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UNIVERSIDADE FEDERAL DE SERGIPE Luiz Eduardo Oliveira
Josué Modesto dos Passos Subrinho
Reitor

Angelo Roberto Antoniolli


Vice-Reitor

CONSELHO EDITORIAL DA EDITORA UFS GRAMATIZAÇÃO E ESCOLARIZAÇÃO:


Luíz Augusto Carvalho Sobral
Coordenador do Programa Editorial contribuições para uma hist6ria do ensino das Ifnguas no Brasil (1757-1827)

Antônio Ponciano Bezerra


Péricles Morais de Andrade Junior
Mário Everaldo de Souza
Ricardo Queiroz Gurgel
Rosemeri Melo e Souza
Terezinha Alves de Oliva

EDITORA DA UNIVERSIDADE FEDERAL DE SERGIPE


Coordenador do Programa Editorial
Luiz Augusto Carvalho Sobral
Em convênio com a
Fundação Oviêdo Teixeira
Presidente
João de Seíxas Dória
'UNDACAo

APOIO OVI~DO
TEIXEIRA
Norcon - Sociedade Nordestina de Construções Ltda. UMA INICIATIVA NO"CON

São Cristóvão. 2010


Copyrigth by Editora Universidade Federal de Sergípe
Cidade Universitária "Prof. José Aloísio de Campos" ALGUNS AGRADECIMENTOS
Av. Mal. Cândido Rondon, s/na - CEP.: 49.100-00
São Cristóvão/SE

Este livro, ou parte dele, não pode ser reproduzido por


qualquer meio sem autortzação escrita da Editora.

A única profissão que exerci na vida foi a de professor de


Centro de Educação Superior a Distância
Inglês. Iniciei minha carreira dando aulas em cursos livres de
Coordenação Gráfica línguas e em escolas da rede particular de ensino. mesmo antes
Glselda Santos Barros
de concluir a graduação em Letras Português-Inglês da Universi-
Edítoração eletrônica dade Federal de Sergípe, em 1990. quando passei a compor o qua-
AdUma Menezes
dro de professores da rede estadual de ensino. locado na Escola
Capa de 1. Grau Jornalista Paulo Costa. em Aracaju.
0

Sandra PInto Frelre Meu interesse pelo estudo do processo de ínstítucíonalíza-


Ilustração da capa: Bodleian Llbrary, Uníversíty of Ox:ford
(disponível em www.unicamp.br/lel/memorla/) ção do ensino de Inglês no Brasil foi despertado a partir de mi-
nhas atividades como professor de Literatura Inglesa da Univer-
sidade Federal de Sergípe, desde 1994. sistematizando-se em mi-
nha pesquisa de Mestrado, cuja Dissertação foi defendida em 1999.
Ficha Catalográfica elaborada pela Biblioteca no Instituto de Estudos da Linguagem da Universidade Estadual
Central da Universidade Federal de Sergípe
de Campinas. com o titulo A historiografia brasileira da literatura
Oliveira. Luiz Eduardo inglesa; uma história do ensino de inglês no Brasil (1809-1951). A
048g Gramatização e escolarização: contribuições opção de trabalhar com as "Línguas Vivas". isto é. com as línguas
para uma história do ensino das linguas no Bra- estrangeiras modernas. em minha Tese de Doutorado - cujo titu-
sil (1757-1827)/ Luíz Eduardo Oliveira. São Cris-
lo é A instituição do ensino das Linguas Vivas no Brasil: o caso da
tóvão: Editora UFS; Aracaju: Fundação Oviêdo
Teíxeíra, 2010. Língua Inglesa (1809-1890) -. defendida em 2006 no Programa de
170p. Estudos Pós-Graduados em Educação: História. Política. Socieda-
de. da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. deveu-se ao
ISBN: 978-85-7822-099-0 fato de que a legislação. os planos e programas de ensino. bem
como as outras fontes utilizadas referentes ao ensino de Inglês.
l.Línguas - Ensino - História. 2. Gramática.
3. História da educação - Brasil. I. Título. são os mesmos para as demais linguas estrangeiras. e em alguns
casos para as linguas antigas e a nacional. Dessa forma. sem
CDU 811:37.016 (81) (091) acarretar maiores esforços. algo inevitável com a ampliação do
campo de investigação. mantive o objetivo de analisar o caso par-
luiz Eduardo Oliveira GRAMATIZAÇÃO E ESCOlARIZAÇÃO

ticular da Língua Inglesa. servindo-me, além das fontes que tra- por me fazer aprofundar no campo da História da Educação;
tavam genericamente do ensino das línguas. dos compêndios de Kazumi Munakata. por me apresentar à história das disciplinas
Inglês de cada época. escolares: Mírían Warde, pelas primeiras orientações durante o
Assim que retomei às atividades docentes na Universidade outorado; Marta Lúcia S. Hílsdorf, pelas preciosas observações
Federal de Sergípe, decidi criar o Grupo de Pesquisa História do no Exame de Qualificação de Doutorado; e finalmente Odair Sass,
Ensino das Línguas no Brasil. com o intuito de congregar pesqui- meu orientador de Doutorado. pela compreensão. paciência. lei-
sadores e estudantes das áreas de História da Educação e dos tura cuidadosa dos meus textos e. sobretudo. amizade.
Estudos Linguísticos e Literários interessados no tema. Fundado Devo também um agradecimento aos pesquisadores e estu-
em 2006. o grupo atualmente conta com pesquisadores e estu- dantes que se engajaram no Grupo de Pesquisa História do Ensi-
dantes de diferentes instituições. departamentos e programas de no das Línguas no Brasil. desde sua fundação: Antonio Ponciano
pós-graduação. os quais orientam e/ou desenvolvem pesquisas Bezerra; Claudete Daflon dos Santos; Jorge Carvalho do Nasci-
de Iniciação Científica. Pós-Graduação lato sensu, Mestrado e mento; Lêda Corrêa; Marta Leõnia Garcia Costa Carvalho; Marta
Doutorado. e com dois projetos de pesquisa: "AEscola. o Estado e Roseneide Santana dos Santos; Vanderlei José Zacchi; Vilma Mota
a Nação: para uma história do ensino das línguas no Brasil" (1757- Quintela e Wilton James Bemardo dos Santos. Quanto aos estu-
1857). financiado pelo CNPq. e "A legislação pombalina sobre o dantes. destaco as participações de Álvaro César Pereira de Sou-
ensino de línguas: suas implicações na educação brasileira (1757- za. Amanda Carvalho Silva; Cristiane Tavares Fonseca de Moraes
1827)". fmanciado pela FAPITEC. Nunes; Dyego Anderson Silva Pereira; Elaine Maria Santos;
Este livro. que é fruto dos estudos e pesquisas realizados no Fabiane Vasconcelos Andrade: Fábio Wesley Santos Paixão;
decorrer desses anos sobre a história do ensino das línguas e Femanda Gurgel Raposo; Giselle Macedo Barbosa; Grazielle San-
suas respectivas literaturas no Brasil. é também o resultado de tos Silva; João Escobar José Cardoso; Jonaza Glória dos Santos;
minha formação de professor e pesquisador. motivo pelo qual agra- Juliana Moura Ferreíra: Kartna Andrade Santos; Marcle Vanessa
deço aos seus primeiros ínspíradores, mentores e leitores: José Menezes Santana: Maríângela Dias Santos; Mirela Magnani
Costa Almeída, por ter me incentivado a prestar o concurso para Pacheco; Rogério Tenorío de Azevedo; Sara Rogéría Santos Barbo-
a matéria de ensino Literatura de Língua Inglesa da Universida- sa; Simone Sílveíra Amorím: Thadeu Vinicius Souza Teles e Wagner
de Federal de Sergípe, em 1994; Marta Lúcia Dal Farra. por ter Gonzaga Lemos.
sido a primeira Ieítora-oríentadora do meu projeto de mestrado;
Carlos Daghlían, presidente de honra da ABRAPUI (Associação
Brasileira dos Professores Universitários de Inglês). por ter me
incentivado a participar do XXVIIISENAPULLI(Seminário Nacio-
nal dos Professores Universitários de Literaturas de Língua Ingle-
sa). realizado em Ouro Preto. em 1996. no início da minha carrei-
ra docente na Universidade Federal de Sergípe: Martsa Lajolo,
por ter se interessado pelo meu projeto de Mestrado e aceitado me
orientar. me emprestando um pouco de sua enorme experiência
como escritora e pesquisadora; Jorge Carvalho do Nascimento.

6 7
SUMÁRIO

ALGUNS AGRADECIMENTOS

APRESENTAÇÃO 11

INTRODUÇÃO .••.•••.••.••.•.•••.•....•••••.••.....•••..•.•.••.•.•..•.••••••.•.••••...•.•.•.•..•.•.•..••.••.•••••••.•.•.•.•........ 13

A história do ensino das línguas no Brasil 14


Organização do livro 24
Referências 25

A GRAMÁTICA LATINA E O ENSINO DAS LíNGUAS ••••••....•.•.............•..•.•..•.....••....... 27

Gramatização e Escolarização 28
A Gramática Latina e as Línguas Nacionais 31
A constituição das línguas como disciplinas escolares 39
Referências 42

OS PROFESSORES R~GIOS DE GRAMÁTICA LATINA E RETÓRICA: NOTAS


PARA O ESTUDO DAS ORIGENS DA PROFISSÃO DOCENTE NO BRASIL 45

A forma escolar e a profissão docente 46


As Reformas Pombalinas e os Professores Régios de Gramática Latina e Retórica 51
O caso brasileiro 63
Algumas considerações 69
Referências 72
DA LíNGUA DO PRíNCIPE À LíNGUA NACIONAL: UMA HISTÓRIA DO
ENSINO DE PORTUGU~S NO BRASIL ......................•.....•..............•.••.....•...•......•........... 75
APRESENTAÇÃO

A lei do Diret6rio 76
Maria Lucia S. Hilsdorf*
A Gramática da Lrngua Nacional e as escolas de Primeiras Letras 85
Algumas considerações 91
Referências 96

AS GRAMÁTICAS INGLESAS E A INSTRUÇÃO PÚBLICA: Dentre os campos de conhecimento cultivados pela universi-
dade brasileira, na atualidade, o da História da Educação é, sem
UMA HISTÓRIA DO ENSINO DE INGL~S NO BRASIL .........•.••......•.......•..•..•.••...•••... 99
dúvida, um dos mais fecundos. Brasil afora, grupos de pesquisa e
centros de pós-graduação têm vivificado com seiva nova esse ramo
A "transmigração" da corte portuguesa 100
da escrita historiográfica e notabilizado, aqui e no exterior, a quan-
O Real Colégio dos Nobres e a Gramática de Teles de Menezes 103
tidade e o valor dos trabalhos que põem em circulação.
A Academia Real Militar do Rio de Janeiro e o Professor de Inglês Eduardo Thomaz Colville li8
O texto que o Professor Luiz Eduardo Oliveira oferece aos
A Cadeira Pública de Língua Inglesa da corte 125
seus leitores, nesta oportunidade, representa uma importante
Os Professores Públicos de Língua Inglesa 137
contribuição da geração mais nova dos pesquisadores em Histó-
O ensino da Lrngua Inglesa nos colégios e seminários 147
ria da Educação aos atuais debates no campo. Em primeiro lugar,
Algumas considerações 159
pela originalidade do seu objeto de estudo: o processo de ínstítu-
Referências 163
cionalização do ensino das línguas, em particular o da Língua
Inglesa, e a correlata configuração delas como disciplinas escola-
ILUSTRAÇÕES res, o que o coloca no interior de uma das mais promissoras mo-
dalidades de abordagem hoje desenvolvidas acerca da história da
escola e da educação. Em segundo lugar, pelo ineditismo do perí-
Grammatica da lingua portuguesa (1540), de João de Barros 38
odo em que o situa, obrigando, assim, pela aprofundada pesquisa
Verdadeiro metodo de estudar (1746), de Luiz Antonio Verney 74
Arte da grammatica da lingua portugueza (1770), de Antonio José dos Reis lobato 95
Gramatica ingleza ordenada em portuguez (1762), de Carlos Bernardo da Silva Téles de
Menezes 124
• Maria Lucia S. Hllsdorf é Professora Doutora do Departamento de Filosofia
The English spelling-book (1851), de William Mavor 136
da Educação e Ciências da Educação da Faculdade de Educação da
Arte ingleza (1827), de Guilherme Tflbury 142 Universidade de São Paulo (FEUSP). área de História da Educação; sócía-
Nova grammatica ingleza e portugueza (1812), de Manoel de Freitas Brazileiro 145 fundadora da Sociedade Brasileira de História da Educação (SBHE); do
Compendio da grammatica ingleza e portugueza (1820), de Monoel José de Freitas 158 Centro de Memória da Educação da FEUSP e autora de O aparecimento da
escola modema: uma história ilustrada (2006). pela Autêntica. História da
educação brasileira: leituras (2007. 3." edição). pela Píoneíra-Thomson, e
Pensando a educação em tempos modemos (2005. 2.· edição). pela Editora
da Universidade de São Paulo (EDUSP).
Luiz Eduardo Oliveira

de fontes documentais e a erudita arquitetura analítica que o


embasam, à revisão dos nossos conhecimentos sobre a escola, a
INTRODUÇÃO
cultura e a sociedade dos séculos XVIII e XIX. Creio que este tra-
balho é especialmente feliz por uma terceira razão, qual seja, a do
seu recorte, por ter o seu autor, ao longo do desenvolVimento des-
sa investigação tão bem fundamentada, encontrado um ãngulo
de Visão seu, dentre as posições de reconhecidos teóricos das dis-
ciplinas escolares como Chervel e Hamilton, dentre outros. Re-
sulta que, ao término desse percurso que enfrenta as questões
Este livro vincula-se a dois projetos de pesquisa: "A Escola,
concernentes à gênese, finalidades e resultados do ensino das
o Estado e a Nação: para uma história do ensino das línguas no
línguas no Brasil, entre 1757 e 1827, o professor Luíz Eduardo
Brasil" (1757-1857). financiado pelo CNPq, e "Alegislação pomba-
Oliveira se afirma como autor com voz própria, ao propor uma
lina sobre o ensino de línguas: suas implicações na educação bra-
periodização dessa história atrelada, não como se diz
sileira (1757-1827)", financiado pela FAPITEC, sendo também fruto
costumeiramente, aos diferentes métodos, mas sim, às finalida-
de estudos e pesquisas realizadas pelo Grupo de Pesquisa Histó-
des desse ensino, as quaís, por sua vez, ele reconhece serem tan-
ria do Ensino das Línguas no Brasil- GPHELB (http://www.ufs.br /
to pedagógicas quanto políticas e culturais. E é aqui que ele nos
grupos /gphelb/). criado em 2006, no Departamento de Letras da
reserva mais uma (boa) Surpresa, ao avançar a comprovação de
Universidade Federal de Sergípe, o qual congrega estudantes e
que o ensino das línguas tem a ver com a formação da escola
pesquisadores das áreas de História da Educação e dos Estudos
brasileira e do estado nacional, mas também com a formação de
algumas profissões imperiais. Línguístícos e Literários.
O GPHELB tem como objetivo geral investigar o processo de
Graças à determinação e à paciência desse perquiridor res-
institucionalização do ensino das línguas e de suas respectivas
ponsável e rigoroso perante os escolhos teóricos, metodológicos e
literaturas no Brasil, bem como de sua configuração como disci-
sobretudo operacionais que enfrentou para ultimar seu estudo _
plina escolar e acadêmica, no intuito de delinear suas represen-
reconhecidos por todos nós que lidamos no Brasil com esse dífícíl
tações e fmalidades pedagógicas, políticas e culturais no sistema
e fascinante mundo da História da Educação e da Escola _, temos
educacional do país. Suas atiVidades de estudo e pesquisa con-
agora, à dísposrção, um texto que se faz necessário desde já aos
centram-se sobre três fontes fundamentais: 1) legislação brasilei-
interessados na compreensão da escola, da cultura e da socieda-
de brasileira de todos os tempos. ra sobre ensino de línguas; 2) compêndios [Catecísmos, Cartilhas,
Gramáticas, Manuais de Retórica e Poética, Seletas, Livros de
Leitura e Histórias Literárias); 3) narrativas (auto) biográficas,
memorialisticas ou flccíonaís sobre professores de línguas. As li-
nhas de pesquisa do grupo são as seguintes:

1) "A constituição das línguas como disciplinas escolares e


acadêmicas", que pretende investigar o processo de con-
figuração das línguas e suas respectivas literaturas como
12
Luiz Eduardo Oliveira
GRAMATIZAÇÃO E ESCOLARIZAÇÃO

disciplina escolar e/ou acadêmica, buscando delinear tadas em vários períodos históricos. Nessa perspectiva, a sua íns-
suas finalidades pedagógicas, políticas e culturais.
titucionalização relaciona-se com o seu processo de configuração
como disciplina escolar no sistema educacional do país, o que
2} "História Literária e Ensino da Literatura: para uma his-
torna possível a investigação do modo como se delineiam suas
tória dos cânones escolares no Brasil", que intenta veri- finalidades políticas, pedagógicas e culturais.
ficar os processos mediante os quaís, em períodos ou
Contudo, o uso da legislação educacional como fonte de uma
épocas diferentes, algumas obras ou autores se manti- pesquisa histórica sobre o ensino de línguas só deve servir de
veram na condição de clássicos e outros não, nos manu- objeto para o estudo do que o seu discurso faz propagar, interpre-
ais didáticos de leitura ou de história literária.
tar ou suprimir sobre a matéria, e não como fonte privilegiada de
"práticas escolares", o que seria ingênuo. Mesmo assim, convém
Para que o leitor tome conhecimento da natureza da pes- não dicotomizar as práticas escolares e a legislação educacional.
quisa à qual este livro se vincula, bem como de seus objetivos e
Primeiro, porque uma lei a respeito de qualquer tema, indepen-
fundamentos teÓrico-metodológicos, seguem algumas notas acer-
dente de sua aplicação, se constitui em virtude de circunstâncias
ca da caracterização do problema e do estado da arte da produção
reais, de práticas cotidianas. Segundo, porque algumas peças
acadêmica em torno dessa temática.
legíslatívas, como os Alvarás, as Provisões e Decisões com força
de lei sobre Instrução Pública, nos séculos XVIIIe XIX, ao indica-
A história do ensino das Ifnguas no Brasill
rem algum método ou compêndio de determinada matéria, ou re-
gularem a remuneração de um ou mais professores, não são pre-
A história do ensino das línguas no Brasil pode ser pensa-
visões legais, mas verdadeiras sentenças - no sentido jurídico do
da como uma instância de validação não somente de um conjun-
termo - proferidas sobre requerimento das partes interessadas,
to de conteúdos e métodos (re)elaborados ou facilitados para sua
constituindo, portanto, representações bastante significativas de
aprendizagem escolar no decorrer do tempo, mas também de cons-
situações concretas, de "práticas" enfim (OLIVEIRA,2006).
tituição dos próprios conceitos de língua e literatura, tal como se
No intuito de superar essa dicotomia, Hamilton (1989) propõe
configuram nas políticas linguísticas e educacionais implemen- uma solução díalógíca na qual escola e sociedade são examinadas
em suas relações recíprocas, uma vez que professores e alunos são
ao mesmo tempo alvo de objetivos educacionais definidos pelo Esta-
I Este foi o texto que serviu de Justificativa para o projeto de pesquisa "A do e meio ativo pelo qual tais objetivos podem ser alcançados, pro-
Escola. o Estado e a Nação: para uma história do ensino das lInguas no Brasil duzindo um efeito reativo sobre o currículo. A seu ver, apesar de os
(1757-1827)". aprovado pelo Edita! n. 003/2008/CNPq (Processo n. 400822/
2008-3), tendo sido apresentado na Mesa-Redonda "O Ensino e a Pesquisa
teóricos da escolarízação (theorists of schooling) reconhecerem que
em História da Educação", como parte do Seminário em comemoração aos 15 a intervenção estatal raramente alcança seus objetivos, seus diag-
(quinze) anos do NPGED (Núcleo de Pós-Graduação em Educação) da nósticos mantêm-se no domínio das políticas educacionais. Assim,
Universidade Federal de Serglpe: O Núcleo de Pós-Graduação em
Educação e a Pesquisa Educacional, realizado na cidade de São Cristóvão,
a reforma curricular continua sendo uma solução permanente:
de 27 a 30 de abril de 2009. Encontra-se no prelo um livro reunindo os
textos de todas as mesas-redondas do referido Sernínárto,organizado pelo Este capítulo (intitulado Notes towards a theory oJ schooling)
Prof. Dr. Míguel André Berg~r, Coordenador Geral do evento.
procura evitar esse dualismo. Ele parte da premissa oposta
14
15
Luiz Eduardo Oliveira GRAMATIZAÇÃO E ESCOLARIZAÇÃO

- de que a escola e a sociedade podem ser examinadas em tura da lei. Nesse sentido, em uma pesquisa que busca investigar
termos de relações recíprocas que as mantém unidas atra- o processo de institucionalização do ensino das línguas, a legisla-
vés do tempo e do espaço. De tal perspectiva, as práticas ção educacional - bem como todas as peças a ela relacionadas,
cotidianas da escola podem ser vistas como práticas soci- como os anais parlamentares, os relatórios de ministros, de auto-
almente construídas e historicamente localizadas. Suas ridades, congregações, conselhos, câmaras ou comissões especi-
formas derivam, por exemplo, tanto das expectativas de ais - ainda é uma fonte de suma importância.
padres e políticos quanto das circunstâncias materiais da Seu estatuto em relação a outros objetos que integram o
arquitetura escolar e da disponibilidade de compêndios ensino de línguas, tais como compêndios - no caso do ensino de
(HAMILTON,1989, p. 151).2 línguas, eles são de vários gêneros: catecismos, cartilhas, gramá-
ticas, manuais de retórica e poética, seletas, livros de leitura e
A htstoríografla educacional brasileira, ainda marcada tanto histórias literárias -, narrativas memorialísticas ou ficcionais de
pela coletânea de leis organizada por Primitivo Moacyr (1936; 1939; professores, programas de ensino, periódicos, produção acadêmi-
1942) quanto pela interpretação, ou "matriz" azevedtana", tam- ca, entre outros, é mais relevante, pois representa a ação do Es-
bém baseada nas leis sobre educação, ainda não fez uma devida tado na propagação, representação ou mesmo omissão do ensino
interpretação da legislação educacional do país, restringindo-se de línguas, bem como no processo de construção de uma identi-
à mera citação do "caput" de decretos e alvarás, sem qualquer dade e uma cultura nacional:
análise do texto da lei, em sua exposição de motivos e seus vários
artigos e parágrafos. A obra de Moacyr, que serviu - e serve ainda A formação de uma cultura nacional contribuiu para criar
hoje - de base para muitos trabalhos, e que sem dúvída é uma padrões de alfabetização universais, generalizou uma úni-
fonte das mais importantes para a história da educação brasilei- ca língua vemacular como o meio dominante de comunica-
ra, toma-se problemática quando intercala o discurso do legisla- ção em toda a nação, criou uma cultura homogênea e man-
dor com o do autor, desmembrando artigos e parágrafos e assim teve instituições culturais nacionais, como, por exemplo,
orientando o leitor para uma determinada interpretação, ou lei- um sistema educacional nacional (HALL,2005, p. 49-50).

Para Chervel, o problema das finalidades da escola é um


dos mais complexos e sutis da história do ensino, uma vez que
2 Neste caso específico, traduzi schooling. cujo equivalente mais próximo. em
Português. seria "escolartzação", genericamente por escola. Eis o texto
seu estudo só depende em parte da história das disciplínas, rela-
original: "Thís chapter seeks to avoid such a dualism. It starts from the cionando-se também com a estrutura familiar, religiosa, cultural
opposite prerníse - that schooling and society must be examined in terms of e política de cada época específica. A seu ver, o historiador das
the reciprocal relationships that hold them together across time and space.
disciplinas precisa distinguir o que chama de "finalidades reais"
Frorn such a perspective. the day to day practices of schoolíng are deemed
to be both socially-constructed and historically-located. Theír shape derives das "finalidades de objetivo", mesmo quando os textos oficiais mis-
as much, for tnstance, from the changing expectatíons of priests and turam umas e outras:
politicians as it does from the pre-gíven circumstances of school archítecture
and texbook avaílabílíty".
3 Sobre a critica da "matriz azevedíana'' na htstortografta educacional brasileira. Deve sobretudo [o historiador) tomar consciência de que
consultar Warde (1984); Carvalho (1998) e Warde e Carvalho (2000). uma estipulação oficial, num decreto ou numa circular,

16 17
Luiz Eduardo Oliveira GRAMATIZAÇÃO E ESCOLARIZAÇÃO

visa mais freqüentemente. mesmo se ela é expressada em Cada época produziu sobre sua escola, sobre suas redes
termos positivos. corrigir um estado de coisas. modificar educacionais. sobre os problemas pedagógicos, uma litera-
ou suprimir certas práticas. do que sancionar oficialmente tura freqüentemente abundante: relatórios de inspeção,
uma realidade. "Apenas o francês será usado na escola". projetos de reforma. artigos ou manuais de didática. prefá-
estipula o regulamento modelo das escolas de 1851: fínalí- cio de manuais. polêmicas diversas, relatórios de presiden-
dade de objetivo. Trinta anos mais tarde ensinava-se ainda tes de bancas. debates parlamentares. etc. É essa literatu-
em patois ou na língua regional (CHERVEL. 1990. p. 190). ra que. ao menos tanto quanto os programas oficiais, es-
clarecia os mestres sobre sua função e que dá hoje a chave
A definição das "finalidades reais", segundo o autor, deve do problema.
ser buscada nos objetivos da escola, e não dos poderes públicos,
pois o estudo das fmalidades não pode abstrair os "ensinos re- No entanto, se as "finalidades reais" de qualquer disciplina
ais", a "realidade pedagógica". Assim, o historiador precisa evitar devem ser buscadas nos objetivos da escola, e não dos poderes
a redução das disciplinas escolares às suas respectivas metodo- públicos, como afirma o autor acima citado, seus "ensinos reais"
logías, ou idéias pedagógicas, procurando investigar seus objeti- não podem se desvincular das políticas educacionais que lhes
vos, em um primeiro estágio, nos textos oficiais programáticos e dão suporte, uma vez que suas finalidades pedagógicas são tam-
nos planos de estudos, para só então rastrear suas fmalidades bém culturais e, sobretudo, políticas. Nesse sentido, a legislação
nas salas de aula. sobre o ensino das línguas é aqui uma fonte de suma importãncia
Citando o caso da Lei Guizot de 1833 e do estatuto das esco- não somente pela especificidade pedagógica de seu objeto, mas
las do ano seguinte, que introduziu no programa da Instrução também por inscrever-se como um discurso político e cultural que
Primária os "elementos da língua francesa", Chervel reconhece a toma, muito mais do que um reflexo do contexto de sua época,
que a lei desempenhou um papel importante na propagação do parte do seu próprio texto.
ensino do Francês, mas afirma que até 1850 a maioria das esco- Quanto à delimitação do período a ser estudado na pesqui-
las francesas da zona rural negligenciou esta parte do programa, sa, de 1757 a 1827, serviram como pilares duas leis importantes
em decorrência do que pergunta: "de que lado colocaremos as que regulamentaram o ensino das línguas no Brasil: o Díretórío
finalidades? Do lado da lei ou do lado das práticas concretas"? dos Índios ou Lei do Díretórío, de 3 de maio de 1757, confirmada
(CHERVEL, 1990, p. 189). pelo Alvará de 27 de agosto de 1758, que instituiu o ensino de
Em uma pesquisa histórica como esta, a investigação das Língua Portuguesa no pais, e a Lei Geral de 15 de outubro de
"práticas concretas" do ensino de línguas toma-se extremamente 1827, que mandou criar Escolas de Primeiras Letras em todas as
dífícíl, senão impossível. tanto pela dístâncía temporal quanto pela cidades, vilas e lugares mais populosos do Império. Esta lei, que
carência de fontes não oficiais, sendo muito mais fácil a sua rea- foi a única de ãmbito nacional a tratar especialmente das Primei-
lização em estudos nos quais o pesquisador possa acompanhar ras Letras no Brasil, durante todo o Império e parte da República,
todas as atividades de um determinado grupo de alunos em um estabeleceu, em seu artigo sexto, a Gramática da Língua Nacio-
espaço de tempo previamente estabelecido. Ao historiador, resta nal entre as matérias a serem ensinadas pelos professores e re-
somente a indagação dos documentos de épocas passadas, pois, gulamentou as condições necessárias, o modo de admissão, re-
como afirma o próprio Chervel (1990, p. 191): muneração e um plano de carreira da profissão docente, os quais

18 19
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GRAMATIZAÇÃO E ESCOLARIZAÇÃO
Luiz Eduardo Oliveira

serviriam de modelo para o provimento de outras cadeiras, tais jeta sua sombra até mesmo no universo disponível de escolha de
como as de Latim, cujos estudos foram reformados com o Alvará períodos, razão por que há tão poucos trabalhos - pelo menos os
Régio de 28 de junho de 1759 - que também tratou do ensíno das produzidos nos Programas de Pós-Graduação entre 1972 e 1988-
Línguas Grega e Hebraica e de Retórica -, e línguas estrangeiras relativos às épocas que não são privilegiadas em A cultura brasi-
modernas, ínstituídas no país pela Decisão n. 29, de 14 de julho leira (1942). como a pombalina. Segundo Laerte Ramos de Carva-
de 1809, que criou uma cadeira pública de Francês e outra de lho (1952, p. 106). em sua obra pioneira, no país, sobre As refor-
Inglês na cidade do Rio de Janeiro (OLIVEIRA,2006). mas pombalinas da instrução pública, "é muito difícil precisar até
Com tal delimitação períodológtca, que é também uma to- que ponto e em que escala se fez sentir a reforma de 1759 no
mada de posição conceitual, a história do ensino das línguas no Brasil". Banha de Andrade, em A reforma pombalina dos estudos
Brasil só tem ínteresse quando alcança o estatuto de política secundãrios no Brasil (1978). tenta minorar tal dificuldade, fazen-
educacional de um Estado-Nação, ou de um Estado que se quer do um mapeamento das correspondências entre o Diretor Geral
nação, tendo para tanto que passar não somente por um movi- dos Estudos D. Tomás de Almeida e seus comissários distribuídos
mento geral de reformulação jurídica, mas também pelo proces- pelas várias capitanias da colônia.
so de construção de uma identidade nacional - ou de invenção De qualquer modo, conforme a interpretação que tem pre-
de sua tradição -, o que, mais do que uma entidade política, valecido na historiografia da educação brasileira, as inovaçôes
configura-se como um sistema de representação cultural (HALL, advindas das Reformas Pombalinas não afetaram a situação da
2005), caso das Reformas Pombalinas em Portugal e no Brasil. Instrução Pública no país. Para Azevedo (1971). as reformas de
Esta é a razão por que ficou de fora, para seus escopos, o periodo Pombal só teriam desarranjado a sólida estrutura da educação
jesuítico. jesuítica, baseada que era em um sistema mais ou menos unifi-
Nesse sentido, esta pesquisa contrapõe-se ao discurso hís- cado, com seriação dos estudos, para dar lugar ao ensino disper-
toriográfico produzido pela "matriz azevediana", que, destacando so e fragmentário das Aulas Avulsas ministradas por professores
os aspectos civilizadores do jesuitismo, desqualifica o papel ino- leigos e mal preparados.
vador das Reformas Pombalínas, bem como do período joaníno Em sua opinião, a base da pedagogia dos jesuítas, após a
(CARVALHO,1998). Chagas (1967, p. 104). por exemplo, afirma sua expulsão de Portugal e seus domínios, teria permanecido a
que, mesmo depois da expulsão dos jesuítas, em 1759, "o traço mesma, uma vez que os padres missionários, além de terem cui-
fundamental da ínstrução secundária, [...], manteve as linhas dado da manutenção dos colégios destinados à formação de seus
básicas do século XVI", como se aquele tipo de instrução fosse sacerdotes, criaram seminários para um clero secular, constituí-
possível no Renascimento. Segundo o mesmo autor, a transferên- do por "tios-padres" e "capelães de engenho". Estes, dando conti-
cia da corte para o Rio de Janeiro, apesar de importar na institui- nuidade à ação pedagógica dos inacianos, mantiveram sua
ção do ensíno profissional, militar, superior e artístico, nada fez a "metodologia" e programa de estudos, que deixavam de fora, se-
respeito da "escola secundária prôpriamente dita". Somente em gundo o autor, além das ciências naturais, as "línguas e literatu-
1837, argumenta, o Ensino Secundário, no Brasil, teria alcança- ras modernas":
do a "segunda etapa".
Como notou BontempiJr. (1995), a força da obra de Femando No fundo, e através das formas mais variadas da paisa-
de Azevedo, no campo do pensamento educacional brasileiro, pro- gem escolar, recorta-se ainda nitidamente, com seus tra-

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Luiz Eduardo Oliveira


GRAMATIZAÇÃO E ESCOLARIZAÇÃO

ços característicos, a tradição pedagógica e cultural dei- res. antes de cruzar o atlãntico para ingressar na academia
xada pelos jesuítas e continuada pelos padres-mestres, coímbrã."
e resultante de uma educação exclusivamente literária, Diante da carência de fontes referentes às iniciativas guia-
baseada nos estudos de gramática, retórica e latim e em das pelas novas orientações vindas de Portugal. principalmente
cujos planos não figuravam nem as ciências naturais no que dizem respeito ao ensino de línguas. foi adotado como marco
nem as línguas e literaturas modernas (AZEVEDO,1971, inicial de seu processo de institucionalização a Lei do Diretório de
p. 556).
1757. que instituiu o ensino de Língua Portuguesa no país. Tal
adoção. como já foi dito. implica uma tomada de posição quanto
Geraldo Bastos Silva, por sua vez, reconhece que, apesar ao papel das Reformas Pombalinas. isto é, da transferência do
de ser legítimo falar em fragmentação do ensino, tal fragmenta- controle da instrução da Companhia de Jesus para o Estado por-
ção, "do ponto de vista do cuniculo", é um progresso, uma vez que tuguês, na história da educação brasileira. uma vez que busca
a "paisagem escolar" do país se modifica com a chegada de "novas provar que as reformas de Pombal foram capazes de "dar um novo
matérias";
rumo à educação. tanto na metrópole quanto na colônía, em ter-
mos de renovação metodológíca, de conteúdos e de organização".
[... 1, entre as aulas criadas, posteriormente, para suprir a como afirma Hilsdorf (2003. p. 15). invertendo assim a leitura de
falta dos colégiosjesuítas, há algumas que exprimema ten- Fernando de Azevedo. que descreve a época pós-pombalina em
dência à modificaçãoda tradição pedagógica,pelo apareci- termos de decadência e transição.
mento de novas matérias, em resposta a novas exigências Seu marco final. 1827. justifica-se pela hipótese de que a
de ordem prática ou de natureza cultural. Assim, desde os vinda do Príncipe Regente D. João e sua corte para o Rio de Janei-
fins do século XVIII,ao lado das matérias do ensino literá- ro. em 1808. significou, em matéria de Instrução Pública - e. por-
. rio e religioso- o latim, a retórica, o grego, o hebraico, a tanto. de organização e racionalização do próprio Estado brasilei-
filosofia,a teologia- a paisagem escolar do Brasil inclui as ro -. a aplicação e desenvolvimento. na colõnia que se transfor-
matemáticas e outras disciplinas, como o desenho, o fran- mou em sede do governo português. das diretrizes estabelecidas
cês, o inglês (SILVA,1969, p. 189).
pelas Reformas Pombalinas. Desse modo. podemos conceber um
período de continuidade. do ponto de vista da história do ensino
A afirmação de Silva. embora não apresente ou faça refe- das línguas no Brasil. que comporta os governos de D. José I. D.
rência a qualquer documento que possa comprovar ou sugerir
a prática do ensino das Línguas Vivas no Brasil de "fins do
século XVIII". é pertinente quando se leva em conta que. com a
reforma dos Estudos Maiores. em 1772. o Francês e o Inglês 4 Cardoso (2002, p. 206) também ratifica tal hipótese, embora não apresente
passaram a ser matérias recomendadas pelos Estatutos da Uni- documentos: "além das Aulas de Primeiras Letras. Gramática Latina. Retórica,
Língua Grega e Hebraica. introduzidas em 1759 e que permaneceram até
versidade de Coimbra para o ingresso nos cursos médico e ma-
1834. foram sendo incluídas no currículo escolar das Aulas Régias. que
temático. Isso significa dizer que os filhos de famílias abasta- após 1822. chamaram-se Aulas Públicas. outras cadeiras. a partir da segunda
das brasileiras ou residentes no Brasil poderiam ter frequen- fase da reforma dos estudos. em 1772. como Filosofia Moral e Racional,
tado aulas daquelas línguas dadas por religiosos ou particula- Economia Política. Desenho e Figura. Língua Inglesa. Língua Francesa e
Aulas de Comércio".
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Luiz Eduardo Oliveira

projeto" Americanismo e Educação: a fabricação do homem novo",


Maria I e D. João VI, bem como do seu filho e sucessor D. Pedro I,
o qual deu sustentação ao convênio estabelecido entre a institui-
uma vez que a permanência, mesmo depois da Independência, de
ção paulista e o NPGED (Núcleo de Pós-Graduação em Educação),
uma geração de intelectuais que passaram por todo esse proces-
da Universidade Federal de Sergípe, com financiamento da CA-
so, tais como Martim Francisco (1775-1844) e o Visconde de Cairu
PES, através do Programa de Cooperação Acadêmica (PROCADl, e
(1756-1835), em instãncias decisórias de ãmbito educacional,
teve como objetivo investigar e descrever o processo de institucio-
dentre outros fatores, contribuiu para a manutenção, propaga-
nalização do ensino das Línguas Vivas no Brasil, observando o
ção e até mesmo apropriação de valores advindos da universida-
caso específico da Língua Inglesa, de 1809 a 1890, no intuito de
de reformada de Coímbra, talvez a grande obra cultural do Mar-
estabelecer uma periodização relacionada às principais fmalida-
quês de Pombal (1699-1782).
des assumidas pelo ensino daquelas línguas no sistema de Ins-
Organização do livro trução Pública do país.

