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27/04/2020 Coronavírus como força de mercado e o fim da sociedade

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Coronavírus como força de mercado e o fim da sociedade


Por Letícia Cesarino. Professora Adjunta no Departamento de Antropologia e no Programa de Pós-Graduação
em Antropologia Social (PPGAS) da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).

O renascimento da sociedade, ou seu enterro definitivo?

Se há algo de extraordinário que a atual pandemia do covid-19 parece ter feito, foi o premier britânico Boris
Johnson voltar atrás no slogan thatcheriano ao afirmar em um vídeo, logo antes da sua internação por covid-
19, que “existe sim sociedade”.[1] Poucas semanas antes, suas afirmações tinham ido num outro sentido, o de
defender a imunidade de rebanho. Diferente das metáforas militares talvez mais frequentes,[2] a lógica
subjacente da estratégia inicial de Johnson vê o vírus fundamentalmente como uma força de mercado:[3] a
relação risco-benefício da pandemia não justificaria os custos econômicos, pois o vírus sacrificaria
prioritariamente “apenas” aqueles – idosos, doentes crônicos, vulneráveis – que já são um passivo para a
sociedade. Esse raciocínio, onde meritocracia, eugenia e produtivismo se misturam perigosamente, pressupõe
uma equivalência entre sociedade e mercado, assim como a centralidade do divisor produtor-parasita: ambos
pilares fundamentais da gramática neoliberal contemporânea (HoSang e Lowndes, 2019).

Assim como ocorreu na crise financeira de 2008, alguns se apressam em cravar um prognóstico sobre se a
atual pandemia seria um sinal de que estaríamos nos aproximando dos limites do capitalismo neoliberal – ou
se, pelo contrário, do seu acirramento.[4] Mas para além dessas e outras performances oraculares comuns a
segmentos acadêmicos altamente midiatizados, sabemos que as relações entre a atual pandemia e a lógica
neoliberal só podem ser multifacetadas e, pior, ainda emergentes. Para começar a endereçar esse cenário é
preciso ir além de noções senso comum do que seja o tão falado neoliberalismo. Como o capitalismo em si, o
que chamamos de neoliberalismo não é uma ideologia fixa: embora mantenha uma continuidade com o modo
como foi sistematizada por Hayek e outros no início do século passado, foi sendo co-produzida com contextos
emergentes como o que vivemos hoje, inclusive sendo modulada por com outras forças sociais. Como
apontam as teorias de sistemas dinâmicos, na natureza e na história não existe nem reversibilidade, nem
novidade ex nihilo, mas adaptação e co-emergência: provavelmente não estamos às portas nem do enterro
definitivo da sociedade pela razão neoliberal (Brown, 2019), nem da sua ressureição da tumba do
keynesianismo e do trabalho fordista. Onde estamos, afinal?

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A gramática neoliberal emergente

Originalmente sistematizado no âmbito da Sociedade Mont Pèlerin nos anos 1940 e, nos EUA, da
Universidade de Chicago, o neoliberalismo hoje é (na verdade, sempre foi) muito mais que uma doutrina
econômica (Mirowski e Plehwe, 2011; Slobodian, 2018; Brown, 2019). Em fins dos anos 1970, Michel
Foucault (2004) já o diagnosticava como um tipo emergente de governamentalidade, baseada no
empreendorismo de si que veio a se tornar tão central às formas de subjetificação na atual era das mídias
sociais. Marxistas como David Harvey (2005) apontaram para seu aspecto de política de classe: a agenda
neoliberal seria um esforço de elites econômicas para preservarem seus privilégios diante da exaustão do
modelo keynesiano que perdurou durante a Guerra Fria – apenas enquanto havia Estado “para todos”, elas
teriam aceitado dividir o bolo (parece familiar?). Harvey, Naomi Klein (2008) e outros chamaram atenção
para as relações constitutivas entre a imposição dessa agenda de reformas e contextos de crise, desde o
experimento neoliberal original no Chile de Pinochet (onde esteve o jovem Paulo Guedes) ao rescaldo de todo
tipo de desastre natural, guerras e crises econômicas pelo globo: da Nova Orleans pós-Katrina ao pós-guerra
no Iraque, dos programas de ajuste estrutural na África Subsaariana à guerra híbrida permanente em que a
digitalização da política parece ter nos lançado (Davies, 2018). No Brasil, a pandemia mal começou e o
Ministério da Economia já está falando na retomada das reformas como solução para a crise.[5]

