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Índice

Introdução......................................................................................................2

1. O Modo.....................................................................................................3

1. 1. A noção do modo.................................................................................................3
1. 2. Os modos verbais no latim e no português........................................................4
2. O emprego do Conjuntivo.........................................................................8

2.1. O Conjuntivo em oração principal.....................................................................8


2.1.1. Coniunctivus Iussivus......................................................................................8
2.1.2. Coniunctivus Optativus...................................................................................9
2.1.3. Coniunctivus Potentialis ...............................................................................10
2. 2. O Conjuntivo em orações subordinadas.........................................................12
2.2.1. Frases completivas (substantivas) ................................................................12
2.2.2. Orações relativas ..........................................................................................17
2.2.3. Orações adverbiais........................................................................................21
3. A selecção do tempo...............................................................................33

3.1. A selecção do tempo em orações principais.....................................................33


3.2.A selecção do tempo em orações subordinadas ...............................................34
3.2.1. A selecção do tempo em frases condicionais................................................35
3.2.2. A concordância dos tempos: as regras da Consecutio Temporum................36
Conclusão....................................................................................................41

Bibliografia..................................................................................................43

1
Introdução

O emprego do Modo Conjuntivo é um ponto problemático, que pode causar


dificuldades durante da aprendizagem do latim ou duma língua românica, não apenas
para nós húngaros, em cuja língua não existe este modo, mas também para os falantes
nativos.1 Durante os meus estudos do latim, do português e um pouco do italiano
experimentei que apesar de falarmos sobre o mesmo Modo Conjuntivo o seu emprego
não é igual nas diferentes línguas e as diferenças nem sempre podem ser explicadas por
razões históricas. Isso é verdade sobretudo no caso do português, que comparado com
as outras línguas românicas tem algumas particularidades especiais, por exemplo a
existência do Futuro do Conjuntivo. O objectivo desta tese é recolher e sistematizar as
características comuns e diferentes do Conjuntivo latino e português, para facilitar a
aprendizagem destas línguas. A análise seria mais completa se comparássemos todas as
línguas românicas, mas isso ultrapassaria os nossos limites.
Primeiro vamos tratar de questões mais gerais como a definição do modo, os
diferentes modos verbais, as características gerais do Conjuntivo, depois examinaremos
a selecção do modo em orações principais e subordinadas nas duas línguas e no fim
compararemos o emprego dos tempos do Conjuntivo.

1
Marques, 3.

2
1. O Modo

Antes de começarmos a tratar das características do Modo Conjuntivo no latim e


no português temos de definir a noção do modo e recolher aqueles aspectos segundo os
quais podemos distinguir os diferentes modos.

1. 1. A noção do modo

A definição do modo é semelhante nas diferentes gramáticas. É uma categoria


verbal que exprime uma atitude do enunciador em relação ao enunciado. Há autores2
que sublinham a sua função modal. O modo, como o seu nome indica, é uma ligação
modal entre o locutor e o conteúdo sobre o qual fala. As modalidades que podem ser
marcadas assim são: as aléticas (necessidade, possibilidade, incidência); epistémicas
(certeza, plausabilidade, exclusão); deônticas (obrigação, permissão, proibição).3 Além
das três modalidades básicas existem também outras como: temporais, erotéticas,
avaliativas e causais.4 Podem ser expressas por diferentes formas lexicais, por exemplo
advérbios ou elementos funcionais como verbos modais ou modos verbais, então o
modo verbal é a manifestação gramatical da modalidade semântica.
Segundo Mateus e outros5 o uso dos modos liga-se também aos actos ilocutórios,
assim depende do tipo da frase em que aparece. Podemos encontrar uma ideia
semelhante em Pinkster, que diz que o modo num sentido mais amplo pode significar o
tipo da frase e a sua força ilocutória, por isso há linguistas que não distinguem estas três
noções. Ele considera necessária a distinção, mas resume a relação entre os modos e os
tipos de frases na tabela seguinte6:

Tipos de frases Modos


Indicativo Imperativo Conjuntivo
Declarativo + - +
Imperativo - + +
Interrogativo + - +

2
Mateus e outros., Marques.
3
Mateus e outros, 102-6.
4
Marques, 6. baseada em Oliveira, F.: Para uma semântica e pragmática de DEVER e PODER,
Dissertação de Doutoramento em Linguística Portuguesa, Faculdade de Letras da Universidade do Porto,
1988.
5
Mateus e outros 102-6.
6
Pinkster, 190.

3
No português costumam distinguir também frases exclamatvas, optativas,
imperativas, mas quanto ao emprego dos modos as exclamativas podem ser
consideradas declarativas enquanto os dois últimos podemos incluí-los numa categoria
maior das frases desiderativas7 nos quais usamos o Imperativo ou o Conjuntivo. Desta
relação entre modos e tipos de frases trataremos mais em relação ao uso do Conjuntivo
em orações principais, mas agora examinemos os diferentes modos verbais.

1. 2. Os modos verbais no latim e no português

Os três modos básicos que se encontram no latim e nas línguas neolatinas são o
Indicativo, o Imperativo e o Conjuntivo. Na língua indoeuropeia existia também o
Modo Optativo, que continuava a existir no grego antigo e no sânscrito, mas no latim
juntou-se ao Conjuntivo. Havia gramáticos8 que seguindo o exemplo grego diziam que o
Optativo existe também no latim apesar de as suas formas verbais serem iguais às do
Conjuntivo. Além de o Conjuntivo latino exprimir desejos, têm outras razões para
pensarem assim:
 Enquanto a negação do Conjuntivo acontece com non em geral, no caso do
Optativo usa-se ne. (Mas há outros usos do Conjuntivo que se negam com ne.)
 O uso dos tempos é diferente no caso do Optativo. O Presente exprime que o
desejo é possível, o Imperfeito que não é possível realizá-lo no presente, o mais-que-
Perfeito a irrealização no passado. O Presente do Optativo tem um valor de futuro. O
Imperfeito e o mais-que-Perfeito exprimem irrealização no presente e no passado como
no caso do conjuntivo potencial. O Perfeito do Optativo refere-se ao futuro mas indica
perfectividade.9.
Um outro modo problemático é o Condicional, que não existia nem na língua
indoeuropeia antiga nem no latim, mas existe nas línguas neolatinas. Este é o modo que
substitui o Conjuntivo potencial e além disso tem também um valor temporal na oração
oblíqua, onde exprime futuridade no passado, por isso chama-se também o Futuro do
Pretérito. O seu valor modal é também semelhante ao Futuro do Indicativo porque
ambos exprimem hipótese ou dúvida, o Futuro no presente, enquanto o condicional no
Passado. Além disso ambos provêm da construção do Infinitivo e o Presente ou o

7
Töttössy (1992), 199.
8
Dionysius, Donatus
9
Binnick 70-1.

4
Imperfeito do verbo habere.10 Há linguistas que por estas razões não consideram o
Condicional um modo independente.11
O Modo Imperativo, como o seu nome mostra, é o modo das ordens. No latim
existia além do I. Imperativus (Praesens) o II. Imperativus (Futurus), mas ambos eram
defectivos porque faltavam as formas da primeira e da terceira pessoa do I. e as formas
da primeira pessoa do II.. As formas negativas do I. são expressas por noli(te) mais o
Infinitivo ou por ne mais o Conjuntivo. O II. é negado por ne. No português existem
apenas as formas positivas do I.. Para substituir as formas que faltam é usado o Presente
do Conjuntivo em ambas as línguas.
O modo Conjuntivo já no latim tinha dois nomes, o Conjuntivo significa que
serve para ligar ideias, assim indica que entre duas ou mais orações há uma relação mais
forte. O outro nome é Subjuntivo, que nos sugere que a função principal deste modo é
indicar a subordinação, por isso há linguistas que negam a existência das suas
ocorrências independentes como vamos ver no próximo capítulo. Os linguistas
costumam definir o Indicativo e o Conjuntivo juntos determinando a diferença básica
entre estes dois modos. Uma solução que frequentemente aparece nas obras linguísticas
é que esta diferença é a assertividade. O Indicativo é o modo assertivo, assim usa-se
em frases declarativas e depois de verbos da afirmação e o Conjuntivo como o modo
não assertivo é seleccionado para exprimir desejo, dúvida, ordem, etc.12 Mas esta
hipótese é problemática porque o Indicativo não exprime sempre asserção e também o
Conjuntivo pode exprimi-la. Consideremos os exemplos seguintes:

(1)Pensa que os gatos podem voar.

(2)Lamento que tenham perdido o jogo.

Segundo uma outra hipótese há muitos que consideram o valor de verdade como
aspecto que pode distinguir os dois modos. Assim o Indicativo é o modo que exprime
um maior valor de verdade (certeza, realidade), enquanto no caso do uso do Conjuntivo
o grau da verdade é mais baixo (incerteza, dúvida, eventualidade, irrealidade)13. É

10
Nunes, 279.
11
Cunha - Cintra, 460-2.
12
Bybee, J. - Terrel, T. ”Análisis Semántico del Modo en Español”,: in Bosque, I(org.), Indicativo y
Subjuntivo, Taurus Universitria, Madrid, 1990, 145-163, apud Marques (1997), 192. ou. Marques, 9-12.
13
Cunha - Cintra, 463-4; Mateus e outros, 106.

