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Somos idólatras?

É curioso notar que, apesar de suas diferenças, quase todas as igrejas


protestantes costumam levantar contra o Catolicismo Romano as mesmas e
conhecidas objeções: somos acusados de adorar imagens, de inventar
dogmas, de deturpar as Escrituras etc. Esse fato, porém, longe de causar
espanto, deveria suscitar-nos uma dúvida a que a Apologética tradicional
parece não ter dado muita atenção: afinal de contas, haverá algum princípio
teológico fundamental a que podem reduzir-se todas e quaisquer críticas
protestantes à Igreja de Cristo?

Nesta aula do curso "Por que não sou protestante", Padre Paulo Ricardo nos
ajuda a fazer essa reflexão e a meditar sobre o que de fato nos identifica como
católicos.
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Quem quer que se diga católico já foi alguma vez confrontado com as incontáveis
perguntas que os protestantes das mais variadas denominações costumam lançar-nos à
cara. "Não se podem adorar imagens!" "Por que vocês idolatram o Papa?" "Cristo é o
único Mediador!" Essas são algumas das inúmeras contestações que, sempre ouvidas e
incansavelmente repetidas, fazem titubear a fé de não poucos católicos.

Embaraçados em meio a tantas interrogações — feitas muitas vezes com uma indignação
pouco favorável ao diálogo franco e sereno —, os fiéis acabam perdendo a chance de se
perguntarem, diante de Deus e de suas próprias consciências: "Afinal, por que motivo
sou católico, e não protestante? Qual é, enfim, a minha identidade?" Fazemo-nos
reféns de perguntas periféricas e, à busca de respostas apressadas, deixamos sem solução
um problema mais fundamental, a saber: a razão mesma de nossa pertença a uma Igreja
que, desde suas origens, é por todos rechaçada e de todos os lados fustigada. É a essa
reflexão que queremos dedicar o presente curso.

Com efeito, é curioso notar que, apesar da desunião que lhes é característica, basicamente
todas as igrejas que, por hábito e simplificação, costumamos chamar "protestantes"
parecem fazer coro e entoar, uníssonas, as mesmas e tão conhecidas objeções; desde
Lutero e Calvino, continuam a ser repetidas contra a Igreja que há dois milênios se diz
fundada por Jesus Cristo as mesmas "ladainhas". De fato, não há um só ponto de nossa
doutrina que, para o espírito protestante, mereça ficar de pé. Diga ou não respeito ao
papado ou ao Batismo de crianças, tudo quanto cheire a catolicismo é desde logo rejeitado
como mera idolatria e invencionice humana, quer sejam evangélicos, metodistas, batistas,
adventistas ou mórmons os cristãos com os quais estamos debatendo.

Esse fato por si só já nos deveria despertar para a existência de uma realidade que, até onde
se pode ver, passou despercebida a muitos teólogos e apologetas, qual seja: o princípio de
unidade a que se podem reduzir todas e quaisquer impugnações que, do lado
protestante, são feitas à Igreja Católica. Referimo-nos, por assim dizer, a um coração
que bombeia sangue a corpos distintos, ao princípio teológico capital que une "irmãos" há
muito separados, que, enfim, dá um só tom a uma multidão de vozes.

É ainda mais curioso notar, porém, que este trabalho já foi feito. Mas do lado protestante.
À frente do movimento neo-ortodoxo, Karl Barth buscou condensar num só princípio o
motivo por que, para ele, não se pode ser católico. "Por isso", escreve em sua Dogmática
Eclesial, "sustento que a analogia entis é uma invenção do anticristo, e penso que
exatamente por causa dela não é possível tornar-se católico." [1] O primado da analogia
fidei, por sua vez, encontra em Barth uma tal radicalidade que, em consonância com a
visão luterana de uma natureza humana essencialmente corrompida, toda teologia
natural — na medida em que se serve de conceitos extraídos do mundo criado para
exprimir a realidade de Deus — se torna uma verdadeira fábrica de ídolos. "Quero
acrescentar ainda", conclui, "que todas as outras razões que se podem aduzir para não se
tornar católico parecem-me pueris e sem importância." [2]

Ora, se entre os protestantes, como quer que se identifiquem, foi possível chegar a um
denominador comum à luz do qual o catolicismo se torna inaceitável, não podemos
também nós mostrar o porquê de o protestantismo ser, do ponto de vista da fé católica,
radicalmente inadmissível? Afinal, não podemos nós, na linha do que ensinam o
Magistério Eclesiástico bimilenar e os mais aprovados teólogos, encontrar um princípio
antiprotestante? É em vista disso que o Padre Paulo Ricardo, num esforço de reflexão
pessoal, convida todos os católicos a considerar as razões fundamentais da nossa esperança
(cf. Pd 3, 15) e as notas distintivas da doutrina da santa mãe Igreja.
Adoramos a carne?
Em virtude da união hipostática, a única e mesma pessoa de Cristo Jesus,
Verbo eterno de Deus, possui íntegras, unidas e inconfusas duas naturezas: a
divina, que o Pai lhe comunica desde todo o sempre, e a humana, criada pelo
poder do Espírito Santo no seio da Virgem Maria.

Nesta aula do curso "Por que não sou protestante", Padre Paulo nos explica
como vários dos erros subjacentes à Reforma de Lutero estão mediata ou
imediatamente relacionados à negação deste artigo capital da fé cristã.
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Apresentamos na aula passada o problema que procuraremos enfrentar ao longo dos
próximos encontros, bem como as motivações que nos impelem a fazê-lo. Vimos que, de
acordo com o teólogo protestante Karl Barth, todas as razões que se costumam levantar
para não se tornar católico podem reduzir-se a um único e fundamental princípio:
a analogia entis. A intenção deste curso, também já o deixamos claro, não é analisar o
pensamento de Barth nem tampouco mostrar como se lhe pode responder à luz da doutrina
católica. Pretendemos tão-somente, a exemplo dele, chegar também nós ao motivo básico
por que, para os católicos, o protestantismo é de todo inaceitável.

Trata-se, por assim dizer, de encontrarmos a premissa primeira da qual a boa parte das
denominações protestantes, por maiores que sejam os desacordos entre elas, costumam
haurir em comum suas objeções à Igreja Católica. Afinal de contas, por que não aceitam
elas a Sagrada Tradição? Por que desprezam a devoção à Virgem Maria? O que as leva a
negar a origem divina da Igreja e a instituição dos sete Sacramentos? Como, enfim,
conseguem cingir-se tão ferrenha e exclusivamente à Sagrada Escritura, a ponto de
negarem ensinamentos que com toda clareza ali mesmo estão contidos, como o valor
meritório das obras?

Reduzidas, pois, ao seu princípio teológico capital, todas as objeções que do lado
protestante nos habituamos a ouvir não radicam senão na negação da communicatio
idiomatum. Os católicos creem, com efeito, que, devido à união hipostática, a única e
mesma pessoa de Nosso Senhor Jesus Cristo, Verbo eterno do Pai, possui íntegras, unidas
e inconfusas as naturezas divina e humana. Por isso, embora em Cristo essas duas
naturezas existam realmente distintas e sem confusão, todas as propriedade que convêm à
natureza divina podem ser predicadas de Cristo, verdadeiro homem, e todas as
propriedades que convêm à natureza humana podem ser atribuídas a Deus, uma vez que
todas elas se realizam numa só e mesma Pessoa Divina do Verbo encarnado [1]. Deste
modo,

[...] permanecendo intacta a propriedade de cada qual de ambas as naturezas, e


convergindo elas em uma única pessoa, a humildade foi assumida pela majestade; a
fraqueza, pelo poder; a mortalidade, pela eternidade; e, para pagar o débito da nossa
condição, a natureza inviolável uniu-se à natureza passível para que — como convinha
para nos remediar — o único e mesmo "mediador de Deus e dos homens, o homem Cristo
Jesus" (1Tm 2, 5), por uma parte pudesse morrer e por outra não morrer [2].
Por isso, ao falarmos de Nosso Senhor, podemos dizer com verdade que Deus é Homem e
o Homem é Deus, porque, "elevando o que é humano sem diminuir o que é divino" [3], há
em Cristo, verdadeiro Deus, uma "íntegra e perfeita natureza de homem verdadeiro, inteiro
no que é seu, inteiro no que é nosso" [4]. Porque o "Um da Trindade" (unus ex Trinitate),
ao assumir a nossa natureza humana, não a quis aniquilar, mas comunicar-lhe "seu próprio
modo de existir pessoal na Trindade" [5]. Assim, também podemos dizer que, operando o
Verbo o que é do Verbo, e a carne o que é da carne [6], Deus realmente nasceu na carne,
na qual padeceu verdadeiramente e na qual deve ser santamente adorado.

