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ANAIS DO IX

29/09 a 02/10/2015 Pirenópolis – Goiás – Brasil

CON GR E SS O DA
REDE
L AT I N OA M E R I C ANA
D E A N T ROP O LO G I A
J U R Í DI C A
S O C I EDAD ES
P LU R A I S E ES TAD OS
N AC I O N A I S
l i m i te s e d es afio s
p a ra a e fet i vi da d e
d e di re i tos

Fernando Antonio de Carvalho Dantas


Carlos Frederico Marés de Souza Filho
Rebecca Lemos Igreja
(Coordenadores)
ANAIS DO IX
CON G R E S S O
DA R E D E
L AT I N OA M ER I C A N A
D E A N T RO P OLOG I A
JUR ÍDIC A
S O C I E DAD ES
P LU R AI S E E S TA DO S
N ACIONA I S
l i mi tes e d e s af i o s
p a ra a efe t i vi d ad e
de direi to s

Fer nando Anton i o d e


Car valho Dantas
Car los Freder ico M aré s d e
S ouza Fil ho
R e be cca Le mos Igreja
(Co orde n adores)
COR P O E DI TO RI A L

Antonio Carlos Wolkmer (Brasil)


Carlos Frederico Marés de Souza Filho (Brasil)
Clarissa Bueno Wandscheer (Brasil)
Esther Sánchez (Colombia)
Fernando Antônio de Carvalho Dantas (Brasil)
Fernando García (Equador)
Guadalupe Irene Juarez (México)
Joaquim Shiraishi Neto (Brasil)
José Geraldo de Souza Júnior (Brasil)
José LuisSolazzi (Brasil)
Laura Valladares (México)
Lílian C. B. Gomes (Brasil)
Magdalena Gómes (México)
Maria Cristina Vidotte Blanco Tarrega (Brasil)
María Teresa Sierra (México)
Milka Castro (Chile)
Morita Carrasco (Argentina)
Ramiro Molina (Bolívia)
Rachel Sieder (México)
Raquel Yrigoyen Fajardo (Perú)
Rebecca Lemos Igreja(Brasil)
Ricardo Verdum (Brasil)
Rita Segatto (Brasil)
Rosane Freire Lacerda (Brasil)
Sandra Nascimento (Brasil)
Sarela Paz (Bolívia)
Silvina Ramírez (Argentina)
Wellinton Caixeta Maciel (Brasil)
Xavier Albó (Bolívia)
CO O R D E N A Ç Ã O D O CO N G R E S S O

Profº Dr. Carlos Frederico Marés de Souza Filho (PUC/PR), Profª Drª Rebecca Forattini Altino Machado
Lemos Igreja (UnB) Profº Dr. Fernando Antônio de Carvalho Dantas (UFG).

CO M I T Ê O R G A N I Z A D O R ( B R A S I L )

Aline Furtado (CEPPAC/UnB), Cesar Baldi (NEP/UnB), Clarissa Bueno Wandscheer, Erika Macedo
(UFG), Estevão Fernandes, Guadalupe Irene Juarez (CIESAS; FLAD - México), Joaquim Shiraishi
Neto (UFMA), José Luis Solazzi (UFG), Liliana Salvo, Lívia Gimenes Dias da Fonseca (FD/UnB), Maria
Cristina Vidotte Blanco Tarrega (UFG), Renata Albuquerque (DAN/UnB), Rita Segatto (UnB), Ricardo
Verdum (PPGAS/UFSC), Rosane Lacerda (UFG), Sandra Nascimento (CEPPAC/UnB), Talita Rampin
(FD/UnB), Vanderlei Luiz Weber (UFG), Wellinton Caixeta Maciel (CAJU/DAN/UnB e FLAD - Brasil),
Wildes Andrade.

CO N S E L H O CO N S U LT I V O I N T E R N A C I O N A L

Carlos Frederico Marés de Souza Filho (Brasil), Esther Sánchez (Colombia), Fernando Antônio de
Carvalho Dantas (Brasil), Fernando García (Equador), Laura Valladares (México), Rachel Sieder (Mé-
xico), Magdalena Gómes (México), Milka Castro (Chile), Morita Carrasco (Argentina), Ramiro Molina
(Bolívia), Raquel Yrigoyen Fajardo (Perú), Rebecca Lemos Igreja (Brasil), Sarela Paz (Bolívia), Silvina
Ramírez (Argentina), Teresa Sierra (México).

P R O J E TO G R Á F I CO E D I A G R A M A Ç Ã O
Alanna Oliva

SEÇÃO DE NORMALIZAÇÃO CEGRAF/ UFG

Congresso da Rede Latinoamericana de Antropologia Jurídica (9 : 2015: Pirenópolis, GO).

Anais do IX Congresso da Rede Latinoamericana de Antropologia Jurídica, 29 de setembro a 02 de


outubro de 2015, Pirenópolis [recurso eletrônico] : Sociedades Plurais e Estados Nacionais : Limites
e Desafios para a Efetividade de Direitos / Coordenado por Fernando Antonio de Carvalho Dantas;
Carlos Frederico Marés de Souza Filho; Rebecca Lemos Igreja e Organizado por Vanderlei Luiz We-
ber; Pedro Nunes Britto Moreira; Tamiris Melo Pereira; Eduardo Scottini; Daniela Cardoso da Silva.
– Pirenópolis: UFG - UnB – PUC PR, 2015.

383 p.

Acesso em: <http://conpedi.org.br/eventos/?id=133&idConteudo=206>


ISSN: 2447-2700

1. Congresso da Rede Latinoamericana de Antropologia Jurídica -Anais. 2. Pirenópolis – GO.


3. Antropologia Jurídica. I. Título.

CDU 572:340.12

Catalogação na fonte: Carminda de Aguiar Pereira CRB1 2974 e Natalia Rocha CRB1 3054
Organização Apoio Financiadores
SU M Á R I O

7 1. Apresentação

12 2. Resumos
12 2.1 – Eixo 1
79 2.2 – Eixo 2
158 2.3 – Eixo 3
240 2.4 – Eixo 4
270 2.5 – Eixo 5

332 3. Posters

366 4. Índice Remissivo


1. A PR E S E N TAÇ ÃO

O IX Congresso da Rede Latinoamericana de Antropologia Jurídica – RELAJU realizado em


Pirenópolis, Goiás, Brasil, no período de 29 de setembro a 2 de outubro de 2015, teve como
tema “SOCIEDADES PLURAIS E ESTADOS NACIONAIS: LIMITES E DESAFIOS PARA A EFETIVI-
DADE DE DIREITOS”. O congresso foi precedido de um minicurso com o tema “Constitu-
cionalismo e territorialidades em uma perspectiva comparativa na América Latina” dirigido a
estudantes de Antropologia, Direito e demais campos do conehcimento e pessoas interessadas
na discussão teórico-metodológica relativa ao tema do curso.
As reflexões sobre a América Latina e os processos constitucionais das últimas duas
décadas, denominado de Novo Constitucionalismo Democrático Latino-Americano e carac-
terizados pelo reconhecimento de direitos das diversidades étnicas e culturais, do pluralismo
jurídico, político e econômico, de formas complexas de democracia e participação, de sub-
jetividades, direitos da pachamama e da plurinacionalidade, com a refundação do estado no
caso do Equador e Bolívia, implicam na necessidade de pensar sobre a efetividade dos direitos
reconhecidos e de outros modos de vida que se opõem ao poder hegemônico e neoliberal.
Assim, o Congresso se propôs a avançar nas discussões precedentes realizadas nos ante-
riores encontros da RELAJU ou em outros espaços, convocando a todos, de maneira especial, a
refletir criticamente e a propor alternativas para pensar o contexto atual latino-americano, no
qual se constata que os avanços constitucionais em matéria de direitos fundamentais dos povos
indígenas, de reconhecimento de autonomia, de proteção e defesa da diversidade étnica, de
gênero e racial dentre outras, assim como a proteção do meio-ambiente não tem sido acom-
panhados, na prática, de níveis satisfatórios de justiciabilidade e garantias na sua efetivação. Ao
contrário, estão sendo fortemente contestados com riscos de retrocessos.
Para tratar dessas complexas questões, o Congresso se estrutura em cinco eixos te-
máticos a saber: “Reflexões sobre a Antropologia Jurídica e do Direito Latino-americana”;

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“Constitucionalismos, Estados Plurinacionais e Direitos Fundamentais”; “Direitos Territoriais,
Meio-Ambiente e Alternativas de Desenvolvimento da região”; “Identidades e Diversidade a
partir das novas condições de Estatalidade” e, por último, “Aceso à Justiça, Reformas Judiciais e
Pluralismos Jurídicos”.
O principal objetivo do Congresso foi o de promover um amplo debate inter, trans e,
também, antidisciplinar entre antropólogos, sociólogos, juristas, ativistas e outros profissionais
que desenvolvam pesquisas afins, que problematizem esses temas e tragam à discussão, alter-
nativas teóricas e práticas, como possíveis fundamentos de maiores alcances em termo de uma
justiça efetiva plural e democrática na América Latina.
Além disso, com a finalidade de ampliar e enriquecer o debate, o Congresso abrirá
espaço para a discussão dos avanços teóricos e metodológicos da antropologia jurídica e do
direito latino-americana, abordando também uma diversidade de temas relacionados ao siste-
ma de justiça, como estudos sobre as práticas, instituições e representações vinculadas às buro-
cracias estatais e organizações sociais em áreas como segurança pública, promoção e proteção
de direitos e processos de administração de justiça.
O primeiro eixo temático, denominado “Reflexões sobre a Antropologia Jurídica e
do Direito Latino-americana”, organizado pela Universidade de Brasília, por meio do Cen-
tro de Pesquisa e Pós-graduação sobre as Américas e do Laboratório de Estudos interdiscipli-
nares sobre Justiça e Direito nas Américas e pelo Foro Latino-Americano de Antropologia do
Direito (FLAD). Coordenado por Rebecca Lemos Igreja, Guadalupe Irene Juarez, Maria José
Sarrabayrouse Oliveira e Wellinton Caixeta Maciel teve como objetivo constituir um espaço
de reflexão e intercâmbio entre pesquisadores que tem como campo o estudo das práticas,
instituições e representações vinculadas às burocracias estatais e organizações sociais em áreas
como segurança pública, promoção e proteção de direitos e processos de administração de
justiça. Desse modo, busca-se estimular as reflexões sobre a forma como a articulação entre
os atores institucionais, as linguagens, rotinas, hierarquias, moralidades, sensibilidades jurídicas
e noções de legalidade e justiça geram práticas e representações.
O eixo teve oito mesas aprobadas com os seguintes temas: ENTRE O “ACESSO” E A “IM-
PARTICIÓN” DE JUSTIÇA NA AMÉRICA LATINA: ANÁLISES COMPARADAS DE SISTEMAS DE
JUSTIÇA LATINO-AMERICANOS; VIOLÊNCIA URBANA E ADMINISTRAÇÃO DE CONFLITOS
PELAS AGÊNCIAS SÓCIO-PENAIS NA AMÉRICA LATINA: PARA ALÉM DOS PROCESSOS INS-
TITUCIONAIS LEGÍTIMOS/LEGITIMADOS; DERECHO A LA VIDA Y DERECHO A LA MUERTE:
DEBATES Y REFLEXIONES DESDE LATINOAMERICA; ANTROPOLOGÍA POLÍTICA Y JURÍDICA:
ETNOGRAFÍAS DE LAS BUROCRACIAS ESTATALES, LOS PROCESOS DE DEMANDAS DE DE-
RECHOS Y LAS POLÍTICAS PÚBLICAS EN SEGURIDAD Y JUSTICIA; MIRADAS ETNOGRÁFICAS
ENTORNO A LAS PRÁCTICAS DE JUSTICIAS EN LATINOAMERICA. JUSTICIAS PENALES, LOS
DERECHOS HUMANOS Y NUEVAS PRÁCTICAS DE JUSTICIA-GOBIERNO; DROGAS, CÁRCE-
RE E ILEGALISMOS: UMA PROPOSTA PARA OS ESTUDOS DE ANTROPOLOGIA JURÍDICA NA
AMÉRICA LATINA e TEORIAS LATINO-AMERICANAS PARA A PROTEÇÃO DOS DIREI-
TOS HUMANOS
O segundo, denominado “Constitucionalismos, Estados Plurinacionais e Direitos Fun-
damentais” organizado pela Universidade Federal de Goiás, por meio do Programa de Pós-gra-
duação em Direito Agrário, teve como coordenadores e coordenadoras Fernando Antonio de

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Carvalho Dantas, Rosane Freire Lacerda, Erika Macedo, Maria Cristina Vidotte Blanco Tarrega,
Cesar Augusto Baldi, JoquimShiraishi Neto e Pedro Augusto Domingues Miranda Brandão.
Objetivou a reflexão sobre a construção de Estados Multinacionais e plurinacionais na América
Latina que constitui um desafio, considerando as tensões que enfrenta, geralmente geradas por
conflitos entre os modelos constitucionais ocidentais e não ocidentais. A análise desse desafio
deve ser feita no campo do direito político de maneira inter-relacionada com outras áreas de
conhecimento. Assim, o diálogo contribuiu para a compreensão da complexa relação entre o
discurso intercultural, as instituições estatais e a materialização dos direitos fundamentais nas
sociedades plurais.
O eixo teve oito mesas aprovadas com abordagem das seguintes temáticas:
CONSTITUCIONALISMO ACHADO NA RUA: O NOVO CONSTITUCIONALISMO LATINO-
AMERICANO E A EXPERIÊNCIA CRÍTICA NA REALIDADE BRASILEIRA; PARA UMA TEORIA
DO ESTADO DESCOLONIAL: PLURINACIONALIDADE, DEMOCRACIA E PARTICIPAÇÃO; A
ELABORAÇÃO LEGISLATIVA E A GARANTIA DOS DIREITOS FUNDAMENTAIS; QUILOMBOS,
COMUNIDADES NEGRAS E AFRO-EQUATORIANOS: RUPTURAS E DESAFIOS NA NOVA ORDEM
QUE SE CONSTRÓI; DIREITO DESCOLONIAL OU TEORIA DESCOLONIAL DO DIREITO? A
RELAÇÃO JURÍDICA ENTRE SISTEMAS DE JUSTIÇA E POVOS E COMUNIDADES TRADICIONAIS;
DERECHO Y JUSTICIA AL MARGEN DEL ESTADO: CASOS LATINOAMERICANOS; PARA
UMA HERMENEUTICA JURÍDICA DESCOLONIAL: TERRITORIALIDADES INDÍGENAS
QUILOMBOLAS E O NOVO CONSTITUCIONALISMO LATINOAMERICANO e DIREITO,
SOCIEDADE E CULTURA NA AMAZÔNIA.
O terceiro eixo denominado “Direitos Territoriais, Meio-Ambiente e Alternativas de
Desenvolvimento da região”. Organizado pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná,
por meio do Programa de Pós-graduação em Direito Econômico e Socioambiental foi coor-
denado por Carlos Frederico Marés de Souza Filho e Clarissa Bueno Wendscheer. Objetivou
tratar a questão dos povos indígenas e de todos os outros povos tradicionais (quilombolas,
extrativistas, camponeses, etc.) que necessitam de seus territórios para viver, manter e desen-
volver sua subsistência e cultura. O direito ao território é muito mais do que o direito a uma
terra, ou a um pedaço de terra, porque esses povos e populações necessitam da natureza que
compreende a terra, já que vivem da natureza e com a natureza. Portanto, esse direito é loca-
lizado e com condições ecológicas determinadas. Isso significa que necessitam de territórios
naturalmente preservados e o uso que dele fazem mantém essa preservação. A alternativa
moderna e capitalista da terra individual não serve para essas populações, que precisam ser
pensadas coletivamente e integradas com a natureza. Desse modo, a reflexão necessária com-
preende a interação entre povos e natureza, com direitos que garantam aos próprios povos
encontrarem caminhos de desenvolvimento que não violem a sua cultura e o seu modo de
vida, que não violem seu bem viver.
O eixo teve as seguintes mesas aprovadas: DERECHOS TERRITORIALES, PROYECTOS
DE DESARROLLO DE GRAN ESCALA Y ALTERNATIVAS INDÍGENAS DE DESARROLLO;
CONSEQUÊNCIAS SOCIAMBIENTAIS DO DESENVOLVIMENTO A PARTIR DA EXPLORAÇÃO
ECONÔMICA E DAS OBRAS DE INFRAESTRUTURA EMTERRITÓRIOS INDÍGENAS NA AMÉRICA
LATINA; TERRAS INDÍGENAS, COMMONS E POLÍTICAS PÚBLICAS DE GESTÃO AMBIENTAL NO
BRASIL; ESTRATEGIAS PARA LA DEFENSA DE TERRITORIOS Y MEDIO AMBIENTE INDÍGENAS

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EN AMÉRICA LATINA; CONFLITOS TERRITORIAIS, APROPRIAÇÃO DA NATUREZA E DE
SABERES TRADICIONAIS e EDUCAÇÃO,TERRITORIALIDADE E DIREITOS HUMANOS.
O quarto eixo que tratou das “Identidades e Diversidade a partir das novas condições
de Estatalidade” foi organizado pela Universidade de Brasília por meio do Laboratório de Es-
tudos e Pesquisas em Movimentos Indígenas, Políticas Indigenistas e Indigenismo e coordena-
do por Cristhian Teófilo da Silva, Sandra do Nascimento, Estevão Fernandes, Wildes Andrade,
Aline Furtado e Renata Albuquerque. As reflexões do eixo envolveram temas do pluralismo e
dos direitos fundamentais dos povos, grupos e comunidades rurais e urbanas, com abordagens
às temáticas de gênero, identidade de gênero, raça e etnicidade, entre outras dimensões da or-
dem social, política e econômica.Tudo isso sem perder de vista seus respectivos impactos sobre
as políticas estatais. Ao mesmo tempo, a intenção é também dar conta dos avanços e desafios
das relações e conflitos com o Estado Nacional, assim como das novas condições de estatalida-
de e suas respostas à diversidade, às demandas de livre-determinação, e às identidades no marco
das políticas neoliberais, tendo em conta as respectivas críticas contemporâneas na região.
O eixo contou com seis mesas que abordaram as seguintes temáticas MUJERES
INDÍGENAS, JUSTICIAY DERECHOS: LOGROSY DESAFÍOS A 15 AÑOS DE RELAJU-ARICA; POVOS
INDÍGENAS E DECOLONIALIDAD: AS FACES DA DIVERSIDADE ÉTNICA E DA PLURALIDADE
CULTURAL NOS MOVIMENTOS AUTONOMISTAS NAS AMÉRICAS; ORDEN LEGAL, PUEBLOS
INDÍGENAS Y CONSTRUCCIÓN DE ESTATALIDAD EN AMÉRICA LATINA; MUCHO DERECHO,
POCA ANTROPOLOGÍA…; EL PERITAJE ANTROPOLÓGICO COMO MEDIO PARA HACER
EFECTIVOS LOS DERECHOS INDÍGENAS; MULTICULTURALISMO E INTERCULTURALIDAD,
MUCHO MÁS QUE SEMÁNTICA EN LAS LUCHAS INDÍGENAS POR EL RECONOCIMIENTO Y
LA DESCOLONIZACIÓN.
Por último, o quinto eixo centrou os debates em torno do “Aceso à Justiça, Refor-
mas Judiciais e Pluralismos Jurídicos”. O eixo foi organizado pela Universidade Federal de
Minas Gerais por meio do Observatório da Justiça Brasileira, Universidade Federal de Santa
Catarina por meio do Programa de Pós-graduação em Direito, Instituto de Pesquisa Econô-
mica Aplicada, Universidade de Brasília por meio do Programa de Pós-graduação em Direito
e Centro de Estudos Sociais América Latina e coordenado por Alexandre Cunha, Antônio
Carlos Wolkmer, José Geraldo de Sousa Junior,Talita Rampin, Lilian C. B. Gomes e Marjorie
Corrêa Marona. As reflexões visaram à promoção do debate sobre temas como discriminação
e racismo na justiça, relações étnico-raciais, gênero, heteronormatividade, pluralismo jurídico
e reformas judiciais tais como as que têm sido propostas na América Latina. Objetivou pro-
piciar um amplo debate que aponte alternativas no sentido de auxiliar na busca da superação
das resistências e dos obstáculos ao aprofundamento democrático nas sociedades latino-ame-
ricanas, que garanta o acesso à justiça e a efetividade no exercício dos direitos de viés indivi-
dual e/ou coletivo dos diversos povos, grupos e segmentos sociais da América Latina.
O eixo teve seis mesas aprovadas com os seguintes temas: ACESSO À JUSTIÇA, REFOR-
MAS JUDICIAIS E PLURALISMO JURÍDICO; JURISDIÇÕES INDÍGENAS NA AMÉRICA LATINA;
INTERSECCIONALIDADE ENTRE A LUTA JURÍDICA, POLÍTICA E SIMBÓLICA DOS MOVIMEN-
TOS SOCIAIS NA LUTA PELA IGUALDADE E PELA DIFERENÇA; DIREITO ACHADO NA RUA
E TEORIAS CRÍTICAS DE DIREITOS HUMANOS: ACESSO E TRANSFORMAÇÃO SOCIAL DA

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JUSTIÇA; NORMAS INDÍGENAS E JURISDIÇÃO ESTATAL: DIÁLOGO POSSÍVEL? E PLURALISMO
JURÍDICO, POLÍTICA JUDICIÁRIA E ADMINISTRAÇÃO DA JUSTIÇA.
Este livro de resumos se estrutura na apresentação dos resumos dos trabalhos aprova-
dos, distribuídos pelos respectivos eixos e mesas e dos posters aprovados relacionados ao tema
do evento, organizados por Vanderlei Luiz Weber, Pedro Nunes Britto Moreira,Tamiris Melo
Pereira, Eduardo Scottini e Daniela Cardoso da Silva a quem antecipadamente somos gratos.
Agradecemos as mentes e braços que, de modo compartilhado e solidário, orques-
traram o evento e estes anais. São muitos os nomes e instituições, assim, sem nominações
individuais em razão do cuidado para evitar ausências, agradecemos aos coordenadores e co-
ordenadoras de eixos, de mesas, aos Comitês Internacional e Nacional da Relaju, ao Comitê
Organizador, ao grupo de professores, professoras, alunos e alunas das instituições organiza-
doras especialmente aos graduandos e graduandas em direito e mestrandos e mestrandas em
direito agrário da Universidade Federal de Goiás.
Um agradecimento especial aos nossos apoiadores com ênfase para a direção e equipe
do Conselho Nacional de Pesquisa e Pós-graduação em Direito, ao Município de Pirenópolis
por meio das Secretarias de Cultura, Esporte, Lazer e Juventude e de Educação, a Associação
Brasileira de Antropologia e ao Centro de Estudos Sociais América Latina.
Com destaque manifestamos um profundo agradecimento as Universidade de Brasília
notadamente ao Centro de Pesquisa e Pós-graduação sobre as Américas, a Pontifícia Univer-
sidade Católica do Paraná, particularmente aos grupos de pesquisa da linha de pesquisa Socie-
dades e Direito do Programa de Pós-graduação em Direito Econômico e Socioambiental e a
Universidade Federal de Goiás, terra e lugar do evento, por meio do Programa de Pós-gradu-
ação em Direito Agrário.
Por último agradecemos o apoio financeiro recebido da Coordenação de Aperfeiço-
amento de Pessoal de Nível Superior, do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científi-
co e Tecnológico, da Fundação de Amparo à Pesquisa do Distrito Federal e da Fundação de
Amparo à Pesquisa do Estado de Goiás, sem o qual a realização do evento não seria possível.

Rebecca Lemos Igreja


Carlos Frederico Marés de Souza Filho
Fernando Antonio de Carvalho Dantas

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2. R E SU M OS

2.1 – EIXO 1

ANTROPOLOGÍA POLÍTICA Y JURÍDICA: ETNOGRAFÍAS DE LAS BUROCRACIAS


ESTATALES, LOS PROCESOS DE DEMANDAS DE DERECHOS Y LAS POLÍTICAS
PÚBLICAS EN SEGURIDAD Y JUSTICIA

Ementa: Este Grupo de Trabajo se propone como un espacio para el debate e intercambio
entre investigadores que tienen por campo de investigación ámbitos e instituciones en los que
se gestan políticas ligadas a la seguridad pública y a los procesos de administración de justicia y
de promoción y protección de derechos. Interesa especialmente convocar a pesquisadores que,
desde una perspectiva etnográfica, indaguen en este campo con atención a las formas específicas
en que se articulan -más o menos conflictivamente- diversas modalidades de ejercicio de la
violencia institucional, de administración de conflictos y de demanda de derechos. A su vez
esta propuesta busca reflexionar sobre cómo en las interacciones entre los agentes estatales –en
sus múltiples jerarquías, funciones y papeles- y las personas o grupos sociales que con ellos
se relacionan, son puestas de manifiesto y se construyen distintas moralidades, y cómo ellas
inciden en las prácticas burocráticas más allá de su dimensión legal (o ilegal).
En tal sentido, se priorizará la recepción de trabajos que, elaborados desde una pers-
pectiva etnográfica, permitan dar cuenta y problematizar las prácticas, lenguajes, rutinas, tradi-
ciones, estilos, representaciones, formas de sociabilidad que –con sus marcas locales- pueden
entenderse como formas de hacer el Estado (entendido como campo de disputas, de alianzas,
de acuerdos, de consensos parciales y también de desacuerdos centrales y fundantes) y de pro-
ducir estatalidad. De esta forma, se procura avanzar en el análisis de las interacciones concretas

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entre diferentes actores y de las formas en que esas interacciones –en las que se despliegan
distintas estrategias y esquemas interpretativos- pueden producir o reflejar la convergencia,
tensión o disputa entre las moralidades que orientan los procesos de decisión burocrática y
los modos en que se interpretan y se dota de sentido a los derechos, con el fin de comprender
cómo se producen formas legítimas o ilegítimas de “hacer justicia”, de administrar determi-
nados “problemas sociales”, y también de las formas que asumen, en esos procesos, distintas
“sensibilidades legales”.

Coordenadoras:
María Victoria Pita (Universidad de Buenos Aires – UBA - Argentina), Ana Paula Mendes de
Miranda (NUFEP/UFF e INCT-InEAC - Brasil) e María José Sarrabayrouse Oliveira (EAPJ-UBA/
FLAD-Argentina)

Debatedor/Comentarista: Dra. Sofía Tiscornia

1. MEDIAÇÃO DE CONFLITOS E VOLUNTARIEDADE: OLHARES CRUZADOS ENTRE RIO DE


JANEIRO E BUENOS AIRES

Autor: Kátia Sento Sé Mello

Resumo: O principal interesse neste trabalho é fazer um exercício comparativo sobre


sentidos da mediação de conflitos no Rio de Janeiro e em Buenos Aires. Minha inquietação
reside na busca de compreensão dos modelos de controle e ordenamento social que podem
ser revelados a partir da prática de mediação. A pesquisa no Rio de Janeiro se deu a partir
da minha inserção no Tribunal de Justiça do Estado (TJ-RJ), quando de um convite para
participar do curso de mediação judicial de conflitos que ocorreu em janeiro de 2009 por
parte de um dos juízes responsáveis por Vara de Família e de um psicólogo que já atuava
como mediador na mencionada Vara de Família. Em Buenos Aires minha inserção nos
ambientes de mediação de conflitos também foi fruto de uma rede de amigos no Brasil e
na Argentina, alguns dos quais atuavam como mediadores na cidade portenha. No Rio de
Janeiro pude atuar como mediadora voluntária porque, na ocasião, os requisitos exigidos para
tal atuação eram: ter nível universitário em qualquer área de conhecimento, especialmente a
de Ciências Humanas; ter realizado os módulos dos cursos oferecidos no Tribunal de Justiça
e ter participado como observadora de sessões de mediação antes de atuar como mediadora.
Em Buenos Aires, por não ser advogada nem cadastrada na Dirección Nacional de Mediación
y Métodos Participativos de Resolución de Conflictos del Ministério de la Justicia, eu não
tinha habilitação para atuar como mediadora. No entanto, tive acesso à diversas sessões de
mediação de conflitos, fundamentalmente em matéria familiar, por conhecer a então diretora
da Direção Nacional de Mediação de Conflitos e por ter obtido a autorização das partes.
Apesar de também ter observado sessões de mediação penal1 em um dos centros do Ministério
Público na cidade portenha, a escolha em observar sessões de mediação familiar deveu-se ao
fato de ser equivalente ao trabalho de campo que eu já vinha desenvolvendo no Rio de
Janeiro há quase três anos na época da minha ida para Buenos Aires, em dezembro de 2011 e,
por isto, passível de comparação. Além das diferenças já mencionadas, uma das principais diz

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respeito ao fato de que no Rio de Janeiro a mediação é realizada no âmbito do processo, ou
seja, ela é judicial, enquanto em Buenos Aires é pré-judicial. Em ambas localidades a ênfase é
colocada na voluntariedade das pessoas em conflito para ingressarem em sessões de mediação.
No entanto, tanto no Rio de Janeiro quanto em Buenos Aires, o caráter voluntário de se
submeter à mediação é paradoxal posto que no primeiro caso as partes são encaminhadas por
um juiz no âmbito do processo e no segundo, a mediação pré-judicial é obrigatória antes do
ingresso no judiciário por meio da abertura de um processo. Sendo assim, em ambos os casos,
a noção de voluntariedade não significa uma liberdade absoluta de escolha dos indivíduos
sobre se querem, ou não, tomar parte das sessões de mediação.

Palavras chave: Judiciário, Mediação de conflitos, voluntariedade.

2. IMAGINÁRIOS SOCIAIS A IDENTIDADE MAPUCHE EM POLÍTICAS PÚBLICAS INDÍGENA.


ETNOGUBERNAMENTALIDAD, INTERCULTURALIDADE E IDENTIDADE MAPUCHE DA
REGIÃO BIOBIO, CHILE

Autores: Andrea Aravena Reyes; Francisco Javier Jara Santis

Resumen: Este trabajo tiene la intención de generar algunas líneas de reflexión en torno a
los avances investigativos sobre la relación entre la identidad contemporánea de los pueblos
indígenas en medio urbano y la política pública orientada a los mismos. Lo anterior, en el
contexto de un un proyecto Fondecyt – Chile (Nº 11130384) sobre imaginarios sociales de
la identidad mapuche en el Gran Concepción, Región del Biobío, Chile, que tiene entre sus
objetivos definir cuáles han sido los efectos visibles de la política pública en los imaginarios
sociales de la identidad mapuche en la región del Biobío, Chile. Dicho análisis se realiza
a partir de datos que han sido sistemáticamente capturados y analizados de entrevistas a
funcionarios públicos de distintas reparticiones del Estado encargados de aplicar la política
indígena en la región y revisión de material facilitado por dichas entidades. Utilizando éstos
como material de base, se trabaja desde la llamada “hermenéutica de segundo orden”, es
decir, a partir de clasificaciones e interpretaciones del discurso social construido, que es en sí
discurso social interpretado.

3. SEGURIDAD CIUDADANA Y ACESSO A LA JUSTICIA: LA GESTIÓN Y LOS DILEMAS DE LAS


CONFLICTIVIDADES LOCALES

Autor: María Victoria Pita

Resumen: La ponencia presentará avances de investigación que se centran en el análisis


del desempeño de las fuerzas de seguridad en una villa de emergencia de la Ciudad de
Buenos Aires. En este trabajo nos detenemos en el análisis de los dispositivos, prácticas
y acciones puntuales de distintas oficinas e instituciones estatales (locales y nacionales) así
como de organizaciones sociales que trazan distinto tipo de relaciones (más o menos ligadas
al activismo jurídico y/o en derechos humanos) con diferentes actores del barrio a propósito
del despliegue de las fuerzas de seguridad sobre el espacio social barrial. En este trabajo

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indagaremos especialmente sobre los diferentes tipos de conflictividad (valoraciones diversas
y antagónicas en torno a las nociones de seguridad, violencia y gestión de la seguridad), las
dificultades referidas a las distintas modalidades de denuncia y casos de acciones puntuales
contra la violencia institucional.

Palabras clave: violencia institucional, policía, sectores populares, políticas públicas,


administración de conflictos.

4. GRUPOS Y FACCIONES: LA COMPLICIDAD JUDICIAL EN LOS CRÍMENES COMETIDOS


DURANTE LA DICTADURA MILITAR EN LA ARGENTINA

Autor: María José Sarrabayrouse Oliveira

Resumen: Este trabajo tiene por objetivo indagar sobre la identificación de los grupos y
facciones que conformaron el aparato de la justicia nacional durante la última dictadura
militar en la Argentina para, desde allí, reflexionar sobre la actual discusión centrada en la
complicidad civil para con el terrorismo de estado, tomando como eje el rol desempeñado
por el poder judicial.

Palabras clave: justicia, dictadura, complicidad, facciones.

5. TENSÕES DO ACESSO À JUSTIÇA: O COTIDIANO DOS CARTÓRIOS JUDICIAIS E SUAS


DISPUTAS

Autor: Janaina Dantas Germano Gomes

Resumo: O presente artigo trata da primeira fase de minha pesquisa de mestrado acerca
dos espaços dos fóruns judiciais denominados cartórios na cidade de São Paulo. Nestes
espaços ocorre a circulação dos processos judiciais e seu cumprimento até a decisão final
do magistrado, pelos funcionários que ali trabalham, bem como atendimento ao público,
em especial advogados e estagiários em direito. Estes atendimentos, repletos de tensões e
disputas, são o objeto de minha pesquisa etnográfica. A entrada neste campo e os desafios de
etnografar o judiciário paulista são o tema específico deste texto.

Palavras chave: Antropologia do direito, burocracia judicial, etnografia.

6. A POLÍTICA DO CADASTRO AMBIENTAL RURAL COMO DISPOSITIVO: UMA ETNOGRAFIA


SOBRE MAPEAMENTO DE PROPRIEDADES RURAIS NO RIO GRANDE DO SUL.

Autores: Matheus Sehn Korting; Stella Maris Nunes Pieve

Resumo: O presente trabalho objetiva entender como o Cadastro Ambiental Rural,


um georreferenciamento feito sob o espaço rural brasileiro para mapear as propriedades
e os espaços naturais no meio rural, enquanto dispositivo de poder capaz de modificar e
intensificar as políticas ambientais. Além disso, visa observar as burocracias estatais aptas a

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produzir efeitos de verdade sobre o espaço rural e de que maneiras os diferentes grupos de
pessoas que são proprietários ou posseiros de imóveis rurais dialogam, resistem e criam suas
táticas para enfrentar as estratégias de integralização das forças produtivas possibilitada pela
política de mapeamento. Da mesma maneira, busca-se reconhecer ações e possibilidades
abertas pelas novas ferramentas no intento do combate ao desmatamento, à valorização da
biodiversidade e às comunidades tradicionais, visualizando para quais modos de vida e de
natureza serão possibilitados o “fazer viver” ou o “deixar morrer” (Foucault, 1999) inerentes
à biopolítica e à sociedade de controle. Para tanto, será utilizada a etnografia como método
de inserção e de pesquisa para visualizar as transformações e construções possibilitadas pelos
dispositivos estatais no espaço rural.

Palavras-chave: mapeamento - Cadastro Ambiental Rural - políticas ambientais.

7. PENAS, COCARES E UMA CONTROVERSA POLÍTICA PÚBLICA: PORQUE INDÍGENAS


BRASILEIROS TÊM RECEBIDO MULTAS EXORBITANTES AO NEGOCIAREM ARTE PLUMÁRIA?

Autor: Gustavo Hamilton de Sousa Menezes

Resumo: Não é novidade que a produção de artefatos com o uso de penas de pássaros é
uma das tradições mais antigas e difundidas entre os povos indígenas. Seja nas flechas, nos
cocares ou em indumentárias cerimoniais, o uso de penas esteve sempre presente na estética
e na arte indígenas. São artefatos que, frequentemente, simbolizam identidades, padrões
de grupos, hierarquias e posições sociais, além de demonstrar a habilidade e as técnicas
de seus produtores. Neste contexto, o presente artigo visa, primordialmente, refletir sobre
a aplicação pelo Estado brasileiro de uma política pública que coíbe – através de multa,
apreensão e criminalização – a produção e comercialização de todo tipo de artesanato que
utilize partes de animais silvestres, tais como ossos, dentes e, principalmente, penas. Essa
política pública, baseada na lei de crimes ambientais (Lei nº 9.605/1998) e na regulamentação
das sanções administrativas e penais ambientais (Decreto nº 6.514/2008), não contempla
a diversidade indígena e tem sido aplicada sem a observação de outras leis de conteúdo
contrário, dentre elas a Constituição Federal e o Estatuto do Índio. A reflexão será feita a
partir do estudo de três casos: i) o de uma indígena Xukuru multada em 220 mil reais; ii) de
uma indígena Kariri-xocó multada em 470 mil reais e iii) de um indígena Wai Wai multado
em quase três milhões de reais. Todos eles multados por venda de artesanato, em feiras de
artesanato. Ressalta-se que, de acordo com as entrevistas, nenhum dos indígenas foi alvo
de campanhas informativas ou de conscientização por parte do Estado, e que estavam, no
momento da abordagem e apreensão a que foram submetidos, certos da legalidade de sua
conduta. A análise indica também que as esferas governamentais que executam essas ações,
especialmente o IBAMA, falham em garantir direitos indígenas especialmente formulados para
a justiça criminal, tais como a utilização de perícia antropológica e a consideração de noções
como as do conhecimento do ilícito e do erro culturalmente condicionado.

Palavras chave: direitos indígenas, arte plumária, violação de direitos, artesanato indígena,
antropologia jurídica.

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8. REFLEXOS DA FORMA DE ORGANIZAÇÃO SOCIAL NA CONSTRUÇÃO DA VERDADE NO
PROCESSO PENAL

Autor: Paula Constantino Chagas Lessa

Resumo: Este artigo visa discutir a forma de produção da verdade processual penal na
sistemática policial e judicial brasileira, para isto apresenta um breve histórico da legislação
processual penal atual. Assim como, a partir de dois modelos de formação sociais distintos
(paralelepípedo e piramidal) analisa-se institutos desigualadores presentes no processo
brasileiro que têm o intuito de “assegurar direitos”. Paralelamente, verifica-se que a forma
de organização social está presente também nos institutos que permeiam o Código de
Processo Penal Brasileiro e o modo de busca da verdade penal; refletindo nos mecanismos
de justiça que impossibilitam a composição de litígios. A título ilustrativo compara-se as
sociedades brasileira e norte-americana e seus mecanismos de busca pela verdade dos fatos
e de composição de justiça, de forma a melhor ilustrar como formações sociais diferentes
levam a processos penais distintos e a outra forma de administração de justiça.

Palavras-chave: Processo Penal; Verdade Real; Inquérito Policial.

9. OS DESAFIOS DO PPDDH NA PROTEÇÃO A DEFENSORES DE DIREITOS HUMANOS


FRENTE A GRANDES CORPORAÇÕES ECONÔMICAS: RELATO DE UMA EXPERIÊNCIA

Autores: Luciana Silva Garcia; Camila Dias Cavalcanti; Fernanda Calderaro da Silva

Resumo: O artigo propõe relatar a experiência do Programa de Proteção a Defensores de


Direitos Humanos (PPDDH) do governo federal frente às ameaças sofridas por lideranças
decorrente das investidas de grandes corporações econômicas. Para tanto, a primeira parte
do artigo trará uma exposição sobre as normas internacionais de proteção aos Defensores
de Direitos Humanos. Em seguida, tratará da internalização destas normas no Brasil, com a
criação do Programa de Proteção aos Defensores de Direitos Humanos (PPDDH) e fará uma
abordagem sobre seu funcionamento, características, público alvo. A segunda parte expõe o
trabalho do PPDDH junto às lideranças da Comunidade Quilombola Alto Acará, no estado
do Pará, frente às ações de madeireiros da região e da atuação da empresa Biopalma da
Amazônia pertencente à Vale S.A, produtora de dendê. Propõe, por fim, uma reflexão sobre
a ampliação do conceito de proteção a Defensores de Direitos Humanos, considerando a
realidade vivida pelas lideranças que lutam pelo acesso à terra e território e a necessidade de
compartilhamento da responsabilidade pela proteção ao Defensores de Direitos Humanos
entre atores do Estado e da sociedade civil.

Palavras-chave: Programa de Proteção a Defensores de Direitos Humanos – Comunidade


Quilombola – Ameaças – Proteção

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10. GARANTIA DE DIREITOS E BUROCRACIAS ESTATAIS: MEDIADORES UNIVERSITÁRIOS,
PROTAGONISTAS QUILOMBOLAS E A TRADIÇÃO EM DISPUTA

Autores: Luiza Aragon Ovalle; Yolanda Gaffrée Ribeiro

Resumo: Nossa reflexão parte de duas etnografias – uma ligada aos quilombos da região
do Imbé, Norte Fluminense, outra ao Quilombo Sacopã, no bairro da Lagoa Rodrigo de
Freitas, zona urbana extremamente valorizada pela especulação imobiliária na cidade do
Rio de Janeiro. Propomos uma reflexão sobre a confluência entre acesso a direitos, acesso
a recursos, reprodução econômica e cultural do que viemos a constituir no Brasil como
comunidades remanescentes de quilombos. Neste sentido, problematizamos nosso papel,
enquanto antropólogos, como mediadores na captação e no direcionamento de recursos
tendo em vista duas chamadas públicas, uma veiculada pela União Europeia e outra pelo
Estado brasileiro, onde nossa participação foi requisitada pelas lideranças comunitárias. Tanto
a União Europeia, na qualidade de agência de fomento internacional, quanto a Secretaria
Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (SEPPIR) buscavam propostas voltadas
à defesa dos direitos humanos no Brasil. Propomos pensar como a categoria comunidade é
acionada, em determinados contextos, para a mobilização de grupos na demanda de direitos
de cidadania, através de mecanismos de autonomização destes agentes comunitários enquanto
protagonistas de políticas públicas ou, no sentido de mobilizar recursos para garantia de
direitos da comunidade, atribuindo a elas exclusivamente o papel de público-alvo. Neste
sentido, discutimos o papel da universidade na mobilização destes recursos e na construção de
gramáticas que conformam e são conformadas na vida social destas comunidades, refletindo
sobre o papel do Estado brasileiro e de agências internacionais na garantia de direitos a partir
do direcionamento destes recursos. Assim, refletimos sobre a forma de captação de recursos
através de projetos, na interface entre o acesso a direitos através destes e a moldagem da
tradição através das relações políticas com estados nacionais e suas burocracias, que informam
as relações institucionais com estes grupos. A conformação de tradições através dos vínculos
sociais que as possibilitam também constituem uma competição com o Estado pela sua
definição para além dos moldes generalizados e padronizados assim impostos.

11. GESTÃO DA VULNERABILIDADE SOCIAL: CONSTRUÇÃO DE QUADROS DE RISCO NA


POLÍTICA NACIONAL DE ASSISTÊNCIA SOCIAL BRASILEIRA

Autor: Roselene de lima Brenda

Resumo: Este texto se enquadra nos debates sobre a gestão dos conflitos sociais no Brasil,
abordando as conexões entre os deslizamentos conceituais da Política Nacional de Assistência
Social e suas dinâmicas de implementação. A referência empírica que dá subsídios à análise
realizada neste texto, a partir de uma investigação de natureza etnográfica, se baseia nos
micro detalhes cotidianos de uma unidade do CRAS – Centro de Referência da Assistência
Social, localizado na zona sul da cidade de São Paulo. Tomo um caso familiar classificado
como “vulnerável” pela equipe técnica desta unidade e que requer mobilização de número
significativo de dispositivos que compõem a rede socioassistencial de serviços da cidade. Nas

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situações muito práticas e pragmáticas que este caso engendra, as noções de vulnerabilidade
social e risco social ativam pessoas, técnicas, investigações, indicadores e categorias que
articulam um conjunto de medidas que seguem sendo experimentadas e reelaboradas no
âmbito da assistência social brasileira. O modelo de intervenção do qual esta família é alvo
ampara o argumento que desenvolvo ao longo deste texto: a produção de perfis vulneráveis
mobilizada pela Política Nacional de Assistência Social brasileira dá respaldo à desativação
normativa do campo das liberdades individuais, central no repertório brasileiro para a gestão
do conflito social. Na intersecção da trajetória de uma família com as práticas da assistência
social e alinhado ao marco teórico pragmatista, este texto é mais uma tentativa – na pesquisa
de mestrado que tenho em curso – de pensar como o discurso da vulnerabilidade e do risco
social se materializa em instituições, leis e medidas administrativas em contextos periféricos
no Brasil.

Palavras-chave: vulnerabilidade social; risco social; politica social; assistência social; CRAS.

12. ATUAÇÃO DA GUARDA MUNICIPAL DE SÃO GONÇALO (RJ): UMA ANÁLISE DAS FORMAS
DE ADMINISTRAÇÃO DE CONFLITOS NO TRÂNSITO.

Autor: Talitha Mirian do Amaral Rocha

Resumo: O presente trabalho tem como objetivo analisar como os guardas municipais de
São Gonçalo (RJ) administram os conflitos cotidianos durante o seu trabalho de organização
do trânsito da cidade. Para isso, foi realizado um trabalho de campo entre novembro de 2013
e novembro de 2014, buscando, por meio da observação direta, compreender a atuação
profissional dos guardas municipais, em um contexto no qual o trânsito é representado como
caótico e desorganizado. Durante a pesquisa, a exemplo do que foi observado por outros
pesquisadores, o bom senso apareceu enquanto uma categoria chave para entender a maneira
como eles agem, o que, por vezes, tem como base o plano formal e, em outras ocasiões, o
plano informal. Por isso, almeja-se apresentar algumas situações que nos permitem entender
de que maneira eles classificam seus atendimentos, como, por exemplo: o que é preciso para
fazer o trânsito fluir; quais os aspectos que devem ser levados em conta para saber quando
multar e quando não; por que o porte de arma de fogo continua sendo exigida por alguns
guardas; e, não menos importante, como são estabelecidas as relações de reciprocidade no
trânsito. Ao longo do trabalho será enfatizado que as atuações dos guardas municipais de
São Gonçalo são informadas por cada situação específica, levando em conta os valores e
recursos presentes em cada caso. Por fim, assinala-se que o contexto sociocultural em que a
instituição está inserida influencia na maneira como se dão as ações dos guardas municipais,
levando-os a construir um saber prático e localmente estabelecido a partir de suas práticas
cotidianas.

Palavras-chave: Segurança Pública, Guarda Municipal, trânsito

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13. O SUPREMO DE “PORTAS ABERTAS”: A COLEGIALIDADE EM AÇÃO

Autor: Carlos Victor Nascimento dos Santos

Resumo: O objetivo da apresentação da pesquisa é o de promover discussões a respeito de


insights obtidos a partir da realização de um trabalho de campo no Supremo Tribunal Federal.
A pesquisa está em andamento e a categoria em análise é a colegialidade. Para a investigação
empírica dessa categoria, estou frequentando há um ano as sessões de julgamento do plenário
e turmas do STF. Serão destacados alguns insights obtidos por meio da observação e descrição
das dinâmicas e interações ocorridas apenas nas sessões de julgamento do plenário. E para
demonstrar tais insights, algumas situações observadas serão descritas, promovendo reflexões
acerca do espaço e momento em que ministros do STF se reúnem diante do público para
discutir e deliberar a respeito de questões que lhes são demandadas. Por fim, será refletida a
possibilidade do espaço e momento reservados ao “exercício” da colegialidade, representar
uma administração de conflitos entre: (i) as partes envolvidas no litígio; (ii) as partes
e os magistrados; e (iii) os próprios magistrados. O que ocorreria devido um elemento
constantemente presente nas dinâmicas e interações ali ocorridas: o constrangimento.

Palavras-chave: etnografia; Supremo Tribunal Federal; colegialidade.

14. ORDEM PÚBLICA E COMÉRCIO INFORMAL: CONFIGURAÇÃO DO ESPAÇO PÚBLICO DO


CENTRO DE SALVADOR A PARTIR DA GESTÃO ACM NETO

Autor: Bruna Portella de Novaes

Resumo: A proposta do artigo é analisar as consequências da regulamentação do comércio


informal na cidade de Salvador, a partir da gestão do prefeito ACM Neto, iniciada em
2013. Apesar de se basear em instrumentos jurídicos anteriores a essa gestão, a política
de regulamentação levada a cabo pelo atual prefeito tem características próprias, gerando
mudanças significativas no espaço urbano. Assim sendo, a referida política é campo fértil de
interações conflituosas; neste contexto, são atores essenciais a Secretaria Municipal de Ordem
Pública (SEMOP) e os/as comerciantes informais. A princípio, a pesquisa privilegiará a análise
documental sobre as ações de regulamentação do comércio informal propostas pela SEMOP,
considerando ainda as fundamentações de tais ações, de forma a compreender a moralidade
própria que norteia a atuação da Secretaria. Num segundo momento, utilizando-se da
pesquisa empírica de cunho etnográfico, a investigação se volta à observação do espaço de
três ruas do Centro Antigo de Salvador, consolidadas enquanto áreas de grande concentração
de comércio informal – e, portanto, “alvo” da política de regulamentação. Neste campo
delimitado, busca-se, por um lado, analisar as mudanças geradas pela regulamentação na
configuração do espaço público, e, de outro, compreender as trajetórias e deslocamentos dos
comerciantes informais, considerando, ainda, os possíveis fatores provocadores desses fluxos.

Palavras-chave: ordem pública, comércio informal, cidade, administração de conflitos.

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15. “CONQUISTANDO CORAÇÕES E MENTES”: FILANTROPIA, RELIGIÃO E MORALIDADES
NO CONSTRUÇÃO DA VERDADE NA JUSTIÇA MILITAR

Autores: Sabrina Souza da Silva; Isaac Palma Brandão

Resumo: O caso do ajudante pedreiro Amarildo, desaparecido em julho de 2013, ficou


amplamente conhecido no contexto nacional. Envolvendo policiais da Unidade de Polícia
Pacificadora - UPP, carro chefe das políticas públicas para segurança do governo do Estado do
Rio de Janeiro na época, e em um período de grande mobilização no país, com manifestações
crescentes nas grandes cidades brasileiras, teve como resultado vinte e cinco Policiais Militares
acusados pelo desaparecimento e morte presumida do pedreiro, além disso, quatro deles foram
acusado de corrupção ativa de testemunha na Auditoria de Justiça Militar do Estado do Rio de
Janeiro. A presente comunicação propõe uma discussão dos discursos acionados pelos réus no
processo de corrupção ativa de testemunha dos policiais acusados. Tais discursos mobilizavam
a religião e a filantropia como forma de justificar o valor em dinheiro concedido a uma das
testemunhas do caso do desaparecimento e da morte presumida. Pretendemos analisar, nesse
trabalho, a recepção dos Juízes Militares, do Juiz Auditor e do público em relação a tais
discursos. O trabalho baseia-se em etnografia dos autores que acompanharam as audiências do
caso, entrevistaram advogados, juízes militares, o juiz auditor e réus e testemunhas durante o
processo. Além da realização de pesquisa no meios midiáticos (jornais, revistas, vídeos e redes
sociais) para acompanhar a repercussão do caso

Palavras chave: justiça militar, polícia militar, construção de verdade, testemunha

16. CASOS PARADIGMÁTICOS, CASOS COMUNS. PRÁTICAS ORDINÁRIAS, PRÁTICAS


EXCEPCIONAIS. REFLEXÕES TEÓRICO-METODOLÓGICAS DO “EXCEPCIONAL” E O
“HABITUAL” NAS ETNOGRAFIAS SOBRE CASOS E PRÁTICAS JUDICIAIS E ADMINISTRATIVAS.

Autor: Marta Fernandez y Patallo

Resumen: En este trabajo, a partir de partir de la realización de dos etnografías - una relativa
a la administración judicial de casos “comunes” y de “derechos humanos” en los Tribunales
Federales de la ciudad de Rosario y otra acerca de la administración estatal de pedidos
de residencia realizados por migrantes ante la Dirección Nacional de Migraciones en la
ciudad de Buenos Aires - y del diálogo con otras etnografías del campo de la antropología
jurídica y política me propongo realizar una reflexión teórico-metodológica acerca de qué
nos permite comprender de la realidad estudiada el análisis de casos paradigmáticos, casos
comunes, prácticas ordinarias y prácticas excepcionales. De forma particular, a partir de estas
investigaciones mencionadas y de la interlocución con otros autores busco dar cuenta del
lugar de lo “excepcional” y de lo “habitual” en la comprensión de la definición y clasificación
de los casos judiciales y administrativos y de las prácticas de administración estatal y judicial
de conflictos y pedidos de residencias.

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17. SOBRE AS DISJUNÇÕES ENTRE DIREITO E JUSTIÇA: AS PRÁTICAS DE RACIONALIDADE
DA INJUSTIÇA OPERADAS PELO SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL NO CASO DA DEMARCAÇÃO
DA TERRA INDÍGENA RAPOSA SERRA DO SOL

Autor: Anabelle Santos Lages

Resumo: Este artigo tem como referencial empírico a decisão proferida pelo Supremo
Tribunal Federal envolvendo a demarcação da Terra Indígena Serra do Sol. Pretende-
se mostrar como os ministros absorveram um ordenamento de orientação multiétnica
e multicultural, que assegura os direitos originários das comunidades indígenas, mas
também as pressões político-econômicas que buscavam relativizá-los. O acoplamento de
condicionantes à decisão principal significou uma inovação do STF, elas não existem no
ordenamento jurídico nem mesmo como salvaguardas institucionais, como se pretendeu
estabelecer. Algumas delas criavam direito novo, fato que pode gerar, inclusive, uma discussão
sobre ativismo judicial. Assim, embora o resultado final tenha sido favorável à TIRSS, o
acolhimento das condicionantes pela maioria dos ministros sinalizou o quanto esse direito
ainda está sob disputa. A partir delas, categorias como nação e território, particularizaram
os direitos indígenas, localizando-os como uma espécie de interesse público de segunda
categoria na medida em que os subordinou ao que seria o “verdadeiro” interesse público.
Algumas condicionantes aplicadas à decisão do caso Raposa, mais do que reafirmar direitos,
deveres e, inclusive, legislar, num claro exemplo de apropriação de poderes, pretenderam
neutralizar/acalmar setores da sociedade que não queriam aquela decisão. Nesse sentido,
juntamente com a Súmula 650 e com o Decreto 1775/96, as condicionantes integram o
que chamamos de racionalidade da injustiça, baseada na ideia do poder que juristas e juízes
detêm na exploração da multiplicidade de normas jurídicas, convertendo-as em decisões
judiciais que confirmam a separação entre direito e justiça.

Palavras-chave: justiça, racionalidade, Supremo Tribunal Federal, Terra Indígena Raposa


Serra do Sol.

18. NOTAS SOBRE CULTURA,VESTIMENTA E TATUAGEM NOS TRIBUNAIS DO JÚRI E VARAS


CRIMINAIS DO RIO DE JANEIRO

Autor: Paloma Abreu Monteiro

Resumo: Esta pesquisa se propôs a observar as interações do campo e do corpo nos rituais
jurídicos, cujos símbolos fornecem mecanismos necessários para (re)conhecer nossa própria
cultura - além de propor a imersão da antropologia jurídica nas faculdades de direito. A
partir de uma etnografia realizada nos quatro tribunais do júri e em algumas varas criminais
do Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro, busco refletir como o corpo insere-se
enquanto elemento privilegiado para analisar os rituais jurídicos e vice-versa, assumindo
a compreensão do direito como um domínio da cultura. A corporalidade, destacada na
vestimenta, tatuagens, nas expressões dos sentimentos, falas e silêncios, além dos espaços
ocupados e a forma como interagem entre si, surgiram como focos principais da minha
observação, em especial sobre a figura dos acusados nos processos, bem como o próprio

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espaço físico do campo. Sempre voltada, é claro, para discutir as simbologias, rituais e
representações sociais no campo do direito.

Palavras-chave: antropologia jurídica; corpo; rituais jurídicos; vestimenta; tatuagem.

ENTRE O “ACESSO” E A “IMPARTICIÓN”  DE JUSTIÇA NA AMÉRICA LATINA:


ANÁLISES COMPARADAS DE SISTEMAS DE JUSTIÇA LATINOAMERICANOS

Ementa: Nos últimos anos estudos empíricos têm sido desenvolvidos na área do direito, com
objetivo de conhecer os diferentes sistemas de justiça na América Latina. Nesse movimento,
o diálogo entre Direito e Antropologia tem sido profícuo e ocupado lugar de destaque nas
pesquisas acadêmicas. No entanto, pouco se tem discutido sobre a interpretação da justiça,
incluindo as noções de “acesso” e “impartición” de justiça nos diferentes contextos. A
proposta de mesa assume como objeto o estudo sobre a administração da justiça na América
Latina, a partir de uma perspectiva empírica e comparada. O objetivo principal é debater, a
partir de casos específicos, os diferentes sistemas de justiça latinoamericanos. Os debates terão
como horizonte analítico as especificidades dos casos e as possibilidades de generalizações e
intercâmbios de experiências entre diferentes sistemas de justiça e abordagens metodológicas.
Busca-se, a partir dessas problematizações, verificar como esses estudos podem contribuir
para o aperfeiçoamento dos mecanismos e garantias de efetivação de direitos. 

Coordenadore(a)s: Rebecca Lemos Igreja (MECACB/CEPPAC/UnB – Brasil), Antônio


Carlos Wolkmer (UNILASALLE-RS/UFSC), Talita Rampin (MECACB/CEPPAC/UnB – Brasil)

Debatedor/comentarista: Alexandre Cunha

1. DEFINIÇÕES DO SISTEMA DE JUSTIÇA AO ACESSO A DIREITOS: UMA VISÃO A PARTIR DA


SANÇÃO DA LEI DO FEMINICÍDIO NO BRASIL

Autores: Elisa Sardão Colares; Liliam Litsuko Huzioka

Resumo: O artigo pretende analisar o processo de positivação da demanda relativa às mortes


violentas de mulheres por razões de gênero com foco na recente aprovação da Lei brasileira.
Buscaremos problematizar, a partir da participação nos debates que precederam a sanção da
Lei, de que modo os argumentos foram construídos pelos atores do sistema de justiça. Foram
encontrados dois caminhos que definem as concepções desses próprios atores sobre o acesso à
justiça: o recurso ao Direito Penal nos seus efeitos práticos e simbólicos e o contexto em que
a mulher pode ser reconhecida como sujeito deste direito. O primeiro caminho aponta para
a discussão relativa às respostas punitivistas, preventivas e comunicativas que o Direito pode
oferecer. O segundo refere-se a quais sujeitos têm a potencialidade de serem reconhecidos de
acordo com a complexidade de suas identidades e realidades.

Palavras-chave: acesso à justiça, feminicídio, positivação de direitos.

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2. DEFINIÇÕES E MECANISMOS DE ENFRENTAMENTO INSTITUCIONAL À DISCRIMINAÇÃO:
UMA REFLEXÃO SOBRE OS IMIGRANTES CENTRO-AMERICANOS NO MÉXICO

Autor: Nathália Vince Esgalha Fernandes

Resumo: A exclusão social em que vive a população migrante é resultado de uma construção
social e política do sujeito migrante, da qual destaca-se a cultural ligada à formação do
México enquanto Estado-nação moderno e a exploração inerente ao próprio modelo
capitalista de produção com a utilização de vulnerabilidades diversas para o seu sustento. Na
medida em que essas duas origens influenciam toda a construção do poder e do saber dentro
dos Estados Latino-americanos e, por conseguinte, toda a base epistemológica utilizada por
suas instituições para significar os conceitos e categorias de suas ações junto à população.
A partir do estudo de caso sobre a discriminação contra imigrantes centro-americanos no
México, o trabalho irá analisar como são pensadas, elaboradas e executadas as políticas
antidiscriminatórias anunciadas pelo Estado Mexicano.

Palavras-chave: Discriminação, acesso a direitos, Imigração, Políticas Públicas, México.

3. LA ARQUITECTURA CONCEPTUAL DEL TRABAJO PRO BONO: ANÁLISIS CULTURAL DEL


DERECHO EN PERSPECTIVA COMPARADA

Autor: Daniel Bonilla

Resumen: Las democracias liberales modernas han articulado cuatro instituciones para
materializar las obligaciones del Estado y los juristas respecto del derecho que tienen todos
los miembros de la comunidad política de acceder a un abogado: la defensoría pública, la
abogacía de oficio, los consultorios jurídicos y el trabajo pro bono. Estas instituciones tienen
como fin eliminar el déficit de acceso a la justicia que existe en todas las democracias liberales
modernas en distintos grados. Este artículo examina solo una de estas estrategias: el trabajo
jurídico pro bono. El objetivo del texto es a la vez general y particular. Por un lado, busca
describir y analizar la arquitectura conceptual que sostiene al trabajo pro bono. Por el otro,
tiene como fin hacer uso de estas herramientas teóricas para describir y analizar el discurso y
prácticas pro bono que se han articulado en Argentina, Colombia y Chile. El escrito se divide
en dos partes para cumplir con este objetivo. En la primera parte, presento los elementos
que componen el concepto global estándar de trabajo pro bono, analizo las ideas de sujeto,
tiempo y espacio que crea este concepto y examino las oposiciones conceptuales que las
estructuran. En la segunda parte del artículo, argumento que el discurso y prácticas pro
bono en Argentina, Chile y Colombia son un transplante jurídico entre las élites jurídicas de
América del Norte y Suramérica. Asimismo, argumento que este es un transplante jurídico
que no ha logrado enraizarse en las órbitas privadas de los estados liberales importadores y
que ha tenido un impacto menor en la materialización del derecho al acceso a la justicia de
los ciudadanos de bajos recursos socioeconómicos que los habitan.

Palabras-claves: Trabajo PRO BONO, arquitectura conceptual, análisis cultural del Derecho

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4. REPENSANDO LOS MARC EN LA PERPECTIVA DEL PLURALISMO Y DE LOS CAMBIOS DE
PARADIGMAS EN LATINOAMERICA.

Autor: Antonio Carlos Wolkmer

Resumen: El texto si propone a subrayar que el modelo clásico de administración de


justicia resultante de la fuente estatal no encuentra más sintonía en la realidad social y en sus
instituciones tradicionales de producción y resolución de conflictos.
Para tener en cuenta los nuevos fenómenos de producción y aplicación de la justicia
en la resolución de los conflictos, es que gana fuerza el retorno y el examen de Pluralismo
Jurídico, no el conservador de la globalización, pero un Pluralismo Jurídico contra-hegemó-
nico y transformador desde el Sur que emerge de los nuevos sujetos colectivos y de las nuevas
sociabilidades insurgentes.
Los flujos de ese nuevo Pluralismo Jurídico permite rescatar la fuerza primera, natural
y emancipadora de los Mecanismos Alternativos de Resolución de conflictos, o sea la busca
por fortalecerlos; teniendo en cuenta los principios originales comunitarios de autonomía
y participación, de grupos informales, que aún podemos encontrar en ciertas comunidades
de campesinos, de afrolatinos y de poblaciones indígenas. Hay que recuperar estos principios
originales de simplicidad, independencia y capacidad de organización que están desvincula-
dos/afuera de las “garras” colonizadoras del Estado. Principios que expresan la consentimien-
to y no la subordinación.

Palabras claves: Pluralismo Jurídico, MARC, administración de justicia, contra-hegemonia,


resolución de conflitos.

5. PROCESOS JUDICIALES Y VIOLENCIA INSTITUCIONAL HACIA USUARIOS DE PASTA BASE


DE COCAÍNA EN URUGUAY

Autor: Marcelo Rossal

Resumo: En la presente ponencia se pretende mostrar al sistema penal uruguayo, más allá
de la cuestión procesal formal, desde el lugar de sus víctimas más vulnerables: los usuarios
de pasta base de cocaína. Para ellos, el sistema penal uruguayo imparte “justicia” en formas
casi sumarias. En menos de 48 horas se decide la suerte de quien ha sido detenido. En ese
breve lapso puede dictaminarse el procesamiento del sujeto, que, en casi todos los casos, no
es asistido, más que formalmente, por ninguna defensa. Luego de ser procesado, el sujeto es
inmediatamente depositado en una cárcel a la espera del transcurso de un proceso en el cual
los “escritos” atraviesan oficinas y aguardan ferias judiciales. Sumidos en un estigma que los
hace, más allá de sus acciones, actores culpables, los “pastosos” vagan entre el sistema penal,
las violencias del mercado ilícito y los bordes del sistema de protección social.

Palabras claves: procesos judiciales, sistema penal uruguayo, usuários de cocaína, justicia
penal.

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6. INDÍGENAS NO JUDICIÁRIO BRASILEIRO: SUBALTERNIDADE E DISFONIA

Autor: Simone Rodrigues Pinto

Resumo: A proposição central deste artigo é analisar a profusão do indigenismo nas


construções argumentativas de decisões judiciais sobre questões indígenas. O ponto de
investigação são as ementas jurisprudenciais do Tribunal Regional Federal da 1ª Região.
Nessa perspectiva são referenciados aspectos conceituais do indigenismo jungido à formação
da identidade nacional e estruturante da base legal que dispõe sobre as relações do Estado e
da sociedade com os povos indígenas.

Palavras chaves: indigenismo, jurisprudência, Tribunal Regional Federal.

7. MUITO DIREITO, POUCA VIZINHANÇA

Autor: Marcelo Carnevale

Resumo: En la presente ponencia se pretende mostrar al sistema penal uruguayo, más allá
de la cuestión procesal formal, desde el lugar de sus víctimas más vulnerables: los usuarios
de pasta base de cocaína. Para ellos, el sistema penal uruguayo imparte “justicia” en formas
casi sumarias. En menos de 48 horas se decide la suerte de quien ha sido detenido. En ese
breve lapso puede dictaminarse el procesamiento del sujeto, que, en casi todos los casos, no
es asistido, más que formalmente, por ninguna defensa. Luego de ser procesado, el sujeto es
inmediatamente depositado en una cárcel a la espera del transcurso de un proceso en el cual
los “escritos” atraviesan oficinas y aguardan ferias judiciales. Sumidos en un estigma que los
hace, más allá de sus acciones, actores culpables, los “pastosos” vagan entre el sistema penal,
las violencias del mercado ilícito y los bordes del sistema de protección social.

Palabras claves: procesos judiciales, sistema penal uruguayo, usuários de cocaína, justicia
penal.

8. CONSIDERACIONES SOBRE LAS GARANTÍAS A LOS DERECHOS FUNDAMENTALES


FRENTE A LA VIDEOVIGILANCIA POR PARTE DE LA POLICÍA NACIONAL. CASO DE CÚCUTA-
COLOMBIA.

Autores: Eduardo Gabriel Osorio Sanchez; Javier Andres Perozo Hernandez

Resumen: No hay duda alguna de que los Estados deben resguardar su seguridad interior
y que sus ciudadanos deben contar con las condiciones mínimas de seguridad en las cuales
puedan ejercer libremente sus derechos y libertades reconocidas constitucionalmente. Dentro
de los mecanismos que el Estado tiene a disposición para garantizar la seguridad de sus
ciudades, se encuentra el uso de la videovigilancia como mecanismo importante para este
cometido. Sin embargo, el uso generalizado e indiscriminado de este instrumento, puede
llegar a afectar y vulnerar antidemocráticamente derechos fundamentales de los ciudadanos,
siendo necesario que estos ciudadanos cuenten con las debidas garantías para proteger sus

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derechos. En la presente ponencia, se expondrá un adelanto del proyecto de investigación en
desarrollo denominado como “Sistema deVideo vigilancia en el Espacio Público de la Ciudad
de Cúcuta. Límites y Garantías frente a su utilización por parte de la Policía Nacional”, el
cual es financiado por la Universidad Francisco de Paula Santander de Cúcuta-Colombia,
en donde se harán unas consideraciones generales sobre el desequilibrio sobre los derechos
fundamentales que se pueden ver afectados con el uso inadecuado de la videovigilancia
policial, debido a la falta de garantías adecuadas para su protección y la falta de desarrollo
legislativo sobre la utilización de la videovigilancia en materia policial.

Palabras-clave: Videovigilancia, Derechos Fundamentales-Garantías.

09. PROGRAMA TERRITÓRIOS DA CIDADANIA E A EFETIVAÇÃO DOS DIREITOS SOCIAIS

Autores: Eduardo Faria Silva; Wanda Karine da Silva Santana

Resumo: O presente trabalho tem como objetivo apresentar e analisar o Programa Territórios
da Cidadania, com ênfase ao Território do Vale do Ribeira, no estado do Paraná, sob a
perspectiva dos princípios fundamentais e direitos sociais fundados na Constituição Federal de
1988. O Programa tem o intuito de promover o desenvolvimento econômico e universalizar
programas de cidadania por meio de uma estratégia de desenvolvimento territorial sustentável,
em ações sociais e integradas entre o governo federal, estados e municípios. Tendo como
premissa básica o art. 3º, III, da Constituição Federal, temos por objetivo analisar o referido
Programa, demonstrando a eficácia deste no tocante à efetivação de direitos sociais, com
imprescindível vinculação com a noção de Constituição e Estado Democrático de Direito.
Outrossim, gostaríamos de afirmar que, por meio destas políticas públicas, o governo federal
está submetido ao caráter da força normativa, vinculativa e obrigatória da Carta Magna.

Palavras-chave: ProgramaTerritórios da Cidadania;Aplicabilidade da Norma Constitucional,


Direitos Fundamentais; Direitos Sociais.

10. DIREITOS HUMANOS E SEGURANÇA PÚBLICA EM MOÇAMBIQUE: UM ESTUDO SOBRE


A VIOLAÇÃO DOS DIREITOS HUMANOS NA ACTUAÇÃO POLICIAL

Autor: Azarias Maluzane Chunguane

Resumo: A República de Moçambique é um Estado de Direito Democrático (artigo 3 da


Constituição da República de Moçambique de 2004) e como tal a Constituição estabelece
princípios fundamentais, tal como o de que o Estado respeita a garantia dos direitos e
liberdades fundamentais do Homem e o de que o Estado subordina-se à Constituição e
funda-se na legalidade (artigo 2 da Constituição da República de Moçambique de 2004).
Porém, apesar da Constituição estabelecer esses princípios orientadores do Estado de Direito,
várias questões têm posto em causa os Direitos Humanos, a Segurança Pública e a própria
afirmação do Estado de Direito Democrático. Porém, apesar da Constituição estabelecer esses
princípios orientadores do Estado de Direito, várias questões têm posto em causa os Direitos

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Humanos, a Segurança Pública e a própria afirmação do Estado de Direito Democrático.
De entre essas questões destacam-se uma justiça deficitária, violação de Direitos Humanos
e o uso excessivo e desproporcional da força por agentes policiais contra cidadãos que se
manifestam em prol de seus direitos. Isto impõe a necessidade de promover mudanças na vida
diária da instituição policial e nas atitudes do seu pessoal em prol do respeito e salvaguarda
dos Direitos Humanos. Isto significa que os Direitos Humanos devem ser sempre observados
no processo da actividade de comando e liderança, na captura de pessoas, no tratamento de
detidos, no uso da força, em suma, em toda a actividade policial colectiva e individual. O
estudo tem por escopo fazer uma abordagem em torno dos Direitos Humanos e da Segurança
Pública que constituem um dos principais temas no debate jurídico em Moçambique, com
o objetivo de contribuir para o aprimoramento e fortalecimento dos Direitos Humanos, da
Segurança Pública e do fortalecimento do Estado de Direito. Assume-se como objectivos
identificar as causas que concorrem para a violação dos Direitos Humanos por parte da
Polícia, analisar o nível de conhecimento dos Direitos Humanos por parte da Polícia da
República de Moçambique (PRM) e expor situações de violação dos Direitos Humanos por
parte da Polícia da República de Moçambique (PRM). O presente estudo será essencialmente
qualitativo e coadjuvado pela abordagem quantitativa, sendo que o método qualitativo será
adequado para compreender o estágio do respeito dos Direitos Humanos pela Polícia da
República de Moçambique (PRM).

Palavras-Chave: Direitos Humanos; Segurança Pública; Violação; Actuação Policial

11. ACESSO E IMPARTICIÓN DE JUSTIÇA NAS AMÉRICAS: UMA ANÁLISE DAS POLÍTICAS DE
ESTADO PARA A PROMOÇÃO DE JUSTIÇA

Autores: Talita Rampin; Rebecca Lemos Igreja

Resumo: O objetivo deste estudo é analisar as políticas de Estado desenvolvidas em


contextos latino-americanos com o propósito de promover a justiça. Para tanto, enfocará
os projetos de integração econômica estabelecidos nas Américas Central e do Sul e buscará
elementos normativos e institucionais que contribuam para a compreensão das concepções
de justiças adotadas e impostas aos diferentes contextos, considerando o histórico comum
de colonização europeia, de desenvolvimento dependente no âmbito do sistema econômico
capitalista mundial, de exclusão econômico-social e de opressões a que estão estruturalmente
submetidos os países latino-americanos. Nesse sentido, será realizada uma revisão de
literatura, com o objetivo de traçar um mapa conceitual sobre duas categorias analíticas
que foram identificadas como centrais para a discussão, a saber: a de “acesso à justiça” e a de
“impartición de justicia”. O estudo contribui para a supressão de uma lacuna existente no
âmbito das ciências sociais, que remete a insuficiência ou baixa frequência de análises sobre a
promoção da justiça desde uma perspectiva política de integração que possui delineamentos,
funcionalidades e limitações específicas e diretamente relacionadas ao sistema de dominação
norte-sul.

Palavras chaves: acesso à Justiça, impartición, projeto de integração, políticas de Estado

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12. HEGEMONIA E INTEGRAÇÃO NAS AMÉRICAS: ANÁLISES PARA UMA GEOPOLÍTICA DA
JUSTIÇA

Autor: Jacques de Novion

Resumo: O estudo propõe uma análise para uma Geopolítica da Justiça nas Américas, onde
as relações hegemônicas no continente definem agendas e políticas de segurança especificas,
em diferentes momentos e espaços, que inevitavelmente afetam as praticas e agendas das
Justiças Latino-americanas. Frente as particularidades de cada localidade e de cada realidade
nacional, o acesso / impartición de Justiça também serão afetados, modificando-se conforme
as diversas doutrinas de segurança e a criação de inimigos a combater. Numa perspectiva
histórica, desde o final do século XIX encontramos diferentes doutrinas de segurança
elaboradas pela Hegemonia que, de uma forma ou outra, afetam as distintas realidades do
continente. Desde o binómio de Integração e Segurança encontramos: Panamericanismo-Big
Stick; Interamericanismo-Boa Vizinhança; Interamericanismo-Contrainsurgencia; Aliança
p/ Progresso-Anticomunismo; Neoliberalismo-Antinarco-terrorismo. Estas Doutrinas de
Segurança marcam agendas propias, com inimigos específicos a combater, gerando uma
geopolitica hegemônica que também encontra ramificações nas praticas e sentidos de
Justiça.  A partir desta ideia, o acesso /  impartición  de Justiça terão vínculos estritos com
as concepções de segurança e com os momentos acima mencionados, onde a lógica da
criminalização de determinados setores das sociedades, em diferentes momentos, apontam
uma geopolítica da Justiça. Evidentemente que cada país e cada localidade apresentam suas
particularidades, mas encontram-se elementos para uma observação de contexto geopolítico
que, em cada momento, também indicam centralidades comuns ao conjunto de países da
América latina e Caribe. Chama atenção que aqueles que foram “deshumanizados” durante o
encobrimento do continente, que foram traídos durante as emancipações do continente, que
foram sub-incorporados à moderno-colonialidade, conformam os mesmos grupos sociais de
ontem e hoje. Indigenas, negros, mestiços, ciganos, mulheres, jovens, camponeses, operarios
entre outros, marcam uma continua criminalização das diferentes formas de pensamento,
alternativas de mundo e de sentidos de futuro.