Este livro foi organizado em quatro capítulos. No primeiro, A


Gramática Latina e o ensino das línguas, buscou-se verificar o modo Referências
como o processo de gramatização, que tem como base a Gramáti- ANDRADE,Antonio Alberto Banha de. 1978. A reforma pombalina dos estudos
ca Latina, articula-se com a escolarização das línguas nacionais secundários no Brasil. São Paulo: Saraiva / EDUSP.
e estrangeiras. No segundo, Os Professores Régios de Gramática
AZEVEDO, Fernando de. 1971. 5. ed. A cultura brasileira. São Paulo:
Latina e Retórica: notas para o estudo das origens da profissão do-
cente no Brasil, há uma análise da legislação pombalina, mariana Melhoramentos / EDUSP.

e joanína referente aos professores de Latim, Grego, Hebraico e BONTEMPl JUNIOR, Bruno. 1995. História da educação brasileira: o terreno
Retórica. No terceiro, Da Língua do Príncipe à Língua Nacional: do consenso. Dissertação de Mestrado, pós-Graduação em Educação: História.
política. Sociedade, Pontificia Universidade Católica de São Paulo.
uma história do ensino de Português no Brasil., tentou-se um esbo-
ço crítico-descritivo de tal processo, sugerindo algumas hipóteses CARVALHO, Laerte Ramos de. 1952. As reformas pombalinas da instrução
de trabalho que poderão ser depois desenvolvidas. No quarto, fí- pública. São Paulo: FFCL da USp, Boletim n. 160.
nalmente, As Gramáticas Inglesas e a Instrução Pública: uma histó- CARVALHO.Marta Maria Chagas de. 1998. "A configuração da historiografia
ria do ensino de Inglês no Brasil, o leitor terá uma mostra de parte educacional brasileira". In: FREITAS. Marcos César de (org.), Historiograjia
da pesquisa desenvolvida em minha Dissertação de Mestrado, brasileira em perspectiva. São Paulo: Contexto / Universidade São Francisco.
defendida no Instituto de Estudos da Linguagem da Unicamp, em
CHAGAS, R. Valnir C. 1967. Didática especial de línguas modernas. 2. ed. São
1999, e intitulada A historiograjia brasileira da literatura inglesa:
Paulo: Nacional.
uma história do ensino de inglês no Brasil (1809-1951), e em mi-
nha Tese de Doutorado, intitulada A instituição do ensino das Lín- CHERVEL. André. 1990. "História das disciplinas escolares: reflexões sobre
um campo de pesquisa". Tradução: Guaclra Lopes Louro. Teoria & Educação.
guas Vivas no Brasil: o caso da Língua Inglesa (1809-1890), defen-
Porto Alegre, n°. 2, pp. 177-229.
dida em fevereiro de 2006 no Programa de Estudos Pós-Gradua-
dos em Educação: História, Política, Sociedade, da Pontifícia Uni- HALL. Stuart. 2005. A identidade cultural na pós-modernidade. Tradução:
Tomaz Tadeu da Silva. Guaraclra Lopes Louro. 10. ed. Rio de Janeiro: DP&A.
versidade Católica de São Paulo. A tese foi um dos resultados do
25
24
/
HAMILTON, Davíd. 1989. Towards a theory of schooling. London: Falmer
Press.
A GRAMÁTICA LATINA E O ENSINO DAS LÍNGUAS
HILSDORF, Maria Lucia Spedo. 2003. História da educação brastleira: leituras.
São Paulo: Pioneira / Thomson Learning.

MOACYR,Primitivo. 1936. A Instrução e o Império. São Paulo: Nacional, v. 1.

1939. A instrução e as proVÚlC/as (1834-1889). São Paulo: Nacional, 3 v.

1942. A Instrução pública no estado de São Paulo. São Paulo: Companhia


Editora. Nacional, v. I.
o objetivo principal do estudo do latim é o jUológico, isto é, o
OLIVEIRA,Luíz Eduardo Meneses de. 2006. A instituição do ensino das Línguas conhectmento da vida econômica, social e política dos roma-
Vivas no BrasU: o caso da Língua Inglesa (1809-1890). Tese de Doutorado, nos, e, através destes, o conhecimento do mundo antigo. Si-
Programa de Estudos pós-Graduados em Educação: História, Política, Sociedade, multaneamente, porém, com a realização de talftnalidade,
Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Disponível em: <http:/ /
www.sapientla.pucsp.br/tde_busca/ arquivo. php?codArquivo=2255> desempenha o ensino do latim papel saliente na educação do
pensamento, pois que oferece ensejo a que o estudante adqui-
SILVA, Geraldo Bastos. 1969. A educação secundária (perspectiva histórica e ra, com os exercícios que terá defazer, os necessários hábitos
teórica). São Paulo: Nacional.
de pensar célere, profunda e cuidadosamente. Acresce ainda
WARDE, Mirian J. 1984. "Anotações para uma historiografia da educação que o l.atim serve ao melhor conhecünento das línguas románi-
brasileira". Em aberto. Brasília: INEP, n." 23, pp. 1-6. cas, enriquecendo-lhes o vocabulário e tornando-o mais preci-
soeexato.'
WARDE, Mirían J. e CARVALHO,Marta M.C. de. 2000. "Política e cultura na
produção da história da educação no Brasil". Contemporaneidade e Educação.
Rio de Janeiro, n.? 7, pp. 9-33.

• Portarta de 30 de junho de 1931, assinada por Francisco Campos, Ministro


de Estado da Educação e Saúde Pública.
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Luiz Eduardo Oliveira GRAMATIZAÇÃO E ESCOLARIZAÇÃO

GRAMATIZAÇÁO E ESCOLARIZAÇÁO da lingoa mais usada na costa do Brasa, de 1595, composta pelo
padre jesuíta José de Anchieta (1533-1597).
A formalização do ensino das línguas no mundo ocidental, De modo semelhante, é por volta do século XVIque Vincent,
ao relacionar-se com o desenvolvimento dos saberes Lahire e Thin (2001) situam "a invenção da forma escolar", carac-
metalinguísticos codificados, coincide com o aparecimento das terizada por uma inédita relação social entre "mestre" e "aluno";
primeiras gramáticas escritas em Latim e dedicadas, em sua maior pelo surgímento de um "tempo" e um "espaço" escolar específicos;
parte, ao ensino da Língua Latina. Tais gramáticas constituem pela organização e codificação dos conteúdos ensinados; pelas
um elemento de fundamental importãncia no processo de gramáticas e manuais de "Civilidades" e pela produção das "dis-
escolarização daqueles saberes, o qual ocorre no mesmo momen- ciplinas escolares". Julia (2001) situa também no século XVI a
to em que os Estados começam a burocratizar-se, seja em suas emergência de uma das primeiras figuras do processo de profissi-
relações políticas e comerciais com paises ou povos vizinhos, seja onalízação dos professores, com o desmembramento da antiga
em suas aventuras expansionistas. cristandade em "confissões plurais" nos países protestantes. Nos
Nessa perspectiva, pode-se inferir que o ensino das línguas católicos, tal processo ocorreria com os desdobramentos do Con-
- entenda-se das línguas estrangeiras, mortas ou vivas, para cujo cilio de Trento (1545-63). Ser cristão, segundo o autor, não se
aprendizado exige-se um saber metalinguístico, ao contrário das restringia mais a pertencer a uma comunidade, mas exigia tam-
línguas maternas, componentes de um saber elementar bém a capacidade de proclamar pessoalmente as verdades da fé e
(HÉBRARD, 1990) - familiar ou corporativo formaliza -se por volta a instrução sobre os princípios de sua religião.
do século XVI, época em que Auroux (1992) localiza o fenõmeno a Assim, pode-se dizer que, a partir do século XVI, o papel
que dá o nome de "gramatízaçâo'' 1 , possibilitado em grande parte educativo teria passado por um deslocamento das comunidades e
pela utilização dos caracteres móveis da imprensa. Com efeito, é das famílias para as instituições de ensino, as quais serviam tan-
naquele século que se verifica o aparecimento de grande número to aos interesses das duas Reformas quanto aos da burguesia em
de gramáticas, e de quase todas as línguas do mundo, cujas des- ascensão. O sistema de autoridade dos mestres sobre os discípu-
crições eram baseadas na gramática da Língua Latina, fato veri- los, diferente da "comunidade" entre os mesmos; a organização
ficado ínclusive no Brasil, como testemunha a Arte da grammatica das classes conforme as idades dos alunos; os procedimentos de
controle do tempo e de suas atividades; e fmalmente a implanta-
ção dos planos de estudos e do seu sistema de progressão, ou
I o conceito de "grarnatização". tal como o define Auroux (1992. p. 65) _ "o seriação, com o advento do exame, seriam os dispositivos funda-
processo que conduz a descrever e a instrumentar uma língua na base de mentais para a constituição da "forma escolar", ou da
duas tecnologias. que são ainda hoje os pilares de nosso saber
escolarização.
metalinguístico: a gramática e o dicionário" -. difere-se das primeiras
tentativas fllológícas de tradução e Interpretação de textos. assim como da A gramatização, por sua vez, ao fornecer elementos para a
grammatücé grega. que nasce na virada dos séculos V e IV antes de nossa padronização dos vernáculos europeus, criou uma rede de conhe-
era. Sua formulação tem origem no século II a.C .. com a Escola de Alexandría, cimentos Iínguístícos que se foi estruturando cada vez mais com
e associa-se ao conhecimento empírico dos poetas e prosadores. mas o
o acréscimo de cada região "descoberta", ou conquistada, repre-
sentido moderno. como corpo de regras que explicam como construir
palavras mediante paradígmas, para aprender a falar - e depois ler e escrever sentada pelos cartógrafos. Auroux (1992, p. 35-36) considera tal
-. é um advento mais recente e coincide com o Renascimento. processo a primeira revolução científica do mundo moderno, tão

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-, GRAMATIZAÇÃO E ESCOLARIZAÇÃO

importante na história da humanidade quanto a da físíca-mate- John Colet (C. 1467-1519) -ambos pertencentes à St. Paul's School
mática galileico-cartesiana. sua contemporânea, uma vez que as -. que obteve em 1540 a autorização real de Henrique VIII (1509-
ciências da natureza. apesar de alcançarem primeiro sua grande 1547) para estabelecer um método uniforme do ensino de gramá-
síntese teórica. com Isaac Newton (1642-1727). tiveram consequ- tica nas escolas (HOWATI. 1988. p. 32).
êncías práticas mais tardias. com a industrialização. Assim. mesmo
com um modelo de cíentífícídade dominante. que abarcava inclu- A Gramática latina e as lfnguas Nacionais
sive as "ciências humanas". as ciências modernas da natureza
não teriam sido possíveis sem a revolução técnico-linguística da Se a Gramática da Língua Latina faz da gramática. com o
gramatização. passar do tempo. uma técnica de aprendizagem da língua mater-
A aprendizagem de uma língua estrangeira. nesse sentido. na e. depois, uma técnica geral para a aprendizagem de todas as
pode ser considerada como a causa inicial do processo de grarnatí- línguas, transmítíndo-lhes a sua "latínídade'", a gramatização dos
zação, sendo a Língua Latina. cujo estatuto de "língua franca" no vernáculos é acompanhada por um processo de reforma, e até de
meio intelectual e político já havia se estabelecido desde a Idade recusa da Língua Latina. Na Inglaterra, os primeiros passos nes-
Média. a língua gramatical por excelência. No ensino. a Gramática sa direção foram dados ainda na segunda metade do século XVI,
da Língua Latina vai desempenhar um papel preponderante. uma com a publicação póstuma, em 1570, de The Schoolmaster, de Roger
vez que seu aprendizado representa a via de acesso principal à Ascham (1515-1568), obra designada pelo autor para educar os
educação do homem letrado. seja nas congregações religiosas. an- filhos de famílias nobres inglesas, adaptando-os às exigências da
tes e depois das duas Reformas. seja nas universidades. corte da rainha EUzabeth (1558-1603). Ascham, pela técnica da
A gramática utilizada pelos jesuítas. que exerceram um traduçào interlinear (double translation). dá igual ímportãncía ao
monopólio quase absoluto na instrução dos meninos de Portugal Latim e ao Inglês, fazendo com que o aluno adquira um conheci-
e seus domíníos-, era a Arte da gramática latina do padre Manoel mento de sua própria língua com seis procedimentos básicos:
Álvares (1526-1583). a qual suscitou uma série de publicações a "ímítatío", "translatío", "paraphrasís", "epítome", "metaphrasís" e
ela relacionadas: resumos. comentários e edições reformadas. como "declamatío" (HOWATI. 1988, p. 33-34).
a recomendada pelo Ratio Studiotum (1599). de António Vellez. Papel Mais radical, no entanto. é a proposta de Joseph Webb (c.
semelhante desempenhou na Inglaterra a Short introduction of 1560-1633). já no século XVII, tanto em An appeal to truth (1622)
qrammar, atribuída a William Lilly (1468-1522) e reformulada por quanto em Pueriles confabulatiunculae (1627). obras nas quais
defende a idéia de que, para se adquirir habilidades comunicati-
vas. é necessário apenas o "hábito". ou "costume". alcançado pe-
2 A obra dos jesuítas em Portugal e seus domínios deve ser examinada levando-
se em conta o caráter mísstonárío pelo qual passava a Igreja Católica no
século XVI, que adotou uma postura social e ativa, diferentemente das ordens
monásticas medievais, receptivas, acolhedoras e passivas em relação aos 3 o conceito de latlnidade, aqui, não se confunde com o sentido que lhe dá Vemey
novos adeptos. Ameaçado pelo avanço do reformísrno, bem como pela revolução (1949, p. 169-192), na sua Carta Terceira, isto é, como "expressão lIterãria da
luterana, o Papa Paulo IIJ (1534-63) convocou bispos, teólogos e cardeaís cultura latina", mas com a ídéía de "alfabetização" (AVROUX, 1992, p. 65):
para o Concílio de Trento (l545-1563), iniciando assim o que se convencionou um processo segundo o qual um locutor alfabetizado na Língua latina adapta
chamar de movimento da Contra-Reforma (HILSDORF, 2003, p. 4). aos seus caracteres e à sua escrita os sons que percebe de outros Idiomas.

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los exercícios de leitura, escrita e fala. As regras gramaticais, para ma, e Algebra, se podião adquirir aos muitos alunos, que se Gastão
o autor, seriam adquírídas em um estágio secundário, de modo em aprender Latim!" (apud CARVALHO,1959, p. 79).
"natural" e sem muito esforço por parte do mestre, uma vez que Em 1746 apareceu a primeira edição do Verdadeiro método
seus pressupostos já estariam apreendidos pelo aluno com o uso de estudar para ser útil à República, e a igreja: proporcionado ao
reiterado. Fato curioso na biografia de Webb é a sua Petition to the estilo, e necessidade de Portugal, exposto em várias cartas, escritas
high courtofParliament, de 1623, na qual pede ao parlamento in- pelo R. P. Barbadinho da Congregação de Itália ao R. P. Doutor na
glês uma patente para seu método de dispor graficamente, em Universidade de Coimbra, a mais arrojada empreitada pedagógica
seus compêndios, os diálogos latinos com a respectiva tradução do período. Escrita em forma epistolar e sob pseudõnimo, à ma-
no idioma dos alunos (HOWAIT, 1988, p. 35-37). neira do que fizera Locke em seus Thoughts conceming education,
No caso português, o movimento é mais tardio, e data do sé- de 1693, Verney dividiu sua obra em cinco volumes, planejando
culo XVIII,coincidindo com as atividades da Academia Portuguesa, uma reforma completa dos estudos portugueses, no que se de-
fundada na biblioteca de sua própria casa por Francisco Xavier de bruçava sobre todos os ramos do saber de sua época, desde os
0
Menezes, 04 Conde de Ericeira e tradutor da Arte Poética, de Boileau, estudos fílológícos - ou linguísticos e literários - até os fílosóflcos,
entre 1717e 1720 (RIBEIRO, 1871,p. 163-164). Apoiado nas ínfor- médicos, jurídicos, teológicos e canõnicos.
mações da Bibliotheca Lusitana (1741-1758), de Barbosa Machado Nas primeiras três Cartas, dedicadas, respectivamente, à
(1682-1772) e das Prosas Portuguesas (1728), de D. Rafael Bluteau, Língua Portuguesa, à Gramática Latina e à Latinidade -, é elabo-
António Salgado Júnior (1952, p. XXXi-XXXiii), no prefácio do quarto rada uma reformulação ortográfica do Português, com regras e
volume da edição por ele organizada do Verdadeiro método de estu- resultados muito peculiares, baseados na prosódia, ao mesmo
dar (1746), de Luíz Antônio Verney (1713-1792), divide em três os tempo em que é planejada uma sistematização do ensino da
estudos realizados pela academia lusitana: literários, históricos e gramática da Língua Portuguesa, para isso propondo o autor uma
filosóficos e científicos. Independentemente do que possa haver de mudança no método de ensino da Gramática Latina, com os pres-
história ou de memória em torno dessa academia, o certo é que a supostos então correntes de uma "gramática geral"."
ela estavam relacionadas, direta ou indiretamente, as principais
personagens que iriam liderar o processo de reforma da pedagogia
portuguesa no século XVIII.
A primeira delas é a de um padre teatino francês ligado à vida 4 De acordo com Auroux (1992, p. 88), a gramática geral "encontra seu apogeu
cultural lusitana, o já citado Rafael Bluteau (1638-1734), autor do no século XVIII em tomo dos enciclopedistas franceses", propondo-se a "ser a
ciência do que comum a todas as línguas", ou a "ciência das leis da linguagem
é

Vocabulário português e latino, primeira obra importante da lexico- às quais devem se submeter todas as línguas". Para ele, "a maior parte das
grafia portuguesa e fonte principal de onde procederam todos os de- gramáticas gerais se apóia principalmente sobre a língua do seu redator e
mais dicionários portugueses modernos, publicada em dez volumes sobre as línguas clássicas, latim e grego". Francisco J. C. Falcon (1993, p.
118), por seu turno, ao tratar dos "grandes temas" da Ilustração. afirma que o
entre 1712 e 1728. A segunda é a de Martinho de Mendonça de Pina "universo do discurso" ocupa um primeiro plano, "através de uma nova gramática,
e Proença (1693-1743), em cujo plano de estudos de sua obra mais espécie de tradução do modelo newtoníano no nível específico da lingüística",
conhecida, os Apontamentos para a educação de wn menino nobre, de e apóia-se no Foucault de Le mots et les choses para citar a Gramática geral
(1767) de N. Bauzée como exemplo clássico. Um precursor português teria
1734, não constava a Gramática Latina: "que importantes e
sido Amaro de Roboredo, como 'sugere o titulo do seu Methodo grammatical
agradaveis noticias de Geografia, Hístoría. Chronologia, Geome- para tcx1as as línguas, de 1619.

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Luiz Eduardo Oliveira GRAMATIZAÇÃO E ESCOLARIZAÇÃO

Suas observações a respeito da sintaxe, depois expostas na Ainda em meados do século XVIII, algumas idéias desse
introdução de sua Grammatica latina, publicada somente em 1790, movimento português e "estrangeirado" de reformulação do ensi-
podem ser assim resumidas: 1) todas as línguas têm a mesma no da Gramática Latina tomaram forma de lei. Com o Alvará Ré-
ordem natural de sintaxe; 2) a diversidade das línguas na sintaxe gio de 28 de junho de 1759, que extinguiu todas as "Classes" e
é acidental, e consiste em ocultar algumas palavras por elipse, ou "Escolas" dos jesuítas em todos os reinos e domínios de Portugal,
em transpô-Ias por hipérbato, ou em aumentá-Ias por pleonasmo, proibindo-os definitivamente de exercer qualquer atividade do-
e, algumas vezes, em suprir com uma só voz várias idéias, ou cente", reformou também os estudos de gramática da Língua La-
inventar novas partículas para reger diversos casos; 3) todas as tina. Grega. Hebraica e Retôrica. O Estado português. a partir de
línguas se podem reduzir ãs mesmas regras gerais e essenciais e, então, assumiu o controle da instrução.
especialmente, às mesmas da latina (VERNEY, 1949, p. 158-164).5 O texto do Alvará, porém, faz sugerir que os jesuítas foram
Outro pedagogísta lusitano do período é Antônio Nunes Ri- os grandes causadores do estado calamitoso em que se encontra-
beiro Sanches (1699-1783), que antes de escrever um Método para va o estudo das Letras Humanas, "base de todas as Scíencías".
aprender a estudar a medicina (1763), havia produzido, há três nos Reinos de Portugal e seus domínios. Inventando uma tradi-
anos, suas Cartas sobre a educação da mocidade, nas quais pla- ção de glorioso auge das letras antes de serem elas confiadas aos
nejou quatro tipos de escolas para a educação da juventude por- discípulos de Inácio de Loyola, o legislador - "EI Rei", sob as vistas
tuguesa: 1) as escolas reais estabelecidas nas cabeças de comarca, do Conde de Oeiras - ordenava que se restituísse "o methodo an-
para meninos que não eram nobres; 2) as escolas reais estabele- tigo. reduzido aos termos simples, claros e de maior facilidade que
cidas em Lisboa, Coimbra e Évora, preparatôrias para o ensino se pratica atualmente nas nações mais polidas da Europa" (POR-
universitário dedicado à mesma categoria de rapazes; 3) as esco- 1UGAL. 1830).
las para os meninos nobres em geral, concebida em termos de um Tal método dizia respeito à simplificação da Gramática Lati-
colégio militar; 4) e uma escola para os meninos nobres intelectu- na. que deveria ter as regras e exceções reduzidas e ser ensinada
almente bem dotados. O Latim, de acordo com Sanches, seria em Português, refletindo uma polêmica que repercutia em Portugal
ensinado nas escolas dos tipos 1, 2 e 4, mas não nas do tipo 3, desde o início da década de cínquenta, principalmente depois da
pois "pode se duvidar com razão se todos os educandos devem publicação. em 1752, do Novo método da gramática latina reduzido a
aprender sem distinção a Língua Latina, e as Sciencias mais ele- compêndio para uso das escolas da Congregação do Oraiôno. com-
vadas. He certo que devia haver excepção nesta materia; e con- posto pelo Padre Antônio Pereira. A obra foi adotada pelo Alvará
formar o ensino ao gênio, inclinação e engenho dos educandos" como livro a ser usado em substituição à Arte da gramática latina
(apudCARVALHO, 1959, p. 82). de Manoel Alvares. tomada proibida (art. 8.°), do mesmo modo que
as obras de seus comentadores ou reformadores.
A "Instrução para os Professores de Gramática Latina". no
5 As inovações sintáticas propostas por Verney, como observa António Salgado seu parágrafo dezesseis, incentivava o uso da Língua Portugue-
-Júníor (1949, p. 159). em nota de rodapé, e o próprio Verney (p. 144-151),
ao tratar das "modernas orientações" da Gramática Latina, Já haviam sido
expostas pela maioria dos gramáticos modernos, tais como Escalígero (1484-
1558), Sctoppío (1576-1649) e Vóssío (1577-1649). mas parece ser a Minerva 6 o jesuítas foram oficialmente expulsos dos reinos e domínios de Portugal
(1587) de Francisco Sanches (1523-1601) seu modelo principal.
com o Alvará de 3 de setembro de 1759.

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GRAMATlZAÇÃO E ESCOLARIZAÇÃO
Luiz Eduardo Oliveira

sa: o Latim não poderia ser falado nas "Classes", para evitar os correcção das línguas nacionais um dos objectos mais attendiveis
"barbarismos", devendo os professores pratícá-lo depois, quando dos povos civilisados, por dependerem della a clareza, a energia, e
os estudantes tivessem um conhecimento suficiente da língua, a magestade, com que se devem estabelecer as Leis, persuadir a
fazendo-os preparar em casa algum "Diálogo ou História" para ser verdade da religião, e fazer uteis, e agradaveis os Escritos" (POR-
repetido na classe. Os modelos aconselhados para tal exercício TUGAL,1858).
eram Terêncio e Plauto, "como vão" na Coleção dos diálogos de Ao referir-se às escolas de ler e escrever, o legislador obser-
Luís Vives, na Coleção das palavras familiares portuguesas e lati- vava que, "até agora", se praticava a lição de processos litigiosos,
nas feita por António Pereira, da Congregação do Oratório, e nos e sentenças, "que somente servem para consumir o tempo, e de
Exercícios da língua latina e portuguesa acerca de diversas coisas, costumar a mocidade ao orgulho, e enleios do foro", mandando,
ordenados pela mesma congregação (PORfUGAL, 1830). em seu lugar, se ensinar por meio de impressos, "ou manuscriptos
Nos meses e anos subsequentes ao Alvará de 1759, foram de diversa natureza". Indicava para compêndio o "Catecismo pe-
expedidas outras medidas regulamentando as Aulas Régias de queno do Bispo de Montpellier Carlos Joaquim Colbert, mandado
Humanidades, o que levou a htstortografía a determinar que, num traduzir pelo Arcebispo de Evora [D. João Cosme da Cunha, futu-
primeiro momento, as Reformas Pombalinas da Instrução Pública ro Cardeal da Cunha) para instrução dos seus díocesanos" (POR-
não atingiram o ensino elementar, tornando-se este um objeto de TUGAL,1858).7
legislação somente com a reforma dos Estudos Menores efetuada
pelo Alvará de 6 de novembro de 1772, que criou as escolas públi-
cas de ler, escrever e contar no Reino e as Aulas de Filosofia.
No entanto, não se pode deixar de ressaltar o papel da Lei
do Díretórío (de 3 de maio de 1757, confmnada pelo Alvará de 27
de agosto de 1758), primeira tentativa do Estado português de
instituir escolas para os índios, em substituição ao controle pe-
dagógico da Companhia de Jesus, no Grão-Pará. O Díretórío esta-
belecia, como "base fundamental da Civilidade", a proibição do
uso do idioma da terra e impunha a Língua Portuguesa como idi-
oma oficial, criando escolas, para meninos e meninas, de Doutri-
na Cristã, Ler e Contar - nas escolas de meninas, o Contar era
substituído pelo "fiar, fazer renda, costura", e mais os "mínísteríos 7 A primeira edição lisbonense da obra acima referida, de acordo com Andrade
proprios daquelle sexo" (PORTUGAL,1830). (1978, p. 15-16), saiu em 1765, pela Oficina de Míguel Manescal da Costa,
com o título Instru.cçoens Gerais emfonna de catecismo, chegando, com mais
Com o Alvará de 30 de setembro de 1770, EI-Rei ordenou ou menos dezoito edições, até 1884, e persistindo como compêndio principal
que "os Mestres da Língua Latina", quando recebessem em suas de formação religiosa usado nas escolas de ler e escrever, até a introdução
classes os discípulos, os instruíssem "durante seis meses" na dos conceitos de civilidade, urbanidade e decência. que se deu pela adaptação,
em 1855, do Novo Methodo para apprender a ler, segundo o methodo de
Gramática portugueza composta por António José dos Reis Lobato,
Pestalozzi. Conforme o autor, apoiado na História da Igreja em Portugal, de
oficializando assim o ensino de Português em seus reinos e domí- Fortunato de Alrneída, o Catecismo foi mandado traduzir peJo próprio Conde
nios. As razões da lei eram alegadas logo no início, "sendo a de Oelras, que' o havia difundido no Reino e no Brasil ainda em 1765.

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\ GRAMATIZAÇÃO E ESCOLARIZAÇÃO
Luiz Eduardo Oliveira

fi ~ ~
:

: Si
A constituição das Ifnguas como disciplinas escolares

Apesar de todo movimento de reforma e recusa do ensino da


Gramática Latina, o Latim se manteve no plano dos estudos se-
cundários, ou preparatórios, no Brasil, até a década de 1950, sendo
sua carga horária maior ou compativel com a das Línguas Vivas,
depois de sua introdução no plano oficial daqueles estudos
(VECCHIA& LORENZ, 1998)8, além de ser uma matéria obrigató-
ria para se ter acesso a qualquer um dos estudos superiores, em
Portugal ou no Brasil. Ajustificativa de sua permanência no cur-
rículo, além de se basear em seu caráter erudito, ou de "cultura
geral", relacionava-se com o seu papel de "ginástica mental", isto
é, como um meio de desenvolver o intelecto dos alunos mediante a
'GRAM:I memorização e análise de regras e paradigmas, através de exercí-
cios de versão e tradução. Assim, a aprendizagem da Língua Lati-
M'JTICJ na, além de ajudar a pensar melhor, tornava mais preciso o co-
da lingua 'Por- nhecimento da língua materna.
tllguefa· Quando expediu os programas do curso fundamental do
OLYSSJPPONE.
Ensino Secundário, pela Portaria de 30 de junho de 1931, nos
Apuef Lodouicum'Rotori- termos do artigo 10 do Decreto n. 19.890, de 18 de abril do mesmo
gm ,TyJ'OgYal'bum. ano, assim se expressava Francisco Campos, Ministro de Estado
.M. D. ,XL.
da Educação e Saúde Pública, em nome do Governo Provisório,
quanto às "instruções pedagógicas" do ensino do Latim:

o objetivo principal do estudo do latim é o fllológíco, isto


é, o conhecimento da vida econômica, social e politica dos

8 O plano oficial desse tipo de ensino. no Brasil. foi instituído em 2 de dezembro


de 1837. quando o regente interino Bemardo Pereira de Vasconcelos decretou
a conversão do Seminário de São Joaquim em Imperial Colégio de Pedro Il,
primeira instituição de estudos secundários. criada na corte e mantida pelo
Estado para servir de modelo às demais. A partir de então. seu programa e
carga horária passaram a ser Instituídos por lei. sendo reestruturados e
,~. -~~ ••"'., ..;o. '="'-"'---';""-');.1
.,...11 redlstribuídos pelos sucessivos decretos que reformaram o estabelecimento
(OLIVEIRA. 1999).
Grammatica da língua portuguesa (1540)
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Luiz Eduardo Oliveira GRAMATIZAÇÃO E ESCOLARIZAÇÃO

romanos, e, através destes, o conhecimento do mundo an- Filadélfia em 1755, e outra equivalente tinha se estabelecido em
tigo. Simultaneamente, porém, com a realização de tal fi- Harvard em 1806 (GOODSON, 1995, p. 178).
nalidade, desempenha o ensino do latim papel saliente na No caso francês, depois do declínio que começou a ter desde
educação do pensamento, pois que oferece ensejo a que o o século XVI, acompanhando a já referida tendência da gramatí-
estudante adquira, com os exercícios que terá de fazer, os zação dos vernáculos europeus, o Latim voltou a ter uma forte
necessários hábitos de pensar célere, profunda e cuidado- ascensão no século XIX, na época de Jules Ferry (1808-1880).
samente. Acresce ainda que o latim serve ao melhor conhe- seja como um tipo de formação que conferia um grau de nobreza
cimento das línguas romãnicas, enriquecendo-lhes o voca- ao indivíduo, representando assim um passaporte social relevan-
bulário e tornando-o mais preciso e exato (apud BICUDO, te (CHERVEL e COMPERE, 1999, p. 152). seja como uma espécie
1942, p. 142). de "ginástica mental" (CHERVEL, 1990, p. 179). tomando-se qua-
se um sínônímo de Ensino Secundário, uma vez que os estabele-
É interessante observar que o ensino das línguas estran- cimentos dedicados a esse tipo de instrução vão se caracterizar
geiras modernas na Inglaterra sofreu muitos preconceitos por ser pela inclusão, no seu plano de estudos, da Língua Latina
tido como um tipo de instrução mais adequado ao público femini- (CHERVEL, 1992, p. 102-105).
no, sendo as meninas bem melhores nesta matéria do que os Se, para que possa ser considerada como disciplina esco-
meninos, como mostra um relatório de Cambridge de 1868. Mes- lar, uma matéria de ensino deve conter quatro componentes prin-
mo tendo as Línguas Vivas entrado nos estabelecimentos de Ins- cipais - a saber: um conteúdo explícito do conhecimento, exposto
trução Secundária a partir da década de cinquenta do século XIX, pelos professores e compêndios; uma bateria de exercícios, que
com o estabelecimento do sistema de exames públicos controla- juntamente com os conteúdos explícitos formam o "núcleo" da dis-
dos pelas Universidades de Oxford e Cambridge, o estatuto aca- ciplina; "métodos pedagógicos" e exames, os quais, com suas res-
dêmico das línguas mortas, ou clássicas, que tinham como su- trições específicas, introduzem alterações na prática disciplinar
porte as Grammar Schools - as quaís davam acesso privilegiado (CHERVEL, 1990) -, a constituição das línguas, estrangeiras ou
aos cursos superiores e não ensinavam as Línguas Vivas -, se nacionais, como disciplinas escolares, no século XIX, obedece a
manteve intacto, uma vez que os Locals - como se chamavam os um processo idêntico ao do Latim, pois o seu núcleo, composto
Exames Públicos - eram desprestígíados por aceitarem candida- pelos seus dois primeiros componentes, em sua parte teórica ou
tos de países do "terceiro mundo", como a Jamaica, e do sexo fe- expositiva, encontrava-se já formulado pela Gramática Latina,
minino (HOWAIT, 1988, p. 133-134). cujos termos e classificações são também usados no ensino das
Nos Estados Unidos, apesar dos ideais de Benjamin Franklin Línguas Vivas. Os exercícios, da mesma forma, centrados inicial-
(1706-1790), em um panfleto de 1751 intitulado Id.ea of the English mente na leitura, pronúncia, tradução, versão e composição, ti-
School; no qual havia elaborado um programa de instrução lín- nhamjá como suporte uma longa tradição, pois a Decisão de 1809,
guístíca e literária vernacular, antecipando assim a idéia da dis- que criou as primeiras cadeiras de Línguas Vivas da América por-
ciplina, o Inglês sempre se manteve em níveis mais baixos e dota- tuguesa (apud. OLIVEIRA, 2006). mandava que os professores se-
do de menos recursos do que o Latim ou o Grego durante todo o guissem, quanto ao "tempo", "horas das lições" e "attestações" do
século XIX, mesmo levando-se em conta que uma "cátedra" de aproveitamento dos discípulos, o mesmo que se achava estabele-
"língua e oratória inglesa" havia sido criada na Universidade da cido, "e praticado", pelos professores de Gramática Latina.

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Luiz Eduardo Oliveira
GRAMATIZAÇÃO E ESCOLARIZAÇÃO

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42
43
OS PROFESSORES RÉGIOS
DE GRAMÁTICA LATINA E RETÓRICA:

notas para o estudo das origens da proflssãc docente no Brasil'

Todos os homens sábios uniformemente confessam que deve


ser em vulgar o método para aprender os preceitos da Gra-
mática, pois não há maior absurdo que intentar aprender uma
língua no mesmo idioma que se ignora.. Também assentam
que o método deve ser breve, claro efácU, para não atormen-
tar os estudantes com uma multidão de preceitos que, ainda
em idades maiores, causam confusão. Por essa razão, so-
mente devem usar os Professores do método abreviado feito
para uso das Escolas da Conqreqaçõo do Oratória, ou daArte
de Gramática Latina reformada por Antonio Felix Mendes, que
tem as referidas circunstâncias.··

• Versão anterior deste capítulo foi publicada em 2003, com o título de


"Considerações sobre as figuras dos professores régios de línguas clássicas
e modernas: notas para o estudo das origens da profissão docente no Brasil
(1759-1809)", na Revista do Mestrado em Educação da Universidade Federal
de Sergípe, n. 5, pp. 103-124 .
•• "Instruções para os Professores de Gramática Latina. Grega, Hebraica e de
Retórica", publicadas em 7 de julho de 1759.
Luiz Eduardo Oliveira
GRAMATIZAÇÃO E ESCOLARIZAÇÃO

A forma escolar e a profissão docente cia, tal como o entende Philipe Artes: e a inauguração da "socieda-
de disciplinar", no conceito foucaultiano do termo. Na consolidação
o conceito de forma escolar, segundo seus principais de- de tais fatores, muito teriam contribuído os colégios administrados
fensores - Guy Víncent, Bernard Lahire e Daníel Thin -, em um pelas congregações religiosas, responsáveis pela conformação de
artigo de 1994, foi elaborado no fmal dos anos de 1970, a partir uma nova instituição educacional (NÓVOA, 1991, p. 243-244).
dos trabalhos realizados pelo "Grupo de Pesquisa sobre a Sociali- Assim, a partir do século XVI, o papel educativo teria passa-
zação", ligado à área de Sociologia da Educação, da Universidade do por um deslocamento das comunidades e das famílias para a
Lumíêre Lyon 2, na França, que, numa "perspectiva de sociologia instituição escolar, que por sua vez servia tanto aos interesses
histórica", "írredutível a uma hístortograíía das instituições esco- das duas Reformas quanto aos da burguesia em ascensão'.
lares", desenvolveram o uso que dele fizeram Reger Chartier, Vincent, Lahire e Thin (2001), por sua vez, ao colocarem em pri-
Domíruque Julia e Marie-Madeleine Compére em L'Éducation en meiro plano o confronto entre "formas escriturais-escolares e for-
France duXVI auXVIII siêcle, obra de 1976 (VINCENT, LAHlRE e mas sociais orais", também situam a "invenção" da forma escolar
THIN, 2001, p. 8).
nos séculos XVI e XVII, relacionando-a às formas sociais-escriturais
Tal é a versão que também nos conta António Nóvoa, pro- de transmissão do conhecimento e de exercício do poder. Segun-
fessor da Universidade de Lisboa, quanto à origem do conceito, do os autores, a análise "sócíox-genétíca" do processo de pedago-
em sua proposta "Para o estudo sócio-histórico da gênese e de- gízação das relações sociais de aprendizagem - forma inédita de
senvolvimento da profissão docente", segundo capítulo de Le temps relação social entre mestre e aluno -; do surgímento de um tempo
de professeurs: analyse sócio-historique de Ia profession e de um espaço escolar específicos e da organização e codificação
enseígnante au Portugal (XVIII-XXsíêcle), de 1987: dos conteúdos ensinados, através de gramáticas e manuais de
civilidades e da produção das disciplinas escolares, é condição
Os autores de L'Éducation en France duXVl auXVlIl siêcle, necessária para o estabelecimento de relações entre a forma es-
após haverem constatado que, contrariamente àquílo que colar e outras formas sociais, assim como para o aprofundamento
se tomou evidente para as sociedades contemporâneas, a da questão das "culturas escritas".
educação não é necessariamente escolartzação, afirmam que Relacionando a ausência de uma "forma propriamente es-
"os três séculos da época moderna são marcados em todo o colar" à inexistência de uma cultura escrita, em um artigo de 1995,
Ocidente pelas conquistas da forma escolar em detrimento Julia (2001, p. 28) trata do lento processo de profissionalização
de alguns modos antigos de aprendizagem" (NÓVOA, 1991, das figuras do mestre de escola elementar e do mestre do campo:
p.242).