Tentaremos mostrar nas próximas aulas as implicações deste princípio — essencial a uma
reta linguagem cristológica — e de que maneira todas as dificuldades que subjazem à
Reforma podem ser mediata ou imediatamente associadas à sua negação.
Cristo é o único mediador?
Tomando para si uma carne em tudo semelhante à nossa, exceto no pecado, o
Filho de Deus associou na unidade de sua pessoa o divino e o humano. É,
portanto, no próprio fato da união hipostática que se deve buscar o fundamento
primeiro da mediação de Cristo Senhor: assumindo o que somos sem deixar de
ser o que era, Ele se fez escada entre o Céu e a terra e caminho, único e certo,
para o Pai.

Aprofunde-se no mistério do Deus-homem e entenda, nesta aula do curso "Por


que não sou protestante", as razões que desde sempre levaram a Igreja a
venerar a imagem sagrada do seu divino Fundador.
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Após termos visto que é na negação da communicatio idiomatum que radicam
fundamentalmente todas as objeções à doutrina católica feitas pelos protestantes,
estudaremos na aula de hoje de que modo Nosso Senhor Jesus Cristo foi constituído o
único e verdadeiro mediador entre Deus e os homens.

De fato, do que dissemos até agora se pode depreender o seguinte. Em razão da união
hipostática, as naturezas divina e humana coexistem de tal modo unidas e inconfusas na
pessoa eterna do Verbo que, conservando cada uma delas aquilo que lhes é próprio,
podemos afirmar haver no Filho de Deus a mais perfeita comunhão entre o humano e o
divino. A natureza humana de Jesus, com efeito, existe como uma verdadeira e íntegra
humanidade assunta na divina pessoa do Verbo feito carne (cf. Jo 1, 14), desde sempre
inteiro no que é seu e para sempre inteiro no que é nosso [1].

Dessa maravilhosa e inefável união, pela qual o Filho de Deus, sem deixar de ser o que era,
dignou-se assumir o que somos, decorre que Cristo, uma única pessoa em duas naturezas,
deve ser honrado e adorado com uma só adoração. Ora, se bem que a humanidade do
Senhor tenha sido criada, devemos contudo adorá-la com a mesma adoração devida à
divindade, não porque deva ser honrada em si mesma, mas em razão da pessoa divina à
qual está hipostaticamente unida. Pois do mesmo modo como prestamos honra e
respeito à pessoa de nossos pais e não a uma parte seja de suas almas, seja de seus corpos,
assim também Cristo deve ser adorado em virtude de sua personalidade divina, à qual está
unida sua santa e adorável humanidade [2].

Donde se vê que não somente à santíssima carne de Nosso Senhor podemos e devemos
exibir o preito de nossa mais serviçal adoração, senão também às suas imagens — não em
si mesmas, mas na medida em que por meio delas adoramos o Cristo nelas representado.

É, pois, em razão dessa mesma humanidade que "há somente um mediador, o homem


Cristo Jesus, que se entregou em resgate por todos, como testemunho no momento
oportuno" (1Tm 2, 5). A "ele cabe", diz a Epístola aos Hebreus, "um ministério superior,
já que é mediador de uma aliança melhor" (Hb 8, 6), a fim de que "os chamados possam
receber a herança prometida" (Hb 9, 15), conquistada pela aspersão de um sangue mais
forte do que o de Abel (Hb 12, 24).

Assumindo, assim, a nossa condição mortal, o Verbo do Pai se serve da natureza humana
como instrumento de salvação [3]. Unindo no mistério de sua Encarnação estes dois
extremos — divindade e humanidade —, Cristo realiza a nossa perfeita reconciliação com
Deus e se torna o verdadeiro Pontífice entre o Céu e a terra.
A Igreja é uma invenção humana?
A Igreja é uma invenção humana? Foi mesmo Constantino quem, nos primeiros
séculos da era cristã, achou por bem fundá-la, como costumamos ouvir?
Contra essas e outras insinuações, a história está aí para testemunhar que foi
o próprio Senhor Jesus quem quis edificar sobre São Pedro aquela que é e
sempre será o seu Corpo Místico, a sua Esposa sem ruga nem mancha.

Nesta aula de nosso curso "Por que não sou protestante", você irá descobrir
como o mistério da Igreja está intimamente unido aos mistérios da Encarnação
e da Redenção.

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Dando continuidade ao nosso curso "Por que não sou protestante", estudaremos na aula de
hoje algumas consequências eclesiológicas do mistério da Encarnação, ao qual dedicamos
os últimos dois encontros. De modo mais específico, meditaremos o fato de a Igreja ser,
segundo uma denominação que já se tornou corrente, o Corpo Místico de Cristo.
Baseado nas Sagradas Escrituras e no ensinamento constante dos Santos Padres, esse
conceito exprime, na precisão de sua brevidade, tanto a nobreza quanto as inumeráveis
riquezas que o próprio Filho de Deus quis comunicar à sua santa e imaculada Esposa, a
Igreja Católica.

Ora, se remontarmos à origem do gênero humano, veremos que, de acordo com o relato do
Livro do Gênesis, o pai da humanidade foi constituído em tal condição e dignidade que, ao
transmitir à sua descendência a vida do corpo, lhe daria também, como feliz e grata
herança, a vida sobrenatural da graça. Como porém o pecado entrasse no mundo, todos
os filhos de Adão, debilitados pela Queda de seu progenitor, perderam a participação da
natureza divina e, sujeitos à "corrupção que a concupiscência espalha no mundo" (2Pd 1,
4), tornaram-se por natureza "destinados à ira" (Ef 2, 3).

No entanto, cheio de misericórdia e caridade, Deus não quis abandonar o homem à


perdição do pecado. Por isso, decretou enviar ao mundo o próprio Filho Unigênito, que,
revestindo-se da mesma natureza que fizera a morte entrar na história, veio para os que
eram seus (Jo 1, 11), a fim de que, como novo Adão de uma nova humanidade,
pudessem os homens receber a graça do Espírito Santo. Deste modo, todos quantos pelo
pecado do primeiro pai haviam sido privados da amizade e da filiação divina, foram, pelo
Verbo eterno do Pai, "feitos irmãos segundo a carne do Filho Unigênito de Deus" [1] e,
assim, filhos adotivos do Pai celeste.

Entregando-se por nós como hóstia pura, santa e imaculada, Jesus Cristo a um só tempo
reparou a ofensa irrogada ao Pai e mereceu superabundantemente aos que O acolhem e
nEle crêem uma multidão de graças e dons. Ora, como Filho dileto de Deus e primogênito
entre muitos irmãos, poderia Cristo dispensar as graças que por sua paixão, morte e
ressurreição nos conquistara da forma que bem lhe aprouvesse. Quis, contudo, "comunicá-
las por meio da Igreja visível, formada por homens, a fim de que por meio dela", mãe de
muitos filhos, "todos fossem", num certo sentido, "seus colaboradores na distribuição dos
divinos frutos da Redenção." [2] Com efeito, do mesmo modo

[...] como o Verbo de Deus, para remir os homens com suas dores e tormentos, quis servir-se da
nossa natureza, assim, de modo semelhante, no decurso dos séculos se serve da Igreja para
continuar perenemente a obra começada [3].

Referências

1. Pio XII, Encíclica "Mystici Corporis", n. 12, de 29 jun. 1943 (AAS 35 [1943]


198).
2. Id., ibid.
3. Id., ibid. (grifo nosso).
Nunca seremos santos?
Coroado de espinhos e de glória, Jesus é por direito próprio chefe e Cabeça da
Igreja. Pelo Batismo, com efeito, dela nos tornamos membros, e por isso
mesmo, membros também de Cristo. Unidos por vínculos estreitíssimos de fé,
esperança e caridade, os fiéis cristãos formam com o seu amantíssimo
Redentor uma única pessoa mística — o Cristo total —, guiada e vivificada pelo
Espírito Santo, doador de todos os dons.