Palavras chaves: Geopolítica da Justiça, Justiças Latino-americanas, acesso e impartición de


justiça

DROGAS, CÁRCERE E ILEGALISMOS: UMA PROPOSTA PARA OS ESTUDOS DE


ANTROPOLOGIA JURÍDICA NA AMÉRICA LATINA

Ementa: A presente proposta de mesa visa refletir sobre as representações e práticas acerca
dos dilemas envolvendo mercados e consumos de substâncias psicoativas postas na ilicitude
em países da América Latina, bem como os respectivos mecanismos de controle e repressão
de tais práticas, especialmente envolvendo políticas de encarceramento. Nesse sentido,
privilegiaremos debates e trabalhos relacionados a: etnografias sobre práticas de consumo
de substâncias que recebem a denominação de “drogas”; análise de Políticas Públicas de

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Drogas e das instituições que atualizam regimes de controle, tais como tribunais de justiça
e instituições prisionais; pesquisas que exploram a articulação entre o “saber nativo” e os
entraves envolvendo a criminalização dos sujeitos, bem como os acessos destes aos direitos
fundamentais da pessoa humana; estudos sobre mobilizações coletivas que militam em prol
de formas mais democráticas de administração institucional de conflitos com origem em tais
mercados e consumos.

Coordenadores
Frederico Policarpo (UFF e INCT-InEAC - Brasil), Florencia Corbelle (Universidade de
Buenos Aires – UBA - Argentina) e Izabella Pimenta (INCT-InEAC - Brasil)

1. DISPUTAR VERDADES JURÍDICAS ESTABELECIDAS: AS ESTRATÉGIAS DO ACTIVISMO


CANNÁBICO

Autor: Florencia Corbelle

Resumo: En la Argentina, en los últimos cinco años, junto al desarrollo y consolidación


de la llamada “cultura cannábica”, ha aumentado la cantidad de cultivadores de cannabis y
de manera correlativa los allanamientos policiales y procesamientos judiciales a usuarios y
productores de marihuana. En este trabajo analizo la actuación de la policía y justicia penal
en la Ciudad de Buenos Aires y su conurbano así como las estrategias que, para hacer frente a
estas prácticas policiales y judiciales, ha desarrollado un grupo de activistas autodenominados
“cannábicos”. Esto supone, en primer lugar, exponer las características que adquieren las
investigaciones policiales en los casos de tenencia y cultivo de plantas de cannabis así como
la forma en que la justicia local tramita estas causas. Para luego, dar cuenta de las estrategias
colectivamente elaboradas por el “activismo cannábico” que, como veremos, no sólo descansan
en el compromiso, saberes y argumentos jurídicos esgrimidos por abogados especializados;
sino también, en las decisiones políticas que, a lo largo del proceso, deben tomar los acusados
así como en la difusión que de estas estrategias hace el “activismo cannábico”, principal
aunque no exclusivamente, a través de medios gráficos.

Palabras clave: Ley de drogas, activismo cannábico, verdades jurídicas, policía.

2. PROCESSO DE TRANSFORMAÇÃO DAS PRÁTICAS E REPRESENTAÇÕES DOS USUARIOS


DE CANNABIS NA ARGENTINA APÓS 26 ANOS DE APLICAÇÃO DA LEI 23737

Autor: Ana Florencia Sclani Horrac

Resumo: Após 26 anos de aplicação da Lei 23737 de Entorpecentes (1989) na Argentina,


o presente trabalho pretende refletir sobre o proceso de transformacao das práticas e
representações dos usuarios de cannabis, acerca das alternativas e conflitos que envolve a
vida cotidiana dos sujetos, criminalizados e as dinamicas dos mercados ilegais. O consumo
na ilicitude nos países da América Latina sò tem quebrado ainda mais lazos sociais. Argentina
tem um movimiento social que reúne usuarios em agrupacoes (na maioria) sem personerìa

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jurídica. Se propone contribuir ao debate desde a perspectiva do usuario, em tanto sujeto de
dereito, segundo a lei 26657 de Saude Mental (2013).

Palavras chave: cannabis, usuarios, práticas, representações.

3. SISTEMA CLASSIFICATÓRIO NA POLÍCIA CIVIL DO RIO DE JANEIRO: A QUESTÃO DAS


DROGAS

Autores: Marcus José da Silva Cardinelli; Marilha Gabriela Reverendo Garau

Resumo: A presente proposta tem por objetivo abordar práticas da Polícia Civil do Rio de
Janeiro responsáveis pelo aumento do contingente de prisões não definitivas no estado. Nesse
sentido, o trabalho dará ênfase às classificações construídas nas delegacias, especialmente no
que se refere às figuras de uso e ao tráfico de entorpecentes. A produção desse texto é baseada
nos trabalhos de campo dos autores. O primeiro trabalho, elaborado para fins de escrita da
dissertação de mestrado em antropologia já defendida, onde se observou, por via direta,
durante o período de oito meses, as práticas policiais em uma Delegacia da PCERJ. Já o
segundo, objeto de uma dissertação de mestrado em direito ainda em curso, cuja temática é
resultado de uma pesquisa desenvolvida no ano de 2012 tendo por objetivo avaliar os critérios
determinantes no enquadramento de indivíduos como usuários e/ou traficantes. No aspecto
legal no que tange à repressão ao uso e ao tráfico de entorpecentes, o Brasil vivenciou uma
lei que perdurou por aproximadamente trinta anos, sendo substancialmente alterada pela Lei
11.343/06. O reconhecimento da substancial mudança limita-se à pessoa do consumidor, na
medida em que estes passaram a ser classificados pela condição de vítima dentro do contexto
e, portanto, dedicou-se políticas direcionadas à reparação dos danos decorrentes do consumo
de drogas. Por outro lado, a nova legislação acerca do assunto reiterou a posição do Estado
quanto à repressão ao tráfico de entorpecentes, reprimindo tal conduta com penas ainda
mais duras. A Lei 11.343/2006 que instituiu o Sistema Nacional de Políticas Públicas sobre
drogas alterou o antigo texto da Lei 6.368/1976 que até então regulamentava o assunto. A
nova lei, por sua vez, é mais tolerante em relação ao usuário, deixando o tema a cargo da
área da saúde pública, instituindo uma despenalização neste sentido, embora o uso continue
proibido, não há uma punição a termos de privação de liberdade para isso. Entretanto,
esta lei apresenta uma lacuna peculiar, que oferece a Delegados, Promotores e Magistrados
imensa discricionariedade no que tange ao enquadramento do indivíduo como usuário ou
traficante, uma vez que são elencados critérios meramente formais para que tal distinção
seja enquadrada na prática, posto que a legislação não estabelece uma diferenciação objetiva
capaz de diferenciar uso de tráfico. Neste sentido, o presente trabalho visa, a partir das
observações empíricas apontadas, compreender de que forma o sistema, através desta lacuna
legal, possibilita a classificação de indivíduos a partir dos mais variados critérios. Para isso
far-se-á uma análise das práticas policiais empregadas nesses casos em específico. Para tanto,
parte-se da ideia tomada de Simoni Lahud Guedes (2008) que o sistema classificatório,
classifica, ordena e hierarquiza, ao mesmo tempo, ações policiais e situações sociais. Ele
dirige o olhar para determinadas direções, hierarquiza e valoriza eventos, desvaloriza
outros e obriga à construção de liames entre o vivido e o registrado. Toda prática conjuga

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normas explícitas, racionalizações, teorias nativas e saberes implícitos. Assim, este sistema
classificatório convive e conjuga-se com diversos outros, a maior parte destes não escritos.
O primeiro autor deste trabalho, em certa ocasião em campo, após um usuário de drogas
ter sido conduzido à Delegacia por um PM para ser “sarqueado”, ouviu do Delegado sobre
os critérios para a definição do infrator como usuário ou traficante. Um dos elementos
que levava em consideração na sua decisão era se o indivíduo trabalhava: “vive de que?”.
Depois “o que tem no nome?”. Se não trabalhasse, nem tivesse bens, colocava do tráfico.
Quando era pego dentro da favela, era sempre tráfico. Justificava isso, porque dizia acreditar
que só entrava na favela quem tivesse relações. Neste sentido, afirmou que as práticas de
tráfico de drogas naquele momento eram “formiguinhas”. Em outras palavras, os traficantes
portavam pequenas quantidades, escondiam a droga embaixo de uma pedra ou algo similar.
Costumavam, inclusive, pedir ao comprador que fosse até o esconderijo pegar a droga.
Outra forma de conseguir fundamentar as prisões por tráfico, que já havia demonstrado
em outro contexto, era conseguir testemunhos. Dessa forma, quando duas pessoas eram
presas no mesmo contexto, pressionava as duas até que alguém declarasse que o outro era o
traficante-vendedor da droga. Baseado nisso, conseguia justificar o tráfico e a impossibilidade
de medidas que afastassem a prisão. Na Polícia Civil, uma diversidade de descrições e de
interpretações sobre os fatos eram usadas para justificar determinadas finalidades. A partir de
um discurso de se “fazer justiça” se interpretava o direito legal. Sendo assim, inicialmente
se decidia para só depois ser construída a interpretação jurídica adequada para o fato. Ele
podia decidir, naquele momento, se iria classificar como um crime mais leve ou um crime
mais grave. É o exemplo do uso e do tráfico de drogas. O impacto de uma decisão como
essa não é pequeno. Além da disparidade das penas, isso promovia um procedimento mais
complexo e, na prática, uma prisão provisória. Essa decisão estava diretamente relacionada
com a escolha de manter alguém ali no cárcere ou soltar. Desse modo, alguns delegados da
PCERJ classificavam os indivíduos que, em seu discurso, mereciam uma punição. Ao mesmo
tempo, impunham o senso de moralidade do delegado de polícia e reatualizavam as relações
de poder estabelecidas entre a PCERJ e determinados segmentos da sociedade.

Palavras-chave: polícia; classificação; drogas.

4. O USO PÚBLICO E EXPLÍCITO DE DROGAS COMO UM FENÔMENO URBANO.

Autor: Fabiano Cunha dos Santos

Resumo: Esta comunicação pretende descrever e analisar as p ráticas e s aberes de consumo


p úblico e explícito de drogas ilícitas (e licitas) em espaços urbanos. Para isso, serão relatados
dados etnográficos coletados durante 2 anos no Centro Histórico de Salvador (Pelourinho)
e no Museu de Arte Moderna (Solar do Unhão), fruto de uma pesquisa de doutorado.
A problemática se estabelece na constante frequência do uso de substâncias ilícitas em
determinados locais da cidade, mesmo com a política vigente de repressão ao mercado das
mesmas. A categoria nativa usada para denominar estes locais é “legalize”, que significa um
espaço/território, relativamente seguro, para o consumo de drogas ilícitas. O recorte dado
nesta pesquisa foi o l azer na cidade, ou seja, a etnografia buscou analisar a cultura do uso

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recreativo de drogas c omo um fenômeno urbano . Assim, esta comunicação tem o objetivo
de analisar o dilema da persistência do consumo de drogas ilícitas, apesar da sua proibição,
relatando alguns dados etnográficos de como o modelo repressivo atua em relação ao uso de
drogas nos espaços legalize. Além disso, é também interessante levantar a discussão sobre a
eficácia e coerência destas políticas repressivas.

Palavras chave: Lazer, Cidade, Drogas, Políticas Públicas.

5. BASEADO EM FATOS

Autor: Monique Fernanda de Moura Prado

Resumo: O objetivo desta proposta é descrever e interpretar o processo de produção de um


documentário para uso acadêmico sobre os dilemas e paradoxos que envolvem, na cidade do
Rio Janeiro e sua região metropolitana, os mercados e consumos de “drogas” postas na ilicitude.
A ideia partiu de estudantes (dentre os quais eu insiro-me) da graduação em Segurança Pública da
Universidade Federal Fluminense. Posteriormente, a iniciativa foi apoiada, através de aprovação
de projeto no “Programa de Apoio aos Pós Doutorandos da UFF – 2014”, com a concessão de
uma bolsa de iniciação científica. O título do projeto aprovado foi: “Drogas e Cultura: uma
proposta de diálogo acadêmico entre a segurança pública e a antropologia”. Além disso, o projeto
também foi financiado pelo Instituto de Estudos Comparados em Administração Institucional
de Conflitos (INCT-InEAC), contribuindo com uma bolsa de estágio. Desse modo se iniciaram
as gravações e os estudos que embasam o filme, cujo título provisório é “Baseado em fatos: as
‘drogas’, seus mercados, consumos e conflitos no Rio de Janeiro”, nesse momento em fase de
gravação, edição e estudos. O projeto foi orientado desde o início por dois objetivos gerais: o
primeiro foi a produção de um material fílmico, para uso acadêmico, que possa contribuir para
a construção do conhecimento sobre os circuitos das “drogas” e sua relação com as políticas
públicas (notadamente as da área da saúde e da segurança). O segundo foco foi na formação de
jovens pesquisadores no campo da área da Segurança Pública, socializando-os na investigação
científica, no trabalho de campo, e na produção de projetos e trabalhos acadêmicos. Desse
modo, a presente proposta objetiva expor o meu ponto de vista como pesquisadora iniciante,
sobre este trabalho em autoria conjunta – entre nós alunos e dos professores envolvidos no
projeto – aproveitando este espaço para apresentar os resultados de nossas pesquisas.

Palavras-chave: Filme, Drogas, Segurança Pública e Investigação Científica.

6. “TRÁFICO INTERNACIONAL” E TRAJETÓRIAS PESSOAIS ENTRE “JOVENS” DE “CLASSE


MÉDIA” NO BRASIL: UM ESTUDO DE CASO.

Autores: Izabel Saenger Nuñez; Marcos Alexandre Veríssimo da Silva

Resumo: O objetivo desta proposta é contribuir para os estudos de antropologia jurídica a


partir de uma discussão sobre processos de incriminação de pessoas que participam de redes
de comércio clandestino de drogas entre o Brasil e a Europa, e que por isso são enquadrados

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como “traficantes internacionais”. A estratégia da polícia, nos aeroportos, para identificar os
possíveis suspeitos, consiste em observação dos passageiros, com foco naqueles que viajam
sozinhos e são “jovens”, vindos de cidades da Europa como, por exemplo, Amsterdã. Os
“suspeitos” normalmente viajam sozinhos e qualquer atitude que denote “nervosismo”
diante da espera das bagagens, quando os policiais “infiltrados” estão a os observar, pode ser
considerada um “indício”. A rede, por sua vez, passa a alterar as rotas, variando os aeroportos
de entrada no Brasil. Seus integrantes são oriundos da classe média, jovens, estudantes
universitários, que viajam para Europa, levam e trazem o “carregamento”. Nosso ponto
de partida será a descrição de um caso de “jovem” de “classe média”, olhos azuis, fluente
na língua inglesa e estudante de educação física, que afirmou ter aceitado o “negócio” para
conhecer a Europa e “fazer uma grana”. Nosso método de trabalho consiste na leitura de
processos envolvendo “tráfico internacional de drogas” e na interlocução com advogados
que militam nesta área, incluindo a realização de entrevistas gravadas.

Palavras-chave: Tráfico Internacional de Drogas – Antropologia Jurídica – Classe Média


- Jovens

7.“VICIADO É UMA PALAVRA MUITO PESADA PARA UM CHEFE DE FAMÍLIA”: CLASSIFICAÇÕES


NATIVAS SOBRE USOS E USUÁRIOS DE COCAÍNA EM UM BAR NA REGIÃO METROPOLITANA
DO RIO DE JANEIRO

Autor: Victor Cesar Torres de Mello Rangel

Resumo: O presente artigo tem por objetivo discutir discursos e conhecimentos sobre o
uso de cocaína a partir de usuários. A pesquisa empírica foi iniciada em um bar, situado
em um bairro da região norte da cidade de Niterói – RJ, que reúne grande quantidade de
usuários de cocaína e outras drogas. A escolha desse bar justifica-se pelo fato de frequentá-lo
antes da pesquisa e conhecer os donos, funcionários e frequentadores (muitos desses usuários
de drogas), possibilitando boa entrada a esse universo de consumo da substância. Nesse texto,
pretendo analisar como são construídos saberes e práticas sobre o uso de cocaína e como são
classificados os diferentes usuários nesse espaço. Acho importante ressaltar que não pretendo
assumir qualquer postura que leve a uma visão denuncista ou arbitral sobre os procedimentos
adotados pelos usuários. Nem pretendo trazer explicações etiológicas sobre o porquê de
tais atores agirem de uma forma e não de outra. Minha preocupação se resume em tentar
acessar as esferas de sentido dessas pessoas e grupos que conformam o público assíduo do bar
e entender como consideram coerentes e legítimas suas concepções sobre a substância e seu
uso a partir dos diferentes usuários.

Palavras-Chave: Drogas, representações sobre o consumo de cocaína.

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8. A (IN)COMPATIBILIDADE ENTRE A POLÍTICA DE REDUÇÃO DE DANOS E OS TIPOS PENAIS
PREVISTOS NA LEI DE DROGAS

Autor: Jessica Hind Ribeiro Costa

Resumo: O presente artigo abre caminho para a reflexão acerca do problema relacionado
às políticas públicas responsáveis por analisar e tratar o uso e abuso das substâncias psicoativas
ilícitas, mais conhecidas como “drogas”, a partir da perspectiva da redução de danos. Esta
estratégia de tratamento do uso e abuso de substâncias psicoativas tem por finalidade mitigar
os sintomas nocivos da ingestão da droga sem que necessariamente conduza a abstinência da
substância utilizada. Para ter a eficácia que pretende, ela deve ser operada em interações que
promovem o aumento de superfície de contato, criando pontos de referência, viabilizando
o acesso e o acolhimento, multiplicando as possibilidades de enfrentamento ao problema da
dependência no uso do álcool e outras drogas a partir da interação do paciente com a droga da
forma menos danosa possível, diminuindo o risco inerente a determinados usos e contextos
que devem ser evitados. Ocorre que, a política de redução de danos encontra como entrave
os tipos penais previstos na Lei 12.343/06, a qual define como crimes condutas inerentes
ao tratamento, o que conduz o usuário/dependente à uma situação de risco iminente de
confronto com a polícia, tendo em vista que o mesmo assume, concomitantemente, o
papel de paciente e criminoso, na medida em que, por conta do próprio tratamento acaba
incorrendo nas condutas proibidas pela Lei de Drogas.

Palavras-Chave: Uso de drogas; redução de danos; Lei 12.343/06.

9. O CONSUMO DE DROGAS E A SUJEIÇÃO CRIMINAL: REFLEXÕES SOBRE O CONSUMO DE


MACONHA EM DIFERENTES CONTEXTOS SOCIAIS DA CIDADE DO RIO DE JANEIRO.

Autor: Gabriel Borges da Silva; Luana Almeida Martins

Resumo: O objetivo do presente artigo é refletir a ideia de consumo da maconha em


diferentes contextos e espaços urbanos. Neste sentido, pretendemos a partir da construção de
um objeto de pesquisa que coaduna interesses em comum a partir de experiências diferentes
em uma favela na cidade do Rio de Janeiro, em um núcleo da Defensoria Pública do
Estado do Rio de Janeiro e com consumidores de maconha que residem na Zona Sul do
Rio de Janeiro a fim de verificar como se dá o processo de sujeição criminal1 em relação
ao consumo de drogas. Para o desenvolvimento desta proposta de trabalho, utilizaremos
dados iniciais de nossas pesquisas que possuem como objetos individuais refletir a construção
de uma ideia de juventude e sua relação com o consumo de drogas ilícitas, bem como a
regulação disponibilizada pelo Estado para o mercado de drogas ilícitas no espaço urbano.
Apesar de nossas pesquisas ainda estarem em fase inicial, pudemos perceber em nossos
campos, que existem diferentes riscos em relação à construção de uma identidade criminal.
Tal ideia partiu de uma conversa desenvolvida com Juan Pablo2, que fica “na atividade”
em uma favela do subúrbio do Rio de Janeiro. Juan não possuí mais que 18 anos de idade,
porém desde os 16 exerce a função de radinho, também chamado de “menor do rádio”.
Nesta conversa, falávamos a respeito de uma incursão policial que havia ocorrido horas

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antes e que havia cominado na morte de jovens que exerciam funções no tráfico de drogas
ilícitas naquela localidade. A conversa seguiu e Juan ao falar de sua “correria” diária falou
a respeito do que ele realmente gostava na vida: “- Eu gosto mesmo é de fumar maconha!
Gosto muito... Se deixar passo o dia todo aqui só torrando umas plantas...”.Estes dois jovens
que haviam sido mortos em confronto com a polícia naquele dia também exerciam a função
de radinho, assim como outro jovem com idade menor de 18 anos que também fora morto
em confronto com a polícia na semana anterior. Diante deste cenário, pretendemos refletir
a ideia de consumo de maconha nos contextos acima apontados, de modo que seja possível
relativizar alguns desdobramentos que seguem o consumo de maconha em tais contextos.

Palavras Chave: Consumo, Maconha, Sujeição Criminal.

MIRADAS ETNOGRÁFICAS ENTORNO A LAS PRÁCTICAS DE JUSTICIAS EN


LATINOAMERICA. JUSTICIAS PENALES, LOS DERECHOS HUMANOS Y NUEVAS
PRÁCTICAS DE JUSTICIA-GOBIERNO

Ementa: La mesa de trabajo (MT) se propone construir un espacio de reflexión y debate


en torno a los cambios y permanencias existentes en los campos judiciales en los diferentes
países que conforman Latinoamérica, poniendo especial énfasis en las reformas en materia
de justicia penal, los sistemas de justicia juvenil, los medios alternos de justicia, los derechos
humanos; así como el surgimiento de nuevas prácticas de justicias-gobierno. Temas desde
los cuales se busca reflexionar en torno a la relación entre operadores del campo judicial
y los ciudadanos comunes, de manera que se pueda debatir acerca las transformaciones
y persistencias operadas en las vidas, prácticas y discursos de estos actores vinculados. El
objetivo de la MT se concentrará en discutir cambios y/o permanencias en torno a las
tensiones, negociaciones, contradicciones y/o yuxtaposiciones existentes, particularmente
en de la estructura de los campos judiciales, los actores, las lógicas y los procedimientos que
actualmente se están modificando o surgiendo dentro de tales escenarios. Sin lugar a dudas,
la MT verá enriquecido el análisis a partir de etnografías que consideren en todo momento
las particularidades socioculturales de cada realidad estudiada.

Coordenadore(a)s:
Patrice Schuch (UFRGS – Brasil); Irene Juárez Ortiz (CIESAS-DF e FLAD – México) y Juliana
Gonçalves Melo (UFRN/DAN-UnB).

1. VOCÊ NÃO TEM DIREITO DE PERMANECER EM SILÊNCIO: A AUTO-INCRIMINAÇÃO EM


SISTEMAS JURÍDICOS INDÍGENAS DO EQUADOR

Autor: Oswaldo Ruiz-Chiriboga

Abstract: While Ecuador has always been a legally pluralistic country1 where national law
andindigenous legal systems (ILS)2 have co-existed even before independence from Spain, theway

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in which plural legal orders have been accommodated has varied considerably acrosstime.When
the Spanish Crown colonized the Tawantinsuyo (the Inca Empire), it applied asegregationist
model that kept ILS only for local, non-serious cases between the indios, as long as indigenous
law was not contrary to the Spanish religion or laws, and did not affect the colonial economic
and political order—it was a subordinate legal pluralism.3 In 1830 the independent Republic
of Ecuador replaced the segregationist model by an assimilationist one; its objective was to
convert the indios into citizens by lifting their colonial status, but at the same time stripping
them of their cultural values.4 ILS became illegal, and a monist legal order was imposed. Yet,
ILS continued to be practiced in a sort of surreptitious legal pluralism. Subsequently, from the
1920s, an integrationist model came into play; certain collective rights and indigenous cultural
particularities were legally protected, yet the monist legal order was still in force. It was in 1998
when the de facto legal pluralism was constitutionally recognized,5 passing to a formal or de
jure legal pluralism.6 The 2008 Constitution came to expand and improve the recognition
of ILS. Article 1 defines Ecuador as a multicultural and plurinational state, acknowledging the
coexistence in the Republic of several cultures and nationalities. Other provisions (i.e., Articles
3(3), 10, 56- 60, 242) reinforce the intention of the state to protect its cultural and ethnic diversity.
Article 57(9) and (10) recognizes the indigenous peoples’ collective right to maintain and
develop their own forms of social life and organization; the right to exercise authority in their
territories; and the freedom to create, develop, and implement their own laws. Finally, Article
171 provides the following: “The authorities of the indigenous communities and nationalities
exercise judicial functions, based on their ancestral traditions and their own systems of law,
within their territory, with a guarantee of participation and decision making of women. The
authorities shall apply rules and procedures for resolving internal conflicts, and not contrary
to the Constitution and human rights recognized in international instruments. The State shall
ensure that indigenous jurisdiction decisions are respected by public institutions and authorities.
Such decisions will be subject to constitutional review. The law shall establish mechanisms of
coordination and cooperation between indigenous jurisdiction and ordinary jurisdiction”.7
This right of indigenous peoples to use their own systems of law is also recognized directly
by the International Labour Organization Convention No. 169 (“ILO C169”);8 and the UN
Declaration on the Rights of Indigenous People (“UN Declaration”).9 Articles 8 and 9 of ILO
C169 deal with the right of indigenous peoples to preserve their customary law. As is evident
from the wording of these provisions,10 this right is not absolute; its exercise must not be
incompatible with fundamental national and international rights.The predominance of human
rights is also found in the UN Declaration. Although this instrument recognizes that indigenous
peoples have the right to self-determination (Article 3), and the right to “promote, develop
and maintain their institutional structures and their distinctive customs, spirituality, traditions,
procedures, practices and, in the cases where they exist, juridical systems or customs,” it also
stipulates that the indigenous law shall be exercised “in accordance with international human
rights standards” (Article 34). Consequently, both Ecuadorian and international law set as a
limitation of ILS the respect of human rights, but some questions remain: How shall human
rights be interpreted? What role does culture play in the process of interpretation? By what
process may it be determined that a cultural practice is illegitimate? Whatever the ultimate
answers to these questions, Anaya states that “the internal decision-making dynamics that are

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themselves part of a cultural group identity should be the starting point.” He adds that: “In
any assessment of whether a particular cultural practice is prohibited rather than protected, the
cultural group concerned should be accorded a certain deference for its own interpretive and
decisionmaking processes in the application of universal human rights norms, just as states are
accorded such deference. It may be paradoxical to think of universal human rights as having to
accommodate diverse cultural traditions, but that is a paradox embraced by the international
human rights regime by including rights of cultural integrity among the universally applicable
human rights, precisely in an effort to promote common standards of human dignity in a world
in which diverse cultures flourish”. My contribution will follow Anaya’s logic in the assessment
of one specific due process of law right: the right to remain silent, which is protected by
Ecuador’s Constitution and by several international treaties Ecuador has ratified.The Ecuadorian
Constitution provides that at the moment of detention each individual has the right to be
informed by the officer(s) conducting the arrest of his or her right to remain silent (Art. 77(4)).
Additionally, the defence’s rights include the right to remain silent and the right not to be
forced to declare against oneself regarding any matter that could entail criminal prosecution
(Art. 77(7)(b) and (c)). As to the international treaties that deal with self-incrimination, Article
8(2)(g) of the American Convention on Human Rights (ACHR)13 provides that every person
accused of a criminal offense has the right “not to be compelled to be a witness against himself
or to plead guilty”, while Article 8(3) ACHR states that “[a] confession of guilt by the accused
shall be valid only if it is made without coercion of any kind.” The International Covenant on
Civil and Political Rights14 goes in the same direction by recognizing in its Article 14(3)(g)
the right of everyone accused with a criminal charge “[n]ot to be compelled to testify against
himself or to confess guilt”.The Inter-American Convention to Prevent and Punish Torture15
reinforces this right by stating in Article 10 that “[n]o statement that is verified as having been
obtained through torture shall be admissible as evidence in a legal proceeding […]”. Article 15
of the UN Convention against Torture and Other Cruel, Inhuman or Degrading Treatment or
Punishment contains a similar proscription.

Keywords: Legal Pluralism, Ecuador, Criminal Justice, Fair Trial, Due Process, Selfincrimination

2. DISCIPLINAR E EMANCIPAR: PERSPECTIVAS SOBRE AS MEDIDAS SOCIOEDUCATIVAS EM


MEIO ABERTO NO DISTRITO FEDERAL

Autor: Juliana França Varella

Resumo: O presente artigo analisa as diferentes perspectivas acerca das chamadas medidas
socioeducativas em meio aberto – que, no Distrito Federal, são executadas em unidades
específicas para esse tipo de medida – a partir de discursos de profissionais do sistema
socioeducativo, responsáveis legais de adolescentes autores de atos infracionais e de um
ex-socioeducando, A implementação do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA -
Lei no 8.069/1990), no Brasil, pôs o adolescente na condição de “sujeito de direitos” e
o serviço de proteção social destinado aos adolescentes em cumprimento de medidas em
meio aberto preconizou o desenvolvimento de sua autonomia. Entretanto, evidencia-se que
existem diferentes entendimentos acerca do que devem ser as práticas de administração de

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adolescentes autores de atos infracionais. Se, por um lado, a maior parte dos profissionais
do sistema socioeducativo que entrevistei sustentam posições emancipatórias dos sujeitos,
por outro, responsáveis legais dos adolescentes e mesmo um ex-socioeducando acreditam
que as vias repressoras e disciplinadoras deveriam ser usadas, o que desemboca em discursos
tutelares. O trabalho desenvolvido permitiu identificar categorias que orientam a prática dos
profissionais em questão bem como as experiências dos atores envolvidos com o sistema
socioeducativo no DF. A pesquisa ponderou ainda que esses entendimentos diversos levam a
conflitos de expectativas entre os atores entrevistados, o que abre possibilidades de reflexão
acerca dos movimentos recentes de resistência à perspectiva emancipatória.

Palavras-chave: adolescentes autores de atos infracionais; disciplinamento; emancipação;


tutela; sujeito de direitos.

3. JUSTIÇA, CRIMINALIDADE E PUNIÇÃO A PARTIR DE RELATOS DE MULHERES NA PRISÃO

Autor: Juliana G. Melo

Resumo: Segundo dados do DEPEN (2013) houve um aumento expressivo das taxas
de encarceramento feminino no Brasil. Se estamos diante do fortalecimento do Estado
Penal, a realidade também é desafiadora. Afinal, a relação entre mulheres e criminalidade
é um tema ainda de pouca visibilidade acadêmica e costuma ser compreendida de forma
reducionista. O debate é marcado por um conteúdo sexista, no qual as mulheres seriam
“menos tendentes” às atividades criminais. Apesar de estudos etnográficos demonstrarem
como essa visão é simplista, ainda há a prevalência dessa visão, na qual as mulheres criminosas
são vistas como uma espécie de anomalia. A proposta é justamente refletir sobre esse quadro,
focando especificamente os sentidos de justiça, criminalidade e punição a partir de narrativas
de mulheres na prisão. Além de referenciais bibliográficos, fundamento-me em trabalho
etnográfico no Presídio Feminino do Distrito Federal, onde, por meio de encontros e de
entrevistas, trago à tona suas vozes e trajetórias de vida. A pesquisa trata de tema atual, de
relevância social e convida à reflexão sobre o ofício de pesquisa nesses contextos.

4. DIREITOS HUMANOS E AS PESSOAS EM SITUAÇÃO DE RUA NO BRASIL: DISCUTINDO A


LEGIBILIDADE

Autor: Patrice Schuch

Resumo: Através desse acompanhamento etnográfico da produção de políticas para pessoas


em situação de rua no Brasil, é possível perceber um esforço, tanto do movimento social,
quanto de organismos jurídicos e órgãos ligados ao Estado, em tornar a chamada “população
em situação de rua” legível ao Estado. Tal esforço implica a celebração de técnicas importantes
de produção da legibilidade – como, por exemplo, as pesquisas censitárias, as definições
conceituais expressas em novas normativas legais e os manuais e cartilhas para a devida
consideração desse grupo social como uma população oficialmente inscrita no universo da
garantia dos direitos humanos no Brasil. Entretanto, tais práticas de produção de legibilidade

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não podem ser consideradas como esforços constituídos apenas pelo Estado; tais técnicas
de governo são coproduzidas a partir de composições heterogêneas e tensas entre Estado,
movimento social, organizações jurídicas e não governamentais e narrativas transnacionais
mais amplas dos direitos humanos, num entrelaçamento dinâmico de lutas e leis, processos de
subjetivação e moralidades, modos concomitantes de gestão e inscrição política. Focalizando
os processos de coprodução da legibilidade, meu objetivo é demonstrar que as práticas de
legibilidade fazem mais do que possibilitar o governo; elas são também vias relevantes de
produção de sujeitos e, sobretudo, são oportunidades onde novas lutas e inscrições políticas
são possíveis.

5. “PORQUE ATÉ PRA SER ERRADO TEM QUE SER CERTO”: REFLEXÕES SOBRE A MORAL
DO CRIME

Autor: Sophia de Lucena Prado

Resumo: O trabalho proposto é resultado de uma pesquisa etnográfica, ainda em curso,


realizada em uma unidade de internação para adolescentes em conflito com a lei, no Distrito
Federal, e compreende parte da minha dissertação de mestrado em antropologia social. A partir
dela, pretendo refletir sobre noções de moralidade desenvolvidas por indivíduos que carregam
um estigma (GOFFMAN, 1993) que contraria a própria moral legítima dominante. Como
afirma Misse (1999), diante de uma realidade em que a transgressão é percebida como um
atributo do individuo transgressor, surge uma espécie de subcultura de sujeição criminal que
passa a ser incorporada pelo próprio indivíduo que se encontra nessa condição. Dessa forma,
o sujeito reconhece essa classificação social excludente e, de certa forma, a assume, porque é o
que sabe que representa para esse ente externo a ele: a sociedade. Por outro lado, o fato de ter
que lidar com essa condição parece exigir desse sujeito uma necessidade de racionalizar seus
atos para criar uma ideologia autojustificadora (BECKER, 1977) que os neutralize. Com isso,
eles passam a desenvolver um senso de moralidade que não os condene mas, ao contrário, os
aceitem, os reconheçam e, além disso, os concedam honra e prestígio. Nesse contexto, surge
a chamada “lei do crime”, que envolve não só noções particulares de moralidade, mas que
define, também, processos alternativos de administração e resolução de conflitos. O fato é que,
além da consciência de que a lei não se aplica da mesma forma a todos os sujeitos, o único elo
que muitos desses indivíduos tiveram com o Estado se deu através de suas agências formais de
controle, principalmente pela polícia, conhecida por atuar de forma opressora e truculenta,
sobretudo em comunidades vulneráveis. Assim, diante desse sentimento de não pertencimento
ao Estado, fortalece-se aquela normatividade alternativa que insere esses indivíduos em uma
situação de liminaridade (TURNER, 1974) gerando, entre eles, posicionamentos de aparente
ambiguidade posto que, por exemplo, ainda que tenham consciência da ilegalidade de seus
atos, declaram ausência de culpa em relação a estes ou, ainda que se proponham a romper com
certas noções de normalidade, de alguma maneira, o que estão tentando é incluir-se nelas.
Estão são questões, dentre outras, que pretendo aprofundar no decorrer do trabalho.

Palavras-chave: Adolescentes em conflito com a lei; Sujeição criminal; Moralidades.

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6. CONTEXTOS DE JUSTIÇA E LUTAS POR RECONHECIMENTO POLÍTICO: UMA
ABORDAGEM ANTROPOLÓGICA SOBRE A RELAÇÃO ENTRE DIREITO, MORAL E AGÊNCIA
COLETIVA

Autor: Andressa Lidicy Morais Lima

Resumo: Esta comunicação coloca em discussão a compreensão dos sentidos compartilhados


de justiça em contextos de interação entre os novos movimentos sociais e como estes têm
articulado suas demandas com base em regras legais - ao acionarem fortes mecanismos do
campo do direito para dar sentido normativo ao seu caso particular. De modo geral, a
partir da interface teórica entre Antropologia do Direito e da Moral e a Teoria Crítica,
procuro examinar como as práticas de intervenção e ação coletiva tem se apresentado na
contemporaneidade e em que medida elas podem nos dizer algo sobre os tipos de “gramática
moral” que alimentam as lutas dos “novos” movimentos sociais. Estes sujeitos parecem
encontrar no direito decodificado na forma de direito escrito, gravados na lei, regras
legais que podem dar legitimidade as suas demandas e ao acionarem a justiça, parecem
buscar a efetivação dessas leis. O mecanismo de acesso não é exatamente o mesmo para
todos os movimentos, por isso esta comunicação visa dar relevo a essa nuance e propor
o aprofundamento com a observação destes múltiplos contextos, a partir das experiências
profissionais como antropóloga atuando em contextos de violações de direitos humanos
no Rio Grande do Norte através do Centro de Referência em Direitos Humanos (CRDH)
e do Núcleo de Estudos Críticos em Subjetividades Contemporâneas e Direitos Humanos
(NUECS-DH/UFRN).

Palavras-chave: Antropologia; Lutas por Reconhecimento; Novos Movimentos Sociais;


Sentidos de Justiça.

7. ATO INFRACIONAL: UMA VIDA EM TRÊS ATOS

Autor: Vinicius Mauat da Silva

Resumo: O presente trabalho apresenta as análises e resultados iniciais da pesquisa “Impacto


na Mortalidade nos adolescentes privados de liberdade entre 2002 a 2012”, cujo objetivo é,
através de um estudo de desenho misto, dimensionar o impacto de variáveis como tempo
de internação, etnia e sexo na mortalidade de adolescentes selecionados pelo sistema penal
juvenil e privados de liberdade nas unidades de Porto Alegre da FASE-RS entre os anos 2002
a 2012. Pretende-se desenvolver o artigo em três etapas: Quem são (etnia, idade, sexo);
ato infracional cometido (e tempo de internação) e classificação do óbito. A base de dados
é composta por 8.365 adolescentes, e para verificar a ocorrência de óbito, esta seleção foi
comparada com o banco de dados do Sistema de Verificação de Óbitos da Secretaria Estadual
de Saúde do RS/Brasil. As análises foram feitas através do programa Statistical Package for
Social Sciences (versão 21.0).

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8. “ANTES DE LOS DERECHOS HUMANOS EXISTÍA EL JUICIO DE AMPARO”. UNA MIRADA
ETNOGRÁFICA SOBRE LOS DERECHOS HUMANOS EN LA COTIDIANIDAD DE LA SUPREMA
CORTE DE JUSTICIA DE LA NACIÓN.

Autor: Erika Bárcena Arévalo

Resumo: Hasta antes de 2011 los derechos humanos no existían como tal en el sistema
jurídico mexicano pues no fue sino hasta ese año que el primer capítulo de la Constitución
Federal cambió su denominación a “De los derechos humanos y sus garantías”, y en la nueva
redacción del artículo primero los introdujo vinculados de tal forma al derecho internacional
que parece marcar el fin del paradigma dominante de la supremacía constitucional.
Sin embargo, sabemos que una reforma constitucional no tiene la fuerza suficiente
como para cambiar de tajo “una forma de hacer las cosas” que se ha venido construyendo
durante décadas, y esta situación ha llevado a muchos analistas a hablar de una Corte que pese
a la reforma aludida continúa manteniendo a la Constitución Federal por encima de todo
(incluidos desde luego los tratados internacionales).
Pero saliendo del campo del derecho o de la ciencia política, desde donde usualmente
se llega a la conclusión referida, con base en el trabajo de campo que realicé en la Suprema
Corte de Justicia de la Nación en México en esta ponencia me pregunto por lo que son los
derechos humanos en este espacio, y en particular frente a una técnica jurídica dominante,
naturalizada y que es al menos uno de los pilares que sostiene al paradigma de la supremacía
constitucional según mi observación etnográfica: la del juicio de amparo.
Así, en esta ponencia desarrollaré cuáles son las prácticas, relaciones y dinámicas que la
técnica de amparo genera en la Suprema Corte mexicana, y cómo se introducen los derechos
humanos en este contexto.

Palabras clave: Derechos Humanos, burocracia judicial, técnica de amparo, relaciones de


poder.

9. LAS GRAMÁTICAS DEL PODER. LA IMPLEMENTACIÓN DEL NUEVO SISTEMA PENAL


ACUSATORIO Y LA REDEFINICIÓN DE SUS SIGNIFICADOS. EL CASO DE QUERÉTARO.

Autores: Adriana Terven Salinas; Alejandro Vázquez Estrada

Resumo: La ponencia plantea la necesidad de estudiar el campo jurídico institucional,


como un sistema estatal sujeto de transformaciones que provienen de acciones nacionales,
pero también de presiones por parte de otros Estados o de agencias internacionales que
imponen cambios en el derecho local. Hoy en día, México está pasando por un proceso de
reforma penal, el cual supone un cambio radical, ya que implica el paso del modelo mixto
al acusatorio adversarial, lo cual afecta profundamente al conjunto de leyes, instituciones,
autoridades y funcionarios.
La presente ponencia se interesa por analizar las bases culturales de dos tradiciones ju-
rídicas, la del derecho civil romano y el derecho anglosajón, en esta dirección, consideramos
que el derecho de un pueblo ha construido históricamente los roles que deben ser asumidos
por una autoridad así como por las partes frente a un delito, lo cual se expresa mediante un

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sistema simbólico que le da forma material y discursiva. Si partimos de considerar que el paso
de un proceso penal a otro difícilmente podría transformar ipso facto los significados que a
lo largo del tiempo han mantenido estos roles –de poder-, de aquí el interés por indagar las
formas en cómo se expresan localmente diferentes sistemas de significados provenientes de
dos tradiciones distintas de derecho occidental.

Palavras-chave: Reforma penal, significados de poder y campo jurídico.

10. LA EXPERIENCIA DE LA MEDIACIÓN Y CONCILIACIÓN EN QUERÉTARO, MÉXICO, ANTE


LAS NUEVAS REFORMAS CONSTITUCIONALES Y EL NUEVO ESCENARIO SOCIAL.

Autor: Gracia Cristina Lagunas Cerda

Resumo: La oleada de reformas en México que desde 2008 elevó los Medios Alternos
de Resolución de Conflictos (MARC) a rango constitucional contenidos en el artículo 17
permite que todos los Poderes Judiciales de los Estados y las Procuradurías Generales de
Justicia regulen sobre ellos. Esto ha ocasionado una lenta pero progresiva burocratización
de los MARC que pone en riesgo su naturaleza y su efectividad. Es el caso de la Mediación
y Conciliación que, en el marco de los procesos de reforma constitucional, enfrentan
numerosos desafíos ante la emergencia de nuevas transformaciones sociales que son fuente de
numerosos conflictos: disputas ciudadanas y comunitarias, confrontaciones entre particulares,
crisis estructurales de la familia. El aumento y la diversidad de situaciones exige un abordaje
interdisciplinario que incluya a juristas y científicos sociales (antropólogos, sociólogos,
psicólogos, pedagogos…) a fin de otorgar una mejor respuesta a la ciudadanía que supere
los discursos paliativos judicializados, una respuesta contextualizada que no ponga en riesgo
la legitimidad y el reconocimiento de las y los actores que demandan espacios alternativos
de acceso a la justicia. Es en este escenario donde el análisis integral del conflicto desde
la Antropología del derecho se vuelve pertinente. El propósito de la ponencia es,
a partir del estudio de casos y del trabajo etnográfico, contribuir a la reflexión sobre la
actual efectividad y transcendencia de los Medios Alternativos de Resolución de Conflictos.
El análisis partirá de la experiencia personal como mediadora en sede judicial del Estado
de Querétaro, México, que fue la primera ciudad en establecer un Centro de Mediación
(1999), hoy conocido como Centro de Justicia Alternativa.

Palabras clave:Justicia alternativa, burocracia judicial, conflicto social, mediación, conciliación.

11. LA CONSTRUCCIÓN DE LA“VERDAD HISTÓRICA”EN LAS PRÁCTICAS INSTITUCIONALES:


EL CASO AYOTZINAPA

Autores: Rosario González Arias, Salvador Tapia García

Resumo: En el trabajo nos proponemos desarrollar una reflexión en torno a los trágicos
acontecimientos ocurridos en Ayotzinapa, Estado de Guerrero (México) los días 26 y 27 de
septiembre de 2014 que tuvieron lugar al ser reprimida una protesta estudiantil pacífica, en

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los que seis personas fueron asesinadas, varias resultaron heridas de gravedad y 43 estudiantes
continúan a la fecha desaparecidos. Los hechos han generado un alto impacto social, político
y mediático incluso en ámbitos internacionales, no sólo por su gravedad sino por aparecer
como probables responsables diferentes autoridades públicas de distintos niveles de gobierno
que participaron o colaboraron en la represión. En nuestro análisis planteamos que estos
sucesos son un ejemplo de (re)construcción de la denominada “verdad histórica” por parte
de las instituciones mexicanas, principalmente la Procuraduría General de la República, de
una forma tan deficiente y poco objetiva que permitiría considerarla una “verdad de papel”,
al estar registrada en un expediente público pero no contar con la suficiente credibilidad a
nivel social. Así mismo argumentamos que este tipo de respuesta institucional, deficiente
y burocratizada, constituye una muestra de la “banalización del mal” que por tanto puede
ser entendida como un “insulto moral” para los padres y las madres de los estudiantes
desaparecidos, al sentirse ignorados y burlados, no escuchados ni reconocidos, en sus legítimas
demandas de búsqueda de la verdad. El alto grado de insatisfacción en la reparación moral de
los familiares de las víctimas ante los vacios e inconsistencias en la investigación del caso, los
ha convertido, sin pretenderlo, en activistas políticos por la defensa de los derechos humanos,
organizándose y participando de forma autogestiva en la averiguación de lo sucedido con
sus hijos. Desde nuestro análisis, este afán de trasladar al espacio público la denuncia por el
reclamo de justicia representa una forma de resistencia frente a la pretensión institucional
de silenciarlos e invisibilizarlos y puede ser interpretado como un modo de tomar la palabra
para ocupar un espacio social.
En apoyo de nuestra propuesta recurriremos a algunas de los planteamientos teóricos
formulados, entre otras/os, por Michel Foucault (La verdad y las formas jurídicas, 1978), Luis
Roberto Cardoso de Oliveira (Derechos, insulto y ciudadanía ¿Existe violencia sin agresión
moral?, 2009), Elena Azaola y Miquel Ángel Ruiz Torres (Investigadores de papel. Poder y
derechos humanos entre la Policía Judicial de la Ciudad de México, s/d), Sofía Tiscornia y
María José Sarrabayrouse (Sobre la banalidad del mal, la violencia vernácula y las reconstruc-
ciones de la historia, 2004) María Victoria Pita (Violencia policial y demandas de Justicia:
acerca de las formas de intervención de los familiares de víctimas en el espacio público, 2004)
y Richard Rorty (Derechos humanos racionalidad y sentimentalismo, 1993). Así mismo ilus-
traremos nuestro análisis mostrando los distintos discursos en conflicto que hemos podido
identificar en torno a la investigación y tramitación del caso (por parte de la Procuraduría,
los familiares y los informes de grupos de expertos) y que nos permiten etnografiar distintos
repertorios interpretativos en tensión sobre los tres temas de nuestro trabajo (la verdad his-
tórica, el insulto moral y la participación política). En última instancia buscamos abrir una
reflexión crítica sobre lo que consideramos puede ser una crisis de legitimidad del poder ins-
titucional, que nos sitúa ante el reto de hacer efectivos los derechos humanos y la ciudadanía
en sociedades que aspiran a ser democráticas.

Palabras clave: verdad histórica, insulto moral, derechos humanos, activismo político,
ciudadanía.

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12. MEXICANOS EN EXILIO: NARRATIVAS DEL INSULTO MORAL Y CONFIGURACIÓN DE
RESPUESTAS DESDE LA ORGANIZACIÓN POLÍTICA.

Autor: May-EK Querales Mendonza

Resumen: En este ponencia busco compartir algunas reflexiones respecto al trabajo


etnográfico colaborativo elaborado entre junio de 2014 y mayo de 2015 con un grupo de
200 mexicanos solicitantes de asilo en Estados Unidos, congregados como Mexicanos en Exilio;
una organización no gubernamental conformada con la intención política de contribuir desde
el extranjero a la denuncia de la violencia reciente que azota a miles de familias en México.
Como solicitantes de asilo político sus testimonios entretejen recorridos a través de múltiples
esferas jurídicas: por un lado, su testimonio se despliega dentro de los procesos migratorios
para la evaluación de sus peticiones y la obtención de un estatus de protección fuera de su
país; por otro lado, estas personas se caracterizan por haber realizado una denuncia judicial de
la violencia que los victimó en México distendiendo a un ámbito trasnacional su exigencia de
justicia. En estas circunstancias emergen posibilidades analíticas excepcionales: hay un resquicio
para rastrear, desde un espacio de resguardo, la constitución del insulto moral en procesos de
violencia que implican homicidios, extorsión y desaparición forzada e involuntaria. Al mismo
tiempo, en sus testimonios, es posible observar cómo la relación intersubjetiva que llega a
establecerse en los trámites que sostienen el proceso judicial ha promovido rutas e intersticios
desde los cuales las personas intentan construir una respuesta al insulto moral.

Palabras clave: etnografía de la violencia, insulto moral, intersubjetividad.

13. LA ESCENIFICACIÓN DEL CAMBIO: INTERVENCIONES DE UNA SECRETARÍA TUTELAR


DE UN JUZGADO PENAL DE MENORES, EN LA CIUDAD DE BUENOS AIRES.

Autor: Florencia Graziano

Resumo: A partir de mi etnografía sobre las formas de trabajo y las intervenciones de una
secretaría tutelar de un juzgado penal de menores, en la ciudad de Buenos Ares, en esta
ponencia me centro en lo que identifiqué como la segunda etapa del proceso de trabajo propio
de esa secretaría: el tratamiento. Identifico cuál es la serie de indicadores que a las profesionales
que allí trabajan les permite interpretar que existe en los jóvenes la voluntad de cambiar sus
comportamientos. Busco mostrar, etnográficamente, la importancia que adquiere, en esta
etapa, la demostración del cambio que los jóvenes y sus familias puedan expresar y no tanto,
o no sólo, la búsqueda o expectativa de alcanzar o probar un cambio “real”. Mi objetivo es
deconstruir ciertas imágenes cristalizadas sobre las formas de intervenir de estas profesionales,
buscando, específicamente, entender los sentidos atribuidos a las nociones de “resocialización”
y “transformación” de los jóvenes que pasan por la “justicia de menores”, enunciados como
objetivos manifiestos de esa “justicia”. Busco evidenciar y analizar qué significan esas nociones,
entendidas como categorías nativas, en la práctica, proponiendo un entendimiento distinto de
estos procesos que, al menos en el contexto investigado, están vinculados a sentidos locales que
registran modos particulares de control social y de formación de subjetividades.

Palabras claves: Administración Judicial, Justicia De Menores, Secretaría Tutelar, Tratamiento

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14. ANTROPOLOGÍA DE LOS DERECHOS HUMANOS PARA EL LITIGIO ESTRATÉGICO

Autor: Guillermo Luévano Bustamante

Resumo: Ciertas comprensiones críticas de los derechos humanos, desde los estudios
decoloniales y de la liberación, cuestionan el énfasis que puso la tradición liberal positivista
en aquella categoría. La antropología constituye una disciplina valiosa para replantear la
concepción puramente formalista-legalista de los derechos humanos. El cuestionamiento
sobre la pretendida universalidad de las nociones asociadas a la justicia, a los derechos
fundamentales de los pueblos, se fortalece desde la interdisciplinariedad y aporta elementos
para una comprensión más compleja. De este modo, la antropología jurídica urbana enriquece
las discusiones actuales sobre el fundamento y defensa de los derechos humanos.
El litigio estratégico es un mecanismo de postulación de casos relevantes que recurre a
una instrumentación interdisciplinaria, a diversos medios para no solo orientar el juicio a favor
de un cliente particular, sino que busca sentar precedentes que contribuyan a paliar las omisio-
nes legales o incluso a modificar las normas jurídicas, y más aún, a orientar políticas de atención
específica al campo en el que se dirime la controversia, o la vulneración de un derecho.

Palavras-chave: Antropología jurídica, Derechos humanos, Litigio estratégico

15. “REFORMAS Y PARADOJAS. ANÁLISIS DE LA DIMENSIÓN SIMBÓLICA DEL PROCESO


JUDICIAL PARA ADOLESCENTES EN MÉXICO”.

Autor: Guadalupe Irene Juárez Ortiz

Resumo: En México, a partir de la reforma de 2005 al artículo 18 constitucional, se ha venido


operando lo que los especialistas denominan como la “reforma titánica” en lo que refiere
a la justicia para adolescentes; misma que plantea la sustitución del paradigma tutelar por el
garantista, y del modelo de justicia mixto por el acusatorio-oral. A partir de lo anterior, se dice
que el Estado mexicano ha establecido una nueva relación con los adolescentes trasgresores de
la ley penal, en la cual se destaca que éstos dejaron de ser considerados objetos, para tornarse
actualmente sujetos de derecho y gozar de todas las garantías procesales. Sin embargo, poco
se sabe acerca de la manera como todo esto se ha llevado a la práctica, toda vez que hasta el
momento las únicas investigaciones existentes son aquellas realizadas desde la óptica del Derecho.
En este contexto, la ponencia tiene como objetivo plantear una aproximación etnográfica al
análisis de la dimensión simbólica del proceso judicial para adolescentes, con la finalidad de
analizar de qué manera estos jóvenes están experimentando la “nueva” relación con el Estado,
a través de la manera en que viven sus procesos judiciales. La ponencia estará basada en datos
recogidos durante el trabajo de campo realizado en los Juzgados de Justicia Especializada en
Adolescentes pertenecientes al Tribunal Superior de Justicia del estado de Querétaro (México);
el cual fuera realizado en el periodo comprendido entre mayo de 2012 y junio de 2013.Los
casos a los que daré mayor preferencia serán casos de homicidio y violación, en los se vieran
involucrados personas mayores de 14 y menores de 18 años de edad.

Palabras clave: Reforma judicial, dimensión simbólica, antropología del derecho, proceso
judicial, justicia para adolescentes.

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16. CUANDO EL ORO DE LOS CERROS LLORA LLORA PARA TODOS. INTERACCIÓN DE
ESPACIOS SOCIO-JURÍDICOS EN LA MINERÍA ARTESANAL DE LLACUABAMBA

Autores: Javier Echevarría Mejía y Kenneth Garcés Trelles

Resumo: La minería artesanal informal o ilegal en Perú, ha sido objeto de diagnóstico en el


Perú durante muchos años, con el objeto de restringirla, pero pocas veces se ha hurgado en sus
causas, pues se asume que se trata, solamente, de una manera de ganar más dinero. Por ejemplo,
desde una óptica estrictamente tributaria estatal, se trata de una manera de evadir impuestos,
sin embargo algunas empresas mineras, cuyas concesiones sufren la acción de la minería
informal, habrían detectado que el problema es mucho más complejo y, en consecuencia,
han esbozado fórmulas para afrontarlo. Nacen entonces los convenios para la formalización
de la minería artesanal, entre empresa y comunidad, para poder garantizar la paz social y la
extracción del recurso. A todo ello se suma, que la legislación peruana estatal legitima que
la Policía Nacional[1] “alquile” sus horas libres (bancos, empresas etc.). Las empresas, sobre
todo del rubro extractivo (resguardo de campamentos de mineras, petroleras, hidroeléctricas
etc.) ven la oportunidad de contratar los servicios de la Policía Nacional (específicamente
los DINOES)[2]. A los ojos del Estado, estos policías “alquilados” se encuentran fuera de
servicio, pese a que utilizan el uniforme oficial así como sus armas reglamentarias que les
proporciona el propio Estado, lo cual no impide que ante la comisión de hechos delictuosos
que ameriten la presencia de la Fiscalía, los DINOES actúen en coordinación estrecha con
ella, como si estuvieran en días de servicio. Dicha situación implica que gran parte de la
población local perciba a los policías (DINOES) como la vigilancia particular de la empresa.
La formalización legal estatal de los mineros artesanos, como consecuencia natural de la
aplicación de los convenios para la minería artesanal (alianza entre empresa y población), no
es ajena a la influencia de la convergencia de tres espacios socio-jurídicos diferenciados, desde
una perspectiva de nuevo pluralismo jurídico, que poseen dinámica propias: la comunidad,
la empresa y el Estado. El primero, la comunidad, inserta en sus instancias de organización
normas estatales y normas comunales, cuya materialización se aprecia en un cuaderno de
actas que contiene lo acordado en Asamblea Comunal. Estos acuerdos se plasman luego
en reglamentos internos, redactados por un abogado contratado por la misma comunidad.
Sin embargo la aparente rigidez de la escritura en los acuerdos, pasa a ser revisada según
se visualizan aspectos de orden de parentesco o consanguineidad, atendiendo a que en la
comunidad casi todos resultan ser familiares unos de otros. En este espacio socio-jurídico
no están ausentes las normas no escritas, y la vigencia de creencias propias de la cosmovisión
local. El segundo, la empresa, con instancias propias de administración, en un esquema
de normas de seguridad para salvaguardar la producción del mineral y de las instalaciones
de la mina, contando siempre con un cuerpo de personal especializado (área de seguridad
patrimonial) llamado a hacer cumplir las normas, a todo aquel que ingrese al espacio del
campamento. Por último, el tercero, el Estado, cuyo accionar se ve lejano a través de la
televisión, pero no se siente cercano ni real, salvo en su actuar represivo (Fiscalía, DINOES),
y ciertamente muy débil en la representación local estatal (gobiernos municipales). Esta
interacción de espacios socio-jurídicos matizados, se convierte en una oportunidad de ubicar
los elementos relevantes de cada uno de ellos, para luego buscar entender su racionalidad, y

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poder finalmente tender espacios de comunicación, donde las ausencias y asimetrías propias
de cada una en su relacionamiento con el otro, sean superadas por proactivas estrategias de
discriminación inversa o positiva.

Palabras clave: Minería Artesanal Informal. Espacios Socio-Jurídicos. Pluralismo Jurídico.


Comunidad Campesina. Empresa Minera. Convenio de Formalización. Estado Ausente.
Función Pública.

VIOLÊNCIA URBANA E ADMINISTRAÇÃO DE CONFLITOS PELAS AGÊNCIAS


SÓCIO-PENAIS NA AMÉRICA LATINA: PARA ALÉM DOS PROCESSOS
INSTITUCIONAIS LEGÍTIMOS/LEGITIMADOS
Ementa: A proposta de mesa convida a refletir e debater sobre problemas e questões
sociais advindas com o fenômeno difuso da violência urbana, administração de conflitos
e as dinâmicas institucionais, formais e informais, das agências sócio-penais, de segurança e
justiça na América Latina, com ênfase especial para as formas de legitimidade e ilegitimidade
colocadas em prática por seus funcionários e/ou usuários. Neste sentido, para além das
particularidades que caracterizam as instituições de segurança, justiça e controle social,
encarregadas de “fazer cumprir a lei” e ordem, interessa discutir como estas compartilham
modos burocráticos de funcionamento, culturas institucionais, relações de poder e rotinas de
trabalho, para além do explícito no ordenamento jurídico. Com isto, busca-se problematizar
também o engendramento e a configuração de diferentes tipos de atores na trama estatal e
fora desta, dentre outros aspectos que caracterizam e expressam um sentido de pertencimento
(ou não) ao Estado. Convidamos, portanto, a apresentar trabalhos nesta Mesa propostas
centradas, principalmente, nas agências sócio-penais (polícia, cárceres, tribunais etc.) e fora
destas (como a atuação de grupos criminosos e/ou gangues no sistema prisional, mercados
ilegais etc.), propiciando reflexões sobre as dinâmicas institucionais dentro e fora do aparato
estatal, processos alternativos de resolução de conflitos, dentre outras questões, tanto em suas
dimensões sociais quanto históricas, a partir de pesquisas empíricas, sobretudo de caráter
etnográfico, no campo da antropologia jurídica, antropologia do direito, sociologia jurídica,
criminologia etc., desenvolvidas nos contextos urbanos latino-americanos.

Coordenadores:
Analía Soria Batista (SOL/UnB), Bárbara Gomes Lupetti (FD/UFF e INCT-InEAC) e Welliton
Caixeta Maciel (FD/UnB e FLAD – Brasil)

1. MEDIDAS PROTETIVAS DE URGÊNCIA: LEGITIMIDADE E BUROCRATIZAÇÃO

Autores: Carmen Hein Campos; Elaine Bello Bonarino

Resumo: A violência contra mulheres faz parte da agenda feminista desde a década de setenta,
quando grupos feministas denunciaram os homicídios de mulheres em defesa da suposta honra

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masculina. Nos anos noventa, propostas de lei foram apresentadas visando a criminalização
da violência doméstica. Em 2006, foi aprovada a Lei Maria da Penha (Lei 11.340/2006)
de proteção integral para coibir a violência doméstica e familiar contra a mulher. Desde
sua edição, os registros policiais de violência doméstica aumentaram significativamente,
permitindo constatar a magnitude da violência de gênero no Brasil. As medidas protetivas
de urgência previstas na lei que são solicitadas em sede policial e decididas em foro judicial,
abarrotam o poder judiciário em todo o país. O excesso de medidas transformou a atividade
policial e redefiniu o papel dos juizados especializados. Desde uma perspectiva criminologico-
-feminista, este artigo analisa criticamente as principais medidas protetivas solicitadas e
concedidas pela vara de violência doméstica do município de Vila Velha/ES, revelando que
a legitimidade da medida é enfraquecida pela sua burocratização. Assim, a legitimidade do
conflito levado ao sistema de justiça é reduzido às burocratas atividades das rotinas policiais
de requerer e judiciais de conceder (ou não) as medidas protetivas.

Palavras-chaves: Lei Maria da Penha; medidas protetivas; legitimidade; burocratização.

2. A VIOLÊNCIA CONJUGAL VERSUS A VIOLÊNCIA INSTITUCIONALIZADA: UMA ANÁLISE


DA DELEGACIA ESPECIALIZADA EM ATENDIMENTO ÀS MULHERES NO MUNICÍPIO DE
LINHARES/ES

Autores: Cleimara Ferreira de Souza e Carmen Hein de Campos

Resumo: A violência contra a mulher é uma preocupação feminista desde a década de


setenta. Tal fenômeno vem se constituindo ao longo da história como um fenômeno
polissêmico, e se estabelecendo como objeto impactante na vida e nas relações sociais. Este
artigo apresenta um relato parcial da pesquisa de mestrado Programa de Pós-Graduação
Stricto Sensu Mestrado Profissional em Segurança Pública, que objetivou investigar o
perfil dos envolvidos em situação de violência conjugal numa Delegacia Especializada de
Atendimento à Mulher – DEAM, no município de Linhares/ES, através da análise de 207
Inquéritos Policias registrados no ano de 2013 relativos a violência conjugal. Os dados
foram organizados em três categorias: em relação à ocorrência (dia, mês, quem registrou,
tipo de demanda, dentre outros); em relação aos envolvidos (idade, ocupação, escolaridade,
endereço, dentre outros); e em relação a caracterização da violência (reincidência, motivo,
tipo de violência, dentre outros). Foi possível analisar também, a situação da política pública
desenvolvida por essa Delegacia, e as precariedades deste serviço vivenciadas pelos envolvidos
na situação de violência conjugal na utilização do serviço. A DEAM/Linhares não atende
às determinações especificadas na Norma Técnica de Padronização das DEAMs em relação
ao quadro de funcionários, em relação ao horário de funcionamento, à estrutura física, à
formação e capacitação dos funcionários, ao sigilo proposto e defendido pela Lei Maria da
Penha para os atendimentos ocorridos nesse serviço, a falta de serviço psicossocial. Ou seja,
o que se encontra são várias formas de violação dos direitos das mulheres envolvidas em
situação de violência. O atendimento precário, a falta de recursos de todas as ordens, a falta
de formação e capacitação do pouco quantitativo de profissionais, a mudança cultural sobre
o lugar da mulher na sociedade que anda a passos curtos, a história ainda vigente sobre os

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aspectos culturais do patriarcado e do machismo, dentre outros fatores, contribuem para uma
não efetivação da erradicação desse tipo de violência sofrida na vida doméstica.

Palavra-chave: Violência contra a mulher; Direitos Humanos; Delegacia da Mulher; Lei


Maria da Penha

3. PUNINDO ATRAVÉS DA EMOÇÃO: FORMAS DE CONTROLE EM UMA PRISÃO DE MULHERES

Autor: Leonardo Alves dos Santos

Resumo: Este trabalho é resultado da dissertação de mestrado apresentada em março de


2015 sob o título “Emoção e Penalidade: Mulheres no Complexo Penal Dr. João Chaves”.
A pesquisa realizada entre 2014 e 2015, consistiu na realização de observação participante,
entrevistas e conversas guiadas no pavilhão feminino do Complexo Penal Dr. João Chaves em
Natal, Rio Grande do Norte. Aqui discorro sobre como as emoções podem ser usada como
formas de controlar as internas, todavia, mostro também como esse mesmo meio de controle
abre o precedente para a resistência à dominação. Em um primeiro momento trato algumas
formas de controle diretas e indiretas, em segundo momento, trato das formas de dominação
e resistência e por fim, concluo falando sobre o que foi apresentado. Após a reflexão analítica
do que fora apreendido do campo, cheguei as seguintes conclusões: as formas de controle, no
caso específico estudado, sejam elas através de sanções diretas ou indiretas se caracterizam como
um atentado ao self e que quanto mais submetida à elas, maior o dano à identidade que fora
construída sobre si. Elas atuam por meio das emoções e a partir do momento em que atingem
o self se tornam em um fenômeno total, atingindo o corpo, a mente e as formas de interação
social do sujeito.

Palavras-chave: Prisão, Gênero, Emoção.

4. DROGAS, POLÍCIA E TRAFICANTES: DAS MERCADORIAS POLÍTICAS AOS HOMICÍDIOS NA


GRANDE GOIÂNIA

Autor: Guilherme Borges da Silva

Resumo: Apresento para este evento alguns dos principais achados da minha dissertação que
acredito contribuir com a proposta apresentada pela mesa “violência urbana e administração de
conflitos pelas agências sócio-penais na América latina: para além dos processos institucionais
legítimos/legitimados”. Na pesquisa constatei ocasiões em que o mercado ilegal das drogas
na Grande Goiânia possibilitou a produção de mercadorias políticas (MISSE, 2007), que estão
relacionadas diretamente com o emprego da violência, seja por meio da expropriação de
recursos do Estado por alguns de seus agentes ou sem a sua mediação, como o uso de armas
por grupos de tráfico. Nesse sentido, por algumas dinâmicas desse mercado se territorializar,
o tráfico de drogas precisa criar dispositivos em que o uso da violência acaba se tornando
frequente e, por isso, há uma grande necessidade de se armar. As armas, segundo os resultados
de campo, são utilizadas para: a) resguardar a própria segurança dos indivíduos; b) resguardar o

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empreendimento ilegal e as mercadorias ilícitas; c) fazer cobranças de dívidas. Além das armas
por parte dos próprios sujeitos do tráfico, pude perceber outros momentos em que a mercadoria
política se dava pelas mãos de agentes do Estado por meio de: a) práticas de extorsão por meio
de chantagens; b) práticas de cobranças de dívidas drogas; c) práticas de corrupção e arrego; d)
roubo de drogas e sua respectiva venda e; e) formação de grupos de extermínios. Compreende-
se que a violência é um mecanismo comum de alguns arranjos de mercados criminalizados, que,
por não possuírem meios legais de resolução de conflitos, se utilizam de recursos mais radicais
para solucionar desavenças e desacordos comerciais, e o assassinato de pessoas é o mais extremos
deles (ZALUAR, 2004; GRILLO, 2008). Soma-se ainda, segundo o que se constatou na pesquisa,
a presença de uma cultura criminal machista (ZALUAR, 2004; SOUZA, 2006) em que a honra
e a virilidade são postas em desafio quando os acordos são rescindidos e, por isso, alavancam
e disseminam a necessidade de que esses conflitos e esses desacordos devem ser solucionados
a qualquer preço. Não são apenas drogas, dinheiro e as pessoas que circulam no tráfico, mas
também a própria identidade sexual masculina que é colocada em evidência. Quando não se
paga uma dívida de droga, ou quando outro indivíduo quer tomar a boca, não é apenas o valor
monetário em si, mesmo que exista e fica evidente, mas há um aspecto moral da honra desafiada,
nesse momento o recurso violento se faz necessário. Para entender a relação entre homicídios
e drogas utilizei a tipologia tripartite de Goldstein (1985). Os resultados encontrados mostram
que em cada tipologia tem as suas especificidades, assim: a) o modelo psicofarmacológico: foi
compreendido a partir da mudança de comportamento praticado por algum indivíduo após
o consumo de alguma substância, podendo agir de forma impulsiva e violenta em relação às
outras pessoas; b) o modelo econômico compulsivo: foi evidenciado nos crimes praticados por
usuários de drogas com o objetivo econômico, como, por exemplo, a prática de roubo, assalto,
latrocínio com o objetivo de conseguir dinheiro ou algum bem para comprar drogas e; c) o
modelo sistêmico: é a violência que se refere aos padrões específicos de agressividade que são
gerados das interações que ocorrem dentro do sistema de comercialização das drogas, assim
constatei que ela se apresenta de diversas formas, como dívidas de drogas, derrame de drogas,
disputa internas de grupos de tráfico, disputas de territórios de comercialização, caguetagem,
vingaça, grupos de extermínio e, por fim, queima de arquivo.

Palavras-chave: mercado ilegal das drogas, homicídios, criminalidade.

5. REPRESENTAÇÕES SOCIAIS DOS/AS JUÍZES/AS DAS VARAS DE ENTORPECENTES DO


TJDFT SOBRE A APLICABILIDADE (OU NÃO) DO PRINCÍPIO DA INSIGNIFICÂNCIA AOS CASOS
ENVOLVENDO TRÁFICO DE DROGAS

Autores: Lucas Ferreira Cruvinel; Gustavo Rocha Caldas; Nilson Ribeiro dos Santos
Junior; Renato Fernandes Neto

Resumo: Este trabalho é resultado das discussões realizadas no grupo de estudos sobre a Lei
de Drogas, desenvolvido no 1.º semestre de 2015, na Faculdade de Direito da Universidade
de Brasília. A partir de pesquisa bibliográfica sobre a Lei de Drogas e pesquisa de campo junto
às quatro Varas de Entorpecentes do Tribunal de Justiça do Distrito Federal e dos Territórios,
bem como do aporte teórico-metodológico da Teoria das Representações Sociais, buscou-se

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compreender por que o Princípio da Insignificância encontra resistência em sua aplicação no
crime de tráfico de drogas, previsto genericamente no art. 33 da Lei 11.343/2006. Partimos da
hipótese de que tal resistência teria origem não só no imaginário do/a legislador/a, mas também
nas representações sociais dos/as agentes do sistema judiciário, sobretudo dos/as magistrados/as
ao aplicarem a lei. Com isto, a pesquisa objetivou identificar os critérios objetivos que orientam
(ou não) tal aplicação. Por ser crime de perigo abstrato, as penas cominadas para o crime
referido têm se mostrado totalmente desarrazoadas quando comparadas com penas referentes
a crimes de lesão, como os crimes de lesão corporal grave ou abandono de incapaz seguido de
morte, demonstrando que visam à proteção de um mesmo bem jurídico. Com base em uma
análise histórica acerca dos processos legislativos referentes à matéria penal e entrevistas com os
juízes, verificou-se que a aplicação do art. 33 da Lei de Drogas tem servido ao “Direito Penal do
Autor”, ou seja, exigindo uma observação de quem é o autor da conduta e, consequentemente,
punindo não o ato em si mas o sujeito de quem o pratica. Com isto, a lesividade não se encontra
na intensidade da conduta, mas na sua natureza. Este seria o motivo da resistência: a repulsa
social e/ou valoração moral dos/as operadores/as pela conduta do tráfico de drogas.

6. O SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA E A INCIDÊNCIA DO “DIREITO PENAL DO AUTOR”


NOS CASOS ENVOLVENDO O CRIME DE TRÁFICO DE DROGAS

Autores: Thales Cassiano Silva; Pedro Sousa; Leonardo

Resumo: O presente trabalho versa sobre as discussões desenvolvidas no grupo de estudos


sobre a Lei de Drogas, no 1o semestre de 2015, na Faculdade de Direito da Universidade
de Brasília. Assim, os resultados apresentados são preliminares e, a partir de pesquisa
jurisprudencial em Acórdãos do Superior Tribunal de Justiça, intentam esclarecer as possíveis
incongruências (ou não) da aplicação do Princípio da Insignificância nos casos envolvendo o
crime de tráfico de drogas no Brasil. A partir da análise do conteúdo dos Acórdãos, variadas
desproporcionalidades jurídicas foram identificadas, desvelando o enfoque encarcerador a
partir da Lei de Drogas (Lei 11.343/2006), bem como de uma seletividade penal não apenas
quanto aos tipos, mas, também, do público majoritariamente atingindo. O filtro da referida
seletividade penal passa pelos agentes públicos legitimados pelo sistema judiciário, o qual tem
se constituído em agência de criminalização secundária. Desse modo, as decisões em relação ao
princípio da insignificância têm mostrado desproporcionalidades no sentido de serem tomadas
com base em quem esta sendo julgado, e não em fundamentos jurídico-constitucionais, num
exemplo contemporâneo do que tem sido denominado “direito penal do autor”.

7. UMA ABORDAGEM EMPÍRICA ACERCA DOS DIFERENTES USOS DAS MEDIDAS PROTETIVAS
DE URGÊNCIA PREVISTAS NA LEI MARIA DA PENHA

Autores: Bárbara Gomes Lupetti Baptista; Adrina Madeira

Resumo: Trata-se de pesquisa empírica que se propõe a pôr em discussão as diferentes


formas através das quais o Judiciário vem lidando com a violência doméstica contra a

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mulher. Em especial, como vem aplicando as medidas protetivas de urgência previstas na
Lei nº 11.340/06. A pesquisa de campo incorpora um profícuo diálogo realizado entre
o Direito e a Antropologia e abrange trabalho de campo realizado em seis Juizados de
Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher do Estado do Rio de Janeiro, a fim de
observar audiências, analisar processos judiciais e fazer entrevistas com operadores do campo.
A experiência empírica fruto deste trabalho nos permitiu perceber a distância entre a forma
como o Judiciário vê a eficácia das medidas protetivas e a forma como as mulheres, vítimas
de violência, internalizam (ou não) a sua utilidade. Para o Judiciário, tais medidas são eficazes
por serem concedidas através de uma decisão judicial formal, impositiva e cogente, enquanto
as mulheres desconfiam de sua eficácia, já que, embora beneficiadas pela decisão judicial, “na
vida real” elas seguem sendo objeto da violência que a decisão judicial formalmente acredita
fazer cessar. A inquietude que provocou a pesquisa decorreu, basicamente, do estranhamento
sobre a capacidade, ou não, do Judiciário de fazer cumprir, na prática, as medidas concedidas
no processo. Nas entrevistas realizadas, um juiz nos disse que “a medida protetiva é efetivada
pela moral do juiz da comarca...então, eu sei que as pessoas respeitam as minhas decisões
porque não tem outro jeito de ser.”. Para este artigo, elegemos três diferentes casos em que
houve pedidos de medidas protetivas de urgência e concessão da pretensão, sendo que os
procedimentos seguiram caminhos distintos e tiveram desfechos discrepantes. Em um dos
casos, chamou atenção a aflição da mulher, explícita quando ela diz ao Juiz, em audiência:
“Eu já tenho o papel que diz que ele não pode chegar perto de mim, mas a gente tem
um filho... ele vai visitar o filho na rua?”. Observamos que, em certas situações, a medida
protetiva funciona como um colete a prova de balas, só que é “de papel”. Algumas das
perguntas que nos interessam tentar responder através deste trabalho dizem respeito a quais
são os mecanismos de controle do Judiciário na aplicação dessas medidas protetivas? Como
pode o Judiciário, após aplicada uma medida de proteção à mulher - por exemplo, aquela
prevista na alínea “b” do inciso III o artigo 22 da Lei, que proíbe o agressor de manter
qualquer tipo de comunicação com a vítima e seus familiares - ter a certeza da efetivação de
tal medida? E como o Judiciário atua em casos de descumprimento dessas medidas? Estas são
algumas das nossas perguntas, ainda não respondidas por completo, mas que conduzem o
trabalho e permitem pensar sobre o quanto ainda é subjetiva e eventualmente discricionária
a forma como a Lei vem sendo aplicada e os diferentes rumos do processo.

