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A Transcendência dos números e e π

Blas Melendez Caraballo


Leonardo Soriani Alves
Osmar Rogério Reis Severiano
Paulo Okuda
Ramon Códamo Braga da Costa
Roberto Assis Machado
10 de dezembro de 2013

1 Introdução
Matemáticos famosos desde o século XVIII, ficaram fascinados com a con-
strução de alguns números transcendentes e a transcêndencia de e e π, e muitos
deram contribuições marcantes. Entre eles, destacamos os nomes de J.H. Lam-
bert, que demonstrou a irracionalidade de π, em 1761. J. Liuoville, que em 1844,
demonstrou a existência de números transcendentes pela contrução, de fato de
uma classe desses números. C. Hermite que demonstrou a transcendência de
e, em 1873. F. Lindeman que, em 1882, demonstrou que π é transcendente.
A. Gelfond, em 1934 e Theodor Schneider, em 1935, resolveram, independen- √
temente o 7◦ Problema de Hilbert sobre a transcendência de números como 2 2 .

O número π; a razão entre a circunferência de qualquer cı́rculo e seu


diâmetro, mundialmente conhecida como π, é a constante matemática mais
antiga de que se tem notı́cia. Muitas civilizações antigas usavam o π (ainda
sem uma prova formal de sua existência) através de aproximações. As mais
rudimentares e grosseiras aproximavam π ≈ 3, mas há algumas mais precisas
 2
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como e .
50 9
O documento mais antigo com a demonstração da existência do π é o livro
Elementos de Euclides, de 300 a.c., onde ele enuncia: “Dois cı́rculos estão um
para o outro como o quadrado de seus diâmetros”. No entanto, há indı́cios de
que Hipócrates de Chios já sabia uma demonstração desse fato em 430 a.c.
Desde o século XV há expressões de π (ou potências de π) como soma de
uma série. Hoje conhece-se uma infinidade delas. Segue algumas delas:

 
1 1 1 1
π = 12 1 − + − + − . . .
3 · 31 5 · 32 7 · 33 9 · 34

1
π 1 1 1 1
= 5 − 5 + 5 − 5 + ...
16 1 +4·1 3 +4·3 5 +4·5 7 +4·7

 
1 1 1 1 1 1 1
π = 3 3 1 − + − + − + ··· + − + ...
2 4 5 7 8 3n + 1 3n + 2
π2 1 1 1 1
= 2 + 2 + 2 + 2 + ...
6 1 2 3 4
As duas primeiras são de Nilakhantha e as duas últimas são de Euler.
A melhor aproximação para π atual é dos matemáticos de The Santa Clara
University, de 2013, com 8.000.000.000.000.000 de casas decimais. Apesar de
se saber muito sobre o π, ainda há questões abertas, como a conjectura de que
π é um número normal (um número real é dito normal se no seu desenvolvi-
mento decimal os algarismos aparecem todos com mesma frequência). Mas há
evidências empı́ricas de que π é, de fato, normal.

O número e; o número e é bem mais recente na história da matemática que


o π. Sua primeira aparição, ainda que discreta, foi no apêndice de um trabalho
de Napier sobre logaritmos em 1618, que continha uma tabela com o logaritmo
natural de vários números. Mas na maneira que os lagaritmos eram calculados
naquela época, a base não aparecia e só mais tarde é que se descobriu que os
logaritmos nessa tabela eram os logaritmos naturais que conhecemos hoje. A
primeira vez que o e foi descoberto foi numa ocasião que não tinha nada a
ver com logaritmos. Em 1683 Jacob Bernoulli analisava  problemas
n envolvendo
1
juros compostos e tentou encontrar o limite de 1 + quando tendia ao
n
infinito. O que ele conseguiu fazer é mostrar que esse limite estava entre 2 e 3.
Se considerarmos esse limite como a definição de e, essa é a primiera vez que
um número é definido através de um limite.
Em 1784 Euler publicou diversos avanços sobre e, já com a notação que
conhecemos hoje. Ele mostrou que o limite que Bernoulli tentou calcular era de
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fato e e também demonstrou sua expansão em série e = 1 + + + + . . ..
1! 2! 3!
Definição 1.1. Um número α é dito algébrico se existe um polinômio não nulo
p(x) = an xn + . . . + a0 , com a0 , . . . , an ∈ Z tal que p(α) = 0. Um número que
não seja algébrico é chamado de transcendente.
Primeiramente optamos em garantir a existência dos números transcen-
dentes de forma indireta, seguiremos a prova feita por G. Cantor, e apreciaremos
um pouco mais o conceito de número algébrico.
Teorema 1.2. O conjunto de todos os números algébricos é enumerável.
Demonstração. Dado um polinômio com coeficientes inteiros
p(x) = an xn + . . . + a1 x + a0 (1)
definimos sua altura como sendo o número natural
|p| = |an | + . . . + |a1 | + |a0 | + n. (2)

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O teorema fundamental da álgebra nos diz que p(x) tem exatemente n raı́zes
complexas. Todas, algumas ou nenhuma delas podem ser reais. Agora o número
de polinômios do tipo (1) com uma dada altura é apenas um número finito. (Ob-
serve que é para essa afirmação que incluı́mos a parcela n na definição da altura
(2)). Portanto, as raı́zes de todos os polinômios de uma dada altura formam um
conjunto finito. A seguir observamos que o conjunto de todas as raı́zes de todos
os polinômios de todas as alturas formam um conjunto enumerável, pois ele é a
união de um conjunto enumerável de conjuntos finitos.
Teorema 1.3. Existem números transcendentes.