Para o autor português, a gênese e o desenvolvimento da for-


ma escolar devem ser relacionados a quatro fatores: a instauração
I De acordo com Nóvoa (1991, p. 242). "a ação da burguesia. classe
de uma "ética protestante do trabalho", no sentido weberiano da revolucionária por excelência. vai ser orientada por um conceito novo que
expressão; a efetivação de normas regulando o uso do corpo (asseio, será totalmente incompreensível para um homem da Idade Média; o de
higiene, etc.), processo nomeado por Norbert Elias como "a civiliza- plasticidade. Este conceito forma um todo com a idéia de que o mundo é
moldável. de que o homem é trW1Sjormável: portanto. de que se pode fazer
ção dos costumes"; o surgímento de uma nova concepção de infãn-
uma sociedade diferente".

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GRAMATIZAÇÃO E ESCOLARIZAÇÃO
Luiz Eduardo Oliveira

Em países católicos, pelo menos a aprendizagem das verda- Segundo o autor, é curioso o aparente paradoxo que se dá
des da salvação pôde ser feita por via puramente oral, atra- com o fím do Antigo Regime, pois à liberação das forças produti-
vés de um catecismo aprendido de cor, freqüentemente mes- vas e das relações de produção dos entraves coorporativos
mo em dialeto, posto que a Igreja, diferentemente dos Esta- corresponde um controle mais rigoroso dos processos educativos.
dos, privilegia a língua vemácula local em detrimento da Tal controle tem como iniciativa principal a substituição de um
língua imposta pelo poder central: que necessidade então de corpo docente religioso, sob a tutela da Igreja, por um corpo laíco,
um professor, se não se faz sentir a necessidade da escrita? sob a tutela do Estado, sem que as antigas normas e valores da
profíssão sejam de todo descartados: "o modelo do docente perma-
Nóvoa, no referido artigo, afírma que é no século XVIII,quan- nece muito próxírno daquele do padre" (NÓVOA,1991, p. 250).
do o Estado toma o lugar da Igreja nas atribuições educativas, Dessa forma, apesar de ter sua origem, ou suas "primeiras
que se inicia o processo de institucionalização da profíssâo do- ftguras". ainda nos séculos XVI e XVII, antes, portanto, da emer-
cente. Não que se tratasse de uma ruptura com o modelo educa- gência dos sistemas estatais de ensino, a profissão docente era
cional que vinha se desenvolvendo nos dois séculos anteriores, então exercida de forma subsidiária e não especializada. Mesmo
através de um novo projeto pedagógico, mas de uma espécie de assim, os jesuítas e os oratorianos foram os primeiros a se con-
renovação dos currículos e programas, e principalmente de um flgurar como "congregações docentes", uma vez que organiza-
controle estatal concernente a todo o conjunto do sistema de en- ram todo um conjunto de normas e valores próprios do magisté-
sino, inclusive à seleção e recrutamento do pessoal docente: rio, além de um corpo de saberes e de um savoir-jaire (JULIA,
2001, p. 26-27).
o processo de estatização da escola não começa senão por A novidade, no processo de estatização do ensino, foi o es-
volta do fim do século XVIII; ele é indissociável: do movi- tabelecimento de uma regulamentação jurídica de procedimen-
mento secular de emergência do Estado-Nação que se de- tos uniformes na seleção e designação dos docentes, que pas-
senvolve nos séculos XVIIIe XIX; de uma transformação pro-
sam a ser funcionários do Estado. O ingresso à profíssáo. a par-
funda das concepções relativas à moral, que tendem a se tir desse momento, dependerá obrigatoriamente de um documento
libertar de uma definição estritamente religiosa; e da arran- escrito, concedido através de exame ou concurso público. Os can-
cada da revolução industrial e da emancipação do capital didatos deverão preencher certo número de pré-requisitoS: ha-
industrial dos entraves coorporativos (NÓVOA,1991, p. 247).2 bilitações literárias, idade determinada, bom comportamento mo-
ral e bons antecedentes, com folha passada pela autoridade po-
licial ou clerical:
2 Não podemos esquecer do papel inovador. na França. das escolas urbanas
desenvolvidas pelos lnnãos das Escolas Cristãs no final do século XVII. ou
das petites écoLes e dos Colégios do Antigo Regime (VINCENT.LAHlRE e Os reformadores do século XVIIIcompreenderam que o con-
THIN. 2001. p. 12). Para Julia (2001. p. 28), "Jean Baptlste de La Salle trole do recrutamento dos corpos docentes era a única
pode bem ser considerado um inovador incômodo. que rompe com a tradição maneira de assegurar sua renovação e de os colocar a servi-
das congregações religiosas quando decide fundar um instituto de leigos -
os lnnãos das Escolas Cristãs não são padres - que se excluem, por vocação. ço de uma nova ideologia. A diversidade de situações edu-
da cultura das elites para se consagrarem às escolas de caridade destinadas cativas do Antigo Regime não serve mais aos desígnios das
aos mais pobres: eles não ensinarão o latim, mas somente os rudimentos classes dirigentes: é preciso subtrair os docentes à ínfluên-
do ler, do escrever e do contar, e eles o farão em francês".
49
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Luiz Eduardo Oliveira GRAMATIZAÇÃO E ESCOLARIZAÇÃO

cia das populações e dos notáveis locais e os considerar adoptadas en los 53 nombramientos y en Ias 41 oposiciones
como um corpo do Estado (N6VOA, 1991, p. 251). que tuvieron lugar en dicho periodo puso al decubierto Ias
distorsiones y quiebras producidas en el procedimiento le-
Assim, a instituição da licença ou permissão para ensinar galmente estabelecido bien a causa de Ias relaciones de
vai consolidar o processo de profissionalização da atividade do- patronazgo y clientelismo existentes, o de afinidades
cente, estabelecendo um cãnone de competências técnicas e in- profesionales, territoriales o ideológicas, bien a consecuencia
telectuais, bem como um esboço de carreira, e servindo de ins- de Ias estrategías corporativas e individuales generadas por Ia
trumento de afirmação dos professores enquanto grupo profissi- rnisma estructura institucional del nuevo centro docente -
onal na luta pela melhoria do seu status social. Nessa luta vai con sus pasantes e sustítutos - y Ia emergencía de un nuevo
residir toda ambíguídade da profissão docente: se por um lado sistema educativo nacional (V1NAOFRAGO, 1998, p. 170).
os professores estão submetidos a um controle político-ideológi-
co como servidores do Estado, por outro têm os meios necessári- Como sugerem as referências aos autores acima citados, as
os à produção de um discurso próprio, o que os faz ao mesmo possibilidades ínvestígatívas da relação entre forma escolar e pro-
tempo integrados e autônomos, a meio caminho entre o funcio- fissão docente são muito amplas, principalmente no Brasil, onde
nário público e o profissional livre, situando-se em um cruza- a hístoríografta educacional só recentemente começou a se inte-
mento de interesses sócio-econômicos contraditórios e desem- ressar pelos séculos anteriores ao XVIIIe XIX, períodos até então
penhando, ao mesmo tempo, a função de agentes políticos e agen- tratados de maneira anacrônica e marcados por algumas inter-
tes culturais. pretações consensuais que ainda se reproduzem em nosso meio
Ao salientar o papel relevante que desempenham os pro- acadêmico. O conceito de forma escolar, ao hístorícízar a escola
fessores na configuração de uma cultura escolar, principalmen- como instituição social, política e cultural, a desnaturaliza, for-
te em sua relação com três aspectos que guardam um estreito necendo elementos de operacionalização bastante convincentes
vinculo com tal cultura - sua formação, seleção e carreira -, para quem se propõe a estudar o processo de institucionalização
Viiiao Frago, em artigo de 1998, ilustra a referida ambíguídade de um dos seus principais agentes ou sujeitos: o professor.
em termos de quebras e distorçôes de procedimentos legalmente
instituídos, a partir de uma pesquisa sobre a origem dos corpos As Reformas Pombalinas e os Professores Régios de
docentes da Espanha, na qual aborda os processos de seleção e Gramática Latina e Ret6rica
designação dos professores dos Reales Estudios de San Isidro,
primeiro centro estatal de educação secundária e superior do Em Portugal e seus domínios, tal processo se dá, e de forma
país, desde sua criação, em 1770, depois da expulsão dos jesuí- pioneira na Europa, na segunda metade do século XVIII,mais es-
tas, até 1808: pecificamente através das célebres Reformas Pombalinas da Ins-
trução Pública, iniciadas com o Alvará de 28 de junho de 1759,
Un examen detenido de los requisitos exigidos, de los ejercícíos que reformulou os chamados Estudos Menores, dividindo-os em
realizados, de los critérios de selección expresos o tacitos dois níveis: o primeiro representado pelas Aulas Régias de Ler,
seguidos, de Ia íntervecíôn en el proceso de autoridades po- Escrever e Contar e o segundo pela Gramática Latina, Grega,
líticas, religiosas o administrativas, y de Ias deciosiones Hebraica e a Retórica.

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Luiz Eduardo Oliveira GRAMATIZAÇÃO E ESCOLARIZAÇÃO

Para Laerte Ramos de Carvalho (1952, p. 60-61). um dos simples oposição entre um método antigo e outro novo de se estu-
autores brasileiros que mais se debruçaram sobre o tema, o Alvará dar Gramática Latina, uma vez que os jesuítas, apesar dos su-
de 28 de junho de 1759 não tem outro sentido que não o de man- postos atrasos da gramática encomendada pela Raiio Studiorum-
ter a continuidade de um trabalho pedagógico que a expulsão a Arte Grande e Pequena de Álvares, reformada por Antónío Vellez
dos jesuítas ameaçava comprometer. Tendo motivações muito -, tinham consciência em relação à necessidade de atualização e
mais circunstanciais e políticas do que filosóficas ou pedagógi- simplificação da Gramática (CARVALHO,1952, p. 55).
cas, o documento, segundo o autor, acompanhou um movimento Mas a discussão talvez tenha sido provocada pelo Verdadei-
geral de reformulação jurídica do Estado português durante o ro método de estudar, obra publicada em 1747 na oficina de António
reinado de D. José I (1750-1777). em nome de um iluminismo Baile, em Valença, na Itália, de autoria de Luís Antónío Verney e
que se configurava como um misto de despotismo esclarecido e caracterizada pela insistência sobre o "Plano Ortográfico" e a "Gra-
regalísmo, mática Portuguesa", O autor defendia a idéia de que o atestado de
Visando formar o cristão útil aos seus propósitos, o gabine- maioridade da Língua Portuguesa seria dado com sua unificação
te de D. José I, representado pela figura de Sebastião José de línguístíca. isto é, com a valorização da "índole" da Língua Nacio-
Carvalho e Melo, nomeado Conde de Oeiras em 1759 e Marquês nal, para isso retomando uma das principais teses do pensamen-
de Pombal dez anos depois", não feriu os interesses da fé, pois to pedagógico da época, representado por autores como Rolin, Lamí,
contou com notáveis da vida religiosa para a realização de seus Fleuri, Walch e "todos os metodístas": estudar o Latim por inter-
fins políticos. Quanto aos jesuítas, ao que parece, não havia o pro- médio do vernáculo, ou "em vulgar" (ANDRADE,1978, p. 167-182).
pósito sistemático e previamente estabelecido de cornbatê-los, ten- Nas "Instruções para os Professores de Gramática Latina, Grega,
do sido eles expulsos por outras razões, tais como a sua isenção de Hebraica e de Retórica", publicadas em 7 de julho de 1759, assim
taxações e impostos, seu monopólio dos índios e da educação e sua diz a lei, em seu parágrafo IV:
reação ao Tratado de Madri, de 1750, fatores que de algum modo
estorvavam a nova política assumida pelo governo português, de- Todos os homens sábios uniformemente confessam que deve
sejoso de se colocar em condições econõmicas que lhe permitissem ser em vulgar o método para aprender os preceitos da Gra-
competir com as nações estrangeiras (MAXWELL,1996, p. 72-73). mática, pois não há maior absurdo que intentar aprender
Desse modo, a polêmica entre "meto distas" e "alvarístas". uma língua no mesmo idioma que se ignora. Também as-
ou entre oratorianos e jesuítas, transcende as circunstáncias da sentam que o método deve ser breve, claro e fácil, para não
reforma, além de se mostrar muito mais complexa do que uma atormentar os estudantes com uma multidão de preceitos
que, ainda em idades maiores, causam confusão. Por essa
razão, somente devem usar os Professores do método abrevi-
ado feito para uso das Escolas da Congregação do Oratórío,
ou da Arte de Gramática Latina reformada por Antonio Felix
3 Segundo Maxwell (1996, p. 1), em sua biografia do ministro plenipotenciárto
de D. José I, o Marquês de Pombal (1699-1782), que "para todos os efeitos Mendes, que tem as referidas circunstãncias.
governou Portugal entre 1750 e 1777", para alguns, "é uma figura do
despotismo esclarecido, comparável a Catarína 11 da Rússia, a Frederico 11
A Gramática Latina era tida por Verney como requisito fun-
da Prússta e a José 11da monarquia austríaca". Para outros, "não passa de
um filósofo inexperiente e de um tirano maduro". damental para se estudar as demais línguas - inclusive a Portu-

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luiz Eduardo Oliveira GRAMATIZAÇÃO E ESCOlARIZAÇÃO

guesa. Assim. além de ser considerada a "base de todas as ciênci- sam a ser funcionários e representantes do Estado português.
as" no texto do Alvará, se constituía como ponto de apoio do que Com o ingresso à sua profissão regulamentado. dependente que
Auroux (1992) define pelo conceito de "gramatízação". que se con- estava da aprovação e licença do Diretor dos Estudos. os profes-
figura na idéia de uma "Gramática Geral". De acordo com Carva- sores de Gramática Latina. assim como os de Grego. Hebraico e
lho (1952. p. 49). o lugar ocupado pelo Latim nos estudos da épo- de Retórica. deveriam ter o privilégio de nobres. "incorporados em
ca retomava. de certa forma. a tradição humanística do século direito comum. e especialmente no Código Título de professoribus
XVI. abrindo à visão dos estudantes os amplos horizontes da cul- et medias",
tura latina através dos autores clássicos. acomodados aos inte- Vale a pena observar que. com o Alvará, a cadeira de Retó-
resses religiosos pelas "seletas". Desse modo. de "língua das esco- rica tomou-se obrigatória para o ingresso na Universidade de
las" que era na tradição escolástica. e de "língua douta" que pas- Coímbra, depois de contados um ano e meio dos dias em que se
sou a ser no humanísmo, o Latim se transforma na principal fi- estabelecessem tais estudos em Lisboa. Coímbra, Évora, Porto e
nalidade de um ensino destinado a enfatízar a sua expressão cul- "em cada uma das outras Cidades e vilas. cabeças de Comarca".
tural e histórica. Em relação ao Grego. se o estudante frequentasse durante um
O Alvará estabeleceu também o cargo de Diretor dos Estu- ano suas aulas "com aproveitamento notório". comprovando seu
dos. autoridade responsável por sua execução e a quem os pro- estudo através de atestados passados pelos professores "e quali-
fessores estavam submetidos. De sua aprovação dependia poder ficados pelo Diretor Geral". poderia levar em conta o referido ano
alguém exercer o magistério. depois do exame de suas qualidades na Universidade em qualquer um dos quatro cursos: Teologia.
morais e intelectuais. Ao tratar do Professor de Gramática Latina. Leis. Cãnones e Medicina.
assim se expressa o legislador. em seu parágrafo X: A "Instrução para os Professores de Gramática Latina". logo
em seu parágrafo primeiro. deixa transparecer o papel da "boa
Em cada uma das vilas das províncias se estabelecerão um educação e ensino da mocidade" na conservação da "união cris-
ou dois professores de Gramática Latina. conforme a maior tã" e da "sociedade civil". Um dos meios para se alcançar tão no-
ou menor extensão dos Termos que tiverem. aplicando-se bre fim é oferecido pela "ciência da Língua Latina". razão por que
para pagamento deles o que já se lhes acha destinado por deveriam os mestres empregar meios que se caracterizem pela
Provisões reais ou Disposições particulares. e o mais que brevidade e pela eficiência. para "excitar em os que aprendem um
Eu for servido resolver. e sendo os mesmos professores elei- vivo desejo de passarem às ciências maiores" (§ IV).
tos por rigoroso exame feito por comissários deputados pelo Quanto aos livros indicados. além do já referido método abre-
Diretor Geral. e por ele consultados pelos autos das elei- viado para uso das Escolas da Congregação do Oratório, e da Arte
ções. para Eu determinar o que me parecer mais conveni- de Gramática Latina reformada por Antonio Felix Mendes. o legis-
ente. segundo a instrução e costumes das pessoas que hou- lador adota a Minerva de Francisco Sanches, para que os profes-
verem sido propostas. sores pudessem suprir. na explicação aos discípulos, os preceitos
do método abreviado por que deveriam aprender, podendo usar,
Com tal disposição. a profissão docente se institucionaliza na falta daquele compêndio. da Gramática de Vossío, Scíoppío,
em Portugal e seus domínios. com a regulamentação das Aulas Port Royal "e de todas as mais deste merecimento. para a sua
Régias e da seleção e nomeação dos Professores Régios. que pas- instrução particular e não para gravar aos discípulos" (§ V).

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Luiz Eduardo Oliveira GRAMATIZAÇÃO E ESCOLARIZAÇÃO

São recomendadas também as Histórias seletas de Heuzet, fessores deveriam seguir o conselho de Quintiliano, "nas suas
"Professor do Colégio de Beauvaís", preferindo-se, porém, a elas, "a Instituições", tirando os que "só servem para mortificar aos prin-
excelente Coleção, feita em Paris no ano de 1752, por Chompré, cipiantes, e inspirar-lhes um aborrecimento ao estudo" (§ XIV).
para uso da mocidade cristã, que logo no primeiro tomo recebe de O parágrafo seguinte trata do "tempo" em que os professo-
um autor latino, puro e católico os princípios da História da Reli- res dariam os 'Temas", que seriam constituídos de "Histórias bre-
gião, em estilo claro e corrente". O legislador ainda ressalta que o ves ou Máximas úteis aos bons costumes", além de "agradáveis
uso de tais coleções não poderia ser obstado pela consideração de pinturas das virtudes e ações nobres". Tais temas deveriam ser
que "por elas não conseguem os Estudantes uma perfeita noticia dados em dias alternados, para que os estudantes os compuses-
da Fábula e da História", pois o que se pretendia é que eles adqui- sem em casa, fazendo-o na classe em um só dia da semana, "onde
rissem "uma boa cópia de termos e frases da língua" e alcanças- é mais que tudo útil a explicação do Professor e o exercício".
sem "o modo de servir dela", bastando para autorizar seu uso o fato O Latim não poderia ser falado nas classes, para evitar os
de tais coleções serem conformes ao que disse Quintiliano, no livro "barbarismos", devendo os professores pratícá-lo depois, quando
I, capítulo V de Instiiutio Oraiotia; intitulado "De lectione puerí": os estudantes estivessem com conhecimento suficiente da língua,
non auctores modo, sed etiam partes operis elégeris" (§ VIII). fazendo-os preparar em casa algum "Diálogo ou História que ha-
Os professores, contudo, não estavam desobrigados de ler jam de repetir na Classe". Os modelos aconselhados para tal exer-
todos os bons autores da Latinidade das melhores edições (§ X), cício eram Terêncio e Plauto, "como vão na Coleção dos diálogos
devendo ensinar aos estudantes "a ler clara e distintamente, e com de Luís Vives", na Coleção das palavrasjamiliares portuguesas e
tom natural", e indicar-lhes "na Prosa a quantidade de cada síla- latinas feita por António Pereira, da Congregação do Oratório, e
ba, no que pela maior parte há descuido", dando-lhes as regras da nos Exercícios da língua latina e portuguesa acerca de diversas coi-
ortografia. Para tanto, servir-se-iam os discípulos da obra "do nos- sas, "ordenados pela mesma Congregação" (§ XVI).
so Luís António Vemeí", e os professores das de "Cellarío, Dausquio, O conteúdo da "verdadeira Religião" não estava fora das preo-
Aldo Manucio, Schurtzfleischio, ou todos, ou algum deles" (§XI). cupações do legislador, uma vez que os professores instruiriam seus
O dicionário a ser usado pelos estudantes seria "proporcio- discípulos nos "Mistérios da Fé", obrigando-os a que se confessassem
nado aos seus princípios, no qual, sem amontoar autoridades, bre- e recebessem o Sacramento da Eucaristia infalivelmente em um dia
ve e sumariamente se lhes declare as significações naturais e figu- de cada mês, no Domingo ou outro feriado, e incutindo-lhes o "respei-
radas". Os professores deveriam ter "ao menos Facciolati e Basílio to e devoção com que devem chegar àqueles Sacrossantos Atos" (§
Fabro, da edição de Gesnero, ou outra igualmente correta". Ficava XVIII).Teriam também o cuidado de inspirar nos estudantes o res-
proibido, com tal medida, o uso da Prosódía, de Bento Pereira, pela peito aos "legítimos Superiores, tanto Eclesiásticos quanto Secula-
"multidão de palavras bárbaras de que está cheia" (§ XII). res", através de máximas do Direito Divino e do Direito Natural,
Os poetas estavam reservados para o fim, "quando já os estabelecendo assim a tão almejada união entre a fé cristã e a soci-
Estudantes tiverem alguma luz da Língua, adquirida na tradu- edade civil, ao mesmo tempo em que os conscientizava de suas obri-
ção da Prosa", pois no princípio eles não estariam capazes de co- gações de "Homem Cristão", "Vassalo" e "Cidadão" (§XIX).
nhecer a beleza da poesia. No entanto, os professores teriam o As "horas da classe" estavam divididas da seguinte maneira:
cuidado de "lhes fazer as diferenças entre o Estilo poético e a Pro- três horas de manhã e três de tarde. O "sueto" teria lugar nas quin-
sa" (§ XIII). Quanto aos 'Temas", o legislador adverte que os pro- tas-feiras, no caso de não haver dia santo na semana. As "férias

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grandes" seriam dadas em setembro, e as outras no natal - oito Para o ensino da gramática, seria utilizado o "Epítome do
dias -, durante a semana santa e nos "três dias próximos à Qua- Método de Port-Royal traduzido em Português, onde tem as Re-
resma, em que concorre o Jubileu das Quarenta Horas" (§XX). gras mais breves, mais claras, e mais sólidas que em outro qual-
Os estudantes só poderiam mudar de classe com atestado quer". Depois de aprenderem os primeiros elementos de "Declina-
do professor (§XXI). No caso de merecerem "castigo mais severo", ções" e "Conjugações", os estudantes poderiam já "construir" -
o diretor seria informado, punindo-os da maneira que achasse isto é, dispor as palavras da oração segundo as regras da sintaxe
mais conveniente, podendo inclusive ínabílítá-lo para os estudos _ "ou pelo Evangelho de São Lucas, ou pelos Atos dos Apóstolos,
(§XXII).O caso da substituição dos professores está previsto no ou por alguns lugares escolhidos de Heródoto e de Xenofonte, ou
parágrafo seguinte: o diretor deveria ser informado para que pu- pelos Caracteres de Teofrasto, ou por alguns Diálogos de Lucíano,
desse nomear "substituto capaz, hábil para suprir a sua falta". o que se acha bem ordenado na Coleção de Patuza, feita para o
Passando à "Instrução para os Professores de Grego e uso da Academia Real de Nápoles" (§ IV).
Hebraíco", a lei se concentra, no parágrafo primeiro, na defesa da O dicionário indicado para os discípulos é o "Dicionário
necessidade e utilidade do estudo da Língua Grega, idioma do Manual de Screvelio, que é muito breve e acomodado". Os profes-
Novo Testamento e de "muita parte do Velho", além dos Santos sores usariam os "mais copiosos, como os de Escápula, o Tesouro
Padres e dos Concílios: de Carlos Estevão, Ubbo Emío e João Meursío", assim como o "Mé-
todo grande de Port-Royal e as melhores Edições de Demóstenes,
Na Grêcia tiveram origem as Leis Romanas, e aí se fizeram Xenofonte, Tucídides, etc" (§VI).
muitas Constituições que andam no Corpo do Direito Ci- As composições deveriam ser evitadas, e ao invés delas os
vil. Em Grego escreveram Hipócrates e Galeno. A Filosofia, professores proporiam aos estudantes a prática da tradução, do
a Eloqüência, a Poesia e a História nasceram na Grêcia. E Grego para o Latim ou para o Português, uma vez que "a utilidade
por esta razão os maiores homens de todas as Faculdades desta Língua consiste principalmente na Lição e inteligência dos
reconhecem a necessidade indispensável desta Língua e re- Autores" (§ VII). Para os mais adiantados, seria proposta a leitura
comendam seu estudo. de Homero, ocasião em que o professor lhes faria ver "não só tudo o
que a Antiguidade Profana tem de mais polido e agradável, mas
O legislador adverte que, apesar da existência de "excelen- também o melhor modelo de um grande poeta". É curioso notar que
tes traduções", "que é o argumento de que se vale a ignorância o legislador o compara com os "Escritores Sagrados", num flagran-
para persuadir a pouca utilidade da Língua Grega", os livros de- te movimento de cristianização de escritos profanos, "pela grande
veriam ser lidos no original, orientação seguida pelas nações que analogia que com eles tem na simplicidade do estilo" (§VIII).
"a escrevem e falam com a maior pureza". Quanto às horas das lições, os professores poderiam "ler"
O parágrafo terceiro trata do modo de ensinar o Grego, depois duas horas pela manhã, "ao menos", e "outro tanto à tarde". Du-
que os discípulos estivessem aptos a ler o idioma "clara e distinta- rante meia hora, em cada dia, os estudantes deveriam ler livros
mente", "assim como está escrito": os professores deveriam fazê-los latinos, "para que não só conservem a noticia que já têm dessa
escrever corretamente, ensínando-lhes a "distinguir as figuras di- língua, mas ainda se adiantem" (§ IX).
versas tanto das Letras como das Sílabas e das abreviaturas, por- Com relação à Língua Hebraíca, sendo ela necessária às
que com este exercício se facilita o estudo, e se aprende com gosto". "Erudições Divinas" e, portanto, mais apropriada aos "Professo-

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GRAMATIZAÇÃO E ESCOLARIZAÇÃO

res da Sagrada Teologia", não foram dadas instruções quanto ao neles "não só as belezas, mas os defeitos", assim como "os bons Dis-
seu método de ensino, ficando a cadeira a cargo das "Ordens Re- cursos, as Provas eficazes, os Pensamentos verdadeiros e nobres, a
ligiosas", "que promoverão este importante Estudo de sorte que delicadeza das Figuras e, sobretudo, o artificio da composição" (§V).
neste Reino faça o progresso que tem feito nos outros Países da Os gêneros discursivos são classificados no parágrafo seguin-
Europa" (§X).
te, que trata da "Elocuçào": cartas, diálogos, história, obras didáti-
Na "Instrução para os Professores de Retórica", finalmente, cas, panegírícos. declamações, "etc". O livro indicado é o de
a lei faz uma interessante distinção, no parágrafo primeiro, entre "Heínecío, intitulado Fundamenta Styli culiioris", O professor deve-
Gramática e Retórica: a primeira "só ensina a falar e a ler correta- ria estar atento à Fílología e à Critica, para inspirar um justo
mente, e com acerto, a doutrina dos Termos e das Frases". A se- discemimento nos discípulos, acautelando-lhes o espírito de "con-
gunda, por sua vez, "ensina a falar bem, supondo já a Ciência das tradição e maledicência" (§VII).Estava encarregado também de "dar
Palavras, dos Termos e das Frases", ordenando "os pensamentos, Regras sobre o Exercício do Púlpito" e "para a Advocacia" (§VIII).
a sua distribuição e ornato". Ao referir-se à sua utilidade, afirma As composições começariam por "Narrações breves e cla-
o legislador:
ras, tanto em vulgar como Latim", passando depois para os "Elo-
gios dos Homens grandes" e para os panegíricos. Em seguida, os
É, pois, a Retórica a Arte mais necessária no Comércio dos estudantes deveriam fazer discursos no "Gênero Delíberatívo", e
Homens, e não só no Púlpito, ou na Advocacia, como vul- fmalmente no "Gênero Judicial". O modelo deveria ser, principal-
garmente se imagina. Nos discursos familiares, nos Negó- mente, Cícero (§ IX). Seriam dados também assuntos para con-
cios públicos, nas Disputas, em toda a ocasião em que se tendas, "defendendo um uma parte, e outro a contrária", "adver-
trata com os Homens, é preciso conciliar-Ihes a vontade, e tindo sempre o professor que nas contendas do entendimento é a
fazer não só que entendam o que se lhes diz, mas que se cortesia e a civilidade com o Contendor o primeiro princípio do
persuadam do que se lhes diz, e o aprovem. Homem Cristão e bem criado" (§X).
Com relação à poesia, os exemplos seriam os de Homero,
As Figuras e os Tropos seriam apenas "andaimes" para a Vírgílío, Horácio "e outros", sem, no entanto, o professor obrigar
construção dos discursos (§ 11),servindo os preceitos para a me- os estudantes a fazerem versos, "senão em quem conhecer gosto
lhor explicação dos autores (§ I1I).Os estudantes, para tal exer- e gênio para os fazer" (§XI). Para animá-Ios, os professores organi-
cício, usariam as "Instituições de Quintiliano, acomodadas por zariam Atos Públicos - no máximo quatro por ano -, nos quais se
Rolin para uso das Escolas, governando-se pelas prudentes ad- fariam explicar alguns dos melhores autores (§ XII), ficando tam-
vertências que ele ajuntou no seu Prólogo". Já os professores de- bém obrigados a fazer uma oração latina todos os anos de abertura
veriam se servir da Retórica de Aristóteles e das obras retóricas de dos estudos e outra no dia em que estes se fechassem (§ XIII).
Cícero e Longíno. Dos modernos, os autores indicados são Vossio, Com a Carta Régia de 9 de julho de 1759, foi nomeado para
Rolin, Fr. Luíz de Granada e "outros de merecimento" (§IV). Diretor Geral dos Estudos do Reino e seus domínios D. Tomás de
Para a "explicação dos Autores", os professores usariam as Almeida, Principal da Santa Igreja de Lisboa e Sumilher da Corti-
"Orações escolhidas de Cícero, para explicar todos os três gêneros na - isto é, reposteiro do paço. De acordo com o documento, o
da escritura", e de Tito Lívío, "principalmente nos primeiros Livros, emprego teria duração de três anos e concedia ao Diretor jurisdi-
onde se acha a origem e Antiguidades do Povo Romano", notando ção privativa, imediata ao rei.
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No dia 21 do mesmo mês. foi promulgado o Alvará que con- Diretor Geral. sem "o incõmodo de virem até a Corte" (§ IV). Para
cedia privilégio a António Felix Mendes para impressão de sua os que pretendessem ensinar em suas casas. ou nas das pessoas
Gramática e a do Padre António Pereira. Com tal dispositivo. nenhu- que lhes quiserem confiar a educação de seus filhos. bastaria a
ma pessoa poderia imprimir ou vender qualquer uma das gramá- presença de dois Professores Régios de Gramática Latina. "con-
ticas aprovadas pelo Alvará de 28 de junho. sob pena de seques- correndo nos ditos Professores a qualidade de terem cartas pas-
tro. Sete dias depois. saiu um edita! de D. Tomás de Alrneída, com sadas pela Chancelaria" (§ V).
instruções sobre a reforma. Nele. o diretor estabelecia que. antes O parágrafo seguinte reforça a importãncia da Retórica para
de providenciar o provimento das cadeiras dos mestres. deveria o "progresso dos Estudos maiores". estabelecendo que "nenhuma
chegar uma "noticia geral" a todos que pretendessem ocupar as pessoa de qualquer qualidade. estado e condição que seja possa
referidas cadeiras. devendo os candidatos fazer: ser admitida a matricular-se na Universidade de Coimbra em al-
guma das quatro Faculdades maiores" sem estar habilitada por
Requerimento declarando o que pretendem ensinar. à sua exame pelos dois professores de Retórica da Universidade. "com
assistência. e se já têm exercitado o Magistério público. ou assistência do Comissário do Diretor Geral". ainda que "tenha
particularmente, e o Bairro ou Ruas em que o praticaram. passe. bilhete ou escrito de outro qualquer Professor desta Corte.
para que, tirando-se as informações necessárias da vida e com quem estudasse ou aprendesse; e ainda que tenha um ou
costumes de cada um. e aproveitamento de seus Discípu- mais anos de Lógica. os quais o não escusarão de habilitar por
los, se os tiverem tido. se possa passar aos exames de capa- meio do dito Exame de Retórica". 4
cidade e literatura, conforme a cadeira que pretendem.
o caso brasileiro
O prazo para os professores era de seis dias. contados da
data do Alvará, para a corte e cidade de Lisboa. sendo estendido Segundo Laerte Ramos de Carvalho (1952. p. 106). "é muito
para quinze dias "nas terras vizinhas". Para as "Províncias de fora difícil precisar até que ponto e em que escala se fez sentir a refor-
e para os mais Domínios de EI Rey Nosso Senhor". seriam passa- ma de 1759 no Brasil". Banha de Andrade (1978). entretanto -
das comissões nas suas respectivas capitais. havendo a possibili- como ele mesmo afirma. em relação ao diagnóstico dado pelo au-
dade do envio de pessoas da corte para o ultramar - nesse caso. os tor brasileiro - ultrapassa um pouco tal dificuldade. fazendo um
interessados deveriam fazer suas petições em tempo hábil. Como mapeamento das correspondências entre o Diretor Geral dos Es-
medida provisória. ou paliativa. o diretor permitia que os mestres tudos D. Tomás de Almeida e seus Comissários. distribuídos pe-
- públicos ou particulares - continuassem suas atividades. las várias Capitanias da colônia." .
contanto que declarassem que ensinariam pelo novo método. Para o caso da Capitania de São Paulo. sujeita à do Rio de
No dia 11 de janeiro de 1760. por Alvará Régio. foram apro- Janeiro desde 1748. o autor português tem poucas informações a
vadas as providências interinas do Diretor Geral. regulando o pro-
cedimento dos exames para as cadeiras de Retórica (§ lI) e de Gra-
mática Latina (§ I1I).Nas Cidades em que houvesse três professo- 4 As leis citadas estão disponíveis em Andrade (1978, p. 183-195).
5 O diretor, segundo o autor, enviou para todos eles, assim como para os
res. sendo um deles de Retórica. poderiam os opositores ser exa- governadores, capitães-generais e demais autoridades seculares e
minados nos respectivas províncias. na presença de delegados do eclesiásticas, cópias do Alvará e das Instruções.

