Você está na página 1de 175

LINGUAGENS E PRODUÇÃO

DE TEXTO
LINGUAGENS E PRODUÇÃO
DE TEXTO
Ludmila Antunes
IMES
Instituto Mantenedor de Ensino Superior Metropolitano S/C Ltda.

William Oliveira
Presidente

Cristiano Lobo
Diretor de Operações

Valdemir Ferreira
Diretor Administrativo Financeiro

MATERIAL DIDÁTICO

Produção Acadêmica Produção Técnica


Autor(a) | Ludmila Antunes Revisão de Texto | André
Augusto Araújo Oliveira


Imagens
Corbis/Image100/Imagemsource/Freepik/Pixabay

copyright © FTC EAD


Todos os direitos reservados e protegidos pela Lei 9.610 de 19/02/98.
É proibida a reprodução total ou parcial, por quaisquer meios, sem autorização prévia, por escrito,
da FTC EAD - Faculdade de Tecnologia e Ciências - Educação a Distância.
SUMÁRIO
SEMANA 1............................................................................................................7
TEMA 01 - AMBIENTE VIRTUAL..............................................................................8
TEMA 02 - TEXTO....................................................................................................9
TEMA 03 - ELEMENTOS PRAGMÁTICOS DO TEXTO..............................................21
TEMA 04 - COERÊNCIA TEXTUAL..........................................................................34
TEMA 05 - COESÃO TEXTUAL...............................................................................47

SEMANA 2..........................................................................................................59
TEMA 06 - PARÁGRAFO........................................................................................60
TEMA 07 - RECURSOS PARA VOCABULÁRIO....................................................74
TEMA 08 - PONTUAÇÃO ......................................................................................90
TEMA 09 - GÊNEROS TEXTUAIS..........................................................................100
TEMA 10 - AMBIENTE VIRTUAL..........................................................................112

SEMANA 3.........................................................................................................113
TEMA11 – AMBIENTE VIRTUAL................................... .....................................114
TEMA12 – TEXTOS MULTIMODAIS.....................................................................115
TEMA13 – TIPOLOGIA TEXTUAL.........................................................................127
TEMA14 – TEXTOS NARRATIVOS E DESCRITIVOS...............................................141
TEMA 15 - AMBIENTE VIRTUAL..........................................................................155
TEMA 16 - TEXTO ARGUMENTATIVO..................................................................156

REFERÊNCIAS...................................................................................................171
SEMANA

1
TEMA 1
Caro(a) Estudante,
O Tema 1, não possui livro texto, mas você encontrará Podcast e
Vídeo no Ambiente Virtual de Aprendizagem (AVA). Esses objetos
de aprendizagem têm também o papel de facilitar o processo de
aprendizagem, auxiliando-o na construção de conhecimentos que
importem para sua formação profissional.

LINGUAGENS E PRODUÇÃO DE TEXTO 8


TEMA 2 – TEXTO
Olá, estudante!

Seja bem-vindo ao tema 2 da disciplina Linguagens e
Produção de Texto. Nesse material trabalharemos com a noção
de TEXTO na contemporaneidade, ou seja, como uma ação
social comunicativa e intencional.
Vamos lá!

Observe as figuras a seguir:


Figura 1 – Aviso

Fonte: Disponível em: https://produto.mercado livre. com.br/MLB-1008926751-placa-


aviso-fechamento-do-porto-automatico-pvc-2mm-40x30cm-_JM?quantity=1.

LINGUAGENS E PRODUÇÃO DE TEXTO 9


Figura 2: Peça Publicitária

Fonte: Disponível em: https://br.pinterest. com/pin/560698222344600551/?lp=true.

Figura 3 – Emoji

Fonte: Disponível em: https://imagensemoldes.com.br/emoji-pensativo-png/ .

10 LUDMILA ANTUNES
Figura 4 – Carta

Fonte: Disponível em: https://www.correioims.com.br/uncategorized/baden-powell-e-a-


rainha-elizabeth-ii-por-fernando-krieger/attachment/carta-de-john-russell.

LINGUAGENS E PRODUÇÃO DE TEXTO 11


Figura 5 – Redes Sociais

Fonte: Disponível em: http://g1.globo.com/tecnologia/blog/ seguranca-digital/post/


whatsapp-comeca-identificar-conversas-com-criptografia.html.

Ao refletir sobre a situação de texto na contemporaneidade,


deve-se, antes de tudo, compreender que o texto não é somente
um conjunto de palavras e de frases, que, ao ser (de)codificado,
tem como propósito transmitir uma mensagem, mas também, e
principalmente, é um objeto de comunicação humana produzida
em diferentes contextos sociais, históricos e culturais.
Roland Barthes (1915-1980), em “O prazer do texto”, define
texto como tecido, ou seja, como um entrelaçamento perpétuo
em que o sujeito faz e/ou desfaz no processo de construção do
texto (BARTHES, 2013). Em outras palavras, compara o texto
com um hyphos (termo grego referente à teia de aranha), como
entrelaçamento complexo de sentidos múltiplos.

12 LUDMILA ANTUNES
Qual a relação entre o aviso, a peça publicitária “O lixo é
seu”, o emoji, a carta de John Russel datiloscrita em 1968
e a mensagem divulgada na rede social?

Qual você diria que se caracteriza como texto?

Para melhor compreender a noção de texto, antes de nos


atentarmos para esses diferentes e múltiplos sentidos, cabe
retornarmos a alguns conceitos indispensáveis para a compressão
mais plausível e, contemporânea, da concepção de texto.
Retornemos, então, às definições de: linguagem, comunicação,
língua e palavra, entre outros termos essências para os alicerces
da compreensão de uma teoria para o texto.

Figura 6 – Comunicação das abelhas

Fonte: Disponível em: http://apiarios lambertucci.com.br/blog/category/voce-sabia/page/2/

LINGUAGENS E PRODUÇÃO DE TEXTO 13


Define-se LINGUAGEM como interação ou inter-relação
entre sistema de signos socializados. O conceito de interação
aplica-se a toda e qualquer “ação”, “entre” dois ou mais indivíduos.
No mundo animal, por exemplo, as abelhas se comunicam por
meio de feromônios, ou seja, se comunicam a partir da ação
de substâncias químicas, produzidas para fora do corpo e que
ao serem disseminadas, promovem determinadas reações nos
indivíduos de uma mesma espécie (GERALDI, 1996) (vide fig. 6).
No entanto, para a comunicação entre os seres humanos é
necessário conhecermos os signos linguísticos compartilhados
na comunicação. Compreende-se SIGNO como: menor unidade
dotado de sentido em um código, ou seja, em um conjunto de
regras que permitem a compreensão da mensagem (SAUSSURE,
2012). Para uma melhor compreensão do signo é necessário
compreender dois níveis; o do elemento material perceptível,
nomeado de SIGNIFICANTE, e o elemento conceptual não
perceptível, denominado de SIGNIFICADO. Tal relação entre
significado e significante, no processo de comunicação, não
pode estar desassociada do REFERENTE, do objeto real ao
qual se remete o signo, na instância da enunciação do discurso
(SAUSSURE, 2012).

Figura 7 - Representação do Esquema de Saussure (2012) para


explicar a linguagem humana

Fonte: Disponível em: https://ensaiosenotas.com/2016/01/10/sassure-e-seus-signos/

14 LUDMILA ANTUNES
Ao tomarmos as palavras de Saussure (2012), o pai da
Linguística, observamos que o signo definido como unidade
psíquica de duas faces, unidos pelo conceito e imagem acústica,
não pode ser desassociado dos princípios da arbitrariedade. No
entanto, essa arbitrariedade está mais associada à criação do
signo e não ao uso, a criação é aparente, mas o uso não está livre
de escolha, até porque, é o grupo social que aprovará ou não o
uso do signo.

LINGUÍSTICA

Ciência que estuda a linguagem humana em seus


diferentes aspectos: fonético, morfológico, sintático,
semântico, social e psicológico.
(SAUSSURE, 2012)

Empregada na interação social, a PALAVRA, cuja função é


dar corpo a esse significado, vai circular pela boca do sujeito que
a pronuncia, adentrará aos ouvidos de um outro sujeito, e no
processo de memorização e/ou reprodução desse signo, entre
olhos e ouvidos, se constituirá enquanto forma de linguagem.
Uma forma que não pode estar associada, literalmente, ao uso
da palavra. Quando citamos José Carlos de Azeredo, em suas
reflexões sobre a palavra, o autor diz que: “A linguagem não
retrata o mundo, simplesmente porque o mundo expresso pela
linguagem não é um mundo de seres e objetos, mas um mundo
de significados” (AZEREDO, 2008, p.46).
Entretanto, não podemos associar a palavra somente como
ferramenta de comunicação, pois, caso isso fosse possível, assim
como as ferramentas, as palavras deveriam estar associadas,
exclusivamente, ao seu modo de uso. A palavra deve ser
compreendida como uma convenção social, não é um espelho
do que o ser humano pensa, mas é o instrumento mais complexo
e mais versátil de comunicação nas relações humanas.
LINGUAGENS E PRODUÇÃO DE TEXTO 15
Nesse universo de discussão sobre a palavra, é necessário
compreendermos a relação entre palavra e língua. Enquanto
a língua dá nome aos conteúdos da consciência humana, a
palavra viabiliza a troca de informações, ideias e sentimentos
entre as pessoas. A LÍNGUA, dessa forma, parte da capacidade
simbólica e exclusiva do ser humano, pertence ao universo de
conhecimentos e significados, acessível, seja pelos símbolos,
pelas imagens e pela palavra. Em resumo, dizemos que a língua
é um bem coletivo, um código coletivo de representação da
comunicação. Trata-se de interações sociais portadoras de valor
e sentido. A função da língua é, nesse sentido, tornar possível a
comunicação em seu caráter simbólico e interacional.

Nenhuma língua é apenas “instrumento de


comunicação”, no sentido de que se destina à
passagem linear de informações, e se esgota
no simples ato de dizer. A atividade verbal
permite a execução de uma grande pluralidade
de propósitos, dos mais sofisticados aos mais
corriqueiros (defender, criticar, elogiar, explicar,
esclarecer, justificar, solicitar, convidar […]);
propósitos que podem ser mais ou menos
explícitos, diretos, expressos com “toda as letras”
ou “em meias palavras” (ANTUNES, 2014, p.20).

Esclarece-se que não trata de um mero meio de comunicação,


mas sim de uma forma de conhecimento do mundo, com
significados e expressões de valores culturais e comportamentais
associados, intrinsecamente, à sociedade da qual compartilha
conhecimentos, referências, enfim, conteúdo para as práticas
sociocomunicativas.
A diversidade cultural dos domínios da língua, cede, ao
humano, o poder de significação com o qual transcenderá a
função de nomear. É infinitamente impossível esgotarmos o
conjunto das experiências do mundo pela nomeação. Dessa

16 LUDMILA ANTUNES
forma, nem toda enunciação é dita por palavras. A língua é
parte da linguagem, pois ocorre comunicação mesmo sem o
uso específico do signo linguístico, naquelas situações em que
a linguagem não utiliza o verbum, a palavra, sendo possível a
comunicação por meio de imagem, sons e gestos, desenhos,
símbolos, músicas, tom de voz, entre outros meios. A linguagem
não-verbal, assim nomeada, é objeto de estudo também da
Semiótica, e se estabelece no espaço simbólico da interação do
homem com o mundo. Vejamos o exemplo de observação entre
as linguagens não-verbal e verbal.

Figura 8: Linguagens não-verbal e verbal

Fonte: Disponível em: https://radioloandafm.wordpress.com/2008/02/27/ 27-de-fev-


charge-do-dia/
Assim, a linguagem verbal integra a fala e a escrita (diálogo,
informações no rádio, televisão, imprensa etc .), ou seja, aquela

LINGUAGENS E PRODUÇÃO DE TEXTO 17


que utiliza as palavras como os sinais no ato da comunicação;
enquanto a linguagem não-verbal traz, em seu uso, outros
recursos de comunicação como imagens, desenhos, símbolos,
músicas, gestos, tom de voz, entre outros, conforme ilustrado
na figura 8.
Conhecer a língua, um objeto dos fatos da linguagem, é
organizar o conhecimento como um bem social, construído e
compartilhado a partir das relações com seus semelhantes. A
linguagem seja verbal ou não-verbal, é fruto da construção dos
atos de comunicação da interação humana e seus universos
sociais, históricos e culturais. Desse modo, O TEXTO, nesse
universo, é compreendido como uma reunião de informações
relacionadas às intenções de quem produz, de quem enuncia
(TERRA, 2009). Como práticas sociocomunicativas, trata-
se de uma atividade intelectual, entrelaçados por discurso
propriamente dito e implícito no texto ou em seus contextos de
produção e circulação pelo meio social.
Na definição atual de noção de texto, compartilhamos os
dizeres de Ingedore Villaça Koch (2018) e relacionamos tal
definição ao sentido. Em outras palavras: texto é construção de
sentidos. Não se pode admitir, na contemporaneidade, que texto
é somente um artefato linguístico formado pela combinação de
letras (representação dos sons de cada língua), que formarão
palavras que, em seguida, constituirão o texto. A noção de
texto, hoje, perpassa pelo lugar de constituição e de interação
de sujeitos multifacetados; por questões sociais, históricas e
culturais (KOCH, 2018).
Essa nova interpretação da noção de texto variou também
com as novas interpretações de língua e sujeito, de usos
diversificados da linguagem etc. , modificou, evidentemente, a
forma de interpretar o texto. Não há como compreender uma
produção textual simplesmente pela captação de representação

18 LUDMILA ANTUNES
mental do sujeito, como decodificação de uma mensagem. É
necessário compreender o sentido que se constrói a partir da
leitura do texto.

“[...] o sentido não está no texto, mas se constrói a


partir dele, no curso de uma interação. Para ilustrar essa
afirmação, tem-se recorrido com frequência à metáfora
do iceberg: como este, todo texto possui apenas uma
pequena superfície exposta e uma imensa área imersa
subjacente. Para se chegar às profundezas do implícito,
e dele extrair um sentido, faz-se necessário o recurso
aos vários sistemas de conhecimento e a ativação de
processos e estratégias cognitivas e interacionais” (KOCH,
1997, p.30).

Um sentido, e não o sentido do texto, é construído a partir


do jogo de linguagem entre produtor-texto-leitor apresentado
por Koch (2018): O produtor/planejador do texto recorre
às estratégias de organização textual e orienta o interlocutor
para a construção do sentido do texto. O texto, por sua vez, é
organizado de forma estratégica em decorrência das escolhas do
produtor e das diversas possibilidades de formulação da língua e
dos diversos tipos de linguagem, possibilitados principalmente
pela tecnologia.
O leitor, então, deverá, a partir dos conhecimentos de mundo
e dos processos interacionais do texto, revelar a interpretação a
partir do modo como o produtor sinalizou, construiu o texto.
Ainda referindo-se às palavras de Koch (2018) sobre os
conhecimentos de mundo, ou enciclopédicos, pode-se afirmar
que nos referimos aos conhecimentos gerais sobre a sociedade,
a história, enfim, sobre a cultura em geral.

LINGUAGENS E PRODUÇÃO DE TEXTO 19


Sobre conhecimento interacional, a autora traz as seguintes
subdivisões para compreendermos melhor tais conhecimentos:
(1) o conhecimento ilocucional refere-se ao reconhecimento
do objetivo do produtor do texto; (2) o conhecimento
comunicacional refere-se às informações que estão ali, evidentes
no texto; (3) os conhecimentos metacomunicativos serão aqueles
que permitirão assegurar a compreensão do texto e, por fim,
(4) o conhecimento supraestrutural é aquele que está associado
ao conhecimento dos gêneros textuais, ou seja, à organização
dos textos no molde da comunicação desejada.
Enfim, o sentido está associado às formas de interação do
sujeito por meio da linguagem, seja no processo de comunicação,
no processo da estrutura do texto, ou no processo da adequação
ao gênero textual; e é produzido por um agente no processo de
AÇÃO COMUNICATIVA INTENCIONAL (VANOYE, 2007).
Assim, na busca por esse sentido, é necessário levar em conta a
intenção do produtor do texto.
Voltemos, então, ao início do texto quando se questionou
sobre: “Qual a relação entre o aviso, a propaganda “O lixo é
seu”, o emoji, a carta de John Russel datiloscrita em 1968, a
mensagem divulgada na rede social e uma letra de canção de
autoria de João Gilberto? Qual você diria que se caracteriza
como texto?”
Diante de tal exposição do conteúdo, é evidente que a
resposta é: TODOS SÃO TEXTOS. Em suas leituras, pode-se
construir um sentido que não está somente na superfície do
texto, mas, principalmente, imerso nas questões do sujeito e seu
diverso uso da linguagem, seja verbal, com a instrumentalização
dos signos linguísticos, seja não-verbal, sob o uso de imagens e de
outros artifícios comunicativos, INTENCIONAIS, que produzirão
os sentidos desejados e idealizados pelo produtor do texto.

20 LUDMILA ANTUNES
TEMA 3 – ELEMENTOS PRAGMÁTICOS DO
TEXTO
Olá, estudante!

Seja bem-vindo ao tema 3 da disciplina Linguagens e
produção de texto. Nesse material trabalharemos com a noção
de elementos pragmáticos do texto, ou seja, compreenderemos
alguns recursos linguísticos utilizados no processo de construção
de sentido do texto.
Vamos lá!

Se o texto é a construção de sentidos,


então como (re)construir o sentido do texto?

Uma das ciências da linguagem que nos proporciona a


construção, compreensão e interpretação do sentido do texto
é a PRAGMÁTICA, ou seja, a ciência linguística que estuda
a linguagem em seus contextos reais de manifestação, em
situações concretas de fala.
Os fatores pragmáticos são as condições necessárias para a
produção e a interpretação de um texto, tais como o contexto
de situação, de interação e interlocução, a força ilocucionária, a
intenção comunicativa, as características e crenças do emissor
e receptor do texto, os tipos de atos de fala etc. Trata-se, na
verdade, da forma como esses fatores interpelarão no processo
de compreensão e produção do texto. Nos estudos linguísticos,
a pragmática estabelece 7 fatores, descritos a seguir:

LINGUAGENS E PRODUÇÃO DE TEXTO 21


SITUACIONALIDADE
INTENCIONALIDADE
ACEITABILIDADE
INFORMATIVIDADE
INTERTEXTUALIDADE
COERÊNCIA
COESÃO

Nesse módulo, veremos apenas a situacionalidade,


intencionalidade, informatividade, aceitabilidade e
intertextualidade. Os fatores de coerência e coesão textual serão
abordados separadamente nos Temas 4 e 5, sequenciadamente.

1 Fatores pragmáticos: situacionalidade

A situacionalidade refere-se aos fatores que tornam o


texto relevante para uma dada situação comunicativa. Nesse
caso, é necessário levar em consideração informações de
diferentes ordens, tais como o contexto social de produção
e dos indivíduos, informações como título, posição social,
convenções como regras, leis, princípios, normas e valores
veiculados no texto, seja de forma evidente, explicitamente, seja,
nas entrelinhas, implicitamente. Nesse sentido, pode-se dizer
que esse fator da textualidade é dinâmico, pois se estabelece
entre as relações evocadas situacionalmente e a influência da
situação no estabelecimento de um sentido. Assim, a situação
comunicativa (do "mundo real") interfere na maneira como o
texto é constituído, é introjetada nos conhecimentos prévios
organizados pelo "mundo real".

22 LUDMILA ANTUNES
SITUACIONALIDADE

Relaciona-se às expectativas, às crenças e aos objetivos


dos agentes envolvidos no processo sociointerativo de
comunicação.

Em outras palavras, o fator da situacionalidade direciona


o sentido do discurso do texto que, de certa forma, está
relacionado às questões de produção e recepção/entendimento
do texto. Trata-se, então, de verificar, no momento de produzir
e fazer circular esse texto, as seguintes situações:

• pontos de vista;
• objetivo da comunicação;
• os papéis que desempenham o emissor e o receptor do
texto;
• adequação da manifestação linguística a uma situação
comunicativa;
• grau de formalidade;
• variedade dialetal;
• tratamento a ser dado ao tema;
• lugar e momento da comunicação;
• imagens recíprocas que os interlocutores fazem uns dos
outros.

Todos esses dados situacionais, e tantos outros, influirão na
produção e na compreensão do texto. A função desse critério, é,
de certo modo, adequar o texto à situação de comunicação, ao
seu contexto interpretativo.

LINGUAGENS E PRODUÇÃO DE TEXTO 23


2 Fatores pragmáticos: intencionalidade

A intencionalidade associa-se a intenção do emissor no


momento da elaboração do texto. Tal critério nos permite
distinguir a ideia, o propósito que o produtor do texto
determinou para o processo de enunciação. Relembrando
que cada texto é produzido como um propósito, ou seja, com
objetivos preestabelecidos pelo emissor, seja para estabelecer
um contato (FUNÇÃO FÁTICA), seja para expressar seus
sentimentos (FUNÇÃO EMOTIVA), seja para tentar mudar o
comportamento do leitor (FUNÇÃO APELATIVA), seja para
transmitir uma informação (FUNÇÃO REFERENCIAL) entre
outros.

INTENCIONALIDADE

Refere-se à intenção do emissor, ou seja, ao modo como


os textos são produzidos e adequados ao processo
sociointerativo de comunicação.

Nesse sentido, não podemos acreditar em textos neutros,


pois cada texto é produzido de acordo com a obtenção dos
efeitos de sentido desejado. Por esse viés, não podemos também
desassociar tal fator do critério da argumentatividade, da
intenção por trás do dito. Todo texto se propõe a persuadir,
convencer o leitor de que aquilo que está dito/escrito é coerente
e coeso para o processo de construção de uma comunicação
eficiente. Resumindo:

24 LUDMILA ANTUNES
• textos são construídos de forma intencional;
• a finalidade/intenção do texto deve ser captada pelo leitor
com base nas pistas do próprio texto;
• o texto deverá ser compatível com os objetivos de quem o
elabora.

Entretanto, ao processo de compreensão do texto, pelo fator


da intencionalidade, deve-se acrescentar a ideia de aceitabilidade.
Não construímos um texto somente com a intenção de quem o
produz. A manifestação linguística somente se constituirá como
texto se, ao ser apresentada ao receptor, houver aceitação do
mesmo. Nesse contexto, não podemos desassociar o fator da
intencionalidade do fator da aceitabilidade, conforme descrito
a seguir.

3 Fatores pragmáticos: aceitabilidade

Os conceitos de intencionalidade e de aceitabilidade são


introduzidos nas noções pragmáticas do texto para dar conta,
respectivamente, das questões relativas à intenção dos emissores
e à atitude dos receptores. Em sentido estrito, a intencionalidade
é a intenção que o emissor tem ao produzir uma manifestação
textual de forma coerente. Já aceitabilidade está ligada às
atitudes do leitor, ou seja, se o texto produzido é relevante ou
não. Em sentido amplo, a intencionalidade abrange a forma
como o emissor utiliza os textos para realizar as intenções
comunicativas. Já a aceitabilidade dispõe de como o receptor
pode participar, ativamente, desse discurso proferido pelo
emissor. Salienta-se que, no sentido amplo, a linguística associa
tais atividades de argumentação.

LINGUAGENS E PRODUÇÃO DE TEXTO 25


ACEITABILIDADE

Refere-se às predisposições do receptor em considerar


o texto coerente com o processo sociointerativo de
comunicação.

Entre os especialistas da Linguística Textual, é difícil


estabelecer limites entre a intencionalidade e a aceitabilidade,
pois esta última está associada à expectativa do receptor. No
postulado básico que rege a comunicação humana, nota-
se o processo de cooperação, ou seja, os sujeitos imersos na
interação pela linguagem se esforçam para se fazer compreender,
mutualmente. O emissor diz algo que o receptor deve aceitar, ou
seja, a produção do texto está atrelada à aceitação desse texto.
Nesse processo, capta-se, então, os sentidos do texto do(s)
interlocutor(es).

• inerente ao receptor;
• ligada à intencionalidade;
• refere-se à atitude do receptor do texto e suas expectativas
quanto ao texto;
• receptor busca pistas no texto, a partir do seu
conhecimento de mundo, da situação etc.

Ao analisar o texto, construído com uma finalidade, o


receptor é capaz de aceitar o texto produzido e ampliar seus
diversos conhecimentos, conforme diz Koch (1989). Por
fim, pode-se afirmar que a interpretação vai se fundamentar
na convicção de que quem produz um texto (falando ou
escrevendo), e de quem terá a intelecção de captação dessas
intenções. Nesse jogo comunicativo, tem-se, dessa forma,
pluralidade de interpretações de um texto.

