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Eric Berne

Oqu
diz depo
dizer ol

Nobel
Passaram-se quase ci nquent a anos desde a publ icação do ar t i -
go que marca o nasci ment o da t eor i a de Eric Berne e no qual ,
pela primeira vez, aparece o t ermo Anál i se Tr ansaci onal .
0 que você diz depois de dizer olá? f oi seu úl t imo l i vro, r evi s-
t o por ele poucos dias ant es de sua mort e, em 1970, e publicado
post umament e um ano depois.
A ampl i t ude e variedade de apl icações são os di f er enci ai s da
Anál i se Tr ansaci onal que, alicerçada na relação cont r at ual e de
co-responsabi l i dade que se est abel ece ent re pr of i ssi onal e
cl i ent e, é uma t eor i a do comport ament o humano especi al ment e
apropriada para o mundo cont emporâneo. At ende a crescent e
necessidade das pessoas ampl iarem sua consci ênci a, cul t i var em
seu equil íbrio i nt erno e el evarem seu grau de aut onomi a de
modo a vi abi l i zar a convivência const r ut i va com a i mpr evi si bi l i -
dade e a i nconst ânci a do ambi ent e ext er no.
Talvez o maior mérit o de 0 que você diz depois de dizer olá?
é o f at o de ser uma obra abert a. Seu est i l o col oqui al , f ar t o de
exemplos e descrições, é um convi t e à ref lexão, est imul ando-nos
a reler e repensar o cont eúdo do t ext o.
Debruçar-se com f requência e at enção sobre est a obra é mer-
gul har num exer ci do i nt el ect ual e emoci onal i mpact ant e e que
nos f az crescer, ampl i a nosso aut o-conheci ment o e a consci ên-
cia das inúmeras opções que dispomos para cami nhar pel a vi da.

ROSA R. KRAUSZ
Membro di dat a, or gani zaci onal e educaci onal da
Uni ão dos Anal i st as Tr ansaci onai s — Br asi l

DESENVOLVIMENTO PESSOAL

ISBN 10 85-213-1363-2
ISBN 13 978-85-213-1363-2

9 , 788521 "31 3 6 3 2 "


E r ic Be r n e

diz depois de
dizer ol
© 1988 Eric Berne

Direitos desta edição reservados à AM PUB Comercial Ltda.


(Nobel é um selo editorial da AM PUB Comercial Ltda.)

Publicado em 1988

Reimpressão 2007

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)


(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

Berne, Eric, 1910-1970.


O que você diz depois de dizer olá?: a psicologia do destino / Eric
São Paulo : Nobel, 1988.

ISBN 978-85-213-0554-5

I.Análise transacional I.Título

88-1 193 / CDD- 158.2


-616.89145
NLW- WM 460.6

índices para catálogo sistemático:


I .Análise transacional : Psicologia aplicada 158.2
2. Análise transacional :Técnicas terapêuticas : Medicina 616.89 145
PREFÁCIO À SEGUNDA EDIÇÃO BRASILEIRA

Passaram-se quase cinquenta anos desde a publicação do artigo que marca o


nascimento da teoria de Eric Berne e no qual, pela primeira vez, aparece o termo
Análise Transacional.

O que você di% depois de di^er olá? foi seu último livro, revisto por ele poucos
dias antes de sua morte, em 1970, e publicado postumamente um ano depois.

No período entre seu primeiro artigo sobre Análise Transacional (1958) e


seu derradeiro e mais importante livro, Berne foi um escritor aplicado e assíduo.
Além de inúmeros artigos, publicou vários livros — entre os quais Osjogos da vida,
um best-seller com repetidas edições e traduções em pelo menos dez línguas.

A Análise Transacional, em sua trajetória de desenvolvimento, tem mantido


seu dinamismo e versatilidade, agregando novas abordagens, como é o caso da
Redecisão, da Psicoterapia Integrativa, da Reparentalização, da Psicanálise Tran-
sacional, da Educação Emocional, demonstrando, como observa Allen (2006),
"que uma das forças da Análise Transacional é a possibilidade de adaptá-la tanto
ao indivíduo quanto aos grupos, inclusive organizacionais e educacionais, e o fato
de poder ser utilizada de tal forma que enfatize a psicodinâmica, a cognição, as
emoções, os padrões de relacionamento, as narrativas e/ou as construções."

A amplitude e variedade de aplicações são, de fato, um dos diferenciais da


Análise Transacional que, alicerçada na relação contratual e de co-responsabilida-
de que se estabelece entre profissional e cliente, é uma teoria do comportamento
humano especialmente apropriada para o mundo contemporâneo. Atende a cres-
cente necessidade das pessoas ampliarem sua consciência, cultivarem seu equilí-
brio interno e elevarem seu grau de autonomia de modo a viabilizar a convivência
construtiva com a imprevisibilidade e a inconstância do ambiente externo.

O que você di\ depois de di^er olá? é uma obra complexa e fascinante, desafiante
e profunda, perspicaz e bem-humorada, que nos convida à reflexão e nos desafia
a testar a validade da teoria do script na nossa própria trajetória de vida.

A nova edição do Olá, como é conhecida-a mais importante obra de Berne


entre os iniciados, é um acontecimento a ser comemorado tanto pelos inician-
tes quanto pelos veteranos da área. Trata-se de leitura obrigatória, historica-
mente relevante para a formação e certificação de analistas transacionais, tanto
clínicos quanto organizacionais, educacionais e outras áreas emergentes. Nela,
Berne demonstra sua capacidade de circular com desenvoltura e leveza por
terrenos irregulares e alagadiços da teoria do script, descrevendo a dinâmica
dos processos envolvidos na construção do destino das pessoas, dos seus com-
portamentos e relacionamentos. Como escreve o autor, (Berne, 1972, p.325),
demonstrando de forma magistral a integração do seu aparato conceituai, "A
Análise Transacional é uma mescla tão rica de conceitos entrelaçados, todos
consistentes entre si, que é possível perambular em qualquer direção e obter
algo interessante e útil."

O tema central do livro, o script, continua estimulando o debate teórico


entre os analistas transacionais, em particular questões relacionadas à sua visão
determinista. Entretanto, uma leitura cuidadosa do Olá, revela que esse determi-
nismo pode ser visto de perspectivas mais amplas. Autores como Allen e Allen
(1988), Bill Cornell (1988) e Fanita English (1977), argumentam a respeito de
aspectos positivos do script e o próprio Berne, como lembra Stewart (1992, 48)
oscila entre considerar o script como algo imposto pelas fi guras parentais ou
decidido pela criança.

Berne (1988) sinaliza algumas incertezas ao discutir, no capítulo 14, "como


o script é possível?" ou no capítulo 21, ao debater as objeções à teoria do script. E m
certas passagens encontramos afirmações, em outras, frases que mais se parecem
com hipóteses, em outras, ainda, questões em busca de respostas.

Talvez o maior mérito de O que você di% depois de di^erolá ?, por mais paradoxal
que possa parecer, é o fato de ser uma obra aberta. Seu estilo coloquial, farto de
exemplos e descrições, é um convite à reflexão estimulando-nos a reler e repensar
o conteúdo do texto.

Debruçar-se com frequência e atenção sobre essa obra é mergulhar num


exercício intelectual e emocional que nos impacta e nos faz crescer, amplia nos-
so auto-conhecimento e a consciência das inúmeras opções que dispomos para
caminhar pela vida.

Rosa R. Krausz
São Paulo, fevereiro de 2007.

Rosa K Kraus% é Membro Didata Organizacional e Educacional da União Nacional de Analistas Transacio-
nais - UNAT-BRASIL, Teaching Member, Organizational and Educational da International Transactional
Analysis Association, Mestre em Ciências Sociais, Doutora em Saúde Pública pela Universidade de São Paulo,
Consultora em Desenvolvimento de Talentos Humanos, Full Member da Worlwide Association of Business
Coaches - WABC e da Associação Brasileira de Coaching Executivo e Empresarial (ABRACEM), Especia-
lista em Coaching de Executivos.
SUMÁRIO

índice de ilustrações . . . . , 13

Apresentação 15

Parte I - CONSIDERAÇÕES G E R A I S

1. Introdução. 19

A. O que você diz depois de dizer Olá? 19


B . Como você diz Olá? 19
C. Um exemplo 20
D. O aperto de mão 22
E . Amigos 24
F . A teoria 24
Referências 24
2. Princípios de análise transacional 25

A. Análise estrutural 25
B . Análise transacional 27
C. Estruturação do tempo 33
D. Scripts. . 36
Notas e referências 37

Parte H - PROGRAMAÇÃO P A R E N T A L

3. O destino humano. 41

A. Planos de vida 41
B . No palco e fora dele 44
C. Mitos e estórias de fadas 47
D. A espera do rigor mortis 53
E . O drama familiar 56
F . O destino humano . 57
G. Histórico 60
Notas e referências. . . , 63
4. Influências pré-natais 65

A. Introdução 65
B. Influências ancestrais 67
C. A cena da concepção 69
D. A ordem de nascimento •...... 71
E . Os scripts de nascimento 75
F . Nomes e sobrenomes. . 76
Notas e referências 78

5. Desenvolvimentos precoces 80

A. Influências precoces 80
B . Convicções e decisões 81
C. Posições - os pronomes 81
D. Vencedores e perdedores 85
E . A posição tripla •••• 85
F . Posições - os predicados 86
G A seleção do scyipt 89
8 9
Referências

6. Os anos maleáveis • 90

A. A programação parental 90
B . Pensando em marciano 92
C. O pequeno advogado 95
D. O aparato do script 97
Notas e referências 99

7. O aparato do script 190

A. O desfecho do script 190


1 0 2
B . A injunção
C. A provocação 193
D. O eletrodo 194
E . Embalagens e coisas 195
F . A prescrição 196
G . Padrões parentais 197
H . O demónio 199
L Permissão 119
J . A liberação interna 112
K . O equipamento do script 114
L . Aspirações e conversas 115
M. Vencedores 116
N . Todos têm um script.. ; * 116
O. O antiscript 117
P. Sumário • • H8
Notas e referências 118

8. O fim da infância 129


2 0
A. Esquemas e heróis I
1 2 1
B . Disfarces
2 2
C. Figurinhas I
1 2 8
D. Ilusões
E . Jogos 135
F . A persona 137
G. A cultura familiar 137
Notas e referências 141

9. Adolescência 143

A. Passatempos 143
B. Novos heróis ... 144
C. O tótem 144
D. Sentimentos novos 145
E. Reações físicas 145
F . O quarto da frente e o quarto dos fundos 146
G. Script e antiscript 147
H. A imagem do mundo 147
I . Camisetas 150
Notas e referências 155

10. Maturidade e morte 156

A. Maturidade 156
B . A hipoteca 157
C. Vícios 157
D. O triângulo dramático 158
E . Expectativa de vida 160
F . A velhice 161
G. A cena da morte 164
H . O riso de forca 165
I . A cena póstuma 166
J . A lápide 167
K . O testamento 167
Notas e referências 168

Parte I H - O SCRIPT E M AÇÃO

11. Tipos de scripts 171

A. Vencedores, não-vencedores e perdedores. 171


B. O tempo do script. 7 172
C. Sexo e script 174
D. Tempo de,relógio e tempo de meta. . 176
Nota% e referências > 177

12. Alguns scripts típicos 178

A. Chapeuzinho Cor-de-Rosa ou a criança abandonada 178


B . Sísifo ou lá vou eu novamente. 180
C. A pequena senhorita Muffet ou você não me assusta 182
D. Velhos soldados nunca morrem ou quem precisa de mim?. . 184
E . O matador de dragões ou papai sabe melhor 185
F. Sigmund ou se não puder fazer de um jeito, experimente de
1 8 6
outro
G. Florence ou ajude. . . 187
1 8 8
H . Scripts trágicos
Notas e referências 190
19
13. Cinderela . « 1

A. O passado de Cinderela 191


B . A estória de Cinderela 192
C. Scripts entrelaçados 193
D. Cinderela na vida real 195
E . Depois que o baile terminou 197
F . Contos de fada e pessoas reais 198
Notas e referências 290
14. Como o script é possível? 201

A. O rosto maleável 201


B . O self em movimentação 204
C. Fascinação e imprinting 209
D. O cheiro inodoro. 210
E . A tensão antecipada e a ressaca. 213
F . O pequeno fascista 219
G. O esquizofrénico corajoso 221
H . O boneco do ventríloqudi 222
I . Mais sobre o demónio 224
J . A pessoa real 225
Notas e referências 226

15. A transmissão do script 227

A. A matriz do script 227


B . A parada familiar 230
C. Transmissão cultural 231
D. A influência dos avós 233
E . O excesso de script 234
F. A combinação de diretivas do script 236
G . Sumário 238
H . A responsabilidade dos pais 238
Notas e referências. 240

Parte I V - O SCRIPT NA PRÁTICA CLÍNICA

16. As fases preliminares '» 245


A. Introdução 245
B . A escolha do terapeuta 247
C. O terapeuta como mágico 249
D. A preparação 250
E . O "paciente profissional" 252
F . O paciente como pessoa 252
Notas e referências 254

17. Os sinais do script 255

A. O sinal do script 255


B . O componente fisiológico 257
C. Como ouvir 259
D. Sinais vocais básicos 260
E . A escolha das palavras 262
F . A transação da forca 269
G. Tipos de riso 271
H . A avó 272
I . Tipos de protesto 273
J . A estória de sua vida 275
K . Mudanças de script 277
Notas e referências 278

18. O script no tratamento 280

A. O papel do terapeuta 280


B . A dosagem do jogo 280
C. Motivos para terapia 281
D. O script do terapeuta 282
E . Prevendo o resultado 283
F . A antítese do script 285
G. A cura 290
Notas e referências • 291

19. A intervenção decisiva . , 292

A. As trilhas comuns finais 292


B . Vozes na cabeça 294

C. A dinâmica da permissão 296


D. Curando pacientes e fazendo progresso 300
Notas e referências 591

20. Estórias de três casos • 303

A. Clooney. . 303
B . Vítor 308
C. Jan e Bill 309
Parte V - UMA A B O R D A G E M CIENTÍFICA DA T E O R I A DO
SCRIPT

21. Objeções à teoria do script. . . . . 315

A. Objeções espirituais 315


B . Objeções filosóficas 316
C. Objeções racionais 317
D. Objeções doutrinárias 318
E . Objeções empíricas " 320
F. Objeções evolutivas 320
G. Objeções clínicas 321
Notas e referências 323

22. Problemas metodológicos 324

A. Mapa e território 324


B . A grelha conceituai. . . 325
C. Dados empíricos e dados sistemáticos. . 328
Notas e referências 331

23. Inventário de verificação do script. . . : . 332

A. Definição de um script * 332


B . Como verificar um script 334
C. Introdução ao inventário de verificação do script 338
D. Inventário de verificação do script. . 338
E . Um inventário de verificação condensado 345
F . Inventário de verificação terapêutica 347
Notas e referências 349

APÊNDICE

O que você diz depois de dizer Olá? 350


Glossário 351
ÍNDICE D E ILUSTRAÇÕES

Fig, IA — Diagrama estrutural da personalidade 26


Fig. 1B - Diagrama estrutural informal. 26
Fig. 1C - Diagrama estrutural de segunda ordem 26
Fig. 1D — Aspectos descritivos da personalidade 27
Fig. 2A - Uma transação complementar P C - C P 28
Fig. 2B — Diagrama de relacionamento mostrando as nove
possibilidades de transações complementares 28
Fig. 3A - Uma transação cruzada tipo I A A - C P 29
Fig. 3B - Uma transação cruzada tipo I I AA—PC. . . 29
Fig. 4A — Uma transação angular bem-sucedida
( A A + A C ) (CA) 31
Fig. 4B - Uma transação duplex ( A A - A A ) ( C C - C C ) 31
Fig. 5 — Árvore genealógica de uma família com script —
os Ables 72
Fig. 6 - Um jovem alcoólatra 94
Fig. 7 — Origem e inserção das injunções do script 104
Fig. 8 - Uma dama bonita 108
Fig. 9 - Um vencedor que trabalha duro 113
Fig. 10 - Autonomia ilusória 134
Fig. 11 - Verdadeira autonomia 134
Fig. 12 - O triângulo dramático 159
Fig. 13 - Uma viagem do P A C através da psique 207
Fig. 14 - Uma matriz do script em branco 229
Fig. 15 - Um desfile de família 231
Fig. 16 - Transmissão cultural 232
Fig. 17 - Transmissão dos avós 234
Fig. 18 - Transação de permissão 300
Fig. 19 - Matriz do script de Clooney 306
Fig. 2 0 A - Estrutura psicológica da criança 328
Fig. 20B - Funções descritivas da criança 328

13
APRESENTAÇÃO

Este livro é uma continuação direta de meus trabalhos anteriores


sobre a abordagem transacional e delineia novos desenvolvimentos do
pensamentp e da prática que se deram nos últimos cinco anos, em parti-
cular o rápido avanço na análise do script.
Durante este período houve um aumento considerável no número
de analistas transacionais treinados. Estes têm testado as teorias consa-
gradas em vários campos diferentes, incluso indústrias, instituições pe-
nais, educação e política, como também numa variedade de situações
clínicas. Muitos deles estão oferecendo contribuições próprias originais,
como mencionado no texto e nas notas de rodapé.
Este trabalho pretende ser, em primeiro lugar, um manual avançado
de psicoterapia e os profissionais de outras formações não deveriam en-
contrar dificuldade em traduzir para o seu próprio jargão os relatos bre-
ves e simples da análise transacional. É provável que alguns leigos tam-
bém o lerão e por este motivo procurei torná-lo acessível a eles. Poderá
demandai reflexão, mas espero que não seja necessário decifrá-lo.
A psicoterapia convencional utiliza geralmente três dialetos dife-
rentes: terapeuta-terapeuta, terapeuta-paciente e paciente-paciente, qu€>
diferem entre si da mesma forma como o mandarim do* Cantones ou o
grego antigo do grego moderno. A experiência mostra que ao eliminar
tanto quanto possível estas diferenças em favor de uma kua-ya ou língua
franca de inglês básico, estaremos expandindo a "comunicação" que
muitos terapêutas cortejam ardentemente (e acabam por deixar esperando
ao pé do altar, como diz o ditado popular). Procurei evitar a moda tão
difundida entre as ciências sociais, comportamentais e psiquiátricas de
mascarar a incerteza com a redundância, a imprecisão com a prolixidade,
uma prática que teve suas origens na Faculdade de Medicina da Univer-
sidade de Paris, no século X I V .
Isto ocasionou denúncias de "popularização" e " *supersimplifica-
ção" - termos que lembram acusações de "cosmopolitismo burguês" ou
de "distorção capitalista" do velho Comité Central. Dada a opção entre
o hermético e o explícito, entre a excessiva complicação e a simplicida-
de, optei por juntar-me ao "povo", utilizando ocasionalmente palavras
difíceis coroo uma espécie de hambúrguer para distrair qs cães de guarda
dos académicos, enquanto entro sorrateiramente pela porta dos fundos
para dizer olá aos meus amigos.
Não será possível agradecer a todos que contribuíram para o de-
senvolvimento da análise transacional, uma vez que hoje são milhares.
Os que melhor conheço são os membros didatas da Associação Interna-
cional de Análise Transacional e os membros do Seminário de Análise
Transacional de São Francisco, que frequento regularmente todas as se-
manas. Dentre os que têm estado mais ativamente envolvidos com a
análise do script incluem-se Carl Bonner, Melvin Boycc, Michael Breen,

15
Viola Callaghan, Hedges Capers, Leonard Campos, William Collins, Jo-
seph Concannon, Patricia Crossman, John Dusay, Mary Edwards, Fran-
kin Ernst, Kenneth Everts, Robert Goulding, Martin Groder, Gordon
Haiber, Thomas Harris, James Horewitz, Muriel James, Pat Jarvis, Ste-
phen Karpman, David Kupfer, Pamela Levin, Jack Lindheimer, Paul
mcCormick, Jay Nichols, Margareth Northcott, Edward Olivier, W. Ray
Poindexter, Sólon Samuels, Myra Schapps, Jacqui Schiff, Zelig Selin-
ger, Clauder Steiner, James Yates and Robert Zechnic.
Além disso desejo agradecer à minha secretária de São Francisco,
Pamela Blum, por manter o seminário funcionando serenamente e con-
tribuir com suas idéias. Também agradeço às suas sucessoras Elaine
Wark e Arden Rose e, particularmente, à minha secretária em Carmel,
Sra. Mary N . Williams, cuja responsabilidade, destreza e dedicação fo-
ram vitais para a existência deste manuscrito que passou por todo um
processo de rascunhos e correções. Meu filho de quinze anòs, Terence,
auxiliou-me diligentemente a conferir a bibliografia e as ilustrações, bem
como outros detalhes do manuscrito e minha filha, Elen Calcaterra, leu-o
e fez valiosas sugestões. Finalmente, desejo agradecer aos meus pacien-
tes por seu espírito esportivo e sua abertura, e por permitirem que eu
saísse de férias para poder pensar. Agradeço, também, aos milhões de
leitores em quinze línguas que me encorajaram pelo seu interesse por, um
ou mais dos meus livros.

Semântica

Como nos meus outros livros, ele poderá referir-se ao ser humano
de qualquer dos sexos, enquanto ela será utilizado quando penso que
uma determinada afirmação se aplica mais às mulheres do que aos ho-
mens. Às vezes ele poderá ser usado a bem da simplicidade gramatical,
para diferenciar o terapeuta (masculino) do paciente. Espero que estes
artifícios sintáticos práticos não sejam mal interpretados pelas mulheres
emancipadas. É significa que tenho uma convicção razoavelmente firme
a respeito de algo, com base em experiência clínica própria ou de outros.
Parece ser ou aparenta ser significa que estou à espera de toais teste-
munhos antes de aceitar firmemente. O relato de casos foi extraído de
minha própria experiência e das que foram apresentadas em seminários e
sessões de supervisão. Alguns são combinações e todos foram protegi-
dos para evitar o seu reconhecimento, embora os incidentes e diálogos
significativos tenham sido fielmente relatados.

Eric Berne

16
Parte I
CONSIDERAÇÕES G E R A I S
1. Introdução

A. O que você diz depois de dizer Olá?

Esta pergunta infantil, aparentemente tão canhestra e despida de


profundidade que se espera da investigação científica, contém, na reali-
dade, todas as questões básicas da vida humana e todos os problemas
fundamentais das ciências sociais. É a pergunta que os bebés se "fa-
zem", que leva as crianças a aceitarem respostas corrompidas quando
fazem esta indagação, que os adolescentes discutem entre si e com os
seus conselheiros, sobre a qual os velhos e sábios filósofos escrevem li-
vros sem nunca encontrar a resposta. Ela contém a questão primeira da
psicologia social, o porquê as pessoas falam umas com as outras, e, tam-
bém, a questão primeira da psiquiatria social, por que as pessoas gostam
de que se goste delas? Sua resposta é semelhante àquela das perguntas
feitas pelos Quatro Cavaleiros do Apocalipse: guerra ou paz? fome ou
fartura? pestilência ou saúde? morte ou vida. Não é de admirar que pou-
cas pessoas encontram a resposta no decorrer de sua vida, pois a maioria
passa por ela sem jamais encontrar a resposta para a questão que à pre-
cede: Como você diz olá?

B . Como v o c ê diz Olá?

Este é o segredo do Budismo, do Cristianismo, do Judaísmo, do


Platonismo, do Ateísmo e, sobretudo, do Humanismo. O famoso "som
de uma só mão batendo palmas" no Zen é o som de uma pessoa dizendo
Olá para outra, como também o da Regra de Ouro, seja qual for a bíblia
em que isto está escrito. Dizer Olá corretamente é ver a outra pessoa, ter
consciência dela como um fenómeno, acontecer para o outro e estar
pronto para que o outro aconteça para você.
Talvez as pessoas que mais possuem esta habilidade sejam os
ilhéus de Fidji, pois uma das raras jóias do mundo é o genuíno sorriso
fidjiano. Começa de forma lenta, iluminando todo o rosto, e lá permane-
ce o tempo suficiente para ser claramente reconhecido e reconhecer cla-
ramente, empalidecendo com uma lentidão secreta à medida que desapa-
rece. Só é comparável, em outros lugares, aos sorrisos da mãe pura e do
bebé ao saudarem-se um ao outro e também nos países ocidentais, por
certos tipos de personalidades abertas*.
Este livro discute quatro questões: Como você diz Olá? Como res-

* Por estranho que pareça, na minha experiência tais sorrisos são mais frequentes em moças de
longos cabelos negros, na faixa dos vinte anos de idade.

19
ponde com um Olá? O que diz você depois de dizer Olá?, e, principal-
mente, a triste pergunta: O que estão fazendo as pessoas em vez de dizer
Olá? Estas interrogações serão respondidas de forma breve aqui. A ex-
plicação das respostas ocupará o resto deste texto de psiquiatria, que é
dirigido primeiramente para o terapeuta, em segundo lugar aos seus pa-
cientes à medida que se curam e, em terceiro, à qualquer pessoa que
queira ouvir.
1) Para dizer Olá a primeira coisa será livrar-se do refugo que se
acumulou em sua cabeça desde que você chegou à casa da ma-
ternidade. Então reconhecerá que este Olá em particular não
voltará jamais a acontecer. Poderá levar anos para aprender co-
mo se faz isto.
2) Para responder com um Olá você se livra de todo o refugo que
está em sua cabeça e vê que há alguém parado ou passando por
você, esperando seu Olá de resposta. Poderá levar anos para
aprender a fazê-lo.
3) Depois de dizer Olá, você se livra de todo o refugo que está
voltando à sua cabeça, de toda a ressaca dos sentimentos que
sentiu e das tensões antecipadas dos problemas nos quais pla-
neja envolver-se. Então você ficará sem palavras e não terá na-
da a dizer. Após alguns anos de prática poderá pensar em algo
que valha a pena ser dito. _____
4) Este livro trata principalmente de refugo: as coisas que as pes-
soas fazem umas às outras em vez de dizer Olá. Foi escrito es-
perando que os que possuem treinamento e talento para tais coi-
sas possam ajudar a si próprios e aos outros a reconhecer o que
eu chamo (no sentido filosófico) de "refugo", uma vez que o
primeiro problema com que nos defrontamos ao responder as
outras três questões é diferenciar o que é refugo e o que não é.
A língua falada pelas pessoas que estão aprendendo a dizer Olá
chama-se "marciano" e distingue-se da linguagem terráquea
cotidiana que, como demonstra a história desde os seus primór-
dios no Egito e na Babilónia até a atualidade, tem levado a
guerras, fome, epidemias e morte, ocasionando nos sobrevi-
ventes um certo grau de confusão mental. Espera-se que a longo
prazo o marciano, adequadamente aprendido e ensinado, ajude
a erradicar estas pragas. Marciano é, para ilustrar, a língua dos
sonhos que mostram as coisas como realmente são.

C . Um exemplo

Para ilustrar o possível valor desta abordagem, consideramos um


paciente moribundo, isto é, um paciente com uma doença incurável e
com tempo limitado de vida. Mort, um homem de trinta anos portador de
uma forma de câncer incurável (no atual estágio de conhecimentos) mas

20
\
de desenvolvimento lento, tinha na pior das hipóteses dois anos de vida
e na melhor, cinco. Sua queixa psiquiátrica eram os tiques que consis-
tiam em balançar a cabeça ou sacudir os pés por razões que desconhecia.
Na terapia de grupo ele logo encontrou a explicação: estava repre-
sentando seus temores pôr detrás de uma parede contínua de música que
passava por sua mente e os tiques eram a forma de manter-se nt> ritmo
desta. Através de cuidadosa observação verificou-que que era desta for-
ma e não o inverso, isto é, não era a música que se mantinha no ritmo
dos tiques, mas sim os movimentos corporais que acompanhavam o ritmo
da música mental.
Neste momento todos, inclusive Mort, perceberam que se a música
fosse eliminada pela psicoterapia, um vasto reservatório de apreensão se-
ria liberado. As consequências disto era imprevisíveis a não ser que seus
temores fossem substituídos por emoções mais agradáveis. O que fazer?
Logo tornou-se claro que todos os membros do grupo sabiam que,
mais cedo ou mais tarde, iriam morrer e que «todos possuíam sentimentos
relacionados a este fato, que estavam sendo reprimidos de várias manei-
ras. Da mesma forma como sucedia a Mort, o tempo e o esforço que dis-
pendiam encobrindo estes sentimentos eram como pagamentos para su-
bornar a morte, que os impedia de desfrutar plenamente da vida.
Sendo este o caso, poderiam viver mais vinte ou cinquenta anos,
enquanto para Mort restavam apenas entre dois e cinco anos: Assim foi
definido que não era a, duração da vida, mas sim a qualidade desta que
era importante: não foi um descoberta surpreendente ou nova, rqas reali-
zada de uma forma mais contundente do que é comum por causa da pre-
sença de uma pessoa que estava morrendo, e que por isso mesmo teve
um efeito profundo em todos.
Os outros membros (que entendiam a linguagem marciana e a ensi-
naram a Mort, que a aprendeu com satisfação) concordaram que viver
significava coisas simples como ver as árvores, ouvir o canto dos passa-
rinhos e dizer Olá às pessoas: experiências de percepção e espontanei-
dade sem drama ou hipocrisia, mas com reserva e decoro. Concordaram
também que para realizar estas coisas, todos eles, inclusive Mort, teriam
de enfrentar com firmeza o refugo que tinham na cabeça. Quando perce-
beram que a situação dele, de uma certa maneira, não era muito mais
trágica que a sua própria, a tristeza e a timidez causada pela presença de
Mort desapareceu. Podiam agora estar alegres com ele e vice-versa. Mort
e os outros podiam tratar-se como iguais. Podiam ser rigorosos com o re-
fugo dele porque agora Mort conhecia o valor da dureza e o porquê de-
les estarem sendo duros com ele. E m compensação ele teria o privilégio
de ser igualmente severo com o refugo dos outros. Mort devolveu sua
carteirinha de canceroso em vigor e reassumiu o seu título de membro da
espécie humana*, embora todos, inclusive ele, tivessem consciência de
que a sua condição era mais grave do que a dos demais.1 (fH*0
Esta situação ilustra mais claramente do que a maioria das outras, o
phatos e a profundidade do problema do Olá que, no caso de Mort,

21
passou por três estágios. Quando ele ingressou no grupo os demais não
sabiam que ele era um homem condenado. De início dirigiam-se a ele da
maneira que era usual naquele grupo. As formas de abordá-lo eram esta-
belecidas pela educação que cada um dos membros havia recebido - a
maneira como os pais haviam ensinado a cumprimentar as pessoas, as
modificações aprendidas posteriormente e um certo respeito e franqueza
próprios da psicoterapia. Mort, sendo um novato, respondia da mesma
forma como faria em qualquer outro lugar, fingindo ser ambicioso, um
jovem americano vigoroso como seus pais gostariam que ele fosse. Mas
quando contou, na terceira sessão, que era um homem condenado, os
outros sentiram-se confusos e traídos. Começaram a questionar-se se te-
riam dito algo que os fizesse parecer mal perante si próprios ou diante de
Mort e, especialmente, aos olhos do terapeuta. Pareciam zangados com
ambos pelo fato de não terem sido informados antes, quase como se ti-
vessem sido enganados por eles. De fato haviam dito Olá a Mort de uma
forma padronizada, sem perceber com quem estavam falando. Agora que
sabiam que ele era um ser especial, desejavam poder voltar atrás e reco-
meçar tratando-o diferentemente.
Assim recomeçaram. Em vez de falar de forma direta, como faziam
antes, dirigiam-se a ele suave e cuidadosamente, como se dissessem:
"Veja como me esforço para dar atenção à sua tragédia?". Ninguém
queria arriscar agora a sua boa imagem falando abertamente com um mo-
ribundo. Isto era injusto, pois dava a Mort uma posição de superiorida-
de. Ninguém ousava rir muito ou alto na sua presença. Isto foi corrigido
quando solucionou-se o problema do que Mort poderia fazer. Então a
tensão desapareceu e eles puderam retroceder e recomeçar pela terceira
vez, conversando com ele como um membro da raça humana, sem restri-
ções. Assim os três estágios foram representados pelo Olá superficial,
depois o Olá tenso e simpático e, finalmente, o Olá descontraído e real.
Zoé não pode dizer Olá a Mort antes de saber quem ele é, e isto
poderá mudar toda semana, ou mesmo toda hora. Cada vez que ela o en-
contra, fica sabendp um pouco mais sobre ele e necessita dizer-lhe um
Olá ligeiramente diferente se quiser acompanhar o aprofundamento da
amizade. Mas, uma vez que ela nunca poderá saber tudo sobre ele, nem
antecipar todas as mudanças, jamais dirá um Olá perfeito, apenas se
aproximará mais e mais disto.

D. O aperto de mão

Muitos pacientes, quando vão ao psiquiatra pela primeira vez,


apresentam-se e estendem "a mão ao serem convidados a entrar no con-
sultório. Na verdade alguns psiquiatras estendem a mão primeiro. Tenho
uma política diferente no que se refere ao aperto de mão. "Se o paciente
oferece sua mão cordialmente, aperto-a para não parecer rude, porém de
maneira neutra, pois fico em dúvida sobre o porquê de sua cordialida-

22
de. Se ele o faz de uma forma que apenas indica que está cumprindo
uma regra de boas maneiras, retribuo o cumprimento de modo a nos en-
tendermos. Este ritual agradável não interfere com o trabalho a ser feito.
Se o paciente estende a mão indicando que está desesperado, então a
apertarei firme e apoiadoramente para que ele saiba que entendi sua ne-
cessidade. A maneira como entro na sala de espera, a expressão do meu
rosto e a posição dos meus braços serão indicadores suficientemente cla-
ros para os novatos que esta amenidade será omitida, a não ser que eles
insistam nela. Isto é feito para indicar, e em geral indica, que partilha-
mos ambos de um propósito mais sério do que provar que somos boas
pessoas ou trocar cortesias. Basicamente não aperto a sua mão porque
não os conheço e não espero que apertem a minha porque não me co-
nhecem. Além disto, algumas pessoas que consultam psiquiatras fazem
objeções ao contato físico e é uma demonstração de cortesia evitar que
isto aconteça.
O fim da entrevista é diferente, pois neste momento eu sei bastante
a respeito do paciente e ele sabe algumas coisas sobre mim. Assim, faço
questão de apertar sua mão ao sair, pois agora conheço-o suficiente para
fazê-lo de maneira apropriada. Este aperto de mão significa algo muito
importante para ele; ou seja, que eu o aceito* mesmo depois de ele ter
relatado todas as coisas "más" a seu próprio respeito. Se ele necessitar
de apoio, meu aperto de mão será apoiador, se ele necessitar de afirma-
ção da sua masculinidade, meu aperto de mão a reafirmará. Isto não é
uma estratégia cuidadosamente planejada para seduzir o paciente. É um
reconhecimento espontâneo, oferecido livremente a alguém que agora
conheço, após uma conversa de uma hora sobre suas preocupações mais
últimas. Entretanto, se ele mentiu maliciosamente, e não em fundão de
um constrangimento natural, ou tentou explorar-me ou intimidar-me, não
apertarei a sua mão para que saiba que terá de comportar-se diferente-
mente se desejar que eu esteja do seu lado.
Com mulheres é um pouco diverso. Se necessitar de um sinal pal-
pável de aceitação, apertarei sua mão de forma a atender às suas neces-
sidades. Se (como já saberei a esta altura) ela se retrai no contato com
homens, direi adeus de forma apropriada sem apertar-lhe a mão. Este úl-
timo caso ilustra claramente a razão de não apertar a mão ao cumpri-
mentar. Se o fizer de início, antes de saber com quem estou trocando um
aperto de mão, poderei estar despertando sua repugnância. Na verdade,
terei invadido sua privacidade e a desrespeitado antes da entrevista, for-
çando-a, em nome da boa educação, e contra sua inclinação, a tocar-me
e permitir que eu a tocasse, apesar de isto ser apenas uma cortesia.

* "Aceitação" não é empregada aqui no seu sentido mal definido ou sentimental. Significa, es-
pecificamente, que estou disposto a passar algum tempo com ele. Isto envolve um compromisso
que poderá significar, em alguns casos, um ou mais anos de paciência, esforço, altos e baixos
e levantar-se cedo pela manhã.

23
Nos grupos de terapia sigo a mesma orientação. Não digo Olá ao
entrar, pois não vi as pessoas durante uma semana e por isso não sei á
quem estou dizendo Olá. Este cumprimento leve e cordial poderá ser
bastante inadequado à luz do que possa ter acontecido neste intervalo de
tempo. Mas faço absoluta questão de dizer Até Logo a cada um dos par-
ticipantes ao fim da sessão, porquç então sei para quem o estou dizendo
e como fazê-lo em cada um dos casos. Por exemplo, suponhamos que a
mãe de uma das mulheres tenha falecido no intervalo das sessões. Um
Olá jovial pareceria inadequado. Ela poderá perdoar-me, mas não have-
ria necessidade de criar tensão. Ao término da sessão saberei dizer Até
Logo a ela na sua aflição.

E . Amigos

Socialmente é diferente, pois os amigos são para dar carícias. Com


eles Olá e Até Logo variam de um aperto de mão espontâneo até um
grande abraço, dependendo da expectativa ou necessidade. Às vezes se-
rá uma gozação ou brincadeira para. evitar um envolvimento maior, um
"sorriso quando você diz isto". Mas há algo na vida que é mais certo do
que os impostos e tão seguro quanto a morte: quanto mais cedo você fi-
zer novos amigos, mais depressa terá velhos amigos.

F . A teoria

Isto é tudo no que se refere a Olá e Até Logo. O que acontece no


intervalo cabe no quadro de referência de uma teoria específica de per-
sonalidade e dinâmica de grupo que é, também, um método terapêutico
conhecido como análise transacional. Para apreciar o que se segue será
necessário compreender primeiro os princípios desta abordagem.

Referências
1. As vantagens de retornar à vida em vez de esperar pela morte são demonstra-
das em: 1) "Terminal Câncer Ward: Patients Build Atmosphere of Dignity".
Journal of the American Medicai Association, 208:1289, maio/26, 1969. 2
Klagsbrun, S.C. "Câncer Emotions, and Nurses." Summary ofScientific Proce-
edings. 122nd. Ann uai Meeting, American Psychiatric Association, Washing-
ton, D.C., 1969.

24
2. Princípios de análise transacional

Os princípios da análise transacional foram apresentados anterior-


mente em várias ocasiões. A descrição mais detalhada pode ser encon-
trada no trabalho do autor denominado Análise Transacional em Psico-
terapia.A. Sua aplicação à dinâmica de grupo está delineada em Estrutura
e Dinâmica das Organizações e Grupos2. Sua utilização na análise dós
jogos é descrita em Os Jogos da VidcP. A aplicação à prática clínica é
encontrada em Princípios do Tratamento de Grupo4, e um resumo da
teoria é apresentado de uma forma acessível ao grande público em Guia
de Psiquiatria e Psicanálisepam Leigos5. Por isso faremos apenas uma breve
revisão para os leitores que não têm acesso imediato a estes trabalhos. (

A. Análise estrutural

O interesse básico da análise transacional é o estudo dos estados de


ego, que são sistemas coerentes de pensamento e sentimento manifesta-
dos por padrões de comportamento correspondentes. Cada ser humano
apresenta três tipos de estados de ego:
1) Os que se derivam das figuras parentais, coloquialmente deno-
minado o Pai. Neste estado a pessoa sente, age, fala e reage
como un> dos seus progenitores fazia quando ela era pequena.
Este estado de ego é ativo na educação dos próprios filhos, por
exemplo. Mesmo quando o indivíduo não está exteriorizando
este estado de ego, o seu comportamento é por ele influenciado
na forma de "influência parental" desempenhando as funções
de uma consciência.
2) O estado de ego no qual a pessoa analisa seu meio ambiente
objetivãmente, calculando suas possibilicjades e probabilidades
com base em experiências passadas, é chamado de Adulto ou
estado de ego Adulto. Este fiinciona como um computador.
3) Cada ser humano carrega dentro de si um menininho ou uma
menininha que sente, pensa, age, fala e reage de forma seme-
lhante à que fazia quando ele ou ela eram crianças. Este estado
de ego é chamado de Criança.
A Criança não é vista como "infantil" ou "imatura", que são pala-
vras Parentais, mas sim como semelhante a uma criança, o que significa
como uma criança de uma certa idade, que poderá ser algo em torno
de dois e cinco* anos de idade em circunstâncias normais. É importan-
te que o indivíduo entenda sua Criança, não só porque ela o acompa-
nhará por toda a vida, mas também por ser a parte mais valiosa da sua
personalidade.

25
A Figura I A representa o diagrama completo da personalidade de
qualquer ser humano, abrangendo tudo que este possa sentir, pensar, di-
zer ou fazer (sua forma abreviada mais conveniente é apresentada na
Figura 1B).

Fig. I A - Diagrama Fig. 1B - Diagrama Fig. 1C - Diagrama


estrutural da estrutural informal estrutural de
personalidade segunda ordem

Uma análise mais detalhada não produz novos estados de ego, mas
sim subdivisões dentro dos estados básicos. Assim, é evidente que um
estudo cuidadoso irá revelar dois componentes Parentais na maioria dos
casos. Um oriundo do pai e o outro da mãe. No estado de ego Criança
revelará os componentes Pai, Adulto e Criança que já lá estavam quando
a Criança foi fixada, como pode ser verificado através da observação das
crianças reais.
Esta análise de segunda ordem está representada na Figura 1C.
A separação de um padrão de sentimento-e-comportamento de outro ao
diagnosticar os estados de ego é denominado análise estrutural . No
texto, os estados de ego serão denominados Pai (P), Adulto ( A ) e Crian-
ça* (C) com letras maiúsculas, enquanto pai, adulto e criança, com letras
minúsculas, indicarão pessoas reais.,
Encontraremos também termos descritivos que são auto-explicati-
vos ou serão esclarecidos como Pai Natural ou Protetor e Pai Crítico ou
Controlador, além da Criança Natural, Adaptada e Rebelde. Enquan-

26
to a Criança "estrutural" é representada por divisões horizontais, a
Criança "descritiva" é indicada pelas verticais, como na Figura 1D.

Pai Natural
Pai Controlador
ou Protetor

Criança Natural Criança Rebelde

Fig. 1D - Aspectos descritivos


da personalidade
B . Análise transacional

Do que foi dito anteriormente percebe-se que quando duas pessoas


estão uma diante da outra há seis estados de ego envolvidos, três de cada
uma, como na Figura 2A. Uma vez que os estados de ego diferem entre
si como as pessoas reais, é importante saber qual estado de ego está
ativado em cada pessoa quando algo acontece entre elas. Isto pode ser
representado por flechas desenhadas entre os dois "indivíduos" no dia-
grama. Na transação mais simples as flechas são paralelas e esta é
denominada transação complementar. É evidente que há nove tipos pos-
síveis de transações complementares (PP, P A , P C , A P , A A , A C , CP,
C A , C C ) , como mostra a Figura 2B. A Figura 2A representa, como
exemplo, a transação PC entre marido e mulher, na qual o estimulo vai
do estado de ego Pai do marido para 9 estado de ego Criança da esposa
e a resposta vai da Criança dela para o Pai dele. Na melhor das hipóteses
isto poderá representar um esposo paternalista cuidando de uma esposa
agradecida. Enquanto as transações forem complementares, com as fle-
chas paralelas, a comunicação poderá continuar indefinidamente.
Nas Figuras 3A e 3B alguma coisa não deu certo. Na 3A um estí-
mulo ( A A ) , tal como um pedido de informação, recebe uma resposta
Criança - para — Pai (CP)jde modo que as flechas de estímulo-res-

27
posta, em vez de permanecerem paralelas, se cruzam. Tal transação é
chamada de cruzada, e neste caso a comunicação é interrompida. Se, por
exemplo, o marido pergunta à guisa de informação "Onde estão as mi-
nhas abotoaduras?" e a esposa responde "Por que você me culpa de tu-
do?", ocorreu uma transação cruzada e eles não mais poderão falar sobre
abotoaduras. Esta é uma transação cruzada Tipo I , que representa a for-
ma comum de reação de transferência, como ocorre em psicoterapia,
sendo também a responsável pela maioria dos problemas do mundo. A
ilustração 3B representa a transação cruzada Tipo I I , na qual um estí-
mulo Adulto-Adulto ( A A ) , como é o caso de uma pergunta, recebe uma
resposta pomposa e condescendente Pai-Criança (PC). Este é o tipo mais
comum de reação de contra-transferência e a segunda causa mais comum
de problemas nas relações pessoais e políticas.

Estímulo

Resposta
Fie. 3A - Transação cruzada
tipo IAA-CP

Uma verificação cuidadosa do diagrama de relacionamento na F i -


gura 2B indicará que matematicamente são possíveis 72 tipos de transa-
ções cruzadas (9x9 = 81) combinadas, menos as nove complementares.
Felizmente apenas umas quatro ocorrem com frequência suficiente para
justificarem alguma preocupação maior no trabalho clínico ou na vida
cotidiana. São as que foram descritas anteriormente, a Tipo I (AA-CP),

* Isto pode ser verificado diagramando-se cada uma separadamente ou Ustando-as: PP-PA,
PP=PC, PA-PP, PA-PC e assim por diante até CC-CA. Depois disto cada uma delas poderá ser
combinada com elementos da prática clínica ou da vida cotidiana.

29
de reação de transferência; Tipo I I (AA-PC), de contra-transferência;
Tipo IQ (CP-AA), " a resposta exasperante" na qual queni deseja simpa-
tia recebe fatos em vez disso; Tipo I V (PC-AA), "cinismo" onde alguém
que espera obediência recebe o que considera uma resposta matreira sob
forma de uma declaração fatual.
As transações complementares e cruzadas são simples e de um só
nível. Há dois tipos de transações ulteriores ou de dois níveis, as angula-
res e as duplex. A Figura 4A representa uma transação angular na qual
um estimulo ostensivo Adulto-Adulto, como um apelo de venda que soa
racional tem, na verdade, a intenção de enganchar algum outro estado de
ego, Pai ou Criança, do interlocutor. Aqui a linha continua, Adulto-
Adulto, representa o nível social ou aparente da transação, enquanto a
linha pontilhada indica o nível psicológico ou oculto. Se a transação an-
gular for bem-sucedida neste caso, a resposta será Criança-Adulto, em
vez de Adulto-Adulto; se não for, o Adulto do interlocutor manterá o
controle e a resposta virá do Adulto e não da Criança. Considerando-se
várias formas em que os estados de ego podem ser envolvidos, pode-se
observar pelos diagramas (Figuras 4A e 2B) que existem dezoito tipos
de transações angulares bem-sucedidas nas quais a linha pontilhada re-
cebe a resposta e para cada uma delas há uma transação angular mal-su-
cedida, na qual a resposta volta paralelamente à linha contínua.
A Figura 4B representa a transação duplex. Aqui temos dois níveis
distintos: o subjacente psicológico ou o oculto, que é diferente do nível
social ou aparente. Um estudo dos diagramas mostra que há 8 1 2 ou
6.561 diferentes tipos de transações duplex possíveis. Se subtrairmos
aquelas nas quais o nível social e psicológico coincidem (que são os 81
tipos de transações simples), haverá, na realidade, 6.480 tipos de transa-
ções duplex. Felizmente, outra vez, semente umas seis destas têm signi-
ficado clínico ou na vida cotidiana.

* Isto pode ser desenvolvido como se segue. Tome as nove transações complementares da ilus-
tração 2B e some as 72 transações cruzadas. Para cada uma destas 81 possibilidades ao nível
social ou aberto existem 81 possibilidades ao nível psicológico ou oculto. Muitas destas combi-
nações podem ser encontradas em situações clínicas ou pessoais por alguém que tenha aprendido
a reconhecer os estados de um ego em ação.
* * (AA-AA) + (CC-CQ (como na ilustr. 4B), (AA-AA) + (PP-PP), (AA-AA) + (PC-CP),
(PP-PP) + (CC-CQ, (AA-AA) + (CA-CA), (AA-AA) + (PA-PA). Outros entram em situa-
ções especiais como educarfilhos,ensino ou psiquiatria infantil, onde o nível aberto poderá sei
complementar (PC-CP, C C - C Q ou cruzado (AA-CP, Tipo I), por exemplo, enquanto o nível
oculto poderá ser de qualquer uma das 81 possibilidades. Para visualizar estas, o melhor será
d ia gramar as transações e então traduzi-las para situações reais.

30
Advogado Test emunha
Fig. 4A - Uma transação angular bem-sucedida
(AA+AC) (CA)

Rapaz Moça
Fig. 4B - Uma transação duplex
(AA-AA) (CC-CC)
31
O leitor poderá estranhar a presença de tantos números nesta parte.
Três são as razões:
1) A razão da Criança é que muitas pessoas gostam de pensar em
números.
2) A razão do Adulto é demonstrar que a análise transacional é
mais precisa do que a maioria das teorias sociais e psicológicas.
3) A razão do Pai é demonstrar que, embora análise transacional
não seja tão precisa, não limita as pessoas.
Por exemplo, se nos envolvemos em apenas três transações e a ca-
da vez podemos optar entre 6.597 variedades, teremos nossas três tran-
sações em 6.597* maneiras. Isto nos d á 300 bilhões de maneiras dife-
rentes de estruturar nossos três intercâmbios e nos oferece todo o espaço
que necessitamos para expressar nossas individualidades. Significa que
toda a população do mundo poderia juntar-se em pares e cada um ter três
intercâmbios 200 vezes seguidas sem que nenhum dos pares repetisse o
que qualquer outro fez ou o que ele (par) próprio fez.
Já que as pessoas se envolvem em centenas ou milhares de transa-
ções diariamente, cada uma terá trilhões e trilhões de combinações à sua
disposição. Mesmo que tenha aversão a 5.000 das 6.597 transações pos-
síveis é nunca se envolva nelas, terá ainda suficente espaço de manobra,
não havendo necessidade de estereotipar o seu comportamento, a não ser
que ele próprio decida fazê-lo. Se assim o fizer, e a maioria faz, não é da
responsabilidade da análise transacional, mas de outras influências que
constituem o tema principal deste livro.
Uma vez que este sistema como um todo, e todas as suas ramifica-
ções, é denominado de análise transacional, o que foi descrito acima,
isto é, à análise de transações isoladas, é chamado de análise transacio-
nal propriamente dita, que é o segundo passo depois da análise estrutu-
ral.
A análise transacional propriamente dita oferece uma rigorosa de-
finição do sistema como um todo, que será do interesse dos que possuem
formação em metodologia científica. Uma transação consiste em um úni-
co estímulo e uma única resposta, verbal ou não-verbal, e é a unidade da
ação social. É chamada de transação por que cada uma das partes ganha
f\ algo dela e é por esta razão que as pessoas se engajam.6 Qualquer coisa
^) que aconteça entre duas ou mais pessoas pode ser separada por uma sé-
rie de transações isoladas e isto traz todas as vantagens que qualquer
ciência pode obter quando possui um sistema bem definido de unidades.
A análise transacional é uma teoria da personalidade e de ação so-
cial e um método clínico de psicoterapia, baseada na análise de todas as
possíveis transações entre duas ou mais pessoas, com base em estados de
ego especificamente definidos, num número finito de tipos estabelecidos
(9 complementares, 72 cruzadas, 6.480 duplex e 36 angulares). Aproxi-
madamente quinze destas ocorrem no cotidiano. O resto tem apenas inte-
resse académico. Qualquer sistema ou abordagem que não se baseie na
análise rigorosa de transações isoladas e dos estados de ego específicos
que a compõem não é análise transacional. Esta definição tem como pro-

32
pósito estabelecer um modelo para todas as possíveis formas de com-
portamento social humano. Este modelo é eficaz por seguir o princípio
da economia científica (às vezes denominado de navalha de Occam), ba-
seado em dois princípios:
1) Os seres humanos podem mudar de um estado de ego para
outro.
2) Se A diz uma coisa e B diz algo logo em seguida, é possível ve-
rificar se o que B disse é ou não uma resposta ao que A falou.
É muito eficaz também porque até agora não foram encontrados
exemplos, dentre os milhares e milhões de intercâmbios entre seres hu-
manos, que não pudessem ser tratados por este modelo. É rigoroso por-
que é limitado por considerações aritméticas simples. A melhor maneira
de compreender o "ponto de vista transacional" será indagar: " O que fa-
ria uma criança de um, dois ou três anos que poderia corresponder ao
comportamento deste adulto?".

C. Estruturação do tempo

Também é possível classificar séries prolongadas de transações, in-


clusive as que se estendem por toda uma vida, de forma a poder prever o
comportamento social significativo tanto a curto, como a longo prazo.
Tais correntes de transações acontecem, mesmo quando produzem pouca
satisfação instintual, porque a maioria das pessoas fica inconfortável
quando se encontra diante de um período de tempo não-estruturado. Pro-
curam, então, recepções, por exemplo, que são menos monótonas do que
ficar só. A necessidade de estruturar o tempo baseia-se em três impulsos
ou fomes. A primeira é a fome de estímulo ou sensação. Longe de tentar
evitar situações estimulantes, como muitos defendem, a maioria dos
organismos, inclusive os seres humanos, procuram estas situações. A
necessidade de sensação é a razão pela qual os proprietários de montanhas-
russas ganham dinheiro e os prisioneiros farão qualquer coisa para esca-
par da solitária. O segundo impulso é a fome de reconhecimento, a busca
de tipos especiais de sensações que só podem ser fornecidas por outro
ser humano ou, em alguns casos, por outros animais7. É por isso que o
leite não é suficiente para filhotes de macacos ou bebés. Eles necessitam
também de som, odor, calor e contato com a mãe, pois sem isto fenecem,
à semelhança dos adultos quando não há ninguém para dizer-lhes Olá. A
terceira fome é a de estrutura, que explica por que os grupos tendem a
transformar-se em organizações e os estruturadores de tempo são as pes-
soas mais procuradas e bem remuneradas de qualquer sociedade.
Um.exemplo interessante que combina com a fome de estímulos e
de estrutura é o dos ratos criados nuqi estado de privação sensorial, isto
é, em escuridão completa ou então numa gaiola branca com iluminação
constante, sem qualquer variação. Depois quando são colocados em
gaiolas comuns com ratos "normais", verifica-se que procuram alimento

33
num labirinto se a comida for colocada sobre um tabuleiro de xadrez,
e que não buscam alimento se este estiver sobre um fundo homogé-
neo. Ratos criados normalmente procurariam alimentos independente do
fundo.
Isto demonstrou que a fome de um estímulo estruturado dos ratos sub-
metidos à, privação era mais importante do que a sua fome de alimento.
Gs investigadores concluíram que a necessidade de estímulos estrutura-
dos (ou como foi por eles colocado de "experiência perceptual") poderá
envolver processos biológicos tão básicos quanto a fome de alimentos,
e que os efeitos "da privação sensorial precoce poderão persistir no
decorrer da vida sob a forma de uma intensa atração por estímulos
complexos8. :
• ' IIIBllMMMMl,l
Há quatro classificações básicas para a estruturação do tempo a curto
prazo no comportamento social humano, com dois casos limitantes. Se
duas ou mais pessoas encontram-se juntas em um recinto, elas têm seis

( tipos possíveis de comportamento social à sua escolha. Num extremo o


caso limitante é o isolamento, no qual as pessoas não se comunicam
abertamente uma com a outra. Isto poderá ocorrer em situações tão di-
versas quanto um trem subterrâneo ou um grupo terapêutico de esquizo-
ffênicos retraídos.
Em seguida ao isolamento, no qual cada pessoa permanece envolta em
seus próprios pensamentos, a forma mais segura de ação social é consti-
tuída pelos rituais. Estes são intercâmbios altamente estilizados que po-
derão ser informais ou formalizados em cerimónias que são completa-
mente previsíveis. As transações constituídas pelos rituais fornecem
pouca informação, sendo mais sinais de mútuo reconhecimento. As uni-
dades de um ritual são denominadas carícias, por analogia com a forma
em que os bebés são reconhecidos por suas mães. Os rituais são progra-
mados exteriormente pela tradição e costumes sociais.
A forma seguinte mais segura de ação social é conhecida como ativida-
des, que consiste no que chamamos comumente de trabalho. Aqui as
transações são programadas pelo material com o qual se trabalha, seja
madeira, concreto ou problemas aritméticos. As transações de trabalho
são tipicamente Adulto-Adulto, orientadas para a realidade externa, isto
é, o assunto da atividade. Na ordem seguem-se os passatempos, que não
são tão estilizados e prcdizíveis quanto os rituais, porém possuem uma
certa qualidade repetitiva, do tipo e intercâmbios de escolha múltipla e
de complementação de sentenças, como as que acontecem nas festas on-
de as pessoas não se conhecem muito bem. Passatempos são, em grande
parte, socialmente programados por conversas a respeito de assuntos
aceitáveis e de forma aceitável, onde as observações pessoais poderão
insinuar-se levando à forma seguinte de ação social chamada jogos.
Jogos são conjuntos de transações ulteriores, repetitivas por natureza,
como um desfecho bem definido. Numa transação ulterior o agente finge
estar fazendo uma coisa, quando, na realidade, está fazendo outra, pois
todos os jogos envolvem uma isca. Esta só funciona, entretanto,

34
se houver uma fragilidade na qual possa enganchar, uma brecha ou fran-
queza no interlocutor da qual possa aproveitar, como o medo, a ganân-
cia, o sentimentalismo ou a irritabilidade. Enganchado o "alvo", o joga-
dor aciona uma espécie de mudança para obter o desfecho. A mudança é
seguida por um momento de confusão ou perplexidade, enquanto o alvo
entende o que aconteceu. Então os dois parceiros recolhem seus res-
pectivos desfechos e o jogo termina. O desfecho, que é mútuo, consiste
em sentimentos (não necessariamente semelhantes) que o jogo suscita no
agente e respondente. Se uma série de transações não apresentar estas
quatro características não será um jogo, isto é, as transações têm que ser
ulteriores, de forma a haver uma isca seguida por uma mudança, confu-
são e desfecho. O jogo é representado pela fórmula:

I + F = R — M — C — D (Fórmula J ) (+)

I + F significa que a isca engancha a fraqueza levando à resposta (R). O


jogador aciona a mudança (M) que é seguida por um momento de confu-
são ou perplexidade ( Q , após o qual os dois parceiros colhem o desfe-
cho (D). Tudo que corresponder a esta fórmula será um jogo. Caso con-
trário não o será.
A mera repetição ou persistência não caracteriza um jogo. Assim,
se um paciente assustado de um grupo terapêutico pedir, a cada semana,
ao terapeuta que lhe dê segurança (Doutor, digâ-me que vou melhorar) e
quando recebe diz "Obrigado", isto não é, necessariamente, uma transa-
ção ulterior. O paciente declarou de maneira franca a sua necessidade,
foi atendido e não tira qualquer vantagem da situação, dando uma res-
posta cortês. Estas transações, portanto, não constituem um jogo e sim
uma operação e esta, embora repetida com frequência, deve ser diferen-
ciada dos jogos, da mesma forma como se distingue procedimentos ra-
cionais de rituais.
Se outro paciente, entretanto, pede segurança ao terapêuta e aare-
cebê-lá utiliza a resposta- para fazer com que ele pareça incompetente,
isto constitui um jogo. Exemplo: Um paciente pergunta " O senhor acha
que vou melhorar, doutor?" e o terapeuta sentimental responde "Claro
que sim". Neste momento o paciente revelará o motivo ulterior de sua
pergunta. Em vez de dizer "Obrigado", como numa transação honesta,
ele aciona mudança com " O que o faz pensar que sabe tudo?". Esta res-
posta confunde o terapeuta desequilibrando-o por um momento, o que
era a intenção do paciente. Aí termina o jogo com o paciente sentindo-se
exultante por ter enganchado o terapeuta e este sente-se frustrado. Estes
são os desfechos.
Este jogo seguiu a fórmula J com precisão. A isca foi a pergunta

* No original a fórmula é: C + G + R S P (Fórmula G) C = con, G = "gimmick",R


= response, S = switch, X = confusion ou crossup, P = payoff, Fórmula G de game.(N. do T.)

35
inicial e a fraqueza foi a sentimentalidade do terapeuta. Quando a isca
enganchou na fraqueza ele respondeu da maneira que o paciente espe-
rava acionando a mudança e causando a confusão, depois do que cada
um recolheu seu desfecho. Assim:

I + G = R — M — G — BF.*

Este é um exemplo simples do jogo chamado, do ponto vista do


paciente, "Te acertei" ou "golpeador" * e do ponto de vista do tera-
peuta " E u só queria ajudar". Coloquialmente o desfecho é chamado de
figurinha. Sentimentos "bons" são denominados figurinhas "douradas"
e sentimentos perturbadores, figurinhas "marrons" ou "azuis". Neste
caso o paciente obteve uma figurinha dourada falsificada em troca de um
triunfo ou sucesso falso e o terapeuta, uma marrom, o que não é inco-
mum.
Cada jogo tem um slogan ou lema pelo qual pode ser reconhecido,
como " E u só queria ajudar" . Este slogan é coloquialmente chamado de
"camiseta". Em geral o nome do jogo é tirado do seu slogan. Para além
dos jogos localiza-se o outro caso limitante do que se passa entre as pes-
soas, chamado de intimidade. A intimidade bilateral é definida como um
relacionamento cândido, livre de jogos, de um dar e receber livre e sem
exploração. A intimidade pode ser unilateral, pois uma das partes poderá
ser cândida é dar-se livremente enquanto a outra é desonesta e aprovei-
tadora.
As atividades sexuais oferecem exemplos que abrangem todo o es-
pectro do comportamento social. Podem ocorrer no isolamento, ser parte
de uma cerimónia ritualfstica, estar presente num dia de trabalho, ser
um passatempo num dia chuvoso ou constituir atos de real intimidade.

D. Scripts

As formas de ação social acima são maneiras de estruturar o tempo


objetivando evitar o tédio e, concomitantemente, extrair a maior satisfa-
ção possível de cada situação. Toda pessoa possui um plano de vida pré-
consciente ou script, através do qual estrutura planos mais longos de
tempo — meses, anos ou toda uma vida, preenchendo-os com atividades,
rituais, passatempos e jogos que levam adiante o seu script, dando-lhe
satisfação imediata comumente interrompida por períodos de isolamento
e, às vezes, episódios de intimidade. Scripts baseiam-se, em geral, em
ilusões infantis que poderão persistir toda uma vida. Em pessoas mais
sensíveis, perceptivas e inteligentes, estas ilusões dissolvem-se, uma a

* No original a fórmula é a seguinte: C + H * R — S — X — P. Aqui Berne utilizou


hook (H) em vez de G (gimmick). Hook refere-se a gancho. (N. do T.)
* * Estes jogos náo constam da listagem apresentada em Games People Play, onde o autor
trata especificamente do assunto. (N. do T . )

36
uma, levando às crises vivenciais descritas por Erikson 9 . Entre elas está
a reavaliação dos pais pelo adolescente, os protestos às vezes bizarros da
meia-idade e depois a emergência da filosofia.
Entretanto, tentativas excessivamente desesperadas de manter as
ilusões na vida adulta levam à depressão ou espiritualismo, enquanto o
abandonar todas as ilusões poderá levar ao desespero. Estruturar o tem-
po é um termo objetivo para designar os problemas existenciais do que
fazer após ter dito Olá. Haverá tentativas de responder esta pergunta ob-
servando o que fazem as pessoas após ter dito Olá, inserindo algumas
pistas sobre o que poderia ser. Isto poderá ser feito vantajosamente atra-
vés da investigação sobje a natureza do script de vida e do curso de seu
desenvolvimento. 10 .

Notas e referências

1. Berne, E . Transactional Analysis in Psychotherapy, Grove Press, New York,


1961 (Traduzido para o português como Análise Transacional em Psicotera-
pia, Summus Editorial, São Paulo, s/d)
2. Berne, E . The Structure and Dynamics of Organizations and Groups, J . B
Lippincott Comp., Philadelphia, 1963. Grove Press, New York, 1966.
3. Berne, E. Games People Play, Grove Press, New York, 1964. (traduzido para
o português com o título Os Jogos da Vida, Rio de Janeiro, Artenova, 1977).
4. Beme, E . Principies of Group Treatment, Oxford University Press, New
York, 1966.
5. Berne, E . Laymaris Guide to Psychiatry and Psychoanalysis, Simon &
Schuster, New York, 1968.
6. "A transação ou intercâmbio parece ser o foco em torno do qual vários cien-
tistas sociais estão gravitando. Concordo plenamente com a posição de Blau
que o intercâmbio é o ponto de referência comum para todas as ciências so-
ciais e constitui o bloco básico (adicionando-se o cimento das comunicações)
para a construção da análise de relacionamentos e estruturas sociais mais
complexas." Da resenha de Blau, Peter M. "Exchange and Power", in Social
Life, Wiley, New York, 1964; in Science 147:137, Janeiro 8, 1965 feita por
Alfred Kuhn.
7. Szasz, K. Peúshism: pets and their People in the Western World, Holt, Rine-
hart & Winston, New York, 1968.
8. Sackett, G.P., Keith-Lee and Treat, R. "Food versus Perceptual Complexity
as Rewards for Rats Previously Subjected to Sensory Deprivation." Science,
141:518-520, August 9,1963.
9. Erikson, E. Identíty and the Life Cycle, International Universities Press, New
York, 1959.
10. Para uma crítica sistemática da teoria de análise transacional ver Shapiro, S.S.
"Critique of Eric Berne's Contributions to Subself Theory." Psychological
Reports 25:283-296,1969.

37
Parte U

PROGRAMAÇÃO PARENTAL
3. O destino humano
v- J M: mim'; mrí-M ••v

A. Planos de vida

O destino de todo o ser humano é decidido pelo que se passa den-


tro de sua cabeça quando confrontado com o que acontece fora dela.
Câda pessoa traça sua própria vida. A liberdade confere-lhe o poder de
realizar seus próprios desígnios e o poder dá-lhe a liberdade de interferir
nos desígnios dos outros. Mesmo que o resultado seja decidido por pes-
soas que jamais encontramos ou germes jamais vistos, suas últimas pala-
vras e as inscrições da lápide exaltarão sua luta. Se por uma grande des-
graça o indivíduo morrer na poeira e no silêncio, só os que melhor o co-
nheceram entenderão adequadamente o slogan enquanto todos que se
encontram fora dos aposentos particulares da amizade, casamento e me-
dicina o apreciarão de maneira errónea. Na maioria dos casos a pessoa
passou sua vida enganando o mundo e a si próprio. Ouviremos mais so-
bre estas ilusões posteriormente.
Cada pessoa decide na primeira infância como viverá e como mor-
rerá e este plano, que as pessoas carregam em suas cabeças onde quer
que estejam, chama-se script. O comportamento trivial pode ser decidido
pela razão, mas as decisões importantes já foram tomadas: com que tipo
de pessoa se casará, quantos filhos terá, em que tipo de cama morrerá e
quem estará presente nesta ocasião. Poderá não ser o que deseja, mas é o
que espera que seja.

Magda

Magda era uma esposa e mãe devotada, mas quando seu filho mais
novo ficou doente ela percebeu, para seu horror, que no fundo tinha uma
idéia, um retrato ou talvez mesmo um desejo de que o filho muito amado
iria morrer. Isto lembrava-a do tempo em que seu marido estava além-
mar no exército, quando o mesmo aconteceu. Ela era perseguida por um
desejo misterioso de que ele fosse morto. Nos dois casos via-se com uma
tremenda aflição e dor. Esta seria a sua cruz e todos admirariam a forma
como ela a enfrentava.
P. O que aconteceria depois?
R. Nunca fui tão longe. Seria livre e poderia, fazer o que desejasse. Co-
meçar outra vez.
Quando Magda estava na escola secundária havia tido muitas
aventuras sexuais com os colegas, e desde então sentia-se culpada. A
morte do marido e do filho seriam o castigo ou a expiação, livrando-a da
maldição materna. Não mais se sentiria como um pária. As pessoas ex-
clamariam "Como ela é corajosa! e a reconheceriam como um membro

41
integral da raça humana.
Durante toda a vida Magda tinha em sua mente este trágico filme
planejado e terminado. Era o" terceiro ato do seu drama de vida, ou
script, como havia sido na infância. Ato I : Culpa sexual e confusão. Ato
I I : Maldição da mãe. Ato I I I : Expiação. Ato I V : Liberação e vida nova.
Na realidade levava uma vida bastante convencional, segundo os ensi-
namentos de seus pais, fazendo o possível para manter os que amava
saudáveis e felizes. Isto era contrário ao esquema de seu script — um
conXin-script — que certamente não era tão dramático ou excitante.
O script é um plano de vida continuado, formado na primeira in-
fância sob pressão parental. É a força psicológica que impulsiona a pes-
soa em direção ao seu destino, independente da luta contra ele ou da
afirmação de que é sua livre e própria vontade.
Não tencionamos reduzir todo o comportamento humano ou toda a
sua vida a uma fórmula. Muito pelo contrário. Uma pessoa real pode ser
definida como alguém agindo espontaneamente, de forma racional e con-
fiável, respeitando os outros com decência. Quem segue a fórmula é uma
pessoa não-real ou irreal. Mas desde que esta parece ser a maioria da
humanidade, será necessário procurar aprender algo sobre elas.

Della
Della era vizinha de Magda, no fim dos vinte e levando um tipo de
vida doméstica muito semelhante. Seu esposo, um vendedor, viajava
muito. Às vezes, quando ele estava fora, ela começava a beber e acabava
muito longe de casa. Ela "eliminava" estes episódios e, como acontece
nestes casos, sabia o que tinha havido só porque pilhava-se em lugares
estranhos com nomes e números de telefone de homens desconhecidos
em sua bolsa. Isto não só a horrorizava como a aterrorizava, pois signifi-
cava quê poderia arruinar a sua vida algum dia se topasse com um ho-
mem indiscreto ou mau.
Os scripts são planejados na primeira infância. Se isto era um
script, sua origem deveria estar lá. A mãe de Della faleceu quando ela
era pequena e seu pai passava o dia fora, trabalhando. Della não se rela-
cionava bem com as crianças na escola. Sentia-se inferior e levara uma
vida solitária. No fim da infância descobriu uma maneira de ser popular.
Oferecia-se para brincadeiras sexuais a um grupo de meninos pequenos.
Nunca havia pensado n$ relação entre aqueles tempos de escola no celei-
ro e o seu atual comportamento. Todo o tempo carregava em sua cabeça
o esboço do drama de sua vida. Ato I : O cenário. Prazer e culpa num
celeiro. Ato I I : Uma erupção do script. Prazer e culpa enquanto bêbada
e irresponsável: Ato IH: O desfecho. Denúncia e ruína. Perde tudo: ma-
rido, filhos e posição. Ato I V : A libertação final. Suicídio. Então todos
sentem pena e a perdoam.
Ambas, Magda e Della, viviam em seus contra-scripts pacíficos
com um sentimento de iminente catástrofe. O script era um drama trá-
gico que lhes traria liberação e reconciliação. A diferença é que Magda
esperava pacientemente por um ato divino para cumprir o seu destino — a
salvação —, enquanto Della, impulsionada pela compulsão de um demó-
nio interno, apressava-se impacientemente em direção ao seu script -
danação, morte, perdão. Assim, partindo de um mesmo princípio (delin-
quência sexual), estas duas mulheres moviam-se por diferentes meios pa-
ra diferentes fins.
O psicoterapeuta, sentado em seu consultório como um sábio, é
pago para fazer algo a respeito disto. Tanto Magda como Della serão li-
beradas se alguém morrer, mas o trabalho do terapeuta será encontrar
uma opção melhor para libertá-las. Ele sai do consultório, caminha pela
rua passando pelo escritório do corretor, o ponto de táxi, o bar. Quase
todos que ele vê estão à espera de uma Grande Caçada. Na mercearia
uma mulher está gritando com sua filha: "Quantas vezes preciso dizer
que não é para mexer a f ' ? , enquanto alguém admira o seu filhinho:
"Não é uma gracinha!".
Quando chega ao hospital um paranóide diz: "Como faço para sair
daqui, doutor?". Um depressivo pergunta: "Para que estou vivendo?", e
o esquizofrénico responde: "Não faça dieta, viva. Não sou tão estúpi-
do". Foi o que disseram ontem. Estão encalacrados, enquanto os de fora
ainda têm esperança. "Vamos aumentar sua dose de medicação?", per-
gunta um estudante de medicina. O Dr. Q volta-se para o esquizofrénico,
fitando os seus olhos. Este retribui o olhar. "Vamos aumentar a sua me-
dicação?", pergunta o Dr. Q. O rapaz pensa um pouco e responde:
"Não". O Dr. Q estende sua mão e diz: "Olá". O esquizofrénico aperta
sua mão e diz:. "Olá". Os dois voltam-se para o estudante e o Dr. Q diz:
"Olá". Aquele parece perturbado, mas cinco anos depois, numa reunião
psiquiátrica, ele se dirige ao Dr. Q e diz " O i Dr. Q. Olá".

Mary
"Um dia vou abrir um jardim de infância, casar quatro vezes, fazer
muito dinheiro na Bolsa e tornar-me uma grande cirurgiã", disse a em-
briagada Mary.
Isto não é um script. Primeiro, ela não recebeu estas idéias de seus
pais. ELes detestavam crianças, não acreditavam em divórcio, achavam a
Bolsa muito especulativa e consideravam que os cirurgiões eram muito
careiros. Segundo, sua personalidade não se ajustava a nenhuma destas
coisas. E l a era severa com as crianças, frigidamente distante com os ho-
mens, assustada com o mercado de ações, e suas mãos tremiam por causa
da bebida. E , terceiro lugar, ela havia decidido há muito tempo ser cor-
retora de imóveis durante o dia e alcoólatra à noite e nos fins de semana.
Quarto lugar, nenhum destes projetos a atraíam. Eram mais expressões
do que ela não sabia fazer do que o in vergo. E quinto, era óbvio para
qualquer pessoa que, a ouvisse que ela jamais faria qualquer uma das
coisas mencionadas.
Um script necessita:
1) Diretivas parentais.
2) Um desenvolvimento de personalidade condizente.
3) Uma decisão infantil.
4) Um ligar-se a um método particular de sucesso ou fracasso .
5) Uma atitude convincente ou uma postura de credibilidade, como
se diz hoje.
Consideraremos neste livro o que já é conhecido sobre o aparato
do script e o que se pode fazer para mudá-lo.

B . No palco e fora dele

Scripts teatrais derivam-se intuitivamente de scripts de vida, sendo


um bom início considerar as conexões e semelhanças entre eles.
1) Ambos baseiam-se num número limitado de temas, sendo a tra-
gédia edipiana a mais conhecida. Os outros podem ser encon-
trados no drama e na mitojogia grega. Outros povos possuíam
os rudes ditirambos, e as orgias obscenas dos antigos dramas
sacerdotais, mas gregos e hebreus foram os primeiros a refinar e
registrar os padrões domésticos e reconhecíveis da vida huma-
na. Esta, na verdade, é plena de épicos como Agon, Pathos,
Threnos e Teófano, à semelhança dos rituais primais. Estes são
maisr fáceis de entender e contemplar se forem representados em
linguagem popular, Bumba! e Oba! com um homem e uma don-
zela ao luar, sob um loureiro quando chega o vilão, qualquer
que possa ser. Reduzido a este nível pelos poetas gregos, a vida
do ser humano já foi enquadrada em Bulfinch ou Graves. Se os
deuses lhe sorriem, será uma preocupação constante. Se fazem
cara feia, torna-se outra coisa e se quiser retirar a maldição ou
viver mais confortavelmente, tornar-se-á um paciente.
Tanto para o analista de script transacional, como para o ana-
lista de peças teatrais, isto significa que, ao conhecer o enredo e
o personagem, sabe-se qual será o desfecho, a não ser que alte-
rações possam ser feitas. Por exemplo, fica claro tanto para o
psicoterapeuta como para o crítico teatral, que Medéia decidiu
matar os filhos a nãó ser que alguém a convencesse a nâo fa-
zê-lo. Deveria ser igualmente claro para ambos que se ela tives-
se ido a um tratamento de grupo naquela semana a coisa toda
não teria acontecido.
2) Certos rumos de vida têm não só resultados previsíveis, se pros-
seguirem no mesmo caminho, como também certos diálogos de
palavras específicas, pronunciadas de uma certa maneira,

* Pessoalmente prefiro o Dicionário Clássico de Lempriire (10- edição, 1818).

44
são necessários para estabelecer a motivação apropriada aos re-
sultados. Tanto no teatro como na vida real as pistas precisam
ser memorizadas e ditas acertadamente para que os outros res-
pondam de maneira a justificar e levar adiante a ação. Se o he-
rói mudar sua fala e seus estados de ego, os outros responderão
diferentemente. Isto desvia todo o script e esta é a finalidade
da análise terapêutica do script. Se Hamlet usar falas da Rosa
Irlandesa, de Abie, Ofélia terá que alterar as suas para que pos-
sa fazer sentido, e toda a representação prosseguirá diferente.
Então os dois poderão partir juntos em vez de se esgueirarem à

tf
63 volta do castelo. Uma peça ruim, mas provavelmente uma vida
melhor.2
3) Um script terá que ser ensaiado e reescrito antes de estar pronto
para uma representação dramática. No teatro há leituras, refor-
mulações, ensaios e provas antes do grande momento. Um
script de vida inicia-se na infância de uma forma primitiva
chamada esboço. Aqui os outros atores estão limitados aos pais,
irmãos e irmãs. Numa instituição ou lar de adoção estarão limi-
tados a companheiros de mesa e aos administradores. Todos re-
presentam seus papéis rigidamente, pois cada família é uma
instituição e a criança não aprende muita flexibilidade com ela.
Ao aproximar-se da adolescência, começa a encontrar mais pes-
soas, seleciònando as que representarão os papéis exigidos por
seu script (farão isto porque o outro representa algum papel nos
seus próprios scripts). Neste ponto a pessoa reescreve seu
script,. levando em consideração o novo ambiente. A trama bá-
sica permanece, porém a ação é ligeiramente diferente. Na
maioria dos casos (exceção feita aos adolescentes suicidas ou
assassinos) este é ensaio, algo como uma apresentação experi-
mental numa pequena cidade. Com vários destes ajustamentos,
o indivíduo chega à forma final para a maior das produções:
a última apresentação, o desfecho do script. Se for "bom", terá
lugar num jantar de despedida. Se for "mal", o indivíduo dirá
adeus de uma cama de hospital, da porta de uma cela de prisão,
de uma enfermaria psiquiátrica, do cadafalso ou do necrotério.
4) Quase todos os scripts têm papéis para "os bons caras" e os
, "caras maus", para "vencedores" e "perdedores". O que é
considerado bom ou mau 3 , o que é um vencedor ou perdedor, é
algo peculiar a cada script, porém fica bastante claro que todo
tf script tem estes quatro personagens, às vezes combinados em
dois papéis. Num script de cowbcy, por exemplo, o cara bom é
o vencedor e o mau é o perdedor. Bom significa corajoso, rápi-
do no gatilho, honesto e puro. Mau quer dizer covarde, lento no
gatilho, corrupto e interessado em garotas. O vencedor é al-
guém que sobrevive e o perdedor é o enforcado ou o que leva
um tiro. Nas novelas, a vencedora é a jovem que consegue um

45
homem, a perdedora é a que o perde. Nas novelas empresariais,
o vencedor é o que consegue o melhor contrato ou a maioria
dos votos por procuração e o perdedor é o que não sabe lidar
com papéis.
Na análise do script os vencedores são denominados "prínci-
pes" ou "princesas", e os perdedores são os "sapos". O òbjeti-
vo da análise do script é transformar sapos em príncipes ou
princesas. Para tanto o terapeuta terá que descobrir quem são os
caras bons e maus no script do paciente, como também que tipo
de vencedor ele poderá ser. O paciente luta, resiste a tornar-se
um vencedor por não estar em tratamento com este propósito,
mas sim o de ser transformado num perdedor mais corajoso. Isto
é natural, pois ao ser um perdedor corajoso poderá continuar
seguindo seu script mais confortavelmente, ao passo que ao
tornar-se um vencedor terá que jogar fora todo ou a maior parte
do seu script e recomeçar outra vez, coisa que a maioria reluta
em fazer.
5) Todos os scripts, seja no teatro ou na vida real, são essencial-
mente respostas à questão básica do encontro humano: " O que
você diz depois de dizer Olá?". O drama e~a vida edipianas, por
exemplo, giram ambos inteiramente em torno desta questão.
Toda vez que Édipo encontra um homem mais velho, diz pri-
meiramente Olá. Em seguida, levado pôr seu script, pergunta:
"quer brigar?" Se este disser: "Não", Édipo nada mais terá a
dizer-lhe, ficando com cara de bobo e imaginando se valerá a
pena falar sobre o tempo, comentar a guerra atual ou quem ven-
cerá os jogos Olímpicos. A saída mais simples será murmurar:
"Prazer em conhecê-lo", " S i vales bene est, ego valeo"*, " T u -
do com moderação, prosseguindo desta maneira. Mas se o ho-
mem mais velho disser: "Sim", Édipo responderá: "Acertei na
mosca!", pois encontrou o seu homem e saberá como prosse-
guir.
6) Cenas do script de vida têm que ser montadas e motivadas com
antecedência, como nas cenas teatrais. Um exemplo simples é
ficar sem gasolina. Isto é montado com dois ou três dias de an-
tecedência, olhando no medidor, "planejando" a compra para
"logo depois" e não o fazendo. De fato ficar sem gasolina não
é possível "imediatamente" exceto num carro desconhecido
com o medidor quebrado. É quase sempre um acontecimento
iminente, uma cena pré-planejada de um script de perdedor.
Muitos vencedores passam toda uma vida sem nunca ficar sem
gasolina.
Os scripts de vida baseiam-se numa programação paren-
tal que a criança elege por três razões:

"Se estar bem é bom, eu estou bem." (N doT.)

46
1) Dá um propósito à vida que de outro modo faltaria. As crianças
fazem a maioria das coisas em função de pessoas, em geral seus
pais.
2) Oferece-lhe uma forma aceitável de estruturar seu tempo (acei-
tável para seus pais).
3) É preciso dizer às pessoas como fazer as coisas. Aprender por
si próprio poderá ser inspirador, porém não é muito prático. Um
homem não se torna um bom piloto destruindo alguns aviões e
aprendendo com os seus erros. Terá de aprender com os erros
dos outros, não os próprios. Um cirurgião precisa de um profes-
sor, em vez de extrair um apêndice atrás do outro para descobrir
tudo que pode não dar certo. Assim os pais programam seus fi-
lhos transmitindo o que aprenderam ou que pensam ter aprendi-
do. Se forem perdedores, passarão sua programação de perde-
dores e se forem vencedores, o programa corresponde. O pa-
drão a longo prazo tem sempre uma linha histórica. Enquanto o
resultado é determinado para melhor ou pior pela programação
parental, a criança tem, frequentemente, a liberdade de selecio-
nar a sua própria trama.

C . Mitos e estórias de fadas

A primeira e mais arcaica versão do script, o esboço primai, é con-


cebido na mente da criança numa idade em que poucas pessoas, fora de
sua família restrita, parecem reais. Partimos do princípio de que seus
pais parecerão figuras enormes dotadas de poderes mágicos, como os gi-
gantes, ogres ou górgonas da mitologia, ou simplesmente, pelo fato de
serem três vezes mais altos e dez vezes maiores do que ela.
À medida que a criança cresce e torna-se mais sofisticada, passa
deste universo clássico para um mundo mais romântico, vislumbrando o
primeiro palimpsesto ou revisão de seu script para que corresponda à sua
nova visão do seu meio ambiente. Se as condições são adequadas, a
criança terá a ajuda das histórias de fadas e de animais lidas por sua mãe
e depois por ela própria em suas horas de lazer, quando há tempo para
dar asas à sua imaginação. Também aqui há magia, porém menos pertur-
badora. Fornecem todo um conjunto de novos personagens para repre-
sentar papéis nos seus caprichos: todas as personalidades no reino ani-
mal que lhe são familiares como companheiros reais nas brincadeiras ou
como figuras efémeras de medo ou fascínio, vistas ou ouvidas à distân-
cia ou, ainda, como criaturas semi-imaginárias de capacidades desconhe-
cidas sobre as quais somente ouviu falar ou leu. Talvez tudo isto chegue
via tela da televisão, quando naquela idade até os comerciais possuem
uma auréola de atração. Mesmo nos piores casos, sem livros ou telas e
até mães, a criança fica sabendo da existência de vacas ou poderá imagi-
nar seus próprios animais distorcidos. Neste segundo estágio a criança esta-

47
rá meramente atribuindo aos animais certas características humanas, ten-
dência que persistirá, num certo grau, até a idade adulta em pessoas l i -
gadas a estábulos, canis e tanques com golfinhos.
No terceiro estágio, a adolescência, novamente o script é revisto
para adaptar-se à realidade atual como o jovem espera que será, ainda
romântica e dourada ou, às vezes, enfeitada com a ajuda de drogas. A
medida que passam os anos, ele se aproxima da realidade, quando pro-
vavelmente as pessoas à sua volta lhe darão as respostas desejadas. As-
sim, através das décadas, ele se prepara para o espetáculo de despedida
que, acima de tudo, é função do terapeuta alterar.
A seguir, são apresentados alguns exemplos para mostrar a seme-
lhança entre mitos, estórias de fadas e pessoas reais. Estes serão melhor
compreendidos do ponto de vista transacional, à linguagem marciana,
mencionada ànteriormente, que se baseia no seu próprio mito - estabele-
cido pelos analistas do jogo e do script como forma de ver a vida huma-
na com mais objetividade. Aqui Mário, o marciano, chega à Terra e terá
que retornar e "relatar como é " - não como os terráqueos dizem que é
ou querem que ele pense que seja. Mário não dá atenção às palavras di-
fíceis, nem aos dados estatísticos, mas observa o que as pessoas estão
fazendo com, para e entre si, e não o que dizem que estão fazendo. Aqui
vai a estória de Europa.

A estória de Europa

Europa era neta de Netuno. Um dia ela se encontrava num prado à


beira do mar colhendo flores quando um belo touro apareceu e deitou-se
a seus pés. Seus olhos convidaram-na a montar em seu dorso. E l a ficou
muito atraída por sua voz melodiosa e maneira amigável, pensando como
seria divertido cavalgar pelo pequeno vale. Mas no momento em que
montou, o touro disparou em direção ao mar, pois era, na verdade, Júpi-
ter disfarçado de touro e ele era capaz de qualquer coisa quando via uma
jovem que o atraía. Europa não passou tão mal assim, pois ao descerem
em Creta ela deu a luz a três reis e teve um continente que recebeu o seu
nome. Tudo isto parece ter acontecido em 1552 A . C . e a estória pode ser
encontrada no Segundo Idílio, de Moschus. Júpiter, o raptor, veio de
uma família pouco convencional. Seu pai, Saturno, de acordo com
a Teogonia de Hesíodo, teve seis filhos. Devorou os primeiros cinco lo-
go após o nascimento e quando Júpiter, o sexto, nasceu, sua mãe escon-
deu-o, colocando em seu lugar uma pedra embrulhada em cueiros, que
seu pai devorou. Quando Júpiter cresceu, ele e sua avó forçaram Saturno
a vomitar a pedra e os cinco bebés que ele hávia engolido: Plutão, Netu-
no, Vesta, Ceres e Juno. Depois de Júpiter ter rompido com Europa, esta
se juntou a Danaus, rei do Egito, e tiveram uma filha chamada Amímo-
ne. Seu pai, o rei, mandou-a levar água para a cidade de Argos, e nesta
ocasião foi vista por Netuno que apaixonou-se por ela. Salvou-a de um
sátiro lascivo tomando-a para si, sendo ele seu bisavô, da mesma forma
como Júpiter, que raptou sua mãe, era tio-avô dela.

48
Listemos as transações significativas desta saga familiar por estí-
mulo e resposta. Cada resposta, é claro, pode tornar-se o estímulo da
transação seguinte.
1) Estímulo: uma bela donzela colhe flores graciosamente.
Resposta: um deus amoroso, seu tio-avô, transforma-se num
touro dourado.
2) Estímulo: a donzela acarinha seus flancos e sua cabeça.
Resposta: o touro beija suas mãos e revira os olhos.
3) A donzela monta nas suas costas. O touro rapta-a.
4) Ela expressa medo e espanto e lhe pergunta quem é ele. E l a é
acalmada por ele e tudo acaba bem.
5) Estímulo: um pai come seus filhos.
Resposta: A mãe dá-lhe uma pedra para çomer.
6) Resposta: o filho resgatado força o pai a vomitar as crianças
devoradas e a pedra.
7) Estímulo: uma bela donzela é enviada por seu pai para buscar
água.
Resposta: envolve-se com um sátiro que hoje seria chamado
"lobo".
8) Estímulo: sua beleza excita seu bisavô.
Resposta: ele a salva do sátiro e leva-a consigo.
Para um analista de script a característica mais interessante desta
série de transações míticas (na versão de Moschus) é que apesar das
violentas lamentações e protestos de Europa, ela nunca diz expressa-
mente: "P^re", ou: "Leve-me de volta imediatamente!". Em vez disto
volta-se rapidamente para adivinhar a identidade c[e seu raptor. Em ou-
tras palavras, enquanto ela pseudo-protesta em altos brados, toma cuida-
do para não abortar o drama, resignando-se, curiosa por ver o resultado.
Assim, suas lamúrias são ambíguas, sendo conhecidas como "de jogo"
ou "de script", na língua marciana. Na verdade está participando do jogo
"Violentada", que se ajusta ao script que lhe foi atribuído, de tornar-se
mãe de reis, desde que isto aconteça "contra a sua vontade". Interes-
sar-se por seu raptor não seria maneira mais firme de desencorajá-lo, po-
rém seus protestos a liberam da própria responsabilidade de ter fiertado
com ele.
Existe uma estória mais conhecida que inclui a maioria destas tran-
sações, embora numa ordem ligeiramente diferente. A versão a seguir foi
retirada de Andrew Lang e Grimm. É bastante conhecida da maioria das
crianças alfabetizadas nos países de língua inglesa, como também em
outros, e é um estímulo comum para a imaginação.

49
Chapeuzinho Vermelho
Era uma vez uma menina engraçadinha (Chapeuzinho Vermelho).
Um dia sua mãe mandou-a atravessar a floresta para levar comida para
sua avó. No caminho encontrou um lobo sedutor que a considerou como
um belo bocado. Ele lhe ordenou que ficasse acesa, entrasse na dele, se
desenquadrasse e colhesse flores em vez de manter-se solene. Enquanto
ela passava o tempo, o lobo foi até a casa da avó e devorou-a. Quando
Chapeuzinho Vermelho chegou ele se disfarçou de avó e convidou-a a ir
para a cama com ele. Ela aceitou e percebeu muitas coisas estranhas na
sua aparência, o que a fez duvidar se era mesmo a velha senhora. Pri-
meiro ele tentou acalmá-la, mas depois devorou-a (aparentemente, sem
mastigar). Veio um caçador e salvou-a abrindo a barriga do lobo e tiran-
do viva também a avó. Então, Chapeuzinho Vermelho, muito feliz, aju-
dou o caçador a encher a barriga do lobo com pedras. E m algumas ver-
sões Chapeuzinho Vermelho pede socorro e o caçador mata o lobo com
um machado e salva-a em cima da hora, antes de o vilão devorá-la.
Aqui, novamente, há uma cena de sedução entre uma donzela ino-
cente que gosta de colher flores e um animal astuto que a trai. O animal
gosta de comer crianças, mas termina com pedras na barriga. Como
Amímone, Chapeuzinho Vermelho é enviada para uma tarefa útil, envol-
ve-se com úm lobo no caminho e faz amizade com seu salvador.
Para um marciano esta estória levanta dúvidas interessantes. Ele
aceita as coisas como são, incluindo o lobo que fala, embora nunca te-
nha vi sto nenhum. Diante do que acontece ele fica imaginando do que se
trata e a que tipo de pessoas acontecem estas coisas. Aqui estão os seus
pensamentos sobre o assunto.

