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CURSO

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1 Literatura Cearense
Notas Introdutórias
Charles Ribeiro Pinheiro e Lílian Martins

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Realização
Copyright © 2020 Fundação Demócrito Rocha

FUNDAÇÃO DEMÓCRITO ROCHA (FDR)


João Dummar Neto
Presidente
André Avelino de Azevedo
Diretor Administrativo-Financeiro
Marcos Tardin
Gerente Geral
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Gerente Editorial e de Projetos
Aurelino Freitas, Emanuela Fernandes e Fabrícia Góis
Analistas de Projetos

UNIVERSIDADE ABERTA DO NORDESTE (UANE)


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Gerente Pedagógica
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Coordenadora de Cursos
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Designer Educacional

CURSO LITERATURA CEARENSE


Raymundo Netto
Coordenador Geral, Editorial e Estabelecimento de Texto
Lílian Martins
Coordenadora de Conteúdo
Emanuela Fernandes
Assistente Editorial
Amaurício Cortez
Editor de Design e Projeto Gráfico
Miqueias Mesquita
Diagramador
Carlus Campos
Ilustrador
Luísa Duavy
Produtora

Este curso é parte integrante do programa Circuito de Artes e Juventudes 2019,


2019,
Pronac nº 190198, processo nº 01400.000464/2019-94, em parceria com a Secretaria
Especial da Cultura do Ministério da Cidadania.

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) de acordo com ISBD

C977
Curso Literatura Cearense / vários autores ; organizado por
Raymundo Netto; coordenação de Lílian Martins; ilustrado por Carlus
Campos - Fortaleza, CE : Fundação Demócrito Rocha, 2020.
192 p. ; 25cm x 29,5cm. - (Curso Literatura Cearense; 12v.).
ISBN: 978-65-86094-22-0 (Coleção)
ISBN: 978-65-86094-23-7 (Fascículo 1)
1. Literatura brasileira. 2. Literatura cearense. I. Netto, Raymundo. II.
Martins, Lílian. III. Campos, Carlus. IV. Título. V. Série.
CDD869.31
2020-881 CDU821.134.3(813.1)

Elaborado por Odilio Hilario Moreira Junior - CRB-8/9949

Todos os direitos desta edição reservados à:

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Av. Aguanambi, 282/A - Joaquim Távora
CEP: 60.055-402 - Fortaleza-Ceará
Tel.: (85) 3255.6037 - 3255.6148
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APROCHEGUE-SE!
Na minha terra, as estradas são tortuosas
e tristes como o destino de seu povo errante.
Jáder de Carvalho*

lá! Seja muito bem-vindo(a) desenvolver subsídios teóricos para a for-


ao curso Literatura Cearense mação de estudantes, professores, pes-
da Fundação Demócrito Ro- quisadores e demais interessados acerca
cha (FDR) em parceria com a da Literatura Cearense, sistematizando e
Universidade Federal do Ceará aprofundando esses conhecimentos em
(UFC). Este curso, com 140h, seu aspecto histórico-cultural.
que tem apoio da Lei Federal Parafraseando o pensamento do filó-
de Incentivo à Cultura, é ofer- sofo norte-americano Richard Rorty: “A
tado GRATUITAMENTE e com- literatura não faz progresso por tornar-se
pletamente na modalidade de mais rigorosa, porém, por tornar-se mais
Educação a Distância (EaD), para todos os criativa.” Neste sentido, este curso inova ao
estados do país, por meio de nosso Am- criar um novo compêndio de estudos para
biente Virtual de Aprendizagem (AVA). a nossa formação em Literatura Brasileira
* Trecho do poema Os fãs e estudiosos da nossa Literatura às cores de nossos “verdes mares bravios”.
“Terra Bárbara”, Brasileira terão, agora, a possibilidade de Nosso objetivo é ampliar, criar possibi-
publicado em livro ampliar seu repertório de saberes, conhe- lidades diferentes de análise para o campo
homônimo (1965). cendo um pouco mais sobre a literatura literário, propiciando instâncias significa-
produzida no estado cearense, seja por tivas de interação mediante o uso da Lite-
autores nascidos no Ceará ou que nele dei- ratura Cearense no panorama artístico na-
xaram seu maior legado literário. Além de cional, abrindo campo para a renovação
Aprochegar-se nomes como o de José de Alencar, figuram de estudos, temas, obras e autores, e pro-
Chegar bem perto; neste curso, outros pertencentes a escolas, movendo a integração e o conhecimento
aproximar-se, academias, movimentos e agremiações desta literatura entre as demais literaturas
achegar-se, abeirar-se. literárias que conhecemos e/ou estamos de estados brasileiros participantes.
familiarizados desde a escola. Porém, aqui, Vamos juntos aprender para transfor-
também evidenciamos a presença de auto- mar! Pois, como já nos ensinava Paulo
res e autoras que, por motivos outros, ain- Freire: “A alegria não chega apenas no
da são pouco conhecidos do grande públi- encontro do achado, mas faz parte do
Epistemologia co, a despeito de seu talento ou produção, processo da busca.” Busquemos, então,
Estudo dos postulados, proporcionando, assim, a alegria da desco- conhecer mais e aprender cada vez mais
conclusões e métodos berta, o fomento a novos estudos e pesqui- sobre este tesouro que é a literatura de um
dos diferentes ramos sas, a ampliação da crítica literária de alto país, o nosso país, e que nos sintamos fe-
do saber científico, ou
das teorias e práticas
teor epistemológico e, quem sabe, o seu lizes ao nos reconhecer parte dele através
em geral, avaliadas interesse leitor e/ou editorial. do contato com diferentes obras e autores.
em sua validade No curso, percorreremos 12 módulos Quem sabe assim, aprendamos a valorizar
cognitiva, ou descritas que vão desde o século XIX à Contempo- a diversidade cultural brasileira por meio
em suas trajetórias raneidade, abrangendo ainda escritores da contribuição artística e intelectual de
evolutivas, seus
independentes e agremiações de maior seus escritores de todas as suas regiões.
paradigmas estruturais
ou suas relações com a relevo em consonância com diferentes Acesse agora o nosso AVA, se inscreva e
sociedade e a história; estudos nas Artes e, sobretudo, em Litera- compartilhe o nosso curso. Bom aprendizado!
teoria da ciência. tura Brasileira. Dessa forma, pretendemos cursos.fdr.org.br