26 LUDMILA ANTUNES
4 Fatores pragmáticos: informatividade

A informatividade é estabelecida a partir do grau de


relevância das informações presentes no texto. A informação,
nesse contexto, é responsável pela função dialógica do texto, pelo
contato com o leitor. Ao considerar que todo texto é produzido
sempre com alguma intenção, principalmente a de ser lido e ser
compreendido pelo receptor da comunicação, deve-se, nesse
sentido, ter cuidado ao produzir os textos. A informatividade,
assim, vai interferir na construção da coerência. Tal critério é
de suma importância para a interpretação do texto, ou seja, a
informação trazida pelo produtor deve estar associada, de forma
coerente, ao tópico discursivo, ao tema da produção de texto.

INFORMATIVIDADE

Refere-se ao desenvolvimento dos tópicos referentes ao


conteúdo no processo sociointerativo de comunicação.

Cabe ressaltar, nesse caso, que o excesso de informação


presente no texto pode desmotivar o leitor por não haver a
capacidade, durante a leitura, de armazenar as informações em
sua totalidade. Além disso, é importante também que o texto
apresente informações que tragam novidade, conforme as
palavras de Marcuschi (2008, p.132). “A rigor, a informatividade
diz respeito ao grau de expectativa ou falta de expectativa, de
conhecimento ou desconhecimento e mesmo incerteza do texto
oferecido”. Para não frustrar o leitor, então, ao produzir um
texto, deve-se ter os seguintes cuidados:

LINGUAGENS E PRODUÇÃO DE TEXTO 27


• desenvolver o tema de forma clara;
• evitar excesso de informação;
• trazer informações novas.

Assim, ao produzir um texto, deve-se selecionar as


informações, distribuindo-as no texto de forma coerente ao
processo de comunicação, de modo que o sentido seja captado
pelo leitor, “[...] com maior ou menor facilidade, dependendo
da intenção do produtor de construir um texto mais ou menos
hermético, mais ou menos polissêmico (KOCH; TRAVAGLIA,
2015, p.88). Por fim, a informatividade está, evidentemente,
relacionada ao tipo de texto a ser produzido.

5 Fatores pragmáticos: intertextualidade

Trata-se de intertextualidade quando da produção de um


texto a partir de outro existente, anteriormente. Essa relação está
associada às questões de conteúdo, seja através de fatores formais
ou textuais. Dito de outro modo, trata-se de como uma produção
textual se apropria de outra, seja pela referência ao conteúdo,
seja pelo gênero etc. É importante afirmar que nenhum texto é
produzido isoladamente. Entre os aspectos de sentido, haverá,
sempre, o aspecto intertextual, de interdependência de um texto
com outro. Todas as produções se relacionam, sem exceção, com
outras já ditas. Todo texto absorve características já atribuídas
a outros. Podem vir no mesmo formato, em outros formatos,
com outra feição, porém, SEMPRE, terá alguma relação com o
já dito.

28 LUDMILA ANTUNES
INTERTEXTUALIDADE

Refere-se ao diálogo entre textos no processo


sociointerativo de comunicação.

Nesse contexto, não existem textos que não mantenham


algum aspecto intertextual, pois nenhum texto encontra-
se isolado. Para Koch (2015), a intertextualidade pode
ser explícita, quando ocorre citação da fonte, e implícita,
quando não há citação expressa da fonte. Nesse último caso,
caberá ao interlocutor recuperar a memória para construir o
sentido do texto. Assim, de forma geral, para percebermos a
intertextualidade, se implícita ou explícita, deve-se:

• compreender que um texto sempre é produzido com base


em outro texto;
• identificar as relações explícitas ou implícitas que um
texto mantém com outro.

Os diálogos travados entre um texto e outro nos permite


compreender que todo texto é HETEROGÊNEO. Em outras
palavras, um texto revela ligação, interior ou exterior, explícita
ou implícita, com outros textos que lhes dão origem.
Todos esses critérios de textualização citados
(situacionalidade, intencionalidade, aceitabilidade,
informatividade e intertextualidade) contribuem para a
progressão textual, ou seja, para o processo de compreensão/
sentido de um texto. Vejamos, então, os exemplos.

LINGUAGENS E PRODUÇÃO DE TEXTO 29


Texto 1: Observe as peças publicitárias do Governo da Bahia
(2019) e observe os seus fatores de textualidade.
Figura 9 – Campanha Respeita as Mina

Fonte: Disponível em: http://soumaisabahia.com.br/masculinidadenova/

Figura 10 – Campanha Respeita as Mina

Fonte: Disponível em: http://soumaisabahia.com.br/masculinidadenova/

30 LUDMILA ANTUNES
Figura 11 – Campanha Respeita as Mina

Fonte: Disponível em: http://soumaisabahia.com.br/masculinidadenova/

Gênero textual: campanha publicitária (atinge diretamente


ao receptor da mensagem de forma a convencê-lo das ideologias
expostas)

Fatores de textualidade:

Situacionalidade: objetivo da campanha é estimular o


debate sobre a “masculinidade tóxica, é um alerta ao emissor
quanto aos crimes de feminicídio.
Intencionalidade: a intenção da campanha é chocar o leitor
quanto as causas e consequências da “masculinidade tóxica”.
Aceitabilidade: relevância da produção do texto, ou seja, da
discussão do tema na sociedade.
Intertextualidade: campanha publicitária produzido
com base em outros textos, discussão na sociedade sobre esse
assunto, bem como a campanha publicitária da marca Gillette,
por exemplo.

LINGUAGENS E PRODUÇÃO DE TEXTO 31


“Antes do tiro, o tapa.
Antes do tapa, o grito.
Antes do grito, o controle.
Antes do controle, o machismo.
Antes do machismo, a masculinidade tóxica”

COMENTÁRIO

Ao analisar a campanha, deve-se, primeiramente, considerar


o gênero textual (assunto que será abordado nos próximos
módulos). Trata-se de uma campanha publicitária, o objetivo
desse tipo de produção, segundo as funções da linguagem
descritas no tema 1, é interceder junto ao receptor da mensagem,
de forma que ele se convença do conteúdo ali exposto.
Com relação à situacionalidade, nas expectativas do
receptor, o texto trata de um alerta sobre a crescente violência
contra a mulher, por isso, procura chocar o leitor através da
utilização de simbologia e atos que fazem referência a morte de
muitas mulheres. Além disso, a peça publicitária alerta sobre o
fato de que tais mortes podem ser evitadas caso se considere o
problema social da “masculinidade tóxica”.
Em relação à intencionalidade, a campanha utiliza para a
expressão verbal, o formato de ciclo, ou seja, ligando sempre
uma coisa à outra. Por exemplo, antes de algo acontecer, sempre
tem um fator de causa e consequência. No entanto, tal fator é
apresentado de trás para frente, da consequência para a causa,
“[…] antes do tiro, o tapa”.
O fator da aceitabilidade está direcionado ao receptor/
leitor do texto. Em outras palavras, trata-se da predisposição
do leitor em aceitar o texto, em identificar qual a relevância, a
importância daquele texto para a sociedade hoje. Considerando
os dados estatísticos sobre a violência contra a mulher e as

32 LUDMILA ANTUNES
mortes banais decorrentes do feminicídio, fica evidente que um
leitor contemporâneo não desprezará a relevância da discussão
desse tema.
Por fim, a intertextualidade diz respeito à relação que esse
tema tem com os outros textos. No que tange à temática, é
importante considerar que esse texto está atrelado a tantos outros
textos que abordam os temas de feminicídio, de masculinidade
tóxica etc. Além disso, traz em seu contexto de intertextualidade
o seguimento de outras campanhas, como a da marca Gillete .
Dos fatores linguísticos da textualidade, nota-se o uso da
repetição do vocábulo “antes”. Segundo a definição de Houaiss
(2010), antes é um advérbio temporal que significa ‘em tempo
ou lugar anterior’. No caso da campanha publicitária, o antes
é usado para indicar relação de consequência-causa e não de
causa-consequência, como o habitual. A expressão “Antes do
tiro” é a consequência, da expressão “o tapa”, considerado a causa
da ação de violência contra a mulher. Na verdade, a campanha
é processada de em um sentido “de traz para frente” para ser
coerente com a escolha das expressões linguísticas.

Como abordado anteriormente, os fatores de coerência


textual e coesão textual serão abordados separadamente nos
próximos temas (Temas 4 e 5).

LINGUAGENS E PRODUÇÃO DE TEXTO 33


TEMA 4 – COERÊNCIA TEXTUAL
Olá, estudante!

Seja bem-vindo(a) ao tema 4 da disciplina Linguagens e
Produção de Texto. Nesse material trabalharemos com a noção
de Coerência Textual e a sua relevância para a construção dos
sentidos do texto em seu processo sociointerativo. Vamos lá!

1 Coerência Textual

Uma das principais condições para o estabelecimento da


coerência textual é a de relevância discursiva. Trata-se quando
os enunciados que compõem o texto podem ser interpretados
pelo mesmo tópico discursivo, ou seja, sobre um mesmo tema.
Em outras palavras, são as possibilidades de conferir sentido
ao texto, corroborando os princípios de interpretabilidade e
intelegibilidade na situação sociocomunicativa.

PRINCÍPIO DE INTERPRETABILIDADE

Todos os textos, a princípio, seriam aceitáveis. Admite-


se, no entanto, que um determinado texto pode ser
incoerente em/para determinada situação comunicativa,
ou seja, quando o produtor não se preocupou em adequar
o texto levando em consideração regras socioculturais,
elementos da situação, uso dos recursos linguísticos etc.
Nesse contexto, compreender os processos de produção
e de circulação de cada texto em seus gêneros é de
fundamental importância para a coerência textual.

34 LUDMILA ANTUNES
COERÊNCIA

Relaciona-se ao estabelecimento de sentido do texto no


processo sociointerativo de comunicação.

A coerência, nesse sentido, contribui para a compreensão


das sequências linguísticas, por exemplo, pois permite a relação
sintática, pragmática e semântica entre os elementos sequenciais,
como os morfemas, palavras, expressões, frases, parágrafos etc .
Adverte-se, nesse sentido, que um texto pode ser incoerente para
determinada situação sociocomunicativa, pois a construção do
sentido no/do texto dependerá de uma MULTIPLICIDADE de
fatores.
A respeito da coerência, a Linguística Textual afirma que
as relações entre texto e coerência se estabelecem no momento
em que se percebe o(s) sentido(s) do texto. No entanto, para
isso, ocorre a dependência de outros fatores de distintas ordens,
tais como linguísticos/discursivos, cognitivos, socioculturais,
interacionais. Apresentaremos, a seguir, cada um desses fatores
para que se possa melhor compreender a coerência textual. Por
essa premissa, atualmente, afirma-se que um texto pode estar
incoerente a depender da situação comunicativa para a qual foi
predestinado. Em outras palavras, o que pode ser incoerente
para um sujeito, pode estar coerente para outro, a depender da
situação sociocomunicativa. Assim, afirma-se, hoje, que não
há textos TOTALMENTE incoerentes, pois tudo vai depender
dos usuários, (emissor/produtor e receptor/leitor) do texto e da
situação sociocomunicativa.

LINGUAGENS E PRODUÇÃO DE TEXTO 35


Situação comunicativa pode ser entendida, em seu
sentido estrito, como contexto imediato da interação e,
em sentido mais amplo, como contexto sócio-político-
cultural. Tal situação interfere na produção/recepção do
texto.

2 De que depende a coerência textual?

Antes de apresentarmos quais os fatores de coerência em


um texto, vamos falar sobre cooperatividade no processo de
interpretabilidade dos sentidos do texto. A atitude do leitor ou
destinatário ante uma determinada produção textual pode ser
mais ou menos cooperativa. Nesse contexto, a identificação da
coerência/incoerência de um texto não é unânime, dependendo,
pois de uma série de fatores relacionados a leitores e/ou
destinatários, que podem:

• emitir julgamentos sobre coerência/incoerência, levando


em consideração apenas os esquemas textuais de partes
do texto com as quais tiveram contato;
• chegar à conclusão que nem todos os textos são aceitáveis,
a depender do papel social do leitor ou do destinatário;
• não levar em consideração o princípio de interpre-
tabilidade.

Para compreendermos que a coerência vai além dos limites


do texto propriamente dito, vejamos o exemplo de um trecho
da canção Debaixo dos caracóis dos seus cabelos, de Erasmo e
Roberto Carlos, para compreendermos a coerência textual.

36 LUDMILA ANTUNES
“[...] Debaixo dos caracóis dos seus cabelos
Uma história pra contar
De um mundo tão distante [...]";

Compreendemos o texto à medida que sabemos quem


é o sujeito do verso citado. Trata-se de um baiano e,
naquela época, o artista tinha os cabelos compridos e
encaracolados.

"Um dia a areia branca


Seus pés irão tocar
E vai molhar seus cabelos
A água azul do mar [...]";

E que a Bahia é um estado litorâneo.

"[...] Um dia vou ver você


Chegando num sorriso
Pisando a areia branca
Que é seu paraíso[...]".

E que esse artista passou uma temporada em exilado em


Londres, na época da Ditadura Militar.

LINGUAGENS E PRODUÇÃO DE TEXTO 37


Estes conhecimentos específicos sobre o referente textual
reconstroem a situação comunicativa do texto, em seus processos
de produção e circulação. É evidente que se pode interpretar
a canção pela expressão linguística, porém, os elementos da
situação comunicativa de produção nos trazem uma nova
visão da interpretação do texto. Não se pode negar, também, as
questões polissêmicas da poesia e que podem ser adaptadas às
outras situações de tristeza, solidão, melancolia etc; ou que esse
texto pode servir como base para a construção de outros textos,
em um processo de intertextualidade.
Assim, seguimos nosso conteúdo abordando os fatores de
textualidade para a constituição da coerência: conhecimentos
linguísticos, conhecimento de mundo, conhecimento partilhado,
as inferências, a focalização, os fatores de contextualização,
de situacionalidade, de informatividade, intertextualidade,
intencionalidade e aceitabilidade. Adverte-se que esses últimos
fatores citados (de contextualização, de situacionalidade,
de informatividade, intertextualidade, intencionalidade e
aceitabilidade), já foram abordados no módulo anterior.

2.1 Conhecimentos linguísticos



Diante de tudo que já foi exposto, é evidente que não se
aprende ou se constrói o sentido do texto apenas com base na
palavra. Entretanto, é necessário compreender os elementos
linguísticos para se estabelecer a coerência do texto. Para Koch e
Elias (2015), o conhecimento linguístico nos fornece pistas para
ativação do próprio conhecimento do texto e, assim, para a sua
coerência.
Tal conhecimento está associado ao conhecimento
gramatical (relacionado à organização do material linguístico,
aos mecanismos de coesão) e lexical (seleção do léxico adequado
ao tema ou ao modelo cognitivo).

38 LUDMILA ANTUNES
2.2 Conhecimento de mundo

O conhecimento de mundo é também conhecido como
conhecimento enciclopédico ou domínio extralinguístico.
Tal conhecimento refere-se às vivências pessoais, às alusões,
enfim, a toda e qualquer informação que se tornará relevante
para a compreensão do texto. Sobre os conhecimentos de
mundo, Koch e Elias (2015) trazem as seguintes subdivisões:
frames (conhecimento armazenado na memória), esquemas
(sequência temporal ou causal), planos (roteiro de que forma
agir para atingir os objetivos), scripts (modo de agir), esquema
textuais ou superestruturais (conhecimentos sobre os tipos de
textos).

2.3 Conhecimento interacional

Os conhecimentos partilhados, interacionais ou


pragmáticos, são informações compartilhadas ao longo das
experiências pessoais do sujeito. Trata-se do equilíbrio entre as
informações ditas como “velhas”, aquilo que já foi adquirido ao
longo do tempo; com as informações ditas “novas”, apresentadas
pelo texto. Podem, também, ser compreendidos a partir da
interpretação de outros conhecimentos como: ilocucional,
comunicacional, metacomunicativo e superestrutural
(KOCH; ELIAS, 2015). O conhecimento ilocucional é aquele que
nos permite identificar os propósitos a serem alcançados pelo
autor do texto. O comunicacional está associado à adequação de
informação, das variantes linguísticas e do gênero textual a cada
situação sociocomunicativa. O metacomunicativo nos permite
assegurar a aceitabilidade do texto. Por fim, os conhecimentos
superestruturais ou sobre os gêneros textuais, permitirá a

LINGUAGENS E PRODUÇÃO DE TEXTO 39


adequação quanto ao formato comunicativo proposto pelo
produtor do texto.

Quadro 01 - Conhecimentos e fatores para a construção da


coerência textual

DE QUE DEPENDE A COERÊNCIA TEXTUAL?

Conhecimentos ou domínios linguísticos


Compreensão da língua, dos recursos gramaticais nos
níveis fonético-fonológico, semântico, morfossintático e nas
relações lexicais.

Conhecimentos ou domínios extralinguísticos


Compreensão dos contextos de produção e circulação dos
textos.
Conhecimentos ou domínios pragmáticos
Processamento:
- Contexto/ Situacionalidade
- Comunicacional/ Informatividade
- Superestrutural/ Intertextualidade
-Ilocucional/ Intencionalidade
-Metacomunicativo/ Aceitabilidade

Fonte: (KOCH; ELIAS, 2015)

40 LUDMILA ANTUNES
Pausa para análise de texto

Texto 01:

E.C.T.
(Marisa Monte/Nando Reis/Carlinhos Brown)

Tava com um cara que carimba postais


Que por descuido abriu uma carta que voltou
Tomou um susto que lhe abriu a boca
Esse recado vem pra mim, não pro senhor.
Recebo crack, colante, dinheiro parco embrulhado
Em papel carbono e barbante,
E até cabelo cortado, retrato de 3 x 4
pra batizado distante
Mas isso aqui meu senhor,
É uma carta de amor
Levo o mundo e não vou lá
Mas esse cara tem a língua solta
A minha carta ele musicou
Tava em casa vitamina pronta
Ouvi no rádio a minha carta de amor
Dizendo "eu caso contente, papel passado, presente
Desembrulhado, vestido,
Eu volto logo me espera
Não brigue nunca comigo,
Eu quero ver nossos filhos"
O professor me ensinou fazer uma carta de amor
Leve o mundo que eu vou já

LINGUAGENS E PRODUÇÃO DE TEXTO 41


Quais fatores de coerência estão em evidência?

JOGO DE VOZES: é a mudança de enunciador/diversos


pontos de vista. Assim, têm-se: (1) narrador em 3ª pessoa;
(2)narrador em 1ª pessoa; (3) o "cara que carimba postais" e
(4) o enunciador da carta.
O CONHECIMENTO DE MUNDO: Comecemos pela
análise do título ECT, que, de acordo com o nosso conhecimento
de mundo, é a sigla de Empresa de Correios e Telégrafos. Nesse
sentido, ativamos os conhecimentos de frame (conhecimento
de senso comum sobre um conceito central) e de esquema
(estabelecer hipóteses sobre o que será feito ou mencionado no
universo textual), pois precisamos compreender como funciona
os Correios. Ao ativar esse conhecimento de mundo sabemos
que as correspondências são invioláveis. No contexto descrito,
provavelmente “o cara que carimba postais” estava a violar uma
correspondência e foi pego no ato pelo destinatário da carta que,
certamente, foi ao correio saber da carta que não chegou. Outro
conhecimento ativado é o conhecimento de plano (consiste em
saber de que forma agir em uma determinada situação para
alcançar um determinado objetivo), que estará associado à ação
na situação descrita na letra da canção. Por fim, através dos
scripts, identifica-se que o destinatário é uma mulher, o que se
pode identificar implicitamente no uso do léxico vestido e da
ausência, caso ainda constante na nossa sociedade como papel
do homem.
INFERÊNCIAS. Podemos inferir que a pessoa a quem se
destina a carta foi ao correio para retirar a sua correspondência,
diante a demora da entrega. Tal inferência é apontada pelo
diálogo “esse recado vem para mim, não pro Senhor”.

42 LUDMILA ANTUNES
Texto 02: Figura 12 - Tirinha

fonte: disponível em: https://exercicios.brasilescola.uol.com.br/exercicios-redacao/


exercicios-sobre-tipos-coerencia-textual.htm#questao-2.

Qual efeito de sentido pode-se produzir a partir da leitura


dos recursos verbais representados na tirinha?

Observa-se que, a fala da personagem Hagar foi interpretada


de forma distinta. Enquanto ele se referia à cantoria no
sentido negativo, no fato de está incomodado com isso, a
outra personagem se fez compreender o sentido positivo, de
adoração da música. Trata-se, nesse sentido, de uso de recurso
linguístico de FALHA DE COESÃO, ou seja, da ambiguidade.
Tal construção inadequada no efeito de sentido, que no texto foi
utilizada de forma intencional, é marcada pelo uso inadequado
de conectores e de pronome anafórico.

LINGUAGENS E PRODUÇÃO DE TEXTO 43


Texto 03: Figura 13 - Charge

fonte: Disponível em:https://www.wilsonvieira.net.br/2017/08/charge-do-dia-escalada-da-


violencia.html .

Nota-se, na leitura da charge, que, para a construção de


efeito de sentido, é necessário que o leitor acione diversos
conhecimentos: linguísticos, extralinguísticos e pragmáticos.
Acerca do conhecimento linguístico, tem-se o uso da linguagem
informal, característica coerente da variante linguística
representativa da personagem. Sobre os conhecimentos
extralinguísticos, percebe-se o uso das imagens representativa
do mundo real, além do uso de caraterísticas humanas que
foram adicionadas ao elemento “Drone”, não humano. Por
fim, o conhecimento pragmático relacionado ao contexto de
criação desse texto. Podemos, diante disso, acionar os seguintes

44 LUDMILA ANTUNES
questionamentos: Para que se produzir este tipo de texto? Qual
a intenção? Qual a informação ou mensagem a ser construída
a partir da circulação desse texto? Nesse sentido, trata-se de
um alerta exagerado, mas intencional para o crescente índice
de violência no Brasil e o uso da tecnologia como suporte para
“aprimorar” esses crimes.

Chegamos ao final e percebemos que, como já descrito antes,


o texto é como um iceberg, ou seja, aquilo que fica exposto, para
fora, são as estruturas superficiais expostas no texto, mas, para
uma compreensão mais completa, é necessário alcançá-lo na
sua profundeza.
Figura 14: Representação do iceberg e o processo de interação
do texto.

Representa aquilo
que é explicitado
no texto.

Representa o nível
implícito para
alcançar uma
compreensão mais
profunda do texto.
Fonte: Disponível em: https://www.
google.com.br /search?q=iceberg&safe

LINGUAGENS E PRODUÇÃO DE TEXTO 45


Enfim, para que seja possível alcançarmos as “profundezas” da
interpretação de um texto, é necessário, ainda, compreendermos
o que Koch e Elias (2015) descrevem como tipos de coerência
como: sintática, semântica, temática, pragmática, estilística e
genérica.
A coerência sintática está atrelada ao conhecimento
linguístico do usuário, ou seja, ao uso adequado das estruturas
linguísticas. A coerência semântica refere-se às relações de
sentido entre as estruturas, ou seja, refere-se ao sentido da não
contradição. A coerência temática, por outro lado, vai exigir
que os enunciados de um texto estejam de acordo com o tópico
discursivo que está sendo desenvolvido no texto. A coerência
pragmática relaciona-se aos atos de fala, considerando que
cada ato de fala tem suas condições de realização. A coerência
estilística, por sua vez, determina que a variedade de língua
adequada, o léxico e as estruturas sintáticas, semânticas,
fonológicas etc , se organizem no texto. Por fim, a coerência
genérica, vai tratar das exigências quanto ao gênero textual
adequado para aquela prática discursiva e social.

46 LUDMILA ANTUNES
TEMA 5 – COESÃO TEXTUAL
Olá, estudante!

Seja bem-vindo(a) ao tema 5 da disciplina de Linguagens e
Produção de Texto. Nesse material trabalharemos com a noção
de Coesão Textual e a sua relevância para a construção dos
sentidos do texto em seu processo sociointerativo. Vamos lá!

1 O que faz um texto coeso?

A Coesão Textual é uma das propriedades fundamentais


para o estabelecimento da textualidade, pois é um aspecto
semântico-sintático que deve marcar a produção textual. Além
disso, a falta de Coesão é um fator que pode influenciar na
Coerência Textual.

COESÃO

Relaciona-se aos mecanismos linguísticos utilizados no


processo sociointerativo de comunicação.