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dar, alegando a escassez de documentação. Já sobre a implanta- daquela cidade entre 1759 e 1834. Pela Carta Régia de 8 de no-
ção da Reforma na Bahia, executada pelo seu comissário, o vembro de 1759, o Chanceler da Relação da Cidade do Rio de Ja-
DesembargadorTomás Roby, ele apresenta dados bastante signi- neiro, o Desembargador João Alberto Castelo Branco, foi nomea-
ficativos, os quais desenham uma situação que vai se repetir, de do Comissário dos Estudos. Da mesma data é o envio, para a ci-
maneira mais ou menos semelhante. nas demais localidades. Em dade. de duzentos exemplares da Selleta Latini Serttionis, de
carta datada de 28 de março de 1760. o desembargador informa- Chompré.
va ao Diretor Geral que a cidade e vila da Cachoeira era o foco Em carta de 10 de agosto de 1765, reclamava ao diretor o
inicial das medidas, justificando a permissão do uso do método padre Jorge Nunes, presbítero secular, da falta de professores
antigo nas demais localidades pela pouca remessa de livros nas cidades do Rio de Janeiro e São Paulo e na vila da Vitória,
(ANDRADE,1978, p. 29). cabeça de comarca da Capitania do Espírito Santo. O diretor não
Há também a notícia de um exame público para profes- se cansava de responder ãs missivas que recebia, lamentando-se
sores, no qual se inscreveram dezenove candidatos, dentre pela limitação de seus poderes, falta de verbas e atraso nos des-
eles um da cidade de Sergípe Del-Rey, Pedro Homem da Costa, pachos. O ministério, segundo ele, se encontrava envolvido com
e um "inglês de nação". Os candidatos foram todos aprovados, questões mais urgentes (ANDRADE,1978, p. 43-44).
sendo sua lista, onde constam os nomes completos de cada Em centros populacionais como Iguarassi, Goiana, Paraíba.
um, uma preciosa amostra do número de Mestres de Gramáti- Alagoas, Vitória, Goiás, Mato Grosso e Minas Gerais, ao que pare-
ca Latina da Bahia que atuavam fora dos Colégios dos Jesuí- ce, a reforma dos estudos só chegou a efetivar-se em sua segunda
tas, os quais haviam sido expulsos oficialmente pela Lei de 3 fase, a partir de 1772. Em Minas Gerais, o Seminário de Mariana,
de setembro de 1759. As nomeações, no entanto, demoraram fundado por D. João V em 1721, teve novos estatutos - organiza-
muito para sair - em carta do dia 5 de abril de 1761, o diretor dos pelo bispo D. Fr. Manuel da Cruz - em 18 de novembro de
lamentava o atraso no despacho -, tendo os mestres, já apro- 1760, adotando as orientações da reforma, mas como uma "falsa
vados, que receber os vencimentos dos prõprios alunos adesão", segundo Andrade (1978, p. 108-109).
(ANDRADE, 1978, p. 32-35). Capitão-General e Governador do Pará desde a Ordem Ré-
Muitos professores seculares não se sujeitavam ã "humi- gia de 19 de abril de 1751, o irmão do Conde de Oeiras, Francisco
lhante prova" e o método antigo parecia continuar em evidência Xavier de Mendonça Furtado. foi o executor das "Instruções Régi-
não só no ensino eclesiástico. O novo comissário, o chanceler José as Públicas e Secretas" emitidas pelo seu irmão ministro em 31
Carvalho de Andrade, alegava que tal fato decorria do alto preço de maio do mesmo ano de sua nomeação. Mendonça Furtado es-
dos livros, uma vez que os professores eram obrigados a comprá- tava encarregado de abolir a administração temporal dos jesuítas
los, além dos Alvarás e das Instruções. Outra dificuldade era a nos aldeamentos dos índios do Pará, promovendo sua "liberdade"
ausência de dicionários, reclamada ainda pelo comissário Míguel e íntegração - por meio da educação e da miscigenação -, sendo
Serrão Dinis, também desembargador, que substituiu seu também um dos principais responsáveis pela execução da Lei do
antecessor pela Carta Régia de 3 de novembro de 1767 (ANDRADE, Diretório, de 3 de março de 1757, que estabelecia a obrígatoríedade
1978, p. 26; 35-39). da Língua Portuguesa nas escolas, instituindo seu ensino no Bra-
Algumas informações sobre o caso do Rio de Janeiro se en- sil. Em 1760, já como Secretário de Estado, enviou uma ordem
contram em Cardoso (2002), que tentou rastrear as Aulas Régias solicitando do seu substituto no governo do Pará, Manuel Bernardo

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Luiz Eduardo Oliveira GRAMATIZAÇÃO E ESCOLARIZAÇÃO

de Melo e Castro, pareceres de autoridades locais sobre a criação de 1768, o Conde de Oeíras enviou uma carta ao governador pedin-
de um seminário para a educação dos índios adolescentes na- do o regresso do Professor Pereira Ludon para Portugal.
quela cidade. Mas a vida cultural, política e educacional da colõnia pa-
A resposta do governador, com os pareceres - disponível em recia ser mais efervescente na Capitania de Pernambuco, tanto
Andrade (1978, p. 197-211) -, registra as representações de cléri- pelas implicações da Guerra dos Mascates (1709-1710) quanto
gos e seculares da época sobre a escola como um meio civilizatório, pelos progressos de Recife e Olinda, localidades onde as ordens
cogitando-se sobre questões como a raça dos que deveriam ingres- dos Oratorianos e Franciscanos eram bastante ativas. Já em
sar na instituição - só os índios de "raça pura", assim como os suas Instruções de 22 de novembro de 1759, D. Tomás de Almelda
estrangeiros e naturais brancos, excluindo-se os negros e mulatos nomeou os Professores Régios Manoel de Melo e Castro e Manoel
-, o pagamento que deveria ser feito pelos alunos - 30.000 réis -, os da Silva Coelho - o primeiro locado em Olinda e o segundo no
exames de professores e os livros a serem adotados. Recife. O Conde de Oeiras, por sua vez, em carta datada do dia
Em 6 de julho do mesmo ano de 1760, o Diretor Geral comuni- anterior, enviada ao governador Luís Díogo Lobo da Silva, tratou
cou ao seu comissário, o Dr. Feliciano Ramos Nobre, o envio de um sobre o salário dos professores, cuja estipulação deveria ser re-
Professor Régio para o Pará, Eusébio Luís Pereira Ludon, devendo gulada em função dos custos locais (ANDRADE, 1978, p. 52).
seu salário ser estabelecido por ele, em conselho com outras autori- Os professores chegaram ao Brasil no começo de 1760, ini-
dades - incluindo o governador -, de acordo com os custos locais. O ciando uma correspondência com o diretor que, juntamente com
valor ficou estipulado em 400.000 réís (ANDRADE,1978, p. 95). as cartas trocadas entre este e as demais autoridades, se consti-
Em outra missiva, de 18 de abril de 1761, endereçada ao tui, até agora, o mais rico material sobre as Reformas Pombalinas
Bispo do Pará, D. Fr. João de São José de Queiroz, o mesmo dire- no Brasil, perfazendo uma trama na qual se envolvem, além dos
tor comentava suas atribuições em relação aos Estudos Maiores, professores e do diretor, seu comissário, o Ouvidor Geral Dr.
mostrando-se um típico adepto da "filosofia verneíana". Em res- Bernardo Coelho da Gama Casco, o substituto deste, o Juiz de
posta ao bispo, que lhe havia proposto a nomeação de um profes- Fora Dr. Míguel Carlos Caldeira de Pina, de Castelo Branco, e o
sor de Filosofia, ex-mestre do Seminário dos Jesuítas, ele rejeita o Governador Lobo da Silva.
pedido, informando-lhe também acerca de sua decisão - negativa Ilustrativas dessa trama são as cartas de 1762 - algumas
- sobre o Professor Régio do Pará - este pretendia ensinar Retóri- delas foram publicadas por Laerte Ramos de Carvalho (1952, p.
ca, além da Gramática Latina, para complementar seus venci- 159-191). Na de 30 de julho, por exemplo, os referidos professores
mentos -, no que alegava como justificativa a dificuldade daquela passam um atestado de que o Comissário de Estudos Gama Casco
arte e a carência de professores em Portugal. "tinha comprado uma Arte da Gramática do Pe. Manoel Álvarez para
O diretor também havia enviado - não só para o Bispo, mas frasear e compor o latim necessário para quando fosse para a Rela-
também para todos os governadores e comissários - uma cópia dos ção". Ao ter se descaminhado tal livro, já proibido pelo Alvará de 28
Estatutos do Colégio dos Nobres, projeto no qual estava muito en- de junho de 1759, o ouvidor haveria dito que compraria outra, pois,
volvido. Em carta datada do dia posterior - 19 de abril -, para o para ele, "se nunca havia seguir o método novo, mas sim o antigo".
Professor Régio Pereira Ludon, ele justifica seu não provimento na Inúmeras são as controvérsias e conflitos entre os professo-
cadeira de Retórica, escrevendo no mesmo dia para o governador e res e o comissário, que, segundo eles, fazia preferir os mestres
para seu comissário para tratar dos mesmos temas. Em 7 de junho nativos aos estrangeiros, legalmente nomeados, uma vez que os

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Luiz Eduardo Oliveira GRAMATIZAÇÃO E ESCOLARIZAÇÃO

primeiros ainda faziam uso do método antigo, que julgavam mais Além delas [as escolas e seminários de outras ordens religi-
propício para os estudantes brasileiros. Em razão de tal preferên- osas no Brasil], somente bem mais tarde, depois da cria-
cia, os Professores Régios, cujas aulas eram gratuitas, foram per- ção, em 1772, do "subsídio literário", providenciou o gover-
dendo a clientela para os mestres nativos, que os acusavam de no metropolitano a instalação das aulas régias destinadas
esnobes, cuja empáfia e vaidade de serem bacharéis formados na a suprir a falta dos colégios jesuítas, a cujo grau de méto-
Universidade de Coimbra - de acordo com o comissário, em várias do, ensino e regularidade também não se elevariam jamais
cartas enviadas ao diretor -, tinham feito suas "incivilidades" alhei- (SILVA,1969, p. 186-187).
as ãs obrigações de súditos da coroa. Os próprios Professores Ré-
gios reconheciam a antipatia dos discípulos em relação a eles. Cardoso (2002, p. 159) é de opinião semelhanle, pois afir-
Outra acusação do Comissário era a de que o professor ma que as Aulas Régias são efetivadas somente em 1772, tendo
Manoel da Silva Coelho teria subvertido a forma legal das férias início oficial, no Rio de Janeiro, em 28 de junho de 1774, com a
ao seu livre arbítrio, mudando-as para dezembro, ao invés de dá- Aula de Filosofia Racional e Moral, ministrada pelo Professor Ré-
Ias em setembro. O professor se justificava dizendo que tal mu- gio Francisco Rodrígues Xavier Prates. Com a Recomendação de
dança se devia ãs características climáticas do país, bem diferen- 12 de maio de 1797, os exames para provimento de cadeiras va-
tes das européias, aduzindo que, a permanecer do jeito que esta- gas, no Brasil, foram simplificados, e a partir de 2 de setembro
va, os alunos seriam forçados a ter duas férias, as legais e as do do mesmo ano os professores brasileiros, ou locados no país,
costume, uma vez que as familias viajavam em dezembro, sendo tiveram permissão de usar as gramáticas que melhor lhes pare-
as aulas muito pouco frequentadas nesse período. cessem. A partir da Carta Régia de 19 de agosto de 1799, quan-
Quanto ao status social dos Professores Régios de Pernam- do D. João já era oficialmente o Príncipe Regente, no lugar de
buco, se por um lado eles esnobavam os nativos por serem bacha- sua mãe D. Maria 18, o vice-rei, os governadores e capitães-ge-
réis da Universidade de Coimbra e funcionários do Estado nome- rais, juntamente com o bispo, passaram a cuidar do provimento
ados pelo Rei, por outro sua situação econômica não se achava de de cadeiras.
todo estabelecida, fato sugerido pelos reiterados pedidos de au-
mento de "cõngruas": "falta-nos o necessário para passarmos com
decência de vida. Até agora, não pudemos comprar mais que um
escravo, que é toda a nossa família; quando este adoece, passa-
6 o "subsídío literário", imposto transformado em lei pelo Alvará de 10 de
mos muito mal por não termos quem nos sirva e o mais que a V. novembro de 1772, visava financiar o pagamento dos professores e mestres
Exa. tenho ponderado" (apudCARVALHO, 1952, p. 173). mediante a taxação de um real em cada quartilho de aguardente e canada de
A situação econômica dos docentes no Brasil talvez tenha vinho, nos Reinos e ilhas, e em cada Arrâtel de carne de vaca, no Ultramar
mudado de figura com outra reformulação da administração do (PORTUGAL, 1858).
7 Em 1792, D. João assumiu o lugar de Principe Regente, posição oficializada
ensino: a criação, em 5 de abril de 1768, da Real Mesa Censória, pelo Decreto de 15 de julho de 1799.
que, a partir de 4 de junho de 1771, assumiu a direção dos Estu- B Durante o reinado de D. Maria I (1777-1792), a louca - para os brasileiros
dos Menores, e principalmente a criação do famígerado "subsídio _, ou a piedosa - para os portugueses -, ocorreu a "vlradelra" (1779),
movimento de perseguição a Pombal e de substituição dos quadros políticos
Iíterárío'". Para alguns autores, só a partir de então se pode falar do Reino. Segundo Carvalho (1952, p. 106), houve certa expansão do ensino
em Aulas Régias no Brasil: no Brasil sob o reinado de D. Maria 1.

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luiz Eduardo Oliveira GRAMATIZAÇÃO E ESCOLARIZAÇÃO

Algumas considerações vas instituições educacionais; a constituição de um tempo e de


um espaço escolar, bem como com suas conjunturas políticas,
Para se compreender as - ou pelo menos para se ter uma pedagógicas e culturais.
noção razoável das - práticas do sistema de Aulas Régias, exis- A figura do Professor Régio, principalmente no caso brasi-
tem algumas peculiaridades que merecem ser ressaltadas, para leiro, deve ser abordada com cautela, uma vez que sua prática se
evitar qualquer tipo de anacronismo: antes de tudo, é preciso aten- desenvolve dentro de condições completamente diversas do mo-
tar para o conceito de "aula". Apesar de funcionar como uma ins- delo moderno de instituição escolar. Seu duplo papel de agente
tituição escolar, uma "aula" não deve ser confundida com a idéia político e cultural, seu espaço de trabalho ao mesmo tempo públi-
de escola, ou com um "espaço específico, separado das outras prá- co e privado, o corpo de saberes de que é portador e transmissor,
ticas sociais" (VINCENT,lAHlRE e THIN, 2001, p. 28), racional- ainda fortemente marcado por "formas sociais orais", dada a difi-
mente distribuído e disposto para a instrução, sendo elas dadas, culdade de se encontrar papel ou o difícil manuseio da caneta de
"ditadas" ou "lidas" nas residências dos próprios professores, em pena de ganso, usada à época, todas essas peculiaridades, quan-
uma confusão entre espaço público e prívado". Com efeito, os alu- do levadas em conta, ao evitarem a fácil generalização advinda
nos que optavam por cursar mais de uma aula eram obrigados a de um olhar anacrõnico que procura julgar o passado com parã-
conciliar o horário de suas atividades de acordo com a distância e metros do presente, podem fornecer um profícuo material de tra-
a disponibilidade dos professores (CARDOSO,2002, p. 199-200). balho para o historiador da educação e do ensino das línguas
Estes, como agentes privilegiados no processo educativo, clássicas.
embora possam ser objeto de um tratamento independente em Como disse Nóvoa, a cuja citação me referi no início deste
relação aos outros agentes e dispositivos constituintes da forma capítulo, a profissão docente guarda em si uma ambíguídade de
escolar, representam apenas uma parte, ou um aspecto, desse difícil solução. Ao se profissionalizar e se funcionarizar, passan-
processo, e só na sua interação com os demais vai fundamentar o do a ter o ingresso à sua profissão regulamentado pelo Estado,
que Vinão Frago (1998, p. 168-169) chama de cultura escolar: dependendo para tanto de uma licença ou permissão da autori-
"un conjunto de teorias, principios, o criterios, normas y práticas dade competente, o professor torna-se o portador de uma men-
sedimentadas a 10 largo del tiempo en el seno de Ias instituiciones sagem oficial, representante que é do poder estatal. No caso dos
educatívas", Assim, ao se perguntar sobre sua formação, seleção Professores Régios, portugueses ou brasileiros, de línguas clás-
e carreira, principalmente em tempos remotos, o pesquisador vai sicas - e também modernas -, tal faceta é muito evidente, pois
se defrontar com várias outras questões, tais como o processo de eles vão ser o instrumento de uma política educacional que pro-
configuração das disciplinas escolares; o estabelecimento de no- cura suplantar o sistema anterior. Para alcançar tal finalidade,
são os dívulgadores de um novo método de ensino da Gramática
IJ, Latina, adotando técnicas e procedimentos conformes com a nova
orientação.
9 De acordo com o Dicionário de Morais Silva (2. ed., 1813), aula é "casa onde Por outro lado, sua "capacidade de criar seu próprio discur-
se dá lição de alguma ciência e algumas artes". Já o Dicionário da Língua
Portuguesa de Eduardo Faria (1859) assim define o vocábulo: "classe, casa
so" (NÓVOA,1991) os leva a subverter algumas normas, como no
onde se ajuntam, para darem lição, os estudantes que aprendem com um caso do professor Manoel da Silva Coelho, que alterou o período
mesmo mestre" (apud SILVA, 1969, p. 188). legal de férias devido a peculiaridades locais, ou a demonstrar,

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GRAMATIZAÇÃO E ESCOLARIZAÇÃO
Luiz Eduardo Oliveira

VINAOFRAGO, Antonio. 1998. "Por uma hlstorla de Ia cultura scolar: enfoques,


em suas cartas, um "sentimento liberal",já observado por Carva- cuesttones. fuentes". Culturas y Civílaciones. Valladolld: Secretariado de
lho (1952), que se tornava incompatível com sua posição de re- Publlcaclones e Intercamblo Cíentíflco da Universidade de Valladolld.
presentantes de uma monarquia absolutista. Assim, a meio ca-
VINCENT, Guy, LAHIRE, Bernard, THIN, Daníel. 2001. "Sobre a história e a
minho entre dois papéis distintos - de funcionários do Estado por-
teoria da forma escolar". Tradução: Diana Gonçalves Vidal, Vera Lúcia Gaspar
tuguês e de profissionais liberais -, os Professores Régios vão ad- da Silva e ValdeniZa Maria da Barra. Educação em Revista. Belo Horizonte, n."
quirir certa parcela de autonomia que lhes vai possibilitar não só 33, pp. 7-47.
uma voz ativa na luta pela melhoria do seu status social, mas tam-
SILVA, Geraldo Bastos. 1969. A educação secundária (perspectiva hístóríca e
bém um poder inegável de subverter as regras, princípios ou mensa- teórica). São Paulo: Nacional.
gens de que são representantes, portadores e transmissores, ou
mesmo de adaptá-los à realidade do cotidiano de sua profissão.

Referências

ANDRADE,Antonio A1berto Banha de. 1978. A reforma pombalina dos estudos


secundários no Brasil. São Paulo: Saraiva / EDUSP.

AUROUX, Sylvain. 1992. A revoluçáo tecnol6gica da gramatlzação. Tradução:


Enl Puccinelli Orland!. Campinas: Editora da Unícamp.

CARDOSO, Tereza Maria Rolo Fachada Levy. 2002. As luzes da educação:


fundamentos, raizes históricas e prática das Aulas Régias no Rio de Janeiro
(1759-1834). Bragança Paulista: Editora da Universidade São Francisco.

CARVALHO, Laerte Ramos de. 1952. As reformas pombalinas da instrução


São Paulo: FF'CL da USP, Boletim n. 160.
pública.

JULlA, Domíníque. 2001. "A cultura escolar como objeto hístórtco". Tradução:
Gízele de Souza. Revista Brasileira de História da Educação. Campinas: Autores
Associados, n. 1, pp. 9-43.

MAXWELL, Keneth. 1996. Marquês de Pombal: paradoxo do Ilumlnlsmo.


Tradução: Antônio de Pádua Danes!. Rio de Janeiro: Paz e Terra.

N6vOA, Antónlo. 1991. "Para o estudo sócio-histórico da gênese e


desenvolvimento da profissão docente". Tradução: Tomaz Tadeu da Silva. Teoria
& Educação. Porto Alegre, n. 4, pp. 240-270.

PORrUGAL. 1858. CoUecçãoda Legislação Portugueza desde a ultima compilação


das ordenações oferecida a EI Rei Nosso Senhor pelo Desembargador Antonio
Delgado da Silva. Legislação de 1763 a 1774. Lisboa: na Typ. de L. C. da Cunha.

73
72
Luiz Eduardo Oliveira

DA LÍNGUA DO PRÍNCIPE À LÍNGUA NACIONAL:


VERDADEIRO
METODO
DE ESTUDAR,
PARA uma história do ensino de Português no Brasil*
Ser uril à Republica , c l Igreja:
PROPOReI ONA DO Sempre foi maxima inalteravelmente praticada em todas as
Nações, que conquistaram novos Domínios, introduzir logo nos
Ao cítilo, c neccfidade de Pcreugal .
Povos conquistados o seu proptio idioma, por ser índisputave~
EXPOSTO
que este he hum dos meios mais efftcazes para desterrar dos
E. ",i" 111"41t tft,i/fll
((J~f •• I,
poh R. P•••• JJQrb4t1i""~
11111111, IItJ R. P•• " "
Povos rusticos a barbaridade dos seus antigos costumes: e ter

DOll/or lia UlllfJtrJilllJ, I, CfJit1lj,,,. mostrado a experiencia, que ao mesmo passo, que se introduz
nelles o uso da Ungua do Príncipe. 1
TOMO PRIMEIRO.

• Alguns argumentos e passagens deste capítulo foram usados nos seguintes


trabalhos, produzidos em parceria com Leda Corrêa: "A importância do catecismo
no processo de escolarízação". artigo publicado na Interdisciplinar: revista de
estudos de língua e literatura, em 2006; "Ensino e Leitura: por um diálogo possível
entre Interdisciplinaridade e íntertextualídade". comunicação apresentada no I
Colóquio Internacional de História e Memória da Educação no Ceará
e VI Encontro Cearense de Historiadores da Educação, realizado na
VALENSA cidade de Aracati, de 8 a 11 de maio de 2007; "O Catecismo como método de
NA OFICINA DE ANTONIO BALLI:. ensino das línguas", comunicação apresentada no 18° EPENN (Encontro de
Pesquisa Educacional do Norte e Nordeste), realizado em Maceió, de 1 a 4
AlI:O MDCCXLVJ.
de julho de 2007; e "Percursos do ensino de leitura: do catecismo aos PCN",
COM7DD,.G' AS I/CENSAS NECES"''''S, i!-, capítulo do livro Desofios daformat;ão de professorespara o século XXI:o que deve
ser ensinado, o que é aprendido?, publicado em 2008 e organízado por Maria Inéz
OlíveíraAraújo e Luiz Eduardo Olívelra;"AInstituição do ensíno de língua portuguesa
Verdadeiro metodo de estudar (1746)
no Brasil", artigo publicado em 2009 na revista Todas as Letras.
1 Lei do Dlretório, de 3 de maio de 1757.

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GRAMATIZAÇÃO E ESCOLARIZAÇÃO
Luiz Eduardo Oliveira

A lei estabelecia. como "base fundamental da Civilidade". a


A lei da Diretôrio proibição do uso do idioma da terra e impunha o Português como
língua oficial. criando escolas. para meninos e meninas. de Dou-
A instituição do ensino da Língua Portuguesa no Brasil não trina Cristã. Ler e Contar - nas escolas de meninas. o contar era
pode ser entendida fora do contexto do que a historiografia edu- substituído pelo "fiar. fazer renda. costura". e mais os "ministerios
cacional portuguesa e brasileira denomina de Reformas propríos daquelle sexo". Assim dispunha o artigo sexto:
Pombalinas da Instrução Pública. referindo-se à série de medidas
tomadas pelo gabinete de D. José I. representado pela figura de Sempre foi maxíma inalteravelmente praticada em todas
Sebastião José de Carvalho e Melo, nomeado Conde de Oeiras em as Nações. que conquistaram novos Domínios. introduzir
1759 e Marquês de Pombal dez anos depois. Foi quando o Estado logo nos Povos conquistados o seu proprio idioma. por ser
português assumiu o controle da educação. antes de competên- indisputavel, que este he hum dos meios mais efftcazes para
cia da igreja. especialmente da Companhia de Jesus. em Portugal desterrar dos Povos rusticos a barbaridade dos seus anti-
e seus domínios. gos costumes; e ter mostrado a experiencia. que ao mesmo
O marco inicial das Reformas Pombalinas da Instrução Públi- passo. que se introduz nelles o uso da Língua do Principe.
ca é geralmente atribuído ao Alvará Régio de 28 de junho de 1759. Observando pois todas as Nações polidas do Mundo este
que. proibindo os jesuítas de exercerem qualquer atividade docente prodente. e solido systema. nesta Conquista. se praticou
tanto no reino quanto nas colônias. reformulou os estudos da gra- tanto pelo contrario, que só cuidaram os primeiros Con-
mática da Língua Latina. Grega. Hebraica e de Retôrica. Contudo. quistadores estabelecer nella o uso. da Língua, que chama-
antes da publicação do alvará de 1759. saiu a Lei do Díretórío, de 3 rão geral; invenção verdadeiramente abominavel. e diabolica.
de maio de 1757. confirmada pelo Alvará de 27 de agosto de 1758. para que privados os Indios de todos aquelles meios. que se
que foi a primeira tentativa do Estado português de instituir escolas podíão cívílísar. permanecessem na rustíca, e barbara sujei-
para os índios. em substituição ao controle pedagógico da Compa- ção. em que até agora se conservarão. Para desterrar este
nhia de Jesus. no Grão-Pará. O "Estado do Grão-Pará e Maranhão", perniciosissimO abuso. será hurn dos prínctpaes cuidados
composto de dois bispados e dois governadores - o do Maranhão era dos Directores. estabelecer nas suas respectivas Povoações o
o Tenente-Coronel Luís de Vasconcelos Lobo -. tinha como Capitão- uso da Língua portugueza. não consentindo por modo al-
General e Governador do Pará. desde a Ordem Régia de 19 de abril gum. que os Meninos. e Meninas. que pertencerem ás Esco-
de 1751. o irmão do Conde de Oeíras, Francisco Xavíer de Mendon- las. e todos aquelles Índios. que forem capazes de ínstrucção
ça Furtado. executor das "Instruçôes Régias Públicas e Secretas" nesta matería. usem da língua propria das suas Nações. ou
emitidas pelo seu irmão ministro em 31 de maio daquele mesmo da chamada Geral; mas unicamente da portugueza. na for-
ano. Mendonça Furtado. como já foi dito. estava encarregado de ma que Sua Magestade tem recomendado em repetidas Or-
abolir a administração temporal dos jesuítas nos aldeamentos dos dens. que até agora se não observarão com total ruína es-
índios do Pará. promovendo sua "liberdade" e íntegração - pela piritual. e Temporal do Estado (PORfUGAL. 1830).
educação e miscigenação -. o que se encontrava preceituado no
Alvará de 7 de junho de 1755. sendo também o redator e um dos Podemos perceber. no texto acima. dois movimentos impor-
principais responsáveis pela execução do Diretoria que se deve obser- tantes. O primeiro diz respeito ao conceito ílumínísta de "nação".
varnas Povoações dos Indios do Pará e Maranhão (ANDRADE.1978).
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Luiz Eduardo Oliveira GRAMA TIZAÇÃO E ESCOLARIZAÇÃO

isto é, de "nação polida", ou civilizada, na medida em que denun- rava a "correcção das línguas nacionais um dos objectos mais
cia, da parte do legislador - o Estado português -, a vontade de se attendiveis dos povos civilisados, por dependerem della a clareza,
colocar como uma nação, tal como as "demais Nações polidas do a energia, e a magestade, com que se devem estabelecer as Leis,
mundo". Desse modo, o Estado teria que se valer de uma Língua persuadir a verdade da religião, e fazer uteis, e agradaveis os Es-
Nacional, a "Língua do Príncipe", para se aflrmar perante os ou- critos" (PORTUGAL,1858).
tros - as demais nações e os "Povos conquistados" -, construindo O legislador também tratava, no mesmo alvará, das "Esco-
assim uma identidade nacional. las de Ler e Escrever", fazendo ver que, até aquele momento, as
Para Anderson (2008), a identidade nacional é uma "comu- lições eram dadas por meio de processos litigiosos e sentenças, os
nidade imaginada", uma vez que as diferenças entre as nações quais serviam apenas "para consumir o tempo" e para acostumar
consistem nas diferentes formas como elas são imaginadas. Des- a mocidade "ao orgulho, e enleios do foro". Assim, mandava que,
se modo, a nação pode ser vista como uma narrativa, algo que em seu lugar, se ensinasse por meio de impressos, "ou
perde suas origens nos mitos do tempo (BHABHA, 2006, p. 1). manuscriptos de diversa natureza", indicando como compêndio o
tornando-se, mais do que uma delimitação jurídica e geopolítica, "Catecismo pequeno do Bispo de Montpellier Carlos Joaquim
um "princípio espiritual" de pertencimento a uma determinada Colbert, mandado traduzir pelo Arcebispo de Evora [D.João Cosme
nacionalidade (RENAN,2006, p. 18). da Cunha, futuro Cardeal da Cunha) para instrução dos seus
Segundo Hall (2005, p. 52-56), dentre as principais estraté- díocesanos" (PORTUGAL,1858).
gias representacionais que são acionadas para construir nosso Do mesmo modo, a implantação da reforma das Escolas
senso comum em relação ao referido "princípio espiritual", estão Menores, de 6 de novembro de 1772, justificou-se, mais uma vez,
a invenção de uma tradição e a criação de um mito fundacional, pelos "funestos estragos, com que pelo longo periodo de dois seculos
através de narrativas históricas, literãrias, políticas e da cultura se viram as Letras arruinadas nos mesmos Reinos, e Domínios".
popular. No caso português, no contexto específico das Reformas O plano de estudos estava formulado no parágrafo quinto e se
Pombalinas, a invenção de uma tradição nas "letras humanas", compunha da "boa forma dos caracteres"; das regras gerais da
algo que se tornou mais evidente com a reforma de 1759 e com a Ortografia Portuguesa, "e o que necessãrio for da sintaxe dela,
posterior elevação de Camões a cãnone da Língua e da Literatura para que seus discípulos possam escrever correta e ordenada-
Portuguesa, foi precedida pelo estabelecimento de uma Língua mente"; das quatro espécies da Aritmética Simples; do Catecismo
Nacional, que se fazia através de uma política linguística e edu- e das Regras da Civilidade "em um breve compêndio" (apud
cacional que priorizava a alfabetização e o ensino da Gramática FÉRRER,1997).
Latina em português, no reino e nas colônias. O segundo movimento da Lei do Díretórío diz respeito ao
Com efeito, foi motivado por tal política que EI-Rei ordenou, obstáculo que teria de ser enfrentado para sua implementação: a
com o Alvará de 30 de setembro de 1770, que "os Mestres da Lín- "língua geral". Assim como a reforma do ensino da Gramática La-
gua Latina", quando recebessem em suas classes os discípulos, tina, em 1759, só era possível com a proibição do método pratica-
os instruíssem, "durante seis meses", na Grammatica portugueza do pelos jesuítas, que resistiu, durante décadas, mesmo depois
composta por António José dos Reis Lobato, oficializando assim o de sua expulsão de Portugal e seus domínios, a instituição do
ensino de Português em seus reinos e domínios. As razões da lei ensino da Língua Portuguesa no Brasil seria implementada so-
eram justificadas logo no preãmbulo do documento, que consíde- mente com a proibição do uso da "língua geral", que persistiu em

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Luiz Eduardo Oliveira GRAMATIZAÇÃO E ESCOLARIZAÇÃO

algumas regiões do país até o século XIX. Para o legislador, trata- gua como marca de identidade social não existia nas Américas.
va-se de uma "invenção verdadeiramente abomínavel, e diabóli- Assim, apesar de suas formas orais compartilharem estruturas
ca" dos jesuítas, para fazer com que os índios fossem privados da línguístícas comuns, não constituíam línguas comuns porque não
civilização e permanecessem rústicos e bárbaros. Conforme Borges havia nenhuma identidade compartilhada.
(2001, p. 211). Ao contrário da empreitadajesuítica, que trouxe à tona, em
território brasileiro, a noção de línguas indígenas separadas, a
em termos históricos, "língua geral" refere-se ao processo Lei do Diretório, ao instituir o ensino da Língua Portuguesa nas
lingüístico e étnico instaurado no Brasil pelo complexo escolas e entre os índios, dava um primeiro passo para a consti-
catequético-colonizador, cujo emprego aponta para três tuição do português como Língua Nacional, algo tornado possível
acepções: a) em sentido genérico, diz respeito às línguas pela sua gramatização e escolarização, servindo como suporte
surgídas na América do Sul em conseqüência dos contatos fundamental na construção de sua identidade nacional. que se
entre agentes das frentes de colonização e os grupos indí- faria valer pelo apagamento sistemático de toda a variedade lín-
genas; b) especificamente, designa as línguas, de base indí- guístíca então existente, proibindo os meninos e meninas, bem
gena, desenvolvidas e instituídas em São Paulo e na Ama- como a população indígena, de usarem da "língua propria das
zônía, e faladas por uma população supraétnica; c) refere- suas Nações, ou da chamada Geral".
se também à gramatização dessas línguas. A lei previa ainda que os mestres seriam pagos pelos pais
ou tutores dos alunos, e que as meninas, na falta de mestras,
Dessa forma, os missionários-gramáticos, como Anchieta _ frequentariam as escolas dos meninos. Os índios, a quem seriam
que escreveu a Arte da grammatica da lingoa mais usada na costa atribuídos sobrenomes, não poderiam ser chamados de "negros".
do Brasil, de 1595 -, ao gramatizarem as línguas indígenas, atua- Ao que tudo indica, tal iniciativa coube ao Governador Melo e
ram em consonáncia com a prática ideológica da empresa coloni- Castro, substituto de Mendonça Furtado, que, pelo Decreto de 19
al-mercantil, de modo que o surgimento do tupi jesuítico é um de julho de 1759, foi nomeado Secretário de Estado Adjunto do
efeito da renormatização e ressignificação do tupinambá, que pas- Conde de Oeiras. Quanto ao alcance de tal política línguístíca, no
sa a funcionar em uma ordem discursiva alheia à tribal, como Estado do Grão-Pará ou nas outras capitanias, a questão se colo-
língua supraétnica no espaço discursivo de uma hiperlíngua ca como um desafio à historiografia.
(BORGES, 2001, p. 203). No entanto, Banha de Andrade divulgou um verdadeiro
Makoni & Meinhof (2006, p. 194). por sua vez, ao tratarem achado do Arquivo Histórico Ultramarino, na caixa de
dos processos de construção social das línguas africanas, afír- Pernambuco: uma Breve instrucçam para etisiqnar a Doutrina
mam que foi a redução das formas de oralidade dos africanos à Christã, ler e escrever aos Meninos e ao mesmo tempo os principios
escrita e seus usos no letramento e na instrução que construí- da língua Portugueza e sua orthografia, de letra "muito seme-
ram o status ontológíco de suas línguas. Do mesmo modo, pode- lhante" à do texto da Lei do Diretório corrigido por Luís Díogo
mos entender a emergência das línguas indígenas como produto Lobo da Silva. Para o autor, bastaria encontrar o ofício que
da gramatização, da alfabetização e do colonialismo, uma vez que, acompanhou o documento para consíderá-lo o único exemplar
antes da colonização, da introdução do evangelismo cristão e da de compêndio usado nas aulas de Pernambuco de 1759-1760
alfabetização como política de educação nacional, a noção de lín- (ANDRADE, 1978, p. 12).