Lílian Martins
COORDENADORA DE CONTEÚDO
1.
O PIONEIRISMO ARTÍSTICO-
CULTURAL CEARENSE
Eu sou de uma terra que o povo padece /
Mas nunca esmorece, procura vencê,/
Da terra adorada, que a bela caboca/ De riso SABATINA
na boca zomba no sofrê./
Não nego meu sangue, não nego meu nome,/ Patativa do Assaré (1909-2002) foi
Olho para fome e pergunto: o que há?/ um poeta e repentista brasileiro,
Eu sou brasilêro fio do Nordeste,/ Sou cabra considerado um dos principais
da peste, sou do Ceará. representantes da arte popular
[...] nordestina do século XX. O
Patativa do Assaré seu poema “Triste partida”,
em Cante lá que eu canto cá. em 1964, foi musicado e
gravado por Luiz Gonzaga
(1912-1989), o que lhe
poema “Sou cabra da pes- rendeu projeção nacional.
te”, do qual destacamos Seus versos, traduzidos em
um trecho acima, é um dos vários idiomas, são temas
mais conhecidos de auto- de estudos em diversas
ria de Patativa do Assaré. universidades pelo mundo, a
Publicado no livro Cante lá exemplo da Universidade de
que eu canto cá, o poema Sorbonne, na França, em sua
expressa a condição so- disciplina “Literatura popular
frida do homem cearense universal”. Estudaremos mais
que, apesar das dificul- sobre ele adiante. Por ora,
dades do meio em que vive, não esmorece aproveite para assistir o poeta
e tem resiliência para vencer. Ele é definido declamando “Sou cabra da
como “cabra da peste”, expressão nordesti- peste” no link a seguir, do
na que designa homem valente, corajoso e canal do Museu de Arte Kariri:
batalhador. Desta forma, o poeta situa sua https://www.youtube.com/
condição expressando-a de modo múltiplo. watch?v=FNZTn6w8cXQ
Ele se identifica como o sujeito do tipo cabra
da peste, o cearense, nordestino e brasileiro.

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Em outros trechos, Patativa descreve vá-
rias imagens do Ceará, considerando, desta CONFEITOS
vez, não apenas a sua condição de um se-
quioso topônimo, mas como terra fértil do Neste curso, pretendemos dar voz
vaqueiro e do jangadeiro, e, o mais interes- aos pesquisadores e críticos de
sante, uma terra de escritores, pois cita o literatura, lançando nesse espaço de
poeta Juvenal Galeno e o romancista José construção de conhecimento os seus Campo do Poder
de Alencar. Logo, percebemos que o poeta conflitos teóricos e/ou conceituais, Para o sociólogo
francês Pierre Bourdieu
tem consciência do lugar a que pertence e cabendo as cursistas pesquisá-los,
(1996), “o campo do
Tradição da tradição literária que veio antes dele. estudá-los, compará-los, ler a obra poder é o espaço das
É oriundo do Esse conhecimento literário, também o im- em questão, claro, e tirar as suas relações de força entre
termo latino traditio/ pulsiona na criação da sua própria poesia próprias conclusões. agentes ou instituições
onis, “ato de entregar”, que têm em comum
de expressão matuta, gênero da poesia po- Por exemplo, enquanto alguns
um derivado do verbo possuir o capital
tradere, “entregar, pular, cearense e brasileira. Mas, com isso, estudiosos como Constância Lima necessário para ocupar
passar adiante”. A você deve estar se perguntando: de onde Duarte e Otacílio Colares concordam posições dominantes
palavra significa vem essa tradição literária cearense? ser A rainha do ignoto – que em sua nos diferentes
“passar algo a alguém”, Desde o início do século XIX, o Ceará campos (econômico
primeira edição trazia o subtítulo
como costumes, tem-se mostrado pleno de atividades lite- ou cultural,
cerimônias, hábitos, “romance psicológico – o primeiro
rárias. Berço de José de Alencar (1829- especialmente)”.
características de um romance fantástico brasileiro, Portanto, no campo
grupo. No sentido 1877), romancista mais representativo do Sânzio de Azevedo e Almeida Fischer do poder existem
antropológico, é Romantismo brasileiro e o responsável defendem que o romance romântico sujeitos pertencentes
herança cultural, pelo projeto de identidade nacional da Li- é, à luz de Todorov, maravilhoso às classes dominantes,
mas também o teratura Brasileira. pessoas reais
e não fantástico.
reaprendizado das possuidoras de capital
No início da década de 1870, fomos um
relações de vivências econômico, detentoras
profundas entre os dos estados pioneiros na divulgação da filo-
de poder material,
homens e o seu meio, sofia positivista no Brasil, por meio da Acade- tural cearense, a literatura produzida nestas que interferem na
permitindo, portanto, mia Francesa (1873-1875). O primeiro estado plagas ainda margeia o espaço do campo sociedade em prol
a consciência do brasileiro a abolir a escravidão, em 1884. So- do poder destinado à Literatura Brasileira. de seus interesses.
pertencimento. mos também pioneiros na divulgação da es- Uma das respostas para se entender este fe-
tética simbolista por meio da irreverente Pa- nômeno pode estar na própria concepção e
daria Espiritual (1892-1898). Antecedemos, formação do Estado brasileiro, que, desde o
em dois anos, a criação de uma Academia início de seu Período Colonial, demonstrou
Brasil, com a Academia Cea-
de Letras no Brasil ser um país continental, com múltiplas cul-
rense, em 1894. Veio de uma cearense, Emília turas e expressões. A dificuldade de acesso
Freitas, em 1899, a primeira publicação de um dos grandes centros urbanos e políticos na-
romance de fantasia científica, ou, como pre- cionais, concentrados majoritariamente nas
ferem afirmar pesquisadores a exemplo de regiões sul e sudeste do país, a essas diferen-
Constância Lima Duarte, o primeiro roman- tes culturas e expressões oriundas de regiões
brasileiro, A rainha do ignoto.
ce fantástico brasileiro menos prestigiadas socioeconomicamente,
E foi também uma cearense, Rachel de Quei- e vice-versa, além de, mais tardiamente e
roz, em 1977, a primeira mulher a ingressar na especialmente no século XIX, a própria di-
Academia Brasileira de Letras e a primeira a nâmica editorial no Brasil, também em efer-
mulher a receber o Prêmio Camões, o maior vescência nesses eixos no referido período,
da Língua Portuguesa, em 1993. podem nos fornecer pistas que nos condu-
Embora esses diferentes marcos históri- zam a pontos de reflexão sobre o país e a sua
cos demonstrem o pioneirismo artístico-cul- histórica política cultural. Daí podemos nos