A relação da textualidade para o estabelecimento da


coerência no texto pelo leitor associa-se ao conhecimento de
mundo, às pistas e sinalizações deixadas pelo autor durante a
construção do texto. Os mecanismos coesivos são decisivos para
a interpretação do texto. Fávero (2009) identificou e classificou
esses mecanismos linguísticos da seguinte forma: Referencial
(termos que fazem referência ao que foi mencionado nos textos

LINGUAGENS E PRODUÇÃO DE TEXTO 47


anteriores, anafórico e catafóricos); Recorrência (termos que
retomam elementos) e Sequencial (termos que tem a função
de fazer caminhar o fluxo informacional do texto). Assim,
descreve-se a seguir, tais mecanismos.

Termos anafóricos

Mecanismo linguístico por meio do qual se pode remeter


a outros elementos do texto.

Ex: Mário saiu. Ele foi ao cinema.

Termos catafóricos:

Mecanismo linguístico por meio do qual se pode remeter


a outros elementos do texto que ainda serão anunciados.

Ex: Ele deveria ser banido do nosso pais, o trabalho


infantil.

48 LUDMILA ANTUNES
Quadro 02 – Mecanismos de coesão textual

1 REFERENCIAL
1.1 SUBSTITUIÇÃO
Anafórica e Catafórica
1.1.1 Pronome
Adorei Salvador. Estive lá faz 10 anos.
1.1.2 Numeral
Marcos e João têm a mesma virtude: ambos são generosos.
1.1.3 Advérbio
Entrei em contato com Fábio, mas ele não respondeu.

1.2 REITERAÇÃO
1.2.1 Repetição do mesmo item lexical
Questionar não é duvidar das coisas. Questionar é querer
sempre saber mais
1.2.2 Sinônimo
Esse felino é agitado. É um gato que não deixa ninguém
acariciar.
1.2.3 Hiperônimos específico> geral
João comprou um Porsche. Ele adora carros esportivos.
1.2.4 Hipônimo geral> específico
A família não concordava com a mania que a filha tinha de
comer usando o celular.

LINGUAGENS E PRODUÇÃO DE TEXTO 49


1.2.5 Expressões nominais
Anita faz muito sucesso. A cantora brasileira lança um sigle
por mês
1.2.6 Nomes genéricos (coisa, pessoa, gente)
Tenho uma coisa para dizer: estou grávida.

2 RECORRENCIAL
2.1 Paralelismo
Repetição da mesma estrutura
Na teoria, tudo é simples. Na prática, não é bem assim.
2.2 Recorrência de termos
Termo, em especial , é repetido
Marcus não ficou triste. Marcus deprimiu.
2.3 Paráfrase
Maneira diferente de dizer algo que já foi dito
expressões: isto é, ou seja, ou melhor.
Eu estou aprendendo, ou melhor, estou tentando aprender a
andar de patins.
2.4 Elipse
Omissão de um elemento já citado.
A venda dos livros foi extraordinária. Já a (venda) de roupa
nem tanto.

50 LUDMILA ANTUNES
2.5 Ritmo ou recursos fonológicos
Ativação das ideias pelo som e ritmo das palavras.
“Vozes veladas, veludosas vozes”. Trecho do poema de Cruz e
Souza.

3 SEQUENCIAL
3.1 Sequenciação Temporal
Ordem temporal dos fatos na sentença
Levantou, tomou banho e saiu apressadamente.
3.2 Sequenciação lógica
Conexão de forma lógica entre as ideias do texto
Queria um favor, mas não teve a coragem de pedir.

Operadores de encadeamento discursivo / conjunção:

é, também, não só..., mas também,


tanto... como, além de,
além disso, ainda, nem.

LINGUAGENS E PRODUÇÃO DE TEXTO 51


Operadores do tipo lógico:

Oposição: mas, porém, contudo


Causa: porque, pois, já que
Finalidade: com o propósito de
Condição: se, a menos que
Conclusão: logo, assim, portanto
Adição: e, bem como
Exclusão: nem
Comparação: mais do que, menos do que.

Os principais problemas relacionados à coesão podem


ser observados, por exemplo, (1) quando não há relação de
ideia entre uma oração e outra; (2) quando do excesso do
uso de marcadores; (3) quanto ao emprego inadequado dos
mecanismos coesivos, e por fim, (4) uso de mecanismos para
disfarçar a coerência do texto (GUIMARAES, 2012). Vejamos:
(1) Proibida a venda de games considerados violentos
fere a liberdade de escolha do consumidor. Não há pesquisas
conclusivas que comprovem a influência negativa desses jogos
sobre o comportamento das pessoas. Ideias justapostas sem
correlação uma com a outra.
(2) Proibida a venda de games. Portanto, são considerados
violentos. Logo, fere a liberdade de escolha do consumidor.
Sendo assim, não há pesquisas conclusivas que comprovem a
influência negativa desses jogos sobre o comportamento das
pessoas.
(3) Proibida a venda de games considerados violentos fere
a liberdade de escolha do consumidor. Além do mais, não há
pesquisas conclusivas que comprovem a influência negativa
desses jogos sobre o comportamento das pessoas.

52 LUDMILA ANTUNES
(4) Proibida a venda de games considerados, não apenas
violentos, fere a liberdade de escolha do consumidor. Como
consequência, não há pesquisas conclusivas que comprovem
a influência negativa desses jogos sobre o comportamento das
pessoas.

Como usar os recursos linguísticos adequados


para melhorar a textualidade desse trecho?

Proibida a venda de games por serem considerados


violentos, mesmo não havendo pesquisas conclusivas
que comprovem a influência negativa desses jogos sobre
o comportamento das pessoas.

Vamos a outros exemplos!


Texto 04: Figura 15 – Charge

Fonte: Disponível em:http://aescritanasentrelinhas.com.br/2008/10/26/votacao-charges/

LINGUAGENS E PRODUÇÃO DE TEXTO 53


COMENTÁRIO

Percebe-se, no texto 04 uso do pronome Você como


um termo catafórico. O referente linguístico ao qual
está associado (Wilson) é anunciado após, no final da
frase. Assim, tem-se o recurso de coesão referência por
substituição.

Texto 05: Figura 16 – Tirinha

Fonte: Disponível em: https://williandelima.wordpress.com

54 LUDMILA ANTUNES
COMENTÁRIO

Ao lermos os diálogos apresentados na tirinha notamos


que o uso do pronome isso, se refere a palavras que já
foram citadas no texto. Trata-se, então de um termo
anafórico.
O referente linguístico ao qual está associado (O mundo
vai acabar) é anunciado após, no final da frase. Assim,
tem-se o recurso de coesão referência por substituição.

Texto 06 – Resumo Acadêmico

A REPRESENTAÇÃO DO NEGRO EM LIVROS


DIDÁTICOS DE LEITURA

Regina Pahim Pinto

RESUMO

Este texto faz parte de um conjunto de artigos arrolados sob


o título Livro Didático: Análises e Propostas. A discriminação
contra a raça negra produzida e veiculada pelos livros didáticos
constituiu o tema central deste painel. Foram apresentados
e discutidos resultados de pesquisa, revisão da bibliografia
nacional sobre o assunto, sugestões para transformação
dos conteúdos, bem como relatos de iniciativas visando a
sensibilização de produtores e usuários quanto ao racismo
contido nos materiais didáticos. Durante o debate foram
levantadas questões controversas - Qual a importância efetiva

LINGUAGENS E PRODUÇÃO DE TEXTO 55


do livro didático na produção e manutenção do racismo? Os
livros não estariam retratando apenas a situação de inferioridade
social vivida pela população negra? - além de se destacar o papel
do(a) professor(a) como mediador(a) no circuito produção-
recepção do livro didático.
Fonte: Cadernos de Pesquisa Fundação Carlos Chagas. Disponível em:http://
publicacoes.fcc.org.br/ojs/index.php/cp/article/view/1280 .

COMENTÁRIO

Nota-se no resumo científico o uso do pronome Este


como termo catafórico, ou seja, a palavra a qual está
associada (texto), o referente, aparece no discurso após.
Nesse contexto, cabe, aqui, alguns tópicos de gramática
normativa em que descreve os usos dos pronomes: este,
esse e aquele. Usa-se, este (esta e isto) quando se tem
o referente próximo de quem se fala; usa-se esse (essa,
isso) quando o referente está próximo da pessoa com
quem se fala; e aquele (aquela, aquilo), quando se
indica algo que está distante da pessoa que fala. Exemplo:
“Por favor, passe esta caneta àquela pessoa que está na
terceira fila”; “As pessoas riram de você quando caiu. Isso
não foi uma atitute coerente.”.

56 LUDMILA ANTUNES
Texto 07: Figura17 - Peça Publicitária

fonte: Disponível em: http://diogoprofessor.blogspot.com/2015/09/atividade-com-


propaganda-da-boticario.html

Sabemos que texto é construção de sentido, então, como


poderíamos utilizar melhor os recursos coesivos de forma que
o leitor possa construir o sentido desejado no texto? Para isso,
devemos:
1. Evitar a repetição de palavras tentando substituí-las por
outras de sentido aproximados, ou do mesmo campo lexical,
como sinônimos, hiperônimos, nomes genéricos etc.
2. Utilizar recursos estilísticos da língua portuguesa como
pronomes (pessoais, demonstrativos etc.)
3. Utilizar recursos de coesão como as conjunções e os
pronomes relativos para interligar orações subordinadas e
coordenadas.

LINGUAGENS E PRODUÇÃO DE TEXTO 57


Alguns exemplos de conectivos que podem ser utilizados
como recursos de coesão textual:

- Introdução: inicialmente, primeiramente, desse ponto


de vista;
- Continuação, adição: além disso, igualmente, do
mesmo modo;
- Conclusão: enfim, nesse sentido, portanto, afinal, ao
fim;
- Tempo: enquanto isso, posteriormente, concomitante-
mente;
- Exemplo: Então, por exemplo, ou seja, quer dizer, isto é
- Causa: desde já, inicialmente, que, porque

Enfim, a coesão textual é a manifestação da coerência no


nível da superfície do texto, ou seja, em sua forma. Tal recurso é
responsável pela ligação, conexão entre palavras, frases, orações
e sentenças dentro de um texto, o que, de certa forma, garante-
lhe fluidez, clareza, precisão, textualidade e interpretabilidade
ao mesmo. Então, quando for usar um CONECTIVO, ou
PALAVRAS DE COESÃO, cuidado ao empregá-los, pois tais
recursos, quando mal empregados, podem tornar um texto
incompreensível, contraditório, incoerente.

58 LUDMILA ANTUNES
SEMANA

2
TEMA 6 – PARÁGRAFO
Olá, estudante!

Seja bem-vindo ao Tema 6 da disciplina de Linguagens e
Produção de Texto. Nesse material trabalharemos com a noção
de Parágrafo no processo sociocomunicativo da produção
escrita. Vamos lá!

1 O PARÁGRAFO
O parágrafo, no processo sociocomunicativo, consiste em
uma unidade de composição de APENAS uma ideia-núcleo,
central, que pode ser desenvolvida por um ou mais períodos.
Não se pode aceitar, na contemporaneidade, que um parágrafo
seja um amontoado de frases, orações e períodos escritos em
um amontoado de linhas.
A natureza do tipo de parágrafo a ser desenvolvido
dependerá do assunto, da complexidade desse assunto, do gênero
textual, enfim, do propósito da comunicação. Então, para isso,
é necessário adequar a escrita à estrutura do parágrafo, com o
propósito de se evitar ruídos na comunicação.
De forma geral, para que se tenha qualidade na produção
do parágrafo e na leitura, a estrutura de um parágrafo pode ser
estabelecida pelo seguinte modelo, denominado de parágrafo-
padrão: introdução, desenvolvimento e conclusão. Nas palavras
do Filólogo Othon Moacir Garcia (2010), o parágrafo-padrão,
de estrutura mais comum e mais eficaz consta de introdução,
na qual se expressa de forma sumária e sucinta, a ideia núcleo,
ou seja, tópico frasal ou frase núcleo; o desenvolvimento, que
deve explanar a ideia núcleo; e, por fim a conclusão, que deve
ser um fechamento das ideias desenvolvidas no parágrafo.

60 LUDMILA ANTUNES

Frase é todo enunciado suficiente por si mesmo para
estabelecer comunicação. Pode expressar um juízo de
valor, indicar uma ação, estado ou fenômeno, transmitir
um apelo, uma ordem, ou exteriorizar emoções. Seu
arcabouço linguístico encerra normalmente um mínimo
de dois termos - o sujeito e o predicado -, normalmente,
mas não obrigatoriamente [...].
Oração, às vezes, é sinônimo de frase e período
(simples) quando encerra um pensamento completo e
vem limitada por ponto-final, ponto de interrogação,
de exclamação [...]. O período que contém mais de uma
oração é composto (GARCIA, 2010, p. 32, grifo nosso).

Quadro 03: Ilustração da estrutura de um parágrafo

Fonte: Elaboração prórpia (2019).

LINGUAGENS E PRODUÇÃO DE TEXTO 61


Na comunicação escrita, o parágrafo desenvolverá a
comunicação entre emissor/produtor do texto e receptor/leitor
desse texto. Sendo assim, cabe ao leitor, pela materialidade
da comunicação (escrita), facilitar a comunicação ajustando
a produção textual, seja no nível linguístico, de conteúdo etc,
para que o leitor acompanhe o desenvolvimento de texto, em
seus diferentes estágios. Dessa forma, os parágrafos precisam
ter as seguintes qualidades: unidade, coerência, ênfase, além de
consistência e concisão.

2 QUALIDADE DOS PARÁGRAFOS


A unidade é a primeira qualidade de um parágrafo, pois
possibilitará “amarrar” a ideia central às ideias secundárias
desenvolvidas no parágrafo. Segundo Garcia (2010), para uma
melhor construção de parágrafo, deve-se evitar pormenores
e redundâncias, selecionar as ideias relevantes, escolher as
expressões adequadas e evitar desenvolver a mesma ideia-núcleo
em diversos parágrafos. No entanto, deve-se destacar, nessa lista,
o item relacionado ao tópico frasal que, segundo o autor, deve
estar explícito. Assim, como ilustração, segue o Quadro 04, com
possibilidades de produção de um parágrafo inicial de acordo
com esses critérios.

Quadro 04: Possibilidades de produção de tópico frasal



EXEMPLO DEFINIÇÃO/Comentários
É um grave erro a liberação DECLARAÇÃO. Forma
da maconha. comum de começar um texto.
(Alberto Corazza, IstoÉ, 20 dez. Deve ser clara e capaz de
1995). surpreender o leitor.

62 LUDMILA ANTUNES
O mito, entre os povos
primitivos, é uma forma
de se situar no mundo, DEFINIÇÃO. Forma simples
isto é, de encontrar o seu e muito usada, sobretudo em
lugar entre os demais seres textos dissertativos.
da natureza (ARANHA;
MARTINS, 1992, p.62).
Predominam ainda no
Brasil duas convicções
errôneas sobre o problema DIVISÃO. Ao dizer que há
da exclusão social: a de que duas convicções errôneas,
ela deve ser enfrentada fica logo clara a direção que o
apenas pelo poder público parágrafo vai tomar. O autor
e a de que sua superação terá de explicitá-las na frase
envolve muitos recursos e seguinte.
esforços extraordinários.
(Folha de S. Paulo, 17 dez. 1996).

De um lado, professores
mal pagos, desestimulados,
esquecidos pelo governo. OPOSIÇÃO. Autor estabelece
De outro, gastos excessivos a oposição e em seguida
com computadores, antenas explica os termos que a
parabólicas, aparelhos de compõem.
videocassete (FEIJÓ, 1985, p. 7).
Após a queda do Muro ALUSÃO HISTÓRICA.
de Berlim, acabaram os O conhecimento de fatos
antagonismos leste-oeste e históricos situa o leitor no
o mundo parece ter aberto tempo e o introduz ao diálogo
de vez as portas para a sociointeracional do texto.
globalização

LINGUAGENS E PRODUÇÃO DE TEXTO 63


Será que é com novos impostos PERGUNTA. Serve para
que a saúde melhorará no despertar a atenção do
Brasil? leitor para a discussão
do tema. Lembre-se
que a pergunta deverá
ser respondida na
argumentação.
Uma tragédia. Essa é a
conclusão da própria Secretaria FRASE NOMINAL. Ao
de Avaliação e Informação usar esse recurso, deve-
Educacional do Ministério da se, em seguida, retomar a
Educação. ideia no desenvolvimento
(Folha de S. Paulo, 27 nov. 1996). e fechar na conclusão.
Equivocada e pouco racional.
Esta é a verdadeira adjetivação
para a política educacional do ADJETIVAÇÃO. Será a
governo. base para desenvolver o
(Anderson Sanches, Infocus, n. 5, ano 1, tema.
out. 1966. p. 2).
“‘As pessoas chegam ao ponto
de uma criança morrer e os pais
não chorarem mais, trazerem CITAÇÃO DIRETA.
a criança, jogarem num bolo Ilustrará alguma situação,
de mortos, virarem as costas e uma argumentação
irem embora.’ O comentário, do apresentada no texto.
fotógrafo Sebastião Salgado [...]”
(DI FRANCO, 1995, p.73).

64 LUDMILA ANTUNES
Para Marx a religião é o ópio
do povo. Raymond Aron deu o CITAÇÃO INDIRETA.
troco: o marxismo é o ópio dos Recurso utilizado quando
intelectuais. não se traz, literalmente, a
(Cláudio de Moura e Castro, Veja, 13 citação.
nov. 1996).
O ministro da Educação se
esforça para convencer de que EXPOSIÇÃO DE
o provão é fundamental para PONTO DE VISTA
a melhoria da qualidade do OPOSTO. Tem o objetivo
ensino superior. de refutar os argumentos
(Orlando Silva Júnior e Eder Roberto do opositor, numa espécie
Silva, Folha de S. Paulo, 5 nov. 1996).
de contra argumentação.
O tema da reforma agrária está COMPARAÇÃO.
presente há bastante tempo nas Mostra semelhança e/ou
discussões sobre os problemas diferenças entre ideias a
mais graves que afetam o Brasil serem desenvolvidas no
(OLIVEIRA, 1991. p.101). texto.
O corriqueiro adágio de que
o pior cego é o que não quer RETOMADA DE UM
ver se aplica com perfeição na PROVÉRBIO.
análise sobre o atual estágio da Na utilização desse
mídia: desconhecer ou tentar recurso, não escreva o
ignorar os incríveis avanços provérbio, simplesmente,
tecnológicos de nossos dias, e faça, em seguida, um
supor que eles não terão reflexos comentário.
profundos no futuro dos jornais
é simplesmente impossível.
(Jayme Sirotsky, Folha de S. Paulo, 5
dez. 1995).

LINGUAGENS E PRODUÇÃO DE TEXTO 65


O Jornal do Comércio, de
Manaus, publicou um anúncio ILUSTRAÇÃO. Narrando
em que uma jovem de dezoito um fato para ilustrar o
anos, já mãe de duas filhas, tema.
dizia estar grávida, mas não
queria a criança.
(Antônio Carlos Viana, O Quê, edição
de 16 a 22 jul. 1994).
Desabamento de shopping em
Osasco. Morte de velhinhos SEQUÊNCIA DE FRASES
numa clínica do Rio. Meia NOMINAIS. Apresentam
centena de mortes numa clínica paralelismos, ou seja, a
de hemodiálise em Caruaru. estrutura de cada frase
Chacina de sem-terra em deve ser semelhante.
Eldorado dos Carajás. Muitos
meses já se passaram e esses fatos
continuam impunes.
Quem assistiu ao filme A rainha
Margot, com a deslumbrante ALUSÃO. Referência a
Isabelle Adjani, ainda deve ter romance, conto, poema,
os fatos vivos na memória. filme etc.
(Veja, 25 out. 1995).

Madrugada de 11 de agosto. DESCRIÇÃO DE UM


Moema, bairro paulistano FATO DE FORMA
de classe média. Choperia CINEMATOGRÁFICA.
Bodega — um bar da moda, Recorre-se a flashes, agiliza
frequentado por jovens bem o texto e prende a atenção
nascidos. Um assalto. do leitor.
(Josias de Souza, Folha de S. Paulo, 30
set 1996).

66 LUDMILA ANTUNES
Mas o que significa, afinal, esta OMISSÃO DE DADOS
palavra, que virou bandeira da IDENTIFICADORES.
juventude? Com certeza não Cria no leitor certa
é algo que se refira somente à expectativa em relação
política ou às grandes decisões ao tema, que deve ser
do Brasil e do mundo. esclarecido nas frases ou
(O Globo, 13 set. 1992) nos parágrafos seguintes.

Fonte: Adaptado de Viana (1998, p.75-80).

2.1 Coerência

Enquanto a qualidade seleciona as ideias, a coerência será
responsável pela organização, pelo planejamento dessas ideias
no parágrafo. Ela poderá estar organizada seja por sequências
cronológica, espacial, raciocínio ou pela ordem dos fatos. Só
para ilustrar, vejamos o exemplo: “As exposições do quadro
foram em três momentos: em abril de 1993, em 1984 e no ano
passado”.
Trata-se de uma frase confusa, incoerente que ficaria
melhor na seguinte construção: “As exposições do quadro foram
em três momentos: a primeira em abril de 1984, a segunda em
1993 e terceira no ano passado, em 1994”. Salienta-se, aqui, a
importância de saber usar os conectivos corretos em cada
situação sociocomunicativa. Para Garcia (2010), ao se produzir
um parágrafo, deve-se estar atento também não só à cronologia
e à ordem espacial, mas, principalmente, para as partículas de
transição e referência.

LINGUAGENS E PRODUÇÃO DE TEXTO 67


2.2 Ênfase

A ênfase pode ser considerada como um recurso estilístico.
Trata-se de enfatizar a colocação das informações no parágrafo
de forma que reflita a intenção do texto. Além disso, deve-se
atentar para o ritmo sintático-semântico do parágrafo, bem
como para as ordens gradativas e de paralelismo no texto.
Vejamos o exemplo extraído de Figueiredo (1999): “Comecei a
escrever o livro, depois do belo curso sobre meio ambiente” e
“Depois que fiz o belo curso sobre meio ambiente, comecei a
escrever o livro”. Percebe-se que a ideia principal é “Comecei
a escrever o livro”, que pode vir no início ou no final. Alerta-se
para o fato de que, se tal ênfase for dada no final da frase, deve-se
tomar cuidado para não enfraquecer a ideia principal. Esse tipo
de caso ocorre quando optamos por começar uma frase com
gerúndio e, ao escrevermos no final o tópico-frasal, esquecemos
de colocar ênfase na parte mais relevante da frase.

2.3 Consistência

O conteúdo e a forma de produzir o parágrafo estão atrelados


à consistência, no sentido de que se deve selecionar o vocabulário,
o estilo, a linguagem, enfim, as características do gênero textual
a ser produzido. Nesse sentido, é comum na produção de textos
nas escolas e universidades, o(a) estudante misturar formas na
modalidade escrita, por exemplo, a norma padrão/ formal com
a norma não-padrão/ informal. No entanto, é comum também
a produção de textos que fogem a unidade tópica. Vejamos o
exemplo: “Na mesa tinham os seguintes pratos: feijão, arroz,
carne, e uma deliciosa salada”. Percebe-se que a adjetivação dos
pratos só ocorreu no último, por isso, pode-se afirmar que não
há uma consistência quanto ao estilo.

68 LUDMILA ANTUNES
2.4 Concisão

A concisão é, para Figueiredo (1999), uma forma de


escrever o parágrafo respeitando o leitor, pois está atrelada a
questões de prolixidade, digressões, tautologias (pleonasmo)
etc. Assim, expressões que alongam e dificultam a compreensão
do parágrafo devem ser evitadas, como exposto no Quadro 05.
Quadro 05: Exemplos de termos que não apresentam concisão

Levar em Considerar
consideração
1 Verbos diluídos Tomar Conhecer
conhecimento
Estabelecer um Sistematizar
sistema
Redondo na forma Redondo
No presente Agora
2 Pleonasmos momento
Nas bases Nas bases
fundamentais
Vou apresentar Resumindo,
um resumo resumirei
3 Digressão Desaparecer da Sumir
vista
Em minha Penso
opinião, eu penso
Dentro em breve Breve
Uso Em relação a Sobre
4 desnecessário
de preposição
Em função disso Por isso
Fonte: Adaptado de Figueiredo (1999)

LINGUAGENS E PRODUÇÃO DE TEXTO 69


3 FORMAS DE PRODUÇÃO DO PARÁGRAFO
(INTRODUÇÃO, DESENVOLVIMENTO E CONCLUSÃO)

Como já mencionado, um parágrafo-padrão deve ter em


sua estrutura introdução, desenvolvimento e conclusão.
As formas de começar um parágrafo são diversas, tais
como declaração inicial, definição, divisão, alusão histórica
etc., e já foram, aqui, expostas no quadro 04. Salienta-se que,
na introdução, deve-se sempre expor a ideia central a ser
desenvolvida no parágrafo.
Desenvolver o parágrafo é expor a ideia principal, descrita
no tópico frasal. Para isso, pode-se eleger as seguintes formas:
Enumeração ou descrição, confronto, analogia e comparação,
citação e exemplos, causa e motivação, definição e divisão
e explanação da ideia. Vejamos os exemplos propostos por
Figueiredo (1999).