Baseado na eclesiologia da encíclica Mystici Corporis, de Pio XII, Padre Paulo


Ricardo explica nesta aula do curso "Por que não sou protestante" como se dá
o nosso processo de santificação.
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Na aula passada, falamos a respeito do mistério da Igreja, Corpo Místico de Cristo.
Vimos que é o próprio Senhor Jesus a Cabeça deste Corpo e que a Igreja visível, por estar
unida ao seu divino Esposo, representa nesta terra uma como que extensão da santíssima
humanidade do Verbo feito carne. Por isso, enquanto dispensadora dos tesouros da
Redenção, a Madre Igreja perpetua, mediante os sacramentos que o Senhor lhe confiou, a
obra de cura e salvação do Filho eterno de Deus. Assim, após havermos abordado as
inesgotáveis riquezas desta doutrina — pela qual nos alegramos de pertencer a um Corpo
cuja Cabeça, por amor a nós, está coroada de espinhos —, estudaremos na aula de hoje a
nossa própria união a tão sublime Corpo e a tão excelsa Cabeça, bem como a contínua
santificação a que, como filhos da única e imaculada Esposa do Cordeiro, temos a graça
de ter acesso.

Cristo é "a Cabeça do corpo, que é a Igreja" (Cl 1, 18). De fato, o Senhor tem com ela
uma união tão íntima e especial que a própria Escritura Sagrada a compara à unidade que
há entre os esposos (cf. Ef 5, 22s.) e entre os ramos e a videira (cf. Jo 15, 1-5). Por isso, os
Santos Padres, na linha de uma antiquíssima e veneranda tradição, não temeram afirmar
que da união entre Cristo e o corpo social de sua Igreja surge uma só pessoa mística, o
Cristo total (Christus totus). Neste sentido, todos quantos respondem com generosidade à
Palavra de Deus e são regenerados pelo Batismo se tornam verdadeiros participantes da
vida divina de Jesus, a qual se difunde por todos os crentes que, como membros de um só
Corpo, são vivificados pela mesma vida e animados pelo mesmo Espírito.

Daí se vê que, tendo por Cabeça o Santo de Deus, os membros da Igreja são também
chamados a tomar parte, cada um segundo a medida da própria caridade, na santidade do
Filho amado do Pai. É, pois, o mesmo Senhor Jesus quem, fazendo-se "um" com a Igreja
e, portanto, com os que a ela pertencem, nos merece e comunica todas as graças para
cumprirmos o que ele próprio nos ordenou: "Sede perfeitos, como o vosso Pai celeste é
perfeito" (Mt 5, 48). Ora, a fim de podermos corresponder a esta vocação à santidade,
Deus, querendo dar-nos uma felicidade superior à natural, nos concede, à semelhança do
nosso corpo físico, um organismo espiritual capaz de receber as graças e dons
necessários para o nosso progresso no amor e na superação do egoísmo.
Esse caminho de santidade e configuração à Cabeça do Corpo ao qual fomos — por graça
e eleição divinas — inseridos de uma vez para sempre, nós o trilhamos pelos Sacramentos
da Nova Aliança. Instituídos por Cristo e destinados à nossa santificação e à edificação
do Corpo, que é a Igreja, os Santos Mistérios nos auxiliam sobremodo no combate
espiritual que temos de travar e na perseverança por que devemos lutar. Sustentados, pois,
por estes seguros e eficazes canais da graça, todos temos de, individualmente, cultivar
uma vida de oração e amizade com Cristo. É sobretudo neste contato pessoal e íntimo
com o Senhor que encontraremos a força para avançarmos para águas mais profundas, para
amarmos com mais intensidade, para penetrarmos cada vez mais nos átrios do
nosso castelo interior, em cujo centro habita, silenciosa e vivificante, a santíssima e
indivisível Trindade.
O que é o protestantismo?
Cinco séculos de transformações e uma multidão incontável de denominações!
Ainda seria possível tratar o protestantismo como um fenômeno unitário e
homogêneo? Afinal, de qual protestantismo estamos falando quando dizemos:
"Não posso ser protestante"?

Para responder a essa e a outras perguntas, Padre Paulo Ricardo apresenta


nesta aula de nosso curso o problema do "nestorianismo eclesiológico" como
uma realidade comum a toda teologia protestante.
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A fim de dissipar algumas dúvidas que possam ter eventualmente surgido até agora,
gostaríamos de determinar com mais precisão a que protestantismo nos vimos referindo ao
longo de nossas últimas aulas. O título "protestante", utilizado quase sempre num sentido
um tanto elástico, compreende própria e primariamente os assim chamados protestantes
históricos, ou seja: os cristãos que — seja direta, seja remotamente — pertencem a
denominações oriundas da Reforma de Lutero e de Calvino. De um modo geral, designam-
se por este nome os luteranos, os presbiterianos, os batistas, os metodistas, bem como
todas as igrejas derivadas desses vários grupos.

No entanto, podemos chamar protestantes também àquelas denominações que, embora não
derivem diretamente da Reforma, compartilham com os protestantes históricos traços e
similaridades doutrinais tão profundos e estreitos que, não obstante suas discordâncias
(mais periféricas do que substancias, diga-se de passagem), podem com justa razão ser
estudas como frutos do mesmo espírito que animara os reformadores. Referimo-nos aqui
sobretudo aos pentecostais e neopentecostais.

No Brasil, todas as igrejas de que falamos acima costumam ser identificadas


como evangélicas, termo já consagrado pelo uso e aceito, inclusive, por parte considerável
dos protestantes.

Procuramos mostrar nos encontros passados que o ponto de união entre estes irmãos
separados é a tendência — mais ou menos acentuada — a negar a communicatio
idiomatum, bem como as consequências que desse princípio teológico podem ser extraídas
(a divina maternidade de Maria, por exemplo). Essa tendência, é evidente, não precisa ser
expressa nem tampouco admitida claris verbis. A própria teologia luterana, aliás, buscou
desenvolver o princípio da communicatio, ainda que com as imprecisões e desvios que a
sua mentalidade de fundo — afeita a unilateralismos — acabava por gerar. O que se
percebe, porém, é a propensão que o Protestantismo apresenta para desvalorizar a
humanidade de Nosso Senhor e o seu papel na Economia da Salvação. Esse mal vezo,
por assim dizer, se manifesta com suficiente nitidez num aspecto doutrinal comum à
totalidade das denominações protestantes e que se caracteriza como uma espécie
"nestorianismo eclesiológico".
Trata-se, em resumo, de uma concepção de Igreja derivada de uma má e problemática
concepção de Cristo. Escandalizado com a corrupção da hierarquia eclesiástica, o
luteranismo e, com ele, todo o protestantismo que a história ainda haveria de produzir
acabou por, cindindo Jesus em duas partes estanques e incomunicáveis — uma divindade e
uma humanidade desunidas e indiferentes —, cindir também o Corpo do Senhor. Com
efeito, do mesmo modo como Nestório afirmara haver em Cristo duas pessoas distintas e
completas em si mesmas (a pessoa divina do Verbo e uma pessoa humana em tudo alheia à
divindade), assim também Lutero, inconformado com a fraqueza do clero e dos fiéis, quis
cortar ao meio a una e santa Igreja de Cristo: de um lado, a "Igreja invisível", verdadeira
Esposa do Senhor; de outro, a "igreja visível", instituição meramente humana e, portanto,
falível, corrompível, prostituível.

Eis aqui a raiz da eclesiologia separatista que se pode diagnosticar em toda e qualquer


denominação protestante. Daí brotaram, pois, as ideais, hoje tão comuns e bem aceitas até
mesmo dentro do Catolicismo, de uma "Igreja mistério" oposta a uma "igreja instituição";
de uma "Igreja dos eleitos" contraposta a uma "igreja de simples crentes"; de uma "igreja
histórica e social" distinta de uma "Igreja celeste e mística"
Uma Igreja sem Eucaristia?
Seguindo a Tradição dos Apóstolos, o Papa São João Paulo II afirmou que "a
Igreja vive da Eucaristia", fonte e ápice de toda a vida cristã. De fato, é no
sacrifício, na comunhão e na adoração do sacratíssimo corpo do Senhor Jesus
que a Igreja Católica haure forças para desempenhar a missão que lhe foi
confiada: trazer para Cristo e para a comunhão no seu único Corpo Místico
uma multidão de almas.

Nesta aula de nosso curso, Padre Paulo Ricardo explica por que a mentalidade
protestante é incompatível com a centralidade do mistério eucarístico. Além
disso, você também irá entender por que a perda de fé na Presença Real é
uma das principais causas da protestantização de muitos católicos.

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"A Igreja", ensina o bem-aventurado Papa João Paulo II, "vive da Eucaristia" [1].