8. DESSOCIALIZAÇÃO DE INFRATORES: A UTÓPICA FINALIDADE RESSOCIALIZADORA DA


PENA PRIVATIVA DE LIBERDADE.

Autor: Anderson Luiz Brasil Silva

Resumo: A presente pesquisa versa sobre a reflexão do aparato Estatal acerca da ressocialização
como um dos pilares fundamentais do Estado democrático de Direito e de eficácia de
direitos humanos, segurança jurídica e social e (des) envolvimento do Estado e sociedade.
Dessa forma, tem-se como problematização as questões sociais difusas que combinadas com
o aparato rígido das agências sócio-penais faz com que as dinâmicas legítimas e legitimadas
colocadas em prática pelos funcionários, usuários e sociedade como formas de proteção social

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transformem-se em exclusão e perpetuação de desigualdade, criando-se estereótipos a serem
combatidos e não seres humanos a serem ressocializados. Por meio do método dedutivo,
analisar-se-á as ideias de Alessandro Baratta, César Barros Leal, Cezar Roberto Bitencourt,
Haroldo Caetano da Silva, Jailson Rocha Siqueira, Julita Lemgruber, dentre outros, no
que tange ao utópico objetivo ressocializador da pena de prisão como remédio eficaz para
ressocializar seres humanos infratores, tomando como uma das referências a influência do
pensamento de Max Weber acerca do jus puniendi. Assim, discutir-se-á, inicialmente, o
significado do termo ressocialização, seu descrédito e a viabilidade da pena de prisão. O
teórico dar-se-á acerca da inversão Estatal de cerceamento da liberdade como maneira
singular de ressocialização, desumanizando todo o aparato sócio-penal e distanciando
a sociedade de seus problemas intrínsecos na própria promoção do desenvolvimento
meramente econômico, excluindo seus pátrios das oportunidades e entregando-os a um
sistema que olvida-se do ser humano. Traz-se a baila, a experiência goiana comparada com
as técnicas Latino-Americanas que atualmente não condizem com a verdadeira função da
pena de prisão (sendo que esta deveria ser utilizada como último recurso). Sendo necessário
para a ressocialização, a utilização de políticas públicas humanizadoras, a fim de garantir os
direitos dos presos não atingidos pela sentença, sendo possível proporcionar, antes e durante
o período prisional, condições eficazes e concretas de reintegração social como fato motriz
de extinção da dessocialização que dá azo ao aumento da desigualdade e distanciamento
entre Estado, sociedade e indivíduos.

DERECHO A LA VIDA Y DERECHO A LA MUERTE: DEBATES Y REFLEXIONES


DESDE LATINOAMERICA

Ementa: Esta mesa propone reunir trabajos concluidos o en desarrollo que aborden teórica
o metodológicamente la temática del derecho a la vida y a la muerte en distintos contextos
sociales latinoamericanos. Los debates y reflexiones buscan centrarse en las tensiones sobre las
definiciones, significados, valoraciones y construcciones (estatales, legales y culturales) de la
vida, la muerte, la dignidad humana, la humanización/deshumanización y sus correlatos. Se
proponen discusiones tales como: los límites de la noción de “humano” y de la dignidad de
la persona humana como principios (bio) éticos y jurídicos; las diferentes maneras de morir
y cómo entran en el espacio de control del saber y del poder del Estado; el efecto mimético
de la violencia y las fábricas de (re) producción de la subjetividad; las cárceles como máquina
antropológicas productoras de una humanidad (des) humanizada, entre otras discusiones que
puedan alimentar esta reflexión.

Coordenadoras:
Livia Vitenti (DAN/UnB – Brasil) e Laura Ordóñez (Universidad del Rosario, Bogotá,
Colombia)

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1. AUTONOMIA DO PACIENTE NA AMÉRICA LATINA: UMA ABORDAGEM CRÍTICA SOBRE A
TECNOLOGIA

Autor: André Luiz Silveira de Lima Júnior

Resumo: O desenvolvimento tecnológico na área médica tem, ao menos de forma explícita,


o intuito de tornar a vida dos indivíduos melhor, não obstante a consequente busca em
aumentar a sua expectativa. Não há dúvidas de que existem conquistas importantes no que
concerne a esse tópico, como a viabilidade de transplantes e a criação incessante de novos
tratamentos cada vez mais eficazes na cura de enfermidades. Há, porém, o outro lado da
moeda, e é nele que o debate bioético aparece e se torna interessante. Todo o cenário atual
de medicalização da vida - e, claro, de seu oposto - (CAMBRÓN, 2002), mostra a dependência
das pessoas perante a tecnologia. O seu discurso, defendido arduamente como “a verdade”,
determina, inclusive, o momento de constatação da morte, conforme o relatório da Comissão
Ad Hoc da Universidade de Harvard, presidida por H. Becher em 1968. (JAMA, 1968).
Apesar da apresentação de critérios científicos de coma irreversível e da equiparação da morte
cerebral como a de todo o corpo, ao tornar o indivíduo um “cadáver que respira”, o limiar
entre vida e morte ainda possui uma linha tênue, uma vez que essas “certezas” médicas são
passíveis de questionamentos (JONAS, 1997). Acreditar na falibilidade conceitual e técnica por
parte da ciência leva à necessidade de uma heurística do medo - ou do temor - (JONAS, 2006),
a qual, a partir da responsabilidade, tende a priorizar a precaução para garantir o mínimo
ético. Diante de toda essa conjuntura, ampliou-se o debate sobre a morte digna, podendo de
antemão citar a autonomia individual na escolha sobre o próprio tratamento, seja em momento
de consciência ou não. E é especificamente neste último caso que o presente trabalho irá se
ater. Com a perda da autonomia em virtude da incapacidade do sujeito em manifestar a
sua vontade, a questão de escolher fica em aberto. Dentre as hipóteses prováveis, a escolha
recai sobre: o responsável legal (normalmente algum familiar); o médico (ou a instituição
hospitalar como um todo); ou, ainda, o Estado. Há, porém, uma outra possibilidade, a qual
se encontra em grande discussão na América Latina, que é o living will (testamento vital),
no qual, basicamente, o indivíduo lúcido deixa explícito previamente, em um documento,
a sua vontade quanto a procedimentos médicos a serem realizados no momento em que
estiver incapacitado. (KUTNER, 1969). Com essas ideias introdutórias, o presente trabalho
tem o interesse em abordar de forma crítica a atual situação da tecnologia médica, em especial
o fenômeno da medicalização da vida e da morte, e de suas implicações na autonomia do
paciente. Para a consecução de tal finalidade, usar-se-á como referencial teórico de base Hans
Jonas (1997; 2006), principalmente no que concerne à “heurística do medo”. Ademais, sem
esgotar eventuais autores de sustentação do trabalho, é importante mencionar a utilização
de Kant (2007) para fundamentar a dignidade da pessoa humana, e de Ascensción Cambrón
Infante (2002; 2005), com a sua ideia de bionomia ético-jurídica. Por fim, faz-se importante
para analisar tal questão, identificar instrumentos normativos, códigos deontológicos e
decisões judiciais na América Latina, com o intuito de perceber, de maneira geral, a forma
de abordagem de alguns países da região em relação à escolha do paciente quanto ao próprio
tratamento - quando ainda consciente -, e se há a possibilidade de se considerar o testamento
vital - quando inconsciente - ou se, neste caso, fica a cargo de terceiros a decisão.

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2. REMOÇÕES DE ÁREAS DE RISCO E A POLÍTICA DE PROTEÇÃO E DEFESA CIVIL NO
BRASIL, FORMAS DE DEIXAR MORRER E FAZER VIVER

Autor: Francine Damasceno Pinheiro

Resumo: Quando falamos em remoções de áreas de risco nos referimos a uma postura dos
Governos na América Latina de movimentação de grupos sociais vulnerabilizados pela falta
de acesso aos direitos sociais, residentes em áreas geograficamente acidentadas que podem
se submeter a algum evento extremo, produzindo um desastre socioambiental. O desastre
deve ser analisado como um fenômeno de injustiça ambiental provocado pelo modelo de
desenvolvimento econômico latinoamericano, que gerou uma desigualdade socioambiental e
vulnerabilizou grupos sociais empobrecidos que tiveram negado o direito à moradia, à saúde,
ao desenvolvimento, ao saneamento básico, à educação, à cidade. O desastre é a expressão
da miséria vivenciada por inúmeras pessoas em decorrência da ausência de direitos sociais.
A negativa desses direitos produz vulnerabilidades socioambientais que serão potencializadas
por um evento natural (chuva, seca, escorregamento). No Brasil, o debate acerca da proteção
do direito a vida dessas famílias empobrecidas e vulnerabilizadas socioambientalmente,
consolidou o poder conferido ao Estado de remover as famílias de áreas de risco para conduzi-
las a equipamentos públicos (abrigos provisórios) ou disponibilizar recursos da assistência
social a fim de retirá-las de suas casas. A remoção foi oficializada pela Lei de Proteção e Defesa
Civil publicada em 2012, mas desde 2010 vem se construída a sua legitimidade , conforme
nos demonstra SIENA (2010), com discursos da mídia, dos políticos e determinações legais
à Defesa Civil. A autora, retomando Foucault, denuncia a violência do Estado no sentido
de “fazer viver e deixar morrer” em que, em nome da preservação física de vidas humanas,
implementa-se uma política de morte social, cultural, emocional e psicológica, violando
ainda mais os direitos dos afetados por desastres, que tiveram historicamente negados os
seus direitos de cidadania. O presente artigo é fruto da pesquisa de doutorado da Autora e
pretende demonstrar que a política de remoção executada é incoerente com as propostas
relacionadas aos programas habitacionais construído pelo Estado Brasileiro atrás das políticas
referentes ao direito a moradia e a cidade e estão sendo promovidas ao arbítrio da população
e dos órgãos de fiscalização. Há na execução da política de remoção uma violência material
e simbólica em que VALENCIO (2010) reconhece pelo menos três tipos: na destruição dos
equipamentos públicos e privados dos territórios violados por meio de caminhões e tratores,
rompendo o vínculo com o lugar; na destruição das moradias, quando rompem com o lugar
de segurança para o exercício das relações privadas de afeto e fortalecimento de vínculos;
a violência moral sofrida por cada morador quando as exigências para saída do local são
inegociáveis, a dor emocional de ser compulsoriamente retirado de seu “lugar” ferindo todos
os sonhos e vínculos sociais. Além de violenta, a política de remoção não resolve o problema
de garantir os direitos sociais e dentre eles o direito a moradia, estabelecendo novos critérios
de genocídio de grupos sociais vulnerabilizados, ampliando as formas de matar, de morrer e
também de resistir. (ZHOURI, VALENCIO, 2014).

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3. O DIREITO A UMA PROTECÇÃO ESPECIAL: A ESTRATÉGIA DE DOMINAÇÃO E
REPRODUÇÃO DESRESPEITO PELA VIDA E MORTE DA O MORADORES DE RUA NA
COLÔMBIA. UM ESTUDO DE CASO DE MEDELLÍN

Autor: Holmedo Peláez Grisales

Resumo: Esta ponencia tiene como objetivo fundamental demostrar a partir del estudio de caso
de los habitantes de calle del Rio Medellín que en Colombia la vida y la muerte de estos sujetos
discriminados, marginalizados y en estado de debilidad manifiesta, plantean un cuestionamiento
profundo a las formas en que el Estado les “protege especialmente” y les garantiza una vida y
muerte en “condiciones dignas y justas”. Desde el campo teórico jurídico y social, se da cuenta
de que el Estado tiene la obligación de garantizarles un “derecho a la especial protección”
conforme con el artículo 13 Constitucional, por medio del cual, se reconoce la necesidad de
brindarles una protección reforzada como un remedio para corregir sus desigualdades, eliminar
su tratamiento injusto y, en consecuencia, modificar las condiciones reales de menosprecio
que sus vidas y muertes tienen en el campo social colombiano. No obstante, desde el campo
práctico, este derecho se desvirtúa en manos del Estado pues se desfigura en una nueva forma de
dominación sobre estos sujetos que, más que eliminar sus desigualdades y reivindicar sus modos
de vida y muerte dignas libres del menosprecio, promueve una estrategia de reproducción del
orden social injusto establecido de desvalorización de sus vidas.

Palabras Clave: Sujetos y Grupos de Especial Protección, Habitantes de Calle, Estrategias de


dominación y reproducción del orden social, vida y muerte menospreciadas y, desigualdad.

4. CÁRCELES COMO MÁQUINAS ANTROPOLÓGICAS: UNA REFLEXIÓN SOBRE LA


PRODUCCIÓN DE LO HUMANO/INHUMANO

Autor: Laura Ordoñez Vargas

Resumen: Con base en el análisis de una política criminal y penitenciaria brasileña denominada
APACs (Asociaciones de Protección y Asistencia a los Condenados), que se afirma como un
modelo de prisión revolucionario y opuesto de todas las cárceles del Brasil al proponerse
como un modelo de prisión humanizada, en esta mesa de trabajo, propongo una reflexión
donde las cárceles al ser entendidas como “máquinas antropológicas”, nos permiten pensar y
problematizar la relación entre una cierta definición de vida, un específico régimen de poder
y unas particulares concepciones y definiciones sobre qué es lo humano y lo humanizado
(inhumano, deshumano y sus correlatos). Nos permiten indagar sobre la producción – de una
humanidad no humana, en el caso de las prisiones del sistema común, y de una humanidad
que se pretende humanizada, en el caso de las APACs. Esta reflexión se llevará a cabo desde
el siguiente conjunto de preguntas: ¿Es posible humanizar la vida atrás de las rejas? ¿Cómo
puede una prisión ser humanizada? ¿De qué humanización estamos hablando? Qué tipo de
humanización o humanidad estas otras formas de poder prisional instituyen? ¿De qué manera
es capaz de humanizar? Es posible humanizar sin algún grado de coerción o violencia

Palabras Clave: cárceles, máquinas antropológicas, producción humano/ inhumano.

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5. LA MUERTE Y EL MORIR EN EL ESPACIO DE CONTROLE DEL SABER Y DE LA
INTERVENCIÓN DEL ESTADO.

Autor: Livia Dias Pinto Vitenti

Resumo: Sugerimos, en esta ponencia, una discusión sobre la pertinencia de hablar de


eventos suicidas a partir de los conceptos de biopoder y biopolitica. En efecto, la teoria de
la biopolitica reside en la legitimidad de las prácticas de sumisión del sujeto y de su cuerpo
en nombre del bien social, del futuro de la especie humana y del fortalecimiento del cuerpo
social. Esta teoría se remite al modo de vida según el cual los individuos y sus cuerpos deben
ser disciplinados a partir del siglo XVIII. Consecuentemente, los siglos siguiente, incluyendo
el actual, se caracterizan por discursos políticos que encorajan el amejoramiento de las
condiciones de vida. En este discurso, el biológico tornase más que un medio de presión;
es también – y sobretodo – un instrumento de poder a servicio de la política. Por una tal
afirmación, se concluye que la vida – lo que incluye la muerte y las maneras de morirse –
entra en el espacio de controle de saber y de intervención del poder del Estado.
Palavras-chave: biopoder, suicidio, muerte.

6. HOMO JURIDICUS MODERNO, SANGUE YANOMANI E O DEVIR HUMANO.

Autor: Anderson Marcos dos Santos

Resumo: Após a virada cibernética, a consolidação histórica do homo juridicus moderno,


com vista a instituir normativamente o humano e protegê-lo das ameaças externas e internas
à sua humanidade e à sua “essência”, acaba por voltar-se contra a própria humanidade do
humano, na medida que amplifica sua potência por aquilo que Bernard Edelman denomina
a loucura do direito subjetivo. Instituir o homo juridicus total, um sujeito de direito
absoluto, transformou o humano em artifício de si mesmo. A recente recuperação de sangue
yanomani (retirado, entre os anos 60 e 70, por pesquisadores estrangeiros e sem autorização
das lideranças indígenas) e seu posterior “sepultamento” ritual se apresenta não apenas
como o reconhecimento ou reparação de um direito desse povo, coloca-se também para o
direito uma concepção de humano que escapa à formulação construída do homo juridicus
moderno, possibilitando o vislumbre de outros devires humanos, cada vez mais interditados
pela associação entre direito, tecnociência e o capital.
Palavras chaves: homo juridicus, direito, tecnociência, devir humano, povos indígenas.

7. VIOLÊNCIA PEGA? FEMINICÍDIOS E MÍDIA:UM ESTUDO SOBRE EFEITOS E CONTRAEFEITOS


MIMÉTICOS

Autores: Daniela Cabral Gontijo; Ondina Pena Pereira

Resumo: Violência pega? A pergunta alude ao contágio, como um vírus que se pega,
mas também uma moda, um padrão que “pegou”, difundindo-se sobremaneira. Proliferam
estudos sobre a mimese no caso da divulgação de suicídios na mídia – o chamado efeito

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“copycat” ou “Werther”, em alusão à onda de suicídios no século XVIII de jovens mimetizados
com o protagonista de Goethe. Mas será que apenas o suicídio leva ao mimetismo? O caso
argentino do assassinato de Wanda Taddei e a onda de eminicídios subsequentes instigam
indagações sobre o efeito mimético da violência. Resistir – ou pensar o direito à vida –, nesse
contexto, passa por perscrutar fábricas de (re)produção de subjetividade como o gênero e a
mídia e compreendê-las como reféns do sistema de representação. Fora desse sistema, surgem
reflexões sobre possibilidades de produção de contraefeitos miméticos, em uma espécie de
“transferência poética de situação”, que se dá com a liquidação do real e sua representação,
suas funções e finalidades técnicas, deixando livre o lugar para a singularidade do pensamento
e do acontecimento.

Palavras-chave: violência, mímesis, feminicídios, (re)produção de subjetividades e


singularidades.

8. A VIDA E A MORTE EM UMA JURISDIÇÃO INDÍGENA: BANIMENTO, MIGRAÇÃO E JUSTIÇA


PRÓPRIA

Autor: Danielli Jatobá França

Resumo: Proponho abordar, com o pano de fundo do confronto entre a ordem legal
estatal e a jurisdição de um povo indígena da Amazônia meridional, as soluções dadas nos
casos de delitos cometidos por perpetradores de doenças e de outros conflitos disruptivos
da socialidade. São indivíduos que, ao imiscuírem-se fora dos limites da humanidade a que
pertencem, conseguem provocar adoecimentos e morte entre seus pares. Esta condição é
viabilizada por técnicas de bruxaria e, também, pela inobservância de valores centrais da
moralidade local com comportamentos marcados pela avareza e raiva/conflito violento. A
solução, no caso, passa por diversas fases: uma de responsabilidade da visão e confirmação
por parte de uma autoridade xamânica, outra pela busca do consenso social a respeito das
evidências da “travessia” do sujeito em questão para mundos “não-sociais” e, ainda, a da
execução da pena respectiva, que pode ser a morte ou migração. Para a interpretação do
processo também serão tratadas questões relacionadas às concepções sobre corpo, doença e
destino histórico de uma coletividade.

Palavras-chave: moralidades; feitiçaria; justiça própria; corpo, saúde e doença

9. ABORTO: UMA REFLEXÃO SOBRE SUA PROIBIÇÃO JURÍDICA NO BRASIL, A PARTIR DA


EXPERIÊNCIA URUGUAIA

Autores: Renata Barbosa de Almeida; Hugo Lázaro Marques Martins

Resumo: O aborto é a interrupção da gravidez, com a consequente morte do produto da


concepção. Quando não ocorrido natural ou acidentalmente, trata-se de conduta típica, ilícita
e culpável; crime previsto no Código Penal Brasileiro. O ordenamento jurídico, porém,
prevê hipóteses em que o aborto, ainda que provocado, pode ser legal. São circunstâncias

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especiais que excluem a ilicitude do fato. O aborto é legal no Brasil apenas se: necessário,
quando a gravidez coloca em risco a vida da gestante; sentimental, quando a gestação é
resultante de estupro; e, finalmente, conforme decisão do STF, se diagnosticada a anencefalia
do feto. Este quadro normativo demonstra que a prática do aborto no Brasil é, em regra,
proibida e duramente coibida. Porém, a realidade vivenciada demonstra o aborto como uma
constante social. A despeito de sua criminalização, as mulheres abortam e, com isso, expõem
sua saúde a grandes riscos, vez que os procedimentos são realizados de forma insegura e,
muitas vezes, geram complicações. A cultura do aborto está presente em todas as regiões do
país, mas sua proibição impede conhecer esta realidade. Ademais, suscita a questão sobre a
validade do Direito, na medida em que questiona a autenticidade da disciplina que é ofertada
ao tema. Neste viés, a experiência na regulamentação de condutas sociais de outros povos,
principalmente os latino-americanos, dotados de tradições, cultura e valores similares aos
brasileiros, parece rica para nortear a tomada de decisões legislativas no país. Assim, este
estudo se baseia na recente e inovadora experiência uruguaia, sob o propósito de identificar
parâmetros para regulamentação jurídica válida do aborto no Brasil. Afinal, almejando o
mesmo propósito, a disciplina legal do aborto no Uruguai, apresenta resultados interessantes
na perspectiva da proteção e promoção das liberdades individuais e do direito à vida.

Palavras-chave: aborto, regulamentação jurídica, Brasil, experiência uruguaia

10. TRANS-HUMANIZANDO-SE, (IN)DIGNANDO-SE! UMA REFLEXÃO SOBRE O PRINCÍPIO


DE DIGNIDADE HUMANA À LUZ DO PLURALISMO JURÍDICO E BIOÉTICO

Autor: Marianna Assunção Figueiredo Holanda

Resumo: Este texto discorre sobre os limites da noção de “humano” – e, portanto, da


Dignidade da pessoa humana – como princípios que permanecem restritos ao horizonte
epistemológico, (bio)ético e jurídico do Um. É um texto que se pergunta sobre as ausências
do Múltiplo dentro desta episteme buscando ir de encontro às suas expressões – algumas
delas produzidas fora da linguagem normativa e, portanto, para além do que nomeamos
como “Humanidade” e “Justiça”. A partir da criminalização crescente de pessoas e coletivos,
busco elaborar um texto crítico-reflexivo sobre as estruturas de Estado-nação e de produção
jurídica às quais estamos todas/os expostas/os e nunca totalmente inseridas/os. No que estas
acepções de democracia e justiça limitam as nossas possibilidades (não)humanas e trans-
humanas? Que contrato social faríamos se ele fosse de fato (mas talvez não de direito) social?
Se partisse da (in)dignação diante das exclusões (como um caminho para tornar-se digna/o)
e das vozes dissonantes do Múltiplo, de seus multi-versos, sonhos e canções?

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TEORIAS LATINO-AMERICANAS PARA A PROTEÇÃO DOS DIREITOS HUMANOS

Ementa: O grupo de trabalho pretende discutir contribuições teóricas latino- americanas


para a consolidação do discurso universal dos direitos humanos. A forma hegemônica de se
compreender a história e a fundamentação destes direitos pressupõe que, por meio de lutas
políticas tipicamente burguesas e de declarações marcadamente individualistas, o Ocidente
seria o único responsável pela consolidação de um sistema de pretensões e de valores
morais que se tornaram categorias jurídicas centrais a partir da segunda metade do século
XX. Demonstrar em que medida prenuncia-se a dinâmica de direitos a se desenvolverem,
resgatando o pioneirismo e o protagonismo latino-americano no processo de construção do
Direito Internacional dos Direitos Humanos.

Coordenadore(a)s:
Enzo Bello (Universidade Federal Fluminense - Brasil); Fernanda Frizzo Bragato (Unisinos -
Brasil); Raquel Fabiana Lopes Sparemberger (Universidade Federal do Rio Grande - Brasil)

1. POSSIBILIDADES PARA CONSTRUIR UMA VISÃO DE DIREITOS HUMANOS DESDE AS


REALIDADES PLURAIS DA AMÉRICA LATINA

Autor: Alex Sandro da Silveira Filho

Resumo: Este trabalho está vinculado ao projeto de pesquisa “Os direitos humanos no
contexto latino-americano: do caráter universal a interculturalidade”, coordenado pelo Prof.
Dr. Vicente de Paulo Barretto. O discurso dominante dos direitos humanos, construído
sobre o paradigma liberal-individualista da modernidade, apresenta limitações no que se
refere ao reconhecimento de determinados grupos historicamente inferiorizados, que são
alvo de preconceito e discriminação. O objetivo deste trabalho é investigar possibilidades
para a construção de uma visão de direitos humanos que confirme o pleno reconhecimento
dos indivíduos e grupos estigmatizados da América Latina. Para tanto, estudar-se-á, por meio
de análise bibliográfica, as bases do discurso dominante dos direitos humanos, em autores
como Immanuel Kant e Norberto Bobbio, a teoria do multiculturalismo, por meio das
obras de Charles Taylor e Will Kymlicka, e a interculturalidade, desenvolvida por autores
como Emmanuel Levinas, Boaventura de Sousa Santos, Néstor García Canclini e Catherine
Walsh. Os resultados deste trabalho apontam a insuficiência do multiculturalismo para
responder ao problema das opressões aos grupos estigmatizados da América Latina, haja vista
que pressupõe uma cultura como sendo superior as outras, sendo a interculturalidade mais
adequada para legitimar as demandas destes “outros” sujeitos como de direitos humanos, por
colocar todas as culturas em situação de horizontalidade, onde uma nova visão de direitos
humanos é possível, por meio do diálogo.

Palavras-chave: Direitos humanos. Discurso dominante. Interculturalidade.

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2. O NOVO CONSTITUCIONALISMO LATINO-AMERICANO: POR UMA EPISTEMOLOGIA DO
SER A PARTIR DA AMÉRICA-LATINA (SUL)

Autor: Heleno Florindo da Silva

Resumo: A América Latina no decorrer das últimas décadas vem, sistematicamente, passando
por inúmeras transformações constitucionais que, em seu contexto global, são frutos de
movimentos sociais de luta, ou seja, por debates filosóficos, políticos e socioculturais, acerca
da necessidade de transformação de sua realidade periférica, de modernidade tardia, enquanto
construção política, jurídica e social da Modernidade. A partir dessas premissas, o start desse
cenário de rompimento com o paradigma Moderno de construção sócio-política do Estado,
pode ser visto na Constituição Brasileira de 1988 e seu ápice com a Constituição Boliviana
de 2009. Portanto, desse contexto de busca por transformação paradigmática, através de
diálogos cada vez mais plurais, que o presente trabalho buscará demonstrar como uma
epistemologia latino-americana, construída, nos dizeres de Boaventura de S. Santos, no Sul e
pelo Sul Global, pode ser compreendida como instrumento de transformação constitucional
de uma sociedade. Todas essas discussões inauguram a possibilidade de uma nova perspectiva
para os teóricos do direito que se preocupam com a construção política, social e, sobretudo,
filosófica do Estado e das Constituições na Modernidade. Assim, fala-se no surgimento de
um novo constitucionalismo, que rompe com as Teorias modernas sobre o Estado, bem
como sobre a Constituição, um constitucionalismo de emancipação social, de resgate, de
libertação, de desencobrimento de todos aqueles que foram, violentamente, excluídos e
estigmatizados pela construção da Periferia pelo Centro moderno. Portanto, será a partir
de uma racionalidade latino-americana, verdadeira epistemologia do sul, que buscaremos
discutir os desdobramento e os fundamentos do que hoje se convencionou chamar de Novo
Constitucionalismo Transformador, Democrático, Latino-Americano.

Palavras-Chave:Modernidade;Novo Constitucionalismo Latino-Americano;Epistemologia


do Sul.

3. AÇÕES AFIRMATIVAS: UMA ANÁLISE DO DISCURSO DE FUNDAMENTAÇÃO DA ADPF 186


DO STF

Autores: Aline Andrighetto; Paulo Víctor Silva Schroeder

Resumo: A Emenda Constitucional nº 45 e os tratados internacionais de Direitos Humanos


adquiriram status diferenciado no tocante a sua força normativa de emenda constitucional
no ordenamento jurídico brasileiro, neste sentido, o Supremo Tribunal Federal tem se
posicionado de forma mais favorável às minorias e aos grupos vulnerabilizados. Pretende-
se, com esta pesquisa, identificar elementos que comprovem a influência da matriz teórica
descolonial nas decisões do Supremo Tribunal Federal brasileiro em relação às minorias e aos
grupos vulneráveis com base na Análise Crítica do Discurso Jurídico (ACDJ). A análise recorre
a algumas estratégias típicas de construção simbólica, tais como a modalização, os operadores
argumentativos, o sistema de transitividade, a narrativização, o uso de figuras de linguagem
e os modos de operação da ideologia como categorias para dar conta do funcionamento

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dessa gramática textual e dos efeitos ideológicos desse discurso definindo assim, os efeitos
ideológicos e políticos do discurso na prolatação de decisões judiciais no Brasil. A partir da
(ACDJ) objetiva-se verificar a formação discursiva da decisão da Argüição de Descumprimento
de Preceito Fundamental (ADPF) nº186 do Supremo Tribunal Federal, a qual define se há
Constitucionalidade nas Ações Afirmativas como critério étnico- racial para o acesso ao
ensino superior instituídos na Universidade de Brasília com base em resultados parciais da
pesquisa. Outro ponto tratado no artigo refere à consciência étnico- racial, mencionando
como os programas de Ações Afirmativas devem ser utilizados para diminuir o conceito
de raça nas sociedades com o intuito de erradicar fatores discriminatórios. Verificar que
desigualdades ainda se perpetuam no país a partir de uma revisão histórica. Nessa perspectiva,
a matriz teórica colonial, apresenta-se como uma alternativa contra-hegemônica ao discurso
dominante de fundamentação dos direitos humanos, produzido na modernidade que gerou
as diferenças excludentes formadoras das minorias e dos grupos vulneráveis. Nesse sentido,
investigar o panorama atual dos direitos humanos no âmbito do Poder Judiciário brasileiro
pressupõe o entendimento de duas vertentes teóricas: o discurso dominante e a alternativa
contra-hegemônica. Entender os efeitos da colonialidade do poder na contemporaneidade
implica que a discussão se faça a partir de uma perspectiva descolonial, indo além do
discurso hegemônico moderno/colonial e pensando em condições outras como uma nova
comunicação intercultural. A metodologia utilizada é a análise crítica do discurso jurídico
e, como técnica de pesquisa, opta-se pela revisão bibliográfica em análise documental de
jurisprudência do Supremo Tribunal Federal, especificamente ADPF nº 186.

Palavras-chave: Cotas; Universidade; Análise Crítica; Interculturalidade.

4. A VISÃO DESCOLONIAL DOS DIREITOS HUMANOS: ENFRENTANDO O UNIVERSALISMO


E A IDEOLOGIA OCIDENTAL DE DIREITOS HUMANOS

Autores: Daniel Carneiro Leão Romaguera; Fernando Hoffmam

Resumo: A presente proposta consiste em crítica aos direitos humanos quando considerada
a relação desses direitos com a expansão colonial, o eurocentrismo3 e o domínio do terceiro
mundo pela Europa4. Portanto, é necessário indicar a lógica predominante da produção
de direitos humanos para que se compreenda como a expansão do discurso humanista e
dominação eurocêntrica resultou na reprodução de um senso prático desses direitos na
contemporaneidade5. Dito isto, esta abordagem compreende leitura crítica dos direitos
humanos quando identificados paradoxos, contradições e aporias diante das práticas suplantadas
pela lógica dominante de seu projeto ocidental. A hipótese é de que apesar do discurso dos
direitos humanos professar sua dimensão global, tais direitos têm um lócus específico de
produção que indica o epicentro Europeu e a tradição imperialista do Ocidente como crucial
para seu universalismo. Não por outro lado, a perspectiva descolonial tem como objetivo
procurar o pluralismo na produção de conhecimento que implica uma ruptura de construção
eurocêntrica de conhecimento. Portanto, o descolonialismo se posiciona criticamente em
relação à narrativa tradicional do historicismo que resultou no ideal civilizatório professado
em uma leitura mais ortodoxa dos direitos humanos. Nesta perspectiva, o artigo propõe por

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um lado relacionar a ideologia humanista subjacente ao discurso de Direitos Humanos6 com
o eurocentrismo. Por outro lado, tomar o fio da descolonialismo em uma linha historiografia
crítica expondo possibilidades que eram ou foram escondidas e destruídas pela racionalidade
tradicional na construção dos direitos humanos governado pela lógica historicista do
progresso. Isto implica, então, retomar e problematizar a resistência colonial, ao examinar
o quanto escondidos, reprimidos e disfarçados atos de combate à opressão se encontram no
discurso eurocêntrico. Assim, é necessário exceder os remanescentes da modernidade em
oposição ao contexto eurocêntrico dos direitos humanos e poder manifestados na produção
do saber. No que diz respeito à metodologia, apesar do caráter teórico prevalecer nesta
apresentação, serão também analisados relatos historiográficos7 e eventos políticos recentes.
A partir disso, busca-se pensar um exercício crítico de direitos humanos de acordo com o
viés descolonial em oposição ao universalismo de sua concepção eurocêntrica.

Palavras-chave: Direitos Humanos. Descolonialismo. Eurocentrismo.

5. DA INSERÇÃO DO NOME SOCIAL À BUSCA DO NOME CIVIL: OS DILEMAS IDENTITÁRIOS


DOS TRANSEXUAIS NA DIMENSÃO LATINO-AMERICANA

Autores: Paula Velho Leonardo; Raquel Fabiana Lopes Sparemberger

Resumo: A consolidação dos direitos humanos, na dimensão cultural latino-americana, é


parte fundamental no reconhecimento daqueles que possuem o desafio de ter sua identidade
reconhecida, inserida e consolidada no meio social a que pertence como parte da ressignificação
das questões de gênero. Nesse sentido, o presente texto analisa o direito à identidade à luz
das teorias latino-americanas, através do estudo de caso dos transexuais da cidade de Rio
Grande/RS, que buscaram na política pública estadual, que introduziu a Carteira de Nome
Social através do Decreto nº 49.122, de 17 de maio de 2012, um meio da concretização da
sua identidade civil, antes mesmo da mudança de seus nomes no registro civil.

Palavras-chave: identidade, direitos humanos, teoria latino-americana.

6. REFÚGIOS (DES)COLONIAIS: CRÍTICAS À PRETENSA UNIVERSALIDADE DOS DIREITOS


HUMANOS

Autor: Thays Guedes Alcoforado de Moraes

Resumo: Este artigo propõe questionamentos sobre a pretensa universalidade dos direitos
humanos, a partir da análise das migrações forçadas no mundo contemporâneo, com ênfase
para o caso dos refugiados. Para tal, busca-se um diálogo entre três perspectivas teóricas
que têm como pontos de convergência a crítica ao colonialismo e ao eurocentrismo: a
perspectiva descolonial, o pós-colonialismo e as Abordagens do Terceiro Mundo ao Direito
Internacional (TWAIL). A partir de diferentes argumentos, tais abordagens teóricas apresentam
críticas ao projeto ocidental da modernidade, o qual se sustenta no pressuposto de um sujeito
universal que tem direitos também universalizáveis. Reconhecendo que todo sujeito e todo

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conhecimento é socialmente e epistemologicamente situado, este trabalho busca destrinchar
contribuições de autores de locais de enunciação outros que o Norte/Ocidente, como por
exemplo a América Latina. A ênfase será no discurso dos direitos humanos no que tange
às migrações forçadas e fluxos de refugiados, fenômeno que atingiu a maior dimensão da
história em 2014 e cuja produção de conhecimento encontra-se centrada no dito “Primeiro
Mundo”. A metodologia será de revisão bibliográfica e análise dos principais instrumentos
de Direito Internacional dos Direitos Humanos e dos Refugiados.
Palavras-chave: pensamento descolonial, pós-colonialismo, Abordagens de Terceiro Mundo
do Direito Internacional, refugiados, migrações.

7. DIREITOS HUMANOS, SUJEITOS HISTÓRICOS E LIBERTAÇÃO EM ENRIQUE DUSSEL: UM


CAMINHO DE LUTAS

Autores: Rafael Fávero Farias; Aloísio Krohling

Resumo: O desenvolvimento deste estudo buscará analisar de que forma os aportes


das teorias descoloniais, para as quais a obra de Dussel representa um eixo fundamental,
possibilitam um rompimento, no campo teórico e prático, com a concepção liberal que
se apresenta como hegemônica dos direitos humanos. Apesar da emergência de diversas
formulações de vários campos do saber sobre os impactos do processo de colonização para
o desenvolvimento político e social dos países latino- americanos, verifica-se que no campo
jurídico essas proposições ainda estão distantes do suficiente, pois o discurso hegemônico
dos direitos humanos continua sendo reflexo de uma epistemologia baseada em estruturas
tradicionais de dominação e imposição do conhecimento.

8. DIREITOS HUMANOS NA AMÉRICA LATINA: EM BUSCA DE UM SIGNIFICADO


CONTRAHEGEMÔNICO

Autores: Carlos Alberto Esteves; Davi Augusto Santana de Lelis

Resumo: O epicentro das discussões que envolvem à semântica dos direitos humanos diz
respeito às diferentes formas de apropriação e de reprodução do discurso desta categoria de
direitos, cujos significados se distinguem a partir das distintas formas de se vislumbrar e garantir
a dignidade humana. Daí, a polarização apresentada por Boaventura de Sousa Santos, no sentido
de haver, de um lado, um modelo hegemônico de apropriação dos direitos humanos, e, do
outro, uma possibilidade de subversão das opressões dos grupos marginalizados, a partir de um
uso contra-hegemônico destes mesmos direitos. O núcleo semântico hegemônico de direitos
humanos foi aquele engendrado pelas revoluções liberais do século XVIII, a partir dos primados
da liberdade individual e da igualdade formal. Esse modelo é sustentado na ideia de uma suposta
universalidade destes direitos, apta a invisibilizar as diferenças de ordem social, política e cultural,
e dos diferentes modelos de direitos humanos existentes mundo afora e é concebido a partir de
uma concepção de pessoa humana racional, reflexiva e individual e dissociada de elementos
sociais (gênero, raça, classe, orientação sexual). Em face desta constatação, revela-se insofismável

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a necessidade de se pensar o discurso e a correlata prática dos direitos humanos a partir de uma
perspectiva contra-hegemônica, que tenha em vista a emancipação e o emponderamento dos
marginalizados. À vista desse desiderato, é possível vislumbrar o objetivo geral que move a
feitura do presente trabalho, qual seja, a desconstrução da pretensa ideia de consenso que paira
sobre a retórica dos direitos humanos. Para tanto, vale-se de um recorte geográfico específico
que tem a América Latina como cenário de estudo, e que visa, a partir de uma análise de
conjuntura, sobretudo política, desestabilizar a suposta universalidade que caracteriza o discurso
dominante dos direitos humanos.A mencionada análise de conjuntura parte de dois diagnósticos:
o primeiro, de que na atualidade o Estado assume lugar central nas discussões que envolvem
direitos humanos; e o segundo, de que o discurso dominante desses direitos ancora-se em uma
matriz liberal, construída a partir de uma visão eurocêntrica de mundo8. Cada um desses
diagnósticos constitui um objetivo específico de estudo deste trabalho. Atendo-se à primeira
premissa, reputa-se fundamental compreender o arquétipo que o Estado vem assumindo ao
longo das últimas décadas, sobretudo a partir dos anos 1980, com o influxo do projeto político
neoliberal. No contexto latino-americano, esse período, marcado pela introdução do receituário
de Washington, coincide com uma longa fase de transição democrática, caracterizada pelo fim
das ditaduras militares e pela nascença de incipientes democracias. Mais que um novo formato
de Estado, remodelado pelo novo sistema político e econômico, houve uma reconfiguração das
relações entre o Poder Público e a sociedade civil. Ao mesmo tempo em que o neoliberalismo
triunfa, diluindo as delimitações entre poder econômico e poder político, relativizando o
sentido de soberania em decorrência da globalização e deslegitimando a intervenção do Estado
nos domínios econômico e social, emergem movimentos sociais que, contrários ao regime
ditatorial, inauguram um novo formato de atuação política, identificado na ocupação de espaços
não institucionais para alcançar objetivos no âmbito estatal. Como exemplo, é possível citar o
Movimento das mães da Praça de Maio na Argentina. Em tempos contemporâneos, evidencia-
se a opulência e a originalidade dos movimentos populares no Equador e na Bolívia, que
culminaram na aprovação de novos textos constitucionais, em 2008 e 2009, respectivamente.
Utilizando-se de um mecanismo de democracia ampliada – o referendo –, ambas as Constituições
tiveram o condão de romper com o modelo europeu de constitucionalismo, o que possibilitou
traçar diferenciados contornos ao Estado a partir de novas premissas, dentre elas a
plurinacionalidade, a interculturalidade, a união entre a prática e a teoria na ação política, e o
reconhecimento de novos sujeitos coletivos. À vista deste panorama, é possível identificar a
presença de dois projetos políticos distintos, senão antagônicos: de um lado, o neoliberal, e, do
outro, o popular participativo. À disputa política protagonizada por estes dois projetos, a
professora Evelina Dagnino atribui o nome de “confluência perversa”. O termo “confluência”
designaria o encontro, no mesmo cenário, dos projetos políticos em análise, ao passo que a
“perversidade” consistiria no fato de que, mesmo tendo pressupostos e finalidades distintas, os
dois movimentos valem-se de um discurso em comum. Há, no sentir da autora, uma clara
disputa simbólica, constitutiva de uma crise discursiva, na qual ambos os projetos apontam para
as mesmas referências - cidadania, participação e sociedade civil -, muito embora o formato de
apropriação e de construção de cada uma delas se distinga na prática.A autora não situa a
retórica dos direitos humanos no bojo do fenômeno que qualifica como perverso.Verifica-se,
todavia, que na tela sul-americana a bandeira destes direitos é, tal como a cidadania, a participação,

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e a sociedade civil, levantada por ambos os projetos políticos em disputa, constituindo-se, pois,
um elemento de disputa simbólica e, consequentemente, constitutivo de uma crise discursiva.
Vale dizer, enquanto o projeto democratizante-participativo vale-se de instrumentos de ação
política aptos a construir um sentido efetivamente emancipador para a categoria dos direitos
humanos, o projeto político neoliberal apropria-se desses direitos como se mercadoria fossem,
reforçando, assim, o sentido hegemônico-liberal que historicamente a Europa atribuiu a esta
tipologia. No que diz respeito à segunda premissa, nota-se que o processo de desenvolvimento
dos direitos humanos está vinculado às lutas políticas ocidentais do século XVIII. Fundamentando-
se na tradição teórica racionalista da modernidade, a teoria dos direitos humanos incorporou
consigo a crença da existência de uma essência universal, compartilhada por todos os indivíduos
– a racionalidade – intimamente ligada aos direitos naturais do homem moderno. Esse esforço
histórico e filosófico de dar sustentação à teoria dos direitos humanos é atribuído ao Ocidente
Moderno, notadamente à Europa. Como consequência, dissemina-se, desde então, que esta
seria a única forma legítima de se pensar e de se teorizar acerca dos direitos humanos,
constituindo-se, pois, um discurso dominante. O que este raciocínio obscurece é que, por ter
sido construído em um momento e um local específico do globo, o discurso hegemônico dos
direitos humanos padece de incompletudes, uma vez que é parcial e localizado. A tese de que
os direitos humanos derivam de uma concepção eurocêntrica de direito é corroborada por
Boaventura de Sousa Santos. O autor português analisa a genealogia dos direitos e observa que
a modernidade ocidental está calcada em um pensamento que encerra uma dualidade,
responsável por dividir o mundo em dois eixos abissais: o das sociedades metropolitanas e das
sociedades colonizadas.18 Nesta tela, o discurso dominante dos direitos humanos situa-se
apenas em um dos lados dessa divisão abissal – o lado das sociedades metropolitanas – e, como
tal, reproduz apenas a história e a concepção teórica aí desenvolvidas, desconsiderando qualquer
realidade ou prática desenvolvida no lado colonial da linha, onde a América Latina se situa. À
luz do itinerário ora descrito – que contextualiza a América Latina em termos políticos e que
referencia, no cenário mundial, a lógica do discurso dominante dos direitos humanos – é
possível extrair algumas inferências. Partindo-se do pressuposto de que o Estado assume lugar
de destaque nos debates que versam sobre os direitos humanos, verifica-se que a compreensão
do modelo estatal vigente, bem como de suas relações com a sociedade civil constituem
ferramentas imprescindíveis para se descortinar o núcleo semântico de direitos humanos que
uma sociedade cria e reproduz. Neste particular, foi possível realçar que o ambiente da América
Latina atual apresenta nuances próprias, de modo que a bandeira dos direitos humanos é
apropriada por dois projetos políticos distintos, de molde a revelar uma crise discursiva
contundente. No cenário desta parte do globo, apesar da inconteste existência de movimentos
populares autônomos que tem redimensionado o sentido dos direitos humanos, não se pode
olvidar a presença de uma lógica neoliberal (muitas vezes aparelhada no Estado) encarregada de
reforçar, diuturnamente, a imposição de um modelo eurocêntrico de discurso e de prática
desses mesmos direitos. Com efeito, pensar um discurso e uma prática de direitos humanos que
seja contra-hegemônica – logo, emancipadora –, exige um ato de resistência do lado de cá da
linha. Resistir, neste caso, implica em descolonizar o saber, o direito e a visão de mundo.

Palavras-chave: Direitos Humanos; Neoliberalismo; Democracia participativa.

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9. O ESTUDO ANTROPOLÓGICO DO GRUPO MBYÁ-GUARANI COMO CONDIÇÃO DE
POSSIBILIDADE PARA A FORMAÇÃO DE UMA NOVA ALDEIA NO MUNICÍPIO DE SANTO
ÂNGELO – RS: A CONTRIBUIÇÃO DOS TEÓRICOS LATINO-AMERICANOS PARA PROTEÇÃO
DOS DIREITOS HUMANOS E A CONCRETIZAÇÃO DO DIREITO À TERRA PELOS POVOS
INDÍGENAS

Autores: Maiquel Ângelo Dezordi Wermuth; Estelamaris Dezordi

Resumo: Atualmente os grupos étnicos classificados como Índios de acordo com a


Constituição Federeal de 1988 (Capítulo VIII), vivem sérios problemas em relação à
demarcação, posse e uso de terras para que sejam efetivados seus direitos, garantidos nos
artigos 231 e 232 do Texto Constitucional, tendo seu estatuto de povos reconhecido por
força da ratificação pelo governo brasileiro na Convenção 169 da Organização Internacional
do Trabalho (OIT), em junho de 2002. A partir de então, os índios configuram “povos que
contam com demandas por sustentabilidade e desenvolvimento, por projetos e parceiros.”
(SOUZA LIMA, 2012, p. 104). A Constituição Federal, embora tenha definido uma série de
questões que versam sobre as garantias dessas comunidades no que tange à sua organização
social, costumes, línguas, crenças e tradições, parece insuficiente para dar conta das questões
ligadas principalmente ao uso da terra. Mesmo assim, a partir de 1988 inaugura-se um novo
cenário constitucional que impõe ao Estado a obrigação de demarcar as terras indígenas,
levando em consideração aqueles espaços que são necessários à preservação do modo de vida
tradicional desses povos. Na década de 1990, esse processo culmina com o reconhecimento
de terras indígenas na Amazônia Legal – terras indígenas Yanomami (AM/RR) e Raposa Serra
do Sol (RR). De acordo com Souza Lima (2012, p. 104), as terras indígenas compreendem
cerca de 13,1% de todas as terras brasileiras, “sendo as mais ricas em recursos naturais [...] e
das raras áreas preservadas num país cada vez mais devastado pelo extrativismo selvagem, pelas
queimadas de florestas para transformá-las em carvão, pasto ao gado, plantação de soja para
agronegócio, ou exploração mineral.” Segundo o autor, muitas dessas áreas “estão invadidas
e os povos indígenas nelas encerrados não têm contado com políticas governamentais que
deem suporto à sua exploração em moldes sustentáveis.” São muitos, portanto, os povos
que ainda lutam pela consolidação de um espaço territorial no Brasil. Com efeito, naquelas
regiões do país que se caracterizam por processos avançados de colonização e exploração
econômica – nas quais a malha fundiária é, consequentemente, mais complexa – os indígenas
apenas conseguiram manter, a muito custo, a posse de áreas territoriais diminutas e esparsas.
Muitas dessas áreas foram reconhecidas pelo Serviço de Proteção aos Índios entre 1910 e
1967 sem levar em consideração aqueles requisitos que são considerados fundamentais para
reprodução física e cultural dos povos indígenas. Nas regiões Nordeste, Sudeste e Sul do
Brasil evidencia-se uma situação de confinamento territorial, o que significa, reflexamente,
uma considerável restrição dos modos de vida indígena. Nesses lugares, muitos povos
indígenas vivem em áreas bastante diminutas e sem terras demarcadas. Dentre esses povos
estão os Mbyá-Guarani. Trata-se de um grupo falante da língua guarani que tem origem no
grande tronco linguístico Tupi-Guarani, estão estabelecidos atualmente nos territórios que
pertencem à Argentina, Paraguai, Brasil e Uruguai, realizando deslocamentos territoriais
caracterizados por movimentos transnacionais que historicamente são tratados na etnologia

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Guarani. Nem sempre compreendidos na sociedade nacional por exercerem seu direito de ir
e vir, precisam lutar pelos seus espaços no Brasil. De acordo com Souza Lima (2012, p. 105),
assim como os índios Tapeba, do Ceará, os Mbyá – com sua órbita de circulação cruzando
fronteiras nacionais do ainda muito parcamente regulamentado MERCOSUL – “estão longe
de ver um horizonte de resolução tranquilo.” Nesse sentido, o presente artigo visa a tratar
sobre os direitos humanos e a concretização do direito à terra de um pequeno grupo familiar
Mbyá-Guarani, estabelecido desde 2013 no município de Santo Ângelo, no estado do Rio
Grande do Sul, e que está embuído na conquista de um pequeno espaço de terra no qual
possam formar seu tekoá, garantindo seus direitos e efetivando seu modo de ser. Entende-se
que os pensadores latino-americanos que se preocuparam com o estudo dos povos indígenas
brasileiros em questão são de curial relevância para a compreensão das suas especificidades.
Nesse sentido, a obra de João Pacheco de Oliveira assume posição central. A partir da noção
de “territorialização”, compreendida como “uma intervenção da esfera política que associa
de forma prescritiva e insofismável um conjunto de indivíduos e grupos a limites geográficos
bem determinados” (OLIVEIRA, 1998, p. 56), procura-se abordar como esse processo se
mostra imprescindível para assegurar e proteger os direitos humanos do povo Mbyá-Guarani
em seu esforço para a formação de uma nova aldeia no município de Santo Ângelo – RS.
Afinal de contas, é o ato político da territorialização que representa “o movimento pelo
qual um objeto político-administrativo – nas colônias francesas seria a ‘etnia’, na América
espanhola as ‘reducciones’ e ‘resguardos’, no Brasil as ‘comunidades indígenas’ – vem a
se transformar em uma coletividade organizada, formulando uma identidade própria,
instituindo mecanismos de tomada de decisão e de representação, e reestruturando as suas
formas culturais (inclusive as que o relacionam com o meio ambiente e com o universo
religioso).” A partir desse processo, “as afinidades culturais ou lingüísticas, bem como os
vínculos afetivos e históricos porventura existentes entre os membros dessa unidade político-
administrativa (arbitrária e circunstancial), serão retrabalhados pelos próprios sujeitos em um
contexto histórico determinado e contrastados com características atribuídas aos membros
de outras unidades, deflagrando um processo de reorganização sociocultural de amplas
proporções.” (OLIVEIRA, 1998, p. 56-57). Entende-se que o ideal político-filosófico de
construção de condições político-morais para um diálogo intercultural que se constrói desde
o local e o regional e que se baseia em um conjunto de princípios e direitos partícipes de um
projeto nacional de reconhecimento dos direitos à diferença sócio-histórica rumo à inclusão
e à justiça social, tendo como ponto de partida o respeito à diferença de projetos de futuros,
disseminado entre antropólogos, apoiadores, indigenistas e movimentos indígenas, merece
ser pensado em confronto com a realidade histórica das relações entre os povos indígenas
e o Estado brasileiro (SOUZA LIMA, 2012). É nesse rumo que a pesquisa procura ser um
instrumento auxiliar no processo de formação/consolidação da aldeia Mbyá-Guarani no
Município de Santo Ângelo – RS.

Palavras-chave: Povos indígenas. Direito à terra. Direitos Humanos.

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10. A SOBERANIA ALIMENTAR GARANTIDA POR MEIO DA [RE] SIGNIFICAÇÃO DA FUNÇÃO
SOCIOAMBIENTAL DO MEIO AMBIENTE COMO HERMENÊUTICA EMANCIPADORA
E DESCOLONIAL DE EFICÁCIA DE DIREITOS HUMANOS E A PARTIR DAS TEORIAS
LATINOAMERICANAS

Autores: Caroline Vargas Barbosa; Luciana Ramos Jordão

Resumo: O trabalho problematiza a segurança alimentar aliada a agroecologia como pilares


de direitos humanos e os meios aos quais são definidos os critérios de aplicabilidade e coerção
a partir da função socioambiental do meio ambiente enraizada em conceitos coloniais
e capitalistas. Tem como objetivo principal, portanto, demostrar que para a efetividade da
segurança alimentar por meio da agroecologia como método descolonial a partir da
hermenêutica adequada da função socioambiental que ocorre por meio da redefinição dos
quesitos ambientais e jurídicos aplicados como meio de aproximação de uma teoria descolonial,
emancipadora e de efetividade de direitos humanos. Para tanto, por meio do método dedutivo,
busca no Constitucionalismo Latino-Americano o conceito de direito comunitário ao
meio ambiente, caracterizado pela soberania e pela pluralidade de sujeitos. Principalmente,
na questão de reconhecimento e identidade do indivíduos com a sociedade e com o meio
ambiente. Assim, propõem-se a partir do conceito de direito comunitário ao meio ambiente
e do conceito político, ético, social e econômico do buen vivir, uma proposta epistemológica
de partida a [re] significação da agroecologia em busca da real e concreta segurança alimentar
como parte da concretude de direitos humanos. Para que, possamos concluir que os conceitos
de agroecologia e função socioambiental dever-se-ão ser aplicados em níveis além de globais,
com sujeitos difusos e coletivos como meio de garantia e eficácia de direitos fundamentais e
humanos ao meio ambiente equilibrado e adequado das futuras gerações.

Palavras-chaves: soberania alimentar; função socioambiental; buen vivir; direito


comunitário.

11. O DISCURSO TEÓRICO E DOGMÁTICO FRENTE AO SUPER PODER EXECUTIVO NO


NOVO CONSTITUCIONALISMO LATINOAMERICANO

Autor: Anna Cecília Faro Bonan

Resumo: Inicialmente preciso esclarecer que esse trabalho reflexivo é uma provocação aos
estudiosos do Novo Constitucionalismo Latinoamericano, oriundo da minha participação
como convidada observadora do Yale Law Seminary – SELA 2015, ocorrido no luxuoso
Sheraton Rio Hotel & Resort nos dias 11 a 14 de junho de 2015, no qual, contraditoriamente,
representantes acadêmicos e teóricos dos países da América Latina debatiam acerca da
“Desigualdade”. O convite aceito, realizado pelo professor Roberto Gargarella, para assistir
tal evento resultou em algumas inquietações as quais pretendo compartilhar neste trabalho.
Acreditando que o meu maior desafio seria o de dar coesão a tantos questionamentos,
especifiquei um recorte preciso àqueles acerca da estrutura e organização dos poderes frente
ao reconhecimento dos direitos na seção dogmática das Constituições Latino-Americanas. E,
para fundamentar e aprofundar tais questões, usei como técnica uma revisão bibliográfica dos

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70
artigos apresentados na Sessão 5 - The Failures of Latin American Neoconstitutionalism? do
referido Seminário2, bem como de outros estudos publicados relevantes ao tema

Palavras chaves: novo constitucionalismo latinoamericano, organização de poderes, direitos


socioeconômicos, pensamento descolonial.

12. OS MOVIMENTOS DE “OCUPA” NA CIDADE DO RIO DE JANEIRO: NOVOS SUJEITOS DE


CIDADANIA E RESISTÊNCIA

Autores: Caio Nogueira de Castro; Bernardo Xavier dos Santos Santiago

Resumo: O presente trabalho objetiva sistematizar os primeiros elementos da construção de


um projeto de pesquisa que vem sendo norteado pela investigação dos efeitos e implicações
dos movimentos denominados “Ocupas” no Rio de Janeiro, identificados como novos
sujeitos políticos atuantes no contexto de reforma urbana e gentrificação da cidade a fim
de compreender como se dão suas práticas e quais são suas pautas em termos de luta por
garantia e efetivação de direitos. Inicialmente, tem-se como objeto de análise o “Ocupa Borel
às 21h”, realizado no complexo do Borel como um movimento de resistência ao toque de
recolher imposto aos moradores, bem como às violações de direitos humanos e à forte repressão
operada pela Unidade de Polícia Pacificadora no local, além do movimento BONDE, definido
como uma frente artística de esquerda que agrega diversos coletivos de cultura com o objetivo
de ocupar culturalmente o espaço público, fortalecendo a pauta dos movimentos populares
através de intervenções artísticas. De modo incipiente, pode-se dizer que ambos os movimentos
despontam como referências por expressar práticas e discursos de cidadania na resistência às
intervenções do Estado e do capital na estrutura da cidade, com vistas à implementação de um
modelo de cidade-negócio, pautada na modificação radical do espaço urbano como estratégia
de atração de investimentos e reposicionamento da cidade através de sua renovação urbanística,
com a intensificação de processos de remoção e gentrificação da cidade, o que é acompanhado
pela violação de direitos num contexto de cidades já marcadas pela segregação social. Nesse
sentido, o objetivo principal da pesquisa é obter conhecimento acerca do que consiste e de
como funcionam esses movimentos, de modo a reunir elementos que permitam identificar na
realidade social as principais questões presentes nas relações entre práticas de cidadania relativas
a direitos e às intervenções públicas e privadas realizadas na atual reforma urbana do Rio de
Janeiro. Os resultados iniciais, até onde é possível aferir, apontam para a afirmação dos sujeitos
no território através da construção de redes de cooperação e da criação de novas subjetividades
e narrativas, gerando a ampliação da dimensão da cidadania no contexto urbano a partir da
centralidade das pautas de direito à cidade. Adota-se, para tanto, a metodologia da pesquisa
interdisciplinar com orientação epistemológica na teoria crítica, congregando teoria e práxis,
através da conjunção dos marcos teórico-metodológicos do materialismo histórico e dialético
e do pensamento descolonial. As principais categorias teóricas analisadas na pesquisa são aquelas
referentes ao “direito à cidade”, “movimentos sociais”, “cidadania”, “resistência”, “ocupas” e
“descolonialismo”. Adotam-se, ainda, os raciocínios indutivo e dedutivo, numa abordagem
jurídico-sociológica pelos modos de pesquisa qualitativa e quantitativa, o que envolve as
técnicas de pesquisas de revisão bibliográfica, análise documental e observação não participante.

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A realização da pesquisa ocorre no âmbito do Grupo de Pesquisa Cidadania e Direito no Espaço
Urbano, que se insere no Laboratório de Estudos Interdisciplinares em Constitucionalismo
Latino-Americano (LEICLA), do Programa de Pós-Graduação em Direito Constitucional da
Universidade Federal Fluminense, que congrega professores doutores e mestres, mestrandos,
graduados e graduandos.

Palavras chave: direito à cidade; resistência; cidadania; ocupas; pensamento descolonial.

13. O NOVO CONSTITUCIONALISMO E O RESGATE DA DIMENSÃO POLÍTICA DOS DIREITOS


HUMANOS

Autor: João Batista Moreira Pinto

Resumo: Nossas pesquisas nos últimos anos em torno dos direitos humanos têm nos levado
a uma afirmação mais política dos direitos humanos como resultado de um processo sócio-
histórico de forte envolvimento das demandas da própria sociedade organizada. Esse processo
amplo e politico de constituição dos direitos humanos envolve os aspectos institucional e
jurídico, mas sem se restringir a eles. A constitucionalização dos direitos humanos também
é parte desse processo amplo dos direitos humanos, levando à discussão da efetivação ou
materialização desses direitos. Entretanto, os direitos humanos, tendo uma dimensão política,
não podem ser limitados à perspectiva jurídico-constitucional. Com isso, para a materialização
dos direitos humanos, é de fundamental importância o resgate de suas perspectivas sócio-
histórica e política, que evidenciam a integração do jurídico nesse processo, mas também sua
não limitação a esta realidade. Nesse sentido, a crítica feita à matriz liberal de reconhecimento
e constitucionalização dos direitos é de fundamental importância para sua afirmação histórica
e, sob um olhar político, que possa dar um passo a mais na paisagem jurídico-política em favor
da efetividade dos direitos, sob o ponto vista de outra lógica denominada por Boaventura de
Sousa Santos como contra hegemônica. A dimensão jurídico-constitucional deve ser pensada
a partir do empoderamento político da sociedade, isto é, ela requer para sua efetivação do
empoderamento político do sujeito de direito, dos movimentos sociais e das ONGs envolvidas
na luta por um direito comprometido com as transformações sociais emancipatórias. Assim,
o jurídico e o político são campos integrados em um processo social dialético. Dessa forma,
a emancipação social, defendida por Boaventura, ganha contornos efetivos, onde o resgate
da dimensão política dos direitos humanos se torna imprescindível para a efetivação dos
direitos. Portanto, o resgate da dimensão política dos direitos humanos, ofuscada por seu
reconhecimento no campo jurídico, parece ser uma estratégia fundamental para pensarmos
os direitos humanos em um contexto de pluralidades, em especial na América Latina, o que
será, porém, negado por concepções teóricas e políticas, nos vários campos de atuação, que
preferem manter o discurso do consenso e da unidade; bases da racionalidade ocidental desde
a Modernidade. Entretanto, apesar dessa dimensão política dos direitos humanos favorecer a
sua dimensão emancipatória, perspectiva que tem sido trabalhada, por exemplo, nos últimos
textos de Boaventura sobre a temática, ela não tem sido explorada suficientemente pelos
atores políticos e jurídicos da sociedade, isto é, pelos movimentos e ONGs que atuam com
direitos humanos, nem por outros atores ou campos que atuam e podem influir no processo

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de constituição dos direitos humanos, como os que atuam a partir do campo jurídico-
constitucional. Ao ressaltarmos os elementos políticos do processo de constituição dos direitos
humanos acreditamos poder aportar novas bases de fundamentação e novas metodologias que
poderão fortalecer o Novo Constitucionalismo, em sua crítica radical ao formalismo jurídico-
constitucional e defesa da implementação efetiva de todos os direitos humanos, marcados pela
indivisibilidade e inter-relação, para todos. As pesquisas que temos desenvolvido nos últimos
anos, individualmente ou através da coordenação de grupos de pesquisa, em torno dessa
realidade, tem-nos permitido pensar os direitos humanos como um novo projeto de sociedade;
um projeto plural, multidimensional e aberto, ético e politico, uma síntese dialética com
forte potencial emancipatório, que exige, para sua efetivação, metodologias e compreensões
adequadas. É o resultado dessas pesquisas que propomos apresentar no IX Congresso da Rede
Latino-Americana de Antropologia Jurídica – RELAJU, desenvolvendo artigo nesse sentido.

14. OS DIREITOS HUMANOS À IDENTIDADE E AO PATRIMÔNIO (INTER) CULTURAL: OS


DIREITOS CULTURAIS E O PAPEL DA MULHER INDÍGENA PARA A SUSTENTABILIDADE
AMBIENTAL DE SUAS COMUNIDADES

Autor: Abel Gabriel Gonçalves Junior

Resumo: Frente aos desafios impostos pelo processo de globalização, como a expansão do
capitalismo e a abertura do mercado financeiro, as mulheres tiveram que produzir novas visões
de mundo, tiveram que gerir condições de vida para si e para suas famílias. E dentro desse
contexto pretende-se analisar o papel do direito (humano e ambiental) e da mulher (indígena)
frente a esses novos desafios, compreender de que forma ela se articula para manter a identidade
cultural de sua comunidade, e como passa para seus filhos o conhecimento tradicional tão
importante para a preservação dos costumes, crenças e tradições. A presente pesquisa busca,
também, entender qual é o papel do direito frente a essas novas transformações ocorridas face
ao processo de globalização, bem como, verificar por meio da pesquisa em fontes primárias
(as mulheres de comunidades indígenas) sua dinâmica na relação, direito, família, natureza e
espiritualidade. A metodologia escolhida foi a de tipo etnográfico em fontes primarias por
meio dos métodos da história oral e cultural, mais precisamente o estudo de caso das mulheres
da comunidade indígena Kanela Ramkokamekrá e Apaniekrá no estado do Maranhão.

Palavras-chaves: Direitos Humanos; Interculturalidade; Gênero; Mulher Indígena;


Sustentabilidade.

15. REFAZENDO CAMINHOS PARA UMA EMANCIPAÇÃO DO CIDADÃO. CONTRIBUIÇÕES


PARA TRAÇAR NOVAS EPISTEMOLOGIAS.

Autor: Laura Melisa Selva Andrade

Resumen: Desde el aporte de la teoría crítica frente a los procesos de subjetivación y


emancipación, el presente trabajo tiene por objetivo (re)pensar la idea de la ciudadanía
desde una postura crítica. Nos interesa problematizar la espacialidad y la temporalidad del

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concepto en vías de interpelar su alcance y vigencia en el presente latinoamericano, en pos
de contribuir a nuevas (re)conceptualizaciones de la sociedad y de la cultura, que sean puntos
de partida de nuevas epistemologías en, desde y para el Sur.
Occidente creó una maquinaria de dominación que se basó en el reclamo de los
Derechos Humanos como bastión legitimador de su poder, solapando con él largos procesos de
subordinación, exclusión, racismo, xenofobia.A partir del análisis de las condiciones que encuentra
el discurso colonial para instalarse solapadamente en el seno de las relaciones sociopolíticas y la
eficacia con la que cuenta a la hora de alienar sujetos y desplazarlos de aquellos espacios que les
permitan erguirse como sujetos posibles dentro de una ciudadanía real, nos resulta importante
echar luz sobre este último concepto, sus implicancias y sus formas de materializarse. Dando
cuenta del contexto histórico de surgimiento de la idea de “sujetos de derecho”, intentaremos
analizar el reclamo jacobino de “igualdad, libertad y fraternidad” y redefinirlo a la luz de
conceptos como universalidad, pluriculturalidad, diferenciación, intentando diseñar estrategias
que nos permitan trazar novedosos caminos de emancipación epistemológica.

Palabras claves: ciudadanía – emancipación- latinoamérica – nuevas epistemologías

16. O LOCAL DE FALA DOS CRISTÃOS-NOVOS E SUA IMPORTÂNCIA NA DEFESA DOS POVOS
ORIGINÁRIOS NA CONQUISTA DA AMÉRICA

Autores: Bianka Adamatti; Alex Sandro da Silveira Filho

Resumo: Na Primeira Modernidade, foi identificada a presença de judeus convertidos ao


catolicismo ou cristãos-novos nas expedições hispânicas às Índias. A perseguição secular da
população judaica levou a maioria à forçada conversão, aqueles que não se adaptaram às cobranças
induzidas pela Coroa Espanhola, como taxas e impostos abusivos, eram presos e excluídos do
meio social. A medida derradeira ocorreu em 1492, com a expulsão de judeus e islâmicos da
Espanha, o que coincidiu com o ano da Conquista da América. Nesse diapasão, o objetivo deste
trabalho é demonstrar que nem todos os autores que relatavam a exploração europeia aos povos
originários da América presenciaram a barbárie da colonização, e que mesmo nunca tendo pisado
na América também proferiam discurso em prol dos latino-americanos por também serem
minorias, ou seja, cristãos-novos. Para tanto, far-se-á uma análise dos autores de origem judaica que
publicaram seus relatos sobre a exploração da Europa aos nativos da América, como Bartolomé
de Las Casas, Michel de Montaigne, Alonso de la Vera Cruz, Juan de Solórzano Pereyra e José de
Acosta, bem como em autores que ressaltam a importância do local de fala como instrumento de
libertação às minorias oprimidas pela colonização da América, como Walter Mignolo, Eduardo
Mendieta, Ramón Grosfoguel e Enrique Dussel. A pesquisa é de cunho bibliográfico, através
do levantamento da trajetória histórica dos cristãos-novos, desde a perseguição na inquisição,
até as medidas de expulsão e chegada na América Latina. Os resultados da presente pesquisa
elucidam uma grande importância dos cristãos-novos para o debate sobre a exploração europeia
na América, pois por pertencerem também a uma minoria, possuíam discurso de autoridade para
a defesa, compreendendo assim, o sofrimento dos povos originários e a necessidade de ter sua
cultura, no que coubesse, protegida, sendo tais (re)leituras essenciais até os nossos dias.

Palavras-chave: Cristãos-novos; Local de Fala; Minorias; Conquista da América.

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17. ALTERNATIVAS LATINOAMERICANAS PARA UMA CONCEPÇÃO UNIVERSAL DE
DIREITOS HUMANOS

Autor: Kelly Ribeiro Felix de Souza

Resumo: Desde a promulgação da Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão de


1789,sagrou-se vencedora a concepção segundo a qual os Direitos Humanos decorrem da
suposição da existência de um Direito “natural”, inato ao homem em razão de sua própria
natureza, remetendo à ideia de unidade do gênero humano ou de igualdade em sua essência.
Tal noção se estabeleceu com maior força com as formulações de Immanuel Kant, autor
segundo o qual “o direito natural seria o produto necessário e moral de uma razão humana
universal” (TRINDADE, 2011, p. 33). Nesse sentido, conforme a ideia inerente ao termo,
o direito natural, logo, os Direitos Humanos, seriam uma ideia abstrata e, como derivado
da própria essência humana, um direito universalmente válido. No entanto, a história
vem demonstrando que tal ideia não passa de mera especulação filosófica, uma vez que,
recorrentemente, determinadas naturezas são desqualificadas, a fim de manter determinados
indivíduos fora da abrangência dos direitos universalmente considerados. Apenas para
exemplificar, a escravidão do povo negro perpetuou-se até fins do século XIX; a partir
dos processos de colonização, os povos indígenas foram massacrados e tiveram suas terras
e culturas roubadas; e, até os dias de hoje, outras formas de desigualdade são introduzidas
na sociedade a partir de processos naturais de desumanização de determinados indivíduos,
principalmente com vistas e em decorrência da expansão capitalista. Nesse sentido,
importante crítica à concepção universalista e abstrata de Direitos Humanos foi encampada
por Karl Marx, em sua obra Sobre a Questão Judaica, na qual contesta a concepção
liberal de Direitos Humanos consagrada pela Revolução Francesa, através da cisão entre o
homem privado e o público, entre os direitos do homem e do cidadão (MARX, 2010, p.
48), o que possibilitaria e asseguraria a coexistência entre igualdade e desigualdade, já que
tais aspectos passaram a ser considerados em planos distintos. Dessa forma, o homem da
sociedade burguesa, tomado pela perspectiva ocidental e eurocêntrica, é pressuposto dos
Direitos Humanos, de modo que, ao largo da noção abstrata e universal, seriam revestidos de
concretude excessiva que impediria qualquer defesa do homem em geral e de outros modos
de vida, redundando em uma noção a-histórica e socialmente descontextualizada, na qual os
homens são livres e iguais em direitos apenas no plano normativo. Não por outra razão, não
contemplada pela matriz liberal-eurocêntrica, a América Latina se vê diante da necessidade
de construir um projeto epistemológico que esteja atento às particularidades e às lutas antes
invisibilizadas pelo passado colonial e pelo viés unicamente formalista/abstrato da concepção
tradicional de Direitos Humanos. Desse modo, o objetivo do presente trabalho é analisar as
alternativas nascentes na América Latina para ressignificação dos fundamentos dos Direitos
Humanos, com vistas a uma concepção verdadeiramente universal. Para tanto, pretende-
se expor a crítica à matriz liberal de Direitos Humanos, tendo como referencial teórico o
pensamento marxista; posteriormente, pretende-se buscar no pensamento latino-americano
as contribuições necessárias para a construção de um novo conceito de história e de Direitos
Humanos, que dê conta da tradição de opressão do povo latino-americano, tendo como
referencial teórico o pensamento descolonial; ao final, pretende-se apontar em que medida as

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lutas por emancipação na América Latina, que culminaram em reformas constitucionais que
buscam a transformação da realidade social e a criação de uma nova matriz de pensamento,
inserem-se nesse contexto de ressignificação da concepção tradicional de Direitos Humanos,
tendo como referencial teórico o Novo Constitucionalismo Latino-americano. Adota-se,
ainda, uma abordagem jurídico-sociológica e assume-se como técnica de pesquisa a revisão
bibliográfica das obras mais relevantes produzidas sobre o tema.

Palavras-chave: direitos humanos; teoria crítica; pensamento marxista; pensamento


descolonial; novo constitucionalismo latino-americano.

18. ENSAIO CRÍTICO SOBRE A QUESTÃO DA CONCESSÃO DE BENEFÍCIO ASSISTENCIAL DE


PRESTAÇÃO CONTINUADA A IMIGRANTE.

Autores: Daniel Diniz Gonçalves; Maria Cristina Vidotte Blanco Tarrega

Resumo: O presente artigo aborda a questão das políticas públicas assistenciais dispensadas
aos imigrantes, no contexto jurídico-espacial Brasileiro, tendo como questão prática a
discussão judicial da concessão de benefício assistencial de prestação continuada ao estrangeiro.
Apresentamos, no corpo do trabalho, as opiniões favoráveis e contrárias à concessão do amparo
assistencial aos mesmos e, depois, criticamos ambas as opiniões, com a teoria crítica de David
Sanches Rubio e as achegas doutrinárias de Costas Douzinas, porquanto tais posições se
desenvolvem em um âmbito reducionista, eis que exclusivamente estatalista, economicista
e dogmático. No fim do trabalho, esperamos oferecer uma nova perspectiva de direitos
humanos aplicados aos imigrantes, que transcende o reducionismo denunciado.

Palavras-Chave: Benefício assistencial. Estrangeiro. Teoria crítica. Multigarantismo.

