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A Dissolução do Império Otomano: A História e o Legado do Declínio dos Turco-Otomanos e a

Criação do Oriente-Médio Moderno  


Por Charles River Editora

Imagem da bandeira Otomana


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Introdução

O último sultão Otomano, Mehmed VI, após a dissolução em 1922


A Dissolução do Império Otomano
Em janeiro de 2011, o canal de televisão turco “Show TV” transmitiu Um Século Magnífico (Muhteşem Yüzyıl),
que viria a se tornar um dos programas televisivos mais populares pelos próximos anos. A série, situada durante a
época do sultão com o mais longo reinado do Império Otomano, Solimão, O Magnífico, foi popular até mesmo fora
da Turquia, incluindo países como a Bósnia, Macedônia e Grécia. Ao mesmo tempo, o sucesso de Muhteşem Yüzyıl
causou preocupações quanto a tentativas turcas de usar o que alguns percebiam como uma forma de nostalgia do
Império Otomano, e isso levou a críticas oriundas de diversas figuras locais (incluindo o Bispo de Tessalônica[1], na
Grécia, bem como o banimento de novelas turcas na Macedônia) [2]. Apesar de tudo, o sucesso de Um Século
Magnífico serve de testamento à vívida influência que os vários séculos de existência do império ainda têm no
Oriente Médio e Balcãs, quase 100 anos após sua dissolução.
A longa agonia do “doente da Europa”,[3] uma expressão utilizada pelo Czar da Rússia para se referir ao império
em decadência, poderia quase ofuscar das pessoas o seu incrível poder e história. Preservando sua herança mista,
proveniente de sua posição geográfica reconstruída sobre as cinzas do Império Bizantino e da tradição herdada das
Conquistas Muçulmanas, o Império Otomano durou por mais de seis séculos. Seus soldados lutaram, morreram, e
conquistaram terras em três continentes diferentes, fazendo dele um dos poucos impérios multiétnicos estáveis da
história – e provavelmente um dos últimos. Assim sendo, é quase inevitável que a história de sua dissolução ocorre
em meio a complexas disputas geopolíticas, bem como tensões sectárias que ainda são essenciais para o
entendimento do Oriente Médio, Norte da África e Balcãs.
Quando estudando a queda do Império Otomano, historiadores debateram qual foi o ponto chave que levou uma
potência global a lentamente se tornar um império decadente. A fracassada Batalha de Viena em 1683 é, certamente,
um revés importante para o império em expansão; a derrota do Grão-Vizir Kara Mustafa Pasha, orquestrada por uma
coalizão liderada pela dinastia Habsburgo Austríaca, o Sacro-Império Romano-Germânico e a Comunidade
Polonesa-Lituana marcou o fim do expansionismo Otomano. Foi também o princípio de um vagaroso declínio
durante o qual o Império Otomano sofreu múltiplas derrotas militares, foi infestado por corrupção, e teve de lidar
com Janízaros cada vez mais motinosos (Janízaros compunham a infantaria inicial do Império).
A despeito disto tudo, o Império Otomano ainda sobreviveria por mais de 200 anos, e no último século de sua
vida, esforçou-se para reformar suas forças militares, administração e economia, até sua final dissolução. Anos antes
do colapso final do Império, o Tanzimat (“Reorganização”), um período de abrangentes reformas, levou a mudanças
significativas no aparato militar do país, dentre outras, o que certamente explica o sucesso inicial que o Império
Otomano conseguiu atingir contra seus rivais. Similarmente, a criação de uma nova constituição (Kanûn-u Esâsî,
Lei Básica), em 1876, apesar de ter sido invalidada pelo Sultão Abdul Hamid II apenas dois anos mais tarde, bem
como a sua reativação pelo movimento dos “Jovens Turcos” em 1908, exemplificam o entendimento dentre a elite
Otomana de que mudanças eram necessárias, e sua crença que tal mudança era possível.
Analisar os eventos dos últimos dois séculos do império, e interpretar a queda do Império Otomano como um
declínio lento e longo é o que se considera a “narrativa aceitável”. Ao início da Primeira Guerra Mundial, o Império
Otomano era frequentemente descrito como um poder diminuto, repleto de corrupção administrativa, usando
tecnologia inferior, e afligido por liderança falha. A ideia geral é que o Império Otomano estava “atrasado”,
provavelmente por conta da evidente estagnação entre os anos de 1683 e 1826. Ainda assim, pode-se argumentar
que esse retrato é muitas vezes enganoso e não traz à tona uma perspectiva completa do estado do Império Otomano.
O fato que o outro império multicultural existente, o Império Austro-Húngaro, também não sobreviveu à Primeira
Guerra Mundial, deveria colocar em questão essa “narrativa aceitável”. Observando as reformas, avanços
tecnológicos e esforços de modernização feitos pela elite otomana entre 1826 e o início da Primeira Guerra, se
poderia de fato indagar o porquê de tamanha sede por mudança não ter resgatado os otomanos quando medidas
similares adotadas por outras nações, tais como o Japão durante a era Meij, resultaram de fato na ascensão de uma
potência global no século XX.
Durante o período que precedeu o seu colapso, o Império Otomano estava no centro de uma crescente rivalidade
entre duas das potências globais concorrentes da época, a Inglaterra e a França. As duas potências exerceram sua
influência sobre um império decadente, cuja história está ancorada tanto na Europa quanto na Ásia. Entretanto,
enquanto que as duas potências tenham sido instrumentais na derrota final e colapso do Império Otomano, a sua
postura quanto ao que viria a ser a “Questão Oriental” – o destino do Império Otomano – não é uma de evidente
inimizade. Ambas Inglaterra e França encontraram, às vezes, razões para estender a vida do doente da Europa até
que ele finalmente se aliou com seus inimigos mútuos. A posição da Rússia quanto ao Império Otomano é bem mais
clara; a potência Asiática e Europeia em ascensão enxergava os Otomanos como um rival, o qual eles buscaram
conter, dividir e finalmente destruir por mais de 300 anos em uma série de guerras contra seu antigo adversário.
Por último, mas não menos importante, o crescimento do nacionalismo dentre povos sob domínio otomano foi um
fator chave na dissolução do império. Ao final do século XIX, pouco antes de seu colapso completo, o território do
Império Otomano foi abalado devido ao crescente clamor por independência oriundo das diferentes etnias que foram
governadas durante centenas de anos. A inclusividade do Império, que o marcava como sucessor direto do Império
Bizantino, foi certamente desafiada por uma liderança arcaica. A inabilidade do Império Otomano de criar uma
identidade compartilhada, um estado central enfraquecido, e o aumento de dissidências internas foram alguns dos
principais fatores explicando seu longo falecimento. Esse fracasso também explica a necessidade da criação de uma
nova forma de identidade, o que foi eventualmente providenciado por Mustafa Kemal, o fundador da Turquia
moderna.
No geral, a história da dissolução pode ser definida como uma corrida entre a crescente “doença” do Império, por
um lado (a inabilidade dos Otomanos de agradar e federalizar os vários povos dentro de seu território), e tentativas
constantes de encontrar uma cura através de reformas abrangentes. Essas questões são frequentemente apresentadas
em conjunto, mas isso tende a voltar o foco para fora, para os vários povos e suas aspirações, junto com o aumento
da influência europeia sobre o destino do Império Otomano. Para considerar ambas “doença” e cura, é necessário
separá-las, antes de então voltar a atenção para a causa direta da dissolução do império (a Primeira Guerra Mundial)
e seu legado.
A Dissolução do Império Otomano: A História e o Legado do Declínio dos Turco-Otomanos e a Criação do
Oriente-Médio Moderno narra o fim de um dos impérios mais influentes da história, e as suas consequências. Junto
de gravuras de personagens importantes, lugares e eventos, você vai aprender sobre a dissolução do Império
Otomano como nunca antes.
A Dissolução do Império Otomano: A História e o Legado do Declínio dos Turco-Otomanos e a Criação do Oriente-
Médio Moderno
Sobre a Charles River Editora
Introdução
O Tanzimat e as Reformas
A Primeira Era Constitucional
A Revolução Grega
Conflitos de Poder Europeus
Um Fim Brutal
Recursos On-Line
Bibliografia
Livros Gratuitos da Charles River Editora
Livros em Oferta da Charles River Editora
O Tanzimat e as Reformas
O Tanzimat (1839 – 1876) – foi uma série de reformas implementadas ao redor do império e em várias áreas, com
a intenção de modernizar o Império Otomano e pôr um fim à estagnação econômica, política e militar do Império.
Após a derrota na batalha de Viena em 1683, junto da precedente derrota naval em Lepanto em 1571, o Império
Otomano de fato entrou em um período de quase duzentos anos de estagnação. Durante essa época, algumas de suas
conquistas foram desfeitas pelas potências europeias, junto da Rússia. Ao fim da Guerra da Santa Aliança (1683 –
1699), concluída com a assinatura do Tratado de Karlowitz em 1699, o império cedeu a maior parte da Hungria e
outras pequenas posses na Europa Central, bem como a Dalmácia na costa do Mar Adriático e a península do
Peloponeso na Grécia, mais tarde reconquistada. Durante a mesma época, o império foi confrontado com a primeira
série de guerras contra a Rússia, quando o novo Czar, Pedro O Grande, implementou uma nova política de “acesso
ao mar”. Isso preveniu que os aliados Otomanos da Criméia, que geralmente enviavam reforços de cavalaria para
lutar junto das tropas otomanas regulares, pudessem apoiar forças otomanas na Europa Central. Apesar de várias
derrotas Russas, o conflito acabou com a captura de Azov, a fortaleza Otomana na Criméia, em 1696, sinalizando a
crescente ameaça Russa aos Otomanos. A Rússia cada vez mais enxergava o Império Otomano como rival pelo seu
objetivo, em sua busca por assentar seu controle no Mar Negro. Após a inicial captura de Azov, que também foi tida
como o nascimento da Marinha Imperial Russa, a Rússia continuamente derrotou os Otomanos. Isso foi o caso em
especial após finalmente derrotar seu rival anterior, a Suécia, em 1718, podendo então focar seus recursos militares
contra os Otomanos.
Esse período também serviu de palco para os Yeni Ceri (“Novos Soldados” ou Janízaros) ganharem sua guerra de
influência contra a nobreza Otomana. Havia uma rivalidade natural entre a nobreza Turca que constituía a cavalaria
Otomana (os Sipahis), e os Janízaros, infantes Otomanos que inicialmente eram escravos estrangeiros provenientes
de vilarejos Cristãos sob ocupação Otomana. Essa rivalidade, também fortemente incentivada pelo Sultão – que a
enxergava como uma maneira de prevenir que ambos os lados se aliassem contra ele – acabou a favor dos Janízaros
durante a metade do século XVI, levando à confiscação das terras dos Sipahis, e à consolidação de seu poder. Deste
ponto em diante, os Janízaros se transformariam em um fardo para o Império Otomano. Seus números cresceram de
17,000 em 1648 para uma estimativa de 135,000 em 1826[4], e eles eram notoriamente corruptos. Mais importante,
eles se contrapunham a qualquer tentativa de reformar as forças armadas Otomanas.
Em 1807, o Sultão decidiu substituí-los com uma nova infantaria modernizada, como parte da Nizam-ı Cedid, ou
reforma da “Nova Ordem”. Essa reforma foi em resposta às derrotas militares sofridas durante a invasão do Egito
por Napoleão e das derrotas Otomanas sofridas durante a guerra Russo-Turca (1787 – 1792). Em sua última rebelião
bem-sucedida, após receber apoio de Shaykh Ul Islam (grande sábio do Império Otomano), os Janízaros depuseram
o iniciador das reformas, Sultão Selim III, e desbandaram o exército aos moldes Europeus Nizam-i Cedid em 1807.
Em 1825, entretanto, o Sultão Mahmud II declarou uma fatwa dizendo que era o dever de todo Muçulmano servir
nas forças armadas Otomanas e reinstaurando o exército Nizam-i Cedid em 1826, tentando substituir os Janízaros.
Quando os Janízaros se rebelaram em 1826 e saquearam partes de Constantinopla, o Sultão esmagou a revolta,
levando à morte de 4,000 Janízaros, e ao subsequente desmembramento da antiga força militar. Essa revolta
fracassada, também conhecida como o “Incidente Auspicioso”, abriu o caminho para maiores reformas militares e
políticas, o Tanzimat.
