e pouco atraente do ponto de vista
comercial.
Além disso, a atitude de Donga, ao registrar a partitura da canção na Biblioteca Nacional,
ultrapassava os tradicionais limites da criação coletiva e anônima da música popular da época. Ela já
revelava uma postura de “compositor moderno”, que identifica a autoria individual para assegurar seus
direitos sobre a composição e obter prestígio pessoal e retorno financeiro. A partitura manuscrita para
piano de “Pelo telefone” foi registrada na Biblioteca Nacional em 27 de novembro de 1916, e a primeira
editada para divulgação comercial surgiu em 16 de dezembro de 1916. Em janeiro de 1917, foram
realizadas três gravações pela Casa Edison, baseadas nestes registros públicos. A primeira e a terceira
foram apenas instrumentais, realizadas, respectivamente, pela Banda Odeon e a Banda do Primeiro
Batalhão da Polícia da Bahia. A segunda gravação, interpretada por Baiano e acompanhada somente de
cavaquinho e violão, diferentemente das outras duas, atingiu grande repercussão no carnaval daquele ano.
Esse seria outro elemento importante que críticos e historiadores da música popular destacam: o sucesso
de público que a canção obteve, transformou-a em uma atraente mercadoria comercial.
Desse modo, na canção “Pelo telefone” estariam decantados os elementos da moderna música
popular que somente apareceriam de modo evidente na virada dos anos 1920/1930: o gênero samba
urbano, composto por autor conhecido, gravado em fonogramas, com objetivo comercial e que obtém
divulgação “de massa”. Portanto, essa canção teria dado início a uma nova fase da produção musical no
país e, por isso, tornou-se uma referência histórica.
Todavia, esse processo foi um pouco mais complexo, repleto de polêmicas entre os contemporâneos
dos eventos e de controvérsias na historiografia. A autoria do samba, por exemplo, foi questionada por
inúmeros compositores contemporâneos de Donga. Eles alegavam que a parte central da canção teria
surgido nos tradicionais improvisos em reuniões na Casa da Tia Ciata (tia baiana, cuja casa era núcleo
de cordões carnavalescos, festas, encontros de partido-alto etc.). Desse modo, Donga teria se apropriado
de uma criação coletiva, anônima, registrando-a como sendo apenas dele. Aliás, essa era uma prática
muito comum na época, em que, segundo o compositor Sinhô (1888/1930 – Rio de Janeiro), as
composições eram “como passarinho; de quem pegar primeiro...”. O refrão da canção também foi tomado
de conhecida canção folclórica (“Olha a rolinha/ Sinhô, sinhô/ Se embaraçou/ Sinhô, sinhô/ Caiu no laço/
Sinhô, sinhô/ Do nosso amor...”). Parece que motivação central da composição foi uma crítica bem-
humorada desse grupo a um chefe da polícia carioca que combatia os jogos de azar na cidade: por isso a
letra original dizia: “O chefe da polícia/ Pelo telefone/ Mandou avisar/ Que na Carioca/ Tem uma roleta/
Para se jogar...”. Porém, ao registrar a letra, Donga subtraiu a crítica à polícia e mudou para “O chefe da
folia”. Na verdade, esse autêntico quebra-cabeça melódico e poético teria sido organizado e recomposto
pelo jornalista Maurício de Almeida (mais conhecido como Peru dos Pés Frios), que ganhou coautoria da
composição.
Já a condição de “primeiro samba gravado” é questionada por parte da historiografia. No início do
século XX, antes de “Pelo telefone”, inúmeras outras canções foram gravadas com a designação de
“samba” no título ou no selo do disco. No entanto, para muitos analistas – e também para compositores
da época – nenhuma dessas canções poderia ser identificada como samba, inclusive “Pelo telefone”,
estando todas elas próximas ainda do maXIXe. O samba urbano moderno amadureceria somente nos anos
1930, sintetizado pela chamada Turma do Estácio (de Sá), fundadores da primeira “escola do samba”
(Deixa Falar) e, sobretudo, por Noel Rosa. Essa nova forma de organizar a poesia, melodia e ritmo, foi
amplamente divulgada pela indústria radiofônica, que se expandiu extraordinariamente nessa década,
relativizando os sucessos fonográficos anteriores, como “Pelo telefone”.
Como se percebe, o processo de composição e compreensão analítica de “Pelo telefone” foi bastante
complicado e controverso. Toda essa situação deu-lhe uma presença bastante ambígua na História da
cultura e da música popular no Brasil, mas ao mesmo tempo também colaborou para reforçar sua
condição de importante marco de nossa História.

B IBLIOGRAFIA
FRANCESCHI, Humberto M. A Casa Edison e seu tempo.Rio de Janeiro: Sarapuí/IMS, 2002.
MORAES, José Geraldo Vinci de. Cidade e cultura urbana na Primeira República. São Paulo: Atual, 1994.
SILVA, Flávio. Pelo Telefone, e a história do samba. Revista Cultura, Brasília, ano 8, n. 20, jan./jun. 1978.
TINHORÃO, José Ramos. História social da música popular brasileira. São Paulo: Editora 34, 1998.

B ISCOGRAFIA BÁSICA
“Pelo telefone”. Gravação: Baiano e banda Odeon, Casa Edison, 1917. Disponível no CD Carnaval, sua história, sua glória – v. 17,
Revivendo, 1999.
“Pelo telefone”. Regional do Donga e Zé da Zilda. Odeon (gravação de 1938). Disponível no LP História da MPB – Gêneros, Abril Cultural,
1982.
“Isto é bom”. Gravação Eduardo da Neves História da Odeon. CD, Odeon 100 Anos, EMI, v. 1.

José Geraldo V. de Moraes – Doutor pela Universidade de São Paulo (USP), é professor de Metodologia da História na
mesma universidade.
25 DE JANEIRO DE 1654
FIM DO DOMÍNIO HOLANDÊS
Regina Célia Gonçalves



o dia 25 de janeiro de 1654, ao assinar a capitulação da Taborda, em
Recife, os representantes da Companhia das Índias Ocidentais (W.I.C.)
reconheciam a derrota militar e concordavam em entregar às forças
lusobrasileiras as últimas praças fortes ainda em seu poder. Era o fim do
domínio holandês. Tratava-se do desfecho de um período de ocupações
cujas primeiras tentativas remontavam a 1624, em Salvador, na Bahia. Um
desfecho, pelo menos no território colonial, uma vez que, na Europa, as
negociações entre Portugal e as Províncias Unidas perdurariam até 1669. A
União das Coroas Ibéricas, iniciada em 1580, pode ser compreendida como
o elemento detonador das tentativas dos negociantes das Províncias Unidas
dos Países Baixos por controlar, por um lado, as zonas produtoras de açúcar
de Portugal no Brasil e, por outro, as áreas fornecedoras de escravos negros
na África, sem os quais a agromanufatura açucareira não se sustentava. As relações entre aquele Reino e
a República das Províncias Unidas deterioraram-se quando a dinastia de Habsburgo passou a ocupar o
trono lusitano. Os neerlandeses do norte, em sua luta de independência contra a Espanha, iniciada em
1566, e que se prolongou até 1609, haviam acabado de se separar das Províncias do Sul (1579), que se
mantiveram fiéis a Filipe II. Este, depois de ocupar o trono português, proibiu os negócios entre o
mercado lusitano e os comerciantes das Províncias do Norte, especialmente de Amsterdã, que, até então,
se ocupavam de grande parte da refinação e da distribuição do açúcar do Brasil na Europa.
A interrupção desse fluxo comercial levaria os negociantes e financistas da República a fundarem a
Companhia das Índias Ocidentais (1621) com o objetivo de ocupar posições coloniais na América e na
África. O ponto mais frágil do Império Habsburgo (tão imenso que, nele, “o sol nunca se punha”) era
justamente as colônias que haviam sido incorporadas após a ocupação de Portugal. Assim, Brasil
(especificamente a área açucareira) e Angola (fornecedora de escravos) tornaram-se os alvos
privilegiados dos ataques das forças da W.I.C. Lutava-se não só no Atlântico, mas também no Oriente. O
historiador Charles Boxer considera que esse conflito, por produtos e mercados, entre o Império
Habsburgo e as Províncias Unidas foi tão generalizado que pode ser considerado, de fato, a Primeira
Guerra Mundial, pois atingiu os quatro cantos do mundo.
A Campanha da Bahia resultou em fracasso, mas, em 1630, a W.I.C. direcionou todos os seus
esforços para a conquista da área nobre da produção de açúcar no Brasil, as chamadas Capitanias do
Norte. Juntas, as capitanias de Pernambuco, Paraíba e Rio Grande possuíam mais de 140 engenhos, que
produziam cerca de 700 mil arrobas de açúcar por ano. Entre 1630 e 1654, esse território permaneceu
sob o domínio da W.I.C. constituindo o período da história do Brasil conhecido como o domínio
holandês.
Tema caro ao imaginário popular e também às elites, a ocupação holandesa tem-se constituído em
objeto de permanente investigação por parte dos historiadores locais. Para a historiografia nativista do
século XIX, ele teria marcado o surgimento de uma identidade brasileira, na medida em que as três etnias
que originaram esse povo (branca, indígena e negra) estiveram unidas na luta contra o “invasor
estrangeiro”. Essa perspectiva realça a participação dos “homens da terra”, que, apesar do descaso da
Coroa portuguesa (que resgatara sua autonomia em relação à Espanha em 1640, mas mantivera-se
oficialmente afastada do conflito na colônia), teriam conseguido, “às custas de seu sangue, vidas e
fazendas”, expulsar o invasor e devolver o território ao legítimo soberano, o rei de Portugal. O soberano,
assim, tornara-se devedor de seus súditos. Destacam-se, nessa abordagem, as ações das lideranças e os
feitos militares, especialmente da última etapa da guerra, a chamada Insurreição Pernambucana, que
eclodiu em 1645 e que seria vitoriosa em 1654. Segundo essa visão, a luta contra os holandeses teria
moldado um povo marcado pelo sentido de liberdade e de autonomia que reapareceria posteriormente em
outros momentos da história da região, a exemplo da Revolta dos Mascates (1710), da Revolução de
1817 e da Confederação do Equador (1824).
Segundo uma outra perspectiva, há que ressaltar as vantagens do domínio holandês, especialmente
durante o governo de João Maurício de Nassau (1637-1644). Este nobre a serviço da W.I.C., cercado por
uma comitiva de artistas e sábios, realizou um esforço intensivo para conhecer e classificar a terra e as
gentes que a habitavam, promoveu o desenvolvimento urbano e o embelezamento do Recife, procurou
administrar seguindo o princípio da liberdade religiosa, ouvindo, inclusive, os luso-brasileiros
(representados nas Câmaras dos Escabinos e nas Assembleias Gerais) e os brasilianos (os povos
indígenas aliados), entre outras medidas. Para alguns estudiosos, defendendo uma opinião de grande
parte do senso comum e idealizando o “tempo dos flamengos”, o “Brasil seria outro se tivesse se mantido
sob o domínio dos holandeses”.
Atualmente, a historiografia tem se debruçado sobre o tema a partir de novas abordagens. Em
primeiro lugar, compreende-se a ocupação holandesa de colônias de Portugal e Espanha no Ocidente e no
Oriente como parte da disputa entre vários povos europeus pelo controle do comércio de açúcar e de
escravos. Destacam-se também as conexões entre os espaços coloniais, notadamente no Atlântico Sul,
tais como as que vinculavam diretamente a produção açucareira nas capitanias do norte e o negócio do
comércio de escravos em Angola.
Do ponto de vista interno à colônia, além dos estudos sobre a produção açucareira e os impactos das
diferentes conjunturas sobre a sua organização, as pesquisas também têm se dedicado a outros aspectos.
O papel das populações indígenas na guerra, seja ao lado das forças luso-brasileiras, seja ao lado da
W.I.C., tem sido objeto de vários trabalhos que procuram entender a lógica que alimentava tais alianças,
bem como o impacto do confronto entre os saberes militares europeu e nativo. Ainda com relação à
história do conflito em si, discutem-se as estratégias da guerra lenta e da de bloqueio, bem como as da
guerrilha adotada pelas forças locais a partir da incorporação das táticas de combate indígenas.
No campo da História social e política, há estudos sobre as ações e as divisões internas das elites
locais, bem como sobre os mecanismos pelos quais as mesmas se perpetuaram no poder após a derrota
da W.I.C. Ainda no campo da História política, os estudos acerca das negociações diplomáticas que
conduziram ao acordo de 1661 abriram horizontes para o entendimento das relações entre as metrópoles
europeias. No campo da História cultural, há um interesse crescente pela produção dos sábios e artistas
de Nassau.
Enfim, não apenas a documentação, mas também a produção historiográfica sobre o tema, têm sido
revisitadas por historiadores contemporâneos em busca de caminhos que nos levem para além da
capitulação da Taborda.

B IBLIOGRAFIA
BOXER, Charles R. Os holandeses no Brasil (1624-1654). Trad. Olivério M. de Oliveira Pinto. Recife: CEPE, 2004.
MELLO, Evaldo Cabral de. Olinda restaurada: guerra e açúcar no Nordeste, 1630-1654. Rio de Janeiro/São Paulo: Forense
Universitária/EdUSP, 1975.
_______. Rubro Veio. São Paulo: Topbooks, 1997.
MELLO, José Antônio Gonsalves de. Tempo dos flamengos: influência da ocupação holandesa na vida e na cultura do Norte do Brasil. 4. ed.
São Paulo: Topbooks, s.d.
MENEZES, Mozart Vergetti; GONÇALVES, Regina Célia. O domínio holandês no Brasil. 1630-1654. São Paulo: FTD, 2002. (Para Conhecer
Melhor).

Regina Célia Gonçalves – Historiadora, mestre em Ciências Sociais pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB) e doutora
em História pela Universidade de São Paulo (USP). É professora do Departamento de História da UFPB, coordenadora do
Laboratório Didático e vice-coordenadora do Programa de Pós-Graduação em História da UFPB.
25 DE JANEIRO DE 1835
LEVANTE DOS MALÊS EM SALVADOR
João José Reis



o dia 25 de janeiro de 1835 ocorreu na cidade de Salvador uma das mais
significativas revoltas de escravos nas Américas, sob liderança de
seguidores do islamismo, que ficou conhecida como Levante dos Malês.
O Brasil foi a única sociedade escravista nas Américas onde o
islamismo constituiu um importante fator de resistência coletiva dos
escravos.A maioria dos africanos muçulmanos chegou ao Brasil durante a
primeira metade do século XIX. Eles eram, na maior parte, os hausás e os de
língua iorubá (estes chamados nagôs na Bahia) e,em menor quantidade, os
grupos bornos, nupes (aqui chamados tapas) e fulanis.Ao lado de africanos
não muçulmanos,que aliás eram maioria,os adeptos de Alá foram trazidos
para trabalhar principalmente nos engenhos de açúcar da Bahia e na sua
capital, Salvador.
A Bahia praticamente monopolizou o comércio brasileiro dos portos do golfo do Benin por onde a
maior parte dos muçulmanos embarcava. Foram pelo menos 354.100 escravos vindos dessa região entre
1791 e 1850, cerca de 10% dos quais muçulmanos. Na sua maioria eram vítimas de conflitos dentro do
território da atual Nigéria, principalmente das sucessivas revoltas que levaram à queda do Reino de Oyo
e do jihad islâmico iniciado em 1804 no país haussá, sob a liderança de Usuman Dan Fodio e outros
pregadores da etnia fulani. No Brasil, os muçulmanos ficaram conhecidos como malês (do iorubá imale),
devido ao maior número de nagôs na comunidade muçulmana nos anos de 1820 e 1830. Pelo menos duas
rebeliões e duas importantes conspirações foram, comprovadamente, arquitetadas pelos muçulmanos.
Mas é possível que eles também estivessem envolvidos em outras rebeliões. Houve cerca de trinta
revoltas e conspirações escravas na Bahia durante a primeira metade do século XIX.
Uma ampla conspiração haussá foi descoberta pelo governo colonial em maio de 1807. Concebida
sob uma complexa hierarquia de líderes, os rebeldes planejaram cercar Salvador e impedir a entrada de
alimentos, envenenar suas fontes e conquistar a cidade sitiada e faminta.Depois avançar sobre
Pernambuco para libertar muçulmanos ali escravizados, e em seguida criar um reino no interior do
Nordeste. Em Salvador, igrejas católicas seriam atacadas e as imagens dos santos queimadas em praça
pública; os brancos seriam massacrados e negros crioulos (nascidos no Brasil) e mulatos seriam
escravizados. Nada disso pôde ser implementado devido à descoberta do plano rebelde. Os envolvidos,
todos africanos, foram punidos com até mil açoites, prisão perpétua com trabalho, degredo para Angola,
entre outras penas. Os haussás voltariam a atacar em 1809 e 1814. Esta última foi uma das mais sérias
revoltas escravas da Bahia no período.
Em 1814, pescadores escravos revoltaram-se com ajuda de escravos fugitivos e libertos. Mais de
duzentos homens atearam fogo nas redes e depósitos de pesca, atacaram a vila de Itapoã e tentaram
chegar ao Recôncavo, onde estava concentrada a população escrava dos engenhos. Os rebeldes mataram
mais de cinquenta pessoas antes de serem dominados pelos soldados numa violenta batalha. Suas
lideranças eram, de novo, haussás, embora houvesse dentre os levantados alguns tapas, bornos e nagôs. A
contribuição muçulmana para esse episódio é confirmada pela apreensão de documentos escritos em
árabe. Três meses depois, os haussás estavam novamente conspirando em Salvador e nas comunidades
africanas do entorno da cidade. Denunciou-se que, além dos haussás, outros grupos étnicos africanos, e
mesmo indígenas, teriam participado da conspiração, mas a trama foi descoberta pelo governo.
Dez anos depois ocorreu uma grande revolta liderada por muçulmanos, conhecida por Levante dos
Malês. Em 25 de janeiro de 1835, cerca de seiscentos escravos de Salvador, com ajuda de alguns vindos
dos engenhos e vilas do Recôncavo, lutaram aproximadamente durante quatro horas nas ruas da capital
baiana. O objetivo principal dos revoltosos era o fim da escravidão dos africanos, não sendo claro se o
benefício seria estendido aos escravos nascidos no Brasil. Não estranharia que não fosse, pois africanos
e afro-brasileiros não se entendiam bem politicamente, e uma prova disso é que os dois grupos não se
juntavam nas rebeliões do período, que foram todas exclusivamente africanas.
Pelo menos setenta revoltosos morreram no confronto – contra apenas nove mortos do lado oposto. O
movimento foi liderado por mestres muçulmanos, na sua maioria nagôs, os alufás.
Alguns estudiosos sugerem que esse foi um movimento de continuação, na Bahia, do jihad iniciada
por Usuman Dan Fodio, seguindo uma interpretação que enfatiza a continuidade no Brasil da luta na
África e diminui na mesma proporção a influência do contexto baiano. Embora a ideologia da guerra
santa possa ter inspirado alguns dos líderes, a rebelião não se caracterizou como um jihad e muito menos
foi uma luta que desse continuidade ao jihad liderado pelos fulanis em território haussá. Diferentemente
da conspiração de 1807, nada indica que tivesse ocorrido violenta oposição ao catolicismo e seus
símbolos, talvez porque o islamismo professado pelos nagôs fosse menos ortodoxo, mais negociador.
Nem por isso passivo e pacífico.
O levante parece ter acontecido em meio a um forte movimento de conversão ao islamismo,
sobretudo entre os nagôs, que era o grupo étnico numericamente mais representativo da população
africana na Bahia em 1835, quase 30% dela. Foi planejado para começar no final do Ramadã,
provavelmente depois da Festa de Lailat al-Qadr, a Noite da Glória. Os rebeldes foram para as ruas
vestidos com abadás (espécie de túnica) brancos, roupa tipicamente muçulmana, e portando amuletos
protetores. Eles em geral reproduziam passagens do Corão sobre folhas de papel que eram colocadas em
pequenas bolsas de couro ou pano penduradas no pescoço.
Muitos dos que se levantaram em 1835 não eram muçulmanos, mas apenas nagôs adeptos da religião
dos orixás. Assim, o movimento adquiriu uma dimensão étnica inconfundível. Foi um levante nagô,
embora dele também participassem em número reduzido membros de outras etnias, como haussás, tapas e
bornos. Não quer isso dizer que nele faltasse uma importante dimensão religiosa, mas esta se confundia
com o elemento étnico. Não esqueçamos que malê é um termo de origem nagô-iorubá, que os
conspiradores formavam, segundo as autoridades, uma “sociedade malê”, portanto uma irmandade de
nagôs islamizados, especificamente. Os muçulmanos haussás, por exemplo, sentiam-se ofendidos em
serem chamados de malês, pois eles se definiam como mussulmis e se consideravam melhores
muçulmanos do que os iorubás. Essa teria sido uma das razões por que não estiveram presentes em maior
número no movimento, eles que representavam um daqueles grupos étnicos mais identificados com a
religião de Alá. Indício da quase ausência haussá é que apenas três deles foram sentenciados, dos 31
julgados, e apenas um confessou ter participado do levante.
A repressão que se seguiu à derrota dos rebeldes dilacerou e dispersou a comunidade muçulmana.
Quatro africanos foram executados, embora nenhum fosse de fato líder para receber tal punição,
conforme rezava a lei. Centenas de africanos receberam penas de açoite e prisão. Um grande número de
libertos foi deportado de volta à África, e muitos escravos foram vendidos para outras províncias do
Brasil. Em qualquer lugar do país, e principalmente na Bahia, os negros encontrados com escritos
muçulmanos passaram a ser imediatamente detidos.A rebelião malê teve uma grande repercussão em todo
o país e chegou a ser noticiada na imprensa norte-americana e inglesa.Leis locais e nacionais foram
criadas para aumentar o controle dos escravos, incluindo a pena de morte sem possibilidade de recurso
para escravos acusados de matar senhores, capatazes ou membros de suas famílias; e a discussão para
abolir definitivamente o tráfico transatlântico de escravos recrudesceu sob o argumento de defesa da
ordem pública.

B IBLIOGRAFIA
REIS, João José. Rebelião escrava no Brasil: a história do levante dos malês em 1835. São Paulo: Companhia das Letras, 2003.
______; SILVA, Eduardo. Negociação e conflito: resistência negra no Brasil escravista. São Paulo: Companhia das Letras, 1989.
SILVA, Alberto da Costa e . Um rio chamado Atlântico. Rio de Janeiro: Nova Fronteira/UFRJ, 2003.

João José Reis – Professor titular de História na Universidade Federal da Bahia (UFBA). Autor de diversos trabalhos sobre
escravidão no Brasil.
28 DE JANEIRO DE 1808
ABERTURA DOS PORTOS
João Paulo Pimenta



Carta Régia de 28 de janeiro de 1808 decretou a abertura dos portos do Brasil
ao comércio internacional. A assinatura do decreto se inseriu em uma
conjuntura internacional complexa que envolveu potências europeias e as
áreas coloniais americanas.
A invasão de Portugal pelos exércitos franceses, em 1807, deu início a
uma fase de fundamentais definições para os destinos do Império português e,
consequentemente, do Brasil. Impossibilitado de resistir ao invasor, o príncipe
regente D. João, com seus familiares, ministros e mais alguns milhares de
pessoas, abandonou Lisboa em 29 de novembro daquele ano e rumou para a
América. Acreditava-se que, longe do turbilhão europeu e com sua nova sede
instalada no Rio de Janeiro, a Corte de D. João teria condições de reorganizar
e fortalecer o Império.
Nos anos imediatamente anteriores, o cenário político europeu tornara-se dramático. Se a França
conquistara notáveis vitórias militares em terra, nos mares o poderio britânico ainda era inabalável.
Tentando mudar essa situação, Napoleão Bonaparte decretara, em 1806, a proibição de desembarque, em
quaisquer portos continentais europeus, de navios a serviço de países que não fossem aliados da França.
A medida afetava tanto o Império britânico quanto o Império português. Por um lado, fazia com que a
Grã-Bretanha fosse, agora, praticamente a única alternativa de escoamento da produção e comércio
portugueses, já que a guerra na Europa estrangulara suas tradicionais vias continentais. Por outro lado, as
grandes dificuldades que a Grã-Bretanha encontrava para comercializar com Portugal tinham uma saída
quase que natural nos territórios coloniais, cujos mercados acenavam com possibilidades privilegiadas
de fluxo dos produtos britânicos. Finalmente, o bloqueio continental impedia que os gêneros luso-
americanos aportassem em Portugal – para onde tradicionalmente seguiam –, acumulando-se nos portos
do Brasil sem escoamento.
Assim, compreende-se que a arriscada travessia atlântica da Corte portuguesa tenha sido feita sob
proteção da armada britânica. Compreende-se, também, que pouco depois de aportar de passagem por
Salvador (22 de janeiro de 1808) a caminho do Rio de Janeiro, o príncipe regente tenha decretado a
abertura dos portos do Brasil ao comércio internacional (Carta Régia de 28 de janeiro de 1808), o que,
na prática, beneficiava sobretudo o comércio britânico. As duas medidas atendiam a necessidades e
interesses de ambos os impérios, posicionando-os em uma estreita aliança política, econômica e militar.
Até aquele momento, o comércio do Brasil fora sujeito ao controle metropolitano português, que
visava dele obter lucros que justificassem a empresa colonial montada a partir do século XVI. Submetido
permanentemente às provações a ele impostas pela corriqueira prática do contrabando, o monopólio fora
antes um projeto, um ideal metropolitano, do que uma realidade absoluta. Nessa condição, era perseguido
pela administração lisboeta com variável tenacidade e eficácia, a depender das circunstâncias históricas
em que se encontrasse o Império. No início do século XIX, essas circunstâncias mostravam a
incapacidade das grandes reformas setecentistas frutificarem em termos de uma melhor inserção de
Portugal e seus domínios na competição internacional que, desde longo tempo, lhes relegara uma posição
secundária. Por isso, as estruturas da colonização portuguesa, mesmo mantidas em pé em 1808,
necessitavam urgente revisão.
Com a transferência da Corte para o Brasil, ficava clara a caducidade da relação colônia–metrópole
que articulara, durante tanto tempo, Brasil e Portugal (o reconhecimento definitivo dessa caducidade
viria somente em 1815, com a elevação do Brasil à condição de Reino, unido a Portugal e Algarve).
Como parte dessa ampla e profunda revisão, a transformação do Brasil em sede da monarquia e as
circunstâncias europeias impunham a inadequação também do regime de monopólio, formalmente extinto
com a abertura dos portos em 28 de janeiro de 1808.
É costume conceber-se essa nova fase da história do Império português como caracterizada pelo
início de um processo no qual, supostamente, o Brasil começava a deixar de ser uma colônia de Portugal
para se tornar uma “colônia informal” da Grã-Bretanha. Nessa ótica, os acontecimentos de 1808
apontariam para uma simples “transferência de dominação”, iniciada já desde os tratados comerciais
anglo-portugueses de 1654 e de 1703 e os dividendos ingleses da exploração aurífera da América
portuguesa, e que culminaria com a Independência de 1822.
Essa é uma versão muito simplista da história e não dá conta de sua devida complexidade. Não se
pode negar que a abertura dos portos do Brasil ao comércio estrangeiro atendia aos interesses britânicos
– que pela mesma época também conseguiriam permissão para comerciar livremente nos portos
espanhóis de Montevidéu e Buenos Aires e, em seguida, em 1810, novos tratados com a Corte portuguesa
– e que ela reafirmava a aliança político-econômica estabelecida entre Portugal e Grã-Bretanha contra a
França de Bonaparte. No entanto, há que se salientar que, ao contrário do que se costuma afirmar, durante
a segunda metade do século XVII e todo o século XVIII, Portugal manteve uma política externa formalmente
neutra, sem aliar-se incondicionalmente à Inglaterra a despeito de algumas aproximações circunstanciais
com a Corte londrina. Essa aliança só seria definida às vésperas da partida da Corte portuguesa para o
Brasil, quando o gabinete joanino finalmente avaliou que a neutralidade se tornara insustentável, e que o
Império português dependia do apoio britânico para sobreviver.
Além disso, não se pode equivaler o que representara, para a América, a dominação portuguesa e o
que representaria, a partir daí, a influência britânica. Até finais do século XVIII, a Grã-Bretanha era uma
força política que competia, no cenário mundial, na mesma condição que outras, como a França e a
Holanda. A sua condição de potência hegemônica mundial começou a se delinear com a Revolução
Industrial, mas na primeira década do século XIX ela ainda não estava plenamente consolidada. Nos
novos padrões mundiais que começavam a ser estabelecidos por um sistema capitalista no qual a fonte
fundamental de enriquecimento dos Estados se encontrava não mais apenas na esfera da circulação, mas
sobretudo na da produção de bens, o Império britânico construía sua força com base em mecanismos bem
mais complexos do que a tradicional colonização de tipo mercantilista sobre a qual Portugal erigira o seu
próprio Império. Por isso, muitos autores entendem, corretamente, que a história das colonizações
europeias, iniciada no século XV, deve ser divida em duas: uma fase mercantil e outra capitalista
industrial.
Portanto, o pleno significado da abertura dos portos do Brasil ao comércio internacional deve ser
buscado em meio a um grande processo de redefinições estruturais que atingia todo o mundo ocidental
desde meados do século XVIII. Parte integrante desse movimento, a América portuguesa observa, a partir
de 1808, o início da liquidação de algumas de suas estruturas coloniais que resultará, em 1822, na
Independência do Brasil. Em última instância, a síntese desse processo é um resultado historicamente
específico da América, como contrapartida política da reestruturação econômica do mercantilismo rumo
ao capitalismo industrial: a formação de um Estado e de uma nação não mais portugueses, mas sim
brasileiros.

B IBLIOGRAFIA
NOVAIS, Fernando. Portugal e Brasil na crise do antigo sistema colonial (1777-1808). 4. ed. São Paulo: Hucitec, 1986.
SLEM IAN, Andréa; P IM ENTA, João Paulo. O “nascimento político” do Brasil: as origens do Estado e da nação (1808-1825). Rio de Janeiro:
DP&A, 2003.
ALEXANDRE, Valentim. Os sentidos do império. Porto: Afrontamento, 1993.

João Paulo Pimenta – Professor do Departamento de História da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da
Universidade de São Paulo (FFLCH-USP).
10 DE FEVEREIRO DE 1756
GUERRA DOS SETE POVOS DAS MISSÕES
Heloisa Reichel



Guerra dos Sete Povos das Missões é considerada uma das páginas mais
dolorosas da história das Missões, pois esteve marcada pelo grande
desequilíbrio existente entre as forças dos exércitos espanhol e português,
aparelhados com algumas das melhores armas do período, e as hordas de
nativos quase indefesos e despreparados para a luta. Dentre os vários
combates travados, destaca-se a chacina de Caaibaté, em que, no dia 10 de
fevereiro de 1756, tombaram mais de mil índios comandados pelo lendário
capitão Nicolau Nenguiru.
A origem dessa guerra, igualmente conhecida como Guerra Guaranítica,
vincula-se ao Tratado de Madri, um dos vários acordos diplomáticos
assinados entre Portugal e Espanha, ao longo do período colonial, com o
objetivo de resolver as disputas territoriais em que se envolveram as duas
metrópoles, nos seus domínios na América do Sul. O principal pivô da contenda entre as Coroas foi a
Colônia do Sacramento, fundada em 1680, pelos portugueses junto ao rio da Prata. Desde a sua
instalação, os conflitos, em toda a região, incluindo os campos da Banda Oriental e os do Rio Grande do
Sul, foram constantes e estimularam a ocupação efetiva das suas terras, acompanhada do
desenvolvimento da pecuária.
Assinado em 1750, o Tratado de Madri ou de Permuta, como também foi denominado, pretendeu
definir limites territoriais baseados em balizas naturais para os impérios coloniais na América
Meridional. Sendo assim, estabeleceu que a bacia do rio da Prata ficaria com a Espanha, enquanto que a
do Amazonas seria de domínio português. De acordo com essas determinações, a Colônia do Sacramento
passaria ao domínio espanhol definitivamente, ao passo que os Sete Povos das Missões, que eram
povoações controladas pelos jesuítas a serviço da Coroa espanhola e situadas na margem oriental do rio
Uruguai, seriam cedidos aos portugueses. Outra decisão tomada pelos signatários foi que, no prazo de um
ano, os padres jesuítas espanhóis e os índios deveriam sair do território missioneiro, com todos os seus
pertences móveis, deixando casas, igrejas e edifícios aos portugueses.
Apesar de atender aos interesses metropolitanos, o Tratado teve poucas chances de ser aplicado. Ao
desconsiderar os interesses da população dos territórios atingidos por suas decisões, provocou rebeldia
e ódio, principalmente entre os índios Guarani, que viviam nas Missões. Instigados pelos padres jesuítas
que, também, não queriam entregar o território aos lusos, os nativos resistiram, negandose a se
apresentar, quando convocados pela comissão nomeada pelas duas coroas, para a realização dos
trabalhos de demarcação dos limites. Recusaram-se, também, a abandonar o território missioneiro, o
qual, devido à presença de várias estâncias formadas pelos jesuítas em torno das Missões, se estendia
para além dos Sete Povos. Segundo eles, não poderiam abandoná-lo, deslocando-se para o domínio
espanhol, porque as terras, aí existentes, já estavam ocupadas e sendo exploradas por outros grupos e
nações indígenas.
Em 1753, ante a demora dos índios em deixar os Sete Povos e aos constantes ataques destes às bases
onde se assentavam as comissões demarcadoras, os altos comissários de Portugal e Espanha resolveram
deslocar tropas, em conjunto, àquela área. Somente em 1756, depois de várias marchas, uniram-se os
dois exércitos para atacar os Guarani e, rapidamente, derrotá-los.
A Guerra dos Sete Povos das Missões tem sido apontada, também, como sendo a razão derradeira
para a expulsão da Companhia de Jesus dos domínios ibéricos na América. Desde o apoio dos padres à
rebelião dos índios missioneiros, a ordem viu aumentar a desconfiança que havia, entre as autoridades
metropolitanas quanto aos reais objetivos de sua ação catequizadora. Alguns anos depois, os jesuítas
foram expulsos de ambos os impérios: Portugal, em 1759, e Espanha, em 1768.
Outro fator que aparece relacionado ao conflito entre europeus e indígenas consiste na dispersão dos
Guarani missioneiros pelas terras sul-rio-grandenses. Ainda quando os exércitos estavam em prontidão,
os portugueses buscaram atrair os nativos para seus domínios, evitando que se trasladassem para o lado
espanhol. O interesse luso pela população missioneira deve ser entendido a partir da necessidade de
povoar o imenso espaço que vinha sendo incorporado ao seu território, bem como dispor de mão de obra
para suas estâncias e plantações.
A historiografia tradicional analisa de forma positiva a política de aliciamento desenvolvida pelos
portugueses junto aos índios. No desenrolar da Guerra Guaranítica, o comandante general Gomes Freire
de Andrada teria conquistado a amizade de centenas de famílias missioneiras, alterando as históricas
relações de hostilidade até então existentes entre os dois grupos. Os atos de caridade, as manifestações
de carinho e cordialidade foram as táticas utilizadas para mudar a opinião das populações indígenas. Ao
final dos combates, quando o exército português deixou o Povo de Santo Ângelo, um outro exército de
cerca de setecentas famílias missioneiras o acompanhou, dando origem a vários povoados, tais como São
Nicolau e Cachoeira do Sul.
Estudos recentes têm identificado, entretanto, que o processo de desterritorialização dos indígenas
por ocasião da guerra e logo após seu término não foi fácil e nem ocorreu de forma pacífica. Apontam
que, além de gerar um contingente de mão de obra, habilitado e disponível para as atividades da
agricultura e da pecuária, despojou o indígena de seu ambiente social e cultural, alterando
substancialmente suas condições de vida.
Os índios passaram a viver em condições precárias e a atuar como peões de estância, guias de
tropeiros e agricultores. Sua experiência com o gado os qualificou como mão de obra disputada pelas
estâncias de criação nos períodos em que as atividades pecuárias eram mais intensas. Muitos, entretanto,
refugiaram-se nas áreas de mato, sobrevivendo da extração e do comércio da erva-mate, da lavoura de
subsistência, do trabalho temporário ou, ainda, das três atividades alternadamente. Fruto das dificuldades
enfrentadas, nos povoados ou nas matas, a população, que já se reduzira drasticamente por ocasião da
guerra, diminuiu mais ainda.
Outro aspecto que a historiografia atual tem destacado diz respeito à contribuição que os índios
missioneiros deram ao desenvolvimento da religiosidade e da cultura artística à sociedade sul-rio-
grandense, após a Guerra dos Sete Povos das Missões. O conhecimento que possuíam do ritual das
missas e da técnica de produção das imagens e templos foi de grande utilidade para a propagação dos
rituais, dos símbolos e do cerimonial da Igreja Católica. Também contribuíram para a realização de
atividades lúdicas ou religiosas, fabricando instrumentos musicais, cantando hinos e salmos que haviam
aprendido com os padres jesuítas nas aldeias missioneiras.

B IBLIOGRAFIA
LANGER, P. P. A aldeia Nossa Senhora dos Anjos: a resistência do guarani-missioneiro ao processo de dominação do sistema luso. Porto
Alegre: EST Edições, 1997.
P ORTO, A. História das Missões Orientais do Uruguai. 2. ed. Porto Alegre: Selbach, 1945, v. IV.
REICHEL, H. J.; GUTFREIND, I. As raízes históricas do Mercosul: a região Platina colonial. São Leopoldo: Unisinos, 1998.
ZARTH, P. A. História agrária do planalto gaúcho 1850-1920. Ijuí: Unijuí, 1997.

Heloisa Reichel – Doutora em História Social pela Universidade de São Paulo (USP). Professora titular de História da
América do Curso de História da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos).
17 DE FEVEREIRO DE 1922
SEMANA DE ARTE MODERNA
Marialice Faria Pedroso



a realidade, o evento que assinalou a urgência de renovação da nossa
cultura no século XX não se deu em um dia especificamente. Pelo tempo que
envolveu, ficou conhecido como a Semana de 22 ou Semana de Arte
Moderna. Foram sete dias – de 11 a 17 de fevereiro de 1922 – em que o
Teatro Municipal de São Paulo movimentou-se com a exposição, no hall de
entrada, de pinturas, esculturas e desenhos arquitetônicos reveladores de
uma nova linguagem inspirada nas correntes estéticas em voga na Europa no
início do século. As artes plásticas deram o clima vanguardista ao saguão
do espaço teatral mais importante da capital paulista. Os festivais –
envolvendo conferências, declamações e números musicais – ocuparam o
palco e distribuíram-se por dias alternados (13, 15 e 17 de fevereiro). A
presença de um grupo carioca com o mesmo pensamento vanguardista dos
paulistas deu maior repercussão e brilhantismo à festa.
O evento cravou um marco, a ruptura entre o antigo e o novo e contou com o apoio da tradicional
elite paulistana, que pagou as passagens e estadias dos artistas convidados e as despesas do local tão
burguês quanto os valores da classe que os idealizadores afirmavam combater. O patrocínio exibia a
maior contradição no mecenato bancado por Paulo Prado (latifundiário, erudito e comerciante de café),
José de Freitas Valle (empresário e deputado) e Washington Luís, nada menos que o presidente do Estado
à época.
Do evento participaram:
Pintura : Di Cavalcanti (autor da capa do catálogo), Anita Malfatti, Vicente Rego Monteiro, Zina Aita, John Graz, Martins Ribeiro, J.
F. de Almeida Prado, Ferrignac e Hildegardo Leão Velloso. A pintora Tarsila do Amaral estudava na Europa e só depois incorporou-se
ao grupo.

Escultura: Victor Brecheret e W. Haerberg

Literatura: na poesia – Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Manuel Bandeira, Guilherme de Almeida, Menotti Del Picchia,
Cassiano Ricardo, Raul Bopp e Ronald de Carvalho. Na prosa – Mário de Andrade, Oswald de Andrade e Alcântara Machado.

Música: o compositor Heitor Villa-Lobos e, como intérprete, Guiomar Novaes.


Arquitetura: Antônio Moya e Georg Przyrembel.

Certas obras figuram no catálogo e não constaram da exposição. O contrário também ocorreu.

Para pontuar essa festa tão marcante para a renovação estética brasileira, fica o dia 17 de fevereiro,
sexta-feira, como data emblemática do evento, privilegiando todas as artes, bem como o elenco de seus
participantes. Foi o grand finale, reservado à música. Esteve presente a maior sensação do festival,
Heitor Villa-Lobos, que lá compareceu de casaca e chinelos. A princípio pensou-se que se tratava de uma
atitude de irreverência do maestro-compositor, mas soube-se depois que, acometido de dores
provenientes de ácido úrico, resolveu dispensar os sapatos naquela noite de gala. O espírito do festival
era uma espécie de “revolução sem sangue” ocorrida justamente no ano simbólico de 1922 para marcar a
independência tanto política como cultural brasileira. Essa efervescência de caráter intelectual trouxe um
saldo qualitativo nas artes nacionais e um movimento de amadurecimento estético. Possibilitou um
afloramento de artistas, obras e novos espaços de luta contra o passadismo e as fórmulas arcaicas. Veio
pari passu com a tentativa de superar a crise do primeiro pós-Guerra.
Como fechamento da Semana, o concerto de Villa-Lobos contentou a plateia, que, nas apresentações
anteriores, não poupou vaias, críticas e criou polêmicas que contribuíram para tornar mais marcante esse
levante na Pauliceia que se posicionava como efervescente e, por que não, desvairada, a ponto de
catalisar uma ruptura nas artes. Os artistas, mais para vanguardistas, foram logo rotulados de futuristas,
evocando Marinetti. A princípio, o codinome foi acolhido com simpatia, mas ele passou a incomodar ao
se incorporar à palavra um germe fascista, coisa que os artistas brasileiros não postulavam.
Agitadíssima foi a noite de 15 de fevereiro. Abriu-se sob murmúrios negativos com uma palestra de
Menotti Del Picchia. Apresentaram-se poesias, trechos em prosa e solos da pianista Guiomar Novaes.
Oswald de Andrade falou sob uma chuva de vaias. No intervalo, Mário de Andrade tomou a palavra para
declamar um poema contido em Pauliceia desvairada, desfraldando a bandeira do modernismo. Foi
também reprovado nessa catarse como o desvelar de um “grito de liberdade” da obra que explodiu em
versos após um período de esterilidade e quarentena do autor. O festival era uma espécie de happening
em que cada protesto do público ensejava uma torrente de palavras. Foi assim, sucessivamente, até a
assistência, convidada especialmente para a mostra modernista acomodar-se no papel de ouvinte logo
após a apresentação do intelectual Alcântara Machado, cujo magnetismo, sutilmente, reverteu a
agressividade da plateia.
Recém-chegado da Europa, Graça Aranha abriu o Primeiro Festival numa segunda-feira, dia 13, com
a palestra “Emoção estética na Arte Moderna”. Intelectual de peso, ele fizera contato com a mocidade
artística e literária que idealizava a Semana, cuja ideia surgiu numa exposição de Di Cavalcanti (1921).
Pensou-se inicialmente em evento mais modesto na própria galeria, mas ele foi se fortalecendo com
novas adesões. Ronald de Carvalho também se apresentou falando sobre “A pintura e a escultura
moderna no país”, e as verbalizações ficaram intercaladas por números de poesia e música. Aí se incluiu
uma paródia de Erik Satie sobre a Marcha Fúnebre de Chopin, que provocou depois protestos da própria
Guiomar Novaes, também participante do evento.
Os antecedentes da Semana de 22 foram as exposições de Lasar Segall (1913) e de Anita Malfatti
(1917), a qual acabou sendo alvo de um massacre verbal de Monteiro Lobato no artigo “Paranoia ou
mistificação?” A controvérsia provocou um fortalecimento do ânimo renovador da intelectualidade
paulista. Daí as reações refletirem o padrão, o espírito combativo dos jovens contra o academismo, a
cópia, a importação de modelos, os padrões da burguesia e seus hábitos de consumo.
Após a repercussão imediata da Semana de 22, a ampla cobertura da imprensa favoreceu a formação
de grupos que divulgaram manifestos e revistas colaborando para a amplificação das ideias da Semana.
Havia discordâncias, mas um forte ponto comum sobrepunha-se: a vontade de renovar.Entre as primeiras
vozes favoráveis, encontramos: Manifesto da Poesia Pau-Brasil, Manifesto Antropófago, Manifesto
Nhenguaçu Verde-Amarelo. Num momento seguinte, despontaram as revistas: Klaxon (SP), Estética
(RJ), Festa (RJ), Terra Roxa e Outras Terras (SP), Verde (MG), Revista de Antropofagia (SP), A
Revista (MG). Os grupos mais relevantes foram: Pau-Brasil, Antropófago, Verde-Amarelo, Grupo de
Porto-Alegre, Grupo Modernista-Regionalista de Recife.
A Semana de Arte Moderna marcou um tempo, uma ideia, um novo ciclo. Até hoje continua a
frutificar em verde-amarelo.

B IBLIOGRAFIA
AM ARAL, Aracy. Artes plásticas na semana de 22. São Paulo: Perspectiva, 1970.
CHIARELLI, Tadeu. Um Jeca nos vernissages. São Paulo: EdUSP, 1995.
KLAXON – mensário de Arte Moderna. São Paulo: Livraria Martins/Secretaria da Cultura, Ciência e Tecnologia do Estado de São Paulo,
1976.
LEITE, José Roberto Teixeira. Pintura moderna brasileira. São Paulo: Record, 1978.
REZENDE, Neide. A Semana de Arte Moderna. São Paulo: Ática, 1993.

Marialice Faria Pedroso – Arquiteta-urbanista pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas (Pucamp), mestre em
História da Arte e doutora em História pela Universidade de Campinas (Unicamp). Trabalha como arquiteta, urbanista,
historiadora da arte e na preservação do patrimônio histórico.
24 DE FEVEREIRO DE 1932
INSTITUIÇÃO DO VOTO SECRETO E FEMININO
Letícia Bicalho Canêdo



m 24 de fevereiro de 1932 foi publicada a primeira legislação eleitoral
brasileira que reconhecia o voto feminino e incluía o voto secreto (Decreto
n. 21.076). A redação do decreto considerou eleitor “o cidadão maior de 21
anos sem distinção de sexo”. O uso de sobrecartas oficiais uniformes e
opacas, o isolamento do eleitor em cabine indevassável para a colocação
das cédulas nas sobrecartas, a estandardização das cédulas e da urna deram
ênfase ao segredo do voto.
A partir de então, as mulheres brasileiras foram integradas na categoria
de indivíduo capaz de expressar opiniões políticas próprias por meio do ato
do voto, a ser praticado secretamente em local e urna outorgados comuns
aos dois sexos.
Entretanto, o indivíduo abstrato e a ênfase no segredo escondiam o fato
de que o voto, obrigatório para o sexo masculino, não o era para o sexo feminino, o que nos incita a
considerar as maneiras de pensar o cidadão, de perceber e praticar o ato do voto.
Na primeira constituição brasileira e nas esparsas leis eleitorais produzidas no período do Império,
o sexo não era mencionado. O direito de voto era indicado para “os cidadãos brasileiros que estão no
gozo de seus direitos políticos”. Essa abstração do sexo subentendia as mulheres na categoria de
esposas, filhas ou mães, agregadas em torno do votante, marido ou pai, portador do censo eleitoral. Esse
censo era de cem mil réis de renda líquida anual “por bens de raiz, indústria, comércio ou emprego”. Isto
é, a unidade política do Império era o patrimônio familiar, e não o cidadão.
Por essa razão, a diluição das mulheres dentro da família no espaço político não foi motivo de
reação. Até os anos de 1880, nas páginas dos jornais femininos defendia-se somente a instrução das
mulheres, considerada necessária para que elas pudessem dirigir a educação dos filhos, acompanhar os
maridos e dignificar a família. Esses escritos permitem compreender a situação política das mulheres,
mantidas numa espécie de exterioridade eleitoral, não em razão de seu sexo, e sim devido ao seu estatuto
socionatural de esposas e mães de cidadãos, ou seja, de membros da família. O trabalho de abstração que
implica o desligamento das mulheres de seus encraves sociais exigiu uma difícil aprendizagem, que
acompanhou a individualização da prática do voto.
Votar era um ato coletivo. Tratava-se inicialmente de uma assembleia de votantes, de deliberação
coletiva. A transformação para um local neutro de intimidade democrática, onde o eleitor realiza só e
secretamente a operação do voto sem tumulto e violência (física ou verbal), tem uma história longa, feita
de muitas tentativas, de intensos debates no Parlamento e numerosos conflitos.
Antes de 1880, a eleição era realizada dentro de igrejas após uma comissão local identificar e alistar
o cidadão em meio a contendas e turbulências. A organização material do local de votação se reduzia a
uma mesa e uma urna improvisada, sem separação evidente da assembleia. Os votantes depositavam na
urna um pedaço de papel trazido de casa com os nomes e as profissões dos candidatos e assinavam esse
papel diante dos mesários, o que impedia o sigilo do voto. Em 1881, a Lei Saraiva aboliu as comissões
paroquiais e encarregou uma magistratura de alistar o eleitor, visando formar listas padronizadas
permanentes em formulários idênticos, base para a contabilidade do Estado e a criação de um corpo
eleitoral neutro. O local onde funcionava a mesa eleitoral foi separado, por uma divisória, do lugar onde
ficavam os eleitores, que só podiam entrar à medida que fossem chamados, um a um, para “votar na
presença de todo mundo”.
A ausência feminina na chamada para votar não era notada. Passou a constituir problema, exigir
explicação, tornar-se assunto parlamentar e questão intelectual quando, com a República, o voto
censitário foi abolido e a unidade política deixou de ser a fortuna familiar. As mulheres, antes niveladas
pelo fato de que somente o detentor do patrimônio familiar exercia o direito do voto, emergiram como
“nulidade política” em relação aos outros membros da casa: os filhos e os empregados domésticos. Os
domésticos, em especial, aos quais as patroas davam ordens, foram, politicamente, colocados acima
delas, tratados como homens que podiam votar. Bruscamente, a mulher foi retirada de uma unidade
eleitoral, que era a família, e colocada diante de uma nova unidade política que era o homem adulto do
sexo masculino. A visibilidade política dada ao sexo perturbou os contemporâneos e exigiu o
estabelecimento de uma distinção entre mulher e esposa, entre o ser capaz de exercer funções políticas e
o ser determinado por seu sexo.
Nos debates da Constituinte de 1890,a confusão dos termos mulher, esposa e contribuinte levou um
deputado a discursar que a mulher “é senhora. Representa a senhora do marido na sociedade e domina o
lar”. Um outro argumentou que se a mulher pagava imposto, como “não pode ter o exercício do
mesquinho direito de voto dado ao homem da enxada que apenas saiba ler e escrever?”. Obrigada, pela
primeira vez, a explicar a privação do sexo feminino da função eleitoral, a maioria dos deputados pensou
com os antigos instrumentais oriundos da ordem política anterior e seguiu a opinião do deputado Moniz
Freire:
[...] querer desviar o espírito feminil dessa função que é a base de toda a organização social, cujo primeiro grau é a família, para levála
ao atrito das emulações práticas, no exercício de funções públicas, é decretar a concorrência dos sexos nas relações da vida ativa,
nulificar esses laços sagrados da família, que se formam em torno da vida puramente doméstica da mulher.

A particularidade sexual, ao emergir no Parlamento, deu início às discussões na imprensa feminina


cujas redatoras sentiram essas declarações como uma exclusão política, uma rejeição à capacidade
eleitoral do seu sexo, e passaram a se manifestar contra isso.
A relação dos homens e das mulheres com a família dentro do espaço político era uma discussão
difícil porque, nas normas das Ordenações Filipinas que ainda regiam o direito civil, a família era a
unidade básica da sociedade, reconhecendo ao homem a superioridade jurídica. O Código Civil de 1917
pouco inovou a esse respeito.
Para integrar as mulheres no corpo eleitoral, as várias entidades, congregando militantes feministas,
que ganharam impulso nos anos 1920, tiveram que se defrontar, ao mesmo tempo, com essa questão legal
do Código Civil e com os dispositivos materiais que pudessem garantir a individualização do exercício
do sufrágio por meio do voto secreto. Sem o voto secreto não haveria a garantia de que a mulher pudesse
votar desvinculada do pai ou do marido.
Para o eleitor masculino votar sem constrangimento, a legislação de 1904 havia obrigado a
separação da mesa eleitoral do resto da sala de votação por meio de uma grade. E para garantir o
segredo do voto, essa lei introduziu o envelope em que o indivíduo colocaria a cédula para depois
depositá-lo na urna, eliminando o gesto de entrega da cédula aos mesários. Entretanto, a mesma
legislação permitiu também o voto descoberto, o que eliminava o sigilo.
Diante dessa situação, o movimento feminista pregou a total garantia do voto secreto e a igualdade
homem–mulher em nome da valorização do indivíduo abstrato. Com a ênfase na competência universal,
pregada como ideal de igualdade republicana, o movimento procurava eliminar as representações sociais
da cidadania que sublinhavam a tradicional dependência da mulher como empecilho ao voto feminino.
O resultado da rendição do corpo eleitoral feminino às normas de igualdade republicana foi a
extensão do sufrágio ocorrer somente na ordem do discurso: aos olhos da sociedade,cidadão e cidadã
continuaram a ser pensados em níveis diferentes de competência.Assim,no anteprojeto do Código
Eleitoral de 1932, o redator preferiu não conceder
[...] a perfeita igualdade política dos sexos, pelo menos quanto à forma de obrigatoriedade do
alistamento. Seria isso destroçar num momento, sem uma preparação prévia, uma tradição secular e um
sistema de direito privado, em que a mulher casada ainda está colocada em situação desigual à dos
homens no que diz respeito à chefia do casal, administração dos bens, escolha do domicílio e da
profissão daquela fora do lar.

B IBLIOGRAFIA
ANNAES do Parlamento Brasileiro. Rio de Janeiro: Typografia Nacional, t. I, 1880.
ATAS do Conselho de Estado. Brasília: Senado Federal, 1973, v. X.
ASSIS BRASIL, J. F. de. Democracia representativa: do voto e do modo de votar. Paris/Lisboa: Guillard/ Ailland, 1895.
CABRAL, João da Rocha. Código Eleitoral da República dos Estados Unidos do Brasil. Rio de Janeiro: Livraria Freitas Bastos, 1934.
SOUTO-MAIOR, Valéria Andrade. O florete e a máscara: Josefina Álvares de Azevedo, dramaturga do século XIX. Florianópolis: Mulheres,
2001.
VERJUS, Anne. Voto familialista e voto familial: contribuição para o estudo do processo de individualização das mulheres. In: CANÊDO, Letícia
(org.). O sufrágio universal e a invenção democrática. São Paulo: Estação Liberdade, 2005.

Letícia Bicalho Canêdo – Historiadora e coordenadora do grupo de pesquisa Instituição Escolar e Organizações Familiares
(FOCUS) na Faculdade de Educação da Universidade de Campinas (Unicamp), onde é professora. Dedica-se à sóciohistória do
voto e à transmissão do poder político no Brasil. Publicou muitos artigos sobre o tema em revistas brasileiras e francesas.
28 DE FEVEREIRO DE 1845
GUERRA DOS FARRAPOS
Eduardo Scheidt



Paz de Poncho Verde, celebrada a 28 de fevereiro de 1845, foi o final da
denominada Guerra dos Farrapos, mais conhecida na historiografia como
Revolução Farroupilha. Esse é um dos eventos de maior destaque pela
História regional sul-rio-grandense, caracterizado como o mais longo
movimento de rebelião nas províncias brasileiras à época do Império, com a
duração de quase uma década. Embora aspirasse à república e à autonomia
regional, a Revolução Farroupilha também representou os interesses de
estancieiros rio-grandenses, especialmente da região da campanha, desejosos
de assumir o controle político e econômico da província, em contraposição ao
projeto de Estado centralizador que o governo do Rio de Janeiro buscava
impor ao país.
Junto à boa parte da historiografia tradicional e no imaginário popular, a
Guerra dos Farrapos é retratada como uma epopeia, exemplo máximo de “bravura” do povo gaúcho, que
se levantou em armas pela liberdade, contra os “desmandos” do governo imperial. Atualmente, os
estudos sobre o tema têm “desmontado” diversos mitos relacionados ao episódio. Em primeiro lugar,
muitos historiadores apontam para o fato de que a Revolução Farroupilha não foi um movimento de todo
o Rio Grande do Sul contra o Brasil, e sim uma guerra civil no interior da própria província, entre uma
parte dos riograndenses que lutava pela autonomia provincial, defendendo a república e o separatismo,
contra outra parte, de igualmente riograndenses, favorável à manutenção dos vínculos com o Império.
Além disso, os próprios farroupilhas estavam longe de se constituírem em um grupo político homogêneo,
pois nem todos foram republicanos ou separatistas e estavam divididos em diversas correntes, desde
conservadores até radicais.
Embora vinculada ao conjunto de rebeliões das províncias brasileiras no século XIX, a Revolução
Farroupilha não pode deixar de ser analisada também no contexto platino, em virtude de suas conexões
com os países do Prata, em meio ao tumultuado processo de formação dos Estados nacionais na região.
Nesse sentido, tanto os farroupilhas quanto os imperiais buscaram alianças e intercâmbios com facções
políticas do outro lado da fronteira, em uma intensa circulação comercial e de ideias durante o
período.As propostas de autonomia dos farroupilhas, por exemplo, estavam em sintonia com as
reivindicações de diversas províncias argentinas e da então Banda Oriental, em luta contra os projetos de
centralização política e econômica de Buenos Aires. A proposta de federação republicana dos
farroupilhas, com ampla autonomia para as províncias, foi influenciada pelas ideias de José Gervásio de
Artigas, destacado líder oriental que propunha uma tênue união, na qual seriam os governos das
províncias, e não o nacional, os verdadeiros detentores da soberania.
Os contatos entre os rio-grandenses e o político oriental remontam à década de 1810, quando muitos
brasileiros (inclusive Bento Gonçalves da Silva, futuro líder dos farroupilhas) lutaram no exército de
Artigas pela independência. O resultado da Guerra da Cisplatina, deflagrada entre Brasil e Argentina
entre os anos de 1825 e 1828, foi desfavorável aos brasileiros, acarretando profundo desgaste do
governo central junto aos rio-grandenses. A partir de 1828, movimentos políticos republicanos e
separatistas ganharam ímpeto no Rio Grande do Sul, incrementando significativamente as tensões a ponto
de desencadear o início, anos mais tarde, da Revolução Farroupilha.
O movimento iniciou-se em 20 de setembro de 1835, quando os farroupilhas depuseram o então
presidente da província, Antônio Rodrigues Fernandes Braga, que se refugiou na cidade de Rio Grande.
Em 15 de junho do ano seguinte, Porto Alegre foi retomada pelos imperiais e não seria mais recuperada
pelos farroupilhas, apesar de longos cercos à cidade que eles promoveriam nos anos seguintes. O
governo brasileiro recusou-se a atender à reivindicação dos farrapos de escolher o novo presidente da
província, enquanto estes, por sua vez, negaram-se a reconhecer a nomeação de Araújo Ribeiro. O
impasse radicalizou o movimento. Em 11 de setembro de 1836, Antônio de Souza Netto, após uma
significativa vitória contra as forças imperiais na Batalha de Seival, proclamou a República Rio-
Grandense. Desse modo, o movimento enveredou-se definitivamente pelos rumos do separatismo e do
republicanismo.
A vitória dos farroupilhas na batalha de Rio Pardo, com a tomada da cidade a 30 de abril de 1838,
deu início ao período de apogeu dos insurgentes, quando eles passaram a controlar a maior parte do
território do Rio Grande do Sul, restringindo as áreas de controle das forças leais ao Império às cidades
de Porto Alegre e Rio Grande. Em julho do ano seguinte, os farrapos tomaram a cidade de Laguna, na
província vizinha, proclamando a República Catarinense. Em novembro, porém, os imperiais retomaram
o controle da cidade, obrigando os farroupilhas a recuar rumo ao Rio Grande do Sul.
Por outro lado, o território da campanha sul-rio-grandense, até então dominado pelos republicanos,
começou a sofrer incursões dos imperiais a partir de 1840, demarcando o início do lento recuo dos
farroupilhas. Ao mesmo tempo, os colorados uruguaios, aliados prioritários dos Farrapos, sofriam
derrotas para o exército dos blancos, liderados por Manuel Oribe e Juan Manuel de Rosas. Com o
enfraquecimento do governo de Frutuoso Rivera (colorado), sitiado em Montevidéu, os republicanos rio-
grandenses perderam um de seus apoios na luta contra o Império. Em 1843, o futuro Duque de Caxias foi
indicado novo presidente da província sulina, recrudescendo as incursões militares contra os
farroupilhas. Os republicanos foram paulatinamente reduzindo suas áreas de controle, circunscritas a
pontos esporádicos na região da campanha, durante o ano de 1844. A Paz de Poncho Verde, celebrada a
28 de fevereiro de 1845, pôs fim ao conflito, com a desistência dos farrapos de sua república
independente e a reincorporação ao Império brasileiro, sob algumas vantagens como a manutenção, no
exército imperial, dos postos militares dos líderes farroupilhas. Com a derrota dos republicanos rio-
grandenses e o recuo das forças de oposição ao regime de Rosas, as elites do Rio de Janeiro e de Buenos
Aires deram mais um passo em seus propósitos de construção de Estados centralizados, enfraquecendo as
propostas de soberania local na Região Platina.

B IBLIOGRAFIA
GUAZZELLI, Cesar Augusto Barcellos. O horizonte da província: a República RioGrandense e os caudilhos do Rio da Prata (1835-1845). Rio
de Janeiro: UFRJ, 1997. Tese (Doutorado).
LEITM AN, Spencer. Raízes socioeconômicas da Guerra dos Farrapos. Rio de Janeiro: Graal, 1979.
P ICCOLO, Helga Iracema Landgraf et al. A revolução farroupilha: história & interpretação. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1985.
SCHEIDT , Eduardo. Concepções de República na Região Platina à época da Revolução Farroupilha. São Leopoldo: Unisinos, 2000.
Dissertação (Mestrado).
VARELA, Alfredo. História da grande revolução: o ciclo farroupilha no Brasil. Porto Alegre: Globo, 1933. 6v.