Uma reação marciana


Um dia a mãe de Chapeuzinho Vermelho manda-a atravessar a flo-
resta para levar comida para a avó e ela encontra um lobo no caminho.
Que tipo de mãe manda uma menininha para a floresta onde existem lo-
bos? Por que a mãe não se encarregou disto ou não foi junto com a fi-
lha? Se a avó era tão indefesa por que a mãe deixou-a só numa cabana
isolada? Mas se Chapeuzinho Vermelho tivesse mesmo que ir, por que
sua mãe não a alertou para que não parasse para conversar com os lo-
bos? A estória mostra que ninguém avisou-a que era perigoso. Nenhuma
mãe poderia realmente ser tão estúpida, pois parece que ela pouco se
importava com o que pudesse acontecer com Chapeuzinho Vermelho ou,
talvez, quisesse até livrar-se dela. As menininhas também não são tão
burras assim. Como poderia Chapeuzinho Vermelho olhar para os olhos,
orelhas, mãos e dentes do lobo e pensar que se tratava de sua avó? Por
que não saiu correndo o mais rápido possível? E também era bem mazi-
nha, pegando pedras para por na barriga do lobo. De qualquer forma,
qualquer menina que raciocina, após ter falado com o lobo, certamente
50
não iria parar para colher flores, mas pensaria: "Aquele filho da mãe vai
devorar minha avó se eu não conseguir ajuda rapidamente".
Até mesmo a avó e o caçador são suspeitos. Se tratarmos a drama-
tis persona* desta estória como um ser real, com seu próprio script, ve-
remos como suas personalidades se encaixam caprichosamente do ponto
de vista marciano.
1) É evidente que a mãe está tentando perder sua filha "acidental-
mente", ou, pelo menos, deseja acabar dizendo "Não é terrível,
não se pode nem caminhar pelo parque sem que algum lobo...
etc."
2) O lobo, em vez de comer coelhos e outros bichos, está exage-
rando e deve saber que acabará mal, por isso parece que está
procurando encrenca. Deve ter lido Nietzsche ou algo similar
na sua juventude (se sabe falar e amarrar uma touca, por que
não saberia ler?) e seu mote será algo do tipo " V i v a perigosa-
mente e morra gloriosamente".
3) Vovó mora sozinha e deixa sua porta destrancada, esperando
talvez que algo de interessante aconteça, algo que não poderia
acontecer se ela estivesse morando com os seus. Será por isso
que ela mudou piara lá, para aquelas redondezas? Ela provavel-
mente é ainda bastante jovem e poderá ter uma aventura, sendo
Chapeuzinho Vermelho uma menininha.
4) O caçador é, obviamente, um salvador que aprecia enfrentar
opositores vencidos tendo menininhas para ajudar: um script de
adolescente bastante nítido.
5) Chapeuzinho Vermelho conta ao lobo especificamente onde ele
poderá encontrá-la e até vai para a cama com ele. Ela está, ob-
viamente, jogando "Violentada" com ele e acaba bastante feliz
com toda a estória.
A verdade é que todos nesta estória estão à procura de ação a
qualquer preço. Se o desfecho é apreciado por seu valor aparente, então
tudo era uma trama para envolver o pobre lobo, fazendo-o crer que esta-
va passando a perna em todos, utilizando Chapeuzinho Vermelho como
chamariz. Neste caso a moral da estória não é que menininhas inocentes
deveriam evitar as florestas onde há lobos, mas sim que os .lobos deve-
riam evitar menininhas de aparência inocente e suas avós. E m resumo,
lobos não devem passear sozinhos pela floresta. Há outra pergunta inte-
ressante: o que fez a mãe depois que se livrou de Chapeuzinho Verme-
lho para o resto do dia?
Se tudo isto parecer cínico ou divertido, consideremos Chapeuzi-
nho Vermelho na vida real. A pergunta crucial é: com uma mãe como
esta e após tal experiência, como será Chapeuzinho Vermelho depois de
crescer?

* A personagem do drama. (N. do T.)

51
Um script de Chapeuzinho Vermelho
Na literatura psicanalítica dedicou-se muita atenção para o signifi-
cado simbólico das pedras colocadas no ventre do lobo. Para o analista
transacional, entretanto, os itens mais significativos são as transações
entre as pessoas envolvidas.
Carrie veio tratar-se aos trinta anos queixando-se de dores de cabe-
ça, depressões, de não saber o que queria e não encontrar um namorado
satisfatório. Como todos os Chapeuzinhos Vermelhos na experiência do
Dr. Q, possuía um casaco vermelho. Procurava sempre ser útil de uma
ou outra formarUm dia entrou em seu consultório e lhe disse:
— Há um cachorro doente na rua, abaixo do seu consultório.
Quer telefonar à SPA?*
— Por que não telefona você?, perguntou o Dr. Q, ao que ela res-
pondeu: Quem, eu?
Ela nunca salvava ninguém, mas sempre sabia onde encontrar o
salvador. Isto é típico de Chapeuzinho Vermelho. O Dr. Q perguntou-
lhe, então, se ela já havia trabalhado num escritório onde alguém tinha
que sair para buscar refrigerante para o lanche, ao que ela respondeu
afirmativamente.
— Quem ia buscar os refrigerantes?
— E u , claro — respondeu ela.
A parte do script de sua estória era a seguinte: no período entre
seis e dez anos sua mãe costumava mandá-la para a casa dos avós (ma-
ternos) com pequenas incumbências ou para brincar. Frequentemente sua
avó não estava em casa, e ela brincava com o avô, que a apalpava sob o
vestido. Ela nunca contou isto à mãe, pois sabia que esta ficaria brava e
a chamaria de mentirosa.
No presente ela encontrava com homens e "rapazes" e saía com
muitos, mas acabava se desentendendo com eles depois de dois ou três
programas. Cada vez que contava ao Dr. Q sobre o rompimento e ele
perguntava por que isto acontecia, a resposta era "Ha! Ha! Ha! Porque
ele é um lobinho. Carrie passou anos de sua vida trotando pela floresta,
trazendo sanduíches para as pessoas e continuamente descartando filho-
tes de lobos. Uma existência maçante e deprimente. O acontecimento
que mais lhe marcara a vida fora a aventura com o avô. Parecia que ela
iria passar o resto de sua existência à espera de uma repetição daquilo.
Isto nos mostra como Chapeuzinho Vermelho continuou depois que
a estória terminou. O caso do lobo foi a coisa mais interessante que lhe
aconteceu e quando cresceu passava a vida trotando pela floresta, tra-
zendo coisinhas para as pessoas e esperando encontrar um outro lobo.
Tudo o que encontrava, entretanto, eram filhotes de lobos que ela des-
denhosamente punha de lado.

Sociedade Protetora dos Animais (N. do T.)

52
A estória de Carrie conta-nos também quem era o verdadeiro lobo
e porque Chapeuzinho Vermelho foi tão atrevida a ponto de ir para a
cama com ele: era seu avô.
As características de um Chapeuzinho Vermelho real são:
1) Sqa mãe mandava-a fazer pequenas tarefas.
2) Foi seduzida por seu avô, mas não contou à sua mãe. Se o tives-
se feito, sua mãe a chamaria de mentirosa. Às vezes fingia-se de
boba para entender o que estava acontecendo.
3) Raramente salva as pessoas, mas gosta de arranjar salvadores e
está sempre procurando oportunidades para fazê-lo.
4) Quando crescer será a escolhida para fazer pequenas tarefas. Ela
se move rapidamente ou vagueia como uma menininha em vez
de caminhar com dignidade.
5) Está à espera que algo realmente excitante aconteça e sente-se
aborrecida enquanto espera, uma vez que só encontra filhotes de
lobo, que despreza.
6) Diverte-se enchendo o ventre dos lobos com pedras ou o equi-
valente a isto.
7) Não está claro ainda se o psiquiatra masculino está aí para sal-
vá-la ou é apenas um avô assexuado e agradável com o qual ela
se sente confortável e ligeiramente nostálgica, & com o qual se
contenta porque não pode ter a verdadeira coisa.
8) R i e concorda quando ele diz que ela parece com Chapeuzinho
Vermelho.
9 ) Curiosamente ela quase sempre possui ou usa um casaco vermelho.
Deve-se observar que os scripts das mães, avó materna e paterna
de Chapeuzinho Vermelho têm que ser complementares, a fim de permi-
tir que tais incidentes sexuais ocorram mais de uma vez. O final feliz da
estória também é suspeito e não ocorre na vida real. As estórias de fadas
são contadas por pais bem intencionados, e o final feliz é uma intrusão
de um estado de ego Parental benevolente, porém mentiroso. As estórias
criadas pelas próprias crianças são mais realistas e não têm, necessaria-
mente, um final feliz. Na verdade são notoriamente horripilantes.4 aC L -

D . A espera do r ig o r m o r t is *

Um dos objetivos da análise do script é encaixar o plano de vida


do paciente na nobre psicologia histórica de toda a raça humana, uma
psicologia que, aparentemente, mudou pouco desde os dias da caverna,
passando pelos primitivos estabelecimentos da agricultura e da criação,
pelos grandes governos autoritários do Oriente Médio até os nossos dias.
Joseph Campbell, em O herói com mil faces, que é o melhor manual pa-
ra os analistas de script, resume isto da seguinte maneira:
"Freud, Jung e seus seguidores demonstraram irrefutavelmente que

* Rigidez cadavérica. (N. do T.)


53
a lógica, os heróis e as proezas dos mitos sobrevivem nos tempos mo-
dernos... A última encarnação de Édipo, o romance continuado da Bela e
a Fera, estavam hoje, à tarde, na esquina da Rua 42 com a Quinta Ave-
nida, esperando a mudanda de cor do semáforo". Ele enfatiza que, en-
quato o herói do mito alcança um triunfo histórico-mundial, o herói de
um conto de fadas alcança uma pequena vitória doméstica. E pacientes
são pacientes, podemos adicionar, porque não podem conquistar as vitó-
rias que almejam e, apesar disto, sobrevivem. Assim vêm ao médico, "o
sabedor de todos os caminhos secretos e palavras potentes". Seu papel é
precisamente aquele dos velhos sábios dos mitos e dos contos de fada,
cujas palavras auxiliam o herói no decorrer de provações e terrores da
misteriosa aventura".
Esta é a maneira de a Criança do paciente ver, independente de
como o seu Adulto conta a estória, e é evidente que todas as crianças,
desde o início da humanidade, tiveram que enfrentar os mesmos proble-
mas e contavam com mais ou menos as mesmas armas à sua disposição.
Quando chega ao corte, a vida é o mesmo velho-vinho em novas garra-
fas: as garrafas de bambu e coco foram substituídas por pele de cabra,
passando-se desta para a cerâmica, da cerâmica para vidro, do vidro para
o plástico, mas as uvas quase não mudaram, havendo a mesma velha
embriaguês na superfície e a mesma velha borra no fundo. Assim, como
diz Campbell, poucas serão as variações encontradas no formato das
aventuras e personagens envolvidos. Neste sentido, se conhecermos al-
guns elementos do script do paciente, poderemos prever com certo grau
de certeza para onde ele está caminhando e interceptá-lo antes que en-
contre a infelicidade ou o desastre. Isto é chamado de psiquiatria pre-
ventiva ou "fazer progresso". Melhor ainda, poderemos levá-lo a mudar
seu script ou desistir dele, o que constitui a psiquiatria curativa ou "ficar
melhor".
Portanto, não é uma questão de doutrina ou necessidade de encon-
trar precisamente o mito ou a estória de fada que o paciente está seguin-
do. Porém, quanto mais perto chegarmos, melhor. Sem este fundamento
histórico os erros são frequentes. Um mero episódio na vida do paciente
ou seu jogo favorito poderão ser confundidos com o seu script completo,
ou a ocorrência de um único símbolo animal, como o lobo, poderá levar
o terapeuta a se enganar. Ao relacionar a vida do paciente ou o plano de
vida de sua Criança a uma estória coerente, que sobreviveu a centenas e
milhares de anos por causa do seu apelo universal às camadas primitivas
da mente humana, ter-se-á no mínimo, a sensação de estar trabalhando
com uma base sólida e, no máximo, poderá oferecer pistas muito preci-
sas do que é necessário fazer para evitar ou mudar um fim negativo.

Esperando um script de rigor mortis

Uma estória de fadas poderá, por exemplo, revelar elementos de


um script que, de outra forma, são difíceis de desenterrar, como é o caso

54
da "ilusão de script". O analista transacional acredita que os sintomas
psiquiátricos resultam de alguma forma de auto-decepção. Mas os pa-
cientes podem ser curados justamente porque suas vidas e incapacidades
estão baseadas numa invenção da imaginação.
No script conhecido como "Mulher Frígida" ou " À espera do rigor
mortis" (EDRM), a mãe repete para a filha que os homens são animais,
mas o dever da esposa é submeter-se à sua bestialidade. Se a mãe faz
muita pressão, a menina poderá até pensar que morrerá se tiver um or-
gasmo. Em geral tais mães são muito esnobes e oferecem à filha um
escape ou "contra-script" que dissipará a maldição: é aceitável que a
menina faça sexo, desde que se case com uma pessoa muito importante,
como um príncipe. Se isto não acontecer ela lhe diz erroneamente, "to-
dos os seus problemas terminarão quando atingir a menopausa, pois aí
não haverá mais o perigo de sentir-se sexualmente excitada".
Parece, agora, que temos três ilusões: Orgatanatos, ou o orgasmo
fatal, o príncipe das Maçãs Douradas e o Alívio Abençoado ou a meno-
pausa purificadora. Mas nenhum deles é a real ilusão do script. A meni-
na testou o argatanatos pela masturbação e sabe que não é fatal. O prín-
cipe das Maçãs Douradas não é uma ilusão, pois é possível que ela
encontre tal homem, da mesma forma como poderá acertar no Sweepstake
irlandês ou ter quatro ases num jogo de pôquer. As duas últimas são
raras, mas não impossíveis. Acontecem. O Alívio Abençoado não é o
que sua Criança realmente deseja. Para encontrar a ilusão do script ne-
cessitamos da estória de fadas que corresponde ao E D R M .

A estória da Bela Adormecida

Uma fada colérica diz que Briar Rose picará seu dedo com um es-
pinho e cairá morta. Outra fada transforma isto em cem anos de sono.
Aos 15 anos Briar Rose pica seu dedo e imediatamente adormece. Con-
comitantemente, tudo e todos no castelo também adormecem. No correr
dos cem anos muitos príncipes procuram aproximar-se dela através das
roseiras bravas que cresceram à sua volta, mas nenhum consegue. F i -
nalmente, quando se esgota o tempo, chega um príncipe que consegue
passar porque as roseiras bravas o permitem. Quando ele encontra a
princesa e beija-a, ela desperta e os dois apaixonam-se. Ao mesmo tem-
po tudo e todos no castelo acordam e retomam o serviço exatamente on-
de haviam parado, como se nada houvesse acontecido e o tempo não ti-
vesse passado desde que haviam adormecido. A princesa continua com
os seus quinze anos e não 115. E l a e o príncipe se casam e, em uma ver-
são, vivem felizes para sempre, em outras isto é apenas o começo de
suas dificuldades.5
Há muitos sonhos mágicos na mitologia. Talvez o mais conhecido
seja o de Brunilde, que foi abandonada dormindo numa montanha com
um círculo de fogo à sua volta. Somente um herói poderia adentrar, fa-
çanha que foi conseguida por Siegfried.6
55
De uma forma ou outra, com ligeiras alterações, quase tudo na es-
tória da Bela Adormecida poderia acontecer de fato. As jovens picam
seus dedos e desmaiam e adormecem em suas torres e príncipes va-
gueiam pela floresta à procura de donzelas imaculadas. O que não
acontece é a imutabilidade das pessoas e coisas, e a ausência do enve-
lhecimento depois de passados tantos anos. Esta é uma ilusão, sendo não
apenas improvável, como também impossível. É nesta ilusão que se ba-
seiam scripts de E D R M (esperando pelo rigor mortis): que quando o
príncipe chegar Rose terá novamente quinze anos em vez de trinta, qua-
renta, cinquenta e eles terão toda uma vida pela frente. É a ilusão da
eterna juventude, filha modesta da ilusão da imortalidade. É difícil dizer
a Rose na vida real que os príncipes são homens muito mais jovens e
que, ao atingirem a idade dela, já se tornaram reis e são muito menos
interessantes. Esta é a parte mais penosa do trabalho do analista do
script: destruir a ilusão, informar à Criança do paciente que Papai Noel
não existe e fazê-la acreditar. Será mais fácil a ambos se houver uma
estória de fadas favorita do paciente para ser trabalhada.
Um dos problemas práticos do E D R M é que, sè Rose encontrar o
príncipe das Maçãs Douradas, ela sentir-se-à inferiorizada, necessitando
encontrar falhas e jogar "Defeito" para baixá-lo ao seu próprio nível, de
modo que ele termina desejando que Rose volte às roseiras bravas e
adormeça novamente. Entretanto, se ela se contenta com menos - o prín-
cipe das Maçãs Prateadas, ou mesmo pessoas comuns, como o João da
Silva da mercearia, sentir-se-à enganada e descontará neles, enquanto fi-
ca de olho num de Maçãs Douradas. Assim, nem o script frígido nem
o antiscript mágico oferecem muitas chances de satisfação. Como na» estó-
ria de fadas, existe a mãe dela para brigar, como também a sua feiticeira.
O script é importante porque um grande número de pessoas, de al-
guma maneira, passa suas vidas esperando pelo rigor mortis.

E . O drama familiar

Outra boa forma de descobrir a trama e algumas das linhas mais


importantes do script de uma pessoa será perguntar: "Se a-sua vida fa-
miliar fosse colocada num palco, que tipo de peca seria?" Tais dramas
familiares recebem nomes de peças gregas, as de Édipo, as de Eletra, nas
quais o rapaz compete com o pai por sua mãezinha e a menina quer o
paizinho para si. 7 O analista do script terá que saber o que os pais, cha-
mados por conveniência de Supídeo e Artcele, estão tramando no entre-
tempo. Supídeo é a outra face do drama Edipiano, e expressa os senti-
mentos sexuais» clara ou disfarçadamente, da mãe por seu filho, en-
quanto Artcele é o outro lado de Eletra e mostra os sentimentos do pai
pela menina. Um exame mais apurado revelará, quase sempre, transações
bastante óbvias que demonstram que estes sentimentos não são imaginá-
rios, embora o progenitor procure ocultá-los ao jogar "Gritaria" com
56
a criança. Este perturbado procura encobrir os sentimentos sexuais de
sua Criança pelos filhos atuando no Pai e dando ordens a eles de forma
agressiva. Mas em certos ocasiões há vazamentos, apesar de todos os es-
forços para camuflá-los através de "Gritaria" e outros expedientes. Na
verdade, os pais mais felizes são os que admiram abertamente a atrativi-
dade de seus filhos.
Os dramas de Supídeo e Artcele, como Édipo e Eletra, apresentam
inúmeras variações. À medida que a criança cresce, poderão ser repre-
sentados pela mãe que dorme com o amigo do filho ou o pai com a cole-
guinha da filha. Além disso, temos versões ainda mais viciadas, como a
mãe dormindo com o namorado da filha ou o pai com a garota do filho.*
O elogio poderá ser retribuído pelo jovem Édipo ao dormir com a
amante do pai ou Eletra com o amante da mãe. Às vezes o script familiar
requer um ou vários homossexuais com variações correspondentes em
brincadeiras sexuais infantis, incesto entre irmãos ou seduções posterio-
res dos companheiros uns dos outros. Qualquer desvio do padrão do pa-
pel Édipo (o filho imaginando ou sonhando fazer sexo com a mãe), ou
do papel de Eletra (a filha imaginando ou sonhando com o pai) influen-
ciarão indubitavelmente o curso da vida da pessoa.
Além disso, ou apesar disso, os aspectos sexuais do drama familiar
têm aspectos ainda mais comoventes. Uma moça homossexual que havia
rompido sua relação atacou sua amante, pôs uma faca no seu pescoço e
gritou: "Você vai deixar que eu te fira, mas. não permitirá que eu te cu-
re". Este, talvez, seja o moto de todos os dramas familiares, a origem de
toda a angústia dos pais, a base de rebelião jovem e o choro dos casais
que ainda não estão preparados para o divórcio. Os feridos fogem e o
grito acima é a tradução marciana do anúncio: "Mary, volte para casa.
Tudo está perdoado". É por isso que as crianças ficam com os pais por
pior que. eles sejam. Dói ser ferido, mas é tão bom receber um curativo.

F . O destino humano

É incrível pensar, de início, que o destino do homem, com toda sua


nobreza e sua degradação, é decidido por uma criança com não mais de
seis anos, ou às vezes, três, mas é isto que a teoria do script alega. Fica
mais fácil acreditar se conversarmos com crianças de seis anos, ou talvez
de três. Fica muito fácil acreditar se olharmos à nossa volta e vermos o
que está acontecendo no mundo atual, o que ocorreu ontem e o que su-
cederá amanhã. A história dos scripts humanos pode ser encontrada nos
monumentos antigos, nos tribunais e necrotérios, cassinos e cartas ao
editor, nos debates políticos onde nações inteiras são impelidas por um
caminho de honestidade por alguém tentando provar que o que

* Isto poderá ocorrer quando a mãe não tem um filho seu para representar Jocasta e, da mesma
forma, quando o pai não tem uma filha.
57
seus pais lhe disseram no berço funciona para o mundo inteiro. Feliz-
mente certas pessoas têm um script bom e muitos até conseguem libertar-
se para fazer as coisas à sua maneira.
O destino humano mostra que, por vários meios, os indivíduos
chegam aos mesmos fins. Carregam seus scripts^ contra-scripts em suas
cabeças sob a forma de vozes Parentais que lhes dizem o que fazer e o
que não fazer, suas aspirações sob a forma de retratos da Criança de co-
mo gostariam de ser e entre os três apresentam os seus espetáculos ao
público. Aí envolvem-se na rede dos scripts de outros, primeiramente
seus pais, depois seus cônjuges e acima deles os scripts dos que gover-
nam os lugares ondè vivem. Existem também acasos químicos, como as
doenças infecciosas, e os físicos, como objetos rígidos que a construção
do corpo humano não aguenta.
O script é o que a pessoa planejou na primeira infância, a trajetória
de vida é o que de fato acontece. Esta é determinada pelos gens, forma-
ção dos pais e circunstâncias externas. Quando os gens da pessoa cau-
sam atraso mental, deformação física ou morte precoce por câncer ou
diabetes, o indivíduo terá pouca chance de tomar suas próprias decisões
ou de realizá-las e completá-las. O curso de sua vida será determinado
pela herança (ou, talvez, dano durante o nascimento). Se os pais sofre-
ram privação física ou emocional severa durante a infância, isto poderá
destruir a oportunidade de seus filhos realizarem o script ou, até mesmo,
de formarem um script. Poderão matá-los por negligência ou maus-tratos
ou condená-los a uma vida de orfanato desde a mais tenra idade. Doen-
ças, acidentes, opressão e guerra poderão liquidar o mais bem-pensado e
apoiado plano de vida. De forma idêntica poderá suceder com um pas-
seio pelo script de um desconhecido: um assassino, rufião ou destruidor
de automóveis. A combinação destes - por exemplo, gens mais opressão
- poderá fechar os caminhos aos membros de uma certa descendência,
de modo a terem escolhas limitadas para planejar seus scripts, tornando
quase inevitável a existência de um curso de vida trágico.
Mesmo com limitações rigorosas, existirão, em gerai, algumas al-
ternativas em aberto. Uma bomba aérea, uma epidemia ou um massacre
não oferecerão qualquer opção, mas no nível seguinte a pessoa poderá
ter a capacidade de optar entre matar, ser morto ou suicidàr-se, e sua es-
colha dependerá de seu script, ou seja, o tipo de decisão que foi tomada
na primeira infância.
A diferença entre trajetória de vida e plano de vida pode ser ilus-
trada considerando-se dois ratos usados num experimento para demons-
trar que as experiências precoces de uma rata poderão afetar o compor-
tamento de seus filhotes.8 O primeiro animal foi chamado de Victor
Purdue-Wistar H l , ou Victor. (Purdue-Wistar era o sobrenome real dos
ratos usados neste experimento, sendo Victor e Arthur o nome de seus
padrinhos, os investigadores.) Victor descendia de uma longa linhagem
de animais experimentais e seus gens eram apropriados para esta posi-
ção. Sua mãe, Vitória, foi manuseada e acarinhada quando era filhote. Seu

58
primo distante, Arthur Purdue - Wistar I H (Arthur) era igualmente ade-
quado para ser um sujeito de experimentos. Sua mãe, Arthuria, foi dei-
xada numa gaiola e nunca foi acarinhada ou manuseada quando peque-
na.
Quando os dois primos cresceram verificou-se que Victor tinha
peso mais alto, explorava menos o ambiente e excretava com maior fre-
quência que Arthur. O que aconteceu a eles num prazo mais prolongado,
depois de terminado o experimento, não foi relatado, mas provavelmente
dependeu de forças externas, tais como o uso que os investigadores fize-
ram sobre eles. Assim suas trajetórias de vida foram determinadas por
seus gens, as experiências precoces de suas mães e decisões tomadas por
forças mais poderosas, sobre as quais eles não tinham controle e em re-
lação às quais nada poderia ser feito. Quaisquer scripts ou "planos" que
eles porventura desejassem realizar, como indivíduos, estavam limitados
por todos estes fatores. Assim Victor, que gostava de vegetar, poderia
dar-se ao luxo de fazê-lo, enquanto Arthur, que desejava explorar o am-
biente, foi frustrado, preso à sua gaiola. Nenhum dos dois, por mais
forte que fosse o impulso, poderia procurar a imortalidade através da re-
produção.
Tom, Dick e Harry, primos distantes de Victor e Arthur, tiveram
uma experiência diferente. Tom foi programado para, quando apertásse
determinada alavanca, não recebesse um choque elétrico, mas alimento.
Dick estava programado da mesma forma, exceto que sua recompensa
era um gole de pinga. E quanto a Harry, além de evitar o choque desa-
gradável, seu prêihio era um choque agradável. Depois os ratinhos foram
alternados de modo que, a longo prazo, os três aprenderam todos os pro-
gramas. Em seguida foram colocados numa gaiola com três alavancas,
uma para comida, outra para pinga e a terceira para o choque agradável.
Então cada um deles podia tomar sua própria "decisão" a respeito de
como desejavam passar sua vida: comendo, ficando embriagado, rece-
bendo vibrações elétricas ou, ainda, qualquer combinação ou reveza-
mento destas alternativas. Além disso, havia um moinho de roda na nova
gaiola e cada um podia decidir se queria fazer exercícios, além das re-
compensas.
Isto era como uma decisão de script, pois cada rato podia decidir
se desejava passar a vida como um guloso, um alcoólatra, uma pessoa à
procura da sensações ou um atleta ou ainda, uma combinação moderada
de tudo isto. Embora cada um pudesse seguir sua "decisão de script" e
arcar com as consequências enquanto permanecesse na gaiola, o desfe-
cho real de suas vidas dependia de uma force majeure externa, pois
õ investigador poderia interromper o experimento e quebrar o script a
qualquer momento. Assim, suas trajetórias de vida e estilos eram, em
grande parte, determinados por seus "planos de vida" até o resultado fi-
nal, que era decidido por algum outro. Estes "planos de vida" só podiam ser

* Força maior. (N. do T.)


59
selecionados dentre as alternativas oferecidas pelos "pais", os investi-
gadores que os programavam^ Mesmo esta escolha era influenciada por
acontecimentos que haviam sucedido anteriormente.
Embora os seres humanos não sejam animais de laboratório, fre-
quentemente comportam-se como se o fossem. As vezes são colocados
em gaiolas e tratados como ratos, manipulados e sacrificados segundo a
vontade de seus senhores. Muitas vezes as gaiolas têm uma porta aberta
e a pessoa tem apenas que sair, se desejar. Se não o faz é porque, em ge-
ral, seu script o mantém lá. Isto é familiar e tranquilizador e, após olhar
para o grande mundo da liberdade, com todas suas alegrias e perigos,
retorna à gaiola com seus botões e alavancas, sabendo que se se mantiver
ocupado, apertando o botão certo na hora certa, terá assegurado o ali-
mento, a bebida e uma sensação agradável. A pessoa engaiolada desta
forma espera, e teme, que alguma força maior do que ela própria, o
Grande Investigador ou o Grande Computador, mudará ou acabará com
tudo. _____
As forças do destino humano são quádruplas e amedrontadoras:
programação parental diabólica, sustentada pela voz interna que os anti-
gos chamavam de Daemon; programação parental construtiva, auxiliada
pela confiança na vida, denominada Phusis no passado; forças externas,
conhecidas, ainda hoje, como Destino; aspirações independentes, para as
quais os antigos não tinham um nome humano, uma vez que estas eram
privilégio dos deuses e, em especial, dos reis. Como resultantes destas
quatro forças existem quatro modos de trajetórias de vida, que podem ser
mistos e levar a um ou outro tipo de destino final: de script, de con-
tra-script, forçàdo ou independente.

G . Histórico

Como clínico, o psiquiatra ou o psicólogo clinico interessa-se por


tudo que possa atingir o comportamento do paciente. Nos capítulos se-
guintes não serão discutidos todos os fatores que poderiam afetar a tra-
jetória de vida do indivíduo, mas somente aqueles que hoje sabemos te-
rem uma acentuada influência no plano de vida.
Antes de prosseguirmos nas considerações sobre como os scripts
são escolhidos, reforçados e postos em operação, e dissecar seus compo-
nentes, deveríamos declarar que esta idéia não é inteiramente nova. Há
muitas alusões na literatura moderna e clássica sobre o fato de que o
mundo é um palco e todas as pessoas são meros atores. Entretanto, alu-
sões diferem da investigação informada e corroborada sobre o assunto,
investigações foram realizadas por muitos psiquiatras e seus discípulos,
mas não fizeram muitos progressos sistemáticos porque não tinham à sua
disposição as ferramentas poderosas da análise estrutural (diagramação e
classificação das transações), da análise dos jogos (descobrindo a isca, a
fraqueza, a mudança e o desfecho) e da análise do script (a matriz

60
do script com os sonhos, camisetas, figurinhas e outros elementos deri-
vados disto).
A idéia geral de que as vidas humanas seguem os padrões encon-
trados nos mitos, fábulas e contos de fadas foi corretamente elaborada
no livro de Joseph Campbell, anteriormente referido8. Ele baseia seu
pensamento psicológico principalmente em Jung e Freud. As idéias mais
conhecidas de Jung neste contexto são os Arquétipos (que correspondem
às figuras mágicas no script) e a Persona, ou seja, o estilo em que o
script é representado9. Não é fácil entender o restante das idéias de Jung
ou relacioná-las com pessoas reais senão se tiver uma formação específi-
ca sobre o assunto. Mesmo assim, estão sujeitas a diferentes interpreta-
ções. Em geral L Jung é a favor do pensar sobre mitos e contos de fadas,
e esta é uma parte importante de sua influência.
Freud relaciona diretamente muitos aspectos da vida humana a um
único drama, o mito de Édipo. Na linguagem psicanalítica o paciente é
Édipo, uma "figura que exibe reações". Édipo é algo que acontece na
cabeça do paciente. Na análise do script, Édipo é um drama continuado
que, na verdade, está ocorrendo agora, dividido em atos e cenas com um
desenvolvimento, um clímax e um fim. É essencial que os. outros repre-
sentem seus papéis e o paciente assegure que o façam. Ele só sabe sobre
o que conversar com pessoas cujos scripts combinem ou se ajustem ao
seu. Se seu script requer que ele mate um rei e case-se com uma rainha,
terá que encontrar um rei cujo script exige que seja morto e uma rainha
que seja suficientemente burra para casar-se com ele. Alguns dos segui-
dores de Freud, tais como Glover, começam a reconhecer que Édipo é
um drama e não um mero conjunto de "reações", enquanto Rank, o
principal antecessor de Campbell, demonstrou que os mitos e contos de
fadas provêm de um esquema básico único ò este aparece nos sonhos e
vidas de um grande número de pessoas em todo o mundo.
Freud fala da compulsão de repetição 6 da compulsão do destino0,
mas seus seguidores não levaram estas idéias adiante no sentido de apli-
cá-las -à completa trajetória de vida de seus pacientes. Erikson é o mais
ativo dos psicanalistas no estudo sistemático do ciclo de vida do homem,
do nascimento à morte e, é claro, muitas das suas descobertas foram cor-
roboradas pela análise do script. De uma forma geral, pòde-se afirmar
que a análise do script é freudiana, porém não é psicanalítica.
De todos os que precederam à análise transacional, Alfred Adler
foi o que melhor conseguiu analisar um script:

Se eu conheço as metas de uma pessoa, sei, de uma maneira ge-


ral, o que irá acontecer. Estarei numa posição de ordenar mais
apropriadamente cada movimento sucessivo feito... Devemos lem-
brar que a pessoa sob observação não saberia o que fazer consigo
mesma se não estivesse orientada para uma meta... que determina
sua linha de vida... a vida psíquica do homem é feita para se
apresentar no quinto ato, como um personagem delineado por um
bom dramaturgo... todo fenómeno psíquico, para fornecer-nos al-
guma compr eensão de uma pessoa; só pode ser apreendido e
compreendido se considerado como uma preparação para alguma
meta... uma tentativa para uma compreensão final planejada e um
plano de vida (secreto). O plano de vida permanece no incons-
ciente, dê modo que o paciente possa acreditar que um destino
implacável, e não um plano longamente meditado e preparado
pelo qual só ele é responsável, está em ação... Tal indivíduo en-
cerra sua conta e se reconcilia com a vida construindo uma ou vá-
rias "cláusulas" do tipo "se as condições tivessem sido diferen-
tes..."

As únicas exceções que o analista de script deveria fazer a estas


afirmações são:
1) O plano de vida é, em geral, não-consistente;
2) O indivíduo não é, de forma alguma, o único responsável por
isto.
3) A meta e a forma de atingi-la (as reais transações, palavra por
palavra) podem ser previstas com muito mais precisão do que a
indicada por Adler. 9
Recentemente, R.D. Laing, o psiquiatra britânico, descreveu,.num
programa radiofónico, uma visão de vida que é surpreendentemente se-
melhante, mesmo em sua terminologia, à teoria discutida neste livro. Ele
emprega, por exemplo, a palavra "injunção" para designar uma progra-
mação parental forte.10 Como até o momento Laing ainda não publicou
estas idéias, não é possível avaliá-las apropriadamente.
Anteriores a todos estes, entretanto, são os analistas de script da
antiga índia, que baseavam seus prognósticos principalmente na Astro-
logia. Como dizia com muita propriedade Panchatantra, em mais ou me-
nos 200 a . C :

Estes cinco elementos são fixos para todo homem


Antes de ele deixar o ventre materno:
a duração dos seus dias, seu destino, sua riqueza.
Sua sabedoria e seu túmulo . n

São necessárias apenas algumas mudanças para atualizar o que


Panchatantra afirmava:

Estes cinco provêm de seus antepassados


Cinco verões após o ventre materno:
A duração de seus dias, seu destino, sua riqueza.
Sua sabedoria e seu túmulo.

62
Notas e referências

1. Para uma discussão sobre o uso da análise transacional no teatro, ver Schech-
ner, R. " Approaches to Theory/Criticism.,, Tulane Drama Review 10: Sum-
? mer 1966, pp. 20-53. Também Wagner, A. "Transactional Analysis and Ac-
' ting." Ibid. 11: Summer 1967, pp. 81-88, e Berne, E. "Notes on Games and
^Theater" na mesma publicação, pp. 89-91.
I. Wagner, A. "Permission and Protection." The Drama Review 13: Spring
. f1969, pp. 108-110, incorpora alguns dos mais recentes avanços. Para a aplica-
jção direta da teoria transacional do script aos scripts dramáticos, ver no mes-
í> mo número pp. 110-114: Steiner, C M . "A Script Checklist" e Cheney, W. D.
"Hamlet: His Script Checklist." Ambos os artigos são reedições tiradas do
Transactional Analysis Bulletin (V. 6, Abril, 1967, e V. 7, Julho, 1968).
3. Para uma consideração histórica de um aspecto dos "caras bons" e "caras
• maus", ver meu artigo "A Mitologia do Escuro e Claro: Uso Psiquiátrico do
yVp Folclore." Journal of American Folklòre ,1-12, 1959. Este apresenta uma bi-
/ V \ bliografia de aproximadamente cem itens, incluindo alguns dos primeiros arti-
. ^ V . gos psicanalíticos sobre contos de fadas.
Geza Roheim é o mais fértil escritor sobre folclore dos povos primitivos. Ver
Roheim, G. Psychoanalysis and Anthropology, International Universíties
Press, New York, 1950.
4. Não pretendo ser tão erudito a ponto de oferecer uma análisd crítica completa
ou uma versão autorizada das estórias de Europa, Amímone, Chapeuzinho
Vermelho e Bela Adormecida. Mesmo a cor do touro na estória de Europa
fj varia entre branco e dourado nas diferentes versões. As versões que consultei
p são suficientes, para o presente propósito e as fontes para Europa e Amímone
foram as seguintes: Mitologia, de Bulfinch, Os Mitos Gregos, de Graves, Mi-
yJ tologia, de Hamilton, Dicionário Clássiço, de Lemprière (Londres 1818), He-
síodo e Moschus (Family Classical Library n e X X X , London, 1832), Meta-
morfoses, de Ovídio e o exemplar de minha mãe do Handbook of Mithology,
onde faltava a página do título (Eldredge & Brothers, data desconhecida).
Chapeuzinho Vermelho provém de Blue Fairy Book, The Grinwis Fairy Ta-
les, de Andrew Lang (edição de Grosset & Dunlop) e Standard Dictionary of
Folklòre, Mythology and Legend, de Funk & Wagnall, (New York, 1950). Na
França é conhecida como Petit Chaperon Rouge ou Little Red Hood (Perrault,
1697), e na Alemanha Rotkàppchen ou Little Red Cap.
A tendência dos psicanalistas de focalizar o encher do ventre do lobo com pe-
dras é irrelevante para a presente finalidade, e este episódio parece-me, de
qualquer forma, uma interpolação. A literatura psicanalítica sobre Chapeuzi-
nho Vermelho se inicia com dois artigos de 1912, um de O. Rank e outro de
M. Wulff, seguidos pelo artigo de Freud sobre "A Ocorrência de Material em
Contos de Fadas", em "Sonhos" (1913), facilmente acessível na edição popu-
lar de seu Delusion and Dream (Beacon Press, Boston, 1956). Uma das mais
conhecidas discussões é de Erich Fromm em The Forgotten Language (Grove
Press, New York, 1951). Diz Fromm: "A maior parte do simbolismo neste
conto de fadas pôde ser entendida sem dificuldade. O pequeno capuz de velu-
do vermelho é o símbolo da menstruação". Ele não indica quem entende sem
dificuldade ou para quem é um símbolo da menstruação. Num artigo recen-

63
te denominado "Chapeuzinho Vermelho no Divã" (Psychoanafytic Fó-
rum, 1:399-415, 1966), L . Veszy - Wagner oferece, ao menos, material para
pensar, embora não - convicente. É provável que a melhor sugestão seja dada
por Elizabeth Crawford no seu artigo "The Wolf as Condensation" (American
Imago, 12:307-314,1955).
Na vida real os lobos não são tão maus quanto parecem nos contos de fadas.
Ver "Wolves Social as Does... can be taught to be friendly to people", de P.
McBroom, Science News, W:174, Setembro 10,1966. E um resumo dos estu-
dos de G. B. Raab e J. H. Woolpy sobre a vida social dos lobos, no qual trans-
parece que também eles fazem jogos transacionais, especialmente os lobos
marginalizados, que jogam "Perna de Pau", mancando como para pedir aten-
ção especial.
5. A Bela Adormecida provém de Blue Fairy Book, de Andrew Lang, e dos tra-
balhos dos irmãos Grimm. Há uma versão aumentada, com ilustrações sinis-
tras de Arthur Rackham, também é muito popular.
6. Para maiores informações sobre o uso recente de contos de fadas ver Heus-
cher, J . A. A Psychiatric Study of Fairy Tales, C.C. Thomas, Springfield,
1963. Neste trabalho há uma interpretação simbólica existencial. A análise do
conto "The Little Mermaid" de D. Dinnerstein (Contemporary Psycoanalysis,
104-112, 1967) utiliza uma abordagem "maturacional que envolve alguns
dos elementos relacionados na evolução de um script
Mais diretamente ligado com a análise do script, entretanto, é o trabalho de H.
Dieckmann, que relaciona contos de fadas com padrões de vida de seus pa-
cientes de uma forma sistemática. Ver Dieckmann, H. "Das Lieblingsmárchen
der Kindheit und seine Beziehung zu Neurose und Persõnlichkeit". Praxis der
Kinderpsychologie und Kmderpsychiatrie 6: 202-208, Agosto-Setembro
1967. Também Mârchen und Trãume ais Helfer des Menschen, Bonz Verlag
Stuttgart, 1966.
7. Ver Hugel, J.C. The Psychoanalitic Study of the Family, Hogarth Press, Lon
don, 1921.
8. Denenberg, V.H. e Whimby, A. E.: "Behavior of Adult Rats is Modified by
the Experiences Their Mothers Had as Infants." Science, 142:1192-1193,
nov. 29,1963.
9. A bibliografia para o fundamento histórico do conceito de script é a seguinte:
Adler, A. "Individual Psychology." In The World ofPsycology, ed. G. B. Le-
vitas, George Braziler, New York, 1963.
Campbell, J. The Hero with a Thousand Faces, Pantheon Books, New York,
1949.
Erikson, E. Childhood and Society, W.W. Norton & Company, New York,
1950.
Freud, S. Beyond the Pleasure Principie, International Psychoanalytical Press,
London, 1922.
Glover, E . The Techmque of Psycho-Analysis, International Universities
Press, 1955.
Jung, C G . Psychological Types, New York, Harcourt, Brace & Company,
1946.
Rank, O. The Mith ofthe Birth ofthe Hero, Nervous and Mental Disease Mo-
nographs, New York, 1910.
10. Usado pela primeira vez neste contexto por C M . Steiner (Transactional
Analysis Bulletin 5:133, Abril 1966).
11. Panchatantra, tradução de A.W. Ryder. University of Chicago Press, 1925, p.
237. Apesar de estas fábulas datarem de 200 a.C, esta versão provém do ma-
nuscrito de 1199, provavelmente do códice hebraico. O original, em cinco
volumes foi perdido, mas muitos dos contos estão repetidos no livro medieval
intitulado Hitopadesa, em quatro volumes. Alguns datam dos originais sâns-
critos do ano 300 de nossa era.

64
4. Influências prê-natais

A. Introdução

A cena do script começou há milhões de anos, quando a vida sur-


giu pela primeira vez do lodo e iniciou quimicamente a transmissão do
resultado das experiências, através dos gens, para seus descendentes.
Este ramo químico culminou com a aranha, que tece automaticamente
sua estranha geometria circular, com as espirais enroladas em seus cro-
mossomos e fornecendo, assim, os desenhos da engenharia que construi-
rá pontes em qualquer lugar onde houver estes insetos.1 Neste caso o Y>
script está escrito em moléculas fixas dos ácidos orgânicos (DNA), lega- \
das pelos pais, e o ser passa sua vida como um autómato cumprindo as
instruções, sem possibilidade de desvio ou melhoria, exceto através de
drogas ou algum acidente desafortunado fora do seu controle.
Nos seres humanos, também, os gens determinam quimicamente al-
guns dos padrões a serem seguidos e dos quais não é possível desviar-se.
Estabelecem os limites superiores para as suas aspirações individuais:
até onde poderá chegar como atleta, pensador ou músico, embora em
virtude de barreiras psicológicas, grandes ou pequenas, poucas pessoas
atingem integralmente suas possibildades, mesmo nestes campos. Muitos
que poderiam ser grandes dançarinos de balé passam seu tempo dançan-
do com os pratos numa lanchonete e outros que poderiam ser grandes
matemáticos se tornam ,bancários, trabalhando»em escritórios ou numa
casa de apostas. Dentro de suas limitações químicas, quaisquer que se-
jam, cada indivíduo tem enormes possibilidades para determinar seu
próprio destino. Em geral, entretanto, seus pais decidem por ele antes
que possa perceber o que estão fazendo.
À medida que a vida se libera, em parte, dos rígidos padrões quí-
micos, outras formas de regular o comportamento emergem gradualmente
para ocupar este vácuo. A mais primitiva destas é, provavelmente, o im- •
printing, quase um passo adiante do reflexo.2 O imprinting assegura,
que o organismo de um pequeno ser seguirá automaticamente um certo
objeto, tratando-o como se fosse a mãe, seja este de fato a mãe ou um
cartaz amarelo que lhe é apresentado. Esta resposta automática ajuda a
assegurar a sobrevivência em momentos de estresse, porém se não fun-
cionar também trará problemas.
O próximo passo surgiu quando alguns animais permaneceram com
suas mães e aprenderam através da brincadeira; padrões demasiado com-
plexos ou variados para serem transmitidos através dos gens puderam ser
ensinados com uma mordida brincalhona, uma cambalhota ou tabefe na
orelha.9

65
Depois veio a imitação e a reação a sinais vocais, permitindo ao
filhote fazer não apenas o que os seus gens indicavam e o que haviam
aprendido durante a amamentação, mas também o que viam e ouviam no
decorrer de suas vidas nos mares, planícies e florestas.
Sabe-se hoje, que quase todos os organismos vivos podem ser trei-
nados. As bactérias podem ser "treinadas" quimicamente a utilizar um
tipo de açúcar, como substituto de outro. Quase todos os animais, desde
os vermes até os mais complexos, podem ser treinados psicologicamente,
através de reflexos condicionados, a adotar padrões de comportamento
nòvos e especiais. Isto é provavelmente, a longo prazo, também a natu-
reza química, dependendo de tipos mais flexíveis de DNA do que os en-
contrados nos- gens. Entretanto treinamento exige treinadores, e este é
outro assunto. Para isso, o modelo deverá estar numa dimensão ou nível
acima dos organismos que estão sendo treinados. Isto significa que ele
deverá estar domesticado. Domesticação é tão diferente de treinamento
quanto um gato o é de um tigre. A domesticação de animais significa
que o bicho obedece a seu dono mesmo quando este não está presente.
Difere do treinamento, pois este demanda um estímulo exterior para ini-
ciar um determinado padrão de comportamento, enquanto a domestica-
ção assegura o comportamento uma vez que o estímulo está dentro da
cabeça do animal. Um animal treinado obedecerá à voz do dono quando
ouvi-la; um animal domesticado não necessita ouVir o som desta voz,
pois carrega-o em seu cérebro. Assim animais selvagens podem ser trei-
nados a demonstrar habilidades a partir de comandos de seu treinador,
mas não fazer facilmente suas necessidades em lugares apropriados. Os
domesticados vão além disso. Podem ser ensinados a comportar-se como
seu dono deseja, mesmo quando este se encontra ausente. Há vários graus
de domesticação, sendo a criança o animal mais domesticado de todos.
Os animais mais inteligentes — símios, macacos superiores e seres
humanos (talvez os golfinhos também) — possuem outra capacidade es-
pecial, que é a inventividade. Significa que poderão fazer coisas nunca
antes realizadas por sua espécie, desde empilhar uma caixa de madeira
sobre a outra, juntar duas varas para formar outra mais comprida4 até
lançar-se à lua.
Para explicar esta progressão, podemos partir do pressuposto de
que o DNA está evoluindo em direção a formas mais maleáveis e adap-
táveis. Começando pelas moléculas frágeis dos gens, que não podem ser
moldadas mas apenas estilhaçadas, estas foram suficentemente trabalha-
das de modo a poderem ser alteradas o bastante através de suaves e re-
petidos golpes de condicionamento. É provável que voltariam ao estado
anterior se não fossem reforçadas de tempos em tempos. Assim aprende-
ram ainda mais, a ponto de gravar o eco das vozes e acontecimentos es-
vaecidos, mantendo-os por toda uma vida, muito depois de terem sido
esquecidos. Numa forma, todavia, mais flexível, as moléculas tornam-se
o veículo da memória e da consciência. Na sua forma mais sensível
atualmente, movem-se e vibram na brisa da experiência, dando-nos c
66
pensamento e a inventividade.* O que sucederá quando tornarem-se ainda
màis delicadas em suas respostas? Nós, os que hoje estamos vivos, jamais
saberemos, mas algum dia nossos descendentes serão pessoas assombrosas,
que apenas os atuais poetas podem vislumbrar com pouca clareza.
Os seres humanos têm todas estas capacidades acima mencionadas.
Seus padrões de comportamento são determinados por gens reflexivos
rígidos, imprinting primitivo, brincadeiras infantis e imitação, treinamento
parental, domesticação social e inventividade espontânea. Os scripts en-
volvem tudo isto. O ser humano típico, que chamaremos de "Jeder"*,
representa quase "todos os membros da raça humana, em qualquer tipo de
solo ou clima. Ele executa o seu script porque este foi plantado em sua
cabeça desde cedo por seus pais, e lá permanece para o resto da vida,
mesmo depois que sua "carne" vocal desapareceu para todo o sempre.
Este atua como uma fita de computador ou um rolo de pianola, que
obtém as reações e ordem planejada por um certo tempo depois que a
pessoa apertou os botões saiu de cena. Enquanto isto, Jeder permanece
diante do piano, movendo seus dedos no teclado, na ilusão de que é ele
quem está tocando a balada convidativa ou o conserto grandioso até a
sua conclusão inevitável. A

B . As influências ancestrais

Alguns scripts podem ser reconstruídos numa entrevista clínica até


a geração dos bisavós, e se a família tem uma história registrada, como
acontece com reis e seus cortesãos, poderá remontar a mil anos.
Sem dúvida, os primeiros scripts surgiram quando os primeiros
humanóides apareceram sobre a face da terra,5 e não há razão para acre-
ditar que seus cenários, atos e desfechos fossem diferentes do que são
hoje. Certamente, as trajetórias de vida dos reis do Egito, que são as
mais antigas biografias confiáveis que possuímos, são scripts típicos. A
história de Amenhotep I V (1362 a . C ) , que mudou seu nome para Akhe-
naton, é um bom exemplo.6 Com esta alteração ele causou grandeza e fú-
ria a todos que o seguiram. Quando se podem obter informações sobre
os ancestrais remotos ou bisavós, tanto melhor para a análise do script,
mas na prática cotidiana, na maioria dos casos, inicia-se com os avós.
E do conhecimento comum, até mesmo proverbial, o quanto os
avós, vivos ou mortos, influenciam a vida de seus netos. Para um script
bom, com o propósito de estudar uma pessoa, comece com sua avó e pa-v
ra um mau script estudam-se gerações sem script, sem estirpe até a ter-
ceira geração. Muitas crianças pequenas não apenas desejam imitar seus
antepassados, mas gostariam de ser, de fato, seus próprios avós. 7 . Este
desejo não apenas influencia fortemente seus scripts de vida, mas poderá
também causar uma confusão considerável no seu relacionamento com

* Jeder, palavra da língila alemã, significa qualquer um ou caáa um:(N. do T.)

67

A
os pais. 8 As mães americanas, em particular, diz-se, preferem seus pais
aos seus maridos, e encorajam os filhos a parecerem-se com o vovô, em
vez de com o papai.9
A pergunta mais produtiva a ser feita no que respeita às influências
ancestrais é: "Que tipo de vida levavam seus avós?" As respostas são as
seguintes:
1) Orgulho ancestral — Um vencedor ou "príncipe" responderá de
um modo simples: "Meus ancestrais foram reis da Irlanda" ou:
"Meu trisavô era Gran-Rabino em Lublin". Fica evidente que a
pessoá tem "permissão" para seguir as pegadas destes ances-
trais e tornar-se uma personalidade marcante. Se a declaração é
feita de forma pomposa ou solene, o indivíduo será, provavel-
mente, um perdedor ou sapo", usando sua ancestralidade para
justificar sua existência, pois ele não tem "permissão" para so-
bressair-se. Se a resposta for: "Minha mãe sempre me dizia que
meus ancestrais eram reis irlandeses, ha ha" ou: "Minha mãe
sempre dizia que meu trisavô era o Gran-Rabino em Lublin, ha
ha", isto provém, em geral, de uma posição não-OK. A pessoa
pode imitar seus ancestrais ilustres, mas apenas nas suas carac-
terísticas perdedoras. Estas respostas poderão significar: "Sou
tão bêbado quanto um rei irlandês deveria ser, e isto me torna
parecido com um rei irlandês, ha ha! ou: "Sou tão pobre quanto
um Grão-rabino deveria ser e isto me torna parecido com um
Grão-rabino, ha ha!" Em casos como estes, a programação pre-
coce era: "Você descende de reis irlandeses e eles eram grandes
bebedores" ou: "Você descende de um Grão-rabinO e eles eram
muito pobres". Isto equivale a uma diretiva: "Seja como seu
ancestral famoso..." com uma implicação clara da mãe "... por
isso beba muito, seu pai bebe" ou: "... não gajnhe dinheiro, seu
pai também não ganha". Em todos os casos o ancestral, é o
evêmero 10 familiar, um modelo heróico do passado, que pode
ser imitado, mas nunca superado, re estas são maneiras diferen-
tes de as pessoas lidarem com evêmeros.
2) Idealização — Esta pode ser romântica ou paradoxal. Um ven-
cedor poderá dizer "Minha avó era uma excelente dona de ca-
sa", ou "Meu avô viveu até 98 anos e tinha todos os dentes e
nenhum cabelo branco". Há uma clara declaração de que a pes-
soa que fala gostaria de seguir os passos românticos do avô e
está baseando nisto o seu script. Um perdedor expressará uirfa
idealização paradoxal "Minha avó-era uma mulher firme e com
os pés no chão, mas ficou senil na velhice". Aqui há uma clara
implicação de que ela poderá ter sido senil, mas era a mulher
mais inteligente do hospital público. Além disso, este é também
o script de quem fala, isto é, ser a mulher mais inteligente do
hospital público. Infelizmente esta postura é tão frequente que a
competição nos hospitais públicos para ser a mulher mais inte-
68
ligente da enfermaria pode tornar-se bastante árdua, turbulenta
e desencorajadora.
3) Rivalidade — "Meu avô dominava minha avó" ou "Meu avô
era um fraco que deixava todo o mundo mandar nele". Estas
são, muitas vezes, as respostas neuróticas interpretadas pelos
psicanalistas como expressões, do desejo da criança de ser mais
poderosa do que os pais. "Vovô é uma pessoa que pode con-
testar minha mãe, gostaria de ser como ele" ou: "Se eu fosse o
pai do meu pai, eu não seria um covarde, eu mostrava para
ele". O estudo do casoríe Karl Abrahamjjjdemonstra a natureza
de script de tal atitude, onde o menino se permite fantasias nas
quais é um príncipe de um reinado imaginário cujo rei é igual a
seu pai. Então aparece o pai do rei, que é muito mais poderoso
que o rei. Certa vez, quando o menino foi castigado por sua
mãe, este disse: "Agora eu vou casar com vovó". Assim, seu
planejamento secreto (mas não inconsciente) naquele momento
baseava-se num conto de fadas, no qual ele se torna mais pode-
roso do que os pais ao transformar-se no avô.
4) Experiências pessoais — Estas referem-se a transações reais
entre as crianças e seus avós, que são influências poderosas na
modelagem do script da criança. Uma avó pode fazer de um
menininho um heróift1 #ou, por outro lado, um avô pode seduzir
uma escolar e transformá-la num Chapeuzinho Vermelho. Em
geral os avós, como mostra a mitologia e a experiência clínica,
são vistos com admiração ou temor. Os sentimentos mais primi-
tivos de admiração e temor influenciam a formação do retrato
do mundo que a criança desenvolve nos primeiros estágios da
construção do seu script)2

C . A cena da concepção

O contexto no qual Jeder foi concebido poderá ter uma forte in-
fluência na decisão de seu plano de vida e no seu destino final. Este
contexto inicia-se com o casamento de seus pais, se houve um. As vezes,
os jovens se casam ansiosos por um filho 6 herdeiro. Isto acontece parti-
cularmente se o casamento foi arranjado ou encorajado por suas respec-
tivas famílias, em.especial quando há coisas para serem herdadas, como
um reinado ou uma grande empresa. O filho é, então, educado de acordo
com sua posição na vida, aprendendo todas as artes e ofícios importantes
a reis ou presidentes. Desta forma, «eu script já lhe é passado por escri-
to, e abdicar dele poderá requerer um ato de heróica renúncia. Se o pri-
meiro filho, nestes casos, for uma menina e não um menino, ela poderá
encontrar dificuldades. Isto é observado nas primeiras filhas de homens
de negócios, que são marginalizadas e se tornam homossexuais, artistas
de strip-tease, ou esposas de boémios imprevidentes e irresponsá-

69
veis ou vagabundos que vivem de herança. Em alguns casos, o pai pode-
rá divorciar-se da iriãe se esta não for capaz de produzir um menino,
deixando as filhas com um grande sentimento de culpa original por te-
rem nascido do sexo feminino.
Por outro lado, o pai poderá não ter tido a intenção de casar-se
com a mãe, e abandona a cena, desaparecendo para sempre assim que ela
anuncia a gravidez. Isto deixa o jovem herói livre para criar seu próprio
caminho quase que a partir do seu nascimento. Às vezes é a mãe que fo-
ge. Mas mesmo pais relutantes poderão aceitar uma criança indesejada,
porque represeiíta uma dedução no imposto sobre a renda ou uma ajuda
da previdência social. O adolescente pode ter boa consciência disto e,
quando se pergunda quem ele é, responderá: "Uma dedução do imposto
sobre a renda (uma ajuda dá previdência social)".
Se a criánça demora em ser concebida, o desejo dos pais poderá
levá-los à consagrá-lo, mesmo antes do nascimento, como é o caso de
lendas famosas como a de Rapunzel, outra vez em que. a vida real imita a
ficção, como diz Oscar Wilde, a natureza imita a arte. Isto levanta outras
questões interessantes sobre o script que inclui toda a gama de tragédia
e romance. O que teria acontecido se Romeu tivesse concebido um filho,
Ofélia desse a luz a uma criança ou Cordélia ficasse grávida? O que le-
ria acontecido a estas crianças? Os filhos de Medéia e os pequenos prín-
cipes na Torre de Londres são os exemplos mais célebres de crianças,
vítimas dos script de seus pais, enquanto os mais tristes são o dos me-
ninos e meninas pequenos vendidos como escravos para sodomia em al-
guns países árabes.
Òs hábitos sexuais na hora da impregnação podem ser chamados de
atitude de concepção. Esta é devida a acidente, paixão, amor, violência,
decepção, rancor ou resignação? Em sendo qualquer uma, quais foram
os antecedentes e a preparação deste acontecimento? Se foi planejado, o
planejamento foi frio, caloroso, simples ou livresco, com muita conversa
ou através de uma forte e silenciosa comunhão? O script da criança po-
derá ter as mesmas qualidades. O sexo é considerado sujo, ocasional,
sagrado ou divertido? Os filhos poderão ser tratados da mesma maneira.
Foi tentado o aborto? Foram feitas várias tentativas? Quantos abortos e
quantas tentativas houve por ocasião de gravidezes prévias? Há uma in-
finidade de perguntas bastante sutis, e todos estes fatores podem in-
fluenciar o script do bebé que ainda não nasceu. Uma das situações mais
comuns é, primorosamente, resumida numa quintilha popular:
Era uma vez um jovem (cavalheiro ou dama) chamado Aparecido
Que desejava (ele, ela) nunca ter nascido
(Ele, ela) nunca teria chegado
Se (seu, sua) (pai, mãe) eles tivessem enxergado
Que a ponta da camisinha havia arrebentado
Mesmo esta genealogia doméstica não é de uma simplicidade tão
lúgrube quanto parece, pois existem várias possibilidades. Por exemplo:

70
uma coisa é quando nenhum dos pais sabe que a camisinha tinha um de-
feito, outra é se a mãe sabia e nada disse ao pai, e uma terceira é se o pai
sabia e nada disse à mãe.
Uma perspectiva mais promissora é que existem casos em que am-
bos desejam filhos e aceitarão o sexo das crianças como vêm. Quando
uma mulher que decidiu, enquanto pequena, que sua ambição era casar-
se e criar filhos encontra um homem que tomou a mesma decisão quando
era pequeno, então os filhos têm um bom começo. Dificuldades biológi-
cas que poderão ocorrer aqui tornarão as crianças ainda mais preciosas.
Se a mulher aborta repetidamente ou o marido tem uma contagem baixa
de esperma, fazendo com que a concepção leve anos, então, como já ob-
servamos, a criança poderá ser vista como um verdadeiro milagre. Por
outro lado, a sétima menina poderá ser recebida com sentimentos ambí-
guos e, talvez, começar a vida como se fosse "o resto do tacho".

D. A o rde m de nasc i m e nt o
O fator mais importante aqui é o script dos pais. Será que Jeder se
encaixa, ou será ele do sexo errado, ou terá chegado na hora errada? E se
o script*de seu pai exige um intelectual e ele se torne, em vez, um jogador
de futebol? Ou vice-versa? O script da sua mãe combina com o do pai
ou é oposto? Existem, também, tradições sobre as quais ouvirá nos con-
tos de fada e na vida real. Do mais jovem de três irmãos espera-se que
aja estupidamente até que dhegue a hora da prova e, então, ele ganha de
todos. Se ele for o .sétimo filho de um sétimo filho, será quase compelido
a ser um profeta. Em outras palavras, o script dos pais poderá exigir que
estes sejam glorificados ou punidos por um de seus filhos, que deverá
ser um sucesso ou um fracasso colossal. Frequentemente, o primeiro fi-
lho é escolhido para esta honra.14 Se o script da mãe requer que ela seja
uma viúva inválida nos seus anos de declínio, então um dos filhos deve-
rá ser criado, desde o nascimento, para ficar cuidando dela enquanto os
outros precisam ser ensinados a sair de ca§a e preencher o papel de in-
gratos. Se o filho solteirão ou a filha solteirona de quarenta anos decidi-
rem romper com o script saindo de casa ou pior, casando-se, a mãe rea-
girá compreensiva e deploravelmente, tendo severos ataques de alguma
doença. A natureza do script de tais encenações é demonstrada pelas
frequentes mudanças onde a mãe, "inesperadamente", lega a maioria dos
seus bens para os "ingratos", reduzindo a uma bagatela a herança que
cabe ao devotado.
A regra geral é que, em iguais circunstâncias, os filhos seguirão o
script dos pais no que se refere à constelação familiar, e pode ser de-
monstrado utilizãndo-se os fatores mais simples: número e espaçamento
dos filhos. O sexo das crianças não pode ser considerado, pois ainda
está além do controle dos pais, felizmente, pois é um forma de interrom-
per a passagem do script através das gerações, permitindo que algumas
crianças, ao menos, tenham uma nova oportunidade. Uma investiga-

71
ção cuidadosa entre famílias revelará um número surpreendente de
"coincidências" a este respeito.
A Figura 5 mostra uma árvore genealógica de script Havia três
meninos na família Able: Cal, Hal e Val. Quando Val nasceu, Hal tinha
4 anos e Cal 6, sendo o espaçamento de 0-4-6. O pai, Don, era o mais
velho de três irmãos, espaçados em 0-5-7. A mãe, Fan, era a mais velha
de três irmãs, espaçadas em 0-4-5. Suas duas irmãs, Nan e Pam, também
tiveram três filhos. A mãe de Fan era a mais velha de duas irmãs, com
um aborto entre elas. Percebe-se que todos estes trios apresentavam es-
paçamento entre cinco a sete anos férteis. 15
Este tipo de árvore genealógica mostra como algumas pessoas ten-
dem a seguir o exemplo dos pais no planejamento familiar, no que res-
peita número e espaçamento. Consideremos algumas das possíveis "di-
retivas de script", que poderiam ter passado de vovô e vovó para Don e
Fan neste caso particular.
a) "Quando crescer tenha três filhos e então estará livre para fazer
o que quiser." Esta é a mais flexível e não envolve pressa ou
pressão. O medo da "falha de script" e perda do amor materno
poderá ocorrer somente se Fan aproximar-se da menopausa sem
ter produzido os descendentes exigidos. Observe que Fan não
estará livre até que tenha um terceiro filho. Este é um scripi
"Até que".
6 ? 0
Av ô Pai Av ó Aborto

m
6 66 m
6 69

Val Hal Cal


0 Es p aç amen t o dos f i l hos
4 6

«0 76
0 5 7* 0 4 5
046

6 Mascul i no
Sexo das cr i anças
9 Femi ni no
9?9
Casado
6 96 =99 9
666666669
Fig. 5 - Árvore genealógica de uma família com script
os AMes

72
b) "Quando você crescer tenha, no mínimo, três filhos." Não há
coerção, mas poderá haver um sentido de pressa, particular-
mente se vovô e vovófizerempiadas sobre a fertilidade de Don
e Fan. Este é um script de "Final Aberto", pois Fan está livre
para ter tantos filhos quanto desejar após o terceiro.
c) "Quando você crescer não tenha mais do que três filhos". Não
há pressa, mas há coerção, e Don e Fan sentir-se-ão inconfortá-
veis sobre alguma gravidez depois do nascimento dos três fi-
lhos.
Consideremos agora o ponto de vista de Fan se ela tivesse um
quarto filho, Pedwar, sob qualquer uma destas diretivas.
a) "As três primeiras crianças pertencem a vovó e têm que ser
educadas à maneira dela." Pedwar torna-se o filho somente de
Fan e poderá, ou não, ser educado como o foram Cal, Hal e
Val. Fan poderá utilizar sua autonomia com ele, que crescerá
sendo mais livre e autónomo do que os outros. Fan poderá tratá-
lo como a sua boneca de pano, algo muito especial que ela
amava à Vontade, quando era pequena, enquanto suas outras
bonecas tinham que ser tratadas à moda da vovó. Em outras
palavras, a boneca de pano poderá ter preparado um "espaço de
script" para Pedwar que Fan poderia preencher após ter cum-
prido o seu dever com vovó.
b) É semelhante à (a), exceto que vovó tem mais controle sobre
Pedwar do que no plano (a), porque ele poderá ser considerado
um bónus extra oferecido pela vovó, em vez de uma livre es-
colha.
c) Pedwar estará em dificuldades porque Fan desobedeceu à vovó
ao tê-lo. Deverá ser criado como uma criança "indesejada", de-
safiadora, constrangida e culpada. Neste caso, se nossa hipótese
de trabalho for correta, as pessoas à sua volta observarão repe-
tidamente o quão diferente ele é dos irmãos mais velhos.
O próximo item a ser considerado são os jogos que os pais fazem
em torno do tamanho de suas famílias. Por exemplo, Ginnie era a mais
velha de onze irmãos e sua mãe, Nanny, queixava-se de que os últimos
cinco foram indesejados. O pressuposto ingénuo seria que Ginnie estaria
programada para ter seis filhos, mas isto não era assim. Ela foi progra-
mada para ter onze filhos e queixar-se que os cinco últimos eram inde-
sejados. Assim, poderia jogar "Aí vou eu outra vez", "Aflita" e, em
idade mais avançada, "Mulher Frígida", da mesma maneira como fez
sua mãe. De fato, este exemplo pode ser utilizado como um teste de so-
fisticação psicológica. Dada a pergunta: "Uma mulher teve onze filhos e
queixava-se de que os cinco últimos eram indesejados. Quantos filhos
terá a sua filha mais velha provavelmente? O analista do script responde-
rá: "onze". As pessoas que responderem "seis" terão dificuldade em
entender e predizer as reações humanas, uma vez que esta resposta pres-
supõe que o comportamento importante, como o trivial, é motivado

73
"racionalmente", o qne não é o caso. Em geral, é decidido pelas direti-
vas parentais do script.
Ao investigar este aspecto pergunta-se, em primeiro lugar, aos pais
do paciente quantos irmãos e irmãs cada um deles tem. Depois, quantos
filhos desejam ter e, em seguida, (como qualquer obstetra sabe, há mui-
tos acidentes no percurso entre a xícara e os lábios) quantos esperam ter
realmente. Se os pais souberem distinguir corretamente os seus estados
de ego, uma grande quantidade de informações poderá, ser obtida fazen-
do-se a segunda e a terceira pergunta de uma forma estrutural: "Quantos
filhos o seu (Pai, Adulto, Criança) (deseja, espera) ter?" Isto aflorará
conflitos ocultos entre os três estados do ego e entre os dois progenito-
res, que de outra forma não apareceriam e que têm um significado im-
portante nas diretivas do script que estão dando ao paciente. Uma versão
mais sofisticada disto, com o correspondente aumento de informação
obtida (no caso dos pais serem, adequadamente educados para entender a
pergunta), é fazer a pergunda de forma mais detalhada: "Quantos filhos
o seu (protetor, controlador) Pai, Adulto e (natural adaptada e rebelde)
Criança (deseja, espera) ter?" 16
Com o paciente, a pergunta que mais informações traz, pois é a qpe
ele provavelmente terá condições de responder, é: "Qual é a sua posição
na família?" seguida por "Quando você nasceu?". Os dias exatos dos
aniversários do irmão que o precedeu e do que nasceu em seguida a ele
deverão ser óbtidos de forma a poder calcular a diferença em meses, se
as datas de nascimento forem próximas. Se a pessoa em causa chegou
num mundo que já. estava ocupado por uma irmã ou um irmão, haverá
uma diferença considerável nas suas decisões de script quando o irmão
for onze meses, trinta e seis meses, onze anos ou vinte anos mais velho.
Esta dependerá não apenas do seu relacionamento com aquele irmão,
mas também da atitude de seus pais em relação a este espaçamento parti-
cular entre os filhos. As mesmas duas considerações se aplicam em rela-
ção à criança que nasce em seguida: é importante saber a idade exata do
paciente, por exemplo, onze meses, dezenove meses, cinco anos ou de-
zesseis anos, na época em que o próximo irmão entrou em cena. Em ge-
ral, todos os irmãos nascidos antes que o indivíduo atinja o seu sétimo
aniversário terão uma influência decisiva no seu script, e um dos fatores
importantes é o número de meses de diferença de idade entre eles. Isto,
como mencionado anteriormente, afetará não apenas sua próxima atitu-
de, mas também a dos pais. Variações notáveis ocorrem se a pessoa em
causa for gémea ou nasceu antes ou depois de gémeos.
Nos casos em qúe o paciente se interessa por astrologia, meteoro-
logia ou hagiologia, a datá exata de seu próprio nascimento será muito
significativa para o script. Tal fato cresce de importância se os pais tive-
rem um interesse semelhante pelo calendário.

74
EL Os scr ip t s de nascimento

Otto Rank acreditava que as circunstâncias do nascimento em si, o


"trauma do nascimento", estão gravadas na psique do infante e reapare-
cem de forma simbólica mais tarde, em particular como um desejo de
retornar à paz bem-aventurada do ventre materno, como descrito por seu
discípulo Fodor 17 . Se assim fosse, os medos e desejos surgidos desta
passagem sob o arco, jamais repetida por ser humano algum» a rua de
uma só mão originaT~da natureza, apareceriam como elementos impor-
tantes no script. Talvez apareçam, mas não como há forma confiável de
verificação mesmo comparando os partos cesarianos com os normais.
Assim a influência do "trauma do nascimento" no script de vida perma-
nece no âmbito da especulação. Na verdade, scripts de vida reais, consi-
derados com base na ocorrência de parto por cesariana, como seus cor-
respondentes teatrais não são convincentes. Em Macbeth este aspecto é
explorado como um mero jogo de palavras ou um enigma, um foetus ex
machina, mais do que uma base séria para um script. É provável, entre-
tanto, que uma criança a quem se contou mais târde ter o seu nascimento
sido por cesariana, e que seja capaz de entender o significado disto pas-
se a incorporar este elemento ao seu script e elaborá-lo quando souber
quem eram seus ilustres antecessores. Esclarecimentos sobre este ponto
aguardam por uma série de boas histórias de casos.
Na prática os dois scripts de. nascimento mais comuns são b
"Script da criança enjeitada" e. o "Script da mãe dilacerada".
O primeiro provém de fantasias de crianças adotadas ou mesmo
naturais sobre seus "verdadeiros" país, sob a forma de alguma versão do
Mito do Nascimento do Herói, descrito por Otto Rank em seu livro com
este título. 1 8
O segundo também é comum e na minha experiência ocorre com
igual frequência em ambos os sexos. O fundamento deste script é a mãe
que conta à criança como ela tem estado doente desde o seu nascimento
ou, numa versão mais prejudicial, como ela ficou dilacerada pelo seu
nascimento, nunca mais sendo a mesma. Essa reação e o script baseiam-
se na observação que a criança faz sobre o assunto. Se a mãe ficou de
fato inválida ou incapacitada pelo resto da vida, a pessoa sente-se com-
pelida a assumir total responsabilidade e nenhuma, forma de raciocínio
adulto convencerá a criança de que não foi ela a causa. Se a limitação
não é visível e se alguém na família, como, por exemplo, o pai, insinua
ou afirma que a doença dela é uma simulação, então o script do paciente
ficará carregado de ambiguidade, hipocrisia e exploração. As vezes a mãe
omite a acusação, deixando-a para o pai, a avó ou a tia. O script resultante
será, então, a três m£os, com mensagens e declarações importantes,
geralmente "más notícias" provindas de uma terceira parte. E fácil ver
que onde o Script da Criança Enjeitada surge na forma do Mito do Nas-
cimento do Herói, o Script da Mãe Dilacerada é o Mito do Nascimento
do Vilão, alguém que carrega a partir do nascimento o crime horrendo
75
do matricídio ou, mais precisamente, da matríclastiã. "Minha mãe mor-
reu de parto (meu)" é algo demasiado para alguém carregar sem uma boa
ajuda. Se a mãe foi ferida ou teve uma cistocele*, nunca é tarde para
corrigi-la e quanto menos comentário, melhor.

F . Nomes e sobrenomes

Roger Price, em seu livro Que nomes não dar ao bebé, lista alguns
nomes americanos comuns e apresenta descrições sumárias do tipo de
personalidade que os acompanha. A misteriosa precisão ou, pelo menos,
a plausibilidade de suas descrições apresentam um grande interesse para
o analista de script. Não há dúvida que em muitos casos nomes, abre-
viaturas e apelidos ou prenomes outorgados ou impostos a um inocente
recém-nascido indicam claramente a direção que seus pais desejam que
siga. Ele terá que lutar contra tais influências, que serão continuadas sob
outras formas também, se quiser romper com essas pistas óbvias. 19 No-
mes como indicadores de script tenderão a sedimentar-se na escola se-
cundária, onde rapazes e meninas lêem sobre homónimos famosos em
mitos e na história e onde os colegas fornecem, com maior ou menor
brutalidade, os significados ocultos de seus nomes. Isto é algo que os
pais podem controlar e prever.
Há quatro maneiras pelas quais um prenome poderá conduzir ao
script: propositadamente, acidentalmente, inadvertidamente e inevita-
velmente.
1) Propositadamente. O nome poderá ser altamente especializado
como, por exemplo, Septimus S. (que se tornou um professor de
filosofia clássica), Galeno E . (médico) , Napoleão (cabo), ou
Jesus, nome comum na América Central. Poderá ser uma va-
riante de um nome comum. Charles e Frederick foram reis e im-
peradores. Um menino que é continuamente chamado de Char-
les ou Frederick por sua mãe e insiste que os colegas também o
chamem assim, tem um estilo de vida diverso de alguém chama-
do Chuck ou Fred, enquanto Charlie e Freddie são espécimes
diferentes. Dar ao filho o nome do pai ou à filha o nome da mãe
é, em geral, um ato premeditado da parte dos pais, colocando
uma obrigação nos filhos que estes talvez não queiram cumprir,
podendo mesmo rebelar-se ativamente contra ela. Assim, todo o
seu plano de vida será permeado por uma ligeira amargura ou
um ressentimento ativo.
2) Acidentalmente uma menina chamada Durleen ou Aspásia e um
menino chamado Marmaduke poderão viver suavemente em um
estado, país ou escola secundária, mas se seus pais decidem

* Hérnia da bexiga. (N. do T.)


** O atual editor da Anatomia de Gray é Charles Mayo Goss.

76
mudar para outro lugar eles poderão tomar-se agudamente
conscientes dé seus nomes e forçados a posicionar-se em rela-
ção a eles. Da mesma forma, uín menino chamado Lynn ou uma
menina com o nome de Tony.
3) Inadvertidamente. Apelidos como Bub, Sis e Júnior podem não
ter a intenção de ser permanentes, mas em geral acabam fican-
do, de modo que continuam Bub, Sis e Júnior a vida toda, quer
queiram, quer não.
4) Inevitavelmente. Sobrenomes são um assunto diferente, pois os
pais não têm outra opção a não ser passar adiante o que recebe-
ram dos avós. Há vários nomes europeus respeitáveis que se
tornaram obscenidades em inglês. Como observou tristemente
um cavalheiro: "Tenho muita sorte, só recebi um palavrão no
meu nome". Isso lhe fora trazido à atenção de forma mais clara na
escola secundária, onde sofreu as afrontas reservadas aos imi-
grantes, além de ter recebido um título gratuito de vulgaridade.
Percebeu que seu nome não o favorecia também no mundo dos
negócios. Pessoas nessas condições sentem-se como que desti-
nadas por seus ancestrais a serem perdedores. Entretanto, Cristo
também não é um nome incomum, e isso também traz um pro-
blema de script embora de natureza diferente, particularmente
para jovens frequentadores de igreja. Não é de espantar que H .
Head e W. R . Brains** tenham se tornado, ambos, neurolo-
gistas famosos.
Além de ouvir perguntas do tipo "Quem escolheu seu nome?" ou
"Qual a origem do seu sobrenome?", o paciente deveria ser perguntado,
em qualquer caso: "Você j á leu a sua certidão de nascimento?". Se não
o tiver feito deverá ser orientado a fazê-lo ou melhor ainda, trazê-la para
o terapeuta ver. Em torno de 50% das pessoas encontram surpresas em
suas certidões de nascimento quando estas são lidas com cuidado pela
primeira vez. Omissões, equívocos ou informações das quais não tinham
consciência surgem. Às vezes o nome que consta no atestado difere da-
quele pelo qual foram chamados toda a vida, para seu grande espanto ou
contrariedade. Quase todas essas surpresas trarão luz adicional ao script
dos pais e ao contexto do nascimento do paciente.

* "Cabeça'*, cm inglês. (N do T.)


** "Cérebro", em inglês. (N. doT )

77
Notas e referências
{ IM. Witt, P X e Reed, C.F., "Spider-Web Building", Science 149: 1190-1197,
setembro 10,1965.
2. Lorenz, K.Z., King Solomorís Ring, Thomas Y . Crowell Company, New
York, 1933.
3. Bateson, G., "The Message This is Play", in Group Processes: Transactions of
the Second Conference (Bertram Schaffner, ed.), Josiah Macy, Jr. Founda-
tion, New York, 1956,
4. Zuckerman, S.^ Functional Affinities of Man, Monkeys and Apes, Harcourt
Brace & Company, New York, 1933.
5. Simons, E.L., "Some Fallacies in the Study of Hominid Phylogeny", Scien-
ce 141: 879-889, setembro, 1963.
6. Cf. Freud, S., Moses and Monotheism, Alfred A. Knopf, New York, 1939.
Do ponto de vista atual isto trata do efeito do script de Icnaton no script de
Moisés. Na linguagem de script, coloca Icnaton como o evemerista ou "avô"
de todos os israelitas, e os seus scripts seguem o dele: seus templos foram
destruídos e seus seguidores perseguidos ou exterminados. Os israelitas de
hoje possuem a antítese correta pára esse script, que é utilizar as armas ne-
cessárias para evitar o fim trágico.
O outro nome de Amenotep-haq-Uast (além de Icnaton) era Nefer-queperu -
Ra-ua-en-Ra, cujos hieróglifos significam aproximadamente: "Pegue seu
alaúde e seu escaravelho e usufrua do sol", enquanjto, de acordo com o cartu-
cho* de Icnaton, ele os trocou por um bolo e uma pena. (Caracteres da linha
n 9 12 e Árvores e plantas n 9 33 da classificação de hieróglifos de Holzhauseá).
Isto s€ assemelha a uma mudança moderna, hippie, de script, de uma forma ou
outra: pessoas com guitarras ficam com vontade de comer bolo ou pessoas que
possuem um bolo trocam-no por uma guitarra.
7. Jones, E., "The Phantasy of the Reversal of Generations", Papers on Psycho-
Analysis, 5- edição, Beacon Press, Boston, 1961.
Aqui Jones descreve o "complexo dó avô", o desejo das crianças de torna-
rem-se os pais de seus próprios pais, baseados na crença de que à medida que
crescem seus paisficarãomenores.
8. Abraham, K., "Some remarks on the role of grandparents in the psychology
of neurosis" Clinicai Papers and Essays on Psychoanalysis. Basic Books,
New York, 1955. O que Abraham descreve é exatamente o sentido dado à
"fantasia de scrípf\ onde o menino planeja sua vida ao nível do conto de fadas.
9. Erikson, E., Childhood and Society, loc. cit.
10. Berne, E., The Structure and Dynamics of Organizaúons and Groups, loc. ci
pp. 98-101.
U . Helene Deutsch descreve três tipos de "boa avó" e a temida "avó perversa"
no seu capítulo sobre o climatério em Psychology of Women, vol. dois, Grune
& Stratton, New York, 1945.
12. Os antropólogos, mais do que a maioria dos outros grupos, têm consciência da
importante influência que os avós têm na vida da criança, uma influência que
não é apenas claramente reconhecida mas também altamenteritualizadaem
sociedades primitivas pequenas, em especial as que possuem totens. Ver, por
exemplo, Ashley Montagu, M.F., Corning into Being Among the Australian
Aborígenes. George Routledge & Sons, London, 1937, e Roheim,
Cartucho-moldura oblonga de escrita hieroglífica. (N. do T.)

78
G., Psychoanalysis and Anthropology, loc. cit.
13. 0'Callaghan, $., The Slave Trate Today (incluindo um debate na Câmara dos
Lordes , quinta-feira, 14 de julho, 1960), Crown Publishers, Inc., New York,
1961.
14. Há uma literatura considerável sobre a ordem de nascimento. O primeiro es-
tudo sistemático foi provavelmente de F r Galton, English Men of Scien-
ce (1874). Ele encontrou uma preponerância de filhos únicos e primeiros fi-
lhos eni sua população. Adler, por sua vez, etn seu artigo "The Family Cons-
telation", afirma "que a criança mais nova é, geralmente, um tipo peculiar"
(Understanding Human Nature). Uma das discussões mais interessantes é a de
W.D. Altus em Science 151- ' 44-48, janeiro 7, 1966. Esta foi seguida de
uma série de "cartas ao Editor", * Science 152 : 1177-1184, maio 27, 1966.
E difícil obter dados censitários para avaliar estatisticamente a significância
das coincidências da família Able. Um conjunto de dados numéricos, obtido
pela Comissão de Investigação sobre Tendências Sociais da Presidência (1933)
é citado por Pressey, S.L., Janney, J. E. & Kuhlen, R.G. em Life: A Psycholo-
gical Survey (Harper & Brothers, New York, 1939). Na área metropolitana de
Chigago naquela época, apenas 42 em mil famílias consistiam de marido, mu-
lher e três filhos, de modo que a ocorrência de seis casos com ascendência co-
lateral e direta que (còm exceção de aborto) é o significado da fig. 5, não é
grande apenas por acaso. Excluindo-se as famílias sem filhos dos números de
Chicago, a prevalência da citada constelação sobe de noventa por mil, cerca de
V uma em cada dez. Nessa base, a probabilidade bruta de que a árvore genealó-
gica da figura 5 seja devida ao acaso será, pois, da ordem de um para IO8, en-
quanto a ocorrência real de improbabilidades na população dos meus próprios
pacientes é de, aproximadamente, uma em cinco. Isso mostra que estamos li-
dando aqui com a influência de "informação" ou programação, sendo justa-
mente este tipo de programação comportamental que estamos denominando
de "script". Se considerarmos, além disso, a regular irregularidade dos breves
períodos de fertilidade pouco comuns na figura 5, esta indicação será alta-
mente reforçada.
16. Isso poderá parecer muito distante, mas estudiosos de tamanho de família não
têm sido capazes de chegar a projeções confiáveis ao partirem de uma perso-
nalidade "integrada" ou unificada. Utilizam termos como família "ideal",
"desejada" ou "pretendida" nas entrevistas. Esses termos correspondem,
aproximadamente, a idéias de Pai, Criança e Adulto. Mas "muitas esposas que
afirmaram não querer realmente outro filho antes da última concepção tam-
bém disseram... que, se pudessem ter somente o número defilhosque dese-
jassem e parar, teriam tido o mesmo número que tiveram e talvez mais". O
debate é se "o excesso de fertilidade" pode ser igualado à gravidez "não-de-
sejada". Mas o analista transacional sabe que existem pelo menos três pessoas
diferentes em cada indivíduo entrevistado que poderão "querer", "querer
realmente" ou "não querer" gnais crianças, e todos poderão ter sentimentos
diferentes em relação a isso. Portanto, questionários sobre esse assunto, que
não levam em consideração os estados de ego, estarão omitindo algo de im-
portância decisiva. Para a discussão destes questionários ver Barish, N.H.,
"Family Planning and Public Policy: Who is misleanding whom? "Scien-
ce 165": 1203-1204, setembro 19,1969.
17. Fodor, N., The Searchfor the Bdòve<f,.Hermitage Press, New York, 1949.
18. Rank, O., The Mith ofthe Birth ofthe Hero, loc. cit.
19. Price, R., What not to Nome the Baby, New York, 1904. H.L. Mencken dá
vários exemplos reveladores de nomes "de script" em American Language,
Alfred Knopf, New York (1919), 4- edição, 1949, capítulo 10, especialmente
pp. 518 ess.

79
5* Desenvolvimentos precoces

A. Influências precoces

A primeira programação do script se dá durante o períodp de ama-


mentação, na forma de esboços breves que poderão ser elaborados mais
tarde em dramas complexos. E m geral são cenas a duas mãos entre o be-
bé e sua mãe, com pouca interferência de observadores, se houver algu-
ma, e com títulos de amamentação como "Espetáculo público", "Ainda
não é hora", "Quando você estiver pronto", "Quando eu estiver pron-
to"., "Apresse-se", "Quem morde é afastado", "Enquanto a mamãe fu-
ma", "Desculpe-me, o telefone tocou", "Porque estará fazendo tanto
barulho?", "Nunca é bastante", "Primeiro um depois o outro", " E l e
está pálido", "Vamos dar um tempo", " E l e não é espantoso?", "Mo-
mentos dourados de amor e contentamento" e "Canção de ninar".
Um pouco mais complicadas são as correspondentes cenas do ba-
nheiro nas mesmas famílias: "Venha ver que grácinha", "Está na hora",
"Já está pronto", "Você pode ficar sentado aí até fazer", "Depressa",
"feio, feio", "Enquanto mamãe fuma", "Enquanto mamãe fala ao tele-
fone", "Seringa da lavagem", "Se não fizer vou te dar óleo de rícino",
"Aqui está o seu laxante", "Se não fizer, vai ficar doente", "Deixa ele
fazer do jeito dele", "Bom menino", "Booom menino" e "Enquanto
você faz a mamãe canta". Esboços a três mãos são mais frequentes neste
estágio, incluindo: " E u te disse que ele não acabou*', "Não deixe ele
sair com isso", " E u faço ele fazer", "Experimenta você", "Você está
atrapalhando", "Por que você... Sim, mas..." e "Desta vez ele faz com
certeza". O "Fantasma no Banheiro", que será o "Fantasma no Quarto
de Dormir" algum dia, poderá começar a aparecer: " O dr. Spock diz",
"Tessie tinha ps dela treinados nessa época" e "Minha irmã Mary estava
apenas..." Mais tarde na vida estes se transformarão em: * 'Freud diz",
"Nancy sempre tem um" e "Helen faz todas as noites".
É possível prever quem serão os vencedores e os perdedores. " E l e
não é espantoso?" Reforçado dois anos mais tarde com "Bom menino"
terá, em geral, melhores resultados do que "Por que estará fazendo tanto
barulho?" reforçado um ano depois com "Seringa de lavagem". De for-
ma semelhante, "Canção de ninar!', primeiro ao amamentar e depois no
banheiro, prevalecerão sobre "Enquanto a ipamãe fuma". O sentimento
de oqueidade ou não-oqueidade que separa os atuais e futuros príncipes
dos atuais e futuros sapos já estará sendo implantado e vários tipos de
sapos e príncipès (ou, para o sexo feminino, as guardadoras de gansos e
as princesas) estarão sendo estabelecidos. " E l e não é espantoso?", o
Eterno Príncipe com' um script de sucesso, é com frequência, mas não
sempre, o primogénito. O Príncipe Condicional "Venha ver que graci-

80
nha" ou "Depressa", por exemplo, pode permanecer um príncipe en-
quanto for engraçadinho ou apressado. Os sapos condicionais "O que
morde", "Feio, feio" ou "Ele está pálido, precisa de um laxante" podem
deixar de ser sapos se não morderem ou não parecerem pálidos. Os Sa-
pos Condenados, por sua vez, dificilmente terão sucesso com alguém.
São comoventes os sapos que procuram não se incomodar "Enquanto a
mamãe fuma", ou "Toma um drinque". Só um desastre poderá transfor-
mar os Príncipes Eternos em^sapos. Só um milagre transformará os Sapos
Condenados em príncipes.

B . Convicções e decisões

No momento em que a criança chega a "Acho melhor levá-la, que-


rida", ou "Levanta a bunda da cama", ou mesmo "Te arranco os miolos
da cabeça se não fizer", esta já possui algumas convicções a seu próprio
respeito e a respeito dos outros à sua volta, especialmente seus pais. Es-
tas convicções têm probabilidade de permanecer para o resto de sua vida
e podem ser resumidas da seguinte forma: (1) E u estou O K ou (2) E u
não estou O K (3) Você está O K ou (4) Você não está OK. É com base
nisto que ela toma sua decisão de vida. "O mundo é bom, algum dia fa-
rei um mundo melhor" — através da ciência, do ser útil, da poesia ou
música. " O mundo é mau e algum dia eu cometerei suicídio" — ou ma-
tarei alguém, enlouquecerei ou isolar-me-ei. Talvez este mundo seja me-
díocre, onde ciada um cumpre o seu dever, divertindo-me nos intervalos,
ou um mundo difícil, onde as pessoas procedem conetamente ao vesti-
rem uma camisa branca e mexerem com papéis dos outros, ou um mundo
penoso, onde se faz limpeza, curva-se, comercia, agita-se ou luta para
sobreviver, ou, ainda, um mundo árido onde se fica sentado num bar na
expectativa, ou mesmo um mundo fútil, onde as pessoas desistem.

