Você está na página 1de 1208

ANAIS DO IV CIAD

COLÓQUIO INTERNACIONAL DE
ANÁLISE DO DISCURSO
A produção dos consensos e a conquista das
resistências: os discursos nos movimentos do
mundo contemporâneo

ISBN 978-85- 7993-352- 3

Realizado de 2 a 4 de setembro de 2015


UFSCar

SÃO CARLOS
2016
UNIVERSIDADE FEDERAL DE SÃO CARLOS - UFSCar

REITOR
Prof. Dr. Targino de Araújo Filho

VICE-REITOR
Prof. Dr. Adilson Jesus Aparecido de Oliveira

PRÓ-REITORA DE GRADUAÇÃO
Profa. Dra. Claudia Raimundo Reyes

PRÓ-REITORA DE PESQUISA
Profa. Dra. Heloisa Sobreiro Selistre de Araujo

PRÓ-REITORA DE PÓS-GRADUAÇÃO
Profa. Dra. Débora Cristina Morato Pinto

DIRETOR DO CENTRO DE EDUCAÇÃO E CIÊNCIAS HUMANAS


Profa. Dra. Wanda Aparecida Machado Hoffmann

COORDENADOR DO PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM


LINGUÍSTICA
Prof. Dr. Carlos Piovezani

CHEFE DO DEPARTAMENTO DE LETRAS


Prof. Dr. Luiz André Neves de Brito

COORDENADORA DO CURSO DE LINGUÍSTICA


Profa. Dra. Luzmara Curcino

COORDENADOR DO CURSO DE LETRAS


Prof. Dr. Pablo Arantes
Vanice Maria Oliveira Sargentini
Carlos Piovezani
Luzmara Curcino

ANAIS DO IV CIAD
Colóquio Internacional de
Análise do Discurso

A produção dos consensos e a conquista das resistências: os


discursos nos movimentos do mundo contemporâneo

ISBN 978-85-7993-352-3

2016
Editoração
Clarissa Neves Conti (PPGL – UFSCar)
Pâmela da Silva Rosin (PPGL – UFSCar)

Revisão Técnica
Clarissa Neves Conti (PPGL – UFSCar)
Carlos Alberto Turati (PPGL-UFSCar)
Denise Ribeiro Leppos (PPGL-UFSCar)
Elizete de Souza (PPGL – UFSCar)
Geovana Chiari (PPGL-UFSCar)
Hulda Gomides Oliveira (PPGL-UFSCar)
Jessica Boquetti de Oliveira Braga (Letras – UFSCar)
Mónica Guerrero Garay (PPGL-UFSCar)
Pâmela da Silva Rosin (PPGL – UFSCar)
Rafael Borges Ribeiro dos Santos (PPGL-UFSCar)
Rejane Rodrigues Almeida de Medeiros (PPGL-UFSCar)
Wilson Ricardo Barbosa dos Santos (PPGL-UFSCar)

Comissão Avaliadora dos textos


Clarissa Neves Conti (PPGL – UFSCar)
Pâmela da Silva Rosin (PPGL – UFSCar)

Sargentini, V.; Piovezani, C.; Curcino, L.; Rosin, P. S.; Conti, C. N. (orgs.).

Anais do IV CIAD – Colóquio Internacional de Análise do Discurso – UFSCar. São


Carlos: Pedro & João Editora, 2016.

ISBN 978-85-7993-352-3

1. Análise do Discurso. 2. Colóquio Internacional de Análise do discurso. 3.


UFSCar. 4. Estudos de Linguística
CDD 410
ORGANIZADORES
Profa. Dra. Vanice Maria Oliveira Sargentini (UFSCar)
Prof. Dr. Carlos Piovezani (UFSCar)
Profa. Dra. Luzmara Curcino (UFSCar)

COMISSÃO ORGANIZADORA DO IV CIAD


Allice Toledo Lima da Silveira (PPGL-UFSCar)
Carlos Alberto Turati (PPGL-UFSCar)
Clarissa Neves Conti (PPGL-UFSCar)
Debora Cristina Ferreira Garcia (PPGL-UFSCar)
Denise Ribeiro Leppos (PPGL-UFSCar)
Diane Heire Paludetto (PPGL-UFSCar)
Elizete de Souza (PPGL – UFSCar)
George Sosthène Koman (PPGL-UFSCar)
Geovana Chiari (PPGL-UFSCar)
Israel de Sá (PPGL-UFSCar)
Jocenilson Ribeiro dos Santos (PPGL-UFSCar)
Joseane Silva Bittencourt (PPGL-UFSCar)
Lívia Maria Falconi Pires (PPGL-UFSCar)
Maísa Ramos Pereira (PPGL-UFSCar)
Michelle Aparecida de Pereira Lopes (PPGL-UFSCar)
Mónica Guerrero Garay (PPGL-UFSCar)
Nirce Aparecida Ferreira Silvério (PPGL-UFSCar)
Pâmela da Silva Rosin (PPGL-UFSCar)
Pedro Ivo Silveira Andretta (DCI-UNIR)
Rafael Borges Ribeiro dos Santos (PPGL-UFSCar)
Rejane Rodrigues Almeida de Medeiros (PPGL-UFSCar)
Renata Maria Cortez da Rocha Zaccaro (PPGL-UFSCar)
Simone Garavello Varella (PPGL-UFSCar)
Thiago Barbosa Soareas (PPGL-UFSCar)
Wilson Ricardo Barbosa dos Santos (PPGL-UFSCar)

COMISSÃO CIENTÍFICA DO IV CIAD


Profa. Dra. Vanice Maria Oliveira Sargentini (UFSCar)
Prof. Dr. Carlos Piovezani (UFSCar)
Profa. Dra. Luzmara Curcino (UFSCar)
Profa. Dra. Maria do Rosário Valencise Gregolin (UNESP-FCLAr)
Prof. Dr. Pedro Navarro (UEM)
Prof. Dr. Cleudemar Alves Fernandes (UFU)
Prof. Dr. Antônio Fernandes Júnior (UFG- Campus Catalão)
Prof. Dr. Nilton Milanez (UESB)
Profa. Dra. Kátia Menezes de Sousa (UFG- Campus Goiânia)
Profa. Dra. Amanda Batista Braga (UFPB)
Prof. Dr. Pedro Henrique Varoni Carvalho (UNIT-Sergipe)
Prof. Dr. Jean-Jacques Courtine (University of Auckland)
Profa. Dra. Marlene Coulomb-Gully (Université de Toulouse)
Prof. Dr. Christian Puech (Université Paris III -Sorbonne Nouvelle)
Profa. Dra. Mônica Zoppi-Fontana (UNICAMP)
Prof. Dr. Pedro de Souza (UFSC)
Prof. Dr. Mariano Dagatti (Universidad de Buenos Aires)
Profa. Dra. Maria Alejandra Vitale (Universidad de Buenos Aires)
Prof. Dr. Arnaldo Cortina (UNESP-FCLAr)

APOIO TÉCNICO
Júnior Aparecido Assandre (secretário do PPGL)
Thais Ariane Amorim Correia (estagiária do PPGL)
PESQUISAS EM ANÁLISE DO DISCURSO:

UM PANORAMA ATUAL DA PRODUÇÃO CIENTÍFICA NA ÁREA

Dando continuidade às reflexões promovidas nas três primeiras edições do CIAD - Colóquio
Internacional de Análise do Discurso, realizadas respectivamente em 2006, 2009 e 2012, e cujo
compromisso central tem sido o de contribuir com a maior divulgação das pesquisas que se
desenvolvem na área, dando visibilidade aos grupos de estudo e pesquisa nacionais e internacionais
que se dedicam aos estudos do discurso, nesta quarta edição do CIAD propusemos a reflexão sobre
a produção dos consensos e a conquista, nem sempre simples ou visível, das formas de resistência
às formas hegemônicas de atuação dos poderes, das ideologias dominantes e das diversas formas de
coerção de nossas práticas, discursivas e não discursivas.

Participaram desta edição do CIAD 46 grupos de estudo e pesquisa na área de Análise do


discurso, oriundos de diversas instituições nacionais e internacionais, que expuseram o
desenvolvimento de seus projetos e trabalhos de pesquisa no que se refere aos objetivos gerais de
cada grupo e aos trabalhos específicos de cada membro, de modo a divulgar suas especificidades
teórico-metodológicas, temáticas, assim como dos objetos de diversas origens que constituem os
corpora adotados por cada grupo.

No primeiro CIAD, realizado em 2006, a proposta do evento foi voltada à discussão das
heranças, métodos e objetos da Análise do Discurso, de modo a apresentar um balanço geral dos
estudos do discurso no Brasil. Tanto a diversidade quanto as regularidades nesses estudos foram
ressaltadas nas diversas apresentações, em especial contempladas nos trabalhos das mesas redondas,
cujos textos estão publicados no livro organizado por Maria do Rosário Gregolin e Vanice
Sargentini, intitulado Análise do Discurso: teoria, métodos e objetos, lançado pela Editora Claraluz,
em 2008. Esses textos demonstram a produtividade do campo teórico da Análise do Discurso que
não se furta a questionar seus fundamentos teórico-metodológicos, nem a assumir seus limites
diante de objetos variáveis ao longo do tempo.

Universidade Federal de São Carlos - São Carlos, São Paulo, Brasil - 2 a 4 de setembro de 2015.
Em 2009, sob a temática A ordem do olhar: discurso, semiologia e história, o II CIAD
propôs a discussão do caráter cada vez mais sincrético que frequenta nossos objetos de análise,
focalizando como a perspectiva discursiva poderia explorar essas temáticas e objetos diversos
inscritos em uma dimensão histórica. Os textos das conferências e mesas-redondas deste evento
foram publicadas no livro Discurso, Semiologia e História, organizado por Vanice Sargentini,
Luzmara Curcino e Carlos Piovezani, também pela Editora Claraluz, em 2012.

O III CIAD, realizado em 2012, tratou mais diretamente da presença e das contribuições do
pensamento de Michel Foucault à Análise do discurso. A opção por essa temática geral deveu-se à
preocupação permanente do Laboratório de Estudos do Discurso (LABOR/UFSCar), compartilhada
por outros grupos de estudo em AD no Brasil, em dispensar a devida atenção à historicidade
constitutiva do discurso e à configuração semiótica sincrética de muitos de seus objetos a partir das
reflexões acerca do método arqueológico de análise foucaultiano e de sua abordagem histórico-
filosófico-discursiva de amplo alcance. Os textos das conferências e mesas também foram
publicados no livro intitulado Presenças de Foucault na Análise do Discurso, pela EdUFSCar, em
2014, também organizado pelos professores Carlos Piovezani, Luzmara Curcino e Vanice
Sargentini.

Neste IV CIAD, buscamos promover a reflexão das diversas relações entre os sujeitos de
uma sociedade e os discursos que os constituem e circundam e são responsáveis pela construção de
hegemonias, de consensos, do senso comum, mas também de resistências, de divergências, de
dissidências. Assim, buscamos promover o debate sobre os modos de constituição das hegemonias
discursivas, as razões de suas diferentes durações na história e as formas diversas de apropriação
desses discursos por parte dos sujeitos. Sabemos que em diferentes condições de produção podem
prevalecer, entre os sujeitos e os discursos, relações de distintas modalidades, entre as quais
ocorrem a repetição, a identificação, a indiferença, o afastamento, a resistência, a oposição ou a
repulsa. Tais relações foram exploradas nas conferências dos professores Marc Angenot, da McGill
University, Marlène Coulomb-Gully, da Université de Toulouse, e Jean-Jacques Courtine, da
Université de la Sorbone Nouvelle e da University of Auckland.

Universidade Federal de São Carlos - São Carlos, São Paulo, Brasil - 2 a 4 de setembro de 2015.
Além dessas conferências, o IV CIAD contou com três mesas-redondas, das quais
participaram os professores; Valdir Heitor Barzotto, da USP – Universidade de São Paulo, Kátia
Menezes de Souza, da UFG – Universidade Federal de Goiás, María Alejandra Vitale, da UBA -
Universidade de Buenos Aires, Pedro Navarro, da UEM – Universidade Estadual de Maringá;
Antônio Fernandes Júnior, também da UFG – Universidade Federal de Goiás, e Mariano Dagatti,
também da UBA - Universidade de Buenos Aires, e nas quais foram abordadas a produção dos
consensos e a conquista das resistências na Mídia, na Política e nas Ciências da Linguagem. As
discussões e reflexões empreendidas por esses pesquisadores em breve estarão publicadas no livro
(In)Subordinações contemporâneas: consensos e resistências, a ser publicado pela EdUFSCar, em
2016.

Fez parte da programação deste IV CIAD a apresentação de 46 grupos de pesquisa em


Análise do discurso, representantes das várias tendências dos estudos discursivos produzidos no
Brasil e no exterior. Em conjunto, a realização das conferências e das mesas-redondas, as
apresentações dos grupos de pesquisa e demais apresentações de painéis dos participantes
ofereceram uma oportunidade ímpar de reflexão sobre as formas e os funcionamentos dos consensos
desejáveis, mas também dos inaceitáveis que regulam nossas práticas na atualidade.

Considerando os inscritos com apresentação de trabalhos, ouvintes e convidados, o evento


contou com mais de 400 participantes. Tendo em vista a especificidade do formato do evento, a
saber, a inscrição e a apresentação dos trabalhos desenvolvidos por grupos de pesquisa na área da
Análise do discurso, destacamos a participação, nesses 46 grupos inscritos, de 97 professores
doutores e 240 alunos de programas de pós-graduação na área, em sua grande maioria doutorandos.
Destacamos ainda a origem dos grupos de pesquisa advindos das mais diversas instituições
brasileiras com representantes de todas as regiões geográficas do país1, bem como de outros países,
a saber, Argentina, Colômbia, Costa do Marfim, Congo e França, com apresentações de trabalho em

1
A consulta aos grupos de pesquisa participantes pode ser feita na página do evento pelo endereço:
<http://www.ciad.ufscar.br/?page_id=206>.

Universidade Federal de São Carlos - São Carlos, São Paulo, Brasil - 2 a 4 de setembro de 2015.
português, espanhol e francês. Contamos também com a participação com apresentação de painel
(60, no total) de muitos alunos de graduação de cursos da área de estudos da linguagem, mas
também das ciências sociais, da educação, das ciências biológicas etc, de modo a prestigiar a
iniciação à pesquisa na área e promover o contato desses alunos com a variedade de abordagens e
temas adotados pelos diversos grupos de pesquisa representados no evento.

Pelo fato de reunir pesquisadores de diversas instituições, o CIAD fortalece e promove o


encontro de professores que têm afinidade quanto aos objetivos e objetos de pesquisa, viabilizando
e intensificando a produção de conhecimento nos estudos do discurso, bem como ampliando sua
divulgação. Essa forma ímpar de participação no evento permite dar visibilidade aos resultados das
pesquisas coletivas e individuais desenvolvidas no âmbito de um ou mais grupos de estudo e
pesquisa, de forma a tornar cada grupo uma referência potencial em determinada temática ou
discussão.

Ao longo dessas quatro edições do CIAD é possível conhecer os vários grupos de pesquisa
na área dos estudos discursivos no Brasil e constatar a proeminência daqueles filiados às teorias e
metodologias de origem francesa. Observamos ainda a relativa estabilidade desses grupos (entre 48
e 54 grupos) que em sua maioria participaram de todas as edições do colóquio, o que nos mostra a
regularidade da pesquisa e a permanência dos pesquisadores líderes na área. Verificamos ainda que
a formação recente de alguns grupos tem por característica derivarem de grupos já existentes, cujos
pesquisadores se tornaram professores de outras universidades, mantendo sua relação com seu
grupo de estudos de origem, mas constituindo novos grupos com perguntas e orientações de
pesquisa distintos.

É possível observarmos ainda que algumas temáticas e objetos mostraram-se mais


frequentes como fontes de pesquisa:
a)Estudos que focalizam as relações entre língua, sujeito e história, por sua vez imersas em
relações de poder e saber;
b)Estudos sobre discursos e a produção de identidades/ representações identitárias, processos de
subjetivação;

Universidade Federal de São Carlos - São Carlos, São Paulo, Brasil - 2 a 4 de setembro de 2015.
c)Relações entre o discurso e o ensino das ciências, o discurso científico, a ciência da
informação;
d)Estudos sobre ensino de língua materna e língua estrangeira (preocupações com formas de
leitura, de interpretação e de autoria);
e)Estudos da materialidade multimodal, sincrética, mista, às vezes também focalizando a
imagem em sua relação com o verbal. Tais estudos exploram objetos diversos como o corpo,
o cinema, a música;
f)A análise do discurso político, do discurso da mídia, do discurso jurídico, dentre outros;
g)Estudos que analisam discursos inscritos em temáticas, poderíamos dizer de preocupações
foucaultianas, como a violência, a cidadania e sua exclusões e resistências, os direitos
humanos, as minorias, etc;
h)Estudos sobre a epistemologia (conceitos, métodos) dos estudos do discurso, em especial
sobre o campo a que se refere à Análise do Discurso;
i)Estudos sobre as contribuições bakhtinianas no âmbito dos estudos do Discurso e/ou Análise
bakhtiniana do discurso.

São em sua grande maioria trabalhos bastante sólidos que têm oferecido resultados
científicos para a compreensão das formas de produção e circulação dos textos na atualidade e seu
impacto no modo como interpretamos e nos constituímos sujeitos. Com isso, é notável o interesse
de novos pesquisadores pela área.

Neste livro, em formato eletrônico, encontram-se os artigos dos membros dos grupos de
pesquisa, cuja leitura permitirá conhecer essa diversidade de abordagens teóricas e metodológicas,
bem como a pluralidade de objetos de análise de nosso campo. É com o desejo de frutuosa leitura
que convidamos estudiosos e interessados pelas peculiaridades próprias das injunções sociais,
históricas, culturais e técnicas à produção e à circulação dos discursos, manifestos sob a forma de
textos variados, a apreciar a atualidade da produção científica na área de estudos do discurso,
manifesta nos textos aqui conjugados, e com isso melhor compreender o papel do discurso nos usos

Universidade Federal de São Carlos - São Carlos, São Paulo, Brasil - 2 a 4 de setembro de 2015.
da linguagem, nas formas de interlocução e de ação sobre o outro, e nas formas de nossa
constituição identitária, bem como esclarecer o alcance das pesquisas nessa área.

Vanice Sargentini
Luzmara Curcino
Carlos Piovezani

Universidade Federal de São Carlos - São Carlos, São Paulo, Brasil - 2 a 4 de setembro de 2015.
MÍDIA E MULHER EM SITUAÇÃO DE RUA: UMA ANÁLISE
DISCURSIVA

Marta AGUIAR; Mônica Santos de Souza MELO


Universidade Federal de Viçosa (UFV)
marta_aguiar20@hotmail.com; monicassmelo@yahoo.com.br

Resumo: Este trabalho estuda o discurso relacionado às cidadãs em situação de rua por
meio de análise discursiva de notícias publicadas em importantes jornais: O Globo e O
Tempo. O trabalho está fundamentado principalmente na abordagem de análise do
discurso de Patrick Charaudeau, a Teoria Semiolinguística. A metodologia inclui coleta e
seleção de textos para posterior análise, utilizando os modos de organização do discurso:
o Enunciativo, o Descritivo, o Narrativo, e o Argumentativo. Assim, foi possível perceber
que, embora haja predominância nos textos da modalidade delocutiva, que cria uma
ilusão de afastamento dos protagonistas da enunciação, os jornais se posicionam em
relação ao assunto, posicionamento esse que se constrói a partir dos demais modos de
organização do discurso.
Palavras-chave: discurso, mídia; mulher em situação de rua.

informação e construir verdades. Assim, a mídia


Introdução
pode construir/reproduzir discursos sobre esse
O problema da situação de rua é problema e sobre as pessoas por ele afetadas, o
resultado de um processo histórico e social que que também pode influenciar no tratamento
compele pessoas a ocupar logradouros social. Por isso, o trabalho se justifica não só
públicos, como praças, calçadas, pontes, pela relevância do tema social tratado, mas
prédios abandonados. Essas pessoas são também pela necessidade de discutir a influencia
geralmente chamadas de “moradores de rua”, do discurso midiático sobre o problema social
“mendigos” e “sem-teto”. da mulher em situação de rua.
Inseridas nessa problemática estão as O trabalho tem como objetivo analisar o
mulheres. Um dos instrumentos pelos quais elas discurso da mídia por meio da organização
ganham visibilidade é através dos meios de discursiva das notícias selecionadas:
comunicação. Em função de todo o 'Mendigata' de Niterói é internada em clínica
conhecimento que as pessoas adquirem sobre de reabilitação em São Paulo (O Globo) e
diferentes assuntos geralmente transmitidos pela Uma esquina, uma barraca e sete cachorros (O
mídia, esta tem o poder de controlar a

Universidade Federal de São Carlos - São Carlos, São Paulo, Brasil - 2 a 4 de setembro de 2015.

15
Tempo). Assim como também descrever os externa quanto por uma interna. Acrescentamos
contratos que as regulam. o público, este também tem o poder de limitar a
mídia, podendo assim como ela ser manipulado,
1. Mídia: funcionamento e influência
mas também manipulá-la.
Segundo van Dijk (2011), muito do
conhecimento que as pessoas têm sobre o 1.1 Notícia: um gênero discursivo de
mundo é adquirido a partir dos meios de informação midiática
comunicação. Entretanto, a informação passa Considerando a relevância dos gêneros
pelo uso da linguagem e esta não é discursivos na sociedade, analisamos o gênero
necessariamente transparente, muito pelo notícia, definido, a seguir:
contrário, as mídias usam o espaço que têm
para transmitir uma verdade construída e não [...] um conjunto de informações que se
uma verdade sobre a realidade social. relaciona a um mesmo espaço temático,
tendo um caráter de novidade, proveniente
Desse modo, a partir dos objetivos de uma determinada fonte e podendo ser
desse trabalho, é de suma importância discutir diversamente tratado. Um mesmo espaço
sobre o funcionamento da “máquina midiática”. temático: significa que o acontecimento, de
De acordo com Charaudeau (2006), ela algum modo, é um fato que se inscreve num
consiste na troca entre duas instâncias: a certo domínio do espaço público, e que pode
instância de produção (produtor da informação) ser reportado sob a forma de um minirrelato
e a instância de recepção (consumidor da (CHARAUDEAU, 2006, p. 132).
informação), além de considerar que há um
produto no centro dessa relação (texto A instância midiática considera os
midiático) componentes da situação de comunicação na
Segundo Pesce (2012), uma das mídias construção de uma notícia. Nesse processo o
pesquisadas, o jornal O Globo, ao longo das sujeito informante não captura necessariamente
últimas décadas do século XX, se consolidou a realidade, esta passa por um filtro de um
como empresa jornalística com sucursais ponto de vista particular. O acontecimento é
espalhadas pelo Brasil. Isso garante uma transformado em notícia a partir de um
característica nacional com distribuição nos processo narrativizado, um acontecimento
centros de decisão política e econômica. Assim considerado relevante e atual.
como, de acordo com Lira (2009), o segundo A seguir, abordamos a temática social
jornal pesquisado, O Tempo, também tem um pela qual se interessa este trabalho por
grande alcance de leitores. Fundado em 1996, considerar que é relevante a sua discussão para
circula diariamente em 97 municípios de Minas as análises.
Gerais, com uma tiragem de 45 mil exemplares
2. Mulher em situação de rua: o problema
aos domingos e 40 mil, nos outros dias da
social apresentado na mídia
semana.
O problema social da situação de rua é
Entretanto, para Charaudeau (2006), a
cada vez mais abordado pela mídia, por isso
ação manipuladora das mídias é limitada. Ela
este trabalho tem como interesse investigar os
pode ser manipulada tanto por uma pressão

Universidade Federal de São Carlos - São Carlos, São Paulo, Brasil - 2 a 4 de setembro de 2015.

16
discursos da mídia sobre às mulheres em
Os resultados mostram que 82% das
situação de rua, mas percebendo o problema de
pessoas em situação de rua são homens e 53%
maneira geral, pois conforme sugere Aguiar
possui entre 25 e 44 anos. Os principais
(2014) a situação de rua de homens está
motivos: desemprego (29,8%); a crescente
imbricada e interfere na situação de rua das
fragilização de vínculos familiares e sociais
mulheres.
(29,1%) e alcoolismo e/ou drogas (35,5%).
Ao abordar este problema social, Silva Estes motivos podem estar relacionados entre si
(2009) diz que este remonta ao surgimento das ou serem consequência um do outro. Quando já
cidades pré-industriais da Europa, aumentado estão nas ruas, os meios de sobrevivência vão
com as modificações ocorridas nas cidades após desde a coleta de materiais recicláveis à
a Revolução Industrial. Havia um excedente de solidariedade das pessoas. Há também os
pessoas, advindas do campo para a cidade, em pedintes, que, de um modo geral, são chamados
busca de trabalho que sem outros meios de pejorativamente pela mídia e pelo restante da
sobrevivência foram compelidas às ruas. No população de “mendigos”.
Brasil, de acordo com Caldeira (2010), os
Quanto às cidadãs em situação de rua,
liberados pela indústria na contemporaneidade
Tiene (2004) sugere que o número de mulheres
constituíram a problemática da situação de rua.
é inferior ao número de homens por questões
Entre 1930 e 1970 muitas pessoas migraram
históricas e sociais. A mulher sempre
para o Sudeste, principal região escolhida como
desempenhou o papel de reprodutora e
destino porque foi onde a industrialização
responsável pelos cuidados com os filhos.
ocorreu de forma mais acelerada.
Assim como sempre esteve limitada ao espaço
Atualmente, um grande número de físico e social da casa, submissa ao ambiente
cidadãos e de cidadãs utiliza, por diferentes doméstico. Outra explicação é a de que se
motivos, a rua como espaço de sobrevivência. comparada aos homens “as mulheres possuem
Em 2008 foi publicada pelo Ministério do uma rede social de suporte maior e estabelecem
Desenvolvimento Social, a Pesquisa Nacional relações interpessoais mais profundas”
sobre a População em Situação de Rua que teve (LOPES; BORBA; REIS, 2003, p. 47).
como público-alvo pessoas acima dos 18 anos
Quanto às que estão em situação de rua,
de idade vivendo em situação de rua, de 71
Tiene (2004), apresenta possíveis explicações.
cidades brasileiras, sendo 48 com mais de
Para a autora, a rua pode ser uma forma de
300.000 habitantes e 23 capitais. As pessoas
fuga para as mulheres. Nela podem encontrar
que responderam as questões dessa pesquisa se
formas diferentes de superar a relação de
somadas às que participaram das pesquisas nas
dominação. A mulher pode preferir ficar na rua
quatro capitais restantes resultam em 50.000.
porque existem fragilidades em casa; apesar de
Entretanto, por serem pesquisas realizadas em
na rua também encontrar violência. Nessa
momentos diferentes, bem como distintas
perspectiva, o discurso também fornece a
metodologias, acredita-se que um número
possibilidade de resistir, de intervir e de gerar
muito maior de pessoas esteja em situação de
mudanças discursivas.
rua no país.

Universidade Federal de São Carlos - São Carlos, São Paulo, Brasil - 2 a 4 de setembro de 2015.

17
da enunciação e dos destinatários aos quais é
3. Abordagem teórica e metodológica:
dirigido. Assim, o ato de linguagem é
Teoria Semiolinguística
caracterizado por um sujeito enunciador e um
O trabalho consiste em uma pesquisa sujeito interpretante e a sua finalidade não pode
qualitativa porque lida com interpretação das ser considerada apenas na configuração verbal,
realidades sociais e possibilita ou seja, no que está explícito, mas também no
compreender/explorar processos sociais e sentido implícito. Além disso, é preciso
discursivos (BAUER & GASKEL, 2005). A considerar a relação dos protagonistas do ato
coleta e seleção de notícias ocorreu por meio de de linguagem, a relação desses com o contexto
palavras-chave, como as geralmente utilizadas e a situação em que estão inseridos. Isso irá
para se referir as pessoas em situação de rua: delimitar restrições comunicativas ou não.
morador(a) de rua, mendigo, sem-teto, Charaudeau (2014) ressalta que o ato de
perambulantes, pessoas em situação de rua, etc. linguagem é interenunciativo entre quatro
As notícias selecionadas fazem referência à sujeitos são eles: Sujeito Comunicante (EUc) e
problemática da mulher em situação de rua e o Sujeito Interpretante (TUi) – os parceiros do
foram publicadas nos jornais O Globo e O ato de linguagem no circuito externo, seres
Tempo. O primeiro foi escolhido por ser um dos sociais e psicológicos; o Enunciador (EUe) e o
principais do país e o segundo por ser um dos Destinatário (TUd) - os protagonistas da
principais de Minas Gerais, o estado onde enunciação no circuito interno, seres de fala.
ocorreu a pesquisa. Consideramos assim a
Esse espaço de troca entre os sujeitos é
tiragem, distribuição e importância dentro do
a situação de comunicação essa depende de um
espaço midiático/jornalístico.
contrato de comunicação que sobredetermina
A análise foi realizada a partir da Teoria parcialmente os protagonistas da linguagem em
Semiolinguística, uma abordagem de análise do sua dupla existência de sujeitos agentes e
discurso desenvolvida por Patrick Charaudeau. sujeitos de fala. As restrições passam pela
O autor propõe modos de organização do finalidade, identidade dos participantes,
discurso: enunciativo, descritivo, narrativo e propósito e circunstâncias materiais. Vinculada
argumentativo, assim como descrição dos à noção da situação de comunicação,
contratos gerais que regulam os textos Charaudeuau (2010) ainda apresenta as
analisados. estratégias discursivas, que supõem a
De acordo com Maingueneau (1998), a intencionalidade do sujeito na produção de um
Análise do Discurso é uma disciplina que não se texto portador de efeitos de sentido possíveis,
preocupa apenas com a análise linguística do efeitos de persuasão ou de sedução por meio de
texto, ou com uma análise sociológica ou estratégias de legitimação, credibilidade (ethos,
psicológica de um determinado contexto a imagem de si) e captação (pathos, interesse
preocupação maior se estabelece a partir da assegurado pela emoção).
articulação da enunciação sobre um Um dos componentes do ato de
determinado lugar social. comunicação são os modos de organização do
Na abordagem de Charaudeau (1999), o discurso, juntamente com a situação de
sentido do discurso depende das circunstâncias comunicação, a língua e o texto. Os modos são

Universidade Federal de São Carlos - São Carlos, São Paulo, Brasil - 2 a 4 de setembro de 2015.

18
procedimentos que dependem da finalidade
O terceiro é o Modo de Organização
comunicativa do sujeito falante, e a partir disso,
Narrativo. Segundo Charaudeau (2014), para
utilizam determinadas categorias de língua.
que haja uma narrativa é preciso um contador
O primeiro é o Modo de Organização investido de intencionalidade perante um
Enunciativo. Conforme sugere Charaudeau destinatário. O sujeito que narra tem o papel de
(2014), enunciar é organizar as categorias da uma testemunha que mantém contato direto
língua, ordenando-as de acordo com a posição com o vivido. As narrativas podem ser tanto
que o sujeito falante ocupa em relação ao reais quanto fictícias, marcadas por uma lógica
interlocutor, considerando tanto o que ele diz com principio e fim, organizando assim o
quanto o que o outro diz. mundo de uma forma contínua e sucessiva.
As funções do modo enunciativo são: Este modo se caracteriza por uma dupla
comportamento ALOCUTIVO, que consiste articulação: a organização da lógica narrativa
em estabelecer uma relação de influência entre ou construção de uma história a partir de uma
locutor e interlocutor; comportamento sucessão de ações; e a organização da
ELOCUTIVO, que é a relação do locutor encenação narrativa ou a representação de uma
consigo mesmo, exprime o seu ponto de vista narrativa. Em uma, Charaudeau (2014) destaca
sobre o mundo e modaliza subjetivamente a os componentes da lógica narrativa que são:
verdade; e o comportamento DELOCUTIVO, actantes (ou agentes), os processos e as
no qual o sujeito falante se apaga de seu ato de sequências. Na outra, a atenção está voltada
enunciação, o que concede ao texto uma para os componentes do dispositivo da
aparente objetividade com o uso de diferentes encenação narrativa, articulados em um espaço
formas de discurso relatado. extratextual e intratextual, considerando os
O segundo é o Modo de Organização parceiros e protagonistas da narrativa.
Descritivo. De acordo com Charaudeau O quarto e último é o Modo de
(2014), este contribui para a existência dos Organização Argumentativo. A
seres à medida que os nomeia, localiza e argumentação ocorre a partir de uma proposta
qualifica: nomear consiste em fazer um ser sobre o mundo, por parte de um sujeito que ao
existir atribuindo-lhe um nome. Contudo, essa desenvolver um raciocínio tenta estabelecer
nomeação é limitada pela finalidade das uma verdade. O outro sujeito relacionado à
situações de comunicação, considerando muitas mesma proposta é o alvo da argumentação, um
vezes a posição de quem subjetiva a descrição; ser do qual se pode esperar o compartilhamento
localizar/situar é a determinação do espaço e do da verdade, ação estabelecida por uma atitude
tempo ocupado isso influencia na existência do de persuasão do sujeito argumentante.
ser, pois suas características e sua função estão Contudo, também pode refutar.
ligadas a sua posição espaço temporal; e
4. Análises e discussão
qualificar é a atribuição explicita de um sentido
particular a seres, uma qualidade que A primeira notícia analisada tem por
caracteriza e especifica. título 'Mendigata' de Niterói é internada em
clínica de reabilitação em São Paulo, foi
publicada no dia 24 de outubro de 2014 no

Universidade Federal de São Carlos - São Carlos, São Paulo, Brasil - 2 a 4 de setembro de 2015.

19
jornal O Globo. Nela é relatado que uma volta. Dessa forma, a imagem da mulher como
mulher em situação de rua chamou a atenção da mãe se torna relevante na notícia.
mídia, a partir disso recebeu ajuda de uma Ao analisar a segunda notícia percebe-se
clínica de reabilitação de São Paulo. A segunda também a predominância da modalidade
notícia analisada, Uma esquina, uma barraca e delocutiva. Nos relatos da mulher em situação
sete cachorros, foi publicada no jornal O de rua é possível perceber o recurso de natureza
Tempo no dia 23 de março de 2015. Esta patêmica. O leitor é levado a acreditar no lado
notícia relata que uma mulher em situação de humano da mulher em situação de rua, alguém
rua está em uma região movimentada de Belo que é amiga, que gosta dos outros a ponto de
Horizonte, onde ergueu uma “barraca” e é chamá-los de anjos, ama os animais e por isso
acompanhada por sete cachorros. os acha mais importantes que a si mesma,
Assim, a situação de comunicação se pedindo para a sobrevivência deles.
configura a partir do contrato estabelecido entre
Ao analisar o modo de organização
a instância de produção e recepção. Os jornais
descritivo na primeira notícia destacamos a
O Globo e O Tempo na figura do Locutor
identificação das funções: nomeação e
(EUc), um ser comunicante e social: o
qualificação. A começar pelo título que
Enunciador (EUe) como o ser de fala, quem
combina o termo pejorativo “mendigo” com a
escreve a notícia e conta o fato é o jornalista.
qualificação “gata”. O termo ‘mendigata’ é
Quanto ao Destinatário (TUd) é o leitor a quem
usado com aspas para indicar que não é uma
o jornal quer alcançar, assim como o Receptor
palavra de criação de quem escreveu o texto,
(TUi) é o leitor real do texto.
assim como para se distanciar da
Ao investigar o modo de organização responsabilidade de uso. Logo, a notícia
enunciativo na primeira notícia é possível reproduz uma nomeação/qualificação. Além
destacar e analisar as modalidades discursivas disso, apesar do título, a notícia valoriza sua
delocutivas. Um trecho onde isso foi utilizado identificação por nomeação “Jéssica Pinto da
na maneira de relatar: Luz”.

Para a moradora de rua Jéssica Pinto da Ao qualificar como moradora de rua o


Luz, de 22 anos — a “mendigata” da jornal está naturalizando o problema, este
Avenida Amaral Peixoto —, tudo isso se termo, de acordo com Pereira e Siqueira
resume a uma chance que possa livrá-la do (2010), não é o mais adequado, pois remete a
vício das drogas e, consequentemente, situação como algo fixo. Ao contrário do termo
devolvê-la à companhia da filha de 1 ano usado em documentos do governo e atualmente
[…] (discurso de origem integrado, O o mais recomendado “situação de rua”.
Globo).
Na segunda notícia a mulher em
situação de rua é nomeada: Lúcia Machado,
Esse relato destacado na análise qualificada pelo jornal como moradora de rua,
contribui para a representação da mulher como amiga de Rafaela e simpática. Ao ser
mãe, pois oportunidade para ela é ter a filha de qualificada como moradora de rua percebe-se
que é comum utilizar esse termo, algo também

Universidade Federal de São Carlos - São Carlos, São Paulo, Brasil - 2 a 4 de setembro de 2015.

20
verificado na notícia analisada do jornal O desde o inicio do ano de 2014. O estado inicial,
Globo. As pessoas estão acostumadas com a ou seja, o momento antes da mulher estar em
situação de rua, por isso a veem como algo situação de rua é relatado na notícia publicada
comum e classificam a rua como moradia. anteriormente.
Segundo Thompsom (2009), a naturalização Além da cronologia e do espaço-tempo
ocorre quando algo que é uma construção é possível analisar ainda os actantes da lógica
histórica e social é tratada como algo comum. narrativa. Jéssica sofre a ação, ela não é
Em outro trecho, ao qualificar Lúcia colocada como uma pessoa que pode sair dessa
como simpática e reforçar a opinião das situação sem ajuda, logo é uma agente passiva.
pessoas, “o que não é difícil”, o jornal mostra O que implica na representação comum a essas
uma construção objetiva do mundo, que pessoas: “preguiçosas” e “acomodadas”. O
consiste em construir uma visão de verdade actante benfeitor nesse caso é a emissora de TV
sobre o mundo, qualificando os seres com ajuda que vai proporcionar seu tratamento em uma
de traços que possam ser verificados por clínica.
qualquer outro sujeito além do sujeito falante. Na segunda notícia, ao analisar a partir
É possível analisar as notícias a partir do do modo narrativo identificamos apenas uma
modo de organização do discurso narrativo, história sendo contada, a de Lúcia Machado,
evidenciando as histórias que são contadas. A actante principal, apesar de contar com outros
principal é a de Jéssica, relatada nos subtítulos actantes sociais, os alunos, Rafaela Nuna,
Planos para o futuro e Despedida de amigos, pessoas que passam pelo local e os cachorros.
mas também há outros actantes como: seus A sequência narrativa ocorre num
amigos Linda Karla e o porteiro José Aldir; o encadeamento de maneira contínua, estas
“mendigo gato” Rafael e sua mãe, os sucedem de modo progressivo. Não existe um
internautas e o psicólogo, jornalista e escritor antes e o depois, apenas um agora (presente)
Felipe Pena. Assim, há uma sequência narrativa apresentado, logo o problema social não é
que ocorre num enquadramento espaço- discutido. A situação de rua de Lúcia Machado
temporal, segundo o princípio de localização e é atenuada e transformada em algo bom já que
em uma cronologia obedecendo ao princípio de não pede para si.
encadeamento.
Além disso, Lucia Machado é uma
A cronologia é apresentada de maneira actante ativa, mas a ação que pratica é de
contínua em inversão. Primeiramente o leitor é “pedir” para os cachorros, enfraquecida com o
apresentado ao fato posterior ao acontecimento termo “precisa” quando o jornal reconhece a
para depois conhecer a trajetória da necessidade do ato e a representa como
personagem principal, a mulher em situação de “coitada”. Esse trecho indica ainda que Lúcia
rua. O texto começa pelo estado final, onde é Machado não pede para a sua sobrevivência,
aberto espaço para que Jéssica fale dos Planos algo que vai de encontro aos dados do
para o futuro. Em um segundo momento é META/MDS (2008). Segundo pesquisa, 70,9%
relatado o período durante o qual Jéssica exercem alguma atividade remunerada.
permaneceu na calçada da Av. Amaral Peixoto,
onde recebeu atenção de pedestres e mídia,

Universidade Federal de São Carlos - São Carlos, São Paulo, Brasil - 2 a 4 de setembro de 2015.

21
Ao analisar o modo de organização do Ao analisar as notícias relacionadas ao
discurso argumentativo na notícia do jornal O problema social das mulheres em situação de
Globo, percebemos que a argumentação é feita rua percebe-se que a situação de comunicação é
em alguns momentos pelo jornal e em outros regulada e controlada pelo contrato
pelas vozes que o jornal apresenta. estabelecido entre a instância midiática (O
Globo, O Tempo e os jornalistas) e o leitor (o
Um argumento da instância midiática
real e o esperado).
está presente no subtópico Comoção e
Polêmica entre os internautas. Nesse trecho Para compreender as maneiras pelas
percebe-se como o jornal, ser social e quais a mídia pode influenciar o leitor,
comunicante, tem o poder de influenciar o leitor analisamos a notícia a partir dos modos de
por meio de argumentos de natureza patêmica, organização do discurso. No modo enunciativo
mas o leitor também tem influência sobre o predomina as modalidades delocutivas. Apesar
jornal. A quantidade de pessoas que acessaram de serem desvinculadas dos protagonistas da
a notícia anterior, bem como a sua repercussão, enunciação, a instância midiática utiliza
tornou-se parte da notícia. O argumento dos maneiras de se posicionar por meio de relatos
internautas que provocou essa ação, a seguir: de terceiros. Esses relatos são usados para
representar a mulher em situação de rua como
Enquanto parte dos internautas se mostrou mãe e lhe associar a um comportamento
comovida com a história, outra reclamou do esperado pela sociedade. Assim, como a notícia
fato desta comoção acontecer apenas pela do jornal O Tempo que usa efeitos de natureza
fato de ser uma jovem bonita, enquanto patêmica. Entende-se que ao abrir espaço para
existem inúmeros outros casos parecidos
a voz das mulheres permite que falem sobre o
que são ignorados (argumento de oposição,
problema que vivem. Contudo, o contrato de
O Globo).
comunicação regula e restringe quais
informações são levadas ao leitor, bem como
Assim, o argumento é de oposição, pois quais termos são empregados.
uma parte dos leitores acredita que a beleza de
Jéssica foi determinante para chamar atenção, o No modo descritivo, percebemos que as
que não ocorre com outros. Logo, há também mulheres são nomeadas. Uma é pejorativamente
um procedimento semântico de valor qualificada como ‘Mendigata’ e a outra como
concernente ao domínio do estético. Este simpática e amiga. Isso significa que enquanto
pensamento é compartilhado por Felipe Pena, uma chamou a atenção por ocupar um espaço
que recebe espaço pela sua identidade social. O movimentado a outra chamou pela beleza.
espaço parece ser usado como forma de dar Ambas são qualificadas como moradoras de
credibilidade à notícia e uma aparente rua, o que evidencia a naturalização da
objetividade (neutralidade). Na análise da situação.
segunda notícia não identificamos modalidades No modo narrativo percebemos que,
vinculadas ao modo de organização enquanto uma tem um passado e um presente
argumentativo. narrados, assim como um futuro esperado a
5. Considerações finais outra tem apenas um presente, algo que nos faz

Universidade Federal de São Carlos - São Carlos, São Paulo, Brasil - 2 a 4 de setembro de 2015.

22
questionar se é a beleza que traz as
BAETA, J. Uma esquina, uma barraca e sete
oportunidades esse fator parece a diferenciar
cachorros. O Tempo, Belo Horizonte, 23 mar.
das demais mulheres em situação de rua, pois o
2015. Disponível em:
que chamou a atenção foi a sua aparência e não
<http://www.otempo.com.br/cidades/uma-
o problema social que vive. Como actantes,
esquina-uma-barraca-e-sete-cachorros-
uma é passiva e a outra é ativa, mas ambas
1.1013778>. Acesso em: 20 maio. 2015.
recebem ajuda, mesmo que seja para os
cachorros. BAUER, M. W.; GASKELL, G. Pesquisa
qualitativa com texto, imagem e som: um
No modo argumentativo a notícia do
manual prático. 6. ed. Trad. Pedrinho A.
jornal O Globo mostra-se diferenciada,
Guareschi. Petrópolis, RJ: Vozes, 2005.
principalmente pelo argumento de oposição dos
internautas (leitores). CALDEIRA, M. de C. O brincar e a realidade
de rua: um estudo sobre o brincar em
Dessa forma, ao realizar este estudo
adolescentes que vivem nas ruas. 2010. 168 f.
compreendem-se alguns meios utilizados pela
Dissertação (Mestrado em Psicologia) – Curso
mídia para tratar de uma mulher que está em
de Pós-graduação em Psicologia, Universidade
situação de rua, lembrando que em momento
Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, 2010.
algum se referem ou discutem o problema
social. Assim, este trabalho visa contribuir com CHARAUDEAU, P. Linguagem e discurso:
a discussão do tratamento da mulher em modos de organização. 2. ed. Trad. Angela
situação de rua pela mídia, bem como dos M.S. Corrêa. São Paulo: Contexto, 2014.
homens já que não é possível dissociar, ______. Discurso das Mídias. Trad. Angela
considerando que esta age de forma a tentar M.S. Corrêa. São Paulo: Contexto, 2006.
influenciar o leitor do seu subjetivo relato do
acontecimento. O que é observado nos ______. Análise do discurso, controvérsias e
resultados, eles indicam relações de dominação perspectivas. In: Mari H. et alii (dir.),
veiculadas nos textos que podem contribuir Fundamentos e dimensões da análise do
para manter o problema social por meio do discurso, Fale-UFMG, Edit. Carol Borges, Belo
discurso. Horizonte, 1999.
______. Um modelo sócio-comunicacional do
discurso: entre situação de comunicação e
Referências estratégias de individualização. In: Grenissa
AGUIAR, M. Notícias sobre mulher(es) em Stafuzza e Luciane de Paula (orgs). Da análise
situação de rua: uma análise de discurso crítica. do discurso no Brasil à análise do discurso do
2014. 103 f. Trabalho de conclusão de curso Brasil, Edufu, Uberlândia, 2010.
(Graduação em Letras) – Curso de Licenciatura LIRA, J. F. Vitória a Minas: análise do
em Letras, Língua Portuguesa e Literaturas, discurso jornalístico sobre o único trem de
Universidade do Estado da Bahia, Teixeira de passageiros cotidiano no Brasil. 2009. 78 f.
Freitas, 2014. Dissertação (Mestrado em Estudos
Linguísticos), - Faculdade de Letras,

Universidade Federal de São Carlos - São Carlos, São Paulo, Brasil - 2 a 4 de setembro de 2015.

23
Universidade Federal de Minas Gerais, Minas
PESCE, Andressa dos Santos. Representações
Gerais, 2009.
da cidade no jornal O Globo. 2012. 108 f.
LOPES, R. E.; BORBA, P. L. de O.; REIS, Tiy Dissertação (Mestrado em Comunicação e
A. M. dos. Um olhar sobre as trajetórias, Informação) – Curso de Pós-Graduação em
percursos e histórias de mulheres em situação Comunicação e Informação, Universidade
de rua. Cadernos de Terapia Ocupacional da Federal do Rio Grande do Sul, 2012.
UFSCar, São Carlos, v. 11, n.1, p. 38-53, 2003.
SILVA, M. L. Lopes da. Trabalho e população
MAINGUENEAU, D. Termos Chave da em situação de rua no Brasil. São Paulo:
Análise do Discurso. Trad. Márcio V. Barbosa, Cortez, 2009.
Maria E. A. T. Lima. Belo Horizonte: UFMG,
THOMPSON, J. B. Ideologia e cultura
1998.
moderna: teoria social crítica na era dos meios
MINISTÉRIO DO DESENVOLVIMENTO de comunicação de massa. 8. ed. Trad. Grupo
SOCIAL E COMBATE À FOME. Nota de Estudos sobre Ideologia, Comunicação e
técnica: esclarecimentos metodológicos da Representações Sociais da Pós-graduação do
pesquisa nacional sobre a população em Instituto de Psicologia da PUCRS. Petrópolis:
situação de rua. Secretaria de Avaliação e Vozes, 2009.
Gestão da Informação. 2008a.
TIENE, I. Mulher moradora na rua: entre
______. Política nacional para inclusão social vivências e políticas sociais. Campinas, SP:
da população em situação de rua: versão para Editora Alinea, 2004.
consulta pública. 2008b.
VAN DIJK, T. A. Por uma teoria da
MOREIRA, M.; MENEZES, G. 'Mendigata' de comunicação científica: discurso,
Niterói é internada em clínica de reabilitação em conhecimento, contexto e compreensão da
São Paulo. O Globo, Rio de Janeiro, 24 out. sociedade. In: GOMES, M. C.A.; CATALDI,
2014. Disponível em: C.; MELO, M. S. S (orgs). Estudos Discursivos
<http://oglobo.globo.com/rio/bairros/mendigata em foco: práticas de pesquisa sob múltiplos
-de-niteroi-internada-em-clinica-de-reabilitacao- olhares. Viçosa, MG: Ed. UFV, 2011, p. 19-40.
em-sao-paulo-14339766>. Acesso em: 20
maio. 2015.
PEREIRA, C. P.; SIQUEIRA, M. C. A.
Criminalização da mendicância e a Realidade da
População de Rua no Brasil. In; XIII
CONGRESSO BRASILEIRO DE
ASSISTENTES SOCIAIS – XIII CBAS. –
Lutas Sociais e Exercício Profissional no
Contexto da Crise do Capital: mediações e a
consolidação do Projeto Ética Politico
Profissional, Brasília, 2010.

Universidade Federal de São Carlos - São Carlos, São Paulo, Brasil - 2 a 4 de setembro de 2015.

24
UM OLHAR DISCURSIVO SOBRE O POLÍTICO: O
ACONTECIMENTO
MENSALÃO

Gleice Antonia Moraes de ALCÂNTARA


Universidade Federal de São Carlos (UFSCar)
gmoraesalcantara@gmail.com

Resumo: Alicerçada nas reflexões de Dominique Maingueneau (2007, 2008, 2010,


2014,2015) e Krieg-Planque (2010, 2011) sobre as enunciações por pequenas frases, o
presente texto tem por objetivo lançar um olhar discursivo sobre o funcionamento do
discurso político por meio de “pequenas frases” acerca do acontecimento discursivo
“mensalão”, mais precisamente sobre o período do julgamento deste que ficou conhecido
como um dos maiores casos de corrupção da história da política brasileira. Temos como
hipótese primeira que tal acontecimento ecoa e produz uma história do atual quadro
político do país, por meio da característica do funcionamento midiático atual de
produção, circulação, aforização, destacamento e a transformação de pequenas, o que
acreditamos resulta na produção pletórica de simulacros, que reforçam discursos das
formações discursivas das quais advém.
Palavras-chave: enunciação aforizante; pequenas frases em política; enquadre
interpretativo; simulacro

Introdução
As produções incessantes de discursos
políticos por meio de pequenas frases não análises na década de 80, observara as
param de ser produzidas e colocadas em mutações do discurso político, o que se deveu
circulação em diferentes suportes midiáticos, e segundo ele ao desenvolvimento dos meios de
com o advento da internet o “BUUM” dessas comunicação audiovisuais. A reflexão sobre
discursividades passou também por grandes essas novas discursividades implicava modos de
transformações, de uma atividade a princípio circulação, produção e de recepção que não
artesanal, a uma verdadeira indústria do big podiam mais ser compreendidas exclusivamente
business1. Devido a proliferação alucinante dos a partir das palavras e das formas sintáticas,
discursos políticos, Courtine (2009) em suas como proposta no projeto de base de Michel
Pêcheux, em “Análise Automática do
Discurso”, projeto esse que tinha como foco a
1
C. J. Bertrand e A. Baron- Carvais, apud. materialidade linguística e ideológica dos
Maingueneau, D (2010, p. 95) discursos. Desse modo, pode-se dizer que as

Universidade Federal de São Carlos - São Carlos, São Paulo, Brasil - 2 a 4 de setembro de 2015.

25
pesquisas empreendidas por Courtine publicização do discurso político, passa a
possibilitaram a incorporação de outras gerenciar um acontecimento por intermédio da
materialidades -não verbais- ao arcabouço materialização dos textos, no processo de
teórico e analítico da Análise do Discurso, destaque de enunciados- as pequenas frases-que
doravante AD, e por sua vez a abertura do faz circular. Ao proceder desta forma, a mídia
próprio campo para análise de outros discursos. além de engendrar um determinado
Desse modo, pode-se dizer que as pesquisas acontecimento discursivo, propõe gestos de
empreendidas por Courtine possibilitaram a interpretação que tendem ao sentido “único”/
incorporação de outras materialidades -não “legítimo”, ou seja, com a materialização
verbais- ao arcabouço teórico e analítico da linguística e imagética por meio daquilo que
Análise do Discurso, doravante AD, e por sua quer destacar, oferece um percurso deôntico de
vez a abertura do próprio campo para análise de interpretação a certos acontecimentos históricos
outros discursos. Nessa imensa proliferação, da política, conforme Baronas (2013, p. 2)
produção, circulação e transformação de passando assim, a gerir e controlar os temas-
narrativas sobre os acontecimentos políticos, a chave2 (entidades, cenários, propriedades,
mídia, especificamente a internet, exerce cada acontecimentos, nós) advindos de distintos
dia mais influência nas discussões que ocorrem discursos construindo relações de poder e saber
no espaço social. A respeito dessa influência sobre e para a sociedade na forma como são
midiática contemporânea no que tange a organizados os discursos.
circulação dos discursos, Maingueneau (2010)
em uma pesquisa extensa da história da
circulação do discurso pornográfico - o que 1.Contextualização do acontecimento3 “mensalão
podemos nos atrever a dizer que também pode
ser dito dos discursos de uma forma geral- 2
Pode-se falar, neste caso, de “tema chave”, explorando
evidencia que o livro por meio das obras o duplo valor da palavra, manifestado por expressões
literárias, durante muitos séculos era o carro- como “a chave do sucesso” (o centro, o elemento
chefe na circulação daqueles discursos e hoje essencial) e “a chave dos sonhos” (a explicação, o
não são mais os livros que “dão o tom”, que desvelamento). Considera-se que o tema chave, de fato,
ditam modelos e estereótipos de como se vestir, permite o acesso a um fenômeno importante, indo além
das aparências, desvelando uma realidade pouco ou
falar, comportar, ser em uma sociedade, algo
nada visível. (MAINGUENEAU, 2015)
que ocorrera no domínio tradicional-grafosfera,
e sim as mídias audiovisuais, o que o teórico 3
Noção de acontecimento que mobilizaremos é de
denomina de regime videosfera. No novo show Guilhaumou, “o autor francês propõe que o
business, o dispositivo midiático, aqui acontecimento seja abordado numa ordem racional:
especificamente a web, assume o lugar de acontecimento linguístico, acontecimento discursivo e
narrativa do acontecimento... A narrativa do
elaborar o que é importante para uma acontecimento, apreendida na totalidade de sua
sociedade, e por consequência quais os experimentação, constrói um futuro, abre possibilidades,
ingredientes que devem agregar à produção e constitui reservas de sentidos disponíveis. Assim, é
circulação do discurso. Neste sentido, nota-se sempre possível reabrir os arquivos do passado, pois
que a mídia, em particular, o espaço de todo acontecimento permanece perpetuamente
reinterpretável juridicamente e, por conseguinte, atual
discursivização na internet, por meio da
o(s) seu(s) próprio(s) sentido(s)”.

Universidade Federal de São Carlos - São Carlos, São Paulo, Brasil - 2 a 4 de setembro de 2015.

26
A Ação Penal nº 470, número do processo do no caso. Na matéria Jefferson fala de um suposto
“mensalão” no Supremo Tribunal Federal, ficou esquema de corrupção, revelando os detalhes da
conhecida como o maior escândalo de compra de votos existência de pagamento de propina aos parlamentares
na política de parlamentares no Congresso Nacional aliados do governo que recebiam o que chamou de um
Brasileiro. Passados nove anos desde o surgimento do "mensalão" de 30 mil reais do então tesoureiro do PT,
escândalo, muitas narrativas ainda são dadas a circular Delúbio Soares, prática ilegal que teria sido realizada
sobre o acontecimento, e em cada movimento dos usos entre 2003 e 2004, e início de 2005.
do sintagma “mensalão” mudanças contínuas dos Pode-se asseverar que o neologismo mensalão
sentidos e das formas são produzidas o que “mostra - variante da palavra mensalidade - utilizada para se
como essa palavra assume, num dado momento, um referir à mesada paga a deputados para votarem
lugar de destaque no debate público.” (BONNAFOUS, favoráveis em projetos de interesse do Governo Federal,
apud KRIEG-PLANQUE, 2010, p. 25). Embora não eclodiu na figura Roberto Jefferson, que em 06 de junho
nos detendo estritamente na lexicologia/terminologia, de 2005, em entrevista ao Jornal Folha de S. Paulo
que acompanha as palavras na longa duração de seus denunciou publicamente o esquema, que segundo ele
usos, nosso trabalho, de certa maneira faz uma interface era uma prática comum nos bastidores da política entre
com aquela, pois a vida da palavra “mensalão” implica os parlamentares. Em mesma entrevista, Jefferson
mudanças nos usos e também nas evoluções políticas e acusara como chefe/ mentor da prática ilegal, o ministro
sociais que a acompanha. Dito de outra maneira, desde na época da Casa Civil José Dirceu, um dos homens de
que o acontecimento em questão invadiu o espaço confiança do Partido do Governo.
público uma produtividade lexicológica o acompanha, De lá pra cá muitas narrativas foram produzidas
sinalizando para o caráter polêmico do sintagma. O sobre o acontecimento, dado os inúmeros
termo “mensalão” tomado aqui como acontecimento desdobramentos. Desde que o STF em 2007 acatou a
discursivo foi empregado pela primeira vez pelo denúncia contra o esquema que envolveu ao todo 38
deputado federal Miro Teixeira em setembro de 2004, nomes, o processo nº 470- 53 sessões, com a
quando em entrevista ao Jornal do Brasil "Miro condenação de 25 dos 38 denunciados-, um nome se
denuncia propina no Congresso”. A entrevista recebeu destacou no cenário brasileiro, Joaquim Barbosa, relator
destaque em primeira página com a manchete "Planalto do processo que chegara ao fim em março de 2014. Na
paga mesada a deputados”, quando na ocasião o conclusão do julgamento Barbosa dissera “Vocês nunca
deputado denunciara a existência de um mensalão no mais vão ouvir falar de uma ação tão longa, de um
governo do então na época presidente da república, julgamento tão complexo.”, e mais, que o mensalão
Luiz Inácio Lula da Silva. Decorrido alguns meses trouxera “traumas”.
desde a entrevista de Teixeira à Revista Veja, em 14 de Como podemos ver a AP nº470 por meio do
maio de 2005, divulga uma gravação de Maurício termo pelo qual ficou amplamente conhecido
Marinho, ex-chefe do DECAM/ECT, no qual o “mensalão” se impõe como uma palavra de ordem, isto
administrador de material dos Correios relata é, através das zonas de turbulência4 que acompanham
minuciosamente o esquema de corrupção de agentes seus usos, quando quando em particular do período do
públicos na estatal. Na mesma edição que tem como
capa “O vídeo da corrupção em Brasília”, a revista 4
KRIEG-PLANQUE, mostrar como as palavras, no longo
publica a matéria “O Homem Chave do PT”, referindo-
tempo de seus usos, atravessam zonas de turbulência,
se a Jefferson, aquele que é tido como o “delator” do
entram em fases críticas de sua existência.
caso de irregularidades nos Correios e também partícipe

Universidade Federal de São Carlos - São Carlos, São Paulo, Brasil - 2 a 4 de setembro de 2015.

27
julgamento- que aqui vamos nos deter através das dos estudos discursivos norteiam nossa reflexão que
análises- o termo ganha espaço nas discussões sociais, e visa: compreender por que na sociedade há uma
por consequência torna-se um objeto de polêmica. circulação abundante de textos curtos e quais as
consequências dessa circulação, ou seja, estamos diante
2. Abordagem teórica e metodológica de um fenômeno linguístico-discursivo que colabora
Nosso trabalho se inscreve na teoria da Análise para a legitimação de saberes e poderes que
de Discurso (AD) de orientação francesa, dispositivo organizam/arquitetam o espaço público, por meio de
teórico-analítico que se debruça sobre a interpretação um processo deôntico de interpretação? Dada a vasta
para podermos compreender o objeto simbólico, que é contribuição do sofisticado6quadro teórico de
o discurso produzindo sentidos por e para sujeitos. Dominique Mainguenau à AD, reafirmada em suas
Desde o seu surgimento na década de 60, o campo elaborações pela inseparabilidade entre texto e quadro
teórico da AD passou por processos de construção e social, bem como de sua produção e circulação,
reformulação, novos canteiros de trabalhos se abriram e conceitos propostos pelo linguista serão utilizados para
se abrem para compreender esse nó5, que é o discurso, compreender o funcionamento das enunciações
o que possibilita cada vez mais pesquisas na área. aforizantes em geografia brasileira, posto que suas
Dado o grande interesse que os trabalhos em análises se voltam a dados franceses. Maingueneau ao
AD tem despertado em cenário brasileiro, é possível longo de sua produção acadêmica apresenta ao leitor
constatar como assevera Baronas (2013) três grandes novos conceitos para pensar o discurso, o que oferece
tendências que tomam os estudos discursivos como aos pesquisadores novas possiblidades de formulações à
objeto, a saber, tendência materialista, tendência AD. Do vasto quadro teórico-metodológico elaborado
historicista e a tendência enunciativa. Ainda segundo o por ele, muitos conceitos são dados a ler na Análise do
pesquisador brasileiro, no vasto quadro de pesquisas Discurso brasileira, o que mostra a contribuição do
que são produzidas no país em AD é possível perceber teórico ao campo, e mais ainda, como suas reflexões são
objetos de interesses distintos e grupos de pesquisas pertinentes para análise de dados de outras línguas.
também distintos. Posto isso, nosso trabalho se inscreve Conceitos destinados a propiciar análises que expressam
mais especificamente na tendência enunciativa, que tem a convergência entre componentes históricos e
como objetivo principal, por um lado- compreender linguísticos como: discursos constituintes,
porque certas palavras que circulam na mídia podem sobreasseveração, hiperenunciador, destacabilidade,
assumir a condição de palavras-acontecimento, a partir particitação, ethos, enunciação aforizante.
de uma formação interdiscursiva, carregando com elas 3. Análises e discussão
toda uma memória interdiscursiva; e por outro lado,
Temos como propósito neste momento
compreender como certos textos circulam: inteiros, em
apresentar uma espécie de garatuja, tomado
pedaços em versos, em fórmulas- ambas conforme,
aqui como primeiras tentativas/ensaios, para
Baronas (2013, p. 33) “buscam compreender em que
pensar a questão das aforizações destacadas de
medida essa circulação determina o que pode e deve ser
um texto, particularmente as pequenas frases, a
(re)dito enquanto debate no espaço público”.
partir do que Maingueneau (2014) denomina
Os trabalhos de Dominique Maingueneau e
enquadramento interpretativo, para isso
Alice Krieg-Planque inscritos na tendência enunciativa

5 6
MALDIDIER, D. (1990). MUSSALIM & POSSENTI. 2010.

Universidade Federal de São Carlos - São Carlos, São Paulo, Brasil - 2 a 4 de setembro de 2015.

28
selecionamos do corpus duas pequenas frases se inscreve em um regime memorial sapiencial
do período do julgamento do mensalão. moralista, apresenta uma verdade, embora
transformada, retoma um conhecimento
Tomemos a seguir as sequências que
partilhado pela comunidade que garante assim a
serão mobilizadas:
comunhão do aforizador e a comunidade,
validando assim a enunciação.
E em “Para ser preso no Brasil é preciso
ser muito pobre e muito mal defendido” dito
pelo ministro Luis Roberto Barroso se inscreve
em uma memória coletiva brasileira a de que no
Brasil os crimes de “colarinho branco” sempre
terminam em “pizza”, enquanto crimes
considerados “menores” como “roubo de
galinhas”, em que pessoas roubam para suprir
21/08/2013 necessidades básicas, como por exemplo
alimentar-se, esses são julgados de forma rápida
e os acusados são condenados e presos. O
enquadre em que a frase pode ser lida é o
acional, o aforizador é alguém que tem o poder
de mudar uma realidade através daquilo que
enuncia.
Nas frases eleitas para esboço de análise
é possível visualizar o confronto de
posicionamentos no interior de uma mesma FD
/uma plurifocalidade, uma pluralidade de pontos
13/11/2013
de vista sobre um mesmo acontecimento/tema-
Na pequena frase “Justiça que tarda não chave, o que podemos contrapor com os
é justiça” proferida por Joaquim Barbosa em dizeres de Maingueneau, quando este coloca
razão de uma discussão acalorada com os que ao levar em conta um conjunto de textos
colegas ministros devido à delonga no publicados em um único jornal/site entre tal ou
julgamento dos réus, rememora um já-dito, um tal data, não podemos falar em FD, devido à
Thesaurus cultural da comunidade empregado estabilização do corpus (pelas práticas dos
aqui com valor disfórico sobre a justiça ao ser jornalistas, pelo gênero do discurso, por um
transformado, pois a lexia cristalizada do posicionamento). Com isso, retomamos o
provérbio latino “Tandem óbtinet iustitia” “A próprio Maingueneau quando este coloca que
justiça tarda, mas não falha”, é partilhada e em AD os trabalhos que evidenciam formações
interpretada como verdade pela comunidade discursivas plurifocais será sempre um
com valor eufórico, de que a justiça demora a fenômeno marginal, para arriscar lançar como
acontecer, mas ela sempre acontece. hipótese que o corpora da nossa pesquisa, a
Recorrendo ao enquadramento a pequena frase partir de um tema-chave, não está regido por

Universidade Federal de São Carlos - São Carlos, São Paulo, Brasil - 2 a 4 de setembro de 2015.

29
GUILHAUMOU, J. Linguística e história: percursos
um único foco e sim por uma pluralidade de
analíticos de acontecimentos discursivos. São Carlos, SP:
pontos de vista, por uma polêmica instaurada
Pedro & João Editores, 2009.
pela cenografia.
KRIEG-PLANQUE, A. A noção de “fórmula” em análise do
Nas pequenas frases selecionadas há ainda a discurso – quadro teórico e metodológico. Trad. Salgado e
associação entre o aforizador e sua aforização, o que de Possenti. São Paulo: Parábola, 2010b.
acordo com Maingueneau (2014) é mais que um
___________________. “FÓRMULAS E “LUGARES
pensamento, é um tipo de emblema que participa da
DISCURSIVOS”: propostas para a análise do discurso
personalidade profunda do locutor, como se fosse uma
político. (in) Fórmula discursivas. Ana Raquel Motta &
tatuagem inscrita no corpo, ao mesmo tempo parte e
expressão da pessoa. As imagens (fotos) dos rostos dos Luciana Salazar Salgado (Orgs.). SP: Contexto, 2011
aforizadores: legitimam/autenticam as aforizações e ___________________. Les “PetitesPhrases” em Politique.
mais, a foto do rosto também é produto de um recorte, Communication &Langages. Número 168, junho
de um destacamento. Ao eliminar o contexto 2011.Código ISBN 9782358760492
situacional a enunciação aforizante institui uma cena de LEITE, P. M. A história do mensalão: as contradições de um
fala onde não há interação entre dois protagonistas julgamento político. São Paulo: Geração Editorial, 2013.
colocados num mesmo plano, dito de outra maneira, o
MAINGUENEAU, D. DISCURSO E ANÁLISE
aforizador assume um ethos de um individuo que está
DO DISCURSO: uma introdução. Trad. Sírio
no alto, em contato com uma Fonte transcendente, que
Possenti.1. ed. São Paulo: Parábola, 2015.
enuncia uma verdade incontestável e que não necessita
de negociação/interação, o aforizador se dirige a um ________________. Frases sem texto; Trad. Sírio
público universal, o que podemos observar nos excertos Possenti. São Paulo: Parábola, 2014
analisados, quando os aforizadores através do olhar se ________________. O discurso pornográfico; tradução
dirigem a um público universal, daí dizer que a Marcos Marcionílo. SP.: Parábola, 2010.
enunciação aforizante é monologal. ________________. Cenas da Enunciação. Sírio Possenti&
As breves tentativas de análises realizadas Maria Cecília Pérez de Souza-e-Silva (orgs). SP: Parábola
objetivaram mostrar como a circulação das aforizações Editorial, 2008.
por meio das pequenas frases sobre o acontecimento ._________________.Gêneses dos Discursos.; Trad. Sírio
discursivo “mensalão” podem ser apreendidas a partir Possenti. São Paulo: Parábola, 2008.
das elaborações de Maingueneau sobre o conceito de PÊCHEUX, Michel. Discurso – estrutura ou acontecimento.
enquadramento interpretativo, proposta pertinente para Trad. EniOrlandi. Campinas: Pontes, 2012.
pensar como são produzidas pelas mídias VILLA, M. A. Mensalão: o julgamento do maior caso de
contemporâneas interpretações por meio do recorte dos corrupção da história da política brasileira. São Paulo:
textos. Leya, 2012.
http://noticias.uol.com.br Frases do julgamento do
mensalão. Disponível em
Referências
http://noticias.uol.com.br/album/2012/10/22/frases-
do-julgamento-do-mensalao.htm. Acessado em
BARONAS, R. L. Enunciação aforizante: um estudo 26/08/2015.
discursivo sobre as pequenas frases na imprensa cotidiana
brasileira. São Paulo: EDUFSCAR, 2013.

Universidade Federal de São Carlos - São Carlos, São Paulo, Brasil - 2 a 4 de setembro de 2015.