Eduardo Scheidt – Doutor em História Social pela Universidade de São Paulo (USP), é professor na graduação e na pós-
graduação da Universidade Severino Sombra e professor de História da Universidade Gama Filho.
9 DE MARÇO (1975)
DIA INTERNACIONAL DA MULHER
Joana Maria Pedro



dia 8 de março como Dia Internacional da Mulher foi estabelecido
pela Organização das Nações Unidas (ONU) em 1975, ano que ficou
sendo não só o Ano Internacional da Mulher, mas também o início da
Década da Mulher. A justificativa oferecida para a escolha do dia 8 de
março foi baseada em versões as mais desencontradas. Essas versões,
por mais diversificadas que sejam, constroem, todas elas, uma imagem
das mulheres como combativas operárias, revolucionárias e de
esquerda.
É possível reunir essas narrativas em três blocos: 1) greves e
martírio de operárias nos Estados Unidos, em 1857 e em 1908; 2)
greve, manifestação e deflagração da Revolução Russa por parte das
mulheres; 3) iniciativa de uma revolucionária comunista, chamada
Clara Zetkin. Convém lembrar, ainda, que mesmo no interior de cada um desses blocos narrativos, não há
consensos. De qualquer maneira, todos apontam a definição do 8 de março como oriundo do campo da
esquerda, seja dos Estados Unidos, da Rússia ou da Alemanha.
No primeiro bloco de narrativas, aparece a história de uma greve e de um incêndio ocorridos nos
Estados Unidos, justamente no dia 8 de março de 1857. Conta-se, então, que, nessa data, as operárias da
indústria têxtil de Nova York fizeram uma grande manifestação na cidade, reivindicando melhores
condições de trabalho, tais como jornada de 12 horas, melhoria de salários etc. Em 1908, 51 anos
depois, em 8 de março, teriam voltado a manifestar-se contra as condições de trabalho, exigindo
legislação que protegesse os menores e ainda o direito ao voto.
Ainda nesse bloco de 1857, outra narrativa fala de uma grande greve das operárias da fábrica Cotton,
de Nova York, reivindicando jornada de dez horas e direito à licença maternidade. Os policiais, nessa
ocasião, visando reprimir a greve, teriam ateado fogo à fábrica, levando à morte 129 operárias. Essa
narrativa de greve e martírio de operárias, em 1857, tem sido a mais utilizada para justificar a escolha da
data 8 de março. Assim, quando a ONU definiu o 8 de março como Dia Internacional da Mulher, esta era a
versão mais veiculada.
No segundo bloco de narrativas, aparece a história da deflagração da Revolução Comunista, na
Rússia, pelas mulheres. Conta-se, então, que no dia 23 de fevereiro de 1917 (8 de março de 1917, pelo
calendário Gregoriano), as mulheres russas, trabalhadoras do setor de tecelagem, teriam – mesmo contra
as ordens dos partidos e sindicatos – saído às ruas numa manifestação espontânea, reivindicando pão
para os filhos e o retorno dos maridos e filhos da guerra. Esse era o Dia Internacional das Mulheres
Operárias. Diante da manifestação das mulheres, os soldados do czar não reagiram nem bloquearam a
passagem. Ficaram, apenas, olhando sem compreender a cólera das mulheres. Essa manifestação, de
acordo com as narrativas, teria sido o primeiro momento da Revolução de Outubro, desembocando na
criação da União Soviética.
Um terceiro bloco de narrativas atribui à revolucionária comunista Clara Zetkin a definição da data 8
de março como o Dia Internacional da Mulher. De acordo com essa história, a revolucionária, nascida em
1857, na Alemanha, deputada em 1920, membro do Partido Comunista Alemão, militante do movimento
operário que se dedicava à conscientização feminina,teria proposto,no II Congresso Internacional das
Mulheres Socialistas, realizado em Copenhague (Dinamarca), em 1910,a instituição de um Dia
Internacional da Mulher.Algumas pessoas dizem que o dia proposto por Clara Zetkin fora 8 de março em
memória das operárias queimadas, em 1857, nos Estados Unidos. Outras dizem que ela apenas propôs a
criação do dia, sem definir uma data.
A comemoração de um Dia Internacional da Mulher parece ser uma prática bastante antiga. Em alguns
países europeus, o dia 19 de março era festejado como Dia da Mulher por ser nesse dia, em 1848, que o
rei da Prússia, após uma manifestação popular, prometera, entre outras coisas, que as mulheres iriam ter
direito ao voto. Em 1908, nos Estados Unidos,no último domingo de fevereiro,as mulheres socialistas
fizeram uma manifestação, que chamaram de Dia da Mulher. Na Rússia, em 3 de março de 1913, foi
festejado o Dia Internacional das Operárias. Na Alemanha, em 1914, celebraram o Dia da Mulher, no dia
8 de março. Na Rússia, em 1921, na Conferência das Mulheres Comunistas, vinte delegadas de diferentes
países decidiram adotar o dia 23 de fevereiro como o Dia Internacional das Operárias.
Como se pode observar, seja o Dia da Mulher, seja da Mulher Socialista, ou da Mulher Operária, há
muito tempo havia o desejo de instituir um Dia Internacional da Mulher. Entretanto, a pergunta continua:
por que 8 de março?
Pesquisadoras(es) de movimentos sociais investigaram jornais operários e de circulação comum e
nada encontraram que confirmasse a existência, em 8 de março de 1857 ou em 8 de março de 1908, de
uma greve ou incêndio no qual estivessem envolvidas mulheres operárias. Há relatos de greves e de
incêndio envolvendo operárias nos Estados Unidos, não porém nas datas apontadas nas diversas versões
e, principalmente, nenhum desses acontecimentos tem por data o 8 de março.O que existe,devidamente
relatado por fontes de jornais de ampla circulação e jornais operários, ocorreu em 1909-1910 e em 1911.
Entre 22 de novembro de 1909 e 15 de fevereiro de 1910, cerca de 15 mil trabalhadores da indústria
do vestuário, a maioria mulheres, fizeram uma greve envolvendo mais de 500 fábricas nos Estados
Unidos. Reivindicavam melhores salários e condições de trabalho. Denunciavam o fato de os patrões
trancarem as portas das fábricas durante o expediente, de cobrirem os relógios, de controlarem as idas
aos banheiros.
Em 25 de março de 1911, de acordo com jornais da época, na empresa Triangle Shirt Waist
Company, em Nova York, uma das empresas onde as operárias haviam feito greve recentemente, ocorreu
um grande incêndio. Nele, morreram 146 pessoas, sendo, em sua grande maioria mulheres. O número de
operárias mortas varia conforme a narrativa: 129, 146, 120, 108, 125. O fato de as portas da empresa
estarem fechadas durante o incêndio, de a fábrica ocupar os três últimos andares de um prédio que
possuía dez pavimentos, de as divisórias e o chão serem feitos de madeira, tornou o desastre ainda maior.
Portanto, ocorreram realmente greves e um grande incêndio. Nenhum desses acontecimentos, porém,
foi em 8 de março de qualquer dos anos e, ainda mais, ocorreram depois de Clara Zetkin ter sugerido a
criação do Dia Internacional da Mulher. Ela, portanto, não poderia ter feito essa sugestão em homenagem
a esses acontecimentos, pois ainda não haviam ocorrido.
Foi, certamente, nos embates do feminismo com os partidos e movimentos de esquerda dos anos 1970
que se atribuiu ao 8 de março essa conotação de martírio, resistência e revolução. Afinal, era preciso
combater os constantes argumentos de que o feminismo era um movimento pequeno-burguês, retrógrado e
divisionista. Dessa forma, fatos que ocorreram foram deslocados, involuntariamente, de suas datas, para
dar legitimidade de esquerda a uma solenidade cuja definição do dia foi, evidentemente, resultado do
acaso. Isso, é claro, não tira a importância simbólica da data para a luta das mulheres.

B IBLIOGRAFIA
ALVES, Branca Moreira; P ITANGUY, Jacqueline. O que é feminismo. 2. ed. São Paulo: Brasiliense, 1982.
BLAY, Eva Alterman. 8 de março: conquistas e controvérsias. Revista Estudos Feministas, v. 9, n. 2, 2001, pp. 601-7.
FARIAS, Maria Dolores Mota. Dia Internacional da Mulher: 8 de março – anotações sobre mito, política e mulher. Texto inédito. Professora
da UFC, 23 p.
GIANNOTTI, Vito. O dia da mulher nasceu das mulheres socialistas. Disponível em <www.piratininga.org.br/memoria/mulheres-
vito.html>.Acesso em 18 jun.2005.
TELES, Maria Amélia de Almeida. Breve história do feminismo no Brasil. São Paulo: Brasiliense, 1993.

Joana Maria Pedro – Professora titular do Departamento de História da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).
26 DE MARÇO DE 1902
IMIGRAÇÃO NO BRASIL*
João Fábio Bertonha



m 26 de março de 1902, o governo italiano, pressionado por vários relatos
que chegavam à Itália descrevendo os maus-tratos sofridos pelos italianos
no território brasileiro, promulgou uma lei, o Decreto Prinetti, que só
permitia emigração dos italianos para o Brasil – não se tratava de proibição
– desde que estes ou seus parentes pagassem as passagens de navio, sendo
vedada, portanto, a emigração subsidiada.
Esse decreto marcou uma diminuição acentuada da imigração de
italianos para o Brasil, depois do boom ocorrido durante os 15 anos
anteriores. Tal situação não foi, contudo, privilégio dos italianos, pois
outros governos europeus também proibiram a imigração subsidiada para o
Brasil, como fez o espanhol em 26 de agosto de 1910.
Além das restrições dos governos dos países de emigração, um outro
elemento interessante a considerar quando analisamos a imigração para o Brasil nos séculos XIX e XX é
que parece haver quase um padrão na sua ocorrência, com ondas imigratórias se sucedendo. Assim,
alemães, suíços e outros germânicos dominaram a primeira metade do século XIX; os italianos, o período
entre o fim desse século e o início do XX; os espanhóis e portugueses, as primeiras décadas do XX; e os
japoneses, o período posterior, até o esgotamento final do processo por volta da Segunda Guerra
Mundial.
A promulgação de decretos restritivos pelos países de emigração e essa sucessão de “ondas
imigratórias” requerem alguma explicação, que deve ser buscada nos sonhos daqueles homens que
atravessavam
o Atlântico para refazerem suas vidas e na dura realidade que eles encontraram ao chegar aqui, tanto
nas pequenas propriedades isoladas no sul como nas fazendas de café de São Paulo.
O Brasil, no período colonial, era um lugar pouco atraente para os europeus e havia restrições à sua
entrada, o que só se modificou com a Independência, em 1822. O novo governo imperial começou a se
preocupar, realmente, com a baixa população do país e procurou trazer imigrantes europeus para
colonizar o vasto território brasileiro. Ele teve algum sucesso, como demonstra o desenvolvimento das
colônias alemãs, suíças, polonesas e outras no sul e sudeste do Brasil entre os séculos XIX e XX.
No entanto, o que realmente provocou uma explosão da imigração no Brasil a partir, mais ou menos,
de 1880, foi o problema da mão de obra para manter as lavouras de café, base da economia nacional e
que eram mantidas pelo trabalho escravo até então. Com a decadência do sistema escravista, de fato, os
fazendeiros começaram a se preocupar com os braços necessários para as fazendas.
Também havia, dentro da questão da imigração, motivações claramente racistas de “branquear” o
Brasil para “civilizá-lo”. No entanto, apesar dessas preocupações raciais, o que estava realmente em
jogo eram questões econômicas. Para fazer os ex-escravos continuarem nos mesmos locais onde eles já
viviam e trabalhavam, seria necessário pagar salários altos e fazer concessões em termos de horários,
disciplina etc., o que era inaceitável para os fazendeiros. Inundar o mercado de trabalho seria a solução
para evitar que isso acontecesse e, para tanto, a imigração dos europeus seria o ideal.
Depois de algumas experiências com o sistema de parceria, optouse pelo sistema de colonato. Tudo
começava com agentes de propaganda que percorriam a Europa dizendo maravilhas do Brasil e
prometendo enriquecimento rápido e terra para os que quisessem emigrar. Além disso, esses agentes
ofereciam a passagem de navio, paga pelos governos paulista ou brasileiro, para esses imigrantes, o que
estimulava a emigração daqueles que não podiam pagar uma passagem para a América por conta própria.
Era contra esse sistema que o decreto Prinetti procurava legislar.
É importante notar que esse é apenas um quadro geral e que o processo de imigração no Brasil nesse
período foi tudo menos uniforme. Os alemães, holandeses, poloneses e suíços estabeleceramse
centralmente como pequenos proprietários no sul, enquanto os árabes, libaneses e armênios, por
exemplo, dedicaram-se ao comércio. Houve também refugiados políticos que se instalaram no Brasil.
Todos esses vinham com passagens próprias ou com o apoio de companhias de colonização, e não via
colonato.
Foi, porém, no contexto de um sistema que procurava manter abastecido o mercado de mão de obra
(e que, sozinho, foi responsável por trazer 2,5 milhões de imigrantes para os cafezais) e povoar o
território nacional que a maior parte dos imigrantes chegou ao território brasileiro. Também foi nas
contradições desse sistema, que precisava dos imigrantes, mas que se recusava a atender as suas
expectativas, que está a chave para compreendermos a sucessão de ondas migratórias para o Brasil e o
esgotamento posterior do processo.
No Sul, realmente, o apoio aos imigrantes era pouco. Eles recebiam a terra, mas era apenas com ela e
com seu próprio trabalho que eles podiam contar. Os colonos eram forçados a uma rotina muito dura para
sobreviver e,com o tempo,a maioria de suas colônias conseguiu progredir. O custo, porém, foi imenso em
termos de sacrifício, trabalho e economia.
Também no estado de São Paulo, italianos, espanhóis, portugueses ou japoneses deparavam-se com
uma realidade muito diferente do paraíso que eles haviam idealizado. Em primeiro lugar, as condições de
vida, alimentação e moradia desagradavam aos imigrantes. Eles também viviam isolados e na
dependência do poder dos fazendeiros. Para completar o quadro, os salários eram baixos e mal davam
para a sobrevivência da família, quanto mais para economizar. Nessa situação, não espanta que apenas
uns poucos tenham conseguido comprar terras.
Esses colonos reagiram por meio de greves, assassinatos de fazendeiros e, especialmente, de fuga
das fazendas. A frustração, de qualquer modo, era imensa e, à medida que as notícias corriam, os
imigrantes de uma dada nacionalidade diminuíam o seu ingresso no Brasil, o que obrigava as elites locais
a apelar para outras fontes de mão de obra e a outras nacionalidades.
Assim, leis como a italiana de 1902 ou a espanhola de 1910 não foram responsáveis pela interrupção
da imigração europeia para o Brasil. Os decretos em si foram motivados pela constatação de que os
italianos ou espanhóis estavam sendo explorados em excesso no Brasil e que a única motivação real
deles para vir ao país era a passagem subsidiada. Ao eliminá-la, provocaram inevitavelmente uma queda
da imigração dessas nacionalidades. Isso não teria acontecido, contudo, se o país oferecesse
oportunidades reais a todos os imigrantes que aqui aportavam.
Foi, porém, tanto por questões próprias dos países de emigração (como o esgotamento do excesso de
mão de obra disponível ou a descoberta de outros nichos no mercado mundial de trabalho) como por essa
exploração excessiva, típica do sistema econômico brasileiro desde sempre, que os imigrantes vinham
em “ondas” que logo se esgotavam e que o país recebeu e conservou muito menos imigrantes do que
poderia. Os decretos dos países de emigração foram apenas a cristalização jurídica e simbólica de uma
situação com raízes muito mais profundas.

B IBLIOGRAFIA
ALVIM , Zuleika. Brava gente: os italianos em São Paulo, 1870-1920. São Paulo: Brasiliense, 1986.
FRANZINA, Emílio; DE CLEM ENTI, Andreína; BEVILACQUA, Piero. Storia dell’emigrazione italiana. Roma: Donzelli, 2001 e 2002, 2v.
HOLLOWAY, Thomas. Imigrantes para o café: café e sociedade em São Paulo, 1886-1934. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1984.
STOLCKE, Verena. Cafeicultura: homens, mulheres e capital (1850-1980). São Paulo: Brasiliense, 1986.
TRENTO, Ângelo. Do outro lado do Atlântico: um século de imigração italiana no Brasil. São Paulo: Nobel, 1989.

João Fábio Bertonha – Professor do Departamento de História da Universidade Estadual de Maringá (UEM ). Doutor em
História pela Universidade de Campinas (Unicamp) e autor de vários livros sobre imigração.

* Data de assinatura do decreto Primetti.


31 DE MARÇO DE 1964
GOLPE DE 1964
Ricardo Oriá



á datas históricas no calendário das efemérides nacionais que não se adaptam
a comemorações, mas que servem, antes de tudo, para refletirmos acerca de
seu significado e repercussão na história do país. Uma dessas datas é o 31 de
março de 1964, alusiva ao golpe civil-militar que destituiu o presidente João
Goulart e instaurou a ditadura no Brasil, que durou 21 anos (1964-1985).
Foi um dos períodos mais tristes da história republicana brasileira que se
caracterizou pela censura aos meios de comunicação, repressão, tortura, morte
e perda das liberdades civis e democráticas com exílio forçado e cassação de
mandatos políticos de centenas de brasileiros.
Para entendermos melhor o que ocorreu em 31 de março de 1964,
precisamos recuar um pouco no tempo.A renúncia inesperada de Jânio
Quadros em agosto de 1961 provocou uma crise político-institucional, uma vez
que assumiria a presidência da República o vice João Goulart, que não era bem visto pelas elites
econômicas e setores das Forças Armadas. Com receio de que João Goulart não conseguisse assumir a
presidência, alguns setores da sociedade, sob a liderança do então governador do Rio Grande do Sul,
Leonel Brizola, mobilizaram-se pela manutenção da ordem e da legalidade, visando garantir sua posse no
cargo maior do país, sendo adotado o sistema parlamentarista de governo. Assim, Jango assumiria a
presidência, tendo seus poderes limitados à chefia de Estado. A curta experiência parlamentarista,
entretanto, não logrou êxito e, em 1963, realizou-se um plebiscito nacional,que resultou no retorno do
sistema presidencialista de governo. Jango retoma então seus poderes de chefe de governo e anuncia a
adoção de uma série de medidas, as chamadas “reformas de base”.
Uma das propostas de Jango era a reforma agrária,o que,de imediato, desapontou empresários,
usineiros, proprietários de terras e a própria classe média, que, unida a esses segmentos sociais, temia
um golpe de esquerda que transformasse o país numa República Socialista,a exemplo de Cuba. O
comício de Jango na Central do Brasil, realizado no dia 13 de março de 1964, na cidade do Rio de
Janeiro, provocou indignação dos militares e setores mais conservadores da sociedade. Nessa ocasião,
ele anunciou o decreto que desencadeava a reforma agrária no país, estabelecendo que as terras com
mais de cem hectares que ladeavam as rodovias, ferrovias e açudes federais poderiam ser
desapropriadas.
A reação não demorou: um grupo de católicas de classe média e, com o expresso apoio da Igreja,
promoveu, no dia 19 de março de 1964, uma passeata que reuniu cerca de quinhentas mil pessoas na
Praça da Sé, em São Paulo. Protestavam contra o governo de João Goulart, acusado de promover a
baderna, a corrupção e levar o país à instabilidade política. Essa mobilização ficou conhecida como
Marcha da Família com Deus pela Liberdade. Setores militares viram nessa manifestação o apoio de que
precisavam para impetrar o golpe. Na noite de 30 de março de 1964, o general Olympio Mourão Filho,
chefe daQuarta Região Militar, com o apoio do governador de Minas Gerais,Magalhães Pinto,
desencadeou o golpe, forçando a deposição de João Goulart.
No dia 1º de abril, numa sessão tumultuada do Congresso, o presidente do Senado, Moura Andrade,
declarou a vacância da presidência da República,investindo,em seguida,o presidente da Câmara dos
Deputados, Pascoal Ranieri Mazzilli, no cargo maior do país.
Embora obedecendo ao preceito constitucional que empossou o deputado Ranieri Mazzilli na
presidência da República (o terceiro na linha sucessória), quem passou a exercer o poder, de fato, foi
uma junta constituída pelos ministros militares, a saber: Augusto Rademaker Grünewald (Marinha),
Francisco de Assis Correia de Melo (Aeronáutica) e Artur da Costa e Silva (Guerra).
Essa junta militar,autointitulada Comando Supremo da Revolução, baixou o primeiro Ato
Institucional (AI) pelo qual os direitos políticos de qualquer cidadão poderiam ser sUSP ensos pelo prazo
de dez anos, bem como os mandatos legislativos federais, estaduais e municipais poderiam ser cassados,
sem qualquer apreciação judicial.
Iniciava-se o período do regime ditatorial! Cidadãos sUSP eitos ou identificados como “subversivos”
ou “comunistas” tiveram seus direitos políticos sUSP ensos. Políticos no exercício de seu mandato
popular, mas não alinhados com o novo governo, foram cassados. Na primeira lista dos atingidos pelo
AI-1, composta de 102 nomes, foram cassados 41 deputados federais e sUSP ensos os direitos políticos de
vários líderes sindicais e nomes expressivos da intelligentsia nacional, a exemplo do economista Celso
Furtado, do embaixador Josué de Castro, do ministro da Justiça Abelardo Jurema, do reitor da
Universidade de Brasília Darcy Ribeiro e do jornalista Samuel Wainer. Entre os políticos cassados,
estavam os ex-presidentes João Goulart e Jânio Quadros, os exgovernadores Leonel Brizola e Miguel
Arraes, o secretário-geral do Partido Comunista Brasileiro (PCB), Luis Carlos Prestes, entre outros.
No mesmo AI-1, determinava-se a realização de eleições indiretas para a presidência da República
pela maioria absoluta dos membros do Congresso Nacional. Com um parlamento já bastante mutilado
pela cassação dos mandatos políticos de vários deputados federais, o Congresso Nacional apenas
ratificou os nomes já escolhidos pelo Comando Supremo da Revolução. Assim, foi eleito para a
presidência da República o general Humberto de Alencar Castelo Branco. A partir de então, o cargo de
presidente da República passou a ser escolhido indiretamente por um Colégio Eleitoral.
Segundo dados do relatório Brasil: nunca mais, de 1985, o regime militar deixou um legado nefasto
para as futuras gerações de brasileiros, evidenciado pelos seguintes números:
Entre os anos de 1964 e 1979, 10 mil brasileiros foram para o exílio por motivos políticos;
707 processos políticos foram abertos pelos órgãos de repressão, que implicaram 7.367 detidos, sendo que 1.918 deles afirmaram ter
sofrido torturas durante o processo;
4.682 civis foram perseguidos ou demitidos do serviço público;
595 políticos eleitos tiveram seus direitos políticos cassados;
1.805 militares foram colocados à margem ou destituídos de seus postos;
144 cidadãos foram brutalmente mortos, nos porões da ditadura, vítimas de tortura;
Cerca de 152 brasileiros são tidos como desaparecidos políticos, pois seus corpos não foram restituídos às famílias.

Passados mais de quarenta anos do Golpe de 64, parentes desses familiares desaparecidos ainda
lutam na justiça pelo reconhecimento por partedogoverno deque foram vítimas da ditadurae pelo direitoà
indenização, prevista na Lei dos Desaparecidos Políticos (Lei n. 9.140, de 1995).
Além dos próprios familiares, historiadores e cientistas sociais, interessados na história recente do
país lutam pela abertura total dos arquivos dos órgãos de censura e repressão existentes à época do
regime militar. Isso se constitui um direito de cidadania, na medida em que a informação existente nesses
acervos pode levar as famílias ao paradeiro de seus parentes, bem como ao conhecimento de aspectos
ainda hoje nebulosos sobre fatos ocorridos no período. A abertura desses arquivos torna-se também
imprescindível para que o passado sirva ao esclarecimento do presente e para que não esqueçamos,
como tão bem expressou o compositor Chico Buarque, essa “página infeliz da nossa história”.
A memória da resistência à ditadura militar deve se constituir em instrumento de luta para o
fortalecimento do regime democrático em nosso país.

B IBLIOGRAFIA
ARNS, Paulo Evaristo et al. Brasil: nunca mais. 34. ed. Petrópolis: Vozes, 2005.
BIZ , Osvaldo (org.). Sessenta e quatro: para não esquecer. Porto Alegre: Literalis, 2004.
FICO, Carlos. Além do Golpe: versões e controvérsias sobre 1964 e a ditadura militar. Rio de Janeiro: Record, 2004.
NAPOLITANO, Marcos. O regime militar brasileiro: 1964-1985. São Paulo: Atual, 1998. (Coleção Discutindo a História do Brasil).
REIS, Daniel Aarão; RIDENTI, Marcelo; MOTTA, Rodrigo Patto Sá. O golpe e a ditadura militar: 40 anos depois (1964-2004). Bauru: Edusc,
2004.

Ricardo Oriá – Foi professor de Metodologia e Prática de Ensino de História da Universidade Federal do Ceará (UFC). É
mestre em Direito Público pela Faculdade de Direito da UFC e doutorando em História da Educação pela Universidade de São
Paulo (USP). É autor de livros didáticos para o ensino fundamental.
7 DE ABRIL DE 1831
ABDICAÇÃO DE D. PPEDRO I
Noé Freire Sandes



ntre 6 e 7 de abril de 1831, a tensão tomou conta da cidade do Rio de
Janeiro, resultado do acúmulo de conflitos oriundos da rivalidade política
entre o Parlamento e o imperador D. Pedro I e das dúvidas acerca dos
rumos da recémfundada nação brasileira. Acuado pelas demandas liberais
que insistiam na defesa de uma monarquia constitucional e pela percepção,
disseminada na sociedade, de sua vinculação excessiva com os problemas
relativos à sucessão do trono português, D. Pedro vacilava: tornara-se
brasileiro ao assumir a direção do novo Império, mas não podia ficar alheio
ao que ocorria no seio de sua família em Portugal. Aceitara, com hesitação,
governar sob a égide do pensamento liberal, desde que suas decisões,
quanto à escolha do ministério, não fossem questionadas pelo povo
insurgente. A adesão das tropas ao movimento popular redobrou a pressão
sobre o imperador, instado a nomear políticos com prestígio suficiente para pôr fim aos embates entre os
grupos em conflito (brasileiros x portugueses ou partidários do imperador x defensores da monarquia
constitucional), visando encerrar a disputa arraigada e violenta que transformou as ruas do Rio de
Janeiro em palco de constante desordem.
Ao contrário do esperado acordo, a demissão do frágil ministério liberal incapaz de deter a crise
política foi seguida pela nomeação, em 5 de abril de 1831, de um ministério formado por políticos
nascidos em Portugal. Os boatos ecoavam na cidade: o imperador já ordenara a prisão das lideranças
oposicionistas, o senador Vergueiro e o deputado Evaristo da Veiga. O ajuntamento popular se agigantava
nas proximidades do antigo Campo de Santana.
Diante do conflito iminente, mas cioso de suas prerrogativas reais, o imperador resistia às pressões
do povo insurrecto, transformando o enfrentamento político em questão de honra: sem consultar os seus
ministros, o imperador redigiu e assinou o decreto de abdicação, entregando-o ao major Frias
Vasconcelos. Encerrava-se, melancolicamente, a experiência política que conduziu o Brasil à condição
de nação soberana sob o comando do príncipe em setembro de 1822.
A surpresa decorrente do gesto do imperador exigia ação redobrada. Os frágeis compromissos que
viabilizaram o processo de independência caíram por terra. Sob os ombros da geração da Independência
recaiu a responsabilidade de remontar o pacto político. Coube à regência, portanto, a primazia da
constituição de uma ordem política nacional, sem a mediação direta do passado representado pela figura
do imperador deposto. Entretanto, esse passado ainda se fazia presente, orientando as ações políticas:
para os homens que conduziram a nação após 1831, a monarquia representava um porto seguro, enquanto
a república assemelhava-se ao desvario, à desordem. Não por acaso, o povo e a tropa aclamaram o
príncipe imperial ainda menino na mesma madrugada em que o imperador assinou a abdicação. A
monarquia ganhara força de tradição, reorganizada sob o escopo das lideranças que cuidaram de educar
o futuro imperador. O interregno da menoridade exigiu da Regência capacidade de reconduzir a nação ao
entendimento. Tarefa hercúlea e complexa, cujo resultado nem sempre foi profícuo. A explosão dos
movimentos insurrecionais nos quatro cantos do país indicava a fragilidade do novo pacto político. A
reordenação política que se impôs ao país foi batizada como Regresso: o retorno à política de
centralização que conduziu o príncipe D. Pedro ao trono em 1840, com 15 anos incompletos (Golpe da
Maioridade).
De algum modo, quanto mais se evidenciava a incapacidade da Regência em redefinir o pacto
nacional mais se acentuava o ocaso dos acontecimentos de 7 de abril de 1831. Em meados do século XIX,
a memória da nação fora associada à imagem de D. Pedro no célebre “grito do Ipiranga” em 7 de
setembro de 1822. Entretanto, o desejo de memória presente no Império foi acompanhado por um
movimento de crítica às próprias instituições imperiais quando se inaugurou, em 1862, um dos primeiros
monumentos históricos do Rio de Janeiro, gravando no bronze a imagem do imperador D. Pedro I, em
comemoração aos quarenta anos de Independência.
Essa inauguração motivou o deputado mineiro Theophilo Benedicto Otonni a registrar num panfleto o
seu embaraço e a sua discordância diante daquele gesto comemorativo. Alertou o deputado que partilhar
da consagração a D. Pedro I não se tratava de mero gesto de cortesia e civilidade, pois tal homenagem
poderia significar a aceitação de que o movimento de Independência fora obra dos Bragança,
assemelhando o 7 de abril de 1831 a um crime de rebelião. A aceitação da homenagem, portanto,
representaria a anulação da luta empreendida contra o imperador e o reconhecimento da injustiça
cometida naquele tempestuoso mês de abril, posição que aparentaria uma traição ao ideário da geração
de 1831.
O episódio da estátua equestre é revelador de tensões políticas decorrentes da avaliação histórica do
passado, pois finalmente qual seria a data definidora da formação nacional: 7 de setembro de 1822 ou 7
de abril de 1831? A simples inauguração de um monumento sinalizava as disputas simbólicas,
atualizando o debate em torno da formação da nacionalidade. Ottoni requisitava outra temporalidade para
o processo de independência, cujo marco se vincularia à Inconfidência Mineira. A estátua equestre é
identificada como obra dos portugueses que, generosamente, contribuíram com donativos para a
construção do monumento, sinal de uma expiação. História e memória enfrentaram-se sinalizando as
fricções políticas constitutivas da formação do Estado brasileiro.
O 7 de abril de 1831, transformado em data nacional pelas lideranças regenciais, foi perdendo a
referência de um projeto nacional e lançado, gradativamente, ao esquecimento. Vibravam as vozes dos
partidários do Regresso, mas nos idos dos anos 1860, ainda se ouviam os ecos do movimento de 7 de
abril: sonoridade contida, murmúrio de um projeto político derrotado, mas com vitalidade suficiente para
o questionamento da ordem política do império.

B IBLIOGRAFIA
FAORO, Raymundo. Os donos do poder: formação do patronato político brasileiro. Porto Alegre: Globo, 1976.
MONTEIRO, Tobias. História do Império: a elaboração da independência. São Paulo: EdUSP, Belo Horizonte: Itatiaia, 1981.
SANDES, Noé Freire. A invenção da nação entre a Monarquia e a República. Goiânia: Editora da UFG, 2000.
SOUZA, Iara Lis Carvalho. Pátria coroada: o Brasil como corpo político autônomo – 1780 – 1831. São Paulo: Unesp, 1999.
SOUZA, Octávio Tarquínio de. A vida de D. Pedro I. Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército/José Olympio, 1972.

Noé Freire Sandes – Professor do Departamento de História da Universidade Federal de Goiás e doutor em História Social
pela Universidade de São Paulo (USP).
14 DE ABRIL DE 1909
DESCOBERTA DA DOENÇA DE CHAGAS
Rozélia Bezerra



doença de Chagas foi descoberta pelo cientista brasileiro Carlos Ribeiro
Justiniano das Chagas, ou simplesmente Carlos Chagas, em 14 de abril de
1909, na cidade mineira de Lassance. No século XIX, três enfermidades
endêmicas conhecidas afligiam a população que residia nos centros urbanos
como o Rio de Janeiro. Eram elas: a febre amarela, a peste e a varíola, ao
mesmo tempo que, na zona rural do Brasil (os sertões), as doenças
parasitárias, como o “impaludismo” e a ancilostomose, eram as prevalentes. A
doença de Chagas, também conhecida como tripanossomíase americana, veio
juntar-se a estas no início do século XX, podendo-se constatar que a nova
enfermidade é uma zoonose do continente americano, cuja distribuição
geográfica se estende a partir do sul da América do Norte indo até a Argentina
e Chile, tendo forte incidência no Brasil.
A História da doença de Chagas começou pela entomologia. Ao chegar à região de Minas Gerais,
para combate à malária que se alastrava entre os funcionários da Central do Brasil, Chagas e Belisário
Penna foram informados, pelo engenheiro Cantarino Mota, sobre um inseto conhecido popularmente por
barbeiro. Essa denominação é dada a insetos semelhantes a percevejos, que têm hábitos noturnos,
escondendo-se de dia nas frestas e frinchas das choupanas de pau-a-pique e à noite saem para picar os
moradores de cujo sangue se alimentam. Como as pessoas, em geral, estão cobertas, eles escolhem a face
para o repasto sanguíneo, daí surgiu seu nome. Segundo lhes relatou o engenheiro, esses insetos poderiam
estar relacionados com a ocorrência de “papo e idiotia do capiau”, cujos sintomas são anemia profunda,
“bócio”, algumas vezes edema generalizado, perturbação do sistema nervoso e infantilismo.
Como bom observador, Chagas percebeu que, em geral, o hematófago era visto em maior abundância
nas habitações pobres, nas choupanas não rebocadas e com o teto coberto de capim. Após estudar os
hábitos dos insetos, fez várias dissecações e extraiulhes o tubo digestivo. Nos tubos examinados
encontrou um protozoário – parasito composto de uma célula só – que foi classificado no gênero
Trypanossoma. A partir disso, exemplares do barbeiro capturados no interior de habitações humanas
foram enviados ao Instituto Manguinhos, no Rio de Janeiro, onde o sanitarista Oswaldo Cruz produziu
uma infecção experimental, após submeter mamíferos da espécie Callithrix penicillata à picada dos
diversos exemplares enviados por Chagas. Decorridos aproximadamente trinta dias, o exame de sangue
periférico desses animais revelou a presença de um grande número de tripanossomos, cuja morfologia
era inteiramente diferente de quaisquer das espécies até então conhecidas do gênero Trypanossoma. O
atendimento clínico a uma criança de dois anos, de nome Berenice, “febricitante e em estado grave”
levou à realização de exame de seu sangue periférico tendo sido identificado o mesmo parasito
transmitido aos animais de laboratório pelo barbeiro. O flagelado foi denominado Trypanossoma cruzi,
em homenagem ao diretor do Instituto de Manguinhos.
Com o apoio dos pesquisadores do Instituto Manguinhos e de outros pesquisadores visitantes, Carlos
Chagas desenvolveu um trabalho completo sobre a enfermidade causada pelo Trypanossoma cruzi, a
qual ficaria reconhecida, internacionalmente, como doença de Chagas. O cientista estabeleceu todos os
aspectos básicos da epidemiologia da nova enfermidade, na qual identificou o agente etiológico; o ciclo
parasitário; o vetor; os reservatórios; e descreveu as formas clínicas; sinais clínicos; achados de
necropsia; diagnóstico clínico, laboratorial e diferencial.
O primeiro anúncio da descoberta, em um periódico científico, foi feito na Revista Brazil-Médico e
Memória do Instituto Oswaldo Cruz. O anúncio à Academia Nacional de Medicina ocorreu em 22 de
abril de 1909. A primeira divulgação, fora de anais científicos, apareceu no Almanaque brasileiro
Garnier, em 1912.
O trabalho de Chagas também obteve reconhecimento internacional. A dupla descoberta – a nova
espécie de protozoário e de uma nova enfermidade humana – foi peça-chave na Exposição Internacional
de Higiene realizada em junho de 1911, na cidade de Dresden. Em 1912, Carlos Chagas obteve o Prêmio
Schaduinn, honraria conferida pelo Instituto Naval de Medicina de Hamburgo. O Prêmio Schaudinn havia
sido instituído depois da morte do fundador da Protozoologia. Seus companheiros de pesquisas no
Instituto de Moléstias Tropicais de Hamburgo resolveram conceder medalha de ouro, de quatro em quatro
anos, ao cientista, de qualquer nacionalidade, autor da mais importante descoberta científica. O
premiado teria de ser escolhido por um eleitorado internacional, constituído de pessoas de reputação
firmada no mundo científico. Cumprindo todos os pré-requisitos, Chagas foi o premiado daquele ano.
Entretanto, passados alguns anos, o trabalho de Chagas recebeu vários questionamentos. Um deles foi
levantado, em 1916, pelo bacteriologista alemão Rudolf Krause, diretor do Instituto de Bacteriologia de
Buenos Aires, o qual tinha observado que, em certas regiões da Argentina, apesar da existência de
triatomíneos infectados, não existia a clínica da doença e, com isso, contestou a veracidade da
distribuição geográfica da doença descoberta por Chagas. No Brasil, o questionamento foi realizado por
vários membros da Academia Nacional de Medicina , numa disputa histórica que durou de 1919 a 1923.
Em 1919, Figueiredo de Vasconcelos afirmou que entre as doenças parasitárias endêmicas no Brasil,
apenas a “ancylostomíase e o impaludismo são moléstias graves” e que “o mesmo não se dá com a
trypanosomíase brasileira”. Outro desafeto de Chagas foi Afrânio Peixoto, que discutiu sobre a
verdadeira “extensão do mal” que chamou de “doença de Lassance”; além disso, Peixoto questionou a
estatística sobre a enfermidade: seria real a prevalência de 15% da população brasileira infectada, isto
é, mais de 4,5 milhões de brasileiros seriam atingidos pelo mal?
Apesar desses e de outros questionamentos, tudo findou com a plena vitória de Chagas. O próprio
Oswaldo Cruz saiu em sua defesa. Belisário Penna, várias vezes, defendeu Carlos Chagas, relatando a
expedição realizada com o médico Arthur Neiva, onde constatou a exata dimensão do impacto negativo
causado pela doença de Chagas nos habitantes das regiões visitadas.
Pesquisa realizada em 2002, analisando a trajetória da doença de Chagas em Lassance, ou seja, 90
anos após a descoberta de Carlos Chagas, mostrou que a positividade para a doença foi de 5,03%,
afetando, basicamente, os grupos de faixa etária elevada, sendo a letalidade ainda significativa.
Carlos Chagas morreu aos 54 anos, em 1932, e é considerado, até hoje, um dos cientistas brasileiros
mais completos.

B IBLIOGRAFIA
CARNEIRO, M. História da doença de Chagas. Curitiba: s. n., 1963.
CHAGAS, Carlos. Nova tripanozomiaze humana. Estudos sobre a morfolojia e o ciclo de Schizotrypanum cruzi n.gen., n.sp, ajente etiolojico
de nova entidade mórbida do homem. Memórias do Instituto Oswaldo Cruz, v. 1, f. II, 1909, pp. 159-217.
DIAS, J. C. P. et al. Doença de Chagas em Lassance, MG. Reavaliação clínicoepidemiológica 90 anos após a descoberta de Carlos Chagas.
Revista Sociedade Brasileira Médica Tropical, n. 35, v. 2, mar./abr. 2002, pp. 167-76.
REY, L. Parasitologia: parasito e doenças parasitárias do homem nas Américas e na África. Rio de Janeiro: Guanabara-Koogan, 2001.
THIELEN, E. V.; SANTOS, R. A. dos. Belisário Penna: notas fotobiográficas. História, ciências, saúde, n. 2, v. 9, maio/ago. 2002, pp. 387-404.

Rozélia Bezerra – Mestre pela Faculdade de Veterinária da Universidade de São Paulo (USP), doutoranda em Educação pela
mesma universidade. É professora da Universidade Federal Rural de Pernambuco.
16 DE ABRIL DE 1984
DIRETAS JÁ
Conceição Aparecida Cabrini



m São Paulo, no dia 16 de abril de 1984, realizou-se o maior comício do
Brasil até esse ano, reunindo 1,7 milhão de pessoas pró-eleições diretas no
Brasil. Esse comício corresponde a um momento fundamental do final do
regime ditatorial no país no que se refere ao processo político eleitoral.
O regime militar instaurado em 1964 no Brasil extinguiu o
pluripartidarismo,criando em 1966 apenas dois partidos, Arena (Aliança
Renovadora Nacional) e MDB (Movimento Democrático Brasileiro). O
processo eleitoral nesse período também sofreu restrições: as eleições
proporcionais para deputados federais, estaduais e vereadores eram diretas.
Entretanto, o Colégio Eleitoral, formado por parlamentares, escolhia os
cargos majoritários – presidente e governador. O Senado, a partir de
1977,também passou a utilizar a eleição indireta,com o Colégio Eleitoral
escolhendo dois terços dos senadores a serem renovados.Estes, eleitos indiretamente, eram conhecidos
como senadores biônicos.
A intensificação da crise econômica no final da década de 1970 mostrava a fragilidade do assim
chamado “milagre econômico” promovido pelo regime militar. Com isso, o desemprego, a alta inflação e
o arrocho salarial fomentaram profunda tensão social, fortalecendo a resistência ao regime. Em 1978 e
1979 expandia-se o movimento grevista gerado sobretudo pelo sindicalismo dos metalúrgicos em São
Bernardo do Campo (SP) .
Os sinais de mudança em relação ao regime tornavam-se evidentes; em 1979 foi decretada a Lei da
Anistia,possibilitando o retorno de líderes oposicionistas que se encontravam no exílio.Ainda nesse
ano,o governo militar, preocupado com as sucessivas vitórias oposicionistas concentradas no MDB,
mudou a legislação eleitoral extinguindo o bipartidarismo e possibilitando a criação de novos partidos.
Foram criados nesse período o PDS (Partido Democrático Social), reunindo a maioria dos arenistas e o
PMDB (Partido do Movimento Democrático Brasileiro), com a maioria do antigo MDB; o PDT (Partido

Democrático Trabalhista),fundado por Leonel Brizola,que havia retornado do exílio; o PTB (Partido
Trabalhista Brasileiro), fundado por Ivete Vargas e, por último, o PT (Partido dos Trabalhadores), que
teve a sua origem no sindicalismo do ABCD,cidades que compõem a Grande São Paulo (Santo André, São
Bernardo do Campo, São Caetano do Sul e Diadema).
As forças oposicionistas ganhavam espaço contrapondo-se ao regime militar e reivindicando: o
direito de greve e de organização sindical (livre da tutela do Estado); a revogação da Doutrina de
Segurança Nacional; e, principalmente, as eleições diretas, com o fim do Colégio Eleitoral. Em 1982,
conquistaram-se os primeiros passos nesse sentido, quando os governadores dos estados puderam ser
eleitos pelo voto direto A campanha pelas eleições diretas para presidente intensificava-se
gradativamente.Em março de 1983,o deputado Dante de Oliveira (PMDB- MT) apresentou no Congresso
Nacional a emenda que restabeleceria as eleições diretas para a presidência da República. A campanha
foi lançada oficialmente pelo PMDB em 15 de junho desse mesmo ano, na cidade de Goiânia, e passou a
ser conhecida como Movimento das Diretas Já.
Para articular o movimento, formou-se o Comitê Nacional PróDiretas, suprapartidário, reunindo,
entre outros, partidos de oposição (PMDB, PDT, PT), entidades estudantis como a UNE (União Nacional
dos Estudantes), centrais sindicais – CUT (Central Única dos Trabalhadores) e Conclat (Congresso
Nacional das Classes Trabalhadoras) – e também a Comissão Justiça e Paz. Além disso, para divulgar a
ideia, foram organizadas Caravanas das Diretas, que cruzavam o Brasil, tendo sempre à frente Ulysses
Guimarães, então presidente do PMDB, denominado Dr. Diretas por sua atuação; Luiz Inácio Lula da
Silva, presidente do PT; e Doutel de Andrade, presidente do PDT, representando o governador Leonel
Brizola. Estes, denominados “três mosqueteiros”, davam a unidade para a campanha.
Um outro personagem que se destacou na campanha pela redemocratização do Brasil foi o ex-senador
Teotônio Vilela, que, embora estivesse ligado a partidos de direita na maior parte de sua vida política,
migrou para o MDB em 1979 tornando-se um opositor do regime militar. Defensor da anistia, percorreu o
Brasil exigindo as eleições diretas, ganhando, por isso, o título de “Menestrel das Alagoas”. Dizia o ex-
senador, que deixou a vida política em 1982: “O voto direto deve ser conquistado e não barganhado com
ninguém”.
No final de 1983, na cidade de São Paulo, foi realizado um comício, ainda tímido, com o
comparecimento de 15 mil pessoas. Em 1984, o Movimento das Diretas Já toma conta da cidade: em
Curitiba, a manifestação pró-diretas colocou nas ruas um bloco de cerca de 50 mil pessoas. Em São
Paulo,no mesmo ano,foi realizado um grande comício pró-eleições diretas no dia do aniversário da
cidade (25 de janeiro), contando com mais de 300 mil pessoas. Belo Horizonte repetiu a dose de São
Paulo, reunindo, em um comício na avenida Afonso Pena, 300 mil pessoas que gritavam pelas Diretas Já.
Em Goiânia, 250 mil pessoas (¼ da população da cidade) compareceram ao comício das Diretas. Em
Vitória, reuniram-se 80 mil pessoas; no Rio de Janeiro, 300 mil. E novamente em São Paulo,no dia 16 de
abril de 1984, realizou-se o maior comício do Brasil até então,com a participação de 1,7 milhão de
pessoas.
Os comícios eram alegres e coloridos. O amarelo, lançado pelo editor Caio Graco Prado como a
cor-símbolo das Diretas, predominava. Havia shows, presença de artistas, barracas de comidas, estandes
de livros, material de propaganda em favor das Diretas, constituindo-se em uma verdadeira festa-
comício.Para grande parte da população,a manifestação tornou-se um movimento de resistência no qual
colocava-se em questão também o arrocho salarial, o desemprego e a dívida externa.
Em 1984, pela primeira vez em vinte anos, a sucessão presidencial não seguiu os trâmites normais da
ditadura na qual um general nomeava um sucessor. Por um lado, o governo procurava evitar a Emenda
Dante de Oliveira; por outro, não conseguia controlar as divergências internas do PDS em torno da
definição de um candidato à presidência. A Emenda Dante de Oliveira seria votada. Entretanto, apesar de
o envolvimento nas manifestações representar a vontade da maioria da população brasileira em
restabelecer as eleições diretas, a emenda acabou sendo rejeitada em 25 de abril de 1984. Depois de 17
horas de discussão, chegou-se ao seguinte resultado: 298 votos favoráveis, 65 contrários, 3 abstenções e
o não comparecimento de 112 deputados do PDS. Faltaram 22 votos para a aprovação da emenda.
Com a impossibilidade de o povo eleger de forma direta o presidente da República, a atenção agora
se voltava para uma nova articulação do Colégio Eleitoral: setores moderados e conservadores da
oposição, conduzidos pelo PMDB, aliaram-se ao PFL (Partido do Frente Liberal, fundado por lideranças
dissidentes doPDS,como o então vice-presidente da República, Aureliano Chaves, e os senadores José
Sarney e Marco Maciel) e lançaram como candidato à presidência o então governador de Minas Gerais
Tancredo Neves (PMDB), tendo como vice o exgovernador do Maranhão, José Sarney. Esse acordo,
denominado Aliança Liberal,derrotou em 15 de janeiro de 1985,no Colégio Eleitoral, o candidato
governista Paulo Salim Maluf por 480 votos a 180.
A eleição direta para presidente só ocorreria cinco anos após o Movimento das Diretas Já, que hoje
é lembrado como um passo essencial na construção da democracia. Entretanto, a democracia como
instrumento de justiça social, como propunha o Movimento, ainda é um ideal a ser conquistado.

B IBLIOGRAFIA
FAUSTO, Boris. História concisa do Brasil. São Paulo: EdUSP/Imprensa Oficial de São Paulo, 2001.
HENFIL. Diretas Já! Rio de Janeiro: Record, 1984.
KOTSCHO, Ricardo. Explode um novo Brasil: diário da campanha das Diretas. São Paulo: Brasiliense, 1984.
KUSCINSKI, Bernardo. O fim da Ditadura Militar. São Paulo: Contexto, 2001.
RODRIGUES, Alberto Tosi. Diretas Já: o grito preso na garganta. São Paulo: Perseu Abramo, 2003.

Conceição Aparecida Cabrini – Doutora em Comunicação e Semiótica pela Pontifícia Universidade Católica (PUC). Participa
de projetos de formação de professores e atua como professora de História do ensino fundamental e médio.
17 DE ABRIL DE 1996
MASSACRE DE ELDORADO DOS CARAJÁS
Circe Bittencourt



o dia 17 de abril de 1996, por volta das 16 horas, perto de Eldorado dos
Carajás, na rodovia que liga à cidade de Belém, capital do Pará, soldados
da polícia militar, armados com fuzis e metralhadoras, abriram fogo contra
trabalhadores rurais que bloqueavam a estrada em protesto pelo fechamento
de negociações para assentamento de terras. Cercados por um batalhão que
viera de Paraupebas e outro de Marabá, os mil caminhantes ficaram sem
saída e o resultado foi um massacre.
Uma carnificina com duas dezenas de sem-terra mortos e 51 feridos. Os homens e as mulheres
atacados na floresta, que deixaram sangue e pedaços de cérebro espalhados pelo chão e pela relva,
são esses brasileiros chamados de sem-terra, cidadãos que andam descalços, têm roupas sujas de
barro e só costumam ser notícia na forma de cadáver (Veja, 24 abr. 1996).

Esse episódio trágico ficou conhecido como Massacre de Eldorado dos


Carajás.
O genocídio teve ampla divulgação da mídia, ocasionando perplexidade e indignação da sociedade.
O massacre havia trazido à tona um aspecto da estrutura do poder que tem se repetido na nossa história:
as forças policiais como protagonistas de cenas de violência contra cidadãos. Algumas atitudes imediatas
foram tomadas por parte do governo, como a criação do Ministério do Desenvolvimento Agrário e a
desapropriação das três fazendas reivindicadas, transformadas em assentamentos. Passados os momentos
iniciais de comoção, explicações do massacre se sucederam. O episódio de Eldorado dos Carajás não
foi um ato isolado. Foi um acréscimo dramático ao número de assassinatos de diversos líderes
camponeses a partir da década de 1960, às mortes anunciadas, como as de João Pedro Teixeira, na
Paraíba, em 1962, Chico Mendes, no Acre, em 1988, ou resultantes de confrontos e ataques de assassinos
profissionais, pagos pelos proprietários de latifúndios, ocorridas em acampamentos dos semterra, como a
morte de dez trabalhadores, dentre eles uma menina de 7 anos, acampados na fazenda Santa Elina, em
Corumbiara, no estado de Rondônia a 9 de agosto de 1995.
O massacre de Carajás só foi considerado um caso grave e conseguiu ir a julgamento pelo fato de ter
sido filmado por repórteres, estando então documentado. Assim, pôde-se provar que houve a
participação de policiais militares fardados com comandante e tudo.
Esse clima de violência e insegurança nas áreas rurais brasileiras perdura há mais de um século,
fazendo parte do lado cruel da nossa história.No meio rural,desde o final do século XIX,jagunços e
pistoleiros constituíam uma milícia privada dos grandes proprietários de terras, os “coronéis”, que,
contando com o apoio de polícias locais, impunham o que consideravam a defesa da ordem.As ações dos
“coronéis”,com apoio das polícias locais,eram relacionadas ao patrimônio privado: as invasões de terra
não partiam de trabalhadores sem-terra, mas sim de ricos proprietários que tentavam ampliar seus
domínios.
Atualmente, nas áreas rurais, defrontam-se outros grupos sociais. De um lado, os trabalhadores rurais
que nas últimas três décadas passaram a se organizar em movimentos sociais estruturados, reivindicando
a reforma agrária, o crédito agrário para os pequenos proprietários e distribuição de terras devolutas
(nas décadas de 1950 e 1960 ficaram famosas as Ligas Camponesas e, a partir da década de 1980, o
Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra – MST). Do outro lado, estão os grandes proprietários,
produtores ou exploradores de produtos para exportações, incentivadores da monocultura com formas de
organização como a UDR (União Democrática Ruralista) e também uma presença maciça de
parlamentares ruralistas no Congresso Nacional que conseguem bloquear qualquer mudança no regime de
propriedade no país. A atuação dos diversos governos diante dos enfrentamentos dos dois grupos tem
sido historicamente favorável aos grandes proprietários. A justificativa de massacres e mortes de
trabalhadores rurais, incluindo aquelas com participação das forças militares, tem sido feita em nome do
direito da propriedade privada.
A propriedade da terra é o problema central. A reforma agrária, com várias experiências
internacionais, tem sido um tema político mal resolvido no nosso país e a ele se ligam os problemas
governamentais referentes às políticas agrárias, tendo em vista a importância da produção agrícola para a
economia nacional.
O Estatuto da Terra (de 31/11/1964) estabeleceu os conceitos de reforma agrária e política
agrícola.Reforma Agrária,segundo o Estatuto, é “o conjunto de medidas que visem a promover melhor
distribuição da terra, mediante modificações de sua posse e uso, a fim de atender aos princípios de
justiça social e ao aumento da produtividade”.Por política agrária entende o Estatuto ser “o conjunto de
providências de amparo à propriedade de terra que se destinem a orientar,no interesse da economia rural,
as atividades agropecuárias”. Existe, portanto, uma formulação clara de leis que estabelecem a reforma
agrária e que não podem ser confundidas com as ações de política agrária. Essas confusões ocorrem nas
tentativas que parte da mídia e de grupos de proprietários rurais da UDR fazem para justificar as mortes
dos sem-terra insinuando que são invasores de terras “produtivas” inseridas nos projetos das políticas
agrárias, omitindo que são terras disponibilizadas de acordo com o Estatuto da Reforma Agrária.
Entre as muitas versões que ficaram do episódio depois de passado o impacto, os sem-terra
vitimados no massacre do Eldorado dos Carajás foram vistos como culpados da própria morte, tornaram-
se os “vilões da história” ao cometerem “o mais violento dos crimes” – invasão de propriedade privada
– num exemplo de como as reivindicações pela terra podem ser transformadas em atos condenáveis em
certos meios de comunicação que tendem a favorecer os grandes proprietários em detrimento dos
interesses dos trabalhadores rurais.
O massacre de Eldorado dos Carajás também é exemplar no que se refere às ações do poder
judiciário. As pressões nacionais e internacionais conseguiram que se chegasse ao julgamento dos
responsáveis pelas mortes dos trabalhadores rurais. O processo judicial foi sendo montado de maneira a
não identificar os atiradores, mas apenas os mandantes. Inicialmente, 2 oficiais e 158 soldados foram
acusados. Em 19 de novembro de 2004, já no terceiro julgamento, foi condenado o coronel Mario
Pantoja, comandante da tropa de Marabá, a 228 anos de prisão, e um outro oficial, o major José Maria
Oliveira, recebeu a pena de 158 anos. Os soldados e cabos, em um total de 142 indiciados, foram
absolvidos. E, mais recentemente, em setembro de 2005, depois de passar nove meses na prisão, o
coronel Pantoja, que havia apelado para a nulidade de seu julgamento, foi solto por determinação de um
ministro do Supremo Tribunal Federal.
Episódios como esse parecem não desanimar quem acha que deve continuar lutando para que a
questão agrária seja equacionada de modo diferente no Brasil. Para essas pessoas, o dia 17 de abril
transformou-se no Dia Internacional da Luta Camponesa.

B IBLIOGRAFIA
BARREIRA, C. Crimes por encomenda: violência e pistolagem no cenário brasileiro. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 1998.
BUCCI, Eugênio. Sem-terra, sem-túmulo, sem-imagem. O Estado de S.Paulo, 20 abr. 1996, p. D3.
MARTINS, J. de S. Linchamento, o lado sombrio da mente conservadora. Tempo social. São Paulo: USP, v. 8, n. 2, out. 1996, pp. 11-25.
MOVIM ENTO DOS TRABALHADORES RURAIS SEM TERRA. O massacre de Eldorado dos Carajás: Pará/Brasil. Caderno de Formação. São
Paulo, n. 32, 1999.
SARAM AGO, José. Terra, direito e justiça. In: SALGADO, Sebastião. Terra. São Paulo: Companhia das Letras, 1997.

Circe Bittencourt – Licenciada e bacharel em História pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da
Universidade de São Paulo (FFLCH-USP). Fez mestrado e doutorado em História Social pela FFLCH-USP. Atualmente é
professora de pós-graduação na Faculdade de Educação da USP.
18 DE ABRIL (2002)
DIA DO LIVRO INFANTIL
Ricardo Oriá



instituição do Dia do Livro Infantil se fez através da Lei n. 10.402, de 8 de
janeiro de 2002, devendo ser comemorado anualmente na data de 18 de abril,
em homenagem ao escritor José Bento Monteiro Lobato (1882-1948).
Antes de se tornar um renomado escritor, Monteiro Lobato era um
cafeicultor paulista em Taubaté, no Vale do Paraíba. Com o declínio da
produção
cafeeira, mudou-se para São Paulo, onde realizou seus estudos na
Faculdade de Direito do Largo São Francisco. Trabalhou durante certo tempo
como promotor público no interior paulista, mas, desde a época da faculdade,
já demonstrava pendor para a literatura, escrevendo sob vários pseudônimos.
A partir de 1916, tornou-se colaborador da Revista do Brasil, periódico
pertencente ao grupo editorial do jornal O Estado de S. Paulo, dedicado a
temas nacionais.
Seu primeiro livro, Urupês, de 1918, tornou-se um fenômeno editorial para a época. Em um dos
contos, Lobato expõe as mazelas do homem do campo, retratado na figura do personagem Jeca Tatu. A
primeira edição de mil exemplares foi toda vendida em apenas um mês. O livro chegou a ter trinta mil
exemplares impressos nos cinco anos seguintes. .
Monteiro Lobato, no entanto, tornar-se-ia mais famoso como escritor de literatura infantil, trajetória
que somente foi iniciada em 1920, ao publicar o livro A menina do narizinho arrebitado, ilustrado pelo
desenhista Voltolino, com uma tiragem inicial de 50,5 mil exemplares. Número esse surpreendente para a
época em que as tiragens não ultrapassavam três mil exemplares.
Inovou as histórias dedicadas a esse segmento ao mesclar temas clássicos com assuntos regionais e
genuinamente nacionais. Muitas gerações de brasileiros leram e se divertiram com as presepadas de
Pedrinho, Narizinho e Emília ou ouviram as histórias fantásticas contadas por Dona Benta.A televisão
brasileira inspirou-se em sua obra para exibir o programa Sítio do Pica-Pau Amarelo, com as aventuras
dessa turma que, ainda hoje, encanta as crianças de todo o país.
Monteiro Lobato foi, além de escritor, editor. A indústria editorial o considera fundador da moderna
editoração no Brasil. Numa época em que não havia uma legislação consolidada que garantisse os
direitos autorais dos escritores,Lobato manteve com estes uma relação cordial por meio do pagamento
correto com base nos exemplares vendidos.Esmerouse no trabalho gráfico-editorial, produzindo obras
bem acabadas, com capas adequadas, clareza de impressão e inovação nos formatos dos livros.
Sua primeira experiência editorial se deu no ano de 1919, quando fundou a empresa Monteiro Lobato
& Cia. A partir daí, foi responsável pelo lançamento de autores novos no reduzido mercado editorial
pelo lançamento de autores novos no reduzido mercado editorial 1967), que inaugurou no país um gênero
literário de bastante aceitação junto ao público-leitor. Eram as crônicas históricas e os contos
infantojuvenis, que contavam a história Pátria com personagens e fatos marcantes de nosso passado.
Além de editor, Monteiro Lobato preocupava-se com o mercado livreiro e o consequente acesso da
população ao livro. Em 1918, montou uma inovadora estratégia de divulgação ao escrever uma carta
dirigida aos comerciantes de bancas de jornal,papelarias,farmácias e armazéns de todo o território
nacional, com o intuito de aumentar os pontos de venda do livro, restrito àquela época às livrarias
localizadas geralmente nas capitais.
A crise econômica dos anos 1920 acarretou prejuízos para a Monteiro Lobato & Cia, que encerrou
suas atividades em 1925. Mas Lobato persistiu no seu trabalho de editor e, com o amigo e comerciante
Octalles Marcondes Ferreira, fundou a Companhia Editora Nacional.Essa editora foi, até a década de
1970, uma das maiores do Brasil, publicando, sobretudo, livros didáticos e obras de referência do
pensamento social brasileiro, consubstanciado na famosa Coleção Brasiliana.
A atuação de Monteiro Lobato justifica, sem dúvida, as homenagens póstumas. Mas, pode-se
perguntar: por que uma data específica para comemorar o livro? O que justifica essa homenagem em um
mundo globalizado que convive com outros suportes de informação, tais como a internet, os livros
eletrônicos, os textos virtuais, cd-roms e acervos multimídia, entre outros?
Com o advento dessas novas tecnologias da informação, muitos apostaram no fim do livro impresso.
Só que isso até o momento não ocorreu. Apesar de todo o avanço tecnológico da era digital, o livro ainda
tem o seu lugar garantido no mundo da informação. É ele, em grande parte, responsável pela memória da
humanidade, ao trazer, desde séculos e milênios, o conhecimento acumulado e sistematicamente
produzido pela sociedade. Não há quem possa negar que o livro, infantil ou juvenil, de ficção ou
didático, é um importante bem cultural da humanidade que, ao possibilitar o acesso à informação,
constitui instrumento essencial para a formação da cidadania de todos.
A celebração do livro não é apenas uma data nacional.Com o objetivo de fomentar a prática da
leitura, fortalecer a indústria editorial e proteger a propriedade intelectual, a Unesco instituiu a data de
23 de abril como o Dia Mundial do Livro e do Direito do Autor, em homenagem à data natalícia de dois
importantes escritores da literatura ocidental: o espanhol Miguel de Cervantes e o inglês William
Shakespeare.
Há também uma data específica no calendário para a comemoração do livro infantojuvenil. Trata-se
do dia 2 de abril, em homenagem ao nascimento de um dos maiores escritores da literatura homenagem
ao nascimento de um dos maiores escritores da literatura 1875). Outra data importante para se refletir
sobre a importância do livro na sociedade moderna é o dia 29 de outubro, instituído como Dia Nacional
do Livro, que marca o aniversário de fundação da maior biblioteca do Brasil e a oitava do mundo em
acervo: a Biblioteca Nacional, localizada na cidade do Rio de Janeiro e que se originou da antiga
Biblioteca Real trazida pelo monarca português D. João VI.
No Brasil, em especial, a instituição de uma data específica para comemorar o livro infantil tem uma
importância crucial. Em primeiro lugar, porque em nosso país ainda temos um expressivo número de
analfabetos funcionais. Cerca de 38% dos brasileiros mal sabem ler e escrever seu próprio nome. Em
segundo lugar, há outro dado desalentador: o índice de leitura do brasileiro é um dos mais baixos do
mundo. O brasileiro lê, em média, apenas 1,8 livro por ano.
Segundo dados da Câmara Brasileira do Livro (CBL), os livros infantis são responsáveis por 14%
da produção literária nacional.Isso porque Lobato deixou muitos herdeiros na arte de contar histórias
infantis. Nomes como Ana Maria Machado,Ruth Rocha,Ziraldo,Lygia Bojunga,Tatiana Belinky, entre
outros, enriquecem a literatura infantil de nosso país e contribuem para o desenvolvimento do hábito da
leitura em nossas crianças.
Na tarefa de incentivo à prática da leitura, a escola e a biblioteca são instâncias fundamentais que
não podem ser desprezadas se quisermos, de fato, construir uma sociedade brasileira leitora e letrada.
Esse era o sonho de Monteiro Lobato, que ainda hoje deve ser compartilhado por todos nós, educadores,
autores, editores, livreiros e bibliotecários, enfim, todos aqueles que veem no livro um instrumento
indispensável à formação de uma democracia cidadã.