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Trata-se de um Catecismo usado como cartilha para o Os prtmeyros príncípíos da Língoa são as declinações dos
ensino da Língua Portuguesa, bem ao modo dos então existen- nomes e as conjugações dos verbos, e he couza bem
tes: o Cathecismo pequeno da doctrina e instriçam que os lamentavel que, para aprendermos a língoa latina, a lingoa
christaãos ham de creer e obrar, para conseguir a benaventurança franceza ou italiana, que são hoje as mais vulgares, princi-
eterna, de D. Díogo Ortíz, de 1504, e a Grammática da língua piemos declinando nomes e conjugando verbos, e que os
portuguesa com os mandamentos da santa madre Igreja, de João nam saybão os mais dos homens fazer na portugueza, sen-
de Barros, de 1540. do a materia que devemos estudar com todo o disvello, para
A obra se inicia com a relação das "letras correntes roma- a podermos fallar com perfeyção (apud ANDRADE, 1979).
nas"; das "letras capitais romanas"; das "cinco letras vogais"; das
"letras abreviadas"; dos "três acentos"; das "pontuações; das "sí- São ainda explicados os nomes - os substantivos e os adjeti-
labas" - de duas e de três letras -; e dos "nomes" - de homens, de vos, tanto masculinos quanto femininos -, o uso dos acentos - agudo,
mulheres e de cidades. Na "Explicação grammatical", percebemos grave e circunflexo - e do apóstrofo, e o das letras capitais com as
a ênfase dada à prosódia, uma vez que a arte de falar é considera- quaís se devem escrever palavras como Deus, Jesus, Cristo. todos
da como "a arte das artes, e a arte mais nobre, mais útil e mais os nomes próprios. os nomes de dignidades políticas ou eclesiásti-
precisa para o commercio humano". São assim explicadas as "nove cas. os de reinos. cidades. vilas e das artes. A letra capital deveria
vozes ou instrumentos" - os artigos; os nomes; o pronome; o verbo; ser usada ainda no início de cada parágrafo e de cada verso. de-
o particípio; o advérbio; a preposição; a conjunção e a interjeição. vendo o mestre enfatizar o sentido dos sinais de pontuação.
O verbo tem um tratamento especial, sendo defínído como Com a morte do rei D. José I e a ascensão ao trono de sua
"o que enche e o que determina a oração, porque nenhuma ora- fllha, D. Maria I. Pombal foi afastado do Ministério dos Negócios
ção sem verbo se pode chamar oração, nem expressar nenhuma do Reino. Em 12 de janeiro de 1778. a Real Mesa Censória - a
coisa nem escrever período que tenha um sentido terminado e quem a direção e administração dos estudos das Escolas Meno-
completo". Desse modo, são relacionados os pronomes pessoais, res de Portugal e seus domínios foram cometidas. pelo Alvará de 4
os "três tempos principais" - presente, pretérito e futuro -, e os de junho de 1771 -. enviou à rainha uma consulta na qual pro-
modos - indicativo, imperativo, optativo e infrnitivo. Os verbos são punha que um quinto do total das Escolas Menores estivessem
ainda divididos em "diversas naturezas" - o verbo ativo, o passivo, destinados aos religiosos. acrescentando ainda que. à medida que
o neutro e o reflexivo. Em seguida, são então apresentadas as os outros lugares ficassem vagos. os mesmos fossem entregues
conjugações do "verbo auxiliar" ser ou estar, havendo ainda exem- aos conventos. A Resolução Régia de 16 de agosto de 1779 ofícía-
plos de conjugações de verbos com o infrnitivo em "ar", "er" e "ir", lizou tal proposta. dando início a um processo denominado pela
com exemplos do "verbo impessoal defectivo, passivo e da sua con- htstoríografla de "conventualização do ensino" (FÉRRER. 1997).
jugação" - pelejar -, e do "verbo pessoal passivo e sua conjugação D. Maria I extinguiu a Real Mesa Censória com o Alvará de
do tempo presente". 21 de junho de 1787, criando a Real Mesa da Comissão Geral
Nas explicações fínaís, notamos a fílíação pombalina do com- sobre a Censura e o Exame dos Livros. a quem cabia cuidar do
pêndio, uma vez que são criticados os métodos em que o ensino "progresso e adiantamento" dos Estudos Menores e da arrecada-
das declinações e conjugações de línguas estrangeiras se faz com ção e administração do subsídio literário. cujo procedimento de
o desconhecimento das regras básicas da Língua Portuguesa: cobrança foi alterado pelo Alvará de 7 de julho do mesmo ano. que

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criou também as Juntas da Fazenda Real das Capitanias Ultra- A Gramática da Lfngua Nacional e as escolas de Primeiras Letras
marinas.
O Tribunal funcionou até 1794, quando o Príncipe Regente D. Durante o governo de D. Pedro I, foi sancionada a Lei de 15
João, que havia assumido o poder em 1792, tendo sua posição ofici- de outubro de 1827, mandando criar Escolas de Primeiras Letras
alizada somente pelo Decreto de 15 de julho de 1799, considerou-o em todas as cidades, vilas e lugares mais populosos do Império.
"inútil" para o encaminhamento das questões relacionadas ao ensi- Tal regulamento, que foi precedido por um acalorado debate par-
no, dividindo suas atribuições entre o Tribunal do Santo Oficio, a lamentar no qual são visíveis as concepções e preconceitos dos
autoridade episcopal e o Desembargo do Paço. No final do mesmo ano intelectuais brasileiros do período sobre a instrução elementar,
de 1794, com o Alvará de 17 de dezembro, D. João criou a Junta da foi o único de ãmbito nacional a tratar especialmente das Primei-
Diretoria Geral dos Estudos e Escolas do Reino, sob a presidência do ras Letras no Brasil, durante todo o Império e parte da República,
reitor reformador da Universidade de Coímbra', o brasileiro D. Fran- e regulamentou os estudos - entre os quais estava o da Gramática
cisco de Lemos de Faria Pereira Coutinho (FÉRRER 1997, p. 94). da Língua Nacional-, o método de ensino e a profissão docente,
A política joanina, assim como a mariana, não alterou as fixando as condições necessárias, o modo de admissão, remunera-
diretrizes estabelecidas pelas Reformas Pombalinas de 1759 e 1772, ção e um plano de carreira que serviriam de modelo para o provi-
concentrando o controle do ensino nos órgãos do Estado. Para mento de outras cadeiras, tais como as de Latim e Línguas Vivas.
Hilsdorf (2003, p. 34), além da estatização, outra característíca de O artigo sexto da referida lei, que versava sobre os estudos,
tais diretrizes era o pragmatismo, "no sentido de oferecer conhe- ou os conteúdos ensinados, assim foi redigido:
cimento científico utilitário, profissional, em instituições de ensi-
no avulsas, isoladas, segundo o modelo ilustrado". Os Professores ensinarão a ler, escrever, as quatro opera-
Mas o panorama educacional da colónia brasileira iria se ções de arithmetica, pratica de quebrados, decímaes e pro-
alterar bastante com a vinda de D. João VI e sua corte para o Rio porções, as noções mais geraes de geometria pratica, a
de Janeiro, em 22 de janeiro de 1808. Embora fosse obrigado a grammatica da língoa nacional, e os prtnctpíos de moral
sair de sua nação de origem com o auxílio de navios ingleses, christã e de doutrina da religião catholica e apostólica ro-
acossado que estava pelas tropas de Napoleão, o então Príncípe mana, proporcionados á comprehensão dos meninos, pre-
Regente de Portugal encontrou na colônia um campo fértil e ain- ferindo para as leituras a Constituição do Imperio e a
da virgem para aplicar seu liberalismo ilustrado. Assim, foram Historia do Brazil (BRASIL, 1878).
criadas várias aulas avulsas, tanto preparatórias, como as cadei-
ras de Francês e Inglês, quanto superiores, como as dos cursos Pela leitura do texto acima, podemos notar que os saberes es-
médico-cirúrgicos e da Academia Militar, para formar os quadros colares, a essa altura, não se encontravam ainda compartimenta-
político-administrativos de que a colônia precisava. dos em disciplinas, razão por que a leitura e a escrita estavam
desvinculadas do ensino da Gramática da Língua Nacional, Assim,
antes constituíam, juntamente com o contar, que agora se fragmen-
tava em Aritmética e "prática de quebrados", espécies de "savoír-
1 Os novos estatutos da Universidade de Coimbra foram publicados em 28 de faíre" relacionadas às primeiras aprendizagens, sem qualquer cor-
agosto de 1772. sendo reformulados os cursos existentes - Leis, Cânones,
Teologia e Medicina - e criadas duas novas faculdades: de Matemática e Filosofia. respondente nas ciências e em sua hierarquia (HÉBRARD, 1990).

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o Catecismo, que durante o período colonial consistia no escrever e contar -, ao ser substituído pelo ensino simultàneo da
objeto exclusivo das prâticas de leitura escolar, e, portanto, do leitura e da escrita, nessa fase inicial de escolaridade, conduzia
ensino da Língua Portuguesa, como vimos, passou a ser conteúdo ao estudo da ortografia e da gramâtica, o que se traduzia, nas
dos Princípios de Moral Cristã e Religião Católica, tendo agora prâticas escolares, nos exercícios de cópia, ditado, conjugação e
que dividir o espaço com a Constituição do Império e com a histó- anâlise gramatical. Embora a Lei de 15 de outubro de 1827 tenha
ria do Brasil, elementos que jâ demonstram as intenções do pais inserido tais elementos - Leitura, Escrita e Gramâtica da Língua
recém-independente em também constituir-se como nação, algo Nacional-, a falta de ordenação ou sequencia com que aparecem
evidenciado pela presença, entre os estudos de Primeiras Letras, no artigo sexto deixa dúvidas quanto a tal modelo.
da "gramátíca da língua nacional". Tal questão foi levantada durante os debates parlamenta-
Como escreve Hébrard (1999, p. 48), a respeito de algumas res que precederam a aprovação da lei, especialmente nas ses-
mudanças na instrução francesa depois da Revolução de 1830, sões de 10 e 11 de julho de 18272• O deputado Batista Pereira, por
as quaís guardam muita semelhança com o caso brasileiro, de- exemplo, na discussão sobre a seleção e ordenado dos professo-
pois da Independência, "enquanto a Igreja católica havia pensa- res, criticava a lei por não especificar "os objetos ou as materias"
do a alfabetização generalizada como ferramenta de catequização, em que deveriam ser examinados os pretendentes a professores,
os governos sucessivos do século XlX procuravam prevenir novas afírmando que o grande defeito destes era o de serem "grandes
agitações populares e põr a instrução a serviço da civilização e ignorantes". Lino Coutinho era da mesma opinião, afirmando que
dos espíritos". Como vimos, além da formação dos espíritos, o go- era "preciso declarar as materias em que hão de ser examinados
verno brasileiro também estava preocupado com a formação de os professores". Assim, propunha que os examinadores fossem
"cidadãos", categoria que excluía, de acordo com a interpretação "homens de letras" da escolha do presidente ou dos conselhos de
à época corrente do artigo sexto da Constituição de 1824, os es- governo, a quem cabia, a seu ver, a estipulação dos ordenados,
cravos e os homens livres e despossuídos (OLIVEIRA,2006). que deveriam ser maiores (BRASIL, 1982, p. 107).3
Com efeito, o modelo escolar de transmissão dos saberes Bernardo Pereira de Vasconcelos sustentava que os exa-
elementares, principalmente durante a gestão de Guizot (1832- mes deveriam ser feitos na presença do presidente em conselho,
1837) como Ministro da Educação, na França, passou por três pois "o ministerio de ensinar é uma cousa superior ao conheci-
transformações que podem servir de hipóteses para as mudan- mento dos magistrados". Araújo Bastos, por sua vez, contra-ar-
ças relacionadas com as Primeiras Letras, no Brasil. A primeira
diz respeito aprendizagem simultânea da leitura e da escrita,
à

"talvez a maior inovação do século XlX" (HÉBRARD, 1999, p. 49),


algo que, se não pode ser verificado em suas prâticas, dada a 2 Para uma análise mais detalhada dos referidos debates parlamenlares.
distância temporal, e a consequente ausência de fontes primâri- consultar "Representações da escola na literatura brasileira do século XIX:
um itinerário do ensino de Primeiras Letras no Brasil", artigo de minha autoria
as, tais como cadernos de estudantes e anotações dos professo- publicado em 2008 na Revista Tempos e Espaços em Educação, pp. 33 -48.
res, pode ao menos ser inferido a partir dos compêndios da época. a Conforme o artigo terceiro da lei, os presidentes de província, em conselho,
A segunda relaciona-se com a alteração dos conteúdos. O taxariam interinamente os ordenados dos professores, regulando os entre
duzentos e quinhentos mil réts, a depender das circunstâncias da população
currículo que ordenava primeiro a leitura, depois a escrita e em
e carestia dos lugares, sendo suas deliberações aprovadas em assembléia
seguida o câlculo - isto é, a tradicional tríade sequencial do ler, geral (BRASIL, 1878).

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gumentava: "se o exame há de ser na conformidade da lei, é preci- vesse "uma moral sua". Cunha Mattos apoiava as sugestôes de
so que presida uma pessoa acoslumada a conhecer as leis", no Ferreira França, assim como o Sr. Odorico, que propunha um ar-
que defendia a proposta de que os exames pudessem ser presidi- tigo aditivo em relação ao ler e escrever: "acho bom determinar
dos por autoridades de comarca. Cunha Mattos discordava de alguns livros onde isso possa ser ensinado, a saber, a Constitui-
seu colega parlamentar, afirmando: "tenho conhecido muitos mi- ção do Imperio, e alguns dos classicos da língoa portugueza" (BRA-
nistros que, não obstante saberem muito latim, direito civil e SIL, 1982, p. 115).
canônico, nem sabem falar, nem sabem escrever portuguez". Con- Ferreira França passou então a defender o caráter prático
tou em seguida uma anedota de uma "grande personagem da dos conteúdos ensinados, tanto da Aritmética e da Geometria
magistratura" que não sabia escrever, no que todos riram, con- quanto da Língua Nacional. Sobre esta última, era decididamen-
forme o taquígrafo (BRASIL, 1982, p. 107-109). te contra o ensino da gramática: "não quero que se diga que cousa
Tratando específícamente do artigo sexto, Ferreira França é nome, nem que cousa é verbo, nem que taes partes da oração
propôs que, no lugar de "contar", se escrevesse "prática das ope- são essenciais, e taes acessôrias [ ]; quero que se faça perceber
raçôes principais de aritmética", acrescentando-se "resolução tão somente por via de exemplos, [ ]. Nós aprendemos com o uso".
prática dos problemas de geometria elementar". Quanto à Gra- Como modelo das escolas de ler e escrever a Língua Nacional,
mática da Língua Nacional, assim o deputado se expressava: propunha "um methodo de um senhor intitulado Vandíerí, que
escreveu um curso de estudos para os francezes aprenderem o
A respeito da grammatica da lingoa nacional, desejava que latim" (BRASIL,1982, p. 115). De acordo com o deputado, o referi-
se dissesse - declinações e concordancia de nomes da lín- do autor não apenas expôs o que se devia aprender naquelas lín-
gua portugueza - e mais nada; e quando não - grammatica guas, mas também fez uma coleção dos objetos de todos os escrito-
da língoa por via de exemplos unicamente. - Tambem res latinos, escrevendo sobre cães, cavalos, generais e coisas mais
quizera que se ajuntasse o que os meninos devíão ler nas fáceis para os meninos traduzirem com deleite, além de tratar de
escolas; pois este artigo falla principalmente das cousas, Deus, dos deveres do homem e das coisas mais singulares conhe-
que devem ser ensinadas; dizendo-se desta sorte os pro- cidas. Ferreira França concordava com Odorico em relação à maté-
fessores ensinarão a ler e escrever, pratica das operações ria de leitura, sugerindo a composição de uma seleta de escritores
principaes da arithmetica; resolução pratica dos proble- portugueses sobre a história política e natural do Brasil.
mas de geometria elementar com uso; grammatica da lingoa Argumentando que a educação da mocidade deveria ser
nacional por via de exemplos; principios de religião e mo- regulada "conforme a sua idade" e de acordo com o "desenvolvi-
ral (BRASIL, 1982, p. 115). mento do corpo e da razão do homem", Lino Coutinho advertia a
mesa para que se atentasse para a linguagem dos livros destina-
Em sua opinião, bastaria que se lhes explicassem os man- dos à leitura dos meninos, indicando assim Jacinto Freire de
damentos da lei de Deus e o "padre nosso", pois na explicação Andrade, autor da Vida de Dom João de Castro quarto viso-rei da
dessas duas coisas estavam as melhores máximas de costumes. India, publicada em Lisboa em 1651, e a Vida de Frei Bartolomeu
Xavier de Carvalho não concordava com o seu colega, pois, se- dos Mártires (1619). do frei Luís de Sousa, "porque estes dois li-
gundo ele, não teríamos professores capazes para ensinar tais vros são escriptos com exactidão, escolha e puresa da linguagem
conteúdos. Para o deputado, o importante era que o professor ti- portugueza". Admitia que era preciso haver uma seleta, mas, na

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falta de exemplares brasileiros, propunha a tradução de autores tava: "ela tem certos príncípíos que não se podem provar na soci-
franceses, uma vez que "os francezes apresentam muito bons exem- edade pelas subtílídades" (BRASIL,1982, p. ll8-ll9).
plares de muitas selectas, e não será diftlcultoso fazer uma boa Retomando as transformações, no século XIX, do modelo
traducção de um destes livros elementares que a cada passo en- escolar de transmissão dos saberes elementares enumeradas por
contramos" (BRASIL,1982, p. ll6). Hébrard (1999), que aqui servem de hipóteses para as mudanças
Vasconcelos, embora concordasse com França e Coutinho, relacionadas com as Primeiras Letras, no Brasil, a terceira rela-
enfatizava a finalidade prática do ensino, rejeitando os conteúdos ciona-se com a aprendizagem de redação de textos, reservada aos
teóricos, pois, no seu entender, estava demonstrado que "a alunos dos colégios e liceus - isto é, à Instrução Secundária -, os
mathematica não sendo applicada não presta utilidade senão para quaís, através dos exercícios de versão e tradução, familiariza-
fazer - X - e perder tempo". Quanto aos livros, aprovava o artigo vam-se com a Retórica das Humanidades Clássicas. Outro exer-
tal como se achava, acrescentando que os meninos poderiam ler cício de fundamental importãncia para ensinar os alunos a es-
os diários da cãmara. Em sua fala, pressupõe-se uma espécie de crever era a ampliação: fornecia-se aos alunos um assunto extra-
sequência dos conteúdos ensinados, pois o deputado propunha ído de autores latinos (inventio) - os discursos de Cícero, as histó-
que os meninos estudassem o direito, pela sua "grande utilida- rias de Títo Lívio e a poesia de Vírgílío, mediante os quais eram
de", mas só depois que soubessem o que era gramática (BRASIL, aprendidos os lugares comuns -; seu argumento resumido
1982, p. ll7). (dispositio) e a moral que se devia extrair dele (aplicatio). Em se-
O Arcebispo da Bahia, ao fazer referência à lei "novissima" guida, os alunos deveriam redigir o desenvolvimento (elocutio),
de 6 de novembro de 1772, afirmava que os conteúdos religiosos imitando as formas e o estilo dos textos dados como modelo. Foi
poderiam ser compreendidos debaixo da expressão "catecismo da desse modo que se iniciou a tradição escolar sobre "a arte de pen-
doutrina cristã". Quanto à Geometria, embora estivesse conven- sar e de escrever" (HÉBRARD, 1999, p. 51-52).
cido de sua ímportãncía, não achava que devesse ser ensinada,
pois "não estamos ainda tão avançados" (BRASIL, 1982, p. ll8). Algumas considerações
Odorico criticava a discussão sobre a Aritmética e a Geometria,
reconhecendo, no entanto, sua necessidade nas escolas de Pri- De acordo com o que foi aqui exposto, o momento inicial do
meiras Letras, e Cunha Mattos, apesar de dizer que aprendeu processo de institucionalização do ensino da Língua Portuguesa
com o Catecismo de Montpellier, atacava o excesso de ensino reli- no Brasil, isto é, de sua configuração como disciplina escolar,
gioso nos colégios com reitores eclesiásticos. Holanda Cavalcanti divide-se em duas etapas. A primeira, inaugurada em 1758,
defendia a liberdade que o professor tinha de ensinar pelo melhor quando foi aprovado o Diretório que se deve observar nas Povoa-
método que lhe conviesse, e Duarte e Silva votou pelo artigo, fa- ções dos Índios do Pará e Maranhão, que estabeleceu a Língua
zendo a ressalva de que por moral não se deveria entender a mo- Portuguesa como "idioma geral", criando escolas, para meninos
ral teológica, mas a "universal". Augusto Xavier também votou e meninas, de doutrina cristã, ler e contar, caracteriza-se pela
pelo artigo da maneira que estava, e Custódio Dias restringiu -se política línguístíca e educacional do Estado português, que, afir-
a afmnar o seguinte: "não estamos aqui em concilio tratando de mando-se como nação perante os povos civilizados e conquista-
artigos de fé. Não entremos pois em questões de religião, que o dos, buscava construir uma identidade nacional para si e para
negocio é temporal". Com relação à "moral universal", argumen- os outros.

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Em tal projeto de nação, o estabelecimento de uma língua cional, como se vê pela Lei de 15 de outubro de 1827, que inicia a
que representasse a índole do povo português era de fundamen- segunda etapa da institucionalização de seu ensino, ao incluir a
tal importância, e a estratégia representacional acionada pelo "gramática da língua nacional" entre os conteúdos a serem ensi-
Estado foi a Instrução Pública, instância que competia, antes, nados nas escolas de Primeiras Letras do país.
exclusivamente à igreja. Embora as Reformas Pombalinas não Pelos discursos dos deputados que aprovaram a lei, é possí-
houvessem ferido seriamente os interesses da fé católica, a sua vel notar, como vimos, uma espécie de necessidade prática do
implementação dependia de duas proibições: a do quase monopó- conhecimento da Língua Portuguesa, e não só para os meninos e
lio exercido pelos jesuítas em matéria de instrução e a das lín- meninas que frequentariam as escolas de Primeiras Letras, mas
guas em uso no Brasil, a saber, os idiomas das nações indígenas e também para os magistrados e demais homens de letras que,
a chamada "língua geral". Assim, a instituição do ensino da Lín- embora soubessem bem o Latim ou algumas Línguas Vivas, des-
gua Portuguesa, em Portugal e seus domínios, operava-se em duas conheciam a língua adotada pela jovem pátria, pelo menos gra-
frentes: através de uma reforma do ensino da Gramática Latina, maticalmente, isto é, do ponto de vista de sua "correção", algo
pela qual esta seria ensinada em vernáculo, e da alfabetização, imprescindível, como declarava o Alvará de 30 de setembro de
isto é, de uma reformulação das Escolas Menores de ler, escrever e 1770, para a "clareza, a energia, e a magestade, com que se de-
contar, as quaís passaram a ter como principal conteúdo a Gramá- vem estabelecer as Leis, persuadir a verdade da religião, e fazer
tica da Língua Portuguesa, estudada pelos Catecismos. uteis, e agradaveis os Escritos".
Nesse sentido, a instituição do ensino da Língua Portuguesa, Essa segunda etapa caracteriza-se pela reconfiguração do
em Portugal e em suas colônias, confunde-se com a invenção de modelo de ensino dos saberes elementares, antes tripartidos em
uma Língua Nacional, na medida em que se relaciona com um pro- ler, escrever e contar e agora fragmentados em uma série de con-
cesso de reconstrução e racionalização do Estado português, que teúdos não necessariamente sequenciais. O Catecismo, nesse
por sua vez repercutia, a seu modo, um movimento maior de conso- processo, passa a ser conteúdo dos Princípios de Moral Cristã e
lidação dos Estados nacionais europeus. Dessa forma, se a identi- Religião Católica e a dividir o espaço das práticas de leitura esco-
dade nacional, entendida como "comunidade imaginada", depende lar com a Constituição do Império e com a História do Brasil, con-
de narrativas histôricas, literárias e políticas para se materializar, teúdos que, juntamente com a Gramática da Língua Nacional,
ou pelo menos para funcionar como um "princípio espiritual" de demonstram as intençôes do país recém-independente em tam-
pertença a uma determinada nação, a unificação e estabeleci- bém constituir-se como nação.
mento de uma língua, bem como sua aprendizagem escolar, seria Com relação às alterações do modelo escolar de ensino dos
um primeiro passo para a construção de uma literatura - e con- saberes elementares, embora a hipôtese da aprendizagem simul-
sequentemente de seus cânones - e uma cultura nacionais. tânea da leitura e da escrita e da condução da alfabetização ao
Mesmo levando em conta que tal processo de unificação e estudo da ortografia e da gramática não possa ser aqui compro-
estabelecimento da língua não se deu sem conflitos ou vada, a lei de 1827, bem como algumas posições dos parlamenta-
descontinuidades, não se pode deixar de reconhecer um relativo res da época, aponta para transformações importantes, no con-
sucesso da política linguística e educacional pombalina, que se texto brasileiro, da "forma escolar" (VINCENT,LAHIREe THIN,
fez evidenciar pela apropriação, da parte dos legisladores do Bra- 200 I), uma vez que lá estão presentes os principais elementos
sil recém-independente, da Língua Portuguesa como Língua Na- que possibilitaram o processo de escolarização no Brasil, tais como:

92 93
Luiz Eduardo Oliveira GRAMATIZAÇÃO E ESCOLARIZAÇÃO

sua administração; financiamento; seleção, formação, carreira e


remuneração do professor (a); os estudos, ou conteúdos ensina-
dos; e o método de ensino.
Quanto à aprendizagem de redação de textos, tal prática,
ao contrário das duas anteriores (ensino simultáneo da leitura e
da escrita e disposição sequenciada dos conteúdos), restritas à
instrução elementar, ou às escolas de Primeiras Letras, pode ser
comprovada nos planos de estudo e nos compêndios referentes à
Instrução Secundária, que se institucionaliza com a fundação do
Imperial Colégio de Pedro Il, em 1837.

~II

Arte da grammatica da língua portugeza (1770)

94 95
Luiz Eduardo Oliveira
GRAMATIZAÇÃO E ESCOLARIZAÇÃO

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96
97
AS GRAMÁTICAS INGLESAS E A INSTRUÇÃO PÚBLICA:

uma história do ensino de Inglês no Brasil*

E sendo outrossim tão geral, e notoriamente conhecida a ne-


cessidade, e utilidade das línguas jranceza e ingle za, como
aquellas que entre as linguas vivas teem o mais distincto /ogar,
é de muito grande utilidade ao Estado, para augmento, e
prosperidade da instrucção publica. que se crêe nesta capital
uma cadeira de linguajranceza, e outra de ingleza."

• Os textos deste capítulo são oriundos de minha Dissertação de Mestrado, intitulada


brasileira da literatum inglesa: uma história do ensino de inglês no
A historiograjia.
Brasil (1809-1951), defendida na Universidade Estadual de Campinas em 1999,
sob orientação da Pra. Ora. Mansa Lajolo,e de minha Tese de Doutorado, intitulada
A instituição do ensino das línguas vivas no Brasil: o caso da língua inglesa (1809-
1890), defendida na PUC-SP em 2006, sob ortentação do Prof. Dr. Odair Sass.
Alguns de seus argumentos e passagens foram usados nos seguintes trabalhos:
"A instituição do ensino de inglês no Brasil: estabelecendo a fase inicial (1809-
1831)", artigo publicado em 2003 na revista Crop, pp. 155-187: "As origens da
profissão de Tradutor Público e Intérprete Comercial no Brasil (1808-1943)", artigo
publicado em 2005 na revista Claritas, pp. 25-41: "As línguas vivas e a instrução
militar: a instituição do ensino de inglês em Portugal e no Brasil (1761-1832)",
comunicação apresentada in absentia no IV Colóquio Internacional da
APHEUE (Associação Portuguesa para a História do Ensino das Línguas e
Literaturas Estrangeiras), realizado na Cidade do Porto, nos dias 23 e 24 de
novembro de 2006: "Os professores públicos de língua inglesa: construindo
uma história (1809-1827)", comunicação apresentada, em parceria com Elaine
Maria Santos, no X Sem1nárto de Llnguístlca Aplicada, realizado em Salvador,
de 9 a 12 de dezembro de 2008: "A Gramática de Castro e o Ensino de Inglês
no Brasil (1809-1827)", comunicação apresentada, em parceria com Elaine
Maria Santos, no VI Congresso Internacional da ABRALIN (Associação
Brasileira de Línguístíca). realizado em João Pessoa, de 4 a 7 de março de
2009: "O ensino da língua inglesa nos colégios e seminários no Brasil (1820-
1828)", comunicação apresentada no 19° EPENN (Encontro de Pesquisa
Educacional do Norte e Nordeste), realizado em João Pessoa, de 5 a 8 de julho
de 2009: e "A instrução militar e o ensino de inglês no Brasil (1761-1832)",
artigo aceito para publicação em 2009, na Revista Tempos e Espaços em Educação.
.• Decisão n. 29, de 14 de julho de 1809.
Luiz Eduardo Oliveira GRAMATIZAÇÃO E ESCOLARIZAÇÃO

A "transmiqração" da corte portuguesa A idéia da transferência da corte portuguesa para a Améri-


ca, correlata à ambição de "fundar um Império do Ocidente", era
A vinda do Príncipe Regente D. João (1767-1826) e sua cor- acalentada por monarcas lusitanos há muito tempo, e tem no
te para o Rio de Janeiro, em 1808, sígnífícou, em muitos aspectos, padre Antonio Víeíra (1608-1697) um de seus precursores (CU-
especialmente naqueles relacionados à Instrução Pública, a apli- NHA, 1985, p. 138), mas da maneira como se colocava, sob a
cação e desenvolvimento, na colônia que quase de um dia para o pressão do Imperador francês, de um lado, e a proteção não me-
outro passava à condição de sede do governo português, das dire- nos opressora da Inglaterra, de outro, a opção não era vista com
trizes estabelecidas pelas Reformas Pombalinas. O avultado nú- bons olhos. Já em 5 de julho de 1801, Monteiro da Rocha, em
mero de peças legíslatívas publicadas logo nos primeiros anos após carta enviada a D. Francisco de Lemos, bispo e reitor da Univer-
a sua chegada é um eloquente atestado de tal orientação, que se sidade de Coímbra, afirmava que "o peor de todos os conselhos é
fazia representar pelo interesse de Sua Alteza Real- ou do gabi- o da retirada para o Brasil. É o mesmo que lançar-se ao mar na
nete em seu nome - em prover seu rico domínio não apenas com tormenta com o medo de naufragar d'ahí a pouco". José Agosti-
as instituiçôes necessárias ao funcionamento do Estado portugu- nho de Macedo, em um parecer contemporâneo à saída de Sua
ês, mas também com o pessoal qualillcado para ocupar os novos Alteza Real para o Brasil, afirmava que "a conservação do Príncipe
cargos - ou "lugares", como então se dizia - que seriam criados. no Brasil assegura á Inglaterra para sempre o senhorio absolu-
Sua saída de Portugal, no entanto, foi muito conturbada, to dos mares; dá um consumo ínflníto ás suas manufacturas em
estando a Europa em guerra. No Monitorn. 317, de 1807, Napoleão um imperio creado de novo e que necessita de tudo [... l". acres-
Bonaparte já havia mandado publicar oficialmente que "a queda centando que a emigração do Príncipe era "vantajosa Inglaterra
á

da Casa de Bragança permanecerá como uma nova prova de que e desvantajosa e funesta a todos os outros povos" (apud BRAGA,
a ruína, a quem se ligar com a Inglaterra, é inevitável" (apud 1902, p. 18-20).
BRAGA. 1902, p. 17). Um exército comandado pelo GerenalJunot Theofllo Braga, assim como os autores e personagens histó-
invadiu Lisboa em novembro do mesmo ano, quando D. João, sua ricos que cita, condenou a atitude de D. João em fugir de Portu-
família e demais cortesãos, além de seus pertences, incluindo gal, "em cumprimento dos planos de Inglaterra", fazendo ver que,
parte de sua bíblíoteca ', já se encontravam em alto mar, rumo ao se por um lado a transferência da corte para o Brasil representa
Brasil com sua frota protegida pela esquadra inglesa. o momento inicial de um período de sígnífícatívas mudanças no
panorama educacional do país, por outro sígníflca o abandono da
nação portuguesa, deixando seu povo sujeito aos desmandos do
General inglês Beresford:

I Na verdade, a Real Biblioteca. ou "Real Livraria", foi transportada para o D. João VI, tendo abandonado a nação ao invasor, levando
Brasil em três viagens sucessivas: uma em 1810 e duas em 1811. Com comsígo para o Brasil todo o dinheiro dos cofres publicos,
o retorno de D. João VI, muitos documentos da Coroa voltaram para recommendando ao seu povo que tratasse com respeito o
Portugal, tendo a parte restante, e já muito mais volumosa pelas novas
aquisições, custado ao Brasil a quantia de oitocentos contos de réís na inimigo, e entregando-nos a uma regência de imbecis para
ocasião do acordo de reconhecimento de sua independência (SCHWARCZ, encobrir a vergonha de uma occupação militar da Inglater-
2002, p. 430). ra, continuara extorquindo de Portugal, reduzido á situa-

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Luiz Eduardo Oliveira
GRAMA TIZAÇÃO E ESCOLARIZAÇÃO

ção de colonía, uma boa parte dos seus rendimentos para


de Justiça. O Tribunal da Mesa do Desembargo do Paço e da Cons-
as despezas da nova corte (BRAGA, 1902, p. 37).2
ciência e Ordens foi instituído pelo Alvará do dia 22 do mesmo
mês. No dia 1.o de maio, publicou um manifesto declarando guer-
Seja qual for o seu papel histórico na "transmigração"3 da ra ao Imperador dos franceses, e no dia 10 fundou a Casa da
corte portuguesa, que não cabe aqui julgar, o certo é que suas
Suplicação do Brasil, dando outras providências a bem da admi-
iniciativas referentes à Instrução Pública começaram a aparecer
nistração da justiça. No mesmo mês, foi regulado o Corpo da Bri-
ainda no ano de sua chegada, o que mostra que seus planos de gada Real da Marinha, sua contadoria e nomeados os seus mem-
organização do Estado do Brasil já haviam sido traçados há um
bros, além de ser decretado o lugar de Intendente Geral da Policia
bom tempo, única razão que justifica a quantidade de cartas régi-
no Estado do Brasil e estabelecida a Real Fábrica de Pólvoras.
as, alvarás e decretos promulgados em tão curto espaço de tem-
Nos meses seguintes, foram criados o Erário Régio e o Banco do
po, na tentativa de fundar as principais instituições de que preci-
Brasil, sendo também nomeadas as autoridades que ocupariam
sava para a manutenção da monarquia portuguesa, proclamada os cargos administrativos, judiciários e eclesiásticos da corte e
que estava a destituição da Casa Real de Bragança pelo governo das capitanias.
inimigo.
Seu ministério era composto por D. Rodrígo de Sousa
D. João partiu de Lisboa em 27 de novembro de 1807 e che- Coutinho (1745-1812). o Conde de Linhares, como Ministro da
gou à Bahía em 22 de janeiro de 1808. Seis dias depois, decretou Guerra e dos Estrangeiros; D. Fernando José de Portugal, depois
a abertura dos portos do Brasil ao comércio direto estrangeiro,
Conde e Marquês de Aguiar (1752-1817). na pasta dos Negócios
"sem excepção de Fazendas". No dia 7 de março, aportou ao Rio de
do Brasil; e João Rodrígues de Sá e Melo, o Visconde de Anadia
Janeiro e, no dia 1.o de abril, criou o Supremo Conselho Militar e
(1755-1809). depois Conde do mesmo título, no Ministério da Mari-
nha e Ultramar. A Instrução Pública, dada a sua importáncia nes-
se contexto, é um tópico recorrente na agenda do governo joanino,
2 o positivismo radical de Braga, que se apóia a todo momento em cítações de constituindo um raio de ação comum aos três ministérios.
Auguste Comte (1798-1857). chega a ser um tanto preconceituoso: "O rei,
distrahido com a sua capella de negros, e atormentado pelo clima, só pensava
em Portugal quando tinha de assígnar algum paternal decreto, e adormecia na
o Real Colégio dos Nobres e a Gramática de Teles de Menezes
confiança de que a espada do general ínglez Beresford lhe conservaria na
obediencia estes fieis vassallos, até que o gabinete de Saint..James resolvesse Já em 7 de abril de 1808, no mês seguinte à chegada de D.
acerca do destino d'esta esmagada nacionalidade" (BRAGA,1902, p. 37). João e sua corte ao Rio de Janeiro, foi publicado um decreto cri-
3 Para Mattos (1999, p. ?71-272). o termo "transmigração", utilizado pela ando o Arquivo Militar, anexo à Repartição da Guerra e "depen-
htstortograna para denominar a transferência da corte portuguesa para o
Brasil, é "íncornurn e revelador", pois, de acordo com o Dicionario de Moraes dente das outras Repartições do Brazil, Fazenda e Marinha, a fim
e Silva, cuja segunda edição é de 1813, transmigrar, além de "fazer mudar que todos os meus Ministros de Estado possão ali mandar buscar,
de assento e domicílio", significava também "passar a alma de um corpo a ou copiar os planos, de que necessitam para o Meu Real Serviço".
animar o outro", o que imprimia ao fato uma "localização", pelos Saquaremas
(Partido Conservador), já durante a Regência e o Segundo Reinado, do
O regimento interno do estabelecimento, assinado pelo Conselhei-
momento fundador do elo entre Colônia e Nação soberana, que por sua vez ro, Ministro e Secretário de Estado da Guerra e Negócios Estran-
conduzia a uma Igualdade - do Brasil em relação às Nações Civilizadas _ e geiros D. Rodrígo de Sousa Coutinho, indicava as atribuições e gra-
a uma diferença - do Brasil em relação às repúblicas da América Espanhola.
tificações de seus membros - diretor e mais subalternos, engenheiros
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Luiz Eduardo Oliveira GRAMATIZAÇÃO E ESCOLARIZAÇÃO

e "desenhadores" -, bem como o local onde teria funcionamento: ções. O lente - isto é, professor - nomeado para a dita aula foi
uma das salas que serviam de Aula Militar (BRASIL,1836). José Fernandes Pinto Alpoim (1700-1765), que a ministrou desde
Tal alusão nos remete, de imediato, à situação da instrução 1738 até sua morte, produzindo os dois primeiros compêndios de
militar da colônia no periodo anterior à chegada do Príncipe Re- Matemática escritos no país: Exame de artilheiros, de 1744, e Exa-
gente. Conforme Valente (2003), a primeira tentativa de criação me de bombeiros, de 1748, impressos, respectivamente, em Lis-
de uma Aula de Fortificações no Brasil data de 1699, mas até boa e Madri (VALENTE,2003, p. 220; 222).
1710 suas atividades ainda não haviam sido iniciadas. O princi- A iniciativa de Alpoim, contudo, não impediu que houvesse
pal obstáculo de sua realização, segundo o autor, era a falta de necessidade do ensino da Língua Francesa na instrução militar
livros em Português: da colõnia, como sugere o relato de Ribeiro (1874, p. 233), segun-
do o qual coube ao Conde de Resende, Vice-Rei do Estado do Bra-
Que tipo de livros eram esses? Verdadeirostratados, pesa- sil de 1790 a 1801, quase cinquenta anos depois, em sua reforma
dos e sob a forma de volumosostomos que têm como con- dos estudos militares, incluir aquela língua entre as matérias a
teúdo um curso de matemática, seguido de instruções de serem professadas na Academia Militar:
manuseio de armas. Pode-se imaginar quão inviávelteria
sido trazer à Colõnia caixas desses tratados estrangeiros, Em 1793,estabeleceu o mesmo Condeuma AcademiaMili-
caríssimos, e confiá-Iasàs mãos de alunos que mal sabiam tar, para instrucção das praças dos regimentos de linha e
ler (VALENTE, 2003, p. 220). de milícias do Riode Janeiro. Os estudos que se professa-
vam na academia eram: fortificação, geometria pratica,
Com efeito, tais livros, em sua maioria, eram escritos em arithrnetica, desenho, francez, primeiras lettras.
idiomas estrangeiros, especialmente Inglês ou Francês, o que tor-
nava muito difícil a sua divulgação entre os habitantes da colô- Alguns anos antes, dois professores haviam pedido licença
nia. Mas era necessário à coroa portuguesa ter oficiais bem trei- para abertura de Aulas Públicas da Língua Francesa, tendo seus
nados no manuseio de peças de artilharia, bem como na constru- requerimentos aprovados com base em provisões válidas pelo pe-
ção de fortes, em suas possessões ultramarinas, principalmente riodo de um ano. A primeira delas, concedida "em utilidade do
no Brasil, com sua imensa costa sempre ameaçada por invasores bem publico" a Francisco José da Luz, em 23 de julho de 1788,
estrangeiros", motivo pelo qual, em 1738, uma Ordem Régia de 19 pelo Juiz, Vereadores e Procurador do Senado da Càmara da ci-
de agosto tornou a instrução militar obrigatória a todos os ofici- dade do Rio de Janeiro, e assinada por Fellipe Cordovil de Síqueíra
ais, os quais não poderiam mais ser nomeados ou promovidos e Mello, estabelecia a mercê nos seguintes termos:
sem que tivessem aprovação na Aula de Artilharia e Fortifica-
Fazemos saber aos que a prezente nossa provizão virem
que a nos enviou dizer por sua petisão Francisco José da
Luzque ele pretende abrir nesta cidade huma Aula publica
4 É preciso levar em conta que, mesmo depois da chegada do Principe Regente, da Língua Franceza e como não podia fazer sem Licença
o nome Brasil constituía uma "designação genérica das possessões deste Senado nos pedia por concluzãoe remate de petisão
portuguesas na América do Sul", tal como relata o francês Horace Say. que
por aqui esteve em 1815 (apud HOLANDA. 1970. p. 15). fosemosassim servidosconseder-lhea dita Licençae Rece-

