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COMISSÃO ORGANIZADORA

Coordenador
Jorge de La Barre

Discentes (Turma Marielle Franco - 2018)


Ana Carolina Moura Salustiano
Beatriz Castelo Branco Maciel
Bianca Suzy dos Reis dos Santos
Breno Botelho Ribeiro
Carlos Henrique Moraes dos Santos
Henrique Fonseca Correa
Jane Lucy do Amaral Moura
Leonardo Corrêa Figueira
Lucas do Amaral Afonso
Mariana dos Santos Vianna
Marina Marins Morettoni
Natália Carvalho Médici Machado
Rafael José Abreu de Lima
Thiago Mendes Crespo
Wallace Cabral Ribeiro

REVISÃO TEXTUAL
Revisão textual de responsabilidade dos autores

REVISÂO TÉCNICA
Wallace Cabral Ribeiro
Marina Marins Morettoni
Natália Carvalho Médici Machado

Diagramação: Wallace Cabral Ribeiro

Diagramação de Capa: Quézia Lopes

Anais do VII Seminário Fluminense de Sociologia – 2018


Programa de Pós-Graduação em Sociologia – Universidade Federal Fluminense
ANAIS DO VII SEMINÁRIO FLUMINENSE DE SOCIOLOGIA
Publicação do corpo discente do Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade
Federal Fluminense (PPGS-UFF).
Niterói, 1º edição, 2018

Anais do VII Seminário Fluminense de Sociologia

Publicação do corpo discentes do Programa de Pós-


Graduação em Sociologia da Universidade Federal
Fluminense (PPGS-UFF)

Páginas: 367

Niterói – 1º edição, 2018

UNIVERSIDADE FEDERAL FLUMINENSE (UFF)


Reitor: Antonio Claudio Lucas da Nóbrega
Vice-Reitor: Fabio Barboza Passos

INSTITUTO DE CIÊNCIAS HUMANAS E FILOSOFIA (ICHF)


Diretora: Alessandra Siqueira Barreto
Vice-diretor: Marcos Otávio Bezerra

PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM SOCIOLOGIA DA UNIVERSIDADE FEDERAL


FLUMINENSE (PPGS-UFF)
Chefe: Cristiano Fonseca Marinho
Sub-chefe: Alessandro Andre Leme

INSTITUTO DE CIÊNCIAS HUMANAS E FILOSOFIA (ICHF)


Rua Professor Marcos Waldemar de Freitas Reis, Bloco N, O e P
São Domingos, Niterói – RJ – Brasil
CEP 24210-201.

Anais do VII Seminário Fluminense de Sociologia – 2018


Programa de Pós-Graduação em Sociologia – Universidade Federal Fluminense
Grupos de Trabalho

GT 1: Artworlds / Mundos das artes


Organizadores: Luis Carlos Fridman (PPGS/UFF), Jorge de La Barre (PPGS/UFF)
Debatedores: Luis Carlos Fridman (PPGS/UFF), Jorge de La Barre (PPGS/UFF), Carlos
Fialho (GSO/UFF)

GT 2: Estado e Poder: Ditadura brasileira


Organizadores: Marcos Otavio Bezerra (PPGS/UFF), Joana Ferraz (GSO/UFF)
Debatedores: Marcos Otavio Bezerra (PPGS/UFF), Joana Ferraz (GSO/UFF)

GT 3: Identidades
Organizadores: Jair de Souza Ramos (PPGS/UFF), Flávia Rios (PPGS/UFF)
Debatedores: Jair de Souza Ramos (PPGS/UFF), Flávia Rios (PPGS/UFF)

GT 4: Religião
Organizadora: Christina Vital (PPGS/UFF)
Debatedoras: Christina Vital (PPGS/UFF), Paola Lins (PPCIS-UERJ)

GT 5: Trabalho e Desenvolvimento
Organizadores: Cristiano Monteiro (PPGS/UFF), Valter Lúcio de Oliveira (PPGS/UFF)
Debatedores: Cristiano Monteiro (PPGS/UFF), Valter Lúcio de Oliveira (PPGS/UFF), Lucas
Correia Carvalho (GSO/UFF).

GT 6: Temas em Sociologia Urbana


Organizadores: Jorge de La Barre (PPGS/UFF)
Debatedores: Sessão 1: Palloma Menezes (CEVIS), Adriana Fernandes (UERJ).
Sessão 2: Rodrigo Monteiro (UFF/Campos), Camila Pierobon (CEBRAP)
Sumário

Apresentação – Jorge de La Barre ..................................................................................................08

Mensagem do corpo discente – Breno Botelho ..............................................................................09

GT 1: Artworlds / Mundos das Artes


Anderson Nunes de Souza
Cores e curvas: di branco, suas amadas crias e recriações ................................................................11

Marina Marins Morettoni


A ideia de linha divisória em PIC – Uma novela, de Jack Kerouac ..................................................26

Sara Raquel de Andrade Silva


Os públicos das artes visuais e as novas formas de contato: Notas para uma abordagem
............................................................................................................................................................43

Leonardo Corrêa Figueira


Barravento e Der Leone Have sept cabeças: Cota e Marlene causam súbitas mudanças no mar e na
terra ....................................................................................................................................................55

Thiago Mendes Crespo


Os ecos de 68 em três acordes: I.S, Juventude e Sex Pistols .............................................................71

GT 2: Estado e Poder: Ditadura brasileira


Miguel Lima da Silva
Corporativismo e movimentos sociais: Movimento estudantil na era Vargas (1930-1945) .............87

GT 3: Identidades
Emily Senra da Silva e Ewerlane Tavares de Oliveira
Estigmas e violências: A construção social da categoria “envolvido” em Campos dos Goytacazes e
seus efeitos na vida do jovem que busca o seu des-envolvimento ..................................................100

Marilha Gabriela Reverendo Garau e Paulo Roberto Leite Júnior


Usuário ou traficante? Representações de juízes e policiais civis da lei 11.343/06 ........................111

Michael Batista Lima


O Processo Penal no Governo do Estado do Rio de Janeiro: contribuição de um estudo situacional
dos mandados coletivos ...................................................................................................................128

Fred Luiz de Souza


Transposição didática entre os três mundos: A interculturalidade nos princípios da educação escolar
..........................................................................................................................................................141

Wallace Cabral Ribeiro


Cotas raciais e disputas de narrativas: por uma sociologia das marcas ...........................................158

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Programa de Pós-Graduação em Sociologia – Universidade Federal Fluminense
GT 4: Religião
Sergio Gil de Alcantara
Governo do justo. Um novo trilho para o Brasil..............................................................................184

GT 5: Trabalho e Desenvolvimento
Carlos Henrique Moraes dos Santos
Crença neoliberal no Sul Fluminense ..............................................................................................199

Carolina dos Santos Borges e Laila Borges da Silva


Análise das estratégias das multinacionais do setor automobilístico na década atual: O caso Jaguar-
Land Rover.......................................................................................................................................218

Lucas de Brito Muniz


Estado e indústria de construção naval no Brasil: uma análise das estratégias de desenvolvimento de
2003 a 2010 .....................................................................................................................................236

Ademas Pereira da Costa Junior


Lembranças de Itaipu: Histórias de Pescador ..................................................................................250

Suza Mara Sousa da Costa


Os efeitos do Comperj no município de Maricá e o projeto São Bento da Lagoa ..........................266

Bianca Suzy dos Reis dos Santos


Mulheres agricultoras e pescadoras dos manguezais a partir da discussão teórica sobre agência
..........................................................................................................................................................278

Diego da Silva Tavares


A sucuri traiçoeira: povos indígenas e conflitos territoriais na era da hiper-financeirização no Brasil
..........................................................................................................................................................289

GT 6: Temas em Sociologia Urbana


Apoena Mano
A Turistificação de Favelas no Cenário dos Megaeventos ............................................................301

Paola Carneiro Pessoa


Projeto transoceânica: Novos traçados urbanos no bairro Cafubá e Loteamento Residencial
Fazendinha localizados na cidade de Niterói-RJ .............................................................................314

Breno Botelho
Atualização da gramática habitacional no Rio de Janeiro: A eleição de Crivella e a suposta
retomada do discurso de urbanização ..............................................................................................324

Karime Pereira Ribeiro Lima


Memórias portuárias em disputa .....................................................................................................340

Raphael Ventura Rodrigues do Carmo


Morro da Providência, entre o céu e o inferno
..........................................................................................................................................................355