19. A BUSCA DE UM INDIGNO PELA DIGNIDADE: CONFLITO SOBRE A NATUREZA HUMANA


DO INDÍGENA

Autor: Bárbara Josana Costa

Resumo: A filosofia dos direitos humanos, na modernidade, surgiu através de lutas políticas
em que os espanhóis, no século XVI, na tentativa de conquistar novas terras, submeteram
indígenas à servidão. Parece obviedade afirmar que todos os seres humanos são iguais e
dotados de dignidade. No entanto, não se consideravam todos os seres humanos iguais;
inclusive, nos decretos papais do século XV, a igreja apoiava e legitimava a conquista de
novas terras, ataque, combate, subjugação e espoliação de lugares e pessoas infiéis; estes eram
aqueles que não comunhavam da religião católica, como no caso, os indígenas americanos.
Figuras que se destacaram na época foram Gines de Sepúlveda e Bartolomé de Las Casas, os
quais estavam de lados opostos; Sepúlveda defendia que os índios eram de uma raça inferior
e mereciam ser dominados e caçados, sustentando que os indígenas não tinham humanidade
plena igual à dos europeus, não sendo pessoas civilizadas e representando uma forma inferior
de humanidade, devido a suas práticas indignas. Las Casas, por outro lado, posicionando-se

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contra a coroa e a igreja3, afirmando que nenhuma pessoa tinha direito sobre a outra, e que as
justificativas para a escravidão dos indígenas e o tratamento desumano a eles empregado não
eram válidos. E, na época, agressões legitimadas impostas aos índios tiveram seus argumentos
deslegitimados por Bartolomé. Suas ideias impulsionaram o conceito de dignidade humana.
O debate político se dava em torno da humanidade do indígena, cuja verdade reconhecida
na afirmação de ser ou não o indígena humano, definiria uma prática. E o reconhecimento
da não humanidade indígena estaria, também, a legitimidade ou não na conquista de novas
terras e dominação dos que ali viviam. Os interesses no reconhecimento da não humanidade
do indígena eram puramente de poder, levando tal discussão a mais alta instância de poder
simbólico da época, em que se editou uma “bula sublimis”, na qual constava que ‘Determina-
se, como coisa de fé, que os índios são verdadeiros homens como os demais, capazes de
salvação e de todos os sacramentos’, o que, em que pese não possuir valor jurídico, tornou-
se uma postura clara a favor do reconhecimento da humanidade do índio. Em meio ao
mesmo contexto no século XVI, Francisco de Vitoria, na corrente de Las Casas, afirmou
que os índios eram “[…] livres e iguais, devendo ser respeitados como sujeitos de direitos,
proprietários e na condição de signatários dos contratos firmados com a coroa espanhola”.
Este autor situou no corpo social e político a questão da dignidade humana, argumentando
que o fato de os indígenas não serem cristãos não significava que não possuíam direitos,
pois eram livres e iguais. Diante da exposição inicial, o presente trabalho tem como escopo
analisar o conflito histórico que levou ao questionamento da natureza humana do indígena e
a importante contribuição que tal passagem na história, de reconhecimento do índio como
pessoa humana, teve para o princípio da dignidade da pessoa humana.

20. A RESTRIÇÃO À OCUPAÇÃO DE POSTOS NAS CORPORAÇÕES MILITARES POR


MULHERES E O MACHISMO: UMA ANÁLISE (CRÍTICA) AO DISCURSO CONTIDO NO REXT
528.684 MS.

Autores: Ana Carolina Voges de Campos; Ana Patricia Racki Wisniewski

Resumo: A partir da análise crítica do discurso jurídico realizada na decisão do Recurso


Extraordinário 528.684 MS, julgado pelo Supremo Tribunal Federal em setembro de 2013,
o presente trabalho objetiva identificar e evidenciar traços de machismo e discriminação
de gênero -traços estes que condizem com a colonialidade- que possam permear o julgado
da questão que envolve a possibilidade de ocupação, por mulheres, dos mais altos cargos
das Polícias Militares. Ambiente, ainda, predominantemente masculino, o oficialato militar
mostra-se extremamente restrito à inclusão das denominadas FEMs, havendo, inclusive,
Estados nos quais os concursos públicos para provimentos de seus cargos têm limitações
ao percentual de candidatas do sexo feminino a serem admitidas. Nesse contexto, a análise
crítica do discurso parte do pressuposto que texto é um objeto sociocultural que carrega
em si uma ideologia, podendo essa ser implícita ou explícita. Através dessa ideologia são
reafirmados ou estabelecidos estereótipos e pré-conceitos acerca de um determinado grupo
ou temática. O conteúdo ideológico de um texto é construído desde a gênese do mesmo,
sendo assim impossível desassociá-los. Partindo dessa premissa, chega-se a conclusão lógica

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que a realidade textual é construída, sobretudo, com as ideologias do sujeito que o produz.
Desse modo, ao submetermos o texto do julgado à análise crítica do discurso, pretendemos
verificar a presença de traços, explícitos ou implícitos, de machismo e discriminação de
gênero que possam endossar, de forma velada, posições preconceituosas nos julgados da
Corte Constitucional e a existência, ou não, de solipsismo por parte de seus julgadores. A
matriz colonial do poder é uma estrutura complexa de níveis entrelaçados, entre os quais
está o controle de gênero e sexualidade, e encontrar esses traços ajuda a entender de que
forma a colonialidade do poder possibilita a estruturação da assimetria de poder no mundo
contemporâneo e com isso legitima as mais distintas formas de discrímen.

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2.2 – EIXO 2

PARA UMA HERMENEUTICA JURÍDICA DESCOLONIAL: TERRITORIALIDADES


INDÍGENAS, QUILOMBOLAS E O NOVO CONSTITUCIONALISMO
LATINOAMERICANO

Ementa: O modelo hegemônico de colonialidade europeu marcou a ocupação das


terras brasileiras, subalternizando e marginalizando os povos indígenas, suas culturas, seus
conhecimentos e, principalmente, ignorando seus modos de interação com a natureza e
o sentimento de pertencimento que lhes mantêm enquanto parte integrante do território
que ocupam. A partir de uma compreensão de mundo não eurocêntrica, surgiu na América
Latina um movimento constitucional do tipo pluralista e insurgente, denominado Novo
Constitucionalismo Latino-americano, objetivando o reconhecimento da diversidade,
das realidades sociais latino-americanos e do resgate da cosmovisão e dos conhecimentos
indígenas, ganhando destaque nos novos textos constitucionais a proposta do “buen vivir”
(Sumak Kawsay, Suma Qamaña e Ñandereko) e a positivação dos direitos da natureza –
Pachamama. Objetiva-se, então, debater sobre a América Latina, repensando projetos de
emancipação que rechaçam as práticas históricas de dominação epistemológica e cultural
sob a qual ficou submetido o continente a partir de sua conquista, sustentadas por modelos
socioeconômicos colonizadores e elitistas.
A mesa busca perquirir o tema em três pontos. Primeiramente, são busca experiên-
cias latinoamericanas e as teorias descoloniais, pensamentos alternativos, de resistência, que
irão priorizar uma matriz de pensamento não hegemônica, partindo das lutas de povos que
tiveram suas especificidades e direitos negados e seus conhecimentos inferiorizados durante
a modernidade. Em segundo lugar busca identificar experiências epistemológicas dos povos
indígenas Ticuna, Bororo e Guarani no Brasil e suas diferentes formas de ser, fazer, viver e
conhecer que representam opção de resistência ao projeto de dominação colonial. Por último
pensar um estudo comparado das Constituições do Brasil, Equador e Bolívia, sendo apre-
sentada a regulamentação constitucional da propriedade agrária nesses países, reconhecendo
nos textos constitucionais os dispositivos que reconhecem tradições indígenas e o sentimento
dessas populações em relação a vida e à terra, bem como aqueles que trazem inovações quan-
to ao direito de propriedade e que se coadunam com o respeito à natureza e à biodiversidade,
matriz de fundamentação do Novo Constitucionalismo Latino-americano.

Coordenadores:
Dr. Fernando Antonio de Carvalho Dantas (Universidade Federal de Goiás - Brasil), Dr. José Luis
Solazzi (Universidade Federal de Goiás - Brasil) e Dra. Carmen Lúcia da Silva (Universidade
Federal do Mato Grosso).

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1. O CONSTITUCIONALISMO PÓS-1988 E OS DESAFIOS INTERPRETATIVOS PARA A EFETIVAÇÃO
DOS DIREITOS DOS POVOS INDÍGENAS E QUILOMBOLAS

Autores: Guilherme Scotti; Evandro Charles Piza Duarte

Resumo: A Constituição brasileira de 1988 representa um marco na luta por reconhecimento


dos direitos dos povos indígenas e quilombolas, provocando uma redefinição da identidade
constitucional. Insere-se em um contexto global de ruptura paradigmática no constitucionalismo,
em que o direito à igualdade passa a ser lido como exigindo respeito às diferenças. No
contexto atual de retrocessos políticos na efetivação de direitos de indígenas e quilombolas, a
reapropriação do sentido da constituição por parte dos movimentos de luta por direitos oferece
potencialidades para uma abertura hermenêutica dos direitos humanos e fundamentais.

Palavras chave: Povos indígenas – Quilombolas – Direitos Fundamentais – Hermenêutica


Constitucional.

2. INDIGENISMO E CONSTITUIÇÃO DA BOLÍVIA: UMA ABORDAGEM A PARTIR DE 1990 ATÉ


À DATA

Autor: Eric Cícero Landívar Mosiño

Resumen: El Estado boliviano, en los últimos años ha sufrido una serie de reformas y
transformaciones que han llevado a su completa reconfiguración desde la organización de sus
poderes hasta la estructuración de sus niveles de gobierno. El producto de este nuevo Estado
se refleja, en gran medida, en la constitución promulgada el año 2009; sin embargo, esta norma
fundamental es resultado de anteriores reformas constitucionales que en reconocimiento a los
problemas históricos que aquejaban al Estado, trataron de resolverlos sin la necesidad de cambiar
en su totalidad la Constitución vigente desde el año 1967. El indigenismo fue sin duda alguna,
una de las corrientes que impulsó con gran fuerza la mayoría de las mencionadas reformas, y
aún más, los pueblos indígenas de Bolivia fueron actores fundamentales para la existencia actual
de un nuevo marco constitucional. En ese sentido, en el presente trabajo se analiza la manera en
que la lucha de los pueblos indígenas por el reconocimiento de sus derechos colectivos ha sido
reflejada dentro de la norma fundamental del Estado boliviano en las últimas décadas.

Palabras clave: Pueblos Indígenas; indigenismo; autonomía indígena; derechos colectivos;


constitucionalismo boliviano; Estado Plurinacional; plurinacionalidad; refundación.

3. PROCESSO JURÍDICO-NORMATIVO DO DIREITO DOS POVOS INDÍGENAS A TERRA:


A PARTICIPAÇÃO COMO CONDIÇÃO PARA A CONSTRUÇÃO DO PLURALISMO JURÍDICO
EFETIVO

Autores: Vanderlei Luiz Weber; Fernando Antonio de Carvalho Dantas

Resumo: A questão jurídica da terra indígena no Brasil revela histórico paradoxal em seu
processo vez que a luta dos povos indígenas pela terra, apesar de alguns avanços, especialmente

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os mais recentes como os da Constituição Federal de 1988, soma perdas jurídico-normativas
históricas significativas. Ocorre que nas últimas décadas as comunidades indígenas tem voltado
a sofrer retrocessos nas garantias constitucionais, quando na verdade, se deveria estar num
processo contrário, ou seja, o de garantir a efetividade da legislação histórica e legitimamente
conquistada. Todavia, não faltam grupos políticos, nem instrumentos jurídico-normativos
atuando em sentido contrário ao necessariamente esperado. Para demonstrá-lo apresentamos
a PEC n. 215/2000, a Portaria n. 303 da AGU e a definição de um Marco Temporal para
fins de demarcação territorial, entre outros retrógrados institutos que surgiram. Assim, os
objetivos desta pesquisa se relacionam a necessidade de analisar a inconstitucionalidade dos
referidos institutos, bem como sua ofensa a Convenção 169/89 da OIT e a Declaração da
ONU sobre os Direitos dos Povos Indígenas, de 2007, o que implica diretamente na violação
dos novos (velhos) direitos humanos previstos na própria Constituição Federal de 1988,
como os da Convenção e os da Declaração. Os mencionados instrumentos representam
especial fragilidade e insegurança jurídico-normativa para as comunidades indígenas e, na
prática, se visualiza a emergência de antigos e novos conflitos agrários dados os institutos de
retrocesso acima mencionados, enquanto que tal projeto, genericamente, segue atendendo
os ditames do Estado neoliberal e os interesses do agronegócio. Na via contrária, se vê no
direito a consulta prévia e na participação direta da produção legislativa e do desenvolvimento
de projetos econômicos nos territórios indígenas uma alternativa para a garantia da resistência
destes povos, além do respeito e valorização do seu direito consuetudinário, quando costumes,
tradições, organização social, política e econômica sejam reconhecidos como próprios dessas
comunidades e necessários para a sua sobrevivência física e cultural, na direção de se alcançar a
efetivação do pluralismo jurídico. Esse processo deveria, em tese, descolonizar a visão monista
do Estado e do Direito ordinários, sustentar o processo de autodeterminação desses povos e
garantir a construção de um Estado Plurinacional que reafirme a democracia participativa como
um sistema principiológico, dialético e característico para a construção de uma sociedade mais
plural, mais decente e respeitadora das diferenças. Por fim, a presente pesquisa visa a conquista
da garantia de um território indígena construído através da participação ativa na política e na
produção jurídico-normativa por parte dos povos indígenas.

Palavras-chave: território indígena, participação, pluralismo jurídico.

4. LINGUAGENS: UMA POSSIBILIDADE DE DIALOGO INTERCULTURAL

Autor: Dorinethe dos Santos Bentes; Flávia Regina Porto de Azevedo

Resumo: Objetivando contribuir na construção de elos de comunicação que facilitem a


interrelação entre os povos indígenas que habitam o território Nacional e o Estado brasileiro,
propõe-se uma mudança nos paradigmas da nossa hermenêutica jurídica atual. Sopesando que,
mesmo com todas as mudanças na legislação trazidas pela Constituição de 1988, precisamos
aprofundar ainda mais nossa incursão nestes aspectos, em alguns casos revendo e adequando a
legislação já existente e, em outros, colocando em prática o que já está contemplado em lei acerca
dos contatos interculturais, adequando o ordenamento jurídico brasileiro as novas demandas
do século XXI. Imperativo destacar que o Estado brasileiro ao tratar a temática intercultural

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continua ainda tendo uma postura extremamente autoritária, muito próxima da que ocorria no
período colonial, não respeitando a alteridade dos povos, quando no processo de interrelação
entre esses povos e Estado brasileiro, para que o diálogo se estabeleça são os povos indígenas que
tem a obrigação de aprender a língua portuguesa, considerando que a linguagem é a expressão
da cultura de um povo, ou seja, precisam aprender e compreender todos os símbolos e signos
de nossa cultura e em contra partida o Estado continua inerte, sem criar espaços de diálogo para
essa culturas.O método de pesquisa a ser utilizados é o dialógico, considerando a necessidade
de diálogo interdisciplinar entre o direito, a antropologia, a história e a sociologia. Os objetos
e os sujeitos em analise são o grupo indígena Tukuna, situado na região do Alto Solimões
compreendendo os municípios de Tabatinga, Benjamin Constant, São Paulo de Olivença,
Amaturá, Santo Antônio do Iça, no Estado do Amazonas e as estratégias elaboradas pelo Estado
para estabelecer o diálogo intercultural. Como resultado do trabalho propomos mudanças
nos paradigmas da relação intercultural estabelecida pelo e Estado brasileiro, possibilitando
elaboração de espaços que permita o ensino e aprendizagem das línguas em contato, garantindo
a construção de uma nova hermenêutica constitucional no Brasil.

Palavras chave: Linguagem, Hermenêutica Jurídica e Diálogo Intercultura.

5. DIREITOS DOS CONHECIMENTOS - PLURIVERSALISMOS, COSMOGONIAS E PLURALISMO


JURÍDICO NA PROTEÇÃO DOS CONHECIMENTOS

Autores: Sebastião Marcelice Gomes; Monica da Costa Pinto; Fernando Antonio de


Carvalho Dantas

Resumo: Os direitos dos conhecimentos emergem como realidade diante da qual o direito
como campo científico – nas perspectivas de suas categorias, conceitos e métodos – depara-
se com pontos cegos porque não contempla, epistemologicamente, formas complexas de
pensar e construir diferentes realidades sociais coexistentes no mundo contemporâneo.
Pensar os direitos dos conhecimentos pressupõe a ruptura da uniformidade do pensamento
monoico, positivista do direito moderno. A construção dos direitos dos conhecimentos passa
por metodologias transdisciplinares de pesquisa social que contemplem possibilidades para o
direito como transformador social. Os direitos dos conhecimentos se desdobram em dois vieses
teóricos: a multiversidade dos conhecimentos, territórios e temporalidades plurinacionais,
titularidades, gestões e jurisdições; e pluriversalismos, cosmogonias e pluralismo jurídico na
proteção dos conhecimentos. Pensar a natureza jurídica dos conhecimentos e dos elementos
da natureza com os quais se relacionam em processos de utilização e transformação simbiose
entre cultura e natureza significa pensar a relação indissociável desses processos na construção
das titularidades de apropriação coincidentes em territorialidades e temporalidades múltiplas;
portanto, jurisdições diversas e diálogos entre saberes diversos. Pensar o contexto da proteção
jurídica do conhecimento pautado na pluralidade de sujeitos, objetos e processos, bem como
institucionalidades plurais, significa uma releitura dos âmbitos institucionais pautada na
heterogeneidade e na democracia real.

Palavras-chave: Direitos dos conhecimentos. Pluralismo jurídico. Conhecimentos tradicionais.

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6. FORA DE ESCALA:ASPECTOS DAS HISTORIOGRAFIAS DESCOLONIAIS NA ERA DO COLAPSO
CLIMÁTICO ANTROPOGÊNICO

Autor: Henrique Weil Afonso

Resumo: A história do Direito “convencional” produz uma poderosa narrativa acerca


das interações homem/ambiente. Em primeiro lugar, está-se diante de uma dicotomia
historicamente amparada na moderna separação entre sujeito/objeto, favorecendo a
entidade antropogênica em detrimento do selvagem/natureza/outro externo. Em segundo
plano verifica-se, em tonalidade triunfal, universalizante e verticalizada (porque inaugura
hierarquias), a superioridade da espécie humana em relação ao ambiente que a cerca. Tanto
o constitucionalismo estatal quanto o direito internacional foram constituídos em torno
do referido esquema conceitual. Em contrapartida, a metodologia descolonial oferece
perspectivas hermenêuticas que confrontam esta narrativa convencional e, com isso,
contribui para a desmistificação da até então naturalizada separação entre o ser humano e
o espaço/ambiente. Mais que a denúncia dos processos de exclusão/inclusão resultantes da
hierarquia de modos de vida, promove-se narrativas envoltas ema cosmologias, periferias e
multiplicidades de sujeitos estranhos à metodologia historiográfica convencional. Ademais,
desafiam-se as dinâmicas econômicas que objetificam e comodificam o ambiente tornado
“recurso natural”. A despeito da abertura hermenêutica descolonial, compete notar certos
aspectos epistemológicos particularmente problemáticos, inicialmente incidentes nos
quadrantes da história do Direito, e que parecem advir do colapso climático do Antropoceno.
O “Antropoceno” é um termo em princípio empregado na Geologia a fim de designar
uma nova “Era” geológica iniciada no século XVIII e caracterizada pela vasta dimensão do
impacto global da atividade humana equivalente, desde então, à uma força geológica. Para
fins deste trabalho, a relevância desta proposição é que, pela difusão (ainda que desigual)
e uso desenfreado dos modernos meios de produção advindos da Revolução Industrial,
a espécie humana modifica o ambiente que a cerca em velocidades e escalas assimétricas
enquanto grupos e povos, mas com efeitos em certo sentido homogêneos: estes ultrapassam
os 100.000 anos em termos de impactos climáticos e ambientais no futuro da humanidade.
Questiona-se a capacidade teórica de compreender escalas de efeitos que extravasam modelos
das ciências modernas. Para tanto, partir-se-á da aguda proposição de Dipesh Chakrabarty,
em cujo recente artigo “The climate of history: Four Theses” defendeu a tese de que o
atual quadro antropogênico de mudança climática significa essencialmente o colapso não
apenas do clima, mas, também, o colapso das condições parametrais sobre as quais a razão,
inventividade e sociabilidade humanas vieram a mediar nossa dimensão existencial e com o
ambiente. A discussão proposta se constrói em torno das possíveis condicionalidades teóricas
trazidas pela crescente certeza de um futuro colapsado cujo alcance será universalizado. Por
um lado, ao incorporar o pluralismo como matriz epistêmica, a abordagem descolonial
distancia-se das violências do universalismo eurocêntrico. Por outro lado, a perspectiva
cada vez mais certa de um futuro comum colapsado faz retornar o desafio do universal
histórico. É neste contexto problemático, incerto e caótico que o recurso às cosmogonias
ameríndias – em particular a ideia de morte do ser humano como a morte de formas não-
humanas internamente antropomórficas – será capaz de justificar leituras menos objetificadas

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e hierarquizadas de um futuro comum que se aproxima dos sujeitos descoloniais, à medida
que estes experimentam o colapso climático em variadas formas e variados tempos históricos.

Palavras-chave: Antropoceno. Metodologia descolonial. História do Direito.

7. A TITULARIDADE DAS TERRAS INDÍGENAS NO BRASIL: ANÁLISE DO PARADOXO ENTRE A


CONSTITUIÇÃO FEDERAL DE 1988 E O DIREITO INTERNACIONAL DOS DIREITOS HUMANOS

Autor: Marcela Iossi Nogueira

Resumo: A pesquisa propõe analisar o paradoxo entre a previsão constitucional, que


estabelece a titularidade das terras indígenas como sendo da União, face à normas internacionais
de Direitos Humanos, que estabelecem serem as terras tradicionalmente ocupadas de
propriedade coletiva dos povos indígenas (de acordo com o disposto nos parágrafos 2° e 3°
do artigo 5° da Constituição Federal os tratados internacionais de que o Brasil faça parte são
recepcionados pelo ordenamento nacional passando a integrar o rol de direitos e garantias
imputados aos brasileiros e brasileiras). É base do estudo o constitucionalismo plural – que
pretende a reinterpretação do Estado Nacional com base na igualdade das relações culturais,
bem como o reconhecimento e respeito às peculiaridades dos diferentes povos e suas
tradições. Pretende-se interpelar qual a questão material de fundo que se liga ao paradoxo.
A Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho abarca enquanto uma de suas
garantias, a título exemplificativo, o direito à reparação pelo furto das propriedades dos
povos tribais, sejam elas intelectuais, materiais, culturais ou até religiosas. O mencionado
diploma foi ratificado em plano nacional em julho de 2002 e publicado em julho de 2003, e
é diante disso é que nasce a problemática que se pretende aqui abordar uma vez que, quando
do momento da ratificação da Convenção, os Estados membros se comprometem a realizar
a adequação de sua legislação e práticas nacionais aos termos e disposições da mesma. Para
compreender o paradoxo apontado é necessário entender como se verifica na atualidade o
reconhecimento das sociedades indígenas enquanto povos culturalmente diferenciados com
direito a identidade e especificidade, demonstrar de que maneira o processo histórico de
formação do território nacional impôs a marginalização das comunidades indígenas, negando
seus direitos e expurgando suas populações e, ainda, questionar as formas de adequação do
direito internacional ao ordenamento jurídico pátrio considerando as particularidades das
sociedades de que tratam.

Palavras-chave: Constitucionalismo Plural; Constituição Federal; Convenção 169; Terras


Indígenas.

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8. ENTRE A MODELO HEGEMÔNICO DE PROPRIEDADE E AS COSMOVISÕES INDÍGENAS
DE NATUREZA: A CONSTITUIÇÃO FEDERAL, O DIREITO INTERNACIONAL DOS DIREITOS
HUMANOS E A TITULARIDADE DAS TERRAS INDÍGENAS NO BRASIL

Autores: Marcela Iossi Nogueira, Camila Ragonezi Martins e Fernando Antonio de


Carvalho Dantas

Resumo: O modelo hegemônico de colonialidade europeu marcou a ocupação das


terras brasileiras, subalternizando e marginalizando os povos indígenas, sua cultura, seus
conhecimentos e, principalmente, ignorando seu modo de interação com a natureza e o
sentimento de pertencimento que lhes mantêm enquanto parte integrante do território
que ocupam. A partir de uma compreensão de mundo não eurocêntrica, surgiu na América
Latina um movimento constitucional do tipo pluralista e insurgente, denominado Novo
Constitucionalismo Latino-americano, objetivando o reconhecimento da diversidade,
das realidades sociais latino-americanos e do resgate da cosmovisão e dos conhecimentos
indígenas, ganhando destaque nos novos textos constitucionais a proposta do “buen vivir”
(Sumak Kawsay) e a positivação dos direitos da natureza – Pachamama. Objetiva-se, então,
debater sobre a América Latina, repensando projetos de emancipação que rechaçam as
práticas históricas de dominação epistemológica e cultural sob a qual ficou submetido o
continente a partir de sua conquista, sustentadas por modelos socioeconômicos colonizadores
e elitistas. O trabalho se estrutura em três pontos. Primeiramente, são abordadas experiências
latinoamericanas e as teorias descoloniais, pensamentos alternativos, de resistência, que irão
priorizar uma matriz de pensamento não hegemônica, partindo das lutas de povos que
tiveram suas especificidades e direitos negados e seus conhecimentos inferiorizados durante
a modernidade. Em sequência, busca-se identificar experiências epistemológicas dos povos
indígenas Ticuna, Bororo e Guarani no Brasil e suas diferentes formas de ser, fazer, viver e
conhecer que representam opção de resistência ao projeto de dominação colonial. Por fim,
será feito um estudo das Constituições do Brasil, Equador e Bolívia, sendo apresentada a
regulamentação constitucional da propriedade agrária nesses países, reconhecendo nos textos
constitucionais os dispositivos que reconhecem tradições indígenas e o sentimento dessas
populações em relação a vida e à terra, bem como aqueles que trazem inovações quanto
ao direito de propriedade e que se coadunam com o respeito à natureza e à biodiversidade,
matriz de fundamentação do Novo Constitucionalismo Latino-americano.

Palavras-chave: Territorialidades Indígenas; Novo Constitucionalismo Latinoamericano;


Sumak Kawsay; Suma Qamaña; Ñandereko.

9. O NOVO CONSTITUCIONALISMO LATINO-AMERICANO E UM NOVO MODELO DE


APROPRIAÇÃO E DESAPROPRIAÇÃO AGRÁRIA

Autor: Camila Ragonezi Martins

Resumo: O presente estudo investiga o Novo Constitucionalismo Latino-americano e a sua


contribuição para a crítica e refundação do modelo de apropriação e desapropriação agrária
moderno. Será realizada uma reflexão acerca das reformas constitucionais vivenciadas por

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alguns países do continente, com destaque para a Colômbia, Venezuela, Bolívia e Equador,
tendo em vista que, recentemente, reconstruíram seus projetos políticos democráticos
a fim de torná-los mais adequados às múltiplas condições sociais e existenciais dos seus
povos. Com efeito, foi inaugurada, formalmente, uma lógica diversa daquela racionalidade
moderna, colonial, economicista, mercantilizadora e individualista que determinou o modelo
de apropriação e desapropriação agrária em todo o continente latino-americano. Ainda,
será objeto do presente trabalho a análise do modelo econômico adotado no momento de
valorar a terra quando das desapropriações agrárias que, no Brasil, acaba por premiar aqueles
proprietários que não conferem à sua terra destinação social. Nesse contexto, buscar-se-á
demonstrar como o Novo Constitucionalismo Latino-americano apresenta-se enquanto
projeto alternativo de desenvolvimento capaz de desconstruir a colonialidade ainda presente
no continente andino e de romper antigas concepções acerca da propriedade que, pautadas
em um discurso jurídico proprietário, conferem-lhe caráter quase absoluto e a colocam como
nucleo central da ordem jurídica. O protagonismo das práticas culturais e das cosmovisões
próprias do continente nos novos textos constitucionais estudados, notadamente da filosofia
do buen vivir, sumak kawsay, sumak qamaña ou ñande reko e o reconhecimento dos
direitos da Pachamama, questionou a ideia moderna de rompimento entre o homem e a
natureza e permitiu a reflexão sobre modos alternativos de se relacionar com a terra. Nesta
perspectiva, as inovações trazidas por este constitucionalismo transformador são capazes de
refundar o sistema jurídico moderno eurocêntrico a partir de uma hermenêutica descolonial
que traz um conceito distinto de desenvolvimento para o bem viver. O reconhecimento das
diversas territorialidades latino-americanas dá as diretrizes para a transformação do conteúdo
da propriedade agrária, que, além de mercadoria e objeto de contrato de direito privado,
tranforma-se em espaço coletivo no qual se realiza uma multiplicidade de direitos.

Palavras-chave: Apropriação e desapropriação agrária; Direito Agrário; Indenização; Novo


Constitucionalismo Latino-americano; Sumak Kawsay.

10. DIREITO AO ESPAÇO MEMORIAL BOÉ - BORORO (JARUDORI)

Autor: Adriano Boro Makuda, Carmem Lucia Da Silva

Resumo: O presente estudo objetiva refletir sobre o “Direito ao Espaço Memorial Bóe –
Boróro”, na ótica do Bóe, no campo acadêmico da antropologia do direito. Boróro, significa
na língua materna “pátio ou aldeia” foi a denominação usada pelos primeiros exploradores
para identificar os membros do grupo. Por esta denominação ficaram conhecidos nos escritos
antropológicos, históricos, entre outros, e, nos dias atuais continuam a denominar-se por
Boróro, embora o povo se identifique como Bóe. Outros termos foram empregados para
nos nominar ao longo da história, como por exemplo, coxiponé, araripoconé, araés, cuiabá,
coroados, parrudos, bororos aravirá ou bororos da campanha e bororos cabaçais. Os Bóe
praticaram e praticam a sua cultura, tradições, língua, costumes e crenças, dentro do seu
Espaço Memorial, que está relacionado com as fundações das aldeias, ou seja, aquelas vistas à
olhos nus e àquelas sentidas e vistas no plano espiritual, isto é, as aldeias que foram destruídas
pelas fazendas e cidades, mas que vivem na memória do povo Bóe. Um memorial que perfaz

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área aproximada de 48 milhões de hectares. Este território estendia-se desde a divisa com
a Bolívia a oeste, até além do Araguaia do Sul de Goiás, alcançando o Triângulo Mineiro
ao leste, desde a cabeceira do rio Cuiabá e o rio das Mortes, ao norte, até a margem do rio
Coxim e o negro, ao sul. Entretanto, o espaço que este projeto pretende estudar é o espaço
onde concentra a Memória do povo Bóe. Como é esse espaço Memorial Bóe-Boróro? Por
que os Bóe-Boróro tem o direito a esse espaço? Onde é que se localiza esse espaço memorial?
São estas as questões para as quais o estudo deste projeto pretende apontar respostas.

Palavras-chave: Direito indígena. Territorialidade indígena. Espaço Memorial Boe. Bororo.

11. A PROTECÇÃO DOS DIREITOS HUMANOS DOS POVOS INDÍGENAS NA CORTE


INTERAMERICANA DE DIREITOS HUMANOS

Autor: Felipe Paredes

Resumen: En la última década, se han aprobado en nuestro continente varias Constituciones,


que reconocen derechos humanos a los pueblos indígenas, en el marco de concepciones
axiológicas distintas de la clásica fundamentación liberal, la que concibe a los derechos
humanos como derechos subjetivos individuales. De este modo pareciera se que la garantía de
los derechos humanos de los indígenas requiere de estatutos jurídicos diferenciados. El trabajo
que se propone, analiza cómo este desafío ha sido abordado en la jurisprudencia de la Corte
Interamericana de Derechos Humanos, tribunal que desde comienzos del presente siglo ha
venido resolviendo varios asuntos en los que se ven afectados derechos humanos de los pueblos
indígenas. La importancia de esta jurisprudencia es grande, y lo es por dos razones: en primer
lugar, por la influencia que posee por sobre los ordenamientos nacionales, pero adicionalmente
hay un segundo motivo, el que se expresa en que la Convención Interamericana de Derechos
Humanos, no posee derechos específicos que cuya titularidad esté restringida a los pueblos
indígenas. Por esta última razón, hay un evidente esfuerzo por reinterpretar los viejos derechos
liberales a la luz de concepciones filosóficas y jurídicas que permitan su adaptación a la tutela de
los bienes jurídicos más elementales de los pueblos de nuestro continente. De este modo, si la
tesis de la Corte Interamericana es plausible, la garantía de los derechos humanos de los pueblos
indígenas no requiere una refundación del Estado Constitucional de Derecho, ni del abandono
de la idea de derechos humanos como normas jurídicas de alcance universal.

Palabras claves: Derechos humanos – Corte Interamericana – Pueblos Indígenas

12. HISTÓRIAS DA INSURGÊNCIA INDÍGENA E CAMPESINA EQUATORIANA DESDE O


PENSAMENTO CRÍTICO LATINO-AMERICANO

Autor: Efendy Emiliano Maldonado Bravo

Resumo: Neste trabalho pretendemos apresentar uma síntese da nossa pesquisa de mestrado, na
qual buscamos delinear alguns elementos para a compreensão da realidade de Nuestra América, a
partir dos aportes de alguns dos precursores do pensamento crítico latino-americano, no intuito

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de fortalecer reflexões comprometidas com as transformações sociopolíticas da nossa região.
No tocante ao fenômeno jurídico será utilizada a ótica pluralista e insurgente, que compreende
que “o direito nasce do povo”, nas suas lutas por libertação. Para isso, realizar-se-á um resgate
das insurgências indígenas e campesinas desde uma análise histórico-crítica de larga duração,
a fim de retratar o papel e influência do acúmulo das lutas dessas organizações populares nas
transformações jurídico-políticas das últimas décadas, que culminaram na nova Constituição
equatoriana de 2008. Para compreender essa nova Constituição se insere o estudo desse caso
concreto, no largo processo histórico das insurgências de AbyaYala, pois será com a intensificação
das lutas e pautas antisistêmicas e/ou contra-hegemônicas dos movimentos sociais que as estruturas
de dominação vem sendo questionadas em nossa região. Assim, abordar-se-á a relação dialética
entre Insurgência e Direito, no escopo de aprofundar o debate sobre a atuação dos movimentos
indígenas e campesinos nas transformações políticas que culminaram no processo constituinte
equatoriano. Diante do exposto, esperamos que a pesquisa seja uma pequena contribuição para
repensarmos a nossa história desde a perspectiva dos sujeitos que estiveram ausentes da história
oficial, quer dizer, daqueles que foram en-cobertos pela tradição jurídico-política moderna; as
nações indígenas, as quais por meio da luta pretendem construir uma nova cultura jurídico-
política de caráter pluralista, democrático e libertador na América Latina.

Palavras-chave: pensamento crítico latino-americano; pluralismo jurídico; direito


insurgente; movimentos indígenas e campesinos; processo constituinte equatoriano.

PARA UMA TEORIA DO ESTADO DESCOLONIAL: PLURINACIONALIDADE,


DEMOCRACIA E PARTICIPAÇÃO

Ementa: Na América Latina, concepções jurídico-políticas clássicas calcadas numa


perspectiva colonial de Estado, de representação política e de democracia, constituem
importantes fatores de negação aos povos indígenas e outros grupos “minoritários”, da
sua condição de sujeitos políticos, e de invisibilidade de suas práticas políticas próprias,
relegadas ao plano da “inexistência”. Um quadro que só recentemente, a partir das demandas
indígenas autonômicas e em particular das experiências vivenciadas nos processos de
construção dos modelos Plurinacionais e Decoloniais de Estado, vem sendo questionado em
seus fundamentos teóricos. A presente mesa tem por objetivo geral trazer contribuições aos
principais debates contemporâneos em torno das possibilidades e limites atuais das teorias
do Estado, do Direito e da Política nas respostas às demandas dos povos indígenas e outras
minorias contra hegemônicas pelo efetivo reconhecimento de suas concepções e práticas
políticas específicas e de suas formas próprias de representação junto aos Estados.

Coordenadore(a)s:
Consuelo Sánchez (Escuela Nacional de Antropología e Historia – México) Marco Aparicio
Wilhelmi (Universitat de Girona – Espanha/Itália) e Rosane Freire Lacerda (Universidade
Federal de Goiás – Regional Jataí – Brasil)

Debatedor/Comentarista: Rosane Freire Lacerda

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1. CONSIDERACIONES PARA UNA TEORÍA DEL DERECHO, LA POLÍTICA Y EL ESTADO
ESENCIALMENTE RENOVADORA

Autor: Consuelo Sánchez

Resumen: Las transformaciones constitucionales, políticas, culturales y estatales emprendidas


en varios países de América Latina en los últimos lustros, así como los programas y exigencias de
los movimientos sociales (de indígenas, afrodescendientes, campesinos, mujeres, trabajadores)
– en los que aquellos cambios se basan en mayor o menor medida – proporcionan elementos
novedosos para la reflexión acerca de otras formas de Estado, de derecho y de política. Cada
país hace aportaciones innovadoras. Aquí sólo mencionaremos dos ejemplos: el intento en
Bolivia de construir una nueva organización del Estado que sea conforme con la composición
plurinacional del país, una pluralidad de pueblos indígenas hasta entonces invisibilizada,
suprimida y excluida; y el ensayo en Venezuela de crear nuevas formas de organización del
espacio político y el impulso de un “Estado popular y comunal”, de manera que éste posibilite
la inclusión de todos los grupos sociales (indígenas, afrodescendientes y mestizos) excluidos
del proceso sociopolítico. Estas dos experiencias muestran, asimismo, las dificultades de
transitar de un Estado organizado de modo uniforme, monoétnico y excluyente a otra forma
de Estado organizado de modo plurinacional o pluriétnica e incluyente. En la ponencia se
tratará de indagar acerca de: (1) qué novedades plantean las nuevas constituciones y formas
de Estado en América Latina, y qué aportan a la reflexión en torno a la interpelación de
nuevas concepciones teóricos del Estado, el derecho y la política; (2) qué condiciones
(políticas, jurídicas, económicas, teóricas e ideológicas) bloquean o dificultan la solución
autonómica y la organización plurinacionales o pluriétnico del Estado; (3) qué retos plantean
las reivindicaciones de los pueblos indígenas, afrodescendientes y otros grupos socioculturales
a las teorías del Estado, de la política y del derecho hoy dominantes; (4) qué articulaciones
se hacen entre descolonización, autodeterminación, autonomía y Estados plurinacionales o
pluriétnicos, cuáles son los fines que se persiguen y en qué sentido contribuyen al desarrollo
de nuevas concepciones del Estado, del derecho y de la política; (5) cuáles son las condiciones
y los rasgos de una concepción del derecho básicamente renovadora, que sirva de instrumento
para el logro de nuevas formas de convivencia y de relaciones interculturales y pluriétnicas.

Palabras clave: Estado plurinacional, autonomía, Estado descolonización, democracia,


pueblos indígenas, participación, derecho

2. O NOVO CONSTITUCIONALISMO LATINO-AMERICANO: ENTRE A CONSTITUIÇÃO


SIMBÓLICA E O EFETIVO RECONHECIMENTO DAS MINORIAS CONTRA HEGEMÔNICAS

Autores: Angelo de Almeida; Maysa Caliman Vicente

Resumo: O presente trabalho busca analisar o chamado Novo Constitucionalismo Latino-


Americano confrontando-o com o denominado Neoconstitucionalismo, individualizando
suas convergências e divergências. O estudo parte da apreciação do Neoconstitucionalismo,
especificando suas características e pressupostos. O Novo Constitucionalismo Latino-
Americano é analisado com maior profundidade, após o que é introduzido o conceito

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de Constitucionalização Simbólica de Marcelo Neves, que é acareado com essa novidade
constitucional que está ocorrendo na América-Latina atualmente. Outros conceitos são
trabalhados ao se analisar a força normativa desses novos textos e a conjectura ideal para
que se cumpram, bem como as reais forças de poder que lhes dão sustentação, tais como os
movimentos indígenas e de outras minorias contra hegemônicas.

Palavras chaves: constitucionalismo – novo constitucionalismo latino-americano legislação


e constitucionalização simbólica – minorias contra hegemônicas.

3. A CONSTRUÇÃO DO ESTADO PLURINACIONAL NA AMÉRICA LATINA: ANÁLISE A PARTIR


DAS CONSTITUIÇÕES DA BOLÍVIA E DO EQUADOR

Autores: Adriele Fernanda Andrade Precoma; Heline Sivini Ferreira

Resumo: O Estado-Nação, assim como concebido pela modernidade europeia, expandiu-se


como modelo hegemônico de organização política, social e jurídica. Sob esta denominação,
manifestou-se pela imposição de uma ordem unívoca e, portanto, alheia a qualquer forma de
diversidade que pudesse contrariar os seus pressupostos homogeneizantes. A legitimação do
Estado-Nação enquanto unidade monopolizadora do poder de comando, da organização social
e da força da sanção tem sido arquitetada cuidadosamente por juristas, filósofos e cientistas
políticos ao longo dos tempos. A princípio, foi planejado como forma de possibilitar a abertura
dos mercados, que estavam em franco desenvolvimento na Europa e que iniciavam sua maior
fase de expansão no século XVI. Nesse momento, foram rompidas as distâncias dos mares com
as chamadas grandes navegações e levou-se a cabo a conquista do continente latino-americano
pelos europeus. Já nos processos de independência das colônias, havia o claro propósito de que
os Estados se tornassem organizações autônomas em relação às metrópoles. Como resultado,
as antigas colônias organizaram-se na forma de Estados-Nação, atropelando a sociodiversidade
existente para a formação de uma identidade nacional. Resistentes, os povos originários da
América Latina conseguiram mover-se e criar contextos propícios para mudanças. Tomaram
em suas mãos os instrumentos hegemônicos de poder, revolvendo a história para transformá-los
em instrumentos contra hegemônicos: o Estado é refundado e passa a considerar a diversidade
de povos e culturas que inquestionavelmente o compõem. A partir desse momento, inicia-se
a reformulação do modelo Estado, um processo baseado no reconhecimento e na inclusão da
sociodiversidade e que, como consequência, afasta-se da falsa premissa de uma nação com um
só povo. O plurinacionalismo, atualmente contemplado pelas Constituições da Bolívia e do
Equador, inaugura na América Latina um processo de reorganização política, social e jurídica,
reformulando Estados que têm sido vistos como experimentais, ou como uma transição ao
romperem com a mentalidade dos Estados-Nação e abrirem importante fenda para acessar
caminhos de libertação dos povos da América Latina. Neste trabalho, partindo do estudo
das origens do Estado-Nação formatado na modernidade europeia e sua expansão mundial,
analisar-se-ão os processos de reformulação do Estado-Nação na América Latina a partir da
plurinacionalidade consignada nas Constituições da Bolívia e do Equador.

Palavras-chave: Modernidade Europeia; Estado-Nação; Estado Plurinacional; América


Latina; Equador e Bolívia.

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4. O ESTADO PLURINACIONAL NAS NOVAS CONSTITUIÇÕES DA BOLÍVIA E DO EQUADOR

Autores: Guilherme Andrade Silveira; Janaina Ferreira da Mata

Resumo: As novas constituições do Equador, de 2008, e da Bolívia, de 2009, dentro do


marco do Novo Constitucionalismo Latino-Americano, representam casos emblemáticos
das transformações vivenciadas na região durante as últimas décadas. Essas constituições têm
despertado grande interesse por parte de pesquisadores devido às importantes inovações
apresentadas, sejam institucionais, como a redefinição das funções do Estado, seja em termos
de direitos, como participativos e buen vivir. De forma mais destacada, essas constituições
propõem uma refundação do próprio conceito de Estado, cunhado pela tradição liberal
europeia como Estado-nação, em ruptura aos processos de colonização e a partir do
reconhecimento dos povos indígenas, campesinos e originários. Este trabalho tem como
objetivo discutir o conceito de Estado Plurinacional, destacando seu papel e importância
nas lutas decoloniais em Abya Ayala e sua imbricação com um novo e ampliado modelo
de democracia, que inclui o fortalecimento da participação social e o desenvolvimento
de instâncias comunitárias, em uma concepção aprofundada de autodeterminação. Além
disso, pretende comparar os modelos de Estado Plurinacional implantados na Bolívia e no
Equador, demonstrando suas principais características, perspectivas, instituições e atores
envolvidos. Para tanto, o artigo perpassa as recentes transformações constitucionais dos países
supracitados, destacando os processos de resistência e mobilização social, e se apropriando de
literatura recente, produzida no Sul, acerca da democracia e decolonialidade.

Palavras-chave: Estado Plurinacional, decolonialidade, democracia.

5. A QUESTÃO DA SOBERANIA NO ESTADO PLURINACIONAL: UMA REVISÃO DA


LITERATURA SOBRE OS PROJETOS EM DISPUTA NA CONSTITUINTE BOLIVIANA

Autor: João Telésforo Nóbrega de Medeiros Filho

Resumo: O texto da nova Constituição da Bolívia (2009), ao mesmo tempo que institui
um Estado plurinacional, comunitário e intercultural, fundado no pluralismo – inclusive
jurídico –, também afirma a sua soberania. Como o projeto constitucional boliviano busca
conciliar o discurso da soberania do povo boliviano, do país e do Estado – construção
típica do Estado-Nação Moderno – com o da plurinacionalidade, da autonomia indígena, da
democracia comunitária e do pluralismo jurídico? O presente trabalho não tem o propósito
de oferecer respostas “doutrinárias” a essa questão. Não buscamos, aqui, produzir uma análise
jurídica racionalizadora da nova Constituição da Bolívia, cega às diferenças de projetos, aos
conflitos e às negociações entre diferentes sujeitos sociopolíticos presentes na Constituinte
e na luta contínua por sua reelaboração interpretativa. Nosso objetivo é investigar, antes,
como a soberania popular, nacional e estatal é pensada, afirmada, contestada e ressignificada
pelos próprios sujeitos políticos do processo constituinte boliviano. Para tanto, recorremos
sobretudo a fontes secundárias: promovemos uma ampla revisão do conjunto de estudos
de diversas disciplinas – Antropologia, Ciência Política e Direito, notadamente – sobre os
discursos dos principais campos políticos presentes no processo constituinte, com foco nas

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suas diferentes concepções da questão da soberania em um Estado plurinacional, comunitário
e intercultural.

Palavras-chave: Plurinacionalidade; Estado plurinacional; Soberania; Bolívia.

6. A NECESSIDADE DE REFORMULAÇÃO DOS MECANISMOS DE PODER PARA O


RECONHECIMENTO DA PLURALIDADE NAS DEMOCRACIAS LATINOAMERICANAS

Autores: Flavia Pitaki Dufour; Gabriele Poewka

Resumo: Na história latino-americana pós-colonialista, as populações tradicionais, além de


marginalizadas política, social e economicamente, tiveram as suas reivindicações duramente
reprimidas e, em nome da formação dos Estados Nacionais, foram-lhes negadas diferenças
étnicas, subjugando-as por políticas assimilacionistas. Foi um longo caminho até que as reformas
nas Constituições da Colômbia, Venezuela, Bolívia e Equador, afastando-se do colonialismo
cultural que permeava os modelos constitucionais até então preponderantes, trouxessem
o reconhecimento do caráter único de cada uma das inúmeras culturas existentes nesses
países e abrissem caminho para a tentativa de se alcançar um verdadeiro multiculturalismo
democrático. Isso no sentido da democracia radical, proposto pela autora Chantal Mouffe,
a qual requer a aceitação da diferença, ou do “outro” - aqui entendido como aquele que
não compartilha os mesmos valores ou ideais, mas que compartilha o reconhecimento de
que as mais diferentes expressões e posições devem ser respeitadas dentro da sociedade. Para
tanto, é preciso aperfeiçoar e multiplicar as práticas democráticas, aplicando-as de forma
inovadora às novas relações sociais. O modelo inaugurado pelo novo constitucionalismo
latinoamericano, contudo, padece de diversos males, principalmente porque não enfrentou
uma necessária alteração nos mecanismos do poder, deixando intactas as estruturas existentes
no modelo democrático liberal e, por vezes, até incrementando, por exemplo, os poderes
presidenciais. Nesse sentido, o jurista argentino Roberto Gargarella argumenta que, para
uma efetiva reforma social de reconhecimento de minorias, deve ser priorizada a reforma
desses mecanismos de poder. Contudo, complementa que os poderes constituídos são, por
óbvio, refratários a essas mudanças. É nosso objetivo, neste trabalho, discutir as dificuldades
encontradas para a verdadeira implantação de uma sociedade multicultural e para a
efetivação dos direitos sociais e de participação previstos pelas mais recentes Constituições
latinoamericanas. Para tanto, pretendemos, com base principalmente no pensamento de
Roberto Gargarella, demonstrar que o novo constitucionalismo latinoamericano procura
superar o constitucionalismo clássico através da abrangente inclusão de direitos sociais nas
Constituições, mas que não logrou alterar as estruturas de poder vigentes nos Estados, o que
acaba por dificultar a efetivação destes direitos e perpetuar as desigualdades.

Palavras-chave: Democracia; Constitucionalismo latinoamericano; pluralismo.

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7. “RECONHECIMENTO E PARTICIPAÇÃO POLÍTICA DOS POVOS INDÍGENAS NOS ESTADOS
LATINO-AMERICANOS CONTEMPORÂNEOS: A PLURINACIONALIDADE E A PROMESSA DE
UM ESTADO POLÍTICA E JURIDICAMENTE DESCOLONIAL”.

Autor: Rosane Freire Lacerda

Resumo: Partindo de pesquisas recentemente desenvolvidas em estudo doutoral no âmbito


do Programa de Pós-Graduação em Direito, Estado e Constituição da Faculdade de Direito
da Universidade de Brasília (UnB), bem como de pesquisas realizadas no exercício docente
no curso de Direito da Regional Jataí da Universidade Federal de Goiás (UFG), o trabalho
hora proposto trata da questão da invisibilidade e marginalização, no âmbito dos processos
e formas de participação política historicamente implantados na América Latina pelo
Estado territorial moderno, das concepções e práticas de participação política dos povos
e comunidades indígenas ali existentes. Ao mesmo tempo analisa a abertura, pelo modelo
plurinacional de Estado erigido nas recentes experiências do novo constitucionalismo latino-
americano, às reivindicações expressas pelos movimentos indígenas de reconhecimento e
incorporação daquelas concepções e práticas políticas, enquanto experiências epistemicamente
válidas e capazes de contribuir para a formação de uma vivência política interculturalmente
crítica no interior daqueles Estados. O trabalho procura chamar a atenção, enfim, para a
necessidade de abertura da Teoria do Estado aos principais questionamentos levantados pelos
movimentos indígenas latino-americanos ao modelo de Estado desenvolvido com base em
matriz eurocêntrica e colonial de poder.

Palavras-chave: Concepções e Práticas Políticas Indígenas – Teoria do Estado – Estados


Plurinacionais – Representação e Participação Política – Descolonialidade do Poder.

8. TRABALHADORES DOMÉSTICOS NO BRASIL: UMA VISÃO INTERSECCIONAL

Autores: Mariane dos Reis Cruz; María Fernanda Salcedo Repolês

Resumo: O trabalho doméstico remunerado no Brasil traduz a lógica cultural e histórica


das mulheres na sociedade, na família e no mercado de trabalho, ele nos apresenta a divisão
sexual do trabalho e a lógica reprodução da sociedade. Segundo Hirata e Kergoat (2007), a
divisão sexual do trabalho expressa as relações de poder entre homens e mulheres, poder que
se distribui de forma desigual, conformando historicamente a subordinação feminina e sua
invisibilização no processo histórico. Nesse sentido, as práticas domésticas assumem status
inferiorizado na ordem patriarcal e são invisíveis enquanto atividade de relevância econômica.
No Brasil, o trabalho doméstico é destinado às mulheres negras e pobres do país: 94,5% dos
trabalhadores domésticos no Brasil são mulheres (IBGE, 2012) e 60% são negras (DIEESE,
2013). E, por ser atribuído às mulheres economicamente pobres e vulneráveis socialmente,
é decisivo nas suas trajetórias de vida. Assim, as trabalhadoras domésticas brasileiras fazem
parte de um sistema de estratificação social que articula categorias de classe, gênero e raça.
Estes elementos são importantes para a pouca valoração social desta categoria profissional e
para a manutenção da condição de subalternas dessas mulheres, ou seja, da sua manutenção
de sujeitos sem fala, sem poder. Para entender as raízes da divisão sexual e racial no Brasil,

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é preciso conhecer a herança que o pensamento colonial produziu nas relações sociais. De
acordo com Quijano (2005), em razão do sistema colonial escravocrata, a imagem dos negros
é ligada aos trabalhos manuais e servis. No entanto, a análise das estruturas sociais deve
ser entendida para além da raça. Lugones (2008) afirma que essa herança colonial fundou
hierarquias que mesclam as categorias raça, gênero e classe inseparavelmente. Sendo assim, a
análise do trabalho doméstico no Brasil deve ser entendida pelo viés interseccional, em que
as categorias raça, gênero e classe articulam-se para delimitar seu status na hierarquia social.

Palavras-chave: Trabalho doméstico, divisão racial e sexual do trabalho, interseccionalidade.

9. A CONTRUÇÃO DO CONCEITO DE SUJEITO DE DIREITO A PARTIR DO DIREITO À


VISIBILIDADE

Autores: Adriana Vidotte; Thiago Almeida de Alvarenga

Resumo: Este artigo propõe-se a discutir se cabe ao Direito a promoção de grupos


historicamente marginalizados, promovendo a sua visibilidade na mídia, e se essa representação
é uma forma eficaz de garantir o direito à comunicação desses grupos e a sua legitimação
como sujeitos de direito. Para tanto, este estudo se respalda no pensamento de Paul Ricoeur
e François Ost, no que diz respeito à construção narrativa do conceito de sujeito de direito.
Utilizar-se-á o método fenomenológico, visando a entender o que faz o homem olhar
para si mesmo como sujeito de direito. Ele, enquanto animal social e político, percebe-se
como tal a partir de sua relação com o terceiro, isto é, do reconhecimento do outro, e não
diretamente; por isso, tal reconhecimento se dá por meio dos signos depositados na memória
e nas grandes tradições literárias. A partir disso, entende-se a influência da mídia nessa
construção, afinal, ela é uma das mais importantes instituições que promove a visibilidade da
pessoa e o compartilhamento de uma memória em comum na atualidade. Estar representado
midiaticamente significa estar inserido em um espaço de reconhecimento público; é, portanto,
um dos fatores que implicam no reconhecimento do homem como um sujeito de direito.
Conclui-se com esse trabalho que a ação e o discurso são os modos pelos quais os seres
humanos se revelam uns aos outros enquanto sujeitos, e esses dois só são possíveis na esfera
pública – um lugar que deve apresentar a pluralidade e diversidade humana. Depreende-
se também que aquele que não se dá a conhecer, isto é, o homem privado do mundo da
aparência, se vê incapaz de agir; para Hannah Arendt, inclusive, é como se ele não existisse.
Percebe-se, daí a questão do direito à visibilidade e representatividade de todos os segmentos
sociais, com ênfase nos mais discriminados; o que revela o papel do Direito em garantir que a
mídia seja palco de legitimação dos atores sociais, afinal é por meio dela principalmente que
há a consolidação do discurso e a construção de uma memória compartilhada.

Palavras-chave: sujeito de direito, visibilidade, mídia, representatividade.

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10. O CASO VERÓN: A RESISTÊNCIA GUARANI AO PROJETO DE DOMINAÇÃO COLONIAL.

Autor: Yasmine Altimare Silva Cruz

Resumo: A manutenção das línguas maternas para os povos indígenas garante vivas suas
culturas, fazendo valer direitos humanos fundamentais consagrados na Constituição brasileira
de 1988. Entretanto o direito fundamental ao idioma foi desrespeitado em processo conhecido
como o caso Verón, que relatou crimes ocorridos no estado de Mato Grosso do Sul, no
território indígena Takuara. A denúncia de homicídio, cuja vítima era cacique Marcos Verón,
um dos líderes dos Guarani-Kaiowá. Todavia a presidência do júri impediu os indígenas,
vítimas e testemunhas, por meio de intérprete, prestar depoimento em seu idioma nativo,
negando os direitos fundamentais, trata de hipótese invisibilidade de direitos.

Palavras-chave: Direitos Agrário, Direitos fundamentais Indígenas, Pluralismo Jurídico.

11. CONSTITUCIONALISMO INTERCULTURAL E OS ESTADOS PLURINACIONAIS NA


AMÉRICA LATINA: A (RE)CONSTRUÇÃO DA CIDADANIA

Autor: Matheus Mendes Pinto

Resumo: A construção histórica dos Estados Latino Americanos desde a colonização pelos
povos europeus é marcada por constantes e intensos conflitos de ordem cultural. Neste
sentido, a delimitação das fronteiras nacionais não foi solução para que a diversidade de
culturas fosse suprimida, resultando na convivência conturbada entre diversos grupos, etnias
e raças ao longo dos últimos séculos. Como reflexo desse desequilíbrio, a percepção acerca
da cidadania e o desfrute de direitos civis, políticos e sociais variou conforme o contexto
histórico e as forças detentoras do poder político. É neste cenário que, na primeira década do
século XXI, países como Equador e Bolívia promovem uma significante mudança e avanço,
reconhecendo-se como Estados plurinacionais e interculturais. A partir dos estudos acerca do
constitucionalismo intercultural, aliados a uma perspectiva histórico-normativa, a proposta
de (re)construção da cidadania nestes Estados deve estar preparada pra superar barreiras de
ordem cultural e histórica, passando por lutas pela democratização política, econômica e
cultural, buscando garantir direitos àqueles grupos historicamente excluídos e marginalizados
pelo processo “civilizatório”.

Palavras-chave: Constitucionalismo. Estados Plurinacionais. Cidadania.

12. A URBE NA CONSTRUÇÃO POPULAR DA FUNÇÃO SOCIAL DA PROPRIEDADE

Autores: Otávio Augusto de Oliveira Moraes; Frederico Garcia Guimarães

Resumo: A propriedade em sua gênese histórica percorre um caminhar individualista, sendo


ela usada como instrumento para opressão dos economicamente marginalizados e manutenção
do status quo. Em sua gênese romana o instituto da propriedade privada, já tinha ares absolutos,
vindo a abarcar tanto coisas quanto pessoas, sendo divididas em: manus potestas que recaia

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sobre a mulher; patria potestas sobre os filhos; dominica potestas sobe os escravos e; dominium
que abordava o poder sobre as coisas. O proprietário nos moldes romanos podia usar desfrutar
e dispor, sendo cabível, inclusive, a ele destruir o bem ao seu bel prazer. Com o prosseguir
da historia a propriedade continuou em seus moldes absolutos, tendo um breve período de
obscurantismo devido às invasões bárbaras e conseqüente derrocada do império romano, de
maneira que juridicamente as questões referentes à propriedade eram mais precariamente
desenvolvidas em seu teor técnico, sendo prevalecentes normas consuetudinárias antagônicas
ao privatismo romano devido a concepção comunal das gens germanicas. A perspectiva
romana é recuperada no século XIII de maneira que sua influencia continua refletir em
alguns ordenamentos contemporâneos. Com as revoluções burguesas e a implantação do
Estado-moderno, que é em seu conteúdo liberal/burguês, tem-se a consequente perspectiva
absoluta da propriedade. A cidadania se torna conexa ao status de proprietário, sendo este
digno da participação ativa tanto na vida civil quanto na vida pública devido ao seu poderio
econômico. Intrinsecamente por imposição do modelo liberal, a perspectiva da propriedade
privada é quem pauta as relações sociais, e a mesma se impõe como direito sagrado e intangível,
sendo a proteção a esta o devir ser do Estado absenteísta que o liberalismo propõe. O instituto
da propriedade se mantém sobe o invólucro absoluto e liberal até a revolução industrial.
Findada está, os movimentos sociais tanto urbanos quanto camponeses se organizam em
perspectiva global, com propostas de melhor distribuição de renda, e a participação política
como garantia fundamental e universal. Frutos inegáveis das lutas populares foram os direitos
sociais, principais desconstrutores do Estado liberal e da sua consequente perspectiva e devir
de manutenção da propriedade em seus moldes exclusorios. A Constituição alemã de Weimar
foi a primeira a tornar conexa a propriedade a sua função social, o que veio a influenciar
ordenamentos em todo o globo. Este novo instituto jurídico visa subjugar o interesse privado
perante o coletivo, e se baseia em uma perspectiva social do próprio Estado, de maneira a este
garantir de maneira intervencionista uma vida digna a todos. Sob essa nova perspectiva da
propriedade como instrumento não unicamente individual, mas um bem coletivo, observa-
se que no Brasil nosso histórico constitucional aborda a função social da propriedade pela
primeira vez no ordenamento de 1934, sendo um avanço normativo para época, porém
infelizmente este instituto se manteve como meramente formal, não vindo a dialogar com
a realidade concreta e modificar a desigualdade social tão gritante vivida pela sociedade
brasileira. Com a Constituição da República de 1988 e a conseqüente redemocratização, o
instituto da função social da propriedade se torna apto à efetivação, este é assegurado como
clausula intangível no artigo 5°1 conjuntamente a outros direitos fundamentais. A mesma
Constituição da República de 1988 em seu artigo 182° aborda a temática das políticas de
desenvolvimento urbano, expondo o plano diretor como meio técnico do desenvolvimento
destas. Posteriormente em 2001 foi promulgado o Estatuto da Cidade, com o objetivo de
regulamentar a previsão constitucional acima trazendo os princípios, diretrizes e objetivos
da Política Nacional de Desenvolvimento Urbano e que devem ser atendidos por todos os
planos, programas ou planejamento com essa natureza e que irão incidir diretamente sobre a
cidade para concretizar as funções sociais da cidade. Em seu artigo 39° o Estatuto da Cidade
deixa claro que a função social da propriedade urbana é exercida quando consoante com
as diretrizes expressas pelo plano diretor. O mesmo instrumento afirma em seu artigo 2°

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parágrafo 2° que o plano diretor deve ser elaborado seguindo o viés da gestão democrática e
participativa, de maneira que a população construa dialogicamente as próprias diretrizes que
a urbe em que habitam deve seguir. Portanto, o trabalho parte de uma análise de que há uma
relação cíclica entra a função social da propriedade e o plano diretor, de maneira a legitimar
uma construção local, participativa e plural da propriedade em sua ótica social. Isto na medida
em que, de maneira democrática e participativa a construção do próprio conceito da função
social da propriedade será exercida se de acordo com o plano diretor, o que torna apto que
a propriedade em sua função social tome ares locais, de maneira a se adequar as necessidades
das diversas cidades em suas peculiaridades Afinal quando se discute a propriedade no espaço
urbano, o próprio direito a cidade está inserido no debate, pois a propriedade perpassa nas
discussões referentes à mobilidade, moradia, trabalho e lazer e construção de uma cidade que
ofereça vivencia digna e plural a todos seus habitantes. Essa construção popular da função
social da propriedade dever ser procedida de maneira não somente participativa, mas também
diversa, visando à construção de um viés pluralista, no qual todos os agentes de direito
convivem em situação isonômica e livre, e de através de consensos provisórios, como destaca
o constitucionalista José Luiz Quadros de Magalhães, possam tornar a cidade uma ambiente
que inclusão todos e sejam concretizados os direitos fundamentais que se apresentam no
âmbito urbano. Esta participação se afirma pelo que está disposto no artigo 1°, parágrafo
único, da Constituição da República de 1988 e pelo que determinada o art. 2º, inciso II do
Estatuto da Cidade. Concernente a pluralidade, esta se fundamenta no inciso V, do art. 1º, da
Constituição da República de 1988. A definição da função social da propriedade, deve ser
afastada de uma dimensão puramente tecnicista que muita das vezes tem gêneses excludente.
Com a participação social de todos na formação do conceito desse instituto, privilegia-se o
diálogo, com isso abre-se para as diversas ideologias e perspectivas componentes da cidade.
Seguindo os moldes conceituas de Boaventura de Sousa Santos, é necessária essa recepção
pluralista e empoderadora denominada ecologia dos saberes, a qual se desvincula da um
conceito epistemológico puramente científico e eurocentrista, reforçando-se um saber de
todos e o reconhecimento de uma posição equânime dos diversos agentes sociais. Com isso,
o pensamento na construção do conceito de função social da propriedade privada tem um
novo olhar não sendo ele mais abissal, mas pós-abissal, como também preconiza o pensador
português. Afirma-se, então, que o reconhecimento do saber plural com a consequente
desconstrução do tecnicismo excluso, até então predominante e que tanto distancia a
coletividade de uma participação ativa na construção da realidade social a qual vivem, é
meio de alcançar a consolidação da cidade como liame puramente democrático. A partir
disso, o conceito de função social da propriedade privada urbana tem um viés específico para
cada localidade em se insere tal bem jurídico, já que cada localidade terá a sua diversidade
própria e deve ser ela respeitada. Visto que esta discussão e a conseqüente implementação
deste principiam é intrínseca a luta contra as mazelas advindas de uma perspectiva egoística
e absoluta da propriedade.

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13. COMISSÕES DA VERDADE NA AMÉRICA LATINA: O CASO PERUANO

Autor: Flávia Eugenia Gimenez de Fávari

Resumo: Neste artigo analisamos a Comissão da Verdade e Reconciliação do Peru (CVR)


(2001-2003) a partir do confronto entre duas alternativas de globalização, a hegemônica
e a contra hegemônica (Santos, 1997). Sem se negar sua importância histórica, observa-
se que a perspectiva hegemônica concebe homogeneamente os sujeitos, sob critérios de
igualdade e universalidade, e trata comunidades a partir dos indivíduos e não os coletivos,
além de que tem uma inclinação para tratar as especificidades culturais como questões de
menor importância ou mesmo irrelevantes. Nesse sentido, tornam-se invisíveis populações
e fatos que as Comissões da Verdade tentam contrariamente visibilizar. A perspectiva contra
hegemônica, ao dar voz a minorias na sua diversidade de identidades, permite visualizar
questões não enxergadas sob um olhar universalista. Nossa tese é que o conflito armado
interno (1980-2000) que a CVR investiga desnudou uma problemática central no Peru,
que é a questão indígena e os múltiplos elementos que a permeiam, como o racismo e a
marginalização social e econômica das populações indígenas. Assim, chama atenção que o
conflito tenha afetado principalmente as zonas rurais dos departamentos mais pobres da serra
sul central peruana e que dos 69.2000 mortos estimados pela própria CVR, mais de 75%
tenham o quéchua ou outras línguas nativas como idioma materno. Nosso argumento é
que a questão indígena presente no conflito não pôde ser completamente visibilizada pelo
Estado através da sua Comissão da Verdade. Isso porque nos parece que ela identifica de
maneira fragmentada e independente as categorias identitárias de classe, étnica e a questão
regional, em um contexto nacional em que a questão da identidade étnica tem se mesclado e
“neutralizado” historicamente pela categoria socioeconômica de classe e se dilui em muitos
momentos em termos mais genéricos como “mestiço”.

Palavras-chave: Comissão da Verdade e Reconciliação do Peru; globalização; hegemonia;


contra hegemonia; questão indígena

14. OS DIREITOS HUMANOS E SUA EFETIVIDADE: A CONSTRUÇÃO DA IGUALDADE POR MEIO


DAS POLÍTICAS PÚBLICAS

Autor: Carla Daniela Leite Negócio

Resumo: A evolução dos direitos humanos revela uma sucessão de fases demarcatórias e
cumulativas da consolidação gradual de novos direitos que, simultaneamente, se contrastam e
se completam, transparecendo, em cada dimensão, aspectos comuns e peculiares advindos nas
necessidades de aperfeiçoamento da convivência humana num contexto fático-temporal. A
questão que sucede é averiguar o longo processo de conscientização e internalização de tais
direitos inerentes ao gênero humano, impelido por fatores políticos, sociais e econômicos.
Num segundo momento, a cidadania passou a adotar outros parâmetros, devendo ser efetivada
em nossa vida social, deixando de ser apenas uma previsão formal do sistema jurídico. A
análise dos direitos sociais não pode prescindir de prévias reflexões sobre a afirmação desses
direitos. Nascidos com caráter individualista, impondo, em contraposição ao absolutismo,

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proteção jurídica à pessoa e limitações a ações do Estado, esses direitos necessitam de medidas
a serem promovidas pelo Estado para o reequilíbrio social, inconciliáveis com a separação
Estado-sociedade. A própria democracia está no centro deste debate, uma vez que os Estados
adotam a sua denominação, mas há uma divergência fundamental entre seus procedimentos
e fundamentos, bem como de sua legitimação. Para além do poder de votar e ser votado, os
cidadãos, em geral, dispõem de poucas e limitadas possibilidade de interferir no direcionamento
do Estado e implementação das garantias fundamentais. A liberdade não existe com a simples
omissão do Estado perante os direitos individuais. Tal visão não se coaduna com o propósito
último das garantias fundamentais, que buscam assegurar a proteção integral do ser humano
em todas e quaisquer circunstâncias. A partir da constatação da insuficiência do paradigma
neoliberal no que toca ao atendimento das necessidades de trabalho e bem-estar social da
população, é preciso buscar alternativas. Por outro lado, as desigualdades sociais e econômicas
tornaram-se intoleráveis para grande parte da população, principalmente de nosso País, que
passa a exigir soluções de garantia de direitos fundamentais, que se reflete na cidadania do
Estado Brasileiro. Um indivíduo livre deverá ter acesso aos direitos sociais e econômicos. A
democracia real terá que se abrir à possibilidade de participação constante nos destinos do
Estado, da sociedade, e da economia. Só então a população será formada por cidadãos, que não
apenas votam, mas se educam, se informam, se alimentam, se vestem, trabalham, enfim, têm
dignidade. Portanto, essa renovação assenta suas bases na formulação de critérios democráticos
de participação e exercício de direitos. O novo paradigma aspira a uma ressocialização do
poder, e, portanto, a uma subjetividade que seja capaz dela, buscando alternativas, ampliando
a cidadania. A cidadania deverá ser apropriadamente examinada, no âmbito desse trabalho,
à luz da unidade fundamental da concepção dos direitos humanos. Nesse contexto, o tema
políticas públicas ganhou importância, assim como as instituições e regras que regem sua
elaboração, implementação e controle. Especialmente em nosso ordenamento, houve um
redimensionamento dos estudos a respeito dos temas relacionados com as políticas públicas. Isso
se deu por vários motivos. Dentre eles, a percepção de que não bastava a Constituição Federal
dispor de uma enorme gama de direitos sociais e tratar dos instrumentos para sua realização. A
concretização desses direitos dependia de uma atuação eficaz dos Poderes e Órgãos do Estado,
em parceria com a sociedade civil organizada e, sobretudo, de um controle efetivo sobre essas
políticas e a forma de sua consecução. Essa percepção trouxe uma movimentação social que
refletiu em todas as áreas afins às políticas públicas, nas eleições legislativas e no Executivo,
com uma maior cobrança e exigência, bem como no Judiciário, com um acúmulo de ações
individuais e coletivas, a exigir um redimensionamento de sua atuação. O papel dos Poderes
Legislativo, Executivo e Judiciário, bem como de outros órgãos e instituições do Estado,
como o Ministério Público e a Defensoria Pública, passou a ser discutido tendo em vista
essa implementação e controle de Políticas Públicas. Essa nova percepção está amplamente
relacionada com a emergência de um novo espaço político, plural, no qual se inserem, no
âmbito de uma democracia participativa, os movimentos sociais, sujeitos coletivos e cidadãos
em geral, organizados a fim de postular a fruição das garantias fundamentais, com vistas
à transformação do modelo excludente que hoje prevalece. Adotando Boaventura Santos,
defende-se, e essa é a principal finalidade, “uma sociedade-providência transfigurada que,
sem dispensar o Estado das prestações sociais a que o obriga a reivindicação da cidadania

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social, sabe abrir caminhos próprios de emancipação. A resposta está, portanto, na construção
de uma alternativa participativa, consolidada no espaço da cidadania, a fim de encontrar um
novo papel para o Estado e a Constituição, cuja diretriz deverá residir na prevalência real
dos direitos humanos. O tema, apesar de não se revelar inovador, desperta interesse por sua
relevância. Eleito a partir da busca de uma perspectiva pessoal, foi abordado no contexto de
uma revisão bibliográfica, que envolveu extensa pesquisa dos conceitos. O resultado foi uma
versão analítica do texto, espelhando os dados obtidos e as perspectivas dos diferentes autores
acerca das questões suscitadas, afinal reunidas no documento que ora se apresenta. A fim de
cumprir seu objetivo, o trabalho foi dividido em partes, detalhadas em tópicos específicos.
Iniciou-se por uma compreensão dos direitos humanos, suas dimensões e a importância
do processo democrático para sua efetivação. Foi analisada, em seguida, a conceituação de
políticas públicas, de forma a propiciar melhor entendimento sobre sua elaboração, seus
limites e controles, bem como sua execução, relacionando-a com a qualidade da Democracia.
Por fim, foram propostas novas dimensões de participação, que potencializem o exercício dos
direitos humanos pela participação qualificada da sociedade, tendo por objetivo a efetivação
real da cidadania. A pesquisa conduziu à constatação – inevitável – de que a ampliação do
conceito de cidadania é fator precípuo na mudança de paradigma, para a construção de uma
democracia que permitirá uma participação real, e não apenas retórica, nos direcionamentos
do Estado.

Palavras-chave: 1. Direitos Humanos; 2. Políticas Públicas. 3. Igualdade. 4. Políticas


Afirmativas. 5. Cidadania

15. ENSAIO SOBRE A SERVIDÃO JURÍDICA (IN)ESPONTÂNEA DOS DIREITOS HUMANOS NO


CONTEXTO MULTICULTURALISTA.

Autor: Ileide Sampaio de Sousa

Resumo: O presente artigo tem como objeto a construção de um ensaio teórico sobre
as demandas universais da teoria dos Direitos humanos e sua redefinição mediante um
reajuste com as propostas Multiculturalistas. A desconstrução da “vida nua”, possibilitada
pelo Estado Moderno, até a extrema sedimentação da “servidão voluntária”, tem como
limite a correspondência com percepção contemporânea da individualidade de produções e
autonomias humanas. É sobre o caos de significados e a reunião de sentidos, numa perspectiva
histórico-relativista, porém não niilista, que se proporá uma solidificação dos estudos do
multiculturalismo sobre a temática dos Direitos humanos. Sinalizar como as formas dialogais
apresentadas pelas teses multiculturalistas perfazem um reajuste no discurso operado pela
servidão jurídica ocidentalizada, possibilitando uma visão jurídica que garanta mais autonomia
aos titulares dos direitos ditos humanos – seja dos países de centro ou da periferia.

Palavras-chave: Direito imaginário; Direitos humanos; Multiculturalismo; Vida Nua;


Servidão Voluntária.

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16. O DESENVOLVIMENTO URBANO SOB A LÓGICA DA CIDADE MODERNA/COLONIAL: A
CRÍTICA DA DESCOLONIALIDADE

Autores: Karina Macedo Fernandes; Daniel Carneiro Leão Romaguera

Resumo: O trabalho pretende demonstrar que o modelo de desenvolvimento urbano


adotado no Brasil foi pautado pela exclusão de pessoas pobres do acesso às condições básicas
de urbanidade, seguindo a lógica da cidade moderna/colonial. Esse modelo, carregando
consigo o discurso da modernidade a partir do engrandecimento de imaginários e modos de
vida funcionais ao capitalismo e a uma versão moderna de progresso, instaurou no imaginário
coletivo a ideia de que a civilização a superioridade vive na cidade, que seria, assim, o lugar
referencial do poder e da dominação, em contraposição ao rural, ao campesino, ao indígena,
ao bárbaro. Ademais, além de excludente, mostrou-se altamente concentrador, formando
um panorama em que a maioria da população urbana contemporânea vive em municípios
que pertencem a aglomerados urbanos e regiões metropolitanas com mais de um milhão de
habitantes3. Nesse contexto, as cidades no Brasil são definidas por critérios jurídico-políticos
que define formas proibidas e permitidas de produção do espaço a partir da periferização em
larga escala, que se constitui como um dos mais expressivos exemplos do poder de soberania
em favor do poder público para acabar com os focos de moradias pobres e insalubres. Nesse
sentido, pretende-se analisar o direito à cidade a partir de uma análise que desafie a lógica de
mercado hegemônica e os modelos dominantes de legalidade e de ação do Estado, em que
o direito de propriedade, longe de atender à sua positivada função social, tem preponderado
sobre os demais, especialmente, os de feição social. O referencial teórico da pesquisa é
o pensamento descolonial4, cuja perspectiva crítica consiste na busca pela desconstrução
epistemológica capaz de desvelar o conhecimento e as realidades oprimidas e silenciadas,
a partir da voz e da luta dos sujeitos latino-americanos, mostrando-se capaz de enfrentar
criticamente o paradigma moderno/colonial capitalista que constitui a base da urbanização
brasileira, destacando que as relações de colonialidade nas esferas econômica e política
permanecem reproduzindo os fortes impactos causados nos movimentos hegemônicos
mundiais5, forjados no processo de colonização da América Latina6.

