Você está na página 1de 3

Marcus e eu tremíamos.

Diante do austero Conselho da nossa igreja,


respondíamos sobre nossa recente experiência pentecostal. Em oração, eu e
ele havíamos falado em línguas estranhas; experimentado o que os teólogos
chamam de “glossolália”. Há vinte e cinco anos, a questão carismática havia
rachado muitas igrejas batistas, presbiterianas e metodistas. Alguns líderes de
nossa igreja não queriam correr riscos. Sentamos em um semicírculo e,
seguindo todos os trâmites canônicos da denominação, foi-nos cobrada uma
nova profissão de fé.

Ficava patente para nossos inquiridores que não só criamos como também
éramos pentecostais. A morna madrugada cearense se arrastava pesada
quando, exaustos, percebemos que não havia reconciliação. Acabamos
forçados a pedir afastamento da igreja. Passados tantos anos, nossos traumas
foram curados. Desde então, a minha primeira e tão querida igreja mudou
muito. Alguns elementos pentecostais que provocaram nossa exclusão foram
incorporados à sua liturgia; há mais abertura doutrinária também. Duvido que
hoje fossemos julgados com tanto rigor. Ironicamente, agora escrevo
questionando sobre novas práticas e posicionamentos teológicos no
pentecostalismo. Percebo um neo-carismatismo brasileiro muito diferente do
que conheci. Acredito que muitas igrejas, identificadas hoje como pentecostais,
estão teologicamente muito próximas de um misticismo pagão. Distantes da
teologia clássica, incorporaram valores de uma espiritualidade esotérica. Com
certeza, há fortes segmentos de um novo pentecostalismo que não caminham
com o que a igreja primitiva chamava de “doutrina dos apóstolos”. Urge mostrar
que é possível ser pentecostal sem ser esotérico. Recentemente, aguardava
minhas malas na esteira de um determinado aeroporto. Uma senhora
evangélica me abordou afirmando que se dispunha a orar por uma pessoa
amiga. Pediu-me que intermediasse o encontro. Respeitosamente, respondi-
lhe: -Lamento, mas não tenho acesso a essa pessoa. De pronto, ela me
respondeu: -Pedi seu auxílio porque sei que posso ajudar. Depois,
acrescentou: -Desenvolvi uma técnica de oração que, tenho certeza, dará
certo. Em sua sentença, percebi os perigos que ameaçam os evangélicos
brasileiros. Esse conceito de técnica é mais pagão que bíblico. O paganismo se
firma na premissa de que há energias soltas no cosmo. O aprendizado de
técnicas e rituais capacitam as pessoas a instrumentarem essas energias em
seu próprio benefício. O pagão prescinde de relacionamentos com a divindade.
Seu deus pode ser indiferente e frio. Basta que se canalizem essas forças
autônomas e até a divindade se obrigará a elas. Igrejas que ensinam aos seus
crentes orações prontas, valem-se de amuletos e divulgam métodos para
“conseguir” bênçãos de Deus, não são pentecostais ou evangélicas, mas
versões cristianizadas do esoterismo do fim de século.  Meus primeiros passos
nas igrejas pentecostais foram intensos.

Atravessávamos madrugadas “buscando” a Deus. Quantas vezes,


encharcando o chão de lágrimas e suor, suplicávamos com fervor que a sua
vontade se cumprisse em nossas vidas. Algumas vezes, exagerávamos.
Recordo-me de um amigo que, de rosto em terra, afirmava que preferia morrer
a sair daquela reunião sem ser tocado pelo Espírito Santo. Em muitos sítios
evangélicos hoje, a atitude parece ser outra. Resumem-se em desenvolver
fórmulas de alcançar milagres. Infelizmente são poucos os eventos
organizados para que as pessoas simplesmente busquem ser cheias de Deus.
Questiono se ainda há espaço para oração em que não se desejam resultados
práticos, apenas estar mais perto de Jesus. A possibilidade de ser tocado pelo
sobrenatural empolgou meus anos juvenis. Lembro-me que eu relegara ao
passado a possibilidade de milagres acontecerem. Foram os pentecostais que
me lembraram que podemos não apenas testemunhar, como experimentar o
toque sobrenatural do Espírito Santo.