B IBLIOGRAFIA
HALLEWELL, Laurence. O livro no Brasil (sua história). São Paulo: T. A. Queirós/ EdUSP, 1985.
LAJOLO, Marisa. Monteiro Lobato: um brasileiro sob medida. São Paulo: Moderna, 2000.
MOM ENTOS do livro no Brasil. São Paulo: Ática, 1996.
SILVEIRA, Júlio; RIBAS, Martha (orgs.). A paixão pelos livros. Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2004.
ZILBERM AN, Regina. Como e por que ler a literatura infantil brasileira. Rio de Janeiro: Objetiva, 2005.

Ricardo Oriá – Foi professor de Metodologia e Prática de Ensino de História da Universidade Federal do Ceará (UFC). É
mestre em Direito Público pela Faculdade de Direito da UFC e doutorando em História da Educação pela Universidade de São
Paulo (USP). É autor de livros didáticos para o ensino fundamental.
19 DE ABRIL (1943)
DAI DO ÍNDIO
Maria Elisa Ladeira
Luiz Augusto Nascimento



primeiro Congresso Indigenista Interamericano, realizado em 1940 na
cidade de Patzcuaro, no México, recomendou o dia 19 de abril como a
data comemorativa para o Dia do Índio. A recomendação de
institucionalização dessa data tinha por objetivo geral outorgar aos
governos americanos normas necessárias à orientação de suas
políticas indigenistas. O Brasil ratificou essa recomendação no dia 2
de junho de 1943, por meio do Decreto Lei n. 5.540/43, assinado pelo
então presidente Getúlio Vargas.
Passaram-se 65 anos e, nesse meio tempo, vários povos indígenas
foram contatados e alguns dizimados em decorrência das frentes de
expansão de “desenvolvimento” promovido pelo Estado brasileiro.
Estima-se a existência de mais de duzentos povos indígenas no
Brasil pertencentes em quase toda a sua totalidade a cinco grandes e diferentes complexos linguísticos
culturais (Tupi, Jê, Aruak, Pano e Karibe), sendo que muitos desses povos ultrapassam as fronteiras
brasileiras estendendo-se pelos países vizinhos da América Latina. Existem grupos indígenas que vivem
de forma autônoma, não mantendo contato regular com a sociedade nacional. As terras ocupadas pelos
povos indígenas correspondem a uma área inferior a 12% de todo território nacional, sendo 70% dessas
terras localizadas na região norte do país.
Há povos com população que ultrapassa a casa dos 30 mil, como é o caso dos Guarani, Macuxi e
Tikuna, entre outros, contrapondo-se a povos com população inferior a 20 indivíduos, a exemplo os
AvaCanoeiros, cuja população é de 14 pessoas.
Os indígenas sempre reclamam que os cristãos – palavra bastante utilizada por eles para classificar
os não índios – lembram-se de seu povo somente no dia 19 de abril, porque nessa data precisam
apresentar para o mundo marcas dos antecedentes históricos da formação da cultura nacional. É
justamente nesse período que as escolas dos não índios reforçam a ideia de um índio genérico, mostrando
um indivíduo estilizado. Professores acentuam o arco, a flecha, a rede, o penacho e a oca como os únicos
artefatos do(s) índio(s). Ensinam que Tupã é o deus único e que todos os indígenas no Brasil são falantes
de língua Tupi. Durante muito tempo, os índios foram retratados nos livros didáticos seguindo essa
concepção, que enfoca os indígenas como personagens distantes da nossa realidade, prestes ao
desaparecimento, e que devem ser relembrados no dia 19 de abril.
A política indigenista oficial brasileira, desde os tempos do Serviço de Proteção ao Índio (SPI),
criado em 1910, até a Fundação Nacional do Índio (Funai), instituída em 1967, transformou o dia 19 de
abril num ato de civismo para com as populações indígenas. Essa data entra no rol das paradas nacionais
que se reforçou no período dos governos militares no Brasil, cuja ideologia posicionava-se no
fortalecimento do patriotismo e na consolidação de um estado nacional uno.
A partir da redemocratização política do Brasil no início da década de 1980 e com o advento da
Constituição brasileira, promulgada em 1988, os povos indígenas passaram a configurar uma nova
correlação de forças com o Estado brasileiro, numa perspectiva de não serem mais tutelados pelo Estado
e tendo a liberdade de ajuizarem-se contra o seu antigo tutor – o Estado. Hoje, é respaldada aos
indígenas a criação de organizações juridicamente definidas. Esse respaldo proporcionou o surgimento
de mais de 150 organizações indígenas no Brasil.
Nessa conjuntura, o dia 19 de abril deixa de representar apenas mais uma parada de civismo
nacional e passa a ser o dia das grandes manifestações do movimento indígena. Nas décadas
subsequentes ao advento da Constituição de 1988, os 19 de abril foram marcados por manifestações
promovidas pelas organizações indígenas e indigenistas em defesa dos direitos garantidos na
Constituição Federal, tais como os direitos originários à terra (art. 210) e ao respeito à diversidade
étnica e cultural (art. 231).
No ano de 2000, quando o Estado brasileiro preparava-se para comemorar quinhentos anos da
chegada dos europeus às Terras Brasiles, o movimento indígena promoveu uma grande manifestação em
todo o território nacional que marcou sua história no Brasil. No dia 19 de abril desse ano, os índios
ocuparam a tribuna da Câmara dos Deputados e do Senado em Brasília, não mais para representarem o
civismo nacional e comportarem-se como bons selvagens, mas para protestarem pela falta de
compromisso político dos governantes brasileiros, que carregam o dilema crônico de não demarcar as
terras indígenas, compromisso este firmado no processo constituinte de 1988, que após cinco anos de sua
promulgação garantiria a demarcação de todas as terras indígenas no território nacional. Passaram-se 17
anos e o dilema continua.
Antes as comemorações restringiam-se às escolas dos grandes centros urbanos em torno do
simbolismo da cultura nacional e, nas aldeias com mais tempo de contato, o órgão indigenista oficial
promovia jogos de futebol, churrascos e atividades extra-aldeias – desfiles em praças públicas nos
estados – como exemplo da cidadania indígena.
Mas o movimento indígena está paulatinamente transformando os churrascos e desfiles do Dia do
Índio em uma manifestação política, chamando a atenção das autoridades brasileiras para falta de
políticas públicas para os povos indígenas. O 19 de abril é hoje, portanto, uma data que expressa a
tensão no campo das relações interétnicas entre povos indígenas e sociedade nacional.

B IBLIOGRAFIA
CUNHA, M. Manuela Carneiro da. Os direitos do índio: ensaios e documentos. São Paulo: Brasiliense, 1987.
_____. História dos índios no Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1992.
DA MATTA, Roberto. Carnavais, malandros e heróis: uma análise sociológica da sociedade brasileira. Rio de Janeiro: Rocco, 1992.
SANTILLI, Juliana. A proteção aos direitos intelectuais coletivos das comunidades indígenas brasileiras. São Paulo: Socioambiental,
2003.

Maria Elisa Ladeira – Bacharel em Ciências Sociais, mestre em Antropologia Social e doutora em Semiótica e Linguística
pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (USP). Fundadora e coordenadora do
Centro de Trabalho Indigenista (CTI).

Luiz Augusto Nascimento – Bacharel em Ciências Sociais pela Universidade Federal do Maranhão (UFM A). Assessor do
Projeto de Educação do Centro de Trabalho Indigenista (CTI) junto aos povos Timbira. Bolsista Internacional da Fundação Ford.
21 DE ABRIL DE 1792
TIRADENTES
Thais de Lima e Fonseca



“No mesmo chão se levantará um padrão, pelo qual se conserve em memória a infâmia deste
abominável réu”.
reservar a infâmia, a desgraça e o delito de Joaquim José da Silva Xavier, o
Tiradentes, foi o objetivo desse trecho da sentença que o condenou à morte
por enforcamento, a 21 de abril de 1792, pelo crime de lesa-majestade, por
conspirar contra a Coroa portuguesa, no movimento que ficou conhecido
como Inconfidência Mineira. A sentença visava desonrá-lo, erguendo um
marco de pedra no local onde estivera sua casa. Infamando-o, esperava-se
exaltar a rainha. No entanto, não se fez o silêncio que a Coroa desejava
imprimir à memória de Tiradentes.
Em 1821, esse marco de infâmia foi demolido pela primeira Junta do
Governo Provisório da Capitania de Minas Gerais, ação explicada como um
ato de patriotismo, contrário à herança da colonização portuguesa. A partir
daí, conforme as circunstâncias, houve muitas iniciativas em prol da
memória de Tiradentes, principalmente à medida que o movimento republicano começava a se
consolidar, na segunda metade do século XIX. Já em 1867, em Ouro Preto, então capital da província de
Minas Gerais, foi erguido um monumento na praça central da cidade, uma coluna de pedra em
homenagem aos inconfidentes. Essa coluna foi substituída em 1894 pela atual estátua de Tiradentes, na
praça com seu nome, cenário para comemorações cívicas e para fotografias de turistas de todo o mundo.
Há registros de festas comemorativas da Inconfidência Mineira e da morte de Tiradentes nas últimas
décadas do Império, o que contraria a crença comum de que elas foram criações exclusivas da
República. Mas não há dúvida quanto ao papel dos republicanos na consolidação da comemoração do 21
de abril como data cívica nacional e da entronização de Tiradentes como herói máximo da nação. Essa
comemoração, considerada importante na construção da nacionalidade, iniciou-se com a elevação de
estátuas e com a sacralização de lugares ligados à Inconfidência Mineira, principalmente no Rio de
Janeiro e em Minas Gerais. Essas iniciativas partiam de entidades como os clubes republicanos e as
ligas nacionalistas, e, só a partir de 1930, é que houve uma participação mais intensa do Estado. Nos
primeiros tempos, a festa visava garantir a sobrevivência da República, passando a ser, depois, um
elemento de consolidação da identidade nacional por meio da ligação entre o passado e o presente e da
construção de bases históricas legitimadoras de projetos e de ações políticas. Até mesmo a nomeação de
logradouros públicos em homenagem a Tiradentes e as oscilações em torno da instituição ou supressão
do feriado de 21 de abril foram objeto de controvérsias entre os que defendiam e os que se opunham à
celebração do herói republicano, sobretudo até os anos 60 do século XX.
Durante o governo de Getúlio Vargas (1930-1945), ficou evidente a preocupação com a
materialidade da memória de Tiradentes com a criação, em 1938, do Museu da Inconfidência, em Ouro
Preto, contendo um pavilhão especialmente dedicado aos inconfidentes, no qual foram expostos, além de
pertences pessoais do alferes, fragmentos da forca do suplício. Esses objetos mantêm viva a memória de
viés nacionalista e patriótico, celebrando diariamente, diante dos visitantes, o personagem máximo do
panteão cívico nacional. Mas os momentos mais intensos da exaltação a Tiradentes ocorrem nas festas de
21 de abril, tornadas tradição a partir de meados do século XX.
As festas cívicas são momentos privilegiados para a celebração da união da nação, simbolizada nos
rituais que envolvem a participação real ou imaginada de vários segmentos da sociedade, nos discursos
que exaltam a nação como o resultado de lutas ancestrais, na afirmação da crença na coesão, na
conjunção de interesses e no espírito de coletividade. Elas têm um forte caráter pedagógico, uma vez que
os eventos e os vultos do passado são evocados como modelos para o presente, memória na qual a nação
busca os elementos que a explicam e a legitimam. As festas de 21 de abril sempre estiveram ligadas a
espaços simbolicamente representativos da vida e da morte de Tiradentes, no Rio de Janeiro e em Minas
Gerais, cenários da história da qual é personagem. O Estado sempre foi elemento-chave nessas
comemorações, desde a instalação da República, em 1889.
Naquela época,as iniciativas partiam de entidades representativas de grupos políticos ou de
associações profissionais, característica que se manteve por algum tempo após 1930, quando ainda
seguia-se a tradição iniciada com os antigos republicanos. A cada aniversário da morte de Tiradentes,
reuniam-se seus cultores nas escolas, nas igrejas e associações católicas,nos institutos históricos,nos
clubes e associações patrióticas, nos grupos de escotismo, nas associações comerciais e profissionais,
nos clubes e nas academias literárias. A partir de 1932, a preocupação em fazer do culto a Tiradentes um
instrumento pedagógico para a formação da identidade nacional firmou a atuação do governo, ficando
cada vez mais a seu encargo – primeiramente do Ministério da Justiça e depois do Ministério da
Educação – a definição da forma a ser assumida pela celebração do 21 de abril. As mudanças políticas
que culminaram com o final do Estado Novo,em 1945,arrefeceram o ímpeto comemorativo após os
movimentos pela redemocratização do país, e a festa ficou, até o início da década de 1950, concentrada
nas escolas e nos quartéis. A situação se alteraria a partir de 1952, quando Juscelino Kubitschek, então
governador de Minas Gerais, decidiu transformar o 21 de abril em importante instrumento de
propaganda, ação que o 21 de abril em importante instrumento de propaganda, ação que 1960). A partir
daí, Ouro Preto tornou-se a “Meca” da peregrinação cívico-patriótica, para onde são levados
governantes, políticos, intelectuais, artistas e militantes de diversos grupos e organizações, todos os anos,
a fim de celebrarem o herói e de usá-lo como bandeira de seus projetos e posições.
O 21 de abril, aniversário de morte de Tiradentes, tornou-se um espetáculo do poder, a utilizar
espaços, imagens e discursos na dramatização da política. Abusando da força dramática do alferes
condenado à forca, executado e esquartejado em 1792, o poder político tem concentrado, em seu discurso
exaltador, a ideia de que todos se inspiram no personagem e são dele legítimos herdeiros políticos. Um
dos episódios da história recente do Brasil, no qual essa situação ficou em evidência, foi a morte de
Tancredo Neves, em 21 de abril de 1985. A coincidência das datas motivou a associação entre o
presidente morto e seu antigo conterrâneo, ambos tendo se sacrificado pelo bem da nação. Mas a forte e
eficaz imagem de Tiradentes não pode ser entendida apenas como uma criação unilateral de grupos que
pretenderam ou pretendem tirar dele proveito.
Ela vem da identificação construída pela população, principalmente pelo fato de ter sido ele
supliciado, segundo a tradição, em nome de uma causa. Tal fato o aproxima da imagem de Jesus, numa
sociedade profundamente marcada pelo imaginário cristão. Por isso a questão que se coloca não é,
necessariamente, acerca do heroísmo ou não de Tiradentes, mas das razões pelas quais ainda faz sentido
homenagear a sua morte, não apenas pelo seu apelo popular, mas também pela sua plasticidade, o que o
torna adequado a diferentes discursos e objetivos.

B IBLIOGRAFIA
FONSECA, Thais Nivia de Lima e. História & ensino de História. 2. ed. Belo Horizonte: Autêntica, 2004.
FURTADO, João Pinto. O manto de Penélope: história, mito e memória da Inconfidência Mineira de 1788-9. São Paulo: Companhia das Letras,
2002.
MAXWELL, Kenneth. A devassa da devassa: a Inconfidência Mineira, Brasil e Portugal, 1750-1808. 2. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1978.
MICELI, Paulo. O mito do herói nacional. 3. ed. São Paulo: Contexto, 1991.
MILLIET , Maria Alice. Tiradentes: o corpo do herói. São Paulo: Martins Fontes, 2001.

Thais de Lima e Fonseca – Doutora em História Social pela Universidade de São Paulo (USP). É professora de História da
Educação da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e pesquisadora do Grupo de Estudos e Pesquisas em História da
Educação (GEPHE/FaE/UFM G).
21 DE ABRIL DE 1960
INAUGURAÇÃO DE BRASÍLIA
Luiz Sérgio Duarte



ensar o significado de uma data é pensar a construção de uma cronologia (o
tempo linear) e com ela uma concepção do passado (unidade de sentido dada
pelo progresso).
Essa data é resultado de uma escolha. O presidente Juscelino Kubitschek
de Oliveira queria estabelecer uma continuidade entre a descoberta do
Brasil (no dia 21 de abril de 1500, segundo Caminha, foi avistado o
Monte Pascal) e a construção da nação republicana (a morte de Tiradentes,
lida como “sacrifício”, é o marco da ideia de autonomia e do projeto de
civilização iluminista no Brasil). Assim como a pátria nasceu em 1500 e a
nação em 1792, o Brasil moderno nasceu com Brasília em 1960.
A construção de Brasília é um projeto de adesão ao moderno. O Brasil
vivia os “anos dourados” do desenvolvimentismo. O cinema novo, a bossa
nova, o ISEB (Instituto Superior de Estudos Brasileiros), Brasília, “50 anos em cinco”, a assunção da
nação pela ocupação de seu centro geográfico: euforia materializada na grande epopeia da construção da
nova capital.
O tempo moderno altera a organização do trabalho, a paisagem, os limites entre o dia e a noite e a
personalidade dos homens ao criar uma nova comunidade: “homens novos” orgulhosos de seu modo de
vida – criativo, livre, ativo. O lado trágico desse tipo social, o que o transforma em um exemplo de
tragédia do desenvolvimento, é a necessidade de negar, destruir mesmo, a tradição.
Na noite do dia 23 de abril de 1960, realizou-se um show monumental para marcar o encerramento
das festividades de inauguração de Brasília. A alegoria de Josué Montello reconstituía a fundação das
três capitais brasileiras e seu elenco era composto por moças da sociedade carioca, duzentos soldados
do Exército e cem fuzileiros navais. Há uma descrição do terceiro ato que repete essa apressada
oposição ao obsoleto, marcante nas tentativas de adesão à modernidade:
A luta pela interiorização da capital e, finalmente, a construção de Brasília, foram retratadas no terceiro episódio, que trouxe à cena
José Bonifácio e as figuras do bandeirante, do garimpeiro, do homem do litoral e do homem do interior. Enxadas, pás, picaretas e
outras ferramentas foram distribuídas entre os figurantes, que representavam os operários de Brasília, os candangos. Cada um dos
episódios era contrastado pela oposição de um velho, que simbolizava a rotina, em rasgos de pessimismo e maledicência. Era o vilão
da peça. Mas quando por fim ele manifestava a sua aversão à fundação de Brasília, oito tratores barulhentos invadiram a cena e
inesperadamente, apareceu no céu um helicóptero, que logo pousou em pleno palco. Dele desceu um homem, de porte semelhante ao
de Juscelino e simbolizando o Presidente, a acenar para a multidão. Enquanto a multidão aplaudia freneticamente, o velho pessimista
foi metido no helicóptero que o levou para longe do cenário apoteótico. Fogos de artifício espoucaram iluminando e colorindo o céu, no
encerramento do espetáculo e dos festejos de inauguração da nova capital brasileira.

O espírito moderno é aquele que realiza projetos, assume a vontade, altera o mundo, transforma a
terra vazia em um deslumbrante espaço físico e social. É claro que os custos aparecem. A cultura rústica
dos goianos do Planalto Central é ignorada. Os índios são simbolicamente homenageados como legítimos
brasileiros, mas deixados à própria sorte. Os candangos são usados para a construção e, em seguida,
afastados dela pela segregação espacial das cidades satélites. A ocupação do sertão desvia os conflitos,
mas não impede que eles se encaminhem para o desfecho de 1964.
Entretanto um subproduto, um descaminho funcional, um puro acaso foi produzido. A utopia foi
vivenciada. O Estado brasileiro, seu acaso foi produzido. A utopia foi vivenciada. O Estado brasileiro,
seu 1964) um modelo alternativo da modernização brasileira fosse tentado no Planalto Central. Uma
experiência cultural, aventura em escala social: seres humanos em modificação produzindo o novo.
Talvez isso possa um dia ser comemorado.

B IBLIOGRAFIA
BERM AN, Marshall. Tudo o que é sólido desmancha no ar. São Paulo: Companhia das Letras, 1986.
EPSTEIN, David. Brasilia plan and reality: a study of planned and spontaneus urban development. Berkeley: University of California Press,
1973.
HOLTON, James. A cidade modernista: uma crítica de Brasília e sua utopia. São Paulo Companhia das Letras, 1993.
TAM ANINI, Lourenço Fernando. Memória da construção. Brasília: Real Court, 1994.
SILVA, Luiz Sérgio Duarte da. A construção de Brasília: modernidade e periferia. Goiânia: UFG, 1997.

Luiz Sérgio Duarte – Mestre em História e doutor em Sociologia da Cultura pela Universidade de Brasília (UnB)/FU Berlim.
Professor de Teoria da História e História Urbana da Universidade Federal de Goiás (UFG).
22 DE ABRIL DE 1500
“DESCOBRIMENTO” DO BRASIL*
Pedro Puntoni



m 9 de março de 1500, quando a armada de Cabral largava a Ribeira das
Naus rumo ao Oriente, o rei, D. Manuel, de alcunha o Venturoso, pretendeu
revestir o fato de grande pompa. Afinal, sua coroa agora abarcava um
Império que se tornava mais amplo a cada passo, sobretudo depois da
descoberta da rota para a Índia, feita por Vasco a Gama. A cada viagem,
mais comprometido estava com o alargamento da fé cristã, fundamento
último de seu poder. Lisboa tornava-se o entreposto de vasta rede
comercial, onde se trocariam mercadorias produzidas nos quatro cantos do
mundo. Esses anos ultimavam um século de transformações profundas que
colocava Portugal no centro da história europeia e no comando de uma
importante evolução mental. São anos, contudo, em que ainda se misturam a
inovação e a conservação, o fascínio pelo desvelamento do mundo e a
reiteração das imagens do maravilhoso. Não era sem dilaceramento que os homens de então sentiam esse
tempo de mudanças.
Há mais de um século, uma revolução transformara de maneira radical a estrutura do Estado
português, permitindo, então, a evolução social que conduziria essa pequena nação ao comando da
aventura ultramarina.A crise do mundo feudal, que atingira a Europa na metade do século XIV, fora
sentida em Portugal, afligido pelas pestes, pela fome e pelas guerras.Para o historiador Joel Serrão,foi a
depressão trecentista, aliada à desestruturação da economia agrária senhorial, que condicionou Portugal a
procurar “na intensificação do tráfego marítimo uma ‘saída”para suas dificuldades”.Um dos resultados
sociais e políticos mais imediatos dessa crise foi o aumento das revoltas e sedições populares em toda a
Europa. Em Portugal, as incertezas na sucessão dinástica de 1383 evoluiriam para um realinhamento
social que impulsionou a revolução popular e conduziu o hesitante D. João, filho bastardo da bela Teresa
Lourenço com D. Pedro I (morto em 1367) e mestre da Ordem militar de Avis, a tornar-se novo monarca.
Sob o signo dessa nova dinastia, chamada então “de Avis”, é que serão realizadas as grandes viagens de
descobrimento de novas rotas comerciais e de novas terras. Seu filho,o infante D.Henrique,ficaria famoso
pelo impulso dado às viagens para a costa africana. Seu bisneto, D. João II – que seria conhecido como o
Príncipe Perfeito –, orientou então as empresas marítimas,feitas em consórcio com os grandes
negociantes portugueses, genoveses e venezianos,para a busca de um caminho por mar para a Índia.
O sucesso dessas viagens está associado a duas ordens de fatores: de um lado, o progresso da arte de
marear e, de outro, as mudanças na concepção de espaço e a revolução cartográfica. Procurando cumprir
o projeto de navegar até a Índia,dando a volta pelo sul da África,os pilotos portugueses tiveram que
desenvolver, pouco a pouco, as próprias embarcações e também melhorar as técnicas de navegação no
alto-mar. Depois do cabo do Bojador, na costa ocidental da África, os ventos de Nordeste dificultavam
enormemente a torna-viagem. Somente as caravelas, com velas latinas, eram aptas a navegar de bolina
(isto é, contra o vento). Uma vez dobrado o cabo da Boa Esperança (1487), eram necessárias
embarcações maiores e mais fortes, capazes de suportar a viagem.
A evolução das cartas de marear e bússolas e dos instrumentos para a medição da latitude (como a
balestilha ou o astrolábio) somava-se às novas formas de cálculo assistido. Por outro lado, a difusão de
novas imagens do mundo e, em particular,a Geografia de Ptolomeu, rompiam com as teses dominantes de
uma terra plana e combinavam-se com uma mudança na atitude mental dos europeus, envolvidos com o
processo de expansão da economia-mundo. A redescoberta de Ptolomeu preparava esses homens para a
grande aventura marítima dos séculos XV e XVI.Contudo,os próprios resultados da expansão ultramarina
iriam solapar as bases da geografia ptolomaica, produzindo uma verdadeira revolução cartográfica. A
consciência dessa nova geografia e a comprovação da esfericidade do mundo permitiriam o ponto de
partida para a negação de uma noção geocêntrica do universo.
O historiador Vitorino Magalhães Godinho mostrou como a cartografia, os portulanos, as cartas de
marear, ao registrar as navegações, descrevendo as costas observadas, construíam um espaço terrestre
segundo um esquema determinado pela experiência. Do espaço simbólico, de um mundo dominado pelo
fantástico, passavase “ao espaço da percepção visual (perspectiva na pintura) da operatoriedade
euclidiana, com base na medida, na posição e na forma”. O espaço mítico se desagrega para ceder o
lugar ao espaço da função do real. O mesmo historiador nos lembra que o cosmógrafo e navegador
Duarte Pacheco Pereira se espantava no início dos Quinhentos com o fato de que “sabe-se mais em um
dia agora pelos portugueses do que se sabia em cem anos pelos romanos”. A atitude dos portugueses era,
como já foi notado, oposta à do humanismo renascentista, então inspirado nas realizações dos gregos e
romanos. Para os portugueses, que tinham por mestra a longa experiência, nada valiam os juízos mais
antigos da ciência ou do engenho.
Foi nesse contexto que, no dia 9 de março de 1500, a armada comandada pelo fidalgo Pedro Álvares
Cabral (com 13 embarcações e cerca de 1.300 homens) deixou Lisboa e rumou em direção ao Cabo
Verde. Depois de lá passar, dirigiu-se ao oceano para, um mês depois, avistar alguns sinais de terra. Na
manhã do dia 22 de abril, avistam um monte redondo, a que chamaram de Pascoal por estarem na semana
da Páscoa.A descrição detalhada do sucedido nos dias seguintes,até quando, no 2 de maio, partem para a
Índia, nos é apresentada pelo escrivão Pero Vaz de Caminha em sua importante e tão conhecida
carta.Nomeada,pelo capitão-mor, como Terra de Vera Cruz, foi posteriormente mudada para Terra de
Santa Cruz e, garantida a sua posse, para Província de Santa Cruz. A terra também foi
apelidada,naqueles tempos,de“Terra dos Papagaios”, em razão das grandes e coloridas araras que Pedro
Álvares fez enviar para Portugal. O nome dado à província,“de Santa Cruz”, foi logo corrompido para o
de Brasil. O nome vinha de um pau que ali abundava e era chamado de “Brasil” pela cor abrasada e
vermelha que tinha, com que se tingiam panos.O português Gandavo,autor de uma história da Província
de Santa Cruz, publicada em 1576, lamentava-se que certamente essa troca de nomes havia sido “obra do
demônio, que tanto havia trabalhado para extinguir a memória da Santa Cruz”...
O Brasil, então, era uma unidade geográfica, mais do que uma realidade histórica ou política. O que
hoje nós chamamos Brasil é o que a colonização portuguesa construiu nessa parte austral da América e
que, no início do século XIX, evoluiu historicamente para uma sociedade emancipada e um Estado
nacional unificado. Durante o período que costumamos chamar de colonial, o Brasil não passava de um
grupo de circunscrições administrativas e jurídicas, sem título certo. Nas palavras do historiador
Fernando Novais, “quando falamos de um período colonial da história do Brasil, falamos de algo que
não existiu: o que houve foi uma colonização portuguesa”. O anacronismo estaria “em fazermos a história
daquilo que ocorre neste território, que mais tarde será o Brasil, como algo necessário, uma destinação
do Estado soberano que se forma no século XIX, tal como uma destinação histórica, como que inscrito nas
caravelas de Cabral”.

B IBLIOGRAFIA
CORTESÃO, Jaime. Os descobrimentos portugueses. Lisboa: Caminho, 1990, 3 vols.
COUTO, Jorge. A construção do Brasil. Lisboa: Cosmos, 1998.
GODINHO, Vitorino Magalhães. Os descobrimentos e a economia mundial. Lisboa: Presença, 1981-83, 4v.
GUEDES, Max Justo. O descobrimento do Brasil. Lisboa: Vega, 1989.

Pedro Puntoni – Professor de História do Brasil na Universidade de São Paulo (USP) e pesquisador do Centro Brasileiro de
Análise e Planejamento (Cebrap).

* “Descobrimento” do Brasil ou achamento da terra de Vera Cruz.


30 DE ABRIL DE 1854
INAUGURAÇÃO DA PRIMEIRA ESTRADA DE FERRO
Ana Maria Monteiro



o dia 30 de abril de 1854, com a presença do imperador D. Pedro II, da
imperatriz D. Teresa Cristina, do bispo e de várias autoridades, foi
inaugurada a primeira ferrovia do Brasil.
A comitiva embarcou no trem com dois vagões para uma viagem nos 14
km construídos, que ligavam o porto de Mauá, na baía de Guanabara, ao
vilarejo de Fragoso, na raiz da serra de Petrópolis. Era o primeiro trecho de
uma estrada que deveria alcançar a serra para fazer escoar o café
fluminense e mineiro.
A construção dessa estrada vinha atender à necessidade de um
transporte mais rápido e com maior capacidade de carga que substituísse as
tropas de mulas, muito lentas e que necessitavam de muitos escravos,
utilizadas para transportar as sacas de café até o porto do Rio de Janeiro.
Na Europa, as ferrovias eram vistas como símbolos do novo mundo industrial. Introduzidas no Brasil
na década de 1850, as estradas de ferro assumiram um papel decisivo na dinamização da economia
agroexportadora, tendo seus traçados estabelecidos para a ligação dos centros produtores aos portos de
exportação: Rio de Janeiro e, posteriormente, Santos.
No Segundo Reinado, a partir da década de 1840, a economia brasileira começara a apresentar um
grande dinamismo graças, em grande parte, às rendas proporcionadas pela lavoura cafeeira. Em 1860, o
café brasileiro representava cerca de 50% da produção mundial e respondia por 45% do valor total das
exportações do Império.
Esse crescimento criou a necessidade de expansão e melhoria no sistema de transportes, expansão
essa que encontrava obstáculos para ser atendida uma vez que os possíveis investidores brasileiros
preferiam aplicar seus capitais em terras e escravos.
A lavoura cafeeira no sudeste brasileiro se desenvolvia baseada na grande propriedade escravista
voltada para o mercado externo, o que gerava entraves e dificuldades para uma expansão em moldes
capitalistas. No entanto, algumas medidas econômicas, adotadas para atender aos interesses dos
cafeicultores, acabaram por gerar impulsos positivos para uma diversificação de investimentos em novas
bases.
Inclui-se nesse caso, por exemplo, a chamada Tarifa Alves Branco. Preocupado com os constantes
déficits em nossa balança comercial, o ministro da Fazenda, Alves Branco, aumentou, em 1844, as tarifas
alfandegárias.
Outra medida adotada foi a elaboração do Código Comercial, que vinha atender a demandas junto ao
governo de grupos envolvidos com a comercialização do café. O Código, que foi aprovado em 1850,
regulamentava a constituição de novas empresas, inclusive as sociedades por ações.
Finalmente, a abolição do tráfico de escravos, nesse mesmo ano, veio contribuir para o incentivo ao
desenvolvimento de atividades capitalistas no interior da sociedade escravista brasileira, pois liberou
capitais utilizados naquele comércio para novos empreendimentos.
Essas medidas criaram uma conjuntura interna favorável aos investimentos econômicos, situação essa
que foi reforçada com a oferta de capitais ingleses trazidos por grupos interessados em investir no Brasil.
Nesse contexto, destacou-se Irineu Evangelista de Souza, futuro Barão de Mauá, que se lançou em novos
e diversos empreendimentos contando, principalmente, com os capitais que atraiu dos ex-traficantes de
escravos e que passou a administrar através do Banco do Commercio e da Indústria do Brasil, fundado
em 2 de março de 1851.
Irineu Evangelista de Souza, que havia enriquecido com o comércio de importados, adquiriu, em
1846, uma pequena fundição situada na Ponta de Areia, em Niterói, Rio de Janeiro. No ano seguinte, o
Estabelecimento de Fundição e Companhia Estaleiro da Ponta de Areia já multiplicara por quatro seu
patrimônio inicial. Da Ponta de Areia, a partir de 1850, por 11 anos seguidos, saíram 72 navios para
serem usados no transporte de tropas durante as campanhas do Prata, no embarque e transporte de
passageiros, e embarcações para o tráfego no rio Amazonas, cujos direitos de navegação Mauá havia
conseguido por trinta anos.
Depois de estudar os fluxos de carga do país, Irineu Evangelista percebeu a viabilidade econômica
de se criar uma estrada de ferro unindo a província do Rio de Janeiro ao interior de Minas Gerais.
A estrada de terra que existia atravessava, no Rio de Janeiro, o vale do rio Paraíba que era,então,a
maior região produtora de café do Brasil. Cruzando Minas Gerais, funcionava como elo com o centro do
país.
Mauá encarregou o inglês Wiliam Bagge de substituir o caminho de terra por uma estrada de
ferro.Depois de muitos estudos,Bagge chegou à conclusão de que seria fácil construir o primeiro trecho
da estrada que uniria o porto de Estrela (atualmente em Magé, no estado do Rio de Janeiro) ao sopé da
serra de Petrópolis.A vantagem do traçado escolhido era que ele tornava menor o trecho a ser percorrido
por terra até Minas Gerais, mas, por outro lado, ficava longe do Rio de Janeiro.
Mauá conseguiu estabelecer um contrato entre o poder público e as companhias encarregadas de
construir estradas de ferro, pelo qual essas passariam a deter, por prazo determinado, direitos exclusivos
de exploração da ferrovia em determinada região.
A obra teria o aporte de capitais privados, fato que contribuiu para a aprovação rápida do projeto, o
que ocorreu no dia 27 de abril de1852. Irineu Evangelista reuniu, em um mês, 26 interessados no projeto.
O grupo incluía negociantes ingleses, políticos, comerciantes de origem portuguesa e alguns brasileiros
provavelmente ex-traficantes de escravos.
No dia 29 de agosto de 1852, com a presença do imperador D. Pedro II, foram inauguradas as obras
da estrada de ferro. O primeiro trecho da estrada, unindo o porto de Estrela à raiz da Serra, foi executado
com grandes dificuldades. Grande parte dos materiais de construção não era fabricada no país, os tijolos
não existiam em número suficiente e tinham que ser importados (posteriormente, para agilizar a obra,
Irineu Evangelista mandou construir a sua própria olaria), as locomotivas e os vagões eram comprados
na Inglaterra. Mas houve também os empecilhos naturais para a plena execução da obra. Ao final do
primeiro trecho da estrada, a Serra dos Órgãos, com seus 800 m de altitude, constituía-se numa barreira
que a engenharia mundial ainda não havia conseguido resolver. Irineu Evangelista mandou seus técnicos à
Europa e aos Estados Unidos, onde eram ensaiadas tentativas para construção de estradas nos Alpes e
nas Montanhas Rochosas, respectivamente. Mas eles não conseguiram resolver o problema.
Finalmente, no dia 30 de abril de1854, foi inaugurada a primeira ferrovia do Brasil. A locomotiva foi
denominada Baronesa, numa homenagem à Maria Joaquina, esposa de Irineu Evangelista de Souza, que
recebeu o título de barão de Mauá de D. Pedro II nesse mesmo dia.
Em 1882, as dificuldades técnicas para a subida da serra foram vencidas e os trilhos chegaram a
Petrópolis. Mas a Estrada de Ferro Mauá não era mais de Irineu Evangelista de Souza, que cedera sua
parte para pagar dívidas.

B IBLIOGRAFIA
CALDEIRA, Jorge. Mauá, empresário do Império. São Paulo: Companhia das Letras,1995.
EL-KAREH, Almir Chaiban. Filha branca de mãe preta: a companhia da estrada de ferro D. Pedro II (1855-1865). Petrópolis: Vozes, 1982.
FREIRE, A.; MOTTA, M. da S.; ROCHA, D. História em curso: o Brasil e suas relações com o mundo ocidental. São Paulo/Rio de Janeiro:
Editora do Brasil/Fundação Getúlio Vargas (CPDOC), 2004.
GRANDES Personagens da Nossa História. São Paulo: Abril, 1972, v. II.

Ana Maria Monteiro – Professora de História da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Mestre em História pela
Universidade Federal Fluminense (UFF) e doutora em Educação pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-
RJ).
1º DE MAIO DE 1865
TATADO DA TRÍPLICE ALIANÇA
Francisco Doratioto



m 1º de maio de 1865, representantes da República Argentina, do Império
do Brasil e da República Oriental do Uruguai assinam, em Buenos Aires, o
Tratado da Tríplice Aliança para enfrentar a República do Paraguai. O
documento era uma resposta à invasão paraguaia à província argentina de
Corrientes, no dia 24 do mês anterior; antes, em 28 de dezembro de 1864, o
Paraguai invadira a província brasileira do Mato Grosso. O Tratado da
Tríplice Aliança tinha caráter militar e político, pois determinava a retirada
do ditador Francisco Solano López e de seus familiares do poder, no pós-
guerra, bem como definia quais seriam as fronteiras do Paraguai com a
Argentina e o Brasil, em favor destes.
Antecedeu o Tratado da Tríplice Aliança complexa sequência de fatos,
entre 1862 e 1864, tendo como pano de fundo a consolidação dos Estados
nacionais no rio da Prata e o esforço do Paraguai em inserir-se na divisão internacional do trabalho, para
o que era necessário ter uma saída segura para o oceano Atlântico. Em 1862, no Brasil, o Partido
Conservador foi substituído no governo, no qual permanecera por quase duas décadas, pelo Partido
Liberal (24/5); no Paraguai morreu o presidente Carlos Antonio López, e Francisco Solano López, seu
filho, assumiu o poder (10/9) e foi fundada a República Argentina (12/10), Estado centralizado, antigo
projeto hegemônico de Buenos Aires.
Essa nova realidade alterou as relações internacionais entre os países platinos. Bernardo Berro, que
havia ascendido à presidência do Uruguai em 1860, buscou romper com o virtual protetorado exercido
pelo Brasil sobre o Uruguai, mas sem alinhar-se à Argentina, governada por Bartolomé Mitre,
aproximando-se, sim, da oposição federalista a este e, ainda, do Paraguai. Aos federalistas e a López,
por sua vez, interessava enfraquecer o governo argentino, o que os levou a estreitar contatos entre si e a
ver Montevidéu como o porto que permitiria escapar ao quase monopólio que Buenos Aires exercia
sobre o comércio com o exterior. Mitre, por sua parte, necessitava neutralizar a oposição e, para tanto,
retirar-lhe os apoios externos dos governos uruguaio e paraguaio. Daí os políticos mitristas apoiarem os
colorados uruguaios, liderados pelo general Flores, a iniciarem movimento armado (19/3/ 1863) para
depor Berro. Na guerra civil uruguaia, os colorados também foram apoiados por brasileiros do Rio
Grande do Sul, proprietários de terras no Uruguai e com interesses prejudicados por medidas de Berro.
Já os governantes liberais brasileiros tiveram sua imagem comprometida perante a população brasileira
em virtude da Questão Christie, na qual a Grã-Bretanha humilhou o governo brasileiro (1 a 6/1/1863),
levando-o a romper relações diplomáticas com Londres (25/5/1863) e, ademais, assistiram impotentes à
quebra de bancos na Corte. O governo brasileiro encontrava-se, pois, fragilizado para resistir às
pressões daqueles fazendeiros gaúchos, apoiados pela opinião pública carioca, para que houvesse uma
intervenção militar brasileira contra o governo uruguaio, mas, ao mesmo tempo, via nessa intervenção
uma oportunidade de recuperar popularidade.
Em maio de 1864, o Império do Brasil enviou José Antonio Saraiva ao Uruguai para pressionar o
governo branco a recuar nas posições antibrasileiras. A ascensão dos colorados ao poder era interesse
do Brasil e da Argentina, enquanto a Grã-Bretanha desejava o fim da guerra civil por ser prejudicial ao
seu comércio na região. Representantes dos três países assinaram acordo (18/6), em Puntas del Rosário,
no Uruguai, com representante do governo Aguirre – sucessor de Berro – para pôr fim à guerra civil, mas
que acabou recusado por esse presidente. Saraiva deu um ultimatum a Aguirre (4/8), para punir as
autoridades autoras de supostas violações de direitos de cidadãos brasileiros residentes no país, sob
pena de intervenção militar do Império. O governo paraguaio alertou o do Brasil, em nota oficial (30/8),
para não promover tal ato, mas tropas brasileiras penetraram no Uruguai (12/10). Para o governo
imperial, o Paraguai nada faria, já que não sofria qualquer ameaça por parte do Império. Foi um grave
erro de avaliação, pois o governo de Francisco Solano López rompeu relações diplomáticas com o
Brasil (12/11), invadiu o Mato Grosso e, posteriormente, o Rio Grande do Sul (10/6/1865).
No início de 1865, o Exército paraguaio contava com uns 70.000 soldados, enquanto o do Império
tinha cerca de 18.000 e o da Argentina alcançava 6.000 homens. O plano de López era o de que suas
tropas, ao entrarem em Corrientes, fossem reforçadas pelos oposicionistas argentinos e, assim, deporiam
Mitre. Já os invasores do Rio Grande do Sul marchariam até o Uruguai, onde, reforçados pelas forças
vindas da Argentina,bateriam o Exército brasileiro,obrigando o Império a assinar, em condições
desvantajosas, a paz com o Paraguai. Não foi, porém, o que ocorreu.No Brasil,os invasores foram
derrotados na batalha de Jataí (17/8/1865) e renderam-se em Uruguaiana (18/8); o Mato Grosso
permaneceu sob ocupação até abril de 1868. A Marinha de Guerra brasileira bloqueou o Paraguai ao
vencer a Batalha do Riachuelo (11/6/ 1865), e a tropa paraguaia que invadira Corrientes não recebeu
apoio dos federalistas – foi vítima de erros de comando e retornou a seu país (31/10 a 3/11/1865).A
partir desse momento,López,isolado no interior do continente, sem condições de receber armas do
exterior, não tinha como vencer a guerra; o máximo que podia fazer era valer-se da vantajosa posição
defensiva para resistir e assim o fez. Os aliados invadiram o território paraguaio somente em 16 de abril
de 1866.
O centro do sistema defensivo de López era a poderosa fortaleza de Humaitá, situada às margens do
rio Paraguai, que controlava o acesso à capital Assunção. Favorecia a defesa da fortificação o terreno
que a cercava: pantanoso, com bosques e sem caminhos sólidos, dificultando a ação dos aliados, os
quais, ademais, desconheciam o terreno em que atuavam, pois, devido às décadas em que o Paraguai
ficara isolado, inexistiam mapas do interior do país. Como consequência, os aliados ficaram
praticamente imobilizados diante de Humaitá até o final de 1867. Nesse período, as batalhas mais
importantes foram as de Tuiuti (24/5/1866), em que as tropas paraguaias mais experientes foram
destruídas, e Curupaití (22/9/1866), a única, mas fragorosa, derrota aliada na guerra.
Durante o ano de 1868, a Esquadra brasileira ultrapassou Humaitá (19/2), a qual também foi isolada
por terra, levando os paraguaios a evacuarem-na (24/7) e a ser ocupada pelas forças aliadas (25/7). O
marquês de Caxias, no comando das Forças brasileiras desde novembro de 1866, para evitar que se
repetisse a desgastante situação vivida em Humaitá, elaborou o plano de atacar pela retaguarda as novas
fortificações de López. O exército brasileiro marchou pelo Chaco, atravessou o rio Paraguai e
desembarcou em Santo Antonio (5/12), na retaguarda paraguaia. Travaram-se, então, as grandes batalhas
de dezembro de 1868 – a “dezembrada” – de Itororó (6), Avaí (11) e Lomas Valentinas (21 a 27), nas
quais o Exército paraguaio foi destruído e Assunção foi ocupada. López, porém, conseguiu improvisar
um Exército no interior, que ainda travou, com bravura apesar da enorme desvantagem numérica e em
armamento, as batalhas de Peribebui (12/8) e Campo Grande/Acosta-Ñu (16/8). Em 1º de março de
1870, Francisco Solano López foi morto no combate de Cerro Corá.

B IBLIOGRAFIA
COSTA, Wilma Peres. A espada de Dâmocles: o Exército, a Guerra do Paraguai e a crise do Império. São Paulo/Campinas: Hucitec/Unicamp,
1996.
CUNHA, Marco Antonio. A chama da nacionalidade: ecos da Guerra do Paraguai. Rio de Janeiro: Bibliex, 2000.
DORATIOTO, Francisco. Maldita guerra: nova história da Guerra do Paraguai. São Paulo: Companhia das Letras, 2002.
IZECKSOHN, Vitor. O cerne da discórdia: a Guerra do Paraguai e o núcleo profissional do Exército. Rio de Janeiro: e-Papers, 2002.
SALLES, Ricardo. Guerra do Paraguai: memórias & imagens. Rio de Janeiro: Fundação Biblioteca Nacional, 2004.

Francisco Doratioto – Doutor e mestre em História das Relações Internacionais pela Universidade de Brasília (UnB) e
professor no curso de Relações Internacionais da Universidade Católica de Brasília.
1º DE MAIO (1890)
DIA MUNDIAL DO TRABALHO
Antonia Terra



1º de maio é oficialmente o Dia Mundial do Trabalho. Tem sido
comemorado pelos trabalhadores desde 1890. Como outras datas
comemorativas, está ligado à construção de memórias e identidades,
especificamente da classe operária, que fixou a data como um ato
deliberado para consolidação da luta proletária em escala
internacional. Começou a ser comemorado na Europa e foi aos poucos
difundido para outros continentes.
Desde 1883-1884, nos meios libertários anarquistas franceses se
discutia a ideia de greve geral e a prática da intimidação em uma
grande manifestação em um dia “sem trabalho”, ou seja, “a ausência de
trabalho através da greve de um dia” como instrumento de luta. Mas, a
escolha de uma data, o 1º de maio, foi estabelecida oficialmente na
Segunda Internacional Operária Socialista, em Paris, em julho de 1889. A proposta da data foi de
Raymond Lavigne, um militante socialista francês, na seguinte moção: “Será organizada uma grande
manifestação internacional com data fixa, de modo que, em todos os países e em todas as cidades ao
mesmo tempo, no mesmo dia marcado, os trabalhadores intimem os poderes públicos a reduzir
legalmente a jornada de trabalho a oito horas e a aplicar as outras resoluções do Congresso Internacional
de Paris.”
A data, com ênfase em um movimento internacional, justificavase por ter sido o dia escolhido para
uma manifestação de trabalhadores em 1890 nos EUA, organizada pela American Federation of Labour,
em seu Congresso de dezembro de 1888, em Saint-Louis. Nesse caso, a data já tinha precedente na
história operária norte-americana: em 1º de maio de 1886, trabalhadores e policiais haviam se
confrontado violentamente em Milwaukee e em Chicago, resultando em 15 mortos e mais 8 presos e
enforcados em 1887. A violência e o processo de condenação dos trabalhadores tiveram grande
repercussão nos jornais e no imaginário popular, sendo por isso o dia considerado significativo para
representar a luta operária.
A data tem também outros precedentes. Na tradição norteamericana, o 1º de maio é também o Moving
Day, dia em que os aluguéis e os contratos de todo tipo são renovados e, por isso, representa a ideia de
“mudança”. E “mudança” era o que queriam os trabalhadores, quando lutavam, por exemplo, pela
alteração da jornada de trabalho para oito horas. Já na Europa, a mesma data também tem sua tradição,
corresponde à Festa da Primavera: fim oficial do inverno, retorno do sol e começo da germinação das
plantas, sendo celebrada com flores em uma festa pública, vinculada aos ritos pagãos de fertilidade, do
renascer da vida e de esperança em um novo tempo. Na França, especificamente, contém a ideia da
renovação da casa e da mudança da vegetação, simbolicamente ligada à árvore da liberdade, símbolo de
revolta e dos revolucionários de 1789.
A historiadora francesa Michelle Perrot comenta esse vínculo do 1º de maio com as tradições
populares dizendo que “na verdade não seria a primeira vez que o folclore forneceria suas meadas à
política. [...] Aqui não há árvores nem mastros decorados, mas bandeiras, tecidos produzidos pela
indústria, não pela natureza. A floresta é o Povo ‘de pé’ que desafia o Velho Mundo. Nessa primavera de
1890, não é também uma ‘transferência de sacralidade’ que se opera em proveito da classe operária,
chave do futuro?”
O 1º de maio, Dia do Trabalho, foi desde o início associado a elementos simbólicos, semelhantes aos
criados pelos Estados nacionais do século XIX. A bandeira operária agitada nesse dia, de âmbito
internacional, era vermelha, e as flores utilizadas com mais frequência eram o cravo e a rosa, embora
houvesse bastante variação de lugar para lugar. Associadas a essa data, proliferaram também imagens,
veiculadas em panfletos e cartazes, que davam ênfase à luta e remetiam à esperança, à confiança e a um
futuro melhor para os trabalhadores. A palavra de ordem estava ligada à imagem da jornada ideal, criada
por Robert Owen desde 1817 – “oito horas de trabalho, oito horas de repouso e oito horas de prazer” –
que nos cartazes era representada por figuras femininas.
A ideia das lideranças operárias europeias, ao adotar uma data específica para atos públicos, com o
fechamento dos locais de trabalho e transformação do 1º de maio em um dia “desocupado” em todo
mundo, era mostrar a força do proletariado e fazê-lo adquirir autoconsciência.
Em distintas localidades, no 1º de maio de 1890, os trabalhadores organizaram diferentes
manifestações: greves, movimentos políticos nas ruas, reivindicações apresentadas por delegações aos
poderes públicos, comícios, palestras, festas, desfiles, bandas de música e confraternizações. Segundo
Michelle Perrot, na França, as atividades seguiram orientações de tendências políticas diversas. Os
socialistas formaram comissões e ligas populares para exigir a redução das horas de trabalho, montando
delegações para entrega de documentos às autoridades oficiais. Os anarquistas, por sua vez, recusavam-
se a “submeter-se ao Estado” e envolveram-se ativamente nas chamadas ações diretas e em propagandas,
na imprensa e em panfletos, incentivando manifestações, por vezes violentas, contra os patrões e as
fábricas.
Depois de 1890, os trabalhadores passaram a comemorar a data integrando-a como estratégia de luta.
Mas, com o tempo, em diferentes contextos e com variados propósitos, o 1º de maio foi se transformado
em feriado oficial. Na Rússia de 1917, os revolucionários mudaram seu próprio calendário para
comemorar o Dia do Trabalho na mesma data do restante do mundo. Na Alemanha, depois de violentos
confrontos em 1929, o governo fascista de Hitler adaptoua a seus propósitos, convertendo-a, em 1933, no
“Dia Oficial do Trabalho”. Recentemente, na Polônia, com finalidade intencional de contestar as
atividades oficiais realizadas pelo governo comunista anterior, o 1º de maio ganhou um nome mais neutro
– Dia do Descanso.
No Brasil, desde 1892, os operários organizam manifestações e greves, mas foi no contexto político
de estado de sítio do governo de Arthur Bernardes que, em 1925, a data foi oficializada como feriado
nacional. Já no governo de Getúlio Vargas, as comemorações tornaram-se oficiais e ocasião para a
divulgação das leis correspondentes às reivindicações dos trabalhadores. Décadas depois, com a
ditadura militar, os partidos políticos e os sindicatos foram esvaziados, retomando fôlego apenas no final
da década de 1970, quando, no 1º de maio de 1978, os metalúrgicos de São Bernardo do Campo, na
Grande São Paulo, fizeram uma manifestação com mais de três mil pessoas. No final da ditadura, no 1º
de maio de 1980, cerca de cem mil pessoas manifestaram nas ruas seu apoio ao líder sindical Luiz Inácio
Lula da Silva e às reivindicações dos trabalhadores.

B IBLIOGRAFIA
HOBSBAWM , Eric J. A produção em massa de tradições: Europa, 1879 a 1914. In: __________. Mundo do trabalho: novos estudos sobre
história operária. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2000.
________; RANGER, Terence. A invenção das tradições. Rio de Janeiro: Paz e terra, 1997.
P ERROT , Michelle. O Primeiro de Maio na França (1890): Nascimento de um rito operário. Os excluídos da História: operários, mulheres e
prisioneiros. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1988.
SÃO P AULO (cidade). 1890 – 1990 – Cem vezes Primeiro de Maio. São Paulo: Departamento do Patrimônio Histórico/Secretaria Municipal
da Cultura, 1990.

Antonia Terra – Doutora em História Social pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São
Paulo (FFLCH-USP). Professora do Departamento de História da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP).
12 DE MAIO DE 1978
GREVES DE 1978
Kazumi Munakata



“Quando as meninas entraram (mais ou menos umas seiscentas) às 7 horas, foi uma verdadeira
repressão. Toda a direção da fábrica desceu: chefes, encarregados imediatos. Chegaram a
pegar na mão delas para que voltassem a trabalhar [...]. Foi quando tomamos a iniciativa,
saímos da nossa seção que já estava paralisada e fizemos uma ‘parede’ de três companheiros,
cruzamos os braços e ficamos olhando para as meninas. [...] Uma senhora de idade olhava
direto para nós. E o pessoal naquela confusão: trabalha, não trabalha. Aí o pessoal da seção de
baquelites se emocionou e começou a sair da seção em massa. Quando olhei para trás tinha um
corredor de operários em volta de nós três. [...] Nesse instante a velha deu um sinal para as
meninas, elas sentaram e cruzaram os braços. Assim, começou a paralisação.”
sse é o depoimento de um operário da comissão de fábrica da Siemens,
indústria metalúrgica de São Paulo, capital do estado de São Paulo,
registrado por Maroni em seu livro A estratégia da recusa. A greve ali
relatada não foi a primeira de 1978 – começara no início de junho – e,
talvez, nem a mais importante, mas representa bem os dramas, os impasses,
as tomadas de decisão e as ousadias de uma época.
Vivia-se, então, sob a ditadura militar, instaurada em 1964. As
oposições armadas – e outras, nem tanto – haviam sido desmanteladas, com
perseguições, torturas e mortes. Ao mesmo tempo, a ditadura promovia o
chamado “milagre econômico”, que provocava elevados índices de
crescimento, cuja renda era transferida para setores altos e médios da
população em detrimento do amplo contingente dos trabalhadores rurais e
urbanos. Um dos mecanismos dessa transferência era o chamado “arrocho salarial”, que achatava os
salários dos trabalhadores de baixa renda. Em 1977, vieram à luz dados oficiais comprovando a
manipulação dos índices de inflação que haviam servido de base para reajuste salarial de 1973, lesando
os trabalhadores em 34,1% só naquele ano.
Ao mesmo tempo, os trabalhadores rearticulavam-se, apesar das intervenções nos sindicatos e da
repressão. Estudos como o de Antunes (em A rebeldia do trabalho) relatam outras formas de resistência
e reivindicação nos anos 1970 – “operação tartaruga”, “gato-selvagem”, “operação soluço” etc. –, mas
pouco se sabe sobre sua extensão e seus resultados efetivos. Em 1975, foi eleita para a diretoria do
Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo e Diadema (na região do chamado “ABC
paulista”) a chapa única presidida por Luiz Inácio da Silva, o Lula, com as seguintes propostas, relatadas
por Abramo em seu O resgate da dignidade: “a) o fortalecimento do trabalho de base; b) a continuidade
da luta pela liberdade e autonomia sindical; c) a luta ‘incansável’ pela contratação coletiva do trabalho”.
Propostas similares eram formuladas pela chamada “Oposição Metalúrgica”, que se contrapunha à
direção do Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo, então um emblema do “sindicalismo oficial”.
Os vários setores da sociedade também se rearticulavam. Em 1977, os estudantes universitários,
primeiro em São Paulo e depois em outras regiões do país, saíram às ruas sob a palavra de ordem “Pelas
Liberdades Democráticas”. Vários movimentos sociais – de mães contra a carestia, pela saúde, pela
educação, de mulheres, de negros, pela anistia aos presos e perseguidos políticos etc. – também se
constituíam. Mesmo na esfera da política oficial, a atmosfera estava conturbada com a formação, em
1978, de uma Frente Nacional de Redemocratização para lançar a candidatura do general Euler Bentes
Monteiro à presidência da República, em contraposição ao candidato oficial, o general Figueiredo. Foi
nessa conjuntura que aconteceu a greve. Relata Abramo:
Iniciada na manhã do dia 12 de maio de 1978 com a paralisação da Scania, três dias depois a onda grevista atingia a Ford e no dia
seguinte a Mercedes e a Volkswagen [todas em São Bernardo do Campo]. No dia 18 de maio, chegava a Santo André e, uma semana
depois, a São Paulo, com paralisação da Toshiba. No dia 1º de junho, foi a vez de Osasco (Brown Boveri) e, no dia 9, a do interior do
estado (Campinas). Em quatro meses, 235 mil trabalhadores haviam cruzado os braços nas principais concentrações metalúrgicas do
estado de São Paulo.

Se São Bernardo do Campo era o epicentro, o movimento, no entanto, ultrapassou a jurisdição do


sindicato local para se estender a outras regiões e para outras categorias: os professores da rede paulista
de ensino entraram em greve; há também registro de que duas mil operárias da fábrica De Millus, no Rio
de Janeiro, revoltaram-se, em 24 de agosto de 1978, contra as revistas vexatórias por que passavam sob
a sUSP eita de furto de mercadorias. A imprensa também noticiou uma greve dos dubladores, iniciada, de
modo pioneiro, em março – mas não se sabe sobre o seu resultado.
No caso dos grevistas metalúrgicos de maio/julho de 1978, os resultados foram díspares: cada caso é
um caso. As greves foram consideradas ilegais, mas, assim como houve grande variedade na modalidade
da paralisação, houve também acordos diversos (inclusive casos sem acordo). Para isso contribuiu a
dispersão do movimento em distintas jurisdições sindicais, mas também a forma de sua organização: as
comissões de fábrica – agrupamentos informais de base, cuja formação certamente era incentivada por
alguns sindicatos, que, no entanto, não os controlava. Em cada empresa onde se formassem, as comissões
foram assumindo características próprias. Por exemplo, como relata Maroni (A estratégia da recusa), na
MWM (São Paulo), criou-se uma comissão cujos membros foram indicados pelas chefias para negociar
com a direção; na Massey Fergusson (São Paulo), ao contrário, as chefias foram excluídas da comissão e
das assembleias. Segundo o depoimento do então presidente do Sindicato de São Bernardo, Lula, para o
jornal Folha de S.Paulo (14/5/1978, citado por Antunes), “Esses são movimentos espontâneos que
nasceram da necessidade que o trabalhador tem de respirar.”
As interpretações sobre essas greves variam. Maroni pretende que as comissões de fábrica
apontaram para a possibilidade da proposta de autonomia operária. Antunes contesta essa interpretação,
argumentando que se tratava de uma luta salarial, numa situação de “superexploração”. Em todo caso,
com as greves, as elites políticas, sejam da situação ou da oposição, tiveram de aceitar os trabalhadores
como parceiros da transição política que então se arquitetava. Como disse um operário da Scania, numa
entrevista a Abramo, em 1985:
Dignidade é poder levantar a cabeça e falar: ‘Olha, você me respeita que eu sou uma pessoa igual a você, me respeita como ser
humano’. O que aconteceu de 1978 para cá foi um passo para que a gente pudesse dizer: ‘Levantei a cabeça, estou aqui’. A dignidade
para mim é uma coisa que vem muito daquela época e que cada vez mais eu aprendi.