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Programa de Pós-Graduação em Sociologia – Universidade Federal Fluminense
Apresentação
Desde 2012, o Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade Federal
Fluminense realiza anualmente com o apoio institucional da Pró-Reitoria de Pesquisa, Pós-
Graduação e Inovação (PROPPI), o Seminário Fluminense de Sociologia. O Seminário tem
como objetivo proporcionar um espaço para a circulação e discussão da produção acadêmica
discente em Sociologia, e áreas afins: Antropologia, Ciências Sociais, Filosofia.
Os Anais do VII Seminário Fluminense de Sociologia reúnem a produção apresentada
durante o evento nos seus diversos grupos de trabalho (GT1: Artworlds/Mundos das Artes;
GT 2: Estado e poder: ditadura brasileira; GT 3: Identidades; GT 4: Religião; GT 5: Trabalho
e desenvolvimento; GT6: Temas em sociologia urbana). A revisão dos textos publicados e o
seu conteúdo são de responsabilidade dos autores.
O Seminário recebeu trabalhos de discentes, tanto da pós-graduação, quanto da
graduação. Alguns trabalhos dessa edição foram publicados no Volume 12 da Revista Ensaios
(Revista do Programa de Pós-Graduação em Sociologia e das graduações de Ciências Sociais
e Sociologia da UFF). Seja essa experiência um convite para publicações futuras, na ocasião
das próximas edições do Seminário Fluminense de Sociologia!
Desejo a todxs umas boas leituras!

Jorge de La Barre

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Programa de Pós-Graduação em Sociologia – Universidade Federal Fluminense
Mensagem do corpo discente
É com muito orgulho e satisfação que lançamos nesta sétima edição os primeiros anais
do Seminário Fluminense de Sociologia (SFS), não somente por ser uma espécie de sagração
de todo o trabalho que envolveu a produção deste evento acadêmico, mas fundamentalmente
pela conjuntura em que este evento se deu. Em 2018 o mundo comemorava o aniversário de
cinquenta anos da mobilização estudantil que traduziu uma transformação histórica, e
civilizacional, no cenário político internacional, conhecida como maio francês. Não
poderíamos deixar a data passar. Desta forma, imersos em um Brasil que assiste o
crescimento da extrema direita, o assassinato de lideranças políticas, a perseguição à ciência
(as humanas em particular), e a uma juventude cada vez mais destituída de direitos e
esperanças no futuro, abrimos espaço aos jovens sociólogos, como nós, apresentarem suas
pesquisas, inquietações acadêmicas e contribuições científicas. Assim nasceu a VII edição do
SFS, com o tema “1968… 50 anos depois”.
Nesta edição do SFS contamos com a presença de pesquisadores, cineastas,
professores e estudantes que contribuíram conosco na realização de grupos de trabalhos,
mesas de debates, oficina de escrita e lançamento de livros ao longo dos três dias do evento.
Além de uma parceria importante firmada com a Revista Ensaios para a publicação de uma
edição especial com os melhores trabalhos apresentados em cada GT. No entanto, ao longo
das próximas páginas, o leitor não encontrará apenas a síntese da riqueza acadêmica deste
evento por meio dos trabalhos publicados. Encontrará, por certo, em cada parágrafo, alguns
anos de vida, dedicação, inquietações e muita paixão pela sociologia, e pelo exercício mais
que urgente de pensarmos um Brasil mais inclusivo.
Por fim, é com muita honra que recebo o convite para escrever estas linhas, tarefa que
encaro com a imensa e ingrata responsabilidade de traduzir, em poucas palavras, a
grandiosidade humana e profissional de cada um, e cada uma, da turma de mestrado 2018.1
do PPGS UFF, que realizou este seminário com muito entusiasmo e espírito de cooperação.
Este grupo de pessoas, marcadas por suas escolhas de vida e acasos históricos, reuniu-se no
momento em que perdíamos para a barbárie a socióloga e vereadora da capital fluminense,
Marielle Franco. Em sua homenagem damos seu nome a nossa turma, e esperamos honrá-lo
ao longo de nossas carreiras.

Breno Botelho

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Programa de Pós-Graduação em Sociologia – Universidade Federal Fluminense
GT 1

Artworlds /
Mundos das
Artes

Organizadores:
Luis Carlos Fridman(PPGS/UFF)
Jorge de La Barre (PPGS/UFF)
11

Cores e curvas: di branco, suas amadas crias e recriações

Anderson Nunes de Souza1

Resumo: Este artigo procura discutir as possíveis conexões entre o estabelecimento de uma
autoimagem como artista, a partir da observação participante de três casos individuais na
mesma família, e as declaradas expectativas de cada agente diante da arte e dos meios como
estabelecem conexões com a vida cotidiana. O autor da pesquisa propõe a análise das
trajetórias de vida como forma de demonstrar que essa metodologia pode conduzir a
revelações ou mascaramentos. A observação direta das dinâmicas criativas de Di Branco, Tati
e Bianca Branco, além da pesquisa documental em artigos de jornais e revistas, a realização
de entrevistas com esses três artistas e o uso de recursos telemáticos, como telefone, redes
sociais e e-mail, apoiados na revisão da literatura especializada, foram as estratégias
metodológicas utilizadas.
Palavras-chave: Arte; Autoimagem; Habitus; Curvismo; Gerações.

Cores e curvas: Di Branco, suas amadas crias e recriações

Pinto, bordo e viro cambalhota. Faço um trabalho utilizando material


reciclado, telas e pinturas. Gosto muito de pintar retrato vivo. (Di Branco)

A arte, para mim, representa uma viagem. Você não tem um limite; não tem
um padrão. Essa é a vantagem da arte. Você pode ir para aonde quiser, na
hora que você quiser. (Bianca Branco)

[Maricá] influencia também, até porque esses elementos daqui são os


elementos que eu nasci e cresci vendo. Então isso tem uma influência muito
grande no meu trabalho. E eu tenho muita vontade de ver Maricá assim, com
um trabalho artístico mesmo, forte. Com as pessoas podendo viver da arte,
tendo reconhecimento, a cidade, não só os artistas, mas a cidade, também
como cidade artística. Eu tenho essas duas influências, tanto no trabalho,
quanto no próprio fomento da cidade [...]. (Tati)

Este artigo decorre de um contato estreito e de considerável familiaridade com a obra e


as trajetórias de três artistas – Di Branco, Bianca Branco e Tati – as quais trato como objeto
de investigação, haja vista que possuem projeção não apenas na cena cultural do município
fluminense de Maricá, mas também noutros locais de divulgação de arte no Rio de Janeiro,
como Copacabana, Ipanema, Lapa e Santa Teresa, onde vêm sendo expostas as suas telas,
esculturas e instalações, afora inserções episódicas – cada qual na sua medida – nos vastos

1
Mestrando do Programa de Pós-graduação em Sociologia da Universidade Federal Fluminense – PPGS/UFF,
pós-graduado em Docência Jurídica, sociólogo e licenciado em Ciências Sociais. E-mail: andersonns@id.uff.br.

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universos da grafitagem, do artesanato, das artes cênicas, da literatura e da música, como


seguirá explicitado, a fim de permitir maior aproximação das histórias de vida dessa família
que respira, transpira e aspira à arte.
Deparei-me, pois, com um caso emblemático do que se poderia considerar “arte
hereditária”2, mesmo reconhecidos os estreitos limites da metáfora, visto que nos deparamos
com duas gerações de artistas da mesma família, originada de um encontro afortunado de um
artista paraense com uma mulher trabalhadora baiana3, radicados no estado do Rio de Janeiro
desde a década de 1960, quando se conheceram em São José do Vale do Rio Preto e, em
breve lapso temporal, no ano de 1973, vieram a fixar residência definitiva em Maricá, onde
permanecerá eternizado o amor que os aproximou, numa união estável que transcende a vida e
da qual resultaram quatro filhas, um filho, cinco netos, duas netas e uma bisneta.
Identifiquei, inicialmente, a produção artística variada do artista plástico, escultor,
poeta e compositor Jaquesson Uchoa Castelo Branco, que prefere ser chamado como Di
Branco4, seja pelos parentes mais próximos, seja pelo público admirador de sua extensa obra5,
cuja divulgação pouco se faz por intermediários6 profissionais do campo da arte7, tal qual
curadores ou galeristas, e sim por meio de um blog pessoal8 ou por redes sociais como o
Facebook9 e o Instagram.
Nascido em Belém do Pará, Di Branco montou seu ateliê em Maricá ainda nos anos
1970, que agora compartilha com a filha Bianca Branco, procurando manter um ambiente
propício à execução de novos projetos artísticos e uma representativa mostra das diversas
etapas de sua trajetória no mundo da arte, das convenções que incidem sobre sua criação
artística e dos singulares elos de cooperação que estabeleceu ao longo das distintas fases de
seu processo criativo, ora revelando-se sua faceta de artista integrado, ora inconformista, num