Em 3 de Novembro de 1839, quatro meses após a morte do Sultão Mahmud II, que construiu o fundamento para
tais reformas, o Sultão Abdulmecid I decretou o Hatt-I Serif de Gulhane (“Nobre Édito da Câmara da Rosa”). O
documento propunha abrangentes reformas dentro do Império Otomano, baseando-se em ideias previamente
desenvolvidas a respeito da construção de um Estado Otomano que garantiria segurança prosperidade e equidade
dentre todos os súditos do império independente de sua religião ou raça. O decreto prometia proteger as vidas e
propriedades de seus súditos, inserir um novo código de Justiça afirmando o status igualitário entre Muçulmanos,
Judeus e Cristãos perante a lei, criar um sistema de impostos regular e desenvolver um método justo de alistamento
para serviço em um exército e uma marinha modernizados. Efetivamente, o decreto enfraqueceu e praticamente
encerrou o sistema do millet, onde cada grupo religioso (millet) tinha oficiais responsáveis pela coleção de impostos,
educação, justiça e afares religiosos.
Sultão Mahmud II
Sultão Abdulmecid I
A primeira onda de reformas foi liderada por Mustafa Reshid Pasha, que seria por seis vezes o Grão-Vizir e duas
vezes Ministro do Exterior entre 1839 e 1858. Antes do Édito, ele tinha sido o Embaixador Otomano à França e
mais tarde seu Ministro do Exterior e passou a ser conhecido como o “Pai do Tanzimat” [5]. Um dos primeiros
burocratas Otomanos a receber uma educação europeia, Pasha viajara pela maior parte da Europa e desenvolveu
relações amistosas com estadistas Franceses e Britânicos. Entretanto, ainda que os princípios Ocidentais tenham sido
a maior fonte de inspiração para Hatt- I Serif de Gulhane, o documento em si fazia um notável esforço para colocar
as reformas dentro do contexto da herança Islâmica dos Otomanos. De fato, ele iniciava por colocar a Lei Islâmica
(Sharia ou Seriat) como uma fonte central de inspiração, e alegando que o declínio do Império se devia à falta de
aderência à Seriat: “Todo o mundo sabe que desde os primeiros dias do Estado Otomano, os elevados princípios do
Corão e as regras da Seriat foram sempre perfeitamente observados. Nosso poderoso Sultanado atingiu o mais alto
grau de força e poder, e todos seus súditos [o mais alto grau] de paz e prosperidade. Mas nos últimos cento e
cinquenta anos, por conta de sucessivas dificuldades e diversas causas, a sagrada Seriat não foi obedecida nem
foram seguidas os beneficentes regulamentos; por conseguinte, a antiga força e prosperidade se transformaram em
fraqueza e pobreza. É evidente que países não governados pelas leis da Seriat não têm chance de sobreviver.”[6]
Pasha
O Édito poderia, assim, ser visto como uma tentativa de buscar as raízes das futuras reformas dentro dos princípios
Islâmicos, e reconciliar a herança Otomana com as reformas Europeias da mesma forma como o Japão adotou o
Wakon-Vosai (“Espírito Japonês, técnicas Ocidentais”) como um slogan para a modernização do país. Entretanto,
muitas das reformas que ocorreram e foram retratadas como sendo enraizadas na herança Islâmica de fato foram
contrárias a muitas das regras da Sharia. O segundo maior Édito da Tanzimat, o Islâhat Hatt-i Humayun também
conhecido como Proclamação Imperial em 1856, não fez sequer menção da herança Islâmica, e a crescente adoção
de Códigos Napoleônicos durante o período todo claramente contradizia essa narrativa inicial. A aceitação de ambas
lei e burocracia europeias foi uma cisão radical do princípio tradicional “Din ve Devlet” que governara o Estado
Otomano até então, e considerava a fé (Din) e o Estado (Devlet) como uma única instituição.
O Édito de Gulhane foi seguido por uma série de reformas econômicas, sociais, políticas e militares. No âmbito
econômico, o Édito levou a uma série de mudanças com intenção de liberalizar a economia e afastar-se do
intervencionismo e protecionismo estatal. Isso foi feito através do cancelamento de medidas arcaicas ou entidades
tais como o Iltizam (imposto sobre a lavoura) ou das várias guildas. Novos conceitos foram introduzidos, incluindo a
primeira cédula bancária Otomana em 1840, novos bancos, junto com novas leis Europeias para regular o livre-
comércio, em especial as Leis de Comércio Napoleônicas. Essas reformas econômicas e o fluxo de investimento
estrangeiro e empréstimos contribuíram para um crescimento sem precedentes na construção de infraestrutura,
incluindo estradas, portos e outras principais vias de comércio e transporte. Essas foram em grande parte financiadas
pelo Estado Otomano, incentivado pela França e Grã-Bretanha, que passavam por um desenvolvimento financeiro
excepcional. Bancos europeus começaram a encaminhar poupanças para crédito internacional, o que por sua vez
encorajou os seus respectivos governos a facilitar o aumento de dívidas de seu aliado Oriental. Em 1854, o Império
entrou em seu primeiro contrato de empréstimos com os credores europeus, uma ação que se concluiria no Decreto
de Ramadan, a moratória da dívida externa Otomana, em 30 de outubro de 1875.
Socialmente, o Édito expandiu e consolidou a burocracia otomana para criar um novo sistema de impostos bem
como uma administração legislativa e militar, permitindo o surgimento de uma nova elite otomana. Em 1846, um
plano para educação estatal foi implementado, incluindo a criação de um sistema de educação primária e secundária
e chegando à universidade, sob um Ministério da Educação. O orçamento limitado destinado à criação destas
escolas, todavia, atrasou a realização dessas reformas. Apesar disso, as mudanças foram importantes. Elas
demonstravam a diferença entre as reformas anteriores de Selim III, que foram lideradas pelo Sultão, e aquelas
realizadas durante o Tanzimat, comandadas por uma nova geração de burocratas Otomanos conhecidos como os
“Homens do Tanzimat” (Tanzimatçılar). A criação de uma burocracia nova revigorou a onda de reformas mais
tarde, em uma época na qual sofria grande resistência e oposição interna. Intelectuais Otomanos, tais como os
Jovens Otomanos (ver: Primeira Era Constitucional), os Jovens Turcos ou até mesmo os seguidores de Mustafa
Kemal e o próprio Mustafa Kemal, todos originaram-se dessa nova classe de burocratas cujo propósito era reformar
e salvar o Império.
No âmbito militar, o primeiro período de reformas foi marcado pela introdução de alistamento obrigatório junto
com um período fixo de serviço militar introduzido em 1843 e baseado na Lei de Alistamento da Prússia de 1814.
As forças armadas Otomanas foram então divididas em cinco Exércitos Imperiais com guarnições em diferentes
regiões do Império. O serviço militar foi estabelecido como um período de cinco anos, nas idades de 20 a 25 anos,
junto com adicionais sete anos com deveres de reserva. A primeira e a segunda reforma militar também causaram o
surgimento de uma classe nova e mais educada de oficiais e cadetes de médio a alto escalão, que progressivamente
se envolveriam com as políticas de palácio Otomanas, como ilustrado pelo golpe de maio de 1876 (Ver: Primeira
Era Constitucional).
A segunda onda de reformas começou com o Islâhat Hatt-i Humayun, ou Proclamação Imperial, divulgada no dia
18 de fevereiro de 1856. O decreto foi em grande parte inspirado por propostas feitas pela França e Grã-Bretanha,
que auxiliaram o Império Otomano durante a Guerra da Criméia (1853 – 1856) contra a Rússia. Ambas França e
Grã-Bretanha usaram seu status como aliados para incentivar padrões ocidentais no Império, já que o impacto da
onda inicial de reformas foi tido como limitado. A segunda onda de reformas foi também, em parte, causada por
certa frustração dentre os Otomanos quanto aos resultados das reformas iniciais, que introduziram uma série de
novos conceitos, mas ainda assim quase nunca foram implementadas como um todo, ou apenas tiveram impacto nas
áreas mais centrais do Império.
O decreto afirmava mais claramente a igualdade de todos os súditos do Império sem distinção de raça ou religião,
assim expandindo grandemente o escopo do édito anterior. Também se diferenciou ao criar um novo mecanismo
político que, até um certo alcance, limitava o poder do Sultão. O sultão, por exemplo, prometeu ser responsável pela
criação de Conselhos Provinciais e Comunais. O decreto também levou à criação do Código Penal Otomano em
1858, baseado no Código Napoleônico de 1810, consolidando ainda mais o que já havia sido conquistado durante a
primeira onda de reformas. O código resultou no estabelecimento de um sistema penal secular, junto com um
sistema de cortes que incluía tribunais de primeira instância, cortes de apelos e uma alta corte de apelos. Igualmente
significativa foi a implementação de um plano educacional nomeado de Regulação de Instrução Pública em 1869,
baseado no princípio de educação gratuita e compulsória mencionado no Islâhat Hatt-i Humayun.
Durante essa segunda onda de reformas, o Império Otomano também reorganizou suas províncias sob a “Lei
Vilayet” de 1864. A Lei Vilayet substituía o sistema Eyalet, que dividia o Império em províncias ao ainda subdividir
cada província em unidades administrativas muito menores, enquanto designando uma nova hierarquia burocrática
para cada uma das unidades administrativas criadas, expandindo seu poder. A lei buscava ao mesmo tempo reforçar
a autoridade central do estado sobre as suas províncias, enquanto também delegando maior autoridade aos
governantes locais. Contudo, sua interpretação pelos governadores locais, e a falta de pessoal qualificado para
ocupar essas posições se tornou um problema. Ao tempo que a elite Otomana se tornava mais educada, ela
relutantemente deixava Constantinopla e o coração do Império. Os poderes decentralizados dos governadores e
outros administradores menores também seria usado contra a integridade do Império Otomano uma vez que a França
e Grã-Bretanha demarcassem suas próprias áreas de influência dentro do Império.
A Primeira Era Constitucional
As duas ondas de reformas deram início a diferentes formas de oposição. Uma das mais comuns e provavelmente
a mais forte em termos de números partia de elementos conservadores dentro do império. Outra, entretanto, veio do
próprio cerne da elite otomana criada por conta dessas reformas. À medida que o Império adotava cada vez mais leis
e princípios europeus, e que sua elite estava em maior contato com ideias europeias, eles também desenvolveram um
senso da herança única dos Otomanos. Um grupo de intelectuais, chamado de “Jovens Otomanos”, começou a
formular várias críticas contra as reformas do Tanzimat. Esse grupo foi constituído ao redor de um núcleo de seis
personagens que inicialmente formaram a “Aliança Patriótica” em 1876, e estavam ao mesmo tempo familiarizados
com ideias europeias e com as instituições internas do Império Otomano.
O grupo expandiu e passou a incluir centenas de membros, assim tornando-se extremamente diverso em sua
ideologia. Eles formularam várias ideias e críticas contra o Sultão e às anteriores reformas do Tanzimat. Uma dessas
foi a percepção de que a Tanzimat não havia buscado encontrar um meio-termo entre a herança Islâmica e as
reformas e leis europeias. A aceitação cega de ideias e leis europeias foi criticada pelos membros dos Jovens
Otomanos, bem como a falta de esforços para superar as diferenças entre o Islã e o Ocidente. Interessantemente, esse
criticismo não partia dos elementos conservadores dentro da sociedade otomana, mas de intelectuais liberais e
seculares. Eles estavam interessados nesse conceito como uma maneira de definir uma nova forma de identidade
otomana, que em retrospecto era a principal meta dos Jovens Otomanos. O Islã teve um papel tão importante nessa
nova identidade quanto o conceito mais europeu de patriotismo, ou nacionalismo.