B IBLIOGRAFIA
ABRAM O, Laís Wendel. O resgate da dignidade: greve metalúrgica e subjetividade operária. São Paulo/Campinas: Imprensa Oficial/Editora
da Unicamp, 1999.
ALVES, Maria Helena Moreira. Estado e oposição no Brasil (1964-1984). 4. ed. Petrópolis: Vozes, 1987.
ANTUNES, Ricardo. A rebeldia do trabalho: o confronto operário no ABC paulista: as greves de 1978/80. 2. ed. Campinas: Editora da
Unicamp, 1992.
MARONI, Amnéris. A estratégia da recusa: análise das greves de maio/78. São Paulo: Brasiliense, 1982.
SADER, Eder. Quando novos personagens entraram em cena: experiências e lutas dos trabalhadores da Grande São Paulo – 1970-80. Rio
de Janeiro: Paz e Terra, 1988.

Kazumi Munakata – Professor do Programa de Estudos Pós-Graduados em Educação: História, Política, Sociedade, da
Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP).
13 DE MAIO DE 1808
CRIAÇÃO DA IMPRESSÃO RÉGIA
Márcia Abreu



té o dia 13 de maio de 1808, era proibido imprimir qualquer livro ou papel no
Brasil. Durante os séculos XVI, XVII e XVIII não se pôde contar com nenhuma
tipografia, apesar de algumas tentativas frustradas, como a que empreendeu
Antonio Isidoro da Fonseca ao tentar instalar uma casa tipográfica no Rio de
Janeiro em 1747. A preocupação da Coroa portuguesa em interditar a
impressão em sua principal colônia fez com que o Brasil fosse o 12o país da
América Latina a utilizar as artes gráficas. Mas, ainda que não houvesse
imprensa, havia livros, pois se recorria a Portugal, tanto para imprimir textos
aqui escritos quanto para importar obras produzidas em países europeus.
Com a invasão de Portugal pelas tropas napoleônicas, em 1807, a família
real e a corte embarcaram para a América, chegando ao Rio de Janeiro em
1808 e estabelecendo ali a sede da monarquia. A instalação da corte animou a
vida cultural da cidade, com a abertura da Biblioteca Pública e do Teatro Real, assim como teve
importantes consequências políticas e econômicas, advindas, por exemplo, da fundação do Banco do
Brasil ou da abertura dos portos. Nesse momento, ficou evidente também a conveniência de imprimir
documentos sem ter de atravessar o Atlântico. Por isso, D. João VI, reconhecendo a “necessidade que há
da oficina de impressão nestes meus estados”, criou, por decreto, a Impressão Régia. Ela deveria
publicar “exclusivamente” os documentos oficiais e livros, o que lhe garantiu o monopólio da impressão
no Rio de Janeiro até 1821, quando o funcionamento de tipografias particulares foi autorizado.
A existência da imprensa não significou, entretanto, liberdade para imprimir o que se quisesse. Assim
que ficou estabelecida a Impressão Régia, foi designada uma comissão, composta por José Bernardo de
Castro, Mariano José Pereira da Fonseca e José da Silva Lisboa, encarregada da administração da casa e
de examinar todos os papéis e livros que se desejasse publicar a fim de garantir que nenhum atentado à
religião, ao governo ou à moral ganhasse forma impressa. Pouco depois, foi nomeada uma junta de
censores, composta por Frei Antônio Arrábida, Luís José de Carvalho e Melo, Padre João Manzoni e
José da Silva Lisboa, para verificar os livros importados e os manuscritos submetidos à Mesa do
Desembargo do Paço buscando licença para impressão, situação que se manteve até 1821, quando D.
Pedro decretou a sUSP ensão da censura prévia.
A produção oriunda dos prelos cariocas foi ampla e diversificada, deles saindo cerca de 1.085
títulos entre 1808 e 1822, sem considerar leis, decretos e alvarás impressos em papel avulso. Entre eles
foram publicadas obras de Medicina (como o Vade mecum do cirurgião, de Sousa Pinto, em 1816), de
Economia (como Compêndio da obra riqueza das nações de Adam Smith, traduzida por Bento da Silva
Lisboa, em 1811), obras jurídicas (como Primeiras linhas sobre o processo orphanologico, de José
Pereira de Carvalho, em 1815), de História (como Memorias históricas do Rio de Janeiro e das
provincias annexas á jurisdicção do vice-rei do Estado do Brasil, de José de Souza Azevedo Pizarro e
Araújo, nove tomos publicados entre 1820 e 1822) e de Teologia (como Novena de Nossa Senhora do
Monte do Carmo para se fazer na sua Igreja e Real Capella do Rio de Janeiro, em 1816).
Saiu também da Impressão Régia boa parte dos periódicos editados no Brasil, entre os quais se
destacam A Gazeta do Rio de Janeiro, publicada entre 1808 e 1822, e O Patriota, impresso entre 1813 e
1814. Publicaram-se também vários livros didáticos, destinados aos alunos da Academia Militar e dos
cursos de Cirurgia e Medicina, instalados no Rio de Janeiro e na Bahia, colocando em circulação obras
como Tratado Elementar D’Arithmetica, de Lacroix, de 1810. Não se descuidou também da instrução
infantil, com a publicação do livro Leitura para os meninos, contendo huma collecção de historias
moraes relativas aos defeitos ordinários ás idades tenras e hum dialogo sobre a Geografia,
Chronologia, Historia de Portugal e História Natural, publicado anonimamente em 1818 e atribuído a
José Saturnino da Costa Pereira.
Mas o grande destaque coube às obras de belas-letras, responsáveis por um terço dos títulos
impressos no Rio de Janeiro. No começo do século XIX, as belas-letras designavam um conjunto vasto de
produções, compreendendo livros de retórica e de poética, dicionários, gramáticas, poesias, obras
dramáticas e ficcionais. Seguindo os costumes da época, foi também impressa uma infinidade de elogios
aos soberanos, de orações fúnebres, de recitativos para as datas natalícias de membros da família real,
bem como vasta quantidade de sonetos, odes e elegias. Não faltou espaço também para a publicação de
obras de grande apelo popular, como a Historia da Donzella Theodora, em que se trata da sua grande
formosura, e sabedoria, ou como a Historia verdadeira da princeza Magalona, filha delrei de Nápoles,
e do nobre, e valeroso cavalleiro Pierres Pedro de Provença, e dos muitos trabalhos, e adversidades
que passarão, que circulavam na Europa desde o século XVII e que foram impressas no Rio de Janeiro,
em 1815. Muito mais modernos, mas também de largo alcance, eram os romances como Paulo e Virgínia,
de Bernardin de Saint-Pierre, editado na França em 1788, e no Rio de Janeiro em 1811.
A partir de 1815, a Impressão Régia passou a chamar-se Real Oficina Tipográfica e acrescentou-se
um quarto nome à Junta Diretora, Silvestre Pinheiro Ferreira, que aí permaneceu até o começo de 1820.
No mesmo ano de 1815, modificou-se a administração da casa pela entrada de José Saturnino da Costa
Pereira no lugar de Mariano José Pereira da Fonseca. Em 1821, Francisco Vieira Goulart substituiu José
Bernardo de Castro, que retornara a Portugal com D. João VI e parte da corte. Em 25 de abril de 1821, as
Cortes Gerais, Extraordinárias e Constituintes da Nação Portuguesa elaboraram um decreto que
ordenava: “Todos os bens da Coroa de qualquer natureza que sejam pertencem à Nação e se chamarão
em consequência bens nacionais”, razão pela qual, em setembro de 1821, a Real Oficina Tipográfica
passou a denominar-se Tipografia Nacional, ainda sem qualquer autonomia em relação às leis e
determinações portuguesas. Com a Independência do Brasil, designou-se Imprensa Nacional, nome que
guarda até hoje.
O pesquisador Rubens Borba de Moraes, um dos entusiastas dos trabalhos produzidos pela
Impressão Régia, acreditava que
sob o ponto de vista tipográfico, não há a menor dúvida de que os impressores de hoje teriam muito o que aprender, vendo os livros e
folhetos da Imprensa Régia. Esses compositores anônimos, vindos de Portugal, conheciam o métier. Eram mestres. Sabiam escolher
tipos, paginar, compor uma página de rosto. Com poucos recursos obtinham efeitos admiráveis. Certas obras impressas nessa época
são obras-primas de tipografia. Nunca mais se fez coisa igual no Brasil.


B IBLIOGRAFIA
CABRAL, Alfredo do Valle. Annaes da Imprensa Nacional do Rio de Janeiro de 1808 a 1822. Rio de Janeiro: Typographia Nacional, 1881.
Fac-símile em Cadernos do Centro de Pesquisas Literárias da PUC-RS, v. 4, n. 3. Porto Alegre: Pós-graduação em Letras da Faculdade
de Letras da PUC-RS, 1998.
CAM ARGO, Ana Maria de Almeida; Moraes, Rubens Borba de. Bibliografia da Impressão Régia do Rio de Janeiro. São Paulo:
EdUSP/Livraria Kosmos, 1993, 2v.
MORAES, Rubens Borba de. O bibliófilo aprendiz. 2. ed. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1975.
SILVA, Maria Beatriz Nizza da. Cultura e sociedade no Rio de Janeiro (1808-1821). São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1978.

Márcia Abreu – Livre-docente em Literatura Brasileira pelo Instituto de Estudos da Linguagem (IEL) da Universidade de
Campinas (Unicamp). Professora de Literatura Brasileira do IEL da Unicamp.
13 DE MAIO DE 1888
ABOLIÇÃO DA ESCRAVATURA
Antonia Terra



o dia 13 de maio de 1888 foi assinada a Lei Áurea estabelecendo a abolição
da escravatura no Brasil.A população invadiu as ruas comemorando o fim
de um sistema de trabalho de três séculos e meio. Na ocasião, quase
oitocentos mil brasileiros foram libertados. Nos anos seguintes, ex-escravos
retomaram as comemorações. E, em 1890, o governo republicano instituiu o
13 de maio como o Dia da Fraternidade dos Brasileiros.
O sistema escravista havia sido introduzido na América pelos europeus.
Envolveu populações indígenas e, a partir de 1532, também provenientes da
África. Em 1758, o marquês de Pombal proibiu definitivamente a submissão
dos índios, e a escravidão africana permaneceu lucrativa para senhores de
terra, comerciantes brasileiros e europeus por mais 130 anos.A
produção,tanto nas grandes propriedades de cana-de-açúcar, quanto na
exploração do ouro, no trabalho doméstico e na produção de café, era baseada na mão de obra
escrava.Calcula-se que o Brasil tenha recebido entre quatro a seis milhões de africanos escravizados. O
país foi o último país da América a acabar com a escravidão.
É claro que a manutenção da escravidão no Brasil não se deu sem obstáculos. No século XVII já havia
notícias de revoltas e fugas e, com o passar do tempo, foram comuns as rebeliões, os quilombos e o
esforço de retorno à África.
Mas foi apenas no século XIX que algumas leis no sentido de inibir a escravidão foram estabelecidas.
Em 1807, o parlamento inglês pôs fim ao tráfico para suas colônias, diante do excedente de açúcar das
Índias Ocidentais Britânicas e da pressão dos liberais. Assim, os ingleses, que tanto haviam se
beneficiado com o tráfico negreiro, agora pregavam o fim da escravidão também em outros locais, com o
propósito de que sua produção não fosse prejudicada pela concorrência de outras colônias. O sistema
escravista solidamente implantado no Brasil atrapalhava os planos da nação mais poderosa no início do
século XIX. Portanto, a Inglaterra pressionou Portugal até que, no Tratado Anglo-Português de 1815, a
nação lusa concordou em restringir o tráfico negreiro ao sul do Equador. Sete anos depois, com a
Independência do Brasil, os escravistas nacionais mantiveram o tráfico africano. Na negociação para o
reconhecimento da Independência, o Brasil, economicamente dependente da Inglaterra, comprometeu-se a
tratar o tráfico como pirataria, sem, contudo, manter o acordo na prática. A pressão inglesa levou a um
novo tratado que proibia o tráfico em 1831. Novamente, o acordo não foi cumprido e, nos 20 anos
seguintes, o Brasil importou 550 mil escravos.
Em 1845, o parlamento inglês votou o Bill Aberdeen, declarando ser lícito apreender navios
negreiros. O governo imperial brasileiro protestou, mas a Marinha inglesa começou a reprimir o tráfico
com vigor. Diante dessa postura e das pressões diplomáticas, no Brasil foi votada uma lei que tornava
ilegal o tráfico de escravos: a Lei Eusébio de Queirós. Intensificaram-se, então, as revoltas de escravos e
as ações promovidas por abolicionistas (que auxiliavam nas fugas, protegiam quilombos e lançavam
campanhas nos jornais). Todo esse quadro colaborou para a promulgação da Lei do Ventre Livre (1871),
a Lei dos Sexagenários (1885) e a assinatura da Lei Áurea em 13 de maio de 1888.
Com o tempo, foi ficando cada vez mais claro que o 13 de maio, mais do que marcar uma ruptura,
fazia parte de um longo processo de desenvolvimento do sistema capitalista. A extinção da escravidão,
sem minimizar sua importância, estava incluída em uma política gradual de transformação do trabalho
escravo em livre, resguardando o interesse dos grandes proprietários de terra. Garantir mão de obra para
o sistema produtivo e leis para reprimir quem optasse pelo “nãotrabalho” eram algumas das
preocupações das elites da época.
No mesmo ano do fim do tráfico de escravos (1850), foi decretada a Lei de Terras, proibindo a
aquisição de terras públicas sem ser através da compra. Tanto na Europa como na América, o controle
sobre a terra fez parte do processo de desenvolvimento do capitalismo com base no trabalho livre. Uma
das formas de obrigar o trabalhador a vender sua força de trabalho, em vez de produzir seu próprio
sustento, era a dificuldade de acesso à terra. Assim, essa mudança repercutia no trabalho, ou seja, diante
da pobreza da maior parte da população, isso significava impor a sobrevivência através de salários.
Nesse sentido, a Lei de Terras complementava projetos de importação de mão de obra livre e de controle
sobre a força de trabalho do liberto, restringindo o acesso à terra ao imigrante e ao nacional sem recursos
para comprála. Em outras palavras: aos imigrantes só restava trabalhar para os grandes proprietários e
aos recém-libertados – preteridos pelos seus ex-proprietários que preferiam o trabalhador europeu,
considerado laborioso e representante do mundo branco “civilizado” – restava a liberdade sem muitas
escolhas de sobrevivência, estando sujeitos também à discriminação racial, pois, vinculada à escravidão,
perpetuou-se a crença de que ser negro era sinônimo de inferioridade. Depois de 1888, especialmente
para o ex-escravo, foram criadas leis coercitivas: antivagabundagem, antimendicância e anticrime.
As vivências das populações negras no Brasil após a Lei Áurea instigaram revisões pela memória e
pela História dessa efeméride, que logo deixou de ser festejada de modo unânime. Parte das novas
gerações passou a encarar a lei apenas como uma conquista jurídica, já que a população negra
permaneceu em uma situação desprivilegiada e com o encargo de lutar contra o preconceito racial.
Na luta contra o racismo, muitas críticas recaíram sobre o 13 de maio, entendido como uma data
oficial que atribuía à princesa Isabel o papel de redentora, sem mencionar a resistência e a luta dos
próprios escravos contra o cativeiro. Como contraponto, os movimentos negros no final do século XX
criaram outras datas, simbolizando outras lutas e outras memórias. O 13 de maio passou a ser o Dia
Nacional de Denúncia contra o Racismo no Brasil; o 20 de novembro, data do assassinato de Zumbi, o
Dia da Consciência Negra; e o 7 de julho, o Dia Nacional de Luta Contra o Racismo.
Graças à militância contra o racismo, o dia 21 de março foi escolhido pela ONU como o Dia
Internacional Para a Eliminação da Discriminação Racial; o 2 de dezembro, como o Dia Internacional
para Abolição da Escravatura, considerando a permanência no mundo de situações de servidão e
escravidão. O ano de 2004 – bicentenário da Revolução Haitiana – foi definido pela Unesco como Ano
Internacional em Comemoração às Lutas Contra a Escravidão e sua Abolição.

B IBLIOGRAFIA
CUNHA, Manuela Carneiro da. Negros estrangeiros: escravos brasileiros. São Paulo: Brasiliense, 1986.
FERNANDES, Antonia Terra de Calazans. O sono da indolência à sombra da árvore da liberdade: os caminhos da emancipação do escravo
no Brasil – 1880-1888. São Paulo: PUC/USP, 1989. Dissertação (Mestrado).
FREITAS, Décio. O escravismo brasileiro. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1982.
GEBARA, Ademir. O mercado de trabalhos livre no Brasil. São Paulo: Brasiliense, 1986.
MATTOSO, Kátia Queirós. Ser escravo no Brasil. São Paulo: Brasiliense, 1982.
VIOTTI, Emília. Da monarquia à república: momentos decisivos. São Paulo: Grijalbo, 1977.
WILLIAM S, Eric. Capitalismo e escravidão. Rio de Janeiro: Americana, 1975.

Antonia Terra – Doutora em História Social pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São
Paulo (FFLCH-USP). Professora do Departamento de História da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP).
24 DE JUNHO
FESTAS JUNINAS
Jaime de Almeida



ia de São João, 24 de junho, o mais festejado santo católico entre nós,
faz parte de um conjunto de festas denominadas juninas. As festas
juninas brasileiras inserem-se num longo processo iniciado com a
cristianização de ritos imemoriais que celebravam o solstício de verão
na Europa e no Oriente Médio. Pouco antes que o cristianismo se
tornasse a religião imperial, o Concílio de Niceia ajustou o calendário
lunar judaico e o calendário solar romano (325). Como a memória da
ressurreição do Cristo ficou ancorada no calendário lunar, um bloco
de festas móveis (Carnaval, Semana Santa, Pentecostes e Corpus
Christi) acompanha o movimento pendular do domingo da Páscoa, que
oscila entre duas datas fixas extremas – 22 de março a 25 de abril.
Dessa forma, a Páscoa foi inserida na estação da primavera enquanto
o Natal e o São João cristianizaram os ritos tradicionais dos solstícios de inverno e verão do hemisfério
norte.
Depois que se ergueu uma basílica sobre o túmulo de São Pedro no Vaticano, local privilegiado do
culto solar, o Natal cristão passou a concorrer desde o ano 354 com as celebrações do Sol Invicto e de
Mitra nas cidades romanas. É dos anos 360 o batistério de São João Batista em Poitiers, talvez o mais
antigo edifício cristão da Gália. Santo Ambrósio teria enviado de Milão para Rouen relíquias de São
João Batista em 393. O bispo Perpetuus instituiu em Tours, na década de 460, a comemoração da
natividade de São João Batista. Bento de Núrsia, fundador da ordem dos beneditinos, ergueu no mosteiro
de Monte Cassino um oratório a São João Batista sobre as ruínas de um templo de Júpiter e foi ali
sepultado. Gregório, o Grande, primeiro papa beneditino, celebrou a paz entre lombardos e bizantinos no
dia de São João, padroeiro dos lombardos, em 590. Na Ibéria, o rei visigodo Recesvinto dedicou uma
ermida a São João numa estação termal do rio Pisuerga em 661. Apesar das iniciativas do clero e da
aristocracia, um dos sermões de Santo Elói contra o paganismo mostra que o solstício de verão
continuava sendo celebrado com danças alegres ao redor do fogo em meados do século VII.
A devoção ao santo ganhou maior importância a partir da Aquitânia. Segundo a lenda, o monge Félix,
guiado por um sonho, traz de Alexandria para Angoulins o crânio de São João Batista em 817; Pepino da
Aquitânia cria a abadia beneditina de Saint-Jean d’Angély e a relíquia atrai muitos peregrinos, mas a
região é assolada pelos vikings e a maioria dos monges é massacrada. A relíquia é milagrosamente
recuperada em 1016 e a abadia reconstruída torna-se ponto de passagem da peregrinação a Santiago de
Compostela. O papa Urbano II a visitou em 1096 quando convocava a Primeira Cruzada. As ordens
militares dos hospitalários e templários impulsionaram a devoção a São João Batista durante as
cruzadas. (A famosa relíquia de Angély desapareceu durante as guerras de religião do século XVI.)
Na península ibérica, mouros e cristãos organizavam luxuosos torneios equestres (origem das
cavalhadas atuais) no solstício. Na Reconquista de 1492, os reis católicos Fernando e Isabel entraram
solenemente em Granada no dia de São João e consagraram uma mesquita ao santo. Os restos mortais do
casal foram depositados por Carlos V na capela real de São João Batista e São João Evangelista junto a
muitas relíquias, entre as quais o braço direito e uma mecha dos cabelos de São João Batista. Além das
disputas entre cristãos e mouriscos nas cavalhadas e touradas, os aquelarres (campo do bode; por
extensão, lugar de reunião das bruxas) das bruxas perseguidas pela Inquisição também eram típicos do
São João ibérico.
São João era festejado com entusiasmo nas aldeias jesuíticas no Brasil, provavelmente porque as
fogueiras e tochas acesas pelos missionários provocavam grande efeito sobre os indígenas. Embora a
festa tenha absorvido elementos das culturas índias e, mais tarde, africanas, a hegemonia da tradição
europeia e portuguesa é evidente. Os instrumentos de música, os hinos e os passos de dança eram
ensinados por irmãos leigos das ordens religiosas, recrutados entre camponeses e artesãos na Europa.
Assim, ritos imemoriais que persistiam nas festas quinhentistas portuguesas foram trazidos à colônia
como elementos normais da cultura cristã.
Como a festa coincidia com a época de colheita do milho e de preparação dos novos plantios, as
fogueiras de São João dialogavam com as práticas rituais indígenas ligadas à coivara. Por outro lado, a
enorme escassez de mulheres brancas na colônia portuguesa justificou, segundo o sociólogo Gilberto
Freyre, grande tolerância diante das relações entre os brancos e as mulheres índias, negras e mestiças;
daí a enorme popularidade adquirida pelos cultos prestados a entidades como São João, Santo Antônio e
São Gonçalo que aproximavam os dois sexos e protegiam a maternidade.
As fogueiras de São João tinham ainda um papel fundamental na complementação das relações
familiares por meio da instituição do compadrio que estreitava os laços entre vizinhos e entre diferentes
grupos de status. Tal como no sacramento do batismo, os “compadres de fogueira” assumiam
compromissos de ajuda em caso de ausência ou morte, de cooperação nos trabalhos da roça e mesmo,
eventualmente, em assuntos de política.
A centralidade da relação entre as festas de São João e o casamento, a família e o parentesco aparece
num incidente emblemático. Quatro anos após a proclamação da República, em 28 de junho de 1893, O
Apóstolo, jornal da diocese do Rio de Janeiro, afirmava que, enquanto as festas cívicas se reduziam ao
desfile militar e à iluminação dos edifícios públicos, as festas religiosas vinham ganhando mais vigor.
“São João há muito nunca foi tão festejado como agora”. É que na véspera da festa a Câmara dos
Deputados decidira suprimir a obrigatoriedade de precedência do casamento civil perante o casamento
religioso, pondo fim a incontáveis pendências decorrentes da separação entre a Igreja e o Estado. À
noite, os sinos de todas as igrejas do Rio de Janeiro repicaram; fogos, balões, piano, charanga popular, o
povo se esbaldara pela noite adentro erguendo vivas ao glorioso São João. “Era, pois, à sombra da
Igreja, e pela porta da religião um brilhante renascimento das nossas quase perdidas alegrias nacionais”.
As festas juninas contemporâneas reforçam projetos de redefinição das identidades regionais dentro
do “país do Carnaval”, numa época de pulverização dos movimentos sociais e construção de novas
identidades culturais, étnicas e sexuais. Por isso, é interessante comparar os dois principais modelos de
festa junina. Tanto os concorridos forródromos sertanejos nordestinos como as exposições pecuárias e
festas country de peão das regiões de agronegócios emergentes demonstram sua notável capacidade de
afirmar/atualizar/ instituir tradições.

B IBLIOGRAFIA
ALM EIDA, Jaime de. Há cem anos, o quarto centenário: dos horríveis sacrilégios às santas alegrias. Revista Estudos Históricos, n. 9, 1992.
BRISSET MARTÍN, Demetrio E. Famosas fiestas de San Juan: análisis de las fiestas de Granada (7). Gazeta de Antropología, n. 9, 1992.
FREYRE, Gilberto. Casa Grande & Senzala. Rio de Janeiro: Record, 1995.
VORÁGINE, Santiago de la. La Leyenda Dorada. Madri: Alianza, 1982

Jaime de Almeida – Historiador com estudos na Universidade de Paris VIII (Vincennes) e na Universidade de São Paulo
(USP). É professor de História da América da Universidade de Brasília (UnB).
28 DE JUNHO DE 1759
REFORMA POMBALINA
Carlota Boto



marquês de Pombal notabilizou-se, na História da Educação
brasileira, quando, com pioneirismo em relação aos demais países da
Europa, tomou a iniciativa de expulsar a Companhia de Jesus de
Portugal e suas colônias pelo alvará de 28 de junho de 1759. Qualquer
crítica que se possa fazer à política educativa dirigida por Portugal
sob a direção do marquês de Pombal não retira o mérito do estadista:
com Pombal, pela primeira vez, o Estado nacional postava-se como
responsável pela jurisdição e pelo controle dos assuntos da educação.
Portugal é pioneiro na expulsão dos jesuítas. O sistema público
pombalino constitui, no projeto de sua arquitetura, um antecessor
daquele que posteriormente seria propalado pela França
revolucionária.
Ministro de Estado sob o governo de D. José I, Pombal representava, em 1759, a expressão do
despotismo esclarecido; ou as feições mais específicas da combinação entre Iluminismo e razão de
Estado. Sentindo-se afrontado, o ministro do Reino pretendia retirar da Companhia de Jesus o controle
exercido pela Ordem sobre corações e mentes da infância e da juventude. Para tanto, seria
imprescindível proceder a tarefa coletiva de catequização e de ensino. Os jesuítas prestavam contas antes
ao papado do que à realeza. Por causa disso, a Companhia de Jesus era tida como uma corporação
insubordinada perante os poderes reais, já que se estruturava intrinsecamente como uma organização
transnacional. Em um tempo de valorização dos Estados-nação, o lugar político ocupado pelos jesuítas
certamente extrapolava quaisquer interesses da monarquia.
Quando D. José subiu ao trono, a corte portuguesa preocupava-se com o enfraquecimento do Estado e
com o notório declínio de Portugal na geopolítica mundial. Pombal, quando assume o posto de secretário
do Estado português, destaca-se pela iniciativa reformadora em vários terrenos: da alfândega ao exército,
passando por instauração de inúmeros mecanismos fiscais e administrativos, que tornavam a gestão dos
negócios públicos mais racional e mais centralizada, para um controle eficaz do reino. Reforçou as
instituições e destacou-se como estadista por ocasião do terremoto de Lisboa, em 1755. Sob direção do
ministro, Portugal teria reforçado o contingente de funcionários do governo, criando instrumentos de
profissionalização para os integrantes da administração pública. Pombal, com isso, conferia modernidade
ao reino. Os jesuítas obstaculizavam o pretendido empreendimento de centralização, direção e
modernização do Estado pombalino. A ordem jesuítica configurava, na prática, um poder paralelo ao
Estado; e, por isso mesmo, constituía uma ameaça sempre presente contra a consecução dos interesses
nacionais.
Em 28 de junho e 1759 o rei de Portugal, D. José, exarou o alvará que contemplava certamente a
primeira reforma de ensino no Brasil: os jesuítas eram sumariamente expulsos de todos os domínios do
reino, incluídos ali metrópole e colônias de Portugal. Pretendia o Estado, liderado pela ação do ministro,
uma renovação da ambiência cultural portuguesa e um controle governamental sistemático da ação
educativa. Criava-se o primeiro movimento tendente a estruturar um sistema de escolarização de Estado.
Note-se, mais uma vez, que, acerca do tema, a ação pombalina antecedia o grande debate que abordaria
adiante a Revolução Francesa: a matéria da educação pública e gratuita dirigida pela ação do Estado,
tendo em vista formar a alma da nacionalidade.
A ação política e econômica desenvolvida pelo pombalismo tinha por finalidade a racionalização e a
centralização da ação do Estado. Pombal pretendia estruturar uma organização nacional que pudesse
conferir ao governante maior domínio sobre os dados de sua jurisdição. A reforma pombalina dos
estudos menores seria acompanhada pela proposta de criação de uma política de aulas régias, pela qual
se pretendia substituir a organização do ensino jesuítico, mediante a concessão pelo Estado da
autorização para ensinar. Examinados os candidatos ao magistério, os habilitados receberiam a então
chamada licença-docente, por meio da qual poderiam abrir aulas na disciplina para a qual haviam sido
avaliados. As escolas, por sua vez, receberiam para sua manutenção verba proveniente de um novo
imposto criado para esse fim: o subsídio literário. Os professores régios, através do subsídio literário,
poderiam ser pagos pelo erário público, tendo através do ingresso por exames a função efetiva que os
tornaria profissionalizados na profissão professor; adquirindo cadeiras em caráter permanente, sendo,
por esse mesmo sistema, vedada qualquer cobrança de contribuições financeiras diretamente dos alunos.
No Brasil, sob o controle dos jesuítas, havia 25 colégios, 36 missões e 17 faculdades e seminários.O
alvará que os expulsava determinava que o estudo não deveria principiar pelo latim, sendo vedado ao
professor falar esse idioma nas classes iniciais. Pretendia-se com isso fortalecer a língua portuguesa,
recomendando, inclusive, alguns compêndios didáticos para serem usados nas escolas. Acreditava-se que
um dos aspectos que dificultava o aprendizado dos alunos era ter de aprender a gramática portuguesa em
latim. Para os ilustrados do período, tal método seria, antes de tudo, irracional. Por isso, a ação
pombalina colocava ênfase na necessidade de se aprender a língua vernácula, em primeiro lugar; e valer-
se dela como método.A cultura letrada impunhase, nesse sentido, como elemento formador da
nacionalidade moderna.
O alvará de 28 de junho de 1759 explicita que a organização dos estudos menores tinha por
finalidade substituir a anterior estrutura do ensino jesuítico, com o propósito de secularizar a política do
ensino português. Observe-se que, para o caso de Portugal e colônias, secularizar, nesse período, não
significava prescindir do ensino religioso. Pombal apenas substituía a cartilha dos jesuítas pelo
catecismo jansenista. A despeito de compreender a relevância do ensino de religião nas escolas,
entendiam os reformadores que este deveria estar sob alçada do Estado português, não ficando, portanto,
ao sabor das determinações autônomas desta ou daquela ordem religiosa.
A reforma pombalina, que tem lugar a partir do alvará de 1759, expressava o intento da coroa
portuguesa de situar a instrução como matéria de Estado, a ser, pela iniciativa governamental, não apenas
planejada,mas controlada e dirigida.O sistema de ensino que se pretendia construir a partir dali seria
secularizado e expandido para as camadas médias e majoritárias da população.O currículo incluiria,no
nível do que então se chamava de primeiras letras, a conjunção entre o ensino da leitura,da escrita e do
cálculo,normas da doutrina cristã para os meninos. Para as meninas, acrescia-se o aprendizado da costura
e do bordado, como técnicas necessárias para o sexo feminino. Em qualquer dos casos, para as aldeias
indígenas como nas outras tantas escolas, qualquer uso de outra língua que não a portuguesa seria
prontamente vedado.
A escola deveria, a um só tempo, civilizar, disciplinar e inculcar códigos culturais supostos
adequados ao que a sociedade portuguesa esperaria de cada um de seus súditos. O pioneirismo da ação
pombalina, sob tal aspecto, deverá ser admitido. Tratava-se, no limite, de transformar o Estado em
pedagogo da nacionalidade.

B IBLIOGRAFIA
ANDRADE, A. A. Banha de. Verney e a projecção de sua obra. Lisboa: Instituto de Cultura Portuguesa/Ministério da Educação e da
Ciência, 1980.
CARVALHO, Laerte Ramos de. As reformas pombalinas da instrução pública. São Paulo: Saraiva/EdUSP, 1978.
FALCON, Francisco José Calazans. A época pombalina: política econômica e monarquia ilustrada. São Paulo: Ática, 1982.
FERNANDES, Rogério. O pensamento pedagógico em Portugal. 2. ed. Lisboa: Instituto de Cultura e Língua Portuguesa/Ministério da
Educação, 1992.
GAUER, Ruth. A modernidade portuguesa e a reforma pombalina de 1772. Porto Alegre: EDIPUCRS, 1996.
MAXEWLL, Kenneth. Marquês de Pombal: paradoxo do Iluminismo. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1996.

Carlota Boto – Licenciada em Pedagogia e em História pela Universidade de São Paulo (USP), é professora doutora da
Faculdade de Educação da USP.
28 DE JUNHO (1969)
DIA INTERNACIONAL DO ORGULHO GAY*
Luiz Mott



“A homossexualidade é tão antiga quanto a própria humanidade”.
(Goethe)
pesar de sua antiguidade e universalidade, somente a partir do Código
Napoleônico (1810) que o amor entre pessoas do mesmo sexo deixou de ser
crime, embora ainda hoje, em muitos países muçulmanos e africanos, os
homossexuais continuem a ser presos e até condenados à morte. Foi, portanto,
somente a partir dos meados do século XIX, quando se cunhou o termo
“homossexual”, que os próprios gays iniciaram sua luta pelo respeito social e
cidadania. E será apenas nos meados do século XX que se universalizará a
celebração do Dia do Orgulho Gay. Entre os pioneiros históricos dessa luta
destacam-se o acadêmico alemão Karl Ulrichs, o primeiro homossexual
assumido a defender abertamente, em 1867, a descriminalização do amor
unissexual; o jornalista húngaro Karol Maria Benkert, criador do neologismo
“homossexual” (1869); o médico judeu alemão Magnus Hirschfeld, fundador
do primeiro movimento de afirmação homossexual (1897) e, entre nós, o advogado gaúcho João Antonio
Mascarenhas, pioneiro e articulador do Movimento Homossexual Brasileiro.
Apesar de um início aUSP icioso, esse incipiente movimento defensor da cidadania lesbigay foi
bruscamente sufocado pelo Nazismo – que destruiu todo o acervo documental sobre homossexualidade
até
então reunido no Comitê Científico-Humanitário de Berlim – e pelo confinamento nos campos de
concentração de mais de trezentos mil homossexuais masculinos. Será somente após o fim da Segunda
Guerra Mundial que os homossexuais fundarão grupos organizados de defesa dos direitos humanos das
minorias sexuais na Noruega, Holanda, Estados Unidos, tendo como finalidade revogar leis e posturas
que condenavam a prática homossexual entre adultos e promover a integração social de gays, lésbicas e
transgêneros. Embora não existisse na maioria dos países ocidentais leis específicas condenatórias do
homoerotismo, por influência da homofobia de inspiração judaicocristã, os homossexuais continuavam a
ser tratados pela polícia como delinquentes, rotulados de desviantes pela sociologia e doentes mentais
pela psicologia, discriminados no trabalho, escolas, exército, igrejas, imprensa e demais instituições,
sobretudo no seio do lar. Apesar e pour cause dessa homofobia generalizada, gays, lésbicas e
transsexuais de grandes cidades passaram a se reunir em “guetos”, notadamente em bares e boates onde
podiam encontrar seus iguais e compartilhar interesses comuns. E foi exatamente num destes locais de
encontro e diversão que teve origem o Dia Internacional do Orgulho Gay. Um dia conquistado na luta
contra a repressão policial.
O Dia da Consciência Homossexual nasceu no fim de semana de 28 de junho l969, em Nova York,
quando gays, lésbicas e travestis reunidos no bar Stonewall Inn, em Greenwich Village, cansados de ser
humilhados e apanhar da polícia, que toda noite invadia seus espaços de lazer, agredindo e chantageando-
os, decidiram reagir à prepotência policial. Era a época dos hippies, dos protestos contra a guerra do
Vietnã, das manifestações de rua do movimento negro e feminista, auge da moda unissex.
Na noite de 27 de junho de 1969, sexta-feira, dia de grande movimento na área de Christopher Street,
no centro gay novaiorquino, uma força policial do Departamento de Moral Pública da primeira divisão
da polícia, como de costume, irrompeu portas adentro do bar Stonewall Inn, sob o pretexto de reprimir a
venda ilegal de bebidas alcoólicas. Também como de praxe, os casais que dançavam de corpos colados
imediatamente se separaram para evitar violência e detenção. Naquela noite, em vez de aguentarem
passivamente a prepotência policial, os duzentos frequentadores do bar reagiram bravamente, obrigando
a polícia a buscar reforço. Na rua, mais de mil transeuntes se associaram aos protestos, gritando slogans:
“Porcos”, “Basta de brutalidade policial” e, por horas seguidas, jogaram garrafas, latas e objetos
incendiários contra a polícia. Com a chegada de novo reforço policial, foram efetuadas 13 prisões e um
saldo de 4 policiais feridos. Na noite seguinte, 28 de junho, a Christopher Street voltou a ser um
verdadeiro campo de batalha, com uma multidão de gays, lésbicas e transgêneros gritando: “gay power”,
“gay pride” (poder gay, orgulho gay). Esse evento passou para a história como “Stonewall riots”
(revoltas de Stonewall).
Foi essa a primeira manifestação/revolta de massa realizada por homossexuais de que se tem notícia
na história, e a partir dos anos seguintes, todo dia 28 de junho, primeiro em Nova York depois nas
principais cidades do mundo, os homossexuais passaram a celebrar com manifestações de rua e
diferentes atividades culturais e políticas, o Gay Pride ou Dia Internacional do Orgulho Gay – hoje
rebatizado como Dia do Orgulho de Gays, Lésbicas, Transgêneros e Bissexuais.
Em São Francisco, Nova York, Toronto, Londres, Paris, Madri, e, mais recentemente, também em
Moscou, Bogotá, Buenos Aires e nas principais cidades do Brasil e do mundo ocidental realizam-se
concorridas Paradas Gays, muitas delas com a presença de autoridades e políticos que se juntam a
milhares de homossexuais que saem às ruas para defender seus direitos de cidadania. No Brasil, desde
1981, o Grupo Gay da Bahia comemora essa data com a realização de seções solenes na Câmara dos
Vereadores e leitura de moções de apoio à cidadania homossexual na Assembleia Legislativa.
Embora desde 1980 registrem-se em nosso país passeatas e manifestações de rua de grupos
homossexuais protestando contra a homofobia, foi em 1995, quando da fundação da Associação
Brasileira de Gays, Lésbicas e Transgêneros, que teve lugar em Curitiba a primeira Parada Gay
brasileira no estilo internacional, com carros alegóricos, muitos balões e bandeiras com o arco-íris,
símbolo da diversidade pleiteada pelo movimento GLTB. Em 1996 ocorreu a primeira Parada Gay do
Rio de Janeiro, com 3,5 mil participantes (nove anos depois, o número pulou para mais de um milhão de
pessoas); em 1997 sucedeu a primeira parada de São Paulo, originalmente com 5 mil participantes e que
em menos de uma década consagrou-se como a maior parada gay do mundo, com mais de 2 milhões de
pessoas. Em 2005 realizaram-se 65 paradas, em todas as capitais e principais cidades do interior.
Por que os homossexuais proclamam o Dia do Orgulho Gay? Porque não têm vergonha de ser o que
são! A livre orientação sexual é um direito inalienável de todo ser humano, seja homossexual, bissexual
ou heterossexual. Ser homossexual não é doença: o Conselho Federal de Medicina (desde 1985), a
Organização Mundial da Saúde (desde 1993) e o Conselho Federal de Psicologia (desde 1999)
excluíram a homossexualidade da classificação de doenças. Ser homossexual não é mais crime e muitos
teólogos modernos defendem que o amor entre pessoas do mesmo sexo é tão ético e divino quanto o amor
entre sexos opostos. A discriminação, sim, é proibida pela Constituição Federal. Autoestima e afirmação
identitária são fundamentais para que os gays conquistem igualdade de direitos, daí a ênfase no orgulho e
nessas manifestações massivas. Somos milhões, estamos em toda parte. O povo GLTB não quer
privilégios: exigimos, sim, ser tratados como seres humanos, com os mesmos direitos e deveres dos
demais cidadãos. Queremos cidadania plena já! E que todos dias, no ano inteiro, seja dia do orgulho
homossexual.

B IBLIOGRAFIA
DYNES, Wayne. Encyclopedia of Homosexuality. New York: Garland Press, 1990.
MACRAE, Edward. A construção da igualdade: identidade sexual e política no Brasil da “Abertura”. Campinas: Unicamp, 1990. (Col.
Momento)
MOTT , Luiz. O crime anti-homossexual no Brasil. Salvador: Grupo Gay da Bahia, 2002.
_______. Homossexualidade: mitos e verdades. Salvador: Grupo Gay da Bahia, 2003.
TREVISAN, João Silvério. Devassos no paraíso: a homossexualidade no Brasil, da colônia à atualidade. Ed. revista e ampliada. Rio de Janeiro:
Record, 2000.

Luiz Mott – Doutor em Antropologia e professor titular da Universidade Federal da Bahia (UFBA), é fundador e secretário de
Direitos Humanos do Grupo Gay da Bahia e decano do Movimento Homossexual Brasileiro.

* Dia Internacional do Orgulho de Gays, Lésbicas e Transgêneros e da Consciência Homossexual.


2 DE JULHO DE 1823
INDEPENDÊNCIA DA BAHIA
Antônio Guerreiro de Freitas



m visitante desavisado, nacional ou estrangeiro, que desembarque em
Salvador, capital do estado da Bahia, em um 2 de julho (antigo nome do
aeroporto da cidade), logo será envolvido por um clima festivo, uma
mistura de carnaval com civismo que o deixará perplexo. Afinal, estará no
meio do ano, período de muitas chuvas e distante, portanto, do verão,
estação marcada por fornecer os elementos mais significativos da
identidade baiana na contemporaneidade. Os diferentes olhares darão
margem às mais variadas leituras, mas nenhuma delas conseguirá fugir da
sensação de que se trata de algo importante, social, multiétnico,
pluripartidário, sincrético no religioso e no político, colorido, musical,
enfim, um conjunto de rituais, nem sempre evidenciando organização, mas
que terminam por conformar um espetáculo que valoriza a liberdade e se
constitui no marco maior do que se começou a chamar de baianidade. E o tal visitante ficaria ainda mais
espantado, pois trata-se de uma data exclusiva do calendário cívico do estado da Bahia, sem paralelo em
qualquer outro estado da federação brasileira.
Afinal, o que está acontecendo e que tem o poder de mobilizar diversas classes e instituições,
constituindo-se numa autêntica manifestação popular?
Toda essa agitação é motivada pela comemoração da Independência da Bahia, um acontecimento
pouco reconhecido pela historiografia, salvo a baiana, um fato histórico de certo modo desconhecido,
mesmo nos espaços baianos mais distantes da capital e do seu recôncavo, o cenário onde se desenvolveu
a chamada Guerra da Independência. Certamente essas considerações não são levadas em conta pelos
organizadores e participantes das comemorações. O que se valoriza é a contribuição definitiva dada
pelos baianos para a Independência do Brasil.
Na Bahia, o sangue correu, brasileiros (baianos, em sua maioria) morreram para que os portugueses
fossem expulsos definitivamente do país. A libertação verdadeira da nação brasileira só então teria
acontecido, concepção que reforça o sentimento da Bahia como berço de fundação do Brasil e a ideia
existente no tempo do Império de sua superioridade com relação às demais províncias, justificando a
defesa, no século XIX, do 2 de julho como feriado nacional. Afinal, para os baianos, essa data seria mais
valiosa para a Independência do país do que o 7 de setembro.
A data refere-se à guerra ocorrida entre junho de 1822 e julho de 1823, tendo como palco Salvador e
as vilas do recôncavo, locais onde se organizou uma resistência, inicialmente sob a forma de batalhões
patrióticos, contra os portugueses que não reconheciam a Independência do Brasil.
O clima de insatisfação e a predisposição para o conflito estavam presentes na Bahia desde a
Revolução dos Alfaiates (1798). Em 1823, o que se pretendia era a expulsão das tropas portuguesas do
território nacional; vistas como a garantia da permanência da opressão colonial, elas incomodavam os
proprietários – desejosos de maior liberdade comercial – e também o povo, cansado do secular domínio,
sem perder de vista que a grande maioria da população era formada por escravos.
O Exército rebelde, autodefinido como libertador ou pacificador, contou com oficiais de origem
aristocrática, soldados baianos e recrutados em outras províncias, canhões, espingardas, clavinotes,
pistolas, lanças, sabres e flechas, estes últimos equipamentos preferenciais dos indígenas que se
envolveram na luta. A origem social da tropa advinha de poucos quadros profissionais, voluntários
(nenhum filho de rico se alistou),brancos pobres,negros libertos e escravos cedidos por seus donos. Para
comandá-la foi chamado, primeiramente, o general francês Pedro Labatut, um mercenário profissional
cujo passado logo gerou desconfiança, fazendo com que ele fosse destituído, preso, julgado e
absolvido.Para o seu lugar,foi nomeado o coronel José Joaquim de Lima e Silva. A busca de estrangeiros
para os postos de liderança foi recorrente e tinha como objetivo profissionalizar a força militar e
introduzir um mínimo de disciplina. Para combater as naus portuguesas, foi contratado o marechal inglês
Lord Cockrane,que atuou até a retirada do comandante português, general Madeira, na madrugada do dia
2 de julho, liderando suas tropas derrotadas e protegendo cidadãos portugueses que retornavam a
Portugal, levando consigo tudo de valor que pudessem carregar. Terminava, assim, o cerco aos
portugueses que, sitiados, haviam sofrido a privação de vários gêneros de primeira necessidade.
Pela historiografia especializada, não teria acontecido nenhuma grande batalha,pois acredita-se que a
própria retirada por mar tivesse sido consentida pelos vencedores.As perdas calculadas apontam para
aproximadamente 150 mortos, sendo 80 na Batalha de Pirajá, a mais famosa da guerra, e que teria sido
definida por um toque equivocado de corneta que, ao invés de recuar o tocador, ordenou avançar. Aliás,
essa mesma historiografia que reconhece o sentido conservador do movimento,por conta da liderança de
proprietários, sempre preocupados com a manutenção de privilégios, aponta e valoriza a participação
das camadas populares da população na luta, entre elas a expressiva presença negra.
A guerra deu-se em meio a uma conjuntura propícia ao surgimento e à exacerbação de um conjunto de
insatisfações que tinha como norte a “conquista da liberdade”. Para uma elite, esta significava livrar-se
definitivamente de Portugal; para os despossuídos e escravos, uma maioria avassaladora, tratava-se de
conquistar a liberdade e os direitos fundamentais diante das condições em que sobreviviam.
Quanto à guerra em si, os estudiosos são unânimes em destacar as precárias condições operacionais e
os insuficientes recursos materiais. SUSP eita-se que as maiores baixas tenham decorrido mais pela fome e
doenças do que pela violência das próprias armas. São comuns as referências a um exército faminto e nu
que mesmo assim teria se exibido durante o “desfile da vitória” pelas ruas desertas da cidade de
Salvador, na madrugada do 2 de julho de 1823.
As classes populares participaram amplamente da guerra,envolvidas de modo direto na luta ou
desempenhando importantes funções estratégicas em hospitais, na preparação de comida e fardamento e
até mesmo com doações variadas. Essa dedicação criou entre os escravos, por exemplo,a expectativa de
que vencer a guerra implicaria automática emancipação.Um grande engano,já que poucos conseguiram a
alforria como prêmio. A vitória dos baianos (e aliados nacionais e internacionais), no plano nacional,
consolidou a Independência do Brasil diante de um eventual projeto recolonizador português; no plano
regional baiano, ajudou a construir uma visão de uma nação independente em que não brancos também
teriam valor,fazendo parte de sua formação. Por trás da consigna todos são baianos estaria, para muitos,
a ideia de igualdade que as condições da luta tinham objetivamente criado no momento do conflito.
Tais visões seriam representadas nas festividades do 2 de julho de todos os anos posteriores à
vitória dos baianos. Uma festa até hoje popular, que tem como seus principais ícones um índio (o
guerreiro) e uma cabocla (a conciliação), a nos ensinar a nossa origem social plural, sendo tratados com
reverência por todos, no alegre e descontraído percurso pelas ruas da histórica Salvador, coloridas de
branco, verde e amarelo.

B IBLIOGRAFIA
ALBUQUERQUE, Wlamira Ribeiro de.O civismo festivo dos baianos: comemorações públicas da Independência (1889-1923). Salvador:
UFBA, 1997. Dissertação (Mestrado).
AM ARAL, Braz do. História da Independência na Bahia. Salvador: Progresso, 1957.
KRAAY, Hendrik. Entre o Brasil e a Bahia: as comemorações do dois de julho em Salvador no século XIX. Revista Afro Ásia, n. 23, 2000, p.
49-87.
MATTOSO, Kátia de Queirós. Bahia século XIX: uma Província no Império. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1992.
TAVARES, Luís Henrique Dias. História da Bahia. São Paulo/Salvador: Unesp/ EDUFBA, 2001.

Antônio Guerreiro de Freitas – Professor do Departamento de História da Universidade Federal da Bahia (UFBA).
9 DE JULHO DE 1711
INQUISIÇÃO NO BRASIL
Rachel Mizrahi



ia 9 de julho de 1711 é a data do auto de fé organizado pelo Tribunal
da Inquisição de Lisboa,onde Miguel Telles da Costa, capitão-mor da
capitania brasileira de Nossa Senhora da Conceição de Itanhaém, foi
sentenciado como herege judaizante (Processo n. 6.515 do Arquivo
Nacional da Torre do Tombo, Portugal).
O Tribunal de Inquisição representou no período em que atuou –
do século XIII ao XIX – o poder em ação da Igreja Católica. Criado em
1209 pelo papa Gregório IX na busca da “preservação da pureza do
catolicismo”, o Santo Ofício, além de manter os dogmas religiosos, foi
guardião formal da moral e dos costumes das populações europeias
ligadas à Igreja. Para compreendermos o funcionamento deste Tribunal
de tão longa duração, é necessário distinguir:

A Inquisição Medieval: quando a Igreja iniciou violenta perseguição aos hereges albingenses, cátaros e valdenses pela Europa
germânica, franca e itálica;
A Inquisição Romana: instaurada em 1542, pelo papa Paulo III, expressamente para eliminar a “heresia protestante” que já atingia
grandes regiões da Europa, inclusive a Itália. Além do delito religioso, cientistas e pensadores como Galileu Galilei e Giordano Bruno
foram processados pelas suas concepções modernas e diferenciadas;
A Inquisição Ibérica: introduzida na Espanha (1480) e em Portugal (1536), atingiu um herege especial – o cristão-novo (descendente
de judeus e convertido ao catolicismo), acusado de professar o judaísmo às escondidas. Ainda que os cristãosnovos representassem
90% dos seus réus, o Tribunal da Inquisição português também processou bígamos, homossexuais, feiticeiras e blasfemos.

O mais famoso inquisidor medieval foi Nicolau Eymerich, autor do Manual dos inquisidores, texto
secreto que servia de guia e orientação prática ao funcionamento do Tribunal. Uma das suas normas
fundamentais era o segredo: das denúncias, no enquadramento do delito, nas prisões e nas sentenças. A
tortura física era utilizada e o Manual norteava os inquisidores nas técnicas e suas eficácias sobre os
réus. Um médico acompanhava o interrogatório, avaliando o quanto o réu poderia suportar a tortura, sem
morrer. As denúncias constituíam a base do inquérito inquisitorial. Toda e qualquer informação, inclusive
rumores, eram recebidos pelos inquisidores que se mostravam indiferentes quanto à idoneidade do
denunciante e a apresentação de provas. Um notário registrava os depoimentos dos réus e os fatos
ocorridos durante o processo. Introduzido em Portugal em um período de intensa movimentação
comercial devido às grandes descobertas marítimas, o Tribunal da Inquisição provocou enorme
conturbação na geração de cristãosnovos portugueses que ainda guardava a comoção da Conversão
Forçada de seus pais e avós ao catolicismo (1497). Subordinados à Igreja, voluntariamente ou não, os
novos-cristãos deveriam seguir as imposições do credo da religião católica, assistindo à missa,
aceitando os dogmas e praticando seus rituais. As denúncias levaram os inquisidores a atribuir aos
convertidos o crime da apostasia, uma vez que “praticavam de forma clandestina a religião e os costumes
judaicos, esquecendo ou negligenciando-se dos preceitos do catolicismo”.
Como instrumento de poder, a Inquisição ibérica encontrou na própria estrutura social portuguesa
meios de manter uma posição privilegiada.Pôde,com outros órgãos da Igreja e do Estado,endossar uma
legislação discriminatória – os Estatutos de Pureza de Sangue – que impedia judeus, negros, cristãos
novos, mestiços e ciganos de ocupar posições e cargos em seus quadros, exigindo dos postulantes
comprovante de “limpeza de sangue”.
Perseguidos por um tribunal tido como parcial, discriminados como elementos inábeis, amedrontados
com as solenes cerimônias públicas – os autos de fé – quando recebiam as sentenças e, humilhados pelos
sermões proferidos pelo clero de Portugal e de suas colônias ultramarinas, os cristãos-novos viveram,
por séculos, um clima de intranquilidade, circunstância que os levaram a desejar emigrar para outras
terras. Embora, desde 1567, as leis antiemigratórias impedissem conversos de sair do Reino, muitos
conseguiram entrar em terras da América e, em especial no Brasil. As pesquisas da historiadora Lina G.
Ferreira da Silva comprovaram que, na primeira metade do século XVIII, 30% da população do Rio de
Janeiro era composta por cristãos-novos.
No período, as capitanias do Sul experimentaram intensa movimentação comercial, provocada pelo
início da exploração do ouro nas terras mineiras. Paraty, verdadeiro “porto de ouro”, era o caminho de
entrada em direção às minas. Em 1702, Miguel Telles da Costa, português de larga experiência militar,
foi nomeado pelo rei de Portugal para o cargo de capitão-mor da capitania de Nossa Senhora da
Conceição de Itanhaém. O cristão-novo escolheu Paraty para sede de seu mandato. Além da origem
judaica, Miguel Telles, como filho de penitenciados, tinha duplo impedimento legal para o cargo. A
projeção socioeconômica de sua família, contudo, permitiu que Telles da Costa, “ao comprovar” uma
velha origem cristã, pudesse ser nomeado.
No exercício da função, Miguel Telles da Costa enfrentou muitos problemas, um dos quais buscar
conciliar os interesses das autoridades coloniais no litoral fluminense, onde o contrabando e o
descaminho do ouro já revelassem abusos. Em 1707, notícias de Portugal lhe informaram que seu irmão,
eminente contratador português, havia sido preso pela Inquisição de Lisboa. Diante dessa inesperada
detenção e a de amigos e de outros parentes, o capitão-mor, temendo denúncias sobre si, abandonou seu
posto militar refugiando-se nas terras mineiras. Lá, auxiliado pelo sobrinho Francisco da Costa, construiu
uma estalagem para viajantes e mercadores. Não foi difícil a Miguel Telles da Costa conseguir rápida
prosperidade. Em outubro de 1710, indo ao Rio de Janeiro para solucionar alguns negócios, foi
surpreendido com uma ordem de prisão do Santo Ofício. Sem possibilidades de ação, Telles da Costa,
como outros cristãos novos do Rio de Janeiro, foi obrigado a embarcar para Portugal.
Depois da inicial formalidade (instrução, genealogia, inventário dos bens etc.) do processo, os
interrogatórios se iniciaram. Desconhecendo os nomes de seus denunciantes e os fatos de sua prisão,
Miguel Telles a tudo negou e, por isso, foi levado ao tormento. Aconselhado pelo seu procurador
(funcionário da instituição), iniciou sua “confissão”: denunciou 150 cristãos-novos de Portugal, do Rio
de Janeiro, das Minas Gerais, de Salvador e de outras regiões brasileiras. Em 9 de julho de 1711, Miguel
Telles da Costa recebeu a pena de “cárcere e hábito penitencial perpétuos”, obrigado a usar por toda
vida o sambenito (traje infamante) e proibido de retornar ao Brasil. Seus bens foram sequestrados pela
Inquisição e pela Câmara Real.
O processo do capitão-mor Miguel Telles da Costa pode ser tomado como exemplo da ação do Santo
Ofício no Brasil, especialmente ampliada no transcorrer do século XVIII. No longo período em que atuou
(1536-1820), além de deter mais de mil pessoas (cinquenta das quais sentenciadas com a pena de morte),
o Tribunal da Inquisição afetou a vida econômica e financeira da colônia mantendo a discriminação entre
famílias e os grupos sociais no período colonial.

B IBLIOGRAFIA
AZEVEDO, João Lucio. História dos christãos novos portugueses. Lisboa: Livraria Clássica Editora, 1922.
BROM BERG, Rachel Mizrahi. A Inquisição no Brasil: um capitão-mor judaizante. São Paulo: CEJ/USP, 1984.
EYM ERICH, Nicolau. Manual dos inquisidores (Directorium Inquisitorum). Brasília: Fundação Universidade de Brasília, 1993.
NOVINSKY, Anita. Cristãos-novos na Bahia. São Paulo: Perspectiva, 1972.
TUCCI CARNEIRO, Maria Luíza. Preconceito racial em Portugal e Brasil Colônia: os cristãos-novos e o mito de pureza de sangue. São
Paulo: Perspectiva, 2005.

Rachel Mizrahi – Socióloga, mestre e doutora pelo Departamento de História da Universidade de São Paulo (USP). Professora
universitária, é autora de muitas obras sobre inquisição.
9 DE JULHO DE 1932
REVOLUÇÃO CONSTITUCIONALISTA DE 1932
Ilka Stern



á mais de cinquenta anos o dia 9 de julho é comemorado em São Paulo com
cerimônias oficiais recheadas de discursos seguidos de desfiles de ex-
combatentes – orgulhosos portadores de medalhas, bandeiras e capacetes de
aço – e familiares. Emocionados, esses senhores e senhoras, os “veteranos de
32”, simbolizam a própria memória de um evento histórico que se tornou a
data máxima da história oficial paulista, a Revolução Constitucionalista de
1932. O dia 9 de julho de 1932 marca o início de uma guerra civil que durou
três meses e resultou em mais de seicentos mortos. Nessa data partiram de São
Paulo os primeiros batalhões de “soldados constitucionalistas” para lutar
contra as tropas do governo federal com o objetivo de destituir o presidente
Getúlio Vargas e restabelecer a ordem constitucional no país.
Os primeiros lances desse episódio remontam a 1930, quando, por meio
de um movimento político-militar – a chamada Revolução de 1930 –, Getúlio Vargas assumiu o poder,
destituindo o presidente Washington Luiz e sUSP endendo a ordem constitucional. Instaurouse um governo
provisório, os presidentes dos estados foram substituídos por interventores nomeados por Getúlio Vargas
e as câmaras legislativas estaduais foram fechadas. Desde o início de seu governo, ficou evidente que, no
sistema político recém-instaurado, os paulistas perderiam sua hegemonia. À perda do controle político
do estado chefiado, a partir de então, por interventores não paulistas, somou-se uma radical diminuição
da capacidade de decisão sobre a economia cafeeira, que passou a ser centralizada por Vargas.
Até então, a vida política paulista girava em torno da disputa entre dois partidos – o Partido
Republicano Paulista (PRP), da situação, e o Partido Democrático (PD), que concentrava os interesses
da oposição. Com a ascensão de Vargas, o PRP se viu totalmente alijado do poder, enquanto o PD, por ter
apoiado a campanha getulista, manteve esperanças de participar do novo arranjo político, o que não
ocorreu.
Dada a grave instabilidade política que se manifestava desde a década anterior, os partidos
passavam por uma crise de legitimidade. Termos como “carcomidos”, “politiqueiros”, “politicalha”
enchiam as páginas dos jornais, que construíam uma imagem da política como o reino de interesses
mesquinhos. Assim, ganha sentido a criação da Legião Revolucionária de São Paulo por Miguel Costa
em novembro de 1930. Considerada o “braço armado da Revolução”, a Legião surgiu para combater o
que chamava de “politicalha”, isto é, as formas tradicionais de exercício político através dos partidos.
Defensora dos princípios revolucionários, a Legião simbolizava a presença do novo regime em São
Paulo, tornando-se, por isso mesmo, o principal inimigo dos políticos paulistas. A presença da Legião
modificou radicalmente o panorama político, provocando a união do PRP e do PD, que procuraram uma
fórmula de restabelecer a ordem constitucional. A trégua entre os dois partidos resultou, em fevereiro de
1932, na formação de uma Frente Única, cujo objetivo consistia em solucionar as duas principais
questões do momento: a reconquista da autonomia paulista e a reconstitucionalização.
Entre 1931 e 1932, portanto, a tensão e a instabilidade marcaram as relações entre os políticos
paulistas e o governo federal; sucessivos interventores foram nomeados para governar o estado e logo
destituídos, enquanto os políticos paulistas procuravam restaurar o prestígio perdido. Se, de um lado, as
tentativas de diálogo se multiplicavam, de outro, os políticos paulistas pretendiam liderar uma
conspiração de âmbito nacional. Segundo um memorialista, articulações para derrubar Getúlio estavam
em curso desde abril de 1931, e em dezembro desse ano já se considerava a ideia de armada não apenas
para reconquistar a autonomia perdida, mas para agir no cenário nacional, derrubando o presidente da
República.
A indefinição de Vargas incitava os paulistas, provocando um clima de conflito constantemente
alimentado por manifestações públicas, passeatas e comícios, nos quais se clamava pela convocação de
eleições a uma Assembleia Constituinte. Nesses encontros, bem como na imprensa, fomentava-se um
clima de animosidade crescente contra o governo federal – a “ditadura”. Os discursos políticos
manipulavam os sentimentos de humilhação e orgulho, no qual o grande estado de São Paulo – a
“locomotiva que puxava os vagões”, “o berço da nação”, o símbolo da modernidade – encontrava-se
esmagado por um governo despótico e ilegítimo. Interesses frustrados, convicções e paixões formavam o
caldo de cultura desse clima pré-revolucionário. A ideia de um movimento armado foi ganhando corpo,
fomentada em grande parte pelos estudantes universitários, que promoviam passeatas, comícios,
distribuíam folhetos e tomavam providências para a guerra.
O estopim da revolução foi, mais uma vez, a escolha de um novo interventor, em maio de 1932.
Indicado pelos paulistas, após longas negociações, o governo federal nomeou o embaixador Pedro de
Toledo. Na data marcada para o anúncio de seu secretariado (23 de maio), houve um enorme comício na
Praça do Patriarca, na cidade de São Paulo.
Incitada pelos discursos inflamados dos líderes estudantis e políticos e inquieta devido às
informações desencontradas sobre as negociações entre o emissário de Getúlio Vargas e os políticos
paulistas, parte da multidão que estava na Praça do Patriarca saiu em direção ao Palácio dos Campos
Elíseos, onde se faria o anúncio. Em meio à confusão, um grupo decidiu atacar a sede da Legião, que
abrigava os jornais getulistas o Correio da Tarde e A Razão. No confronto com os defensores da Legião,
ocorreu a morte de quatro estudantes, de cujos nomes – Martins, Miragaia, Camargo e Dráusio (MMDC)
– extraiu-se a famosa sigla que nomearia a primeira milícia civil encarregada dos preparativos para a
guerra contra os desmandos do governo federal.
A partir desse episódio, o clima de revolta acirrou-se, tornando cada vez mais palpável a ideia de
revolução, apontada como a única saída para a crise. A maior parte da população paulista envolveu-se
nos preparativos, que consistiam em recrutamento de voluntários, treinamentos militares, coleta de fundos
para a compra de armas e munições, confecção de uniformes e equipamentos, entre outras providências.
Do ponto de vista militar, o comandante da II Região (São Paulo), Euclides de Figueiredo, contava
com reforços provenientes do Mato Grosso e do Rio Grande do Sul; iniciado o movimento, porém, os
reforços não chegaram, e rapidamente o governo federal conseguiu sufocar o movimento
circunscrevendo-o ao território paulista. Após três meses de luta, os paulistas se renderam; os políticos
envolvidos no movimento foram presos e exilados. Sufocado o movimento, Getúlio Vargas marcou as
eleições para a Constituinte para maio de 1933, num gesto de aproximação com os políticos de São
Paulo. A convocação foi imediatamente assumida como uma vitória moral: “Perdemos, mas vencemos”
tornou-se a versão oficial do episódio, de modo que o dia 9 de julho passou a ser considerado a data
máxima do calendário cívico do estado.