Palavras-chave: Cidade moderna/colonial. Desenvolvimento urbano. Pensamento descolonial.

17. DIREITO AMBIENTAL E MULTICULTURALISMO: AMPLOS MECANISMOS DE PROTEÇÃO


DOS DIREITOS FUNDAMENTAIS PARA A GARANTIA DA PRESERVAÇÃO DAS IDENTIDADES
PANTANEIRAS EM MATO GROSSO.

Autores: Romário Augusto Morais Santos de Souza; Carlos Teodoro José Hugueney Irigaray

Resumo: Circundados por uma das maiores áreas úmidas do mundo, o povo pantaneiro ainda
convive estreitamente comungando a relação homem, fauna e terra, levando com sigo um
modo de vida único e equilibrado com esse bioma tão delicado. O modus operandi, exercido
por essas comunidades desafiam os modelos de produção atual e colocam empiricamente,
ideologicamente e até mesmo cientificamente em xeque a feroz matriz econômica vigente
na sociedade ocidental. Essa interligação entre a biota e sua epistemologia, confronta-se com

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a modernidade, e não mais se enxerga. A transdisciplinaridade dos mecanismos de proteção
ambiental juntamente aos pilares do multiculturalismo, se deparam como nunca com um
demanda de base, latente por proteção. Os direitos fundamentais encontram nesse tema, solo
fértil, no entanto, precisa ser encarado como uma problemática séria, de relevância estatal e
com alcance direto e decisivo na garantia de um patrimônio cultural vivo e protagonista de
suas vontades e caminhos.

Palavras chave: Multiculturalismo. Direto Socioambiental. Comunidades Tradicionais.

18. O VISÍVEL E O INVISÍVEL: ESTRATÉGIAS DE RESISTÊNCIA E RECONHECIMENTO


IDENTITÁRIO

Autores: Larissa da Silva Araújo; Priscila Paz Godoy

Resumo:Ao longo dos anos de colonização do Brasil, o Estado colonial/republicano utilizou-


se de vários instrumentos de invizibilização das diferenças dos povos nativos e diaspóricos
subalternizados: extermínio, escravização, marginalização, miscigenação embranquecedora,
entre outras. Por outro lado, os povos originários e as comunidades tradicionais também
se valeram de várias estratégias de resistência como resiliência, enfrentamento direto ao
Estado por meio da luta armada, isolamento em comunidades autossuficientes, dispersão
pelo território brasileiro. A partir da década de 80, uma maior interlocução com o Estado
permitiu que as minorias demandassem políticas públicas de reconhecimento, com vistas
a garantir maior proteção estatal. A política de reconhecimento comumente adotada pelo
Estado brasileiro tem sido a patrimonialização das comunidades e de seus saberes, por meio
do Instituto de Patrimônio Histórico Artístico Nacional - IPHAN. Nesse sentido, o presente
trabalho traz como proposta de reflexão a comparação de dois casos exemplares de política
de patrimonialização: a das baianas de acarajé de Salvador - BA e a dos ciganos calon do
bairro de São Gabriel, em Belo Horizonte – MG. Questiona-se, portanto, se a demanda por
patrimonialização se configura como uma estratégia de resistência, e de que forma. Por meio
da análise dos discursos jurídicos encontrados nos documentos estatais de patrimonialização
e dos discursos dessas comunidades, coletados em entrevistas, objetiva-se compreender se
essa política gera mais vizibilização ou invizibilização no espaço público e, por conseguinte,
contribui para o reconhecimento de suas identidades.

Palavras chave: patrimônio, visibilidade, invisibilidade, baianas de acarajé, ciganos calon,


identidade.

19. DIREITO AO DESENVOLVIMENTO DOS POVOS INDÍGENAS E O BOM GOVERNO: A


CONTRIBUIÇÃO DE GUAMAN POMA DE AYALA E FRANCISCO DE VITÓRIA

Autor: Thays Novaes Cavalcanti

Resumo: Francisco de Vitória (1483-1546), membro da ordem dominicana, teólogo da


Escola de Salamanca, fazia parte do “grupo de pensadores livres” deste período, destaco 2 livros

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De Indis (1539) e Relectiones Theologicae, que foram unidos e podem ser encontrados na
versão espanhola “Sobre el poder civil. Sobre los índios. Sobre el derecho de guerra. Tecnos,
Madrid, 1998.” Felipe Guaman Poma de Ayala (1534/1556-1615/1644) cronista indígena
de Virreinato del Peru escreveu um documento dedicado ao Rei Felipe III da Espanha
denominado “Nueva Cronica y Buen Governo”. Ambos os autores são revolucionários
para o período e defendem a dignidade do índio, sua liberdade e sua identidade como povo.
A proposta deste artigo é analisar os pontos principais de seus escritos que contribuem para
a formação do Estado indígena e dos direitos humanos dos povos indígenas. Una critica
a forma com que o governo (Estado) pode atuar, por meio de políticas públicas, para a
promoção das capacidades da pessoa do índio.

Palavras chave: Direito ao Desenvolvimento – Povos indígenas – Bom Governo – Guaman


Poma – Francisco de Vitória.

20. NOVAS E VELHAS RELAÇÕES ENTRE O ESTADO BRASILEIRO E OS POVOS INDÍGENAS

Autor: Saulo Ferreira Feitosa

Resumo: O presente trabalho apresenta uma história da criação (2006) e funcionamento


da Comissão Nacional de Política Indigenista (CNPI). Apesar de recente, o advento deste
novo aparelho de Estado só pode ser objeto de uma análise historiográfica ao ser colocado
no contexto da inteira história da política indigenista de que foram objetos e vítimas os
povos indígenas. Ao produzir esta história, procurou-se demonstrar que, durante os cinco
primeiros séculos de estabelecimento de relações com os povos originários, o Estado nacional
conquistador, primeiro na forma do Estado colonizador português e depois na forma do
Estado brasileiro, buscou reduzir as identidades múltiplas dos povos originários a uma
monoculturalidade uninacional. Entre o período colonial e a evolução posterior uma linha
de continuidade histórica é evidenciada: o Estado concebeu-se a si mesmo como idêntico à
nação. Esta concepção de Estado construiu uma política indigenista tutelar e integracionista.
Por ela, os indígenas sobreviventes dos genocídios sucessivos foram tutelados porque
considerados atrasados no processo de desenvolvimento em relação aos conquistadores. Por
isso, foram forçados, de diferentes maneiras, a integrar-se à suposta comunhão nacional,
pela denegação de sua etnicidade e incorporação na civilização conquistadora. Com estes
elementos analíticos, o presente estudo procura explicar a criação da CNPI como uma
conquista, resultado das guerras e lutas de resistências de muitos povos indígenas sobreviventes.
Estes povos conseguiram chegar vivos e mobilizados ao final do século XX para contar suas
histórias e declarar vivas suas nações, suas línguas e suas culturas. O Estado brasileiro foi
obrigado a reconhecer isso, na Constituição de 1988. Por outro lado, o estudo mostra que,
nos processos de criação e determinação das normas do funcionamento da CNPI, o Estado
vem conseguindo, mais uma vez, reproduzir o indigenismo tutelar e roubar dos povos
originários o direito de decidir sobre os próprios destinos e de participar das decisões sobre
os rumos do país, pelo diálogo com as demais nações viventes no território. Embora o estudo
reconheça que a CNPI representou a primeira instância onde os povos indígenas puderam
discutir e tentar intervir sobre as políticas direcionadas às suas comunidades, a história do

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funcionamento do órgão mostra que os limites desta intervenção foram tão altos que a
própria existência deste órgão representou uma constante ameaça para os povos indígenas,
em decorrência da permanente guerra racial movida pelas classes privilegiadas, representada
pelo Estado uninacional e monocultural brasileiro. Por essa razão, o estudo conclui que
só haverá um direito das gentes e dos povos originários deste território, se este Estado for
transformado em outro, um que seja plurinacional desta feita. Enquanto isso, conforme outra
conclusão do presente estudo, os povos originários em situação de isolamento voluntário,
por se negarem a aceitar o estabelecimento de relações com a sociedade nacional, são os
únicos que – apesar de perseguidos e agredidos pelas frentes expansionistas do capital – estão
livres das armadilhas institucionais estatais e só por isso a CNPI não lhes oferece risco.

Palavras-chave: CNPI, Povos Indígenas, Estado brasileiro, Guerra das Raças.

CONSTITUCIONALISMO ACHADO NA RUA: O NOVO CONSTITUCIONALISMO


LATINO-AMERICANO E A EXPERIÊNCIA CRÍTICA NA REALIDADE BRASILEIRA

Ementa: O Novo Constitucionalismo latino-americano surgiu a partir da necessidade


histórica de, por um lado, apropriar-se constitucionalmente de alguns instrumentos de luta
e reivindicações populares e, por outro, fundar novas possibilidades epistemológicas com
conhecimentos e práticas ancestrais oriundas das comunidades indígenas, sujeitos que foram
historicamente excluídos do processo de aplicação/produção do Direito.
Essas experiências refletem uma espécie de “Constitucionalismo Achado na Rua”, em
que os atores constituintes, protagonistas desses processos, que envolveram povos indígenas,
feministas, campesinos, trabalhadores e setores historicamente excluídos, extraem do processo
constitucional novas formas de pluralismo jurídico e conquistas de Direitos.
A ideia da mesa, portanto, é explorar os limites e possibilidades das experiências cons-
titucionais na América latina e, também, seus pontos de contato e interseção com a realidade
brasileira a partir do Direito Achado na Rua.

Coordenadore(a)s:
Alexandre Bernardino Costa (UNB - Brasil), César Baldi (NEP-UNB - Brasil), Raquel Zonia
Yrigoyen Fajardo (IBS - Peru)

1. O NOVO CONSTITUCIONALISMO PLURALISTA LATINO-AMERICANO: LIÇÕES PARA


REALIDADE BRASILEIRA

Autor: Pedro Augusto Domingues Miranda Brandão

Resumo: O Novo Constitucionalismo Pluralista Latino Americano proporciona uma


nova leitura do Direito Constitucional orientada a partir de três eixos principais: i) o
estabelecimento de uma nova relação entre democracia e Constitucionalismo, com a
intensificação da participação popular; ii) a criação de mecanismos interculturais e descoloniais,
principalmente, a partir da contribuição dos povos indígenas; iii) a intervenção do Estado e

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da cidadania na economia, afastando-se do paradigma eurocêntrico de desenvolvimento, pois
visa uma nova relação com o meio ambiente. Esse movimento é materializado, sobretudo,
nas Constituições do Equador e da Bolívia. Esses processos inauguram novas formas de
pensar o Constitucionalismo, superando a forma monocultural e eurocêntrica. O Sumak
Kwasay, como representativo de um modelo alternativo de sociedade, e o rompimento do
antropocentrismo moderno através da positivação dos Direitos da Pachamama, possibilitam
uma nova leitura do direito Constitucional. O giro paradigmático desse movimento busca,
portanto, além de questionar as premissas do Constitucionalismo monocultural e centrado na
jurisdição Constitucional, propor novas alternativas para resolução de conflitos, priorizando
perspectivas que foram ignoradas ao longo da história jurídica em nosso continente e
redesenhando a engenharia institucional desses países. Nesse contexto, diante da tensa e
complexa relação entre constitucionalismo e democracia, principalmente a partir do Direito
Achado na Rua, pretendemos discutir as lições que esse novo movimento constitucional
pode proporcionar para a realidade constitucional brasileira, sobretudo em relação à temática
do poder constituinte, que pretende ser reverberada no trabalho através do debate sobre a
possibilidade (e necessidade) de uma constituinte exclusiva para a reforma política no Brasil.

Palavras-chave: Novo Constitucionalismo Latinoamericano; Pluralista; Interculturalidade.

2. RELAÇÃO ENTRE DIREITO E POLÍTICA DIANTE DO PROCESSO DE RECONHECIMENTO


DAS DIFERENÇAS

Autor: Judith Costa Vieira

Resumo: Nos últimos tempos o processo de luta pelo reconhecimento da diferença tem
crescido consideravelmente tanto no nível interno dos Estados quanto na seara internacional.
Há, atualmente, um grande número de organizações, grupos e instituições que passaram a
tratar sistematicamente desta temática. Uma consequência concreta deste processo pode ser
considerada o surgimento de um novo aparato normativo com conteúdo específico destinado
a grupos sociais diferentes entre si. Tais modificações na característica das normas jurídicas
refletem um amplo processo de politização do Direito já que estas normas têm se originado
dos processos de lutas sociais e políticas engendradas pelos movimentos sociais organizados
em torno de reinvindicações de caráter étnico e cultural. Neste contexto, é possível dizer,
que o processo de reconhecimento das diferenças étnicas e culturais proporciona novas
possibilidades de leitura da relação entre a Política e o Direito no sentido de que ele provoca a
superação dos dogmas da racionalização absoluta, da completude e da neutralidade do Direito
que durante muito tempo dominaram os estudos jurídicos. Além disto, desvelam um cenário
de conflito no plano jurídico redesenhando formas diversas do fazer político que encontram
no Direito sua forma de expressão, isto porque deixam evidentes disputas pela manutenção e
superação de normas jurídicas que beneficiam sujeitos sociais diversos e seus também diversos
interesses. Assim sendo, é necessária uma melhor compreensão da influência da luta dos
movimentos sociais organizados e mobilizados em torno da reivindicação da diferença neste
processo politização da construção e superação de normas jurídicas e na definição de novas
formas de fazer política na sociedade. Se inserindo nesta discussão, o objetivo deste estudo

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será analisar de que maneira o fenômeno do processo de reconhecimento das diferenças
tem contribuído para a modificação do Direito a partir da politização da discussão sobre o
conteúdo das leis e poderes constituídos formalmente.

Palavras-chave: Direito, política, reconhecimento das diferenças.

3. CONSTITUCIONALISMO ACHADO NA ENCRUZILHADA OS: “POVO”, “NAÇÃO” E


“TERRITÓRIO” SOB A LENTE DAS TRADIÇÕES DE MATRIZ AFRICANA

Autores: Andrea Leticia Carvalho Guimarães; Thiago de Azevedo Pinheiro Hoshino

Resumo: O presente artigo tem como objetivo problematizar as noções de “povo”, “nação”
e “território, fundacionais do Estado-nação ocidental moderno, sob a ótica dos auto-
denominados “povos-de-terreiros” ou “povos-de-santo”, enquanto segmentos integrantes da
Política Nacional de Desenvolvimento Sustentável dos Povos e Comunidades Tradicionais,
legalmente consubstanciada no Decreto Federal 6.040/2007. A reflexão é especialmente
eloqüente no marco de um “constitucionalismo achado na rua”, na medida em que explora o
“duplo vínculo” de tais conceitos analíticos, simultânea e paralelamente operados pela Teoria
Política/Teoria do Estado clássicas, e manejadas como “categorias nativas” pelas tradições de
matriz africana, tornando-se, assim, epicentros de um conjunto de conflitos hermenêuticos.
Neste sentido, a experiência crítica desses grupos, que se legitimam como sujeitos construção
e da interpretação constitucionais, permite evidenciar a permanência da colonialidade do
poder nos discursos e nas práticas estatais. São exemplos disso os reivindicados “territórios de
axé” territorialidades tradicionais que extrapolam o egbé como espaço físico (comunidade-
terreiro) e expressam dinâmicas de resistência para além da lógica proprietária; bem como a
figura das “nações” de candomblé (batizadas de distintas formas nas variadas vertentes sócio-
religiosas), tributárias, cada uma, de uma identidade coletiva não apenas na esfera étnico-
racional, mas também em nível ético-político. Linhas sociais e espaciais móveis, portanto, que
se rebelam às rígidas fronteiras que pretendem enquadrar os lugares e os protagonistas da
produção-reprodução de modos de vida particulares. Como termômetros desse desencontro
epistemológico, enfocam-se as disputas implicadas no processo de elaboração e apropriação
do I Plano Nacional de Desenvolvimento Sustentável dos Povos e Comunidades Tradicionais
de Matriz Africana (2013), interrogado como esforço de tradução de uma determinada
gramática de “direitos achados na rua” para a linguagem oficial, com seus limites (pontos-
cegos) e possibilidades (horizontes). Em perspectiva comparada, a insurgência dessas
subjetividades descoloniais e a interpelação que lançam ao direito instituído dialoga com
os recentes processos constituintes latino-americanos, (re)situando os projetos de pluralismo
jurídico na atual encruzilhada intercultural, multiétnica e plurinacional.

Palavras-chave: direito; constitucionalismo latino-americano; povos de terreiro; territórios


tradicionais; religiões de matriz africana; Estado-nação; Decreto 6040/07.

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4. O CONSTITUCIONALISMO LATINO AMERICANO E O DIREITO CONSTITUCIONAL
BRASILEIRO: DIREITOS FUNDAMENTAIS COMO REFERENCIAL TEÓRICO

Autores: Marília Freitas Lima; Juan José Ordoñez García

Resumo: A importância constitucional do tema abordado começa a crescer após a 2ª Guerra


Mundial, o que faz com que haja um movimento jurídico e político para a inserção de
conteúdos axiológicos assecuratórios nos ordenamentos pátrios a fim de garantir a proteção
do cidadão em face dos desmandos estatais. Em virtude dos diversos movimentos sociais
latino americanos e sua luta pelo processo de descolonialização e de reconhecimento das
populações historicamente reprimidas, emerge um novo caminho denominado de Novo
Constitucionalismo Latino-Americano. Neste contexto, surge a necessidade de aprofundar
o estudo sobre a relevância deste movimento em um contexto mais amplo, incluindo a sua
influência e aceitação (ou não) na construção jurídica brasileira. O artigo tem a intenção
apresentar soluções teóricas a problemas atuais vinculados ao constitucionalismo, como a
democratização do acesso ao poder e de acesso aos recursos que geram riqueza, estabelecer
um diálogo entre as dois principais realidades constitucionais predominantes de América
Latina, em um contexto sem precedentes de relações globais onde a maioria dos problemas
e soluções são cada vez mais compartilhados. O presente trabalho pretende dar resposta
aos seguintes questionamentos: É possível aliar a leitura constitucionalista do Brasil frente à
movimentação latino americana? É possível aplicar as bases teóricas do novo constitucionalismo
latino americano no direito brasileiro? O sistema de atuação constitucional brasileiro está
funcionando no diálogo com o restante da América Latina? Para responder as questões
propostas, verificará as tendências do novo constitucionalismo latino-americano, utilizando
como referência os sistemas jurídicos do Brasil, Bolívia e Equador, considerando os desafios
de aplicação nos respectivos sistemas. Esta pesquisa utilizará da abordagem dedutiva, para
avaliar as possibilidades de diálogo entre os sistemas, demonstrando-o enquanto opção para a
efetiva implementação dos direitos fundamentais.

Palavras-chave: Constitucionalismo. Novo Constitucionalismo. América Latina. Direitos


Fundamentais.

5. ENTRE CONGRESSO E ASSEMBLEIA CONSTITUINTE: UM ENSAIO SOBRE O CONFLITO NO


CONTROLE DO TEMPO NA TRANSIÇÃO BRASILEIRA.

Autor: Magnus Henry da Silva Marques

Resumo: A realização do congresso constituinte que produziu a “Constituição cidadã”


cumpriu um importante papel no processo de transição política no Brasil, iniciado ainda na
década de 70, de um regime de enunciado Autoritário para um de enunciado Democrático
e representou, em partes, um ponto dissonante no projeto de transição pensado pelo Regime
Militar. Ao mesmo tempo, a forma congressual da constituinte não foi consenso entre os
oposicionistas ao Regime, apesar do apoio significativo da oposição institucional, tendo de
se confrontar ao longo do processo constituinte com a tese da “Assembleia Constituinte”, o
que de certa forma representou um reflexo de uma disputa mais ampla acerca da dimensão

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da transição entre os regimes e da manifestação do poder constituinte. Mas através dessas
duas formas não se disputava apenas a intensidade de participação popular no processo, mas,
sobretudo, a aceleração dessa transição, desses modo, o presente ensaio identificará quais
as frações da sociedade que defendiam a Assembleia constituinte e quais advogavam pelo
Congresso constituinte, se a simples adoção do congresso constituinte foi capaz ou não
de representar o êxito completo no intento da parcela que o defendia e, sobretudo, qual a
relação de cada setor com o tempo de transição a partir da análise do poder constituinte e do
processo constituinte como operadores do tempo do direito e da política.

Palavras-chave: congresso constituinte. Assembleia constituinte. Ditadura.Transição política.


Poder constituinte.

6. A LUTA VAI SER TÃO DIFÍCIL, NA LEI OU NA MARRA NÓS VAMOS GANHAR

Autor: José do Carmo Alves Siqueira

Resumo: Muitas pessoas se ocuparam de conceituar o que é o Direito. São tantas as vidas
dedicadas ao exercício de explicar, cientificamente ou não, os processos de produção/
aplicação do Direito. Entretanto, as insatisfações em torno das respostas permanecem.
Pesquisas e análises são procedidas. Teorias e pensamentos são desenvolvidos. Quem sabe seja
mais correto compreender o que não é Direito, para, então, encontrar um caminho que nos
conduza a uma melhor clareza do que possa ser – ou vir a ser – o Direito. O Direito não é e
nem pode ser uma espécie de força autônoma ou superior, algo acima do “mundo da vida”;
nem mesmo os princípios do Direito – porque, também, estes não surgiram do nada, nem
são criações de um ser supremo e soberano.Tudo é fruto da criação do ser humano histórico,
datado. A histórica luta pela terra, no Brasil, marcada por muitos e violentos conflitos entre
o direito à vida e o direito de propriedade (que se realiza e é protegido, juridicamente,
como efetividade do abstrato direito à propriedade) evidencia a esperança na conquista do
Direito como efetividade. O Canto do lavrador anuncia: “A luta vai ser tão difícil, na lei ou
na marra nós vamos ganhar”. Isto, é uma afronta ao Direito ou uma revelação da sua questão
fundamental: a legitimidade do Direito que deve ser extraída nos processos constitucionais de
sua produção e de sua efetividade? O problema que motiva esta argumentação é o processo
de concepção, construção, afirmação do Direito até sua efetividade ou não. A ideia central
e pressuposto deste trabalho é a de que Direito só é Direito se se efetiva e tenha sentido, se
conseguir melhorar a vida das pessoas (sujeito constitucional), a partir das suas produção/
interpretação/aplicação legitimadas pela participação de atores, historicamente, excluídos dos
movimentos de sua constitucionalização.

PALAVRAS-CHAVE: Direito. Efetividade. Luta pela terra.

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7. PROCESSO CONSTITUINTE E A REFORMA DO SISTEMA POLÍTICO NO BRASIL: REFLEXÕES
INICIAIS PARA A CONSTRUÇÃO DE UM “CONSTITUCIONALISMO ACHADO NA RUA”

Autor: Gladstone Leonel da Silva Junior


O artigo em questão trata de analisar um possível desafio para o próximo período no Brasil.
Aborda a importância de se pensar em uma nova constituinte para mudar a raiz de um
sistema político viciado, que tão só deixa espaço a uma democracia representativa baseada
essencialmente no financiamento privada das campanhas eleitorais. Sendo assim, o impulso
necessário para a convocação de uma constituinte deve necessariamente vir da pressão social.
A proposta da constituinte, não passa por gabinetes ou por alguma entidade abstrata como a
norma hipotética fundamental kelseneana. Ela deve ser uma constituinte que permita gerar
um “constitucionalismo achado na rua”.

Palavras-chave: Constituinte; sistema político; constitucionalismo achado na rua.

8. DESCOLONIZANDO A SALA DE MÁQUINAS DA CONSTITUIÇÃO: UM DEBATE COM


ROBERTO GARGARELLA

Autor: João Telésforo

Resumo: O texto da nova Constituição da Bolívia (2009), ao mesmo tempo que institui
um Estado plurinacional, comunitário e intercultural, fundado no pluralismo – inclusive
jurídico –, também afirma a sua soberania. Como o projeto constitucional boliviano busca
conciliar o discurso da soberania do povo boliviano, do país e do Estado – construção
típica do Estado-Nação Moderno – com o da plurinacionalidade, da autonomia indígena, da
democracia comunitária e do pluralismo jurídico? O presente trabalho não tem o propósito
de oferecer respostas “doutrinárias” a essa questão. Não buscamos, aqui, produzir uma análise
jurídica racionalizadora da nova Constituição da Bolívia, cega às diferenças de projetos, aos
conflitos e às negociações entre diferentes sujeitos sociopolíticos presentes na Constituinte
e na luta contínua por sua reelaboração interpretativa. Nosso objetivo é investigar, antes,
como a soberania popular, nacional e estatal é pensada, afirmada, contestada e ressignificada
pelos próprios sujeitos políticos do processo constituinte boliviano. Para tanto, recorremos
sobretudo a fontes secundárias: promovemos uma ampla revisão do conjunto de estudos
de diversas disciplinas – Antropologia, Ciência Política e Direito, notadamente – sobre os
discursos dos principais campos políticos presentes no processo constituinte, com foco nas
suas diferentes concepções da questão da soberania em um Estado plurinacional, comunitário
e intercultural.

Palavras-chave: Plurinacionalidade; Estado plurinacional; Soberania; Bolívia.

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A ELABORAÇÃO LEGISLATIVA E A GARANTIA DOS DIREITOS FUNDAMENTAIS

Ementa: No século XXI as leis são grandes condutoras de políticas públicas garantidoras de
direitos fundamentais. Mas, diuturnamente, são divulgados casos de má qualidade das leis e
o impacto negativo disso sobre os direitos fundamentais. As dificuldades no diálogo entre
normatividades expressam as tensões valorativas que cercam o tema do desenvolvimento
socioeconômico em sociedades plurais. Que por sua vez são delimitadas pelos discursos no
plano legislativo, pela consensualidade na aplicação do direito via elaboração de políticas
públicas e ainda pelo modo como estas dimensões reverberam no direito “formal” sobretudo
em legislações multiníveis. A legística como ciência que objetiva alavancar a ação pública
normativa de qualidade fomenta reflexões acerca do papel da lei em estados constitucionais
e plurinacionais, demonstrando que o processo legislativo deve ser mais dialógico e que a lei
deve atuar sobre a realidade como um instrumento integrador.

Coordenadoras:
Dra. Fabiana de Menezes Soares (Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG - Brasil),
Msc. Linara Oeiras Assunção (Universidade Federal do Amapá – UNIFAP, Brasil)

Debatedor/Comentarista: Dra. Lorena Ossio Bustillos (Max Planck Institute).

1. REDUÇÃO DA MAIORIDADE PENAL E RISCO DE HIGIENIZAÇÃO URBANA: A ATIVIDADE


LEGISLATIVA CONTRA A CIÊNCIA E A EVIDÊNCIA

Autor: Camila Silva Nicácio

Resumo: O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA, Lei Federal nº 8.069/90) dispõe,


no que toca à seara infracional, de uma sistemática normativa não somente de proteção dos
direitos e garantias do público infanto-juvenil em conflito com a lei, mas igualmente de
responsabilização do mesmo quando da prática de atos infracionais. Instrumento normativo,
o ECA identifica, assim, pelo menos seis medidas socioeducativas, tais como as medidas
protetivas, as privativas e restritivas de liberdade e, ainda, aquelas executadas em meio aberto.
De competência do Poder Judiciário, a aplicação de tais medidas se baseia tanto na gravidade
do ato praticado e seus impactos, quanto no itinerário sócio-familiar e cultural pregresso
do adolescente que o pratica. Para tal aplicação, um olhar orgânico sobre as medidas deve-
se somar à sensibilidade hermenêutica do julgador. O conteúdo desaprovador das mesmas
responde a um ato infracional concreto, contextualmente situado, devendo guardar com ele
proporcionalidade: para infrações graves, medidas mais vigorosas; para infrações leves, medidas
menos severas. Privação e restrição de liberdade e meio aberto encontram nessa gradação
uma dinâmica necessária e salutar, tendente a contribuir tanto para evitar inadequações como
para reforçar a relação de coerência e sustentação entre elas, o acautelamento de adolescente
tendo cometido ato infracional leve sendo tão deletério quanto o não acautelamento do autor
de ato infracional grave. Assim, acertadamente, o princípio da excepcionalidade (artigo nº
121 da Lei nº 8.069/90) afirma o lugar secundário das medidas de privação de liberdade na
sistemática normativa e elege, por consequência, as medidas menos gravosas (tais como o meio
aberto) como intervenções prioritárias, sobretudo no que toca aos atos de natureza leve. Lugar

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secundário, mas não negligenciável, haja vista a existência de infrações que ferem de tal modo
o tecido social que ensejam, necessariamente, a privação de liberdade. Ocorre que, em nossos
dias, prevalece, tanto para o senso comum quanto para setores avisados, a cultura segundo a qual
a internação deve ser priorizada (e aqui se inscreve a discussão sobre a redução da maioridade
penal), esvaziando-se o conteúdo e potencial reabilitador das medidas em meio aberto. Tais
medidas, ao mirarem o duplo objetivo de responsabilizar o adolescente e buscar, sempre que
possível, a reparação das consequências do ato cometido, contribuem, tangencialmente, para
demarcar corresponsabilidades. Assim, em suas duas modalidades de intervenção (liberdade
assistida e prestação de serviço à comunidade), as medidas em meio aberto visam associar
as famílias, as escolas, os vizinhos, as associações, os serviços públicos em geral, o sistema de
justiça etc., em prol do reforço de um controle social difuso que, agindo desde as primeiras
atuações delituosas do adolescente, seja hábil e adequado para contê-las, obstaculizando, assim, a
escalada infracional. Ao agir segundo tal perspectiva, as medidas em meio aberto nos permitem
vislumbrar o resgate de um “Eldorado” sócio-comunitário perdido, em que os laços sociais
são suficientemente importantes para contribuir para a coesão da comunidade. Coesão para a
qual o Estado, sem se desobrigar ou se eximir de responsabilidade, deve participar apenas de
forma concorrente e não solitária. As propostas em torno da mudança legal que visa reduzir
a maioridade penal não só desconsideram a possibilidade de referido resgate, uma vez que
ignoram a necessidade de mudança no perfil sancionatório da infância e juventude, passando
de um modelo retributivo a outro, reparador, em que a comunidade é um agente ativo, mas,
igualmente, fazem ouvidos moucos à ciência, quando a mesma aponta, por um lado, para
a condição peculiar de desenvolvimento da criança e do adolescente e, por outro, para os
principais mecanismos que transformam a experiência do encarceramento em uma necessária
ferramenta de higienização da cena urbana. O que esperar do papel integrador das leis quando
a produção das mesmas se vê colonizada por lógicas de populismo midiático e político, em que
a lógica vindicativa se sobrepõe à ciência e à evidência?

Palavras-chave: infância e adolescência; conflito com a lei; produção legislativa.

2. RECEPÇÃO DA LEI DE ANISTIA NO CASO GOMES LUND: COMO PENSAR A IMPLEMENTAÇÃO


DE DIREITOS FUNDAMENTAIS VIOLADOS?

Autores: Letícia Soares Peixoto Aleixo; Lucas Azevedo Paulino

Resumo: O artigo que se pretende desenvolver tem por objetivo fazer o estudo do caso
Gomes Lund da Corte Interamericana de Direitos Humanos, sobre a recepção da lei da anistia
no Brasil. O caso será analisado com base na tese da implementação na teoria da legislação,
que compreende que a legislação, num Estado Democrático de Direito, consiste, em grande
medida, na implementação do Direito Constitucional, em especial no tocante à aplicação
e garantia dos direitos fundamentais. A tese desenvolvida pelo alemão Jan Sieckmann, no
ensaio Legislation as Implementation of Constitutional Law: A Foundation for the Demand
of Legislative Rationality visa demonstrar que a exigência de racionalidade tem força
constitucional, ao menos na medida em que está em causa a aplicação de direitos fundamentais,
que são direitos que restringem a liberdade legislativa. Implementação significaria não a mera

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aplicação de normas constitucionais, mas um processo criativo e construtivo de normatização,
baseado na ponderação de princípios constitucionais. Inicialmente, o artigo tem o propósito
de reconstruir os principais argumentos que sustentam essa teoria. É válido salientar que tal
tese defende a primazia do Poder Legislativo, na esfera desse processo de implementação e
ponderação de direitos fundamentais. Em face disso, num segundo momento, buscar-se-á
as principais objeções a essa tese, tais como: a ausência de racionalidade da ponderação de
princípios, a ausência de legitimidade democrática do controle de constitucionalidade em
circunstância de desacordo moral e razoável, bem como a ausência de legitimidade desse
controle em matérias substancias (que deveriam ser decididas com igualdade de participação
de todos), e ainda, a crítica que a ponderação destrói a característica dos direitos como trunfos
ou barreiras contra intervenções estatais. Assim, conhecidos os argumentos pró e contra a tese
apresentada, trabalharemos o caso concreto, visando analisar o silêncio (eloquente?) do Poder
Legislativo brasileiro, bem como a decisão do Supremo Tribunal Federal na ADPF 153. Pode-se
estabelecer o contraponto entre referida decisão do Supremo Tribunal Federal e a decisão da
Corte Interamericana: a primeira, favorável à recepção da Lei da (auto) Anistia no processo de
justiça de transição entre ditadura e democracia no Brasil – omite-se em relação aos direitos
fundamentais violados com a garantia de recepção da Lei, em especial aqueles à memória
e à verdade. Por outro lado, o precedente da Corte Interamericana de Direitos Humanos
traz uma abordagem diferenciada da matéria, reconhecendo a incompatibilidade das leis de
auto anistia com os sistemas democráticos, já que se colocam como obstáculos para que os
Estados investiguem e sancionem os responsáveis por graves violações de direitos humanos.
Conforme nos esclarece o tribunal regional, tal incompatibilidade não deriva de uma questão
formal, como sua origem, mas de seu aspecto material, que viola direitos consagrados tanto
constitucionalmente quanto em tratados internacionais ratificados pelo Brasil. Assim, parte-se
da hipótese de que o caso Gomes Lund atende a implementação de direitos fundamentais.

Palavras-chave: direitos fundamentais – legislação – implementação.

3. OS OBSTÁCULOS LEGISLATIVOS À EFETIVAÇÃO DE DIREITOS FUNDAMENTAIS: A


DESVINCULAÇÃO DE RECEITAS DAS CONTRIBUIÇÕES PARA A SEGURIDADE SOCIAL

Autor: Alice de Abreu Lima Jorge

Resumo: Qual seria a legitimidade das autorizações reiteradamente concedidas à União


via emenda constitucional para a desvinculação de recursos que deveriam ser destinados
ao custeio da Seguridade Social, especialmente ao ter-se em conta os prejuízos impostos
por esta prática à efetivação dos direitos fundamentais à saúde e à dignidade da pessoa
humana? O trabalho parte do pressuposto de que a aplicação do Direito Tributário como
um mecanismo de promoção dos valores consagrados na Constituição Federal demanda a
constante preocupação não apenas com a norma impositiva do tributo e a escolha das bases
para a sua incidência, mas também com o Direito Financeiro e a destinação a ser conferida
aos recursos arrecadados pela via tributária. Faz-se necessária a análise constitucional das
contribuições sociais para o custeio da Seguridade Social, previstas como um instrumento para
o financiamento da Saúde, Previdência e Assistência Social, através das diversas teorias acerca

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da natureza jurídica deste tributo, em especial aquelas que defendem a inconstitucionalidade
da exação nos casos de adestinação ou tredestinação dos recursos arrecadados (a saber, a sua
não aplicação nas searas delimitadas pelo texto constitucional). O contexto será delimitado
pelo direito à saúde e o princípio da dignidade humana somados ao histórico legislativo
relacionado à desvinculação de receitas advindas de contribuições sociais vinculadas, seja
por meio dos já extintos Fundo Social de Emergência e Fundo de Estabilização Fiscal, seja
via a atualmente vigente Desvinculação de Receitas da União (DRU). Ao final, pretende-
se propor uma reflexão acerca da racionalidade do legislador - especialmente desenvolvida
por WITGENS (2013) e das reflexões de KRISTAN (2013) acerca da acerca da racionalidade
legislativa à luz do Estado de Direito e a investigação da conformação das sucessivas reedições
da DRU aos ditames constitucionais e às limitações ao poder de reforma da Constituição.
Ao restringir recursos imprescindíveis à efetivação de direitos fundamentais, a DRU afronta
o núcleo fundamental do direito à saúde e à dignidade? Ainda que não afronte este núcleo,
a limitação a direitos fundamentais é admissível nos casos em que não estiver em debate a
sua ponderação com outros direitos de natureza igualmente fundamental? Da análise das
exposições de motivos e pareceres dos projetos que culminaram nas sucessivas emendas
constitucionais que veicularam e prorrogaram a desvinculação de recursos advindos das
contribuições sociais, é possível depreender-se que a finalidade que justificou a instituição
e as reedições da DRU foi a atribuição de maior discricionariedade ao Poder Executivo na
aplicação dos recursos e a sua aplicação em favor de finalidades outras que não aquelas para
as quais estas contribuições sociais foram idealizadas pelo constituinte originário.

Palavras-chave: Contribuições Sociais. Seguridade Social. Desvinculação de Receitas da


União (DRU). Direitos Fundamentais. Racionalidade do Legislador.

4. RACIONALIDADE E ELABORAÇÃO LEGISLATIVA: COMO O CONTEXTO PODE INFLUENCIAR


A DECISÃO POLÍTICA?

Autor: Cliford Rosa e Silva

Resumo: Há poucos estudos doutrinários que permitam uma etnografia das fronteiras
entre o Direito/Sociedade/Política (Bourdieu) e que analisem os limites e perspectivas
da racionalidade e da elaboração legislativa através de uma reflexão sobre o processo de
cognição e interpretação dos fenômenos sociais, suas interações no campo das relações
humanas, considerando o contexto de deliberação política e o discurso. Neste sentido,
ganha relevância a análise da racionalidade do legislador e das circunstâncias da execução do
ato normativo, considerando suas responsabilidades como representante das vontades e dos
diferentes interesses sociais, assim como do valor que o método de elaboração legislativa tem
para a superação de obstáculos na construção normativa, e dos limites de uma abordagem
puramente racional no processo de deliberação e decisão política por meio da analise da
tensão entre texto e contexto (Van Dijk). A identificação de um cenário presente e a
projetação de um cenário futuro ( avaliação prospectiva) permitem a reconstrução do âmbito
de incidência da futura legislação, no qual as causas que a motivaram sejam confrontadas
com as suas expectativas e efeitos desejáveis. No resultado busca-se, destacar elementos

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que demonstrem como a prática de deliberação política e de elaboração legislativa pautada
em diretivas de racionalidade, que façam dar proeminência ao método e aos princípios
de coerência, alternatividade, temporalidade e densidade normativa (Wintgens), podem
contribuir para produção de uma legislação em maior sintonia com as demandas sociais, sem
que seja deixado de lado o caráter político e filosófico-valorativo das deliberações.

Palavras-chave: racionalidade legislativa, elaboração legislativa, legislação, contexto.

5. POR TRÁS DA MÁSCARA: O CASO DAS LEIS ANTIMÁSCARAS E O IMPULSO LEGISLATIVO


NO BRASIL.

Autor: Steevan Tadeu Soares de Oliveira

Resumo: O objetivo inicial deste ensaio era tecer uma análise sob a perspectiva da legística de
algumas proposições legislativas no Brasil. Para ser mais preciso, das proposições aventadas após
os protestos ocorridos no biênio 2013/2014 em nosso país e que vetavam o uso de máscaras
em manifestações públicas. Face as cenas de violência pelas ruas, em especial após a morte do
cinegrafista de uma importante emissora de televisão, engendrou-se clamor público contrário
aos atos de violência em protestos e ao ocultamento do rosto durante as manifestações. Na
região sudeste do país reiterou-se na mídia que tramitava no Rio de Janeiro, São Paulo e
Minas Gerais projetos de lei que visavam banir dos protestos pessoas com rostos encobertos.
Paralelamente, seguia no Senado e na Câmara dos Deputados proposições legislativas no
mesmo sentido. Ainda que se considere que a violência nas manifestações carecia de resposta
do Poder Público, foi curioso notar que um debate praticamente inexistente nas casas
legislativas até então transformou-se num átimo em problema emergencial para três das quatro
assembleias legislativas dos estados da região sudeste e para as duas câmaras do legislativo
federal. Na procura pelos projetos de lei sobre o tema para confrontá-los com os fundamentos
da legística, o impulso legislativo revelou-se como tema instigante e necessário. Além das
unidades da federação já mencionadas, outras dezenas também rapidamente ofereceram para
os seus cidadãos novas leis como álibi para as cenas de violências repetidas exaustivamente
pela mídia. Apenas no Congresso Nacional cerca de vinte projetos de lei acerca do tema
foram apresentados em um curto intervalo de tempo. Assim, surgiu a dúvida se o fenômeno
teria realmente alcançado a dimensão evidenciada ou se seria, outra vez mais, a elaboração
de um texto de norma a única solução vislumbrada para “a onda de violência”? A análise do
material empírico evidencia que a proliferação de iniciativas legislativas veio acompanhada
de aprovação de normas a toque de caixa. Como desdobramento, verifica-se a redução dos
espaços para deliberação dos projetos e o empobrecimento dos argumentos. Por vezes as
justificativas dos projetos restringem-se à exploração sensacionalista de fatos, à influência da
mídia e outros interesses transversos. Se para a legística não interessa apenas a validade formal
da lei, o panorama do impulso legislativo caracterizado na quantidade, na velocidade, bem
como nos argumentos expostos nessas iniciativas legislativas, afigura-se como campo profícuo
para a análise a partir da teoria da legislação e sobre a realidade do sistema legislativo brasileiro.

Palavras-chave: direito de reunião; manifestações públicas; máscaras; impulso legislativo; legística.

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6. A CULTURA DIALÓGICA NA CONSTRUÇÃO DAS LEIS: A LEGÍSTICA COMO INSTRUMENTO
DE EFETIVAÇÃO DO ACESSO À JUSTIÇA

Autores: Anelice Teixeira da Costa; Luiza Berlini Dornas Ribeiro Moreira

Resumo: A inafastabilidade do Judiciário diante de qualquer ameaça ou lesão a direitos –


elencada no inciso XXXV da Constituição da República – é vista hoje por muitos como a
definição do acesso à Justiça. Todavia, o acesso à Justiça deve ser interpretado como acesso a
uma ordem jurídica justa, o que implica em uma concepção mais abrangente desse instituto,
com destaque prioritário na fase de elaboração de leis. Isso significa que a efetividade das
normas, sua aceitação social, a justeza de seu conteúdo e a implicação da sociedade no seu
cumprimento, sobretudo por meio do reconhecimento e identificação com o conjunto
normativo, é pressuposto básico para um acesso à Justiça. Afinal, de nada valeria o acesso à
ordem jurídica justa se ela não satisfizesse minimamente os valores adotados pela sociedade
na qual será aplicada. Nesse viés, o artigo tem como finalidade trazer à tona um aspecto
muitas vezes olvidado pelos doutrinadores da área de acesso à Justiça: que a efetivação do
acesso inicia-se já no momento de criação da norma. Portanto, diferentemente da doutrina
processualista, o acesso à justiça se inicia muito antes da violação de qualquer direito ou sua
ameaça. Considerando tal perspectiva, como a legislação pode ser criada e efetivada de modo
a concretizar o máximo de direitos e interesses de um povo? Qual a autonomia do pensar
do legislador e até qual limite o legislador está vinculado à vontade de seu eleitorado? Quais
são os critérios para aferição da qualidade do debate legislativo e quais são as racionalidades
do legislador por detrás do texto de lei? Tais questionamentos giram em torno de um tema:
o contraditório e a dialogicidade do processo legislativo como garantidor de um conjunto
normativo efetivo para a concretização de direitos e deveres de coletividades. Nesse
segundo momento, o artigo objetiva analisar a construção de um processo democrático na
elaboração legislativa no Brasil como um instrumento essencial para a efetivação do acesso
à justiça. Um processo legislativo democrático pressupõe um rico debate, com argumentos
e justificativas que garantam sua racionalidade e sua dialogicidade. Para tanto, pretende-se
investigar o processo de elaboração legislativa, os princípios da legística e os impactos que a
Lei 12.527/2011 – Lei de Acesso à Informação - trouxeram para a transparência no processo
de construção das leis. Entende-se que uma cultura dialógica vem a garantir a troca de
saberes, de informações, o contraditório e, inclusive, a transparência; isso para que o processo
de produção de leis possa ser o mais autêntico e representativo da sociedade, efetivando
o acesso a direitos. Como marco teórico, o artigo baseia-se na concepção lecionada por
Cappelletti e Garth de que o acesso à Justiça é o mais básico dos direitos humanos dentro de
um sistema jurídico. E, no que tange ao processo legislativo, o artigo baseia-se nos princípios
norteadores da atividade legislativa apontados por Wintgens, sobretudo o princípio da
densidade normativa e da alternatividade. Para alcançar o objetivo do artigo, foi traçada
uma metodologia jurídico-interpretativa sobre a questão sócio-jurídica, analisando suas
complexidades de maneira teórica.

Palavras-chave: acesso à Justiça – processo legislativo – dialogicidade

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7. A INOVAÇÃO NO CENTRO DA PREOCUPAÇÃO LEGISLATIVA: A EMENDA CONSTITUCIONAL
N° 85/2015 (E POR QUE ELA IMPORTA)

Autor: André Costa Ferreira de Belfort Teixeira

Abstract: The enaction of the Brazilian Constitutional Amendment no. 85, on February
26th, 2015, puts innovation at the center of the legal debate in Brazil. Whilst the concept of
innovation has had a central position in the economic debate, legal theory has usually shied away
from formulating a thorough study of innovation. However, the enactment of the mentioned
Constitutional Amendment introduces the very word ‘innovation’ on the constitutional text,
which has a strong meaning from a political and legal standpoint. The original text of the
Brazilian Constitution did not mention innovation directly, but after the amendment it now
has fifteen different occurrences of the word ‘innovation’. Given this context, this paper aims
to understand the impact of the legislative choice of amending the constitution to include
the concept of innovation, and what are the possible consequences of this choice, especially in
the non-constitutional legal structure as well as in the economy. In order to frame the debate,
this paper is divided into five parts, aiming at understanding the economic importance of
innovation, the importance of law in fostering innovation, the meaning of a constitutional
concern with innovation and the expected development of the legal structure as a means
to foster innovation and development as well as reduce economic inequality. In part I, the
economic importance of innovation is introduced.Through a combination of Robert Solow’s
Economic Growth Model and Joseph Schumpeter’s “Creative Destruction” theory, as well as
recent developments in the economic theory of innovation as proposed by neo-schumpeterian
authors such as Richard Nelson, an exposition is made of the part played by innovation and
technological advancement in economic growth. In part II, a brief analysis is made of Robert
andrecbelfort@gmail. Cooter’s theory of the importance of law for understanding the causes of
innovation. In part III, the paper analyses the original draft for the Constitutional Amendment,
particularly its justification, in the light of Atienzas’ and Luc Wintgens’ proposed theories of
legislative rationality as well as Oliver-Lalanas’ legislative argumentation theory, complemented
with an objective dissection of the final version of the Constitutional Amendment no. 85, in
order to identify the actual changes enacted by the amendment in the Brazilian Constitution.
In part IV, a constitutional and legisprudential approach is used to analyze the legal meaning
of the legislator’s choice to introduce innovation at a constitutional level, supported by Jan
Sieckmann’s theory of legislation as a means to implement constitutional law, focusing on the
changes set by the Amendment as well as preexisting constitutional provisions, such as the
fundamental objectives of national development and reduction of regional inequalities, and
innovation as a possible means to reach those ends. In part V, based on the theories, analyses
and debates set forth in the previous parts, the paper attempts to express some preliminary
conclusions, taking into consideration the possible legal consequences of the amendment,
particularly in regard to the expected impacts in the non-constitutional legal framework, the
economic incentives structure and possible economic and social developments arriving from
an innovation-centered legislative production and legal structure.

Keywords: Innovation. Development. Constitutional law. Legisprudence.

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8.LEGISLAÇÃO PENAL SIMBÓLICA:A OMISSÃO LEGISLATIVA COMO EXERCÍCIO LEGISPRUDENCIAL

Autores: Marcela de Castro Reis; Fernanda Otero Costa

Resumo: No campo penal a produção legislativa é profusa – abundam normas diversas e


inúmeros são os projetos de lei em tramitação. Não obstante, a copiosa elaboração legislativa
penal nem sempre, ou quase nunca, atende aos ditames impostos pela legística, e, assim, as
normas dela decorrentes não raro são desprovidas de racionalidade legislativa, no sentido
dado por Oliver-Lalana, é dizer, são normas carentes de justificação argumentativa bastante. A
inobservância dos postulados legisprudenciais, em um processo legislativo açodado e pouco
refletido, se deve ao fato de que a elaboração legislativa na seara penal é deflagrada para
apascentar a opinião pública no que concerne aos reclames sociais generalizados por reforço
da segurança pública frente a uma difusa sensação de insegurança e vulnerabilidade. Certos
problemas e conflitos ao atingirem determinado nível de alarme social se convertem em
pretexto para uma ação política não interessada em atender funções instrumentais específicas,
consoante Alessandro Baratta. Logo, a produção normativa penal pode ser classificada como
simbólica, como delineado por Marcelo Neves. Isso na medida em que os legisladores não
se demonstram preocupados com a eficácia da norma produzida, mas com o impacto desta
no clamor público por propósitos imprecisos, como o tão propagado “fim da impunidade”.
Assim, a fase pré-legislativa, na qual os debates deveriam ocorrer com o desiderato de buscar
razões que sustentem as posições favoráveis e contrárias à produção legiferante, é abafada
pelo ímpeto de satisfazer a opinião pública, a eficácia é relegada a segundo plano pela função
simbólica, conforme Díez-Ripollés. De acordo com Neves, a função simbólica cumpre com
dois objetivos: confirmar valores sociais a partir da identificação legislação-opinião pública
e funcionar como álibi do Estado na solução de problemas sociais sensíveis. Ambos são
claramente aferidos na produção legislativa penal e no recrudescimento penal irrefletido
que a acompanha. Destarte, a legislação simbólica vai claramente de encontro às exigências
da legística tanto na fase pré-legislativa, pois não há o devido apuro no estudo do problema
posto, como na pós-legislativa, apuração dos reais impactos da lei. Com isso, cada vez mais leis
dotadas de caráter simbólico são editadas, em crescente e inócua severidade - pouco ou nada
altera a problemática da delinquência. A omissão legislativa na seara penal, especialmente
quanto ao recrudescimento de tratamento dado a tipificações já existentes, se revela mais
consentânea aos direitos fundamentais do que a produção legislativa. Para demonstrar essa
questão, utilizaremos caso recente e emblemático, o projeto de lei 1804/2015, de autoria do
deputado federal Rogério Rosso (PSD/DF), que intenta incluir no rol dos crimes hediondos
o delito de “ultraje a culto e impedimento ou perturbação de ato a ele relativo”, além de
aumentar a sua pena. A proposição veio logo após a Parada do Orgulho Gay de 2015, quando
foi encenada a crucificação de uma transexual, gerando que gerou insatisfação de setores
religiosos da população, despertou atenção midiática e culminou no quase imediato projeto,
que se arroga o objetivo de combater a “cristofobia”, um repúdio aos símbolos das religiões
cristãs supostamente generalizado no país.

Palavras-chave: legislação penal simbólica; elaboração legislativa; legisprudência; legística;


recrudescimento penal; “cristofobia”; omissão legislativa; direitos fundamentais.

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9. O FAZER TRADICIONAL DOS QUEIJOS DE MINAS E OS EFEITOS DA MÁ LEGISLAÇÃO:
DESENVOLVIMENTO ECONÔMICO SOCIAL PARA QUEM?

Autor: Esther Kulkamp Eyng Prete

Resumo: A intensa proliferação legislativa observada nas últimas décadas tem levantado
desafios inesperados para a concretização de direitos fundamentais e ao desenvolvimento
econômico-social. A inexistência de uma metodologia para a produção da lei tem causado
a incoerência entre os sistemas normativos e desconexão entre a lei e a realidade que se
pretende regular. O desarranjo dos microssistemas normativos tanto no plano formal quanto
prático gera prejuízos sociais, dificuldade de gestão pela Administração Pública e desperdício
do dinheiro público. O efeito acumulativo dos caos legislativo e seu efeito duplo tanto sobre
a gestão pública quanto sobre a sociedade, leva à frustração da concretização de direitos
já formalmente garantidos. Parte do problema advém do descompasso entre o Direito e a
complexidade social. Repleto de possibilidades, indagações e conflitos, o tempo de hoje
passou a exigir apurada atualização e planejamento das normas que regem a vida em sociedade.
A hiper-regulação e a desconexão entre a norma e a realidade afetada gera um efeito tão
profundo que estrangula a interação entre os agentes, travando o desenvolvimento, e até
mesmo desintegrando as relações sociais. Essa dramática desintegração econômico-social tem
sido observada em meio aos pequenos produtores rurais de queijo de Minas Gerais. Sob a
justificativa de regular a atividade com vistas à vigilância sanitária, uma legislação engessada
e em choque com outros ramos do Ordenamento têm relegado a maioria esmagadora dos
produtores rurais à ilegalidade, quando não chegando ao ponto de extinguir totalmente a
atividade econômica de milhares de famílias. Em contraste, no modelo de vigilância sanitária
rural adotado na França, país referência em produção queijeira no mundo, a responsabilidade
fiscalizatória recai sobre o próprio produtor, cabendo ao Estado apenas o monitoramento do
resultado com base na ocorrência ou não de incidentes. Esse modelo respeita a liberdade e
métodos tradicionais de produção queijeira, ao mesmo tempo que aumenta enormemente
a eficiência do trabalho estatal. A apresentação dessas duas abordagens legislativas visa
sublinhar os diferentes princípios que as fundamentam. Enquanto o case brasileiro representa
o paradigma autoritário da obtenção de um resultado utilizando-se de meios que foram
escolhidos com indiferença quanto aos seus efeitos sobre os agentes e os métodos que já
eram utilizados pela própria população; o case francês ilustra a aplicação prática de princípios
metodológicos e filosóficos da Legística. O resultado é uma regulação que melhor canalize
a força produtiva social ao mesmo tempo que cumpre sua função. O respeito às interações
sociais já existentes – como a cadeia produtiva queijeira que existia em Minas Gerais e
seus métodos tradicionais – aumenta a eficiência das normas e respeita a herança cultural.
Seu efeito acumulativo e sistêmico leva tanto à coerência interna do Ornamento no plano
formal quanto permite canalizar – ao invés de boicotar – as potencialidades sociais, liberando
a capacidade criativa das comunidades, sendo essa uma condição fundamental para o
desenvolvimento econômico-social e a concretização dos direitos fundamentais.

Palavras-chave: hiper-regulação – desenvolvimento econômico-social – gestão –


coordenação social – liberdade – legitimidade – eficiência normativa – cadeia produtiva –
produção artesanal queijeira.

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10. O ACORDO SOBRE A AGRICULTURA DA OMC – IMPORTÂNCIA HISTÓRICA E
JURÍDICA PARA A REALIZAÇÃO DA SEGURANÇA ALIMENTAR ATRAVÉS DO COMÉRCIO
INTERNACIONAL

Autores: Ana Paula Braga Motta; Fernanda Ferreira Carvalho

Resumo: O Acordo sobre a Agricultura (AsA), resultante do processo multilateral de


negociação de tratados que criou a Organização Mundial do Comércio (OMC), disciplina o
acesso aos mercados, a utilização de medidas de apoio interno e de subsídios à exportação
pelos países no âmbito do comércio de produtos agrícolas, buscando o alcance de um
comércio internacional menos distorcido e mais justo. Sob o Acordo Geral sobre Tarifas e
Comércio (GATT) de 1947 não havia uma regulação suficiente do tema do comércio de bens
primários, prejudicando a transparência e a segurança jurídica dessa esfera. Nesse sentido,
o Acordo sobre a Agricultura, em vigor desde 1995, representou um avanço, tratando-se
de norma cogente entre os países Membros da OMC, propondo-se este trabalho a analisar,
de forma breve, como ele afetou a segurança alimentar dos países, prejudicando ou sendo
indiferente à realização dos direitos fundamentais à alimentação e à vida. São trazidos os
conceitos de segurança alimentar, especialmente aqueles explicitados pela “FAO – Food and
Agriculture Organization of the United Nations”, além das definições de soberania alimentar
e autossuficiência alimentar, vistas como meios para o alcance da segurança alimentar. Para a
realização do presente trabalho, utilizou-se o método da pesquisa bibliográfica e documental.
Conclui-se que a garantia da segurança alimentar deve ser buscada por diversos outros meios,
exigindo a participação ativa de múltiplos atores nacionais e internacionais, porém que o
AsA também pode contribuir para o alcance do direito à alimentação na medida em que há
disposições que conferem um tratamento especial aos países em desenvolvimento, além das
medidas de “Caixa Verde”, aplicáveis por todos os Estados-Membros e previstas no Anexo II
do Acordo.

Palavras-chave: Direito Internacional Público, Direito à Alimentação, Segurança Alimentar,


Acordo sobre a Agricultura, Organização Mundial do Comércio.

11. A PALAVRA DE DEUS E A LETRA FRIA DA LEI: RELIGIÃO, LIBERDADE DE EXPRESSÃO E O


“FUNDAMENTALISMO JURÍDICO” NO BRASIL.

Autor: Marcelo Alves Lima

Resumo: O cenário religioso contemporâneo no Brasil, marcado por forte “concorrência” e


mobilidade, se reflete tanto na arena política eleitoral quanto na dinâmica legislativa.A atuação
de parlamentares identificados com confissões religiosas, em temas críticos para garantia de
direitos fundamentais, tem por base um forte apelo moral e religioso, porém, muitas vezes,
camuflados em uma retórica do bem comum e expressos na linguagem dos direitos, da
moralidade laica e da justiça. Tal retórica, visando tanto à competição interna do mercado
religioso quanto o cenário político eleitoral, desqualifica os movimentos sociais, resinificando
a representação parlamentar e a produção legislativa. Seus conteúdos, no entanto, repercutem
para além dos limites das confissões religiosas, fazendo eco com sentimentos de intolerância

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e autoritarismo latentes no tecido social. O objetivo desta comunicação é analisar o debate
parlamentar sobre a criminalização dos discursos de ódio de cunho homofóbico, de um lado
e a criminalização da “Cristophobia”, de outro, a partir dos discursos dos congressistas da
chamada “Bancada Evangélica”. Nestes, o direito à livre expressão, que ocupa lugar central na
democracia, ainda que cercado de desafios legais, é aprisionado numa leitura “fundamentalista”
dos textos legais, e numa concepção “mecânica” da aplicação do direito, cuja lógica subjacente,
contrária à lógica jurídico-legal e o ethos moderno que lhe dá sentido, abstrai seu caráter
processual e interpretativo, revelando pistas para compreensão da construção e desconstrução
de diretos e do lugar da Lei em nossas sensibilidades jurídicas. O pressuposto aqui é que o
discurso religioso pode se tornar uma ameaça a laicidade do Estado, não tanto por ser um
produtor de sentidos na arena política, mas sim um catalizador de resistências difusas aos
valores republicanos de igualdade e tolerância.

Palavras Chave: Liberdade de expressão; fundamentalismo, homofobia, Estado laico e


secularismo.

12. A PARTICIPAÇÃO DO SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL E TRIBUNAIS SUPERIORES NA


INICIATIVA LEGISLATIVA GERAL

Autor: Thays de Bessa Gontijo de Oliveira

Resumo: A Constituição da República de 1988 elenca taxativamente as entidades que


possuem prerrogativa de deflagrar o processo legislativo (iniciativa legislativa); entre elas,
estão o Supremo Tribunal Federal e Tribunais Superiores. A literatura jurídica limita a
iniciativa legislativa dos Tribunais às matérias atinentes ao próprio Poder Judiciário (ou
seja, às hipóteses de iniciativa reservada expressamente mencionadas pela Constituição),
excluindo-os da chamada iniciativa ampla ou geral. Todavia, acredita-se que a contribuição
que esses Tribunais podem dar é substancial: eles possuem obrigação institucional de
solucionar controvérsias, testemunham os conflitos sociais e buscam as melhores soluções
para os problemas. No desempenho de sua missão, vivenciam diariamente a insuficiência
ou má qualidade da legislação. Além disso, recebem a incumbência de uniformizar a
jurisprudência e, nessa tarefa, tantas vezes são acusados de usurpar a função legislativa. Em
virtude de sua posição institucional, possuem (ou tem a possibilidade de desenvolver) uma
perspectiva privilegiada dos problemas decorrentes de legislação omissa ou ruim. Por essas
razões, entende-se que poderia ser muito proveitoso o reconhecimento e efetivo exercício da
iniciativa legislativa geral ao STF e Tribunais Superiores. Defende-se que esse entendimento
não viola o texto constitucional, que não exclui taxativamente a iniciativa legislativa geral
do Judiciário. Defende-se ainda que tampouco essa atribuição ofende o modelo de separação
dos poderes adotado pelo Brasil, que adota um traçado de independência equilibrada entre os
poderes. Por fim, esse entendimento é condizente com o atual momento histórico vivido pelas
democracias ocidentais em geral, marcado pela ascensão institucional do Poder Judiciário,
pela constitucionalização do Direito e judicialização de matérias de notável importância e
claro conteúdo político e moral. Acredita-se que, caso essa prática seja adotada, é possível

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que haja um amadurecimento das relações institucionais entre Poder Legislativo e Poder
Judiciário, com a abertura de uma via democrática e legítima para que este dê voz e vazão às
suas críticas e insatisfações quanto à legislação vigente.

Palavras-chave: Processo legislativo. Iniciativa legislativa. Poder Judiciário.

13. A NECESSIDADE DA ELABORAÇÃO DE UMA LEI DE IDENTIDADE DE GÊNERO NO BRASIL:


PELA EFETIVIDADE DOS DIREITOS FUNDAMENTAIS

Autores: Fernanda Carolina Lopes Cardoso; Mariana Oliveira de Sá

Resumo: A autodeterminação do sujeito é a pedra angular sob a qual se assenta a dignidade


humana, e a identidade de gênero é pressuposto necessário para garantir o mínimo ético
existencial ao indivíduo. Nesse contexto, torna-se imprescindível a elaboração de uma Lei
de Identidade de Gênero no Brasil, de forma a garantir uma real visibilidade para lésbicas,
gays, bissexuais, travestis, transexuais, transgêneros e intersexuais, possibilitando aos mesmos a
alteração do prenome e do designativo sexual de forma a adequar a identidade psicossocial
dos sujeitos com a documentação que portam. Atualmente, encontra-se em tramite no
Congresso Nacional o Projeto de Lei nº 5002/2013, conhecido por Lei João Nery, que
vem dispor sobre o direito à identidade de gênero e alterar o artigo 58 da Lei 6.015 de
1973 (Lei de Registros Públicos), que trata das possibilidades de alteração do nome civil
da pessoa natural. Desse modo, o presente trabalho tem o objetivo de realizar uma análise
do Projeto de Lei nº 5002/2013, para demonstrar a necessidade da elaboração/aprovação
de uma Lei de Identidade de Gênero no Brasil, que surge como uma ferramenta para a
efetividade de direitos fundamentais, visto que, garante o reconhecimento da identidade de
gênero, compreendida como a vivência interna e individual do gênero tal como cada pessoa
o sente, a qual pode corresponder ou não com o sexo atribuído após o nascimento, incluindo
a vivência pessoal do corpo, além de propiciar o livre desenvolvimento da pessoa conforme
sua identidade de gênero, garantindo à mesma o direito de ser tratada de acordo com sua
identidade de gênero, de ser identificada dessa maneira nos instrumentos de identidade
pessoal, relativamente ao prenome, a imagem e ao sexo registrados neles. A metodologia
adotada consistiu em análise bibliográfica sobre os direitos LGBTS e a identidade de gênero,
além de um estudo jurisprudencial da concessão da alteração do prenome e do designativo
sexual no Brasil, realizando, ainda, uma pesquisa sobre as Leis de Identidade de Gênero de
outros países. Alcançou-se resultados no sentido de perceber a necessidade da elaboração/
aprovação de uma Lei de Identidade de Gênero no Brasil, bem como os principais pontos a
serem tratados na legislação, de forma a garantir o direito à autodeterminação dos indivíduos,
tutelado pela dignidade humana.

Palavras-chaves: Identidade de Gênero, Lei João Nery, Alteração do Prenome, Alteração do


Designativo Sexual, Direito Fundamental.

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14. A APROVAÇÃO DO PROJETO DE LEI Nº 4.148/2008 E O DIREITO À INFORMAÇÃO: O
RETROCESSO DE DIREITOS FUNDAMENTAIS SOCIAIS NO CENÁRIO DOS TRANSGÊNICOS E
DAS NANOTECNOLOGIAS

Autores: Patricia Santos Martins; Raquel Von Hohendorff

Resumo: A Lei nº 11.105/2005 recentemente alterada pela aprovação do projeto de lei nº


4.148/2008 deixou de considerar obrigatória a informação quanto ao conteúdo transgênico,
na rotulagem dos alimentos quando em percentual inferior a 1%. Paralelamente estão as
nanotecnologias, que representam um revolucionário conjunto de tecnologias, que trabalham
na bilionésima parte do metro, elaborando produtos novos, com pouco conhecimento
das características físico-químicas, submetendo o consumidor a riscos ainda incertos ou
incalculáveis. Diante da alteração legislativa que representa um retrocesso em termos de direitos
fundamentais, e, de que novos produtos estão sendo lançados no mercado diariamente sem que
os consumidores tenham informações sobre o seu conteúdo, se busca refletir sobre o direito
fundamental da sociedade à informação, a fim de garantir o direito do consumidor em escolher
o que consumir. Será utilizado o método de abordagem fenomenológico-hermenêutico e
como métodos de procedimento o histórico, funcionalista e o comparativo, além da pesquisa
bibliográfica e legislativa e textos normativos de diversos organismos internacionais. Busca-se
saber lidar com uma alteração legislativa que pode resultar em retrocesso de direitos fundamentais
– especialmente o direito à informação. Como alternativa, este artigo – a partir da valorização
do pluralismo jurídico e do diálogo entre as fontes do Direito, aproximando as respostas jurídicas
dos demais Sistemas Sociais – busca construir alternativas juridicamente possíveis a fim de evitar
outras mitigações aos direitos fundamentais sociais, como o da informação dentro do cenário
transgênico e nanotecnológico. A análise do atual contexto legislativo e normativo incluindo a
ausência de marcos regulatórios específicos, comparado aos direitos fundamentais já positivados,
demonstra que deve haver sintonia entre o contexto jurídico-legislativo e a realidade social, a
fim de possibilitar, com responsabilidade e informação, garantir ao consumidor um patamar
mínimo de conhecimento sobre os produtos que consome.

Palavras chave: legislação, direito à informação, retrocesso.

15. PROJETOS NEOMODERNIZANTES, DEMOCRACIA E JUDICIALIZAÇÃO DE POLÍTICAS


PÚBLICAS URBANÍSTICAS: UMA ANÁLISE SOBRE O PROJETO DE IMPLEMENTAÇÃO DA
OPERAÇÃO URBANA CONSORCIADA (OUC) DE NITERÓI (RJ)

Autores: Alessandra Dale Giacomin Terra; Jamille Medeiros de Souza

Resumo: Trata-se de artigo que tem por objeto o projeto da Operação Urbana Consorciada
(OUC) da Área Central de Niterói (RJ), buscando refletir sobre a (ausência de) participação
da sociedade civil na elaboração deste projeto e sobre a consequente judicialização da
matéria. A OUC é um instrumento de política urbana instituído pelo Estatuto da Cidade e
definido como um empreendimento urbano, capitaneado pelo poder público municipal e
desenvolvido com parceria privada. Ela é financiada no todo ou em parte pelas contrapartidas
decorrentes da execução de um plano urbanístico flexível, e traduzido num procedimento

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urbanístico orientado cumulativamente à transformação urbanística estrutural, à valorização
ambiental e à promoção de melhorias sociais numa determinada área do espaço habitável. A
partir dessas informações, é necessário refletir sobre o papel do Município na configuração
do território, e nas instituições que deveriam funcionar como espaço público de discussão a
fim de cotejar se houve realmente participação popular neste processo de elaboração da lei.

Palavras-Chave: Planejamento Urbano; Judicialização; Democracia Participativa.

16. DÊ-ME OS FATOS QUE LHE DAREI O DIREITO? DA PULVERIZAÇÃO AÉREA NA ESCOLA
RURAL SÃO JOSÉ DO PONTAL EM RIO VERDE-GO-BR AOS SISTEMAS NORMATIVO/ JUSTIÇA
BRASILEIROS

Autores: Cleuton Cesar Ripol de Freitas; Cleber Adriano Rodrigues Folgado

Resumo: O sistema normativo pode ser compreendido como a parte reguladora das relações
interdependentes da elaboração, interpretação e execução das políticas públicas nacionais, entre
as quais as vinculadas à gestão econômica, saúde, trabalho, previdência, ambiental, criança e
adolescentes, gênero, etnias, fiscais e tributárias, entre outras, cuja participação envolve uma gama
de setores e interesses. O texto se apresenta face ao desastre da pulverização com agrotóxico
em uma Escola Rural no Brasil. Fato que é comum a outros países da América Latina, como
a Argentina. Em torno do drama de mais de uma centena de pessoas atingidas diretamente
pelo inseticida Engeo Pleno, podemos aferir o grau des(conhecimento) sobre possíveis
direitos fundamentais violados , bem como sua urgente reparação e proteção, e respectivas
responsabilidades. O caso, que não precisa ser considerado como “uma análise isolada de caso”,
é comum, diário, noturno, semanal . É próprio das Escolas Rurais sitiadas geograficamente e
ideologicamente pelo agronegócio - moderno reprodutor da exploração colonizadora da terra
latino-americana. Uma miscelânea legislativa e um descontrole normativo, não permitiram
alcançar a segurança de bem viver das famílias submetidas à um banho involuntário de veneno.
Os atores do sistema de justiça também não tiveram, assim como os profissionais da saúde,
segurança para atuar no caso. Estas são algumas considerações que podem ser observadas pela
pesquisa empírica, fomentada pela Assessoria Jurídica Popular. Portanto, limitadas às possibilidades
de análise a partir dos paradigmas da participação popular e do empoderamento, ou não, do
oprimido. No caso específico, notamos um atrelamento das vítimas ao agronegócio formando o
“agronegocinho”, que se pauta na relação dependente e liberal do camponês ao capital na terra,
formando mais um no contingente do movimento sou agro. O sistema normativo é, desde sua
produção federal legislativa até a aplicação na ponta dos regulamentos e da efetivação da política
pública, agro. Podemos verificar, no caso dos assentamentos, de onde provem a grande maioria
dos estudantes da Escola, uma dependência ao agronegócio e, portanto de uso de agrotóxicos.
Há clara violação à legislação brasileira sobre saúde, aviação agrícola, reforma agrária e direito
ambiental. Todavia, a omissão estatal, convenientemente, atrelada à presença do agronegócio
permite uma hermenêutica legislativa desfavorável ao desenvolvimento econômico e social dos
assentamentos, gera assim insegurança social. A insegurança jurídica, gera, portanto, insegurança
social. Por fim, notamos que a máxima divinal dê-me os fatos que lhe darei o direito, não
corresponde à realidade do caso, ao analisar as decisões judiciais relacionadas ao mesmo.

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17. EXPLORAÇÃO MINERAL EM TERRA INDÍGENA: ANÁLISE DA REGULARIZAÇÃO AS
IMPLICAÇÕES SOBRE O USUFRUTO EXCLUSIVO DAS COMUNIDADES INDÍGENAS.

Autor: Valeria de Oliveira Guedes

Resumo: A Constituição Federal de 1988 garante aos povos indígenas a posse permanente
e o direito ao usufruto exclusivo sobre as terras que ocupam tradicionalmente, existindo a
possibilidade de exploração mineral nessas áreas desde que obedecidos os ditames legais de
regulamentação da matéria, conforme o artigo 231, parágrafos 2º e 3º da Constituição. O
trabalho analisa os efeitos que o Projeto de Lei nº 1.610/1996 trará para o direito estabelecido
na CF/88, ao apresentar normas que alterarão as regras de utilização da terra, a autorização
para pesquisa e concessão de lavra pelo Congresso Nacional nestas áreas, a participação nos
resultados da lavra, a ocupação do solo e a consulta prévia aos povos indígenas. Através do
método dialético explora a legislação e a doutrina sobre a temática. Inicialmente, aborda a
exploração e o aproveitamento mineral e os meios conferidos para a autorização de pesquisa
e a concessão de lavra na Constituição e no Código de Mineração, assim como estuda
a aplicação da legislação ambiental no processo de exploração e aproveitamento mineral.
Posteriormente, estuda as garantias constitucionais conferidas às comunidades indígenas sobre
as terras que ocupam tradicionalmente, o regime de reconhecimento das terras indígenas
no ordenamento jurídico e o instituto do usufruto exclusivo indígena. Por último analisa
os dispositivos do Projeto de Lei no 1.610/1996 e as suas implicações sobre as normas
constitucionais. Concluiu que o Projeto de Lei nº 1.6.10/1996, no intuito de promover o
crescimento de uma atividade econômica no país, à luz dos direitos socioambientais, contém
inconstitucionalidade em suas normas, uma vez que, se aplicadas como estão previstas,
interferirão negativamente no desenvolvimento físico e cultural dos povos indígenas. Deste
modo, será necessário alterar os termos do referido projeto, a fim de compatibilizar os direitos
indígenas e a manutenção da exploração econômica dos minérios existentes nessas áreas.

18. DESENVOLVIMENTO NACIONAL COM SEGURANÇA JURÍDICA: O PAPEL DA PRODUÇÃO


NORMATIVA DO CADE

Autor: Ananda Portes Souza

Resumo: O desenvolvimento nacional constitui objetivo fundamental da República,


insculpido no art. 3° da Constituição de 1988. Trata-se de garantia não apenas do
desenvolvimento de mercado, mas também do desenvolvimento dos cidadãos, eis que o
desenvolvimento tem como centro propulsor e de convergência o homem. Tanto assim que
a ordem econômica tem como objetivo último a garantia da dignidade da pessoa humana.
A garantia constitucional do desenvolvimento nacional perpassa, assim, tanto o direito ao
desenvolvimento, quanto o direito do desenvolvimento. Aquele se filia aos direitos humanos,
e pode ser definido com um feixe de direitos subjetivos fundamentais e inalienáveis, que se
relacionam ao direito de acesso às inovações tecnológicas, e ao direito de desenvolvimento
do homem, com vistas à eliminação das assimetrias econômicas, e promoção de sua existência
plena e digna. Este tem como objetivo a criação de políticas institucionais que promovam o

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desenvolvimento econômico do mercado. É de grande relevância, no contexto do direito
do desenvolvimento e na seara do direito antitruste, a produção normativa levada a cabo
pelo Conselho Administrativo de Defesa Econômica (CADE) no exercício de seu poder
regulamentador. Os guias e regulamentos editados por esta autarquia são instrumentos
institucionais que promovem o desenvolvimento econômico, na medida em que propiciam
ao particulares maior segurança jurídica, importam a redução de custos de transação, e
garantem maior fluidez à atividade econômica. Por exemplo, no que diz respeito à análise
dos atos de concentração, a Resolução n° 1, de 29 de Maio de 2012, aprovada pelo plenário
do CADE trouxe, em seu artigo 108, importantes balizas para a definição do procedimento
que deve ser adotado pelas empresas envolvidas na operação, notadamente no que se refere
às precauções que devem ser tomadas para que não reste configurada a ilegal consumação
prematura do ato de concentração, prática também denominada gun-jumping. Com essa
ação normativa, a autarquia cria um ambiente institucional propício ao desenvolvimento,
fazendo com que a norma atue sobre a realidade como um instrumento integrador, propulsor
do desenvolvimento assegurado pela Constituição.