Outra ideia circulando entre os Jovens Otomanos, que inicialmente acarretou prisões e exílios entre seus membros,
era que a autoridade e poder do Sultão deveriam ser limitados. Um dos personagens mais proeminentes dos Jovens
Otomanos, Namik Kemal (1840 – 1888), derivou das antigas tradições e práticas islâmicas a ideia de uma
assembleia representativa que iria contrabalancear o poder do Sultão. Ambas as ideias de que o poder do Sultão
precisava ser restrito e o suporte pela consagração da tradição islâmica como o cerne da tradição Otomana levou os
Jovens Otomanos a ver a necessidade de criar uma Constituição. Essa constituição seria o alicerce da nova
identidade otomana, junto do Estado e instituições otomanas.
Kemal
Em 1876, seguindo a deposição do Sultão Abdulaziz no que foi de fato um golpe fomentado pelo exército e seus
ministros, o Sultão Murad V subiu ao poder. Seu reinado inspirou uma onda de otimismo dentre os Jovens
Otomanos, já que o sobrinho do antigo Sultão tinha reputação de ser mais liberal, e foi em grande parte inserido no
poder pelo antigo Grão-Vizir Midhad Pasha, que apoiava a constituição. Porém, o reinado do Sultão Murad foi
extremamente breve; ele foi deposto três meses após tomar o poder por conta de sofrer uma enfermidade mental
considerada incurável pelos médicos. Midhad Pasha, que apoiava as ideias dos Jovens Otomanos, se tornou Grão-
Vizir sob o Sultão Abdul Hamid II. A nominação de Midhad Pasha permitiu a elaboração da primeira constituição
do Império Otomano, sob o nome de “A Lei Fundamental do Sultanado”.
Sultão Murad V
Sultão Abdul Hamid II
Entretanto, o Sultão Abdul Hamid II e Midhad Pasha cada vez mais discordavam quanto ao conteúdo da
constituição, em particular a respeito da centralização do Império bem como da participação de minorias nas futuras
instituições do Império. O Sultão Abdul Hamid II detinha uma visão muito mais centralizadora do império que
Midhad Pasha, e não enxergava a participação de minorias como uma prioridade. Midhad Pasha, por sua vez,
buscava a participação de todos os povos no futuro Parlamento, a fim de aumentar a consolidação da natureza
secular do regime e convencer nações europeias a prestar auxílio na prevenção de conflitos com a Rússia, que mais e
mais utilizava as populações eslavas como pretexto para agir agressivamente contra os Otomanos. O Sultão Abdul
Hamid, e até mesmo alguns Jovens Otomanos como Namik Kemal se opuseram. A ideia foi ainda vista por muitos
dentre a população e elite muçulmana como um cavalo de Tróia pró-europeu que causaria ainda maior aumento da
influência dos cristãos. Usando essa oposição, vindo de segmentos tradicionais da elite e da população, o Sultão
Abdul Hamid aprovou a Constituição em seus próprios termos, de uma forma que não ameaçasse seus privilégios, e
mais tarde demitiu Midhad Pasha.
Por ventura, a era constitucional não durou muito. Uma vez que a constituição entrou em efeito e levou à criação
de duas câmaras, a Câmara dos Deputados e o Senado, ambas as casas enxergaram como seu dever dispensar os
ministros dentro do governo que eram percebidos como sendo corruptos. Alegando que essa ação deveria ser uma
prerrogativa sua, o Sultão Abdul Hamid II solicitou uma nova eleição, que, todavia, não acarretou o resultado
esperado pelo Sultão. Por conseguinte, em 1878, ele dissolveu os Parlamentos, e suspendeu a constituição. Ainda
que o Sultão Abdul Hamid nunca mais tenha proposto novas eleições, ele não aboliu a constituição, a fim de manter
as aparências, mas na realidade, o poder escapou da nova classe de burocratas que havia sido criada e foi de volta
para o Sultão.
Para contrapor a influência europeia e a gradativa secularização do Império, ambas as quais eram vistas
negativamente por Abdul Hamid, o novo Sultão utilizou sua posição de Califa. Durante a década que precedeu sua
ascensão ao poder, a ideia do Pan-Islamismo, que propunha unidade dentre muçulmanos, recebia apoio de diversos
estudiosos e membros da elite otomana, como uma forma de consolidar o Império. Ainda que tenha falhado em
ganhar suporte suficiente antes da ascensão de Abdul Hamid, a desastrosa derrota em 1878 contra a Rússia ajudou a
aumentar a sua influência. A guerra estava diretamente conectada à crise dos Balcãs, e às condições da população
cristã do Império (Ver: Ascensão do Nacionalismo). Isso incentivou e, a uma certa medida, legitimou os esforços de
Midhad Pasha de tentar dar maior autonomia para essas populações, e melhorar a condição das populações cristãs do
Império.
Por outro lado, o fato que a aprovação da Constituição não preveniu intervenções russas nos Balcãs
completamente debilitou a posição daqueles a favor de um sistema político mais inclusivo. Mais importante, a
derrota resultou no Tratado de San Stefano, marcando a perda definitiva da Sérvia, Romênia e Montenegro e a
criação do Principado da Bulgária, um estado vassalo do Império Otomano, todos dos quais eram territórios cristãos.
A percentagem de súditos não-muçulmanos do Império, portanto, se tornou a mais baixa em séculos, encorajando
uma política que claramente se afastava da inclusividade do Tanzimat.
Finalmente, e ainda que não ligado diretamente a guerra Russo-Turca de 1877 – 1878, o crescente número de
cidadãos muçulmanos dos Impérios Francês e Britânicos significavam que o uso da posição do Sultão como o Califa
também era tido como uma possível ferramenta de barganha nas relações entre as duas potências internacionais e os
Otomanos. Pan-Islamismo era visto como uma forma de confrontar o colonialismo europeu, e visava apresentar o
coração do Islã como estando fora do alcance da Europa. O desenvolvimento de outras ideologias similares pelos
rivais do Império, como o Pan-Helenismo apoiado pelos gregos, o Pan-Eslavismo usado pela Rússia para combater
os Otomanos, também serviu para ampliar a influência do Pan-Islamismo dentre a elite governante Otomana.
O reinado do Sultão Abdul Hamid marcou o fim da era do Tanzimat. O sultão enxergava o Tanzimat como um
produto da influência europeia e buscou revertê-lo. Abdul Hamid utilizou sua posição como o Califa para tentar
federar as populações muçulmanas sob domínio Otomano. Deve-se notar, entretanto, que a ideia de ter o Sultão
Otomano como o Califa de todos os muçulmanos não era óbvia para todo fiel, dado que ele não era nem um Árabe,
nem um membro da tribo de Maomé.
De todo modo, o reinado de Abdul Hamid foi marcado por crescente centralização e também foco na identidade
islâmica e até mesmo árabe do Império. Isso por si só não quer dizer que o reinado de Abdul Hamid foi um de
completa reversão do progresso obtido durante o Tanzimat. Sob seu governo, o Império Otomano continuou a
expandir e modernizar sua administração e exército. Grandes ferrovias foram construídas, incluindo a linha Hejaz de
Damasco até Medina, a estrada de ferro de Bagdá e a estrada de ferro da Anatólia. Ele também expandiu
significativamente a rede de escolas primárias e secundárias e criou escolas profissionais.
A sua influência foi, contudo, em grande parte limitada pelo escopo da crise pela qual os Otomanos passavam. A
moratória otomana sobre sua dívida nacional em 1875, apenas antes do início de seu reinado o forçou a aceitar a
criação da Administração da Dívida Pública Otomana (ADPO) em 1881, uma entidade sob controle europeu que
empregava entre 5,000 e 9,000 funcionários com a tarefa de coletar pagamentos advindos de diferentes fontes, com
intuito de reembolsar a dívida. Isso incluía rendimentos oriundos do sal, da seda, impostos indiretos bem como
vários outros produtos agrícolas através de várias companhias públicas.
Ainda que a ADPO tenha de fato possibilitado a modernização da agricultura Otomana e ajudado a reduzir a
dívida do império, ela também colocou o foco nestes produtos, e não na industrialização do país. Também em
grande parte limitou a habilidade do estado de interferir nesses setores. A troca relativamente injusta devida ao
tratado das Capitulações negociado com várias potências europeias, que incluía limitação em tarifas, bem como uma
competição global crescente em produtos básicos devido à intensificação do comércio, exerceram um peso sobre a
economia Otomana. O crescimento do nacionalismo, que já havia sido um grande tema para o Império Otomano,
também drenava cada vez mais recursos para longe dos esforços de modernização.
A Revolução Grega
Durante todo o século XIX e o início do século XX, o surgimento de aspirações nacionalistas contribuiu em
grande parte para o declínio do Império Otomano. O conceito de “nação” era novo para o Império Otomano, que até
então pensava a respeito de seus súditos como comunidades construídas mais em torno da religião do que de
idiomas ou origens geográficas. Para lidar com os desafios resultantes da existência de várias religiões dentro do
Império, o sistema de millet foi criado após a conquista de Constantinopla pelo Sultão Mehmed II. O sistema
garantia que cristãos, e mais tarde outras religiões, poderiam viver dentro da lei Otomana ao permitir que eles
escolhessem seus próprios líderes religiosos, coletassem seus impostos, usassem sua própria língua e tivessem seus
próprios tribunais. Ainda que a igualdade entre súditos diferentes não tivesse sido atingida (e nem tenha sido uma
meta real até a era do Tanzimat), o sistema possibilitou que comunidades convivessem lado a lado. Esse sistema
também preservou ou criou singularidades dentre os vários povos do Império. Em um sentido, enquanto que o
sistema de millet de fato ajudou na expansão e estabilidade social do Império por um período, ele também preveniu
o desenvolvimento de uma solução para a questão da identidade até o ponto em que já era tarde demais, enquanto
simultaneamente preservando, fortalecendo e ajudando a criar novas identidades.
Uma das mais fortes identidades mantidas através da Igreja Ortodoxa era um poderoso grupo de elite conhecido
como os Phanariotes, de origem grega. O sentimento nacionalista grego existente já havia sido fomentado pela
Rússia, que via os Gregos como aliados na luta contra os Otomanos. A nova inteligência russa enxergava seu
império emergente como um sucessor do Império Bizantino. Essa herança era ilustrada pelo brasão da Rússia, a
águia de duas cabeças, anteriormente associada com Constantinopla e o Império Romano Oriental. No nível político,
essa narrativa era vista como uma forma de influenciar os vários povos sob domínio Otomano nos Balcãs ao atrair
aqueles que buscavam independência. Não foi por coincidência que Alexander Ypsilantis, uma figura central do
movimento independentista Grego, serviu no exército Russo. Entretanto, o contexto da rebelião que estourou em
1821 a fez diferente de revoltas anteriores subsidiadas pela Rússia.

Ypsilantis
As aspirações de povos governados pelos Otomanos foram fortalecidas por ideias da Revolução Francesa em
1789. A revolução viu o surgimento do conceito de pátria e colocava os “patriotas” em contraposição à antiga
nobreza. Os Gregos foram especialmente influenciados pelas novas ideias oriundas da Europa Ocidental.
Mercadores gregos viajavam através da Europa, enquanto que elementos dentro da elite grega, os Phanariotes,
cultivavam suas diferenças e apoiavam a difusão de tais ideias ao financiar escolas e livros que as promovessem.
Esse crescimento na cultura e sentimento nacional, conhecido como o Iluminismo Moderno Grego, resultou no
sentimento dentre os Gregos que eles eram parte de uma nação separada. Em 1814, na cidade russa de Odessa[7],
essas ideias levaram à criação de uma nova sociedade secreta, a Filiki Eteria ou Sociedade dos Amigos, cujo
objetivo era acabar com o governo Otomano sobre a Grécia. A sociedade atraiu muitos membros da diáspora grega.
Esses incluíam Ypsilantis, que se tornou o chefe da sociedade no dia 15 de julho de 1820, após esse cargo ter sido
recusado pelo então Ministro do Exterior russo nascido na Jônia, Ioannis Antonios Kapodistrias.
Ypsilantis e os líderes da Filiki Eteria conceberam um plano para obter a independência da Grécia. A esse ponto,
enquanto o sentimento nacional grego crescia, as fronteiras do novo país eram incertas, com alguns membros da
sociedade até mesmo apoiando o reavivamento do Império Bizantino. O próprio Ypsilantis enxergava a sua luta
como um conflito ainda maior que deveria envolver todos os súditos cristãos do Império, tanto por propósitos
religiosos como estratégicos. Ele, junto com outros membros da sociedade secreta, sentia que as revoltas anteriores
na região falharam por conta da falta de coordenação entre os organizadores das mesmas. Assim sendo, ele
desenhou um plano que envolveria revoltas simultâneas promovidas pelos Gregos, Sérvios, Montenegrinos, bem
como os súditos da Wallachia (atual Romênia), Bulgária e Moldova.