C . Posições — os pronomes

Qualquer que seja a decisão, poderá ser justificada assumindo-se


uma posição baseada agora em convicções profundamente arraigadas, a
posição que envolve uma visão de todo o mundo e todas as pessoas que
dele fazem parte, sejam amigos ou inimigos. "Vou me matar porque este
é um mundo nojento, onde eu não presto, os outros não prestam, meus
amigos não são melhores do que meus inimigos". Na linguagem de posi-
ção isso significa " E u não estou O K , você não está O K , eles não estão
OK. Quem não se suicidaria nestas condições?" É um suicídio de futili-
dade. Alternativamente, "Vòu me suicidar porque eu não sou O K e todos
os outros são O K " - o suicídio melancólico. (Suicídio aqui poderá signi-
ficar qualquer coisa desde pular de uma ponte ou um desastre de auto-
móvel até comer em excesso ou alcoolismo.) Ou "Vou matá-los
81
ou afastá-los porque eu estou O K e eles são muito não-OK". Ou "Já que
somos todos O K , eu e você, vamos ao trabalho e depois sairemos para
divertir-nos". Mas, diz alguém, "eu sei que somos OK, mas aqueles ca-
ras não são milito legais." "Tudo bem, então eu estou O K , você está O K
e eles não estão O K , por isso vamos terminar o trabalho agora e depois
cuidaremos deles." Em linguagem infantil isso significa "Nós vamos
brincar de casinha mas vocês não podem brincar com a gente", que em
sua fornia extremada e com um equipamento sofisticado poderá ser utili-
zado com sucesso num campo de exterminação.
As posições mais simples são duplas, você e eu, provindo das con-
vicções que foram ingeridas pela criança junto com o leite materno.
Abreviando + para O K e - para não-OK, a convicção é representada as-
sim: eu + ou eu você + ou você —. As possíveis combinações destas
resultam nas quatro posições básicas a partir das quais jogos e scripts
são feitos, programando a pessoa para que esta tenha algo a dizer depois
de dizer "Olá".
1) E u + você + . Esta é a posição "saudável" (ou, no tratamento,
a de "ficar bom"), a melhor para uma vida decente, a posição
dos heróis e príncipes, heroínas e princejsas genuínos. As pes-
soas nas outras posições têm mais ou menos sapo nelas, uma
camada perdedora colocada por seus pais, que os arrastará para
baixo repetidamente, a não ser que eles a vençam. Em casos
extremos eles se esgotarão se não forem resgatados por um mi-
lagre da psiquiatria ou auto-cura. E u + você + é o que os hip-
pies estavam tentando transmitir aos policiais quando lhes da-
vam flores. Se o eu + é genuíno ou uma mera esperança devota
e se o policial aceitará o + ou preferirá estar - nesta cena parti-
cular, haverá sempre uma interrogação. E u + você + é algo
que, ou a pessoa se torna cedo na vida, ou precisará aprender
através de um duro trabalho posterior. Não pode ser atingido
por um mero ato de vontade.
2) E u + você —. Sou um príncipe, você um sapo. Essa é a posição
de "livrar-se de". São as pessoas que jogam "Defeito" como
um passatempo, um jogo, um procedimento mortal. São os que
zombam de seus cônjuges, mandam seus filhos para o juizado
de menores e despedem seus amigos e dependentes. Iniciam
cruzadas e às vezes guerras, e juntam-se aos grupos procurando
defeitos entre seus inferiores ou inimigos, reais ou imaginários.
Essa é a posição "arrogante", na pior das hipóteses de um as-
sassino e na melhor de um intrometido, alguém que se mete a
ajudar os "outros não-OK", com coisas que os outros não
aceitam. Na maioria dos casos é uma posição de mediocridade e
clinicamente paranóide.
3) E u - você + . Essa é psicologicamente a posição "depressiva",
política e socialmente um auto-rebaixamento transmitido aos
filhos. Ocupacionalmente leva a pessoa a viver, por escolha,
82
de grandes e pequenos favores e usufruí-los como uma vingan-
ça, sendo isso a pobre satisfação de fazer o outro pagar tanto
quanto possível por sua figurinha OK. Esses são os suicídios
melancólicos, perdedores que se auto denominam jogadores,
pessoas que se livram de si mesmas em vez de livrarem-se dos
outros, pelo isolamento em obscuras casas de cómodos ou des-
filadeiros, ou então pegando uma pena de prisão ou uma enfer-
maria psiquiátrica. E a posição do "se pelo menos" e "eu deve-
ria ter".
4) E u — você - . Essa é a posição de futilidade dos "por que não":
Por que não suicidar-se, por que não ficar louco. Clinicamente,
é o indivíduo esquizóide ou esquizofrênicoO
Essas posições são universais na humanidade, porque todos são
amamentados ao seio materno ou pela mamadeira e recebem a
mensagem nesta ocasião, depois reforçada quando aprende as
regras de comportamento na selva, no cortiço, no condomínio
ou nos salões ancestrais. Mesmo nas pequenas comunidades
iletradas que os antropólogos estudam, atraídos por suas "cultu-
ras", onde todos são criados pelas mesmas regras antigas, há
suficiente diferença entre as mães (e pais) para ceifar a colheita-
padrão. Para os vencedores, há chefes e feiticeiros,4 capitães e
capitalistas que possuem mil cabeças de gado ou valem cem mil
inhames. Os perdedores podem ser encontrados em hospitais de
doentes mentais em Papeete, Porto Moresby ou Dacar ou, quem
sabe, na cadeia de Sua Majestade em Suva. Cada posição já
transporta consigo seu próprio tipo de script e seus próprios
desfechos. Mesmo neste país, onde são encontradas dez mil
"culturas", existem apenas alguns desfechos, nada diferentes,
realmente, de qualquer outro.
Por ser cada pessoa o produto de um milhão de momentos diferen-
tes, de mil estados de espírito, de cem aventuras e, em geral, de dois
progenitores diversos, uma investigação minuciosa de sua posição reve-
lará muita complexidade e contradições aparentes. Apesar disso, é pos-
sível detectar uma posição básica, sincera ou insincera, inflexível ou in-
segura, na qual sua vida está escorada e a partir da qual a pessoa faz
seus jogos e seu script. Isso é necessário para que ela possa sentir que
tem os dois pés num chão sólido e resistirá a abandoná-lo como faria
com os alicerces de sua casa. Para dar um exemplo simples, uma mulher
que pensa ser muito importante e permanece pobre enquanto os outros
são ricos (eu — eles Hh) não desistirá só porque consegue muito dinheiro.
Isso não a faz rica em sua própria estimativa, mas torna-a apenas uma
pessoa pobre que por acaso tem alguns bens. Sua colega de classe, que
considera importante ser rica em contraste com os pobres desprotegidos
(eu + eles —), não abandonará sua posição se perder o seu dinheiro. Isso
não a torna uma pessoa pobre, mas apenas uma pessoa rica temporaria-
mente em dificuldades financeiras.

83
Essa tenacidade, çomo veremos depois, justifica a vida de Cinde-
rela após seu casamento com o Príncipe, explica porque homens na pri-
meira posição (eu + você 4-) são bons líderes, pois mesmo na maior ad-
versidade eles mantêm seu respeito universal por si próprios e por aque-
les sob sua responsabilidade. Assim, as quatro posições básicas (1) eu +
você 4- (sucesso); (2) eu 4- você - (arrogante); eu - você 4- (depressiva)
e eu - você — (futilidade) raramente poderão ser alteradas' apenas pelas
circunstâncias externas. Mudanças estáveis devem vir de dentro, ou es-
pontaneamente ouvsob -algum tipo de influência "terapêutica": trata-
mento profissional ou amor, que é a psicoterapia da natureza.
Há, entretanto, aqueles cujas convicções carecem de convicção, de
modo a possuírem opções e alternações entre uma e outra posição, pas-
sando, por exemplo, de eu 4- você 4- para eu — você - ou de eu 4- você
— para eu — você 4-. Essas são, no que concerne à posição, personalida-
des inseguras ou instáveis. Seguras e estáveis são aquelas cujas posi-
ções, boas ou deploráveis, não podem ser abaladas. Para que a idéia de
posição tenha utilidade prática, esta não poderá-ser anulada pelas mu-
danças e instabilidades dos inseguros. A abordagem transacional - ao des-
cobrir o que foi realmente feito ou dito num certo momento—cuida disso.
Se A se comporta ao meio-dia como se estivesse na primeira posi-
ção (eu 4- você 4-), diremos que " A está na prinieira posição". Se às 6
da tarde atua como se estivesse na terceira posição (eu — você 4-), entãp
diremos que "na situação do meio-dia A está na primeira posição e nas
circunstâncias das 6 da tarde ele está na terceira". Daí podermos con-
cluir:
1) que A é inseguro na primeira posição, e
2) que se ele apresentar sintomas, estes ocorrerão em condições
especiais.
Se ele se comportar em todas as circunstâncias como se estivesse
na primeira posição, então diremos que " A é estável na primeira posi-
ção," e poderemos predizer:
1) que A é um vencedor.
2) que se ele esteve em tratamento, agora está curado e
3) que ele é livre dos jogos ou, pelo menos, não está sob a com-
pulsão de jogar, tendo controle social - a opção de decidir por
si, a cada momento, se deseja ou não jogar.
Se B atua em qualquer circunstância como se estivesse na quarta
posição, diremos que " B é estável na quarta posição", podendo prever:
1) que B é um perdedor
2) que será difícil curá-lo e
3) que ele não será capaz de deixar de fazer os jogos que compro-
vam que a vida é fútil.
Tudo isso é feito através da análise cuidadosa das reais transações
de A e B .
Uma vez feitas as previsões, estas serão facilmente testadas por ob-
servações adicionais. Se comportamentos posteriores não as confirmarem,
84
então o analista falhou ou a teoria das posições está errada e terá que
mudar. Se confirmarem as previsões, então a teoria é reforçada. As evi-
dências até agora apóiam a teoria.

D. Vencedores e perdedores

Para verificar as previsões é necessário definir sucesso, ou seja,


vencedores e perdedores. Um vencedor é alguém e faz aquilo que diz
que irá fazer. Um perdedor é alguém que falha no cumprimento do que
se propõe a fazer. Um homem diz: "Vou a Reno para jogar" compro-
mete-se a chegar lá e jogar, não importando o fato de ganhar ou perder.
Se ele diz: "Vou a Reno e desta vez vou ganhar", sairá vencedor se ga-
nhar e perdedor se não ganhar, dependendo de quanto dinheiro terá no
bolso quando voltar à rua. Uma mulher que se divorcia não é perdedora
a não ser que tenha dito: "Jamais irei divorciar-me". Se ela declarou:
"Algum dia largo meu emprego e não trabalho mais", então sua pensão
significará que ela é vencedora, pois cumpriu o que pretendia fazer.
Uma vez que não especificou como iria fazê-lo, ninguém poderá acu-
sá-la de ser uma perdedora m

E . A posição tripla

Até agora tratamos principalmente das posições duplas, "eu" e


"você". A idéia de posição, entretanto, é como uma sanfona, podendo
expandir-se o suficiente para incluir uma variedade enorme de atitudes
além das quatro básicas, que se diferenciam entre si como as pessoas no
mundo. Se passarmos a considerar posições triplas teremos as seguintes
combinações:
la) E u + você + eles - K Essa é a posição de uma comunidade
democrática ou de uma família prestativa, uma espécie de ideal
a ser atingido aos olhos de muitas pessoas e declarado como
" E u amo a todos". , _tMamamá^tLmam^^
lb) E u 4- você 4- eles —. Esta é a posição preconceituosa, esnobe
ou de grupinho de um demagogo, afirmada como "Quem pre-
cisa deles?" _
2a) E u 4- você — eles 4-. Essa é a posição do agitador ou descon-
tente e, às vezes, de missionários de vários tipos. "Vocês aqui
não prestam comparados com os de lá".
2b) E u 4- você - eles - . É a posição do solitário, do crítico que se
auto valoriza, a posição arrogante na sua forma pura. "Todos
têm que se curvar diante de mim e ser tão parecidos cpmigo
quanto possível para pessoas inferic es."
3a) E u - você 4- eles 4-. Esse é o santo auto punidor ou o maso-
quista, a posição melancólica na sua forma pura. "Sou a
85
pessoa mais sem valor do mundo."
3b) Eu - você + eles —. Essa é a posição servil dê pessoas que
optam por trabalhar por gorjetas, mais por esnobismo do que
necessidade. " E u me rebaixei e você me compensou bem, não
como aqueles inferiores fizeram."
4a) E u — você - eles + . Essa é a posição da inveja servil e, às ve-
zes, da ação política. "Eles nos odeiam porque não estamos
bem de vida."
4b) E u — você — eles —. É a posição pessimista dos cínicos ou dos
que acreditam na predestinação e no pecado original. "Nin-
guém de nós é bom em nenhum lugar."
Existem posições triplas que também são inseguras, algumas das
quais são flexíveis e dão uma oportunidade ao outro. Por exemplo:
1?) E u + você 4- eles ? É uma posição evangélica. " E u e você
somos O K , mas não sabemos nada sobre eles até que mostrem
suas credenciais e passem para o nosso lado."
2?) E u 4- você ? eles —. É uma posição da classe aristocrática. " A
maioria dos outros não presta, quanto a você esperarei até ver
suas credenciais."
Assim temos quatro posições duplas e oito posições triplas, doze
no total, com uma possibilidade matemática de igual número de flexíveis
com um ?, outras seis com dois ?? (eu 4- você ? eles ?, eu - você ? eles
? etc.) e uma com três ???, a última pessoa que teria dificuldade de fun-
cionar em relação a outra pessoa. Isso nos dá trinta e um tipos possíveis,
o suficiente para tornar a vida interessante. Essa variedade será multipli-
cada se começarmos a considerar os significados dos + e dos —, que cor-
respondem a O K e não-OK. Aqui seremos confrontados de imediato com
pares de adjetivos bom-mau, qualidades ou combinações que eram enfa-
tizadas na família e que preenchem fórmulas dando-lhes significados
reais.

F . Posições — os predicados

As posições mais simples, as mais difíceis de lidar e as mais peri-


gosas para a sociedade são as que se baseiam num único par de adjetivos
OK/não-OK: branco-preto, rico-pobre, cristão-pagão, inteligente-bur-
ro, judeu-ariano, honesto-desonesto. Cada um desses pares pode ser ar-
ranjado de quatro maneiras e cada uma delas poderá ser enfatizada numa
certa família e estabelecida para sempre através do treinamento precoce.
Assim a polaridade rico-pobre pode ser combinada em quatro variantes,
dependendo da atitude dos pais.
1) E u rico = O K , você pobre = não-OK (esnobe, arrogante).
2) E u rico = não - O K , você pobre = OK (rebelde, romântico).
3) E u pobre = O K , você rico = não-OK (ressentido, revolucio-
nário).

86
4) E u pobre = não - O K , você rico = O K (esnobe, servil).
(Numa família onde o dinheiro não é um padrão decisivo, então ri-
co-pobre não é uma polaridade e o quadro acima não se aplica.)
Quanto mais adjetivos forem incluídos em cada + e - mais com-
plexa e flexível torna-se a posição e mais inteligência e discriminação
serão necessárias para trabalhar esses aspectos com segurança. Conjun-
tos de adjetivos poderão ser reunidos para aumentar a ênfase (não ape-
nas, mas também), retirados para suavizar (mas ao menos ele também),
ponderados para precisão (mas o que é mais importante?) e assim por
diante. Dessa forma, para alguns negros branco-rico-desonesto poderá
ser muito não-OK, (ele é completamente mau...) comparado com rico-
desonesto-negro (pelo menos é negro...), ou rico-honesto-branco (pelo
menos é honesto), ou pobre-desonesto-branco (pelo menos ele é pobre
como nós...). Em alguns casos, desonesto-branco poderá ser o pior de
todos se ele for pobre, porém tolerável se for rico. Isso se deve à intru-
são de um outro par: fica com ele # não fica com ele —. Nesse caso, o
pobre-desonesto-branco recebe enquantorico-desonesto-brancore-
cebe H . Em outros casos poderá haver uma condição, como quando
rico-branco (a Companhia de Finanças) poderá ser O K a não ser que
seja desonesto e então é deslocado para não-OK. (4-4-4- 4- é—).
Parece que a escolha particular de pronomes, eu, você, eles, 4- ou
- ou ? determina o destino final do indivíduo, independene de que adje-
tivos ou predicados ele utilize para 4- ou —. Assim eu 4- você — eles —
(2b) terminará quase sempre só, talvez numa ermida, prisão, hospital pú-
blico ou necrotério, independentemente da sua arrogância: religião, di-
nheiro, raça, sexo etc., enquanto eu - você 4- eles 4- (3a) acabará quase
sempre sentindo-se infeliz e suicida, independentemente das qualidades
particulares em relação às quais se sente inútil. Dessa forma os prono-
mes decidem o final do script, os vencedores e os perdedores. Os predi-
cados decidem o tema do script, o estilo de vida: religião, dinheiro, raça,
sexo etc., mas nada têm a ver com o desfecho.
É preciso admitir que não há nada nisso tudo que não possa ser
compreendido por uma criança de seis anos, pelo menos no que se refere
a ela mesma. "Minha mãe disse que não devo brincar com você porque
você é (sujo, ordinário, mau, católico, judeu, italiano, irlandês, etc.)", é
simplesmente eu 4- você - . " E u brinco com você mas não com ele, por-
que ele rouba" é eu 4- você 4- ele - , ao que o excluído responde: " E u
não ia brincar com vocês porque vocês dois são mariquinhas", = eu 4
você - ele - . É necessário muita sofisticação, entretanto - mais do que a
maioria possui — para entender o princípio-chave das posições: os pro-
nomes e os sinais (4- - ) são as únicas coisas que contam. Os predicados
e os adjetivos têm o papel de estruturar o tempo convenientemente. Os
predicados apenas dão às pessoas assunto para conversa após terem dito
"Olá", mas não têm significado algum quanto ao que acontecerá, o quão
bem ou mal suas vidas serão conduzidas ou qual será o desfecho final.
Muitas pessoas não conseguiam entender como ardentes policiais

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nazistas na Alemanha Oriental puderam transformar-se em policiais co-
munistas igualmente ardentes quando os dois partidos pareciam direta-
mente opostos entre si. Mas tudo que é oposto são os adjetivos. A posi-
ção nazista era eu 4- (nazista), ele - (traidor), por isso mate-o. A posição
comunista é eu 4- (comunista), ele - (traidor), por isso mate-o. Em am-
bos os casos, apesar dos predicados serem contrários, a posição é a
mesma: eu 4- você —, portanto mate-o. A regra é que uma mudança de
predicados, não importa quão radical seja, não altera a posição, nem o
script. Em ambos os casos a pessoa terminará como assassina e é isso
que importa para ela, não o tipo de pessoa que mata. Por essa razão, na-
da mais fácil para um fanático, sob orientação apropriada, do que mudar
de lado.
Esse exemplo também ilustra o fato de as posições serem muito
importantes nos encontros cotidianos. A primeira coisa que as pessoas
percebem umas sobre as outras diz respeito às suas posições e, aqui, na
maioria das vezes, os iguais se atraem. Os que pensam bem de si e do
mundo (4- 4-) preferem, em geral, estar com iguais em vez de pessoas
que reclamam. Os que se sentem superiores ( + —) optam por juntarem-se
em clubes e organizações.
Se a infelicidade gosta de companhia, então as pessoas que se
sentem inferiores (—4-) também se congregarão, frequentemente em ba-
res não-OK. Os que se sentem fúteis ( — ) juntam-se em cafeterias ou na
rua para ridicularizar os ajustados. Nos países ocidentais o modo de
vestir indica posições semelhantes com mais clareza do que posições so-
ciais. 4- 4- veste-se elegantemente, mas sem ostentação. 4- — gosta de
uniformes, enfeites, jóias e modelos especiais que ostentam sua superio-
ridade. — 4- é vulgar ou negligente sem ser necessariamente desleixado
ou poderá usar um uniforme "inferior", enquanto tende a usar um
uniforme chocante que mostra seu desprezo pelas roupas e por tudo que
elas representam. O uniforme do esquizofrénico, que combina o puído
com o elegante, o desajeitado com o gracioso, púrpura com cinza, os sa-
patos velhos com o anel de diamante, cai nesta categoria.
Já mencionamos a tenacidade com que as pessoas se apegam às
suas posições quando as circunstâncias mudam — a mulher rica que não
fica pobre ao perder o dinheiro, mas permanece uma pessoa rica em difi-
culdades financeiras. Mais comovente é a menina pobre que recebe
muito dinheiro, mas nem por isso torna-se rica. A fixidez da posição
transparece na vida cotidiana de forma exasperante e confusa: "Sou uma
boa pessoa (apesar de fazer coisas ruins)". Alguém que assume essa po-
sição espera ser sempre tratada como se fosse boa e sente-se insultada
quando é vista diferentemente.
Essa é uma fonte comum de conflito conjugal. Marty Collins in-
siste que é um bom marido apesar de bater na sua mulher todo sábado à noite
quando está bêbado. O que é mais surpreendente é que sua esposa, Scottie,
o apoia com a famosa frase: "Como se pode ficar aborrecida com um ho-
mem que lhe mandou flores no último Natal?". Scottie está firmemen-
88
te convencida de que eia é uma pessoa completamente honesta, embora
minta abertamente e roube dinheiro da carteira do seu marido. Ele a
apóia nessa posição durante a semana. Somente aos sábados à noite ela o
chama de vagabundo e ele diz que ela é mentirosa. Sendo o casamento
baseado num contrato bilateral de passar por cima das discrepâncias, ca-
da um deles fica indignado quando os lapsos são levantados; e se a
ameaça à posição O K se torna muito grande, resulta num divórcio. Este
acontece porque:
1) um cônjuge não aguenta ficar vulnerável ou
2) o outro cônjuge não suporta a mentira deslavada que é necessá-
ria para evitar a vulnerabilidade. \
m'"Jj-:
A

G . A seleção do script

O passo seguinte para o desenvolvimento do script é encontrar um


esquema com um final apropriado, uma resposta para a pergunta: "O que
acontece com alguém como eu?" A criança sabe, pois é ensinada, se se-
rá um ganhador ou um perdedor, como se espera que sinta em relação
aos outros e como os outros irão tratá-la e o que significa "alguém como
eu". Mais cedo ou mais tarde ouvirá uma estória ^obre "alguém como
eu" e isso a informará sobre seu direcionamento. Poderá ser um conto de
fadas lido por sua mãe, uma versão da Nancy Africana que sua avó
contou, ou uma estória da turma da rua que ela ouve numa esquina. To-
da vez que ouve e quando ouve e sabe, então diz: "Este sou eu!" Essa
estória será o seu script e passará o resto de sua vida tentando fazê-la
acontecer.
Assim, com base na experiência precoce com o seio ou a mamadei-
ra, no banheiro ou na casinha, no dormitório ou na sala, a criança adqui-
re suas convicções, toma suas decisões e adota sua posição. Depois, na
base do que ouve e lê, seleciona uma predição e um plano: o que fará
para ser um vencedor ou perdedor, com que base e qual será o desfecho,
sendo isso a primeira visão clara de um script que durará toda uma vida.
Estamos agora preparados para considerar as várias forças e elementos a
partir dos quais o script é construído. Para conseguir isso terá que dispor
de um aparato do script

Referências
1. Veja Berne, E, "Classification of Positions", Transactional Analysis Bulletin
1:23, julho 1962, e Principies of Group Treatment, loc. cit., pp 269-277. Com-
pare Harris, T., Tm OK - You're OK, A Practical Guide to Transactional Ana-
lysis, Harper & Row, New York, 1969. Harris, entretanto, numera as posições
em ordem diferente. O nosso 1 corresponde ao seu 4, o nosso 2 ao seu 3, o
nosso 3 ao eu 1 e o nosso 4 ao seu 2: 4-3-1-2.
89
6. Os anos maleáveis

A . A programação Parental

Aos seis anos nosso ser humano típico deixou o jardim da infância
(pelo menos nos Estados Unidos) e foi empurrado para um mundo mais
competitivo da escola do primeiro grau. Aqui estará sozinho para lidar
com os professores e os outros meninos e meninas. Felizmente já não é
mais um bebé, enfrentando desprotegido um mundo que ele nunca viu.
Do pequeno subúrbio do seu lar aventura-se na grande metrópole da es-
cola movimentada, com conjuntos inteiros de respostas sociais prontas
para serem oferecidas às diferentes pessoas à sua volta. Sua mente está
envolvida com suas maneiras de obter sucesso, ou, pelo menos, sobrevi-
ver, pois seu plano de vida já foi elaborado. Isso era do conhecimento
dos padres e professores da Idade Média, que diziam: "Dê-me uma
criança até que complete seis anos de idade e depois disso-poderá ficar
coiti ela para o resto da vida". Uma boa professora de jardim da infância
poderá até prever qual será ò resultado e que tipo de vida a criança terá:
feliz ou infeliz, ganhador ou perdedor.
A comédia ou tragédia de cada vida humana consiste no fato de ser
planejada por um garotinho de idade pré-escolar que tem um conheci-
mento muito limitado do mundo e seus caminhos, e cujo coração está
cheio de coisas que aí foram colocadas por seus pais. Entretanto, essa
criança-prodígio é quem determina, a longo prazo, o que sucederá com
íeis e camponeses, com prostitutas e rainhas. Ela não tem meios para di-
ferenciar fatos de fantasias e os acontecimentos mais corriqueiros são
distorcidos. Ouve que se fizer sexo antes do casamento será punido e se
o fizer após o casamento não será. Acredita que o sol se põe e levanta
entre dez a quarenta anos para descobrir que é ela que está se afastando
do sol. Confunde seu ventre com seu estômago e é demasiado jovem pa-
ra decidir muito além daquilo que deseja comer ao jantar, mas é o Impe-
rador da Vida que determina como cada pessoa morrerá.
O plano que delineia para o futuro eterno é esboçado segundo as
especificações da família. Alguns pontos-chave podem ser percebidos
rapidamente, talvez na primeira entrevista, ao se fazer a pergunta: "O
que lhe diziam seus pais quando você era bem pequeno?" ou "O que lhe
diziam seus pais quando estavam muito irritados?" Em geral a resposta
não parece diretiva, porém, com um pouco de pensamento marciano, po-
derá ser colocada dessa forma.
Por exemplo, muitos dos slogans de treinamento mencionados no
, início do Capítulo Cinco são, na verdade, comandos parentais. O " E s -
petáculo Público" é, com efeito, um comando para o exibicionismo. A
criança logo aprende ao observar a satisfação da mãe quando faz e
90
seu desapontamento quando deixa de fazer. Da mesma forma "Venha
ver que gracinha" significa "Represente um bom espetáculo!" "Apres-
se-se" e "Você pode ficar sentado aí até fazer" são comandos negativos
ou injunções: "Não me faça esperar" e "Não responda!", "Deixa ele fa-
zer do jeito dele", no entanto, é uma licença de permissão. A criança
entende estas diferenças primeiramente pelas reações dos pais eymais
tarde, quando já possui um vocabulário, pelas suas próprias palavras.
A criança nasce livre, mas logo aprende diferentemente. Nos pri-
meiros dois anos ela é programada, em particular, por sua mãe. Esse
programa forma 9 esqueleto original ou a base de seu script, "o esboço
primai", centrado, de início, no engolir e ser engolido e depois, quando
nascem os dentes, no lacerar ou ser lacerado. É sendo um martelo ou
uma bigorna, como coloca Goethe, que se delineiam as mais primitivas
versões do vencedor ou perdedor, como aparece nos mitos gregos e nos
rituais primais, nos quais as crianças são. devoradas e os membros do
poeta jazem espalhados pelo chão. Mesmo no quarto do bebé já fica cla-
ro quem está no controle, a mãe ou o bebê. Isso poderá ser revertido
com o tempo, mas os ecos da situação original ainda poderão ser ouvi-
dos em momentos de estresse ou de zanga. Poucas são as pessoas que se
recordam desse período que, de muitas maneiras, é o mais importante, e
por essa razão terá que ser reconstruído com o auxílio dos pais, parentes,
babás e pediatras, conjeturas sobre sonhos e talvez o álbum de fotogra-
fias da família.
Dos dois aos seis anos o chão torna-se mais firme, pois quase todos
se recordam de algumas transações, incidentes ou impressões dessa fase
do desenvolvimento do script, paralelo e intimamente ligado com o
avanço do complexo de Édipo. De fato, após a amamentação e o treina-
mento das excreções, as diretivas universais e de efeitos mais duradou-
ros estão ligadas à sexualidade e à agressão. O organismo e a espécie
sobrevivem por meio de circuitos que foram instalados pela seleção na-
tural. Já que amamentação, sexo e briga exigem a presença de outra pes-
soa, constituem atividades "sociais". Esses impulsos emprestam caráter
ou qualidade ao indivíduo: ganância, masculinidade, feminilidade e
agressividade. Também estão instalados circuitos que moderam tais im-
pulsos, dando origem a tendências opostas: renúncia, reserva e controle.
Essas qualidades permitem que as pessoas vivam juntas, pelo menos
parte do tempo, com razoável tranquilidade, um urro maçante de compe-
tição em vez de um tumulto intenso e ininterrupto de agarramento, co-
pulação e luta. De alguma forma, não clara, a excreção se confunde nes-
se sistema de socialização e os circuitos implantados para o seu controle
dão origem às qualidades de ordenação.
A programação Parental'determina quando e como os impulsos são
expressados, como e quando as restrições são impostas. Utiliza os
circuitos já instalados e os põe em funcionamento de uma certa maneira
para atingir certos resultados ou desfechos. Como resultado dessa pro-
gramação, emergem novas qualidades que são compromissos entre impul-
sos e controles. Da ganância e da renúncia surge a paciência, do mascu-
lino ou feminino e da reserva emergem a masculinidade e a feminilidade,
da luta e do controle aparece a astúcia è da confusão e da ordem vêm a
ordenação. Todas essas qualidades, paciência, masculinidade e feminili-
dade, astúcia e ordenação nos são ensinadas pelos pais e programadas du-
rante os anos maleáveis, entre dois e seis anos de idade.
Fisiologicamente, programação significa facilitação, o estabeleci-
mento de uma trilha de resistência diminuída. Operacionalmente signifi-
ca que um dado^estímulo evocará, com alto grau de probabilidade, uma
resposta já estabelecida. Fenomenologicamente, a programação parental
quer dizer que a resposta é determinada pelas diretivas parentais, trilhas
sonoras previamente gravadas, cujas vozes podem ser ouvidas ao escu-
tar-se, com cuidado, o que Se passa dentro da própria cabeça.

B . Pensando em marciano

Quando os pais interferem na livre expressão de seus filhos ou


procuram ínfluenciá-la, suas diretivas são interpretadas diferentemente
pelos pais, observadores e a própria criança. De fato, são cinco pontos
de vista diferentes: (1) o que o progenitor diz que é o significado; (2) o
que um observador ingénuo pensa que significa; (3) o significado literal
do que foi dito; (4) o que o progenitor "realmente" queria dizer e (5) o
que a criança retira disso. Os dois primeiros são "quadrados" ou "ter-
restres" e os três últimos são "reais" ou linguagem marciana.

Butch

Consideremos o exemplo de um aluno do curso secundário que be-


bia muito. Sua mãe pilhou-o farejando a garrafa de uísque quando tinha
seis anos de idade e disse: "Você é muito criança para beber uísque".
1) O que a mãe diz que tencionava dizer é: "Não quero meu filho
bebendo uísque".
2) Um observador ingénuo, seu tio, concordou: "É claro que ela
não quer que seu filho beba uísque. Nenhuma mãe com bom
senso quer"
3) O que ela realmente disse foi: "Você é muito criança para beber
uísque".
4) E foi isto que ela queria dizer: "Beber uísque é coisa de homem
e você ainda é um menino".
5) O que Butch retirou disso foi: "Quando chegar a hora de provar
que você é homem, terá que beber uísque".
Então, para um terráqueo, a repreensão da mãe soava como "bom
senso". Mas as crianças pensam em marciano até serem desencorajadas
pelos pais a fazê-lo. E por essa razão que seus pensamentos não corrom-
pidos parecem tão novos e estimulantes. A tarefa da criança é descobrir

92
o real significado do que dizem os pais. Isso ajuda a conservar seu amor
ou, pelo menos, a sua proteção, ou ainda, em casos mais difíceis, asse-
guram tão somente a sua sobrevivência. Além disso, a criança ama seus
pais e sua finalidade principal na vida é agradá-los (se eles o permiti-
rem), e para tanto terá que saber ó que eles realmente desejam.
Assim, a partir de cada diretiva, por. mais indiretamente que esta
seja colocada, a criança procura extrair a essência imperativa ou o âma-
go marciano. Dessa forma é programado o seu plano de vida. Gatos e
pombos também o fazem, embora levem mais tempo. É denominado pro-
gramação porque os efeitos das diretivas tendem a ser permanentes. Para
a criança os desejos dos pais são comandos e ela permanecerá assim para
o resto da vida, a não ser que ocorra alguma sublevação radical. So-
mente o sofrimento (guerra, prisão) ou o êxtase (conversão, amor) pode-
rão liberá-la rapidamente, ao passo que a experiência de vida ou a psi-
coterapia o farão de maneira mais lenta. A morte dos pais nem sempre
quebra o encanto, tornando a ligação mais intensa na maioria dos casos.
Enquanto a sua criança estiver adaptada, e não livre, por mais pesadas
que sejam as tarefas exigidas por seu pai, a pessoa "dominada pelo
script" as cumprirá. Da mesma forma, por maiores que sejam os sacrifí-
cios requeridos, a pessoa "dominada pelo script" os fará. A relação do
gigolô e da prostituta é digna de atenção. E l a prefere ser explorada e
maltratada por ele, obtendo o mínimo de satisfação, do que aventurar-se
num mundo desconhecido sem a sua proteção.
A língua marciana traduz as palavras para o seu real significado em
termos de resultados, julgando as pessoas, não de acordo com sua inten-
ção aparente, mas a partir do "espetáculo final". Muita proteção parental
correta é, "na verdade, a designação de tarefas incorretas. Um jovem tçve
azar com o seu carro e acumulou dívidas na oficina que aborreceram seu
pai. O "bom" progenitor "falava" de vez em quando sobre o assunto e,
numa ocasião, resmungou afavelmente: "Bem, isso é duro para mim,
mas não se preocupe demais com o asunto". Essa generosidade gentil foi
naturalmente entendida pelo filho como: "Preocupe-se um pouco". Mas
se o filho dissesse que estava preocupado ou fizesse algo incomum para
tentar remediar a situação, o pai poderia censurá-lo, dizendo: " E u lhe
disse para não se preocupar demais!". A tradução marciana dessa atitude
"simpática": "Não se preocupe demais!" é "Continue se preocupando
até que eu possa dizer-lhe que está se preocupando demais"
Um exemplo ainda mais dramático é o de uma garçonete muito ha-
bilidosa, capaz de ziguezaguear entre as mesas e a confusão de um res-
taurante sempre cheio, com suas mãos e braços atulhados de pratos de
comida quente. Sua agilidade e perícia atraíam a admiração tanto da ge-
rência como da clientela. Um dia seus pais foram lá para comer e, por
sua vez, admirá-la. Quando ela passou rapidamente pela mesa deles com
sua costumeira carga de pratos, sua mãe, excessivamente apreensiva,
gritou: "Cuidado!" e então a jovem, pela primeira vez na sua carreira...
Bem, até mesmo o mais terráqueo dos leitores poderá completar
93
a estória, sem necessidade de tradução. Em resumo, "Cuidado!" signifi-
ca muitas vezes: "Erre para que eu possa dizer que disse para você to-
mar cuidado'7 e este é o espetáculo final. "Cuidado, ha ha!" é ainda
mais provocativo. Como uma instrução adulta, "Cuidado!" poderá ter
algum valor, mas o excesso de preocupação parental ou o "Ha ha da
criança'* dão um rumo diferente.
No caso de Butch, "Você é muito criança para beber!", vindo de
uma progenitora desregrada significaria "Apresse-se e comece a beber
para eu poder reclamar", e este seria o espetáculo final da manobra.
Butch sabia o que, mais cedo ou mais tarde, teria que fazer se desejasse
atrair a atenção relutante da mãe, um pobre substitutivo do seu amor. O
desejo dela, como ele o interpretava, tornou-se sua missão. Ele tinha um
bom exemplo em seu pai, um sujeito trabalhador que bebia muito nos
fins de semana. Quando Butch chegou aos dezesseis anos já se embria-
gava com regularidade. Aos dezessete seu tio sentou-se com ele à mesa,
com uma garrafa de uísque entre os dois, e disse: "Butch, vou ensiná-lo
a beber".
Seu pai costumava dizer com um sorriso de desprezo: "Você é tão
burro!" Esta foi uma das raras vezes em que o pai falou com ele, por is-
so decidiu que a única coisa a fazer era comportar-se como um burro -
outro exemplo do valor do pensamento marciano, pois seu pai deixou
claro que não queria "espertinhos" em sua casa. O que estava dizendo,
na realidade, era: " É melhor agir como um burro quando eu estou por
perto", e Butch sabia disso. Basta de marciano.

Pai Mãe

Fig. 6 - Um jovem alcoólatra

94
Muitas crianças são educadas em famílias onde o pai trabalha
muito e bebe muito. Trabalhar muito é a receita para preencher o tempo
entre os tragos. Beber, entretanto, poderá interferir com o trabalho e a
bebida é a maldição da classe trabalhadora. Por outro lado o trabalho
interfere na bebida e é a maldição da classe bebedora. Beber e trabalhar
são opostos. Se beber é parte do plano de vida ou script, então trabalhar
será o contra-script.
As diretivas do script de Butch estão indicadas na "matriz do
script" na Figura 6. Na parte superior, o Pai irritante do progenitor está
dizendo: "Seja homem mas não aja com esperteza", enquanto na parte
inferior sua criança zombadora diz: "Aja como um burro, ha ha!" Na
parte superior o Pai caduco da mãe diz: "Seja homem, mas você ainda é
muito criança", enquanto na parte inferior sua criança o desafia: "Não
seja maricas, tome um trago". Na parte intermediária o "adulto" do pai,
com o auxílio de seu tio, mostra-lhe a maneira adequada de beber.

C . O pequeno advogado

O pensamento marciano permite à criança descobrir o que os pais


"realmente" desejam, isto é, como reagirão da maneira mais favorável.
Ao utilizar o pensamento marciano de forma eficaz a criança assegura
sua sobrevivência e expressa seu amor pelos pais, desenvolvendo o esta-
do de ego conhecido como "Criança adaptada". Esta quer e necessita
comportar-se de uma forma adaptada, procurando evitar comportamentos
e até sentimentos não-adaptativos, o que terá como consequência receber
respostas das pessoas à sua volta que não são as melhpres. Enquanto is-
so, "Criança Natural" ou auto-expressiva terá que ser dominada. O
equilíbrio entre as duas formas de comportamento é mantido pelo Adulto
criança ( A C na Figura 7), que deverá agir como um computador exces-
sivamente ágil para decidir o que é necessário e permissível, momento a
momento, em dada situação. O Adulto torna-se bastante hábil na deter-
minação do que as pessoas desejam ou irão, tolerar ou, na pior das hipó-
teses, o que chamará a sua atenção ou provocará aborrecimento ou ainda
sentimento de culpa, impotência, medo ou mágoa. O Adulto na criança é
um estudioso aguçado e perceptivo da natureza humana e por isso é
chamado o "Professor". Ele conhece mais psicologia e psiquiatria práti-
cas do que qualquer professor crescido, embora depois de muitos anos
de treinamento e experiência um professor crescido possa saber o cor-
respondente a 33% do que sabia quando tinha quatro anos de idade.
Depois de aprender o pensamento marciano e para ter uma sólida
"Criança adaptada", o "Professor" volta-se para o pensamento legal no
sentido de encontrar mais alternativas para a "Criança natural" expres-
sar-se. O pensamento legal inicia-se durante os anos maleáveis, atingin-
do seu mais completo desenvolvimento no fim da infância. Se for enco-
rajado pelos pais, poderá persistir até a maturidade levando ao apare-
cimento dos advogados. O pensamento legal é chamado coloquialmente
de pensamento de "conveniência**.*
Esse tipo de pensamento é particularmente comum na ética sexual
pessoal. A jovem que foi instruída por seus pais a não perder sua virgin-
dade poderá envolver-se na masturbação mútua, no sexo oral ou outra
variedade de ato sexual que lhe permita obedecer à risca a lei parental,
embora ela possa saber que o que os pais "queriam dizer realmente" era
não ficar sexualmente excitada. Se os pais a alertarem contra o "sexo",
ela poderá ter relações sexuais sem atingir o orgasmo. O clássico com-
portamento sexual de conveniência era utilizado pelas prostitutas de Pa-
ris no começo deste século. (Talvez seja ainda utilizado). Quando iam ao
confessionário eram perdoadas pela sua profissão com base no fato de
tratar-se de um tipo de negócio, desde que elas não se excitassem se-
xualmente. Se houvesse prazer então era considerado pecado.2 f^0^
Os pais passam uma proibição que acham que abrangerá a situação,
não levando em consideração a esperteza que eles próprios ensinaram
aos seus filhos. Quando se diz a um rapaz: "Não se meta com mulheres"
isso poderá ser uma permissão para envolver-se com outros rapazes ou,
em alguns casos, com ovelhas ou vacas. No pensamento legal ele está a
salvo, pois não estará fazendo nada que seus pais proibiram. A menina
para quem foi dito "Não deixe os rapazes tocarem em você" decide que
é permitido tocar-se. Com este "pensamento de conveniências" sua
"Criança adaptada" permanece obediente aos desejos da mãe, enquanto
sua "Criança natural" goza dos prazeres da masturbação. O menino a
quem se diz " N ã a s e meta com mulheres" toma isso como permissão pa-
ra meter-se consigo mesmo. Nenhuma dessas pessoas estará, de fato, de-
sobedecendo a uma proibição parental. Pelo fato de a criança tratar tais
restrições como um advogado, procurando uma saída* aceitável, estas são
chamadas na análise do script pelo termo legal, "injunção".
Algumas crianças gostam de ser obedientes e não procuram saídas
"de conveniência". Outras preferem fazer coisas mais interessantes. Da
mesma forma como muitos indivíduos dedicam-se ao problema de como
transgredir sem desobedecer a lei, muitas crianças estão interessadas na
questão de como serem mal-comportadas sem realmente desobedecerem
a seus pais. Em ambos os casos esse tipo de esperteza é ensinado e enco-
rajado pelos próprios pais e faz parte da programação parental. Em al-
guns casos, poderá resultar na formação de um antiscript, através do
qual a criança consegue reverter todo o propósito do script sem verda-
deiramente desobedecer a nenhuma das orientações originais do script.

* Cop-out tem vários significados: prender, conseguir uma sentença mais amena (cop apka),
falar muito (fink out) e encontrar um álibi ou uma saída desonesta. Aqui utilizado neste último
sentido.

96
D . O aparato do scr ip t

Os analistas transacionais não partiram da idéia de que os planos


de vida humanos são construídos como mitos e contos de fada. Simples-
mente observaram que as decisões infantis, mais do que o planejamento
amadurecido, pareciam determinar o destino final do indivíduo. Inde-
pendentemente do que as pessoas pensavam ou diziam que estavam fa-
zendo com suas vidas, estas pareciam dirigidas por alguma compulsão
interna à procura de um desfecho que era diferente do que constava em
sua autobiografia ou curriculum vitae. Muitos dos que diziam desejar
dinheiro, acabavam por perdê-lo enquanto à sua volta todos enrique-
ciam. Os que pretendiam estar à procura de amor encontravam ódio até
mesmo entre os que os amavam. Pais que afirmavam fazer tudo pela feli-
cidade dos filhos terminavam como viciados, condenados e suicidas.
Virtuosos estudantes da Bíblia cometiam crimes e violentavam crianças.
Éssas contradições existem desde os primórdios da raça humana è cons-
tituem temas de óperas e notícias que vendem jornais.
Gradualmente foi se tornando claro que, embora isso não faça sen-
tido para o Adulto, é claro que faz para a parte "Criança" da personalidade.
É esta parte que aprecia os mitos e os contos de fadas e que acredita que
assim era o mundo ou que assim poderia ter sidoi Não é surpreendente,
portanto, observar que quando as crianças planejam suas vidas, elas se-
guem o tema da sua estória favorita. A maior surpresa é que tais planos
persistem por vinte, quarenta ou oitenta anos e, no fim, acabam prevale-
cendo sobre o "bom senso". Fazendo-se a reconstrução a partir de um
suicídio, desastre de automóvel, delirium tremens, sentença de prisão ou
divórcio e ignorando-se o "diagnóstipo" na procura do que realmente
aconteceu, percebeu-se, desde logo, que estes resultados foram, quase
todos, planejados antes dos seis anos de idadefr 5S
' Os planos ou script continham certos elementos em comum, que
formavam o "aparato do script". Este mesmo aparato parece atuar nos
scripts bons: pessoas criativas, líderes, heróis, avós veneráveis e pessoas
profissionalmente eminentes. O aparato tem a ver com a forma em que o
tempo de vida é estruturado e mostrou-se semelhante ao utilizado nos
contos de fada para tal finalidade.
Nessas estórias a programação é feita por gigantes de ambos os se-
xos, ogres e feiticeiras, madrinhas bondosas e animais agradecidos, má-
gicos mal-humorados, masculinos e femininos. Na vida real todos esses
papéis são representados pelos progenitores. Os psicoterapeutas sabem
mais a respeito dos script "maus" do que sobre os "bons", pois os pri-
meiros são mais dramáticos e as pessoas passam mais tempo falando de-
les. Freud, por exemplo, cita inúmeros casos de perdedores, e dentre os
poucos vencedores descritos em sua obra estão Moisés, Leonardo da
Vinci e ele próprio. Poucos são os vencedores que se dão o trabalho de
descobrir como escolheram esse caminho, enquanto os perdedores ficam,
em geral, bastante ansiosos para saber, podendo então tomar al-
97
guina providência.
Nas seções seguintes trataremos primeiro dos script dos perdedo-
res, onde nosso conhecimento é bastante preciso. Aí o aparato do script*
consiste dos seguintes itens, traduzidos pela criança em imperativos
marcianos.
1) Os pais dizem à criança como acabar sua vida. "Desaparece!"
ou "Morra!", são sentenças de morte. Da mesma forma "Morra
rico". "Você vai acabar como seu pai (alcoólotra)" é um de-
creto de vida. Essa ordem é chamada de desfecho ou maldição.
2) Darão, em seguida, uma ordem negativa injusta que impedirá
a liberação da maldição: "Não me amole!" ou "Não dê uma de
esperto!" ( = Desaparece!) ou "Pare de reclamar!" ( = Morra!).
Essa é a injunção do script ou freador. As injunções são dadas
pelo estado de ego "Pai controlador" ou "Criança louca".
3) Encorajam o comportamento que levará ao desfecho: "Tome um
trago!" ou "Você não vai deixar isto sem troco, vai?". Isso é
chamado de provocação do script ou "come-on". Provém de um
estado de ego "Criança maldosa", ou demômo, no pai, usual-
mente acompanhado de um "ha ha".
4 ) Fornecem também a prescrição para utilizar o tempo enquanto
se espera o momento de entrar em ação. Isto se apresenta sob a
forma de um preceito moral. "Trabalhe duro!" poderá significar
"Trabalhe duro a semana inteira para poder ficar bêbado no sá-
bado à noite". "Cuide de cada centavo!" poderá significar
"Cuide de cada centavo para poder perder tudo de uma vez".
Esse é o slogan do antiscript. e provém do estado de ego
"Pai nutritivo".
5) Além disso, ensinam à criança o que ela terá que saber na vida
real para cumprir o seu script como preparar bebidas, como fa-
zer a contabilidade, como fazer trapaças. Esse é o padrão ou
programa, uma forma de instrução adulta.
6) A criança, por sua vez, tem ímpetos e impulsos que combatem
todo o aparato do script colocado nela por seus pais. "Bata a
porta!" (versus Desapareça), "Seja espertinho", "Tire uma fol-
ga!" (versus Trabalhe duro), "Gaste tudo agora!" (versus Eco-
nomize cada centavo), "Faça errado". Esses são chamados de
impulsos do script ou demónio.
7) Escondida em algum canto está a maneira de liberar-se da mal-
dição. "Você poderá ter sucesso depois dos quarenta". Essa
liberação é denominada de antiscript ou alívio interno. Fre-
quentemente o único antiscript é a morte. "Você terá sua re-
compensa no céu".
Exatamente o mesmo aparato para estruturar o tempo é encontrado
nos mitos e nos contos de fada. O desfecho ou maldição: "Desapareça!"
(João e Maria) ou "Morra!" (Branca de Neve e a Bela Adormecida).
A injunção ou freador: "Não"seja tão curioso!" (Adão e Eva, Pandora).
98
A provocação aame-cn: "Pique seu dedo com um espinho, ha ha" (Bela
Adormecida). O slogan do contra-script: "Trabalhe duro até encontrar o
príncipe!" (Cinderela), ou "Seja boazinha até que ela diga que gosta de
você!" (A Bela e a Fera). O padrão ou programa: "Seja bondoso com os
animais e eles o ajudarão em momentos de necessidade" ( A menina dos
Cachinhos Dourados), O impulso ou demónio: "Vou olhar só uma vez!"
(Barba Azul). O antiscript ou liberação: "Você deixará de ser um sapo
quando ela o jogar contra a parede" (O Sapo que virou Príncipe), ou
"Você será liberado após doze anos de trabalho" (Hércules).
Essa é a anatomia do aparato do script A maldição, o freador, a
forma de provocação dos controles do script e os outros quatro itens po-
dem ser utilizados para combatê-lo. A criança vive num mundo de fanta-
sias, belo, medíocre ou horripilante e acredita principalmente na magia.
Procura assim uma saída mágica, através da superstição e das fantasias.
Quando isso não funciona, ela volta-se para o demômo. Este tem uma
peculiaridade. Quando o demômo na criança diz: "Vou desafiá-la, ha
ha!", o demômo no pai diz: " É exatamente isso que eu quero que você
faça, ha ha". Dessa forma, a provocação e os impulsos do script, o co-
me-on e o demónio, trabalham em conjunto para alcançar a condenação
do perdedor. O progenitor ganha quando a criança perde e ela perde ao
tentar ganhar. Todos esses elementos serão considerados com mais de-
talhes no Capítulo 7.

Notas e referências

l ) A matriz do script foi descrita pela primeira vez por Claude M. Steiner. Veja
seu artigo "Script e Contra-script", Transactional Analysis Bulletin 5:133-135
abril 1966. (Contra-script é o termo que ele utiliza para designar o nosso "an-
tiscript"?) Ver também Steiner, C.M., Games Alcoholics Play, Grove Press,
New York, 1972.
2. Philippe, C.L., Bubu of Montparnasse (com prefácio de T.S. Eliot), Berkeley
Publishing Company, New York, 1957.
3. Algumas dezenas de scripts foram analisados em detalhe nos Seminários de
Análise Transacional de São Francisco. Estes, e outros trabalhados na minha
própria clínica, são os que melhor conheço. Muitos outros analistas de script
aceitam os princípios aqui apresentados com base em sua própria experiência,
1 incluindo ao todo alguns milhares de casos em hospitais, clínicas, escolas, pri-
sões, e também em clínicas particulares.

99
7. O aparato do scr ip t

Para compreender como o script funciona e como lidar com ele no


tratamento será necessário possuir um conhecimento detalhado do apa-
rato do script como é entendido atualmente. Existem ainda algumas
lacunas na nossa visão do seu quadro de referência básico, bem como
algumas incertezas a respeito da sua transmissão, mas nosso modelo
transformou-se em algo bastante sofisticado no curto espaço de dez
anos, desde que sua primeira descrição foi apresentada.1 Naquele tempo
era como o Duryea 1893 de um cilindro, ao passo que agora é seme-
lhante a um Ford Modelo-T bastante avançado.
Resumindo, com base nos exemplos sumários já apresentados, o
aparato consiste de sete itens. O desfecho ou maldição, a injunção ou
freador, a provocação õu come-on juntos controlam o desenrolar do
script em direção ao seu destino e por isso são denominados de controles
do script. Todos são programas instalados antes dos seis anos de idade,
na maioria dos casos. Da mesma forma o antiscript ou liberação, se hou-
ver algum. Posteriormente vêm os slogans do contra-script ou prescrição
e os padrões de comportamento e instruções parentais que começam a
tomar um posicionamento mais firme. O demónio representa a camada
mais arcaica da personalidade (a Criança na criança) e está presente des-
de o início.*

A . O desfecho do scr ip t

Os desfechos que aparecem na prática clínica podem, em geral, ser


reduzidos a quatro alternativas: ser um solitário, um vagabundo, ficar
louco ou cair morto. O vício de drogas ou álcool é a forma mais agradá-
vel de alcançá-los. A criança poderá interpretar a pena através do pen-
samento marciano ou legal, o que lhe traz vantagens. Num caso onde a
mãe dizia a todos os filhos que eles acabariam num hospital, público, to-
dos cumpriram a diretiva. As moças terminaram lá como pacientes e os
rapazes como psiquiatras.
A violência é um tipo especial de desfecho e ocorre em "scripts
histológicos", que diferem de todos os outros porque a moeda corrente é
a carne humana, o sangue e os ossos. É provável que a criança que tenha
visto, causado ou sofrido lesão corporal dolorosa ou derramamento de
sangue seja diferente das outras e jamais volte a ser a mesma. Se os

* Lembramos o leitor uma vez mais que Pai, Adulto e Criança com letras maiúsculas refe-
rcm-se a estados de ego; e pai, adulto e criança com letras minúsculas referem-se a pessoas
reais.

100
pais expõem as crianças a defenderem-se por conta própria desde cedo,
elas, naturalmente, preocupar-se-ão com dinheiro, tornando-se este a
principal moeda do seu script e do desfecho. Se os pais as censuram e
dizem-lhes que caiam mortas, então as palavras serão a moeda do script.
A moeda do script precisa ser diferenciada do tema do script. Os temas
principais dos scripts de vida são iguais aos encontrados nos contos de
fadas: amor, ódio, gratidão, vingança. Qualquer moeda poderá ser utili-
zada para expressar todos esse temas.
A questão central para o análista do script aqui, é: "De quantas
maneiras poderá um progenitor dizer à criança para viver eternamente ou
cair morta?". Poderá transmiti-lo de forma bastante literal, "Vida lon-
ga!", num brinde ou numa prece, ou "Caia morta!", numa discussão. É
difícil imaginar ou admitir a força quase inacreditável que as palavras de
uma mãe têm sobre a criança (ou as de uma mulher sobre seu marido e
vice-versa). Na minha experiência um número considerável de admissões
legítimas em hospitais aconteceu pouco depois de o paciente ter ouvido
de alguém querido (ou mesmo odiado) para cair morto.
Em muitos casos é um dos avós que controla esses desfechos, seja
diretamente seja através do progenitor. A avó poderá salvar o paciente
da sentença de morte de seu pai, oferecendo, em seu lugar, um título de
"sócio do clube da vida". Poderá dar, ainda, um script de Medéia para a
mãe (ou excesso de script), forçando-a a levar os filhos * morte de qual-
quer maneira.
Tudo isso é inserido no Pai da criança e é provável que permaneça
lá para o resto da vida: esperança suave de alguém de que viverá eter-
namente ou uma voz desagradável pressionando-o para mais perto de sua
morte. Às vezes não há animosidade na sentença de morte, apenas futili-
dade ou desespero. Mas uma vez que a criança bebe os desejos da mãe
desde o dia em que nasce, é ela quem toma as decisões pela criança. O
pai poderá concordar ou contradizê-las posteriormente, adicionando o
seu peso à maldição dela ou comutando a sentença.
Os pacientes lembram-se, em geral, de suas respostas infantis às di-
retivas do desfecho, coisas que não pronunciaram em voz alta.
Mãe: "Você é exatamente como seu pai". (Que se divorciou e vive
sozinho num quarto.) Filho: "Bom. Meu pai é esperto".
Pai: "Você vai acabar como sua tia". (A irmã da mãe que está in-
ternada num hospital de doentes mentais ou suicidou-se.) Filha: "Se vo-
cê diz que é assim..."
Mãe: "Caia morta!". Filha: " E u não quero, mas se você diz acho
que vou ter que..."
Pai: "Com o seu temperamento vai acabar matando alguém". F i -
lho: "Bem, se não pode ser você, terá que ser algum outro".
A criança sabe perdoar muito e só toma a decisão de seguir a dire-
tiva depois de dezenas ou mesmo centenas de transações desse tipo.
Uma jovem de uma família muito confusa, onde não recebia nenhum
apoio dos pais, descreveu claramente o dia em que tomou sua decisão
101
final. Quando tinha treze anos seus irmãos a levaram para o celeiro e a
submeteram a toda sorte de proezas sexuais, que ela aceitou para agradá-
los. Quando terminaram, os irmãos começaram a rir dela e a fazer co-
mentários. Decidiram que ela deveria, agora, ou tornar-se uma prostituta
ou enlouquecer. E l a pensou cuidadosamente no assunto o resto da noite
e, na manhã seguinte, havia decidido enlouquecer, o que fez com muita
eficácia, pois permaneceu assim por muitos anos. Sua explicação era
muito simples: " E u não queria ser prostituta".
Apesar do desfecho do script ser conferido ou decretado pelos pro-
genitores, não terá efeito a não ser que aceito pela criança.
Seu discurso de aceitação não terá a ostentação e o polimento de
uma posse presidencial da Madison Avenue, mas ela dirá tão claramente
quanto ousar, pelo menos uma vez: "Quando eu crescer, vou ser como a
mamãe" ( = casar-me e ter filhos), ou "Quando eu for grande vou fazer
o que papai fez" ( = ser morto na guerra), ou "Gostaria de estar morto".
Dever-se-ia perguntar ao paciente: " O que você decidiu fazer com sua
vida quando era pequeno?" Se ele der uma resposta convencional ("Eu
queria ser bombeiro") isso deveria ser esmiuçado com: "O que estou di-
zendo é como você decidiu acabar?" Uma vez que as decisões sobre o
defecho são feitas frequentemente mais cedo do que podemos recordar, o
paciente poderá não ser capaz de dar a resposta desejada, porém esta
poderá ser inferida de algumas de suas aventuras posteriores.

B . A injunção

As injunções da vida real não acontecem por magia, mas dependem


das propriedades fisiológicas da mente humana. Não é suficiente dizer
uma vez "Não coma estas maçãs!" ou "Não abra aquele baú!". Qual-
quer marciano sabe que uma injunção dada desta maneira é realmente
um desafio. Para que uma injunção seja inserida solidamente na mente
da criança, deverá ser repetida com frequência, as transgressões punidas,
embora existam casos excepcionais, como de Crianças submetidas a es-
pancamentos, onde uma única experiência destruidora poderá gravar
uma injunção para a vida inteira.
A injunção é a parte mais importante do aparato do script e varia
em intensidade. Assim, as injunções podem ser classificadas como os jo-
gos em primeiro, segundo e terceiro grau. Cada tipo tem a tendência de
produzir um tipo de pessoa: vencedor, não-ganhador ou perdedor (esses
termos serão explicados com mais detalhe posteriormente. Um não-ga-
nhador é alguém que nem ganha, nem perde, mas consegue apenas em-
patar.) Injunções de primeiro grau (suaves e socialmente aceitáveis) são
diretivas claras reforçadas por aprovação ou desencorajamento. (Você
foi bonzinho e ficou quieto", "Não seja ambicioso demais".) Com estas
ainda é possível tornar-se um vencedor. As injunções de segundo grau
(desonestas e duras) são diretivas tortuosas, reforçadas sorrateiramente

102
por uni tipo de chantagem através de sorrisos sedutores e caretas amea-
çadoras, que é a melhor forma de educar um não-ganhador. ("Não conte
para o seu pai", "Boca fechada!") Injunções de terceiro grau (muito du-
ras e ríspidas) são freadores exagerados, reforçados pelo medo. As pala-
vras tornam-se gritos, as expressões faciais transformam-se em distor-
ções assustadoras e o castigo físico passa a ser maldade. ("Vou fazer
você engolir estes malditos dentes.") Essa já é uma das maneiras mais
seguras de produzir um perdedor.
A- injunção, como o desfecho, é complicada pelo fato de cada
criança ter dois progenitores. Um poderá dizer "Não seja espertinho" e
o outro "Não seja burro". Essas injunções contraditórias colocam a
criança numa posição difícil. Entretanto, a maioria das pessoas que se
casam tem injunções comparáveis, tais como "Não seja espertinho!" e
"Cale a boca ou te arrebento esta maldita cabeça!", que constituem uma
triste pombinação.
Os freadores são implantados numa idade tão delicada que os pais
parecem figuras mágicas para a criancinha. A parte da mãe que distribui
as injunções (seu Pai Controlador ou Criança) é chamada coloquialmente
de "fada-madrinha" se for benevolente, ou de "madrasta" se não for.
Em alguns casos, " a Criança louca da mãe" parece um rótulo adequado.
Da mesma forma o Pai Controlador é chamado de "Gigante v^rde bon-
zinho", "Duende feio" ou " a Criança louca do pai", dependendo do ca-
so.2

C . A provocação

Provocação ou sedução é que cria os libertinos, viciados, crimino-


sos, jogadores e outros scripts perdedores. Para o menino é uma cena
real da Odisséia com um Ulisses vivo, a mãe com a sereia que o atrai pa-
ra a destruição ou Circe que o transforma em porco. Para a menina é o
pai como o Velho Nojento. Nos primeiros anos a provocação inicia-se
como um convite geral para ser perdedor: "Ele é mesmo desajeitado, ha
ha!" ou " E l a é mesmo uma cagona, ha ha!" Em seguida passa para ca-
çoadas e implicâncias mais específicas: " E l e está sempre batendo a ca-
beça, ha ha!" ou " E l a está sempre perdendo as calças, ha ha!". Durante
a adolescência passa-se para transações pessoais: "Veja se presta aten-
ção, nenê!" (acompanhado de uma apalpadela acidental ou propositada),
"Tome um trago", "Agora é a sua oportunidade", "Arrisque tudo, qual
é a diferença?", cada uma delas acompanhada do seu "ha ha!"
A provocação é a voz do Pai sussurrando para a Criança no mo-
mento crítico: Não parar de( pensar em sexo ou dinheiro, não deixar que
eles se vão com aquilo. "Vamos lá, nenê. O que é que você tem a per-
der?". Este é o demónio no Pai e o demónio na Criança responde. Então
o Pai faz uma rápida mudança e Jeder dá com a cara no chão. "Aí vai
você novamente", diz o Pai com júbilo, e Jeder responde: "Ha ha!"

103
com o sorriso que é coloquialmente conhecido como de "comedor de
bosta".
É a provocação que incentiva a dependência nas crianças e para
tanto tem que começar cedo. O progenitor aproveita a ânsia que a crian-
ça tem por proximidade e transforma-a em algo diferente. Quando esse
amor pervertido é fixado transforma-se em dependência.

D. O eletrodo

A provocação origina-se da Criança, do Pai ou da Mãe, PC na F i -


gura 7 de Jeder. Aí atua como um eletrodo "positivo", dando uma res-
posta automática. Quando o Pai na sua cabeça (PC) aperta o botão, Jeder
pula, independentemente das outras partes quererem ou não. Ele diz al-
guma besteira, age desajeitadamente, bebe outro trago ou aposta tudo na
próxima corrida, ha ha ha! A origem dessas injunções nem sempre é cla-
ra, mas estas também são inseridas no PC, onde atuam como um eletrodo
"negativo". Isso impede que Jeder faça determinadas coisas como falar
ou pensar claramente ou então desvia-o do seu caminho quando progride
demais, como com sexo ou sorrisos. Muitas pessoas conhecem o esfria-
mento instantâneo no meio da excitação sexual e observaram o sorriso
que liga e desliga instantaneamente, como se alguém na cabeça da pes-
soa que sorri tivesse apertado o botão. Por causa desses efeitos o PC, o
Pai na Criança, é chamado de eletrodo.

Jeder em criança
Fig. 7 - Origem e inserção das injunções do script

104
O nome eletrodo teve sua origem num paciente chamado Norvil que
permanecia sentado muito quieto e tenso durante as sessões de grupo, a
não ser que alguém falasse com ele. Então ele respondia instantanea-
mente com uma série de chavões cuidadosos ("Até que enfim o Norvil
falou alguma coisa, ha ha!"), e voltava a encolher-se. Logo ficou claro
que era um Progenitor Pai severo em sua cabeça quem o controlava com
um interruptor de desligar o "Fique sentado quieto" e ligar o "Fale".
Norvil trabalhava num laboratório experimental e ele próprio ficou sur-
preso com a semelhança entre as suas próprias reações e a dos animais
que tinham um eletrodo no cérebro.
O eletrodo é o desafio decisivo para o terapeuta. Ele, juntamente
com o adulto do paciente, deverá neutralizá-lo de modo que a Criança
possa obter permissão para viver livre e reagir espontaneamente diante
da programação parental contrária e das ameaças que surgem se desobe-
decer. Isso é bastante difícil com controles mais suaves, mas se a injun-
ção é uma exigência feita por uma feiticeira ou um gigante, cujos traços
estão distorcidos pela cólera, cuja voz invade destrutivamente todas as
defesas da mente infantil e cuja mãe está sempre pronta para espalhar
humilhação e terror no seu rosto e na sua cabeça, haverá necessidade de
uma enorme força terapêutica.

E . Embalagens e coisas

Se uma criança é encurralada por controles contraditórios, poderá


haver uma única saída que lhe permita alguma auto-expressão. E l a é,
então, forçada a esse tipo.de atividade ou resposta, não importa o quão
inapropriada possa ser. Nesse caso, fica evidente às pessoas a sua volta
que ela está reagindo ao que está na sua cabeça e não à situação exte-
rior. Diz-se, então, que ela está dentro de uma embalagem. Se esta se
apóia em algum talento ou habilidade e também num comando de desfe-
cho vencedor, poderá ser uma embalagem de vencedor. Na maioria dos
casos as pessoas em embalagens são perdedoras, pois seu comporta-
mento é não-adaptativo. Uma pessoa que se liberta da embalagem (ou
container, como é chamado por vezes) prosseguirá para agir à sua von-
tade, isto é, fará o que sempre desejou fazer. Se isso, por acaso, for
adaptativo e controlado por alguma racionalidade Adulta, ela poderá
tornar-se uma vencedora, mas se for frequentemente indulgente consigo
mesma, acabará como perdedora. De fato, quando o indivíduo começa a
ser ele mesmo, depois de ter rompido sua embalagem, seu comando de
desfecho determinará se o faz cuidadosamente para ser um vencedor ou
exagera para ser um perdedor. Em alguns casos, entretanto, poderá dei-
xar este comando de desfecho dentro da embalagem juntamente com o
resto do aparato do script programado pelas figuras parentais e aí será
realmente ele próprio e poderá decidir o seu destino. Mas fica difícil pa-
ra Jeder saber, sem a avaliação objetiva de alguém de fora, se ele

105
é realmente uma pessoa independente ou liberada ou apenas um rebelde
zangado ou, talvez, até mesmo um esquizofrénico que se livrou de sua
embalagem para cair dentro de uma garrafa, tampando-a ou não após ter
entrado.

F . A prescrição

O Pai "natural" na mãe e no pai (distinto do Pai controlador) é


biologicamente programado numa certa medida e é naturalmente nutriti-
vo e protetor. Ambos os progenitores, independentemente de seus pro-
blemas ulteriores, desejam o bem de Jeder. Poderão estar mal-informa-
dos, mas como pais "naturais" têm boas intenções ou são, pelo menos,
inofensivos. Encorajam Jeder de maneira a fazer com que ele seja feliz e
bem-sucedido, segundo a visão do mundo e a teoria de vida deles.
Transmitem-lhe, a partir dos avós, prescrições que são comumente a
síntese do quadradismo terráqueo: "Trabalhe dure!", "Seja uma boa
menina!", "Economize o seu dinheiro!" e "Seja sempre pontual!" são
exemplos comuns da classe média. Cada família, entretanto, tem suas
especialidades: "Não coma amidos!", "Nunca sente numa privada pú-
blica!", "Tome um laxante todos os dias!" ou " A masturbação enfra-
quece a espinha dorsal!" 3 são exemplos disso. "Nunca tente descobrir
um segredo frontalmente!" é um dos melhores porque possui uma ca-
racterística Zen. 'Usado tanto simbólica como literalmente transforma-se
em útil linguagem marciana, podendo ser valioso em momentos inespe-
rados.
Uma vez que a prescrição vem do Pai protetor e os controles do
script do Pai controlador ou da Criança louca, há muito espaço para as
contradições. Estas são de dois tipos, interna e externa. Uma contradição
interna provém de dois estados de ego diferentes do mesmo progenitor.
O Pai do progenitor na parte de cima diz: "Economize seu dinheiro" e
sua Criança, na parte de baixo, diz "Aposte tudo na última cartada". Se
um dos progenitores diz: "Economize seu dinheiro" e o outro dá a dire-
tiva de gastar o dinheiro no jogo, esta será uma contradição externa.
Os controles do script são inseridos e surtem efeito desde cedo,
enquanto os slogans do contra-script só têm significado posteriormente.
Jeder entende a proibição "Não mexa aí" aos dois anos de idade, mas só
entenderá o preceito "Economize o seu dinheiro" quando estiver na
adolescência e precisar dele para comprar coisas. Assim, seus controles
do script lhe são dados por uma mãe que parece uma figura mágica a
seus olhos jovens e têm o poder e durabilidade da maldição de uma feiti-
ceira. As prescrições são dadas por uma dona de casa trabalhadora e be-
nevolente e são meramente aconselhadoras.
Essa é uma disputa desigual na qual os controles estão fadados a
ganhar se houver um conflito frontal, a não ser que algum outro ele-
mento seja introduzido, como, por exemplo, um terapeuta. Uma difi-
106
culdade adicional é que o script expressa as coisas como elas são: as
pessoas atuam realmente de forma inadequada e a criança sabe disso,
enquanto o contra-script é, ém geral, direto, no que tange à experiência
dela. A criança poderá ou não ter visto alguém alcançar a felicidade tra-
balhando duro, sendo uma boa menina, economizando dinheiro ou sendo
pontual, não colhendo amidos, evitando os banheiros públicos, tomando
laxantes e não se masturbando.
A alternância entre script e contra-script explica algo que fre-
quentemente desorienta os pacientes quando o terapeuta afirma que a sua
confusão começou na primeira infância. "Então como explicar que du-
rante todo o curso secundário eu fui normal?", perguntam eles. A res-
posta é que no curso secundário eles estavam seguindo o contra-script e
então aconteceu algo que causou o "desencadeamento do script". Essa é
uma resposta do tipo "pelo menos", não resolve o problema mas indica
uma direção. Uma tentativa de satisfazer um mau script e um contra-
script bem-inteneionado simultaneamente poderá levar a alguns com-
portamentos estranhos, como no caso a jovem cujo Pai zangado do pro-
genitor lhe disse: "Caia morta!", enquanto o Pai ansioso da mãe dizia
sempre para ela usar galochas para não molhar os pés r Quando a jovem
se atirou da ponte estava usando as galochas. (Ela sobreviveu.)
O contra-script determina o estilo de vida da pessoa e o script
controla o seu destino final. Se ambos forem harmoniosos poderão pas-
sar despercebidos nos seus detalhes, mas se estiverem em conflito talvez
tragam surpresas e forneçam manchetes para os jornais. Assim, o Diáco-
no Trabalhador da Igreja poderá terminar sendo o Presidente do Conse-
lho, aponsentar-se depois de trinta anos ou ser Preso por Peculato e a
Dona de Casa Devotada acaba como Mãe do Ano, celebra as Bodas de
Ouro ou pula do Telhado de um Edifício. Parece que existem dois tipos
de pessoas no mundo: pessoas reais e pessoas de plástico, como diziam
os hippies. As reais tomam suas próprias decisões e as de plástico são
dirigidas pelos biscoitinhos da sorte*.
A Teoria dos Biscoitinhos da Sorte sobre a vida humana diz que
cada criança pode escolher dois biscoitinhos da travessa familiar: um
quadrado e outro pontudo. O quadrado é constituído de um slogan do ti-
po "Trabalhe duro!" ou "Seja persistente!", enquanto o pontudo é um
coringa do script tal como "Esqueça sua lição de casa", "Aja desajeita-
damente" ou "Caia morto". Entre os dois, a não ser que sejam abando-
nados, o estilo de vida e o destino final estarão traçados.

G . Padrões Parentais

Para fazer-se uma dama, começa-se com a avó e para fazer-se um

* Biscoitinhos da sorte referem-se aos biscoitinhos chineses oferecidos após as refeições, que
contêm bilhetinhos falando do futuro das pessoas. (N. do T.)

107
esquisofrênico, também se inicia com a avó. Zoé (como será chamada
a irmã de Jeder) só poderá ser uma dama se sua mãe ensinar-lhe o que
ela deve saber. Deverá aprender desde cedo por imitação, como sorrir,
andar e sentar, como faz a maioria das jovens, e mais tarde, através de
instruções verbais, como vestir-se, como ser agradável com as pessoas
que a rodeiam e como dizer " n ã o " graciosamente. O pai poderá ter algo
a dizer sobre esses assuntos, mas lidar com o pai também é uma questão
de instrução feminina. O pai poderá impor controles mas é a mãe que
fornece o padrão e as instruções do Adulto para executá-las. A matriz do
script de uma bonita dama chamada Zoé é apresentada na Figura 8. O
fato de Zoé fazer carreira como uma dama ou rebelar-se contra o sistema
e suas restrições dependerá tanto das exigências do script como de sua
própria decisão. E l a poderá ter permissão para beber ou fazer sexo mo-
deradamente, porém se se tornar de repente mais ativa, será isto libera-
ção do seu script ou apenas aceitar a provocação para rebelar-se? No
primeiro caso seu pai diria (como dizem os marcianos): "Não, não, nada
tão exagerado!" e no segundo (secretamente para si mesmo): "Agora
ela está mostrando algum entusiasmo, ha ha! Não há nada de errado com
a minha menina!"
Pai Mãe

Fig. 8 - Uma dama bonita


Por outro lado, se a mãe de Zoé não senta direito, é desajeitada em
sua feminilidade, provavelmente a filha será igual. Isso acontece muitas
vezes para as meninas cujas mães são esquizóides, ou que morreram
quando as filhas eram pequenas, privando-as de um modelo a seguir.
"Quando me levanto de manhã não consigo decidir nem o que vou ves-
tir", disse uma esquizofrênica paranóide cuja mãe faleceu quando ela ti-
nha quatro anos de idade.
No caso do menino, o script e o padrão tendem a ter maior influên-
cia na escolha de sua carreira. Como criança Jeder poderá dizer: "Quan-
do crescer quero ser advogado (policial, ladrão) como o papai". Isso,
108
entretanto, nem sempre é verdadeiro, dependendo da programação da
mãe que diz: "Envolva-se (não se envolva) em algo muito arriscado com
bastante ação e rapidez como (ao contrário) seu pai". Esses controles,
como todos os controles do script, referem-se não tanto à escolha de
uma determinada profissão, mas mais a tipos especiais de transações
(neste caso honestas ou desonestas, perigosas ou seguras etc.). 4 Favorá-
veis ou não, o padrão será fornecido pelo pai.
Jeder poderá, aparentemente, contrariar os desejos da mãe quando
seguir a profissão do pai. Isso poderá ser uma oposição verdadeira ou
antiscript Há, entretanto, três mães: Pai, Adulto e Criança. Ele poderá
estar contrariando os desejos verbalizados do Pai ou do Adulto dela ao
obedecer ao jubilo evidente mas não verbalizado de sua Criança. Os
controles surtem efeito quando o menino pequeno nota a atenção enbe-
vecida e o sorriso fascinado da mãe ao ouvir o relato do pai sobre sua
última aventura. O mesmo se aplica aos controles do pai sobre Zoé. O
Pai e Adulto dele poderão continuamente preveni-la contra os perigos de
engravidar, mas, ao mesmo tempo, demonstrar interesse e prazer infantis
quando isso acontece a alguma das colegas dela. Essa é uma provocação
que ela provavelmente aceitará, em particular se a mãe forneceu o pa-
drão e a própria Zoé foi concebida fora da relação de matrimonio.
As vezes a matriz é invertida, mas na maioria dos casos os contro-
les provém do progenitor do sexo oposto e o padrão origina-se no pro-
genitor do mesmo sexo. O padrão é a manifestação última, a trilha co-
mum final para todas as diretivas do script.

H . O demónio
O demónio é o bufão da existência humana e o coringa da psicote-
rapia. Por melhor que Jeder estabeleça seus planos, o demónio poderá
aparecer no momento crítico e atrapalhá-los, comumente com um sorriso
e um "ha ha". Por mais que o terapeuta planeje a sua ação terapêutica, o
paciente sempre estará por cima. Quando o terapeuta achar que está com
os quatro ases, Jeder utiliza o seu coringa e o demónio ganha a aposta.
Então ele dá o fora alegremente deixando o terapeuta à procura de expli-
cações para o que aconteceu.
Mesmo que estiver preparado, ele pouco poderá fazer. O médico
poderá saber com antecedência que quando Jeder conseguir chegar com
a pedra no topo da montanha o diabo o distrairá e a pedra rolará nova-
mente montanha abaixo. Talvez outros também saibam disso, mas o de-
mónio estará atento para manter Jeder afastado de qualquer interferência.
É por essa razão que os pacientes começam a faltar às sessões, isolar-se
e, se alguém os pressiona, eles simplesmente *se afastam. Poderão retor-
nar quando tiverem seu comportamento de Sísifo esgotado, mais triste,
porém não mais sábio, nem mesmo consciente deste seu júbilo.
O demónio aparece primeiramente numa cadeira alta quando Jeder
espalha a comida pelo chão com um lampejo de alegria, esperando

109
pela reação dos pais. Se estes demonstrarem simpatia isso continuará
com diabruras posteriores e, talvez com gozações e piadas. Se for com-
batido, ficará de tocaia pronto para emergir num momento de distração e
desordenar a sua vida como o fez originalmente com a comida.

I . Permissão

As negativas são, em geral, pronunciadas de forma clara e alta co-


mo uma imposição vigorosa, enquanto as afirmativas caem como pingos
de chuva no córrego da vida, silenciosamente, ocasionando uma ténue
ondulação. "Trabalhe duro!" é encontrado nos cadernos escolares, mas
"Pare de vagabundear!" é mais provável de ser ouvido em casa. "Seja
pontual" é um modo educativo mas "Não chegue atrasado!" é mais ou-
vido na vida real. "Não seja burro!" é mais comum do que "Seja inteli-
gente!"
Com isso se percebe que a maior parte da programação é negativa.
Todo progenitor enche a cabeça de seus filhos com tais restrições. Dá-
lhes também permissões. As proibições tolhem o adaptar-se às circuns-
tâncias (não-adaptativas), enquanto as permissões dão livre escolha. Es-
sas não causam problemas para a criança, uma vez que não estão ligadas
a compulsões. As permissões são meras licenças, como, por exemplo,
uma licença de pesca. Um menino que possua uma licença de pesca não
é obrigadp a pescar. Poderá usá-la ou não e irá pescar quando tiver
vontade QU quando as circustâncias o permitirem.
Convém ressaltar que ser bonito (como ser bem-sucedido) não é
uma questão de anatomia, mas sim de permissão parental. A anatomia
faz com que as pessoas sejam graciosas ou fotogênicas, mas somente o
sorriso paterno poderá fazer com que a beleza irradie dos olhos de uma
mulher. As crianças fazem as coisas para alguém. O menino é inteligen-
te, atlético ou bem-sucedido para a mamãe e a menina é inteligente, bo-
nita ou fértil para o papai. Da mesma maneira o menino é burro, fraco ou
desajeitado para seus pais e a menina é burra, feia ou fria para os dela,
se é isto que eles desejam. Devemos acrescentar que os filhos têm que
aprender com alguém se quiserem ter um bom desempenho. Fazer para
alguém e aprender com alguém é o real significado do aparato do script.
Como já foi observado, as crianças, em geral, fazem para o progenitor
do sexo oposto e aprendem com o do mesmo sexo.
As permissões constituem o principal instrumento terapêutico do
analista de script porque oferecem a única chance de alguém de fora l i -
berar o paciente das maldições que lhe foram impostas por seus pais.
O terapeuta dá permissão à Criança do paciente dizendo: "Você pode
fazer tal coisa" ou "Você não é obrigado a fazer tal coisa". Ambos di-
zem ao progenitor: "Deixe-o em paz*'. Assim, existem permissões posi-
tivas e negativas. Numa permissão positiva ou licença, "Deixe-o em
paz!" significa "Deixe-o fazer!", que interrompe a injunção. Na per-

110
missão negativa, ou liberação externa, significa: "Pare de pressioná-lo a
fazer", eliminando a provocação. Algumas permissões podem ser consi-
deradas das duas formas, especialmente no caso do antiscript. Quando o
Príncipe beija a Bela Adormecida na Floresta, ele lhe oferece a licença
para despertar e uma liberação da maldição da feiticeira.
Uma das permissões mais importantes é a licença para deixar de
agir inadequadamente e começar a pensar. Muitos pacientes em idade
avançada jamais tiveram um único pensamento independente desde sua
infância e esqueceram a sensação e o significado do pensar. Com uma
permissão dada no momento apropriado, entretanto, conseguem fazê-lo,
e então ficam encantados quando dizem em voz alta, aos sessenta e cin-
co ou setenta anos de idade, que fizeram a primeira observação inteli-
gente da sua vida adulta. Às vezes é necessário desfazer o trabalho de
terapeutas anteriores para conseguir-se dar ao paciente permissão para
pensar. Alguns deles passaram anos em clínicas ou hospitais para doen-
tes mentais, onde a mais leve tentativa de pensar independentemente es-
barrava com uma poderosa resistência por parte do pessoal especializa-
do. Foram ensinados que pensar era, na realidade, um pecado chamado
de "intelectualização" que eles deveriam reconhecer de imediato e pro-
meter nunca mais cometer.
Muitos vícios e obsessões estão apoiados em provocações paren-
tais. "Não pare de consumir drogas (ou você pode parar se voltar para
casa e pedir dinheiro)", diz a mãe de um viciado em heroína. "Não pare
de pensar sobre sexo", diz o progenitor de uma libertina ou ninfomanía-
ca. O conceito de permissão como instrumento terapêutico foi iniciado
por um jogador que disse: " E u não preciso que as pessoas me digam pa-
ra parar de jogar. Preciso que alguém me dê permissão para parar, pois
dentro da minha cabeça uma voz diz que não sou capaz de fazê-lo".
A permissão faz com que Jeder seja flexível ao invés de reagir com
padrões fixos congelados por slogans e controles. Isso nada tem a ver
com "uma educação permissiva", uma vez que também esta está repleta
de imperativos. As permissões mais importantes são a de amar, mudar e
fazer as coisas bem-feitas. Uma pessoa que tem permissão é tão fácil de
distinguir quanto aquela que está toda enrrascada. "Ele, sem dúvida, tem
permissão para pensar", " E l a certamente tem permissão para ser bonita"
e "Eles têm, com certeza, permissão para divertir-se", são expressões
marcianas de admiração.
Uma das fronteiras da análise do script é a continuação do estudo das
permissões, primeiramente através da observação do movimento dos
olhos das crianças de tenra idade. Em algumas situações a criança olha
lateralmente para seus pais para verificar se tem "permissão" para fazer
determinada coisa. Hm outros casos ela parece ter "liberdade" para se-
guir suas próprias inclinações sem consultá-los. Tais observações, se
cuidadosamente avaliadas, poderão resultar numa distinção significativa
entre "permissões" e "liberdades".

111
J . A liberação interna
O quebra-encanto ou liberação interna é o elemento que suspende a
injunção, libertando a pessoa de seu script de modo que ela possa reali-
zar suas aspirações autónomas. É uma "auto-destruição" pré-estabeleci-
da óbvia em alguns scripts, mas terá que ser procurada ou decodificada
nos outros, à semelhança dos pronunciamentos do oráculo de Delfos,
que tinha função semelhante na Grécia Antiga. Pouco se conhece sobre
o assunto do ponto de vista clínico, pois as pessoas procuram tratamento
exatamente porque não podem reconhecê-lo por si sós. Por exemplo, no
script "Esperando pelo rigor mortis" ou " A Bela Adormecida", a pa-
ciente pensa que será libertada de sua frigidez quando encontrar o Prín-
cipe das Maçãs Douradas e poderá achar que ò terapeuta é o tal Prínci-
pe. E ele recusa a honra, não só por razões éticas mas também porque,
quando o terapêuta anterior (não-autorizado) assumiu a tarefa, suas Ma-
çãs Douradas transformaram-se em poeira.
Às vezes o quebra encanto* é meramente irónico. É uma situação
comum no script do perdedor: " A s coisas melhorarão depois que você
morrer".
A liberação interna poderá estar centrada em acontecimentos ou no
tempo. "Quando você encontrar um Príncipe", "Depois que você morrer
lutando" ou "Depois que você tiver três filhos" são antiscripts centra-
dos em acontecimentos. "Quando você passar da idade em que seu pai
morreu" ou "Quando você tiver completado trinta anos na empresa" são
centrados no tempo.
Segue-se um exemplo de como a liberação interna aparece na prá-
tica clínica.

Chuck

Chuck era um clínico geral numa área isolada das Montanhas Ro-
chosas. Não havia outro médico nas redondezas. Ele trabalhava noite e
dia, mas por mais que trabalhasse não conseguia ganhar o suficiente para
sustentar sua família numerosa, e por isso estava sempre devendo dinhei-
ro ao banco. Durante muito tempo colocou anúncios nas revistas médi-
cas procurando por um sócio que pudesse aliviá-lo, mas insistia que as
pessoas que se apresentavam não eram adequadas. Fazia operações ci-
rúrgicas nos campos, casas e hospitais e, às vezes, no alto de penhascos.
Era muito engenhoso e estava quase que totalmente esgotado. Veio para
a terapia juntamente com a esposa, pois estavam tendo problemas conju-
gais e sua pressão arterial estava subindo.
• Por fim encontrou um hospital universitário próximo que oferecia
bolsas para clínicos gerais que desejavam tornar-se especialistas. Aí en-
tão encontrou alguém que pudesse substituí-lo como médico rural.

* No original, spellbrcaker. (N. do T.)

112
Desistiu de seu trabalho complexo e lucrativo e descobriu que tinha um
patrimônio suficente para sustentar sua família enquanto se estabelecia
como residente de cirurgia recebendo um pequeno auxílio.
" E u sempre desejei isto", disse ele, "mas nunca pensei que pode-
ria livrar-me de meu Progenitor Pai pressionador até que sofresse um
acidente coronário. Mas não sofri o acidente coronário e este é o mo-
mento mais feliz da minha vida"
É evidente que seu quebra-encanto era terminar com um problema
coronário e pensava que esta era a única forma de sair da enrascada.
Com a ajuda do grupo conseguiu livrar-se de seu script com boa saúde.
Chuck ilustra de forma relativamente simples e clara a atuação de
todo o aparato do script, como ilustrado na "matriz do script*' da Figura 9.
Seu contra-script vinha de ambos os progenitores: "Trabalhe duro!" Seu
pai deu-lhe o padrão de um médico trabalhador. A injunção da mãe era:
"Nunca desista. Trabalhe duro até cair morto". Seu pai, porém, deu-lhe
o quebra-encanto: "Se você tiver um problema coronário poderá descan-
sar, ha ha!" O seu tratamento permitiu penetrar naquela parte do seu cé-
rebro ou mente a partir da qual todas essas vozes enviavam suas direti-
vas. A injunção foi então suspensa, dando-lhe permissão: "Você pode
descansar sem ter problemas coronários". Quando a permissão conse-
guiu transpor todas as carapaças e artefatos que protegiam o aparato do
script, interropipeu-se a maldição.
Pai Mãe

Fig. 9 - Um vencedor que trabalha duro


Observe que era inútil dizer-lhe: "Se continuar assim terá um pro-
blema coronário". (1) Ele tinha bastante consciência dessa ameaça, e re-
cordá-la apenas o tornava ainda mais infeliz, pois (2) desejava um pro-
blema coronário que o libertaria de alguma forma. O de que necessitava
113
não era de ameaças, nem de ordens (já as tinha em número suficiente
dentro da cabeça), mas sim da licença que o liberasse dessas ordens; e
foi o que conseguiu. Deixou, então, de ser uma vítima de seu próprio
script, tornando-se seu próprio mestre para fazer o que desejava. Conti-
nuava trabalhando duro e seguindo o padrão médico de seu pai, mas não
mais guiado pelç script no sentido de trabalhar em excesso, nem compe-
lido a cair morto. Assim, aos cinquenta anos de idade, tornou-se livre
para realizar as aspirações autónomas de sua própria escolha.

K . O equipamento do scr ip t

O equipamento do script é a base para a construção do aparato do


script, um conjunto de ferramentas em parte fornecida pelos progenitores
e em parte pela própria criança.

Clementine

Clementine estava deprimida por uma relação amorosa infeliz. Te-


mia ser franca com seu amante porque poderia perdê-lo. Por outro lado
tinha medo de perdê-lo se não fosse franca. Na verdade não havia nada
de sinistro nisso. Não queria que ele soubesse o quanto estava realmente
apaixonada. O conflito tornava-a frígida e às vezes apavorada. Quando
faiava sobre o assunto sentia-se tão confusa a ponto de perder a cabeça.
O que iriam dizer seus pais? Bem, seu pai diria: "Vá devagar. Não
perca a cabeça". E sua mãe?: "Ele está se aproveitando de você. Não se
ligue muito a ele, mais cedo ou mais tarde ele a deixará. Você não é
bastante boa para ele. Ele não é suficientemente bom para você". E la
prosseguiu contando uma aventura.
Quanto tinha cinco anos de idade um tio seu, adolescente, éxcitou-
se sexualmente com ela, fazendo com que Clementine sentisse o mesmo.
Jamais contou isso a seus pais. Um dia, quando ela estava tomando ba-
nho, seu pai disse-lhe que era muito engraçadinha. Havia visitas em casa
e ele levantou-a nuazinha para que as pessoas a vissem. O tio sexual-
mente excitado era uma delas. Qual foi sua reação? "Quero-esconder-
me, quero esconder-me. Meu Deus, vão descobrir o que andei fazendo".
Como se sentiu em relação ao seu pai por ter feito isso? "Tinha vontade
de dar-lhe um pontapé no pênis. E u sabia como era um pênis pelas ere-
ções do meu tio". Havia algum "ha ha"? "Sim, bem no fundo havia. E u
tinha um segredo e, pior que tudo, sabia que gostava, por sob todos os
outros sentimentos".
Dessas reações Clementine havia construído um scripr. ter casos de
amor apaixonantes e depois ser abandonada. Juntamente com isso ela
também desejava casar-se, permanecer casada e ter filhos.
1) Havia dois slogans de contra-script provindo^do seu pai: "Vá
devagar" e "Não perca a cabeça". Estes coincidiam com
114
suas aspirações de casar-se e criar uma família.
2) Havia cinco injunções da mãe, todas condensadas em "Não se
ligue a ninguém".
3) Havia uma forte sedução para ser apaixonada e erótica vinda de
seu tio e reforçada pela provocação da nudez por parte do pai.
4) Essas seduções e provocações de demónios Parentais reforça-
ram o seu próprio demónio no decorrer da sua vida.
5) Havia a implicação vigorosa de uma liberação internalizada: o
Príncipe com as Maçãs de Ouro Familiar — diferente do papai;
se ela conseguisse encontrá-lo!
O interessante é que tudo isso emergiu em uma sessão. Como al-
guém observou, ela estava bastante feliz de exibi-lo para que todos
vissem.

L . Aspirações e conversas

Surpreendido no emaranhado do seu aparato do script, Jeder tem


suas próprias aspirações autónomas. Estas aparecem, em geral, nas suas
fantasias nas horas de lazer ou nas alucinações hipnagógicas antes de
adormecer: os feitos corajosos que deveria ter realizado pela manhã ou
as cenas tranquilas que espera viver mais tarde. Todos os homens e mu-
lheres têm seus jardins secretos cujos portões defendem da invasão pro-
fana do populacho. São retratos visuais do que fariam se pudessem es-
colher de acordo com sua vontade. Os afortunados encontram o tempo, o
lugar e a pessoa certos e o realizam enquanto os demais precisam pe-
rambular tristonhamente fora de suas próprias paredes. É disso que trata
o presente livro: o que acontece fora dessas paredes, as transações ex-
ternas que ressecam ou umedecem as flores do lado de dentro dos muros.
O que as pessoas desejam fazer é mostrado nos retratos visuais, o
cinema doméstico que passa dentro das cabeças. O que realmente fazem
é decisivo pelas vozes, pelos golpes duros no diálogo interno. Cada
sentença pronunciada e cada decisão de script é resultado de tal diálogo:
Mamãe diz e Papai diz e o Adulto diz que é melhor você..., enquanto a
Criança cercada dessa forma tenta ultrapassar a barreira para conseguir o
que deseja. Ninguém poderá conhecer a quantidade infinita de diálogos
que foram armazenados nas cavernas obscuras da mente. Aí estão as
respostas completas para as perguntas com as quais as pessoas jamais
sonharam. Mas se o botão certo for apertado, às vezes o que jorra é pura
poesia.
Agarre seu dedo indicador direito com sua mão esquerda. O que
estará sua mão dizendo a seu dedo e o que tem este a dizer? Se você o
fizer de maneira addquada, logo ouvirá uma conversa animada e signifi-
cativa entre os dois. A parte surpreendente é que isso acontece sempre,
centenas de vezes. Se você está resfriado e com o estômago embrulhado,
o que diz o seu estômago para o seu nariz congestionado? Se você

115
está sentado com o pé balançando, o que tem o seu pé a dizer-lhe hoje?
Pergunte e ele responderá. Q diálogo está ali, dentro de sua cabeça. Tu-
do isso foi descoberto ou, peio menos, trazido à luz pelo criador da tera-
pia da Gestalt, F . S. Perls. 5 Da mesma forma, todas as suas decisões são
feitas por quatro ou cinco pessoas em sua cabeça, cujas vozes você pode
não reconhecer se for demasiado orgulhoso para tomar conhecimento
delas, mas continuarão presentes se quiser ouvi-las. Os analistas do
script aprendem a amplificar e a reconhecê-las, e esta é um parte impor-
tante da sua terapia.6
O objetivo da análise do script é livrar Jeder e Zoé para que eles
possam abrir o jardim de suas aspirações ao mundo. Isso é conseguido
ao se transpor a Babel que existe em suas cabeças até que a Criança pos-
sa dizer: "mas isto é o que desejo fazer e prefiro fazê-lo à minha manei-
ra .