5
interessante a hipótese de Farkas14, que distribui verbos de ancoragem intencional e
extensional. No caso dos verbos de ancoragem intencional o complemento é
interpretado relativamente a um único mundo e seleccionamos o Modo Indicativo,
enquanto a "ancoragem extensional" significa que o complemento é interpretado
relativamente a um conjunto de mundos, e neste caso usamos o Conjuntivo. A sua
hipótese é verdadeira no caso do romeno, mas não no caso das línguas românicas
ocidentais.
As hipóteses mencionadas consideravam o Indicativo o modo menos marcado e
tentavam determinar os casos quando temos de usar o Conjuntivo. Segundo Marques
seria mais lógico fazer o contrário. Ele considera marcado o Indicativo, que exprime
uma modalidade epistémica.15 Na definição de Woodcock o Indicativo exprime uma
atitude distanciada, o enunciador não exprime sentimentos sobre o assunto. O
Conjuntivo pelo contrário é usado quando a atitude do locutor não é neutra.16 Outras
gramáticas latinas também escrevem que a crença da verdade do enunciador é que
determina a selecção do modo. Assim usa-se o Indicativo quando é expressa uma crença
da verdade, enquanto o uso do Conjuntivo significa que o enunciador não aceita a
verdade do assunto expresso. Ou com outras palavras o Indicativo exprime uma verdade
objectiva, enquanto o Conjuntivo uma subjectiva.17
Santos18 combina diferentes hipóteses. Aceita que o Conjuntivo indica que o
assunto expresso não é verdadeiro e está ligado a um mundo virtual, mas ao mesmo
tempo sublinha que o enunciador é que escolhe o modo que considera adequado
segundo a sua crença de verdade.
Ainda temos de mencionar um fenómeno latino, o Indicativus Irrealis, que
Töttössy19 ilustra com o exemplo seguinte:

14
Farkas, D.:”On the semantics of subjunctive complements”; in P. Hirschbühler e K. Koerner (eds):
Romance Languages and Modern Linguistic Theory; John Benjamins, 1992, 71-104. apud Marques
(2004) 96. ou Marques, 11.
15
Marques (1997), 194-7.
16
Woodcock, 83-4.
17
Nagy - Kovács - Péter 150.
18
Santos, Ma J. A. V.: Os Usos do Conjuntivo em Língua Portuguesa (Uma proposta de Análise
Sintáctica e Semântico-Pragmática), Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, 1999, apud
Marques, 23-6.
19
Töttössy (1991) 139.

6
(3)"Possum de ichneumonum utilitate, de crocodilorum, de felium dicere, sed
nolo esse longus."20

(4)Poderia falar sobre a utilidade das doninhas, dos crocodilos, dos gatos, mas não
quero ser longo.

Como podemos ver na tradução portuguesa, utilizamos o Condicional para indicar


que verdadeiramente não acontece o que a frase declara, apenas seria possível o seu
acontecimento. No latim ainda não existia o Condicional, mas para indicar a
potencialidade usavam os Presente e o Perfeito do Conjuntivo, como vamos ver no caso
das frases condicionais. A explicação é que nas situações semelhantes o locutor quer
sublinhar que tem a capacidade de fazer alguma coisa, mas naquele momento não quer
fazê-lo, por isso a frase exprime que esta capacidade é verdadeira. É semelhante o caso
das expressões de valor:

(5)"Cuius ego vicem doleo; qui urbem reliquit, id est patriam, pro qua et in qua
mori praeclarum fuit."21

(6)Tenho dor em vez dele; quem deixou a cidade, a pátria pela qual e em que teria
sido gloriosíssimo morrer.

Aqui a morte não aconteceu, o conteúdo é irreal, e neste caso no latim o emprego
do Coniunctivi Praeteritum Imperfectum ou o Praeteritum Perfectum seria normal. Mas
podemos dizer que morrer pela pátria é sempre glorioso, esta é uma verdade eterna,
assim o uso do Indicativo é normal. Seria mais evidente usar o Presente, mas o Perfeito
no seu uso gnómico pode ser usado no caso de verdades eternas. Assim talvez seja
melhor usar o Presente do Indicativo na frase portuguesa: é glorioso. Assim podemos
ver que a selecção do modo depende do atitude do locutor. No português também há
situações em que o Indicativo pode exprimir contrafactualidade, como vamos ver
quando tratarmos as frases condicionais.

20
Cicero: De natura deorum, 1, 101.
21
Cicero: Epistlae ad Atticum VIII. 2. 2.

7
2. O emprego do Conjuntivo

2.1. O Conjuntivo em oração principal

O Conjuntivo emprega-se principalmente em orações subordinadas, por isso há


gramáticos que negam a existência das suas ocorrências independentes principalmente
no caso da língua portuguesa.22 porque ainda que algumas formas no Conjuntivo
aparentemente sejam independentes, sempre dependem duma palavra da oração
principal23 ou duma oração subordinante que existe apenas na estrutura profunda.24
Apesar disso não é correcto dizer que o Conjuntivo é o modo da subordinação, porque
também o Indicativo pode aparecer em orações subordinadas.25
No caso do latim o ponto de vista é o contrário, porque além de os gramáticos
aceitarem a existência dos empregos independentes do Conjuntivo, consideram que as
formas subordinadas provêm desses.26 Tradicionamente distinguem três tipos do
Conjuntivo em oração principal: Iussivus, Optativus, Potentialis. Examinando o valor
modal podemos ver que estas funções se ligam a diferentes modos da língua
indoeuropeia antiga. O Coni. Iussivus tem um valor de Imperativo, o Optativus era um
modo independente, como já mencionámos, e o Potentialis representa o Conjuntivo
antigo. No caso do português a situação mudou, porque apareceu um novo modo, o
Condicional, que herdou as funções do Potentialis. Mas examinemos estes três tipos do
Conjuntivo latino e as formas portuguesas correspondentes.

2.1.1. CONIUNCTIVUS IUSSIVUS

A sua função principal é substituir as formas do Impertaivo que faltam. No


português também existe este emprego das formas do Presente do Conjuntivo, que na
segunda pessoa do singular (e no plural) exprime apenas proibição (Coni. Prohibitivus
no latim), mas nas outras pessoas também ordem.27 O problema com este emprego é que
22
Cunha - Cintra 463.; Marques, 14-6. Marques, 16-21.
23
Mattoso Camara 98.
24
Mateus e outros, 151-152.
25
Marques, R.: Sobre o valor dos Modos Conjuntivo e Indicativo em Português, Dissertação de Mestrado,
Faculdade de Letras de Lisboa, 1995 apud Marques, 26.
26
Woodcock .84;
http://greekandlatin.osu.edu/programs/latin/grammar/mood/subjunctiveMood.cfm/2010.08.30.12:25
27
Cunha - Cintra 465.

8
apenas formalmente podemos falar sobre Conjuntivo, segundo o seu valor modal
pertence ao Modo Imperativo, por isso não poderíamos mencioná-lo como o uso
independente do Conjuntivo. Mas há situações quando estas formas têm sentidos
adicionais e apenas aparentemente são ordens. Examinemos os exemplos seguintes:

(7)“Amemus patriam, pareamus senatui, consulamus bonis, praesentes fructus


negligamus, posteritatis gloriae serviamus.”28

(8) “Ne sit sane summum malum dolor, malum certe est”.29

(9) “Ne sim salvus, si aliter scribo ac sentio.”30

(10) “Ita mihi salva re publica vobiscum perfui liceat, ut ego...non atrocitate
animi moveor, sed singulari quadam humanitate et misericordia.”31

Na frase (7) podemos ver o Coniunctivus Hortativus, que exprime exortação e se usa na
primeira pessoa do singular ou do plural. Uma outra subcategoria que podemos
mencionar é o Coni. Concessivus (8), que se usa quando o enunciador admite a
existência de outras opiniões, mas não quer mudar a sua. O Coni. Iuris Iurandi (10) é o
Conjuntivo do juramento. Todos os tipos são negados por ne.

2.1.2. CONIUNCTIVUS OPTATIVUS

O Conjuntivo pode exprimir desejos em si ou muito mais frequentemente com


uma palavra que reforça o seu sentido: ut ou utinam (11) no caso de latim e oxalá (12)
no português. Neste caso também podemos ter subcategorias que se situam entre
Iussivus e Optativus, porque formalmente são ordens, mas exprimem desejos. A
negação podia ajudar na sua classificação, mas como o Iussivus também o Optativus se
nega com ne.

(11) “Falsus utinam vates sim!”32

(12) Oxalá não sofra um acidente!

28
Cicero: Pro Sestio 68. 143.
29
Cicero Tusculunae Disputationes 2, 14.
30
Cicero Epistulae ad Atticum 16, 13, 1
31
Cicero In Catilinam 4, 11.
32
Livius: Ab urbe condita. 21.10.10

9
(13) “Di tibi dent, quaecumque optes!”33

(14) ...cives mei, valeant, sint incolumes, sint florentes, sint beati...34

(15) “Ne sim salvus, si aliter scribo ac sentio.”35

Os exemplos (13)-(15) pertencem a categorias semelhantes, com Coni. Precativus (13),


que serve para chamar os deuses. O Coni. Benedictionis (14) é o Conjuntivo da bênção,
o Coni. Maledictionis (15) é o da maldição. Em português também podemos encontrar
exemplos semelhantes principalmente em expressões fixas como:

(16) Deus queira que esteja bom tempo quando vamos à praia.

2.1.3. CONIUNCTIVUS POTENTIALIS

Exprime que a realização de uma acção é considerada possível ou provável pelo


enunciador. Muitas vezes esta realização depende duma condição, assim este tipo de
Conjuntivo usa-se em frases condicionais (2.2.2.3.) Em português esta função pertence
ao Modo Condicional. Além disso o Conjuntivo pode exprimir dúvida ou incerteza em
ambas as línguas, no português em frases introduzidas por talvez, no latim em geral
numa pergunta.

(17) Talvez esteja em casa.

(18) Quid faciam?

Há quem use uma quarta categoria do Conjuntivo independente, o Deliberativus para


classificar perguntas deste tipo. Esta pergunta pode ter diferentes sentidos, pode referir-
se a uma ordem directa:

(19) - Pedro, canta-nos uma canção francesa!


- O que é que faça?

ou as suas possibilidades:

(20) O que é que poderia fazer?


33
Plautus: Asinaria 46.
34
Cicero: Pro Milone 34, 93.
35
Cicero Epistulae ad Atticum 16, 13, 1

10
Traduzindo como (18) podemos classificar como Coni. Iussivus, enquanto no segundo
caso temos um Coni. Potentialis. Assim esta não é uma categoria sintáctica, mas apenas
retórica.