(1) Exemplificação

Muitos poluidores químicos contribuem para degradar


os rios. Os resíduos industriais são os piores, porque contêm
uma série de elementos químicos altamente prejudiciais à vida
aquática, como o benzeno, o aldeído e várias espécies de ácidos.
Os agrotóxicos utilizados para combater as pragas na agricultura
também são poluidores que alcançam os rios, envenenando e
matando vários.

(2) Comparação e contrastes

O macaco é mais esperto que o bicho-preguiça. O macaco


pula rapidamente de um galho para outro, de uma árvore para
outra, comendo vários tipos de frutinhas ou brincando com

70 LUDMILA ANTUNES
outros macacos. O bicho-preguiça é muito vagaroso, sobe
lentamente no galho e ali permanece bastante tempo, comendo
folhas ou simplesmente ficando parado, durante várias horas.

(3) Definição

O microscópio é um aparelho de precisão que serve para ver


ou examinar coisas minúsculas (definição formal). A palavra
vem do grego micro (pequeno) e scopio ([instrumento] para ver)
(definição etimológica). Há vários tipos de microscópio, desde
os sofisticados eletrônicos aos mais simples aparelhos manuais.
Vamos tratar aqui do microscópio eletrônico (definição
estipulativa).

(4) Analogia

A distinção entre as ideias de Newton e as de Einstein sobre


a gravitação tem sido às vezes ilustrada com a apresentação de
uma criança jogando bolinhas de gude num lote da cidade. O
chão é muito inclinado. O observador de um escritório dez
andares acima da rua será incapaz de ver as irregularidades
no chão. Reparando que as bolinhas de gude parecem evitar
algumas partes do chão [as áreas superiores] e mover-se para
outras partes [as inferiores], ele pode deduzir que uma força
[semimagnética] opera, repelindo as bolinhas de certas partes e
as atraindo para outras. Mas outro observador no chão percebe
instantaneamente que os caminhos das bolas são apenas
governados pela curvatura do lote. Nessa pequena fábula,
Newton e o observador de cima que imagina uma força em
funcionamento, e Einstein é o observador do chão, que não tem
razão para fazer tal raciocínio. As leis gravitacionais de Einstein
descrevem meramente as propriedades de campo do espaço-
tempo contínuo.

LINGUAGENS E PRODUÇÃO DE TEXTO 71


(5) Classificação

As distinções que faço entre as três diferentes espécies


de cultura - a pós-figurativa, na qual as crianças aprendem
primeiro de seus antepassados; a co-figurativa, na qual as
crianças e os adultos aprendem de seus pares; e a perfigurativa,
na qual os adultos aprendem das crianças - são uma reflexão do
período no qual vivemos. As sociedades primitivas de pequenas
religiões e enclaves ideológicos são primeiro pós-figurativas,
derivando a autoridade do passado. Grandes civilizações, que
necessariamente desenvolveram técnicas para incorporar
mudança […].

(6) Descrição

A descrição técnica é uma forma de exposição e geralmente


é analítica. Ela presta informações objetivas, analisando e
distinguindo as partes que compõe o objetivo da descrição. Por
meio de descrição técnica, os cientistas explicam o mundo por
meio de leis gerais, baseadas na objetividade.

(7) Narração

Mui rápida e penosa, mas interessantíssima, foi a excursão


que fiz, como presidente da província do Paraná, até o porto
da União da Vitória, no rio Iguaçu, e mais além na estrada de
Palmas umas duas léguas, completando, em menos de sete dias,
quase 150 léguas de ida e volta, embora estorvado em meu
regresso por violentos aguaceiros, que obrigaram em Campo
Largo a uma parada, fora do programa por mim delineado.
Darei agora os pormenores dessa digressão, que tomou visos de
verdadeira viagem, pondo em ordem Ligeiros apontamentos e
apelando para a memória, que sem dúvida por vezes me faltará.
(Visconde de Taunay, Paisagens Brasileiras.)

72 LUDMILA ANTUNES
(8) Dissertação

Não obstante o brilho alcançado pela vida urbana do mundo


greco-romano, sua estrutura socioeconômica não deixou jamais
de ser eminentemente agrária. A agricultura e o pastoreio
constuíram-se sempre nas principais atividades econômicas,
determinando o destino da maioria da população. Desde os
tempos homéricos, passando pelo período helenístico, até o
final do Império Romano, a propriedade da terra permaneceu
como a condição básica para que o cidadão gozasse de poder
e prestígio. (Maria Beatriz Florenzano, O mundo antigo:
economia e sociedade)
No que tange às formas de conclusão dos parágrafos, podem
ocorrer através de súmulas, de resumos das ideias expostas e
de fechamentos do parágrafo. Pode-se utilizar a conclusão do
parágrafo para lembrar ao leitor as várias ideias apresentadas ao
longo do seu desenvolvimento. Ele resume rapidamente o que
foi dito, veja o exemplo:

A globalização é o estágio supremo da


internacionalização. O processo de intercâmbio
entre países, que marcou o desenvolvimento
do capitalismo desde o período mercantil
dos séculos XVII e XVIII, expande-se com a
industrialização, ganha novas bases com a grande
indústria nos fins do século XIX e, agora, adquire
mais intensidade, mais amplitude e novas feições.
O mundo inteiro torna-se envolvido em todo
tipo de trocas: técnicas, comerciais, financeiras,
culturais (MILTON SANTOS, Folha de São
Paulo, 5 abr. 1996).

Veja, a partir do exemplo, que nem sempre os parágrafos


de conclusão são necessários, no entanto, é preciso estar atento,
pois, caso escolha esse modelo, não é recomendado que se
introduzam assuntos novos.

LINGUAGENS E PRODUÇÃO DE TEXTO 73


TEMA 7– RECURSOS PARA VOCABULÁRIO
Olá, estudante!

Seja bem-vindo(a) ao tema 7 da disciplina de Linguagens
e Produção de Texto. Nesse material trabalharemos com os
Recursos para vocabulário no processo sociocomunicativo da
produção textual. Vamos começar apreciando a letra da música
Palavras, do grupo musical brasileiro, Titãs.

Palavras não são más


Palavras não são quentes
Palavras são iguais
Sendo diferentes
Palavras não são frias
Palavras não são boas
Os números pra os dias
E os nomes pra as pessoas
Palavra eu preciso
Preciso com urgência
Palavras que se usem
em caso de emergência
Dizer o que se sente
Cumprir uma sentença
Palavras que se diz
Se diz e não se pensa
Palavras não têm cor
Palavras não têm culpa
Palavras de amor
Pra pedir desculpas
Palavras doentias

74 LUDMILA ANTUNES
Páginas rasgadas
Palavras não se curam
Certas ou erradas
Palavras são sombras
As sombras viram jogos
Palavras pra brincar
Brinquedos quebram logo
Palavras pra esquecer
Versos que repito
Palavras pra dizer
De novo o que foi dito
Todas as folhas em branco
Todos os livros fechados
Tudo com todas as letras
Nada de novo debaixo do sol
Palavras/Titãs

1 Concepções de linguagem

O que é vocabulário?
Recorte do léxico.

Quem nunca ouviu a frase: “Você precisa melhorar seu


vocabulário? ”, “Essa palavra usada no seu texto está inadequada!”
etc . Os termos vocabulário e palavra às vezes se confundem.
Entretanto, compreende-se como vocabulário um recorte
do léxico, uma seleção de palavras disponíveis de uma língua
materna. A palavra, por sua vez, é sequência fônica, conjunto
de significados, associados, diretamente, à história, à cultura e
a sociedade de um povo, de uma civilização. O léxico, acervo

LINGUAGENS E PRODUÇÃO DE TEXTO 75


de palavras de uma língua, abriga, dessa forma, o Patrimônio
Cultural de um povo.

O que é léxico?
Acervo de palavras.

Nas palavras de Mikhail Bakhtin, citado por Geraldi


(2003, p.39), toda palavra comporta duas faces, pois se constitui
como produto de interação do locutor e do ouvinte. No entanto,
essa concepção de palavra para a Linguística da enunciação,
conforme exposto por Bakhtin, concebe a linguagem como
forma de interação, ou seja, como um lugar de ação entre
sujeitos.

O que são palavras?


Representações fônicas
associadas a cultura de um povo.

Em geral, na contemporaneidade, não podemos afirmar que


ao dominar o vocabulário, domina-se uma língua, pois apenas
o conhecimento da palavra não é suficiente para a expressão de
um pensamento (GARCIA, 2010).
Dito de outro modo, a palavra pela palavra, ou somente a
situação de comunicação ou de interação entre sujeitos, por si
só não recobrem a multiplicidade de sentidos existentes no jogo
comunicativo, pois palavras estão associadas ao SENTIDO e
podem variar no tempo e no espaço, enfim, no uso da língua
pelo sujeito. No jogo polissêmico, as palavras em si quase
nada significam de maneira precisa, pois o que determinará

76 LUDMILA ANTUNES
o valor de sentido das palavras é o contexto (GARCIA, 2010).
A representação, a exteriorização psíquica, o apelo, enfim, a
expressão da palavra, têm sentidos variados, de valor singular,
de representações passadas acumuladas ao longo da história
(GARCIA, 2010).

Concepções de Linguagem

Estudos tradicionais =
A linguagem é expressão do pensamento. Associada aos
estudos da linguística tradicional.
Teoria da comunicação =
A linguagem, por meio da língua, transmite uma
mensagem do emissor para o receptor. Associada aos
estudos estruturalistas e do transformacionalismo.
Teoria interacionista =
A linguagem é produto da interação entre sujeitos.
Associada aos estudos da linguística da enunciação.

No universo complexo de compreensão da palavra, seja


pelo valor, pela potência criativa ou pela dimensão cognitiva
(nomeação/designação da realidade), encaminhamos nossas
breves discussões para a dimensão linguística da palavra,
ou seja, das relações entre signo linguístico, significado e
referência. Tomemos as palavras de Biderman (1998) no tocante
ao esclarecimento de que o signo linguístico une um conceito
a uma imagem acústica e não a coisa ao nome. Em outro
esclarecimento, a arbitrariedade, característica básica do signo,
em relação ao significado, não pode ser analisada, pois o sujeito
não escolhe, livremente, o significado. Esse está associado à

LINGUAGENS E PRODUÇÃO DE TEXTO 77


instituição social a qual o sujeito pertence, considerando que a
língua é uma instituição da sua comunidade de falantes. Por fim,
outra característica citada por Biderman (1998) é a mudança
desse signo ao longo da história, perpetuado e modificado de
geração em geração.
Assim, nas concepções de linguagem em que o signo é
entendido como relação entre significante e significado e não
entre palavra e coisa, tem-se a relação entre duas grandezas
linguísticas: a imagem acústica, de ordem fonológica, e o
conceito de ordem semântica. A seguir, veremos como a ordem
semântica no uso das palavras pode modificar os sentidos das
coisas, a depender do contexto social, histórico e cultural.

2 Conotação e Denotação

Nomear, isto é, utilizar palavras para designar os referentes


extralinguísticos é uma característica específica da espécie
humana. Para Bidermam (1998), a nomeação resultará do
processo de categorização, ou seja, a classificação de objetos
feita por um sujeito humano, além da capacidade de seleção de
traços distintivos entre os referentes, percebidos ou apreendidos
pelo aparato sensitivo e cognitivo do indivíduo.
Nesse universo, admite-se, primeiramente, que as palavras,
entre os diferentes níveis e planos em que se distribuem, podem
ter dois caminhos de classificação: o denotativo e o conotativo.
No sentido denotativo, admite-se que a palavra tem um
sentido específico, estável, que não alcança níveis subjetivos.
Trata-se de relação direta com um referente, objeto real
(GARCIA, 2010).
Já no sentido conotativo, o significado da palavra é
construído no contexto. Por isso, admite-se a subjetividade,
ou seja, a variação de acordo com o uso. A “coisa” nomeada,

78 LUDMILA ANTUNES
nessa direção, designará um estado de espírito, de afetividade,
de associação, analogias e comparações (GARCIA, 2010).
Exemplifiquemos com a palavra ouro, no esquema a seguir.

– SENTIDO DENOTATIVO
Metal amarelo, brilhante, pesado
OURO
– SENTIDO CONOTATIVO
Riqueza, opulência, valor, ostentação etc .

No entanto, não se pode polarizar a linguagem somente


dessa forma. Garcia (2010), por exemplo, traz exemplos em que
a linguagem dita figurada, conotativa, de sabedoria popular, é
muito mais direta quando se trata de comunicação. De acordo
com o autor, a frase “Cada macaco no seu galho”, por exemplo,
tem muito mais impacto se dita em sentido figurado do que
se transformada em uma linguagem de atribuição denotativa,
a qual ficaria “Cada qual deve limitar-se as suas atribuições”
Garcia (2010, p.67).
Já para Biderman (1998, p.90),

[…] as palavras não são meras etiquetas de


conceitos já completados e armazenados;
[...]. Devido à natureza dinâmica do processo
subjacente, os referentes das palavras podem
mudar muito, os significados podem expandir-
se e as categorias estão sempre abertas a
mudanças.

Dessa forma, abordemos, agora, algumas outras relações de


sentido das palavras, descritas no quadro a seguir.

LINGUAGENS E PRODUÇÃO DE TEXTO 79


Quadro 06: Relações entre as palavras

RELAÇÃO DE DEFINIÇÃO EXEMPLO


SENTIDO
Corresponde a relação de Homem
correspondência de sentido, novo.
ou seja, são palavras distintas Homem
SINONÍMIA que expressam uma mesma jovem.
ideia/conceito.
Diz respeito à relação de Casa bonita.
oposição entre sentidos, Casa feia
ANTONÍMIA ou seja, são palavras que
expressam ideias/conceitos
opostos.
Disposição hierárquica Animal =
de classificação entre uma hiperônimo
unidade de sentido mais (termo
amplo e outra(s) mais englobante).
específica(s). Mamífero
HOMONÍMIA Trata-se de um termo = hipônimo
englobante (hiperônimo) (termo
vinculado, conceitualmente, englobado):
a vários termos englobados homem,
(hipônimos). cachorro,
cavalo etc.

80 LUDMILA ANTUNES
PARANOMÁSIA São palavras com
significados distintos, mas
que possuem pronúncias e/
ou grafias parecidas. Quando
utilizada propositadamente
para criar efeitos de sentido,
essa figura de linguagem
é muito conhecida como
“trocadilho”.
POLISSEMIA Corresponde à Vela (objeto
multiplicidade de sentidos para
existentes para uma só iluminar)
palavra. Ou seja, possuem Vela (peça
uma única imagem acústica automotiva)
(um mesmo significante), Vela
para vários sentidos, (pano de
significados. embarcação)

Fonte: Adaptado de Pietroforte e Lopes (2010).

Retomemos a condição de que o significado não pode estar


desassociado do contexto. Nesse sentido, a depender do ponto de
vista, do nível discursivo, as palavras elencadas como sinônimas
e antônimas, para os estudos linguísticos, por exemplo, podem
não representar fielmente essa relação, pois, para grande parte
dos linguistas, não existem sinônimos perfeitos e oposições
absolutas, respectivamente. Por exemplo, pode-se usar a palavra
novo como sinônimo de jovem, mas se colocarmos em contexto
como livro novo, não há como aceitar a frase livro jovem.

LINGUAGENS E PRODUÇÃO DE TEXTO 81


Nesse mesmo sentido, se usamos os antônimos feio x
bonito, por exemplo, vai depender do ponto de vista do sujeito
(PIETROFORTE; LOPES, 2010). Nas palavras de Biderman
(1998, p.104), novamente, “É preciso lembrar ainda que o
vocabulário não é criado (ou recriado) pelo indivíduo, mas
que ele é adquirido através do processo social da educação”, ou
seja, a partir do processo social de educação, o homem adquire
a língua e o vocabulário de sua comunidade, produtos da
experiência histórica e cultural da sociedade.

Às vezes, pode ocorrer a reutilização de um significante


para designar um novo conceito. É o que dizia Saussure
sobre o deslocamento da relação entre significado e
significante. Um exemplo é a palavra candeeiro [...].
No português brasileiro ela desapareceu; porém, no
português europeu ela designa uma luminária qualquer,
um artefato qualquer que produz luz. Inversamente, no
português europeu já não se usa a palavra açougue,
substituída por talho, enquanto no Brasil continuamos
a designar “local, estabelecimento comercial onde se
vendem carnes” por açougue (BIDERMAN,1998, p. 108).

Então, como adquirir um vocabulário adequado para


determinadas situações linguísticas?

Em qualquer manual de linguística ou de estudo da


linguagem, é mister a resposta para o questionamento sobre
aquisição de vocabulário. Por algum tempo, admitia-se que
a memorização seria o caminho cognitivo de aprendizagem
de vocabulário, no entanto a LEITURA E PRODUÇÃO DE

82 LUDMILA ANTUNES
TEXTOS são, entre os pesquisadores da área, a forma adequada,
coerente de aprender e apreender vocabulário. A leitura e a
redação entram, nesse contexto, como vocabulário VIVO,
atuante, que estará, dessa forma, incorporado aos hábitos
linguísticos de uma população, de um povo.
As concepções de leitura, segundo Koch e Elias (2015,
p.09), passam pelos conceitos de O que é ler? Para que ler?
E Como ler? Acrescenta-se, a essas perguntas, não somente
questões de leitura, mas também de sujeito, língua, texto, e,
evidentemente, SENTIDO. Essa interação autor-texto-leitor
persegue as discussões das autoras que associam a leitura às
diversas questões, listadas, resumidamente, a seguir:

• Leitura é produção de sentido;


• As concepções de leitura estão associadas a concepções
de produção e de circulação de textos em seus diferentes
contextos;
• Leitura, além de fator de compreensão, é também um
sistema de conhecimentos (linguístico, de mundo e
interacional);
• Leitura é compreender que um texto sempre é produzido
com base em outros textos, em diversos processos, como,
por exemplo, o da intertextualidade;
• E por fim, para melhor compreender um texto, e sua
leitura, deve-se conhecer a composição, o conteúdo e o
estilo de cada texto, ou seja, em seus gêneros e tipologias
textuais.

Por fim, para ilustrar, seguem alguns exemplos de textos


em gêneros textuais variados, para que se possa observar como
as palavras e as “coisas” se organizam, em relação às formas e
aos sentidos, nas produções textuais. Lembrando que, nesse

LINGUAGENS E PRODUÇÃO DE TEXTO 83


processo de produção de texto, o autor necessita do leitor
para a produção de sentido, ou seja, se a leitura é atividade de
construção de sentido que pressupõe a interação autor-texto-
leitor, é necessário lembrar que a compreensão não requer
que os conhecimentos do autor e leitor coincidam, mas que a
partir das pistas e sinalizações que o texto oferece, o leitor possa
compreender/ interpretar, ou melhor, interagir com o texto
(KOCH; ELIAS, 2015, p.12).

EXEMPLO 01:

Figura 18: Trecho do poema Eterno, de Carlos Drummond de


Andrade.

Fonte: Disponível em: https://www.pensador.com/frase/MjQ1Njk/.

Observa-se que, ao usar em seus versos as associações entre


a palavra Eterno com a expressão dura uma fração de segundo,
o poeta Carlos Drummond de Andrade faz uso de palavras de
sentido contrário para que o seu leitor possa compreender/
interagir com o feito de sentido desejado pelo autor. Aquilo que

84 LUDMILA ANTUNES
é eterno é considerado, pelo autor, nesse poema, como algo que
durou uma fração de segundos. Em outras palavras, pode-se
inferir que Carlos Drummond de Andrade está definindo o que,
para ele, tem sentido de eterno. Trata-se, então, do uso de um
recurso estilístico dos contrários: a ANTONÍMIA.
EXEMPLO 02:
Figura 19: Tirinha

Fonte: Disponível em: https://linguadinamica.wordpress.com/2017/08/03/polissemia-


homonimia-e-paronomasia-em-tirinhas-e-musicas/.

Figura 20: Tirinha

Fonte: Disponível em: https://linguadinamica.wordpress.com/2017/08/03/polissemia-


homonimia-e-paronomasia-em-tirinhas-e-musicas/

Nas tirinhas, observa-se o uso de dois recursos semânticos


que envolvem a compreensão de vocabulário. Na primeira, a
interpretação da palavra paciente utilizada em dois sentidos;
do ponto de vista médico, como aquele que requer cuidado;
e do ponto de vista relacionado a virtude do sujeito, como
aquele que é sereno, calmo, tranquilo, enfim, que sabe esperar.

LINGUAGENS E PRODUÇÃO DE TEXTO 85


Assim, nessa tirinha, observa-se o uso do recurso estilístico/
semântico da POLISSEMIA, ou seja, palavras com o MESMO
SIGNIFICANTE, porém com SIGNIFICADOS diferentes.
No quadrinho seguinte tem-se a interpretação da palavra
vendo confundida em seus sentidos. A expressão “Vendo pôr
do sol” foi interpretada (intencionalmente) pela personagem do
quadrinho como do verbo vender, porém, em oposição ao verbo
ver. Nesse caso, somente compreende-se o efeito de sentido
do texto, pelo contexto. Com relação ao recurso estilístico/
semântico utilizado, tem-se a HOMONÍMIA, ou seja, palavras
que possuem COINCIDÊNCIA DE SIGNIFICANTE, porém
com significados totalmente diferentes.
EXEMPLO 03:

Família Titãs
Família, família
Papai, mamãe, titia
Família, família
Almoça junto todo dia
Nunca perde essa mania
Mas quando a filha quer fugir de casa
Precisa descolar um ganha pão
Filha de família se não casa
Papai, mamãe não dão nenhum tostão
[...]
Vovô, vovó, sobrinha
Família, família
Janta junto todo dia
Nunca perde essa mania
Mas quando o nenê fica doente
Fonte: Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=NME3l2 MvpnM.

86 LUDMILA ANTUNES
Na letra da canção Família, observa-se o uso de recurso
hierárquicos. Quando há referência a Família, observa-se que
a palavra engloba outras palavras como papai, mamãe, titia,
vovó, vovô, sobrinha. Nesse caso, trata-se dos usos estilístico/
semânticos denominado de HIPERONÍMIA, uso do termo
família e HIPONÍMIA, uso dos termos relacionados aos demais
membros que englobam a família.

EXEMPLO 04:

Figura 21: Poema Lixo de Augusto de Campo

Fonte: Disponível em: https://abcdaescritacriativa.wordpress.com/2014/07/08/lixo-


augusto-de-campos/

O poema de Augusto de Campo traz como efeito de sentido,


intencional, as relações entre o luxo e o lixo. Ao produzir tal
poema, caracterizado como poesia concreta, o autor fez uso
das palavras luxo e lixo. Tais palavras possuem significados
totalmente diferentes, no entanto, há entre elas proximidades
fônicas, recurso utilizado pelo autor para atingir o efeito de
sentido desejado no texto. Tal recurso linguístico/estilístico
é denominado de PARANOMÁSIA. Tal recurso semântico
também é componente do conteúdo denominado de Figura de
Linguagem, na seção de figura de Som.

LINGUAGENS E PRODUÇÃO DE TEXTO 87


EXEMPLO 05:
Figura 22: Charge

Fonte: Disponível em: https://aprenderportugues.com.br/figuras-de-linguagem-


eufemismo/

A frase “Fofoqueira não, querida! Eu sou produtora de


biografias orais não autorizadas” tem, antes de tudo, um uso
da linguagem no sentido metafórico, ou seja, conotativo. No
entanto, no discurso ficcional, nota-se o uso da associação de
significado entre os termos Fofoqueira e produtora de biografias
orais não autorizadas.
É evidente que no sentido denotativo/real/específico, esse
uso linguístico de associação de palavras é inadequado, porém
no sentido conativo/ figurado/ficcional está adequado. Assim,
enquanto recurso semântico de linguagem, têm-se termos que
podem ser substituídos, ou seja, uso do recurso da SINONÍMIA,
para que o autor expresse o efeito de sentido desejado na
produção do texto.
Para finalizar, antes de escrever seu texto, SEMPRE reflita:
Qual efeito de sentido desejo atingir na produção de seu texto?
Após, selecione as palavras de acordo com o seu projeto de
texto, com o seu propósito comunicativo/expressivo. Dessa

88 LUDMILA ANTUNES
forma, você cederá ao leitor não somente pistas interpretativas
do texto, mas, principalmente, a capacidade de proporcionar o
diálogo com o seu público.