2
“Arte hereditária” foi uma exposição da Casa de Cultura de Maricá em 2002, na qual expuseram, dentre outros,
os três artistas da família Di Branco.
3
Este artigo é dedicado à família Di Branco, em especial a Darci (in memoriam).
4
Ver revista Maricá Já: “Di Branco chegou ao Rio de Janeiro por volta de 1956. Conquistou o primeiro prêmio
em 1968, no Salão Júlio Roller de Petrópolis. No Salão Nacional de Belas Artes (MEC) recebeu a medalha de
bronze, (sic) e medalha de ouro em Volta Redonda e Maricá. Além disso, já recebeu medalha de aquisição do
Salão do Clube Militar”.
5
Idem: “Ele [Di Branco] conta que realizou exposições individuais no Canecas Decoração, no Rio de Janeiro; na
Galeria do Barravento, em Ilhéus e no Clube Sírio Libanês, entre diversos outros lugares do Brasil e do Exterior.
‘Já fiz exposição em Atlanta. No Brasil toda a arte não é valorizada. Já vendi quadros no mundo todo. Fui um
dos fundadores da Feira Hippie de Ipanema’”.
6
Nas palavras de Di Branco, “[...] nunca me dei bem com intermediário. [...] Intermediário quer ganhar mais do
que você. Ele quer dobrar o preço, triplicar o preço”.
7
O conceito de campo é central no pensamento de Bourdieu (1990).
8
Ver: Blog de Di Branco. Disponível em: <http://dibranco.blogspot.com.br/>. Acesso em 4 set. 2017, às
14h25min.
9
Ver: Facebook de Di Branco. Disponível em: <@artesdibranco>. Acesso em 4 set. 2017, às 15h30min.

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pronunciada mescla com a arte popular (BECKER, 1977), além de outra parte significativa
de suas obras já ter circulado em nichos tradicionais de artesanato voltado para o turismo em
Copacabana e Ipanema10, o que ocorre com incontáveis outros artistas que atuam por todo o
mundo, o que constitui tema de recente pesquisa de Dabul (s/d, no prelo).
Por outro lado, no tocante ao reconhecimento social do artista, encontramos ainda em
Dabul (2001) a pertinência e a relevância das seguintes ponderações

Em primeiro lugar, enfocar o esboço de futuro de um artista plástico


consistiria na exclusão de indivíduos também envolvidos em atividades
percebidas como artísticas, mas por razões e por indivíduos que não são os
que imputam o “valor” do artista plástico como comumente o concebemos:
aquele visto como tratado enquanto tal por nossos especialistas em artes
plásticas. Ao considerar certos indivíduos como artistas plásticos ou como
candidatos a, é atualizado um olhar que reconhece apenas em certos atores
sociais atributos encontrados em muitos outros. Nesse caso, não haveria um
recorte, condição para a entrada em qualquer “mundo”. Seria, sim, mero
apagamento do que não coubesse nas predefinidas categorias arte/artista que
eu manejasse. [...]. (DABUL, 2001: 13)

Encarado por outro ângulo, com destaque para elementos enaltecidos no trabalho de
Geertz (1997), pretende-se lançar luzes sobre as características de visceralidade do trabalho
artístico de Di Branco, os modos de conceber a sua obra, sobrelevando a produção de mundo
que se caracteriza a partir dessa arte que irrompe como algo que é central na criatividade e na
vida desse artista, partindo-se da análise detida de seus temas preferidos, técnicas e modos de
conceber e produzir arte, preocupações fulcrais que nortearam o roteiro dos temas centrais e
questões nas quais se desdobraram as entrevistas produzidas.
Nesse sentido, a arte é concebida como sistema cultural e simbólico ou, ainda melhor,
uma forma de comunicação e percepção em meio à qual o tema da sensibilidade se evidencia.
Mostra-se constitutiva e relacional, consistindo num dos sistemas de cultura que se consegue
especificar em face de outros planos, conforme Geertz (1997)

A capacidade de uma pintura de fazer sentido (ou de poemas, melodias,


edifícios, vasos, peças teatrais, ou estátuas), que varia de um povo para
outro, bem assim como de um indivíduo para outro, é, como todas as outras

10
Di Branco comenta na entrevista que foi um dos fundadores da Feira Hippie de Ipanema: “No início foi uma
maravilha. Fui um dos pioneiros. Era uma feira criativa, autêntica, amiga, solidária. Não havia problema de
concorrência. Parecia um piquenique, chegando aos domingos. Você expunha onde queria. E o público
comprando. Hoje difere totalmente. O nível caiu muito. Não é só crise, não. [...] Caiu muito a feira, o nível da
feira. [...] Mas foi muito bom, o início foi maravilhoso, na década de 70. Começou a cair em 80. Todo bairro tem
uma feira. A tendência é acabar. Poucos estão se mantendo. [...]”.

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capacidades plenamente humanas, um produto da experiência coletiva que


vai bem mais além dessa própria experiência. O mesmo se aplica à
capacidade ainda mais rara de criar essa sensibilidade onde não existia. A
participação no sistema particular de arte só se torna possível através da
participação no sistema geral de formas simbólicas que chamamos de
cultura, pois o primeiro sistema nada mais é que um setor do segundo. Uma
teoria da arte, portanto, é, ao mesmo tempo, uma teoria da cultura e não um
empreendimento autônomo [...]. (GEERTZ, 1997: 165)

Um desdobramento decorrente desse móbil investigativo foi identificar as influências


da produção artística de Di Branco nas novas gerações, com destaque para outras duas artistas
de sua própria família, Bianca Branco e Tati, demonstrando-se pontos de convergência e de
discrepância nos modos de conceber e fazer arte por cada qual, cujos trabalhos autorais se
ramificaram a partir do tronco artístico de Di Branco, o que se evidencia diante dos discursos
produzidos por tais agentes sociais nesta pesquisa, que fomentam, concebem e consomem arte
na contemporaneidade, rechaçando a formulação de que as dinâmicas de realização artística
possam desarticular-se de outros aspectos vitais cotidianos e de sua biografia11.
No tocante ao planejamento e à metodologia empregada, cabe registrar que a etapa de
maior aproximação empírica do objeto desta pesquisa ocorreu no início de julho de 201712,
ocasião em que, para além das técnicas de observação participante, começaram as tratativas
com os três artistas da família Di Branco, destinadas à realização de entrevistas, as quais
constituem parte fundamental deste trabalho, uma vez que operam como recurso
metodológico privilegiado para captar os conceitos, representações e afetos em articulação
com as teorias ora mobilizadas.
Outros dados foram coletados por meio de redes sociais e e-mail, a fim de efetuar a
checagem de informações pesquisadas em fontes documentais, como jornais de circulação
nacional, a exemplo de O Globo13, revistas eletrônicas14, além da revista local impressa

11
Ver LEVI, Giovani. Usos da biografia. In: FERREIRA, Marieta; AMADO, Janaína (Orgs.). Usos e abusos da
história oral. Rio de Janeiro: FGV, 1996: 167-182. A virada dos anos 70 para os anos 80 trouxe “trans-
formações expressivas nos diferentes campos da pesquisa histórica, revalorizando a análise qualitativa,
resgatando a importância das experiências individuais, promovendo um renascimento do estudo do político e
dando impulso à história cultural. Nesse novo cenário, os depoimentos, os relatos pessoais e a biografia também
foram revalorizados, e muitos dos seus defeitos, relativizados”.
12
Instado a apresentar um anteprojeto de artigo para a conclusão da disciplina de Sociologia da Arte, oferecida
pelo Programa de Pós-graduação em Sociologia da Universidade Federal Fluminense – PPGS/UFF, dediquei-me
a sondar artistas com os quais pudesse travar contato direto no exíguo prazo de que dispunha para desenvolver
um consistente trabalho de campo e o exercício de variadas técnicas de pesquisa.
13
Ver jornal O Globo. Disponível em: <rioshow.oglobo.globo.com/passeios/eventos/proibido-ficar-parado-2-
15545.aspx+&cd=1&hl=pt-BR&ct=clnk&gl=br>. Acesso em 4 set. 2017, às 18h00.
14
Ver Noticiário RJ on line. Disponível em: <https://roselypellegrino.wordpress.com/tag/bianca-branco/>.
Acesso em 4 set. 2017, às 18h15min.