Em fevereiro de 1821, com uma pequena força de soldados, Ypsilantis atravessou o rio Prut adentrando a Moldova
em domínio Otomano, derrotando os Turcos e apelando por uma revolta no Peloponeso e entre os súditos cristãos do
Império. Alegando que ele havia assegurado assistência da Rússia, Ypsilantis recebeu apoio de Tudor Vladimiresco,
o líder da milícia Pandur da Wallachia, que ocupou Bucareste em 21 de março. Na Grécia, Theodoros Kolokotronis,
um membro da Filiki Eteria, capturou a cidade de Tripolitsa no Peloponeso, espalhando a revolta para a Grécia
central, Creta e Macedônia. Dentro de um ano, os revolucionários tomaram controle do Peloponeso e em seguida
repeliram seguidas invasões Otomanas.
Apesar desse sucesso, a revolução estava sob ameaças internas e externas. A revolta de Ypsilantis na região do
Danúbio se transformou numa humilhante derrota uma vez que os russos abandonaram a sua campanha. O Czar era
nessa época parte da Santa Aliança assinada após a derrota de Napoleão, que buscava preservar o status quo na
Europa e prevenir a circulação de ideias revolucionárias. Como resultado, Vladimirescu recuou em seu apoio a
Ypsilantis quando tropas Otomanas atravessaram o Danúbio e forçaram sua retirada. Na Grécia, rivalidades e
dissenções entre várias facções dentro dos territórios liberados bem como entre habitantes do Peloponeso e da
Grécia Central atrapalharam o esforço militar, eventualmente levando a uma guerra civil.
Os Gregos também enfrentaram inicialmente uma intervenção limitada por parte dos Egípcios na Creta e no
Chipre. O sucesso do contingente Egípcio eventualmente convenceu os Otomanos a solicitar uma intervenção maior
de Muhammad Ali Pasha, o Wali do Egito, apesar da sua resistência ao ambicioso governador. Durante os anos
seguintes, liderados por tropas Egípcias, os Otomanos quase completamente reconquistaram a Grécia, tomando
Atenas em 1826.
Por fim, a revolução apenas foi salva pela intervenção das potências europeias. Enquanto inicialmente a Santa
Aliança e seus princípios haviam prevenido qualquer intervenção de poderes europeus, a opinião pública mudou a
favor dos insurgentes rapidamente. O enforcamento do Patriarca Ortodoxo Gregório V por suspeita de prestar
auxílio com os rebeldes chocou europeus, e o apoio de figuras como Lord Byron, que lutou ao lado dos rebeldes,
ajudou a ampliar o suporte dos revolucionários dentre nações europeias. Grã-Bretanha, França e Rússia assinaram o
Tratado de Londres em 1827, que mandava a cessação de hostilidades, e estipulava que caso o Sultão recusasse, as
potências poderiam agir para forçar tal cessação de hostilidades. Após a recusa do Sultão, a Grã-Bretanha, França e
Rússia enviaram suas frotas para o Peloponeso para pressionar o Sultão. Enquanto que isso tivesse inicialmente
apenas a intenção de prevenir que a frota Otomana chegasse à ilha de Hydra, um incidente entre um barco britânico
e um egípcio acarretou confrontos, resultando na destruição da frota Otomana durante a Batalha de Navarino. A
França depois enviou uma força expedicionária e, junto de forças gregas reorganizadas, derrotou os Otomanos na
Batalha de Petra, na Grécia central, eventualmente levando à completa independência da Grécia em 1832.
Ilustração do Patriarca pouco antes de sua execução
Lord Byron
A revolução não foi a primeira revolta bem-sucedida contra os Otomanos, mas com certeza causou abalos
estruturais. Pela primeira vez, o Império Otomano foi forçado a reconhecer a total independência de uma nação, não
por conta de uma guerra com uma potência estrangeira, ou um governador ambicioso, mas por conta da aspiração do
seu povo. A tentativa da Filiki Eteria de promover uma rebelião maior dentre os cristãos dos Balcãs, apesar de ter
sido frustrada pela rápida ofensiva Otomana, também deixou sua marca na memória dos súditos do Império.
Ademais, a crescente desconfiança entre o Império e seus súditos continuou a ser utilizada por potências externas
como a Rússia para enfraquecer o Império. A causa dos cristãos otomanos continuou a ser extremamente popular
dentre europeus. Como demonstrado pela intervenção inicial dos europeus, entretanto, o objetivo quase nunca foi
confrontar diretamente o Império Otomano, pelo menos pela parte da Inglaterra e França.
Conflitos de Poder Europeus
Durante o século XIX, a rivalidade entre França, Inglaterra e Rússia estava no cerne do que viria a ser conhecida
como a “Questão Oriental”. A França e a Inglaterra eram rivais naturais, já que os dois poderes europeus buscavam
construir seu império colonial. A despeito disso, seus interesses se alinharam em várias ocasiões, em especial quanto
a conter a crescente expansão do Império Russo, que cada vez mais era vista como uma ameaça enquanto construía
seu próprio império colonial.
Após a vitória britânica contra Napoleão, a Grã-Bretanha era sem dúvida a potência global dominante. O Império
Britânico expandiu significativamente em direção à Ásia, movido pelos avanços da Companhia das Índias Orientais,
bem como o desenvolvimento do navio à vapor e do telégrafo. A Grã-Bretanha adquiriu Cingapura em 1819, Malaca
em 1824, e expandiu o lucrativo negócio do ópio para a China. Essa expansão tornava importante aumentar a
influência britânica sobre o território otomano, em vista de sua localização geográfica entre a Europa e a Ásia.
A invasão do Egito e, depois, da Síria, por Napoleão, que forçou uma intervenção britânica e tinha como objetivo
obstruir acesso à Índia e às Índias Orientais, serviu de lembrete para os britânicos da posição estratégica dos
Otomanos – e da sua fraqueza. A expansão do Império Britânico e a sua dominação o fez uma potência
conservadora. A Inglaterra agiu para manter a “Pax Britannica” sobre suas colônias, e estabilidade global em áreas
de influência britânica. Sob liderança de líderes Conservadores como Beinjamin Disraeli e Lord Salisbury, o
Império Britânico adotou uma política externa conhecida como o “Esplêndido Isolamento”. Essa política objetivava
manter o equilíbrio global de poder enquanto limitando a necessidade de qualquer tipo de intervenção britânica nos
afares internos de outras potências, ou qualquer aliança que iria requisitar intervenção britânica. Essa política, que é
uma de nuances e, muitas vezes, ambiguidade, derivava da estatura global do Império Britânico. A Inglaterra de fato
descobriu rapidamente que, por conta de sua expansão, uma potência estrangeira podia ser simultaneamente seu
aliado em um tópico e seu inimigo mortal em outros. Essa ambiguidade necessária estava no cerne de uma longa
reputação britânica de inconstância e traição ainda presente nos dias de hoje.
A atitude da França em relação ao Império Otomano partia da contradição entre o entendimento que este servia
como barreira aos avanços da Rússia, as próprias aspirações coloniais francesas e crescentes simpatias pelos
movimentos nacionalistas emergentes. A primeira percepção com o tempo desapareceu, conforme o Império
Otomano enfraqueceu, enquanto que o segundo e terceiro fator se fundiram em uma política colonialista que fingia
emancipar raças percebidas como “inferiores” ao colonizá-las.
A política externa francesa no século XIX era uma de expansionismo e vingança. A ideia que a França precisava
buscar uma revanche, inicialmente contra a Inglaterra e mais tarde contra a Prússia/Alemanha, estava no coração do
colonialismo francês. A França perdeu quase todas as suas colônias ao final da Guerra dos Sete Anos (1756 – 1763).
As guerras napoleônicas também serviram para delinear os limites da estratégia continental francesa, e a importância
de construir uma poderosa marinha capaz de confrontar a Inglaterra. Com Napoleão III no poder, Prosper de
Chasseloup-Laubat, o Ministro francês da Marinha e das Colônias, buscou modernizar a Marinha Francesa e
advogar pelo imperialismo francês. A derrota de Napoleão III incentivou ainda mais o desenvolvimento de colônias,
enquanto a França tentava contrabalancear a traumática perda da Alsácia-Lorena ao expandir seu império
ultramarino. Essa política, vista com positividade pelo Chanceler Alemão Otto von Bismarck como sendo uma
maneira de tirar o foco de dentro da Europa, era apoiada por Jules Ferry. Ferry incentivava o que ele chamava de “o
dever de civilizar raças inferiores”. Isso acarretou expansionismo francês tanto no Norte da África, com o
estabelecimento de um protetorado em Túnis (1881); na África, com a ocupação de Madagascar e a expansão das
posses francesas do Congo e Níger, e de forma mais importante, o desenvolvimento da “Indochina” Francesa na
região do atual Vietnã, Laos e Camboja.
Prosper de Chasseloup-Laubat
Em contraste com a atitude ambígua da França e Inglaterra quanto ao Império Otomano, a posição da Rússia era
clara: os Otomanos eram um obstáculo. Isso era demonstrado por dois elementos, um geopolítico e outro político-
cultural. O primeiro ainda explica a política externa russa até os dias de hoje: acesso ao mar. Essa foi uma obsessão
russa desde o reinado de Pedro o Grande (1672 – 1725), que combateu contra a Suécia para ganhar acesso ao Mar
Báltico bem como contra o Império Otomano para ganhar acesso ao Mar Negro. Ele também foi o fundador da
Marinha Russa e um dos mais importantes monarcas russos, estabelecendo a Rússia como um significativo poder na
Europa. A continuação da corrida de Pedro o Grande em direção ao mar tem sido uma constante através da história
da Rússia. A respeito do Mar Negro, a ambição russa era ganhar acesso ao Mar Mediterrâneo, que era controlado
por Constantinopla.
Esse interesse geopolítico também era alimentado por vários movimentos políticos e culturais. Inclusive, a
ideologia do pan-eslavismo, cujo objetivo era unir todos os povos Eslavos, bem como a “Megali Idea” (Grande
Ideia), que buscava reviver o Império Bizantino. Personagens influentes, incluindo Fyodor Dostoyevsky, bem como
parte da Igreja Ortodoxa, apoiavam a ideia que muçulmanos otomanos deveriam ser substituídos por um Império
Bizantino revigorado, um aliado natural da Rússia, a “Terceira Roma”. A crescente influência russa no Cáucaso
também permitiu o lançamento de duas ofensivas simultâneas, vindo do Norte e do Leste do Império Otomano. Isso
seria algo fatal durante a Primeira Guerra Mundial.
A intervenção russa na guerra de independência grega e a batalha de Navarino levou ao fechamento do Estreito de
Dardanelos. Como sempre, quando seu acesso ao mar fosse ameaçado, a Rússia reagiria prontamente. Entre abril e
junho de 1828, uma força russa de mais de 90,000 soldados, liderada pelo Czar Nicholas I, invadiu a Wallachia e
Moldova. A principal força russa atravessou o Danúbio e entrou na região de Dobruja, cercando três fortalezas
otomanas. Quando o cerco de Shumla, uma das três cidadelas, revelou-se inicialmente difícil, o Czar enviou um
novo exército, derrotando os Otomanos na Batalha de Kulevicha em 11 de junho de 1829.
Czar Nicholas I
A Rússia também foi bem-sucedida em abrir um segundo fronte no Cáucaso, inicialmente com a intenção de atrair
forças turcas para longe do fronte europeu. Essa estratégia mostrou-se mais do que eficiente, resultando na captura
de Kars, Akhaltsikhe e Erzurum na Turquia oriental. Como resultado, o tratado de Adrianopolis em 1829 marcou a
derrota Otomana e perda de parte da costa do Mar Negro que restava, partes da atual Armênia, bem como a
ocupação russa de Moldova e da Wallachia até a Guerra da Criméia.