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questionar: culturalmente, é possível crer em
uma unidade nacional? Para uma maior re- PASSANDO
flexão, precisamos nos debruçar na História.
Em, 1926, Gilberto Freyre lançou o seu
A LIMPO
Manifesto Regionalista, em que desenvolve
O escritor Pedro Nava, no livro Baú
basicamente dois temas interligados: (1) a
de ossos (1972), ao falar do grêmio
defesa da região enquanto unidade de or-
Padaria Espiritual, do qual seu pai
ganização nacional e (2) a conservação dos
foi membro, o associou ao movimento
valores regionais e tradicionais do Brasil,
modernista de 1922, por conta de dois
em geral, e do Nordeste, em particular.
itens do Programa de Instalação –
O que Freyre afirma é que o único
uma espécie de estatuto – que enaltecia
modo de ser nacional no Brasil é ser
o emprego da flora, da fauna e da
primeiro regional. Qual seria, então, o
cultura brasileira em detrimento de
nosso propósito: procurar entender a di-
elementos estrangeiros que povoavam
versidade brasileira ou defender uma ho-
com frequência a literatura da época
mogeneidade talvez idealizada?
(1892). Por conta disso, até hoje, muita
E se levarmos essa questão para o cam-
gente erroneamente cita a Padaria
po dos estudos literários, será que estamos
Espiritual como precursora do
dispostos a trazer as “literaturas periféricas”
Modernismo brasileiro.
Cânone Literário para o centro do cânone literário nacional,
É um conjunto e ocupando, assim, o espaço invisibilizado Sânzio de Azevedo, no opúsculo
seleção de obras que a elas durante um século e meio em seus Padaria Espiritual, em 1970, ou seja, dois
permanecem com o anos antes de Pedro Nava, já indicava
tempo e se destinam
manuais didáticos e pela própria crítica tida
como especializada? Afinal, como diz Wilson essa característica no Programa de
ao estudo por sua
suposta qualidade Martins, a história literária “é feita de exclu- Instalação. Entretanto, afirmava que
estética superior. Essa sões e se define tanto pelo que recusa e igno- esses itens apenas antecedem ao
seleção, enquanto ra, quanto pelo que aceita e consagra.” Cla- Modernismo por remeter a ideais
favorece a algumas nacionalistas posteriormente
ro que estas perguntas e esse debate ainda
obras, invisibiliza defendidos por seus integrantes.
muitas outras, a estão longe de alcançar um consenso, mas
partir de critérios esperamos provocar em você, cursista, inte- Entretanto, os ditos “padeiros”, em suas
considerados por resse em repensar o lugar da literatura pro- produções literárias, em nada tinham
vezes controversos, duzida na cidade/estado em que mora, e o de modernistas. Eram essencialmente
questionados por sua espaço que dizem a ela pertencer ou não nos parnasianos, simbolistas, naturalistas e
ligação com o poder realistas. Inclusive, essa defesa bem-
representado por uma
estudos da denominada Literatura Brasileira.
Iremos refletir sobre esses questiona- humorada de elementos nacionais
classe dominante.
mentos ao longo deste módulo que obje- pela Padaria remete mais ao projeto
tiva servir também de introdução aos pro- romântico do que ao modernista. A
blemas relacionados ao estudo da própria Padaria tem o mérito de, por meio
produção literária no Ceará. de Phantos (1893), de Lopes Filho,
Trabalharemos com uma abordagem his- ser uma das precursoras da estética
toriográfica, discutindo a origem da Literatura simbolista no Brasil, publicado um mês
Cearense apontada por diferentes historiado- antes de Broquéis de Cruz e Souza.
res que tratam do tema e a sua contribuição Aprenderemos mais sobre
para a constituição da Literatura Brasileira, a Padaria Espiritual e o Simbolismo
além do debate das relações entre o Ceará e no módulo 6 deste curso, de autoria
os demais centros culturais do país, levando de Sânzio de Azevedo. Aguarde!
em conta as categorias regional e nacional.