LINGUAGENS E PRODUÇÃO DE TEXTO 89


TEMA 8 – PONTUAÇÃO
Olá, estudante!
Seja bem-vindo(a) ao tema 8 da disciplina de Linguagens e
Produção de Texto. Nesse material trabalharemos com a noção
de Pontuação no processo sociocomunicativo da produção
escrita. Vamos em frente!

1 Pontuação

QUAL A RELEVÂNCIA DA PONTUAÇÃO


PARA A CONSTRUÇÃO DE EFEITOS DE SENTIDO?

Para melhor entendermos o quanto a pontuação é relevante


para a coesão do texto, para a construção de efeito de sentido,
vamos à leitura do contexto a seguir!
Um milionário, à beira da morte, lembrou-se de que não
havia feito testamento dos seus bens. Como não possuía
herdeiros diretos, precisava deixar ao menos um registro da sua
vontade acerca da distribuição da sua herança. Moribundo, de
madrugada, usou suas últimas forças para escrever o seguinte
texto:
“DEIXO OS MEUS BENS À MINHA IRMÃ NÃO AO
MEU SOBRINHO JAMAIS SERÁ PAGA A CONTA DO
ALFAIATE NADA AOS POBRES”.
No dia seguinte, o sobrinho chega, vê o tio morto e o
documento, o qual não foi pontuado, e fez a seguinte pontuação:
“Deixo os meus bens à minha irmã? Não! A meu sobrinho.
Jamais será para a conta do alfaiate. Nada aos pobres.”
A irmã, pontuou assim: “Deixo os meus bens à minha irmã;
não a meu sobrinho. Jamais será para a conta do alfaiate.
Nada aos pobres.”

90 LUDMILA ANTUNES
O alfaiate, ao qual o velho sovina devia uma fortuna, também
mudou a pontuação: “Deixo os meus bens à minha irmã? Não!
A meu sobrinho? Jamais! Será paga a conta do alfaiate. Nada
aos pobres”.
O procurador dos pobres, conhecedor da importância da
pontuação para o sentido do texto, assim o pontuou: “Deixo os
meus bens à minha irmã? Não! A meu sobrinho? Jamais! Será
paga a conta do alfaiate? Nada! Aos pobres!”.

No texto podemos perceber que a pontuação é


importante para a leitura e produção de efeito de sentido,
pois dela dependerá a compreensão segura do que
se pretende comunicar. Observa-se que, quando cada
personagem se utiliza do discurso do tio sem pontuação
e cria uma pontuação que beneficia a cada um. Notamos
a relevância desse tipo de recurso simbólico, pois é ele
que dará “o tom” do sentido de cada texto. Diante disso,
ficou evidente a importância da pontuação na construção
de sentidos, assim como a relevância desses estudos
gramáticas no processo de manipulação do texto, em
seus diferentes usos e funcionalidades.

Nessa concepção interacionista de uso da língua, percebemos


que há, sim, nos estudos gramaticais, a importância do contexto
do uso da língua pelo falante, em diferentes modalidades, tanto
na escrita quanto na oralidade. Assim, abordaremos, aqui,
o estudo das regras de pontuação buscando relacioná-las a
produção de efeito de sentido.

LINGUAGENS E PRODUÇÃO DE TEXTO 91


Os sinais de pontuação podem ser classificados da seguinte
forma (CUNHA, 2008, p. 373):
• G rupo de sinais destinados à marcação das pausas:
(a) vírgula (,); (b) ponto (.); (c) ponto e vírgula (;);
• Grupo de sinais cuja função essencial é marcar a melodia,
a entoação e as interpolações: (a) dois pontos (:);
(b) ponto de interrogação (?); (c) ponto de exclamação (!);
(d) reticências (...); (e) aspas (" "); (f) parênteses (( ));
(g) colchetes ([ ]); (h) travessão (—).
Para Azeredo (2008, p.17), "[…] um texto bem pontuado há
de ser, é claro, aquele em que a pontuação constitui uma pista
segura para a apreensão do sentido pretendido por seu autor".
A partir desse ponto de vista, o leitor chegará mais próximo da
intenção pretendida pelo autor.
De forma geral, a pontuação é o emprego de sinais
convencionais para estabelecer pausas e inflexões da voz, a
entonação da leitura, além de contribuir para evitar ambiguidade
e dar destaque a expressões ou palavras nas orações.
Em outras palavras, é uma forma de construção de texto que
garante a coesão textual entre as estruturas, pois, guia e sinaliza
aspectos prosódicos da fala para um enunciado escrito. Em
geral, a pontuação serve para:

• Representar pausas;
• Destacar termos ou orações;
• Dar entonações ao texto, transmitindo sentimentos e
intenções existentes na linguagem oral;
• Marcar o ritmo de um texto;
• Conferir à linguagem escrita uma maior clareza, coesão e
coerência textual;
• Promover a leitura e a compreensão do texto escrito.

92 LUDMILA ANTUNES
Vejamos, agora, alguns exemplos de falta de pontuação
e mudança de sentido do texto, a partir dos exemplos de
Nascimento (2019).

Quadro 7: Uma vírgula pode mudar tudo

A vírgula pode ser usada


Não espere. Não, espere. como uma pausa ou não
dependerá do sentido que se
deseja construir no texto.

Aqui a vírgula pode aumentar


R$ 23,4 R$ 2,34 ou diminuir a quantidade de
dinheiro

Isso só, ele Isso, só ele A vírgula, no segundo


resolve. resolve. exemplo criou um herói.

Vamos Vamos perder


perder, nada nada, foi Pode ser a solução de algum
foi resolvido. resolvido. problema.

Não, Não queremos Pode, nesse caso mudar uma


queremos saber. opinião
saber.

Não tenha Não, tenha Ela pode salvar ou condenar


clemência! clemência! alguém.

Fonte: Nascimento (2019).

LINGUAGENS E PRODUÇÃO DE TEXTO 93


Quadro 8: A vírgula e as orações

“Mandei “Mandei um Vê-se que, na primeira oração,


um telegrama a pessoa tem pelo menos
telegrama para meu dois irmãos, e que um desses
para meu irmão, que irmãos mora em Roma. Por
irmão que mora em outro lado, a segunda oração
mora em Roma.” indica que a pessoa tem
Roma.” apenas um irmão e que este
mora em Roma.

Nesse exemplo, nota-se que o


“Paulo, “Paulo primeiro período indica que
Henrique Henrique há duas pessoas na situação.
chegou.” chegou.” No entanto, o segundo indica
que há apenas uma pessoa.

“Irás, “Irás, voltarás No primeiro enunciado


voltarás, nunca, afirma-se que o sujeito não
nunca perecerás na morrerá na guerra, entretanto,
perecerás guerra.” no segundo, assegura-se que o
na guerra.” indivíduo morrerá na guerra.
Fonte: Nascimento (2019).

Assim, continuando nossos estudos, vamos ampliar as


análises da importância da pontuação nas produções de outras
práticas textuais.

94 LUDMILA ANTUNES
2 Pausa para os exemplos

Texto 08:

Figura 23: Pontuação em textos publicitários

Fonte: Disponível em: http://paginadeideias.blogspot. com/2011/03/historia-ideologia-nas-


propagandas.html

LINGUAGENS E PRODUÇÃO DE TEXTO 95


Observa-se que o uso da pontuação causa o efeito de sentido
característico do texto publicitário. A interpelação do sujeito-
leitor do texto é feita pela expressão “O Que? Lavar sem sabão?”.
O uso do ponto de interrogação, nesse caso, não somente traz
a representação de um questionamento, mas também uma
afirmação de que somente com o uso do sabão citado é possível
ter roupas brancas.

Texto 09:

Figura 24: Intervenção na pontuação

Fonte: Disponível em: https://www.buzzfeed.com/br/rafaelcapane ma/a-pontuacao-e-


importante

96 LUDMILA ANTUNES
Nesse exemplo, percebe-se que a frase “Tem lugar melhor
para você expressar sua arte. Não rabisque o ônibus”, adverte
as pessoas para que conservem os ônibus limpos, sem rabiscos.
No entanto, de forma criativa, o sujeito/interventor desse texto
reescreve sobre o texto, utilizando os recursos de pontuação
para negar algo que foi dito e afirma outra coisa. A frase, então,
é modificada e traz outro efeito de sentido a partir do uso dos
pontos de interrogação e exclamação: “Tem lugar melhor para
você expressar sua arte? Não! Rabisque o ônibus!”.

Texto 10:

Figura 25: uso inadequado da pontuação

fonte: Disponível em: https://www.buzzfeed.com/br/rafaelcapanema/a-pontuacao-e-


importante

Nota-se, nesse exemplo, que a falta de pontação dá um outro


sentido ao texto. Enquanto a intenção era de alertar para os mal
uso da bebida, houve, nesse caso, a ênfase para que a filha não
ficasse bebendo só suco e que poderia beber outras coisas.

LINGUAGENS E PRODUÇÃO DE TEXTO 97


Texto 11:

Figura 26: uso adequado da pontuação

Fonte: Disponível em:http://portaldoprofessor.mec.gov.br/fichaTecnicaAula.


html?aula=27165.

A tirinha de Malfada, mostra que o uso adequado da


pontuação traz, de certa forma, o efeito de sentido desejado pelo
autor, no processo de construção do texto. Observe que o uso
de ponto de exclamação expressa, nesse caso, espanto, alegria

98 LUDMILA ANTUNES
e perplexidade. Por outro lado, o uso do ponto de interrogação
é usado para indicar o fim de uma pergunta, que, no discurso,
serve para dar o “tom” de toda a critica social e política ironizada
pela tirinha.
Então, qual a importância da pontuação para a construção
de efeito de sentido? Trata-se de que os recursos de gestos,
melódicos, além da garantia de clareza, podem ser conseguidos
pelo uso dos sinais de pontuação. Ressalta-se que a pontuação irá
depender de quem escreve o texto e qual o efeito de sentido que
se pretende alcançar e construir ao longo da leitura do próprio
texto. Em geral, não há normas de onde usar a pontuação, pois
esses acordos estão associados aos enunciados e aos aspectos de
entonação e de opções estilística do texto. Assim, para que se
domine o uso da pontuação, deve-se conhecer quais são esses
acordos, de cada língua, bem como a observação e atenção para
os sentidos sociocomunicativos que o autor do texto pretendeu
dar ao manipular os recursos de sinal de pontuação em seus
textos.

LINGUAGENS E PRODUÇÃO DE TEXTO 99


TEMA 9 – GÊNEROS TEXTUAIS
Olá, estudante!

Seja bem-vindo(a) ao tema 9 da disciplina de Linguagens
e Produção de Texto. Neste material trabalharemos com a
noção de Gêneros Textuais como prática sociocomunicativa da
produção escrita. Vamos lá!

1 Concepção de linguagem

Quando consideramos a concepção de linguagem como


processo de interação, evidentemente, tratamos da noção
de texto como produção sociocomunicativa intencional. Ao
enveredarmos por esse caminho, levamos em conta que no
processo de produção, de circulação e de recepção dos textos,
perpassam questionamentos como:

1 - Quem produz a mensagem?


2 - Para quem é direcionada essa mensagem?
3 - Qual o veículo de circulação da mensagem?

Além desses aspectos, o veículo em que circula a mensagem


é, também, um elemento de suma importância no que diz
respeito à identidade social do produtor e do receptor, pois
explicam porque aquilo é dito, para quem é dito, como é dito e
por qual veículo de comunicação a informação circula daquela
maneira, daquela forma.
Em outras palavras, devemos compreender que um texto é
produzido de acordo com a interação comunicativa estabelecida
entre aquele que produz (produtor) e aquele quem receberá a
mensagem (receptor). Nessa noção dialógica do texto, admite-se

100 LUDMILA ANTUNES


que há, entre produtor e receptor, regras, valores e normas de
conduta que são estabelecidas diante dos papéis sociais que
esses sujeitos ocupam. Assim, quem fala o quê e para quem está
regido sob o posicionamento social e cultural desses indivíduos.
Vejamos no exemplo a seguir.
Texto 12:
Figura 27: Charge

Fonte: Disponível em: https://www.hojeemdia.com.br/opini%C3%A3o/blogs/blog-do-


lute-1.366314/charge-do-dia-04-01-2019-1.683694.

Para a produção de efeito de sentido, nota-se que o leitor


do texto do primeiro quadro da charge deve estar inserido no
contexto social e cultural da situação política do Brasil para
compreender o tom crítico-reflexivo do gênero charge. Para que
o leitor alcance tal sentido, o produtor desse texto utilizou-se de
recursos linguísticos que representam a fala (linguagem verbal),
além de recursos figurativos (linguagem não-verbal). Tais

LINGUAGENS E PRODUÇÃO DE TEXTO 101


recursos – linguístico e estilístico, usados de forma intencional
para a produção do efeito de sentido do texto –, são usados
em conformidade com a cultura, a história, enfim as questões
ideológicas em conformidade com os papéis sociais que exercem
os sujeitos da comunicação.
Quando compreendemos produções textuais como essas
enquanto práticas sociais de impacto direto com a cultura e a
história de uma comunidade, enfim, como produção discursiva
entre sujeitos, que tem, sim, INTENÇÃO E FINALIDADE no
processo de interpretação/compreensão/reflexão desses textos,
assumimos, de fato, o papel de leitor desses textos. Dessa forma,
compreender a função social de cada texto é o melhor caminho
para aprender a ler e a produzir textos.
E é por esses caminhos que a linguística textual vem, há alguns
anos, investigando acerca dessas atividades comunicativas, no
que diz respeito às configurações e tessituras, ou seja, em seus
processos de produção, de recepção e de circulação. É pelo
caminho da investigação dos gêneros textuais, da forma como
produzimos os textos, com o objetivo de corroborar os efeitos
de sentido desejados. Assim, analisemos, a seguir, o conceito
de gênero textual à luz de diversos especialistas brasileiros.
Ressalta-se que tal concepção fundamenta-se, teoricamente,
nos pressupostos teóricos do filósofo e pensador russo Mikhail
Mikhailovich Bahktin acerca da noção de gênero discursivo.

2 Conceito de gênero

Antes de adentramos às questões acerca das definições de


gêneros, esclareceremos as definições de texto e discurso que, de
certa forma, nos darão base para compreendermos a noção de
gênero discursivo e gênero textual.

102 LUDMILA ANTUNES


Consideramos textos como entidades concretas realizadas
materialmente e corporificada em gêneros. Em outras palavras,
trata-se de enunciados situados no plano histórico, cultural e
coletivo. Por outro lado, discurso é aquilo que um texto produz,
em relação às instâncias discursivas, ou seja, o discurso se realiza,
se concretiza nos textos. Sendo assim, o texto é a materialidade
do discurso, ou, o discurso se materializa nas instâncias, nas
artimanhas, nas situações históricas, sociais e ideológicas do
texto.
Assim, quando tratamos de analisar os discursos, pelo viés
da Análise do Discurso, atrelamos aos gêneros discursivos. Nas
palavras de Bakhtin (1997, p. 279), gêneros discursivos são
enunciados “[...]relativamente estáveis” que podem se modificar
em conformidade com a situação comunicativa, enfatizando os
propósitos comunicativos de cada esfera da atividade humana.
Tratam-se de textos que possuem os seguintes aspectos:

a) conteúdo temático – de acordo com o propósito


comunicativo;
b) estilo – modo de apresentação do conteúdo, associado
às escolhas de “recursos lexicais, fraseológicas e gramaticais da
língua”;
c) construção composicional – estrutura e aspecto formal
do gênero.

Gêneros do discurso, na concepção baktiniana, são


articulações que atingem as dimensões históricas, sociais e
ideológicas de manifestações enunciativas materializadas na
forma de enunciados. Para Antunes (2002, p. 68), os gêneros
discursivos são “[...] classes de exemplares concretos de texto”.
Entretanto, para a compreensão dos gêneros, é necessário
entender as dimensões globais, ou seja, os traços e as instaurações
de modelos textuais; bem como a dimensão particular de suas
manifestações. Vamos ao exemplo:

LINGUAGENS E PRODUÇÃO DE TEXTO 103


Figura 28: Tirinha Mafalda

Fonte: Disponível em:https://descomplica.com.br/blog/redacao/lista-mafalda/



Ao analisarmos o discurso enunciado pelas personagens
da tirinha, vê-se que a há uma associação da palavra política
como sendo um palavrão. Tal discurso emana das posições
ideológicas, históricas e sociais da criação da personagem
Mafalda pelo autor da tirinha, Quino. Trata-se de uma obra que
foi criada em 1960, em um momento histórico de conflito, de
questionamento, de sátira no contexto de uma Argentina sob a
ditadura. Assim, observa-se, na tirinha um discurso ambíguo
no sentido de falar de política na época era proibido, e/ou falar
de política como sendo algo absurdo, imoral, antiético.
Assim, gêneros do discurso são tipos de enunciados,
relativamente estáveis e normativos, vinculados às práticas de
comunicação social.
Por outro lado, reverberando-se desse contexto de análise
dos gêneros discursivos, a Linguística Textual, por outro
lado, analise os textos na sua materialidade. Desse ponto de
vista, dos gêneros textuais Marcushi (2008), avalia-os como
responsáveis pelo favorecimento da organização das atividades
comunicativas. Trata-se de construções flexíveis e dinâmicos,
eles emergem de necessidades sociais dos sujeitos, sejam
comunicativas ou culturais. Essa comunicação é possível, para
Marcushi (2008), por meio de textos (orais ou escritos) que
firmarão o pensamento e, por fim, concretizarão a comunicação
verbal ou escrita.

104 LUDMILA ANTUNES


Para Rojo (2006, p. 13-14), gêneros textuais “[...]são
formas historicamente cristalizadas nas práticas sociais, ou
melhor, que fazem a mediação entre a prática social e as
atividades de linguagem dos indivíduos”. Em outras palavras, o
gênero funciona como um modelo comum, um horizonte de
expectativas para os membros de comunidades, baseado em
suas práticas de linguagem. Mas como observar isso em práticas
textuais e como construir efeitos de sentido? Vamos ao exemplo!
Voltemos a Mafalda.
Figura 29: Tirinha Mafalda

Fonte: Disponível em: https://br.pinterest.com/pin/762093568166258794/?lp=true

Já sabemos a respeito do contexto de produção e circulação


das tirinhas de Mafalda, criada por Quino. No entanto, a
ideologia de Quino, se concretiza, se materializa nos textos
de gênero textual Tirinha, ou seja, uma narrativa descrita
em quadros. Essa tirinha tem um formato que é caraterístico
desse gênero. Esse modelo, esse formato, facilita tanto a
composição quanto a leitura desse gênero, ou seja, os quadros
são dependentes um dos outros e trazem em sua sequência, em
seus contextos, individuais, uma sequência narrativa que juntos
formam o efeito de sentido desejado pelo autor da composição
da tirinha.
Assim, a escrita dos gêneros é realizada a partir de modelos
relativamente estáveis, produzidos socialmente (KOCH; ELIAS,
2010). Dessa forma, as autoras afirmam que alguns gêneros

LINGUAGENS E PRODUÇÃO DE TEXTO 105


discursivos se tornam menos complexos, pela familiaridade, por
outro lado, outros tornam-se mais difíceis, pelo desconhecimento
do conteúdo temático, estilo e construção composicional. A
última observação das autoras vai de acordo com a especificidade
das possíveis modificações dos gêneros ao longo do tempo.
Tais modificações estão, evidentemente, associadas ao uso e à
funcionalidade de determinados gêneros na sociedade.
Enfim, trata-se de modalidades textuais que circulam em
uma determinada sociedade e que são produzidas e consumidas
em diferentes situações de uso, em diferentes situações
comunicativas. Os gêneros, portanto, intermedeiam e integram
as práticas das atividades de linguagem.
Na realidade, trata-se de uma infinidade de modalidades
textuais que são produzidas de acordo com as construções
sociais, culturais e históricas de uma sociedade, em um
determinado tempo.

Exemplos de Gêneros textuais:

Conversa, relato do dia a dia, romance, novela (escrita


e falada), narração de jogo de futebol, conversa
telefônica, carta pessoal, blog, artigo científico, carta
comercial, lista de compras, reportagens de revistas
e de jornais, crônica (policial), poesia, roteiro teatral,
editorial, anúncio, panfleto, receita médica, resenha,
edital de concurso, livro didático, resumo, entre
muitos outros que são produzidos pelos membros de
uma sociedade.

Ressalta-se que, em cada época ou lugar, existe a prevalência


de determinados gêneros, é o que denominamos do caráter

106 LUDMILA ANTUNES


social dos textos, ou seja, os textos apresentam modelos
sequenciais para determinado evento discursivo. Em geral,
tem-se as seguintes características para os gêneros, segundo
Marcuschi (2008, p. 155): textos encontrados no dia a dia “[...]
que apresentam padrões sociocomunicativos característicos
definidos por composições funcionais, objetivos enunciativos e
estilos concretamente realizados”. Assim, não há possibilidade
de dissociar a produção dos textos, e seus diversos gêneros, ao
envolvimento social, histórico e cultural.
No entanto, não se pode dissociar as questões de gênero
discursivo com sequências tipológicas. Em um quadro-sumário,
Marcuschi (2008, p. 154-155) descreve tipo textual como uma
sequência linguística definida pela sua natureza estilística
(aspectos verbais, lexicais, sintáticos, relações lógicas). Para
ele, tipologia textual está relacionada aos aspectos funcionais
e sintáticos dos textos, levando em conta sua homogeneidade,
o que, de fato, favorece os estudos linguísticos. Por outro lado,
os gêneros textuais mostram-se tipologicamente variados,
heterogêneos, conforme exposto no Quadro 09, a seguir.

LINGUAGENS E PRODUÇÃO DE TEXTO 107


Quadro 09 – Gêneros Textuais

Fonte: Disponível em: https://br.pinterest.com/pin/615445105306753131/?lp=true.

Em sua classificação sobre os tipos textuais, Marcuschi


(apud DIONÍSIO; MACHADO; BEZERRA (2010), elenca
5 (cinco) categorias, denominadas: narração, argumentação,
exposição, descrição e injunção, que serão abordadas, de
forma mais ampla, em outro tema desse material didático. A
seguir, será evidenciada, brevemente, a diferença entre gênero
textual e tipo textual.

108 LUDMILA ANTUNES


Quadro 10 - Descrições de tipos e gêneros textuais

TIPOS TEXTUAIS GÊNEROS TEXTUAIS


1. constructos 1. realizações linguísticas concretas
teóricos definidos por definidas por propriedades
propriedades linguísticas sociocomunicativas;
intrínsecas;
2. constituem sequências 2. constituem textos empiricamente
linguísticas ou sequências realizados cumprindo funções em
de enunciados e não são situações comunicativas;
textos empíricos;
3. sua nomeação 3. sua nomeação abrange um
abrange um conjunto conjunto aberto e praticamente
limitado de categorias ilimitado de designações concretas
teóricas determinadas determinadas pelo canal, estilo,
por aspectos lexicais, conteúdo, composição e função;
sintáticos, relações
lógicas, tempo verbal;
4. designações teóricas 4. exemplos de gêneros: telefonema,
dos tipos: narração, sermão, carta comercial, carta
argumentação, pessoal, romance, bilhete, aula
descrição, injunção e expositiva, reunião de condomínio,
exposição. horóscopo, receita culinária, bula de
remédio, lista de compras, cardápio,
instruções de uso, outdoor, inquérito
policial, resenha, edital de concurso,
piada, conversação espontânea,
conferência, carta. eletrônica, bate-
papo virtual, aulas virtuais etc.
Fonte: Adaptado de Marcuschi (2010) In: Dionísio, Machado e Bezerra (2010).

LINGUAGENS E PRODUÇÃO DE TEXTO 109


É necessário frisar que essa diferenciação, exposta por
Marcuschi (2008), não forma uma dicotomia, mas são
complementares e integrados, de extrema relevância para a
produção e compreensão de texto, ou melhor, trata-se de formas
constitutivas do texto em seu funcionamento. Em síntese, os
gêneros textuais se diferem de tipologia textual, pois se referem à
natureza linguística de produção do texto. Caracterizam-se por
serem: 1) fenômenos históricos vinculados à prática cultural;
2) eventos textuais maleáveis, dinâmicos e plásticos; 3) práticas
sociodiscursivas, que externam contextos sobre o mundo; e
por fim 4) textos materializados, que envolvem sequências
tipológicas, conforme já visto no quadro 01.
Para um melhor esclarecimento, vamos aos exemplos.