30
“TAMBÉM SOU TEU POVO”: TRAVESTIS E TRANSEXUAIS
COMO SUJEITOS DEVOTOS NAS ROMARIAS DE JUAZEIRO
DO NORTE

Ana Luzia Lucas de ALMEIDA; Claudia Rejanne Pinheiro GRANGEIRO


Universidade Regional do Cariri (URCA)
analuzia8@hotmail.com; claudiarejannep@yahoo.com

Resumo: Adotando a proposta da chamada Análise do Discurso francesa de ampliar os


limites do conceito de linguagem, as significações e as possibilidades de materialização
dos discursos tornam-se diversas e mutáveis. Nesse sentido, pretendemos compreender e
analisar o espaço ocupado por travestis e transexuais nas romarias de Juazeiro do Norte
e a constituição de sua identidade como sujeitos devotos por meio da análise do
documentário “Também sou teu povo” (2006), produzido por Orlando Pereira e Franklin
Lacerda.
Palavras-chave: travestis/tranxsexuais; romaria; juazeiro do norte; também sou teu povo;
orlando pereira/ franklin lacerda.

Introdução Nessa perspectiva, verificaremos os


lugares sociais de onde vem os
A partir do documentário “Também sou
dizeres/saberes/fazeres, que constituem e
teu povo” que traz à discussão a presença das
possibilitam a significação no texto em tela, a
travestis e das transexuais nas romarias de
partir da análise de uma prática de linguagem
Juazeiro do Norte, realizaremos uma análise de
específica, no caso, a representação das
discurso. À imagem desses sujeitos que
travestis e das transexuais como devotas no
representam o discurso da transgressão, o
documentário.
documentário contrapõe a do romeiro
tradicional e os rituais realizados por ele Sabendo da presença do cântico como
durante o período desses eventos. Além disso, uma das materialidades discursivas presentes no
traz à cena os principais signos que representam documentário, analisaremos os possíveis dizeres
o discurso da devoção nesta cidade, como as e a relação de interdiscursividade que
vestimentas, os acessórios religiosos e, ainda, estabelecem com outros discursos que tornam
uma das expressões mais características da possível a significação, além das relações de
região: as poéticas da oralidade, sobretudo o intericonicidade estabelecidas entre as imagens
cântico. dos sujeitos nele representados. A partir dessa

Universidade Federal de São Carlos - São Carlos, São Paulo, Brasil - 2 a 4 de setembro de 2015.

31
primeira etapa, buscaremos as ferramentas popular e à historia social” (Idem, ibidem,
teóricas necessárias para a fundamentação e p.29).
prática da análise, a saber: os estudos sobre o O argumento de que “a identidade está
discurso e dos processos de constituição dos profundamente envolvida no processo de
sujeitos da AD francesa e os estudos sobre as representação” (HALL, 2014, p.41) evidencia a
poéticas da oralidade e sua relação com a (re) pluralidade do sujeito da modernidade,
constituição da memória de uma comunidade. concepção a partir da qual Hall levanta
1. Identidade: sujeito e nomadismo inúmeras questões sobre a identidade e os
processos de sua constituição na
A assertiva de Bakhtin (2003, p. 261) ao
contemporaneidade, principalmente depois da
dizer que “todos os diversos campos da
segunda metade do século XX.
atividade humana estão ligados ao uso da
linguagem” nos orienta a duas questões A descentralização, fenômeno apontado
pertinentes no que tange as pesquisas atuais por Hall como uma característica do sujeito
sobre esse fenômeno social: a centralidade dos pós-moderno, foi o principal impacto resultante
gêneros discursivos e a abrangência desses do conjunto de mudanças que ocorreram e
estudos a outras materialidades que não ainda ocorrem nesse período de globalização.
somente a verbal. Para além dessas questões, Segundo o autor, assim como as formas de
que se apresentam e se desenvolvem num representação, o próprio conceito de sujeito
campo de discussão complexo e variado, a sofreu significativas transformações. Do sujeito
conceituação de um gênero específico é tarefa do iluminismo e do sociológico até ao chamado
arriscada, pois sua estabilidade é relativa ao sujeito pós-moderno (HALL, 2014) as
momento histórico-social em que surge e mudanças se acentuaram de forma irreversível,
circula. culminando na desintegração da ideia do sujeito
como sendo unidade de sentido e considerado
Sabemos que um gênero, apesar de
como origem de todo dizer.
possuir características específicas que o
identifica, não possui uma forma cristalizada e Sobre a produção e veiculação dos
muito menos homogênea. Logo, o discursos, Foucault (2011) argumenta que
documentário é um gênero de difícil existe uma série de procedimentos que os
conceituação, pois ocupa um lugar de controlam e que, portanto, evitam a sua
discussão, em relação a sua natureza e dispersão e a do sujeito que por eles é
veiculação, entre o campo jornalístico e o atravessado e constituído. Essa forma de
cinematográfico. Além de possuir um alto grau ordenação é, também, um mecanismo para a
de variação e de estabelecer relações com regulação do exercício do poder, já que os
outras materialidades discursivas, esse gênero dizeres são autorizados a determinados sujeitos
sofre constantes e importantes transformações, que ocupam um lugar na esfera social. Nesse
o que já evidencia seu caráter ideológico. Nele, sentido, o discurso, para Foucault (ibid., p.10),
segundo Nichols (2005, p. 31), a ideia de
representação é essencial, pois “o documentário [...] não é simplesmente aquilo que traduz as
acrescenta uma nova dimensão à memoria lutas ou os sistemas de dominação, mas

Universidade Federal de São Carlos - São Carlos, São Paulo, Brasil - 2 a 4 de setembro de 2015.

32
aquilo por que, pelo que se luta, o poder do
qual nos queremos apoderar.
significação. Esse processo de constituição de
saberes tem o interdiscurso como a base de
todo dizer. Nele, segundo Courtine (1999,
As discussões que a Análise do Discurso p.20), são as “posições de sujeito que regulam
de vertente francesa propõe no campo da o próprio ato de enunciação”.
linguagem, principalmente na compreensão de
conceitos como o de sujeito e de discurso, 2. Corpos que “falam”: intericonicidade e
operam com a proposta de Foucault de performance
desterritorializar esse sujeito do lugar de origem A noção de interdiscurso, longe de
para compreendê-lo como um efeito de práticas estabelecer um consenso, situa-se no interior da
discursivas que se constituem no lugar e através AD como um conceito complexo e de
de uma memória. A identidade é, portanto, um intermitentes discussões. Não nos propomos a
“efeito de sentido produzido pela e na levantar aqui um quadro das questões que o
linguagem” (GREGOLIN, 2008, p.82). circunda, mas, de uma maneira sucinta,
Assim, o percurso que a AD traça até compreender como esse conceito é fundamental
sua consolidação como um campo de pesquisa para o estudo do discurso e estruturação de
pertinente e fecundo implica desde “uma prática novos caminhos no campo da memória. Para
de leitura dos textos políticos” (COURTINE, Courtine (1999):
2006, p.140), numa abordagem estritamente
[...] um espaço vertical, estratificado e
linguística, até o alargamento do seu objeto de
desnivelado do discurso, que eu chamaria
pesquisa, considerando as múltiplas interdiscurso; séries de formulações
possibilidades de materialização dos discursos. marcando, cada uma, enunciações distintas
É nesse ponto, especificamente, onde o e dispersas, articulando-se entre elas em
sujeito, menos que perder um lugar, assume a formas linguísticas determinadas (citando-se
possibilidade de posicionar-se nos diversos repetindo-se, parafraseando-se, opondo-se
lugares de representação social. E nesse gesto entre si, transformando-se. (COURTINE,
1999, p. 18).
nômade encontramos sua característica
determinante:
A abordagem do discurso no âmbito da
Para além da morte de Deus, e segundo memória revela uma série de processos a partir
Foucault, a do homem, o nômade peregrina dos quais os indivíduos tornam-se sujeitos: o
no insólito. Em torno dele, e sob o impacto papel do esquecimento, do silêncio que habita a
de sua presença apenas, define-se um campo linguagem e que lhe é constitutivo. O
de forças que o torna lugar de “verdade” interdiscurso como o “já dito”, o repetível é
(ZUMTHOR, 2007, p. 95). (aspas do autor) necessário à significação, pois, no “domínio da
memória ressoa uma voz sem nome”, isto é,
O lugar do qual (nos) enunciamos, a anônima (COURTINE, 1982 apud ORLANDI,
transversalidade dos discursos que aí operam, 2007, p.88). E é evidente que todo dizer possui
sugerem uma memória que, articulada a um características que o individualiza e que o
esquecimento necessário à circulação e inscreve num campo de formulações já
produção dos discursos, torna possível a realizadas, isto é, o “acontecimento, no ponto

Universidade Federal de São Carlos - São Carlos, São Paulo, Brasil - 2 a 4 de setembro de 2015.

33
de encontro de uma atualidade e de uma do princípio de interdiscursividade, Courtine
memória” (PÊCHEUX, 1997a, p.17). afirma:
Pressupondo o tratamento que Foucault A intericonicidade, supõe as relações das
(2014) dá ao enunciado, bem como a relação imagens exteriores ao sujeito como quando
que a AD pode estabelecer com outras uma imagem pode ser descrita em uma série
disciplinas e teorias, torna-se importante, por de imagens, uma genealogia como um
uma necessidade própria deste trabalho, apontar enunciado em uma rede de formulação
as contribuições de Zumthor (2007, 2010) no COURTINE, 2006 apud MILANEZ, 2013).
campo fecundo das poéticas da oralidade. A
necessidade de assinalar essa contribuição é Sobre a presença da voz, destacamos a
justificada pelo material que nos propomos a poesia oral como uma prática discursiva que se
analisa. Nesse intento, Foucault considera que: estrutura e se sustenta através de uma memória.
Mesmo depois da “galáxia de Gutemberg”
Descrever uma formulação enquanto
(ZUMTHOR, 2010, p.160), ela se sustenta
enunciado não consiste em analisar as
relações entre o autor e o que ele disse (ou como um campo singular de transmissão,
quis dizer, ou disse sem querer), mas em preservação e transformação do conhecimento
determinar qual é a posição que pode e deve humano. Dentre as formas que ela possui
ocupar todo indivíduo para ser seu sujeito encontra-se o canto, um gênero ritual que tem
(FOUCAULT, 2010, p.116). como característica a firmação e preservação
dos valores de uma sociedade. Segundo
O ponto nodal da nossa discussão é Zumthor (Id. p. 101), essas “estratégias de
justamente sobre o que o enunciado propõe de defesa e de afirmação coletivas ganham nuances
não verbal, o alargamento mesmo desse e inflexões na poesia religiosa oral” (Id. Ibid.
conceito para além dos padrões da linguística. p.101).
E, consequentemente, sobre como isso afeta o Uma noção fundamental para a poesia
sujeito e sua forma de significar (se). Em um oral é o de performance, um conjunto de ações
gênero de caráter complexo e heterogêneo desenvolvidas num campo sinestésico (id. Ibid)
como o documentário destacamos, baseando- que engloba não somente os participantes, mas
nos no nosso material de pesquisa, duas práticas o conjunto de elementos que constitui o cenário
enunciativas: as imagens por ele veiculadas e a onde a poesia é interpretada. Tudo aqui
presença da voz. significa: a voz, os objetos, as vestimentas, o
O empreendimento da AD em tentar espaço e, num movimento globalizante, o
compreender e explicar o funcionamento corpo.
discursivo das práticas de linguagem A presença, numa perspectiva material e
acompanha uma tendência relativamente simbólica, é uma característica determinante das
recente da linguística de considerar o não- poéticas da voz. O que Zumthor (ibid) chama
verbal como um espaço de múltiplas de recorrência discursiva é essa capacidade do
possibilidades de análise. Desta feita, partindo corpo de ativar uma memória recontada em
performance. Pensando a identidade e, de forma

Universidade Federal de São Carlos - São Carlos, São Paulo, Brasil - 2 a 4 de setembro de 2015.

34
específica, a de gênero, o corpo é educado conjunto de elementos e atividades que
segundo pedagogias e mecanismos de controle constituem as romarias.
diversos. Portanto, torna-se necessário No cerne desse universo de
compreender como esses corpos são significações, o romeiro torna-se um “signo
constituídos, e principalmente, como “os que flutuante” (BARBOSA, 2003, p.1) que renova
fracassam em se materializar fornecem o a cada evento um contrato de fé com um dos
"exterior" — quando não o apoio — principais símbolos da experiência religiosa de
necessário, para os corpos que, ao materializar muitos nordestinos, o Padre Cícero. Ademais, o
a norma, qualificam-se como corpos que retorno constante a Juazeiro do Norte,
pesam” (BUTLER, 2001, p.124). considerado a “Jerusalém do Nordeste”, ratifica
As formas de tornar-se sujeito o elo estabelecido entre o sujeito devoto que
acontecem no interior de uma determinada tem na imagem do padre o seu patriarca e a
cultura. Segundo Louro (2001, p.4), da mesma cidade.
forma que identidades são renovadamente Na ordem do discurso religioso, a
reguladas, outras são negadas, condenadas. romaria é um espaço de louvação e de
No cerne das questões que mobilizamos penitência. Nela, o romeiro incorpora signos
no nosso trabalho está a proposta de articular que fazem da imagem estereotipada do
os conceitos de intericonicidade e performance, nordestino um penitente constante, arquétipo da
que nos leva a considerar a imagem na religiosidade dita popular. Esses signos – o
perspectiva da movência, seja do corpo que a chapéu de palha, as vestimentas, os acessórios
representa, seja dos sentidos que aí transitam. como terços, rosários, como marcas da
religiosidade, o repertório das orações e
3. “Fazendo o corpo” e a alma: travestis e
cânticos – são, no discurso corrente,
transexuais nas romarias de Juazeiro
características do “povo de Deus”, reconhecido
No cenário do filme, inúmeros são os e autorizado a assumir o papel de romeiro, de
aspectos que representam Juazeiro como a devoto do “padim Ciço”.
“Terra da fé”. Símbolos religiosos, lugares
No documentário, à imagem
considerados sagrados, efervescência do
considerada tradicional do romeiro - pessoas
comércio local são, a priori, evidência da tríade
idosas, sofridas, contritas, que fazem um trajeto
anual: Romaria à Nossa Senhora das Dores,
ritualístico até a cidade do Padre Cícero,
Romaria de Finados e Romaria das Candeias -,
percorrem o caminho repetidas vezes, ascendem
eventos que acontecem num tempo cíclico e
velas e entoam cânticos pelas ruas de Juazeiro –
que, a cada ano, são atualizados e
é entreposta as imagens de travestis e
ressignificados segundo práticas legitimadoras
transexuais que, também cumprindo um ritual,
da identidade desse espaço simbólico.
saem às ruas para fazer parte do evento
Constituídas através da veiculação e
religioso. É através de um jogo de imagens e
representação de discursos que se articulam em
vozes, no sentido ao qual Paul Zumthor (2010)
torno da ideia do sagrado, as identidades
atribui a essa palavra, isto é, como realização e
socialmente estabelecidas, longe de serem
materialidade fônica de práticas discursivas que
estáticas, também são (re) construídas no
constituem a memória da comunidade, que

Universidade Federal de São Carlos - São Carlos, São Paulo, Brasil - 2 a 4 de setembro de 2015.

35
esses sujeitos, atravessados por discursos se nesse espaço de devoção e compartilhando-o
diversos, mas que se entrecruzam, ocupam um de forma igualitária.
lugar (ou lugares) nesse palco: Juazeiro. Nesse sentido, assim como os (as)
É desse lugar de “tradição” que as demais romeiros (as) que se preparam com suas
travestis e transexuais falam sobre sua vestimentas, velas, rosários, cânticos, elas
participação nas romarias. A partir deste também se preparam para ocupar esse espaço,
cenário de fé e devoção, esses sujeitos mas da sua forma.
enunciam-se como devotos e reivindicam a sua No documentário, o movimento inicial
religiosidade. Nesse sentido, as transexuais e da câmera sugere uma imagem feminina: os
travestis, numa espécie de contradiscurso, seios, a sandália, a maquiagem. Este conjunto
redefinem os limites dessa identidade: de elementos ativam a memória do espectador
[...] Isso não quer dizer que as pessoas que no sentido de pensar que seja uma mulher
são gays, homossexuais, travestis, não cisgênero, ou seja, que nasceu com o corpo
sejam católico (...) como se eu não vivesse considerado “ordenado”, segundo os padrões
na igreja, como se eu não tivesse a minha normativos de corpo e de gênero vigentes,
religião, como se eu não tivesse minha diferente das mulheres transexuais ou
devoção (KAMILA MONTENEGRO, trasgêneros, que consideram, por exemplo, o
07:52 – 08:05 min. In: PEREIRA e corpo masculino no qual nasceram, inadequado
LACERDA, 2006). ao gênero com o qual se identificam.
Em seguida, as imagens vão se
A condicional “como se” dialoga sobrepondo. A ornamentação do corpo é uma
interdiscursivamente com o discurso outro, o característica do tradicional devoto: o rosário
discurso do outro que diz que esses sujeitos não pendurado no pescoço, o lenço amarrado na
teriam religião. O pronome pessoal designa cabeça, os chinelos de couro, saia abaixo do
linguisticamente o efeito de pertencimento, um joelho, blusa fechada, de mangas etc, conforme
estar na ordem do discurso religioso. Esse dizer podemos ver na imagem abaixo:
só é possível porque existe um conjunto de
Figura 1. Romeiros lotam as ruas de
mecanismos que interferem na constituição
Juazeiro do Norte por Padre Cícero.
desses sujeitos, pois, desde cedo, acompanham
esses eventos e integram o cenário da
religiosidade local:

Duas coisa no Juazeiro é adorada.


Primeiramente o Padre Cícero e a Mãe das
Dore, segundo as travesti” (NATASHA,
05:48 – 05:53 min, Ibid).

Desta amaneira, as travestis e trans


representam-se de forma valorativa, inserindo-

Universidade Federal de São Carlos - São Carlos, São Paulo, Brasil - 2 a 4 de setembro de 2015.

36
Foto: Reinaldo Canato/VEJA. travestis e trans utilizam tais signos: “[...] vai
No filme, as travestis e transexuais dentro da minha mala a minha imagem do Padre
também se preparam para a festa, porém, com a Cícero, a minha imagem da minha santa, viaja
sua indumentária: botas, sandálias, maquiagem, comigo” (KAMILA MONTENEGRO. 08:44 –
roupas com muito brilho, cinto prata, cabelos 08: 50 min, Ibid).
longos, bustiês brilhosos mostrando boa parte Segundo Bauman (2005, p.44): “Há
dos seios. E, ao lado dos dizeres do campo da pessoas que têm negado o direito de reivindicar
devoção, surge o sujeito trabalhadora do sexo, uma identidade distinta da classificação
quando enuncia: atribuída e imposta”. Nesse sentido, “Também
sou teu povo”, além de dar nome ao
Quero muito fazer meu corpo, botar minhas
prótese, meu silicone. Penso muito nisso. documentário em questão, dialoga
Trabalho pra ver se consigo realizar o meu interdiscursivamente com o cântico religioso
sonho (NATASHA, 06:25 - 06:34 min, homônimo, de autoria do Padre Zezinho, muito
ibid). popular entre os romeiros1:

Também sou teu povo, Senhor,


Aqui, o mesmo sujeito devoto, que ora, E estou nessa estrada
que “faz a sua alma” também quer “fazer o Perdoa se às vezes não creio em mais nada.
corpo”. Se alguém quer “fazer” o seu corpo
significa que ele não está feito, não nasceu feito. No momento em que tal cântico é
Aquele corpo não o serve, não é condizente entoado pelas trans e travestis, adquire outros
com o gênero com o qual se identifica. efeitos de sentido. Aqui, o sujeito enuncia
Na região do Cariri cearense outra outros dizeres inclusivos. É justamente essa
prática impulsionada pelo Padre Cícero é a ideia de pertencimento que o autoriza a
Renovação. Esta atividade religiosa que é participar do evento, sem, no entanto, abdicar
realizada pelas famílias em suas residências da sua identidade.
reúne um conjunto de signos que fazem parte Figura 2. Kamila Montenegro
do universo performático desse ritual e
dialogam com o evento romeiro: os cânticos
entoados, a participação das mulheres, as
imagens dos santos expostas em quadros ou
esculpidas na madeira e outros materiais
utilizados. A imagem do Padre Cicero ocupa
um lugar de destaque no que é chamado de
“Sala do Santo”. Nas romarias não é diferente.
As imagens do “Padim” e da “Mãe Dasdores”,
muitas frutos do artesanato local, são
transportadas pelo romeiro, representando uma
espécie de amuleto e proteção. Portanto,
inserindo-se nessa ordem e reativando o 1
http://www.vagalume.com.br/padre-zezinho/o-povo-
discurso do romeiro penitente, viajante, as de-deus.html

Universidade Federal de São Carlos - São Carlos, São Paulo, Brasil - 2 a 4 de setembro de 2015.

37
Imagem de página pessoal. “tudo” está muito próxima de nada significar
O ato de entoar o cântico levando em si própria” (GRANGEIRO, 2013, p.135-
consigo uma vela acesa como oferenda aos 136).
santos, bem como o advérbio “também”, A concepção de “povo” no âmbito da
indicam a situação do sujeito que, colocado religiosidade, principalmente no processo das
fora da ordem do discurso religioso católico, romarias, geralmente faz referência ao sujeito
tecendo súplicas, encontra-se acolhido por um que, vivendo em condições subalternas ou
Deus que perdoa e trata a todos como iguais, enfrentando algumas dificuldades, acredita no
independente da sua condição social: “pra Deus Padre Cícero como uma força capaz de sanar
não existe pessoas melhor do que outra, todos ou amenizar os sofrimentos da vida cotidiana,
são iguais” (Kamila Montenegro; 08:26 - 08:28 por isso a prática da penitência e do retorno à
min. Ibid). cidade. Tendo em vista os inúmeros dizeres que
Esse ideal perpassa o discurso das o documentário veicula, essa noção é
travestis e das transexuais que, adotando o ressignificada de forma ainda mais inclusiva,
princípio de igualdade, propõem uma nova tanto pela performance do cântico, como pela
forma de representação do sujeito devoto, imagem das travestis e trans no cenário do
reivindicando um lugar para si no campo da “Joaseiro Celeste” (BARBOSA, 2003).
religiosidade. 4. Considerações finais
Na poesia oral, o anonimato é um Nenhum outro signo é substituível por
característica determinante. Isto porque na palavras. “Cada um deles, ao mesmo tempo, se
oralidade nada é reiterável. A cada performance apoia nas palavras e é acompanhado por elas,
sentidos e sujeitos são movidos, renovados, exatamente como no caso do canto e de seu
reconstruídos. O conceito de movência acompanhamento musical” (BAKTHIN, 2012,
(mouvance), cunhado por Zumthor (2010, p.38). Nesse sentido, considerar a linguagem
p.166), aqui se aplica para designar o fato de a com todas as suas possibilidades de significação
poesia oral, no caso o cântico, passar por um contribui para compreender os processos que
processo de atualização constante, tanto pelas tornam essa significação possível e que, por
variações espaço-temporais, como pelos conseguinte, permitem os processos de
diferentes lugares nos quais essa poesia é identificação dos sujeitos.
performatizada, resultando na modificação da
função social do texto poético. Desta forma, a emergência de novas
identidades no cenário contemporâneo e até o
De acordo com Pêcheux (1997b), as surgimento de outras possibilidades de
palavras e expressões não possuem um sentido representação de identidades antes consideradas
a priori, literal. O sentido de uma palavra impermeáveis corrobora a pertinência dessa
depende, dentre outros fatores, da formação pesquisa que procura compreender como este,
discursiva, dentre outras condições de produção ao mesmo tempo em que se distancia das
do discurso na qual esta palavra se insere. práticas religiosas da romaria, ocupa esse
Quanto à palavra “povo”, “esta fluidez de espaço e é atravessado pelos discursos nele
sentido se acentua, visto que é uma dessas veiculados, e, a partir dos quais as travestis e
palavras absolutizantes que ao significarem

Universidade Federal de São Carlos - São Carlos, São Paulo, Brasil - 2 a 4 de setembro de 2015.

38
transexuais procuram legitimar-se tanto como
BAUMAN, Z. Identidade: entrevista a
sujeitos religiosos como sujeitos de direitos, de
Benedetto Vecchi. Trad. C.A Medeiros. Rio de
desejos, como sujeitos em todas as dimensões
Janeiro: Zahar, 2005.
humanas.
COURTINE, J.J. Metamorfoses do Discurso
Como nos diz Lemaire (2010, p.20), “a
político: derivas da fala pública. Trad. Nilton
tradição oral é movência”. Pelo equívoco, pelo
Milanez, Carlos Piovezani Filho. São Carlos:
acontecimento, é através do cântico, antes já
Claraluz, 2006.
mencionado, que as trans e as travestis
afirmam-se como “povo de Deus”. A imagem
do romeiro é (re) apresentada pela transexual ______. O chapéu de Cleméntis: Obsevações
que, segurando uma vela, caminhando em sobre a memória e o esquecimento na
direção ao cruzeiro e entoando o cântico enunciação do discurso político. In:
performatiza uma nova possibilidade de INDURSKI, F & FERREIRA, M.C.L. Os
devoção: tradição e transgressão se encontram múltiplos territórios da análise do discurso. (p.
para compor e anunciar novas e possíveis 15- 22). Porto Alegre/RS: Sagra Luzzatto,
tradições. 1999.
FOUCAULT, M. A ordem do discurso. 21.ed.
Referências São Paulo: Loyola, 2011.
BAKHTIN, M. Os gêneros do discurso. In: ______. A arqueologia do saber. 8 ed. Rio de
Estética da Criação Verbal. 3 ed. p. 277-326. Janeiro: Forense Universitária, 2014.
São Paulo: Martins Fontes, 2003.
GRANGEIRO, C. R. P. Discurso político no
______. (Voloshinov, 1929). Marxismo e folheto de cordel. São Paulo: Annablume, 2013.
filosofia da linguagem: problemas
fundamentais do método sociológico da GREGOLIN, M. R. Identidade: objeto ainda
linguagem. Trad. M. Lahud e Y. F. Vieira. não identificado? v. 6, n.1.
13.ed. São Paulo: Hucitec, 2012. Estudos da lingua(gem). Vitória da Conquista,
jun. 2008. (p.81-96).
BARBOSA, S. “O Joaseiro celeste”: tempo e
paisagem na devoção ao Padre Cícero. In: HALL, S. A identidade cultural na pós-
Seminário de estudos “Romarias e modernidade. Trad. G.L Louro. Rio de Janeiro:
Santuários”. (p. 1-11). Crato, Ceará, 27 a 29 Lamparina, 2014.
jan 2003. KAMILA MONTENEGRO. Imagem. Página
BUTLER, J. Corpos que pesam: sobre os pessoal. Disponível em:
limites discursivos do sexo. In: LOURO, https://www.google.com.br/search?q=tamb%C
Guaracira Lopes (org). O corpo educado: 3%A9m+sou+teu+povo+orland+pereira&espv=
pedagogias da sexualidade. Belo Horizonte: 2&biw=1440&bih=809&source=lnms&tbm=isc
Autêntica, 2000. p. 153-174. h&sa=X&ved=0CAcQ_AUoAmoVChMIq6jl1b
fxxwIVBE2QCh1EdAD,&dpr=1#imgrc=5LJSy
LLGk3mWxM%3A, acesso em 12/09/2015.

Universidade Federal de São Carlos - São Carlos, São Paulo, Brasil - 2 a 4 de setembro de 2015.

39
________. Entrevista. In: PEREIRA, Orlando e _______. Semântica e discurso: uma crítica à
LACERDA, Franklin. Também sou teu povo afirmação do óbvio. 3 ed. Campinas: Editora da
(documentário). Fortaleza: Centro Dragão do UNICAMP, 1997b.
Mar de Arte e Cultura, 2006. Disponível em: PEREIRA, O.; LACERDA, F. Também sou teu
http://www.youtube.com/watch?v=5WxWU- povo (documentário). Fortaleza: Centro Dragão
7dFXQ. Acesso em 23/01/2015. do Mar de Arte e Cultura, 2006. Disponível em:
LEMAIRE, R. “Tradições que se refazem”. In: http://www.youtube.com/watch?v=5WxWU-
Estudos de Literatura Brasileira 7dFXQ. Acesso em 23/01/2015.
Contemporânea, n. 35. , p. 17-30. Brasília, ROMEIROS LOTAM AS RUAS DE
janeiro-junho de 2010. JUAZEIRO DO NORTE POR PADRE
LOURO, G. L. Pedagogias da sexualidade. In: CÍCERO. Imagem: Reinaldo Canato/Revista
LOURO, Guaracira Lopes (org). O corpo VEJA. Disponível em:
educado: pedagogias da sexualidade. p. 153- http://veja.abril.com.br/multimidia/galeria-
174. Belo Horizonte: Autêntica, 2000. fotos/finados-em-juazeiro-2013/. Acesso em
09/09/2015.
MILANEZ, N. Intericonicidade:
funcionamento discursivo da memória das ZUMTHOR, P. Introdução à poesia oral. Trad.
imagens. Acta Scientiarum. Language and Jerusa Pires Ferreira, Maria Lúcia Diniz Pochat
Culture. Maringá, v. 35, n. 4, p. 345-355, Out.- e Maria Inês de Almeida. Belo Horizonte:
Dez., 2013. Disponível em UFMG, 2010.
http://www.uem.br/acta. Acesso em 21/04/
__________. Performance, recepção, leitura.
2015.
Trad. Jerusa Pires Ferreira e Suely Fenererich. 2
NATASHA. Entrevista. In: PEREIRA, O; ed. São Paulo: Cosac Naify, 2007.
LACERDA, F. Também sou teu povo
ZEZINHO, P. Também sou teu povo.
(documentário). Fortaleza: Centro Dragão do
Disponível em:
Mar de Arte e Cultura, 2006. Disponível em:
http://www.vagalume.com.br/padre-ezinho/o-
http://www.youtube.com/watch?v=5WxWU-
povo-de-deus.html. Acesso em 12/09/2015.
7dFXQ. Acesso em 23/01/2015.
NICCHOLS, B. Introdução ao documentário.
Trad. M. S. Martins. Campinas: Papirus, 2005.
(Coleção Campo Imagético).
ORLANDI, E. P. As formas do silencio no
movimento dos sentidos. 6 ed, Campinas:
Editora da Unicamp, 2007.
PÊCHEUX, M. O discurso: estrutura ou
acontecimento. Trad. Enni Pucchinelli Orlandi.
2 ed. Campinas: Pontes, 1997a.

Universidade Federal de São Carlos - São Carlos, São Paulo, Brasil - 2 a 4 de setembro de 2015.

40
A RELAÇÃO DE GÊNERO SOB O OLHAR DO DISCURSO
MIDIÁTICO: UMA ANÁLISE EM PROPAGANDAS DULOREN

Suegna Sayonara de ALMEIDA; Ivanaldo Oliveira dos SANTOS


Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN)
suegnasayonara@hotmail.com; ivanaldodosantos@yahoo.com.br

Resumo: Este artigo objetiva analisar os efeitos de sentido estabelecidos pelas relações
entre os gêneros masculino e feminino discursivizadas nas propagandas de Lingerie
Duloren. Para isso, utilizaremos os pressupostos teóricos da Análise do Discurso de linha
Francesa, abordando categorias como interdiscurso e memória discursiva, além de
reconhecer formações discursivas responsáveis por constituírem seus sentidos. Para
subsidiar nosso trabalho abordaremos os dizeres de Michel Foucault (2008), Bauman
(2005) e Charadeau (2006), entre outros estudiosos. O trabalho é constituído de 03 (três)
propagandas retiradas do site www.duloren.com.br. Sendo assim, as análises feitas em
propagandas de Lingerie Duloren, vêm a nos proporcionar o entender de como a cultura
e a ideologia, fabricadas no interior de uma sociedade, interferem no acontecer enquanto
sujeito histórico-social, e que dessa forma estabelece o lugar e o papel que cada sujeito
(homem e/ou mulher) venha a desempenhar dentro de uma sociedade.
Palavras-chave: Discurso; Propaganda; Relação de gênero.

desse campo do saber, e que nos proporciona


Introdução
analisar os vários sentidos que surgem a partir
Ao pensar as relações existentes entre de um mesmo discurso.
os seres humanos, especificamente em como se
Partiremos primeiramente de
constitui as relações entre homens e mulheres,
inquietações particulares, em pesquisar as
nos propomos aqui, analisar elos estabelecidos
relações de poder que os sujeitos exercem
entre os gêneros masculino e feminino dentro
dentro das propagandas, levando em
de algumas propagandas de lingerie Duloren
consideração o lugar que cada um ocupa dentro
que circularam na mídia nos anos de 2007,
da sociedade e como se caracteriza os
2011 e 2012. Para isso, tomaremos como base
interdiscursos, uma vez, que as análises são
a ciência Análise do Discurso (doravante AD),
feitas a partir de sujeitos distintos entre si na
através de categorias como
relação de gênero, e que ao longo do tempo
Interdiscurso/Memória discursiva além de
reconhecer Formações discursivas, oriundas

Universidade Federal de São Carlos - São Carlos, São Paulo, Brasil - 2 a 4 de setembro de 2015.

41
vem desempenhando papéis diferentes em
1. A Análise do Discurso: uma breve visão
vários aspectos,
histórica-conceitual.
Para entender como os elementos que
A Análise do Discurso (doravante AD)
constituem as bases da teoria AD são
teve início no ano de 1960, tendo como meta de
construídas discursivamente dentro das
estudo o discurso. Desse modo, a proposta de
propagandas, abordaremos a relação
análise vai além da Análise de Conteúdo, que
estabelecida entre os gêneros masculino e
procura extrair sentidos apenas encontrados
feminino, observando aspectos como: cultura,
dentro do texto para a Análise do Discurso,
sociedade e relações de força. Partindo do
que compreende a linguagem como não
princípio de que esses fatores junto à história
transparente ao ponto de se apreender o seu
levam os sujeitos a significarem de acordo com
sentido completo ao utilizar-se da soma de
os aspectos formadores de regras que
frases. A AD, portanto, leva em consideração
organizam uma sociedade em níveis de
os sentidos que atravessam o discurso, e que a
representar segundo o sexo e o lugar que cada
língua junto à história é a responsável pela
sujeito ocupa socialmente.
produção dos sentidos. (ORLANDI, 2007).
Assim, as relações entre os gêneros
A Análise do Discurso é marcada por
(masculino e feminino) são estabelecidas a partir
três épocas que a configuram, assim chamadas:
da cultura e das relações de poder estabelecidas
AD1, AD2 e AD3.
no interior das instituições, sejam elas de
qualquer natureza, religiosa, politica, escolar A primeira época, denominada como
etc., passadas aos indivíduos que dela fazem AD1, tem o discurso como uma maquinaria, ou
parte, tomando como valor de verdade os seja, o discurso era homogêneo e fechado, cada
discursos que emergem desses locais. Para que campo discursivo era autodeterminante, tendo o
esses discursos sejam legitimados, os sujeitos sujeito assujeitado a um discurso pronto e
que representam essas instituições representam acabado.
o poder que essas esferas representam na Na segunda época denominada AD2, a
sociedade. noção de Formação Discursiva é tomada de
Mostraremos, no decorrer das análises, empréstimo por Pêcheux (1990b) ao filósofo
como se constitui a relação de gêneros Michel Foucault (2008). Nesse momento, o
(masculino e feminino) apresentada no discurso discurso passa a sair da noção de maquinaria
midiático. Dessa forma, a mídia tem importante para a noção de formação discursiva.
papel ao transmitir com rapidez os discursos É apenas na terceira época AD3 que a
realizados por sujeitos em dado momento noção de maquinaria é totalmente
histórico, possibilitando às retomadas de desconstruída. O discurso passa a ser visto
discursos que já foram utilizados e como heterogêneo e permeado por outros
ressignificando-os em um novo discurso. discursos explícitos e/ou implícitos
textualmente. Sendo assim, nos deteremos a
essa terceira fase para a realização do nosso
trabalho.

Universidade Federal de São Carlos - São Carlos, São Paulo, Brasil - 2 a 4 de setembro de 2015.

42
sentido através da construção dos discursos
2. Interdiscurso, memória e formação
acumulados em uma memória coletiva. Assim,
discursiva: fundamentando efeitos de
tomamos por memória coletiva, as formações
sentido.
culturais e ideológicas compartilhadas por
O interdiscurso é caracterizado pelos sujeitos pertencentes a grupos sociais de uma
discursos atravessados por outros discursos em mesma sociedade. (ORLANDI, 2007)
um dado momento da história. O interdiscurso
Assim, cabe a memória discursiva, o
faz sentido inconscientemente por uma
absorver de discursos já utilizados em um
ideologia compartilhada por sujeitos de um
determinado momento da história e que volta a
mesmo grupo histórico que passa a fazer
significar diferentemente em um novo dizer. Em
sentido em outros enunciados ao serem
outra definição, temos na memória discursiva:
relacionados entre si.
Espaço de memória como condição do
Retomar enunciados conservados ao longo
funcionamento discursivo constitui um
do tempo e dispersos no espaço, em direção
corpo-sócio-histórico-cultural. Os discursos
ao segredo interior que os precedeu, neles se exprimem uma memória coletiva na qual os
depositou e aí se encontra (em todos os sujeitos estão inscritos. Trata-se de
sentidos do termo) traído. (FOUCAULT, acontecimentos exteriores e anteriores ao
2008, P. 137) texto, e de uma interdiscursividade,
refletindo materialidades que intervém na
Sendo assim, equivalem ao sua construção. (FERNANDES, 2007,
interdiscurso os mecanismos de apropriação p.65)
enquanto pensamento sobre um determinado
discurso, tornando-o legítimo e concretizado Assim, os discursos são guardados
exteriormente quando conseguimos relacioná- nesse espaço de memória cognitiva dos sujeitos
los aos discursos já utilizados anteriormente. que passa a permitir retomadas de discursos
Mas voltar a significar em um novo discurso, e utilizados em outro momento histórico-social,
conseguir identificar uma interdiscursividade, significando na superfície do discurso e volta a
está relacionado à maneira como a história vai ressignificar diferentemente em outras
sendo modificada pelos sujeitos, levando em materialidades discursivas.
consideração o conhecimento de mundo e a
cultura que promoveram esse sujeito. As Formações Discursivas (FDS) se
constituem a partir de formações ideológicas
A memória Discursiva apresenta o que o sujeito acumula ao passar do tempo, e
espaço cognitivo onde materializamos a nossa são elas as responsáveis pelas escolhas de
memória social. Então, podemos entender a determinados enunciados em lugar de outros.
partir de nossas crenças, de nossa cultura e da Isso ocorre em virtude de, os enunciados serem
nossa formação enquanto sujeito-social que escolhidos ideologicamente a partir da realidade
adquirimos a capacidade de realizar vários cultural e social da qual o sujeito se constitui.
discursos, os quais são retomados de outro As escolhas dos enunciados são feitas
momento da história e tomados de outros ideologicamente de formações discursivas
significados. Desse modo, começam a ter próprias de cada sujeito. Assim, a ideologia é a

Universidade Federal de São Carlos - São Carlos, São Paulo, Brasil - 2 a 4 de setembro de 2015.

43
concepção de mundo adquirido por um mesmo de mudanças de vida que gera aos sujeitos
grupo social em um mesmo momento histórico. novas formas de pensar e agir de acordo com
(FERNANDES, 2007) novas posições e costumes que venha a adotar,
ou transferir-se para outra sociedade,
A vontade de verdade, assim como os outros partilhando de uma nova cultura.
sistemas de exclusão, apoia-se sobre um
suporte “institucional” sendo ao mesmo Portanto, a identidade vem a ser
tempo reforçada e reconduzida por todo um apontada pelas diferenças estabelecidas na
compacto conjunto de práticas como a sociedade e se configuram por várias formas
pedagogia, é claro, como o sistema dos antagônicas, no agir, pensar, se comportar e
livros, da edição, das bibliotecas, como as como se representa simbolicamente de acordo
sociedades de sábios outrora, os como nos vestimos, nos alimentamos e pela
laboratórios hoje. Mas ela é também linguagem que utilizamos, vindo a caracterizar e
reconduzida, mais profundamente sem distinguir as identidades, como é colocado por
dúvida, pelo modo como o saber é aplicado Woodward (2007, p. 10) “assim, a construção
em uma sociedade, como é valorizado, da identidade é tanto simbólica quanto social”.
distribuído, repartido e de certo modo
atribuído. (FOUCAULT, 2009, p. 17, aspas A mídia é um dos principais dispositivos
nossa) de formações discursivas da sociedade
contemporânea, pois é por meio dela que
3. A relação de gêneros na sociedade e no trazem à tona discursos que já foram proferidos
discurso midiático. em outro momento e que são ressignificados na
construção de outros discursos que nos
Para melhor explicar relações entre constitui enquanto sujeitos. Esses discursos são
homens e mulheres em uma sociedade, é reutilizados pela mídia ao proporcionar ao leitor
preciso entender como compreendemos à ideia a concepção de mecanismos que possibilitem
de identidade, colocada da seguinte forma: entender as relações de construção dos efeitos
simbólicos colocados pelos sujeitos em um
Tornamo-nos consciente de que o
‘pertencimento’ e a ‘identidade’ não têm a
determinado discurso (GREGOLIN, 2007).
solidez de uma rocha, não são garantidos Podemos, através dos textos
para toda a vida, são bastante negociáveis e apresentados pela mídia, sejam eles
revogáveis, e de que as decisões que o verbalizados ou não, identificar vários sentidos
próprio indivíduo toma, os caminhos que que permeiam o discurso, se nos detivermos a
percorre, a maneira como age- e a interpretá-los.
determinação de se manter firme a tudo
isso- são fatores cruciais tanto para o A mídia funciona por uma dupla lógica:
‘pertencimento’ quanto para a ‘identidade’. a econômica que age pela apresentação de
(BAUMAN, 2005, p. 17 aspas do autor) produtos fabricados com interesse de atingir um
público consumidor que adquira seus produtos;
Ao que tomamos como pertencimento e a simbólica que promove a opinião do público
é o fato de em algum momento passarmos a consumidor sobre um determinado produto
questionar nossa própria identidade, sobre fatos comercializado. (CHARAUDEAU, 2007)

Universidade Federal de São Carlos - São Carlos, São Paulo, Brasil - 2 a 4 de setembro de 2015.

44
figura do demônio, adotada pelas lendas e pelos
A mídia é um campo discursivo que nos
trabalhos cinematográficos, em direção ao
permite uma vasta assimilação de sentidos, pois,
homem com olhar de superioridade. A relação
ela possibilita a retomada de diversos discursos,
interdiscursiva, também é retomada pelo efeito
ao trazer fenômenos históricos que
de sentido proporcionado pela figura feminina,
aconteceram no passado para um novo discurso
presente na propaganda, ao tomar lugar de
e dessa forma conseguem promover vários
demônio, quando a esse efeito conseguimos
sentidos a partir de um mesmo discurso já
fazer outra ligação com o discurso bíblico, uma
utilizado em outra época. Assim, a mídia ao
vez, que, ao retomar o discurso sobre Eva (GN;
apoderar-se de acontecimentos históricos se
2) a colocar à mulher como incentivadora ao
constitui de vários conhecimentos que voltam a
pecado cometido por Adão, que ressignifica
significar discursivamente em outras formas de
dessa forma na propaganda midiática, a
enunciação promovidos pelo próprio campo
formação discursiva existente em nossa
midiático que contribui na construção dos
sociedade, cuja, nas relações entre homens e
vários sentidos que um mesmo discurso pode
mulheres, pecados cometidos por ambos os
vir a apresentar.
sexos, só são de fato apontados e julgados com
4. A relação de gêneros sob o olhar do mais intensidade quando cometidos por
discurso midiático. mulheres. Essa análise se torna verdadeira
Há milênios, homens e mulheres ocupam quando de nossa sociedade aspectos como
diferentes lugares dentro de determinadas cultura e ideologia são partilhadas dentro de um
sociedades. A esses lugares são estabelecidas mesmo grupo formador discursivo.
regras que determinam os gêneros a distintas Além disso, a imagem enquanto
categorias que se incorporam de acordo com a enunciado também deixa marcados os diferentes
cultura na qual se inserem esses sujeitos. lugares ocupados pelos sujeitos. Dessa forma, a
Podemos então perceber que na figura mulher ocupa o lugar de diabo pela forma como
1, cujo título é Anjo não tem sexo, então, se apresenta discursivamente com a presença de
fogo, escuridão e pela lingerie vermelha, cor
qual é a vantagem? O homem encontra-se
que em nossa memória discursiva, possibilita os
caído, em posição retraída e assustado
enquanto olha em direção à mulher que ocupa efeitos de sentidos que referenciamos a paixão,
o amor e o pecado, significados em nossa
posição de diabo, uma vez que, pela memória
memória também em Gênesis (2;7) pela cor do
discursiva segundo Foucault (2008) uma
fruto proibido, comido por Adão e Eva,
espécie de memória que atravessa o tempo,
utilizado pelas escrituras sagradas como
significações, pensamentos, desejos, fantasmas
símbolo do pecado. Ao homem cabe o lugar de
sepultados que definem o que permite arrancar
pecador, tendo que se submeter a esse lugar,
o discurso passado de sua inércia a reencontrar
que pela memória discursiva nos permite
sua vivacidade perdida. Conseguimos fazer
relacionar esse discurso ao discurso religioso
essa relação pelas formas que os demônios
que adotamos enquanto cristãos sobre o inferno
aparecem em filmes e lendas, na maioria das
lugar para onde vão as pessoas que cometeram
vezes apresentando-se com essa aparência de se
perversidades aqui na terra e depois que
pôr agachada que retoma interdiscursivamente a

Universidade Federal de São Carlos - São Carlos, São Paulo, Brasil - 2 a 4 de setembro de 2015.

45
morrem tem o inferno como morada por toda palavra “renda-se” com destaque maior na
eternidade e sendo submissas ao diabo dono do escrita da “renda” com a lingerie que a mulher
inferno. está usando, também de renda.
Quando tomamos essa noção de inferno, Percebemos assim, que o interdiscurso
consequentemente, fazemos relação com que se torna evidente na imagem é
demônios. Essa retomada de discurso de ordem ressignificado a partir da relação que
religiosa torna-se legítimo quando relacionamos estabelecemos em nossa memória discursiva, ao
a imagem como parte constitutiva do enunciado relacionarmos a imagem da propaganda à época
“Anjo não tem sexo. Então. Qual é a das lutas e guerras que aconteceram em outro
vantagem?”, assim, o sujeito masculino da momento da história e legitimada tanto nas
propaganda toma o lugar de pecador submisso posições que o homem e a mulher estão
e a mulher cabe à posição de algo que se opõe, ocupando na imagem, quanto na palavra
no caso o demônio. Esse discurso trazido pela “renda-se” evidenciando que o homem é
propaganda é ressignificado por meio da rendido pela mulher, em Foucault (2008)
memória discursiva partilhada por sujeitos de mostra-se como os diferentes discursos de que
uma mesma cultura, permitindo assim guardar tratamos remetem uns aos outros, organizados
os vários discursos dos quais compartilhamos por uma mesma estrutura e carregam
ao longo do tempo, e retomadas com uma nova significações que podem ser comuns a toda uma
produção de sentidos. época.
Na figura 2, cujo título é Renda-se, a A propaganda em questão emerge de
relação discursivizada entre o homem e a uma formação ideológica que é pautada na
mulher observadas na condição de produção da cultura dos sujeitos históricos e sociais,
imagem, apresenta a mulher como dominante utilizando a palavra “renda-se” e a postura
em relação ao homem legitimado pela posição adotada entre o homem e a mulher para
da mulher sobre o homem deitado e pelo significar, utilizando como base outro discurso
enunciado “renda-se”, assim, o sujeito já estabelecido na sociedade sobre as lutas
masculino torna-se rendido ao sujeito feminino, existentes entre os povos, no intuito de dominar
remetendo o interdiscurso como apreendido à o território inimigo, no caso o homem. Assim, a
posição entre guerreiros percebidas a partir da partir dessa formação discursiva colocada por
imagem e legitimada com a inserção do Foucault (2008) conseguimos compreender as
enunciado “renda-se”, essa relação relações de sentido que perpassam os discursos
interdiscursiva se faz presente para Fernandes tornando-os verdadeiros. Contudo a palavra
(2007) pois, caracterizamos no discurso dessa “renda-se” não é colocada apenas como
propaganda o entrelaçar de outro discurso, elemento que torna legítimo o discurso entre
oriundo de outro momento da história. lutas e guerras, mas, permite também outro
Colocando a mulher como vencedora do que sentido significado na lingerie fabricada com
viria a ser uma batalha, ainda em relação à tecido de renda vestida pela mulher.
palavra utilizada, há uma ambiguidade que
revela um sentido de dominação da mulher
sobre o homem, além dos efeitos de sentido da

Universidade Federal de São Carlos - São Carlos, São Paulo, Brasil - 2 a 4 de setembro de 2015.

46
bem definido, aqui o discurso ressignifica
Na figura 3, intitulada Já curti e agora
antagonicamente, uma vez que a imagem do
vou compartilhar, temos na imagem uma papai Noel é apresentada na propaganda
relação entre o homem e a mulher que
diferentemente daquela que guardamos em
representa discursivamente a independência da nossa memória discursiva, que é presenteado a
mulher de hoje que não apresenta uma uma mulher que também é jovem e dona de um
submissão ao homem como acontecia no corpo escultural. Assim, o corpo representa um
passado, que se torna legitimado a partir da poder discursivo que significa de acordo com os
leitura do enunciado “já curti e agora vou padrões de beleza física que cada sociedade
compartilhar”, utilizado junto à imagem.
impõe de acordo com a cultura e a ideologia
Portanto, o discurso que tomamos como que os sujeitos adquirem ao longo do tempo,
verdadeiro é observado a partir da colocação passando, assim, a apresentar o corpo atlético
dos elementos enunciativos que compõem a como representação de saúde, bem-estar e
imagem nos remetendo assim a outros discursos beleza que para Foucault (2012) o poder passa
que se cruzam e ressignificam em novos a ser tudo aquilo que por ele é atacado, assim, o
discursos. Deste modo, temos como teia poder encontra-se exposto no próprio corpo,
interdiscursiva, o homem que aparentemente naquilo que ele representa socialmente.
estava vestido de papai Noel, símbolo de uma Assim, só podemos fazer essa relação de
figura lendária que traz presentes as crianças sentidos a partir da memória discursiva que
que se comportaram bem no decorrer do ano e temos sobre a simbologia que o natal representa
por isso são presenteados pelo bom velhinho na e consequentemente a imagem do papai Noel
época do natal, esse sentido enunciativo é
que é guardada em nossa memória discursiva e
caracterizado a partir de nossa memória volta a ressignificar no discurso atual opondo-
discursiva que permite a retomada do discurso se a imagem do papai Noel gordo e velho,
religioso construído sobre o Natal, e agora presente ideologicamente em nossa memória
apresenta um novo discurso ao ser colocado na social adquirida ao longo da história.
propaganda como o próprio presente, que
supostamente foi desembrulhado, uma vez que, 4.1 Figuras de análises
a roupa vermelha que lendariamente veste o Figura 1. Anjo não tem sexo, então, qual é
Papai Noel encontra-se jogada ao chão. a vantagem?
Nesse novo discurso, há uma formação
discursiva que nos proporciona reconhecer
outros sentidos dentro da construção
discursiva, a partir da nossa cultura e da
ideologia que compartilhamos pertencentes a
uma mesma sociedade e que está presente no
próprio papai Noel. Desse modo, o sujeito
masculino não é apresentado com sua forma
física lendariamente conhecida, gordinho e
FONTE: http://www.duloren.com.br/#!/campanhas/
velhinho, mas, com um corpo atlético, jovem e

Universidade Federal de São Carlos - São Carlos, São Paulo, Brasil - 2 a 4 de setembro de 2015.

47
Figura 2. Renda-se. culturalmente pertencia ao sujeito masculino,
uma vez que, o sexo era determinante aos
lugares ocupados socialmente pelos sujeitos em
que apenas sujeitos do sexo masculino tinham
domínio de poder sobre o sujeito feminino
dentro de uma determinada sociedade.
Nessa perspectiva do trabalho
mobilizado pelo interdiscurso, recuperamos
vários efeitos de sentidos, pela memória
discursiva compartilhada por todos nós, que
FONTE: http://www.duloren.com.br/#!/campanhas/
permitiu chegarmos a nossas análises, uma vez
que é através da memória que conseguimos
Figura 3. Já curti e agora vou compartilhar. guardar os vários discursos acumulados durante
o tempo, permitindo assim a retomada de
discursos já significados e voltaram a
ressignificar nas propagandas a partir da
construção de novos discursos como os obtidos
em nossas análises.
Ao que pertence às formações
discursivas, entendemos a partir da teoria da
Análise do Discurso, que os sujeitos apresentam
suas formações discursivas de acordo com lugar
FONTE: http://www.duloren.com.br/#!/campanhas/ que esses sujeitos ocuparam em uma
determinada sociedade de acordo com a cultura
5. Considerações finais e a ideologia pertencente a cada esfera de poder
Assim, dentro das práticas discursivas seja ele, religioso, político, educacional e etc.
das propagandas da Duloren, no tocante a Na discursivização das relações de
fabricação das relações existentes entre os gêneros que se inserem no espaço das
gêneros observou-se que os discursos propagandas Duloren, os sujeitos masculinos e
encontrados nas propagandas revelaram femininos em seus corpos, estão geralmente em
relações de poder existentes entre gêneros uma luta constante, e no campo da sexualidade,
masculinos e femininos discursivizados no os corpos femininos apresentam força e
interior de suas práticas discursivas, na qual domínio sobre os corpos masculinos. Com isso,
sujeito feminino ocupa um lugar de a Duloren enquanto campo midiático promove
superioridade em relação ao sujeito masculino, o lugar de poder, com o sujeito feminino
fato esse recorrente em todas as propagandas superior ao masculino, esses efeitos tornam-se
analisadas, desconstruindo uma ideologia possíveis, uma vez, que, do interior de suas
adotada pela sociedade ocidental, cujo sujeito propagandas, formações discursivas se
masculino sempre foi visto como superior ao constituem a partir de uma rede interdiscursiva
sujeito feminino, apresentando um poder que presente na memória dos sujeitos, a permitir

Universidade Federal de São Carlos - São Carlos, São Paulo, Brasil - 2 a 4 de setembro de 2015.

48
que sejam legítimados os vários discursos
ORLANDI, E. P. Análise de discurso:
apresentados a partir da interpretação de um
princípios e procedimentos. 7 ed. Campinas:
mesmo discurso, promovendo os vários efeitos
Pontes, 2007.
de sentido.
PÊCHEUX, M. A Análise do Discurso: Três
Épocas (1983). In: GADET, F. e HAK, T. Por
Referências uma Análise Automática do Discurso: Uma
BAUMAN, Z. Identidade: entrevista a Introdução à Obra de Michel Pêcheux.
Benedetto Vecchi. Tradução, Carlos Alberto Campinas: EDUNICAMP, 1990b.
Medeiros. Rio de Janeiro: Jorge Zahar ed., WOODWARD, K. Identidade e diferença: uma
2005. introdução teórica e conceitual. In: SILVA, T.
CHARADEAU, P. Discurso das mídias. T da. Identidade e diferença: a perspectiva dos
Tradução Angela M. S. Corrêa. São Paulo: estudos culturais. 7 ed. Petrópolis, RJ: Vozes,
Contexto, 2006. 2007.

FERNANDES, C. A. Análise do discurso:


reflexões introdutórias. 2 ed. São Carlos:
Claraluz, 2007.
FOUCAULT, M. A arqueologia do saber.
Tradução Luíz Felipe Baeta Neves, 7 ed. Rio de
Janeiro: Forense, 2008.
______. A ordem do discurso: Aula inaugural
no Collège de France, pronunciada em 2 de
Dezembro de 1970. Tradução Laura Fraga de
Almeida Sampaio. 19 ed. Edições Loyola. São
Paulo, 2009.
______. Microfísica do poder. Organização,
introdução e revisão técnica de Roberto
Machado. 25 ed. São Paulo: Graal, 2012.
GÊNESIS. Bíblia Sagrada. Edição Pastoral.
São Paulo: Sociedade Bíblica Católica
Internacional, 1990. ISBN 85-349-0228-3.
GREGOLIN, M. R. Análise do discurso e
mídia: a (re) produção de identidades. Dossiê,
comunicação, mídia e consumo. São Paulo,
vol. 4, n 11, p. 11-25, nov. 2007.

Universidade Federal de São Carlos - São Carlos, São Paulo, Brasil - 2 a 4 de setembro de 2015.

49
SUJEITOS PERIFÉRICOS: MAL DE ARQUIVO OU ARQUIVO
DO MAL?

Willian Diego de ALMEIDA


Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS)
willian.diego@hotmail.com

Resumo: Este trabalho propõe uma análise discursivo-desconstrutivista da Lei Maria da


Penha em relação à representação da mulher indígena, a fim de rastrear efeitos de
sentidos de discriminação que se materializam no arquivo da lei. Partimos da hipótese de
que a lei marginaliza a mulher indígena, através de um dispositivo discursivo que agencia
um processo de estatização da identidade/subjetividade de um sujeito considerado
periférico. O trabalho ancora-se na transdisciplinaridade entre: perspectiva discursiva
francesa; desconstrução derrideana; arquegenealogia foucaultiana; ponto de vista
teórico-culturalista de Anzaldúa (2005) e de Mignolo (2003). Resultados apontam que o
texto da lei mobiliza efeitos de sentidos de discriminação em relação à mulher indígena,
como uma prática discursiva que teima em permanecer no tecido da formação social.
Palavras-chave: mulher indígena; discriminação; lei maria da penha.

Introdução Embora a lei Maria da Penha (LMP)


tenha convertido o que era mero fato físico em
A mulher brasileira, em face do
direito legal, vemos que a lei não abarca a
movimento feminista principiado na segunda
autonomia de alguns dos subconjuntos de
década do século XX, que recebeu corpo nas
sujeitos que constituem a nação brasileira,
décadas de 60 e 70, tem atingindo resultados
mantendo-os à margem da cidadania (SOUZA,
benéficos em prol dos direitos (COSTA;
2003): os indígenas, mais especificamente a
BRUSCHINI, 1992; RAGO. 1998). Em face
mulher indígena.
disso, o legislador constituinte primou por
incluir no aparato jurídico brasileiro, após quase Dito isso, temos por objetivo realizar
duas décadas da feitura da Constituição Federal uma análise discursivo-desconstrutivista, por
de 1988 (CF), um direito social de caráter meio de um recorte discursivo, da LMP em
subjetivo, uma lei especial que apresenta relação à representação da mulher indígena,
direitos essenciais à mulher brasileira: a lei problematizando possíveis efeitos de sentidos
Maria da Penha, lei 11.340/2006. que caracterizam discriminação e exclusão.

Universidade Federal de São Carlos - São Carlos, São Paulo, Brasil - 2 a 4 de setembro de 2015.

50
Vale ressaltar que, diante do nosso 1. Fundamentação teórico-metodológica
objetivo, não pretendemos minimizar a eficácia Em face do assentamento teórico
da lei. Buscamos analisar o seu funcionamento
transdisciplinar que orienta esta pesquisa,
no âmbito discursivo, ou seja, a escrita como articulamos que não há uma metodologia
um espaço de confrontos discursivos que pode pronta, acabada, baseada em uma exatidão, em
ser problematizado, sobretudo no campo de rigores científicos fechados, em uma leitura
reflexão sobre as questões indígenas. horizontal que visa à fixidez dos sentidos.
Partimos da hipótese de que a LMP, De tal modo, para empreender o nosso
embora inclua as mulheres na ordem do gesto analítico, há a necessidade que se
discurso jurídico, por outro lado marginaliza a construa um dispositivo teórico, a fim de
mulher indígena, através de um dispositivo articular apenas aqueles cordões teóricos
discursivo (a lei) que agencia um processo de (CORACINI, 2007) de que necessitamos para
estatização da identidade/subjetividade de um tramar o nosso encadeamento teórico e analisar
sujeito considerado periférico. os efeitos de sentidos que emergem na
Para tanto, pautamo-nos, materialidade linguística da LMP.
transdisciplinarmente (CORACINI, 2010), nas O primeiro fio teórico a ser considerado
contribuições teóricas da perspectiva discursiva, é o da Análise do Discurso (AD). Esta se
em que o discurso se constitui sobre o primado adorna das mais variadas definições: pode ser
de interdiscursos e que todo discurso é relacionada, em sentido amplo, ao estudo do
heterogêneo; da desconstrução, por meio das discurso; em sentido restrito, como um
balizagens teóricas derrideanas; por meio do dispositivo (ORLANDI, 2008, p. 32) que toma
suporte teórico-metodológico foucaultiano, o o discurso como objeto de investigação,
arquegenealógico, por implementar as analisando a relação da linguagem com a
metodologias teóricas da perspectiva discursiva; exterioridade, bem como as chamadas
e da perspectiva teórico-culturalista de condições de produção do discurso: o falante, o
Anzaldúa (2005) e de Mignolo (2003), que ouvinte, o contexto da comunicação, o
articulam estudos a partir daqueles que estão à
contexto histórico-social (ideológico).
margem das identidades consideradas
homogêneas, ou seja, subalternas. A AD, estabelecida sobre a tríade
teórica linguística, psicanálise e materialismo
Embora este seja um dos recortes de histórico, por meio dos trabalhos desenvolvidos
minha tese de doutoramento, resultados por Pêcheux (1988), produz um outro lugar de
apontam que o texto da lei, um arquivo conhecimento com sua especificidade. Afasta-se
jurídico, mobiliza e (d)enuncia efeitos de da mera aplicação da linguística sobre as
sentidos de discriminação em relação à mulher ciências sociais, pois considera que a linguagem
indígena, como uma prática discursiva que pode ser referida essencialmente à sua
ainda permanece no tecido da formação social. exterioridade, para que se apreenda seu
funcionamento enquanto processo significativo.

Universidade Federal de São Carlos - São Carlos, São Paulo, Brasil - 2 a 4 de setembro de 2015.

51
sociedade e as instituições (DELEUZE, 2005;
Nesse contexto, ao analisarmos o
DREYFUS; RABINOW, 1995).
discurso, estamos, de maneira inevitável,
perante a questão de como ele se Da arqueologia à genealogia – termo
(inter)relaciona com a circunstância, a este começado por Nietzsche (2009) –,
conjuntura e a ocorrência que o criou: o que Foucault (2002) contribui para a constituição
coloca em relação “o campo da língua e o de um artifício, um modo de ler e interpretar,
campo da sociedade. que ao mesmo tempo em que procura cercar
efeitos de sentidos lançados em um texto,
O processo discursivo se dá por meio de
explica como o sujeito, os objetos do saber, da
uma interpretação que não anula, mas
verdade, do poder e os enunciados
(trans)forma e (re)escreve os textos,
desenvolvem-se, constituem-se, modificam-se; e
produzindo em todos os momentos de leitura
como se deslocam ao longo dos tempos.
outros sentidos. “O sentido, para a AD, não
está fixado a priori como essência das palavras, Essa atividade de investigação
nem tampouco pode ser qualquer um: há uma (escavação) possibilita lançar um olhar a fatos
determinação histórica. Ainda, um entremeio” desconsiderados, sejam pelos procedimentos
(ORLANDI, 2007, p. 27). históricos, seja pelo desígnio do produtor de um
texto.
Embora tudo isso esteja muito bem
delineado em diversas obras, é com base na O método arquegenealógico configura,
interface do estudo centrado no suporte então, um mecanismo ou uma atividade para
teórico-metodológico foucaultiano (1988, indagar, problematizar e enxergar
2002, 2015), o arquegenealógico, que a teoria analiticamente na dispersão de enunciados,
discursiva constitui-se como um artifício, um regularidades de acontecimentos discursivos,
modo de ver, ler e interpretar os (efeitos) de bem como supostas “essências” que foram
sentidos de um texto, na dispersão de deliberadamente estabelecidas e instauradas a
enunciados, regularidades de acontecimentos partir de conjunturas históricas que permeiam a
discursivos. humanidade.
Para além do estruturalismo, Foucault Diante desse “artifício” que aprimora a
não se limita a tratar de questões já trabalhadas. análise das problematizações, bem como das
O autor constrói uma perspectiva para tratar subjetivações provenientes de um discurso, a
dos problemas que encampam a sociedade a AD complementa-se, e oportuniza tecer
partir da recusa das evidências. E nisso, de reflexões que transcendem a simples leitura dos
maneira genérica, é que consistem suas textos, sobretudo quando discorremos acerca
produções. do caráter relativo das palavras (CORACINI,
2007).
Foucault põe em marcha as políticas das
transgressões, via instituições (prisões, escolas Pensando na análise de deslocamentos
e estabelecimentos jurídicos). E por essa via das significações, dos efeitos de sentidos, na
monta a sua perspectiva de estudo sobre o máscara de autonomização da escrita jurídica,
poder: redes capilares que permeiam a da objetividade, do direito, do justo, faz-se
necessária uma articulação com um terceiro fio

Universidade Federal de São Carlos - São Carlos, São Paulo, Brasil - 2 a 4 de setembro de 2015.

52
teórico: a perspectiva derrideana da estrutura (a escrita) da lei (virtualidade) não
desconstrução. Especialmente pelo fato de o pode ser considerada “neutralizada, reduzida:
discurso jurídico se desenvolver (e se mantém) por um gesto que consistia em dar-lhe um
sob a égide do logocentrismo, da racionalidade centro, em relacioná-la a um ponto de presença,
ocidental. a uma origem fixa” (DERRIDA, 1995, p. 230).
Com posição intelectual diferenciada no Além de tais autores, o último fio
cenário da filosofia, Jacques Derrida opera um teórico condutor liga-se à visada teórica e
des-locamento, uma transgressão, um gesto metodológica de Anzaldúa (2005) e de Mignolo
antiestruturalista por meio do próprio (2003). Tais teóricos também vem tecer
estruturalismo, uma crítica à linguagem. reflexões que transcendem a simples leitura dos
Desestabiliza (artificiosos) (pré-)conceitos que textos, pelo fato de ambos articularem que, ao
se apoiam e tendenciam à homogeneização do olharmos para as misturas, para as bordas,
logos, ao etnocentrismo ocidental. E esse conseguimos novas formas de compreender o
movimento calcado no descentramento, chama- mundo, dando vozes aos que não a tem.
se Desconstrução. O deslocamento de suas teorias, para
Pensador rebelde, Derrida opera na de- este trabalho, fornece subsídios para a análise
sedimentação do centro, dando lugar ao que uma vez que buscam compreender e falar do
outrora estava às margens (diferenças de forças, periférico a partir de uma epistemologia
o marginalizado, o suplemento): fronteiriça (local e subjetiva), como um novo
argumento que suplementa a análise discursiva
[...] mais do que exteriores a ele [o texto, o e o deslocamento do logocentrismo e do
discurso], são o "interior do interior", razão discurso imperial.
de ser da estrutura que se deixa ler dentro
(e) fora da superfície significante. Como uma maneira de “combater” os
(SANTIAGO, 1976, p. 57). efeitos do eurocentrismo, Anzáldua (2005) e
Mignolo (2003) tecem um gesto de
Desestabilizando o pensamento binário interpretação das transformações desiguais para
que encampa a esfera ocidental, em que é a era de “independência” de ex-colônias. As
estabelecida uma hierarquia (preeminência, reflexões desses autores compreendem a
palavras centradas em relação de valores) de abertura de novas perspectivas em relação à
um termo sobre o outro (nesse caso, sempre o estrutura social, cultural e epistêmica das
primeiro) — fala vs escrita, bom vs mal, literal sociedades.
vs não literal, significado vs significante, rico vs A junção dos ensinamentos de autores-
pobre, presença vs ausência, entre outros —, o teóricos-filósofos, subsidia-nos a analisar o
plano da desconstrução denuncia a discurso da LMP como um lugar em que se
transparência e o sentido ipsis litteris atribuídos materializam ideologias, memórias,
ao signo e ao seu significado. subjetividades e estratégias que produzem
Para Derrida (1973), a linguagem é “verdades”, como um dispositivo normatizador
insuficiente para ela mesma, pelo fato da sua da escrita/interpretação dos sentidos e, por
indecibilidade. Com a perspectiva derridiana, a

Universidade Federal de São Carlos - São Carlos, São Paulo, Brasil - 2 a 4 de setembro de 2015.

53
familiar, inclusive as esporadicamente
meio dele, da ordem social (ZOPPI- agregadas;
FONTANA, 2005).
Art. 6o A violência doméstica e familiar
2. Análise e discussão contra a mulher constitui uma das formas de
Como os discursos e os seus efeitos de violação dos direitos humanos.
sentidos são históricos, e os sujeitos são sociais,
o fio condutor deste tópico é problematizar os Em R1, as formas do dizer, sob a
possíveis efeitos de sentidos de discriminação modalização designativa de caráter jurídico,
em relação à representação da mulher indígena, indicam uma generalização da lei que se dá por
denunciando que a LMP agencia um processo meio da (in)definição dos termos “doméstica” e
de estatização da identidade/subjetividade de “familiar”.
um sujeito considerado periférico.
É interessante analisarmos o
Essa dimensão leva-nos ao caráter de funcionamento discursivo dessas regularidades
que os discursos mobilizados em uma lei no texto da LMP. De acordo com Ferreira
digladiam-se como remetendo às lutas, aos (2001), a primeira, “doméstica”, traz uma
conflitos em relação ao dispositivo identitário. construção nominal que faz referência ao lar,
Não como mero acidente, mas como delimitando que o evento da violência ocorre na
movimento do próprio funcionamento da fronteira de um lugar específico. O termo
linguagem, como uma rede (micro)capilar de “familiar” remete ao grupo social fundamental
poderes (FOUCAULT, 2015) que promove a na sociedade: a família. O que nos faz levantar
(re)configuração e o estabelecimento das que é pautado na reflexão acerca da relação de
verdade. um homem, uma mulher e seus descendentes.
Vejamos, em síntese, um recorte que Além disso, na ordem do funcionamento
traz, no bojo da análise, a marginalização da da escrita, com Neves (2000, p. 73) vemos que
mulher indígena, cujas pistas materializadas o substantivo feminino “doméstica” assume a
(linguística e histórica) podem alargar a nossa função qualificadora própria do adjetivo e os
compreensão da relação da LMP com os efeitos vocábulo “familiar” a função de adjetivo de dois
de sentidos das palavras. gêneros.