Como pudemos ver, o emprego do Conjuntivo em orações principais é bastante


amplo, principalmente no caso do latim. Por isso existem outras classificações destes
empregos que usam mais categorias, mas às vezes as categorias e as subcategorias
podem ser misturadas e assim o sistema torna-se menos claro, o que faz mais difícil a
aprendizagem da língua. Examinemos a classificação do manual A latin nyelvtan
középiskolások számára36, que têm as categorias seguintes: Optativus, Hortativus,
Concessivus, Potentialis, Dubitativus, Conditionalis, mas esta classificação tem pontos
problemáticos. Deixa ficar Optativus, mas distingue Potentialis e Conditionalis. O
primeiro refere-se ao presente, assim exprime possibilidade, probabilidade, o segundo
refere-se ao passado assim exprime irrealidade. Enquanto ambos indicam uma condição
seria melhor criar uma categoria maior, Conditionalis, e duas subcategorias, Potentialis
e Irrealis. Hortativus e Concessivus são subcategorias do Coni. Iussivus, mas acho que
estas duas em si não substituem todas as funções da categoria mais antiga. Dubitativus é
semelhante às perguntas deliberativas, pertencem aqui as perguntas potenciais.
Uma classificação mais detalhda e precisa e a classificação de Töttössy, que fez
uma tabela sumária sobre os tipos das frases absolutas e o modos e tempos adequados.
(supl.1.) Vamos examinar este sistema quando tratarmos da selecção do tempo no
capítulo 3.
As gramáticas portuguesas que admitem a existência do Conjuntivo em orações
independentes também têm classificações diferentes. Segundo a Nova Gramática o
Conjuntivo no português em oração principal pode exprimir os seguintes conteúdos:
desejo; ordem e proibição; hipótese e concessão; dúvida; exclamação indignante.37
Como vimos antes, estes empregos correspondem a diferentes categorias latinas.
Marques distingue três usos independentes e um em orações coordenadas: em
orações imperativas, em expressões fixas ou semi-fixas (optativo), em orações
introduzidas pelo advérbio talvez, em orações disjuntivas introduzidas com a conjunção
quer...quer; ou não; ou quando ambas as possibilidades são abolidas38:

(21) Fale ou cale irrito-te sempre.


36
Nagy - Kovács - Péter 150-3.
37
Cunha - Cintra 463-73.
38
Marques, 37-8.

11
(22) Quer chova quer faça sol vamos à praia.

(23) Queiras ou não queiras tens de fazer o TPC.

2. 2. O Conjuntivo em orações subordinadas

Como já mencionámos, a função principal do modo Conjuntivo ou Subjuntivo é


que indica a subordinação e a ligação entre as orações duma construção subordinativa.
Mas isso não significa que em todas as orações subordinativas temos de usar este modo.
O Indicativo também pode aparecer em orações subordinadas e há possibilidades de
substituir os verbos finitos com outras construções como o Accusativus cum Infinitivo,
Supinum, Participium Imperfectum / Perfectum, Gerundium, Gerundivum, Ablativus
Absolutus no latim, o Infinitivo Flexionado ou Não-flexionado, o Particípio e o
Gerúndio no português. Para podermos classificar os usos do Conjuntivo em orações
subordinadas temos de recolher os diferentes tipos destas orações. As classificações das
diferentes gramáticas portuguesas e latinas não são totalmente iguais, mas as maiores
categorias são quase as mesmas. O nosso sistema é o seguinte:
 Orações completivas (substantivas)
 Orações relativas
 Orações adverbiais:
→ Orações temporais
→ Orações condicionais
→ Orações causais
→ Orações conclusivas
→ Orações consecutivas
→ Orações concessivas

2.2.1. FRASES COMPLETIVAS (SUBSTANTIVAS)

Têm valor de substantivo e são introduzidas por uma conjunção integrante como
que e se no português. No latim costumam distinguir-se três grupos: as frases
substantivais declarativas, as interrogativas, que são as perguntas indirectas, e as finais
ou ordens indirectas. No caso do primeiro grupo o latim usa o Accusativus cum
Infinitivo, enquanto nos últimos dois o uso de Conjuntivo é obrigatório normalmente

12
depois de ut ou ne. Há grupos de verbos, adjectivos ou substantivos que seleccionam o
Conjuntivo por causa do seu sentido. Existe também o fenómeno da dupla selecção,
quando um verbo, adjectivo ou substantivo pode seleccionar o Indicativo, uma
construção de Infinitivo ou o Conjuntivo. Nestes casos há uma diferença no grau de
conhecimento e certeza, ou a selecção do modo tem um valor enfático. Por isso vale a
pena classificar os verbos segundo o seu sentido.

2.2.1.1.Verbos39 de vontade, desejo40, ordem e proibição (verba voluntatis)41

No caso do Latim esta é uma categoria dos verbos que seleccionam o Accusativus
cum Infinitivo quando queremos sublinhar o objecto destes verbos, porque neste caso
podemos considerar as orações substantivas declarativas.

(24) “Iubet nos Pythius Apollo noscere nosmet ipsos.”42

Mas quando destacamos o objectivo, o sentido final torna-se mais forte e temos de
considerar a oração uma ordem indirecta. (25). Neste caso o uso do Conjuntivo é
obrigatório com as conjunções seguintes: ut(i) finale ou os correspondentes com sentido
negativo: (ut) ne, ut non, neve/ neu. Pode aparecer também o pronome relativo qui3
quando tem o sentido ut is3 (26).

(25) “Volo ut mihi respondeas”.43

(26) “Clusini legatos Romam, qui auxilium ab senatu peterent, misere.”44

Nos textos menos literários a conjunção ut pode faltar (27). Neste tipo de orações o
conteúdo negativo não pode ser indicado por palavras negativas como nemo, nihil,
nullus, mas apenas com ne mais as formas positivas deles: ne quis(quam), ne ullus, ne
unquam, ne quando, ne usquam, necubi, necunde. As construções ut non e ut nihil
também podem aparecer, mas têm um valor enfático45 (28).
39
Vamos referir sempre aos verbos, mas naturalmente os adjectivos e substantivos do mesmo sentido têm
as mesmas características.
40
ou volitivos e optativos apud Mateus e outros 273.
41
querer, apetecer, exigir, pedir, preferir, pretender, admitir, recomendar, requerer, rogar, solicitar,
sugerir, suplicar, urgir, negar, ordenar, decretar, intimar, mandar prescrever, determinar, proibir apud.
Marques, 30-1.; volo, nolo, malo, sino, cupio, patior, iubeo, veto. apud Nagy-Kovács-Péter 159.
42
Cicero: De finibus bonorum et malorum 5, 16, 44.
43
Cicero: Orationes in Vatinium 6, 14.
44
Livius: Ab urbe condita 5, 35, 4.
45
Woodcock 101.

13
(27) “huic imperat quas possit adeat civitates”46

(28) “quod volo, // in Pamphilo ut sit nihil morae”47

Há alguns verbos de ordem e proibição como iubeo e veto que raramente seleccionam
uma oração subordinada, mas preferem o Accusativus cum Infinitivo. Iubeo com oração
subordinada significa ‘ordenar, decretar’:

(29) “Hic tibi in mentem non venit iubere, ut haec quoque referret.”48

No português estes verbos seleccionam uma oração em Conjuntivo introduzida por que
(30) ou usa-se o Infinitivo Flexionado (31). Quando o sujeito da oração principal e da
subordinada é o mesmo, aparece o Infinitivo Não- Flexionado. Neste caso o Conjuntivo
é também opcional, mas nem todos os verbos podem seleccioná-lo.49

(30) Pedem-nos que os visitemos.

(31) Pedem-nos para os visitarmos.

(32) Prefiro beber chá a beber café.

2.2.1.2.Verbos de sentimento e apreciação (verba affectuum)50:

No latim seleccionam o Accusativus cum Infinitivo quando o assunto é mais


importante do que a razão do sentimento, mas no caso contrário tornam-se orações
causais introduzidas por quod. A selecção do modo das orações causais será examinada
mais tarde. No português europeu seleccionam uma oração no Conjuntivo introduzida
por que (33) ou o Infinitivo Flexionado sem que (34), mas no português do Brasil é
possível seleccionar também o modo Indicativo depois de verbos e expresões como é
bom que, lamento que51 (35).

46
Caesar: De Bello Gallico 4, 21, 8.
47
Terentius: Andria 138-9.
48
Cicero: In Verrem 2, 4, 28
49
Mateus e outros 274.
50
apreciar, assustar, chatear, chocar, comover, compreender, consentir, convir, aconselhar, agradecer,
aguardar, envergonhar, espantar, esperar, estranhar, evitar, impedir, incomodar, lamentar, sentir,
lastimar, perceber, preocupar, procurar, recear, revoltar, surpreender, temer, tentar, transtornar apud
Marques, 30; gaudeo, laetor, doleo, indignor, aegre fero, moleste fero, miror, glorior, queror, gratulor,
gratias ago apud Nagy-Kovács-Péter 159.
51
Marques (2001 b) 688.

14
(33) É bom que estejas aqui.

(34) É bom estares aqui.

(35) É bom que estás aqui.

Aqui temos de mencionar dois grupos especiais dos verbos latinos: os verba
impediendi52 e os verba timendi53. Estes verbos usam a conjunção negativa ne em
orações aparentemente positivas e quin ou quominus em orações negativas. A razão
desse fenómeno é que depois destes verbos as orações subordinadas vão ter um sentido
final. Para compreendermos melhor traduzamos as seguintes frases.

(36) “Obstitisti, ne ex Italia transire in Siciliam fugitivorum copiae possent”54

(37) Obstaste ao conjunto dos fugitivos para que não pudesse atravessar a
Sicília (em vez de: obstaste a que pudesse atravessar)

(38) “Metuo ne sero veniam”55

(39) Tenho medo de não chegar atrasado. (em vez de: tenho medo que chegue
atrasado.

2.2.1.3.Verbos de dúvida56

No latim os verbos de dúvida seleccionam uma pergunta indirecta que contém


um verbo no Conjuntivo (40), mas podem seleccionar Infinitivo quando exprimem
hesitação (41).57 Mas nem sempre era assim no latim arcaico, podemos encontrar
exemplos onde também o Indicativo podia aparecer (42). A forma negativa destes
verbos selecciona uma oração introduzida por quin, por isso vamos tratá-los entre as
orações consecutivas. No português depois destes verbos aparecem orações em
Conjuntivo introduzidas por que.

52
Impedio, prohibeo, impedimento sum, terreo, deterreo, obsto, obsisto, resisto, officio, adversor,
repugno, recuso, interdico apud Nagy-Kovács-Péter 182.
53
Timeo, metuo, vereor, timor est, metus est, in metu sum, metus mihi incidit, anxius/ sollicitus sum,
periculum est apud Nagy-Kovács-Péter , 181.
54
Cicero: In Verrem 2, 5.
55
Plautus, Menaechmi 989.
56
duvidar, suspeitar, desconfiar, duvidoso, improvável, inverosímil, questionável, problemático,
confuso, hipotético, discutível, presumível, apud Marques, 30; nescio, dubito, incertum est
57
Moreland e Fleischer 279.

15
(40) Quid Vesper erit, Incertum est.58

(41) Hoc facere dubito.