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Luiz Eduardo Oliveira GRAMATIZAÇÃO E ESCOLARIZAÇÃO

berá mercê, entendendo nos ao seu Requerimento ser em Assim, o gabinete de D. José I buscou modernizar o Estado
utilidade do publico e esperamos dele que no de que for português, reformulando um dos setores mais estratégicos para
encarregado do serviçode Sua Magestade e do bem publico seu almejado progresso: as Milícias de Terra e Mar, e a opção que
o fará com boa e pronta satisfaçáo, Havemos por bem de se fez foi pela formação do "perfeito militar". O grau de perfeição,
lhe conceder faculdade de poder por sua Aula publica por no entanto, conforme o entendimento do governo pombalino, con-
tempo de um anno para nela ensígnar a Língua Franceza fundia-se com o de nobreza, fazendo com que as "luzes" advindas
se no entanto nos pareser conservalo e Sua Magestade não da instrução militar se restringissem a certas "classes de pesso-
mandar o contrario com cuja ocupação haverá os as", como se pode observar nos parágrafos referentes às condi-
Emolumentos que diretamente lhe pertencerem e para fir- ções de ingresso nos estabelecimentos então criados, a exemplo
meza do Referidojurará perante o Juiz Prezidente... (apud do § 1.o do Título VI dos Estatutos do Real Colégio dos Nobres:
ALMEIDA,2000, p. 328).5
Todos os Collegíaes que houverem de ser admittidos, se
Apesar de nada indicar a relação das provisões acima cita- devem primeiro qualificar com foro de Moço Fidalgo, pelo
das com a instrução militar, esta, ao menos formalmente, era na menos, sem o qual não poderão ser de nenhuma sorte rece-
colõnia a única modalidade de formação para a qual o conheci- bidos: Preferindo nos casos de concurso os que houverem
mento daquela língua se fazia necessárío". No reino, a partir do tido exerciciono sobredito foro (PORfUGAL,1830).
período pombalino (1750-1777) - isto é, durante os anos em que o
Marquês de Pombal, como ministro plenipotenciário do Rei D. José O ensino das línguas estrangeiras, nessas condições, justi-
I, praticamente governou Portugal-, os estabelecimentos de ins- fica-se como um instrumento de acesso ao conhecimento científi-
trução militar tiveram importãncia fundamental na divulgação e co da época, pois os compêndios mais atualizados na matéria, como
aplicação do conhecimento científico então disponível, represen- já foi dito, estavam escritos, em sua maioria, em Francês ou Inglês.
tado pelas Matemáticas e Ciências Físicas e Naturais. Tal era o discurso da legislação pombalina, em sua tentativa de
promover uma espécie de nobreza militar adaptada às exigências
do século das luzes. Na verdade, antes mesmo do período pombalino,
durante o reinado de D. João V (1707-1750), alguns intelectuais
5 A segunda Provisão, concedida pelas mesmas autoridades e nos mesmos portugueses já defendiam a utilidade das línguas estrangeiras na
termos da primeira. foi passada a João José Tascio em 18 de março de
1789 (apud ALMEIDA.2000. p. 328). formação da juventude contra o caráter ornamental das Línguas
6 Convém lembrar que a historiografia educacional brasileira tem procurado Clássicas, incompativel com um século de progresso material.
atribuir ao Seminário de Olínda, aberto em 1800 por Azeredo Coutinho Um deles foi Martinho de Mendonça de Pina e Proença (1693-
(1742-1821). ex-aluno da Universidade reformada de Coírnbra. bispo e
1743), em cujo Plano de Estudos de sua obra mais conhecida,
governador da Capitania de Pernarnbuco, a iniciativa pioneira da aplicação
de "princípios ilustrados" no seu plano de estudos. o qual teria incluído. Apontamentos para a educação de um menino nobre (1734), não
além das Ciências Físicas e Naturais. as Línguas Vivas. embora não apresente constava a Gramática Latina. Para o autor, dentre os conheci-
documentos para tal comprovação. Os Estatutos do Seminário. escritos
mentos necessários à formação de um menino nobre estava o das
pelo seu fundador e publicados em Lisboa em 1798. não fazem qualquer
referência ao ensino das Línguas Vivas em sua terceira parte. dedicada ao Línguas Francesa e Inglesa, de preferência à Castelhana e Italia-
plano de estudos da instituição (ALVES.2001). na, "que não precisam de grande aprendizagem para se entende-

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Luiz Eduardo Oliveira GRAMATIZAÇÃO E ESCOLARIZAÇÃO

rem". Entre o Inglês e o Francês, o autor preferia o Inglês, "pelo lei repetia o discurso do pensamento pedagógico da época, ao de-
grande numero de livros dou tos, e profundos, que naquela Ilha se fender a utilidade dos muitos livros escritos nas referidas línguas:
escreverão, e escrevem sempre, principalmente na Mathematica,
fisica experimental, e Historia natural, pela mayor parte na língua Não sendo conveniente que os Collegiaes antes de acaba-
vulgar" (apudCARVALHO, 1959, p. 79). rem a Rhetorica, e se acharem preparados com as Noções
Em 1746, no "apêndice lI" da "Carta Primeira", Luiz António que deixo ordenadas, se embaracem com differentes
Verney (1713-1792) justificava a necessidade e a importância do applicações; nem que sejam privados da grande utilidade,
estudo das línguas estrangeiras nos mesmos termos de Martinho que podem tirar dos muitos, e bons livros, que se achão
de Mendonça, mas optava pelo "francês ou italiano", pois "nestas escritos nas referidas Línguas: Ordeno que o Collegío pa-
línguas se tem composto em todas as Ciências, de que não temos gue a tres Professores para as ensinarem: E que os Collegíaes
traduções latinas". Seguindo o exemplo de "ingleses, holandeses, depois de haverem passado as Classes de Rhetorica, Lógi-
franceses, alemães, etc.", o autor descartava a exigência da apren- ca, e Historia, aprendão pelo menos as Línguas Franceza, e
dizagem da Gramática Latina para se ter acesso à ciência, pelo Italiana; ainda que será muito mais util aos que forem mais
grau de dificuldade enfrentado pelos "rapazes". Pela prática da capazes, e estudiosos procurarem possuir tambem a Língua
tradução dos livros ingleses e franceses, argumentava, citando o Ingleza (PORTUGAL, 1830).
caso dos "Transmontanos", seria possível, com o tempo, compor
originalmente (VERNEY,1949, p. 272-274). Quanto ao método de ensino, prescrevia-se o uso repetido
António Nunes Ribeiro Sanches (1699-1783), por sua vez, de exercícios práticos de "vivavoz", devendo ser poupadas em seus
em suas Cartas sobre a educação da mocidade (1760), previu para excessos as explicações gramaticais. Os compêndios seriam, ao
os quatro tipos de escolas por ele propostos um Plano de Estudos mesmo tempo, úteis e agradáveis, além de "corretos", e os profes-
comum, no qual figuravam, além da Gramática da Língua Portu- sores, embora não precisassem residir no colégio, como os das
guesa, as Línguas Inglesa, Francesa e Castelhana (apud CARVA- outras matérias, haveriam de ter "louváveis costumes". O § 10 do
LHO, 1959, p. 82). Título VI, dedicado aos colegiais, aconselhava que as "conversa-
Mas foi sob o ministério pombalino que as línguas foram ções familiares" fossem feitas nas línguas estrangeiras - "na Lín-
objeto de legislação, sendo seu conhecimento indicado e depois gua Portugueza, ou na Franceza, Italiana, ou Ingleza" -, sendo
exigido nos estabelecimentos destinados à instrução militar. A proibido o Latim, "por ser o uso familiar desta Lingua morta mais
primeira medida nesse sentido é a Carta de Lei de 7 de março de proprio para os ensinar a barbarisar, do que para facilitar o co
1761, publicando os Estatutos do Real Colégio dos Nobres - antigo nhecímento da mesma Língua" (PORfUGAL, 1830). Os alunos, para
Colégio das Artes dirigido pelos Jesuítas -, aberto oficialmente em serem admitidos, deveriam ser qualificados com o foro de "moço
19 de março de 1766. O Plano de Estudos da nova instituição tra- fidalgo" (§ 1.°, Tit. VI), como vimos, além de saber ler e escrever,
zia novidades, pois além das matérias usuais do ensino de Huma- tendo no mínimo sete e no máximo treze anos de idade (§ 3."), ('
nidades (Latim, Grego, Retórica, Filosofia, Teologia), estavam pre- pagar anualmente uma pensão de 120.000 réís, em duas »are('\nH
sentes alguns elementos das Matemáticas, Astronomia e Física, e (§ 5.°). Os que concluíssem os estudos seriam admlUdos ;\H mau .
se achava recomendado o estudo das Línguas Francesa, Italiana e culas dos cursos superiores sem dependência de exame (§ 5.", TIl.
Inglesa. No Título VIII,dedicado aos seus respectivos professores, a XVI),com preferência nos empregos e lugares públicos (§ 7.").

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Luiz Eduardo Oliveira GRAMATIZAÇÃO E ESCOLARIZAÇÃO

Apesar do entusiasmo com que foram recebidos os Estatu- de do autor em dar lume à sua pequena obra, produzida, como ele
tos do Real Colégio dos Nobres, principalmente pelo Diretor Geral mesmo afirma, nos momentos de descanso do serviço militar:
dos Estudos D. Tomás de Almeida, que se envolveu muito no projeto
e no mesmo ano da publicação dos estatutos enviou várias cópias Do insondavel mar da altissima comprehenção de Vossa
para todos os governadores e comissários do Brasil (ANDRADE,1978, Magestade, participada a nós naquelas sabias providencias,
p. 104-108F, o funcionamento da instituição, pelo menos até 1772, nascem as fontes, e os rios com que se vay hoje regando, e
quando com a reforma da Universidade de Coimbra foi abolido o florecendo cada vez mais em Portugal a arvore da ciencia: e he
ensino das Matemáticas no colégío", parece ter sido marcado pelo precizo que umas, e outros tomem didicados [sic] ao mesmo
fracasso, sendo os professores de Francês e Inglês contratados so- mar donde foram produzidos (MENEZES, 1762, p. iii).
mente em 1785 (CARVALHO,1959, p. 126; 173).9
De qualquer forma, um ano após a publicação dos estatutos, O autor se mostra um tanto modesto na dedicatória, pois
em 1762, foiimpressa uma Grammatiroing1ezaordenadaemportuguez, afirma que sua obra não pode fazer número com as outras que,
"na qual se explicão clara, e brevemente as regras fundamentaes, e "em todo o genero de literatura", iam saindo a cada dia. Mas, por se
as mais proprias para falar puramente aquela língua, composta e tratar da gramática de uma língua "cujo estudo se acha recomen-
dedicada á magestade fidelissima de elrey Dom Jozé o I, nosso se- dado pelas novas leys", contava com a Real Aceitação de Sua Ma-
nhor" por Carlos Bernardo da Silva Teles de Menezes, militar e "fidal- jestade. Já no prefácio, intitulado "Ao Leitor", sua modéstia muda
go da Caza de Sua Magestade", conforme a folha de rosto do livro. A de tom, sendo atribuídos os possíveis defeitos de sua "Arte'"? às
dedicatória, dirigida à ''Vossa Magestade", creditava a El Rei os novos atribulações de sua profissão, "que he a das armas", e a uma grave
progressos da "Literatura Portugueza", o que justificava a temerida- doença de que padeceu durante o tempo da impressão, o que não o
impediu de emendar muitos defeitos de outras artes da mesma lín-
gua, melhorando seu método e tomando mais simples os preceitos:

7 Segundo Braga (1898, p. 348-351), as Cartas sobre a educação da mocidade


Rara, ou nenhuma vez saem sem eles [erros] as [obras] deste
(1760). de Ribeiro Sanches. originaram-se de sua correspondência com o
Principal de Almeida, Diretor Geral dos Estudos. na qual o mêdico português genero, do que ha tantos exemplos, quantos são as Artes de
propunha como modelo ideal que se podia imitar em seu país a Escola Real Gramatica que se tem impresso em todo mundo. Nem uma só
Militar de Paris. estabelecida em 1751. Assim. o Real Colégio dos Nobres
sahio até aqui, que não tivesse que emendar nas subsequentes
teria sido inspirado em suas idéias. Tal hipótese é também abraçada por
Laerte Ramos de Carvalho (1952. p. 117). edições. Não será muito que suceda o mesmo a esta; mas
B Com a fundação dos dois novos cursos da universidade. o matemático e o posso segurar, que nela forão já emendados muitos dos defeí-
filosófico. seus lentes e instrumentos científicos foram para eles transferidos
(BRAGA. 1898. p. 353).
9 Entre as causas arroladas por Rõmulo de Carvalho (1959. p. 173). estão: a 10 O termo "arte", neste caso. é sínõnímo de compêndio, podendo também ser
deficiênciada administração. o Plano de Estudos inadaptado à idade dos colegiais.
usado. no Brasil oitocentista. no sentido de expressão estética - no que
o ensino efetuado por professores estrangeiros em língua estrangeira, a situação
geralmente é escrito no plural e precedido do adjetivo "belas". como em
social dos estudantes. que. habituados às liberdades de sua classe. tinham
"Bellas Artes" - e de profissões liberais. como em Colégio das Artes ou
atitudes incompatíveis com um regime de disciplina. e o desagrado dos
Escola de Artes e OficiosoNas ocorrências em que é contraposto à ciência.
professores. que se viam obrigados a acumular funçôes administrativas. O Colégio
como em alguns discursos da segunda metade do século XIX. o termo
foi abolido com um decreto de janeiro de 1838 (RIBEIRO.1876. p. 322).
ganha a acepção de saber ainda não sistematizado (OLIVEIRA.2006).

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tos que achey em outras Artes da mesma língua, feitas para Conforme o autor. o mesmo não sucedia aos ingleses. que
uso de diversas nações; e não somente emendados os defei- no seu idioma tinham diferentes gramáticas da Língua Portugue-
tos, mas melhorado o metodo, e os preceitos; pois tal he, que sa. em cujo estudo quase todos se iniciavam. especialmente aqueles
nesta Arte está reduzido a uma só regra, quando em outras que se aplicavam ao comércio. Nesse ponto. Teles de Menezes dis-
he matería de mais de vinte (MENEZES, 1762: vííí-íx). tingue claramente os interesses do conhecimento de cada língua
nos dois países: "bem sey que os interesses deste [comércio], e
A finalidade do ensino da Língua Inglesa, segundo Teles de não o de instruirse na lição dos nossos Autores. são o motivo da-
Menezes, é o conhecimento dos grandes autores que nela tinham quela aplicação: mas por isso mesmo, será tanto mais louvavel
escrito suas obras "desde o princípio do seculo prezente", uma vez em nós o estudo da sua língua. quanto for mais nobre o motivo de
que no século anterior aquela língua era não somente desconheci- aprendela" (MENEZES, 1762. p. vii).
da dos estrangeiros, mas também desprezada pelos própIios natu- O livro divide-se em três seções. A pIimeira compreende a
rais. Assim, ela precisava ser ensinada e aprendida para que todos explicação das partes da oração. os artigos. as declinações. os
pudessem fazer uso dos "excelentes orígínaes" nela impressos, como gêneros e qualidades dos nomes, as conjugações dos verbos regu-
havia reconhecido "a Alta sabedoIia de Sua Magestade Fídelíssíma, lares e irregulares. a sintaxe e "tudo o mais que he propIiamente
quando no Tit. 8. dos Estatutos do Colégio Real dos Nobres. foy ser- Arte de Grarnatíca", isto é. as regras de prosódia e ortoépía, os
vido críar um Professor. e recomendar o estudo da dita língua". O graus de comparação. os pronomes etc. A segunda é um breve
estimulo de sua utilidade. se era necessárto a todas as "nações cul- dícíonárío de palavras inglesas distribuído "por diferentes clas-
tas". era-o mais ainda à portuguesa. dadas as suas relações comer- ses de materías", "que he a mayor dificuldade que tem a língua
ciais com os ingleses. sendo indesculpável a falta de interesse dos Ingleza para os que falão outras. que não tem como ela. a raiz na
portugueses em aprender a falar a língua de "uma gente que temos língua Teutoníca", A terceira, fínalmente, consta de váríos "diálo-
tão dentro de caza"!', bem como a carência de gramáticas da Lín- gos familiares" 13 ingleses e portugueses (MENEZES, 1762, p. x-xí).
gua Inglesa escritas em Português. ao contrárto de outras línguas Tal como previam os Estatutos do Real Colégio dos Nobres.
"que nos devem ser mais indiferentes" (MENEZES. 1762: vi).12 o compêndio foi tido como "agradável e correto" pelos censores,
que já em 1761 haviam concedido a Licença para sua publicação.
Assim pareceu ao Qualificador do Santo Oficio. Dr. Fr. João de
Portugal manteve relações de dependência econômica com a Inglaterra desde a
11
Mansílha, da Sagrada Religião dos Pregadores. o qual em 27 de
época de Crommwell (1653-1658), antes do Tralado de Methuen. de 1703.
pelas quaís, em troca de proteção maritIma contra os inimigos europeus - França fevereiro alegou que. após a leitura da gramática. nada lhe pare-
e Espanha -. os ingleses obtiveram liberdade de comércio sem salvo-conduto cia contrárto à Santa Fé ou aos bons costumes'. julgando-a muito
nem Licença em Portugal e em todos os seus domínios. liberdade de religião e de
culto. privilégio de créditos. jurisdição especial. isenção e embargo de navios e
bens para uso de guerra. entre outras regalias (FREYRE. 2000. p. 18).
12 Aqui o autor omite. em um movimento típico da retôrica dos autores de 13 Um dos primeiros registros da expressão "Diálogos Familiares" aparece no
compêndio. os quaís insistiam em alardear o caráter inaugural de suas titulo de um livro do francês Jacques Bellot publicado em 1586 e destinado
obras. a despeito das outras do mesmo gênero já publicadas. a Grammatica ao ensino de Inglês para os refugiados franceses na Inglaterra (HOWATI.
anglo-lusitani.ca & lusitano-angli.ca: ou. Gramatica nova. ingleza e portugueza. 1988. p. 14). Tais diálogos. em Teles de Menezes. são assim divididos:
e portugueza e ingleza; dividida em duas partes. publicada em Londres e "para facílttar o uso entre amigos". "para senhoras". "para falar de uma
escrita por J. Castro em 1751. cuja terceira edição saiu em 1759. senhora". dentre outras situaçôes.

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útil "para facilitar o uso daquella lingoa, na qual se achão estam- panhias cada um. O regulamento de tais regimentos, expedido
padas muitas Obras de huma vastissima erudição" (MENEZES, com o Alvará de 15 de julho, foi cometido ao "prudente exame, e
1762, p. xííí). 14 madura consideração" do Conde Reinante de Schaumbourg
No entanto, o compêndio de Teles de Menezes, foi - se é que Lippe, "Meu muito amado e presado primo, e Marechal General
foi - muito pouco usado na instrução militar portuguesa, pelo que do Meus Exércitos", segundo o Soberano (apudRIBEIRO, 1871,
sugere a legislação disponível. Mesmo sendo o idioma de uma gente p.303).
tão "de caza", com a qual o governo português mantinha constan- O plano de estudos dispunha sobre sua ordem e a eleição
tes relações comerciais, sacramentadas por tratados nem sem- dos livros que deveriam dirigir os professores e discípulos que se
pre proveitosos para Portugal, a Língua Inglesa foi preterida pela aplicassem "a esta interessante Arte, de que nestes ultimos tem-
Francesa, cujo conhecimento passou a ser exigido aos que qui- pos se tem feito dependente a maior força dos Exercitos, e da defeza
sessem ser admitidos nos estabelecimentos militares. A ênfase, das Monarquias" (apudRIBEIRO, 1871, p. 303). O governo deveria
nos discursos que justificam o ensino da Língua Francesa, recai escolher, em cada um dos regimentos, o oficial de maior capaci-
sobre a tradução, para que pudessem ser entendidos, mesmo pe- dade para ser lente da respectiva aula, o qual, com a gratificação
los que não dominavam a língua, as lições dos mais célebres au- mensal de 20.000 réis, além do soldo que lhe fosse corresponden-
tores que tratavam do assunto. te, teria a seu cargo a explicação e tradução da obra que se man-
Em 1763, dando continuidade a uma série de medidas dasse seguir:
tendentes à organização dos Corpos da Milícia de Terra e Mar!",
El Rei D. José I decretou, no dia 10 de maio, que os Corpos de Para que a lição dos authores acima declarados se faça
Artilharia fossem reduzidos a quatro regimentos de doze com- commum ainda aos que ignorem a língua franceza'", tem
S. M. ordenado que se traduzão na lingua portugueza
aquellas partes dos escrlptos dos mesmos authores que ficão
acima indicados, prohíbíndo debaixo da pena da expulsão
14 Cinco pareceres encontram-se reproduzidos no livro, logo depois do prefácio. das aulas. e dos regimentos, que algum Offícíal delles com-
O primeiro, do Dr. Fr. João de Mansilha, é de 27 de fevereiro de 1761; o
segundo. de Silveira Lobo Carvalho Meio. Irmão de Pombal. tem a mesma pre, ou retenha, havendo-os comprado, outro algum livro
data; o terceiro. do Frei Timotheo da Conceição. Religioso Capucho e Ministro da profissão, que não sejam os que ficam acima determina-
Provincial da Províncta de S. Antonio. é de 15 de março; o quarto. assinado dos para os seus estudos, defendendo o mesmo Senhor de-
por D. J. A. de L.. é de 25 de março; e o quinto. de 11 de junho. quem
baixo da referida pena, que os sobreditos Offícíaes e Solda-
assina é Antonio de Saldanha de A1buquerque, Académico da Real Academia
e Deputado da Junta dos Três Estados. Em 15 de junho, a obra se encontrava dos se appliquem a outras algumas obras, ou que dellas se
pronta para voltar à Mesa. ser taxada e dada a Licença. Segundo Teles de possa usar nas lições, nos argumentos, ou nos exercicios
Menezes, no prefácio, a obra foi submetida às Licenças sob pseudônimo.
das aulas (apud RIBEIRO,1871. p. 304-305).
razão por que os pareceres referem-se ao autor como Francisco Luiz Ameno.
nome do impressor.
15 Os exames dos discípulos da Aula Militar haviam sido regulamentados em
1756 por um Decreto de 22 de março, sendo reformados em 1758. por um 16 Os livros que seriam explicados nas aulas. e pelos quais seriam exarntuudo
A1vará de 8 de junho. Em 1762. com o A1vará de 2 de abril. foi estabelecida os indivíduos que pretendessem entrar nos Corpos de Artilharta. eram Ciun'it'
uma Aula de Artilharta na Fortaleza de S. Julião da Barra. e com o Decreto de todos em Francês. de autores como M. de Saínt-Remy, La Volit'I(' (plli),
30 de julho foi criada a Aula de Náutica da Cidade do Porto (PORrUGAL. 1830). Bellidoro e Vaubin.

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Luiz Eduardo Oliveira GRAMATIZAÇÃO E ESCOLARIZAÇÃO

Em sua "Pró-memoria de uma differença de opinião na Aula intelligencia das quatro primeiras regras da Arithrnetica, e
de Artilheria de S. Julião da Barra sobre o modo de regular-se da Língoa Franceza; sendo o essencial, em quanto a essa
para se lançarem bombas com certeza", escrita em 14 de fevereiro Língoa saber verter bem della para a Portugueza: constará
de 1771, o Conde de Lippe voltou a referir-se à necessidade da igualmente desta Attestação, não terem defeito pessoal,
tradução de obras escritas em "línguas estranhas", propondo para como faltos de vista, aleijados, & c. (PORTUGAL, 1828b).
isso a criação de uma Biblioteca Militar em cada guarnição: "Co-
meçar-se-hia por collígíros livros necessarios, escriptos em línguas Para que as diretrizes lançadas pela Carta de Lei de 5 de
estranhas. e successivamente se cuidaria de traduzir na lingua agosto de 1779 alcançassem também as Lições de Fortificação e
portugueza; addicionando-se estes aos outros, proporção que
á
Desenho, foi estabelecida, por uma outra Carta de Lei, de 2 de
se fossem fazendo as traducções" (apudRIBEIRO, 1871, p. 307). janeiro de 1790, na corte e cidade de Lisboa, uma Academia Real
Dois anos depois da morte do rei, e da ascensão ao trono de de Fortificação e Desenhe". De acordo com os estatutos, os alu-
sua fílha, D. Maria I (1777-1792), os estudos matemáticos foram nos que se destinassem a Oficiais Engenheiros ou de Artilharia
reformulados pela Carta de Lei de 5 de agosto de 1779, que supri- deveriam apresentar certidão de aprovação no primeiro e segun-
miu a antiga Aula de Fortificação, ou de Engenharia, e criou a do anos do Curso Matemático da Academia Real de Marinha.
Academia Real de Marinha de Lisboa: Aqueles, porém, que se destinassem a Oficiais de Infantaria, ou
Cavalaria, deveriam apresentar somente a certidão de aprovação
Hei por bem que na Minha Corte e Cidade de Lisboa se esta- do primeiro ano da referida Academia. Acrescentava ainda a lei:
beleça huma Academia Real de Marinha para hum Curso de
Mathematica, o qual será composto das partes seguintes: da E tanto huns, como os outros, para serem admittidos, re-
Arithmetica; da Geometria; da Trígonometrta Plana, e correrão ao lente do primeiro anno, perante o qual deverão
Esferica; Algebra, e sua applicação
á Geometria; da Statica, também mostrar, que entendem sufficientemente a Língua
Dynamica; da Hydrostatíca, Hydraulica; e Óptica; e de hum Franceza; mas todos os discipulos. que aspirarem aos Pos-
tratado completo de Navegação (PORfUGAL. 1828a). tos de Officiaes Engenheiros. não poderão ser admittidos
sem que mostrem huma constituição robusta. e que não
Os Estatutos, no entanto, não trazem qualquer referência tem defeito de vista. ou alguma tremura nas mãos (POR-
às línguas estrangeiras, o que seria de esperar, dada a necessi- TUGAL.1828a).
dade da compreensão e tradução de compêndios dedicados àque-
las matérias, em sua maioria franceses. Contudo, o novo regula-
mento da academia - agora com o nome de Academia Real dos 17 Segundo Francisco de Borja Garçào Stockler (1759-1829). em seu Ensaio
Guardas Marinhas -, expedido com a Lei de 1. de abril de 1796,
0
historico sobre a origem e progressos das mathematicas em Portugal (1819).
estabelecia, para a admissão de discípulos, que os pretendentes, "motivos urgentes retardarão o estabelecimento da Escola Militar annunclada
em seus Estatutos [o autor provavelmente refere-se ao Alvará de 15 de
além da idade mínima de quatorze anos, deveriam apresentar
julho de 17631. e que devia servir de complemento ao plano nelles traçado:
mas. fínalmente, no anno de 1790 vimos estabelecer-se a Academia Real de
huma attestação de qualquer dos lentes da Real Academia Fortificação, Art!lheria e Desenho. com uma ordem e disposição dos estudos,
que assaz claramente denuncião as grandes utilidades que o Estado deve
dos Guardas da Marinha. pela qual mostrem ter sufficiente
tirar della" (apud RIBEIRO. 1872. p. 29).

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Luiz Eduardo Oliveira GRAMATIZAÇÃO E ESCOLARIZAÇÃO

Em 1799. por uma Carta Régia de 16 de setembro. foi criada Attendendo ao que me representou Renato Pedro Boíret,
uma Aula de Matemática para instrução dos militares do corpo Presbitero Secular. Professor da Língua Franceza do Real
que haveria de constituir a Guarnição do Castelo de S. João Collegío dos Nobres. que na presente occasião se transpor-
Baptista da Ilha Terceira. abrindo-se tal aula somente em 1805 tou para esta capital; hei por bem determinar. que vença o
(RIBEIRO. 1872. p. 260). Seus estatutos. expedidos por Carta Ré- mesmo ordenado que percebia. de 300$000 réís por anno,
gia de 19 de novembro de 1810. dividiam o curso em quatro anos. pagos aos quartéis pela folha dos ordenados dos Professo-
sugerindo. para aquisição das "preciosas noções da ciência da res Régios desta capitania. com o vencimento do 1.o de
guerra". uma Aula de Francês combinada com a de Geografia: Dezembro do anno proximo passado de 1807 (BRASIL.1836).

Sendo necessario o conhecimento da Língua Franceza para Por um Aviso de 5 de maio de 1808. assinado pelo Visconde
adquirir as preciosas noções da Sciencia da Guerra. que se de Anadía, João Rodrígues de Sá e Melo, à época Conselheiro.
achão transcriptas em authores francezes. e se não achão Ministro e Secretário da Marinha e Negócios do Ultra-Mar. foi
traduzidas em língua vulgar. convem que haja uma Aula de estabelecida a Real Academia dos Guardas Marinhas nas hospe-
Francez. que os Estudantes deverão frequentar nos dias darias dos religiosos beneditinos do Rio de Janeiro. O documento.
que o serviço permíttír, segundo convierem o Lente. e o dirigido ao Abade do Convento de S. Bento. ordenava-lhe que pro-
chefe do Batalhão; servindo o estudo da Geographia de cedesse "logo a encommendar os armaríos, bancos e cadeiras que
instrucção e ao mesmo tempo de recreação. poderá combi- forem necessarios para este fím" \8. As atividades da academia
nar-se com a Aula de Francez, sendo as Lições nos mesmos começaram em 25 de fevereiro de 1809 e seu regimento interno foi
dias; o Lente que a explicar. se deverá servir da Geographia aprovado pela Portaria de 9 de setembro do mesmo ano. O plano
de La Croíx, da de Gütríe, Pinkerton. e Cosmographia de de estudos. que se compunha de Matemática. Física. Artilharia.
Mentelle (apud RIBEIRO. 1872. p. 265). Navegação e Desenho. previa. como requisito para admissão dos
alunos. o conhecimento da Língua Francesa. tal como determina-
A Academia Real Militar do Rio de Janeiro e o Professor de va a Lei de 1.o de abril de 1796. que havia reformado os estudos
Inglês Eduardo Thomaz Colville da Academia em Lisboa (BRASIL. 1836).
A Academia Real Militar do Rio de Janeiro foi instituída pelo
Alguns dias depois da publicação da lei criando o Arquivo Decreto de 4 de dezembro de 1810. com o qual foram publicados
Militar anexo à Repartição da Guerra. cujo prédio servia também seus estatutos. assinados pelo Conde de Linhares. O preâmbul
como Aula Militar. D. João nomeou. com o Decreto de 13 de abril da lei. em nome de Sua Alteza Real. fazia referência aos tnteres
de 1808. Renato Pedro Boiret como Professor de Língua Francesa ses do Seu Real Serviço. ao bem público de seus vassalos c à
na cidade do Rio de Janeiro. Tratava-se da confirmação de um
pedido do próprio professor. que era presbítero secular e exercia o
magistério no Real Colégio dos Nobres. Ao que parece. o decreto 18 Conforme Ribeiro (1874. p. 243). quando a corte portuguesa transfertu HC
funcionou como uma provisão temporária. uma vez que somente para o Brasil. "foi tambem transferida para aquelle estado a Academia dos
Guardas Martnhas de Lisboa. sendo comandante da respectiva companhia.
no ano seguinte foi criada a primeira Cadeira Pública de Francês. e professor distlncto de mathernatíca da mesma academia. José Maria Danlas
juntamente com a de Inglês: Pereira de Andrade",

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Luiz Eduardo Oliveira GRAMA TIZAÇÃO E ESCOLARIZAÇÃO

segurança de seus domínios, apontando a necessidade de "hum Os que souberem a Língua Latina, Grega, e as Línguas Vi-
Curso regular de Sciencias Exactas, e de Observação" capaz de, vas, occuparão os primeiros lugares nas Aulas, e serão os
pela "Sciencia Militar", formar hábeis Oficiais de Artilharia e En- seus nomes postos nos primeiros lugares nas listas, que se
genharia que pudessem também ter o "útil emprego" de dirigir publicarem, da sua Matricula, e quando forem depois des-
objetos administrativos de minas, caminhos, portos, canais, pon- pachados, terão preferência na mesma antiguidade. Os
tes, fontes e calçadas. No Título Il, os estatutos previam a nomea- Obrigados assentarão logo Praça de Soldados, e Cadetes de
ção de professores de línguas estrangeiras, os quaís deveriam artlheria; vencerão huns e outros o soldo e farinha de Sar-
dominar, ou pelo menos saber ensinar, no mínimo, três línguas- gentos de Artilheria, e terão a preferência em todos os
Francês, Inglês e Alemão -, para que pudessem substituir-se uns Exercicios Scientificos das mesmas Aulas, sendo chama-
aos outros na falta de substitutos: dos a dar lição, e a todas as explicações; o que com os
Voluntarios se não praticará com tanto rigor, excepto com
Além destes onze Professores comprehendido o de Dese- aquelles que mais se distinguirem pela sua applicação e
nho, haverá cinco Substitutos, e julgando-o necessario, a talentos (PORTUGAL,1828c).
Junta poderá propor, que se estabeleção Professores da
Língua Franceza, Ingleza, e Alemã, e será obrigação dos A inauguração da Academia ocorreu em 23 de abril de 1811
Professores substituírem-se huns aos outros, quando numa sala da Casa do Trem, que passou a ser mais tarde o Arse-
succeda não bastarem os Substitutos, de maneira que ja- nal de Guerra. Sua instalação definitiva data de 1. o de abril de
mais se dê caso de haver Cadeiras ou deixem de ser servi- 1812, no edífícío onde passou a funcionar tempos depois a Escola
das, havendo Alumnos que possão ouvir as Lições (PORTU- Nacional de Engenharia (CAMPOS, 1941, p. 236). A respeito do
GAL, 1828c).19 curso da Academia, relata Almeida (2000, p. 47):

Quanto aos discípulos, regulados no Título N, haveria duas O curso era de sete anos e todos os livros escolares eram
classes: a dos voluntários e a dos obrigados. Os requisitos eram: em francês. Os professores e alunos estavam muito famili-
saber ler e escrever, as quatro operações da Aritmética e a idade arizados com a língua francesa e com o conhecimento dos
mínima de quinze anos. Contudo, os que porventura dominas- nomes notáveis de então: Lacroix, Legendre, Monge,
sem as línguas seriam preferidos: Francoeur, Bossuet, Lalande, Biot, Lacille, Puissant, Haüy,
Guy de Vernon, Chaptal, Flourcroy, de Ia Merilliêre, Cuvier
e outros.

Apesar de grande parte dos compêndios ser escrita em Fran-


19 No Título IH, referente aos requisitos e vantagens dos professores, os
estatutos estabeleciam que os lentes, além das mesmas honras e graças cês - e não "todos os livros escolares", como afirma Pires de Almeida
das Academias de Lisboa, teriam direito a jubilação com vinte anos de -, havia espaço também, na academia, para o ensino de Inglês,
serviço, recebendo um ordenado de 400.000 réis anuais, juntamente com pois um ano antes de sua criação, por um decreto rubricado pelo
o soldo de sua patente. Os substitutos receberiam a metade daquele
ordenado, mas sem o soldo, "havendo qualquer destino que não lhes permitam
Príncipe Regente e datado de 30 de maio de 1809, o lente da ca-
servirem a Cadeira" (PORTUGAL, 1828c). deira de Língua Inglesa havia sido nomeado:

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Luiz Eduardo Oliveira
GRAMATIZAÇÃO E ESCOLARIZAÇÃO

Hei por bem nomear lente da Cadeira da Língua Ingleza na mo idioma na Academia Militar, aonde se não faz tão
Academia Militar desta Corte, a Eduardo Thomaz Cohill, necessario: Manda pela Secretaria de Estado dos Negocíos
com a graduação de 2. o Tenente de Artilharia, e soldo de da Marinha que o Ministro e Secretario de Estado dos Ne-
12$000 por mez, devendo, em quanto se não abrirem as gócios da Guerra expeça as convenientes ordens, afim de
aulas da mesma Academia, principiar as suas lições no lo- que o referido Professor passe a dar as competentes lições
cal, que lhe for indicado pelo Tenente General de Artilharia na Companhia dos Guardas-Marinhas, devendo para esse
Inspetor Geral da mesma arma (BRASIL,1891a). effeítoentender-se com o respectivo Commandante, o Che-
fe da Divisão DiogoJorge de Bríto (BRASIL,1885).21
o ordenado
dos lentes de línguas estrangeiras foi marcado
somente em 1814, pela Decisão n. 25, de 2 de setembro, assinada Ao que parece, depois da morte do professor Eduardo Thomaz
pelo Marquês de Aguiar, encarregado, por decreto de 19 de janei- Colvílle, o ensino da Língua Inglesa foi também dispensado da
ro do mesmo ano, da pasta da guerra e estrangeiros. A decisão, Academia de Marinha, pois com o Decreto de 9 de março de 1832,
tomada em consulta da Junta da Direção da Academia Real Mili- autorizado pela Lei de 15 de novembro de 1831, foi reformada a
tar sobre requerimento de "Eduardo Thomaz Colvílle">, 2. Te- 0
Academia Militar da Corte, incorporando-se nela a dos Guardas-
nente Graduado de Artilharia e Lente da Língua Inglesa na mes- Marinhas, e os únicos requisitos para todos aqueles que quises-
ma Academia, ordenava que o suplicante, "assim como qualquer sem, além das "Scíencías Mathematicas, e Militares", dedicar-se
outro lente de línguas estrangeiras que Sua Alteza Real houve por ao "Desenho proprío aos Offícíaes do Exercito, Marinha, Engenha-
bem nomear para a referida Academia", percebesse o ordenado de ria, e em suas quatro essenciaes classes", conforme o artigo 25,
240.000 réis anuais, pagos mensalmente, à razão de 20.000 por era a idade mínima de quinze anos, o conhecimento da gramática
mês, pela Tesouraria Geral das Tropas, "comprehendendo-se nes- da "língua vulgar", das quatro operações da Aritmética e "saber
te ordenado o soldo que tiverem por suas patentes" (BRASIL,1891b). traduzir a Língua Franceza" (BRASIL, 1906).
Eduardo Thomaz Colville permaneceu no exercício de suas
funções de lente de Língua Inglesa na Academia Militar até 1825,
quando aquele idioma, segundo o preâmbulo da Decisão n. 54, de
2 de março do mesmo ano, assinado pelo então Ministro dos Ne-
gócios da Marinha Francisco Vilela Barbosa, deixou de ser neces-
sário na Academia Militar:

Desejando S. M. o Imperador que os Guardas-Marinhas e


Aspirantes saibam o idioma ínglez,e podendo ensínar-lhes 21 Três dias depois, com a Decisão n. 56, do Ministério da Guerra, foi
0
o 1. Tenente Eduardo Thomaz Colville,Professor do mes- dispensado o ensino da Língua Inglesa na Academia Militar. As razões para
tal supressão, provavelmente, prendem-se à preferência ou orientação
doutrinária dos lentes, ou da Junta Militar. De qualquer forma, em 6 de
julho do mesmo ano, pela Decisão n. 142, o Ministro dos Negócios da
Marinha mandava abonar ao professor da Língua Inglesa da Academia de
20 O sobrenome deste lente aparece com graflas variadas em diferentes peças Marinha uma gratificação igual à metade do seu soldo, a requerimento do
legíslatívas.
mesmo (BRASIL, 1885a).