Texto 13:
Figura 30: Tirinha Garfield

Fonte: Disponível em: https://antoniozai.wordpress.com/2011/10/29/a-experiencia-da-leitura/

Para a produção do gênero textual “tirinha” é necessário


entender seu modo de composição, ou seja, estruturação
e esquematização que lhes são próprios como enunciados
curtos, narrativa em quadros, uso de balões para representar
o pensamento ou a fala, bem como uso de personagens em
representação de desenho. Para a compreensão desse texto, para
o efeito de sentido, o leitor deve considerar, também, todas essas
caraterísticas: elementos verbais e não-verbais, diagramação,
ilustrações etc .

110 LUDMILA ANTUNES


Texto 14: Texto didático

“Ler não é decifrar, como num jogo de adivinhações,


o sentido de um texto. É, a partir do texto, ser capaz
de atribuir-lhe significado, conseguir relacioná-lo
a todos os outros textos significativos para cada
um, reconhecer nele o tipo de leitura que seu autor
pretendia e, dono da própria vontade, entregar-se
a esta leitura, ou rebelar-se contra ela, propondo
outra não prevista”. (LAJOLO, 1993, p. 59).

Por outro lado, para a produção e interpretação de texto do


gênero “livro didático”, é necessário que o produtor distribua
as informações do texto de acordo como o gênero literário.
Por se tratar de um discurso que será veiculado na academia, é
necessário distribuir os elementos linguísticos de acordo com a
forma da composição desse gênero. A linguagem, nesse sentido,
deve ser clara, objetiva e não subliminar ou subjetiva.
Ao estudar sobre gêneros textuais, refletindo sobre sua
estrutura e funcionamento, somos capazes de, não somente
reconhecer e compreender cada materialidade textual, mas,
principalmente, de construí-los de modo adequado e coerente
aos variados eventos sociais textuais, sejam orais e/ou escritos.
Enfim, estudar a língua como atividade cognitiva, histórica
e social vai implicar em concepções definidas de linguagem,
língua, discurso, texto, tipo de texto e gênero textual, a fim
de traçar suas funções, limites e possibilidades de produções
textuais distintas.

LINGUAGENS E PRODUÇÃO DE TEXTO 111


TEMA 10
Caro(a) Estudante,
O Tema 10, não possui livro texto, mas você encontrará Videoaula
e Slides no Ambiente Virtual de Aprendizagem (AVA). Esses objetos
de aprendizagem têm também o papel de facilitar o processo de
aprendizagem, auxiliando-o na construção de conhecimentos que
importem para sua formação profissional.

LINGUAGENS E PRODUÇÃO DE TEXTO 112


SEMANA

3
TEMA 11
Caro(a) Estudante,
O Tema 11, não possui livro texto, mas você encontrará Videoaula
e Animação no Ambiente Virtual de Aprendizagem (AVA). Esses
objetos de aprendizagem têm também o papel de facilitar o
processo de aprendizagem, auxiliando-o na construção de
conhecimentos que importem para sua formação profissional.

114 LUDMILA ANTUNES


TEMA 12 – TEXTOS MULTIMODAIS
Olá, estudante!

Seja bem-vindo ao tema 12 da disciplina Linguagens e
Produção de Texto. Nesse material trabalharemos com a noção
de TEXTOS MULTIMODAIS e a sua relevância como uma ação
social comunicativa, dialógica, na contemporaneidade.
Vamos lá!
Antes de adentramos em questões acerca dos conceitos de
textos multimodais, leitura multimodal, multimodalidades,
texto de multiplicidade e outros conceitos, observemos o texto
a seguir.
Figura 31 – Texto infográfico

Fonte: Disponível em: https://www.sanear.es.gov.br/publicacoes/view/id/274/dicas-para-


consumir-sem-desperdicio.html.

LINGUAGENS E PRODUÇÃO DE TEXTO 115


NA CONTEMPORANEIDADE,
PODEMOS CONSIDERAR A PRODUÇÃO
INFOGRÁFICA COMO TEXTO?

É evidente que sim, pois, no conceito contemporâneo


de texto, tem-se a noção de atividade verbal, sociocognitiva,
interativa e dialógica. O texto é toda comunicação oral ou escrita
produzida por sujeitos que estão inseridos em seus contextos,
seja ideológico, social, histórico e/ou cultural.
Assim, o texto apresentado na figura 31 é um folheto
ilustrativo, infográfico que tem como objetivo conscientizar
para o processo de mudança cultural em relação à economia
de recursos hídricos. A rigor, no processo de construção de
textos infográficos, deve-se explicar e esclarecer tudo de forma
didática, ou seja,

Tudo deve ser explicado, esclarecido e detalhado


- de forma concisa e exata, numa linguagem
tanto coloquial e direta quanto possível [...] O
didatismo deve estender-se também à disposição
visual do que é editado. [...] A apreensão pelo
leitor deve ser fácil, clara e rápida. [...] A rigor,
tudo o que puder ser dito sob a forma de quadro,
mapa, gráfico ou tabela não deve ser dito sob a
forma de texto. (SILVA, 2005 apud TEIXEIRA,
2011, p. 25).

116 LUDMILA ANTUNES


Figura 32 – Infografia de Leonardo Da Vinci

Fonte: Disponível em: https://www.oficinadanet.com.br/post/12736-o-que-e-um-infografico.

O que é um texto não infográfico?

Um infográfico, ou a arte da infografia, é caracterizado


por ilustrações explicativas sobre um tema ou assunto.
Infográfico é a junção das palavras info (informação) e
gráfico (desenho, imagem, representação visual), ou seja,
um infográfico é um desenho ou imagem que, com o
auxílio de um texto, explica ou informa sobre um assunto
que não seria muito bem compreendido somente com
um texto. Os infográficos são muito utilizados em jornais,
mapas, manuais técnicos, educativos e científicos, e
também em sites.

LINGUAGENS E PRODUÇÃO DE TEXTO 117


A presença de ilustração, a forma de composição do texto, a
modificação no roteiro de leitura, possibilita-nos ter diferentes
modos de produção, consequentemente, diferentes leituras:
a da linguagem verbal e da linguagem não-verbal. Segundo
esclarecimento de Rojo (2017, p. 1),

Na era do impresso, reservou-se a palavra texto


principalmente para referir os textos escritos,
impressos ou não; na vida contemporânea,
em que os escritos e falas se misturam com
imagens estáticas (fotos, ilustrações, gráficos,
infográficos) e em movimento (vídeos) e com
sons (sonoplastias, músicas), a palavra texto se
estendeu a esses enunciados híbridos de “novo”
tipo, de tal modo que hoje falamos também
em textos orais e em textos multimodais, como
as notícias televisivas e os vídeos de fãs no
YouTube.

Assim, observa-se, na leitura desse tipo de texto e no(s)


seu(s) processos de construção de sentido e nos recursos
de manipulações linguístico e extralinguístico do autor, as
múltiplas leituras, ou seja, o multiletramento que se deve
habilitar/desenvolver nessa natureza de texto devido a interação
entre discurso verbal e o visual
Entre essas mudanças de produção e de circulação de textos
têm-se os recursos da era digital como a possibilidade de leitura
em hipertextos. Observemos a figura 33:

118 LUDMILA ANTUNES


Figura 33 – Hipertexto

Fonte: Disponível em: https://cw121a5.wordpress.com/tag/hipertexto/.

Notamos que para a produção e a leitura desse tipo de texto,


tão comum na atualidade, é necessário o letramento verbo-
visual, ou seja, são práticas de leitura que devem desenvolver
habilidades para interpretarmos as relações entre o verbal e o
não-verbal. Há, nessa construção textual, o que chamamos hoje
de TEXTOS MULTIMODAIS – presença das múltiplas semioses
como possibilidades de inserir outros textos, imagens, sons e
vídeos em um mesmo texto. Dessa forma, ler e escrever na era
digital requer interagir por meio da linguagem em diferentes
possibilidades de circulação da mensagem. Nesse contexto, para
Rojo (2017, p. 1),

LINGUAGENS E PRODUÇÃO DE TEXTO 119


Esses “novos escritos”, obviamente, dão lugar a
novos gêneros discursivos, quase diariamente:
chats, páginas, tweets, posts, ezines, funclips
etc. E isso se dá porque hoje dispomos de
novas tecnologias e ferramentas de “leitura-
escrita”, que, convocando novos letramentos,
configuram os enunciados/textos em sua
multissemiose (multiplicidade de semioses ou
linguagens), ou multimodalidade. São modos
de significar e configurações que se valem das
possibilidades hipertextuais, multimidiáticas
e hipermidiáticas do texto eletrônico e que
trazem novas feições para o ato de leitura: já não
basta mais a leitura do texto verbal escrito – é
preciso colocá-lo em relação com um conjunto
de signos de outras modalidades de linguagem
(imagem estática, imagem em movimento,
som, fala) que o cercam, ou intercalam ou
impregnam.

Nesse sentido, o avanço e a popularização das Tecnologias


Digitais de Informação e Comunicação proporcionaram, dessa
forma, mudanças significativas no modo de comunicação e
produção de textos, na forma ler, de produzir e de circular os
textos na sociedade. Essas hipermídias, cada vez mais presentes
e acessíveis à sociedade, possibilitam, não somente a divulgação
desses textos de forma mais rápida, mas, principalmente, a
criação de textos cada vez mais multimodais.
Nas palavras de Ribeiro (2015, p. 112), trata-se de “[...]
uma paisagem comunicacional em que é possível empregar
muitos recursos tecnológicos e obter diversos efeitos, em muitas
modulações de linguagem, é importante pensar a produção de
textos em níveis de modalidades cada vez mais expressivos.”
Essas mudanças relativas à forma de produção e de circulação
de textos na sociedade, ampliadas pelo acesso contínuo às
tecnologias digitais, provocam a diversificação da circulação da

120 LUDMILA ANTUNES


informação, o que denominamos de comunicação analógica e
digital, em outras palavras, trata-se da produção de textos em
suporte papel e em tela.
Para Paiva (2016), as leituras de imagens, substancialmente
exigidas em textos multimodais, seja digital ou impresso, são
habilidades que devem ser, sim, ensinadas, serem objetos de
estudos, pois, mesmo estando na era digital, essas são habilidades
imprescindíveis de leitores contemporâneos que publicam sites,
portais, aplicativos, revistas e jornais, entre outros meios. Em
outras palavras, esses “novos escritos” dão lugar a novos gêneros
discursivos que se configuram em enunciados/textos em sua
multissemiose (multiplicidade de semioses ou linguagens), ou
multimodalidade.
O texto, nessa nova configuração, deve ser lido de forma que
os espaços do papel ou da tela estão multimoldados, ou seja,
extrapolaram os limites dos ambientes, seja no suporte papel,
seja no suporte digital.
Para uma melhor compreensão, vamos aos exemplos.

“[...] o termo ‘texto multimodal’ tem sido usado para


nomear textos constituídos por combinação de recursos
de escrita (fonte, tipografia), som (palavras faladas,
músicas), imagens (desenhos, fotos reais), gestos,
movimentos, expressões faciais etc.”. (DIONÍSIO, 2005, p.
21)

LINGUAGENS E PRODUÇÃO DE TEXTO 121


Figura 34 – Tirinha

Fonte: Disponível em: https://centraldefavoritos.com.br/2019/02/15/dominio-dos-


mecanismos-de-coesao-textual-questoes-de-concursos/.

Antes de analisarmos os textos, voltemos à concepção de que


devemos compreender: Qual a função social do gênero textual
em questão? No texto (Figura 34), trata-se do gênero tirinha,
que segundo Ramos, (2016, p. 20-21) é um “[…] hipergênero,
que agregaria diferentes outros gêneros, cada um com suas
peculiaridades”., ou seja, o gênero tirinha, assim como os
cartuns e as charges, compartilham de uma mesma linguagem
na composição de suas narrativas. Em suas características
composicionais, têm-se os diálogos entre a palavra e a imagem,
ou melhor, entre a linguagem verbal e a não-verbal.
Assim, consideramos tais textos como multimodais, pois
são constituídos de elementos verbais e não-verbais.

122 LUDMILA ANTUNES


Observe o próximo texto (Figura 35):
Figura 35 – Cartum

Fonte: Disponível em: https://www.resumov.com.br/provas/fuvest/a2018/examine-o-


cartum-o-efeito-de-humor-presente-no-cartum-decorre/.

Na análise do cartum (Figura 35), por exemplo, vê-se,


também, a multimodalidade do texto, pois há o diálogo entre
linguagem verbal e não-verbal. Ampliando nossos conceitos
de multimodalidades, tomemos as palavras de Dionísio (2015)
em que as disposições gráficas das palavras também devem ser
levadas em consideração, seja no papel ou na tela do computador,
quanto ao uso multimodal no texto. Assim, a escrita também é
multimodal. Observe o próximo texto (Figura 36):
Figura 36 – Fotografia

Fonte: Disponível em: https://www.notibras.com/site/greve-dos-professores-entra-no-


oitavo-dia-sem-negociacao/.

LINGUAGENS E PRODUÇÃO DE TEXTO 123


A fotografia, como exemplificada na Figura 36, também
deve ser considerada texto multimodal, pois há nela, em sua
composição, uso de linguagem verbal e não-verbal, para que
se possa construir o efeito de sentido do texto. Nesse caso, a
imagem foi circulada durante a greve dos professores das redes
estadual e municipal do Rio de Janeiro em 21 de maio de 2014.
Observe o próximo texto (Figura 37), a seguir.

Figura 37 – Sites

Vídeo

Letra
Anúncios

Comentários

Fonte: Disponível em: https://www.letras.mus.br/.

124 LUDMILA ANTUNES


Na Figura 37, tem-se um site de música. Nele pode-se
observar as diversas multimodalidades e os diálogos entre as
linguagens, para a construção do efeito de sentido. Observa-
se a letra da canção, o vídeo, os comentários dos internautas,
os anúncios, enfim, um leque de textos distintos se unindo na
configuração de um só texto: o site de música.
Observe o próximo texto (Figura 38), a seguir.

Figura 38 – Mapas Mentais

Fonte: Disponível em: https://geekiegames.geekie.com.br/blog/como-fazer-um-mapa-mental/.

LINGUAGENS E PRODUÇÃO DE TEXTO 125


O texto (Figura 38) que é um mapa mental, ou seja, um
diagrama que, de forma simples e objetiva, tem como função a
gestão de conhecimento e informações por meio da linguagem
verbal e não-verbal.
Enfim, a produção de texto, em geral, em suas diversas
formas de molde, como foram expostas aqui, em suas múltiplas
linguagens, imagens, sons e palavras, possibilita a elaboração de
textos multimodais.

126 LUDMILA ANTUNES


TEMA 13 – TIPOLOGIA TEXTUAL
Olá, estudante!

Seja bem-vindo ao tema 13 da disciplina Linguagens e
Produção de Texto. Neste material trabalharemos com a noção
de TIPOLOGIA TEXTUAL e a sua relevância como uma ação
social e dialógica na contemporaneidade.
Vamos lá!
Quando produzimos um texto, primeiramente, procuramos
compreender a situação de comunicação que pretendemos, qual
será seu público-alvo, quais as ferramentas disponíveis para
produzir o efeito de sentido desejado etc . Enfim, todas essas
preocupações na produção textual são importantes, porém,
também é necessário se atentar para as características dos tipos
textuais.
MAS, PARA QUE É PRECISO AGRUPAR OS TEXTOS
EM DIFERENTES TIPOS?
Ao produzir um texto, deve-se atentar para a sua forma
e seu conteúdo. Quando estabelecemos qual será sua forma
(gênero textual) e quais serão os conteúdos, deve-se observar as
tipologias claras e concisas de cada discurso.
Vamos aos exemplos para melhores esclarecimentos!
Comecemos com o gênero Propaganda.
Na construção desse gênero, a propaganda, tem-se, de modo
específico, a finalidade de persuadir o leitor/consumidor. Para
isso, será necessário influenciá-lo, seja nas questões ideológicas,
emocionais, seja em suas atitudes e opiniões etc. Além disso,
não podemos esquecer que para cada produto existe um tipo de
público, chamado de público-alvo; o que torna a elaboração da
propaganda ainda mais específica.

LINGUAGENS E PRODUÇÃO DE TEXTO 127


O termo propaganda está relacionado à divulgação de
ideias, porém, algumas vezes é utilizado no sentido de
publicidade, o que o torna um termo amplo. Embora os
termos publicidade e propaganda sejam muitas vezes
usados como sinônimos, se distinguem, pois, enquanto
a publicidade tem como finalidade vender um produto/
serviço, a propaganda tem como objetivo principal
divulgar uma mensagem buscando influenciar opiniões
ou obter adesão para uma ideia ou doutrina.
Visto o caráter persuasivo, tanto da propaganda quanto
da publicidade, ambos os gêneros costumam apresentar
textos cuja mensagem pretende sensibilizar/atrair o
interlocutor, para tanto, faz uso de imagens, música,
recursos audiovisuais e efeitos sonoros e luminosos. Sua
veiculação, em ambos os casos, pode se dar por meio
impresso, pelo rádio, pela TV ou pela internet.

Fonte: Disponível em: https://novaescola.org.br/plano-de-aula/4617/


elaboracao-de-uma-propaganda

Observemos, então, a embalagem de um produto, no texto


a seguir (Figura 39):

128 LUDMILA ANTUNES


Figura 39 – Embalagem Centrum Homem

Fonte: Disponível em: https://www.extracom.com.br/2018/08/27/a-primeira-propaganda-


e-a-embalagem/.

Observa-se que todos os elementos produzidos na


embalagem do produto são colocados de forma intencional: para
quem é o produto, as cores direcionadas ao gênero masculino,
o nome da marca em caixa alta para chamar atenção etc . Todas
essas informações são elementos indispensáveis que INDUZEM
a compra do produto. Por conta disso, é essencial na produção
de textos identificar o gênero textual e a(s) tipologia(s) presentes
em cada gênero (FÁVERO; KOCH, 1987). Esse aspecto de
identificação será direcionado em nossos estudos.

LINGUAGENS E PRODUÇÃO DE TEXTO 129


Gêneros Textuais e Tipos Textuais

Valendo-se da definição de Marcuschi (apud DIONÍSIO,
2002, p. 20), temos gêneros textuais como

[…]uma noção propositalmente vaga para


referir textos materializados que encontramos
em nossa vida diária e que apresentam
características sócio-comunicativas definidas
por conteúdos, propriedades funcionais,
estilo e composição característica. Se os tipos
textuais são apenas meia dúzia, os gêneros são
inúmeros.

Quanto ao tipo textual, Marcuschi (apud DIONÍSIO, 2002,


p. 23) traz a definição enquanto contexto

[…]para designar uma espécie de sequência


teoricamente definida pela natureza linguística
de sua composição (aspectos lexicais, sintáticos,
tempos verbais, relações lógicas). Em geral, os
tipos textuais abrangem categorias conhecidas
como: narração, argumentação, exposição,
descrição, injunção.

Nota-se, dessa forma, que os tipos textuais são exclusivos,


ou seja, aparecem em um contexto de produção específica. Em
geral, um gênero textual é composto de vários tipos textuais,
como ilustrado na imagem a seguir:

130 LUDMILA ANTUNES


Figura 40 – Ilustração da relação entre gêneros e tipologia textual

Fonte: Disponível em: http://evillyn-entrelinhas.blogspot.com/2012/06/generos-textuais-x-


tipologia-textual.html?spref=pi.

Em geral, trata-se de como o texto se apresenta, como o


seu discurso é desenvolvido. O que vai diferenciar um texto de
outros é, principalmente, os diferentes efeitos de sentido que o
autor quer atingir. Enfim, Tipologia Textual é a forma como um
texto é apresentado ao leitor.
Os tipos textuais são caracterizados da seguinte forma,
conforme exposto no quadro 10 a seguir.

LINGUAGENS E PRODUÇÃO DE TEXTO 131


Quadro 10 – Comparação entre os tipos textuais

TIPOS FINALIDADE EXEMPLOS


TEXTUAIS DE GÊNEROS
TEXTUAIS
Trata-se de Diários
relatar, expor Relatos de viagem
um determinado Folhetos turísticos
acontecimento, Currículo
1. Descritivo pessoa, lugar ou Biografia ou
objeto. O texto autobiografia
descritivo é rico em Cardápios de
adjetivo. restaurantes
Classificados

Trata-se de Romances
contar, narrar Contos
um determinado Lendas
acontecimento em Fábulas
2. Narrativo um determinado Novelas
tempo e espaço. Crônicas
Elementos da Noticiário
narrativa: tempo,
lugar, personagens,
fato (enredo) e
narrador

132 LUDMILA ANTUNES


Texto produzido
com o intuito de Receita
dizer como fazer ou Manuais
3. Injuntivo realizar ações, além de Bulas
descrever e prescrever
regras, normas. Possui
linguagem objetiva
e simples. Os verbos
empregados no modo
imperativo presente.
Apresenta informações Ensaios
4. Expositivo sobre assuntos; expõe Artigos
ideias; explica; avalia e Científicos
reflete (analisa ideias). Exposições
Convencer, influenciar, Textos
persuadir as pessoas Científicos
para realizar ações (artigo,
e alcançar objetivos. resenha,
Consiste no emprego monografias
5. Argumentativo de provas, justificativas, entre outros)
com o objetivo de Textos
apoiar ou refutar teses. Diadáticos
Envolve raciocínio
para provar ou negar
proposições.

Fonte: Elaboração própria (2019).

Analisemos os exemplos de tipos textuais a seguir:

LINGUAGENS E PRODUÇÃO DE TEXTO 133


Exemplos de tipos de textos em diferentes gêneros textuais:
Tipo Narrativo
Vício secreto
MOACYR SCLIAR

Depois de vários assaltos, ela decidiu que estava na hora de


mudar de vida. De nada adianta, dizia, andar de carro de luxo
e morar em palacete se isso serve apenas para atrair assaltantes.
De modo que comprou um automóvel usado, mudou-se para
um apartamento menor e até começou a evitar os restaurantes
da moda.
Tudo isso resultou em inesperada economia e criou um
problema: o que fazer com o dinheiro que ela já não gastava?
Aplicar na Bolsa de Valores parecia-lhe uma solução temerária;
não poucos tinham perdido muito dinheiro de uma hora para
outra - quase como se fosse um assalto. Outras aplicações
também não a atraíam.
De modo que passou a comprar aquilo de que mais gostava:
jóias. Sobretudo relógios caros. Multiplicavam-se os Bulgan, os
Breitling, os Rolex. Já que o tempo tem de passar, dizia, quero
vê-lo passar num relógio de luxo.
E aí veio a questão; onde usar todas essas jóias? Na rua, nem
pensar. Em festas? Tanta gente desconhecida vai a festas, não
seria impossível que ali também houvesse um assaltante, ou pelo
menos alguém capaz de ser tentado a um roubo ao ter a visão de
um Breitling. Sua paranóia cresceu, e lá pelas tantas desconfiava
até de seus familiares. De modo que decidiu: só usa as jóias
quando está absolutamente só.
Uma vez por semana tranca-se no quarto, abre o cofre, tira
as jóias e as vai colocando: os colares, os anéis, os braceletes -os
relógios, claro, os relógios. E admira-se longamente no espelho,
murmurando: que tesouros eu tenho, que tesouros.

134 LUDMILA ANTUNES


O que lhe dá muito prazer. Melhor: lhe dava muito prazer.
Porque ultimamente há algo que a incomoda. É o olhar no
rosto que vê no espelho. Há uma expressão naquele olhar, uma
expressão de sinistra cobiça que não lhe agrada nada, nada.
Fonte: Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidian/ff050115.htm

Observa-se, no texto, o tipo textual narrativo, pois tem-


se uma história que está sendo contada (enredo), em um
determinado tempo e espaço, além de personagens que são os
sujeitos ativos da história, que passam por sequências de ações
(ANTUNES, 2003). Por fim, não se pode esquecer do papel do
narrador que explana toda a narrativa.

Tipo Descritivo
Figura 41 – Flat

FLAT COM 1 SUÍTE À VENDA EM ITAIM BIBI

Descrição: Um flat perfeito para moradia ou investimento!


Possui 45m², uma suíte, cozinha equipada e uma linda vista

LINGUAGENS E PRODUÇÃO DE TEXTO 135


da vida noturna de um dos bairros mais nobres de São Paulo.
O condomínio oferece camareira, lavanderia compartilhada,
piscina aquecida, mensageiros e quadra esportiva. Este
condomínio aceita animais!
Acesso rápido à Av. Presidente Juscelino Kubitschek. Possui
dois pontos de ônibus a menos de 3 min de caminhada. Num raio
de apenas 500m é possível acessar farmácias, supermercados,
academias, bares e restaurantes. Tenha tudo acessível!
A estrutura de segurança é completa com sistema de
câmeras de segurança, porteiro 24h e sistema de alarmes. Tenha
toda tranquilidade aqui em São Paulo.
Agende sua visita. Horários flexíveis durante a semana (9h –
22h) e finais de semana das 9h às 14h.
Fonte: Disponível em: https://blog.conectaimobi.com.br/modelos-de-descricoes-de-imoveis/.