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2.
REGISTROS
MALACA
CHETAS
DA PRODUÇÃO Quem primeiro escreveu sobre os
Oiteiros foi o pesquisador Dolor Barreira.
LITERÁRIA Toda a documentação que tinha
em mãos lhe chegou por meio do
NO CEARÁ historiador Raimundo Girão, que
esde os Oiteiros (1813) até salvou esses registros após a casa do
hoje, são diversas as gera- barão de Studart ter sido invadida
ções de escritores e intelec- pelas águas das chuvas que inundaram
tuais cearenses que se or- muitos de seus arquivos depois de
ganizaram em grupos, cujos sua morte. O barão colecionava esses
integrantes, na maioria, sen- originais recebidos do duque de
tiam-se incomodados com o Palmela, filho do governador Sampaio.
cenário que denominavam Muito se perdeu, escreveu Girão para a
de “marasmo cultural”. Daí o Revista do Instituto do Ceará.
desejo de inspirar o senso crí-
tico e estético entre a população por meio
de diversas ações e até a publicação de re- Membros dos Oiteiros eram José Pache-
vistas, jornais, antologias etc. co Espinosa (? -1814), Antônio de Castro e
Mozart Soriano Aderaldo nos diz que “a Silva (1787-1862), Pedro José da Costa Bar-
colonização de nossa capitania, depois pro- ros (1779-1839), padre Lino José Gonçalves
víncia e hoje estado, foi tardia e descontínua. A de Oliveira (?) e Manuel Correia Leal (?). A
tentativa de Pero Coelho de Sousa (1603-1606) poesia e odes produzidas por este grupo
fracassou ante o primeiro flagelo de natureza de feição neoclássica era povoada por elo-
climática que o homem branco europeu teve gios ao governador Sampaio e celebrava os
de enfrentar no Ceará” (apud MARTINS, 1984). feitos de sua administração pública. Pode-
Além da exploração portuguesa, em 1649, o ter- mos observar esse tom elogioso no soneto
ritório cearense foi ocupado pelos holandeses, abaixo, intitulado “Para o chafariz da vila da
tendo à frente Matias Beck. Essa ocupação du- Fortaleza”, de Pacheco Espinosa.
rou até 1654, quando os portugueses expulsa-
Tertúlia ram os holandeses. Durante o resto do período
A palavra vem do colonial, não houve acontecimentos culturais
castelhano “tertúlia” que transformassem o status quo da província.
e significa reunião Temos os primeiros registros literários es-
familiar ou entre critos quando o português Manuel Inácio de
amigos, que se reúnem
frequentemente
Sampaio (1778-1856) veio assumir o gover-
para discutir temas e no-geral da capitania do Ceará. Entusiasta
assuntos literários ou das letras, ele organizava, por volta de 1813,
musicais. algumas tertúlias no seu palácio. Nessas
reuniões, denominadas depois de Oiteiros,
participavam alguns homens letrados, da
época, que recitavam vários tipos de gêne-
ros poéticos, principalmente os sonetos.

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Esta que, vês, curioso passageiro
Límpida Fonte, clara, sussurrante,
Sânzio de Azevedo (1976) ainda com-
plementa: SABATINA
De cristalinas águas abundante, Sua poesia não se afastava dos louvores
Que o Sítio faz ameno, e lisonjeiro: aos heróis e aos governantes, com o que É do aracatiense Pedro José da
Este manancial de água, o primeiro, seguiam um dos postulados neoclássicos Costa Barros (1779-1839) a legenda
Que fez surgir na Vila arte prestante, de Luís Antônio Verney, teórico da corren- escrita em latim na placa de pedra
Para a sede saciar o caminhante, te em Portugal; mas, ainda impregnados
lioz portuguesa fixada na muralha do
O sábio, o nobre, o rico, o jornaleiro: de racionalismo barroco, os poetas dos
Oiteiros não se entregaram aos temas Forte Nossa Senhora da Assunção (de
Edificada foi incontinenti, frente para a av. Leste-Oeste) quando
pastoris, a fim de embelezar a realidade.
No memorável, ótimo Governo,
De Sampaio, Varão reto, ciente.
Daí, sua produção versificada, que não se de sua inauguração. Diz: “Ano de 1817.
eleva pela grandeza do estro, não poder As naus escarneciam de mim quando
Como ao Povo mostrou amor Paterno, ser considerada puramente arcádica ou
Para todo o seu bem foi diligente,
eu era um monte informe; agora que
neoclássica. (1976, p. 19).
Nesta Fonte deixou seu nome eterno. sou uma grande fortaleza, de longe
(apud Azevedo, 1976, p. 20-21).
Apesar de ser ainda os Oiteiros o registro tomam-se de respeito. Aqui, reinando
mais antigo de expressão literária no Ceará, D. João VI, Sampaio me fundou bela: o
Este soneto nos parece ser um tipo de ele não é uma unanimidade quando o as- engenho de [Silva] Paulet resplandece.
produção mais alinhada aos interesses po- sunto se trata do marco inicial da Literatura Os donativos dos cidadãos me
líticos de agradar o governador do que de Cearense. A partir do final do século XIX, há tornaram forte pelas muralhas, e dos
elaborar uma literatura ousada ou criativa, um esforço por parte de diferentes intelec- dispêndios reais me fazem forte pelas
com objetivos estéticos bem delineados. tuais em sistematizar um estudo acerca da armas. Costa Barros fez.”
O mérito dos Oiteiros é, contudo, históri- produção literária cearense.
co, pois essas reuniões palacianas, mesmo
com feição supostamente aristocrática, de-
senvolveram um tipo de sociabilidade lite-
rária, ensaiando os primeiros passos para
uma literatura no Ceará.
Para Artur Eduardo Benevides (1976),
os Oiteiros eram “uma espécie de justa ou
prélio intelectual, de origem portuguesa,
realizando-se nos fins das festas de cará-
ter religioso ou profano, após solenidades
maiores. Eles assinalam, no Ceará, a aber-
tura da vida intelectual e artística”.