(42) Nescio quid tristis est.59

(43) Duvidei que chegássemos a tempo.

2.2.1.4.Verbos declarativos (verba dicendi)

Normalmente seleccionam o Indicativo no português e Accusativus cum


Infinitivo no latim, mas podem introduzir ordens indirectas e neste caso seleccionam
uma oração em Conjuntivo em ambas as línguas ou no português para + Infinitivo
Flexionado (46).

(44) „et ipsi Attico dixit ut sine cura essent”60

(45) Disse que desligassem a televisão.

(46) Disseste-nos para lermos este artigo.

2.2.1.5.Verbos de permissão:61

No latim introduzem ordens indirectas, assim seleccionam sempre o Conjuntivo.


No português também, como deixar pertence aos auxiliares causativos, em vez da
oração subordinada substantiva objetiva directa pode aparecer o Infinitivo Não-
flexionado. E neste único caso na língua portuguesa os pronomes oblíquos podem
actuar como sujeitos dos Infinitivos. O facto que sejam realmente sujeitos torna-se
evidente quando os substituímos pelas palavras correspondentes. 62

(47) Deixávamos que os convidados entrassem.

(48) Deixavámo-los entrar.

2.2.1.6.Verbos no futuro

58
Livius
59
Terentius: Heautontimorumemos 620.
60
Cicero: Ad Atticum 16, 16a, 3.
61
permitir, deixar, consentir apud Marques, 31
62
http://www.soportugues.com.br/secoes/sint

16
No português o Futuro pode exprimir incerteza, por isso os verbos no Futuro
podem seleccionar uma oração em Conjuntivo.

(49) A opinião dela será que façam o trabalho rapidamente. 63

2.2.1.7.Verbos sob o escopo da negação

No caso de certos verbos a sua negação pode modificar o seu grau de certeza,
assim pode acontecer que o verbo positivo e o negado seleccionam diferentes modos
verbais. No português os verbos, adjectivos e substantivos de certeza e de conhecimento
normalmente seleccionam o Indicativo, mas quando são negados seleccionam o
Conjuntivo.

(50) Acho que não podias fazer mais.

(51) Não tenho a certeza que tivéssemos razão.

Alguns verbos de certeza e conhecimento, adjectivos de valores afectivos e


intelectuais64 podem seleccionar quer o Indicativo quer o Conjuntivo. A escolha
depende da atitude do enunciador e do verbo. Quando quer exprimir certeza, usa o
Indicativo, no caso de incerteza o Conjuntivo.

(52) Acredita que não tem de explicar isso.

(53) Suspeitava que já tivesse encontrado aquele homem.

Verbos como imaginar e supor seleccionam o Indicativo no PE, mas o


Conjuntivo no PB.65

(54) Imagina que está na praia. (PE)

(55) Imagina que esteja na praia. (PB)

2.2.2. ORAÇÕES RELATIVAS

63
Marques, 31.
64
acreditar, admitir, assumir, calcular, certificar, desconfiar, imaginar, julgar, pensar, presumir, prever,
supor, suspeitar apud Marques, 33.
65
Marques (2001 b) 689.

17
São introduzidas por um pronome ou um advérbio relativo. No latim qui3,
quicunque3, quantus3, qualis2, quot, ubi, unde, cum, quo, qua. No português os
pronomes não se flexionam, assim as diferentes relações entre os membros da frase são
expressas por preposições que seleccionam diferentes pronomes. Quando o sujeito ou o
complemento directo é que introduz a oração subordinada, usa-se que. Nos outros casos
o tipo de antecedente também é importante. Quando é uma pessoa, nos casos
preposicionais aparece quem ou o qual. O uso deles é facultativo quase sempre. Depois
de pronome pessoal o uso de quem é obrigatório, enquanto depois de um número,
pronome indefinido, o superlativo ou a preposição sem apenas o qual pode aparecer.
Quando o antecedente não é uma pessoa, depois das preposições de uma única sílaba
como em, de, a, com, por aparece que. Com as outras preposições usa-se o qual. Em vez
de genitivo usa-se cujo, um pronome relativo possesivo. Cuius originalmente era o
genitivo do pronome relativo qui3
No caso do latim a classificação mais simples das orações é distinguir
determinativas ou qualitativas. As relativas determinativas, que respondem à pergunta
Qual?, seleccionam o Indicativo excepto se dependem duma oração subordinada, e as
qualitativas, que respondem à pergunta Como?, seleccionam o Conjuntivo. Quando na
frase aperece qualis e talis, já não é necessário o Conjuntivo para indicar a que a frase é
qualitativa.

(56) “Exclusi eos, quos tu ad me salutatum mane miseras...” 66

(57) “Reperti sunt duo equites Romani, qui te ista cura liberarent.”67

(58) “...talem amicum habere volunt, quales ipsi esse non possunt.”68

Há casos quando as orações relativas têm sentidos secundários, que também


influenciam a selecção do modo. Segundo Pinkster69 as orações relativas de Conjuntivo
no latim são as seguintes:
 As relativas finais, nas quais os assuntos descritos são posteriores ao assunto da
oração principal e vão ser feitos por certas pessoas. Quando o antecedente da

66
Cicero: In Catilinam 1, 10.
67
Cicero: In Catilinam 1, 9.
68
Cicero: Laelius de Amicitia 22, 82.
69
Pinkster 213.

18
relativa está presente na principal, o pronome relativo pode ser substituído por ut
finale mais um pronome pessoal. Transformemos a frase (57):

(57’) Reperti sunt duo equites Romani ut ii te ista cura liberarent.

 As relativas genéricas ou consecutivas, nas quais o assunto da oração principal


não é controlável, o acontecimento da oração subordinada é provável ou possível.
Nas relativas finais e consecutivas é um elemento comum a não-factividade,
enquanto nas outras duas a factividade Aqui em vez de qui3 poderíamos utilizar ut
consecutivum mais is3.

(59) “Caninius fuit mirifica vigilantia, qui suo toto consulatu somnum non
viderit.”70

 As relativas causais, que descrevem factos que já aconteceram, assim exprimem


factividade como a categoria seguinte, as relativas concessivas, assim em ambos os
casos pode aparecer também o Indicativo principalmente no latim arcaico. Mas é
mais comum que qui3, pode ser substituído por cum causale com o pronome pessoal
mais o Conjuntivo.

(60) “Ego vero illi maximam gratiam habeo, qui me ea poena multaverit,
quam sine versura possem dissolvere.”71

(61) “di perdant, qui hodie me remoratus est; meque adeo, qui restiterim.”72

 As relativas concessivas exprimem uma concessão, assim o pronome relativo


pode ser substituído por cum concessivum mais is3 .

(62) “Quis est, qui C. Fabricii, M. Curii non cum caritate aliqua
benevolentiae memoriam usurpet, quos numquam viderit.”73

(63) ego, qui illa nunquam probavi, tamen conservada arbitratus sum.74

70
Cicero: Epistulae ad Familiares 7, 30, 15.
71
Cicero: Tusculunae Disputationes 1, 42.
72
Terentius: Eunuchus 302.
73
Cicero: Laelius de amicitia 28.
74
Cicero: Philippicae 1, 23.

19
A gramática de Nagy-Kováts-Péter contrai estas categorias, e diz que se usa o
Conjuntivo quando a oração subordinada:

 Exprime fim, consequência75, razão76 ou concessão. Neste caso qui3= ut/cum is3,
unde=ut inde, ubi= ut ibi.

 Exprime não um facto, mas uma opinião77 do sujeito da oração principal. Neste
caso é evidente o uso do Conjuntivo, porque uma oração desse tipo sempre é
qualitativa.

 Depende ligeiramente duma construção de Accusativus cum Infinitivo ou duma


oração subordinada de Conjuntivo. Isso é verdade no caso de todas as orações
subordinadas.

Woodcock inclui no seu sistema as categorias determinativo e qualitativo mais


que estão ligadas aos sentidos secundários, assim a sua categorização é a seguinte:

 As relativas determinativas, que seleccionam o Indicativo.

 As relativas generalizadoras, em que o uso do pronome quicumque (quem quer


que) é mais comum, seleccionam o Indicativo.

 As relativas descritivas têm dois subgrupos: as genéricas ou qualitativas e as


consecutivas. Ambos seleccionam o Conjuntivo.

 As relativas causais seleccionam o Conjuntivo.

 As relativas concessivas ou adversativas seleccionam o Conjuntivo. Mas no


latim arcaico e às vezes no clássico usa-se o Indicativo nas relativas causais e
concessivas, como já mencionámos antes.

 Há casos quando se usa o pronome relativo em vez de conjunções coordenativas


mais o pronome pessoal: et is3, sed is3, is3 autem, is3 enim, is3 igitur, etc, assim
temos de considerar as orações que introduzem orações principais. A prova disso é
que em oração oblíqua se comportam como as orações principais em geral, ficam
transformados em Accusativus cum Infinitivo.
75
Depois das expressões seguintes: sunt/ inveniuntur/ reperiuntur, qui; (nihil, non) habeo qui/ quod;
(nemo/ nihil/ nullus/ quis2) est qui/ quod Nagy -Kovács - Péter 202.
76
Depois de quippe/ut / utpote qui
77
Depois dos adjectivos seguintes: (in)dignus, idoneus, aptius.

20
(64) “centuriones hostes vocare coeperunt: quorum (=sed eorum) progredi
ausus est nemo”78

(65) Caesar scripsit centuriones hostes vocare coepisse: quorum progredi


ausum esse neminem.

No português na classificação das orações relativas os aspectos sintácticos são mais


importantes do que os semânticos. Segundo o sistema de Mateus e outros 79 os grupos
são os seguintes:

 As relativas que têm antecedente podem ser restritivas ou apositivas. No


primeiro caso a oração relativa contém uma informação necessária para podermos
identificar aquilo que descreve. As relativas apositivas dão uma informação aditiva,
por isso neste caso a relação entre a oração principal e subordinada é mais ligeira do
que no caso das restritivas. Isso é indicado pela presença da vírgula. As apositivas
sempre têm um valor assertivo, por isso seleccionam o Indicativo. No caso das
restritivas o verbo da subordinante é que determina a selecção. Os verbos de
procurar e os que criam um universo de referência não designam “um indivíduo
determinado do mundo real, mas um conjunto de propriedades que definem um
conceito individual”80, por isso seleccionam o Conjuntivo.