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Já entrando no atual século, novas modulações do neoliberalismo foram identificadas por autores como Jean e
John Comaroff (2004), Achille Mbembe (2016) e Loic Wacquant (2009): em particular, sua
complementaridade funcional com o punitivismo, a necropolítica e o populismo penal. É preciso, afinal, que
algo seja feito com os muitos que vão sendo deixados pra trás pela desigualdade galopante, precarização do
trabalho e automação de funções puxada por uma revolução digital perpétua. Fortalecem-se assim, no senso
comum, as gramáticas que traçam uma linha entre quem merece (tentar) uma vida plena, e quem deve ser
excluído da sociedade (ou seja, do mercado) por meio do encarceramento, da morte física ou da expulsão
das fronteiras nacionais. A judicialização crescente que marcou o período dos neoliberalismos progressistas
vem assim se desdobrando na retração do garantismo e em diferentes formas de vigilantismo social e
internético. Gramáticas xenofóbicas, armamentistas, punitivistas, e mesmo eugênicas vão se tornando
inextricáveis da lógica do livre-mercado: meritocracia e necropolítica se misturam. Não é apenas que, no
Antropoceno, não haverá “natureza” para todos no planeta, como sugeriu Bruno Latour (2015): na
“sociedade” neoliberal já não havia.

No caso daqueles que as prisões, as milícias, os linchamentos e o “tiro na cabecinha” não derem conta, há
as igrejas. À medida que o Estado neoliberal vai se desresponsabilizando de funções no campo da saúde
pública, saúde mental, reabilitação social e outros efeitos da precarização crescente do trabalho e da vida, as
igrejas – especialmente as evangélicas – vão ocupando o vácuo de modo bastante eficaz e capilar.
Novamente, as duas lógicas – a econômica e a teológica – vão se misturando, a ponto de às vezes se
tornarem indiscerníveis: quem influencia quem? No final dos anos 1990, o casal de antropólogos sul-africanos
Jean e John Comaroff (2000) identificou um aspecto central e ainda pouco reconhecido do neoliberalismo em
sua face contemporânea: o caráter encantado e apocalíptico do que eles convenientemente chamaram, numa
analogia com o prometido retorno de Cristo, da “segunda vinda” do capitalismo.

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Embora vinte anos atrás os Comaroff não apontassem as ressonâncias dessas tendências com a digitalização
crescente da vida, elas têm se tornado cada vez mais evidentes: temporalidades messiânicas não-lineares,
rumores, linchamentos (físicos ou de caráter), teorias da conspiração, múltiplas formas de casino capitalism e
esquemas-pirâmide, dinâmicas de grupo sectárias, esquemas fraudulentos e toda sorte de epistemologias não-
científicas proliferam pelo mundo, hoje, principalmente por meios virtuais. A pandemia da covid-19 evidencia
a força dessas epistemologias populares, bem como a sua condição de fundo, que os Comaroff (2004)
chamaram de metafísica da desordem: um estado sustentado de entropia informacional e alta
equiprobabilidade (Chun, 2016; Cesarino, no prelo a) no qual soluções definitivas e milagrosas – de
salvadores da pátria humanos a medicamentos não-humanos – usufruem de maior adesão do público que as

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medidas planejadas, graduais e sem visibilidade imediata de resultados como o isolamento social e as
testagens em massa.