LMP (R1) Art. 5o Para os efeitos desta Lei, Após analisar a materialidade linguística
configura violência doméstica e familiar em sua função significante, vemos, com
contra a mulher qualquer ação ou omissão Pêcheux (1988), pela noção de não
baseada no gênero que lhe cause morte, transparência do dizer, que tais palavras podem
lesão, sofrimento físico, sexual ou deslocar seus sentidos se interpretadas pelo
psicológico e dano moral ou aspecto discursivo.
patrimonial: (Vide Lei complementar nº
O que estamos querendo dizer com
150, de 2015)
isso? Num gesto interpretativo, (d)enunciamos
I - no âmbito da unidade doméstica, que a utilização desses adjetivos, em um mesmo
compreendida como o espaço de convívio enunciado, tem a função de estruturar a força e
permanente de pessoas, com ou sem vínculo a função argumentativa do dizer da lei.

Universidade Federal de São Carlos - São Carlos, São Paulo, Brasil - 2 a 4 de setembro de 2015.

54
põe em cena as diferenças aos valores
E como todo dizer está consorciado
atribuídos pelos sujeitos quando analisadas na
com a teia entre discurso, história e memória
esfera discursiva.
(PÊCHEUX, 1998), os termos “doméstica” e
“familiar”, de valores integrativos e Além disso, na esteira de Pêcheux
generalizantes, inserem-se em uma formação (1988, p. 108), consideramos que esse
discursiva patriarcal e constituem-se mediante funcionamento universalizante além propor uma
um locus de enunciação que parte dos ruptura torna-se um indício de simulação
movimentos de relações eurocêntricas. jurídica. Para o autor, “Há uma relação de
simulação constitutiva entre os operadores
Problematizamos que essas condições
jurídicos e os mecanismos da dedução
atribuídas aos sujeitos esteiam-se num memória
conceptual, especialmente entre a sanção
discursiva de um saber espistemológico
jurídica e a conseqüência lógica”.
hegemônico, que sinaliza marcas da herança
cultural esculpida pelo sistema colonial que Em tempos de sociedade de controle,
impera nos trópicos latinos. essa ruptura, como indício de simulação, nos
faz cogitar, com Foucault (2015, p. 429), que a
Isso se dá, de acordo com Lagazzi
LMP advém de uma história de
(1988), pelo fato de tais designações
governamentalidades, constituída e estabelecida
remontarem a uma memória
pelo próprio processo de colonização jurídica
discursiva constitutiva do discurso jurídico que
no ocidente. Ou seja, o direito que é exercido
encampa o modelo das constituições europeias;
no Brasil sucede de um conjunto de saberes
e que são mobilizadas no discurso da LMP,
jurídicos interdiscursivizados do Direito
segundo uma microfísica do poder. Esta,
Romano, canônico e arcaico.
estudada por Foucault (2015), vale-se como
uma prática discursiva dispersa em vários E o resultado desse processo foi pouco
âmbitos institucionais e sociais que visam a pouco permitindo definir o que deve ou não
ordenar os costumes ou relações de convívio ser inserido no âmbito jurídico brasileiro, como
social, especialmente dos grandes centros um processo de colonização. Na LMP, foram e
globalizados das cidades. são definidos os direitos dos sujeitos pautados
em um interdiscurso patriarcal que, de acordo
E ao ocorrer esse efeito metafórico
com Castells (2008), se caracteriza pela
universalizante (ZOPPI-FONTANA, 2005) na
autoridade imposta do homem sobre a mulher e
LMP, força-se a direção da completude do
os filhos no âmbito familiar, marcado por um
dizer. E ao conduzir para essa completude
posicionamento de dominação e violência.
(ORLANDI, 1999), colocando que todos os
sujeitos gozam das mesmas concepções, acaba Isso nos faz ponderar que as
por gerar uma ruptura, uma brecha, no próprio designações “doméstica” e “familiar” na LMP
discurso da lei; pois é impraticável atribuir são provenientes de um discurso jurídico
características subjetivas e cristalizá-las ao perfil hegemônico e que incluem as cidadãs que
da convivência social de todas as famílias convivem no espaço dos centros globalizados;
brasileiras. Aqui a igualdade é desejada apenas mas que, por outro lado, exclui todos aqueles
na ordem significante da escrita da lei, mas que que o ordenamento jurídico da cidade não

Universidade Federal de São Carlos - São Carlos, São Paulo, Brasil - 2 a 4 de setembro de 2015.

55
(in)corpora. Portanto, não leva em arquivado, faz com que a LMP produza uma
consideração lugares e sujeitos fronterizos, sobrevida no percurso discursivo que atravessa
como as concepções instauradas na cultura a nossa concepção de família, na qual os
indígena. sujeitos periféricos ainda são ignorados.
Assim, não considerar o sujeito Ainda perseguindo nosso trajeto
periférico mulher indígena, implica a eliminação investigativo, com Derrida (2001, 2007)
do direito que esta mesmo deveria ter. São podemos dizer que embora a memória dos
então discursivizadas, na LMP, as concepções sujeitos periféricos, foragidos da lei, esteja
“doméstica” e “familiar” baseadas no direito esquecida em decorrência de um grande
ocidental, interdiscurso este que transborda os processo de colonização, a ruptura por nós
sentidos. analisada desvela a necessidade de se abrir o
arquivo da lei pensando numa epistemologia
No entendimento crítico de Anzaldúa
(des-)colonial (ANZALDÚA, 2005;
(2005, p. 710), a lei sofre de uma “amnésia”
MIGNOLO, 2003).
étnica que ignora nosso sangue comum. Se para
esta autora omos uma mistura que prova que Com Derrida (2001), postulamos que a
todo sangue está intimamente ligado entre si, lei funciona como um arquivo, um espaço de
R1 (d)enuncia uma prática discursivo-jurídica, memórias, onde sujeitos exercem uma função, e
sutil, disciplinar e não-coincidente, que confere esta é sustentada no próprio corpo da lei como
o estabelecimento de uma fronteira ideológica, arquivo escrito. Mediante o arquivamento de
um outro movimento de sentido de um direito uma memória que trabalha como espaço de
instituído. interpretação, o enunciador (arconte) elege,
nomeia e endereça as memórias, os
Na visada teórica de Mignolo (2003, p.
conhecimentos, os costumes do local e
254), a lei se trata de um conjunto de normas
estabelece as subjetividades mediante as
elaboradas cujo local geoistórico é
positividades (regularidades) (FOUCAULT,
marginalizado, bem como os loci de
2008) que permeiam a materialidade linguística
enunciação, o que faz convocar mais a
e social do documento oficial.
diferença. Descarta a “a especificidade e
singularidade histórica dos sujeitos que estão E se os discursos e os acontecimentos,
sendo aí designados.” (ZOPPI-FONTANA, como o de uma lei, são construções de uma
2003, p. 251). constelação de arquivos que foram selecionados
de acordo com as condições de produção, a
Desse modo, há como afirmar que o
LMP é uma interpretação, uma impressão, uma
direito estabelecido na LMP traz o efeito de
escritura; não somente um lugar de
sentido de que favorece uma categoria de
armazenamento e conservação de um conteúdo.
pessoas, mas sem deixar de lado o já-dito do
Tanto a técnica (a forma) como o conteúdo que
Direito europeu.
foram (ou são) arquivados é o que
Na perspectiva derrideana (2001), em (co)determina, também, a estrutura
Mal de Arquivo, esse rastro da concepção anarquivante do próprio conteúdo (DERRIDA,
familiar assentada em uma visão elitista, 2001).
conservadora, portanto, excludente, ao ser des-

Universidade Federal de São Carlos - São Carlos, São Paulo, Brasil - 2 a 4 de setembro de 2015.

56
ainda que as representações sociais sobre os
E dessas “impressões” aqui
sujeitos periféricos, no recorte analisado, são
(des)arquivadas, mobilizamos que a mulher
formuladas por conflitos sociais de interesses e
indígena sofre um mal de arquivo na LMP, uma
discursivizadas pelos discursos hegemônicos
pulsão de morte, que, por sua vez, é consignado
vigentes.
pela memória colonial jurídica e pelas
formações discursivas patriarcais, advindas dos A LMP retrata, então, a concepção de
grandes centros ocidentais. uma construção sócio-histórico-ideológica que
longe de apagar as “diferenças”, reforça-as,
E essa promessa do esquecimento do
produzindo e estatizando lugares sociais por
outro, essa pulsão de morte, reforça que o
meio de um processo de subjetivação para os
processo de colonização ainda continua, via
que são considerados iguais, como também
discurso jurídico, como um processo de
para os que são considerados desiguais.
subjetivação.
Portanto, a visibilidade dada à mulher na
LMP torna-se uma armadilha, uma violência Referências
jurídico-simbólica, na qual o direito é respeitado ANZALDÚA, G. La conciencia de la mestiza /
e endereçado a alguns, mas que, na mesma rumo a uma nova consciência. Estudos
medida, torna-se um arquivo do mal, pois não Feministas, Florianópolis, 13(3): 320,
podemos ter certeza de que a justiça o foi. setembro-dezembro/2005, p. 704-719.
3. Considerações finais CASTELLS, M. O poder da identidade. vol. 2.
Levando em consideração a hipótese do 6 ed. Trad. Klauss B. Gerhardt. São Paulo: Paz
nosso trabalho bem como os objetivos, ante as e Terra, 2008
mobilizações teóricas, buscamos problematizar CORACINI, M. J. A celebração do outro:
o funcionamento discursivo da lei em relação à arquivo, memória e identidade: línguas (materna
representação da mulher indígena. e estrangeira). Plurilingüismo e tradução.
Mobilizamos que, em busca de um Campinas: Mercado de Letras, 2007.
controle social que visa preencher a falta e a _______. Transdisciplinaridade e análise de
relação conflituosa que existe entre os sujeitos, discurso: migrantes em situação de rua.
o discurso da lei traz, em seu bojo, efeitos de Cadernos de Linguagem e Sociedade, Brasília,
sentidos de exclusão. Verificamos que os 11 (1), 2010. p. 91-112.
efeitos de sentidos de marginalização da mulher
indígena denunciam a LMP como um efeito do COSTA, A. O.; BRUSCHINI, C. Uma questão
discurso colonial, como uma prática discursiva de gênero. Rio de Janeiro: Rosa dos Tempos;
que adquire legitimidade e intervém na São Paulo: Fundação Carlos Chagas, 1992.
realidade e na representação dos sujeitos DELEUZE, G. Foucault. Trad. Claudia S.
periféricos. Martins. São Paulo: Brasiliense, 2005.
E ao observarmos o Brasil como um DERRIDA, J. Gramatologia. Trad. Miriam
país (de)marcado pela diversidade, sobretudo Schnaiderman; Renato J. Ribeiro. São Paulo:
pelos loci (geo)culturais fronteiriços, verifica-se

Universidade Federal de São Carlos - São Carlos, São Paulo, Brasil - 2 a 4 de setembro de 2015.

57
Perspectiva Ed. da Universidade de São Paulo,
MIGNOLO, W. D. Histórias locais/ projetos
1973.
globais: colonialidade, saberes subalternos e
_______. A escritura e diferença. 2.ed. Trad. pensamento liminar. Trad. Solange Oliveira.
Maria B. M N. da Silva. São Paulo: Editora Belo Horizonte: UFMG, 2003.
Perspectiva S.A., 1995.
NEVES, M. H. M. Gramática de usos do
_______. Mal de arquivo. Trad. De Claudia de português. São Paulo: Editora UNESP, 2000.
Morais Rego. Rio de Janeiro: Relume Dumará,
NIETZSCHE, F. W. A genealogia da moral.
2001.
Trad. Antônio C. Braga 3.ed. São Paulo:
_______. Força de lei: o fundamento místico Editora Escala, 2009.
da autoridade. Trad. Leyla P. Moisés São
ORLANDI, E. P. Análise de discurso:
Paulo: Martins Fontes, 2007.
princípios & procedimentos. Campinas: Pontes,
DREYFUS, H.; RABINOW, P. Michel 1999.
Foucault: Uma trajetória filosófica para além
_______. As formas do silêncio no movimento
do estruturalismo e da hermenêutica. Tradução:
dos sentidos. 6. ed. Campinas: Editora da
Vera Carrero. Rio de Janeiro: Forense
Unicamp, 2007.
Universitária, 1995.
_______. Discurso e texto: formulação e
FERREIRA, A. B. H. Miniaurélio século XXI:
circulação dos sentidos. 3. ed. Campinas:
o minidicionário da língua portuguesa. 5. ed.
Pontes Editores, 2008.
Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001.
PÊCHEUX, M. Semântica e discurso: uma
FOUCAULT, M. História da sexualidade: a
crítica à afirmação do óbvio. Trad. Eni Orlandi
vontade de saber. Trad. Maria Thereza da
et al. Campinas: Editora da Unicamp, 1988.
Costa Albuquerque; J. A. Guilhon
Albuquerque. 18. ed. Rio de Janeiro: Edições RAGO, M. Descobrindo historicamente o
Graal, 1988. gênero. Cadernos Pagu, Campinas, (11), 1998,
p.89-98.
_______. A verdade e as formas jurídicas.
Trad. Roberto C. de M. Machado; Eduardo J. SANTIAGO, S. Glossário de Derrida. Rio de
Morais Rio de Janeiro: NAU Editora, 2002. Janeiro: Francisco Alves Editora S.A., 1976.
_______. Arqueologia do saber. Tradução: SOUZA, J. A construção social da
Luiz Felipe Neves. 7.ed. Rio de Janeiro: subcidadania: para uma sociologia política da
Forense Universitaria, 2008. modernidade periférica. Rio de Janeiro:
IUPERJ, 2003.
_______. Microfísica do Poder. Trad. Roberto
Machado. 2. ed. Rio de Janeiro: Paz & Terra, ZOPPI-FONTANA, M. Identidades
2015. (in)formais: contradição, processos de
designação e subjetivação na diferença.
LAGAZZI, S. O desafio de dizer não.
Organon, Porto Alegre, v. 17, n. 35, 2003. p.
Campinas: Pontes, 1988.
245-282.

Universidade Federal de São Carlos - São Carlos, São Paulo, Brasil - 2 a 4 de setembro de 2015.

58
_______. Arquivo jurídico e exterioridade. A
construção do corpus discursivo e sua
descrição/interpretação. In: GUIMARÃES, E;
PAULA, M.R.B. de (orgs). Sentido e memória.
Campinas: Pontes, 2005. p. 93-113.

Universidade Federal de São Carlos - São Carlos, São Paulo, Brasil - 2 a 4 de setembro de 2015.

59
OS DISPOSITIVOS DO CORPO NA TRAGICIDADE DA MODA
DE VIOLA

Aldenir Chagas ALVES


Universidade Federal de Uberlândia (LEDIF - UFU)
aldenirchagas@gmail.com

Resumo: Esta pesquisa parte dos resultados de uma dissertação de mestrado, com título
“O discurso trágico na moda de viola”. Foi feito um levantamento das letras, publicadas
no período da década de 30 aos anos 90. Nesse recorte temporal, há uma ocorrência
considerável de letras constituídas de tragicidade. Equiparadas com as noções da
filosofia do trágico, principalmente em Schopenhauer e Nietzsche, e aos postulados de
Foucault, as letras de moda de viola materializam por meio da linguagem, as
regularidades, os efeitos que induzem as relações de poder. Os protagonistas enunciados
nas letras que primam pela ação trágica, constituem-se como sujeitos diante do olhar do
discurso que os confinam e os instituem tanto na moral cristã, quanto aos grandes
sistemas de poder e exclusão.
Palavras-chave: moda de viola; tragicidade; corpo.

pesquisa se ateve às letras de moda de viola que


Introdução
foram gravadas a partir do final da década de
A moda de viola é o resultado das 30 até aos anos 90. Foram selecionadas entre
modas caipiras que teve o processo de esse período, cerca de 100 canções, cujas letras
formação a partir das relações entre jesuítas e enunciam uma ação trágica, que por sua vez
seus catequizandos, que eram indígenas e filhos implicam a "sociedade do discurso", difundida
de colonos. A partir da década de 30 com início pela doutrina que limita aos indivíduos o
das produção fonográfica no Brasil, a canções discurso que pode circular e ser transmitido.
caipiras tiveram que se adaptar ao formato dos
O objetivo deste trabalho trata-se em
discos, e consequentemente, às exigências
apresentar o diálogo possível entre
comerciais que público e as gravadoras ditam
determinadas narrativas, característica da moda
através da lógica consumista.
de viola, enunciadas de tragicidade com o
Uma das características das letras das contexto social brasileiro modernizador. O
modas de viola é sua fabulação novelesca, período entre 1930 a 2003, é marcado de
ornamentada de estilo retórico lírico-narrativo, intensas mudanças na música brasileira, com a
como assinala Sant'Anna (2009). O recorte da música caipira não é diferente. Período que se

Universidade Federal de São Carlos - São Carlos, São Paulo, Brasil - 2 a 4 de setembro de 2015.

60
inventou e se construiu aceleradamente as exploração, de dominação e sujeição entre o
variações nominais da canção caipira, como homem e a mulher.
analisam Sant’Anna ( 2009), Nepomuceno Já nas décadas de 80 e 90, cedendo ao
(2009) e Vilela (2009). mercado fonográfico que exigia novas
1. Registros da moda de viola com letras modalidades de canção, como o sertanejo, a
constituídas de tragicidade moda de viola teve pouco espaço na indústria
fonográfica, sendo pouco recorrente nas
Diante do material pesquisado, não é
gravações. Contudo, duplas como Tião
possível estabelecer um período acerca do
Carreiro e Pardinho, Lourenço e Lourival e
aparecimento do trágico na moda de viola. É
Camões e Camargo, mesmo gravando o que se
importante lembrar que as modas já existiam
exigia nos moldes do mercado, ainda gravavam
antes das primeiras gravações no início da
modas em forma de coletâneas, intercaladas
década de 30. Sabemos que a estrutura das
entre as gravações que atendiam a expectativa
canções sofreram alterações por ter que se
das gravadoras. Alguns LPs pesquisados,
adaptar às gravações e, consequentemente ao
traziam as demarcações nas capas dos discos,
mercado fonográfico, que exigia faixas com
com termo "sertanejo", sendo que uma ou outra
canções curtas e mais objetivas nas letras, além
faixa trazia alguma canção do estilo moda de
de outras exigências da indústria fonográfica,
viola.
como informa Nepomuceno (2009). Dessa
forma, não é seguro afirmar que o trágico seja Nas décadas de 1980 e 1990 há pouca
uma das características recorrentes na moda de recorrência de gravações de novas autorias.
viola desde seu reconhecimento como uma das Com exceção da repetição de lançamentos de
expressões da canção caipira. Porém, modas já conhecidas, cujas informações eram
encontramos ainda na década de 30, uma letra enunciadas nos títulos dos LPs que traziam nas
de Alvarenga e Ranchinho, “Vida de um capas, referências que tal canção era conhecida
condenado”, que é uma das primeiras letras do público. Depois dos anos 90, marcadas por
constituídas pelo discurso trágico. Já na década grande movimentação financeira, as gravações
de 50, encontramos o maior número de de moda viola ficaram mais restritas. Nos discos
gravações que trazem o trágico nas letras, e e CDs pesquisados, há pouco registro de
Tonico e Tinoco como a dupla que mais gravou alguma moda inédita com discurso trágico,
canções com essa característica. entretanto, ainda é possível encontrar exemplos
como “Ingrata Maria” e “Fim dos tempos”,
As gravações das décadas de 1940 a
ambas de Goiano e Paranaense1 em um CD de
1970, que trouxeram o discurso trágico nas
2003.
letras, incorporaram o sentido de ação trágica
em temas como: a compaixão diante de
acidentes no cotidiano da vida rural e urbana; o
sofrimento diante da saída do campo; a velhice
1
como inutilidade; o entrelaçamento da relação Goiano & Paranaense. CD W 932.832, 2003.
vida-amor-espiritualidade, atravessados pelo Faixas 02 e 13.
discurso do casamento nas relações de

Universidade Federal de São Carlos - São Carlos, São Paulo, Brasil - 2 a 4 de setembro de 2015.

61
afirma que após o século XVII, houve uma
A pesquisa sobre discurso trágico na
necessidade de fundamentação cartesiana de
moda de viola, reuniu 105 títulos de letras com
todo "pensamento e de toda verdade na
essa característica. Diante disso, vislumbramos
autoconsciência do sujeito (MACHADO, p.
uma gama de possibilidades para pensar o
07), cujo ápice dessa trajetória se dará com
discurso trágico no viés da análise do discurso,
Nietzsche.
verificar como o trágico enquanto discurso
dialoga com as questões sociais, humanas e até Para Peter Szondi (2004) é a partir de
transcendentais, e por tanto, com as relações de Schelling, que uma teoria do trágico é
poder. Há, nessa relação de letras, muitos construída com a contribuição de vários nomes
vieses por meio dos quais é possível extrair da filosofia moderna, principalmente na
outros recortes, ainda dentro do discurso Alemanha. Podemos tratar essa teoria na
trágico, que pode ser objeto de estudo a partir perspectiva histórico-filosófica, em
da reflexão filosófica que fundamenta e situa a Schopenhauer e Nietzsche, porém a teoria do
existência do sujeito no indivíduo. trágico não se encontra acabada somente nesses
dois nomes, mas confluída de forma não
2. Os dispositivos do corpo na ação trágica
estrutural no conjunto dos filósofos que
As condições para que houvesse uma escreveram a respeito, dispersa em obras que
ocorrência significativa de canções de moda de não trataram diretamente do assunto, mas que
viola, enunciando a ação trágica, apresentam foram dadas como referência para se pensar o
como lugar que reúne formas de imposição de trágico como discurso.
regras aos sujeitos do discurso. O que ocorre
Uma das características do pensamento
nas letras é uma apropriação social dos
moderno a respeito do efeito do trágico é o
discursos, uma ritualização da palavra, que fixa
distanciamento da ideia a respeito da tragédia
os papéis do sujeito que falam, constituindo e
grega, principalmente, da teoria aristotélica.
promovendo a difusão das doutrinas. Como
Schopenhauer (2001) critica a catarse, como
atesta Foucault (2010a) sobre a apropriação
purificação do temor e da compaixão,
social dos discursos por meio de seus saberes e
substituindo o sofrimento pelo prazer. Para
poderes.
Schopenhaur (2001) a finalidade da ação
A letras que se relacionam ao trágico na trágica é conhecimento de que a vida é
moda de viola, desempenham a função de fixar sofrimento.
o papel do sujeito, constituindo-o através da
Interessante que Schopenhauer entende
ação trágica. Para trazer as noções do trágico
que somente o homem é indivíduo, isso é o
enquanto discurso, é necessário subsidiarmos na
bastante para colocá-lo como “princípio da
filosofia moderna, principalmente aos
razão suficiente” (BRUM, 1998, p.34). Essa
postulados de Schopenhauer e Nietzsche.
aparição da inteligência na forma de
Tomamos como referência o movimento “individuação” fundamenta a ética do homem
cultural existente na Alemanha no final do em um desaparecimento enquanto ser individual
século XVIII, momento que possibilitou uma numa “vida universal anônima” (BRUM, 1998,
abordagem histórica-filosófica sobre o p. 35). O que nos faz pensar o sujeito enquanto
pensamento acerca do trágico. Machado (2006) sujeito do discurso, que se apaga enquanto

Universidade Federal de São Carlos - São Carlos, São Paulo, Brasil - 2 a 4 de setembro de 2015.

62
indivíduo, subjetivado/objetivado em uma diante de sua vida estar chegando ao fim. Ao
existência universal anônima. desejar o local onde quer ser enterrado, ele
aciona o ser metafísico e transcendental que
Segundo Machado (2006),
funcionam como cumprimento da vontade e
Schopenhauer faz poucas referências ao
resignação perante a ideia de aniquilação do seu
trágico, mas suas reflexões se aplicam ao tema
ser físico e social.
por apresentar uma visão trágica do mundo que
a tragédia apresenta. O conceito de Schopenhauer sobre o
processo trágico que vê a “vontade” e a
Na tragédia, é o lado terrível da vida que
“representação” conhecidas como a doutrina
nos é apresentado, a miséria da humanidade,
da resignação tem como phatos a rejeição
o reino do acaso e do erro, a queda do justo,
pensada por Nietzsche em O nascimento da
o triunfo do malvado, coloca-se assim, sob
tragédia, sua primeira obra. O trágico
nossos olhos o caráter do mundo que se
pensado por Nietzsche encontrou uma
choca diretamente com nossa vontade.
postura máxima no projeto da modernidade.
(SCHOPENHAUER, apud MACHADO,
O filósofo contrapõe razão e moralidade ao
2006, p.183).
analisar o surgimento e desaparecimento da
Cabe observar que o filósofo alemão tragédia grega, reencontrando o ímpeto cego
entende que o sofrimento humano, além de uma e original do conceito da vontade no mundo
grande dor, seja merecido ou não, não é um dionisíaco da embriaguez, em princípios
sofrimento para efeito de justiça, como pensou “dionisíaco” e “apolíneo” superando os
Schiller (outro filósofo do trágico que concebia princípios antepassados da “vontade” e da
a tragédia como uma recompensa do inocente e “representação” de Schopenhauer.
(SZONDI, 2004, p.67).
uma punição ao culpado). Para Schopenhauer,
a tragédia é a purificação que o sofrimento Nietzsche pensa o homem como um ser
produz ao exibir a negação da vontade. duplo de “grandeza” e “miséria” (BRUM, 1998,
p.61), destituído de Deus, descentrado e
Ao se referir sobre a tragédia,
disperso, habitando um lugar incompreensível.
Schopenhauer (2001) reflete sobre o trágico
O pensador observa a ideia do homem como
enquanto fenômeno da natureza, o que nos leva
instrumento de vida e potência. Essa ideia vai
a considerar que algumas modas de viola
ser refletida em toda sua obra, culminando em
trazem o sofrimento como vontade aniquilada.
Assim falava Zaratustra.
Na letra de "Velho Peão"2..., de Teddy Vieira e
Sulino, gravação de Zico & Zeca de 1962, o Para Brum (1998), este olhar sobre o
sujeito enunciado não vê outra perspectiva homem visto como um animal de si, ou seja, o
senão a morte. Lamenta que sua vida de homem é animal do homem numa releitura
boiadeiro tenha chegado ao fim, e só espera ser hobbeseana. Nesse olhar escrutinador colocado
enterrado debaixo de uma mantiqueira, árvore sobre o homem, Nietzsche foi implacável e sem
de farta sombra, onde poderia "ouvir" a boiada complacência, mas não desprovido de humor.
passando e os gritos dos boiadeiros. O sujeito Considera-o com natureza instintiva de
constituído na letra se coloca na resignação aumentar sua potência, por se elevar numa
ordem superior aos outros animais, de
2
Zico e Zeca. [S.I] Disco CH-10276, 1962. Lado B. estabelecer sua filiação divina ou à eternidade.

Universidade Federal de São Carlos - São Carlos, São Paulo, Brasil - 2 a 4 de setembro de 2015.

63
Além disso, essa superioridade da qual pensa o efeito do trágico, como a “consolação
ser o torna um ser cômico, ou melhor, “o metafísica” possibilitada na tragédia enquanto
comediante do universo” (idem) por ter visões pensamento mutante dos fenômenos em que a
idealistas para afagar seu orgulho. existência se apresenta como potência
indestrutível, sugerindo pela arte dionisíaca o
Em A origem da tragédia, Nietzsche
desejo e seu prazer de existir.
(2004) estabelece que a evolução da arte resulta
no duplo caráter do “espírito apolíneo” e o A partir das reflexões sobre a tragédia,
“espírito dionisíaco”. Assim, para os gregos, o Nietzsche (2004) se divorcia da poética e faz
sentido profundo e oculto da concepção uma interpretação filosófica ou ontológica da
artística recaem sobre as figuras significativas tragédia conduzindo o pensamento ao trágico.
do mundo dos deuses, ou seja, no pensamento Também se posiciona a respeito dos próprios
na sua forma inteligível. pensadores modernos que se propuseram a
É pois, às suas duas divindades das artes, a pensar o trágico. Afirma que os próprios
Apolo e Dioniso, que se refere a nossa alemães como Goëthe e Schiller não
consciência do extraordinário antagonismo, conseguiram êxito em suas reflexões por não
tanto de origens como de fins, que existe no terem considerado a música, ou seja, a tragédia
mundo grego entre a arte plástica ou musical para se pensar a tragédia grega como
apolínea e a arte sem formas musical, a arte arte essencialmente musical. Em O nascimento
dionisíaca. Estes dois instintos impulsivos da tragédia é possível perceber o
andam lado a lado e na maior parte do desdobramento da arte em filosofia, que se
tempo em guerra aberta, mutuamente se torna o objeto para se pensar no trágico como
desafiando e excitando para darem origem a reflexão da existência do indivíduo e na
criações novas (NIETZSCHE, 2004, p.19). individuação que se constitui sujeito na
Nietzsche concebe os princípios objetivação de um estado dionisíaco.
“apolíneo” e “dionisíaco” como dois instintos Ao propormos analisar o discurso
impulsivos que em sua mutualidade perpetuam trágico na moda de viola, é necessário entender
o conflito trágico. Esses impulsos humanos, que o funcionamento discursivo que a tragicidade
não se delimitam apenas na arte, tem como enuncia. Expusemos que o trágico como
“apolíneo” a representação da ordem, da luz, do pensamento ontológico, pensado pelos filósofos
individualismo, da criação, é uma representação modernos, delibera sentidos que dizem sobre a
em seu lado mais sofisticado. O impulso existência e o sujeito. Pensamos que o discurso
“dionisíaco” representa o exagero, a celebração, presente nas letras da moda de viola, promove
a libertação, a escuridão, a destruição, a quebra posicionamentos ideológicos, morais, políticos,
das barreiras irracionais, por ser representação religiosos. Instaura o discurso dos
do deus da alegria, do excesso e é também, a enfrentamentos do sujeito, de seus desejos,
forma do encontro com ou outro, numa perigos e de seu lugar ocupado historicamente.
alteridade com o próprio eu como assinala
Machado (2006). A tragédia na moda de viola dialoga de
algum modo, em sua reflexão, com as questões
Machado (2006) afirma também que na ontológicas do Romantismo na literatura, com
obra, A origem da tragédia, Nietzsche analisa epopeia, com o drama e o melodrama. Herança

Universidade Federal de São Carlos - São Carlos, São Paulo, Brasil - 2 a 4 de setembro de 2015.

64
do pensamento ocidental, que em sua Foucault, presente em todos seus escritos, nos
subjetividade conseguiu cristalizar determinados quais ele visou explicitar sua constituição pelos
sentidos na cultura, na sociedade, nos dizeres, discursos na história.
nas práticas e na existência brasileira através de Foucault se debruçou sobre a
seus ritos. Então, pelo viés da filosofia do problemática do poder, considerando como
trágico, a tragicidade na moda de viola, enuncia integrante das relações discursivas que recaem
que as ações humanas são submetidas à força sobre o sujeito. Para Fernandes (2012)
repressora das condutas reprováveis pela moral
civil e religiosa. Na perspectiva da análise do As análises de Foucault sobre o poder
discurso, que as canções materializada como levam-no a abordar o sujeito em diferentes
discursividade, veicula a apropriação social segmentos sociais, em diferentes momentos
históricos de sua existência, visto que o
dos discursos, com seus limites, imposições de
poder é pensado sob diferentes direções [...].
saberes e poderes, constituindo sujeitos.
Em suas análises, mostra, e contesta, como
Ao tratar sobre o trágico como a sociedade capitalista aliada à religião
pensamento ontológico, o que se coloca em promove uma repressão ao desejo.
questão, é o lugar que o sujeito ocupa (FERNANDES, 2012, p. 52)
historicamente. De algum modo, as noções do Para Foucault (2010) o cristianismo ao
trágico retoma o mito como funcionalidade no introduzir a salvação após a morte, provocou
mundo moderno. De acordo com Eagleton, "O significativas alterações para os sujeitos, sobre
sonho de Schlegel, Schelling, Höldelin, o cuidado de si. Nessa perspectiva aparece o
Nietzche e Wagner é que o mito renasça em corpo de desejo e de prazer. A culpabilidade
escala épica no centro da época moderna" pela carne é atravessada por toda uma série de
(EAGLETON, 2013, p.309) mecanismos de "atrações" .
Ainda de acordo com Eagleton (2013) A qualificação do corpo como carne, essa
para os pós-humanistas, o sacrifício do sujeito culpabilizaçãodo corpo pela carne, que é ao
não é mais trágico, pois aquilo que está mesmo tempo uma possibilidade de discurso
renunciando já não tem valor especial. Dessa e de investigação analítica do corpo, essa
forma, o efeito dionisíaco nitzscheniano não consignação, ao mesmo tempo, da falta no
retoma o sacrifício trágico, mas aciona a corpo e da possibilidade de objetivar esse
proliferação infinita de jogo, poder, prazer, corpo como carne - tudo isso é correlativo
diferença, desejo, como um fim em si mesmo. do que podemos chamar de um novo
procedimento de exame (FOUCAULT,
Se pensamos o sujeito na enunciação 2010, p. 174).
trágica como objeto teórico na filosofia
Com a desqualificação do corpo como
moderna, é imprescindível o tomarmos como
carne, foi instaurado o aparecimento de um
aparato foucaultiano, cuja evidência de seu
discurso analítico, de uma constante vigilância,
funcionamento enquanto determinação dos
como objeto de um discurso, ligado por uma
sujeitos do discurso.
regra de silêncio. Desse modo, o cristianismo
De acordo com Fernandes (2012) o exerce seu poder através da confissão,
sujeito é a questão central das pesquisas de ritualizando certas condições de penitência. O

Universidade Federal de São Carlos - São Carlos, São Paulo, Brasil - 2 a 4 de setembro de 2015.

65
Com classe e delicadeza
poder é exercido na direção espiritual, Esses cabelos compridos
enunciando a condição necessária ao São minha maior riqueza
funcionamento da regra. Se um dia você cortar
Dessa forma, as reflexões sobre o Nós separa na certeza
sujeito, o poder e o corpo como campo Além de te abandonar
discursivo, na viés foucaultiano oferecem Vai haver muita surpresa
material para ser pensado a ação trágica nas
Um mês depois de casado
modas de viola, levando como referência a
O cabelo ela cortou
abordagem do pensamento filosófico sobre o Boiadeiro de palavra
trágico como projeção do homem moderno. Nessa hora confirmou
3. A palavra com o "Boiadeiro de palavra" No salão que a esposa foi
Com ela ele voltou
Com a instauração do corpo como Mandou sentar na cadeira
aparelho discursivo, pelo viés foucaultiano, E desse jeito falou
como lugar onde a punição se subjetiva através Passe a navalha no resto
das narrações trágicas na moda de viola, e Do cabelo que sobrou
ainda, subsidiando-se na filosofia moderna O barbeiro não queria
sobre o trágico, que correlativamente constitui A lei do trinta mandou
sujeitos, reafirma práticas, retoma poderes e
exerce domínios de saber, apresentamos um Com o dedo no gatilho
exemplo das letras pesquisadas. Pronto pra fazer fumaça
Ele virou um leão
Boiadeiro de palavra Querendo pular na caça
(Lourival dos Santos, Moacyr dos Santos e Quem mexeu nesse cabelo
Tião Carreiro) Vai cortar o resto de graça
A navalha fez limpeza
Que nasceu lá no sertão Na cabeça da ricaça
Não pensava em casamento Boiadeiro caprichoso
Por gostar da profissão Caprichou mais na pirraça
Mas ele caiu no laço Fez a morena careca
De uma rosa em botão Dar uma volta na praça
Morena cor de canela
Cabelos cor de carvão E lá na casa do sogro
Desses cabelos compridos Ele falou sem receio
Quase esbarrava no chão Vim devolver sua filha
E pra encurtar a história Pois não achei outro meio
Era filha do patrão A minha maior riqueza
Eu olho e vejo no espelho
Boiadeiro deu um pulo É um rosto com vergonha
De pobre foi à nobreza Que à toa fica vermelho
Além da moça ser rica Sou igual um puro sangue
Dona de grande beleza Que não deita com arreio
Ele disse assim pra ela

Universidade Federal de São Carlos - São Carlos, São Paulo, Brasil - 2 a 4 de setembro de 2015.

66
Prefiro morrer de pé
Do que viver de joelhos
Foucault (2012) o discurso é algo inteiramente
diferente do lugar em que os objetos são
(CARREIRO & PARDINHO, faixa 04, instaurados. Se o discurso é um conjunto de
1972) atos de formulação, constituído de modalidades
particulares de existência, as palavras e as
condutas do boiadeiro estão regularizadas pelos
Esse olhar regressivo como conjuntura
atos formulados em uma sociedade cujo papel
enunciadora, estabelece entre outros recursos
do homem é exercer domínio sobre a mulher. A
textuais, a transmissão de uma história da
letra é de uma canção da década de 70, foi
palavra do boiadeiro, colocada na arena dos
gravada, atendeu as exigências do mercado
discursos como personificação de determinados
fonográfico, e foi possível atender aos atos de
papéis onde se inscreve o sujeito.
sua formulação enquanto modalidade
Os elementos constituintes do texto constituidora do discurso.
apontam apenas a protagonização do boiadeiro:
No campo discursivo, a ausência da
"nasceu no sertão"; "não pensava em
palavra por parte da mulher, descreve o nível
casamento" e "caiu no laço". Neste último
enunciativo do lugar em que e ela deve ocupar
exemplo, indício que fora vítima de uma relação
no discurso: o da submissão. Não atendendo a
amorosa com uma moça rica filha de seu
palavra do seu marido, é castigada por ele,
patrão.
levada ao barbeiro, obrigando-o a deixá-la
A marcação "nasceu no sertão" serve ao careca e depois, a expõe em praça pública,
texto como uma arguição do senso comum a como castigo. O corpo da mulher encontra-se
respeito do sujeito caipira. Desta forma, nascer imerso num campo político, o do lugar
no sertão, remete à ideia, de lugar distante, discursivo ocupado pela mulher enquanto
isolado, sem acesso à civilidade. Cândido membro de uma relação matrimonial.
(2010) na obra Os parceiros do rio bonito, ao
Ser boiadeiro, ter nascido no sertão, ter
apontar a formação do caipira, atribui aos
caído no "laço da rosa", imputou ao sujeito
cronistas do Brasil Colônia, endossado por
boiadeiro, certos signos, estabelecendo-se como
Lobato, a visão caricaturesca e segregada do
uma estratégia de sujeição, condições
caipira. Assim, circunscrito nas condições de ter
discursivas à produção da violência. O manejo
nascido no sertão, o boiadeiro não tinha
de suas forças foi necessário porque não foi
condições de ter outra atitude diante da
capaz de submeter ou docilizar o corpo da
"transgressão" da mulher. Por isso, leva à cabo
mulher. Esse manejo da violência constitui uma
sua palavra, de dissolver-se do casamento e
tecnologia do corpo, que não se localiza em um
executar a "surpresa", a qual enunciou em tom
tipo definido de instituição nem no aparato do
ameaçador, caso a mulher cortasse o cabelo.
estado, trata-se de uma microfísica do poder,
A palavra do boiadeiro não é somente que pode ser pensado como uma propriedade,
sua, está atravessada por muitos já ditos, que o com técnicas e táticas de poder em
antecederam. Ela demarca um instante de funcionamento.
especificação constituída e armada por objetos
Na perspectiva ontológica acerca do
do discurso instauradas anteriormente. Para
trágico, foi necessário o sofrimento da mulher

Universidade Federal de São Carlos - São Carlos, São Paulo, Brasil - 2 a 4 de setembro de 2015.

67
para operar uma subjetividade do sujeito figura caipira que se cristalizou com a imagem
enunciado. O triunfo do boiadeiro e a ruína da do Jeca, é o sujeito submerso nas verdades
mulher representam o lado terrível do coletivas, regidas pela religião, pelo estado,
sofrimento da vida. Para Schopenhauer (2001) pelas práticas cotidianas que lhes impõem
a vontade e a representação, funcionam como escolhas, perigos, coação e se travestem de
cumprimento de resignação perante a ideia de conforto existencial.
aniquilação do ser. Isto equivale dizer que o
boiadeiro, ao estar e cumprir com a sua palavra,
usa a violência, é instrumentalizado na ação Referências
trágica - uso da violência a fim de resignar-se,
ou não aceitar a ideia de não ter poder sobre a) de livro
sua esposa.
BRUM, J. T. O pessimismo e suas vontades:
Acionamos também as noções de
Schopenhauer e Nietzsche. Rio de Janeiro:
Nietzsche a respeito do homem, que habita
Rocco, 1998.
uma "lugar incompreensível" dotado de
grandeza e miséria. A atitude da mulher cortar CANDIDO, A. Os Parceiros do Rio Bonito:
o cabelo, é o impulso dionisíaco, o lado mais estudo sobre o caipira paulista e a
sofisticado do homem, é a libertação, a transformação dos seus meios de vida. 11ª ed.,
destruição da barreiras irracionais, um encontro Rio de Janeiro: Ouro sobre Azul, 2010.
com o próprio eu. O efeito trágico de sua EAGLETON, T. Doce violência: a ideia do
atitude, ainda inscreve a existência como trágico. Tra. Alzira Allegro. São Paulo: Editora
potência indestrutível de si. Resta ao boiadeiro Unesp, 2013.
o consolo metafísico que só foi possível
alcançá-lo pelo exercício da violência. FERNANDES, C. A. Discurso e sujeito em
Michel Foucault. São Paulo: Intermeios, 2012.
4. Considerações finais
FOUCAULT, M. A arqueologia do saber.
Pensamos que a pesquisa sobre o Trad. Luiz Felipe Baeta Neves. 8ª ed., Rio de
contexto sócio-histórico da moda de viola e sua
Janeiro: Forense Universitária, 2012.
relação com o trágico enquanto reflexão
ontológica, colocada à disposição da análise do _____. Os anormais: curso no Collège de
discurso, possibilitou-nos algumas ponderações: France (1974-1975). Trad. Eduardo Brandão.
i) a moda de viola não é uma expressão musical São Paulo: Martins Fontes, 2010.
tipicamente rural; ii) suas letras veiculam MACHADO, R. O nascimento do trágico: de
discursos que reforçam estereótipos de gêneros, Schiller a Nietzsche. Rio de Janeiro: Jorge
como a sujeição do feminino ao masculino; iii) Zahar, 2006.
o indivíduo em sujeito nas letras é colocado em
segundo plano, para dar passagem ao trágico NEPOMUCEMO, R. Música Caipira: da roça
como excelência moralizadora e reguladora ao rodeio. São Paulo: Editora 34, 1999.
funcionando no interior dos discursos; iv) o NIETZSCHE, F. W. A origem da tragédia.
sujeito constituído no discurso trágico da moda Trad. Joaquim José de Faria. 5ª ed. São Paulo:
de viola não é um extrato caricaturesco da Centauro, 2004.

Universidade Federal de São Carlos - São Carlos, São Paulo, Brasil - 2 a 4 de setembro de 2015.

68
SANT’ANNA, R. A Moda é Viola: ensaio do
cantar caipira. 2ª ed.; São Paulo: Arte e Ciência,
2009.
SCHOPENHAUER, A. O mundo como
vontade e representação. Trad. M. F. Sá
Correia. Rio de Janeiro: Contraponto, 2001.
SZONDI, P. Ensaio sobre o trágico. Trad.
Pedro Süssekind. Rio de Janeiro: Jorge Zahar,
2004.

b) fonográficas
Goiano & Paranaense. Minha vida minha luz.
CD W 932.832, Rio de Janeiro: Unimar Music,
2003. Faixas 02 e 13.
Tião Carreiro e Pardinho. Hoje eu não posso ir.
LP CH8006, São Paulo: Chantecler, 1972.
Faixa 04.
Zico e Zeca. [S.I] Disco CH-10276 (78
rotações), São Paulo, Chantecler, 1962. Lado
B.

Universidade Federal de São Carlos - São Carlos, São Paulo, Brasil - 2 a 4 de setembro de 2015.

69
ENTRE BENDITOS E “MAUDITOS”: O SAGRADO E O
PROFANO DISCURSIVIZADOS NO CORDEL “PADRE CÍCERO
E A VAMPIRA”, DE FANKA SANTOS

Manoel Sebastião ALVES FILHO; Claudia Rejanne Pinheiro GRANGEIRO


Universidade Regional do Cariri (URCA)
manoel.filho2@hotmail.com; claudiarejannep@yahoo.com.br

Resumo: O folheto “Padre Cícero e a Vampira” faz parte do catálogo de produções da


Sociedade dos Cordelistas “Mauditos”, movimento de jovens poetas que surgiu nos anos
2000 problematizando os discursos construídos pela historiografia oficial acerca da
formação do país. No folheto da poetisa Fanka Santos, o Padre Cícero, ícone da
religiosidade popular brasileira, é colocado em relação a uma personagem tida como
“profana” pelo discurso religioso: uma vampira. Tomando como referenciais teóricos
autores como Foucault (2002), Pêcheux (1997) e Deleuze (1995), o trabalho pretende
compreender as relações (inter) discursivas entre o sagrado e o profano e como essas
relações interferem na construção do sujeito Padre Cícero, aqui semantizado de forma
mais humana, menos santificada.
Palavras-chave: discurso; sujeito; padre cícero e a vampira; fanka santos.

de certos discursos através do tempo e a sua


Introdução
hegemonia, amparados por instituições que
O Padre Cícero foi e é uma das figuras representavam e/ou representam certos status
mais discursivizadas de todo o nordeste quo hegemônicos, com seus respectivos lugares
brasileiro. Há a imagem do padre, do político, de fala. Neste sentido, nosso trabalho discorre
do ambientalista, do santo popular, dos sobre a dicotomia do sagrado e do profano, e o
autointitulados de milagres, do altruísta etc. que a leva a ser associada a determinadas
Pensar a memória desta personagem e a sua figuras: o homem, santo, íntegro, porta voz
inserção no folheto de Fanka Santos é levar em divino; a mulher, profana, sexualizada, criatura
conta estas construções, é “escavar” uma série das “trevas”, abissal. Pretendemos, ainda,
de interdiscursos, analisando os processos procurar entender a intricada relação entre esses
através dos quais os sujeitos são levados a processos de construção dessas “verdades”,
ocupar posições no jogo das representações analisando, para tanto, a construção discursiva
sociais e as lutas travadas pelo reconhecimento dos sujeitos que se movimentam entre elas,
destas. Procuramos observar o estabelecimento atravessados por múltiplos discursos.

Universidade Federal de São Carlos - São Carlos, São Paulo, Brasil - 2 a 4 de setembro de 2015.

70
grosso modo, compartilhariam uma relação de
1. O movimento “Maudito”
identificação: como povo oprimido ou como
O folheto “Padre Cícero e a Vampira”, povo opressor. “Tais visões questionam os
da poetisa Fanka Santos, faz parte do catálogo discursos nacionalistas sob a perspectiva das
de produções da Sociedade dos Cordelistas identidades diaspóricas, baseadas nas diferenças
“Mauditos”, movimento de jovens poetas que de classe social, gênero ou sexo”
surgiu nos anos 2000, na ocasião das (SHOHAT;STAM, 2006, p. 407). A coleção
(des)comemorações dos quinhentos anos da “agora são outros quinhentos”, com doze
chegada dos portugueses ao Brasil. A primeira cordéis, inaugurou a produção dos poetas como
produção do grupo foi caracterizada por uma grupo constituído. A própria materialização
série de cordéis que problematizavam, com nesse suporte elencava uma série de discussões
muitas figuras de linguagem, humor e ironia, os a respeito do cânone literário.
discursos construídos pela historiografia oficial
O folheto de cordel foi e é uma grande
acerca da construção do país. Nesse período,
manifestação cultural nordestina, e um dos
em todo o continente americano e paralelo às
projetos tipográficos mais ousados do Brasil. O
comemorações oficiais nacionais, uma série de
Cariri cearense representa um dos grandes
manifestações de contra-imagem da visão
focos de atividade. Estabelecer uma análise do
eurocêntrica ganharam forma. A Sociedade
folheto de cordel brasileiro é considerar
“maudita” inseria-se, pois, nesse contexto.
diversos aspectos de sua produção: o contexto
Essas manifestações compartilhavam de uma
em que foi criado, os mecanismos de fabricação
perspectiva que começou a se desenvolver no
e distribuição, e sua raiz marcadamente oral.
Brasil desde o início do século passado, como
Muitos estudos já foram feitos sobre o folheto,
por exemplo com o movimento antropofágico
mas não há uma definição homogênea entre os
dos modernistas, e transcorreu nas décadas
pesquisadores. Podemos citar como um dos
seguintes também no cinema, com Grande
primeiros estudiosos dessa literatura o Silvio
Otelo como Macunaíma, ou o movimento de
Romero. Sua definição do folheto brasileiro se
“estética da fome” e os filmes críticos do
baseou no pensamento de que a cultura
Glauber Rocha. Esse pensamento buscava
nordestina teria herdado esse processo tal qual
descontruir e/ou pelo menos problematizar a
um fenômeno que, na verdade, compartilha
produção dos discursos hegemônicos do
algumas características semelhantes, em
continente europeu em relação ao período
Portugal. Visão esta bastante eurocêntrica.
colonial, e como a elite nacional
Inclusive o termo “cordel”, que se refere ao
branca/europeizada se apropriara
folheto português, pois lá eles eram pendurados
convenientemente de certos aspectos destes
em cordas, foi transferido pelos pesquisadores
discursos para legitimar a própria história
para designar o nosso próprio fenômeno
nacional, ao mesmo tempo em que olhava para
cultural, que não comunga dessa característica
os povos silenciados nesse processo de
em particular. Apregoou também a morte do
constituição do país, como os indígenas e os
folheto, como uma tradição que acaba aos
afro-brasileiros. Os “Mauditos” procuraram
poucos, pois para os pesquisadores daquela
ainda criticar as relações desiguais estabelecidas
época ela só era autêntica se preenchesse certos
no seio dos próprios povos envolvidos que,

Universidade Federal de São Carlos - São Carlos, São Paulo, Brasil - 2 a 4 de setembro de 2015.

71
requisitos: popular, espontânea, de povo
O movimento de “valorização da cultura
analfabeto, natural, como salienta os estudos
brasileira” do Estado Novo e com ele a
críticos de Santos (2011) e Lemaire (2010).
necessidade de se construir uma literatura das
Hoje sabemos que isso não se confirmou, e o
“raízes populares da nação brasileira” também
folheto de cordel não perdeu sua força, a
incentivou estudos sobre o folheto de cordel. É
exemplo do próprio movimento “maudito”,
a vez da Casa de Rui Barbosa. No Rio de
podendo ser encontrado até mesmo no
Janeiro, os teóricos escrevem sobre a cultura
ciberespaço: o blog Cordelirando, da poetisa
nordestina. Também na segunda metade do
Salete Maria, é um desses exemplos. O próprio
século XX, o francês Raymond Cantel viajou
nome do grupo, cuja palavra é escrita com ‘u’,
bastante pelo nordeste e se interessou pelo
traz a tona esses discursos. Como o grupo era
cordel, se tornando um dos maiores
constituído em sua maioria por jovens
pesquisadores sobre o tema. A cidade de
universitários, e portanto letrados, seus cordéis
Poitiers tem hoje o Fundo Raymond Cantel,
não eram considerados, muitas vezes, autêntica
referência mundial nos estudos sobre o folheto.
expressão desse gênero literário. Isso ocorria
Os estudos produzidos na atualidade, dos quais
entre os próprios cordelistas tradicionais. O
comungamos e participamos em certos
termo “maudito”, escrito propositalmente com
aspectos, tendem a enxergar o folheto através
desvio da norma padrão da língua, foi uma
de várias óticas: a expressão de um povo que
antropofagia do movimento em relação a esses
desenvolveu uma rica produção oral, e, se
valores de que o cordelista autêntico é um
apropriando dos mecanismos de produção da
homem simples, de poesia espontânea, e que
elite para o suporte papel, também faz a sua
para isso tem de escrever fora dos padrões
literatura; expressão cultural multimodal, pois
estabelecidos pela gramática, como salienta
não é feito para ser lido, mas declamado,
Manoel Digues Júnior em uma carta à
gestualizado; produção histórica, educacional,
Veríssimo de Melo:
visual, literária e artística; produzida não apenas
Realmente, está surgindo uma literatura de por homens, mas por mulheres poetisas;
cordel que podemos chamar “para- produção que se relaciona com muitas outras
folclórica”. É o que tem sucedido, da mesma tais como filmes, novelas, história, ensino e
forma, com danças e cantos, através de literaturas, ressignificando-as. Nesse sentido,
grupos de pessoas alfabetizadas, dançando e concebemos, pois, o cordel, como expressão
cantando Pastoril, Reisado, etc [...] Já sabia cultural inserida nas poéticas da oralidade que,
do aparecimento desse tipo de literatura de em sua forma escrita, apresenta, geralmente,
cordel, que é elaborada por poetas não duas formas de semiotização: a poesia escrita e
populares, antes alfabetizados, e a xilogravura, ambas provenientes de um
consequentemente sem a espontaneidade e a complexo e intricado jogo de determinações
naturalidade que encontramos nos
sócio-históricas, do qual participam diversos
autênticos autores populares. Creio, pois,
sujeitos sociais: produtores, editores, leitores,
que a definição sua e do Cantel atende ao
requisito básico para se considerar como ouvintes e em alguns casos, a pessoa ou
literatura de cordel: ser popular (DIEGUES instituição que encomenda o folheto.
JR. apud SANTOS, 2011, p.107). (GRANGEIRO, 2012).

Universidade Federal de São Carlos - São Carlos, São Paulo, Brasil - 2 a 4 de setembro de 2015.

72
humana, sujeita às “artimanhas do diabo.” No
Nesse ritmo de crítica a certos discursos
início do período medieval, palco de ferozes
estabelecidos, a figura do Padre Cícero entra
batalhas pelo jogo das representações sociais e
em cena. Nascido no Crato, em 1844, Cícero
legitimidade no campo do discurso da
Romão Batista foi um padre caririense que
religiosidade no continente europeu, as
incidiu de forma decisiva na construção das
tradições pagãs, quando não conseguiam ser
diversas faces da cidade de Juazeiro do Norte,
cooptadas pelo cristianismo, eram severamente
no Ceará, como espaço simbólico. Foi seu
hostilizadas, cuja punição incidia no suplício do
primeiro prefeito. A imagem que se construiu
corpo e na espetacularização da pena, para que
ao redor de sua figura alicerçou um dos maiores
servisse de exemplo aos que seguissem o
fenômenos da religiosidade popular em todo o
mesmo caminho. A mulher pagã, uma terceira
Brasil.
vez, é a mais afetada, de modo que suas
O folheto de Fanka Santos foi um dos práticas e atividades culturais eram associadas à
primeiros a iniciar um ciclo de desconstrução da bruxaria, magia e figuras malignas para a
imagem santificada do Padre Cícero no mitologia da nova ordem religiosa. Essas
movimento cordelista em geral. Nele palavras, apesar de possuírem hoje uma
encontramos um padre mais humanizado, polissemia com designações mais positivas, em
desarmado, sujeito aos desejos carnais da parte graças à literatura e ao cinema, possuíam
vampira, figura feminina “maudita” para o uma carga semântica muito negativa para a
discurso religioso. Em socorro de um fiel que época, pejorativa e de deslegitimação. A
entra às pressas na igreja, Padre Cícero se curandeira da vila era, assim, a bruxa; a
encontra com uma vampira, hipersexualizada, e camponesa que comemorava o solstício e
inicia uma peleja com ela. agradecia à mãe natureza (deusa feminina) pela
A crença em criaturas malignas é tão colheita do ano era a maga, impura e associada
antiga quanto qualquer civilização, mas a ao maligno, a Satã.
terminologia vampiro (vampire no francês, No decorrer dos séculos, e com isso a
vampir em alemão) só se popularizou há dois apropriação de alguns elementos da cultura
séculos, e foi cooptada pelo folclore, depois popular pelos eruditos, o surgimento do
pela literatura, cinema, telenovelas, jogos etc. folclore, do romance moderno, e por último das
Esse imaginário foi muito difundido pela cultura indústrias do cinema e dos jogos, esse
popular. Porém, o paganismo, e, sobretudo, a imaginário começa a ganhar uma nova
figura da mulher, foram uma das mais afetadas semantização. Ele não é mais uma criatura
nesse processo. demoníaca, mas é humanizado; não age mais
Uma das imagens associadas à figura da pelo impulso feroz de saciar a sua sede, mas se
mulher, já na antiguidade, era a de receptáculo questiona sobre sua condição e existencialismo;
de volúpia e causa da paixão desenfreada, não tem aversão aos humanos, e pode até
perigosa, que alucina o homem. Com o mesmo ajudá-los em algumas situações; por
surgimento do cristianismo e de seu mito último e mais importante para nossa análise,
criador da humanidade, a mulher é mais uma seduz não mais para matar sua vítima e
vez desqualificada, culpada pela condição desgraçá-la, mas para se aproveitar do seu

Universidade Federal de São Carlos - São Carlos, São Paulo, Brasil - 2 a 4 de setembro de 2015.

73
corpo, estimular a sua libido e proporcionar a afetamos e somos afetados pelos discursos, ao
experiência dos prazeres sexuais, da paixão. E a tempo em que criamos complexas estruturas de
“vítima”, agora, ao tempo em que reconhece o socialização, e através disso complexas relações
poder sobre-humano da criatura, não vê nela o de valores/verdades. Comunicar é agir sobre o
manto da morte, mas se deixa envolver outro, sobre a ação do outro, e constitui um
sofregamente, em um intricado jogo de dos três tipos de relação, juntamente com a
sedução. Essa subjetivação moderna passou a ação dos corpos e a dominação dos meios de
ser associada à figura masculina do vampiro, em coação, imbricadas umas nas outras, em que se
relação à feminina da vítima. No folheto, exerce o poder. A constituição do sujeito
porém, encontramos essa desconstrução de discursivo, portanto, perpassa esses processos
valores e uma polissemia cronológica bastante discursivos que o cercam, o envolvem, e o
fluida, misturando concepções tanto do permeiam:
presente como do passado. Padre Cícero caiu,
portanto, segundo o folheto, na intricada teia Pareceu-me que, enquanto o sujeito humano
dessas discursividades. é colocado em relações de produção e de
significação, é igualmente colocado em
2. Sujeito, discurso e interdiscurso relações de poder muito complexas [...] e
Foucault (1995) trabalha a questão da que a linguística e a semiótica ofereceriam
instrumentos para estudar as relações de
constituição do sujeito através de três modos de
significação. [...] Há dois significados para
objetivação: o sujeito discursivo, sob a égide
a palavra sujeito: sujeito a alguém pelo
das ciências da linguagem; o sujeito produtivo, controle e dependência, e preso à sua
ativo na economia, e que portanto envolve a própria identidade por uma consciência ou
análise das riquezas; e, por último, o sujeito autoconhecimento. Ambos sugerem uma
como simples fato de estar vivo na história forma de poder que subjuga e torna sujeito a
natural, envolvendo estudos de biologia etc. (FOUCAULT, 1995, p.232-235).
Iremos nos ater, no entanto, ao sujeito
discursivo, e como os discursos o constituem Deleuze e Guattari dizem ainda que “os
como tal. A linguagem, e através dela as fios da marionete, considerados como rizoma
relações de comunicação, deu ao homem a ou multiplicidade, não remetem à vontade
capacidade de compreender o mundo e aquilo suposta una de um artista ou de um operador,
que o cerca. E, a partir disso, de transmitir mas à multiplicidade das fibras nervosas que
essas informações, já carregadas de processos formam por sua vez uma outra marionete
de significação, aos seus descendentes. No seguindo outras dimensões conectadas às
momento em que nascemos, e que nos é dado primeiras” (DELEUZE;GUATTARI, 1995. p.
um nome, uma série de discursos, virtuais, mas 16). Entendemos, pois, o sujeito como um
que faz parte das relações de instrumentalização prisma que, como na experiência físico-
de saberes e poderes, e do estabelecimento das química, é trespassado por uma enxurrada de
sociedades humanas, incidem sobre nossa enunciados, luz branca que guarda em si todas
percepção de mundo e a forma como o as outras cores, refletindo e refratando para
enxergamos. É a partir dessa formação, fora de si alguns desses elementos. Ou seja, o
também, que interagimos, questionamos, sujeito é constituído, mas a filosofia até o

Universidade Federal de São Carlos - São Carlos, São Paulo, Brasil - 2 a 4 de setembro de 2015.

74
de mostrar, por meio de exemplos precisos,
século XIX quis apresentá-lo como que, analisando os próprios discursos,
constituinte, como um cogito de tipo vemos se desfazerem os laços aparentemente
cartesiano, um sujeito agenciador, senhor dos tão fortes entre as palavras e as coisas, e
seus atos. Contrariamente, para Foucault, o destacar-se um conjunto de regras, próprias
sujeito foi sendo constituído por longos, árduos da prática discursiva. [...] Certamente os
e conflituosos acontecimentos discursivos, discursos são feitos de signos; mas o que
epistêmicos e práticos. O primeiro efeito da fazem é mais que utilizar esses signos para
abordagem foucaultiana é, pois, o de designar coisas. É esse mais que os torna
desapossar o sujeito do papel central que lhe irredutíveis à língua e ao ato da fala. É esse
era atribuído na tradição cartesiana. São, mais que é preciso fazer aparecer e que é
inversamente, os enunciados que se impõem a preciso descrever (FOUCAULT, 2002,
ele em função das diferentes posições que p.56).
ocupa. É só a partir da exposição a esses
discursos que o sujeito se constitui e se insere Sobre o conceito de interdiscurso, trata-
no complexo processo das relações discursivas, se da relação entre um discurso com outros, aos
como atuante e atuado, guerreiro no campo de quais recorre para acontecer, transformando-os,
batalha dos saberes/dizeres/poderes. ressignificando-os e produzindo outros
sentidos. Neste âmbito, podemos citar as
Ainda para esses intelectuais, o discurso
fundamentais contribuições de Pêcheux (1997),
é entendido como resultado de uma
para quem:
multiplicidade de outros discursos, afetado pelo
contexto, remissões a outros textos, outros [...] o interdiscurso enquanto discurso-
dizeres. Foucault o chamará de “nó em uma transverso atravessa e põe em conexão entre
rede”; Deleuze e Guattari, recorrendo à si os elementos discursivos constituídos pelo
nomenclatura da botânica, o chamarão de interdiscurso enquanto pré-construído, que
“rizoma”, cada qual com suas particularidades. fornece, por assim dizer, a matéria prima na
Quando produzimos um discurso uma voz qual o sujeito se constitui como sujeito
anônima, portanto, nos precede, fala por nós, falante (PÊCHEUX, 1997, p.167).
fala conosco, conectadas por fios espectrais de
multiplicidades, de coletivos, que se Neste sentido, nossa metodologia se
reproduzem e se transformam. Assim, para organiza em acessar esses discursos que se
Foucault, os discursos, ao tempo em que dizem/são ditos no folheto ‘Padre Cícero e a
constituem uma raridade, são reproduzidos. E Vampira’, em procurá-los, “escavá-los”, no
são eles, seu modo de produção, seus ‘lugares sentido foucaultiano, a fim de compreender suas
de fala’ e ‘as condições de produção’ em que se nuances, seus mecanismos, e como eles foram
perpetuam o objeto de interesse da Análise do possíveis, bem como os aspectos
Discurso: interdiscursivos e a forma como esses
elementos constituem os sujeitos na obra em
O discurso não é uma estreita superfície de questão.
contato, ou de confronto, entre uma
realidade e uma língua, o intrincamento
entre um léxico e uma experiência; gostaria

Universidade Federal de São Carlos - São Carlos, São Paulo, Brasil - 2 a 4 de setembro de 2015.

75
3. A peleja poética entre Padre Cícero e a Todos eles compartilham o fato de:
vampira ou a fluidez entre o “sagrado” e o desconstruírem a figura maléfica do vampiro, de
“profano”. forma a discursivizá-lo de maneira mais
humanizada que, típico dos personagens do
‘Padre Cícero e a vampira’ é um texto
romance moderno, está em constante conflito
prenhe em interdiscursividades, e que dialoga
interno sobre sua condição; erotizar a relação
com diversas outras produções discursivas:
do vampiro e sua vítima, em que a segunda se e
desde a xilogravura da capa, que por si só já
entrega à primeira, se deixa seduzir, independe
traz várias referências, às músicas, livros e
do que aconteça, como na letra de Doce
filmes que discursivizaram a figura do vampiro
Vampiro:
em determinados momentos da história. O
encontro entre as personagens, cada qual, a Venha me beijar/meu doce vampiro/ou,
princípio, representando uma série de discursos ou/na luz do luar/ãh, ãh/venha sugar o
associados ao sagrado e ao profano, se dá por calor/de dentro do meu sangue vermelho/tão
conta de um fiel que, havendo visto a vampira, vivo tão eterno, veneno/que mata sua
pede socorro ao Padre. Amaldiçoado pela sede/que me bebe quente/como um
aparição, de cuja sina “nem mesmo Lampião lhe licor/brindando a morte e fazendo amor/meu
podia socorrer” (SANTOS, 2012, p. 7), doce vampiro.1
bandido sertanejo cujo bando alcançou grande
fama e ficou conhecido como um foco de Padre Cícero se depara, assim, com a
resistência ao status quo reinante, ele termina o vampira, cuja descrição e a xilogravura original
seu relato e acaba morrendo. Já despachado o de Antônio Celestino desenham-na
finado, um morcego surge no telhado da igreja hipersexualizada. Ela, nua e virada de costas, de
e se metamorfoseia na vampira. A história, tão modo que suas nádegas e pernas ganham
repercutida, chamou a atenção de vários ênfase, e cujos caninos estão à mostra,
músicos, escritores e artistas que em seus banhados em sangue, toca o ombro do Padre;
trabalhos envolviam a figura do vampiro. Desde ele, paralisado e perturbado com essa figura e
Anne Rice, que escreveu Entrevista com o performance inesperadas, arregala os olhos sem
Vampiro, à Rita Lee, com sua música Doce pronta reação.
Vampiro, ou Dalton Trevisan, com seu livro de
contos O Vampiro de Curitiba. Vieram todos A vampira toda em cima
presenciar o caso: Com os peitos de amostra
Ela tinha era uma irmã
Rita Lee veio também Que ninguém ficava brocha
Trevisan chegou na hora Padim Ciço arrepiado
Zé pretinho e Jorge bem Nunca esteve tão piado
Anne Rice, lá de fora Parecia uma rocha!
Cada um no seu papel (Ibid, p.15, 3e).
Registraram o painel
Que lhes conto bem agora
(SANTOS, 2012, p.14, 3e).
1
Retirado do site Letras. Acesso em 20/08/2015.

Universidade Federal de São Carlos - São Carlos, São Paulo, Brasil - 2 a 4 de setembro de 2015.

76
O Padre, recobrando os sentidos, após O padrinho quando leu
contato inicial com a vampira, lança mão do Disse com convicção:
discurso religioso para combatê-la: ‘Esse livro é ateu
Não aceito a condição’
O padim se arretou (Ibid, p.18, 3e).
E olhou pra criatura
‘Se o duelo começou
Vou honrar minha cultura A vampira, representada como profana,
Vou tirar alguma reza é discursivizada com elementos que rompem
Ela vale quando pesa, com a ordem e condutas religiosas:
É sagrada a escritura
(Ibid, p.17, 1e). A vampira alcoolizada
De pitu com catuaba
Foi dizendo: ‘Na fuzaca
Religiosidade e cultura, aqui, aparecem Eu só quero lambuzada
como sinônimos. A instituição cristã, muito Com a pinga sertaneja
além de popularizar a crença em Cristo, produz Ou quiça com a cerveja
uma série de mudanças nas estruturas Que eu tomo endiabrada
socioculturais dos povos influenciados, bem (Ibid, p.27, 2e).
como estabelece um conjunto de novas práticas
discursivas e de novos valores/verdades. Ao Pitu é uma cachaça regional, produzida
tempo em que constitui um ‘lugar de fala’ inicialmente em Pernambuco, e que possui um
privilegiado, e uma ‘vontade de verdade’ que teor alcoólico de mais de 40%. A catuaba
legitima e oficializa discursos, silencia outras também é uma bebida regional, produzida de
vozes, como as das culturas chamadas de plantas que popularmente levaram esse nome, a
pagãs: pois não só possui o poder de falar sobre qual se atribuem propriedades afrodisíacas,
si, mas o de falar pelo outro. O catolicismo remetendo à libido e ao sexo. A palavra
promoveu, inclusive, uma vasta ressignificação endiabrada significa enfurecido, danado, com o
de elementos associados ao paganismo, quando satanás no corpo, menção ao anjo caído da
não conseguiu exterminá-los. A menção à mitologia cristã, senhor dos infernos e principal
escritura, ou os textos sagrados, também inimigo de Deus, na contramão de todas as
remete a essa ordem do discurso religioso- virtudes celestes.
cristão, legitima alguns discursos, e os põe na
égide do sagrado, em detrimento de outros, que É, no entanto, com o desenrolar da
são associados ao profano. peleja que podemos perceber a constituição dos
sujeitos e a fluidez que permeia a relação entre
Quando Anne Rice, especialista em o sagrado e o profano. A vampira,
vampiros, procura ajudar ao padre com o seu carnavalizada, que bebe cachaça, que ri, que
livro a uma solução prática para derrotar a dança, comportamentos que, desde a Idade
vampira, Padre Cícero retruca, deslegitimando Média, foram caracterizados como profanos,
seu discurso por estar fora da ordem discursiva marginalizados da ordem religiosa, cuja conduta
religiosa: requeria o silêncio, a reclusão, e, além de tudo,

Universidade Federal de São Carlos - São Carlos, São Paulo, Brasil - 2 a 4 de setembro de 2015.