B IBLIOGRAFIA
BORGES, Vavy P. Tenentismo e revolução brasileira. São Paulo: Brasiliense, 1992.
________; COHEN, Ilka S. A cidade como palco: os movimentos armados de 1924, 1930 e 1932. In: P ORTA, Paula (org.). História da cidade
de São Paulo. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2004.
CAPELATO, Maria Helena. O movimento de 1932: a causa paulista. 3. ed. São Paulo: Brasiliense, 1981.
P EREIRA, Antonio Carlos. Folha dobrada: documento e história do povo paulista em 1932. O Estado de S. Paulo, São Paulo, 1982.

Ilka Stern – Doutora em História Social pela Universidade de São Paulo (USP) e especialista em História Política.
12 DE JULHO DE 1917
GREVE GERAL NO PAÍS
Nicolina Luiza de Petta



o dia 12 de julho de 1917, a cidade de São Paulo parou: uma greve geral de
cem mil trabalhadores paralisou o trabalho nas fábricas e transportes. Essa
foi a greve de maior impacto do movimento operário no país nos primeiros
anos da República. No Brasil, greve também era denominada parede, e o
movimento grevista denominado paredista. O termo greve como sinônimo
de paralisação do trabalho nasceu na França em referência à Praça Grève,
localizada em Paris, onde os operários desempregados reuniam-se na
expectativa de serem chamados para trabalhar.
No início do século XX, crescia no Brasil a organização e a mobilização
dos trabalhadores com o objetivo de conquistar melhorias de vida e
trabalho. Em 1903 foi criada a Federação das Associações de Classe
(posteriormente Federação Operária do Rio de Janeiro); em 1905,
organizou-se a Federação Operária de São Paulo. Associações semelhantes foram criadas em outros
estados brasileiros. Em 1906 foi realizado o 1º Congresso Operário Brasileiro. As greves tornaram-se
constantes e, em alguns momentos, amplas e numerosas. Os anos de 1906, 1907, 1912 e 1913 foram de
muita ação, assim como o ano de 1919. Os acontecimentos de 1917, porém, marcaram de forma mais
profunda a história da luta de classes no Brasil. Esse ano foi de agitação operária, com a eclosão de
greves em São Paulo, Rio de Janeiro, Paraíba, Minas Gerais e Rio Grande do Sul. No entanto, o
movimento foi mais intenso nas cidades do Rio de Janeiro, então capital federal, e de São Paulo.
Um conjunto de fatores explica o clima de agitação social em 1917. A Primeira Guerra Mundial
(1914-1918) levou à diminuição das importações e ao aumento da demanda por produtos nacionais; em
1916, as fábricas brasileiras ampliaram a produção e o número de empregos aumentou. Mas a guerra foi
responsável também por um grande aumento no preço dos alimentos. Com os salários estagnados há anos,
os trabalhadores não conseguiam suportar a elevação crescente do custo de vida.
Ao longo do primeiro semestre de 1917 ocorreram greves de diversas categorias, a maior parte no
Rio de Janeiro. As principais reivindicações dos operários eram: aumento salarial, redução da jornada
diária para oito horas, fim do trabalho noturno para mulheres e crianças, liberdade de associação e de
manifestação, redução no preço dos aluguéis, melhoria dos transportes públicos.
No mês de junho, o movimento grevista ganhou força na cidade de São Paulo com a paralisação dos
operários do Cotonifício Crespi, aos quais irão se juntar, no início de julho, trabalhadores de outras
fábricas têxteis e também de outros setores.
No dia 9 de julho, segunda-feira, após um confronto com a polícia em frente à fábrica Antarctica
Paulista, os operários em greve seguiram para o bairro do Brás para fazer piquete (impedir a entrada de
trabalhadores que não aderiram à greve) na porta da fábrica de tecidos Mariângela. No local, cinquenta
policiais a cavalo e trinta armados de fuzis tentaram dispersar a multidão; três operários ficaram feridos.
O governo determinou o fechamento da Liga Operária da Mooca, uma atuante organização operária
de orientação anarquista, e da Escola Moderna, instituição de ensino libertária, onde estudavam filhos de
operários. A alegação foi a de que eram locais de fomento das rebeliões.
Essas ações, vistas como arbitrariedades pelos trabalhadores, aumentaram a tensão social. Como
resposta, na noite do dia 9, os grevistas criaram o Comitê de Defesa Proletária (CDP), coordenado por
Edgard Leuenroth, fundador do jornal anarquista A Plebe. A orientação política predominante entre os
operários em 1917 era o anarcossindicalismo, uma das linhas do anarquismo, o que significa dizer que o
movimento não tinha um comando centralizador. As tarefas do CDP eram difundir as reivindicações
operárias, incentivar a participação na greve, divulgar informações de interesse dos grevistas.
No dia 10, o sapateiro espanhol José Iñeguez Martinez, 21 anos, baleado no confronto do dia
anterior, morreu em decorrência do ferimento. O CDP decidiu fazer do enterro do trabalhador um grande
movimento contra a ação violenta da polícia. Por intermédio da imprensa operária, o Comitê convocou a
população a acompanhar o féretro.
Na manhã da quarta-feira, dia 11, cerca de dez mil pessoas, de acordo com o jornal operário
Fanfulla, caminharam junto ao corpo do rapaz por várias ruas de São Paulo. A polícia, previamente
informada do trajeto, colocou seu efetivo guardando as ruas, principalmente a avenida Paulista, onde se
localizavam os palacetes da elite paulistana. Após o enterro, o CDP conseguiu reunir cerca de três mil
pessoas em um comício na Praça da Sé.
Foram registrados saques a estabelecimentos comerciais trabalhadores em greve apedrejaram
fábricas e bondes e invadiram o Moinho Santista. À tarde, empresários reunidos buscavam uma solução.
Alguns, como Jorge Street, proprietário da Companhia Nacional de Tecidos de Juta, entendiam que era
preciso ceder e atender parte das reivindicações; outros, como o dono do Cotonifício, Rodolfo Crespi,
onde começou a greve, mostravam-se irredutíveis, acreditando que a repressão conseguiria desmobilizar
os trabalhadores.
Não foi o que aconteceu. No dia 12 a cidade parou: a greve atingiu os trabalhadores da Companhia
de Gás e da Light, a companhia de energia elétrica, o que paralisou os bondes, principal meio de
transporte público. Tinha início a greve geral. Havia cerca de 100 mil trabalhadores em greve na cidade,
em uma população estimada em 550 mil habitantes.
Um grupo de jornalistas se ofereceu para intermediar as negociações entre os trabalhadores,
representados pelo CDP, e os patrões. Durante três dias – 13, 14 e 15 de julho de 1917 – buscou-se uma
solução conciliadora. Na segunda-feira, dia 16, com a garantia de que suas principais reivindicações
seriam atendidas, os trabalhadores votaram pelo fim da greve. No dia 17, a cidade começou a voltar ao
normal, mas a experiência na capital paulista incentivou paralisações no interior e no litoral do estado e
em outras unidades da Federação. A greve geral de 1917 mostrou que já não era possível ignorar a
presença do operariado no conjunto de forças sociais em luta no Brasil.
Oficialmente, três pessoas morreram durante o conflito: o sapateiro Martinez, um outro operário e
uma menina vítima de bala perdida. Calcula-se, porém, que o número de mortos tenha ficado em torno de
uma dezena.
Na atualidade, o entendimento sobre esses acontecimentos segue duas linhas distintas: há os que
afirmam que o movimento foi uma explosão espontânea dos trabalhadores, motivada pelas dificuldades
de sobrevivência; para outros, foi o resultado de mais de duas décadas de preparação, organização e
amadurecimento do movimento operário no Brasil.

B IBLIOGRAFIA
BATALHA, Claudio. O movimento operário na Primeira República. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2000. (Coleção Descobrindo o Brasil).
KHOURY, Yara Aun. As greves de 1917 em São Paulo. São Paulo: Cortez, 1981.
LOPREATO, Christina Roquette. O espírito da revolta: a greve geral anarquista de 1917. São Paulo: Annablume, 2000.
P ETTA, Nicolina Luiza de; DELFINI, Luciano. Para entender o anarquismo. São Paulo: Moderna, 2004. (Coleção Polêmica).
________; OJEDA, Eduardo Baez. História: uma abordagem integrada. São Paulo: Moderna, 2003. (Coleção Base).
SAGA: a grande história do Brasil. São Paulo: Abril Cultural, 1981, v. 5.

Nicolina Luiza de Petta – Professora, graduada em História pela Universidade de São Paulo (USP). Autora de livros didáticos
e paradidáticos.
13 DE JULHO DE 1990
PPROMULGAÇÃO DO ESTATUTO DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE
Maria Lygia Quartim de Moraes



provável que dentre os princípios que compõem a concepção de “infância” nas
mais variadas culturas, o único dado irredutível seja aquele que diz respeito à
dependência da criança em relação aos seus maiores. Nada mais evidente, em
vista da fragilidade biológica que nos cabe ao nascimento. De resto e como se
sabe, a concepção de “infância” modificou-se no processo histórico. Segundo o
historiador francês Philipe Ariès, data do surgimento da burguesia o modo como
a cultura europeia e derivadas veem hoje a infância.
Em nossa sociedade, os cuidados com as crianças são considerados
responsabilidade das esferas pública, familiar e da comunidade. O grande
marco da questão no Brasil ainda é a promulgação do Estatuto das Criança e do
Adolescente (ECA) pela Lei n.8069,em 13 de julho de 1990.
Fruto do projeto de democratização do país após o final da ditadura militar,
o ECA confirma a tese de que o aprofundamento da democracia se dá pela extensão dos direitos a
categorias especiais de cidadãos.
O novo Estatuto instituiu uma generosa concepção dos direitos das novas gerações. Até então, apenas
as crianças infratoras eram objeto de ação do Estado. Com o ECA, toda criança passa a ser vista como
sujeito de direitos:

Art. 3° A criança e o adolescente gozam de todos os direitos fundamentais inerentes à pessoa humana,
sem prejuízo da proteção integral de que trata essa Lei, assegurando-lhes, por lei ou por outros meios,
toda a oportunidade e facilidade, a fim de lhes facultar o desenvolvimento físico, mental, moral e
espiritual em condições de liberdade e dignidade;
Art. 4° É dever da família, da comunidade, da sociedade em geral, e do Poder Público, assegurar,
com absoluta prioridade, a efetivação dos direitos referentes à vida, à saúde, à alimentação, à educação,
ao esporte, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência
familiar e comunitária.

É importante ressaltar que o ECA, considerado uma das mais avançadas legislações em escala
mundial, foi conquistado pela perseverança de vários movimentos sociais, porta-vozes da pedagogia
winnicottiana.
Segundo Donald Winnicott (1896-1971), é o amor daqueles que nos cuidam que alimenta em nós a
possibilidade de amar e cuidar quando formos adultos:
Acho útil dividir o universo de pessoas em duas classes. Há aquelas que jamais se desapontaram enquanto bebês, e, na mesma
medida, são candidatas a viver alegremente e a aproveitar a vida. E há as que sofreram experiências traumáticas, provenientes de
decepções com o ambiente, e que necessitam carregar perpetuamente as lembranças [...] do estado em que se encontravam no
momento do desastre.

Os cuidados com a infância não se restringem às bases de uma felicidade pessoal. A criança é um
elemento estratégico no processo de reprodução de toda sociedade. Cada cultura tem um ideal de homem
que orienta os valores e práticas socializadoras, definindo um padrão educacional. Para Emile Durkheim
(1858-1917), um dos fundadores da Sociologia, educar
consiste na socialização metódica da jovem geração, o meio pelo qual a sociedade prepara no coração das crianças as condições
essenciais de sua própria existência. Assim, a educação é a ação exercida pelas gerações adultas sobre aquelas que não estão ainda
maduras para a vida.

Durkheim acentua a importância do meio social, em detrimento da herança genética. Nas suas
palavras, “a criança recebe de seus pais faculdades muito gerais; como uma maior capacidade de
atenção, uma certa dose de perseverança, [...] faculdades estas que podem servir a fins muito diversos”.
É a educação que transforma cada um de nós, “do ser individual e associal que somos ao nascer em um
ser inteiramente novo”.
Jean Piaget (1896-1980), ao longo de sua extensa obra, assentou as bases de uma pedagogia voltada
para a cidadania democrática. Para ele, o princípio da submissão à autoridade (reflexo da dependência
infantil aos mais velhos) deve ser gradativamente substituído pelo princípio da reciprocidade.
A partir dessa constatação, fundamentou sua proposta pedagógica na superioridade do julgamento
baseado em critérios autônomos de justiça. Piaget insiste na importância da formação do julgamento
moral na criança:
É da essência da democracia considerar a lei como produto da vontade coletiva e não como emanação de uma vontade transcendente
ou de uma autoridade de direito divino. Portanto, é da essência da democracia substituir o respeito unilateral da autoridade pelo
respeito mútuo das vontades autônomas. Logo, o problema é saber o que preparará melhor a criança para sua futura tarefa de
cidadão: o hábito da disciplina exterior adquirido sob a influência do respeito unilateral e da coação adulta, ou o hábito da disciplina
interior, do respeito mútuo e do self-government?

Assim como Winnicott, Piaget também acredita que a capacidade de altruísmo resulta do sentimento
de gratidão próprio às crianças que se sentem queridas. Os cuidados maternos internalizados levam à
responsabilidade individual pelo outro e ao seu reconhecimento como sujeito.A educação,nesse
sentido,também possibilita a existência social.
Crianças adequadamente cuidadas desenvolvem um sentimento de justiça intrínseco, daí o cuidado
com a infância ser do interesse da coletividade democrática. Isso posto, uma questão sobressai: quais
necessidades fundamentais são essas que, uma vez satisfeitas, possibilitam a socialização das novas
gerações?
É provável que nem o mais feroz individualista negue a necessidade da proteção e amparo à infância:
trata-se de uma proposição eticamente incontestável. O problema reside em explicitar e concretizar os
deveres correspondentes aos pais (como amor e proteção) e à alçada do poder público (saúde, educação
e segurança, entre outros).
A importância do ECA consiste em estabelecer esses parâmetros, assentados em dois pressupostos:
a) as experiências da criança nos primeiros anos de vida são decisivas para seu desenvolvimento futuro e
b) a criança não “conquista”seus direitos da mesma maneira que o adulto,pela simples razão de que
depende do adulto (instituições ou família) para tanto.
Quando a sociabilidade torna-se precária, os segmentos vulneráveis são os mais afetados. Em
consequência do agravamento da crise socioeconômica, as crianças das famílias pobres sofrem o
desemprego dos pais, cujo efeito desagregador é potencializado pela ausência de políticas públicas
adequadas. No outro lado da balança, os filhos da classe alta crescem com medo das crianças pobres,
que a fantasmagoria da violência associa ao crime, reproduzindo os padrões de uma cidadania que está
longe de ser democrática.
E assim chegamos ao xis da questão: cabe ao Estado oferecer condições de “suporte” aos pais das
crianças, para que elas sejam adequadamente “maternadas”, e cabe aos pais amar adequadamente seus
filhos. Aos movimentos sociais cabe, mais uma vez, exigir o cumprimento efetivo daquilo que o ECA já
estabeleceu em Lei.

B IBLIOGRAFIA
BOWLBY, Jonhn Cuidados maternos e saúde mental. 2.ed. São Paulo: Martins Fontes,1988.
DURKHEIM , Émile. Education et Sociologie. Paris: PUF, 1968.
MORAES, Maria Lygia Quartim de. Infância e cidadania. Cadernos de Pesquisa, São Paulo: Fundação Carlos Chagas, n. 91, 1994, pp. 23-30.
P IAGET , Jean. O julgamento moral na criança. São Paulo: Mestre Jou, 1977.
WINNICOTT , D. W. Privação e delinquência. São Paulo: Martins Fontes, 1987.
________. Tudo começa em casa. São Paulo: Martins Fontes, 1989.

Maria Lygia Quartim de Moraes – Professora titular do departamento de Sociologia da Universidade de Campinas
(Unicamp). Como pesquisadora do CNPq do Núcleo de Estudos de Gênero Pagu da Unicamp, realizou vários trabalhos sobre o
tema das relações de gênero, família e infância.
16 DE JULHO DE 1950
A FINAL DA COPA DE 1950
Fábio Franzini



a história do futebol brasileiro, não faltam momentos de sucesso e glória,
em geral associados às conquistas da seleção nacional. Paradoxalmente, sua
data mais significativa não está no calendário de 1958, ou de 1970, ou de
2004, e sim no de 1950. No dia 16 de julho desse ano, um domingo, o país
acordou à espera de sua consagração e foi dormir mergulhado na escuridão
do fracasso, graças à derrota por 2 a 1 para o Uruguai na última partida da
IV Copa do Mundo, em pleno estádio do Maracanã. Derrota sentida de
forma tão intensa que ganhou ares de tragédia e tornou-se um marco às
avessas – o maracanazo, como a chamam até hoje os uruguaios.
O 16 de julho tornou-se uma data a ser esquecida. Justamente por isso,
foi muito relembrada até 1970, quando a vitória do Brasil sobre os rivais
por 3 a 1 na semifinal da Copa do México e a conquista do tricampeonato
mundial foram tidos como nossa vingança, tardia, mas indiscutível. O fantasma de 50, contudo, nunca
deixou de ser evocado quando oportuno, assim como nunca deixou de assombrar os jogadores de então,
mesmo depois de encerrarem a carreira. Alguns inclusive passaram a vida cobrados a explicar as
“razões” do revés, como o goleiro Moacir Barbosa, que acabou por se transformar na própria
personificação da derrota.
Para além da desgraça dos jogadores e da comissão técnica, para além da decepção do público, da
imprensa, das autoridades, o significado histórico da derrota de 1950 está na frustração de uma
ansiedade coletiva pela afirmação do Brasil no cenário mundial. Se tal desejo nasce no final do século
XIX, quando da inserção compulsória e periférica do país na ordem capitalista, nas primeiras décadas do

século XX a rápida popularização do futebol e a progressiva participação de equipes e selecionados em


partidas e competições internacionais, como os Campeonatos Sul-Americanos, logo fizeram com que a
bola fosse percebida como um meio eficaz de satisfazê-lo.
Na década de 1930, com a realização das primeiras Copas do Mundo, a relação entre as ambições
político-nacionais e o futebol ampliou-se e se potencializou, e não apenas no Brasil. Não por acaso, com
o nazifascismo dando o tom na política europeia, foram a Alemanha de Hitler e a Itália de Mussolini os
países mais empenhados em conquistar vitórias nos gramados, tidas como um modo eloquente de se
mostrarem “superiores”. Os alemães não foram bem-sucedidos, mas os italianos, com o bicampeonato em
1934 e 1938, viram o regime apropriar-se do futebol como uma “glória do fascismo”.
Entre nós, os interesses do governo Vargas não chegaram a atingir tal nível, mas nem por isso
deixaram de produzir desdobramentos importantes, como a transformação da Confederação Brasileira de
Desportos (CBD) em um órgão paraestatal, dirigido por pessoas diretamente ligadas ao presidente da
República. A mesma CBD que, em 1938, no Congresso da FIFA realizado em Paris durante a Copa,
lançou oficialmente o nome do Brasil como candidato a sediar o próximo torneio, dali a quatro anos.
Talvez porque a Alemanha nazista fosse a outra candidata, a FIFA preferiu adiar sua decisão para 1940,
adiamento depois prolongado por muito mais tempo devido à eclosão da Segunda Guerra Mundial na
Europa.
Superada a incerteza do período 1939-1945, em julho de 1946 os representantes do futebol
internacional voltaram a se reunir, em Luxemburgo. Na pauta do encontro, a retomada da competição e a
reiterada proposta brasileira de realizá-la, agora sem a concorrência dos alemães. Apresentada logo no
primeiro dia dos trabalhos, a moção foi tranquila e unanimemente aprovada. A primeira Copa do
pósguerra seria no Brasil, para grande alegria do chefe da delegação nacional, Luiz Aranha, que, em
entrevista a um jornal francês, declarou que “esse será o mais belo e o mais brilhante campeonato
mundial que se realizará”.
Concretizar tais palavras, porém, não seria fácil. Marcado para 1949, restava pouco tempo para se
preparar o cenário à altura de um evento sem precedentes no país. Com os olhos do mundo sobre nós,
essa seria a oportunidade perfeita de nos exibirmos como povo “civilizado” e “moderno”. E, se a
questão era exibir-se, nada melhor que construir um grande palco especialmente para a festa e assim
demonstrar tanto a pujança esportiva do país quanto nossa capacidade de realização; daí a retomada da
antiga ideia de erguer um estádio na capital da República, que seria nada mais que o maior do mundo.
Em meio a atrasos e polêmicas, a obra começou a ser erguida em 1948, no antigo Derby Club, no
bairro do Maracanã. No ano anterior, a Copa havia sido adiada para 1950 por sugestão da FIFA, mas o
prazo continuava escasso. Nos jornais, o trabalho passou a ser descrito como uma batalha na qual se
empenhavam milhares de operários, finalmente vencida a apenas oito dias do início do certame. O
Colosso do Derby pôs-se em pé e, mesmo mal-acabado, espantou a todos presentes em sua inauguração,
a começar pelo francês Jules Rimet, presidente da FIFA. Nascido o mais novo cartão-postal do país,
faltava “apenas” o Brasil ganhar a Copa no campo para que a nação se consagrasse plenamente.
Iniciada a competição, a expectativa alastrava-se pelo país pelas ondas do rádio, aumentando a cada
confronto. Com duas vitórias e um empate, a equipe se classificou para enfrentar Suécia, Espanha e
Uruguai, nessa ordem. Pelo sistema adotado, seria campeã a seleção que somasse mais pontos,
dispensando uma partida final para a decisão do título. Com um futebol magnífico, o Brasil massacrou
seus dois primeiros adversários (7 a 1 e 6 a 1) e chegou ao último jogo precisando apenas do empate
para realizar o sonho tão acalentado.
Na manhã do dia 16 de julho, escolas de samba tomaram posição ao redor do estádio à espera do
início da festa da vitória. Pouco antes das 15h, o então prefeito do Rio de Janeiro, Ângelo Mendes de
Morais, ao lado do presidente Dutra e de Rimet, saúda já como campeões do mundo os jogadores
brasileiros, que, perfilados no gramado, ouvem o discurso ufanista, seguido do Hino Nacional cantado
em coro pelos cerca de duzentos mil presentes. Menos de duas horas depois, às 16h50, o que seria
Carnaval virou velório, e apenas um punhado de uruguaios comemorava, no campo, a vitória por 2 a 1,
de virada. Os demais choravam juntos um pranto nacional, que expressava a passagem “da expectativa
fremente à decepção amarga”, como o jornal O Globo estamparia em manchete no dia seguinte.
Mesmo sabendo-se que o futebol é sobretudo um jogo e, como tal, sujeito ao imponderável, a derrota
foi sentida tanto pessoal quanto coletivamente pelos brasileiros. A sensação da perda de uma
oportunidade histórica que talvez jamais se repetisse foi tão concreta a ponto de levar o antropólogo
Roberto DaMatta a afirmar, décadas depois, que foi ela a maior tragédia da nossa história
contemporânea. Exagero ou não, nela está sintetizada toda a relação entre esporte, sociedade e identidade
nacional que marca o país do futebol.

B IBLIOGRAFIA
ANTUNES, Fatima M. R. Ferreira. “Com brasileiro, não há quem possa!”: futebol e identidade nacional em José Lins do Rego, Mário Filho e
Nelson Rodrigues. São Paulo: Editora Unesp, 2004.
FILHO, Mario [Rodrigues]. O negro no futebol brasileiro. 4. ed. Rio de Janeiro: Mauad, 2003.
FRANZINI, Fábio. As raízes do país do futebol: estudo sobre a relação entre o futebol e a nacionalidade brasileira (1919-1950). São Paulo:
USP, 2000. Dissertação (Mestrado em História Social).
MOURA, Gisella de Araújo. O Rio corre para o Maracanã. Rio de Janeiro: FGV, 1998.
P ERDIGÃO, Paulo. Anatomia de uma derrota: 16 de julho de 1950 – Brasil x Uruguai. Ed. revista e ampliada. Porto Alegre: L&PM, 2000.

Fábio Franzini – Mestre e doutorando em História Social na Universidade de São Paulo (USP).Pesquisador do tema, tem livro e
artigos publicados sobre futebol no Brasil.
23 DE JULHO DE 1840
MAIORIDADE DE D. PEDRO II
Ilmar Rohloff de Mattos



esmo para os que já foram criança não será fácil imaginar as emoções vividas
por um menino de 11 anos de idade, há mais de 170 anos.
Tudo começara em abril de 1840. À noite, homens sisudos, vestidos com
roupas escuras, entravam em sua casa, sendo conduzidos por seu pai a um
aposento do fundo. Da primeira vez eram 8; na vez seguinte vieram outros 2;
ao final já eram 14. Pareciam todos temer a vigilância dos agentes do chefe
de polícia espalhados pela cidade.
Nos serões prolongados, as discussões eram travadas em voz abafada,
enquanto a mãe do menino tanto assistia ao preparo do chocolate com
bolinhos que era oferecido por volta das 9h quanto evitava as perguntas do
garoto a respeito do que ali ia fazer aquela gente. Ao menino, que, como todos
os meninos da boa sociedade de seu tempo, era representado como um
“menino-diabo” até os 11 ou 12 anos, passando então a ser apresentado como um adulto, não restava
senão concluir, diante da bandeja que sempre retornava vazia, que “o que estes homens vêm fazer aqui é
regalarem-se de chocolate”, conforme rememoraria anos depois.
A casa ficava na rua do Conde, na Corte, e nela residia a família do senador José Martiniano de
Alencar. Os senadores e deputados ali se reuniam secretamente para discutir o futuro político de uma
pessoa especial, que ainda não completara 15 anos de idade: o herdeiro do trono imperial.Eles julgavam
que ele já não era um menino,tendo se tornado um adulto capaz de dirigir o Império do Brasil. Aqueles
homens formavam o Clube Maiorista, cuja presidência cabia ao conselheiro Antônio Carlos Ribeiro de
Andrada e que tinha como secretário o chefe da casa.
As reuniões daquela sociedade política e a própria casa não possuíam a imponência e o brilho dos
grandes salões da capital do Império, dos quais o mais afamado era o do regente do Império,Pedro de
Araújo Lima. Lá se encontravam os membros mais destacados da boa sociedade imperial e os principais
chefes das missões diplomáticas acreditadas no Rio de Janeiro.Também,na sala dos fundos da casa do
futuro romancista autor de O guarani, estava sendo tramada a antecipação da maioridade de D. Pedro II,
de modo a pôr fim ao período regencial.
Nove anos antes, a notícia da abdicação do primeiro imperador do Brasil fora saudada como uma
“revolução gloriosa” pelos liberais. A Independência do Brasil parecia ter se completado finalmente. O
herdeiro do trono foi aclamado Imperador Constitucional e Defensor Perpétuo do Brasil. Mas D. Pedro II
era uma criança de pouco mais de 5 anos de idade, cujas emoções motivadas por aqueles acontecimentos
transpareciam em seus olhos azuis.
Os anos iniciais das regências foram assinalados por intensa participação política. Na praça pública
e no parlamento, nos jornais e nos teatros, as ideias de liberdade combinavam-se com um sentimento
democrático,sustentando os inúmeros projetos políticos de moderados e exaltados, aos quais se
contrapunham os restauradores. Revoltas do povo e da tropa, às quais se somavam os distúrbios da malta
urbana e as insurreições dos escravos negros, queriam ameaçar a integridade do Império. Nada parecia
poder deter o “carro da revolução”! Na opinião de muitos membros da boa sociedade imperial, a
anarquia dominava o Império. Eles julgavam que o Ato Adicional aprovado em 1834 era a “carta da
anarquia”e acreditavam ser necessário restabelecer o princípio da autoridade para coibir o excesso de
liberdade. Discursando no Parlamento,Bernardo Pereira de Vasconcelos expressaria os sentimentos de
muitos ao dizer: “Fui liberal... hoje sou regressista”.
Desde 1835 surgira a ideia de antecipar a maioridade do monarca. Duas intenções animavam seus
propositores. A maioridade era vista por políticos que se encontravam na oposição como a oportunidade
de retornar ao governo, como o revela a proposta de um deputado da oposição, naquele mesmo ano, logo
rejeitada. Da oposição sairia também o projeto de entregar o governo do Império à princesa D. Januária,
irmã mais velha de D. Pedro II, sob a alegação de ter ela completado 18 anos de idade, quando, na
verdade, a Constituição imperial determinava a idade mínima de 25 anos para o parente que assumisse a
regência. Mas aquela ideia também expressava, a partir de determinado momento, a intenção de “frear o
carro da revolução”, preconizada pelos defensores do regresso, e dentre eles sobretudo os saquaremas,
grupo político fluminense liderado pelos futuros viscondes do Uruguai e de Itaboraí e por Eusébio de
Queirós, cuja importância não cessava de crescer. Esses regressistas haviam obtido, no momento em que
surgia o Clube Maiorista, duas conquistas fundamentais: o restabelecimento da mística da figura
imperial, por meio da restauração da pompa real nas solenidades públicas e do hábito do beija-mão, de
que o próprio regente dera o exemplo, e a aprovação da Lei Interpretativa do Ato Adicional.
Os liberais que se reuniam em segredo na casa da rua do Conde moviam-se contraditoriamente entre
as duas intenções. Eles pretendiam retornar ao governo, pondo fim à regência de Araújo Lima e ao
predomínio dos regressistas. Mas não desconheciam que a maioridade reforçaria os pressupostos da
política do Regresso. Não obstante, prosseguiram em seu intento,quer procurando saber como o
imperador reagiria à proposta, para o que foi fundamental a articulação com o grupo palaciano liderado
por Aureliano de Souza Coutinho – a “facção áulica” –, quer conquistando adeptos para a causa que
defendiam.
Os saquaremas reagiriam, tentando vincular a antecipação da maioridade a uma reforma
constitucional ou procurando adiar a convocação das câmaras, de modo a possibilitar que o monarca
completasse 15 anos de idade. E ao reagirem não deixavam de demonstrar que a ideia ganhara uma força
descomunal.
Mas a discussão já transbordara do parlamento para os jornais: O Despertador, do liberal Torres
Homem, a defendia apaixonadamente, enquanto O Brasil, do saquarema Justiniano José da Rocha,
colocavase em campo oposto. Chegara à praça pública e aos quartéis. Cartazes eram colados nas paredes
com uma quadrinha atribuída a Antônio Carlos: “Queremos Pedro Segundo / Embora não tenha idade! A
nação dispensa a lei, E viva a Maioridade!”. O mesmo Antônio Carlos que, na sessão da Câmara do dia
21 de julho, apresentou um projeto com um único artigo: “S. M. I. o Sr. D. Pedro II é desde já declarado
maior”.
No dia 22 de julho, o governo reagiu adiando a Assembleia Geral, o que provocou a ida de uma
comissão parlamentar ao Paço, a qual obteve do imperador um tímido “sim” em resposta à indagação se
queria ser declarado maior imediatamente. O monarca teria ainda determinado ao Regente que
convocasse as câmaras para o dia seguinte.
No dia 23 de julho de 1840, foi proclamada solenemente a maioridade do imperador.
Os liberais exultavam, porque voltavam ao governo. Os saquaremas ganhavam a Monarquia.
Um ano depois, em meio a festas e comemorações que duraram nove dias,D.Pedro II foi coroado e
sagrado imperador.Então,o acontecimento “Maioridade” inscrevia-se no calendário cívico do Império e
incorporava-se à memória da grande maioria dos súditos imperiais, projetando a figura do
imperador.Aquele que já não devia ser visto como um menino simbolizava o triunfo do princípio
monárquico sobre o princípio democrático; a tutela da liberdade pela autoridade; a prevalência da
soberania nacional em detrimento da soberania popular; a preponderância do sentimento aristocrático; e
a preservação da ordem escravista. Ele simbolizava a maioridade do Império do Brasil, enfim.

B IBLIOGRAFIA
ALENCAR, José de. Como e porque sou romancista. Ficção completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1965, v. 1.
LYRA, Heitor. História de Dom Pedro II – 1825-1891. Belo Horizonte/São Paulo: Itatiaia/Edus, 1977, v. 1 – Ascensão, 1625-1870.
MATTOS, Ilmar Rohloff de. O tempo saquarema: a formação do Estado imperial. 5. ed. São Paulo: Hucitec, 2003.
SCHWARTZ , Lilia Moritz. As barbas do imperador.São Paulo: Companhia das Letras, 1998.
SOUSA, Octavio Tarquinio de. A Maioridade (Revolução Parlamentar de 22 de julho de 1840). Três golpes de Estado. Rio de Janeiro: José
Olympio, 1957, pp. 133-214.

Ilmar Rohloff de Mattos – Professor do Departamento de História da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro
(PUC-RJ). É professor aposentado do Departamento de História da Universidade Federal Fluminense (UFF).
4 DE AGOSTO DE 1699
GUERRA DOS BÁRBAROS
Maria Idalina Pires



m 4 de agosto de 1699, o bandeirante paulista, comandante de Terço
(companhia militar criada para combater os indígenas) e mestre de campo
Manuel Álvares de Moraes Navarro foi responsável pelo assassinato de
400 índios Paiacu e a prisão de 250, incluindo crianças e mulheres,
habitantes da ribeira do Jaguaribe.
Sob o pretexto de combater povos indígenas, inimigos dos
colonizadores, entre eles os Carateú, os Icó e os Carati, bem como procurar
aliados, chegou ao rancho dos Paiacu acompanhado de 130 homens armados
e mais de 200 índios de Terço. Transmitiu aos Paiacu, índios de paz e quase
todos batizados, uma comunicação amistosa, convidando-os a participar de
um combate, com os Janduí, já previamente aliados ao regimento. De forma
dissimulada, instigou discórdias entre as tribos Paiacu e Janduí, inimigas
tradicionais, entregando armas e munições a estas últimas para atacar as primeiras. Seu intuito era poder
escravizar indígenas e tomar suas terras, com a desculpa de que estariam em guerra.
Sem nada saber, como se acolhe um aliado, os Paiacu receberamno e sua comitiva com festa. Quando
começaram as danças e folgares, como se isso significasse um código, soldados da tropa e índios Janduí
iniciaram a matança cujo desforço foi o cruento massacre dos indígenas.
Meses depois do ocorrido, em carta ao governador geral, Navarro relatou os “bons serviços” que
tinha feito. Segundo ele, executara apenas mais uma “guerra justa” contra os índios que estavam
rebelados há décadas. Como Navarro, outros bandeirantes agiram de forma brutal contra os indígenas na
região. Esse é um entre tantos episódios dramáticos da história colonial brasileira que compõe parte da
importante, mas não conhecida, Guerra dos Bárbaros.
Ocorrida entre os anos de 1650 e 1720, a Guerra dos Bárbaros envolveu os colonizadores e os povos
nativos chamados Tapuia e teve como palco uma área que correspondia em termos atuais a um território
que inclui os sertões nordestinos, desde a Bahia até o Maranhão. A denominação Tapuia foi dada pelos
cronistas da época, e perpetuada pela historiografia oficial, aos grupos indígenas com diversidade
linguística e cultural que habitavam o interior, em distinção aos Tupi, que falavam a língua geral e se
fixaram no litoral. Estudos atuais demonstram que esses povos pertenceram aos seguintes grupos
culturais: os Jê, os Tarairiu, os Cariri e os grupos isolados e sem classificação. Entre eles podem ser
citados os Sucurú, os Bultrim, os Ariu, os Pega, os Panati, os Corema, os Paiacu, os Janduí, os
Tremembé, os Icó, os Carateú, os Carati, os Pajok, os Aponorijon, os Gurgueia, que lutaram ora contra
ora a favor dos colonizadores de acordo com as estratégias que visavam à sua sobrevivência.
Se por um lado a guerra envolveu diversos povos indígenas, muitos deles inimigos tradicionais, por
outro lado os colonizadores também entraram em conflito entre si pelas terras e mão de obra escrava
nativa, atraindo os mais variados setores da sociedade colonial em formação, tais como: os sesmeiros, os
moradores, os religiosos, os bandeirantes, os foreiros,os vaqueiros,os rendeiros,os capitães-mores,os
mestres de campo.
Embora tenha tido uma longa duração, cerca de setenta anos, e tenha sido contemporânea à existência
do quilombo dos Palmares, a Guerra dos Bárbaros pouco aparece na historiografia, sendo praticamente
desconhecida. A omissão dessa guerra nos livros didáticos e os raros livros de estudiosos especialistas
sobre o episódio revelam o desprezo dado ao tema da resistência indígena e do violento processo de
conquista lusitano no sertão nordestino.
Genericamente denominado de Guerra aos Bárbaros, esse conflito armado de caráter genocida
também foi chamado de Guerra do Recôncavo (em menção ao recôncavo baiano, onde aconteceram as
primeiras lutas armadas), Guerra do Açu (em referência à região do Açu, no Rio Grande do Norte, onde
ocorreram os principais conflitos) e Confederação dos Cariris (por terem sido esses grupos indígenas um
dos mais combatentes).
A designação “bárbaros” era dada pelos colonizadores e cronistas da época aos povos nativos que
habitavam à região e ofereciam resistência à ocupação do território pelos portugueses. Essa terminologia
etnocêntrica convinha ao discurso colonizador que propagava a catequese e a “civilização” dos povos
indígenas nos moldes culturais do europeu ocidental. Eram descritos como povos selvagens, bestiais,
infiéis, traiçoeiros, audaciosos, intrépidos, canibais, poligâmicos, enfim, “índios-problema”, pois não se
deixavam evangelizar e civilizar. Eram, portanto, considerados os principais obstáculos à efetiva
colonização.
Essa imagem reforçou os argumentos do conquistador de impetrar uma “guerra justa” para extirpar os
“maus” costumes nativos, satisfazendo tanto as necessidades de utilização de mão de obra pelos colonos
quanto à garantia aos missionários do sucesso na imposição da catequese.O resultado foi a criação de
dispositivos legais que legitimavam uma guerra de extermínio. É isso que nos confirma o documento
datado de 1713, quando os povos nativos já estavam drasticamente reduzidos ou aprisionados e
aldeados, no qual o governador de Pernambuco insiste ser “necessário continuar a guerra até extinguirem
estes bárbaros de todo ou do menor ficarão reduzidos a tão pouco número que ainda que se queiram
debelar o não possam fazer”.
Embora o resultado dessa guerra tenha sido catastrófica para os povos nativos da região, é
importante destacar a sua tenaz resistência, que retardou o processo de conquista da terra pelos colonos
nos sertões nordestinos por quase dois séculos. Os Tapuia desenvolveram uma forma de luta singular na
história da resistência indígena no Brasil. Apesar de um passado caracterizado por conflitos internos
entre as diversas tribos, esses povos conseguiram, através de uma série de alianças, alcançar um certo
grau de coesão na sua luta contra o colonizador que desejava remover os habitantes indígenas da região
para povoá-la de gado (foi o pastoreio que permitiu a ocupação econômica, pelos colonizadores, em todo
o interior do Nordeste).
A partir do século XVII, a pecuária foi paulatinamente sendo levada para o interior da região,
espalhando-se pelo agreste e alcançando o sertão. A criação de gado permitiu a ascensão econômica e
social de alguns habitantes do local, e a Guerra dos Bárbaros tornou-se um meio para alcançar esse
fim,pois,por seu intermédio,conquistava-se o direito a sesmarias, condição essencial para a montagem de
uma fazenda de gado.A resistência indígena foi a maior barreira à expansão da pecuária, pois ela só se
desenvolveu, ampliando o seu mercado, após o final do conflito, quando as terras estavam “limpas” dos
indígenas.
Essas sangrentas lutas da chamada Guerra dos Bárbaros, que dizimaram e desestruturaram muitas
tribos indígenas, têm um rico significado histórico no quadro da ocupação dos sertões nordestinos na
época colonial, representando um dos mais terríveis genocídios que a História oficial não conseguiu
esconder.

B IBLIOGRAFIA
ALM EIDA, Horácio de. Confederação dos Cariris ou Guerra dos Bárbaros. Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. Rio de
janeiro, n. 316, pp. 407-33, 1977.
MEDEIROS FILHO, Olavo de. Os Tarairiús: o Rio Grande do Norte e a Guerra dos Bárbaros. Nordeste Indígena. Recife: Funai, n. 2, pp. 83-6,
1991.
MEDEIROS, Tarcísio. Bernardo Vieira de Melo e a Guerra dos Bárbaros. Revista do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do
Norte. Natal, n. 59-61, pp. 25-51, 1967-69.
P IRES, Maria Idalina da Cruz. Guerra dos Bárbaros: resistência indígena e conflitos no Nordeste colonial. Recife: UFPE, 2001.
P UNTONI, Pedro. A Guerra dos Bárbaros: povos indígenas e a colonização do sertão nordeste do Brasil, 1650-1720. São Paulo: USP, 1998.
Tese (Doutorado).
TAUNAY, Afonso de Escragnolle. A Guerra dos Bárbaros. Revista do Arquivo Municipal. São Paulo, n. 22, pp. 1-331, 1936.

Maria Idalina Pires – Doutora em História pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), professora da Pós-Graduação
em Arqueologia e do Colégio de Aplicação do Centro de Educação da mesma universidade.
22 DE AGOSTO DE 1942
BRASIL NA SEGUNDA GUERRA MUNDIAL
Jacob Gorender



o iniciar-se a Segunda Guerra Mundial, em 1939, com a invasão da Polônia
pela Alemanha nazista, o Brasil encontrava-se sob o regime ditatorial de
Getúlio Vargas, instituído em 1930. Em 1937, o ditador promulgou uma nova
Constituição, que submeteu o país a um regime oficialmente denominado de
Estado Novo, plagiando o regime dominante então em Portugal, também
denominado de Estado Novo.
Getúlio Vargas não era fascista visceral, mas um oportunista guiado pela
pretensão de acompanhar o vencedor. O governo brasileiro manteve relações
com os países do chamado Eixo (Alemanha, Itália e Japão), cujos
embaixadores tinham ampla liberdade de ação em nosso país, já com o
conflito em andamento.
A situação mudou radicalmente no início de 1942, após o ataque
destruidor realizado pelos aviões e navios japoneses, em 7 de dezembro de 1941, contra a frota norte-
americana concentrada em Pearl Harbor, base situada no Havaí.O Eixodeclarou guerra aos Estados
Unidos,cujo governo era manifestamente simpático à causa antinazista,mas,até então,limitavase a ações
de fornecimento de armamentos e gêneros alimentícios, colaboração no treinamento de tropas,
intervenções diplomáticas etc.
O Tratado Interamericano, então vigente, estabelecia a obrigação dos signatários (todos países do
hemisfério ocidental, a grande maioria latino-americanos) de tomar posição de solidariedade com o país
agredido. Apesar das simpatias fascistoides de Getúlio, mas sob pressão dos Estados Unidos,o governo
brasileiro rompeu relações diplomáticas com os países do Eixo e expulsou seus embaixadores. Diferente
foi a posição da Argentina,cujo regime peronista manteve sua inclinação prónazista, vindo a fazer do país
vizinho, com o fim do conflito, um refúgio para criminosos de guerra (a exemplo de Eischmann e
Mengele).
A Alemanha reagiu ao rompimento de relações diplomáticas através de sua frota de
submarinos,que,no primeiro semestre de 1942,passaram a atacar e torpedear navios civis brasileiros,
próximo ao litoral, provocando a morte por afogamento de cerca de 1,5 mil passageiros. Às vezes,
aparecem manifestações de dúvida acerca da verdadeira autoria desses torpedeamentos, havendo quem
os atribua aos americanos, supostamente interessados em obrigar o Brasil a entrar no conflito a seu favor.
No entanto, foram encontrados nos arquivos do Almirantado alemão, após a derrota nazista, relatórios
dos comandantes dos submarinos germânicos, com informações detalhadas sobre suas ações de
torpedeamento de navios brasileiros, o que afasta qualquer dúvida sobre a agressão alemã e, em parte
menor, também italiana.
Tão brutal agressão motivou vigoroso movimento de protesto de massas, enchendo as ruas de
numerosas cidades do nosso país. O governo brasileiro não teve alternativa senão a de declarar guerra ao
Eixo, em 22 de agosto de 1942.
Os antifascistas brasileiros deram continuidade ao movimento de massas com a exigência de
efetivação do esforço de guerra. Este se concretizou inicialmente através de bases militares cedidas aos
norteamericanos em Natal, Recife e Salvador. Sem a autonomia de voo dos dias atuais e antes da
invenção dos mísseis, tais bases tinham grande importância estratégica,uma vez que permitiam aos aviões
estadunidenses partir do território brasileiro e alcançar o norte da África e a Itália.
Mas isso não satisfazia os setores nacionais antifascistas, que reclamavam a participação militar no
território europeu. Surgiu, assim, o movimento que culminou com a formação da Força Expedicionária
Brasileira (FEB).
A FEB atuou na Itália com uma divisão de infantaria, constituída de 25 mil soldados (incluindo
praças e oficiais). Desse contingente, 15 mil homens estiveram efetivamente em variadas ações de
guerra, constituindo os demais uma tropa de reserva. O Brasil também enviou ao teatro de operações um
grupamento de aviões de caça, que teve atuação brilhante em vários episódios da campanha europeia.
A participação nacional na Segunda Guerra Mundial foi,sem dúvida, modesta, considerando as
dezenas de milhões de combatentes que se enfrentavam no solo europeu e no Extremo Oriente.A
Alemanha nazista mobilizou oito milhões de soldados e a União Soviética perdeu cerca de vinte milhões
de cidadãos, entre militares e civis.
Mas a participação brasileira foi dignificante e deve figurar com relevo entre os grandes feitos do
nosso povo. Sem tempo suficiente para o treinamento adequado, os soldados brasileiros destacaram-se
pela coragem, pelo espírito de iniciativa, pela capacidade de sacrifício. A FEB atuou incorporada ao IV
Corpo de Exército dos Estados Unidos, comandado pelo general Crittenberger, por sua vez, pertencente
ao V Exército dos Estados Unidos, comandado pelo general Mark Clarck. O comado daFEB foi exercido
pelo general de divisão Mascarenhas de Morais.
A tropa brasileira ocupou uma posição no front em 15 de setembro de 1944 e combateu, durante oito
meses, até 5 de maio de 1945, quando os alemães aceitaram a rendição incondicional. Tendo sofrido
derrotas graves no início de sua atuação, a FEB destacou-se, em seguida, no confronto com as forças
nazistas em Monte Castello e Montese.
Com o domínio do Monte Castello, em 1944, o exército alemão dispôs de uma posição altamente
vantajosa, que lhe permitia bombardear a tropa brasileira, obrigada a se abrigar no Vale do Reno, a partir
da pequena cidade de Porretta Terme,onde se localizou o alto comando brasileiro.Durante o rigoroso
inverno na região dos montes Apeninos, não havia condições de alterar tal situação,desfavorável aos
brasileiros.Ainda assim,estes respondiam com ações da artilharia, incursões de patrulhas e outras
iniciativas limitadas. Levando em conta o prazo curto e o treinamento restrito que receberam, os soldados
brasileiros tiveram de completar sua aprendizagem militar na própria ação, revelando coragem e
capacidade de iniciativa notáveis.
A FEB compunha-se,de acordo com as formas de organização militar da época,de três regimentos de
infantaria: o primeiro,originário do Rio de Janeiro, então capital da República; o sexto, originário de São
Paulo; e o décimo-primeiro,procedente de Minas Gerais.Também se integraram na força combatente
alguns milhares de soldados provenientes do Nordeste. A maioria era constituída de convocados, mas foi
significativo o número de voluntários,integrados na tropa assim que o alto comando abriu acesso ao
voluntariado. Além da infantaria propriamente dita, a FEB incluiu unidades de artilharia, de inteligência
e de administração.
Em fevereiro de 1945, quando a neve se derreteu nos Apeninos, foi possível investir frontalmente
sobre o Monte Castello, aprisionar os nazistas ali localizados e iniciar a investida em direção ao norte da
Itália, operação durante a qual a FEB teve oportunidade de efetuar a rendição da 148a divisão de
infantaria alemã, com seus 15 mil soldados.
Ao encerrar-se o conflito, em maio de 1945, a FEB registrou 484 soldados mortos em combate e
cerca de 2,5 mil feridos, dentre os quais um número significativo de mutilados.
Os escalões da FEB regressaram ao Brasil entre julho e outubro de 1945, alcançando, no Rio de
Janeiro, memorável recepção, com os aplausos de mais de um milhão de cidadãos, ao longo da avenida
Rio Branco.
A importância histórica da FEB não se restringe ao âmbito militar. No seu regresso, levou ao fim da
ditadura de Getúlio Vargas, deposto em outubro de 1945. Em dezembro do mesmo ano, realizaram-se as
primeiras eleições no país, depois de 1930.
A FEB marca a história nacional com a inequívoca opção pela democracia e pela paz. Se tal opção
nem sempre se concretizou nas décadas seguintes, nem por isso deixou de se afirmar. A democracia, hoje
imperante no Brasil, apesar de limitada e imperfeita, também resulta da campanha brasileira na Segunda
Guerra Mundial.

B IBLIOGRAFIA
BRAGA, Rubem. Crônicas de guerra (com a FEB na Itália). Rio de Janeiro: Editora do Autor, 1964.
CASTELLO BRANCO, Tomaz. O Brasil na II Grande Guerra Mundial. Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército, 1960.
DEPOIM ENTO de oficiais da reserva sobre a FEB. São Paulo, 1950.
LINS, Maria de Lourdes Ferreira. A Força Expedicionária Brasileira: uma tentativa de interpretação. São Paulo: Editoras Unidas, 1978.
MORAES, Mascarenhas de. A FEB pelo seu comandante. São Paulo: Progresso, 1947.
SCHNAIDERM AN, Bóris. Guerra em surdina. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1964.
SILVEIRA, Joaquim Xavier da. Cruzes brancas. Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército,1963.
SILVEIRA, Joel. Histórias de pracinha. Rio de Janeiro: Leitura, 1945.

Jacob Gorender – Historiador, autor de diversos livros e, na condição de voluntário, integrou, durante a Segunda Guerra
Mundial, o Primeiro Regimento de Infantaria, chamado Regimento Sampaio.
15 DE AGOSTO (1925)
DIA DO SOLDADO
Luiz de Alencar Araripe



25 de agosto, aniversário de Luiz Alves de Lima e Silva (1803-1880),
Marechal e Duque de Caxias, foi oficializado como Dia do Soldado
em 11 de agosto de 1925. Fundamentam a homenagem os excepcionais
serviços prestados ao Exército brasileiro pelo cidadão, militar e
político ao longo de sessenta anos, durante todo o Primeiro Império e
até quase o fim do Segundo.
O primeiro título de nobreza recebido pelo militar foi Barão de
Caxias, em 1841, em referência à cidade da província do Maranhão
que pacificara depois de debelar a rebelião da Balaiada (1838-1841).
Praticou feito semelhante nas províncias do Rio de Janeiro, Minas
Gerais, São Paulo e Rio Grande do Sul, o que lhe valeu o cognome de
“o Pacificador”, hoje lembrado na denominação da medalha que
recompensa serviços de militares e de civis em favor da paz. No cenário externo, combateu nas Guerras
do Prata; em momento de crise nas operações, foi nomeado comandante das Forças do Império e, depois,
comandante-geral das forças da Tríplice Aliança contra o Paraguai, levando-as à vitória. Sucessivamente
barão, visconde, conde e marquês, em 1869, foi feito duque, o único brasileiro nato a receber tal
distinção. Caxias foi presidente de províncias, senador, ministro de Estado e presidente do Conselho de
Ministros do Império.
Na década de 1930, o culto à figura de Caxias recebeu forte impulso, quando o general José Pessoa
Cavalcanti de Albuquerque, comandante da Escola Militar de Realengo, promoveu uma revolução de
substância e de forma na alma mater dos oficiais do Exército. Fez de obscuros alunos orgulhosos
cadetes, deu-lhes uniformes vistosos, inspirados no tempo do Império, e colocou-lhes à cinta o espadim
de Caxias, “símbolo da honra militar”. A par de imponentes exterioridades, José Pessoa criou algo ainda
superior a elas: a mística do cadete de Caxias, considerado nobre pelas atitudes, pela competência e pela
vocação de servir à Pátria. Vendo muito longe, José Pessoa planejou tirar a escola militar do velho
quartel do Realengo para colocá-la em cenário adequado a elevar a autoestima dos futuros oficiais do
Exército: em Resende, entre Rio e São Paulo, tendo ao longe as agulhas da Serra do Mar. Lá está ela
hoje, com o nome de Academia Militar das Agulhas Negras.
O refrão do Hino a Caxias é apaixonado:
Salve Duque glorioso e sagrado
Ó Caxias invicto e gentil!
Salve, flor de estadista e soldado!
Salve herói militar do Brasil.

Falas e escritos nesse tom, bem-intencionados, porém de difícil aceitação pelo cidadão comum,
tiveram efeito bumerangue; deram origem ao neologismo “caxias”, para designar pessoa com grau de
virtudes que, se reais, as faria de convívio penoso.
Em 1994, um decreto presidencial instituiu o 19 de abril como Dia do Exército, restringindo-se o 25
agosto a Dia do Soldado. Por que 19 de abril? Por ser a data em que, em 1648, forças lusobrasileiras
derrotaram as holandesas na primeira batalha de Guararapes, travada nas imediações de Recife (PE), um
marco da Restauração Pernambucana (1645-1654).
Exposição de motivos do ministro do Exército de 1994, general Zenildo Lucena, vê em Guararapes
“a gênese da nacionalidade brasileira” e assinala que “as três raças formadoras de nossa gente firmaram
um pacto de honra”, no qual “aparece, pela primeira vez, o vocábulo Pátria”; que, por isso, a tropa
“constituída militarmente” passou a ser chamada de “Exército Libertador ou Patriota”. Conclui ser “de
todo o interesse para a Instituição que o 19 de abril seja transformado em data máxima para Exército
Brasileiro” e considerado o dia de seu nascimento. O decreto firmado pelo presidente Itamar Franco
reforça as palavras do ministro e reza “que o Exército Brasileiro tem suas raízes fincadas na região de
Guararapes, fato consagrado na historiografia militar do Brasil”. Essas afirmativas vêm sendo reiteradas
em vigorosas “ações de marketing cultural”, como as chama o Exército. Entretanto, os fundamentos e o
acerto da criação do Dia do Exército por desmembramento do Dia do Soldado são objeto de discreta
controvérsia dentro da Força Terrestre.
A Segunda Guerra Mundial fez reviver nos homens de Estado e nos militares brasileiros a percepção
da importância estratégica do Nordeste. Para essa percepção contribuíram irresistíveis pressões norte-
americanas, exigindo a cessão de bases militares no Nordeste, vitais para a condução da luta contra o
Eixo no Atlântico, na África e na Europa. As bases foram cedidas, e a participação efetiva do Brasil na
guerra, no mar, em terra e no ar ampliou-se. Em 1945, o general Mascarenhas de Moraes, comandante da
FEB (Força Expedicionária Brasileira), ao regressar da Itália, deteve-se em Recife, para visitar o sítio
da Batalha de Guararapes. Há um simbolismo nessa visita. Terminada a guerra, os Estados Unidos
devolveram as bases nordestinas. Em 1971, o presidente Médici criou o Parque Histórico Nacional de
Guararapes, sob a guarda do Exército. Já no governo do presidente Lula foi lançado o Plano de
Revitalização do Parque, com a construção de um auditório e de um anfiteatro para três mil pessoas.
A instituição do 19 de abril esposou a versão nativista que vê na Restauração Pernambucana as
sementes da nacionalidade brasileira. Os comandantes da Batalha de Guararapes receberam o título de
patriarcas do Exército Brasileiro, ao lado dos patronos da Força; os nomes dos patriarcas foram dados a
unidades do Exército. Dois cartazes foram amplamente divulgados no meticuloso preparo das
comemorações dos 350 anos da Batalha: um deles enaltece as Missões de Paz do Exército; é a legenda
do Pacificador. O outro cartaz, com o título “A epopeia de Guararapes e os 60 anos da Força
Expedicionária Brasileira”, associa duas atuações do Exército na defesa externa do país, ambas de
intenso apelo popular.
O Dia do Soldado, 25 de agosto, continua a ser comemorado pelo Exército, não diminuído pela
criação do Dia do Exército, como alguns temiam. A tradição de Caxias está solidamente implantada, e as
comemorações que ele inspira se fazem atraentes para o grande público, para isso contribuindo antiga
canção, a Canção do Soldado, com sua melodia doce e letra romântica:
Nós somos da Pátria a guarda,
Fiéis soldados,
Por ela amados,
Nas cores da nossa farda
Rebrilha a glória,
Fulge a vitória...


B IBLIOGRAFIA
CARVALHO, Afonso de. Prefácio de Pedro Calmon. Caxias. Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército, 1991.
CASTRO, Celso. A invenção do Exército brasileiro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2002.
DORATIOTO, Francisco. As versões de um mito. Folha de S.Paulo, Caderno Mais! Memória, São Paulo, 7 set. 2003, p. 14.
MORAES, Eugênio Vilhena de. O duque de Ferro: novos aspectos da figura de Caxias. Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército, 2003.
REVISTA do Exército Brasileiro. Guararapes-350 anos (1648-1998). Edição Especial. Rio de Janeiro: CCOMSEX – Centro de Comunicação
Social do Exército Brasileiro. Brasília, 1998.

