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FORMATOS INSUBORDINADOS DE DISSERTAÇÕES E TESES

NA EDUCAÇÃO MATEMÁTICA
Jonei Cerqueira Barbosa1
O autor inicia o artigo relatando dois casos específicos de tentativas de apresentação de
trabalhos de uma forma não usual "fora" dos padrões e das normas. Uma tese de doutorado lá pelos
anos de 1990, e a outra, uma dissertação de mestrado, por volta do ano 2000. A primeira não foi
levada a cabo, tendo que ser modificada para ser aceita, pois estaria fora dos moldes tradicionais. O
próprio autor da tese relata que fora “convencido” pelos professores que a tese não seria adequada
para a época, por estar fora do padrão. A segunda obteve um parecer diferente, apesar das discussões
com os membros da banca acerca da legitimidade do formato “não usual”, foi possível apresentar a
dissertação nos moldes por ela direcionado.
Analisando as informações apresentadas no texto, percebemos que as duas situações se deram
de forma não tão semelhantes, porém andam sobre os mesmos trilhos da insubordinação, de tentar
ser um diferencial. Vejamos então, a primeira envolvia um aparato muito diferente do usual, um
roteiro cinematográfico. Há que se pesar na balança o tempo, ou seja, meados dos anos 1990, final de
século, a internet apenas engatinhando e para este momento talvez fosse ousada em demasia. A
segunda por apresentar uma forma mais próxima ao “padrão”, pois trazia em seu âmago dois artigos
a serem submetidos a revistas brasileiras que foram então juntados ao corpo da dissertação. Digamos
que este método, embora fugisse ao padrão, estaria mais adequado ao conceito tradicional.
Hoje vemos com mais frequência, apesar de ainda serem poucos, os trabalhos científicos que
se atrevem adentrar por caminhos alternativos, diferentes, rumo ao infinito, ao novo. Isso faz lembrar
as grandes descobertas marítimas2, em que caravelas se lançavam ao sabor do vento singrando os
mares rumo ao desconhecido, sem saber realmente se achariam algo ou onde ancorar suas naus. Sem
falar nas teorias de grandes bestas marinhas que habitavam o imaginário dos navegadores, ou ainda
de que a terra era quadrada, sendo que em determinado momento, ao final da “planura”, ocorreria
uma queda sem fim. Navegava-se sonhando em descobrir novos mundos, novas terras, sem mesmo
saber se essas terras realmente existiam, ou se rumavam numa viagem tendo bilhete apenas de ida.
Talvez uma comparação um tanto ufanista, porém observando que os construtores de teses e
dissertações tendem a navegar invariavelmente no mesmo tom e apesar de algumas vezes o orientador
até embarcar numa nau insurgente, fica a impressão de não ser um embarque voluntário. E se por

1
Graduado em Matemática pela Universidade Católica do Salvador (1997), Doutorado em Educação Matemática pela
Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (2001) e estágio pós-doutoral na London South Bank University
(2008) e na University of London (2013-2014). Atualmente, é professor adjunto do Departamento II da Faculdade de
Educação da Universidade Federal da Bahia. Tem experiência na área de Educação Matemática, com ênfase em
Modelagem Matemática, Materiais Curriculares Educativos e Formação de Professores de Matemática.
2
Não que esteja balizando a forma como os livros de história romanceiam a descoberta, por exemplo, das Américas, e
em especial, do Brasil. Mas esta forma de pensar heroicamente, destemidamente poderia ser uma faceta, um molde para
olharmos para o diferente, o inusitado, o insurgente no momento de escrever, de pensar a tese e sua apresentação.
vezes o orientador não tem toda certeza de querer apoiar seu pupilo, quiçá a banca que não conhece
o doutorando, a tese e os caminhos percorridos até chegar a este ponto.
No relato do autor, é possível perceber que em certo momento, ou até certo momento, ele
mesmo tenha ficado assombrado diante destas novas alternativas, outros olhares para a formatação
de teses. Isso é bem possível, devido ao tradicionalismo nato, da falta de desafios e incentivos na
escola bem como em gruas sucessivos. É como estar numa linha de produção de uma grande fábrica
onde se reproduzem sempre o mesmo padrão, a mesma rotina, realizada do mesmo jeito, da mesma
forma, com a mesma intensidade, nem um pingo a mais, nem um mínimo de sentimentalismo, nem
sequer uma alteração na postura, na força, no ritmo.
Os trabalhos acadêmicos tendem a ser assim, um tanto desprovidos de liberdade, de iniciativa,
de alegria, talvez até possam ser irônicos, mas nunca cômicos, precisam ser técnicos e científicos para
ter valor, embasados friamente numa mesma categoria onde, como numa escala musical andassem no
mesmo ritmo, subindo a escala e depois descendo sempre na mesma e enfadonha melodia. Mas isso
não ocorria nas grandes e geniais sacadas de compositores que souberam fugir a isso, mesmo sofrendo
objeções, críticas e julgamentos que poderiam acabar com a carreira de músico/compositor, não se
quedaram. Especialmente lembro o caso de Ludwig Von Beethoven, ao compor a sua Nona Sinfonia,
era algo para além do tempo, da sua época. Pela primeira vez havia a presença de um coro e de um
quarteto de solistas. Tudo isso Beethoven concretizou mesmo sem ouvir uma nota sequer, pois havia
perdido totalmente a audição em 1819.
Mas seja na música, nas artes, na educação, é preciso inventar, sair do tradicional, insurgir-se,
insubordinar-se perante os fatos e alavancar novas atitudes, novos saberes e novos rumos. Conforme
Lilian Nassi-Calò3: “No Karolinska Institute em Estocolmo, Suécia, a maior parte das teses é uma
compilação dos artigos publicados pelos alunos seguidos de uma discussão, em um volume de não
mais de 50 páginas no total”. E ainda, segundo editorial da edição da Nature de 07 de julho de 2016,
traz estatísticas apontando para a pouca leitura das teses, sendo que estas (as teses) continuam
aumentando todo ano. Então de um lado temos uma superabundância de pesquisas e de outro uma
baixíssima frequência de leituras. Mas, como bem conclui o autor, os pesquisadores ao procurar por
novas formas de representações, há de se atentar para aquelas que se adequem melhor aos propósitos
da investigação, do contrário, que sentido faria tal insubordinação?

Marizete Nink de Carvalho4

3
NASSI-CALÒ, L. Teses e dissertações: prós e contras dos formatos tradicional e alternativo [online]. SciELO em
Perspectiva, 2016 [viewed 22 May 2018]. Available from: https://blog.scielo.org/blog/2016/08/24/teses-e-dissertacoes-
pros-e-contras-dos-formatos-tradicional-e-alternativo/
4
Licenciada e Mestre em Matemática pela Universidade Federal de Rondônia e Doutoranda em Educação Matemática
pela Universidade Federal do Mato Grosso do Sul.