Mais recentemente, Quinn Slobodian (2018) mapeou mais uma camada analítica importante, relativa às
relações complexas e por vezes contraditórias entre a lógica neoliberal e o rearranjo de relações na escala
global. A condição pós-colonial brasileira, marcada há séculos pela dependência (material, senão cultural) do
que vem de fora, mostra toda sua dramaticidade na atual pandemia. Em contextos em que relações
comerciais internacionais complicam-se e torna-se necessário importar quase tudo – testes, máscaras,
respiradores – é que vemos os custos das escolhas históricas das nossas elites. Nem o verniz nacionalista do
atual governo, nem a falsa oposição globalização-globalismo martelada pelo bolsolavismo são capazes de
esconder nossas vulnerabilidades e o alto custo dessa falta de autonomia.

Mas talvez não seja preciso esconder nada: ao fim e ao cabo, a gramática neoliberal que sustenta a nova
direita parece ser pessimista por default. Com o fim da meta-narrativa do progresso, faz sentido ser
nacionalista submetendo-se a um patrono mais poderoso: os EUA de Donald Trump e seus aliados ideológicos,
como Israel de Netanyahu. Com o fim do tipo de mobilidade social outrora prometido pelo já obsoleto
trabalho fordista, espera-se que apenas alguns – as celebridades instantâneas do YouTube, os investidores
sortudos do capitalismo de cassino, os políticos meteóricos da internet – consigam “ganhar dinheiro sem
trabalhar muito por isso”.[6] A maioria ficará pelo caminho tentando, vendendo o almoço para comprar o
jantar. É essa maioria que hoje sequer concebe que seja obrigação do Estado apoiá-los durante a
quarentena, para que não sejam forçados à escolha infernal entre morrer de fome ou de falta de ar.

Já a crítica feminista do neoliberalismo apontou para o que talvez seja hoje o seu principal pilar político: a
aliança com o conservadorismo (especialmente religioso) e os defensores da moralidade tradicional e da
família como unidade social fundamental (lembremos que o slogan thatcheriano do “não existe sociedade”
continuava com “apenas homens e mulheres individuais e suas famílias”). Afinal, quem vai cuidar dos doentes,

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idosos, crianças, desempregados, incapazes diante do desmonte das proteções sociais outrora oferecidas
pelo Estado? Como disse explicitamente o presidente brasileiro no contexto da atual pandemia, é preciso que
as famílias – o que, na prática, significa as mulheres – retomem o seu lugar de responsáveis e cuidadores dos
indivíduos vulneráveis, pois o governo se eximiu dessa responsabilidade: voltamos, como mostrou Melinda
Cooper (2017), ao espírito das poor laws da época medieval e do século XIX. Já Wendy Brown (2019)
apontou como, no pensamento do próprio Hayek e outros, a moralidade tradicional já figurava junto com o
mercado como ordens espontâneas complementares sobre as quais a utopia neoliberal seria erigida, se
apenas o Estado abrisse mão de suas intervenções indevidas na ordem natural das coisas. Hoje, a gramática
neoliberal parece enquadrar o Sars-CoV-2 e suas consequências letais como parte dessa ordem natural, e
medidas impositivas como o isolamento social como intervenções nessa ordem – e, portanto, atentados à
liberdade dos indivíduos. É aí que a discussão sobre a renda básica torna-se tão sensível, pois oferece aos
trabalhadores informais um vislumbre de alternativa à liberdade de continuar trabalhando precariamente no
limiar da sobrevivência. Os neoliberais progressistas já se apressaram em assegurar que ela seja apenas
emergencial e temporária: um voucher.[7] Os bolsonaristas conseguem fazer pior: enquadram quem fica em
casa na cadeia de equivalência neoliberal-conservadora do vagabundo (comunista, funcionário público, etc.).