(66) Conheces o homem que comprou a nossa casa.

(67) Preciso de alguém que fale japonês.

 As relativas livres (sem antecedente) podem ter uma presuposição factual, neste
caso seleccionam o Indicativo e uma presuposição hipotética ou contrafactual, neste
caso seleccionam o Conjuntivo.

(68) Receberei quem me recomendares.

2.2.3. ORAÇÕES ADVERBIAIS

Exprimem uma circumstância da oração principal, a selecção do modo depende


da realidade da circunstância expressa.
78
Caesar: Comentarii de Bello Gallico 5, 43, 6.
79
Mateus e outros 285.
80
Mateus e outros 290.

21
2.2.3.1. Orações temporais

As orações temporais respondem a perguntas: Quando?, Até quando?, Desde


quando?, etc. Em geral estão no Indicativo, mas às vezes além do sentido temporal
podem exprimir finalidade ou intenção e neste caso seleccionam o Conjuntivo. Além
disso as diferentes conjunções e o tempo verbal também podem influenciar a selecção
do modo. Por isso vamos examinar as diferentes conjunções e locuções conjuntivas
latinas e portuguesas. As que indicam posterioridade são as seguintes: priusquam e
antequam81 no latim e antes que no português. Podem referir-se ao futuro, ao passado
ou raramente ao presente. Neste último caso sempre seleccionam o Indicativo.

(69) “Membris utimur prius, quam didicimus, cuius ea utilitatis causa


habeamus.”82

(70) Usamos os nossos membros antes que aprendemos para que servem.

Quando se referem ao futuro, no português usa-se o Presente do Conjuntivo. No latim a


situação é mais complicada. Nas épocas pré- e pós-clássicas o Futuro do Indicativo
podia aparecer depois de priusquam e antequam, mas no período clássico em orações
negativas usa-se o Futuro Perfeito e nas positivas o Presente do Indicativo e o do
Conjuntivo aparecem igualmente. O último é seleccionado em geral quando a oração
principal exprime desejo ou vontade e a oração subordinada o fim desejado, porque aqui
o sentido final é claro. Há orações que estão no Conjuntivo apesar de que a finalidade
não seja tão evidente. O emprego do Conjuntivo é obrigatório quando a necessidade da
oração temporal antecede a necessidade da oração principal. 83

(71) Telefona-lhe antes que o visites.

(72) “Non defatigabor antequam illorum rationes percepero.”84

(73) “numquid prius, quam abeo, me rogaturus es?”85

(74) “vilica focum purum cotidie, priusquam cubitum eat, habeat.”86

81
Existem também as suas formas separadas: ante quam, prius quam apud Zumpt 117.
82
Cicero: De Finibus Bonorum et Malorum 3, 63.
83
Woodcock 184.
84
Cicero: De Oratoribus 3, 145.
85
Plautus: Trinummus 198.
86
Cato: De Agricultura 143, 2.

22
(75) “pauca prius explanda sunt quam initium narrandi faciam.”87

Quando antequam (antes que) e priusquam se referem ao passado, nas orações


negativas do latim usa-se o Indicativo. Antes da época de Cícero e no estilo coloquial
também nas orações positivas aparecia o Indicativo, mas depois o uso de Conjuntivo
tornou-se normativo. Até Lívio o sentido final estava presente, mas depois o Conjuntivo
foi usado sem razão lógica.88 No caso de português antes que no passado normalmente
selecciona o Indicativo, mas quando exprime finalidade ou intenção pode seleccionar o
Conjuntivo.89

(76) “priusquam intro redii, exanimatus fui”90

(77) “prius in hostium castris constiterunt, quam plane ab his quid rei
ageretur cognosci posset.”91

(78) Escrevi a carta antes que eles chegaram a casa.

As conjunções da simultaneidade são: dum, donec, quoad, quamdiu, cum92 no latim e


enquanto, quando, ao mesmo tempo que, na altura em que, até que no português.
Normalmente estas conjunções no latim seleccionam o Indicativo e o tempo da oração
principal. Mas podem ter sentidos secundários que implicam a selecção do Conjuntivo.
Dum, donec, quoad, quamdiu quando têm o mesmo sentido que enquanto ou desde que
seleccionam sempre o indicativo, excepto dum, que pode ter um sentido concessivo, e
neste caso o emprego do Conjuntivo é normativo.93 Neste caso aparece frequentemente
a sua forma reforçada dummodo. Quando dum, modo ou dummodo são negadas por ne,
sempre exprimem pressuposição, por isso seleccionam o Conjuntivo.94 Enquanto
pertence ao grupo dos conjunções que quando se referem ao futuro podem seleccionar o
Futuro do Conjuntivo e no passado seleccionam o Indicativo.

(79) “Oderint dum metuant!” 95


87
Sallustius: De coniuratione Catilinae 4, 5.
88
Woodcock 186.
89
Marques, 35.
90
Plautus: Aulularia 208.
91
Caesar: Commentarii de Bello Gallico 3, 26, 3.
92
Woodcock 178-182.
93
Woodcock 178.
94
Zumpt: 115.
95
Tragicorum Romanorum Fragmenta Accius 203.

23
(80) “Dum ille ne sis, quem ego esse nolo, sis mea causa, qui lubet.” 96

(81) Ficarei enquanto quiseres.

Dum e cum podem ter um sentido ‘durante o tempo que’, assim descrevem o fundo
duma acção. Enquanto dum e cum temporale, que definem o tempo da acção da oração
principal, no latim clássico seleccionam o Indicativo, cum historicum, que descreve
alguma circunstância ou assunto secundário, refere-se sempre ao passado e selecciona
os Pretéritos do Conjuntivo. Depois da época do Lívio também nas orações introduzidas
por cum temporale pode aparecer o Conjuntivo.

(82) “Perpaucos dies, dum pecunia accipitur, commorabor.”97

(83) “Hasdrubal tum forte, cum haec gerebantur, apud Syphacem erat.”98

(84) “in secundo proelio cecidit Critias cum fortissime pugnaret”99

Dum, donec, quoad, quando significam até que, seleccionam o Indicativo quando a
oração temporal apenas marca aquele momento que é o fim da acção, mas quando tem
um sentido secundário final, usa-se o Conjuntivo, mas os autores tardios usavam o
Conjuntivo também quando este sentido secundário não existia. A conjunção
portuguesa até que, referida ao futuro, selecciona o Presente do Conjuntivo, referida ao
passado o Indicativo.

(85) “Ne expectetis dum hac domum redeam via.”100

(86) “Rhenus servat nomen donec Oceano misceatur.”101

(87) Espero até que venham.

(88) Estava feliz até que aconteceu a tragédia.

96
Plautus: Trinummus 979.
97
Cicero: Epistulae ad Familiares 3, 5, 4.
98
Livius: Ab urbe condita 29, 31, 1.
99
Cornelius Nepos: De viris illustribus 8, 2, 7.
100
Plautus: Pseudolus 1234.
101
Tacitus: Annales 2, 6.

24
Cum tem mais dois tipos que exprimem simultaneidade e normalmente estão com o
Indicativo. Cum inversum ou additivum: descreve um acontecimento improviso, e o
conteúdo da oração que introduz é mais importante do que a oração principal.

(89) Vixdum epistulam tuam legeram, cum ad me currens ad illum Postumus


Curtius venit.102

Cum iterativum: exprime uma repetição como a conjunção portuguesa sempre que.

(90) “Is qui non defendit iniuriam, neque propulsat a suis, cum potest, iniuste
facit.”103

As conjunções de anterioridade são as seguintes: post(ea)quam, ubi, ut (primum),


simulac/ simulatque, cum (primum), quotiens; depois de que, desde que, logo que, mal,
assim que, sempre que. No latim estas conjunções excepto cum seleccionam sempre o
Indicativo. No português, como no caso dos outras conjunções temporais, no futuro
seleccionam o Presente do Conjuntivo ou algumas o Futuro do Conjuntivo como:
depois de que, logo que, sempre que. No passado seleccionam o Indicativo.

(91) “Simul ac constituero, ad te scribam.”104

(92) “Ubi pericula virtute propulerant, sociis atque amicis auxilia


portabant.”105

(93) Telefonar-te-ão logo que chegarem.

(94) Estava muito contente depois de que o visitaste.

2.2.3.2. Orações condicionais

Exprimem uma condição da realização do assunto da oração principal. As suas


conjunções são as seguintes: se, caso, contanto que, desde que, salvo se, excepto se, a
não ser que, a menos que, sem que, uma vez que no português, si, quodsi, si quando, si
non/minus, nisi, nisi forte, sive, sin (autem) no latim. O oração principal chama-se
consequente ou apodosis, a subordinada antecedente ou protasis. Woodcock106 distingue
102
Cicero: Epistulae ad Atticum 9, 2a, 3
103
Cicero: De Officiis ad Marcum Filium 3, 18, 74.
104
Cicero: Epistulae ad Atticum 12, 40, 5.
105
Sallustius: De Coniuratione Catilinae 6, 5.
106
Woodcock 147-157.

25
condições abertas e condições que implicam recusa. No primeiro caso o antecedente
descreve um assunto sem negar a verdade do facto. As condições abertas podem ser
particulares ou gerais, mas para podermos decidir a qual grupo pertencem temos de
conhecer o contexto. Woodcock usou o exemplo seguinte:

(95) Si hoc dicebat, errabat.

Esta frase pode ter diferentes sentidos: 1. Ele enganou-se quando estava a dizer isso. 2.
Ele enganava-se sempre que dizia isso. O primeiro é o sentido particular, o segundo o
geral. Nas frases condicionais com sentido particular o Conjuntivo pode aparecer
apenas no consequente.

(96) “Si meis incommodis laetabantur, urbis tamen periculo


commoverentur.”107

No caso das antecedentes com sentido geral a situação é diferente. Podem seleccionar o
Conjuntivo quando são introduzidas por uma palavra relativa indefinida e contêm um
verbo na segunda pessoa do singular em sentido geral ou quando têm um sentido
frequentativo como cum iterativum.

(97) Si ames, extemplo melius illi quem ames consulas quam rei tuae.108

(98) Vespasianus, si res posceret, manu hostibus obniti.109

As condições que implicam a negação descrevem não um facto, mas uma condição
imaginada que (ainda) não foi realizada. As que referem-se ao futuro são ideais, que
referem-se ao passado são irreais. Em ambos os casos o emprego do Conjuntivo é
obrigatório no antecedemte. No consequente normalmente usa-se o Coniunctivus
Potentialis, mas pode aparecer também o Indicativo nos casos seguintes:

 Os verbos modais no Indicativo com o Infinitivo110 e os Pretéritos da Coniugatio


Periphrastica podem substituir o modo Conjuntivo.