Observa-se que, nesse texto, a descrição foi feita de forma


minuciosa e ao mesmo tempo atrativa para que o comprador se
convença de que esse é o flat dos seus sonhos.

136 LUDMILA ANTUNES


Tipo Injuntivo

Figura 42 – Bolo simples

Fonte: Disponível em: https://www.tudogostoso.com.br/receita/29124-bolo-simples.html.

Bolo Simples
INGREDIENTES

• 2 xícaras (chá) de açúcar


• 3 xícaras (chá) de farinha de trigo
• 4 colheres (sopa) de margarina
• 3 ovos
• 1 e 1/2 xícara (chá) de leite
• 1 colher (sopa) bem cheia de fermento em pó

LINGUAGENS E PRODUÇÃO DE TEXTO 137


MODO DE PREPARO
1. Bata as claras em neve e reserve.
2. Misture as gemas, a margarina e o açúcar até obter uma
massa homogênea.
3. Acrescente o leite e a farinha de trigo aos poucos, sem
parar de bater.
4. Por último, adicione as claras em neve e o fermento.
5. Despeje a massa em uma forma grande de furo central
untada e enfarinhada.
6. Asse em forno médio 180 °C, preaquecido, por
aproximadamente 40 minutos ou ao furar o bolo com um garfo,
este saia limpo.
Fonte: Disponível em: https://www.tudogostoso.com.br/receita/29124-bolo-simples.html.

Observa-se que um texto do tipo injuntivo direciona o leitor


a como fazer algo. Nesse caso, trata-se, passo a passo, de como
preparar um bolo.

Tipo Expositivo
Observe o texto abaixo:

Texto expositivo

Os textos expositivos são aqueles que expõem


informações sobre um determinado objeto ou, ainda,
um fato determinado. Trata-se de um texto usado para
apresentar informações, como descrição, assim como
características, permitindo que o leitor identifique de
forma bastante clara qual é o tema central do texto.
Esse tipo de texto apresenta muitas informações,
principalmente em se tratando de um produto novo que
está sendo exposto, por exemplo.
Fonte: Disponível em: https://www.todoestudo.com.br/portugues/texto-
expositivo.

138 LUDMILA ANTUNES


Observa-se no texto que há uma definição do que é um texto
expositivo, ou seja, é aquele que tem a finalidade de informar
e esclarecer, ao leitor, sobre um determinado assunto. Nota-se
que, aqui, não há a pretensão de convencer o leitor, mas apenas
de expor conhecimentos, ideias e pontos de vista, por isso, sua
linguagem é clara e concisa.

Tipo Dissertativo-argumentativo

Figura 43 – Charge

Fonte: https://monografias.brasilescola.uol.com.br/educacao/a-leitura-na-sala-aula-uma-
proposta-trabalho-com-genero-tira.htm.

Observa-se, na charge, que há como tema o comportamento


humano, em destaque de políticos. Tal crítica é elaborada de
forma cômica, engraçada em um tom de deboche, por isso a
utilização da caricatura, elementos marcantes do gênero. Com
relação ao tipo, nota-se que o autor tenta conversar acerca da
veracidade desse tipo de situação polêmica, argumentando
quanto à questão da falta de ética dos políticos.

LINGUAGENS E PRODUÇÃO DE TEXTO 139


Quando se estabelecem tipologias, claras e concisas,
fica mais fácil produzir e interpretar textos que circulam em
qualquer ambiente social. Ao nos depararmos, por exemplo,
com uma propaganda saberemos que haverá, ali, um discurso
que pretenderá nos persuadir, nesse sentido, a construção do
texto é feita de modo argumentativo/persuasivo. No caso de
receitas, por exemplo, estamos diante de um modo de fazer
algo. Então, cabe na construção daquele discurso o tipo textual
injuntivo, ou seja, a forma de fazer.
Assim, conhecendo a forma e a distribuição do texto
identificamos os “modos de fazer” cada gênero textual. E
dessa forma, nos preparamos para a leitura, interpretação e,
principalmente, para a produção de qualquer texto.

140 LUDMILA ANTUNES


TEMA 14 – TEXTOS NARRATIVOS E
DESCRITIVOS
Olá, estudante!

Seja bem-vindo(a) ao tema 14 da disciplina Linguagens e
Produção de Texto. Nesse material, trabalharemos com a noção
de TEXTOS NARRATIVOS E DESCRITIVOS e a sua relevância
como uma ação social e comunicativa na contemporaneidade.
Vamos lá!

TEXTOS NARRATIVOS

Considera-se textos narrativos, aqueles em que se tem um


narrador (que pode ser onisciente, observador ou personagem),
que se propõe a contar uma história/enredo, em um determinado
tempo, lugar/espaço, com a participação de personagens
(principais e secundárias). O elemento essencial da narração é
o fato, ou seja, qualquer acontecimento, episódio, seja real ou
ficcional, que será narrado ou relatado (GARCIA, 1975).
Observe os textos a seguir:

Texto 15 – CRÔNICA

O que faz bem pra saúde? - Luis Fernando Veríssimo

Cada semana, uma novidade.


A última foi que pizza previne câncer do esôfago.
Acho a maior graça.
Tomate previne isso, cebola previne aquilo, chocolate faz
bem, chocolate faz mal, um cálice diário de vinho não tem

LINGUAGENS E PRODUÇÃO DE TEXTO 141


problema, qualquer gole de álcool é nocivo, tome água em
abundância, mas peraí, não exagere...
Diante desta profusão de descobertas, acho mais seguro não
mudar de hábitos.
Sei direitinho o que faz bem e o que faz mal pra minha saúde.
Prazer faz muito bem.
Dormir me deixa 0 km.
Ler um bom livro faz eu me sentir novo em folha.
Viajar me deixa tenso antes de embarcar, mas depois eu
rejuvenesço uns cinco anos.
Viagens aéreas não me incham as pernas, me incham o
cérebro, volto cheio de ideias.
Brigar me provoca arritmia cardíaca.
Ver pessoas tendo acessos de estupidez me embrulha o
estômago.
Testemunhar gente jogando lata de cerveja pela janela do
carro me faz perder toda a fé no ser humano.
E telejornais os médicos deveriam proibir - como doem!
Essa história de que sexo faz bem pra pele acho que é
conversa, mas mal tenho certeza de que não faz, então, pode-se
abusar.
Caminhar faz bem, dançar faz bem, ficar em silêncio
quando uma discussão está pegando fogo faz muito bem: você
exercita o autocontrole e ainda acorda no outro dia sem se sentir
arrependido de nada.
Acordar de manhã arrependido do que disse ou do que fez
ontem à noite é prejudicial à saúde.
E passar o resto do dia sem coragem para pedir desculpas,
pior ainda.
Não pedir perdão pelas nossas mancadas dá câncer, não há
tomate ou muçarela que previna.

142 LUDMILA ANTUNES


Ir ao cinema, conseguir um lugar central nas fileiras do
fundo, não ter ninguém atrapalhando sua visão, nenhum celular
tocando e o filme ser espetacular, UAU!
Cinema é melhor pra saúde do que pipoca.
Beijar é melhor do que fumar.
Exercício é melhor do que cirurgia.
Humor é melhor do que rancor.
Amigos são melhores do que gente influente.
Pergunta é melhor do que dúvida.
Tomo pouca água, bebo mais que um cálice de vinho
por dia, faz dois meses que não piso na academia, mas tenho
dormido bem, trabalhado bastante, encontrado meus amigos,
ido ao cinema e confiado que tudo isso pode me levar a uma
idade avançada.
Sonhar é melhor do que nada.
Fonte: Disponível em: https://www.tudonalingua.com/news/cronicas-de-humor-de-luis-
fernando-verissimo/.

O texto apresentado trata-se de um texto narrativo


denominado crônica. Ao produzir tal texto, deve-se estar atento
para as seguintes características: textos narrativos, curtos e que
normalmente trazem um retrato do cotidiano. Além disso,
textos considerados como crônica devem apresentar os seguintes
elementos: enredo (história a ser contada), personagens (atores
da ação), tempo, espaço, narrador (pessoa que conta a história).
No texto de Luís Fernando Veríssimo, O que faz bem pra
saúde?, notam-se as seguintes características:

Enredo: relata/descreve uma “lista” de coisas que diz que faz


bem para a saúde.

LINGUAGENS E PRODUÇÃO DE TEXTO 143


Personagens: personagem narrador.
Tempo: presente.
Espaço: não definido.
Narrador: o narrador personagem conta a própria história.

No entanto, o tipo narrativo pode ser produzido em outros


gêneros textuais. Vejamos o exemplo a seguir.

Texto 16 – TEXTO JORNALÍSTICO

Os gêneros jornalísticos apresentam-se em duas grandes


categorias: o opinativo e o informativo. Deteremo-nos ao
informativo, pois tem como intuito noticiar, ou seja, narrar um
acontecimento. Vejamos o exemplo:

Maratona de Salvador
Angelo Paz, jornalista e colunista do "Eu, Corredor!"
22.08.2018, 06:00:00
Atualizado: 22.08.2018, 16:48:11

Conheça três histórias de superação através do esporte:


Técnico de Telecomunicações, Noé Júnior, 40 anos, passou
uma barra e tanta no final do ano passado. Em dezembro, seu
pai descobriu um tumor no intestino e apenas dez dias depois
morreu. Veio aquela tristeza profunda. Pausa na história de Noé
e vamos para a do consultor de vendas Henrique Rios, 44, que
em 2014 estava desempregado, com sinais de depressão e obeso,
com 113 kg. Uma última pausa para a mais impactante das
histórias, a de Angelina Nascimento, 53. Em 2000, infectada por
água de esgoto, contraiu uma bactéria chamada polioneuropatia,
ficou hospitalizada por um ano e como consequência teve as
duas pernas amputadas.

144 LUDMILA ANTUNES


Três situações bastante complicadas superadas graças ao
esporte, mais precisamente a corrida, onde todos encontraram o
caminho para transformar suas tristezas em alegrias. “A cabeça
não estava legal, só que toda vez que corria, sentia um prazer
diferente. Sou muito grato à corrida, que literalmente me trouxe
a alegria de volta”, conta Noé, que nos últimos oito meses já
correu cinco provas e está treinando para encarar os 21km na
Maratona Cidade de Salvador, que será realizada no dia 23 de
setembro. A prova é organizada pela Prefeitura de Salvador e
terá as distâncias de 5km, 10km, 21km e 42km.
Fonte: Disponível em: https://www.correio24horas.com.br/noticia/nid/a-corrida-
transforma-vidas-e-exige-novos-limites-mentais-para-quem-busca-desempenho/

O texto apresentado trata-se de uma reportagem. Em sua


estrutura, podem ser textos expositivo, informativo, descritivo,
narrativo ou opinativo. Observaremos as características
narrativas desse texto:
Nota-se que a reportagem narra/conta a história de pessoas
que superaram a dor e a tristeza a partir da prática do esporte.
Então, tem-se o fato/ a história, o que se conta (a trajetória dos
atletas), onde (Salvador), tempo (2018), narrador (jornalista/
Angelo Paz). Nesse sentido, por se tratar de um texto jornalístico,
devemos observar as características de uma reportagem que
são: textos em primeira ou terceira pessoa, presença de títulos,
temas sociais, políticos e econômicos, linguagem simples, clara
e dinâmica, discurso direto ou indireto.
A reportagem, enfim, deve conter: um título (resume o
texto), subtítulo (traz informações complementares ao título),
o corpo de texto (desenvolve o tema e traz as informações,
declarações, entrevistas etc.), intertítulos (palavras ou frases
curtas que intercalam o texto).
No entanto, além dos dois exemplos citados, a crônica e o
texto jornalístico, avalia-se, também, a tipologia narrativa em

LINGUAGENS E PRODUÇÃO DE TEXTO 145


textos poéticos, em letras de canções, conforme veremos no
texto a seguir:

Texto 17 – CANÇÃO

João e Maria
Chico Buarque

Agora eu era o herói


E o meu cavalo só falava inglês
A noiva do cowboy
Era você além das outras três
Eu enfrentava os batalhões
Os alemães e seus canhões
Guardava o meu bodoque
E ensaiava o rock para as matinês

Agora eu era o rei


Era o bedel e era também juiz
E pela minha lei
A gente era obrigado a ser feliz
E você era a princesa que eu fiz coroar
E era tão linda de se admirar
Que andava nua pelo meu país

Não, não fuja não


Finja que agora eu era o seu brinquedo
Eu era o seu pião
O seu bicho preferido
Sim, me dê a mão
A gente agora já não tinha medo
No tempo da maldade acho que a gente nem tinha nascido

146 LUDMILA ANTUNES


Agora era fatal
Que o faz-de-conta terminasse assim
Pra lá deste quintal
Era uma noite que não tem mais fim
Pois você sumiu no mundo sem me avisar
E agora eu era um louco a perguntar
O que é que a vida vai fazer de mim?
Fonte: Disponível em: https://www.letras.mus.br/chico-buarque/45140/

O texto 03 também pode ser considerado narrativo, pois


conta a história de João e Maria. Percebe-se, na letra da canção de
Chico Buarque, que existem todos os elementos que compõem
uma narrativa: o narrador, as personagens, o enredo, o tempo
e o espaço. Na história, o narrador-personagem era o herói, o
rei e as travessuras eram todas ali no quintal. Nos bastidores,
a canção é uma valsa composta pelo "mestre" Sivuca, em 1947,
que, só trinta anos depois chegou às mãos de Chico Buarque.

Enfim, ao produzir um texto narrativo deve estar atento


as suas características:

A narração é um texto composto por uma sucessão de fatos,


fictícios (textos literários) e /ou verídicos (notícia, reportagem
entre outros). Em sua estrutura, pode-se ter uma introdução
(situação inicial do texto), um clímax ou desenvolvimento
(narração da história do texto) e um desfecho (resolução do
conflito do desenvolvimento). Além disso, na narrativa, devem
ter elementos internos (o narrador, o espaço, o tempo, os
personagens), além dos elementos externos (os capítulos e as
sequências de ação).

LINGUAGENS E PRODUÇÃO DE TEXTO 147


TEXTOS DESCRITIVOS

Caracteriza-se os textos com tipologia descritiva, quando
há apresentação verbal de um objeto, paisagem, sentimentos
etc. Trata-se da de um recurso da linguagem em que autor
oferece ao leitor seu ponto de vista sobre determinado cenário,
objeto, pessoa, a partir da enumeração pormenorizadas, enfim,
da descrição. Então, para melhor compreendermos a noção da
tipologia descritiva, observemos os textos a seguir: (GARCIA,
1975)

Texto 18 – DIÁLOGO

— Podemos nos encontrar amanhã às 10h00 em frente


aquele restaurante que abriu no centro da cidade, que fica ao
lado da biblioteca. O que acha?
— Sim, pode ser. Mas, como saberei quem é você?
— Bem, como você sabe, sou de média estatura, magro e
tenho cabelos escuros. Vou vestir calças jeans e uma camisa
verde escura. Terei uma maleta preta nas mãos.
Fonte: Disponível em: https://www.todamateria.com.br/descricao/.

Nota-se que no texto tem-se de um diálogo, ou seja, uma


linguagem verbal oral que está transcrita. No texto em destaque,
há a presença do tipo textual descritivo, pois o personagem da
narrativa traz uma descrição, pormenorizada de como ele é e de
como ele está vestido.

148 LUDMILA ANTUNES


Texto 19 – TEXTO LITERÁRIO

Quaresma era um homem pequeno, magro, que usava


pince-nez, olhava sempre baixo, mas, quando fixava alguém ou
alguma cousa, os seus olhos tomavam, por detrás das lentes, um
forte brilho de penetração, e era como se ele quisesse ir à alma
da pessoa ou da cousa que fixava. Contudo, sempre os trazia
baixos, como se se guiasse pela ponta do cavanhaque que lhe
enfeitava o queixo. Vestia-se sempre de fraque, preto, azul, ou
de cinza, de pano listrado, mas sempre de fraque, e era raro que
não se cobrisse com uma cartola de abas curtas e muito alta,
feita segundo um figurino antigo de que ele sabia com precisão
a época.
Fonte: Disponível em: https://www.todamateria.com.br/como-escrever-um-bom-texto-
descritivo/.

No trecho do livro de Lima Barreto, nota-se que o tipo


textual descritivo também aparece na narrativa. Trata-se, nesse
caso, da descrição física e psicológica do personagem Policárpio
Quaresma que era um homem pequeno, magro e vestia-se
sempre de fraque (preto, azul, ou de cinza, de pano listrado).

Além dos textos literários, textos comuns que circulam no


nosso cotidiano, como os anúncios, os encartes de supermercado,
por exemplo, podem trazer exemplos de textos descritivos.
Vejamos os exemplos a seguir:

LINGUAGENS E PRODUÇÃO DE TEXTO 149


Texto 20 – ANÚNCIO 1: folheto de supermercado

Fonte: Disponível em: http://www.jornaldelavras.com.br/index.php?p=10&tc=4&c=16746.

150 LUDMILA ANTUNES


No exemplo 03, tem-se um folheto de supermercado.
Observa-se, nesse gênero textual, a presença constante de
descrições dos produtos, as ofertas, os valores etc., tudo feito
com bastante ilustrações e em cores vivas, justamente para
chamara a atenção do consumidor.

Texto 21 – ANÚNCIO 2: folheto de viagem

Fonte: Disponível em: https://www.cvc.com.br/?gclid=Cj0KCQjwrMHsBRCIARIsAFgSeI2


KpKeHU_pBevHM6V2oGjhJLkPlNYREEBC4Q8KczOha6l6binOKcm4aAtKuEALw_wcB.

LINGUAGENS E PRODUÇÃO DE TEXTO 151


O texto 04 é um folheto de viagem. Nesse folheto, observa-
se a descrição do local de forma minuciosa. As fotografias são
escolhidas de forma intencional também para chamar a atenção
do público-alvo.
Pode-se notar, com esses exemplos, que os textos descritivos
são produzidos para apresentar um objeto, um lugar, uma
pessoa. Para isso, as particularidades como a utilização de
muitos substantivos, adjetivos e locuções adjetivas ajudam a se
ter uma ideia exata do que está sendo detalhado.
Veja alguns exemplos:

Deve-se usar adjetivos para detalhar aquilo que irá ser


descrito, como se vê, em destaque, no exemplo a seguir:
O planalto central do Brasil desce, nos litorais do Sul, em
escarpas inteiriças, altas e abruptas. Assoberba os mares; e
desata-se em chapadões nivelados pelos visos das cordilheiras
marítimas, distendidas do Rio Grande a Minas. Mas ao derivar
para as terras setentrionais diminui gradualmente de altitude, ao
mesmo tempo que descamba para a costa oriental em andares,
ou repetidos socalcos, que o despem da primitiva grandeza
afastando-o consideravelmente para o interior.
Fonte: Disponível em: https://www.todamateria.com.br/como-escrever-um-bom-texto-
descritivo/.

Emprego de metáforas e comparações traz a imagem daquilo


que será descrito:
Os gestos, calmos, soberanos, eram de um rei— o autocrata
excelso dos silabários; a pausa hierática do andar deixava sentir
o esforço, a cada passo, que ele fazia para levar adiante, de
empurrão, o progresso do ensino público; o olhar fulgurante,
sob a crispação áspera dos supercílios de monstro japonês,

152 LUDMILA ANTUNES


penetrando de luz as almas circunstantes — era a educação
da inteligência; o queixo, severamente escanhoado, de orelha
a orelha, lembrava a lisura das consciências limpas — era a
educação moral.
Fonte: Disponível em: https://www.todamateria.com.br/como-escrever-um-bom-texto-
descritivo/.

As descrições podem ser objetivas e subjetivas: As


objetivas trazem detalhes físicos como altura, peso, clima,
textura, sensorial entre outras características. Já as subjetivas
trazem as dimensões psicológicas e comportamentais como a
personalidade, o caráter, o humor etc.
Para finalizar, observa-se que textos narrativos podem trazer
trechos de caráter descritivo e vice-versa. Assim, vejamos um
exemplo do livro Vidas Secas de Graciliano Ramos, e observe a
identificação dos trechos de narração e descrição:

Capítulo I – Mudança

NA PLANÍCIE avermelhada os juazeiros alargavam duas


manchas verdes. (Trecho descritivo). Os infelizes tinham
caminhado o dia inteiro, estavam cansados e famintos.
Ordinariamente andavam pouco, mas como haviam repousado
bastante na areia do rio seco, a viagem progredira bem três léguas.
Fazia horas que procuravam uma sombra. (Trecho narrativo).
A folhagem dos juazeiros apareceu longe, através dos galhos
pelados da catinga rala. (Trecho descritivo). Arrastaram-se para
lá, devagar, Sinha Vitória com o filho mais novo escanchado no
quarto e o baú de folha na cabeça, Fabiano sombrio, cambaio, o
aió a tiracolo, a cuia pendurada numa correia presa ao cinturão,
a espingarda de pederneira no ombro. O menino mais velho e a
cachorra Baleia iam atrás. (Trecho narrativo).
Fonte: Disponível em: https://canalcederj.cecierj.edu.br/012016/0ebc368f0a0ef8bc2c25b
d8f3ea6b2a6.pdf

LINGUAGENS E PRODUÇÃO DE TEXTO 153


Observa-se que as tipologias textuais não são incluídas
nos textos de forma estanque, por isso pode haver textos
narrativos e descritivos em uma só produção textual. Os
textos com as tipologias narrativas e descritivas podem fazer
parte da produção textual em diversos gêneros textuais como
foi exemplificado aqui. Trata-se de formas de utilização da
linguagem para a produção de textos que pretendem contar
uma história (tipologia narrativa) e/ou descrever um fato, um
local, uma pessoa etc. (tipologia descritiva); enfim, produções
textuais que visam o processo de construção de sentidos.

154 LUDMILA ANTUNES


TEMA 15
Caro(a) Estudante,
O Tema 15, não possui livro texto, mas você encontrará Slides e
Podcast no Ambiente Virtual de Aprendizagem (AVA). Esses objetos
de aprendizagem têm também o papel de facilitar o processo de
aprendizagem, auxiliando-o na construção de conhecimentos que
importem para sua formação profissional.

155 LUDMILA ANTUNES


TEMA 16 – TEXTO ARGUMENTATIVO
Olá, estudante!

Seja bem-vindo ao tema 16 da disciplina Linguagens e
Produção de Texto. Neste material, trabalharemos com a noção
de TEXTO ARGUMENTATIVO e a sua relevância como uma
ação social e comunicativa na contemporaneidade.
Vamos lá!

TEXTOS ARGUMENTATIVOS

Consideramos textos, na tipologia argumentativa, quando


há uma defesa de uma ideia, uma hipótese, uma teoria ou uma
opinião. Trata-se do texto que tem o objetivo de convencer o
leitor daquilo que está sendo exposto, discutido. Em outras
palavras, busca-se refletir, explicar, avaliar, conceituar, enfim,
expor ideias a partir de um determinado ponto de vista.
A argumentação diz respeito à discussão de problemas
controversos, polêmicos, em que o autor deve se posicionar, dar
uma opinião ou refutação sobre um tema de interesse de uma
coletividade. Para isso, deve-se utilizar argumentos sustentáveis
com evidências, provas, dados e outros elementos que darão
suporte à ideia defendida.
Uma característica muito peculiar da argumentação é a
persuasão, que consiste na tentativa do emissor de convencer
o destinatário. Nesse caso, é comum o uso de articuladores
argumentativos como: e; mas; contudo; porém; entretanto; uma
vez que; de forma que; entre outros, que tornarão o texto mais
claro e conciso.
Vejamos o exemplo:

156 LUDMILA ANTUNES


Tema: Porte de arma no Brasil

Argumentos a favor da posse de armas

O debate sobre o direito de possuir armas é antigo


no Brasil. Ao contrário dos Estados Unidos, onde este
direito foi conquistado ao mesmo tempo que o país fazia
sua independência, o porte e a posse de armas não foi
facilitado ao cidadão comum.
Os defensores desta prática argumentam que um cidadão
armado torna-se um potencial ajudante das forças de
segurança da sua região. Se muitos possuem uma arma,
o criminoso pensaria duas vezes antes de atacar alguém,
pois suas chances de sair ileso diminuem.
Igualmente, alega-se a necessidade de defesa pessoal. Por
isso, qualquer um pode ter uma arma a fim de defender a
si mesmo, sua propriedade ou sua família.
Há aqueles que lembram sobre os direitos que o Estado
pode restringir ou não aos seus cidadãos. Por este lado,
ao negar a posse de arma, o Estado estaria negando um
direito do consumidor, pois as armas são produtos como
qualquer outro.
Fonte: Disponível em: https://www.todamateria.com.br/porte-de-arma/

Observa-se nesse exemplo (texto) que há a defesa de um


determinado ponto de vista que é o favorecimento da posse de
arma. Para isso, o autor se utilizou dos seguintes argumentos:
• o cidadão armado é um potencial colaborador das forças
de segurança;
• o cidadão armado se defende;

LINGUAGENS E PRODUÇÃO DE TEXTO 157



o cidadão armado tem o direito de comprar arma,
direito do consumidor, pois as armas são produtos como
qualquer outro.