77
Por ter praia e beleza
a seriedade, também se mostra afetada pelo Lhe faria renascer!!!
discurso religioso, quando escuta o hino do (Ibid, p.33, 2e).
Reisado, uma dança de origem ibérica, com
traços da cultura negra, uma das mais fortes
Figura 1. Edição francesa do folheto Padre
expressões da cultura popular caririense, eivado Cícero e a vampira
de simbologias religiosas:

A vampira achou bonito


E dançou com devoção
Relatando que o bendito
Tinha muita inovação
Tinha coisa de magia
Toda aquela poesia
Produzida no sertão
(Ibid, p.28, 2e).

O Padre Cícero, discursivizado como


santo, cuja conduta deveria ser condizente com
a ordem do discurso religioso, também se deixa
afetar pelo “profano”, quando se vê induzido
pela vampira, desejoso de um envolvimento
amoroso, carnal, práticas proibidas aos
sacerdotes da Igreja Católica. Quando a
criatura vai embora, o Padre não esquece
aquele encontro e a mantém em sua memória,
recorrendo à psicanálise, e mesmo viajar para a
capital: 4. Considerações finais
A partir da produção dos “Mauditos” e
Já ouvi alguém dizer
Que o padim fez terapia
do folheto “Padre Cícero e a Vampira” é
Que leu Freud pra valer possível perceber uma série de
Pra sair dessa agonia interdiscursividades. Escolhemos por mostrar
Mas até a sua morte como a relação entre o sagrado e o profano foi
Mesmo ele sendo forte (re)significada através do tempo, sua fluidez e
Ele nunca a esquecia como esse discurso foi associado à
(Ibid, p.32, 2e). determinadas imagens, perpassando pelas
instituições e seus lugares de fala. Nossas
reflexões, ainda iniciais, não tem a intenção de
Viajar pra capital apresentar respostas nem soluções prontas, mas
Procurar espairecer
de problematizar uma série de assuntos que
Pois estava anormal
julgamos importantes para o campo da Análise
Precisava esquecer
E quem sabe Fortaleza do Discurso, em sua interface com os estudos

Universidade Federal de São Carlos - São Carlos, São Paulo, Brasil - 2 a 4 de setembro de 2015.

78
literários, e com a própria historiografia.
SANTOS, F. P. Água da mesma onda: a peleja
Delimitamos a nossa análise por questão de
poética epistolar entre a poetisa Bastinha e o
espaço, mas é certo que muitas outras leituras
poeta Patativa do Assaré. Fortaleza: Tipografia
podem ser feitas, e os folhetos “mauditos” ainda
Iris, 2011.
tem muito a nos dizer sobre a nossa história,
sobre diversos discursos que foram silenciados, ______. Padre Cícero e a Vampira. Fortaleza:
mas que, esperando o momento propicio, Editora IMEPH, 2012.
irrompem entre nós novamente, através deles. SHOHAT, E.; STAM, R. Crítica da imagem
eurocêntrica. São Paulo: Cosac Naify, 2006.
Referências
DELEUZE,G.;GUATTARI,F. Mil Platôs:
capitalismo e esquizofrenia, vol 1. 1. ed. Rio de
Janeiro: Ed. 34, 1995.
FOUCAULT, M. A ordem do discurso. 6 ed.
São Paulo: Edições Loyola, 1996.
______. A Arqueologia do saber. 6 ed. Rio de
Janeiro: Forense Universitária, 2002.
______. O sujeito e o poder. In: DREYFUS, H;
RABINOW, P. (orgs). Michel Foucault: uma
trajetória filosófica: para além do
estruturalismo e hermenêutica. Rio de Janeiro:
Forense Universitária, 1995.
GRANGEIRO, C. R. P. Considerações iniciais
para uma nova teorização sobre o cordel. In:
QUEIROZ, A. Arte e pensamento: a reinvenção
do Nordeste. Vol 2. Fortaleza: SESC-CE,
2012.
LEE, R. Doce Vampiro. Disponível em:
<http://letras.mus.br/rita-lee/22416/>. Acesso
em: 20/08/2015.
LEMAIRE, R. Pensar o suporte – Resgatar o
patrimônio. In: MENDES, S. (org). Cordel nas
Gerais: oralidade mídia e produção de sentido.
Fortaleza: Expressão Gráfica Editora, 2010.
PÊCHEUX, M. Semântica e discurso: uma
crítica à afirmação do óbvio. Campinas: Ed.
Unicamp, 1997.

Universidade Federal de São Carlos - São Carlos, São Paulo, Brasil - 2 a 4 de setembro de 2015.

79
FORMAS DISCURSIVAS DE RESISTÊNCIA: EFEITOS DE
CONTRAIDENTIDADE NO DISCURSO DA TERCEIRIZAÇÃO

Maria Virgínia Borges AMARAL


Universidade Federal de Alagoas (UFAL)
mvirginia39@gmail.com

Resumo: Este artigo apresenta uma análise do discurso da terceirização do trabalho que
tramita nas esferas deliberativas governamentais e nos movimentos de resistência dos
trabalhadores e empresários brasileiros. Pretende-se mostrar que no confronto de
interesses do discurso desses dois protagonistas da história do capitalismo ocorre um
movimento de contraidentificação, caracterizando o processo ideológico da não
coincidência dos sujeitos envolvidos nos discursos. A não coincidência do dizer aparece
nos discurso sob o efeito da luta de classes e se rompe, fazendo emergir efeitos
imaginários de contestação da coincidência, implicando a desidentificação dos sujeitos
das classes em conflito.
Palavras-chave: discurso da terceirização, formas de resistência, processo ideológico,
desidentificação do sujeito.

coincidência que aparece sob o efeito da luta


Introdução
de classes se rompe, e emerge dos efeitos
Neste estudo apresenta-se uma análise imaginários de contestação a coincidência do
do discurso da terceirização formulado pelos dizer, implicando a desidentificação do sujeito,
detentores dos meios de produção, fazendo-se uma modalidade ideológica identificada por
acreditar como uma proposta positiva que Pêcheux (2015), à qual recorro para demonstrar
beneficia as duas classes fundamentais do a posição dos sujeitos/Sujeitos (sujeito porta-
capitalismo – os capitalistas e os trabalhadores. voz, ou sujeito de direito – o trabalhador, o
Pretende-se mostrar que no confronto empresário. Sujeito ideológico ou Sujeito
de interesses do discurso desses dois Universal – o Capital)
protagonistas da história do capitalismo ocorre 1. Abordagem teórica e metodológica
um movimento de contraidentificação,
A teoria revolucionária da Análise do
caracterizando o processo ideológico da não
Discurso explicita um conhecimento necessário
coincidência dos sujeitos em confronto. Nos
e profundo acerca da sociedade e uma tomada
discursos que se conflitam em torno da
de consciência do analista de que a condição
proposta de terceirização do trabalho, a não
fundamental para essa teoria é não abrir mão da

Universidade Federal de São Carlos - São Carlos, São Paulo, Brasil - 2 a 4 de setembro de 2015.

80
sujeito está associado a um organismo em
luta ideológica de classe; história e luta de desenvolvimento em um meio, exposto às
classe dão o suporte teórico-metodológico para eventualidades desse desenvolvimento e às
uma abordagem materialista/revolucionária do más formações, perturbações e
discurso. Um dos princípios fundamentais do traumatismos de todas as ordens suscetíveis
materialismo histórico é saber que não é a de afetá-lo) e, de outro, pelas limitações
consciência que determina o mundo, mas o sociológicas (portanto, a série de limitações
mundo que determina a consciência (MARX, ligadas ao fato de que esse sujeito só pode
1986). Isto vale para a teoria revolucionária da viver em sociedade, ou seja, em cooperação-
Análise do Discurso: não é o discurso que confrontação com o conjunto de seus
constrói o mundo. O discurso é produzido na congêneres, sujeitos-estrategistas, eles
relação do sujeito com o mundo. O discurso é também, não cessando, por isso mesmo, de
dialeticamente determinado pelas condições “aliená-lo” no exercício de suas estratégias).
objetivas da vida dos homens em sociedade.
A “onipotência” do sujeito nesta
Ainda é necessário dizer que a teoria
perspectiva de autossuficiência psicológica,
social crítica de Marx é muito atual e só seus
ainda segundo Pêcheux (1998), reduz a história
fundamentos nos permitem compreender os
a situações de interações, reais ou simbólicas, a
acontecimentos do presente. Esta postura
língua a uma porção dessas interações
teórica não implica uma declaração de amor
simbólicas e o inconsciente à não consciência
pelo passado; o objeto de estudo de Marx, a
que afeta negativamente setores da atividade do
sociedade burguesa, continua o que sempre foi:
sujeito, em função das determinações biológicas
um campo de contradições sustentado pelo
e/ou sociais mencionadas. Supomos ser essa
fetiche, no sentido mais amplo, não só em sua
uma questão bastante pertinente para
forma clássica, a mercadoria, mas nas formas
discutimos hoje a força da ideologia na
mais modernas revestidas de tecnologia que
determinação do pensamento e das ações desse
absorvem o sujeito e o moldam conforme as
sujeito, equivocadamente interpretado como
necessidades do desenvolvimento da sociedade.
senhor e dono de todos os seus dizeres e
Em relação ao sujeito submerso no fazeres.
desenvolvimento do capitalismo, lembramos
Parece que o movimento dos
uma passagem de Pêcheux (1998, p. 51) ao
trabalhadores hoje no Brasil atesta a existência
criticar o mito onieficaz do sujeito psicológico,
real do sujeito submerso no desenvolvimento do
“mestre em sua morada”:
capitalismo. O sujeito trabalhador vive o
Em conformidade com o universal descaminho da história que o constituiu como
narcisismo do pensamento humano [...], o sujeito de classe opositora à dominação do
sujeito é, de direito, um estrategista capital; as formas de resistência dos sujeitos
consciente, racional e lógico-operatório, estrategistas, tanto os trabalhadores como os
cujos poderes se encontram limitados, de empresários, escamoteiam no discurso as
fato, em sua emergência progressiva, sua diferenças de interesses entre as classes
“aquisição” e seu exercício, de um lado, fundamentais da sociedade.
pelas limitações biológicas (portanto, a série
de limitações ligadas ao fato de que esse

Universidade Federal de São Carlos - São Carlos, São Paulo, Brasil - 2 a 4 de setembro de 2015.

81
do desaparecimento da cultura e o movimento
Lembro, ainda, nessa linha de raciocínio,
dos trabalhadores em luta pelos seus direitos na
Llosa (2013), a quem devo excepcionais ideias,
sociedade do capital. Penso que, assim como a
instigadoras da análise que segue. Tive a imensa
cultura está ameaçada pelo simbolismo
satisfação de ler, recentemente, um ensaio de
exacerbado que assola a sociedade dos nossos
sua autoria sobre a cultura, intitulado A
dias, emudece as palavras dos discursos e deixa
civilização do espetáculo: uma radiografia do
a imagem produzir os sentidos que forem mais
nosso tempo e da nossa cultura, e logo me
convenientes à dominação das ideias, a cultura
chamou a atenção a tese de que a cultura está
da luta dos trabalhadores também está se
prestes a desaparecer em nossos dias. Diz ele:
modificando, com uma forte tendência ao
“E talvez já tenha desaparecido, discretamente
apagamento da identidade de classes.
esvaziada de conteúdo, tendo este sido
substituído por outro, que desnatura o 2. Trabalho terceirizado: um acontecimento
conteúdo que ela teve” (Idem, p. 11). Um dos discursivo
argumentos a respeito é o de que o Este é um processo que se agravou ao
desaparecimento da cultura está associado ao longo da história do capitalismo. Silenciar os
desaparecimento da palavra. Llosa recorre a trabalhadores é um propósito intrínseco à lógica
autores que abordaram essa questão, a exemplo desta sociedade. É interessante notar que as
de George Steiner (1971), de quem apanha a estratégias de silenciamento dos trabalhadores
ideia da “retirada da palavra”: o discurso falado, são extremamente sutis, não se dão a perceber
lembrado e escrito foi um dia “a espinha dorsal na sua imediaticidade, tanto que os sujeitos
da consciência”; agora a palavra está dando afetados, os trabalhadores, julgam resistir à
lugar à imagem. pressão do seu suposto opositor, mas acabam
Ele também lembra Marx quando, em incorporando em seu discurso o discurso do
seus Manuscritos Econômicos e Filosóficos de outro, dos defensores da ordem capitalista.
1844, chamou de alienação o processo Pode-se identificar esse movimento no
resultante do fetichismo da mercadoria que com discurso da terceirização do trabalho que
o avanço da industrialização atingiu um estágio circulou no final do ano de 2014 e início de
tal que chega a substituir qualquer assunto de 2015 na mídia brasileira. Tal movimento ganhou
ordem cultural, intelectual ou política. O fetiche força quando o Projeto de Lei 4.330/2004 foi
da mercadoria esvaziou a vida interior de aprovado na Câmara dos Deputados. O projeto
preocupações sociais, espirituais ou tramitava há pouco mais de dez anos na Câmara
simplesmente humanas, isolando o sujeito e e começou a ser discutido de fato em 2011 por
destruindo a consciência que ele tinha dos deputados e representantes dos sindicatos dos
outros, de sua classe e de si mesmo. Esse trabalhadores e representantes empresariais. O
sujeito absorvido pela a mercadoria, sujeito PL 4.330 prevê a contratação de serviços
submerso no desenvolvimento do capitalismo, terceirizados para as atividades-meio e as
volto a dizer, deixa de ser um problema, um atividades-fim; antes se destinava apenas às
antagonista para a classe dominante. atividades-meio. O texto aplica-se às empresas
As questões levantadas por Llosa me privadas, empresas públicas, sociedades de
fizeram pensar que há algo comum entre a tese economia mista, produtores rurais e

Universidade Federal de São Carlos - São Carlos, São Paulo, Brasil - 2 a 4 de setembro de 2015.

82
profissionais liberais, mas não à administração
O discurso dos trabalhadores é
pública, às autarquias e às fundações.
propagado pelos representantes sindicais da
Resumidamente, a terceirização do trabalho
categoria. Conta-se hoje no Brasil com 7
funciona da seguinte forma: uma empresa
centrais sindicais3. Penso que a distribuição dos
prestadora de serviços é contratada por outra
trabalhadores em tantas organizações seria um
empresa para realizar serviços determinados e
indicativo de fragmentação da luta. Mas as
específicos. A contratada é responsável pelos
centrais se unem e formulam um discurso que
funcionários, emprega-os e remunera-os pelo
simula unidade de objetivos e interesse,
trabalho realizado, quando não subcontrata outra
evidenciando-se uma forma de resistência ao
empresa para a realização desses serviços. A
processo de terceirização. O discurso é eficaz
empresa contratante não efetuará vínculos
quando intenta convencer o conjunto dos
empregatícios com os trabalhadores ou sócios das
trabalhadores sobre a necessária articulação
prestadoras de serviços1.
como estratégia de resistência, e noticia:
Para este artigo, selecionamos algumas
sequências desse acontecimento discursivo2,
procurando identificar nas formas de resistência Sd1 Centrais se rearticulam contra projeto
dos trabalhadores o movimento de coincidência da terceirização no senado. Depois de
do dizer, revelador do processo da divergências, entidades tentam se unir em
contraidentidade de classe. torno de pontos comuns para atuar no
congresso e organizar paralisação no dia
3.Resistência, contraidentidade e 294.
desidentificação no discurso: Análises e
discussão As agências sindicais se fazem
representar pelo seus porta-vozes:
1
http://g1.globo.com/concursos-e- Sd2 Temos de mostrar ao governo, ao
emprego/noticia/2015/04/entenda-o-projeto-de-lei-da- Congresso e à classe patronal que estamos
terceirizacao-que-sera-votado.html. Acesso em: agosto unidos e mobilizados. É o caminho pra
de 2015. impedir retrocessos e fazer campanha
2
O acontecimento discursivo difere do acontecimento salarial efetiva das categorias (Francisco
histórico, o fato empírico, real, mas é dele decorrente.
Tem-se o acontecimento discursivo no “ponto de
encontro de uma atualidade e de uma memória”
3
(PÊCHEUX, 1990, p, 17). Ao trabalhar a discursividade São essas as centrais sindicais mais representativas
do acontecimento, cruzam-se “proporções de aparência hoje no Brasil: 1 CGTB – Central Geral dos
estável, suscetíveis de respostas unívocas (é sim ou não é trabalhadores d Brasil; 2 CSP- Conlutas – Central
x ou y, etc.) e formulações irremediavelmente “Sindical e Popular; 3 CTB – Central dos Trabalhadores
equívocas” (Idem, p. 28). Conforme Cazarin e Rasia e Trabalhadoras do Brasil; 4 CUT- Central Única dos
(2014, p. 195), “Um acontecimento discursivo Trabalhadores; 5 Força Intersindical,- Central da Classe
estabelece uma ruptura (rompe com a “estabilidade” trabalhadora; 6 Nova Central – Nova Central Sindical
anterior) e inaugura uma nova “estabilidade” discursiva, de Trabalhadores; 7 UGT – União Geral dos
mas não logicamente organizada, pois ela tem a ver com Trabalhadores
4
a ordem do discurso que joga com a materialidade http://www.agenciasindical.com.br. Acesso em agosto
linguística e a materialidade histórica.” de 2015.

Universidade Federal de São Carlos - São Carlos, São Paulo, Brasil - 2 a 4 de setembro de 2015.

83
Pereira da Silva (Chiquinho), secretário
nacional de Organização e Políticas Esse movimento discursivo aponta a
Sindicais da União Geral dos Trabalhadores coincidência do dizer dos trabalhadores com o dos
(UGT)) empresários; os trabalhadores acabam
concordando com a terceirização. O mesmo
Há, no discurso, o predomínio da luta acontece com o enunciado 2 quando dizem que
pelos direitos trabalhistas, incluindo, sobretudo, querem a regulamentação da terceirização, e não
as campanhas salariais. Esses aspectos são a precarização; o restante do enunciado indica
reforçados em outras ocorrências discursivas que a perda dos direitos conquistados até então é
deste mesmo acontecimento, quando produzem um ponto de luta. Não se nega a terceirização,
efeitos de resistência e de diferença de interesse mas uma modalidade da terceirização
entre as classes.
Os empresários, também sujeitos
Dizem, ainda, os trabalhadores: estrategistas, revelam-se como articuladores de
formas de resistência. Decerto a resistência não
Sd3 é uma atitude política unilateral, tanto os
1 - Não queremos a terceirização na trabalhadores como os empresários elaboram
atividade-fim. estratégias de resistência. Um lutando, supõe-
2 - Queremos a regulamentação, não a se, contra os efeitos de exploração do trabalho,
precarização. Do jeito que passou, tudo foi
o outro se esforçando para manter a posição de
rasgado. (Ricardo Patah - presidente da
sujeito dominante no processo de produção e
UGT).5
extração da mais valia a partir do processo de
trabalho. Neste acontecimento do discurso da
Nessa sequência discursiva tem-se dois terceirização os empresários comemoram a
enunciados indicando os interesses dos vitória em algumas batalhas políticas. Tomo um
trabalhadores. No enunciado 1 a negação da comunicado da presidência da Central Brasileira
atividade fim regulado pelo PL 4330 produz um do Setor de Serviços e Central Sindical dos
efeito de aceitação do projeto; mas o aceita se Empreendedores7 para identificar no discurso
for restrito a atividade meio, como já existe pontos de coincidência do dizer entre os dois
oficialmente regulamentada e orientada pela discursos, aparentemente opositores, que
sumula a Súmula 331 do Tribunal Superior do acabam por gerar a desidentificação da classe
Trabalho (TST). Esta súmula serve de base para trabalhadora.
decisões de juízes da área trabalhista, menciona os
serviços de vigilância, conservação e limpeza, bem Dizem os empresários:
como serviços especializados ligados à atividade-
Sd 4 Regulamentação da terceirização:
meio da empresa contratante.6
nosso campo de batalha agora é o senado.
É, sim, para celebrarmos a instituição de
marco regulatório para a atividade por

5
http://www.redebrasilatual.com.br/trabalho. Acesso em
7
agosto de 2015. http://www.cebrasse.org.br/ Central Brasileira do Setor
6
Sobre o conteúdo desta Súmula ver o texto de de Serviços, Central Sindical dos Empreendedores
Biavaschi e Droppa (2011).

Universidade Federal de São Carlos - São Carlos, São Paulo, Brasil - 2 a 4 de setembro de 2015.

84
meio do PL 4.330 aprovado na Câmara dos
Trabalhadores e empresários coincidem nos
Deputados, onde parlamentares aprovaram,
entre outros pontos, a ampla terceirização dizeres dos discursos aparentemente opostos e
de todas as atividades no mercado privado e desidentificam-se.
nas empresas públicas de economia mista, 4. Considerações finais
suas subsidiárias e controladas na União,
Estados e Distrito Federal e municípios. Nos espaços discursivos em que se
conflitam as propostas de terceirização, a não
coincidência que aparece sob o efeito da luta
A aprovação da atividade meio no
de classes se rompe, e emerge dos efeitos
processo de terceirização pela Câmara dos
imaginários de contestação a coincidência do
Deputados é motivo de comemoração dos
dizer, demonstrando a posição dos
empresários, cantam a vitória da batalha que
sujeitos/Sujeitos (sujeito porta-voz, ou sujeito
decerto travaram nas instancias deliberativas: “É,
de direito – o trabalhador, o empresário/ Sujeito
sim, para celebrarmos a instituição de marco
ideológico ou Sujeito Universal – o Capital). O
regulatório para a atividade por meio do PL
efeito de coincidência do dizer entre os
4.330 aprovado na Câmara dos Deputados”.
discursos implica a desidentificação das classes,
Então a regulamentação atende aos dois
especialmente a dos trabalhadores, que acabam
discursos.
submergindo no desenvolvimento do
Ao incorporar o discurso do outro, capitalismo.
fazendo parecer que o contraria, o sujeito
Embora o sujeito esteja sendo ameaçado
trabalhador acabar se identificando com o seu
pelo provável desaparecimento das formas
“suposto” opositor: o capital representado pelo
clássicas de cultura e pelo surgimento de formas
discurso dos empresários, e cria uma nova
supérfluas, imagéticas, simuladoras de liberdade
condição de identidade de classe, uma
e autodeterminação, como vimos em Llosa
desindentificação de classe O confronto entre
(2013), revela-se para os analistas desta
as classes fundamenta-se no efeito ideológico
realidade a certeza de que, como diz Pêcheux
causado pela evidência de desigualdade
(2015), “não há dominação sem resistência”.
econômica e interesses políticos diferentes. Os
Este princípio pauta-se pelo conhecimento das
discursos historicamente demarcados dos dois
forças que opõem interesses, revelando as
principais protagonistas da história do
estratégias de resistência dos dois lados de uma
capitalismo - trabalhadores e capitalistas
sociedade dividida e dominada pelo capital. É
sustentam-se no movimento de
preciso “ousar se revoltar”, “ousar pensar por si
contraidentificação; os sujeitos envolvidos são
mesmo”.
afetados pelo o processo ideológico da não
coincidência dos dizeres que configurariam
modos de pensar e agir diferentes. Os Referências
trabalhadores estariam conduzidos pela crença
de que sua luta contra o capitalismo é de fato BIAVASCHI, M. B.; DROPPA. A. A história
uma forma de resistência à exploração a qual da súmula 331 do Tribunal Superior do
estão submetidos. Mas a não coincidência se Trabalho: a alteração na forma de compreender
rompe e inverte o processo da diferença. a terceirização. In Dossiê: Classes sociais e

Universidade Federal de São Carlos - São Carlos, São Paulo, Brasil - 2 a 4 de setembro de 2015.

85
transformações no mundo do trabalho. 2011.
Disponível em
http://www.uel.br/revistas/uel/index.php/mediac
oes/article/view/9657/8494. Acesso em: agosto
de 2015.
CAZARIN, E. A.; RASIA, G. dos S. As noções
de acontecimento enunciativo e de
acontecimento discursivo: um olhar sobre o
discurso político. In: Letras, Santa Maria, v. 24,
n. 48, p. 193-210, jan./jun. 2014. Disponível em
http://cascavel.ufsm.br/revistas/ojs-
2.2.2/index.php/letras/article/viewFile/14432/pd
f. Acesso em: agosto de 2015.
LLOSA, M. V. A civilização do espetáculo:
uma radiografia do nosso tempo e da cultura.
Rio de Janeiro: Objetiva, 2013.
MARX, K. Manuscritos Econômicos e
Filosóficos. Lisboa, Portugal: Edições 70,
1989.
MARX. K e ENGELS. F. A ideologia alemã.
São Paulo: Editora Hucitec, 1986.
PÊCHEUX, M.. O discurso: estrutura ou
acontecimento. Campinas, SP: Pontes, 1990.
_____. Sobre os contextos epistemológicos da
análise de discurso. In Cadernos de Tradições,
Instituto de Letras, N. 1. 2. ed. UFRGS,
novembro de 1998.
____. Michel (2013) Ousar pensar e ousar se
revoltar. Ideologia, marxismo, luta de classes.
Décalages: Vol. 1: Iss. 4. Available
at:http://scholar.oxy.edu/decalages/vol1/iss4/15

Universidade Federal de São Carlos - São Carlos, São Paulo, Brasil - 2 a 4 de setembro de 2015.

86
MACHADO DE ASSIS E SEUS LEITORES: UM OLHAR
ARQUELÓGICO EM DOM CASMURRO

Pedro Ivo Silveira ANDRETTA


Universidade Federal de Rondônia (UNIR)
pedro.andretta@unir.br

Resumo: O objetivo desta pesquisa é identificar e descrever os sujeitos leitores


apresentados e interpelados por Machado de Assis na obra “Dom Casmurro”. Para tanto
apoiamo-nos na Análise do Discurso e, particularmente, na teoria arqueológica de
Michel Foucault, além ainda de suas noções de “simulacro” e “transgressão”. Como
resultado, sem esgotar nosso objeto, pontuamos “enunciados” inscritos em duas
“formações discursivas”: “Os sujeitos leitores do final do XIX segundo Machado de
Assis”, “As características dos sujeitos leitores do final do século XIX segundo Machado
de Assis”. Concluímos que esses enunciados esboçam um panorama sobre os sujeitos
leitores do final do século XIX, à medida que o discurso literário reproduz e materializa
condições sócio-histórico-culturais do “autor”, cindido pela “epistémê” de sua época.
Palavras-chave: leitores; literatura; arqueologia; análise do discurso; assis, joaquim
maria machado de, 1839-1908; foucault, paul-michel, 1926-1984.

procurando agora identificar como o próprio


Introdução
Machado de Assis tematizou a leitura, e
A pesquisa que segue inscreve-se no principalmente, os leitores em seus romances
interior de uma série de estudos (des)contínuos (ANDRETTA, 2015).
em nosso trabalho de interlocução entre os
É objetivo dessa pesquisa compreender
estudos em Análise do Discurso, e
e descrever uma possibilidade sobre como
particularmente a de orientação arqueológica tal
Machado de Assis enunciou os sujeitos leitores
como concebida pelo “pirotécnico” francês
brasileiros de seu tempo, e em especial aquele
Michel Foucault, e a Literatura. Assim temos
do final do século XIX. Cientes, que esse
continuidade, pois seguimos com os estudos
empreendimento analítico-descritivo, demanda
histórico-discursivos junto ao legado
muito mais palavras, e sempre mais do que
machadiano e a temática da leitura e dos
somos capazes de escrever, optaremos nas
leitores (ANDRETTA, 2012; ANDRETTA,
próximas páginas por um recorte bastante
2013) e ao mesmo tempo descontinuidade, pois
pontual, analisando exclusivamente alguns
mudamos nosso foco, lançando um olhar
aspectos do leitor apresentado e evocado no
obliquo a temática que nos é tão cara,

Universidade Federal de São Carlos - São Carlos, São Paulo, Brasil - 2 a 4 de setembro de 2015.

87
romance “Dom Casmurro”. Desse modo, arqueologia para a análise do discurso e nossa
exploraremos os enunciados textuais nos quais compreensão dos conceitos de Foucault de
o literato brasileiro articula dois movimentos: o “simulacro” e “transgressão” para análise da
primeiro, de apresentar seus personagens literatura; e outras duas, voltadas a descrição
enquanto leitores; e o segundo, de evocar, das formações discursivas que encontramos na
interpelar o leitor, e desse modo, caracterizar obra analisada, a saber: “Os sujeitos leitores do
seu público. final do XIX segundo Machado de Assis” e “As
características dos sujeitos leitores do final do
Esse esforço, no sentido de trabalhar
século XIX segundo Machado de Assis”, sem,
esses enunciados sobre os leitores inscritos na
contudo esgotar nosso objeto. Por fim,
obra machadiana, justifica-se, em grande
lançamos nossas considerações finais, e nosso
medida, além de nosso gosto pessoal, pela
apreço para que essas sejam apenas indicações
nossa adesão teórica a perspectiva foucaultiana
iniciais.
de pensar o sujeito em sua sujeição às
possibilidades do dizer e sua época. 1. Abordagem teórica e metodológica
Compreender os leitores enunciados por Nessa seção vamos abordar
Machado de Assis permite-nos alcançar o que resumidamente a compreensão de três noções
era concebível dizer sobre a leitura no Brasil no bastante caras para as análises discursivas que
final do século XIX, e especialmente no espaço se seguirão nesta pesquisa, a saber: “análise
da literatura, e tão mais, o autor enquanto arqueológica”, “simulacro” e “transgressão”.
sujeito e as relações que vivenciou e Convém pontuar que nesse movimento vamos
experimentou, inclusive com seu público leitor. sinalizar também os conceitos de “discurso”,
Sobre isso, temos em “Arqueologia de uma “enunciado”, “formação discursiva” e “arquivo”
paixão”, necessário para entender o funcionamento da
Acredito que é preferível tentar conceber análise.
que, no fundo, alguém que é escritor não faz A análise arqueológica foi articulada e
simplesmente sua obra em seus livros, no justificada por Foucault em inúmeras
que ele publica, e que sua obra principal é, oportunidades, seja na forma de obras
finalmente, ele próprio escrevendo seus monográficas, entrevistas ou conferências.
livros. E é essa relação dele próprio com, Desse montante, podemos destacar as obras:
seus livros, de sua vida com seus livros, que
“As Palavras e as Coisas” e “A Arqueologia do
é o ponto central, o foco de sua atividade e
de sua obra. [...] A obra é mais do que a
Saber”. Esses dois empreendimentos, um de
obra: o sujeito que escreve faz parte da obra ordem analítica, outro teórico-metodológica,
(FOUCAULT, 2006, p. 408-9). sugerem e indicam como analisar os discursos
do homem, ou melhor, o que os homens
disseram em seus discursos.
Uma vez exposto nosso percurso,
declarado nossos objetivos e firmado nossas A proposta de análise arqueológica, tal
justificativas, apresentaremos nossa pesquisa como gestada e gerada por Foucault fixa-se na
em três partes, uma dedicada à exposição da descrição e análise do “arquivo”, tal como se
abordagem teórica e metodológica da vê,

Universidade Federal de São Carlos - São Carlos, São Paulo, Brasil - 2 a 4 de setembro de 2015.

88
e que espécie de ato se encontra realizado
por sua formulação (oral ou
A arqueologia, tal corno eu a entendo, não é
escrita).(FOUCAULT, 2008, p. 98)
parte nem da geologia (como análise dos
subsolos), nem da genealogia (como
descrição dos começos e das sucessões); ela A Formação Discursiva, nesse contexto,
é a análise do discurso em sua modalidade
de arquivo (FOUCAULT, 2008a, p. 72). [...] se caracteriza não por princípios de
construção, mas por uma dispersão de fato,
já que ela é para os enunciados não uma
Distinguindo-se também de qualquer condição de possibilidade, mas uma lei de
gesto de interpretação ou análise psicológica. A coexistência, e já que os enunciados, em
proposta analítica não busca pelo discurso do troca, não são elementos intercambiáveis,
que os homens pensaram, mas sim em tomar o mas conjuntos caracterizados por sua
discurso enquanto existência material, como modalidade de existência. (FOUCAULT,
uma prática sujeita a regras de formação, de 2008, p. 132).
coexistência, de funcionamento e de existência.
Nesses termos, são quatro conceitos E o Arquivo, compreende:
importantes para entender as análises que
iremos expor: “Discurso”, “Enunciado”, [...] de início, a lei do que pode ser dito, o
sistema que rege o aparecimento dos
“Formação Discursiva” e “Arquivo”.
enunciados como acontecimentos singulares.
O Discurso pode entendido como, Mas o arquivo é, também, o que faz com
que todas as coisas ditas não se acumulem
[...] um conjunto de enunciados, na medida indefinidamente em uma massa amorfa, não
em que se apoiem na mesma formação se inscrevam, tampouco, em uma
discursiva; ele não forma uma unidade linearidade sem rupturas e não
retórica ou formal, indefinidamente repetível desapareçam, ao simples acaso de acidentes
e cujo aparecimento ou utilização externos, mas que se agrupem em figuras
poderíamos assinalar (e explicar, se for o distintas, se contenham umas com as outras
caso) na história; é constituído de um segundo relações múltiplas, se mantenham
número limitado de enunciados para os ou se esfumem segundo regularidades
quais podemos definir um conjunto de específicas [...]. É o sistema geral da
existências. (FOUCAULT, 2008, p.132- formação e da transformação dos
133). enunciados. (FOUCAULT, 2008, p. 147-8).

O Enunciado, por sua vez, Sobre o trabalho com a abordagem


arqueológica e a literatura, o crítico Roberto
[...] é uma função de existência que pertence, Machado destaca:
exclusivamente, aos signos, e a partir da
qual se pode decidir, em seguida, pela Como Foucault jamais realizou
análise ou pela intuição, se eles “fazem propriamente uma arqueologia da literatura,
sentido” ou não, segundo que regra se suas referências a ela, diferentemente do que
sucedem ou se justapõem, de que são signos, acontece com os saberes que foram objeto

Universidade Federal de São Carlos - São Carlos, São Paulo, Brasil - 2 a 4 de setembro de 2015.

89
de suas pesquisas anteriores, são mínimas
nesse livro [A Arqueologia do Saber] e,
que de maneira indireta, em diferentes escritos
quando ocorrem, servem apenas para de Foucault (ANDRETTA, 2015). De tal
ilustrar os problemas gerais que dizem modo, temos:
respeito à legitimação da arqueologia como
análise do discurso e do enunciado a) quando escreve sobre a abordagem
(MACHADO, 2012, p. 121). terapêutica de Binswanger (1954),
tematizando o sonho e tocando com isso a
relação da imagem com a imaginação,
Uma arqueologia da literatura ou dos buscando situar entre elas, a posição da
textos literários, apesar de não ser trabalhada expressão poética;
por Foucault, era prevista, ou pelo menos b) quando recorre aos textos literários em
sinalizada, quando o teórico expõe, sua tese de doutorado (1961), para
compreender as mudanças de posições dos
Os territórios arqueológicos podem discursos e das práticas dos loucos e da
atravessar textos "literários" ou loucura, e quando reflete a enigmática obra
"filosóficos", bem como textos científicos. O de Rousseau (1962), debruçando-se nela
saber não está contido somente em sobre a relação do sonho, do delírio e da
demonstrações; pode estar também em loucura.
ficções, reflexões, narrativas, regulamentos c) ao lado de representantes da literatura e
institucionais, decisões políticas dos estudos literários de sua época (início da
(FOUCAULT, 2008, p. 205). década de 1960), como Soller, Bataille,
Roussel, Klosswski e Verner, refletindo
É importante ressaltar que conforme conceitos como “ficção”, “transgressão”,
Foucault, a Literatura situa-se dentro da ordem “murmúrio”, “simulacro” e “fábula”, bem
do discurso, guardando particularidades. Sobre como sobre a própria posição da Literatura
isso temos, nos estudos da linguagem.
d) assumindo e trabalhando o conceito de
“espaço” (final da década de 1960), de
A literatura, portanto, faz parte desse
Bachelard, propondo a “utopia” e
grande sistema de coação através do qual o
“heterotopia”, posicionando o texto literário
Ocidente obrigou o cotidiano a se pôr em
dentro do que podemos compreender como
discurso; mas ela ocupa um lugar
seu conceito de “epistémê”.
particular: obstinada em procurar o
e) quando já estava inserido nos estudos do
cotidiano por baixo dele mesmo, em
poder (década de 1970).(ANDRETTA,
ultrapassar os limites, em levantar brutal ou
2015, p. 39).
insidiosamente os segredos, em deslocar as
regras e os códigos, em fazer dizer o
inconfessável, ela tenderá, então, a se pôr Dessa série de encontros de Foucault
fora da lei ou, ao menos, a ocupar-se do com a Literatura e das tantas noções erigidas
escândalo, da transgressão ou da revolta pelo historiador-filósofo, interessa-nos
(FOUCAULT, 2006, p. 221). particularmente, para nossas análises a noção de
“simulacro” e “transgressão”.
A Literatura, conforme nossos estudos,
é tematizada, problematizada ou tocada ainda

Universidade Federal de São Carlos - São Carlos, São Paulo, Brasil - 2 a 4 de setembro de 2015.

90
A noção de “simulacro” foi trabalhada Já a noção de “transgressão” é abordada
pelo teórico em 1964, em um artigo intitulado por Foucault em 1963, um ensaio intitulado
“A prosa de Actão”, dedicado ao escritor Pierre "Prefácio à transgressão", dedicado ao literato
Klossowski. francês Georges Bataille, que cunha o conceito.
Segundo o historiador francês, temos:
O simulacro é entendido como:

[...] vã imagem (em oposição à realidade); A transgressão é um gesto relativo ao


representação de alguma coisa (em que essa limite; é aí, na tênue espessura da linha,
coisa se delega, se manifesta, mas se retira e que se manifesta o fulgor de sua
em um certo sentido se esconde); mentira passagem, mas talvez também sua
que faz tomar um signo por um outro: signo trajetória na totalidade, sua própria
da presença de uma divindade (e origem. A linha que ela cruza poderia
possibilidade recíproca de tomar este signo também ser todo o seu espaço. O jogo
pelo seu contrário); vinda simultânea do dos limites e da transgressão parece ser
Mesmo e do Outro (simular é, regido por uma obstinação simples: a
originariamente, vir junto) (FOUCAULT, transgressão transpõe e não cessa de
2006, p. 114). recomeçar a transpor uma linha que,
atrás dela, imediatamente se fecha de
Conforme entendemos, Foucault
novo em um movimento de tênue
compreende que a literatura nasce da simulação
memória, recuando então novamente
daquele que fala, do apagamento do eu para
para o horizonte do intransponível. Mas
fazer aparecer a simulação de si, da distância da
esse jogo vai além de colocar em ação
linguagem literária em relação ao mundo. Nesse
tais elementos; ele os situa em uma
limiar, tomaremos o simulacro, como a
incerteza, em certezas logo invertidas
simulação, a representação que aquele que
nas quais o pensamento rapidamente se
escreve, fala, faz tanto de si e das práticas que
embaraça por querer apreendê-las. O
vê. Tomamos aqui a expressão “representação”,
limite e a transgressão devem um ao
em seu sentido daquilo que “não é, que se
outro a densidade de seu ser:
coloca no lugar de, mas que em si é”, sem
inexistência de um limite que não
contradizer, portanto, as proposições de outros
poderia absolutamente ser transposto;
críticos foucaultianos:
vaidade em troca de uma transgressão
que só transporia um limite de ilusão ou
O simulacro é o ser da literatura: um ser de sombra (FOUCAULT, 2006, p. 32).
que não é, pois dissimular é fingir ser
aquilo que não é. A história imaginária – A “transgressão”, tal com
dissimulada – não tem o compromisso compreendemos nesse ensaio, liga-se ao limite.
de representar a verdade. Não é como a A “transgressão”, para o teórico, apoia-se na
mimese clássica que procura uma cópia afirmação da diferença e não para a infração ou
elevada das verdades pela conveniência violência. Ainda sobre a transgressão, podemos
e verossimilhança. (AZEVEDO; entender que:
CALAÇA, 2013, p. 9)

Universidade Federal de São Carlos - São Carlos, São Paulo, Brasil - 2 a 4 de setembro de 2015.

91
Essa negação [a transgressão] não tem Vivo só, com um criado. A casa em que
objetivo de dizer que as verdades moro é própria; fi-la construir de propósito,
levado de um desejo tão particular que me
construídas pela religião, história,
vexa imprimi-lo, mas vá lá. [...] Entretanto,
filosofia e ciência são falsas, mas, sim vida diferente não quer dizer vida pior; é
impedir a compreensão do homem e das outra coisa. [...]. O mais do tempo é gasto
coisas por meio de verdades literárias. em hortar, jardinar e ler; como bem e não
(AZEVEDO; CALAÇA, 2013, p. 8) durmo mal (Dom Casmurro, Capítulo II -
Do Livro).
Feitas essas considerações, em nosso
movimento de análise discursiva buscaremos, na No fragmento podemos ver marcas da
superfície enunciativa da obra “Dom época e a posição social que simulam o modo
Casmurro”, averiguar como Machado de viver do sujeito narrador. Isso posto, temos
discursivisa, representa (dissimula) e transgride um o sujeito que é aparentemente rico, pois
os sujeitos leitores de sua época. Nesse possui “casa própria”; gasta seu tempo “em
percurso, tomaremos dois caminhos, o primeiro hortar, jardinar e ler”, come e não dorme mal.
descrevendo alguns enunciados textuais no qual
Nesse processo de seleção do narrador
Machado de Assis situa o sujeito leitor por
em identificar algumas práticas cotidianas,
meio da caracterização e descrição dos
outras práticas são deixadas de lado, que por
personagens e no outro, as interpelações que o
certo, mostram-se como menos relevantes para
autor faz aos seus leitores pressupostos.
sua apresentação para o leitor, o qual quer
2. Os sujeitos leitores segundo Machado de convencer a respeito de sua moral e
Assis discernimento. Temos assim, nesse enunciado
Considerando nosso aporte teórico- textual, a preocupação do narrador em se
metodológico vamos, nessa seção, descrever colocar como leitor, ou ainda indicar que a
como Machado de Assis enuncia os sujeitos leitura faz parte de seu cotidiano, tal como
leitores do seu tempo, e particularmente do hortar, jardinar, comer e dormir.
espaço do Rio de Janeiro. Para tanto, ao Podemos observar ainda que ao parear
tomarmos a obra “Dom Casmurro”, vamos nos as atividades de hortar, jardinar e ler, o
ater aos enunciados textuais relacionados às narrador, tal como entendemos, indica que seu
características dos personagens, com o gosto pela leitura está mais para o lazer, prazer,
propósito de esboçar aquilo que acreditamos fruição, que para uma atividade profissional,
ser uma primeira formação discursiva, a saber: uma exigência, uma obrigação. Por outro lado,
“Os sujeitos leitores do final século XIX podemos verificar que o esforço da leitura, do
segundo Machado de Assis”. estudo, ligado a prática do trabalho do
Nesse contexto, podemos verificar logo advogado também tem ou teve espaço no seu
no início do romance que o narrador descreve- cotidiano, tal como verificamos em:
se como um advogado, filho de um deputado, e
Na manhã seguinte acordei [...], tomei café,
para mais, comenta:
percorri os jornais e fui estudar uns autos

Universidade Federal de São Carlos - São Carlos, São Paulo, Brasil - 2 a 4 de setembro de 2015.

92
(Dom Casmurro, Capítulo CXX – Os
autos). Marcia Abreu (2001), tomando como
referência analítica as pessoas que estavam nos
É enunciado, nesse sentido, que os “meios urbanos e os operários” argumenta que
sujeitos leitores do final do século XXI no Rio era prática bastante comum nos séculos XVIII e
de Janeiro, segundo o olhar de Machado de início do XIX, a da “leitura” como sendo “a da
Assis, eram homens, escolarizados e ricos. fala e audição”, como segue:
Contudo, esse não é o único sujeito enunciado,
temos também a simulação, a representação, da No século XVIII e início do XIX, o conceito
mulher leitora. de leitura parece confundir-se com a fala e a
audição, podendo prescindir da habilidade
A presença do sujeito “mulher leitora” é de decifração dos sinais gráficos de que se
enunciado na descrição, por exemplo, da compõe a escrita. Se entre intelectuais o
personagem Capitu, tal como enunciado processo de ouvir ler fazia parte das formas
textualmente: de sociabilidade, parecendo coisa comum,
qual não seria o poder de divulgação dos
As curiosidades de Capitu dão para um escritos entre os não letrados? Por meio da
capítulo, eram de várias espécies, leitura oral, iletrados também poderiam
explicáveis e inexplicáveis, assim úteis entrar em contato com conteúdos registrados
como inúteis, umas graves, outras frívolas; por escrito (...) durante a primeira metade
gostava de saber tudo. No colégio, onde, do século XIX a leitura oral era uma das
desde os sete anos, aprendera a ler, escrever formas de mobilização cultural e política
e contar, francês, doutrina e obras de dos meios urbanos e dos operários
agulha, não aprendeu, por exemplo, a fazer (ABREU, 2001, p. web).
renda; por isso mesmo, quis que prima
Justina lho ensinasse (Dom Casmurro, A manifestação de leitura do sujeito
Capítulo XXXI - Curiosidades de Capitu). Capitu era a leitura da palavra e não “do
ouvido” ou das práticas orais, como pode ser
Nesse excerto, Machado de Assis acena visto abaixo:
para uma simulação da educação feminina de
sua época. Apesar de Capitu pertencer a uma Estava abatida, trazia um lenço atado na
família de posição social e economicamente cabeça; a mãe contou-me que fora excesso
inferior a do sujeito Bentinho, essa frequentara de leitura na véspera, antes e depois do chá,
o colégio, onde aprendeu a ler e a escrever. na sala e na cama, até muito depois da
Dentre as alunas, algumas eram filhas de meia-noite, e com lamparina...
– Se eu acendesse vela, mamãe zangava-se.
médicos e comerciantes que trabalhavam com
Já estou boa (Dom Casmurro, Capítulo
importação de produtos americanos, tal como
XLII - Capitu Refletindo).
vemos no capítulo XLII - Capitu refletindo.
Pela associação “ler e escrever” tal A leitura feminina, tal como sinalizada,
como descrito, podemos aventar que não se indicia e por isso, enuncia, que as mulheres
trata mais de “ler” em um sentido amplo, mas estavam preparadas para a leitura da palavra e
sim da leitura da palavra. que a faziam de modo solitário. Além disso,

Universidade Federal de São Carlos - São Carlos, São Paulo, Brasil - 2 a 4 de setembro de 2015.

93
ontem para a valsa de hoje, quer fechá-lo às
vemos uma provável prática de justificar pressas, ao ver que beiramos um abismo.
abatimentos pela leitura noturna. Não faça isso, querida; eu mudo de rumo
Assim, os sujeitos leitores do final do (Dom Casmurro, Capítulo CXIX - Não
século XXI no Rio de Janeiro, segundo o olhar Faça Isso, Querida!).
de Machado de Assim, eram mulheres
escolarizadas, mas não necessariamente ricas. E isto é muito, leitor meu amigo; o coração,
Vemos assim a maneira de como quando examina a possibilidade do que há
Machado de Assis apresenta os leitores de sua de vir, as proporções dos acontecimentos e a
época, de um lado “homens, escolarizados e cópia deles, fica robusto e disposto, e o mal
ricos”, de outro “mulheres, escolarizadas e não é menor mal (Dom Casmurro, Capítulo
necessariamente ricas”. A “transgressão” LVII - De Preparação).
impede, no limite, a assegurar que de fato, as
mulheres assumissem a função de sujeito leitor Esse estilo de escrita de Machado,
com maior autonomia, mas podemos propor, evocando o leitor para perto do texto, além de
que Machado de Assis, vê e (dis)simula esta gerar cumplicidade entre o narrador e o leitor,
verdade. tal como descreve Lajolo e Zilberman (2009),
orienta e fixa, segundo vemos, um
3. As características dos sujeitos leitores
comportamento intimista de ser sujeito
segundo Machado de Assis
leitor/leitora.
Conforme abordamos anteriormente,
A cumplicidade entre o narrador e o
Machado de Assis enuncia que tanto as
sujeito leitor pode ser percebido no diálogo que
mulheres como homens, ocupavam a posição de
segue:
leitores no Rio de Janeiro do século XIX,
utilizado para isso a descrição e caracterização – A leitora, que ainda se lembrará das
dos personagens inscritos na obra “Dom palavras, dado que me tenha lido com
Casmurro”. Nessa seção, vamos trabalhar como atenção, ficará espantada de tamanho
o autor, na mesma obra, pela voz do narrador, esquecimento, tanto mais que lhe lembrarão
interpela o leitor e o caracteriza. ainda as vozes da sua infância e
adolescência; haverá olvidado algumas, mas
Nosso propósito nas próximas linhas
nem tudo fica na cabeça (Dom Casmurro,
será então descrever uma segunda formação Capítulo CX - Rasgos Da Infância).
discursiva, qual seja: “As características dos
sujeitos leitores do final do século XIX segundo
Machado de Assis”. Temos assim uma caracterização, ou
ainda, uma representação do sujeito leitor, no
Desse modo, e de início, podemos notar caso, como “atento”, que guarda as palavras
a caracterização do sujeito leitor, como lidas e sente em si os mesmos espantos do
“amigo”, tal como se mostra nos enunciados narrador.
textuais:
O sujeito leitor de Machado de Assis,
A leitora, que é minha amiga e abriu este tal como nos parece, “não gosta de sustos,
livro com o fim de descansar a cavatina de surpresas e violência”, e desse modo, o

Universidade Federal de São Carlos - São Carlos, São Paulo, Brasil - 2 a 4 de setembro de 2015.

94
narrador se faz cauteloso ao apresentar a trama. medida que esse sujeito leitor é caracterizado
Assim é, por exemplo, quando Dom Casmurro como cristão católico.
recorda seu tempo de seminário e de suas
“visões feminis”, com senhoras de saias caindo Não me tenhas por sacrílego, leitora minha
e o rodeando com seus tique-tiques devota; a limpeza da intenção lava o que
afrancesados puder haver menos curial no estilo (Dom
Casmurro, Capítulo XIV - Inscrição).
Sim, leitora castíssima, como diria o meu
finado José Dias, podeis ler o capítulo até Como se lê, o enunciado textual leitora
ao fim, sem susto nem vexame (Dom “católica” se constrói pela escolha lexical do
Casmurro, Capítulo LVII - De Preparação). narrador, que utiliza uma terminologia própria
do repertório próprio dessa religião, tal como:
O sujeito leitor, dissimulado por “sacrilégio”, “devota” e “curial”. Recordando
Machado de Assis não gosta de sustos e que, o Catolicismo, era, segundo a Constituição
surpresas e por vezes é “incrédulo”. do Império, a religião oficial do Brasil.
Esse leitor incrédulo é capaz até mesmo Por meio dessas considerações
de ficar “entediado” com a prosa do narrador, identificamos, na obra analisada, algumas das
quando essa parece irreal. No diálogo entre características dos sujeitos leitores segundo
Bentinho e Capitu, quando esse a pede para que Machado de Assis. Essas características versam
fosse ele o padre de seu casamento, ela recusa, sobre um sujeito que é amigo, atento, não dado
afirmando que demoraria tempo para que ele se sustos, surpresas ou violência, entediado, além
tornasse padre, mas promete que ele batizaria de incrédulo e católico.
seu primeiro filho, segue-se: Essas características emergem da
Abane a cabeça, leitor; faça todos os gestos dissimulação do diálogo do autor-narrador com
de incredulidade. Chegue a deitar fora este seus leitores, e parece indicar uma preocupação
livro, se o tédio já o não obrigou a isso de Machado de Assis de não perder seu leitor,
antes; tudo é possível. Mas, se o não fez de não entediá-lo. O gesto transgressivo estaria,
antes e só agora, fio que torne a pegar do portanto no paradoxo da serie de enunciados:
livro e que o abra na mesma página, sem do falar sempre com cuidado (sem sustos,
crer por isso na veracidade do autor. surpresas ou violência) para um leitor que é
Todavia, não há nada mais exato. Foi assim amigo, de sempre retomar a fala para um leitor
mesmo que Capitu falou, com tais palavras que é atento, de brincar com a incredulidade do
e maneiras. Falou do primeiro filho, como leitor, que pela sua fé “acredita sem ver”.
se fosse a primeira boneca (Dom Casmurro,
Capítulo XLV - Abane a Cabeça, Leitor). 4. Considerações finais
Nesta pesquisa abordamos como
Sobre a incredulidade, é interessante Machado de Assis enunciou os leitores na obra
verificar que a incredulidade concerne as “Dom Casmurro”. Para isso, recorremos ao
palavras do homem, mas não as de Deus, a olhar arqueológico de Michel Foucault e

Universidade Federal de São Carlos - São Carlos, São Paulo, Brasil - 2 a 4 de setembro de 2015.

95
algumas perspectivas do teórico sobre a em Linguística) – Universidade Federal de São
Literatura. Carlos. São Carlos, 2013.
Em nosso percurso apresentamos, a _____. O que dizem os novos leitores de
grandes pernadas, a abordagem arqueológica de Machado de Assis sobre a leitura desse autor
Michel Foucault, algumas considerações sobre em blogs. Versão Beta, São Carlos, v. 10, n.
seu olhar para a Literatura e as noções de 71, p. 71-81. abr.-jun. 2012.
“simulacro” e “transgressão”. Além disso, como ABREU, M. Diferentes formas de ler. 2001.
resultado de nosso trabalho analítico, Disponível em: <
descrevemos, ainda longe de esgotar nosso http://www.unicamp.br/iel/memoria/Ensaios/Ma
objeto, duas formações discursivas: “Os sujeitos rcia/marcia.htm > . Acesso em: 10 out. 2014.
leitores do final do XIX segundo Machado de
Assis”, “As características dos sujeitos leitores ASSIS, M. Dom Casmurro. Santa Catarina:
do final do século XIX segundo Machado de MEC: NUPILL/UFSC: 2008c. (Coleção Digital
Assis”. Machado de Assis). Disponível em: <
http://machado.mec.gov.br/images/stories/pdf/r
A concluir, deixamos aqui duas
omance/marm08.pdf > Acesso em: 15 jun.
expectativas. Uma que esse estudo sirva para 2014.
compreender um pouco mais dos leitores
machadianos. Outra de que nossas AZEVEDO, J. P.; CALAÇA, F. Transgressão,
considerações não sejam finais, tão pouco Morte e Simulacro: figuras que constituem a
parciais, mas, sobretudo, iniciais, não só no Literatura, segundo Foucault. Recorte, v. 10, n.
pensar a aplicação dos conceitos foucaultianos 1, p. 1-14, jan.-jun, 2013.
para a literatura como também balizar os FOUCAULT, M. Arqueologia das Ciências e
estudos sobre os leitores por meio da aplicação História dos Sistemas de Pensamento. 2.
da análise no discurso no texto literário. edição. Organização de Manoel Barros da
Motta, tradução de Elisa Monteiro. Rio de
Janeiro: Forense Universitária, 2008a. (Ditos e
Referências Escritos II).
ANDRETTA, P. I. S. Literatura e Discurso: _____. A arqueologia do saber. 7 ed. Tradução
práticas de leitores do final do século XIX no de Luiz Felipe Baeta Neves. Rio de Janeiro:
Brasil pelo olhar de Machado de Assis. 2015. Forense, 2008b.
— São Carlos: UFSCar, 2015. 98 f.
Dissertação (Mestrado em Ciência, Tecnologia _____. Estética: literatura e pintura, música e
e Sociedade) – Universidade Federal de São cinema. 2 edição. Organização de Manoel
Carlos. São Carlos, 2015. Barros da Motta, tradução de Inês Autran
Dourado Barbosa. Rio de Janeiro: Forense
_____. O leitor contemporâneo e a obra de Universitária, 2006. (Ditos e escritos, III).
Machado de Assis: uma análise discursiva da
crítica amadora em blogs. 2013. — São Carlos: MACHADO, R. Foucault, a filosofia e a
UFSCar, 2013. 139 f. Dissertação (Mestrado literatura. Rio de Janeiro: Zahar, 2012.

Universidade Federal de São Carlos - São Carlos, São Paulo, Brasil - 2 a 4 de setembro de 2015.

96
POLÍTICA, HUMOR E HETEROGENEIDADE NA WEB

Lígia Mara Boin Menossi de ARAUJO


Universidade Federal de São Carlos (UFSCar/Fapesp – Processo no.2011/09851-8)
ligiamenossi@gmail.com

Resumo: Este trabalho é parte de nossa tese de doutorado desenvolvida no PGGL/


UFSCar e tem como corpus de análise videomontagens do YouTube em que o alvo dos
discursos humorísticos derrisórios é Dilma Rousseff. Temos como objetivo compreender o
funcionamento discursivo da heterogeneidade enunciativa (AUTHIER-REVUZ, 2004),
sobretudo o de uma heterogeneidade dissimulada (BARONAS, 2005) já que acreditamos
que a noção de heterogeneidade constitutiva mostrada e marcada formulada necessita de
uma reconfiguração no tocante ao tratamento de corpora políticos derrisórios, sobretudo
os que circulam em suportes como o YouTube.
Palavras-chave: discurso político; heterogeneidade; YouTube; humor.

discurso com os seus Outros constitutivos, mas


Introdução
quando se trata de um Outro satírico,
Este trabalho é parte de nossa tese de zombeteiro, que é trazido para o fio do discurso
doutorado desenvolvida no Programa de Pós- do Eu, cremos que esse discurso satírico se
graduação em Linguística da UFSCar. apresenta sempre dissimulado nos traços do
Elegemos como corpus de análise duas interdiscurso.
videomontagens do site YouTube em que o
Desse modo, tecemos nossa reflexão em
alvo derrisório é Dilma Rousseff enquanto
torno da ideia de que para se pensar a derrisão
candidata às eleições presidenciais de 2010.
do político em suportes como o YouTube, a
Temos como objetivo investigar, por meio da
noção de heterogeneidade possa ser expandida
Análise do Discurso de linha francesa, como se
e pensada enquanto heterogeneidade
dá o funcionamento do discurso político
dissimulada (BARONAS, 2005). Acreditamos
derrisório e compreender como o ator político
que a noção de heterogeneidade constitutiva
Dilma Rousseff é tornado em derrisão pelo
mostrada e marcada formulada por Authier-
YouTube. Para a fundamentação teórico-
Revuz, embora bastante pertinente para dar
metodológica, entendemos que a noção de
conta de corpora políticos marcadamente
heterogeneidade enunciativa de Authier-Revuz
sérios, que circulam em suportes textuais
(2004) constitui uma importante ferramenta
tradicionais necessita de uma reconfiguração no
conceitual para refletir sobre a relação do
tocante ao tratamento de corpora políticos

Universidade Federal de São Carlos - São Carlos, São Paulo, Brasil - 2 a 4 de setembro de 2015.

97
derrisórios, sobretudo os que circulam em esses sujeitos se inscrevem por meio da
suportes não tradicionais como o YouTube. comunicação verbal ou não verbal humanas.
Além disso, não se trata de uma negociação em Diríamos que o dialogismo é a base da
que o discurso do Eu delimita ou denega o constituição do sentido que não vem construído
discurso do Outro, mas uma tentativa de sob um só pilar, mas no e pelo entrecruzamento
apagamento desse discurso do outro que se dá de diferentes discursos que podem convergir ou
legitimado pelo interdiscurso. Isso acontece por divergir; é com o discurso outro que o discurso
meio de uma interincompreensão regrada do do sujeito se forma e pelo discurso outro
discurso do Outro, discurso esse que é também, os outros discursos seriam seu
traduzido para o discurso do Mesmo por meio “exterior constitutivo” (AUTHIER-REVUZ,
da construção de um simulacro do discurso 2004).
primeiro (MAINGUENEAU, 2005) o que O segundo pilar no qual se apoia
permite a emergência da heterogeneidade Authier-Revuz (2004) é uma releitura lacaniana
dissimulada. de Freud, que aborda o sujeito e sua relação
Heterogeneidade com a linguagem nos moldes da psicanálise, nos
quais o discurso é atravessado pelo inconsciente
O humor pode reunir estratégias que
–, assim, o sujeito é dividido, não uno, e a sua
conseguem dizer pelo sujeito aquilo que ele
fala é heterogênea. A ilusão do eu propicia ao
gostaria de ter dito, mas que não teve força
sujeito uma ilusão de que o seu discurso tem
para isto – como se um Outro falasse por ele.
origem centrada em si mesmo e que é a fonte da
Ou, ainda, nas situações em que antes se
sua enunciação, pois “nesta afirmação de que,
utilizava um tapa ou uma bofetada para
constitutivamente, no sujeito e no seu discurso
derrubar o adversário, usa-se, um chiste, um
está o Outro, reencontram-se as concepções do
enunciado de humor derrisório para destruí-lo.
É desse modo também que se entende que a discurso, da ideologia, e do inconsciente, que as
teorias da enunciação não podem, sem riscos
noção de heterogeneidade mostrada e
para a linguística, esquecer” (AUTHIER-
constitutiva, proposta por Authier-Revuz
REVUZ, 1990, p. 28).
(2004) que trata do sujeito e do seu discurso
sob dois grandes pilares, possa ser refletida e O sujeito, quase sempre, esquece a
expandida ao ser mobilizada em nossas análises. heterogeneidade presente em seu discurso e
acredita ser a fonte de sua enunciação. Assim,
O primeiro pilar que sustenta a
quando se mostra como o centro da
concepção de heterogeneidade é o da
enunciação, crendo que ele é a fonte única de
concepção bakhtiniana de dialogismo, ou seja, o
seu discurso, não há a lucidez de que o seu
discurso como palco de mediação, interação e
discurso nada mais é do que uma possibilidade
constituição entre sujeitos em suas esferas de
discursiva, oriunda do momento histórico e do
atividade e compreensão sócio-históricas.
espaço em que vive e produz sua enunciação, e
Bakhtin afirma que o sujeito precisa do seu
que o sujeito é efeito da linguagem e do
outro para se constituir, e é esse outro quem
discurso e não a causa de ambos. Um dos
estabelece as fronteiras discursivas que podem
principais postulados da psicanálise é a
compor um sujeito e seu discurso, a partir de
possibilidade de se interpretar certo número de
interações sociais, na arena cotidiana, em que

Universidade Federal de São Carlos - São Carlos, São Paulo, Brasil - 2 a 4 de setembro de 2015.

98
fenômenos demonstrados pelos sujeitos como outro ato de enunciação discursiva. Já as que
manifestações do inconsciente sendo a tarefa do denominamos segunda categoria apontam para
analista reconstruir o discurso ausente a partir um alteridade enunciativa que sinaliza um
das pistas deixadas por esses esquecimentos. sentido especial ou um outro sentido que vem
conotado por um enunciador outro. Assim, o
Authier-Revuz (2004) denomina de
locutor, mesmo não mencionando o discurso do
heterogeneidade constitutiva a presença velada
outro, o integra a cadeia discursiva numa
do outro/Outro no discurso que se enuncia,
continuidade sintática (AUTHIER-REVUZ,
criando a ilusão de que o sujeito é a origem do
2004) e assim o faz por meio de aspas, itálico,
seu enunciado, com raízes no inconsciente; e
bold, parênteses ou por uma entonação.
mais ainda, criando as próprias condições de
produção para o discurso desse outro/Outro, ou A heterogeneidade mostrada não
seja, sem esta heterogeneidade não há marcada manifesta-se em discursos em que não
constituição dos discursos. A heterogeneidade há uma fronteira prontamente delimitada entre o
constitutiva pode ser explicitada por meio de Um e o outro, como no discurso indireto livre,
uma heterogeneidade mostrada, em que, no fio na ironia, na antífrase, na imitação, na alusão;
do discurso, o sujeito produz formas que caracterizam-se por instaurar a presença do
inscrevem o outro na cadeia discursiva. outro de maneira mais diluída no discurso, não
Portanto, Authier-Revuz expõe que o conceito é possível apreendê-la no fio discurso, só é
de heterogeneidade enunciativa comporta duas possível reconhecê-las e interpretá-las “a partir
concepções: a de heterogeneidade constitutiva de índices recuperáveis no discurso em função
e a de heterogeneidade mostrada marcada ou de seu exterior” (AUTHIER-REVUZ, 2004, p.
não marcada, ambas implicando a presença do 18, grifos da autora).
outro/Outro na produção do discurso do eu.
Simulacro
A heterogeneidade mostrada traz o Em Maingueneau (2005, p. 103), a
outro para a cadeia discursiva e se deixa ver questão do simulacro está diretamente ligada a
com mais clareza pelo seu caráter de não interincompreensão do discurso, ou seja,
ocultamento – por meio da análise, esse outro devemos compreender um espaço discursivo
pode ser recuperado de maneira explícita. Ela como uma rede de interação semântica, na qual
pode não se apresentar com marcas visíveis em podemos encontrar diferentes “posições
um discurso (AUTHIER-REVUZ, 1990), enunciativas que possibilitam o ato de enunciar
podendo, assim, constituir-se de duas formas: por meio de sua formação discursiva”. Esse
marcada e não marcada. A heterogeneidade processo simultâneo de enunciações que se
mostrada marcada é da ordem da enunciação, constroem de formações discursivas diferentes
visível na materialidade linguística e pode ser faz emergir um desentendimento recíproco, do
entendida a partir de duas categorias: a primeira qual germina a ideia de que os enunciados do
assinala explicitamente as formas que inserem, Outro só são entendidos quando trazidos para o
na linearidade do fio do discurso, o outro. interior do “fechamento semântico do
Sendo esse outro, o do discurso relatado como intérprete,” isto é, para a compreensão de cada
no discurso direto e no indireto com seus formação discursiva, na qual os discursos não
delineamentos sintáticos apontam que há um
podem ser tomados – até pela questão da

Universidade Federal de São Carlos - São Carlos, São Paulo, Brasil - 2 a 4 de setembro de 2015.

99
identificação, isto é, o que e com o que sujeitos produzidos, o Outro é o que constitui o
inscritos nas mais distintas práticas discursivas discurso, mas, ao mesmo tempo, é o que deve
se identificam – tal como foi enunciado pelo se apartado.
Outro, mas sim no simulacro que se constrói
sobre ele.
Direto ao assunto
Em outras palavras, o discurso do
intérprete se constitui a partir de uma O corpus discursivo que mobilizamos
interincompreensão regrada do discurso do circula no site YouTube e foram intituladas
Outro que erige de um simulacro criado pelo como: Direto ao assunto: Episódio #01 –
próprio intérprete que produz seu discurso com Família e Direto ao assunto: Episódio #03 –
o escopo de descaracterizar o outro criando Meio Ambiente.
uma relação de polêmica (MAINGUENEAU, A primeira tem apenas 32 segundos,
2005). Essas relações discursivas de compõem uma “série” de seis episódios e seu
interincompreensão suscitam a noção de sujeito-produtor utiliza o pseudônimo de
polêmica que constitui-se pelo modo como Exilados na Rede, é composta por slides que
semanticamente esses discursos estão em carregam o discurso desse sujeito-produtor
embate e não, simplesmente, por uma acompanhados de um trecho de uma entrevista
controvérsia violenta; o que permite entender a da candidata, trazendo imagens e sons que
noção de polêmica como uma troca regrada na provocam determinados efeitos de sentido
qual um discurso polemiza ao entrar em contato acerca do tema enfocado: família. O primeiro
com seu Outro, isto é, esse discurso se slide traz a imagem abaixo (figura 1) com o
estabelece a partir do que compreende, isto é, seguinte enunciado: “?Direto ao assunto com a
traduz do seu Outro. ex-ministra do Presidente Lula!”, enquanto o
Ademais, “polemizar é, sobretudo, visualizamos ouvimos uma espécie de jingle em
apanhar publicamente em erro, colocar o que é possível perceber um assobio e alguns
adversário em situação de infração em relação a instrumentos que se permanecem durante todo
uma Lei que se impõe como incontestável” o video, podemos inferir que a música é de
(MAINGUENEAU, 2005, p.114), isto é, o que alguém que assobia distraidamente e de modo
se pretende é descaracterizar o adversário descontraído.
deixando claro que ele transgride as regras Figura 1 (00:00 – 00:04) e (00:28 – 00:31)
estabelecidas quando mente, traz informações
erradas, é incompetente, pouco inteligente etc.
e, por isso, é possível sucumbir seu direito. Na
polêmica, os enunciados estão sempre sendo
partilhados ou rejeitados e nessa transparência
ou nessa opacidade, torna-se possível silenciar
o Outro e afastar a alteridade própria do
discurso; por isso, o Mesmo vai polemizar com
aquilo que conseguiu separar dele e que
também o constituía por meio dos enunciados

Universidade Federal de São Carlos - São Carlos, São Paulo, Brasil - 2 a 4 de setembro de 2015.