Luiz de Alencar Araripe – Coronel de Artilharia e de Estado-Maior do Exército (Reformado). Membro titular do Instituto de
Geografia e História Militar do Brasil e membro do Conselho Editorial da Biblioteca do Exército (1986-2002).
27 DE AGOSTO DE 1828
GUERRA DA CISPLATINA
Heloisa Reichel



Guerra da Cisplatina iniciou-se em 1825, envolvendo as tropas do governo
imperial brasileiro contra as da aliança formada por exilados da Banda
Oriental (atual Uruguai) com o governo da Província de Buenos Aires. No dia
27 de agosto de 1828, ela se encerrou através da assinatura da Convenção
Preliminar da Paz pelos governos da Argentina e do Brasil, com a mediação
da Inglaterra. O acordo diplomático estabeleceu também que, para servir como
barreira às pretensões expansionistas brasileira e argentina, a Província
Cisplatina formaria um novo país – a República Oriental do Uruguai.
A historiografia tem focalizado esse episódio predominantemente na sua
dimensão política, destacando os aspectos relativos às relações de conflito
existentes entre os países do sul da América Meridional no início da fase
independente. Nesse sentido, ele é analisado como expressão da divergência
existente entre os interesses nacionais do Brasil e da Argentina na área do Rio da Prata durante a
primeira metade do século XIX e como uma demonstração de que os antagonismos e a disputa pela
dominação dos territórios, praticados por Portugal e Espanha durante todo o período colonial, foram
herdados pelos dois países.
Baseados nesse enfoque, os historiadores apresentaram a Guerra da Cisplatina como consequência
da intervenção portuguesa na Banda Oriental, que fora, durante o domínio espanhol, uma importante
província do Vice-Reinado do Rio da Prata. Logo após a ruptura do pacto colonial, em 1810, pelos
habitantes de Buenos Aires, capital do Vice-Reinado, ocasião em que este se transformou em nação
independente com o nome de Províncias Unidas do Rio da Prata, Montevidéu, principal cidade e porto da
Banda Oriental, passou a ser a sede do governo e da resistência espanhola na região.
Naquele momento, surgiram três projetos políticos em relação ao território da Banda Oriental. O
primeiro, expressando o interesse dos colonos (criollos) de Buenos Aires, pretendia a subordinação dos
orientais a um governo centralizado, imposto às Províncias Unidas do Rio da Prata.
O segundo, liderado pelo oriental José Artigas, defendia o federalismo, isto é, a autonomia da
província frente a Buenos Aires e a reforma das estruturas social e econômica herdadas do período
colonial. Nesse sentido, previa a distribuição de terras entre os não proprietários, fossem brancos,
mestiços ou índios, e a liberdade aos escravos que lutassem em seus exércitos. Devido a essas propostas,
o movimento artiguista teve grande número de adeptos entre os setores populares, tendo alcançado seu
apogeu entre os anos de 1815 e 1817 e controlado toda a Banda Oriental, inclusive a capital.
O terceiro projeto para o domínio da Banda Oriental foi liderado pelo príncipe regente português, D.
João, em defesa dos interesses de sua esposa, D. Carlota Joaquina, irmã de Fernando VII, rei da Espanha.
Por trás desse motivo, encontrava-se o antigo sonho dos portugueses de estender seus domínios até o rio
da Prata, beneficiando-se do acesso ao interior da América do Sul e do comércio que o mesmo
propiciava.
A Banda Oriental vivenciou, por duas vezes, a intervenção das tropas luso-brasileiras em seu
território. Em 1811, no calor das primeiras lutas pela independência do Vice-Reinado do Prata, os
portugueses realizaram a primeira invasão, em defesa dos espanhóis. Por imposição da diplomacia
britânica, porém, foram obrigados a se retirar um ano depois.
A segunda invasão deu-se em 1816, quando Artigas comandava o governo da Banda Oriental e
realizava incursões no território do Rio Grande do Sul. Tropas, vindas do centro do Brasil, avançaram
em direção ao sul, por terra e por mar, prometendo paz e prosperidade aos orientais, caso aceitassem sua
anexação ao Brasil. Receberam o apoio de muitos dos opositores do governo artiguista, os quais se
consideravam prejudicados pelo confisco e pela redistribuição de terras que Artigas realizara, bem como
pela diminuição sensível dos rebanhos, causada por vários anos de incessantes lutas.
Com o controle de Montevidéu desde 1817, os lusitanos acabaram por expulsar Artigas do interior
da Banda Oriental em 1820. Um ano depois, um Congresso Oriental, subordinado aos invasores, votou a
incorporação do território ao Império português como Estado independente do Brasil, com o nome de
Cisplatina. Em 1822, após a Independência do Brasil, a anexação foi confirmada pelo governo brasileiro,
passando a área a denominarse Província Cisplatina.
Enquanto isso, alguns orientais seguidores das ideias autonomistas de Artigas e com sentimentos
antiportugueses e antibrasileiros haviam se refugiado na Argentina. Em 1825, Los treinta y tres
orientales, como foram denominados, chefiados por Lavalleja, invadiram o território cisplatino e
declararam a independência da antiga Banda Oriental, vinculando-a novamente à Confederação das
Províncias Unidas do Rio da Prata, já nesse momento denominada de Argentina.
Essa expedição dos orientais foi financiada por um grupo de proprietários de terras (estancieiros) e
comerciantes de Buenos Aires que esperava reaver esse território para as Províncias Unidas. Tendo
conhecimento desse apoio, o governo imperial brasileiro declarou guerra ao governo de Buenos Aires,
tendo as lutas se estendido por três anos, sem que houvesse um vencedor.
A historiografia recente tem utilizado a Guerra da Cisplatina para analisar o papel das fronteiras no
território latino-americano e para avaliar o sentimento nacional existente nas sociedades por ocasião dos
movimentos de independência. Sob essa perspectiva, os episódios econômicos, políticos e militares que
cercam essa guerra têm servido para demonstrar que, no imaginário coletivo do período proto-
independente, as fronteiras nacionais, entendidas como limites que dividem territórios, eram pouco
definidas e o nacionalismo, incipiente.
Durante a intervenção portuguesa na Banda Oriental, os pecuaristas do Rio Grande do Sul haviam
tornado-se proprietários de terras no Uruguai e estabelecido vínculos afetivos e de negócios com várias
famílias da elite local. Fruto dessas alianças, as elites orientais dividiram-se entre os que tinham uma
posição pró-Brasil e os que defendiam um vínculo maior com a Argentina. Entre os setores populares, a
fronteira também não atuou como linha divisória, mas apresentou-se como alternativa para a solução de
seus problemas. Muitos soldados e trabalhadores que foram recrutados para servir no exército brasileiro,
por exemplo, ao verem sua sobrevivência ameaçada, desertaram e/ou refugiaram-se na Banda Oriental,
demonstrando, com isso, que o sentimento nacional era ainda bastante débil.

B IBLIOGRAFIA
BANDEIRA, M. O expansionismo brasileiro. Rio de Janeiro: Philobiblio, 1985.
REICHEL, H. J.; GUTFREIND, I. Fronteiras e guerras no Prata. São Paulo: Atual, 1995.
______; ______. As raízes históricas do Mercosul: a região platina colonial. São Leopoldo: Unisinos, 1998.
FREGA, A.; ISLAS, A. (orgs.). Nuevas miradas em torno ao artiguismo. Montevideo: Departamiento de Publicaciones de la Faculdad de
Humanidades e Ciencias de la Educacion, 2001.

Heloisa Reichel – Professora titular de História da América na Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos). Doutora em
História Social pela Universidade de São Paulo (USP).
28 DE AGOSTO DE 1979
ANISTIA
Marcos Napolitano



pontar uma data que relembre a última anistia da história do Brasil é uma das
armadilhas ideológicas que frequentemente se colocam diante do historiador.
A princípio, a data mais exata seria o dia 28 de agosto (de 1979),dia em que a
Lei de Anistia (Lei n.6.683) do regime militar foi sancionada.Entretanto, a
escolha desse dia não contempla a memorável Campanha pela Anistia “ampla,
geral e irrestrita” promovida por diversos setores da sociedade civil
brasileira que se opunham ao regime militar. Ao contrário,o dia 28 de agosto,
em que pese a relevância da conquista de anistia política para boa parte dos
perseguidos pelo regime implantado em 1964, foi visto na época como uma
derrota parcial do movimento.
Pela Lei,muitos presos envolvidos em“crimes de sangue” ,definidos,
conforme o artigo 1º, § 2º, por atos de “terrorismo, assalto, sequestro e
atentado pessoal”,ficaram fora dos benefícios.Além disso,os anistiados tinham grandes dificuldades para
serem reintegrados nas antigas carreiras profissionais que ocupavam quando foram cassados, pois
condicionava a reintegração ao cargo “à existência de vaga e ao interesse da Administração”.Sem falar
que muitos militares dissidentes do regime não foram contemplados pela Lei de Anistia. Entretanto, o
mais grave, na ótica dos movimentos sociais que participavam da Campanha: a Lei configurou-se numa
garantia de impunidade para os agentes do Estado envolvidos na violação dos Direitos Humanos, os
torturadores que agiram em nome da “segurança nacional” no combate às organizações de esquerda.
Portanto, a data de 28 de agosto, se representa uma série de conquistas parciais obtidas com muito
sacrifício e mobilização, ampliadas em lutas jurídicas e políticas posteriores, também representa os
limites impostos pela ditadura aos movimentos democráticos da sociedade civil brasileira. Trata-se,
portanto, de partirmos aqui da questão da efeméride “oficial” para discutir o processo histórico que ela
muitas vezes não apenas evoca, mas também encobre.
Anistia foi uma das palavras de ordem da mobilização dos setores democráticos da sociedade civil.
A rigor, o primeiro movimento organizado a partir dessa questão foi o Movimento Feminino pela
Anistia,criado em 1975 por Terezinha Zerbini. A luta pela anistia tornada pública e coletiva coincidia
com as promessas de “distensão”feitas pelo General Ernesto Geisel, cujo mandato se iniciara em março
de 1974. Apesar de ter prometido democratizar o regime militar, após o auge do terror de Estado e da
repressão política vividos entre 1969 e 1973, o governo Geisel começava com duas mortes nos porões
do DOI-CODI (Destacamento de Operações de Informações/Centro de Operações de Defesa Interna):
Vladimir Herzog, jornalista, e Manoel Fiel Filho, sindicalista. Ambas sinalizavam uma nova fase de
perseguição a organizações de esquerda,com o foco voltado para o Partido Comunista, e manifestavam a
atividade vigorosa dos porões da repressão amparada por altos escalões militares não dispostos a perder
seu poder.
Portanto, a partir de meados da década de 1970, dois processos de democratização tiveram início:
um conduzido pelo alto, a partir do próprio governo militar, cujos estrategistas previam uma
impossibilidade de manter o autoritarismo e as leis de exceção no longo prazo, à medida que começava a
desaparecer o principal ponto de apoio do regime na sociedade, ou seja, o sucesso da economia, o outro
processo, mais importante e ainda pouco reconhecido pela memória,teve seu foco na sociedade civil e
cada vez mais agregava novos atores e organizações na luta pelas “liberdades democráticas”, na qual a
anistia teve um papel aglutinador. Assim, o 28 de agosto representa uma data ambígua, pois para o regime
militar era apenas mais um momento na agenda da “abertura política”, a ser consolidada pelo sucessor de
Geisel, o General João Batista Figueiredo, empossado em março de 1979. Para os movimentos
democráticos da sociedade civil, era, sim, um capítulo, importante,mas inicial,da reconquista plena da
democracia.Se a agenda da democratização pelo alto do governo militar tinha um ponto de chegada claro
– a eleição direta para governadores de estados, prevista para 1982 –, os movimentos democráticos da
sociedade lutavam pela democracia política e social plenas, com eleição para presidente da República,
convocação de uma Assembleia Constituinte e anistia ampla com punição judicial para os torturadores,
bases para a construção de um novo pacto político que democratizasse não apenas a vida política, mas
realizasse a distribuição de renda e a universalização da cidadania.
Com esse espírito, foram criados os Comitês Brasileiros pela Anistia (CBA),primeiramente no Rio
de Janeiro (14/2/1978) e depois em São Paulo (12/5/1978), seguidos de outros Comitês estaduais, que se
reuniram em Salvador, no Encontro Nacional dos Movimentos de Anistia, em maio de 1978. A Carta de
Salvador serviu de base para a formalização de princípios e programas de ação sintetizados num
documento datado de julho de 1978: 1) Fim das torturas, com punição aos torturadores na forma da lei; 2)
Libertação dos presos e volta dos cassados e exilados; 3) Elucidação da situação dos cidadãos
“desaparecidos”; 4) Reconquista do habeas corpus (sUSP enso pelo AI-5,em1968); 5) Fim do tratamento
arbitrário e desumano aos presos; 6) Fim da Lei de Segurança Nacional, pelo direito à atividade política,
sem restrições; 7) Apoio à luta pelas liberdades democráticas (fim da censura, direito à greve e à livre
organização sindical e política,melhoria na qualidade de ensino e liberdade de expressão política,
cultural e científica). A Campanha pela Lei de Anistia consagrava,no espaço público, os temas da
democracia e dos direitos humanos como os novos eixos da luta contra o regime militar, renovando
inclusive a própria cultura política de esquerda, que passou a valorizar mais a questão democrática.
Ao longo do ano de 1979, a campanha pela anistia ganhou as ruas e coincidiu com a retomada do
protesto público de grandes proporções contra o regime militar. As palavras de ordem pela anistia
“ampla, geral e irrestrita” eram vistas e ouvidas não apenas em atos públicos do movimento, mas em
comícios partidários e sindicais, em congressos estudantis e até em jogos de futebol. Os presos políticos
realizaram uma greve de fome de mais de um mês, em julho e agosto daquele ano, e até políticos ligados
ao governo, como Teotônio Villela, aderiram à causa. A canção “O Bêbado e a Equilibrista”, de Aldir
Blanc e João Bosco, tornou-se o hino do movimento. O Brasil de 1979 voltava a ter esperança na
democracia e a anistia era a palavra que melhor sintetizava a nova luta democrática.
Com a Lei de Anistia, o governo tentou diminuir o ímpeto do movimento e controlar o potencial
mobilizador da campanha. Também por isso, a data da promulgação da lei foi vista pelos CBAs como um
golpe na campanha e não uma vitória memorável. Nesse sentido, defini-la como efeméride da anistia
seria cair nesta armadilha da memória histórica. Depois daquele dia, a Campanha pela Anistia continuou
e muitas anistias individuais foram conseguidas na Justiça, aproveitando as chamadas “brechas da lei”.
Com a volta dos exilados, da reforma partidária (que acabou com o bipartidarismo) e das grandes
greves operárias, o tema da anistia foi perdendo o privilégio de ser o principal aglutinador da questão
democrática, permanecendo, entretanto, como marco de um momento importante da luta democrática em
meio a um sistema político autoritário e visto como ilegítimo por amplos segmentos sociais.
O processo histórico que culminou na última anistia brasileira revela o quanto as datas não são
números frios e neutros, mas escondem conflitos situados numa historicidade que muitas vezes não cabe
nas suas limitações. E por falar em datas, que tal lembrarmos do dia 10 de dezembro, Dia dos Direitos
Humanos? Afinal, esse foi o sentido profundo da luta pela anistia.

B IBLIOGRAFIA
MEZAROBBA, Glenda Lorena. Um acerto de contas com o futuro, a anistia e suas consequências: um estudo do caso brasileiro. São
Paulo: USP, 2003. Dissertação (Mestrado em Ciência Política).
NAPOLITANO, Marcos. Cultura e poder no Brasil republicano. Curitiba: Juruá, 2002.
RAM OS, Andressa Maria Villar. A liberdade permitida: contradições, limites e conquistas do movimento pela anistia (1975-1980). São Paulo:
PUC/SP, 2000. Dissertação (Mestrado em História).
TELES, Janaina (org.). Mortos e desaparecidos políticos: reparação ou impunidade? São Paulo: Humanitas, 2000.

Marcos Napolitano – Professor do Departamento de História da Universidade de São Paulo (USP), doutor em História Social
pela USP e pesquisador do CNPq.
7 DE SETEMBRO DE 1822
INDEPENDÊNCIA DO BRASIL
Cecília Salles Oliveira



7 de setembro, dia da Independência do Brasil, é a mais conhecida e
celebrada data nacional. Está associada à proclamação feita, em 1822,
pelo príncipe D. Pedro, às margens do riacho do Ipiranga, em São
Paulo, acontecimento que teria assinalado o rompimento definitivo dos
laços coloniais e políticos com Portugal.
Entretanto, o episódio do Ipiranga não teve repercussão no
momento em que ocorreu, pois a separação do Reino europeu não era
uma decisão consensualmente aceita pelos diferentes segmentos da
sociedade na época. Tanto o delineamento do Império e da monarquia
constitucional quanto o reconhecimento da data de 7 de setembro como
marco da história da nação brasileira foram resultado de complexo
processo de lutas políticas que tiveram lugar no Rio de Janeiro e nas
demais províncias do Brasil durante a primeira metade do século XIX.
Após 1860, a data começou a ganhar importância no calendário de comemorações oficiais do
Império, período em que também foram erguidos monumentos em homenagem à fundação da
nacionalidade. Em 1862, foi inaugurada a estátua equestre de D. Pedro I na atual Praça Tiradentes, na
cidade do Rio de Janeiro, em honra aos quarenta anos da Independência e à Carta Constitucional de
1824. Entre 1885 e 1890, realizaram-se, na cidade de São Paulo, as obras de construção do Monumento
do Ipiranga, palácio de feições renascentistas, edificado no suposto local do famoso “grito”, e que após a
proclamação da República passou a abrigar o Museu Paulista, popularmente conhecido como Museu do
Ipiranga. Especialmente para ornamentar esse edifício, Pedro Américo confeccionou, entre 1886 e 1888,
o painel Independência ou Morte, imagem emblemática do 7 de setembro.
Com a organização do regime republicano, esse dia passou a figurar como a mais significativa data
da história brasileira, sendo festejada anualmente com desfiles militares e outras manifestações. Essas
tradições celebrativas se consolidaram em 1922, por ocasião do Centenário da Independência, momento
em que foi oficialmente instituído o Hino Nacional cantado até hoje.
A reiterada associação entre Independência e separação de Portugal acabou simplificando a
compreensão das circunstâncias históricas do início do século XIX, interpretando-se muitas vezes de
forma literal a data de 7 de setembro, como se fosse um fato capaz de alterar o curso da história, quando
constitui, sobretudo, um ponto de referência simbólico, cuja definição se deu no campo da política e
implicou o esquecimento de outros marcos, a exemplo da abdicação de D. Pedro I, a 7 de abril de 1831.
Além disso, as palavras “independência” e “separação” referenciam situações diferentes, sugerindo
que o liame construído historicamente entre elas não é tão cristalino quanto a princípio pode-se pensar.
“Independência” designa liberdade ou autonomia. Uma sociedade é considerada “independente”quando
possui as condições da autonomia política, isto é, quando detém o poder de elaborar as leis e de decidir
o perfil do Estado e dos princípios essenciais que deverão regê-la. Já a expressão “separação” indica o
ato pelo qual dois corpos ou entidades se distanciam, não possuindo necessariamente conotação política.
Em 1822, a palavra “independência” expressava a “condição do exercício da liberdade”. Naquela
época, liberdade e independência eram situações bastante específicas, já que somente poderiam se
concretizar no interior de governos constitucionais. Tratava-se, assim, de questão histórica e política
explicitada pelo desenrolar das revoluções inglesas do século XVII e dos movimentos revolucionários
que se manifestaram na Europa e na América entre os séculos XVIII e XIX, a exemplo da Revolução
Francesa e das guerras de independência norte-americanas.
A partir dessas referências, várias indagações podem ser formuladas em relação à Independência do
Brasil. Que circunstâncias poderiam auxiliar na compreensão da dinâmica da sociedade que se constituiu
na América portuguesa, no início do século XIX? Que situações e fundamentos permitiram que essa
sociedade – ou parcelas significativas dela – se considerasse capacitada para exercer a autonomia
política e pleitear um lugar entre as demais nações do mundo?
A mais recente produção acadêmica e editorial brasileira dedicada ao tema tem procurado
encaminhar essas e muitas outras indagações. Procura-se reconstituir, pela mediação de fontes variadas e
de diferentes metodologias, as significações mais abrangentes de lutas políticas que não se resumem à
sequência cronológica mais conhecida, geralmente situada entre o movimento revolucionário em
Portugal, deflagrado em agosto de 1820, e a proclamação de 7 de setembro de 1822.
Predomina atualmente o reconhecimento de que a Independência foi um dos momentos históricos
cruciais do prolongado processo de lutas políticas que resultou na construção do Estado nacional e da
nação na primeira metade do século XIX. Prevalece a compreensão de que, entre 1820 e 1822, quer no
Rio de Janeiro quer nas demais províncias, estavam em confronto grupos de interesses, defensores de
propostas divergentes, e que ganhava ampla repercussão nessa época a possibilidade de declarar-se a
Independência sem que houvesse a separação de Portugal. Isso porque, desde 1817, desenvolvia-se
intenso debate em torno da reorganização de um Império português fundamentado em governo
constitucional e representativo, obra política que deveria garantir a unidade, mas no âmbito de nova
ordenação entre os Reinos do Brasil e de Portugal. Todavia, durante a institucionalização do Estado
liberal, em decorrência da Revolução do Porto, evidenciaram-se profundas incompatibilidades entre os
interesses dos “portugueses” de ambos os lados do Atlântico, o que provocou o reajustamento das
pretensões e projetos de grupos mercantis, enraizados no Rio de Janeiro, em Minas Gerais e em São
Paulo, que se voltaram para a opção separatista tendo à frente D. Pedro.
Nesse sentido, a tradicional associação entre Independência, separação da antiga metrópole e
conflitos de caráter colonial deu lugar a interrogações que procuram evidenciar as peculiaridades da
configuração de um corpo político autônomo, no início do século XIX, denominado Império do Brasil.

B IBLIOGRAFIA
JANCSÓ, István (org.). Brasil: formação do Estado e da nação. São Paulo: Hucitec/ Fapesp/Unijuí, 2003.
LYRA, Maria de Lourdes Viana. A utopia do poderoso Império. Rio de Janeiro: Sette Letras, 1994.
OLIVEIRA, Cecília Helena de Salles. A Independência e a construção do Império. São Paulo: Atual, 1995.
_______. A astúcia liberal: relações de mercado e projetos políticos no Rio de Janeiro – 1820/1824. Bragança Paulista/São Paulo:
Universidade São Francisco/ Ícone, 1999.

Cecília Salles Oliveira – Professora titular do Museu Paulista da Universidade de São Paulo (USP) e professora do Programa
de Pós-Graduação em História Social da USP.
8 DE SETEMBRO (1966)
DIA INTERNACIONAL DA ALFABETIZAÇÃO
Antonia Terra



dia 8 de setembro foi estabelecido como o Dia Internacional da
Alfabetização em 1966, por recomendação da Conferência Mundial
dos Ministros da Educação para a Erradicação do Analfabetismo,
ocorrida em Teerã, em setembro de 1965. A data foi escolhida por ter
sido o dia da abertura da Conferência. A Unesco, seguindo a
recomendação, oficializouo em 1967.
A alfabetização é a capacidade de ler e escrever funcionalmente.
Esse conceito tem mudado ao longo da história. Nas sociedades
judaicas e muçulmanas antigas e para os europeus até o século XVIII,
bastava ser capaz de ler. Em 1958, oficialmente, a Unesco definiu
como analfabeto um indivíduo que não conseguia ler ou escrever algo
simples. Já vinte anos depois, definiu-o como uma pessoa que, além
disso, não possui habilidades para satisfazer as demandas do seu dia a dia e se desenvolver pessoal e
profissionalmente. Desse conceito deriva a ideia atual de que uma pessoa alfabetizada é aquela que tem
domínio para ler diversas linguagens presentes nos meios escritos, combinando a leitura de palavras,
números, imagens e outras tantas representações. Por esse conceito, no Brasil, o INAF, Indicador
Nacional de Analfabetismo Funcional, aponta que, em 2005, só 26% das pessoas dominam leitura e
escrita. Destes, 53% são mulheres e 47%, homens; e 70% são jovens de até 34 anos.
O estabelecimento de uma data para a alfabetização é um ato político. O objetivo tem sido
oficialmente: a) reforçar o direito à leitura e à escrita para todos, como decorrência do direito à
educação estabelecido na Declaração dos Direitos Humanos; b) reunir esforços no combate ao
analfabetismo que atinge principalmente aqueles que foram excluídos do sistema educacional formal; c)
demonstrar esforços das nações e instituições em prol da educação; e d) mobilizar a opinião pública
internacional para desenvolvimento de programas e atividades voltados para a formação de leitores e
escritores nos sistemas de educação formal e não formal.
O combate ao analfabetismo é uma luta por um direito social e, como tal, sustenta-se no fato de que
todos devem ter acesso a ele e, simultaneamente, há o reconhecimento de que existem os que ainda não o
usufruem. E é isso o que mostram as estatísticas. Apesar de ter índices decrescentes no mundo ao longo
do século XX, ainda atinge milhões de pessoas no século XXI. No ano de 2005, existem aproximadamente
oitocentos milhões de indivíduos não letrados e cem milhões de crianças fora da escola, sendo que a
menor frequência escolar está entre jovens e crianças que vivem em regiões rurais. O problema afeta
mais diretamente as mulheres, representando dois terços dos iletrados.
No mundo ocidental, o analfabetismo está relacionado à desigualdade social e ao controle político.
Como é um mundo constituído em sociedades letradas, onde as informações escritas institucionalizam os
direitos sociais e políticos e permitem o acesso às ideias e ao conhecimento em geral – de onde derivam
as relações sociais, políticas e de trabalho –, quem não domina a leitura e a escrita fica em uma situação
de dependência ou de exclusão. Há, assim, uma relação direta entre vida social e econômica, cultura
letrada e poder. Na dimensão política, “ditadores” podem controlar populações analfabetas e censurar
textos, na medida em que a leitura representa um perigo ao dissipar a ignorância, a custódia e a
submissão. Muitos são os exemplos históricos de restrição à escolaridade e de censuras.
Na escola é ensinado que a escrita foi introduzida em determinadas sociedades em tempos muito
antigos. Mas não é explicitado o fato de que, como hoje em dia, nem todas as pessoas daquelas
sociedades tinham acesso a ela. Em muitas culturas, consideradas letradas, apenas poucos indivíduos
tinham esse domínio cultural. Na realidade, havia padrões sociais e políticos que impediam ou
favoreciam sua difusão.
A escrita e a leitura nem sempre foram valorizadas socialmente como hoje. Em muitas sociedades
antigas, como na Grécia, existiam mais estímulos à oralidade. Para os filósofos Sócrates e Platão, por
exemplo, nenhuma forma escrita podia dar o devido mérito à retórica. Em Fedro, texto de Platão,
Sócrates adverte seu discípulo de que o uso das letras faz com que as pessoas não utilizem a memória.
Confiando nos caracteres, elas guardam reminiscências, que são apenas aparências da verdade e, assim,
nada aprendem e nada sabem. Entre os romanos, Cícero também valorizava a oralidade e, para ele, ler
era uma forma de pensar e falar.
Existiam, assim, discordâncias quanto ao valor da escrita na Antiguidade. Mesmo que a escrita
estivesse vinculada à fala em muitas situações, o registro de caracteres foi largamente utilizado em
placas de argila, papiro, pedra e pergaminho, preservando epopeias, textos sagrados, códigos, leis,
acordos políticos, tratados filosóficos e as atividades mais corriqueiras da vida econômica e cotidiana.
Tanto na Antiguidade quanto na Europa medieval, a leitura e a escrita eram, porém, domínio de
poucos. Na Idade Média europeia eram controladas pelo poder eclesiástico através do vínculo que
mantinham com o latim e os textos bíblicos.Mas, diferentemente do que ocorria entre os católicos, a
alfabetização entre os judeus já era democratizada antes do século VI a.C. E a cultura muçulmana, na
Ásia e na África, sempre teve por costume manter as portas das escolas das mesquitas abertas para os
meninos procedentes de famílias de diferentes origens sociais, ficando o aprendizado literário posterior
restrito aos filhos das famílias mais ricas que podiam custear os estudos.
Foi só efetivamente a partir do século XVI que a alfabetização passou a ser estimulada na Europa.
Humanistas e reformadores defendiamna como uma maneira de combater o predomínio da Igreja
Católica. Assim, incentivaram a formação de uma elite de escritores e artistas, que repercutiu
principalmente na Inglaterra, com a criação de escolas que não incluíam, todavia, sua difusão para o
povo. Foi somente na Alemanha, com a Reforma Protestante, que escolas foram fundadas para ensinar a
ler e escrever, em língua vernácula, crianças e jovens de diferentes origens, inclusive camponeses e
mineiros.
Hoje em dia, as mais variadas cartas de direito reconhecem o direito à instrução. Mas foi só a partir
da criação da ideia de “direitos humanos” no século XVIII e das lutas operárias no século XIX que o
direito à educação passou a ser reivindicado, junto com o sufrágio universal e a luta por sociedades mais
igualitárias e justas.
As políticas internacionais em prol da alfabetização foram intensificadas nas últimas décadas do
século XX. Na Conferência Mundial da Unesco sobre Educação para Todos, realizada em Jomtien, na
Tailândia, 1990 foi considerado o Ano Internacional da Alfabetização. E, dez anos depois, durante o
Fórum Mundial de Educação, realizado em Dakar, no Senegal, 180 nações se comprometeram em reduzir
o número de analfabetos pela metade até 2015.
No Brasil, as estatísticas do IBGE indicam quedas no índice de analfabetismo entre pessoas de 15
anos ou mais: era de 33,6%, em 1970, e passou para 11,8% em 2002, demonstrando em parte um
compromisso da nação com fatores que afetam a desigualdade política, econômica, social e cultural.

B IBLIOGRAFIA
HOBSBAWM , Eric J. Mundo do trabalho. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2000.
KATZENSTEIN, Úrsula E. A origem do livro: da Idade da Pedra ao advento da impressão tipográfica no Ocidente. São Paulo: Hucitec, 1986.
MANGUEL, Alberto. Uma história da leitura. São Paulo: Companhia das Letras, 1997.
P ORTELLA, Eduardo. Reflexões sobre os caminhos do livro. São Paulo: Unesco/ Moderna, 2003.

Antonia Terra – Doutora em História Social pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São
Paulo (FFLCH-USP). Professora do Departamento de História da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP).
18 DE SETEMBRO DE 1950
TELEVISÃO NO BRASIL
Luiz de Alencar Araripe



a noite de 18 de setembro de 1950, nasceu a TV Tupi, canal 3 de São Paulo,
a primeira televisão brasileira, a quinta a ser inaugurada no mundo, 14 anos
depois de surgirem os primeiros serviços de televisão na Inglaterra e na
Alemanha. Na América Latina, o México era o único país com o serviço,
inaugurado 18 dias antes de seu lançamento no Brasil. A TV brasileira
nasceu a fórceps, pois apenas cinco pessoas possuíam aparelho de televisão
entre nós. Ou seja, não havia poder de consumo real no país que justificasse
a implantação deste meio, situação que mais ou menos permaneceria até
meados da década de 1950.
O excêntrico empresário Assis Chateaubriand foi o responsável pela
façanha, exemplo do seu poder econômico e capacidade de iniciativa.
Proprietário de um império de comunicação, os Diários Associados,
Chateaubriand usou parte da sua receita publicitária para comprar uma estação de televisão da empresa
estadunidense RCA Victor. Paralelamente, importou trezentos aparelhos de televisão para serem
vendidos por uma cadeia de lojas de eletrodomésticos. Para o programa de estreia, Assis Chateaubriand
mandou instalar monitores de televisão em vários pontos da cidade de São Paulo.
Antes da inauguração oficial, em 18 de setembro de 1950, a TV brasileira passou por vários testes. A
rigor, a data de 4 de julho de 1950 marcou a primeira transmissão em circuito fechado, com o frei José
Mojica cantando boleros no auditório doMuseu de Arte de São Paulo (MASP). Na praça D. José Gaspar,
localizada no centro de São Paulo, uma multidão pôde assistir, encantada, a imagem do frei cantor, ao
vivo. Outros testes se seguiram, mas a televisão teria que esperar até meados de setembro para entrar no
ar, definitivamente.
Como escreveu o pesquisador Mario Fanucchi:
No começo, só havia transmissão ao vivo [...] os equipamentos eram escassos sujeitos a constantes panes [...] quando não existia
apenas um estúdio, os espaços eram reduzidos [...] como resultado dessas condições adversas, longos intervalos caracterizavam a
programação, pois só era possível preparar a entrada de qualquer programa depois de terminado o anterior.
Antes do show, houve uma solenidade longa, que durou das 16h às 18h, incluindo bênçãos, discursos
e elegias poéticas.
Na noite de 18 de setembro, às 22h, com uma hora de atraso, foi ao ar um programa de variedades,
transmitido da “Cidade do Rádio” – sede da TV Tupi, localizada no bairro do Sumaré em São Paulo.
Chamou-se TV na Taba, era apresentado por Homero Silva, com entrevistas, humor e música. Ao final,
Lolita Rodrigues cantou o Hino da TV, com versos de Guilherme de Almeida:
Vingou, como tudo vinga
No teu chão, Piratininga
A cruz que Anchieta plantou
E dir-se-á que ela hoje acena
Por uma altíssima antena
A cruz que Anchieta plantou.

O ufanismo paulista, o culto ao progresso e o imaginário católico misturavam-se no culto ao novo


meio, síntese de um sonho de modernidade que tomava conta do país.
O programa TV na Taba anunciava quais seriam os gêneros de programas mais consagrados na TV
brasileira: humor, números musicais, comentários esportivos, flashes de notícias do dia, esquetes de
teledramaturgia, espetáculos infantis. A rigor, devidamente ampliados e mais sofisticados, esses tipos de
programas estão presentes na TV brasileira até hoje, na forma de humorísticos, musicais, mesasredondas
ou competições esportivas, telejornais, telenovelas e programas infantis. Em suma, poderíamos dizer que
o primeiro dia da TV brasileira foi uma espécie de big bang, explosão criativa que anunciava a futura
expansão do universo televisivo.
Se o dia 18 de setembro pode ser considerado a data inaugural da TV, outras datas marcam a
diversificação da programação: No dia 19 de setembro de 1950,foi ao ar o primeiro telejornal; no dia 29
de novembro, a primeira teledramaturgia, chamada de “teleteatro”; no dia 10 de dezembro, o primeiro
jogo de futebol – Portuguesa x Palmeiras; no dia 21 de dezembro de 1951, surgiria um dos grandes
gêneros da TV brasileira, a telenovela em capítulos, chamada Sua vida me pertence. E, assim, novos
programas foram adensando a grade de programação que até o final da década de 1950 era,
basicamente,noturna (das 18h às 23h). Por volta de 1953, a TV passou a atrair mais e maiores anunciantes
que apostavam no sorriso das “garotas-propaganda”.
Em 20 de janeiro de 1951, a televisão não era mais privilégio dos paulistanos. A capital da
República inaugurou sua emissora, a TV Tupi do Rio de Janeiro. Em 1956, ocorreu a primeira
transmissão de um programa diretamente do Rio de Janeiro para São Paulo, o jogo entre Brasil e Itália,
diretamente do Maracanã. Em 1952, emissoras foram criadas em Curitiba e em Belo Horizonte. Em 1957,
a televisão chega a Recife e, em 1959, a Porto Alegre.
A TV Rio, a partir de 1957, será o centro da revolução televisual brasileira, seguida da TV Excelsior
de São Paulo. Essas duas emissoras prepararam o novo padrão tecnológico que será consagrado pela TV
(depois Rede) Globo, a partir de 1965. O eixo da nova revolução será o videotape, o que permitia a
edição posterior dos programas, evitando os problemas e surpresas da programação ao vivo. O
videotape, disseminado a partir do começo dos anos 1960, permitirá a otimização do uso do tempo na TV
e a melhoria das condições de produção. Nessa década, haverá um salto de quantidade nas audiências,
com a expansão do número de aparelhos de TV pelo conjunto das classes médias. Outro salto semelhante
foi no final dos anos 1960, com a disseminação dos aparelhos de TV entre as classes populares, não
apenas das grandes capitais, mas também das cidades médias e pequenas. Na década de 1970,
praticamente todos os lares brasileiros tinham um aparelho de televisão e a transmissão em rede
nacional, via satélite, estimulada pelo governo militar como parte de uma política de “integração
nacional”, fará da televisão uma experiência social compartilhada por milhões de pessoas, produtora de
imaginário e disseminadora de ideologia.
A data de 18 de setembro ficou como uma efeméride que se torna tanto mais comemorada, à medida
que a televisão se consagrou como o veículo de comunicação mais importante do Brasil.A passagem dos
cinquenta anos da inauguração da TV brasileira foi a mais comemorada, contando com a participação de
vários profissionais da primeira geração do meio.
Em linhas gerais, podemos dizer que as efemérides e os eventos que envolvem a televisão brasileira
ainda permanecem mais no plano da memória social do que da História acadêmica. O número de
pesquisas ainda é pequeno em relação às crônicas, memórias e biografias dos personagens que atuaram
ao longo da história da televisão. Uma das possíveis explicações é que as fontes escritas
e,principalmente,audiovisuais produzidas pela televisão brasileira nos seus mais de cinquenta anos de
existência, sobretudo aquelas ligadas à primeira década de sua existência, têm sido muito mal
preservadas,dificultando o trabalho dos historiadores.
Passados mais de cinquenta anos da sua inauguração, uma questão ainda divide os pesquisadores: a
TV é uma janela para conhecer o mundo ou uma porta cuja entrada é manipulada pelos interesses

econômicos dominantes? O único consenso parece ser a percepção de que a televisão brasileira é um
capítulo decisivo de nossa modernidade capitalista, sendo um dos seus produtos mais bem-sucedidos, do
ponto de vista comercial, e mais influentes, do ponto de vista ideológico e cultural.

B IBLIOGRAFIA
FANNUCHI, Mario. Nossa próxima atração. São Paulo: EdUSP, 1996.
KEHL, Maria Rita et al. Um país no ar. São Paulo: Brasiliense, 1986.
NAPOLITANO, Marcos. Como usar a televisão na sala de aula. São Paulo: Contexto, 1999.
ORTIZ , Renato. Telenovela: história e produção. 2. ed. São Paulo: Brasiliense, 1991.
XAVIER, Ricardo et al. Almanaque da TV: 50 anos de memória e informação. Rio de Janeiro: Objetiva, 2000.

Marcos Napolitano – Professor do Departamento de História da Universidade de São Paulo (USP), doutor em História Social
pela USP e pesquisador do CNPq.
25 DE SETEMBRO (1966)
DIA DO RÁDIO
Fernando Gurgueira



o Brasil há duas datas comemorativas relativas ao rádio e à radiodifusão. O
dia 21 de setembro, no qual é comemorado o Dia do Radialista, e o dia 25
de setembro, considerado o Dia Nacional do Rádio e da Radiodifusão.
Mas não foi sempre assim. De acordo com o pioneiro radialista Renato
Murce, em seu livro de memórias Bastidores do rádio, o dia 21 de setembro
teria sido inicialmente instituído como o Dia do Rádio pelas emissoras
cariocas, em 1936.
O Dia Nacional do Rádio e da Radiodifusão, comemorado no dia 25 de
setembro, foi instituído em 1966 em homenagem ao antropólogo e educador
brasileiro Edgard Roquette-Pinto, nascido nesse dia, em 1884, e
considerado um dos pioneiros da radiodifusão no Brasil. Edgard Roquette-
Pinto não só contribuiu para o desenvolvimento da radiodifusão no país,
como também se interessou pela TV, tendo acompanhado suas primeiras experiências. Sua contribuição
mais importante foi a fundação da primeira emissora brasileira, a Rádio Sociedade do Rio de Janeiro,
criada com base em um modelo radiofônico educativo e cultural que procurava dar ao novo veículo um
caráter de “instrumento civilizatório”.
“Trabalhar pela cultura dos que vivem em nossa terra e pelo progresso do Brasil”. Com esse lema,
que até hoje norteia as atividades da Rádio do Ministério da Educação (antiga Rádio Sociedade),
Roquette-Pinto, juntamente com Henrique Morize, Francisco Lafayette, Francisco Venâncio Filho, Edgar
Sussekind de Mendonça, entre outros, fundou a Rádio Sociedade do Rio de Janeiro em 20 de abril de
1923 na sala de reuniões da Academia Brasileira de Ciências, localizada na Escola Politécnica. No dia
1º de maio daquele mesmo ano, às 20h30, Roquette-Pinto, utilizando-se da estação transmissora montada
na Praia Vermelha (SPE), iniciou as primeiras transmissões da nova emissora. Roquette-Pinto relataria
mais tarde:
no começo de 1923 desmontava-se a estação do Corcovado e a da Praia Vermelha ia seguir o mesmo destino se o governo não a
comprasse. O Brasil ia ficar sem rádio. Ora, eu vivia angustiado com essa história, porque já tinha convicção profunda do valor
informativo e cultural do sistema desde que ouvira as transmissões do Corcovado [...] resolvi interessar sobre o problema a Academia
de Ciências. Era presidente o nosso querido mestre Henrique Moriz. Eu era secretário. E foi assim que nasceu a Rádio Sociedade do
Rio de Janeiro a 20 de abril de 1923.

Antes dessa iniciativa pioneira de Edgard Roquette-Pinto, a primeira demonstração pública oficial
de radiodifusão no Brasil se deu a 7 de setembro de 1922, por ocasião das comemorações do centenário
da Independência na Exposição Internacional do Rio de Janeiro. Essa exposição contou com a presença
de todos os estados da Federação, bem como de vários países, que exibiram para o público do Rio de
Janeiro, durante seis meses (de setembro de 1922 a março de 1923), além de diversas manifestações
culturais, as mais recentes conquistas da ciência e da tecnologia. E dentre as novidades tecnológicas
exibidas na Exposição, o T.S.F., (Telefone Sem Fio – nome pelo qual era conhecido o rádio), seria uma
das que causariam impacto entre os visitantes do evento, tornando-se um dos seus grandes atrativos.
A Westinghouse International Company, uma das expositoras e representante dos Estados Unidos,
havia trazido para o Brasil, a título de demonstração, uma estação de rádio com 500 watts de potência.
Essa estação foi instalada no morro do Corcovado com a colaboração da Companhia Telefônica
Brasileira. Assim, quando no dia 7 de setembro de 1922 o discurso de abertura do presidente Epitácio
Pessoa e a canção “O Aventureiro” da ópera O Guarani foram ouvidos pelos visitantes da exposição
através de alto-falantes que, distribuídos estrategicamente pelos recintos do evento, captavam as
emissões da estação, o rádio fez a sua primeira aparição pública e oficial no cenário brasileiro.
Antes dessa demonstração pública, as primeiras experiências radiofônicas ficavam a cargo de
“curiosos” que, reunidos em agremiações denominadas sociedades de rádio e rádio clubes, discutiam os
avanços da radioeletricidade e da radiotelefonia. Essas entidades e seus pioneiros atuavam mais como
rádioescuta, uma vez que não possuíam, na maior parte dos casos, aparelhos com capacidade para emitir
sinais, ficando restritos à escuta da comunicação entre os navios e os portos e de algumas estações
costeiras. Outro exemplo de pioneirismo radiofônico no Brasil seria o da Rádio Clube do Recife,
fundada em 6 de abril de 1919, que, segundo algumas fontes, teria inicialmente condições apenas para
fazer radiotelegrafia, tendo sido reorganizada para a radiodifusão somente em outubro de 1923.
A situação da radiodifusão no Brasil sofreu grande transformação a partir dos anos 1930 com a
publicação do Decreto n. 21.111, de março de 1932, que definia e aprovava o regulamento para a
execução dos serviços de radiocomunicações em todo o território nacional. Esse decreto é considerado
um marco na radiodifusão brasileira por ser o primeiro instrumento legal a tratar de forma abrangente os
diversos aspectos relacionados com a atividade radiofônica no país, sobretudo a liberação da
publicidade no rádio. Com a introdução da publicidade na programação das emissoras, o rádio educativo
e cultural, idealizado pelos pioneiros da radiodifusão no Brasil, cedeu progressivamente espaço a um
rádio comercial, e as emissoras passaram a desenvolver uma programação agressiva e dirigida aos
interesses de um público maior e mais variado, inaugurando um esquema de produção mais competitivo.
Essa nova perspectiva iria permitir que o rádio brasileiro, nas décadas de 1940 e 1950, atingisse seu
apogeu como veículo de entretenimento.

B IBLIOGRAFIA
FERRARETTO, Luiz Artur. Rádio: o veículo, a história e a técnica. Porto Alegre: Sagra Luzzatto, 2000.
GURGUEIRA, Fernando. A integração nacional pelas ondas: o rádio no Estado Novo. São Paulo: USP, 1995. Dissertação (Mestrado em
História Social).
MOREIRA, Sonia Virgínia. O rádio no Brasil. Rio de Janeiro: Rio Fundo, 1990.
ORTRIWANO, Gisela Swetlana. A informação no rádio: os grupos de poder e a determinação dos conteúdos. 4. ed. São Paulo: Summus,
1985.
REVISTA USP. Dossiê 80 anos de rádio. São Paulo: Universidade de São Paulo, dez., jan., fev. 2002/2003, trimestral.

Fernando Gurgueira – Mestre em História Social pela Universidade de São Paulo (USP) e docente da Fundação Armando
Álvares Penteado (FAAP).
29 DE SETEMBRO DE 1848
REVOLUÇÃO PRAIEIRA
Izabel Andrade Marson



memória das datas de 29 de setembro de 1848 e 2 de fevereiro de 1849 –
relacionadas, respectivamente, à posse do ministério presidido pelo ex-
regente e líder conservador Pedro de Araújo Lima, visconde de Olinda, e à
derrota do Exército Liberal no Recife (o mais importante episódio da
Revolução Praieira) – perdeu-se no conjunto dos eventos da história do
Segundo Reinado. Entretanto, esses acontecimentos tiveram um significado
especial na trajetória da monarquia brasileira, pois marcaram o início de um
período de hegemonia conservadora que perduraria por 15 anos e
praticamente finalizaria a destacada atuação que os “liberais históricos” –
políticos de variada origem engajados num projeto nacional preocupado em
ampliar a representação dos cidadãos no Parlamento – vinham desenvolvendo
na política imperial desde o Primeiro Reinado.
A Revolução Praieira (1848-1850) assinalou o clímax de um confronto entre grupos liberais
(praieiros) e conservadores (guabirus) pelo domínio político da província de Pernambuco, disputa que se
desdobrou em três momentos. No primeiro deles (1842-1844), o Partido Nacional de Pernambuco,
alcunhado “Partido da Praia” (pelo fato de seu jornal, o Diário Novo, ser impresso na rua de mesmo
nome, um local tradicionalmente ligado ao comércio a retalho), conquistou, com significativo apoio dos
eleitores primários do Recife, apelidados “os cinco mil”, os principais cargos eletivos provinciais. No
segundo (1844-1848), os praieiros reformaram a administração de Pernambuco e tentaram, sem sucesso,
eleger representantes para o Senado. No terceiro (1848-1850), diante da contingência de perder o poder,
o partido recorreu às armas. O impacto da guerra sustentada por senhores de engenho da ala “praieira”
da Guarda Nacional, seus dependentes e alguns grupos de combatentes recrutados na capital e vilas
vizinhas – que o governo imperial debelou com dificuldade – tornou o movimento um símbolo da
resistência liberal contra a ascensão conservadora e um marco na vida política do Império. Retomemos
seu percurso.
A ascensão do gabinete Olinda em setembro de 1848, a sUSP ensão dos trabalhos da Câmara dos
Deputados, encerrando suas atividades e prenunciando uma dissolução, e a designação do conservador
Herculano Pena para presidir Pernambuco assinalaram uma inversão política no Império e na província e
a eclosão da guerra civil pernambucana. Organizados pela “Sociedade Imperial”, os praieiros haviam se
preparado militarmente para enfrentar os conservadores, mobilizando forças policiais e da Guarda
Nacional e estocando armas e munições. O objetivo imediato era preservar o comando militar nas vilas e
cidades do interior e vencer as eleições de vereadores e juízes de paz e, posteriormente, a de deputados
gerais e de senadores. As motivações para o recurso às armas eram prementes: “salvar vidas e
propriedades e a honra pernambucana [...] ensinar a um governo traidor que os povos são a única
entidade que existe no estado social”.
O desafio “praieiro” fez o presidente cancelar o pleito e acionar um plano para dominar rapidamente
as oposições com forças da Tropa de Linha, da Guarda Nacional e particulares fiéis ao governo.
Acuados, os rebeldes ampliaram seus objetivos. Em novembro de 1848, os deputados do partido
hipotecaram seu apoio aos correligionários, os grupos combatentes se reuniram, e o “movimento”
divulgou um programa de reformas políticas reivindicando uma Assembleia Constituinte e um
alargamento da representação parlamentar, em especial no Senado.
O adiamento sine die das eleições, o crescimento das forças oficiais com a chegada de tropas da
Bahia e de Alagoas, a vitória dos resistentes no Combate de Cruangi (20/12/1848) e a queda do
presidente Pena cobraram a organização das tropas praieiras num exército. Exigiu, também, a
participação direta dos deputados na guerra, para conferir “uma direção conveniente a ela”, evitando
radicalizações dos republicanos liderados pelo jornalista Borges da Fonseca, líder dos “cinco mil”.
Divergências internas aos rebeldes afloraram. Enquanto o Diário Novo propunha como “Bandeira do
Movimento Liberal” reformas para a “regeneração da Província e do Império”, privilegiando a
descentralização administrativa e a ampliação da representação política, um “Manifesto” de outro grupo
reivindicava intervenções mais contundentes no regime monárquico, “a expulsão dos portugueses, o
comércio a retalho para os brasileiros, o voto universal, a extinção do Poder Moderador”.
Em janeiro de 1849, as tropas praieiras aglutinaram-se no sul da província e escolheram um
Diretório Liberal com chefes moderados, os deputados Peixoto de Brito e Afonso Ferreira, e
republicanos, Manuel Pereira de Moraes e Borges da Fonseca, levando o governo a também deslocar
suas forças, na esperança de vencer definitivamente o inimigo. Na capital, a Chefia de Polícia, sob
comando do conservador Figueira de Melo, desenvolvia acurado controle evitando que simpatizantes
enviassem munições e suprimentos aos revoltosos.
Informado, o comando “praieiro” decidiu por uma marcha rápida para ocupar Recife, buscando fugir
ao cerco e marcar uma vitória política obrigando o governo da província e o gabinete Olinda a negociar.
Mil e duzentos homens atacaram a cidade a 2 de fevereiro de 1849, divididos em duas colunas. Uma
entrou pelo sul e, com êxito, chegou às portas do Palácio da Presidência. Outra, pelo norte, foi derrotada,
frustrando o plano de ocupar a capital. Sem apoio da população estreitamente vigiada pela polícia ou
conivente com o governo, os praieiros não puderam enfrentar o exército oficial que retornara à cidade.
Então, só restou a retirada.
Desfalcado em quinhentos soldados, e deixando para trás, aprisionados, refugiados ou mortos (caso
do deputado Nunes Machado) alguns de seus comandantes, o Exército Liberal retirouse organizado em
dois grupos. O primeiro, liderado por Peixoto de Brito, Morais, Roma e Borges da Fonseca, deslocou-se
para a Paraíba, mas, perseguido, dissolveu-se no início de março, com um chefe morto (Roma), um preso
(Borges), dois exilados (Morais e Peixoto de Brito) e vários perdoados; seus soldados foram detidos ou
liberados para retornar a seus engenhos. O segundo, que reuniu os combatentes do capitão Pedro Ivo e de
senhores de engenho do sul da província, retornou a seu território, onde, refugiado nas matas, resistiu até
o início de 1850.
A concessão do perdão individual ou do exílio a alguns chefes foi um artifício para apressar a
desmobilização dos liberais, a finalização da guerra e do processo contra os chefes aprisionados. O
julgamento, realizado em agosto de 1849, os condenaria à pena exemplar – prisão perpétua com trabalhos
forçados – pelo crime de “rebelião”, punição sUSP ensa alguns anos depois por uma anistia que não
logrou devolver aos rebelados e aos “liberais históricos” o lugar de destaque que haviam ocupado, até
então, na política da província e do Império.

B IBLIOGRAFIA
CARNEIRO, Edison. A Insurreição Praieira (1848-1849). Rio de Janeiro: Conquista, 1960.
MARSON, Izabel A. Movimento praieiro: imprensa, ideologia e poder político. São Paulo: Moderna, 1980.
_________. O império do progresso. São Paulo: Brasiliense, 1987.
NABUCO, Joaquim. Um estadista do império: Nabuco de Araujo – sua vida, suas opiniões, sua época. 2. ed. São Paulo/Rio de Janeiro:
Companhia Editora Nacional/Civilização Brasileira, 1936, v. 1.
QUINTAS, Amaro. O sentido social da Revolução Praieira. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1967.

Izabel Andrade Marson – Professora do Programa de Pós-Graduação do Departamento de História da Universidade de


Campinas (Unicamp),mestre e doutora pela Universidade de São Paulo (USP) e livre-docente pela Unicamp. É autora de várias
publicações sobre a Revolução Praieira e sobre Joaquim Nabuco e sua obra.
3 DE OUTUBRO DE 1930
REVOLUÇÃO DE 1930
Tania Regina de Luca



enomina-se Revolução de 1930 o movimento armado que depôs o
então presidente da República,Washington Luiz Pereira de Souza,
pouco antes do término do seu mandato. A chefia civil coube a Getúlio
Dornelles Vargas e a militar ao tenente coronel Pedro Aurélio de Góis
Monteiro. O objetivo era impedir a posse de Júlio Prestes e Vital
Soares,candidatos situacionistas apoiados pelo Partido Republicano
Paulista (PRP) e que haviam derrotado a chapa Getúlio Vargas e João
Pessoa nas eleições presidenciais de março de 1930, sustentada pela
Aliança Liberal, coligação oposicionista liderada por políticos de
Minas Gerais e do Rio Grande do Sul. A conspiração foi deflagrada a
3 de outubro e,exatamente um mês depois,Getúlio Vargas assumiu a
chefia do Governo Provisório.
O episódio tornou-se marco periodizador da história republicana brasileira,que passou a ser dividida
entre a República Velha,denominação pejorativa, forjada e imposta pelos instituidores da República
Nova, que se julgavam portadores de um novo tempo. Os protagonistas esforçaramse por ampliar o
significado da Revolução, num investimento que visava ultrapassar a mera disputa pelo poder político
entre grupos oligárquicos. Em discurso de 23 de fevereiro de 1931, Vargas ressaltava:
Precisamos convir que a obra da Revolução, além de ser vasta obra de transformação social, política e econômica, é, também,
nacionalista no bom sentido do termo. Não percebem esses efeitos profundos do movimento vitorioso somente os espíritos superficiais
ou as consciências obcecadas. O ritmo revolucionário ninguém poderá modificá-lo antes que se encerre o ciclo das aspirações
brasileiras não satisfeitas [...].

Portanto, longe de se limitar à consecução do objetivo imediato – a resolução da crise sucessória que
levou à tomada do poder –, à nova ordem se autoimpunha a reformulação completa do país, ancorada
num discurso de ruptura com a experiência anterior. Não faltam exemplos de análises e depoimentos,
produzidos no calor dos acontecimentos, que louvavam as renovações em curso. E, de fato, tornou-se
frequente a associação entre o regime instalado em 1930 e a ideia de Brasil moderno. A longa duração do
primeiro governo Vargas, que se estendeu até 1945 e comportou um período claramente ditatorial a partir
de 1937, quando da implantação do Estado Novo, colaborou para fundir o acontecimento em si e o
processo que então se desencadeou. Ainda que as interpretações historiográficas sobre a Revolução
sejam marcadas pela diversidade e heterogeneidade, parece certo que a data integra o imaginário político
nacional.
Na contramão da decantada ruptura que os personagens do tempo procuraram estabelecer, pesquisas
acadêmicas enfatizaram a continuidade entre a velha e a nova ordem no que tange ao controle oligárquico
do poder político. Nas palavras da historiadora Aspásia Camargo,
as renovações introduzidas atestam um inegável surto de reformismo – uma aceleração do tempo histórico que apressa
transformações já iniciadas e afrouxa as contenções a que vinham sendo submetidas. À elite que ascende ao poder caberá, portanto,
mais do que subverter tendências, precipitar e reforçar processos já desencadeados, que esbarravam, sem dúvida, nos rígidos limites
impostos por um modelo político formalmente baseado em uma confederação de estados.

A ampliação do campo de ação do Estado e de sua burocracia, marca do regime instaurado em 1930,
constituiu-se, como assinalou o pesquisador Luciano Martins, numa possibilidade de incorporar
seletivamente novos atores sociais à cena política, a exemplo do que ocorreu com os tenentes ou com a
liderança sindical forjada a partir da legislação trabalhista. É certo que não se tratava de participação no
sentido reivindicado anteriormente, que previa a efetiva inclusão no sistema político, mas de absorção
em grupos técnicos e, no caso específico da Constituinte de 1934, dentro da representação classista, ao
gosto do corporativismo.
Tais perspectivas analíticas distanciam-se de interpretações que tomavam a ordem inaugurada em
1930 como uma revolução democrática burguesa, na qual um Brasil pré-capitalista, semifeudal,
representado pelas elites agroexportadoras aliadas ao imperialismo, defrontou-se com a burguesia
nacional, núcleo dinâmico da economia, voltada para o mercado interno e interessada em implantar o
modo de produção capitalista, tal como sustentava a análise de Nelson Werneck Sodré já na década de
1940.
Essa interpretação dualista, duramente questionada por Caio Prado Júnior, encontrou novo opositor
na leitura que Boris Fausto realizou acerca do movimento. Em obra publicada em 1970, o autor
explicitou seus pressupostos: “inexistência de contradições antagônicas entre setor capitalista exportador
e de mercado interno; impossibilidade de reduzir uma instituição como o exército às classes médias;
necessidade de relativizar a noção de que o setor agrário exportador está associado ao imperialismo”.
Defendeu, em consonância com o trabalho de Francisco Weffort, a ideia de que nenhuma classe ou facção
apresentava-se suficientemente forte para apropriar-se do Estado e instituir as bases de sua legitimidade,
daí o estabelecimento de um “Estado de Compromisso”, que atuaria como árbitro dos conflitos,
interpretação que teve (e segue tendo) larga aceitação historiográfica.
Luiz Werneck Vianna, por seu lado, valeu-se conceitualmente do caminho prussiano ou “revolução
pelo alto” para caracterizar o Estado a partir de 1930. De acordo com o autor, “ao remover o Estado
Liberal, a coligação aliancista cria as bases para promover ‘de cima’ o desenvolvimento das atividades
do conjunto das classes dominantes, em moldes especificamente burgueses”. No modelo adotado, a
revolução burguesa realiza-se independentemente da hegemonia burguesa, como frisou Vianna: “a
modernização como ‘revolução pelo alto’não se associa à ideia de que tal processo tenha levado a
burguesia industrial ao poder político, e sim que os interesses específicos da indústria tenham encontrado
apoio e estímulo eficaz na nova configuração estatal”.
Crítica radical à construção da memória histórica em torno de 1930 foi levada a cabo por Edgar de
Decca, que submeteu à análise tanto a versão tecida pelos vitoriosos de 1930 e o silêncio imposto a
outras possibilidades políticas não concretizadas quanto as representações do pensamento político
revolucionário de que a historiografia se valeu para construir seus modelos explicativos acerca do
episódio. No primeiro caso, trata-se de uma tentativa de encarar o período a partir da perspectiva da
revolução democrática burguesa tal como concebida pelo Bloco Operário e Camponês em 1928, que,
segundo o autor, foi capaz de elaborar e enunciar um programa revolucionário alternativo ao vitorioso.
No que tange à historiografia, de Decca questionou os modelos interpretativos construídos a partir de
imagens estabelecidas no exercício da dominação política por aqueles que tiveram a possibilidade de
impor sua versão, assumidas como monolíticas e unitárias.
O debate em torno do movimento iniciado em outubro de 1930 continua aberto e segue desafiando
historiadores e cientistas políticos.

B IBLIOGRAFIA
A REVOLUÇÃO DE 1930. Seminário realizado pelo CPDOC da FGV. Brasília: UnB, 1983. (Contém textos citados de Aspásia Camargo e
Luciano Martins).
BORGES, Vavy Pacheco. Anos trinta e política: história e historiografia. In: FREITAS, Marcos Cezar (org.). Historiografia brasileira em
perspectiva. São Paulo: Contexto, 1998.
DE DECCA, Edgar. 1930: o silencio dos vencidos. São Paulo: Brasiliense, 1980.
FAUSTO, Boris. A Revolução de 1930: história e historiografia. São Paulo: Brasiliense, 1970.
LIM A SOBRINHO, Alexandre J. de Barbosa. A verdade sobre a Revolução de 1930. São Paulo: Unitas, 1933.
VIANNA, Luiz Werneck. Liberalismo e sindicato no Brasil. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1976.
WEFFORT , Francisco. Classes populares e política. São Paulo: USP, 1968. Tese (Doutorado em Ciências Sociais).