M. Vencedores

Os vencedores também são programados. Em vez de uma maldição


há uma bênção: "Vida longa!" ou "Seja um grande homem!". A injun-
ção é adaptativa, em vez de limitadora: "Não seja egoísta!" e a provoca-
ção é "Bom trabalho!" Com esses controles benevolentes e todas as suas
permissões ainda há o seu demónio para combater, movendo-se sorratei-
ramente nas cavernas sombrias da mente primai. Se esse demónio for um
amigo em vez de inimigo, então ele estará feito.

N. Todos têm um scr ip t ?

Nò momento presente não há como responder a esta pergunta com


algum grau de certeza, mas é indiscutível que todos são programados em
alguma medida desde os primeiros anos. Como foi mencionado ante-
riormente, algumas pessoas podem tornar-se autónomas por circunstân-
cias externas drásticas, outras por reorganização interna e outras ainda
através da utilização do antiscript. A chave está na permissão. Quanto
mais permissões Jeder tiver, menos ele estará preso ao seu script. Da
mesma forma, quanto mais severamente os controles do script forem re-
forçados, mais preso ele estará ao seu script. É provável que a raça hu-
mana, como um todo, forme uma curva. Numa das extremidades estão as
pessoas que se tornaram autónomos de alguma forma e na outra as que
estão presas ao script. A maioria estará no espaço intermediário, sujeita
às mudanças circunstanciais ou de pontos de vista. Dentre as que estão
presas ao script, distinguimos dois tipos. Pessoas guiadas pelo script são
aquelas que têm muitas permissões, porém precisam cumprir as exigên-
cias dele antes de poder desfrutar das permissões. Um exemplo é a pes-
soa que trabalha muito, mas que pode divertir-se no seu tempo livre. As

116
que são dominadas pelo script possuem poucas permissões e devem usar
a maior parte do seu tempo cumprindo-o a qualquer preço. É o caso do
alcoólatra ou do viciado em drogas que necessita chegar rapidamente à
ruína. Estes constituem as vítimas dos scripts "hamárticos" ou trágicos.
Entretanto, são raras as pessoas que não ouviram em algum momento da
sua vida a voz do demômo em sua cabeça dizendo-lhes que comprem,
quando na verdade deveriam vender, que fiquem quando seria melhor ir-
se ou que falem quando deveriam calar-se.7

O. O a n t is cr ip t

Há pessoas que se rebelam contra seus scripts, fazendo, aparente-


mente, o oposto do que se "esperaria" que fizessem. Exemplos comuns
são o adolescente "rebelde" ou a mulher que diz " A última coisa que
desejo é ser igual à minha mãe". Esses casos foram avaliados cuidado-
samente, uma vez que existem várias possibilidades.
1) Poderão ter vivido até então no seu contra-script e a aparente
rebelião é uma mera "erupção do script".
2) Inversamente, poderão ter estado em seu script e mudado para o
contra-script.
3) Poderão ter encontrado o quebra-encanto, liberando-se do seu
script.
4) Poderão ter diretivas de script diferentes vindas de cada proge-
nitor ou de dois conjuntos parentais diferentes e estão passando
de um piara o outro.
5) Poderão estar seguindo uma diretiva especial do script que or-
dena a rebelião.
6) A pessoa poderá ser um "fracasso de script", isto é, desistiu de
cumprir as diretivas do script. Esta é a causa de muitas depres-
sões e colapsos esquizofrênicos.
7) A pessoa poderá ter-se livrado "saindo do script" através de
seus próprios esforços ou com o auxílio da psicoterapia.
8) Isso deverá ser claramente diferenciado do "entrar, no antis-
cript". As várias alternativas enfatizam o quão meticoloso ne-
cessita ser um analista de script (e o paciente) para compreen-
der corretamente a origem de certas mudanças comportamentais.
Um antiscript assemelha-se bastante ao que Erikson chama de "di-
fusão de identidade".8 Se compararmos o script a um cartão perfurado
de computador o antiscript é alcançado ao colocarmos o cartão ao con-
trário. E uma analogia grosseira, mas serve para ilustrar o que queremos
dizer. Onde a mãe diz "Não beba", Jeder bebe. Onde ela diz "Tome um
chuveiro diariamente", ele não o faz. Onde ela diz "Não pense", ele
pensa, e se ela diz "Estude bastante", ele^abandona a escola. Em resu-
mo, Jeder é meticulosamente desafiador, mas como precisa consultar o
seu programa para saber, com precisão, como e quando sê-lo, ele é
117
tão programado pela desobediência às instruções quanto seria se obede-
cesse a todas elas. Dessa forma, onde a "liberdade" é de fato desafio,
constitui tão somente uma ilusão. Ao inverter á programação, Jeder con-
tinua programado. Tal inversão, virar o cartão em vez de rasgá-lo, é
chamada de contra-script e este oferece um campo fértil para estudos
adicionais.

P. Sumário

O aparato do script de um perdedor consiste de injunções, provo-


cações e uma maldição. Estes constituem os controles do script e encon-
tram-se firmemente implantados aos seis anos de idade. Para combater
essa programação as pessoas têm o demónio interno e, às vezes, a libe-
ração interna, mais tarde passam a compreender os slogans que fornecem
o contra-script. No conjunto, o indivíduo estará aprendendo padrões
de comportamento que servem tanto ao script como ao contra-script.
Um vendedor tem o mesmo aparato, mas a programação é mais adap-
tativa e ele é, em geral, mais autónomo por ter mais permissões. Em
todos os seres humanos, entretanto, o demónio persiste .trazendo prazer
ou dor súbitos. ._
Convém observar que os controles do script são parâmetros ou
censuras que simplesmente estabelecem limites para o que Jeder pode
fazer, enquanto que os padrões de comportamento aprendidos de,seus
pais, inclusive os seus jogos, indicam como ele poderá estruturar seu
tempo. Dessa forma, o script constitui ura plano completo de vida, ofe-
recendo tanto limites como estruturas.

Notas e referências

1. Berne, E., Transactional Analysis in Psychotherapy, loc. cit.


2. A boa madrinha e a mãe-feticeira, "tipo eletrodo" que introjetam a partir de
transações e observações introspectivas, são facilmente reconhecíveis quando
associadas aos bons e maus objetos postulados por Melanie Klein com base psi-
canalítica, bem como às elaborações que Fairbairn apresentou dos conceitos
Kleinianos. De fato, Fairbairn é uma das melhores pontes heurísticas entre a
análise transacional e a psicanálise.
Klein, M., The Psychoanalysis ofCMdren, Hogarth Press, London, 1932.
Fairbairn, W.R.D., The Object-Relàtions Theory of Personality, Basic Books.
New York, 1954.
Tudo isso é desapontador do ponto de vista literário. Traz uma confrontação
infeliz com a frase "cada criança tem uma boa madrinha em sua alma" da auto-
ria de Wordsworth e Francis Thompson, e teria que ser modificada neste senti-
do para incluir mentores menos benevolentes.
118
Ver Sharpe, E.F., "Francis Thompson: A Psycho-Analytical Study" em seus
Collected Papers on Psycho-Analysis, Hogarth Press, London, 1950.
3. Cf. Berne, E., "The Problem of Mastuibation", Diseases ofthe Nervous System
10:3-7,1944.
4. Cf. Berne, E., "Concerning the Nature of Diagnosis", International Record of
Medicine 165:283-292, 1952, As diferenças entre os tipos de transações que se
dão entre mecânicos, quando comparadas com as do fazendeiros, aparecem em
seus rostos. Como, presumivelmente, eles nascem com a mesma variedáde de
nervos e músculos faciais, as diferenças serão devidas a algum tipo de "eletro-
do" no seu sistema nervoso centrai. Num caso o eletrodo diz: "Pareça alerta" e
no outro "Espere para ver", e estes slogans descrevem os tipos de transações
de que eles participam.
5. Perls, F. S., Gestalt Therapy Verbaúm (J. O. Stevens, ed.), Real People Press,
Lafayette, Califórnia, 1969.
6. Cf. Shapiro, S.B., "Transactional Aspects ofEgo Therapy", American Journal
of Psychology 56:479-498,1953.
7. E claro que a injunção tem o mesmo efeito e a mesma origem do Superego da
Psicanálise, e o slogan do contra-script também. O demónio coincide com o
conceito original do Id. A situação parece ser a seguinte: o demónio em si, o
impulso, é um "impulso de id". Fenomenologicamente, o demónio é experien-
ciado como uma voz viva, que é a voz do progenitor real (ou, mais precisa-
mente, a voz do demónio no progenitor) implantada na criança. Falando em
nome do Id do progenitor, fala também pelo id da criança que ainda não se ex-
pressa por palavras.
Em relação à "Criança louca da mãe", ver Denenberg e Whimby, "Comporta-
mento de ratos adultos é modificado pelas experiências que suas mães tiveram
enquantofilhotes",loc. cit.
8. Erikson, E., Identity and the Life Cycle, loc. cit.

119
8. Ofimda infância

A. Esquemas e heróis

Ò fim da infância, dos seis aos dez anos, é denominado pela psi-
canálise de período de latência. É a fase "locomotora"1, quando a crian-
ça se locomove pela vizinhança para ver o que é possível. Até então tem
apenas uma idéia geral, um esboço de eomo montará o equipamento de
seu script para tornar-se uma pessoa com uma meta na vida. Está pronta
para passar dos animais que comem pessoas e agem comò pessoas para
as pessoas em si mesmas.
Uma criança que começa querendo viver e amar para sempre po-
derá ser levada a mudar de opinião no período de cinco ou seis anos2 até
decidir, com bastante propriedade, tendo em vista sua experiência limi-
tada, morrer jovem ou nunca mais arriscar-se a amar alguém. Poderá, en-
tretanto, aprender com seus progenitores que a vida e-o amor, com todos
os riscos, envolvidos, vedem a pena. Uma vez tomada a decisão, ela sabe
quem é e começa a olhar o niundo à sua volta com a pergunta: " O que
acontece a pessoas iguais a mim?" E l a sabe qual é o desfecho esperado,
mas desconhece realmente o seu significado, como será a sensação e
como proceder para alcançá-la. Terá que encontrar algum tipo de es-
quema ou matriz ao qual todo o equipamento do seu script se ajustará e
terá de encontrar algum herói para mostrar-lhe o caminho. Procurará an-
siosamente por heróis com equipamentos semelhantes, que seguiram por
trilhas diferentes ou talvez mais felizes, esperando encontrar um cami-
nho de saída ou de entrada.
A matriz e o herói surgem em estórias que lê em livros, que lhe são
lidas ou contadas por pessoas confiáveis: mamãe, vovó, crianças da rua
ou, quem sabe, uma professora cuidadosamente doutrinada do jardim de
infância. O transmitir estes contos é uma estória por si só - mais real e
fascinante do que a que é contada. O que acontece entre J.eder e sua
mãe, por exemplo, entre ela dizer: "Depois que você escovar os seus
dentes vou contar-lhe uma estória", e o momento em que ela sorri di-
zendo "Terminou" e colocando o cobertor sobre ele? Qual é a pergunta
final dele e como ela o agasalha com o cobertor? Estes momentos aju-
dam a dar forma ao seu plano de vida, enquanto a estória contada ou o
livro de contos fornecem o arcabouço. O que ele obtém em termos de ar-
cabouço é: (a) um herói-alguém que ele gostaria de ser; (b) alguém que
ele poderá encontrar uma justificativa para ser; (c) um tipo — o que ele
sabe que terá que ser; (d) um esquema - uma matriz de acontecimentos
que lhe permite mudar de um para outro; (e) elenco — os que motivarão
as mudanças e (f) um conjunto de padrões éticos que justificarão seus
sentimentos de zanga, mágoa, culpa, justiça ou triunfo. Se os acon-

120
tecimentos externos permitirem, seu curso de vida será igual ao plano de
vida que ele constrói em torno desta armadura ou matriz. Por esta razão
é importante saber qual era a sua estória ou conto de fada preferido na
infância, pois este será o esquema de seu script com todas suas ilusões
inatingíveis e tragédias evitáveis.

B . Disfarces

Durante este período Jeder também toma uma decisão precisa a


respeito dos tipos de sentimentos que construirá. Anteriormente, fez ex-
periências nesta área, sentindo-se por vezes zangado, magoado, culpado,
amedrontado, inadequado, justiçado e triunfante, e descobriu que alguns
destes sentimentos são tratados com indiferença ou total desaprovação,
enquanto um deles é aceitável e obtém resultados. Este se transforma em
seu disfarce. O sentimento favorecido transforma-se numa espécie de re-
flexo condicionado que poderá persistir para o resto da vida.
Para clarificar, podemos utilizar a teoria da roleta do sentimento.
Suponhamos a existência de um conjunto habitacional com 36 casas
construídas em círculo em volta de uma praça central, bem como a
existência de um bebé à espera do nascimento em algum lugar onde os
bebés esperam para nascer. O Grande Computador encarregado destes
assuntos gira a roleta e a bola cai no número 17. O Grande Computador
anuncia: " O próximo bebé irá para a casa número 17". Gira mais ^cinco
vezes e os números são 23, 11, 26, 35 e 31, de modo que os cinco bebés
seguintes vão para as casas com estes números. Dez anos mais tarde ca-
da uma destas crianças aprendeu como se espera que ela reaja. O da casa
17 aprendeu: "Nesta família, quando as coisas ficam difíceis, sentimos
mágua". Os bebés dos números 11, 26 e 35 aprenderam que quando as
coisas ficam difíceis suas famílias sentem respectivamente culpa, temor
ou inadequação. O bebé da casa 31 aprendeu que "nesta família, quando
as coisas ficam difíceis procuramos descobrir uma solução". Parece cla-
ro que os números 17, 23, 11, 26 e 35 são provavelmente perdedores e o
31 provavelmente é um vencedor.
Suponhamos agora que o Grande Computador, ao girar,% fez com
que outros números surgissem ou, então, os mesmos números em ordem
diferente. Desse modo, talvez o Bebé A fosse para o 11 em vez do 17 e
aprendesse a cultivar culpa em vez de zanga e o Bebé B do número 23
tivesse trocado de lugar com p Bebé F no 31. Neste caso, em vez de o
Bebé B ser um perdedor e o F um vencedor, seria o inverso.
Essa é outra maneira de dizer que, além de ser uma influência du-
vidosa dos gens, os sentimentos favoritos são aprendidos dos pais. Um
paciente cujo sentimento favorecido é a culpa poderia ter optado por
zanga se tivesse nascido num lar diferente. Entretanto, cada um de-
fenderá seu sentimento favorecido como se fosse natural ou mes-
mo inevitável numa dada situação. Esta é uma das razões para a

121
existência de grupos de tratamento. Se estes seis bebés estivessem neste
grupo vinte anos mais tarde e o Bebé A relatasse um incidente terminan-
do com um: "Naturalmente que eu fiquei zangado!" o Bebé B diria:
"Meus sentimentos ficariam feridos", o Bebé C diria: " E u teria sentido
culpa", o D dyia: " E u teria sentido medo", o E : " E u teria me sentido
inadequado" e o F (que provavelmente seria o terapeuta), diria: " E u te-
ria encontrado uma solução para isso"
Qual dos bebés tem razão? Cada um deles está convencido que a
sua reação é a "natural". A- verdade é que nenhum deles é realmente
"natural". Cada uma delas é aprendida ou mais provalmente decidida na
primeira infância.
Em termos mais simples, quase todas as zangas, sentimentos feri-
dos, culpas e sentimentos de inadequação são disfarces, e num grupo
bem conduzido não é difícil distinguir as poucas reações semelhantes a
estas que são genuinamente apropriadas. Um disfarce é, portanto, um
sentimento dentre todos os sentimentos possíveis que é posto em ação
por uma dada pessoa, como o desfecho dos jogos nos quais ela se envol-
ve. Os membros do grupo logo percebem e podem prever quando um de-
terminado paciente irá recolher uma figurinha de zanga, quando o outro
recolherá uma de ofensa e assim por diante. A finalidade de colecionar
tais figurinhas é trocá-las por um desfecho de script.
Cada pessoa no grupo fica escandalizada com a idéia de que o seu
sentimento favorecido não é uma resposta natural, universal e inevitável
à situação encontrada. As pessoas com o disfarce de zanga, em particu-
lar, ficam muito zangadas quando seus sentimentos são questionados, da
mesma forma como os indivíduos com o disfarce de sentimentos feridos
sentem-se atingidos.

C . Figurinhas

"Figurinhas" psicológicas têm este nome porque são utilizadas


como selos azuis, verdes ou marrons, que as pessoas recebem como
premio quando compram mantimento ou gasolina. A seguir, algumas ob-
servações relacionadas com estes selos comerciais.
1) São obtidos geralmente como um bónus no decorrer de tran-
sações comerciais legítimas, isto é, a pessoa tem que comprar
mantimento para obtê-los.
2) Muitas pessoas que fazem coleção têm uma cor favorita. Quan-
do recebem outras cores ou jogam fora ou dão para alguém. A l -
guns, entretanto, colecionarão qualquer tipo de selo.
3) Alguns colam as figurinhas em seus pequenos "álbuns" diaria-
mente, outros em intervalos regulares e outros, ainda, as deixam
espalhadas até que um dia, quando estão aborrecidas e não têm
nada melhor para fazer, colam todas de uma vez. Uns deixam as
figurinhas espalhadas até necessitarem de algo e então põem-se

122
a contá-las na esperança de ter um número suficiente para conse-
guir algo grátis na loja de brindes.
4) Uns gostam de falar sobre elas, olhar juntos o catálogo, gabar-se
do número de figurinhas que possuem ou comentar quais as cores
que conseguem melhores prémios ou pechinchas.
5) Uns guardam apenas algumas, trocando-as por prémios triviais.
Outros guardam mais figurinhas e conseguem prémios maiores.
Outros ainda envolvem-se profundamente, tentando colecionar
um número suficiente de figurinhas para obter prémios realmente
grandes.
6) Alguns sabem quedas figurinhas de troca não são realmente "grá-
tis", porque o seu custo é adicionado ao preços dos mantimentos.
Muitos não param para pensar nisto. Outros sabem, mas fingem
não saber porque divertem-se tanto colecionando, com a ilusão
de estar recebendo algo em troca de nada. (Em alguns casos o
custo das figurinhas não é adicionado ao preço dos mantimentos.
Quando é este o caso, o dono da mercearia arca com as despesas.
Em princípio, entretanto, é o freguês que paga pelas figurinhas.)
7) Algumas pessoas preferem comprar em mercearias "honestas",
onde pagam apenas o preço das mercadorias. Com o dinheiro que
economizam podem comprar onde e quando desejarem.
8) Para os que estão ansiosos por receber algo de graça, é possível
comprar figurinhas falsas.
9) Para quem coleciona figurinhas seriamente é difícil desistir. Po-
derá colocá-las numa gaveta e esquecê-las por um tempo, mas se
conseguir um punhado delas em alguma transação especial é
provável que as retire da gaveta para contá-las e ver qual a sua
utilidade.
Figurinhas psicológicas são a moeda corrente de "disfarces" transa-
cionais. Quando Jeder é jovem seus pais o ensinam como sentir quando
as coisas se tornam difíceis. Comumente será zangado, ofendido, culpa-
do ou receioso e às vezes burro, frustrado, surpreso, justo ou triunfante.
Estes sentimentos transformam-se em disfarces quando Jeder aprende a
explorá-los e a fazer jogos a fim de recolher tanto do seu sentimento
favorito quanto possível. Isto se dá, em parte, porque este sentimento fa-
vorito torna-se sexualizado ou é um substituto dos sentimentos sexuais.
Por exemplo, muito da irritação adulta "justificada" pertence a esta ca-
tegoria e é, em geral, o desfecho do jogo "Agora te peguei seu desgra-
çado". A Criança do paciente está plena de irritação contida e este espe-
ra até que alguém faça algo para justificar a sua expressão. Justificativa
significa que o seu Adulto acompanha sua Criança ao dizer ao seu Pai:
"Ninguém poderá acusar-me de ter ficado irritado sem razão". Aliviado
da censura parental, ele aciona o ofensor e diz: "Ha! Ninguém poderá
acusar-me, por isso agora te peguei seu", etc. Na linguagem transacional
ele obtém uma zanga "grátis", isto é, livre de culpa. As vezes funciona
diferentemente. O Pai diz à Criança: "Você não vai deixar que ele

123
saia sem nada, vai?" e o Adulta junta-se ao Pai: "Qualquer um ficaria
irritado nesta situação". A Criança ficará encantada de obedecer a este
apelo. Pode acontecer que a Criança relute em brigar como Ferdinando,
o Touro, mas é forçada a entrar na confusão.
As figurinhas psicológicas seguem o mesmo padrão das figurinhas
comerciais3.
1) São obtidas como um subproduto de transações legítimas. Bri-
gas conjugais, por exemplo, começam geralmente com algum
problema real, que são as "mercadorias". Enquanto o Adulto
faz seus negócios, a Criança espera ansiosamente para recolher
os prémios.
2) As pessoas que colecionam figurinhas têm "cores" favoritas, e
quando se lhe oferecem outras cores poderão não aceitá-las.
Uma pessoa que coleciona irritações não recolhe as culpas e os
medos, deixando-os para os outros. De fato, num jogo conjugal
solidamente estruturado um dos cônjuges colherá todas as irri-
tações, enquanto o outro ficará com todas as culpas ou inade-
quações, de modo que ambos "ganharão", aumentando assim
suas coleções. Há pessoas, entretanto, que colecionam todo tipo
de figurinhas. Estão famintas de sentimentos e jogarão "Estufa"
alegremente, expressando qualquer tipo de emoção que apareça.
Os psicólogos são especialmente sujeitos a recolher sentimentos
trazidos pelo vento nas calçadas e, se forem terapeutas, de gru-
po, encorajarão os pacientes a fazerem o mesmo.
3) Algumas pessoas repassam suas ofensas e irritações todas as
noites antes de dormir. Outras o fazem com menos frequência.
Algumas só o fazem quando estão aborrecidas e não têm nada
melhor com que se ocupar. Assim fazem a contagem de seus
sentimentos feridos e irritações na esperança de ter o suficiente
para garantir uma explosão de zanga, um mau humor "gratuito"
ou alguma exteriorização emocional dramática. Uns gostam de
economizá-las, outros de gastá-las.
4) As pessoas gostam de mostrar suas coleções de sentimentos
aos outros e comentar quem tem irritações, sentimentos feri-
dos, culpas, temores maiores e melhores. Na realidade,'muitos
botequins tornam-se salas de exposição onde as pessoas vão
para gabar-se de suas figurinhas: "você acha que sua esposa é
exagerada, então ouça isto!" ou " E u sei do que você está
falando. Preciso de muito menos para ficar ofendido (ou
assustado)". "Ontem. . ." ou "Sem jeito (culpado, inade-
quado)? Meu desejo seria que o chão abrisse para poder afundar
nele!"
5) A "loja" onde as figurinhas são trocadas tem o mesmo conjunto
de prémios dos centros de troca de figurinhas comerciais: pe-
quenos, grandes e enormes. Com um ou dois "álbuns", a
pessoa recebe um prémio pequeno, como uma fantasia sexual
124
ou um porre gratuito ("justificado"). Com dez "álbuns" obtém
um suicídio ou adultério (mal-sucedido) em miniatura e com
cem poderá obter um *dos prémios maiores: uma folga grátis
(divórcio, licença-saúde, demissão), uma ida gratuita ao hospi-
tal de doentes mentais (coloquialmente chamada de loucura a
troco de nada), um suicídio grátis ou um homicídio gratuito.
6) Alguns aprendem que as figurinhas não são realmente gratuitas
e que os sentimentos colecionados terão que ser pagos com so-
lidão, insónia, pressão arterial alta e problemas de estômago e
acabam por deixar de colecionar. Outros jamais aprendem. A l -
guns sabem disto, mas continuam jogando e colecionando des-
fechos, pois de outra forma suas vidas seriam demasiado monó-
tonas. Uma vez que têm poucas, justificativas para a maneira
como vivem, têm que contentar-se com uma coleção de peque-
nas justificativas para pequenas explosões de vitalidade.
7) Certas pessoas preferem falar claramente em vez de fazer jogos,
ou seja, não agem provocativamente para obter figurinhas e re-
cusam-se a reagir ao comportamento provocativo e espúrio dos
outros. Com esta economia de energia estão preparadas para
expressar mais autenticamente seus sentimentos quando encon-
tram a pessoa certa, na hora e no lugar certo. (Em alguns casos
o indivíduo coleciona figurinhas de forma indolór, e um outro
paga o preço. Assim, um criminoso pode gozar dos prazeres de
roubar um banco sem sentir-se mal ou ser preso. Aparentemen-
te, alguns infratores profissionais ou jogadores trapaceiros po-
dem viver bastante felizes assim, se não se tornarem muito ga-
nanciosos ou forçarem demais as situações. Certos adolescentes
divertem-se consternando seus pais, sem sentir qualquer tipo de
remorso ou outros efeitos negativos. Em princípio, a pessoa que
coleciona figurinhas pagará por elas mais cedo ou mais tarde.)
8) Alguns indivíduos, particularmente paranóides, colecionam fi-
gurinhas "falsas". Se ninguém os provocar, eles imaginarão as
provocações. Sé forem pessoas impacientes poderão obter um
suicídio ou homicídio grátis, sem ter que depender do curso na-
tural dos acontecimentos para ter uma quantidade suficiente de
irritações que justifiquem uma explosão. Neste sentido há dois
tipos de paranóides. A Criança paranóide coleciona erros falsos
e diz: "Veja o que fizeram comigo", enquanto o Pai paranóide
coleciona falsos direitos e diz: "Eles não podem fazer isto co-
migo". Na verdade, há entre os paranóides "os que descontam
cheques" e os verdadeiros falsários. Os que têm delírios juntam
pequenas figurinhas aqui e ali e aumentam o seu valor nominal
para conseguirem rapidamente um desfecho maior. Os que têm
alucinações vocais fabricam figurinhas sem fim a partir de suas
próprias cabeças.
9) É tão difícil para um paciente desistir de uma coleção antiga de

125
figurinhas feita com sacrifício, quanto seria para uma dona de
casa queimar o seu álbum de figurinhas comerciais. Este é um
fator que dificulta a recuperação, pois para curar-se o paciente
terá não apenas que deixar de jogar compulsivamente, mas
também desistir do prazer de utilizar as figurinhas que juntou
anteriormente. O "perdão" dos erros anteriores não é suficien-
te. Estes terão que tornar-se irrelevantes para o futuro curso de
sua vida se ele realmente desistir de seu script. Na minha expe-
riência, "perdão" significa guardar as figurinhas numa gaveta,
em vez de desfazer-se delas permanentemente, pois estas per-
manecerão na gaveta enquanto as coisas caminharem bem. Mas
se houver uma nova ofensa elas serão retiradas da gaveta e adi-
cionadas ao novo desfecho no cálculo do prémio. Assim, um al-
coólatra que "perdoa" sua mulher não irá apenas tomar um no-
vo porre se ela cometer um deslize, mas poderá apostar todas as
figurinhas que ele juntou de todos os deslizes e insultos dela em
toda sua vida de casado, prosseguindo numa bebedeira épica
que poderá terminar num delirium tremens.
Até agora nada foi dito a respeito de sentimentos "bons" como
virtude, triunfo ou satisfação. Figurinhas de virtude são feitas do ou-
ro do tolo ç não terá valor, a não ser no paraíso dos tolos. As figuri-
nhas de triunfo brilham, mas não são colecionadas por pessoas'de
bom gosto porque são apenas folheadas de ouro. Poderão ser utilizadas,
entretanto, para alguma comemoração gratuita, podendo trazer diverti-
mento para um grande número de pessoas. A satisfação, como o deses-
pero, é um sentimento genuíno e não o desfecho de um jogo. Por esta
razão podemos falar de satisfação dourada, da mesma forma como fala-
mos de desespero negro.
O ponto clínico importante sobre sentimentos "bons" é que as pessoas
que guardam figurinhas "marrons", que são os sentimentos "maus" ou
"sentir-se maus" discutidos anteriormente, relutam em aceitar figurinhas
"douradas" quando as recebem sob a forma de elogios ou "carícias".
Sentem-se bastante à vontade com os velhos e maus* sentimentos familia-
res, não sabendo o que fazer com os bons, e assim os recusam ou igno-
ram, fingindo não ouvir. Na verdade, um colecionar cuidadoso de figu-
rinhas "marrons" poderá transformar os mais sinceros elogios em insul-
tos velados, e desta forma, em vez de desperdiçá-los, recusando-os ou
não os ouvindo, os transformará em marrons falsos. O exemplo mais
comum é: "Puxa, você está com ótima aparência hoje!" trazendo como
resposta: " E u sabia que você não tinha gostado da minha aparência na
semana passada". Outro é: "Puxa, que belo vestido" trazendo como res-
posta: "Então você não gostou do vestido que eu usei ontem!" Com um
pouco de prática qualquer pessoa pode aprender a transformar elogios
, em insultos, espalhando um pouco de fezes sobre uma agradável figuri-
nha dourada e transformando-a numa de cor marrom.
A anedota que se segue ilustra o quão fácil é para um marciano en-

126
tender o conceito de figurinha psicológica. Certo dia, uma mulher voltou
à casa de uma reunião onde ouviu falar, pela primeira vez, de figurinhas,
e explicou para seu filho de doze anos. Disse ele: "Tudo bem mãe, eu
volto logo". Quando ele voltou tinha feito um rolinho de figurinhas de
papel perfuradas e uma pequena armação para segurá-las, juntamente
com um caderno de páginas quadriculadas. Na primeira página escreveu:
"Esta página, quando completada, dá a você o direito de um sofrimento
grátis". Ele entendeu perfeitamente. Se as pessoas não o provocarem,
insultarem, enganarem ou amedrontarem espontaneamente então você
iniciará um jogo para obrigar os outros a fazerem isto. Assim você arre-
cadará uma zanga, insulto, culpa ou temor gratuito e alguns destes sen-
timentos juntos dão direito a um sofrimento grátis.
Há uma outra semelhança entre as figurinhas psicológicas e as co-
merciais. Ambas são canceladas depois de usadas, mas mesmo assim as
pessoas gostam de comentar com nostalgia sobre aquelas que foram de-
volvidas. A palavra chave aqui é "recordação". As pessoas de verdade
dizem numa conversa corriqueira: "Você se lembra quando . . .", en-
quanto "Você se recorda . . ." é usada, em geral, para figurinhas que fo-
ram usadas e canceladas há muito tempo. "Você se lembra como nos di-
vertimos em Yosemite?" é uma reminiscência, enquanto: "Você se re-
corda do que aconteceu em Yosemite? Primeiro você amassou o para-
lama, depois esqueceu de . . . e ai, como ipe recordo, você . . . e de-
pois . . ." etc. é uma critica desgastada que não serve mais para uma irri-
tação justificada. Os advogados usam habitualmente a palavra "recorda"
em vez de "lembra" no exercício de sua profissão quando evocam as fi-
gurinhas frequentemente desbotadas e às vezes forjadas do queixoso pa-
ra mostrá-las ao juiz ou júri. Os advogados são, na verdade, filatelistas,
conhecedores de figurinhas psicológicas. Podem dar uma olhada numa
coleção, grande ou pequena, e estimar o seu valor de mercado na grande
loja da penitência do tribunal. Esposos desonestos engancham-se mu-
tuamente usando figurinhas de segunda mão ou falsificadas. Francisco
descobriu que sua esposa Ângela estava tendo um caso com seu patrão
e, de fato, soçorreu-a quando aquele ameaçou-a com violência. Após
uma cena violenta ela lhe agradeceu e ele deu-lhe o seu perdão. Depois,
cada vez que ele se embriagava, o que fazia frequentemente, voltava ao
assunto e havia uma nova cena. Na linguagem das figurinhas, na primei-
ra cena ele teve uma zanga justificada, ela ficou genuinamente agradeci-
da e ele lhe deu generosamente o seu perdão. Foi um acordo decente, e
todas as figurinhas foram canceladas.
Como se pode observar, "perdoar" na prática significa pôr as figu1-
rinhas na gaveta até necessitá-las outra vez, mesmo que já tenham sido
resgatadas. Neste caso, Francisco tirava as velhas figurinhas resgatadas
todos os sábados à noite e jogava-as na cara de Ângela. Em vez de mos-
trar que elas já tinham sido usadas, Ângela baixava a cabeça e deixava
Francisco ter uma outra zanga gratuita. Em troca, ela lhe impingia algu-
mas figurinhas falsificadas de agradecimento. Quando agradeceu pela

127
primeira vez, ela lhe deu figurinhas autênticas de gratidão dourada, mas
depois disto seus agradecimentos eram usados é espúrios, "ouro de tolo"
ou pirita de ferro, que ele, na sua tolice embriagada, valorizava como se
fosse verdadeira. Quando estava sóbrio ambos podiam ser honestos e ver
o assunto como resolvido, mas quando ele bebia, tornavam-se desones-
tos um com o outro. Ele a chantageava com reprises falsas e ela devolvia
na mesma moeda.
Assim, a analogia entre figurinhas de troca comercial e psicológica
é quase perfeita. Cada pessoa tende a manejar as duas da mesma forma,
de acordo com sua educação. Alguns são educados a resgatá-las e es-
quecer. Outros aprendem a guardá-las e saboreá-las. Guardam suas figu-
rinhas de papel, olhando-as com satisfação à medida que se acumulam,
na antecipação do dia em que poderão trocá-las por um grande prémio.
Lidam da mesma maneira com suas zangas, ofensas, medos e culpas,
mantendo-os engarrafados até que tenham uma quantidade suficiente pa-
ra um desfecho realmente grande. Outros têm permissão para trapacear e
usam uma ingenuidade considerável ao fazê-lò.
As figurinhas psicológicas existem como memórias emocionais
que, provavelmente, assumem a forma de padrões moleculares num
contínuo estado de agitação ou potenciais elétricos que giram de forma
continuada numa circunferência de curva de Jordan. Nenhum deles se
esgota completamente, até que haja algum tipo de descarga de energia
acumulada. A velocidade com que as configurações ou potenciais decli-
na é provavelmente baseada, em parte, nos .gens e em parte no "condi-
cionamento precoce", que na nossa linguagem entra na categoria de
programação parental. De qualquer forma, se uma pessoa saca as mes-
mas velhas figurinhas de maneira repetitiva para exibi-las à platéia, estas
se tornam mais e mais esmaecidas e desgastadas, acontecendo o mesmo
com a platéia.

D. Ilusões

As ilusões da infância estão relacionadas, em particular, às com-


pensações por ser bom e aos castigos por seu mau. Bom significa, prin-
cipalmente, não ficar zangado ("temperamento, temperamento!"), ou
não ficar excitado sexualmente ("feio, feio!"), sendo permitido ter re-
ceio ou vergonha. Em outras palavras, Jeder não deve expressar nem o
seu "instinto de autopresèrvação", cuja expressão pode ser bastante gra-
tificante, nem seu "instinto de preservação da espécie", cuja exteriori-
zação pode ser muito agradável, mesmo numa idade tenra. Permite-se,
entretanto, que tenha tantos sentimentos insatisfatórios ou desagradáveis
quantos desejar.
Há vários sistemas que criam regras formais a respeito de compen-
sações e castigos. Além dos sistemas legais, que existem em todas as
partes, existem também os religiosos e ideológicos. A metade do mundo

128
é constituída de "crentes autênticos" (em torno de um bilhão de cristãos
e meio de muçulmanos), para quem as regras ligadas ao após vida são
importantíssimas. A metade "pagã" é julgada durante sua estada na terra
pelos deuses locais ou por seus governos nacionais. Para o analista do
script, entretanto, os códigos mais importantes são os ocultos, peculiares
a cada família.
Para as crianças pequenas há geralmente algum tipo de Papai Noel
observando seus comportamentos e fazendo anotações. Isto é para os
"meninos pequenos", pois os "meninos grandes" não acreditam nele,
pelo menos não em Papai Noel como um homem fantasiado que aparece
num certo dia do anò. O não acreditar neste tipo de Papai Noel é que
distingue os meninos grandes dos pequenos, juntamente com o conheci-
mento sobre a origem dos bebés. Os meninos grandes, como os adultos,
têm suas próprias versões de Papai Noel, cada uma delas diferente. A l -
guns adultos estão mais interessados na família de Papai Noel do que ne-
le, e acreditam firmemente que ao se comportarem de maneira apropriada
terão, mais cedo ou mais tarde, sua oportunidade com seu filho, o Prín-
cipe Encantado, ou com sua filha Snegurotchka, a Branca de Neve, ou
mesmo com a sua esposa, a senhora Menopausa. Na verdade, a maioria
das pessoas passa sua vida à espera de Papai Noel ou de algum membro
de sua família.
Há também, o seu oposto numa escala inferior, onde Papai Noel é
um homem alegre, vestido de vermelho, que vem do Pólo Norte trazendo
presentes, o outro é carrancudo, veste-se de preto e vem do Pólo Sul car-
regando uma foice, e seu nome é Morte. Assim, a humanidade é dividida
durante o final da infância entre a Turma da Vida, que passa sua
existência à espera de Papai Noel, e a Turma da Morte, que passa a vida
à espera da Morte. Estas são as ilusões básicas na qual se baseiam todos
os scripts: a viiida contingencial de Papai Noel com os presentes para os
vencedores ou a Morte contingencial e a solução de todos os problemas
para os perdedores. A primeira pergunta a ser feita a respeito das ilusões
é: "Você está esperando pelo Papai Noel ou pela Morte?" Antes, porém,
do Presente Final (a imortalidade) ou da Solução Final (a morte) existem
outras alternativas. Papai Noel poderá conceder um bilhete, de loteria
premiado, uma pensão vitalícia ou uma juventude prolongada. A Morte
poderá outorgar uma invalidez permanente, a cessação do desejo sexual
ou a velhice prematura, cada uma das quais dispensa a pessoa de algu-
mas de suas obrigações. Por exemplo, as mulheres da Turma da Morte
estão convencidas que a menopausa trará ajuda e descanso, o desapare-
cimento do desejo sexual, que será substituído pelas ondas de calor e a
melancolia, dispensando-as para todo o sempre de viver. Este triste mito,
de que a senhora Menopausa as salvará, é intitulado de "Ovários de Ma-
deira" na linguagem da análise do script. Muitos homens agarram-se nis-
to com os "Testículos de Madeira", o mito da menopausa masculina.*

* Conhecida também como andropausa. (N de T.)


129
Todo script se baseia em algumas destas ilusões, e é função dolo-
rosa, mas necessária, da análise do script, destruí-la, daí os títulos gros-
seiros que executarão a tarefa com maior rapidez é menor dor. A im-
portância transacional da ilusão é que esta fornece a causa e a razão para
guardar as figurinhas. As pessoas que estão à espera de Papai Noel
guardarão os elogios para mostrar o quão boas elas foram ou os "sofri-
mentos" de vários tipos para despertar sua piedade, enquanto as que es-
peram pela Morte, colecionarão as figurinhas de culpa e futilidade para
mostrar que são dignas dela ou dar-lhe-ão as boas-vindas com gratidão.
Qualquer tipo de figurinha poderá ser oferecido ao Papai Noel ou à Mor-
te na esperança de* que a arte de vender bem tornará acessível a merca-
doria desejada.
Portanto, a ilusão está relacionada com a loja onde se entregam as
figurinhas, e existem duas lojas diferentes, cada uma com regras distin-
tas. Ao fazer o bem ou aguentar o sofrimento suficientemente, Jeder po-
derá colecionar bastante ouro ou figurinhas marrons para trocá-las por
um presente grátis da loja de Papai Noel. Juntando uma quantidade sufi-
ciente de culpas e futilidades, poderá obter de graça um presente da loja
da Morte. Na realidade, Papai Noel e a Morte não possuem lojas. São
vendedores ambulantes. Jeder tem que esperar pela chegada de Papai
Noel ou da Morte, e ele nunca sabe quando virão. Por esta razão, tem
que guardar as figurinhas, conservando-as sempre prontas, pois se per-
der a oportunidade quando Papai Noel ou a Morte passarem, não saberá
se a oportunidade se repetirá. Se ele estiver colecionando "ois", terá que
pensar positivamente todo o tempo, pois de descontrair-se, por um mo-
mento que seja, este poderá ser justamente o momento da chegada de
Papai Noel. Da mesma forma, se estiver guardando sofrimentos, não po-
derá arriscar-se e parecer feliz, pois se Papai Noel surpreendê-lo sem de-
fesa, terá perdido sua oportunidade. O mesmo acontece com a Turma da
Morte. Não podem dar-se ao luxo, nem mesmo por um momento, de pa-
recer livres de culpa ou futilidade, pois este poderá ser o exato minuto
da visita da Morte e, então, estariam condenados a viver até a próxima
visita, que poderá ser: "bem, só a morte sabe por quanto tempo o sus-
pense terá que continuar".
As ilusões são os "se apenas" e "algum dia", sobre os quais a
maioria das pessoas baseia a sua existência. Em alguns países, as loterias
oficiais oferecem a única possibilidade de Jeder transformar seus sonhos
em realidade, e milhares de homens passam suas vidas, dia após dia,
esperando que seus números sejam sorteados. A verdade é que existe
um Papai Noel: a todo sorteio o número de alguém é premiado e seus
sonhos se transformam em realidade. Mas estranhamente, na maioria
dos casos, isto não traz felicidade, e muitos deixam escapar por entre
os dedos o que ganharam, retornando à situação anterior. Isto se dá
porque todo o sistema de ilusões é mágico. Não só o prémio chega-
rá magicamente, mas será mágica em si mesmo. Uma criança decente
sabe que o Papai Noel real descerá pela chaminé enquanto ela dorme

130
e deixará um carrinho vermelho ou uma laranja dourada. Não será,
porém, um carrinho vermelho ou uma laranja comum, mas sim mágica e
única, cravejada de rubis e diamantes. Quando Jeder descobrir que o
carrinho vermelho ou a laranja chegaram de verdade, mas que são tão
comuns como os de todos os outros, ficará desapontado e perguntará:
"Só isto?" para grande surpresa de seus pais, que pensavam tê-lo pre-
senteado exatamente com aquilo que ele desejava. Da mesma forma', o
individuo que ganha na loteria descobre que as coisas que compra são
iguais às que os outros têm e então diz: "Só isso?" e desperdiça tudo.
Prefere voltar atrás e sentar-se sob uma árvore, esperando pela mágica,
em vez de usufruir o que possui. As ilusões são mais atraentes do que a
realidade, e mesmo a realidade mais atraente poderá ser abandonada em
troca de uma ilusão mais ténue e improvável.
Dentre os exernplòs mais marcantes sobre o assunto estão certas
pessoas com o script "Nunca desista". Uma das coisas que relutam em
abandonar são suas fezes, sofrendo de prisão de ventre crónica. A ilusão
é que, se aguentarem tempo suficiente, Papai Noel vjrá, e se ele não vier
elas terão ao menos algo de si mesmas para compensar os presentes que
não receberam. Muitas destas pessoas estão numa posição favorável para
usufruir de uma realidade compensadora, mas preferem ficar "sentados"
em casa, esperando sabe lá o que ou quem virá socorrê-las. Uma mulher
desse tipo, mesmo quando deitada no divã do analista, dizia: "Estou sen-
tada aqui, pensando". Em casa ela passava boa parte do seu tempo so-
frendo de prisão de ventre e fazendo exatamente isto. Tinha dificuldade
de estar com pessoas porque, onde quer que fosse, carregava consigo
uma privada psicológica, e não importa o que o seu Adulto estivesse fa-
zendo, sua Criança estava sentada no seu assento predileto.
De fato, a Criança quase nunca desiste de suas ilusões. Algumas
delas são universais, como ressaltou Freud, e provavelmente surgem nos
primeiros meses de vida ou mesmo no útero, que é uma palavra mágica
que os indivíduos só poderão encontrar posteriormente através do amor,
sexo ou drogas (ou, talvez, com pessoas depravadas, através do massa-
cre). Freud indica como as três mais primárias: "Sou imortal, onipotente
e irresistível". É claro que estas ilusões primais não duram muito em fa-
ce da realidade infantil: mãe, pai, tempo, gravidade, cenas e sons ame-
drontadores e desconhecidos, bem como sensações de fome, temor e dor.
Estas são substituídas por ilusões condicionais que têm forte influência
na formação dos scripts. Aí surgem os denominados Se apenas: "Se eu
apenas comportar-me direito, Papai Noel virá".
Os pais, em todos os lugares, são iguais no que diz respeito a
ilusões. Se a criança crê que eles são mágicos é porque estes também
crêem nisto. Não existe um progenitor real ou concebível que não tenha
dito alguma vez ao seu filho: "Se você fizer o que eu digo tudo sairá
certo". Para a criança significa: "Se eu fizer o que eles dizem, estarei
protegido pela mágica, e todos os meus melhores sonhos se realizarão".
Ela acredita nisto com tal firmeza que é quase impossível abalar sua fé.
131
Se ela não consegue, não é porque a mágica não deu certo, mas porque
ela não cumpriu as regras. Se a criança desafia ou abandona as diretivas
parentais, isto não significa que ela perdeu sua crença em suas ilusões.
Poderá significar apenas que ela não consegue mais suportar as exigên-
cias ou acredita que jamais será capaz de cumpri-las. Daí a inveja e o
escárnio que alguns dispensam àqueles que seguem as regras. A Criança
interna ainda acredita em Papai Noel, mas os rebeldes dizem: "Não con-
segui isto dele por atacado" (drogas ou revolução), enquanto os fúteis
gritam: "Quem precisa das uvas azedas dele? As uvas da morte são mais
doces". À medida que envelhecem, alguns são capazes de desistir das
ilusões por si sós e parecem fazê-lo sem inveja ou escárnio dos que não
desistiram.
O preceito Parental, na melhor das hipóteses diz: "Aja com retidão
e nenhum mal o atingirá!", um dito que tem sido a base dos sistemas éti-
cçs de todos os países através da história, registrada a partir das ins-
truções escritas mais antigás de Ptahotep, no Egito antigo, há cinco mil
anos5. Na pior das hipóteses o dito será: "O mundo será melhor se você
matar certas pessoas e, desta forma, atingirá a imortalidade, tornar-se-á
onipotente e adquirirá um poder irresistível". Estranhamente, do ponto
de vistar da Criança, ambos são slogans de amor, pois estão baseados na
mesma promessa Parental: "Se fizer o que digo, eu o amarei e protegerei
e sem mim você não é ninguém". Isto aparece claramenté quando a pro-
messa é feita por escrito. No primeiro caso, é o Senhor que o amará e
protegerá, como está escrito na Bíblia, e no segundo é Hitler, como está
escrito no Mein Kampf* e outros livros. Hitler prometeu o império mile-
nar que é, praticamente, a imortalidade, e seus seguidores adotaram de
fato uma posição de onipotência e poder irresistível diante dos polone-
ses, ciganos, judeus, pintores, músicos, escritores e políticos que eles
prendiam em seus campos de extermínio. Enquanto isto acontecia, a rea-
lidade prevaleceu sob a forma napoleônica de infantaria, artilharia e su-
porte aéreo, e os milhões de seguidores de Hitler tornaram-se mortais,
impotentes e resistíveis.
É necessário um poder enorme para destruir estas ilusões primais, e
isto ocorre com frequência em tempos de guerra. Quando o conde de
Tolstoi entra na batalha, ele grita ultrajado: "Por que estão atirando em
mim? Todos gostam de mim ( = eu sou irresistível)" 6 . O mesmo se aplica
à ilusão condicional: "Se eu fizer o que meu Pai me diz, tudo sairá
bem". O exemplo mais terrível, de destruição desta crença quase univer-
sal, pela força, é mostrado na notável fotografia de um garoto polonês de
mais ou menos nove anos parado no meio de uma rua, só e abandonado,
apesar da presença de espectadores alinhados na calçada, enquanto um
soldado do Pelotão da Morte aponta para ele. A expressão do seu rosto
diz muito claramente: "Mas a mamãe me disse que se eu fosse bom tudo
ia dar certo". O golpe psicológico mais brutal que qualquer ser humano
* Minha luta. (N. de T.)

132
pode sustentar é a prova de que sua mãe o enganou, e esta é a tortura
devastadora que o soldado alemão está impondo ao garotinho que ele
encurralou.
O terapeuta, com todo o humanitarismo e pungência, mais o con-
sentimento voluntário e explícito do paciente, poderá ter que cumprir ta-
refa semelhante: não tortura, mas cirurgia. Para que o paciente melhore,
sua ilusão, sobre a qual está baseada toda a sua vida, precisa ser solapa-
da a fim de que ele viva no mundo de hoje em vez de no "Se apenas" ou
"Algum dia". Esta é a tarefa mais dolorosa que cabe ao analista do
script: dizer finalmente aos seus pacientes que Papai Noel não existe.
Através de um preparo cuidadoso, o golpe poderá ser atenuado e o pa-
ciente poderá, a longo prazo, perdoá-lo.
Uma das ilusões favoritas do final da infância é abalada quando
Jeder descobre de onde provêm os bebés. Para manter a ficção da pureza
dos pais, ele faz uma ressalva: "Tudo bem, mas os meus pais não fazem
isso". É difícil para o terapeuta conservar-se sério quando confronta Je-
der com o fato de que ele não é fruto de um nascimento virginal e que,
portanto, seus pais devem ter feito aquilo pelo menos.uma vez e, se ele
tiver irmãos e irmãs, várias vezes. Isto equivale a dizer-lhe que sua mãe
o traiu, algo que nenhum homem deveria revelar a outro, a não ser que
este pagasse para fazê-lo. Às vezes sua tarefa é oposta, isto é, de restau-
rar, com alguma decência, o retrato que a própria mãe ou as circunstân-
cias externas macularam e aviltaram. Para milhões de crianças esta
ilusão é um luxo inatingível, e elas deverão viver num estado precário de
subsistência material e psicológica.
As crenças em Papai Noel, Morte e virgindade da mãe podem ser
consideradas como normais porque são agarradas avidamente e fornecem
o alimento espiritual aos espíritos fracos ou idealistas toda a vez que
estão ao seu alcance. Por outro lado, pessoas confusas são assim porque
possuem suas próprias ilusões especiais. Isto varia desde "Se você fizer
uma lavagem de cólon diariamente, será feliz e saudável" até "Você po-
de evitar a morte de seu pai ficando doente. Se ele morrer, é porque
você não ficou suficientemente doente". Existem também contratos par-
ticulares com Deus, sobre os quais Deus nunca foi consultado, que ele
jamais assinou e que, na verdade, se recusaria a assinar: "Se eu sacrifi-
car meus filhos, minha mãe permanecerá com saúde" é um exemplo co-
mum ou "Deus me fará um milagre se eu não tiver orgasmos". Como já
foi observado, este último foi institucionalizado entre as prostitutas de
Paris como "Não importa com quantos homens tenha relações sexuais ou
transmita conscientemente doenças, posso ir para o céu contanto que isto
seja encarado como um negócio e eu não sinta prazer".
No início da infância as ilusões mágicas são aceitas em suas formas
mais românticas. No final da infância estas são submetidas a um teste de
realidade, e partes delas abandonadas com relutância, deixando apenas
um núcleo secreto para á formação da base existencial da vida. Só os
mais fortes podem enfrentar as apostas absurdas de viver sem ilusões.
133
Uma das mais difíceis de abandonar, mesmo no final da vida, é a ilusão
da autonomia e da autodeterminação.
Isto é apresentado na Figura 10. A área de autonomia genuína que
representa o verdadeiro funcionamento racional do Adulto, livre dos
preconceitos Parentais e as expressões de desejo da Criança é indicada
pelo A l . Este aspecto da personalidade está realmente livre para fazer
julgamentos Adultos baseados em conhecimentos e observações cuida-
dosamente coletados. Poderá funcionar com eficiência numa profissão
ou ofício, onde o mecânico ou cirurgião usa seu bom senso baseado nu-
ma educação, observação ou experiência prévias. A área indicada por P
é claramente reconhecida pelo indivíduo como influência Parental: idéias
e preferências obtidas dos progenitores no que se refere à comida, roupa,
maneiras e religião, por exemplo. A estas poderá chamar de "Criação".
A área marcada com C ele atribui à expressão de desejos ou gostos pre-
coces, às coisas que vêm de sua Criança. Na medida em que a pessoa re-
conhece e distingue estas três partes, será autónoma: sabe o que é Adul-
to e prático, o que aceitou dos outros e o que faz, levado por impulsos
primários em vez de pensamentos práticos e decisões racionais.
As áreas indicadas como "Delírios" e "Ilusões" é onde o indiví-
duo vive em erro. Os delírios são coisas tratadas como se fossem suas
próprias idéias, baseadas em observação e julgamento, quando na verda-
de são idéias impostas por seus progenitores, de tal forma arraigadas que
ele pensa que fazem parte do seu E u real. De igual maneira, as ilusões
são idéias de sua Criança que a pessoa aceita como sendo Adulto e ra-
cional, e procura justificá-las como tal. Delírios e ilusões podem ser
chamados de contaminações. A ilusão da autonomia, portanto, baseia-se

Grau de aut onomia —


Ai
Fig. 10 - Autonomia Fig. 11-Verdadeira
ilusória autonomia
134
na idéia errónea de que toda a área, A l , indicada na Figura 10, não está
contaminada, é o Adulto autónomo, quando, na verdade, inclui partes
grandes que pertencem realmente ao Pai ou Criança. A verdadeira auto-
nomia é o reconhecimento de que as fronteiras do Adulto são, de fato,
indicadas na Figura 11, e que as áreas sombreadas pertencem a outros
estados do ego.
As Figuras 10 e 11 nos dão a medida de autonomia. A área do A na
Figura 11, dividida pela A da Figura 10 pode ser denominada "Grau de
Autonomia". Onde A-10 for grande e A-11 for pequena, haverá pequena
autonomia e grande ilusão. Se A-10 for pequena (Apesar de sempre
maior que A-11) e A-11 for grande (embora sempre menor do que
A-10), então haverá menos ilusão e mais autonomia.

E . Jogos

Durante o início da infância a criança é honesta, começando na


primeira posição, eu estou O K - Você está OK. Mas a corrupção logo se
instala, e a criança descobre que o seu O K não é um direito de nasci-
mento automático e indiscutível, mas depende em alguma medida do seu
comportamento, mais particularmente de suas reações para com a sua
mãe. No decorrer da aprendizagem de seu comportamento à mesa poderá
descobrir que seu sentimento de oqueidade* irrepreensível lhe é conce-
dido somente com certas restrições, e isto o fere. A criança reage lan-
çando calúnias à oqueidade da mãe embora, ao terminar o jantar, elas
possam trocar um beijo e reconciliarem-se. Mas a base para os jogos está
criada, começando a florescer no decorrer do treinamento das excreções,
onde está numa posição de superioridade. Durante as refeições, a criança
tem fome e deseja algo da mãe; no banheiro é esta que deseja algo da
criança. À mesa, a criança tem que se comportar de uma determinada
maneira para manter seu grau de oqueidade e a mãe tem que tratá-la
adequadamente para manter a sua própria oqueidade. Às vezes ambas
poderão ser honestas, mas, em geral, neste momento a mãe já estará en-
ganchando a criança, utilizando um pouquinho só de suas fraquezas e
esta estará fazendo o mesmo.
Ao entrar na escola, a criança já aprendeu, provavelmente, alguns
jogos suaves ou talvez dois ou três duros ou, no pior dos casos, poderá
estar dominada pelos jogos. Dependerá do quão espertos ou duros forem
seus progenitores. Quanto mais "jogarem com esperteza", mais distorci-
da será a criança. Quanto mais inflexíveis forem, mais duro jogará a
criança para poder sobreviver. A experiência clínica indica que a forma
mais eficaz de corromper e pressionar uma criança é dar-lhe lavagens
frequentes contra a sua vontade, da mesma forma que a maneira mais
eficaz de corrompê-la e desintegrá-la será espancá-la com crueldade

* Neologismo que corresponde a OKness em inglês. (N. do T.)

135
quando chora de dor.
Na escola primária a criança terá oportunidade de fazer experiên-
cias, junto à população de crianças e professores, com os jogos que
aprendeu em casa. Aperfeiçoa alguns, abandona outros, abranda outros
tantos e aprende novos com o grupo. Tem, também, a oportunidade de
testar suas convicções e sua posição. Se acha que é O K , sua professora
poderá confirmar ou chocá-lo, diminuindo-o. Se considera-se não-OK, a
professora o confirmará (só espera isto) ou tentará desenvolver esta ima-
gem na criança (o que poderá fazê-la sentir-se inconfortável). Se a
criança pensar que o resto do mundo é O K , incluirá também a professo-
ra, a não ser que esta prove o contrário. Se estiver convencida que
os outros são não-OK a criança tentará comprovar isto irritando a
professora.
Existem muitas situações especiais que nem a criança nem a pro-
fessora podem prever ou aceitar. "Qual a coisa mais interessante sobre a
Argentina?", pergunta a professora. "Os pampas", responde alguém.
"Nãao, a Patagônia", diz outro. "Nãaao", "Aconcágua", arrisca outro
aluno. "Nãaaao". Neste momento os alunos percebem o que está acon-
tecendo. Não adianta querer lembrar-se do que está jio livro ou no que
estão interessados. Espera-se que eles adivinhem o que a professora está
pensando, ou seja, ela encurrala os alunos e eles desistem. "Ninguém
mais quer responder?", pergunta ela com falsa suavidade. "Gaúchos!",
declara triunfalmente, fazendo com que todos se sintam simultaneamente
ignorantes. Os alunos nada podem fazer para evitar isso e é difícil, mes-
mo para o aluno mais caridoso, deixá-la manter-se nò O K . Por outro la-
do, mesmo a mais habilidosa das professoras poderá sentir dificuldade
em manter sua oqueidade com um aluno cujo corpo está sendo violado
em casa com lavagens intestinais. Este poderá recusar-se a responder e,
se ela procurar forçá-lo, estará também violando a sua mente, provando
que não é melhor que os progenitores. Porém, não há nada que ela possa
fazer para ajudá-lo.
Cada uma das posições inferiores tem o seu sortimento de jogos e,
ao fazê-los com a professora, Jeder pode observar quais ela aceita jogar
e, assim, aperfeiçoa suas habilidades. Na segunda posição ( + - ) , ou po-
sição arrogante, ele poderá tentar "Agora te peguei, sua . . . " n a terceira
( - +), ou posição depressiva, "Chute-me" e na fútil ( — ) , "Fazendo a
professora ficar arrependida". Ele poderá desistir daqueles jogos que ela
recusa ou possui uma antítese. Jeder experimenta-os também com os
seus colegas.
Em muitos casos a quarta posição é a mais difícil de lidar. Se a
professora, entretanto, mantiver sua neutralidade e der carícias a Jeder
com palavras sensatas, sem serem melosas, de repreensão ou de descul-
pas, poderá liberá-lo do seu estado de agarramento à pedra áspera da fu-
tilidade, fazendo com que ele flutue na superfície em direção aos raios
solares da oqueidade.
Assim, o final da infância é o período que detennina quais dos
136
jogos , pertencentes ao repertório doméstico, tornam- se os favoritos de
sempre e qu a is , se é qu e exis te a lgu m, serão ab andonados. A q u i u ma
pergu nta importante é: " C o m o os professores entenderam- se com você
n a es col a ?" , e ou tra é: " C o m o a s ou tras crianças deram- se com você n a
es col a ?"

F. A pe i so na

A o fim desta fase algo des a b rocha e responde à pergu nta: " S e você
não pode fa la r claramente e dizer o qu e realmente é, qu a l é a forma ma is
confortável de s er des ones to?". Tu d o qu e Jeder aprendeu com s eu s p a is ,
colegas, amigos e inimigos l eva à resposta. O resu ltado é a s u a persona.
Ju n g define a pers ona como u ma "a titu d e adotada n o momen to",
u ma máscara qu e a pes s oa " s a b e qu e corresponde às su as intenções
cons cientes , atendendo também às exigências e opiniões do s eu meio
a mb iente". A s s i m , ele " en g a n a os ou tros e também a sí próprio, n o qu e
diz respeito a o s eu caráter r e a l " 8 . É, p ois , u ma personalidade s ocia l,
sendo qu e a s personalidade s ocia is d a ma ior ia da s pessoas a s s emelha m-
se à de u ma criança n o período de latência, aproximadamente entre s eis
e dez anos de idade. Is to se dá porqu e a pers ona é forma da por influên-
cia s externa s e pela s decisões d a própria criança, ju stamente neste perío-
do. Q u a ndo está em s eu comportamento s ocia l, b om, vigoros o, amável,
desafiador, o Jeder amadu recido não neces s ita expres s a r- s e (emb ora p os -
s a acontecer) a partir de s eu P a i , Ad u lto ou Criança. E m vez disto po-
derá a tu a r como u m garoto d a es cola primária, adaptando- se, sqb a
orientação de s eu Ad u lto, dentro da s restrições Pa renta is , à situação s o-
cia l. E s ta adaptação emerge como s u a pers ona , e isto também se en ca ix a
no s eu script. S e for de vencedor, s u a pers ona será atraente, ma s no ca s o
de ser de perdedor parecerá r ep u ls iva , exceto a os s eu s semelhantes.
E m gera l, segue o modelo do s eu herói. A Criança r ea l fica es condida
atrás d a pers ona e poderá ficar à es preita , esperando u ma oportu nidade
pa ra aparecer se u m número s u ficiente de figurinhas pu der s er j u n -
tado pa ra ju s tifica r a retira da d a máscara.
A q u i a pergu nta qu e se deve fazer ao paciente é: " Q u e tipo de pes-
s oa é você?" ou , melhor a inda : " O qu e p en s a m os ou tros de você?"

G . A c ul t ura f am i l i ar

To d a cu ltu ra é cu ltu ra fa milia r, cois a s aprendidas enqu anto bebé de


colo. D eta lhes e técnicas poderão ser aprendidos for a de ca s a , ma s s eu
va lor é determinado p ela família. O a na lis ta de script ch ega ao âmago d a
questão com u ma única pergu nta: " S ob r e o qu e s u a família con ver s a va à
mes a ?" . C o m isto es pera ver ifica r o assu nto, qu e poderá s er ou não i m -
portante, como também os tipos de transações qu e ocorrem, o qu e

137
sempre é importante. A l g u n s terapeutas de crianças e fa milia res pedem
pa ra s erem convida dos p a r a ja n ta r n a ca s a do paciente, pensando qu e es -
ta é a melhor forma de ob ter a ma ior qu antidade de informações confiá-
veis possível e m cu rto espaço de tempo. U m dos slogans do a na lis ta de
script é ou d ever ia ser: " P en s e esfíncter!" F r e u d 9 e A b r a h a m 1 0 fora m os
primeiros a ela b ora r a idéia de qu e a es tru tu ra de caráter gir a em torno
dos orifícios do corpo. Ta n to os jogos como o script fazem o mesmo e os
s ina is e sintomas fisiológicos qu e forma m u ma característica importante
de todo o jogo ou script gir a , em gera l, em torno de u m determinado
orifício ou esfíncter. A cu ltu ra fa milia r, como exib id a à mes a do ja nta r,
tende a gira r e m torno d o "esfíncter d a família", e conhecendo qu a l é o
favorito d a família v a i representar u ma grande a ju da n o tratamento do p a -
ciente.
O s qu atro esfíncteres e m discussão são: o or a l, a n a l, u retra l e va gi-
n a l e, ta lvez, ma is importantes, sãos os esfínc teres internos rela ciona dos
a estes. Há também u m esfíncter ilusório, qu e pode ser cha ma do, à seme-
lhança d a psicanálise, de cloa ca l.
E mb or a a b oca tenha s eu próprio esfíncter externo, o Orbicularis
oris*, este não é u su almente o músculo or a l qu e preocu pa a s famílias,
emb ora a lgu ma s adotem o modo " F i q u e de b oca fech a d a ". Algu ma s
famílias " o r a i s " fa la m principalmente de comid a e os esfíncteres foca li-
zados são, em es pecia l, os d a garganta, estômago e du odeno. A s famílias
ora is são a s qu e a precia m novida des e m matéria de dietas e se preocu -
p a m com* o estômago, sendo estes os assu ntos comentados à mes a do
ja nta r. Memb ros "His téricos " de tais famílias têm espasmos nos múscu-
los d a garganta e os "psicossomáticos" apresentam espasmos n o esôfa-
go, estômago e du odeno o u , invers a mente, vomita m ou têm medo de
vomitar.
O ânus é o esfíncter por excelência. Famílias a na is comenta m sob re
a defecação, la xa ntes , enemas ou la va gens aristocráticas do cólon. P a r a
eles a vid a é u ma roda da de matérias venenos a s , da s qu ais é necessário
livra r- s e rapidamente e a qu alqu er preço. A s pessoas são fa s cina da s pe-
los produ tos intestinais e orgu lhosas de s i e dos filhos qu ando aqu eles
são grandes, firmes e de b oa forma . A dianéia é ju lga d a pela s u a qu a nti-
dade, a colite sangrenta ou com mu co é de interesse eterno e pode s er
ostentada com u m a r de modesta distinção. A cu ltu ra como u m todo mis -
tu ra- se com a s exu a lida de ( ou a nti- s exu a lida de) n o moto " M a n ten h a o
c u apertado ou a ca b a leva ndo n el e" . Is to s ignifica : "ma n ten h a u ma ca r a
impassível" e a filos ofia poderá da r resu ltado p a r a fa zer dinheiro.
Famílias u retrais fa la m mu ito, contínuas correntes de idéias com
a lgu ns gagu ejos a o fin a l, emb ora n u n ca terminem realmente de fa la r,
uma* vez qu e sempre s ob ra m a lgu ma s gotas derradeiras qu e podem s er
espremidas a qu alqu er momento. Algu ma s estão cheia s de mijo e vin a -
gre, e qu ando receb em u ma mija da , também mija m n a s pessoas ou , pelo

* Orbicular dos lábios. (N. do T .)

138
menos, a s s im d izem. Algu ma s crianças reb elam- se contra o sistema aper-
tando seu s esfíncteres u retrais e retendo a u r in a tanto quanto possível,
obtendo u m pra zer considerável n a s sensações desagradáveis qu e disto
res u lta m ou , a in d a , ma is pra zer qu ando s olta m, às vezes , à noite, n a
ca ma * .
C erta s famílias fa la m d a corrupção do s exo du rante a s refeições.
S eu lema é: " E m nos s a família a s mu lheres mantêm s u a s pernas cr u za -
d a s " . M es mo qu ando su as pernas não estão cru za da s , fica m com os
esfíncteres va gina is tensionados. E m ou tras famílias os esfíncteres va gi-
na is são amplamentes descontraídos e a s pernas soltas, sendo a convers a
à mes a vu lga r e pornográfica.
E s tes são exemplos comu ns qu e ilu s tra m a teoria dos esfíncteres
ou , como é denomina da comu mente, a teoria d a s exu a lida de infa ntil, qu e
foi completa e claramente des envolvida p or E r i k s o n 1 1 . E l e cons idera
cin co etapas de des envolvimento, ca d a u ma delas rela ciona da com u ma
zon a anatómica e m pa rticu la r ( or a l, a na l ou genital). C a d a u ma pode ser
" u ti l i za d a " de cin co maneiras ou modos diferentes, inclu indo o Incorpo-
ra tivo ( 1 e 2 ) , o Retentivo, E l imin a tivo e o In tr u s ivo, constitu indo u ma
ma triz de 2 5 categorias. E l e r ela cion a a lgu ma s destas categorias com
certas atitudes e características e com linha s particu lares de des envolvi-
mento pes s oa l semelhantes a trajetórias de vid a do script.
E mprega ndo a lingu a gem de E r i k s o n , a injunção parental " F i q u e
com a b oca fech a d a " é retentiva or a l, " M a n ten h a o c u a perta do" é r e-
tentiva a na l e " F i q u e com a s pernas cr u za d a s " é retentiva fálica. N ovi-
dades alimentares são incorpora tiva s ora is , o vomita r é elimina tiva ora l e
o lingu a ja r ob sceno é intru s ivo. A s s i m , u ma indagação sobre as conver-
sas às refeições pode, frequentemente, loca liza r a cu ltu ra fa milia r n u ma
zona e n u m modo com bastante precisão. Is to é importante porqu e certos
jogos e scripts, e os sintomas físicos qu e os a compa nha m, estão b asea-
dos em zona s e modos apropriados. P or exemplo "E s tú pido" é a na l em
termos de zon a e " E s t o u apenas qu erendo a j u d a r " é intru s ivo, enquanto
"Alcoóla tra " é incorpora tivo or a l.
O "esfíncter c l o a c a l " mítico exis te na s mentes de pessoas confu -
sas, cu j a Criança pens a qu e exis te apenas u ma ab ertu ra n a parte inferior
nos dois s exos , e qu e esta pode s er fecha da à vontade. Is to leva a scripts
qu e a s pessoas ma is realistas têm dificu lda de de entender, especialmente
se a b oca também for incluída. U m esquizofrénico catatônico poderá fe-
ch a r tudo rapidamente: mantém todos os seu s esfíncteres apertados, de
modo qu e na da pode entrar ou s a ir de s u a b oca , b exiga ou reto e poderá
ter qu e s er alimentado por s onda , cateterizado ou receb er la va gens a i n -
tervalos regu lares p a r a assegu rar s eu b em- estar físico e s u a sobrevivên-
cia . A q u i o slogan dc* script é " A n te s morrer do qu e deTxá-lós en tr a r " e
isto é aceito literalmente pela Criança qu e controla os esfíncteres e qu e,

* Mas, por favor, não bata nos que urinam na cama numa tentativa de curá-los. (N. do T .)

139
nestes ca s os , está mu ito confu s a qu anto à s u a estru tu ra e fu ncionamento.
A ma ior ia dos scripts, entretanto, está centrada em torno de u m
esfíncter e m pa rticu la r, e a ps icologia do script relaciona- se c o m esta
área fisiológica. P o r es ta razão o a na lis ta do script " p en s a em termos de
esfíncter". O retesar constante de u m esfíncter poderá afetar todos os
músculos dó corpo, e es ta tendência mu s cu la r relaciona- se com os inte-
resses e a atitude emociona l d a pes s oa , influ encia ndo o modo corno os
ou tros reagem e m relação a ela . Is to fu nciona de acordo com o modelo
do " l a s c a in feccion a d a ". S e Jeder tiver u ma la s ca infecciona da no dedão
do pé direito, começará a ma nca r. Is to atinje os músculos d a s u a perna e,
como compensação, os músculos de su as costas ficarão tensionados. D e -
pois de a lgu m tempo os músculos dos seu s omb ros serão afetados, en -
volven d o logo e m s egu ida os do pescoço. S e andar mu ito, o distúrbio no
equilíbrio mu s cu la r aumentará até qu e, em consequência, os músculos d a
cabeça e do cou ro ca b elu do serão afetados e ele poderá sentir dor de c a -
beça. À medida qu e o andar se torna ma is difícil è s eu corpo se mantém
ma is e ma is teso, a infecção progride e s u a digestãa e circulação poderão
tornar- se difíceis. N es te momento alguém dirá: " E s t e é u m estado difícil
de cu ra r, pois en volve seu s órgãos internos , s u a cabeça e todos os mús-
cu los do s eu corpo. Tra ta - s e de u ma doença de todo o or ga n is mo". M a s
aí chega o cirurgião e d iz: " P os s o cu ra r tu do, in clu s ive ^ u a feb re, dor de
cabeça e toda s u a tensão mu s cu l a r " . E l e retira a la s ca , a infecção cede.
Jeder pára de ma nca r, os músculos d a cabeça e do pescoço r ela xa m, a
dor de cabeça desaparece e, à medida qu e o resto do corpo se descontrai,
tudo volta ao n or ma l. A s s i m , emb ora este estado en volva todo o corpo,
poderá s er cu ra do procu rando- se a la s ca n o lu ga r certo e removendo- a.
Então não apenas Jeder, ma s todos à s u a volta ficam a livia dos e podem
também descontrair- se. U m a ca deia semelhante de eventos se dá qu ando
u m esfíncter é contraído. O s músculos vizin h os se contra em pa ra dar- lhe
tração e apoio. P a r a compensar, os músculos ma is distantes são afetados
e, consequ entemente, todo o corpo é envolvido. Is to é demonstrado com
cla reza . S u p on h a qu e o leitor, ao estar sentado, lendo, contra ia o s eu
ânus. Perceberá de imediato qu e isto en volve os músculos d a parte infe-
rior de su as costas e pernas. S e ele leva nta r- s e d a ca deira mantendo o
ânus contraído, notará qu e aperta os lábios, qu e por s u a vez afetarão a
mu s cu la tu ra d a cabeça. E m ou tras p a la vr a s , manter o ânus contraído a l -
tera a dinâmica mu s cu la r de todo o s eu corpo. É o qu e acontece com as
pessoas cu jo script exige qu e " M a n ten h a o c u apertado ou a ca b a leva n -
do n el e" . C a d a músculo do s eu corpo é en volvid o, inclu indo os d a ex-
pressão fa cia l, qu e in flu en cia a forma como a s pessoas reagem, forne-
cendo a provocação p a r a a Criança do ou tro, o antagonista do script,
qu e está destinado a rea liza r a mudança n o script.
Is to fu nciona d a segu inte ma neira : chamemos o homem com o
ânus contraído de A n g u s e o s eu oposto, o antagonista do script, de L a -
na . E s ta procu ra u m A n g u s e ele p r ocu r a u ma L a n a . E l a sab e imediata-
mente qu ando encontrou u m A n g u s por ca u s a d a s u a expressão fa cia l.

140
C on fir ma o ju lgamento intu itivo de su a Criança no decorrer d a convers a ,
à medida que ele r evela s u a s atitudes e interesses. O papel de L a n a no
script de u m An gu s é provoca r a mudança no script. O contra-script de
A n g u s é manter- se sempre tenso, ma s s eu script é diferente. Por ma is
que se esforce p a r a manter- se tenso, de acordo com o preceito Pa renta l,
a ca b a b a ixa ndo a gu arda, e então o script pa s s a a dominar. Neste mo-
mento de fra qu eza ele se descontrai. É ju stamente isto que L a n a es ta va
esperando. E l a a rma a mudança e, de a lgu ma máneira, " A n g u s l eva no
c u " enqu anto el a entra em cen a pa ra cu mprir s u a missão. E nqu a nto
An gu s tentar manter o ânus contraído, "levará no c u " repetidamente. É
a s s im qu e s eu script fu nciona - a não s er qu e ex ij a qu e ele seja u m
vencedor e, aí, será ele o qu e fa z os ou tros leva rem, como é o ca s o de
fina ncis ta s a na is . S e o a na lis ta de script pensar em termos de esfíncter,
saberá com qu em está lidando. O paciente qu e desiste de s eu script terá
os músculos do s eu corpo mu ito ma is descontraídos. A mu lher qu e antes
ma ntinha s eu ânus contraído, p or exemplo, deixará de remexer- se n a ca -
deira , e a qu e con s er va va s u a va gin a contraída não ma is sentará com os
braços e pernas cru za dos tensamente, com s eu pé direito enrolado em
volta d a parte interna do tornozelo esqu erdo. C o m estas observações so-
b re os au tocratas à mes a do ja nta r, qu e ens ina m seu s filhos com qu e
músculos ancorar seu s corpos pa ra o resto d a vid a , concluímos nosso le-
vantamento sobre a s influências ma is importantes do fin a l d a infância,
estando preparados p a r a a na lis a r o próximo estágio do desenvolvimento
do script.

N ota s e referências

1) Erikson, E . Childhood and Society. Loc. cit.y p. 81.

2) Cronologia. A s aqui apresentadas, até a puberdade, baseiam-se principalmente


na memória de pacientes adultos e informações de pais sobre seus filhos, cor-
roborada por leituras e, em menor escala, através da observação direta de,
crianças. Psiquiatras infantis e professores de escolas maternais e primárias,
como os que freqiientam os seminários de Análise Transacional de São Fran-
cisco, acharam os dados aceitáveis, na maioria dos casos.
3) O paralelo entre figurinhas psicológicas e comerciais é verdadeiramente es-
pantoso. V er Fox, H . W. The Economics ofTrading Stamps. Washington, D .
C , Public Affair Press, 1968. Quase todas as observações sobre colecionado-
res domésticos aplicam-se igualmente bem para os que comerciam com figu-
rinhas psicológicas.
4) O D r . Robert Zechnich (Transactionl Analysis Bulletin 7:44, Ab ril, 1968)foi
o primeiro a fazer a observação provocadora de reflexão de que existem
paranóides Criança e paranóides Pai, e o D r . Stephen Karpman ressal-
tou que, enquanto as alucinações são de fato falsas, os delírios não o são
completamente.
5) Breastead, J . The Dawn of Conscience. New Yor k, Charles Scribneris
Sons, 1933.
141
6) Tolstoy, L. , War andPeace, New Yor k, The Modem Lib rary.
7) Philippe, C . L . Bubu ofMontpamassc. Loc. cit*.
8) Ju ng,C . G . PsychologicalTypès. Loc cit., p. 590.
9) Freu d, S . Three Contributions to the Theory ofSex. New York, E P. Dutton
& Company.
10) Abraham, K. Selected Papers. London, Hogarth Press, 1948.
11) Erikson, E . Childhoodand Society. Loc. cit., cap. 2.

142
9. A do l e sc ê nc i a

Adolescência s ignifica a nos de cu rs o colegia l e universitário, ca r-


teira de motorista, bar-rnitriah^, iniciação, fa zer o qu e qu er e ter su as
próprias cois a s . S ign ifica a in d a , pelos a qu i e a l i , sutiã e menstruação,
b arb ear- se e, ta lvez, u ma aflição indes eja da qu e destrói seu s pla nos e
s u a mente - a cne. S ign ifica decidir o qu e você terá o resto d a vid a ou ,
pelo menos , como preencherá o $eu tempo até toma r\ u na decisão. S ig n i-
fica (se qu er mesmo des cob rir o s eu s ignifica do) ler a s trezentas ou ma is
páginas de livr os impressos sobre o a s s u nto, como também a lgu ns dos
melhores livr os qu e s e encontra m esgotados e vários milha res de artigos
em revis ta s e periódicos científicos. P a r a o a na lis ta de script isto qu er
dizer u m ens a io ou p r ova antes do espetáculo ser apresentado. S ign ifica
que a gora você estará realmente em foco p a r a responder à pergu nta, pois
se não o fizer poderá não ter s u ces s o: " O qu e d iz você depois de dizer
olá ?" ou " S e os seu s pa is e professores não estru tu rarem o s eu tempo
completamente, como você o estruturará?".

A. Passat e m po s

O s silêncios podem s er preenchidos p or convers a s a respeito de


cois a s , em geral u ma forma de exib ição, com pontos a fa vor dos ma is
ilu strados. O scjript entra em cen a ao sab er- se ma is ou menos do qu e to-
dos , fa la ndo sob re triu nfos ou a za res . " D iver ti- me ma is do qu e vo c ê " ou
" T i v e ma is a za r do qu e você" . A l g u n s são tão perdedores qu e mesmo
su as desgraças são tr ivia is e não podem ganhar de for ma a lgu ma . O u tro
tópico tratado com pessoas qu e se conhece melhor são idéias e sentimen-
tos, a compa ra r filos ofia s , " E u Ta mb ém" ou " C o m i g o É D ifer en te". U m
vencedor pode s er ma is nob re ou ma is du ro, enqu anto u m perdedor pode
produ zir sofrimentos e cu lpa s ma iores . E n tr e os dois , u m não-ganhador
poderá estar a pris iona do a sentimentos meramente medíocres. A terceira
área é a Associação de Pa is e Mes tres : " O qu e você fa z com professo-
res , pa is o u namorados deliqúentes?" E s ta é a Tu r m a d a V i d a , esperando
por Pa p a i N oel , qu e trará u m ca r r o, u m time de fu teb ol, tempos, profes-
sores, pa is e namorados melhores . A Tu r m a d a Morte pode desprezar
tudo isto e u s a r s eu tempo de forma ma is caracteristicamente de script,
fu mando ma conha , tomando L S D , fazendo " vi a g e n s " ju ntos e " va g a -
b u ndeando de ver d a d e" Q u a lqu er qu e s eja a tu rma frequ entada, Jeder
aprende o qu e s e deve ou não dizer e como dizê- lo, comparando figu ri-
nhas com ou tros d a s u a espécie.

* Cerimónia religiosa judaica que marca a passagem da infância para a idade adulta, no caso
dos meninos. (N. do T . )

143
B . N o v o s he ró i s

D e convers a s como estas, de leitu ra s e do qu e ob s erva , Jeder s u b s -


titu i os heróis místicos e mágicos do esboço do s eu script por figuras
ma is viáveis, pessoas r ea is , viva s ou mortas, em qu em pos s a ins pira r- s e.
Aprende ma is a respeito dos vilões rea is e como a tu a m. A o mesmo tem-
po, adqu ire u m a pelido ou u ma forma de nome ( Fr ed er ico, F r ed ou F r e -
d i; C a r l os , C a r lito o u Carlão) qu e o informa sob re como os ou tros o
veêm, contra o qu e tem de lu tar ou ser. G or d o, C a r a de C a va l o, P is ca -
p is ca ou Cabeça de V en to, terá qu e tra b a lha r extr a du ro pa ra ter u m fin a l
feliz. Peitu do, ou M a ca co Pelu d o, poderá a cha r qu e é fácil cons egu ir s e-
x o, ma s o qu e acontecerá se qu is er ou tra cois a ?

C. O totem

Mu ita s pessoas s onha m repetidamente com a lgu m a n ima l ou vege-


ta l. E s te é o s eu totem. E x is tem a s s im mulheres-pássaro, mu lheres -
a ra nha , mu lheres - cob ra , mu lheres- gato, mu lheres - ca va lo, mu lheres - ros a ,
mu lheres - erva , mu lheres- repolho e mu ita s ou tras. E n tr e os homens , os
fa voritos são ca chorros , ca va los , tigres, grandes serpentes constritoras.
O totem aparece sob várias formas. À s vezes são amedrontadores, como
aranhas venenosas e cob ra s , ou tras b enevolentes, como é o ca s o de gatos
e repolhos. S e u ma mu lher- gato tem u m ab orto o u interrupção a cidenta l
de gra videz, é b astante provável qu e gatinhos mortos aparecerão em seu s
sonhos.
N a vid a r ea l, o paciente reage a o animal- totem de modo mu ito se-
melhante a o qu e fa z no sonho. Toten s negativos estão frequentemente
rela ciona dos c o m reações alérgicas, e os pos itivos são os preferidos co-
mo a nima is de estimação, emb ora pos s a m, também oca s iona r a lergia s .
Mu itos in veja m seu s totens e procu ra m s er como eles. M u ita s mu lheres
gostariam de s er gatos e o decla ra m com frequência. O s movimentos de
braços e pernas da s mu lheres tendem a s er altamente estilizados em s i -
tuações s ocia is , ma s s eu animal- totem pode s er a divinha do através d a
observação dos movimentos d a cabeça. Poderão imita r gatos, pássaros
ou cob ra s e verifica r- s e facilmente ob servando- se gatos, pássaros ou co-
b ras. O s homens têm movimentos de corpo e memb ros ma is livr es e a l -
gu ns b atem seu s pés no chão como ca va los ou estendem seu s braços co-
mo constritores. Is to não é apenas u m ca pricho por parte do ob servador,
u ma vez qu e pode s er confirmado ao escu tar- se cu idadosamente s u a
metáfora ou ou vir seu s sonhos.
O totemismo é ab andonado, em gera l, aos dezeseis anos. S e pers is -
tir n a adolescência ta rdia sob a forma de s onhos , fob ia s , imitações ou
habbies, deverá s er leva do em consideração. S e não for tão ób vio, o to-
temismo pos itivo poderá ser facilmente dedu zido ao pergu ntar- se: " Q u a l

144
é o s eu a n ima l fa vor ito?" ou " Q u e a n ima l gostaria de s e r ?" . N o ca s o do
totemismo negativo, a pergu nta será: " D e qu a l a n ima l voce têm ma is
med o?"

D. Se nt i m e nt o s n o v o s

A masturbação é algo próprio. E l e não sabe o qu e fa zer c o m su as


nova s sensações s exu a is e como ajustá-las a o s eu pla no, por is s o reage
com sentimentos anteriores com os qu a is está fa milia riza do, s eu s dis fa r-
ces . A masturbação poderá também fa zer com qu e s ofra a a gonia de u ma
verda deira cris e exis ten cia l. É a lgo qu e ele fa z, oú não fa z, n u m deter-
mina do momento, e isto é a lgo qu e ele próprio decide ( ou d ever ia d eci-
d ir ) . U m a vez feito, só ele arcará com a s consequências qu e poderão s er
sentimentos pa rticu la res como cu l p a (porqu e a masturbação é depra va -
da ), medo (porqu e pens a qu e é n ociva à saúde) ou inadequação (porqu e,
pens a ele, enfraquecerá s u a força de vontade). Tod a s estas são " tr a n -
sações men ta is " entre P a i e Criança dentro de s u a cabeça. Poderá ter,
além dis s o, sentimentos tra ns a ciona is qu e dependerão da s reações, rea is
ou imaginárias, do s eu público: mágoa, cólera ou constrangimento pois ,
pens a ele, a gora terá razões rea is p a r a gozá- lo, odiá- lo ou envergonhá-
lo. E m qu alqu er ca s o, a masturbação dá-lhe u ma a lterna tiva p a r a aju star
os novos sentimentos a os antigos qu e aprendeu como criança.
Más ele também aprende a s er ma is flexível. D o s seu s colegas e
professores obtém "permissão" p a r a rea gir com sentimentos ou tros além
daqu eles encorajados em ca s a , e aprende também a moderar- se: n em to-
dos leva m a sério a s cois a s com a s qu a is seu s fa milia res se preocu pa m.
E s ta mudança em. s eu s is tema de sentimentos gradu almente o a fa s ta de
s u a família, a proxima ndo- o da s pessoas d a s u a idade. Ad a p ta s eu script
à n ova situação, tornando- o ma is "apresentável". Pode até mes mo m u -
da r o s eu pa pel de fra ca s s o total p a r a su cesso p a r cia l, de u m perdedor
pa ra u m não-ganhador ou , pelo menos , empatando. S e tiver u m script de
vencedor descob re qu e isto requ er u ma certa ob jetividade. E n con tr a - s e
agora nu ma situação competitiva , e as vitórias não a pa recem a u toma tica -
mente e s im após u ma certa qu antidade de planejamento e trab alho.
Aprende a a ceita r algu mas derrotas s em fica r ab alado.

E . R e aç õ e s f í si c as

S ob todo este estresse e mudança, ma is a necessidade de manter- se


ca lmo pa ra alcançar o qu e des eja , b o m ou ma l , torna- se ma is cons ciente
de su as reações corporais. S u a mãe e s eu p a i não podem ma is circundá-
lo de amor e proteção e, por ou tro la do, ele não está ma is in clin a d o a

145
simplesmente cu rva r- s e diante de s u a fiíria, emb riagu ez, qu eixa s ou b r i-
gas. Q u a lqu er qu e s eja a situação em ca s a , ele está por s u a própria conta
do la do de fora . T e m qu e se leva nta r diante dos colegas e recita r, ca mi-
nha r por longos- corredores frequentemente solitários sob o olha r crítico
das garotas e ra pa zes , mu itos dos qu a is já conhecem su as fraquezas. Às
vezes tra ns pira aromaticamente, su as mãos tremem, s eu coração bate
com força. A s menina s cora m, su as rou pa s u medecem e seus estômagos
gorgu lham. E m amb os os s exos há u m sortido de contrações e descon-
trações -de vários esfíncteres internos e externos , e es ta reorganização
poderá determinar, a longo pra zo, qu a is a s doenças "psicossomáticas" que
terão u m papel relevante em seu s scripts. Jed er torna- se res fincteriza do*.

F . O q ua r t o d a f r e n t e e o q ua r t o d o s f un d o s

O qu e se p a s s a no "qu a r to d a fr en te" e o qu e ocorre no "qu a rto


dos fu n d os " poderá ter dois sentidos diferentes, como mostra a estória a
segu ir. C a s s a n d r a er a a filh a de u m sacerdote e se ves tia de forma des-
leixa d a , ma s n u m estilo estranhamento erótico de S ex o Perdedor, e s u a
vid a também er a is s o: des leixa da , ma s estranhamento erótica. E r a evi-
dente qu e s eu p a i h a via , de a lgu ma ma n eir a , ensinado a el a como ser se-
du tora , enqu anto s u a mãe não lhe tra ns mitiu a s técnicas de implemen-
tação. E l a con cor d a va qu e s u a mãe não a h a via ensinado como vestir- se
ou cu ltiva r s eu corpo, ma s n ega va de início que seu p a i a tinha ensinado
como ser sexy. " E l e er a u m homem mu ito correto e mora lis ta , como deve
ser u m s a cerdote". Res pondendo a pergu ntas a diciona is feitas pelo tera-
peu ta e pelos ou tros memb ros do gru po a respeito d a atitude de s eu p a i
com relação às mu lheres , el a dis s e qu e er a mu ito correta e aceitável, ex-
ceto qu ando ocasionalmente s e r eu n ia com a lgu ns amigos no "qu a rto
dos fu n d os " p a r a conta rem pia da s eróticas qu e, n o gera l, era m u m deb o-
che ao s exo feminino. S e u p a i er a mu ito correto no "qu a rto d a fr en te",
porém demons tra va o ou tro la do d a s u a personalidade no "qu a r to dos
fu n d os ". E m ou tras p a la vr a s , mos tra va s eu p a i ou o b om menino no
qu arto d a frente e s u a Criança ma licios a no qu arto de trás.
A s crianças tomam consciência mu ito cedo n a vid a qu e seu s pa is
têm várias facetas em s eu caráter, ma s não sab em como avaliá-las até a l -
cançarem a adolescência. S e vivem em la res onde exis tem comportamen-
tos de "qu a r to d a fr en te" e comportamentos de "qu a rto dos fu n d os ",
poderão indigna r- s e com is to, descob rindo qu e é parte d a h ip ocr is ia do
mu ndo. U m a mu lher levou s eu filho de dezoito anos pa ra ja n ta r qu ando
ele veio pa s s a r a s férias d a facu ldade em ca s a . E n comen d ou u m ma rtini
pa ra s i , ma s disse a o filho qu e ele não poderia b eb er, emb ora sou b esse
qu e ele a precia va b eb idas alcoólicas e, n a verda de, b eb ia exces s iva mente.
O s memb ros do gru po pa s s a ra m horas ou vindo a s qu eixa s dela a respeito
d a b eb ida do filho. C on cor d a va m qu e teria sido melhor ou el a não

* T rat o-sc de um neologismo. (N. do T . )

146
ter encomendado o ma rtini ou então permitido qu e s eu filho bebesse com
eia e qu e a s u a ma neira de a gir es ta va leva ndo o filho a estab elecer u m
script de alcoólatra.
N a lingu a gem de script, o quarto d a frente representa o antiscript,
onde os preceitos Pa renta is têm o controle, enqu anto o qu arto dos fu n-
dos representa o script, onde se encontra a ação rea l.