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Maricá Já15, afora a necessidade de sanear eventuais omissões decorrentes de aspectos


inconclusivos das entrevistas realizadas, conversas informais e da observação direta que se
efetivou por um longo período de quase uma década de contato com a arte dos Di Branco,
ainda que só tenha se convertido para o olhar sociológico mais acurado no último semestre.
Em meio ao desenvolvimento da pesquisa, serviu como incentivo para a continuidade
desta investigação de fundo biográfico a visibilidade conferida aos artistas maricaenses pelo
programa televisivo Fernando Gabeira na GloboNews16, em cuja abertura se apresentou uma
entrevista com Di Branco, acompanhada da exibição de algumas de suas obras, tendo sido
ainda destacado o estilo particular criado pelo artista – o Curvismo17.
Vale destacar que se adotou neste artigo o uso de termos e expressões em itálico para
representar categorias analíticas identificáveis no campo da Sociologia da Arte, ao passo que
a íntegra das entrevistas encontra-se em gravações (arquivos de áudio em formato MP3)18. De
resto, toda a documentação consultada, fotografias de parte das recentes obras dos artistas
com os quais se efetuou a pesquisa, algumas em exposição pública, outras não, e os áudios
das entrevistas gravadas foram digitalizados e apensados em arquivos de dados e de mídia à
disposição dos interessados.
Buscou-se garantir, por fim, que todo o levantamento de dados promovido possa
apoiar-se na revisão de literatura ora evidenciada, de modo a conduzir a uma maior segurança
das considerações apresentadas, cotejadas com as subjetividades artísticas captadas
diretamente pelo pesquisador nas residências e no atual ateliê19 dos Di Branco, cuja
receptividade se revelou essencial para os resultados deste trabalho.

15
Ver revista Marica Já. Disponível em: <https://www.facebook.com/pg/Revista-Maric%C3%A1-J%C3%A1-
500963433249352/about/?ref=page_internal>. Acesso em 4 set. 2017, às 18h40min.
16
O programa televisivo Fernando Gabeira é exibido pelo canal por assinatura GloboNews aos domingos, às
18h30. Programa televisivo exibido em 9 jul. 2017. Disponível em <http://g1.globo.com/globo-news/fernando-
gabeira/videos/v/fernando-gabeira-conheca-a-trilha-que-darwin-percorreu-na-serra-da-tiririca-rj/5995815/>.
Acesso em 4 set. 2017, às 18h55min.
17
O Curvismo não é definido por Di Branco como uma escola, mas como um estilo próprio, ancorado no
autodidatismo de sua formação, que foi orientada por padrões acadêmicos em sua origem, passando a se
distinguir pelo uso de curvas e tipos físicos indígenas e mestiços característicos do Norte do Brasil, bem como
por outras figuras expressivas do povo, a exemplo de mulatas, negros, pescadores e paisagens urbanas que
remetem a favelas e à cultura afro-brasileira (baseado no relato do artista).
18
Os registros formais das entrevistas encontram-se acessíveis em arquivos digitais de áudio (em formato MP3),
assim como as fotografias captadas por este pesquisador na mais recente exposição de Di Branco no centro
cultural Casa Amarela, nas residências e no ateliê da família de artistas, todos localizados na cidade de Maricá.
19
Ver Instagram: Disponível em: <https://www.instagram.com/p/BEHMpwrICKm/>. Acesso em 4 set. 2017, às
19h10min.

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Cores da aurora: trajetória e colorações


Alguém que começou a pintar aos cinco anos de idade e se tornou profissional aos
quinze, como Di Branco salienta, não poderia demonstrar maior encantamento pelo mundo da
arte, categoria analítica adequada à descrição do esgarçamento da temporalidade artística,
extraída de Becker (1982), ainda que nenhum incentivo tivesse dos pais. Nada obstante, não
almeja o presente estudo aprofundar os processos e as interações múltiplas que concorreram
para a formação artística de qualquer dos artistas em questão, tampouco serão sondadas as
dinâmicas próprias da ação coletiva, por quaisquer dos vieses ou segmentos – artistas,
executantes, pessoal de apoio ou público – todos extremamente caros à perspectiva
beckeriana, em contraponto à abordagem mais restritiva fundada na teoria de campo de
Bourdieu (1990), conforme destaca Fesch (2016)

É, portanto, indispensável complementar o mapeamento das posições


inerentes ao campo (ou subcampo) com uma análise mais fina, sensível às
nuances da interação social, atenta a subjetividades múltiplas, que contemple
lógicas de ação colaborativa – no fundo, analisar não só indivíduos
concretos, nomeados, mas também as relações por eles estabelecidas. É disso
exemplo a teoria dos art worlds (Becker, 1982): ao evitar ascender à
abstração bourdiana – a separação quase esquizofrênica entre campo e um tal
universo de relações pessoais entre agentes do campo –, e focando, em vez,
na interação social [...]. (FESCH, 2016)

Neste breve resgate memorialista, o que basta é ter em mente que em Di Branco se
abrigam todas as cores e matizes já exibidos numa carreira que já alcança quase 60 anos, os
quais seguem despontando em profusão, amalgamados numa só tonalidade resultante,
exatamente o branco que fulgura, como num disco de Newton 20. E talvez seja este o motivo
que o inspirou a sugerir à sua discípula e filha Bianca Branco que tornasse menos densas e
escuras as suas pinturas. Essa sugestão dada por Di Branco ainda é lembrada por ambos,
tendo sido reportada nas entrevistas, ocasião na qual Bianca Branco reconheceu que seus
trabalhos ganharam mais vivacidade e leveza após acatar a orientação do “pai-mestre”.
A ideia de biografia como algo construído, sem tomar por escopo a análise de
trajetórias individuais, é o mote de uma das análises efetuadas por Bourdieu (1996a) ao tratar
da temática da ilusão biográfica, ainda que o sociólogo francês também tenha produzido
estudos nos quais aborde as formas como artistas concebem suas próprias vidas, atribuindo-

20
O experimento físico do disco de Newton demonstra que a luz branca é composta de todas as cores do
espectro.

Anais do VII Seminário Fluminense de Sociologia – 2018


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17

lhes considerável parcela de ilusão. Quanto ao risco da ilusão biográfica, assinala Bourdieu
(1996a) que

A análise crítica dos processos sociais mal analisados e mal dominados que
atuam, sem o conhecimento do pesquisador e com sua cumplicidade, na
construção dessa espécie de artefato socialmente irrepreensível que é a
“história de vida” e, em particular, no privilégio concedido à sucessão
longitudinal dos acontecimentos constitutivos da vida considerada como
história em relação ao espaço social no qual eles realizam, não é em si
mesmo um fim. Ela conduz à construção da noção de trajetória como séries
de posições sucessivamente ocupadas por um mesmo agente (ou mesmo
grupo) num espaço que é ele próprio um devir, estando sujeito a incessantes
transformações. Tentar compreender uma vida como uma série única e por si
suficiente de acontecimentos sucessivos, sem outro vínculo que não a
associação a um “sujeito” cuja constância certamente não é senão aquela de
um nome próprio, é quase tão absurdo quanto tentar explicar a razão de um
trajeto de metrô sem levar em conta a estrutura da rede, isto é, a matriz das
relações objetivas entre as diferentes estações. (BOURDIEU, 1996a: 189)

Encontramo-nos, como cumpre assinalar, diante de uma proposta de pesquisa21 na


qual não se tem o escopo de mostrar a realidade ou verdades reveladoras, o que se almeja é
demonstrar, com o apoio de entrevistas, as possíveis conexões entre o estabelecimento de uma
autoimagem como artistas e algumas de suas declaradas expectativas diante da arte e dos
meios com os quais estabelecem conexões com a vida cotidiana.
Para além do referencial teórico bourdiano, este pesquisador propõe a análise das
trajetórias de vida completamente cônscio de que essa metodologia pode conduzir ao que se
categoriza, analiticamente, como revelações ou mascaramentos, tomando por base conceitos
tratados por Pais (2016). Muito embora sejam admitidos esses riscos da análise de “histórias
de vida”, por outro lado, não se propõe que o pesquisador seja o detentor de uma verdade que
possa ser concebida per se (e por si só) mais reveladora do que a voz de seus interlocutores,
como se buscasse arrogar-se o direito de silenciá-los.
Assim, as entrevistas podem ser tomadas como elementos de uma técnica de
aproximação ou afastamento da realidade, mas não devem ser confundidas com a própria
realidade, haja vista as mediações simbólicas que operam no discurso dos agentes sociais,
influenciadas por caracteres estruturais (BOURDIEU, 1996a). Por outro lado, assumem
destacada relevância para a análise dos discursos dos artistas entrevistados os conceitos

21
Na sua teoria da prática, Bourdieu (1996b) recomenda que a construção do objeto não recaia na doxa, o objeto
pré-construído, mas que parta das práticas e se construa junto com elas. Deste modo, teoria e empiria se
constituem concomitantemente ao objeto de pesquisa.