Tania Regina de Luca – Doutora em História Social, professora do Departamento de História e do Programa de Pós-
Graduação em História da Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (Unesp/Assis). Pesquisadora do CNPq e
autora de vários livros.
5 DE OUTUBRO DE 1897
DESTRUIÇÃO DE CANUDOS
Kalina Vanderlei Silva



m 5 de outubro de 1897, as forças do Exército brasileiro, compostas por
quase nove mil homens e comandadas por dois generais, cercaram,
invadiram e destruíram o arraial de Canudos, no sertão baiano. Essa data
marca o ápice de quatro campanhas militares enviadas entre 1896 e 1897,
primeiro pelo governo da Bahia e depois pelo governo federal, contra a
povoação de Belo Monte, também conhecida como Canudos, assinalando o
fim de um conflito que passou para a História como um dos mais sangrentos
do Brasil.
Ao longo do século XX, historiadores e analistas sugeriram várias
interpretações para a Guerra de Canudos: uma abordagem tradicional,
ligada aos positivistas, interpretou a destruição de Canudos como a vitória
da “ordem e progresso”, representados pelo Estado republicano da
passagem dos séculos XIX ao XX, contra o “atraso” representado pelo povo do sertão. Já a historiografia
marxista explicou esse acontecimento como o esmagamento de um movimento revolucionário socialista e
camponês pelas “forças do latifúndio”.
Atualmente, novas pesquisas abordam tanto a Guerra de Canudos como a comunidade de Belo Monte
sob novas perspectivas: como se organizava a povoação? Quais as bases de sua economia? Quais os
fundamentos culturais e religiosos que levaram à fundação de Canudos?
Caracterizado como um movimento messiânico, Canudos é estudado hoje como parte de uma tradição
sertaneja, e não como um fenômeno isolado. O arraial, assim como outras comunidades fundadas em
princípios messiânicos, surgiu de uma associação de diferentes fatores, tanto socioeconômicos quanto
religiosos e culturais. No primeiro caso, destacam-se as secas frequentes, que aumentavam o
empobrecimento da população, e o poderio dos latifundiários sertanejos, que controlavam o acesso à
terra e ao trabalho. Do ponto de vista cultural, a religiosidade popular, a tradição de trabalho comunitário
e a mobilidade espacial contribuíram para a formação de Canudos a partir das pregações de Antônio
Conselheiro.
O arraial de Canudos era uma comunidade bem localizada, instalada na confluência de estradas
movimentadas,nas margens do rio Vaza-Barris, em terras pertencentes à fazenda Canudos, no sertão da
Bahia. Apesar de já existir antes de 1893, foi nesse ano que Antônio Conselheiro lá se estabeleceu com
seus seguidores.Conselheiro era um pregador peregrino, na tradição religiosa sertaneja de beatos,
romeiros e conselheiros. Logo, os novos habitantes começaram a construir igrejas, casas, ruas, ampliando
o pequeno arraial, que passou a se chamar Belo Monte.
A comunidade logo cresceu, baseada na pequena agricultura, na pecuária caprina e no trabalho e na
propriedade comunais, elementos tradicionais entre o povo do sertão. Abrigava ainda, assim como a
sociedade sertaneja que espelhava, a propriedade privada, um florescente comércio de couro que
enriquecia seus proprietários e uma hierarquia social que segregava negros e índios. Assim, a tese
bastante difundida que apresenta Canudos como uma experiência socialista ignora a composição social e
econômica da comunidade, que apenas reproduzia a estrutura da sociedade sertaneja na qual se inseria.
Então, por que Canudos foi pivô de uma repressão tão sangrenta? A razão para tal se entrelaça com
outra ideia bastante difundida: a de que foram as pregações monarquistas de Conselheiro, que
pretensamente queria promover uma revolta contra a República, que provocaram a repressão. No entanto,
estudos recentes mostram que a pregação de Conselheiro era de cunho essencialmente religioso, e não
político, sem se voltar necessariamente contra a República, mas contra o aumento de impostos e a
situação de penúria do povo.
Nessa perspectiva, Canudos não atacou a República, mas foi atacado por ela, que via nessa
comunidade um desafio às novas ideias de “ordem e progresso” que queria implementar. O que levou o
arraial de Belo Monte a atrair a atenção da República foi uma escalada de eventos que, mesmo de cunho
local, logo se transformaram em questão nacional.
A pregação de Conselheiro contra o aumento de impostos é em geral entendida como o início dessa
escalada. Mas foram os latifundiários, que normalmente inimizavam os pregadores sertanejos, que
pressionaram o governo da Bahia contra Conselheiro. O crescimento do arraial de Belo Monte, que
desenvolvia um próspero comércio de couro e atraía a mão de obra da região, também foi motivo de
oposição contra Conselheiro e sua comunidade. Assim, foram desavenças políticas e econômicas que
levaram, em 1896, as autoridades de Juazeiro a pedir ao governador da Bahia o envio de tropas contra
Canudos, alegando que forças do arraial atacariam a cidade.
A pressão dos senhores sertanejos levou o então governador da Bahia, Luiz Viana, a enviar a
primeira expedição, comandada por um tenente e composta por 118 soldados contra Canudos. Com a
derrota dessa expedição, seguiu-se uma tropa maior, com 600 homens comandados por um major, que
também foi derrotada.
A essa altura, os jornais já davam ampla notícia de Canudos, apresentando-o como uma fortaleza
isolada de gente sediciosa que queria subverter a República. As disputas políticas entre o governador da
Bahia e seus opositores, que apresentaram a questão à Presidência, também contribuíram para acirrar os
ânimos contra Canudos.Situação que se intensificou com a pressão dos opositores de Prudente de Morais,
presidente da República, que usavam a contestação de Conselheiro e as derrotas na Bahia para criticar o
governo. Assim,foram disputas políticas bem distantes de Canudos que levaram o governo federal a
armar uma terceira expedição, que partiu do Rio de Janeiro comandada pelo Coronel Moreira
César,apelidado “o corta-cabeças”.Mas Moreira César não apenas foi derrotado, mas morreu em
combate.
A derrota nas mãos de uma gente considerada rude e atrasada foi tomada como uma afronta para o
Exército, que, durante essa campanha, perdera inclusive seus modernos fuzis alemães. A quarta e última
expedição, que culminou na destruição do arraial, foi então enviada sob o comando de dois generais,
incluindo o ministro da Guerra. Eles empreenderam um ataque contra Canudos que se estendeu de julho a
outubro de 1897, acabando com a morte de dois mil soldados, cinco mil moradores, a destruição total da
povoação e a prisão de cerca de mil mulheres e crianças.
Esse episódio foi acompanhado por Euclides da Cunha, que registrou suas impressões em um livro
que se tornou obra-prima da literatura brasileira: Os sertões.
Canudos passou para a História como um dos maiores movimentos messiânicos do Brasil. Mas não
podemos esquecer que a comunidade pertencia a uma tradição bastante prolífica de movimentos
messiânicos de pregadores populares. Os muitos significados atribuídos a Canudos, tanto como símbolo
da barbárie quanto como símbolo da resistência popular, devem-se em grande parte à intensidade da
repressão sofrida e à ampla divulgação em todo o território nacional. Seja como for, a aniquilação do
arraial atesta que a história brasileira tem mais crueza e conflitos do que se costuma pensar.

B IBLIOGRAFIA
CUNHA, Euclides da. Os sertões. Rio de Janeiro: Record, 2002.
GALVÃO, Walnice. No calor da hora: a guerra de Canudos nos jornais. São Paulo: Ática, 1974.
MELLO, Frederico Pernambucano. A guerra total de Canudos. Recife: Stahli, 1997.
SILVA, Rogério Souza. Antônio Conselheiro: a fronteira entre a civilização e a barbárie. São Paulo: Annablume, 2001.
VILLA, Marco Antônio. Canudos: o povo da terra. São Paulo: Ática, 1999.

Kalina Vanderlei Silva – Professora-adjunta da Universidade de Pernambuco (UPE) e doutora em História pela UPE.
12 DE OUTUBRO DE 1492
“DESCOBERTA” DA AMÉRICA
Maria Ligia Prado
Stella Scatena Franco



m 12 de outubro de 1492, o navegador genovês Cristóvão Colombo (1451-
1506) aportou em uma ilha desconhecida, que ele pensava pertencer a um
arquipélago adjacente ao Japão, comandando uma pequena frota de três
navios – Santa Maria, Pinta e Niña – que, por cerca de dois meses, navegara
pelo Atlântico.
Colombo não sabia que havia chegado à América, já que esse continente
era desconhecido dos europeus. A meta do
navegador era atingir as Índias (Oriente), objetivo que julgou ter
alcançado ao chegar a esse outro mundo. Mas em 1504, o navegador
italiano, Américo Vespúcio, afirmou ser este um novo mundo, que ganhava,
em sua homenagem, o nome de América.
O impacto de tal acontecimento não foi percebido logo de imediato, mas
seus desdobramentos foram tão grandes que provocaram profundas e irreversíveis mudanças na ordem
mundial. Como afirma o historiador mexicano Edmundo O’Gorman, os europeus inventaram a América à
sua imagem e semelhança.Até aquela data,acreditava-se que o mundo estava dividido em três grandes
partes: Europa, Ásia e África, desiguais em extensão e distintas em “índole”. Essa divisão foi elevada a
uma categoria de conceito místico-geográfico, pois a Igreja Católica vinculou seu significado ao do
Mistério da Santíssima Trindade e a outras alegorias referentes à perfeição do número três. Com a
“descoberta” da América, esse preceito sofreu reformulações: nasceu e se firmou a ideia de que as novas
terras formavam um conjunto unitário, a quarta parte, o Novo Mundo. Geograficamente, o território foi
sendo incorporado ao globo, passando a integrar os mapas do século XVI. Mas, no cenário da História do
Ocidente, a América era apresentada como lugar onde havia um vazio original, diferentemente das outras
três porções do mundo que estavam preenchidas por um saber histórico tradicional. A América, no plano
histórico, tinha apenas futuro, ou melhor, possibilidades a serem desenvolvidas, sob o olhar europeu. A
noção de História Universal implícita nessa perspectiva admitia a coexistência de um Velho e um Novo
mundos como distintos modos de ser na História.
Essa distinção supunha a elaboração da concepção de que os primeiros habitantes daquela parte do
mundo, denominados de indígenas, não tinham História – para a qual só “entrariam” com a ajuda e
direção dos europeus. Seu vasto território passava a “existir” apenas depois da “descoberta”. Portanto, a
data de 12 de outubro de 1492 consagrou-se como o “início oficial” da História da América.
A figura de Cristóvão Colombo também desperta grande interesse. Ele pode ser entendido como um
misto de homem medieval e moderno. Medieval, porque entusiasmado com os relatos fantásticos sobre o
Oriente e, ao mesmo tempo, empenhado em defender a religião cristã. Moderno, porque conhecia as
ciências: entendia de matemática, cartografia, cosmografia. Assim, o conhecimento da natureza e o
domínio dos progressos técnicos e científicos encontravam-se com a crença na religião e na descrição do
mundo maravilhoso do Oriente.
Desde bastante jovem, esse genovês, filho de tecelão, dedicara-se às navegações,participando
inicialmente de viagens comerciais.Viveu dez anos em Portugal, importante centro de estudos náuticos.
Foi, portanto, primeiramente em Portugal que Colombo buscou apoio financeiro para seu
empreendimento, sendo este rejeitado pelo rei D. João II. Em 1485, ofereceu seus serviços ao trono
espanhol,para os chamados Reis Católicos, FernandoeIsabel,que também negaram,em primeira
instância,seu projeto.
As razões dos vetos dos monarcas eram várias, destacando-se os riscos envolvidos no
empreendimento de uma viagem por rotas desconhecidas do Atlântico, conhecido como Mar Tenebroso,
supostamente habitado por monstros e permeado de perigos sobrenaturais.Questionava-se a possibilidade
da própria viagem,tendo em vista os debates sobre a forma do planeta. Pensava-se, à época, que era
possível navegar apenas até um certo limite,depois do qual o mundo se precipitava num infinito abismo.
Mas o navegador acreditava, como alguns pensadores gregos da Antiguidade, na esfericidade da
Terra.Dessa maneira, julgava que navegando a oeste acabaria atingindo o Oriente. As condições exigidas
por Colombo também eram vistas como entraves para a aceitação imediata de apoio pelos monarcas.
Pelos serviços prestados, Colombo exigia, entre outras recompensas, o cargo vitalício e hereditário de
almirante, de vice-rei e governador das futuras terras “descobertas” e um décimo de toda a riqueza
encontrada.
Ao fim, entretanto, os Reis Católicos acabaram por apoiar a viagem, autorização oficialmente
decretada pelas Capitulações de Santa Fé, em 17 de abril de 1492. A tomada dessa decisão relacionava-
se com as mesmas motivações que regeram as viagens portuguesas nos séculos XV e XVI: a busca de
riquezas e a expansão da fé. Por outro lado, a Espanha estava preparada para o novo desafio proposto.
Os longos conflitos internos que dificultaram o processo de constituição do Estado monárquico espanhol
pareciam superados. Em 1492, pouco antes da viagem de Colombo, os muçulmanos, que haviam chegado
à península ibérica no século VIII, foram definitivamente expulsos da Espanha. O espírito cruzadista,
posto em marcha na guerra contra os “mouros infiéis”, permanecia forte e o mesmo fervor cristão seria
mobilizado na catequese dos habitantes do Novo Mundo.
Colombo realizou quatro viagens à América entre 1492 e 1504. Na primeira, aportou em uma ilha
das Bahamas, chamada pelos nativos de Guanahani, à qual deu o nome de São Salvador. Explorou,
posteriormente, parte das atuais ilhas de Cuba e do Haiti. Nas outras viagens chegou a Martinica,
Guadalupe, Porto Rico e Jamaica, atingiu a costa da Venezuela e navegou pelas costas da América
Central.
À “descoberta” de Colombo sucedeu-se a conquista da América. Depois da exploração das Antilhas,
os conquistadores espanhóis empreenderam expedições ao continente e dominaram os povos aí situados,
com particular destaque para as duas grandes sociedades organizadas politicamente, a dos mexicas
(astecas), na Mesoamérica, e a dos incas, na região andina. O encontro e o choque entre os ocidentais e
os primeiros habitantes da América foram marcados por uma intensa violência, cujo saldo foi o
submetimento das populações indígenas ao trabalho forçado, quando não à dizimação completa de
diferentes grupos e etnias, pelas guerras, pelas epidemias e pelos maus-tratos.
A Europa tentou plasmar a América à sua imagem e semelhança. Foi bem-sucedida em grande parte:
impôs sua língua, sua religião, sua cultura. Entretanto, absorveu muito das culturas aqui encontradas,
produzindo misturas e mesclas. Na Europa, a existência do inesperado mundo indígena levantou
indagações e produziu reflexões sobre problemas de ordem religiosa, filosófica e moral. As sociedades
indígenas forneceram novos alimentos ao mundo, como o milho e a batata, e foram responsáveis por
enorme produção de metais preciosos que enriqueceram algumas nações europeias.
A despeito da visão de que a América “surgiu” apenas depois da sua “descoberta” pelos europeus, já
existiam no continente sociedades extremamente ricas e complexas. A impossibilidade de enxergá-las
devidamente deveu-se à forte carga eurocêntrica de que estavam imbuídos os conquistadores do Novo
Mundo. Retirar da História da América esse olhar oficial é dar a ela um novo sentido. Um primeiro
passo importante para isso é a realização da crítica da noção de “descoberta” da América pelos
europeus.

B IBLIOGRAFIA
BERNAND, Carmen; GRUZINSKI, Serge. O Novo Mundo: da descoberta à conquista, uma experiência europeia – 1492-1550. São Paulo:
EdUSP, 2001.
COLOM BO, Cristóvão. Diários da descoberta da América: as quatro viagens e o testamento. Porto Alegre: L&PM, 1991.
FERREIRA, Jorge Luís. Conquista e colonização da América espanhola. São Paulo: Ática, 1992.
GIUCCI, Guillermo. Viajantes do maravilhoso: o Novo Mundo. São Paulo: Companhia das Letras, 1992.
O’GORM AN, Edmundo. A invenção da América. São Paulo: Editora da Unesp, 1986. (1. ed.: 1958).
SILVA, Janice Theodoro da. Descobrimentos e Renascimento. São Paulo: Contexto, 1991.
TODOROV, Tzvetan. A conquista da América: a questão do Outro. São Paulo: Martins Fontes, 1991.
VAINFAS,Ronaldo. Economia e sociedade na América espanhola. Rio de Janeiro: Graal, 1984.

Maria Ligia Prado – Professora titular de História da América do Departamento de História da Universidade de São Paulo
(USP). Mestre e doutora pelo Programa de História Social dessa mesma instituição, é autora de vários artigos e livros sobre
temas brasileiros e latino-americanos.

Stella Scatena Franco – Doutora em História Social pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade
de São Paulo (FFLCH-USP) e professora de História da América nas Faculdades Integradas de Guarulhos.
12 DE OUTUBRO (1980)
DIA DE NOSSA SENHORA APARECIDA
Jaime de Almeida



esde 1980, em 12 de outubro se comemora o Dia de Nossa Senhora
Aparecida, padroeira do Brasil, e também o Descobrimento da
América e o Dia da Criança. Tal concentração de sentidos numa data
festiva sugere perguntar por sua trajetória histórica. A presença da
Aparecida entre os feriados nacionais afirma a hegemonia do
catolicismo na formação cultural do povo brasileiro, mas também
suscita duras críticas fundadas no princípio da separação entre o
Estado e a Igreja. Menos concorrida que outras festas religiosas como
o Círio de Nossa Senhora de Nazaré, em Belém, o Senhor do Bonfim,
em Salvador, ou o Padre Cícero, em Juazeiro do Norte, que são
poderosos vetores de afirmação de identidades regionais, a festa da
Aparecida concentra principalmente as atenções espontâneas dos fiéis
da região Sudeste e dialoga diretamente com os grandes símbolos nacionais. O nome Senhora da
Conceição Aparecida, a coroa e o título de rainha conectam o culto à longa duração da monarquia
católica (Nossa Senhora da Conceição é padroeira do reino de Portugal desde 1646; em 1822, foi
confirmada como padroeira do império do Brasil) e à piedade popular (a mãe e protetora dos excluídos).
Tudo começou em outubro de 1717, quando uma imagem de terracota foi encontrada por três
pescadores no rio Paraíba. Objeto de culto familiar e comunitário, a pequena imagem atraía devotos a um
oratório modesto até meados de 1734, quando foi transferida pelo vigário de Guaratinguetá para uma
capela no Morro dos Coqueiros. A presença crescente de romeiros e devotos da Aparecida viria a dar
origem e nome a um novo município (criado em 1928). A capela recebeu uma primeira visita pastoral em
1761; o padre Francisco das Chagas Lima foi nomeado capelão em 1780. Na organização informal do
culto, destacava-se o ermitão Irmão José. A irmandade sofreu uma intervenção em 1803 e a capela foi
classificada como “Lugar Pio”. Em 1834, começaram as obras de uma igreja maior, que, após várias
ampliações, receberia o título de basílica em 1908.
Guaratinguetá é ponto de passagem entre São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais. Consta que o
príncipe regente D. Pedro teria visitado a capela e, mais tarde, o imperador D. Pedro II e D. Teresa
Cristina, e, ainda, a princesa Isabel por duas vezes. Após mais de um século de políticas republicanas de
memória, persiste certa associação entre a princesa Isabel, a abolição da escravatura e Nossa Senhora
Aparecida na memória dos pobres das antigas regiões de mineração e da cafeicultura. A Lei de 13 de
maio de 1888 não somente declarou extinta a escravidão, recusando indenização aos senhores de quase
setecentos mil escravos; ela foi redigida para vigorar “desde a data desta lei” e, imediatamente divulgada
por telégrafo a todas as capitais provinciais e cidades importantes, mobilizou multidões que ocuparam
festivamente as ruas e praças por mais de uma semana, impossibilitando qualquer reação dos ex-
proprietários. Em novembro, quando a regente era designada sarcasticamente como “a festeira” e os
libertos como “os(as) 13 de maio” por seus inimigos políticos comuns, é que se inaugurou o novo templo
dos romeiros da Aparecida – hoje a basílica velha –, entre os quais a princesa Isabel.
Em 1894, a República enfrentava fortes resistências e se militarizava. O controle do santuário foi
cedido a missionários redentoristas bávaros vindos para romanizar o catolicismo popular. Difundiram e
disciplinaram a devoção a Nossa Senhora Aparecida, pregando missões e incentivando romarias
enquadradas pelo clero a partir das paróquias. A primeira concentração de vulto no santuário foi durante
a festa de coroação da imagem (8 de setembro de 1904), reunindo 15 mil pessoas e 12 bispos. A
riquíssima coroa utilizada fora doada pela princesa Isabel numa de suas visitas. Estabilizava-se o país
sob a hegemonia da oligarquia cafeeira; a poucas semanas da Revolta da Vacina, a festa comemorou os
cinquenta anos do dogma da Imaculada Conceição, prolongando a campanha desencadeada por Pio IX
contra o liberalismo, o modernismo e o comunismo. Na época, a participação popular podia ser bem
mais numerosa nas festas religiosas tradicionais, quando os festeiros resistiam à forte pressão do clero
romanizante e permitiam jogos de azar e outras diversões profanas. O Bom Jesus de Tremembé, por
exemplo, devoção mais antiga na região, atraiu cinquenta mil foliões ao município vizinho de Taubaté,
em agosto de 1912.
O jubileu dos duzentos anos da imagem foi celebrado em 1917, ano de greve geral em São Paulo,
revoluções na Rússia e no México, Primeira Guerra Mundial e relatos de aparições de Nossa Senhora em
Fátima. Em 1929, a Igreja exibiu seu prestígio político renovado no jubileu de prata da coroação da
imagem. Pio XI declarou a Aparecida Padroeira do Brasil (16 de julho de 1930). Em meio à crise do
café e com uma revolução buscando institucionalizar-se, um milhão de fiéis e o presidente provisório,
Getúlio Vargas, aclamaram Nossa Senhora Aparecida como Padroeira e Rainha do Brasil a 31 de maio
de 1931. Logo mais, a 12 de outubro, inaugurou-se a grandiosa estátua do Cristo Redentor no alto do
Corcovado.
Em 1939, início da Segunda Guerra Mundial, a festa da Senhora Aparecida foi deslocada das
devoções marianas de maio para o 7 de setembro, núcleo do calendário cívico brasileiro. O culto à
Aparecida reforçava assim a sacralização da política, corporativista e autoritária, do Estado Novo.
Em setembro de 1951, época de acirramento do confronto entre anticomunistas e nacional-
desenvolvimentistas, surgiu a Rádio Aparecida, uma inovação tecnológica decisiva para a
nacionalização do culto à padroeira do país. A adesão à modernidade cresceu no Congresso da
Padroeira, durante o quarto centenário da cidade de São Paulo (1954), que espetacularizou a pujança da
indústria paulista e atualizou o mito do bandeirantismo. Nesse contexto, cujo clímax deu-se com o
suicídio de Getúlio Vargas em agosto, a festa de Nossa Senhora Aparecida foi transferida para 12 de
outubro, distanciando-a das oscilações políticas do aparelho de Estado. (Desde 1995, a basílica da
Aparecida proclama o Grito dos Excluídos no Dia da Pátria).
Em novembro de 1955 começaram as obras de um templo imenso, pouco antes do início da
construção de Brasília. Após o golpe militar, a Aparecida circulou entre as capitais estaduais numa
tentativa pouco eficaz de conciliação entre a ditadura e a sociedade civil. A nova basílica foi inaugurada
em 1967, no 250o aniversário do encontro da imagem. Em 1980, dois anos após um atentado que rompeu
a pequena imagem em quase duzentos pedaços, o dia 12 de outubro foi declarado feriado nacional e a
basílica da Senhora Aparecida foi consagrada pelo papa João Paulo II.
Quinze anos depois, um dirigente da Igreja Universal do Reino de Deus chutou e socou uma réplica
da imagem diante das câmeras de televisão. O incidente reaqueceu a polêmica acerca dos feriados
religiosos no calendário cívico brasileiro e, por extensão, das relações entre a Igreja Católica e o
Estado. Hoje, cada vez mais a devoção à Senhora Aparecida se faz presente no tempo forte das festas de
peão de boiadeiro e se aproxima da Virgem de Guadalupe, padroeira da América Latina.

B IBLIOGRAFIA
ALM EIDA, Jaime de. Foliões: festas em São Luís do Paraitinga na passagem do século (1888-1918). São Paulo: USP, 1987, Tese (Doutorado).
ARRUDA, Marcelo Pedro de. Triunfo católico no calendário secular: N. S. Aparecida no calendário republicano, 1930-1980. São Paulo:
USP, 2005. Tese (Doutorado).
MACHADO, Brasílio. Contribuição para uma data histórica: a Basílica de Aparecida. São Paulo: Escolas Profissionais Salesianas, 1914.
SILVA, Eduardo. Integração, globalização e festa. A abolição da escravatura como história cultural. In: P AM PLONA, Marco A. (org.).
Escravidão, exclusão e cidadania. Rio de Janeiro: Access, 2001.

Jaime de Almeida – Historiador, com estudos na Universidade de Paris VIII (Vincennes) e na Universidade de São Paulo
(USP). É professor de História da América na Universidade de Brasília (UnB).
15 DE OUTUBRO (1933)
DIA DO PROFESSOR
Paula Perin Vicentini



m 1933, a Associação dos Professores Católicos do Distrito Federal (APC-
DF) tomou a iniciativa de festejar, no Brasil, o Dia do Primeiro Mestre em
15 de outubro, dando origem ao Dia do Professor, que acabou por se
consolidar como uma forma de dar visibilidade à categoria. A data
escolhida correspondia à “primeira lei sobre o ensino primário” que, em
1827, criou as escolas de primeiras letras e designou um vigário para as
paróquias existentes no país, marcando a aliança entre o Estado e a Igreja.
Tal ideia partiu do presidente da APC- DF, Everardo Backheuser, que atuou
na Associação Brasileira de Educação (ABE) e, após a sua reconversão ao
catolicismo em 1928, engajou-se na fundação de entidades congêneres, que,
em 1933, passaram a integrar à Confederação Católica Brasileira de
Educação (CCBE). Em meio à tentativa de congregar em nível nacional o
magistério católico, a APC-DF lançou um apelo para que tal celebração ocorresse em todo o Brasil e a
população expressasse sua gratidão ao primeiro professor, visitando-o, enviando-lhe flores ou um cartão
de felicitações e, no caso de ele estar morto, depositando flores em seu túmulo ou dedicando-lhe uma
prece.
Originalmente concebida para que as pessoas manifestassem o seu reconhecimento ao primeiro
mestre, que em geral era relegado ao anonimato e ao esquecimento, a data tornou-se oficial e incorporou
novos significados que se sobrepuseram ao inicial, mas sem anulá-lo. Homenagens a professores tidos
como exemplares e festas de congraçamento das mais diversas iniciativas associaram-se às lembranças
do primeiro mestre nos festejos do 15 de outubro, que, a partir de meados dos anos 1950, começou a
contar com protestos da categoria contra os baixos salários. Ao se consolidar como uma prática regular,
a comemoração colocou em evidência a controvérsia entre a recompensa simbólica e a financeira da
profissão, pois ora se afirmava a necessidade de celebrar o Dia do Professor, ora se apontava o vazio
das “belas palavras” dedicadas aos mestres nessa ocasião, tendo-se em conta o seu baixo salário: oscila-
se entre a total vinculação dessas duas recompensas e a desqualificação das atividades que integravam os
festejos do 15 de outubro, apresentando-os como uma forma de dissimular os problemas que afetavam as
condições concretas de exercício do magistério.
Embora tal processo tenha assumido configurações específicas nos diversos estados brasileiros, opto
por detalhar aqui a maneira pela qual ele se deu em São Paulo e no Rio de Janeiro. Em 1947, entidades
representativas de diferentes segmentos do magistério paulista organizaram um movimento em prol da sua
oficialização, divulgando instruções bastante semelhantes às veiculadas pela associação carioca em
1933, mas sem referência a ela. No ano seguinte, o então governador Adhemar de Barros declarou
feriado escolar “a data de 15 de outubro, considerada o Dia do Professor” (Lei n. 174, de 13/10/48) e, a
partir de então, inúmeras solenidades começaram a ser promovidas por grupos escolares, escolas
normais, ginásios e colégios, que contavam com “sessões lítero-musicais”, missas, conferências,
homenagens a velhos mestres com a entrega de medalhas e de “diplomas de honra”. Em São Paulo, após
o reconhecimento oficial, o estado ora se esforçando para “abrilhantar” os festejos em homenagem ao
magistério, ora deixando a data cair no esquecimento, fez com que o Dia do Professor ganhasse
diferentes significados no âmbito da luta da categoria por melhores vencimentos e maior prestígio social.
No caso carioca, em contrapartida, o predomínio da rede de ensino particular fez com que a
instituição do feriado do Dia do Professor desempenhasse um papel central nos embates travados entre o
Sindicato dos Professores e os proprietários dos colégios, evidenciando as diferenças entre as diversas
esferas do poder público quanto à gestão dos conflitos trabalhistas dos docentes do ensino particular.
Alguns deles chegaram a desrespeitar o feriado e, em 1963, ameaçaram obrigar os professores a
trabalharem como represália às suas reivindicações salariais. Isso só não foi possível graças ao decreto
do então presidente João Goulart declarando o Dia do Professor feriado escolar em todo o Brasil. No
Rio de Janeiro, a comemoração somente ganhou projeção nos anos 1960.
Nesse sentido, convém assinalar o papel da grande imprensa na divulgação da data para que ela
fosse incorporada pelo imaginário coletivo. O jornal Última Hora, por exemplo, realizou inúmeros
concursos a propósito da data que contribuíram para que ela se difundisse, dentre os quais cabe destacar
aqui a eleição em 1951 de José de Anchieta como Patrono do Professorado Carioca, escolhido entre
grandes vultos do magistério já falecidos.
Na esfera federal, o Ministério da Educação lançou em 1956 o concurso que ficou conhecido como
“Concurso Dia do Professor – Embaixada da França”, destinado aos docentes do ensino médio, cujo
prêmio seria um estágio de três meses no Centro Internacional de Sevrès, na França; ainda, em 1958,
instituiu a Semana do Professor. Assim, o reconhecimento oficial da comemoração deu origem a
cerimônias promovidas pelos poderes públicos e por outras instituições, que homenageavam professores
tidos como exemplares e exaltavam a dedicação e a abnegação com que a categoria realizava a sua
“nobre missão”. Mas, no final dos anos 1950, a data incorporou um novo significado.
As entidades que lutaram na década anterior para que a data fosse reconhecida oficialmente com o
intuito de melhorar o estatuto profissional do magistério, ao constatarem que essa medida não contou com
uma contrapartida material relativa à sua remuneração, passaram a utilizá-la para expressar as suas
insatisfações quanto à política governamental, elegendo-a como marco para as campanhas
reivindicatórias e negando-se a participar das cerimônias oficiais. Em 1963, o magistério paulista
deflagrou a primeira greve geral da categoria justamente no Dia do Professor. Instaurou-se, portanto,
entre o estado e as associações docentes, uma disputa para apropriarse da comemoração e atribuir-lhe
diferentes sentidos, tanto para o movimento docente quanto para a imagem social dos professores, ao se
difundir diferentes concepções acerca da docência que ganharam visibilidade nas múltiplas formas de
celebrar a data.

B IBLIOGRAFIA
FERREIRA, Rodolfo. Entre o sagrado e o profano: o lugar social do professor. Rio de Janeiro: Quartet, 1998.
FISCHER, Beatriz T. Daudt. Professoras: histórias e discursos de um passado presente. Pelotas: Seiva, 2005.
LUGLI, Rosario Silvana Genta. O trabalho docente no Brasil: o discurso dos Centros Regionais de Pesquisa Educacional e das entidades
representativas do magistério (1950-1971). São Paulo: USP. 2002. Tese (Doutorado).
VICENTINI, Paula Perin. Imagens e representações de professores na história da profissão docente no Brasil (1933-1963). São Paulo:
USP, 2002. Tese (Doutorado).
________. Celebração e visibilidade: o Dia do Professor e as diferentes imagens da profissão docente no Brasil (1933-1963).Revista
Brasileira de História da Educação. São Paulo: SBHE, Autores Associados, n. 8, jul.-dez. 2004, pp. 9-41.

Paula Perin Vicentini – Professora do Programa de Estudos Pós-Graduados em Educação: História, Política, Sociedade, da
Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP).
15 DE OUTUBRO DE 1912
GUERRA DO CONTESTADO
Paulo Pinheiro Machado



o dia 22 de outubro de 1912, na localidade de Irani, então município de
Palmas, em região contestada entre os estados de Santa Catarina e do
Paraná, travou-se violento combate entre a força do Regimento de
Segurança do Paraná e os sertanejos que seguiam o “monge” José Maria. Na
peleja, conhecida como Combate de Irani, morreram 11 soldados e 6
caboclos, entre eles o comandante do Regimento, coronel João Gualberto
Gomes de Sá e o curandeiro José Maria. Esse foi o primeiro combate da
Guerra do Contestado, conflito que se estendeu até janeiro de 1916.
Antes de Irani, José Maria e os sertanejos já haviam sido expulsos da
localidade de Taquaruçu, município de Curitibanos, no planalto catarinense.
O coronel Albuquerque, superintendente municipal de Curitibanos, temia
que a aglomeração de pobres e doentes em torno do curandeiro fosse
utilizada em favor da oposição política local. Por seu lado, os paranaenses deram pronto combate ao
grupo migrante de José Maria, interpretando sua entrada no Irani como uma “invasão catarinense”, algo
que criaria tumulto para justificar o emprego de força federal. O governo do Paraná temia uma
intervenção federal na região contestada, algo que poderia viabilizar a execução de três sentenças do
Supremo Tribunal Federal (STF), as quais destinavam a região litigiosa para Santa Catarina.
Desde 1979, o município do Irani, com o apoio do governo do estado de Santa Catarina, comemora
esse combate através da apresentação de um grande espetáculo em que a batalha é encenada por atores e
figurantes locais. Próximo ao cruzamento das BRs 282 e 470, local presumido do combate, há um grande
monumento de concreto, o Museu e o Cemitério do Irani. Atualmente, está em construção o Parque do
Contestado, que possuirá dois auditórios, uma “cidade santa” e uma pequena linha de trem. Tudo servirá
como centro de uma série de atividades turísticas, inclusive com um espetáculo de luz e som.
Após o combate, consta que os sertanejos enterraram José Maria em uma cova tapada por tábuas,
uma vez que aguardavam por seu “retorno” junto ao “Exército Encantado de São Sebastião”. Pouco mais
de um ano depois desse combate, os sertanejos voltaram a se reunir na localidade de Taquaruçu. Quem
comandava esse novo reduto sertanejo era a “virgem” Teodora, uma menina de 11 anos que comunicava
sonhos que tinha com José Maria. A partir de dezembro de 1913, as forças oficiais passam a preocupar-
se com nova reunião dos sertanejos em Taquaruçu. A linguagem de “guerra santa”, com fortes
características milenares e messiânicas, proporcionou uma fusão do discurso religioso tradicional com o
descontentamento social.
Não se tratava mais de uma festa ou de uma reunião em torno do curandeiro. Os que agora se
dirigiam a Taquaruçu desafiavam diretamente as autoridades locais. Além dos devotos iniciais, que
passaram a santificar a trajetória do curandeiro José Maria (identificando sua vida com o rezador
itinerante João Maria, chamado de São João Maria pelos sertanejos), passou a dirigir-se à “cidade santa”
de Taquaruçu um grupo heterogêneo de pessoas, formado por posseiros, pequenos lavradores, peões e
agregados provenientes de Lages, Canoinhas, Campos Novos e outras partes do planalto. Entre estes,
havia muitos que haviam perdido suas posses para a Brazil Railway, empresa norte-americana que
adquirira a concessão para a construção e exploração da Estrada de Ferro São Paulo–Rio Grande. O
governo federal cedeu à ferrovia, para cada margem da linha, até 15 km de terras devolutas, território
que teria suas madeiras extraídas pela empresa subsidiária Lumber and Colonization. Como muitos
posseiros sem títulos viviam nessas regiões, o Corpo de Segurança da Lumber agiu com energia para
expulsar os sertanejos “intrusos”.
Junto aos devotos e posseiros, agregaram-se também opositores dos “coronéis” que dominavam a
política local. Muitos desses opositores eram veteranos federalistas, rio-grandenses e paranaenses que
viviam exilados em Santa Catarina. Após a destruição de Taquaruçu, em fevereiro de 1914, os sertanejos
fundaram a “cidade santa” de Caraguatá, mais ao norte. A força do exército tentou liquidar esse segundo
reduto rebelde, mas foi derrotada pelos sertanejos (pelados, como se autointitulavam) em março de 1914.
No segundo semestre de 1914, houve uma expansão do movimento rebelde, com a multiplicação das
“cidades santas” por um território de 28 mil km2. Nessa fase, os rebeldes escolheram como alvos as
estações da estrada de ferro, a serraria da Lumber e os prédios públicos e cartórios das vilas de
Papanduva, Itaiópolis e Curitibanos. Chegaram a ameaçar seriamente a cidade de Lages.
O projeto rebelde de “cidade santa”, baseado num processo de reelaboração mística e de invenção
de uma vida terrena com justiça e bem-estar, tinha como alvo a defesa de uma “monarquia celeste” e a
vida nos redutos em regime de irmandade, onde “quem tem, mói, quem não tem, também mói e no fim
todos ficam iguais”, como afirmavam os sertanejos. Moer aqui se referia à prática de pilar milho para
fazer beiju, alimento habitual dos caboclos do planalto. Dessa forma, as terras, as lavouras e os rebanhos
trabalhados e administrados pelos “irmãos” eram de posse coletiva.
As “cidades santas” possuíam uma quadra central, em forma de quadrado, ladeada por cruzes, onde
os sertanejos reuniam-se diariamente através de formas, momentos nos quais os líderes discursavam,
praticavam-se rezas e distribuíam-se tarefas cotidianas. Uma guarda sertaneja de elite foi criada, os
Pares de França ou Pares de São Sebastião – eram sertanejos conhecidos pela habilidade no combate
aos peludos (assim chamavam os representantes do governo).
Para sufocar o movimento sertanejo, o Exército, sob o comando do general Setembrino de Carvalho,
enviou mais de 8 mil soldados (mais da metade de seu efetivo total naquela época) associados às forças
policiais do Paraná e de Santa Catarina, sem contar milhares de vaqueanos civis (capangas contratados
por fazendeiros). Um dos combates mais importantes foi o que levou à destruição do reduto de Santa
Maria, que possuía uma população superior a 25 mil pessoas. A última “cidade santa”, São Pedro, foi
destruída por uma força de vaqueanos em dezembro de 1915. Até janeiro de 1916, os últimos 10 mil
rebeldes apresentaram-se em massa às forças oficiais, tangidos pela fome proveniente do longo cerco
militar.

B IBLIOGRAFIA
ESPIG, Márcia Janete. A presença da gesta carolíngea no movimento do Contestado. Canoas: Ed. ULBRA, 2002.
GALLO, Ivone. Contestado: o sonho do milênio igualitário. Campinas: Ed. Unicamp, 1999.
MACHADO, Paulo Pinheiro. Lideranças do Contestado: a formação e a atuação das chefias caboclas. Campinas: Ed. Unicamp, 2004.
MONTEIRO, Douglas Teixeira. Os errantes do novo século: um estudo sobre o surto milenar do Contestado. São Paulo: Duas Cidades, 1974.
VINHAS DE QUEIROZ , Maurício. Messianismo e conflito social: a Guerra Sertaneja do Contestado (1912-1916). Rio de Janeiro: Civilização
Brasileira, 1966.

Paulo Pinheiro Machado – Professor do Departamento de História da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), é
doutor em História pela Universidade de Campinas (Unicamp).
23 DE OUTUBRO (1906)
DIA DA AVIAÇÃO
Mauro Kyotoku



Deutsches Museum, ou Museu Alemão, em Munique, apresenta quase
todo o legado científico e tecnológico da humanidade. A contribuição
brasileira a esse legado ainda é tímida. Há algum tempo,
encontrávamos duas: o modelo de uma jangada e uma reprodução do
avião 14-Bis construído por um dos pioneiros da aviação, Alberto
Santos-Dumont. Atualmente, nessa seção, encontramse apenas fotos e
gravuras de voos desse pioneiro e o modelo foi substituído por uma
reprodução do Flyer dos irmãos Wright. Porém, a seção de miniaturas
continua vendendo modelos do famoso 14-Bis, que, em 23 de outubro
de 1906, fez o primeiro voo autônomo de um objeto mais pesado que o
ar, levando o Congresso Nacional brasileiro a considerar essa data o
Dia da Aviação e Alberto Santos-Dumont, o Pai da Aviação.
Alberto Santos-Dumont, sexto filho do casal Henrique Dumont e Francisca Santos, nasceu em 20 de
julho de 1873, na propriedade Cabangu, no atual município de Santos-Dumont, Minas Gerais. Depois de
uma breve permanência nesse município, o casal mudouse para a Fazenda Ariendúva, rebatizada Dumont,
em Ribeirão Preto, no estado de São Paulo. Graças à aplicação de modernos conhecimentos técnicos na
agricultura, Henrique Dumont expande seu empreendimento e ganha a alcunha de Rei do Café. Nesse
processo de modernização, o jovem Alberto interessa-se pelas novas máquinas agrícolas movidas a
vapor que chegaram à Fazenda Dumont e demonstra, desde cedo, habilidades mecânicas que se tornaram
úteis para seus desafios no futuro. Infelizmente, o Rei do Café sofre um acidente que o torna hemiplégico
e decide vender a propriedade para tratar da saúde em Paris. Nessa viagem, a família o acompanha.
Na França, em 1891, Alberto Santos-Dumont, então com 18 anos, identifica-se com as novidades
técnicas e planeja realizar um voo de balão, que já havia presenciado quatro anos antes em São Paulo.
Depois da morte do pai, que deixou para o filho “o necessário para viver”, seguindo os seus conselhos,
como relata o próprio Santos-Dumont em sua autobiografia, em Paris estuda Física, Química, Mecânica e
Eletricidade sob orientação de um certo senhor Garcia e apaixona-se pelo balonismo. Não se
contentando apenas em subir aos ares, inicia a construção de balões, terminando o primeiro em 1898 com
113 m3 de volume, batizado carinhosamente com o nome de Brasil. Sobe e desce várias vezes
apreciando a velha cidade luz e constrói um balão maior de nome América.
Entretanto, fica rapidamente entediado com os simples voos de ascensão, pois se tornava escravo das
correntes aéreas, e decide torná-los dirigíveis. Depois de alguma reflexão, escolhe o motor de combustão
interna – motor de automóvel – acoplado a uma hélice e, para maior dirigibilidade, utiliza para o balão a
forma análoga a de charuto. Pensando a longo prazo, já não batiza os balões: enumera-os simplesmente, e
assim temos os balões no 1, no 2 ... até o no 6.
Com seu sexto dirigível, Santos-Dumont ganha o Prêmio Deutsch, de cem mil francos oferecido pelo
magnata de petróleo Henri Deutsch de La Meurthe. O edital do prêmio exigia que o veículo partisse de
Saint-Cloud, circunavegasse a Torre Eiffel e voltasse ao ponto de partida em trinta minutos. Em 19 de
outubro de 1901, às 14h51, ovacionado, Santos-Dumont consegue circundar a Torre Eiffel e retornar ao
ponto inicial em menos de trinta minutos. Contudo, o fato mais importante é que Alberto Santos-Dumont
provara que poderia controlar aeronaves. A notícia dessa realização logo chegou ao Brasil, criando um
certo orgulho no povo brasileiro, e o governo resolve outorgarlhe um prêmio em dinheiro. Esse feito é
reconhecido no mundo inteiro e, em viagem aos Estados Unidos, Santos-Dumont encontra-se com o
inventor do fonógrafo e da lâmpada elétrica, Tomas Edison, e é recebido pelo então presidente dos
Estados Unidos, Theodore Roosevelt.
Para entender a maneabilidade, o inventor constrói vários dirigíveis usando motores e hélices mais
potentes. Em 23 de junho de 1903, buscando mostrar essa maneabilidade, faz uma demonstração
extraordinária com o dirigível no 9, estacionando-o na frente de seu apartamento na avenida Champs-
Élysées e toma um café.
Programa e ordena a construção do dirigível no 10 e parte para o Brasil em fins de agosto de 1903,
onde é recebido como um verdadeiro herói por todo o país. Ao retornar à França para continuar seus
trabalhos, recebe a notícia do voo dos irmãos Wright, dos Estados Unidos, mas as evidências do sucesso
desse voo são obscuras. SantosDumont continua estudando a dirigibilidade de balões e constrói o de no
14, obtendo um enorme sucesso em suas demonstrações. Em 1905, toma consciência de que os balões não
poderiam ser uma forma eficiente de levar substancial quantidade de carga pelos ares.
Inspirado então nas células de papagaio ou pipas desenvolvidas na Austrália por outro pioneiro da
aviação, o escocês Lawrence Hargrave, constrói um aeroplano e, para testá-lo, acopla-o ao dirigível no
14, sendo essa a singela razão do nome 14-Bis. Ficando claro que a sustentabilidade poderia ser
fornecida por essas células e com um motor de automóvel de 50 CV, vai aperfeiçoando seu aeroplano e
obtém sucessos cada vez maiores. Em setembro de 1906, consegue levantar do chão – sem nenhum
recurso externo – um objeto mais pesado que o ar, percorrendo sete metros. Finalmente, em 23 de outubro
do mesmo ano, deu o passo maior ao voar sessenta metros de extensão a uma altura de três metros.
Em 12 de novembro, consegue a maior proeza voando a uma distância de 220 m no campo de
Bagatelle, Paris, a uma altura de 6 m. Com esse voo, Santos-Dumont ganha um prêmio do Aeroclube da
França e tem seus os primeiros recordes homologados da história da aviação, ao contrário do voo dos
irmãos Wright, que fora catapultado em um plano inclinado e, além disso, não contara com a presença de
testemunhas independentes. Santos-Dumont realizou um voo decolando por seus próprios meios e com a
presença de um público independente. (Convém mencionar que em 7 de dezembro de 2003, no mesmo
local do suposto primeiro voo dos irmãos Wright, foi tentado reproduzir a “acanha” com um modelo
idêntico. Tal tentativa não foi bem-sucedida e atribuiu-se o fracasso às más condições meteorológicas do
dia do teste.)
Em 1907, Santos-Dumont apresenta um novo avião: o Demoiselle, que se revelou frágil para os
novos desafios. Em 13 de janeiro de 1908, Henry Farman realizou um voo circular de um quilômetro e
ganhou o prêmio Deutsch-Archdeon de 50 mil francos. Em 1909, o brasileiro apresenta um novo
Demoiselle e chega a voar mais de 15 km, tornandose um dos grandes destaques da Primeira Exposição
Aeronáutica realizada em Paris. Esse avião serviria de inspiração a vários outros.
Em 1910, entretanto, com sinais de esgotamento e com cabelos grisalhos, Santos-Dumont desiste da
carreira de aeronauta. Fixa residência em Paris e vê, com amargura, acontecer a Primeira Guerra
Mundial, que impulsiona o estabelecimento de uma indústria aeronáutica com finalidades bélicas.
Em 1918, Santos-Dumont construiu uma pequena casa em Petrópolis, que utilizava em suas estadias
no Brasil. Em 1919, para homenagear suas realizações, o governo brasileiro doa a propriedade Cabangu
a Santos-Dumont. Atualmente, abriga o Museu Alberto Santos-Dumont, o grande inventor brasileiro, que
se suicidou em 23 de julho de 1932, mas que orgulha o Brasil até hoje.

B IBLIOGRAFIA
BARROS, Henrique Lins de. Santos Dumont e a invenção do voo. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2003.
JORGE, Fernando. As lutas, a glória e o martírio de Santos-Dumont. Rio de Janeiro: McGraw-Hill do Brasil, 1977.

Mauro Kyotoku – Professor doutor do Departamento de Física da Universidade Federal da Paraíba (UFPB).
9 DE NOVEMBRO DE 1904
REVOLTA DA VACINA
André Mota



ntre os dias 9 e 16 de novembro de 1904, após a ratificação, pelo diretor da
Diretoria Geral de Saúde Pública, o Dr. Oswaldo Cruz, de um regulamento
de vacinação obrigatória contra a varíola, eclodiu um levante no Rio de
Janeiro que se transformou num verdadeiro “palco de guerra” - milhares de
pessoas saíram às ruas, num enfrentamento que durou uma semana contra a
polícia, o Exército, os bombeiros e até a Marinha. Os resultados dos
embates foram 23 mortos, dezenas de feridos e muitos presos enviados para
a Ilha das Cobras e para o Acre.
Um levante, aparentemente paradoxal, se explica se entendermos a
conjuntura vivida pelas populações em processo de urbanização na recente
República brasileira, assim como pela história da política de saúde pública
e sanitária do Brasil em tempos e espaços mais amplos.
Na segunda metade do século XIX, quando as principais cidades brasileiras avolumavam-se num
desequilibrado processo de urbanização, as questões referentes à saúde pública e ao sanitarismo
entraram na pauta das elites no Brasil. Entre os pontos levantados, as epidemias eram os mais discutidos
por afetarem o desenvolvimento nacional, a introdução de imigrantes e por colocarem em sUSP eição as
condições de salubridade de seus portos e cidades. Era fato, e facilmente constatável, o avanço
sistemático de doenças e surtos epidêmicos como a malária, a febre amarela, a tuberculose e a temida
varíola.
A extensão da varíola e sua presença no Brasil desde o período colonial começaram a preocupar as
autoridades apenas com a chegada de D. João VI em 1808. A chegada da febre amarela a partir de 1849
na capital carioca, e nas décadas seguintes, em terras paulistas, pode ilustrar os revezes dessa empreitada
cheia de sinuosidades corporativas, institucionais e políticas. Demonstra que as questões sanitárias eram
enfrentadas com medidas emergenciais e paliativas.
Instituições médicas e sanitárias foram criadas paralelamente a uma aparelhagem técnica e
profissional, visando a medidas de intervenção social em larga extensão,tática aprofundada com a
chegada da República em 1889. Algumas das características da política sanitarista eram o uso das ações
coercitivas como as de vacinação obrigatória e as tentativas de construir um muro invisível entre os
grupos privilegiados e os pauperizados das cidades. Foi o que sucedeu na cidadedo Rio deJaneiro,cuja
política do início do século foi a de empurrar para os morros e subúrbios a parcela da população
considerada “disseminadorade doenças e animalidades”. Esse drama urbano acabou redundando em
confrontos, envolvendo interpretações diversas sobre as ações sanitárias, as epidemias, bem como suas
estratégias políticas.
Num trabalho historiográfico pioneiro, Nicolau Sevcenko discute esse levante em um texto altamente
denunciador das ações repressivas e violentas das instâncias de poder ante os rebelados. Segundo o
autor, as ações populares contra a vacinação obrigatória teriam se dado num impulso de completo
descontrole, imputado pela falta de preparação psicológica da população,de quem o Estadoexigia uma
submissão incondicional abrindo espaço para que o descontentamento evidenciado da “massa subalterna”
fosse manipulado por lideranças políticas. Consequentemente, essa visão corrobora o entendimento de
uma resistência popular sem ação lógica, expressão de uma mera “rebeldia insana”.
Essa posição será refutada por Meihy e Bertolli Filho, lembrando que os estudos voltados para a
história da saúde pública padeceriam de uma descontinuidade capaz de reforçar o pressuposto de que se
estabeleciam, de um lado, os “senhores cultos”, amparados pelo “Estado saneador”e, de outro, a “massa
ignorante”, orientada pelos “rebeldes”. Para os autores, a chave dessa contenda estaria numa análise que
privilegiasse a luta histórica contra as tentativas de vacinação, desde a primeira metade do século XIX,
sendo os episódios de 1904 o agravamento desse conflito.
O clássico estudo do historiador Carvalho revelou a identificação entre a população que se insurgiu e
as lideranças do movimento. Em meio às transformações que vinham ocorrendo,ter-se-ia produzido uma
consciência clara de que,entre os discursos proferidos e as práticas efetivadas,escondia-se o real sob o
formal. Nesse contexto, para os líderes republicanos havia uma massa bestializada e incapaz de
participação política,o que José Murilo rebate pondo em cena o “bilontra”, aquele que ironizava a
imposição de uma “civilidade” e que estava pronto para se insurgir. As leis urbanas e morais do prefeito
Pereira Passos e as imposições sanitárias de Oswaldo Cruz foram determinantes para a reação
popular.Contudo,a responsabilidade da revolta teria sido deflagrada pela participação das associações
organizadas operárias, conforme se encontra na postura moralista desses setores ante a vacinação, assim
como no esforço de mobilização e organização de petições da Liga contra a Vacinação e em comícios,
vindos do Centro das Classes Operárias.
Por sua vez, Benchimol, quando desenvolveu sua pesquisa sobre as drásticas e violentas
intervenções impetradas pela renovação urbana do Rio de Janeiro na virada do século XX, detectou
vários polos de atuação das autoridades médicas e sanitárias, compreendidos em sua inter-relação com
os diversos eixos perscrutados pelos estudos de epidemia e sua proliferação desde o século XVIII. As
disputas científicas e de poder entre os grupos ligados a Domingos Freire e Oswaldo Cruz, a influência
da “formação urbana haussmaniana” de Pereira Passos, as batalhas interpretativas em torno das
descobertas científicas sobre a febre amarela em Cuba, a cultura local de diversos grupos e as
contradições sociais vinculadas a uma experiência de revoltas policlassicistas abrem espaço para uma
visão mais profunda da complexidade que envolveu o momento tratado, atribuindo à reforma urbana,
então em curso, o ponto nodal da conflagração social.
Para além das reflexões em torno desse “movimento civilizatório” na capital da República, o
historiador Chalhoub propõe que se trace uma História do serviço de vacinação desde a chegada da
Corte de D. João VI, em 1808, incluídas as discussões médicas sobre a eficácia da vacina antivariólica.
No que se refere aos eventos de 1904, aprofundaram-se as perspectivas e os valores que podem ter
informado a resistência popular à vacinação, fazendo uma incursão ao mundo das concepções e métodos
africanos e afro-brasileiros sobre a “variolização”.
Atualmente, a historiografia sobre o tema procura análises mais amplas sobre a implementação da
vacinação obrigatória e as múltiplas forças que a explicam nos outros pontos do Brasil. Nesse sentido, os
pesquisadores Mota e Santos perceberam questões importantes sobre esse momento na cidade de São
Paulo e seus efeitos no dia a dia da urbe.
Centralmente, naquilo que se refere à vacinação paulistana, as lutas em torno da cientificidade dos
atos, as concepções tradicionais de doença e a expressão de descontentamento ante a vacinação, se não
geraram uma revolta como a do Rio, apresentaram-se num cotidiano crivado de ações populares, que
colocavam em sUSP ensão muitas das ações médicas impetradas na cidade de São Paulo. Entre elas, é
reveladora a exigência da presença policial pela vacinação obrigatória. Exemplarmente, um morador do
bairro de Santo Amaro, acuado diante da “vacinação policial”, desafiou as autoridades nos seguintes
termos: “Meceis pode me vaciná. Mais também vacino argum de foice!”

B IBLIOGRAFIA
BENCHIM OL, Jaime Larry. Pereira Passos: um Haussmann tropical – a renovação urbana da cidade do Rio de Janeiro no início do século XX.
Rio de Janeiro: Secretaria Municipal de Cultura, Turismo e Esportes, Dep. Geral de Documentação e Informação Cultural, 1992.
CARVALHO, José Murilo de. Os bestializados: o Rio de Janeiro e a República que não foi. São Paulo: Companhia das Letras, 1987.
CHALHOUB, Sidney. Cidade febril: cortiços e epidemias na corte imperial. São Paulo: Companhia das Letras, 1996.
MEIHY, José Carlos Sebe; BERTOLLI FILHO, Cláudio. História social da saúde: opinião pública versus poder, a campanha da vacina em 1904.
Estudos Cedhal, n. 5, São Paulo, 1990.
MOTA, André; SANTOS, Marco Antonio Cabral. Por entre algemas e vacinas: medicina, polícia e resistência popular em São Paulo, 1890-1920.
In: Novos estudos Cebrap, n. 65, 2003.
SEVCENKO, Nicolau. A revolta da vacina: mentes insanas em corpos rebeldes. São Paulo: Brasiliense, 1984.

André Mota – Doutor em História pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo
(FFLCH-USP). Desenvolve pesquisa no Departamento de Medicina Preventiva da Faculdade de Medicina da USP. É autor de
diversas publicações sobre o tema.
15 DE NOVEMBRO DE 1889
PROCLAMAÇÃO DA REPÚBLICA
Suely Reis de Queiroz



dia 15 de novembro de 1889 marca o advento da República no Brasil,
acontecimento que representou uma mudança política radical, pois, a
partir de então, os governantes seriam escolhidos em eleições e teriam
mandatos definidos.
Não foi fácil, contudo, a mudança e, para ela, houve várias
interpretações, minuciosamente discutidas pela historiadora Maria de
Lourdes Janotti. Muitos contemporâneos, à semelhança do monarquista
Eduardo Prado, consideraram-na apenas o “fruto de um levante de
soldados alheio à vontade do povo”.Outros viram-na como uma
fatalidade histórica, argumentando que o regime imperial,
enclausurado em instituições tradicionais, condenara-se à substituição
pelo novo: no caso, a República. Outros ainda atribuíram-na à
perseverante atuação do grupo republicano, que compensava sua inexpressividade numérica com o
entusiasmo de quem persegue um belo ideal.
Para os historiadores atuais, como Emília Viotti da Costa, por exemplo, o 15 de novembro está
ligado às transformações econômicosociais ocorridas ao longo do século XIX, tendo sido possível devido
à conjugação de três forças: uma parcela do Exército, fazendeiros do oeste paulista e representantes das
camadas médias urbanas que contaram com o desprestígio da Monarquia e o enfraquecimento das
oligarquias tradicionais.
Realmente, as transformações surgidas no século citado foram de enorme importância e talvez as
grandes responsáveis não só por uma sociedade brasileira mais diversificada, mas também,
indiretamente, pelo desgaste da Monarquia. Isso porque o advento do capitalismo industrial provocou
mudanças na economia mundial que exigiram a crescente participação do Brasil como exportador de bens
primários.
Na ocasião, o mais importante produto do país era o café, que, a partir de 1870, alcança as terras do
oeste paulista, de alta lucratividade. A dinamização acelerada dessa região contrasta vivamente com a
situação daquelas em franco declínio, pertencentes às oligarquias detentoras do poder. Os proprietários
das novas áreas adquiriam riqueza e também novas aspirações: desejavam ter peso político equivalente à
força econômica que haviam adquirido e, desatendidos, buscavam soluções, pensando até mesmo nas
mais radicais.
Não eram os únicos. Outras forças surgiam na arena política trazidas pela modernização que ocorre a
partir de 1850. A interrupção do tráfico escravo liberou vultosos valores, investidos então em outros
negócios e empreendimentos, que, a par de várias inovações, se multiplicaram continuamente. Criaram-se
bancos e companhias de comércio, estradas de ferro foram construídas, linhas telegráficas inauguradas,
serviços públicos dinamizados. Um surto de modernidade sacudia então o país.
O desenvolvimento material seria acompanhado pelo crescimento das populações citadinas. Em
consequência, surgem novas categorias sociais, entre elas as chamadas camadas médias urbanas. Estas
absorviam rapidamente as ideias ligadas ao “progresso” que circulavam na Europa e os jornais
difundiam. Desse modo, abolicionismo, liberaldemocracia e república tornaram-se palavras de ordem
para a parcela descontente dessas camadas com as instituições monárquicas.
Não é à toa que muitos de seus membros apoiaram o Manifesto Republicano surgido em 3 de
dezembro de 1870 e a fundação do Partido Republicano do Rio de Janeiro. Não é à toa ainda que os
paulistas, sobretudo os cafeicultores, se entusiasmaram com a iniciativa, também criando o Partido
Republicano Paulista.
Com o decorrer do tempo, um outro importante segmento penetraria o espaço político, manifestando
o seu descontentamento com a situação vigente: o dos militares. Há longos anos, as forças de terra,
especialmente, acumulavam ressentimentos contra o regime monárquico. Setores militares desvalorizados
profissional e socialmente culpavam o parlamentarismo e os políticos pela posição secundária que
ocupavam no Império. O ressentimento aumentou após terem ganhado a Guerra do Paraguai, pois se
queixavam de que os governantes continuavam a não lhes dar o valor merecido.
A situação, portanto, era propícia a que aceitassem mais facilmente uma mudança de regime,
especialmente a jovem oficialidade, seduzida pelas ideias positivistas de república.
A chamada “questão militar” – uma série de incidentes e pronunciamentos através da imprensa de
oficiais que reivindicavam o direito de se manifestar publicamente sobre problemas políticos e também
da corporação, sendo punidos por isso – agrava a animosidade. Os comandantes, entre os quais o de
maior prestígio era Deodoro da Fonseca, embora leais ao imperador, posicionaram-se a favor dos
“homens de farda”. Em meio ao clima contestador, avultava ainda o movimento abolicionista, que
contrariava os interesses das oligarquias tradicionais.
Enquanto isso, a insatisfação surgia também entre os que apoiavam o sistema, cuja desintegração era
contínua. No entanto, como lembra o historiador Sérgio Buarque de Holanda, “os estadistas da monarquia
não se apercebiam senão lentamente dessa situação e quando o fizeram já era tarde”.
Tarde, porque os grupos civis republicanos, sem a força e coesão necessárias para mudar o regime,
procuram articular-se com os militares. Nessa articulação, destacam-se, entre outros, o já então tenente-
coronel Benjamin Constant, Quintino Bocaiuva e Aristides Lobo, e dela resultaria um encontro com
Deodoro da Fonseca no dia 11 de novembro. O futuro Marechal sempre fora fiel ao imperador – mas
também carregava mágoas em relação aos políticos do Império – e, embora esquivo a princípio, acabou
por declarar que nada mais se poderia esperar da Monarquia.
Desse modo, ante os boatos de que ele e Benjamin Constant seriam presos, dirigiu-se no dia 15 à
Praça da Aclamação, atual Praça da República, para depor o ministério Ouro Preto. De tal ação surgiria
a proclamação da República, que, conforme nota a historiadora Wilma Peres Costa, “marca a emergência
das forças armadas como ator político na história brasileira”. Embora tenha tomado a forma de um golpe
de Estado, na verdade, resultou de um longo processo iniciado na década de 1850 e acelerado a partir
dos anos 1870, traduzindo um descontentamento generalizado.
É importante lembrar quanto, até hoje, a historiografia, sobretudo de divulgação e de caráter
didático, tendeu a valorizar um discurso interessado em afirmar que o novo regime “foi acolhido em
clima de paz e harmonia nacionais”.
No entanto, os primeiros dez anos republicanos foram de grande instabilidade política, pois as forças
momentaneamente unidas em torno do mesmo ideal tinham interesses e projetos diferentes de República,
geradores de conflitos como a Revolução Federalista, por exemplo, ou a Revolta da Armada.
A verdade é que se cristalizou uma memória dos vencedores, ou seja, aquela elaborada pelos
republicanos civis, notadamente os cafeicultores paulistas, segundo a qual a paz e o consenso presidiram
o advento da República, memória que é preciso rever.

B IBLIOGRAFIA
COSTA, Wilma Peres. A espada de Dâmocles: o Exército, a Guerra do Paraguai e a crise do Império. São Paulo: Hucitec/Unicamp, 1996.
HOLANDA, Sérgio Buarque de. A fronda pretoriana. História geral da civilização Brasileira: do Império à República. São Paulo: Difusão
Europeia do Livro, 1972, tomo V, volume II.
JANOTTI, Maria de Lourdes Mônaco. O diálogo convergente: políticos e historiadores no início da República. In: FREITAS, Marcos Cézar de
(org.). Historiografia brasileira em perspectiva. São Paulo: Contexto, 2000.
QUEIROZ , Suely Robles de. Os radicais da República. São Paulo: Brasiliense, 1986.
VIOTTI DA COSTA, Emília. Da monarquia à república: momentos decisivos. São Paulo: Grijalbo, 1977.