G . Script e antiscript

A adolescência é o período em qu e Jeder os cila , ou a goniza , entre


seu script e s eu antiscript. Ten ta s egu ir os preceitos de seu s pa is , reb e-
la- se contra eles , somente por su rpreender- se segu indo a programação do
script delefr. Perceb e a fu tilidade disto e então r eca i nos preceitos n ova -
mente. A o f i m d a adolescência, qu ando completa a facu ldade ou receb e
b a ix a no serviço milita r, tomou a lgu m tipo de decisão: ou se a comoda e
segue os preceitos, ou se afasta e es correga morro a b a ixo em direção a o
desfecho do script. É provável qu e continu e n a rota es colhida até chega r
aos qu arenta, qu ando pa s s a por s u a segu nda agonia. S e s egu iu os precei-
tos de seu s pa is , tenta romper com eles : divorcia - s e, ab andona o empre-
go, foge com os lu cros ou , n o mínimo, tinge os ca b elos e compra u ma
gu itarra. S e se a fu ndou com o script, tenta reformu la r filiando- se a os
Alcoólatras Anónimos ou procu ra ndo u m ps iqu ia tra .
M a s a adolescência é o período do sentir, p ela primeira vez, qu e
pode fa zer u ma es colh a autónoma. Infelizmente este sentimento de au to-
nomia poderá s er parte d a ilusão. O qu e, em gera l, fa z, é apenas alternar
ma is ou menos violentamente os preceitos do P a i de seu s progenitores e
as provocações d a Criança qu e eles oferecem. O s adolescentes qu e u s a m
drogas não estão necessariamente reb elando- se contra a au toridade P a -
renta l, ma s contra os lema s Pa renta is . A o fa zer is to, poderão estar s e-
gu indo tão-somente a s provocações demoníacas, a "Criança l o u c a " des -
tes mesmos pa is . " N ã o qu ero meu filho b eb en d o", d iz a mãe enqu anto
toma u ma b eb ida. S e ele não b eb er, é u m b om menino, o filhinho d a
mamãe. S e b eb er, é ma u , ma s continu a sendo o filh in h o d a mamãe.
" N ã o deixe ninguém leva nta r s u a s a i a " d iz o p a i pa ra a filh a , olhando
pa ra a s a ia d a garçonete. Faça o qu e fizer, continu a sendo a filh in h a do
pa pa i. Poderá ou não dormir com alguém d a es cola e depois regenerar- se
ou permanecer vir gem até ca s a r- s e e ter su as a ventu ra s ma is tarde. N es te
entretempo, ta lvez o ra pa z e a garota poderão tomar su as próprias de-
cisões e lib era r- s e de seu s scripts vivendo de s eu próprio jeito. Is to se
dará especialmente se tiverem "permissão pa ra tomar su as próprias de-
cisões (contanto qu e o faça à min h a ma n eir a ) " .

H . A i m ag e m d o m un d o

A criança tem u ma ima gem de mu ndo qu e é bastante diferente d a

147
dos seu s progenitores. É u m mu ndo de contos de fa da s , cheio de mons -
tros e ma gia , qu e persiste du rante toda a vid a , formando o pano de fu ndo
de s eu script. U m exemplo simples é a noite de medo ou terror qu ando
Jeder grita , dizendo qu e há u m u rs o em s eu qu arto. S eu s pa is entram,
a cendem a l u z e mos tra m qu e lá não exis tem u rsos o u , então, fica m ir r i-
tados e lh e d izem p a r a fica r qu ieto e dormir. E m qu alqu er u ma da s alter-
na tiva s a Criança de Jeder sab e, entretanto, qu e há ou h a via u m u rs o no
qu arto. C omo G a l i l e u , el a grita : "Eppur se muove"*. A s du as ma neira s
diferentes de lida r com a questão não a ltera m a estória do u rs o. A ab or-
da gem r a cion a l s ignifica qu e, qu ando hou ver u m u r s o, seu s pa is virão
pa ra protegê- lo e o ursò se esconderá. A ab ordagem irritadiça s ignifica
qu e, qu ando hou ver u m u rs o, você estará só. M a s o u rs o permanece nos
dois ca s os .
Q u a n d o Jeder cres ce, s u a ima gem de mu ndo ou conformação de
seu script torna- se mu ito ma is ela b ora da e melhor es condida , a não s er
qu e reapareça com su as distorções origina is sob a forma de delírios.
C omu mente, entretanto, não há vestígio dela , até qu e apareça n u m sonho
e então, de forma repentina , b oa parte do comportamento do paciente
torna- se coerente e compreensível. U m a mu lher es ta va preocu pa da c o m
dificu lda des monetárias porqu e s eu ma rido envolveu - s e em enrascadas
fina nceira s complexa s com vários patrões s eu s . Q u a ndo os ou tros mem-
b ros do gru po qu estionaram o comportamento dele, W a n d a o defendeu
irrita da . E l a es ta va bastante preocu pa da também com a qu alidade d a die-
ta de s u a família. N a verda de, não tinha razão p a r a preocu par- se, pois
seu s pa is es ta va m b em de vid a e el a poderia pedir- lhes dinheiro empres-
tado. P or ma is òu menos dois anos o terapeu ta foi inca pa z de cons tru ir
u m pa nora ma coerente em s u a cabeça do qu e es ta va acontecendo, até
qu e u m a noite el a teve u m " s on h o de script". E s ta va " viven d o n u m
ca mpo de concentração dirigido por a lgu ns ricaços qu e vivia m no alto
do morro. A única ma neira de cons egu ir comid a su ficiente er a ou agra-
dando os ricaços ou os en ga n a n d o".
E s te sonho fa cilitou a compreensão do s eu es tilo de vid a . S e u ma -
rido es ta va joga n d o " V a m o s aprontar u ma b oa p a r a e l e " c o m seu s p a -
trões, de modo qu e W a n d a pu desse joga r " F a zen d o o impossível". To d a
vez qu e ele ga n h a va a lgu m dinheiro tinha o cu ida do de perdê- lo n a p r i-
meir a oportu nidade, pa ra assegu rar a continu idade dos jogos . Q u a ndo a s
cois a s fica va m realmente difíceis, W a n d a entra va e m cen a e a ju da va o
ma rido a aprontar a lgu ma cois a contra os pa is dela . A longo pra zo, e p a -
r a desagrado dos dois , os patrões do ma rido e os pa is dela sempre con -
s egu ia m controla r a situação. E l a , irrita da , negou tudo is s o no gru po,
pois er a tão ob viamente preju dicia l qu e, se o a dmitis s e, os jogos s eria m
interrompidos (o qu e terminou acontecendo). E l a es ta va viven d o de for-
ma mu ito s imila r ao s eu s onho, seu s pa is e os patrões do ma rido sendo
as pessoas ricas qu e vivia m no alto do mon o e d ir igia m s u a vid a , e el a

E , no entanto, ela se m o v e ". (N. do T . )

148
tendo qu e os agradar ou os enganar pa ra s ob reviver.
O campo de concentração er a a s u a ima gem de mu ndo ou conforma -
ção do s eu script. V i v i a a realidade como se es tives s e morando no ca mpo
do s eu sonho. S u a terapia até aqu ele momento er a típica do "es ta r melho-
r a n d o" . E l a teve várias melhora s , ma s a gora es ta va cla r o qu e estas me-
lhoria s s ign ifica va m apenas " como viver melhor n u m ca mpo de concen-
tração". N ã o h a via m interferido no s eu script, ma s apenas tornado ma is
confortável a s u a realização. P a r a fica r b em, W a n d a tinha qu e s a ir do
ca mpo de concentração e entrar n o mu ndo r ea l, qu e p a r a el a er a con -
fortável, ou se torna ria tão logo a s questões fa milia res fica s s em em or-
dem. É interessante notar qu e W a n d a e s eu ma rido es colhera m u m ao ou -
tro com b ase nos seu s scripts complementares. O dele exigia a presença
de a lgu ma s pessoas rica s n o alto do morro p a r a enganá-las, como
também u ma es pos a assu stada. O dela pedia u m trapaceiro qu e torna ria a
vid a ma is fácil n a s u a escravidão. A conformação do script é, em gera l,
a liena da d a realidade d a vid a do paciente, de modo qu e não há como r e-
construí-la p ela mer a observação ou interpretação. A melhor expecta tiva
é ob ter u m qu adro cla r o da qu ela através de u m sonho. O " s on h o d a con -
formação do script" é reconhecível porqu e, a s s im qu e o paciente rela ta ,
mu itas cois a s entra m nos eixos . Pictorica mente, não apresenta nenhu ma
semelhança com a vid a r ea l do paciente, ma s transacionalmente é u ma
réplica exa ta . U m a mu lher qu e es ta va sempre "p r ocu r a n d o u ma saída"
s onhou qu e es ta va sendo persegu ida e encontrou u m túnel qu e des cia .
E s gu eirou - s e p a r a dentro dele e a s pessoas qu e a pers egu ia m não p u d e-
r a m, a s s im, s egu i- la . M a s fica r a m de gu a rda , esperando qu e saísse n o-
vamente. E l a des cob riu , porém, qu e h a via também u m b ando de pessoas
perigosas esperando por el a n a ou tra extremida de do túnel, de forma qu e
não podia i r n em p a r a a frente n em p a r a trás. A o mes mo tempo, se tives -
se u m momento de distração, es correga ria p a r a os braços dos qu e a espe-
r a va m lá em b a ixo, p or is s o tinha qu e fa zer pressão c o m a s mãos contra
as paredes do túnei, e enqu anto fizes s e es ta ria s egu ra .
N a lingu a gem do script, el a pa s s ou a ma ior parte de s u a vid a en -
cu rra la da n u m túnel, n u ma posição inconfortável, e pa recia cla r o, por
su as atitu des e história pregressa, qu e o fim do script exigia qu e el a se
cansasse de ficar lá e escorregasse nos braços d a morte expectante. E l a ,
também, h a via tido " m e l h o r a s " consideráveis no tratamento até aqu ele
momento. Tr a d u zin d o, a melhora s ign ifica va " C o m o fica r ma is con -
fortável enqu anto se a ga rra às paredes de u m túnel à es pera d a mor te".
A cu r a do script s ignifica ria retirá-la do túnel p a r a o mu ndo r ea l, qu e
fosse igu almente confortável p a r a ela . O túnel er a a conformação de s eu
script. E x is tem ou tras explicações possíveis p a r a este s onho, como qu a l-
qu er ca lou ro qu e cu r s ou Ps icologia I pode des cob rir s em dificu lda des . A
interpretação do script, entretanto, é importante porqu e informa ao te-
rapeu ta e a os ou tros memb ros do gru po, como também ao paciente e s eu
ma rido, sobre a s cois a s com a s qu a is estão lida ndo e o qu e deve s er fei-
to, enfatizando qu e a " m e l h o r a " não é s u ficiente.

149
A cen a do túnel teria , prova velmente, permanecido inalterada desde
a primeira infância, u ma vez qu e a paciente h a via sonhado com el a mu itas
vezes n o passado. A cen a ào ca mpo de concentração é evidentemente
u ma adaptação posterior de u m pesadelo infa ntil qu e W a n d a er a inca pa z
de recordar. E s ta va b aseado em experiências precoces , modificadas p or
leitu ras e fantasias d a adolescência. A adolescência, então, é o período
em qu e os túneis amedrontadores d a infância receb em u ma forma ma is
rea lis ta e contemporânea p a r a cons tru ir a conformação opera ciona l do
script para o pla no de vid a do paciente. A relutância de W a n d a em apro-
fu ndar- se na s "trapaças" j J o ma rido mos tra o quão tenazmente a s pes-
soas se prendem às cena s de s eu script, enqu anto recla ma m de como são
desagradáveis.
U m a conformação de script qu e pode continu a r ina ltera da p a r a o
resto d a vid a é a do b a nheiro. N o capítulo anterior demos u m exemplo
de u ma mu lher cu j a Criança pa s s ou s u a vid a sentada no va s o sanitário,
mes mo qu ando s eu corpo repou s a va n o sofá. N es te ca s o, melhorar s igni-
ficava " C o m o ter u ma vid a s ocia l ma is rica e divertir- s e em festas ca r r e-
gando o va s o sanitário p a r a onde qu er qu e vá " . S ign ifica va qu e el a teria
qu e leva nta r- s e e s a ir, deixa ndo s eu tanque de res erva p a r a trás, o qu e
ela r elu ta va e m fazer. O u tr a j ovem qu e d izia sentir- se ma l n a compa nhia
de ou tras pessoas, v i v i a s u a vid a de script a ga cha da n u ma pequ ena s a -
liência la tera l de u ma r och a es ca rpa da . T i n h a u ma rocha, portátil qu e ca r -
r ega va cons igo onde qu er qu e fosse. Pod ia melhora r, estando ma is feliz
enqu anto agachada n a r och a , ou ficar b oa descendo dela e dançando
com os ou tros.

L Cam i se t as

Tod os os itens dis cu tidos até a gora neste capítulo estão condens a -
dos n a expressão do pa ciente, d a forma como ele " p r o vo c a " , e isto é
denominado de " c a m i s e ta " . E s ta , e m u ma ou du a s frases bastante cria ti-
va s , artísticas e económicas, in d ica a os olhos experientes qu a is são os
jogos , passatempos e sentimentos favoritos do paciente, s eu apelido, o
qu e ele fa z n o qu arto d a frente e n o do fu ndo, em qu e tipo de mu ndo
menta l vive, qu e tipo dè f i m o s eu script exige e, às vezes , qu a l o esfínc-
ter crítico, além do s eu herói e do s eu totem.
A ca mis eta , em gera l, é adotada no cu rs o colegia l ou n o início do
cu rs o su perior, período e m qu e são popu lares. M a is tarde poderá s er
b orda da ou os dizeres alterados, mas o âmago do significado não mudará.
Tod os os clínicos competentes, de qu a lqu er es cola , têm u ma cois a
em comu m: são b ons ob servadores. S endo qu e todos ob s erva m a mes ma
cois a — comportamento hu ma no —, estão fadados a ter u ma semelhança
no qu e vêem e em como orga niza m e rela ta m su as observações. D a í a
idéiá 1 psicanalítica de "d efes a de caráter", ou "couraça de caráter", o
conceito ju n gia n o 2 de " a titu d e" , a noção A d l er ia n a de "men tir a v i t a l "

150
ou " es til o de v i d a " e a metáfora tra ns a ciona l de " c a m i s e ta " , des cre-
vendo todos fenómenos s imila r es . *
Uma camiseta real ( " A n j o s do In fer n o" , " O s Per d ed or es ", " P a n -
teras N eg r a s " , " T i m e de b itolados de H a r v a r d " , ou mesmo " B eeth o-
v e n " ) mos tra a qu e gru po a pes s oa pertence, dando a lgu ma indicação
sobre s u a filos ofia e como e l a prova velmente reagirá a u m certo estímu-
lo. N ã o dá indicações, porém, sob re como irá fis ga r alguém n em qu e
desfecho es pera obter. Por exemplo, é cla r o qu e mu itos memb ros da s
primeira s três tu rma s menciona da s estão via ja ndo no b onde " F o d a - s e " ,
mas sen* conhecer intimamente ca d a memb ro d a tu r ma ( n o sentido clíni-
co) não é possível prever qu a is os qu e des eja m s er mortos p a r a se torna-
r em mártires, os qu e desejam apenas s er maltratados p a r a poderem gritar
"Polícia b r u ta l!"* s ma is os qu e são correios . A ca mis eta in d ica s u a a ti-
tude coletiva e os jogos qu e compa rtilha m, ma s ca d a u m está encena ndo
seu próprio script e s eu des fecho in d ivid u a l.
U m a ca mis eta tra ns a ciona l ou de script é u ma atitude claramente
a nu ncia da p ela expressão d a pes s oa , de forma tão cla r a , como se es tives -
se u s a ndo u ma ca mis eta com o lema do s eu script impres s o n a frente.
Algu ma s ca mis eta s de script comu n s são: " C h u t e - m e " r " N ã o me ch u te" ,
" E s t o u orgu lhoso de s er alcoólatra", " V e j a o qu anto estou me esforçan-
d o " , " D ê o f o r a " , " S o u frá gil", " P r ecis o de u m a dose (de entorpecen-
te ) ?" . A l g u ma s ca mis eta s têm u ma mens a gem n a frente e u m " c h u t e "
atrás. P or exemplo, u ma mu lher chega c o m a parte d a frente es crita :
" E s t o u a procu ra de u m ma r id o" , ma s , qu ando se vir a , a parte de trás
d iz claramente: " M a s você não s er ve" . O homem com a frase: " E s t o u
orgu lhoso de s er alcoólatra" poderá ter es crito n a s cos ta s : " M a s lem-
b re- se qu e isto é u ma doença". O s tra ns exu a is u s a m a lgu ma s rou pa s pa r-
ticu larmente vis tos a s com o slogan n a frente: " V o c ê não a ch a qu e s ou
fa s cin a n te?", enqu anto n a s costas está es crito: " I s to não é s u ficien te?"
O u tra s ca mis eta s apresentam u m es tilo de vid a ma is "clu b ís tico":
"N ingu ém sabe da s dificu lda des qu e p a s s ei" . N S D D Q P é u ma irmanda?
de com mu ita s ramificações, u ma da s qu a is é o C l u b e d a M ela n colia do
L i tva k . E s te pode s er vis u a liza d o por u m ma rcia no como u ma pequ ena
construção de ma deira , parcamente mob ilia da com móveis a rru ina dos .
N ã o há qu adros n a parede, apenas u m slogan emoldu rado qu e d iz: " P o r
qu e não s u icida r- s e h oj e?" . Há , também, u m a pequ ena b ib lioteca com
relatórios estatísticos e livr os de filósofos pes s imis ta s . A característica
do N S D D Q P não é a qu antidade total de dificu lda de, ma s s i m o fato de
qu e Ningu ém S a b e. O N S D D Q P a s s egu ra qu e ninguém j a ma is des co-
brirá s eja porqu e, s e alguém sou b esse, não poderia dizer: "Ningu ém, s a -
b e " e então s u a ca mis eta perderia a s u a característica.

* Muitos psicanalistas consideram que "jogos transacionais" são simplesmente um sinónimo


de defesas de caráter. Não é assim. A camiseta é a defesa de caráter. Os jogos fazem parte do si s-
tema aberto da psicologia social e não do sistema de energia fechado descrito por Freud.

151
A ca mis eta deriva - s e, em gera l, de u m lema favorito dos pa is , ta l
como: "N ingu ém n o mu ndo o amará como s e u p a i e s u a mã e". E s ta c a -
mis eta res igna da , de la b u ta , é separatista e serve apenas p a r a dis ta ncia r
qu em a u s a da s pessoas a s eu redor. G o m u m s imples des vio pode ser
transformada n u ma u nifica dora qu e atrairá ou tras pessoas e m vez de
afastá-las e leva r a os passatempos e jogos " N ã o é terrível" apropriados:
"N ingu ém o a ma como o s eu p a i e a s u a mã e". O qu e a tra i os ou tros é a
parte posterior d a ca mis eta qu e d iz: " E você?"
Podemos a gora cons idera r em detalhe du a s ca mis eta s comu ns e
procu raremos demonstrar a u tilidade deste conceito p a r a prever aspectos
s ignifica tivos de comportamento.

Você não pode confiar em qualquer um

Há pessoas qu e mos tra m claramente e com ra pidez qu e não con -


fiam em ninguém, ou s eja , fa la m desta for ma sob re a vid a , ma s s eu com-
portamento não é consistente n a s u a totalidade c o m q qu e d izem, pois ,
n a verdade, continu a m " con fia n d o" n a s pes s oa s , emb ora o resu ltado
tenda a s er nega tivo. O conceito de ca mis eta s tem u ma va nta gem sobre
ab ordagens ma is simplórias d a "d efes a de caráter", " a titu d e" e "es tilo
de v i d a " , porqu e estes tendem a ver a s cois a s segu ndo s u a aparência,
enqu anto o a na lis ta tra ns a ciona l está hab itu ado a procu ra r primeiro a i s -
c a ou pa ra doxo, fica ndo satisfeito, e não s u rpres o, qu ando a encontra . É
isto qu e inves tiga ao procu ra r a ca mis eta , o qu e o coloca n u ma posição
terapeu ticamente va nta jos a . E m ou tras p a la vr a s , os analistas de caráter
ob s erva m a parte d a frente d a ca mis eta mu ito b em, ma s d eixa m de ver i-
ficar a s costas onde o lema do jogo ou " ch u ta d or " está escrito ou , no
mínimo, leva m mu ito tempo p a r a chegar a ele. O a na lis ta de jogos v a i
diretamente à questão. A ca mis eta " N ã o s e pode con fia r em ningu ém"
( ou " N ã o se pode confia r em ninguém hoje e m d i a " N S P C E N ) não é
cons idera da p ela aparência. Is to não s ign ifica qu e qu em a u s a evitará
complicações com a s pessoas por não confia r nela s . B e m a o contrário.
S ign ifica qu e procurará complicações com a fina lida de exp r es s a de ob ter
seu lema e reforçar s u a posição ( E u estou O K - E l e s não estão O K ) . A s -
s im, o joga dor de N S P C E N escolherá pessoas não- confiáveis, fará con -
tratos ambíguos e então colherá agradecido, ou mes mo com jú b ilo, figu-
rinha s marrons qu ando a lgo não der certo, confirma ndo a s s im s u a
posição " N ã o se pode confia r em ningu ém". E m ca s os extremos po-<
derá sentir- se no direito de perpetrar u m homicídio "grá tis ", j u s tifica -
do por traições repetidas por parte de pessoas qu e fora m cu idadosamente
selecionadas por s u a fa lta de confia b ilida de. Após ter coleciona do u m
número su ficiente de selos ma rrons p a r a ta l desfecho, o N S P C E N poderá
es colher como s u a vítima alguém desconhecido, às vezes u ma figu ra pú-
b lica cu jo homicídio merece o rótulo de " a s s a s s in a to" . O u tros joga dores
de N S P C E N poderão aproveitar- se de tais acontecimentos p a r a prova r
qu e a s "a u tor id a d es ", ta is como a polícia qu e prende o a s s a s s ino, não

152
são digna s de confiança. A polícia, natu ralmente, é pa ga pa ra s er N S P -
C E N . F a z parte de s eu trab alho não confia r demasiado. In icia - s e a s s im
u m torneio no qu a l amadores ou s emiprofis s iona is de N S P C E N joga m
contra profis s iona is . O s gritos de gu erra em ta l torneio, " a c o n c h a vo s " ,
" cód ig os " e "conspirações" poderão desenrolar- se por anos e até sécu-
los , com o ob jetivo de a prova r propostas do tipo: " H omer o não er a
realmente H omer o, ma s s im ou tro homem com o mesmo n ome" , " R a i s u l i
a ma va P er d ica r is " e " G a v r i l o Pr in cip não er a realmente o G r a vil o P r in -
cip , ma s ou tra pes s oa com o mesmo n ome" .
A ca mis eta N S P C E N nos dá as segu intes informações sobre qu em
a u s a : s eu passatempo favorito é dis cu tir traições. S e u jogo predileto é
N S P C E N , desde qu e os ou tros não s eja m confiáveis. S e u sentimento
preferido é triu nfo: " A g o r a te pegu ei, s eu filh o- d a - p u ta ". S eu apelido é
" V i v a l d i n o " e o esfíncter crítico é o s eu ânus (Ma ntenha o c u apertado
ou leva n el e" ) . S e u herói é a pes s oa qu e p r ova qu e as "a u tor id a d es " não
são confiáveis. O qu e fa z n a s a la d a frente é comportar- se de u ma ma -
neira ingénua ou delicadamente correta , enqu anto no qu arto dos fu ndos
ele é manhoso e não- confiável (como a s enhoria qu e dis s e, cons idera n-
do- se correta: " V o c ê não pode confia r em n en h u m dos seu s inqu ilinos
hoje em d ia . O u tro d ia eu es ta va olhando n a mes a de u m deles e você
não pode ima gina r o que en con tr ei!") . O s eu mu ndo menta l é virtu os o
no s eu próprio ju lga mento, dando- lhe o direito de fazer todo o tipo de
cois a s du vidos a s , desde qu e a finalidade seja coloca r a descoberto a falta
de confia b ilida de dos ou tros. S e u script exige que seja enganado por a l -
guém em qu em con fia , de modo qu e em s eu último s u s piro ele pos s a de-
cla ra r o s eu lema : " E u sab ia. N ã o se pode confia r em ninguém hoje em
d i a " . D es ta ma neira , a frente d a s u a ca mis eta " N ã o se pode confia r em
ninguém hoje em d i a " é u m convite delica do pa ra pessoas com b oas i n -
tenções, como terapeutas inca u tos , de prova rem qu e são exceções. S e
não se derem o trab alho de olha r com antecedência, somente depois qu e
a poeira d a b a ta lha assentar e o joga dor vitorios o se retirar é qu e po-
derão ler o qu e está escrito na s su as costas: " A g o r a ta lvez você a credi-
tará em m i m " . S e o terapeuta es tiver a lerta , a inda a s s im deverá ter cu i-
dado pa ra não se movimenta r mu ito cedo, senão o paciente dirá: " V e j a ,
não posso confia r n em em você" . Então se afasta, e o chu tador continu a
válido, ganhando de qu alqu er ma neira .

Não são todos que?

A tese desta ab ordagem d a vid a é: " É válido ter sarampo, pois to-
dos têm". C l a r o qu e não é válido, porqu e o sarampo pode ser u ma doen-
ça perigosa. O clássico exemplo de " N ã o são todos q u e ?" ocorreu
qu ando u ma mu lher vicia d a em la va gens de cólon entrou n u m gru po te-
rapêutico. Começou a fa la r de su as a ventu ra s no ambulatório de la va -
gens de cólon e todos es cu ta ra m tolerantemente até qu e alguém pergu n-
tou : " O qu e é la va gem de cólon?" A mu lher mostrou - se su rpresa a o

153
sab er qu e poderia h a ver tantas pes s oa s n u ma s a la qu e não fizes s em l a va -
gem de cólon. " N ã o são todos q u e ?" . S eu s pa is f a l i a m , e a ma ior ia de
s u a s a miza des er a m originárias do ambulatório de la va gem. O tópico
p r in cip a l d a con ver s a no s eu clu b e de b ridge er a a comparação entre os
vários ambulatórios.
A ca mis eta " N ã o são todos q u e ?" é a fa vor ita n o cu r s o colegia l, es -
pecia lmente entre os líderes d a animação, b a liza s , ra pa zes popu la res e
mes mo nes ta idade poderá apresentar conotações s inis tra s se reforçadas
pelos p a is em ca s a ou pelos professores n a s a la de a u la . Tamb ém é b om
para os negócios nos quais as pessoas são pesadamente exploradas por agentes
funerários e, de forma ma is su ave, por vendedores de seguros. E interessante
qu e mu itos vendedores de inves timentos , qu ase tão cons erva dores qu a n -
to os agentes funerários, são ca u telos os com is s o. A p a la vr a - ch a ve, a
qu e dá u ma qu a lida de política ex p l os iva é: " T o d o s " . Q u em é Tod os ?
Pa r a os qu e u s a m esta ca mis eta , " T o d o s " é constituído pela s " P es s oa s
qu e e u digo qu e são O K , in clu s ive e u , es p er o". P or es ta razão p os s u em
geralmente du a s ou tras ca mis eta s u s a da s e m ocasiões a propria da s . V e s -
tem " N ã o são* todos q u e ?" qu ando estão entre pessoas es tra nha s o u
" C o m o estou me s a i n d o ?" ou "C onheço pes s oa s imp or ta n tes " qu ando
estão c o m pes s oa s qu e a dmira m. São devotos do qu e S in cl a ir L e w i s
tra ns formou e m B a b b itr y 5 e do qu e A l a n H a r r in gton ch a mou s a tirica -
mente de " C e n tr a l i s m o " , a dou trina de qu e o lu ga r ma is segu ro p a r a se
estar é o ponto morto. O herói de H a r r in gton tornou - se u m centra lis ta
tão exímio qu e er a ca pa z de vender u m a apólice de segu ro a ca d a trinta
s egu ndos , ma is ou men os 6 .
Q u em u s a es ta ca mis eta tem como passatempo fa vorito o " E u
tamb ém" e s eu jogo prcdileto é " V e n h a pa ra d es cob r ir " qu e, n a verda -
de, a s pessoas não cons egu em, como ele já s a b ia . S e u sentimento fa vor i-
to é s er tomadò de s u rpres a (fa ls o). S e u apelido é " en oj a d o" e s eu herói
é alguém qu e mantém todos n a lin h a . N o qu arto d a frente fa z o qu e p en s a
qu e a s pessoas O K estão fa zendo e evita ab ertamente as nã o- O K. N o
qu arto d os fu ndos fa z cois a s es qu is ita s ou mes mo horroros a s . V i v e n u m
mu ndo e m qu e é incompreendido, exceto p or seu s amigos íntimos e s eu
script exige qu e s eja apanhado p or a lgu m de seu s erros secretos. N ã o
protesta mu ito qu a ndo ch ega o fim, pois sente qu e foi merecido de a cor-
d o com o s eu próprio lema : " A q u e l e qu e desob edece às regras de Tod os
deve s ofr er ". E aí está o chu ta dor na s cos ta s d a s u a ca mis eta : " E l e é d i -
ferente — D e ve s er u m ma lu co, comu n is ta o u a lgu ma c o i s a " .
A l i a d a intima mente à ca mis eta está a lápide qu e cons idera remos n o
próximo capítulo.

154
No t as e referências

1) Reich, W. Character Analysis. N ew Yor k, Farrar, Straus & Company, 3-


ed. 1949.
2) Jung, C . G . Psychological Types.Loc. cit.
3) Adler, A', op. cit.
4) G rier, W. H . & Cobb, P. M Black Rage. New York, Bantam Books, 1969.
Este trabalho contém muitos exemplos de resistências do antiscript tomadas e
solapadas por scripts perdedores.
5. Lewis , S. Babbitt New Yor k, Hafcourt, Baoe & World, 1949.
6) Harrington, A. Revelations of Dr. Modesto. New York, Alfred A. Knopf,
1955.

155
1 0 . M a t u r i d a d e e m o r te

A. Mat uri dade

A matu ridade pode ser definida de qu atro ma neira s diferentes:


1) Ju lga mento L e g a l - U m a pes s oa é ma d u r a qu ando é menta lmen-
te competente e a tin giu a idade de vinte e u m a nos . D e acordo
com a l ei heb ra ica , u m menino torna- se u m homem qu ando
atinge os treze a nos de idade.
2 ) Ju lga mento pelo preconceito Pa renta l — U m a pes s oa é ma d u r a
qu a ndo fa z a s cois a s d a min h a ma neira e ima tu ra qu ando fa z do
s eu jeito.
3 ) Ju lga mento p or iniciação - U m a pes s oa é ma du ra qu ando pa s -
s ou por determinadas prova s . N a s sociedades p r imitiva s estas
prova s são difíceis e tra diciona is . E m países indu s tria liza dos , a
pes s oa obtém s eu certifica do de matu ridade qu ando pa s s a no
exa me de motorista. E m ca s os es pecia is , pode s er su b metido a
testes psicológicos e s u a matu ridade ou imatu ridade é então cer-
tifica da pelo psicólogo.
4 ) Ju lga mento pela vid a - P a r a o a na lis ta de script, a matu ridade é
testada pelos acontecimentos externos . O s testes se in icia m
qu ando a pes s oa está prestes a s a ir de u m meio amb iente prote-
gido e s u pervis iona do, e o mu ndo começa a influ ir sob re el a e m
seu s próprios termos. O s testes começam no último a n o d a fa -
cu lda de, o último a n o de a prendiza do, no momento d a pro-
moção ou d a promes s a , no fin a l d a lu a - de- mel ou qu ando a pa -
rece a oportu nidade p a r a competição ou cooperação ab erta pa ra
o s u ces s o ou fra ca s s o do script.
D es te ponto de vis ta os s u ces s os ou fra ca s s os comu ns d a vid a de-
pendem da s permissões pa renta is . Jed er tem ou não permissão p a r a gr a -
du ar- se n a fa cu lda de, completa r s eu a prendiza do, permanecer ca s a do,
pa ra r de b eb er, s er promovido, eleito ou lib ertado condiciona lmente, f i -
ca r fora do hos pita l p a r a doentes mentais ou fica r b em, qu ando va i a u m
ps iqu ia tra .
N a es cola de primeiro gr a u , no colegia l e nos primeiros anos de fa -
cu lda de é possível s ob reviver a os fra ca s s os , o trib u na l de menores , o re-
formatório, especialmente nos países onde se oferece u ma n ova oportu -
nidade a o menor. A p es a r dis to há u m pequ eno número de suicídios 1 ,
homicídios e vícios entre os adolescentes, b em como u m número ma ior
de acidentes automobilísticos opciona is , e ps icos es . E m países menos
clementes , a reprovação p a r a o ingres s o n a fa cu lda de e a fich a cr imin a l
são pára va ler , e u m a destas ma rca s é su ficiente pa ra estab elecer a rota
do indivíduo p a r a o resto de s u a vid a . N a ma ior ia dos ca s os , entretanto,

156
falhas in icia is são ma is ensaios do qu e representações fin a is , e a repre-
sentação como meio de sustento não começa antes dos vinte anos.

B. A hipot eca

Pa r a representar como forma de su stento, submeter- se ao teste e


sab er qu em é, Jeder tem de fa zer u ma hipoteca. N es te país, ele não será
u m homem enqu anto não der a entrada p a r a a compra de u ma ca s a ,
contra ir dívidas pesadas nós negócios ou hipotecar seu s anos de trab alho
pa ra cr ia r seu s filhos . O s qu e não têm hipotecas são vis tos como d es cu i-
dados, b elos ou pessoas com sorte, ma s não como pessoas rea is . O s co-
mercia is de T V dos b anqu eiros mos tra m o grande d ia d a vid a de Jeder: o
d ia em qu e hipoteca s eu salário dos próximos vinte ou trinta anos pa ra
compra r u ma ca s a . O d ia em que liqu id a a hipoteca , livra - s e dela , estará
pronto p a r a o a s ilo de velhos . E s te perigo pode s er evita do ao ob ter u ma
hipoteca ma ior p a r a u ma ca s a ma ior. E m ou tras partes do mu ndo poderá
hipotecar a s i mes mo em troca de u ma n oiva . D a mes ma forma como o
j ovem da qu i qu e, se trab alhar b astante, poderá tornar- se " d o n o " ou de-
vedor de u ma ca s a de 50. 000 dólares, também o - jovem d a N o va Guiné
poderá vi r a ser o "proprietário" ou devedor de u ma n oiva de 50. 000 b a -
tatas. S e resgatar s u a dívida mu ito depressa, terá a possib ilidade de me-
lhorar progredindo p a r a u m modelo ma ior no va lor de 100.000 b atatas.
A ma ior ia da s sociedades b em orga niza da s , de u ma forma ou ou tra , for-
nece u ma ma neira p a r a os joven s hipotecarem- se e a s s im da r sentido às
su as vid a s . S e fosse diferente, eles poderia m pa s s a r s eu tempo divertin-
do- se, como a inda o fa zem em u ns pou cos lu ga res . N es te ca s o, não há
u ma ma neira fácil de diferencia r os vencedores dos perdedores. C o m o
sistema d a hipoteca , a população divide- s e facilmente. O s qu e não têm
n em mes mo bastante in icia tiva p a r a hipotecar a s i mesmo são os perde-
dores (de acordo com os qu e dirigem o s is tema ). O s qu e pa s s a m s u a s v i -
das pagando a hipoteca , não podendo ja ma is progredir, cons titu em a
ma ioria s ilencios a dos não-ganhadores. O s qu e liqu id a m a hipoteca são
os vencedores.
A s pessoas qu e não .se interessam em hipotecas de dinheiro ou b a -
tata terão ou tra a lterna tiva - tornarem- se vicia d a s . D es ta forma têm u ma
hipoteca vitalícia de seu s corpos qu e ja ma is poderão liqu ida r, e a s s im es -
tarão sempre representando p a r a sus tentar- se.

C . Vícios

A forma ma is direta de tornar- se u m verdadeiro perdedor é. através


do cr ime, jogo ou vício de drogas: O s criminos os estão divididos em
dois tipos: vencedores, qu e são os profis s iona is e dificilmente ou n u n ca
irão p a r a a prisão, e os perdedores, que ob edecem à injunção: " N ã o se
157
d i vi r ta ! " . E s tes se divertem tanto qu anto é possível qu ando estão em l i -
b erdade, e então s egu em s eu s scripts, passando a nos monótonos n a
prisão. S e são soltos por dis pens a , lib erdade condiciona l ou tecnica lida -
des lega is , logo cons egu em volta r ou tra vez.
O s joga dores também podem s er ganhadores ou perdedores. O s
primeiros joga m cu idadosamente, economiza ndo ou inves tindo s eu d i-
nheiro. G os ta m de retirar-se qu ando estão lu cra ndo. O s segu ndos joga m
por sorte ou palpite e s e, por a ca s o, ga nha rem, desperdiçam seu s lu cros
a s s im qu e pu derem, segu indo ta lvez o famoso moto: " P od e s er desones-
to, ma s é o único jogo n a cid a d e" . S e tiverem permissão p a r a s er ga nha -
dores , ganharão. D e ou tra formai, são compelidos a perder. O qu e u m j o-
gador vicia d o neces s ita não é u ma análise, qu e dificilmente trará resulta-
dos , do porqu e joga , ma s s i m permissão p a r a d eixa r de s er u m perdedor.
Ob tendo- a, o u pára de joga r ou con tin u a e ga nha .
A influência d a mãe é claramente mostrada em a lgu ns tipos de v i -
cia dos em drogas. C omo ob servou - se anteriormente, eles são encora ja -
dos pelo slogan: "Heroína, ou tra droga qu a lqu er, qu a l é a diferença se
ele continu a r amando s u a mã e?". O qu e estas pessoas neces s ita m é per-
missão pa ra pa ra r de con s u mir drogas, o qu e s ign ifica permissão pa ra
d eixa r su as mães e ca min h a r em por conta própria, e é exatamente isto
qu e o movimento S yn a mon oferece com grande s u ces s o. O n d e a i n -
junção do script da da p ela mãe d iz: " N ã o me a b a n d on e!" S yn a mon d iz:
" E m vez diáso, fiqu e a q u i " .
O mesmo se a p lica a os alcoólatras e Alcoólatras Anónimos. C la u d e
S teiner 2 des cob riu qu e qu ase todos os alcoólatras fora m a na lis a dos , a du -
lados ou ameaçados p or b eb erem, ma s n en h u m dos seu s ca s os ou viu
simplesmente u m " P a r e de b eb er !". S eu s comb ates anteriores com tera-
peu tas b a s ea va m- s e em lema s do tipo: " V a m o s a na lis a r o porquê você
b eb e", " P o r qu e não pára de b eb er ?" , " S e continu a r b eb endo você se
prejudicará". C a d a u ma destas colocações tem efeito bastante divers o do
impera tivo s imples : " P a r e de b eb er !" O joga dor de "Alcoóla tra " está
bastante disposto a pa s s a r a nos a na lis a ndo porqu e b eb e ou explica ndo
arrependido porqu e voltou a b eb er, contanto qu e pos s a continu a r b e-
b endo. A ameaça de qu e se está preju dica ndo é a ma is ingénua e inefi-
ca z de todas, por s er isto exatamente o qu e pretende fazer, segu indo a
injunção do s eu script " M a te - s e ! " A ameaça apenas au menta a s u a satis-
fação, fornecendo os horríveis detalhes de como estará ca u s a ndo s u a
própria morte e assegu rando qu e ele será b em- su cedido n a realização do
destino exigido p or s u a mãe. O qu e o alcoólatra neces s ita e m primeiro
lu ga r é permissão pa ra d eixa r de b eb er, se pu der aceitá-la, e depois u m
contrato Ad u lto cla r o e irrestrito p a r a des is tir, se pu der fazê- lo.

D . O t r i ân g ul o dram át i c o

D u ra nte o período de matu ridade a na tu reza dramática do script


fem seu florescimento completo. O dra ma n a vid a , como no teatro,

158
b aseia- se e m "comu ta ções ", e estas fora m res u mida s elegantemente por
S tephen Ka r p m a n 3 n u m dia gra ma s imples qu e ele denominou "Triângu -
lo D ramático", apresentado n a Figu r a 12. C a d a herói, s eja n a vid a , seja
no d r a ma (o protagonista) inicia - s e e m u m dos três papéis principa is :
S a lva d or , Pers egu idor ou Vítima, sendo qu e o ou tro ator p r in cip a l (o a n -
tagonista) assumirá u m dos ou tros papéis. Q u a n d o ocorre a cr is e, os dois
joga dores movem- s e e m torno do triângulo, mu da ndo de papéis. U m a
das comutações ma is comu ns ocorre nos divórcios. E n qu a n to estão ca s a -
dos , por exemplo, o ma rido é o persegu idor e a es pos a representa o p a -
pel de vítima. U m a vez qu e se in icia o proces s o do divórcio os papéis
são trocados: a es pos a torna- se o persegu idor e o ma rido a vítima, en -
qu anto o a dvoga do dele e d ela representam o pa pel de s a lva dores ,
competindo entre s i .

Vftima

Fig. 12 - O triângulo dramático

N a verda de, todas as lu tas n a vid a são p a r a movimentar- se em tor-


no do triângulo, de acordo com a s exigências do script. A s s i m os cr imi-
nosos pers egu em s u a s vítimas, a vítima fa z s u a qu eixa transformando- se
em qu eixos o ou persegu idor, passando o criminos o a s er vítima. S e ele
for pres o, a polícia pa s s a também a ser s eu persegu idor. O criminos o
contrata u m a dvoga do, u m s a lva dor profis s iona l, qu e persegu e os p oli-
cia is . N u m estu pro interrompido há u ma cor r id a e m torno do triângulo.
O cr imin os o qu e está persegu indo a j ovem vítima transforma- se em víti-
ma do p olicia l s a lva dor. O a dvoga do do criminos o tenta salvá-lo perse-
gu indo a j o ve m vítima, como também o p olicia l. C ontos de fa da , qu ando
vis tos como dra ma s , apresentam exatamente a s mes ma s características.
C h a p eu zin h o V er melh o, por exemplo, é a vítima do lob o persegu idor até
que o caçador a s a l va , qu ando então el a vir a o persegu idor coloca ndo
pedras n o ventre do lob o qu e, a gora , pa s s a a s er vítima.
Papéis secundários nos dra ma s do script são a Conexão e o Ingé-
nu o, qu e estão à disposição dos três personagens principa is . A conexão
é a pes s oa qu e fornece o qu e é necessário pa ra a comutação, em gera i
por u m determinado preço, e tem p len a consciência de s eu pa pel: o h o-
mem qu e vende b eb ida s , drogas, influência ou armas. U m a a rma , comu -
mente denomina da " eq u a l iza d or " , tra ns forma u m cova rde (Vítima) em
159
fanfarrão (persegu idor), ou mu da d a defens iva p a r a a ofens iva . O I n -
génuo está lá pa ra s er fisgado e evita r ou apresentar a mudança. O s Ingé-
nu os clássicos são temporários e, dentre os ma is comoventes , estão a s
mães qu e pa ga m p a r a manter seu s filhos fora d a ca deia . A s vezes o
Ingénuo è p a s s ivo, a tu ando meramente como is ca p a r a a mudança, como
a avó de C h a p eu zin h o V er melh o. N ote- s e qu e a mudança ou comutação
a qu i cita da é idêntica à qu e fa z parte d a fórmula dos jogos , apresentada
n o Capítulo 2.
Ka r p ma n tem mu ita s variáveis n a s u a teoria completa , além das
mudanças de papéis. In cl u i mudanças de espaço (privado- público, ab er-
to- fechado, perto- longe) qu e precedem, ca u s a m ou segu em- se às mu d a n -
ças de papéis e à velocida de do script (nu mero de mudanças de papéis
n u ma da da u nidade de tempo). D es ta forma , o s eu pensamento va i mu ito
além dos papéis origina is , como descritos n o jogo de "Alcoóla tra ", tra -
zendo a compreensão de inúmeros aspectos d a vid a , d a ps icotera pia e do
teatro.

E . Ex p e c t at i v a de v i da

U m estudo recente sobre a s ca u s a s de morte con clu iu qu e mu ita s


pessoas morrem qu ando estão prontas p a r a is s o e qu e a tromb ose coroná-
ria, por exemplo, pode s er ca u s a da por u m ato de vontade^. É verdade
qu e a mhioria da s pessoas tem u ma determinada duração de vid a em s eu
pla no de vid a . A questão ch a ve é: " Q u a n to tempo você viverá ?". E m
gera l, a duração de vid a contém u m elemento de competição. A Criança
de u m homem cu jo p a i morreu a os qu arenta a nos , por exemplo, poderá
não ter permissão pa ra viver ma is do qu e s eu p a i e permanecerá n u m es -
tado va go de apreensão du rante a ma ior parte d a s u a qu a rta década de
vid a . Tor n a - s e ma is e ma is consciente de qu e es pera morrer antes dos
qu arenta e o período ma is difícil será o a no entre o s eu trigésimo nono e
quadragésimo aniversário, depois ó o qu e s u a ma neira de viver poderá
mu da r de qu atro ma neira s :
1) A d ota u m estilo de vid a ma is descontraído por ter u ltrapassado
a idade perigos a e s ob revivido.
2 ) E n tr a n u m estado de depressão p or ter s ob revivido e desob ede-
cido à injunção de s eu script e, consequ entemente, perde o
amor d a mãe.
3 ) Pa s s a a ter u ma vid a ma is agitada porqu e está viven d o a gora u m
tempo emprestado e a morte poderá atingi- lo a qu alqu er mo-
mento.
4 ) Is ola - s e porqu e o adiamento é con d icion a l, e será retirado se o
su rpreendem divertindo- se.
É evidente qu e ( 1 ) tem permissão pa ra viver ma is tempo qu e
seu p a i, se cons egu ir; ( 2 ) não tem permissão;Ç3) tem permissão de
safar- se com o qu e pu der e ( 4 ) tem permissão de fa zer acordos. D e
160
fato ( 4 ) é u m excelente exemplo de u m contrato u nila tera l c o m D eu s , a
que nos referimos anteriormente, pois ( 4 ) , s em cons u lta r D eu s , p en s a
que sabe como aplacá-lo.
U m a pes s oa ma is competitiva , entretanto, decidirá viver ma is tem-
po do qu e s eu p a i o conseguirá. Terá então qu e pa s s a r pelo perigo de v i -
ver ma is tempo qu e s u a mãe, o qu e será ma is difícil u ma vez qu e pou cos
homens preocu pam- se em competir com su as próprias mães.
D a mes ma forma , u ma filh a sobreviverá competitivamente à s u a
mãe, ma s se s eu p a i morrer com idade avançada el a poderá ter d ificu ld a -
de em viver ma is do qu e ele. D e qu a lqu er forma , a pes s oa qu e vive ma is
tempo qu e seu s pa is poderá sentir- se inconfortável n a velh ice. A b a rreira
segu inte poderá ser viver ma is do qu e o herói do script. Por exemplo,
u m médico veio p a r a a tera pia a os trinta e sete a nos porqu e s eu p a i tinha
morrido c o m es ta idade e o paciente temia morrer. Ab a n d on ou o trata-
mento pou co depois do s eu trigésimo oita vo aniversário, pois a gora h a -
vi a passado o " p er ig o" . Tor n ou - s e ma is competitivo e o s eu ob jetivo
pa s s ou a s er chega r a os setenta e u m a nos . P or mu ito tempo ele foi in ca -
pa z de a s u mir a es colh a d a da ta , ma s sendo qu e s eu herói er a s ir W il l ia m
O s ler , cu jos pa s s os o paciente des eja va segu ir, o terapeu ta deu - se a o
trab alho de des cob rir qu e s eu herói h a via fa lecido a os setenta a nos . O
paciente h a via lido várias b iografias de s ir W il l ia m O s l er e lemb rou - se
que em anos passados decidira viver ma is tempo do qu e ele.
O tratamento destas neu roses de duração de vid a é mu ito s imples .
O terapeu ta terá, simplesmente, qu e da r a o paciente permissão p a r a vi ve r
por ma is tempo do qu e o p a i. A psicanálise poderá ter êxito e m ta is c a -
sos não porqu e os conflitos são res olvidos , ma s apenas porqu e a situação
analítica oferece proteção du rante o a no critico. N a verdade não há con -
flito a res olver, u ma vez qu e não é patológico o fato de a Criança s en -
tir- se ma l viven d o ma is do qu e o s eu p a i. E s te é u m exemplo es pecia l de
"n eu r os e de sob revivência", qu e ocorre de a lgu ma ma neira e m todos
que s ob revivem à morte de ou tros. E s ta é u ma da s influências principa is
nas "n eu r os es de g u er r a " , n a s "n eu r os es de H i r o s h i m a " e na s "n eu r os es
dos ca mpos de concentração". O s s ob reviventes qu a s e sempre sentem-
se cu lpa dos por terem s ob revivido, enqu anto ou tros morrera m
" p or e l e s " 6 . É is to, n a verdade, o qu e torna diferente " a pes s oa qu e pre-
s enciou a morte de a lgu ma ou tr a " . A Criança não se "recu perará" ou
"ficará c u r a d a " deste sentimento. O melhor qu e terá consegu ido é colo-
ca r este sentimento sob o controle do Ad u lto pa ra a pes s oa leva r u ma v i -
da n or ma l e obter permissão p a r a u s u fru ir em a lgu ma cois a .

F. A velhice

A vita lida de n a velh ice depende de três fatores:


1) Rob u s tez de constituição;
2) Saúde física;
3) Ti p o de script.

161
O aparecimento d a velhice é determinado pelos mesmos fatores.
A l g u n s mantêm a vita lida de a os oitenta e ou tros começam a vegetar aos
qu arenta. Rob u s tez de constituição é uma força maior, isto é, não pode
s er alterada pela programação Pa renta l. A inva lidez física é, às vezes ,
u ma força maior e, às vezes , o desfecho do script. N o script do " A -
leijã o" a pa recem amb os. A in va lid ez como ta l poderá ocorrer em con-
sequência de u ma doença física inevitável, ma s é b em receb ida por ser
parte do script e corresponder à injunção ma terna de acab ar inválido. I s -
to ocorre a lgu ma s vezes com ca s os de poliomielite em adu ltos joven s ,
onde o indivíduo, n u ma ca deira de roda s , d iz: " Q u a n d o soube que tinha
pólio, qu ase dei- lhe a s b oa s - vinda s , como se estivesse à espera de algo
a s s i m " . S e o s eu script exigia qu e fosse u m aleijado e a N a tu reza não ti-
ves s e colab orado, poderia ter tido u m desastre de automóvel. É ma is fá-
c i l lida r com a solução d a N a tu reza .
D e igu a l forma , a s pessoas ma is velha s poderão da r as b oa s - vinda s
pa ra u m derrame cereb ra l ou u ma oclusão coronária, porém por razões
diferentes: não por ser parte do script, ma s porqu e a s lib era d a com-
pulsão de leva r adiante a s obrigações do s eu script.
Para a s u a Criança, estas catástrofes transformam- no em " P e r n a de
P a u " ou "C ora çã o de P a u " , de modo a poderem dizer ao P a i dentro de
su as cabeças: " N e m mesmo você pode esperar qu e u m homem com u ma
Per n a de P a u ou u m Coração de P a u cu mp r a s u a maldição de b r u x o " .
E m face de u m coágulo de sangu e n o cérebro ou no coração de Jeder,
nem mesmo o progenitor ma is implacável deixará de reconhecer a derrota.
S e u ma inva lidez ocorre no início d a vid a , poderá ajustar- se ma ra -
vilhosamente ao' script d a mãe ou poderá, então, pô- lo a perder db forma
total. S e aju star- se, a Criança será edu ca da como u m inválido profissio-
n a l, às vezes com à aju da de u ma organização dedica da a a u xilia r C r ia n -
ças Inválidas (contanto qu e continu em inválidas) ou Crianças Retardadas
Menta is (enqu anto continu a rem retardadas). ( A pressão é devida ao fato
de qu e o subsídio governamental é retirado se a criança recu perar- se).
E m tais ca s os a mãe aprende a "enfrenta r a situação" e ens ina a criança
a a gir de acordo. S e não aju star- se ao script da mãe, esta não aprenderá
a enfrentar a situação. Continuará tentando, e a criança fará o mes mo,
acab ando como u m dançarino perneta, u m atleta de salto de distância de
pé torto ou u m deficiente mental es pecia liza do em ortopedia (todos estes
exemplos exis tem ou exis tir a m n a vid a r ea l) . A s organizações de C r ia n -
ças Inválidas ou Reta rda da s Menta is entra m aí também e fica m encanta-
das se u m dos seu s protegidos su pera su as dificu lda des ( com aju da ex -
terna). S e o script d a mãe não exige u ma criança deficiente física ou
menta l, e esta deficiência é tão grave qu e se torna permanente, então s u a
vid a transforma- se n u ma tragédia de script fru strado. S e, ao contrário,
seu script exigir u ma criança deficiente, e esta for limítrofe e pos s ivel-
mente remediável, então a vid a da criança torna- se u ma tragédia desne-
cessária, imposta pelo script.
Volta ndo agora à velhice, mesmo a s pessoas com u ma constituição

162
rob u sta e s em deficiência física ( ou apenas pequ ena ou hipocondríaca)
poderão começar a vegetar precocemente se tiverem u m script de " F i n a l
A b er to" . E m gera l, são pessoas qu e vivem de aposentadorias. O preceito
Pa renta l é: " Tr a b a l h e du ro e não se a r r is q u e" e o desfecho: " D ep ois dis -
to, d es is ta " . D epois de Jeder ter inves tido vinte ou trinta anos e de P a p a i
N oel ter- lhe oferecido o b anqu ete de despedida e o relógio de ou ro, ele
não sab e o qu e fazer. E s ta va acostu mado a segu ir a s diretiva s de s eu
script, ma s a gora estas se esgotaram e não há ma is programações em s u a
cabeça. P or esta razão contenta- se em fica r sentado à espera de qu e algo
aconteça, como a morte, por exemplo.
Is to traz u ma pergu nta interessante: O qu e fa z você depois d a vi n -
d a de Pa p a i N oel ? C o m u m script " A té q u e " , desce p ela chaminé e traz
o C ertifica do de Lib er d a d e. Jed er cu mp r iu a s exigências do script e está
lib erado d a maldição do antiscript, e tem agora a lib erdade de fa zer o
que sempre desejou , desde qu ando er a pequ eno. M a s segu ir s eu próprio
ca minho apresenta mu itos perigos , como atestam mu itos mitos gregos.
E n qu a n to está livr e de s eu p a i b r u xo, encontra- se também desprotegido e
poderá encontrar fa cilmente o sofrimento. Is to também aparece nos con -
tos de fadas. U m a maldição tra z proteção, além de provação e trib u -
lação. A mes ma b r u x a qu e colocou a maldição, cu id a pa ra qu e s u a víti-
ma continu e a viver enqu anto está sob o s eu efeito. A s s i m , a B e l a
Ad or mecid a perma neceu protegida p ela floresta de rosas s ilves tres d u -
rante cem a nos , ma s n o momento em qu e despertou e pôde dizer pa ra a
b r u xa qu e desaparecesse, começaram os seu s prob lemas. U m a situação
cómoda é ter u m script du plo: u m script " A té q u e " de u m dos progeni-
tores e ou tro " D ep ois d e " do ou tro. N os ca s os ma is comu ns isto s ignifi-
ca : " V o c ê poderá s er livr e depois de ter cria do três f i l h o s " ( d a mãe), e:
" D ep ois de ser livr e, você se tornará c r i a ti va " (do p a i) . D es ta ma neira ,
Z oé será protegida e controla da p ela mãe n a p r imeir a parte d a s u a vid a e
pelo p a i n a segu nda. N o ca s o do homem, a d u p la diretiva do script po-
derá s er igu a l à apresentada a cima , porém o controle e a proteção serão
invertidos : O P a i , du rante a p r imeir a fa s e, e a mãe, durante a segu nda.
O s idosos qu e vegetam dividem- s e em três cla s s es e, neste país, a s
insígnias são fina nceira s . O s qu e pos s u em scripts de perdedores vivem
sós em ca s a s de cómodos ou hotéis decadentes, e são chamados de ve-
lhos e velh a s . O s qu e têm u m script não-ganhador vivem em pequ enas
ca s a s , próprias, onde estão livr es pa ra des envolver su as idios s incra s ia s e
excentricida des e, por is s o, são conhecidos como velha s figu ra s . O s qu e
têm scripts vencedores vivem em residências de aposentados a dminis tra -
das por empreendedores profis s iona is e são cha ma dos de Cidadãos E x -
perientes o u de S r . e S r a . C ontrib u inte, qu e é como a s s ina m su as ca rta s
ao E d itor . A cu r a p a r a os idosos s em script £ a permissão, qu e é r a r a -
mente u tiliza da . Há milha res de homens idosos viven d o em pequ enos
quartos em toda cida de grande, ca d a u m deles desejando qu e hou ves s e
alguém p a r a cozinha r, fa la r com ele ou ou vi- lo. Concomitantemente,
exis tem milha res de mu lheres idosas viven d o na s mes ma s circunstâncias,

163
desejando ter alguém pa ra qu em cozinha r, com qu em convers a r ou ou vir .
M es mo qu ando acontece de os dois se encontra rem, raramente a provei-
ta m, preferindo ca d a u m deles permanecer em s eu amb iente fa milia r en -
fadonho, cu rva do sobre u m copo ou u m aparelho de T V ou com a s mãos
cru za da s , esperando por u ma morte s em riscos e s em pecados. E s ta s fo-
r a m a s diretiva s de su as mães, qu ando er a m pequ enos, e são idênticas às
qu e continu a m segu indo setenta ou oitenta anos ma is tarde. S e n u n ca se
a rris ca ra m antes, além de u ma pequ ena a pos ta n a pis ta de cor r id a ou no
estádio, por qu e a rris ca r tu do agora? O script de*sapareceu p or ter- se
cu mprido, ma s os velhos lema s s ob r evivem e qu ando a morte chega r eles
a cumprimentarão alegremente. N a parte d a frente d a lápide eles es cu l-
pirão: " F o i p a r a o des ca ns o ju n to aos s eu s a ntepa s s a dos ", e n a parte de
trás estará es crito: " M i n h a vid a foi b oa e ja ma is a r r is qu ei".
D i ze m qu e no próximo século a s crianças serão geradas em prove-
ta s , de acordo com especificações estab elecidas pelo E s ta d o e pelos pro-
genitores, e qu e serão geneticamente programadas. M a s todos já são
cria dos " e m p r oveta s " pelo E s ta d o e pelos pa is , sendo aí programados
pelo script. É ma is fácil de livra r- s e desta do qu e d a programação gené-
tica , ma s pou cos u tiliza m- s e deste privilégio. Pa r a os qu e o fa zem, po-
derá h a ver u ma lápide ma is ins pira dora . Q u a s e todos os epitáfios piedo-
s os , tradu zidos e m lingu a gem ma r cia n a , dizem: " C r i a d o n u ma proveta ,
tendo lá p er ma n ecid o". E a s s im ficam, fileira após fileira de cru zes e ou -
tros símbolos n a sepu ltu ra, todos com o mesmo lema . À s vezes a lgu ma
su rpresa: " C r i a d o n u ma proveta . M a s eu p u lei f o r a " Mu itos recu sam- se
a fazê- lo, mesmo qu ando não há r olh a .

G . A c e na d a mort e

A morte não é u ma representação, n em mesmo u m acontecimento,


p a r a a pes s oa qu e morre. É representação e acontecimento pa ra os qu e
s ob revivem. O qu e pode s er, e deveria ser, é u ma transação. O horror fí-
s ico dos ca mpos de morte na zis ta s foi composto pelo horror psicológico,
p ela prevenção d a dignida de, de assertividade ou d a auto-expressão ná
câmara de gás. N ã o h a via a ven d a ou o ciga rro corajoso, n en h u m desafio
n em a s famosas últimas p a la vr a s , em s u ma nenhu ma transação d a morte.
H a v i a estímulos tra ns a ciona is dos morib u ndos , ma s não respostas dos
matadores. A s s i m , força maior retira do script o s eu momento ma is co-
movente, a cen a d a morte n a ca ma e, n u m certo sentido, todo o propósito
hu ma no n a vi d a é estab elecer esta cena .
N a análise do script isto é trazido à tona pela seguinte pergu nta:
" Q u e m estará a o la do do s eu leito de morte e qu a is serão a s su as últimas
p a l a vr a s ?" U m a questão a diciona l é: " Q u a i s serão a s últimas pa la vra s
d eles ?' ' A resposta à p r imeir a indagação é, em gera l, a lgu ma versão de
" M os tr ei a e l e s " — sendo " e l e s " os pa is , especialmente a mãe, no ca s o
de u m homem e o p a i no ca s o de u ma mu lher. O s ignifica do é ou " M o s -

164
trei- lhes qu e fiz o qu e q u er ia m" ou "M os tr ei- lh es qu e não tinha qu e fa -
zer o qu e eles q u er ia m" . A resposta a es ta pergu nta é, com efeito, u m
resu mo da s metas de vid a de Jed er e pode s er u tiliza d a pelo terapeu ta
como u m instru mento poderoso p a r a interromper jogos e retirar Jeder de
seu script:
"Então toda s u a vid a resu me- se e m demonstrar a eles qu e você ti -
n h a razão ao sentir- se ofendido, assu stado, irrita do, inadequ ado ou cu l -
pado. M u ito b em. E s te será s eu ma ior feito — se você qu is er continu a r
a s s im. M a s ta lvez gostaria de encontrar u ma fina lida de qu e va l h a ma is a
pena n a v i d a " .
A cen a do leito d a morte poderá fa zer parte do contrato ocu lto ou
do script n o casamento. O ma rido ou a mu lh er poderá ter u ma ima gem
cla r a do compa nheiro morrendo primeiro. N es tes ca s os , o cônjuge tem,
em gera l, u m script complementar, e pla neja condescendentemente a
cu mpri- lo. O s dois dão-se mu ito b em e pa s s a m anos felizes ju ntos . M a s
se ca d a u m deles tem a ima gem do ou tro morrendo primeiro, de modo
que seu s scripts se cr u za m neste aspecto, estes a nos serão litigios os em
vez de felizes , mes mo qu e os scripts s eja m complementares em ou tros
pontos, como deverão s er pa ra qu e o casamento aconteça. A s dificu lda -
des aparecerão com mu ita cla r eza qu ando u m ou ou tro estão doentes ou
sofrendo. U m script comu m b aseado n a cen a d a morte é encontrado no
casamento de u ma mu lher ma is j ovem com u m homem ma is velho. M es -
mo qu e os cínicos d iga m qu e el a se ca s ou com ele por ca u s a do s eu d i -
nheiro, a cen a do 'script é igu almente importante, e el a sempre estará ao
lado do ma rido em momentos de perigo, do la do b om pa ra cu ida r dele,
ma s também parâ não perder a transação do desfecho fin a l. S e o ma rido
tiver consciência intu itiva disto, o casamento terá u ma ma rgem bastante
redu zida de segurança, pois não é fácil viver b em c o m alguém qu e está a
espera d a s u a morte. A mes ma situação poderá s u rgir, com u m desfecho
du plo, n o casamento de u m homem ma is j o ve m com u ma mu lher ma is
velh a , emb ora este s eja menos comu m. É evidente qu e o protocolo do
script origina l contém o p a i no lu ga r do ma rido idoso e a mãe no lu ga r
da es pos a idos a .

H . O riso d e f o r c a

C en a s rea is d a morte r es u lta m ou de u ma força maior ou da s dire-


tiva s do script. A morte prema tu ra d evid a a forças inexoráveis do desti-
no — doença ou violência em tempos de gu erra ou pa z — é sempre u ma
tragédia s imples e completa. A s mortes de script são, em gera l, marcadas
por u m s orris o ou hu mor de força. O h omem qu e morre com u m sorriso
no rosto o u u ma pia da nos lábios está cu mprindo a morte exigid a pelo
scripv e o s orris o ou pia da d izem: " B e m mamãe, estou segu indo su as
instruções, h a h a . E s p er o qu e você esteja contente". O s criminos os de
Lon d r es , no século X V 1 U , er a m verdadeiros discípulos do hu mor de

165
for ca , divertindo frequentemente a multidão a dmira da com u m epigrama
fin a l enqu anto o alçapão er a a ciona do 7 , pois s u a s mortes ob edeciam às
injunções maternas: " V o c ê va i acab ar n a forca como s eu p a i, meu f i -
l h o ! " . A s últimas pa la vra s de mu itos homens famosos também foram
pia da s porqu e também eles es ta va m em p a z com s u a s mães: " V o c ê mor-
rerá fa mos o, f i l h o " . Mortes devida s a força maior hu ma na não são
acompanhadas de ta l a legria , pois poderão estar em contradição direta
com a injunção ma terna : Te n h a u ma vid a l o n g a ! " ou " M o r r a F e l i z ! " .
N ã o há estórias de hu mor de forca nos campos de concentração alemães
(qu e èu s a ib a ). Há também u ma injunção es pecia l: " G o z e a morte como
gozou a v i d a ! " qu e permite a pia da n o leito d a morte mesmo qu e esta
chegu e antes do qu e mamãe toleraria. T a l pia da é, n a verdade, u ma ten-
ta tiva de d imin u ir a tris teza d a mãe.
Tu d o is to s ign ifica qu e n a ma ioria dos ca s os o progenitor b ru xo
pla neja a duração de vid a de Jeder e s u a ma neira de morrer, e su focando
a s revolta s interna s e externa s ele, através de s u a própria decisão, cu m-
prirá o decreto Pa renta l.

I . A c e n a p ó st um a

E m scripts de su cesso isto tende a s er vis u a liza do com b om senso


de realidade. Jeder cons tru iu u ma grande organização ou d eixou u ma
a mpla estru tu ra de trab alho ou vários filhos e netos, e sabe qu e o qu e
produ ziu du rante a vid a sobreviverá à s u a morte e qu e os qu e estão liga -
dos a ele o acompanharão à sepu ltu ra.
O s qu e têm scripts trágicos, entretanto, têm u ma falácia patética a
respeito do qu e sucederá após o s eu desaparecimento. O s u icida român-
tico, por exemplo, d iz: " E l e s ficarão tr is tes ", e ima gina u m fu nera l triste
e sentimental qu e poderá ou não acontecer. O s u icid a ra ivos o d iz: " E u
dou u m jeito n e l e s " e poderá estar igu almente equ ivoca do, pois eles po-
derão estar satisfeitos de terem se livr a d o dele. " V o u mostrar pa ra e l e s "
poderá fa lha r nãò consegu indo ter o s eu nome nos jorna is mu ito além d a
seção de necrologia . O suicídio de frustração ou fu tilidade daqu ele que
tenta s u icida r- s e discretamente b aseado n a fa nta s ia de qu em ninguém no-
tará ou se incomodará pode res u lta r e m manchetes de primeira página
devido a a lgu ma complicação não previs ta . M es mo o homem qu e se mata
p a r a qu e s u a mu lher receb a o dinheiro do segu ro, pode s er derrotado se
não tomar o cu ida do de ler a apólice cu idadosamente.
E m gera l, a s consequências de u m suicídio não são ma is previsí-
veis do qu e a s de matar alguém. E x ceto p a r a soldados e b andidos a mor-
te, s eja suicídio ou homicídio, é u ma a lterna tiva inadequ ada de res olver
os prob lemas d a vid a . P a r a s u icida s potenciais deve- se informa r com
fir meza a s du a s regras invioláveis d a morte:
1) N en h u m progenitor tem permissão de morrer antes de seu s fi-
lhos completa rem dezoito anos.

166
2 ) Ne n h um a criança t e m permissão de m o rre r e nquant o u m d e se us
pai s está v i v o .
O ca s o de pessoas qu e não têm filhos menores de idade e ne-
n h u m progenitor vivo deverá ser considerado por seu s próprios mé-
ritos, mas todo paciente qu e é aceito, p a r a tratamento terá qu e a s -
s u mir u m compromis s o firme de não viola r nenhu ma da s du a s r e-
gra s , se u ma ou amb as forem aplicáveis. S emelha nte compromisso
exigido de certos pacientes é de qu e não usarão qu alqu er medica -
mento prescrito pelo terapeu ta pa ra fins impróprios.

J . A l áp i d e

A lápide, como a ca mis eta , tem du a s fa ces . A pergu nta é: " O


qu e escreverão n a s u a lápide?" e " O qu e você escreverá n a s u a
própria lápide?" U m a resposta típica é: " E l e s dirão: ' E l a er a u ma
b oa garota' e eu direi: ' E s for cei- me, ma s não con s eg u i' . " N ova -
mente " e l e s " tendem a s ignifica r os pa is ou figu ra s Pa renta is . O
epitáfio " d e l e s " é o antiscript, enqu anto o próprio paciente es cre-
ve a injunção de seu script e m s u a lápide - n o caào a cima : * E s for -
ce- s e, ma s tenha a certeza de não con s egu ir ". A s lápides só fa la m
b em do morto, ma s u ma face a firma qu e ele cu mp r iu os preceitos
de s eu antiscript, enqu anto a ou tra in d ica qu e ele ob edeceu
também às instruçêos do script de s u a mãe, por ma is encorajadores
ou desencorajadoras qu e tenha m s ido.
S e o pa ciente evita r a leitu ra de s u a lápide dizendo qu e não
haverá nenhu ma , a resposta tem s ignifica do. Q u a lqu er u m qu e se
fu rta d a morte estará também se fu rtando d a vid a . O terapeu ta de-
verá, então, ins is tir n a obtenção dos dois epitáfios através d a per-
gu nta: " O qu e cons ta ria se hou ves s e u m a ?" ou " A q u i é obrigatório
ter u ma lápide".

K . O t e st am e nt o

Q u a is qu er qu e s eja m a s fantasias do indivíduo sobre o qu e


acontecerá após a s u a morte, s eu testamento ou seu s es critos pós-
tu mos oferecem a última oportu nidade pa ra u m desfecho. To d a s u a
vid a poderá ter sido b a s ea da n u ma falsidade ou n u m tesou ro ocu lto
qu e só é revela do como u m triu nfo após s u a morte - peça qu e ele
prega n a posteridade. Há vários exemplos históricos disto: talentos
secretos qu e só vem à l u z qu ando o ma nu s crito ou a s telas são en -
contradas escondidas n u m armário ou trab alhos qu e destoam de s u a
personalidade perdidos no meio de papéis. A riqueza e a pob reza
ocu ltas são comu mente revela da s n a homologação de testamentos.
E s tes são veículos fa voritos pa ra tru qu es de mudança. O ma is

167
comu m já foi mencionado: a mãe d eixa o grosso de seu s b ens pa ra a f i -
lh a " i n f i e l " , elimina ndo a devotada com u ma ninha ria . À s vezes a b iga-
mia torna- se pública após a leitu ra do testamento. A pergu nta é: " Q u a l
será o item ma is importante de s eu testamento? Q u a l será a ma ior su rpre-
s a pa ra aqu eles qu e fica m após s u a mor te?"
Acompa nha mos Jeder em s eu script desde antes do nascimento até
a morte: Há, entretanto, mu ito ma is cois a s interessantes a cons idera r a n-
tes de prossegu irmos nos s a convers a sobre o tratamento.

N ota s e referências

1. A taxa de suicídio aumenta com a idade e é menor para as mulheres do que para
os homens em todas as idades, salvo no início da adolescência.
2. Steiner, C . M. "Th e Alcoholic G ame". Transactional Analysis Bulletin 7:6- 16,
jan., 1968.
3. Karpman, S . "Fa iry Tales and Script D rama Analysis.". Transactional Analysis
Bulletin 7:39- 43, abril, 1968.
4. Berne, E . Games People Play. Loc. cit.
5. C f. mortes prematuras após consternação como descritas por W. D . Rees & S.
G . Lutkins no British Medicai Journal 4:13, out., 7, 1967 e resumidas no Cur-
rentMedicai Digest, mar., 1968.
6. Lifton, R. J . Death in Life. New York, Random House, 1968.
7. C f. GrÓse, F . A . A Classical Dictionary of the Vulgar Tongue. Ilinois, Digest
Books, Northfield, 1971 (facsimile da edição de 1811).

168
Part e I H

O SCRIPT EM AÇÃO
11. T ipos de scripts

A. V e n c e d o r e s , n ão -v e n c e d o r e s e p e r d e d o r e s

Os scripts são planejados p a r a du ra r toda u ma vid a . São b aseados


em decisões d a infância e programação Pa r en ta l, qu e é continu amente r e-
forçada. E s te reforço pode a s s u mir a forma de contato diário, como de
indivíduos qu e tra b a lha m c o m s eu p a i ou mu lheres qu e telefonam p a r a
s u a mãe todas a s manhãs p a r a fofocar, como poderá s er a plica do menos
frequentemente e com ma ior s u tileza , porém c o m a mes ma potência,
através de correspondência oca s iona l. D ep ois d a morte dos pa is su as in s -
truções podem s er recordadas c o m ma is força do qu e nu nca .
N a lingu a gem do script, como fòi ob s erva do, u m perdedor é ch a -
mado de sapo 1 e o vencedor de príncipe ou princes a . O s pa is des eja m a
" fel icid a d e" de s eu s filhos n o pa pel qu e es colhera m p a r a eles , ma s não
qu erem qu e s eja m mu dados, a não s er e m ca s os es pecia is . U m a mãe qu e
está cria ndo u m sapo poderá qu erer qu e s u a filh a s eja u m sapo feliz, ma s
sufocará qu alqu er tentativa de e l a qu erer transformar- se n u ma princes a
( " Q u e m você pens a qu e é ?" ) . U m p a i qu e está cria ndo u m príncipe de-
seja qu e ele s eja feliz ma s , às vezes , preferiria vê- lo infeliz e m vez de
transformado n u m sapo ( " C o m o pode fa zer u ma cois a destas p a r a nós?
N ós lh e demos do b om e do mel h or . " ) .
A primeira cois a a s er decidida em relação ao script é se será ga -
nhador ou perdedor. Is to pode s er descob erto c o m bastante ra pidez ao
ou vir- s e a pes s oa fa la r. U m vencedor d iz cois a s como: " E r r e i , ma s isto
náo se repetirá", ou " A g o r a s ei o jeito certo de fa zer is to" . U m perdedor
diz: " S e apenas . . . " , " E u deveria t e r . . . " e " S i m , ma s . . .". Há
também os qu e qu ase a certa m, não-ganhadores, cu jo script exige qu e
tra b a lhem mu ito du ro, não c o m o propósito de ganhar, ma s apenas pa ra
empatar. E s tes são os "p elo men os " , pessoas qu e dizem: " B e m , pelo
menos não . . . " ou " P e l o menos tenho isto p a r a estar a gra decido".
Não-ganhadores são excelentes a s s ocia dos , empregados e s ervos , pois
são lea is , trab alhadores e agradecidos, não inclina dos a cr ia r prob lemas.
S ocia lmente são pessoas agradáveis e n a comu nida de são admiráveis.
Vencedores cr ia m dificu lda des p a r a o resto do mu ndo só indiretamente,
qu ando b riga m entre s i e en volvem os espectadores inocentes, às vezes
aos milhões. O s perdedores ca u s a m a ma ior dor p a r a s i mesmos e ou tros.
M es mo qu e s a ia m ganhando, a in d a a s s im são perdedores, arrastando
cons igo os ou tros qu ando chega o des fecho.*

* T udo isto (e muito do que se segue) poderá parecer familiar para alguns leitores porque foi
reduzido a uma terminologia simples e já foi abordado anteriormente da mesma maneira, pois
esta parte foi escrita há muitos anos.
171
U m vencedor é definido como u ma pes s oa qu e cu mpre s eu contrato
com o mu ndo e cons igo mes mo, isto é, propõe- se a fa zer a lgo, decla ra
qu e está empenhado e m fazê- lo e, a longo pra zo, fa z. S e u contrato ou
ambição poderá s er economiza r $ 100. 000, correr u ma milh a em menos
de qu atro minu tos , ou obter u m título de D ou tor. S e a tingir a s u a meta ,
será u m vencedor. S e a ca b a r coiyi dívidas, torcer o tornozelo n o chu veiro
ou desistir no primeiro a no do cu r s o, será nitidamente u m perdedor. S e
economiza r $ 10. 000, chega r em segu ndo lu ga r às 4 : 0 5 e ingres s a r n a
indústria com u m mestrado e m artes, será u m "p elo- men os ", não u m
perdedor, ma s u m não-ganhador. A cois a importante é qu e ele próprio
estabeleça a meta, u su almente n a b ase d a programação Pa renta l, ma s
com s eu Adulto assumido o compromis s o fina l. N ote qu e o homem qu e
propõe- se chega r às 4: 05 e consegu e é u m vencedor, enqu anto o qu e se
propõe chega r às 3:59 e só chega às 4: 05 é u m não-ganhador mesmo qu e
derrote alguém qu e tem ambições menores. A cu rto pra zo, u m ganhador
é qu em se torna o capitão do time, na mora a Ra in h a d a Pr ima ver a ou ga -
n h a no jogo de pôquer. O não-ganhador a proxima - s e d a b ola , na mora a
segu nda coloca da ou s a i qu ites. U m perdedor não ingres s a n o time, não
consegu e u ma na mora da e s a i fa lido. O capitão do segu ndo time está no
mesmo nível do capitão do primeiro, u ma vez qu e ca d a pes s oa tem o d i-
reito de es colher s eu próprio meio, sendo ju lga d o pelos padrões qu e ele
próprio estab elece. U m exemplo extremo: " V i ve n d o com menos dinheiro
do qu e os ou tros s em fica r doente" é u m meio. Q u em o fizer é u m ven -
cedor. Q u em tentar fazê- lo e fica r doente é u m perdedor. O perdedor
clássico e típico é o qu e se ob riga a fica r doente ou sofrer prejuízos s em
u ma b oa razão (como D el l a , n o Capítulo 3 ) . S e tiver u ma b oa razão po-
derá, então, tornar- se u m mártir b em- s u cedido, qu e é a melhor forma de
ga nha r perdendo.
O vencedor sab e o qu e fará se perder, ma s não comenta o assu nto.
O perdedor não sab e o qu e fará se perder, ma s comenta o qu e fará se
ganhar. A s s i m , b a s ta ou vir du rante a lgu ns minu tos pa ra dis tingu ir entre
vencedores e perdedores n u ma mes a de jogo ou n u ma corretora de va lo-
res, n u ma b r iga doméstica ou n a tera pia fa milia r.
A regra básica parece s er qu e o desfecho de u m script vencedor
provém do P a i protetor através dos lema s do contra-script. O não-ga-
nhador obtém o desfecho do P a i controlador através da s injunções. O
perdedor é leva do ca minho a b a ixo p a r a u m desfecho nega tivo, pela s
provocações e seduções d a Criança l ou ca de s eu progenitor qu e tenta
s eu demónio au to- destru tivo.

B. O t empo do script

V en cen d o ou perdendo, o script é u ma forma de estru tu rar o tempo


entre o primeiro Olá ao s eio materno e o último A d eu s à b eira d a sepu l-
tu ra. E s te tempo de vid a é preenchido e es va zia do pelo fa zer e não fazer;

172
pelo n u n ca ou sempre fazer; não fa zer antes ou depois , fa zer repetida-
mente e fa zer até qu e não ha ja ma is n a d a a fazer. Is to dá origem ao
script " N u n c a " e " S e m p r e " , " A té q u e " , " D ep ois d e " , " N ova men te" e
" F i n a l A b er to" . E s tes são ma is b em compreendidos qu ando rela ciona dos
aos mitos gregos, pois os gregos tinha m forte s ens ib ilida de p a r a tais a s -
pectos.
O s scripts " N u n c a " são representados por Tântalo, qu e tinha qu e
sofrer fome e sede por toda a eternidade n a presença de comid a e água,
s em j a ma is poder b eb er ou comer. Pes s oa s com tais scripts estão p r oib i-
das por s eu s pa is de fa zer a s cois a s qu e ma is des eja m, passando s u a s v i -
das sendo tantalizadas e circu nda da s por tentações. S egu em a maldição
parental porqu e s u a Criança teme a s cois a s qu e ma is des eja , de modo
que se au to- tantalizam.
O s scripts " S e m p r e " s egu em Aracné, qu e ou s ou des a fia r a deu s a
M in er va n a arte de b ordar e, como ca s tigo, foi tra ns forma da n u ma a ra -
n h a condena da a pa s s a r toda a vi d a tecendo teia s . Ta i s scripts provêm de
pa is vin ga tivos , qu e dizem: " S e é isto qu e você qu er fa zer, então pode
pa s s a r o resto d a vi d a fa zen d o".
O s scripts " A té q u e " ou " A n te s d e " s egu em a estória de Jasão, a
qu em foi dito qu e não poderia tornar- se r ei antes de execu ta r determina-
das tarefas. E m tempo hábil, receb eu s u a recompens a e viveu feliz d u -
rante dez a nos . Hércules tin h a u m script semelhante: não poderia tor-
nar- se deu s antes de ser es cra vo du rante doze a nos .
O s scripts " D ep ois d e " origina m- s e com Dâmocles, a qu em foi
permitido u s u fru ir d a felicida de de s er r ei até qu e perceb eu a existência
de u ma es pa da por sob re s u a cabeça, s u s pens a por u m único fio de cr in a
de ca va lo. O lema dos scripts " D e p o i s d e " é: " V o c ê pode divertir- s e
por u m tempo, ma s depois começarão os s eu s p r ob lema s ".
O s scripts " N ova men te" são de Sísifo, qu e foi condenado a rola r
u ma enorme pedra monta nha a cima e qu a ndo es ta va prestes a a tingir o
topo a pedra r ol a va monta nha a b a ixo e ele tinha qu e começar nova men-
te. E s te é o clássico script " Q u a s e con s eg u i" , com u m " s e a p en a s " atrás
do ou tro.
O s scripts de " F i n a l Ab er to, de "N ã o- vencedor" ou " T o r t a no
céu " s egu em a estória de Filemão e B a u c i s , qu e fora m transformados em
lou reiros como recompensa por su as b oa s ações. O s velh os qu e esgota-
r a m su as instruções Pa renta is não s a b em o qu e fa zer depois qu e tu do
terminou e pa s s a m o resto de s u a s vid a s como vegetais ou fofocando
como folha s qu e fa rfa lha m a o vento. E s te é o destino de mu ita s mães c u -
j os filhos cres cera m e es pa lha ra m- s e, e de homens aposentados qu e p a s -
s a ra m trinta anos de s u a vid a de acordo com os regu lamentos d a compa -
n h ia e a s instruções de seu s p a is . C omo já foi ob s erva do, comu nida des
de "Cidadãos Imp or ta n tes " estão cheia s de ca s a is qu e completa ra m seu s
scripts e não s a b em como estru tu rar o s eu tempo enqu anto es pera m p ela
Te r r a Prometida , onde pessoas qu e trataram s eu s empregados decente-
mente podem gu ia r s eu s enormes ca rros pretos com lentidão a o longo d a

173
pis ta d a direito s em qu e u m b ando de adolescentes, mál-educados, f i -
qu em b u zina ndo e m seu s calhamb equ es. " E u er a b em ra pidinho qu ando
a doles cente", d iz p a p a i, " m a s agora. . . " E mamãe agrega: " V o c ê não
ima gin a o qu e eles . . . E nós sempre pagamos nos s os . . . ".

C. Se xo e scripts

Tod os estes tipos de scripts têm s eu s aspectos s exu a is . O script


" N u n c a " poderá proib ir ou o s exo, ou o a mor o u amb os. S e proib ir o
amor, ma s não o s exo, é u ma licença p a r a promis cu ida de, d a qu a l a lgu ns
ma rinheiros e soldados a proveita m e c o m a qu a l prostitu tas e cortesãs
ga nha m a vid a . S e proib ir s exo, ma s não o a mor, produzirão padres,
monges , freiras e pessoas qu e fa zem b oas ações, como cr ia r crianças
órfãs. A s pessoas promíscuas são continu amente tantalizadas p ela visão
de amantes devotados e famílias felizes , enqu anto os filantropos são
sempre tentados a pu la r a cer ca .
O s scripts " S e m p r e " são exemplifica dos p or joven s qu e são ex p u l -
s os de s u a s ca s a s por pecados qu e s eu s pa is incentiva ra m. " S e você está
grávida, vá ga nha r s u a v i d a n a r u a " e " S e você cons ome drogas, faça- o
por s u a con ta " , são exemplos disto. O p a i qu e enca minhou s u a filh a pa ra
a r u a poderá ter tido pensamentos la s civos em relação a el a desde qu e
ela tinha dez anos de idade ( d ez? oito?), e o qu e exp u ls ou o filho de c a -
s a p or fu mar ma conha pode emb riagar- se nes ta mes ma noite p a r a d imi-
nu ir s u a dor.
A programação Pa renta l nos scripts " A té q u e " é a ma is forte de
todas, pois consiste de comandos diretos: " V o c ê não pode ter relações
s exu a is até qu e se ca s e e não pode ca s a r- s e enqu anto tiver qu e cu ida r de
s u a mãe ( ou terminar a fa cu ld a d e) ". A influência Pa renta l nos scripts
" D ep ois d e " é qu ase tão decla ra da qu anto a anterior, e a es pa da pendu -
ra da b r ilh a com ameaças visíveis: " D ep ois qu e você ca s a r e tiver filhos ,
começarão os seu s p r ob lema s ". Tr a d u zid o e m termos de ação, isto s ign i-
fica : " C o l h a seu s botões de r os a enqu anto p od e" . D ep ois do casamento,
pa s s a a s er res u mido e m " Q u a n d o tiver filhos seu s prob lemas come-
ça rã o"*.
Scripts " N o va m e n te " produ zem sempre n oiva s , ma s n u n ca u m
n oivo, e pessoas qu e tentam repetidamente ma s n u n ca cons egu em real-
mente atingir a meta. Scripts de " F i n a l A b er to" a ca b a m com homens e
mu lheres envelhecidos qu e perdem s u a vita lida de s em mu ito pes a r e con -
tentam- se com a s reminiscências de s u a s conqu is ta s passadas. D a mes ma
forma como a s mu lheres com tais scripts a gu a rda m ansiosamente p ela

* Parte desta seção segue a linguagem de meu trabalho prévio referido anteriormente 2 , mas não
conheço forma melhor para apresentar. T enho usado esta forma durante muito tempo, bem c o -
nhecida de muitos analistas de script.

174
menopa u s a , esperando qu e s olu cione os seu s "prob lema s s ex u a is " ,
também os homens a gu a rda m até qu e tenha m completado seu s anos de
trab alho com a esperança s imila r de s erem dispensados das obrigações
s exu a is .
N u m nível ma is último, ca d a u m destes scripts tem su as imp li-
cações no verda deiro orgasmo. O script " N u n c a " , é cla r o, cr ia além de
solteironas e solteirões, prostitu tas e rufiões, também mu lheres frígidas
que n u n ca tiver a m u m único orgasmo em toda a s u a vid a e homens im-
potentes qu e só podem ter orgasmos qu ando não hou ver amor, a clássica
situação des crita p or Fr eu d do homem qu e er a impotente com s u a espo-
s a , ma s não com a s prostitu tas. O script " S e m p r e " produ z ninfomanía-
ca s e D o n Ju a n s , qu e pa s s a m su as vid a s à procu ra de u ma promes s a de
orgasmo.
O script " A té q u e " fa vorece a s donas de ca s a aflitas e os nego-
ciantes ca ns a dos , qu e não podem fica r sexu almente excita dos até qu e os
últimos detalhes d a ca s a ou do escritório estejam em ordem. Mes mo de-
pois de excita dos , poderão s er interrompidos no momento ma is crítico
por jogos do tipo " A porta d a gela d eir a " e " O b loco de anotações", pe-
qu enas cois a s qu e precis a m s er tratadas imediatamente e qu e os ob rigam
a p u la r d a ca ma , como p or exemplo ver ifica r se a porta d a geladeira
está fecha da ou anotar n u m pa pel a s cois a s qu e deverão s er providencia -
das no escritório logo cedo. O s scripts " D ep ois d e " interferem com o
s exo em virtu de d a apreensão. M ed o d a gra videz, por exemplo, evita qu e
a mu lher tenha u m orgasmo pra zeros o, fazendo com qu e o homem o
atinja rapidamente. C oito interrompido qu ando o homem se retira antes
de a tingir o orga s mo, como u m método de controle de natalidade, fa zen-
do com qu e amb as a s partes fiqu em n u m estado de a lerta desde o início
da relação. Is to d eix a a mu lher altamente excita d a e úmida se o ca s a l for
demasiado tímido pa ra u s a r ou tras formas de fazê-la obter s u a satisfação.
N a verda de, a p a la vr a satisfação, u tiliza da u su almente qu ando se discu te
este prob lema específico, in d ica qu e a lgo está errado, pois u m b om or-
gasmo d ever ia s er mu ito ma is s u b s ta ncia l do qu e o fantasma pálido ch a -
mado satisfação.
O script " N ova men te" tem u m s ignifica do pa ra mu itas mu lheres
perdedoras, qu e ficam ma is e ma is excita da s du rante a relação até qu e
estão p a r a a tingir o orgasmo e então o homem o atinge, provavelmente
com o auxílio dela , enqu anto el a própria volta ao estado in icia l. Is to po-
derá acontecer noite após noite, du rante a nos . O script " F i n a l A b e r to "
tem seu s efeitos em pessoas de ma is idade, qu e cons idera m o s exo como
u m esforço ou obrigação. U m a vez alcançado o topo d a montanha, tor-
nam- se "dema s ia do ve l h o s " p a r a ter relações s exu a is , e su as glândulas
definha m por fa lta de u s o, ju nta mente com s u a pele e, às vezes , múscu-
los e cérebro. A g or a não têm ma is na da a fa zer a não s er preencher o
tempo até qu e os encanamentos enferru gem. P a r a evita r qu e a s pessoas
vegetem, u m script não deveria ter u m limite de tempo, ma s d ever ia s er
planejado p a r a du ra r toda u ma vid a , seja qu a l for a s u a duração.

175
A potência s ex u a l , o' impu ls o e a força de u m s er hu ma no são de-
terminados em a lgu ma medida por s u a herança e s u a química, ma s pare-
cem s er a inda ma is fortemente influ encia dos pela s decisões do script to-
ma da s n a p r imeir a infância e p ela programação Pa renta l qu e implementa
estas decisões. A s s i m , não só a au toridade e a frequência de su as a tivi-
dades s exu a is n o decorrer de toda a vid a , ma s também s u a ha b ilida de e
prontidão p a r a a ma r são decidida s , em grande parte, n a idade de s eis
anos. Is to parece a plica r- s e ma is às mu lheres . A l g u ma s decidem preco-
cemente qu e desejam s er mães qu ando cres cerem, enqu anto ou tras res ol-
vem permanecer virgens ou n oiva s virgens p a r a sempre. E m qu alqu er
ca s o, a a tivida de s exu a l e m amb os os s exos sofre interferências contí-
nu as da s opiniões pa renta is , precauções a du lta s , decisões infa ntis ,
pressões s ocia is e temores, de modo a s u primir, exa gera r, distorcer, des-
preza r ou conta mina r impu ls os e ciclos . O resu ltado é qu e qu alqu er cois a
liga da com " s e x o " torna- se u m instru mento p a r a comportamentos de j o -
gos. A s transações s imples dos mitos gregos, os vários incidentes qu e
a contecia m n o Monte O limp o, qu e forma m a versão origina l do script,
são elab orados nos tru qu es e subterfúgios dos contos folclóricos de mo-
do a transformar E u r o p a em C h a p eu zin h o V er melh o, Prosérpina em
C in d er ela e U l is s es no príncipe b u rro qu e vir a sapo.