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bourdianos de gostos de classe, estilos de vida (BOURDIEU, 2007) e habitus, tendo sido este
último esclarecido por Wacquant (2007)

[...] o modo como a sociedade torna-se depositada nas pessoas sob a forma
de disposições duráveis ou capacidades treinadas e propensões estruturadas
para pensar, sentir e agir de modos determinados, que então as guiam em
suas respostas criativas aos constrangimentos e solicitações de seu meio
social existente. (WACQUANT, 2007: 66)

Deste modo, a partir do uso desse suporte teórico dos estudos de Bourdieu (2007),
além dos demais autores que contribuem para o aclaramento de aspectos factuais levantados e
dos discursos que subsidiam esta pesquisa, busca-se que os artistas interlocutores
estabeleçam, se considerarem conveniente, mais do que um resgate memorialista, a fim de
convidar-lhes a uma maior reflexividade sobre seus processos artísticos, ao marcarem sua
posição diante do desvelamento de uma estrutura social despida de fixidez, como já
antecipado por Elias (1995)

Sempre que acontecem processos sociais como o que acabamos de esboçar,


podem se perceber mudanças específicas no padrão de criação específica e,
correspondentemente, na qualidade estrutural das obras de arte. Estas últimas
mudanças sempre estão vinculadas a uma mudança social que afeta pessoas
diretamente ligadas, enquanto produtores e consumidores de arte. A não ser
que fique clara a conexão entre elas, os dois conjuntos de mudanças podem,
na melhor das hipóteses, ser descritos de maneira superficial, mas
dificilmente podem ser explicados ou compreendidos. (ELIAS, 1995: 48)

Crias e criações
Di Branco destacou em nossas conversas sua experiência na Escola de Belas Artes e a
admiração pela pintura acadêmica no início da carreira, quando ainda era bastante jovem, a
partir da chegada ao Rio de Janeiro, por volta em 1956. Entretanto, apesar de mencionar essa
passagem, cujas memórias acentuou que lhe são agradáveis, e a empolgação com o estilo
academicista, em especial com a pintura moderna brasileira de Di Cavalcanti e Portinari, bem
como Rembrandt, o pintor holandês do claro e do escuro. Di Branco definiu-se como um
autodidata em nossa primeira entrevista, encadeada com a participação de sua filha Tati, outra
artista que alude ao autodidatismo22 de sua formação.

22
Tati reconhece “a influência do pai” em sua formação e de seus irmãos, com muito acesso à arte em casa, que
também servia como ateliê. Não foram incentivados cursos de arte, de modo a não “engessar” e tornar o contato
com a arte mais lúdico.

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No tocante às produções modernas, estudos que trataram de trocas e intercursos entre a


produção pictórica do artista acreano Chico da Silva e a Escola de Pirambu, organizada num
dos bairros mais pobres de Fortaleza, no Ceará (RODRIGUES; OLIVEIRA, 2012) registram
que

Nesse contexto, marcado pela recorrência de trocas imagéticas entre


produções modernas e obras que compunham a história da arte ocidental, a
pintura e a escultura poderiam atender ao imperativo artístico de uma lógica
própria, as obras modernas passaram a exigir a depuração de um olhar
atraído antes por formas do que por conteúdos, em imagens cuja fatura
estilística assinalava de modo inequívoco a singularidade do artista e de sua
obra. (RODRIGUES; OLIVEIRA, 2012: 169-170)

Avançando-se no tempo, deparamo-nos com as crias de Di Branco, como


carinhosamente se consideram suas filhas, que ainda hoje mantêm intenso contato diário
laboral e doméstico com o pai e mestre nas Artes, Bianca Branco e Tati contaram com um
processo de formação que também seguiu o rumo do autodidatismo e tomou como maior
referência estética a obra paterna, ainda que nenhuma das duas afirme ter seguido as diretrizes
do Curvismo23. Nesse contato entre as produções artísticas que conectam gerações, vale
resgatar as seguintes considerações de Elias (1995)

Entre as mais interessantes perguntas não respondidas de nosso tempo está a


que indaga quais características estruturais fazem as criações de uma
determinada pessoa sobreviverem ao processo de seleção de uma série de
gerações, sendo gradualmente absorvidas no padrão das obras de arte
socialmente aceitas, enquanto as de outras pessoas caem no mundo sombrio
das obras esquecidas. (ELIAS, 1995: 52)

Uma das “irmãs-artistas” é Bianca de Andrade Castelo Branco, que morou por um
longo período no Rio de Janeiro, após interromper o processo de escolarização formal em prol
de viver de sua própria arte, chegando a estabelecer seu ateliê24 em Santa Teresa até bem
pouco tempo, contudo voltou a residir em Maricá com seus dois filhos, um dos quais lhe

23
Segundo Di Branco, “Curvismo são as linhas tortas, minhas curvas”; é o estilo do qual se considera pai, “até
que apareça outro e prove”. Porém reconhece a influência de Picasso, Portinari e Di Cavalcanti, considerando
que “inconscientemente sai alguma coisa que a gente assimila. Isso aí independe da vontade da gente. Di
Cavalcanti eu gosto muito. Por causa do Di, tem um Di na frente. No livro eu estou do lado dele” [...] (Di
Branco).
24
Ver Blog com entrevista feita no ateliê de Bianca Branco (em francês). Disponível em:
<https://unepouletteenvadrouille.wordpress.com/2014/10/18/rencontre-avec-bianca-branco/>. Acesso em 4 set.
2017, às 19h35min.

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surpreendeu com a primeira neta em 2016, um ano depois de enviuvar do companheiro


Natanael, de quem lembra com amor e saudade.
Passou a identificar-se em todas as suas obras mais recentes como Bianca Branco e
dedica-se em tempo integral à pintura, com preferência pelo uso de tinta acrílica,
considerando que é avessa ao uso de óleo em suas telas, bem como pela realização de
trabalhos artesanais bastante ligados aos temas e estilo que vem consolidando ao longo da
carreira iniciada aos sete anos de idade, de modo amador, quando recorda de que entalhava
tacos e de ser levada pelo pai a uma feira de arte maricaense.
Bianca Branco começou a pintar ainda adolescente, aos quinze anos, mas foi a partir
dos vinte anos de idade que abraçou a pintura como profissão, conciliando-a com o
artesanato. Os temas que mais mobiliza em suas obras são erotismo, mulheres, músicos, flores
e favelas, todavia não reconhece que adote um estilo determinado, ora se valendo de
sombreado e profundidade ou engendrando uma “cena mais chapada”, sem maior interesse,
curiosamente, por paisagens. Reconhece ter experimentado diversas fases em sua carreira de
quase 30 anos, muitas das quais não voltam em momentos subsequentes de sua obra,
entretanto percebe como fonte de inspiração constante artistas como Di Branco, Van Gogh,
Frida Khalo, entre outros.
A outra “irmã-artista” é Tatiana Andrade Castelo Branco, que assina suas obras como
Tati e Tatiartes. Após residir por um período em Quissamã, onde cursou a faculdade de
Turismo da UFF e assumiu um cargo efetivo na prefeitura municipal, retornou para Maricá
com seu filho único há alguns anos, a fim de desenvolver um projeto profissional na
Secretaria de Cultura da Prefeitura de Maricá, como coordenadora do setor de artes plásticas,
além de participar, paralelamente, de atividades em cenografia, exposições coletivas, salões
de artes e gincanas, com interesse especial pelo grafite, “tanto no âmbito pessoal, profissional,
como social”, conforme destacara ao responder sobre sua prática artística atual. No decorrer
da entrevista que concedeu, acompanhada de Di Branco, mencionou que reconhece em sua
obra uma “ênfase no trabalho modernista”, com marcadas influências do pai, de Salvador
Dalí, de Picasso, Beatriz Milhazes, além de, no campo do grafite, Speto, Mag Magrela e
outros.
Ao ser indagada acerca de seus temas prediletos, citou que no começo de seu percurso
lhe interessavam histórias em quadrinhos e paisagens urbanas, mas não se adaptou muito
bem. Atualmente, vem pintando mulheres, flores, arabescos, favelas, destacando que prefere
“coisas que tenham a ver com nossa realidade” [...] “mas acho que, mulheres (pra mim) é