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MALACA Contribuíram para essa construção his-
toriográfica e literária: Antônio Sales (1868-
rio Linhares, em História Literária do Ceará
(1948), concordam que o marco literário
CHETAS 1840), Dolor Barreira (1893-1967), Abelardo
F. Montenegro (1912-2010), Artur Eduardo
cearense foi a publicação de Prelúdios Poé-
ticos (1856), de Juvenal Galeno, do qual fala-
Você deve ter achado estranho os Benevides (1923-2014), Braga Montenegro remos no segundo módulo de nosso curso.
pontos de interrogação nas datas de (1907-1979), Otacílio Colares (1918-1988), Entretanto, para Tristão de Ataíde, o
nascimento de alguns dos nossos Sânzio de Azevedo (1938), Mário Linhares marco teria sido dois anos mais tarde, em
personagens, não? Mas, calma, antes (1889-1965), Edigar de Alencar (1901-1993), 1859, quando da chegada, no Ceará, da Co-
de pensar que isso foi um erro de José Ramos Tinhorão (1928), Nilto Maciel missão Científica Exploradora, da qual fazia
edição, saiba que na verdade esses (1945-2014), entre outros. parte o poeta Gonçalves Dias. Não obstan-
sinais representam a falta de registro Antônio Sales foi o primeiro autor a te, o poeta Cruz Filho, ao escrever a obra
biográfico mais completo de cada formalizar uma historiografia da Lite- História do Ceará (1931), fixa o ano de 1872,
um deles, a partir da investigação do ratura Cearense, publicando, em 1897, o data do início das atividades da Academia
pesquisador Dolor Barreira. O que nos artigo “Pelo Ceará intelectual”, na Revista Francesa do Ceará, agremiação que divul-
mostra que, mesmo sabendo tão pouco Brasileira, de José Veríssimo. Nela, associa gou e defendeu as ideias positivistas no es-
sobre cada um deles, ainda assim eles a literatura às atividades jornalísticas, si- tado, como marco do princípio de nossa li-
foram imortalizados na historiografia tuando o início da literatura no Ceará, em teratura – embora a agremiação fosse mais
literária, além de emprestarem seus 1824, coincidindo com o aparecimento do filosófica do que literária.
nomes a logradouros da cidade, como primeiro jornal cearense, O Diário do Gover- Se tomarmos por critério as evidências
as ruas Costa Barros e Castro e Silva. no do Ceará, tendo como principal redator materiais, de registros históricos, levando
o padre Mororó. Tanto Sales, quanto Má- em conta o critério da produção escrita,
concordamos com Dolor Barreira e Sânzio
de Azevedo, que defendem os Oiteiros como
sendo as primeiras manifestações da li-
teratura no Ceará
Ceará, pois não há registros
anteriores a elas. Em seu livro Literatura Cea-
rense (1976), Sânzio de Azevedo traz à tona,
além das discussões de Antônio Sales, Mário
Linhares e Dolor Barreira acerca das origens
da Literatura Cearense, também aquelas
sobre os critérios historiográficos que defini-
riam o autor cearense para além do requi-
sito “natalidade”. De acordo com Sânzio:

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discordamos do sistema adotado pelo emi-
nente historiador Guilherme Studart (barão
de Studart), em seu Dicionário Biobiblio- SABATINA
gráfico Cearense, em que só são incluídas
pessoas nascidas no Ceará, não obstante
algumas haverem deixado muito cedo a Para o filósofo Zygmunt Bauman
terra do berço. Assim, deixa de figurar um (2005), a ideia de pertencer a uma
Rodolfo Teófilo, por haver nascido aciden- nação ou comunidade apenas
talmente na Bahia, figurando, porém, um por nascimento é uma convenção
Oscar Lopes, do qual se pode dizer que so-
mente nasceu aqui...” (1976, p. 15).
intensamente construída pela
humanidade. O pertencimento ou
Como vimos, Sânzio de Azevedo defen- a identidade, na modernidade, não
de a inclusão, por exemplo, do nome de Ro- são definitivos nem tão sólidos assim,
dolfo Teófilo (1863-1932), entre os autores mas negociáveis e revogáveis; tudo
cearenses, cujo nome não foi citado no refe- depende das decisões que o indivíduo
rido Dicionário... do Barão de Studart, por- toma, do caminho que percorre e da
que apesar de ter nascido na Bahia, o au- maneira como age.
tor de A Fome fez categoricamente a maior
e melhor defesa de sua “cearensidade” ao
afirmar: “sou cearense porque quero!”, além obras cearenses, como Domingos Olímpio,
de ter construído toda a sua obra literária, Gustavo Barroso, e outros (1976, p. 15).
historiográfica e científica no Ceará, a partir Outro ponto interessante neste critério de
do homem e da paisagem cearense. Sânzio de Azevedo é a inclusão de José de
Como o livro de Sânzio pretendia ser Alencar (1829-1877) apenas com a obra Ira-
um manual didático-historiográfico para os cema e O sertanejo. O pesquisador considera
estudos de Literatura Cearense, posterior- Alencar um autor mais integrado ao cânone
mente adotado como obra de referência da Literatura Brasileira, visto que seu projeto
para a disciplina homônima no curso de de romance romântico previa abordar vários
Letras da Universidade Federal do Ceará, os personagens e paisagens da cultura brasilei-
critérios de inclusão de autores se deram no ra, não se detendo ao cenário cearense.
âmbito temático e regionalista. Há na obra também outro ponto de
Assim como Dolor Barreira, em Literatura discordância, desta vez, acerca do escritor
Cearense, Sânzio inclui: (1) autores nascidos Franklin Távora (1842-1888). Para Azevedo,
aqui e que aqui produziram literariamente, mesmo tendo o autor nascido em Baturi-
como Juvenal Galeno, Oliveira Paiva, Fil- té, interior cearense, Franklin Távora ainda
gueiras Lima e inúmeros outros; (2) auto- criança foi morar em Pernambuco, onde se
res nascidos em outros estados, mas que formou e produziu boa parte de sua obra li-
produziram literariamente entre nós, como terária. Seu projeto bibliográfico era construir
Rodolfo Teófilo [Bahia], Pápi Júnior [Rio de uma Literatura do Norte – como se intitulava
Janeiro], Alf. Castro [Pernambuco] ou De- o Nordeste à época –, e, assim, publicou O
mócrito Rocha [Bahia]; (3) autores que se Cabeleira (1876), O matuto (1878) e Lourenço
ausentaram, mas ainda assim escreveram (1878), narrativas que evidenciavam a história