A Guerra da Criméia é especialmente interessante por conta do seu estopim inicial, o gigantesco conflito político
que a precedeu, as mudanças geopolíticas que a acarretaram e o seu resultado na balança de poder da época. Num
escopo geopolítico mais amplo, o fato que a França e Grã-Bretanha aliaram-se com os Otomanos contra a Rússia
traz à tona a preocupação com a crescente ameaça imposta pelas ambições russas no Mar Negro. A reação russa à
crise também foi um sinal da importância dessa área, fundamental para a habilidade de Moscou de projetar seu
poder fora de sua área natural de influência. A recente guerra na Ucrânia, e a intervenção na Síria, que se iniciou
com o envio de navios de Sevastopol para Tartus também serve como lembrete do valor estratégico dessa região.
O efetivo gatilho para a crise – apesar da guerra ter raízes muito mais profundas – também foi importante,
sublinhando o aumento de rivalidades sobre os lugares santos em Jerusalém e Belém e a emergência de tensões
religiosas lá. Tensões entre a França e Rússia de fato aumentaram anos antes da guerra após uma série de incidentes
envolvendo lugares cristãos santos na Palestina. Disputas locais entre cristãos Romanos e Ortodoxos frequentemente
ocorriam em frente à Igreja do Santo Sepulcro – os Otomanos até precisaram colocar soldados em frente ao local
durante feriados. Em 1846, uma disputa após a missa de Páscoa resultou em confrontos que mataram 40 fiéis. Essas
tensões, junto com o aumento no número de visitantes russos, resultaram numa crescente raiva e ansiedade dentre os
cristãos franceses, que alegavam que a França tinha sido a protetora dos lugares sagrados desde as Cruzadas, um
direito que era confirmado pelo Tratado das Capitulações em 1740. Os russos, entretanto, mantiveram que eles
tinham sido os protetores de todos os cristãos dentro do Império desde a assinatura do Tratado de Kuchuk Kainarji
em 1774.
Uma foto da Igreja do Santo Sepulcro de http://www.flickr.com/photos/jlascar/
O presidente da França, Louis-Napoleon, que em breve seria Napoleão III, viu uma oportunidade de obter apoio
do “partido clérigo”, o movimento conservativo cristão à frente de seu planejado golpe. O Embaixador Francês à
“Sublime Porta” [8] e um membro do partido clérigo, Marquis Charles de La Valette, ameaçou os Otomanos – e,
portanto, indiretamente, os russos. De acordo com La Valette, a França estava pronta para tomar “medidas
extremas” para reforçar o papel “histórico” da França como o protetor dos cristãos dentro do Império. A ameaça, por
sua vez, levou à uma escalação diplomática durante a qual a Rússia ameaçou suspender todas relações diplomáticas
com o Império Otomano caso este aceitasse a exigência francesa.
Napoleão III
Em novembro de 1852, Louis-Napoleon enviou um navio francês, o Charlemagne, para Constantinopla a fim de
pressionar o Sultão a entregar à França controle sobre a administração dos lugares santos. Essa foi uma ação ousada.
A chegada do navio de 80 canhões à Constantinopla violava o Tratado do Estreito de Londres de 1841, de acordo
com o qual ambos os Estreito de Dardanelos e do Bósforo entre o Mar Negro e o Mediterrâneo deveriam estar
selados a todos os navios de guerra. A ação de Napoleão pode ter sido percebida na época como apenas outro
agravante para uma crise já existente, mas não foi. O propósito do envio do Charlemagne era na realidade parte de
um esforço francês mais amplo em tentar sabotar os pilares de estabilidade europeia que foram estabelecidos após a
derrota do tio de Louis-Napoleon, Napoleão Bonaparte. A França estava frustrada com o status quo de então, que
favorecia a Inglaterra. Ao violar descaradamente o tratado, a França ameaçava um acordo que primordialmente
protegia a influência britânica no mediterrâneo do expansionismo russo, e forçava a Rússia a mostrar suas reais
intenções. Os russos não estavam realmente interessados no destino dos lugares santos, e nem sequer a França; o
destino do Império Otomano era o que verdadeiramente estava na balança, e a ambição russa por controlar os
estreitos claramente ameaçava o status quo que a Grã-Bretanha havia incessantemente tentado proteger.
A Rússia inicialmente retaliou ao mobilizar 100,000 soldados na Bessarabia, próximo da fronteira nortenha do
Império Otomano. Em fevereiro de 1853, a França pareceu ceder quando Napoleão III substituiu seu embaixador
“agressivo”, Charles de La Valette. O recém-coroado Imperador[9] de fato parecia ter perdido interesse na causa dos
cristãos após haver afirmado seu poder e usurpado a Segunda República. Todavia, o recuo também pode ter tido
como intenção encorajar uma resposta russa ainda mais forte e assegurar que ações britânicas para encontrar uma
solução diplomática à crise falhassem.
Esforços britânicos, por fim, falharam. A Rússia enviou uma delegação para Constantinopla liderada pelo General
Alexander Menshikov, que fez exigências inaceitáveis que ofendeu os otomanos, franceses e britânicos. Menshikov,
com a premissa de proteger cristãos ortodoxos, exigiu o direito de poder intervir em qualquer parte do Império que
incluísse tais populações, bem como fazer da Rússia um protetor oficial sobre os milhões de súditos cristãos
ortodoxos do Império Otomano. Isso era o equivalente a uma anexação de facto pela Rússia sobre as províncias
otomanas remanescentes na Europa, e iria certamente significar a queda do Império Otomano ao transformá-lo num
vassalo russo. Essas demandas mostravam que a Rússia desejava resolver de uma vez por todas a “Questão
Oriental”, pelo menos na Europa, apostando que a Inglaterra e a Áustria apoiariam tal medida com a premissa de
estabelecer sua própria área de influência.

Menshikov
Ao 5 de Outubro de 1853, o Império Otomano declarou guerra à Rússia. Apesar de a decisão ter sido acarretada ao
reconhecer que o Império Otomano estava em perigo mortal, ela ainda era uma jogada arriscada. Os britânicos e
franceses enviaram suas frotas ao Mar Egeu, ainda que a Rússia estivesse em contato com o governo britânico e
buscando assegurar o apoio da Inglaterra, ou pelo menos a sua neutralidade.
A decisão de declarar guerra foi feita sem nenhuma promessa sólida ter sido dada pela França ou Inglaterra a
respeito de uma intervenção a favor dos turcos. Os otomanos, entretanto, mostraram sua compreensão do “grande
jogo” regional e reconheceram que estava no interesse de Londres e Paris intervir caso a guerra não fosse a seu
favor. Apesar de um sucesso inicial na Batalha de Oltenitza em dezembro, os otomanos, confrontados com a
possibilidade de várias revoltas patrocinadas pelos russos nos Balcãs, decidiram mudar seu foco militar para o
Cáucaso. Ao fazê-lo, os russos, que entendiam que a futura ofensiva dependia sobre o envio de reforços através do
Mar Negro, atacaram e destruíram as forças navais otomanas durante a Batalha de Sinop. Os otomanos também
foram derrotados duas vezes em terra firme no Cáucaso.
Napoleão III aproveitou para tentar convencer a Inglaterra que uma intervenção era necessária, ao ameaçar agir
unilateralmente caso Londres falhasse em proteger o Império Otomano. No dia 3 de janeiro de 1854, ambas as
marinhas francesa e britânica atravessaram o Estreito de Bósforo para o Mar Negro. Os aliados concordaram em
uma intervenção maior na Criméia, com intuito de aliviar a pressão militar sobre o Império Otomano e atrasar o
expansionismo naval russo. Forças francesas e britânicas desembarcaram ao norte da fortaleza russa de Sebastopol,
lar da frota do Mar Negro.
Após várias batalhas terrestres, os aliados começaram um cerco especialmente longo à própria cidade de
Sebastopol. O que deveria ter sido uma marcha triunfal em direção à cidade se transformou em um cerco vagaroso a
despeito do forte bombardeio naval. Forças francesas e britânicas tentaram conquistar posições estratégicas para sua
artilharia, mais tarde avançando para o leste rumo a cidade de Azov a fim de atrair tropas russas para longe de
Sebastopol e cortar linhas de suprimento russas.
O cerco finalmente foi bem-sucedido em setembro de 1855, após uma série de batalhas sangrentas e um famoso
bombardeio da cidade que envolveu centenas de canhões. Celebrações ocorreram em Paris e Londres por conta da
queda de Sebastopol, que foi vista como o fim de uma guerra que se tornara cada vez menos popular, mas o Czar,
que percebeu uma oportunidade de contrabalancear o sucesso militar dos aliados, ameaçou uma campanha renovada
nos Balcãs. O Czar deu a impressão que ele estava preparado para um conflito demorado que levaria as tropas
francesas e britânicas para dentro da Rússia. A Rússia sabia como jogar com os medos que a França tinha de se
envolver em uma nova, desastrosa “Campanha Russa” [10], e ambos os lados optaram por negociar a paz, atingida
através do Tratado de Paris.
Ainda que poucas mudanças territoriais tenham ocorrido, o conflito levou à desmilitarização do Mar Negro,
marcando o declínio da influência russa na região. Isso certamente prolongou a vida do “doente da Europa”. Em um
nível mais amplo, a Guerra da Crimeia marcou o fim da Santa Aliança e do status quo na Europa, levando a uma
nova reorganização europeia e o início de uma série de conflitos entre potências europeias que eventualmente se
tornaria fatal para a Sublime Porta.
Durante o final da década de 1850 e o início da década de 1860, o precário equilíbrio de poder europeu desabou. A
guerra entre a Áustria e França na Itália, e a ascensão de um novo poder central durante a guerra de unificação
liderada por Otto von Bismarck destruíram o status quo. A derrota final de Napoleão III, bem como a aliança com a
crescente potência, Prússia, deu à Rússia espaço suficiente para ignorar os tratados assinados ao final da Guerra da
Crimeia e reviver suas ambições anteriores fomentadas por um desejo de vingança. Várias revoltas nos Balcãs
ofereceram o pretexto perfeito. Em 1875, uma revolta sérvia explodiu na Herzegovina, e espalhou-se para a Bósnia.
Oficiais locais e latifundiários bósnios resistiram às reformas implementadas durante o Tanzimat, enfurecendo as
populações cristãs que sofriam com o fardo do aumento de impostos. Como ele estava prestes a falir, o governo
otomano também aumentou impostos em seus territórios.
Garantindo o apoio de comunidades cristãs próximas, rebeldes locais fomentaram uma revolta que rapidamente se
espalhou para outras províncias otomanas. A revolta se disseminou para a Bulgária em abril de 1876. Em resposta, o
Império Otomano mobilizou forças irregulares, os “bashi-bazouks”, para sufocar a rebelião. Essas eram compostas
de muçulmanos locais, bem como refugiados de guerras anteriores, incluindo Circassianos que fugiram dos avanços
Russos. A revolta foi brutalmente derrotada, atraindo críticas significativas dos poderes europeus. Bashi-bazouks,
conhecidos pela sua falta de disciplina, massacraram a população local em várias vilas. Na Europa, os turcos
adquiriram uma reputação por sua crueldade e violência, enquanto que Abdul Hamid II ganhou um novo apelido: o
“Sultão Vermelho”.
No dia 24 de abril de 1877, a Rússia declarou guerra ao Império Otomano, menos de um ano após a Sérvia e
Montenegro o terem feito. Forças russas marcharam através da Romênia, que declarou sua independência em 10 de
maio de 1877, e derrotou os Otomanos na Bulgária. Eles então dirigiram-se para a Trácia e tomaram a cidade de
Adrianopoli, ao oeste de Constantinopla, em 1878.
Apesar de ainda sobreviver por meio século, o Império Otomano foi fatalmente ferido nessa guerra. Dessa vez, a
guerra trouxe o que as confrontações anteriores com a Rússia teriam acarretado se outras potências europeias não
tivessem intervindo. Tropas russas estavam marchando em direção a Constantinopla, e conforme eles se espantaram
com essa rápida vitória russa e suas potenciais consequências, os britânicos forçaram a Rússia a aceitar uma trégua
no dia 31 de janeiro. As negociações seguintes levariam ao reconhecimento formal de independência da Romênia,
Sérvia e Montenegro, bem como da autonomia da Bulgária, Bósnia e Herzegovina. Com isso, o Império Otomano
perdera quase todas as suas províncias europeias, e muito provavelmente teria perdido todas elas, não fosse por uma
segunda intervenção europeia que forçou a Rússia a modificar o tratado original de San Stefano, que teria incluído a
perda da Macedônia e Rumélia Oriental para a recém-independente Bulgária.