(99) Neque sustineri poterant, ni extraordinariae cohortes se obiecissent.111

107
Cicero: Pro Sestio 24, 54.
108
Plautus: Cistellaria 97.
109
Tacitus: Historiae 2, 5
110
debeo, oportet, licet, possum, apud Woodcock 92., 156.
111
Livius: Ab urbe condita 7, 17, 12.

26
 O Praeteritum Imperfectum do Indicativo pode exprimir acções começadas, mas
ainda não acabadas, assim pode ter um valor hipotético.

(100) Labebar longius, nisi me retinuissem.112

 O Praeteritum Perfectum do Indicativo às vezes pode exprimir um facto


independente ou é um meio retórico, que apresenta um facto potencial como um
facto real.

(101) Nisi Latini arma sumpsissent, capti et deleti eramus.113

 Os advérbios paene e prope dão um sentido quase-potencial com o Indicativo.

(102) Paene in foveam decidi, ni hic adesses114

(103) Quando a oração subordinada exprime concessão, o Indicativo na


apódose é natural.

(104) Etiam si quis dubitasset antea, sustulisti hanc suspicionem.115

A classificação mais geral das frases condicionais que aparece também nas gramáticas
portuguesas é a seguinte116:

 Factuais ou reais, nos quais o conteúdo de ambas as orações se realiza no mundo


real, porque a oração condicional constitui uma condição suficiente da verificação
do conteúdo da oração principal. Esta definição modifica-se no caso do latim,
pertencem ao casus realis as frases condicionais em que o conteúdo de ambas as
orações é considerada real. Mas a selecção do modo é igual nas duas línguas, nas
condicionais factuais usa-se sempre o Indicativo.

(105) Si hoc fecisti, recte fecisti.

(106) Se as frutas estão maduras, caem das arvores.

112
Cicero: De legibus 1, 52.
113
Livius: Ab urbe condita 3, 19, 8.
114
Plautus: Persa 594
115
Cicero: Pro Sulla 68.
116
Mateus e outros 298-303., Nagy-Kovács-Péter 198.

27
 Nas frases hipotéticas / potenciais o conteúdo das orações realiza-se num mundo
real, mas o seu intervalo do tempo não é acessível pelo enunciador, ou simplesmente
podemos dizer que a relização do conteúdo da frase ainda não aconteceu, mas é
possível. Segundo o tempo ao que se referem as frases hipotéticas podem ser
prováveis ou improváveis. No latim em todos os casos usa-se o Conjuntivo no
antecedente e o Indicativo ou Conjuntivo no consequente, apenas os tempos verbais
são diferentes. No português a selecção do modo é mais variável porque existe o
modo Condicional, e o Futuro do Conjuntivo, que no latim ainda não existiam. Nas
condicionais prováveis no consequente aparece o Futuro ou o Presente do Indicativo
no antecedente o Futuro do Conjuntivo. Nas condicionais improváveis no
consequente aparece o Imperfeito do Indicativo ou o Condicional Simples, no
antecedente o Imperfeito do Conjuntivo.

(107) Memoria minuitur, ... nisi eam exerceas.117

(108) Se ouvirem alguma coisa, dir-me-ão.

(109) Se viessem a Roma, veriam o Foro.

 Nas frases contrafactuais ou irreais a realização do conteúdo das orações da


frase não é possível ou podemos dizer que a negação da oração principal é que se
realiza, por isso a oração principal também não pode ser realizada. Os modos
verbais seleccionados ficam os mesmos que nas rases hipotéticas, apenas o tempo
verbal vai mudar.

(110) Nisi Alexander essem, Diogenes esse vellem.118

(111) Se não houvesse dinheiro, não haveria tanta desigualdade.

(112) Si id fecisses, melius famae, melius pudicitiae tuae consuluisses.119

(113) Se tivesse chovido na semana passada, não teria havido seca.

 Há investigadores segundo os quais esta classificação não é tão evidente.


Podemos ver que as frases hipotéticas improváveis e e contrafactuais que se referem

117
Cicero: Cato Maior de Senectute 7, 21.
118
Plutharcos
119
Cicero: Philippicae 2, 2, 3.

28
ao presente formalmente são iguais no português porque ambas usam o Imperfeito
do Conjuntivo no antecedente e o Condicional Simples (ou Imperfeito do
Indicativo) no consequente. Além disso o Indicativo também pode indicar
contrafactualidade nas frases condicionais, enquanto os Pretéritos do Conjuntivo
podem não indicar contrafactualidade. Marques120 examinando algumas hipóteses
sobre a selecção do modo em frases condicionais no inglês criou uma nova hipótese
sobre as condicionais portuguesas. Segundo ele as condicionais “reais” seleccionam
o Indicativo não porque sejam factuais, mas porque o antecedente é relacionado a
um único mundo possível que pode ser real ou não. Quanto às condicionais com
Futuro e as com um Pretérito do Conjuntivo a diferença não é que a primeira é
hipotética e a segunda é contrafactual. O Futuro do Conjuntivo indica apenas que o
valor de verdade do antecedente é desconhecido no mundo real, enquanto o
emprego dos Pretéritos significa que o antecedente não é relacionado ao mundo
real.

2.2.3.3. Orações causais

Exprimem o motivo da oração principal. As suas conjunções são as seguintes:


quod, quia, quoniam, quando, quandoquidem, siquidem, cum, non quod, non quo no
latim, no português: porque, como, porquanto, pois que, uma vez que, visto que, já que,
dado que seleccionam o Indicativo, por causa de, devido ao facto de, por seleccionam o
Infinitivo Flexionado ou Não-flexionado. No latim depois de cum causale o verbo da
oração subordinada está sempre no Conjuntivo porque introduz uma razão lógica. No
caso das outras conjunções a selecção do modo depende da relação entre a causa e o
enunciador. Quando exprime a sua opinião usa-se o Indicativo, mas quando atribui a
razão a alguém usa-se o Conjuntivo como se fosse na Oração Oblíqua.121

(114) Quae cum ita sint, Catilina, perge quo coepisti.122

(115) Quoniam de genere belli dixi, nunc de magnitudine pauca dicam.123

(116) Laudat Africanum Panaeteus, quod fuerit abstinens.124

120
Marques (2001 a) 330.
121
Woodcock 196.
122
Cicero: De Coniuratione Catilinae 1, 5.
123
Cicero: De Imperio Gn Pompei 8, 20.
124
Cicero: De Officiis ad Marcum filium 2, 22, 76.

29
No português consideram-se verdadeiras as causas que não são negadas, assim
estas sempre seleccionam o Indicativo. As locuções negativas como não porque no
português ou non quod e non quo no latim exprimem uma razão não verdadeira, por
isso são seguidas pelo Conjuntivo. Mas no latim, quando as conjunções negativas
introduzem uma razão factual, mas naquela situação não é importante, usa-se o
Indicativo. Desde a época de Lívio pode aparecer o Indicativo depois de non quia
independentemente da não-factualidade da oração subordinada.125 Em geral na mesma
frase aparece a causa verdadeira numa oração introduzida por sed no latim e mas
porque no português. Quando há mais razões possíveis mas não sabemos qual é a
verdadeira no português as orações causais são introduzidas por ou porque, que sempre
selecciona o Conjuntivo.

(117) Gosto dele porque é sincero.

(118) Recebeu este prémio não porque seja talentoso, mas porque trabalhou
duramente.

(119) Neque vero hoc, quia sum ipse augur, ita sentio, sed quia sic existimare
nos est necesse.126

(120) Valuitque ea legatio, non tam quia pacem volebant Samnites quam quia
nondum parati erant ad bellum.127

(121) Não chegaram a tempo ou porque houvesse muito tráfego, ou porque


tivessem partido tarde.

2.2.3.4. Orações consecutivas

Exprimem um facto que é a consequência ou efeito da oração principal. São


introduzidas por: que, de forma que, de sorte que, tanto que, tão...que, tanto...que,
tamanho...que no português e ut, ut non, quin no latim. Ut non usa-se quando a oração
principal é positiva e quin quando é negativa. No latim as orações consecutivas ou as
que têm um sentido secundário consecutivo sempre seleccionam o Conjuntivo. No
português pode aparecer o Indicativo quando a consequência é real, mas quando a

125
Woodcock 199-200.
126
Cicero: De Legibus 2, 31.
127
Livius 8, 19, 3.

30
oração subordinada é negativa ou exprime uma acção pretendida usa-se o Conjuntivo e
acontece o mesmo no caso das orações consecutivas negativas.128

(122) Tantus in Curia clamor factus est ut populus concurreret.129

(123) Ele gosta deste livro tanto, que já o leu dez vezes.

(124) Não correu de maneira que ganhasse a competição.

2.2.3.5. Orações concessivas

Indicam a concessão às acções da oração principal, que admitem uma


contradição ou um facto inesperado. São introduzidas por embora, conquanto, ainda
que, ainda quando, mesmo que, se bem que, posto que, apesar de que no português e si,
etsi, tametsi, etiamsi, quamquam, quamvis, licet, ut (concessivum), cum (concessivum,
adversativum). No latim a selecção do modo depende da conjunção.
Quamquam normalmente selecciona o Indicativo, no latim clássico apenas podia
apareer o Conjuntivo Potencial, mas desde a época de Lívio o emprego do Conjuntivo é
mais comum também quando a oração subordinada exprime factualidade.130 A razão
disso pode ser que quamvis e quamquam trocaram o seu sentido.131

(125) “Vi vegere patriam, quamquam et possis et delicta corrigas, tamen


importunum est.”132

(126) “neque dux Romanus ultum iit aut corpora humavit, quamquam multi
tribunorum praefectorumque et insignes centuriones cecidissent.”133

Quamvis, ut e cum sempre seleccionam o Conjuntivo e licet também, mas sendo


originalmente um verbo no latim clássico, pode ser seguido apenas pelo Presente ou o
Perfeito do Conjuntivo, o uso dos Pretéritos só se tornou comum desde a época de
Juvenal.134 As conjunções derivadas de si seleccionam o modo como si nas orações
condicionais.