Suely Reis de Queiroz – Professora dos cursos de pós-graduação da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da
Universidade de São Paulo (USP).
19 DE NOVEMBRO (1889)
DIA DA BANDEIRA
Circe Bittencourt



m 1889 o chefe do Governo Provisório assinou no dia 19 de novembro,
quatro dias depois de proclamado o novoregime republicano no Brasil, o
decreto que criou os símbolos nacionais, dentre eles a bandeira nacional.
A nova bandeira manteve as cores verde e amarelo do pavilhão da
época do Império, mas substituiu o brasão imperial pela esfera com as
estrelas representando os estados e o Distrito Federal, cortada pela faixa
onde se inscreve o dístico “Ordem e Progresso”.
A preocupação dos chefes do governo provisório da República
brasileira em instituir oficialmente uma nova bandeira demonstra a
importância desse símbolo para a afirmação e consolidação do poder
político nacional.
A bandeira, segundo historiadores que tratam do tema, teve ao longo da
história das sociedades humanas várias funções, com significados diversos antes de se tornar um símbolo
de identidade nacional, criado de acordo com uma organização política. Surgiu inicialmente para
representar um grupo étnico, uma determinada crença, uma família. Os estudos etimológicos do termo
bandeira indicam que ele se origina da palavra gótica banvja, que significa grupos de pessoas
seguidoras de um mesmo sinal, e pode-se perceber ao longo a história que prevaleceu o uso da bandeira
associada a um grupo, servindo, sobretudo, para as guerras, como, por exemplo, nas Cruzadas, nas quais
os cristãos carregavam a insígnia de uma cruz vermelha em suas investidas contra os islâmicos. Para o
historiador Raimundo Olavo Coimbra, a natureza de símbolo e a sua referência a um grupo constituem a
entidade essencial da bandeira.
Com a criação dos Estados nacionais, a partir notadamente do século XVIII, a bandeira passou a se
constituir como o símbolo máximo da identidade nacional, de um povo, de uma pátria. Essa condição,
entretanto, não fez desaparecer as referências que cada bandeira possui sobre determinados grupos
dentro da nação. Ela mantém-se como representação cultural, política e econômica de grupos, e daí as
bandeiras esportivas, de desfiles carnavalescos, de partidos políticos, de empresas, entre outras.
A partir, sobretudo, da Revolução Francesa de 1789, a bandeira, além de simbolizar uma
nacionalidade, passou a representar uma forma de estrutura política do país. No decorrer do século XIX,
tornou-se símbolo de determinadas formas e estruturas dos regimes políticos, representando
independência e soberania e, ao mesmo tempo, adaptando suas insígnias e cores de acordo com as
características do regime político vigente.
Do ponto de vista jurídico,a bandeira converte-se em fronteira,espécie de escudo que delimita a
soberania do país, inclusive fora do território nacional. Assim, em navios que percorrem águas
territoriais diversas, ela é uma insígnia do prolongamento do território nacional. Na atualidade, a
bandeira representa um Estado soberano em suas diversas atuações: na guerrae na paz,nas atividades
comerciais,culturais,esportivas,entre outras.
A bandeira criada pelo regime republicano em 1889 não foi a primeira que tivemos como país
independente. Em 1822, D. Pedro I havia criado, também por decreto, a bandeira símbolo da nação
independente. A representativa do Brasil imperial foi uma criação do pintor francês Jean Baptiste Debret,
professor da Academia de Belas Artes no Rio e Janeiro, inspirada em algumas bandeiras militares
francesas do tempo da Revolução e da época napoleônica, constituída por um losango, inscrito em um
retângulo. Além da influência francesa, o imperador D. Pedro marcou seu ideário, mantendo as cores
verde e amarela e a cruz, a Ordem de Cristo. Foram acrescidos “a coroa real diamantina sobre o escudo,
cujos lados serão abraçados por dois ramos de café e tabaco, como emblemas de sua riqueza comercial,
representados na sua própria cor, e ligados na parte inferior pelo laço da nação” (Decreto de 21/9/1822).
Ao se instituir uma nova bandeira sob o regime republicano,mudanças e permanências também
ocorreram quanto às suas simbologias. O projeto da bandeira republicana foi idealizado por dois dos
principais representantes do pensamento positivista no Brasil, Raimundo Teixeira Mendes e Miguel
Lemos, contando com os conhecimentos do professor Manuel Pereira Reis, catedrático de astronomia da
Escola Politécnica do Rio de Janeiro para a projeção das estrelas. Os dois idealizadores da bandeira,
para garantir a aprovação do projeto, fizeram entender que a ideia central fora de Benjamin Constant,
mas ele na realidade, segundo Raimundo Coimbra, serviu apenas como intermediário do projeto junto
aos membros do Governo Provisório. As críticas ao projeto eram várias e continuaram após sua
aprovação.
A nova bandeira permanecia com alguns elementos do pavilhão imperial,mantendo a cor verde no
formato de paralelogramo e o amarelo no losango, assim como as estrelas prateadas. Para“traduzir as
novas aspirações nacionais” foi adotada uma idealização “do Céu na Capital dos Estados Unidos do
Brasil no momento em que a constelação do Cruzeiro do Sul se acha no meridiano”.No entanto,o
elemento mais inovador foi a inscrição da legenda Ordem e Progresso em uma zona branca no centro da
esfera azul, no “coração de nossa bandeira”, e que corresponde ao lema fundamental do filósofo francês
criador do positivismo, Auguste Comte.
As críticas à nova bandeiranão se fizeram esperar. Iniciaram pela posição contrária da Igreja
Católica, com a recusa do bispo do Rio de Janeiro em benzê-la, alegando que a divisa pertencia a uma
seita antirreligiosa. Duas obras, notadamente, marcaram as fortes oposições ao novo símbolo nacional: A
bandeira nacional (1890), do monarquista Eduardo Prado, e Os símbolos nacionaes: estudo sobre a
bandeira e as armas do Brasil (1908), do político baiano Eurico de Góes. As críticas eram contra os
erros de astronomia, que, segundo Góes, representavam estrelas em um “céu imaginário”,as
inobservâncias heráldicas e a quebrada tradição.Entretanto, as críticas maiores recaíram sobre a legenda
positivista da bandeira que era considerada ideal não representativo da nação, mas de alguns setores que
desprezaram “símbolos históricos e tradicionais”e recalcaram “sentimentos gerais de um povo, em favor
de uma seita reduzida”.
Muitas propostas de reformulação da bandeiraforam feitas. Dentreelas, Eurico de Góes,na
Assembleia Constituinte de 1933,apresentou um projeto de reforma que, como os demais, não teve êxito,
e o pavilhão de 1889 permaneceu in totum como símbolo mais representativo da nação brasileira.
De acordo com a legislação sobre a Bandeira Nacional, esse símbolo obedece a uma série de
regulamentos sobre sua confecção, formato, obrigatoriedade e formas de hasteamento em determinados
locais e solenidades oficiais,assim como pode haver penalidades por desrespeito ao seu uso. Foi
dedicado-lhe um Hino à Bandeira, composto em 1906, com música de Francisco Braga e letra de Olavo
Bilac, que procura traduzir o sentimento de identidade nacional patriótico, característico do
republicanismo das primeiras décadas do século XX.
A bandeira nacional, como principal símbolo do sentimento de nacionalidade, permanece. Seu uso
em diversas situações, além daquelas ligadas às solenidades oficiais, demonstra que hoje se trata de uma
representação identitária significativa, que pode expressar sentimentos de pertencimento, de
necessidades de inclusão dos diversos setores da nação.

B IBLIOGRAFIA
BITTENCOURT , Circe. Pátria, civilização e trabalho. São Paulo: Loyola, 1990.
COIM BRA, Raimundo Olavo. A bandeira do Brasil: raízes histórico-culturais. Rio de Janeiro: IBGE, 2000.
CORREA, Avelino A. Hinos e canções do Brasil. São Paulo: Ática, 1974.
GÓES, Eurico de. Os symbolos nacionais. São Paulo: estudo sobre a bandeira e as armas do Brasil. São Paulo: Escolas Profissionais
Salesianas, 1908.
MENDES, R. Teixeira. A bandeira nacional. Diário Oficial da República dos Estados Unidos do Brasil. Rio de Janeiro, ano 28, n. 323, pp.
1-2, 24 nov. 1989.

Circe Bittencourt – Licenciada e bacharel em História pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da
Universidade de São Paulo (FFLCH-USP). Fez mestrado e doutorado em História Social pela FFLCH-USP. Atualmente é
professora de pós-graduação na Faculdade de Educação da USP.
20 DE NOVEMBRO (1995)
DIA DA CONSCIÊNCIA NEGRA
Marco Antonio de Oliveira



dia 20 de novembro, Dia Nacional da Consciência Negra, foi
instituído oficialmente pelo governo federal em 1995, no contexto das
comemorações do tricentenário da morte de Zumbi dos Palmares. Esse
dia é síntese ao mesmo tempo de reflexão e ação, traduzidas como luta
e reafirmação permanente de cidadania. A data refere-se à morte de
um dos principais líderes negros que resistiu à escravidão, Zumbi dos
Palmares, ocorrida, ao que se sabe, por volta de 1665. Zumbi liderou
um grupo de escravos fugidos do cativeiro que deram origem à mais
conhecida das comunidades a se levantar contra a escravidão, o
quilombo dos Palmares. Apesar de enfrentar durante séculos o silêncio
sistemático imposto por aqueles que buscaram esvaziar as lutas dos
africanos cativos e seus descendentes, a memória de Zumbi dos
Palmares permaneceu viva e cultivada por gerações que se recusaram a calar diante do racismo e
discriminação travestidos de “democracia racial”. As lutas da população afrodescendente tornaram
possível a inclusão do Dia da Consciência Negra como data cívica nacional incorporada ao calendário
escolar.
O Dia da Consciência Negra não serve para ações comemorativas laudatórias com fundo mítico. O
20 de novembro busca promover ações afirmativas de valorização da população afrodescendente
brasileira, mantendo luz sobre nosso passado escravista e criando formas de construir ações de combate
ao seu legado funesto.
Os estudos que tratam da escravidão de origem africana, em geral, oscilam entre dois extremos:
aqueles que praticamente não mencionam as reações da população escravizada contra a dominação e, no
extremo oposto, a ênfase dada à resistência dos escravos, como movimento de conjunto, sem apresentar
as contradições inerentes a essas mobilizações e práticas.
Cabe lembrar que a atuação das populações marginalizadas como a dos afrodescentes, hoje como no
passado, constroem estratégias de luta por vezes imperceptíveis dentro do próprio contexto opressor. Por
isso mesmo, não raro, tais estratégias são interpretadas de maneira equivocada, por vezes considerando-
se uma suposta “passividade”. No caso dos descendentes de africanos, sua resistência ao cativeiro estava
ligada às formas possíveis de sobrevivência, dentro dos limites oferecidos pela dominação do sistema
colonial e posteriormente durante o Império do Brasil independente. Muitas dessas formas de aparente
aceitação da condição escrava eram efetivamente ações dissimuladas que buscaram tornar a opressão
algo inoperante. A pesquisadora Lilia M. Schwarcz, tratando das especificidades da escravidão
brasileira, destaca os cuidados e dissimulação das manifestações religiosas africanas que ajudavam a
lidar com a violência do cotidiano, assim como mostra que tal esforço ainda está vivo na força da
influência africana entre seus descendentes nos dias de hoje.
Na mesma linha de interpretação da resistência ao cativeiro, a antropóloga Letícia Vidor faz
referência à noção de “negociação” para entendimento das variadas atitudes individuais ou coletivas dos
negros escravizados. Essas atitudes de dissimulação, ontem como hoje, ao promoverem aparentes
concessões à opressão e ações discriminatórias, atuam como elementos de afirmação dos direitos
socialmente conquistados. Quando esgotadas as possibilidades de negociações, o confronto direto, as
rupturas tornavam-se mais eminentes, como demonstram as seguidas revoltas escravas na história
brasileira. O negro cativo tecia sua resistência com as armas possíveis, por vezes encoberto em aparente
passividade, como ainda fazem seus descendentes nos guetos e periferias brasileiras.
Ainda hoje a população afrodescendente utiliza estratégias similares daquelas de seus ancestrais,
estimulada pela própria discriminação com que é tratada em seu cotidiano. As ações discriminatórias,
como os recentes atos de racismos averiguados em estádios de futebol contra jogadores, ainda fazem
parte da história atual do país.
É preciso lembrar ainda que parte significativa das incorporações das demandas da população
afrodescendente decorre das suas próprias lutas ao longo da história, da busca do reconhecimento na
sociedade brasileira. Sua trajetória tem sido marcada pela luta contra a exclusão social. Essa luta da
população afrodescendente tem se fortalecido por entidades tais como o Movimento Negro Unificado,
fundado em 1978, que ajudou a reorganizar os movimentos negros a partir dos anos de 1970 e é uma
referência para a militância negra atual, e o Geledés (Instituto da Mulher Negra), que luta pelos direitos
das mulheres negras. A atuação dos movimentos organizados ocorre em três frentes inter-relacionadas: a
frente histórico-cultural, a educacional, a político-jurídica.
No campo histórico-cultural, sobressai a busca pela valorização da história e da cultura dos
afrodescendentes. Nesse sentido, tem contribuído o revigoramento significativo, nas últimas décadas, de
manifestações do pujante hip-hop dos jovens das periferias brasileiras que trazem a cultura negra do
gueto para o centro das ações transformadoras. Tal cultura põe em movimento uma interessante dinâmica
social que reforça o elo desses jovens com a memória ancestral, cujo remanescente mais próximo é a
recente cultura black, e a forma mais longínqua são os ritmos de percussões ancestrais que ainda soam
nos batuques dos blocos de afoxés, nas baterias das escolas de samba, na cadência do berimbau e das
mãos, que marcam a ginga e fazem o capoeira reafirmar seu território.
No campo educacional, o movimento negro tem promovido ações significativas no sentido de ampliar
as possibilidades de aceso da população afrodescendente à instrução pública, gratuita e de qualidade.
São ações que tentam romper as barreiras e a dificuldade de acesso às universidades públicas, assim
como as consequências de ações discriminatórias, como, por exemplo, as leis do Império que tentaram
impedir o acesso dos negros à instrução pública, conforme estabelecido pelo Decreto n. 1.331, de 17 de
fevereiro de 1854, e o Decreto n. 7.032-A, de 6 de setembro de 1878. Existem hoje constantes
mobilizações junto ao setor educacional visando projetar e valorizar aspectos relegados da história e da
cultura afro-brasileira. Foi essa atuação que tornou possível a instituição de lei federal que tornou
obrigatório o ensino da história e da cultura afro-brasileira e africana obrigatório o ensino da história e
da cultura afro-brasileira e africana MEC).
No campo político-jurídico, a atuação do movimento negro organizado tornou possível a criação de
órgãos públicos que visam à promoção da população afrodescendente, como também à demarcação de
terras de remanescentes de quilombos e à punição legal de práticas de racismo e discriminação.
O Dia da Consciência Negra,portanto,deve ser visto não como mero contraponto a uma história
marcada por uma interpretação cujo principal personagem é um Estado benevolente, que com um simples
gesto despojado colocou fim ao cativeiro no Brasil,mas como momento para refletir sobre a situação
marginal de grande parte da população brasileira. Portanto, é igualmente um momento para potencializar
as estratégias de ações afirmativas que permitam à população afrodescendente e, por extensão, ao
conjunto da população brasileira marginalizada,reafirmar sua presença social,sua cidadania. Assim a
vida de Zumbi e a comunidade do quilombo de Palmares apresentam-se como instigantes paradigmas na
luta pelos direitos democráticos.

B IBLIOGRAFIA
MOURA, Clóvis. As injustiças de Clio: o negro na historiografia brasileira. Belo Horizonte: Oficinas de Livros, 1990.
MUNANGA, Kabengele (org.). Estratégias e políticas de combate à discriminação racial. São Paulo: Estação Ciência/EdUSP, 1996.
REIS, João José; GOM ES, Flávio dos Santos. Liberdade por um fio: história dos quilombos no Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1996.
SANTOS, Joel Rufino dos. Zumbi. 2. ed. São Paulo: Global, 2006.
SCHWARCZ , Lilia Moritz; REIS, Letícia Vidor de Sousa. Negras imagens: ensaios sobre cultura e escravidão no Brasil. São Paulo:
EdUSP/Estação Ciência, 1996.
SILVA, Alberto da Costa e. Um rio chamado Atlântico: a África no Brasil e o Brasil na África. Rio de Janeiro: Nova Fronteira/UFRJ, 2003.

Marco Antonio de Oliveira – Bacharel e licenciado em História pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da
Universidade de São Paulo (FFLCH-USP) e mestre em História da Educação pela Faculdade de Educação da USP.
22 DE NOVEMBRO DE 1910
REVOLTA DA CHIBATA
Regina Behar



mais significativa insurreição popular da Marinha brasileira ocorreu no Rio de
Janeiro, entre 22 e 26 de novembro de 1910, não sendo jamais reconhecida ou
comemorada oficialmente. Na historiografia brasileira, tem sido um dos menos
estudados episódios entre aqueles representativos das lutas pela cidadania
plena, encampadas por setores populares, marcadamente exescravos e seus
descendentes.
Marinheiros dos encouraçados Minas Gerais, São Paulo e Deodoro e do
scout Bahia deflagraram uma revolta armada para suprimir a prática
legalizada dos castigos corporais, entre os quais os mais rigorosos eram os
açoites e a chibata,associados imediatamente à escravidão.Marinheiros
negros, carregando panelas vazias, desfraldam uma bandeira branca com a
palavra de ordem “Viva a liberdade”. Pretendiam, ainda, a diminuição da
exaustiva carga de trabalho,melhoria da alimentação servida a bordo, reajuste dos soldos e folgas
regulares.
A Marinha, a mais aristocrática das armas brasileiras, era marcada por forte organização hierárquica.
Seus postos de comando eram ocupados exclusivamente por quadros oriundos das elites proprietárias.
Na base, os extratos mais pobres da sociedade.
As péssimas condições de trabalho, de remuneração e de tratamento dispensados aos marujos
colocavam a profissão entre as últimas alternativas, mesmo para os desempregados. Os marinheiros,
além disso, só podiam “dar baixa” após 15 anos de serviço. Assim, o alistamento voluntário era
insuficiente para suprir as necessidades de pessoal, levando à pratica do recrutamento forçado, que
potencializava a revolta e a violência cotidianas nos navios.
A falta de perspectivas de ascensão, a baixa remuneração, os maus-tratos sofridos e o rigor dos
métodos disciplinares incitavam as brigas dos marujos entre si e com oficiais de baixo escalão. O
alcoolismo e a desobediência eram respondidos com mais violência.
A República abolira os castigos físicos retomados, no entanto, por força do Decreto n. 328, de 1890,
que criou a Companhia Correcional e previa punições disciplinares, inclusive o açoite. Era o retorno da
chibata. A medida resultou de pressão dos oficiais para manter a ordem sobre a população embarcada,
vista como escória social, a ser mantida em regime de coerção ao trabalho e à disciplina militar.
Em 16 de novembro de 1910, o marinheiro Marcelino Rodrigues Menezes, do encouraçado Minas
Gerais, comandado pelo capitão-de-mar-e-guerra Batista das Neves, foi punido com 250 chibatadas por
ter ferido a canivete o cabo Valdemar Rodrigues de Sousa. Foi o estopim para a revolta, iniciada em 22
de novembro.
Rapidamente, os marinheiros dominaram os navios, muitos oficiais foram presos ou mortos. Marujos
tornaram-se comandantes. Os sublevados somavam mais de dois mil homens, liderados por João Cândido
e Francisco Dias Martins. A esquadra manteve a capital, Rio de Janeiro, sob a mira de canhões.
Os navios insurretos Minas Gerais e São Paulo eram as mais modernas embarcações de guerra do
país, recém-adquiridas da Inglaterra, com poder de fogo para causar grande destruição. A estadia dos
marinheiros na Inglaterra, em treinamento para uso dos equipamentos, teria contribuído para ampliar sua
consciência acerca da situação opressiva, em contraste com a importância dos conhecimentos adquiridos,
condição que os tornava imprescindíveis à operacionalização dos navios. A volta da chibata converteu-
se em Revolta da Chibata.
O governo ensaiou uma reação inútil ante a superioridade bélica da armada sublevada, não lhe
restando senão negociar a rendição, com a intermediação do deputado gaúcho José Carlos Carvalho,
comandante da Marinha. Este, recebido pelos revoltosos, relatou ao Congresso a gravidade da situação e
a disposição dos marinheiros em consumar o bombardeio, caso atacados, ou se não obtivessem êxito nas
reivindicações: fim da chibata e garantia de anistia, condições mínimas para a deposição das armas.
Após acalorado discurso de Ruy Barbosa a favor dos marinheiros, o Congresso votou a anistia,
sancionada pelo presidente da República, Hermes da Fonseca. Em 26 de novembro, os marinheiros
depuseram armas, liberaram os oficiais e os navios foram entregues aos comandantes.
A vitória dos revoltosos causou mal-estar nas cúpulas da Marinha de Guerra: oficiais mortos,
superiores desmoralizados, a cidade sitiada e nenhuma punição.Paraa elite dirigente,tal situação
demonstrava a fraqueza das instituições e servia como exemplo para movimentos similares.
Iniciaram-se manobras de dispersão dos líderes, desembarcados, transferidos para trabalho em terra.
Surgiram boatos sobre ameaça de prisões e execuções, que acabaram incitando uma segunda revolta, a de
9 de dezembro de 1910, reprimida violentamente. Esta serviu de pretexto para perseguir os marinheiros,
prender, deportar e executar líderes do primeiro levante.
João Cândido, encarcerado, escapou da chacina em prisão da Ilha das Cobras, onde morreram
asfixiados 16 dos 18 presos, comprimidos em cela fechada, sufocados por mistura de água e cal. Os
demais participantes das revoltas foram deportados para a Amazônia a bordo do navio Satélite. Alguns
foram executados no caminho e os restantes, enviados para seringais ou obrigados a se engajarem na
Missão Rondon. O governo Hermes da Fonseca e a Marinha de Guerra davam por encerrada a saga dos
marinheiros negros contra a chibata.
João Cândido e outros líderes, acusados de participar do segundo levante, aguardaram julgamento
durante 18 meses.Além de João Cândido, foram pronunciados Francisco Dias Martins, Manoel Gregório
do Nascimento, Ernesto Roberto dos Santos, Deusdedit Teles de Andrade, Raul de Faria Neto, Alfredo
Maia, João Agostinho, Vitorino Nicário dos Santos e Antonio Paulo. Por falta de provas e com a
brilhante defesa dos advogados, contratados pela irmandade da Igreja de Nossa Senhora do Rosário,
foram inocentados pelo Conselho de Guerra em 1912.
João Cândido, desligado da Marinha de Guerra, tentou manter-se em esquadra mercante, mas,
marcado por sua participação na revolta, foi sistematicamente alijado dos navios. Passou a sobreviver
como empregado na descarga de peixes, no entreposto de pesca da Praça 15, Rio de Janeiro.
De tempos em tempos, era procurado por jornalistas que escreviam matérias sobre o Almirante
Negro, trazendo à tona o nome e as façanhas do líder da Revolta da Chibata. Depois, voltavam ao
esquecimento o homem e o feito. João Cândido, velho e pobre, morreu de câncer aos 90 anos, em 6 de
dezembro de 1969.
Talvez a homenagem mais significativa ao velho Almirante Negro tenha vindo da MPB, na famosa
canção de João Bosco e Aldir Blanc intitulada “Mestre-sala dos mares”, que canta a glória às lutas
populares e ao verdadeiro monumento em torno daquela revolta, “as pedras pisadas do cais”.
A Revolta da Chibata acabou legalmente com os castigos corporais na Marinha brasileira e
simbolizou um passo na conquista da cidadania plena, por parte de um setor majoritariamente negro,
destruindo uma prática escravista persistente com a República, a evidenciar o preconceito contra os
descendentes de escravos no país.

B IBLIOGRAFIA
CARVALHO, José Murilo de. Os bordados de João Cândido. In: CARVALHO, José Murilo de. Pontos e bordados. Escritos de história e
política. Belo Horizonte: UFMG, 1998, pp. 15-33.
MAESTRI FILHO, Mario. 1910: a revolta dos marinheiros – uma saga negra. São Paulo: Global, 1982. (Coleção História Popular, 6).
_________. Cisnes negros: uma história da Revolta da Chibata. In: MOREL, Edmar. A Revolta da Chibata. 4 ed. Rio de Janeiro: Graal,
1986. Moderna, 2000. (Coleção Polêmica).
SILVA, Marcos A. Contra a chibata: marinheiros brasileiros em 1910. 2. ed. São Paulo: Brasiliense, 2002. (Coleção Tudo é História, 43).

Regina Behar – Professora adjunta do Departamento de História da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), mestre em
História Política pela Universidade de Brasília (UnB) e doutora em Ciências da Comunicação pela Universidade de São Paulo
(USP).
27 DE NOVEMBRO DE 1897
CINEMA BRASILEIRO
Eduardo Morettin



data que define o nascimento do cinema brasileiro é controversa por diversos
motivos. O primeiro deles diz respeito ao aspecto da atividade
cinematográfica que foi, em vários períodos, levado em consideração no
estabelecimento do momento inaugural. As primeiras comemorações tinham
um caráter oficial e foram realizadas entre os anos de 1936 e 1938 com o
objetivo de celebrar em maio o mês do cinema brasileiro. A efeméride era
vinculada à regulamentação pelo Governo Federal,em 26 de maio de 1934, de
um decreto que instituía a obrigatoriedade do curta-metragem nacional antes
da exibição de qualquer longa. Em um cenário marcado pela intervenção
estatal na cultura, característico da Era Vargas, o reconhecimento do cinema
como fator de integração nacional passava necessariamente pela identificação
do sujeito dessa ação, ou seja, o próprio Estado.
Se nos anos 1930 eram a exibição e o Estado os elementos a serem destacados, nos anos 1950 o
referencial é mudado. O surgimento da Vera Cruz e sua proposta de instalar no país um cinema industrial
foram acompanhados por um movimento de inserir o meio em balizas mais gerais do pensamento,
incluindo temas como nação, imperialismo e progresso. Nesse quadro, realizam-se congressos, mesas-
redondas, mostras retrospectivas, projetos de criação de institutos fomentadores e balanços históricos.
Assim, o I Congresso Nacional do Cinema Brasileiro, realizado em setembro de 1952, estabelece o dia 5
de novembro como o Dia do Cinema Nacional, data que até hoje é lembrada para comemorar o cinema
brasileiro. A escolha se devia à ação de Antônio Leal, cinegrafista português que teria filmado em 1903 a
avenida Central, hoje Rio Branco, na cidade do Rio de Janeiro. É assim que o apanhado feito por Carlos
Ortiz, por exemplo, em O romance do gato preto: história breve do cinema, de 1952, descreve “o
primeiro giro da manivela”. O referencial é, portanto, outro. Destacase a ação do cinegrafista,
responsável pela “certidão de nascimento”, e o centro das atenções reside agora na filmagem, não mais
na exibição.
O debate em torno da “paternidade” permanecerá até os anos 1990. Na década de 1950, no entanto,
as amplas sistematizações históricas já indicavam as lacunas e a necessidade de realizar novas
pesquisas, ancoradas em documentação mais consistente. Ainda em 1957, Adhemar Gonzaga, por
exemplo, já situava o final do século XIX como o momento dos primeiros registros cinematográficos.
Leal, por sua vez, foi desbancado do posto, pois foi constatado que seu envolvimento com o cinema data
de 1905. Nos anos 1960, Vicente de Paula Araújo já colocava à disposição dos pesquisadores os
resultados de seus levantamentos, somente publicados em 1976 em A Bela Época do cinema
brasileiro.Com base nele,situou-se no dia 19 de junho de 1898 o momento inaugural, segundo nota do
jornal A Gazeta de Notícias, que comunicava a chegada ao Rio de Janeiro de Afonso Segreto, vindo de
Paris. Segreto, a bordo de um navio e equipado de um cinematógrafo, “ao entrar à barra, fotografou [...]
as fortalezas e os navios de guerra”.
José Inacio de Melo Souza, em texto publicado em 1993, fixa nova ação e sujeito como fruto de seu
contato com o acervo do Arquivo Nacional. Ele localizou o pedido de patente feito no dia 27 de
novembro de 1897 pelo médico, advogado, bicheiro e empresário teatral José Roberto da Cunha Salles
de um invento denominado “fotografias vivas”. Como anexo comprobatório, são juntados à solicitação
dois fragmentos de filmes, 24 fotogramas no total, correspondendo a pouco mais de um segundo de
projeção. Ao contrário das indicações feitas acima, nas quais não há qualquer imagem dos eventos
mencionados, temos aqui o que restou do filme. Esses fotogramas podem ser vistos no experimental
Reminiscências (1997), do cineasta Carlos Adriano.
Certamente, objeções podem ser feitas a respeito da origem do material, uma vez que não seria
difícil imaginar Cunha Salles incorporando ao processo cenas registradas por outro cinegrafista em
outras praias. O interesse pelo mar pode ser atestado em um pequeno filme como Rough sea at Dover
(1895), do inglês Birt Acres. O espocar das ondas provavelmente atraia os cinegrafistas que procuravam
demonstrar a superioridade técnica de seu aparelho por meio da reprodução a mais nítida possível do
movimento das águas. Mares, praias, navios, rios e cataratas constituem objeto de um grande número de
filmes no chamado primeiro cinema. Nada impede, por sua vez, que nosso advogado-bicheiro tenha aqui
buscado algo que interessasse vivamente o público de sua época. Em virtude do registro da patente e da
existência do material, 27 de novembro pode ser considerada a data inaugural do cinema brasileiro.
Jean-Claude Bernardet, em seu livro Historiografia clássica do cinema brasileiro, de 1995,
comparando nossa historiografia com a de outros países, destaca uma diferença fundamental. Na França,
o nascimento do cinema é marcado pela projeção dos filmes dos irmãos Lumière em uma sessão pública
e paga no dia 28 de dezembro de 1895, ao passo que nosso batismo ocorre pelo acionamento da máquina
de filmar, independentemente da exibição e da existência ou não de um público.Nesse sentido,a
historiografia revela sua identificação com uma concepção de cinema restrita à produção de filmes,
deixando de lado a exibição e o contato com o público. Filosofia que, para Bernardet, expressa uma
visão corporativa que os cineastas brasileiros têm de si mesmos e que tinha responsabilidade pela
situação de estagnação na qual se encontrava a produção de filmes no país. O autor escreve em um
momento emque a chamada retomada do cinema brasileiro ainda não havia se configurado.
Dentro dessa perspectiva que privilegia a produção de filmes,em sua grande maioria ligada ao
universo ficcional, essa trajetória é marcada por diversos momentos. Tivemos os chamados ciclos
regionais, ocorridos em diferentes cidades, como Recife, Campinas, Guaranésia, Pelotas etc. De uma
delas, Cataguases, emergiu no final dos anos 1920 a figura de Humberto Mauro,tido como um dos
cineastas mais profícuos de nossa história. Da Cinédia, empresa criada por Adhemar Gonzaga em 1930,
surgiram obras importantes, como Ganga bruta (1933), de Mauro, O ébrio (1946), de Gilda Abreu, além
dos filmes musicais. As chanchadas estiveram ligadas ao nome da Atlântida, companhia fundada em
1941.AVera Cruz,empreendimento paulista existente entre 1949 e 1954, tornou possível O cangaceiro
(1953), de Lima Barreto. O Cinema Novo,com Glauber Rocha,e o chamado Cinema Marginal,com
Rogério Sganzerla e Júlio Bressane, atualizaram o cinema brasileiro dentro dos quadros das
transformações ocorridas na cinematografia mundial. Nomes como Eduardo Coutinho e Walter Salles
expressam a diversidade estética e o fortalecimento do documentário dentro do cinema brasileiro
contemporâneo.
No início do século XXI, outras são as questões, e a História atualmente produzida acerca de nossas
primeiras imagens em movimento deixa de lado a perspectiva autoral, pensando-a dentro de um
referencial no qual as questões de estilo estão vinculadas às temáticas da História cultural, como a das
mudanças provocadas pela percepção de um novo tempo (modernidade) e as suscitadas também pela
existência do cinematógrafo.Essa História cultural da modernidade tem um palco: a metrópole urbana.
Nessa perspectiva, diferentes recortes, temas e,enfim,datas estão surgindo.Por isso,o 27 de novembro
também é marcado pelo signo da transitoriedade.Deixemos que sua efemeridade ou permanência seja
determinada pelos próximos historiadores.

B IBLIOGRAFIA
ARAÚJO, Vicente de Paula. A Bela Época do cinema brasileiro. São Paulo: Perspectiva, 1976.
BERNARDET , Jean-Claude. Historiografia clássica do cinema brasileiro: metodologia e pedagogia. São Paulo: Annablume, 1995.
MORETTIN, Eduardo. Dimensões históricas do documentário brasileiro no período silencioso. Revista Brasileira de História. São Paulo,
jan./jul. 2005, v. 25, n. 49, pp. 125-52.
RAM OS, Fernão; MIRANDA, Luiz Felipe (orgs.). Enciclopédia do cinema brasileiro. São Paulo: Senac, 2000.
SOUZA, José Inácio de Melo. Descoberto o primeiro filme brasileiro. Revista USP. São Paulo, set./out./nov. 1993, n. 19, pp. 171-3. (Dossiê
Cinema Brasileiro).

Eduardo Morettin – Doutor em Cinema e professor de História do Audiovisual na Escola de Comunicações e Artes da
Universidade de São Paulo (ECA-USP).
14 DE DEZEMBRO DE 1838
BALAIADA
Rosa Godoy



Balaiada foi uma das mais importantes revoltas da História brasileira pela
complexidade de suas motivações, o contingente demográfico envolvido e a
sua configuração policlassista, envolvendo vários segmentos sociais,
sobretudo, os excluídos. No dia 14 de dezembro de 1838, a revolta eclode no
Maranhão e se alastra pelo Piauí, repercutindo no Ceará, Bahia e Goiás. Dela
participam cerca de oito mil homens livres pobres e mestiços e três mil negros
escravos.
A Balaiada irrompe em um quadro político conturbado na capital do
Império, Rio de Janeiro. A queda do regente Feijó abre espaço para o
Regresso, corrente parlamentar favorável à recentralização do poder para
conter as autonomias provinciais manifestas em inúmeras revoltas regionais do
período.
No Maranhão,as elites locais estavam divididas: os fazendeiros contra o controle da economia
regional por comerciantes portugueses; e cabanos contra bem-te-vis em disputa pelo poder provincial.
Em 1837, os liberais bem-te-vis caem do governo e sobem os cabanos conservadores, com maioria na
Assembleia Provincial. O presidente da província,Vicente Pires de Camargo,passa a perseguir os
adversários. Até 1834, o poder local era exercido pelas Câmaras Municipais, controladas por
proprietários de terras e de gado, que elegiam os juízes de paz, responsáveis pelas eleições, a ordem e o
comando da Guarda Nacional. Porém, a Lei n. 79, de 26 de junho de 1838, estabelece a nomeação de
prefeitos pelo presidente da província e toma as atribuições dos juízes. E a Lei n. 61 impõe o
recrutamento, que recai sobre agricultores, vaqueiros, agregados e escravos das fazendas dos bem-te-vis,
alistados na Guarda Nacional ou deslocados para as lutas no sul do país.
No Piauí, governa o fazendeiro e comerciante de gado Sousa Martins, depois Visconde do Parnaíba,
do Partido Liberal, mantendose no poder mesmo sob ministérios de conservadores na Corte.
A crise maranhense-piauiense também é econômica. As lavouras de exportação maranhenses (açúcar,
arroz e algodão) sofrem com a perda de mercados e os baixos preços decorrentes do controle por
portugueses e ingleses do comércio interprovincial e externo. Crise também da agropecuária piauiense,
com a perda dos mercados mineradores, ao final do século XVIII.
A sociedade maranhense apresenta graves divisões étnico-sociais. A escravidão barra o acesso das
camadas pobres às ocupações, gerando rancor de mestiços contra negros cativos. Isso não acontece no
Piauí, onde os escravos são pouco numerosos. Os despossuídos sentem-se lesados: a emancipação
política do país não os beneficiara.
A revolta é detonada quando Raimundo Gomes, vaqueiro de um padre bem-te-vi, transita pela vila da
Manga (hoje Nina Rodrigues) com uma boiada. O prefeito cabano da vila, adversário do padre, recruta e
prende alguns homens do comboio, inclusive o irmão de Gomes, que depois invade a cadeia, solta os
presos, ocupa a vila e, a 14 de dezembro de 1838, solta um manifesto, pedindo respeito à Constituição e
garantia aos cidadãos, abolição dos prefeitos e subprefeitos, saída dos portugueses dos empregos
públicos. Depois foge, arregimentando militares desertores, escravos fugidos, artesãos sem moradia,
vaqueiros sem trabalho, agricultores espoliados de suas terras, retirantes. É perseguido por tropas
legalistas.
Militares legalistas alojados na casa de Manoel dos Anjos Ferreira, lavrador e artesão de balaios
(apelidado de “Balaio”), estupram as suas duas filhas. Manoel, buscando vingança, reúne tropa em
janeiro de 1839 para perseguir os militares, juntando-se a Raimundo Gomes. A Balaiada deve seu nome a
esse personagem.
Os bem-te-vis procuram tirar proveito político, responsabilizando os cabanos pela situação. Mas a
revolta foge ao seu controle, não é mais uma simples disputa de poder entre as elites. É luta contra a
miséria, os proprietários de terras, o abuso das autoridades.
O negro livre Cosme Bento das Chagas, líder de três mil negros aquilombados, também adere a
Gomes. Sabia ler e escrever e fundou uma escola em seu quilombo de Lagoa Amarela. Intitula-se “Tutor,
Imperador e Defensor da Liberdade Bem-te-vis”. Ataca as fazendas, alforriando os escravos.
A Balaiada reúne, pois, motivações liberais, nacionais e étnicas, criando distintas linhas de ação
entre bem-te-vis e balaios e entre balaios e negros escravos. Os liberais veem os balaios como
desordeiros. Os balaios, homens livres pobres e mestiços, querem ser diferenciados dos escravos: “Fora
feitores e escravos”, dizia o manifesto de Raimundo Gomes.
O movimento irradia-se pelo Maranhão. Mesmo vencidos na Barra do Longá, os revoltosos vão
dominando muitas localidades. O massacre dos legalistas em Angicos aumenta o prestígio dos balaios
junto às massas. Surgem novos chefes balaios: Relâmpago, Trovão, Corisco, Canino, Sete Estrelas,
Tetéu, Andorinha, Tigre, João Cardoso, Gitirana, os irmãos Ruivos,Cocque,Mulungueta,Matruá,Francisco
Ranelinho,José Gomes. As expedições oficiais não detêm os revoltosos. O presidente da província é
substituído. Em 1º de julho de 1839, os balaios tomam a cidade de Caxias. Instala-se uma Junta
Provisória e um Conselho Militar formado pelos chefes rebeldes. Uma deputação para negociar a paz se
nomeia como partido bem-te-vi, fala em nome do povo e da tropa. O Conselho Militar reitera os pleitos
do manifesto de Gomes, solicita anistia, indenização às tropas, obediência às leis, empregos públicos
para os oficiais bem-te-vis, prometendo depor as armas se for atendido.
Com a promessa do presidente da província, Manuel Felizardo, de revogar as Leis n. 79 e n. 61, os
liberais, temendo perder suas propriedades, retiram-se da luta.Diante do grande númerode negros
revoltosos,é grande o medo de uma revolução “haitiana”. Fazendeiros e comerciantes organizam apoio
ao governo e doações para subornarem os líderes populares.
A revolta ainda se estende ao Piauí, liderada por Lívio Castelo Branco, inimigo do Visconde de
Parnaíba, que reage, ataca e liberta Caxias, que é retomada pelos balaios. Ferreira dos Anjos, o
“Balaio”, é morto nesse combate.
Os balaios radicalizam e aproximam-se da insurreição escrava. A revolta assume um eixo de
pobreza-cor. Alarma as elites. O Governo imperial reage. Envia tropas do Pará e Piauí. Navios de guerra
aportam na capital. O coronel Luís Alves de Lima e Silva, nomeado comandante militar e novo
presidente do Maranhão, procura apoio: abastece as tropas, paga os soldos atrasados, constrói hospitais,
protege as propriedades e proíbe a violência contra a população civil. Busca unir as elites e impedir a
junção entre balaios e escravos, jogando uns contra outros. Balaios lutam contra os negros de Cosme em
troca de anistia.
Os oito mil soldados legalistas, divididos em três colunas, cercam o reduto balaio em Brejo. Castelo
Branco se retira da luta. Caxias é retomada pelos legalistas.Raimundo Gomes tenta reagir,mas suas forças
debandam, depõem armas ou internam-se pelo sertão, dando origem aos primeiros grupos de cangaceiros
ou jagunços profissionais.Negadas as suas condições para capitular, Gomes refugia-se junto aos negros
de Cosme, que o aprisionam. Escapando, ainda tenta apoderar-se de Rosário e Miritiba, mas é preso.
Cosme Bento das Chagas é capturado, julgado e enforcado em 1842, para servir de exemplo. Os balaios
são anistiados. O coronel Lima e Silva recebe o título de barão de Caxias.

B IBLIOGRAFIA
ASSUNÇÃO, Mathias Röhrig.História do Balaio: historiografia,memória oral e as origens da balaiada. Revista da Associação Brasileira de
História oral. São Paulo, 1998.
CRUZ , Magno. Negro Cosme e a Guerra da Balaiada no Maranhão. São Luís: CCN/M A, 2002. (História em quadrinho).
DIAS, Claudete Maria Miranda. Balaiada: a guerrilha sertaneja. Estudos, Sociedade e Agricultura, n. 5, nov. 1995, pp. 73-88.
JANOTTI, Maria de Lourdes Mônaco. A Balaiada. 2. ed. São Paulo: Brasiliense, 1987.
OLIVEIRA, Maria Amélia Freitas M. de. A Balaiada no Piauí. Teresina: Projeto Petrônio Portella, 1985.

Rosa Godoy – Graduada, mestre, doutora e pós-doutora em História pela Universidade de São Paulo (USP). Docente dos
Programas de Pós-Graduação em História da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e da Universidade Federal da
Paraíba (UFPB).
22 DE DEZEMBRO DE 1988
MORTE DE CHICO MENDES
Marcos Montysuma



morte de Francisco Alves Mendes Filho, ocorrida em 22 de dezembro de
1988, na cidade de Xapuri, estava sob o signo da “morte anunciada”. Chico
desconfiava que seria executado fora do Acre, em um ataque disfarçado de
latrocínio ou outro motivo banal, evitando, assim, pairar sUSP eitas sobre a
União Democrática Ruralista (UDR) e autoridades, acumpliciadas com
fazendeiros. Era de domínio público que expressivos políticos, policiais e um
juiz interagiam com fazendeiros, conspirando para eliminar o sindicalista.
Durante o ano de 1988, várias provas (fontes contidas no Dossiê Chico
Mendes: cobertura da imprensa) foram enviadas por Chico Mendes às
autoridades, para que se antecipassem aos seus perseguidores. Porém, os autos
processuais não apontaram outros envolvidos em seu assassinato além de
integrantes do clã dos Alves, Darli Alves da Silva e Darcy Alves Pereira, pai
e filho, respectivamente, mandante e executor confesso.
Os fazendeiros do Acre queriam a morte de Chico Mendes porque ele liderava um sindicato que,
através do empate, lhes impedia de especular terras e transformar a floresta em pasto.
O empate é uma estratégia de resistência pacífica organizada pelo Sindicato dos Trabalhadores
Rurais de Xapuri. Consiste em reunir seringueiros, preparar meticulosamente ações de abordagens para
impedir o desmatamento. E também define funções específicas de certos integrantes do sindicato na
vanguarda, como prevenção contra surpresas desagradáveis quando do contato com peões e jagunços. A
experiência ensinara que, nessas ocasiões, negociações tensas poderiam gerar incidentes desnecessários.
Seringueiros mobilizados caminhavam na floresta durante a noite em direção ao local do desmatamento.
Em certas oportunidades, crianças e mulheres funcionavam como proteção, por ficarem entre os filiados
ao sindicato e a polícia, que apoiava o desmatamento.
Por deliberação da diretoria do sindicato, Chico Mendes não comparecia a todo empate, cabendo a
direção do evento aos delegados sindicais das áreas em litígio. Essa decisão visava preservar a vida de
Chico, fortalecer politicamente os líderes locais e intensificar o espírito de união no sindicato.
Ainda que as negociações fossem demoradas e desgastantes, através dos empates os seringueiros
conseguiram expressivas vitórias. Nessas oportunidades ficou clara a incapacidade dos fazendeiros em
lidar com aquele tipo de confronto. Passaram, então, a nutrir ódio mortal contra Chico Mendes, que,
tomado como “mentor intelectual” dos empates, fora jurado de morte.
Os fazendeiros ficaram ainda enfurecidos pelo fato de o governo federal ter atendido o pleito dos
seringueiros criando as reservas extrativistas, que são áreas destinadas aos moradores da floresta que
exploram os recursos naturais de forma sustentável. As áreas de terra desapropriadas para reserva
tiveram o preço “aviltado” desfavorecendo os especuladores.
Mas um episódio em particular serviu de “justificativa” para o assassinato de Chico Mendes, como
alegaram integrantes da UDR. Um advogado do Instituto de Estudos da Amazônia (IEA) localizou, na
justiça do Paraná, um mandado de prisão por assassinato contra os irmãos Darli e Alvarino Alves da
Silva, expedido pelo juiz da comarca de Umuarama. Tendo recebido cópia desse documento, Chico
Mendes o remeteu ao superintendente regional de Polícia Federal/AC, Mauro Spósito, para que o
cumprisse. Passado algum tempo, o referido mandado chegou à comarca de Xapuri, que tomou as
medidas cabíveis, enviando-o para a Polícia Militar executar a missão, que recuou ao ser recebida à bala
na propriedade dos Alves.
Para escapar de serem presos, os Alves fugiram de Ipanema para Umuarama, e de Umuarama para
Xapuri. Chico Mendes teria interpretado essa nova fuga como decorrente do envolvimento de Mauro
Spósito com os criminosos, daí acusá-lo de lhes informar sobre a existência do mandado de prisão,
oferecendo elementos para resistência e fuga, conforme ocorrera. Mauro Spósito responde acusando
Chico Mendes de ser informante da Polícia Federal. Esse confronto foi coberto pelos jornais entre os
dias 2 a 6 de dezembro de 1988. Chico Mendes só voltaria ao noticiário em 23 de dezembro de 1988,
morto.
O mandado de prisão executado naquelas circunstâncias transformou Chico num alvo fácil. Os
inimigos dos seringueiros encontraram ali o álibi para caracterizar o crime de caráter pessoal,pelo qual
se preservou a existência do aspecto de trama em rede gerado no interior de uma entidade representativa,
que estava envolvida na busca de sua morte. Após o crime, as Polícias Civil e Militar promoveram
barreiras nas rodovias, efetuaram prisões de jagunços, capatazes e fazendeiros a procura de provas que
indicassem seus matadores.
Em episódio insólito, certo fazendeiro, nervoso ao ser preso, confessou na frente da imprensa ter
participado das articulações do assassinato, cujo acerto correra numa mesa de carteado num cassino
clandestino, no Club Rio Branco. Depois foi posto em liberdade e a informação não chegou a ser
investigada por autoridades policiais.
O presidente da UDR no Acre afirmara ter conhecimento de que os irmãos Darli e Alvarino Alves
estavam envolvidos no assassinato, que um dos filhos de Darli, o Oloci ou Aparecido, teria apertado o
gatilho e que poderia apresentar-se a qualquer momento. Horas depois dessa declaração, Darcy Alves
Pereira entregou-se à polícia, seguido de seu pai, Darli Alves da Silva. Realizaram as investigações, que
consumaram as acusações restritas aos Alves.
A data do assassinato de Chico Mendes em 22 de dezembro é marcada pela rememoração dos ideais
do líder sindical. O sindicato mobiliza seus associados para um ritual de confirmação de seus ideários
políticos; e, quando em vida, Chico era quem os externava de modo peculiar. Para tal fim é elaborada
extensa programação que contempla desde atividades como venda de produtos de origem florestal, até
baile dançante, show musical, projeção de vídeo, debates, reuniões e comícios. O ponto alto da
programação ocorre com a procissão e visita à sepultura do líder sindical, no fim se reza uma missa
campal no horário do assassinato: às 18h.
Em outros centros pelo país, a data é marcada por seminários, debates, palestras, filmes. Nos eventos
anuais em torno da memória de Chico Mendes, alguns setores escolhem despi-lo de conteúdo político
com formação e pensamento de esquerda; negam-lhe expressar a alteridade do povo que liderava.
Preferem apresentá-lo apenas como líder ecológico que amava a floresta em si, vindo a morrer por ela.
Conhecemos um Chico Mendes que acreditava na defesa da floresta, compreendida em modelos
forjados por homens da floresta, apontando estratégias situadas na identificação dos sujeitos com aquele
meio ambiente. Assim, preservar a floresta significa também preservar culturas de habitantes das matas,
que não existem sem que a floresta seja por eles reconstruída para que possam existir através da
preservação daquela que os acolhe.

B IBLIOGRAFIA
GRZYBOWSKI, Cândido. O testamento do homem da floresta: Chico Mendes por ele mesmo. Rio de Janeiro: Fase, 1989.
MANASFI, Maha K. M. Dossiê Chico Mendes: cobertura da imprensa. Rio Branco: TJA, 2001.
RODRIGUES, Gumercindo. Caminhando na floresta. Rio Branco: s. n., 2003.

Marcos Montysuma – Doutor pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e professor de História da
Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), é especialista em História Ambiental e História Oral. Foi assessor do Sindicato
dos Trabalhadores Rurais de Xapuri no período de 1983-1984, sob a presidência de Chico Mendes.
28 DE DEZEMBRO DE 1943
ESTREIA DA PEÇA VESTIDO DE NOIVA
Alberto Guzik



inte e oito de dezembro de 1943. Essa noite mudou o teatro
brasileiro para sempre. Foi quando estreou a peça Vestido de
noiva, de Nelson Rodrigues, no Teatro Municipal do Rio de
Janeiro. A direção era assinada pelo polonês Zbigniew
Ziembinski e a cenografia pertencia ao artista plástico
pernambucano Tomás Santa Rosa. O grupo que apresentou a
peça era formado por amadores cariocas. Mas não por quaisquer
amadores. Os Comediantes, nome da trupe comandada por
Brutus Pedreira, foi uma das equipes que, ao lado de outras (o
Teatro do Estudante, de Paschoal Carlos Magno, o Teatro
Universitário, de Décio de Almeida Prado, e o Grupo de Teatro
Experimental, de Alfredo Mesquita), ajudaram a implantar uma
nova estética no palco brasileiro.
Desafiando uma censura repressora, os amadores empreenderam, em fins dos anos 1930 e ao longo
dos 1940, um processo de modernização das ideias cênicas, dos procedimentos de encenação, das formas
de atuação. O teatro brasileiro, ao longo do século XIX, teve vasta atividade, na maior parte movida a
textos importados da Europa, especialmente França e Portugal. Reinavam aqui a opereta e a revista,
gêneros ligeiros que não despertavam entusiasmo de quem desejava no teatro um instrumento para se
atingir altitudes na reflexão sobre a condição humana. No começo do século XX, o cardápio continuou o
mesmo, com o predomínio do velho teatro de revista. A alteração decorreu do fato de que a comédia de
costumes tomou o lugar da decadente opereta. Uma troca de seis por meia dúzia.
Contra esse quadro começaram a operar os amadores. Produziram espetáculos em que apresentavam
textos ambiciosos. Deram ênfase a processos que em palcos europeus e norteamericanos estavam sendo
desenvolvidos desde o início do século XX. Trouxeram para cá conceitos que o tacanho teatro brasileiro
ainda não havia explorado. Nessa época de efervescência cultural, que teve como pano de fundo nacional
a ditadura Vargas (1930-1945) e como moldura internacional a Segunda Grande Guerra (1939-1945)
1945), surgiu um dramaturgo brasileiro que daria ao teatro dos amadores o lastro de que precisava para
lançar de vez uma revolução com efeitos duradouros e consistentes.
Foi Nelson Rodrigues esse artista. Jornalista profissional, casado, pai de família, Nelson estava
sempre atrás de meios de aumentar a receita doméstica. Uma noite saiu do jornal em que trabalhava, no
centro do Rio. A caminho do ponto de ônibus, passou pela Cinelândia e viu uma imensa e compacta fila
de gente na frente de um teatro. Aproximou-se. Foi informado de que o ator Jayme Costa apresentava ali
A família lero-lero, comédia de Raimundo Magalhães Júnior. Enquanto Nelson se afastava, ouviu alguém
dizer: “Esse Raimundo está faturando os tubos”. Foi quanto bastou. O jornalista chegou em casa decidido
a escrever uma comédia e “faturar os tubos” também.
Naquela noite mesmo começou. Na segunda linha de sua peça, Nelson percebeu que seria uma
tragédia. E não foi capaz de trair seu instinto para tentar escrever algo mais do agrado do público.
Produziu a obsessiva A mulher sem pecado, montada em fins de 1942 por Rodolfo Mayer. Não foi um
terremoto, mas chamou a atenção de gente do quilate de Manoel Bandeira para o talento do jovem
dramaturgo. No ano seguinte, a coisa mudou de figura. Nelson Rodrigues escreveu Vestido de noiva, peça
que tem uma ambição estrutural e narrativa inédita naqueles dias.
O texto se passa em três planos, realidade, memória e alucinação. Enquanto o plano da realidade
mostra as horas finais da jovem e bela Alaíde, atropelada na Glória e agora sendo operada, os planos da
memória e da alucinação revelam o que se passa na sua cabeça, desvelando seus sonhos e segredos. Em
cenas breves, Nelson constrói um clima neurótico, obsedante. Ilumina em camadas sucessivas os
impulsos profundos da personagem, até que, ao final, o espectador entende a dimensão de uma trágica
vida estéril.
A montagem de Zbigniew Ziembinski empregou um ritmo dinâmico tomado da estética expressionista.
A cenografia de Santa Rosa quebrou a tradição realista do palco brasileiro e, seguindo a rubrica inicial
da peça, dividia o espaço em três andares ligados por escadas. Tudo muito simples e elegante. O espaço
branco serviu a Ziembinski como moldura perfeita para a ação frenética que desencadeou, obedecendo
ao andamento rápido do original.
Ficaram famosos os 143 movimentos elaborados pelo encenador no mapa de luz. Nunca no Brasil
vira-se algo assim. A luz dos espetáculos costumava ser convencional, sem maior criatividade: luz geral
para cenas diurnas, outra para cenas noturnas. Depois de Vestido de noiva, a iluminação passou a ser
aceita entre nós como um dos elementos da estética da encenação. Em Vestido de noiva, de linguagem
fragmentária e narrativa complexa, as inúmeras mudanças de luz favoreciam o ritmo, o movimento interno
da montagem. A partir do texto, encenação e iluminação materializaram a agonia de Alaíde e suas visões
internas. Fizeram o público entender o percurso da personagem, que revê sua relação com o marido,
Pedro, que “roubou” da irmã, Lúcia. E esclareceram o fascínio intenso de Alaíde pela figura da francesa
Mme Clessy, prostituta de luxo do início do século, assassinada por um amante de 16 anos de idade.
Interpretadas por amadores na estreia, as personagens Alaíde e Lúcia viriam a ser vividas depois,
ainda em produção d’Os Comediantes, por duas das mais talentosas entre as jovens atrizes dos anos
1940: Cacilda Becker e Maria Della Costa. O texto seria produzido nas décadas seguintes por Sérgio
Cardoso, Márcio Aurélio, Eduardo Tolentino de Araújo. Antunes Filho transformou-o em um especial
para TV, em produção da TV Cultura, estrelada por Lillian Lemmertz na década de 1970. E Joffre
Rodrigues, filho de Nelson, fez a primeira versão cinematográfica do clássico do teatro.
Pode-se dizer que o palco brasileiro seria outro sem Nelson e sem Vestido de noiva. Aclamado com
entusiasmo na noite da estreia, naquele distante 1943, o texto, que viria a ser um divisor de águas, deixou
para o teatro brasileiro um legado que ainda não cessou de se desdobrar. Sem o formidável e controverso
desbravador de caminhos que foi Nelson, seria muito diversa a trajetória de Jorge Andrade, Plínio
Marcos, Leilah Assunção, Consuelo de Castro, Luís Alberto de Abreu, Naum Alves de Souza, Maria
Adelaide Amaral, Mauro Rasi, Dionísio Neto e mais uma vasta plêiade de autores de talento que
trilharam e/ou vêm trilhando com vigor o caminho aberto pelo autor do Vestido de noiva.

B IBLIOGRAFIA
CASTRO, Ruy, O anjo pornográfico. São Paulo: Companhia das Letras, 1992.
MAGALDI, Sábato. Nelson Rodrigues: dramaturgia e encenações. São Paulo: Perspectiva, 1987.
________. Panorama do teatro brasileiro. São Paulo: Global, 1997.
MICHALSKI, Yan. Ziembinski e o teatro brasileiro. Rio de Janeiro: Hucitec/Ministério da Cultura/Funarte, 1995.
RODRIGUES, Nelson. Teatro completo. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1993.

Alberto Guzik – Ator, diretor, dramaturgo, escritor, crítico teatral e repórter. Mestre em Teatro pela Escola de Comunicação e
Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP). Integra a Cia. de teatro Os Satyros e é autor de vários livros.
ÍNDICE TEMÁTICO
CULTURA
A final Copa de 1950
Cinema brasileiro
Criação da Impressão Régia
Dia de Nossa Senhora Aparecida
Dia do Livro Infantil
Dia do Rádio
Dia Internacional da Alfabetização
Estreia da peça Vestido de noiva
Festas juninas
Imigração no Brasil
Inquisição no Brasil
Música Popular Brasileira
Reforma pombalina
Semana de Arte Moderna
Televisão no Brasil

ECONOMIA
Abertura dos portos
“Descoberta” da América
“Descobrimento”do Brasil
Fim do domínio holandês
Greves de 1978
Greve geral no país
Inauguração da primeira estrada de ferro
Independência do Brasil
Imigração no Brasil

GUERRAS E REVOLUÇÕES
Balaiada
Brasil na Segunda Guerra Mundial
Cabanagem
Destruição de Canudos
Dia do Soldado
Fim do domínio holandês
Guerra da Cisplatina
Guerra do Contestado
Guerra dos Bárbaros
Guerra dos Farrapos
Guerra dos Sete Povos das Missões
Independência da Bahia
Revolução Constitucionalista de 1932
Revolução de 1930
Revolução Praieira
Tratado da Tríplice Aliança

MOVIMENTOS E LUTAS SOCIAIS


Abolição da escravatura
Anistia
Balaiada
Cabanagem
Destruição de Canudos
Dia da Consciência Negra
Dia do Índio
Dia do Orgulho Gay
Dia do Professor
Dia Internacional da Mulher
Dia Mundial do Trabalho
Diretas Já
Greves de 1978
Guerra do Contestado
Greve geral no país
Independência do Brasil
Instituição do voto secreto e feminino
Levante dos Malês em Salvador
Massacre de Eldorado dos Carajás
Morte de Chico Mendes
Morte de frei Caneca
Morte de Manuel Fiel Filho
Proclamação da República
Promulgação do Estatuto da Criança e do Adolescente
Revolta da Chibata
Revolta da Vacina
Tiradentes

POLÍTICA
Abdicação de D. Pedro I
Abertura dos portos
Abolição da escravatura
Anistia
“Descoberta” da América
“Descobrimento” do Brasil
Dia da Bandeira
Dia do Soldado
Dia Mundial do Trabalho
Dia Internacional da Alfabetização
Diretas Já
Fim do domínio holandês
Golpe de 1964
Guerra dos Farrapos
Imigração no Brasil
Inauguração de Brasília
Independência da Bahia
Independência do Brasil
Inquisição no Brasil
Instituição do voto secreto e feminino
Maioridade de D. Pedro II
Morte de Chico Mendes
Morte de frei Caneca
Morte de Manuel Fiel Filho
Proclamação da República
Promulgação do Estatuto da Criança e do Adolescente
Reforma pombalina
Revolução Constitucionalista de 1932
Revolução de 1930
Revolução Praieira
Tiradentes

TECNOLOGIA E CIÊNCIA
Descoberta da doença de Chagas
Dia da Aviação
Dia do Rádio
Televisão no Brasil
ÍNDICE POR ANO
1492 “Descoberta” da América

1500 “Descobrimento” do Brasil

1654 Fim do domínio holandês

1699 Guerra dos Bárbaros

1711 Inquisição no Brasil

1756 Guerra dos Sete Povos das Missões

1759 Reforma pombalina

1792 Tiradentes

1808 Abertura dos portos Criação da Impressão Régia

1822 Independência do Brasil

1823 Independência da Bahia

1825 Morte de frei Caneca

1828 Guerra da Cisplatina


1831 Abdicação de D. Pedro I

Cabanagem
1835
Levante dos Malês em Salvador

1838 Balaiada

1840 Maioridade de D. Pedro II

1845 Guerra dos Farrapos

1848 Revolução Praieira

1854 Inauguração da primeira estrada de ferro

1865 Tratado da Tríplice Aliança

1888 Abolição da escravatura

1889 Proclamação da República

(1889) Dia da Bandeira

(1890) Dia Mundial do Trabalho

Destruição de Canudos
1897
Cinema brasileiro

1902 Imigração no Brasil

1904 Revolta da Vacina


(1906) Dia da Aviação

1909 Descoberta da doença de Chagas

1910 Revolta da Chibata

1912 Guerra do Contestado

Música Popular Brasileira


1917
Greve geral no país

1922 Semana de Arte Moderna

(1925) Dia do Soldado

1930 Revolução de 1930

Instituição do voto secreto e feminino


1932
Revolução Constitucionalista de 1932

(1933) Dia do Professor

1942 Brasil na Segunda Guerra Mundial

(1943) Dia do Índio

1943 Estreia da peça Vestido de noiva

A final da Copa de 1950


1950
Televisão no Brasil

1960 Inauguração de Brasília


1964 Golpe de 1964

(1966) Dia Internacional da Alfabetização

(1966) Dia do Rádio

(1969) Dia Internacional do Orgulho Gay

(1975) Dia Internacional da Mulher

1976 Morte de Manoel Fiel Filho

1978 Greves de 1978

1979 Anistia

(1980) Dia de Nossa Senhora Aparecida

1984 Diretas Já

1988 Morte de Chico Mendes

1990 Promulgação do Estatuto da Criança e do Adolescente

(1995) Dia da Consciência Negra

1996 Massacre de Eldorado dos Carajás

(2002) Dia do Livro Infantil


(?) Festas juninas
A ORGANIZADORA
Circe Bittencourt – Licenciada e bacharel em História pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências
Humanas (FFLCH-USP ). Fez mestrado e doutorado em História Social pela FFLCH-USP . Atualmente é
professora de pós-graduação na Faculdade de Educação da USP . É organizadora do livro O saber
histórico na sala de aula, publicado pela Editora Contexto.