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de Pernambuco como uma representa-
ção cultural dessa região e, portanto,
não deveria ser ele considerado um
escritor cearense.
Entretanto, Dolor Barreira e, pos-
teriormente, Artur Eduardo Benevi-
des, em Evolução da poesia e do roman-
ce cearense (1976), adotaram apenas o
critério de nascimento em suas pesquisas e,
dessa forma, situam o romance Os índios do
Jaguaribe (1862), de Franklin Távora, como
o primeiro romance cearense,, o que Sân-
zio de Azevedo (1976) discorda, ao afirmar
que mesmo sendo “uma glória para o Ceará
[...] o escritor nada produziu que se relacio-
ne ao menos com a terra natal” (idem,idem, p. 16).
Apesar das discordâncias históricas, há
um ponto em comum entre esses historia-
dores e pesquisadores ao tentar estabelecer
um início para a Literatura Cearense, que
são os critérios historiográficos aqui abor-
dados. Esses critérios repousam na ideia de
representatividade, identidade, regionali-
dade e, nos dias atuais, também o de per-
tencimento.. Ou seja, não se trata de aspec-
tos valorativos entre escritores e/ou obras,
tampouco, de regiões. Cada crítico e/ou
pesquisador literário, à sua maneira, faz sua
seleção e estabelece critérios para abordar
a literatura. Cabe a nós tentar ao máximo ler
e ter contato com o maior número diferente
de obras literárias, críticas e historiográficas,
observando suas divergências e confluên-
cias. Desse mosaico, construiremos nossas
próprias fundamentações teóricas, definin-
do as nossas escolhas sempre a partir de
pesquisa, estudo e reflexão crítica.
Afinal, a literatura, assim, como as demais
linguagens artísticas, é também balizada
pela pesquisa científica que nos exige dedi-
cação, comprometimento e muitas leituras.

CURSO literatura cearense 11


3.
INTERSEÇÕES
LITERÁRIAS:
CEARÁ E BRASIL
Amanhã se der o carneiro, o carneiro/
vou-me embora daqui pro Rio de Janeiro/
As coisas vêm de lá,/ eu mesmo vou buscar/
e vou voltar em videotapes e revistas
supercoloridas/
pra menina meio distraída repetir a minha voz/
Que Deus salve todos nós/ e Deus guarde todos
nós...
Ednardo e Augusto Pontes

canção “Carneiro”, de Ed-


nardo e Augusto Pontes,
nos fala do tema da mi-
gração e do fascínio que a
metrópole urbana, o Rio de
Janeiro, exercia nos jovens
artistas cearenses na déca-
da de 1970. Estes artistas
mantinham o desejo de se
firmar no mercado fono-
gráfico que, invariavelmente, dependia do
acesso ao grande “centro” econômico e cul-
tural do país que estava não no Ceará, mas
na cidade carioca, ao menos naquela épo-
ca. Hoje, com o advento da globalização e
a democratização ao acesso pelas plata-
formas virtuais de streaming popularizadas
com a internet, as redes sociais e as novas
tecnologias de informação e comunicação,
algumas culturas estão mudando.