128
L. Marques, 36.
129
Cicero: In Verrem 2, 2, 47.
130
Woodcock 201.
131
Zumpt 89.
132
Sallustius: De Bello Iugurthino 3, 2
133
Tacitus: Annales 4, 73.
134
Woodcock 202-3.

31
(127) „Quamvis sis molestus, numquam te esse confitebor malum.”135

(128) Sim licet extremum, sicut sum, missus in orbem136

No português seria permitido a alternância modal, entre as concessões reais e irreais,


mas depois das conjunções concessivas o uso do Indicativo seria agramático, assim
estas orações sempre seleccionam o Conjuntivo ou sem que o Infinitivo Flexionado.137

(129) Mesmo que não queiram, têm de estudar.

(130) Apesar de não ter visto o filme, considero-o uma obra-prima.

2.2.3.6. Orações comparativas

Exprimem um assunto semelhante ao da oração principal. No português em


geral seleccionam o Indicativo, mas podem seleccionar o Conjuntivo quando indicam
futuridade.138 A conjunção mais frequente é como, mas as expressões seguintes também
são usadas: tão...como, tanto… quanto, mais/ menos… (do) que. No latim, quando a
oração subordinada contém semelhança verdadeira, selecciona o Indicativo e é
introduzida por ut, uti, sicut, sicuti, quemadmodum, quomodo. Usa-se o Conjuntivo no
139
caso de semelhanças imaginadas ou supostas depois de quam mais pronome relativo
ou nas orações introduzidas por uma conjunção que provêm da condicional si, como
quasi, ac si, velut si, tamquam, tamquam (si).

(131) Zeno proponatur Eleates, qui perpessus est omnia potius quam conscios
delendae tyrannidis indicaret.140

(132) Parvi primo ortu sic iacent, tamquam omnino sine animo sit.141

135
Cicero: Tusculunae Disputationes 2, 25, 61.
136
Ovidius: Tristia 4, 9, 9.
137
Marques, 35.
138
Marques, 35-6.
139
Zumpt 83.
140
Cicero: Tusculanae Disputationis 2, 52.
141
Cicero: De Finibus Bonorum et Malorum 5, 15.

32
3. A selecção do tempo

3.1. A selecção do tempo em orações principais

Os tempos de Conjuntivo diferem dos tempos do Indicativo e esta diferença


manifesta-se além do seu valor modal no seu valor temporal. Neste capítulo
recolheremos os empregos independentes dos diferentes tempos de Conjuntivo. É um
bom ponto de partida a tabela de Töttössy142, que classifica as ocorrências dos tempos
do Conjuntivo em orações principais segundo o tipo da frase, o grau de realidade e o
valor temporal. (T 1. )
O Praesens Imperfectum sempre tem um valor do presente ou do futuro como o
Presente do Conjuntivo no português.143 Ambos podem exprimir dúvida e desejo.

(133) Di bene vortant!

(134) Eloquar an sileam?

(135) Oxalá chegue a tempo!

(136) Talvez esteja doente.

Além disso no latim este tempo é que exprime potencialidade no presente ou no


futuro. No português as acções no tempo futuro, como o seu resultado é ainda
desconhecido, não podem ser consideradas nem reais nem irreais, apenas potenciais.
Por isso o Futuro do Indicativo têm um valor modal de potencialidade, assim usa-se em
vez do latim Coniunctivi Praesens Imperfectum como vamos ver no caso das frases
condicionais.
O Coniunctivi Praesens Perfectum ou Perfeito do Conjuntivo pode ter um valor
temporal de pretérito quando exprime um desejo sobre um assunto que já é acabado,
mas ainda não conhecemos o resultado. No latim pode referir-se também ao presente ou
ao futuro quando exprime potencialidade ou proibição.

(137) Oxalá tenha passado o exame!

(138) Utinam vere auguraverim!


142
Töttössy (1994) 197.
143
Marques, 58.

33
O Coniunctivi Praeteritum Imperfectum ou o Imperfeito do Conjuntivo exprime
um desejo que se refere ao presente ou futuro, mas a sua realização é impossível.

(139) Oxalá pudesse voar!

(140) Utinam vero semper esset! Sed est perraro.

No latim pode exprimir irrealidade no presente, mas no português em oração


principal o Condicional ou o Imperfeito do Indicativo têm este sentido. Quando se
refere ao passado pode exprimir uma ordem, dúvida e potencialidade.
O Coniunctivi Praeteritum Perfectum ou o Pretérito Mais-que-Perfeito refere-se
apenas ao passado e exprime irrealidade no latim no português tem esta função apenas
no caso de desejos, nos outros casos o Condicional Composto ou o Mais-que-Perfeito
do Indicativo são os que o substituem.
Agora não tratamos do Futuro do Conjuntivo, que aparece apenas em certos
tipos de oração subordinada.

3.2.A selecção do tempo em orações subordinadas

Já mencionámos que o Modo Conjuntivo é considerado o modo da


subordinação, mas a situação não é tão simples. No latim existe um sistema, a
Consecutio Temporum que descreve as regras que determinam o tempo verbal da
oração subordinada., a base é sempre o tempo verbal da oração principal. Mas nem em
todos os casos empregamos estas regras porque a selecção do tempo da subordinada
nem sempre depende ligeiramente da oração principal. Há três tipos de selecção do
tempo nas orações subordinadas:

 Quase como numa oração principal: no antecedente das frases condicionais,


depois das conjunções concessivas provenientes de si, nas orações comparativas.

 O emprego correlativo dos tempos de Indicativo nas orações concessivas,


causais e temporais depois das conjunções que seleccionam o Indicativo.

 O emprego correlativo dos tempos do Conjuntivo:

34
→ Consecutio Temporum nas perguntas e ordens indirectas, nas orações
relativas, nas orações concessivas, causais e temporais depois de conjunções
que seleccionam o Conjuntivo, as orações com sentido secundário final.

→ Consecutio consecutiva nas orações consecutivas ou com sentido


secundário consecutivo, nas relativas nos quais o conteúdo da oração
subordinada é mais importante do que a oração principal.

→ Consecutio em Oração Oblíqua nas orações que dependem duma


outra construção subordinada.

3.2.1. A SELECÇÃO DO TEMPO EM FRASES CONDICIONAIS

As frases condicionais são construções nas quais a selecção do tempo difere dos
outros tipos das construções subordinadas, porque aqui o valor temporal dos tempos não
tem um papel importante, o valor modal é que determina a selecção como nas orações
principais. No latim o antecedente selecciona os mesmos tempos que uma oração
principal, assim excepto no caso de casus mixtus o tempo verbal do antecedente e
consequente são iguais, mas no português não é assim, porque em oração principal o
Futuro de Indicativo e o Condicional exprimem potencialidade ou irrealidade e o
Conjuntivo aparece apenas nos antecedentes. Para ilustrar as diferenças usarei a mesma
frase que Moreland - Fleischer.144
As frases factuais seleccionam o Indicativo em ambas as línguas, mas enquanto
no latim todos os tempos podem aparecer em ambas as orações, no português pode
aparecer apenas o Presente ou o Futuro no consequente e o Presente no antecedente.

(141) Si laborat, felix est.

(142) Si laborabat felix erat

(143) Se trabalha é feliz.

No latim nas frases hipotéticas que se referem ao presente aparece o Coni.


Praesens Imperfectum ou no caso do consequente também o do Indicativo, no português

144
Moreland - Fleischer 34-35

35
o Futuro ou Presente do Indicativo no consequente e o Futuro do Conjuntivo no
antecedente.

(144) Si laboret, felix sit

(145) Se trabalhar, será feliz.

Nas frases hipotéticas que se referem ao passado ou por outras palavras na


condicional improvável usa-se o Coni. Praesens Perfectum no latim, no português o
Imperfeito do Conjuntivo no antecedente e o Condicional Simples ou o Imperfeito do
Indicativo no consequente.

(146) Si laboraverit, felix fuerit.

(147) Se trabalhasse, seria feliz.

Nas frases irreais que se referem ao presente no português a selecção do tempo é


a mesma que nas condicionais improváveis. No latim neste caso o Coni. Praeteritum
Imperfectum é usado.

(148) Si laboraret, felix esset.

(149) Se trabalhasse, seria feliz.

Nas irreais que se referem ao passado o latim selecciona o Coni. Praeteritum


Perfectum enquanto no português aparece o Condicional Composto ou o Mais-que-
Perfeito Composto do Indicativo no consequente e o Imperfeito do Conjuntivo no
antecedente.

(150) Si laboravisset, felix fuisset.

(151) Se tivesse trabalhado, teria sido feliz.

3.2.2. A CONCORDÂNCIA DOS TEMPOS: AS REGRAS DA CONSECUTIO TEMPORUM

No latim na maior parte das orações subordinadas a selecção do tempo depende


do tempo do verbo da oração principal.. Neste capítulo resumiremos as regras da
Consecutio Temporum que determinam a concordância dos tempos.145
145
Töttössy, (handout)

36
As regras principais:

I. O uso dos tempos do Conjuntivo:


a. Se o predicado da oração principal está no presente, o predicado
da oração subordinada selecciona um dos Presentes do Conjuntivo.
b. Se o predicado da oração principal está no passado, o predicado da
oração subordinada selecciona um dos Pretéritos do Conjuntivo.
II. O uso dos aspectos:
a. Se a acção da oração subordinada ainda não é acabada quando
acontece a acção da oração principal, usam-se as formas imperfeitas.
b. Se a acção da oração subordinada já é acabada quando acontece a
acção da oração principal, usam-se as formas perfeitas.
c. A posterioridade também pode ser indicada, mas apenas nas
perguntas indirectas, nas orações introduzidas por non dubito, quin, e em certas
orações relativas qualitativas. Neste caso usamos a Coniugatio Periphrastica
Aciva que é o conjunto dum Participium Instans Activi146 mais a forma
adequada do verbo sum.
III. O valor dos tempos verbais:
a. São considerados como presente: Praesens Imperfectum
(Presente), Praesens Perfectum Logicum (exprime uma acção acabada),
Futurum Imperfectum (Futuro), Futurum Perectum (Futuro Composto),
Imperativus (Imperativo).
b. São considerados como passado: Praesens Perfectum Historicum
(Pretérito Perfeito Simples), Praeteritum Imperfectum (Imperfeito),
Praeteritum Perfectum (Pretérito Mais-que- Perfeito Composto).