100
Figura 2 (00:05 – 00:10) pausado, ouvimos o tic-tac de um relógio
que é encerrado por uma campainha que
dá continuidade ao discurso de Dilma)
entre os pais, um queria Pedro, outro queria
Gabriel, ganhô Gabriel, então ele vai
chamar Gabriel (ouvimos então palmas
durante o final de sua resposta, como se
Dilma, depois de confusa, tivesse acertado
a resposta num jogo de perguntas e
respostas, um Quizz Show).

Em seguida, é inserida outra imagem Figura 3 (00:13)


(figura 2) que vai se formando em alguns
segundos, nela visualizamos um quadro negro
ou lousa, característicos das salas de aula, com
a seguinte pergunta redigida com o giz branco:
“Ex-ministra do presidente Lula, qual será o
nome do seu neto?”
O sujeito-produtor, então, traz o recorte
(00:12 – 00:27) de um dos momentos de Dilma
em seu blog Dilma na Web durante a pré-
campanha presidencial em que foi possível
enviar perguntas a candidata e ela respondia ao Figura 4 (00:18)
vivo; os internautas mandavam suas dúvidas e
em seguida já podiam obter uma resposta. Na
figura 3, temos Dilma no centro da mesa que
era transmitida ao vivo pela internet, do seu
lado direito está o coordenador da campanha de
Dilma na internet Marcelo Branco e do lado
esquerdo uma mulher – Helena – que assim
como Marcelo recebe as perguntas, o trecho
também focaliza Dilma como podemos ver na
figura 4 quando ela termina de “responder”
Em seguida, o produtor insere
supostamente a pergunta do quadro:
novamente a imagem da figura 1 e a
“Olha, tinha uma...1, uma divergência, é... videomontagem é finalizada. Diante do exposto,
(podemos observar, nesse instante, que o podemos dizer que os recursos de edição
produtor insere uma pausa no vídeo de utilizados colaboram para a construção do
cinco segundos e enquanto o vídeo é simulacro do discurso de Dilma e permitem que
se construa determinados efeitos de sentido. A
resposta que Dilma supostamente dá para
1
As reticências usadas na transcrição representam uma pausa
pergunta do quadro-negro, elaborada pelo
breve na fala.

Universidade Federal de São Carlos - São Carlos, São Paulo, Brasil - 2 a 4 de setembro de 2015.

101
sujeito-produtor, é editada com uma pausa, fato são intercalados por slides acompanhados ou
que possibilita a emergência de alguns não de música, além da inserção de sons e
implícitos tais como: “quem demora para figuras nas imagens retiradas dos vídeos.
responder é porque não se lembra”, “uma avó Trata-se do terceiro episódio de seis da
atenciosa jamais esqueceria o nome de seu série Direito ao Assunto de um suposto
neto”, “a candidata está com dificuldades para produtor-editor que utiliza também o
responder rapidamente a pergunta do pseudônimo de Exilados na Rede. A
internauta, será que está preparada para assumir videomontagem começa com um trecho de uma
um cargo tão importante?”, é sedimentada a entrevista de Dilma em seu blog durante a pré-
possibilidade interpretativa de que Dilma não campanha eleitoral, a candidata cumprimenta os
saiba ou não se lembre do nome do seu neto, internautas e pergunta para onde deve olhar, se
por isso “demora” para responder a pergunta. referir (figura 5):
É possível entender que o produtor ao
utilizar a pausa, traduz o discurso do outro E12: Oi, eu falo pra onde? Pra lá? (E
(Dilma) que é trazido para o vídeo (entendemos aponta, figura 5).
discurso do Mesmo) sob suas categorias, a E2: Pra aquela câmera.
partir do seu interdiscurso, ele permite que a
voz da candidata apareça; entretanto, com o Figura 5 (00:00 - 00:08)
uso dos recursos de edição, permite a
construção de algumas possibilidades
interpretativas sustentadas por implícitos,
havendo, assim, uma tentativa de apagamento
do discurso Outro/outro e outras interpretações
passam a não existir, como as de que Dilma é
uma ótima mãe e boa avó, dedicou-se sempre a
família como irá dedicar-se ao país.
Igualmente, é possível entender que uma
das possibilidades interpretativas construídas é Em seguida, temos a inserção do slide
a de que se Dilma não se lembra do nome de (figura 1) que também aparece na
seu próprio neto, não tem cuidado com a videomontagem anterior e enquanto o
família, não terá cuidado com o país, o povo. visualizamos, ouvimos uma espécie de jingle,
Um dos objetivos da montagem é produzir uma música com alguém que assobia
sentido em torno da ideia de que Dilma não distraidamente e de modo descontraído. Logo
consegue responder de improviso ou até após visualizarmos esse slide representado pela
espontaneamente nenhum tipo de pergunta, pois figura 1, é inserido o trecho do mesmo vídeo do
ela é sempre treinada, ensaiada por Lula. início da videomontagem em que Dilma
responde a perguntas de internautas em um
A videomontagem intitulada Direto ao
assunto Episódio#03 – Meio Ambiente é
2
E1: Dilma Rousseff; E2: Marcelo Branco sentado do lado
composta por recortes de diferentes momentos direito de Dilma; E3: Mulher sentada ao lado esquerdo de
da então candidata, isto é, pequenos vídeos que Dilma – Helena; E4: Sujeito-produtor.

Universidade Federal de São Carlos - São Carlos, São Paulo, Brasil - 2 a 4 de setembro de 2015.

102
continua) porque é algo que a gente tem que
bate-papo ou entrevista produzida ao vivo em se preocupar, de fato, nós inclusive lá em
seu blog durante a pré-campanha presidencial. Copenhague fomos os que tiveram oposição,
Nesse vídeo, ela encontra-se sentada em eu acho que em termos da mudança do
frente a uma mesa, do seu lado direito Marcelo clima mais consequente ...
Branco, coordenador da campanha de Dilma na
internet e, do lado esquerdo, vemos uma mulher A fala da candidata é interrompida e
com outro computador e que lê a pergunta dos entra uma tela com chuviscos; então, o sujeito-
internautas para Dilma. Vejamos a figura 6 que produtor insere um recorte da fala de Dilma em
exemplifica um trecho do vídeo e, em seguida, a Copenhague (figura 7):
transcrição da fala da então candidata e da
mulher que lê a pergunta: E1: ...o meio ambiente é, sem dúvida
nenhuma, uma ameaça ao desenvolvimento
Figura 6 (00:15 - 00:40)
sustentável e isto significa que é uma
ameaça para o futuro do nosso planeta e dos
nossos países...

Como plano de fundo, ouvimos um


assobio com tom de descontração e é inserido
novamente o slide representado aqui pela figura
1. É possível notar que o seu sujeito-
produtor traz para o seu discurso, o discurso do
outro (Dilma) e no fio do seu próprio discurso
ao provocar a junção de dois momentos
Figura 7 (00:41 – 00:52) distintos e que, de certo modo, se contradizem,
permite a emergência de outras possibilidades
interpretativas que produzem efeitos de
sentidos acerca da imagem da candidata. De
maneira sucinta, o produtor tenta repassar a
ideia de que no discurso de Dilma há algum
problema ao recortar dois momentos distintos
de seus discursos.
No primeiro (figura 6), ela afirma a
importância do governo em se preocupar com o
E3: Chegou aqui uma mensagem da Lara desmatamento da Amazônia e o aquecimento
Sales do interior da Paraíba, de 16 anos e global: “é algo que a gente tem que se
ela “tá” preocupada com o desmatamento da preocupar, de fato, nós inclusive lá em
Amazônia. Todos nós, não é Ministra? Copenhague fomos os que tiveram oposição, eu
E1: Faz muito bem, viu, é uma coisa muito acho que em termos da mudança do clima mais
boa, viu, Lara (ministra fala e pega a folha consequente ...”, contudo, no segundo recorte
onde supostamente está a mensagem e inserido que traz parte do discurso da ministra

Universidade Federal de São Carlos - São Carlos, São Paulo, Brasil - 2 a 4 de setembro de 2015.

103
na Convenção de Copenhague (figura 7), ela que ocorre é uma tentativa de apagamento
elabora um enunciado contraditório: “...o meio desse discurso do Outro por meio dos recursos
ambiente é, sem dúvida nenhuma, uma multimodais acrescentados, tais como: o
ameaça ao desenvolvimento sustentável e assobio, a tela com chuviscos, o ponto de
isto significa que é uma ameaça para o futuro interrogação acima da cabeça do companheiro
do nosso planeta e dos nossos países...”. Essa de Dilma e a própria inserção/justaposição dos
maneira de organizar a sequência dos recortes dois recortes, que permite a emergência de uma
resulta em possíveis efeitos de sentido porque heterogeneidade dissimulada.
pode fazer emergir ideia como a de que Dilma Esse processo de apagamento, contudo,
possa ser uma pessoa incoerente ou desatenta e, se dá legitimado pelo interdiscurso de que
portanto, não tenha habilidades para bem Dilma Roussef, ex-ministra do presidente Lula,
governar o país. como diz o primeiro e o último slides
O que direciona nosso olhar para essa (representados pela figura 1), não tem
constatação de que Dilma seria incoerente e, competência para bem governar assim como o
por isso, incapaz de governar, são os recursos então presidente Lula. O sujeito-produtor
como som – o assobio que reverbera para uma refere-se a Dilma como a ex-ministra do
determinada memória acerca do seu uso, isto é, Presidente Lula, e não como Dilma Rousseff,
o descompromisso – e a imagem (figura 7) que candidata ou outro sinônimo que a predique ao
apresenta um ponto de interrogação logo acima cargo em questão. Há aqui semanticamente a
da cabeça, o que permite interpretarmos que ele construção de um sentido outro, aquele de que
também não teria entendido o enunciado Dilma não teria competência ou não seria apta a
contraditório da ministra. Em suma, as ocupar um cargo de presidência. Existe, nesse
materialidades multimodais acopladas de trajeto de sentido criado, um apagamento do
maneira simultânea na produção de sentido do traço semântico competência, que se supõe ser
discurso da videomontagem (jogo de imagem, necessário a um futuro presidente da República,
enunciados e som) colaboram para a construção algo que a montagem deixa subentendido faltar
do simulacro do discurso de Dilma que é em Dilma.
trazido para o discurso da videomontagem por Cabe ressaltar que os discursos de
meio de uma interincompreensão regrada que momentos distintos são postos numa sequência
se faz da sua imagem como candidata a partir do discurso do produtor que permitem a
das categorias do sujeito-produtor da construção de uma polêmica como
montagem. Essa voz do Outro/Dilma no interincompreensão regrada
discurso do Eu/sujeito-produtor traduzida em (MAINGUENEAU, 2005) visto que é o
forma de simulacro é característica da sujeito-produtor que constrói o seu discurso ao
heterogeneidade dissimulada do discurso. tomar o discurso do outro – Dilma – e, ao
Assim, o trecho não apresenta uma mesmo tempo, evidenciar o suposto equívoco
negociação em que o discurso do Eu delimita naquele discurso Outro/outro que não é dele.
ou denega o discurso do Outro como no Portanto, ao tomar esse discurso por meio da
processo de negociação entre a sua formação discursiva, ele possibilita a
heterogeneidade constitutiva e mostrada, mas o

Universidade Federal de São Carlos - São Carlos, São Paulo, Brasil - 2 a 4 de setembro de 2015.

104
criação um simulacro do discurso do Mesmo e permitindo a emergência de uma
levanta uma relação de polêmica. heterogeneidade dissimulada, já que o Outro é
satírico e permanece abrigado no humor
Considerações Finais
derrisório, portanto, recebe sanções, e não
Fica evidenciado por meio da descrição punições.
do material que há materialidades multimodais
acopladas de maneira simultânea que garantem
a produção de determinados efeitos de sentido Referências
no discurso da videomontagem humorística
derrisória, recursos como jogo de imagem,
materialidade linguística e som entre outros que AUTHIER-REVUZ, J. Entre a transparência e
em conjunto buscam descaracterizar a candidata a opacidade: um estudo enunciativo do sentido.
em torno da ideia de que ele seja um robô, seja Apres. Marlene Teixeira. Revisão da trad. Leci
programada para agir de uma determinada Barbisan e Valdir Flores. Porto Alegre:
maneira. Quando essa programação, ensaio ou EDIPUCRS, 2004.
adestramento “mostrados” no início e no final ______. Heterogeneidades enunciativas. In:
da montagem não acontecem, há, Cadernos de estudos lingüísticos, 19.
consequentemente, a falta de clareza em seu Campinas: IEL, 1990.
discurso.
BARONAS, R. Derrisão: um caso de
Há regularidades enunciativas em torno heterogeneidade dissimulada. In: Polifonia.
da ideia principal da descaracterização, afirmar Cuiabá: EDUFMT, 2005. p. 99-111.
a falta de competência administrativa de Dilma
que permitem a emergência de alguns implícitos BONNAFOUS, S. Sobre o bom uso da
como: “ela seria apenas um fantoche, um ser derrisão em J.M.Le Pen Trad. de Maria do
político adestrado, robotizado por Lula”. Rosário Gregolin e Fábio César Montanheiro.
Notamos que o sujeito-produtor ao referir-se a In: GREGOLIN. M.R. (org.) Discurso e Mídia:
Dilma como a ex-ministra de Lula, a expressão a cultura do espetáculo. São Carlos: Claraluz,
faria referência a Lula o verdadeiro mentor e 2003.
idealizador da campanha, aquele que realmente Direto ao assunto: Episódio #01 – Família.
iria presidir o Brasil. Disponível em:
Ao apresentar o discurso de Dilma na <http://www.youtube.com/watch?v=IaasXCSm
videomontagem, o sujeito-produtor a partir de 1Tk> Acesso 30 març 2015.
uma interincompreensão regrada do discurso Direto ao assunto: Episódio #03 – Meio
do outro (MAINGUENEAU, 2005) possibilita Ambiente. Disponível em:
a criação de um simulacro que brota de uma <http://www.youtube.com/watch?v=8wIlFaF2r
não compreensão dos enunciados do outro. Ou 4c&feature=relmfu> Acesso 30 març 2015.
seja, o produtor não só inscreve o outro na
sequência do discurso, mas também traz esse MAINGUENAU, D. Análise do discurso e
discurso outro que o constitui traduzido sob suas fronteiras. Trad. Décio Rocha. In: Revista
suas categorias interdiscursivamente, Matraga, nº 20, Rio de Janeiro: UERJ, 2007.

Universidade Federal de São Carlos - São Carlos, São Paulo, Brasil - 2 a 4 de setembro de 2015.

105
______. Gênese dos Discursos. Trad. Sírio
Possenti. Curitiba: Criar, 2005.

Universidade Federal de São Carlos - São Carlos, São Paulo, Brasil - 2 a 4 de setembro de 2015.

106
AS RELAÇÕES DE INFLUÊNCIA ENTRE MÍDIA E
RELIGIÃO: REPRESENTAÇÕES DAS RELAÇÕES
HOMOAFETIVAS NO PROGRAMA DIREÇÃO ESPIRITUAL DO
PADRE FÁBIO DE MELO

Denise de Souza ASSIS; Mônica Santos de Souza MELO


Universidade Federal de Viçosa (UFV)
denisesouzaassis05@gmail.com; monicassmelo@yahoo.com.br

Resumo: O presente artigo procura investigar as representações das relações


homoafetivas no discurso religioso midiatizado. Assim, procuramos trabalhar com um
aconselhamento do Padre Fábio de Melo exibido em seu programa semanal na emissora
Canção Nova, o programa Direção Espiritual. Preocupamo-nos em analisar a
argumentação neste corpus, de modo a perceber como o padre utiliza as estratégias
argumentativas para retratar essa temática polêmica, de modo a transmitir suas ideias e
opiniões para o público. A análise deste corpus foi orientada pela Teoria
Semiolinguística de Patrick Charaudeau e as Teorias Argumentativas de Perelman.
Palavras-chave: mídia; religião; teoria semiolinguística; argumentação;
homoafetividade.

se relacionam com outros campos sociais,


Introdução afetando-os e por eles sendo afetados. Nesse
processo estão envolvidos os meios (fornecidos
Um novo fenômeno que vem se
pelo campo midiático), os demais campos com
destacando no campo social e aproximando os
os quais este se relaciona (no nosso caso, o
domínios midiático e religioso tem sido
religioso) e os indivíduos envolvidos. Assim,
responsável pela formação de interações que
como forma de trabalhar a relação entre mídia e
possibilitam a doutrinação dos fiéis a partir dos
religião, e a representação das relações
mais variados tipos de mídias. Esse processo é
homoafetivas pelo discurso religioso,
conhecido por midiatização do discurso
escolhemos, como corpus deste trabalho, um
religioso e tem se tornado cada vez mais
aconselhamento religioso exibido no programa
presente na sociedade contemporânea.
Direção Espiritual, da emissora Canção Nova,
Para Gasparetto (2009) pode-se dizer no qual, o apresentador Fábio de Melo
que a midiatização é um fenômeno técnico, responde a uma carta de uma telespectadora, de
social e discursivo por meio do qual as mídias forma a aconselhar e expor seus

Universidade Federal de São Carlos - São Carlos, São Paulo, Brasil - 2 a 4 de setembro de 2015.

107
posicionamentos e ideias sobre a temática das
1. Mídia e Religião: O programa Direção
relações homoafetivas.
Espiritual
A metodologia utilizada neste trabalho é
O corpus utilizado neste artigo trata-se
de cunho qualitativo, visto que partimos da
de um aconselhamento religioso exibido no
transcrição do aconselhamento estudado, já
programa Direção Espiritual da rede Canção
que, neste artigo , propomos verificar, a forma
Nova. O apresentador Padre Fábio de Melo
como a igreja tem utilizado a televisão e a
aconselha e orienta o público a partir das
relação constante com a mídia para estabelecer
respostas de questionamentos sobre diversos
uma interação direta com os fiéis, de modo a
temas do cotidiano, e o programa ajuda o
propagar suas doutrinas e posicionamentos.
telespectador a refletir sobre situações da vida
Desse modo, pretendemos descrever a
real que precisam de visão espiritual e palavras
organização argumentativa do aconselhamento
de sabedoria. A dinâmica do programa é
em questão, identificando as principais teses
bastante interativa, visto que o público interage
defendidas pelo enunciador em relação à
e participa diretamente com o apresentador
temática das relações homoafetivas, bem como
através do telefone, de cartas, de e-mails e das
as estratégias argumentativas utilizadas para
redes sociais. O aconselhamento escolhido
defendê-las. Assim, seguiremos o referencial
como corpus deste trabalho pode ser acessado
teórico ligado à Análise do Discurso, Teorias
pelo youtube pelo nome: “Homoafetividade e
Argumentativas e da Teoria Semiolinguística de
Homossexualidade- Padre Fábio de Melo”
Patrick Charaudeau.
através do link http://www.youtube.com
Na primeira parte deste artigo, faremos /watch?v=UGw4kD0EWfk.
uma breve contextualização a respeito do
O tema específico deste aconselhamento
corpus escolhido para análise. Em seguida,
são as relações homoafetivas. Desse modo, o
apresentaremos um resumo do referencial
padre responde a um e-mail, no qual, uma
teórico no qual nos debruçamos para o
menina, que não é identificada pelo nome, com
desenvolvimento deste trabalho. E, por último,
idade de 23 anos, relata que tem um
apresentaremos a análise e a discussão de
relacionamento homoafetivo com sua melhor
dados.
amiga e fala de seus problemas pessoais, visto
Como resultados podemos dizer que há que, ela alega que descobriu que seu pai traía a
a predominância do discurso preconceituoso em sua mãe e que isso abalou a confiança da filha
relação às relações homoafetivas, que é em relação aos seus relacionamentos. A garota
revelado a partir dos léxicos e expressões declara que antes do relacionamento
utilizados pelo padre, além de predominar o homoafetivo, apenas namorou pessoas do sexo
discurso da igreja católica, visto que no oposto e que durante este tempo sempre foi
momento de sua fala, padre Fábio de Melo se enganada e traída.
projeta como um ser psicossocial e coloca em
Por se tratar de um corpus ligado à
destaque as posições da igreja. Os argumentos
religião e exibido por uma emissora televisiva, é
encontrados foram na maioria relacionados ao
possível dizer que se trata de um discurso
modo de encadeamento da causalidade.
religioso midiatizado, que tem se tornado cada

Universidade Federal de São Carlos - São Carlos, São Paulo, Brasil - 2 a 4 de setembro de 2015.

108
vez mais comum na sociedade contemporânea e interlocutor) propostos pela Teoria
visa à propagação de doutrinas e captação de Semiolinguística, é possível dizer que: o TU
fieis. Segundo Gutíerrez (2006), pode-se dizer não deve ser considerado apenas um receptor
que o processo de midiatização do campo da mensagem, mas aquele que constrói uma
religioso é recente, visto que aconteceu por interpretação a partir do ponto de vista que tem
volta de 40 anos atrás, devido à influência de sobre as circunstâncias do discurso. No ato de
evangelizadores norte-americanos. No Brasil, comunicação haverá a presença de dois TUs
país predominantemente cristão e com maior que se diferem: o TU- interpretante (TU´) e o
número de católicos no mundo, esse processo TU-destinatário (TU). Assim, é possível dizer
vem causando uma modificação no fazer que:
tradicional da religião, a partir da comodidade O EU dirige-se a um TU- destinatário, que o
que as mídias oferecem. EU acredita (deseja) ser adequado ao seu
propósito linguageiro (a “aposta” contida no
2. A Teoria Semiolinguística e a ato de linguagem). No entanto, ao descobrir
Argumentação que o TU-interpretante (TU´) não
A Teoria Semiolinguística de Patrick corresponde ao que havia imaginado
Charaudeau caracteriza o ato de linguagem (fabricado), acaba por descobrir-se como
como sendo o produto de um contexto no qual um outro EU ( EU´), sujeito falante suposto
(fabricado) pelo TU-interpretante (TU´).
se inserem um emissor e um receptor, que
(CHARAUDEAU, 2010, p. 44).
podem atribuir a uma expressão linguística
diferentes interpretações. Segundo Charaudeau
(2010), esses são os sujeitos deste discurso e É essencial dizer que o ato de linguagem
responsáveis pela produção de sentido e se revela como um encontro dialético entre o
significado durante o mesmo. Assim, pode-se processo de produção, que é criado por um EU
dizer que esta teoria preocupa-se em estudar os e dirigido a um TU- destinatário, e um processo
discursos sociais do ponto de vista do sentido. de interpretação, criado por um TU´-
interpretante, que acaba construindo uma
É importante destacar que para
imagem EU´ do locutor. Partindo dessa
Charaudeau (2010) todo ato de linguagem se
perspectiva, Charaudeau (2010) diz que o ato
insere num projeto geral de comunicação que é
de linguagem acaba tornando-se um ato
concebido por um sujeito comunicante, que
interenunciativo entre quatro sujeitos.
organiza seu discurso a partir do contexto e da
situação em que está inserido. Este linguista Quando se pensa em Teoria
acredita que todo ato de linguagem será Semiolinguística, é importante destacar os
resultado de um jogo entre o implícito e o modos de organização com os quais
explícito, e para isso haverá as circunstâncias de Charaudeau (2010) trabalha. Sendo eles, os
discurso específicas, realizadas a partir do modos Enunciativo, Descritivo, Narrativo e
ponto de encontro dos processos de produção e Argumentativo. No presente artigo, nos
interpretação. pautaremos sobre o Modo Argumentativo, que
é o foco do nosso trabalho. Esses modos devem
Ao considerarmos os sujeitos de
ser considerados condições de construção do
linguagem EU (sujeito produtor) e TU (sujeito-
discurso que o sujeito falante disporia para

Universidade Federal de São Carlos - São Carlos, São Paulo, Brasil - 2 a 4 de setembro de 2015.

109
organizar sua intenção discursiva, e não como a
esquematização do texto. A argumentação, que O sujeito que argumenta passa pela
trataremos neste trabalho, representa uma expressão de uma convicção e uma
totalidade do modo de organização explicação que tenta transmitir ao
argumentativo, e está ligada à finalidade de interlocutor para persuadi-lo a modificar seu
persuasão. comportamento. (CHARAUDEAU, 2010,
p.205)
Na antiguidade, período em que a
argumentação começou a se tornar mais visivel, 3. Análise e discussão de dados
era vista como uma grande fonte de persuasão e
sedução. Segundo Charaudeau (2010), os O foco de análise neste trabalho é a
gregos acreditavam que o estudo da argumentação no discurso do padre Fábio de
argumentação tratava-se de uma forma de Melo, em um aconselhamento religioso sobre as
expressão que tinha grande capacidade de relações homoafetivas. Desse modo, nos
captação e comoção do auditório. preocupamos em selecionar as principais teses
desenvolvidas durante a fala do padre, e os
Pensando na argumentação como a arte argumentos e tipos de argumentos que foram
de convencer e persuadir um determinado utilizados para justificar e embasar as ditas
público, Perelman e Tyteca (1987) a teses. Neste trabalho, nos limitamos a trazer as
consideram um processo situado em que um duas teses mais debatidas durante o discurso de
orador tem a finalidade de convencer seu dito Fábio de Melo, visto que foram as que tiveram
auditório, ou seja, seu destinatário. Para eles: mais embasamento pela fala do locutor.
Argumentar é fornecer argumentos, ou seja, Através das teses selecionadas é
razões a favor ou contra determinada tese. possível identificar e perceber algumas
Uma teoria de argumentação, na sua estratégias argumentativas escolhidas por Fábio
concepção moderna, vem assim retomar e de Melo como forma de transmissão de ideias e
ao mesmo tempo renovar a retórica dos posicionamentos a respeito das relações
Gregos e dos Romanos, concebido como homoafetivas, com o intuito de persuasão e
arte de bem falar, ou seja, a arte de falar de
captação da sua interlocutora direta, a menina
modo a persuadir e a convencer, e retoma a
que redigiu a carta, e os demais telespectadores
dialéctica e a tópica, artes do diálogo e da
controvérsia.(PERELMAN; OLBRECHTS- e público, que também constituem os
TYTECA, 1987, p. 234). destinatários visados pelo padre.
A primeira tese encontrada no discurso
A argumentação, como técnica de de Fábio de Melo revela o seguinte
persuasão e convencimento, muitas vezes, se posicionamento do padre:
encontrará no implícito, o que faz com que a
sua interpretação se estabeleça não apenas na TESE 1: A homossexualidade não é uma
superfície do texto, dependendo da descoberta prática correta, mas quem a pratica merece
respeito.
dos sentidos pelos sujeitos do discurso. Assim,
é importante pensar que:

Universidade Federal de São Carlos - São Carlos, São Paulo, Brasil - 2 a 4 de setembro de 2015.

110
respeito e a dignidade devem existir, pois são
Como forma de sustentar essa tese, o
fundamentos cristãos.
padre apresenta o argumento (1), que pode ser
considerado uma citação de saber, que para A segunda tese identificada a partir da
Charaudeau (2010), é uma fonte de verdade e fala do sujeito locutor retrata que:
emana de uma figura que representa uma
autoridade. Essa autoridade pode ser percebida TESE 2: Homossexualidade não é inata,
no momento em que ele traz a figura de Jesus tem alguma causa ou motivo. É algo
adquirido ou até mesmo uma deformação de
Cristo como forma de dar legimitidade e
comportamento causada por algum trauma.
credibilidade a sua fala. Em se tratando de
discurso religioso, Essa figura pode ser
considerada o maior patamar de legitimação. Como forma de embasar o seu
posicionamento acerca da homossexualidade
ser uma prática comportamental e não estar
Eu, como legítimo representante de ligada ao inatismo biológico, como muitos
Jesus, aqui, por mais que eu não concorde grupos defendem, padre Fábio de Melo nos
com seu jeito de viver e de agir eu preciso apresenta três argumentos ditos de causa e
defender sua dignidade. (1) consequência.

Tudo aquilo que nos ocorre, tudo


Eu tenho o direito de pensar assim, aquilo que nós experimentamos no nosso
você tem o direito, mas agora agredirmos campo afetivo, de alguma maneira, tem
fisicamente ou usarmos da nossa posição raízes que precisamos descobrir. É por isso,
para podermos humilhar, para poder falar que a autorreflexão ajuda muito, ás vezes é
mal, para poder desumanizar o outro com o refletindo os fatos do passado que a gente
nosso discurso, isso nem cristão é . (2) consegue corrigir os erros do presente. (3)

É possível dizer, através de uma


A partir do momento que trai a mãe
interpretação semântica, que o padre, no
ela começou a identificar no pai, aí, ruiu
excerto (1), ao utilizar a expressão jeito de
aquela figura paterna positiva que ela tinha
viver e de agir, está se posicionando como referencial, ruiu e de repente um
contrariamente à homoafetividade, tempo depois, o processo da decepção foi
desqualificando essa prática. Desse modo, minando, foi minando , foi minando... As
mesmo ele trazendo a figura de Jesus Cristo experiências de traição dos namorados que
como forma de legitimação, Fábio de Melo também ela conta que foi muito enganada a
deixa transparecer um posicionamento ruim em levou a um relacionamento homoafetivo. (4)
relação à homossexualidade, mesmo querendo
manter o legado de humanidade e amor ao
próximo defendido pela igreja católica. Isso é Agora, no seu caso, minha filha,
claramente visível no excerto (2), visto que o você tem que analisar se você tem se
encaminhado para essa homossexualidade,
padre expõe enfaticamente que mesmo não
talvez muito mais, por que você reconhece
concordando com uma determinada prática, o
que você gosta de homens, que você

Universidade Federal de São Carlos - São Carlos, São Paulo, Brasil - 2 a 4 de setembro de 2015.

111
namorou homens, que você tem desejo de ter
uma família e que você mesmo não tem
a levou mostrando claramente que concorda
certeza do que lhe ocorre, porque você deve que a homoafetividade da menina foi
ter encontrado nessa moça, a cura dessa consequência de problemas anteriores, o que
insegurança que o seu pai te colocou, no continua ratificando a desqualificação das
momento, em que ele traiu a sua mãe, e que relações homoafetivas.
você se sentiu traída também, ou até mesmo Pelo excerto (5), o padre vem reafirmar
quando você olhou para os relacionamentos
que a homossexualidade da menina tem causas
que você teve e você percebeu que sempre
relacionadas a seu passado, principalmente, a
houve infidelidade. (5)
traição do pai, já que na carta, a menina alega
ter descoberto que seu pai traía a sua mãe, e
A partir dos excertos (3), (4) e (5) é nos seus relacionamentos heterossexuais, visto
possível perceber que o interlocutor apresenta que a menina conta ter se relacionado com
dois argumentos de causa e consequência. homens e também ter sido traída e enganada.
Primeiramente, pelo exemplo (3) é possível Novamente, os verbos utilizados pelo padre,
dizer que Fábio de Melo traz uma causa vêm como forma de fazer com que o seu
específica para a homoafetividade da menina, destinatário reconheça veemente que a
que está ligada a problemas pessoais do seu homossexualidade é comportamental, e para
passado. Assim, ele descontrói a premissa de isso ele utiliza a forma verbal encaminhado.
que a homossexualidade seja algo inato, nos
levando a entender que a prática homossexual Outro ponto a ser destacado neste
tem um motivo relacionado a algum problema excerto, é o fato de que o padre insiste em dizer
emocional ou afetivo, o que novamente que a menina revelou que gosta de homens e
desqualifica as relações homoafetivas. Essa sente vontade em ter uma família, mas em
desqualificação também pode ser percebida no nenhum momento, há isso em sua fala, já que
momento em que o padre utiliza a expressão: ela apenas cita que teve relacionamentos com o
erros do presente, visto que fica nítida a sexo oposto e que foi traída em todos eles.
comparação da homossexualidade a um erro. Neste sentido, é possível dizer que esta é uma
Além do mais, ao sugerir que a pessoa faça uma estratégia utilizada pelo locutor para dar
autorreflexão pode-se dizer que o sujeito credibilidade ao seu pensamento de que o
comunicante também quer levar o seu relacionamento homoafetivo da menina é algo
destinatário a pensar essa prática como ruim, já comportamental e passageiro, visto que ela tem
que é algo que precisa de reflexão. outros desejos. No final do excerto, é possível
perceber que novamente o padre desqualifica as
Novamente pelo excerto (4), relações homossexuais, já que utiliza a
verificamos a presença de um argumento causa expressão cura dessa insegurança, o que nos
e consequência, no momento, em que o padre leva a pensar que há a comparação da
traz os problemas familiares e afetivos da sua homossexualidade a uma doença que precisa ser
interlocutora como uma causa ou justificativa curada.
para que ela tenha assumido um relacionamento
homossexual. A consequência é explícita no 4. Considerações Finais
momento em que o padre utiliza a forma verbal

Universidade Federal de São Carlos - São Carlos, São Paulo, Brasil - 2 a 4 de setembro de 2015.

112
encadeamento geral de causalidade, pois,
É possível dizer que pelas análises
segundo Charaudeau (2010), as relações
feitas, pudemos perceber um posicionamento
argumentativas que se definem em uma relação
homofóbico revelado pela igreja católica e, por
de causalidade e outros tipos de relações
seu representante, Fábio de Melo, a partir dos
lógicas podem se inscrever durante a
léxicos e expressões que o mesmo utilizou
argumentação.
durante a sua fala. O uso de verbos como levou
e encaminhado confirmam o posicionamento do
padre de que a homossexualidade é algo Referências
comportamental, e são utilizados como
estratégias de captação do público e CHARAUDEAU, P. Discurso das
reconhecimento de verdade. Palavras e Mídias/tradução Angela M.S. Corrêa. 2. ed., 2°
expressões ligadas a um campo semântico de reimpressão. - São Paulo: Contexto, 2013.
desqualificação como: cura, insegurança, erro ________________, P. Linguagem e Discurso:
do presente, também são utilizadas como forma Modos de Organização; [coordenação da
de levar o interlocutor a acreditar na conduta equipe de tradução Angela M.S. Correa e Ida
errônea desta prática. Lúcia Machado]. – 2° ed. São Paulo: Contexto,
C omo sujeito comunicante deste 2010.
discurso , padre Fábio de Melo assume seu _______________, P. Visadas discursivas,
lugar como um ser psicossocial e coloca-se gêneros situacionais e construção textual, in
como um representante da igreja católica. Machado, I L; MELLO, R. Gêneros reflexões
Dessa forma, todos os argumentos utilizados em análise do discurso. Belo Horizonte,
por ele não representam somente uma Nad/Fale-UFMG, 2004. Disponível em:
manifestação de sua opinião, mas reflete os <http://www.patrickcharaudeau.com/Visadas-
posicionamentos e ideais da igreja católica, discursivas-generos.html>Acesso em: 13/05/14.
instituição representada neste discurso pelo
FIEGENBAUM, R. Z. Midiatização do campo
padre.
religioso: tensões e peculiaridades de uma
Por estarmos falando em discurso relação de campos. UNIrevista - Vol. 1, n° 3,
religioso midiatizado é crucial ressaltar a forte p.1-12: jul, 2006.
projeção midiática representada por Fábio de
GASPARETTO, P.R. Midiatização da
Melo, já que o mesmo, além de ser padre,
religião. Processos midiáticos e a construção
também é considerado uma celebridade, já que
de novas comunidades de pertencimento.
é apresentador de TV, cantor e escritor. Além
Estudo sobre a recepção da TV Canção Nova.
de ser convidado para diversos programas
Tese de Doutorado. São Leopoldo, RS:
televisivos sem cunho religioso. Essa questão
Unisinos, 2009.
intensifica a importância dessa relação entre
mídia e religião, o que dá mais legitimação ao GOMES, P.G. Processos midiáticos e
discurso proferido pelo sujeito comunicante. construção de novas religiosidades: dimensões
Os argumentos que foram destacados históricas. Cadernos IHU, ano 2, n° 8. São
neste trabalho se inscrevem em um modo de Leopoldo: UNISINOS, 2004.

Universidade Federal de São Carlos - São Carlos, São Paulo, Brasil - 2 a 4 de setembro de 2015.

113
GUTIÉRREZ, L.I.S. A Midiatização Televisiva
da Religião. Uma experiência de pesquisa sobre
os processos midiáticos e a religiosidade.
UNIrevista - Vol. 1, n° 3, p. 1-13 : jul. 2006.
MELO M.S.S. Pressupostos de uma Teoria
Psicossocial do Discurso: A Semiolinguística.
In: CATALDI, C; GOMES, M.C. A; MELO,
M.S.S, Eds. Gênero Discursivo, Mídia e
Identidade. Viçosa, MG: Ed. UFV, 2007.
ORLANDI, E.P. Análise De Discurso:
Princípios e Procedimentos. 10° edição,
Campinas, SP- Pontes Editores, 2012.
__________. Discurso e Texto: Formulação e
Circulação dos sentidos- Campinas, SP: Pontes,
2 ° edição , 2005.
PERELMAN, C.; OLBRECHTS-TYTECA, L.
Tratado da argumentação – a nova Retórica.
São Paulo: Martins Fontes, 2000.
____________. Argumentação. In:
ENCICLOPÉDIA Einaudi. Lisboa: Imprensa
Nacional, 1987, p. 234-265.

Universidade Federal de São Carlos - São Carlos, São Paulo, Brasil - 2 a 4 de setembro de 2015.

114
JOVENS OU DELINQUENTES: ANÁLISE DAS FORMAÇÕES
DISCURSIVAS E IDEOLOGIAS NOS DISCURSOS
ANTAGÔNICOS ACERCA DA REDUÇÃO DA MAIORIDADE
PENAL NO BRASIL.

Monnyke Olga Barbosa ASSUNÇÃO


Universidade do Estado do Amazonas (UEA)
monnyke_assuncao@hotmail.com

Resumo: Este trabalho tem por propósito investigar os aspectos discursivos e ideológicos
latentes no discurso da presidente da república, Dilma Rousseff, publicado na sua página
institucional em uma rede social, acerca da diminuição da maioridade penal. Buscar-se-á
discutir as diferentes proposições face às ideologias em voga no momento em que os
discursos foram (re)produzidos, refletindo sobre a construção destas “verdades”,
percorrendo os caminhos interpretativos que lhe dão validade e legitimidade, à luz das
teorias da análise de discurso francesa, dentre elas, a do filósofo francês Michel
Foucault, no que diz respeito às relações entre verdade, direito, poder e sua aplicação
normativa. Ademais, serão exploradas as formulações de Michel Pêcheux e Louis
Althusser, verificando se o ideal de justeza perseguido pelo Estado e pelo Direito é de
fato atingido.
Palavras-chave: maioridade penal; análise de discurso; constituição federal.

mas o sentimento de impunidade e o clamor


Introdução
social por justiça diante dos delitos cometidos
O aumento significativo de crimes de por menores, tão veementemente noticiadas
alto potencial ofensivo praticados por jovens, pela mídia atual, deslocou o epicentro da
menores de 18 (dezoito) anos, reacendeu o discussão para a sociedade, deixando de ser
debate acerca da redução da maioridade penal monopólio do Estado determinar os rumos das
no Brasil, tema sobre o qual os legisladores e alterações legislativas.
juristas vêm refletindo desde a apresentação da
As manifestações populares a favor da
Proposta de Emenda à Constituição Federal do
modificação da responsabilidade criminal dos
Brasil nº 171, de 19 de agosto de 1993, pelo
menores obrigaram os parlamentares a sair do
deputado federal Benedito Domingos.
ponto de inércia e discutirem sobre o tema,
Tal projeto vem tramitando no posicionando-se e expondo suas concepções
Congresso Nacional há cerca de 22 (vinte e filosóficas e políticas, retomando, assim, a
dois) anos, sendo reiteradamente arquivado, votação da PEC 171/1993, recentemente

Universidade Federal de São Carlos - São Carlos, São Paulo, Brasil - 2 a 4 de setembro de 2015.

115
aprovada em primeiro turno pela Câmara dos sociedade, sendo finalmente concretizada no
Deputados, após duas sessões conturbadas e início do século XX, após muitas batalhas para
permeadas por polêmicas quanto à legitimidade que uma legislação amparasse as crianças e
do objeto da proposta e rito de aprovação. adolescentes. Em 1927, foi criado no Brasil o
Decreto nº 17.943, denominado de Código de
Tal questão tem sido analisada por
Menores, com vistas à proteção da criança que
diversos prismas, seja jurídico, biológico,
antes estava desprotegida, e a repressão aos
histórico, filosófico, sociológico, político ou
crimes infanto-juvenil. Várias outras leis foram
cultural, o que gera uma infinidade de discursos
editadas, até o advento do Código Penal de
dentro dos universos daqueles que são a favor e
1940, e posteriormente do texto constitucional
dos que são contra tal medida redutiva. E é
de 1988.
nessa esteira que a presente pesquisa buscará
identificar, no discurso produzido pela De acordo com o ainda vigente Código
presidente da república, Dilma Rousseff, em sua Penal, artigo 27, a inimputabilidade penal é
página institucional no Facebook, as ideologias aplicada aos menores de dezoito anos, sendo
latentes nos discursos (re)produzidos, refletindo vedado submetê-los a processo criminal,
sobre a construção destas “verdades”. aplicando-se, em caso de ilícito, as normas
previstas em legislação especial. Conclui-se que
Buscar-se-á os caminhos interpretativos
o ordenamento pátrio adotou um critério
que lhe dão validade e legitimidade, não por
puramente biológico ao optar pela presunção
meio de uma análise técnico-jurídica dos
absoluta da falta de discernimento do menor de
pressupostos legais acerca da temática, e sim
dezoito anos que praticar um fato descrito
através do estudo reflexivo das diversas teorias
como crime ou contravenção penal, não sendo
da análise de discurso francesa, dentre elas, a
possível infligir qualquer sanção penal.
do filósofo francês Michel Foucault, no que diz
respeito às relações entre verdade, direito, Uma grande inovação teve guarida no
poder e sua aplicação normativa, denominada texto da Constituição Federal de 1988, ao
de “formações discursivas”. elevar as normas constitucionais que tratam das
crianças e adolescentes ao nível de garantia
Ademais, serão exploradas as
individual fundamental, verdadeira cláusula
formulações de Louis Althusser sobre as
pétrea, sendo dever da família, da sociedade e
ideologias e os aparelhos ideológicos que as
do Estado protegê-los. Em seu artigo 228
materializam, transformando indivíduos em
passou a prever o limite de idade para a
sujeitos, e de Michel Pêcheux, sobre o discurso
imputação penal aos dezoito anos, afinando-se
como mecanismo de funcionamento das
com o previsto no Código Penal
ideologias e da interpelação dos indivíduos
como sujeitos. Fruto da percepção doutrinária de
direitos humanos, em 1990 foi publicado o
1. Breve histórico acerca da maioridade
Estatuto da Criança e Adolescente (ECA),
penal: critérios e previsão legal.
tendo por escopo resgatar a qualidade de
A criação de um rol de direitos sujeito de direito intrínseco a todo ser humano,
peculiares aos menores de idade sempre foi uma tratando sem discriminação de todas as crianças
preocupação dos juristas, médicos e a e adolescentes, adotando assim a doutrina da

Universidade Federal de São Carlos - São Carlos, São Paulo, Brasil - 2 a 4 de setembro de 2015.

116
proteção integral. O ECA não busca República, escreveu o seguinte texto em sua
simplesmente punir menores, mas, antes de página oficial no Facebook:
tudo, visa a ampará-los, recuperando os
delinquentes e reeducando-os, para que possam Nas últimas semanas, intensificou-se o
retornar à sociedade. debate sobre a redução da maioridade penal
no Brasil de 18 anos para 16 anos de idade.
O ECA procura especialmente Isso seria um grande retrocesso para o
estabelecer um sistema de preservação da nosso País. Há poucos dias, eu reiterei aqui
educação, sem abandonar as exigências de a minha posição contrária a esse tipo de
defesa social. Impõe-se a punição pelo fato iniciativa. E mantenho minha palavra.
praticado, mas as medidas se destinam Reduzir a maioridade penal não vai resolver
essencialmente a impedir que o adolescente o problema da delinquência juvenil. Isso não
volte a delinquir. As medidas têm, por isso, um significa dizer que eu seja favorável à
caráter mais subjetivo que objetivo, mais impunidade. Menores que tenham cometido
educativo que repressivo. algum tipo de delito precisam se submeter a
medidas socioeducativas, que nos casos
A aplicação das medidas sócio- mais graves já impõem privação da
educativas previstas no ECA buscam a liberdade. Para isso, o País tem uma
reeducação e reintegração à sociedade, legislação avançada: o Estatuto da Criança
corrigindo o adolescente infrator, sendo e do Adolescente, que sempre pode ser
pressuposto para a sua aplicação a prática de aperfeiçoado. Acredito que é chegada a hora
ato infracional. Já no caso das crianças são de ampliarmos o debate para alterar a
aplicadas as medidas específicas de proteção, legislação. É preciso endurecer a lei, mas
para punir com mais rigor os adultos que
considerando-se criança a pessoa até doze anos
aliciam menores para o crime organizado.
de idade incompletos, e adolescente, aquele
Eu já orientei o ministro da Justiça, José
entre doze e dezoito anos de idade. Eduardo Cardozo, a dar início a uma ampla
As normas acima descritas são os meios discussão com representantes das entidades
utilizados pelos operadores do Direito para e organizações da sociedade brasileira para
tratar a problemáticas dos delitos cometidos aprimoramento do Estatuto da Criança e do
pelos menores. A polêmica que se instalou na Adolescente. É uma grande oportunidade
sociedade, suscitando o debate do tema, e (re) para ouvirmos em audiências públicas as
vozes do nosso País durante a realização
produzindo diversos discurso dissonantes,
deste debate. Mas, insisto, não podemos
gravita em torno de um questionamento permitir a redução da maioridade penal.
principal: é justo que o menor de idade pratique Lugar de meninos e meninas é na escola.
crimes de alto potencial ofensivo, e não seja Chega de impunidade para aqueles que
efetivamente punido? aliciam crianças e adolescentes para o
2. “Lugar de criança é na escola”: análise do crime. (Publicado em 13 de abril de 2015).
discurso presidencial acerca da redução da
maioridade penal. É sabido que a Presidência da República
é a representação maior de um Estado, sendo o
Em um de seus pronunciamentos
símbolo das ideologias predominantes em uma
públicos, Dilma Rousseff, presidente da

Universidade Federal de São Carlos - São Carlos, São Paulo, Brasil - 2 a 4 de setembro de 2015.

117
classes de pronomes, que têm o mesmo
sociedade. O seu ocupante, ao exercer estatuto. São os indicadores da dêixis,
concomitantemente a chefia de governo e a demonstrativos, advérbios, adjetivos, que
chefia de estado, representa a vontade do povo organizam as relações espaciais e temporais
que governa, ou pelo menos de uma maioria, à volta do “sujeito” tomado como ponto de
uma vez que a investidura no cargo, haja vista o referência: “isto, aqui, agora”; e as suas
sistema democrático vigente no Brasil, se dá numerosas correlações: “aquilo, ontem, no
por meio de uma eleição direta por maioria ano passado, amanhã” etc. Tem em comum
absoluta dos cidadãos. E é neste espaço que definirem-se somente em relação à instância
encontramos a formação discursiva e ideológica de discurso em que são produzidos, isto é,
tida por dominante. sob a dependência do eu que aí se enuncia.
(BENVENISTE, 1992, p.53).
Chamaremos, então, formações discursivas
aquilo que, numa formação ideológica dada, Nas linhas três e treze, temos a presença
isto é, a partir de uma posição dada numa do pronome pessoal “eu” (ego). Resta claro,
conjuntura dada, determinada pelo estado da
pois, o posicionamento contrário da chefe de
luta de classes, determina o que pode e deve
estado no que concerne à criminalização de
ser dito (articulado sob a forma de uma
arenga, de um sermão, de um panfleto, de
menores, especialmente quando afirma que a
uma exposição, de um programa etc.) diminuição da maioridade penal seria “um
(PÊCHEUX, 1997, p. 160). grande retrocesso” (linha 02) para o País, o que
esclarece a valoração negativa atribuída pela
presidente à ação em tela.
Ao proferir o discurso em primeira
pessoa, cria-se um efeito de sentido de Tal medida, para a locutora, não traria
aproximação, subjetividade, marcando seu solução para o problema da delinquência
envolvimento pessoal com o tema, juvenil, propondo o reajustamento da situação
principalmente quando repete diversas vezes de criminalidade juvenil através de políticas
sua opinião através dos termos “ reiterei aqui educacionais, como forma de sanção positiva.
minha posição” (linha 03), “mantenho minha O tempo linguístico do enunciado é o
palavra” (linha 04), “insisto” (linha 18). presente, haja vista o emprego da expressão
Para Benveniste, a subjetividade tem “nas últimas semanas” (linha 01), e a publicação
como traço marcante o egocentrismo, do texto datar de 13 de abril de 2015. Assim,
colocando-se o “eu” numa posição de situa-se o acontecimento como contemporâneo
ascendência em relação ao “tu”, dado que da instância do discurso que o menciona,
daquele emergem todos os sentidos. É através representando também o momento presente na
do emprego de pronomes pessoais que se vida do interlocutor.
evidencia o aspecto subjetivo da linguagem: Afirma que a legislação que pune os
atos infracionais é avançada, embora necessite
Os pronomes pessoais é o primeiro ponto de
apoio para o esclarecimento da
de ajustes, e encerra sugerindo que a
subjetividade na linguagem. Destes modificação da legislação deve atingir não os
pronomes dependem, por sua vez, outras menores delinquentes, mas os imputáveis que
aliciam os jovens para praticar crimes.

Universidade Federal de São Carlos - São Carlos, São Paulo, Brasil - 2 a 4 de setembro de 2015.

118
poder, quais as ideias e estratégias de repressão
Ao conclamar a sociedade para o
ou persuasão lançadas para garantir sua
debate, aparentemente transfere o poder de
sobrevivência (ALTHUSSER, 1985, p. 09-10).
decisão para o povo, entretanto, condiciona a
discussão à alteração da legislação aplicável aos Na sua concepção, a ideologia constitui-
adultos que aliciam menores, deslocando a se de dois aspectos fundamentais: o imaginário
solução da seara constitucional, mais rígida e e o material. Do ponto de vista da
segura, para a infraconstitucional, legal, representação imaginária dos indivíduos com
caracterizada pela maleabilidade. Eis o suas condições reais de existência, Althusser
posicionamento de Foucault acerca do que ele entende que as concepções de mundo são
denomina rede de poder, a multiplicidade de fantasiosas, não correspondem à verdade, ao
relações que permeiam toda a sociedade: real:

Rigorosamente falando, o poder não existe; [...]toda a ideologia representa, na sua


existem práticas de ou relações de poder. O deformação necessariamente imaginária,
que significa dizer que o poder é algo que se não as relações de produção existentes (e as
exerce, que se efetua, que funciona. E tudo outras relações que delas derivam), mas
funciona como uma maquinaria, como uma antes de mais a relação (imaginária) dos
máquina social que não está situada em um indivíduos com as relações de produção e
lugar privilegiado ou exclusivo, mas que se com as relações que delas derivam. Na
dissemina por toda a estrutura social. Não é ideologia, o que é representado não é o
um objeto, uma coisa, uma relação. E esse sistema das relações reais que governam a
caráter relacional do poder implica que as existência dos indivíduos, mas a relação
próprias lutas contra seus exercício não imaginária destes indivíduos com as
possam ser feitas de fora, de outro lugar, do relações reais que vivem. (ALTHUSSER,
exterior, pois nada está isento do poder. 1970, p. 82).
Qualquer luta é sempre resistência dentro da
própria rede de poder, tela que se alastra por Sob o ponto de vista da materialidade, a
toda a sociedade e a que ninguém pode ideologia seria um conjunto de práticas
escapar: ele está sempre presente e se exerce
materiais fundamentais à reprodução das
como uma multiplicidade de relações e
relações de produção, dado que representam os
forças. E como onde há poder há resistência,
não existe propriamente o lugar de
interesses materiais de uma determinada classe,
resistência, mas pontos móveis e transitórias efetivando-se em práticas sociais inscritas em
que também se distribuem por toda a instituições concretas, reguladas por rituais no
estrutura social. (FOUCAULT, 1999, p. seio dos aparelhos ideológicos do Estado.
16). Em síntese, as práticas sociais só
existem por meio da ideologia, e a ideologia,
São aplicáveis à fala da presidente para os sujeitos e por meio deles. É a ideologia
Dilma as lições do teórico do discurso Louis que interpela os indivíduos e os converte em
Althusser sobre ideologia e aparelhos sujeitos, sendo exercida e imposta pelos
ideológicos. Ele pesquisou sobre o modo como aparelhos ideológicos vigentes, dentre eles, o
a classe dominante se reproduz e se mantém no Estado:

Universidade Federal de São Carlos - São Carlos, São Paulo, Brasil - 2 a 4 de setembro de 2015.

119
[...] uma ‘máquina de repressão’ que 3. Reflexões discursivas sobre a redução da
permite às classes dominantes (no século maioridade penal
XIX à classe burguesa e a ‘classe’ dos Em pesquisa realizada pelo Instituto
proprietários de terras) assegurar a sua Datafolha no dia 22 de junho de 2015, cerca de
dominação sobre a classe operária para 87% dos brasileiros posicionaram-se a favor da
submetê-la ao processo de extorsão da mais- redução da maioridade penal de 18 para 16
valia (quer dizer, à exploração capitalista).
anos. Ao todo, 2.840 pessoas foram ouvidas em
(ALTHUSSER, 1970, p. 31).
174 cidades. A margem de erro da pesquisa é
de dois pontos porcentuais para mais ou para
O escopo da classe dominante é manter menos. Os contrários à redução da maioridade
o poder de Estado como forma de manipular os penal representam 11% do total, enquanto 1% é
seus aparelhos ideológicos de Estado, que por indiferente e outro 1% não soube responder.
sua vez serve como instrumento de luta contra
as possíveis resistências da classe dominada, já No dia 02 de julho de 2015, a Câmara
que lhe cabe ditar as regras e as normas de dos Deputados aprovou, em primeiro turno, a
convivência, o padrão, punindo os que redução da maioridade penal de 18 para 16
transgredirem seus mandamentos. anos para crimes hediondos, para homicídio
doloso e lesão corporal seguida de morte.
Ideologicamente, o Partido dos Foram 323 votos a favor, 155 deputados
Trabalhadores (PT), ao qual Dilma Rousseff é votaram contra a redução e houve ainda 2
filiada, é majoritariamente social-democrata, abstenções. O texto passará por um segundo
embora declare-se socialista, o que significa turno de votação na mesma Casa, seguindo
dizer que o modelo que o PT representa no para o Senado Federal.
poder é o da construção do bem-estar da
sociedade, através das políticas sociais, da Eis que os ensinamentos de Michel
defesa dos segmentos mais pobres, da Pêcheux são mais do que pertinentes para
maximização do Estado e uma maior entender essa dissonância entre o discurso
intervenção na economia e na vida social. estatal, o legislativo e o social. A
reprodução/transformação das relações sociais
Uma vez que a maioria dos jovens ocorrem no seio dos aparelhos ideológicos de
delinquentes são pobres, negros, que vivem nas Estado, materializando as ideologias e
periferias das grandes cidades sem acesso à vertendo-as em formações ideológicas. Torna-
educação de qualidade, o discurso presidencial se o discurso o local onde se constituem o
afina-se com a ideologia partidária voltada à sujeito e o sentido, mediados estes pela
defesa das minorias sociais. materialidade da língua e ideologias.
Mas o que acontece quando o discurso
imposto pelo Estado não mais se alinha com as [...] o sentido de uma palavra, de uma
expressão, de uma proposição, etc., não
ideologias majoritárias, quando a classe
existe “em si mesmo” [...] mas, ao contrário,
dominante muda de posicionamento, indo de
é determinado pelas posições ideológicas
encontro ao aparelho ideológico legitimador e que estão em jogo no processo sócio-
legitimado? histórico no qual as palavras, expressões e

Universidade Federal de São Carlos - São Carlos, São Paulo, Brasil - 2 a 4 de setembro de 2015.

120
proposições são produzidas (isto é,
reproduzidas). [...] as palavras, expressões,
fragilidades do discurso da verdade face ao
proposições, etc., mudam de sentido ideal de justeza. Através da visão do filósofo,
segundo as posições sustentadas por aqueles podemos identificar as formas concretas de
que as empregam, o que quer dizer que elas manifestação de poder, as limitações produzidas
adquirem seu sentido em referência a essas pelo regime de saber, e pelas verdades
posições, isto é, em referência às formações produzidas por meio do conhecimento. Nas
ideológicas [...] nas quais essas posições se palavras do próprio autor:
inscrevem. (PÊCHEUX, 1997, p.160).
Produz-se verdade. Essas produções de
verdade não podem ser dissociadas do poder
Sendo o discurso um dos caracteres da
e dos mecanismos de poder, ao mesmo
materialidade ideológica, ele apenas terá sentido tempo porque esses mecanismos de poder
para um sujeito quando este o reconhece como tornam possíveis, induzem essas produções
pertencente a determinada formação discursiva. de verdade, e porque essas produções de
Pêcheux estabelece que os valores ideológicos verdade têm, elas próprias, efeitos de poder
de uma formação social estão representados no que nos unem, nos atam. São essas relações
discurso por uma série de formações verdade/poder, saber/poder que me
imaginárias, que designam o lugar que o preocupam. Então, essas camadas de objeto,
destinador e o destinatário se atribuem ou melhor, essa camada de relações é difícil
mutuamente. de apreender; e como não há teorias gerais
para apreendê-las, eu sou, se quiserem, um
Leciona Fiorin que, empirista cego, que dizer, estou na pior das
situações. (FOUCAULT, 2002, p. 299).
o discurso deve ser visto como objeto
lingüístico e como objeto histórico. Nem se
pode descartar a pesquisa sobre os É imprescindível investigar essa relação
mecanismos responsáveis pela produção do interativa entre o poder e a construção de
sentido e pela estruturação do discurso nem sujeitos por meio dos regimes de verdade e o
sobre os elementos pulsionais e sociais que saber, haja vista a necessidade de
o atravessam. Esses dois pontos de vista não homogeneização clamada pela coletividade,
são excludentes nem metodologicamente sendo a norma o ponto de partida para toda a
heterogêneos. A pesquisa hoje precisa atividade interpretativa, campo perfeito para a
aprofundar o conhecimento dos mecanismos atuação da arqueologia do poder foucaultiana.
sintáxicos e semânticos geradores de
sentido; de outro, necessita compreender o 4. Considerações finais
discurso como objeto cultural, produzido a É de fundamental importância esgotar as
partir de certas condicionantes históricas,
discussões a respeito da alteração da
em relação dialógica com outros textos.
Constituição Federal do Brasil no que diz
(FIORIN, 1990, p. 177).
respeito à redução da maioridade penal, por se
tratar de garantia individual que visa a proteger
Os estudos foucaultianos permitem os menores e evitar tratamentos
alcançar a discursividade e as relações de poder desproporcionais. Entretanto, é imprescindível
que perpassam o direito, revelando as analisar de forma científica e objetiva, livre de

Universidade Federal de São Carlos - São Carlos, São Paulo, Brasil - 2 a 4 de setembro de 2015.

121
discursos de poder, contaminados por
______. A microfísica do poder. 14. ed. Rio de
ideologias egocêntricas e defasadas.
Janeiro: Edições Graal, 1999.
A sociedade clama por um debate
______. A verdade e as formas jurídicas. 3.
aprofundado do tema sob os mais diversos
Ed. Rio de Janeiro: Nau Editora, 2002.
aspectos, entretanto, evidenciar as ideologias
por traz dos enunciados aparentemente HAROCHE, C.; PÊCHEUX, M.; HENRY, P.
científicos, revestidos de uma validade A semântica e o corte saussuriano: língua,
conferida pelo exercício legitimado do poder é linguagem, discurso. In: BARONAS, R. L.
salutar para uma reflexão transdisciplinar crítica (Org.). Análise do discurso: apontamentos para
acerca do Direito, compreendido enquanto uma história da noção-conceito de formação
instituição e discurso, e os diálogos gerados discursiva. São Carlos: Pedro & João Editores,
dentre os diversos personagens que o rodeia, à 2007.
luz de parâmetros externos, relacionados à PÊCHEUX, M. Semântica e discurso: uma
atividade interpretativa e construção da crítica à afirmação do óbvio. Tradução de Eni
linguagem, revelando as várias camadas de Pulcinelli Orlandi et al. Campinas: Ed. da
significações, as formações discursivas e UNICAMP, 1997.
ideologias atuantes, verificando-se sua
adequação à realidade e consonância com o ______. O discurso: estrutura ou
sentimento social vigente. acontecimento. 4.ed. Tradução de Eni Pulcinelli
Orlandi. Campinas: Pontes, 2006.
______. Ideologia e Aparelhos ideológicos de
Referências estado. Lisboa: Presença 1970.
ALTHUSSER, L. Aparelhos ideológicos de ROUSSEF, D. Página pessoal. Presidência da
estado: Nota sobre os aparelhos ideológicos de República. Apresenta textos e reflexões
estado. 3 ed. Rio de Janeiro: Graal, 1985. publicados pela presidente da república.
BAKHTIN, M. Estética da criação verbal. 4. Disponível em: <https://pt-
ed. São Paulo: Martins Fontes, 2003. br.facebook.com/SiteDilmaRousseff/posts/8992
71186793140>. Acesso em: 13 abr. 2015.
______. Marxismo e filosofia da
linguagem: Problemas fundamentais do método
sociológico na ciência da linguagem. 9. ed. São
Paulo: Hucitec, 1999.
BENVENISTE, E. O homem na linguagem. 2.
ed. Lisboa: Vega, 1992.
FIORIN, J. L. Tendências da análise do
discurso. Estudos Lingüísticos, São Paulo,
1990.
FOUCAULT, M. A arqueologia do saber. 5.
ed. Rio de janeiro: Forense Universitária, 1997.

Universidade Federal de São Carlos - São Carlos, São Paulo, Brasil - 2 a 4 de setembro de 2015.

122
DE UM CORPO HETEROTÓPICO: SOBRE UM OLHAR QUE
FISCALIZA A PROSTITUTA

Elizete de Souza BERNARDES1


Universidade Federal de São Carlos (UFSCar)
elizete_sb@hotmail.com

Resumo: O corpo da prostituta como uma heterotopia: espaço onde diferentes lugares se
“cruzam, neutralizam, secundam ou invertem a rede de relações por si designadas,
espelhadas, refletidas” (FOUCAULT, 2009). Neste artigo, buscamos compreender as
dizibilidades possíveis do corpo da prostituta, a partir das letras jurídicas penais, dos
anos 40. Para tanto, nos fazemos valer das considerações sobre a Semiologia Histórica,
inaugurada por J.J. Courtine (1988; 2013), cujas contribuições são indissociáveis dos
estudos do discurso e de um trabalho com Foucault, principalmente, a respeito do corpo
como uma emergência política. Desejamos contribuir para pensar o corpo como um
objeto discursivo e retirar um pouco de sua opacidade tecida na linguagem.
Palavras-chave: semiologia histórica; corpo; prostituta.

Espaços que se encadeiam, porém, também se


Introdução
contradizem; espaços entre o público e o
O corpo fala. A partir dessa premissa, privado, o sagrado e o profano; espaços de
Jean-Jacques Courtine, na História do Rosto desvio (FOUCAULT, 2009). O corpo como um
(1988), nos convida a pensar uma semiologia da signo discursivizado a partir do olhar do
superfície corporal, “como se lentamente se legislador, do padre, do médico, do psiquiatra,
interpusesse entre o rosto e o olhar que o etc. Significantes e significados do corpo,
observa o véu silencioso e quase transparente indissociáveis do olhar. Olhares que fiscalizam,
da linguagem”. Corpo e discurso como uma controlam, policiam, diagnosticam, propõem
articulação tecida pela linguagem cujos lugares ordens de discursos sobre o corpo.
de memórias evocados nos impelem a
O nosso fio condutor para a análise das
“inventar” o corpo da prostituta como uma
materialidades discursivas legislativas é o
heterotopia, a partir de diferentes saberes que
corpo. O objetivo de nossa escrita é refletir
se engendram para constituir este sujeito.
como a lei brasileira (penal, principalmente) tem

1
Bolsista pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) com o projeto intitulado De um
corpo tão gentil como profano: uma história de saber-poder sobre as prostitutas no Brasil. (número do processo
2013\16256-4).

Universidade Federal de São Carlos - São Carlos, São Paulo, Brasil - 2 a 4 de setembro de 2015.

123
novos objetos, novos conceitos, novas
construído o sujeito “prostituta”, a partir do técnicas, mas também fazem nascer formas
contraponto do corpo, imerso em relações totalmente novas de sujeitos e de sujeitos de
discursivas patriarcais, marcando desigualdades conhecimento” (FOUCAULT, 2002, p. 8).
sociais e delineando o que é ser “mulher
honesta” e o que é ser “prostituta”.
Sob esse viés, chegamos ao primeiro
A questão que norteia nossa escrita é: ponto elencado acima: as mutações do olhar
como o corpo da “prostituta” entrou em um sobre o corpo se dão a partir das práticas
regime de visibilidades e de dizibilidades? Ou sociais e do engendramento com outros
seja, a partir dos olhares que se lançam sobre a domínios do saber.
morfologia de seus corpos, como determinados
enunciados emergem? Essa questão está A transfusão de sangue, o aborto, o
implicada em campos de saberes que se transplante de órgão, a inseminação artificial,
engendram (filosófico, anatômico e médico), de entre outros exemplos são práticas muito
olhares que percorrem o corpo e ditam recentes (década de 80) que reclamaram do
“verdades” históricas. Direito uma posição teórica e pragmática sobre
os direitos da pessoa em dispor de seu corpo.
A vigilância, punição, objetivação do Com efeito, por muito tempo, o olhar jurídico
sujeito a partir de práticas jurídicas se sobre a pessoa era totalizante, no sentido de
inscrevem sobre o corpo. Este é, por ora, o que corpo e pessoa são indivisíveis,
próprio sujeito(-pessoa) e, em outro momento, indissolúveis.
o objeto. A metodologia empregada será de
fundo bibliográfico e segue o próprio conceito A pena não passará da pessoa do
de Arquivo, formulado por Foucault (2013), condenado carrega consigo a ideia de que as
cuja irrupção dos enunciados legislativos está punições sofridas pela pessoa serão inscritas na
implicada numa espessura histórica. Para tanto, superfície de seu corpo. O corpo-pessoa, no
o aporte teórico segue A verdade e as formas âmbito do Direito Civil, enquanto bem fora do
jurídicas (FOUCAULT, 2002), entre outros. comércio e uma das conquistas advindas com a
Desejamos contribuir para o enriquecimento Declaração dos Direitos Humanos, é uma
dos estudos discursivos sobre o corpo no garantia contra o retorno da escravidão e por
campo do Direito. outro lado também marca a não dissociação do
corpo à pessoa. Por fim, o fio discursivo que,
1. O corpo, em outros lugares de saberes por muito tempo, perpassou o campo do saber
Com Michel Foucault (2002), a jurídico enunciava: a pessoa é um corpo. Ser
construção do saber está diretamente ligada a pessoa implicava ser um corpo e vice-versa:
uma construção da verdade. Em outros termos: existência e identidade.
o filósofo ao analisar as formas jurídicas do Ao contrário: a pessoa tem um corpo é
inquérito mostrou como elas dão origem a o enunciado que rege a visão dualista que
determinadas formas de verdade em nossa vigora em outros campos do saber, a despeito
sociedade. As práticas sociais, afirma o autor, do monismo jurídico. A prática de dissecação
do corpo, na Anatomia; o homem cartesiano,
podem chegar a engendrar domínios de
composto por uma alma (lugar das paixões,
saber que não somente fazem aparecer

Universidade Federal de São Carlos - São Carlos, São Paulo, Brasil - 2 a 4 de setembro de 2015.

124
emoções, sentimentos, res cogitans) e um
corpo (que evocaria um lugar de memória de [...] a asserção vaga e geral segundo a qual
uma máquina, a res extensa) (DESCARTES o corpo desde sempre “falaria”, ganha
[1664], 1986); as práticas médicas (transfusão sentido no processo de longa duração
de sangue, aborto, transplante, inseminação histórica em que a pouco e pouco o corpo se
artificial, etc.) marcam a des-subjetivação do constitui como sinal: livre, primeiramente, e
em que Deus imprimia os seus
corpo.
mandamentos, onde os astros depositavam o
2. Corpo sagrado e corpo profano seu cunho eterno, em que ainda se podia ver
o reflexo das semelhanças animais; depois,
O corpo fala: essa é a premissa que,
retórica, submetendo o corpo ao império
numa historicidade da linguagem e dos das figuras e das posturas; linguagem
discursos, nos permite enxergar o corpo como traduzindo no rosto a singularidade, a
um signo. O corpo-signo imerso num mundo sensibilidade do indivíduo; organismo
encantado, onde os astros e o macrocosmo ignorando a interioridade, a sensibilidade do
ditariam o destino, as misérias, e toda uma vida indivíduo; organismo ignorando a
revelada pelos sinais faciais ou corporais de interioridade individual na língua das
alguém. O corpo-signo que, a partir de uma reações e dos sintomas; finalmente discurso
racionalização do mundo, vê-se desfazer procurando a conjunção problemática entre
lentamente a fisignomia morfológica do corpo e o indivíduo e o seu corpo. (COURTINE e
as qualidades da alma, conforme desenlaça HAROCHE, 1988, p. 219).
Courtine (2013). O corpo-signo que, afinal, é
um corpo político, lugar onde as relações de O Código Penal Brasileiro de 1940,
saber, de poder vão marcá-lo, adestrá-lo, antes do advento da Lei 11.106/2005, trazia,
docilizá-lo, vigiá-lo e puni-lo, conforme sob o Título “Dos Crimes contra os costumes”,
reinventou Foucault, no final da década de 70. os delitos cujo sujeito passivo deveria ser
A legibilidade do corpo e do rosto, portanto, necessariamente mulher honesta (ex.: “Art.
corresponde a maneiras de dizer sobre o corpo. 215. Ter conjunção carnal com mulher honesta,
Os modos de vê-lo já são discursos: como se mediante fraude”; “Art. 219. Raptar mulher
diz sobre ele, seja a partir do olhar do campo da honesta, mediante violência, grave ameaça ou
medicina, da psiquiatria, da política, do direito fraude, para fim libidinoso”; etc.) (BRASIL,
está imerso em transformações dos saberes do 1940). De modo que, a prostituta ou “mulher
corpo – e tais saberes se engendram. pública” se torna sujeito a partir de práticas
A semiologia histórica do corpo é divisoras: “O sujeito é dividido no seu interior
indissociável da palavra que o diz e do olhar em relação aos outros. Este processo o
que o perscruta, de uma arqueologia dos objetiva. Exemplo: o louco e o são, o doente e
discursos e de uma genealogia dos olhares, o sadio, o criminoso dos ‘bons meninos’”
segundo lembra Courtine (2013). Nessa toada, (FOUCAULT, 2005, p. 231). De um lado, a
a historicidade de como se viu o corpo é mulher honrada, digna, esposa, mulher e dona
costurado pelo discurso: de casa. Na outra ponta, a mulher prostituta.
Esta seria extensamente rotulada no Dicionário
Houaiss a partir do verbete meretriz:

Universidade Federal de São Carlos - São Carlos, São Paulo, Brasil - 2 a 4 de setembro de 2015.