Anais do VII Seminário Fluminense de Sociologia – 2018


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sempre uma inspiração”. Neste ponto, Di Branco comenta: “Tem bom gosto... mulheres
também é bom”.
Quanto à circunstância de conjugar o trabalho artístico com outra atividade
profissional no setor público, Tati e Di Branco acentuaram as seguintes percepções acerca do
tema

Eu acho que essa questão de conciliar é mais uma questão de necessidade


mesmo. Porque é muito difícil o artista... não o artista, né? Qualquer pessoa
viver de arte. É muito difícil; não é fácil. Di Branco é um herói... que
conseguiu criar os filhos com arte. Eu não tive essa coragem. Eu fiz um
concurso; passei num concurso pra ter um trabalho, ter uma renda. E poder
viver da arte de uma maneira mais tranquila. Fazer de uma maneira mais...
Porque é muito difícil; não é fácil não. Eu admiro quem tem disso. Agora o
ideal, o sonho seria viver só disso. Sem ter que conciliar com outra coisa.
(Tati)

Pra quem tem jeito pra isso, é [interessante]. A gente é muito explorado. Fui
muito explorado. [...] Fazia o que gostava. Levava pouco para casa, mas
levava; isso era o importante, né? Ninguém passava fome. [...] Foi muito
bom. Sem apoio de ninguém, sem patrocínio de nada. Só na base do suor
mesmo. (Di Branco)

Só na base da munheca. (Tati arremata)

Amores em preto e branco


Di Branco tratou de uma fase marcante de sua juventude, noutro momento, já em
nossa segunda entrevista, sem a participação de outras pessoas, ao recordar de colegas
artistas, quando ainda cursava a Escola de Belas Artes e lhe encantava a estética modernista,
manifestando, nada obstante, “que se encontrou” somente na fase na qual se encontra hoje em
dia. Garante que a pior etapa de sua vida já passou e que escolheu ser artista plástico por amor
à arte, não para ficar rico; “seria mendigo, mas seria artista plástico”. Esta é a forma como Di
Branco arremata uma de suas frases carregadas de humor.
Corroborando as recordações do artista de Maricá, Dabul & Barreto (2014: 43-44)
analisaram situação ocupacional recente, bastante assemelhada à vivida por Di Branco nos
anos 1960, época em que se dedicou ao retratismo25 e ainda frequentava cursos de pintura da
Escola de Belas Artes, conquanto insista em apresentar-se sempre como um autodidata,

25
O estudo realizado por Dabul & Barreto (2014: 43-44) abordou um grupo de cerca de 13 retratistas que
atuavam no Largo da Carioca, no Centro do Rio, nos anos 2008 e 2009, distinguindo os retratistas mais jovens,
sem passagem por um processo de formação acadêmica, de quatro artistas mais velhos que também se
dedicavam ao retratismo, estes egressos do curso de graduação da Escola de Belas Artes da Universidade Federal
do Rio de Janeiro, com “formação prolongada em artes plásticas”, dos quais apenas dois concluíram o curso.

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Depreende-se de seus relatos de vida que havia, ainda, nítida impossibilidade


de se verem reconhecidos por não disporem de capital social, uma vez que
não tinham como mobilizar relações sociais para que seu trabalho fosse
aceito por aqueles que poderiam situá-los como artistas – críticos,
colecionadores, jornalistas, estudiosos, artistas consagrados, compradores
etc. – com os quais seus colegas, ou os familiares ou amigos de seus colegas,
mantinham algum tipo de proximidade ou interação (DABUL; BARRETO,
2014: 43).

Um momento que marcou a entrevista com Di Branco foi quando ele veio a tratar de
outras ocupações que desempenhou, sobretudo na juventude, como a de operário na indústria
de porcelana, na qual se dedicava à pintura de louça, em cuja fala se infere como considerava
árdua a sujeição aos ditames de um processo de produção no qual se via constrangido a
alienar sua criatividade e as liberdades de estética e conceito, ao afirmar

Eu trabalhei em fábrica de porcelana, decorei pratos, xícaras e me senti


operário (nada contra os operários). Com hora marcada, condição
determinada. Durei um mês e saí. Me senti ferido em minha arte. Me senti
operário, de 7 da manhã até as 4 da tarde. Produzir, produzir, produzir e
ganhar salário mínimo, vamos dizer assim; um pouco mais. Sem valor de
artista; um operário, um empregado. [...] Isso não era pra mim, não. Fazia
reproduções de Caribé. Quando eu saí, o cara quase implorou para mim
ficar. Eu pintava muito rápido. [...] Nunca mais voltei. [...] (Di Branco).

Di Branco revelou, ainda, que se entusiasma com o trabalho de improviso, com o


desafio de buscar técnicas e temáticas renovadas, considerando interessante a figura do
admirador no campo da arte, ainda que essa pessoa busque imitar o trabalho de artistas
consagrados e imaginativos. Porém considera que aqueles que não têm condições de criar
acabam copiando. E quando copiam uma obra de sua autoria, supreendentemente, considera-
se lisonjeado.

Paixões coloridas e as cores da maturidade: mesclando tons de amor


O presente artigo pretende oferecer uma contribuição de caráter singular aos estudos
que se produzem em Sociologia da Arte, na qual se evidenciem e privilegiem as
representações e aspirações dos agentes sociais, ao abordar o processo criativo de Di Branco e
de suas crias, Bianca Branco e Tati, tal como as criações artísticas inspiradas nos tipos
indígenas paraenses, mestiços de variadas etnias, mulatas, negros, trabalhadores manuais e
temas sociais, mas também nus de pronunciada sensualidade, naturezas mortas, favelas,
casarios e figuras religiosas em que busca acentuar a simplicidade, a bondade e a fraternidade.

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23

As novas gerações de filhas, netas, demais parentes, amigos e admiradores – e quem


mais estiver chegando ao regaço dos Di Branco ou no respectivo ateliê sempre aberto – têm
garantida a certeza de acolhimento em função da afetividade que é marca não apenas do
trabalho desses três expoentes artísticos da família, dos quais se tratou neste estudo, mas de
um habitus artístico que transcende em muito as carreiras individuais investigadas e propicia
um ethos de amor às cores, às curvas e à arte.
Por mais que tenham transcorrido seis décadas de profícua produção artística, Di
Branco permanece empolgado com o seu metiê, que sempre encarou como sua maior
vocação. Impregnado de pintura, escultura, poesia e música, nas quais estão comumente
presentes suas musas inspiradoras – em geral mulheres sensuais – trabalhadores manuais e
temas sociais, Di Branco revela-se um homem determinado a seguir seu caminho na arte,
indissociável das demais rotinas cotidianas, que não se permite deixar abalar pelas
vicissitudes impostas pela vida, sejam as dificuldades financeiras, a saúde fragilizada ou as
desventuras amorosas. Tudo, enfim, serve de matéria prima para a criação, tanto ao
apresentar-se umbilicalmente conectado ao mundo, quanto nas fases em que enfrenta a
superação das separações dos corpos de suas amadas mulheres, o que também lhe inspira a
criar.
Uma nova paixão que toma o espírito incansável de Di Branco é o desenho, para o
qual desenvolve técnicas experimentais atualmente, utilizando-se de papel e canetas
esferográficas para seus estudos diários, conforme registrou a uma reportagem recente 26, além
de ter sido destacado num dado momento da entrevista: “Atualmente, Di Branco tem se
dedicado mais ao desenho do que à pintura. Um dos projetos que pretende realizar o mais
breve possível é uma exposição só com desenhos feitos por ele” (revista Maricá Já).
Entrementes, a vida precisa seguir seu curso e não basta produzir arte e apenas buscar
a sobrevivência. Di Branco é alguém que persegue seus desejos de amar, de exercer sua
cidadania, de exercitar sua memória, de alimentar sua arte com o que lhe é mais caro em seu
processo vital. E novos amores se impõem para tocar a vida; lição que suas filhas e demais
descendentes nos campos da Biologia e da Arte buscam seguir à risca.

26
Ver revista Marica Já. Disponível em: <https://www.facebook.com/pg/Revista-Maric%C3%A1-J%C3%A1-
500963433249352/about/?ref=page_internal>. Acesso em 4 set. 2017, às 20h00.

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investigação. Revista Crítica de Ciências Sociais [Online], 109 | 2016, colocado online no
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Machado, 2016.

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Paulo: Senac, 2012.

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WACQUANT, Loïc. Esclarecer o Habitus. Educação & Linguagem. Ano 10, n. 16. jul-dez.
2007.