O Império Otomano estava claramente em declínio, e humilhado. Logo após a derrota, a Sublime Porta perdeu a
Tunísia em 1881, quando ela se tornou um protetorado francês, e um Egito já autônomo entrou em administração
britânica ao ano de 1882.
Um Fim Brutal
Os Jovens Turcos surgiram à sombra da suspensão da constituição por Abdul Hamid em 1878, em grande parte
advindos da nova elite burocrática e intelectual criada pelo período do Tanzimat. Eles eram um conglomerado
diverso de movimentos oposicionistas ocultos, dos quais o mais proeminente era o Comitê pela União e Progresso
(CUP), que buscava preservar o Império Otomano através de reformas e opor o governo autocrático do Sultão.
O movimento dos Jovens Turcos começou com a fundação de uma nova sociedade secreta no dia 14 de julho de
1889, o aniversário do centenário do Dia da Bastilha, na Universidade de Medicina Militar de Istanbul. Ele recrutou
a maior parte de seus membros iniciais de academias militares similares ao redor do país, e também dentre os
servidores civis de alto escalão do Império, e da diáspora turca, em especial na França (onde Ahmed Riza se tornou
uma figura proeminente, sendo mais tarde o líder do CUP).

Riza
Enquanto que ele se popularizou cada vez mais dentre a geração mais nova da elite otomana, o movimento era
diverso, incluindo vários grupos étnicos, ideologias e programas opostos. Três ideologias principais dividiriam o
movimento dos Jovens Turcos. A primeira, um movimento pró-ocidente que visava implementar reformas seculares
radicais, via o Islã como um obstáculo.
A segunda vinha de admiradores da “Era Meiji” do Japão, e da habilidade do Japão de adotar tecnologia e
reformas ocidentais enquanto mantendo sua identidade única. Esse movimento, cuja influência iria ser expandida
pela vitória japonesa contra a Rússia em 1905, buscava preservar o Islã como o alicerce do Império enquanto
aprofundando reformas implementadas durante o Tanzimat.
A terceira era um movimento nacionalista buscando preservar o Império Otomano ao centralizar o estado, e
colocar ênfase nas “raízes turcas” do Império. Essa ideia em expansão demonstrava que a onda nacionalista que
iniciara no princípio do século dezoito finalmente atingiu o coração do Império.
Apesar da sua diversidade e suas contradições, os Jovens Turcos todos concordavam que a Constituição era a base
mais sólida para reformas e criticavam o reinado autoritário de Abdul Hamid, bem como o que eles percebiam como
sua dependência das potências europeias.
Por sua parte, Abdul Hamid entendia que a ideologia diversa do partido era ao mesmo tempo sua força e sua
fraqueza. Buscando demonstrar os limites do idealismo dos Jovens Turcos e desfazer sua unidade, ele nomeou
vários Jovens Turcos em seu governo, assim brevemente tirando a legitimidade do movimento. Não obstante, o
movimento continuou a expandir até mesmo dentro do entourage do Sultão, com membros incluindo Damad
Mahmud Pasha, o cunhado de Abdul Hamid, e seus dois filhos.
O movimento atraiu em especial oficiais do Terceiro Exército Otomano, estacionados na província da
Macedônia[11], aonde o declínio do Império Otomano era particularmente visível. A Macedônia havia se tornado um
estado sem lei e com guerras civis desenfreadas ocasionadas pela atividade de facções nacionalistas rivais, muitas
vezes patrocinadas por estados locais, que combatiam os otomanos quando não estavam brigando entre si mesmas.
A ausência de autoridade ajudou na expansão do movimento dos Jovens Turcos, ao mesmo tempo demonstrando a
necessidade de reformas, e dando autoridade sem precedentes aos oficiais encarregados da supressão das várias
insurgências. Um problema generalizado das promoções clientelistas e corrupção que afligiam o exército naquela
época também justificava a ideia de revolução dentre oficiais frustrados no exército que viam comandantes ineptos
subirem na hierarquia militar por conta de suas conexões, e não de suas habilidades. Como resultado, Salonika, um
ponto central para as várias correntes dentre dos Jovens Turcos, se tornou um palco intelectual onde novas ideias
que viriam mudar o Oriente Médio cresceram. Não é por coincidência que Mustafa Kemal, o futuro Ataturk, cresceu
em Salonika, e nem foi por coincidência que um homem pouco conhecido chamado David Grun, que se tornou o
inicial Primeiro-Ministro de Israel sob o nome de David Bem Gurion, estudou na cidade.
Em junho de 1908, uma reunião entre o rei da Inglaterra, Edward VII, e o Czar russo, Nicholas II, na cidade de
Reval[12], criou alarde dentre os oficiais dos Jovens Turcos no Terceiro Exército. A reunião tinha como propósito
acabar com várias disputas entre a Rússia e os britânicos, em especial com relação à Pérsia e Ásia Central, e levou à
Entente anglo-russa em agosto. Ao lado dessa reunião, contudo, várias declarações foram feitas indicando uma
possível partição da Macedônia. Durante o mesmo mês, o Sultão abriu uma investigação sobre a presença de células
do CUP dentro do Terceiro Exército, descobrindo uma delas. O Major Ismail Enver, um membro dos Jovens Turcos
com posto em Salonika, recusou dirigir-se a Constantinopla, onde ele havia sido convocado para uma promoção.
Temendo que a alegada promoção fosse uma armadilha, ele fugiu sozinho para as montanhas.
Enver
Cientes do perigo que corriam, vários oficiais liderados pelo Major Ahmed Niyazi dentro do Terceiro Exército
organizaram uma revolta. Seguindo o exemplo de Enver, Niyazi desfez seu acampamento e se refugiou nas
montanhas com 200 homens. A revolta rapidamente se espalhou para outras partes da província. As tentativas de
Abdul Hamid de sufocar a revolta falharam, com unidades militares ou se negando a ir para a Macedônia, ou
fraternizando com os insurgentes. No dia 23 de julho, o Sultão Abdul Hamid foi forçado a reviver a Constituição de
1876, abrindo o caminho para eleições gerais vencidas em grande parte pelo CUP e pela União Liberal (UL), um
partido rival aos Jovens Turcos que apoiava a descentralização.
A revolução inicialmente causou uma onda de celebrações através do Império, tendo em vista que a ideologia mais
liberal dentre os Jovens Turcos pareceu triunfar. Em um discurso feito após o sucesso dos Jovens Turcos, Enver
disse: “De agora em diante, somos todos irmãos. Não há mais búlgaros, gregos, romenos, judeus, maometanos; sob
o mesmo céu azul, nós somos todos otomanos iguais e orgulhosos”.
Na realidade, o movimento dos Jovens Turcos era dividido, e a revolução acelerou a partição do Império. A
revolução e a subsequente queda do regime autoritário do Sultão foram vistas como uma oportunidade pelas várias
nações e impérios para avançar suas causas e interesses. Celebrações tiveram curta duração. Em outubro, a Bulgária
proclamou sua independência formal com o apoio do Czar russo. Um dia depois, o Império Austro-Húngaro,
preocupado com a possibilidade que a revolução se espalharia para a Bósnia-Herzegovina e levaria à sua
independência, anexou a região. Na Creta, um parlamento recém-formado anunciou sua união à Grécia. A revolução
também levou à criação da Sociedade Jovem Árabe (al-Fatat), que buscava defender os direitos dos árabes dentro do
Império e exigiu que soldados árabes servissem somente dentro de províncias árabes.
Dentro do próprio Império Otomano, uma barulhenta contrarrevolução islâmica levou a uma ampla repressão de
figuras islâmicas. Os Jovens Turcos corretamente acusaram o Sultão, que manteve poder simbólico, de fomentar
dissidência e oposição às suas reformas. De fato, em abril de 1909, estudantes de teologia, clérigos e várias unidades
militares se revoltaram após o Sultão prometer que iria restaurar o Califado e se desfazer de políticas seculares.
Tropas leais aos Jovens Turcos do Terceiro Exército entraram em Istanbul e sufocaram a rebelião em 24 de abril.
Dentre eles estava o já notório Ismail Enver, bem como o promissor Mustafa Kemal. Três dias depois, Abdul Hamid
II foi deposto, exilado, e substituído por seu irmão, Mehmed V.

Mehmed V
Em outubro de 1911, soldados italianos, junto de tropas da Somália Italiana e Eritréia, desembarcaram em
Tripolitana, na atual Líbia. A reivindicação italiana sobre a última província otomana no Norte da África partia de
acordos verbais com a França e Inglaterra. As duas potências líderes da época ofereceram equilibrar o protetorado
francês sobre a Tunísia e controle britânico do Chipre ao criar uma colônia italiana na Líbia. Esse acordo não foi
levado a cabo até 1911, quando a Itália se sentiu ameaçada pelo expansionismo francês no Norte da África, o que
poderia transformar o Mediterrâneo ocidental numa “lagoa francesa”. A Líbia também era considerada uma porta
para a África Subsaariana e um potencial centro comercial.
A invasão em si foi breve. Ainda que o exército otomano tenha conseguido comandar uma contraofensiva bem-
sucedida, liderada por Mustafa Kemal, contra tropas italianas em Tobruk, ele foi rapidamente rechaçado quando a
Itália enviou mais reforços. A modernização do exército otomano não estava completa nessa época, em especial a
Marinha Otomana, que ainda era composta principalmente de navios de madeira. As forças armadas italianas
utilizaram equipamento moderno e realizaram os primeiros ataques aéreos da história militar durante a campanha.
Em outubro de 1912, o exército otomano foi derrotado, e um tratado foi assinado afirmando o controle italiano sobre
a Líbia, apesar da invasão ter dado início a uma significativa rebelião árabe contra os otomanos.
A rápida derrota das forças armadas otomanas convenceu as nações balcânicas que o Império estava acabado, e a
Grécia, Bulgária, Sérvia e Montenegro estavam aguardando a chance de encapsular as posses remanescentes do
Império Otomano na Europa. O enfraquecimento da influência otomana em sua última fortaleza europeia foi
exemplificado ainda mais durante as revoltas albanesas de 1910 e 1912, onde uma população muçulmana se voltou
contra os Jovens Turcos. Enquanto o exército otomano ainda estava engajado na Líbia, em outubro de 1912, eles
todos declararam guerra ao Império Otomano. O exército otomano, enfraquecido pela guerra com a Itália, foi
derrotado pela coalizão de nações balcânicas. Salonika, o coração da revolução dos Jovens Turcos, foi ocupada,
junto com Edirne, pouco ao oeste de Istanbul.
Ainda que os Otomanos tivessem a oportunidade de recapturar Edirne quando os então aliados começaram a brigar
entre si, a guerra mudara os Jovens Turcos. A ideia que a fraternidade entre as comunidades que formavam o
Império poderia eventualmente salvá-lo foi apagada por realidades nacionalistas. Nas províncias libertadas pela
coalizão balcânica, nações emergentes entravam em guerra uma contra a outra, levando ao deslocamento de
milhares de muçulmanos. As fronteiras criadas pelo conflito eram instáveis. Por exemplo, o coração da revolta
albanesa, Kosovo, foi entregue à Sérvia. Como resultado dessa derrota, os Jovens Turcos se tornaram mais
nacionalistas, colocando ênfase na identidade turca, e homogeneidade étnica. Além disso, a sensação que o Império
Otomano estava sendo desmantelado pelos seus ditos aliados, a França e a Inglaterra, bem como mudanças internas
dos Jovens Turcos, selaram a aliança dos Otomanos com a Alemanha.
As relações otomanas com a Alemanha não eram novas. Da mesma forma que a França buscara o apoio da
Sublime Porta em sua luta contra poderes centrais europeus durante o século XVI, a Alemanha via o Império
Otomano como um possível parceiro estratégico contra a Rússia, França e Inglaterra. O Kaiser alemão Wihelm II
visitou o Império Otomano em duas ocasiões antes da Primeira Guerra Mundial e buscou incentivar o pan-
islamismo de Abdul Hamid, que ele enxergava como uma ferramenta útil contra o colonialismo britânico. Durante
sua segunda visita em 1898, o Kaiser visitou a tumba de Saladin em Damasco e ofereceu pagar por sua renovação.