Palavras-Chave: Direito ao desenvolvimento – Direito do desenvolvimento - Produção


normativa – CADE – consumação prematura dos atos de concentração – gun-jumping.

19. MOVIMENTOS NEGROS E PODER LEGISLATIVO: A LEI DE COTAS PARA CONCURSOS


PÚBLICOS E O DIÁLOGO POSSÍVEL

Autor: Gianmarco Lourdes Ferreira

Resumo: O presente artigo discute a participação dos movimentos negros na elaboração


da Lei nº 12.990/2014, lei federal de cotas raciais para concursos públicos. Com isso
pretende verificar quais movimentos participaram das discussões no processo legislativo (PL
6.738/2003), em que condições e em que medida seus pleitos foram acolhidos, resultando,
ou não, em uma legislação construída dialogicamente com seus possíveis destinatários. Para
tanto, apresenta uma análise qualitativa do processo legislativo e da percepção desse processo
por pessoas ligadas aos movimentos negros.

Palavras Chave: Movimento negro - ações afirmativas - cotas raciais - concursos públicos
- processo legislativo.

20. A RACIONALIDADE LEGISLATIVA NAS SOCIEDADES MULTICULTURAIS

Autor: Gabriel Cruz

Resumo: No Brasil não é difícil constatar a elaboração normativa com ausência de


instrumentos que promovam a efetividade dela. Esse pretenso simbolismo na legislação
como meio para sanar as mazelas afasta do processo legislativo o seu caráter de catalisador
da transformação do discurso social em discurso normativo. Nesse sentido, adotando-se
a teoria discursiva da democracia, a legitimidade da produção legislativa – e, portanto, o

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processo legislativo adequadamente compreendido no paradigma do Estado Democrático
de Direito -, se dá por meio do procedimento que garante aos participantes igual respeito e
consideração, possibilitando condições para o exercício do contraditório. Assim, o tratamento
normativo dos problemas sociais e o estabelecimento de condições para o reconhecimento
da identidade de cada indivíduo e das tradições culturais marginalizadas somente ocorrerá
quando a norma criada para tal fim puder ser aceita por aqueles que se submeterão a ela,
eis que não apenas destinatários, mas participantes do processo de produção. No âmbito
das sociedades multiculturais, eventual déficit na qualidade da lei se torna mais evidente
diante da dificuldade de relacionar texto e contexto no âmbito do discurso normativo, posto
que a necessidade de afirmação de interesses dos mais diversos torna mais complexa não
apenas uma criação normativa adequada, mas o exercício do contraditório nesse processo.
Esta tensão entre positividade e validade discursiva indica uma necessidade de releitura dos
processos públicos de tomada de decisão acerca da elaboração legislativa, principalmente em
sociedades que reivindicações historicamente não resolvidas impedem igualdade de direitos
e o reconhecimento de formas de vida marginalizadas ou subjugadas em razão de uma
suposta autocompreensão de superioridade das sociedades modernas. Portanto, analisa-se a
racionalidade da legislação no âmbito das sociedades multiculturais, em que a necessidade
de afirmação e reconhecimento das diferentes identidades culturais restou escondido
pela Modernidade, ao trazer consigo o ideal interno de racionalidade que demonstrava
necessidade de retirar as comunidades do atraso, dando ensejo a práticas irracionais da
violência, principalmente em razão dessa pretensa superioridade. Sociedades multiculturais
apresentam dados que impossibilitam homogeneidade em questões sociais, possível por
meio do devido processo legislativo que também leve em conta decisões acerca de ações e
valorações decorrentes da conjugação de deliberações sobre utilidade, deveres normativos,
decisões valorativas e, em alguns casos, motivos irracionais. Desse modo, questiona-se a
integridade do indivíduo em contextos cujas relações interpessoais conformam a sua própria
identidade, reconhecendo-se a ausência de um consenso sobre os valores compartilhados.
Um consenso possível é quanto ao procedimento público de tomada de decisão. Para tanto,
adota-se uma compreensão procedimentalista do direito de Jürgen Habermas em que a
autonomia pública é co-originária da autonomia privada e, portanto, reconhece identidades
coletivas, afirma a alteridade do outro e o insere dentro do processo público de tomada de
decisão. Demonstra-se inadequação da racionalidade baseada no método, caso não consiga
adequadamente internalizar ao procedimento as formas de vidas (não estacionárias).

Palavras-chave: Devido processo legislativo. Legislação. Racionalidade. Multiculturalismo.

21. A CONFIANÇA E CORRUPÇÃO NAS RELAÇÕES ENTRE O PÚBLICO E O PRIVADO: A


LEGISLAÇÃO INSERE O BRASIL NA “SOCIEDADE DE AMPLO ACESSO”?

Autores: Ariane Shermam Morais Vieira; Luciana Gonçalves Nunes

Resumo: Na última avaliação realizada pela “Transparency International”, em 2014, o Brasil


obteve 42 (quarenta e dois) pontos no Índice de Percepção da Corrupção, alcançando o
69º (sexagésimo nono) lugar entre os 175 (cento e setenta e cinco) países avaliados. Por um

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lado, o Brasil mantém a mesma pontuação, nos últimos 3 (três) anos, o que reflete pouco
ou nenhum avanço no que se refere à prevenção e ao combate à corrupção. Por outro lado,
observa-se que ao longo dos anos vem sendo editados no País diversos diplomas normativos
cujo objetivo, ainda que não o principal, é coibir e combater a corrupção. São exemplos a
Lei nº 12.529∕2011, a chamada Lei Antitruste, e a Lei nº 8.666∕1993, Lei Geral de Licitações
e Contratos da Administração Pública, ambas objeto de estudo neste trabalho. Nesse cenário,
indaga-se por que a massiva normatização visando ao combate de práticas corruptas no Brasil
não é capaz de inserir o País na categoria de “sociedade de amplo acesso” (LARRAÑAGA),
impedindo a obtenção de melhores índices de credibilidade nacional e internacional. Com
base na análise sistemática das normas selecionadas para estudo, quais sejam, a Lei Antitruste e
a Lei de Licitações, verifica-se que se trata de diplomas normativos editados sem respaldo em
planejamento de longo prazo e, talvez o mais grave, em desconexão com outras normatizações
que servem a fins semelhantes ou idênticos: esses problemas inviabilizam o efetivo combate
à corrupção. Sustenta-se, portanto, que a massiva normatização na prevenção e combate à
corrupção – em especial, nas licitações públicas – não é capaz inserir o País na categoria de
sociedade de amplo acesso. A pesquisa possui caráter transversal e interdisciplinar, procurando
coordenar conteúdos concernentes à Legisprudência, Direito Internacional, Constitucional,
Administrativo e Econômico.

Palavras-chave: Combate à corrupção. Constitucionalismo. Sociedade de amplo acesso.

22. EL PRINCIPIO DEL “VIVIR BIEN” Y EL DERECHO A LA SALUD EN EL ESTADO


PLURINACIONAL DE BOLIVIA

Autor: Lorena Ossio Bustillos

Resumo: El presente artículo propone reflexionar sobre una visión integral del principio
de “Vivir Bien” en el Estado Plurinacional de Bolivia y analizar su concretización en la
elaboración legislativa para el sistema de salud y el derecho a la salud en los cuatro niveles
de organización territorial de autonomías: la nacional,departamental, municipal e indígena.
Asímismo vincular su análisis con los desafíos para la construcción de un sistema de salud
universal único tomando en cuenta la alta incidencia de enfermedades en determinadas
regiones en el Estado Plurinacional de Bolivia. Bolivia es cada vez más urbana que rural
y su población de diez millones tiende a concentrarse más en las ciudades de Santa Cruz,
Cochabamba, El Alto y La Paz; aún así la dispersión geográfica de la población constituye una
barrera importante al acceso a bienes y servicios de diversa naturaleza, incluidos los de salud.
La distribución de la población según área de residencia y etnia, muestra que los castellano-
parlantes residen mayoritariamente en el área urbana (61%), en tanto que los pueblos indígenas,
campesinos y originarios se concentran en el área rural (75%). Este contexto institucional
es el punto de partida para el análisis acerca de la salud pública y el principio vivir bien; que
parte de situaciones estructurales de desigualdad significativa entre área rural y área urbana,
así como de distribución de riqueza y calidad de vida. Una situación que va exacerbando
brechas a su vez en su interior y expone a la extrema pobreza no sólo a los pueblos indígenas
y originarios en zonas rurales sino que va desglosándose exponiendo a mayor vulnerabilidad

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a mujeres, niños y personas de la tercera edad, además indígenas. El análisis de la elaboración
normativa en los distintos niveles del Estado Plurinacional permitirá esbozar un primer
marco conceptual de qué es lo se entiende por el principio de „Vivir Bien“ y su irradiación
constitucional en relación al derecho a la salud en dimensión intracultural e intercultural y su
vinculación con la indigenización de la salud pública en el hemisferio sur.

Palabras-clave: elaboración legislativa; derecho a la salud; Estado Plurinacional; vulnerabilidade.

QUILOMBOS, COMUNIDADES NEGRAS E AFRO-EQUATORIANOS: RUPTURAS E


DESAFIOS NA NOVA ORDEM QUE SE CONSTRÓI

Ementa: Na América Latina, a emergência de diversos grupos sociais organizados em


movimentos logrou um conjunto de direitos e de garantias, os quais foram plasmados nas
Constituições. A descrição desse processo através da noção de “ciclos constitucionais” nos
auxilia na compreensão das lutas dos grupos pelo reconhecimento, bem como no grau das
rupturas e dos avanços ocorridos nas últimas décadas, instituindo uma leitura “não colonial”
do direito. Neste contexto das transformações designados pelos interpretes como “Novo
Constitucionalismo na América Latina”, destacamos o papel dos “quilombos” (artigo 68
ADCT, C brasileira de 88), “comunidades negras” (artigo 55 Disposições Transitórias, C
colombiana de 1991) e “afro equatorianos” (artigo 56, C equatoriana de 2008), cujas “práticas
sociais” alicerçadas em territorialidades específicas impõem uma hermenêutica própria. Se
por um lado os textos constitucionais expressam rupturas e avanços em relação à ordem
colonial, por outro, observa-se retrocessos quando da efetivação dos direitos. Paradoxalmente
os “quilombos”, as “comunidades negras” e os “afro equatorianos”, nunca conquistaram
tantos direitos e ao mesmo tempo, não se viram tão ameaçados da perda de seus territórios.
Esta mesa é um convite às reflexões sobre os direitos dos “quilombos”, “comunidades negras”
e “afro equatorianos” no contexto das políticas “neoextrativistas” no Brasil, na Colômbia e
no Equador.

Coordenadore(a)s:
Dra. Maria Cristina Vidotte Blanco Tarrega (Universidade Federal de Goiás, Brasil), Dr.
Santiago Arboleda (Universidad Andina Simón Bolívar, Equador), Dr. Andrés García Sánchez
(Universidad de Antioquia, Colombia) e Dr. Joaquim Shiraishi Neto (Universidade Federal
do Maranhão - Brasil)

1. REVISÃO DE DISCURSOS RACIAIS NOS PAÍSES ANDINOS: CONTRIBUIÇÕES PARA


DENEGRIR O NOVO CONSTITUCIONALISMO

Autor: Gabriela Barreto de Sá

Resumo: O presente texto busca problematizar os avanços conceituais e normativos do


constitucionalismo latino-americano frente aos desafios de superação do racismo, visibilização

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e consequente concretização de direitos enfrentados pelas populações afrodescendentes nos
países andinos. Além de versões históricas que quase sempre omitem a história e existência
de suas populações afrodescendentes, integra o imaginário comum a associação entre países
andinos e a quase exclusiva existência de populações indígenas. Partindo destes pressupostos,
este trabalho revisa criticamente alguns discursos raciais, teorias sobre indigenismo e
mestiçagem, desenvolvidos e compartilhados por intelectuais na Colômbia, Bolívia e Peru
entre final do século XIX e início do século XX, considerando seus reflexos na construção de
versões excludentes sobre a constituição da nação em ditos países. A partir daí, apresentamos a
hipótese de que a realidade discursiva das produções recentes sobre o Novo Constitucionalismo
Latinoamericano segue contribuindo para a eliminação simbólica do afrodescendente nos
países andinos. Tal constatação decorre de duas características comumente encontradas
em tais produções: a) um reducionismo histórico que concebe a colonização como uma
oposição entre duas realidades - de um lado o grupo dominante composto pelos espanhóis
e seus descendentes e do outro o grupo dos oprimidos, onde se situam os indígenas e
descendentes de africanos, enquanto realidades e historicidades indistintamente consideradas;
b) a ausência de pesquisas voltadas para investigar a especificidade da realidade jurídica e social
das populações negras, o que possibilitaria transcender a generalidade da afirmação de que o
momento constitucional atual apresenta avanços para os “historicamente oprimidos”. Assim,
o argumento central do artigo consiste em reconhecer que a subalternização da população
negra na região se opera por regimes discursivos, controle social e uma complexidade de
mecanismos legitimados pelo racismo estruturante e integrante dessas sociedades, sendo que
o enfrentamento do racismo se impõe como realidade social incontornável aos projetos de
Estado e relações interculturais propostos pelo Novo Constitucionalismo.

Palavras-chave: Países Andinos; Teorias Raciais; Racismo; Novo Constitucionalismo.

2. O PASSADO NA (RE) CONSTRUÇÃO DO PRESENTE – DISCURSO JURÍDICO SOBRE


ESCRAVIDÃO NEGRA E EFETIVAÇÃO DE DIREITOS DAS COMUNIDADES QUILOMBOLAS.

Autor: Naila Ingrid Chaves Franklin

Resumo: O artigo visa debater os usos políticos do passado nos discursos jurídicos do
presente, partindo-se da hipótese de que a reconstituição da memória do período escravocrata
é fundamental para a efetivação de direitos fundamentais das comunidades quilombolas.
O estudo será realizado mediante revisão bibliográfica e análise do discurso da ministra
Rosa Weber na Ação Direta de Inconstitucionalidade nº 3239/2003, em que se discutiu a
concessão da titulação das terras às comunidades quilombolas (art. 68 do Ato das Disposições
Constitucionais Transitórias ADCT). Especificamente, a análise pretende: a) apontar de
que maneira utilizou-se a memória da escravidão para operacionalizar a demarcação das
terras quilombolas; b) discutir a relação entre a luta por reconhecimento das comunidades
quilombolas e a contínua reconstrução do sujeito constitucional no discurso jurídico; c) refletir
a relação entre resgate da memória da escravidão e efetivação de direitos constitucionais.

Palavras-chave: memória; discurso jurídico; escravidão negra; direitos; quilombolas.

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3.GLEBA LEGAL:A REGULARIZAÇÃO FUNDIÁRIA NO ESTADO DE GOIÁS E AS CONSEQUENCIAS
NOS TERRITÓRIOS QUILOMBOLAS.

Autores: Sanmarie Rigaud dos Santos; Yasmine Altimare Silva Cruz

Resumo: Sob o intuito de promover o desenvolvimento agropecuário e sustentando o


argumento da segurança jurídica, o Governo do Estado de Goiás aprovou a Lei nº 18.826,
de 19 de maio de 2015, que visa regularizar as terras devolutas pertencentes ao Estado de
Goiás. A partir dessa medida política fundiária, o presente artigo propõe-se a analisar a priori
a constitucionalidade da norma estadual. Pretende ainda, de maneira tangencial discorrer
como recém diploma legal na prática poderá atingir diversos territórios quilombolas e as
devidas críticas à lei e não observância dos termos da Convenção 169 da OIT, no tocante à
prévia consulta dos integrantes das comunidades quilombolas.

Palavras-Chave: Direito Agrário - Terras devolutas – Regularização Fundiária - Goiás –


Territórios Quilombolas.

4. A RESISTÊNCIA DAS COMUNIDADES QUILOMBOLAS DE BARRO VERMELHO E CONTENTE


NO PIAUÍ: CONFLITOS E DESAFIOS DO ATO DE DESPENSAR A ORDEM JURÍDICA

Autores: Maria Sueli Rodrigues de Sousa; Rodrigo Portela Gomes

Resumo: O presente trabalho pretende esquadrinhar da empiria na recente práxis de resistência


das Comunidades Quilombolas de Barro Vermelho e Contente, localizadas no município
de Paulistana/PI ante a instalação da Ferrovia Transnordestina, empreendimento financiado
e circunscrito no Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) do Governo Federal. O
presente conflito desenha as tensões do modelo de desenvolvimento, uma concepção política
vinculada à lógica de produção de capital, em contrapartida, encontra-se em outro prisma, o
modo de vida tradicional em dialética e simbiose com as referencias da natureza e preservando a
cultura e o saber quilombola remanescente. Contudo, as comunidades vêm-se constantemente
ameaçadas com o avanço das obras da ferrovia que apesar de um discurso inclusivo, responde
exclusivamente a uma lógica economicista que, a um só tempo, conduz essas comunidades à
ausência de direitos.Violações que estão simbolizadas por uma ofensa em cadeia dos direitos dos
povos remanescentes, exsurgidos desde a sua concepção com a sonegação da Consulta Prévia,
prevista na Convenção 169 da OIT. A referida empiria está inserida na atuação do Coletivo
Antônia Flor, que se identifica como práxis jurídica insurgente, posto que no exercício da
Assessoria Jurídica Popular às Comunidades Quilombolas, desafia-se no fazer dialético que
é o diálogo, no caso específico, a interação é provocada pelo contexto árido de violência
simbólica e cultural, todavia, tanto as comunidades quanto a assessoria, estão convencidas de
que esse processo é uma construção histórica e política revertidas em práticas que silenciam ou
pretendem subalternizar o modo de vida tradicional. Por esse olhar advindo da interlocução
dos atores e das atrizes envoltos no diálogo, notadamente o Coletivo Antônia Flor ao ser
persuadido pela Educação Popular enquanto experiência metodológica e pedagógica que
faz resistência em defesa ao modo tradicional de produzir e reproduzir saberes propõe-se a
conceber um modo de depreender e conhecer que valoriza o outro em um processo interativo.

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Isto é, a concepção de uma produção de conhecimento que esteja imiscuído com o social e de
modo combativo constatar na ciência um instrumento de disputa política para a insurgência
dos saberes que foram historicamente silenciados pelo processo de colonização engendrado
pelo modo eurocêntrico de fecundar concepções teóricas e metodológicas dominantes. Nesse
sentido, as epistemologias identificadas neste processo de interlocução permitiu produzir uma
compreensão contra-hegemônica à ordem jurídica, que tem como signo a construção de sentido
e a efetivação de atividades que reverberem na realidade social das comunidades remanescentes,
o direito ao sossego, instituto que se irrompe da vivência em Barro Vermelho e Contente,
deslocando o direito de um senso comum jurídico que partem de um pensar-agir vinculado
tão somente a um sistema normativo institucionalizado, para um direito que é experiência
jurídica, ou seja, cingido na concretude da vida, contextualizado e historicizado. Desse modo,
o que se pretende centralizar neste espaço de discussão é compartilhar a experiência jurídica
evidenciada no conflito socioambiental que se vislumbra no contexto de instalação da Ferrovia
Transnordestina, ao passo que, da mesma forma se destaca a produção jurídica popular nesta
conjuntura de (in) certezas de direitos que se manifesta como possibilidade para a resistência a
uma ordem jurídica que desprestigia, ou mesmo, desconsidera as nuances culturais, históricas,
econômicas e religiosas das Comunidades Quilombolas. O desafio deste trabalho perpassa em
decodificar a experiência jurídica presente na interlocução entre direito e saber popular, fontes
a priori incomunicáveis dentro de uma postura hegemônica, contudo, a experiência como
elemento central para uma nova episteme suficiente para erigir um direito dinâmico, dialógico
e descolonial. O direito ao sossego é analisado sob o prisma de uma concepção jurídica prática-
reflexiva, convocando um método etnográfico, particularmente da corrente etnometológica, ao
privilegiar os sujeitos e a capacidade que possuem de realizar cultura e se enculturar (MACEDO,
2006). Conceber que a produção do direito não está adstrito a institucionalidade e que a
resistência de Barro Vermelho e Contente é o direito na concretude, posto que, ao despensar
os paradigmas da ordem jurídica, os remanescentes quilombolas não apenas desencadeiam uma
ruptura do direito-estado, mas também reconstroem o direito envolvendo-o em realidade,
história e cultura dos sujeitos marginalizados na ordem hegemônica de conceber o direito. A
ruptura é assentada na produção de um direito reinterpretado e reconstruído pelos próprios
assujeitados na ordem jurídica, a resistência das comunidades remanescentes de quilombo não
se desenha apenas nos limites da institucionalidade, deste modo, o aspecto insurgente passa a
ser fundamental nesta discussão, posto que a história, a cultura e o contexto em que se inserem,
guia a analise desta experiência.

Palavras-chave: Quilombolas. Despensar o direito. Direito Insurgente.

5. REFLEXÕES POLÍTICAS E JURÍDICAS SOBRE REPRESENTAÇÃO QUILOMBOLA, IDENTIDADE


E FOTOGRAFIA

Autor: Pedro Nunes Britto Moreira

Resumo:No caso brasileiro, as demandas quilombolas pelos seus direitos à titulação de


terras e outros específicos apontam para a imprescindibilidade do enquadramento desses
grupos na ficção jurídica “comunidades remanescentes de quilombos” e na inerente

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necessidade do acionamento de uma identidade quilombola para requerer esses direitos.
Diante da representação estereotipada do quilombo na sociedade brasileira, este artigo se
propõe a realizar reflexões sobre as potencialidades da utilização da fotografia como suporte
e instrumento para a desconstrução dessas representações estereotipadas, além de analisar as
possibilidades da fotografia como vetor de construção de uma outra representação identitária.
O artigo vislumbra as potencialidades da antropologia visual e da imagem fotográfica como
uma consistente ferramenta de construção de uma identidade política que possa ser acionada
em demandas jurídicas e políticas de grupos quilombolas.

Palavras-chave: quilombola; identidade; representação; fotografia.

6. O TERRITÓRIO QUILOMBOLA E A PROPRIEDADE DA TERRA: CONCEITOS INCOMPATÍVEIS


QUE INFLUENCIAM NA IDENTIFICAÇÃO DO PRIMEIRO

Autor: Gilda Diniz dos Santos

Resumo: A regularização dos territórios de comunidades remanescentes de quilombos,


desde a inserção do direito na Constituição Federal de 1988, especificamente no art. 68 do
ADCT ainda tem sofrido diversas resistências, seja dos que sofrem alguma consequência do
reconhecimento, seja do Poder Judiciário, que em decisões tem impedido ou dificultado a
implementação da política, a cargo do Poder Executivo, que, por sua vez, também encontra
dificuldades na conceituação de território quilombola. Por certo, a primeira resistência vem
com relação à denominação ‘quilombo’, que perfeitamente não se enquadra no modelo ilegal
do período da colonização portuguesa. Depois pela concepção de propriedade privada que
ainda tem dominado e guiado a identificação do território quilombola, contudo, esses últimos
– território e propriedade privada - são conceitos totalmente diferentes e que não podem
sofrer a intervenção de um sobre o outro. O conceito de propriedade tem como princípio
uma área delimitada a disposição do proprietário enquanto que na identificação do território
tem-se como princípio o uso e necessidade sobre a área para se alcançar a delimitação.
Essa forma de atingir o território vem sendo criticada pelos proprietários que estão sendo
atingidos pela desapropriação, em face da desintrusão. A partir de pesquisa bibliográfica e
jurisprudencial pesquisaremos como tais diferenças têm implicado no atraso de conclusão de
processos administrativos de identificação e reconhecimento de comunidades remanescentes
de quilombos, sendo, pois, um dos elementos que prejudicam a implantação da política pública.

7. PLURALIDADE DE FONTES E EFETIVAÇÃO DE DIREITOS NA AMPLIAÇÃO DO DIREITO DE


PROPRIEDADE DAS TERRAS OCUPADAS PELOS REMANESCENTES DE COMUNIDADES DE
QUILOMBOS NO BRASIL

Autores: Leopoldo Rocha Soares; Elizabete David Novaes

Resumo: A colonização da América portuguesa foi marcada pela exploração de monocultura


em latifúndios, empregando-se a mão-de-obra escrava, o que se resume pela denominação de
plantation. Inicialmente, os escravos eram nativos capturados pelos portugueses, notadamente

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aqueles que não se submetiam voluntariamente ao processo de aculturação. Contudo, por diversas
razões, os nativos foram paulatinamente substituídos por aqueles que, vindos do continente
africano, não eram reconhecidos como sujeitos de direito pelo ordenamento jurídico português,
consolidando a figura do negro cativo. Desse modo, o negro ingressou na vida social do Brasil
como res, não havendo condição para a expressão de direitos individuais ou políticos, mesmo
num contexto liberal de mundo, a não ser na marginalidade dos quilombos. No entanto, com
a emancipação política do Brasil, notadamente a partir da Convenção anglo-brasileira, de 23 de
novembro de 1826 e da Lei “Feijó-Barbacena”, de 7 de novembro de 1831, iniciaseum longo
e demorado processo formal de reconhecimento do negro como sujeito de direito no país. Em
especial, foram as leis do Ventre Livre (1871) e do Sexagenário (1885) que, embora na teoria,
aboliram o regime de escravidão de parte da população negra no Brasil, indicando a inclusão dos
“libertos” no contexto do contrato social, até que a Lei Áurea (1888) extinguiu definitivamente
o regime escravista. Nota-se, entretanto, que as leis abolicionistas foram profícuas em conceder
reparações aos senhores de escravos, na medida em que perdiam a força de trabalho dos negros
adquiridos como patrimônio, sem dispensar qualquer reparação aos próprios negros em razão
dos anos de alijamento de bens materiais e imateriais essenciais ao convívio social de qualquer
indivíduo. Conclui-se, com isso, que o processo de inclusão do negro como sujeito de direito o
impeliu à marginalização mesmo fora das comunidades de quilombo, o que causa importantes
reflexos na sociedade brasileira ainda nos dias de hoje. Esse cenário reforça a importância histórica
dessas comunidades como locus de exercício de direitos que, desde a origem, apresentam
particularidades que os distinguem do conjunto oficial de normas jurídicas produzidas no seio
de um ordenamento reprodutor de velhos institutos de origem europeia. Este é o contexto em
que os direitos próprios de remanescentes das comunidades de quilombo conflitam com uma
série de interesses. Isso reforça a importância de uma hermenêutica constitucional emancipadora,
que reconheça a validade de uma pluralidade de fontes sem os estigmas de uma sociedade
ainda colonialista, mesmo que se tenha por ponto de partida a ideia contratualista de cidadania.
Com efeito, a pesquisa se pauta na investigação de direitos dispensados aos remanescentes de
comunidades dos quilombos - além do direito de propriedade definitiva trazido pelo artigo 68
do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias, mas que o pressupõe-, sobretudo a partir
de uma visão histórica de marginalização e da necessidade de uma adequada inclusão social por
um direito informado nas ciências sociais para efetivação dos preceitos de dignidade da pessoa
humana.A pesquisa apoia-se na análise legislativa pertinente, bem como em revisão bibliográfica,
utilizando-se o método dedutivo para as devidas conclusões.

8. DIREITOS CONSTITUCIONAIS QUILOMBOLAS: O ACESSO À TERRA E OS DIREITOS DE


CIDADANIA COMO BASE PARA O DESENVOLVIMENTO NA COMUNIDADE DO MUQUÉM.

Autor: Alyshia Karla Gomes da Silva Santos

Resumo: A questão quilombola passa a ser legitimada pela constituição federal em 1988.
Apesar das ações já implementadas, as comunidades remanescente ainda necessitam de muito
para terem seus direitos constitucionais respeitados. O Programa Brasil Quilombola surge
com o objetivo de permitir a construção de uma realidade na qual os quilombolas possam

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efetivamente sentir-se cidadãos. O referido programa apoia-se em quatro eixos, dentre os quais
escolhemos dois para basearmos o presente artigo: “acesso à terra” e “direito e cidadania”. Tal
escolha é justificada com a ideia de que a terra é elemento necessário para o fortalecimento da
identidade quilombola, bem como pelo entendimento que o mesmo deve ser acompanhado
pelas medidas necessárias que permitam uma qualidade de vida adequada para o modelo de
desenvolvimento exigido. Para tanto, o acesso à terra deverá ser acompanhado pelo respeito
ao direito à saneamento básico, infraestrutura, educação, saúde, dentre outros direitos de base
para qualquer indivíduo. Ocorre que o histórico das comunidades quilombolas demonstra
facilmente a realidade de sofrimento pelas carências que as mesmas apresentam; situação muito
marcada pela pobreza. No caso da comunidade de Muquém, localizada no município de União
dos Palmares/AL, as carências foram reforçadas pelos efeitos da cheia do rio Mundaú em 2010.
Assim, se de uma forma geral, a comunidade em tela já estava vivendo em uma situação de
vulnerabilidade, com a catástrofe a situação se intensifica. Conflitos já existentes tornam-se
mais acirrados e vemos o surgimento de novos conflitos como, por exemplo, o fato de alguns
quilombolas desejarem o retorno ao local antes por eles ocupados, desconsiderando o elemento
“risco”. O presente trabalho tem como meta demonstrar os resultados do projeto de extensão
ainda em andamento no qual se objetiva, (a) criar espaços para a sensibilização dos quilombolas
quanto aos seus direitos constitucionais, (2) sensibilizar da comunidade acadêmica quanto à
questão quilombola, (3) fomentar o interesse na comunidade pela construção de uma cultura
de paz e (4) armazenar dados referentes à situação da comunidade. Tudo com a intenção de
fortalecer a luta pelos direitos quilombolas e permitir o pleno desenvolvimento do local.

Palavras-chave: Direitos constitucionais – Quilombolas – Cultura de Paz – Desenvolvimento.

9.A LEGISLAÇÃO FEDERAL DE COTAS ÉTNICO-RACIAIS NO BRASIL À LUZ DA ANTROPOLOGIA


JURÍDICA

Autor: Eloi Martins Senhoras

Resumo: A difusão das políticas e ações afirmativas de natureza étnico-racial por parte
do Estado brasileiro tem trazido uma crescente discussão sobre o papel das cotas como
instrumentos de focalização das políticas públicas que obedecem a uma lógica de discriminação
positiva a fim de promoção de reparação e inclusão social de determinados grupos. O
objetivo da pesquisa é trazer uma revisão bibliográfica e documental à luz da antropologia
jurídica os diferentes debates polarizados de crítica e defesa da política de cotas étnico-raciais
consubstanciadas no país. Com base nestas discussões, o artigo aborda a legislação de cotas
étnico-raciais no Brasil consolidadas, tanto, pela Lei 12.711/2012, relacionada ao ingresso
em instituições de ensino superior, quanto, pela Lei 12.990/2014 que regulamenta a reserva
de vagas para afrodescendentes nos concursos de cargos públicos. Por meio destas discussões
fundamentadas no olhar da antropologia jurídica, a pesquisa sintetiza os principais debates
sobre as reservas de vagas, bem como, aponta os desafios existentes em um contexto de clara
polarização social entre defensores e críticos aos sistemas de cotas étnico-raciais.

Palavras-chave: ações afirmativas; cotas; discriminação positiva; políticas de focalização.

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10. SOLIDARIEDADE PARA DISCUTIR E GARANTIR DIREITOS AOS QUILOMBOLAS

Autor: Nélida Reis Caseca Machado

Resumo: Os quilombolas foram encobertos pela história brasileira oficiale viveram em


invisibilidadeaté, aproximadamente, 1970. Após, registrou-se a existência de grupos, que
começaram a lutar por seus direitos e, em 1988, no texto constitucional, foram-lhes reconhecidas
as terras por eles ocupadas. Não obstante, este reconhecimento jurídico, por sisó, ainda que
somado às teorias de reconhecimento, ao multiculturalismo ou em orientações do novo
constitucionalismo latino americano, tem alcançado um resultado quantitativo deficiente,donde
se extrai a necessidade de se pensar em acrescer à discussão, conhecimentos de outras áreas,
tendo-se escolhido elementos da ciência biológica para esta interlocução, no intuito de agregar
novas reflexões em busca de um mecanismo que desperte um emocional de solidariedade, a fim
de produzir resultados mais eficazes nagarantia dos direitos dos quilombolas.

Palavras-chaves: Quilombolas. Solidariedade. Interlocução.

11. CONSIDERAÇÕES SOBRE COMUNIDADES QUILOMBOLAS GOIANAS DO SÉCULO XXI

Autor: Fernando Bueno Oliveira

Resumo: Este ensaio objetiva apresentar o quadro atual das comunidades goianas,
considerando as comunidades rurais e urbanas, com base nas contribuições da academia e
em dados técnicos. Para isso, perpassamos por conceitos de “quilombo”: por conta de uma
significação variada elegemos certos conceitos que nos oferecem condições a chegarmos
ao mais próximo da realidade quilombola do século XXI considerando as suas constituições
atuais, organizações, práticas e trajetórias. Em Goiás, os remanescentes de quilombolas de
ambientes rurais são vitimados pela demora no procedimento de titulação de suas terras, o que
é confirmado pelos dados atuais disponíveis em mapa e tabela, aqui constantes. Já os territórios
das comunidades quilombolas urbanas se vinculam, geralmente, à realidade da periferia e/ou
de espaços marginalizados e/ou segregados. Atualmente, muitas delas têm se organizado em
Associações Comunitárias com vistas ao alcance de reconhecimento de sua identidade, de
segurança jurídica no que diz respeito ao seu direito à propriedade, de conquista de direitos
sociais e, em alguns casos, de “empoderamento” social e político, este aqui entendido como o
fortalecimento dos sujeitos nos espaços de participação social e democratização política.

Palavras-Chave: Comunidades quilombolas. Território. Cidade.

12. TERRITORIALIDADES QUILOMBOLAS E ACESSO À JUSTIÇA: DO RECONHECIMENTO DOS


DIREITOS À POSTURA DO JUDICIÁRIO BRASILEIRO

Autor: João Vitor Martins Lemes

Resumo: A conjuntura do campo no Brasil retrata uma realidade de concentração das terras
nas mãos de poucos, enquanto as comunidades tradicionalmente vinculadas a esse espaço têm

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dificuldade de terem efetivados os seus direitos territoriais. Nesse sentido, surge a necessidade
de discutir quais são os critérios utilizados para o acesso à terra e o papel que o Estado tem,
sobretudo o Judiciário, na efetivação dos direitos desses sujeitos coletivos, na perspectiva
da afirmação da igualdade material a partir das demandas que integram reconhecimento e
redistribuição. Assim, a presente dissertação propõe-se refletir acerca da questão territorial das
comunidades quilombolas, que tem seus direitos configurados a partir do reconhecimento,
pelo ordenamento jurídico, de novas categorias, como a identidade e a territorialidade.
Considerando o arcabouço normativo pátrio e internacional que disciplinam, sob o marco
do constitucionalismo plural, o acesso a terra por parte das comunidades quilombolas,
analisar-se-á a postura do Judiciário frente às demandas relacionadas ao acesso/direito ao
território, entre 2003 e 2014, em que sejam partes constituídas ou diretamente interessadas
essas comunidades, com destaque aos pontos mais recorrentes nessas ações judiciais:
a constitucionalidade do Decreto 4.887/03 que dispõe sobre titulação dos territórios
quilombolas conforme o art. 68 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias; a forma
e o procedimento para a titulação, com destaque à fase de desapropriação; e os conflitos que
envolvem as comunidades quilombolas e Estado brasileiro.

Palavras-chave: Comunidades quilombolas; Territórios quilombolas; Acesso à Justiça.

DIREITO DESCOLONIAL OU TEORIA DESCOLONIAL DO DIREITO? A


RELAÇÃO JURÍDICA ENTRE SISTEMAS DE JUSTIÇA E POVOS E COMUNIDADES
TRADICIONAIS

Ementa: Considerando que o processo de colonização na América Latina estabeleceu


a destruição da natureza e dos povos como pressuposto para garantir a colonialidade do
poder e do saber, impondo uma lógica própria de organização jurídico-social pautada na
homogeneidade e numa pretensão de superioridade cultural, a mesa se propõe a refletir
sobre os limites e as contradições inerentes ao estabelecimento do sistema jurídico ocidental,
em especial na sua relação com os povos e comunidades tradicionais. Para fazer frente às
diferentes tentativas de dominação colonial, os povos originários se utilizaram de diferentes
estratégias de resistência: constituição de territórios autônomos, manutenção de sua língua,
religiosidade, guerra, novas fronteiras, novos limites da organização econômica e política,
enfim, diferentes formas que permitiram a reprodução de modos próprios de vida, com
sistemas normativos, em constante inter-relação com a organização política hegemônica.
A partir do reconhecimento desta inter-relação, a mesa busca problematizar como, ou se,
a teoria descolonial pode transformar/superar o direito e os sistemas jurídicos nacionais.
Partindo da análise das categorias que são próprias do sistema jurídico dominante, o debate
objetiva discutir se as práticas diferenciadas do sistema de justiça hegemônico podem tornar o
direito descolonial. Ou, dentro da problematização incitada, se a descolonização da teoria não
seria suficiente para realizar a crítica ao fenômeno jurídico. Desta forma, os temas propostos
para esta mesa cingem-se à análise de práticas jurídicas para e pelos povos e comunidades
tradicionais na luta contra a situação de dominação que lhes impõe o Direito Colonial.

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Coordenadore(a)s:
Dra. Erika Macedo Moreira (Universidade Federal de Goiás - Brasil), Msc. Isabella Cristina
Lunelli (Universidade Federal de Santa Catarina - Brasil) e Dr. Ricardo Prestes Pazello
(Universidade Federal do Paraná - Brasil)

1. O AGRONEGÓCIO E A COLONIZAÇÃO DO SABER NO SÉCULO XXI: DISPUTAS SOBRE A


ALTERAÇÃO DO CÓDIGO FLORESTAL BRASILEIRO

Autor: Ana Claudia Diogo Tavares

Resumo: A pretensão do presente trabalho é discutir a colonialidade do saber, evidenciada


nas narrativas hegemônicas sobre o campo brasileiro. Isto, porque, para a crítica da colonização
do saber e a produção de uma práxis descolonial, consideramos ser primordial analisar os
mecanismos sobre os quais ergue a dominação social. O debate propõe desvelar formas de
atuação e apropriação pelas classes dominantes no campo, das categorias de luta, resistência
e participação política dos movimentos populares. Enfatizaremos a atuação das instâncias de
representação política deste patronato na disputa pela (des)construção de direitos, a partir do
postulado da ciência e do direito ocidentais modernos. Trataremos, em especial, dos embates
político-ideológicos contidos no processo legislativo e judicial sobre a questão ambiental no
Brasil, tendo como objeto de análise as principais alterações do Código Florestal Brasileiro.
Nesses embates notamos a construção da inferiorização dos saberes, identidades e modos de
vida dos adversários, no caso, daqueles que defenderam a manutenção do Código Florestal
brasileiro de 1965, tais como os ambientalistas, os camponeses, as comunidades quilombolas
e os povos da floresta, incluindo povos indígenas. As leis ambientais foram apresentadas pelos
grupos dominantes como obstáculos ao desenvolvimento nacional e à vocação agrícola do
Brasil. A alteração do referido Código reforça a subalternização dos povos do campo que
resistem ao que representa um retrocesso dos direitos sociais, culturais e ambientais no Brasil.

2. COLONIALIDADY DERECHO EN LA NORMATIVA PROVINCIAL ARGENTINA PARA PUEBLOS


INDÍGENAS, 1984-2014

Autor: Paz Concha Elizalde

Resumen: De las veinticuatro provincias que conforman la República Argentina sólo tres
de ellas no reportan presencia indígena, según datos del gobierno nacional. De esta totalidad,
ocho provincias cuentan con una ley propia para el tratamiento de los derechos para pueblos
indígenas, doce han adherido a la ley nacional (N° 23.302) y trece han reformado sus
constituciones incluyendo el reconocimiento de estos pueblos. A la heterogénea producción
normativa debe sumársele la diversidad de enfoques en el tratamiento de estos derechos,
pasando por una serie de requisitos para su ejercicio. La Argentina ha ratificado los pactos
internacionales de derechos humanos y los principales instrumentos sobre derechos para
pueblos indígenas, por ello, los argumentos fundados en el federalismo y su relativa autonomía
legislativa quedan invalidados, revelándose las continuidades de la colonialidad del poder que

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ha configurado las instituciones de los modernos Estado-Nación. Con el fin de aprehender
críticamente las tecnologías de dominación de la colonialidad del poder, avanzaremos sobre
la actual relación entre el Estado argentino y los pueblos indígenas, a través de una revisión
de las leyes provinciales, sus aciertos y yerros. Esperamos, mediante tal labor, aportar además
una mirada global sobre el estado del derecho para los pueblos originarios en la Argentina.
Palabras clave: colonialidad, derechos para pueblos indígenas, Estado-Nación.

3. COMO DESCOLONIZAR AS PRÁTICAS JURÍDICAS ESCRITA PARA O RECONHECIMENTO


DE DIREITOS DE POVOS E COMUNIDADES TRADICIONAIS?

Autor: Isabella Cristina Lunelli

Resumo: Problematizar se a teoria descolonial pode transformar o Direito impõe-nos uma


reflexão sobre os limites e a necessidade de superação das contradições inerentes dos próprios
instrumentos de produção de verdade do modelo jurídico ocidental. Ao pressupormos que
a escrita é meio hegemônico válido para a produção de “verdades” dentro do processo
jurídico brasileiro; ao restringi-la como fonte legítima para a comprovação da produção de
conhecimento – e de direitos – de povos e comunidades tradicionais, estamos privilegiando
traços do pensamento colonial carregados de etnocentrismo, que tende a obstaculizar
a dialogicidade intercultural inerente às premissas da descolonização da teoria jurídica. A
descolonização do Direito perpassa necessariamente à descolonização das práticas jurídicas
diárias. Na exposição que se pretende, partiremos, delimitando a discussão, da indagação
de como descolonizar as práticas jurídicas, hoje hegemonicamente escritas, para o
reconhecimento de direitos de povos e comunidades tradicionais. Geopoliticamente situados
na realidade jurídica brasileira, o artigo se desenvolverá, inicialmente, na caracterização
da escrita como produto de uma cultura específica, tomando o direito escrito enquanto
paradigma para o reconhecimento de direitos de povos e comunidades tradicionais. A partir
da análise de casos práticos, voltando-nos ao exame de meios comprobatórios judiciais que
impliquem na comprovação e no reconhecimento do Direito Indígena pelo Direito Estatal,
apresentaremos os limites da utilização da escrita e, de outro lado, a apropriação contra-
hegemônica dessa ferramenta pelos povos indígenas. Para, ao final, tecermos contribuições
para o debate e a própria descolonização das práticas jurídicas, ainda coloniais.

Palavras-chave: Direito escrito; descolonização; povos e comunidades tradicionais.

4. LIMITES PARA O RECONHECIMENTO DOS SUJEITOS DE DIREITOS NAS DEMARCAÇÕES


DE TERRAS DOS POVOS ORIGINÁRIOS NO BRASIL: A TEORIA DESCOLONIAL ENQUANTO
FERRAMENTA TEÓRICA PARA REFLEXÃO DO DIREITO.

Autores: Vilma de Fátima Machado; Leonilson Rocha dos Santos

Resumo: A construção dos direitos dos povos originárias no Brasil guarda uma relação com
o pensamento colonial, que por sua vez, foi gestado a partir da modernidade, e permanece
vigente na sociedade, organizando as dinâmicas de configuração de poder/saber. A estrutura da

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colonialidade gerando distintas formas de dominação e subalternização de grupos historicamente
alijados da condição de sujeitos, seja no âmbito político, social e/ou jurídico. Diante disso,
esse artigo trabalha com a ideia de que os direitos das populações originárias aos territórios,
embora sejam frutos de acirrados processos de lutas e conquista de cidadania, estão inseridos
neste contexto de jogo de poder. Assim, o sistema inclui grupos historicamente subalternizados,
porém outros fatores determinam a continuidade desses grupos em condições inferiorizadas,
fatores estes, dados pela dinâmica de poder no sistema colonial. Com essa afirmação, buscaremos
construir uma discussão sobre a construção dos sujeitos de direito nos processos de demarcação
de terras indígena, visando analisar em que medida a ideia de naturalização e ecologização dessas
sociedades, configuram uma forma de (re)colocá-los na dinâmica de poder/saber colonial, no
qual as sociedades originárias prestam um serviço preservacionista à “humanidade”, passando
a ser um meio de se alcançar sustentabilidade, ao invés de, efetivamente, sujeitos emancipados.
Com isso, a discussão perpassará o papel do direito como meio de afirmação do pensamento
colonial, e a possibilidade de refletir sobre um novo direito descolonial.

5. A KRIS ROMANI COMO MÉTODO ADEQUADO DE SOLUÇÃO DE CONFLITOS ENTRE POVOS


CIGANOS NO BRASIL: UMA ANÁLISE DESDE O PARADIGMA DO PENSAMENTO DESCOLONIAL

Autor: Alex Sandro da Silveira Filho

Resumo: Este trabalho está vinculado ao projeto de pesquisa “Teoria e história dos direitos
humanos segundo a perspectiva do pensamento descolonial”, coordenado pela Profa. Dra.
Fernanda Frizzo Bragato. O sistema judiciário brasileiro, atualmente, se encontra abarrotado.
Milhões de processos em trâmite, e uma grande demora para o seu julgamento, que
nem sempre é adequado para o que as partes demandam, especialmente as comunidades
tradicionais, que, na maioria das vezes, não são contempladas diretamente pela Justiça
comum, devendo algum órgão interceder por eles, como o Ministério Público Federal.
Nesse sentido, o objetivo deste trabalho é apresentar a Kris Romani como um método
adequado e autônomo de solucionar conflitos entre povos ciganos no Brasil, bem como
mostrar a perspectiva do pensamento descolonial para legitimar os povos Romaní a ter sua
própria jurisdição reconhecida. Para tanto, estudar-se-á, por meio de pesquisa bibliográfica e
documental, as condições do acesso à justiça no Brasil, por meio de relatórios do Conselho
Nacional de Justiça, a necessidade de serem implantados e reconhecidos meios alternativos
de solução de controvérsias, por meio de obras de autores como Mauro Cappeletti, os
princípios da Kris Romani, que é o tribunal dos povos ciganos, com autores como Hugo
Paternina Espinosa, Ian Hancock, e Walter Weyrauch, e a perspectiva do pensamento
descolonial, em autores como Aníbal Quijano, Walter Mignolo, e Santiago Castro-Gómez.
Os resultados deste trabalho apontam para a necessidade do reconhecimento da Kris Romani
como procedimento jurisdicional adequado para os conflitos entre os povos ciganos do
Brasil, pois suas regras e sua composição e regras são autônomas, sendo um meio descolonial
de acesso à justiça, por reconhecer as características próprias dos povos Romaní.

Palavras-chave: Povos Romaní. Kris Romani. Acesso à justiça. Pensamento descolonial.

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6. O GIRO DESCOLONIAL DO PODER E A CRÍTICA MARXISTA AO DIREITO

Autor: Ricardo Prestes Pazello

Resumo: O presente ensaio tem por objetivo estudar a relação entre direito e
movimentospopulares a partir da insurgência como categoria de mediação, sob a perspectiva
da crítica estrutural às relações sociais capitalistas e da posição específica da periferia
dependente latino-americana no sistema mundial colonial/moderno, ensejando uma análise
que conjugue o marxismo e o giro descolonial do poder. Para tanto, realiza-se a apreciação
conjuntural da questão dos movimentos populares, no contexto das discussões categoriais
sobre a relação entre classe e povo, bem como seus desdobramentos. Além disso, busca-se
o aporte teórico das contribuições do pensamento crítico latino-americano, em especial
o decorrente das perspectivas descoloniais e de libertação, para a relação entre direito e
movimentos populares no contexto periférico do capitalismo. Por sua vez, o aprofundamento
da abordagem crítica promovida pelo pensamento de Marx e Engels permite delimitar
a compreensão do direito em sua significação mais densa, como relação social vinculada
à forma-valor. A crítica marxiana e marxista que a partir daí se desenvolve admite uma
recepção das contribuições das teorias críticas do direito, entendidas sob chave analítica
diferenciada, ensejando a formulação específica do direito insurgente para a América Latina,
em que direito e movimentos populares conformam relações e apontam para o horizonte
de extinção de suas próprias formas sociais, ainda que acolhendo um uso político tático do
jurídico em termos de transição para modos de vida superiores.

7. CONTRADIÇÕES ENTRE CONSERVAÇÃO AMBIENTAL E DIREITOS SOCIOCULTURAIS NAS


ÁREAS PROTEGIDAS NO BRASIL: O CASO DO PARQUE NACIONAL DE SUPERAGUI/PARANÁ

Autores: Monique Caroline Minozzo; Luciane Fernandes Ribeiro

Resumo: O Parque Nacional do Superagui foi criado através Decreto de n° 97.688 no


ano de 1989 inicialmente com 21.400 ha. Em 1997devido à descoberta de outras espécies
ameaçadas de extinção na região, o Parque teve sua área expandida para 34.000 ha. Nesse
processo, diversas comunidades foram incluídas dentro dos seus limites acarretando em
limitações extremas aos moradores cujo modo de vida é baseado na extração de recursos
naturais. A Unidade de Conservação definida para proteger tal espécie é bastante restritiva,
sendo assim não condiz com o modo tradicional de vida das comunidades locais e segue
em desacordo com o Decreto nº6.040 de 7 de fevereiro de 2007, o qual institui a Política
Nacional de Desenvolvimento Sustentável dos Povos e Comunidades Tradicionais. A análise
parte do sistema jurídico de áreas protegidas no Brasil e o direito à reprodução sociocultural
dos povos e comunidades tradicionais. O estudo de caso aborda o conflito do Parque
Nacional de Superagui no debate da conservação ambiental e os limites do sistema jurídico
de áreas protegidas para a garantia do território das comunidades de pescadores artesanais.

Palavras-chave: pescadores, território, áreas protegidas.

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8. SOB O ARRIMO DA DOUTRINA E PRAXIS SOCIAL EUROPEIA: CRISE NA IDENTIDADE
CULTURAL/CIENTÍFICA BRASILEIRA?

Autor: Adalberto Pinto de Barros Neto

Resumo: O presente trabalho terá por objeto a perquirição acerca da idoneidade cultural
e científico jurídica brasileiras diante da maciça utilização de conceitos jurídicos e da praxis
social europeus, parametrizando a pesquisa pelos votos proferidos em sede de controle de
constitucionalidade pelos Ministros do Supremo Tribunal Federal. Em face da impossibilidade
de tanger todos os acórdãos exarados pela Corte constitucional, o trabalho adstringirá a
análise conceptual dos seus acórdãos nº 4277 (Ação Direita de Inconstitucionalidade) e nº 54
(Ação de Descumprimento de Preceito Fundamental). A escolha de tais julgados se justifica
à medida em que se nota uma intensa discussão de valores culturais da sociedade brasileira
sob análise jurisdicional pela maior corte julgadora do País.

Palavras-chave: Valores sociais. Valores culturais. Eurocentrismo. Constitucionalidade.


Ativismo. Modernidade sociais

9. O JUDICIÁRIO E A DEMARCAÇÃO DE TERRAS INDÍGENAS NO CONE SUL DO MATO


GROSSO DO SUL

Autor: Erika Macedo Moreira

Resumo: O presente trabalho procura traduzir, a partir de uma dimensão empírica


e interdisciplinar, a postura que o judiciário tem assumido diante dos direitos dos Povos
Indígenas, considerando os 25 anos de mudança de paradigma na relação entre Estado e Povos
Indígenas, inaugurada pela Constituição da República Federativa do Brasil de 1988 (CF/88).
Tendo superado, ao menos do ponto de vista normativo, a política indigenista integracionista,
com o reconhecimento expresso dos direitos dos índios à sua organização social, usos,
costumes e tradições, interessa refletir como os direitos indígenas são vivenciados na prática
do dia-a-dia do judiciário do cone sul do mato grosso do sul. O trabalho busca, a partir do
resgate do processo histórico de expropriação de terras e violências do Estado contra os Povos
Indígenas no Cone Sul do Mato Grosso do Sul, refletir sobre a judicialização da demarcação
das Terras Indígenas dos Guarani-Kaiowá e Guarani-Ñandeva no cone sul. Assim, pensar
o reconhecimento legal das especificidades culturais coloca o desafio de entender como o
universo jurídico e as instâncias oficiais do judiciário atribuem materialidade aos conteúdos
da diversidade cultural e do pluralismo jurídico. O esforço está centrado na tentativa de
identificar “outro” procedimento para a construção da decisão judicial e de justiça que
garanta a incorporação de visões de mundo diferenciadas.

Palavras chave: Direitos Indígenas. Judiciário brasileiro. Terras Indígenas Guarani-Kaiowá.

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10.“ERA SÓ JOGAR A REDE E PUXAR”:A REAFIRMAÇÃO DA TRADICIONALIDADE ENQUANTO
ESTRATÉGIA DE RETERRITORIALIZAÇÂO NA COMUNIDADE DE PESCADORES DA PRAIA DE
ITAIPU, EM NITERÓI RJ

Autores: Wilson Madeira Filho; Alba Valeria Santos Simon

Resumo: O presente artigo explora um dos temas mais caros para o conservacionismo
brasileiro que desde a década de 1930 vem apostando num modelo de conservação da
natureza pautado na proteção integral dos recursos e territórios relevantes para a conservação
da biodiversidade. A política de conservação da natureza adotada pelo Brasil e consumada
pela Lei 9.985/2000 (Sistema Nacional de Unidades de Conservação - SNUC) privilegiou
um modelo de conservação cuja proteção integral em alguns casos se deu sobre áreas que
já eram habitadas por grupos sociais historicamente específicos, detentores de um “saber
local” no uso, apropriação e dependência dos recursos naturais. Antes do SNUC, as unidades
de conservação, sobretudo parques e reservas biológicas (consideradas de proteção integral
pelo SNUC) eram implantadas à revelia de populações locais, como resultado de concepções
conservacionistas de caráter universalista onde a “natureza para todos” deveria se sobrepor
“a natureza para alguns” em nome de um nosso futuro comum. Nos marcos do debate
entorno dos conflitos e constrangimentos às populações tradicionais inseridas em áreas
naturais legalmente protegidas, forjou-se a construção de pactos na esfera da burocracia
estatal e a reinvenção da categoria jurídica População Tradicional que antes do advento do
SNUC, eram desprovidos de tratamento legal diferenciado. O histórico de reconhecimento
da existência de modos de vida tradicionais no debate das áreas naturais protegidas está
ligado a um movimento internacional conservacionista na conjuntura da incorporação
oficial do princípio do zoneamento à definição das áreas protegidas e ao surgimento das
preocupações em relacionar conservação da biodiversidade in situ com o desenvolvimento
socioeconômico à escala local na gestão dessas áreas. A Reserva Extrativista Marinha de
Itaipu foi criada em setembro de 2013 pelo governo do Estado do Rio, como resultado de
um processo histórico de conflitos, resistência e forte protagonismo dos pescadores artesanais
dessa região. Situada na região oceânica de Niterói, região de expansão do município; a região
de Itaipu e Piratininga, foram as que mais sofreram os impactos da especulação imobiliária
que travestida de “intervenções urbanísticas” avançou sobre as lagoas, restinga, morros, serras
e mangues causando grande impacto às áreas naturais e colocando em risco a subsistência das
comunidades tradicionais locais. A ausência de planejamento no desenvolvimento da Região
Oceânica de Niterói, aliado ao apetite especulativo do setor imobiliário do município
que, desde a década de 1940, vinha fracionando terras em busca de uma maximização do
mercado, fez emergir forte reação por parte dos movimentos ambientalistas e moradores,
contribuindo para a consolidação de uma cultura de resistência por parte dos pescadores da
região. Conclui que a política gradativa de empoderamento dos pescadores tradicionais em
cenário periurbano, ao tempo em que revela articulações na ordem descolonial, implica em
uma estética de resistência, onde a territorialidade cultural ganha relevo.

Palavras-chave: Tradicionalidade e reterritorialização; Direito dos pescadores tradicionais;


Praia de Itaipu.

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DERECHO Y JUSTICIA AL MARGEN DEL ESTADO: CASOS LATINOAMERICANOS

Ementa: La realidad que actualmente se vive en América Latina nos coloca, frente una
serie de retos y un serio estancamiento en la construcción de la democracia y de un Estado
en donde los derechos sean respetados por gobernantes y gobernados. Se vive una tensión
generada por la tensión entre la igualdad formal y la desigualdad real, que en la mayoría
de los casos es resuelta de forma particular en cada sociedad. Esta desigualdad puede ser
ampliamente tolerada, o bien, los conflictos que resulten de ella ser controlados por medio de
la violencia o la coerción del estado sobre la sociedad. La situación se presenta, por lo tanto,
de la siguiente manera: por una lado hay una estrecha relación entre lo jurídico y el Estado,
por eso no se puede hablar, en términos estrictos, de los primero sin lo segundo. Sin embargo
lo jurídico se relaciona con otros ámbitos importantes de la vida social, y quizás es posible
buscar algo semejante en las sociedades simples.

Coordenadore(a)s:
Mtro. Mario Paz Maldonado, Mtro Julio Cesar Martínez lara y Mtra, Ana Hilda Ramírez
Contreras

1. “CASO DENILSON”, JURISDIÇÃO INDÍGENA E O AFASTAMENTO DO DIREITO DE PUNIR


POR PARTE DO ESTADO BRASILEIRO

Autores: Edson Damas da Silveira; Serguei Aily Franco de Camargo

Resumo: Este ensaio se refere a um estudo de caso judicializado no Estado de Roraima e


a confrontar jurisdição estatal de um lado e jurisdição indígena do outro, mas construído a
partir da perspectiva do Estado como protagonista e monopolizador do sistema de direito
que em determinadas situações, se depara com realidades sociais que podem parecer estranhas
e desarticuladas com os valores do mundo ocidental. Estaremos a tratar do “Caso Denilson”,
consubstanciado num homicídio praticado por indígena contra seu irmão, dentro de
terra indígena, mas devidamente conhecido, julgado e apenado pela própria comunidade,
informados que foram naquela ocasião pelos seus usos, costumes e tradições. O “Caso
Denilson” avançou para uma dimensão de fundamentos que arrosta certo ineditismo nos
meios forenses quando afastou o poder de punir do Estado em face de anterior e legítima
reprimenda por parte de povos comunitários originários, lhes conferindo igual dignidade no
sendeiro de resolver conflitos, fazer justiça e de dizer um direito mais apropriado aos seus
costumes, crenças e tradições. A discussão diz respeito à jurisdição indígena vista e encarada
pelo Estado Nacional, bem como o modo como pode ser recepcionada pelos nossos formais
mecanismos de direito e a sua forma de legitimação constitucional.

Palavras-Chave: Jurisdição Indígena; Duplo jus puniendi; Terra Indígena; Roraima.

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2. A VIOLÊNCIA CONTRA JOVENS NEGROS NO BRASIL: DIREITOS HUMANOS E A
NEGLIGÊNCIA DO ESTADO

Autores: Daisy Rafaela da Silva; Elizabeth Novaes Pereira

Resumo: Este estudo tem tem o foco interdisciplinar e visa apresentar as violências e a atuação
do Estado na defesa dos jovens negros ou sua negligência, num diálogo entre a Filosofia,
Sociologia, Antropologia e Direito, no âmbito do Grupo de Pesquisa “Direitos Humanos”
do Programa de Mestrado em Direito do Centro UNISAL-SP.Visa analisar e divulgar sobre a
violência dos jovens negros no Brasil; apresentar e divulgar os mecanismos para a promoção
e defesa dos direitos humanos dos jovens negros.; Apresentar os direitos humanos violados e
as políticas públicas existentes na atualidade. Explora-se dados sobre a origem das violências
contra os jovens negros, a percepção de sua identidade e sua perspectiva de futuro e apresentar
os Direitos Fundamentais dos jovens negros, com ênfase na violação do Direito a Vida, a
partir da análise dos resultados e propostas de ação ao poder público. Utilizou-se pesquisa
bibliográfica e documental fazendo-se a comparação e confrontos de conceitos, de dados e
demais informações oriundas de fontes diversas. Constata-se que o Estado, apesar de políticas
públicas como a “Juventude Viva, tem-se mostrado ineficiente e muitas vezes negligente
negligente no que tange a juventude negra; A população jovem tem crescido e com ela as
violências, sintoma de uma sociedade intolerante, preconceituosa e violenta ; Nossa história
apresenta a escravidão e posteriormente a exclusão. Há violações aos direitos humanos dos
jovens negros no Brasil. Este estudo vem ao encontro das preocupações ante a perda de vidas
com potenciais indescritíveis, a perda de cidadãos, o desgarçamento do tecido social e de
todo um projeto de Futuro. É tema de relevância por buscar a compreensão e o sentido da
realidade e também a busca por alternativas a fim de que se promover e proteger o direito
humano dos jovens negros no Brasil. Destaca-se ainda, que tal temática atende a missão
institucional sendo os jovens, a principal preocupação de Dom Bosco, precursor da defesa dos
jovens, inicialmente em Turim e a partir de todo o seu trabalho, milhões de jovens tiveram
suas vidas protegidas.

Palavras-chave:Violência; Jovens Negros; Direitos Humanos.

3. PARADOJAS DEL PLURALISMO JURÍDICO. EL PARADIGMA DEL VIVIR BIEN Y LA IN-JUSTICIA


POR MANO PROPIA EN EL ESTADO PLURINACIONAL DE BOLIVIA.

Autor: Wilson Salvador Oliden Zuniga

Resumen: El Estado Plurinacional de Bolivia sustenta valores de justicia social, promueve


principios ético-morales entre otros el “vivir bien” y ejerce la justicia plural encaminando
la construcción de la cultura de la paz; sin embargo, los campos Axiológico y Pluralismo
Jurídico, conllevan en su seno contradicciones y paradojas en la acción de los sujetos. En ese
contexto, desde la metodología cualitativa, la investigación descriptiva y propositiva tiene
el objetivo de caracterizar la paradoja fundamental del Pluralismo Jurídico, que se presenta
cuando irrumpen acciones colectivas y violentas denominadas linchamientos, acompañados
con discursos de actores que asumen dinámicas alejadas de los principios, valores y normas

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plurales sustentadas por el Estado. Los resultados revelan que el Estado se comporta en
términos contradictorios. Por un lado, desarrolla políticas que promueven el Pluralismo
Jurídico y el paradigma del “Vivir Bien”; por otro lado, abre y mantiene fisuras en los campos
plurales al no producir, desde el seno de la interculturalidad, una nueva literatura sobre los
linchamientos como fenómeno ajeno a la justicia indígena, además de no tipificarlo como
delito. La propuesta contiene la explicación de los factores que subyacen en el accionar de los
linchamientos y tiene la finalidad de dilucidar la paradoja del Pluralismo Jurídico sustentando
la de-construcción de políticas públicas, de normas y estrategias para el vivir bien.

Palabras clave: Pluralismo Jurídico. Paradojas. Linchamientos. In-justicia. Vivir Bien. De-
construcción.

4. EL JUZGADO INDÍGENA EN HUEHUETLA, PUEBLA, MÉXICO. ENCRUCIJADA ENTRE LA


JURISDICCIÓN OFICIAL Y EL DERECHO AL TERRITORIO DE LOS PUEBLOS INDÍGENAS

Autor: Diana Pérez Rivera

Resumo: El precisar las relaciones internas de una comunidad desde el enfoque de


la antropología jurídica indudablemente conduce hacía la manera en que sus habitantes
organizan la vida cotidiana en todos sus ámbitos y a su vez la relación con el entorno,
otras comunidades, instituciones gubernamentales, empresas y organizaciones de la sociedad
civil; en sí todos aquellos actores con los cuales, comparten, adaptan, median, negocian y
determinan su devenir. Sí bien, en el presente muchas comunidades se autoconstruyen
en un ámbito interpretado desde la academia con definiciones como grupos sociales,
asentamientos y frecuentemente señaladas como “comunidades”, entre tantos más conceptos
como localidad, ejido y “comunidad”, mismos que refieren a una manera de propiedad
desde la Ley Agraria mexicana y que a su vez indica la percepción del espacio desde un
enfoque jurídico. La manera en que se autoadscribe un colectivo y él como el resto le
nombra y asume, varia conforme a las relaciones que establezcan en la reproducción de la
“comunalidad”, y la manera en que se estructuran y reproducen los “usos y costumbres”. Para
algunos teóricos la comunalidad señala precisamente la posibilidad de recrear los entrelaces
colectivos que llevan a una dirección común y que dinamizan toda expresión cultural que
permiten las costumbres y lo que habitualmente da sentido a la convivencia y decisiones de
una comunidad. Lo anterior se convierte en un tema a analizar constantemente, el cómo se
consensan las normas de las “comunidades” y por lo cual, se pretende explorar a partir de la
división entre Comisariado Ejidal y las Autoridades Tradicionales como parte de las lógicas
en las que se han visto inmiscuidas las personas habitantes de las comunidades en México;
dos figuras jurídicas con las que experimentan una constante toma de decisiones sobre sus
recursos naturales y económicos como propiedad frente a diferentes actores como lo son las
empresa involucradas en megaproyectos. La participación de las comunidades en contextos
de negociación frente a empresa por desgracia casi siempre ha sido mediante la manipulación
menos remunerada, con sesgos de paternalismo estatal y acuerdos sectorizados. En el presente
las empresas pretenden reproducir esquemas que las reconozcan como Empresa Socialmente

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Responsable (ESR) o con la definición de Ciudadano Corporativo; un reto que va más allá
de lo expresado en sus políticas y que es rediseñado y cuestionado constantemente por
actores como las organizaciones de la sociedad civil y las propias comunidades, sobre todo su
generación joven que con experiencias en el exterior sea por migración o estudios, requieren
de distintas situaciones para su comunidad. La ponencia también abordará elementos
estratégicos sobre la figura de ESR como estrategia en el ejercicio de derechos de los pueblos
indígenas para el reconocimiento de sus usos y costumbres conforme a la experiencia de
comunidades mineras a través de tres generaciones y que han visto la transformación de
su ecosistema a la par de los paradigmas de progreso, modernidad y ahora sustentabilidad,
conservación, diversidad cultural.

5. RESPONSABILIDAD SOCIAL, UNA CUESTIÓN DE DERECHOS DIVERSOS.

Autor: Verónica Ramírez Santana

Resumen: El precisar las relaciones internas de una comunidad desde el enfoque de la


antropología jurídica indudablemente conduce hacía la manera en que sus habitantes
organizan la vida cotidiana en todos sus ámbitos y a su vez la relación con el entorno, otras
comunidades, instituciones gubernamentales, empresas y organizaciones de la sociedad civil;
en sí todos aquellos actores con los cuales, comparten, adaptan, median, negocian y determinan
su devenir. Sí bien, en el presente muchas comunidades como espacio se autoconstruyen en
un ámbito interpretado desde la academia con definiciones como asentamientos, territorios
y frecuentemente señaladas como “comunidades”, lo que responde a un contexto político
internacional de reconocimiento junto con el concepto de “pueblos indígenas”; también
desde el ámbito de la Ley Agraria Mexicana se les nombra localidad, ejido y también
“comunidad”, mismos que refieren a una manera de propiedad y con ello la percepción del
espacio desde un enfoque jurídico y que poco a poco reconoce las prácticas socioculturales
de sus habitantes. La manera en que se autoadscribe un colectivo y él como el resto le
nombra y asume, varia conforme a las relaciones que establezcan en la reproducción de la
“comunalidad”, y la manera en que se estructuran y reproducen sus “usos y costumbres”. Para
algunos teóricos la comunalidad señala precisamente la posibilidad de recrear los entrelaces
colectivos que llevan a una dirección común y que dinamizan toda expresión cultural dando
sentido a la convivencia y decisiones de una comunidad. Lo anterior se convierte en un
tema a analizar constantemente desde ámbitos y discursos de responsabilidad social en el
cual, sectores empresariales se cuestionan sobre la organización y usos y costumbres de las
“comunidades”. Y que en un primer momento responde a la manera de establecer contacto
para poder negociar acerca de los recursos naturales de una territorialidad. Se pretende
explorar a partir de la división entre Comisariado Ejidal y las Autoridades Tradicionales
como parte de las lógicas en las que se han visto inmiscuidas las personas habitantes de
las comunidades en México; dos figuras jurídicas con las que experimentan una constante
toma de decisiones sobre sus recursos naturales y económicos como propiedad frente a
diferentes actores como lo son las empresa involucradas en megaproyectos. La participación
de las comunidades en contextos de negociación frente a empresa por desgracia casi siempre

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ha sido mediante la manipulación menos remunerada, con sesgos de paternalismo estatal
y acuerdos sectorizados. En el presente las empresas pretenden reproducir esquemas que
las reconozcan como Empresa Socialmente Responsable (ESR) o con la definición de
Ciudadano Corporativo; un reto que va más allá de lo expresado en sus políticas y que es
rediseñado y cuestionado constantemente por actores como las organizaciones de la sociedad
civil y las propias comunidades, sobre todo su generación joven que con experiencias en el
exterior sea por migración o estudios, requieren de distintas situaciones para su comunidad.
La ponencia también abordará elementos estratégicos sobre la figura de ESR como estrategia
en el ejercicio de derechos de los pueblos indígenas para el reconocimiento de sus usos y
costumbres conforme a la experiencia de comunidades mineras a través de tres generaciones
y que han visto la transformación de su ecosistema a la par de los paradigmas de progreso,
modernidad y ahora sustentabilidad, restauración, diversidad cultural.

6. TEORÍA ANTROPOLÓGICA DEL DERECHO: AVANCES Y OBTÁCULOS EN EL DERECHO


INDÍGENA EN MÉXICO

Autor: Leif Korsbaek

Resumen: Es el objetivo de la presente ponencia presentar y discutir brevemente las


leyes estatales expedidas en México, como un primer acercamiento a una discusión de los
contenidos jurídicos y socio-culturales de dichas leyes, para después entablar una discusión
antropológica de las perspectivas de esas leyes en el contexto de la sociedad mexicana y las
regiones en las cuales funcionan.

7. LOS INDÍGENAS COMO NUEVOS ACTORES EN LA CIUDAD DE MÉXICO. EL DEBATE DE


LA LEY.

Autor: Iván Gomez César Hernández

Resumen: En la última década ha tenido lugar un importante cambio en la presencia y


acción de los indígenas en la ciudad de México. Son dos los actores involucrados en ese
proceso: por un lado, los autodenominados pueblos originarios, que son los descendientes
de las antiguas poblaciones prehispánicas, que hoy se encuentran tanto en las partes aún
rurales y forestales de la entidad, como aquellos que se encuentran totalmente urbanizadas.
Por otro lado, están los indígenas que han migrado a la ciudad en las últimas 6 décadas y
que se expresan de varias maneras en la urbe: hay organizaciones y frentes indígenas por
actividades económicas y culturales, núcleos poblacionales que están plenamente integrados
a sus pueblos de origen, así como grandes contingentes que van y vienen y suelen ser los más
desprotegidos y explotados en la ciudad.
Ambos sectores han vivido un proceso de revitalización y visibilización que dista de
ser homogénea y que coincide con la llegada de gobiernos ubicados en la izquierda, cuyas
políticas han incidido favorablemente en ese proceso, pero que no son la explicación del
fenómeno.

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La Asamblea Legislativa ha elaborado varias propuestas de ley en un proceso cercano
ya a los 10 años. Este año tiene lugar un nuevo esfuerzo por contar, por primera vez, con una
ley indígena que tiene la particularidad de tratarlos como una realidad urbana. En la presente
ponencia, que será elaborada en medio de este proceso, me propongo analizar el alcance y
vicisitudes de este proceso.

8. EL COLONIALISMO DESDE UNA PERSPECTIVA DEL COLONIZADO DEL SIGLO XXI.

Autor: Mtro. Mario Paz Maldonado

Resumen: Este trabajo contiene fragmentos de tres historias de vida, que se construyen en
el contexto de los procesos de industrialización que se viven en el centro del país y la manera
cómo impactan en estas vidas, el colonialismo interno, así como los procesos de migración
y urbanización. El trabajo se divide en tres personajes donde la narración de cada proceso
tiene que ver también con la descripción de la vida cotidiana de los habitantes de una
comunidad campesina e indígena, que divisa desde sus ventanas las diferencias económicas,
sociales, culturales y políticas. Pongo en el centro de la historia a los habitantes comunes y
corrientes como parte del proceso histórico, tal vez local, pero que da cuenta de las relaciones
estructurales de la sociedad mexicana, al menos en el centro del país.

DIREITO, SOCIEDADE E CULTURA NA AMAZÔNIA

Ementa: O tempo, o espaço, a geografia, as condições naturais como o clima, a constituição


de grupos e instituições são condições inerentes ao processo de modificação do homem com
relação à natureza. Dado a isso, os hábitos inerentes a esse processo de adaptação também
modifica a cultura. Dito de outra forma discute-se não somente o fator adaptativo ou de
tentativa de adaptação do homem ao território, mas, também, como fator de mudança
cultural deste lugar e das suas relações. Toda essa sensibilização é aqui voltada à Amazônia,
lócus cultural e da biodiversidade de gente e de coisas e suas idiossincrasias e/ou seus modos
próprios de vida, tanto no meio ambiente artificial (cidade) quanto no meio ambiente natural
(floresta, rios, fauna, flora, etc.). Nesse arcabouço se faz necessário pensar o Direito ele
mesmo como produtor e veiculador de discurso sociocultural, seja pela linguagem jurídica
que é marca notória da cultura e das relações sociais, seja refletindo as expressões urbanas, as
comunidades tradicionais, os comportamentos dos indivíduos nos espaços sociais.

Coordenadore(a)s:
Dra. Aparecida Luzia Alzira Zuin (Universidade Federal de Rondônia/Universidade Federal
do Rio de Janeiro - Brasil) e Msc. Bruno Valverde Chahaira (Universidade Federal de
Rondônia - Brasil)

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1. INDÍGENAS NO MAPA:UMA REFLEXÃO SOBRE A IDENTIDADE INDÍGENA EMTABATINGAAM

Autor: Arival Curica Fermin

Resumo: Diante do desenvolvimento da sociedade e do crescimento da cidade tabatinga-


Amazonas que venho fazer uma breve reflexão a respeito da população indígena e em seguida
fazer breves imersões da identidade indígena. Nos últimos anos, observa-se na cidade de Tabatinga,
o fluxo migratório de indígenas que estão deixando suas comunidades e terras demarcadas para
morar na área periférica da cidade. Breves reflexões a respeito de suas identidades e saberes
tradicionais. Com finalidade de moradia permanente, junto aos seus parentes da Comunidade
do Umariaçú I e II ou ainda passam a morar em uma comunidade em plena formação no centro
urbano do município, dada a facilidades em ter acesso a produtos e serviços oferecidos na cidade.

Palavras-chave: Índios, reflexão e Identidade Indígena.