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A linha divisória em Pic – uma novela, de Jack Kerouac1

Marina Marins Morettoni2

Resumo: Assumindo a literatura como uma construção social, que dialoga com a sociedade
de seu tempo e com as condições de sua produção e recepção, o texto aborda a sociedade
estadunidense dos anos 1940 e 1950, a partir da obra literária PIC - Uma Novela, de Jack
Kerouac. Situada na produção literária Beat, a obra apresenta a história de Pictorian Review
Jackson, um menino negro de 11 anos, do interior da Carolina do Norte e neto de ex escravo,
que sai do campo e cruza o país rumo ao Oeste, Califórnia, com seu irmão mais velho. Por
meio da ideia de linha divisória, que permeia toda a narrativa, podemos compreender algumas
dicotomias que conformam a cultura americana. Com base em textos sociológicos e
historiográficos, buscamos compreender as cisões entre o Leste e o Oeste e entre o Norte e o
Sul estadunidenses de meados do século XX.

Palavras-Chave: Literatura Beat e Sociedade; Estados Unidos; Linha Divisória.

Ler-interpretar-escrever o mundo social


Jack Kerouac, autor de inúmeros romances – em especial, de romances em movimento
– que alcançaram parcela considerável do público jovem norte-americano, foi considerado
pela crítica a alma da Geração Beat. Foi o autor que melhor representava o espírito beat do
movimento literário que ajudava a conformar. Inspirou-se em grandes escritores da tradição
literária americana: Tomas Wolfe, Walt Whitman, Mark Twain e outros. Como eles, Kerouac
interessava-se pelas veias e pulsação da América. Queria, com seus livros, mostrar a América
Grande, colocar a América como questão (BRINKLEY, 2006). E o fez: colocando-se por
inteiro na estrada e no papel: datilografando suas experiências.
O conjunto de sua obra apresenta uma mistura de autobiografia e ficção. Uma coleção
de histórias vividas entre amigos e de amigos inspirando personagens. Seu título de maior
sucesso entre o público – On the Road – pode ser entendido como um grande relato que
mescla história de vida e fantasia, inspirado nas experiências das viagens pelas estradas dos
Estados Unidos, que percorreu na década de 1940. O poeta e escritor John Clellon Holmes
disse a Chartes (1990: 106), biógrafa de Jack, que em On the Road ele queria “simplesmente
escrever tudo o mais rápido possível, exatamente como aconteceu, e num só ímpeto”. Após
concluir o original, em 1951, Kerouac passou o verão com sua mãe em Rocky Mount, interior
1
Orientado por Luis Carlos Fridman - Professor do Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade
Federal Fluminense (PPGS-UFF).
2
Mestranda do Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade Federal Fluminense (PPGS-UFF).
Bacharel em Turismo pela UFF. Bolsista CAPES. Email: mmorettoni@id.uff.br

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da Carolina do Norte, onde escreveu PIC3, um pequeno romance que veio a público apenas
postumamente, em 1971, e que é uma obra diferente no interior da produção do autor.
Se em seu primeiro livro publicado – Cidade Pequena, Cidade Grande – Kerouac
inspirou-se em Tomas Wolfe e se em On the Road encontrou sua voz nos rascunhos dos
amigos Neal Cassady e William Burroughs (CHARTES, 1990), em PIC - Uma novela,
Kerouac deixa transparecer a influência de Mark Twain. Em passagens de seus diários entre
1948 e 1950 ele afirma ler o autor e alude em metáforas à sua obra prima Aventuras de
Huckleberry Finn. Para Kerouac, ler Twain foi descobrir um novo herói americano: “o
sentimento maravilhoso do século 19 americano levado até os anos 1940!” (Diário de
Kerouac, maio de 19484).
Há em PIC traços característicos em comum com a história infanto-juvenil de
Huckleberry Finn. Ramos (2008: 15) considera que a obra é marcada por uma “oralidade
transcrita na narrativa criada por Mark Twain”, que pode ser entendida como seu aspecto mais
significativo e inovador no campo literário de sua época. Twain se distancia da norma culta da
língua inglesa, cria e dá voz à personagens que representam figuras de classes sociais menos
privilegiadas. Ele “usou de ponta a ponta a linguagem que as pessoas comuns falavam no Sul
dos EUA no início do século 19, um verdadeiro dialeto” (SILVA, 1995, s.p.). São sete os
dialetos utilizados pelo autor e que aparecem na obra antecedidos por uma nota explanatória5.
Ao elaborar um romance narrado por um menino inculto que conta sua própria história
utilizando sua própria língua, Twain demonstrou um profundo entrelaçamento com a
realidade social nos Estados Unidos do final do século XIX (RAMOS, 2008).
Kerouac transpôs esse entrelaçamento – por meio da oralidade de grupos sociais
exclusos – para a realidade social de meados do século XX. A vida dos subterrâneos, dos
vagabundos, dos excluídos, aqueles que estavam à margem da sociedade de sua época sempre
esteve presente em suas histórias; mas em PIC seu narrador é um menino negro do interior da
Carolina do Norte – Pictorian Review Jackson –, neto de ex escravizado, que após perder o

3
Sempre que usarmos o termo PIC, em letras maiúsculas, nos referimos à obra PIC - Uma Novela. Em outros
momentos, ao nos referimos a Pictorial Review Jackson, o narrador personagem, o termo aparecerá da seguinte
maneira: Pic.
4
Uma extensa seleção de excertos dos diários de Kerouac entre 1947 e 1954 pode ser consultada em Brinkley
(2006).
5
“IN this book a number of dialects are used, to wit: the Missouri negro dialect; the extremest form of the
backwoods Southwestern dialect; the ordinary “Pike County” dialect; and four modified varieties of this last.
The shadings have not been done in a haphazard fashion, or by guesswork; but painstakingly, and with the
trustworthy guidance and support of personal familiarity with these several forms of speech. I make this
explanation for the reason that without it many readers would suppose that all these characters were trying to talk
alike and not succeeding” (TWAIN, 1994, s.p.).

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avô vive uma aventura com seu irmão mais velho nas estradas e cidades dos Estados Unidos.
Além de valer-se da prosa espontânea, característica do estilo que Kerouac desenvolveu com
On the Road e que recebeu inúmeras críticas de acadêmicos, em PIC - Uma Novela, o autor
reinventa seu próprio estilo à luz da influência de Mark Twain.
Cabe pontuarmos que o principal dilema da obra prima de Twain é a amizade entre
Huck, um menino branco, e Jim, um escravo que foge de sua dona6. Por esse e outros motivos
Aventuras de Huckleberry Finn foi censurada nas primeiras duas décadas do século XX sendo
considerada imoral e ofensiva (em um país ainda marcado pela institucionalização da
segregação racial). No entanto, já nas últimas duas décadas do mesmo século a obra volta a
ser censurada pelo uso de termos, que na atualidade, passam a ser entendidos como racistas.
(SILVA, 1995, s.p.).
Muitas das traduções para a obra de Twain – Aventuras de Huckleberry Finn –
distanciaram-se da proposta original do autor, fazendo uso do padrão culto da língua inglesa
para a versão em língua portuguesa. Ou seja, os dialetos se perderam nessas traduções e com
eles parte da originalidade que a obra apresentou no momento de sua publicação nos Estados
Unidos. Aqui, a tradução que utilizamos de PIC - Uma Novela, de Jack Kerouac, publicada
pela L&PM em 2015, esforça-se em verter para o português o texto tal como elaborado pelo
autor na obra original.
Ao escrever este romance em Rocky Mount, Kerouac inspirou-se na vida social ao seu
redor: imerso no espaço-tempo interior da Carolina do Norte dos anos 1950; os Estados
Unidos de meados do século XX. Assim, sob os olhos de um menino de 11 anos, a estrada
nos mostra os sulcos da sociedade e da cultura norte-americana daquele período. A primeira
leitura que fizemos de PIC - Uma Novela nos apresentou a uma sociedade cindida: pudemos
identificar quatro dicotomias centrais que estariam presentes na dinâmica social estadunidense
ou no horizonte de interesses de Jack Kerouac: a diferenciação entre o campo e a cidade; as
divergências entre o Norte e o Sul dos Estados Unidos; a distinção entre os imaginários
construídos sobre o Leste e o Oeste americanos; e a cisão entre uma cultura dominante e uma
cultura marginal norte-americanas.