"Fonte e ápice de toda a vida cristã" [2], o sacramento do corpo e sangue de Cristo,
realizando de modo admirável a promessa do Salvador: "Eis que estou convosco todos os
dias, até à consumação dos séculos" (Mt 28, 20), é a razão de ser não apenas do mistério
da Igreja, mas também, e por isso mesmo, da própria criação. O mundo, creem-no os
cristãos desde o início [3], foi feito em vista da Igreja e é nela, finalidade de todas as coisas
[4], que Deus deseja reunir sob a mesma fé o conjunto da família humana, dispersa entre
povos e nações [5]. Nesse sentido, o sacrossanto memorial da Paixão e Morte de Nosso
Senhor, no qual Ele mesmo se faz presente sob as espécies do pão e do vinho e se dá ao
homem como alimento, é o fim ao qual se ordenam os demais sacramentos, bem como
"todos os ministérios eclesiásticos e tarefas apostólicas" [6]. É, pois, à recepção da
Eucaristia que a vida cristã, chegada então à sua maturidade, está necessariamente
orientada: é nela que haure forças, é dela que se mantém, é por ela, enfim, que se torna sal
da terra e luz do mundo (cf. Mt 5, 13s).

É essa fundamental centralidade do mistério eucarístico que motiva, anima e auxilia a


Igreja a levar, em trabalhos e fadigas incansáveis (cf. 2Cor 6, 5; 11, 27), o Evangelho de
seu divino Fundador aos quatro cantos da terra. Com efeito, toda atividade missionária e
evangelizadora — resposta ao amor com que Deus mesmo desce diariamente aos nossos
altares — não tem outro objetivo senão trazer as pessoas para a Igreja, pois é apenas
nela que o homem, sedento de Deus, pode aproximar-se da mesa eucarística, fonte de
todo bem espiritual. Mais do que a simples pregação de uma mensagem, portanto, "a
totalidade da evangelização [...] consiste em implantar a Igreja, a qual não existe sem esta
respiração, que é a vida sacramental a culminar na Eucaristia" [7]. Por isso, convocar os
povos a fazer parte do Corpo de Cristo não é senão chamá-los a tomar parte
no Banquete que o Pai das misericórdias (cf. 2Cor 1, 3) tem preparado aos seus filhos
pródigos e necessitados: "Trazei [...] um novilho gordo e matai-o; e comamos e alegremo-
nos. Este meu filho estava morto, e reviveu; tinha-se perdido, e foi achado" (Lc 15, 23s).
Neste sentido,
[...] a Eucaristia apresenta-se como fonte e simultaneamente vértice de toda a evangelização,
porque o seu fim é a comunhão dos homens com Cristo e, nEle, com o Pai e com o Espírito Santo
[8].

A sublimidade deste augusto sacramento pode ser sempre mais vivamente contemplada se
se tiver conta que ele não apenas nos comunica e aumenta a graça santificante, mas
contém, antes e sobretudo, o próprio Autor da graça sobrenatural. A presença
eucarística de Cristo pode, portanto, ser entendida como uma extensão da Encarnação.
De fato, assim como o Verbo humanado, vindo visivelmente ao mundo, trouxe ao mundo a
vida da graça, assim também, vindo sacramentalmente a cada um de nós, opera em nós a
mesma vida divina: "Quem de mim se alimenta", diz o Senhor, "também vivará por mim"
(Jo 6, 57) [9]. Com efeito, aquilo que são para a vida do corpo o alimento e a bebida
materiais, Jesus sacramentado o é, da forma ainda mais excelente, para vida do espírito
[10]. Pois do mesmo modo como o pão material nutre, sustenta, restaura e deleita o corpo
físico, assim também o pão descido do Céu(cf. Jo 6, 33) afasta do mal, conforta no bem e
faz progredir em graça e virtude todos quanto dignamente dele se alimentam [11], "porque
a minha carne verdadeiramente é uma comida e o meu sangue, verdadeiramente uma
bebida" (Jo 6, 55).

Daí que o primeiro e principal fruto deste tão doce e salutar convívio seja unir-noscada
vez mas intimamente a Cristo, cuja carne e cujo sangue nos são oferecidos como penhor da
glória futura: "Quem come a minha carne e bebe o meu sangue", garante-nos o Salvador,
"permanece em mim e Eu nele" (Jo 6, 56). Tocando-nos com o seu único e
mesmo corpo — gerado no seio da Virgem Santíssima e agora e por toda eternidade
assunto aos Céus —, Jesus nos cura e liberta, restitui-nos a vista e limpa-nos da lepra;
tornando mais fervorosa a nossa caridade, Ele "reaviva o nosso amor e nos torna capazes
de romper as amarras desordenadas com as criaturas" [12]. Dando-nos, assim, "um
antídoto pelo qual somos libertados das culpas cotidianas e preservados dos pecados
mortais" [13], o Senhor nos oferece a alegria de participarmos da sua própria vida bem-
aventurada, plena de graças e maravilhas (cf. Sl 110, 4), a qual é derramada em nosso
coração segundo aquele mesmo amor e bondade com que o Pai eterno comunica sua
própria natureza ao Filho e, por Ele e com Ele, ao Espírito Santo [14].

Ora, esta íntima união entre Cristo e o comungante é não só sinal como também, e acima
de tudo, fonte da unidade que nos une tanto entre nós, membros de um só Corpo Místico,
quanto com a nossa divina Cabeça [15]. Por isso, pode-se dizer com razão
que a  Eucaristia, sendo um só pão, faz e constitui uma só Igreja [16]: "O pão que
partimos", diz São Paulo, "não é comunhão com o corpo de Cristo? E como há um único
pão, nós, embora sendo muitos, somos um só corpo, pois todos participamos deste único
pão" (1Cor 10, 16s). Unindo-nos pessoalmente a Cristo Jesus, a comunhão nos reúne a
todos, resgatados pela efusão do mesmo preciosíssimo sangue, em um só Corpo, a saber: a
Igreja. Ao recebermos pois o sacratíssimo corpo do Senhor, somos mais forte e
profundamente incorporados à Igreja, à qual, pelo Batismo, já pertencemos como
membros, filhos e súditos [17].

Também o caráter sacrificial da Eucaristia se presta a exprimir este inefável mistério que
é a unidade do Corpo Místico de Cristo, cuja Páscoa se nos torna, ainda hoje e até ao fim
da história, presente e atual [18]. No sacrifício eucarístico, com efeito, o sacerdote faz as
vezes não apenas do divino Salvador, mas também de toda a Igreja, oferecida ao Pai
juntamente com seus membros e sua Cabeça, e de cada um dos fieis. Estes, por sua vez,

[...] unidos nas orações e votos comuns, pelas mãos do celebrante, apresentam ao eterno Pai o
Cordeiro imaculado — presente no altar à voz unicamente do sacerdote —, como vítima
agradável de louvor e propiciação pelas necessidades de toda a Igreja. E do mesmo modo que,
morrendo na cruz, o divino Redentor se ofereceu a si mesmo ao Pai como cabeça de todo o
gênero humano, assim nesta "oblação pura" (Ml 1, 11) não só se oferece a si mesmo ao Pai
celeste, como cabeça da Igreja, mas em si oferece os seus membros místicos; pois que a todos,
até os fracos e enfermos, tem amorosissimamente encerrados no Coração [19].

Deste modo, a "vida dos fiéis, o seu louvor, o seu sofrimento, a sua oração, o seu trabalho
unem-se aos de Cristo e à sua oblação total, adquirindo assim um novo valor. O sacrifício
de Cristo presente sobre o altar", substancialmente o mesmo que o do Gólgota,
"proporciona a todas as gerações de cristãos a possibilidade de", associados como muitos
grãos numa só hóstia [20], "se unirem à sua oblação" [21]: "Por Ele ofereçamos a Deus
sem cessar sacrifícios de louvor, isto é, o fruto dos lábiosque celebram o seu nome"
(Hb 13, 15). Configurados, cada um a seu modo, ao sacerdócio de Nosso Senhor, todos os
fieis são chamados a entregar-se em oblação ao Pai altíssimo, não porque sejam todos
sacerdotes em sentido próprio, como bispos e presbíteros, aos quais cabe oferecer o
sacrossanto corpo do Senhor, mas porque, sendo pedras viva da Igreja, compete-lhes
oferecer vítimas espirituais agradáveis a Deus, por Cristo Jesus (cf. 1Pd 2, 5) [22].
Oferecendo-se, assim, como holocausto vivo e santo, os resgatados pelo sangue do
Cordeiro prestam ao Pai um verdadeiro culto espiritual (cf. Rm 12, 1), pelo qual as suas
vidas, dores e boas obras, purificadas no fogo do amor, sobem ao Altíssimo em suave
odor de santidade e justiça.