Finalmente, o historiador e filósofo da ciência Philip Mirowski (2019) tem destacado a coprodução estreita
entre a neoliberalização e a digitalização não apenas no domínio econômico dos mercados financeiros, mas
em todos os domínios da vida de modo geral: em especial, no modo como compreendemos verdade,
causalidade e responsabilização. Como ele notou, o próprio Hayek foi pioneiro em aplicar a teoria da
informação à doutrina econômica, redefinindo o livre-mercado como um processador de informação ideal,
mais eficaz para chegar à verdade do que qualquer agente cognoscente e planejador – seja ele um
indivíduo, o Estado, ou mesmo a ciência. Décadas depois, a revolução digital finalmente possibilizou
concretizar a utopia de Hayek, ao trocar arquiteturas informacionais baseadas na “‘deliberação’ e
planificação” pela performatividade, distribuição e descentralização das mídias digitais contemporâneas
(Bruno e Vaz, 2002: 29) – desestabilizando, assim, as estruturas que sustentaram o arranjo social da
modernidade durante boa parte do século XX.

Entre essas estruturas figuram a ideia da sociedade (e seus corolários, como a justiça social) (Brown, 2019) e
o sistema de peritos do qual faz parte a ciência, a estatística, a esfera pública organizada em torno da
imprensa profissional. Não por acaso, a atual pandemia recoloca todo esse conjunto paradigmático no centro
de nossos dilemas coletivos: ao impactar uma porção significativa da população de uma só vez, com o risco
de saturação de infraestruturas coletivas como o sistema de saúde e mesmo a economia, ela coloca em
questão os pressupostos descentralizadores e individualizantes do neoliberalismo. Ela nos lembra que somos,
afinal, uma sociedade – como afirmou Johnson.

A ciência em particular retorna ao centro das atenções. Como Thomas Kuhn, Bruno Latour e boa parte dos
estudos CTS (Ciência, Tecnologia e Sociedade) têm mostrado, a ciência é mais eficaz nos contextos que ela
própria ajudou a moldar. Em outras palavras, ela é o melhor farol para a situação em que vivemos não porque
seja um tipo de conhecimento universal e intrinsecamente superior aos saberes tradicionais, não-ocidentais ou
epistemologias populares, mas porque ela foi co-produzida com o nosso tipo de sociedade (industrial,
expansionista) ao longo dos últimos séculos. Pelo menos, até o momento: como vem notando o próprio
Mirowski, as pressões pela neoliberalização (e algoritmização) da ciência ameaçam transformar de modo
fundamental alguns de seus pilares centrais.

Por outro lado, se o novo coronavírus é tão problemático por ter justamente “pulado” a fronteira entre natureza
e sociedade, uma epidemia como esta pode estar de fato apontando para os limites do aceleracionismo e do
expansionismo do capitalismo industrial sobre suas últimas fronteiras – como o interior da China, por exemplo.
Como bem colocaram Danowski e Viveiros de Castro (2014), a questão do fim do mundo (que é, na prática,
a questão da exaustão histórica do capitalismo) deve ser posta de forma fractal: seus sinais concretos não
necessariamente chegarão à escala da nossa vida quotidiana na forma de catástrofe climática. Podem chegar
na forma de uma nova pandemia – essa anomalia (Kuhn, 2006) tão expressiva dos excessos da intervenção
humana nos interstícios entre a sociedade e a natureza. E como também descreveu Kuhn, quando as
anomalias se acumulam e não são processadas adequadamente pelo paradigma vigente, é sinal de que ele
pode estar chegando no seu limite.