Demonstração. Do teorema 1.2 segue-se que o conjunto dos algébricos reais é


enumerável. Como o conjunto R é não enumerável, então o conjunto dos tran-
scendentes reais deve ser não enumerável. De fato, se não o fosse concluirı́amos
que R é enumerável.
Nossos esforços até agora foram para garantir a existência de números
transcendentes, entretanto nossa curiosidade (matemática) começa a levantar
questionamentos; como podemos encontrar esses números? existe um algoritmo
ou tecnica para determiná-los?
Frente a estas questões passaremos a estudar dois números em particular; e
e π. Com um pouco de trabalho provaremos que estes dois números são tran-
scendentes, e discutiremos o 7o problema de Hilbert.
A transcendência de e foi um desafio aos matemáticos até o século XIX.
Em 1873, o matématico frânces C. Hermiite marcou época ao demonstrar a
transcência de e. A demonstração original de Hermite sofreu simplificações su-
cessivas por matemáticos famosos como (1882), Markhoff (1883), Rouché (1883),
Weierstrass (1885), Hilbert (1893), Hurwitz (1893) e Veblen (1904), entre out-
ros.

Lema 1.4. f (i) (j) é um inteiro divisı́vel por p, exceto se j = 0 e i = p − 1, e


então f (p−1) (0) = (−1)p . . . (−r)p .
Demonstração. Usando a regra de Leibniz, se j 6= 0, o único termo não nulo
p!
vem do fator (x − j)p derivado p vezes. Como (p−1)! = p, esses termos são
inteiros e divisı́veis por p. Se j = 0, o único termo não nulo é quado i = p − 1,
e então
f (p−1) (0) = (−1)p . . . (−r)p .

Teorema 1.5. O número e é transcendente.

Demonstração. Suponha por absurdo que e seja algébrico, seja p(x) = αn xn +


αn−1 xn−1 + . . . + α0 um polinômio na não nulo, com coeficientes inteiro, α0 > 0
tal que
0 = p(e) = αn en + αn−1 en−1 + . . . + α0 .

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Seja p um primo qualquer e defina

xp−1 (x − 1)p (x − 2)p . . . (x − r)p


f (x) = .
(p − 1)!

Note que o grau de f (x) é rp + p − 1. Defina

F (x) = f (x) + f 0 (x) + . . . + f (rp+r−1) (x),

observe que f (x) satisfaz

d  −x
e F (x) = −e−x f (x).

dx
Então Z j
e−t f (t)dt = αj F (0) − e−j F (j) .
 
αj
0

Assim, multiplicando por ej e fazendo o somatório em j = 0, 1, . . . , r.


r
X Z j r
X r rp+p−1
X X
ej αj e−t f (t)dt = ej αj F (0) − e−j F (j) = − αj f (i) (j). (3)
 
j=0 0 j=0 j=0 i=0

Então pelo lema 1.4, a equação (3), pode ser reescrita da seguinte forma;

Kp + α0 (−1)p . . . (−r)p ,

para algum inteiro K. Tome p > max {r, |α0 |} , então o inteiro α0 (−1)p . . . (−1)p
não é divisı́vel por p. Então para um primo p suficientemente grande o valor de
(3) é um inteiro não divisı́vel por p e não nulo. Logo se, 0 ≤ x ≤ r,

rrp+p−1
|f (x)| ≤ .
(p − 1)!

Portanto,

r Z j r Z j rp+p−1 r
rrp+p−1

X j X j r X
e αj f (t)dt ≤ e |αj | dt ≤ ej |αj | .
0 (p − 1)! (p − 1)!

j=0 0 j=0 j=0

o lado esquerdo da equação da equação é não nulo enquanto o lado direito


tende a zero quando p tende a infinito. O que é absurdo. Logo e não pode ser
algébrico.
Nosso próximo passo é apresentar uma demonstração de que π é tran-
scendente.
Teorema 1.6. O número π é transcendente.