Referências

1. João Paulo II, Carta Encíclica "Ecclesia de Eucharistia", n. 1, de 15 abr. 2003


(AAS 95 [2003] 434).

2. Concílio Vaticano II, Constituição Dogmática "Lumen Gentium" (LG), n. 11, de


2 nov. 1964 (AAS 57[1965] 15).

3. Cf. Justino Mártir, Apologia, II, 7 (PG 6, 456); Pastor de Hermas, Visões, II,


8. In: Padres Apostólicos (col. "Patrística", vol. 1). Trad. port. de I. Storniolo e E.
M. Balancin. São Paulo: Paulus, 1995, p. 177.

4. Cf. Epifânio de Salamina, Panarium, I, 1, 5 (PG 41, 181C).

5. Cf. Catecismo da Igreja Católica (CIC), nn. 760-2.

6. Concílio Vaticano II, Decreto "Presbyterorum Ordinis", n. 5, de 7 dez. 1965


(AAS 58 [1966] 997).

7. Paulo VI, Exortação Apostólica "Evangelii Nuntiandi", n. 28, de 8 dez. 1975


(AAS 68 [1976] 25).
8. João Paulo II, op. cit., n. 22 (AAS 95 [2003] 448).

9. Cf. Tomás de Aquino, Sum. Th., III, q. 79, a. 1, resp.; R. Garrigou-


Lagrange, De Eucharistia. Paris: Desclée de Brouwer, 1943, p. 189s.
10. Cf. CIC, n. 1392.

11. Cf. Concílio de Florença, Bula sobre a união com os armênios "Exsultate Deo",
de 22 nov. 1439 (DH 1322).
12. CIC, n. 1394.

13. Concílio de Trento, 13.ª sessão, de 11 out. 1551, Decreto sobre o sacramento
da Eucaristia, cap. 2 (DH 1638). Os cânones e decretos podem ler-se aqui.
14. Cf. R. Garrigou-Lagrange, op. cit., p. 190.

15. Cf. Pio XII, Carta Encíclica "Mystici Corporis", n. 81, 20 jun. 1943
(AAS 35 [1943] 232). V. LG, n. 3: "Pelo sacramento do pão eucarístico, ao
mesmo tempo é representada e se realiza a unidade dos fiéis, que constituem
um só corpo em Cristo".

16. Cf. CIC, n. 1396. V. Congregação para as Causas dos Santos, A Centralidade
da Eucaristia na Vida da Igreja. Reflexão do Cardeal José Saraiva Martins
sobre a Encíclica de João Paulo II "Ecclesia de Eucharistia", de 10 jun. 2003, n.
3.
17. Cf. CIC, loc. cit.
18. Cf. CIC, n. 1362s.

19. Pio XII, op. cit., loc. cit. (AAS 35 [1943] 232-233).

20. Cf. Didaché, IX, 4.

21. CIC, n. 1368.

22. Cf. Roberto Belarmino, De septem verbis, l. 2, c. 15.


A fé sem a razão?
Já se tornou proverbial a acusação protestante de que é a fé, e somente a
fé, em Jesus Cristo o único caminho para o conhecimento de Deus; o resto não
passa de pura idolatria! Por isso, os católicos, por meio da teologia natural,
acabam por fabricar um deus falso, um ídolo morto, perdendo assim o acesso
ao Deus vivo que a Bíblia nos revela. Mas será mesmo possível crer no Deus
que se fez homem desprezando o homem feito por Deus?

Conheça nesta aula do curso "Por que não sou protestante" o que a Igreja nos
tem a ensinar sobre o papel da razão humana na nossa busca por Aquele de
quem saímos e ao qual tanto desejamos voltar.

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Vimos na primeira aula do curso que, para Karl Barth, o motivo fundamental por que não
se poderia ser católico é o princípio da analogia entis. Segundo o teólogo protestante, com
efeito, a inteligência humana, depravada em sua íntima natureza após a Queda, é incapaz,
com sua força e lume próprios, de falar corretamente de Deus. Opondo-se à possibilidade
de qualquer conhecimento teológico a partir das criaturas, Barth rejeitou de forma
categórica o que na tradição cristã se convencionou denominar teologia natural (chamada
por vezes "teodicéia"), isto é, a investigação racional que, com base
nas analogias existentes entre os entes e Aquele que é a fonte de todo ser criado, chega de
forma absoluta à certeza da existência de um Deus único e pessoal, Criador e governador
do mundo, legislador supremo e autor da lei natural impressa em nossas almas [1]. Já
tivemos também ocasião de mencionar que a causa de tal desprezo da razão se deve,
basicamente, a uma concepção equivocada dos efeitos do pecado original.

A Igreja Católica, por sua vez, embora nunca tenha atribuído à inteligência e filosofia
humanas um poder e autoridade absolutos, de per si suficientes "para afastar ou extirpar
todos os erros", sempre reconheceu e valorizou com justa medida "os auxílios naturais
postos à disposição dos homens por benevolência da divina sabedoria" [2], entre os quais
o reto uso da razão ocupa por certo o primeiro e principal lugar. Do mesmo modo, ainda
que a Igreja ensine, em conformidade com a verdadeira fé, que pela prevaricação de
nossos protoparentes nos foi transmitida uma "natureza lesada, inclinada para o mal" [3],
nem por isso chega ao extremo de atribuir à mesma natureza uma tal corrupção que torne
vão e absurdo o próprio mistério da Encarnação. De fato, como se poderia entender a
redenção do homem decaído, se o Verbo de Deus, ao tomar para si a carne humana, não se
houvesse feito semelhante a nós em tudo, com exceção do pecado (cf. Hb 2, 17; 4, 15)?
"Quod non est assumptum", diz a sã teologia, "non est redemptum" [4].

Por estes motivos, a santa mãe Igreja teve sempre em grande estima o correto exercício
da inteligência humana, que, se bem não possa por si mesma alcançar aquelas verdades
que a superam e ultrapassam, não deixa de ser precondição necessária para que o homem
reconheça e acolha, pela obediência da fé, aquelas coisas que Deus, em sua extrema
bondade, quis revelar-nos sobre si mesmo [5]. Ora, no que diz respeito às coisas divinas, o
primeiro grande auxílio que a razão humana pode prestar ao homem é, como diz Leão
XIII, aplanar e consolidar "de algum modo o caminho que conduz à verdadeira fé" [6]:
além de O conhecer por meio de suas obras (cf. Rm 1, 20), a razão humana pode dispor-se
a assentir às verdades que Deus lhe propõe pela Revelação mediante a consideração
daqueles  sinais externos que dão clara e evidente credibilidade à fé católica.

Com efeito, dado que homem não pode ser exclusiva e suficientemente motivado a crer
por meio apenas de mera experiência interna ou por alguma inspiração individual [7],
aprouve a Deus "ajuntar ao auxílio interno do Espírito Santo", que nos leva a crer do modo
que convém para conseguir a salvação, "os argumentos externos de sua Revelação, isto é,
os fatos divinos, e sobretudo os milagres e as profecias, que, por
demonstrarem luminosamente a onipotência e a ciência infinita de Deus, são da Revelação
divina sinais certíssimos e adaptados à inteligência de todos" [8].

No entanto, defender, como faz a Igreja, que o homem seja capaz de alcançar com as luzes
naturais da razão certos conhecimentos a respeito de Deus e seus atributos não significa
professar ingenuamente que, nas circunstâncias atuais do gênero humano, os sábios e
filósofos antigos o tenham feito sem dificuldades e mistura de graves erros e desvios [9].
De fato, mesmo em relação àquelas verdades que não são absolutamente inacessíveis à
razão o homem encontra não poucos obstáculos que o impedem "de fazer uso
frutuoso dessa sua capacidade natural" [10]. Donde se vê que a Revelação divina é
moralmente necessária para que o homem, além de iluminado sobre o que transcende o
seu entendimento, conheça também com segurança, certeza, facilidade e sem nenhum erro
as verdades morais e religiosas que, não sendo em si mesmas impenetráveis à sua
inteligência, são muitas vezes turvadas por parte quer de nossas potências interiores, quer
ainda de nossas más inclinações, decorrentes do pecado de Adão.

Referências

1. Cf. Pio XII, Encíclica "Humani Generis", de 12 ago. 1950, n. 2 (AAS 42 [1950]


561).