125
(vagina) ou sobre as partes que se relacionam
meretriz s.f. mulher que pratica meretrício, com o ato sexual de penetração (pênis-vagina).
que mercadeja o corpo [...] SIN/VAR
alcouceira, andorinha, bagaço, bagageira,
Com efeito, a sexualidade e a própria
bagaxa, bandarra, bandida, barca, bebena, anatomia feminina foram construídas, na cultura
besta, biraia, bisca, biscaia, biscate, Ocidental, a partir de dois tabus: a virgindade e
bocetinha, bofe, boi, bruaca, bucho, cação, a menstruação. O sangue menstrual por muito
cadela, cantoneira, caterina, catraia, china, tempo foi (e, hoje, ainda entra em
clori, cocote, coirão, cortesã, courão, couro, descontinuidade) visto como manifestação de
cróia, croque, cuia, culatrão, dadeira, dama, impureza, sendo a maternidade tolerada apenas
decaída, égua, ervoeira, fadista, fêmea, em razão “da necessidade de as espécies se
findinga, frega, frete, frincha, fuampa, fusa, reproduzirem”. (ABREU, 2007, p. 54). Ao lado
galdéria, galdrana, galdrapinha, ganapa, da menstruação, o tabu da virgindade foi,
horizontal, jereba, loba, loureira, lúmia, segundo Abreu (idem), uma das tradições que
madama, madame, marafa, marafaia, mais estigmatizou a mulher. A atividade sexual
marafantona, marafona, marca, mariposa,
desta “enquadrava a mulher em duas categorias
menina, meretrice, messalina, michê,
distintas: a da mulher virgem ou casta e a da
michela, miraia, moça, moça-dama, mulher
dama, mulher-solteira, mundana, murixaba,
mulher libertina ou perdida”. (idem, p. 60).
muruxaba, paloma, pécora, pega, perdida, Nessa dicotomia, havia apenas duas
perua, piranha, piranhuda, pistoleira, alternativas: a relação sexual legal, no
piturisca, prostituta, puta, quenga, rameira, matrimônio, e a relação sexual à margem do
rapariga, rascoa, rascoeira, reboque, rongó, casamento, a prostituição. No corpo feminino,
solteira, tapada, tolerada, transviada, se inscreveriam o caráter e as qualidades morais
tronga, vadia, vaqueta, ventena, vigarista, – a exemplo dos fisignomistas do século XIII.
vulgívaga, zabaneira, zoina, zorra; e as
O tabu da menstruação e o da
loc.: mulher à-toa, mulher da comédia,
mulher da rótula, mulher da rua, mulher da
virgindade se inscrevem sob a superfície do
vida, mulher da zona, mulher de amor, corpo. Utilizam-se elementos morfológicos e
mulher de má nota, mulher de ponta de rua, anatômicos para naturalizar uma relação de
mulher do fado, mulher do fandango, mulher força, de poder, de uma história patriarcal e
do mundo, mulher do pala aberto, mulher misógina que se constrói no mundo Ocidental,
errada, mulher perdida, mulher pública, elevando os homens ao nível de uma
mulher vadia etc. (HOUAISS, 2001, p. superioridade em detrimento à mulher. Assim, a
1899). constituição corporal da mulher cumpre o papel
de justificar, reiterar, confirmar essa
Ao lado de sinônimos de animais, a inferioridade “natural” do feminino frente ao
prostituta também será classificada nesta masculino. Todavia, conforme alerta Michel
entrada do dicionário a partir de seu corpo: Foucault em História da Sexualidade – a
aquela que mercadeja o corpo ou a partir de vontade de saber (1999), o sexo não é uma
partes específicas do corpo feminino (não se propriedade biológica (corpo-sexo-desejo), mas
fala, por exemplo, do pé, do pescoço, do nariz, o sexo é história e discurso. O corpo da mulher
das mãos): se diz sobre suas partes íntimas

Universidade Federal de São Carlos - São Carlos, São Paulo, Brasil - 2 a 4 de setembro de 2015.

126
entra em uma rede de discursos que se Figura 2. As linhas faciais de uma prostituta3
transformam ao longo da História.
A espessura histórica nos convida a
resgatar as linhas faciais catalogadas, no século
XII, pelo fisignomista Jerôme Cardan (1658)
em que deciframos o sujeito “prostituta” a
partir de seu rosto (Figuras 1 e 2). “Trata-se de
converter os indícios que libera o percurso do
olhar sobre o corpo em signos”, conforme
aponta Jean-Jacques Courtine (2013, p. 49). A
prática da metoscopia, conforme se apresenta
no prefácio do livro do Cardan (1658), “se
constitui de uma prática divinatória fundada
sobre as marcas inscritas no rosto pelos astros Os signos que se apresentam na prática
determinando o destino do indivíduo” (idem). da metoscopia aos olhos do fisignomista; os
Cuida de decifrar, a partir de uma leitura da sintomas que se apresentam sob o olhar médico
exterioridade, a interioridade do indivíduo: suas sinalizam para aquilo que insistimos desde o
paixões, vícios, virtudes, inclinações, etc. início: o corpo é um signo. Nas letras jurídicas,
Figura 1. Uma prostituta, ainda que se case2 essa premissa ganha contornos que são mais
estreitos, por considerarmos o Direito como
uma “língua de madeira”, conforme aprendemos
com Pêcheux (2012, p. 99): “estabelecida como
equivalente à realidade, a ordem da língua seria,
então, categórica, séria, precisa. O significado
existiria em si próprio porque coincidiria com
palavras na realidade de uma ideologia”. Assim,
a “mulher honesta” está para a castidade de seu
corpo bem como a “prostituta” está para
perversão, no Código Penal da década de 40.
Esta vontade de verdade terá como fio
condutor o saber “pelo modo como ele é
aplicado em uma sociedade, como é valorizado,
distribuído, repartido e de certo modo
atribuído”. (FOUCAULT, 2011, p. 17). Em
outras palavras:

Essa vontade de verdade, assim apoiada


sobre um suporte e uma distribuição
2
Cf. CARDAN, J. Métoscopie, 1658, p. 9. O livro
encontra-se disponível na Biblioteca Nacional da França
3
(BnF), Paris. Idem, p. 24.

Universidade Federal de São Carlos - São Carlos, São Paulo, Brasil - 2 a 4 de setembro de 2015.

127
institucional tende a exercer sobre os outros
discursos [...] uma espécie de pressão e
gênero colocarão em xeque a ilusória
como que um poder de coerção. [...] Penso transparência do corpo; a Marcha das Vadias,
na maneira como um conjunto tão prescrito recentemente, negou qualquer adjetivo: nem
como o sistema penal procurou seus santa nem puta, mulher! foi um desdobramento
suportes ou sua justificação, primeiro, é da emergência do enunciado do “direito de
certo em uma teoria do direito, depois, a dispor de seu corpo”. O novo no interior da
partir do século XIX, em um saber repetição de que meu corpo me pertence, de
sociológico, psicológico, médico que não caberia ao Outro sua regulamentação
psiquiátrico: como se a própria palavra da sua normatização, o ditado de um discurso
lei não pudesse mais ser autorizada, em “verdadeiro”. A emergência no Brasil, nos anos
nossa sociedade, se não por um discurso de 2000, de um projeto para regulamentação da
verdade. (FOUCAULT, 2011, p. 19). profissão da prostituta. E, aqui, a prostituta
também é res-significada por sua nova
4. Considerações finais nomeação: a profissional do sexo seria
Quando consideramos o corpo da “reinventada” quando se reconhece o seu ofício
prostituta, no campo do saber jurídico, como – contudo, impossível tolher os efeitos de
uma heterotopia, estamos pensando nos sentidos históricos que entram em
diferentes discursos que ali entram em uma rede descontinuidade.
de memórias, de ativação, de apropriação, de O discurso verdadeiro de um saber do
res-significação. Uma heteretopia de desvio – Direito. Este é emprenhado de uma vontade de
da norma, da mulher honesta, de família, do saber. O que importará, a partir de então, é “o
casamento, etc. – mas, sobretudo, uma sentido, a forma, o objeto, a relação, a
heteretopia que ainda é permeada pela presença referência”, como observa Foucault (2011, p.
do sagrado: entre o corpo da virgem (Maria) e 17).
o corpo da Madalena, o discurso dicotomiza os
Todas as mutações discursivas que
sujeitos. Um corpo investido por exercício de
vamos assistir, ao longo de um período, nos
poderes que ora o colocam numa clínica de
reafirmam o poder do discurso. Este, afinal,
reabilitação, remontando a práticas divisoras,
“não é simplesmente aquilo que traduz as lutas
sim, mas, sobretudo, a um percurso do olhar a
ou os sistemas de dominação, mas aquilo por
partir dos sinais do corpo. O corpo como um
que, pelo que se luta, o poder do qual nos
signo, também sausseriano, se relembrarmos
queremos apoderar” (FOUCAULT, 2011, p.
que ele é formado pelo significante, da ordem
10). O exercício de poder se dá nessa relação
do verbo, e o significado, da ordem do
de interioridade com a resistência. Em outros
discurso.
termos, “lá onde há poder, há resistência”
Nossas considerações seguem uma (FOUCAULT, 1999, p. 91). Os exercícios de
descontinuidade ao longo da irrupção dos poder por serem pulverizados, também
movimentos da minoria, na virada dos anos 70. encontram pontos polimorfos. As relações de
O corpo como instrumento político nas poder “não podem existir senão em função de
reivindicações trazidas pelas feministas no grito uma multiplicidade de pontos de resistência que
do Nosso corpo nos pertence; as teorias do representam, nas relações de poder, o papel de

Universidade Federal de São Carlos - São Carlos, São Paulo, Brasil - 2 a 4 de setembro de 2015.

128
adversário, de alvo, de apoio, de saliência que
_________. Les corps utopique, Les
permite a apreensão” (idem, ibidem).
Hétérotopies. Paris : Nouvelles Éditions Lignes,
A lei não teria um estatuto soberano, 2009.
não concentraria um poder monárquico a partir
________. História da sexualidade: a vontade
do qual diria o “não”, as interdições, proibições
de saber. Trad. Maria Thereza da Costa
e censuras a respeito do sexo. Essa hipótese,
Albuquerque e J. A. Guilhon Albuquerque. Rio
chamada de repressiva, é afastada por Foucault.
de Janeiro: Edições Graal, 1999.
Com efeito, na sociedade Ocidental haveria
muito mais uma incitação ao dizer (sobre o ________. A verdade e as formas jurídicas. 3
sexo). Os exercícios dos poderes seriam ed. Trad. Roberto Cabral de Melo Machado e
pulverizados. Eduardo Jardim Morais. Rio de Janeiro: NAU
Editora, 2002.
________. A arqueologia do saber. 8 ed. Trad.
Referências
Luiz Felipe Baeta Neves. Rio de Janeiro:
ABREU, M. Z. G. O sagrado feminino: da Pré- Forense Universitária, 2013.
História à Idade Média. Lisboa: Edições
________. O sujeito e o poder. In.: Rabinow,
Colibri, 2007.
P. & Dreyfus, H. Michel Foucault. Uma
BRASIL. Senado Federal. DECRETO-LEI Nº trajetória filosófica. Rio de Janeiro: Forense
2.848, DE 7 DE DEZEMBRO DE 1940. Universitária, 1995, p. 231-249.
Disponível em:
MERETRIZ. In.: Dicionário Houaiss de
http://www2.camara.leg.br/legin/fed/declei/194
Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: Objetiva,
0-1949/decreto-lei-2848-7-dezembro-1940-
2001.
412868-publicacaooriginal-1-pe.html. Acesso
em 15 set. 2015. PÊCHEUX, M.; GADET, Françoise. A língua
inatingível. In.: _____. Análise de discurso:
COURTINE, J.-J. Decifrar o corpo: pensar
Michel Pêcheux: textos escolhidos por Eni
com Foucault. Trad. Francisco Morás.
Orlandi. Campinas, SP: Pontes, 2012.
Petrópolis, RJ: Vozes, 2013.
_______; HAROCHE, C. História do Rosto:
exprimir e calar as suas emoções (do século
XVI ao início do século XIX). Trad. Ana
Moura. Lisboa: Torema, 1988.
DESCARTES, R. L’homme de René Descartes.
In. : Oeuvres de Descartes : Le monde,
descriptions du corps humain, passions de
l’âme, anatomica, varia. Paris : Librairie
philosophique J. Vrin, 1986.
FOUCAULT, M. A ordem do discurso. 21. ed.
São Paulo: Edições Loyola, 2011.

Universidade Federal de São Carlos - São Carlos, São Paulo, Brasil - 2 a 4 de setembro de 2015.

129
A CONSTRUÇÃO DE SENTIDOS: OS EFEITOS DO MEDO NA
VOZ DA ESPERANÇA

Maria Jackeline Rocha BESSA


Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN)
Jakyy84@hotmail.com

Resumo: Neste trabalho objetivamos descrever e interpretar as estratégias discursivas


sobre o futebol brasileiro, que estão materializadas nos enunciados do jornal esportivo
argentino Olé, destacando os efeitos de sentido produzidos, ligados a uma memória
discursiva sobre o futebol. Para tanto, utilizamos os pressupostos teórico-metodológicos
da Análise do discurso, na interface dos trabalhos de Michel Pêcheux e Michel Foucault,
discutindo categorias como: sujeito, efeito de sentido, memória discursiva, interdiscurso,
acontecimento discursivo e enunciado. Nesse caso específico, nos propomos a analisar o
enunciado discursivo de uma reportagem intitulada ya tengo miedo que discursiviza sobre
um momento antes do acontecimento Copa do Mundo em que, Neymar, considerado um
dos jogadores mais importantes da seleção brasileira, mostrava medo de jogar o
campeonato. É nesse entremeio que o jornal discursiviza e acaba por possibilitar a
construção de sentidos de deslizes discursivos.
Palavras-chave: Jornal Olé; Sentido; Discurso.

focalizando a produção discursiva dos discursos


que circulam na sociedade. Dessa forma, é
Introdução possível observar que há também uma
Os estudos ligados ao campo da articulação com a historicidade e com exterior,
linguagem vêm mostrando uma evolução nas estes que acabam por constituir os efeitos de
últimas décadas. Logo após 1960, com a virada sentido dos enunciados.
linguística, algumas disciplinas evoluíram, É com um olhar discursivo que
dentre essas, a Análise do Discurso, que nasce pretendemos realizar nosso trabalho, propondo
com um objetivo de discutir os efeitos de uma análise do discurso sobre a discursivização
sentido nos discursos que circulam no meio presente nos enunciados do jornal esportivo
social. Surgiu com a proposta de fazer leitura Olé. Para isso, nos apoiamos principalmente
discursiva em que envolve o sujeito com a nos estudos da Análise do discurso de tradição
linguagem, estando ligada também as questões francesa. Optamos por analisar em nosso
históricas, sociais e políticas. Pensa-se a AD trabalho os discursos em um campo discursivo
trabalhando com questões da linguagem, que ultimamente tem ganhado considerável

Universidade Federal de São Carlos - São Carlos, São Paulo, Brasil - 2 a 4 de setembro de 2015.

130
espaço, a mídia e mais especificamente um
Tendo em vista que se trata de um
jornal esportivo da Argentina. A escolha foi
trabalho de caráter teórico analítico se faz
pautada no fato de acreditarmos ser a mídia
necessário direcionar os estudos para algumas
hoje dos principais suportes a transmitir
categorias de análises, que são Discurso, Efeito
informações. Nesse caso o jornal escolhido é
de Sentido, Sujeito, Memória discursiva,
atualmente um dos mais importantes do mundo
Interdiscurso e Acontecimento discursivo e
quando o assunto é esportes. Dessa forma, por
enunciado. É a partir dessas categorias que
acreditarmos serem discursos que emanam
tentaremos entender porque foi possível dizer
outros discursos e que se dividem no fio
dessa forma e não de outra, ou seja, “porque
discursivo que é a linguagem é que escolhemos
esse enunciado e não outro em seu lugar”
uma reportagem que ganhou destaque momento
(FOUCAULT, 2007a). Assim na sequencia
antes da Copa do Mundo de 2014 no Brasil.
iremos discorrer de forma breve sobre cada uma
Com o título Ya tengo miedo a das categorias, procurando pontuar as
reportagem fala de um dos maiores destaques discussões.
do futebol brasileiro da atualidade, Neymar. Era
Como primeiro ponto discorremos sobre
um momento antes do acontecimento que
discurso, umas das concepções dos estudos
marcaria o mundo esportivo em 2014, dessa
discursivos de maior relevância, pois se
forma vimos discursos florescendo no mundo
constitui na sociedade, como parte da história,
esportivo, tanto nas grandes mídias como
em nenhum momento está pronto e acabado, o
também pela sociedade em geral, a partir disso
que se diz hoje, já foi dito antes. Assim,
sentidos eram construídos, se deslizavam nesse
podemos introduzir esse ponto explicando que
entremeio que é a linguagem.
o discurso implica em si uma exterioridade, a
Com isso, nosso objetivo é descrever e língua e tem no social o seu ponto de apoio, de
interpretar quais são as estratégias discursivas, análise. Quando lemos, procuramos não
que estão materializadas na reportagem somente o que está escrito, mas o que está por
intitulada ya tengo miedo do jornal Olé, trás, buscamos os aspectos sociais e históricos.
destacando quais os efeitos de sentidos que são Para melhor entender o que seja discurso,
produzidos. Para isso, buscamos em algumas vejamos o que Fernandes (2005, p 22) nos diz
categorias da Análise do Discurso subsidiar tal sobre a noção de discurso.
discussão. As categorias em questão são;
sujeito, efeito de sentido, memória discursiva, Analisar o discurso implica interpretar os
interdiscurso, acontecimento discursivo e sujeitos falando, tendo a produção de
enunciado. A partir da seleção das categorias sentidos como parte integrante de suas
analíticas optamos por essa reportagem remeter atividades sociais. A ideologia materializa-
exatamente ao fato de ser uma das mais se no discurso que, por sua vez, é
materializado pela linguagem em forma de
discutidas naquele momento pré acontecimento
texto.
Copa do Mundo, em que discursos era
colocados no campo discursivo e sentidos eram
construídos a partir dos enunciados Discurso é o que é dito, sem que o
sujeito saiba que o que está sendo dito
1. Aporte Teórico

Universidade Federal de São Carlos - São Carlos, São Paulo, Brasil - 2 a 4 de setembro de 2015.

131
apresenta outros sentidos a esse dizer. Analisar
De acordo com Nascimento (2010),
discurso é bem mais do que ver o que está
para Foucault o sujeito vive numa constante
posto em cada enunciado, em cada fala. É ir
tensão entre a aceitação do poder e a submissão
além, buscar entender os efeitos de sentido,
da liberdade. Não havendo assim uma servidão
pois cada discurso transmite algo novo, outros
voluntaria, pois no coração da relação de poder
sentidos.
está a relutância do querer e a intransitividade
Mostrando-se ligado a concepção de da liberdade.
discurso, é que discutiremos a concepção de
Levando em consideração que tudo que
efeito de sentido, visto como disperso e em
é dito, já foi dito antes, em outros momentos é
fuga, ou seja os sentidos estão sempre em
que surge a noção de interdiscurso. Este se
construção e isso se dá nas práticas discursivas
tornou um dos mais importantes conceitos para
dos sujeitos. De forma que se torna disperso,
os estudos ligados a AD. Marcado como sendo
ligado ao histórico e as relações discursivas
os dizeres passados, em um dito anterior, em
exteriores.
outro momento, no espaço do repetível e
De acordo com Gregolin (2001, p. 9) “o tomado pela memória em uma relação com
fazer sentido é efeito dos processos discursivos outros discursos que foram proferidos por
que envolvem os sujeitos com os textos e, outras pessoas em um outro momento histórico.
ambos, com a história”. Dessa forma, a
De acordo com Courtine (apud
discussão acerca do sentido é visto como algo
NASCIMENTO, 2013 p. 50) interdiscurso
histórico, pois não se entende os discursos por
seria: “Séries de formulações, marcando cada
eles mesmos, mas isso depende do social, do
uma, enunciações distintas e dispersas,
histórico, ou seja daquilo que vem sendo
articulando-se entre elas formas linguísticas
discutido na sociedade e que passa a fazer
determinadas (citando-se, repetindo-se,
sentido a partir de tais discussões, é o que
parafraseando-se, opondo-se entre si,
Gregolin chama de “pleno voo” ou seja
transformando-se)”. O interdiscurso se faz
enxergar os sentidos a pleno voo através desses
presente nesse emaranhado que é a linguagem,
discursos que emanam sentidos, que muitas das
que leva o leitor a ver/entender o discurso a
vezes são escorregadios que fogem, escapam e
partir do outro, de outros dizeres ditos antes,
que acabam por construir outros sentidos.
que buscamos em nossa memória, ou seja, de
Se o fazer sentido depende dos sujeitos algo que aconteceu no passado, mas que passa
historicamente marcados é que pretendemos ser lembrado a partir de outro discurso, seja ele
discutir a noção de sujeito. Visto como sendo parafraseado, transformado, mas que se
descentrado, complexo, ou seja marcado pelas mantem e nos faz remeter a algo passado, dito
relações sociais as quais está inserido, Ou seja é com outro sentido, quem sabe.
um sujeito que pode ocupar diferentes posições
Interdiscurso e Memória discursiva, dois
em uma mesma série de enunciados e assim
conceitos que partiram dos estudos
assumir diferentes papeis discursivos na
Foucaultianos que estão sempre muito
sociedade.
próximos. Se discurso é o que é dito agora o
interdiscurso é o que foi dito antes e que é

Universidade Federal de São Carlos - São Carlos, São Paulo, Brasil - 2 a 4 de setembro de 2015.

132
retomado por outros discursos. Por sua vez, a como em uma relação com o que é histórico,
memória discursiva é aquilo que acaba com os sujeitos discursivos, mostrando que não
possibilitando a circulação de formulações há apenas uma relação gramatical ou semântica.
anteriores. (Gregolin 2011, p. 91) afirma que “a Pois ao enunciar o sujeito o faz de um lugar
inscrição do acontecimento na memória, a partir determinado seja por regras históricas ou
dessas materialidades permite, ao mesmo sociais, o que acaba por fazer com que tal
tempo, seu retorno constante e sua discurso seja enunciado. Segundo Foucault
rememoração”. (2012, p. 128):
É nessa retomada através da memória O enunciado, ao mesmo tempo que surge em
que certos enunciados fazem sentido, assim sua materialidade, aparece com um status,
entender como certos enunciados estão entra em redes, se coloca em campos de
relacionados à história é um trabalho utilização, se oferece a transferências e
indispensável para os estudos ligados a AD. modificações possíveis, se integra em
Com isso, a noção de acontecimento discursivo operações e estratégias onde sua identidade
ganha espaço, formando, assim, um se mantem ou se apaga.
entrecruzamento sobre um fato que é
discursivizado social e historicamente. A Dessa forma entendemos que ao
concepção não é vista nos estudos da AD como enunciar o sujeito faz de acordo com seu campo
algo ligado a um historiador ou propriamente enunciativo, deixando aberto para mudanças,
como noticia, apesar de se dá nesse transformações que são possíveis porque o
entrecruzamento, pois entende-se a esta enunciado não é algo estanque e fechado que
concepção o pensamento de enunciados que se não possa mudar. Pelo contrário e seguindo os
dão num entrecruzamento discursivo e em um estudos de Foucault podemos definir enunciado
dado momento. Explanando sobre entrando no que o autor chama de ‘redes’ e
acontecimento discursivo, Foucault (1986, ‘campos de utilização’ em que podem haver
p.14) diz que “não há, assim, enunciado livre, transferências e modificações no dizer a
neutro, independente das redes de formulações depender da função enunciativa do sujeito
nos quais ele se insere; ele faz sempre parte de enunciador. Macacheira
uma série; ele se integra, sempre, em um jogo
enunciativo”. Ou seja os enunciados estão 2. UMA JOGADA DISCURSIVA: Os efeitos
sempre sendo postos junto com outros do medo na voz da esperança
enunciados, interligados, cheios de Nesta materialidade, iremos discorrer
deslocamentos. um pouco sobre uma entrevista de Neymar,
Após uma discussão sobre todos os atacante que tem um grande destaque mundial,
conceitos se faz necessário entender aquele que em entrevista ao jornal Brasileiro Lance, que é
é base, conhecido como enunciado, ou seja a um dos principais jornais esportivos do Brasil e
leitura que fazemos de certa materialidade. que mantem uma relação de proximidade com o
Segundo o Foucault o enunciado apresenta jornal Argentino Olé. Normalmente, se ver os
sempre margens povoadas por outros dois jornais trocando farpas nas páginas de
enunciados. Assim entendemos esse conceito ambos. Se o lance publica algo relacionado ao

Universidade Federal de São Carlos - São Carlos, São Paulo, Brasil - 2 a 4 de setembro de 2015.

133
futebol brasileiro ou argentino o Olé rebate, e Figura 01: Reportagem jornal Olé – “Ya
tengo miedo”
assim, os dois criaram, ao longo dos anos, essa
proximidade que acaba por divertir seus
leitores. Tanto que a reportagem que
selecionamos para análise é uma entrevista de
Neymar, ao jornal Lance, no ano de 2014, em
que ele fala sobre a ansiedade e sobre outras
coisas relacionadas à Copa do Mundo.
Essa entrevista dada ao jornal Brasileiro
é retomada pelo jornal Olé que, através de
estratégia discursiva, procura discursivizar
sobre um assunto que certamente mostra-se Fonte: [http://www.ole.com.ar/mundial-2014/Empiezo-
interessante para os argentinos que são os tener-miedo_0_1114088849.html]
grandes rivais do Brasil. Dessa forma, são os
sentidos produzidos nessa materialidade que Trazer para a materialidade do jornal
nos interessa. Assim, procuraremos analisar este enunciado e esta imagem de Neymar era
esse objeto de estudo, buscando entender o mais do que falar sobre um grande jogador e
porquê de o jornal usar da estratégia de falar do seus medos. Era a oportunidade de colocar em
jogador que é reconhecido como o mais discussão, na Argentina, que tem como maior
importante na atualidade para o futebol rival o Brasil, e demonstrar que aquele que é a
brasileiro. maior esperança brasileira para a Copa está com
medo de jogar o Mundial no Brasil, dentro de
Em algumas entrevistas, o craque não casa, com apoio da torcida.
nega a ansiedade, tanto que para o jornal
esportivo brasileiro Lance ele falou está se Os sentidos são marcados como sendo
sentindo arrepiado, sentindo um frio na barriga, constituintes a partir da história, assim, o que
pelo início do campeonato. Neymar confirma faz sentido em um dado momento para um
ainda que está sentindo medo de jogar no Brasil sujeito, em outro dado momento o mesmo
uma Copa do Mundo com uma discurso tem outros sentidos. Como
responsabilidade grande. Assim, o jornal Olé, percebemos no enunciado ya tengo miedo,
buscando do jornal Lance a entrevista dada pelo proferido por Neymar ao jornal brasileiro, no
jogador, levou para a materialidade do jornal o Brasil o enunciado não tomou tantas
seguinte enunciado para título de reportagem: proporções quando discursivizado na
Ya tengo miedo1. Vejamos: materialidade do jornal lance, porém o mesmo
discurso veiculado no jornal Olé constrói outros
sentidos.
Desse modo, se no Brasil poderia ter
alguma crítica ao jogador, na Argentina isso
ganhou mais notoriedade por ser ele o que
certamente teria mais possibilidade de levar a
seleção brasileira a final no mundial, e se ele
1
Tradução livre nossa de: “Já tenho medo”

Universidade Federal de São Carlos - São Carlos, São Paulo, Brasil - 2 a 4 de setembro de 2015.

134
estava com medo era conveniente para o jornal ao mostrar que Neymar estava sentindo medo,
falar sobre isso. Vemos como, nesse caso, o inseguro de jogar a Copa do Brasil. Os sentidos
histórico, o fato de estarmos em um momento são possíveis de perceber no discurso do jornal
pré Copa, acabou por acarretar em outros pelo que Gregolin (2001, p. 9), argumenta
sentidos, como afirma Nascimento (2010, p. 4) como “O fazer sentido é efeito dos processos
ao dizer que “Os sentidos são construídos a discursivos que envolvem os sujeitos com os
partir da posição-sujeito do enunciador que se textos e, ambos, com a história”.
inscreve em diferentes momentos históricos”. Desse modo, o discurso proferido pelo
A partir desse primeiro olhar sobre o Olé está de acordo com as formações
título da reportagem, cabe-nos discutir sobre o ideológicas e discursivas que o jornal Argentino
objeto de estudo como um todo, a reportagem. compartilha sobre o futebol brasileiro. Por isso,
Ao retomar o discurso de Neymar, o jornal Olé trouxe para o seu funcionamento discursivo
não diz nada explicitamente, traz exatamente o enunciados sobre o jogador mais importante do
discurso que é de seu interesse, nesse momento, Brasil. Assim, através do controle discursivo e
já que é sabido que Brasil e Argentina são duas levando em consideração a historicidade, o
seleções que ao longo do tempo travaram jornal permitiu o resgate na memória discursiva
grandes jogos e nenhuma aceita perder para o através da rivalidade existente entre os dois
rival. países, o que acaba por criar um jogo de
sentidos em que o medo de Neymar acaba por
Assim, cabe-nos perguntar, porque o
mostrar uma atual seleção sem o mesmo brio de
jornal Olé trouxe para a materialidade do jornal
1994, 2002 por exemplo, anos que o Brasil foi
exatamente essa reportagem? Poderia ser
campeão do mundo.
qualquer outra, mas o que vimos na
discursivização presente no veículo é que se Outro enunciado que se faz presente na
mostra cheio de efeitos de sentidos, pois o materialidade midiática do jornal, é um subtítulo
enunciado dá margens para entender que ao que chama atenção exatamente pelo jornal
proferir isso Neymar estaria com medo de jogar retomar uma expressão própria dos países
o campeonato mundial no Brasil, assim o jornal hispânicos que é “Neymar dice que el
retoma esse discurso como principal enunciado Mundial le genera “piel de gallina”2 que quer
da reportagem para que eles, os argentinos, dizer, estava arrepiado. Esse é o sentimento de
soubessem que o destaque do Brasil já sentia Neymar com relação ao acontecimento Copa do
medo. Mundo no Brasil. Dessa forma, o enunciado
Assim, retomar o discurso de Neymar proferido pelo jornal, como subtítulo, deixa
sobre um posicionamento dele antes da Copa, margens para outros sentidos que podem ser de
dizendo que sentia medo, era importante para insegurança, fraqueza por parte do jogador,
os Argentinos, principalmente pelo fato do pois é sabido que historicamente quem joga em
jornal em questão ser crítico, e usar dos casa não deve sentir medo, nem ficar arrepiado.
artifícios que tem para tripudiar do futebol Com isso o jornal leva seu leitor, em sua grande
brasileiro. Não se percebe, necessariamente o
efeito de sentido de deboche, mas os sentidos 2
Tradução livre: Neymar disse que o mundial lhe
estão ligados a algo mais importante para eles, arrepia

Universidade Federal de São Carlos - São Carlos, São Paulo, Brasil - 2 a 4 de setembro de 2015.

135
maioria argentinos, a verem como anda aquele
O jornal retoma esse enunciado para
que é o destaque brasileiro para a Copa.
dizer que o jogador está se sentindo fraco,
Se historicamente é sabido que não se inseguro, de jogar a Copa do Mundo. Os
deve sentir medo de jogar um mundial em casa, sentidos foram sendo construídos pelo jornal, a
é através da memória discursiva que é possível partir do momento que foi discursivizado e
retomar essa discussão, pois assim é falado no devido a posição discursiva permitiu ao jornal
meio do futebol, que jogar em casa é ter o que produzisse efeitos de sentidos com relação
apoio da torcida e deve ser visto como ponto à insegurança no futebol brasileiro. Os sentidos
positivo. Dessa forma o jornal retoma essa aqui são construídos pelo controle discursivo
discussão para exatamente mostrar a do jornal, pois de acordo com Nascimento
insegurança do jogador e assim mostrar, para (2013) é no controle discursivo que é possível
eles argentinos que vir ao Brasil e conquistar o criar um sentido de verdade, através da
título não é tão difícil, já que um dos favoritos credibilidade e fazendo uso de estratégias
ao título que é o país sede, o Brasil, o seu discursivas. Veja que o jornal retoma um
principal jogador está sentindo arrepios. discurso de um sujeito autorizado a falar, o que
Dando sequência, alguns pontos da traz mais credibilidade para o discurso, pois
reportagem merecem destaque por serem mesmo retomando um discurso de outro
proferidos por Neymar e que, ao retomá-los, o veículo comunicativo, a matéria é veiculada no
jornal usa de estratégia discursiva para Olé e acaba por ter outros sentidos, exatamente
discursivizar sobre o futebol brasileiro em um por se tratar de um jornal Argentino, onde as
acontecimento que é o mais importante para os condições de produção estão de acordo com
dois países quando o assunto é esportes, pois é seus interesses.
sabido que, para Brasil e Argentina, futebol é Na sequência da entrevista encontramos
uma paixão nacional. Os enunciados que se outra fala de Neymar que retoma um pouco do
seguem, mostram um pouco das estratégias que seja jogar pela seleção brasileira, no Brasil.
discursivas do jornal, pois essas palavras É possível perceber no discurso um enunciado
constroem uma imagem para o jogador e talvez que ficou conhecido como “família Scolari”.
seja esse efeito que o jornal quer produzir. Como podemos observar no fragmento a
Neymar aseguró que quiere que arranque seguir, na parte que grifamos para análise.
pronto el Mundial, pero admitió que le
genera como "unas mariposas en el En una entrevista al diario Lance, el crack
estómago3. É possível perceber o sentido de del Barcelona aseguró que siente como
que o sujeito Neymar fala sobre se sentir "unas mariposas en el estómago". También
nervoso em jogar o mundial em casa, no Brasil. dijo que su selección "va a dar el máximo en
el campo para conseguir el título, aunque no
será fácil". Y se mostró optimista con
respecto al potencial del plantel de
3 Scolari: "Es el mejor ambiente porque
Tradução livre: Neymar disse que deseja que o
mundial comece logo, mas admitiu que isso o deixa
nervoso.

Universidade Federal de São Carlos - São Carlos, São Paulo, Brasil - 2 a 4 de setembro de 2015.

136
todos los que estamos ahí hemos soñado
con poder vestir la camiseta de Brasil"4.
"Siempre trabajé para que ese día llegara y
por desgracia no fue así5, conseguimos
identificar, através da historicidade e da
É possível perceber uma memória memória discursiva, como o jornal discursiviza
discursiva nesse enunciado, onde Neymar sobre o que foi marcante em 2010, quando na
retoma 2002, quando o Brasil foi Penta ocasião foi disputada a Copa da África do Sul,
Campeão Mundial. Pois discursos foram o que mais foi pedido naquele momento foi a
proferidos ao longo desses doze anos falando presença de Neymar na seleção, o que acabou
do ambiente que aquela seleção tinha. Já que, não acontecendo.
historicamente, é sabido que a seleção de 2002
foi um dos grupos de jogadores mais unidos. Na primeira parte do enunciado
Dessa forma, ao retomar esse trecho da Neymar comparó este momento con el que
entrevista de Neymar, o jornal mostra como é o tuvo que vivir cuando se quedó afuera del
clima na seleção brasileira atualmente, já que se último Mundial vemos que o jornal anuncia a
sabe que a comissão técnica é quase a mesma e fala de Neymar com uma discussão sobre a não
o treinador é o mesmo. Com isso, pressupõe-se ida do jogador ao último mundial. Na ocasião,
que se tem o mesmo ambiente de 2002. em 2010 discursos foram proferidos porque,
naquele momento, ele era um dos destaques do
Assim, podemos perceber que ao país e não ter sido convocado pelo então
retomar esse discurso há, por parte do jornal, técnico da seleção, causou discursos de todo o
uma memória discursiva de tudo que foi país. Agora, em outro momento, vemos como
discursivizado sobre a seleção de 2002 e que prevaleceram ainda aqueles discursos sobre
agora, em outro momento, outros discursos são Neymar, para falar do agora, da convocação
proferidos na mesma direção. Nesse sentido, e dele e por ser o destaque da atual seleção.
de acordo com Gregolin (2011, apud
NASCIMENTO, 2013, p. 53), “a inscrição do Por fim, no último enunciado, Neymar
acontecimento na memória, a partir dessas falando de um possível rival para final da Copa,
materialidades permite, ao mesmo tempo, seu responde que não tem preferência, que nos
retorno constante e sua rememoração”. Como sonhos dele somente está chegar à final. O
vimos, foram discursos que foram proferidos enunciado é levado para o Olé como estratégia
em um outro momento, mas que agora fizeram discursiva, já que é sabido que a Argentina é
sentido em outro discurso, no caso, o proferido uma das principais seleções e quem virá ao
por Neymar e veiculado no Olé. Brasil para buscar o título de campeã. Dessa
forma, os sentidos estão em aberto, através da
No enunciado Neymar comparó este estratégia discursiva de trazer esse enunciado e
momento con el que tuvo que vivir cuando não outro.
se quedó afuera del último Mundial:

4
Tradução livre: E se mostrou otimista com respeito ao
potencial do plantel de Scolari: “É o melhor ambiente 5
Tradução livre: Neymar comparou este momento com
porque todos os que estamos lá haviam sonhado em o que teve que viver quando ficou fora do último
poder vestir a camisa do Brasil”. Mundial: Sempre trabalhei para que esse dia chegasse e
por desgraça não foi assim.

Universidade Federal de São Carlos - São Carlos, São Paulo, Brasil - 2 a 4 de setembro de 2015.

137
Argentino a resposta do jogador era
¿Con quién le gustaría definir el título? importante, já que, como um dos veículos
"Sólo sueño llegar a la final. No tengo esportivos de maior destaque, muitos eram os
ninguna preferencia por un adversario. leitores que esperavam uma resposta de um dos
En mis sueños sin duda está ver a la maiores adversários na Copa do Mundo. Diante
selección de Brasil en la final” contestó disso, compartilhamos do pensamento de
quien a los 22 años debe superar un
Santos (2012, p. 40) ao dizer que “importa
carnaval de presione.6
pensar o discurso como uma manifestação que
se constitui em seus sentidos porque aquilo que
Os discursos com relação a uma o sujeito diz se inscreve em uma formação
possível final já estão sendo construídos, desde discursiva dada. Esse processo marca a
que foram definidas as chaves da Copa. As possiblidade do sentido ser um e não outro, de
apostas já estão sendo feitas por aqueles que pertencer a uma formação discursiva e não a
são envolvidos com futebol e os cruzamentos outra”.
entre as principais seleções já foram feitos até
uma possível final. E o que se tem visto é que, Desta forma, vimos como são
na final, pode haver duas grandes seleções, produzidos os discursos, na materialidade
muitos falam que o Brasil, pela força e por estar midiática do jornal Olé. Como o jornal trabalha
jogando em casa já é uma das finalistas, o discurso, de acordo com seus interesses, de
faltando assim, somente o adversário. controle discursivo com as concepções de
interdição e vontade de verdade e retomando
Dessa forma, a estratégia discursiva do pela memória, pelos discursos outros, já
jornal Olé era discrusivizar sobre um dito em discursivizados, pela história, nesse caso sobre
outro meio discursivo, e que na materialidado um acontecimento, a Copa do Mundo.
do jornal teria outros sentidos, exatamente por
se tratar de um jornal Argentino. Com isso, Na sequência, mostraremos os
observamos que a estratégia era exatamente de resultados de nossa pesquisa, de acordo com
mostrar o que Neymar tinha a dizer sobre uma nosso objetivo, que é o de descrever e
possível final e sobre a pressão que sofre no interpretar as estratégias discursivas sobre o
Brasil, por ser ele o melhor jogador, tanto que o futebol brasileiro, que estão materializadas no
jornal Olé fala em carnaval de pressão, jornal Olé, destacando os efeitos de sentido
remetendo ao fato de que aquele que é melhor produzidos nos enunciados da reportagem.
recebe as maiores cobranças. Nessa perspectiva de trabalho, acreditamos que
a mídia possibilita que sentidos sejam
Os sentidos aparecem em uma jogada construídos. Pois, como vimos ao decorrer das
discursiva, pois se tratando de um jornal análises, os sentidos podem ser vistos nessa
relação com os sujeitos, não podendo ser
6
Tradução livre: Só sonho chegar a final. Não tenho
encontrado por ele mesmo, nunca é um sentido
preferência por nenhum adversário Nos meus sonhos só, mas um produto histórico e estando sempre
sem dúvida está ver a seleção do Brasil na final” em relação com as palavras proferidas nos
Respondeu quem aos 22 anos deve superar um carnaval enunciados veiculados na mídia, nesse caso
de pressões. especifico, no jornal Olé em que podemos ver

Universidade Federal de São Carlos - São Carlos, São Paulo, Brasil - 2 a 4 de setembro de 2015.

138
como os sentidos podem ser um em uma possíveis pela exterioridade, pela história, pela
materialidade, e em outra apresentar outro memória, pelo que, em outro momento, já foi
sentido, ou seja, mostrando está sempre em discursivizado. São os sentidos produzidos por
fuga, não sendo, portanto, encontrado por ele outros discursos, como bem vimos na
mesmo. reportagem, que retoma um acontecimento e de
discursos que eram colocados na ordem do
3. Conclusão
discurso pela sociedade e que nas reportagem
Dessa maneira, ao fim da pesquisa do jornal Olé acabou por construir outros
conseguimos observar como na ordem do sentidos.
discurso os sentidos são cheios de deslizes,
Não encontramos na reportagem o
fugas, o fazer sentido, é efeito de outros
sentido sendo encontrado por ele mesmo, mas
discursos que são proferidos e que vão sendo
sendo preciso recorrer ao histórico, ao social,
construídos, seja pela posição do sujeito, pela
ou seja, ao exterior o que acabou por
memória discursiva, interdiscursos. Para análise
possibilitar ao jornal deixar em aberto a possível
vimos a reportagem, Ya tengo miedo que fala
inferência de o Brasil não está preparado para
sobre o acontecimento Copa do Mundo, uma
disputa do Mundial de 2014.
entrevista de Neymar, ao jornal brasileiro,
Lance em que o jogador fala sobre a pressão de Encerramos aqui esta discussão, que
se jogar um mundial em casa. No Brasil essa esperamos não ser concluída nessas páginas,
reportagem foi vista como uma reportagem de pois estudos novos devem ser feitos, para que
um menino de 22 anos que joga a primeira assim outros sentidos possam surgir, na certeza
Copa do Mundo, com a responsabilidade de ser de que o que dissemos ainda precisa ser mais
a estrela da seleção. Porém o Olé retoma a explorado, pois são discursos que em muitos
discussão e ao levar para ser discursivizado em deixam inquietações. Com isso, esperamos que
um jornal argentino toma outras proporções e mais trabalhos nessa perspectiva sejam feitos,
os discursos são mobilizados de outra forma. A uma vez que o discurso futebolístico apresenta
estratégia de falar sobre o maior craque da um viés muito amplo para que mais pesquisas
atualidade do Brasil expressando medo de sejam elaboradas, procurando entender seus
encarar tamanha responsabilidade, foi o ponto efeitos de sentidos.
que levou o jornal a estampar essa reportagem,
construindo um efeito de sentido de fragilidade
no futebol brasileiro. Referências
Dessa forma e diante do estudo da FERNANDES, C. A. A análise do discurso:
reportagem vimos que o jornal Olé usa de reflexões introdutórias. Goiânia: Trilhas
estratégia discursiva, pois mobiliza uma Urbanas, 2005.
discussão sobre um dos maiores jogadores do FOUCAULT, M. A arqueologia do saber. 7.
Brasil na atualidade, tentando mostrar a ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária,
fragilidade daquele que era a maior esperança 2007a.
de um possível título mundial na Copa do
Mundo do Brasil, isso se deu através dos ______. A arqueologia do saber. 8. ed. Rio de
discursos, produzindo sentidos outros que são Janeiro: Forense Universitária, 2010a.

Universidade Federal de São Carlos - São Carlos, São Paulo, Brasil - 2 a 4 de setembro de 2015.

139
______. A ordem do discurso. São Paulo:
Loyola, 16ª ed. 2008.
GREGOLIN, R. M. Análise do discurso:
entornos do sentido. A análise do discurso: os
sentidos e suas movências. São Paulo: Cultura
Acadêmica, 2001.
______ Discurso e mídia: a cultura do
espetáculo. São Carlos: Editora Clara Luz,
2003.
______ Análise do discurso: as materialidades
do sentido. São Carlos: Editora Clara Luz,
2003.
______ Foucault e Pêcheux na análise do
discurso: diálogos e duelos. 2. ed. São Carlos,
SP: Claraluz, 2004.
NASCIMENTO, M. E. F. Sentido, Memória e
Identidade no Discurso Poético de Patativa do
Assaré/ Recife: Bagaço, 2010.
ORLANDI, E. P. Análise do discurso:
princípios e procedimentos. Campinas, SP:
Pontes, 2007a.
PÊCHEUX, M. Semântica e Discurso: uma
crítica à afirmação do óbvio. 3. ed. Campinas:
Editora da UNICAMP, 1997c.
______. O discurso: estrutura ou
acontecimento. Campinas: Pontes, 2006

Universidade Federal de São Carlos - São Carlos, São Paulo, Brasil - 2 a 4 de setembro de 2015.

140
ENTREVISTA, DISCURSO E SENTIDOS NO JORNALISMO: A
CONSTRUÇÃO DA FIGURA DO CRIMINOSO EM PROGRAMAS
POPULARESCOS

Carlos Alberto Garcia BIERNATH; Kelly De Conti RODRIGUES


Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (UNESP)
beto.biernath@gmail.com; decontik@yahoo.com.br

Resumo: Ao longo das últimas décadas, programas de cunho popularesco têm se


proliferado na televisão brasileira, muito por conta da identificação que conquistam junto
aos telespectadores. Em tais programas, constantemente há entrevistas com criminosos
que ficaram conhecidos nacionalmente, tanto pelo apelo à violência das atrações, quando
pela fama do entrevistado. Neste sentido, este trabalho resgatou duas entrevistas
veiculadas por programas popularescos: a entrevista com João Acácio Pereira da Costa,
o “Bandido da Luz Vermelha”, exibida no Aqui Agora em 1995; e a entrevista com
Eduardo Pinto Martins, acusado de matar o zelador de seu condomínio, exibida no Tá Na
Tela em 2014, com o objetivo de entender como o discurso dos programas se configurou
na trajetória das entrevistas.
Palavras-chave: jornalismo; aqui agora; tá na tela; discurso; entrevista.

brasileira. Dentre estes programas, aqueles


Introdução
considerados ‘popularescos’ talvez tenham sido
Ao longo da trajetória da televisão os que conquistaram maior identificação junto
brasileira, os programas jornalísticos logo aos telespectadores.
conquistaram os telespectadores, partindo da
Este trabalho foca entrevistas com
ideia de que apresentavam a ruptura do normal,
criminosos veiculadas em tais tipos de
originando aí a notícia. Isso se deve graças a
programas. Nesse sentido, o estudo se propôs a
capacidade única da televisão de unir visão e
analisar duas peças jornalísticas que, embora
audição – algo inexistente nos meios de
produzidas e exibidas em décadas distintas,
comunicação de massa na época de surgimento
atuaram na construção da figura do ‘criminoso’
do veículo televisivo.
através de uma entrevista realizada –gravadas
Assim, os programas jornalísticos, que nas instituições em que ambos cumpriam pena.
tiveram o Repórter Esso como primeira grande É com este objetivo que analisamos ambas as
referência de sucesso e audiência, assumiram entrevistas, baseados nos preceitos da Análise
um papel importante na história da televisão de Discurso de tradição francesa como campo

Universidade Federal de São Carlos - São Carlos, São Paulo, Brasil - 2 a 4 de setembro de 2015.

141
teórico-metodológico em nosso percurso. profissionais que mais tarde viriam a integrar o
Como corpus, portanto, o estudo resgatou a Aqui Agora, como o repórter Wagner Montes e
entrevista com João Acácio Pereira da Costa, o a apresentadora Christina Rocha. Uma de suas
“Bandido da Luz Vermelha”, exibida no Aqui marcas era, de acordo com Mira (2010), trazer
Agora em 1995; e a entrevista com Eduardo reportagens policiais e polêmicas através da
Pinto Martins, acusado de matar o zelador de exibição de pessoas pobres que iam ao palco
seu condomínio, exibida no Tá Na Tela em pedir algum tipo de ajuda: médica, jurídica e
2014. financeira. Basicamente, o apresentador Wilton
Franco narrava um texto que retratava a
1. Os jornalísticos do gênero popularesco
história do convidado. Por atender ao público
Os jornalísticos considerados assim, o SBT – emissora que transmitia a
popularescos são assim denominados por conta atração – ficou conhecido como “a Porta dos
da proximidade que conquista junto ao público, Milagres”, por sempre estar lotada de gente que
muito por conta da carga dramática embutida buscava ajuda, ainda de acordo com Mira
em sua essência. Nessa linha, J. S. R. Goodlad, (2010).
citado por Marcondes Filho (1988, p. 52),
O sucesso destes programas atesta a
assevera que “o jornalismo e o telejornalismo
influência deles junto à audiência. Isso fez com
são parentes muito próximos dos dramas. Em
que novos programas surgissem e, a exemplo
questão de preferência popular, os noticiários
dos mais antigos, também obtivessem boa
ocupam, aliás, o segundo lugar, logo após o
identificação com os telespectadores, como é o
drama”. A afirmação do autor justifica a
caso do telejornal Aqui Agora e do programa
influência do drama junto à audiência.
Tá Na Tela.
O mais significativo deles foi,
possivelmente, a atração chamada O Homem do 1.1 O Aqui Agora
Sapato Branco, exibida em 1967 pelo Aliando o formato “sensacionalista ” do
apresentador Jacinto Figueira Júnior. À época, rádio ao telejornalismo, o Aqui Agora foi
como ainda não havia a utilização de recursos exibido inicialmente no ano de 1991 e trazia o
tecnológicos, como o videoteipe, por exemplo impactante slogan: “um jornal vibrante, uma
– que hoje são grandes aliados deste tipo de arma do povo, que mostra na TV a vida como
programa –, o comandante da atração recebia ela é”.
prostitutas e marginais ao vivo no palco Foi o Baseado no quase homônimo Aqui e
grande precursor deste gênero jornalístico, que Agora, que fora exibido pela TV Tupi, o
inspirou outros como o Aqui Agora e o Tá Na programa contou com diversos apresentadores
Tela – atrações que serão detalhadas mais à em sua 1ª fase, quando absorvera o formato dos
frente. famigerados O Homem do Sapato Branco e O
Outra importante atração considerada Povo na TV, como Ivo Morganti, Christina
popularesca foi o programa O Povo Na TV, Rocha (que já participara de “O Povo na TV”),
surgido na década de 80. Era exibido todas as Sérgio Ewerton, Liliane Ventura.
tardes e se apresentava como um serviço de Posteriormente, assumiu de vez o formato
utilidade pública. Sua equipe era constituída por jornalístico, em 1996, centrado em pautas mais

Universidade Federal de São Carlos - São Carlos, São Paulo, Brasil - 2 a 4 de setembro de 2015.

142
noticiosas e sem tanto requinte sensacionalista,
Desde seu início, o programa, buscando
quando passou a ser apresentado por Eliakim
essa identificação que os programas
Araújo e Leila Cordeiro.
popularescos conquistam, trabalhou com temas
Em sua equipe de repórteres, destacam- polêmicos e relacionados a violência. Por
se César Tralli, Celso Russomano, Gil Gomes, diversas edições o programa exibiu ao vivo
Wagner Montes (que também já passou pelo “O perseguições de policiais aos bandidos.
Povo na TV”), Carlos Cavalcanti, dentre
Além disso, o programa também
outros.
explorou casos que envolveram a morte de
Sérgio Mattos (2010) coloca o Aqui famosos. Em uma de suas primeiras edições, em
Agora como um “telejornal popular” e o define 5 de agosto de 2014, o programa apresentou
como “(um) modelo de jornalismo popular uma foto que supostamente esclareceria o
usado nas emissoras de rádios: sensacionalista, assassinato do funkeiro Mc Daleste. Em outra,
com notícias policiais e muito apelo sexual”. datada de 8 de outubro de 2014, o programa
Algumas edições do programa acabaram exibiu trechos de uma gravação inédita (de
por ser mais marcantes, tamanho apelo do acordo com a atração) que poderia esclarecer a
programa em busca da audiência. Uma delas foi queda do avião que vitimou os integrantes da
a edição de 5 de julho de 1993, no qual o Aqui banda “Mamonas Assassinas”.
Agora exibiu o suicídio, ao vivo, de Daniele Todavia, o programa teve seu final em
Alves Lopes, de 16 anos. Ao avistar o carro de 31 de dezembro de 2014, apenas 4 meses após
reportagem do programa, a jovem se atirou seu início, muito por conta das fortes críticas
para morte do 7º andar de um edifício em São que sofria por conta de seu teor
Paulo. De acordo com Amêndola (2005), o “sensacionalista”.
programa registrou um aumento de 33 pontos
Destarte, a carga discursiva destes
de audiência na aferição do Ibope.
programas demarca bem suas peculiaridades. À
Em 2014, um programa semelhante – no medida em que se apresentam como
que tange ao apelo popular – surge: o Tá Na ‘prestadores de serviço’, mas abusando do
Tela. ‘sensacional’, o contexto apresentado ao longo
1.2 O Tá Na Tela das décadas demarca o interesse social típico do
gênero popularesco.
Exibido pela primeira vez no dia 4 de
agosto de 2014, o programa Tá Na Tela 2. O lugar social do discurso jornalístico
contava com a apresentação de Luiz Bacci. Para construir interesse social, todo
Apesar de ser comparado a outros popularescos discurso depende das condições específicas do
por seu teor, o programa contava com um contexto no qual se encontra inserido.
auditório, que constantemente participava do Conforme questiona Charaudeau (2010, p. 67),
programa em interação com o apresentador, e como os indivíduos poderiam “trocar palavras,
com a jornalista Marilei Schiavi, que comentava influenciar-se, agredir-se, seduzir-se, se não
as reportagens após a exibição. existisse um quadro de referência?” Sem este
instituto norteador, não seria possível atribuir

Universidade Federal de São Carlos - São Carlos, São Paulo, Brasil - 2 a 4 de setembro de 2015.

143
valor aos atos de linguagem e, permanente de dissimulação ou fabulação”
consequentemente, construir sentido e atingir o (1973, apud MEDINA, 2008, p. 11).
receptor. Como ato discursivo, o jornalismo
A partir dessa ideia, remete-se que, para também se insere nesse jogo de regulação das
ser compreendido por seu interlocutor, o práticas sociais. Ele é produto de um lugar
produtor do discurso deve levar em conta “os social e, bem como ocorre com qualquer outro
dados da situação de comunicação”, os quais grupo ou prática humana, também sofre
tomam como base nas convenções e normas do influência dos conflitos que permeiam as trocas
comportamento linguageiro da sociedade, que do local de sua origem. Os profissionais seguem
tornam possível a comunicação humana ao os parâmetros e procedimentos de trabalho – os
gerarem valores e simbologias. “A situação de quais influenciam o modo de contar as estórias
comunicação é como um palco, com suas e transmiti-las ao público –desenvolvidos ao
restrições de espaço, de tempo, de relações, de longo da história dessa atividade dentro da
palavras, no qual se encenam as trocas sociais e sociedade em que estão inseridos.
aquilo que constitui o seu valor simbólico” O “poder” de construir esse registro foi
(CHARAUDEAU, 2010, p.67). conferido aos jornalistas ao longo da trajetória
Na mesma corrente de raciocínio, para da profissão. Nesse ponto, vale destacar as
Bakhtin (1979, p. 282), a palavra é o fenômeno tentativas de delimitação do que poderia
ideológico por excelência, pois carrega uma constituir a atividade jornalística e sua inserção
carga de valores culturais que expressam as no corpo social, conforme destaca Fidalgo
divergências de opiniões e as contradições da (2006). Os esforços para isso se deram, em boa
sociedade, tornando-se assim um palco de parte, pela negativa:
conflitos. O autor ainda argumenta que o
fundamento de toda linguagem é o dialogismo. [...] chamando a atenção menos para aquilo
Ou seja, todo enunciado é um elo de uma que o jornalismo era e mais para o que ele
cadeia de enunciados. Em outras palavras, as não era: nem uma tribuna de propaganda
política e proselitismo partidário, nem o
experiências verbais realizadas anteriormente
espaço mais alargado (em termos de difusão
com outros indivíduos está presente em toda
pública) para os escritores interessados em
manifestação do produtor do discurso. Os publicar as suas crônicas ou os fascículos
sentidos, com isso, não são originários do de seus romances (FIDALGO, 2006, p. 67).
momento da enunciação, mas fazem parte de
um “continuum”.
A partir disso, pode-se fazer uma
Concomitante a este raciocínio, Edgar analogia com o tratamento que Michel de
Morin salienta que o discurso também Certeau confere à análise histórica. O autor
fundamenta essencialmente na palavra, voltando aponta que, para a historiografia, o outro é o
sua crença ao discurso jornalístico – à “objeto que ela busca, que ela honra e que ela
entrevista, mais especificamente, que sepulta”, portando “a única pesquisa histórica
trabalharemos mais à frente: “A entrevista, do ‘sentido’ permanece, com efeito, a do
evidentemente, se funda na mais duvidosa e Outro”. Com isso, ele objetiva enfatizar o fato
mais rica das fontes, a palavra. Ela corre o risco

Universidade Federal de São Carlos - São Carlos, São Paulo, Brasil - 2 a 4 de setembro de 2015.

144
de que não existe uma pesquisa histórica que disciplinares utilizados pelas escolas, aponta
não foque a leitura dos discursos deste Outro que, por meio das provas, os professores
do passado. Contudo, esse estudo pretende conhecem seus alunos, descritos, mensurados,
“‘compreender’ e esconder com o ‘sentido’ a comparados a outros, treinados, classificados,
alteridade deste estranho ou, o que vem a ser a normalizados. A atividade prestada pelo
mesma coisa, acalmar os mortos que ainda jornalismo popularesco atua de forma
frequentam o presente e oferecer-lhes túmulos semelhante ao combinar “as técnicas da
escriturários” (CERTEAU, 1982, p. 14). hierarquia que vigia e a sansão que normaliza. É
um controle normalizante, uma vigilância que
Da mesma maneira, o jornalismo busca
permite qualificar, classificar e punir”
um saber sobre o outro e, com isso, é notório
(FOUCAULT, 1977, p. 164).
que não há jornalismo que não esteja calcado
no discurso de outro. A construção desse saber, No encaminhamento do discurso
contudo, também se molda a partir dos jornalístico, temos a entrevista, que visa
silêncios. Como aponta Certeau (1982, p. 14) a aprofundar determinado assunto ou personagem
respeito da historiografia, “ela faz falar o corpo através das palavras do próprio. É neste gênero
que se cala. Supõe uma decolagem entre a que ancoraremos as considerações a seguir.
opacidade silenciosa da ‘realidade’ que ela
3. O gênero entrevista
pretende dizer, e o lugar onde produz seu
discurso”. Ou seja, de forma semelhante ao Quando o discurso jornalístico passa a
historiador, o jornalista também possui papel trabalhar no processo essencial da dialética, a
ativo na construção dos sentidos do discurso entrevista assume papel fundamental no ato de
que ele registra, seja no enfoque criado na elucubrar determinadas questões. Esse processo
narrativa, na elaboração de perguntas, na de dupla participação não é tão simples, no
descrição de cenários e outros elementos entanto.
composicionais. Na entrevista, estão envolvidas questões
Portanto, ao atuar como modelador dos que vão além da essencial dualidade pergunta –
discursos dos atores sociais no contexto em que resposta. Para Cremilda Medina, essa interação
se encontra, o jornalista tanto é construído entre entrevistado e entrevistador pode ser
como também atua na edificação do lugar sentida pela audiência – telespectadores, no
social. Ele trabalha com os elementos caso deste trabalho.
simbólicos existentes, bem como atua na
modificação, reforço ou criação de novos Ocorre, com limpidez, o fenômeno da
identificação, ou seja, os três envolvidos
valores, práticas e ideologias.
(fonte de informação – repórter – receptor)
No caso do jornalismo popularesco, esse se interligam numa única vivência. A
jogo simbólico fica bem evidente. O jornalista experiência de vida, o conceito, a dúvida ou
atua como um vigilante da disciplina da o juízo de valor do entrevistado
sociedade, cobrindo os eventos que fogem da transformam-se numa pequena ou grande
ordem do cotidiano, sobretudo os atos que história que decola do indivíduo que a narra
transgridam as normas éticas e/ou legislativas. para se consubstanciar em muitas
interpretações (2008, p. 5-6).
Michel Foucault, ao tratar dos mecanismos

Universidade Federal de São Carlos - São Carlos, São Paulo, Brasil - 2 a 4 de setembro de 2015.

145
posicionamentos trabalhados ironicamente,
Assim, nesse jogo de perguntas e
como forma de condenação – um pouco mais
respostas, a busca por essa identificação torna-
sutil que o perfil anterior. Isso pode ocorrer
se essencial no diálogo estabelecido.
com declarações fora de contexto, por exemplo.
Na relação que o sujeito-jornalista – o
Na entrevista que trabalha com a
repórter – terá com o entrevistado, o discurso
compreensão – aprofundamento, a autora
será envolvido em diferentes instâncias, que
entende que há os seguintes subgêneros:
poderão conferir distintas interpretações da
própria audiência. Este processo de 1) Entrevista conceitual: O subgênero
interpretação também pode sofrer influência mais ‘simples’, no qual o entrevistador procura
pela forma com que a entrevista é organizada, a informação de uma fonte mais especializada
fundamentada em seus objetivos. Cremilda para isso.
Medina (2008) traz duas classificações 2) Entrevista/enquete: Aqui, o sujeito-
sintéticas da entrevista na comunicação jornalista buscará mais de uma fonte para
coletiva: aquelas que visam espetacularizar o transcorrer sobre o tema. As fontes serão
ser humano; e aquelas em que a intenção é escolhidas aleatoriamente, sem uma qualificação
compreendê-lo. específica para responder ao questionário.
Seguindo neste raciocínio, há, ainda por 3) Entrevista investigativa: Nessa
parte da autora, classificações de subgênero da entrevista, o fundamental é obter respostas a
espetacularização e da compreensão. fim de solucionar determinada investigação.
No subgênero da espetacularização, há Casos de administração governamental, gestão
4 perfis localizados pela autora, a saber: do dinheiro público e abuso de poder fazem
parte da entrevista investigativa.
1) Perfil do pitoresco: Trabalha-se aqui
mais a fofoca, o grotesco e até mesmo o picante 4) Confrontação – polemização: Os
relacionados ao entrevistado. debates fazem parte deste subgênero de
entrevista, no qual há uma busca pelo
2) Perfil do inusitado: Neste perfil, o
contraditório, por opiniões divergentes.
entrevistador busca extrair o traço mais forte
que a caracteriza como excêntrica ou exótica. 5) Perfil humanizado: Como diz o
nome, o intuito dessa entrevista é, oposto ao
3) Perfil da condenação: Amplamente
subgênero de espetacularização, traçar um
utilizado no jornalismo policialesco, há uma
perfil humano ao entrevistado, trabalhando a
força para que o bandido – o entrevistado – seja
sensibilidade deste para gerar certa identificação
implicitamente condenado. Sobre este perfil,
junto aos telespectadores.
Medina (2008, p. 16) assevera:
“ideologicamente pautada pelo maniqueísmo e 4. O caso do zelador assassinado
o julgamento apriorístico, este perfil trata o ser No dia 18 de setembro de 2014, a
humano dentro da redução mocinho/bandido”. edição do Tá Na Tela apresentou, com
4) Perfil da ironia “intelectualizada”: exclusividade, nas palavras exibidas junto ao
Aqui, o entrevistado terá suas ideias e vídeo, uma entrevista do apresentador Luiz
Bacci com Eduardo Pinto Martins, acusado de

Universidade Federal de São Carlos - São Carlos, São Paulo, Brasil - 2 a 4 de setembro de 2015.

146
esquartejar e queimar o corpo do zelador Jezi demarcado em seu discurso uma ambivalência
Lopes de Souza, em 30 de maio do mesmo ano. nos dois crimes, tentando levar essa ideia ao
A entrevista foi gravada no presídio de entrevistado, possivelmente para testar sua
Tremembé – prática comum entre programas de reação.
cunho popularesco. Não menos importante é notarmos o
4.1 Da humanização à espetacularização emprego do vocábulo cruel por parte do
sujeito-jornalista. Se para Bakhtin (1979) a
Inicialmente, a reportagem apresenta
palavra é o fenômeno ideológico que carrega
breves recortes da entrevista, com imagens do
uma carga de valores culturais que expressam
entrevistado sendo escoltado pela polícia e
divergências, a entrevista, que se funda na
xingado pelos transeuntes. Em seguida, uma
palavra, de acordo com Morin (1973, apud
trilha dramática emerge no momento em que o
MEDINA, 2008), demarcará o crivo de Bacci
apresentador exibe, para o preso, uma
ao utilizar palavra de forte carga semântica:
fotografia de seu filho. Ao vê-la, Eduardo chora
chamar ainda mais atenção ao crime.
e pede para o entrevistador aguardar alguns
segundos, enquanto se recompõe. Esta cena Mais à frente, o entrevistador pede para
inicial demarca uma tentativa de humanização o entrevistado dar detalhes do crime. Junto às
do criminoso, encaixando-se no que Cremilda palavras do criminoso, a edição do programa
Medina (2008) define como Perfil humanizado, apresenta imagens do zelador no dia de sua
ao utilizar os traços de sensibilidade de morte, subindo pelo elevador. Na sequência,
Eduardo, quando este chora. uma dramatização exibe como o crime
supostamente ocorrera – seguidamente
A seguir, a reportagem cita outros
acompanhado da trilha dramática. O
criminosos que estão presos com Eduardo:
apresentador questiona: Como é que você
Roger Abdelmassih, ex-médico, acusado de
cortou esse corpo?; sem resposta do criminoso,
estuprar algumas de suas pacientes; e
a edição aumenta o zoom em sua face, congela
Guilherme Longo, acusado pela morte do
a imagem e volta outros segundos depois,
enteado, Joaquim Ponte Marques – este último
quando Bacci questiona: Por que o silêncio? É
apresentado como companheiro de cela do
arrependimento isso? Esse questionamento do
entrevistado. Neste momento, Bacci sentencia e
apresentador faz parte do que Medina (2008)
pergunta: Eu estou falando com um assassino
coloca como Perfil da condenação. Embora o
que é pai, e estou conversando também com
criminoso já esteja cumprindo sua pena, Bacci
um preso que está dividindo a cela com um
parece ter sentenciado seu silêncio como uma
preso que é acusado de matar uma criança.
confissão de culpa do entrevistado.
Quem é mais cruel nesse caso?, ao que
Eduardo responde: O culpado. Cruel é aquele No próximo trecho, o entrevistador diz:
que é culpado. Este trecho coloca o Você me desculpa, mas eu nunca tinha ficado
telespectador em contato com o “lar” do na frente de uma pessoa que tinha
entrevistado, ao lado de criminosos esquartejado outra. Já entrevistei vários
nacionalmente conhecidos. Ao perguntar qual criminosos, mas um esquartejador, não. O que
dos dois era mais cruel – Eduardo ou é que passa na cabeça de uma pessoa quando
Guilherme, que matara o enteado –, Bacci deixa ela está cortando em pedaços o corpo de uma

Universidade Federal de São Carlos - São Carlos, São Paulo, Brasil - 2 a 4 de setembro de 2015.