Disseram-me que o seu poder me revestiria de virtude e que eu, a partir


daquela experiência, seria consumido por um novo zelo missionário. Busquei e
pedi que Deus me enchesse do seu poder porque desejava testemunhar dele
com novo ardor. Senti-me invadido pelo transcendente em um culto de vigília
promovido por nosso grupo da Aliança Bíblica Universitária. Meus objetivos de
vida mudaram. As religiões místicas também buscam experiências
sobrenaturais. Não contesto que o fenômeno das línguas estranhas também já
se evidenciou em alguns redutos espíritas. O argumento pentecostal é que o
contato sobrenatural do Espírito Santo impulsiona para missões. A experiência
pagã com o sobrenatural é ensimesmada. Deus não nos toca, não nos plenifica
e não nos revela o transcendente somente para nos arrepiar. O esotérico
busca paz; quer sentir-se melhor sem compromisso para o serviço. O cristão
busca servir; quer ser instrumento capaz nas mãos de Deus.

Devemos olhar com cautela as reuniões em que as pessoas são arrebatadas,


jogadas ao chão, tomadas de riso e de choro sem desdobramentos posteriores
no servir ao próximo. Alcebíades Pereira Vasconcelos, pastor e pensador
pentecostal, escreveu: ”Também a unção do Espírito Santo nos enche de
poder para testemunhar…Cheios do Espírito, podemos anunciar o Evangelho
de poder, a tempo e fora de tempo (2 Tm 4.1-5)…Inflamados por esse fogo,
seguiremos avante dando testemunho a pequenos e a grandes (At 26.22)
daquilo de que somos testemunhas, a saber, da ‘razão de ser de nossa
fé’”. Aquela reunião em que me confrontavam sobre a autenticidade de minha
experiência com os dons do Espírito Santo, permanece vívida em minha
memória. Ainda inexperiente e sem muita bagagem teológica eu não sabia
argumentar o que me sucedera. Entretanto, estava consciente que minha vida
havia mudado. O toque de Deus gerara em mim novos valores. O
pentecostalismo sempre creu que o poder do Espírito Santo e santidade são
inseparáveis. Donald Gee, inglês e precursor da teologia pentecostal afirmou:
“Não há base bíblica para crer que um avivamento que só recebe o Espírito
Santo como inspirador da Palavra ou da ação, e não da santificação pessoal
também, continue no seu poder. ‘Entristecer’ o Espírito de Deus por falta de
santificação (Ef. 4.30) com certeza termina também na ‘extinção’ do Espírito de
Deus na sua manifestação (1 Ts 5.19). O plano divinamente equilibrado
revelado no Novo Testamento é onde o Espírito Santo se assemelha na origem
tanto do fruto como do dom; e para as duas fases da nossa redenção Ele é
bem vindo e obedecido”.  Neste crepúsculo secular experimenta-se um
avivamento de um misticismo pós-moderno. Tenho um amigo que estudou com
um professor de lógica na faculdade de Filosofia que lecionava segurando um
cristal. Sabe-se de ex-militantes da Teologia de Libertação profundamente
envolvidos com um panteísmo que os inspira a adorar a “mãe terra”. Há
evangélicos crendo em “mau olhado”, amuletos e no poder de um copo d’água
ungido. Com tanta abertura para o transcendente, convém lembrar que é
possível crer na contemporaneidade dos dons do Espírito Santo, cura divina,
milagres, anjos e exorcismos, sem ser esotérico. Basta não abandonar a Bíblia
como única regra de fé e prática.  

Continuaremos fieis ao cristianismo histórico, se nossos cultos buscarem nos


levar a um relacionamento mais profundo e verdadeiro com Deus; nossa fé
desdobrar se em serviço e a expressão de nossa vida cristã estiver marcada
por caráter e não sucesso.  A identidade evangélica no próximo milênio,
dependerá de nossa habilidade em distinguir uma coisa da outra. Que Deus
nos ajude. 

Soli Deo Gloria.


Autor: Ricardo Gondim, teólogo e pastor da Assembléia de Deus Betesda