2. Cf. Leão XIII, Encíclica "Aeterni Patris", de 4 ago. 1879 (ASS 12 [1879-80] 98).

3. Catecismo da Igreja Católica (CIC), n. 407.

4. Cf. Gregório de Nazianzo, Epistula CI ad Cledon (PG 37, 181C).

5. Cf. CIC, n. 36.


6. Leão XIII, op. cit.

7. Cf. Concílio Vaticano I, Constituição "Dei Filius", de 24 abr. 1870, cân. 3 sobre
a fé (ASS 5 [1869-70] 492; DH 3033).
8. Id., cap. 3 (DH 3009).
9. Cf. CIC, n. 37.
10. Pio XII, op. cit., loc. cit.
11. Cf. Id., op. cit., n. 3.
Maria era uma mulher qualquer?
Entre os pontos da doutrina católica que mais revoltam os protestantes, o culto
tributado à Santíssima Mãe do nosso Redentor é sem dúvida nenhuma o mais
polêmicos. É sobretudo daqui, com efeito, que provém as injustas acusações
de "idolatria" lançadas à cara do fiéis. No entanto, a Igreja honra e venera
desde suas origens aquela que o próprio Pai de misericórdias predestinou a ser
o sacrário vivo e a genitora, segundo a carne, de seu Filho bem-amado.

Nesta aula de nosso curso "Por que não sou protestante", você conhecerá os
sólidos fundamentos da Mariologia católica e os motivos que levam a Igreja de
Cristo a dar tanta atenção à Mãe do seu Fundador.

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Visto, como explicamos ao longo deste curso, que a quase totalidade das antinomias
protestantes derivam fundamentalmente de uma cristologia incompleta e heterodoxa,
esperamos ter deixado claro que Jesus Cristo, Filho unigênito de Deus (cf. Jo 3, 16), é o
centro e o núcleo da fé da Igreja. Sobre o dogma de sua divina humanidade, pela qual
fomos resgatados da miséria em que o pecado de Adão nos fizera despenhar, ergue-se, por
assim dizer, todo o edifício doutrinal que faz da pregação cristã um verdadeiro e admirável
milagre de coerência, rigor e harmonia. A centralidade do mistério cristológico, com
efeito, exerce sobre o restante da fé católica um tal influxo que o mais leve desvio nessa
matéria é o bastante para comprometer-lhe a saúde e mudar-lhe de todo a fisionomia. Daí
se vê, pois, que tudo quanto esteja próxima ou remotamente relacionado à única e mesma
divina pessoa do nosso Redentor depende, como uma árvore de sua raiz, da maneira como
entendemos o que pela fé confessamos, a saber: que Jesus Cristo é verdadeiro Deus e
verdadeiro homem.

Ora, dado que foi por meio da Santíssima Virgem Maria que o Senhor, nascendo de
mulher (cf. Gl 4, 4), dignou-se vir ao mundo [1], segue-se que nada pode estar mais íntima
e logicamente unido ao sacrossanto mistério de Cristo Jesus do que os mistérios que
envolvem aquela que, enriquecida de privilégios singulares, foi eleita pelo Pai celeste para
tornar-se a Mãe do Filho segundo a carne. De fato, como poderia alguém compreender a
vinda de Cristo se, por ignorância ou despeito, desconhecesse o papel que teve a bem-
aventurada Virgem na concepção temporal do Verbo, de sorte que, na plenitude dos
tempos, se efetuasse "o matrimônio espiritual entre o Filho de Deus e a natureza humana"
[2]? A pessoa de Maria encontra-se, assim, de tal modo ordenada à de seu divino Filho,
que tudo quanto diga respeito à primeira não se pode bem compreender sem se referir
necessariamente à segunda, uma vez que, por sua "cooperação real e vital" [3] para
a Encarnação do Verbo, a Virgem Imaculada pertence de maneira especialíssima não
apenas à ordem da graça e da glória, mas também e sobretudo à da união hipostática [4].

Donde resulta que as dificuldades protestantes no que concerne à Mãe do Salvador dizem
respeito não tanto à pessoa mesma de Maria quanto à de seu Filho, razão por que convém
explicar nesta aula o que, na Santíssima Virgem, é o fundamento de todas as suas
prerrogativas e o motivo pelo qual a Igreja sempre a honrou e venerou com um culto digno
de sua excelentíssima dignidade e eminência sobre todos os demais santos, ou seja, a
sua maternidade divina. Fiéis à palavra dos Apóstolos, os católicos cremos e professamos
que Maria é, em sentido próprio, verdadeira Mãe de Deus. Antes, porém, de tentarmos
compreender essa feliz e augusta verdade, é preciso esclarecer os dois principais conceitos
de que os teólogos e o Magistério Eclesiástico desde sempre se serviram para exprimir a
unidade hipostática de Cristo e, por conseguinte, os mistérios que de algum modo lhes são
conexos. Trata-se das noções de "natureza" e "pessoa" [5].

Longe de ser um mero artifício retórico ou uma subtileza filosófica, a distinção entre
"natureza" e "pessoa" é, de certa maneira, um dado tão evidente que a nossa própria
linguagem nos leva a expressá-la com despercebida espontaneidade. De fato, há uma
grande diferença entre perguntar "Tu, que és?" e "Tu, quem és?" À primeira pergunta deve
o nosso interlocutor responder o que (quid) ele é; à segunda, quem (quis) ele é. Com efeito,
uma coisa é dizer "Eu sou um homem", isto é, um indivíduo pertencente à espécie humana;
outra coisa é dizer "Eu sou João", ou seja, não sou um simples "algo",
mas alguém que possui uma natureza humana.

Natureza corresponde aqui ao que vulgarmente chamamos essência, quer dizer, aquilo


pelo qual uma determinada coisa pode ser enquadrada numa certa espécie e distinguida de
outros objetos; trata-se, neste sentido, daquilo que é a raiz ou o fundamento de todas as
propriedades dessa coisa [6]. Assim é, por exemplo, a natureza humana (humanidade) com
respeito ao homem, a natureza equina em relação aos cavalos, a canina em relação aos cães
etc. Já por pessoa se costuma entender o "sujeito" ou, para usar um termo técnico, o
"suposto" (suppositum) de natureza racional; exprime, portanto, a ideia de algo completo
em si mesmo, incomunicável, que, além de ser uma substância perfeita e individual, tem a
dignidade e a excelência de subsistir numa natureza intelectual [7]. É por isso que não
dizemos "a pessoa do cavalo ou da pedra", mas apenas "pessoa humana, divina ou
angélica".

Ainda que a especulação metafísica tenha muito a nos dizer a esse respeito, bastam-nos
para os fins desta aula os apontamentos feitos acima. O que devemos ter em mente é que
um "quem" não é o mesmo que um "quê". Noutras palavras, aquilo que chamamos
"pessoa" não se identifica realmente com aquilo que chamamos "natureza". Embora um
pouco sutis, essas distinções são de grande importância ao tratarmos do mistério de Cristo,
porque, como já o sabemos pela fé, "não é absurdo nem impossível que uma natureza
humana possa pertencer a uma pessoa não humana" [8]. De fato, não repugna à razão que
Deus, para quem tudo é possível (cf. Lc 1, 37), "possa criar uma natureza humana de tal
modo que o eu dessa natureza", isto é, o sujeito que nela subsiste, seja um eu não humano,
mas "um Eu divino, quer dizer, uma das Pessoas da Santíssima Trindade" [9]. Pois nada
impede que uma Pessoa divina, sem deixar de ser Deus, venha a tomar posse de uma
natureza humana, assumindo-a para si até ao ponto de que Ela própria se torne o sujeito
dessa humanidade assunta [10].

Ora, uma vez que o Filho de Deus, sem deixar de ser o que era, dignou-se assumir o que
somos mediante o arcano e inefável mistério de sua unidade, segue-se que o homem
concebido pelo poder do Espírito Santo no imaculado seio da Virgem Santíssima não pode
estar unido senão ao mesmo e único Filho de Deus. Por isso, Aquele a quem chamamos
Jesus Cristo é, por um lado, verdadeiro homem, porque possui uma natureza humana
perfeita e completa, e, por outro, verdadeiro Deus, porque a Pessoa que possui e sustenta
essa mesma natureza não é outra senão a do Verbo eterno do Pai. Disto decorre, portanto,
que Maria é verdadeiramente a Mãe de Deus, já que a pessoa que ela concebeu, gerou e
deu à luz é a divina Pessoa do Filho. De fato, seria inaudito e inapropriado dizer que uma
mulher é mãe e genitora de uma natureza, e não deste filho ou daquela filha, pois o que as
mães concebem e geram propriamente não é apenas aquilo por que seus filhos são desta ou
daquela natureza, mas o próprio suppositum, quer dizer, a pessoa inteira de seus filhos
[11].