D . T e m p o d e re ló gi o e t e m po d e m e t a

A s alternativas p a r a preencher os cu rtos períodos de tempo s ocia l


fora m dis cu tida s n o Capítulo 2 , sendo qu e a s opções são: isolamento, r i -
tu a is , passatempos, a tivida des , jogos e intimidade. C a d a u m tem u m iní-
cio e u m fim denominado ponto de mudança. N u m período ma is longo,
também o script tem seu s pontos de mudança, o qu e s ignifica , em gera l,
qu e os joga dores mu d a m de u m pa pel p a r a outro no triângulo dramático.
Rich a r d S ch ech n er fez u ma análise cu ida dos a e académica dos p a -
drões de tempo no teatro 3 qu e se a p lica m também à dramatu rgia dos
scripts d a vid a r ea l. O s dois tipos ma is importantes são cha ma dos de
"temp o es ta b elecido" e "temp o de a contecimento" O tempo estab eleci-
do é marcado pelo relógio ou calendário. A ação inicia - s e e termina n u m
certo momento ou há u m tempo determinado p a r a s u a realização, como
no ca s o de u m jogo de fu teb ol. P a r a a análise do script dá-se a isto o
nome de tempo de relógio ( T R ) . N o tempo de acontecimento a atividade
será completada, como n o jogo de b eis eb ol, não importa qu a l a duração
do tempo necessário medido pelo relógio. A isto cha ma remos de tempo
de meta ( T M ) . E x i s te m também combinações de amb os os tempos. U m a
lu ta de b oxe poderá termina r qu ando todos os rounds forem completa-
dos , o qu e terá u m tempo estab elecido o u tempo de relógio ou qu ando
hou ver u m nocau te qu e é o tempo de acontecimento ou tempo de meta.
A s idéias de S ch ech n er são úteis p a r a o a na lis ta de script, pa rticu -

176
larmente a o lida r com scripts " P o d e " e " N ã o P o d e " . A o fazer s u a lição
de ca s a u ma criança pode recqber cin co tipos de instruções diferentes:
" V o c ê p r ecis a de b astante sono, porisso pode pa ra r às nove h or a s " . Isto
é cha ma do de Pode de Tempo de Relógio. " V o c ê precis a de bastante
sono, por is s o não pode trab alhar depois da s n ove" . E s te é denominado
de Não Pode de Tempo de Relógio. " S u a lição de ca s a é importante, por
is s o pode ficar acordado e terminá- la". E s te é o chamado Pode de Tem-
po de Meta. " S u a lição de ca s a é importante, por is s o você não pôde ir
dormir antes de terminá- la". E s te é o Não Pode de Tempo de Meta. O s
dois " P o d e " poderão aliviá- lo e os dois " N ã o P o d e " irritá-lo, ma s ne-
n h u m deles impede s u a ação. " V o c ê tem qu e terminar s u a lição de ca s a
até a s n ove horas p a r a poder i r d or mir " . A q u i o Temp o de Relógio e o
Temp o de M eta estão comb ina dos , o qu e é cha ma do de " A p r es s e- s e" . É
evidente qu e ca d a u ma destas instruções tem u m efeito diferente n o s eu
trab alho e n o s eu sono e, qu ando cres cer, nos seu s hábitos de trab alho e
sono. D e u m ponto de vis ta ma rcia no, os efeitos sobre o script d a cr ia n -
ça poderão ser b astante diferentes da qu ilo qu e os pais- dizem ter sido s u a
intenção. P or exemplo, Tempo de Relógio Não Pode poderá leva r à
insónia e Tempo de Meta Não Pode levará a lgu m d ia a u ma troca.
( C h u ck , no Capítulo 6, es ta va n o Tempo de Meta Não Pode e trocou a
oclusão d a coronária p ela terapia. O u tros preferem a coronária.) E s ta lis -
ta é importante, pois a u x il ia n a explicação de como a s pessoas es colhem
a forma de preencher s eu tempo enqu anto segu em a s injunções de seu s
scripts. " V o c ê pode viver até os q u a r en ta " ( T R Pod e) , a pes s oa
mantém-se comu mente ocu pa da fazendo a s cois a s qu e deseja; " V o c ê
pode viver até qu e s u a mu lher m o r r a " ( T M Pod e) , tende a pa s s a r ma is
tempo preocu pando- se em como a dia r o acontecimento e manter s u a mu -
lher v i v a ; " V o c ê não pode fa zer isto até encontrar o homem cer to" ( T M
N ã o Pod e) , poderá gastar mu ito tempo à procu ra de homens , enqu anto
" V o c ê não pode fa zer isto até fa zer vinte e u m a n o s " ( T R N ã o Pod e) ,
tem tempo p a r a ou tras cois a s . Is to também ex p l ica porqu e mu itos são d i -
rigidos pelo relógio e ou tros estão orientados pa ra metas.

No t as e referências

1. You ng, D . "Th e frog game". Loc cit.


2. Berne, E . Sex in Human Loving. New Yor k, Somon & Schuster, 1970.
3 Schechner, R. Public Domain. New Yor k, The B ob b s- Merril Company, 1969,
Capítulo 2.

177
1 2 . A l g u n s scripts t í pi c o s

O s scripts são sistemas a rtificia is qu e limita m as aspirações h u ma -


na s espontâneas e cria tiva s d a mes ma forma como os jogos são es tru tu -
ra s a rtificia is qu e limita m a intimidade espontânea e cr ia tiva . O script é
como u m pedaço de vid r o decorado e fos co qu e os pa is de Jeder colo-
ca m entre ele e o mu ndo (e eles próprios), e qu e Jed er protege e mantém
em b oas condições. E s p i a o mu ndo através dele e o mu ndo corresponde
esperando ver a o menos a lgu ma l u zin h a o u ta lvez u m a b recha de s u a
verda deira hu manidade. M a s u ma vez qu e o mu ndo também es pia
através de s eu próprio vidro opa co, a vis ib ilida de não é s u perior à de
dois pescadores su b marinos c o m máscaras enevoadas no fu ndo de u m rio
lamacento. O ma rcia no a p licou n a s u a máscara u m produ to antinévoa, de
modo qu e pode ver u m pou co melhor. E i s a lgu ns exemplos do qu e ele
vê, qu e poderá aju dar a exp lica r como o script fornece resposta a ca d a
u m ca s o p a r a a pergu nta " O qtíe você d iz depois de dizer O l á ?"

A . C h a p e u z i n h o C o r - d e - R o s a o u a cria nça a b a n d o n a d a

C h a p eu zin h o C or - d e- Ros a er a órfã e cos tu ma va sentar- se n u ma


cla r eir a d a floresta à es pera de alguém qu e necessitasse de a ju da pa ra
atravessá-la. A s vezes a n d a va pelos ca minhos p a r a ver se alguém p r eci-
s a va d ela em ou tra parte d a floresta. E r a mu ito pob re e não podia ofere-
cer grande cois a , ma s p a r tilh a va livremente tu do o qu e possuía. S egu r a -
v a cois a s pa ra a s pessoas e s u a cabeça es ta va ch eia de sábios preceitos
qu e h a via aprendido com seu s p a is , enqu anto estes a in d a es ta va m vivos .
C on h ecia também mu itas piadas e gos ta va de a nima r os homens qu e ti -
nha m medo de perder- se n a floresta. D es ta forma , fa zia mu itos amigos.
M a s nos fins de s ema na es ta va qu ase sempre s ozin h a , porqu e então to-
dos ia m fa zer piqu eniqu es à b eir a dos riachos, deixa ndo- a só e u m pou co
atemorizada de fica r n a floresta. O ca s iona lmente, con vid a va m- n a p a r a
acompanhá-los, ma s à medida qu e fica va ma is velh a isto a contecia com
menor frequência.
L e v a v a u ma vid a diferente de C h a p eu zin h o V er melh o, e n a única
vez qu e se encontra ra m não se dera m b em. C ha peu zinho V er melh o pa s -
s a va rapidamente p ela floresta qu ando encontrou C h a p eu zin h o C or - d e-
R o s a sentada n a cla reira . Pa r ou p a r a dizer Olá, a s du a s entreolharam- se
p o r - u m minu to, pensando qu e poderia m tornar- se a miga s , pois amb as
era m pa recida s , exceto qu e u ma u s a va u m cha peu zinho cor- de- ros a e a
ou tra u m vermelho.
— O n d e va i você? - pergu ntou C h a p eu zin h o C or - d e- Ros a - N u n c a
a v i por a qu i antes!

178
— E s tou leva ndo u n s sanduíches qu e a min h a mãe fez p a r a a m i -
n h a a vó - respondeu C h a p eu zin h o V er melh o.
— O h , qu e simpático — dis s e C h a p eu zin h o C or - d e- Ros a . E u não
tenho mãe.
— Além dis s o — dis s e C h a p eu zin h o V er melh o - qu ando chega r n a
ca s a d a min h a a vó a ch o qu e vo u s er comid a pelo lob o.
— O h - disse C h a p eu zin h o C or - d e- Ros a . B e m , u m sanduíche diá-
rio mantém o lob o afastado. S ó a s crianças sábias conhecem o s eu pró-
prio lob o qu ando o encontra m.
— N ã o a cho qu e estes gracejos são engraçados - dis s e C h a p eu zi-
nho V er melh o. Até logo.
—- C omo você é presunçosa! — disse C h a p eu zin h o C or - d e- Ros a .
M a s C h a p eu zin h o V er melh o já se tinha ido. " E l a não tem senso de h u -
m o r " , pens ou C h a p eu zin h o C or - d e- Ros a cons igo mes ma , " m a s a cho qu e
ela p r ecis a de aju da. Então C h a p eu zin h o C or - d e- Ros a entrou n a flores ta
à procu ra de u m caçador qu e pu desse proteger C h a p eu zin h o V er melh o
do lob o. A ca b ou p or encontrar u m , velho a migo s eu , e contou - lhe qu e
C h a p eu zin h o V er melh o es ta va e m perigo. Acompa nhou - o até a porta d a
ca b a na onde mor a va a avó de C h a p eu zin h o V er melh o e v i u tu do o qu e
tinha acontecido lá: C h a p eu zin h o V er melh o n a ca ma com o lob o, e .este
tentando comê- la, o caçador matando o lob o e os d ois , caçador e C h a -
peu zinho V er melh o rindo e b rinca ndo enqu anto a b ria m a b a rriga do lob o
e pu nha ip pedras e m s eu ventre. M a s C h a p eu zin h o V er melh o n em a o
menos preocu pou - se e m agradecer a C h a p eu zin h o C or - d e- Ros a , o qu e a
deixou triste. D ep ois qu e tu do terminou , o caçador tornou - se melhor
a migo de C h a p eu zin h o V er melh o do qu e tinha sido de C h a p eu zin h o
C or - d e- Ros a , o qu e a d eixou a in d a ma is triste. E s ta va tão triste qu e co-
meçou a comer amoras fortes todos os d ia s , e como não cons egu ia dor-
mir, ingeria amoras calmantes à noite. E r a a in d a u ma criança engraçadi-
n h a e con tin u a va gostando de a ju da r os ou tros, ma s às vezes p en s a va
que a melhor cois a s eria comer u ma dose ex ces s iva de amoras ca lma ntes .

Análise clínica

Tese: C h a p eu zin h o C or - d e- Ros a é órfã e tem razão de sentir- se como


ta l. E l a é engraçadinha, ch eia de sábios preceitos e gracejos, ma s
d eix a qu e os ou tros pens em de verda de, orga nizem as cois a s e a s
façam. É cons ciencios a e está sempre pronta a aju dar os ou tros,
tem mu itos " a m i g o s " em função dis to, ma s n o f i m a ca b a fica ndo
de fora . Começa então a b eb er, tomar drogas estimu lantes e remé-
dios p a r a dormir, pensando frequentemente e m suicídio. D ep ois de
dizer Olá, fa z a lgu ns gracejos, ma s isto é só p a r a pa s s a r o tempo
até qu e tenha a oportu nidade de pergu ntar: " P os s o ajudá-lo e m a l -
g o?" . D es ta forma poderia ter u m relacionamento " p r ofu n d o" c o m
u m perdedor, ma s não cons egu ia igu a l s u ces s o com vencedores de-
pois de termina rem os gracejos.

179
Diagnóstico clínico: Reação depres s iva crónica.
Conto de fada: C h a p eu zin h o C or - d e- Ros a .
Papéis: Criança pres ta tiva , Vítima, S a lva dor.
Mudanças ou comutações: S a lva d or (aconselhador, P a i nu tritivo).
Preceito Parental: " S e j a u ma garota b oa p p r es ta tiva ".
Padrão Parental: " E i s como s er p r es ta tiva ".
Injunção Parental: " N ã o pos s u a mu itas cois a s , não cons iga mu ito e fe-
nèsça".
Lema da infância: "Fa ça s u a s obrigações e não reclame".
Posição: " N ã o estou O K porqu e r ecl a mo" .
" E l e s estão O K porqu e podem pos s u ir cois a s . "
Decisão: " V o u pu nir- me por r ecl a ma r " .
Script: Fenes cer.
Antiscript: Aprender como aju dar os ou tros.
Camiseta: Frente: " S o u u ma criança engraçadinha".
Atrás: " M a s s ou órfã ".
Jogo: Independe do quão du ro eu tento.
Figurinhas: Depressões.
Desfecho final: Suicídio.
Epitáfios: " E r a u ma b oa men in a " .
" Ten tei" .
Antítese: D eix e de s er u ma criança engraçadinha.
Permissão: U s a r o s eu Ad u lto pa ra alcançar a lgo qu e va l h a a pena .

Classificação

C ha peu zinho C or - d e- Ros a é u m script de perdedor, pois tu do qu e


consegu e a ca b a por perder. É u m script 'Não Pode Estruturado para Me-
ta' , com o lema-padrão: " N ã o pode cons egu ir enqu anto não encontra r u m
Príncipe". B a s eia - s e n u m pla no " N u n c a " , " N u n c a peça n a d a p a r a s i " .
D ep ois de dizer Olá, p r ova qu e é u ma criança útil e pres ta tiva .

B . Sí si f o o u l á v o u e u n o v a m e n t e

E s ta estória é sobre J a c k e s eu tio Homer. O p a i de J a c k foi u m


herói de gu erra , morto em ca mpo de b a ta lha qu ando J a ck er a pequ eno e
s u a mãe morreu logo em segu ida. F o i cria do por s eu tio H omer , qu e não
era grande cois a , u m fanfarrão e trapaceiro. E n s in ou a J a ck todos os ti-
pos de jogos atléticos e competitivos. Q u a ndo J a c k ga nha va , H omer f i -
ca va fu rioso e d izia : " V o c ê pens a qu e o s eu coco não fed e?" S e J a ck
perdia , s eu tio ria dele de u m modo amigável, ma s com desprezo. D epois
de u m certo tempo, J a ck começou ,a perder propositadamente. Q u a nto
ma is perdia , ma is feliz e amigável ò s eu tio se torna va . J a ck qu eria s er
fotógrafo, ma s s eu tio dis s e- lhe qu e isto er a pa ra ma r ica s , incentivando- o
a s er u m herói atlético a o invés disso. J a c k tornou - se, então, u m joga dor

180
de b eis eb ol profis s iona l. O qu e H omer qu eria realmente é qu e J a c k ten-
tasse ser u m herói atlético e fa lha s s e.
C o m s eu tio como amigo, não foi s u rpres a qu a ndo, a u m passo dos
grandes times , ele distendeu o braço e teve qu e retirar- se do jogo. C omo
disse ma is tarde, er a difícil exp lica r como u m joga dor experiente como
ele podia ter sofrido u ma distensão tão séria du rante o treino d a prima ve-
r a , qu ando todos es ta va m tomando cu ida do pa ra não s e contu ndirem a n -
tes do início d a temporada.
J a c k foi s er vendedor. Começou mu ito b em e ob teve pedidos ca d a
vez ma iores até tornar- se o favorito do chefe. N es ta época, s entia que
a lgu ma cois a não es ta va b em. A cor d a va tarde, negligencia va a parte b u -
rocrática, de modo qu e su as entregas a tra s a va m. E r a tão b om vendedor
que não tinha , n em mes mo, qu e sair p a r a vender. O s clientes telefona-
va m, ma s ele es qu ecia de da r andamento às encomendeis. E m função d is -
to, começou a i r a ja nta res úteis, ma s longos , com o s eu chefe p a r a d is -
cu tir os prob lemas pessoais. Após ca d a ja n ta r ele melhora va u m pou co,
mas depois de u m tempo a s cois a s começavam a se deteriorar ou tra vez.
E ma is cedo ou ma is tarde h a ver ia o ja nta r fin a l, onde s eria despedido de
u ma forma amigável. A í ir ia procu ra r ou tro emprego e começar todo o
ciclo novamente. U m a da s dificu lda des qu e sentia é qu e vendedores ti -
nha m sempre qu e mentir e enganar u m pou co, e isto o incomoda va .
C o m resu ltado do tratamento J a ck livrou - s e de s eu tio e decidiu
volta r à es cola e tornar- se assistente s ocia l.

Análise clínica

Tese: Sísifo tra b a lha mu ito du ro e obtém o direito de chegar à b eira do


s u ces s o. N es te ponto desiste, pára de trab alhar e perde tudo o qu e
ga nhou . Começa então tudo d a es ta ca zero e repete o ciclo.
Diagnóstico clínico: Reação depres s iva .
Mito: Sísifo.
Papéis: Criança Ab a ndona da , Pers egu idor, S a lva dor.
Mudanças: Herói (s u ces s o) p a r a Vítima (fra ca s s o) p a r a S a lva dor,
Preceito Parental: " S e j a u m herói durão, não u m m a r i c a s " .
Padrão Parental: " E n g a n e u m p ou co" .
Injunção Parental: " N ã o tenha s u ces s o" .
Lema da infância: " S o u filho de u m herói".
Posição: " E u não estou O K , pois n a verdade s ou u m ma r ica s " .
" E l e s estão O K porqu e são b em- s u cedidos ".
Decisão: " Te n h o qu e ser u m herói".
Script: " N ã o con s ig a " .
Camiseta: Frente - " S o u u m s u per- vendedor".
Atrás - " M a s não compre na da de m i m " .
Jogos: "IA vou eu n ova men te", "E s tú pido".
Figurinhas: Depressões e cu lpa s .
Desfecho final: Impotência e suicídio.

181
Epitáfio: " Ten tou d u r a men te".
" N ã o con s eg u iu " .
Antítese: Pa re de ou vir o s eu tio.
Permissão: V olta r a estu dar e s er u m assistente s ocia l trab alhando com
crianças ab andonadas.

Classificação

Sísifo é u m script de perdedor, pois ca d a vez qu e se a p r oxima do


topo ele es correga pa ra b a ixo novamente. É u m script N ã o Pode E s tr u tu -
rado Pa r a Meta , como o lema " S e m m i m você não pode con s egu ir ". Está
b a s ea db no pla no " N ova men te" , " Ten te qu antas vezes qu is er ". O tempo
entre o Olá e o Ad eu s é estru tu rado com o jogo " L á vou eu n ova men te".

C . A P e q u e n a S e n h o r i t a M uf f e t o u v o c ê n ão m e a s s u s t a

Mu ffy sentava- se, noite após noite, n u m b a nqu inho do b a r, toman-


do whisky som*. U m a noite, u m su jeito meio grosseiro sentou- se ao s eu
lado. As s u s tou - a , ma s el a não fu giu . M a is tarde, casou - se com ele pa ra
dar- lhe os cu ida dos necessários e p a r a qu e ele pu desse es crever novela s
de melhor qu alidade. Q u a n d o es ta va bêbado a .agredia fis ica mente, e
qu ando es ta va sóbrio a h u milh a va com p a la vr a s , ma s a inda a s s im el a não
fu giu . O s memb ros do gru po, de início, s entia m pena d ela e fica va m hor-
roriza dos com o comportamento do ma rido, ma s à medida qu e pa s s a ra m
os meses s u a atitude mu dou .
" Q u e ta l leva nta r- s e do b a nqu inho e fa zer a lgo a r es p eito?" per-
gu nta va m eles . " V o c ê parece mu ito feliz qu ando tem u ma estória triste
p a r a conta r e está realmente fazendo u m jogo du ro de 'N ã o É I T e i rf v e P !
U m d i a o D r . Q pergu ntou - lhe qu a l er a s eu conto de fa da favorito.
- " N ã o ten h o" , respondeu ela . " Te n h o , entretanto, u m vers inho
fa vorito ' A Pequ en a S enhorita Muffet*.
- "Então é p or is s o qu e você senta n o s eu b a n qu in h o".
- " S i m , eu es ta va sentada n u m qu ando ele me con h eceu ".
- "Então por qu e ele não a assu sta e você não fog e?"
- " P or q u e qu ando eu er a pequ ena min h a mãe me disse qu e se a l -
gu m d ia eu fu gisse de ca s a ir ia a rru ma r ma is encrenca s do qu e a s qu e já
ti n h a " .
- " B e m , e o qu e me d iz sobre o b a nqu inho or ig in a l ?" - pergu ntou
alguém.
- " O h , você está falando do piniqu inho? B e m , eles me ob riga va m
a sentar nele e me a s s u s ta va m com su as ameaças, ma s eu tinha medo
dema is p a r a leva nta r e fu gir ".

* Bebida que contém uísque, suco de limão, açúcar e gelo. (N. do T . )


182
A s s i m , s eu script er a igu a l a o d a s ita . Mu ffet, só qu e el a não tinha
permissão de fu gir e não s a b ia p a r a onde correr. N o entretempo, b eb ia
ufsque em vez de leite. O gru po deu - lhe permissão p a r a levantar- se do
b a nqu inho, joga r for a o leite e ca minha r por conta própria. An tes el a
sempre pa recia a zeda , ma s a gora começava a sorrir.
O qu e o ma rido dela s a b ia é qu e depois de dizer Olá p a r a a s ita .
Mu ffet dizia - s e B u u ! e a expecta tiva er a qu e el a fu gisse. A ma ioria das
garotas fu gia m, ma s não Mu ffy. S e dissesse B u u ! p a r a a srta. Mu ffet e
ela não fu gis s e, a única cois a a fa zer s eria dizer B u u ! ou tra vez, e foi o
qu e ele fez. N a verda de, de u m a forma ou de ou tra , foi o qu e ele dis s e,
exceto ta lvez B u u !

Análise Clínica

Tese: A Pequ ena S enhorita Mu ffet senta n u m b a nqu inho sentindo- se a ze-
d a e esperando por u ma a ra nha , qu e é tudo qu e el a pode esperar.
Q u a ndo es ta chega , tenta amedrontar a senhorita, ma s es ta decide
qu e a a r a n h a é da s ma is b elas do mu ndo e fica com ela . A a ra nha
continu a a assustá-la de tempos e m tempos, e el a recu sa- se a fu gir.
M a s qu ando a a ra nha d iz qu e a j ovem a assu sta, es ta fica amedron-
tada. Pr ocu r a p or ou tra a ra nha , ma s não consegu e encontrar u ma
qu e s eja tão lin d a qu anto a s u a , fica ndo ju nto dela , contanto qu e
pos s a ajudá-la a tecer.
Diagnóstico clínico: D es ordens de caráter.
Versinho: A Pequ ena S enhorita Mu ffet.
Papéis: S a lva d or , Vítima.
Mudanças ou comutações: V ftima (da s circunstâncias) pa ra S a lva d or a
(de homens ) p a r a Vítima (de homens ).
Preceito Parental: " N ã o d es is ta " .
Padrão Parental: " E i s como agu entar - B e b a " .
Injunção Parental: " N ã o s a b ia ou você arrumará u ma encrenca p ior " .
Posição: " E u estou O K se ajudá-lo a p r od u zir ".
Decisão: " S e e u não pu der produ zir, encontra rei alguém qu e p os s a " .
Camiseta: Frente — " E u me v i r o " .
Atrás - " C h u te - m e " .
Jogos: " C h u te - m e " , " N ã o é Terrível".
AntíteseiJPare de ficar sentada em s eu b a nqu inho e pare de b eb er ".
Permissão: C a min h a r p or conta própria.

Classificação

A Pequ ena S enhorita Mu ffet é u m script não-ganhador. Ja ma is


conseguirá i r p a r a frente, ma s pelo menos tem u ma a ra nha pa ra fica r per-
to dela . É u m script Pode E s tru tu ra do p a r a M eta com o lema : " V o c ê
pode ajudá-lo a p r od u zir ". B a s eia - s e n u m pla no " A té q u e " , " F i q u e s en-
tada s ozin h a até encontrar u m príncipe-aranha e então poderá começar a

183
a vi ve r " . O tempo entre Olá e B oa - N oite é estru tu rado com b riga s , b eb i-
d a , a mor e trab alho.

D . V e l h o s so l dado s n u n c a m o rre m o u q ue m p r e c i s a d e m i m ?

M a c er a u m soldado corajoso e cu id a va b em dos s eu s homens . U m


d ia , entretanto, por desobediência ou ignorância u m pu nha do deles foi
morto e M a c cu lpa va - s e por is s o. Is to, ju nta mente c o m malária, des nu -
trição e a lgu ma s ou tras cois a s ca u s a ra m- lhe u m cola ps o. Após s u a r ecu -
peração, pa s s ou a trab alhar s em pa ra r p a r a não pens a r, ma s por ma is qu e
trab alhasse, não progredia e sempre h a vi a ma is trab alho a fa zer se qu i-
sesse livra r- s e de s u a s dívidas. M a c tra b a lha va com serviço de bufê e i a
a todo tipo de casamento e ou tras comemorações, ma s ele próprio na da
tinha p a r a celeb ra r. E r a sempre u m espectador, aju dando os ou tros a s en -
tirem- se b em c o m comid a , b eb ida , conforto e cons elhos , e isto fa zia com
qu e ele se sentisse necessário, tanto qu anto podia . O s piores momentos
er a m à noite, qu ando ficava só e s eu s pensamentos d a va m volta s . O s me-
lhores momentos er a m aos sábados à noite, qu ando se emb ria ga va , es -
qu ecia seu s prob lemas e er a qu ase u m dos d a tu rma .
Is to começou mu ito antes de ele ter ingressado n o exército. S u a
mãe fu giu com u m soldado qu ando ele tinha s eis anos e, qu a n d o' ficou
sab endo qu e el a tin h a id o emb ora rea lmente, teve u ma feb re de fúria e
tentou morrer, pois isto s ign ifica va qu e el a não p r ecis a va dele. Começou
a tra b a lha r du ro mu ito cedo, a in d a n o cu r s o secundário, ma s ca d a vez
qu e progredia u m pou co s eu p a i a ca b a va s u rru pina do- lhe o dinheiro.
Q u a n d o comp r a va a lgo p a r a s i , s eu p a i ven d ia . T i n h a inveja .dos colegas
de es cola por terem mães e metia- se em mu itas b riga s . N ã o s e importa va
com na rizes sangrando n o pátio d a es cola , ma s não podia su portar a
visão de cadáveres n a gu erra . E r a u m b om atirador, ma s sempre s entia
pena dos inimigos qu e ma ta va , n em os cu lp a va qu a ndo s eu s homens
era m mortos. P or cu lpa r- s e dis to, sentia- se qu e seu s compa nheiros mor-
tos es ta va m ob seryando- o de a lgu m lu ga r, por is s o tinha mu ito cu ida do
de não insultá-los, divertindo- se. E x c e to qu ando es ta va bêbado, e isto
não con ta va , ou será qu e s im? N ã o cons egu ia ter certeza . Ten tou u m a ou
du as vezes b ater o ca rro e ficou gravemente ferido, ma s s ob reviveu . A
a rma p r in cip a l de tentativa de suicídio er a o fu mo, mesmo qu ando tinha
b ronqu ite. D ep ois de u m longo período de tratamento rea tou c o m s u a
mãe, e is to fez com qu e se sentisse melhçr ou tra vez.

Análise clínica

Tese: O velh o soldado não er a su ficientemente b om p a r a s u a mãe e fa -


lh ou com s eu s amigos. C omo res u lta do dis to, é condenado a tra b a -
lha r du ro p a r a sempre, s em progredir. N a vid a é u m espectador,
não podendo pa rticipa r do pra zer. Está sempre disposto a aju dar os

184
ou tros, e isto s ignifica ma is tra b a lho, porém fá- lo sentir- se necessá-
rio. A morte será s u a única liberação, ma s não pode ferir os qu e o
a ma m com o suicídio. Tu d o qu e pode fa zer é mu r ch a r lentamente.
Diagnóstico clínico: E s qu izofr en ia compens a da .
Canção: O s velhos soldados n u n ca morrem.
Papéis: S a lva d or Fra ca s s a do, Persegu idor, Vítima.
Mudanças ou comutações: Vítima ( d a mãe e do p a i) p a r a S a lva d or (dos
homens ) pa ra Vítima (da s circunstâncias).
Preceito Parental: " Tr a b a l h e du ro e aju de a s p es s oa s ".
Padrão Parental: " E i s como agu entar — b eb a " .
Injunção Parental: ' 'N ã o progrida ''.
Posição: " E u não estou O K " .
" E l e s estão O K " .
Decisão: " V o u morrer de tr a b a lh a r ".
Camiseta: Frente — " S o u u m ca r a l e g a l "
Atrás - " M es mo qu e isto me ma te".
Passatempo: Recorda ndo- s e d a gu erra.
Jogo: " S ó estou tentando a ju d a r ".
Antítese: Pa re de matar- se.
Permissão: Aju s te- s e e vá em frente.

Classificação

O y e l h o S olda do é u m script não-ganhador porqu e é u m ponto de


honra não progredir. É u m script N ã o Pod e E s tru tu ra do p a r a M eta com
o lema : " V o c ê não pode progredir até qu e eles precis em de você ou tra
ve z" . B a s eia - s e no pla no: " D ep ois d e " , " D ep ois qu e a gu erra a ca b a r
você só pode mu r ch a r " . G tempo de es pera é preenchido pela a ju da aos
outros e pelo papo de soldado.

E. M a t a d o r d e Dr ag õ e s o u p ap ai s a be m e l h o r

E r a u ma vez u m homem cha ma do G eor ge qu e er a mu ito célebre


por matar dragões e fecu nda r mu lheres estéreis. V a g a va pelos ca mpos
como u m espírito totalmente livr e - ou pelo menos a s s im pa recia . G a l o-
pando pelos prados n u m d ia de verão, ob s ervou colu na s de fumaça e l a -
b aredas de cha ma s su b indo ao longe. A o a proxima r- s e do loca l, ou viu
terríveis ru gidos mistu rados com os gritos estridentes de u ma donzela em
perigo. " A h a ! " , gritou ele com a lança em riste. " E s t e é o meu terceiro
dragão e a terceira donzela em menos de u ma s ema na . Ma ta rei o dragão
e» certamente min h a b r a vu r a será ricamente r ecomp en s a d a ". E m s egu ida
gritou pa ra o dragão: " A l t o lá, s eu b r u ta mon tes !" e p a r a a donzela " N ã o
tenha med o!" . O dragão recu ou e começou a ra s pa r o chão com a s pa ta s ,
prevendo não só u ma refeição du pla , ma s também o qu e ma is a precia va ,
u ma b oa lu ta . A donzela , qu e se ch a ma va Úrsula, estendeu os braços e

185
gritou : " M e u herói! E s tou s a l v a " . E l a es ta va enca nta da , não apenas pela
pers pectiva de s er s a l va e a s s is tir a u ma b ela lu ta , ma s também ( u ma vez
qu e não er a propriamente u ma donzela ) de mostrar s u a gratidão a o s eu
s a lva dor.
G eor ge e o dragão afastaram- se u m do ou tro, preparando- se p a r a a
ca rga , enqu anto Úrsula a n ima va a amb os. N a qu ele momento aparece ou -
tra figura em cen a , ricamente equ ipa da c o m u ma s ela incru s ta da de pra ta
e u m gordo alforje recheado de moedas de ou ro. " E i , ma n ceb o!" , gritou
o recém- chegado. G eor ge virou - s e e dis s e, su rpreso: " P a p a i ! Q u e b om
vê- lo!". D e u a s costas p a r a o dragão, desmontou do s eu ca va lo e foi b ei-
j a r o pé do p a i. S egu iu - s e u ma con ver s a a nima da , com G eor ge dizendo:
" S i m , pa pa i. C erta mente, pa pa i. O qu e você dis s er, p a p a i" . N e m Úrsula
n em o dragão podia m ou vir o qu e o p a i d izia , ma s logo ficou evidente
qu e a con ver s a du ra ria indefinidamente.
" O h , pelo a mor de D e u s ! " dis s e Úrsula, b atendo seu s pés em de-
sespero. " Q u e herói. A s s i m qu e o s eu velh o aparece ele va i correndo p a -
r a lá, cu rva ndo- s e e fa zendo rapapés, n em tem tempo pa ra a pob rezinha
de m i m " .
" É isto mes mo" , disse o dragão. " I s to v a i continu a r u m tempão".
Então des ligou s eu maçarico, virou - s e p a r a o ou tro lado e a dormeceu .
Fina lmente o velho p a r tiu , e G eor ge es ta va pronto p a r a retornar à
b riga . E mp u n h ou novamente a lança, esperando qu e o dragão acordasse
p a r a o atacar e qu e Úrsula continu a s s e torcendo por ele. E m vez dis s o
Úrsula dis s e: " I m b e c i l ! " afastando- se. O dragão pôs-se de pé e dis s e:
" F r o u x o ! " e também s a iu de perto. Q u a n d o G eor ge v i u isto, gritou : " E i
p a p a i ! " e ga lopou atrás dele. Úrsula e o dragão vira ra m- s e ao mesmo
tempo e amb os grita ra m p a r a ele: " P e n a qu e s eu p a i s eja tão velho,
senão ficaríamos c o m ele e m s eu l u g a r " .

F . S i g m u n d c m s e n ão p u d e r f a z e r d e u m j e i t o , e x p e r i m e n t e d e
o ut r o

S igmu n d decidiu s er u m grande homem. E r a mu ito trab alhador e


tentou introdu zir- s e n a Situação, o qu e teria s ido o Céu p a r a ele, ma s
não foi admitido. D ecid iu então cons idera r o Inferno. Lá não h a via S i -
tuação e ninguém liga va p a r a estas cois a s . D es ta ma neira , tornou - se u ma
au toridade n o Inferno, qu e neste ca s o e r a o Incons ciente. E l e teve tanto
su cesso qu e depois de a lgu m tempo transformou - se e m Situação.

Análise dfruaa

Tese: Jeder decide s er u m grande homem. A s pessoas coloca m todo tipo


de obstáculos n o s eu ca minho. E m vez de pa s s a r a vi d a lu tando
contra eles de peito ab erto, res olve da r a volta e encontrar u m de-
s a fio digno do s eu temperamento, tomando- se u m grande homem.

186
Diagnóstico clínico: F ob ia s ,
Heróis: A n i b a l e Napoleão.
Papéis: Herói, Oponentes.
Mudanças ou comutações: Herói, vítima, herói.
Preceito Parental: " Tr a b a l h e du ro e não d es is ta ".
Padrão Parental: U s e s u a inteligência e des cu b ra o qu e fa zer " .
Injunção Parental: " S e j a u m grande h omem" .
Posição: E u es tou O K — se produ zir.
E l e s estão O K - se pens a rem.
Decisão: " S e não pos s o alcançar o Céu , mu da rei p a r a o In fer n o" .
Camiseta: N en h u ma visível.
Figurinhas: N ã o coleciona .
Jogos: N ã o tem tempo p a r a jogos .
Antítese: N en h u ma é necessária.
Permissão: P os s u i permissão su ficiente.

Classificação

E s te é u m script de vencedor, pois Jeder é orientado pelo script e


fa z o qu e tem p a r a fazer. E s te é u m script Pode E s tru tu ra do p a r a Meta ,
com o lema : " S e não pu der fa zer de u m jeito, experimente de ou tr o".
B a s eia - s e n u m pla no S empre, " C on tin u e Tenta ndo S emp r e" . D ep ois do
Olá a próxima cois a é começar a trab alhar.

G . F l o r e n c e o u aj ud e

A mãe de Flor en ce qu eria qu e el a se ca s a s s e b em e leva s s e u ma v i -


d a nos altos meios s ocia is , ma s a voz de D eu s veio a Flor en ce p a r a d i-
zer- lhe qu e o s eu destino er a s ervir à hu ma nida de. D u ra nte qu atorze
a nos , todos à s u a volta comb ateram s u a decisão, ma s n o fim esta p r eva -
leceu e el a in iciou s u a ca rreira como enfermeira. Através de u m tremen-
do esforço, e a in d a c o m a oposição dos qu e a rodea va m, el a conqu is tou
a aprovação d a Situação e até mesmo d a ra inha . D edicou - s e inteiramente
ao s eu trab alho e não a ceitou pa rticipa r de intrigas ou de aclamação pú-
b lica . Revolu cion ou não apenas a enfermagem, como também a saúde
pública em todo o império britânico.

Análise clínica

Tese: A mãe de Flor en ce qu er qu e el a s eja socialmente a mb icios a , ma s


em a lgu m lu ga r do s eu interior u ma voz d iz qu e el a está destinada
a ca u s a s ma is nob res. L u t a vigorosamente contra s u a mãe p a r a
conqu is ta r s eu ca minho. O u tros coloca m obstáculos, ma s em vez
de perder tempo joga ndo c o m a s pes s oa s , el a evita - a s pa ra encon-
trar ma is desafios e torna- se u ma heróina.

187
Diagnóstico clínico: C r is es de adolescência com alucinações.
Heróina: Joa n a D ' A r e .
Papéis: Heróina, Oponentes.
Mudanças ou comutações: V ftima , Heróina.
Preceito Parental: " C a s e- s e com alguém rico"
Padrão Parental: "O b ed eça "
Injunção Parental: " N ã o r etr u qu e"
Injunção alucinatória: (pres u mivelmente a voz do p a i) " S e j a umá herói-
n a como Joa n a D ' A r e "
Posição: " E u es tou O K — se p r od u zir "
" E l e s estão O K - se me d eix a r em"
Decisão: " S e eu não pu der s er vir à hu ma nida de de u ma forma , a s ervirei
de ou tr a " .
Camiseta: Frente - " T o m e conta dos s old a d os "
Atrás - "Faça- o melhor do qu e a n tes "
Figurinhas: N ã o é o coleciona dora .
Jogo: N ã o tem tempo pa ra jogos .
Antítese: N ã o é necessária.
Permissões: Pos s u i permissão su ficiente.

Classificação

E s te é u m script de vencedor e tem a mes ma classificação do ante-


rior. E m amb os b s ca s os , os su jeitos adotafam scripts perdedores ( A n i -
b a l, Napoleão, Joa n a D ' A r c ) e os tra ns forma ra m em vencedores, apesar
de toda a oposição externa . Is to foi consegu ido a o deixa rem abertas a s
a lterna tiva s , de modo qu e podia m contorna r a oposição em vez de en -
frentá-la de peito aberto. E s ta é a qu alidade d a flexib ilida de qu e, de
forma nenhu ma , d imin u i a determinação ou a eficácia. A s s i m , se N a po-
leão e Joa n a D * Ar e tives s em tomado decisões condiciona is , o desfecho
de seu s scripts teria sido bastante diferente, por exemplo, " S e não posso
lu tar contra os ingles es , lu ta rei contra a doença".

H . Scripts t r ág i c o s

D eb ate- se a in d a consideravelmente se os vencedores o são por te-


rem scripts de vencedores òu porqu e têm permissão pa ra serem autóno-
mos. Há pou ca s dúvidas, entretanto, qu e os perdedores estão segu indo a
programação de seu s progenitores e a s instigações de seu s próprios
demónios internos. Scripts trágicos (qu e S teiner ch a ma de "Hamárti-
c o s " 1 ) poderão s er nob res ou ignóbeis. O s primeiros são u ma fonte de
inspiração e de dramas nob res. Òs segu ndos repetem a s mesmas velha s
cena s e a s mesmas antigas tramas, com idêntico e insípido elenco encer-
ra ndo e m somb rias "áreas de captação" qu e a sociedade fornece conve-
nientemente como depósitos onde os perdedores podem retirar seu s des -

188
fechos: b a res , ca s a s de penhores, bordéis, trib u na is de justiça, peniten-
ciárias, hospitais públicos e necrotérios. P or ca u s a dos resultados este-
reotipados, é fácil ob s erva r os elementos de script em ta is trajetórias de
vid a . L i v r o s de ps iqu ia tria e cr imin ologia qu e apresentam histórias de
ca s os nu merosos e extens os cons titu em excelente fonte p a r a o estu do
dos script^.
U m script ma u é coloca do, diante de criança p ela zomb a ria fa s cis ta
e el a s e apega a este segu ndo o princípio do Pr is ion eir o Nostálgico. A
zomb a ria fa s cis ta é tão a ntiga qu anto a história, e fu nciona d a segu inte
ma n eir a : D iz- s e às pessoas qu e o r ei in imigo é s u jo, incoerente, degra-
dado, b ru ta l, ma is a n ima l do qu e hu ma no. Q u a ndo este é ca ptu ra do, é
posto n u ma ga iola com a lgu ns trapos, s em instalações sanitárias e s em
talheres. D ep ois de u m a s ema na ma is ou menos ele é exib id o às pessoas
e c o m certeza estará s u jo, incoerente, degradado e b ru ta l, acentu ando
ma is estas características à medida qu e o tempo pa s s a . Então os conqu is -
tadores s orriem e dizem: " E u não lh e d i s s e ?"
A s crianças são, es s encia lmente, pris ioneira s de seu s pa is e podem
ser redu zida s a qu a lqu er estado qu e os pa is desejam. P or exemplo, diz- s e
a u ma men in a qu e el a é u ma ch or on a histérica e com pena de s i mes ma .
O s pa is conhecem s eu ponto fraco e poderão atormentá-la n a presença
de vis ita s até o limite de s u a tolerânciar^pós o qu e e l a fica redu zida a
lágrimas. U m a vez qu e isto é rotu lado de "au tò*eomiseração", el a tenta
não chora r, de sorte qu e, qu ando o fa z, é como se fosse u ma explosão.
Então os pa is poderão dizer: " Q u e reação histérica! To d a vez qu e temos
vis ita s el a fa z isto. Q u e ch or on a " etc. O ponto- chave d a investigação d a
análise do script é: " C o m o edu ca ria você u ma criança p a r a qu e qu ando
cres ces s e s u a s reações fos s em semelhantes às desta p a cien te?" A o res -
ponder es ta questão o a na lis ta de script é ma is e ma is frequentemente
ca pa z de des crever c o m acerto como o paciente foi cr ia d o, antes mesmo
de receb er a informação. M u ita s pessoas qu e pa s s a ra m longos anos n a
prisão cons idera m qu e o mu ndo lá fora é frio, difícil e assu stador, e co-
metem n ova contravenção p a r a s erem mandados de volta à prisão. Pode
ser miserável, ma s é fa milia r, e eles conhecem a s regras o su ficiente p a r a
evita rem prob lema s , ha vendo aí velhos amigos. D a mes ma forma , qu a n -
do o paciente p r ocu r a es ca pa r d a ga iola do s eu script, também ele a ch a
qu e " l á f o r a " fa z frio e como não fa z ma is os velhos jogos , perde seu s
velhos a migos e tem qu e fazer n ovos , o qu e, frequ entemente, o a medron-
ta . P or es ta razão retorna aos seu s velhos hábitos, ta l como o Pris ioneiro
Nostálgico.
Tu d o isto torna o script e seu s efeitos u m pou co ma is compreensível.

189
No t as e referências

1. Steiner, G M . Games Alcoholics Play. Loc. cit. Liddell e Scott apresentam a l-


gumas variantes, sendo a mais relevante hamartetikos (sujeito ao fracasso), de
Aristóteles, E th. N . 2,3,7.
2. U m dos estudos sobre um tipo particular de perdedor mais convicente, esclare-
cedor e fecente é Another Look at Sex Offenders in Califórnia, de Louise V .
Frisbie. (Califórnia Department of Mental Hygiene, Sacramento, 1969.) Emb o-
ra haja razão para acreditar que a autora conhece ao menos a existência da aná-
lise do script, ela caracteristicamente (dos criminologistas) a ignora, apesar de
oferecer inúmeros exemplos claros de comportamento de script. Exemplo: U m
homem foi posto em liberdade condicional de três anos e até duas semanas an-
tes de o período expirar não cometeu nenhum crime conhecido. Não pôde ex-
plicar como se envolveu, mas conseguiu ser preso por "perversão" com uma
prostituta. Os dois volumes do Studies in Criminal Psychopathology, de B en
Karpman (Medicai Science Prêss, Washington, D . C , 1933 e 1944), oferecem
exemplos fascinantes de hamartia, com histórias completas de casos. O primei-
ro volume foi publicado durante a primeira onda de livros "miseráveis" na épo-
ca da Grande Depressão, iniciado pela novela de E dwa rd Dahlberg, Bottom
Dogs (1930), e era muito mais interessante e convincente do que a maior parte
da ficção publicada neste período. A atual corrente de literatura miserável
(provavelmente desde, Naked Lunch, de William Burrough [Grove Press, New
York, 1962]) é mais sofisticada, mas nem por isso menos sombria e estereòti-
pada. D o ponto de vista do script, nada mudou durante os últimos trinta anos,
nem mesmo o estilo que, afinal, retorna ao Ulisses de Joyce (1922) ou pelo me-
nos, ao seu Work in Progress (Finnegaris Wake) e outros escritos publicados
durante a transição do fim dos anos 20. Joyce até usava óculos escuros, como
muitos dos seus atuais imitadores. ( O D r . Stephen Karpman, por coincidência,
criador do Triângulo Dramático, descrito no Capítulo 10, é filho do D r . B en
Karpman.)

190
13. Cinderela

A . O passado d e Ci n d e r e l a

P a r a o a na lis ta de script, o passado de C in d er ela è completo. In cl u i


u ma grande variedade de scripts qu e se engrena m, inúmeros ângulos e
fendas onde nova s e delicios a s descob ertas podem s er feitas e milhões
de correlações p a r a ca d a pa pel d a vid a r ea l.
E n tr e nós C in d er ela s ign ifica geralmente " O S a pa tinho de C r i s ta l " .
É u ma tradução d a versão fra nces a de C h a r les Perra u lt, pu b lica da pela
primeira vez em 1697, sendo ingles a da por Rob ert S a mb er em 1 7 2 9 1 .
E m s u a dedicatória à condes s a de G r a n vil l e, S a mb er torna cl a r a a s u a
compreensão a respeito das influências de tais estórias no script. D i z ele
qu e Platão " es p er a qu e a s Crianças pos s a m incorpora r tais Fábulas com
o s eu leite, recomendando qu e a s A ma s ensinem- nas às crianças". O s
preceitos mora is de Perra u lt relacionados com a estória de Cinderilla
são, evidentemente, preceitos Pa renta is .

Mas aquilo que denominamos boas graças,


Excedem de longe um lindo rosto;
O seu charme ultrapassa de longe o outro,
E foi isto que sua boa Madrinha
Concedeu à bela Cinderilla.
A quem instruiu com tal cuidado
e deu-lhe um semblante tão gracioso
Que ela se tornou assim uma Rainha.

A s últimas três linha s des crevem u m padrão Pa renta l qu e Cinderil-


la receb eu de s u a a vó e qu e é exatamente paralelo ao preceito descrito
pa ra u ma " d a m a " , n o Capítulo 6.
Perra u lt traça também u ma segu nda mora l qu e enfa tiza a neces s i-
dade d a permissão Parental pa ra a criança alcançar qu alqu er cois a .

A grande vantagem para o homem, sem dúvida, é


Possuir sagacidade, coragem, berço, bom senso e inteligência . . .
Mas destas preciosas graças dos céus
Para o seu progresso na terra provarão
Qualquer utilidade se os Padrinhós ou Madrinhas
Tardarem em demonstrar os seus méritos.

A tradução de S a mb ers foi ligeiramente alterada por A n d r ew L a n g


no s eu Blue Fairy Book, qu e é u m dos livr os ma is popu lares de contos
de fadas lido pa ra e pela s crianças, e de onde obtêm a primeira ima gem de
191
C in d er ela . N es ta s u a ve versão fra nces a , C in d er ela perdoa su as du a s
irmãs de criação, encontrando ricos maridos pa ra ela s . O s Contos de Fa-
das de Gritnm, qu e também são bastante popu lares neste país, contêm a
versão alemã cha ma da Ashenputtel. É u ma estória sangrenta, qu e termina
com os olhos da s irmãs sendo b ica dos s em pa ra r por pomb as. A s estórias
de C in d er ela são encontradas e m vários ou tros países .
C o m este pa no de fu ndo como p a lco temos condições p a r a cons ide-
ra r u ma visão ma r cia n a de C in d er ela , segu ndo os padrões de Perra u lt,
qu e é a versão ma is conhecida pelas crianças de língua ingles a , e d is cu -
tir os vários scripts envolvidos , mu itos dos qu a is podem s er facilmente
reconhecidos n a vid a real. O qu e o ma rcia no e a vid a real nos conta m,
como n o ca s o de C h a p eu zin h o V er melh o, é a lgo mu ito importante: o qu e
su cede aos personagens depois de o livr o de contos terminar.

B . A e st ó r i a d e C i n d e r e l a

S egu ndo Perra u lt, er a u ma vez u m senhor qu e se ca s ou e m s egu n-


das núpcias com u ma viúva, a mu lher ma is orgu lhos a e sob erb a qu e j a -
ma is s e conheceu . ( É provável, como acontece no ca s o de ta is n oiva s ,
qu e er a também frígida.) A viúva tinha du a s filha s qu e er a m exatamente
como el a em tu do. H a v i a também u ma filh a do primeiro casamento, qu e
er a b oa e doce, herança de s u a mãe, qu e fora a melhor cria tu ra do
mu ndo.
A s s i m qu e se ca s a ra m, a ma dra s ta começou a tratar C in d er ela com
a ma ior cru eldade. N ã o podia su portar a s qu alidades desta lin d a men in a
por qu e isto torna va su as próprias filha s a in d a ma is desprezíveis e odia -
das. A pob re men in a a gu enta va tudo pacientemente, e não ou s a va contar
na da a s eu p a i, qu e a teria repelido, já qu e s u a mu lher o d omin a va por
completo. Q u a ndo termina va seu s afazeres cos tu ma va i r p a r a o canto d a
chaminé e sentar- se sob re a s cin za s , por isto ch a ma va m- n a de C indera rs e
( G a ta B or r a lh eir a ) , ou , ma is polidamente, C in d er ela .
O filho do r ei orga nizou u m b a ile e con vid ou todas a s pessoas i m -
portantes, in clu s ive a s du a s irmãs. C in d er ela aju dou - as a se pentearem e
se ves tirem. E l a s fa zia m pou co de C in d er ela p or não ter sido con vid a d a ,
e el a concorda va dizendo qu e u ma ocasião tão fascinante não er a pa ra
pessoas de s u a condição. D ep ois qu e a s irmãs saíram, começou a chora r.
Então s u rgiu s u a fa da ma drinha e prometeu - lhe qu e el a também ir ia .
D eu - lh e a s segu intes instruções: " V á à horta e traga- me u ma ab ób ora".
E s c a vo u a abóbora e tra ns formou - a n u ma ca rru a gem dou rada. O s c a -
mu ndongos vir a r a m ca va los e u m rato pa s s ou a s er u m cocheiro gordo e
alegre, com b elos b igodes. A s la ga rtixa s vir a r a m la ca ios . C in d er ela pôs
u m b elo ves tido, jóias e sapatinhos de cr is ta l. S u a ma drinha a vis ou - a p a -
r a não fica r no b a ile depois d a meia- noite.
C in d er ela foi a sensação do b a ile. O príncipe deu - lhe o lu ga r de
ma ior honra , e o próprio R e i , mesmo velh o, não podia d eixa r de olha r
192
pa ra el a , comentando b a ixin h o c o m a Ra in h a . Q u in ze minu tos antes d a
meia- noite el a foi emb ora. Q u a ndo s u a s irmãs chega ra m à ca s a , el a fin -
giu estar dormindo. C onta ra m- lhe sobre a lin d a e es tra nha Pr in ces a .
C in d er ela s orriu e dis s e: " E l a d eve s er mes mo mu ito lin d a . C omo gosta-
ria de tê-la vis to! E mpres tem- me a lgu ma de s u a s rou pas p a r a qu e eu pos -
s a i r lá amanhã à n oite". Res p on d er a m qu e não emprestariam s u a s r ou -
pas p a r a ta l G a ta B or r a lh eir a e C in d er ela ficou satisfeita, pois não sab e-
ria o qu e fa zer se ela s tives s em concordado.
N a noite segu inte, C in d er ela es ta va se divertindo tanto qu e se es -
qu eceu de ir emb ora , até qu e o relógio começou a bater meia- noite. A s -
s im qu e ou viu a b a tida do relógio el a se leva ntou e fu giu , veloz como
u m cer vo. O Príncipe s egu iu - a , ma s não cons egu iu alcançá-la, apesar de,
n a s u a pres s a , el a ter perdido u m de seu s sapatos de cr is ta l, qu e o Prín-
cipe recolheu cu idadosamente. A l g u n s dia s ma is tarde, o Príncipe orde-
nou qu e procla ma s s em ao s om de trombetas qu e ele s e ca s a r ia com a
donzela cu jo pé cou b esse n o sapato. E n v i o u homens p a r a experimenta -
r em o sapato em todas a s mu lheres do reino. D ep ois de a s du as irmãs te-
r em prova do, s em s u ces s o, C in d er ela , qu e conhecia o sapato, dis s e rin-
do: " D eix e- me exp er imen ta r ". A s irmãs também riram e começaram a
caçoar dela . O ca va lheiro envia do p a r a prova r o sapato disse qu e tinha
ordens p a r a permitir qu e todas o fizes s em. Ped iu a C in d er ela p a r a s en-
tar- se e ver ificou qu e s er via n ela , como se tives s e sido modelado em ce-
r a . A s u rpres a da s du as irmãs foi enorme, ma s au mentou a in d a ma is
qu ando C in d er ela tirou do s eu b ols o o ou tro pa r, coloca ndo- o no ou tro
pé. Então s u a ma drinha entrou e com s u a va r in h a mágica transformou a s
rou pas de C in d er ela em vestes magníficas.
Q u a ndo vir a m qu e el a er a a b ela Pr in ces a , a s du a s irmãs a tira ra m-
se a os seu s pés dizendo: "Per d ã o", e C in d er ela abraçou-as perdoando.
F o i então leva d a pelo Príncipe, qu e algu ns dia s depois casou - se com ela .
C in d er ela levou a s irmãs pa ra o palácio e a s ca s ou no mesmo d ia , com
dois grandes nob res d a corte.

C . Scripts e nt re l aç ado s

São tantos os aspectos interessantes deste conto qu e é difícil sab er


por onde in icia r a discussão. P a r a começar o elenco é mu ito ma ior do
qu e pode parecer à primeira vis ta . E m ordem de entrada, os personagens
são os segu intes:

Pai M a d r in h a ( Ra in h a )
Ma dra s ta ( C och eir o, (G u ardas)
Filh a A L a ca ios ) U m C a va lh eir o
Filh a B ( A s pessoas no b a ile) D ois N ob res
C in d er ela Príncipe
(Mã e) Rei

193
Is to in clu i nove personagens p r in cip a is , a lgu ns papéis s ilencios os
ou de u ma única fa la e mu itos extra s . O ma is interessante sob re o elenco
é qu e qu ase todos são desonestos, como veiemos em b reve.
O u tr a característica é a cla r eza da s mudanças, qu e é comu m à
ma ioria das estórias dirigida s às crianças. C in d er ela começa como u ma
pessoa O K , torna- se primeiramente u ma Vítima, depois u m Persegu idor
provocante e finalmente u m S a lva dor. A madastra e su as filha s são
transformadas de Persegu idoras em Vítimas, mu ito ma is do qu e n a
versão alemã de Ashenputtel, onde a s du a s irmãs de criação corta m peda -
ços de seu s pés n u ma tentativa de fa zer o sapato entrar. A estória apre-
senta também os dois papéis clássicos, à semelhança do qu e se encontra
no jogo "alcoólatra". N es te ca s o, a Conexão é representada p ela ma dri-
n h a , qu e fornece a C in d er ela tudo qu e el a neces s ita , enqu anto os Patos
são os nob res es colhidos pa ra se ca s a rem com a s irmãs más. C ons idere-
mos agora os scripts das pessoas en volvid a s . L e v a u m certo tempo pa ra
perceb er quantos dos personagens têm seu s scripts revelados nesta estó-
ria aparentemente s imples .
1) Cinderela. T e m u ma infância feliz, ma s tem qu e s olr er até qu e
u ma certa cois a aconteça. A s cenas cr u cia is , entretanto, pos-
s u em u ma estruturação de tempo: ela pode divertir- s e qu anto
qu iser até soar meia- noite, qu ando tem qu e volta r à situação a n -
terior. C in d er ela , aparentemente, evitou a tentação de joga r
" N ã o É Terrível" até mesmo com s eu p a i e é u ma figu ra a b a n-
donada e melancólica até qu e se in icia a ação com o b a ile. Joga
então " Te n te A ga r r a r - me" com o Príncipe e depois, com u m
sorriso de script, " E u tenho U m S egr ed o" com as irmãs. O clí-
ma x su rge com u m jogo estrondoso de " A g o r a E l a V a i C o n -
ta r " , enqu anto C in d er ela , com u m sorriso provocador, obtém o
desfecho de u m script vencedor.
2 ) O Pai. O script do p a i exige qu e perca a p r imeir a es pos a e ca s e-
se com u ma mu lher autoritária (prova velmente frígida), qu e fará
ambos sofrerem. M a s ele tem u m tru qu e secreto, como veremos
em s egu ida .
3) A madrasta. E s ta tem u m script de perdedor. Joga também " A g o -
r a E l a V a i C o n ta r " , s edu zindo o p a i p a r a ca s a r- s e com el a e r e-
vela ndo o s eu eu verdadeiro e malévolo logo após o ca s a mento.
V i v e através da s filh a s , esperando obter u ma compensação
principes ca pa ra ela s com o s eu comportamento v i l , ma s termina
como perdedora.
4 ) A s irmãs de criação. S eu contra-script b aseia- se no preceito ma -
terno " C u i d e primeiro de você e não dê oportu nidade a nenhu m
otá rio", ma s o resu ltado é fu ndamentado n a injunção " N ã o seja
b em- s u ced id a ". U m a vez qu e es ta é também a injunção do
script d a mãe, foi evidentemente transmitido pelos avós. E l a s
fa zem u m jogo pesado de "E s tú pido", destru indo C in d er ela (ou
G a ta B or r a lh eir a , como a ch a ma va m) por completo e depois
194
descu lpando- se e ob tendo s eu perdão.
5 ) A madrinha. É, n a verda de, a ma is interessante das personagens.
Q u a is er a m os seu s motivos em trajar C in d er ela pa ra o b a ile?
Por qu e não se res tringiu em ter u ma b oa con ver s a com ela ,
confortando- a, em vez de mandá-la ao b a ile com todo aqu ele
b rilho? A questão é qu e a madrasta e a s filha s tinha m saído pa ra
a noitada e só C in d er ela e s eu p a i fica ra m em ca s a . P or qu e es -
ta va a ma d r in h a tão a ns ios a pa ra livr a r - s e de C in d er ela ? O qu e
h a via " p o r trás do p a n o " é qu e a ma drinha e o p a i fica r a m sós
enqu anto todos es ta va m no b a ile? A o dizer à C in d er ela qu e não
fica s s e no b a ile depois d a meia- noite er a u ma b oa forma de ga-
rantir qu e esta fica r ia fora até lá, como também qu e s eria a p r i-
meira a volta r à ca s a . Is to elimin a va o r is co de as ou tras mu lhe-
res encontrarem a ma drinha por lá, pois a chega da de C in d er ela
s eria o a vis o pa ra ir- s e emb ora. D e u m ponto de vis ta cínico, a
estória toda parece u ma encenação pa ra permitir qu e o p a i e a
ma drinha pa s s a s s em a noite ju ntos .
6 ) O príncipe. E s te er a u m tolo e, s em dúvida, teve o qu e mer ecia
após o casamento. D e i x a a garota escapar du as vezes s em ter
qu alqu er indício de s u a identidade. D epois não tem capacidade
de alcançá-la nu ma cor r id a a pé, emb ora el a estivesse ma nca ndo
com u m só sapato. E m vez de procurá-la pessoalmente, ma nda
u m amigo fa zer o serviço p a r a ele. Fina lmente ca s a - s e com u ma
j ovem de educação dúbia e de u ma família du vidos a u ma s ema -
n a após tê-la conhecido. Ap es a r desta impressão s u perficia l de
qu e ele a conqu is ta , tudo aponta pa ra u m script de perdedor.
7 ) O rei. E s te tem u m b om olho p a r a a s garotas, e é u m tanto taga-
rela . Também não protege o filho de s u a própria impu ls ivida de.
8) O cavalheiro. É o ma is honesto de todos os personagens d a estó-
ria. E m vez de ser r ela xa d o ou arrogante e rir de C in d er ela , co-
mo fa zia m su as irmãs, ele execu ta s eu trab alho com excelente
senso de justiça. Também não foge com C in d er ela , como u m
homem menos honesto teria feito, leva ndo- a em segurança a o
seu patrão. E honesto, efica z e cons ciencios o.
9 ) Os dois nobres são, n a verda de, dois patos qu e se permitem s er
ca s a dos com du as joven s nervos a s e des conhecida s , tendo- se
encontrado com ela s somente no d ia do casamento.

D. C i n d e r e l a n a v i d a re al

O importante é qu e todos estes personagens podem s er encontrados


na vid a r ea l. E i s , por exemplo, a estória de u ma C in d er ela . O s pa is de
E l l a divorcia ra m- s e qu ando el a er a pequ ena e a menina ficou com a mãe.
Pou co depois s eu p a i voltou a ca s a r- s e, tendo du as filhas do segu ndo c a -
samento. S u a segu nda esposa tinha mu ito ciúme de E l l a qu ando esta

195
vin h a visitá- los, e também não a p r ova va o fato de o ma rido en via r d i-
nheiro pa ra o s eu sustento. A n os ma is tarde, também s u a mãe casou - se
novamente e E l l a foi mora r com o p a i, pois a mãe e o padrasto es ta va m
ma is interessados em b eb er do qu e em cu id a r dela . E l l a não es ta va na da
feliz em s eu n ovo la r , pois s u a madrasta d eix a va cla ro qu e não gostava
dela e s eu p a i pou co fa zia p a r a protegê- la. E r a sempre a última em tu do,
e s u a s irmãs a provoca va m. C r es ceu mu ito tímida e tinha pou cos namo-
ra dinhos qu ando er a adolescente, enqu anto su as irmãs tinha m u ma vid a
s ocia l a tiva n a qu a l E l l a não er a con vid a d a a participar.
Ti n h a , entretanto, u ma vantagem. S a b ia de a lgo qu e as ou tras não
s a b ia . S e u p a i tinha u ma amante, u ma d ivor cia d a cha ma da L i n d a , que
possuía u m Ja gu a r , u s a ya cola res de estilo hippie mu ito c aro s e às vezes
fu ma va ma conha . E l l a e L i n d a tornaram- se secretamente b oas amigas e
cos tu ma va m ter longas convers a s sob re seu s prob lemas com o p a i. L i n d a
a cons elhou E l l a a respeito de diferentes cois a s , e er a como u ma ma dri-
n h a p a r a ela . E s ta va particu larmente preocu pada com as pou ca s a tivida -
des s ocia is d a jovem. U m a certa tarde L i n d a disse- lhe: " S u a mãe s a iu e
su as irmãs saíram com ra pa zes , por qu e você não s a i também? N ã o é d i-
vertido fica r em ca s a s ozinha . E u lhe empresto meu ca rro e u ma s rou pas
e poderá ir ao salão de b a ile Rock - a n d - Rol l , onde há ramitos ra pa zes .
V e n h a até min h a ca s a ma is ou menos às seis hora s , comeremos a lgo e
depois eu te a r r u mo" . E l l a a chou qu e L i n d a e s eu p a i ir ia m pa s s a r a n oi-
te ju n tos e concordou .
L i n d a a chou qu e E l l a es ta va mu ito b em toda ves tida . " N ã o tenha
pres s a em vol ta r " , disse- lhe estendendo as cha ves do s eu b elo ca rro.
N o b a ile, E l l a conheceu u m ra pa z simpático chamado Rol a n d e
começou a s a ir com ele. M a s u m a migo dele, u m pob re gu itarrista, esta-
va mu ito ma is interessado n ela , e logo el a es ta va saindo secretamente
com Pr in ce, o gu itarrista. N ã o qu eria qu e ele fosse à s u a ca s a , pois sab ia
qu e s u a mãe não a prova ria s u a aparência des cu ida da . A s s i m , Rol a n d v i -
nha buscá-la com s u a na mora da p a r a depois encontrar Pr in ce, e então os
qu atro ia m a a lgu m lu gar. E n qu a n to isto s eu p a i, s u a madrasta e irmãs
p en s a va m que ela es ta va saindo com Rol a n d e os dois divertiam- se mu i-
to com isto. Pr in ce não er a realmente pob re. V i n h a de u m família rica e
tinha u ma b oa educação, mas qu eria ter s eu próprio su cesso como artis-
ta. Começou a tornar- se ca d a vez ma is famoso. Q u a ndo ficou b em co-
nhecido E l l a e ele res olvera m contar a verdade à família dela , antes que
des cob ris s em através de ou tros. F o i u ma s u rpres a completa pa ra a s
irmãs, qu e a dora va m os dis cos de Pr in ce e tivera m mu ita in veja qu ando
E l l a comu n icou qu e tinha ga nho u m premio tão grande como ma rido. E l -
l a não ficou ressentida pelo tipo de tratamento qu e elas lhe deram, e
mu ita s vezes presenteava- as com entradas grátis p a r a os concertos de
Pr in ce. C h egou , até mes mo, a apresentar algu ns dos amigos "qu a d r a -
d o s " dele pa ra a s irmãs.

196
E . De p o i s q ue o bai l e t e rm i no u

Já vimos qu e a a ventu ra infa ntil de C h a p eu zin h o V er melh o com o


lob o (s eu a vô) teve u m efeito profu ndo em s u a vid a depois qu e ela cres ceu .
S a b endo o qu e fa zem as pessoas r ea is , não é difícil su por o qu e
aconteceu com C in d er ela após s eu casamento. V er ificou qu e é solitário
ser Pr in ces a . E l a qu er ia joga r u m pou co ma is de " Te n te A g a r r a r - me"
com o Príncipe, ma s ele não er a mu ito divertido. P r ovoca va s u a s irmãs
qu ando estas vin h a m visitá-la, ma s também isto não a d iver tia por mu ito
tempo, principa lmente porqu e ela s não tinha m mu ito espírito esportivo
a gora qu e C in d er ela es ta va por cima . O R e i fita va - a , às vezes , com u m
olha r es qu is ito, e não er a tão velh o como fingia, ma s também não tão j o-
vem. D e qu a lqu er forma , ela não qu eria pens a r nestas cois a s . A R a i n h a
era b oa com ela , mu ito correta , como u ma R a i n h a deve ser. C omo o res -
to d a C or te, também C in d er ela tinha que ser mu ito correta com eles . N o
tempo certo teve o filho qu e ela e todos es ta va m esperando, e hou ve
mu ita a legria e comemorações. N ã o teve ma is filh os , e como o pequ eno
D u qu e es ta va sob os cu ida dos de babás e governantes enqu anto cr es cia ,
C in d er ela logo voltou a fica r a b orrecida como antes, pa rticu la rmente d u -
rante o d ia , qu ando s eu ma rido saía p a r a caçar, e à noite, qu ando ele
sentava- se com seu s nob res amigos p a r a joga r cartas e perder dinheiro.
D ep ois de u m certo tempo fez u ma es tra nha descob erta. A s pessoas
que ma is a interes s a va m, emb ora tentasse manter is to em segredo, er a m
as cria da s d a copa e as que limp a va m as la reira s . E n con tr a va todo o tipo
de des cu lpa s p a r a estar por perto enqu anto ela s tra b a lha va m. L o g o es ta -
v a fazendo sugestões p a r a ela s a pa rtir de s u a longa experiência neste ti-
po de trab alho. D es cob r iu então, du rante s u a s andanças de ca rru a gem
pelo pequ eno reino, às vezes a compa nha da do filho e s u a governante, às
vezes só, e seu s passeios pela s partes ma is pob res das cida des e vil a s ,
a lgo qu e já s a b ia : por todo o reino h a via milha res de mu lheres fazendo o
trab alho de copa e cozin h a , limpa ndo la reira s . P a r a va p a r a b ater papo
com ela s e fa la r sob re s eu trabalho-.
L o g o se ha b itu ou a fa zer vis ita s regu la res a a lgu ma s das ca s a s ma is
pob res onde as mu lheres tin h a m qu e tra b a lha r du ramente. V es tia rou pa s
velh a s , sentava- se sob re as cin za s com ela s ou a ju da va - a s n a cozin h a .
L og o espalhou - se pelo reino a notícia do qu e ela es ta va fa zendo, e o
Príncipe chegou mesmo a b riga r com ela , ma s C in d er ela ins is tia qu e er a
o qu e ma is tinha vontade de fa zer, e continu ou . C er to d ia u ma das damas
d a corte, qu e também es ta va a b orrecida , p ed iu permissão p a r a a compa -
nhá-la. À medida qu e o tempo p a s s a va ou tras começaram a se interessar,
e logo dezenas de nob res damas es ta va m pondo su as rou pa s ma is velh a s
todas a s manhãs e indo pa ra a cida de aju dar a s donas de ca s a pob res no
seu p ior tra b a lho, enqu anto b a tia m pa po e ou via m estórias mu ito interes -
santes.
A í a Pr in ces a teve a idéia de reu nir todas as da ma s aju dantes p a r a ,
ju n ta s , dis cu tirem os prob lemas que encontra va m. O rga nizou - a s em

197
tomo d a S ocieda de da s D a ma s das C in za s e d a C op a , tornando- se el a a
presidente. A g or a , toda vez qu e limpadores de chaminés, vendedores de
vegeta is , lenhadores, copeiras e lixeir os estrangeiros pa s s a va m pela c i -
dade, estes era m convida dos ao palácio pa ra fa la r à Sociedade sobre a s
novida des em su as profissões e como a s cois a s era m feitas em seu s paí-
ses. D es ta forma , C in d er ela encontrou s eu lu ga r n a vid a , e el a e su as
amigas contribuíram mu ito p a r a o b em- estar do reino.

F . Co n t o s d e f ada e p e sso as re ai s

O lha ndo p a r a a sociedade ou p a r a a s u a própria clientela , não é


difícil encontrar exemplos de ca da u m dos personagens d a estória de
C in d er ela , d a própria C in d er ela , s u a família, através do Príncipe inefica z
e do R e i , e mesmo do alegre cocheiro de b igodes qu e n u n ca dis s e u ma
p a la vr a e qu e começou a vid a como u m rato. Há também os provoca do-
res de sapatos qu e vêm p a r a des cob rir qu e a qu ilo qu e parece a orelha de
u ma p or ca é, n a verda de, u ma b ols inha de seda.
E n qu a n to o terapeu ta pode ou vir o paciente e procu ra r n a s u a ca -
beça u m conto de fadas qu e comb ine com o qu e ou ve ou então folhear o
index de temas de S tith Th omp s on qu ando chega à ca s a , u ma forma mais
s imples é pedir ao próprio paciente qu e conte s u a estória de vid a como
se fosse u m conto de fadas. U m exemplo disto foi D r u s illa , qu e não er a
pa ciente, ma s qu e cola b orou du rante u m seminário sobre contos de
fadas.
U m a nces tra l de D r u s il l a , há mu ita s gerações, inventou u m objeto
largamente u tiliza do, de modo qu e s eu nome continu a sendo u ma p a la vr a
doméstica. A estória começa com a mãe de D r u s il l a , V a n es s a , qu e des-
cendia deste pa tria rca . S eu p a i fa leceu qu ando el a er a b em pequ ena e
V a n es s a foi mora r n a ca s a de s eu tio- avô, C h a r les . Esíe vi vi a nu ma
grande fa zenda perto de L o s An geles , qu e tinha p is cin a , qu adras de té-
n is , u m lago pa rticu la r e até u m ca mpo de golfe. V a n es s a cres ceu neste
meio e conhecèu pessoas de vários países. E l a não er a mu ito feliz, ma s
aos dezessete anos fu giu com u m homem das Filip in a s , chamado M a -
nu el. S u a s du as filhas, D r u s il l a e s u a irmã E l d or a , foram cria da s nu ma
fa zenda de lá. D r u s il l a er a a fa vorita do s eu p a i e E l d or a , u ma espécie de
molequ e, qu e se tornou atleta, exímia ca va leir a , a rqu eira e joga dora de
golfe. S eu p a i cos tu ma va surrá-la, ma s ja ma is tocou em D r u s illa . C erto
d ia , qu ando E l d or a tinha dezoito a nos , s eu p a i qu eria castigá-la. N es ta
época E l d or a tinha a a ltu ra dele e er a mu ito ma is forte do qu e ele. A o
avançar contra a filha esta encolheu - s e, como sempre fa zia , ma s repen-
tinamente D r u s il l a ob s ervou u ma es tra nha transformação. E l d or a
ergu eu - se, flexionou os seu s músculos e dis s e ao p a i: " N ã o ou se pôr s u a
mão em m i m n u n ca m a i s " . Fitou - o ferozmente e o p a i encolheu - se e
retirou-se.
Pou co depois disto V a n es s a divorciou - s e dele e foi morar com su as
198
du as filha s n a propriedade d e tio C h a r les .
D r u s il l a , por s u a vez, qu e vi vi a agora na. fazendo de s eu tio- avô,
conheceu u m homem de u m país distante e ca s ou - s e. Te ve dois filhos
com ele. C omo gos ta va de fa zer cois a s , tornou - se tecelã e finalmente
professora de tecelagem. F o i por ca u s a de s eu interesse em tecer qu e
veio ao seminário de contos de fa da .
Foi- lh e pedido qu e contasse s u a estória em forma de conto de fa da ,
u tiliza ndo a lingu a gem do a na lis ta de script de s a pos , príncipes, prince-
s a s , vencedoras e perdedores, b r u xa s e ogres. E i s a estória como foi con -
tada:
" E r a u ma vez u m r ei qu e conqu is tou mu ita s terras qu e fora m her-
dadas por s eu filho primogénito. O reino foi passqdo de geração a ge-
ração. P or que o filho ma is velh o herda ra o reino, os ma is joven s receb e-
r a m mu ito pou co. U m dos filhos ma is joven s teve u ma filh a cha ma da
V a n es s a , mas ele morreu enqu anto caçava. O tio de V a n es s a , qu e er a
r ei, levou - a pa ra mora r com ele no palácio e lá ela encontrou u m prínci-
pe de u m país estranho e longínquo. O príncipe tirou - a do s eu reino, le-
va ndo- a p a r a o reino dele, próximo ao ma r, onde h a via flores estranhas e
a floresta cr es cia . D ep ois de u ml emp o ela des cob riu qu e o s eu príncipe,
M a n u el, er a , n a verdade, u m sapo. M a n u el ficou igu almente su rpreso
qu ando des cob riu qu e s u a b ela n oiva , com qu em se tinha casado porqu e
p en s a va qu e era u ma p r in ces a , transformara- se n u ma b r u x a . M a n u el e
V a n es s a tiveram du as filha s . A ma is velh a , E l d or a , er a u m sapo como o
p a i, e ele não gos ta va na da dela . R a l h a va e b atia n ela qu ando era pequ e-
na . A filh a menor, D r u s il l a , er a u ma princes a e M a n u el a tra ta va como ta l.
" U m d ia u ma fa da veio p a r a E l d or a e dis s e: ' V o u protegê- la. S e
seu p a i tentar a lgu ma vez b ater em você, diga- lhe p a r a pa ra r'. Q u a ndo
M a n u el tentou bater em E l d or a , ela sentiu - se forte de repente e disse- lhe
pa ra n u n ca ma is fazê- lo. M a n u el ficou indignado e pens ou qu e fora s u a
es pos a V a n es s a a cu lp a d a por E l d or a revoltar-se e, por is s o, V a n es s a
decidiu partir. E l a e su as du a s filha s ab andonaram o reino distante e vol -
taram p a r a o reino do tio C h a r l es , onde as du as joven s viver a m felizes
até qu e u m d ia veio u m príncipe qu e se a pa ixonou por D r u s il l a . C a s a -
ram- se com grande pompa e tiveram du a s linda s filhas, e D r u s il l a viveu
feliz desde então, cria ndo su as filha s e tecendo linda s tapeçarias".

199
No t as e referências

1. O livro de Sambers tem o título Histories or Tales ofPast Times: With Morais.
De M. Perrault. Foi impresso para J . Pote em S ir Isaac Newton' Head e R.
Montagu, The Corner of Great Queen Street, 1729.
2. Thompson, Stith. Motifi/ndex of Folk-Literature. Indiana U niversity Press,
Bloomington a ndLondon, 1966. Contos tipo Cinderela são classificadas por
Thompson como "heroína não-promissora. E m geral, mas nem sempre, a filha
mais jovem". Algumas das fontes fornecidas são: irlandesa, bretã, italiana, tua-
motu e zuni. Inclui também "Heróis não-promissores" como cinderelas mascu-
linas. Reporta-se a " A filha mais jovem vitoriosa", que traz um grande número
de referências em todo o mundo, incluindo índia e China. Há também " A filha
mais jovem maltratada" e a mais disseminada de todas: a "Madrasta C ru el".
Outros papéis e transações comuns são "Príncipe apaixonado por jovem po-
b re", "Jovem manda mensagem assinada para príncipe" e " A menininha subor-
na o príncipe para que ele se case com ela". Também textos sobre a heroína
não-promissora são encontrados no folclore francês,-espanhol, islandês, chinês
e no dos índios micmac, entre outros. O "Teste do Sapatinho" também é bas-
tante difundido. A Cendrillon francesa original calçava sapatinhos de pele de
esquilo (veiro, como é denominado em heráldica), que foi confundido com yer-
re e traduzido erroneamente como vidro. Os sapatinhos de Ashenputtel eram
de ouro. Cinderela, como a conhecemos, originou-se provavelmente em Nápo-
les, como La Gaita Cenerentola. E m francês ela é Cu Cendron, Ash Bottam
(Bunda de Cinzas ou Rabo de Cinzas em inglês, às vezes Traseiro de Cinzas).
Há uma ópera de Rossini chamada La Cenerentola*, e dois balés. No de d ' E r -
langer e Fokine as duas irmãs são representadas por dois dançarinos do sexo
masculino que se propõem a ser cómicos, como costuma ser a comédia no balé
russo. O mais famoso balé sobre este assunto é da autoria de Prokofiev.
C f. Barchillon, J . e Petit, H . (eds.) The Authentic Mother Goose. Ala n Swallow,
Denver, 1960.

* Apresentado pela Ópera de São Francisco e m 1969, em Nov a Y o i k em 1958 e e m abril de


1970. Rossini dá às irmãs os nomes de Clorinda e T isbe.
200
14. Como o script é possível?

Jeder está sentado n u ma pia nola , seu s dedos percorrendo a esmo o


teclado. O rolo de pa pel, perfu rado há mu ito tempo p or seu s a nces tra is ,
va i vira ndo lentamente à medida qu e ele aperta a s tecla s . A música flu i
n u m ritmo qu e ele não pode alterar, às vezes melancólica, ou tras alegre,
or a des a fina da , or a melodios a . O ca s iona lmente, ele toca u ma n ova ou
u m acorde cu jo s om poderá mistu rar- se com o qu e está escrito ou pertu -
b a r o desenrolar s u a ve de u ma canção profética. Interrompe pa ra des ca n-
s a r, pois o rolo é ma is grosso do qu e u m rolo de pergaminho gu ardado
n u m templo. Contém a l ei e os profetas, a s canções e a s lamentações, o
velh o e o n ovo testamento: u ma dádiva realmente magnífica, medíocre,
lúgubre ou miserável qu e lh e foi concedida , trecho p or trecho, por seu s
progenitores ca rinhos os , indiferentes ou odiosos. Jed er tem a ilusão de
qu e a música é s u a e tem como testemu nho s eu corpo, esgotando- se len -
tamente h or a após h or a , d ia após d ia , de tanto apertar a s tecla s . O ca s io-
na lmente, du rante a s pa u s a s , ele se leva nta p a r a receb er u m cu mprimento
ou u ma va ia de s eu s amigos e parentes, qu e também a credita m qu e ele
esteja tocando s u a própria melodia .
C omo é possível qu e os memb ros d a raça h u ma n a , com toda es ta
sab edoria a cu mu la da , com auto-consciência, com desejo d a verdade e do
eu, podem permitir- se perma necer nes ta situação mecânica com s eu pa-
thos e au to- engano? E m parte é porqu e amamos nos s os pa is e e m parte
por qu e, desta ma n eir a , a vid a é ma is fácil, ma s também porqu e não evo-
luímos o b astante, a pa rtir de nos s os ancestrais antropóides, p a r a s er d i-
ferentes. Temos ma is auto-consciência do qu e os antropóides, ma s n a
realidade não mu ito. O s scripts são possíveis porqu e a s pessoas não
sab em o qu e estão ca u s a ndo a s i mesmas e aos ou tros. D e fato, sab er
o qu e se está fazendo é o oposto de estar no script. Há certos aspectos
do fu ncionamento corpora l, menta l e s ocia l qu e a contecem aos in d i-
víduos, a despeito de s i mes mos , qu e es ca pa m do previs to, porqu e estão
programados p a r a fazê- lo. E s tes aspectos influ encia m marcadamente
o s eu destino através da s pessoas qu e o rodeia m, enqu anto ele a in d a
retém a ilusão d a au tonomia. E x is tem, porém, certos tratamentos a serem
u tiliza dos .

A . O r o s t o m al e áv e l

É, a cima de tu do, a ma lea b ilida de do rosto hu ma no qu e fa z d a vid a


u ma a ventu ra ma is do qu e u ma experiência controla da . Is to b aseia- se
n u m princípio b iológico aparentemente tr ivia l, ma s qu e pos s u i u m enor-
me poder s ocia l 1 . O s is tema nervos o hu ma no é construído de ta l forma

201
qu e o impacto vis u a l dos minúsculos movimentos dos músculos fa cia is
no espectador é ma ior do qu e o impa cto cinestésico no próprio su jeito.
U m movimento de dois milímetros de u m dos pequ enos músculos em
torno d a b oca pode s er imperceptível p a r a Jeder, porém b astante eviden-
te p a r a seu s compa nheiros . Is to é facilmente verificável à frente de u m
espelho. O gra u em qu e u ma pessoa não tem consciência de s u a aparên-
c i a é demonstrado s em dificu lda de pelo ato corriqu eiro de pa s s a r a lín-
gu a n a parte dia nteira dos dentes. Jeder poderá fazê- lo com o qu e lhe p a -
rece s er de extrema delica deza e discrição. O qu anto poderá j u l g a r de
su as sensações cinestésicas ou mu s cu la res , ele qu ase não está movendo
o s eu rosto. M a s se o fizer em frente a u m es pelho, perceberá qu e o qu e
sente como sendo u m pequ eno movimento oca s iona , de fato, u ma enor-
me distorção de seu s traços, em es pecia l do qu eixo e dos músculos do
pescoço. S e prestar ma is atenção do qu e fa z normalmente às su as s en-
sações mu s cu la res , observará, além d is s o, qu e os movimentos afetam a
testa e a s têmporas. N o ca lor do encontro s ocia l este fenómeno poderá
ocorrer dezenas de vezes s em qu e ele se dê conta : o qu e lhe parece como
u ma minúscula excursão dos seu s músculos de expressão, ca u s a m u ma
mudança importante n a s u a aparência. P o r ou tro la do, a Criança em Z oé,
o espectador, está olhando (tanto quanto as b oas ma neira s permitem) p a -
r a os sinais qu e darão indicações sob re a s atitu des, sentimentos e i n -
tenções de Jeder. A s s i m , este estará dando mu ito ma is informações do
qu e pens a qu e está, a não s er qu e s eja u ma destas pessoas qu e mantêm
hab itu almente su as feições imóveis e inescrutáveis, e têm o cu ida do de
não revela r su as reações. A importância d a ma lea b ilida de fa cia l, entre-
tanto, é demonstrada pelo fato de qu e a s pessoas inescrutáveis d eixa m os
ou tros pou co à vontade, pois não obtêm pistas sob re como adaptar- se a
seu comportamento.
E s te princípio es cla rece a origem d a "intu içã o" qu ase mis terios a
dos bebés e das crianças pequ enas a respeito da s pessoas. C omo os p r i-
meiros não fora m a in d a ens ina dos qu e não se deve olh a r mu ito de perto
pa ra o rosto das pes s oa s , têm lib erdade p a r a fazê- lo e a s s im vêem mu ita s
cois a s qu e es ca pa m a os ou tros, e o indivíduo não tem consciência de qu e
está dando a informação. N a vid a cotidia na o Ad u lto de Z oé é polida -
mente cu ida dos o pa ra não ob s erva r mu ito de perto o qu e acontece com o
rosto das ou tras pessoas enqu anto fa la m, ma s no entretempo s u a Criança
permanece ru demente n a es preita todo o tempo, formando ju lga mentos ,
em gera l acertados, sobre a s rea is intenções do ou tro. Is to tende a ocor-
rer nos "p r imeir os dez s egu n d os " após ter conhecido u ma pes s oa , antes
de ter a oportu nidade de decidir como se apresentará. A s s i m , s u a
tendência será mostrar a qu ilo qu e depois irá esconder. E s te é o va lor da s
primeira s impressões.
O efeito s ocia l disto é qu e Jeder n u n ca sab e o qu anto está mos tra n-
do através da maleab ilidade de s eu rosto. C ois a s qu e ele tenta es conder
até de s i mesmo são b astante aparentes p a r a Z oé, qu e reage de a cordo,
pa ra grande s u rpres a de Jeder. E s te está dando constantemente s ina is de

202
seu script s em ter consciência disto. O s outros rea gem a estes s ina is , em
vez de fazê- lo p a r a a pers ona de Jeder ou pa ra a apresentação do s eu
self. D es ta forma , o script mantém-se a tivo s em qu e Jeder tenha qu e a s -
s u mir responsab ilidades por is s o. Poderá manter s u a ilusão de au tonomia
dizendo: " N ã o s ei por qu e el a a giu desta ma neira . N ã o fiz na da pa ra
provoca r. A s pessoas são mesmo engraçadas". S e o comportamento dele
for mu ito estranho, os ou tros poderão rea gir de u m modo qu e lh e pareça
incompreensível, e é desta forma qu e os delírios podem s er estab elecidos
ou reforçados.
O tratamento p a r a isto é s imples . S e Jeder estu dar suas expressões
fa cia is no espelho, logo verá o qu e fa z p a r a a s pessoas rea girem de ma -
neira como reagem, e ele estará então em condições de alterar a situação,
se qu is er. A não s er qu e s eja u m ator, prova velmente não quererá. N a
verda de, a ma ioria da s pessoas está tão determinada a manter a continu i-
dade d e seu s scripts que encontrará toda a sorte de des cu lpa s pa ra n em
mesmo estu darem su as expressões a o es pelho 2 . Ar gu men ta m, por exemplo,
que este procedimento é " a r ti f i c i a l " , s ignifica ndo qu e a única cois a " n a tu -
r a l " é permitir que o script pros s iga até s u a conclusão pré-estabelecida.
C l a r a , u ma mu lher la tino- a merica na de fin a educação, oferece u m
exemplo comovente do efeito profu ndo qu e a maleab ilidade do rosto tem
sob re os relacionamentos hu ma nos . Ingres s ou no gru po por qu e s eu ma -
rido es ta va por deixá-la e qu eixa va - s e de não ter "ningu ém com qu em
con ver s a r " , emb ora tives s e três filhos adu ltos morando em ca s a . S e u ma -
rido recu sara- se a pa rticipa r do gru po, ma s s eu filho de vinte anos logo
aceitou o convite.
" H es ito em fa la r com min h a mã e", dis s e ele, " e é difícil fa la r dela
a qu i, porqu e ela se ofende facilmente e às vezes assu me u ma atitude de
mártir. Ten h o sempre qu e pens a r antes de dizer qu alqu er cois a a el a pa ra
ver como irá rea gir e, a s s im, n u n ca posso fa la r com fr a n qu eza ".
E n qu a n to fa zia comentários sobre o assu nto por a lgu ns minu tos ,
s u a mãe perma necia sentada perto dele com s eu corpo tenso e su as mãos
entrelaçadas delicadamente sobre o colo, ta l como a ens ina ra m n a infân-
cia , de modo qu e a s únicas partes observáveis dela qu e se movia m era m
o rosto, cabeça e pescoço. A o ou vir as pa la vra s de s eu filh o, leva ntou
primeiro a s sob rancelhas com s u rpres a , depois fez u ma ca reta , em s egu i-
d a balançou a cabeça levemente, apertou os lábios, a b a ixou a cabeça
com expressão tris tonha , olhou p a r a cima ou tra vez, vira ndo então a ca -
beça p a r a o la do com a r de mártir. D u ra nte todo o tempo em qu e o filho
fa lou , estes movimentos maleáveis de cabeça e fa ce continu a ra m, u m
verda deiro filme de expressão emociona l.
Q u a ndo o filho terminou o relato, o D r . Q pergu ntou a el a :
— P or qu e es ta va movimentando s eu rosto du rante o tempo em qu e
ele fa la va ?
— E u não es ta va fazendo n a d a - ob jetou e l a s u rpres a .
— Então por qu e es ta va mexendo s u a cabeça de u m lado pa ra o
ou tro?

203
— N ã o s a b ia qu e es ta va fazendo isto.
— B e m , você es ta va — disse o D r . Q. Tod o o tempo em que ele
es ta va falando, s eu rosto rea gia ao qu e er a dito e é exatamente por esta
razão qu e s eu filho sente- se pou co à vontade qu ando convers a com
você. V ocê a firma qu e ele pode dizer o qu e qu is er, ma s su as reações
sendo tão cla ra s ao que ou ve não, mesmo qu e você não diga u ma única
p a la vr a , ele hes ita . Você n em perceb e como está reagindo. S e isto ca u s a
u m efeito nele depois de adu lto, imagine o qu e causará a u ma criança de
três anos de idade qu e está ob servando cu idadosamente o rosto de s u a
mãe todo o tempo pa ra ver como ela a afeta. É por is s o qu e ele pens a a n -
tes de fa la r com você, e a razão por qu e você sente qu e não tem ninguém
pa ra convers a r.
— B e m , o qu e se pode fa zer em relação a is to?, pergu ntou ela .
— Q u a ndo chega r e m ca s a poderá pôr-se diante de u m espelho en -
qu anto ele fa la com você, pa ra ver como isto ocorre. M a s neste momen-
to, o qu e pens a sob re o qu e ele dis s e?, s u geriu o D r . Q. e a con ver s a
pros s egu iu .
Neste ca s o, o P a i de C l a r a es ta va ou vindo o s eu filho com respeito
ma terna l, e este er a o s eu self a tivo no momento. E nqu a nto is to, s u a
Criança rea gia ao qu e es ta va sendo dito de u ma ma neira bastante dife-
rente, ma s nem s eu P a i n em s eu Ad u lto tinha m consciência de seu s mo-
vimentos fa cia is porqu e ela não podia " s en ti- l os " . S eu filho, entretanto,
es ta va completamente informado das reações d a Criança dela , pois esta-
va m a l i , diante dos seu s olhos. O P a i dela er a s incero, mas fora de a l -
ca n ce, e todos no gru po es pera va m qu e el a perceb esse porqu e o filho
hes ita va em fa la r- lhe com fra nqu eza .
O princípio d a maleab ilidade do rosto está relacionado tanto com o
"s or r is o d a mã e", como des crito, quanto ao " r i s o de for ca " . A mãe pode
estar incons ciente do qu e s eu rosto está fazendo, como também do efeito
poderoso qu e exerce sobre seu s filh os 3 .

B . O self em m o v i m e n t aç ão

Ju nto com o princípio b iológico d a Ma lea b ilida í do Ros to, o


princípio psicológico do self em Movimentação é igu almente importante
pa ra manter o fu ncionamento do script e se b a s eia n u ma deficiência se-
melhante de conscientização. O sentimento do self é móvel. Pode estar
em qu a lqu er u m dos três estados de ego n u m determinado momento, e
pode pa s s a r de u m p a r a o ou tro qu ando su rge a ocasião. O sentimento do
self é independente de todas a s ou tras propriedades dos estados de ego,
b em como do qu e o estado de ego está fazendo ou experiencia ndo. É
como u ma ca r ga de eletricidade qu e tem condições de pa s s a r de u m con-
densador p a r a ou tro, independente do u s o qu e se fa z deles. O sentimento
do self é transportado com es ta " E n e r g i a l i v r e " 4 .