Desinformação e a crise do sistema de peritos

Com efeito, as reações à atual crise mostram como o que chamamos de neoliberalismo é muito mais que uma
agenda econômica, uma política de classe e mesmo um tipo de cultura: é também uma estrutura epistêmica.
Talvez seja cedo para saber se trata-se de uma estrutura transitória, ou se é um novo paradigma que
eventualmente se reestabilizará num outro patamar. A pandemia do covid-19 não é a primeira do século, mas
provavelmente é a primeira que coincide com uma pandemia de desinformação. A lógica de viralização nos
dois casos parece análoga: assim como o vírus viceja tomando controle de células vivas e fazendo-as

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trabalharem para a sua replicação, a desinformação se replica rapidamente na medida em que usuários
passam a mimetizar suas fórmulas prontas e, no limite, a incorporar sua gramática por meio dos loops cada
vez mais intensivos com a capilarização crescente de tecnologias digitais como smartphones, apps e mídias
sociais (Chun, 2016; Cesarino, no prelo a).

A pós-verdade contemporânea tem muitas raízes: o marketing de massas, as “crises de objetividade” nas
ciências (Latour, 1994), a propaganda política, o pensamento conspiratório – nada disso de fato é novo,
como alguns sempre se apressam em pontuar. Mas o que a infraestrutura digital parece fazer é potencializar
esses processos ao aumentar a entropia, ou a equiprobabilidade (grosso modo, a igual probabilidade de um
enunciado estar correto ou não; Latour & Woolgar, 1997), num ambiente informacional que talvez um dia já
tenha se parecido com uma esfera pública organizada, mas que hoje se parece mais com um campo de
batalha das guerras de religião que se seguiram à invenção da prensa de Gutenberg no século XVI. Se, como
famosamente definiram Latour e Woolgar (1997), a realidade (ou a verdade) é “o enunciado caro demais
para ser contraditado”, a pós-verdade é uma condição epistêmica em que qualquer enunciado pode ser
contraditado, a um custo (não apenas no sentido econômico) muito baixo. Num contexto como esse, a
necessária redução de complexidade – afinal, ninguém consegue viver no ruído, ou no caos informacional –
acaba se dando menos pela confiança no sistema de peritos (ou seja, o que dizem os cientistas, as
instituições, a imprensa profissional) do que pela produção de bolhas (políticas e outras) e outros recursos
epistêmicos elementares, como os sentidos imediatos e elos causais ocultos (Cesarino, 2020).

A convergência dos efeitos da pós-verdade com a visão epistêmica do neoliberalismo avançada por Mirowski
ou pelos Comaroff é evidente: a verdade não é um a priori acessível (ou ao menos estabilizável) pela ciência,
a partir do qual se planejará intervenções na sociedade, mas um a posteriori das livres relações de mercado.
Aqui, verdade iguala-se a eficácia, e a sociedade passa a ser vista sob essa mesma lógica performativa:
apenas os merecedores e os produtivos vicejarão. Nesse sentido, o planejamento estatal para a gestão da
pandemia e a produção de conhecimento a ele associada (notadamente, a testagem em massa e as
modelagens estatísticas) são anátemas à episteme neoliberal. O seu presentismo não prevê lugar para o
intervalo de semanas que transcorre entre as infecções pelo vírus e seus efeitos mais graves na saúde pública e
na própria economia. Nesse ínterim, as cadeias causais vão sendo preenchidas por toda sorte de elos
ocultos, “ciência mágica” (aquela validada não pela comunidade científica mas pelo líder, único repositório
da verdade) [8] e intrigas políticas. As mídias sociais, o WhatsApp incluído, tornam-se o principal motor de
difusão não apenas de conteúdos “prontos”, mas de uma deutero-pedagogia (parafraseando Bateson) que
transmite essas maneiras emergentes de compreender causalidade, verdade e responsabilização.

Mas novamente, o que parecem coincidências podem ser na realidade coproduções. Como notou Mirowski
(2019), o indivíduo influenciável pela desinformação e pelos populistas contemporâneos é o mesmo indivíduo
influenciável que forma a base do modelo de negócios das grandes empresas de tecnologia digital. O
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objetivo em última instância é a mímese, a replicação, a viralização, a adicção, o tempo de tela – em suma,
a heteronomia dos usuários (Cesarino, no prelo b). Na base da própria arquitetura algorítmica das mídias
sociais está não a sociedade como força moral ou o indivíduo autônomo e crítico, mas modelos
comunicacionais – biológicos e físicos – de contágio, viralização, comportamento de bando (de pássaros e
outros animais), técnicas psico-cognitivas de ação sobre o cérebro “reptiliano” dos usuários (Chun, 2016;
Marres, 2018). Pode ser que, se descascarmos o suficiente as camadas, veremos que os paralelos entre a
epidemia do vírus e a epidemia de desinformação que a acompanha são mais que analogias fortuitas.