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Demonstração. Suponhamos por absurdo que π seja algébrico. Então iπ também
é. Seja p(x) ∈ Z[X] um polinômio não nulo tal que p(iπ) = 0. Considere
α1 = iπ, α2 , . . . , αn todas as raı́zes desse polinômio. Pela identidade de Euler
segue que:
Yn Xr
0= (eαj + 1) = k + eβj ,
j=1 j=1

onde β1 , . . . , βr são os números não nulos dentre


αi 1≤i≤n
αi + αj 1≤i≤j≤n
.. ..
. .
α1 + . . . αn
e k é obtido somando os termos cujos expoentes são nulos. Desta forma, temos
que β1 , . . . , βr são raı́zes de um polinômio
Q(x) = c0 + c1 x + . . . + cr xr ,
onde os coeficiente são inteiros. Seja p um primo primo qualquer e s = r(p − 1).
Defina
cs xp−1 (Q(x))p
f (x) = .
(p − 1)!
Note que o grau de f (x) é s + r + p − 1. Defina
F (x) = f (x) + f 0 (x) + . . . + f (s+p+r−1) (x),
observe que f (x) satisfaz
d  −x
e F (x) = −e−x f (x).

dx
Então Z x
e−x F (x) − F (0) = − e−t f (t)dt.
0
Assim, fazendo uma mudança de variável t = λx, temos que:
Z 1
F (x) − ex F (0) = −x e(1−λ)x f (λx)dλ. (4)
0

Somando essa igualdade e fazendo x variar sobre β1 , . . . , βr , obtemos:


X r r
X Z 1
F (βj ) + kF (0) = − βj e(1−λ)βj f (λβj )dλ (5)
j=1 j=1 0

Notemos que βj é raiz de f (x) de multiplicidade p. Daı́, temos que se 0 ≤


t < p, então:
Xr
f (t) (βj ) = 0.
j=1

5
t ≥ p, apenas a p−ésima derivada de Q(x) no ponto βj é não nula. Assim:

f t (βj )
,
cs
r
X
são polinômios com coeficientes inteiros divisı́veis por p. Além disso, f (t) (βj ),
j=1
é simétrico de grau menor ou igual a s. Então:
r
X
f (t) (βj ) = pkt ,
j=1

para algum kt ∈ Z.
Por outro lado, temos que:

 0, se t ≤ p − 2
f (t) (0) = cs cp0 , se t = p − 1
mútiplo de p se t ≥ p

Portanto a equação (5) fica


r
X
F (βj ) + kF (0) = Kp + kcs cp0 ,
j=1

para algum K ∈ Z.
Tome p > max {|k| , |c| , |c0 |}, então o lado direito da equação acima é não
nul. Além disso de (4) obtemos
s
|c| mpj p−1
|f (λβj )| ≤ |βj | ,
(p − 1)!

onde mj = sup0≤λ≤1 |Q(λβj )| . Portanto


s p
r r
|c| mpj |βj |
X Z 1 X
(1−λ)λj

β j e f (λβ j )dλ ≤ B, (6)
j=1 (p − 1)!

j=1 0

onde Z 1
(1−λ)βj
B = sup e dλ.
j 0

O lado esquerdo da desigualdade (6) é não nulo enquanto o lado direito


tende a zero quando p tende a infinito. O que é absurdo. Logo π não pode ser
algébrico.
Feito isto verificamos que e e π são números transcendentes, agora cabe
a pergunta através desse dois números ainda podemos fabricar mais números

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transcendentes, pois diferentemente dos números algébricos, os números tran-
scendentes não formam um corpo. E ainda como vimos no teorema 1.2, os
números transcendentes existem em maior quantidade se comparados com os
números algébricos.
Frente a essas questões apresentaremos um resultante bastante surpreen-
dente. Historicamente o 7◦ (problema de hilbert), o quarto problema proposto
oramente por David Hilbert consistia em estabelecer se certos números

eram
transcendentes. Assim, por exemplo, não se sabia na época se 2 2 era tran-
scedente ou algébrico. A inclusão desse problema na lista dos 23 revela bem a
importância que Hilbert a ele atribuia. Agora iremos enunciar (sem apresentar
uma prova) um teorema que decide a transcendência de alguns números, este
resulado é atribuı́do a: Gelfond (1934) e Schneider (1935) (apresentaram provas
independente).

Teorema 1.7. Sejam α e β números algébricos (reais ou complexos). Se α 6=


0, α 6= 1 e β não for um número racional então αβ é transcendente.

Exemplo 1. 2 2 , 2i são transcendentes.
Exemplo 2. eπ é transcendente, por que

eπ = exp {−2i log i} = i−2i .

Referências
[1] HERTEIN, I.N.; Topics in Algebra, John Wiley and Sons, . 1975.

[2] EYMARD, P., LAFON J.P; The Number.., A.M.S 2004.


[3] FIGUEIREDO, D. G.; Números Irracionais e Transcendentes, S.B.M, 2002.

http //www.mat.ufrgs.br/ portosil/aplcom1a.html


http://www-history.mcs.st-and.ac.uk/HistTopics/e.html