Com efeito, "as verdadeiras mães são-no do filho completo" [12], no qual pessoa e
natureza se encontram como princípios constitutivos e inseparáveis. Ora, se bem que a
Virgem Santíssima não tenha gerado o Senhor segundo a divindade, daí não se segue que
ela não seja a Mãe de Deus, pois que, comunicando ao Filho a sua própria carne, Maria
deu a Cristo tudo o que uma mãe, enquanto tal, dá ao fruto do seu ventre. Certamente, se
Cristo fosse apenas e tão-somente Deus, então decerto não se poderia dizer que Maria é
sua Mãe; dado, porém, que Ele quis para si uma natureza humana — e qui-la justamente
daquela que desde a eternidade lhe fora escolhida por Mãe —, deve-se afirmar com
verdade e sem sombra de dúvida que a bem-aventura Virgem Maria é, segundo a
substância da carne e a natividade temporal, Mãe de Deus Filho [13].

Por esse motivo, é injusta "a crítica e a censura que [...] fazem não poucos acatólicos e
protestantes à nossa devoção para com a virgem Mãe de Deus, como se tirássemos alguma
coisa do culto devido somente a Deus e a Jesus Cristo; muito ao contrário, tudo que for de
honra e veneração a nossa Mãe celeste, sem dúvida que redunda em glória para o seu
divino Filho, não só porque dEle vêm, como de primeira fonte, todas as graças e dons,
mesmo excelsos, mas ainda porque 'os pais são a glória dos filhos' (Pr 17, 6) [14]. É pois
em virtude de sua divina maternidade que a Virgem Santíssima, adornada com os
esplendores de uma santidade particular e conveniente à missão de ser a Mãe do Redentor,
é desde os mais remotos tempos honrada na Igreja com um culto especial e digno de sua
pureza e inocência em muito superior à de todos os anjos e todos os santos. É, portanto,
justo e consentâneo que toda alma cristã ame e venere tão doce e querida Mãe, "porquanto
a ela Deus Pai dispusera dar seu Filho Unigênito — gerado do seu seio, igual a si mesmo e
amado como a si mesmo — de modo tal que Ele fosse, por natureza, Filho único e comum
de Deus Pai e da Virgem; porquanto o próprio Filho estabelecera torná-la sua Mãe de
modo substancial; porquanto o Espírito Santo quisera e fizera de modo que dela fosse
concebido e nascesse Aquele de quem Ele mesmo procede" [15].

Referências

1. Cf. Luís Maria Grignion de Montfort, Tratado da Verdadeira Devoção, intro., n.


1.

2. Tomás de Aquino, Sum. Th. III, q. 30, a. 1, resp.; cf. Pio XII, Encíclica "Mystici
Corporis", n. 106, de 29 jun. 1943 (AAS 35 [1943] 247).

3. A. H. Lépicicer, Saint Joseph, époux de la Très Sainte Vierge, I, cap. 1.


4. Cf. R. Garrigou-Lagrange, La Madre del Salvador. Trad. esp. de José L. Navío.
3.ª ed., Buenos Aires: Desclée de Brouwer, 1954, p. 27.

5. Cf. A. Orozco, Mãe de Deus e Nossa Mãe. Trad. port. Maria F. M. Correia.


Lisboa: Diel, 1997, p. 19.

6. Cf. N. Signoriello, Lexicon Peripateticum Philosophico-Theologicum. 2.ª ed.,


Nápolis, 1872, p. 212.

7. Cf. Tomás de Aquino, Sum. Th., III, q. 16, a. 12, ad 1-3.

8. A. Orozco, op. cit., p. 21.
9. Id., ibid.
10. Cf. Id., ibid.

11. C. Pesch, Prælectiones Dogmaticæ. 5.ª ed., Friburgi Brisgorviæ: Herder, 1922,


vol. 4, p. 329, n. 574.
12. A. Orozco, op. cit., p. 23.

13. Cf. B. H. Merkelbach, Tractatus de Beatissima Virgine Maria. Paris: Desclée de


Brouwer, 1939, p. 39, n. 15, c.

14. Pio XII, Encíclica "Fulgens Corona", de 8 set. 1953, n. 13 (AAS 45 [1953] 581-
2).

15. Pio IX, Bula "Ineffabilis Deus", de 8 dez. 1845 (DH 2801).
Uma Bíblia sem Igreja?
"A Sagrada Escritura", ensina o Concílio Vaticano II, "é a Palavra de Deus
enquanto redigida sob a moção do Espírito Santo". Isto não significa, porém,
que Deus tenha limitado aos textos sagrados a totalidade de sua Revelação.
Longe de qualquer reducionismo, a Igreja esteve sempre consciente de que a
palavra última do Pai está contida não em um livro, mas manifestada
visivelmente na própria pessoa de Cristo, Verbo encarnado.

Nesta aula de encerramento do curso "Por que não sou protestante", Padre
Paulo Ricardo nos ajuda a entender por que os católicos, rejeitando o princípio
logicamente insustentável da Sola Scriptura, não consideram a Bíblia a fonte
única e exclusiva da Revelação divina.

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Um dos princípios fundamentais da Reforma protestante é o da sola Scriptura, segundo o


qual a Bíblia, e unicamente ela, constitui a regra de fé à qual um genuíno cristão deve-se
ater [1]. É apenas e tão-somente nas Sagradas Escrituras, proclamam os sectários
de Martinho Lutero, que se encontra a totalidade do depósito da Revelação divina: nelas
estão fixadas, de uma vez para sempre, todas as verdades que Deus nos quis transmitir; ao
interpretá-las, o fiel recebe diretamente do Alto, sem intermediários humanos de qualquer
espécie, as luzes para a sua vida moral e religiosa. Com o Texto Sagrado em mãos,
reafirmam eles, não há necessidade de autoridades nem de Magistério; basta folheá-lo
seguindo os próprios critérios para embeber-se, em suas páginas inspiradas, da mais pura e
autêntica pregação evangélica. Livro infalível não se sabe como nem por que razões, cada
protestante recebe do seu livreiro um exemplar da Bíblia e crê devotamente trazer embaixo
do braço o próprio "Verbo feito papel".

Ao primado da Escritura vem somar-se, num contorcionismo lógico, o primado da fé


individual, cujo mais notável instrumento de trabalho é o livre exame, uma revolução
radical e de consequências nefastas no campo da hermenêutica bíblica [2]. Agora, é ao
leitor, iluminado pelo Espírito Santo, que cabe determinar com certeza irrefragável o que a
Palavra de Deus quer ou não dizer. A interpretação e a correta inteligência dos textos
sagrados ficam assim submetidas ao capricho e às preferências da consciência individual
de cada crente, que julga sentir, como que por "instinto", onde está a única e verdadeira fé
dada aos homens por Nosso Senhor Jesus Cristo. Rechaçando, pois, toda e qualquer
autoridade que não a sua, Lutero fundou sobre um livro, furtado dos púlpitos de nossas
igrejas [3], uma religião em que os mesmos escritos, lidos de modos os mais contrastantes,
opõem, numa Babel de seitas, luteranos a calvinistas, batistas a adventistas, menonitas e
pentecostais…

O drama dos protestantes, é claro, não se resume a dissidências internas; a própria lógica
por detrás do monismo bíblico que lhes é característico termina por negar, ao fim e ao
cabo, a autoria divina das Escrituras. Com efeito, ainda que, em suas origens, o
protestantismo histórico não tenha rejeitado de todo o valor da Sagrada Tradição e de
algum ensinamento oficial [4], o excessivo biblismo que com o passar do tempo se tornou
a nota distintiva dos "reformados" continha, ao menos em gérmen, um problema tão
insolúvel quanto inconveniente: se, como dizem, o único veículo por que nos chegam as
verdades reveladas é a palavra escrita de Deus, como podemos chegar "à posse tranquila e
certa da Escritura como livro divino" [5]? Trata-se de estabelecer, com base na Bíblia, a
existência da mesma Bíblia como Revelação — um círculo vicioso que põe em xeque dois
dados básicos da nossa fé: a inspiração do Texto Sagrado e, por conseguinte,
a canonicidade dos escritos que o integram.