O vírus como força de mercado e o neoliberalismo como força anti-moderna

Muitas das visões de usuários comuns sobre as causas, consequências e modos de gestão da atual pandemia
que encontrei nas redes sociais, em especial as bolsonaristas, ressoam em múltiplos pontos não apenas com o
regime epistêmico da pós-verdade, mas com a gramática neoliberal delineada acima. Digno de nota é a
quantidade significativa de brasileiros que sequer cogitam que seja papel do Estado e dos governos apoiarem
a população mais vulnerável para que ela possa cumprir as orientações técnicas de isolamento para a
contenção do vírus. Algumas dessas visões chegam a extremos anarco-capitalistas, ao afirmarem que “o
Estado quebra nossas pernas para depois nos oferecer muletas” – como se houvesse sido possível,
historicamente, capitalismo sem Estado.

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Mas o fato de a gramática neoliberal ser hoje global não significa que ela se enraíze da mesma forma em
todos os lugares. Contexto importa: como disse Anna Tsing (2005), projetos globais só se realizam na, e por
meio da, fricção com formas locais. No Brasil de hoje, o neoliberalismo ganha tração friccionando-se com um
histórico secular de desigualdade extrema e de abandono de grande parte da população por parte do poder
público. Por que confiar que fazemos parte de uma sociedade, se na prática ela nunca existiu? A jabuticaba
do isolamento vertical, por exemplo, atualiza a cidadania diferenciada (Holston, 2013) que sempre fez parte
da história social e de muitas instituições brasileiras,[9] ao colocar um risco desproporcional sobre os
vulneráveis de sempre, enquanto o topo da pirâmide grita que o Brasil não pode parar da janela dos seus
carrões, nas carreatas que agora tomam o lugar das manifestações de rua.

Chegamos aqui ao argumento dos Comaroff de que, na era do capitalismo milenarista onde a seta do
progresso foi deixada para trás, os “condenados da Terra” tornam-se o espelho futurista do “Primeiro Mundo”.
Neste sentido, o Brasil sempre foi neoliberal, pois, para boa parte da população, o Estado nunca cumpriu
verdadeiramente sua função de bem-estar, proteção social e redução de desigualdades. Se a tragédia vier,
será apenas mais uma.[10] Como seguir procedimentos de Europa, se somos África? – me disseram. É
preciso que o enorme contingente de trabalhadores informais volte ao trabalho, pois o Estado não pode e não
vai fazer nada por eles. De acordo com essa gramática, defender a quarentena é visto como um luxo de elites
de funcionários públicos que parasitam os trabalhadores produtivos e empreendedores, os verdadeiros

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“patriotas”. (Já os investidores improdutivos que multiplicam suas heranças no capitalismo de cassino – é como
se não existissem, pois logram se colocar como parte da ordem natural das coisas.)