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Luiz Eduardo Oliveira GRAMATIZAÇÃO E ESCOLARIZAÇÃO

A Cadeira Pública de língua Inglesa da corte

Em 1809, foi publicada a Decisão n. 29, de 14 de julho, cri-


ando uma Cadeira Pública de Aritmética, Álgebra e Geometria,
uma de Língua Francesa e outra de Língua Inglesa. A decisão,
decorrente de uma Resolução de Consulta da Mesa do Desembargo
do Paço, de 22 de junho do mesmo ano, fora motivada por um
requerimento do Padre João Baptista, Bacharel formado pela
Universidade de Coimbra, o qual havia pedido àquele Tribunal
para ser provido na "cadeira de geometria" do Rio de Janeiro (BRA-
SIL, 1891).22
Conforme a resolução, o "Desembargador do Paço Director
dos Estudos" - muito provavelmente José da Silva Lisboa, futuro
Visconde de Cairu - havia informado que, enquanto não se to-
massem mais amplas providências a respeito da matéria, vigora-
ria ainda o disposto na Carta Régia de 19 de agosto de 1799, man-
dando criar na cidade do Rio de Janeiro uma Cadeira de
"aríthmetíca, algebra e trígonometría". Assim, depois de nomear o
padre João Baptista como Professor Público e estipular-lhe o sa-
lário de "500$000 anuais", a lei dispõe minuciosamente sobre o
conteúdo da cadeira em questão, estabelecendo a sequência em
que seus elementos deveriam ser ensinados.
"11
O estudo da Matemática, "ou scíentífíco, ou mecaníco", é
tido como "o mais necessario a todas as classes de pessoas" que
desejassem distinguir-se nas diferentes ocupações e empregos da
sociedade, sendo de muita utilidade que seus "primeiros ramos" -

22 A Mesa do Desembargo do Paço. encarregada da direção dos estudos e das


"escolas menores" do Estado do Brasil pelo Decreto de 17 de janeiro daquele
mesmo ano. em nome do "augrnento e prosperidade da litteratura e educação
nacional". Incumbiu-se desde então do provimento de professores "para as
diversas cadeiras do ensino publico". submetendo à sua confirmação os
Gramatica ingleza ordenada em portuguez (1762) que já se achavam providos pelos Governadores. Capitães Generais e bispos.
enquanto vigorou a Carta Régia de 19 de agosto de 1799 (BRASIL. 1891).

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Luiz Eduardo Oliveira GRAMATIZAÇÃO E ESCOLARIZAÇÃO

Aritmética, Álgebra e Geometria teórica e prática - se tornassem brevidade e eficiência, para "excitar em os que aprendem um vivo
vulgares, constituindo "uma das primeiras instrucções da mocí- desejo de passarem ás Scíencías Maiores" (§ IV).
dade">. Quanto às cadeiras das Língua Francesa e Inglesa, as- O parágrafo XV é dedicado ao "tempo" em que os professo-
sim ordenava a resolução: res haveriam de dar os ''Temas'', os quais seriam constituídos de
"Hístorías breves ou Máximas uteis aos bons costumes", além de
E sendo outrossim tão geral, e notoriamente conhecida a "agradaveís pinturas das virtudes e acções nobres". Tais Temas
necessidade, e utilidade das línguas franceza e ingleza, como deveriam ser dados alternadamente, "um dia sim, outro não", para
aquellas que entre as linguas vivas teem o mais distincto que os estudantes os compusessem em casa, fazendo-os apenas
legar, é de muito grande utilidade ao Estado, para em um dia da semana na classe, ocasião em que era "mais que
augmento, e prosperidade da instrucção publica, que se crêe tudo util a explicação do Professor e o exercício" (PORTUGAL,1830).
nesta capital uma cadeira de língua franceza, e outra de As "horas da classe", como vimos, eram reguladas pelo pará-
íngleza (BRASIL, 1891). grafo XX, que as dividia da seguinte maneira: três horas de manhã
"e outras tantas de tarde". O "sueto" teria lugar nas quintas-feiras,
No ensíno das duas línguas, os professores deveriam se- caso não houvesse dia santo na semana. "Havendo-o, ou antes ou
guir, quanto ao "tempo", "horas das lições" e "attestações" do apro- depois, não será feriado a Quinta-feira". As "férias grandes" seriam
veitamento dos discípulos, o mesmo que se achava estabelecido, dadas em setembro, e as outras no natal - oito dias -, durante a
"e praticado", pelos de Gramática Latina (BRASIL, 1891a). A lei semana santa e nos "tres dias próximos á Quaresma, em que concor-
referia-se à "Instrucção para os Professores de Grammatica Lati- re o Jubileu das Quarenta Horas". Quanto ao aproveitamento dos
na" publicada com o Alvará de 28 de junho de 1759, também co- discípulos, estes só poderiam mudar de classe com "attestação" do
nhecido como Lei Geral dos Estudos Menores (PORTUGAL, 1830). Professor (§XXI).No caso de merecerem "castigo mais severo" (§XXII),
A "Instrucção", logo no seu parágrafo primeiro, deixa o Diretor dos Estudos seria informado, para que pudesse puní-los da
transparecer o papel da "boa educação e ensino da mocidade" na maneira que achasse mais conveniente (PORTUGAL,1830).
conservação da "união Chrtstâ" e da "Sociedade Civil", dando à O próximo tópico tratado pela Decisão n. 29, de 14 dejulho
"Virtude o seu justo valor". Um dos meios para alcançar tão nobre de 1809, refere-se à "matería do ensino" das Línguas Francesa e
fim era oferecido pela "Scíencía da Língua Latina", razão por que Inglesa, mandando o legislador que os professores ditassem suas
deveriam os mestres empregar meios que se caracterizassem pela lições pela gramática que fosse "mais bem conceituada", enquan-
to não formalizassem uma de sua composição, e habilitassem seus
discípulos "na pronunciação das expressões, e das vozes das res-
pectivas línguas", adestrando-os em "bem faliar e escrever", para
23 Uma Carta Régia de 7 de março do mesmo ano tinha mandado estabelecer
na Capitania de Pernambuco uma Cadeira de Cálculo Integral. Mecânica e
o que deveriam servir-se dos "melhores modelos do seculo de Luiz
Hidrodinâmica, com o ordenado anual de 500.000 réis. O Professor nomeado XIV". Nas traduções dos "lugares'?", os alunos haveriam de co-
foi o Dr. Antonio Francisco Bastos, Capitão da Infantaria e Lente Proprietário
de uma cadeira de Geometria criada em 1795, na qual foi substituído por
Joaquim Ignácio Lima. Os dois ficaram com a Incumbência de regular o
Curso Matemático dos Estudantes de Artilharia e Engenharia daquela 24 A palavra "lugares", aqui, refere-se a lugares textuais, Isto é, a trechos ou
Capitania (BRASIL, 1891).
passagens de determinado livro ou autor.

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Luiz Eduardo Oliveira GRAMATIZAÇÃO E ESCOLARIZAÇÃO

nhecer "o genío, e idiotismo da língua, e as bellezas e elegancías Grammar "com que abre o Dicionário de Sherídan'?": e a New English
della, e do estylo e gosto mais apurado e seguido". e na escolha qrammar, do irlandês emigrado para Portugal Anthony Vieyra
dos livros. seriam preferidos os de "mais perfeita e exacta moral". Transtagano, cuja terceira edição data de 1794.
usando-se. para comparação com a língua pátria. "os autores Este último autor. contudo. é mais lembrado pelo seu
classicos do seculo de quinhentos" que melhor reputação tives- Dictionary of the Portuguese andEnglish languages. publicado em
sem entre os "litteratos" (BRASIL. 1891). 1773 e reimpresso inúmeras vezes. inclusive em sua versão por-
Embora se possa. de antemão. relacionar esta decisão. no tátil. No prefácio - datado de 1837 e escrito em Paris - de uma
tocante à matéria do ensino das línguas estrangeiras. com o Alvará edição de 1867 do Novo diciotuuio portatil das línguas portugueza e
de 29 de julho de 1803. confirmando os Estatutos da Academia ingleza em duas partes: portugueza e ingleza - ingleza e portugueza
Real de Marinha e Comércio da Cidade do Porto. um vez que estes resumido do Diccionario de Vieyra. o editor J.P. Aillaud assim jus-
também pretendiam habilitar os discipulos na "pronuncíação das tifica sua atualidade:
expressões. e das vozes das respectivas línguas. adestrando-os
nesta pratica". bem como fazer com que. em suas leituras e tra- Sendo este o plano e o caracter do Diccionario portatil
duções. conhecessem "os lugares. ou passagens. que mais viva- Portuguez e Inglez que offerecemos ao publico Ia novidade.
mente deponhão do genío. e do caracter de cada huma dellas; segundo o editor. era que os termos ingleses se achavam
assim como do estilo. e gosto mais seguido, e depurado dos Authores vertidos por equivalentes portugueses). superfluas serião
dignos de se estudarem" (PORTUGAL.1828). a lei de 1809 trazia quaesquer observações sobre a sua utilidade. Para os nego-
um componente antes restrito ao estudo da Gramática Latina. ciantes e viajantes tem sido. e continuará a ser absoluta-
bem como da Retórica e Poética: o "escrever". isto é. os exercícios mente necessario; e pelo actual formato. se torna
de composição. - por meio dos "temas" -. além do "bem fallar" e surnrnamente cornrnodo. Se um tal Diccionario foi julgado
das práticas de leitura e tradução. necessario na data da publicação da precedente edição
Dentre as Gramáticas Inglesas escritas em Português - ou 118091.quanto mais não será procurado hoje. quando. alem
que. escritas em inglês. dirigiam-se ao público de Língua Portugue- do antigo cornrnercio com Portugal. accresce o do Imperio
sa - dísponíveís no penado. além das duas anteriormente mencio-
nadas. havia uma Nova grammatica da língua íngleza composta por
Agostinho Néri da Silva. cônsul de Portugal na Dinamarca. e im-
pressa em Lisboa em 177925; uma Grammatica portugueza e íngleza 26 Trata-se de Thomas Sheridan (1719-1788) - pai do dramaturgo Richard
de 1793. impressa também em Lisboa e composta por um certo Brinsley Sheridan (1751-1816) -. cujo Dictionary of the English language foi
André .Jacob, de origem inglesa. cuja parte fonética. segundo publicado em 1780. Com suas Lectures on elocution (1762) e Lectures on
reading (1775). Sheridan. também um homem de teatro. foi uma das
Cardim (1922. p. 107). é simplesmente a tradução da Prosoâiai principais personagens no movimento inglês de promoção do "bem falar"
(good speech) na segunda metade do século XVJlI. tornando-se famoso
professor de Elocução entre os cavalheiros e damas da corte. em um
momento no qual a ortografia e a fonética da Língua Inglesa já se achavam
fixadas pelos mais importantes gramáticos do século anterior. como John
25 o catálogo da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro indica uma terceira Wallis (1616-1703) e Christopher Cooper (1646-1698). cu]a Gammatica
impressão. datada de 1800. à qual não tive acesso. linguae anglicanae saiu em 1685 (HOWATI. 1988. p. 76).

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GRAMA TIZAÇÃO E ESCOLARIZAÇÃO
Luiz Eduardo Oliveira

Brasilico, para cujas transacções o conhecimento da língua frases com precisão e ordem, os Estudantes aprendem, ao mesmo
Portugueza se toma indispensavel em hum grão muito mais tempo, a pensar com precisão e ordem" (MURRAY,1853, p. i).29
extenso (VIEYRA, 1867, p. V_vi).27 Segundo Howatt (1988, p. 122), Murray estabeleceu dois
novos princípios na composição de Gramáticas Inglesas, em sua
No entanto, nenhuma das gramáticas referidas servia aos adaptação da Short introduction to English grammar, with critical
propósitos da lei, que mandava que os exemplos fossem tirados notes (1762), de Robert Lowth (1710-1787), destinada ao uso pri-
dos "melhores modelos do seculo de Luiz XIV', pois tais compêndi- vado e doméstico e caracterizada por suas notas de rodapé e pela
os, quando não ilustravam as lições da Língua com "diálogos fa- substituição de termos como "ortografia" e "sintaxe" por outros
miliares", reproduziam modelos de letras de cãmbio ou corres- mais simples como "letras", "palavras" e "frases". A primeira foi o
pondências comerciais. É mais provável que o professor da Ca- sistema de graduação, evidenciado no subtítulo de sua gramáti-
deira Pública de Língua Inglesa da Corte se servisse dos compên- ca: "adapted to the different classes of learners" ("adaptada às
dios do norte-americano residente em Londres Líndley Murray diferentes classes de alunos"), para o que desenvolveu o sistema
(1745-1826). de notas de Lowth, indicando os diferentes níveís dos estudantes
Tal hipótese é sustentável não apenas por ser o professor pela variação dos tipos de impressão, e o segundo foi a técnica de
nomeado falante nativo daquela língua, tendo nascido na Irlan- exercícios com frases baseadas nos pontos dados em cada lição,
da, mas porque Murray, em sua English grammar (1795), a qual como mostram seus Englishexercises (1797).
se tornou uma das gramáticas mais reeditadas, tanto na Grã Ademais, a recomendação da lei para que fossem escolhidos
Bretanha quanto na América do Norte'" , dava prioridade à com- os livros de "mais perfeita e exacta moral" era plenamente satisfei-
posição, como se nota no prefácio de sua primeira edição, repro- ta por outra obra do advogado quacre da Pensilvãnia, o English
duzido no da oitava, em que se encontra a seguinte citação do Reader (1797), "or pieces in prose and poetry selected from the best
crítico e professor de Retórica e Belas Letras escocês Hugh Blair wríters" ("excertos em prosa e verso selecionados dos melhores
(1718-1800): "ao aprenderem a compor e organizar suas próprias autores"), destinado, como seu próprio subtítulo indicava, a ajudar
a mocidade a ler com "propriedade e efeito", melhorando sua lín-
gua e "sentimentos", e a inculcar-lhe alguns dos mais importantes
princípios da piedade e da vírtude'". Para tanto, Murray havia in-
troduzido, conforme explica no prefácio, excertos que colocavam a
27 Sobre a popularidade do Dicionárto de Vleyra, testemunha Jacob Bensabat, religião sob a luz mais amável (in the most amiable light), em uma
no prólogo ao seu Novo diccionario inglez-portuguez, Impresso em 1880:
"Pôde-se affirrnar sem erro, que até ao tempo em que se deu á luz o díccíonarío
ínglez-portuguez de D. José de Lacerda. Isto é, em 1866, não houve em
Portugal durante mais de um seculo, outro díccíonarío d'esta língua que não
fosse o de Antonio Víeíra" (BENSABAT,1880, p. v).
28 Esta obra, conforme Michael (1990), tinha no minimo 65 edições na Inglaterra 29 No original: "they who are learníng to compose and arrange theír sentences
em 1871, e mais ou menos 200 edições em todo o mundo por volta de with accuracy and order, are learntng, at the same time, to thtnk with
1850. A edição em dois volumes de 1808 foi reedltada até 1853 - encontrei accuracy and order",
uma oitava edição, impressa em Londres em 1853, na Biblioteca Nacional 30 No original: "Desígned to assíst young persons to read with proprlety and
do Rio de Janeiro - e a edição facilitada teve mais de 120 edições com effect: to improve their language and sentlments; and to ínculcate some of
10.000 exemplares cada uma. the most important principIes of piety and vírtue".

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Luiz Eduardo Oliveira GRAMATIZAÇÃO E ESCOLARIZAÇÃO

linguagem adaptada aos interesses da mocidade, sugerindo-lhe certo Harvey, e um arrojado projeto gráfico, o opúsculo de Mavor
de maneira suave uma grande variedade de deveres morais, além deixa patentes os propósitos do autor já no seu prefácio, quando
de passagens das sagradas escrituras, para excitar o gosto e a trata da inclusão de pequenas orações e do catecismo no livro,
veneração das regras da vida (MURRAY,1801, p. v-vi). pois, a seu ver, qualquer tipo de educação que não tivesse a religião
A primeira parte do livro é dedicada à prosa e a segunda ao como seu fundamento seria sempre defeituosa e até mesmo perigo-
verso. De acordo com a terminologia adotada pelo autor, os capí- sa (MAVOR,1851, p. 3). Do uso de tais "spellíng books" no Brasil há
tulos são assim divididos, em ambas as partes, à exceção dos itens alguns indícios, como o discurso do professor Eduardo Grauert no
7 e 8, válidos apenas para a prosa: 1) frases e parágrafos; 2) peças prefácio de seu Compendio da grammatica ingleza, de 1861:
narrativas; 3) peças didáticas; 4) peças argumentativas; 5) peças
descritivas; 6) peças patéticas; 7) diálogos; 8) discursos públicos; Emprehendi o trabalho annuindo ao desejo de alguns ami-
9) peças "promíscuas". Ao lado dos versículos e passagens bíblicas, gos e attendendo á necessidade: pois que as grammaticas
esboços biográficos de reis e trechos de discursos políticos, os au- que existem, são insufficientes para os PRINCIPIANTES,
tores mais recorrentes são os clássicos gregos, especialmente sendo ellas ou muito extensas e conseqüentemente para
Demócrito (460-370) e Heráclito (535-475), e romanos, sobretudo elles diffusos [sic], ou escriptas em ínglez mesmo, as quaes
Cícero (106-43). Entre os do "seculo de Luiz XIV' estão John Locke ainda menos podem servir. O mesmo se pode dizer do -
(1632-1704), John Milton (1608-1674) e Pierre Bayle (1647-1706). Spelling-Book - introduzido por toda a parte, o qual sem
O sucesso do English reader pode ser representado pela boa duvida é um excellente livro para o uso dos meninos da
receptividade que teve o seu Introducüon to the English reader, que nação íngleza, mas não da brasileira ou qualquer outra
em 1836 alcançou a trigésima sexta edição. Em 1804 Murray pu- (GRAUERf, 1861, p. i).31
blicou um Spelling book - espécie de primeiro livro de leitura para
crianças - cuja repercussão fica dificil avaliar, uma vez que, com o Caso o primeiro professor da cadeira de Inglês da Corte
mesmo título, vários outros compêndios foram publicados, e não não fosse falante nativo da língua, poderia fazer uso de Gramá-
apenas em sua época, quase todos com grandes tiragens e muitas ticas Inglesas escritas em Francês, meio bastante comum, à épo-
reedições e reimpressões, tais como o de Edmund Coote, de 1596, ca, de aprender a Língua Inglesa, uma vez que a Língua France-
que teve 54 edições até 1737, o de Thomas Dyche, de 1707, que sa era quase uma "língua franca" na Europa. Disso testemu-
entre 1733 e 1748 ultrapassou as 275.000 cópias impressas, e o do nham as várias reimpressões, em diferentes países, de obras
dicionarista Noah Webster (1758-1843), de 1786, que, sob diferen- como a Nouvelle grammaire Angloise (1672), de Paul Festeau,
tes títulos, vendeu de 75 a 100.000 exemplares (MICHAEL,1990). reimpressa como Nouvelle double-grammaire Françoise-Angloise
Durante o período que aqui interessa, porém, nenhum pa- etAngloise-Françoise (1693), em parceria com Claude Mauger, e
rece ter sido tão popular quanto o The English spelling book (1802), a Nouvelle méthode pour appendre l'Anglois (1685), de Guy Míege
de William Mavor (1758-1837), autor tido como um dos precurso-
res da taquigrafia, o qual alcançou nada menos do que 159 edi-
ções em 1851, como mostra o exemplar impresso em Londres exis-
tente na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro. Trazendo bem es- 31 O mesmo professor, ao tratar das gramáticas sobre as quais se baseou para
tampadas ilustrações coloridas e em preto e branco, feitas por um compor a sua, afirma que seguiu as de Murray e Elwell (GRAUERT,1861, p. i).

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Luiz Eduardo Oliveira GRAMATIZAÇÃO E ESCOLARIZAÇÃO

(1644-1718), depois transformada em Nouvelle double-grammaire cês cujo método de ensino, segundo John Locke (1632-1704), tes-
Françoise-Anqíoise et Angloise-Françoise (1718), em parceria com temunha da época, diferenciava-se muito do método gramatical. 33
Abel Boyer. Na época da decisão, a Gramática Inglesa escrita em Fran-
Além disso, não se pode esquecer que, ao tratar dos mode- cês mais popular na Europa era Élémens de la langue Angloise, ou
los para os exercícios de leitura, tradução, pronúncia e composi- méthode pratique pour appendre facilement cette langue (1773), de
ção, a Decisão n. 29 referia-se ao século de LuizXJV32,rei da França Siret, que alcançou dezoito edições antes de 1800, uma delas, de
de 1643 a 1715, período em que a supremacia política e intelectu- 1792, na Filadélfia (HOWAIT, 1988: 64)34.Louis Pierre Siret (1745-
al francesa era indiscutível na Europa. Na Inglaterra, depois da 1797), sobre quem, infelizmente, se sabe muito pOUC035escreveu
,
queda de Oliver Cromwell (1599-1658) e da Restauração de Carlos mais dois Compêndios, Éléments de la langue italienne (1797) e
II (1660-1685), quando este voltou de seu exílio na França, apren- uma Grammaire portuqaise (1798), sendo um autor muito citado
der a Língua Francesa era não só uma marca de distinção pesso- tanto na literatura pedagógica quanto na legislação e nos com-
al, mas também um elemento importante no treinamento de ofici- pêndios brasileiros do século XIX (OLIVEIRA,2006).
ais e diplomatas da corte, embora a língua não fosse ensinada
nas Grammar Schools, cujo plano de estudos baseava-se na Gra-
mática Latina. Lord Clarendon, Primeiro Ministro (Lord Chancellorj
de Carlos II de 1660 a 1667, afirmava que havia dois motivos im-
portantes para se aprender Francês: 1) os franceses não tinham
a intenção de aprender Inglês, 2) era uma grande desonra para a
corte quando embaixadores e príncipes estrangeiros visitavam o
país e ninguém sabia como se comunicar com eles (apud HOWAIT,
1988, p. 52-53).
Além dos oficiais e diplomatas, um público ávido para apren-
der Francês na Inglaterra do "Restoration Períod" era o feminino,
que se interessava pela cozinha, vestidos, danças e toda moda 33 Criticando o método de ensino da Gramática Latina em Some thoughts
que vinha de Paris. Com certeza esse era o público que tinham conceming education (1692). Locke lança o seguinte argumento: quando a
em vista Festeau e Míége, quando reproduziam em seus "Diálogos criança vem ao mundo. ela é tão ignorante no Latim quanto em Inglês. o
qual elas aprendem sem mestre. regras ou gramática. Dessa forma. a
Familiares" interesses do gênero. Nesse contexto, devem ter sido aprendizagem pelo "hábito" seria a maneira certa de ensinar a Língua Latina.
de muita importãncia os mestres ou mestras particulares de Fran- Para exemplificar sua afirmação. menciona o caso de mulheres francesas
que ensinavam às meninas inglesas a falar e ler perfeitamente o Francês
em apenas um ou dois anos. e sem o uso de nenhuma regra gramatical,
apenas balbuciando ou tagarelando ("prattling")com elas. O filósofolamentava
que os gentlemen tivessem subestimado este fato (LOCKE. 1934. p. 139).
32 O século de Luíz XIV. o XVII. é o periodo dos clássicos franceses: Comeille 34 Não tive acesso a essa obra. No catálogo da Biblioteca Nacional da França
(1606-1684), Racíne (1639-1699), Moliêre (1622-1673), Bossuet (1627- há uma edição de 1905.
1704). etc. Na Inglaterra. é o periodo de Milton (1608-1674), Bunyan (1628- 35 Os dados que consegui a respeito do autor são os constantes da Nouvelle
1688). Dryden (1631-1700). Locke (1632-1704), Harvey (1578-1657) e bíograph1e générale (1852), disponíveis no seguinte stte, em setembro de
Newton (1642-1727), entre outros. 2008: http://J_mirou.club.fr /s3.htm#siret.

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Luiz Eduardo Oliveira GRAMATIZAÇÃO E ESCOLARIZAÇÃO

Os Professores Públicos de Lfngua Inglesa

Ainda em 1809 foram feitas, e assinadas por D. João, as car-


tas de nomeação dos professores das Línguas Francesa e Inglesa. A
primeira, datada de 26 de agosto, nomeava o padre René (Renato)
Boiret professor da Língua Francesa, com o ordenado de 400$000
réis por ano (ALMEIDA,2000, p. 42). Boiret era presbítero secular e
lecionava no Real Colégio dos Nobres, tendo sido provido interina-
mente na mesma função com o Decreto de 13 de abril do ano anteri-
or. Assim dispunha sua carta: "a língua francesa sendo a mais di-
fundida e, por assim dizer, universal, a criação de uma cadeira des-
ta língua é muito necessária para o desenvolvimento e prosperidade
da instrução pública" (apudALMEIDA, 2000, p. 42). Boiret se man-
teve no exercício de suas funções de Professor Público de Francês
até 1817, quando, por Carta Régia de 2 de julho, foi nomeado o reve-
rendo Luiz Carlos Franche para substítuí-lo, em virtude de sua de-
missão, com o mesmo ordenado de seu antecessor (BRASIL,1890).
A segunda carta, de 9 de setembro, nomeava, nos mesmos
termos e com o mesmo ordenado, para professor da Língua Inglesa,
o padre irlandês John (João) Joyce: "era necessário criar nesta capi-
tal uma cadeira de língua inglesa, porque, pela sua difusão e rique-
za e o número de assuntos escritos nesta língua, a mesma convinha
ao incremento e à prosperidade da instrução pública" (apud
ALMEIDA,2000, p. 42)36.Segundo Tarquínio de Sousa (1960, p. 11-
12), em sua biografia de Evaristo da Veíga (1799-1837), João Joyce,
"fazendo coro com os demais mestres", havia passado um atestado
de assiduidade e de "boa índole e bons costumes", em 1818, para o
futuro editor da Aurora Fluminense, "dando provas de (sua) grand
compreensão e talento", pois Evaristo distinguia-se pela "facílídade,
rapidez e perfeição com que chegou a traduzir este idioma".

36 Note-se a diferença do estatuto social das duas línguas: enquanlo o ensln


da Inglesa justificava-se, como de praxe, pelo "número de assuntos" nela
English spelling-book (1851)
escritos, a Francesa era tida como a mais difundida. "universal".

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Luiz Eduardo Oliveira GRAMATIZAÇÃO E ESCOLARIZAÇÃO

Se em 1818 João Joyce ainda era o Professor Público de No prefácio de sua arte, Tílbury justifica o estudo da Língua
Inglês da cidade do Rio de Janeiro, tal não era a situação em 1823, Inglesa pela sua utilidade em várias profissões: no comércio, sen-
pois, de acordo com a Relação de Aulas, escolas e estabelecimen- do os ingleses "os Freguezes príncípaes do Brasil"; na política,
tos de Instrução Pública da corte, organizada pelo Inspetor Geral enquanto o Reino Unido mantivesse a superioridade marítima;
dos Estabelecimentos Literários e Diretor dos Estudos José da na Filosofia Moral, em que ela poderia oferecer aos filósofos e "Fa-
Silva Lisboa, em 5 de agosto daquele ano, o responsável pela Aula cultativos" "Thesouros precíosíssímos"; e mesmo na Teologia, "nas
Pública de Inglês era Guilherme Paulo Tílbury, e pela de Francês obras de hum Leland, [ilegível],e de um Paley". Mas a sua utilidade
o "Doutor Luíz Carlos Tranch" - ou "Franche" - (apud. CARDOSO, maior parece residir no fato de que os autores ingleses serviam de
2002, p. 191). Apesar de a Decisão n. 29 haver recomendado que "antídotos" contra a filosofia francesa, "que já entre nós tem amea-
os professores, assim que pudessem, formalizassem uma gramáti- çado ao Altar e ao Throno" (TlLBURY,1827, p. iv).A partir de então,
ca de sua composição, João Joyce não chegou a produzir nenhum o autor passa a defender a preferência do estudo da Língua Inglesa
compêndio de sua autoria, cabendo a Gulherme Tílbury, que o em relação ao Francês, para o que usa de argumentos nem sem-
substituiu no cargo de Professore Público de Língua Inglesa da pre convincentes, como o de que apenas um ou dois dos revoluci-
corte, a tarefa de cumprir tal recomendação. onários que haviam perturbado a paz do país sabiam o Inglês:
No mesmo ano em que foi nomeado mestre de Língua Ingle-
sa da Rainha de Portugal e das Augustas Princesas com o orde- Eu não digo que se deve deixar de estudar o Francez: porém
nado de 400.000 réis anuais, conforme o Decreto de 4 de abril de ao menos deve-se procurar o contraveneno, que he o lnglez.
1827 (BRASIL, 1878), Gulherme Paulo Tílbury publicou sua Arte Se, como dizem, a França e a Inglaterra são os dois olhos
ingleza. "offerecída ao illustrissimo senhor visconde de Cayru ", da Europa, para que contenLar-se em ver por hum delles
não só pelo seu "notório e official zelo" da instrução da mocidade, só? Ou quando assim se fizer, escolha-se ao menos aquelle
mas também pelo seu apreço da "Litteratura Brítanníca", como que tem a visLa mais comprida (TILBURY, 1827, p. v).
explica o autor em nota íntrodutóría'". A preeminência de tallite-
ratura entre os Estados mais civilizados, complementava, usan- O autor explica ainda que, assim como a Artefranceza que
do a mesma fórmula argumentativa, devia-se não apenas às van- já tinha impresso, esta era simplesmente uma cópia da "Postílla"
tagens do comércio, "em que a Nação Ingleza tem indisputavel que dava aos seus discípulos, declarando-se inimigo de
primazia", mas principalmente à superioridade das obras de "Grammaticas volumosas para principiantes", apesar de reconhe-
"Scíencías Moraes" e de Política, "em que se aprende a distinguir cer que havia algumas boas, como "a de Síret, já traduzida em
entre a verdadeira liberdade Social, e o desenfreado liberalismo Portuguez, e a de Cobbet em Francez":". Para defender-se dos
do Século" (TILBURY,1827, p. ii).
38 Não tive acesso à tradução portuguesa da gramática de Slret. Quanto a
William Cobbet (1763-1835), militar inglês que, depois de ter sua carreira
Interrompida na América do Norte sob a acusação de sedição, dedicou-se
37 Pode-se Inferir, com tal dedicatória, que Cairu desempenhou também o ao jornalismo e ao ensino de Inglês aos refugiados franceses, sua Grammar
papel de mecenas, mandando publicar as obras de seus protegidos. No ofthe English language, in a series ofletters (1819), para usos das escolas e
caso de Tilbury, tal proteção parece ter possibilitado seu provimento na dos "soldados, marinheiros, aprendizes e lavradores", vendeu 10.000 cópias
cadeira de Língua Inglesa. no primeiro mês de publ!cação (HOWATI, 1988, p. 123).

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Luiz Eduardo Oliveira GRAMATIZAÇÃO E ESCOLARIZAÇÃO

possíveis ataques referentes à brevidade do seu compêndio, Com o Aviso de 9 de julho de 1831, Guilherme Tilbury foi
Tilbury afirma que há duas qualidades de mestre: uma dos que nomeado Professor Público da corte (BRASIL,1877), o que faz su-
sabem a língua somente pela prática e outra dos que a sabem por que até então havia sido provido interinamente, e pelo Decre-
gramaticalmente. Para estes, assegurava, qualquer gramática to n. 1.111, de 27 de setembro de 1860, o governo mandou satisfa-
servia, e quanto mais breve fosse melhor. Para os outros, porém, zer ao "Padre Tilbury" o ordenado correspondente ao tempo em
precisaria, se houvesse, "huma Grammatica em Folio, com to- que esteve privado do exercício da cadeira de Língua Inglesa do
das as miudezas de Definições, e Conjugações repetidas &c. &c. Seminário de S. José (BRASIL, 1860). Em 1844, já então "Mestre
&c., as quaes eles por si só não sabem explicar ao Estudante" de Inglez de S. I. D. Pedro Primeiro; de S. M. F. D. Maria Segunda,
(TILBURY,1827, p. v). das SS. PP. Imperiaes e Profesor RegioJubilado", conforme se apre-
Saber gramaticalmente, para o autor, era dominar a estru- sentava na folha de rosto do livro, Tilbury publicou outro opúscu-
tura e terminologia da Gramática Latina, as quais poderiam ser lo: Primeiras regras da língua ingleza, "tiradas dos melhores
adaptadas a qualquer língua, como sugerem os títulos dos peque- authores, e adaptadas ao uso da mocidade brasileira", vendendo
nos capítulos em que se divide o opúsculo: o alfabeto; regras para os exemplares "Na Aula do Author, Rua do Carmo, n. 122"40.Man-
saber o diverso som que formam as vogais; ditongos e tritongos; tendo o princípio segundo o qual mais útil é a arte quanto mais
consoantes; abreviações; partes da oração; nomes (substantivos e breve ela for, o Padre Tilbury assim justifica seu livrinho de trinta
adjetivos); artigos; derivação dos nomes; graus de comparação; pro- páginas:
nomes; sintaxe; verbos; advérbios e preposições. Quanto à pronún-
cia, aspecto das línguas estrangeiras para o qual deveria ser dada Facil seria amplificar esta artinha, mas então ficaria bal-
atenção, conforme a Decisão n. 29, escrevia o autor: dado meu intento, que era, facilitar e abreviar os primeiros
passos no estudo desta Língua. Com esta arte e hum
A pronuncia da Língua Inglezahe a parte mais difficildella Dícíonarío, qualquer que entende do seu uso, facilmente
para o estudante, pelo grande numero de exceçõesque ha chegará a traduzir o Inglezsem precisar de Mestre, e para
nas regras geraes; e numeral-as todas nesta pequena obra quem quizer maiores conhecimentos Grammaticaes, não
elementar só serviria para embaraçar e confundir o discí- faltão no Rio de Janeiro obras mais extensas (TILBURY,
pulo que for principiante; o Author portanto dará somente 1844, p. 30).
aquellas regras absolutamente necessarias, aconselhando
aos estudantes, que se quizerem aperfeiçoar, a leitura do
Tratado da Pronuncia no principiodo Diccionariode Walker
(TILBURY, 1827, p. 1).39

39 John Walker (1732-1807) publicou seu Critical pronouncinq dictionary em


1791, o qual tomou-se a principal referência quanto à pronúncia da Lingua
Inglesa, principalmente por incluir uma nota com Directions to Foreigners 40 Ttlbury, nessa êpoca, era também professor particular de Francês e Inglês,
sobre os problemas da pronúncia Inglesa para os estrangeiros (HOWATT, como mostra seu anúncio no Almanaque Laemmert para o ano de 1844
1988, p. 114). (OLIVIRA,2006).

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Com efeito, antes mesmo de o Padre Tílbury imprimir a sua


Arte ingleza, em 1827, duas outras gramáticas "mais extensas" ha-
viam sido publicadas por brasileiros durante o período joanino. A
primeira, Nova grammatica portugueza e ingleza, "a qual serve para
instruir aos portuguezes na língua ingleza" , foi impressa em Lon-
dres em 1811 e composta pelo editor do Correio Braziliense Hipólito
José da Costa (1774-1822). A segunda, com o mesmo titulo, e
"dedicada á felicidade e augmento da Nação Portugueza", foi escrita
por Manoel de Freitas Brazileiro e saiu no ano seguinte em Liverpool.
Dentre as muitas razões da utilidade de uma Gramática
Inglesa dedicada aos portugueses, Hipólito José da Costa, no pre-
fácio do seu compêndio, destaca sua importância para o negoci-
ante, bem como para o "curioso Estudante", na esperança de que
estes pudessem fazer bom uso de um método que lhe parecia ser o
mais seguro para se obter e conservar o conhecimento de ambas
as línguas: fácil e prático, caracterizando-se pela brevidade. Em
apenas um parágrafo, o autor resume todo o conteúdo de sua obra:

Primeiramente se trata das letras, e sua pronunciação;


mostrando como se Iêrn, dando exemplos no estilo
Portuguez de soletrar, explicando igualmente as vogaes,
syllabas. diphtongos, tríphtongos, &c. Depois seguirão-se
as declinações. conjugações, regras da syntaxe, etymología,
prosodia. e acentos. Dahi um vocabulario, e diálogos das
coisas mais communs, que acontecem na vida. Finalmenl
ajuntou-se-lhes modellos de cartas sobre o commercio; ins
trumento de procuração. carta de fretamento, Apólice de
seguro, conhecimento de carga; escritura de comprornlss
letra de cambio e seu protesto, &c. (COSTA. 1828, p. 1).