As regras secundárias:

I. O uso dos tempos depois de Praesens Perfectum:


a. Depois do Praes. Perf. Log. o predicado da oração subordinada
normalmente selecciona um Presente do Conjuntivo principalmente quando na
oração principal aparecem os verbos seguintes: memini, novi, oblitus sum,
cognovi, didici, audivi, intellexi, accepi, animadverti, coepi + inf., desii + inf.
Mas já no latim clássico podiam aparecer também os Pretéritos do Conjuntivo.
146
raiz do Supinum mais -urus3. Há verbos que não têm Supinum, neste caso as formas imperfeitas são
usadas.

37
b. Depois dum Coni. Praes. Perf. que se refere ao presente
(prohibitivus, potentialis) também temos de usar os Presentes do Conjuntivo na
oração subordinada.
II. O uso dos tempos depois de Praes. Impf. Historicum:
a. O Praes. Impf. Historicum formalmente é presente, mas
semanticamente exprime acções passadas, por isso o uso dos tempos nas
orações subordinadas é duplo, podem aparecer quer os Presentes, quer os
Pretéritos do Conjuntivo. Se o predicado da oração principal antecede o
predicado da oração subordinada, como na maior parte das orações finais e
perguntas indirectas, o aspecto formal torna-se mais marcado, por isso o latim
prefere usar os Presentes do Conjuntivo. Mas se a referência ao passado não é
apagada por um outro aspecto, como no caso das orações introduzidas por cum
historicum, que antecedem o predicado da oração principal, usam-se os
Pretéritos do Conjuntivo.
b. A selecção do tempo pode depender também do autor. Plauto,
Cícero, César e Ovídio preferem os Presentes, enquanto Terencio, Lívio e
Tácito preferem os Pretéritos do Conjuntivo.
c. Depois de Praes. Impf. podemos encontrar também os Pretéritos
do Conjuntivo quando a oração expõe uma ideia dum autor mais antigo mas
estimado.
III. O uso de tempos depois do Infinitivus Imperfectus:
a. Se o predicado da oração principal é um Infinitivo Histórico 147, na
oração principal estão os Pretéritos do Conjuntivo no latim clássico, mas na
época pós-clássica podem aparecer também os Presentes.
b. Quando o Infinitivo aparece numa exclamação, o seu valor
temporal influencia a selecção do tempo, assim quando se refere ao passado
selecciona os pretéritos nos outros casos os Presentes do Conjuntivo. Isso é
assim também quando o Infinitivo falta duma exclamação.

Regras da Consecutio da Oratio Obliqua

I. As formas verbais infinitas (Infinitivus, Paricipium., Gervndivum., Gerundium.,


Supinum) e os adjectivos aparentemente não têm valor temporal, indicam apenas uma
condição, o tempo é determinado pelo verbo finito do que dependem, assim temos de
147
Usa-se em narrações excitadas, assim refere ao passado.

38
aplicar as regras da consecutio temporum como se a oração subordinada dependesse
deste verbo finito.
a. É problemático o caso daquelas formas que exprimem anterioridade depois
dum verbo no presente, porque em geral referem-se ao passado, mas não
sempre. Neste caso a regra é a seguinte: a oração subordinada selecciona o
mesmo tempo que seleccionaria se a forma verbal infinita fosse substituido por
uma oração, mas no Conjuntivo.
II. A situação é semelhante quando uma oração subordinada depende duma outra oração
subordinada cujo predicado está no Conjuntivo. Neste caso a segunda oração
subordinada selecciona o mesmo tempo que seleccionaria se a oração de que depende
estivesse independente, mas no Conjuntivo.

Observações:

A) O predicado da oração subordinada está no Pretérito do Conjuntivo também nos


casos seguintes:
I. Quando uma oração independente com predicado no Pretérito do Conjuntivo se
torna dependente, não muda o tempo do seu predicado. Assim quando o predicado
era:
a. Um Conjuntivo dubitativo que se referia ao passado.
b. Um Conjuntivo potencial que se referia ao passado
c. Um Conjuntivo irreal que se referia ao presente ou ao passado.
II. Quando o presente da oração principal se refere ao presente e também ao
passado.
III. Quando no caso duma oração principal com predicado no presente a oração
subordinada depende dum substantivo que se refere também ao passado.
IV. Às vezes o predicado da oração subordinada quer exprimir um sentido
específico do Coni. Praet. Impf. ou Perf.
V. O Pretérito pode ser retido também no caso de verdades eternas quando quer
sublinhar não a validade geral da ideia, mas quer deslocar-se ao passado quando a
ideia nasceu.
VI. Às vezes o tempo da oração subordinada segue o tempo do verbo que está mais
próximo e não daquele de que depende.
B) Observações sobre o aspecto do predicado da oração subordinada:

39
I. No caso duma oração principal no futuro numa oração coordenada aparece o
Futuro Imperfeito no caso de simultaneidade e o Futuro Perfeito no caso de
anterioridade. Quando uma frase deste tipo se torna dependente, selecciona um
tempo do Conjuntivo conforme as regras, mas o seu aspecto não mudará. Às vezes
podem ficar no Indicativo. Isso geralmente acontece quando a oração subordinada
depende duma oração no futuro ou no presente.

Regras da Consecutio Consecutiva:

Temos de usar Presente do Conjuntivo em vez de Pretérito apesar de que a oração


principal esteja no passado nos casos seguintes:
I. Temos de usar o Presente Imperfeito se a acção da oração principal tem algum
efeito na oração subordinada e este efeito ainda existe ou acontece no presente.
II. Temos de usar o presente Perfeito também no caso de simultaneidade:
a. Quando a acção da oração principal aconteceu no passado, mas o
conteúdo da oração subordinada é simultáneo não apenas com a acção da
oração principal, mas refere-se ao passado correlacionado ao presente do
enunciador.
b. Se queremos sublinhar o conteúdo da oração subordinada e já não
depende tão ligeiramente da oração principal.

Como pudemos ver, o sistema é bastante consequente, por isso pode ser descrito
por regras. Há casos que primeiro parecem problemáticos, porque não se adaptam às
regras, mas o papel determinante do tempo verbal da oração principal quase sempre é
evidente. No português isso não é assim. Marques examinando as frases completivas
apontou que há outros factores que podem determinar a selecção do tempo das orações
subordinadas. A autora examinou os predicados factivos e volitivos eventivos e
estativos com dois métodos diferentes, primeiro usou os pontos do Reichenbach, depois
seguiu Kamp e Reyle e tirou as conclusões seguintes:

 Há casos de concordância temporal e nestes casos os tempos do Conjuntivo não


têm um valor temporal próprio, comportam-se como no latim.

 Nos outros casos também é frequente que não seja determinada pela oração
principal, mas por um elemento da oração subordinada, por exemplo um

40
advérbio. Mas temos de sublinhar que os tempos de Conjuntivo podem ter o seu
próprio valor temporal.148

No caso das orações principais já vimos o valor temporal da maior parte dos
tempos do Conjuntivo, mas ainda não examinámos os Futuros do Conjuntivo. O Futuro
Simples tem um valor de futuro e pode exprimir simultaneidade ou posterioridade,
enquanto o Futuro Composto indica anterioridade no futuro. Poderíamos esperar que
aparecesse nos casos quando o latim indica a posterioridade usando a Coniugatio
Periphrastica ou o Infinitivus Instans no Accusativus cum Infinitivo. Mas não é assim.
Acontece também no latim que o Presente ou o Imperfeito exprimem posterioridade,
mas no português todos os tempos do Conjuntivo têm um valor de futuro excepto o
Pretérito Perfeito Composto149, por isso o valor modal é que determina a selecção do
tempo. O Futuro do Conjuntivo coloca a realização do assunto num ponto longínquo no
futuro, assim exprime maior incerteza do que os outros tempos de Conjuntivo. Certos
tipos das orações requerem maior grau de assertividade, por isso o Futuro do
Conjuntivo não pode aparecer por exemplo nas completivas, só nas temporais e
condicionais.150
É interessante esta relação ligeira entre o Modo Conjuntivo e a noção da
futuridade no português. Já no caso das frases condicionais pudemos ver que o Futuro
do Indicativo pode ser usado em casos quando no latim apenas o uso do Conjuntivo é
possível, por exemplo nas frases condicionais hipotéticas ou em orações que exprimem
dúvida no presente. A razão disso é que este tempo além do seu valor temporal têm um
valor modal de potencialidade. Acontece uma coisa semelhante no caso do Modo
Conjuntivo, porque além do seu valor modal pode ter também um valor temporal da
futuridade. Isso é possível porque muitas vezes há advérbios ou outros elementos que
exprimem uma modalidade, assim o uso de Conjuntivo torna-se redundante quanto ao
seu valor modal, mas com o seu valor temporal pode enriquecer o sentido da oração.

Conclusão

148
Marques, 150.
149
Oliveira 117.
150
Marques, 107-8.

41
Examinando as diferentes incidências do Modo Conjuntivo podemos concluir
que há muitas correspondências nas duas línguas, o que é normal, porque estamos a
falar sobre o mesmo modo, mas às vezes vale a pena fazer uma análise mais detalhada,
porque pode surgir que no caso das coincidências as razões podem ser diferentes. Por
exemplo vimos no caso do latim e também do português que marcar a subordinação não
é a única função do Conjuntivo. Mas a explicação não é a mesma. No caso do latim
podemos sublinhar o facto que o seu emprego independente nas orações principais é
bastante amplo. No caso do português já não é assim, mas a selecção do tempo não é
determinada apenas pelo verbo da oração principal, assim os tempos do Conjuntivo têm
os seus próprios valores temporais.
Geralmente podemos dizer que o Conjuntivo exprime uma não asserção da
verdade em ambas as línguas, mas no latim a opinião do enunciador tem mais papel. Por
isso há situações quando a frase latina exprime realidade, assim usa o Indicativo, mas
no português isso não é possivel, por exemplo no caso das condicionais reais ou o
fenómeno Indicativus Irrealis no latim.
Há diferenças que têm razões históricas, assim caracterizam as línguas
românicas, como a diminuição do número dos empregos independentes do Conjuntivo,
devido à formação do Condicional. E no fim temos de mencionar mais uma vez o
Futuro do Conjuntivo, que é uma característica da língua portuguesa.
O uso deste modo é bastante amplo e aparentemente caótico, mas examinando-o
quando lemos um texto ou falamos com um falante nativo podemos descobrir a própria
lógica das línguas diferentes e depois torna-se mais fácil empregá-lo.

42
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