A gramática neoliberal difundida no senso comum se ancora portanto na equação mercado = sociedade: se
o mercado parar, a economia afunda e a sociedade desce ao caos, pois toda riqueza vem do trabalho. Mas
não estamos aqui de volta à discussão do trabalho como origem do valor da economia política no século XIX,
pois o neoliberalismo financeirizado opera fundamentalmente com valores imateriais e uma segunda economia
que parece correr em paralelo à economia “real”. Os Comaroff (2000) acertaram ao comparar a percepção e
efeitos desse estado de coisas com o tradicional mundo do “oculto” em África. O caráter mágico, encantado,
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escatológico do neoliberalismo contemporâneo emana também do mistério das economias ocultas
financeirizadas. Ganhar dinheiro rápido e sem trabalhar muito: a proposta de levantar a quarentena
imediatamente sem ter o trabalho de montar uma intervenção planejada e de longo prazo[11] de fato lembra
os get-rich-quick schemes do neoliberalismo (Comaroff e Comaroff, 2000). Acredita-se não nos procedimentos,
no planejamento embasado no trabalho lento porém resiliente dos peritos, no sacrifício árduo porém
necessário para que um dia voltemos todos em segurança à normalidade. A referência da verdade passa a
ser uma aposta, um risco: na palavra do líder, naquilo que se “vê nas ruas” (o que geralmente significa vídeos
supostamente caseiros circulados no WhatsApp), nas curas milagrosas, nas narrativas ocultas que permeiam os
mistérios da origem e difusão do “vírus chinês”.

Previsivelmente, a constelação neoliberal culmina numa visão da quarentena enquanto um problema de


liberdade individual, de coerção sobre a liberdade de ir e vir dos sujeitos. Vídeos de insurgentes desafiando a
polícia para continuarem nas ruas tornam-se profecias auto-cumpridas da ditadura dos inimigos políticos, ou
apenas reatualizam o Estado que historicamente sempre existiu mais para reprimir do que para cuidar. O
significante vazio do inimigo, tão central aos populismos digitais contemporâneos, retorna com roupagens
renovadas (ou nem tanto): a imprensa, a China, os traidores, o establishment, a elite hipócrita, o Legislativo e
o Judiciário. Para os seguidores mais extremados, a renovação constante da fronteira antagonística permite
modular qualquer (contra)argumento, ao separar os inimigos daqueles que têm o direito à liberdade, à vida, à
democracia – os verdadeiros patriotas, alicerçados na fonte última da soberania: o “povo” e as Forças
Armadas.

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Mas mesmo para a população em geral, a sustentação de um estado de indefinição e ambiguidade (por que
não mostrar o resultado do exame? por que não se comprometer com um plano claro para gerenciar a crise?)
permite manobras retóricas e invertidas infinitas, assim como a transferência preemptiva da responsabilidade
para outros, reais ou imaginários. Todos são responsáveis pelo caos e pelas mortes que possivelmente virão –
todos, menos o líder. O discurso do presidente sobre a pandemia, que parece confuso para quem opera na
gramática do sistema de peritos, provavelmente faz sentido para as epistemologias populares que vicejam na
era da desinformação. Afinal, ele foi eleito como um “igual”, como um opositor do establishment; desse ponto
de vista, não há contradição entre o candidato e o governante.

Esse tipo de populismo, onde a lógica recursiva das mídias sociais faz com que seguidores e líder se
confundam cada vez mais, não é contraditório com o neoliberalismo contemporâneo; pelo contrário, é hoje a
sua principal modulação (Brown, 2019). Como argumentei em outra ocasião (Cesarino, 2019), o slogan
“liberal na economia, conservador nos costumes” é enganador: o neoliberalismo se tornou parte constitutiva da
gramática identitária (neo)conservadora, e o (neo)conservadorismo autoritário e punitivista, parte da gramática
econômica neoliberal. Nos termos de Nancy Fraser (2006), trata-se de uma constelação propriamente
bivalente, em que a gramática (identitária) do reconhecimento e a gramática (econômica) da redistribuição
andam juntas e se co-produzem de modo cada vez mais íntimo.

Pra onde vamos?