204
To d a a vez qu e u m dos estados de ego está completamente a tivo,
este é experiencia do naqu ele momento como o self r ea l. Q u a ndo Jed er
aparece com s eu P a i ira do, sente qu e é ele próprio. Minu tos depois , em
seu estado de ego Ad u lto, qu ando pens a porqu e fez is to, experiência s eu
Ad u lto como s eu self rea l. M a is tarde a inda , se es tiver sentindo- se en -
vergonhado em s u a Criança p or ter sido tão mes qu inho, s u a Criança é
sentida como s eu eu r ea l. ( Tu d o is to, é cla r o, pressupõe qu e o incidente
s eja parte de s u a vid a r ea l e qu e ele não esteja apenas representando o
pa pel de u m P a i ira do ou de u ma Criança contrita . A representação é a
Criança sendo fa ls a e não é o self rea l.)
P a r a ilu s tra r o efeito qu e o self móvel tem n a vid a cotidia na , tome-
mos u m exemplo doméstico de u ma es pos a implica nte. E m gera l, Z oé é
b em- hu morada, sociável e adaptável, ma s em certas ocasiões torna- se
bastante crítica em relação a o ma rido. E s te é o s eu P a i implica nte. M a is
tarde aparece novamente s u a Criança adaptada, sociável e divertida , qu e
esqu ece o qu e dis s e ao ma rido com s eu estado de ego P a i . E l e , entretan-
to, não esqu ece e permanece desconfiado e distante. S e es ta sequência
repetir- se continu amente, s u a desconfiança e distância tornam- se perma -
nentes, e el a não entende o qu e s e pa s s a . "D iver timo- n os tanto j u n to s " ,
d iz el a com s u a Criança encantadora. " P o r qu e vócê se afasta de m i m ?"
Q u a ndo s u a Criança é o self real, el a esqu ece ou não toma conhecimento
do qu e disse enqu anto s eu P a i er a o s eu self r ea l. A s s i m , u m estado de
ego não mantém u m b om registro do qu e os ou tros estados de ego fize-
r a m. S eu *Pai não toma conhecimento de toda a satisfação qu e tiver a m, e
s u a Criança esqu ece toda a crítica qu e foi feita . M a s a Criança de Jed er
( C omo também o s eu Ad u lto) lemb ra- se do qu e o P a i d ela dis s e e vive
n u m constante estado de apreensão de qu e isto pos s a ocorrer novamente.
Jeder, p or s u a vez, poderá cu id a r mu ito b em d ela com s eu estado de ego
P a i, ma s s u a Criança poderá qu eixa r- s e d a es pos a e chora minga r. S e u
P a i , não tomando conhecimento ou esqu ecendo- se do qu e a Criança fez
poderá, então, reprová-la p or s u a ingratidão. " D ep ois de tudo qu e ele
faz p or e l a " . E l a poderá a precia r o qu e foi feito, ma s vi ve a preens iva em
relação às próximas inves tida s de s u a Criança. O P a i dele pens a qu e ele
próprio, s eu self r ea l, sempre teve consideração p or el a , o qu e é verda -
deiro. É verdade também qu e qu ando s u a Criança chora mingu enta está
a tiva , também is to é ele, s eu self real. A s s i m , pelo fato de u m estado de
ego ou do self mal esqu ecer o qu e os ou tros fizera m, Jed er poderá conti-
nu a r leva ndo s eu script adiante s em ter qu e res pons a b iliza r- s e p or is s o.
S eu P a i poderá dizer: " S emp r e fu i tão b om com el a , não s ei porqu e age
desta ma neira . N ã o fiz n a d a p a r a provoca r es ta situação. A s mu lheres
são mesmo es qu is ita s ". S e u P a i esqu ece como s u a Criança a p r ovocou ,
nias el a , sendo a vítima, não esqu ece. E s tes dois exemplos ex p l ica m a
tenacidade das posições O K descritas no Capítulo 5. página 0 0 0 .
A g or a qu e o princípio está cla r o, ca b e u m exemp lo ma is a nima do.
T a l mudança negligente ou inespondável de u m estado de ego p a r a ou -
tro pode s er denomina da de " via g em do eg o" , ma s sendo qu e este termo

205
faz parte d a gíria hippiè s ignifica ndo gab ar- se, poderá ser ma is polido
permitir que a cons ervem e procu ra r ou tro termo pa ra a mudança de es -
tados de ego. Por es ta razão, va mos reportar- nos à segu inte estória:
" A m i n t a e M a b ou U m a V ia g em do P A C p ela P s iq u e" .
M a b e s u a mãe irrita va m- s e tanto mu tu amente qu e M a b via jou no
fim de s ema na p a r a vis ita r u ma a miga em ou tra cida de. S u a mãe desco-
b r iu o s eu paradeiro pelo telefone e dis s e: " S e você não es tiver em ca s a
domingo à noite, eu tra nco- a fora de c a s a " . M a b voltou domingo à noite,
ma s s u a mãe recu s ou - s e a deixá- la entrar e dis s e- lhe qu e fosse procu ra r
u m apartamento p a r a s i. M a b pa s s ou a noite em ca s a de u ma vizin h a
a miga . N a segu nda- feira de manhã s u a mãe telefonou , perdoando- a. M a b
relatou o episódio pa ra o D r . Q. , ju nta mente com ou tros exemplos d a i n -
consistência de s u a mãe. Algu ma s estórias não er a m na da cla ra s , e a s s im
o D r . Q. decidiu convers a r com M a b e s u a mãe em conju nto, p a r a des-
cob rir o qu e es ta va realmente acontecendo.
L o g o que se sentaram, A min ta , a mãe, fu ncionou com u m P a i forte,
critica ndo virtu osamente M a b por seu des leixo, s u a irres pons a b ilida de, o
fato de fu mar ma conha e ou tros assu ntos não raro dis cu tidos entre mães
e su as filhas de dezoito a nos . D u r a n te a discussão, M a b perma neceu de
início com u m leve s orris o, como se dis s es s e: " L á va i ela ou tra v e z ! "
D ep ois olhou p a r a o la do, como se dis s es s e: " N ã o aguento m a i s ! " E m
s egu ida fitou o teto, como a dizer: "S erá que não tem ninguém p a r a s a l-
va r - m e ?" A min ta não prestou atenção às reações de M a b e pros s egu iu
com s eu dis cu rs o. Q u a ndo isto terminou , A min ta mu dou de convers a .
Começou a fa la r sob re os momentos difíceis qu e es ta va pa s s a ndo, não
como u ma Criança qu e chora minga va , ma s fazendo u ma avaliação A d u l -
ta de seu s prob lemas conju ga is , qu e era m b em conhecidos do D r . Q.
N es te momento crítico, M a b virou - s e e olhou diretamente pa ra s u a mãe
com u ma expressão totalmente n ova , como p a r a dizer: " A p e s a r de tudo
ela é u ma pes s oa real". À medida qu e A min ta con tin u a va , o Eh*. Q. teve
a oportu nidade de a compa nha r as mudanças de estados de ego, momento
a momento, b aseando- se no conhecimento detalhado qu e possuía sobre
seu passado e su as experiências. N u m certo ponto, ela pa s s ou pela
sequência idêntica à do episódio anterior, primeiramente com' s eu Proge-
nitor P a i zangado (expu ls a ndo M a b de ca s a ) e depois cedendo ao domí-
nio do Progenitor Mãe (preocu pando- se com s u a " f i l h i n h a " va ga ndo pe-
la cida de s em u m lu ga r p a r a deitar a s u a cab eça). Is to foi segu ido por
Ad u lto, Criança desamparada e depois novamente o Progenitor zangado.
E s ta s ca minha da s podem s er traçadas por u ma lin h a desenhada
através dos estados de ego de A min ta apresentados n a F ig u r a 13. C ome-
çando com P P (Progenitor P a i) , pa s s a mos p a r a P M (Progenitor Mã e),
depois pa ra A ( Ad u lto) , segu ido de C (Criança), voltando depois pa ra
P P . C ontinu a ndo a ou vir , a lin h a tomou a direção apresentada no d ia -
gra ma , de P P p a r a A , depois p a r a C e voltando pa ra P M . D es ta forma
pu demos a compa nha r a V ia g em do P A C de A min ta , à medida qu e pa s -
s a va de u m círculo pa ra ou tro.
206
A q u i pode- se pergu ntar: o qu e representa es ta lin h a ? Repres enta os
sentimentos do self de A min ta , u m sentimento qu e não res ide em ne-
n h u m dos estados de ego, ma s qu e se move livremente de u m pa ra o ou-
tro, transportado p ela " en er g ia l i v r e " . Independente do círculo em que
se encontra a qu a lqu er momento, ela a in d a a s s im s entia qu e era o seu
"self real" falando.

Fig. 13 - U ma viagem do P A C através da psique


O cu rs o ou loca l d a energia livr e é u ma lin h a contínua. A m i n ta não
tem consciência de qu e " e l a " está mu dando ou qu e s eu comportamento
se a ltera momento a momento, porqu e o sentimento " I s to s ou realmente
e u " perma nece o mes mo todo o tempo. P or is s o, qu ando dizemos que
" e l a " mu d ou de u m estado de ego piara ou tro, referimo- nos à mudança
de s u a energia l ivr e, carregando cons igo u m sentimento contínuo do self
r ea l. P a r a " s i m e s m a " ela pa rece a mes ma pes s oa coerente todo o tempo,
ma s el a mu d a tanto de u ma fase pa ra a segu inte qu e, p a r a os ou tros, p a -
rece qu e são várias pessoas diferentes ( em s u a cab eça), ca d a u ma das
qu a is tem s u a vez de fa la r. É es ta a impressão de M a b , e é por es ta razão
qu e ela não podia lid a r com s u a mãe. E r a inca pa z de ob ter qu a lqu er s en-
sação de coerência qu e lhe permitis s e p r ever como A m i n ta ir ia a gir ou
rea gir n u m determinado momento, de modo qu e pu desse adaptar- se ao
hu mor dá mãe. O comportamento de M a b p a r ecia , às vezes , tão arbitrá-
r io qu anto o de s u a mãe.
C omo tanto A min ta como M a b entendia m seu s próprios estados de
ego, não foi difícil es cla recer a situação p a r a ela s , e depois disto come-
çaram a entender- se melhor.
O comportamento de C l a r a , como foi descrito n a seção anterior,
ilu s tr a ou tra for ma n a qu a l a fa lta de reconhecimento entre dois estados
de ego diferentes tem u m efeito profu ndo em toda a trajetória de vid a d a
pes s oa , como também do esposo e dos filhos . Neste ca s o, dois estados

207
de ego encontravam- se ativados simu ltaneamente, u m ou vindo com s im-
pa tia e o outro fazendo careta», ma s ignorando- se cu idadosamente u m ao
ou tro como estranhos su speitos, emb ora es tives s em engaiolados no
mes mo espaço interior du rante qu arenta e cin co a nos .
O u tr a va ria nte interessante ocorre qu ando a pes s oa recu sa- se a r e-
conhecer s eu comportamento, mesmo p a r a s i própria. (Is to também foi
menciona do qu ase no fin a l do Capítulo 5 ) . D es ta ma neira u m homem
poderá continu a r a dizer com s incerida de qu e é b om motorista, emb ora
tenha pelo menos u m acidente sério a ca d a a no, e u ma mu lher afirmará
que é b oa cozin h eir a , apesar de d eixa r qu eima r o ja nta r regu larmente. A
sinceridade provém do fato de qu e o Ad u lto em ca d a u m dos ca s os é u m
b om motorista ou u ma b oa cozin h eir a , e os acidentes são ca u s a dos pela
Criança. E s ta s pes s oa s , por terem u ma fronteira es pes s a e rígida entre os
dois estados de ego, o Ad u lto não presta atenção ao qu e a Criança fez e
pode dizer honestamente qu e " E u ( M e u self Ad u lto) nu nca cometi -um
er r o" . O mesmo pode acontecer com pes s oa s qu e são menos controladas
e comportam- se b em qu ando estão sóbrias ( com o Ad u lto no execu tivo) ,
porém cometem erros qu ando estão b eb endo (qu ando a Criança assu me o
coma ndo). A l g u ma s chega m mesmo a se des liga r qu ando b eb em, de mo-
do qu e o Ad u lto não tem a menor consciência do qu e fizera m qu ando
emb riagados, e a s s im podem manter a ficção de prob idade de u ma forma
alcoólica e inequívoca. Is to pode acontecer inversamente com a pessoa
qu e é inefica z em s eu estado de ego Ad u lto ma s tem u ma Criança produ -
tiva . D a mes ma forma como a s pessoas " má s " não entendem a s repri-
mendas ou críticas qu e receb em por su as postu ras, também as " b o a s "
são inca pa zes de aceitar elogios por a qu ilo qu e produ zira m, ou o fa zem
apenas p or polidez. O Ad u lto realmente não sabe sobre o qu e a s pessoas
estão fa la ndo, qu ando dizem qu e a s criações d a Criança são va lios a s ou
meritórias, pois o Ad u lto es ta va desligado qu ando d a criação.
F o i também dis cu tido anteriormente o ca s o d a mu lher rica qu e
não se toma pob re qu ando perde o s eu dinheiro, e do homem pob re
qu e não se toma rico qu ando consegu e dinheiro. A q u i a Criança sab e, a
pa rtir da s diretiva s de s eu script, se é rica ou pob re, e o dinheiro apenas
não irá alterar s u a posição. D e forma semelhante, a Criança do homem
sabe se ele é ou não u m b om motorista, e a d a mu lh er se e l a é ou não
u ma b oa cozin h eir a , e a lgu ns acidentes ou refeições estragadas não vão
mu da r s u a ma neira de ver a s cois a s .
A posição após a via gem do P A C é, em gera l, a de rejeição amena.
" E u estou O K . M e u próprio P a i não perceb eu o qu e eu es ta va fazendo,
por is s o não s ei do qu e você está fa la n d o". Nestes ca s os , há u ma cla r a
implicação de qu e o outro não está O K a o reagir a qu alqu er comporta-
mento questionável. E s ta é u ma ca mis eta de emergência qu e d iz: " E u me
d es cu l p o" n a frente e " P o r qu e você não consegu e me d es cu l p a r ?" n a
parte de trás.
Há u m tratamento s imples pa ra es ta fa lta de consciência comu m em
u m dos estados de ego da qu ilo qu e os ou tros fizeram. É o Ad u lto qu e
208
deve s e lemb ra r e a s s u mir total responsab ilidade pela s ações de todos os
selfs rea is . Is to interromperá a s eva s iva s ( " V ocê está qu erendo d izer qu e
eu fiz is to? E u d ever ia estar fora de m i m ! " ) , su b stitu indo- as p ela a cei-
tação d a responsab ilidade. ( " S i m , lemb ro- me de ter feito isto e fu i e u
mesmo gu e fiz", ou , melhor a in d a , " V o u cu ida r pa ra qu e isto não se r e-
p ita " . ) E cla ro qu e es ta sugestão tem várias implicações lega is , pois ten-
deria a elimin a r a eva s iva conveniente e cova rde d a ins a nida de. ("C ére-
b ro de P a u " ou " V o c ê não pode cu lpa r- me por a qu ilo qu e f i z" . ) .

C . F asc i n aç ão e imprinting

E s ta s são melhor ilu s tra da s considerando- se a s dificu lda des de N e-


ville e s u a es pos a Júlia. N eville tinha u ma ma r ca de nascença n a b oche-
ch a esqu erda qu e ex er cia u ma fascinação mórbida n a Criança de Júlia.
D u ra nte o s eu na moro, el a cons egu iu s u primir a leve r ep u ls a oca s iona da
por este defeito, ma s à medida qu e o tempo p a s s a va tornou - se ca d a vez
ma is problemática e no fim d a lu a - de- mel er a qu ase impossível olha r d i-
retamente p a r a o s eu rosto. E l a não mencionou s eu dra ma pa ra ele com
medo de ofendê- lo. Pen s ou , porém, em s u gerir qu e ele mandasse extr a ir
a ma r ca , ma s decidiu qu e isto apenas a su b stitu iria p or u ma cica tr iz, qu e
ela poderia a cha r a in d a ma is pertu b adora. Pôr esta razão, ca lou - s e.
N eville, por s u a vez, er a u m caçador de es pinha s , e toda vez qu e
os dois es ta va m deitados n u s , ele in s p ecion a va o corpo dela e qu ando
encontra va qu alqu er tipo de b orb u lha minúscula em s u a pele s entia u ma
forte compulsão de espremê-la com a u nha . Júlia a ch a va qu e isto er a
u ma intrusão mu ito desagradável. A s vezes a compulsão er a tão forte e
as objeções dela tão veementes qu e a ca b a va m se afastando, amb os ma l -
hu morados.
C o m o correr do tempo des cob rira m também qu e tinha m u ma dife-
rença em su as preferências s exu a is . D e início pa recia a lgo s em i m -
portância, ma s depois tornou - se motivo sério de desentendimento. N e vi l -
le, qu e h a via sido cria do por u ma babá n a s índias O cidenta is , a p r ecia va
b atas e sandálias, enqu anto Júlia, segu indo os exemplos de s u a mãe e de
s u a irmã, gos ta va de ves tir- s e ma is elegantemente e u s a va saltos altos.
N eville tinha , de fato, u ma verda deira atração p or sandálias, enqu anto
Júlia tinha u ma "contra- atração" por saltos altos. D es eja va excita r os
homens p ela ma neira como s e ves tia . Então, qu ando a ced ia a os desejos
de N eville e u s a va sandálias, não tinha desejo, e qu ando a n d a va de salto
alto p ela ca s a qu em não tinha desejo er a ele. A s s i m , emb ora exterior-
mente pa reces s em u m ca s a l feliz, s u a união es ta va bastante pertu rb ada
por aparentes trivia lida des b aseadas em s u a s primeira s experiências. Is to
er a particu larmente partu rb ador, pois eles próprios pens a ra m qu e pode-
riam s er u m ca s a l id ea l, b em aju stados, segu ndo todos os padrões C o m -
pu torizados s ocia is e psicológicos convenciona is .
A fascinação ocorre n os a n i m a i s inferiores e também entre a s

209
crianças. A parte Criança de amb os con tin u a va fa s cina da (positivamente
no ca s o dele, negativamente no ca s o dela ) por pequ enos defeitos de pele
depois de adu ltos. Imprinting foi estu dado principa lmente em pássaros,
qu e confu ndem su as mães com qu is qu er objetos qu e lhes são mostrados
nos primeiros dia s de s u a existência fora do- ovo. A s s i m , patos podem
receb er o imprinting ou s er estimu lados por u m pedaço de papelão colo-
rido, segu indo- o p or u ma trilha como se fosse s u a mãe. Fetiches s exu a is ,
qu e também são des envolvidos cedo n a vid a , exer cem influência seme-
lhante nos homens , ao pa s s o qu e as mu lheres podem tornar- se devotadas
a contrafetiches ao des cob rirem qu e são s exu a lmente excita ntes pa ra os
homens à s u a volta .
Fascinações e fetiches são profu ndamente arraigados e podem i n -
comoda r bastante a trajetória s u a ve d a vid a daqu eles qu e são afetados
por eles , de forma mu ito semelhante à adição a drogas. A p es a r de todas
as putativas de controle Ad u lto racional, a Criança é qu ase irres is tivel-
mente atraída ou repelida p or u m ob jeto específico e, em função dis to,
poderá fa zer sacrifícios des proporciona is à situação pa ra conseguí- los ou
evitá- los. Fascinações e fetiches poderão ter u m pa pel importante n a de-
terminação do resu ltado do script, em pa rticu la r _ na seleção daqu eles
destinados a representar os papéis p r in cip a is . E s te é ou tro fator qu e d i-
min u i a ha b ilida de de a pes s oa definir p or el a mes ma qu a l será s eu
destino.
O tratamento pa ra fascinações é tornar- se consciente dela s , co-
mentá-las e decidir se é possível con viver com ela s . A última parte po-
derá s er " ma s tig a d a " em "transações men ta is " - diálogos internos entre
Ad u lto e Criança, mantendo, neste ca s o, o P a i de fora até qu e os ou tros
dois se entendam cla ra mente. D ep ois disto permite- se qu e o P a i apresen-
te s u a fa la . S e a pes s oa decidir dentro de s u a cabeça qu e pode viver con -
fortavelmente com u ma fascinação nega tiva — ta l como u ma garota com
u m defeito físico - , tu do b em. S e não, deverá procu ra r u m tratamento ou
u ma n ova compa nhia . N ã o se pode ima gina r, s em u ma análise con s i-
derável de seu s pensamentos e sentimentos, o qu anto u m único item des-
ta na tu reza poderá estar afetando su as reações, em gera l resu ltando de
su as próprias experiências precoces. P or outro la do, a fascinação pos iti-
v a poderá escravizá- lo além dos limites d a razão, e deveria ser igu a lmen-
te cons idera da com cu ida do. A mes ma cois a a plica - s e a mu lheres qu e se
fa s cina m com defeitos de seus homens.
O tratamento dos fetiches é s imila r. M a s neste ca s o, como há ou tra
pes s oa ativamente en volvid a , exis tem ou tras alternativas qu e também
podem aju dar. Poderá h a ver u m acordo de indulgência mútua e o fetiche
poderá s er " e l i m i n a d o " s em prob lemas com o pa s s a r do tempo.

D. O cheiro inodoro

Além da s pecu lia rida des biológicas do orga nis mo hu ma no descritas


anteriormente ( a ma lea b ilida de do ros to, o self em movimentação, fa s ci-

210
nação e imprinting) há ou tras pos s ib ilida des impalpáveis qu e poderia m
ter igu almente u m efeito profu ndo n a vid a hu ma na . A primeira destas é a
percepção extra - s ens oria l. S e os cartões do D r . R h i n e 5 estão emitindo
s ina is qu e não podem s er detectados pela a tu a l geração de instru mentos
físicos, ma s podem s er receb idos p or u ma mente h u ma n a apropriadamen-
te s intoniza da , isto é u m assu nto de importância considerável, emb ora
não s eja necessariamente d ecis iva . S e tais s ina is exis tem, s u a detecção
ob jetiva s eria interesse, primeiro por razões de s ens a ciona lis mo, e h a ve-
r ia u ma página es pecia l nos su plementos dominica is . O s des envolvimen-
tos posteriores de u ma ta l descob erta não podem s er previs tos até qu e es -
ta ocorra . Interes s a ria , fora de d u vid a , aos milita res , qu e já estão pes qu i-
sando este ca mpo, especialmente se u m a lvo pu desse ser selecionado,
como s eria no ca s o de u m detonador de b omb as atómicas e de hidrogé-
nio à longa distância qu e pu des s em ser lançadas sob re fábricas e depósi-
tos de inimigos potencia is .
A telepatia teria u m s ignifica do cons idera velmente ma ior se ex is -
tisse. S e u ma mente h u ma n a pode en via r mensagens legíveis p a r a ou tra ,
e s e u m meio ob jetivo de controle e registro de tais mensagens pu desse
ser inventa do, isto aju daria a compreender mu ita s cois a s a respeito do
comportamento hu ma no. E s ta é a segu nda pos s ib ilida de. "Fenómenos te-
lepáticos", qu ando comu nica dos , pa recem ocorrer c o m ma ior frequên-
cia e de mo<Jo ma is agu do entre pessoas intimamente rela ciona da s , tais
como ma rido e mu lher, pa is e filhos , qu e, pres u me- s e, estejam ma is i n -
timamente afinados entre s i do qu e com outros memb ros d a raça hu ma na .
A telepatia poderia oferecer u m meio id ea l pa ra d a r cob ertu ra aos pa is
pa ra exer cer em controle sob re o comportamento de seu s filhos e s eria
certamente de grande interesse p a r a o a na lis ta de script, se exis tis s e. A
intuição, qu e é u m a função do estado de ego Criança 6 , às vezes b eira à
telepatia, n o sentido qu e fatos u m tanto ob s cu ros sob re ou tras pessoas
podem ser intuídos com u m mínimo de pis ta s s en s or ia is 7 .
Q u a ndo se a firma qu e a telepatia ocorre, esta € mu ito frágil e fa -
cilmente interrompida , e depende em grande parte do qu adro menta l do
agente e d a pes s oa perceptiva . Fa tores extrínsecos como os desafios dos
cientistas pa recem d imin u ir s u a precisão ou eliminá-la por completo, de
acordo com resultados pu b lica dos de tais experiências 8 . Is to não s ign ifi-
ca necessariamente qu e a telepatia não exis te. Proponho a segu inte hipó-
tese, qu e ex p l ica com apenas u ma pressuposição p r in cip a l e ou tra s e-
cundária, amb as descob ertas estab elecidas de forma científica ( n a ma io-
ria nega tiva s ). S e a telepatia ocorre, então o infante é o melhor percepti-
vo. À medida qu e cres ce, es ta facu ldade torna- se corrompida e progres-
sivamente menos confiável, de modo a Ocorrer nos adu ltos apenas de vez
em qu ando e sob condições es pecia is . N a lingu a gem estru tu ral a hipóte-
se d iz o segu inte: S e a telepatia exis te, será u ma função d a Criança mu i-
to pequ ena , e logo torna- se corrompida e preju dica da p ela interferência
do P a i e do Ad u lto.
Ter ceir o, tão interessante e importante, emb ora ma is ma teria lis ta , é

211
a questão dos cheiros inodoros: S a b e- s e qu e o ma cho d a ma ripos a B o m -
b yces pode detectar contra o vento a presença de u ma fêmea recém-nas-
cid a a até u ma milh a de distância e inúmeros ma chos voarão contra o
vento ju nta ndo- s e em volta d a fêmea a p r is ion a d a 9 . Temos qu e pressu por
qu e a fêmea ex a l a u ma substância odorífera qu e atrai os ma chos através
de algo como o sentido do olfato. A pergu nta em questão a qu i é: " S a -
b erá " o ma cho qu e está " c h e i r a n d o " a lgo ou responderá ele "a u toma ti-
ca men te" à química? É provável qu e ele não tenha "consciência" do
qu e está acontecendo, reagindo e voa ndo em direção à fêmea. É atraído
através de s eu sistema olfa tivo por u m cheiro " in od or o" .
C o m o ser hu ma no, a situação qu e d iz respeito aos cheiros é esta:
1) S e sente o cheiro de certos odores, como o perfu me da s flores ,
ele tem consciência deles e é conscientemente atraído por eles .
A esperiência poderá d eixa r traços de memória e is to, tanto
quanto se sab e, é tu do.
2 ) S e sente o cheiro de outros odores, ta is como fezes , ocorrem
comu mente: a ) toma conhecimento e é conscientemente repelido
por eles ; e b ) s em nenhu ma volição de s u a parte, s eu s is tema
nervoso automático é afetado e ele poderá sentir náuseas ou
vomita r.
3 ) Podemos pos tu la r u ma terceira situação: n a presença de ceçtos
produ tos químicos, s eu s is tema nervos o é afetado de forma s u -
til, s em qu e ele s inta qu alqu er cheiro ou tenha consciência d is -
to. N ã o me refiro a ma teria l tóxico como o monóxido d e ca rb o-
no, ma s de substâncias qu e es timu la m determinados receptores
e d eixa m traços específicos ou engramas no cérebro.
Vários fatos d evem s er considerados neste contexto:
1) A área olfa tiva do coelho contém 100. 000. 000 de células olfa ti-
va s , ca d a u ma com seis ou doze filamentos, de modo qu e o re-
ceptor olfa tivo é igu a l a toda a área de pele do a n i m a l 1 0 .
2 ) Pode- se pres u mir qu e descargas elétricas ocorrem no s is tema ol -
fativo mu ito depois d a adaptação a u m odor ter ocorrido, isto é,
emb ora o odor não pos s a ma is s er sentido, este continu a afetan-
do a a tivida de elétrica do s is tema nervos o. A evidência exp er i-
mental p a r a isto não é d ecis iva , porém fortemente s u ges tiva 1 1 .
3) O s cheiros podem afetar os sonhos s em serem perceb idos
como ta l.
4 ) O s perfu mes ma is s exu a lmente provoca ntes p a r a os seres h u ma -
nos são relacionados, do pontô de vis ta químico, com os
hormônios s exu a is .
5 ) O odor do hálito e do s u or podem mu da r com a alteração d a a ti-
tude emociona l.
6 ) O s nervos olfa tivos leva m ao rinocéfalo, u ma parte " p r i m i t i v a "
do cérebro qu e prova velmente está bastante en volvid a n a s
reações emociona is .
A q u i a hipótese s eria : o s er hu ma no é continu amente estimu lado
212
por u ma va rieda de de estímulos químicos s u tis , dos qu a is não tem con s -
ciência, ma s qu e afetam su as reações emociona is e s eu comportamento
em relação às várias pessoas em divers a s situações. E m b o r a p os s a h a ver
receptores es pecia is (até agora des conhecidos ) p a r a is to, a estru tu ra do
trato olfa tivo em s i é s u ficiente p a r a lida r com estes efeitos. Ta i s estímu-
los podem se? cha ma dos de cheiros inodoros. N ã o há evidência firma da
da existência de fato dos cheiros inodoros , ma s se eles exis tir em, s eria m
convenientemente responsáveis p or vários fenómenos comportamentais e
reações qu e, de ou tra forma , são difíceis ou impossíveis de entender no
estado atu al de nossos conhecimentos . S u a s influências n o script s eria m
duráveis, como n o ca s o d a fascinação, fetichis mo e imprinting. G a tin h os
recém-nascidos poderão " c h e i r a r " a s tetas d a mãe s em terem "consciên-
c i a " disto e a memória do cheiro inodoro ou a lgo pa recido afeta evid en -
temente s eu comportamento p a r a o resto de sueis vid a s .

E . A tens ã o a n t e c i p a d a e a r e s s a c a

A tensão a ntecipa da e a r es s a ca assemelham- se a os " d i s f a r c e s " por


s erem des envolvida s principa lmente, emb ora não n a s u a totalidade, sob
as instruções dos progenitores. D ifer em dos dis fa rces porqu e são defla -
gradas internamente em vez de o serem por estímulos específicos de
ou tros.
Tensão a ntecipa da é definida como o período de tempo du rante o
qu a l u m acontecimento iminente começa a ter u ma influência indepen-
dente no comportamento do indivíduo. E ob servado ma is dra ma tica men-
te em pessoas com fob ia s , cu jo fu ncionamento glob a l poderá s er alterado
com dia s de antecipação diante d a pers pectiva de pa rticipa r de u ma s i -
tuação temida , como u m exa me médico ou u ma via gem. E ntreta nto, a
tensão a ntecipa da fóbica é menos preju dicia l do qu e a s res s a ca s d a vid a
cotidia na , qu e poderão, a longo pra zo (penso eu ) , res u lta r em doenças
físicas ."psicossomáticas".
N o ca s o do D r . Q., sempre qu ando tinha qu e fa zer u ma conferência
n a terça-feira n u ma cidade distante, a tensão a ntecipa da s e in icia va
qu ando a via gem iminente começava a interferir e m su as a tivida des coti-
dia na s . N a qu inta - feira anterior ele ficou acordado n a ca ma por u m certo
tempo, planejando o qu e teria qu e fa zer antes de pa rtir. Pa r a compens a r
os dia s de trab alho perdidos, foi ao escritório n o sábado, d ia em qu e ge-
ralmente não tra b a lha va . Mentalmente fez u ma lis ta da s cois a s qu e teria
qu e providencia r n a s exta - feira , como b u s ca r a pa s s a gem de avião, u ma
vez qu e este er a o último d i a útil antes de via ja r , n a segu nda- feira. A s -
s im, o cronogra ma d a s exta - feira ficou ligeiramente alterado pela s pe-
qu enas providências qu e teve qu e tomar, e su as cons u lta s não fora m tão
descontraídas ou produ tiva s como de cos tu me, pois teve qu e preparar os
pacientes p a r a s u a ausência. A noite de s exta - feira em ca s a também não
foi tão descontraída, ta lvez porqu e tivesse qu e dormir logo, p a r a poder
levantar ma is cedo do qu e o u s u a l no sábado. E s te também foi atingido,
porqu e não tinha praticado s eu exercício de fim de s ema na n em estado
com a família. Além dis s o, es ta va também u m tanto a b s orvido pelos p la -
nos do d ia segu inte, rela tivos à b agagem a ser a rru ma da . E mb or a o pre-
paro do esboço d a conferência não lhe tomasse ma is do qu e qu inze m i -
nu tos, ele ficou preocu pado com is s o du rante o ja n ta r de sábado. Pa s s ou
o domingo à tarde n a p r a ia , ma s isto não foi tão rela xa nte como cos tu -
ma va ser, porque tinha qu e chegar em ca s a cedo p a r a fa zer a ma la , o qu e
atrapalhou a p a z do domingo à noite. N a segu nda tomou o avião e, n a -
qu ela noite, foi cedo pa ra a ca ma no s eu hotel. N a terça p ela manhã fez
s u a conferência e voltou p a r a ca s a .
A expressão qu e ma is apareceu neste relato foi "nã o como de cos -
tu me" , entremeada de termos qu a lifica tivos , tais como " u m a vez q u e " ,
" p or q u e" e " m a s " . Tod os estes, em es pecia l o primeiro, são termos de
tensão antecipada. Res u min d o, p a r a da r u ma conferência de u ma h or a n a
terça-feira, qu e neces s ita va de apenas qu inze minu tos de preparação em
ca s a , ele, s u a família e seu s pacientes fora m tensionados com vários dias
de antecipação, não mu ito, ma s o su ficiente pa ra afetar vis ivelmente o
seu comportamento.
Tensão antecipada deve ser diferencia da do planejamento e d a pre-
paração do Ad u lto. O qu e o D r . Q . fez n a qu inta - feira à noite antes de
adormecer foi u m procedimento Ad u lto. S e ele tives s e sido ca pa z de
planejar du rante a s hora s de vigília s em atrapalhar s eu horário norma l,
isto não s er ia tensão antecipada. M a s , por ca u s a de s eu d ia cheio, ele te-
ve qu e perder algu mas horas de sono d a qu inta - feira à noite, e isto é ten-
são antecipada. Algu ma s da s providências ocorridas n a s exta - feira fora m
de preparo e não tensão antecipada, pois ele a s rea lizou n a hora do a l -
moço. N o entanto, ou tras interferira m em s eu horário norma l, in clu s ive
u ma cha ma da telefónica qu e chegou enqu anto con ver s a va cóm u m p a -
ciente, o qu e o pertu rb ou vis ivelmente e interferiu n a s u a lin h a de pen-
samento. E s s a s repetidas interrupções era m parte d a tensão antecipada.
A s s i m , planejamento e preparativos são a tivida des Ad u lta s , desde qu e
não conflitem com os padrões u s u a is d a pes s oa , ma s se o fizerem, pa s -
sam a ser parte d a tensão a ntecipa da , particu larmente se pertu rb am a
Criança ( com apreensão, por exemplo), ou o P a i (fa zendo com qu e ele
negligencie su as obrigações rotineira s ).
Q u a lqu er evento iminente in flu en cia o comportamento do indiví-
du o de a lgu ma forma, ma s não precis a ter u m efeito independente dos
seus padrões u s u a is . Por exemplo, a ma ior ia das pessoas está à espera de
Pa p a i N oel, como foi discu tido no Capítulo 10, ma s es ta es pera está i n -
tegrada em seu s modos de vid a e n a s formas u s u a is de comportamento.
Também a pu b erdade iminente penetra no passado d a vid a de u ma cr ia n -
ça e, n u m certo sentido, s u a influência estende- se até a vid a intra- u teri-
n a . E m gera l, fica cla ro qu e a aproximação d a pu b erdade influ enciou o
que u ma menina ou menino fizera m ontem, porém não tão independente
de todo o resto qu e aconteceu . Portanto, não corresponde à definição de

214
tensão antecipada.
É evidente qu e o tratamento pa ra tensão antecipada é a organização
do Ad u lto: ordenar tanto quanto possível o próprio tempo, de modo que
o planejamento e a preparação possam s er efetuados s em alteração dos
padrões norma is de comportamento. É necessário, também, olha r pa ra a
frente. D ep ois do D r . Q. ter perceb ido qu e u ma conferência de u ma hora
nu ma cida de distante oca s ion a va u ma tensão antecipada de cinco dia s ,
ele d eixou de aceitar compromissos deste tipo, exceto nu ma ocasião,
qu ando coin cid iu com seu s pla nos de férias, qu e er a m de reservar cinco
dias de folga pa ra fa zer u ma conferência de u ma hora .
Res s a ca é definida como u m período de tempo durante o qu a l u m
acontecimento passado tem u ma influência independente no comporta-
mento do indivíduo. D e a lgu ma forma , ca d a acontecimento passado i n -
flu en cia o comportamento, ma s a ressaca se refere somente àquelas oca -
siões qu e pertu rb am os padrões norma is por u m período apreciável, em
vez de ser a s s imila do o u excluído por eles pela repressão ou ou tros me-
ca nis mos psicológicos.
Após o s eu retorno d a conferência, o D r . Q. teve qu e enfrentar
u ma árdua" tarefa: responder às cartas e cha ma da s telefónicas qu e se
a cu mu la ra m du rante s u a ausência e cu ida r dos prob lemas que lhe era m
trazidos pelos fa milia res e pacientes. Ti n h a , a inda , qu e fazer su as contas
e preencher os comprovantes d a despesa relacionados com a via gem. A
ma ior parte desta limp eza foi u m procedimento do Ad u lto, e ele cons e-
gu iu encaixá-la no s eu horário norma l. M a s , qu ando u m dos compro-
vantes foi devolvido, três semanas depois, porqu e ele h a via envia do em
du as via s e m vez de três, o D r . Q. irritou - se e isto oca s ionou u ma ligeira
distração du rante a h or a seguinte em qu e atendeu u m paciente. H a vi a
também a questão do militante negro. N o período dedicado a pergu ntas,
após a conferência, u m militante negro (qu e não deveria ter estado lá,
pois não er a u m terapeu ta profis s iona l) fez a lgu ma s pergu ntas e leva ntou
algu ns pontos qu e d eixa r a m o D r . Q. pertu rb ado du rante vários dia s .
A q u i o trab alho burocrático (contanto qu e não interferisse com o trab a-
lho rotineiro) er a u ma tarefa do Ad u lto, a o passo qu e s u a irritação com
os comprovantes e seu s conflitos relacionados com o militante negro
constituíam parte d a res s a ca , n a qu a l s eu P a i e s u a Criança es ta va m en -
volvid os .
C ons idera ndo a totalidade, as atividades do Ad u lto, in clu s ive pre-
paração, a tarefa e m s i ( a conferência) e a limp eza estenderam- se por u m
período s u perior a doze d ia s , ma is ou menos . A tensão antecipada e a
res s a ca , qu e en volver a m s eu P a i e s u a Criança, du ra ra m u m pou co ma is .
A res s a ca , como frequentemente acontece, foi rea tiva da ma is tarde,
qu ando ele receb eu a ca rta a respeito do comprovante, que teve qu e s er
refeito, levando- o a qu eixa r- s e sobre o assu nto em ca s a .
O tratamento p a r a tes s a ca s é preparar- se antecipadamente pa ra to-
lera r ab orrecimentos tr ivia is e depois esquecê-los.
O episódio d a conferência é u m exemplo norma l de ressaca e

215
tensão antecipada. C o m o encorajamento dos p a is , entretanto, amb os po-
derão tornar- se bastante pertu rb adores, podendo contrib u ir pa ra o efeito
do script, particu larmente se este for trágico. Ta n to a ressaca como a ten-
são a ntecipa da , n u ma lor ma exa gera da , poderão leva r ao a lcoolis mo, à
ps icos e, suicídio ou mesmo a o homicídio. A s s i m , a tensão antecipada do
exa me ou a r es s a ca d a impotência, poderão contrib u ir pa ra o suicídio de
adolescentes e a tensão antecipada ca u s a d a pelo medo do pa lco contrib u i
p a r a o cons u mo exces s ivo de álcool entre atores e vendedores. A segu ir,
u m exemplo de u ma res s a ca de script.
U m execu tivo de vinte e três a nos de idade cha ma do C y r i l veio p a -
r a tratamento, sendo à diarréia u ma dias su as p r in cip a is qu eixa s . C erto
d ia , mencionou no gru po qu e es ta va com dificu lda de p a r a adormecer.
F i c a va acordado, revendo su as decisões e transações com s eu s a u x il ia -
res , procu rando erros n o qu e h a via feito e contando s u a coleção de cu l -
pa s , mágoas e figu rinha s de irritação. D e s u a história pregres s a , ficou
evidente qu e tudo isto er a feito sob a d ir etiva do script provindo de s u a
mãe. E s ta r es s a ca d u r a va aproximadamente u ma h or a e, em ocasiões es -
pecia is , até du a s ou três, antes qu e pu desse adormecer. O terapeu ta e os ou -
tros memb ros do gru po derâm-lhe permissão pa ra termina r s eu d ia de tra -
b a lho s em qu a lqu er tipo de res s a ca , adormecendo qu a ndo tivesse vontade,
contrariando o s eu P a i crítico importu no e, a s s im, a insónia desapareceu .
Pou co depois, p or motivos qu e n u n ca fora m es cla recidos , s u a diarréia ta m-
bém desapareceu e, dois meses depois, C y r i l encerrou s eu tratamento.
E mb or a a tensão a ntecipa da e a r es s a ca pos s a m, ca d a u ma dela s ,
ca u s a r prob lemas p a r a pessoas com scripts du ros , n a ma ior ia dos ca s os
u ma ou ou tra pode s er tolerada s em consequências sérias. Poderá, en -
tretanto, ser perigos o pa ra qu alqu er pessoas se a ressaca do último
acontecimento sobrepor- se à tensão antecipada do próximo. Is to é, co-
mu mente, considerado como síndrome de " ex ces s o de tr a b a lh o". D e fa -
to, esta é u ma b oa definição pa ra isto. P or ma ior qu e s eja á ca rga , en -
qu anto o trab alho pu der s er rea liza do s em a ocorrência de ta l sob reposi-
ção, não haverá exces s o de trab alho (menta l). S e es ta ocorrer, então a
pes s oa ficará estafada, independente do quão pequ ena s eja , de fato, a
s u a ca r ga de trab alho. D ep ois do ontem, o P a i do indivíduo pertu rb a- o
com dúvidas e cu lpa s : "n ã o d evia ter feito a q u il o" , " o qu e pensarão os
ou tros d el e" , "p or qu e não fez de ou tro jeito'*. E n qu a n to todas estas coi-
sas rodopia rem e m s u a cabeça, ta l como a cer veja ch och a , s u a Criança
estará preocu pa da com o amanhã: qu e erros poderá cometer, o qu e farão
com ele, o qu e gostaria de fa zer com os ou tros. E s tes pensamentos a ze-
dos ju nta m- s e a ou tros p a r a forma r u ma mis tu ra depres s iva e na da ape-
titosa. U m exemplo:
Peb b le, u m contador, tra b a lha noite adentro preparando s eu relató-
rio a n u a l. O s números não b atem e, qu ando chega à ca s a , deita- se s em
cons egu ir dormir, preocu pando- se u m pou co ma is com o prob lema.
Q u a ndo finalmente adormece os números continu a m flu tu ando diante
dele em sonhos e visões pertu b adores. A o a corda r, n a manhã segu inte,

216
na da foi res olvido e a res s a ca d a noite anterior de trab alho a inda perma -
nece com ele. Agor a começa a preocu par- se com o qu e irá fa zer hoje no
escritório, pois s u a s tarefas regu lares terão qu e pros s egu ir, ma s cons ti-
tu em u ma tensão antecipada qu e o atinge poderosamente qu ando ele
tenta convers a r com s u a família, à mes a dò café. S ob estas pressões,
n u m espaço de tempo maior, é a res s a ca dos erros qu e ele cometeu no
relatório do ano anterior e em razão dos qu a is foi censu rado por s eu che-
fe. A tensão antecipada a preens iva do qu e podçrá acontecer n a reunião
a nu a l deste ano já está remexendo em s eu estômago. E nqu a nto isto, com
s u a mente pres a a essas sobreposições, ele não tem tempo, energia e n em
motivação disponíveis p a r a s u a vid a pa rticu la r, e a s cois a s começam a
deteriorar- se em ca s a . S e u relacionamento fa milia r não melhora c o m a ir -
rita b ilida de, negligência e pes s imis mo.
N a ma ior ia dos casos como este, o resu ltado será determinado pelo
equilíbrio entre o severo P a i pressionador de Peb b le e s u a Criança de-
primida e irrita da . S e o P a i for ma is forte, ele fará o trab alho e terá u m
cola ps o, sendo hos pita liza do c o m u ma depressão agitada. S e s u a Criança
preva lecer, começará a agir de forma es tra nha e desistirá antes de com-
pletar a tarefa, desemb ocando n u m estado esquizóide o u esquizofrénico.
S e o s eu Ad u lto for ma is forte qu e amb os, poderá cu ra r- s e e depois per-
manecer n u m estado de fa diga até qu e se recu pere com algu ns dia s de
descanso ou com u ma s férias. Mes mo nos ca s os favoráveis, entretanto,
se a tensão prossegu ir du rante a nos , ele poderá a ca b a r com a lgu m pro-
b lema físico crónico. D e acordo com a s informações disponíveis a tu a l-
mente, será u m excelente candidato à úlcera ou pressão arterial eleva da .
A ameaça d a posição de Peb b le é constituída p ela forma como s eu
tempo é estru tu rado. C omo vimos n o Capítulo 10, há du a s formas de es -
qu ematizar u ma tarefa. A primeira é o Temp o de Meta , " V o u trab alhar
até terminar a tarefa (não importa o tempo qu e l e va r ) " . A segu nda é o
Temp o de Relógio, " V o u trab alhar até meia- noite (e depois pa ra r, inde-
pendente do r es u lta d o) ". Peb b le não podia n em terminar n em parar. E l e
es ta va n u m Temp o de " A p r es s e- s e" . Ti n h a qu e terminar u ma certa tare-
fa n u m certo tempo e esta combinação forçada de Temp o de M eta e
Temp o de Relógio apresenta, em gera l, u m prob lema insolúvel. Is to
ocorre n o conto de fa da , qu ando a menina p r ecis a separar o j oio do trigo
antes do amanhecer. Poderia fa zer tudo isto se hou ves s e tempo, ou u ma
parte trab alhando até o amanhecer, ma s p a r a fa zer tudo dentro de u m l i -
mite de tempo, el a precis a ria de u ma aju da mágica d a fa da ma d r in h a , do
gnomo, dos pássaros ou das formigas. Peb b le não conta com gnomos,
formigas ou qu a lqu er ou tra a ju da mágica, pagando a s s im a pena qu e a
menina teria qu e pa ga r se fa lha s s e: perde a cabeça.
O tratamento pa ra as sobreposições é u ma questão de aritmética.
C a d a pes s oa tem u m tipo de "temp o de tensão a n tecip a d a " e " r e s s a c a "
padrão pa ra os vários tipos de situação, qu e são a s segu intes: b rigas
domésticas, exa mes ou audiências, pra zos de tra b a lho, via gens , vis ita s
de parentes ou pa ra eles etc. O s dois tempos de preocupação poderia m ser
estimados a partir da s experiências com ca d a tipo de situação. C o m esta
217
informação disponível, a prevenção d a superposição redu z- se a u m s im-
ples cálculo. S e a situação de res s a ca estimada pa ra a situação A é de x
dias e a tensão antecipada previs ta p a r a a situação B é de y d ia s , então a
data estab elecida pa ra B terá qu e s er, n o mínimo, x + y + 1 dia s após a
data de A . S e os dois acontecimentos podem ser previs tos , isto é Jácil de
estab elecer. S e A for imprevisível, a data de B terá qu e s er a dia da . S e
isto não for viável, a segu nda opção s er ia apressar- se com B , de modo a
terminar amb os, A e B , no menor interva lo possível de sobreposição, es -
perando o melhor. S e B não pu der ser adiado, a s únicas a lterna tiva s s e-
rão aju star- se ou pu la r fora . Mães de filhos pequ enos, n a ma ior ia dos ca -
sos, são os melhores exemplos de pessoas qu e consegu em aju star- se em
vez de p u la r fora . C o m u ma elasticidade supreendente a s s imila m nu me-
rosas pequ enas res s a ca s e dezenas de tensões antecipadas diárias n a s u a
vid a cotidia na . Q u a ndo não cons egu em, ficam tensas, e este sentimento
de tensão é o primeiro s ina l de superposições incontroláveis, cons titu in-
do o primeiro indica dor de qu e está necessitando de férias. A s su perpo-
sições interferem n a a tivida de s exu a l dos dois s exos , atu ando como
anaffodisíaco. Invers a mente, o s exo é u m excelente antídoto p a r a su per-
posições, e p a r a mu itos ca s a is u ma s ema na ou mes mo u m fim de s ema na
longe das crianças res ta u ra o apetite e a potência s exu a l, su b stitu indo
a tensão antecipada e a r es s a ca por aqu ecimento e pós-fulgor. A ma ior ia
das tensões antecipadas e res s a ca s norma is completa s u a trajetória em,
ma is ou menos, s eis d ia s , de modo qu e qu inze dia s de férias permitem a
dissipação de res s a ca s , após o qu e se dispõe de a lgu ns dia s de des con-
tração antes d e a s tensões antecipadas começarem a arder em momentos
de desatenção e tu mu ltu ar novamente a situação. P a r a a assimilação de
ressacas crónicas o u de tensões antecipadas ma is profu ndas e'reprimida s ,
entretanto, serão necessárias, prova velmente, férias de pelo menos seis
semanas. Is to se proces s a va mu ito ma is calmamente qu ando u m mês n a
E u r op a er a a s s ocia do a u ma via gem transatlântica tra nqu ila de s eis ou
sete d ia s , e não como é feita agora, em aviões a ja to e s u a s defasagens
de tempo, qu e já são em s i mesmo experiências extenu antes.
O s sonhos são, prova velmente, os mecanisib os norma is de aju sta-
mento a res s a ca s e tensões antecipadas. É por es ta razão qu e pessoas
su b metidas a privação experimenta l ou p u n itiva d a oportu nidade de s o-
nhar a ca b a m ingressando n u m estado qu e se a s s emelha à p s icos e 1 2 . P or
is s o, o s ono n or ma l é importante p a r a evita r a sobreposição e seu s efei-
tos negativos. U m a vez qu e sedativos, como os barbitúricos, redu zem a
qu antidade do s ono R E M com sonhos em fa vor de outros estados de s o-
no, não encora ja m a assimilação de res s a ca e d a tensão antecipada. O
efeito poderá s er a "acu mu lação" d a sobreposição não a s s imila da em a l -
gu ma parte do corpo, leva ndo aos distúrbios 13 "psicossomáticos". E s tes ,
porém, poderão ser preferíveis aos efeitos d a insónia prolongada e extens i-
va . Mu itos filósofos, da vid a recomenda m " v i v e r o d ia - a - d ia ". Is to não
deveria s ignifica r viver apenas o momento, viver desorganizadamente ou
s em pla neja r o fu tu ro. Mu itos destes filósofos, como W il l ia m O s l er 1 4 ,

218
era m pessoas altamente orga niza da s , com ca rreira s planejadas mu ito
b em- su cedidas. N a lingu a gem presente, viver o dia - a - dia s ign ifica viver
u ma vid a orga niza da e b em pla neja da , dormindo b em à noite, de modo
qu e o d ia termine s em tensão a ntecipa da , u ma vez qu e o amanhã está
b em planejado, e termine s e m res s a ca , u m a vez qu e o ontem foi b em or-
ganizado. E s ta é u ma ma n eir a excelente de vencer a s limitações, que de
outro modo poderia m s u rgir de u m script ma u , como também u ma forma
cons tru tiva de leva r u m b om script à s u a realização feliz.

F . O p e q ue n o f a s c i s t a

C a d a ser hu ma no parece ter u m pequ eno fa s cis ta em s u a cabeça.


Isto é deriva do das ca ma da s ma is profu ndas d a personalidade ( a Criança
d a Criança). N a s pessoas civiliza d a s está profu ndamente enterrado s ob
u iqa plataforma de idea is s ocia is e treinamento, ma s com permissões e
diretiva s apropriadas, como in d ica repetidamente a história, poderá s er
lib ertada e florescer por completo. N o segmento menos civiliza d o d a po-
pulação é expos to e alimentado abertamente, agu ardando apenas u m a
b oa oportu nidade p a r a s u a expressão periódica. E m amb os os ca s os é
u ma força poderosa p a r a o avanço do script. N o primeiro ca s o u ma força
secreta, s u til e negada, enqu anto n o segu ndo é reconhecida de forma
cr u a e até com orgu lho. Pode- se dizer qu e qu alqu er pes s oa qu e não te-
n h a consciência desta força em s u a personalidade perdeu o controle s o-
b re ela . N ã o confrontou a s i mesmo e não sab e p a r a onde está se d ir igin -
do. U m b om exemplo ocorreu n u ma reunião de * ' C on s er va cion is ta s ",
onde C on s er vo ob s ervou o qu anto a d mir a va u ma certa trib o d a Ásia por
cu ida r tão b e m de seu s recu rs os na tu ra is , "mu ito melhor do qu e nós ".
U m hu ma nis ta retru cou : " S i m , ma s eles têm u ma ta xa de mortalidade i n -
fa ntil terrível". " H o h o " , riu C on s er vo, acompanhado, por vários ou tros,
" is to agora é tu do p a r a o b em, não é? E x i s te m bebés dema is n a s atu ais
condições". U m fa s cis ta pode s er definido como u ma pes s oa qu e não
tem respeito ao ser vivo, encarando- o como s u a pres a . E s ta atitude a rro-
gante é, s em dúvida, u ma herança d a pré-história d a raça h u ma n a , s o-
b revivendo no gosto pelo ca nib a lis mo e nos pra zeres d a gu erra. Pa r a os
antropóides carnívoros, du rante a caça, desu manidade s ign ifica va efi-
ciência e a a videz er a motiva da p ela fome. N o entanto, à medida qu e a
mente e o cérebro hu ma no evoluíram através d a seleção na tu ra l, estas
qu alidades não se atrofiaram. Q u a n d o já não era m ma is necessárias pa ra
a sobrevivência, fora m des via da s de s u a meta or igin a l, qu e er a cons egu ir
a carne pa ra o ja n ta r , e degeneraram em fim em sí mes mos , lu xos fre-
quentemente concedidos e apreciados à cu s ta de ou tros seres hu ma nos .
A desu manidade transformou - se em cru elda de, e a a videz em exploração
e rou b o. D es de qu e a raça - a ca rne em s i e, especialmente, a ca rne h u -
ma na - foi em grande parte substituída por ou tras mercadorias qu e en -
ch em o estômago e são ma is fáceis de colher, esta necessidade começou
a s er u tiliza da pa ra satisfazer a s fomes psicológicas. O s prazeres d a

219
tortu ra tomaram o lu ga r ou precederam os prazeres do comer e " H e h e "
su cedeu a o " H u m h u m " . Tornou - s e menos importante matar o ele ( ou
ela ) do qu e vê- lo ( ou vê- la) e ou vi- lo b errar e rastejar. Is to tomou - se a
essência do fa s cis mo - u m b ando errante à procu ra de u ma pres a ma s cu -
lin a ou feminina p a r a atormentar ou es ca rnecer —, cu ja arte reside em
deva s s a r a.fraqu eza d a vítima.
Há dois su b produ tos d a humilhação, amb os vantajosos p a r a o
agressor. O efeito b iológico é o pra zer e a excitação s exu a l, com a víti-
ma disponível p a r a perpetrar a s perversões ma is engenhosas, sendo a fa -
vorita a violentação a na l: A tortu ra traz consigo u ma intimidade pecu lia r
entre tortu rador e vítima e u m insight profu ndo n a a lma de ca d a u m de-
les , u ma intimidade e u m insight qu e de ou tra forma faltaria em su as v i -
das. O ou tro su b produ to é pu ramente comercia l. A vítima sempre tem
objetos de vla or qu e podem trazer u m lu cr o. Pa r a os ca nib a is , poderá ser
força a deriva da de órgãos mágicos como coração, testículos ou mesmo
u ma orelha . P a r a os povos avançados a gordu ra poderá ser u tiliza da pa ra
fa zer sabão, e os dentes de ou ro podem ser resgatados. E s tes produtos
são explora dos depois qu e o fíiror do encontro pes s oa l d imin u i e " p er -
d em- s e" no anonimato. À medida qu e o embrião hu ma no cres ce, r evive
toda a árvore evolucionária. Às vezes fica enca lha do, nascendo com r e-
líquias de estágios antigos, como fissu ras na s gu elras. E n qu a n to a s
crianças cres cem, estas r evivem a pré-história d a raça hu ma na e pa s s a m
pelos estágios de caça, a gricu ltu ra e ma nu fa tu ra , e poderão fica r fixa da s
em qu a lqu er deles , ma s todos retêm vestígios de todos os estágios.
O pequ eno fa s cis ta em ca d a ser hu ma no é u m minúsculo torturador
que testa e a precia a s fra qu eza s de s u a vítima. S e isto aparece ab erta-
mente, ele será alguém qu e maltrata o aleijado, u m tortu rador ou violen-
tador, às vezes com des cu lpa s do tipo d u r eza , ob jetividade ou ju s tifica ti-
va . A ma ior ia da s pessoas su prime estas tendências, fazendo de conta
qu e ela s não exis tem, descu lpando- as qu ando mos tra m su as cores ou s o-
b repondo- as ou ma s ca ra ndo- a s com o medo. A l g u n s tentam demonstrar
s u a inocência tornando- se propositadamente vítimas em vez de agresso-
r es , b aseados no princípio qu e é melhor derramar o próprio sangu e ep*
vez do dos ou tros, ma s sangu e tem qu e ha ver.
E s ta s tendências primitiva s entrelaçam-se com injunções, preceitos
e permissões do script, formando a b ase pa ra jogos de terceiro gra u ou
de " te c i d o s " qu e extra em sangu e. O s qu e fa zem de conta qu e tais forças
não exis tem, tornam- se vítimas dela s . Tod o o s eu script poderá tornar- se
u m projeto p a r a demonstrar qu e eles estão livr es disto. M a s sendo pou co
provável qu e isto s eja verda deiro, será u ma negação de s i mesmo e,
portanto, de s eu direito a u m destino au to- decidido. A solução não é d i-
zer, como fa zem mu itos , " É a medronta dor", ma s s im " O qu e posso eu
fa zer a respeito dis to e com i s to ?" É melhor ser u m mártir do qu e u m
troglodita, ou s eja , u m homem qu e se r ecu s a a acreditar qu e a s cendeu a
partir de u ma cria tu ra antropóide porqu e a inda não a s cendeu , de fato,
ma s conhecer a s i mesmo é melhor do qu e amb os.

220
É importante compreender qu e certos aspectos " g en ocid a s " d a
natu reza hu ma na perma necera m inalterados du rante os últimos cin co m i l
anos, independentes de qu a lqu er evolução genética qu e tenha ocorrido
neste período. Perma necera m também imu nes às influências amb ientais e
s ocia is . U m destes aspectos é o preconceito contra pessoas es cu ra s , qu e
persistiu desde a a u rora dos tempos registrados no E g ito Antigo, cu jo
" p ovo miserável de C u s h " é representado a in d a pelas populações negras
oprifnidas em todo o mu n d o 1 5 . O outro é a gu erra do " a c h a r e d es tr u ir ".
Por exemplo: " 2 3 4 vietcongs emb oscados e mor tos " e " 2 3 7 aldeões
Massacrados no Vietnã ". ( Amb os de relatórios do Exercício norte- a meri-
ca no, 1969). C ompa re: "O itocentos de seu s soldados eu destruí com os
meu s braços; s u a população qu eimei com ch a ma s ; seu s meninos e su as
virgens eu desonrei. M i l cadáveres de seu s gu erreiros eu empilhei. N o
d ia l 2 de maio matei oitocentos de seu s comb atentes, qu eimei mu ita s de
su as ca s a s , desonrei seu s meninos e vir g en s " etc. (dos A n a is de A s s u r -
na s irpa l, C ol u n a I I , cer ca de 8 7 0 A . C . ) .
A s s i m , du rante pelo menos 2. 800 anos hou ve desejosos e ansiosos
contadores de cadáveres. O s ca ra s b ons termina m como " b a i x a s " e os
ma u s como " c o r p o s " , " m o r to s " ou "ca dá veres "

G . O e sq ui z o f r é n i c o c o r a j o s o

Além da s características biológicas e psicológicas do orga nis mo


hu ma no qu e permitem qu e o script pré-programado ven h a a ser o senhor
do destino pes s oa l, a s sociedades são orga niza da s de ta l modo qu e enco-
rajam esta falta dé au tonomia. Is to é feito através do contrato s ocia l tra n-
s a ciona l, qu e d iz: " V o c ê a ceita min h a pers ona ou auto-representação e
eu a ceita rei a s u a " . Q u a lqu er revogação deste contrato, a não ser qu e
seja especificamente permitida n u m certo gru po, é cons idera da como
grosseria. O resu ltado é u ma falta de confrontação: confrontação com os
ou tros e consigo mes mo, pois por trás deste contrato s ocia l está u m con -
trato in d ivid u a l ocu lto entre os três aspectos d a personalidade. P a i ,
Ad u lto e Criança concorda m entre s i em aceitar a^ auto-representação de
ca da u m, e nem todos são su ficientemente corajosos pa ra alterar ta l con -
trato cons igo mesmo, qu ando for aconselhável.
A falta de confrontação é ob s erva da claramente no ca s o de es qu i-
zofrênicos e seu s terapeu tas. A ma ior ia destes ( n a min h a experiência)
d iz qu e a es qu izofrenia é incurável. C o m isto qu erem dizer: " A es qu izo-
frenia é incurável pelo meu tipo de terapia psicanalítica e não vou tentar
nenhu ma ou tra c o i s a " . Por is s o, propõe-se a fazer o qu e cha ma m de " f a -
zer progres s o" e, ta l como o fab ricante famoso de produ tos elétricos, o
seu p r in cip a l produto é o progresso. M a s progresso s ignifica fazer com
que o esquizofrénico vi va com ma is b ra vu ra n u m mu ndo lou co, em vez
de tirá-lo daí, e a s s im a terra está cheia de esquizoffênicos não tão
corajosos.
D ois ou tros slogans comu ns entre terapeutas são também comu ns

221
n a população em gera l: " V o c ê não pode dizer às pessoas o qu e fa zer " , e
" E u não posso ajudá-lo, você tem qu e a ju d a r - s e". A mb os são mentiras
des la va da s . Você pode dizer às pessoas o qu e fa zer e mu itos farão e fa -
rão b em, e você pode aju dar a s pessoas e elas não têm qu e aju dar a s i
mesmas. E l a s têm apenas qu e leva nta r, depois de você tê-las aju dado,
e tratar de síuas cois a s . M a s com tais slogans, a sociedade (e não qu ero
dizer a N os s ocieda de, ma s s im todas as sociedades) encora ja m a s pes -
soas a permanecerem em seu s scritps e a leva r estes a cab o até o s eu f i -
n a l , mu itas vezes trágico. U m script s ignifica apenas qu e alguém dis s e à
pes s oa o qu e fa zer em tempos passados, e ela decidiu fazê- lo. Is to de-
mons tra qu e podemos dizer às pessoas o qu e fa zer e, n a rea lida de, o fa -
zemos todo o tempo, especialmente aqu eles qu e têm filhos . Então, se
você dis s er às pessoas p a r a fazer algo diferente da qu ilo qu e seu s pa is lhe
dis s era m, elas poderão decidir aceitar s eu cons elho ou instrução. Sab e- se
mu ito b em qu e se pode aju dar pessoas a se emb ria ga rem, a s u icida r- s e
ou a matar alguém, portanto se pode também ajudá-las a parar de b eb er,
d eixa r de matar- se ou matar ou tros. Certamente é possível da r às pessoas
permissão pa ra fa zerem determinadas cois a s ou pa ra r de fa zer cois a s que
lhes fora m ordenadas n a infância. E m vez de encorajar as pessoas a v i -
ver em corajosamente no velho mu ndo in feliz, é possível fa zer com qu e
vi va m felizes n u m admirável mu ndo novo. Lis ta mos sete fatores que
tornam o script possível e encora ja m a s u a continu ida de: o rosto maleá-
vel , o self em movimentação, a fascinação e o imprinting, a s influências
s ilencios a s , a tensão a ntecipa da e a r es s a ca , o pequ eno fa s cis ta e a
aquiescência da s ou tras pessoas. Lis ta mos também u m tratamento prático
pa ra ca d a u m.

H . O bo ne c o d o v e n t r f l o q uo

À medida qu e a psicanálise tornou - se independente, colocou de- l a -


do mu lto do trab alho va lios o feito em fase anterior. A s s i m , a livr e a s s o-
ciação su b stitu i a tradição milena r d a introspecção. A livr e associação
preocu pava- se com conteúdo d a mente, deixa ndo ao ps ica na lis ta o des-
cob rir, a pa rtir d ela , o fu ncionamento d a mente. Is to só podia ser feito
qu ando esta não fu n cion a va tranqu ilamente. N ã o há ma neira de desco-
b rir como u ma máquina hermética ( u ma ca ix a preta) fu nciona enqu anto
fu nciona r perfeitamente. Só é possível des cob rir se erra r ou for indu zida
a cometer erros , joga ndo- s e u ma ch a ve ingles a lá dentro. A s s i m , a livr e
associação é tão b oa qu anto a psicopatologia qu e está por trás dela : a s
mudanças, a s intrusões, os lapsos e os sonhos.
A introspecção, por s u a vez, tira a tampa d a ca ix a preta e d eix a o
Ad u lto d a pes s oa es pia r s u a própria mente e ver como fu nciona : como
constrói sentenças, de qu e direção vêm su as imagens e qu e vozes dirigem
seu comportamento. F ed em foi o primeiro ps ica na lis ta , penso eu , a r eviver
esta tradição e a fazer u m estu do específico dos diálogos internos.

222
Q u a s e todos dis s era m " p a r a s i mes mo" a lgu ma vez: " V o c ê não
d evia ter feito i s to ! " e podem até ter notado que ele responde pa ra " s i
mes mo" : " M a s eu tinha que fa zer !" Neste ca s o é o P a i dizendo: " V ocê
não d evia ter feito i s to ! " e o Ad u lto ou a Criança retorqu indo: " M a s eu
tinha que fa zer !" Is to reprodu z a lgu m diálogo rea l d a infância. O que
está acontecendo realmente? E x is tem três " g r a u s " de diálogo interno
como este. N o primeiro gra u , a s pa la vra s pa s s a m p ela cabeça de Jeder de
u ma ma neira ob s cu ra , s em movimentos mu s cu la res ou , pelo menos, não
perceptíveis a olho n u ou a o ou vido. N o segu ndo grau ele pode sentir
seu s músculos voca is movendo- se ligeiramente, de modo a su ssu rrar p a -
r a s i , dentro de s u a b oca . São pequ enos movimentos ab ortivos d a língua.
N o terceiro gra u , ele pronu ncia as pa la vra s em voz alta. Isto pode ocor-
rer em certos estados de distúrbio, com a pessoa andando pela r u a e fa -
lando cons igo mes ma , enqu anto é a lvo d a cu rios ida de dos passantes,
como se fosse ma is u m " l o u c o " . Há também um. qu arto gra u , qu ando
u ma ou ou tra das vozes internas é ou vid a como se vies s e do exterior. E m
gera l, é a voz do P a i ( n a verdade a voz do p a i o u d a mãe) e cons titu i
alucinações. S u a Criança poderá, ou não, responder às vozes Pa renta is ,
mas em qu a lqu er ca s o atingem a lgu m aspecto do seu comportamento.
Pelo fato de a s pessoas qu e " fa l a m consigo mes ma s " serem con s i-
deradas lou ca s , qu ase todos têm u ma injunção contra o oiivir vozes em
su a cabeça. E s ta é u ma facu ldade qu e pode s er rapidamente recu perada,
se u ma permissão adequ ada for concedida . Então qu ase todos poderão
ou vir seu s diálogos internos, e es ta é u ma da s melhores maneiras de des-
cob rir os preceitos Pa renta is , o padrão Pa renta l e os controles do script:
U m a j ovem excita da sexu almente começou a reza r em s u a cabeça a
fim de ser ca pa z de resistir à sedução do^namorado. E l a se ou viu dirigida
pelo precçito Pa renta l: " S e j a u ma b oa men in a , e qu ando hou ver tenta-
ção, r eze" . U m homem envolveu - s e n u ma b riga de b a r e b rigou com he-
roísmo e ha b ilida de, derrotando o oponente. O u vi r a claramente a voz de
seu p a i dizendo: " N ã o telegrafe os seu s s ocos !" que er a o seu modo de
fazer a s cois a s : " E i s como se b r iga n u m b a r " . Também entrou n a b riga
por qu e a voz de s u a mãe dis s era provocativamente: " V o c ê é igu a lzinho
a s eu p a i, u m d ia va i arreb entar os dentes n u ma b riga de b a r " . N o mo-
mento crítico, u m especu lador d a b ols a de ações ou viu u m su ssu ro de-
moníaco dizendo: " N ã o venda , comp r e". E l e ab andonou s u a ca mpa nha
cu idadosamente planejada e perdeu todo o ca pita l: " H a h a " , disse ele.
A voz Pa renta l exerce o mesmo tipo de controle do ventríloquo.
D omin a o aparelho voca l d a pessoa e esta se fla gra dizendo pa la vra s que
provém de u m ou tro. A não ser que seu Ad u lto interfira , ela segue a s
instruções desta .voz, de modo que s u a Criança age exatamente como o
b oneco do ventríloquo. E s ta hab ilidade de a nu la r a própria vontade, s em
dar- se conta do qu e aconteceu , e d eixa r que alguém a s s u ma o controle
dos músculos voca is e ou tros, é qu e permite ao script ficar com a dire-
ção no momento apropriado.

223
O tratamento p a r a isto é ou vir a s vozes n a própria cabeça e d eixa r
o Adu lto decidir se seguirá a s instruções ou não. A s s i m , a pes s oa lib er-
ta- se do controle do ventríloquo Pa renta l, tornando- se o senhor de su as
próprias ações. P a r a cons egu i- lo, o indivíduo neces s ita de du as permis -
sões, qu e poderão s er dadas a s i mes mo, ma s qu e serão ma is efica zes se
vier em de ou tra pes s oa como, por exemplo, o terapeu ta.
1) Permissão p a r a ou vir s eu diálogo interno.
.2) Permissão pa ra não segu ir a s diretiva s de s eu P a i .
Há a lgu m risco neste empreendimento, e o indivíduo poderá neces -
sitar de proteção de alguém se ele ou s a r desob edecer às diretiva s Pa r en -
tais. A s s i m , u ma das tarefas do terapeuta é d a r proteção a seu s pa cientes ,
qu ando estes agem independentemente de seu s Pa is ventríloquos e ten-
tam s er pessoas rea is em vez de b onecos.
C omplementa ndo, enqu anto a s vozes Pa renta is d izem o qu e se po-
de ou não fa zer, são a s imagens d a Criança qu e d izem o qu e se des eja
fazer. D es ejos são vis u a is e diretiva s são a u ditiva s .

I . M a i s s o br e o d e m ó n i o

Todos os itens mencionados até agora ajudam a tornar o script possível, e a


maioria deles são questões que se encontram além da consciência da pessoa. Chega-
mos, agora, ao item-chave, que não só torna o script possível, mas da o empurrão
decis ivo. É o demónio qu e l eva Jeder, n u , sobre pa tins , morro a b a ixo,
pa ra a s u a destruição no momento em qu e está a ponto de alcançar o s u -
ces s o, antes qu e ele s a ib a o qu e lhe está acontecendo. M a s olhando p a r a
trás, mesmo qu e ele n u n ca tenha ou vido ou tras vozes em s u a cabeça, ge-
ralmente se lembrará de u ma , a voz do demónio, instigando- o irres is ti-
velmente: " V á em frente e fa ça !" É o qu e ele fa z, apesar de todas as
ou tras fórças qu e o a vis a m do perigo, tentando em vão trazê-lo de volta .
E s te é Daemon, o súbito empurrão sob renatu ral qu e determina o destino
de u ma pes s oa , u ma voz d a Idade do O u r o, inferior a os deu s es , ma s s u -
perior à hu ma nida de, ta lvez u m anjo caído. É isto qu e os historiadores
nos contam e, qu em sab e, tenham razão. P a r a Heráclito, o D a emon no
indivíduo er a o s eu caráter. M a s este D a emon , segu ndo os qu e o( a ) co-
nhecera m, aqu eles perdedores qu e estão recolhendo os seu s próprios
destroços depois de su as qu edas, fa la , não n u ma voz forte de comando
como o fantasma de u m deu s poderoso, ma s s im em s u s s u rros sedu tores,
como u ma mu lher convida ndo, s ens u a l: " V e n h a , faça. V á em frente. P or
que não? V ocê só tem tu do a perder, não é? M a s você terá a mim, como
já aconteceu n a Ida de do O u r o " .
E s ta é a compulsão d a repetição qu e l eva os homens à ruína, o po-
der d a morte, de acordo com F r eu d , ou o poder d a deu s a A n a n k e. M a s
isto está colocado em a lgu ma esfera b iológica mis terios a , qu ando n a
verdade é apenas a Voz d a sedução. Pergu nte ao homem ( ou à mu lher)
que tem u m e conhece o poder deste demónio.

224
O tratamento contra demónios sempre foi através de feitiços e
exorcis mos , e também o é a qu i, n es s a análise. To d o perdedor deveria
carregá-lo n a ca rteira o u n a b ols a , e toda vez qu e o su cesso es tiver à
vis ta , este é o momento do perigo. É a h or a de puxá-la p a r a fora e lê-la
em voz a lta repetidas vezes . Q u a ndo o demónio s u s s u rra r: " E s ti q u e s eu
braço, e ponha toda a b ola da n u m último número, tome só ma is u m trago;
a gora chegou a h or a de p u x a r a fa ca ; a ga rre- a ( ou o) pelo pescoço e p u -
xe- a ( o) p a r a s i " . Q u a lqu er qu e s eja o movimento perdedor, p u xe o braço
de volta e diga alto e em b om tom: " M a s mamãe, prefiro fazê- lo à min h a
moda e ga n h a r ".

J . A pe sso a re al

O invers o do script é a pes s oa r ea l viven d o n u m mu ndo rea l. E s ta


pes s oa é, prova velmente, o self real, aqu ele qu e pode pa s s a r de u m es ta -
do de ego pa ra ou tro. Q u a n d o a s pessoas chega m a conhecer- se b em,
elas penetram pelo script, atingindo a s profu ndezas onde o self real re-
side, e é es ta parte do ou tro qu e ela s a ma m e res peita m, e com a qu a l
podem ter momentos de intimidade rea l antes qu e a" programação Pa r en -
tal a s s u ma o controle novamente. Is to é possível, porqu e já aconteceu
antes n a vid a d a ma ior ia das pessoas n a relação ma is íntima e livr e do
script de todas: a d a mãe e s eu bebê. A mãe pode, em gera l, su spender o
seu script du rante o período de amamentação, se d eixa d a a os seu s pró-
prios instintos, e a criança a in d a não tem script.
Q u a nto a m i m , não s ei s e estou sendo dirigido a in d a por u m rolo
de música ou não. S e es tiver, es pero com interesse e expecta tiva - e s em
apreensão — pelo des enrola r d a s notas è su as melodia s e, depois dis s o,
p ela h a r mon ia e dissonância. P a r a onde ir ei depois ? Neste ca s o min h a
vid a tem sentido, pois estou segu indo a tradição lon ga e glorios a de
meu s a nces tra is qu e me foi pa s s a da p or meu s p a is , u ma música ta lvez
ma is doce do qu e a qu e eu próprio poderia compor. S e i qu e exis tem a m-
pla s áreas onde tenho a lib erdade de improvis a r. Pode até s er qu e eu s eja
u ma da s pou ca s pessoas de sorte sob re a face d a terra qu e se l ivr ou intei-
ramente da s amarras e cr ia a s u a própria melodia . N es te ca s o, s ou u m
improvis a dor corajoso, enfrentando o mu ndo s ozinho. M a s esteja eu fin -
gindo diante de u ma p ia n ola o u apertando a s tecla s c o m a força da s m i -
nha s próprias mãos e mente, a canção d a min h a vid a é igu almente emo-
cionante e p len a de s u rpres a s à medida qu e emite s ons n o vib ra nte tecla -
do do destino - u ma b a rca rola qu e deixará, de qu a lqu er ma n eir a , espero,
ecos felizes atrás de s i .

225
No t as e referências

1. Berne, E . Principies of Group Treatment. Loc. cit., p. 66f.


2. Harding, D . C . "Th e Face G ame". Transactional Analysis Bulletin 6:40-52,
abril, 1967.
3. C f. Spitz, R.A.No and Yes: On the Génesi s ofHuman Communication. Intçr-
national U niversity Press, New York, 1957. V er também Crossman, P„ "Po-
sition and Smiling". Transactional Analysis Bulletin 6:72-73, jiilho, 1967.
4. Para uma discussão mais detalhada da catexis livre ver Berne, E . Transactio-
nal Analysis in Psychotherapy. Loc. cit.
5. Rhine, J . B . Extra-Sensory Perception. B ru ce Humphries, Boston, 1962. C f.
Chuchman, C . W. "Perception and Deception", resenha do ESP: A Scientific
Evaluation de C . E . M. Hansel (Scribner, New York, 1966) in Scien-
ce 153:1088-1090, setembro 2, 1966, e os interessantes cálculos de coinci-
dência de pensamento" de L . W. Alvarez in " A Pseudo Experience in Paraps-
ychology",/Wd. 148:154l,jfcjunho 18, 1965
6. Berne, E . "Intuition V I : Th e Psychodynamics óf Intuition". Psychiatric
Quarterly 36:294- 300, 1962.
7. Berne, E . A Layman f s Guide to Psychiatry and Psychoanalysis. Loc. cit. 3 ed.,
Apêndice: "B eyond Science".
8. Fifty Years ofPsychic Research.
9. McKenzie, D . Ar òmat i cs and the Soul. Paul B . Hoeber, New York, 1923. Para
uma análise da anatomia e fisiologia do olfato em insetos, Ver Schneider, D .
"Insect Olfaction: Deciphering System".
10. Este é um fato bastante conhecido da biologia dos coelhos.
11. Schneider, D . e Seibt, U . " S ex Pheromone of the Queen B u tterfly". Scien-
ce 164:1173-74, junho 6,1969.
12. Lu ce, G . G . e Segal, J . Sleep. Coward- MacCann, Inc. New York, 1967.
13. No momento isto é apenas uma hipótese interessante a partir da minha própria
observação, e não tenho condições de dar qualquer prova convincente para
validá :la. Compare, entretanto, Kales, et al. "Psychophysiological and B io-
chemical Changes Foliowing U se and Withdrawal of Hypnotics". I n Sleep:
Physiology and Pathology (A. Kales, ed.) J . B . Lippincott & Company, Phila-
delphia, 1969. Também Ru b in, R. T . e Mandell, A . J . "Adrenal Cortical Acti-
vity in Pathological Emotional States". American Journal of Psychiatry
123:387-400, 1966. E outros.
14. Osler, W. Aequanlmitas and Other Papers. W. W. Norton & Company, New
York, 1963.
15. Berne, E . "The Mithology ofDark and Fair". Loc. cit.

226
15. A transmissão do script

A . A m at ri z d o script

A ma triz do script é u m dia gra ma designado p a r a ilu strar e a na lis a r


as diretiva s fornecidas pelos pa is e avós à geração presente. U m número
enorme de informações pode s er condensado nes ta figu ra bastante s im-
ples . F or a m desenhadas ma trizes de script p a r a a lgu ns dos ca s os apre-
sentados n os Capítulos 6 e 7 ( Figu r a s 6, 8 e 9 ) , com a precisão permitida
pelas informações disponíveis.
N a prática, o prob lema é dis tingu ir a s diretiva s Pa renta is decis iva s
e os padrões de comportamento decis ivos , o tema do script, do "r u íd o"
ou confusão de fa cha da , o qu e é du plamente difícil, pois não só a pró-
p r ia pes s oa , ma s todos à s u a volta contrib u em o qu anto podem p a r a es ta
confusão. Is to tende a ocu lta r os ca minhos qu e l eva m a o desfecho d o
script, o fin a l feliz ou trágico qu e n a lingu a gem dos b iólogos 1 é a " e n -
cenação f i n a l " . E m ou tras p a la vr a s , a s pessoas fa zem enormes sacrifí-
cios p a r a ocu lta r seu s scripts de s i mesmas e dos ou tros. Is to é na tu ra l.
Volta ndo a u ma metáfora anterior, u m homem sentado diante de u ma
pia nola e movendo seu s dedos n a ilusão de estar tocando ele próprio a
música, não deseja qu e ninguém lh e diga p a r a olha r dentro do pia no, e a
platéia qu e está apreciando o espetáculo também não deseja.
S teiner, qu e foi o cria dor d a ma triz d o scrip?, segue o esqu ema
origina l proposto pelo au tor, qu e p r econ iza qu e é o progenitor do s exo
oposto qu e d iz à criança o qu e fazer, enqu anto o progenitor do mesmo
s exo mos tra como fazê- lo ( cf. B u tch ) . S teiner d eu a lgu ma s contribuições
importantes a este es qu ema básico. Avançou mu ito ma is a o es pecifica r o
qu e ca d a u m dos estados de ego dos progenitores fa z. Pos tu la qu e é a
Criança d o progenitor qu e fornece à criança o ,seu " p r og r a ma " (qu e
também cha ma mos de padrão). T r a z u m n ovo elemento, o contra-script,
originário do P a i d o progenitor. A versão d a ma triz de S teiner d er iva
principa lmente, de s eu trab alho c o m alcoólatras, vicia d os ' em drogas e
"s ociop a ta s ". Tod os estes têm scripts de terceiro gr a u , du ros e trágicos
(o qu e ele denomina de scripts "hamárticos"). S u a ma triz, portanto, l id a
com injunções du ra s vin d a s de u ma "Criança l o u c a " , ma s pode s er ex -
pa ndida , inclu indo seduções e provocações, além da s injunções qu e p a -
recem v i r do P a i d o progenitor, em vez de vi r d a Criança lou ca d o mes -
mo ( cf. a ma triz de B u tc h , F ig u r a 6).
E mb or a exis ta m várias questões a serem es cla recida s à lu z do acú-
mu lo de experiência, o es qu ema apresentado n a F ig u r a 8 foi aceito p or
mu itos como u m modelo provisório, e certamente, é va lios o no trab alho
clínico, como também nos estu dos antropológicos, .sociológicos e de de-
s envolvimento, como será demonstrado a segu ir. E s t a matriz- "padrão"

227
in d ica a s injunções e provocações originárias d a Criança dos progenito-
re s, m ai s c o m um e nt e do pro ge ni t o r do se x o o po st o . S e i st o mostrar- se
u nivers a lmente válido, será u ma descob erta cr u cia l no qu e d iz respeito
ao destino hu ma no e à transmissão deste destino de u ma geração p a r a
ou tra. O pripeípio ma is importante d a teoria do script poderia , então, ser
postu lado como segu e: " A Criança do progenitor forma o P a i d a C r i a n -
ça " ou " O P a i d a Criança é a Criança do P a i " 3 . Is to pode ser facilmente
compreendido c o m o auxílio do dia gra ma , lemb rando qu e "C ria nça " e
" P a i " com letras maiúsculas referem- se a os estados de ego n a cabeça,
enqu anto " p a i " e "cria nça " com letra minúscula referem- se a pessoas
de fato.
U m a ma triz de scripts em b ra nco, como apresenta n a F ig u r a 14,
pode s er desenhada n u m qu adro- negro e u tiliza d a convenientemente d u -
rante reuniões de tratamento de gru po e n o ens ino d a teoria do script.
Aor a na lis a r u m ca s o in d ivid u a l, os pa is são rotu lados primeiro de acordo
com o s exo do paciente, e então slogans, padrões, injunções e provoca -
ções podem s er indica da s com o giz a o longo da s flecha s . Is to propor-
cion a u ma representação vis u a l cl a r a da s transações decis iva s do script,
resu ltando n u m dia gra ma semelhante às Figu r a s 6, B e 9 . C o m a a ju da de
ta l recu rs o perceb e- se logo qu e a ma triz do script d iz cois a s qu e n u n ca
fora m ditas antes.
A s pessoas com scripts b ons poderão interessar- se pela análise do
script apenas do ponto de vis ta académico, a não s er qu e pretendam s er
terapeu tas. C o m os pacientes, entretanto, p a r a levá- los a sentirem- se
b em, é necessário dis s eca r a s diretiva s d a forma ma is p u r a possível, e o
desenho de u ma ma triz de script precis a cons titu i u m instru mento útil
p a r a pla neja r o tratamento.
A ma neira ma is provável de ob ter informação pa ra preencher a
ma triz do script é fazer a s segu intes qu atro pergu ntas ào paciente:

X) Q u a l er a o slogan ou preceito favorito de s eu s progenitores?


Is to dará a cha ve do antiscript;
2 ) Q u e tipo de vid a leva va m seu s progenitores? E s ta será melhor
res pondida através de u ma longa associação com o paciente.
Tu d o qu e seu s pa is lh e ens ina ra m ele fará sempre, e o padrão
fornecerá s eu caráter s ocia l ha b itu a l: " E l e b eb e d ema is " , " E l a é
u ma garota sexy";
3 ) Q u a l é a s u a proibição Pa renta l? E s ta é a pergu nta ma is impor-
tante p a r a compreender o comportamento do paciente e pa ra
planejar a intervenção d ecis iva qu e o liberará p a r a viver ma is
plenamente. S endo qu e estes sintomas são u m su b stitu to pa ra o
ato proib ido, como também u m protesto contra ele, como foi
demonstrado por F r eu d , o lib ertar- se d a proibição tenderá a c u -
rar os seu s sintomas. É necessário experiência e perspicácia p a -
r a extra ir a injunção parental d ecis iva do "ru ído de fu n d o" . A s
pistas ma is confiáveis são oferecidas pela qu a rta pergu nta.

228
4 ) " O qu e tinha você qu e fa zer p a r a qu e seu s p a is s orris s em ou f i -
ca s s em s a tis feitos ?" Is to dá a provocação, qu e é a a lterna tiva
p a r a o comportamento proib ido.
S teiner a credita qu e a proibição n o ca s o do " a l cool is mo" é " N ã o
p en s e!" e qu e b eb er exces s iva mente é u m progra ma p a r a não p en s a r 4 . A
ausência de pensamento é demonstrada n a s b analidades etílicas comu ns
entre joga dores "alcoólatras" e seu s simpatizantes e, a inda ma is , por
aqu eles qu e são impingidos mu tu amente n o gru po "alcoólatra" de tera-
p ia 5 . O qu e d izem é qu e "alcoólatras" não são pessoas r ea is , e não deve-
r ia m s er tratados como ta l , o qu e não é verdade. A heróina é mu ito ma is
s inis tra e vi c i a ma is do qu e o álcool, e S yn a mon p r ovou con clu s iva -
mente qu e vicia d os em heróina são pessoas rea is . A pes s oa real emerge,
em amb os os ca s os , depois qu e o vicia d o elimin a a s vozes sedu toras em
s u a cabeça, vozes qu e o pres s iona m a leva r o hábito à frente, reforçado
no momento adequ ado pela necessidade física. Pa rece qu e tra nqu iliza ntes e
fenotiazinas são efica zes porqu e s u primem, em parte, a s vozes Pa renta is
qu e mantém a Criança agitada ou confu s a c o m seu s " N ã o s " e " h a h a s " .
E m resumo, o qu e é necessário preencher n a ma triz em b ra nco d a
F ig u r a 14 p a r a qu e s e assemelhe às já preenchida s , como na s Figu r a s 6,
8 e 9 , é a Prescrição ou Inspiração ( P I ) , u m Padrão ou Progra ma de In s -
trução ( A I ) e a Proib ição Pa r en ta l ou Injunção ( C l ) , ju nta mente com
qu a is qu er Provocações ( C P ) qu e pos s a m s er cons egu ida s .

Fig. 14 - U ma matriz do script

A s diretiva s de script ma is poderosas são dadas du rante o dra ma


fa milia r (Capítulo 3 ) , qu e e m a lgu ns aspectos reforça o qu e os pa is vêm
dizendo e e m ou tros demónstra qu e eles são impostores hipócritas. São
estas cena s qíie tra zem p a r a ca s a d a forma ma is pu ngente o qu e os pa is

229
desejam qu e a criança a prenda a respeito de s eu script. É precis o lem-
b ra r qu e pal av ras di t as e m v o z al t a têm o mesmo efeito profu ndo e d u -
radou ro d a a s s im cha ma da "comunicação não- verb al" 6 .

B . A parada f am i li ar

A s ma trizes de script dos Capítulos 6 e 7 mos tra m como os ele-


mentos principa is do aparato do script - os preceitos Pa renta is , os p a -
drões Ad u ltos e os controles do script d a Criança - fora m transmitidos
p ela dois progenitores pa ra seu s filhos . A F ig u r a 7 mostra e m detalhe
como o elemento ma is importante, a injunção, é tra ns mitida a Jeder de
u m dos seu s progenitores, em gera l o do s exo oposto. Tu d o isto é u ma
b oa preparação p a r a estu dar a F ig u r a 15, qu e mos tra como u ma injunção
pode ser tra ns mitida de u ma geração p a r a ou tra. U m a série como es ta é
denominada de " p a r a d a fa mil ia r " . A q u i , cin co gerações são ligadas pela
mes ma injunção.
A situação apresentada n a F ig u r a 15 não é n a d a incomu m. A p a -
ciente ou viu ou v i u como s u a avó er a u ma perdedora; el a sab e mu ito
b em qu e s eu p a i é u m perdedor; el a própria está em tratamento porqu e é
perdedora; s eu filho frequ enta a clínica p or s er perdedor, e s u a neta já
mos tra n a es cola s in a is de qu e será também perdedora. Ta n to a paciente
como o terapeu ta sab em qu e esta ca deia de cin co gerações tem qu e s er
qu eb rada e m a lgu m ponto, ou poderá continu a r indefinidamente p or
ma is gerações. E s te é u m b om incentivo p a r a a paciente fica r b em, * pois
se o fizer poderá retirar s u a injunção p a r a s eu filho, que el a , p r ova vel-
mente, está reforçando, s em dar- se conta , toda vez qu e o encontra. Is to
facilitará mu ito a melhora dele, o qu e terá u m efeito benéfico p a r a o f u -
tu ro de s u a neta e, pres u mivelmente, p a r a os filhos d ela também.
U m dos efeitos do casamento é a diluição da s injunções e provoca -
ções, u ma vez qu e ma rido e mu lher vêm c o m formação diferente e darão
diretiva s diferentes p a r a seu s filhos . N a verdade, os resu ltados são s e-
melhantes a o qu e acontece com seu s gens. S e u m vencedor ca s a - s e com
ou tro vencedor (como tendem a fa zer os vencedores ), seu s filhos pode-
rão s er ma is vencedores a inda . S e u m perdedor ca s a - s e com ou tro perde-
dor (como tendem a fa zer os perdedores), seu s filhos poderão s er a in d a
ma is perdedores. S e hou ver u ma mis tu r a , o resu ltado será mis to, ha ven-
do sempre a possib ilidade de u ma reversão em qu alqu er dos sentidos.

* Através da parada familiar é possível remontar à origem dos jogos e do script de uma paciente
(cuja bisavó v iv eu até uma idade avançada com sua memória intacta) até as guerras napoleóni-
cas, e projetá-los através de seus netos até o ano 2000.