12 FUNDAÇÃO DEMÓCRITO ROCHA | UNIVERSIDADE ABERTA DO NORDESTE


Em outras palavras, viver da própria arte Por isso, entendemos a tradição literá-
era o grande sonho desses artistas, assim BOLACHINHAS ria de modo crítico e não enxergamos os
como fazer sucesso, alcançar o grande pú- escritores passivos diantes dos autores
blico, aparecer nas revistas e tocar nas gran- do passado. A tradição torna social a ex-
A canção “Carneiro” foi composta
des rádios. Em outras palavras, saltar do periência individual, tendo o poeta como
pelo músico Ednardo e o poeta
plano local/regional para o nacional. mediador, que interliga o passado e o pre-
Augusto Pontes no bar do Anísio,
Ao compararmos a situação do eu-lírico sente por meio da linguagem literária. Por-
famoso espaço da boêmia cearense
da letra da música com a situação do artis- tanto, ao se contemplar o estudo da Lite-
na avenida Beira-Mar, em Fortaleza,
ta local, percebemos que não existem dife- ratura Cearense, estamos empreendendo
na década de 1970. A música
renças entre as dificuldades na produção e um esforço para entendermos as heranças
figurou no LP O romance do pavão
na divulgação das realizações artísticas, no culturais transmitidas pelas distintas gera-
mysteriozo, lançado pela RCA Victor,
país, sejam elas musicais, literárias, teatrais ções de escritores, cuja produção constitui
em 1974. O sucesso do álbum
etc. Para essa discussão, uma contribuição um capital cultural da região.
projetou Ednardo nacionalmente,
importante é a de Antônio Candido em For- Nessa relação entre o regional e o nacio-
tendo suas canções veiculadas em
mação da Literatura Brasileira (1959), na qual nal, Alfredo Bosi nos alerta que o Brasil deve
novelas da Rede Globo de Televisão.
interpreta a literatura como um sistema lite- ser entendido como uma cultura plural:
Assista ao clipe da música “Carneiro”
rário, um fenômeno complexo e orgânico, or- Estamos acostumados a falar em cultu-
no link: https://www.youtube.com/
ganizado em torno do triângulo “autor-obra- ra brasileira, assim, no singular, como se
watch?v=-e58na36-ps
-público”. Essa interação dinâmica permite a existisse uma unidade prévia que agluti-
continuidade da tradição. Resumindo: para nasse todas as manifestações materiais e
espirituais do povo brasileiro. Mas é claro
que haja literatura, é preciso haver o conjun-
que uma tal unidade ou uniformidade
to integrado: escritores, obras e leitores.
A literatura é esse movimento: ocorre parece não existir em sociedade moder-
O conjunto desses três elementos dá na alguma e, menos ainda, em uma so-
quando há o ato da leitura. Por isso é tão
lugar a um tipo de comunicação em que a ciedade de classes (1992, p. 308).
importante ampliar os espaços de leitura,
literatura aparece como um sistema simbó- Existem variadas culturas brasileiras,
seja onde for, e democratizar o acesso às
lico, pelo qual os homens expressam e in- não apenas em relação a etnias, mas tam-
obras literárias. Não podemos nos restringir
terpretam diferentes esferas da realidade e bém nos níveis educacionais e sociais. E a
aos espaços das escolas, bibliotecas oficiais
profundos dramas da humanidade. ideia de cultura está intimamente ligada à
ou agremiações e academias. As bibliotecas
Quando um escritor toma consciência que colonização. Para Bosi, a categoria “coloni-
comunitárias e os clubes de leitura vêm nos
integra um sistema literário, ou seja, faz parte zação” não tem apenas uma natureza polí-
provando que é possível levar o livro, a leitu-
de uma complexa cadeia na qual há circula- tica, mas é um processo ao mesmo tempo
ra e a literatura a qualquer lugar.
ção de obras de escritores de tempos remo- material e simbólico: as práticas econômi-
É necessário refletir também que se eu
tos ou mais recentes, ocorre “a transmissão da
não conheço uma obra ou um acervo lite- cas dos seus agentes estão fortemente vin-
tocha” (1981, p. 24). Essa metáfora é utilizada
rário, eu não os valorizo. Da mesma forma, culadas aos seus modos de representação
por Cândido para indicar que a literatura, por de si e dos outros (1992, p. 15). Logo, inter-
se eu desconheço as obras de autores e au-
meio da leitura, ocasiona a existência de no- pretamos o Brasil como uma variedade de
toras de meu estado ou região, detendo-me
vos autores e constrói uma continuidade li- centros culturais regionais.
apenas ao que a mídia ou as grandes editoras
terária. Antônio Cândido nos explica que:
nos oferecem como best-sellers, perdemos a
É uma tradição [...] isto é, transmissão de oportunidade de conhecer esse legado lite-
algo entre os homens, e o conjunto de ele- rário, de nos reconhecer ou de compreender-
mentos transmitidos, formando padrões mos o sentido de identidade que povoa essas
que se impõem ao pensamento ou ao com-
obras que falam de nós. Da mesma forma,
portamento, e aos quais somos obrigados
a nos referir, para aceitar ou rejeitar. Sem as universidades devem provocar e estimular
esta tradição não há literatura, como fenô- essa busca, promover esse encontro com a
meno de civilização (1981, p. 24). literatura produzida em seu estado.

CURSO literatura cearense 13


O pensamento de Bosi (1992) e Cândido
(1981) nos auxiliam a entender que o Brasil
não é nem pode ser um espaço cultural
homogêneo,, e essa discussão levamos à li-
teratura. Desde o século XIX, os artistas e es-
critores buscavam os centros econômicos e
culturais do país para publicar suas obras e se
tornar conhecidos perante uma elite cultural.
Para essa discussão, citamos Antônio
Sales que, em seu artigo sobre a literatura
do Ceará, ressalta seu engajamento:
Somos pela Pátria unida para que seja for-
te; mas, em troca de nossa lealdade, exigi-
mos que não nos tratem como um parente
pobre e rústico, de quem se pode caçoar ou
apenas merece um sorriso de benevolên-
cia protetora. O Ceará não é apenas uma
expressão geográfica no mapa do Brasil,
um joão-ninguém na comunidade nacio-
nal (apud GIRÃO, 1987).
No trecho, Sales se contrapõe a um dis-
curso de que há um centro hegemônico cul-
tural. Portanto, é preciso estabelecer um pro-
cesso dialético entre o “centro nacional” e os
centros regionais. Citamos “centro nacional”,
pois ainda há um discurso político e cultural
que tenta legitimar e homogeneizar a Litera-
tura Brasileira a partir de um cânone literário.
Alguns de nossos escritores, assim como Ed-
nardo e outros músicos, precisaram ir ao Su-
deste na tentativa de validar e legitimar sua
obra artística. Até quando essa migração
será imposta ou necessária?
Temos o intuito de construir uma
discussão acerca da formação da Lite-
ratura Brasileira, a princípio pelo estu-
do da Literatura Cearense, parte indis-
sociável dela, estimulando que outros
estados também procurem conhecer e
pesquisar a sua historiografia e bibliogra-
fia, considerando as diferenças e singula-
ridades regionais e problematizando as
desigualdades políticas e econômicas que
têm repercussão na divulgação e na circu-
lação de suas literaturas.