Tendo a concordar com diagnósticos de que a atual pandemia seria mais um sinal de uma transição histórica
profunda que apenas começa a se insinuar[12]. Porém, a essa altura é mais difícil antecipar os resultados
dessa transição do que apontar alguns de seus “sintomas mórbidos” – para usar a expressão clássica de
Antonio Gramsci re-popularizada com a ascensão recente dos populismos de extrema direita pelo mundo. As
principais tensões dialéticas hoje parecem se dar menos entre classes ou grupos políticos preexistentes do que
transversalmente, entre o que Gabriel Tarde (1991) diferenciou enquanto multidão e público, ou o que Chantal
Mouffe (2015) definiu como os dois pólos contraditórios das democracias modernas: o da soberania popular,
vontade da maioria e política de massas; e o dos direitos individuais, contrapesos institucionais e esfera
pública liberal.

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Mais que qualquer outro evento recente, a atual crise põe a nu a encruzilhada que o neoliberalismo
contemporâneo nos coloca: somos, afinal, uma sociedade, ou uma multidão cada vez mais dividida entre
linhas antagônicas que separam aqueles de quem devemos cuidar (amigos) daqueles contra quem devemos
lutar e competir (inimigos)? O neoliberalismo digitalizado está se mostrando uma força anti-moderna, ao
sacramentar o fim do sistema de peritos e da sociedade (Brown, 2019) tal qual os conhecíamos? O campo
progressista deve pensar em alternativas ao neoliberalismo, ou em neoliberalismos alternativos às suas
modulações punitivistas, necropolíticas, anti-democráticas, anti-ciência, mas que não simplesmente repliquem o
neoliberalismo progressista (Fraser, 2006) dos anos 2000? Pode ser que, mais que outros países, o Brasil de
Bolsonaro, que concentra em si todo o espectro sinistro do neoliberalismo contemporâneo descrito acima, seja
um dos cenários onde se desenrolarão de modo dramático alguns dos sintomas mórbidos da atual
encruzilhada histórica.

Referências citadas:

Brown, Wendy. Nas ruínas do neoliberalismo: a ascensão da política antidemocrática no Ocidente. Politeia,
2019.
Bruno, Fernanda e Paulo Vaz. Agentes.com: cognição, delegação, distribuição. Contracampo 7, 2002.
Cesarino, Letícia. Identidade e representação no bolsonarismo: corpo digital do rei, bivalência
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27/04/2020 Coronavírus como força de mercado e o fim da sociedade
Notas:

[1] “There really is such a thing as society”, em vídeo postado no Twitter em 29 de março de 2020.

[2] https://geict.wordpress.com/2020/04/08/covid-19-e-as-imunidades/

[3] https://soundcloud.com/poltheoryother/81-covid-19-neoliberalisms-grave-digger-w-paul-mason

[4] http://www.ihu.unisinos.br/78-noticias/597314-zizek-sobre-o-coronavirus-um-golpe-letal-no-capitalismo-
para-reinventar-a-sociedade
https://chaodafeira.com/wp-content/uploads/2020/04/caderno-101-negri.pdf

[5] https://economia.uol.com.br/noticias/reuters/2020/04/04/retomada-da-economia-sera-por-reformas-
e-reducao-de-encargos-trabalhistas-diz-guedes.htm

[6] Referência a postagem de março de 2012 da hoje deputada estadual Ana Caroline Campagnolo (cuja
conta foi desativada após a exposição deste e outros tweets antigos).

[7] https://www1.folha.uol.com.br/ilustrissima/2020/03/renda-basica-antes-folclorica-vira-medida-
essencial-para-enfrentar-crise-do-coronavirus.shtml

[8] https://youtu.be/4FOOe0tSNrM

[9] http://www.anpocs.com/index.php/ciencias-sociais/destaques/2334-boletim-n-21-a-cidadania-vertical-
no-brasil-o-caso-do-coronavirus.

[10] https://twitter.com/nadanovonofront/status/1251155199785177088

[11] https://twitter.com/madeleinelacsko/status/1249670700891361286.

[12] https://vianadiego.wordpress.com/2020/04/07/ai-esta-o-seculo-que-previmos/

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27/04/2020 Coronavírus como força de mercado e o fim da sociedade

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