Se o compêndio de Hipólito José da Costa não se difere rnul


to das Gramáticas Inglesas dedicadas aos profissionais ou uprcn
dizes do comércio (OLIVEIRA,2006). tal não é o caso do de Manuel
de Freitas Brazileiro, que fez incluir em seu livro, além das mal"
Arte ingleza (1827) rias propriamente gramaticais - ortografia, eürnología, sintaxe ('

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prosódia -, uma "selecta dos melhores authores", Já no "Prólogo"


de sua obra, Freitas faz saber aos desavisados que a Língua In-
glesa deveria ser considerada uma das "uníversaes", "como tem
sido a Latina e a Franceza", pois nela se encontram todos os gê-
neros de leitura, tanto os que embelezam o pensamento quanto
os que dilatam as idéias. razão porque se via na obrigação de
divulgar entre seus compatriotas o conhecimento de um "Díalecto"
tão estranho aos ouvidos dos habitantes do Antártico. Não esque-
ce. porém. de destacar a utilidade comercial da língua, principal-
mente num momento em que os portos do Brasil estavam fran-
queados ao comércio com a Inglaterra:

Sendo o conhecimento das Línguas a chave principal e o


meio mais efficaz para adquirir relaçoens as mais interes-
santes. em qualquer condição de vida; e em uma Época tão
inesperada. como. vermos os Portos do Brazil franqueados
ao Commercio com Inglaterra. fazendo-se deste modo mais
ampla e mais extensiva a correspondencia e communicação
entre ambas as naçoens; e pelo deze]o que me acompanha.
de ser de alguma forma util aos meus nacionaes (indaque
distante) pela aquisição de hum Idioma. que principia a ser
ouvido e familiarizado entre aquelles. pelas relações do
Commercio livre (BRAZILEIRO. 1812. p. 1).

Pela terminologia adotada por Freítas, que enfatíza, no mes-


mo prólogo. a necessidade do estudo da Gramática da Língua
Nacional. percebe-se que o autor tem - ou pelos menos demons-
tra ter - conhecimentos fllológícosmais aprofundados do que Costa
ou Tilbury. o que se verifica na "Secçào 3. a". dedicada à fonética-
"da natureza da articulação. e radical distincção das letras vogaes
e consoantes" -. e no breve histórico que faz da gramática. defíní-
da pelo autor como "Arte de letras". ou arte de falar e escrever
com propriedade e justeza. Vale a pena reproduzir a sua minuci-
osa defíníçào da voz humana. pela constante referência a termos
biológicos: Nova grammatica ingleza e portugueza (1812)

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A voz humana, hé ar ou respiração lançada das entranhas, estudante ou professor o jeito certo de seguir o método. Os textos
e agitada ou modificadapor entre a trachéa e o larynx para escolhidos, quase todos tirados do English Reader de Murray - ou
ser distinctamente ouvida. Traché, hé o tubo que, tocando teria sido de Siret? -, versam sobre temas como: as vantagens de
as fauces externamente, sentimos aspereza e desigualdade. ler e escrever; glória sólida e verdadeira grandeza; verdadeiros
Este hé o que conduz ar às estranhas, para respiraçãoe falla. costumes ou polidez; prudência; justiça ou retidão, etc.?
O topo de trachéa hé o larynx, que consiste de quatro ou
sincocartillagens,as quaes podemdilatarse e ajuntarse, pela o ensino da Ungua Inglesa nos colégios e seminários
acção de certos músculos, que todos operãoao mesmo tem-
po. Nomeiodo larynxestá uma pequena abertura chamada Os colégios, seminários e demais instituições religiosas
glottis, por onde passa a respiraçãoe a voz.Esta abertura não dedicadas ao ensino, em Portugal e seus domínios, não deixaram
hé mais que o decimode uma polegada;e por isso, a respira- de existir depois da expulsão dos jesuítas e das Reformas
çãovinda das entranhas, devepassar comvelocidade.Sendo Pombalinas, mas passaram por um processo de reformulação,
assim formada a voz;esta hé animada e modificadapela re- dependendo agora mais do Estado português do que das bulas
verberaçãodo paladar, e outras concavidadesno interior da papais. Nesse processo, alguns elementos do saber à época tido
bõca e orgaons nasaes: e porque estas partes são mais ou como "moderno" ou "scíentíflco", especialmente as "Scíencías
menos bem formadas para a reverberação; a voz será mais Mathematícas", foram incorporados aos seus planos de estudos,
ou menos agradavel (BRAZILEIRO, 1812, p. 26-27).41 antes restritos às matérias teológicas e humanísticas.
Afirma-se que o Semínário de Olinda, fundado em 1800 por
Reconhecendo que a principal dificuldade dos estrangeiros José Joaquim da Cunha de Azeredo Coutinho (1742-1821), Bispo
para aprender a Língua Inglesa consistia na sutileza e rapidez de Pernambuco e Diretor Geral dos Estudos na mesma capitania,
necessárias à pronúncia das palavras, boa parte do compêndio é foi o primeiro estabelecimento a renovar a instrução eclesiástica
dedicada à prosódia, para o que o autor se vale de um grande no Brasil, redirecionando os estudos humanísticos clássicos e
número de regras, tornando seu livro muito mais extenso do que inserindo as "ciências modernas" nos estudos fllosóftcos, para os
os de Costa e Tilbury, os quais não trazem, como o de Freitas, quais se fazia necessário o conhecimento das línguas estrangei-
trechos de autores exemplificando os casos de sintaxe. Ao fmal do ras (ALVES,2001). Sobre o papel dos seminários na "cultura luso-
prólogo, fica fácil perceber um de seus modelos, pois, da mesma brasileira", afirma Carrato (1971, p. 41):
forma que Murray, cita uma passagem de Blair sobre "linguagem
e composição", assegurando que aprender a escrever é aprender
a pensar (BRAZILEIRO,1812, p. v). Há também uma espécie de
"Apendíce" composto de perguntas e respostas sobre Gramática e
Geografia e uma "Advertencia" de duas páginas, mostrando ao 42 Convém observar que Freítas. assim como a grande maioria dos autores de
compêndios, mostra-se plenamente consciente de que sua obra não é original,
mesmo porque esta não é a sua intenção, uma vez que se considera
"organízador" ou "compilador", colocando-se no papel de dívulgador de luzes
41 Ao que tudo indica, sua principal fonte, nesse assunto. é o Dicionário de ou conhecimentos, bem no espírito enciclopédico que ainda dominava no
Walker. tempo.

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Os seminários têm uma longa tradição na história da cul- collegíos para os estudantes pobres das suas dioceses,
tura luso-brasileira. Eles substituirão no Rio de Janeiro, desempenhando-se assim, de algum modo, da obrigação de
em São Paulo, no Pará e em Pernambuco. os colégios bani- instruir e formar o clero, um dos seus principaes deveres, e
dos da Companhia de Jesus, e o de Minas Gerais assumirá a tanto mais n'este caso, quanto não podiam esperar que pro-
nobre função de vanguardeiro da educação da juventude. 43 porcionassem nos passos episcopaes tão bons mestres como
eram os das escolas publicas (apud RIBEIRO, 1874, p. 29).
Os seminários, em algumas peças legíslatívas da época, são
também chamados de colégios, não havendo qualquer distinção Durante o período joanino, o primeiro documento oficial
que possa estabelecer-se entre ambas as designações. Alves (2003) referente a colégio data de 14 de setembro de 1820, dia em que
tenta resolver o problema com a expressão "colégio-seminário", saiu uma Carta Régia de EI Rei D. João VI endereçada ao Conse-
tomando sinõnimos os dois tipos estabelecimento. É possível, con- lheiro, Governador e Capitão General da Capitania de
tudo, que o termo colégio seja mais antigo do que seminário, mes- Pernambuco, Luiz do Rego Barreto, aprovando a solicitação de
mo tendo este, com o tempo, se associado à idéia de instituição Antonio Jacinto Xavier Cabral, que pedia auxílio real para a cri-
religiosa de ensino, ao contrário de colégio, que em meados do ação, na vila do Recife, de "hurn collegío de educação, para nelle
século XIX passou a designar estabelecimento de Instrução Se- instruir a mocidade, provendo-o de bons mestres de primeiras
cundária. principalmente depois da distinção entre "escola" e "co- lettras, das linguas ingleza e franceza, de arithmetica, geome-
légio" proposta pelo Aviso de 18 de janeiro de 1862, que conside- tria, desenho civil e militar". EI Rei referia-se no preãmbulo da
rava colégio todo estabelecimento de instrução e educação que Carta Régia aos talentos e à perícia do suplicante na arte do
recebesse internos e meio-pensionistas, havendo um diretor e Desenho, atributos que justificavam a aprovação do colégio, or-
professores de várias matérias (BRASIL,1862). O abade Claude denando que o estabelecimento ficasse debaixo do governo da
Fleury (l640-1723), no seu Discours sur l'histoire ecclésiastique capitania, nas seguintes condições:
(1720), assim descreve a instituição dos colégios:
E sou outrosim servido que se lhe preste annualmente pe-
A instituição dos colleqios, que teve seu começo no meado las rendas applicadas ao Seminario de Olinda um ordena-
do século XIII, foi um meio excellente de manter a policia do igual ao que vencem os professores de Grammatica des-
da universidade, e de encaminhar os estudantes para o sa villa; e que vagando ahi alguma cadeira, que deva escu-
cumprimento dos deveres. Os religiosos foram os primeiros sar-se, se applique o ordenado, que lhe era proprio, para as
que fundaram essas casas para vivenda de seus confrades despezas deste estabelecimento. O que me pareceu partici-
estudantes. separando-os do trato com os seculares ... De- par-vos, para que assim tenhais entendido, e façais execu-
pois a maior parte dos bispos fundaram tambem tar (BRASIL. 1889).

Como se vê, a intenção era reverter as verbas do Seminário de


43 O autor refere-se ao Seminárto de Mariana. Fundado em 1750. teria sido o
Olinda para o novo colégiode feiçãomilitar, nos moldes do Real Colé-
lugar de formação de intelectuais. pregadores. publicistas e renomados
mestres. muitos dos quais participantes da Inconfidência Mineira (CARRATO, gio dos Nobres, que em Coimbra foi estabelecido no-lugar do antigo
1971. p. 57). Colégiodas Artes, entregue à Companhia de Jesus desde 1555. Ao

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comentar o estado da instrução na cidade do Rio de Janeiro entre Manuel de Portugal e Castro, encaminhou a EI Rei D. João VI
1817 e 1820, Spix e Martius, os naturalistas que vieram ao Brasil a uma representação da Cãmara da cidade de Mariana, com um
mando de Maximiliano José I (1756-1825), rei da Bavíera, escreve- parecer "para que se digne Mandar reunir, e instaurar ali uns e
ram que "a educação da juventude é cuidada na capital por alguns outros Estudos, formando-se um Colégio Real de Artes, e Discipli-
colégios privilegiados", fazendo referência também aos professores nas Eclesiásticas", tendo o plano morrido no nascedouro. Com
particulares a quem os abastados confiavam seus filhos, "afim de uma Carta Régia de 30 de janeiro de 1820, D. João fez a doação do
freqüentarem a Universidade de Coímbra", no que observavam: "a patrimônio da Serra do Caraça, na comarca do Rio das Velhas, à
maioria deles pertence ao clero, atualmente de influência muito Congregação da Missão de São Vicente de Paula.:"
menor, no que diz respeito à educação popular, do que outrora e Em São Paulo, apesar do avanço das cadeiras de Matemáti-
principalmente no tempo dos jesuítas" (apud DORIA, 1937, p. 11). ca e Fílosofla, que tiveram como professores personagens ilustres
Quanto aos seminários, escreveram os referidos naturalistas: do período, tais como Martim Francisco (1775-1844), que esboçou
um plano de instrução no qual substituía o ensino da Gramática
No Seminário de São Joaquim são ensinados os rudimen- Latina pelo da Língua Francesa (OLIVEIRA,2006), Díogo Antonio
tos de estudo e cantochão. O melhor Colégio, porém, é o Feijó (1784-1843) e Monte Alverne (1784-1858), não há noticia de
Liceu do Seminário de S. José, onde, a par do latim, do nenhum estabelecimento onde se ensinassem as línguas estran-
grego, do francés, do inglês, da retórica, da geografia e da geiras, o mesmo ocorrendo no Pará, especialmente no Seminário
matemática também se ensinam filosofia e teologia (apud de Nossa Senhora das Missôes, onde D. Frei Caetano Brandão te-
DORIA, 1937, p. 11). ria ensinado Fílosofía Racional e Moral (CARRATO,1971, p. 66-67).
Em 1825, uma Carta Imperial de 9 de agosto criou proviso-
A informação a respeito do Seminário de S. Joaquim só pro- riamente, na cidade da Bahia, "para servirem de principio ao
cede até 1822, ano em que a Decisão n. 54, de 31 de maio, assina- Seminario Arquiepiscopal", uma cadeira de Inglês e outra de Fran-
da por José Bonifácio de Andrada e Silva, Ministro do Império e cês. A carta fora suscitada por um requerimento de Manuel José
Estrangeiros, mandou ali criar uma cadeira de Francês, extin- Estrela Júnior, filho do primeiro lente da Escola Cirúrgica da
guindo a de Cantochão, a pedido do reitor do estabelecimento. mesma cidade (OLIVEIRA,2006), chegando ao governo mediante
"Logo que os respectivos Seminaristas se acharem promptos e oficio do Conselheiro João Severiano Maciel da Costa, de 20 de
approvados no estudo de Grammatica Latina", acrescentava a lei, julho do mesmo ano. O requerente, pela mesma carta, obtivera
deveria ser estabelecida uma Aula de Eloquência e Geografia, nomeação como professor das duas cadeiras, com o ordenado
"quando para este fím tão louvavel e util concorram por meio de
uma subscrição os bemfeitores do mesmo Semínarío". Com rela-
ção ao aumento da gratífícação do reitor, que o reclamava em seu
requerimento, juntamente com a criação das cadeiras, a decisão 44 De acordo com Azevedo (1971, p. 576-577), o Colégio do Caraça, aberto em
respondia que ele só poderia ser conferido "quando as 1821 com 14 alunos, "de 1820 a 1835 já havia atingido a 1.535 o número
circumstancias o permittirem" (BRASIL,1887). de estudantes; e já a esse tempo se ensinavam as primeiras letras, latim,
francês, geometria, filosofia e música, tornando-se conhecidos em toda a
Segundo Carrato (1971, p. 63-64), já em novembro de 1816, província os padres do Caraça que não tardaram (1827) a ser chamados
o Governador e Capitão General da Capitania de Minas Gerais, D. para outras fundações importantes em Congonhas e Campo Belo".

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anual de 400.000 réis. Ajustificativa de Sua Majestade o Impera- cação dos respectivos compêndios e dos "livros de que se poderá
dor D. Pedro I para o ensino de tais matérias era a mesma das fazer escolha para uso nos differentes ramos do ensino" (BRA-
legislações pombalina e joanina: SIL,1878).
As disciplinas e doutrínas'" eram as seguintes: Doutrina
E conformando-me com o que me expuzestes no dito officio Cristã e Urbanidade; Leitura e Escrita Portuguesa; Prática das
por ser evidente a necessidade da prompta instituição de Operações Fundamentais da Aritmética; Gramática e Língua Por-
taes cadeiras, pelas vantagens que resultam pelo conheci- tuguesa; Gramática e Língua Latina; Gramática e Língua Fran-
mento de línguas em que se acham os trabalhos dos pri- cesa; Gramática e Língua Inglesa; Lógica; Metafísíca: Ética; Di-
meiros sabios de todas as nações illustradas (BRASIL,1885). reito Natural; Aritmética; Álgebra elementar; Geometria e
Trígonometrta teórica e prática; Desenho de Arquitetura e "pra-
Três anos depois, saiu a Carta Imperial de 30 de abril, apro- xe do risco das Cartas". Os compêndios indicados para Gramáti-
vando os Estatutos da Casa Pia e Colégio de S. Joaquim dos Me- ca e Língua Inglesa eram a "Grammatíca de Siret, ou de Freitas";
ninos Órfãos da cidade da Bahia. A carta era dírígída ao Presi- a "viagem de Robínson": o "Breve Tratado sobre as Artes por
dente da Província e assinada pelo Inspetor dos Estabelecimen- Polainet em francez e inglez, ultima edição"; a "Hístoría da
tos Literários e Científicos do Brasil, o Visconde de Cairu. Os es- America de Robertson" e o "Spectator". A "Tabela n. 2" trazia
tatutos, por sua vez, haviam sido enviados por uma representa- uma lista de "materías necessarias", indicando seus compêndi-
ção do provedor e mais mesários e administradores do estabeleci- os e o ano em que cada matéria deveria ser dada. As Gramáticas
mento. A "Educação em geral", conforme o Capítulo I do Título IU, Portuguesa e Latina seriam ensinadas no terceiro e quarto anos,
que tratava dos colegiais, tinha como objetivo "aperfeiçoar, e diri- sendo as Línguas Francesa e Inglesa estudadas no quarto e
gir as faculdades physicas e Moraes do Homem, para utilidade, quinto (BRASIL,1878).
do individuo que a recebe, e da sociedade civil de que elle é mem- A gramática de Freitas a que se refere a lei é provavelmente
bro" (§ 1.0).Quanto à "parte litteraria e moral", devia a educação: o Compendio da grammatica ingleza e portugueza "para uso da
mocidade adiantada nas primeiras letras", livro composto por
Preparar os collegíaes com os conhecimentos convenien- Manoel José de Freitas e impresso no Rio de Janeiro em 1820,
tes, e indispensaveis nos empregos da vida commum; e so-
bre tudo communícar-lhes noções claras da virtude, e do
vicio, das acções licitas, e íllícítas conforme os principios 45 Pelo que se deduz da leitura da lei. a denominação de "doutrinas" cabia à
da razão, da religião, e até das leis penaes do nosso codígo instrução elementar. e de "disciplinas" às matérias propriamente "literárias",
nacional (BRASIL, 1878). como deixa entrever o § 8.° do Capítulo \li, Título \11:"Quanto aos porcionistas
que se destinarem para a vida literaria, e aquelles poucos orphãos que para
el1a forem escolhidos pela Mesa. em attenção aos seus extraordinarios
Os capítulos seguintes são dedicados à Educação Física talentos, poderão. depois de adquirir as doutrinas que se ensinam dentro
(Il] e Literária (IU),estabelecendo a lei, quanto a esta, "as disci- do Collegío, sahir igualmente a aprender nas aulas publicas a língua latina.
a rhetorica, e philosophia. e quaesquer outros ramos de instrucção que se
plinas indispensaveis, e intimamente connexas com o destino
ensinarem na cidade. indo. e voltando debaixo da mesma inspecção e
dos orphãos", numa extensa e detalhada "Tabela n. 1", na qual regularidade" (BRASIL,1878). Contudo, usava-se também o termo "doutrina"
estão as "doutrinas" que seriam ensinas no colégio, com a índí- para referir-se às matérias de ensino superior.

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Luiz Eduardo Oliveira
GRAMATIZAÇÃO E ESCOLARIZAÇÃO

com Licença da Mesa do Desembargo do Paço, isto é, de Cairu. Tal A Grammatica de qualquer Língua polida sempre foi a cha-
compêndio é uma versão simplificada do seu livro anterior, a Nova ve, que dá entrada ao conhecimenlo (por não dizer ao Tem-
grammatica ingleza e portugueza "dedícada felicidade e augmento
á

plo) da Razão humana, e quando estamos bem possuídos


da Nação Portugueza", impresso em Liverpool em 1812, no qual o de uma, o caminho he mais facil para as outras. Sem algu-
autor assina como Manoel de Freitas Brazileiro. No prefácio, ma Grammatica, seja da Língua nacional, seja de outra exis-
Freitas explica seu desejo de ser útil ã educação da mocidade tente, ou morta como a Latina e Grega, não podemos expres-
num momento em que, "pela Providencia", o reino do Brasil flo- sar com propriedade e justeza os nossos pensamentos; quero
rescia na agricultura e no comércio com todas as nações, especi- dizer; não conhecemos a propriedade da derivação das pala-
almente a inglesa: vras; não conhecemos a certeza das letras e syllabas que as
compõem; não sabemos collocar em seus proprios lugares os
Animado pois por um coração liberal, resolvi preparar este termos ou palavras de huma oração ou período; e finalmen-
Compendio, considerando o trafico e as relações te, não sabemos muitas vezes pronunciar os mesmos ter-
commerciaes da Nação Portugueza com a Ingleza, e a falta mos com o seu accento devido (FREITAS, 1820, p. íí).
de um Compendio da Grammatica de ambas, para iniciar e
facilitar a MOCidade ao uso das duas Línguas. com a clare- A Língua Inglesa, a seu ver, era muito mais fácil de ser apren-
za, justeza, e simplicidade possivel; e penso que os Pays de dida do que a Latina, com a qual ele mesmo tinha sentido mais
familia, desejosos de melhor conhecimento, e em parte, de dificuldades, pois um professor "entendido", de boa pronúncia,
mais civil e moral Educação nos seus fllhos, approvarão método e critério, "o que não se adquire em poucos annos", tendo
este meu desígnio (FREITAS, 1820, p. i). praticado os sons da língua que conhece com os seus nacionais,
poderia ser um fiel condutor dos discípulos, suavizando-lhes o
Voltando a defender a idéia de que o conhecimento da Lín- caminho para que não enjoassem. Assim, aprender a ler, falar e
gua Inglesa era tão importante quanto o da Língua Latina ou escrever aquela língua poderia ajudar a mocidade a dilatar suas
Francesa, o autor argumenta que, se a Língua Latina, até en- idéias "em todo trafico da vida", servindo como uma parte integran-
tão, tinha servido de condutora aos princípios literários e famili- te da "boa Educação", definida como um "freiorigoroso", um princí-
ares, e a Francesa era tida como universal, sendo recebida como pio moral unido ã virtude por meio da qual a mocidade poderia
parte integrante da educação, assim como a Música e a Dança, a adquirir o costume dos bons exemplos, cultivando a sinceridade, a
Língua Inglesa deveria ser julgada como necessária ã mocidade verdade, a humanidade e ajustiça (FREITAS, 1820, p. Ü-lli).46
num país em que se ouvia diariamente o som vocal deste idioma, Os demais compêndios indicados para Gramática e Língua
envolvidos que estavam os brasileiros em negociações com o Rei- Inglesa, na Tabela n. 1 dos Estatutos da Casa Pia e Colégio de S.
no Unido. O conhecimento do Inglês, além de ser útil ao comércio Joaquim dos Meninos Órfãos da cidade da Bahia, eram a
e ao "trafico civil", serviria também para a leitura de livros de "Grammatica de Síret" - talvez na tradução portuguesa -, a "viagem
todos os gêneros: "scíentífícos, moraes, e de Educação polida".
Mas tal conhecimento só poderia ser obtido pela Gramática, sem
a qual não se podia expressar com "propriedade e justeza" nos-
sos pensamentos: 46 No compêndio. as partes da gramática são explicadas na forma de um diálogo
fictício entre um mestre e um discípulo (em Inglês com tradução em português).

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Luiz Eduardo Oliveira GRAMATIZAÇÃO E ESCOLARIZAÇÃO

de Robinson", certamente uma tradução de Robinson Crusoe (1719), em tudo quanto for compativel com os presentes estatutos, e
de Daniel Defoe (1660-1731); o "Breve Tratado sobre as Artes por estado do Collegío, nomeando-se entre os alumnos mais adi-
Polainet em francez e inglez, ultima edição", a "Historia da America antados um ajudante e decuriões para presidirem, e inspira-
de Robertson", tradução da History of America (1777), do historiador rem certas divisões da escola, praticando-se o estylo das apos-
escocês William Robertson (1721-1793); e o "Spectator", referência tas já largamente praticado neste Imperio e que têm merecido
aojomaldiário inglês de mesmo nome, publicado entre 1711 e 1712 o elogiode Loke, e outros estrangeiros illustres (BRASIL,1878).
por Joseph Addison (1672-1719) e Richard Steele (1672-1729).
O parágrafo quarto do Capítulo III, ao adotar o método de O parágrafo seguinte trata do ensino das línguas, ordenan-
instrução elementar em voga na época, o de "Lencastre", estabe- do que elas fossem ensinadas por nacionais e aprendidas pelo
lecido em todo o país com a Lei de 15 de outubro de 1827, dá uso e exercício, e não por uma "multiplicidade de regras", o que
resumidas instruções sobre seu funcionamento, traçando um valia também para a Língua Latina. A gramática deveria ser
breve histórico de seu uso em Portugal, e de sua aprovação por explicada na medida em que os casos fossem ocorrendo, na leitu-
"estrangeiros illustres, como "Loke": ra dos clássicos com os quais seriam dadas aos alunos noções de
História e Geografia. Vale a pena observar que, para os professo-
Pelo que toca leitura, escríptura, e pratica das operações
á
res de Latim, as Instruções indicadas eram ainda as do Alvará de
fundamentais da arithmeUca, seguir-se-há o methodo de 28 de junho de 1759:
Lencastre, já estabelecido e approvado por Sua Magestade
Imperial em todas as Provincias, pelas vantagens que del1ese As línguas vivas devem ser ensinadas por nacionaes, de
vão geralmente recolhendo. Enquanto ou por falta de Mestre quem se possa aprender com a correcção e pureza; e tanto
habil, ou por outro qualquer obstaculo não for possivel exe- el1as; como a mesma lingua latina, devem ter por base o
cutar-se o sobredito methodo, seguír-se-ha o plano contido uso e o exercicio, antes que a multiplicidade das regras,
nas Instrucções dadas aos Professores dos corpos de linha limitando-se os Professores, depois de pequeno numero de
do Exercito em Portugal em data de 29 de Outubro de 181647, preceitos indispensaveis, a notar as diversas partes da ora-
ção, e seu uso, ao passo em que ellas forem ocorrendo na
leitura dos classicos das sobreditas linguas, a qual ordena-
47 Com o Alvará de 18 de maio de 1816, foi expedido o regulamento do Real Colégio
rão de modo, que forme uma especie de curso de Historia,
Militar da Luz. Os pretendentes ao ingresso no estabelecimento devertam ter
mais de nove e menos de onze anos de Idade, além de saber ler e escrever acompanhada pela lição do compendio das épocas, e Atlas
perfeitamente. Entretanto, tendo "prtncípíos de huma regular e boa educação", dos meninos, ou qualquer outro compendio abreviado de
poderíam ser admitidos até doze anos de idade (Cap. IV, § 1.°), e se tivessem Geographía, Os Professores de língua latina seguirão além
ainda o conhecimento da Gramática da Língua Portuguesa e Francesa, podeIiam
ser aceitos os candidatos de até treze anos Incompletos (§ 4.°). O Plano de Estudos, disto as determinações do Alvará de 28 de junho de 1759, e
bastante detalhado, estabelecia, num total de seis anos, ao lado das "disciplinas" instrucções que o acompanharam, quanto forem applicaveis
próprías ao serviço militar, o estudo das Gramáticas Portuguesa, Latina, Francesa ás circunstancias do collegío (BRASIL, 1878).
e Inglesa. Esta, ensinada no terceiro ano, Juntamente com a Aritmética, Álgebra,
Geometria e Trígonometna, Desenho e Arquitetura, deveria ser estudada com os
seguintes Compêndios: "Arte de Síret; The Economy of Human Lífe; The Hístory
of the Reígn of the Emperor Charles õth" (PORI1JGAL, 1825).

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Luiz Eduardo Oliveira GRAMATIZAÇÃO E ESCOLARIZAÇÃO

A legislação pombalina é tomada como exemplo ainda no


parágrafo sexto, segundo o qual os professores de Lógica,
Metafisica, Ética, Direito Natural, Química e Agricultura deveri-
am regular-se, "interinamente", pelo método estabelecido na Uni-
versidade de Coimbra. Os de Comércio servir-se-iam dos Estatu-
tos da Aula de Comércio de Lisboa de 19 de abril de 1759, e os de
Aritmética, Geometria, "e mais partes das mathematicas", pelos
Estatutos da Academia Real de Marinha e Comércio da cidade do
Porto de 29 de julho de 1803 (BRASIL, 1878).

Algumas considerações

Como vimos, o ensino das línguas estrangeiras, em Portu-


gal, foi instituído no contexto das Reformas Pombalinas da Ins-
trução Pública, que acompanharam um movimento geral de
reformulação jurídica do Estado português durante o reinado de
D. José I (1750-1777). em nome de um iluminismo que se configu-
rava como um misto de despotismo esclarecido e regalismo. Nos
planos de estudos das Aulas Militares, a pedra de toque é o de-
senvolvimento dado às "Ciências Matemáticas", importantes para
a eficácia das fortificações, bombardeios e táticas de guerra, bem
como para a arquitetura e construção civil. Sua consagração como
curso acadêmico, em 1772, destaca ainda mais seu relevante papel
nos estudos, preparatórios como superiores. Acompanhando seu
processo de institucionalização, estão as "Línguas Vivas ", cujo
estudo possibilitava o acesso ao que se publicava sobre a matéria
nos países estrangeiros, especialmente na França e Inglaterra.
Tal como ocorreu em Portugal no período pombalino, as lín-
guas estrangeiras, no Brasil, acompanharam o processo de
institucionalização dos estudos matemáticos, representados prin-
cipalmente pelas Academias Militares, centros formadores de um
setor da sociedade civil, ou da elite local, que excluía todos os que
Compendio da grammatica ingleza (1820)
não fossem "vassalos", e depois "cidadãos", isto é, os escravos e os
homens livres e despossuídos. Seu estudo, da mesma forma, se

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GRAMATIZAÇÃO E ESCOLARIZAÇÃO

achava justificado como meio de acesso às "Ciências Matemáti- fixação de um valor cultural, no ensino daquelas línguas, algo já
cas", pela traduçào de obras e autores que não mais as escreviam alcançado pelo Latim - tido até então como "base de todas as
em Latim, mas nos idiomas de suas respectivas nações. Desse Sciencias", como dizia o preàmbulo do Alvará com que Pombal
modo, não é por acaso que a criação das primeiras cadeiras pú- expulsou os jesuítas de Portugal e seus domínios, em 1759 -, e em
blicas de Inglês e Francês no Brasil, em 1809, é declarada no parte pelo Francês, considerado à época uma "língua universal",
mesmo documento em que a Mesa do Desembargo do Paço dá a criação de tais cadeiras atendia à necessidade que tinha o go-
provimento a uma cadeira de Aritmética, Álgebra e Geometria, verno joanino de preparar candidatos aos Estudos Maiores, ou
assim como não é de estranhar que os Colégios e Academias Mili- superiores, os quaís exigiam que o aluno soubesse traduzir pelo
tares e de Marinha, em Portugal e no Brasil, sejam as primeiras menos a Língua Francesa para cursá-los.
instituições responsáveis pela inserção em seus currículos das Ao lado dessa finalidade instrumental, caracterizada pelo
línguas estrangeiras. seu caráter ilustrado, uma vez que dava acesso à produção inte-
Se, como este capítulo tentou provar, a vinda do Príncipe Re- lectual das nações cultas da Europa, havia também, no caso da
gente D. João e sua corte para o Rio de Janeiro, em 1808, significou, Língua Inglesa, uma finalidade utilitária, a qual se fazia valer
em matéria de Instrução Pública - e, portanto, de organização e ra- num momento em que o país tinha acabado de abrir seus portos
cionalização do próprio Estado -, a aplicação e desenvolvimento, no ao comércio estrangeiro, especialmente o inglês, que, impedido
Brasil, das diretrizes estabelecidas pelas Reformas Pombalinas, po- pelo bloqueio continental imposto por Napoleão, precisava de ou-
demos conceber a primeira fase do processo de institucionalização tros mercados para sua própria sobrevivência, obtendo condi-
do ensino da Língua Inglesa no pais como um período que comporta ções bastante vantajosas no tratado entre as coroas portuguesa
o governo joaníno e do seu filho e sucessor D. Pedro r. e britànica, no qual esta negociou a proteção de D. João, em sua
Nessa primeira fase, as línguas estrangeiras têm uma fina- fuga das investidas e ameaças do imperador francês, em troca
lidade eminentemente instrumental, uma vez que seu estudo se do quase monopólio do mercado brasileiro. Disso testemunham,
justifica como meio de acesso a um conhecimento tido então como como vimos, algumas Gramáticas Inglesas publicadas no perío-
"scíentífíco" e professado, às vezes, por lentes estrangeiros, os do, em seus prefácios e, sobretudo, nos textos utilizados nos exer-
quais usavam compêndios escritos em Língua Francesa ou Ingle- cícios, a maioria dos quais é composta de letras de cãmbio e
sa, seja nas Academias Militares, nos Cursos Médico-Cirúrgicos, correspondências comerciais, bem como a preocupação que ti-
nas Aulas de Comércio e Agricultura ou nos Cursos Jurídicos nha o governo em criar lugares de intérprete e tradutor nos por-
(OLIVEIRA,2006). tos de várias províncias e nas secretarias de algumas reparti-
Embora a Decisão n. 29, de 14 de julho de 1809, que criou ções públicas.
as primeiras cadeiras públicas das Línguas Francesa e Inglesa Quanto ao seu processo de configuração como disciplina
no país, ao dispor sobre a "materia do ensino", mandasse que os escolar, o núcleo da disciplina constitui-se nesta primeira fase,
professores habilitassem seus discípulos em "bem fallar e escre- uma vez que sua parte teórica ou expositiva encontra-se já for-
ver" pelos "melhores modelos do seculo de Luiz XIV"e em conhe- mulada, baseada que é na Gramática Latina, cujos termos e clas-
cer, nas traduções, "o genío, e idiotismo da língua. e as bellezas e sificações são também usados no estudo das línguas estrangei-
elegancias della, e do estylo e gosto mais apurado e seguido", su- ras, como no caso do Inglês. Os exercícios, da mesma forma,
gerindo assim uma espécie de abordagem estética, bem como a centrados inicialmente na leitura, pronúncia, tradução, versão e

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GRAMATIZAÇÃO E ESCOLARIZAÇÃO
Luiz Eduardo Oliveira

composição, tinham como suporte uma longa tradição, pois a De- res, públicos como particulares, oferecia obstáculos à institucio-
cisão de 1809 mandava que os professores seguissem, quanto ao nalização do ensino de Inglês no país, que só pôde ser iniciada em
"tempo", "horas das lições" e "attestações" do aproveitamento dos 1831 (OLIVEIRA,2006).
discípulos, o mesmo que se achava estabelecido, "e praticado", Para tal institucionalização, contudo, muito concorreram
pelos professores de Gramática Latina. os professores/autores de Gramáticas Inglesas, que justificavam
Desse modo, se o status da Língua Inglesa como disciplina sua valorização movidos não somente por fatores bastante con-
escolar começa a se consolidar somente no momento em que o seu cretos à época, tais como as relações políticas e comerciais entre
conhecimento passa a ser requisito obrigatório para o ingresso nos o Império independente e a Inglaterra, mas também por uma re-
Cursos Juridicos do Império, o que ocorre em 1831 (OLIVEIRA, 2006), presentação de que a Língua Inglesa, sendo o idioma de um país
os discursos que justificam sua introdução entre as matérias pre- que se tinha por modelo de uma monarquia liberal, poderia de-
paratórias a tais cursos passam a circular nos compêndios de In- sempenhar um papel importante na Instrução Pública, isto é, na
glês muitos anos antes. Ao eleger alguns modelos estrangeiros para formação da "mocidade brasileira".
a construção da identidade nacional, num momento em que o país
tinha acabado de negociar a sua independência, a anglofüía dos
autores de Gramáticas Inglesas da época aponta para uma posi-
ção política bem precisa, uma vez que se apropria dos autores bri-
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cesa, como sugere o professor de Inglês Guilherme Tílbury no pre- FILHO. Luciano Mendes de. VEIGA. Cynthia Greive. 500 anos de educação no
fácio de Arte Ingleza (1827), em que concebia o Inglês como Brasil. 3. ed. Belo Horizonte: Autentica.
contraveneno do Francês, língua preferida dos revolucionários que
ALMEIDA. José Ricardo Pires de. 2000. Histeria da Instrução Pública no
tinham ameaçado a paz do país. Um dado significativo, nesse sen- Brasil (1500-1889). Tradução: Antonio Chizzotti. São Paulo: EDUC/INEP /
tido, é o fato de o compêndio ter sido dedicado ao Visconde de Cairu Comped.
(1756-1835) pelo seu apreço ã "Litteratura Brítanníca".
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vam motivar seus discípulos ou leitores justificando seu ensino
pelo caráter utilitário da língua e pela obrígatoríedade do seu co- AZEVEDO. Fernando de. 1971. 5. ed. A cultura brasileira. São Paulo:
nhecimento em determinados estudos superiores - e até afirman- Melhoramentos / EDUSP.

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Este livro tem o formato 15 x 21. foram impressos 500 exemplares.
A fonte usada no miolo é ITC Bookman Light corpo 11/13.
O papel do miolo é pólen 80/m2 e o da capa é cartão supremo 250/m2.
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