14 FUNDAÇÃO DEMÓCRITO ROCHA | UNIVERSIDADE ABERTA DO NORDESTE


FAÇA
ACONTECER
REFERÊNCIAS
É provável que onde você mora – na BIBLIOGRÁFICAS
sua rua, bairro, cidade, estado –
exista um(a) escritor(a) interessante AZEVEDO, Sânzio de. Literatura

4.
e uma obra a ser descoberta com o Cearense. Fortaleza: Academia Cearense
ato mágico da sua leitura. Que tal de Letras, 1976.
fazermos dessa experiência de deleite, BARREIRA, Dolor. História da Literatura
um espaço de partilha? Crie um clube Cearense. Fortaleza: Ins�tuto do Ceará, 4.

CONCLUSÃO de leitura de autores da sua cidade,


região ou estado, e seja também
vol. 1948, 1951, 1954 e 1962.
BAUMAN, Z. Iden�dade: entrevista a
pós essa travessia inicial um(a) multiplicador(a) literário(a). Benede�o Vecchi. Tradução Carlos Alberto
pela Literatura Cearense, Já pensou como será rica esta Medeiros. Rio de Janeiro: Zahar, 2005.
aprendemos que um escri- experiência? Não deixa de nos contar BENEVIDES, Artur Eduardo. Evolução da
tor local não fala somente depois o que achou dessa atividade poesia e do romance cearense. Fortaleza:
da sua terra natal, mas, ao Imprensa Universitária/UFC, 1976.
de imersão literária.
fazê-lo, parte de suas pró- BOSI, Alfredo. Dialé�ca da colonização.
prias experiências e vivên- São Paulo: Companhia das Letras, 1992.
cias. Ao pisar em seu chão, BOURDIEU, Pierre. As regras da arte:
salta para infinitos territó- E não é Tzvetan Todorov que nos ensina gênese e estrutura do campo literário.
rios da linguagem, conse- que a literatura nos faz descobrir mundos que Tradução Maria Lúcia Machado. São
guindo acessar o código linguístico que tra- nos colocam em continuidade com as experi- Paulo: Companhia das Letras, 1996.
ta da condição pertinente a toda e qualquer ências das outras pessoas e nos ajudam com- CÂNDIDO, Antônio. Formação da Literatura
literatura: a condição humana. preender a nossa casa e a nós mesmos? Brasileira: momentos decisivos. 6. ed. Belo
Horizonte, Ed. Ita�aia, 1981. v. I e II.
Fato: muitos estudiosos e leitores que Este curso pode ser um excelente cami-
transitam pela Literatura Brasileira, mesmo nho para entendermos nossas particula- GIRÃO, Raimundo; MARTINS FILHO,
Antônio. O Ceará. Ed. Fac-símile. Fortaleza:
residentes no estado cearense, desconhecem ridades culturais, e é essa diversidade que Fundação Waldemar Alcântara, 2011.
os autores e as obras publicadas no Ceará. nos enriquece culturalmente. Não nos es-
GIRÃO, Raimundo; Sousa Maria da
É por isso que é tão pertinente ampliar queçamos de Casimiro de Abreu, quando
Conceição. Dicionário da Literatura
esses pontos de acesso, evitando uma lite- afirma “todos cantam a sua terra, também Cearense. Fortaleza: Imprensa Oficial do
ratura exclusiva, restrita àqueles já reconhe- vou cantar a minha”. Ou mesmo Tólstoi: Ceará – IOCE, 1987.
cidos e consagrados. Nós, enquanto leitores “Fale de sua aldeia e estará falando do mun- MARTINS, Claudio (org.). A Quinzena:
críticos e reflexivos, temos o poder de eleger do”. Então, que possamos juntos aprender propriedade do Club literário. Fortaleza:
e consagrar obras esquecidas e obscurecidas a descobrir a beleza de nossos quintais. Academia Cearense de Letras, 1984.
pelo tempo ou pela história oficial, mas que E, no próximo módulo, estudaremos os MOTA, Leonardo. A Padaria Espiritual. 2.
têm tanto apuro estético quanto aquelas. românticos. Prepare o coração. Ed. Fortaleza: UFC, 1994.

CURSO literatura cearense 15


AUTORES
Charles Ribeiro Pinheiro
Graduado em Letras pela Universidade Federal do
Ceará (2008), mestre em Literatura Comparada pela
UFC, e doutor em Literatura Comparada, também
pela UFC. Participante do grupo de pesquisa “Espaço
de Leituras: cânones e bibliotecas”, foi coordenador
do projeto de extensão e docência “O entre-lugar
na Literatura cearense”. Atua como revisor, redator,
roteirista e autor de livros didáticos de Literatura.

Lílian Martins
É jornalista, tradutora, professora, pesquisadora e
militante em Literatura Cearense. Mestre em Literatura
Comparada pela UFC, vencedora do Prêmio Bolsa de
Fomento à Literatura da Fundação Biblioteca Nacional
e Ministério da Cultura e do Edital de Incentivo às Artes
da Secretaria de Cultura de Fortaleza (Secultfor).

ILUSTRADOR
Carlus Campos
Artista gráfico, pintor e gravador, começou a carreira
em 1987 como ilustrador no jornal O POVO. Na
construção do seu trabalho, aborda várias técnicas
como: xilogravura, pintura, infogravura, aquarelas
e desenho. Ilustrou revistas nacionais importantes
como a Caros Amigos e a Bravo. Dentro da produção
gráfica ganhou prêmios em salões de Recife, São
Paulo, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul.

Apoio

Patrocínio

Realização