Jornais árabes louvaram a visita, afirmando que o Kaiser era “o melhor amigo do Grande Sultão”; e o “mais sincero
e leal monarca em sua amizade com o Sultão”. O Imperador alemão até mesmo recebeu o título de “Hajji Wihelm”.
Wilhelm II
Relações econômicas expandiram com a construção da estrade de ferro de Bagdá, iniciada em 1903. A expertise
militar da Prússia e, mais tarde, Alemanha, também era cada vez mais utilizada pelo exército otomano, com ápice na
missão de 1913, liderada pelo oficial alemão Otto Liman von Sanders.
Não obstante, o Império Otomano não buscou a princípio se aliar formalmente com a Alemanha, muito menos
participar em um conflito global. De fato, com o início da década de 1910, a crescente rivalidade entre a aliança
Entente (França, Rússia e Grã-Bretanha)[13], e os Poderes Centrais (o Império Austro-Húngaro e a Alemanha),
parecia um problema distante. Ironicamente, o Império Otomano buscou em várias ocasiões entrar em uma aliança
com os britânicos, franceses e russos, ou pelo menos atingir um acordo com relação à sua neutralidade em um
potencial conflito. A aliança com a Rússia foi, entretanto, mais central para os britânicos e franceses, que recusaram
as várias propostas otomanas.
A desastrosa guerra contra os estados dos Balcãs acarretou as mudanças necessárias para convencer os otomanos
do benefício de uma aliança com o Kaiser. Ao estourar da guerra, Enver Pasha[14] (Ismail Enver) retornou da Líbia
para Istanbul em janeiro de 1913. Três dias após sua chegada, ele participou em um golpe contra o governo turco
liderado pelo rival do CUP, a UL. Junto com Talaat Pasha e Djemal Pasha, eles formaram um triunvirato ditatorial
apelidado de “Os Três Pashas”. Enver desempenhou um papel central na entrada do Império na guerra ao lado da
Alemanha; ele tinha sido o adjunto militar do Império e estava convencido que uma aliança com a Alemanha seria
benéfica.
A convicção de Enver partia de sua percepção do poderio militar do Kaiser, bem como do entendimento que
enquanto que a Entente não dependia dos Otomanos para vencer a guerra, a Alemanha dependia, e os alemães,
portanto, agiriam para fortalecer os otomanos. Ele também representava os oficiais dentre os Jovens Turcos que
admiravam o estado da Prússia e o papel central desempenhado pelo exército durante a construção da nação alemã.
Finalmente, sua decisão em apoiar uma aliança com a Alemanha tinha como origem a crença que a futura guerra
entre as nações europeias seria curta e apresentaria oportunidades para contrabalancear as perdas territoriais
otomanas às custas da Rússia e Inglaterra.
Não obstante, ele era o único dentre os Três Pashas que acreditava na aliança germano-otomana. Ambos Djemal e
Talaat Pasha favoreciam uma aliança com a Entente, enquanto que o Sultão Mehmed V apoiava a neutralidade do
Império. A promessa de aliança dos otomanos com os britânicos falhou em 1913, junto com uma solicitação feita
mais tarde por Talaat Pasha à Rússia e outra à França feita por Djemal Pasha. Enver convenceu Djemal Pasha, e no
dia 22 de julho de 1914, seis dias antes do início oficial da Primeira Guerra Mundial, os otomanos oficialmente
ofereceram a assinatura de uma aliança com a Alemanha.
Apesar da relutância inicial do Ministério das Relações Exteriores alemão, temendo que a fraqueza dos otomanos
seria um fardo, o Kaiser fez esforços para realizar uma aliança que ele interpretava como uma maneira de distrair as
forças de outros frontes mais importantes. No dia 2 de agosto, a aliança secreta entre o Império Otomano e a
Alemanha, uma aliança que seria fatal para o antigo império, foi assinada. À sombra do acordo, no dia 29 de
outubro, a frota otomana, reforçada pois dois navios alemães, realizou um ataque surpresa contra a frota do Mar
Negro russa, levando à uma declaração de guerra por parte das potências da Entente.
Durante a Primeira Guerra Mundial, o Império Otomano lutou uma guerra em vários frontes que iria drenar
grandemente seus recursos, levando à fome e muito sofrimento para a população local. No Leste, os russos iniciaram
a guerra com uma ofensiva no Cáucaso alguns dias após o ataque surpresa otomano. Esse fronte seria um dos mais
duros da guerra, não somente por conta dos recursos humanos russos, mas também por causa do clima e erros
estratégicos cometidos pela liderança militar otomana. Enver Pasha, o Ministro da Guerra otomano, esperava uma
que uma rápida vitória contra a Rússia serviria de base para a expansão turca no Cáucaso e uma revolta de
populações muçulmanas. Nesse ponto, Enver foi guiado por seu “pan-turquismo”, que visava criar uma região turca
no Cáucaso.
Conforme a ofensiva russa começou, Enver ordenou a execução de um complexo ataque contra as forças russas,
dispensando a opinião do general Hasan Izzet Pasha, comandante do Terceiro Exército com base na Turquia
oriental. Em dezembro, quando o fronte se estabilizou a despeito do fracasso da ofensiva inicial, Enver enviou um
de seus emissários para Izzet Pasha, ordenando que uma ofensiva rumo a Sarikamis, planejada para a primavera,
fosse iniciada imediatamente. Enver acreditava que com números superiores (os otomanos tinham uma força de
mais de 110,000 soldados, enquanto os russos tinham apenas 65,000), as forças turcas pudessem rapidamente
circundar e destruir o exército russo. O exército otomano, contudo, estava mal equipado, mal treinado e não tinha a
experiência necessária para combate em regiões montanhosas a fim de executar uma operação tão complexa.
Izzet
Confrontado com a relutância de Izzet Pasha em dar início a uma operação tão arriscada em uma área montanhosa
durante o inverno, Enver partiu de Istanbul para tomar comando pessoal da ofensiva. Após um ataque fracassado
contra posições russas, o exército otomano recuou para reagrupar e lançar uma nova tentativa. Durante a marcha, o
terreno frio e montanhoso, e a exaustão das tropas otomanas, resultou em perdas calamitosas. O 10º Exército, por
exemplo, perdeu 90% de seus soldados no que passou a ser conhecido como a “Marcha da Morte”.
A ofensiva de Enver contra Sarikamis terminou em desastre. Epidemias e uma nova ofensiva russa aprofundaram
o golpe no ano seguinte. A culpa por esse desastre foi rapidamente atribuída aos armênios, que supostamente traíram
o Império Otomano. Em abril de 1915, intelectuais armênios em Istanbul foram executados, abrindo caminho para o
primeiro genocídio em grande escala da história moderna. Avanços russos apenas seriam freados pela Revolução
Bolchevique de 1917, que fez a Rússia sair da guerra por completo.
Na Mesopotâmia[15], uma força britânica composta principalmente por soldados indianos do Império Britânico
lançou uma ofensiva no Sul em novembro de 1914, tomando primeiro Basra. Enquanto os britânicos inicialmente
buscavam apenas proteger seus interesses petrolíferos, incluindo o complexo de Abadan nas proximidades, a rápida
conquista de Basra convenceu-os dos benefícios de uma campanha na Mesopotâmia. A força britânica foi ordenada
a marchar em direção a Kut, ao Norte de Basra. Compreendendo a ameaça que essa ofensiva apresentava, Enver
Pasha enviou reforços para Bagdá e ordenou o início de uma contraofensiva com objetivo de retomar o Shatt al-
Arab[16]. O comandante otomano da região, em vez, realizou um combate defensivo bem-sucedido, porém custoso,
levando à rendição inicial de forças britânicas sob comando do Major General Charles Townshend. Os britânicos,
todavia, enviaram um novo comandante, General Stanley Maude, junto de reforços e ordenaram a expansão do porto
de Basra, levando a uma nova ofensiva contra Kut. A ofensiva foi bem-sucedida, abrindo o caminho para a captura
de Bagdá em 1916 e um novo ataque na província de Anbar em 1917-18.
Maude
Enquanto isso, no Oeste, próximo à Istanbul, a inaptidão da Entente de realizar um cerco naval da capital levou ao
envio de uma força expedicionária francesa e britânica que desembarcou no continente em abril de 1915. Os
otomanos sabiam que o Estreito de Dardanelos seria certamente atacado e já haviam preparado defesas
significativas. O plano desenhado pelo Primeiro Lorde Almirante, Winston Churchill, tinha como meta destruir
defesas otomanas ao longo dos Dardanelos. Entretanto, forças aliadas compostas de britânicos, irlandeses,
australianos e neozelandeses não foram capazes de penetrar as defesas otomanas, avançando apenas cerca de 100
metros adentro do litoral. Os otomanos, liderados pelo general alemão Liman von Sanders, reforçaram ainda mais
suas posições. A tentativa seguinte dos britânicos de estabelecer um novo controle das praias foi mais eficaz, porém
o governo britânico se recusou a enviar reforços adequados.
Churchill no início do século XX
Em dezembro de 1915, no que foi certamente a parte mais bem-sucedida da ofensiva de Gallipoli, a evacuação das
tropas britânicas começou. A defesa eficaz dos Estreito de Dardanelos pelos otomanos levou à resignação de
Churchill. Mais importante, fortaleceu a popularidade crescente de Mustafa Kemal, então tenente-coronel, e
ofereceu esperanças que os otomanos poderiam de fato contrabalancear suas perdas territoriais.
Mais cedo, em janeiro de 1915, os otomanos tinham dado início ao seu primeiro ataque no Sinai. Djemal Pasha,
um dos “Três Pashas”, como governador recém-nomeado da Síria Maior[17], participou no planejamento de uma
ofensiva cujo objetivo era ameaçar o Canal de Suez e o domínio britânico do Egito. Ainda que forças otomanas
tenham atingido o canal, com algumas unidades até mesmo chegando a atravessá-lo, uma forte defesa britânica
preveniu que seguissem adiante. Unidades navais britânicas no Grande Lago Amargo bombardearam a única ponte
criada durante a custosa ofensiva. Em fevereiro, a força otomana recuara até Gaza.
O sucesso na defesa de Gallipoli, todavia, convenceu ambos Enver e Djemal que uma segunda operação deveria
ser lançada. Reforços chegaram de Gallipoli e os otomanos iniciaram uma segunda tentativa em agosto de 1916.
Forças britânicas tinham, entretanto, mudado de posição para o Leste rumo à Palestina, e derrotaram as forças
otomanas da Batalha de Romani. A batalha foi a primeira decisiva vitória britânica sobre os otomanos e seus aliados
alemães, resultando num contra-ataque vitorioso que levou o general britânico Edmund Allenby até Jerusalém. Um
avanço final com a ofensiva de Megiddo e uma renovada campanha na Mesopotâmia fez com que as forças da
Entente penetrassem ainda mais no Império Otomano.
A Revolta Árabe foi retratada na memória moderna em filmes como Lawrence da Arábia como um movimento
nacionalista difundido contra a cruel ocupação otomana. A realidade é bem mais complexa. Em 1914, quando os
otomanos entraram na guerra, a lealdade dos árabes para com o Sultão não era questionável. O nacionalismo árabe
de fato emergiu na sombra da revolução de 1908, mas atraiu principalmente intelectuais árabes enquanto a
população seguiu como súditos fieis do império. Invasões europeias em várias provinciais anteriormente otomanas,
tais como a Argélia, Líbia, Tunísia e o Egito tornou o risco de uma possível revolta árabe mais evidente.