230
Fig. 1 5 - U m desfile de fwaíha

C . A t ransm i ssão c u l t u r a l

A F ig u r a 16 ilu s tra a trasmissão dos preceitos , padrões e controles


no decorrer de cin co gerações. N es te ca s o temos a sorte de dis por de i n -
formações sobre u m script " b o m " ou vencedor, em vez de u m script
" m a u " ou perdedor. E s te pla no de vid a pode s er cha ma do de " M e u f i -
lho, o d ou tor ", e tomamos como exemp lo a história d o médico feiticeiro
hereditário de u ma pequ ena vi l a na s florestas dos M a r es do S u l :
Começamos c o m u m p a i e u ma mãe. O p a i, d a geração 5 , n a s ceu
em ma is ou menos 1860 e ca s ou - s e c o m a fil h a de u m chefe. O filh o de-
les , geração 4 , n a s ceu em 1885 e fez o mes mo. O filho, geração 3 , n a s -
ceu e m 1910 e s egu iu o mes mo script. S e u filh o, geração 2 , n a s ceu e m
1935, e s egu iu u m padrão ligeiramente diferente. E m vez de tornar- se
u m médico feiticeiro hereditário, foi p a r a a es cola de med icin a em S u va ;
F i j i , e tornou - se o qu e então er a conhecido como assistente médico na ti-
vo. Tamb ém ele ca s ou - s e com a fil h a de u m chefe e s eu filho, geração 1 ,
na s cido em 1960, pla neja s egu ir os pa s s os do p a i, exceto qu e, devido
aos des envolvimentos históricos, ele será cha ma do de oficia l médico a s -
sistente, ou poderá até mes mo i r a Lon d r es e tornar- se u m médico d i -
plomado. A ca d a geração o filh o torna- se p a i ( P ) e s u a es pos a torna- se a
mãe ( M ) .
231
C a d a p a i e mãe dão o mesmo preceito ou inspiração do P a i deles
p a r a o P a i do filho: " S e j a u m b om médico". O Ad u lto do p a i transmite
p a r a o Ad u lto do filh o os segredos d a profissão qu e, na tu ra lmente, não
são conhecidos peja mãe. M a s a mãe sab e o qu e des eja qu e s eu filho fa -
ça. D e fato, el a sab e desde mu ito cedo qu e qu ereria qu e s eu filho fosse
ou chefe ou médico feiticeiro. U m a vez qu e ele será este último, el a
transmite d a Criança d ela p a r a a Criança dele ( d a s u a decisão precoce de
infância p a r a ele n os seu s primeiros a nos de vid a ) a provocação b ene-
volente: " S e j a u m vencédor como médico feiticeir o".

Neste ca s o ( F ig u r a 1 6 ) , a pa ra da fa milia r d a F ig u r a 15 é apresenta-


d a de u m a for ma ma is completa . Pode- se ob s erva r qu e os preceitos e o
p r ogr a ma de instrução do p a i forma m du a s linha s pa ra lela s , descendo em
lin h a direta pela s gerações desde 1860 até 1960. A s injunções e precei-
tos d a mãe " N ã o f a l h e " também são pa ra lela s e entra m lateralmente a
ca d a geração. Is to mos tra claramente a transmissão d a " c u l t u r a " n u m pe-
ríodo de cem a nos . D ia gr a ma s s imila res podem s er desenhados p a r a
qu a lqu er elemento d a " c u l t u r a " ou qu a lqu er " p a p e l " n a sociedade trib a l.
N u ma pa ra da fa milia r de filha s , cu jos papéis poderão s er "mães de

232
médicos feiticeiros b em- s u ced id os ", o dia gra ma se apresentaria d a mes -
ma forma , exceto qu e M s e P s troca ria m de lu ga r n u ma a ldeia onde tios
e sogras constituíssem influências importantes nos scripts da s crianças; o
dia gra ma poderia s er ma is complica do, ma s o princípio s eria o mesmo.
Copvém notar qu e nes ta pa ra da de vencedores os scripts e anti-
scripts coincidem, o qu e é a melhor ma n eir a de garantir u m vencedor.
M a s se a mãe 3 , por exemplo, fosse por a ca s o a filh a de u m chefe a lco-
ólatra, poderia ter dado a s eu filh o u ma injunção má de script. Neste,
ca s o h a ver ia prob lema , pois s u rgiria u m conflito entre o script e o
anti-script dele. E n qu a n to o P a i dela d ir ia a ele p a r a s er b om médico
feiticeiro, a Criança d ela poderia demonstrar fascinação e jú b ilo qu ando
contasse a o menino histórias a respeito d a estu pidez e da s façanhas etíli-
ca s de s eu avô. Então ele poderia cons egu ir s er exp u ls o d a es cola de
medicina p or emb riagu ez, e pa s s a r o resto de s u a vid a joga ndo "a lcoó-
l a tr a " , com s eu p a i fru strado joga ndo " P er s eg u id or " e s u a mãe nostálgi-
c a no pa pel de " S a l v a d o r " * .

D . A influ ência d o s a vós

A parte ma is comp lexa d a análise do script n a prática clínica é r e-


montar à influência dos avós. Is to é apresentado n a F ig u r a 17, qu e é u ma
versão ma is detalhada d a F ig u r a 7. A í pode- se ver qu e o P C d a mãe está
s u b - dividido e m du a s partes, P P C e M P C . P P C representa a influência
do p a i d ela qu ando er a b em pequ ena (o Progenitor P a i n a Criança dela ),
e M P C representa a influência d a s u a mãe ( a Progenitora Mãe n a s u a
Criança). E s ta sub-divisão poderá parecer complica da e pou co prática, à
primeira vis ta , ma s não o é p a r a qu alqu er u m qu e esteja acostu mado a
pensar em termos de estados de ego. Por exemplo, não l eva mu ito tempo
pa ra os pacientes aprenderem a dis tingu ir entre P P C e M P C neles pró-
prios . " Q u a n d o eu er a pequ ena meu p a i gos ta va de me fa zer chora r e
min h a mãe vestia- me de forma s en s u a l " , dis s e u m a prostitu ta lin d a e
choros a . " M e u p a i qu eria qu e eu fosse inteligente e min h a mãe gostava
de ca pricha r n a min h a r o u p a " , disse u ma psicóloga inteligente e b em-
ves tida . " M e u p a i d izia qu e a s menina s não s er via m p a r a na da , e mamãe
me ves tia como u m molequ e", dis s e u m a beatnik amedrontada com r ou -
pas ma s cu liniza da s . C a d a u ma destas mu lheres s a b ia mu ito b em qu ando
s eu comportamento er a orientado pelas influências precoces de s eu p a i
( P P C ) ou de sua^nãe ( M P C ) . Q u a ndo são choros a s , inteligentes ou me-
dros a s , o estão sendo p a r a o p a i, e qu ando têm aparência s ens u a l, estão
b em- vestidas ou ma s cu liniza da s , estão segu indo as instruções d a mãe.
Lemb r a n d o a gora a tendência de os controles originarem- se do

* Na verdade a parada familiar acima descrita está baseada, em parte, em material antropológi-
co e histórico e, em parte, em árvores genealógicas de alguns médicos americanos.

233
progenitor do s exo oposto, P P C n a mãe é o eletrodo dela e M P C n o p a i
é o dele ( F ig u r a 10) . A s s i m , os comandos do script d a mãe p a r a Jed er
vêm do p a i d ela e, portanto, pode- se dizer qu e " a programação do script
de Jeder vem d o avô ma ter n o" 3 . O s comandos do p a i p a r a Z oé vêm de
s u a mãe, portanto, a programação do script de Z oé vem d a s u a avó p a -
terna. O eletrodo, então, é a mãe (a vô) n a cabeça de Jeder e, n o ca s o de
Z oé, o p a i ( a vó) n a s u a cabeça 4 . Ap lica n d o isto nos três ca s os a cima , a
avó d a prostitu ta casou - se e separou - se de vários maridos ma u s , a a vó d a
psicóloga er a u ma es critora fa mos a e a avó d a adolescente er a u ma b a -
talhadora dos direitos d a mu lher.
A g or a pode- se entender por qu e a pa ra da fa milia r diagramada n a
F ig u r a 15 a lterna va a s gerações entre os s exos — a vó, p a i, paciente femi-
n in o, filho, neta. A F ig u r a 16, por ou tro la do, ilu s tra como u m dia gra ma
deste tipo pode s er ajustado p a r a segu ir diretamente a lin h a , s eja dos
descendentes ma s cu lin os , s eja dos femininos . É exatamente p or ca u s a
deste tipo de vers a tilida de qu e o dia gra ma d a ma triz do script é u m in s -
tru mento tão va lios o. P os s u i propriedades qu e n em mesmo s eu cria dor
su speitava. A q u i oferece u m método s implifica do p a r a aju dar a compre-
ender assu ntos tão complexos como histórias de família, transmissão de
cu ltu r a e influência psicológica dos avós.
Criança da máe Criança do pai

Criança de ô ou $
Fig. 17 - Transmissão dos avós

E . O e xc e sso de script

Há dois requ isitos p a r a a transmissão do script. Jeder tem qu e ter a


capacidade e estar disposto e até ansioso p or aceitá- lo, e seu s progeni-
tores d evem desejar passá-lo adiante.

234
D a parte de Jeder este é ca pa z, porqu e s eu s is tema nervos o foi
construído com o propósito de ser programado, de receb er estímulos
sensoriais e s ocia is , e organizá-los em padrões qu e regularão o s eu com-
portamento. A medida qu e s eu corpo e s u a mente a ma du recem, esta
prontidão é ca d a vez maior p a r a tipos de programação ca da vez ma is
complexos . E ele está disposto a aceitar a programação porqu e neces s ita
de formas de estru tu rar seu tempo e orga niza r su as a tivida des . N a ver d a -
de, ele não só está disposto, ma s também a ns ios o, pois é ma is do qu e u m
compu tador p a s s ivo. C omo a ma ior ia dos a nima is , tem fome de " c l a u s u -
r a " , necessidade de terminar o qu e começou e, além dis s o, pos s u i a
grande aspiração h u ma n a por u m propósito.
Começando com movimentos a o a ca s o, termina sab endo o qu e d i -
zer depois de dizer Olá. D e início contenta- se com respostas ins tru men-
ta is , e estas se toma m u m fim e m s i mes ma s : incorporação, eliminação,
intrusão e locomoção, p a r a u s a r os termos de E r ik s on . A q u i encontramos
o còmeço d a ha b ilida de Ad u lta , o pra zer n a ação e a s u a conclusão b em-
su cedida: leva r com segurança a comida d a colher pa ra a b oca , ca minha r
por s i só pelo chão. Inicia lmente, s u a meta é andar, depois andar até u m
determinado lu gar. Q u a ndo ca min h a em direção às pes s oa s , tem qu e s a -
b er o qu e fará qu ando chegar lá. D e início, a s pessoas s orriem e abraçam
a criança, e tudo que esta tem qu e fazer é estar ou , no máximo, a ninha r-
se. N ã o se espera dela na da ma is do qu e chegar lá. D epois pa s s a m a es -
perar algo, e a s s im a criança aprende a dizer Olá. Pa s s a do u m certo tem-
po, isto d eix a de s er su ficiente e a s pessoas exigem ma is dela . Então esta
aprende a oferecer- lhes vários estímulos pa ra poder obter respostas.
D es ta forma a criança fica eternamente a gra decida (acredite ou não) a
seu s pa is por estes lhe da rem u m padrão: como ab ordar a s pessoas p a r a
obter a resposta desejada. Is to cons titu i a fome de estru tu ra, de padrão e,
a longo pra zo, de script. Portanto, o script é aceito porqu e Jeder tem
fome dele.
D o ponto de vis ta dos p a is , estes têm ca pa cida de, estão prontos e
dispostos em função do qu e foi construído neles através de eras de evo-
lução: u m desejo de nu trir, proteger e ens ina r seu s descendentes, desejo
este qu e só poderá ser su primido por forças interiores e exteriores ma is
poderosas. Além dis s o, se os pa is es tiverem adequadamente equ ipados
com u m script, não só estarão dispostos, ma s também a ns ios os , e ob te-
rão u ma grande satisfação em cr ia r seu s filhos.
A l g u n s p a is , entretanto, ficam exces s iva mente a ns ios os . C r ia r fi-
lhos p a r a eles não é n em u ma obrigação n em u ma a legria , ma s s im u ma
compulsão. S u a necessidade de passar adiante preceitos, padrões e con -
troles v a i mu ito além da s necessidades d a criança por esta programação
Pa renta l. Is to é a s s u nto b astante comp lexo, podendo s er d ivid id o, a gros-
so modo, em três aspectos: 1) U m desejo de imortalidade. 2 ) A s exigên-
cia s dos scripts dos progenitores, , qu e podem va r ia r desde " N ã o faça
qu alqu er er r o" , até " E s tr a g u e seu s filhos". 3 ) O desejo dos pa is de
livra rem- s e dos controles de s eu próprio script, passando- o p a r a ou tro,

235
pa ra poder livr a r - s e dele. É cla ro qu e esta extrajeção não fu nciona e, por
is s o, es ta tentativa tem qu e s er feita continu adamente.
E s tes assaltos contínuos à psiqu e d a criança são b em conhecidos
dos psiqu istras infa ntis e dos médicos d a família, qu e u tiliza m várias de-
nominações. D o ponto de vis ta do a na lis ta do script, são u ma forma de
"script excçs s ivo", e o exces s o de diretiva s com o qu a l sob recarregam a
criança, enfastiando- a mu ito além dos desejos dé s u a fome de script, po-
de s er cha ma do de episcript ou script em exces s o. E m gera l, s u a reação
será de afastá-los através de a lgu ma forma de repúdio, ma s poderá segu ir
a política dos pa is e tentar passá-los pa ra alguém outro. Por esta razão, o
episcript foi descrito por F a n ita E n g l i s h 7 como u ma "b a ta ta qu en te", e
as contínuas tentativas de passá-la de u m lado p a r a ou tro fora m denomi-
nadas de "jogo d a b atata qu en te". C omo res s a lta a au tora em s eu artigo
origina l sobre o assu nto, todos os tipos de pessoas fa zem este jogo, i n -
clu s ive os terapeu tas, e e l a dá o exemplo de J oe, estudante de ps icolo-
gia , cu jo desfecho do script vem de s u a mãe: " V á pa ra u m hospício".
D es ta ma neira ele tinha por hábito es colher pa ra su as intervenções tera-
pêuticas canhestras pessoas qu e eram b ons candidatos ao hospital públi-
co e cons egu ia ajudá-los a encontra r o ca minho. Felizmente, o s eu
s u pervis or ob s ervou o seu sorriso de script ca d a vez qu e u m de seu s
pacientes es ta va à b eira de u ma cris e e colocou u m ponto fin a l no proces-
so, persu adindo- o a ab andonar a ps icologia , entrar n u ma ca rreira comer-
cia l e fazer terapia. O desfecho do s eu script er a u m episcript ou "b a ta ta
qu en te" de s u a mãe, qu e pa s s ou a vid a tentando "perma necer longe do
hos pício", como d izia frequentemente. Receb eu a diretiva de u m dos
seu s progenitores de fica r tra nca da n u m hospício e tentou livra r- s e dela
passando- a a Joe qu e, por s u a vez, p r ocu r a va passá-la a seu s pacientes.
D es ta ma neira os pa is transmitem- o script como parte d a atividade
norma l dos pa is de nu trir, proteger e encorajar seu s filhos , mostrando a
eles , d a melhor forma qu e s u a s hab ilidades permitem, como viver a vid a .
O exces s o de script tem várias ca u s a s . A ma is patológica delas é a ten-
ta tiva de livr a r - s e u m episcript, passando- o p a r a u m dos filhos. O epis -
crit, em es pecia l se for trágico ou "hamártico", torna- se u ma "b a ta ta
qu en te" qu e ninguém qu er segu rar. C omo mos tra E n g l is h , é o Professor,
o Ad u lto d a Criança, qu e d iz: " Q u e m p r ecis a d is to?" e decide qu e pode
livra r- s e dele, como u ma maldição do conto de fa da s , passando- o p a r a
ou tro.

F . A c o m bi n aç ão d e d i r e t i v a s d o script

A medida qu e pa s s a m os anos e o script adapta- se pela experiên-


cia , os controles, padrões e prescrições comb inam- se de modo a tornar
difícil dis tingu i- los no comportamento d a pessoa e n a determinação do
" ca min h o comu m final". E s te adota u m programa ou rotina qu e fa z u ma

236
síntese de todos. O s desfechos do script ma is importantes ocorrem sob a
forma de u m "espetáculo f i n a l " . S e for u m des fecho r u im, seu s elemen-
tos poderão s er aparentes p a r a u m ob servador experimenta do, como n o
caso de ps icos e, delirium tremens, acidente de automóvel, suicídio o u
assassinato. C o m desfechos bóns fica ma is difícil dis s eca r a s diretiva s ,
em parte porqu e, nestes ca s os , exis tem, geralmente, permissões exten s i-
va s concedida s pelos p a is , qu e poderão ob s cu recer a s diretiva s .
C ons ideremos o segu inte romance d a vid a r ea l, retirado d a seção
de notícias de u m j or n a l de u ma pequ ena cida de:

História romântica na fcondia X

Há cinquenta anos um soldado australiano foi para a Inglaterra


para servir na Primeira Guerra Mundial. Chamava-se John X, e
ele conheceu e casou-se com Jane Y. Quando a guerra terminou
eles foram viver na América. Vinte e cinco anos mais tarde seus
três filhos estavam passando férias na Inglaterra. Tom X, o filho,
casou-se com Mary Z de Great Snoring, Norfolk, e suas duas ir-
mãs casaram-se com ingleses. Neste outono a filha de Tom e Mary
X, Jane, que passou as férias em Great Snoring com a tia, anun-
ciou seu noivado com Harry J , também de Greàt Snoring. Jane
graduou-se no colégio local. Depois do seu casamento o casal
planeja viver na Austrália.

É u m exercício interessante tentar dis s eca r os prováveis prfeceitos,


controles e permissões qu e fora m passados de J oh n X e s u a mu lher Ja n e,
através de T o m e M a r y, p a r a s u a neta Ja n e.
É precis o notar qu e a programação do script é u m acontecimento
na tu ra l, como o cres cimento da s er va s da ninha s e da s flores , e acontece
independente d a mor a l ou da s consequências. À s vezes script e antis-
çript comb ina m- s e com resu ltados os ma is ca la mitos os . A s diretiva s P a -
rentais poderão da r à Criança licença p a r a infligir enormes danos às ou -
tras pessoas. His torica mente, tais combinações trágicas dera m origem
à líderes de gu erra s , cru za da s e ma s s a cres , e n u m "nível in d ivid u a l, a a s -
sassinatos políticos. O P a i d a Mã e d iz " S e j a b o m ! " e " S e j a fa mos o!"
enqu anto s u a Criança direciona : " M a te todo o m u n d o ! " O Ad u lto do P a i
mos tra a o menino como matar a s pes s oa s , ens ina ndo- o a ma neja r a rma s ,
em países civiliza d os , e p u n h a is , em países não- civilizados.
A ma ior ia da s pessoas p a s s a s u a vid a confortavelmente en volvid a
n a ma triz de s eu script. É como u ma ca ma qu e os pa is prepa ra ra m p a r a
eles , à qu a l a diciona m a lgu ns arranjos s eu s . Poderá ter percevejos e s er
desconfortável, ma s é s u a e está a cos tu ma da a e l a desde os primeiros
anos de vid a e, p o r is s o, pou ca s pessoas estão dispostas a trocá-la por
a lgo melhor e ma is aju stado às circunstâncias. M a tr iz s ign ifica em la tim
ventre materno, e o script é a cois a ma is próxima e confortável a o s eu
a lca nce depois qu e d eixa r a m p a r a sempre o ventre legítimo. P a r a os qu e

237
decidira m ca minha r p or conta própria e d izem "Ma mã e, prefirp fa zer do
meu j e i to " exis tem várias pos s ib ilida des . S e tiverem sorte, a própria mãe
poderá ter incluído a lgu ma liberação ou qu eb ra- encanto n a ma triz, e
neste ca s o poderão ca minha r por s i. O u tr a a lterna tiva é a a ju da de a mi-
gos, de pessoas chegadas e d a própria vid a , o qu e é ra ro. A terceira ma -
neira é através d a análise competente do script, qu e fornecerá permissão
pa ra encena rem o s eu próprio espetáculo.

G . Sum ár i o

A ma triz do script é u m dia gra ma cria do p a r a ilu strar e a na lis a r as


diretiva s dadas pelos pa is e avós d a presente geração. E s ta s determina-
rão, a longo pra zo, o pla no de vid a d a pes s oa e s eu desfecho fin a l. A i n -
formação atu al in d ica qu e os controles ma is decis ivos provêm do estado
de ego Criança do progenitor do s exo oposto. O estado de ego Ad u lto
do progenitor do mesmo s exo dá o padrão qu e determina seu s interesses
e a trajetória de vid a n a medida em qu e a pes s oa cu mpre s eu pla no de
vid a . E n qu a n to isto os progrenitores, através de seu s estados de ego P a -
renta is , fornecem prescrições, inspirações ou slogans qu e estab elecem
seu contra-script. E s te ocu pa os momentos de ca lma r ia n a movimenta -
ção qu e l eva o script adiante. S e fizer os movimentos apropriados, po-
derá a s s u mir o controle e s u primir o script. A tab ela a segu ir (originária
das descob ertas de S tein er 4 ) ilu stra estes elementos no ca s o de u m ho-
mem com u m script de ego do protagonista qu e receb e, e os ou tros, o ti -
po de diretiva . A s du as últimas colu na s são a u to- explica tiva s .

Criança da Mãe ( C ) Injunções e Script "Não pense, beba"


Provocações
Adulto do Pai ( A ) Programa (Padrão) Trajetória de vida "B eb a e trabalhe"
Ambos os Pais (P) Prescrições Contra-script "Trab alhe du ro"
(slogans)

M es mo qu e a s origens ( ma s prova velmente não a s inserções) da s


diretiva s do script va r iem e m ca s os in d ivid u a is , apesar disto a ma triz do
script permanece como u m dos diagramas ma is úteis e irrefutáveis d a
história d a ciência, condens a ndo, como fa z, todo o pla no d a vid a h u ma -
n a e s eu destino último em u m desenho simples e facilmente compreen-
sível e analisável, indica ndo também como é possível alterá-lo.

H . A r e sp o n sabi l i d ad e d o s p ai s

O slogan dinâmico d a análise tra ns a ciona l e do script é " P en s e em


termos do esfíncter". O s eu princípio clínico é ob s erva r ca d a movimento
de ca d a u m dos músculos de ca d a paciente e ca d a momento du rante a

238
reunião do gru po. E o lema exis ten cia l é " A n a l is ta s Tr a n s a cion a is são
saudáveis, felizes , ricos e corajosos e cons egu em via ja r por todas a s
partes e conhecer a s pessoas ma is simpáticas do mu ndo, fazendo o mes -
mo qu ando estão em ca s a tratando os p a cien tes ".
N o presente contexto, a cora gem cons is te em a ta ca r o prob lema do
destino hu ma no como u m todo e encontrar a solução através do u s o do
slogan dinâmico e do princípio clínico. A análise do script é, portanto, a
resposta a o prob lema do destino hu ma no e conta- nos ( a i de mim!) qu e
nossos destinos são predeterminados n a s u a ma ior parte, e qu e o livr e
arbítrio a este respeito é u m a ilusão p a r a a ma ior ia da s pessoas. P or
exemplo, R . A l l e n d y 8 res s a lta qu e pa ra ca d a indivíduo qu e enfrenta es ta
situação, a decisão de cometer suicídio é solitária, agonizante e a pa ren-
temente autónoma. E ntreta nto, qu aisqu er qu e s eja m a s vicis s itu des de
ca d a u m dos ca s os in d ivid u a is , a " t a x a " de suicídio permanece r ela tiva -
mente constante a ca d a a no. A única ma n eir a de d a r sentido ( d a r w in ia -
no)* a isto é cons idera r q destino hu mano como o resu ltado d a progra ma -
ção pa renta l e não como u ma decisão "au tónoma" in d ivid u a l.
Q u a l é, então, a responsab ilidade dos p a is ? A programação do
script não apresenta ma ior " c u l p a " por parte deles do qu e u m defeito de
nascença, como diab etes ou pé torto ou u m talento herdado p a r a a músi-
ca o u a matemática. Estão transmitindo apenas dominantes e reces s ivos
qu e receb era m de s eu s pa is e avós. A s diretiva s do script estão sendo
constantemente emb a ra lha da s , d a mes ma forma como os gens, pelo fato
de a criança neces s ita r de dois progenitores.
P or ou tro la do, o aparato do script é mu ito ma is flexível do qu e o
genético e está sendo continu amente modifica do por influências exterio-
res , tais como experiências de vi d a e injunções ins erida s por ou tras pes -
soas. É mu ito ra ro ter a pos s ib ilida de de prever qu a ndo e como u m es -
tranho dirá ou fará a lgo qu e altere o script d a pessoa. Poderá s er u ma
observação ca s u a l ou vid a acidentalmente n u m b a ile ou n u m corredor, ou
o resu ltado de u m a relação forma l como casamento, es cola ou ps icotera -
pia . O b s erva - s e qu e cônjuges influ encia m gradativamente s u a s atitu des
em relação à vid a e às pessoas e qu e estas mudanças refletem- se n o tô-
nus de seu s músculos fa cia is e gestos, de modo a torná-los pa recidos .
U m progenitor qu e des eja mu da r s eu script p a r a não d eixa r em
seus filhos a s mes ma s diretiva s qu e pu s era m nele teria , em primeiro l u -
gar, qu e se fa milia r iza r com o estado de ego P a i e c o m a s vozes pa ren-
tais qu e ca rrega e m s u a cabeça e qu e a s crianças aprendem a " c a te x i za r "
p or comportamentos deflagradores apropriados. S en d o o progenitor ma is
velh o e, pres u mivelmente, ma is sábio qu e os filh os , é s eu dever e s u a
responsab ilidade controla r s eu comportamento pa renta l. Só qu ando for
ca pa z de coloca r s eu P a i sob o controle de s eu Ad u lto, poderá cons egu ir
ta l façanha. F o r a disto será tão-somente o produ to de s u a educação P a -
renta l, como o são s eu s filhos .
U m a dificu lda de é qu e a s crianças representam facsímile e imorta -
lida de. C a d a progenitor fica secreta ou abertamente encantado qu ando os

239
filhos a gem à s u a semelhança, mesmo qu ando repetem su as piores ca -
racterísticas. A e st e e nc ant am e nt o é qu e ele deverá renu ncia r sob o con -
trole do Ad u lto, se deseja qu e seu s filhos se adaptem ao sistema solar e a
todas as su as ramificações de u ma forma melhor do qu e a dele.
E s ta mos agora prontos p a r a considerar o qu e acontece qu ando J e -
der, qu e é Tod o e qu a lqu er indivíduo, deseja mu dar seu s pla nos , a s fitas
em s u a cabeça e o progra ma qu e apresentam, e tornar- se u m tipo espe-
cia l de pessoa - Pa t, o paciente.

Notas e referências

1. Hendricks, S . B . "Metabolic control of timing". Science 141:121-27, julho 5,


1963.
2. A matriz do script, na sua forma presente, foi criada pelo D r . Claude M. Stei-
ner, do Seminário de Análise Transacional de São Francisco, e apareceu publi-
cado pela primeira vez em seu artigo "Script e Contra-script", loc. cit. No meu
entender, seu valor não pode ser superestimado, contendo, como p faz, a pro-
gramação de toda uma vida e indicando também como alterá-la. É uma inven-
ção de tal inportância que, sem diminuir a perceptividade, engenhosidade e
criatividade do D r . Steiner, gostaria de reclamar a minha contribuição. Seus
predecessores foram diagramas mais primitivos, encontrados nas páginas 201 e
205 de meu livro Transactional Analysis in Psychotherapy* (loc. cit.). O artigo
marca também a primeira aparição dos conceitos de contra-script e injunção
que são produtos adicionais dos insights do D r . Steiner.
3. Johnson e Szurek chegaram até superego lacunae na explicação da "encena-
ção", isto é, as crianças fazem encenações porque há "algo faltando" em seus
pais. Esta foi uma das primeiras afirmações teóricas de como os pais influen-
ciam os filhos nos comportamentos "ma u s ". (Johnson, A. M . e Szurek, S.A.
"Th e Génesis of Anti- Social Acting Out in Children and Adu lts". Psychoana-
litic Quarterly 21:323- 343, 1952). Ampliamos o problema da "encenação" para
a vida real e tentamos incluir todas as formas de comportamento, seja "anti- so-
cia l" ou não. Erickson aborda o conceito de script de forma bastante aproxima-
da, porém segue um outro caminho. (Erikson, E . Identity and the life cycle. Loc.
cit.). Como já foi mencionado, Freud fala da "compulsão do destino" como um
fenómeno biológico, sem especificar sua origem psicológica, enquanto Adler
fala de estilo de vida. O princípio da injunção apresentado no texto, portanto,
pode ser considerado como suplementar às observações de todos estes autores.
C f. Jackson, D . D . "Family Interaction, Family Homeostasis and Some Impli-
cations for Conjoint Family Therapy." In Individual and FamiUal Dynamics
( J. H . Masserman* ed.). New Yor k Grune & Stratton, 1959.

* Traduzido para o português sob o título Análise Transacional em Psicoterapia. São Paulo,
Summus Edit orial, s/d. (N. do T . )

240
4. Steiner, C M . " Th e Treatment of Alcoolism". Transactional Analysis Bulle-
tin 6:69- 71, julho, 1967. Também "Th e Alcoholic G ame". Quarterly Journal
ofStudies on Alcohol 30:920-938, dez., 1969, com a análise de seis eminentes
autoridades em alcoolismo. O livro do D r . Steiner sobre o assunto, Games Al-
cohoUcs Play, foi publicado recentemente (G rove Press, 1971).
5. Karpman, S . "Alcoholic 'Instant Group Therapy' ". Transactional Analysis
Bulletin\69-14 9 ou t, 1965.
6. Berne, E . "Concerning the Nature of Communication". Psychiatric Quarterly
27:185- 198,1953.
7. English, F . "Episcript and the 'Hot Potato Game' ". Transactional Analysis
Bulletin 8:77-82, Out:;. 1969.
8. AUendy, R. Le probléme de la destinée, étude sur la fatalité intérieure. Paris,
Librarie Gallimard, 1927. L . du Nouy, por sua vez, coloca maior ênfase nas
forças externas, segundo a visão de um cientista religioso. (Human Destiny.
New Yoik , Signet Books, 1949).

241
Parte I V

O SCRIPT NA PRÁT ICA CLÍNICA


16. A s fases preliminares

A . I n t r o d uç ão

U m a vez qu e a s influências do script começam antes do n a s ci-


mento e a "encenação f i n a l " ou desfecho ocorre com a morte ou depois
d ela , só raramente u m clínico terá a oportu nidade de s egu ir u m script do
início ao fim. Ad voga d os , b a nqu eiros , médicos d a família e clérigos, em
es pecia l aqu eles qu e vivem e tra b a lha m e m pe que nas c i dade s, são as
pessoas qu e ma ior prob ab ilidade têm de conhecer todos os segredos d a
vid a de u m indivíduo por u m período tão prolongado de tempo. U m a vez
que a análise psiquiátrica do script tem apenas a lgu ns anos de existên-
cia , não há, de fato, u m único exemplo de observação clínica de u ma
trajetória de vid a ou script completa. N a atu alidade, a melhor ma neira de
obter u ma visão a longo pra zo é através de b iogra fia s , ma s a estas fa lta m
algu ns aspectos importantes. Pou ca s da s questões leva nta da s nos capí-
tu los anteriores podem ser respondidas a pa rtir das b iografias académi-
ca s ou literárias comu ns . A p r imeir a tenta tiva de a lgo qu e se a p r oxima
da análise do script foi o trab alho de F r eu d sob re Leon a r d o d a V i n c i 1 . O
ma rco segu inte é a b iogra fia do próprio F r eu d , de a u toria de E r n es t J o -
n es 2 , que conheceu F r eu d pessoalmente. E r i k s o n estu dou os pla nos e a s
trajetórias de vid a de dois líderes b em- s u cedidos , M a r tin L u th er K i n g e
Ma ha tma G a ndhi 3 .- A continuação d a b iogra fia de H e n r i Ja mes , de au to-
r ia de L e o n E d e l 4 , e o estudo do rela ciona mento 5 Hess-Chamberláin, de
Z el ig , r evela m também mu itos dos elementos do script. M a s , em todos
estes ca s os , a ma ior ia das primeira s diretiva s podem ser apenas pres u mida s .
A ab ordagem qu e ma is se a p r oxima do estu do científico dos scripts
provém do trab alho de M cC l el l a n d 6 . E l e es tu dou a relação entre a s histó-
rias ou vida s e lida s pela s crianças e seu s motivos p a r a viver . S e u tra b a -
lho foi acompanhado por R u d i n 7 , mu itos a nos depois.
R u d i n estu dou a s ca u s a s d a morte entre aqu eles qu e fora m motiva -
dos por tais histórias. Pelo fato de os " r ea l iza d or es " terçm qu e s er
" b o n s " , tendia m a manter seu s sentimentos sob u m cu ida dos o controle,
sofrendo frequentemente de úlceras ou pressão a rteria l a lta . C omp a r ou
este gru po com aqu eles qu e tinha m desejo de " p o d e r " e expres s a va m- s e
livremente através d a ação necessária p a r a cons egu i- lo. E s tes apresenta-
va m a lta ta xa de mortalidade, qu e poderíamos cha ma r de ca u s a s de
script: suicídio, homicídio e cirros e motiva da pelo álcool. O s scripts
dos " r ea l iza d or es " b aseavam- se em histórias de s u ces s o, enqu anto qu e
os das pessoas dé " p o d e r " em histórias de riscos e R u d i n nos mos tra qu e
tipos de morte es ta va m cortejando. E s te é u m levantamento qu e du rou
vinte e cin co anos e ajusta- se facilmente a o qu adro de referência d a aná-
lise do script a qu i apresentada.

245
M es mo com estu dos deste tipo, a análise do script não pode atingir
a precisão e a c e rt e z a d a ps icologia dos camu ndongos ou d a b acteriolo-
gia . O qu e os estu diosos de script neces s ita m fa zer n a prática é ler b io-
gra fia s , ob s erva r o su cesso dos amigos e o fra ca s s o dos inimigos , aten-
der a u m grande número de pacientes com vários tipos de programação
precoce, projetando pa ra o passado e fu tu ro a s vid a s da s pessoas qu e
eles conhecem do ponto de vis ta clínico du rante u m período r a zoa vel-
mente longo de tempo. U m a pes s oa qu e clin ica há vinte ou trinta a nos ,
por exemplo, e mantém contato com seu s antigos pacientes através de
vis ita s periódicas ou mesmo de cartões de N a ta l, começa a sentir- se ma is
segu ro em su as análises de script. C o m ta l experiência ele sab e melhor o
qu e fa zer com pacientes qu e estão em tratamento, e como obter o máxi-
mo de informações o ma is rapidamente possível com os novos pacientes.
Q u a nto ma is rápida e precisamente o script for compreendido em ca d a
um»dos ca s os , ma is depressa e com eficácia s u a antítese poderá s er a p li-
ca d a pelo terapeu ta, evitando a s s im perda de tempo, de energia , de vid a s
e de nova s gerações.
A clínica psiquiátrica, como todos os ra mos d a medicina , ca rrega
cons igo u ma certa ta xa de mortalidade e in va lid ez, ê o primeiro ob jetivo
do terapeu ta deve s er a redução de a mb os , independente do qu e ele con -
s egu ir pa ra além dis s o. Suicídios notu rnos por drogas e suicídios a longo
pra zo por álcool ou pressão a rteria l a lta têm qu e s er evitados. O slogan
do terapeu ta deverá ser "M elh or e primeiro e faça a análise d ep ois ", pois
de ou tra forma terá a lgu ns de seu s pacientes ma is "in ter es s a n tes " e
" p er s p ica zes " sendo pessoas a ca minho do necrotério, do hos pita l públi-
co ou penitenciária. Portanto, o primeiro prob lema é: Q u a is são os " s i -
na is do script" qu e ocorrem du rante o tratamento? E l e d ever ia sab er o
que procu ra r, onde encontrar, o qu e fa zer depois de ter encontrado, e
como des cob rir s e o está fazendo com eficácia. É isto qu e retomaremos
no próximo capítulo. O segu ndo prob lema é checa r su as observações
e impressões e colocá- las em a lgu m tipo de ordem sistemática, de modo
a poder comentá-las com ou tros. P a r a is to, a L i s ta de Verificação do
Script, qu e cons ta deste l ivr o, deveria ter a lgu ma u tilida de.
Mu itos dos pacientes qu e procu ra m a na lis ta s tra ns a ciona is , o fa zem
depois de ter passado por ou tros tipos de terapeu tas. S e não for este o
ca s o, pa s s a m pelo a na lis ta tra ns a ciona l já com certo a tra s o, pois teria m
qu e antes pa s s a r por u ma terapia " p r el imin a r " . P or esta razão, é con ve-
niente cons idera r du a s fases n a análise clínica do script: a fase prelimi-
nar e a fase da análise do script. Q u a lqu er qu e s eja a forma de terapia
u s a da , ocorrerão fases semelhantes, não sendo, p ois , pecu lia res à análise
do script. O a na lis ta do script poderá ver a s fa lha s dos ou tros terapeu tas,
ma s não vê seu s s u ces s os . Invers a mente, os ou tros terapeu tas ob s erva m
as fa lha s d a análise do script ma s , em gera l, não vêem os s u ces s os .
N a seção anterior cons idera mos o des envolvimento dos seres h u -
manos em gera l, procu ra ndo extr a ir os u n iver s a is , e o personagem foi,

246
ma is u ma vez cha ma do de Jedèr. V a mos continu a r a denominá-lo a s s im,
exceto qu e, n a verda de, ele se encontra n o escritório ou n a enferma ria , e
então o cha ma remos Pa t, e s eu terapeu ta será o D r . Q.

B . A e s c o l h a d o t e r ap e ut a

Q u a s e todo terapeu ta gosta de pensar qu e o paciente o es colheu e


elegeu a s u a profissão- porqu e, pelo menos , ele é r a cion a l, inteligente e
pers pica z, independente do quão confu so pos s a o doente estar a respeito
de todo o resto. E s te sentimento de ter s ido es colhido por mérito — mé-
rito d a própria profissão e também pes s oa l — é saudável e constitu i u ma
das recompensas d a nos s a vocação. Tod o terapeu ta, portanto, tem o d i -
reito de se compra zer c o m is s o e gratificar- se ao máximo - du rante cin co
ou sete minu tos . D ep ois dis to, deveria colocá- lo n a estante, ju n to com
seu s ou tros troféus e diploma s e esqu ecer- se disto p a r a sempre se qu iser
leva r o paciente a sentir- se b em.
O D r . Q. poderá ser u m ótimo terapeu ta, ter diploma s , reputação e
pacientes qu e confirmem isto. Poderá pens a r qu e es ta é a razão péla qu a l
os pacientes o cons u lta m. D ever ia entretanto, reprimir o entu siasmo,
pensando e m todos aqu eles ou tros pacientes qu e não o es colhera m. D e
acordo com as estatísticas disponíveis, qu a renta e dois por cento dos p a -
cientes pertu rb ados dirigem- se primeiro a o s eu clérigo e não a o ps iqu ia -
tra , e o restante, aò médico de s u a família 8 . Além dis s o, apenas u m p a -
ciente em cin co necessitados de cu ida dos psiquiátricos está receb endo
atenção médica, s eja n o hos pita l, e m a lgu ma clínica ou com médico par-
ticu la r 9 . E m ou tras p a la vr a s , qu atro de ca d a cin co pacientes com distúr-
b ios mentais não es colhem a ps iqu ia tria p a r a s eu tratamento, apesar de
esta exis tir em qu a s e todos os hospitais públicos, e em ou tros. Além dis -
so, u ma porcentagem mu ito grande de pacientes qu e podem es colher
optam pelo segu ndo melhor terapeu ta delib eradamente, em vez do me-
lhor, e u ma porcentagem bastante grande es colhe o pior. O mesmo se dá
nos ou tros ramos d a medicina . É sab ido também qu e u m grande número
de pessoas gasta ma is dinheiro destru indo- se em b eb ida s , drogas e jogos ,
do qu e ga s ta ria m c o m a ps icotera pia , qu e poderia salvá-los.
D a d a a livr e es colh a , o paciente optará pelo terapeu ta segu ndo a s
necessidades de s eu script. E m a lgu ns lu ga res , ele não tem es colha e te-
rá qu e i r ao médico- feiticeiro, shamam ou angagok l o c a l 1 0 . E m ou tros
poderá es colher entre o médico tra diciona l e o mod er n o 1 1 , escolhendo a
mágica d a tradição ou a mágica d a ciência, de acordo com os costu mes
l oca is 1 2 ou a pressão política. N a C h i n a e n a índia a s abordagens tradi-
cion a l e moderna são frequentemente comb ina da s , como n o ca s o do
hos pita l psiquiátrico de M a d r a s 1 3 , onde a med icin a A yu r - V e d a e os
exercícios de ioga são empregados em combinação com os modernos
tratamentos de ps icos e. E m mu itos ca s os s u a es colh a é forçada por
questões fina nceira s .

247
N os E s ta d os U n id os , a ma ioria dos pacientes não tem livr e es colha
de t e rape ut as, m as são e nc am i nhado s o u re c o m e ndado s pe las várias
"a u tor id a d es " p a r a u m determinado tipo: ps iqu ia tra s , psicólogos, a s s is -
tentes s ocia is psiquiátricos, enfermeiras psiquiátricas, aconselhadores ou
mesmo sociólogos. N u ma clínica, agência s ocia l, hos pita l psiquiátrico ou
hos pita l do E s ta d o, o paciente poderá s er encaminhado pa ra qu alqu er u m
destes profis s iona is . U m es cola r é envia do pa ra o orientador edu ca cio-
n a l , e u ma pes s oa em lib erdade condiciona l é dirigida ao funcionário d a
sursis, qu e ta lvez não tenha nenhu m preparo terapêutico. S e o paciente
não tiver nenhu m conhecimento ou fa nta s ia rela ciona da à psicoterapia e
gostar do primeiro terapeu ta, optará p ela profissão deste qu ando procu -
ra r tratamento em a lgu m ou tro lu gar.
É n a clínica pa rticu la r, onde exis te a livr e es colha , qu e as seleções
ma rca da s pelo script começam a emergir, particu larmente n a opção por
ps iqu ia tra s , ps ica na lis ta s , psicólogos e assistentes s ocia is psiquiátricos,
como também por memb ros competentes ou incpmpetentes destas profis-
sões. C ientis ta s cristãos, p or exemplo, se forem a u m médico terapeuta,
procu ra m frequentemente u m menos competente, pois seu s scripts os
proíbem de serem cu ra dos p or u m médico. E n tr e os médicos, há também
sub-divisões p a r a escolher. E n tr e os ps iqu ia tra s , por exemplo, há tipos
coloqu ialmente conhecidos como "fãs dos ch oqu es ", "dis pens a dores de
d r oga s ", " en col h ed oies " e "h ip n otis a d oies ". S e for encaminhado por
u m médico d a família, o dou tor poderá b em es colher a lgu m qu e se ajuste
ao s eu próprio script. Is to é vis to ma is claramente qu ando o paciente
procu ra u m hipnotisador, ou é enca minha do p a r a u m. S e ele for procu ra r
u m ps iqu ia tra p a r a s olicita r hipnose e este não a u s a , a convers a qu e se
segue torna- se mu ito ma rca da pelo script à medida qu e o paciente insiste
qu e ele precis a s er indu zido a dormir p a r a poder melhorar. Algu n s vão
au tomaticamente (is to é, p ela diretiva do script) à Clínica M a yo, e outros
pa ra a Clínica Menninger. D a mes ma forma , ao es colher u m ps ica na lis ta ,
a lgu ns , por razões de s eu script, s eleciona m o ma is ortodoxo possível,
ou tros preferem ma is flexib ilida de e ou tros a in d a procu ra m " a n a l is ta s "
qu e pertencem a es cola s dissidentes. À s vezes a idade e o s exo do tera-
peu ta são importantes p or razões do script, como u ma necessidade de
s edu zir ou o medo d a sedução. Reb eldes vão frequentemente procu ra r
terapeutas reb eldes. Pes s oa s com script de ins u ces s o es colhem os piores
terapeu tas, tais como quiropráticos ou completos charlatães 14 . H . L .
M en ck en ob s ervou certa vez qu e a s únicas relíquias d a seleção natu ral
d a r w in ia n a a s ob reviverem nos E s ta d os U n id os , onde todos receb em
cu ida dos , são os quiropráticos, pois qu anto ma is têm permissão p a r a cl i-
nica r, ma is rapidamente os memb ros desaju stados d a raça hu ma na serão
elimina dos pelo tratamento qu e eles dis pens a m.
Há indicações cla r a s de qu e três fatores são determinados pelas d i-
retiva s d o script dos pacientes: 1) Sê ele p r ocu r a a lgu ma a ju da ou s im-
plesmente d eix a a s cois a s s egu irem s eu ru mo. 2 ) A es colha do terapeuta,
onde o hou ver. 3) S e a tera pia está destinada a ter su cesso ou não. U m a
248
pes s oa com u m script de perdedor ou não irá procu ra r u m terapeu ta o u
poderá es colher u m qu e s eja incompetente. N es te último ca s o, qu ando o
tratamento fra ca s s a , a pes s oa não só permanecerá perdedora, como exige
seu script, ma s terá várias ou tras satisfações d a s u a a ventu ra ma logra da .
Por exemplo, poderá cu lpa r o terapeu ta ou oB ter u ma satisfação heros-
trática 15 p or s er o " p i o r " pa ciente, ou gab ar- se de ter dez anos de tera pia
com o D r . X a u m cu s to de Y m i l dólares s em n en h u ma melhora .

C . O t e r ap e ut a c o m o m ág i c o

P a r a a Criança do paciente o terapeu ta é u m mágico de má qu a li-


dade. É provável qu e selecione o mesmo tipo de figu r a mágica qu e co-
nheceu n a infância. E m a lgu ma s famílias, a figu ra reverencia da é o mé-
dico d a família, u m médico qu a lqu er em ou tra s , e o clérigo. A l g u n s mé-
dicos e clérigos são figu ra s sérias, saídas d a tragédia, como Tir es ia s , qu e
trará más notícias e ta lvez dará às pessoas u m feitiço, amu leto ou poção
s a lva dora . O u tros são alegres gigantes verdes qu e protegem a s crianças
do m a l , confortando- as e dando- lhes segurança, flexiona ndo s eu s mús-
cu los gigantescos. Q u a ndo Jeder cres ce, p r ocu r a a a ju da de pessoas p a -
recida s . S e s u a experiência foi in fel iz r poderá reb elar- se e procu ra r ou tro
tipo de mágica. U m quebra-cabeça é sab er p or qu e a s pessoas es colhem
psicólogos p a r a ocu pa r este pa pel em seu s scripts, u ma vez qu e compa -
rativamente pou ca s pessoas tiver a m u m vizin h o psicólogo amigável co-
mo o mágico d a família n o início de s u a infância. D o ponto de vis ta do
conto de fa da , o terapeu ta é o anão, a b r u x a , o p eixe, a ra pos a ou o pás-
saro qu e dá a Jeder os meios mágicos p a ta a tingir s eu s fin s : botas de sete
léguas, o manto d a in vis ib ilid a d e, a c a i x a mágica qu e produ z, qu ando
receb e ordens , ou ro o u mesas repletas de b olos e gu los eima s ou a lgu m
apotropaion pa ra afastar o ma l .
D e u ma ma n eir a gera l, o paciente pode es colher dentre três tipos
de mágica a o s eleciona r o terapeu ta, escolhendo ca d a u ma delas p a r a o
su cesso ou o fra ca s s o. Poderá também coloca r u ma contra a ou tra , se o
script a s s im o exigir . E s ta s são conhecida s como "C iên cia ", " ca l d o de
g a l in h a " e "r eligiã o". Q u a lqu er profissão pode oferecer a s três, ma s ti -
picamente u m certo tipo de psicólogo oferece "ciência mod er n a " , u m
certo tipo de assistente s ocia l psiquiátrica " ca l d o de g a l i n h a " e u m certo
tipo de cons elheiro pa s tora l "r eligiã o". U m terapeu ta b em treinado em
ca d a u ma destas profissões, está preparado p a r a oferecer qu alqu er d a s
três s e a ocasião a s s im o exigir , e a lgu ns oferecem dois comb ina dos .
"C iên cia " o "r eligiã o", " ca l d o de g a l in h a " e "ciência " ou "r eligiã o" e
" ca l d o de g a l i n h a " são mistu ras p a r a o paciente qu e p r ocu r a ma is de u m ti-
po de mágica. A diferença prática entre "ciência ", " ca l d o de g a l i n h a " e
"r eligiã o", por u m la do, e u ma ab ordagem científica, a poia tiva e religios a
p a r a a terapia, é sab er qu ando pa ra r. O terapeu ta qu e u s a a s três primeira s
não sabe qu ando pa ra r, pois ca d a u m a das ma rca s de mágica é parte de s eu

249
próprio script, enqu anto os qu e u tiliza m a s três últimas sab e qu ando p a -
ra r, u ma vez qu e tem conhecimento do qu e está fazendo. O primeiro
gru po estará joga ndo " E s t o u apenas tentando a j u d a r " , a o pa s s o qu e o
segu ndo está aju dando a s pessoas.

D . A p r e p ar aç ão

E m su as primeira s incursões n a tera pia o paciente fica "cr a qu e em


divã s ", s ignifica ndo qu e aprende a fa zer s eu s próprios jogos deitado, l i -
teral ou figu ra tiva mente 1 6 aprendendo também a fa zer os jogos do tera-
peu ta su ficientemente b em p a r a manter o dou tor feliz.
O b s erve isto em enferma ria s psiquiátricas, onde o paciente aprende
a s regra s d a doença menta l tão b em qu e pode es colher à vontade entre:
fica r internado indefinidamente (ou enqu anto a s finanças d a família
a gu enta rem); s er transferido p a r a u m meio menos exigente, como u m
hos pita l público; o u i r p a r a ca s a ca d a vez qu e está disposto. Também
aprende como comportar- se pa ra ser readmitido.
Após várias estadas n o hos pita l estes pacientes são ca pa zes de
" tr e i n a r " terapeutas e residentes psiquiátricos ma is joven s . S a b em como
ab astecer os hobbies dos médicos, como interpretação de s onhos , e como
satisfazer os seu s próprios hobbies, como "p r od u zir ma teria l interes s a n-
te " . Tu d o is to confirma u ma suposição básica de qu e os pacientes têm
espírito es portivo. Há, entretanto, a lgu ma s exceções. A l g u n s se recu s a m
a fa zer os jogos de enferma ria o u dos médicos, assegu rando qu e são in o-
centes d a doença menta l. O u tr os , teimos a o u mal- hu moradamente, r ecu -
sam- se a melhora r, emb ora a dmita m qu e há a lgo errado ou recla ma m
disto. A l g u n s p od em s er a ca lma dos , permitindo qu e des ca ns em du rante
u ma s ema na ou du a s antes.de exigir qu e melhorem. H á u m número r ed u -
zido de infelizes qu e gostariam de ter espírito es portivo, ma s se encon-
tra m desamparados n a s mãos de prob lema s orgânicos do tipo doença de
P i c k ou de moléstias semi-orgânicas como es qu izofrenia " p r o c e s s u a l " ,
mela ncolia agitada ou ma n ia . A o receb er doses adequ adas de medicação
tais como fenotia zina s , dib enza zepina s ou lítio, tornam- se, e m gera l,
tratáveis como deveria m ser. A l g u n s hos pita is , deplorável mente, u tiliza m
tratamento de choqu e p a r a coloca r em forma pacientes reb eldes.
D e qu a lqu er ma n eir a , o primeiro estágio do tratamento hos pita la r
de pacientes psiquiátricos d ever ia s er a discussão dos vários aspectos d a
pos s ib ilida de de tratamento du rante a s reuniões frequentadas p or p a -
cientes , staff e clínicos vis ita ntes . Q u a lqu er u m deles poderá oferecer
sugestões va lios a s s e compreender qu e o ob jetivo d a ps icotera pia não é
cons egu ir tira r os pacientes do hos pita l, ma s s im levá- los à cu r a . S e ta is
reuniões forem condu zida s com atitu des a propria da s , não só os vários
jogos sofrerão cu rto- circu itos rapidamente, mas "estar melhorarando "
será substituído por estar bem e manter-se bem , com as exceções
mencionadas a cima . Além d is s o, a ma ior ia dos pacientes ficará a gra -

250
decida p or es ta ab ordagem franca. D ep ois d a reunião, qu ase sempre a l -
gu ns a proxima m- s e d o terapeu ta p a r a apertar- lhe a mão e ob s erva r:
" E s t a é a p r imeir a vez qu e u m médico tratou- me como u ma verda deira
pes s oa e fa iou honestamente comig o" . Is to acontece porqu e os jogos
hospitalares não são de ma neira a lgu ma " in con s cien tes " . O paciente sab e
mu ito b em o qu e está fazendo e por qu e. M es mo qu e não o a dmita n a
primeira tenta tiva , o paciente fica agradecido porqu e es ta ab ordagem
a l ivia o tédio d a ps icotera pia convenciona l.
P a r a os qu e s e sentem ma is confortáveis pens a ndo qu e seu s p a -
cientes têm "egos fracos", d evo dizer qu e não hes ita ria e m l er o pará-
grafo a cima no meu primeiro encontro c o m u m gru po de pacientes p s i-
quiátricos internos , mes mo com os qu e apresentam distúrbios g rav e s,
após u m b reve período de preparação e apresentação (diga mos trinta m i -
nu tos) e não teria dúvidas qu anto a os seu s efeitos benéficos, pois já d is -
se exatamente estas cois a s e m mu ita s oportu nidades s emelha ntes 1 7 .
Q u a ndo u m paciente, qu e já tenha estado c o m u m ou ma is terapeutas ou
em hos pita is psiquiátricos, p r ocu r a u m a na lis ta tra ns a ciona l como p a -
ciente ambulatória! ou pa rticu la r, o procedimento apropriado é o s e-
gu inte: du rante a p r imeir a entrevis ta , o terapeu ta p r ocu r a obter o pa no de
fu ndo d o script, de ma neira ma is dis creta possível, acompanhando o
cu rs o d a con ver s a do paciente. Posteriormente, se h ou ver omissões, fará
questão de completá-las. Pr imeir o obtém a história médica e psiquiátrica.
A o fazê- lo pede a o paciente qu e conte u m sonho - qu a lqu er s onho, pois
es ta é a forma ma is rápida de cons egu ir u m qu adro d o protocolo do s eu
script e s u a visão de mu ndo. D ep ois inda ga a respeito dos terapeu tas
anteriores: por qu e o paciente o es colheu , como o es colh eu , o qu e
aprendeu c o m ele, p or qu e o d eixou e em qu e circunstâncias. D es ta s i n -
dagações o terapeu ta obtém várias pis ta s , fazendo o acompanhamento de
algu mas a o pergu ntar a respeito de ou tras a tivida des : como P a t es colhe
empregos ou es pos a s , como e p or qu e pede demissão o u divórcio. S e
isto for feito com competência, o paciente não en cer r a a tera pia prema tu -
ramente, como o fa z com frequência se o terapeu ta fica r a preens ivo c o m
a transferência e escondê-la p or trás de u m a ca r a de joga dor de pôquer,
de u ma cortes ia ritualística ou de u m gravador. N a d a dá tanta segurança
qu anto a competência.
U m a situação comu m é qu ando o paciente está colhendo ob via -
mente fracassos n a tera pia e em ou tros ca mpos , a fim de ju s tifica r u m
desfecho de script psicótico ou s u icid a , e s e a fa s ta c o m u m " A g o r a ele
me con ta " , isto é, trazendo u ma grande s u rpres a s em discussão prévia ou
interrompendo a tera pia s em a vis o prévio. A o fim d a trigésima sessão,
por exemp lo, qu a ndo tu do pa rece estar indo b em e P a t está fa zendo
" p r og r es s o" , ele podará dizer casu almente a o leva nta r- s e p a r a s a ir:
"Aliá s es ta é a min h a última sessão porqu e vou internar- me n o H os p ita l
E s ta d u a l es ta ta r d e" - a lgo qu e ele não mencionou antes. S e o D r . Q .
fez u ma anamnese cu ida dos a , ele interromperá is to n a terceira sessão a o
dizer: " P en s o qu e você pretende v i r a qu i por s eis meses ou u m a n o, e

251
depois des is tir de r ep en te". S e Pa t fizer objeção, o S r . Q. responderá
" M a s é i st o q ue v ocê f e z e m se us do i s últimos e m pre go s, e c o m o s se us
três terapeutas anteriores. E s tou de acordo se qu is er continu a r, pois pos-
so sempre aprender a lgu ma cois a enqu anto du ra r, ma s s e deseja mesmo
ficar b om, es ta é a p r imeir a cois a qu e teremos qu e dis cu tir. D e outro
modo, você estará simplesmente desperdiçando s eis meses ou u m a no de
s u a vid a . S e pu dermos nos livr a r disto a gora , você economizará todo
este tempo e poderemos i r a d ia n te". Alcoólatras qu e a ns eia m por con -
trole ab solu to ou entrega completa têm a lta prob ab ilidade de se ofender
diante desta interrupção de seu s jogos , enqu anto o paciente qu e deseja
ficar b om ficará agradecido. S e o paciente assentir c o m a cabeça ou r ir ,
o prognóstico é mu ito b om.

E . O "pac i e nt e pro f i ssi o nal"

Pa cientes qu e tiver a m terapias anteriores prolongadas, ou qu e se


trataram com vários terapeu tas, coloca m- s e como "pa cientes profis s io-
n a i s " . Há três critérios p a r a dia gnos tica r o "pa ciente p r ofis s ion a l". O
primeiro é qu e Pa t u s a p a la vr a s difíceis e se au todiagnostica, o segundo
é qu e se refere à s u a patologia como " i n f a n ti l " ou " i m a tu r a " , e a tercei-
r a é qu e tem u ma aparência solene du rante toda a entrevis ta . A o fim d a
s egu nda cons u lta deve- se dizer a ele qu e é u m paciente profis s iona l, se
for o ca s o, e orientá-lo p a r a qu e pare de u s a r pa la vra s difíceis. C on s id e-
ra ndo qu e ele conhece b em a situação, b a s ta dizer: " V o c ê é u m paciente
profis s iona l, e pens o qu e d ever ia desistir disto. Pa r e de u s a r pa la vra s d i-
fíceis e fale inglês *'\ S e isto for feito de ma neira a propria da , ele deixará
rapidamente de usá-las e começará a fa la r inglês*, exceto qu e passará a
fazê- lo através de chavões. Então é o momento de dizer- lhe qu e deixe de
u s a r chavões e pa s s e a fa la r como u ma pes s oa r ea l. A esta a ltu ra ele terá
deixa do de parecer solene, e poderá s orrir ou até r ir ocasionalmente. A í
então poderá ser informado qu e d eixou de ser u m paciente profis s iona l,
sendo u ma pes s oa r ea l com a lgu ns sintomas psiquiátricos. D everá enten-
der também nesta oportu nidade qu e s u a Criança está aí pa ra ficar e não é
" i n f a n t i l " ou " i m a tu r a " no sentido pejorativo destas p a la vr a s , ma s s im-
plesmente encontra- se con fu s a e qu e, sob a confusão, está todo o cha r-
me, a espontaneidade e a cria tivida de de u ma criança verda deira . A pro-
gressão ob s erva da a qu i é: d a Criança precoce ca leja da pelo divã pa ra o
P a i qu e fa la através de chavões pa ra o Ad u lto qu e fa la claramente.

F . O pac i e nt e c o m o pe sso a

E m termos de análise de script, o paciente encontra- se agora, a s s im


esperamos, " f o r a do s eu script" du rante a s horas de tratamento, e age
como u ma pessoa r ea l, denominado coloqu ialmente de "porta dor de u ma

* Português. (N. do T . )

252
ca rteira de memb ro d a raça h u m a n a " . S e tiver u ma recaída, o terapeu ta,
no ca s o d a tera pia in d ivid u a l, ou os ou tros memb ros do gru po, n o ca s o
de tera pia gru pa i, o informarão. E n qu a n to pu der permanecer fora do s eu
script, terá possib ilidade de examiná- lo com ob jetividade e a análise
deste script poderá prossegu ir. A ma ior dificu lda de a s er ven cid a é a
força de tração do script, a lgo semelhante à "resistência do I d " de
F r eu d . Pa cientes profis s iona is a s s u mem este pa pel porqu e decidira m,
qu ando er a m mu ito pequ enos, encorajados pelos p a is , a s er inválidos
mentais e ta lvez fora m a u xilia d os também por seu s terapeutas anteriores.
E s te, em gera l, é u m script de família e é provável qu e seu s irmãos e
pais es teja m também em tratamento. U m exemplo típico é qu ando u m
dos irmãos está internado n u m hos pita l psiquiátrico, onde ele ou el a " f a z
c e n a s " (como d iz o pes s oa l) ou " s e fa z de l ou co" , como Pa t aprendeu a
dizer a gora . E s te fica u m pou co ofendido e dirá com bastante fra nqu eza
qu e tem ciúme do irmão ou irmã porqu e ele ou el a está internado(a) n u m
hos pita l, enqu anto Pa t tem qu e se contentar com tera pia a mb u la toria l.
C omo colocou u m indivíduo, " P o r qu e o meu irmão está n u m hos pita l
psiquiátrico lu xu os o e agradável n a C os ta L es te, enqu anto eu tenho qu e
me contentar com este gru pinho terapêutico miserável? E u me d iver tia
mu ito ma is qu ando er a u m paciente p r ofis s ion a l".
Ap es a r de estas cois a s s erem ditas e m tom de b rinca deira , ela s
constitu em o âmago d a resistência contra a melhora . E m primeiro lu ga r,
Pa t está perdendo todas a s vantagens de estar n u m hos pita l, e toda a d i -
versão de fa zer o pa pel de lou co. M a s ma is do qu e isto, e ele fa la mu ito
francamente (depois de começar a entender o s eu script), s u a Criança
tem medo de fica r cu r a d a e não consegu e a ceita r a permissão oferecida
pelo terapeu ta e pelos ou tros memb ros d o gru po p a r a fazê- lo, pois se o
fizer s u a mãe (dentro de s u a cabeça) o abandonará. A p es a r do quão i n -
feliz ele se sente c o m todos os seu s temores, a ns ieda des , obsessões e
sintomas físicos, a in d a estará em melhores condições, a credita ele, do
que estar n o mu ndo por s u a própria conta s em o s eu P a i p a r a protegê- lo.
N es te ponto há u ma fase onde a análise do script torna- se praticamente
indiferenciável d a investigação psicanalítica. O esb oço do s eu script tor-
na- se a s s u nto de investigação, e a s influências precoces qu e o leva r a m a
decidir por u ma posição e u m es tilo de vi d a não O . K . são exa mina da s
minu ciosamente. É qu ando s eu orgu lho em s er u m neurótico, u m es qu i-
zofrénico paranóide, u m vicia d o ou criminos o começa a emergir, e então
ele poderá trazer o s eu diário ou comentar a respeito de seu s pla nos de
es crever u ma au tob iografia, ta l como fizera m mu itos de seu s antecesso-
res . M es mo a s pessoas qu e se cu r a m de "reta rdo men ta l " poderão sentir
a lgu ma nos ta lgia de s u a condição anterior.

253
No t as e referências

1. Freu d, S. Leonardo da Vinci: A Study in Psychosexuality. New Yor k, Vintage


Books, 1955.
2. Jones, E . The Life and Work of Sigmund Freud. New Yor k, B asic B ooks,
1953-1957.
3. Erikson, E . Young Man Luther. New Yor k, W.W. Norton & Company, 1958.
Ghandfs Truth. New Yor k, W.W. Norton & Company, 1969.
4. Edel, L . e.g. Henry James: The Untried Years. Philadelphia, J . B . Lippincott
Company, 1953.
5. Zeligs, M. Friendship and Fratricide. New Yor k, The Viking Press, 1967.
6. McClelland, D . C . The Achieving Society. Princeton, D . V a n Nostrand C om-
pany, 1961.
7. Ru din, S.A. "National Motives Predict Psychogenic Death Rate 25 Years
La ter." Science 160:901-903, maio 24,1968.
8. G u rin, G . , Veroff, S., & Feld, S. Americans View Their Mental Health. New
Yor k, Basic B ooks, 1960.
9. Gorman, M. Mental Health Statistics. Wàshington, D . C . National Institute of
Mental Health, 1968.
10. Carpenter, E . The Intermediate Sex. London, George Allen & U nwin Ltd.,
1908.
11. Penfield, W. "Oriental Renaissance m Education and Medicine." Scien-
ce 141:1153- 1161, set 30,1963.
12. U ma comparação interessante a este respeito pode ser encontrada em Black
Hamlet, de autoria de Wulf Sachs (Geoffrey Bles, London, 1937), onde um
terapeuta moderno tem um médico feiticeiro africano como paciente.
13. Berne, E . "Some Oriental Mental Hospitais". American Journal of Psychiatry
106:376- 383,1949.
14. Steiner, L . Where Do People Take Their Troubles? Boston, Houghton, Mifflin
& Company, 1945.
15. O truque sobre Herostratus ou Eratostratus é perguntar "Você ouviu alguma
vez falar dele?" E u não tinha e tomei contato com ele através do D r . Paul Fe-
dem. E le queimou o templo de Diana, (hoje uma ruína nas cercanias de Ku s h -
dasi, Turquia), em Êfeso, na mesma noite em que nasceu Alexandre, o Grande,
quando D iana estava ocupada oficiando no seu cárcere para cuidar adequada-
mente do seu santuário. E le o fez apenas para publicidade pessoal. Como um
castigo adequado ao crime, foi decretado que seu nome seria totalmente elimi-
nado de todos os registros. Plutarco, entretanto, ouviu falar dele e assim o
nome de Herostratus tornou-se um símbolo de notoriedade hedionda.
16. B eme, E . Games People Play. Loc. cit.
17. B eme, E . "Th e Staff-Pattient Staff Conference." American Journal of Psy-
chiatry 125:286- 293, s et, 1968.

254
17. Os sinais do script

O primeiro dever de u m terapeu ta de gru po, qu alqu er qu e s eja a


a b orda gem teórica u tiliza d a , é ob s erva r qu alqu er movimento de qu alqu er
músculo, de qu alqu er pa ciente, e a qu alqu er minu to d a reunião do gru po.
P a r a cons egu ir is to, deverá limita r o tamanho de s eu gru po ao máximo
de oito pacientes e tomar qu aisqu er ou tras medidas necessárias p a r a a s -
segu rar qu e será ca pa z de cu mp r ir s u a obrigação com a ma ior eficácia
possível 1 . S e es colher a ab ordagem d a análise do script, o instru mento
ma is poderoso conhecido pa ra u m tratamento de gru po efica z, o qu e es -
tará procu ra ndo ver e ou vir b asicamente são aqu eles s ina is específicos
que in d ica m a na tu reza do script do paciente e su as origens na s expe-
riências d o passado e n a programação Pa r en ta l. Somente qu a ndo o p a -
ciente " s a i r do s eu script" é qu e poderá emergir como u m a pes s oa ca pa z
de vita lida de, cria tivida de, realização e cid a d a n ia autónomas.

A . O sinal do script

P a r a ca d a paciente exis te u ma pos tu ra característica, gestos, ma n ei-


rismos, tiqu es ou sintomas qu e in d ica m qu e está viven d o " n o s eu script"
ou " e n t r o u " no s eu script. E n qu a n to estes " s in a is do script" ocorrerem,
o paciente não está cu ra do, não importa o qu anto ele tenha feito " p r o-
gr es s o". Poderá estar menos in feliz ou ma is feliz viven d o n o mu ndo do
seu script, ma s estará viven d o a in d a n u m mu ndo qu e não é o r ea l e isto
será confirma do através de s eu s s onhos , experiências exteriores , atitude
em relação a o terapeu ta e outros memb ros do gru po.
O s in a l do script é perceb ido em primeiro lu ga r intu itivamente pela
Criança 2 do terapeu ta (pré-consciente, não inconscientemente), até qu e
u m d i a torna- se completamente cons ciente e é a s s u mido pelo Ad u lto.
Recon h ece de imediato qu e é u ma característica constante do paciente e
fica imaginando porqu e n u n ca tinha " n ota d o" isto antes.
A b el a r d , u m h omem de meia- idade qu e se qu eixa va de depressão e
cansaço, frequ enta va o gru po há três a nos , e h a via feito u m " p r og r es s o"
ra zoa velmente b om antes de o D r . Q. ter u ma va ga idéia de qu a l er a o
s ina l do s eu script. A b el a r d tinha permissão Pa renta l p a r a rir, o qu e fa -
zia com grande vigor e satisfação em todas a s oportu nidades, ma s não
tinha permissão p a r a fa la r. S e alguém lh e d ir igia a p a la vr a , ele s egu ia
u ma rotina lerda e complica da antes de responder. Ajeita va - s e n a ca dei-
r a , p ega va u m ciga rro, tos s ia , mu r mu r a va como se estivesse ju nta ndo
seu s pensamentos e então começava: " B e m . . . " C er to d ia , qu ando o
gru po es ta va dis cu tindo sob re ter filhos e ou tros assu ntos de s exo, o D r .
Q. " o b s e r vo u " p ela p r imeir a vez qu e Ab ela r d fa zia ou tra cois a antes de

255
falar: enfia va su as mãos n a s calças até o fu ndo. D is s e o D r . Q : " A b e l ,
tire as mãos de dentro da s su as ca lça s !", a o qu e todos, in clu s ive A b el ,
começaram a r ir e, de repente, todos perceb eram qu e ele vin h a fazendo
isto há tempo, ma s ja ma is alguém h a via " n ota d o" , n em os memb ros
do gru po n em o D r . Q , n em o próprio Ab ela r d . F o i qu ando ficou cla ro
qu e A b el es ta va viven d o n o mu ndo do script onde a proibição de
fa la r er a tão forte qu e seu s testículos fica va m ameaçados. N ã o a dmira
qu e n u n ca fa la va a não s er qu e alguém lh e desse permissão, fazendo- lhe
u ma pergu nta ! E n qu a n to este s ina l do script continu a s s e se ma nifes -
tando, ele não poderia ter a lib erdade de fa la r espontaneamente n em de
decidir ou tras questões qu e o incomoda va m.
U m outro s in a l comu m e semelhante ocorre entre mu lheres e pode
também ser perceb ido intu itivamente por u m longo período antes de s er
cons cientiza do com cla reza . C o m a experiência, entretanto, o terapeu ta
logo aprende a ver e a va lia r com ma ior ra pidez. Algu ma s mu lheres s en-
tam- se descontraidamente até qu e s u rja u m assu nto ligado a s exo e, en -
tão, ela s não apenas cr u za m a s perna s , ma s também coloca m u m pé atrás
do tornozelo d a ou tra perna , cru za ndo simu ltaneamente os braços sobre
o peito e, às vezes , inclina ndo- s e p a r a a frente. E s ta pos tu ra forma u ma
proteção tripla ou quádrupla contra a violação qu e exis te apenas n o s eu
mu ndo de script e não no mu ndo rea l do gru po.
D es ta ma neira , é possível dizer a o paciente: " É b om qu e você es -
teja se sentindo melhor e fazendo progresso, ma s não poderá cu ra r- s e
enqu anto mão pa ra r de. . . " e o s ina l do script é mencionado. E s ta é a
colocação in icia l de u ma tentativa de obter u m "contra to de c u r a " ou
"contra to de script" em vez de u m contrato de " fa zer progres s o". Então
o paciente poderá concorda r qu e vem ao gru po p a r a sair do script e não
pa ra ter compa nhia e receb er dica s domésticas práticas sobre como ser
feliz vivendo com termo ou infelicida de. A ma n eir a de vestir- se é u m
campo fértil p a r a a na lis a r scripts: a mu lher qu e se veste b em, exceção
feita aos sapatos ( el a será " r ej eita d a " , como exige o s eu script99); a lés-
b ica qu e u s a rou pas " d e m a c h o " (jogaiá prova velmente " V i v e r aperta-
d a " com dinheiro, será explora da p ela a migu inha e tentará suicídio); o
homos s exu a l qu e u s a rou pa s " a fr es ca l h a d a s " (irá envolver- s e com m u -
lheres qu e pinta m os lábios de qu alqu er jeito, a pa nha m de seu s amantes
e tentam suicídio) e a mu lher qu e pinta os lábios de qu a lqu er jeito (será
frequentemente explora da por homos s exu a is ). O u tros s ina is de script são
pis ca r os olhos , chu pa r a língua, apertar o qu eixo, fu ngar, torcer a s
mãos, fica r vira ndo o a nel ou bater de leve com o pé. U m a lis ta exce-
lente pode s er encontrada n o livr o de Feld ma n sobre ma neiris mos de l in -
gu agem e gestos 3 .
Pos tu ra e porte também são reveladores. A inclinação d a cabeça
nos scripts de "Má rtir" e " D es a mp a r a d o" é u m dos s ina is ma is comu ns .
U m a discussão extens a pode s er encontrada em D eu ts ch 4 e u ma inter-
pretação psicanalítica, em pa rticu la r s ina is emitidos enqu anto o paciente
está deitado no divã, é apresentada por Z el ig 5 .

256
O s in a l do script é sempre u ma reação a a lgu ma d ir etiva Pa renta l.
P a r a lid a r com isto é necessário descob rir qu a l é a d ir etiva , o qu e gera l-
mente é fácil, como também a antítese precis a , o qu e poderá s er ma is d i -
fícil, em pa rticu la r qu ando o s in a l é u ma resposta a u ma alucinação.

B . O component e f i si o l ó g i c o

O aparecimento súbito de u m sintoma é, em gera l, u m s in a l de


script. O script de Ju dith ex ig ia qu e ela "fica s s e l o u c a " como o fez s u a
irmã, ma s e l a es ta va resistindo a este comando Pa renta l. E n qu a n to o s eu
Ad u lto ma ntinha o controle, el a er a u ma men in a a merica na norma l. M a s
se alguém à s u a volta agisse como " l o u c o " ou dis s es s e qu e se sentia
" l o u c o " , o s eu Ad u lto des a pa recia e a Criança fica va s em proteção.
Imediatamente Ju dith fica va com dor de cabeça, pedia licença, fu gindo
a s s im d a situação de script. N o divã, ocorria u ma sequência semelhante.
E nqu a nto o D r . Q. ma ntives s e u ma convers a com el a , perma necia em
b oas condições, ma s se ele fica s s e qu ieto, o Ad u lto d ela des a pa recia , a
Criança a pa recia com pensamentos lou cos e fica va instantaneamente
com dor de cabeça. C o m a lgu ns pacientes ocorre a náusea de ma neira
semelhante, só qu e neste casõ a diretiva é " F i q u e n a u s ea d a " em vez de
"fiqu e l o u c a " , ou , em lingu a gem de adu ltos, " s e j a neu rótico" no lu ga r
de " s e j a psicótico". Ata qu es de ansiedade com palpitações, ataques sú-
bitos de a s ma e erupções de pele também são s ina is de script.
A s cris es alérgicas n a presença de ameaça a o script podem s er
bastante s evera s . Ros e, por exemplo, sempre gostou de passear a pé e
desde criança não er a sensível aos efeitos do ca r va lh o venenoso. Q u a n -
do o s eu ps ica na lis ta disse- lhe qu e deveria divorcia r- s e, el a sofreu u m
ataque tão severo qu e teve qu e ser hos pita liza da , encerrando s u a análise.
E l e não s a b ia qu e s eu script exigia qu e el a se divorcia s s e, ma s proib ia - a
de fazê- lo antes de a s crianças cres cerem. Ata qu es sérios de a s ma ta m-
bém podem ocorrer nes ta conju ntu ra , requ erendo hospitalização n u ma
tenda de oxigénio. U m a consciência completa do script do paciente pode
(penso eu ) evita r cris es sérias como estas. C olite u lceros a , úlceras gás-
tricas perfu radas também são su speitas às vezes . N u m ca s o, u m paranói-
de des is tiu de s eu mu ndo de script e começou a viver no mu ndo r ea l s em
su ficiente preparação e "proteçã o", e pou co menos de u m mês depois
apareceu açúcar em s u a u r in a , marcando o começo de diab etes. Is to o
trou xe de volta à "segu rança" do s eu script de " D oen te F r a ca s s a d o" ,
nu ma versão modifica da .
O lema "p en s e esfíncter" refere- se também ao componente fisioló-
gico do script. O homem com u ma b oca apertada e a pessoa qu e come,
b eb e, fu ma e fa la simu ltaneamente (tanto quanto possível) são "p er s on a -
gens de script" típicas. O homem vicia do em la xa ntes ou la va gens i n -
testinais poderá ter u m script " in tes tin a l " a rca ico. Mu lheres com script
de violentação poderão manter os músculos Levator eni e Sphincter

257
cunni contraídos, resu ltando em relações s exu a is dolorosas. Ejaculação
prematu ra ou retardada e a s ma também podem ser consideradas como
distúrbios do esfíncter de na tu reza liga da a o script.
O s esfíncteres são órgãos de encenação fin a l ou desfecho. A
" c a u s a " verda deira dos distúrbios esfincterianos está, qu ase sempre, n o
sistema nervos o centra l. O s aspectos tra ns a ciona is , entretanto, não s u r-
gem a partir d a " c a u s a " , ma s s im do efeito. P or exemplo, qu a lqu er qu e
seja a " c a u s a " d a ejaculação prematu ra n o s is tema nervos o centra l, o
efeito será n a relação entre o homem e s eu pa rceiro, e a s s im a ejaculação
precoce origina- se, é parte de ou contrib u i p a r a o s eu script qu e, em ge-
r a l, é u m script de fra ca s s o em ou tras áreas além do s exo.
A importância de "p en s a r em termos de esfíncter" repou sa n a ma -
neira como os esfíncteres podem s er u sados transacionalmente. A C r i a n -
ça de M ik e perceb e in tu itiva e rapidamente de qu e ma neira s a s pessoas
desejam u tiliza r os esfíncteres contra ele. S a b e qu e este indivíduo qu er
u rina r nele, o ou tro defecar sobre ele, qu e u ma mu lher deseja cu s p ir nele
e a s s im por dia nte 6 , E l e está qu ase sempre certo, como a ca b a p or desco-
b rir, a longo pra zo, se se rela ciona r com estas pessoas.
O qu e acontece é o segu inte: qu ando M ik e encontra Pa t p ela p r i-
meira vez (nos primeiros dez segu ndos ou , n o máximo, dez minu tos de-
pois de se terem vis to) , a Criança de M ik e sente exatamente qu a l é' a i n -
tenção d a Criança de Pa t. M a s a Criança de Pa t, com a aju da de s eu P a i
e Ad u lto, gera o ma is rápido possível u ma dens a cortina de fumaça qu e,
ta l como u m génio, assu me u ma forma hu ma na d a pers ona de Pa t ou d is -
farce. Então M ik e começa a ignorar e enterrar a percepção intu itiva de
s u a Criança em fa vor d a aceitação d a pers ona de Pa t. A s s i m , Pa t a tra i
M ik e, desviando- o d a percepção correta e oferecendo- lhe s u a pers ona
em vez dis s o. M ik e a ceita a pers ona de Pa t porqu e está igu almente ocu -
pado, cria ndo u ma cortina de fumaça pa ra atrair Pa t, e fica tão a b s orvido
qu e esqu ece não só o que s u a Criança sabe sobre Pa t, ma s também o qu e
sabe sobre s i mesmo. Discutirá os dez primeiros segundos com ma is de-
talhes em ou tra ocasião. A s pessoas ignora m su as percepções intu itiva s e
aceita a pers ona do ou tro em vez disto porqu e es ta é a forma polida de
a gir e comb ina com a s necessidades de seu s jogos e scripts. E s ta a ceita -
ção mútua é cha ma da de "contra to s o c i a l " .
O significado dos scripts pa ra o script é qu e ca d a pessoa procu ra , e
encontra intu itivamente, alguém com u m script complementar. P a r a co-
loca r a questão de u ma forma ma is s imples , a pes s oa cu jo script exige
qu e el a coma b osta procurará alguém cu jo script ex ij a qu e defequ e sobre
os ou tros. E l e s se atrairão n os primeiros dez minu tos , gastarão ma is ou
menos tempo disfarçando a b ase es fincteria na d a atração mútua e, se
continu a rem pa ra além deste ponto, poderão satisfazer a s necessidades
do script de ca d a u m.
S e isto s oa r como inacreditável, considere os casos ma is flagrantes
onde há u ma satisfação imedia ta da s necessidades do script. U m homos-
s exu a l poderá i r ao b a nheiro ma s cu lin o, a o b a r ou mes mo andar pela r u a .

258
em dez segu ndos, poderá loca liza r infa livelmente o homem qu e está pro-
cu ra ndo, alguém qu e lh e dará não apenas a satisfação s exu a l qu e ele de-
s eja , ma s fazê- lo d a ma neira qu e o s eu script exige: n u m amb iente s emi-
público, onde à emoção de u m jogo "Polícia & La d r ã o" é a diciona da a
satisfação s exu a l ou u m lu ga r sossegado onde poderão forma r u ma liga -
ção ma is du ra dou ra qu e poderá (s e o script o exigir ) termina r em a s s a s -
sinato. U m heteros s exu a l experimentado andando pela r u a de qu alqu er
cidade grande sab e, em gera l, encontrar infa livelmente a mu lher qu e
procu ra : a qu e não só lhe dará o tipo de satisfação s exu a l desejada, ma s
também fará os jogos qu e s e a ju s ta m a s eu script. E l e poderá s er passado
pa ra trás, receb er pagamento, ficar bêbado, alegre, s er morto ou ca s a r,
dependendo da s exigências de s eu script. Mu ita s pessoas civiliza d a s e
b em edu cadas a prendem a ignora r ou s u primir su as intuições, emb or a
estas ha b ilida des pos s a m ser lib eradas e des envolvida s em condições
apropriadas.

C . C o m o o uv i r

N a primeira seção des crevemos a lgu ns dos s ina is vis u a is do script.


Volta mo- nos agora p a r a a arte de ou vir. O terapeu ta poderá es cu ta r os
pacientes com os olhos fechados, assegu rando- lhes em a lgu m momento
que não adormeceu e premia ndo a indulgência deles contando- lhes o qu e
ou viu ou es cu ta r a gravação d a reunião do gru po, preferivelmente com
os olhos fechados pa ra elimin a r as distrações vis u a is . U m a da s cois a s do
script ensinadá a qu ase todas as crianças, ju ntamente com o não olha r
pa ra ela s com mu ito cu ida do, é não ou vir com os olhos fecha dos , p a r a
não ou vir dema is . E s ta injunção n em sempre é fácil de ven cer - mamãe
não gostaria disto.
M es mo qu e n u n ca tenha vis to os pacientes e de início n a d a s a ib a
sobre eles , u m a na lis ta de script experimentado pode aprender mu ito
com u ma fita gr a va d a n u m gru po de tratamento de d ez ou vinte minu tos
de duração. Começando com informação zero ele d ever ia , apenas ou vin -
do u m paciente des conhecido fa la r com a lgu m tempo, s er ca pa z de fa zer
u m relatório bastante detalhado de s u a formação fa milia r, jogos fa vor i-
tos, e provável destino. Após trinta minu tos , o rendimento d imin u i em
função do cansaço, e n en h u ma fita deveria s er tocada p or ma is de meia
hora em segu ida.
Há sempre espaço p a r a aperfeiçoamento d a ca pa cida de de ou vir .
E s ta é u m a proposta do tipo Z e n , pois n a s u a ma ior parte depende do
que está s e pa s s a ndo n a cabeça do ou vinte e não do qu e está a contecen-
do do la do de fora . A parte útil do ou vir é feita p or aqu ele aspecto d a
personalidade con h ecid a como " O Pr ofes s or ", o Ad u lto d a Criança ( ver
F ig u r a 7 ) . O Profes s or coma nda o poder de intuição8 , e a parte ma is i m -
portante des ta d iz respeito a o comportamento es fincteria no tra ns a ciona l:
Q u a l o esfíncter qu e o ou tro ca r a está qu erendo u s a r comigo e qu a l deles

259
desejo u s a r com ele? D e onde provém estes desejos e pa ra onde qu erem
ir ? Q u a ndo es ta informação a r ca ica ou " p r i m a i " infiltra r- s e no Ad u lto
do o uv i nt e poderá se r e l abo rada e m al g o m ai s específico: informação
sobre a formação fa milia r do pa ciente 9 , su as tendências ins tintiva s , s u a
ocupação e a meta de s eu script. Então será necessário sab er como lib e-
ra r o Profes s or p a r a realizar a s u a ta refa d a forma ma is efica z. A s regras
pa ra isto são a s segu intes:

1) O ou vinte deverá estar em b oas condições físicas, tendo dormi-


do b em* , e não estar sob a influência de álcool, medicação ou
drogas qu e preju dica m s u a eficácia menta l. Is to in clu i tanto s e-
dativos como estimu lantes.
2 ) S u a mente deverá estar livr e de preocupações exteriores.
3) D eve pôr de lado todos os preconceitos e sentimentos Pa renta is ,
inclu indo a necessidade de " a j u d a r " .
4 ) D eve pôr de la do todas as pré- concepções sobre seu s pacientes
em gera l e sob re o paciente específico qu e ele está ou vindo.
5) N ã o deve permitir qu e o paciente o dis tra ia com pergu ntas ou
ou tras solicitações e precisará aprender como repelir tais inter-
rupções de forma não-prejudicial.
6 ) S eu Ad u lto ou ve o conteúdo do qu e d iz o paciente, enqu anto o
Professor-Criança es cu ta a ma neira como a s cois a s são ditas.
E m lingu a gem telefónica, s eu Ad u lto ou ve a informação e a
Criança o ru ído 1 1 . E m lingu a gem radiofónica, s eu Ad u lto ou ve
o progra ma e a Criança a ma neira como a máquina fu nciona .
A s s i m , ele é simu ltaneamente ou vinte e radiotécnico. S e for u m
cons elheiro, b asta s er ou vinte, ma s se for terapeu ta, s u a tarefa
ma is importante será fazer consertos.
7) Q u a ndo começar a sentir- se ca ns a do, pare de ou vir e comece,
em vez, a ver e a fa la r.

D . S i n a i s v o c a i s bási c o s

D epois de ter aprendido a ou vir , terá qu e aprender o qu e ou vir . D o


ponto de vis ta psiquiátrico, exis tem qu atro s ina is voca is básicos: s ons ,
sotaques, vozes e vocabulário.
Sons respiratórios — O s sons respiratórios ma is comu ns e seu s s ig-
nifica dos u s u a is são: tosse (ninguém me a ma ) , s u s piros ( s e a pena s ), b o-
cejos (dá o for a ) , res mu ngos (você é qu e dis s e) e soluços (você me

* Isto significa provavelmente sono R E M . Às vezes o terapeuta que ficou acordado, virando-se
de um lado para o outro à noite toda, verificará que sua intuição encontra-se mais aguda na m a-
nhã seguinte. A hipótese seria que seu Adulto está cansado por falta de sono N R E M , enquanto
sua Criança está num estado excepcionalmente bom por causa da quantidade de sono R E M .

260
pe g o u) e vários t i po s de risadas t ai s c o m o pi adas, risinhos de satisfação,
c asq ui nadas e risotas. O s três t i po s m ai s import ant es de risadas, c o n h e -
c i das c o l o q ui al m e nt e c o m o H o H o , H a H a e H e H e serão di sc ut i do s m ai s
adi ant e .
Sotaques — A c ul t ura t e m m ui t o p o uc o a v e r c o m scripts. H á v e n -
c e do re s e pe rde do re s e m t o das as c am adas d a so c i e dade e e m t o do s o s
países, e e st e s se m o v i m e nt am p ar a r e al i z ar o s se us de st i no s d a m e sm a
m ane i ra n o m undo t o do . P o r e x e m pl o , a prev alência d a doença m e nt al
e m q ual q ue r grupo grande de pe sso as é bast ant e se m e lhant e e m t odos o s
l ug ar e s 1 2 e há sui c i das e m t odas as part e s. T o d o o grupo num e ro so n o
m undo também t e m o s se us líderes e se us ho m e ns ricos.
A p e sar di st o , so t aque s e st range i ro s têm al g um si g ni f i c ado p ar a o
anal i st a do script. P ri m e i ro , po ssi bi l i t am e duc adas suposições so bre o s
pre c e i t o s Pare nt ai s pre c o c e s e é aq ui q ue e nt ra a c ul t ura: " F aç a c o m o
lhe d i z e m " , n a A l e m an h a, " F i q u e c a l a d o " , n a França e " N ã o se j a m a l -
c r i a d o " , n a I nglat e rra. Se g undo , i n d i c am a f l e x i bi l i dade do script. U m
alemão que v i v e u v i nt e ano s ne st e país e ai nda f al a c o m um so t aque
ac e nt uado têm, pro v av e l m e nt e , um pl ano de v i d a m e no s flexív el do que
um dinamarquês q ue f al a um bo m inglês de po i s de do i s ano s ape nas.
T e r c e i r o , o script é e sc ri t o n a língua nat i v a d a Criança, e a análise do
script é m ai s rápida e m ai s e f i c az se o t e rape ut a so ube r f al ar e st a língua.
U m e st range i ro e nc e nando se u script no s Est ad o s Un i d o s é o e q ui v a-
lent e a e nc e nar Hamlet e m japonês n um t eat ro de K a buk i . U m a bo a
part e se perderá o u será m al-i nt e rpre t ada se o crítico não t i v e r o o ri g i nal
n a m ão .
So t aque s nat i v o s também são i nf o rm at i v o s, part i c ularm e nt e se f o -
rem afet ados. U m ho m e m q ue f al a c o m so t aque de Br o o k l y n m as i nt e r-
c al a al g uns " a s " am plo s à m o d a de Bo st o n o u Br o a d w a y i n d i c a a i n -
fluência de um herói o u f i g ura pare nt al q ue c arre g a c o nsi g o de nt ro d a
própria cabeça, e e st a p e sso a p r e c i sa se r l o c al i z ad a, p o i s sua influência
está, pro v av e l m e nt e , di sse m i nada, m e sm o q ue o pac i e nt e ne g ue e st e f a-
t o. " E l a f alo u' a c o i s a o u d i r i a e u um e p i g r am a" o u " S a i m u a t empo m as
c he g am u q uando o j o g o j á e st av a n a m e t ad e " , i n d i c a c laram e nt e um a d i -
v isão n as di re t i v as P are nt ai s.
Vozes - C a d a pac i e nt e t e m , n o mínimo, três v o z e s di f e re nt e s, P a i ,
A d ul t o e Criança. Po de rá c o nse rv ar um a, o u m e sm o duas de l as c ui dado -
sam e nt e e sc o ndi das p o r m ui t o t e m po , porém, m ai s c e do o u m ai s t arde
e l as aparecerão. U m c o nv i t e at e nc i o so poderá, e m g e ral , o uv i r pe l o m e -
no s duas de l as e m q ual q ue r período de q ui nz e m i nut o s de t empo. O p a -
c i e nt e poderá pro nunc i ar t o do um parágrafo P are nt al c o m ape nas um a
lamúria d a Criança o u um parágrafo de A d ul t o c o m ape nas repreensão
P are nt al , m as um o uv i nt e al e rt a selecionará a f rase -c hav e . Out ro s p a -
c i e nt e s m udam de v o z de um a sentença p ar a o ut ra o u usam até m e sm o
duas o u três v o z e s n um a única sentença.
C a d a um a das v o z e s r e v e l a al g o so bre o script. A v o z P are nt al ,
f alando c o m o ut ra pe sso a, us a l e m as e pre c e i t o s e re pro duz o que o p ai e a

261
mãe d i r i am n a m e sm a situação: " N ã o são t odos q u e ? " , " V e j a q ue m está
fa la ndo'', " V o c ê t e m que ma nter s u a mente ocu p a d a " , " P o r qu e não se
esforça m a i s ? " , " N ã o se po de c o nf i ar e m ni ngué m ". Um a v o z A dul t a
i nalt e rada si g ni f i c a, ge ralm e nt e , que a Criança está se ndo supri m i da po r
um c o m ando P are nt al e m f av o r de al g um padrão pedant e e de spro v i do
de hum o r, c arre g ado t al v e z de algum as pi adas anai s " o f i c i a i s " , I st o i n -
d i c a q ue a Criança encontrará alguns c am i nho s t ort uosos de expressão
o u explodirá pe ri o di c am e nt e , dando o ri g e m ao c o m po rt am e nt o não-
adapt at i v o e ao de sgast e de e ne rg i a q ue f az e m o pe rde do r. A v o z da
Criança i n d i c a o pape l no script: " Ga r o t o engraça<Jinho", " C o i t a d i n h a
de m i m " , " Cho rão p e g aj o so " , po r e x e m pl o . A s s i m , a v o z P a r e n t i c o nt a
o contra-script, o A d ul t o f o rne c e o padrão e a v o z da Cr