2. O NOVO CONSTITUCIONALISMO LATINO-AMERICANO E A SUPERAÇÃO DO


NEOCONSTITUCIONALISMO: UMA RELEITURA PARA CONSAGRAÇÃO DOS DIREITOS
FUNDAMENTAIS

Autores: Jaime Leonidas Miranda Alves; Francele Moreira Marisco

Resumo: O presente trabalho tem por objetivo investigar como a questão dos direitos
fundamentais é tutelada sob a égide do movimento do novo constitucionalismo latino-
americano. Para tanto, buscou-se construir um paralelo entre a evolução do constitucionalismo
e a teoria dos direitos fundamentais, na tentativa de compreender o tratamento regalado, sob
o prisma do novo constitucionalismo latino-americano, à questão dos direitos fundamentais.
Ao analisar o Direito sob uma ótica discursiva, o neoconstitucionalismo inaugurou uma
releitura em diversos institutos jurídicos clássicos; tem-se, contudo, que o caráter pluricultural
dos Estados latino-americanos impediu que os Estados que adotaram a teoria do direito
neoconstitucional tutelassem de forma satisfatória os direitos dos diversos grupos culturais e
sociais. É nesse contexto que surge o novo constitucionalismo latino-americano, aqui analisado
segundo o método da dialética. Observar-se-á, por conseguinte, as modificações constitucionais
e infraconstitucionais recentes de determinados países da América Latina que modificaram sua
arquitetura político-jurídica no mister de caminhar no sentido da descolonização do Direito.

Palavras-chave: Direitos fundamentais; Neoconstitucionalismo; Novo constitucionalismo


latino americano.

3. A JURISPRUDÊNCIA DOS INTERESSES COMO ELEMENTO EVOLUTIVO DA FILOSOFIA E


TEORIA DO DIREITO

Autores: Marcela Leila Rodrigues da Silva Vales; Aline Fatima Morelatto

Resumo: O presente trabalho pretende demonstrar parte da evolução vivenciada pela


Filosofia e Teoria do Direito, em função da progressão social e cultural que despertou

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discussões de natureza sociológica, e, posteriormente, filosófica, a importância da escola da
Jurisprudência dos Interesses, como meio evolutivo do próprio Direito. Diferirá a escola
da Jurisprudência dos Conceitos da Jurisprudência dos Interesses, demonstrando os pontos
evolutivos entre si, sem desconsiderar a importância de uma como fonte basilar da evolução
filosófica da outra. Vale ressaltar a contextualização histórica sentida pelo povo alemão,
local em que as escolas obtiveram mais adeptos e melhor se desenvolveram, muito embora
tenham sido estudadas até em outros continentes. Faz-se imprescindível compreender qual
a verdadeira vontade do povo naquele momento histórico de pós Primeira Guerra Mundial
e chegada de um século novo, repleto de mudanças sociais. Não havia mais espaço para
a reprodução singela dos conceitos legais e preenchimento das lacunas por meio da mera
subsunção, o julgador necessitava de maior discricionariedade para resolver os conflitos de
interesses apresentados na realidade social. Em especial por compreender que tais conflitos
deveriam ser resolvidos por meio de uma ponderação de valores, as quais não poderiam ser
de caráter pessoal do julgador, mas contempladas no desejo da sociedade cultural alemã,
representada pelo intuito do legislador. A Jurisprudência dos Interesses teve suas bases
teóricas formuladas nos postulados de Ihering, depois de sua viragem, e no Movimento do
Direito Livre, conduzidas entre 1905 e 1914, por vários estudiosos, dentre os quais Philipp
Heck se destacou e foi responsável pela divisão entre a Escola do Movimento do Direito
Livre, passando a reconhecer a Jurisprudência dos Interesses, como “ala moderada” da escola
anterior. As discussões filosóficas foram em alguns aspectos falhas, porém surtiram efeitos
práticos que modificaram a forma de pensar nos Tribunais, mudando o foco da importância
das decisões para a real solução dos conflitos sociais, e fez abandonar as hipóteses acadêmicas
para se efetivar na sociedade. Demonstrará, por fim, a importância do sentimento evolutivo
vivenciado pelo povo alemão, como marco de manutenção da evolução do Direito e da
respectiva formação interdisciplinar.

Palavras-chave: jurisprudência; interesses; importância; filosofia; teoria do direito.

4. O PRINCÍPIO RESPONSABILIDADE COMO CONCEITO DA ÉTICA AMBIENTAL


CONTEMPORÂNEA

Autor: Helena Kugel Lazzarin

Resumo: A natureza nem sempre foi objeto de responsabilidade humana ou de um


comportamento ético. A ética tradicional dizia respeito somente às relações imediatas,
podendo ser traduzida pela máxima “faça aos outros aquilo que gostaria que fizessem a
ti”. Ninguém, então, seria julgado responsável pelos efeitos involuntários posteriores de
um ato. Esta situação se modificou de forma decisiva. A técnica moderna criou ações de
inédita grandeza, as quais a ética antiga não é capaz de enquadrar – o que importa, a partir
de então, é o fazer coletivo, no qual o ator, ação e efeito não são mais os da esfera mais
próxima. Isso impõe à ética, pela enormidade de suas forças, uma nova dimensão, nunca
antes imaginada, de responsabilidade. A primeira alteração nesse quadro, diz respeito à
vulnerabilidade da natureza provocada pela intervenção técnica do homem, conhecida a
partir dos danos já produzidos. Essa descoberta levou ao surgimento da ciência do meio

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ambiente e revelou que a natureza da ação humana foi modificada de fato, e que, a partir de
então, a biosfera do planeta se tornou um objeto pelo qual somos responsáveis. A natureza,
como responsabilidade humana é, assim, um novo objeto, sobre o qual uma nova teoria
ética deve ser pensada. O novo agir humano deve levar em conta a condição da natureza
extra-humana, a biosfera como um todo, não somente pela causa humana, mas por causa
própria e por seu próprio direito. Isso requer alterações substanciais nos fundamentos da
ética, pois se deve procurar não somente o bem do homem, mas também o bem de tudo
que é extra-humano. Vale dizer, é preciso ampliar o reconhecimento dos “fins em si” para
além da esfera do ser humano. Desse modo, obter uma projeção do futuro é um dever,
ainda que introdutório, da nova ética almejada. O dever seguinte se dá pela disposição de
se deixar afetar, de se solidarizar com a natureza e com as gerações vindouras. O objetivo
deste trabalho é apresentar um dos conceitos da ética contemporânea: a responsabilidade.
Para tanto, far-se-á uma análise da obra “O Princípio Responsabilidade: ensaio de uma ética
para a civilização tecnológica”, de Hans Jonas, aplicado à sensibilização voltada à Amazônia,
tanto no aspecto relativo ao meio ambiente natural quanto ao meio ambiente artificial. A
pesquisa é de cunho bibliográfico e se justifica pela atualidade e relevância do tema, pois é
uma obrigação prática perante a posteridade de um futuro, a fim de possibilitar a existência
de um mundo digno para as próximas gerações. Para que isso ocorra, é necessária uma
mudança paradigmática que atinja o padrão social de toda comunidade.

Palavras-chave: Responsabilidade. Ética. Meio ambiente.

5. SERVIÇOS ESTATAIS PRESTADOS À COMUNIDADE DE IGARAPÉ GRANDE, ANANINDEUA


(PA, BRASIL), E AS TRANSFORMAÇÕES DO SEU MODO DE VIDA RURAL: GARANTIAS DE
DIREITOS OU INSTRUMENTOS DE DOMINAÇÃO?

Autor: Thales Maximiliano Ravena Canete

Resumo: Este trabalho apresenta a comunidade ribeirinha de Igarapé Grande (Ananindeua,


PA, Brasil), descrevendo o modo de vida de seus moradores e o impacto que os serviços estatais
disponibilizados nas duas últimas décadas exerceram na cultura local, observando, ainda, em
que medida os direitos culturais dessa comunidade foram garantidos. O trabalho ressalta que
tais direitos culturais se expressam como um misto dos modos de criar, fazer, viver e existir
no mundo material e simbólico.Do ponto de vista metodológico, este trabalho expressa uma
pesquisa que buscouconstruir um ir e vir hermenêutico entre o Direito e a Antropologia,
assim como uma certa alteridade em face aos ribeirinhos de Igarapé Grande (GEERTZ, 1997,
1993; CARDOSO DE OLIVEIRA, 1998). O trabalho fez uso do método etnográfico, com estadias
prolongadas em campo, entrevistas com os diversos moradores da comunidade, especialmente
os mais velhos, criando um cenário de contraste entre as práticas sociais de relação com a
natureza do passado e do presente. Foi possível observar que o Estado não garante os direitos
culturais dessas comunidades de maneira plena, limitando-se à garantia de direitos relacionados
às condições materiais mínimas, obstacularizandoa reprodução cultural e simbólica por meio
de algumas políticas públicas voltadas especialmente à educação e saúde, somadas às políticas
de redistribuição de renda. Ainda que figurando como políticas de inclusão social, estas acabam

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funcionando como instrumentos de dominação cultural à medida que impactam e muitas vezes
obliteram a reprodução do modo de vida local (BOURDIEU, 1989).

Palavras chaves: Comunidade Igarapé Grande; direitos culturais; serviços estatais.

6. AS MUTAÇÕES CONSTITUCIONAIS E OS REFLEXOS NOS DIREITOS DA PERSONALIDADE

Autores: Frederico Marcos Kruger; Marta Beatriz Tanaka Ferdinandi

Resumo: Em dias atuais observamos as constantes modificações legislativas, no ordenamento


jurídico brasileiro. Os reflexos de tais mudanças constitucionais, melhor dizendo, as mutações
constitucionais, a priori, possuem uma relação estrutural com os direitos da personalidade,
pois, é um direito inerente a qualidade protetiva da pessoa humana, e porque não dizer,
direitos intrínsecos, assim, a este paper, não se findará, mas sim, irá provocar os operadores do
Direito a aprofundar estudos científicos, emergindo várias discussões e aonde irá disciplinar a
consciência da relação efetiva das Mutações Constitucionais com os Direitos da Personalidade.

Palavras Chave: Constitucional, Mutação, Personalidade.

7. ASSISTÊNCIA JURÍDICA INTEGRAL E GRATUITA E O ACESSO À JUSTIÇA

Autores: Aline Fatima Morelatto; Marcela Leila Rodrigues da Silva Vales

Resumo: O presente artigo objetiva indicar de forma, pontual e sistematizada, as diferenças


estabelecidas entre os institutos da Assistência Jurídica Integral e Gratuita e à Assistência Judiciária
Gratuita, face às impropriedades conceituais verificadas na vida e prática jurídica. O próprio
conceito de “hipossuficiência” merece reflexão, posto às múltiplas denominações e métodos
existentes no ordenamento e doutrina correlata. Tal fato implica em concessões inadequadas,
incertezas procedimentais e notória diminuição do Acesso à Justiça, motivos que elucidam a
importância da presente pesquisa. Da mesma forma, que a não compreensão dos institutos acima
nominados resultaria na inobservância da aplicação dos direitos fundamentais (observando-se as
respectivas gerações ou dimensões de surgimento) assegurados Constitucionalmente, dentre os
quais estaria o próprio Acesso à Justiça.

Palavras-chave: assistência; jurídica; judiciária; acesso; justiça.

8. A IMPORTÂNCIA DO SUJEITO POLÍTICO NA DEFESA DO MEIO AMBIENTE E DAS RELAÇÕES


DE CONSUMO: UMA REFLEXÃO DOS DIREITOS TRANSINDIVIDUAIS COMO FORMA DE
SUPERAÇÃO DA DICOTOMIA ENTRE O DIREITO PÚBLICO E O PRIVADO

Autores: Jaime Leonidas Miranda Alves; Francele Moreira Marisco

Resumo: 1 introdução. Os Direitos Transindividuais serão analisados frente a uma reflexão


calcada na importância do sujeito político na defesa destes direitos, em especial, a defesa
do meio ambiente e as relações de consumo. Procurar-se-á demonstrar a superação do

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direito público e do privado por estes direitos, pois são interesses coletivos que devem
reunir o sistema através da perspectiva civil-constitucional, centrado na pessoa humana
e nos seus valores existenciais, bem como no papel fundamental que o sujeito político
exerce na sociedade. 2 metodologia. A metodologia a ser utilizada será por meio de
pesquisa bibliográfica, procurando abordar os Direitos Transindividuais e suas espécies
(difusos, coletivos e individuais homogêneos). Dessa forma, buscar-se-á analisar a doutrina
e documentos históricos para procurar entender esta superação e a importância do sujeito
político na defesa destes direitos. 3 resultados e discussão. Com o desenvolvimento da
humanidade e o surgimento do que se costuma chamar de “sociedade de massa”, tornou-
se imperativo a proteção de novos direitos, bem como adequar estes direitos ao sistema
processual, para que pudesse ocorrer o atendimento dessa demanda, são os chamados direitos
transindividuais, conhecidos como por muitos autores de tutela coletiva. Inicialmente, se
fala na superação do direito privado pelo direito público, em razão da transição do Estado
Liberal para o Estado Social, com o crescente processo de industrialização e a consequente
massificação nas relações, mostrou-se insuficiente a igualdade formal imposta pelos códigos
frente à materialidade das desigualdades sociais, surgindo o Estado Social.

9. ACADEMIA LEGAL EN EL AMAZONAS: UN ESTUDIO SOBRE LA IMPORTANCIA DE LA


RELACIÓN ENTRE LA EDUCACIÓN Y LA EXTENSIÓN

Autores: Andreza do Socorro Pantoja de Oliveira Smith; Catherine Evany Carvalho de


Oliveira

Resumo: No presente trabalho analisa-se a relação entre ensino e extensão na formação


jurídica em uma cidade amazônica. O estudo parte da experiência vivida por uma das autoras
no Coro Cênico da Universidade da Amazônia, cujo objetivo era proporcionar a formação
global do estudante a fim de prepará-lo como Cidadão, por meio do desenvolvimento
de programa artístico Cultural com direcionamento das ações para as questões relativas ao
resgate e ao desenvolvimento da cultura e da arte na Amazônia, o que originou as reflexões
ora apresentadas acerca da importância da atividade na discussão transversal de temas como
direitos humanos, diferenças e diversidade. A importância do presente estudo é vislumbrada
quando se averigua que a extensão apoia o desenvolvimento do ensino na consecução do
projeto pedagógico do Curso de Direito da Instituição ora estudada, especificamente a
respeito do princípio do regionalismo, a fim de formar o bacharel conhecedor da realidade
da região em que ele vai atuar estando mais apto ao enfrentamento dos problemas sociais,
à observação dos relacionamentos sociais na busca por justiça na Amazônia, considerando a
diversidade cultural dos seus povos, saberes, costumes e tradições, os quais estão diretamente
relacionados com os objetivos do coro cênico. Assim, o presente trabalho visa expor a
importante articulação entre o ensino e a extensão universitária para melhor formar
profissionais do Direito, conhecedores de sua sociedade e da riqueza cultural presente nela.

Palavras-Chave: Direito, Ensino, Extensão universitária, Amazônia.

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11. ESCOLA HISTÓRICA E SEU AMBIENTE TRANSFORMADOR DO DIREITO

Autores: Marcela Leila Rodrigues da Silva Vales; Aline Fatima Marelatto

Resumo: O presente trabalho tem por escopo uma análise da raiz do desenvolvimento
interpretativo do direito sob a influência marcante da escola histórica, que serviu de base
e sustentação para a estruturação do direito positivo contemporâneo. Parte-se de uma
sintética demonstração panorâmica e genealógica da formação histórica do ordenamento
jurídico europeu, com ênfase na comparação e contribuição da escola histórica e pandectista
século XIX, como uma ordem lógica para a construção do modelo positivista de aplicação
do direito. Pondera ainda quanto aos motivos de não sustentação deste movimento e da
necessidade de complementação frente à falta de precisão conceitual e resolutividade das
lacunas legislativas apresentadas, mas, que sob sua base de sustentabilidade reconheceu-se
a cientificidade do direito com pressuposto na filosofia jurídica, bem como da inevitável
importância da existência e funcionamento de um sistema jurídico ordenado e a necessária
vinculação fática para a interpretação da norma jurídica.

Palavras-chave: método; histórica; pandectista; influência; positivismo.

12. DIREITO, JUSTIÇA E NORMA JURÍDICA NA TEORIA DE ALF ROSS

Autor: Marcelo Roberto Bruno Válio

Resumo: O presente trabalho tem como intenção analisar os principais conceitos estudados
pelo jurista dinamarquês Alf Ross em seu Livro Direito e Justiça, especialmente seus conceitos
a respeito do ordenamento jurídico, moral, direito, validade, norma, norma jurídica, vigência,
eficácia, direito subjetivo e justiça. Estuda-se a teoria do jurista escandinavo sob o prisma de
três esferas especiais: a justiça, o direito e norma jurídica. É analisado o conceito de Justiça
apresentado bem como sua conexão com o direito vigente, com intuito de demonstrar
que as ideias do autor encontra aplicação nos dias de hoje. Destaca-se a visão do direito
denominada realista, sendo que para o jurista dinamarquês, o direito posto está intimamente
ligado ao poder, e poder seria a legitimação que alguns têm de dirigir e disciplinar a conduta
dos outros. O direito seria o instrumento que legitima o poder dos que decidem o que é
direito e os que se submetem a essa jurisdição.

Palavras-chave: positivismo jurídico; teoria do direito; neoconstitucionalismo; realismo;


alf ross.

13. AS SEMENTES TRADICIONAIS COMO PATRIMÔNIO CULTURAL

Autor: Fabiano Buriol

Resumo: As sementes tradicionais – sejam elas domesticadas, coletadas e/ou cultivadas –


são fundamentais para a preservação dos modos de ser e viver dos povos e comunidades
tradicionais, e por isso merecem a qualificação de patrimônio cultural. Esses grupos sociais

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foram os grandes responsáveis pelo cultivo e domesticação de sementes, desde a era pré-
colombiana, e introdução das mesmas no consumo humano. Utilizam as sementes tradicionais
na forma de medicamentos, alimentos, ornamentos, utensílios domésticos e ritualísticos, fonte
de cores e uma infinidade de aplicações que revelam seu papel fundamental na preservação
do patrimônio cultural. O próprio conceito de povos e comunidades tradicionais contido no
art. 3º do Decreto n.º 6.040/2007 menciona a utilização de territórios e recursos naturais
- as sementes, por exemplo - como condição para sua reprodução cultural. Tanto é assim
que a perda de diversidade cultural entre os diferentes povos, em especial as comunidades
indígenas e locais, está intimamente ligada à perda da flora e da fauna (ANTUNES, 2005).
Associar a cultura à flora significa que a cultura é resultado dos bens naturais disponíveis para
utilização pelos seres humanos. Diversos povos desenvolveram conhecimentos tecnológicos
necessários à fabricação de objetos/utensílios, ao cultivo de certas variedades de alimentos,
métodos de armazenamento de sementes, transformação de recursos naturais em objetos
ou produtos usados em adornos ou enfeites, caça, pesca, cestaria, instrumentos musicais,
tecelagem, habitação e uso ritual (ATHAYDE, 2013). Assim, se diversas manifestações culturais
(alimentares, medicinais, ritualísiticas etc) dependem das sementes tradicionais para a sua
manutenção, ainda que essas sementes não sejam referidas expressamente como patrimônio
cultural pelo art. 216 da CF/88, sem elas diversas manifestações culturais não podem ser
realizadas e preservadas, merecendo, portanto, a mesma proteção. As sementes tradicionais são
perfeitamente categorizadas como bens culturais por seu valor de interesse ou de referência,
pois preenchem todos os requisitos do caput do art. 216 da CF/88: são bens portadores de
referência à identidade, à ação e à memória de diversos grupos sociais formadores da sociedade
brasileira – povos e comunidades tradicionais -, sendo utilizadas nas formas de expressão, nos
modos de criar, fazer e viver, nas criações científicas, artísticas e tecnológicas desses grupos
sociais. Diante desse aspecto cultural das sementes tradicionais os mecanismos de tutela do
patrimônio cultural podem ser aplicados a elas. Segundo a doutrina o tombamento “serve
também para tutelar os bens imateriais que integram o patrimônio brasileiro”, pois “é possível
que se tombe o suporte material de um bem imaterial” (SOARES, 2009, p. 311). Essa ideia é
perfeitamente aplicável às sementes tradicionais, na medida em que elas são bens materiais
indispensáveis para manifestações culturais relacionadas às formas de expressão, aos modos
de criar, de fazer e de viver, e para manifestações artístico-culturais (patrimônio imaterial).
A Convenção para a Salvaguarda do Patrimônio Cultural Imaterial, adotada pela UNESCO,
também reconhece uma profunda interdependência entre o patrimônio cultural imaterial e
o patrimônio material cultural e natural. As sementes tradicionais, mais do que bens culturais
materiais, são também elementos indispensáveis para a salvaguarda de manifestações culturais
imateriais, e por isso podem ser tombadas. O tombamento de sementes tradicionais poderia,
por exemplo, gerar restrições à utilização de áreas vizinhas àquela onde se encontram as
sementes, no que diz respeito aos agrotóxicos utilizados e possivelmente com relação às
culturas passíveis de cultivo. Por exemplo, poderia ser proibido o cultivo de espécie de milho
geneticamente modificada caso fosse comprovado que o seu pólen tivesse a capacidade de
interferir em espécies tradicionais de milho em determinada distância? Veja-se que no art.
18 do Decreto n.º 25/1937 versa sobre hipótese na qual a propriedade vizinha a um bem
tombado deve observar certas restrições para que não seja prejudicado o bem cultural. Além

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do tombamento, a realização de inventários e registros seriam atividades importantes na busca
por conhecimento organizado acerca das sementes tradicionais. Esses instrumentos poderiam
servir como procedimentos preparatórios ao tombamento, registrando a importância, a
história, os usos e onde são encontradas as sementes tradicionais. Mais do que a divulgação de
conhecimento sobre tais sementes, esse trabalho facilitaria a escolha das melhores formas de
proteção desses bens culturais e também viabilizaria uma melhor participação da sociedade.
Esses instrumentos também seriam relevantes para a tarefa de vigilância a ser desempenhada
pelo Poder Público, sem prejuízo da participação da sociedade. O efetivo exercício do poder
de polícia seria fundamental para a adequada proteção das sementes tradicionais, buscando
prevenir possíveis danos aos locais onde são encontradas.

Palavras Chave: Sementes tradicionais. Patrimônio cultural. Povos e comunidades tradicionais.


Tombamento.

14. A FUNÇÃO SOCIAL DA PROPRIEDADE E O MEIO AMBIENTE EQUILIBRADO

Autores: Carlos Alberto Ferri; André de Carvalho Okano

Resumo: A propriedade passou, ao longo da história, por diversas modificações. Ela, em seu
início, era comunitária, mas com o passar do tempo, ganhou contornos diferentes. Passou a
ter valor e se tornou objeto de poder e opressão. Com a Revolução Francesa, movimento
burguês liberal, a propriedade ganha proteção, e passa a ser um direito natural, agora declarado
e protegido. A Constituição Federal de 1988 protege a propriedade privada, como sendo um
direito individual, contudo, atribui a ela uma função social. O artigo 186 da Constituição
Federal de 1988 estabelece os requisitos para o cumprimento da função social da propriedade,
ou seja, ela deixa de ser totalmente um direito individual e passa a ter um caráter social. O que
se busca é atender o interesse social, e a propriedade rural pode colaborar com esse interesse
ao ser produtiva, atendendo diretamente aos fundamentos da República, e, especialmente
quando passa a buscar a proteção e preservação do meio ambiente evidencia seu caráter, que
antes, era totalmente individual, passando a ser, também social. Assim, a propriedade privada,
especialmente a propriedade rural, direito individual fundamental, supera o direito individual
quando busca a satisfação dos interesses sociais.

Palavras-chave: Propriedade; Propriedade rural; Função Social; Meio Ambiente.

15. A JURISPRUDÊNCIA DOS INTERESSES COMO ELEMENTO EVOLUTIVO DA FILOSOFIA E


TEORIA DO DIREITO

Autores: Aline Morelatto; Marcela Leila Rodrigues da Silva Vales

Resumo: O presente trabalho tem por escopo uma análise da raiz do desenvolvimento
interpretativo do direito sob a influência marcante da escola histórica, que serviu de base e
sustentação para a estruturação do direito positivo contemporâneo. Parte-se de uma sintética
demonstração panorâmica e genealógica da formação histórica do ordenamento jurídico

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europeu, com ênfase na comparação e contribuição da escola histórica e pandectista século
XIX, como uma ordem lógica para a construção do modelo positivista de aplicação do direito.
Pondera ainda quanto aos motivos de não sustentação deste movimento e da necessidade de
complementação frente à falta de precisão conceitual e resolutividade das lacunas legislativas
apresentadas, mas, que sob sua base de sustentabilidade reconheceu-se a cientificidade
do direito com pressuposto na filosofia jurídica, bem como da inevitável importância da
existência e funcionamento de um sistema jurídico ordenado e a necessária vinculação fática
para a interpretação da norma jurídica.

Palavras-chave: método; histórica; pandectista; influência; positivismo.

19.AMAZÔNIA OCIDENTAL - O OUTRO LADO DA CULTURA DO DESENVOLVIMENTO: ENTRE


O DITO E O VIVIDO

Autor: Aparecida Alzira Luzia Zuin

Resumo: A história da região amazônica sempre foi marcada por enfrentamentos de ordem
homem versus natureza. Por isso, para pensar a Amazônia é necessário analisar os seus aspectos
socioculturais, geográfico e ambiental. Considerada o Novo Mundo ou a terra mais nova do
planeta ou a região menos conhecida tornou-a para o homem um grande desafio, dados os
seus paradoxos. Nesse contexto para que os planos dos conquistadores ocorressem e pudessem
dar vazão aos seus interesses desenvolvimentistas, necessário se fez, na maior parte das vezes,
eliminar aqueles que resistiam não só à invasão de suas terras, mas também ao poder de
dominação; afinal, a floresta compacta e densa, os grandes rios, a rica fauna e flora acentuavam
a paisagem sedutora, cheia de promessas econômicas, convidando os conquistadores a se
considerem os únicos capazes e dotados de conhecimentos para a manutenção do espaço.
Para a análise dos fatores de dominação os estudos se voltam ao Estado de Rondônia.Tomado
como corpus o Estado de Rondônia é o lugar analisado por estabelecer uma “configuração
especial” no lugar onde ocupa (Amazônia Ocidental), na medida em que constitui dos
seus traços identitários mais particularizantes a ideia de desenvolvimento. Propõe, portanto,
para entender Rondônia, a concepção de cultura, como ainda a apresentação dos mitos
que fizeram parte do imaginário coletivo. Pelos vieses de Jürgen Habermas, Jesús Martin-
Barbero, Clifford Geertz, Claude Lèvy-Strauss, Djalma Batista e Neide Goldin, dentre outros,
as análises ainda se voltam para entender o modelo de lócus do desenvolvimento, lugar da
mediação e produtor de bens simbólicos.

Palavras-chave: Amazônia. Rondônia. Desenvolvimento. Cultura.

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2.3 – EIXO 3

CONFLITOS TERRITORIAIS, APROPRIAÇÃO DA NATUREZA E DE SABERES


TRADICIONAIS

Ementa: O modelo hegemônico de desenvolvimento, que acarreta a crise ecológica global


e configura a sociedade de risco, tem ameaçado de forma reiterada os territórios dos povos e
comunidades tradicionais na América Latina, atingidos por megaprojetos, atividades extrativas
e predatórias, como mineração, usinas hidroelétricas etc. A apropriação da natureza como
mercadoria busca suprimir o vínculo indissociável entre cultura e natureza, negando o direito
de coexistência de povos e suas múltiplas identidades étnicas, assim como de seus modos de
vida integrados com a terra e a natureza. Nessa mesma ótica, observa-se a apropriação dos
conhecimentos tradicionais associados à biodiversidade, subordinando-os aos interesses de
mercado, o que perpetua o colonialismo capitalista. Na busca da superação desse modelo,
vislumbram-se alternativas de desenvolvimento baseadas na perspectiva intercultural e
decolonial, inspiradas nas cosmovisões de povos originários, e no conhecimento e saber de
outros povos tradicionais de base extrativista e camponesa, sempre com formas coletivas de
relação com a terra e com a natureza, em uma produção solidária.

Coordenador:
Carlos Frederico Marés de Souza Filho (PUC/PR)

1. TECENDO SABERES: EXPERIÊNCIAS NO CAMPO DO DIREITO, DA ANTROPOLOGIA E DOS


CONHECIMENTOS TRADICIONAIS DE POVOS INDÍGENAS NO AMAZONAS

Autores: Sheilla Borges Dourado; Liana Amin Lima da Silva

Resumo: Cifford Geertz Afirmou que tanto o direito quanto a antropologia se entregam à
tarefa artesanal de descobrir princípios gerais em fatos restritos. Esse antropólogo considera
que ambos são “artesanatos locais”, pois funcionam à luz do saber local (GEERTZ, 1997, p.
249). Para ele, a análise de temas específicos por essas duas ciências – direito e antropologia
– exige um método que proporcione um “ir e vir hermenêutico entre os dois campos
(...), a fim de formular as questões morais, políticas e intelectuais que são importantes para
ambos” (GEERTZ, 1997, p. 253). O trânsito entre o teórico e o prático, defendido pelo
autor, pautou a relação entre o direito e a antropologia no planejamento e na execução das
oficinas propiciadas pela Secretaria dos Povos Indígenas do Amazonas a respeito da proteção
jurídica da biodiversidade e dos conhecimentos tradicionais de povos indígenas nesse estado.
Observamos que o direito, normativo e generalizante, é auxiliado pela antropologia na
visualização e na compreensão da diversidade social e também jurídica. Por meio do projeto
“Propriedade de saberes e afirmação da identidade étnica: interlocuções sobre marcos legais
de proteção dos conhecimentos tradicionais”, proposto e executado pela Secretaria de Estado
para Povos Indígenas (SEIND), foram realizadas em 2013 e 2014, nove oficinas nos municípios
de Tabatinga, Rio Preto da Eva, Humaitá, Parintins, Atalaia do Norte, Lábrea, São Paulo de

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Olivença, Eirunepé e São Gabriel da Cachoeira, no Amazonas. O projeto contou com a
participação de agentes sociais que vêm se destacando à frente do movimento indígena local
e nacional, lideranças, professores, jovens e anciãos, representantes dos povos Apurinã, Baniwa,
Baré,Desana,Diahoi,Hexkaryana,Jarawara,Kaixana,Kambeba,Kanamary,Kokama,Korripako,
Marubo, Matis, Mayoruna, Parintintin, Paumari, Piratapuia, Satere-Mawe, Tariano, Tenharim,
Ticuna, Tukano, Tuyuka e Wanano. Esta experiência proporcionou um trabalho conjunto,
contando com uma equipe de advogadas e antropólogas, buscando o diálogo científico e
interagindo com outras formas de saber, correspondentes aos conhecimentos tradicionais
dos povos indígenas. A valorização desses conhecimentos assim como o reconhecimento da
sua cientificidade fazem parte da pauta de demandas dos movimentos indígenas, que lutam
contra o pensamento colonizador e em prol dos seus saberes, historicamente subalternizados.
A valorização econômica e ambiental dos conhecimentos tradicionais se deu a partir da
adoção da Convenção sobre Diversidade Biológica em 1992 pelo Sistema das Nações
Unidas. Recentemente no Brasil, em 20 de maio de 2015, foi promulgada a lei n. 13.123 que
regulamenta a CDB no país e substituído a Medida Provisória n. 2.186-16, a qual vigorava
desde o ano de 2001. Para além das frustrações quanto ao conteúdo da nova lei, elaborada
pelos Ministérios e que atende interesses das empresas, do governo e de acadêmicos, mas não
de povos e comunidades tradicionais, estes (denominados de “provedores” ou “detentores
de conhecimento”) ressentem-se do descumprimento da obrigação da consulta prévia
relativa a qualquer medida legislativa que possa afetá-los diretamente, prevista no artigo 6º da
Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT).

Palavras-chave: Direito e Antropologia. Conhecimentos Tradicionais. Povos Indígenas.


Proteção Jurídica. Convenções Internacionais.

2. ORIGEM, PERCEPÇÕES E CONFLITOS SÓCIO-AMBIENTAIS: UMA VISÃO DA ECO-REGIÃO


EJE CAFETEIRO – COLÔMBIA

Autora: Claudia Alexandra Munévar Quintero

Resumo: Este artigo pretende explicitar as experiências empíricas que empreendemos quando,
na pós-graduação, nos permitimos articular o saber jurídico com o saber antropológico e
tivemos a curiosidade de realizar pesquisas de campo, em diferentes áreas e a partir de distintas
perspectivas, com o intuito de compreender melhor o campo jurídico e os seus fenômenos.
Muito embora sejamos formadas em Direito, pós-graduadas em Direito, Professoras de Direito
e Advogadas de contencioso cível, ainda assim, manifestávamos inquietude em relação aos
estudos meramente dogmáticos dos fenômenos jurídicos e, não apenas por acaso, mas também
por determinação, decidimos mergulhar na interdisciplinaridade e tentar compreender formas
novas de compreender velhos institutos jurídicos. Esta experiência empírica revelou desafios
e vivências que não calculamos quando decidimos articular o Direito e a Antropologia e foi
especialmente profícua não apenas para os nossos objetos de pesquisa, mas também para as
nossas vidas profissionais e para a forma como passamos a enxergar o Direito e os fenômenos
jurídicos. A proposta deste paper é explicitar os nossos caminhos e, a partir daí, tentar extrair
- dos relatos dessas experiências – reflexões metodológicas que nos permitam pensar sobre

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o campo jurídico e sobre o quanto ainda precisamos caminhar para construir pontes entre o
Direito e a Antropologia.

Palavras-chave: Interdisciplinaridade; Dogmática jurídica; Antropologia.

3. CONSERVAÇÃO E DESENVOLVIMENTO ECONÓMICO DESDE A PERPECTIVA DOS


MORADORES DA ZONA DE AMORTECIMENTO DO PARQUE ESTADUAL TURÍSTICO DE ALTO
RIBEIRA – PETAR-, IPORANGA, SÃO PAULO

Autora: Gricelda Lily Gutierrez Alvarez

Resumo: No presente documento presentara-se como os jovens, estudantes de ensino meio


entre 15 e 17 anos, moradores de comunidades dentro e ao redor do PETAR, enxergam seu futuro
em relação a opções de estudo e emprego. Relacionando-o com a percepção dos moradores
da cidade de Iporanga que consideram a criação do Parque como o maior obstáculo para o
desenvolvimento econômico do lugar. Desde que as leis ambientais têm normas restritivas do uso
agropecuário do solo e de práticas extrativas dos recursos naturais. Atividades ambas praticadas
antigamente pela população que ao ver coartadas suas atividades tradicionais de geração de
renda têm optado por migrar, subsistir com ajudas governamentais ou se dedicar a atividades
ilícitas de corte de palmito. Apresentando constantes conflitos com a administração do parque.

Palavras chaves: parques, moradores, conflitos.

4. ENTRE CONFLITO E COOPERAÇÃO: REFLETINDO SOBRE PRESERVAÇÃO AMBIENTAL E


JUSTIÇA SOCIAL NO PARQUE NACIONAL DA CHAPADA DIAMANTINA / BAHIA – BRASIL

Autor: Maria Medrado Nascimento

Resumo: Este artigo visa apresentar resultados preliminares de pesquisa de doutorado


que vem sendo desenvolvida pela autora sobre vinte comunidades tradicionais localizadas
no interior do Parque Nacional da Chapada Diamantina, no Brasil. Ameaçadas de serem
realocadas de seus territórios, conforme orientação da legislação ambiental brasileira, a
classificação como “tradicionais” se configura como uma ferramenta na luta pela permanência
em seus territórios, uma vez que é reconhecida pela Constituição Federal Brasileira de 1988
e fortalecida pela Política Nacional de Povos e Comunidades Tradicionais adotada em 2007.
Procurando uma reflexão mais apurada sobre esse tema, será apresentado um diagnóstico
socio-ambiental destas populações, identificando os elementos de conflito e de cooperação
que permeia as relações entre populações tradicionais e seus modos de vida e o órgão gestor
da unidade de conservação que visa atender as demandas de proteção ambiental. Por fim,
pretende-se confrontar o caso brasileiro com outras experiências na América Latina das
possibilidades de gestão integrada das áreas de preservação ambiental por meio das reflexões
sobre justiça social em um mundo globalizado.

Palavras-Chave: comunidades tradicionais, parques nacionais, conflito e cooperação.

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5. TERRA INDÍGENA EM ZONA DE PODER: DETERMINAÇÃO LEGAL E PRÁTICA
INSTITUCIONAL NO BRASIL

Autor: Maria Lucia Brant de Carvalho

Resumo: Objetiva-se reavaliar, sob a luz do direito constitucional, o processo de desterramento


e reassentamento da população indígena Avá-Guarani, habitante do Oco’y-Jacutinga, oeste
paranaense. Seu território foi invadido pelo INCRA em 1973, sendo deslocados para pequena
parcela do território indígena ás margens do rio Paraná. Essa área é inundada pela Usina
Hidrelétrica de Itaipu, em 1982. O INCRA, em 1973, conhecia o traçado da área que seria
inundada. Assim deu-se a perda total do território indígena. Os desterramentos foram ilegais.
Reassentados em 1982 na Terra Indígena do Oco’y, São Miguel do Iguaçu, Paraná, o local
apresenta-se muito menor e não há ambiente semelhante ao território anterior, questões
que devem ser garantidas por lei em caso de desterramento. A população indígena encontra-
se confinada a um exíguo espaço territorial o qual é insuficiente e inadequado para sua
sobrevivência, o que novamente fere a lei. Apesar da produção de Laudos Antropológicos
oficiais e Tese à respeito da questão, seus direitos territoriais e ambientais não são reconhecidos
pelos poderes executivo e judiciário brasileiros.

Palavras-Chave: Direito, Guarani, Paraná, Itaipu, Ilegalidade.

6. MARÃIWATSÉDÉ: A TRAJETÓRIA JURÍDICA DE RECONQUISTA DO TERRITÓRIO


XAVANTE NO NORTE ARAGUAIA

Autor: Kennia Dias Lino

Resumo: No Brasil, a aplicação da política integracionista objetivou a assimilação do


“índio” à cultura não-índia, de não mais ser índio, e viver numa sociedade “civilizada”.
Nosso ordenamento jurídico por muito tempo foi um retrato desse processo histórico
desde 1500. Essa política integracionista foi consagrada social e juridicamente na ditadura
militar que implementou um projeto de ocupação das terras da Amazônia com a finalidade
geopolítica de desenvolvimento e defesa da soberania brasileira. Na fronteira amazônica,
foram atingidos por essas políticas os índios e os camponeses, sobretudo, na região do
Araguaia. Os Xavante impactados diretamente foram transferidos e perderam seu território
conhecido como Marãiwatsédé. Novos tempos surgiram com a Constituinte de 1988 que
garantiu direitos à terra e esse direito surge como fator de revitalização e manutenção da
cultura indígena. Contudo, os Xavante travaram um luta de cinquenta e cinco anos para
a retomada de seu território e o embate aconteceu, primordialmente, na seara jurídica que
permitiu, inicialmente, a retirada e após, longos anos reconheceu e devolveu o território aos
Xavante. Nesses tempos de discussão sobre supressão de diversos direitos já conquistados,
conhecer a trajetória jurídica da retomada desse território se mostra de suma importância
para refletir sobre a efetivação dos direitos indígenas garantidos na Constituição Federal de
1988. Das guerras travadas no passado às reivindicações no cenário nacional e internacional,
atualmente, a luta e a resistência contra as forças colonizadoras e neocolonizadoras estão

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latentes na sobrevivência dos povos indígenas e na vontade de construção de uma sociedade
mais humana e plural.

Palavras-Chave: Território. Trajetória Jurídica. Reconquista. Xavante. Norte Araguaia.

7. COMUNIDADES E POVOS TRADICIONAIS E CONFLITOS TERRITORIAIS: O PAPEL DO


SOCIOAMBIENTALISMO NO COMBATE AO RACISMO E À INJUSTIÇA AMBIENTAIS

Autores: Bruna Balbi Gonçalves; Andrew Toshio Hayama

Resumo: A redemocratização e o reconhecimento, a partir da Constituição de 1988, de


direitos territoriais e socioculturais não redundaram na libertação e emancipação dos povos
e das comunidades tradicionais que compõem o Estado pluriétnico brasileiro. Por um lado,
estes vêm sendo invisibilizados pela sociedade dominante, que fecha os olhos ao culturalmente
diferente, pressupondo uma homogeneidade que coaduna com a lógica capitalista. Dessa
forma, enfrentam o mito moderno da natureza intocada, que pauta o saber e a prática
ambientalistas, e políticas ambientalmente racistas, em razão da condição etnicamente
diferenciada e da vulnerabilidade socioambiental que apresentam. Assim, temos o abandono
pelo poder público e pela sociedade envolvente que beira o etnocídio, ao negar condições de
subsistência e ao inviabilizar projetos autônomos de etnodesenvolvimento, política que vem
se configurando como estratégia consciente de vencer as comunidades pelo cansaço e pela
desesperança. Em outra face clássica, mas igualmente perversa, as comunidades tradicionais
deixam de ser invisíveis quando figuram como obstáculo ao avanço do agronegócio e dos
megaempreendimentos (sobretudo barragens e mineração), que percebem sua existência ao
se deparar com as riquezas naturais nos territórios que ocupam. Amparados pelo poder estatal,
os projetos exploratórios são implementados de forma irregular e autoritária, ignorando
a necessidade de consulta prévia às comunidades a serem atingidas, transformando-as,
antes guardiãs das florestas, em refugiadas ambientais, já que destroem suas terras e rios,
impossibilitando a permanência nos territórios usurpados. Não bastasse, tem-se ainda o,
cada vez mais avassalador, assédio de interesses econômicos e de grandes ONGs, nacionais e
transnacionais, para a concretização de mecanismos de financeirização da natureza e para a
consolidação do mercado verde, nova roupagem do velho colonialismo. Tais mecanismos se
apropriam do controle e da gestão de recursos naturais, fragilizando a soberania, e produzindo
refugiados da conservação, outra categoria de comunidades tradicionais expulsas de seus
territórios ancestrais. Neste contexto, e sem olvidar a dinâmica capitalista, incompatível com
uma democracia substantiva calcada na soberania popular e no respeito a todas as formas de
vida, o presente artigo se propõe a responder de que modo o socioambientalismo poderia
significar resistência e responder a estes desafios.

Palavras-chave: Barragens. Direito socioambiental. Natureza. Povos tradicionais. Racismo


ambiental. Unidades de conservação.

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8. TERRAS E COMMONS: ESTRATÉGIAS E DESAFIOS DAS COMUNIDADES PARA O CASO
COLOMBIANO

Autores: Yulieth Teresa Hillón Veja; Andrés Felipe Jiménez Gómez

Resumen: Existen fuertes conexiones entre concepciones hegemónicas de desarrollo,


violencia e inequidad social. El paradigma de desarrollo predominante produce y resignifica
territorios y los usos que de ellos se hacen, generando relaciones asimétricas (políticas,
económicas, culturales, sociales) y antagónicas entre los actores que confluyen en un espacio
determinado (comunidades locales, entes estatales, grupos armados, transnacionales, ONGs…).
La expresión más visible de estas desigualdades y choques se presenta en zonas rurales donde
se implementan megaproyectos de desarrollo por el estado y/o las empresas privadas. Esas
áreas rurales son habitadas tradicionalmente por comunidades locales que tienen una relación
especial con sus comunes (agua, biodiversidad, paisaje, memoria, aire, bosques…) de la que
dependen sus modos y medios de vida.A través de diferentes prácticas de protección y cuidado,
ellas han configurado su territorio y establecido o acordado diversas estructuras organizativas
(zonas de reserva campesinas, resguardos indígenas, consejos comunitarios, etc.) y regímenes
de manejo comunitario. La llegada de proyectos extractivos, con cosmovisiones específicas
del desarrollo, convierte estos lugares en campos minados en el que se determina, incluso,
la existencia misma de los actores. Este último punto es evidente en la desestructuración de
comunidades y comunalidades, la generación de conflictos internos y las dificultades en la
producción y el mantenimiento de lo común. De esta forma, la definición y reestructuración
del territorio, los derechos sobre la tierra, el uso de los comunes, la aparición, desaparición o
el reposicionamiento de ciertos actores, el fortalecimiento de determinados discursos sobre el
desarrollo, son los elementos que están en el campo de juego. Dado que las poblaciones locales
son el eslabón más débil en estas pugnas, esta ponencia busca analizar algunas herramientas que
han utilizado algunas comunidades colombianas intentado visualizar, reflexionar y consolidar
estrategias sostenibles de apropiación y uso de sus territorios y de los comunes con los que
se relacionan y de los que dependen sus formas de existencia. Así mismo, intenta resaltar las
dificultades que enfrentan en el sostenimiento de sus modos de vida y las cosmovisiones
que en estos aspectos tienen en el escenario descrito. Lo anterior en el entendido que la
visibilización y el fortalecimiento de las prácticas comunitarias alrededor del territorio y de lo
común y el reconocimiento de las pluralidades jurídicas que ellas generan son herramientas
fundamentales para que las comunidades puedan interactuar con otros actores y sobrevivir.

Palabras-clave: territorio, comunes, estrategias comunitarias, conflictos socioambientales.

9. PROBLEMÁTICA NA JUSTICIABILIDADE DOS DIREITOS TERRITORIAIS DOS POVOS


INDÍGENAS E SUA RELAÇÃO COM O DIREITO À CONSULTA: O CASO DO MÉXICO.

Autor: Magdalena Gomez Rivera

Resumen: Se mostrará um panorama del debate sobre el vínculo tierra-territorio la


normativa vigente en relación a pueblos indígenas. Asimismo, dentro de la hegemonia
neoliberal se ubicarán las normativas vigentes en matéria de hidrocarburos y minería y su

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contraste de despojo en el ámbito indígena, analizando la ventana de oportunidad que abrió
la incorporación de los tratados internacionales al orden interno. El derecho a la consulta
será la puerta de entrada para acercarse a los casos en que se violenta el derecho al territorio
y se manipula el derecho a la consulta. Para ello se identificarán posturas, mecanismos y
resoluciones en los três poderes del Estado. En la conclusión se enunciarán escenarios para los
pueblos indígenas en el futuro inmediato colocando la reflexión sobre las condiciones para
que se exprese el derecho en lógica autonómica y emancipatoria.

10. LA RED AGENDA CARIBE Y LA ESCUELA DE SABERES ANCESTRALES: SU APORTE A LA


PAZ TERRITORIAL

Autores: Amaury PadillaCabarcas, Zoraida CastilloVarela e Eduardo Forero Lloreda

Resumen: Esta presentación tiene como propósito fundamental compartir la experiencia


de la Red Agenda Caribe como un espacio regional, que por más de 10 años, ha agrupado
a comunidades indígenas, afrocolombianas y campesinas, con el fin de promover propuestas
colectivas a las problemáticas que enfrentan las comunidades y organizaciones al defender la
tierra y el territorio en médio múltiples violencias. Considerando, por un lado el impacto del
conflicto armado con sus consecuentes violaciones a los derechos humanos, y por el otro, la
riqueza y la gran diversidade cultural de la región Caribe colombiana, que se expresa en la
variedad de formas de ver el mundo, de comprender las relaciones sociales, los conflictos, la
vida comunitaria y sus vínculos con el territorio y naturaleza, la Red Agenda Caribe, ha venido
fortaleciendo el tejido social, empoderando el liderazgo colectivo y recuperando los saberes
ancestrales y locales con el fin de aportar a la exigibilidad y respeto de los derechos colectivos e
individuales de las comunidades afrocolombianas, indígenas y víctimas del conflicto armado del
Caribe colombiano. La presentación dará cuenta de los procesos y estrategias desarrolladas por la
Red Agenda Caribe para fortalecer las iniciativas que han surgido en la región Caribe en defensa
de la vida, los derechos humanos, la paz y la democracia. Se destacará el aporte de la Escuela de
Saberes Ancestrales de la Red Agenda Caribe como espacio de diálogo intercultural e itinerante,
en el que participan organizaciones sociales, de víctimas del conflicto armado y de DDHH,
académicos y comunidades afro-caribeñas, indígenas, campesinas vinculadas a esta Red. A partir
del intercambio de experiencias, de la comprensión de los valores identitarios de la cultura
Caribe y de la recuperación de los saberes ancestrales, tradicionales y locales se han identificado y
fortalecido propuestas de desarrollo, de paz y de incidencia política respetando e incorporando la
cosmovisión e identidad propia para que las comunidades puedan permanecer en sus territórios
en condiciones de dignidad y sostenibilidad. Frente a los acuerdos parciales de paz adelantados
en La Habana, Cuba, entre la guerrilla de las Fuerzas Revolucionarias de Colombia-Ejército del
Pueblo (FARC-EP) y el Gobierno Nacional, diversos sectores de la sociedad civil han expresado
su preocupación sobre cómo se cumplirá lo acordado a los territorios. Unos sectores afirman
que es necesario profundizar la institucionalidad, la inversión social, garantizar los derechos, la
defensa de la economía campesina y el enfoque de género, mientras que otros, los más críticos,
opinan que los movimientos sociales deberían definir su propio camino hacia paz, porque las
negociaciones en La Habana no están planteando las trasformaciones estructurales por las que

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han luchado. A partir de la experiencia acumulada de la Red Agenda Caribe y de la Escuela de
Saberes Ancestrales se pretende aportar a este debate y dar algunas luces sobre lo que significa
la paz territorial considerando las realidades que viven las comunidades campesinas, indígenas
y afro-caribeñas, así como analizar los principales retos que enfrentan los territoritos y sus
pobladores para alcanzar una paz sostenible en la región Caribe.

11. A AGROECOLOGIA COMO INSTRUMENTO DE EMANCIPAÇÃO SOCIAL E DE JUSTIÇA


SOCIOAMBIENTAL DAS COMUNIDADES TRADICIONAIS E INDÍGENAS NO BRASIL

Autores: Nadyne Pholve Moura Batista; Danielle Akemi Saito Kuroishi

Resumo: Este trabalho propõe a análise crítica da ocupação territorial brasileira para a
compreensão do processo de domínio pela exclusão e desigualdade, conjugada com o
domínio do conhecimento-regulação e sua cientificidade, impostos às sociedades tradicionais
e indígenas, causando-lhes o epistemicídio e pondo-os reféns do capitalismo global e do
modo de viver ocidental. Ainda, objetiva ponderar os instrumentos jurídicos disponíveis à
garantia da (re) apropriação dos saberes indígenas e tradicionais, dominados para oferecer
conhecimentos e recursos transformados em bens econômicos em benefício exclusivo da
indústria e do agronegócio. Por fim, pretende propor a agroecologia como instrumento
tangível de emancipação social dessas comunidades, de efetivação do pluralismo jurídico e de
saberes, bem como de concretização justiça socioambiental no território brasileiro.

Palavras-chave: ocupação territorial brasileira; sociedades tradicionais e indígenas;


agroecologia; emancipação social; justiça socioambiental.

12. MRN E QUILOMBOLAS: REFLEXÕES ACERCA DO PROCESSO DECISÓRIO NAS MEDIDAS


COMPENSATÓRIAS REALIZADAS NA FLONA SARACÁ-TAQUERA

Autores: Isabel R. C. Caetano da Silva; Philippe Seyfarth de Souza Porto

Resumo: O presente trabalho buscou sistematizar e analisar questões relevantes envolvendo


a atividade de mineração de bauxita realizadas pela Mineração Rio do Norte S.A. (MRN) na
Floresta Nacional de Saracá-Taquera (Pará), incluindo as medidas compensatórias em função
de sua atividade de mineração de bauxita, abordando o conflito socioambiental existente
entre os atores identificados no trabalho de campo. Percebemos um afastamento entre a
MRN, as diferentes comunidades quilombolas e as instituições estatais no processo decisório
sobre o território quilombola, localizado na FLONA. Quando a mineradora iniciou estudos
geológicos necessários para a exploração do Platô Cruz Alta, ela o fez através de consulta ou
informação prévia questionável no que tange os quilombolas. Nessa medida, perpassaremos
aspectos conceituais e dispositivos acerca das medidas compensatórias, do licenciamento
ambiental e das unidades de conservação, inseridos num contexto de modernidade tardia e
da justiça ambiental, para alcançar uma reflexão crítica sobre o caso em análise.

Palavras-chave: Unidades de conservação; medidas compensatórias; populações tradicionais;


quilombolas.

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13. ESTADO - REGIÃO: CAPITAL E LUTAS SOCIAIS NA DISPUTA DO TERRITORIO.

Autor: Carlos Alberto Dávila Cruz

Resumen: No obstante a la crisis social del continente latinoamericano, la globalización


consolida el modelo neoliberal como instrumento económico y político que impone
medidas para que los países que se encuentran en vías de desarrollo lleguen al nivel más alto
de producción económica, recreando profundos cambios en las diferentes escalas del orden
internacional y nacional. Desde los años 90 Colombia se encuentra inmersa en el proceso
de globalización, con el transcurrir del tiempo, la mayoría de los impactos del modelo
socioeconómico que se impone como instrumento en el desarrollo del Estado resultan
negativos, lo cual es producto de la inexperiencia de los distintos sectores políticos, económicos
y sociales para afrontar la expansión del comercio internacional y confrontar dicha expansión
bajo el concepto de competencia. El intento dialógico que dispone el modelo neoliberal con
las diferentes escalas del territorio del Estado-nación, no solo pretende organizar un orden
territorial, sino revelar nuevas lógicas de acumulación del capital. Los cambios en los órdenes
territoriales del Estado-nación, se manifiestan de múltiples maneras, desde la creación de
las tecnópolis, así como otros tipos de lugares intencionalmente localizadas con el fin de
realizar avances en la construcción de poderes económicos territoriales, lo que ha llevado a
la emergencia de verdaderos Estados-región. La connotación de Estado-región es tomada
como circuitos territoriales de carácter internacional que basan sus relaciones en la creación
de estructuras económicas, fragmentado los antiguos Estados-nación. En el contexto del
neoliberalismo y la glocalización, la región adquiere una forma distinta de orden territorial,
basado en la competencia, pues como es lógico las regiones con mayor dotación de factores
competitivos, recrean territorios propicios en las nuevas redes globales, por lo tanto las
estructuras regionales y urbanas de estas regiones son sustituidas por modos de producción
del capital nacional e internacional basados en la tecnología, innovación y financiación,
reestructurando los escenarios locales como municipios, departamentos, ciudades, comunas
y barrios, dotando sus territorios de un valor emergente basado exclusivamente en el
desarrollo del capital. Dentro de la perspectiva teórica de la competencia regional, se concibe
el desarrollo económico, como la única forma de alcanzar el desarrollo integrado, lo cual
significa que este lleva al desarrollo territorial, dentro del cual confluyen las dimensiones
políticas, sociales, económicas y ambientales. Desde esta perspectiva, pensar el desarrollo
territorial producto de la globalización, supone partir de la existencia de un orden territorial
impuesto por los poderes hegemónicos, que en este caso serían los poderes del capital,
quienes a su vez son los que crean la articulación sistémica entre dichos poderes y los actores
que viven dentro de los territorios locales, esto demuestra que las políticas de negociación
dentro de los Estados-región, son dadas en una sola dirección que se instaura mediante la
instrumentalización del territorio y de los sujetos que en él habitan, por consiguiente el
territorio ya no sería un factor que puede o no incorporarse en las estrategias de un desarrollo
concertado, sino en un mero instrumento que define el espacio físico de la economía nacional
con una alta influencia en la economía internacional.

Palabras-clave: Estado-región, luchas sociales, disputas territoriales.

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14. A FACE SOCIOAMBIENTAL DA POLÍTICA NACIONAL DA AGRICULTURA FAMILIAR NO
BRASIL: POVOS TRADICIONAIS

Autor: Flavia Donini Rossito

Resumo: O território brasileiro é formado por uma heterogeneidade fundiária que vem
acompanhada de diferentes formas culturais, sociais e econômicas de relação com a terra e com
os recursos naturais. Planejar e executar políticas agrícolas que atendam a diversidade fundiária
e cultural no Brasil, ainda é um desafio para o Estado em sua atuação por meio de políticas
públicas. Entretanto, a problematização surge com a iniciativa da lei brasileira de incluir os
povos tradicionais no desenvolvimento da agricultura familiar. O presente artigo tem por
objetivo analisar o caráter socioambiental que a política agrícola assume diante da diversidade
fundiária e cultural existentes no Brasil. A partir de regras hermenêuticas, analisamos a Lei nº
11.326 de 2006 e sua aplicação aos povos tradicionais. Concluímos que o Estado, ao planejar a
política nacional da agricultura familiar inclui os povos indígenas e as populações tradicionais,
conforme indicativa expressa do artigo 19 da Convenção 169 da OIT, mas sem que existam
condições favoráveis à execução dessa política, a começar pelo fato de propor uma forma
hegemônica de desenvolvimento agrícola aos povos tradicionais, seja por meio da ação Estatal
seja pelo caráter de universalidade que assume a lei e o Direito no Brasil.

Palavras-chave: Política Agrícola. Agricultura Familiar. Etnodesenvolvimento. Povos


Tradicionais.

15. “DE POUCO A POUCO A GENTE VAI ACOSTUMANDO”: MEMÓRIA E PRODUÇÃO DA


LOCALIDADE EM UMA COMUNIDADE REASSENTADA PELA UHE IRAPÉ-MG.

Autor: Amaralina Maria Gomes Fernandes

Resumo: pesquisa tem como objetivo analisar as transformações impostas ao modo de vida
de grupos que foram compulsoriamente deslocados e reassentados para a construção da Usina
Hidrelétrica de Irapé, Vale do Jequitinhonha – Minas Gerais. O deslocamento provocado
pela iminência do alagamento da barragem promoveu uma ruptura involuntária que teve
consequências profundas sobre identidades, costumes, formas de uso e apropriação do espaço
e a organização social das comunidades atingidas. Buscou-se então compreender, por meio
dos relatos sobre a resistência ao projeto, o processo de negociação, as memórias da mudança
e observação das práticas estabelecidas no novo território, como se deu o ajuste de suas vidas
mediante as mudanças não só de ambiente, como das relações sociais que os envolviam e
dos sistemas produtivos que foram acionados para garantir a reprodução social do grupo. As
contradições entre “o planejado e o vivido” por essas famílias também nos leva a questionar
o programa de reassentamento da UHE Irapé, promovido como um “programa modelo”, e as
frequentes promessas de desenvolvimento pretensamente trazidas por grandes projetos como
este. Para tal foi realizada viagem de campo para a comunidade rural de Riacho da Porta,
grupo que foi reassentado pela hidrelétrica de Irapé, momento em que pode ser observado
duas forças contraditórias mas que se complementam na readequação da comunidade a nova
realidade: por um lado, o enfraquecimento de algumas práticas tradicionais de organização

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do espaço, das redes de trabalho, de laços de solidariedade; por outro lado os esforços de
apropriação das casas, das novas dinâmicas produtivas colocadas pelas diferenças ambientais
e das reprodução dos laços e práticas religiosas. A interação dessas duas forças revelam a
complexidade das dinâmicas desencadeadas pelo deslocamento forçado e os esforços de
“acostumar” e se apropriar do novo território.

Palavras-chave:Processos de territorialização,deslocamento compulsório,Vale do Jequitinhonha.

16. CONEXÕES E RUPTURAS ENTRE DIREITO E CULTURA: UM DIÁLOGO (IM)POSSÍVEL?

Autor: Allan Sinclair Haynes de Menezes

Resumo: O presente texto procura discutir as possibilidades e os reflexos das relações existentes
entre Cultura e Direito a partir das (im)possiblidades por parte dos paradigmas da normatividade
estatal. De que forma se dá este conflito envolvendo populações tradicionais, grupos quilombolas
e indígenas no tocante a sua reprodução cultural e seus lugares tradicionalmente ocupados.
Procura-se pensar no encontro de uma visão sobre o tradicional, dentro de um perspectiva
cultural, com o direito, em situações de conflito que envolvem a proteção da natureza e a
reivindicação de direitos. Para isso pretendo abordar o caso da Reserva Extrativista Marinha
de Itaipu, Unidade de Conservação de Uso Sustentável voltada para a proteção de um grupo
de pescadores tradicionais artesanais. E o caso do Quilombo do Sacopã, na lagoa Rodrigo
de Freitas, em que uma série de conflitos ao longo do tempo colocou em questionamento
as condições de possibilidade do exercício de direitos culturais. Estas relações entre Direito e
Cultura geram reflexões acerca do (des)encontro entre estas múltiplas perspectivas sobre um
lugares e direitos que nem sempre encontram diálogos fáceis de serem construídos.

Palavras Chave: Direito; Cultura; Populações Tradicionais.

17. RECONHECIMENTO E REDISTRIBUIÇÃO NO BEIRADÃO: AS COMUNIDADES


TRADICIONAIS DO RIO AMAZONAS

Autores: Isabela do Amaral Sales; Maria Claudia Jatahy de Paula Nunes

Resumo: O modelo de justiça social proposto por Fraser (1996) passa, basicamente, por duas
vertentes de realização da justiça, qual sejam, a redistribuição e o reconhecimento.A redistribuição
está associada à eliminação da injustiça econômica, cristalizada na exploração do trabalho, na
marginalização e na privação, enquanto o reconhecimento se aproxima das questões de identidade,
diferença e representação. No contexto da globalização, todavia, está-se a construir uma nova
gramática de reivindicação política, cujo centro de gravidade foi transferido da redistribuição
para o reconhecimento (FRASER, 2002, p.9). Essa passagem se evidencia de forma cada vez mais
nítida nas relações e processos que vem sendo construídos pelas comunidades tradicionais do
beiradão do rio Amazonas na luta pela posse de seus territórios. Localizadas na zona rural de
Manaus, capital do Estado do Amazonas, às margens do rio Amazonas, a partir da região conhecida
como Lago do Puraquequara, há décadas as mais de dezenove comunidades de ribeirinhos e

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pescadores se articulam para garantir a posse de suas terras, doadas pelo Estado do Amazonas
ao Exército Brasileiro na década de 1970. Ao longo desses anos, as comunidades já sofreram
toda sorte de constrangimentos, como o impedimento de abertura de roçados, e até mesmo a
ocorrência de uma morte causada por uma das bombas utilizadas nas instruções militares. Além
disso, o acesso a serviços públicos básicos, como o fornecimento de energia elétrica, passou a ser
condicionado à regularização da ocupação, deixando-as à mercê das condições impostas pelo
Exército Brasileiro. Nesse cenário, em 2004, as comunidades buscaram apoio junto às instâncias
públicas, de modo que, após longas e intensas discussões, em agosto de 2013, a comunidade São
Francisco do Mainã era a primeira a receber da Secretaria de Patrimônio da União o termo de
concessão de direito real de uso, instrumento destinado a garantir a posse de terras da União a
comunidades tradicionais e que vem sendo utilizado notadamente na regularização fundiária de
unidades de conservação. Para garantir a posse de seus territórios e a reprodução dos modos de
vida protegidos pela própria Constituição Federal, foi necessário que os moradores do beiradão
passassem de caboclos e ribeirinhos a comunidades tradicionais. Nesse panorama, o trabalho
do Projeto Nova Cartografia Social da Amazônia no apoio à construção do mapa das áreas de
uso das comunidades contribuiu sobremaneira para que estas, até então invisíveis nos mapas
oficiais, pudessem ser enxergadas e ouvidas pelo Estado. Assim, a luta pelo território constitui
o gatilho (OLIVEIRA, 2011) que dispara o processo de reconhecimento das comunidades do
rio Amazonas como identidades coletivas, ou melhor, comunidades tradicionais. Foi também o
reconhecimento como comunidades tradicionais que possibilitou às comunidades do beiradão
assegurar o uso de seus territórios diante da possibilidade de implantação de um Polo Naval,
Mineral e Logístico no local, projeto do Governo do Estado do Amazonas. Em ação civil pública
proposta no ano de 2014, a Justiça Federal no Amazonas determinou a suspensão do projeto
enquanto as comunidades ribeirinhas do rio Amazonas não fossem consultadas formalmente
nos termos da Convenção nº 169 da OIT sobre Povos Indígenas e Tribais. Essa foi a primeira
decisão judicial na qual as comunidades ribeirinhas foram reconhecidas como destinatárias da
referida convenção internacional, ratificada e em vigor no Brasil desde julho de 2003. Trata-se,
com efeito, do reconhecimento como via de redistribuição. Dessa forma, o trabalho propõe
uma leitura desses processos que vem sendo estabelecidos pelas comunidades tradicionais do rio
Amazonas na luta por seus territórios a partir dos paradigmas de justiça social desenhados por
Fraser em seus escritos.

Palavras-chave: Reconhecimento. Redistribuição. Comunidades tradicionais. Polo Naval.

18. “O PROBLEMA NÃO É A SECA, MAS AS CERCAS”: UMA REFLEXÃO SOBRE O


AGROHIDRONEGÓCIO, O POVO DO CAMPO E SUAS RESISTÊNCIAS.

Autores: Luisa Duque Belfort de Oliveira; João Paulo do Vale de Medeiros

Resumo: A junção harmoniosa do capital com a concentração fundiária tem feito a política
agrária brasileira se inclinar cada vez mais para a produção de commodities em larga escala,
mantendo, outrossim, a dependência econômica em relação ao mercado internacional e suas
variações e conservando a subserviência neocolonial em detrimento da segurança e soberania
alimentar da população. A vinda avassaladora do agrohidronegócio para o campo brasileiro

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representa o avanço das disparidades econômico-sociais, a intensificação do ecocídio, bem como
um impacto sensível nas expressões culturais e autonomia do povo do campo, a começar por sua
desterritorialização. É também por meio da negação dos saberes tradicionais do povo do campo,
na deslegitimação de suas práticas e conhecimentos, que essa lógica de “encobrimento do outro”
se assenta. O objetivo desse trabalho é, por meio de um debate teórico e experiências acumuladas
através da assessoria política e jurídica popular, debater o avanço dos perímetros irrigados no
semiárido nordestino e suas consequências sobre as populações tradicionais, tomando-se como
exemplo o perímetro irrigado Santa Cruz do Apodi, no estado do Rio Grande do Norte.

Palavras-chave: agrohidronegócio – Apodi – ecocidio – povos tradicionais.

19. A LUTA PELO TERRITÓRIO DOS PESCADORES ARTESANAIS DA ILHA DE SUPERAGUI:


UM DEBATE SOBRE A (IN)JUSTIÇA AMBIENTAL NO SISTEMA NACIONAL DE UNIDADES DE
CONSERVAÇÃO

Autores: Katya Regina Isaguirre; Monique Caroline Minozzo

Resumo: O Parque Nacional do Superagui foi criado através Decreto de n° 97.688 no ano
de 1989 inicialmente com 21.400 ha. Em 1997devido à descoberta do Mico Leão da Cara
Preta (Leontopithecuscaissara) na região, o Parque teve sua área expandida para 34.000 ha.
Nesse processo, diversas comunidades foram incluídas dentro dos seus limites acarretando
em limitações extremas aos pescadores artesanais cujo modo de vida é baseado na extração
de recursos naturais. O conflito socioambiental ganha corpo com a formatação do Plano
de Manejo da Unidade de Conservação que, por ser de proteção integral, desterritorializa
as famílias pescadoras e ameaça sua reprodução sociocultural, estando em desacordo com a
Política Nacional de Desenvolvimento Sustentável dos Povos e Comunidades Tradicionais.
Nesse sentido, o presente trabalho parte da conceituação de (in)justiça ambiental, para avaliar
criticamente o Sistema Nacional de Unidades de Conservação na perspectiva de questionar em
que medida a Lei 9985/2000 detém potencial para a garantia do território dos pescadores e a
reprodução dos seus modos de produzir e de viver ou se apenas afirma o modelo dominante
de apropriação capitalista da terra. A metodologia desenvolvida para esse trabalho se vale da
revisão bibliográfica e da observação participante, essa última realizada nos três últimos anos
de atividades desenvolvidas pelas autoras no grupo de extensão de conflitos socioambientais de
comunidades artesanais da Universidade Federal do Paraná.

Expressões-chave: pescadores, conflito socioambiental, (in)justiça ambiental.

20. PLURINACIONALIDADE E SUMAK KAWSAY NO EQUADOR PLURINACIONAL: SABERES E


PRÁTICAS DECOLONIAIS EM DISPUTA

Autor: Marina Ghirotto Santos

Resumo: Plurinacionalidade e Sumak Kawsay no Equador Plurinacional: saberes e práticas


decoloniais em disputa os últimos anos, o cenário político latinoamericano esteve marcado pela

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eleição de governos denominados “progressistas” que impulsionaram um processo conhecido
como “neoconstitucionalismo transformador”, do qual as Constituições do Equador (2008) e da
Bolívia (2009) são exemplos emblemáticos. A Constituição equatoriana incorpora os conceitos
indígenas de plurinacionalidade e Sumak Kawsay (traduzido como “Buen Vivir” ou Bem Viver),
assim como a interculturalidade e os direitos da natureza, que formam as bases para o novo Estado
plurinacional equatoriano. A plurinacionalidade inspira uma discussão com viés decolonial
sobre as formas políticas, questionando o aparente consenso sobre a república, a democracia
representativa e a nação única e monocultural correspondente ao Estado e suas instituições.
O Sumak Kawsay mobilizado pelas organizações indígenas, por sua vez, descreve a “vida em
plenitude”, enraizada na comunidade, a qual se constrói mediante uma relação harmônica com
a Natureza (Mãe- Terra ou Pachamama) e aponta para um horizonte pós-desenvolvimentista e
pósextrativista. Tanto a plurinacionalidade quanto o Sumak Kawsay são projetos políticos que
apontam múltiplas formas de exercício da autonomia com o intuito de refundar e descolonizar
a sociedade e o Estado nacional, suas estruturas, instituições e narrativas, e não apenas incorporar
os indígenas à institucionalidade existente. No entanto, no cenário pós-constituinte dá-se uma
bifurcação entre o projeto político governamental e o do movimento indígena e uma disputa
pelos significados e formas de implementação de ambos os conceitos. O atual governo defende
o retorno do papel do Estado para eliminação da “pobreza” e promoção do “desenvolvimento”
baseando-se na geração de receitas decorrentes do aprofundamento da política extrativista –
sobretudo petróleo e mineração. O extrativismo petroleiro no Equador pretende avançar sobre
os territórios indígenas da chamada “Amazônia Sul-Oriental”, historicamente fora da rota de
exploração, com a justificativa de eliminar a pobreza na qual, desde a perspectiva governamental,
vivem os indígenas de tal região. Esboçam-se, neste cenário, embates socioambientais, políticos,
culturais e epistêmicos que dificultam a consolidação de um Estado plurinacional para o Sumak
Kawsay e reacendem a disputa por tais conceitos decolonizantes. Este estudo é resultado de uma
investigação de mestrado realizada entre fevereiro de 2013 à junho de 2015, acompanhada de
uma pesquisa de campo no Equador por quatro meses. Palavras-chave: plurinacionalidade, sumak
kawsay, desenvolvimento, pobreza, extrativismo, decolonialidade, povos indígenas.

21. A CRISE SOCIOAMBIENTAL: CULTURA, DIREITO E AMBIENTE

Autores: Cássius Dunk Dalosto; Bruno Tadeu Salles

Resumo: O presente artigo busca demonstrar como a atual crise socioambiental que
vivenciamos está relacionada com a forma que a natureza é representada na cultura ocidental
moderna. Para tanto, é feita uma análise (crítica e genealógica) dos discursos e das representações
relativas à natureza e as comunidades autóctones existentes na cultura ocidental moderna na
tentativa de demonstrar que a atual crise socioambiental é tem a sua origem, antes de tudo, a
partir de uma cultura específica. Por fim, é feita uma breve análise dos instrumentos jurídicos
positivados na Constituição da República Federativa do Brasil relevantes para a preservação
do “ambiente sócio(bio)diverso” e uma tentativa de diagnóstico dos motivos pelo qual estes
instrumentos não tem uma efetiva aplicação social no Brasil.

Palavras-chave: Direito Agrário; socioambientalismo; representações; discursos; cultura.

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22. PARADOXOS SOCIOAMBIENTAIS NOS ESTADOS PLURINACIONAIS: TENSÕES ENTRE O
BEM-VIVER E O DESENVOLVIMENTO ECONÔMICO

Autor: Anibal Alejandro Rojas Hernandez

Resumo: Lo socioambiental es la relación directa y equilibrada de los seres humanos con


la naturaleza; es a fin de cuentas una reciprocidad de armonía entre el complejo sistema que
compone los vínculos de los hombres como sociedad, así como la única posibilidad para
lograr construir modelos de Estado que garanticen la existencia de vida; de ahí que advertir
esa concepción haya sido la lucha de pueblos indígenas y pueblos tradicionales a lo largo y
ancho del sur del continente. Los procesos constituyentes originarios en Bolivia y Ecuador
en esa perspectiva, construyeron una serie de principios que brindaban la posibilidad de dejar
atrás el viejo modelo de desenvolvimiento, para abrir paso a sociedades que se basaran en
postulados como el buen vivir; más que una victoria teórica, significaba una alternativa a el
proceso de desenvolvimiento económico que ha vivido occidente desde hace un poco más
de 500 años. Hoy, aquellas Cartas Políticas que fueron el resultado de la materialización de
la voluntad popular, han visto la complejidad de la categoría capital dentro de las relaciones
sociales, políticas y económicas de cada país. Por tanto, los postulados del buen vivir se han
visto em una constante tensión respecto al modelo económico que ha sido desdoblado en
el Ecuador y en Bolivia desde dos representaciones distintas: la primera, por los axiomas
que impone el Estado Plurinacional; y la segunda, por los mandatos populares que son
originados desde la resistencia de los movimientos indígenas. Tanto el TIPNIS en Bolivia,
como el YASUNI en el Ecuador, son muestras de aquellas tensiones que son hoy la base de
los conflictos por conseguir un desenvolvimiento económico, sacrificando los vínculos de
los pueblos indígenas y tradicionales con su territorio. La paradoja de lo socioambiental en
los Estados Plurinacionales frente al desenvolvimiento, es la lucha aglutinada de los pueblos
indígenas por conseguir perpetuar su relación con el ambiente dentro del buen vivir. Es
al final una batalla por perpetuar lo socioambiental en contra de las hipótesis económicas
extractivistas de los Estados-Nación.

23. TERRITÓRIOS PESQUEIROS: IDENTIDADES TRADICIONAIS E DISCURSOS AMBIENTAIS

Autor: Ana Carolina Brolo de Almeida

Resumo: Este trabalho utilizará como estudo de caso a Campanha Nacional Pela
Regularização do Território das Comunidades Tradicionais Pesqueiras, do Movimento
de Pescadores e Pescadoras Artesanais (MPP), para demonstrar a importância de criação
de novas formas jurídicas de proteção de territórios tradicionais atreladas à autonomia dos
povos e comunidades tradicionais com relação ao livre uso da biodiversidade e, por isso,
não necessariamente vinculadas à noção de conservação ambiental clássica. Assim, sem
desconsiderar a importância do socioambientalismo e das unidades de conservação de uso
sustentável para a manutenção dos diferentes grupos formadores da sociedade brasileira em
seus territórios tradicionais, procurar-se-á analisar os limites dessas categorias de unidades
de conservação à luz de conceitos importantes trazidos no Projeto de Lei de Iniciativa

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Popular que dispõe sobre o reconhecimento, proteção e garantia do direito ao território de
comunidades tradicionais pesqueiras.

Palavras-chave:Território. Pescadores. ComunidadesTradicionais. Unidades de Conservação.

24. A COMUNIDADE DA PEDRA DO SAL (PI) E A IMPLANTAÇÃO DE GRANDES


EMPREENDIMENTOS: DESENVOLVIMENTO OU VIOLAÇÃO DE DIREITOS?