De fato, ainda que na Bíblia estivessem contidos todos os dogmas necessários à edificação
e à salvação dos fiéis, ficaria por demonstrar pelo menos uma verdade, "pressuposta a
todas as demais, que", sem petição de princípio, não pode ser provada "com a autoridade
exclusiva da Bíblia" [6], a saber: a existência da própria Escritura enquanto Palavra de
Deus redigida sob a moção do Espírito Santo [7]. Disto já se pode formar uma ideia do
quão insuficiente é a regra de fé protestante. Com efeito, devemo-nos perguntar, em
primeiro lugar, de que maneira podemos saber com segurança quais são os livros
inspirados, se em nenhum lugar da Bíblia nos é apresentado um catálogo exaustivo dos
textos que a compõem. E mesmo que possuíssemos uma tal lista, como poderíamos ter
certeza de que esses textos foram efetivamente ditados pelo Espírito Santo? Se
remontarmos agora aos começos do cristianismo, quando os escritos do Novo Testamento,
ainda em processo do formação, eram desconhecidos da maioria maciça dos fiéis, a
próxima dúvida que nos há de surgir não pode ser outra: aonde iam os primeiros cristãos
haurir os ensinamentos de Jesus, que nada deixou escrito [8]? Por certo que não à Bíblia.

A essas dificuldades a Igreja tem respondido, desde o período da Reforma, com as


palavras do seu divino Fundador: "Ide por todo o mundo e pregai o Evangelho a toda
criatura" (Mc 16, 15). Jesus Cristo, é evidente, quis que a sua doutrina fosse preservada ao
longo das gerações e fielmente transmitida a todos os povos, sem desvios nem corrupções
humanas. Era conveniente, portanto, que estabelecesse um órgão de transmissão dos seus
ensinamentos que, por um lado, os protegesse de uma leitura arbitrária e de um
subjetivismo pernicioso e, por outro, estivesse ao alcance fácil e seguro de todas as
inteligências, conforme as palavras de Timóteo: Deus "deseja que todos os homens se
salvem e cheguem ao conhecimento da verdade" (1Tm 2, 4). E a "Escritura
manifestamente não se acha nestas condições" [9]. Com efeito, como poderiam os fiéis
mais simples, geralmente pobres e sem instrução, ter acesso aos Livros Sagrados, que,
antes do desenvolvimento da imprensa, não se encontravam reunidos e bem trabalhados
como nas edições modernas que hoje qualquer um pode ter à mão? Acaso desejaria o
Senhor, durante quase quinze séculos, ver os pobres e miseráveis privados de um exemplar
da Bíblia?

Ora, a fim de que a Boa-nova ressoasse, íntegra e incorruptível, em todos os ouvidos,


Cristo mandou os Apóstolos pregarem-na de viva voz. Confiou-lhes, assim, o dever de
ensinar aos povos e nações tudo quanto dEle haviam aprendido e recebido por meio do
Espírito Santo. É justamente a essa pregação apostólica, por cujo intermédio a Palavra de
Deus, numa sucessão ininterrupta, é conservada, exposta e difundida pela Igreja ao longo
da história, que nós católicos chamamos Tradição, à luz unicamente da qual é possível ler,
de forma correta, aquilo que Deus quis registrar na Escritura Sagrada. Disto resulta,
primeiramente, que "a Igreja, a quem está confiada a transmissão e interpretação da
Revelação, 'não tira só da Sagrada Escritura a sua certeza a respeito de todas as coisas
reveladas'" [10].

No entanto, é exclusivamente ao Magistério Eclesiástico, e não aos fiéis, que compete


discernir o sentido autêntico do Texto Sagrado, uma vez que só à Hierarquia da Igreja,
Corpo Místico de Cristo, foi dada a prerrogativa de participar do magistério
infalíveldAquele que é a sua divina Cabeça [11]: "Quem vos ouve, a mim me ouve"
(Lc 10, 16). Pode-se dizer, nesse sentido, que é a Igreja o ambiente natural da Bíblia e é
apenas na Igreja, sob a guia dos seus legítimos pastores — ou seja, do Papa e dos bispos
—, que sabemos o que realmente querem dizer os escritos inspirados. Desta realidade, bem
como da nossa particular insuficiência para compreender a Bíblia, encontramos alguns
indícios já no Novo Testamento, quando vemos o Senhor ou os Apóstolos explicarem a
Escritura a seus ouvintes. "Porventura entendes o que estás lendo?", perguntou Filipe ao
eunuco etíope. Ao que este lhe respondeu: "Como é que posso, se não há alguém que mo
explique?" (At 8, 30s). "Começou então Filipe a falar e", expondo-lhe o profeta Isaías,
"anunciou-lhe Jesus" (At 8, 35). E Cristo, em Emaús, abrira o espírito a Cléofas e seu
companheiro, para que compreendessem que era dEle que se falava em todo o Antigo
Testamento (cf. Lc 24, 25-27.45).

Sem nada acrescentar ou tirar do depósito que lhe foi confiado por mandato divino, a
Igreja orienta infalivelmente os seus filhos sobre o verdadeiro sentido dos textos bíblicos,
prevenindo-os de qualquer interpretação que discorde do que por ela é proposto como
sendo a reta compreensão da Palavra de Deus [12]. De fato,

[...] a Sagrada Escritura não pode ser plenamente entendida por quem não tenha a fé católica.
Acontece perante a Bíblia o que acontece perante a figura de Jesus Cristo: quem não tiver a fé, só
poderá ver em Jesus um homem evidentemente extraordinário e singular; mas com isso fica
muito longe da verdade e, portanto, não entenderá Jesus Cristo quem não crer que é o Filho de
Deus Encarnado, a segunda Pessoa da Santíssima Trindade, o único Salvador e Redentor da
humanidade [13].

Do mesmo modo, a Bíblia não poderá ser entendida, na profundidade do seu significado,
por quem não se deixar iluminar pela luz da verdadeira fé, dando o seu mais fiel e
humildade assentimento tanto aos livros sagrados, cujo autor principal é o próprio Deus, e
àqueles que o mesmo Senhor constituiu como seus únicos e legítimos intérpretes, ou seja,
ao Magistério daquela que é, à semelhança de sua túnica inconsútil, a depositária
incorruptível dos tesouros divinos e o prolongamento, na terra, do seu próprio Corpo: a
santa Madre Igreja, una, católica, apostólica e romana.

Referências

1. Cf. A Boulenger, Manual de Apologética. 2.ª ed., Porto: Apostolado da


Imprensa, 1950, p. 401, n. 332, a.
2. Cf. Miguel A. Tábet, Introducción General a la Biblia. 2.ª ed., Madrid: Palabra,
2004, p. 348.

3. Cf. Pe. Leonel Franca, A Igreja, a Reforma e a Civilização. 5.ª ed., Rio de
Janeiro: Agir, 1948, p. 212.

4. Cf. W. Henn, "Protestantismo", in: AA.VV., Lexicon: Dicionário Teológico


Enciclopédico. São Paulo: Loyola, 2003, p. 621. Para se verem livres das
autoridades legítimas, os reformadores europeus trataram de proclamar o
princípio do "livre exame" e da suficiência das Escrituras; quando porém se
quiseram fazer ouvir, não temeram impor aos demais, com violência mais dura
do que a que diziam combater, o jugo da doutrina que eles mesmos, do dia
para a noite, haviam forjado (v. J. Balmes, El Protestantismo Comparado con el
Catolicismo. 10.ª ed., Barcelona: Imprenta del "Diario de Barcelona", 1921, vol.
1, p. 13).

5. Pe. Leonel Franca, Catolicismo e Protestantismo. 2.ª ed., Rio de Janeiro: Agir,


1952, p. 155.
6. Id., 1948, p. 222.

7. Cf. Catecismo da Igreja Católica (CIC), n. 81; Concílio Vaticano II, Constituição


Dogmática "Dei Verbum" (DV), de 18 nov. 1965, n. 9 (AAS 58 [1966] 821; DH
4212).
8. Cf. CIC, n. 83.
9. Pe. Leonel Franca, 1948, p. 224.
10. CIC, n. 82; DV, ibid.

11. Cf. Catecismo de São Pio X, n. 882.

12. Cf. J. Monforte. Conhecer a Bíblia. Trad. port. de Luis M. Correia. Coimbra:


Diel, 1998, p. 30.

13. "Introdução geral à Bíblia", in: Santos Evangelhos, da Bíblia Sagrada anotada


pela Faculdade de Teologia da Universidade de Navarra. Braga: Theologica,
1994, p. 36.