A visão abundante, unilateral e relativamente romanceada do Ocidente quanto à “Revolta Árabe” também ignora
em grande parte a crença entre otomanos e seus aliados que muçulmanos fora das fronteiras do Império deveriam se
rebelar contra seus mestres coloniais. Antes da famosa campanha britânica liderada por Thomas Edward Lawrence,
que usou nacionalismo árabe contra os otomanos, os próprios otomanos tentaram usar a fé islâmica contra os
britânicos e franceses. Em novembro de 1914, essa crença levou o Chefe de Afares Religiosos do Império, Shaikh
ul-Islam, a declarar uma jihad contra as potências da Entente. Na Alemanha, Max von Oppenheim, que era na época
considerado um dos experts no Oriente Médio, conseguiu convencer o Ministério das Relações Exteriores de que os
otomanos podiam agitar rebeliões dentre súditos árabes das potências coloniais. Ele chefiou o recém-criado
Nachrichtenstelle für den Orient (Escritório de Inteligência do Oriente), enviando agentes para fomentar
movimentos nacionalistas tanto no mundo árabe quanto na Ásia. O escritório também enviou Wilhelm Wassmuss
para a Pérsia a fim de fomentar sentimento anti-britânico, enquanto que propaganda anti-francesa foi distribuída no
Marrocos, bem como documentos a favor do pan-islamismo no Egito durante a ofensiva otomana no Sinai.

T.E. Lawrence
Na Líbia, a influência alemã e otomana encorajou a revolta Senussi de Sayyid Ahmad Al-Sharif. Os Senussi
conseguiram prevenir a consolidação de uma presença italiana na região do Fezzan, ao sul da Líbia, e mantiveram
boas relações com os otomanos. Seguindo a entrada da Itália na guerra, o conflito entre os Senussi e a Itália se
tornou parte do confronto global. Ahmad al-Sharif tinha grandes ambições e liderou a guerra contra os italianos sob
o título de Amir al-Muminin (comandante dos fiéis) na África. Ahmad al-Sharif estava à frente de uma ofensiva do
oásis de Siwa no Egito em direção à costa, entre novembro de 1915 e fevereiro de 1917. A ofensiva forçou os
britânicos a recuarem para a cidade litorânea de Matruh, antes que reganhassem a vantagem em 1916 – 1917.
O perigo causado por essa tentativa em especial de ao mesmo tempo fomentar dissidência no Egito, atacar o Sinai,
e encorajar uma ofensiva vinda da Síria não podia ser ignorado, e gerou muita preocupação dentre os britânicos. A
decisão arriscada de Maude[18] em forçar seu ataque rumo a Bagdá e estender sua linha de suprimentos foi, pelo
menos em parte, justificada por essas preocupações. No Cairo, Sir Henry McMahon, o Alto Comissário Britânico no
Egito, enxergou o perigo por trás das ações otomanas. Essa ameaça provavelmente estava no pensamento de
McMahon enquanto ele correspondia com Hussein Bin Ali, o Sharif de Mecca. A possibilidade de uma revolta na
Península Arábica parecia ser uma maneira sagaz de aliviar pressões otomanas no Egito.
Sharif Hussein não era conhecido como um nacionalista árabe, mas a descoberta de uma alegada conspiração por
parte dos Jovens Turcos com um membro rival de sua família o fez suspeitar das intenções otomanas. A nominação
de Hussein pelo Sultão Abdul Hamid talvez o tenha feito temer que ele seria removido pelo CUP, e já o tinha levado
a contatos sem sucesso com os britânicos até antes da Primeira Guerra Mundial. Seu filho, Faisal, foi enviado para
Istanbul para esclarecer a situação e regressou convencido de que a trama era real. No caminho de volta, ele decidiu
aceitar o apoio da Sociedade Jovem Árabe[19], que ele tinha conhecido anteriormente em Damasco. A situação na
Síria Maior também mudou drasticamente quando Djemal Pasha, retornando de sua ofensiva fracassada no Sinai,
recebeu poderes de emergência sobre a província. Uma conspiração foi descoberta em Beirute, confirmando o que
Djemal Pasha suspeitava: a inteligência árabe estava planejando trair o Império. Haviam certamente alguns
intelectuais árabes que buscavam independência, e a Sociedade Jovem Árabe tinha de fato feito contato com Sharif
Hussein. Entretanto, o efetivo apoio que eles receberam foi relativamente limitado: até mesmo Faisal, a princípio,
não estava completamente convicto, e apenas concordou receber o apoio deles após viajar até Istanbul.
Independentemente, como resultado, 11 intelectuais árabes de Beirute foram enforcados em agosto de 1915. Nos
meses seguintes, Djemal Pasha ganhou o título de al-Saffah, “o Derramador de Sangue”
.
Sharif Hussein
Com o retorno de Faisal, Sharif Hussein continuou correspondendo com McMahon e foi convencido pelo
Comissário Britânico que os árabes receberiam um estado árabe independente após a derrota otomana. Com a
captura de Meca em julho de 1916 após um mês de combate urbano, Hussein iniciou uma ofensiva bem-sucedida
que iria ajudar a atingir a vitória final contra o Império Otomano. Os atos de sabotagem, táticas de guerrilha e a
conquista de Aqaba provaram que a estratégia britânica estava taticamente correta, enquanto as forças de Allenby
ultrapassaram as defesas otomanas, culminando na captura de Damasco em 1918.
Durante essa época, e apesar das promessas de McMahon, o Acordo da Ásia Menor[20] firmado entre o diplomata
francês Georges Picot e sua contraparte britânica, Mark Sykes, dividiu a influência francesa e britânica no Oriente
Médio. O acordo resultou de discussões mais abrangentes com a Rússia, que inicialmente pretendia dividir o
Império Otomano em três principais áreas de influência: as partes do Norte (Turquia) estariam sob influência russa,
e as partes ao Sul (entre a Mesopotâmia e a Palestina) sob influência britânica, enquanto que a influência francesa no
Líbano e Síria representariam uma área de amortecimento entre as duas. A revolução bolchevique de 1917,
entretanto, impediu a realização dessas discussões, levando ao acordo de Sykes-Picot.
O acordo foi parcialmente vazado pelos jornais russos Izverstia e Pravda, bem como o The Guardian através de
uma fonte russa. Enquanto que as fronteiras exatas do acordo não tenham sido implementadas, o acordo de Sykes-
Picot foi de fato um dos eventos fundamentais na criação do novo Oriente Médio, tanto por conta de como ele foi
percebido no mundo Árabe quanto pelas realidades que criou. No acordo, a Inglaterra e França ignoraram realidades
étnicas e religiosas, favorecendo seus interesses estratégicos; a possibilidade que um dos países criados pelo acordo
seria independente não era sua preocupação principal. De fato, frente ao discurso racial dominante da época, seria
ridículo para os europeus mencionar tal independência. A crença que, por fim, as nações árabes eram incapazes de
se autogovernar era a norma aceitada que explicava o porquê de os britânicos nunca realmente levarem em conta
seriamente o seu acordo com os árabes. No mundo árabe, o acordo foi (e ainda é) visto como o ápice da perfídia
europeia e, por extensão, ocidental. Essa importância central foi recentemente ilustrada dois anos antes do
aniversário de 100 anos do pacto, enquanto o então chamado Estado Islâmico se referiu ao acordo em um vídeo
intitulado de “O fim de Sykes-Picot”. Em seu modo perverso, o grupo de fato compreendeu que essas fronteiras
nunca foram realmente aceitas pelos antigos súditos do Império Otomano.

Sykes
Picot
A queda do Império Otomano abriu o palco para a cena política e geoestratégica do novo Oriente Médio. Em
1920, dois anos após o fim da guerra, a região já passava por forte instabilidade. Os problemas e tendências que
afligiriam a região até os dias de hoje estavam crescendo. Em 4 de abril, manifestações árabes estouraram em
Jerusalém, fomentadas pela cada vez maior hostilidade contra o movimento sionista. A passividade britânica
convenceria um dos líderes judaicos, Vladimir Jabotinsky (futuro fundador da direita israelense), da necessidade
estratégica de uma poderosa força armada judaica como o cerne do futuro estado.
Jabotinsky
Apenas duas semanas depois, na Turquia, a Grande Assembleia Nacional em Ankara firmou as fundações do
estado turco, dando início a 8 anos de reformas. No Iraque, uma revolta xiita explodiu no Sul, conforme populações
locais exigiram a criação de um estado islâmico. A contramedida britânica foi colocar Faisal, filho de Sharif Hussein
e um sunita, ao trono. Seu pai, enquanto isso, estava envolvido em um conflito com uma tribo local, os Ibn Saud,
que almejava criar um novo reino na Península Arábica.
De forma mais ampla, o longo declínio do “doente da Europa” fomentou o surgimento de movimentos
nacionalistas e ideológicos que ainda são fundamentais para o entendimento do Oriente Médio atual. A
compatibilidade entre a religião e cultura islâmica e as reformas ocidentais foi primeiramente discutida dentro do
Império, e ainda é debatida aos dias de hoje. O pan-islamismo de Adul Hamid, ainda que com resultados limitados,
ressoa dentro do mundo muçulmano e pode ser visto como um rival efetivo contra as várias aspirações nacionalistas
da região.
De fato, quase 100 anos após a queda do Império Otomano, está evidente que o surgimento do nacionalismo
secular árabe desencadeou uma reação oposta dos que apoiam um Islã político e vice-versa. A Irmandade
Muçulmana, por exemplo, foi criada como uma reação à abolição do Califado pela Turquia em 1928, e se
fortaleceria ao posar como um oponente viável contra o aumento do nacionalismo árabe secular. Essas mecânicas
ainda estão em prática, como quando uma onda inicial de revoluções seculares, a Primavera Árabe, desencadeou a
segunda onda de “Revoluções Verdes”. Em paralelo, quer seja em sua forma mais radical como a ideia de um
Califado do Estado Islâmico ou da Al-Qaeda, ou na ideologia moderada do surgimento do Islã político, o Islã ainda
é tido como uma arma efetiva contra a influência ocidental. Na própria Turquia, a oposição entre partidários de uma
fortalecida identidade islâmica e aqueles como Mustafa Kemal, que a recusaram, ainda divide a esfera política e
social.
Esses desafios, divisões e conflitos todos se originaram no vácuo de poder que foi lentamente aberto pelo declínio
do anteriormente poderoso Império Otomano.
Recursos On-Line
Outros livros sobre a história do Oriente Médio da Charles River Editora
Outros livros sobre os Otomanos na Amazon
Bibliografia
Abou-El-Haj, Rifa'at Ali (1984). A Rebelião de 1703 a Estrutura da Política Otomana. Istanbul: Nederlands
Historisch-Archaeologisch Instituut te İstanbul.
Howard, Douglas (1988). "Historiografia Otomana e o ‘Declínio’ Literário dos Séculos Dezesseis e Dezessete".
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[1]
“Bispo Metropolitano Grego Alerta Sobre Série Turca”, Hurriyet Daily 18 September 2012
[2]
“Macedônia Bane Novelas Turcas”, Hurriyet Daily 12 November 2012
[3]
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[5]
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[6]
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[7]
Na atual Ucrânia.
[8]
Um metônimo para o governo central Otomano, referindo à antiga tradição de anunciar as decisões do Sultão à porta de seu palácio em Constantinopla.
[9]
Louis Napoleon foi coroado no dia 2 de dezembro de 1852, um ano após o golpe que pôs fim à Segunda República. A coroação e o golpe são também
uma clara tentativa de colocar-se como o sucessor de Napoleão I, já que o dia 2 de dezembro também era o aniversário da Batalha de Austerlitz.
[10]
Em referência à invasão francesa da Rússia durante as guerras napoleônicas.
[11]
À época, a província otomana da Macedônia incluía partes da atual Grécia, Macedônia, Bulgária, Sérvia e Albânia.
[12]
Atual Tallinn, capital da Estônia.
[13]
Referente à Tríplice Entente, um acordo entre estes três poderes assinado após o tratado da “Entente Cordiale” (Amizade Cordial) entre França e
Inglaterra em 1904 e a Entente Anglo-Russa de 1907.
[14]
Pasha é um título honorário, originalmente dado a comandantes militares.
[15]
Atual Iraque.
[16]
A confluência dos rios Eufrates e Tigre.
[17]
Atual Síria, Israel/Palestina, Líbano e Norte do Iraque.
[18]
O comandante britânico da Força Expedicionária Britânica em Basra, mencionado anteriormente.
[19]
Ver o capítulo sobre a revolução de 1908.
[20]
O nome oficial do Acordo de Sykes-Picot.