Autores: Mayara Maia Ibiapina; Malu Flávia Porto Amorim

Resumo: A Comunidade Tradicional pesqueira e extrativista da Pedra do Sal, situada no


município de Parnaíba – Piauí, diante da implantação de grandes empreendimentos como
a ampliação da usina eólica em seu território e a proposta de implantação de um resort,
manifestou-se, por meio de um documento intitulado “carta aberta ao icmbio diante das
violações dos direitos das comunidades tradicionais pelos grandes empreendimentos”, a
respeito das intervenções que vem sofrendo pelo despertar dos interesses territoriais por
razões diversas como: seus atrativos naturais, pelo seu crescente turismo, pela valorização
imobiliária, pelo seu potencial energético, entre outros fatores. O presente trabalho pretende
analisar a partir desse documento como a comunidade percebe a implantação desses
empreendimentos e seus impactos socioambientais. Para tanto foi utilizada uma abordagem
qualitativa exploratória com entrevistas semi-estruturada acerca da elaboração da carta, bem
como a análise do discurso e de conteúdo do documento. De acordo com o documento
a comunidade se mostra consciente das violações de direitos que vem sofrendo bem como
dos impactos negativos sobre seus modos de vida e estão se posicionando de forma crítica e
tentando se organizar na mobilização pelos seus direitos.

Palavras-chave: Pedra do Sal, Território, Comunidades Tradicionais, Socioambientais.

25. O ENGODO DO AGRONEGÓCIO

Autores: Andreia Mendonça Agostini; Raul Cezar Bergold

Resumo: As mudanças climáticas, sejam decorrentes de ciclos naturais ou das atividades


humanas, são uma realidade que ameaça a satisfação de uma das mais básicas necessidades vitais
dos seres vivos: a alimentação. Pesquisas apontam que, já em 2020, a América Latina sofrerá com
a queda na produção de alimentos como o feijão, o milho, a batata e a mandioca. Ao mesmo
tempo, há um declínio na disponibilidade de água, essencial não apenas para o consumo direto
pelo ser humano, mas também para o desenvolvimento da atividade agrícola. A despeito desse
cenário, há previsão legal para restringir e impedir atividades nocivas ao ambiente, assim como
de defesa das populações tradicionais, entretanto, é manifesto o retrocesso que se verifica a partir
do apoio que se oferece ao agronegócio. A desconstrução do inaplicado Código Florestal de
1965, a aprovação da lei de acesso aos recursos genéticos, as liberações de cultivares transgênicos,
as variedades monocultivadas e a forma de produção quimificada e motomecanizada, associados
ao crédito farto e à proteção à propriedade privada independentemente de sua função social,

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que vem sendo minada com a aprovação do Poder Judiciário, sustentam dúvidas quanto à
produtividade, à importância e à sustentabilidade desse setor, assim como desafiam indígenas,
quilombolas, camponeses e outros povos tradicionais a lutar pela manutenção e efetivação de
seus direitos fundamentais ao território e à autonomia. A mediação do Estado tem se revelado
pelo menos inócua, quando não tendenciosa, parcial, manipulada. Isso amplia os conflitos,
porque tem tornado absolutamente incompatível a manutenção de modelos de produção
diferenciados. Ainda pior, a condução dada pelo Estado tem apostado nos benefícios a curto
prazo e reproduzido a racionalidade perniciosa da modernidade, centrada na produção do lucro,
afrontando não apenas os povos tradicionais, mas toda a população, que está sob potencial risco
de não ter condições de satisfazer direitos vitais, como o de acesso à água e ao alimento saudável.
Neste viés, apresentar-se-á no primeiro capítulo um retrato sobre as condições da produção
de alimentos e de disponibilidade de água no Brasil, apontando referências da América Latina
e considerando um cenário para as próximas décadas. No capítulo seguinte será abordada a
construção jurídica que vinha se delineando como forma de responder às mazelas originadas de
erros do passado e com o objetivo de preparar o país para o futuro, centrando-se na perspectiva
do socioambientalismo. No terceiro capítulo serão tratadas as transformações jurídicas desse
início de século, pautadas em uma reação do capitalismo, capitaneada, entre outros setores,
pelo agronegócio, buscando cotejar as consequências dessas modificações para a natureza, para
as populações tradicionais e para toda a sociedade. Ao final serão apresentadas as conclusões
decorrentes do que fora apresentado.

Palavras-chave: Ambiental; Proteção Jurídica; Agronegócio.

26. CAPITALISMO,TRANSMUTAÇÃO DA TERRA EM MERCADORIA/PROPRIEDADE PRIVADA E


A ANTINOMIA DA FUNÇÃO SOCIAL DA PROPRIEADE NO BRASIL

Autor: Tamiris Melo Pereira

Resumo: O modelo de produção capitalista sob a perspectiva das transformações decorrentes


de sua readaptação a uma nova economia de mercado demonstra a forte influência histórica
desse sistema para as transmutações nos conceitos/funções da terra e da propriedade privada.
A terra, elemento da natureza, se tornou uma mercadoria fictícia graças à intervenção
capitalista, que também se apodera da propriedade privada e institui sobre elas, a fim de
ordená-las, um sistema jurídico de caráter predominantemente individualista e absolutista.
Todavia, a partir do momento em que o sistema capitalista passou a ter seus métodos
questionados, principalmente, a partir da crise de 29, quando ocorre a transição do Estado
Liberal para o Estado Intervencionista e Social, período esse que também passa a sobressair
preocupações quanto às questões ambientais e de bem-estar social, a terra e a propriedade
passam novamente por alterações conceituais e funcionais, prenuncia-se a origem da função
social da propriedade. Sob a ótica dessas alterações, tem esse artigo, como objeto de estudo
a analise da vigente função social da propriedade rural no Brasil. Em breve ponderação, a
função social estima a integração entre o capital- traduzido no requisito produtividade-, ao
meio ambiente equilibrado e as condições de trabalho salutares (artigo 186 da Constituição
Federal). Porém, não é com esse propósito que vem sendo aplicada, já que há uma

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antinomia na interpretação dos artigos constitucionais que a tutela. Com base no estudo
dessa antinomia, objetiva-se expor as duas interpretações existentes a partir da contraposição
entre os artigos 184, 185 e 186 da Constituição Federal, bem como apontar como resultado
qual dessas interpretações é a mais compatível à manutenção da ideia de função social, uma
vez que essa padece de forte tendência a se limitar ao requisito produtividade na atualidade.
Para consubstanciar o estudo serão usados os procedimentos metodológicos bibliográfico,
comparativo e histórico.

Palavras-chave: Capitalismo. Função social. Apropriação da natureza. Produtividade.


Antinomia. Constituição Federal.

27. SIERRA NORTE DE PUEBLA: RESPOSTA SOCIAL E DEFESA DO TERRITÓRIO

Autor: Ener Vaneski Filho

Resumo: Este trabalho é resultado de uma experiência de campo vivenciada na região


conhecida como Sierra Norte de Puebla, localizada nos Estados de Puebla, Veracruz e
Hidalgo no México. A Serra se destaca pelo histórico de resistência a processos exploratórios
desde a colônia até recente fase do capitalismo em sua fase atual de acumulação por espoliação.
A população local é predominantemente formada pelos povos Nahual e Totonaca. Como
objetivo central da pesquisa, pretende-se apresentar como as comunidades da região lograram
desprender-se das parcialmente das redes capitalistas de exploração de seu território, tomando
para si os meios necessários para levar uma melhoria da qualidade de vida dos habitantes
através da construção social de cooperativas organizadas pelos próprios indígenas, a exemplo
da Tosepan Tiali, Hotel Taselotzin. No contexto da composição social desenvolvida,
também é possível verificar a construção de instituições próprias para gerir os conflitos
da comunidade, tendo-se como maior expoente o Juizado Indígena de Huehuetla. Tais
experiências, apesar das contradições internas a serem superadas, são importantes exemplos
da luta por melhores relações econômicas num mundo dominado pela lógica capitalista e
pela exploração desenfreada dos povos e de seus territórios.

Palavras-chave: Sierra Norte de Pueblo, territórios, acumulação capitalista, resposta social.

28. O DILEMA DA PARTICIPAÇÃO EM UNIDADE DE CONSERVAÇÃO: CONFLITOS NO USO


DOS RECURSOS NATURAIS E COGESTÃO DA RESERVA EXTRATIVISTA MARINHA CAETÉ-
TAPERAÇU (REMCT) BRAGANÇA / PARÁ.

Autores: Erica Cristina Almeida Lopes; Talita Ingrid da Silva

Resumo: O tema da participação está na efervescência dos debates sobre gestão de Unidade
de Conservação. Esta pesquisa é integrante do projeto “O Desafio Político da Participação em
Unidades de Conservação” estuda esse fenômeno na Reserva Extrativista Marinha Caeté-
Taperaçu (REMCT), localizada no município de Bragança no Estado do Pará e tem por
intento averiguar as principais tensões que os atores locais da reserva tem enfrentado na busca

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pela manutenção de seus territórios, saberes e práticas locais nas instâncias de participação
e processos decisórios da REMCT - como na Associação de usuários (ASSUREMACATA), no
Conselho Deliberativo (CD) e na elaboração do Plano de Manejo. É propósito na gestão de
uma Reserva Extrativista que esta seja compartilhada entre poder público e sociedade civil,
desta feita questiona-se como a participação política comunitária vem sendo compreendida na
gestão da UC, como seus saberes foram contemplados na produção do Plano de Manejo e em
que medida, na prática, o plano atende as demandas destes usuários. Verifica-se também que
pesos as participações dos usuários tem nos processos de gestão em relação às participações dos
atores institucionais. A pesquisa é baseada na análise do Plano de Manejo da Resex, elaborado
em oficinas com a participação destes atores, o qual expõe diversas questões que, segundo os
próprios usuários, são entraves para a gestão da reserva, como: Falta de organização social e
comunitária; dificuldade de comunicação entre representantes da Resex; desunião entre os
comitês; desarticulação política; dificuldade de união por interesses comuns e interesses pessoais
acima dos interesses coletivos. Outros reclames dos comunitários sobre o processo de criação
da mesma foram a respeito de informações inadequadas sobre os deveres e direitos dos usuários,
pois os informes concentraram-se, sobretudo, nos benefícios que seriam dados pelo Governo;
outra questão é a necessidade de abrir a discussão para a participação das comunidades alcançadas
pela Resex. Deste modo alguns fatores que podem gerar também impasses na gestão partilhada
da Resex é a marginalização dos conhecimentos comunitários de gerir o território e o fato
dos Conselhos serem espaços de relações de poder altamente hierarquizadas (ZHOURI, 2008).
Levando em consideração que há um distanciamento das populações tradicionais dos processos
de gestão das Unidades de conservação (BALLARINI, 2012), entende-se que a compreensão dos
procedimentos de gestão e as estratégias ligadas à experiência da participação é um requisito que
se impõe em um contexto no qual a questão ambiental está em voga. É necessário compreender
como a associação entre indivíduos é experienciada e como seus saberes se encontram com
os saberes especializados da conservação da natureza, dos recursos. Foram também analisadas as
atas das reuniões do CD e entrevistas com usuários envolvidos nas práticas associativas locais. Na
discussão são trabalhados os conceitos de participação, conflito e território, a partir de teóricos
que resgatam e problematizam o tema da participação em territórios legalmente destinados
à proteção ambiental e modos de vida. Realçando os conflitos vividos e as relações de poder
e influência que se estabelecem em meio à gestão. O principal contributo que este estudo
traz para a reflexão atual baseia-se em seu esforço de mostrar as mudanças que a implantação
da Resex trouxe para os moradores de Bragança a respeito, especialmente, nas suas práticas
socioambientais, associativas e participativas.

Palavras-chave: Participação, Reserva Extrativista, Conflito.

29. AGROECOLOGIA SOB A VISÃO DO DIREITO E O SEU ENFRENTAMENTO AO O MODELO


DOMINANTE E A APROPRIAÇÃO DA NATUREZA.

Autor: Luana Bispo de Assis

Resumo: O presente trabalho busca refletir a agroecologia sob o prisma do direito, sua
relação com a apropriação da natureza pelo capital. Tal enfoque é importante uma vez que

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o direito não se trata, apenas, de princípios e regras, ele é um compromisso historicamente
desenvolvido, e socialmente firmado, no sentido de fortalecer a aperfeiçoamento de um
sistema alimentar que proteja principalmente a vida e colabore plenamente na implementação
de sistemas produtivos futuros mais saudáveis. Este compromisso é imprescindível
e deve ter como efeito os fundamentos do que se entende por direito à alimentação e
consequentemente à uma vida saudável. Desta forma o ser humano faz parte da natureza,
é parte integrante da teia da vida. O homem como parte da natureza é o ponto de ruptura
do modelo dominante e a possibilidade de construção de um novo paradigma, baseado
nos saberes tradicionais, em alimentos saudáveis, a uma menor degradação da natureza e a
valorização do homem no campo. A pesquisa será desenvolvida através do método indutivo,
partindo-se de dados resultantes de pesquisa bibliográfica para a construção de resultados
representados pela adequação do procedimento ao incremento à produção e implemento do
direito à alimentação adequada. Assim, esse artigo tem como objetivo a análise do modelo
de produção, a partir de uma perspectiva interdisciplinar e da teoria do direito, utilizando a
agroecologia como instrumento de direito à alimentação e à preservação da vida. Para tanto,
imprescindível a implementação de políticas públicas de fomento a manejo agroecológicos,
como forma de alcance a estes serão instrumentos garantia de valorização da vida!

Palavras-chaves: Agroecologia; Direito; Apropriação da Natureza, Modelo Dominante;


Saberes Tradicionais.

30. LUTA ORGANIZADA PELA TERRA NO BRASIL: UM CONTEXTO, DOIS CAMINHOS

Autor: Clarissa Machado de Azevedo Vaz

Resumo: No final do Século XIX até os anos 60, aproximadamente, os movimentos sociais,
em sua maioria, possuíam caráter revolucionário dado o momento histórico de polarização
mundial entre o desenvolvimento do capitalismo/imperialismo e o projeto revolucionário de
sociedade (socialismo). Esse processo de transformação mundial também se revelou na luta
camponesa no Brasil, que teve um importante desenvolvimento com as Ligas Camponesas no
Nordeste. A história das Ligas Camponesas é marcada por uma luta radicalizada e de bastante
resistência, como se observa em entrevistas e declarações de alguns de seus líderes. Em seguida
o Brasil vive um período de ditadura civil-militar, a partir do golpe em 1964, que termina
somente com a chamada redemocratização do pais, que culminou na atual Constituição de
1988. A Lei que institui a reforma agrária (Lei n. 4.504/64) no país foi construída dentro da
ideologia dos militares e de seus apoiadores, fazendo com que a reforma agrária exista apenas
em sua formalidade, impedindo que ela se concretize no mundo dos fatos, necessitando, ainda,
de reivindicações para que ela se concretize. A redemocratização do país também foi marcada
por muitas lutas para garantias de direitos, principalmente sociais, na Constituição de 1988,
onde muitas questões sociais foram incluídas. Atualmente o maior movimento de luta pela terra
é o MST – Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra, fundado em 1984 no seu primeiro
congresso realizado na cidade de Cascavel-PR. Tal movimento foi se adaptando conforme as
mudanças no cenário político do país. O MST possui como “contemporâneos” o Partido dos
Trabalhadores – PT e a Central Única dos Trabalhadores – CUT, juntos consolidam três grandes

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frentes de luta, uma na cidade, ou no campo, e o partido político fica encarregado de levar essas
lutas para o congresso. Nesse sentido se verifica que o MST vai passando a não atuar mais como
oposição ao Estado, mas sim como aliado, o que muda a sua maneira de reivindicar. Assim a luta
pela terra deixa de ter um caráter revolucionário e passa a fazer parte de um plano de reformas.
Nesse mesmo contexto surge em 1995 o movimento conhecido como Liga dos Camponeses
Pobres – LCP. Tal movimento emerge num processo de reivindicação de um latifúndio no
Estado de Rondônia no município de Corumbiara (Fazenda Santa Elina) mundialmente
conhecida por conta do intenso conflito vivido no local como “Massacre de Corumbiara”.

31. A TERRITORIALIZAÇÃO COMO INSTITUTO JURÍDICO POSITIVADO NA


TRADICIONALIDADE DA OCUPAÇÃO INDÍGENA DA CONSTITUIÇÃO DE 1988

Autor: Daniel Pinheiro Viegas

Resumo: A existência de um pluralismo étnico brasileiro a partir do texto da Constituição


de 1988, em especial do art.231, §1º e do art.215, §1º, revela o imperativo de se por
em prática o que Marcelo Neves (2009:217) define como um transconstitucionalismo
unilateral de tolerância e aprendizado, em que se admite conversações constitucionais
com ordens normativas que estão à margem do próprio constitucionalismo, “como uma
necessidade de não se excluir o desenvolvimento de institutos alternativos que possibilitem
um diálogo construtivo com essas ordens dos antropológico-culturalmente diferentes”,
e que em realidade encontram-se em uma situação de desigualdade na participação das
decisões políticas tomadas dentro do Estado. Contudo, o Supremo Tribunal Federal tem
realizado, a partir do julgamento da Petição nº 3.388/RR, da Terra Indígena de Raposa
Serra do Sol, uma mutação inconstitucional de uma cláusula fechada que comporta
um conceito do texto constitucional (DWORKIN, 2002) e expressa uma escolha política
realizada pelo constituinte originário, legitimada pela sociedade nacional e internacional,
como decorrente das discussões a partir da mobilização dos povos indígenas, dentre as
quais a própria etnogênese dos índios do Nordeste. Não há justificativa interpretativa para
se admitir que o art.231, §1º da Constituição Federal de 1988 tenha seu sentido alterado
para se afirmar a existência de uma limitação temporal do direito territorial indígena,
principalmente porque foi justamente a reivindicação territorial desses povos que culminou
com o próprio texto constitucional, que por sua vez legitimou a ação social posterior desses
grupos étnicos. Observou-se que o direito territorial indígena mantém sua interface com
o direito territorial quilombola, seja na reivindicação de novos espaços físicos, sem que
se exija uma ancianidade da posse ou a relacione a grandes eventos históricos (abolição
da escravidão e promulgação da Constituição de 1988), o que seria uma obliteração da
história (ARENDT, 2007), já que a causa e o efeito desses grandes eventos está na resistência
cotidiana de comunidades, famílias ou até de indivíduos pela sua identidade étnica e pelo
seu direito de ser diferente. Portanto, não cabe associar o direito territorial desses grupos
étnicos aos institutos jurídicos de prescrição temporal para aquisição, mas à especificidade
com que constroem e reconstroem suas tradições e a escolha política e constitucional do
Estado brasileiro em protegê-las. Foi isso que revelou as experiências etnogênicas dos povos

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indígenas do Nordeste e os novos conflitos fundiários pluriétnicos na capital do Amazonas,
ou seja, a reivindicação por espaços territoriais não está associada à relação de tempo e
espaço, mas à necessidade de materialização, construção e reconstrução das suas tradições,
como objeto de proteção constitucional. A terra indígena enquanto um ser que sintetiza
em si a ancestralidade, a contemporaneidade e a posteridade não é objetivamente aferida
a partir de dados materialmente encontrados, mas a partir de relações simbólicas que são
estabelecidas e constantemente reformuladas com o passado, ante os desafios impostos,
norteadas pela perspectiva e desejo de um futuro. Assim, a “ocupação tradicional” se revela
em uma nova concepção semântica, onde o ‘tradicional’, é considerado como atrelado a
fatos do presente e a reivindicações atuais (ALMEIDA, 2008:19), e conduz a conclusão de
que o instituto da territorialização foi positivado no §1º do art.231 e no art. 215, §1º,
ambos da CRFB/88, como um processo natural e reverso à política indigenista territorial
praticada pelo Estado colonial e, posteriormente, pelo Estado brasileiro, não originário
de uma anterioridade da posse ou da presença indígena, mas decorrente da proteção
constitucional ao direito de existir desses grupos étnicos, com suas especificidades. Portanto,
o novo caminho interpretativo proposto, fundado nos elementos fáticos provocados pelo
movimento indígena e materializados na Constituição de 1988 e na Convenção 169 da OIT,
parte do princípio que o Estado brasileiro se impôs o dever de garantir o pleno exercício dos
direitos culturais, de apoiar e incentivar a valorização e a difusão das manifestações culturais
(art.215, CRFB/88), em especial o de proteger as manifestações das culturas indígenas
(§1º do art.215, CRFB/88). Posto isso, ao reconhecer aos povos indígenas sua organização
social, costumes, línguas, crenças e tradições, além dos direitos originários sobre as terras
que tradicionalmente ocupam (art.231, CRFB/88), ou seja, as por eles habitadas em caráter
permanente, as utilizadas para suas atividades produtivas, as imprescindíveis à preservação
dos recursos ambientais necessários a seu bem-estar e as necessárias a sua reprodução física e
cultural, segundo seus usos, costumes e tradições (§1º do art.231, CRFB/88), positivou como
instituto jurídico o que a doutrina antropológica compreende como territorialização, a
partir da identificação nas comunidades indígenas de elementos empiricamente observáveis,
como: 1) a criação de uma nova unidade sociocultural mediante o estabelecimento de uma
identidade étnica diferenciadora; 2) a constituição de mecanismos políticos especializados; 3)
a redefinição do controle social sobre os recursos ambientais; e 4) a reelaboração da cultura
e da relação com o passado (OLIVEIRA, 1997:22). Dessa maneira, conclui-se que a expressão
“terras que tradicionalmente ocupam” não é uma expressão “vaga”, mas sim um “conceito”
constitucionalmente estabelecido e que não admitiria a aplicação da concepção do Supremo
Tribunal Federal, que não pode ser justificada pela teoria da mutação constitucional, para
alegar uma limitação temporal do direito territorial indígena, já que se trata de alteração
semântica que conduz a exclusão de grupos minoritários e não o inverso como é aceito pela
doutrina constitucional internacional. Todavia, as análises da jurisprudência e da doutrina
revelam que foi a desconstrução da retórica constitucional, inclusive do próprio fenômeno
jurídico das mudanças informais da Constituição, para supostamente incorporar as alterações
fáticas sociais, que conduziram o STF a uma concretização desconstitucionalizante do texto
constitucional (NEVES,1996). Dessa forma se coloca ao direito o desafio de, a partir da
crítica ao próprio conteúdo do conceito de interpretação, incluir a perspectiva de quem

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vive a norma e a interpreta (HÄBELER, 2002:13), para permitir conhecer o “outro” por
razões de coexistência e de alargamento de horizontes e não mais por razões de controle e
dominação externa (SAID, 1990:19).

Palavras-chave: terra, território, tradição, indígena, etnogênese, fato indígena, indigenato,


territorialização, direito constitucional.

32. A APROPRIAÇÃO DA NATUREZA E OS IMPACTOS SOBRE OS SABERES TRADICIONAIS


EM RIO QUENTE – GO – UM ESTUDO PRELIMINAR DOS IMPACTOS SOCIOAMBIENTAIS
CAUSADOS PELO RESORT POUSADA DO RIO QUENTE.

Autor: Delze dos Santos Laureano

Resumo: O presente artigo é a síntese de estudos preliminares, baseados em fontes


disponíveis na internet, e mostra a necessidade do aprofundamento dos estudos no campo
das ciências jurídicas considerando os prejuízos socioambientais causados no município
pelo Resort Pousada do Rio Quente. São muitos os hotéis e pousadas existentes na
região, especialmente em Caldas Novas e em Rio Quente. Contudo, volta-se o olhar
especificamente para o Resort Pousada do Rio Quente em razão da sua localização e da
capacidade de operação no pequeno município, cuja população residente gira em torno de
5.500 pessoas. O presente estudo justifica-se, então, primeiramente em razão da escassez
de publicações na área do Direito. Os impactos ambientais causados pela Pousada foram
questionados pelo Ministério Público estadual, mas se limitaram a uma visão conservadora
da natureza, ignorando a presença humana e a cultura local. Os artigos acadêmicos e outros
documentos encontrados são de outras áreas como a Geografia, a História e o Turismo. À
primeira vista, a Pousada do Rio Quente traz enormes benefícios para a região, gerando
empregos e ampliando o mercado de turismo no local. Entretanto, considerando a pequena
população do município, a peculiaridade dos bens naturais e, sobretudo, a absorção quase
absoluta da mão-de-obra local nas atividades do hotel, compromete-se a qualidade de vida
das pessoas e a proteção dos saberes tradicionais. modo de operação e o comércio existente
no Resort em nada contribuem para o reconhecimento, a valorização e a proteção das
culturas tradicionais que vão desaparecendo rapidamente do território. Desta forma, o
presente artigo, não tendo o objetivo de esgotar o tema, propõe um olhar atento dos
impactos socioambientais negativos causados e a necessidade da realização de mais pesquisas
sobre as atividades do empreendimento que se apropriou do território há mais de 4
décadas naturalizando a sua presença e operação. A metodologia utilizada será o estudo
de bibliografia afim, especialmente da perspectiva da Ecologia Política. Para compreender
o problema é preciso ver mais do que o cumprimento de normas de direito ambiental. É
preciso reconhecer as questões de injustiça ambiental.

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33. CONHECIMENTOS TRADICIONAIS ASSOCIADOS, CIÊNCIA NÃO HOLISTA E O
MONOPÓLIO DAS FORMAS DE VIDA: AMBIENTE PARA A TRANSPOSIÇÃO PARADIGMÁTICA
AO SOCIOAMBIENTALISMO?

Autor: José Renato de Oliveira Barcelos

Resumo: Este artigo apresenta uma análise teórico-prática sobre a importância dos
conhecimentos tradicionais para a preservação da biodiversidade – em especial da
biodiversidade agrícola – brasileira, alertando para a necessidade de sua proteção a fim de que
asseguradas a diversidade e a integridade do patrimônio genético e cultural brasileiro, bem
como a preservação e restauração dos processos ecológicos essenciais. Nesse sentido, aborda
de forma crítica, alguns dos riscos representados pelo uso da biotecnologia na engenharia
genética especialmente quando essa parece sugerir a resolução de boa parte dos problemas
da agricultura e da fome do mundo, quase que como propondo um “sentido genético” à
natureza. As questões sempre presentes da apropriação da natureza pelo homem e o pensar
reflexivo sobre a adequação das políticas públicas para a agricultura e o meio ambiente
que considerem as consequências da intervenção da ciência sobre as formas de vida são
objeto de análise logo a seguir, quando se examina os desdobramentos ocasionados no meio
ambiente pela denominada “Revolução Verde”, enquanto modelo de base tecnológica para
a agricultura, adotado em escala mundial a partir do segundo pós-guerra. Na sequência,
o estudo traz a lume o problema da biopirataria e do patenteamento das formas de vida
enquanto lógicas de apropriação da natureza que produzem riscos aos povos tradicionais
e seus conhecimentos. A pesquisa que orientou este texto objetivou destacar e publicizar
a importância dos conhecimentos associados às populações tradicionais e a necessidade de
preservação e proteção destes saberes para a preservação da biodiversidade agrícola, revelando
o campo de disputas pela hegemonia deste importante patrimônio biológico e cultural. Em
um cenário de transposição paradigmática, conclui apontando os limites e possibilidades do
socioambientalismo, forjado nas lutas sociais da década de 1980 a partir da noção de que as
políticas públicas relacionadas ao meio ambiente devem ser orientadas e referenciadas pela
conexão direta com as comunidades envolvidas, em uma concepção de sustentabilidade
ambiental e social. Oferecendo subsídios para que se estabeleça o debate com base em uma
nova visão da realidade ambiental, de viés agrícola e agrário socioambiental, sobretudo
de proteção das comunidades tradicionais, sua cultura e seus conhecimentos associados,
propõe uma prática científica adequada à proteção do homem e da natureza, orientada por
uma noção de responsabilidade que supere a dimensão temporal presente e coloque, sob
perspectiva, as gerações vindouras.

Palavras-chave: Conhecimentos tradicionais. Transgenia. Biopirataria. Agrobiodiversidade.


Sementes.

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34. CONHECIMENTOS TRADICIONAIS ASSOCIADOS À BIODIVERSIDADE: UMA REFLEXÃO
ENTRE A COMERCIALIZAÇÃO E A SALVAGUARDA DOS SABERES.

Autor: Walter Veloso Dutra

Resumo: Certa variedade vegetal, um ecossistema ainda que microbiano, a paisagem


de determinado local, uma raça animal, todos estes correspondem a um aspecto além do
natural, dizem respeito a um acúmulo de saberes e práticas que variam de acordo com sua
natureza e das condições ambientais e sociais que estão inseridos. Estes diferentes fatores
quando isolados e analisados demonstram os diferentes níveis de complexidade biológica
existentes, e é nesse sentido que a biodiversidade pode ser entendida como o “conjunto
de seres vivos, do seu patrimônio genético e dos complexos ecológicos em que evoluem”
(BÉRARD; MARCHENAY, 2005, p. 83). A biodiversidade não existiria sem os saberes e as
práticas das sociedades que as criam, desenvolvem, as mantêm ou reduzem, levando em
consideração não só as características biológicas, mas também as práticas e conhecimentos
locais. Os conhecimentos tradicionais dos povos indígenas, quilombolas, agricultores e
demais populações tradicionais associados à biodiversidade revelam a riqueza dos recursos
naturais existentes, e tal conhecimento deve ser sempre associado às culturas milenares que
sempre conviveram em harmonia e sintonia direta com todos os seres e organismos vivos do
planeta. Todo esse sistema de biodiversidade se deve à cultura coletiva desses povos. Ocorre
que os avanços na área da biotecnologia e biogenética e a aplicação nos mais diversos setores
produtivos dos conhecimentos tradicionais associados aos recursos genéticos acederam um
alertara acerca da exploração econômica destes. Tem-se verificado a apropriação por empresas
de conhecimentos tradicionais, através do patenteamento de produtos ou de processos
derivados de seu uso, sem que haja o prévio consentimento de seus detentores e qualquer
benefício para essas populações, bem como para os países de origem dessa biodiversidade.
O presente estudo discutirá a mercantilização dos conhecimentos tradicionais associados à
biodiversidade, apresentando as discussões trazidas pela Convenção da Diversidade Biológica,
o Protocolo de Nagoya, o Acordo TRIPS no âmbito da Organização Mundial do Comércio
- OMC e a discussão das patentes pela Organização Mundial da Propriedade Intelectual-
OMPI. A Biodiversidade e o Conhecimento Tradicional se associam por uma necessidade
natural e cultural. Assim, a biodiversidade vai além dos recursos genéticos de todos os seres
vivos, abarca também o ser humano e os seus conhecimentos. O termo “proteção” utilizado
por órgãos como a OMPI e a OMC refere-se primariamente aos instrumentos de proteção
intelectual à sua atuação no mercado, divergindo do termo “salvaguarda” utilizados pelos
órgãos ligados à cultura. As diferentes conotações denotam de preocupações comuns entre
os diferentes órgãos mas enfatizadas de maneiras completamente distintas: a de garantir
os direitos intelectuais e a remuneração de detentores de conhecimentos tradicionais mas
acima de tudo assegurar a perpetuação dos saberes e das formas culturais de produzir. A
compatibilidade desses dois objetivos vem gerando diferentes conclusões ao longo dos
últimos anos e surge como principal objetivo deste estudo. Apesar de toda discussão em
nível internacional e nacional, o desafio está na criação de um regime jurídico sui generis
de proteção e salvaguarda dos conhecimentos tradicionais associados à biodiversidade, que
vise garantir o livre acesso aos recursos genéticos, respeitando os conhecimentos tradicionais

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e científico de forma que se possa evitar sua apropriação e utilização indevida por terceiros
e dar maior segurança aos interessados em acessá-los e aos detentores destes, evitando a
biopirataria e bioprospecção. Nas palavras de Manuela Carneiro da Cunha, “pretende-
se iluminar, assim, a dimensão cultural e social da biodiversidade, ou seja, o trabalho e o
conhecimento embutidos na diversidade dita natural”. (CUNHA, 2005, p. 16).

35. “FAZER VIVER E DEIXAR MORRER: O BRASIL NA ENCRUZILHADA DOS CONFLITOS PELO
DIREITO AO TERRITÓRIO DAS POPULAÇÕES TRADICIONAIS”

Autor: Ciani Sueli das Neves

Resumo: O território corresponde ao lugar onde as pessoas desenvolvem suas formas de


vida, onde as relações sociais, econômicas, jurídicas e políticas são estruturadas, vinculando
sujeitos e consequentemente estabelecendo identidades. É a partir do território que os
indivíduos compreendem a sua condição de ser-estar no mundo, a qual é fortalecida pelas
teias sociais que se criam. O território está, portanto, intrinsecamente ligado com a existência
de um povo ou de vários povos, e para eles, a expropriação desse território corresponde
à expropriação de sua própria existência. Tal relação pode ser constatada na forma como
as populações tradicionais se relacionam com o lugar de onde provêm ou ao qual estão
ligadas. Dentre esses estão inseridos os povos quilombolas brasileiros, que compreendem a
sua permanência no território como uma condição indispensável para a continuidade de sua
existência. O direito ao território é, para essas populações, mais que um direito formalmente
reconhecido, pois corresponde à sua resistência e ancestralidade, o seu direito à vida de modo
amplo. Há um reconhecimento nacional e internacional para o território como direito.
Embora a Constituição Federal de 1988 o reconheça como um direito cultural, este, por vias
da Hermenêutica Jurídica, assume um caráter de indissociabilidade com os direitos sociais.
Pelo fato de que a efetividade de tais direitos só se faz possível se considerada a localidade e
a adequação aos modos de vida de seus destinatários, o que se compreende como direitos
sociais numa perspectiva coletiva. Assim, a disponibilidade e garantia desses direitos está
associada à manutenção do território, configurando este como um direito fundamental para
as populações tradicionais, uma vez que está associado ao acesso dessas populações à terra,
à valorização das práticas e saberes referentes à educação, cuidados com a saúde, formas
de trabalhar, hábitos alimentares e práticas religiosas. Obviamente em países permeados
por desigualdades de diversas ordens, como o Brasil, a garantia de tais direitos se constitui
em desafios de ordem política e jurídica, uma vez que não podem ser desconsideradas as
relações de poder vigentes no seio dessa sociedade. O que há de se considerar, ainda, que
o reconhecimento formal não garante a efetividade imediata de tais direitos, o que coloca
o Estado brasileiro, por meio de suas instituições, sempre numa posição de conflito para
com os grupos que demandam direitos. O Estado assume, portanto, o papel de violador
de direitos – seja por ação, seja por omissão – no tocante à garantia dos direitos de seus
cidadãos, e no que diz respeito às populações tradicionais, a constatação nunca é diferente
da ora referida. Entretanto, afirmar que a relação entre Estado e populações tradicionais é
uma relação tensa, permeada por violações de direitos humanos, sem buscar entender as suas

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razões e as reais motivações que constituem tais situações é uma afirmação muito simplista.
Por essa razão, este trabalho visa analisar a relação existente entre a garantia do direito ao
território e a efetividade dos direitos sociais das populações tradicionais e a preservação de sua
identidade, considerando a indissociabilidade destes com a garantia do direito ao território,
a fim de identificar quais as ações desencadeadas pelo Estado brasileiro, as motivações para a
constituição de tal cenário e confrontá-las com as definições legais vigentes no ordenamento
jurídico interno e nos mecanismos internacionais de direitos humanos.

36. ANÁLISE CRÍTICA DO DISCURSO JURÍDICO E DIREITOS TERRITORIAIS INDÍGENAS: O


CASO “RAPOSA SERRA DO SOL”

Autores: Pedro Bigolin Neto; Ananda Jasmin Aron

Resumo: Este artigo estuda a articulação argumentativa utilizada na Petição nº 3388, que
cuidou da demarcação da Terra Indígena Raposa Serra do Sol. Para tanto, é empregado
o método da Análise Crítica do Discurso Jurídico, no intento de localizar fundamentos
teóricos, históricos e jurídicos que tenham ligação com formações contra hegemônicas,
em especial a matriz descolonial de conhecimento. A fundamentação filosófica vigente
dos direitos humanos, calcada em preceitos da modernidade, notadamente racionalistas e
individualistas, é incapaz de lidar com situações desviantes de seu projeto, como é o caso do
modo de vida das diversas etnias indígenas que habitam a área demarcada. Para estes povos
originários, a natureza é vida, não havendo hierarquia entre ela e o ser humano. Trata-se
de uma visão integradora do indivíduo com a natureza, ou seja, de cosmovisões baseadas
na solidariedade, reciprocidade e relacionalidade entre todos os seres, diferentemente da
visão ocidental, que compreende o ser humano como o único sujeito de direitos, como
criatura superior, acima de qualquer outra forma de vida. A interculturalidade, nesta senda,
cumpre papel imprescindível ao estabelecer a ponte que viabiliza o diálogo entre distintos
saberes, dando azo a interpretações mais plurais, abrangentes. Ao mesmo tempo, evidencia-
se que esta demanda julgada pelo Supremo Tribunal Federal, ao menos aparentemente,
reconhece direitos e garantias às minorias, que aqui não devem ser compreendidas sob o
viés quantitativo, mas sim qualitativo, englobando grupos que não se enquadram no modelo
cultural dominante. A título de conclusões parciais, é possível afirmar que a decisão possui
contradições, uma vez que se verifica a existência de elementos que caracterizam o discurso
contra hegemônico, inclusive descolonial, e que habitam o conteúdo decisório em suposta
harmonia com outras construções teóricas de difícil compatibilização, de modo que a contra
hegemonia funcione como o véu que torna a própria hegemonia mais discreta, fazendo-a
passar praticamente despercebida em meio a demais considerações.

Palavras-chave: análise crítica do discurso jurídico; estudos descoloniais; direitos territoriais


indígenas; Supremo Tribunal Federal.

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37. A TERRA COMO MERCADORIA: NOTAS HISTÓRICA SOBRE A MERCANTILIZAÇÃO DA
TERRA NO BRASIL

Autores: Johnatan Razen Ferreira Guimarães; Marcos Vinícius Lustosa Queiroz

Resumo: As consequências socioeconômicas atuais da distribuição da terra e de outros


meios de produção no campo decorrem da construção do direito de propriedade no Brasil
desde suas origens na legislação colonial. O regime colonial de inserção das terras brasileiras
em um circuito econômico mercantil deu as bases para um processo que se fortalece durante
a história legal do país, que é a constituição das terras brasileiras em um bem juridicamente
apropriável. Esse regime de apropriação se realizou de forma violenta e excludente,
desconsiderando as formas tradicionais de territorialidade e as cosmovisões de comunidades
não-alinhadas às formas hegemônicas de exploração econômica da terra. Com o objetivo de
analisar as expressões estatais deste processo, realizamos neste artigo uma breve análise sobre
os principais diplomas legais que regularam a apropriação fundiária na história brasileira e as
políticas públicas de reforma agrária.

Palavras-chave: Terra, Território, Propriedade privada, Conflito fundiário, Mercantilização.

38. APROPRIAÇÃO DA NATUREZA E O PROTOCOLO DE NAGOYA

Autores: Romina Ysabel Bazan Barra; Nivaldo dos Santos

Resumo: A apropriação da natureza dá-se desde os primórdios da existência humana.


Inicialmente, o objetivo era a exploração da natureza como subsistência, extraindo-se seus
produtos de maneira simples e respeitando seu ciclo. Porém, com o desenvolvimento,
crescimento populacional, indústria e agricultura em larga escala, colonialismo e capitalismo,
o ser humano desenvolve outras habilidades na busca de novos recursos para a satisfação
de suas necessidades e anseios. Com a grande transformação, o ser humano torna-se um
explorador nocivo dos recursos naturais através da sua atuação e apropriação da natureza
como mercadoria. Com a crise ecológica global surge a ideia da sociedade de risco, em que
a sociedade industrial responde pelas consequências autoproduzidas, dos riscos industriais,
nucleares, químicos, ecológicos e da engenharia genética. Nas últimas décadas, tratados e
convenções internacionais buscam proteger a natureza, incidindo diretamente no Direito
Agrário, nas questões da falta de alimentos, territórios devastados e direitos dos povos
indígenas. Desta forma, o presente artigo levanta uma reflexão acerca da interação entre
povos e natureza, por meio dos direitos e tratados que garantem, a esses povos, outras
formas de desenvolvimento que não desvirtuem sua cultura. Destaca-se a Convenção sobre
Diversidade Biológica (CDB), que visa à conservação da biodiversidade, pelo uso sustentável
e a justa e equitativa distribuição dos benefícios desse uso. O Estado, detentor originário
das matérias primas e dos recursos biogenéticos, busca impedir a exploração predatória, e
por vezes clandestina, da biodiversidade e dos conhecimentos das comunidades tradicionais.
O Protocolo de Nagoya, importante instrumento que o Brasil precisa ratificar, visa
complementar e garantir a CDB, trazendo maior segurança jurídica e transparência para os
provedores e usuários de recursos genéticos a nível mundial, proporcionando seu acesso

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adequado e a transferência de tecnologias, incluindo-se os conhecimentos tradicionais
associados. Na busca de alternativas para conciliar o desenvolvimento e a preservação
ambiental, surgem as tecnológicas “verdes”, que podem não só contribuir para o crescimento
econômico, como também ajudam na preservação ambiental, ao formular técnicas para o
seu aproveitamento de maneira sustentável. De outro lado, existe o sistema de patentes
verdes que tem crescido devido aos avanços tecnológicos que permitem à ciência conhecer
mais profundamente a composição genética dos recursos biológicos como células, genes e
substâncias químicas. Por trás disto, existe um discurso ideológico, que discute uma suposta
privatização do conhecimento, mas, na verdade, o mundo caminha para a democratização
desses conhecimentos através das tecnologias sociais e das patentes sociais. Destarte, as
metodologias utilizadas são: o método dedutivo, pela pesquisa teórica; o método indutivo,
ao analisar os países que já ratificaram o Protocolo de Nagoya; o método histórico, ao estudar
as origens dos problemas abordados; método dialético, levantando teses e antíteses. Os
autores que compõe o marco teórico são: Karl Polanyi, ao tratar da terra como mercadoria;
Ulrich Beck, no estudo da sociedade de risco; Vandana Shiva, nas questões de patentes e
biopirataria; Amartya Sen, na teoria do desenvolvimento como liberdade; e, Boaventura de
Sousa Santos ao comparar o conhecimento científico versus o vulgar.

Palavras-chave: Direito Agrário; Apropriação da natureza; Protocolo de Nagoya;


Conhecimentos Tradicionais Associados; e, Patentes Verdes.

39. IDENTIDADE, FRONTEIRA E TERRITÓRIO: ANÁLISE DOS CONFLITOS SOCIOAMBIENTAIS


NA COMUNIDADE QUILOMBOLA BOM JESUS DOS PRETOS NA REGIÃO DO MÉDIO MEARIM,
MUNICÍPIO DE LIMA CAMPOS –MA.

Autor: Jessica Maria Barros da Silva

Resumo: Objetiva-se a princípio, discutir a relação da identidade com o território partindo-se da


análise de como a ideia de pertencimento passará é ser dialogada com a construção do território
urbano, pois semelhante a essa ideia de pertencimento, a identidade está indiscutivelmente
atrelada à formação da consciência de conjunto que perpassa a construção coletiva das ações
sociais. Essas características permitem entender através da interpretação da cultura estabelecida
pelas relações sociais, como o território passa a ser moldado pelo comportamento humano diante
da ligação entre pertencimento- cultura- território. Para entender esta dimensão, propõe-se a
reflexão das características desse meio, embasadas no realce do que vem a ser cultura, e de como
os grupos étnicos se situam contemporaneamente diante da ampliação da ideia de fronteira a
partir da apropriação econômica dos espaços, situando esta última enquanto um dos localismos
para o conflito. Outro ponto a ser pautado, se refere ao debate quanto a redefinição dos grupos
étnicos diante da expansão de atividades econômicas e de como esse conjunto cultural passará
a se posicionar em tendo em vista a homogeneização do capitalismo no território, onde a
localização destes grupos será um dos fatores determinantes para a análise da intensidade/
intencionalidade destes agentes, quanto uma vez que, quanto mais próximo à dinâmica urbana
mais conflituosa será equacionar a presença dos grupos étnicos aqui entendidos pela existência
das comunidades tradicionais, como o desenvolvimento urbano e consequentemente a fixação

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de atividades de grande impacto socioambiental. Desta forma, é tomado como referência para
essa discussão a análise da comunidade quilombolas Bom Jesus dos Pretos, situada no município
de Lima Campos no Médio Mearim, pontuando para tanto, a respeito das modificações do
perfil do território pelo capital privado.

Palavras-Chave: Comunidade Quilombola, Conflito, identidade.

40. ATIVIDADE CURRICULAR EM COMUNIDADE E SOCIEDADE (ACCS) E OS POVOS


TRADICIONAIS

Autores: Julio Cesar de Sá da Rocha; Roberta Nascimento da Silva

Resumo: A Atividade Curricular em Comunidade e Sociedade “História do Direito,


Meio Ambiente e Comunidades Tradicionais: Historicidade e Afirmação de Direitos”, da
Faculdade de Direito da Universidade Federal da Bahia (UFBA), objetiva a implementação da
indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão, por meio da análise teórica e da prática em
direito ambiental, dos conflitos jurídicos dos povos e comunidades tradicionais e o conseqüente
mapeamento dos danos gerados a estas comunidades por atividades diversas. A ACCS tem
trabalhado com referenciais da antropologia jurídica, história do direito, direito ambiental
e teorias sobre mapeamento de conflitos. O trabalho propõe reflexão sobre as experiências
teórico-práticas deste componente curricular da Faculdade de Direito da Universidade
Federal da Bahia e os marcos construídos com a Constituição de 1988, o Decreto 6040/2007
e as normas internacionais que garantem direitos para os povos e comunidades tradicionais,
em especial a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT).

41. MODERNIDADE E MERCANTILIZAÇÃO DA NATUREZA: O ATAQUE AOS BENS COMUNS


PELOS PAGAMENTOS DE SERVIÇOS AMBIENTAIS

Autores: Danielle de Ouro Mamed; Cyntia Costa de Lima

Resumo: A caracterização da modernidade contém uma série de elementos marcantes, que


a tornam essencialmente problemática em termos socioambientais. As estruturas sociais e
econômicas da modernidade assentam suas bases num modo de produção excessivamente
danoso ao equilíbrio ecossistêmico, graças ao drástico potencial de modificar o meio
ambiente adquirido através do desenvolvimento da ciência e da tecnologia. A transição
entre o modo de produção manufatureira para a maquinofatureira de produção em massa
alterou profundamente as bases de relação entre as sociedades e os elementos naturais,
passandose a consumir com maior voracidade e gerando, por conseqüência, resíduos que
a natureza não consegue absorver segundo sua capacidade de suporte. Portanto, diante das
ameaças que passaram a ser observadas, o sistema econômico passou a formular diversas
teorias de reestruturação, a exemplo do desenvolvimento sustentável e, mais atualmente,
da economia verde, que tem por objetivo a inclusão dos bens comuns nos mercados e a
regulação econômica de seu acesso e preservação, tendose como principal instrumento deste
pensamento os mecanismos de pagamentos por serviços ambientais. No entanto, há vários

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questionamentos acerca da consistência teórica e prática das ações pautadas nesta racionalidade,
sobre os quais se pretende tratar no presente trabalho. Nesse sentido, objetivase explicar
alguns desses questionamentos e analisar a real efetividade das políticas de mercantilização
da natureza pela via dos Pagamentos por Serviços Ambientais para solucionar a crise das
sociedades e da natureza no contexto da modernidade.

Palavras chave: Direitos socioambientais; Modernidade; mercantilização da natureza;


serviços ambientais; bens comuns.

42. POVOS TRADICIONAIS: INIMIGOS DO ESTADO PARA O DESENVOLVIMENTO OU VÍTIMAS


DO CONFLITO AMBIENTAL E DA GESTÃO TERRITORIAL

Autores: Carla Vladiane Alves Leite; José Querino Tavares Neto

Resumo: As terras de povos tradicionais há muitos é um dos objetos da causa do sofrimento


desses povos por falta de demarcação e reconhecimento, pois em muitos casos, falta uma decisão
judicial para resolver os impasses que envolvem as disputas pelas terras e politicas públicas
viabilizam esses direitos. Por outro lado, há decisões judiciais que ao invés de reconhecer os
direitos territoriais desses povos tradicionais, acabam por criar ainda mais problemas, já que
determinam a retirada deles de suas terras tradicionalmente ocupadas para satisfazer interesses
ambientalistas para a criação de áreas de proteções, econômicos para o desenvolvimento ou
disputas de poderes de terras. Além disso, ao deixar de reconhecer os direitos territoriais
de povos tradicionais e pior, os tirando de suas terras, acabam por deixar essas terras sem
proteção, deixando a mercê de grileiros, posseiros e madeireiros que destroem os bens mais
valiosos dos povos tradicionais, pois eles retiram da natureza seus sustentos e a continuidade
de suas vidas. Porém, o assunto que mais é dificultoso para se decidir são as questões criadas
pelo Estado para o desenvolvimento econômico. A partir da ótica apresentada e dado esse
quadro socioambiental, fica evidente a importância de um planejamento ambiental integrado
entre os povos tradicionais e o Estado para garantir os direitos territoriais desses povos através
do reconhecimento de suas terras e o uso de alternativas para se chegar ao desenvolvimento
almejado pelo Estado. O presente artigo pretende construir uma visão crítica nas interfaces
entre os povos tradicionais e o Estado para efetuar uma síntese dos principais resultados da
bibliografia em relação ao conflito ambiental territorial no Brasil.

Palavras-Chave: Povos tradicionais; Reconhecimento de Direitos; Conflito Ambiental


Territorial.

43. A IMPRESCINDIBILIDADE DO RECONHECIMENTO DOS SABERES DAS POPULAÇÕES


INDÍGENAS

Autores: Diogo Andreola Serraglio; Camila Gonçalves Lemos

Resumo: Uma vez constatada a omissão do reconhecimento da diversidade cultural no


continente americano, diante da sua colonização, o presente estudo tem por objetivo

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analisar a situação das populações indígenas face às consequências trazidas pela imposição
do conhecimento científico ocidental. Tendo em vista que o ordenamento jurídico
vigente é orientado pelos preceitos da propriedade privada, tolhendo a proteção dos bens
materiais e imateriais decorrentes do conhecimento adquirido ao longo dos séculos pelas
comunidades autóctones, demonstrase a urgência do reconhecimento e da proteção dos
direitos e tradições desses povos. Assim posta a questão, pretendese, primeiramente, uma
breve exposição da situação das comunidades indígenas diante da chegada dos colonizadores
europeus, assim como da divisão de seu território, na América. Podese afirmar que, até então,
estas comunidades coexistiam respeitando as diferenças culturais e religiosas uma das outras.
Em seguida, procurarseá a identificação de elementos que evidenciem a imprescindibilidade
dos direitos que possuem os índios à sua própria jurisdição e às suas terras. Diante da
necessidade de se encontrar alternativas possíveis para o efetivo reconhecimento de direitos
indigenistas, farseá a análise do pensamento pósabissal, teorizado por Boaventura de Souza
Santos. Enfatizarseá, neste momento, a importância do uso dos meios e instrumentos que se
façam necessários para assegurar a manutenção das tradições das populações indígenas, visto
que os processos de colonização na América Latina deslegitimaram os conhecimentos e
saberes das populações indígenas, impondolhes, como única forma de saber, o conhecimento
científico ocidental, tida como universal. Por iguais razões, investigarseão os principais
estatutos jurídicos que admitem a igualdade desses povos em relação aos demais: não apenas
declarando suas contribuições para a diversidade e a riqueza das civilizações e culturas,
mas também reconhecendo a urgência na criação de mecanismos capazes de promover,
de forma eficaz, o respeito e os direitos inerentes a estas pessoas, inclusive no que tange
questões jurídicas e territoriais. Por fim, inobstante a produção legislativa e a articulação
de alternativas buscar a proteção dos direitos coletivos no âmbito doutrinário, as quais
permanecem associadas à tradição civilista e individualista, a avaliação jurisdicional do tema
revelará que o ordenamento jurídico vigente ainda se mostra ineficaz, realçando a ausência
de proteção aos bens materiais e imateriais desses povos, e sobressaltando, tão somente, a
desestruturação dos seus modos de vida e dos seus saberes.

44. ARQUITETURAS DE ÁRVORES E ÁRVORES ARQUITETÔNICAS: ARQUITETURAS DOS


TERREIROS DE CANDOMBLÉ DE CACHOEIRA E SÃO FÉLIX INSTAURADAS PELA NATUREZA
SACRALIZADA.

Autor: Fábio Macedo Velame

Resumo: O presente trabalho trata da relação entre natureza e arquitetura no âmbito dos
terreiros de Candomblé no Recôncavo Baiano, entre as cidades de Cachoeira e São Félix.
Nesses lugares não há dicotomia entre o natural x artificial, mas uma imbricação no sagrado.
As árvores sagradas tornam-se arquiteturas, natureza que compõe e cria uma arquitetura afro-
brasileira particular, e a arquitetura torna-se natureza sacralizada, fazendo parte da mata ritual.
Estando as árvores ali, sempre a abrir e fechar as festas. Os terreiros de Cachoeira e São Félix têm
nas árvores sagradas que nascem dentro e furam os telhados dos barracões, Ilê Orixá e Casa de
Cablocos um aspecto espacial simbólico que os diferenciam, que lhes atribui particularidade,

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peculiaridade, singularidade, que lhes é próprio. As árvores sagradas fundam, geram, organizam,
e regem as arquiteturas dos terreiros de Candomblé de Cachoeira e São Félix.

Palavras-chave: Arquitetura, Natureza, Candomblé, Patrimônio Afro-brasileiro.

45.VALORAÇÃO AMBIENTAL DA NASCENTE DO RIO GRANJEIRO (CRATO/CE)

Autores: Francisco Roberto Dias de Freitas; Mileyde Paulino Alves de Lima

Resumo: Em várias regiões do planeta há uma crise agravante em relação à distribuição de água.
Muitos países encontramse desprovidos deste bem, e com isso, agravase mais ainda a necessidade
de obtêla de qualquer forma. Essa crise não é só devido a sua quantidade, mas também a qualidade
em que se encontram estas águas. As superficiais são as que mais têm sofrido ações antrópicas.
Nesse contexto, esse estudo foi desenvolvido na Nascente do Rio Granjeiro, situado no sopé
da Chapada do Araripe no município de Crato/CE, com o objetivo de estimar a verdadeira
disposição a pagar pelos entrevistados, voltados a recuperação ou preservação dessa área em estudo.
Para isso, foram aplicados 43 questionários padronizados, utilizando o método de Valoração
Contingente. De posse dos dados coletados, construídas tabelas cujos resultados após analisados,
foram apresentados de forma tabular e descritiva, com a finalidade de verificar as características
socioeconômicas, tais como: idade, nível de escolaridade, acesso aos meios de comunicação de
massa, dentre outros. Os resultados demonstraram a disposição a pagar pelos entrevistados, os
valores de R$ 516,00/mês e R$ 6.192,00/ano a serem investidas em prol da recuperação ou
preservação da Nascente. Concluise que a sustentabilidade da Nascente depende não só do poder
público municipal, assim como da participação da sociedade cratense no planejamento, gestão e
execução de políticas públicas voltadas ao combate à degradação ambiental.

Palavraschave: Sustentabilidade; Poluição; Valoração Contingente

46. MOVIMENTO DOS TRABALHADORES RURAIS SEM TERRA – RAÍZES, PRINCÍPIOS E


ORGANIZAÇÃO

Autor: Arthur Silva de Medeiros

Resumo: Este artigo tem por objetivo descrever as principais características do Movimento
dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, procurando abordar as raízes do Movimento com
seus aspectos socioeconômico, histórico e politico-ideológico, seus princípios e sua forma
de organização. Para tanto, foi realizada pesquisa bibliográfica sobre o tema em comento,
procurando descrever e analisar as opiniões de tais autores. Foi adotado como referencial
teórico autores importantes que abordaram a temática, com especial ênfase em autores
contemporâneos. Ao final foi possível concluir que apesar das dificuldades enfrentadas pelo
Movimento este continua em sua luta histórica pela reforma agrária e mantém-se como
importante interlocutor junto ao Poder Público.

Palavras Chave: Reforma Agrária, Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra

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47. MEIO AMBIENTE, DESENVOLVIMENTO E AS COMUNIDADES TRADICIONAIS LOCALIZADAS
EM ÁREAS DE PROTEÇÃO AMBIENTAL

Autores: Francisca Edineusa Pamplona; João Luiz do nascimento Mota

Resumo: O artigo tem por objetivo apresentar os resultados de uma pesquisa realizada junto
às comunidades do Sítio Baixa do Maracujá e do Sítio Santo Antônio, população tradicional
residente na área de proteção ambiental da Chapada do Araripe, Ceará, Brasil. Como
metodologia, trabalhou-se com os dados secundários aferidos em pesquisa bibliográfica.
Constatou-se que a criação desta área de proteção ambiental (APA) em 1997 e as restrições
impostas pelos órgãos responsáveis pela gestão, pouco contribuíram para o desenvolvimento
socioambiental e a proteção dos direitos atinentes a sociobiodiversidade. A fragilidade
socioeconomica, educacional e informacional, resultou no fracionamento das propriedades
dos moradores nativos das comunidades e na aquisição destas terras pelos residentes urbanos
para construção de propriedades destinadas à recreação e lazer durante fins-de-semana,
com finalidade diferente dos nativos. Este fato, confirmou a hipótese de que quando se leva
em consideração apenas o componente técnico do direito ambiental, sem conexão com o
socioambientalismo, os problemas não são adequadamente tratados, o que provocou uma
relação desigual entre a dinâmica social humana e a dinâmica da natureza, gerando impactos
ao meio ambiente e problemas sociais na referida comunidade. Os moradores enfrentam
problemas intersubjetivos e objetivos, como a escassez hídrica e a baixa fertilidade do solo
para a produção de bens de subsistência, devido à exploração da terra e dos recursos naturais
de forma desorientada. Conclui-se que o socioambientalismo precisa promover a orientação
do sistema, pois além da criação de unidades de preservação ambiental, faz-se necessário que
se desenvolvam políticas publicas de proteção e gestão dos espaços, estabelecendo diálogos
com as comunidades tradicionais locais, a fim de conhecê-los para compreender o processo
de formação histórica e espacial, as suas dimensões culturais, percepções geoambientais,
demandas econômicas e outras dimensões intrínsecas ao modo de viver das referidas
comunidades, para que os efeitos sociais, econômicos, culturais e ambientais não sejam tão
danosos quanto a ação do capitalismo.

Palavras-Chave: Capitalismo. Socioambientalismo. Comunidades tradicionais. APA.

48. A NOVA LEI DE BIODIVERSIDADE E O ACESSO AO PATRIMÔNIO GENÉTICO DAS


COMUNIDADES TRADICIONAIS

Autor: Natalia Silveira Canedo

Resumo: O governo brasileiro aprovou no mês de maio do ano corrente, a Lei da


Biodiversidade (Lei n. 13.123/2015), também conhecida como Novo Marco Legal da
Biodiversidade; até então, era a Medida Provisória n. 2.186/2001 que regulamentava sobre
o acesso ao patrimônio genético, sobre a proteção e o acesso ao conhecimento tradicional
associado e sobre a repartição de benefícios para a conservação e uso sustentável da
biodiversidade. Sendo o Brasil, país líder em sociobiodiversidade, ou seja, além de megadiverso
em fauna e flora, possui uma infinidade de povos e comunidades tradicionais detentoras de

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conhecimento associado ao patrimônio genético da biodiversidade, a discussão do assunto
em questão se faz de suma importância, tendo em vista, que o novo marco regulatório da
biodiversidade afronta diversos aspectos da Convenção da Diversidade Biológica, bem como
ao protocolo de Nagoya, ainda não ratificado pelo Brasil.

Palavras-chave:
comunidades tradicionais, Lei da Biodiversidade, repartição de benefícios,
patrimônio genético.

49.A DEDUÇÃO DO PASSIVOAMBIENTAL DOVALOR DA INDENIZAÇÃO NAS DESAPROPRIAÇÕES


PARA REFORMA AGRÁRIA

Autores: Anna Maria Nunes Machado; João da Cruz Gonçalves Neto

Resumo: A realização do estudo proposto justifica-se, em primeiro lugar, pela importância


da conjugação do Direito Agrário ao Direito Ambiental. No tocante ao tema da Reforma
Agrária, por muito tempo a discussão sobre a apropriação sociopolítica da terra deixou de
abarcar uma preocupação concreta com a relação que se estabelecia com a natureza. Dessa
forma, o pensamento ocidental desenvolvido pelos teóricos racionalistas esteve marcado pela
concepção reducionista do homem e da natureza, compreendendo-se a ambos de forma
independente. A evolução do pensamento moderno, no entanto, caminhou no sentido de
desconstruir essa aparente contradição, processo de que se tem registro por meio das alterações
construídas no bojo do ordenamento jurídico brasileiro. O presente artigo propõe-se ao estudo
da correlação entre os dois institutos (agrário e ambiental) a partir da análise da dedução do
passivo ambiental do valor da indenização nas desapropriações para reforma agrária, assunto
carente de discussão na Academia, pouco tratado pela doutrina e não pacificado nos Tribunais,
não obstante a importância do tema do ponto de vista geral. O tema abriga questões caras a
diversos ramos do Direito, já que o direito fundamental ao meio ambiente ecologicamente
equilibrado, como direito coletivo, pode servir de restrição a outros direitos fundamentais,
como é o caso da propriedade privada. Sabe-se que dentre os requisitos do cumprimento da
função social da propriedade insere-se a utilização adequada dos recursos naturais disponíveis
e preservação do meio ambiente, conforme determina o artigo 186, caput, e incisos I a IV,
da Constituição Federal; bem como o artigo 9o, caput, e incisos I a IV, §§ 1o a 5o, da Lei no
8.629/93.Também a Carta Magna, no artigo 225, caput, § 1o, incisos I a VII, garante que todos
têm direito ao bem jurídico meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso comum
do povo e essencial à sadia qualidade de vida, impondo-se ao Poder Público e à coletividade
o dever de defendê-lo e preservá-lo para as presentes e futuras gerações. A aplicação do
instituto da justa indenização, garantido constitucionalmente, não pode ignorar o caráter
sócio-ambiental da propriedade, tampouco pode deixar de considerar que os particulares
têm o dever de fazer uso racional dos recursos naturais. Apesar de considerar o aspecto
ambiental como requisito da função social da propriedade, o legislador ordinário deixou de
prever expressamente a possibilidade de dedução do passivo ambiental dentre os critérios
de estabelecimento da justa indenização. A possibilidade, no entanto, foi consolidada pelas
instituições brasileiras, como se verá a seguir, tema este que merece especial atenção frente a
relativa novidade que representa e as possibilidades que abarca no contexto do Direito Agrário

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e Ambiental. A preocupação que se pretende destacar no presente estudo envolve, portanto,
a responsabilidade pela recomposição do passivo ambiental como derivação do direito
fundamental ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, reforçando-se a necessidade
do debate acadêmico aprofundado sobre o tema. Destarte, o presente artigo destina-se a
compreender a propriedade privada conjugada aos quesitos ecológicos de cumprimento da
função social, visando a um aprimoramento dos critérios empregados para quantificação do
passivo ambiental no caso em estudo.

Palavras-chave: Direito Agrário; Reforma Agrária; Justa Indenização; Passivo Ambiental.

50. ASSISTÊNCIA TÉCNICA E EXTENSÃO RURAL NO ESTADO DE GOIÁS – NECESSIDADE DE


ADEQUAÇÃO CULTURAL

Autor: Romulo Cesar Barbosa Marques

Resumo: O Brasil sempre teve, desde a época dos regimes sesmariais implantados pelos
europeus, traços de natureza agrária, confirmados nos dias presentes pela quantidade de
produção de commodities agrários. O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística deixa
claro que há uma dependência e expansão anual destas, especialmente referentes a produtos
elaborados ou semielaborados de itens como soja, carne, cereais e laticínios. A Assistência
Técnica Rural visa colocar à disposição de pessoas ou grupos sociais, técnicas que ainda
não sejam de cunho generalizado ou de fácil acesso e a Extensão Rural busca levar ao
homem do campo, habilidades e práticas, apresentadas pelos cientistas como adequadas
para a melhoria da qualidade de vida populacional rural, aperfeiçoando esta natureza agrária
nacional. O governo federal vem tentando, especialmente a partir de 2003, realizar inúmeros
programas e políticas que privilegiam a agricultura familiar e os projetos de assentamento
rural, especialmente a grupos socialmente menos favorecidos como os agricultores familiares,
quilombolas e indígenas. O objetivo geral do artigo é demonstrar que tal implantação passa
por imensas dificuldades, uma vez que, mesmo numa sociedade rural capitalista, o meio rural
ainda apresenta técnicas rudimentares, voltadas para uma agricultura de subsistência praticada
em pequenas propriedades. Neste ínterim, por mais que as atuais políticas demonstrem reais
esforços por implantar técnicas que estimulem a produção familiar, tais programas não têm
conseguido valorizar e compreender o conhecimento destes agricultores, especialmente no
tocante aos seus respectivos ambientes e forma como usam os recursos naturais locais. Por
tal razão os programas de assistência técnica e extensão rural, mesmo tendo atingido regiões
inóspitas, não conseguem alterar a dinâmica agrária no que se refere a acréscimo de produção
entre os pequenos agricultores. De forma específica, este artigo objetiva discutir a própria
técnica, de caráter comum e não plúrima do que se ensina e transmite aos agricultores
de pequeno porte, quando deveria atender a qualquer comunidade de forma especial,
a chamada Implantação Cultural ou em razão da cultura local. A falta de extensionistas
devidamente preparados ou a falta de acompanhamento in loco das técnicas apresentadas
reforçam a dificuldade de aplicação de ordenamentos como o Art. 2o da Lei 11.326/06, que
determina a implantação entre estes grupamentos menores citados, atendendo a preceito
constitucionalmente previsto. A pesquisa realizada em documentos da EMATER-GO, aponta

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que, pelo método indutivo, a partir da realidade no estado de Goiás, que as políticas de ATERs
devem ser numéricas, e também qualitativamente melhoradas, esperando-se assim como
resultado final da pesquisa, exatamente que, conseguindo-se levar, de forma culturalmente
adequada, as melhores técnicas para grupamentos mais diversificados, conseguir-se-á o
chamado desenvolvimento sustentável no campo. Tal diversificação ratifica o referencial
teórico desta pesquisa, qual seja, Boaventura de Sousa Santos no tocante à pluralidade
epistêmica, consolidando o que se entende por segurança ambiental, substituindo- se uma
produção marginal, sem recursos, por uma democratizada, de técnicas sustentáveis entre
pequenos agricultores isolados, atendendo ao conceito de função social da terra esposado por
Carlos Frederico Marés de Souza, demonstrando o papel da terra e sua relação com quem
efetivamente a torna produtiva.

Palavras-chave: Direito Agrário, Assistência Técnica, Implantação Cultural, Segurança


Ambiental, Produção Democratizada

52. A MORTE DA NATUREZA E DA CULTURA NA GÊNESE DOS CONFLITOS TERRITORIAIS

Autor: Carlos Frederico Marés de Souza Filho

Resumo: O modelo hegemônico de desenvolvimento, que acarreta a crise ecológica global


e configura a sociedade de risco, tem ameaçado de forma reiterada os territórios dos povos e
comunidades tradicionais na América Latina, atingidos por megaprojetos, atividades extrativas
e predatórias, como mineração, usinas hidroelétricas etc. A apropriação da natureza como
mercadoria busca suprimir o vínculo indissociável entre cultura e natureza, negando o direito
de coexistência de povos e suas múltiplas identidades étnicas, assim como de seus modos de
vida integrados com a terra e a natureza. Nessa mesma ótica, observa-se a apropriação dos
conhecimentos tradicionais associados à biodiversidade, subordinando-os aos interesses de
mercado, o que perpetua o colonialismo capitalista. Na busca da superação desse modelo,
vislumbram-se alternativas de desenvolvimento baseadas na perspectiva intercultural e
decolonial, inspiradas nas cosmovisões de povos originários, e no conhecimento e saber de
outros povos tradicionais de base extrativista e camponesa, sempre com formas coletivas de
relação com a terra e com a natureza, em uma produção solidária.

53. DIREITO E SOCIOECONOMIA: POSSIBILIDADES PARA AS COMUNIDADES QUILOMBOLAS

Autor: Maria Cristina Vidote Blanco Tárrega

RESUMO: Ainda que seus direitos territoriais conte com proteção normativa nacional
e internacional, as comunidades kalunga que vivem no Estado de Goiás não obtiveram
a regularização fundiária de seu territótio, constituindo o atendimento desta demanda
básica da comunidade. Ainda que o território Kalunga seja oficialmente reconhecido
como sítio histórico e patrimônio cultural, a comunidade necessita de ações jurídicas
concretas que o fomente seu desenvolvimento socioeconômico, em especial no que toca
ao desenvolvimento da exploração econômica sustentável do meio ambiente nas suas

ANAI S DO IX CON GRE S S O DA R E DE L AT I N OAME RI C AN A D E AN T R O PO LO G IA JUR Í DI C A


SOCI EDADES PLUR AIS E ESTADOS N AC I O NAI S li mite s e d es a f io s pa ra a efet iv i d ad e d e d ireito s
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dimensões natural, cultural e artificial. Considerando-se que a comunidade está situada
na região do Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros, com evidente potencial para o
turismo, o qual, se utilizado adequadamente, não apenas pode favorecer o desenvolvimento
de alternativa turística consistente no contato com as belezas naturais e culturais. Pretende-se
com o presente trabalho, usando-se parra tanto a análise transdiciplinar entre o Direito e a
Socioeconomia, as potenciais medidas de fomento às ao turismo nas comunidades visando
o etnodesenvolvimento.

Palavras-chave: comunidades Kalunga; turismo; etnodesenvolvimento.

DERECHOS TERRITORIALES, PROYECTOS DE DESARROLLO DE GRAN ESCALA


Y ALTERNATIVAS INDÍGENAS DE DESARROLLO

Ementa: A partir da década de 1970, os governos de muitos países latino-americanos e


outros países, juntamente com grandes consórcios de empresas começaram a implantar
projetos de desenvolvimento regional de grande escala, avançando sobre os territórios dos
povos indígenas, sem consultar às lideranças. Com a consolidação do movimento político
indígena, também da década de 1970-1980, e o reconhecimento dos direitos indígenas
incorporados nas novas Constituições nacionais e a criação de novas legislações internacionais
como a Convenção 169 da OIT (1989) e a Declaração das Nações Unidas sobre os Direitos
dos Povos Indígenas (2007), empresas e governos tiveram de adotar novas estratégias para
respeitar os direitos indígenas, ou fazer parecer que respeitam. Enquanto alguns povos
indígenas continuam lutando para efetivar seus direitos, outros povos, com suas terras
regularizadas, enfrentam o desafio da gestão territorial de formas sustentáveis em situações
onde os projetos em grande escala continuam a constituir uma ameaça para a sua autonomia
local. Esta Mesa de Trabalho propõe discutir casos diferentes em diversos países da América
Latina, examinando os esforços por parte dos povos indígenas de criar alternativas indígenas
de desenvolvimento comunitário.

Coordenador:
Stephen Grant Baines (Universidade de Brasília - Brasil)

1. PROJETOS DE DESENVOLVIMENTO NA AMAZÔNIA E AS ESTRATÉGIAS DE GRANDES


EMPRESAS

Autor: Stephen Grant Baines

Resumo: Uma estratégia atual de grandes empresas construtoras de usinas hidrelétricas e


de empresas de mineração, em colaboração com o Estado, é de favorecer a regularização
de terras indígena e exercer seu poder econômico para aliciar as novas lideranças indígenas
para assinar acordos diretos entre as comunidades indígenas e as empresas, em nome de
uma ‘autodeterminação indígena’ (Baines, 1993, p.239). Em junho de 1989, acordos foram

ANAI S DO IX CON GRE S S O DA R E DE L AT I N OAME RI C AN A D E AN T R O PO LO G IA JUR Í DI C A


SOCI EDADES PLUR AIS E ESTADOS N AC I O NAI S li mite s e d es a f io s pa ra a efet iv i d ad e d e d ireito s
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assinados entre a Mineração Taboca e líderes Waimiri-Atroari, anulados enquanto não
houver legislação complementar para regulamentar a mineração em terras indígenas. A Terra
Indígena Waimiri-Atroari serviu como um precursor para o planejamento de estratégias
para a implantação “regularizada” de grandes projetos de desenvolvimento regional em
terras indígenas na Amazônia - de mineração e de usinas hidrelétricas, e influenciou na
própria formulação da Constituição de 1988, a partir de 1987, com forte lobby das empresas
mineradoras lideradas pela Mineração Taboca, Grupo Paranapanema. O trabalho reflete
sobre este cenário onde há interesses de grandes projetos em terras indígenas, quilombolas e
de populações tradicionais, e o dever do antropólogo/a de denunciar os ataques aos direitos
indígenas, quilombolas e populações tradicionais à terra, de desmascarar as estratégias da
bancada ruralista e das grandes empresas que implantam megaprojetos em terras indígenas,
e de participar em mobilizações políticas em defesa dos direitos indígenas constitucionais e
internacionais, quilombolas e outras populações tradicionais. Existe um papel fundamental
d@ antropólog@ em processos de demarcação de terras indígenas e quilombolas, em defesa
dos direitos constitucionais e internacionais dos povos indígenas e tradicionais.

Palavras-chave: terras indígenas, hidrelétricas, mineração, megaprojetos.

2. DIREITOS TERRITORIAIS DE POVOS INDÍGENAS NA ZONA COSTEIRA DO CEARÁ:


PROJETOS DE TURISMO INTERNACIONAL, TURISMO COMUNITÁRIO E USINAS EÓLICAS

Autor: Isis Maria Cunha Lustosa

Resumo: Abordam-se distintos projetos em Terras Indígenas (TIs) na Zona Costeira


do estado do Ceará - Brasil, sejam os de turismo internacional invasores dos territórios
reivindicados como TIs, sejam os de turismo comunitário geridos nas aldeias. Também os
impactos dos grandes projetos de carcinicultura, usinas eólicas, siderúrgicas, termelétricas,
complexo portuário, monocultura (coco e cana-de-açúcar), fábricas (para o beneficiamento
de derivados do coco e cachaça) incidentes em territórios indígenas ou em áreas contíguas.
A demarcação da Terra Indígena Aldeia Lagoa Encantada do povo Jenipapo-Kanindé, no
município de Aquiraz, embora iniciada junto à Fundação Nacional do Índio (FUNAI) em
1996, permanece inconclusa por contestação de grupo empresarial local. Este povo indígena,
em 1992, impediu a construção do empreendimento turístico internacional Aquiraz Resort
na aldeia e, em 2004, implantou um projeto de turismo comunitário na sua TI. O povo
indígena Tremembé na Terra Indígena Barra do Mundaú, no município de Itapipoca,
reivindica os seus direitos territoriais ao Estado Nacional frente à ameaça do projeto de turismo
internacional – Nova Atlântida – apoiado pelo governo brasileiro. Lideranças Tremembé
afirmam ter sofrido intimidações por parte de representantes deste empreendimento turístico
internacional que visam expropriar a TI. A maioria dos Tremembé habitantes das quatro
aldeias encontra-se contrária à implantação do Nova Atlântida. Outros foram cooptados
por ofertas financeiras deste empreendimento, resultando em conflitos internos entre os
indígenas. Em 2009, iniciou-se o processo de demarcação da TI Tremembé da Barra do
Mundaú, igualmente inconcluso como a maioria das TIs do Ceará. Na mesma Zona Costeira