147
pessoa? Não consigo entender. Novamente, a deixaria a “Casa de Custódia de Taubaté”, onde
entrevista se encaminha para um subgênero de se encontrava.
espetacularização, de acordo com Medina
5.1 Arrependimento e condenação na
(2008), outra vez no Perfil de condenação.
entrevista com o “homem que aterrorizou
Além do apelo que Bacci faz aos detalhes
São Paulo”
dramáticos do crime, recorrendo ao momento
do esquartejamento, sua subjetividade parece Ao chamar a entrevista, o apresentador
entregue à recorrência do crime. Isso porque o Ivo Morganti destaca: Aqui Agora exclusivo.
jornalista se apoderou do que Charaudeau Trinta anos depois, Gil Gomes conversa com o
(2010) chama de “situação de comunicação”, Bandido da Luz Vermelha, o homem que
uma vez que demarcou seu discurso de forma a aterrorizou São Paulo. Na sequência, a também
ser compreendido pelos interlocutores – a apresentadora Christina Rocha afirma: Ele foi
audiência que, supostamente, busca o condenado a quase 400 anos de cadeia. Mas,
popularesco em seu programa. para você ter uma ideia, estará nas ruas no
ano que vem. Vamos acompanhar.
Nos últimos segundos de entrevista,
seguindo um tipo de caminho até antinômico, o Destaca-se, nessa passagem, a ênfase
entrevistador pergunta: Se ele (o filho do dada ao termo “aterrorizou”, além da expressão
entrevistado) estivesse aqui, onde está essa “para você ter ideia”. Em ambos os casos, os
câmera, olhando nos seus olhos, o que você apresentadores transmitem ao público a
diria pra ele?, ao que Eduardo responde, com sensação de medo e a percepção de
os olhos marejados: Pra ele me desculpar. Este condenação, além de deixarem a entender certa
final retoma, mais uma vez, ao subgênero de incredulidade pela possibilidade de João Acácio
compreensão – aprofundamento, mais deixar a prisão.
especificamente no Perfil humanizado, ao Corrobora com essa linha de raciocínio
apresentar o sofrimento e a sensibilidade que o a ambientação criada por Gil Gomes antes da
criminoso demonstra ao falar de seu filho. entrevista. O repórter aparece em um espaço
com iluminação de tonalidade vermelha e,
enquanto segura uma lanterna, conta a história
5. O caso de João Acácio Pereira da de João Acácio. O clima sombrio se funde à
Costa, o “Bandido da Luz Vermelha” narração pausada e com expressões
O programa Aqui Agora exibiu, em 4 de condenatórias, cuja estilística discursiva
dezembro de 1995, uma entrevista do repórter assemelha-se a enredos literários, como no
Gil Gomes com João Acácio Pereira da Costa. seguinte trecho: O assassino que aterrorizava
Conhecido como “Bandido da Luz Vermelha”, São Paulo. Década: 60. Um homem invadia
ele foi preso em 8 de agosto de 1967, acusado uma casa. Em suas mãos, uma lanterna. Uma
de crimes como homicídios e assaltos. O lanterna vermelha. Sorrateiramente, ele
gancho para a pauta se deu pelo fato de que ele entrava, assaltava, violentava. Um crime, dois.
estava próximo de completar 30 anos de prisão, Vários assaltos. Homicídios também. Toda a
pena máxima permitida no Brasil, e, portanto, polícia estava atrás dele.

Universidade Federal de São Carlos - São Carlos, São Paulo, Brasil - 2 a 4 de setembro de 2015.

148
que o fazem lembrar dos anos na prisão, a
Já ao longo da entrevista, um detalhe
exemplo de expressões como “Trinta anos se
chama a atenção: enquanto João Acácio é
passaram. Uma vida inteira na cadeia”.
chamado de Bandido da Luz Vermelha pelos
apresentadores e nessa contextualização Em relação aos dois trechos em que
apresentada pelo repórter, ele é tratado apenas aparece cantando, cria-se um personagem
pelo nome – e não pelo apelido – durante a arrependido, que deseja recomeçar a vida.
entrevista. Portanto, após a caracterização do Também é possível ter uma percepção que
perfil do criminoso, mostra-se um certo respeito coloca em dúvida a sanidade mental dele, que é
entre entrevistador e entrevistado nesse corroborada pela dificuldade de fala que ele
tratamento. apresenta neste e em outros diversos trechos.
Ao final da entrevista, parte da música entoada
Em relação às perguntas, essencialmente
por ele diz: "...o sol declina e, logo após, vai
se enquadram no perfil da entrevista de
escurecer”. Ao fundo, nota-se,
condenação, além de trazer também de perfil
propositalmente, os dizeres “Deus abençoe este
humanizado. No primeiro caso, destacam-se
local” escrito em uma lousa.
perguntas como: “João, o que você diria hoje a
um garotinho que acha que o crime compensa? Considerações finais
Você, o mais famoso dos famosos, o que você A entrevista de Luiz Bacci com
diria a um menino que quer começar no mundo Eduardo Pinto Martins demarcou uma trajetória
do crime, que acha que roubar dá camisa pra interessante quanto ao (re)trato do
alguém?”; “O crime deu o que para você? Só entrevistador e ao gênero da entrevista.
cadeia?”; “Agora, como no Brasil a pena Inicialmente, parecia enveredar para a
máxima é de 30, no ano que vem, você vai para compreensão, através do subgênero de
a rua...”; “Uma pergunta que eu quero fazer humanização, quando a edição exibiu aquele
ao João, que está em minha cabeça, e você tem que seria o sofrimento do entrevistado, que
todo o direito de responder ou não... Que está chorou ao ver a foto de seu filho – emoção esta
na minha cabeça há quase 30 anos também, e que pode dar a ideia até mesmo de
hoje não teria problema: João Acácio, você arrependimento pelo crime cometido.
agia sozinho?”.
Todavia, no transcorrer da edição, o
No caso do perfil humanizado, destaca- entrevistador Luiz Bacci parece inverter a
se o fato de iniciarem e finalizarem a entrevista essência da entrevista, reforçando a culpa do
com João Acácio cantando músicas de teor entrevistado e o teor do crime cometido. Isto
religioso e algumas perguntas sobre o pôde ser observador no próprio discurso do
aprendizado durante o tempo de prisão, como sujeito-jornalista, que empregou termos de forte
nestas passagens: “Hoje, você é um homem carga semântica – como o vocábulo cruel – aos
completamente diferente, João?”; “O que você seus questionamentos, bem como compará-lo a
pretende da vida, João?”. Questiona-se, com outro criminoso – este acusado de matar o
isso, a regeneração moral do suposto enteado. Aqui, o trajeto da entrevista parece ter
criminoso. João Acácio também mostra a mudado de direção e rumado à
humanização ao chorar, sobretudo no início da
entrevista, quando o repórter realiza perguntas

Universidade Federal de São Carlos - São Carlos, São Paulo, Brasil - 2 a 4 de setembro de 2015.

149
espetacularização, ressaltando o crime e o
ANGRIMANI, D. Espreme que sai sangue: um
criminoso.
estudo do sensacionalismo na imprensa. São
No entanto, na última cena da Paulo: Summus, 1995.
entrevista, a edição parece voltar à entrevista de
BAKHTIN, M. Marxismo e filosofia da
compreensão, igualmente trabalhada no início,
linguagem. São Paulo: Hucitec, 1979.
quando encerra com o entrevistado em prantos
ao declarar o que diria para seu filho – mais CERTEAU, M. de. A escrita da história. Rio
uma vez, dando a ideia de arrependimento do de Janeiro: Forense Universitária, 1982.
criminoso. CHARAUDEAU, P. Discurso das mídias. São
Em relação à edição do programa Aqui Paulo: Contexto, 2010.
Agora analisada neste trabalho, foi possível FIDALGO, J. M. M. O Lugar da ética e da
observar discursos de condenação em diversos auto-regulação na identidade profissional dos
momentos. Logo na chamada dos jornalistas. 2006. (Tese em Ciências da
apresentadores e, sobretudo, na ambientação Comunicação), Universidade do Minho, 2006.
criada por Gil Gomes, fica clara a tentativa de
caracterizar o personagem como um criminoso FOULCAULT, M. Vigiar e punir: nascimento
de forma semelhante aos bandidos da literatura da prisão. Petrópolis: Vozes, 1977.
e dos filmes de ficção. Grande parte das GRUPO BANDEIRANTES. O Programa Tá
perguntas também carregam esse teor Na Tela. Disponível em: <
condenatório e a moralidade dos atos. http://entretenimento.band.com.br/ta-na-tela/o-
Dessa forma, como destacado programa.asp>. Acesso em: 03 ago. 2015.
anteriormente, o jornalista possui papel ativo na MARCONDES FILHO, C. Televisão. São
construção dos sentidos do discurso que ele Paulo: Scipione, 1994.
registra, seja no enfoque criado na narrativa, na
elaboração de perguntas, na descrição de ______. Televisão: a vida pelo vídeo. São
cenários e outros elementos composicionais. Paulo: Moderna, 1988.
Portanto, entendemos que o jornalismo MATTOS, S. A. S. História da televisão
popularesco atua com uma vigilância brasileira: Uma visão econômica, social e
normatizadora que cria discursos que permitem política. Petrópolis: Editora Vozes, 2010.
qualificar, classificar e punir os atores sociais –
MEDINA, C. A. Entrevista: o diálogo possível.
algo amplamente observado nos dois objetos
São Paulo: Ática, 2008.
estudados por este trabalho.
RIBEIRO, A. P. G.; SACRAMENTO, I.;
ROXO, M. História da Televisão no Brasil.
Referências
São Paulo: Contexto, 2010.
AMÊNDOLA, G. Assassinatos sem a menor
importância: banalização da violência no Brasil.
São Paulo: Editora Terceiro Nome, 2005.

Universidade Federal de São Carlos - São Carlos, São Paulo, Brasil - 2 a 4 de setembro de 2015.

150
DA ESCRAVA DOMÉSTICA À ESCRAVA SEXUAL:
MEMÓRIAS ESTAMPADAS NO DISCURSO PUBLICITÁRIO DE
CERVEJAS BRASILEIRAS1

Amanda BRAGA
Universidade Federal da Paraíba (UFPB)
braga.ufpb@hotmail.com

Resumo: Este trabalho se apresenta com o intuito de empreender uma análise discursiva
do rótulo e/ou do material publicitário de três cervejas brasileiras: a cerveja Cafuza, a
cerveja Mulata e a Devassa Negra. Partindo da regularidade que une e tece os enunciados
em questão – a referência à mulher afro-brasileira –, o objetivo é analisar o fio
discursivo que os proporciona condições de emergência, oferecendo visibilidade ao
cenário ainda escravocrata que aqui se apresenta, mais particularmente no que se refere
à memória da escrava doméstica e da escrava sexual2. Como recurso teórico-
metodológico, este trabalho está ancorado em uma análise do discurso derivada de
Michel Pêcheux, mas que aceita as contribuições de Michel Foucault e Jean-Jacques
Courtine.
Palavras-chave: discurso; memória; mulher negra; cerveja.

à tona, enquanto a priori histórico desses


Introdução
enunciados, a memória de um sistema
Este artigo nasce de duas preocupações. escravocrata, ou, mais particularmente, a
A primeira diz respeito ao modo como os atuais memória da escrava doméstica e da escrava
anúncios de cerveja fazem uso do corpo da sexual.
mulher em seu material publicitário, fazendo-os
Para tanto, o intuito é fazer trabalhar um
confundir com o produto oferecido para
aparato teórico-metodológico que nos ofereça
consumo. A segunda concerne à esfera racial de
suporte para a análise de enunciados que não se
alguns desses anúncios, o que acaba por trazer
reduzem à natureza linguística e, do mesmo

1
Uma versão ampliada deste artigo foi enviada à Revista Letras e Línguas e deve ser publicado em seu próximo
número (33).
2
Em todo período escravocrata brasileiro, a prática da seleção eugênica selecionou mulheres escravizadas para o
trabalho na Casa-Grande. Na maioria dos casos, essas mulheres, além de escravas domésticas, eram também escravas
sexuais. Assim sendo, essas são memórias que fazem referência, quase sempre, à mesma pessoa, muito embora, para
fins de análise, elas se apresentem aqui de modo distinto.

Universidade Federal de São Carlos - São Carlos, São Paulo, Brasil - 2 a 4 de setembro de 2015.

151
produção e materializada em um suporte
modo, que reivindicam uma dimensão histórica (PIOVEZANI, 2009, p. 208).
no momento de sua leitura. Esse gesto analítico
está alinhando às contribuições de Foucault à
Análise do Discurso (centrando-se aqui na Assim sendo, seria preciso que nós,
noção de enunciado) e de Jean-Jacques analistas do discurso, passássemos a considerar,
Courtine (mais precisamente em sua proposta em nossas análises, a dimensão textual em sua
de uma Semiologia Histórica aplicada aos totalidade, mediante as diferentes linguagens
estudos do discurso). sob as quais ela se funda.

1. Discurso e Semiologia Além disso, a dimensão histórica que


Courtine vincula à dimensão semiológica não
Nos últimos anos, aqueles que representa, nas palavras de Piovezani (2009),
trabalham com uma Análise do Discurso em um mero sintagma atraente. Associando o
terras brasileiras têm se deparado com novas caráter histórico à Semiologia, Courtine
discussões ou desafios. Entre eles, estão as pretendia ampliar o alcance da visada
novas materialidades do discurso e a busca por discursiva, oferecendo novo fôlego e novos
um aparato teórico-metodológico que responda desafios ao projeto que buscava restituir ao
de modo satisfatório às análises de tais discurso sua espessura histórica, em
materialidades. Nesse contexto, aqueles que se contraposição a uma tendência de
fazem valer das noções foucaultianas em seus gramaticalização do discurso.
trabalhos, têm, cada vez mais, colocado à prova
as atuais discussões de Jean-Jacques Courtine, Fundamentados nos postulados da
mais particularmente aquelas que trazem uma Semiologia histórica, de Courtine, visamos a
leitura de Michel Foucault para discutir o uma certa reabilitação da densidade
corpo, as expressões, as imagens. Decorre histórica que atravessa toda e qualquer
daqui a disseminação de pesquisas que levam discursividade, com vistas a inscrevermos
em conta a perspectiva denominada por nosso objeto de reflexão e análise na
Courtine de Semiologia Histórica. intersecção de múltiplas durações da
história e a considerarmos, mesmo que
Essa Semiologia reclama a necessidade sumariamente, a historicidade das memórias
de uma mudança no que se refere ao apego pela que ele atualiza, dos recursos que ele
dimensão textual dos discursos. Seria preciso emprega, quando de sua formulação, e da
considerar que o processo de materialização forma do objeto cultural por intermédio do
textual ocorre, atualmente, mediante uma qual ele se manifesta materialmente e
diversidade de meios de expressão, tendo, nas circula na sociedade (PIOVEZANI, 2009,
palavras de Piovezani (2009), um caráter p. 204).
plurissemiótico, de modo que seria preciso
considerar o texto como sendo uma Destarte, grosso modo, poderíamos
dizer que a proposta de uma Semiologia
unidade simbólica que se formula em uma, Histórica, antes de estar ligada à concepção de
duas ou mais linguagens, sob a forma de um uma disciplina, está ligada à construção de uma
dado gênero de discurso, produzida em perspectiva teórica que carrega o desejo não
determinadas condições históricas de apenas de revolver (e devolver) a espessura

Universidade Federal de São Carlos - São Carlos, São Paulo, Brasil - 2 a 4 de setembro de 2015.

152
histórica dos discursos, mas, além disso, de
considerar uma unidade textual baseada no
caráter sincrético que a constrói. Essa abertura
não significa, no entanto, distanciar-se dos
preceitos postulados pela Análise do Discurso.
Piovezani (2009) fala de uma reformulação
conservadora, na medida em que a perspectiva
adotada por Courtine faz irromper novas
questões sobre a composição, a historicidade e
o funcionamento do discurso contemporâneo,
apresentando-se como via possível na
ampliação da visada discursiva e renovando, na
Análise do Discurso, sua capacidade analítica, A mulher retratada se apresenta de
na medida em que explora seus limites e forma crua, alheia a qualquer vaidade ou
alcances. Vejamos, agora, como essa proposta produção. Sua expressão é de passividade, mas
se aplica às análises. de uma passividade bravia, principalmente se
reparamos em sua sobrancelha esquerda
2. Cerveja Cafuza: forte, escura
levemente arqueada, de onde poderíamos supor
O enunciado abaixo é rótulo de uma uma dada altivez. A linguagem verbal – que
cerveja produzida artesanalmente no Brasil. Seu igualmente compõe o enunciado em questão –
nome – Cafuza – funciona na ambivalência coaduna com este sentido ao mesmo tempo em
entre a combinação de ingredientes utilizados que o expande: cerveja forte e escura,
na cerveja, a miscigenação entre negros e oferecendo-nos a ratificação não apenas da
índios, historicamente comum em nosso país, e designação atribuída à mulher enquanto cafuza
a mulher que estampa seu rótulo, supostamente – escura –, mas também da expressão descrita
cafuza. de seu rosto – forte.
Sobre esta última, especificamente, seria A confusão que se instaura – entre a
preciso questionar, à luz da arqueologia mulher e a cerveja, ambas igualmente cafuzas,
foucaultiana ([1969] 2010), os motivos pelos fortes e escuras – nos faz questionar,
quais há uma determinada fotografia na estampa novamente, sua escolha. Quem é essa mulher no
do rótulo, e não outra em seu lugar, haja vista decorrer de nossa história e por que ela – e
que não se trata de uma fotografia recente, nenhuma outra – estampa o anunciado aqui
produzida conforme solicitação da empresa, analisado? São muitas as fotografias do século
muito menos trata-se de uma modelo inspirada XIX que poderiam ser colocadas enquanto
nos atuais conceitos de beleza, com pose e operadores de memória deste rótulo. Uma
vestimenta específicas para este fim. delas, no entanto, merece destaque. Abaixo,
temos uma fotografia datada de 1870,
provavelmente de uma mulher escravizada,
Figura 1. Cerveja Cafuza

Universidade Federal de São Carlos - São Carlos, São Paulo, Brasil - 2 a 4 de setembro de 2015.

153
como tantas outras3. Um rápido contato com a de um luxo tão longínquo de sua realidade –,
fotografia e é possível perceber que a imagem nos permite concluir que se trata de uma
do rótulo anteriormente apresentado é uma escrava doméstica, certamente levada por seu
retomada da fotografia aqui impressa. São senhor ao estúdio fotográfico para fins de
imagens que colocam em jogo uma memória registro em álbum de família, tão comuns na
das imagens acontecimentalizadas pelo época. Sua condição explica, pois, sua
presente. Com isso, não estamos afirmando que expressão passiva, embora determinada, ou, no
temos, em ambos os casos, o mesmo limite, servil com os senhores e forte para o
enunciado, uma vez que o enunciado, embora trabalho.
tenha materialidade repetível, empreende em A escolha da imagem presente no rótulo
seu retorno a emergência de uma nova parece se dá, portanto, porque é a imagem
discursividade (FOUCAULT, [1969] 2010). dessa escrava doméstica quem melhor responde
Trata-se, portanto, de funcionamentos aos interesses da cerveja, principalmente em se
discursivos distintos, embora haja, entre ambas, tratando de uma cerveja artesanal, que, em
a retomada de uma materialidade. princípio, foi produzida de forma caseira. Esta
Figura 2. Fotografia de 1870 ideia agregaria valor à cerveja na medida em
que a diferencia da maioria das cervejas do
mercado, feitas em larga escala, de forma
massiva, sem qualquer apuro em sua
composição e até, por vezes, acusadas de
substituírem a cevada pelo milho, numa
tentativa de baratear o produto. A cerveja
Cafuza, por sua vez, teria na imagem atualizada
da escrava doméstica o símbolo de um produto
familiar, fabricado em pequena escala, na
intimidade da casa e aos cuidados domésticos, o
que garantiria, portanto, sua qualidade. Mas
essa memória não seria exclusividade deste
anúncio, ou deste enunciado, ainda a veremos
refletida, ainda que sob outra ótica, no
enunciado a seguir, cartão publicitário da
O modo como se apresenta esta segunda
cerveja Mulata.
fotografia – considerando a ausência de
qualquer adereço mais representativo, o que a 3. Cerveja Mulata: a mistura perfeita
deixa à margem de tantas outras fotografias que
nos chegam do século XIX, nas quais as O anúncio abaixo é um cartão
mulheres portam vestimentas, joias e penteados publicitário lançado em 2006: Gostosa é
apelido. O nome é Mulata. Cerveja Mulata: a
mistura perfeita. Bem como o enunciado
3
Fotografia de autoria de Alberto Henschel, datada de anteriormente analisado, o anúncio em questão
1870. Atualmente catalogada em Ermakoff (2004, p. não tarda em fazer deslizar a ideia de mistura
182).

Universidade Federal de São Carlos - São Carlos, São Paulo, Brasil - 2 a 4 de setembro de 2015.

154
para a ideia de miscigenação. O produto a ser está cozinhando e não fazendo qualquer outra
vendido é, ele mesmo, fruto de uma mistura: atividade? Que sentidos a imagem evoca e em
elaborada a partir de uma combinação que espessura histórica (e cultural) buscará
exclusiva de maltes pilsen e lúpulos importados respaldo?
da Europa. Como bem prega o nosso imaginário, e
Figura 3. Cerveja Mulata como bem resgata DaMatta (1986), na mesa
brasileira não pode faltar arroz com feijão – e
talvez seja exatamente o feijão que a mulata
anda a cozinhar na publicidade! Voltemos, pois
à (con)fusão instaurada entre mistura e
miscigenação: a mistura que fazemos à mesa
não é bem aquela que corre em nosso sangue?
O preto e o branco comungam no nosso rosto e
no nosso prato. O feijão deixa de ser preto e o
arroz deixa de ser branco para formarem,
Sua garota propaganda, do mesmo juntos,
modo, é, por excelência, a representante da
nossa miscigenação, bem como da nossa um ser intermediário, desses que a
identidade nacional: em franca oposição ao sociedade brasileira tanto admira e
discurso advindo das teorias eugenistas do valoriza positivamente. Comer arroz-com-
século XIX, segundo as quais a miscigenação feijão, então, é misturar o preto e o
deveria ser combatida enquanto principal branco, a cama e a mesa fazendo parte de
responsável pela possível degeneração da raça um mesmo processo lógico e cultural...
(DAMATTA, 1986, p. 56).
humana, o que a nossa cultura nacional fará é
atribuir valor positivo ao mulato, ratificando a
“glorificação da mulata e do mestiço como Assim, a comida se apresenta enquanto
sendo, no fundo, uma síntese perfeita do melhor código representativo da sociedade brasileira,
que pode existir no negro, no branco e no tanto no que diz respeito ao modo como nos
índio” (DAMATTA, 1986, p. 40). alimentamos, quanto no que diz respeito ao
modo como nos organizamos enquanto povo:
Sua representação aqui se constitui mulata não é apenas aquela brasileira que
entre a caricaturização de um corpo sensual e a carrega os traços de nossa formação social, mas
tarefa que exerce na cena em que é retratada: é também a comida que temos à mesa, ou,
enquanto sorri e remexe um corpo embalado ainda, o modo como a preparamos antes de
por um vestido insinuante, a mulher prepara ingeri-la:
uma comida escura numa enorme panela.
Poderíamos partir, mais uma vez, da clássica Tal como somos ligados à idéia de sermos
pergunta foucaultiana: por que esse enunciado e um país de três raças, um país mestiço e
não outro em seu lugar? (FOUCAULT, ([1969] mulato, onde tudo que é contrário lá fora
2010). Por que esse exato modo de aqui dentro fica combinado, nossa comida
representação e não outro? Por que a mulata

Universidade Federal de São Carlos - São Carlos, São Paulo, Brasil - 2 a 4 de setembro de 2015.

155
revela essa mesma lógica (DAMATTA,
1986, p. 64).

Dessa associação, decorre, ainda, aquela


que estabelece um parâmetro entre mulheres e
comidas, a partir da subversão do verbo
“comer”. Para além da rápida e cristalizada
associação feita entre a mulher e seu papel
doméstico, tratamos aqui da corrente Acima, temos o anúncio publicitário da
associação entre sexo e refeição. Essa dimensão Cervejaria Devassa, veiculado pela Revista
está ratificada pela maneira como está posta a Rolling Stones em dezembro de 2010: É pelo
linguagem verbal: Gostosa é apelido. O nome é corpo que se reconhece a verdadeira negra.
Mulata. Aqui se confundem a cerveja, a mulher, Associando, em toda sua linha de produção, a
a comida. Se a cerveja é fruto de uma mistura e, imagem da mulher à imagem da cerveja, a
por isso, sustenta a ideia de ser mais gostosa em Devassa também faz uso de ambiguidades a fim
relação às demais, a mulher também o é. Seu de confundir as duas esferas. O próprio nome
corpo exala sensualidade, falando-nos sobre um da cerveja – bem como fizeram a cerveja
sabor que está não apenas na cerveja, mas está, Cafuza e cerveja Mulata – é prova disso: afinal,
principalmente, no corpo da mulher mulata. o que é a Devassa, ou quem é a devassa? Certo
é que todas as cervejas produzidas nessa linha
O que temos aqui, por um lado, é o
não apenas recebem denominações femininas,
retrato de uma mulata fácil, docilizada ao sabor
como também são tratadas por irmãs: uma
dos desejos patriarcais: aquela que iniciou
família bem atípica, todas as irmãs são
nossos meninos de engenho “no amor físico e
gostosas, diz a página oficial do produto 4.
os transmitiu, ao ranger da cama de vento, a
Apresenta-se, assim, a loura, a ruiva, a negra, a
primeira sensação completa de homem”
índia e a sarará: mas nem todo mundo aguenta
(FREYRE, [1933] 2006, p. 367). Mas não é só
4 na mesma noite, dispara o site.
isso. Por outro lado, atentemos para o resgate,
também presente, de uma escrava doméstica, O ambiente criado para a publicidade da
destinada aos trabalhos caseiros, Devassa negra, especificamente, é um misto de
particularmente àqueles ligados à cozinha: é bordel e botequim. Este último está presente,
cozinhando que a mulata se apresenta. Não por por exemplo, nos azulejos que formam o pano
acaso, a linguagem verbal faz uso de expressões de fundo da imagem: em botequins mais
que retomam os dois enredos: quem é gostosa, tradicionais, principalmente aqueles que
a mulher mulata ou a comida por ela produzida? remontam a meados do século passado, no
É esse a priori histórico, ou, mais melhor estilo português, os azulejos – quando
particularmente, essas memórias, que oferecem não são o típico azulejo lusitano, decorado com
sustentação ao enunciado em questão. suas formas florais ou abstratas –, estão
acomodados na forma de losangos, sobrepondo
4. Devassa Negra: é pelo corpo...
dois tons de cor, tal qual nos mostra o
Figura 4. Devassa Negra
4
<www.devassa.com.br>. Acesso em: 25 abr. 2015.

Universidade Federal de São Carlos - São Carlos, São Paulo, Brasil - 2 a 4 de setembro de 2015.

156
enunciado em questão. Aliada ao azulejo, a beijos de quem a deseja), porta uma roupa
imagem da cerveja: chope ou long neck. insinuante (que mostra mais do que esconde) e
Enquanto a garrafa – geladíssima – insinua uma um olhar que revela uma suposta maldade da
leve abertura da tampa, o chope, em copo raça, como já cantava Bororó na década de
personalizado, transborda sua espuma, como 305. E de outro modo não poderia ser: é pelo
quem acaba de ser recolhido: ambos prontos ao corpo que a reconhecemos, são as curvas
consumo, oferecendo-se aos olhos e ao paladar desenhadas sobre sua pele que podemos
do consumidor. A competir com a cerveja, no identifica-la.
entanto, apresenta-se – maior! – a mulher negra Não por acaso, o anúncio em questão
que se estende pelo restante do anúncio. É ela o provocou reações em cadeia e foi acusada de
contraponto à garrafa long neck ou ao chope. reforçar o processo de racismo e veicular
Do mesmo modo, é ela quem colocará em cena, estereótipos e mitos sobre a sexualidade da
numa relação de memória, a imagem do bordel população negra. A tal acusação, o grupo
de que falávamos anteriormente. Devassa parece responder citando a alegria e a
Sentada, coxas à mostra, sapato alto, criatividade do brasileiro. Em seu site,
vestido decotado (minuciosamente desenhado), disponibiliza um Manifesto fazendo alusão à
uma rosa amarrada ao braço, uma tiara ao Devassa como sinônimo de liberdade,
cabelo e, por fim, um olhar que tem por autenticidade e descontração: mostrar quem, de
finalidade seduzir o leitor do enunciado. Em verdade, a gente é e fazer aquilo que tem
contraste com os azulejos verdes, a negra veste vontade de fazer são algumas das possibilidades
vermelho, numa atmosfera de paixão e luxúria. apresentadas pela cerveja, porque quem bebe
Em trajes típicos de uma concubina, a mulher Devassa procura liberdade. Nada de fazer tipo,
está sentada de costas para quem vê o quadro: caras e bocas, fingir ser o que não é. Por esse
apoia seus braços sobre o chão e apresenta seu viés, o que o anúncio por eles divulgado faria,
rosto. É sob esse ângulo que se dá a ver o então, seria oferecer visibilidade e espaço para
maior decote de sua roupa: desnudando seus que a mulher negra seja exatamente quem ela é,
ombros, seu dorso, ao mesmo tempo em que para que ela assuma, finalmente, sua identidade
ameaça deixar à mostra seus seios e insinua, sob sem que seja preciso qualquer máscara ou
o “corte” que traja, o desenho de suas nádegas. maquiagem.
Paralelamente, a linguagem verbal salienta: é Se quisermos considerar, ainda, o
pelo corpo que se reconhece a verdadeira parâmetro feito por DaMatta (1986, p. 60)
negra. entre mulheres e comidas, em lugar de uma
Uma leitura do enunciado em sua mulher negra que estivesse moldada por um
espessura histórica nos dirá que a verdadeira discurso social que impõe controle de sua
negra, aqui, é, na verdade, um acontecimento identidade, de sua conduta e de seu apetite
discursivo que atualiza, mais uma vez, a sexual, a Devassa daria vazão à verdadeira
memória de uma escrava sexual. A verdadeira
negra tem um corpo exposto, oferece-o aos
olhos de quem a observa, traz uma boca
5
entreaberta (como que pronta a entregar-se aos Referência à música Da cor do pecado, escrita por
Bororó na década de 30 do século XX.

Universidade Federal de São Carlos - São Carlos, São Paulo, Brasil - 2 a 4 de setembro de 2015.

157
negra: “comida de todos”, nas palavras do modo, sustentando a produção de sentido
autor, ou, quiçá, “bebida” de todos. destes enunciados, esta linha tênue entre
mulheres e cervejas também trará à tona uma
É esse parâmetro – de uma mulher
espessura histórica que acontecimentalizará a
negra “comida ou bebida de todos” – e
memória senhoril/ escravocrata, retomando da
principalmente as ambiguidades presentes na
imagem da escrava doméstica à imagem da
proposta publicitária da revista – o nome das
escrava sexual.
cervejas, o modo como se apresenta cada uma
delas, além do cenário de luxúria montado em Por outro lado, é justamente esse
seu site – que nos proporá, então, a confusão crescendum – entre a escrava doméstica e a
propositalmente instaurada entre o produto escrava sexual – que nos apontará as rupturas
oferecido pela publicidade e suas garotas enunciativas aqui encontradas. A começar pela
propagandas. Seria, mais uma vez, preciso cerveja Cafuza, vimos que toda construção de
questionar: quem é a devassa: a mulher negra seu enunciado, passando pela mulher estampada
que se estende pelo anúncio ou a cerveja que se em seu rótulo até a linguagem verbal que define
apresenta, tímida, ao lado dela? O que oferece, o produto, trabalha na manutenção da memória
de fato, o anúncio: o corpo da mulher ou a de uma escrava doméstica, uma vez que essa
cerveja escura, encorpada, estilo dark ale? Uma memória agregaria valor a um produto
ou outra, certo é que, segundo a publicidade, o artesanal, atestando sua qualidade através de
lado devassa da negra (a mulher ou a cerveja) seu modo caseiro de produção. Já a cerveja
só seria perceptível pelo corpo. Mulata se apresenta na corda bamba entre as
memórias da escrava doméstica, anteriormente
4. Considerações finais
acionada, e a memória da escrava sexual. Ora, é
Após empreender uma leitura discursiva na caricaturização de um corpo sensual e que
dos enunciados em questão – o rótulo da cozinha que o enunciado em questão se
cerveja Cafuza, um cartão postal da cerveja constitui, instaurando uma dada confusão entre
Mulata e um anúncio da Devassa Negra –, mulheres, sexo e comida. A Devassa Negra,
restar-nos-ia, ainda, esboçar as regularidades e por seu turno, proporá a sensualidade do corpo
rupturas que se fizeram presentes neste negro em sua máxima caracterização,
percurso. De início, é preciso reconhecer o uso aguçando, de modo definitivo, a memória da
do corpo da mulher em anúncio de cerveja de escrava sexual. Prova disso é o modo como se
modo geral, para além da questão racial aqui estende pelo anúncio e toda composição de sua
apontada. No entanto, nos enunciados roupa (da cor ao corte), além de um olhar
analisados neste artigo, além do uso desse sedutor e de um cenário que lembra os clássicos
corpo, há, em todos eles, uma sintomática bordeis.
ambiguidade instalada entre os nomes das
Com isso, talvez tenhamos atingido o
cervejas, sua composição e as mulheres que
objetivo elencado para este texto: analisar o
estampam seus rótulos. Não por acaso, são as
material publicitário das cervejas mencionadas
mulheres que aparecem nos três enunciados,
trazendo à tona sua espessura histórica e
protagonizando uma fusão entre garotas
considerando sua natureza semiológica. Para
propagandas e produtos a serem
tanto, foi preciso abrir mão de uma Análise do
comercializados e consumidos. Do mesmo

Universidade Federal de São Carlos - São Carlos, São Paulo, Brasil - 2 a 4 de setembro de 2015.

158
Discurso obcecada pela materialidade
FOUCAULT, M. [1969]. A arqueologia do
linguística e pelo teatro das condições de
saber. Tradução de Luiz Felipe Baeta Neves. 7.
produção. Foi preciso fazer trabalhar uma
ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2010.
Análise do Discurso que começa a se configurar
na década de 80, principalmente quando FREYRE, G. [1933]. Casa-grande & senzala:
Courtine ([1981] 2009) trazia para o campo as formação da família brasileira sob o regime da
contribuições da arqueologia foucaultiana, ou, economia patriarcal (Introdução à história da
da mesma forma, quando ele se deslocava rumo sociedade patriarcal no Brasil – 1). 51. ed. São
a uma Semiologia Histórica (2011; 2013). É Paulo: Global, 2006.
essa articulação que distanciar-nos-á da PIOVEZANI, C. Verbo, corpo e voz:
gramaticalização dos discursos, na medida em dispositivos de fala pública e produção da
que devolve sua dimensão histórica; bem como verdade no discurso político. São Paulo: Ed. da
distanciar-nos-á da limitação linguística dos UNESP, 2009.
enunciados, na medida em que nos fará
considerá-los em sua dimensão semiológica.

Referências

COURTINE, J-J. [1981]. Análise do Discurso:


o discurso comunista endereçado aos cristãos.
Tradução de Bacharéis em Letras pela
Universidade Federal do Rio Grande do Sul.
São Carlos: EdUFSCar, 2009.
______. Discurso e imagens: para uma
arqueologia do imaginário. Tradução de Carlos
Piovezani. In: PIOVEZANI, Carlos;
CURCINO, Luzmara; SARGENTINI, Vanice.
(Org.). Discurso, semiologia e história. São
Carlos, SP: Claraluz, 2011. p.145-162.
______. Decifrar o corpo: pensar com Michel
Foucault. Tradução de Francisco Morás.
Petrópolis: Vozes, 2013.
ERMAKOFF, G. O negro na fotografia
brasileira do século XIX. Textos de George
Ermakoff. Projeto gráfico de Victor Burton e
Angelo Allevato Bortino. Rio de Janeiro:
George Ermakoff Casa Editorial, 2004.
DAMATTA. R. O que faz o brasil, Brasil? Rio
de Janeiro: Rocco, 1986.

Universidade Federal de São Carlos - São Carlos, São Paulo, Brasil - 2 a 4 de setembro de 2015.

159
PRÁTICAS DE LEITURA E SUA LEGITIMAÇÃO: FORMAS
DE ACONSELHAMENTO NA WEB

Jessica Boquetti de Oliveira BRAGA


Universidade Federal de São Carlos (UFSCar)
jebobraga@gmail.com

Neste trabalho, apresentamos considerações iniciais da nossa pesquisa de Iniciação


Científica cujo objetivo é empreender um levantamento na web de declarações de famosos
sobre a leitura, de modo a identificar e analisar o que se enuncia sobre a leitura,
asformas de promoção dessa prática e de ostentação de si como leitores, que remetem
invariavelmente a representações compartilhadas histórica e culturalmente sobre essa
prática. Assim, pautamo-nos teórico-metodologicamente naAnálise do Discurso de linha
francesa e em alguns princípios da História Cultural da leitura.
Palavras-chave: Práticas de leitura; Leitores famosos; Representações discursivas do
leitor; Análise do discurso; História Cultural de leitura

avaliarmos o que dizem ou o que mostram


Introdução
sobre a leitura.
Neste artigo, apresentamos algumas
Graças à visibilidade midiática que
considerações iniciais de nossa pesquisa de
esses sujeitos dispõem, logo, de certo prestígio
Iniciação Científica que estamos
e de reconhecimento, eles atuam como
desenvolvendo e que se apoia nas pesquisas e
formadores de opinião e por isso suas
discussões realizadas no âmbito do Laboratório
declarações, de modo geral, e aquelas
de estudos Interdisciplinares das
referentes à leitura, de modo específico, são
Representações discursivas do leitor brasileiro
legitimadas, ainda que não sejam reconhecidos
contemporâneo – LIRE/UFSCar.
como especialistas do tema. Por outro lado, ao
Inspirados, especialmente, na pesquisa mostrarem-se publicamente como leitores,
realizada por Santos&Curcino (2014) sobre as constroem sobre si uma imagem positiva, um
declarações de famosos acerca de suas leituras certo ethos, cujo prestígio advém do valor
no Blog do Galeno, objetivamos com este simbólico sócio e historicamente constituído
trabalho, descrever certas práticas de leitura acerca da própria prática, do que se enuncia e
apresentadas ou declaradas na web por figuras se reitera sobre ela. São esses enunciados
públicas e de sucesso na mídia de modo a verbais e não-verbais presentes no que é dito e
empreendermos uma busca das ocorrências de mostrado sobre essas figuras “famosas” quanto
declarações sobre a leitura manifestas por à leitura e quanto ao seu perfil leitor que
famosos não-especialistas no tema, de modo a

Universidade Federal de São Carlos - São Carlos, São Paulo, Brasil - 2 a 4 de setembro de 2015.

160
compõem nosso corpus de pesquisa, de modo e validados historicamente sobre essa prática,
que a nossa análise busca refletir sobre as assim como são por eles fomentados e
representações discursivas compartilhadas hoje produzidos. Esses discursos são aceitos e
quando são apresentadas figuras públicas e compartilhados pelos sujeitos de modo a
famosas como leitores. nortearem suas práticas reproduzidas
socioculturamente, e com eles se estabelece
Dessa forma, nossa análise é subsidiada
processos de desidentificação complexos,
pela articulação teórica da Análise do Discurso
responsáveis pelas mudanças, ao longo do
de linha francesa, principalmente nos trabalhos
tempo e de cultura a cultura, do que dizemos e
empreendidos por Michel Foucault, no que diz
fazemos em relação a essa prática.
respeito às formações discursivas comuns a
esses enunciados coletados, de modo a Os discursos têm uma espessura
situarmos histórica e culturalmente algumas histórica oriunda do modo como constituímos,
dessas declarações em relação “ao que pode e validamos e reproduzimos esses discursos, e que
deve ser dito” sobre a leitura; e por alguns é responsável por sua duração no tempo (cf.
princípios da História Cultural da leitura Courtine 1999), podendo ser depreendidos não
preconizados por Roger Chartier, em relação às apenas no que é dito explicitamente sobre uma
representações da leitura e do leitor que prática, mas também no modo como os textos
circulam atualmente. circulam materialmente, sob a forma de
determinados gêneros e suportes.
1. Leitores e Leitura:
Não sem razão, são recorrentes certas
Ao se pensar sobre a sociedade
afirmações sobre a leitura, tais como a
heterogênea na qual estamos hoje inseridos,
importância da leitura de livros, para
buscamos compreender quais são as relações
entretenimento, especialmente de origem
que possibilitam sujeitos distintos
literária, ou a afirmação genérica de que a
compartilharem, produzirem e reproduzirem
leitura traz benefícios para o sujeito, sob a forma
ações e ideias de uma comunidade. Para tanto,
de seu desenvolvimento intelectual, profissional
com base na História Cultural da leitura e na
etc, tal como discutido, por exemplo, por
Análise do Discurso, concebemos que essas
Varella&Curcino (2012).
ações resultam de, ao mesmo tempo em que
produzem, certas representações coletivas, Pela ampla difusão desses discursos, o
comuns, que norteiam nosso modo de conceber livro impresso ocupa lugar de destaque e valor,
o mundo e as nossas relações interpessoais, tornando-se um importante objeto cultural cuja
uma vez que a representação corresponde a um posse e acesso ao longo do tempo
conjunto de valores que promovem relações de desempenhou papel de distinção dos sujeitos, o
identificação do sujeito com a sociedade. que se encontra manifesto nos exemplos que
buscaremos analisar em nossa pesquisa.
Segundo Chartier (1998), a leitura, tal
como em relação a outras práticas, também é Entre os gêneros em que mais se
representada conforme concebida e validada evidencia a recorrência desses discursos mais
socialmente. Assim, tanto a presença ou remanentes sobre a leitura encontram-se aquele
ausência dessa prática, quanto o que é lido, das campanhas publicitárias em favor da leitura
assim como o modo como se lê num dado (Cf. VARELLA & CURCINO, 2012) e as
grupo social refletem discursos compartilhados propagandas de livros ou de materiais escolares

Universidade Federal de São Carlos - São Carlos, São Paulo, Brasil - 2 a 4 de setembro de 2015.

161
de promoção dessa prática. Nelas vemos de
modo mais objetivo a determinação dos usos e 3. Análises e discussão
dos objetos legítimos de leitura. No processo de seleção dos enunciados,
Atualmente, um dos lugares inicialmente, nos valemos da busca via Google1,
privilegiados de circulação de textos, a partir por meio de palavras-chaves pré-definidas, tais
dos quais podemos buscar formas de como “famosos”, “celebridades”,
manifestação de práticas de leitura, é a Internet. “personalidades públicas”, conjugadas com
Nela, em sites muito variados que vão de blogs, outras palavras-chave como “leitores”, “leitura”,
páginas pessoais em redes sociais etc, é “livros”, “lendo”.
possível localizar formas distintas de Num levantamento inicial observamos
referenciação da leitura, isto é, de manifestação serem frequentes as declarações sobre a leitura
de sujeitos acerca dessa prática que validam por parte de famosos em ‘entrevistas’
sob a forma de postagens, fotos e entrevistas, o concedidas ou publicadas em blogs e sites de
que se entende por leitura e por “ser” leitor (Cf. comunicação, como revistas online, figurando,
CURCINO, 2016). normalmente, em colunas de “Entretenimento”,
Dessa forma, em nossa pesquisa, em que, conjuntamente, circulam notícias e
objetivamos depreender discursos sobre a entrevistas relacionadas a diversos temas, sobre
leitura presentes na internet (sites, blogs e redes a vida de celebridades, como curiosidades,
sociais), por meio de levantamento de textos hobbys, etc.
diversos em que figurem imagens ou Em geral, o tema da leitura não é
declarações verbais feitas por diversos evocado espontaneamente pelo entrevistado,
indivíduos, em situações as mais variadas, cuja mas induzido por meio de questões relativas ao
similitude entre eles encontra-se no fato de que tema realizadas pelo próprio entrevistador,
todos esses indivíduos se apresentam ou são como: o que estão lendo no momento; se são
apresentados como leitores. leitores; quais são seus gostos por um gênero e
2. O que se enuncia e quem enuncia sobre a estilo literário, e o que indicariam para a
sobre a leitura nas redes sociais leitura.

Pelo estágio inicial de nossa pesquisa, Outro conjunto de ocorrências refere-se


procedemos neste momentoa uma consulta a a situações e gêneros distintos. Ao invés de
blogs, sites e redes sociais diversas, de modo a serem questionados, por meio de perguntas,
levantarmos e selecionarmos posts, notícias e acerca de suas práticas de leitura, os famosos,
postagens contendo recomendações de leitura são apontados como sujeitos leitores por meio
manifestas por famosos, ou sobre eles, de da utilização de imagens, fotografias,
diferentes campos e origens. Em seguida, construindo uma espécie de “flagra” do que
sistematizamos essas declarações em função de fazem cotidianamente. O termo “flagra” é
suas semelhanças quanto àquilo que enunciam
sobre a leitura, lembrando queessas declarações
não apenas validam o que é dito sobre a leitura, 1Foram utilizadas na busca diferentes
como também aqueles que se apresentam como máquinas e navegadores, evitando a “busca
leitores. viciada” que ocorre ao estarmos logados em
uma conta google, por exemplo.

Universidade Federal de São Carlos - São Carlos, São Paulo, Brasil - 2 a 4 de setembro de 2015.

162
usualmente utilizado no meio marcadores de páginas (que comprovariam a
jornalístico/midiático, principalmente nos leitura efetiva), por exemplo.
portais de revistas e jornais de fofoca, Desses conjuntos de dados citados,
atualidades, colunas sociais, seja online ou
devemos considerar alguns aspectos relativos
impresso, para exporem acontecimentos aos meios de vinculação dessas informações,
relacionados às celebridades. Dentre as apresentações, a saber, os portais, blogs
situações recorrentes nesses “flagras” pessoais e redes sociais.
observamos várias fotografias não-posadas,
obtidas de forma “espontânea” de O primeiro, geralmente, diz respeito
personalidades em restaurantes, na praia, no propriamente ao que se diz sobre a leitura:
salão de beleza etc, portando ou lendo livros. quais livros estão sendo lidos, ou supostamente
Devido à origem dessas fotografias, que lidos, por essas personalidades? Tendo em vista
teoricamente representariam situações do dia-a- que, nas entrevistas vinculadas pelos portais e
dia das celebridades obtidas de forma blogs, os sujeitos em destaque tendem a indicar
“espontânea”, uma vez que os fotografados não títulos de livros que estão lendo ou que são
sabem que estão sendo clicados, elas adquirem seus favoritos. Observamos, uma certa
maior valor de verdade por teoricamente não diversidade de títulos, que se diferenciam nos
serem posadas e/ou encenadas (cf. CURCINO, gêneros indicados; o mesmo se dá quando
2006). Assim, são flagrados artistas, sobretudo migra-se para as redes sociais, pois os famosos
aqueles do universo da TV aberta, em dão destaque ao livro que estão lendo no
momentos rotineiros, como o da compra de um momento, de modo a afirmarem sua intenção
novo livro, a ida à praia com um livro na mão, e/ou realização de leitura, explorando aspectos
por exemplo, que contribuem para a de ordens diversas, tais como o conhecimento
constituição do ethos desses sujeitos. do autor e do livro pelos fãs e seguidores,
criando uma relação mais direta, mesmo que
Um terceiro conjunto de dados é aquele generalizada, de interação.
oriundo de páginas de famosos ou páginas para
as quais os famosos enviam, com vistas à O segundo refere-se aos “flagras”
publicação, imagens ou declarações sobre si, de propriamente ditos, em que os títulos dos livros
modo geral, entre elas imagens e declarações tendem a ter um papel secundário, sendo o
sobre suas práticas de leitura. É preciso objeto físico livro o único requisito necessário
considerar que, muitas dessas personalidades para a validação e constituição do ethos de
têm assessores de publicidade e as redes sociais leitor desses sujeitos. As imagens, por serem
são uma ferramenta para a ampliação das espontâneas, não trazem com clareza a capa do
formas de aproximação com o público. Assim, livro, possibilitando aos blogs e portais
várias postagens nesse ambiente, seja de realizarem uma espécie de análise da
imagens seja de enunciados sobre as práticas de fotografia, aproximando a imagem para o
leitura desses famosos, ostentam sua condição reconhecimento do livro portado pelas
de leitor, e para as quais são empregadas celebridades.
estratégias diversas como o uso de imagens Além disso, é notória a diferenciação
desses famosos diante de estantes de livros nas realizada entre artistas nacionais e
suas casas, carregando livros em suas bolsas, internacionais. Do material levantado, nos
ou mesmo nas mãos desses sujeitos, com

Universidade Federal de São Carlos - São Carlos, São Paulo, Brasil - 2 a 4 de setembro de 2015.

163
ajudinha, fornecendo dicas de obras
portais brasileiros de notícias, como o UOL2, variadas e interessantes.
são destacados artistas nacionais, normalmente
conhecidos por seu trabalho na TV aberta, Esse recurso aparece também em alguns
usualmente em novelas ou programas de dos outros blogs em situações de flagras, em
entretenimento, enquanto nos blogs, que são que são utilizadas imagens de atores lendo,
em sua maioria sobre leitura e/ou literatura, porém, não é explicitado pelo blog que se trata
administrados por indivíduos ou grupos que se de contextos fictícios, seja pelo
denominam leitores, que trazem resenhas e desconhecimento do próprio blogger, seja por
assuntos relacionados ao universo da leitura, falta de cuidado na sua reunião de material para
temos esses enunciados de forma mais a postagem.
diversificada: existem artistas nacionais Em todos os contextos (portais, blogs e
citados, ou fotografados, mas são artistas redes sociais), os enunciados não-verbais, ou
internacionais que ganham destaque. Entre as seja, as imagens, tem mais destaque e presença
celebridades, os internacionais, principalmente do que os enunciados verbais. Em sua maioria,
americanos, em geral são priorizadas as as entrevistas e blogs trazem a imagem, e
celebridades jovens. normalmente abaixo o nome do artista e o
Um acontecimento peculiar e nome do livro: em alguns casos uma curta
interessante percebido durante o levantamento informação sobre o artista ou sobre o livro que
dos enunciados foi o aparecimento de está citado. Em menor quantidade, em seus
personagens fictícios, de novelas brasileiras e enunciados verbais (sempre são anteriores ou
seriados americanos, figurando na lista de posteriores a uma imagem), os autores fazem
leitores. Isso foi destacado no blog Estante um breve texto referente às celebridades e seus
Virtual3, que utilizou como recurso o recorte de hobbys, explicitam uma aproximação, dizendo
21 imagens de flagras, 7 artistas internacionais, que “eles” leem como nós, e a confirmação se
7 nacionais e 7 personagens de novela da TV dá por meio das fotografias e depoimentos,
aberta, estes últimos explicitamente como uma forma de ‘matar’ a curiosidade dos
mencionados em função da características fãs e sua necessidade de identificação.
desses personagens nas novelas:
E não é só na vida real que as celebridades
demonstram seu gosto pelos livros.
Também nas novelas é possível ver os
personagens da ficção se entretendo entre
uma cena e outra com uma boa leitura. E
para quem anda em dúvida sobre o próximo
livro a ler, as novelas podem dar uma

2http://www.uol.com.br/
3http://blog.estantevirtual.com.br/2012/07/04/c
onheca-os-livros-das-celebridades-nacionais-e-
internacionais/

Universidade Federal de São Carlos - São Carlos, São Paulo, Brasil - 2 a 4 de setembro de 2015.

164
Figura 1. Famosos mostram o que estão Figura 2. Flagras de famosos com livros
lendo

A figura 2 representa o segundo


contexto anteriormente apresentado, no qual
A figura 1 diz respeito a uma notícia do
blogs se utilizam de imagens de artistas em
Portal UOL4, em que os artistas são
“flagras” comprando ou lendo algum livro.
questionados sobre seus hábitos de leitura por
Nesses casos, a imagem tem mais destaque e
se tratar de uma reportagem do dia nacional do
compõem a totalidade da postagem. O exemplo
livro. Essa imagem representa o primeiro
refere-se a uma imagem do blog Estante
contexto mencionado, onde artistas são
Virtual5 e traz o seguinte enunciado:
questionados sobre suas leituras, sobre seus
hábitos leitores. A fotografia da Maísa Silva é Eles estão sob os holofotes. E suas vidas,
acompanhado do enunciado verbal seguinte: assim como também suas leituras, são alvo
da curiosidade de muitas pessoas. Afinal, o
No Dia do Livro, a apresentadora Maisa que será que os famosos fazem em seu
Silva, a Maisinha, escolheu o livro "O tempo vago? Como nós, algunstambém
Teorema Katherine", de John Green, que gostam de visitar bibliotecas, livrarias e de
ela ganhou recentemente. "Ganhei esse ter ao lado a companhia de um bom livro. E
livro e fiquei feliz, porque adoro ler e se alguns preferem as leituras rápidas e os
também gosto demais do autor John Green. livros bem-humorados, outros dedicam-se a
Esse foi um presente da Simone, que é a uma leitura maisprofunda, encarando livros
nossa maquiadora no 'Estação Pet'. densos como os do filósofo Friedrich
Também gosto de outros livros desse autor, Nietzsche e Nikolai Gógol. Os clássicos e
o meu predileto é 'Cidades de Papel', mas os religiosos também estão entre os
também adoro 'Quem é Você, Alasca?'", queridinhos dos famosos. Conheça os
afirmou a jovem. gostos literários das celebridades nacionais
e internacionais.

4http://celebridades.uol.com.br/album/2014/10/ 5http://blog.estantevirtual.com.br/2012/07/04/c
29/no-dia-nacional-do-livro-famosos-mostram- onheca-os-livros-das-celebridades-nacionais-e-
o-que-estao-lendo.htm internacionais/

Universidade Federal de São Carlos - São Carlos, São Paulo, Brasil - 2 a 4 de setembro de 2015.

165
Figura 3. Uso das redes sociais para se durante o vôo de novo apenas para ter
apresentar como leitor tempo de lê-lo novamente!!!! E eu
realmente não gosto de voar! [smile de
coração]

4. Considerações finais
Os discursos sobre a leitura são
construídos historicamente e compartilhados
socialmente desempenhando importante papel
na construção do ethos dos sujeitos. A leitura,
como prática, é muito valorizada em nossa
sociedade e por isso é empregada como forma
de ostentar uma imagem de prestígio, ao
mesmo tempo em que produz o seu avesso, ou
seja, a estigmatização da não-leitura e daqueles
considerados não-leitores. A ostentação da
condição leitora não apenas constrói um ethos
positivo dessas celebridades que posam ou são
A figura 3 foi retirada do blog Literature-se6, e retratas com livros como também garantem
representa o último contexto apresentado, o certa aproximação com o público a que se
qual se refere ao uso das redes sociais por parte dirigem. O livro entra aqui como um
dos artistas para se validarem como sujeitos instrumento, uma ferramenta, um meio de
leitores. As imagens normalmente mostram a autopromoção.
capa dos livros, com ou sem marcador de A diferença perceptível hoje em relação
página, normalmente próximo de algum objeto ao que era considerado como leitura legítima
pessoal, ou mesmo nas maõs dos famosos.. No refere-se à amplitude de gêneros dos textos
caso desta fotografia, foi retirada do Instagram7 lidos que vemos nessas representações dos
da atriz e cantora americana Hillary Duff, em leitores. Isso pode indiciar uma relativa
que vemos uma mão segurando o livro “A mudança nas formas de valoração da leitura e
culpa é das estrelas” do autor John Green. do perfil leitor brasileiro, e uma maior abertura
Juntamente à fotografia temos o seguinte quanto ao que garante prestígio nessa relação
enunciado (teoricamente escrito pela próxima de apresentação de si como leitor. É como se
atriz): importasse mais que se leia do que o que
propriamente é lido.
Eu acabei de ler esse livro inteiro de LA
[Los Angeles] até NYC [New York City]. A leitura, em especial a leitura com a
Eu gostaria de voltar para o avião e sentar finalidade de entretenimento, e de certos
títulos, continua gozando de uma representação
de prestígio, ainda que possamos observar hoje
6http://www.literature- uma menor estigmatização de certos gêneros,
se.com/2014/08/celebridades-tambem- dada sua ampla circulação, o que os torna
leem.html populares, figurando nas listas de mais
vendidos, e com isso de certa forma são
7https://www.instagram.com/

Universidade Federal de São Carlos - São Carlos, São Paulo, Brasil - 2 a 4 de setembro de 2015.

166
validados, mesmo que pelos não especialistas distinção e apropriação. Campinas: Mercado de
no tema, e mesmo circulando de modo Letras, 2003. p. 141-167.
diferente dos cânones. COURTINE, J. -J. O Chapéu de Clémentis. In:
INDURSKY, F. e LEANDRO FERREIRA, M.
C. (orgs). Os múltiplos territórios da Análise
Referências
de Discurso. Porto Alegre, Ed. Sagra Luzzatto,
ABREU, M. Diferença e Desigualdade: 1999.
Preconceitos em Leitura. In: MARINHO,
CURCINO, Luzmara. Práticas de leitura
Marildes (org.). Ler e Navegar: espaços e
contemporâneas: representações discursivas do
percursos da leitura. Campinas: Mercado de
leitor inscritas na revista VEJA. 2006. 337 f.
Letras; ALB, 2001a.p. 139-157.
Tese (Doutorado em Linguística e Língua
______. Quem lia no Brasil colonial.In: Portuguesa) - Faculdade de Ciências e Letras
CONGRESSO BRASILEIRO DE CIÊNCIAS de Araraquara, Universidade Estadual Paulista
DA COMUNICAÇÃO, 24., 2001, Campo “Júlio de Mesquita Filho”, Araraquara, 2006.
Grande. Anais... Campo Grande: INTERCOM,
CURCINO, L. Discursos hegemônicos sobre a
2001b. Disponível em:
leitura: uma análise de formas de divisão social
<http://www.intercom.org.br/papers/nacionais
dos leitores no Brasil. In: CURCINO, L.;
/2001/papers/NP4ABREU.pdf>. Acesso em: 08 PIOVEZANI, C. SARGENTINI, V. (orgs.).
mar. 2011. Consensos e resistências no discurso: as formas
______. Diferentes formas de ler. In: das (in)subordinações contemporâneas. São
CONGRESSO BRASILEIRO DE CIÊNCIAS Carlos, EDUFSCar, 2016.
DA COMUNICAÇÃO, 24., 2001, Campo FOUCAULT, M. A ordem do discurso: Aula
Grande. Anais... Campo Grande: INTERCOM, inaugural no Collège de France, pronunciada
2001c. Disponível em: em 2 de Dezembro de 1970. São Paulo:
<http://www.unicamp.br/iel/memoria/Ensaios/ Edições Loyola, 1999.
Marcia/marcia.htm>. Acesso em: 06 ago. 2010.
ORLANDI, E. A produção da leitura e suas
BARZOTTO, V. H.; BRITTO, L. P. L. condições. In: BARZOTTO, Valdir. Estado de
Promoção da leitura x mitificação da leitura. leitura. Campinas: Mercado de Letras, 1999.
Boletim ALB, Rio de Janeiro, n. 3, 3 p., ago.
______. P. Discurso e Texto: Formulação e
1998.
Circulação dos Sentidos. Campinas: Pontes, 2001.
BAYARD, P. Como falar dos livros que não
POSSENTI, S. Sobre a leitura: o que diz a
lemos? Rio de Janeiro: Objetiva, 2007.
Análise do Discurso? In: MARINHO, Marildes
CHARTIER, Roger. A ordem dos livros: leitores, (org.). Ler e navegar: Espaços e percursos da
autores e bibliotecas na Europa entre os séculos leitura. Campinas: Mercado de Letras;
XIV e XVIII. Trad. Mary Del Priori. Brasília : Associação de Leitura do Brasil, 2001.
Editora da Universidade de Brasília, 1998.
SANTOS, R. B. R.; & CURCINO, L. Projeto
CHARTIER, R. Leituras “populares”. In:- de pesquisa “Dicas de quem já leu”: uma
_____. Formas e sentido. Cultura escrita: entre análise discursiva das representações de leitura

Universidade Federal de São Carlos - São Carlos, São Paulo, Brasil - 2 a 4 de setembro de 2015.

167
inscritas em depoimentos de leitores postados
no blog do Galeno, (mimeo), 2014.
SOARES, M.. Ler, verbo transitivo. In: PAIVA,
Aparecida [et al.] (Orgs.). Leituras literárias:
discursos transitivos. Belo Horizonte: Autêntica.
2008. Disponível em:
<http://www.leiabrasil.org.br/old/leiaecomente/verb
o_transitivo.htm>. Acesso em: 15 nov. 2012.
VARELLA, Simone Garavello; CURCINO,
Luzmara. Os discursos incentivadores da
leitura: uma análise de campanhas em prol
dessa prática. In: Anais eletrônicos do
Colóquio Internacional de Estudos Linguísticos
E Literários – Cielli, 2. Maringá,
2012.Disponível em:
<http://anais2012.cielli.com.br/pdf_trabalhos/1
685_arq_1.pdf>. Acesso em: 12 set. 2012.

Universidade Federal de São Carlos - São Carlos, São Paulo, Brasil - 2 a 4 de setembro de 2015.

168
A CONSTITUIÇÃO DA RESISTÊNCIA PELO DISCURSO DO
JORNAL O ESTADO DE SÃO PAULO NO MOVIMENTO DE
JUNHO DE 2013

Fernanda BUFONI
Universidade de Franca (UNIFRAN)
bufoni.fernanda@gmail.com

Resumo: Este trabalho pretende analisar como a resistência dos protestos realizados no
Brasil em 2013 foi constituída no jornal O Estado de São Paulo à luz do pensamento de
Michel Foucault. Para tanto, observamos que nas edições de 1º a 30 de junho de 2013, as
publicações sobre as manifestações trazem sempre palavras e imagens que remetem à
violência. Como instrumentos teóricos, utilizamos os conceitos de formação discursiva,
acontecimento discursivo, e poder e resistência. Análises preliminares mostram que o
jornal documenta os protestos como foco de resistência, ao mesmo tempo em que
funciona como mecanismo de controle para excluir, sujeitar e limitar discursos. Para
Foucault, as lutas na sociedade moderna se dão em busca de identidade e seu principal
objetivo não é o de atacar instituições, mas contra uma forma de poder que se exerce
sobre o cotidiano.
Palavras-chave: foucault; resistência; acontecimento discursivo; manifestações 2013;
jornal o estado de são paulo.

Introdução levou cartazes e gritou palavras de ordem em


130 cidades do país. No dia seguinte, a
Em 27 de março de 2013, centenas de
mobilização popular ocupava lugar de destaque
pessoas foram às ruas em Curitiba (PR) para
nas capas dos principais jornais do Brasil com
protestar contra o aumento do valor das
fotos e textos descritivos e opinativos.
passagens de ônibus. Era a primeira de uma
série de manifestações que marcou a história Quando comparamos as capas dos
política brasileira. Nos dois meses seguintes, as diversos jornais, publicadas ao longo do mês de
prefeituras de todas as capitais brasileiras junho de 2013, é possível observar que cada
negociaram e reduziram a tarifa. veículo de comunicação tem seus próprios
critérios para a escolha das palavras, das
O ápice dos protestos aconteceu no dia
imagens e do espaço destinado às
20 de junho, quando, de acordo com o jornal O
manifestações. No dia 19 de junho, por
Estado de São Paulo, 1,4 milhão de pessoas

Universidade Federal de São Carlos - São Carlos, São Paulo, Brasil - 2 a 4 de setembro de 2015.

169
exemplo, enquanto a manchete do jornal O
São exemplos, a linha-fina (frase em
Globo (RJ) dizia: “Capitais já baixam tarifa de
destaque logo abaixo do título) do dia
ônibus; protestos continuam”; O Estado de São
08/06/2013: “Manifestantes contra tarifa de
Paulo (SP) trazia: “Manifestantes tentam
ônibus entram em confronto com a PM pelo 2º
invadir prefeitura; SP tem noite de caos”; e o
dia; estação do metro é depredada”; a legenda-
Zero Hora (RS) estampava: “Por dentro do
destaque da foto publicada no dia 11/06/2013:
Protesto. Não uma, mas muitas razões levam
“Quebra-quebra no Rio”; a legenda da foto
milhares às ruas do país” (figura 1).
principal da capa do dia 12/06/2013: “Prejuízo.
Figura 1 – Capa Zero Hora 19/6/2013 Manifestantes depredam ônibus; movimento foi
engrossado por representantes da UNE, PT e
PSOL, além de estudantes de outros estados”;
ou ainda o título da manchete da edição de
14/06/2013: “Paulistano fica ‘refém’ de bombas
em novo confronto”. Dessa forma o tema
segue sendo apresentado.
Já as imagens mostram incêndios,
nuvens de gás, sangue, movimentos de ataque e
a tropa de choque da Polícia Militar em
formação de barreira, como exposto nas figuras
a seguir:
Figura 2. Imagem de chamada especial
Devido a essa diversidade e enorme posicionada no topo da capa no dia 16/06
campo de trabalho, decidimos limitar nossa
pesquisa às publicações do jornal “O Estado de
São Paulo”, que, em 2014, foi o de maior
distribuição no estado de São Paulo - com a
média de 169 mil exemplares/dia, e o quarto
maior do Brasil - com 234 mil exemplares
diários.
1. Metodologia
Através do recorte de títulos, textos e
legendas de fotos, constatamos que os
protestos foram temas de chamadas de capa em
21 edições no período estudado. É possível
apontar que todas as vezes em que são citadas,
as manifestações são sempre acompanhadas
pelas palavras violência, confronto, vandalismo,
depredação, quebra-quebra, choque, refém,
caos e saques.

Universidade Federal de São Carlos - São Carlos, São Paulo, Brasil - 2 a 4 de setembro de 2015.

170
Figura 3. Foto da manchete do dia 21/06: “incompetência da presidente Dilma Rousseff
fogo, manifestantes de rosto coberto e
mergulho em Brasília (DF)
na administração de crises”, e o “isolamento
político do PT (Partido dos Trabalhadores)”.
Também a partir desse corpus,
destacamos as condições de possibilidades,
que, de acordo com Foucault, trata-se de uma
rede que organiza a historicidade de um saber e
que permite um jogo de opiniões simultâneas e
aparentemente contraditórias.
Na trama tecida como pano de fundo
para o surgimento dos protestos, o jornal traz o
cenário político da época. As manifestações
aconteceram exatos 12 meses antes da data
Figura 4. Tropa de choque em foto que limite (convenções até 30/06/2014) para a
acompanha manchete do dia 23/06 ratificação pelos partidos dos nomes dos
candidatos à Presidência da República (eleições
em 5/10/2014).
Os políticos Eduardo Campos, Marina
Silva e Dilma Rousseff já são citados no
período como possíveis pré-candidatos e
começam a compor o cenário político-eleitoral.
A análise sobre o posicionamento do
jornal quanto ao papel da presidente Dilma
2. Abordagem teórica Rousseff (citada 17 vezes) e do governador de
Com o recorte de textos e imagens das São Paulo Geraldo Alckmin (citado 6 vezes)
capas do jornal, identificamos nos enunciados durante o mês de junho em relação aos
uma regularidade entre objetos, tipos de protestos também se mostrou relevante para a
enunciação e escolhas temáticas, que composição do discurso identificado em O
caracterizam várias formações discursivas. A Estado de São Paulo.
maioria delas, nesse caso, está ligada Comparando os registros, podemos
diretamente às manifestações: “baderna”, observar que as duas personagens políticas
“imaturidade democrática” e “descontrole por aparecem em momentos diferentes, apenas
parte dos líderes das manifestações”. Juntas, coincidindo nos dias 18, 19 e 20 - de maior
essas formações discursivas compõem um mobilização nas ruas. O jornal explicita que
discurso de violência de forma a invalidar o ambos agem em resposta à pressão popular.
foco de resistência. Outras formações
A figura do governador deixa de
discursivas compõem discursos políticos de
aparecer no momento em que ele atende ao
direita como a “instabilidade econômica com
clamor popular e reduz o valor das passagens
pressão dos empresários e risco de colapso”, a

Universidade Federal de São Carlos - São Carlos, São Paulo, Brasil - 2 a 4 de setembro de 2015.

171
de ônibus (figura 5). O número de publicações Figura 6 – Capa O Estado de São Paulo
24/6/2013
da figura da presidente, ao contrário, aumenta.
Figura 5 – Capa O Estado de São Paulo
20/6/2013

Além do cenário político, há também o


registro de três conflitos com grande destaque
nas capas com fotos e texto antes de os
As notícias sobre o governador Geraldo protestos pela redução das tarifas ganharem
Alckmin mostram uma rápida mudança de espaço: entre policiais e indígenas após
comportamento e contenção da crise. Em “invasão em fazendas” em Sidrolândia (MS);
apenas uma semana, suas ações passam de manifestantes na Alemanha contra a política de
criticar os manifestantes e negar a redução do austeridade econômica adotada na Europa; e a
preço da passagem, a elogiar os líderes do Turquia registra protestos contra políticas
movimento e ceder à redução da tarifa. adotadas pelo governo do primeiro-ministro
Já no caso da presidente, o noticiário Recep Erdogan.
sugere que no início Dilma dá atenção às As minorias também aparecem com a
exigências dos manifestantes, mas em seguida divulgação do estudo do IBGE de que “Casais
se atrapalha e se vê em meio a uma crise gays são mais diversificados” (02/06/2013);
política. A mudança se dá de um dia para o pelo registro da Parada Gay (03/06/2013); e da
outro como mostram as manchetes de 24/06 e aprovação da “Cura Gay”, na Câmara dos
25/06. A primeira: “Em resposta às ruas, Dilma Deputados (19/06/2013).
faz pacote contra a corrupção” (figura 6). E a
segunda: “Dilma propõe plesbicito para reforma O desenrolar da Copa das
política, ação é atacada”. Confederações deixa as páginas dos jornais
mais coloridas, principalmente de verde e
amarelo, em contraste com as imagens escuras
– quase sempre registradas à noite – dos

Universidade Federal de São Carlos - São Carlos, São Paulo, Brasil - 2 a 4 de setembro de 2015.