Observa-se, ainda, o uso de alguns conectivos que, de certa


forma, cedem ao texto a clareza e concisão como: pois; por isso;
a fim de; por este lado etc.

Vamos ver o argumento contra a posse de armas:

Argumentos contra a posse de armas


Em 2003, foi sancionado o Estado do Desarmamento
que dificultava ainda mais a aquisição de armas de fogo
por parte da população civil. Dois anos depois, o artigo
35 sobre a liberação de compras de armas, foi levado a
plebiscito e a proposta foi rejeitada.
Estudiosos que são contra a liberação da posse de armas
alegam que o problema da violência decorre da profunda
desigualdade social no Brasil. Assim, a posse de armas
não solucionaria este assunto.
Especialistas em segurança pública alertam que o
despreparo ao manusear uma arma pode ser mais letal
do que não possui-la. A sensação de falsa segurança que
dá uma arma é perigosa.
De igual maneira, muitos alegam que o Brasil não teria
condições de aplicar e fiscalizar um possível aumento
de cidadãos que possuam armas de fogo, por falta de
profissionais especializados.
Além disso, trata-se de uma medida impopular. Segundo
uma pesquisa realizada pelo Datafolha, em dezembro
de 2018, 61% dos entrevistados se declararam contra a
liberação do porte de armas.
Fonte: Disponível em: https://www.todamateria.com.br/porte-de-arma/

158 LUDMILA ANTUNES


Observa-se que o texto traz uma opinião, um ponto de vista
sobre determinado assunto, no caso, sobre o porte de arma, ou
seja, a permissão para andar armado. Para defender seu ponto
de vista, o autor se utilizou dos seguintes argumentos:

• o cidadão despreparado para manusear uma arma;


• o cidadão terá uma falsa segurança;
• a falta de condições de aplicação e fiscalização, no Brasil
por falta de profissionais especializados;
• a medida impopular.

Assim, para escrevermos textos argumentativos, devemos:

• tomar uma decisão sobre determinado assunto;


• convencer o receptor sobre o ponto de vista escolhido
para a argumentação;
• contra-argumentar ou contestar uma determinada
posição;
• escrever parágrafos com início, meio e fim, ou seja,
introdução, desenvolvimento e conclusão.

No tocante ao tipo de linguagem, podemos destacar:

• o emprego de verbos no presente do indicativo;


• o uso de conectivos adequados a essa tipologia. Sobre os
conectivos destacam-se: conjunção, oposição, alternância,
comprovação, causa/consequência (explicativas,
causais, finais, justificativas, condicionais, consecutivas,
conclusivas), comparação (comparativas, conformativas),
especificação (incluindo a exemplificação) etc.

LINGUAGENS E PRODUÇÃO DE TEXTO 159


VEJAMOS OS EXEMPLOS DE TEXTOS
ARGUMENTATIVOS

Texto 22:
Figura 44 – MANCHETE DE JORNAL

Fonte: Disponível em: http://blogdainseguranca.blogspot.com/2010/10/impunidade-


menos-de-8-dos-assassinatos.html

Observa-se, na manchete do jornal o uso da conjunção “mas”


no valor semântico de oposição, ou seja, há na apresentação
dos argumentos o sentido de ideias contrárias, de quebra,
de oposição. Segundo a manchete, crimes cresceram, então o
ideal seria que tivéssemos maior número de investigação, no
entanto o Estado do Rio de Janeiro investiga cada vez menos.
Desse modo, esse operador argumentativo (mas) visa uma
ideia oposta, contraditória, enfim, uma conclusão contrária ao
esperado na construção do sentido do texto.

160 LUDMILA ANTUNES


Texto 23:
Figura 45 – CARTUM

Fonte: Disponível em: http://portaldoprofessor.mec.gov.br/fichaTecnicaAula.


html?aula=15697

Observa-se, no cartum o uso do conectivo “porque” para


explicar e ao mesmo tempo argumentar sobre o ato de não ter
feito a tarefa. No entanto, o autor do texto mostra, nesse contexto,
um ponto de vista, uma opinião sobre um determinado assunto:
a relação da tecnologia e a educação.
Há, nesse caso, uma abordagem argumentativa, pois existe
uma intenção de trazer um ponto de vista sobre determinando
assunto.

LINGUAGENS E PRODUÇÃO DE TEXTO 161


Texto 24:
Figura 46 – POEMA

O BICHO
Manuel Bandeira
Vi ontem um bicho
Na imundície do pátio
Catando comida entre os detritos.
Quando achava alguma coisa,
Não examinava nem cheirava:
Engolia com voracidade.
O bicho não era um cão,
Não era um gato,
Não era um rato.
O bicho, meu Deus, era um homem.
Fonte: Disponível em: https://www.pensador.com/frase/MzcyNjI5/

O poema de Manuel Bandeira, “O bicho”, traz uma ação


reflexiva do poeta a respeito da condição de vida do homem.
Percebe-se, na composição do poema o uso de rimas, nas quatro
estrofes, a concentração de uma cena a visão do poeta, a ação do
bicho, o espanto e, por fim, a revelação. No entanto, quando o
poeta, no final do poema diz “O bicho, meu Deus, era um homem”,
nota-se, não apenas, a expressão do sentimento dele perante o
mundo, mas também um ponto de vista, a argumentação sobre
determinado assunto: as condições insalubres do homem.
Salienta-se, que, esse é um texto emotivo, porém, há tons de
opinião, de ponto de vista sobre determinado assunto.

162 LUDMILA ANTUNES


Texto 25:
Figura 47 – CHARGE

Fonte: Disponível em: https://maiseducativo.com.br/propostas-de-redacao-para-ensino-medio/

Observa-se na charge, que o autor, ao escolher o uso da


linguagem verbal e não-verbal, se propôs a abordar sobre um
tema e, a partir daí, se posicionou sobre determinado assunto.
Há, nesse caso exposto na charge, uma crítica a respeito do
acúmulo de água parada, em quintais, onde os responsáveis
pelos terrenos não deixam os fiscais da vigilância sanitária
adentrarem. Além disso, a imagem representativa do cidadão,
que não tem consciência desse tipo de trabalho preventivo
contra o mosquito da dengue, está sendo representado com a
cabeça cheia de água parada.
A leitura e interpretação da charge, mostra que, no processo
de construção argumentativa do texto, o autor tem a opinião
de que as pessoas que têm esse tipo de atitude, são sujeitos de

LINGUAGENS E PRODUÇÃO DE TEXTO 163


“cabeça fechada”, “parada” a respeito das questões de saúde no
país. Pode-se inferir, também, sobre o texto, argumentações do
tipo: De quem é a culpa nesse caso? Será que não somos nós
mesmos que não erradicamos os focos e muitas vezes impedimos
a entrada dos agentes de saúde? Em qual esfera do governo estão
os culpados?
Texto 26:
Figura 48– TIRINHA

Fonte: Disponível em: 5Fonte: http://2.bp.blogspot.com.

Observa-se, na tirinha que o autor produziu um texto a


fim de mostrar um determinado ponto de vista acerca de um
assunto. Trata-se da crítica sobre a falta de atenção que as
pessoas não dão a temas mais relevantes na sociedade.

Nos textos abordados, trouxemos manchetes de jornal,


cartuns, poemas, charges e tirinhas para mostrar que a tipologia
argumentativa pode compor diversos textos. Os exemplos
supracitados nos mostram que a tipologia argumentativa pode
fazer parte da produção textual de diversos gêneros textuais.
No entanto, para uma melhor compreensão dos textos
argumentativos/dissertativos analisemos duas dimensões:
a intenção e a estratégia argumentativa. Ambas devem ser
analisadas da seguinte forma: a primeira, intenção, determina a
segunda, estratégia argumentativa.

164 LUDMILA ANTUNES


Sobre a intenção, ou intencionalidade, entende-se que se
trata de um fim predeterminado do texto. Para isso, deve-se
estar atento, na produção textual, aos elementos linguísticos e
situacional do texto que garantirão a unidade pragmática do
texto, ou o que chamamos de comunicação completa do texto.
Sobre a estratégia argumentativa, aquela que é determinada
pela intenção, trata-se do caminho pelo qual o autor deve seguir
em seu processo de produção de texto. Em outras palavras,
escolher os argumentos, o vocabulário, enfim, todos os recursos
linguísticos de forma consciente para conseguir os efeitos de
sentido desejados no processo de elaboração de textos

COMO PRODUZIR
UM TEXTO ARGUMENTATIVO/DISSERTATIVO

1- Escolha do tema, ou seja, aquilo sobre o que será


debatido.
2- Apresente o seu ponto de vista, ou seja, adote uma
posição sobre esse tema.
3- Defenda esse tema com argumentos, ou seja,
canalizando a discussão para a sua tese, seu ponto de
vista.
4- Use contra-argumentos para enriquecer sua
argumentação.
5- Utilize conectores adequados.
6- Escreva seu texto em três partes: Introdução,
Desenvolvimento e Conclusão.

No entanto, pode-se notar que determinados gêneros textuais


assumem uma postura tipologicamente, mais argumentativa.
Vejamos os exemplos no quadro a seguir.

LINGUAGENS E PRODUÇÃO DE TEXTO 165


QUADRO 11 – Gêneros Textuais e Textos Argumentativos

GÊNEROS EXEMPLO
TEXTUAIS
Os problemas de trânsito atuais de
qualquer grande cidade são motivos
de transtornos vários a seus cidadãos.
No município do Rio de Janeiro, isso
Dissertação não é diferente e assume contornos
dramáticos, em meio às obras por que
passa a metrópole. Os engarrafamentos
se dão em escala gigantesca, paralisando
veículos, a produção e a vida das pessoas.
Não vem sendo fácil para o carioca
suportar os engarrafamentos que tomam
Artigo de Opinião conta da cidade por causa das obras
(meio informal) profundas que vem ocorrendo. A cidade,
de cabelo em pé, buzina sem parar
buscando algum ponto de fuga. Somos
quase o Estacionamento de Janeiro.
Rio de Janeiro, 03 de dezembro de 2013.
Excelentíssimo Sr. Prefeito, da cidade do
Rio de Janeiro,
Carta Venho, por meio desta, manifestar-me
Argumentativa quanto à situação caótica que ora nos
encontramos na cidade governada por V.
Exª. A situação é mais do que periclitante,
atingindo níveis de inviabilidade que
põem em xeque o bom funcionamento de
serviços ao conjunto dos cidadãos.

166 LUDMILA ANTUNES


Caros editores da Revista Hoje, em seu último
número, havia uma matéria que tratava das
mudanças em curso na cidade do Rio de Janeiro.
Gostaria de aqui problematizar um ponto
Carta de argumentado por vocês naquela matéria: a do
leitor preço necessário a se pagar por tais mudanças.
A Gazeta de Notícias traz a seu público a sua
opinião independente acerca das mudanças
ora em curso na cidade do Rio de Janeiro, bem
Editorial como de seus desdobramentos ao conjunto da
população atual e futura.
Na obra Carros e cidades, de Alexandre Silveira
Pontes, a questão principal em discussão é
o modelo de desenvolvimento rodoviário e
seu impacto à vida das cidades brasileiras.
Esse ponto de vista assume especificidades
Resenha e exemplificações várias ao longo dos sete
Crítica capítulos da obra, os quais apresentaremos aqui.
Como se observa, o leitor alvo causa
modificações de formato bem marcantes,
evidenciando também distintas finalidades, para
além da argumentação.
Crônica Essa semana testemunhei uma cena inusitada.
Argumen- Uma velhinha esbravejava cobras e lagartos e
tativa outros répteis mais de difícil identificação, após
ser fechada no trânsito cada vez mais alarmante
do Rio de Janeiro. Ora, essa é apenas a ponta
do iceberg desse inferno que tem se tornado se
locomover dentro de um veículo na cidade.

Fonte: Disponível em: http://educacao.globo.com/portugues/assunto/estudo-do-texto/


generos-argumentativos.html.

LINGUAGENS E PRODUÇÃO DE TEXTO 167


Nota-se, em todos os exemplos de gêneros textuais, citados
no quadro, a uma opinião sobre determinado assunto; trata-se
dos problemas de infraestrutura da cidade quanto ao trânsito. Em
todos os textos apresentados, tem-se a tipologia argumentativa
como forma de expressão do conteúdo dos textos.
Para finalizar, vejamos mais um exemplo de texto
argumentativo compondo a produção textual do gênero textual
artigo de opinião.

Texto 27 – ARTIGO DE OPINIÃO

O RACISMO REFORÇA A VIOLÊNCIA QUE EXISTE


NO BRASIL

17 DE AGOSTO DE 2018
LAYANE MOISES COELHO

O Atlas da Violência 2018, produzido pelo Ipea e pelo


Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), divulgou um
relatório sobre as taxas de homicídio no país, e os números
são assustadores. Segundo os dados, mais de meio milhão de
pessoas foram assassinadas nos últimos dez anos, sendo os
negros as principais vítimas dessa barbárie.
De acordo com a Declaração Universal dos Direitos
Humanos, todo indivíduo tem direito à vida; mas, no Brasil,
a dignidade humana é garantida apenas para uma parcela da
população. A vida aqui tem valor e, se você é negro e/ou pobre,
a chance de ser morto pelo Estado ou de forma violenta por
qualquer cidadão é muito grande.
Entre 2006 e 2016, a taxa de homicídios de indivíduos
não negros diminuiu 6,8%, enquanto a da população negra

168 LUDMILA ANTUNES


aumentou 23,1%, verificou o Atlas. Por meio desses números,
podemos observar o reflexo do racismo que, infelizmente, está
presente no país e interrompe da forma mais brutal a vida de um
ser humano.
A partir do momento em que um indivíduo é assassinado,
está sendo retirado dele o direito à vida, o direito de conviver
com o próximo e de frequentar os espaços sociais que auxiliam
na formação histórica, política, educacional de todo cidadão.
Toda a sociedade é atingida de certa forma, assim como a família
e amigos.
Muitas pessoas tentam justificar a morte de alguém e sempre
tem aquele que defende o discurso de “bandido bom é bandido
morto”, mas o “olho por olho, dente por dente” serve para
dizimar a população preta e pobre. Por trás desses discursos
existe intolerância, preconceito e falta de amor ao próximo. A
última divulgação do Levantamento Nacional de Informações
Penitenciárias (Infopen) constatou que cerca de 726.000 pessoas
representam a população prisional no país. Do total, 64% são
negros e 75% não iniciaram o ensino médio.
A violência nunca foi e nunca será uma ferramenta de
melhoria social. Para iniciar uma transformação no Brasil é
preciso, em primeiro lugar, promover um discurso de respeito à
diferença, seja ela qual for, e investir na educação. Desta forma
as oportunidades e a preservação da vida serão para todos,
independente de cor, raça, condições financeiras, idade e sexo.
Fonte: Disponível em: https://www.vozdascomunidades.com.br/geral/opiniao-o-racismo-
reforca-violencia-que-existe-no-brasil/

Observa-se, na construção da produção textual de um


artigo de opinião, que a autora trouxe dados estatísticos que
comprovam e argumentar sobre o seu ponto de vista.

LINGUAGENS E PRODUÇÃO DE TEXTO 169


Além disso, nesse gênero textual – artigo de opinião, nota-se
a seguinte estrutura:

1. Apresentação/contextualização do tema que está sendo


discutido.
2. Explicitação do posicionamento assumido pelo autor do
texto.
3. Sustentação da tese por meio de argumentos.
4. Utilização de argumentos contrários à posição assumida.
5. Retomada da posição assumida.

Em síntese, pode-se afirmar que o artigo de opinião é um


gênero textual que apresenta características específicas em sua
composição, assim como os outros gêneros textuais citados
anteriormente no quadro 11.
Sobre o artigo de opinião, em sua composição, é necessário
defender um ponto de vista baseado em argumentos que irão
ir de acordo com o posicionamento do autor, a sua ideologia,
suas opiniões e reflexões sobre o mundo. Não se pode esquecer
que uma boa argumentação apresenta um texto claro, conciso
além de raciocínio lógico. Assim, argumentar é, pois, convencer
alguém sobre o seu ponto de vista, baseado no seu lugar de fala
na sociedade.

170 LUDMILA ANTUNES


REFERÊNCIAS
ANTUNES, Irandé. Aula de português: encontro e interação, São Paulo:
Parábola, 2003.

ANTUNES, Irandé. Gramática contextualizada: limpando “o pó das ideias


simples”. São Paulo: Parábola, 2014.

ARANHA, Maria Lúcia de Arruda; MARTINS, Maria Helena Pires. Temas de


Filosofia. São Paulo: Moderna, 1992.

AZEREDO, José Carlos de. Gramática Houaiss da Língua Portuguesa. 2. ed. São
Paulo: Publifolha, 2008.

BAKHTIN, Mikhail. Os gêneros do discurso. In: BAKHTIN, Mikhail. Estética


da criação verbal. Traduzido do francês por Maria Emsantina Galvão Pereira,
revisão da tradução Marina Appenzellerl. 2’ cd. São Paulo: Martins Fontes, 1997.
(Coleção Ensino Superior).

BARTHE, Roland. O prazer do texto. Tradução de Jacob Guinsburg. 6. ed. São


Paulo: Perspectiva, 2013.

BIDERMAN, Maria Tereza Camargo. Filologia e Linguística Portuguesa.


Dimensões da palavra. n. 2, p. 81-118, 1998.

CUNHA, Celso Ferreira da. Gramática do Português Contemporâneo. Rio de


Janeiro: Padrão, 1983.

DI FRANCO, Carlos Alberto. Jornalismo, ética e qualidade. Rio de Janeiro:


Vozes, 1995.

DIONISIO, Angela Paiva; MACHADO, Anna Raquel.; BEZERRA, Maria


Auxiliadora(Orgs.). Gêneros Textuais e ensino. São Paulo: Parábola, 2010.

DIONÍSIO, A. P. Gêneros textuais e multimodalidade. In: KARWOSKI, Acir


Mário; GAYDECZKA, Beatriz; BRITO, Karim Siebeneicher. (Org.). Gêneros
textuais: reflexões e ensino. São Paulo: Parábola, 2005.

FÁVERO, Leonor Lopes; KOCH, Ingedore Villaça. Contribuição a uma tipologia


textual. In: Letras & Letras. Vol. 03, nº 01. Uberlândia, MG: Universidade Federal
de Uberlândia, 1987, p. 3-10.

FÁVERO, Leonor Lopes. Coesão e Coerência Textual. Série Princípios. 11. ed.
São Paulo: Ática, 2009.

FEIJÓ, Martin César. O que é política cultural. São Paulo: Brasiliense, 1985.

LINGUAGENS E PRODUÇÃO DE TEXTO 171


FIGUEIREDO, Luiz Carlos. A redação pelo parágrafo. Brasília: UnB, 1999.

GARCIA, Othon Moacyr. Comunicação em prosa moderna: Aprenda a escrever,


aprendendo a pensar. 3. ed. Rio de Janeiro: FGV, 1975.

GERALDI, João Wanderley. Linguagem e ensino: exercícios de militância e


divulgação. Campinas, SP: Mercado de Letras, 1996.

GERALDI, João Wanderley. Portos de passagem. 4.ed. São Paulo: Martins


Fontes, 2003.

GUEDES, Paulo Coimbra. Da redação à produção textual. São Paulo: Parábola,


2009.

GUIMARAES, Thelma de Carvalho. Comunicação e Linguagem. São Paulo:


Pearson, 2012.

HOUAISS, Antonio; VILLAR, Mauro de Salles. Dicionário Houaiss de Língua


Portuguesa. Rio de Janeiro: Objetiva, 2010.

KOCH, Ingedore Grunfild Villaça. A interação pela linguagem. São Paulo:


Contexto, 1992.

KOCH, Ingedore Grunfild Villaça. Argumentação e linguagem. São Paulo:


Cortez, 1984.

KOCH, Ingedore Grunfild Villaça. Desvendando os segredos do texto. São


Paulo: Cortez, 2018. Ebook.

KOCH, Ingedore Grunfild Villaça; ELIAS, Vanda Maria. Ler e escrever:


Estratégias de produção textual. São Paulo: Contexto, 2009.

KOCH, Ingedore Villaça; ELIAS, Vanda Maria. Ler e Compreender os sentidos


do texto. 3. ed. São Paulo: Contexto, 2015.

KOCH, Ingedore Grunfild Villaça. O texto e a construção dos sentidos. São


Paulo, Contexto. 1997.

KOCH, Ingedore Grunfild Villaça; TRAVAGLIA, Luiz Carlos. Coerência:


de que depende, como se estabelece. In: KOCH, Ingedore Grunfild Villaça;
TRAVAGLIA, Luiz Carlos. Texto e coerência. São Paulo: Cortez, 2015.

LAJOLO, Marisa. Do mundo da leitura para a leitura do mundo. Série


Educação em Ação. São Paulo: Ática, 1993.

MARCUSCHI, Luiz Antônio. Gêneros textuais: definição e funcionalidade. In:


DIONÍSIO, Ângela et al. Gêneros textuais e ensino. Rio de Janeiro: Lucerna,
2002.

172 LUDMILA ANTUNES


MARCUSCHI, Luiz Antônio. Produção textual, análise de gêneros e
compreensão. São Paulo: Parábola Editorial, 2008.

MARCUSCHI, Luiz Antonio. Linguística textual: o que é e como se faz. Recife:


UFPE, 1983.

NASCIMENTO, Renata Ferreira dos Santos. A importância dos sinais de


pontuação na fluência da língua portuguesa. Disponível em: https://www.
webartigos.com/artigos /a-importancia-dos-sinais-de-pontuacao-na-fluencia-da-
lingua portuguesa/103844/. Acesso em: 17 jul. 2019.

OLIVEIRA, Pérsio Santos de. Introdução à sociologia. São Paulo: Ática, 1991.

PAIVA, Francis Arthuso. Leitura de imagens em infográficos. In: COSCARELLI,


Carla Vianna. Tecnologias para aprender. São Paulo: Parábola, 2016, p. 43-59.

PIETROFORTE, Antonio Vicente Seraphim; LOPES, Ivã Carlos. A Semântica


Lexical. In: FIORIN, José Luiz. (org.). Introdução à Linguística II: Princípios de
análise. 4. ed. São Paulo: Contexto, 2010. p.11-135.

RAMOS, Paulo. A leitura dos quadrinhos. São Paulo: Contexto, 2016.

RIBEIRO, Ana Elisa. Tecnologia e poder semiótico: escrever hoje. Revista Texto
Livre: Linguagem e Tecnologia. v. 8, n. 1, 2015, p. 112-123.

ROJO, Roxane. Textos Multimodais. In: FRADE, Isabel Cristina Alves da Silva;
COSTA VAL, Maria da Graça; BREGUNCI, Maria das Graças de Castro (Orgs.).
Glossário Ceale. Disponível em: http://www.ceale.fae.ufmg.br/app/webroot/
glossarioceale/. Acesso em: 19 ago. 2019.

ROJO, Roxane Helena. Letramento e diversidade textual. In: CARVALHO, Maria


Angélica Freire de; MENDONÇA, Rosa Helena (Orgs.). Práticas de leitura e
escrita. Brasília: Ministério da Educação, 2006.

SAUSSURE, Ferdinand. Curso de Linguística Geral. Tradução de Antônio


Dhelini, José Paulo Paes e Izidoro Blikstein. 28. ed. São Paulo: Cutrix, 2012.

TEIXEIRA, Tattiana. Infografia e jornalismo: conceitos, análises e perspectivas.


Bahia: Edufba, 2011.

VAL, Maria da Graça Costa. Língua, texto e interação: caderno do professor.


Belo Horizonte: Ceale/FaE/UFMG, 2005.

VAL, Maria das Graças Costa. Redação e Textualidade. São Paulo: Martins
Fontes, 1991.

VANOYE, Francis. Usos da linguagem: problemas e técnicas na produção oral


e escrita. São Paulo: Martins Fontes, 2007.

LINGUAGENS E PRODUÇÃO DE TEXTO 173


VIANA, Antônio Carlos (coord.). Roteiro de Redação. São Paulo: Scipione, 1998.

174 LUDMILA ANTUNES

Você também pode gostar