172
protestos com o batalhão de choque da PM, Como uma configuração histórica, a verdade se
incêndios e multidões. transforma de acordo com contingências
históricas. E a vontade de verdade exerce uma
Foi observado também que o jornal O
espécie de pressão, um poder de coerção.
Estado de São Paulo garante diariamente a
Controla a produção da “verdade”, assim como
veiculação de notícias de política e economia
a mantém como mecanismo controlador. E
com destaque em suas capas. No mês de junho
nesse caso o jornal tem papel importante ao
de 2013, são temas de reportagens: “alta do
servir de suporte institucional que a distribui e
dólar”, “PIB (Produto Interno Bruto) fraco”,
consolida.
“queda da Bovespa após nota de classificação
de risco de agência” e “pressão da indústria”. Do segundo grupo, dos procedimentos
internos - em que os discursos eles mesmos
3. O poder
exercem seu próprio controle, têm função
Talvez o conceito mais importante de restritiva e coercitiva para sujeição dos
Foucault que aplicamos à analise seja o de discursos -, destacamos o comentário nas capas
poder e resistência. Para o filósofo, há na do jornal o Estado de São Paulo. Para
sociedade moderna um poder transitório e Foucault, esse procedimento controla o acaso
circular, que trabalha para forjar representações do aparecimento do discurso, restringindo
de subjetividades e impor formas de aqueles discursos que retornarão e serão
individualidades. A esses poderes preservados em uma cultura e os que serão
correspondem, em oposição, formas de esquecidos.
resistência que afirmam o direito à diferença e
Trazendo-o para a materialidade do
combatem tudo o que pode isolar o indivíduo,
texto publicado no jornal, temos a repetição de
desligá-lo dos outros.
enunciados com paráfrases e metonímias, que
Nessa estrutura, o jornal O Estado de nas edições estudadas contribuem para a
São Paulo se configura como um mecanismo de formação do discurso de “terrorismo
controle. Para Foucault, a produção do discurso econômico” e “pressão política”, entre outros.
é controlada por procedimentos que se
Do terceiro grupo de princípios de
caracterizam por mecanismos discursivos que
controle – rarefação dos sujeitos que falam – a
têm como efeitos a exclusão (o que pode ou
apropriação do discurso chama a atenção na
não ser dito), sujeição (o que é verdadeiro/falso
análise das capas do jornal. Segundo Foucault,
e o que retornará/será esquecido?) e rarefação
toda sociedade possui instituições responsáveis
(limita o discurso a alguns sujeitos). Esses
pela distribuição dos discursos, pelo
princípios de controle são divididos em 3
gerenciamento das apropriações. E nesse caso,
grupos (externos, internos e rarefação dos
o jornal desempenha papel fundamental.
sujeitos que falam) que, se articulam, estando
interligados e sem fronteiras. Observado como parte de uma
instituição (a imprensa), o jornal é caracterizado
Tais procedimentos são claramente
por sua circulação e seu caráter documental.
identificados no corpus proposto. Entre os
Ele distribui os discursos de forma seletiva,
procedimentos externos, destacamos a vontade
classificando os sujeitos por grupos para
de verdade, que opõe o verdadeiro ao falso.

Universidade Federal de São Carlos - São Carlos, São Paulo, Brasil - 2 a 4 de setembro de 2015.

173
gerenciar o que cada um deles lê, vê, ouve,
Elas não são, no entanto, apenas modos
comenta, entende, etc. Faz parte da essência do
de fabricação de discursos e estão ligadas a um
jornalismo moderno buscar atingir, sensibilizar
complexo conjunto de modificações operadas
os leitores, falando a todos – e a cada um –
em seu exterior (em formas de produção,
através de práticas discursivas que mobilizem o
relações sociais, instituições políticas), no
arquivo.
interior delas mesmas, e a seu lado, em outras
O arquivo é, de início, a lei do que pode ser práticas discursivas.
dito, o sistema que rege o aparecimento dos Assim, o movimento, que no princípio
enunciados como acontecimentos regulares. era por 20 centavos (contra aumento na tarifa
(...) entre a tradição e o esquecimento, ele de R$ 3 para R$ 3,20), em poucos dias,
faz aparecerem as regras de uma prática que
levantava bandeiras como: “educação e saúde
permite aos enunciados subsistirem e, ao
padrão Fifa”, “contra a militarização das
mesmo tempo, se modificarem
regularmente. (FOUCAULT, 1986, p. 148- polícias”, “pelo fim da corrupção”, “contra os
150). gastos com a Copa” e “contra a PEC 37”. No
dia 19 de junho, a cidade de São Paulo
anunciou a revogação do aumento das
Os três tipos de procedimentos listados
passagens e o grupo Movimento Passe Livre,
por Foucault têm funções restritiva e coercitiva
que encabeçava o movimento, comemorou a
para a sujeição dos discursos.
vitória e afirmou que as manifestações
4. E a resistência parariam. Mas, àquela altura, o protesto já
Do outro lado, os protestos se havia sido transformado por outras práticas
constituem como resistência, não a esta discursivas e novos protestos foram registrados
instituição ou aquela, mas a uma forma de em várias cidades ainda por muitos dias.
poder sobre a vida cotidiana. E finalmente, os protestos de junho de
Nessa resistência, os sujeitos buscam 2013 podem ser observados como um
sua identidade contra a classificação por acontecimento discursivo. Pelo método
categorias, a individualização. E nessa busca, arqueológico, Foucault trata os enunciados
observamos por meio das capas do jornal a efetivamente produzidos, em sua irrupção.
transformação das práticas discursivas. Segundo ele, um acontecimento obedece a uma
combinação de regras, que constituem o
Práticas discursivas são um conjunto de arquivo e que determinam as condições de
regras anônimas, históricas, sempre possibilidades de sua aparição.
determinadas no tempo e no espaço, que
5. Considerações finais
definiram, em uma dada época e para uma
determinada área social, econômica, Como conclusão preliminar, o estudo
geográfica ou linguística as condições de confirma a configuração das manifestações de
exercício da função enunciativa. junho de 2013 como um acontecimento
(FOUCAULT, 1986, P. 136) discursivo e o jornal O Estado de São Paulo
como um mecanismo de controle que age em
reação a um foco de resistência. Ao fazê-lo, o

Universidade Federal de São Carlos - São Carlos, São Paulo, Brasil - 2 a 4 de setembro de 2015.

174
jornal reconhece sua existência, ao mesmo
______. A arqueologia do saber. Tradução de
tempo em que procura barrar, proibir e
Luis Felipe Baeta Neves. Rio de Janeiro:
invalidar os discursos dessa resistência.
Forense Universitária, 1986.
Com textos e imagens, o jornal promove
______. A ordem do discurso. Tradução de
um recorte e a reinterpretação dos protestos a
Laura Fraga Sampaio. São Paulo: Loyola,
partir de um referencial político de direita. E
1996.
procura legitimar esse discurso articulando
formações discursivas relacionadas, GREGOLIN, M. R. Foucault e Pêcheux: na
principalmente, à área econômica. análise do discurso - diálogos e duelos. São
Carlos: Claraluz, 2006.
Para tanto, as práticas discursivas
entram em cena e o arquivo é acionado. As
manifestações passam de protestos
democraticamente legítimos por parte da
população que quer se posicionar a respeito de
vários temas que fazem parte de seu dia-a-dia, a
quebra-quebra promovido por uma multidão
descontrolada encabeçada por grupos de
baderneiros.
Ainda nesse cenário de confusão criado
pelo próprio jornal, a memória dos movimentos
estudantis das décadas de 60 e 70 é sutilmente
resgatada. Os cartazes, a recorrência da figura
do jovem, a comparação explícita através de
comentários e até fotos antigas dão o tom às
reportagens.
E ao final, as manifestações são
retratadas apenas como parte de um problema
maior: as crises política, econômica e
institucional provocadas pela incompetência
administrativa da presidente Dilma Rousseff.

Referências
ORLANDI, E. P. Análise de Discurso:
princípios e procedimentos. Campinas: Pontes,
1999.
FOUCAULT, M. Microfísica do poder.
Organização e tradução de Roberto Machado.
Rio de Janeiro: Edições Graal, 1979

Universidade Federal de São Carlos - São Carlos, São Paulo, Brasil - 2 a 4 de setembro de 2015.

175
ANÚNCIOS IMPRESSOS DAS DÉCADAS DE 1940 E 1950: UMA
ANÁLISE DISCURSIVA

Ana Lúcia Furquim CAMPOS-TOSCANO


Centro Universitário Municipal de Franca (UNI-FACEF)
anafurquim@yahoo.com

Resumo: O objetivo deste trabalho é analisar propagandas diversas, veiculadas nos anos
40 e 50, que promoviam o American Way of life, a fim de verificarmos as ideologias e
vozes sociais presentes nesses discursos. Objetivamos, ainda, compreender sua
construção discursiva, principalmente no tocante aos elementos constitutivos de um
gênero discursivo, ou seja, o conteúdo temático, o estilo e a estrutura composicional.
Para tanto, utilizamos como referencial teórico-metodológico, os estudos do Círculo de
Mikhail Bakhtin sobre gêneros do discurso, dialogismo e ideologia. Por meio dessas
reflexões, é possível entender como foram sendo construídos discursos que valorizavam o
sistema capitalista, cujos valores estão pautados no ato de comprar como forma de bem
viver e da conquista de conforto.
Palavras-chave: gêneros do discurso; dialogismo; ideologia.

Digest, uma publicação norte-americana que


Introdução promovia, por meio de seus artigos e
Este trabalho é parte de uma pesquisa propagandas, o American Way of life, ou seja,
mais ampla que busca refletir sobre a incentivava o estilo de vida capitalista
constituição da identidade brasileira obtida por americano em todas as Américas. Esses
meio de imagens, narrativas e figuras presentes, anúncios refletem a expansão da economia
por exemplo, em textos verbais como literários, industrial decorrente da chamada “Segunda
históricos, canções, verbo-visuais e/ou visuais Revolução Industrial” ou “Revolução
como pinturas, bandeiras e gravuras e que são, Científico-Tecnológica”. O aparecimento, por
muitas vezes, retomados por discursos da esfera exemplo, de veículos automotores,
midiática, em especial, os discursos advindos da transatlânticos, navios, da eletricidade e,
esfera publicitária. consequentemente, dos aparelhos
eletroeletrônicos domésticos, do rádio, telefone
Nesta análise, selecionamos anúncios e televisão, entre outros produtos alteraram o
publicitários, veiculados nas décadas de 1940 e cotidiano das pessoas, exigindo uma nova
1950. Muitos anúncios dessa época eram maneira de ver e estar no mundo.
veiculados pela Revista Seleções, do Reader’s

Universidade Federal de São Carlos - São Carlos, São Paulo, Brasil - 2 a 4 de setembro de 2015.

176
Como sabemos, os gêneros publicitários O signo e a situação social estão
são enunciados que buscam atender a finalidade indissoluvelmente ligados. Ora, todo signo é
de uma das variadas esferas das práxis ideológico. Os sistemas semióticos servem
humanas, veiculando ideologias e axiologias para exprimir a ideologia e são, portanto,
representativas da sociedade. Nesse contexto, modelados por ela. A palavra é o signo
entendemos que os anúncios em questão não ideológico por excelência; ela registra as
somente refletem, mas, principalmente, refratam menores variações das relações sociais, mas
a realidade da época, divulgando valores, como isso não vale somente para os sistemas
também, pela característica dialógica da ideológicos constituídos, já que a “ideologia
linguagem, apresentam vozes sociais do cotidiano”, que se exprime na vida
dissonantes, que acabam por construir novos corrente, é o cadinho onde se formam e se
sentidos. renovam as ideologias constituídas.

Assim sendo, neste trabalho, utilizamos


Ademais, o enunciado só ocorre num
como referencial metodológico os estudos do
fluxo efetivo de comunicação, que pressupõe a
Círculo de Mikhail Bakhtin, na perspectiva
presença de sujeitos e de discursos. O
dialógica, sobre os enunciados concretos
enunciado é, portanto, inconcluso, exigindo que
constituintes dos gêneros do discurso a fim de
o outro o complete por meio de uma atitude
compreendermos a construção discursiva desses
responsiva ativa.
anúncios como forma de dar sentido à realidade
de uma determinada época. Marcado pela alteridade, o enunciado
exige o movimento em direção ao outro para
1. Enunciado concreto: reflexo e refração da sua completude. O sujeito, portanto, constitui-
realidade se a partir do outro, das axiologias e valores
Pela perspectiva do Círculo de Mikhail sociais veiculados, numa atitude ética e
Bakhtin, o enunciado concreto é compreendido responsável no ato da enunciação. Viver é
por meio de um ponto de vista histórico, social participar do diálogo inconcluso que se efetiva
e cultural e, por isso, reflete e refrata a de diferentes maneiras: ao interrogar,
realidade. Não só aponta para a realidade do concordar, discordar, ouvir etc. Como afirma
mundo, como também, de modo refratado, Geraldi (2010, p. 286),
constroem-se discursos que expressam a a avaliação entonacional que conduz a ação
interpretação desse mundo por meio de consciente se faz através da língua que não
posições ideológicas em acordo com os grupos pertence ao indivíduo, pois esta está nele
sociais em que cada sujeito está inserido. pelo processo de sua vivência da vida, isto
Assim, os enunciados, a partir dos interesses é, de sua prática social concreta convivida
sociais e ancorados pela História, apontam com outros.
confrontos, aproximações, contradições ou
anuências que vão marcando ideologicamente O enunciado é um “elo na cadeia da
os signos linguísticos. Como afirmam Bakhtin e comunicação verbal” (BAKHTIN, 2000, p.
Voloshinov (1999, p. 16) 308) e representa a instância ativa do locutor,

Universidade Federal de São Carlos - São Carlos, São Paulo, Brasil - 2 a 4 de setembro de 2015.

177
visto que é necessário selecionar recursos da
2. Anúncios publicitários: entre os interesses
língua para que haja a expressividade, ou seja, o
americanos e a venda de produtos
tom emotivo-valorativo do discurso. Há ainda
que considerar não somente os elos que A concepção do Círculo de Bakhtin de
precedem um enunciado, mas os que o que todo enunciado emana de uma esfera de
sucedem, pois há de se pensar na eventual atividade humana e, portanto, está atravessada
reação-resposta. Nesse contexto, levantam-se por axiologias e ideologias, contribui para a
questões como: A quem se dirige o enunciado? compreensão de anúncios publicitários das
Quais as preferências desse destinatário? Qual a décadas de 1940 e 1950.
força de influência no enunciado? Situados em um determinado contexto
Desses questionamentos depende a sócio-histórico e derivados da expansão
composição e o estilo do enunciado, tecnológica determinada pela Revolução
configurando, por sua vez, os gêneros Científica Tecnológica ou Segunda Revolução
discursivos que, compostos por “enunciados Industrial, esses enunciados advindos da esfera
relativamente estáveis” (BAKHTIN, 2000), publicitária não somente refletem a realidade,
atendem as finalidades das mais diversas esferas como, principalmente, constroem sentidos, ou
de atividade humana. Sabemos que as práxis seja, refratam essa mesma realidade.
humanas são várias e inesgotáveis e cada esfera Os discursos publicitários produzidos
pode apresentar um conjunto de gêneros do nessas décadas exprimem os valores sociais da
discurso que, além da ampliação do repertório, época, pois, ao exaltarem o americanismo,
ainda há modificações relativas ao contexto constituído a partir da primeira metade do
sócio-histórico-cultural, à relação intersubjetiva século XX, expõem como princípios o
e ao desenvolvimento tecnológico. progressismo, a democracia e o tradicionalismo.
No que se refere ao estilo, as escolhas Segundo Tota (2000), o norte-
linguísticas e também visuais não são feitas americano é tido como um homem capaz de
somente devido ao intuito discursivo do transformar o mundo natural e, portanto, pode
locutor, mas também leva-se em conta a criar diversos produtos, estabelecendo uma
relação expressiva desse locutor com o outro e nova forma de prazer – o consumismo. Nesse
com seus enunciados – “ter um destinatário, contexto, o homem livre, produtor, consumista
dirigir-se a alguém, é uma particularidade vive numa sociedade democrática em que se
constitutiva do enunciado, sem a qual não há, e prezam os valores de liberdade, de direitos
não poderia haver enunciado” (BAKHTIN, individuais e de independência. O
2000, p. 325). tradicionalismo, por sua vez, encontra-se
Por essa perspectiva, o enunciado, nas presente nas ideias dos homens que temem a
condições reais de comunicação, provoca o Deus e defendem os valores familiares,
lampejo da expressividade, do tom emotivo- enaltecendo, assim, as concepções
valorativo e das vozes sociais, configurando anticomunistas e reforçando o imperialismo
maneira(s) de ver o mundo e de posicionar-se norte-americano.
ideologicamente.

Universidade Federal de São Carlos - São Carlos, São Paulo, Brasil - 2 a 4 de setembro de 2015.

178
veículos que contribuíram para a divulgação do
Palavras como “progresso”, “ciência”,
estilo de vida norte-americano. Entendemos que
“tecnologia”, “racionalidade”, “eficiência” e
existem propagandas comerciais cujo objetivo é
“estilo de vida americano” passaram a significar
vender um produto, promover uma marca ou
a realidade, interpretando-a por uma posição
criar fidelidade do consumidor com um
axiológica que contemplava os ideais norte-
determinado produto, mas também há outros
americanos. Entretanto, como todo signo
tipos de propagandas, as chamadas não
ideológico emerge e significa no interior das
comerciais ou de ideias. Para Briggs e Burke
relações sociais, os anúncios passaram também
(2004), a propaganda pode ser concebida como
a deslizar por diferentes posições axiológicas,
a mobilização consciente da mídia para a
expondo a dialogicidade da linguagem. Assim,
mudança de atitudes. Daí, muitas vezes, ter um
vozes sociais diversas estão presentes numa
sentido pejorativo.
contínua cadeia de responsividade, pois não
somente são respostas ao que já foi enunciado, Vender um produto é a função
como também provocam continuamente as mais primordial, entretanto, e também por causa
diferentes respostas. dessa função, a publicidade promete, cria
desejos, aproxima o enunciatário do meio social
De um lado, temos o discurso
no qual deseja estar inserido. Nesse contexto, a
americano e seus valores ideológicos, de outro
propaganda, como uma das práxis humanas,
emergem discursos que se opõem a isso, como
constitui-se por seu caráter persuasivo e, por
o germanismo, o patriotismo do brasileiro e a
isso, foi uma das correias de transmissão da
valorização de nossa cultura.
ideologia imperialista norte-americana.
A expressão good neighboor, utilizada
Os gêneros publicitários, assim como
pelo então presidente dos Estados Unidos
todos os gêneros discursivos, estão sempre
Hebert Hoover, em 1928 durante uma viagem
inseridos em um determinado contexto sócio-
às Américas, foi, posteriormente, tomada de
histórico-cultural, configurando, dessa maneira,
empréstimo por Roosevelt para a “Política da
um conjunto de enunciados de comunicação
Boa Vizinhança” cujo objetivo era aproximar os
socioideológica. No entanto, é importante
Estados Unidos das demais nações americanas e
ressaltar que o enunciado apresenta efeitos de
banir qualquer influência alemã. Roossevelt
sentido decorrentes da possibilidade da inserção
enfatizava a importância do Brasil e de seus
em diferentes horizontes sociais de valor.
produtos para os EUA, assim como evidenciava
a necessidade de o Brasil adquirir produtos Como vimos, a década de 1940,
manufaturados americanos. Criava-se, assim, a caracterizada por um período de medos e
ideia de cooperação entre os dois países como incertezas diante de uma guerra mundial, foi um
indispensável para a salvaguarda do hemisfério momento propício para a divulgação do
ocidental em face da ameaça nazista. American way of life. A revista Seleções,
lançada no Brasil na primeira metade de 1942,
Para a efetivação do processo de
muito contribuiu para a difusão das ideias de
americanização, os meios de comunicação de
americanização, pois, além da veiculação de
massa foram utilizados de forma pedagógica. O
anúncios publicitários, também promoveu a
rádio, as revistas e o cinema são exemplos de
divulgação do modo de vida americano por

Universidade Federal de São Carlos - São Carlos, São Paulo, Brasil - 2 a 4 de setembro de 2015.

179
meio de seus artigos. Segundo Tota (2000, p.
59-60)

O próprio nome da revista é elucidativo de


seu funcionamento. Seleção mensal de
artigos publicados em outros veículos da
imprensa americana. A ideia principal, a
filosofia da revista, revelava-se em seu
subtítulo: ‘Artigos de interesse permanente’.
O inimigo comum, momentaneamente
representado pelo Eixo, permitia a Seleções
um liberalismo que não veremos em tempos
posteriores.

3. Anúncios publicitários: a venda de


produtos e a promoção de ideias
A primeira propaganda selecionada para
análise foi retirada da revista Seleções,
publicada em setembro de 1942. O tema central
é a menção ao esforço de guerra propalada
pelos Estados Unidos, como forma de garantir
a segurança de todo o continente americano. Tôda a produção da “Caterpillar” está hoje
A empresa norte-americana Caterpillar, a ser mandada para as frentes de guerra.
com o slogan “Tratores ociosos não ganham Mas ainda há milhares de tratores Diesel
guerras”, divulgava seus produtos e também os “Caterpillar”, representando ao todo
milhões de horas de trabalho inaproveitadas
valores socioideológicos da “Política da Boa
que estão disponíveis para prestar valiosa
Vizinhança” proposta por Roossevelt, como
ajuda na “frente doméstica” da América: na
podemos verificar no anúncio a seguir: produção de gêneros alimentícios; na
Figura 1. Tratores ociosos não ganham execução de obras essenciais; na
guerra manutenção das redes de estradas e
transportes; na indispensável conservação
dos pavimentos e sistemas sanitários das
cidades; na defesa da estrutura econômica
geral das nações livres.
Mantenha os seus Motores Diesel
“Caterpillar” a fazer trabalho útil

Graças ao seu traçado experiente e fabrico


de precisão, estas centrais móveis de fôrça-
motriz integram robutez fundamental e

Universidade Federal de São Carlos - São Carlos, São Paulo, Brasil - 2 a 4 de setembro de 2015.

180
capacidade de produção a longo prazo. E
embora muitos deles tenham já rendido
a atender um determinado quadro semântico-
milhares de horas de trabalho, bastará ideológico, ou como afirmam Bakhtin e
geralmente uma revisão para pôr a máquina, Voloshinov (1999, p. 33)
mesmo a mais inexorávelmente usada, em
condições de produzir ainda mais. cada campo de criatividade ideológica tem
seu próprio modo de orientação para a
Os distribuidores da “Caterpillar” estão-se realidade e refrata a realidade à sua própria
esforçando por auxiliar seus fregueses a maneira. Cada campo dispõe de sua própria
tirar o máximo proveito do material função no conjunto da vida social.
“Caterpillar” Diesel espalhados pelo mundo
inteiro. O distribuidor oferece também outro Assim, inicialmente, os princípios da
gênero de auxílio: seus conhecimentos de Política de Boa Vizinhança são apresentados
remoção de terras, preparo de solos, corte como forma de vencer a guerra, seja por meio
de madeiras, exploração de pedreiras e das “frentes de guerra”, seja pela “frente
outras operações pesadas, habilita-o a
doméstica da América”, essa última chamada
fornecer úteis conselhos... sobre problemas
para a produção de alimentos, a manutenção de
de manutenção... como cortar despesas de
exploração... que é a melhor maneira de redes de estradas e transportes, a conservação
realizar qualquer tarefa. dos pavimentos e sistemas sanitários das
cidades e, principalmente, para a “estrutura
PONHA SUA FÉ NO FUTURO DAS econômica geral das nações livres”.
AMÉRICAS! Dialogicamente, é suscitado outro discurso, de
origem germânica e, portanto, em acordo com
(PROPAGANDAS ANTIGAS, online,
o contexto sócio-político da época, de ideais
acesso em: 28 out. 2014.)
nazistas.

A estrutura composicional do anúncio No confronto entre índices de valores


publicitário, constituída por imagem e contraditórios, esse enunciado exalta a cultura e
enunciado verbal, contribui para a temática da a ideologia norte-americanas, como o
guerra, embora, num primeiro momento, o progressismo conquistado por meio de bens de
intuito discursivo pareça ser a venda de tratores consumo que, não somente facilitam os
para o Brasil. trabalhos do campo, como também contribuem
para debelar o poderio germânico com o envio
A imagem é composta, em um cenário de máquinas às frentes de guerra.
noturno, por grandes tratores preparando o solo
para o plantio. Veicula-se, assim, a ideia de que Valores como tecnologia, abundância e
as outras Américas também estão no esforço de eficiência estão presentes na descrição técnica
ganhar a guerra, não necessariamente com dos tratores, reforçando, desse modo, a
soldados em linhas de batalha, mas sim, por concepção de que os EUA podem oferecer aos
meio do trabalho. demais países americanos produtos
manufaturados de qualidade e que estes, ao
Dividido entre o discurso de divulgação comprarem seus produtos, estão contribuindo
do produto e de propagação de ideias, o para a união das Américas.
enunciado verbal refrata a realidade de maneira

Universidade Federal de São Carlos - São Carlos, São Paulo, Brasil - 2 a 4 de setembro de 2015.

181
Ao final, o enunciado “Ponha fé no Nos anos 40, a evocação dos astros de
futuro das Américas”, construído verbalmente Hollywood era uma das maneiras de promover
no modo imperativo, acompanhado pela palavra produtos de empresas norte-americanas.
“fé” conclama a todos os brasileiros a Ideologicamente, cria-se a ideia de que é
participarem desse “esforço de guerra”. um produto de confiança, pois, ao utilizar
O segundo anúncio foi veiculado em enunciados na afirmativa, que se repetem
1948 e apresenta o ator de cinema Roy Rogers, estruturalmente, como “Agrada mais... Limpa
protagonista de filmes norte-americanos de mais... Rende mais...”, reforça a concepção de
westerns para a venda de pasta de dente da progresso por meio da industrialização desses
marca Kolynos: produtos norte-americanos que, por sua vez,
promovem o prazer e o bem estar, a higiene e a
Figura 2. Você também usará Kolynos economia. Como enunciado proveniente de uma
determinada esfera de atividade humana dirige-
se a um sujeito que tem suas preferências e
valores sociais. O que se questiona é: quais são
os valores sócio-ideológicos desses
enunciatários? Nesse anúncio, podemos
verificar que para persuadir o consumidor a
comprar a pasta de dente, menciona-se a
rentabilidade do produto, resultado do
progresso.
Os filmes de western exaltavam o
pioneirismo e o desbravamento dos homens
americanos que conquistaram as terras,
vencendo as intempéries da natureza e as
dificuldades de se viver em terras ainda não
“civilizadas”, de vida simples, ou seja, é a
defesa do tradicionalismo do homem que “luta”
por sua terra, por sua família e por Deus. A
valorização dos pioneiros norte-americanos
reflete uma visão de mundo, ignorando outras
culturas, outras histórias, inclusive a História do
Você também usará Kolynos diz Roy Brasil.
Rogers
Quanto ao enunciado “Você também
Famoso astro da Republic Pictures que
aparece em “Primavera na serra”
usará Kolynos”, é possível verificar que, por
(PROPAGANDAS HISTÓRICAS, online, meio de um discurso de autoridade, no caso
acesso em 02 ago. 2015). específico, de um astro do cinema, ocorre um
diálogo que busca aproximar o enunciatário

Universidade Federal de São Carlos - São Carlos, São Paulo, Brasil - 2 a 4 de setembro de 2015.

182
desse discurso de valorização da cultura norte- e, portanto, havia abandonado nossa cultura
americana. popular e nosso samba.
Por último, apresentamos uma Interessante observar que, nesse
propaganda do sabonete Lux (chamado anúncio, Carmem Miranda não está vestindo o
inicialmente no Brasil de Sabonete Lever) cujo turbante estilizado de baiana, assim como todas
slogan “Nove entre dez estrelas de Hollywood as suas vestimentas que se tornaram sua marca
usam Lux”, veiculado a partir da década de registrada.
1930, apresentavam estrelas de Hollywood O enunciado “Confirmado: Também
como garotas-propagandas. Carmem Miranda usa sabonete Lever”, sendo
Figura 3. Sabonete Lever seguido por seu depoimento “ ‘Sabonete Lever
mantém a pele maravilhosamente jovem!’, diz a
Pequena Notável”, busca conquistar o
consumidor brasileiro por meio de um símbolo
brasileiro, evidenciando uma luta entre duas
posições diversas: o americanismo, de um lado,
com seus valores capitalistas, de produtos
industrializados, e a cultura brasileira, com a
exaltação do samba e das características que
marcam nossa brasilidade. Embora Carmem
Miranda represente uma estilização de nossa
cultura, com o estereótipo de um país tropical
para muitos americanos “selvagem” e sem
“civilidade”, tornou-se conhecida pelo cinema
americano e, por isso mesmo, paradoxalmente,
foi motivo de orgulho e de revolta dos
brasileiros em sua época.
Observamos, ainda, que os produtos
veiculados precisavam se firmar no incipiente
mercado brasileiro que estava aos poucos se
modificando, principalmente porque deixava de
ser uma sociedade rural para se tornar mais
urbana e, nesse contexto, era necessário criar
(PROPAGANDAS HISTÓRICAS, online, novos hábitos que criavam a ideia de
acesso em 02 ago. 2015). modernidade, de progresso, de uma nação que
se aproximava de países industrializados,
Carmem Miranda foi a única brasileira a produtores de um modo de vida consumista,
estrelar filmes americanos. No Brasil, era mas que, ao mesmo tempo, proporcionava
idolatrada por muitos, mas criticada por bem-estar, prazer e conforto.
outros, pois, em 1940, de volta de uma viagem
aos EUA, diziam que ela estava americanizada 4. Considerações finais

Universidade Federal de São Carlos - São Carlos, São Paulo, Brasil - 2 a 4 de setembro de 2015.

183
enunciados e discursos expõem constantemente
Ao analisarmos anúncios publicitários
novas configurações discursivas. Como
das décadas de 1940 e 1950, buscamos recortar
sabemos, nossa identidade não está acabada,
um contexto sócio-histórico-cultural específico
posto que é discurso e, portanto, num processo
para verificarmos como a identidade brasileira,
de embates e aproximações, configura os
num processo dialógico, recebeu discursos
reflexos e as refrações de nossa cultura, enfim,
advindos de outros contextos, mas que
de nossa nação.
modificaram nosso modo de ver o mundo e, por
extensão, alteraram nossos costumes e nossos
valores sócio-culturais.
Referências
Os anúncios, como vimos, não tinham
somente o intuito discursivo de vender um BAKHTIN, M. (2000). Estética da criação
produto ou promover uma marca, pois foram verbal. Tradução de Maria Ermantina Galvão
utilizados também como forma de propagação G. Pereira. 3. ed. São Paulo: Martins Fontes.
dos ideais americanos. Assim, foram divulgados ______;VOLOCHINOV (1999). Marxismo e
ideologias e valores sociais norte-americanos filosofia da linguagem. Tradução de Michel
que, por estarem inseridos no fluxo da Lahud e Yara Frateschi Vieira com a
comunicação verbal também apontam para colaboração de Lúcia Teixeira Wisnik e Carlos
outros discursos, principalmente aqueles a que Henrique D. Chagas Cruz. 9. ed. São Paulo:
se opõem ou se omitem, como a ideologia Hucitec.
germânica e os valores culturais brasileiros.
BRIGGS, A.; BURKE, P. (2004). Uma história
Em um contexto de guerra, o destaque à social da mídia: de Gutenberg à internet.
superioridade da nação norte-americana a partir Tradução de Maria Carmelita Pádua Dias. Rio
de valores como progressismo, consumismo e de Janeiro, Jorge Zahar.
tradicionalismo são constantemente evocados
FARACO, C. A. (2003). Linguagem e diálogo:
como forma de dar a contra-palavra a discursos
as ideias linguísticas do Círculo de Bakhtin.
nazistas ou comunistas. Unir as Américas era,
Curitiba: Criar Edições.
portanto, uma forma de reiteração de ideais que
fortaleceram o capitalismo e suas formas de GERALDI, J. W. Sobre a questão do sujeito.
divulgação, entre elas, aquelas advindas da In: PAULA, Luciane; STAFUZZA, Grenissa
esfera publicitária. (Orgs.) (2010). Círculo de Bakhtin: teoria
inclassificável. Campinas: Mercado de Letras.
Esses enunciados, que compõem os
gêneros publicitários, apresentam conteúdos PROPAGANDAS antigas. Disponível em:<
temáticos referentes, nos anos 40, ao contexto http://propagandasantigas.blogspot.com.br/>.
da 2ª Guerra Mundial e, nos anos 50, ao Acesso em: 28 out. 2014.
consumo aliado ao entretenimento promovido PROPAGANDAS históricas. Disponível em:
pelo cinema hollywoodiano, contribuindo, dessa <http://www.propagandashistoricas.com.br/sear
maneira, para a construção discursiva da ch/label/higiene>. Acesso em 02 ago. 2015.
identidade brasileira que, marcada por nossa
História e por relações dialógicas entre

Universidade Federal de São Carlos - São Carlos, São Paulo, Brasil - 2 a 4 de setembro de 2015.

184
TOTA, A. P. (2000). O imperialismo sedutor: a
americanização do Brasil na época da segunda
guerra. São Paulo: Companhia das Letras,
2000.

Universidade Federal de São Carlos - São Carlos, São Paulo, Brasil - 2 a 4 de setembro de 2015.

185
SABERES E PODERES NAS TRAMAS DAS INSTÂNCIAS DE
GOVERNANÇA

Conceição Belfort CARVALHO; Fabiana dos Santos SILVA


Universidade Federal do Maranhão (UFMA)
cbelfort@globo.com; fabyanasantos88@hotmail.com

Resumo: O Ministério do Turismo, com o propósito de incentivar as regiões brasileiras a


adotarem estratégias de desenvolvimento, propôs a criação do Programa de
Regionalização da Atividade Turística, que agrega em um de seus módulos a Instância de
Governança Regional-IGR. A IGR propõe coordenar o programa de regionalização por
meio de uma administração participativa entre os setores público, privado e o terceiro
setor na implantação de políticas públicas para elaboração e monitoramento das
atividades. O Programa de Regionalização do Polo Turístico de São Luís desenvolve
atividades com a participação de vários atores. Nosso propósito, neste trabalho, é
analisar o lugar de fala de alguns desses atores sociais, a fim de verificar que poderes e
saberes são produzidos em seus discursos.
Palavras-chave: instâncias de governança; saber; poder.

operacionais a fim de orientar o processo de


Introdução
regionalização. Ao todo são nove módulos:
O Ministério do Turismo – Mtur, por Elaboração de Roteiros Turísticos,
meio do Programa de Regionalização do Mobilização, Sensibilização, Elaboração do
Turismo, idealizou um mecanismo para obter Plano Estratégico de Desenvolvimento
um melhor planejamento da atividade turística Regional, Implementação do Plano Estratégico
em nível regional, possibilitando assim que cada de Desenvolvimento Regional, Promoção e
região crie suas próprias estratégias a fim de Apoio à Comercialização, Sistema de Monitoria
impulsionar essa atividade. O Programa foi e Avaliação, Sistema de Informações Turísticas,
criado com o intuito de desenvolver os Instância de Governança Regional. Cada
municípios agregados em regiões turísticas, a módulo pode ser aplicado de forma aleatória,
partir de municípios indutores, que se de acordo com a necessidade de cada
caracterizam como núcleos receptores e localidade. Para este artigo, tomamos como
distribuidores de fluxos turísticos. objeto de discussão a Instância de Governança
Para a implementação do Programa de Regional.
Regionalização, foram constituídos módulos

Universidade Federal de São Carlos - São Carlos, São Paulo, Brasil - 2 a 4 de setembro de 2015.

186
essências fixas, leis subjacentes, finalidades
A Instância de Governança Regional
metafísicas. Ao contrário da história, que se
tem por objetivo coordenar o programa de
fundamenta no contínuo das coisas, no
regionalização por meio da participação e apoio
progresso e seriedade, a genealogia busca
da população local na elaboração,
descontinuidades, recorrências e jogo. Ela
monitoramento e, em alguns casos, na execução
transita no espaço da superfície dos
de políticas públicas (MTUR, 2007, p. 16), o
acontecimentos, nos mínimos detalhes, nas
que reflete o modelo de gestão descentralizada
menores mudanças e nos contornos sutis:
instituído pela Constituição Federal de 1988.
observada a correta distância, há uma profunda
Levando em conta que o visibilidade nas coisas. Tudo é interpretação e a
desenvolvimento do turismo e a implantação de genealogia conta a história dessas
uma Instância de Governança, doravante IG, interpretações, criadas e impostas por outras
dependem do entendimento de seu pessoas e não inerentes à natureza das coisas.
funcionamento, assim como da atividade de
Na arqueologia, Foucault entende o
sujeitos que estejam envolvidos no processo,
discurso pela análise do saber. O discurso,
desde sua concepção até sua finalização e
segundo ele, é determinado por uma
prática, propomos analisar o papel do sujeito a
regularidade que permite com que algo apareça
partir de um complexo de formações
como verdadeiro. Há uma relação entre todo
discursivas que refletem sua interpretação sobre
saber e uma prática discursiva definida, de
a implantação da Instância de Governança
forma interdependente. Na genealogia, há uma
Regional do Polo São Luís.
relação interdependente entre discurso e poder,
Para procedermos a uma análise das podendo o discurso ser instrumento e efeito de
formações discursivas dos sujeitos envolvidos poder. Assim, Foucault (1999) concebe o
no processo das políticas de governança, discurso como espaço onde se alojam os
aplicamos o método aquegenealógico de Michel saberes e os poderes.
Foucault (1999).
As coisas não preexistem às práticas
1. Arquegenealogia e discurso discursivas, estas é que constituem e
A análise arquegenealógica do discurso determinam os objetos. (FOUCAULT, 1986).
não obedece às mesmas leis de verificação que É, pois, a partir da reflexão sobre as
regem a História Tradicional. Sob influência das transformações históricas do fazer e do dizer na
leituras de Nietzsche, Foucault (2000) propõe sociedade ocidental – práticas discursivas que
uma história genealógica, que problematiza o provocam fraturas, brechas e rearranjos nas
passado, com o propósito de desvelar suas configurações do saber-poder – que se edificam
camadas arqueológicas, voltando-se para uma suas problematizações.
aguda crítica do presente. As Instâncias de Governança têm sua
A genealogia tem como objetivo genealogia nas práticas discursivas que a
“assinalar a singularidade dos acontecimentos, tornam possível, que reconhecem sua validade,
fora de toda finalidade monótona” sua necessidade em movimentos tais como a
(FOUCAULT, 2007, p. 15). Para ela, inexistem criação do Estado Moderno, a globalização e a
Constituição Federal de 1988.

Universidade Federal de São Carlos - São Carlos, São Paulo, Brasil - 2 a 4 de setembro de 2015.

187
Estado, ao propiciar o acesso da população e
O Estado Moderno fundamenta-se no
dos movimentos sociais às instâncias decisórias.
princípio segundo o qual a finalidade do Estado
é o bem comum, que consiste no conjunto de Em todos esses âmbitos, destaca-se a
condições sociais que permitem e favorecem atuação da sociedade. Na criação e mobilização
aos seres humanos seu desenvolvimento de uma Instância de Governança são realizadas
integral. (DIAS e MATOS, 2012, p. 09). Esse várias reuniões com o propósito de estabelecer
desenvolvimento será efetivado por meio de ações a fim de gerenciar seu programa de
políticas públicas estruturadas que atendam às regionalização. Na IG do polo São Luís, as
necessidades da comunidade. relações sociais são estabelecidas por meio de
um conselho gestor, formado por
A globalização possibilitou uma
representantes da iniciativa privada,
mudança nas relações entre o Estado, o
representantes de órgãos públicos e da
mercado e a sociedade permitindo uma
comunidade em geral, que se reúnem na tomada
modificação nas relações humanas. Graças à
de decisões importantes.
globalização, nasceu a necessidade de políticas
públicas em âmbito global, conhecida como Como os sujeitos que participam desse
governabilidade global. Segundo Dias e Matos programa interpretam sua implementação? A
(2012), governabilidade global pode ser fim de responder essa pergunta, reunimos
entendida como o grau de aceitação social das alguns enunciados produzidos por esses
políticas oriundas das estruturas de governança sujeitos, para analisar suas formações
global. A governança serve para que sejam discursivas e os efeitos de saber e poder delas
estabelecidas normas e regulamentos em derivados.
diversas áreas, e permitem uma convivência Para o desenvolvimento de nossa
relativamente harmônica dos diversos atores da pesquisa, realizamos dez entrevistas com os
cena mundial (as pessoas, os diversos tipos de sujeitos mais assíduos às reuniões da IG do
organizações e os Estados nacionais). A Polo São Luís, no período de 2013 a 2014, a
Organização Mundial do Turismo (OMT) é um fim de verificar como eles sujeitos percebem o
exemplo de governança global. (DIAS e processo de implantação e mobilização dessa
MATOS, 2012). Instância a partir do lugar que ocupam. Para
A Constituição Federal de 1988 este artigo, selecionamos três entrevistas. O
inaugura um modo de administrar que conta nome dos participantes foi preservado; os
com conselhos gestores, instituições entrevistados serão identificados como SA
importantes no âmbito das políticas públicas. (Sujeito A), SB (Sujeito B) e SC (Sujeito C).
Os conselhos gestores decorrem dos princípios 2. O olhar do sujeito na instalação da
constitucionais que preceituam a participação Instância de Governança Regional no polo
da sociedade na condução das políticas São Luís
públicas, das legislações regulamentadoras que
condicionam o repasse de recursos federais e do Compreender uma formação discursiva
processo de descentralização. Os conselhos se é observar a atuação do sujeito no trabalho com
configuram como um novo espaço de a linguagem e as diferentes posições que ele
participação da sociedade, no âmbito do assume num enunciado. Descrever um

Universidade Federal de São Carlos - São Carlos, São Paulo, Brasil - 2 a 4 de setembro de 2015.

188
começo havia uma grande participação dos
enunciado é dar conta de algumas agentes, porém poucos assumiam as
especificidades (a referência a algo que responsabilidades de fato. A princípio eles
identificamos; o fato de ter um sujeito; o fato de até que vinham, participavam das reuniões,
o enunciado não existir isolado, de estar sempre eu não vou dizer na sua totalidade, mas as
em associação e correlação com outros entidades, especialmente, estavam sempre
enunciados do mesmo discurso; a materialidade representadas. Mas, assim... eu não sentia
do enunciado, as formas com que ele aparece), muita disponibilidade dos mesmos,
é apreendê-lo como acontecimento, como algo especialmente o setor privado, de se
que irrompe num certo tempo, num certo lugar. envolver nesse processo todo, na
O que permitirá situar um complexo de realidade o processo ficou mais ...
enunciados numa certa organização é caminhava mais por conta do incentivo do
exatamente o fato de eles pertencerem a uma setor público. As entidades apesar de ter
certa formação discursiva. (FOUCAULT, sempre uma representação nas reuniões é ...,
eu acho que elas não assimilaram muito a
1986).
‘coisa’ do compromisso e de trabalho, é
Os sujeitos participantes da IG do Polo uma coisa (a criação da Instância) que
São Luís ocupam diversos lugares como o de demanda trabalho e demanda um certo
representante do poder público, representante tempo de cada um e não somente naquele
da iniciativa privada, representante do momento das reuniões e eu acho que eles
empresariado, representante de cooperativa. não assimilaram isso é ... vamos dizer... de
Para esse trabalho, analisamos as formações forma satisfatória. Entendo que essa
discursivas de sujeitos que representam o poder situação não possui nenhum fato
especifico, acho que é uma questão de
público.
cultura mesmo, aquilo que acham que é
A propósito da participação dos sempre o poder (público) quem tem que
membros nas reuniões, SA comenta: fazer, que puxa.

O processo de sensibilização para Para SB,


implantação da Instância de Governança
começou desde 2009, juntamente com uma Há uma grande dificuldade em sensibilizar
contratação do Ministério do Turismo de os municípios a participarem das reuniões
uma consultoria, do IADH, que era uma do fórum, e [há] falta comprometimento. O
consultoria para criação de Instâncias de principal ator, que pode ser considerado
Governança nos destinos turísticos. No caso como o ator-chave da instância é o
do Maranhão ocorreu em São Luís e Estado, e apenas uma parcela muito
Barreirinhas. No processo de mobilização pequena do trade se interessa em executar as
foram realizadas reuniões e palestras. À ações.
frente mesmo, conduzindo o processo,
estava a Setur-MA (Secretaria Estadual
do Maranhão). Eu estava à frente desse SC destaca:
processo porque na época nós
trabalhávamos aqui na secretaria com um Os municípios não conseguem enxergar a
interlocutor pra cada polo, certo?! [...] No importância da atividade para a região.
Através das ações desenvolvidas pela

Universidade Federal de São Carlos - São Carlos, São Paulo, Brasil - 2 a 4 de setembro de 2015.

189
Setur criam-se projetos tendo o apoio
papel do Estado na tomada de decisões sobre
total da secretaria.
acontecimentos que envolvem a sociedade.
Situando as formações discursivas de O olhar dos sujeitos desta pesquisa
SA, SB e SC, observamos o destaque para a reatualiza um discurso já cristalizado em nossa
representatividade que o poder público, cultura: um empreendimento depende da
representado pela Secretaria de Turismo- iniciativa de alguém, ou de um órgão, a fim de
SETUR e pelo “Estado”, assumem. Os lugares levá-lo adiante. No caso em análise, o Estado é
de onde falam os sujeitos A, B e C são bastante o principal agente a desempenhar esse papel.
marcados por um discurso que dá importância à Segundo A, B e C, graças ao Estado, “principal
atuação do setor público como agente ator” do processo, as articulações são feitas, os
responsável pelas políticas de desenvolvimento projetos são criados.
do turismo. 4. Considerações finais
Esse lugar de fala reflete uma formação A genealogia das instâncias de
discursiva do discurso oficial, que destaca a governança tem uma relação com diversos
Secretaria de Turismo como um órgão acontecimentos que construíram suas bases,
cumpridor de seu papel: possibilitar o como a reforma do Estado, a globalização,
desenvolvimento de políticas públicas em favor Constituição Federal de 1988.
da criação e andamento das IG. Essa FD se
revela por meio de uma prática discursiva que Segundo Foucault (1986), ao produzir
se instaura e se reatualiza nos enunciados dos enunciados, o sujeito ocupa diferentes lugares e
sujeitos. Para Foucault, tudo é prática. E toda fala de diferentes formações discursivas. Nesse
prática é atravessada por relações de poder e sentido, ele pode ocupar o lugar de pai, de
saber, que se relacionam. “Enunciados e filho, de professor, de pregador, dependendo da
visibilidades, textos e instituições, falar e ver situação e da instituição de onde fala (da
constituem práticas sociais por definição família, da escola, da igreja).
permanentemente presas, amarradas às relações Em nossas análises, destacamos sujeitos
de poder, que as supõem e as atualizam.” que participaram de fóruns de discussões
(FISCHER, 2001, p. 2001) (reuniões) sobre a criação e implementação de
Os sujeitos A, B e C entram na ordem políticas públicas para a Instância de
do discurso do poder e promovem um saber Governança do Polo São Luís, e que ocupam e
sobre o esforço e o desempenho do Estado no falam do lugar do poder público.
processo de criação e implantação das As análises sobre as falas desses
instâncias de governança. sujeitos, denominados de SA, SB e SC, revelam
O discurso, na fala desses sujeitos, formações discursivas eivadas de um poder que
existe para além da mera utilização da dão à Secretaria de Turismo-Setur, órgão
materialidade linguística, pois ele não é representante do poder público, uma
simplesmente uma expressão de algo. Ele visibilidade de ator principal na direção e
apresenta regularidades, por meio das quais desenvolvimento dos trabalhos da IG do Polo
podemos definir uma rede conceitual sobre o São Luís.

Universidade Federal de São Carlos - São Carlos, São Paulo, Brasil - 2 a 4 de setembro de 2015.

190
Segundo SA, SB e SC, os municípios ______. Arqueologia do saber. Rio de Janeiro:
maranhenses envolvidos na criação das IG Forense Universitária, 1986.
mantêm uma relação de dependência com a
______. A ordem do discurso. 5. ed. São Paulo:
Secretaria Estadual do Turismo, já que esperam Loyola, 1999.
da Setur a iniciativa de reunir os representantes
das instâncias de governança, assim como de
dar continuidade aos trabalhos de criação e
instauração de políticas públicas para sua
efetivação. Produz-se, ao mesmo tempo, um
saber sobre o papel do Estado como peça-chave
na atuação dos trabalhos e sobre a falta de
compromisso de alguns atores envolvidos no
processo.

Referências
BRASIL. Ministério do Turismo. Programa de
Regionalização do Turismo – Relatório do
Programa de Regionalização do Turismo –
Roteiros do Brasil: panorama geral e propostas
para o futuro do turismo no país. Brasília, DF,
2007.
DIAS, R.; MATOS, F. Políticas públicas:
princípios, propósitos e processos. São Paulo:
Atlas, 2012.
FISCHER, R. M. B. Foucault e a Análise do
Discurso em Educação. Cadernos de Pesquisa,
n. 114, novembro/2001. Disponível em
<http://www.scielo.br/pdf/cp/n114/a09n114.pdf
>. Acesso em: 21 jul.2015.
FOUCAULT, M. O nascimento da medicina
social. In: ______. Microfísica do poder.
Organização e tradução de Roberto Machado.
23. ed. Rio de Janeiro: Graal, 2007. p. 79-98.
______. Nietzsche, a Genealogia e a História.
In: MOTTA, M.B. (Org.). Michel Foucault.
Ditos e Escritos II. Rio de Janeiro: Forense
Universitária, 2000. p. 260-281.

Universidade Federal de São Carlos - São Carlos, São Paulo, Brasil - 2 a 4 de setembro de 2015.

191
MEDIAÇÃO EDITORIAL E ETHOS DISCURSIVO: UMA
ANÁLISE DA CONSTRUÇÃO DE PERSONAGENS NA COLEÇÃO
SNOOPY

Fernanda Capelari de CARVALHO


Universidade Federal de São Carlos (UFSCar)
f.ccarvalho95@gmail.com

Resumo: Inscrito no quadro da análise do discurso de tradição francesa de base


enunciativa, este trabalho mobiliza um modelo teórico proposto pelo linguista Dominique
Maingueneau (2007, 2012) para analisar processos de edição, tendo como proposta
focalizar a construção de personagens como criação de ethos discursivo. O material que
constitui o corpus reúne dez livros da coleção SNOOPY, uma coleção que abrange
tirinhas da obra de Charles M. Schulz, Peanuts. Nessas tirinhas, focalizaremos os
materiais linguísticos ligados aos personagens dessa obra, evidenciando curiosidades
com relação aos processos de edição que afetam o ethos discursivo dos personagens.
Consideraremos também questões como a problemática da tradução e autoria. Trata-se
de abordar um problema de mediação editorial.
Palavras-chave: mediação editorial; ethos discursivo; tradução.

característica produzir livros em formato de


Introdução bolso, em geral mais acessíveis. Possivelmente,
Peanuts, as tiras em quadrinhos de há um valor simbólico nesse formato, além da
Charles M. Schulz (1922 - 2000), é uma das vantagem do custo, mas essa discussão será
histórias mais conhecidas e difundidas no feita em outra ocasião. Aqui, registremos que,
mundo todo. Mesmo depois da morte do autor, bastante recente (2007 - 2014), a coleção é
a obra continua a fazer sucesso em diferentes composta por 10 livros, sendo eles: Snoopy e
materialidades. Primeiro impressas em jornais, sua turma, Feliz dia dos namorados!, Assim é a
as tiras de Schulz foram publicadas vida, Charlie Brown!, É Natal!, Posso fazer
ininterruptamente por 50 anos nos jornais, e uma pergunta, professora?, Como você é
agora, podemos encontrar Peanuts em livros, azarado, Charlie Brown!, Doces ou
camisetas, cadernos e brinquedos sem fazer travessuras?, No mundo da Lua!, Pausa para a
muitos esforços. soneca e Sempre alerta!.

A coleção SNOOPY, que é o objeto Observando esse material que constitui


central do presente projeto, foi publicada pela o corpus, este trabalho, inscrito no quadro da
editora L&PM POCKET, que tem como análise do discurso de tradição francesa,

Universidade Federal de São Carlos - São Carlos, São Paulo, Brasil - 2 a 4 de setembro de 2015.

192
assumindo uma base enunciativa, procura
entender como a mediação editorial influencia A produção das “correspondências sem
na construção do ethos discursivo dos adequação”, que constituem a solução
personagens de Peanuts, mobilizando um sempre provisória e historicamente
modelo teórico-metodológico proposto pelo condicionada do dilema prático da
linguista Dominique Maingueneau. tradução, implica, portanto, uma estreita
articulação entre o ato de interpretar e o de
1. Desenvolvimento traduzir. (RICOEUR, 2011, p.13)
Este projeto se delineia ao observar um
registro editorial relevante em termos Essas manobras de tratamento editorial
discursivos, que diz respeito ao material de textos, fazem com que precisemos falar
linguístico que delineia a personagem Patty sobre a problemática da autoria.
Pimentinha: referida por sir no original em A tradução sobre um nome já
inglês, a personagem, que em quase todas as consagrado em uma obra tão difundida quanto
coleções e transmidiações é referida por a de Peanuts, traz consequências como a
senhor, em português, nesta coleção que mudança na construção do ethos das
estudamos é tratada como meu. Certamente, na personagens.
passagem se sir para senhor já há
considerações a fazer, se levamos em conta que É preciso, ainda, que se coloque em
o tratamento sir tem especificidades que senhor jogo a mudança de suporte que as tirinhas
não recobre, como, por exemplo, a sofreram, já que, inicialmente, Schulz difundia
característica de título que convoca toda uma sua obra em jornais e, agora, sua coleção se
memóriadiscursiva nobiliárquica, caracterizada concentra em livros de compilações, suporte
na origem, pela posse sobre territórios, que supõe um meio de circulação muito
escravos e mesmo de cavaleiros que serviam à diferente, que pressupõe outra leitura e
nobreza. Senhor, por traços semânticos de entendimento, já que a própria ideia de coleção
poder, refere, em português, uma hierarquia induz a uma expectativa de que seja um
social, eventualmente militar. Essa manobra material em que os elementos que o compõem,
nos permite já uma série de reflexões sobre a tenham traços comuns. O que não acontece
identidade dessa personagem. Mas, ao utilizar quando observamos os outros nove livros da
meu, opta-se por uma gíria bastante coleção SNOOPY, em que a tradução feita para
regionalizada, de um falar paulistano sir foi senhor.
estereotípico, que em nada remete aos jogos de 2. Abordagem teórica e metodológica
poder da nobreza ou do poderio institucional.
A abordagem teórica e metodológica
Se, conforme o quadro teórico dos desse problema acima explicitado se baseia no
estudos do discurso convocado aqui, entende- modelo proposto por Dominique Maingueneau
se que os sentidos são dados nas relações para estudo doethos discursivo:
parafrásticas que convocam certas memórias,
silenciando outras, no caso dessa manobra Podemos [...] estar de acordo sobre alguns
editorial, pode-se entender que: princípios mínimos, sem prejulgar o modo
como eles podem eventualmente ser

Universidade Federal de São Carlos - São Carlos, São Paulo, Brasil - 2 a 4 de setembro de 2015.

193
explorados nas diversas problemáticas de
ethos: socialmente, consagrados numa dada
– o ethosé uma noção discursiva, ele se comunidade discursiva, para serem
constrói através do discurso, não é construídos. Esses esteriótipos são imagens
uma“imagem” do locutor exterior a sua cristalizadas, criadas socialmente, uma base
fala; imprescindível para que os coenunciadores
– o ethosé fundamentalmente um processo construam os ethos. Eles podem facilitar o
interativo de influência sobre o outro; entendimento sobre conteúdos mas também
– é uma noção fundamentalmente híbrida criar modelos prontos para coisas que não
(sócio-discursiva), um comportamento deveriam ser estereotipadas, coisas que
socialmente avaliado, que não pode ser precisam que esses estereótipos não se
apreendido fora de uma situação de mantenham para que a sua real imagem seja
comunicação precisa, integrada ela mesma
construída.
numa determinada conjuntura sócio-
histórica. (MAINGUENEAU, 2008, p.17

Maingueneau ainda faz distinção entre


dois ethos pré-discursivo e ethos discursivo,
que se conjugam na composição para a
constituição do ethos efetivo. Sabendo que é no
e pelo discurso, que a imagem do sujeito é
construída, podemos definir o primeiro como a
imagem que é construída do sujeito antes da
enunciação, conforme informações prévias
obre o lugar de fala, e o segundo, a imagem (MAINGUENEAU, 2008, p.19)
construída do sujeito após sua fala ou ação.
Esse modelo teórico-metodológico
Apesar de serem características distintas, os
proposto por Maingueneau é a base para
dois se afetam mutuamente. E, no que diz
investigarmos o modo como a mediação
respeito ao ethos discursivo, o autor integra o
editorial afeta o ethos discursivo dos
ethos dito e o ethos mostrado. Assim como as
personagens na coleção SNOOPY.
setas que ligam o ethos pré-discursivo com o
ethos discursivo, as que estão entre o ethos dito 3. Análise e discussão
e ethos mostrado representam sua relação A coleção SNOOPY contém o livro em
mútua. A diferença entre os dois é que o que consta a tradução de sir, do inglês, para
primeiro é suscitado por marcas linguísticas meu (Figura 1). Essa mediação editorial
explícitas, principalmente dêiticos, já o ocorreu justamente quando a editora L&PM
segundo se formula através de marcas
linguísticas não explícitas, mas sim com pistas Pocket deixou a responsabilidade da
que fazem o coenunciador “criar” esse ethos tradução do primeiro livro da coleção - Snoopy
mostrado do enunciador. e sua turma –a cargo da empresa
Intercontinental Press; todos os outros nove
Na base do diagrama abaixo, livros da mesma coleção foram traduzidos por
encontram-se esteriótipos ligados aos mundos Cássia Zanon, uma tradutora já experiente nos
éticos, assim, segundo Maingueneau, os ethos quadrinhos de Peanuts.
são baseados em conteúdos partilhados

Universidade Federal de São Carlos - São Carlos, São Paulo, Brasil - 2 a 4 de setembro de 2015.

194
traço semântico que senhor traz em si. Assim
A tradução inicial do modo como a também fazendo a relação com sir, que contém
personagem Marcie se refere a sua amiga Patty aspectos muito mais autoritários, de poder e
Pimentinha passa de senhor (Figura 2), uma força.
tradução de sir (Figura 3), que aparentemente é
uma escolha que melhor representa o texto Traços mínimos como esses
original em relação a todos os aspectos que a contemplam o ethos da personagem Patty
“expressão” em inglês contempla. Pimentinha. Logo, se a referênciasenhor sofre
Considerando a tradução como um transporte um tratamento editorial que o transforma em
de um significado de uma língua, para outra, o meu, o ethos da personagem também sofrerá
cuidado deve ser minucioso, já que as culturas alterações.
que permeiam as sociedades são muito distintas Marcie por outro lado, tem um ethos
uma das outra, fazendo com que traduções as discursivo de uma amiga paciente e, pelo uso
sejam base imprescindível para o conhecimento do senhor, podemos inferir que também é
da obra e do autor em diferentes contextos submissa, em certa medida. Sendo assim, é
socioculturais. importante observar que a personagem Marcie,
No caso de Peanuts, há informações que se apropria do uso de meu ou senhor,
sobre os personagens que constituem a obra, também é afetada no que diz respeito ao seu
porém quase nenhuma precisamente ethos discursivo, dependendo da forma de
confirmada. Assim, poderíamos considerar como ela se apropria da língua: ela refere
Peanuts uma autobiografia do autor? Apenas amiga querida como alguém de superioridade
essa consideração faria com que todos que hierárquica na intimidade delas ou como um
lessem a obra a observassem de maneira “brother”, na gíria paulistana, alguém com
diferente. O mesmo acontece quando uma quem horizontaliza?
mediação como essa surte efeito: pessoas que Essas são análises preliminares que
nunca leram Peanuts antes e tivessem contato guiarão outras e de outros personagens,
apenas com a tradução de meu, possivelmente conforme o andamento da pesquisa tendo em
teriam uma disposição totalmente diferente em vista essas alterações.
relação a uma enormidade de coisas que a obra
se delineia, as quais comentaremos adiante. 3.1 Figuras
Observamos que Patty Pimentinha, se
cosntitui de traços andróginos, o que é
sustentado durante a obra toda, a partir do
momento que suas vestimentas e cortes de
cabelo não se encaixam nos estereótipos
femininos em vigor. Também se constatam
características da personagem que a podem
definir como uma pessoa coercitiva, que
mantém fortes opniões e pode ser até muitas
vezes, considerada arrogante, principalmente
com sua melhor amiga Marcie, que a adora.
Essas suposições podem ser sustentadas pelo

Universidade Federal de São Carlos - São Carlos, São Paulo, Brasil - 2 a 4 de setembro de 2015.

195
Figura 1: SCHULZ, C.M Snoopy e sua Neste artigo, trabalhamos de modo
turma: 1, tradução de Intercontinental
Press. - Porto Alegre: L&PM, 2013. introdutório com o conceito deethos discurso,
verificando e como a constituição da identidade
de personagens é afetada por certos tratamentos
editorias de texto. Analisando a obra Peanuts,
mais especificamente, a coleção SNOOPY,
vimos a recorrência do problema acima
apresentado: as mediações editorias
interferindo na construção do ethos de
personagens da obra.
Na leitura de bibliografia relacionada, o
a noção de ritos genéticos editoriais (Salgado,
2011) parece ser muito importante para
entendermos conceitos como a autoria na obra
Figura 2: SCHULZ, C.M Snoopy - Feliz
Dia dos Namorados: 2, tradução de Cássia
analisada, já que essa teoria especifica a noção
Zanon. - Porto Alegre: L&PM, 2010 de Maingueneau (2006) sobre ritos genéticos,
ao referir os trabalhos de criação e edição de
textos autorais, contemplando diversos
aspectos de sua preparação para circulação
pública.
Em relação à tradução, vemos que é um
modo de fazer laço entre outros mundos, outras
culturas, logo, outros seres com outros
conhecimentos de mundo (BURKE, XXXX).
Precisamos levar em consideração que a partir
do momento que se entende que ninguém tem o
Figura 3: SCHULZ, C. M THE
COMPLETE PEANUTS - Lake City Way:
conhecimento total sobre a própria língua, a
FANTAGRAPHICS BOOKS, 2013. proposta do tradutor de se imergir tanto em
uma língua quanto em outra é complexa, apesar
da ajuda dos novos dispositivos e as relações
culturais se aproximando.
Assim, o estudo linguístico de objetos
editoriais exige a abordagem dos suportes de
inscrição e dos meios de circulação que,
entendidos como condicion condicionantes da
produção dos sentidos, registram que os ritos
genéticos editoriais são um trabalho na ordem
do discurso.

4. Considerações finais Referências

Universidade Federal de São Carlos - São Carlos, São Paulo, Brasil - 2 a 4 de setembro de 2015.

196
AMOSSY, R. Da noção retórica de ethos à ______.A Circulação da Energia Social
análise do discurso. In: AMOSSY, Ruth (org.). Inscrita na Vitalidade dos Textos. Alfa, São
Imagens de si no discurso. Tradução Dílson Paulo, v.54, n.1, p.11-31, 2010.
Ferreira da Cruz; Fabiana Komesu; Sírio ______. Ritos genéticos editoriais: uma
Possenti. São Paulo: Contexto, 2005. abordagem discursiva da edição de
BURKE, P. & HSIA, R. P. (Orgs). A Tradução textos.Revista do Instituto de Estudos
Cultural – Nos Primórdi-os da Europa Brasileiros, Brasil, n.57, 2013 p. 253-276.
Moderna. São Paulo: Unesp, 2009.
CHARTIER, R. A mão do autor e a mente do
editor. Tradução George Schlesinger - 1.ed -
São Paulo: Editora Unesp, 2014.
GATTI, M. A.; SALGADO, L. S. Personagens
infantis de tiras cômicas em suportes diversos:
uma questão de circulação, aforização e
estereotipia. Revista DELTA, São Paulo , v. 29,
n. spe, 2013. Disponível em http://dx.doi.org/
10.1590/S0102-44502013000300009
MAINGUENEAU, D. (1998) Análise de textos
de comunicação. Tradução de Cecília de
Souza-e-Silva e Décio Rocha. 3. ed. São Paulo:
Cortez, 2004.
_______. Ethos, cenografia, incorporação. In
AMOSSY (org.) Imagens de si no dis- curso –
a construção do ethos. Trad. Dilson Ferreira da
Cruz, Fabiana Komesu e Sírio Possenti (orgs.).
São Paulo: Contexto, 2005.
______. Discurso literário. Trad. Adail Sobral.
São Paulo: Contexto, 2006.
______. A propósito do ethos. In MOTTA;
SALGADO (orgs.). Ethos discursivo. Trad.
Luciana Salgado. São Paulo: Contexto, 2008.
RICOEUR, P. Sobre a tradução. Belo
Horizonte: UFMG, 2011. 71p.
SALGADO, L. S. O Autor e seu Duplo nos
ritos genéticos editoriais. Eutomia – Revista de
Literatura e Linguística, ano 1, vol. 1, 2008,
pp. 525-546.

Universidade Federal de São Carlos - São Carlos, São Paulo, Brasil - 2 a 4 de setembro de 2015.

197
O JOGO BARROCO: MANIFESTAÇÕES DE SUBJETIVIDADE
EM DISCURSOS RELIGIOSOS DO SÉCULO XVII

Ricardo CELESTINO
Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP)
ricardo.celestino2003@gmail.com

Resumo: Em contribuição aos estudos enunciativo-discursivos da Análise do Discurso,


temos a proposta de analisar as manifestações de subjetividade em discursos religiosos do
século XVII. Nas práticas religiosas seiscentistas, é possível identificar a antítese do
racionalismo, do cientificismo e do teocentrismo contra-reformista como uma relação
polêmica e subjetiva entre os campos discursivos artístico, religioso e renascentista.
Selecionamos como fundamentação teórica as categorias de gêneros de discurso e cenas
da enunciação para evidenciar os desdobramentos do ato enunciativo e a manifestação de
subjetividade nos discursos de Frei Antonio das Chagas.
Palavras-chave: subjetividade; discurso religioso.

renascentista, que constituem a estética e o


Introdução
pensamento do Barroco português.
Esta pesquisa desenvolve reflexões
A escolha de nossa amostra foi
enunciativo-discursivas de práticas sociais do
impulsionada pela necessidade de
século XVII e tem como tema estudar as
compreendermos como o discurso é encenado
manifestações de subjetividade e polemicidade
na enunciação, sendo uma das condições para
em Cartas Espirituais de Frei Antonio das
entendermos a esfera de atividade religiosa de
Chagas, escritas no Barroco português.
Cartas Espirituais. A subjetividade, nesta
Obra de valor documental, Cartas pesquisa, é tomada como processo no aparelho
Espirituais foi editada postumamente em dois enunciativo e é condição para a
volumes, o primeiro em 1684, com 100 cartas, interdiscursividade do discurso
e o segundo em 1687, com 266. Estudá-las na institucionalizado religioso com as formações
perspectiva enunciativo-discursiva nos discursivas da Literatura Barroca e da
possibilita compreende-las como documento Religiosidade.
histórico que revela episódios da vida cotidiana
A compreensão de Cartas Espirituais
de uma sociedade, cuja formação social,
está diretamente relacionada ao entendimento
espiritual, religiosa, política e cultural agregam
de suas condições sócio-históricas de produção
referências dos pensamentos medieval e
e de circulação. A Análise do Discurso de

Universidade Federal de São Carlos - São Carlos, São Paulo, Brasil - 2 a 4 de setembro de 2015.

198
orientação francesa, doravante AD, é o Católica, seu discurso propunha
referencial teórico-metodológico que nos desdobramentos que evidenciassem certa
possibilita compreender o discurso indissociável conduta moral exemplar do religioso. Os
de seu quadro social. Os estudos realizados na dogmas e as doutrinas da Igreja Católica eram
AD ultrapassam a reflexão intradiscursiva, pois validados como leis naturais a todo Império
contemplam os aspectos sociais, históricos, cristão. Eram leis que normatizavam e
culturais e institucionais da produção orientavam o comportamento das instituições
discursiva. Assim, selecionamos os estudos de sociais e da vida comunitária. A lei humana era
Maingueneau (2005, 2008a, 2008b) como realizada sob a luz das leis naturais cristãs
referencial teórico-metodológico e as categorias baseadas no texto bíblico. A união entre as leis
de gêneros o discurso e cenas da enunciação naturais da fé e as organizações e ordens sociais
para depreendemos acerca da polêmica e da do Estado eram pautadas em reflexões de
subjetividade em Cartas Espirituais. teóricos religiosos da filosofia. Paes (2006)
observa que a filosofia tomista possibilitou a
1. De Fonseca a Chagas, do secular ao
Portugal e outros Estados europeus a
espiritual
construção de uma organização do poder
Frei Antonio das Chagas, convertido à monárquico. Contudo, este poder foi abalado
vida religiosa com 31 anos de idade e no reino português devido a questões
pertencente a Ordem de São Francisco em hereditárias de sucessão do trono, já que o
Évora, é caracterizado como pregador de ardor último rei da Dinastia de A