6
“A amizade entre Huck, branco, e Jim, negro, é o principal motivo das polêmicas recentes sobre o livro de
Twain. Huck havia aprendido na sociedade do Sul dos EUA, na primeira metade do século 19, que ajudar um
escravo a fugir era pecado mortal, que custaria ao autor da "traição" a eternidade no inferno. Quando conhece
Jim, Huck se afeiçoa por ele e sofre grave drama de consciência entre a obrigação social e religiosa de entregá-lo
e o dever humano de ajudá-lo a ser livre. Afinal, Huck resolve prefere correr o risco da eterna danação. Apesar
da clara opção pela fraternidade entre brancos e negros, muitos líderes da comunidade negra norte-americana se
sentem ofendidos pelo livro. Primeiro, porque o termo "nigger" (crioulo), considerado hoje em dia muito
insultuoso, é usado 160 vezes no texto de Twain” (SILVA, 1995, s.p.).

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Na década de 1940 a Carolina do Norte era um Estado basicamente agrário. Ao redor,


as cidades estavam crescendo, imponentes, com asfalto, eletricidade, música e movimento. O
Leste atrasado dava espaço ao Oeste, o lugar das possibilidades. Nos bairros pobres das
cidades, as “Black Metropolis”, onde viviam populações negras dos Estados Unidos, pulsava
a batida do jazz (a música da Geração Beat). Em muitos locais (especialmente no Sul) dos
EUA podiam-se encontrar banheiros para pessoas brancas e para pessoas de cor. A
discriminação era evidente.
Uma linha divisória, no livro representada pela “Mason Dixie”, divide os Estados
Unidos. Podemos “transplantar” esta linha para diferentes perspectivas: a estrada que corta o
país em inúmeras direções; o racismo que divide populações brancas e negras; a modernidade
das grandes cidades agitadas e barulhentas e a vida no campo, onde a rotina é pacata e
silenciosa; a histórica divisão entre o Leste e o Oeste; a cisão entre cultura dominante e
cultura marginal. A linha divisória de Kerouac extrapola a Mason-Dixon Line e permeia toda
a narrativa.
Aqui, lemos PIC - Uma novela como uma forma de nos aproximar da sociedade
estadunidense do século passado. Em diálogo com textos historiográficos e sociológicos,
buscamos compreender a partir das aventuras de Pic e Slim (seu irmão mais velho) as
condições mais abrangentes da produção literária da Geração Beat, e que tocavam seus poetas
e escritores. Neste texto, nos restringimos à compreensão das dicotomias entre o Leste e o
Oeste e entre o Norte e o Sul estadunidenses de meados do século XX, que a nosso ver
englobam as demais dicotomias7 presentes na obra e parecem centrais na constituição da
“América”.
Ao lermos PIC assumimos que o texto literário, a exemplo da cultura, é uma teia onde
se tecem os significados e nos propomos interpretar esse sistema entrelaçado de significados.
Para tal, “o que chamamos de nossos dados são realmente nossa própria construção das
construções de outras pessoas, do que elas e seus compatriotas se propõem” (GEERTZ, 2008:
07). Kerouac viveu, leu, interpretou e escreveu a sociedade de sua época; agora, nós lemos e

7
Podemos entender que as diferenças presentes entre a cidade e o campo compõem um cenário de emergência
de uma modernidade norte-americana, que no contexto Europeu foi excelentemente notado por George Simmel.
As diferenças entre o campo e a cidade, desse modo, estão associadas a um quadro macrossocial, mais geral,
relacionado às transformação dos modos de produção e das relações de trabalho, em que a emergência da cidade
desencadeia uma nova forma de vida (em sociedade) e o “nascimento” do indivíduo. Pic relata o estranhamento
ao ritmo acelerado da grande cidade, o anonimato, a multiplicidade de vínculos fugidios, a sensação de maior
liberdade, mas, sobretudo, a diversidade e intensidade de estímulos, de produtos... Com relação à cisão entre uma
cultura dominante e uma cultura marginal, podemos entende-la como intrinsecamente relacionada ao panorama
das dicotomias identificadas, cunhada dentro de um contexto de exaltação de um imaginário nacional construído
e de um quadro de segregação social.

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interpretamos essa sociedade à luz das palavras de Kerouac. Nos cabe, assim, como propõe
Geertz (2008), explicar explicações.
Procuramos, contudo, não incorrer no erro de generalizar a estória de Pic e o que dela
podemos aproveitar como a história da própria “América”. Nossa leitura de PIC - Uma novela
é uma interpretação possível das muitas Américas existentes. E, neste sentido,

A noção de que se pode encontrar a essência de sociedades nacionais,


civilizações, grandes religiões ou o que quer que seja, resumida e
simplificada nas assim chamadas pequenas cidades e aldeias "típicas" é um
absurdo visível. O que se encontra em pequenas cidades e vilas é (por sinal)
a vida de pequenas cidades e vilas. (Op.cit.: 15)

Desse modo, se Mark Twain (2002, não paginado) – em Aventuras de Tom Sawyer,
situada entre as suas obras mais importantes ao lado de Aventuras de Huckleberry Finn –
anuncia que “A MAIORIA DAS AVENTURAS que aparecem neste livro são o reflexo da
realidade”, nos cabe sinalizar que elas não são em si a própria realidade. Nas palavras do
autor “Huck[leberry] Finn existiu; Tom Sawyer também, embora não se trata de um único
indivíduo; é a combinação das características de três meninos que conheci – pertence, pois,
arquitetonicamente, à ordem composta” (Ibdem). O mesmo vale para Pic, Slim e as aventuras
que eles compartilham. Quando caiu na estrada com seu irmão e chegou à cidade, Pic “viu o
mundo pela primeira vez”. Interpretamos esse mundo estadunidense aos olhos dele. Um
mundo enviesado, portanto, e que pertence à ordem composta e arquitetada por Jack Kerouac.
Mais do que como um mero reflexo, entendemos este mundo como uma representação da
sociedade estadunidense de meados do século XX.

O fio da meada
PIC - Uma Novela não é a obra de maior sucesso de Jack Kerouac e da Geração Beat.
Seu manuscrito foi encontrado esquecido entre os papéis deixados pelo autor e publicado em
1971. No entanto, o pequeno livro (L&PM, 2015) de 108 páginas e 14 capítulos reúne de
modo particular algumas marcas do autor: o apreço pelos personagens à margem da ordem
social dominante, a exaltação da música negra – o jazz, em especial o bebop, de Charlie
Parker –, a estrada que oferece um horizonte de possibilidades e descobertas, a consagração
da América (com grande estima pelo Oeste), a prosa espontânea associada ao fluxo livre de
pensamento, a linguagem vernácula (tão significativa na obra prima de Twain).

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Ao mergulhar na história de um pequeno menino negro do Sul dos Estados Unidos,


neto de ex escravo e que com a morte de seu avô se vê refém das poucas perspectivas que a
vida lhe reserva, Kerouac evidencia a desigualdade social e a dura realidade da segregação
racial dos anos 1940. A prosa espontânea é coloquial. As falas marcadas pelos vícios do
vocabulário, da pronúncia, da sonoridade de uma cultura negra que não aparece branqueada
ou diluída.
Pictorian

era o minino mais escuro, o minino mais preto que já tinha aparecido na
escola... [e ele sabia] porque já tinha visto otros garotos brancos aparecê na
minha casa, e eu tinha visto garotos cor-de-rosa, e tinha visto garotos azuis, e
tinha visto garotos verde, e tinha visto garotos cor de laranja e pretos
também, mas não tanto quanto eu. [...] E um dia dois garoto branco que
aparecero me viro e dissero que eu era muito preto até meso pruma criança
negra. Bom, eu respondi que eu já sabia. (Pic no livro: 08, grifo do autor).

Em meio a diversidade americana, a diferença é demarcada. Pic é uma criança de


possibilidades de vida restritas. Vive com o avô. Sua mãe falecera quando era ainda mais
jovem. Seu pai havia sido preso por uma briga familiar e, depois de solto, desaparecera. Seu
irmão “um dia foi embora e nunca mais voltô” (Op. cit.: 07). A casa onde viviam – Pic e seu
“vô” – “era toda guenza e tava prestes a desabá, feita dumas tauba que foro cortada quando
saíro ainda novinha do bosque mas lá tavo elas tudo desgastada que nem um pedaço de
madera velha e morta e empenada no meio” (Op. cit.: 09). Seu futuro, assim como as
condições materiais de sua existência, era limitado.
Marcada pelo fluxo contínuo do pensamento – que resulta da procura por uma voz
original, que a crítica internacional, sobretudo inglesa, sugeriu que Kerouac buscasse
(BRINKLEY, 2006) –, a narrativa de Pic atropela a si mesma. Vai de um assunto a outro sem
necessariamente concluir o raciocínio inicial. Depreendemos do vaivém das ideias de Pic, que
ele não frequentava regularmente a escola8. Seu avô, que como mencionamos era um homem
liberto, tendo sido, no passado, escravizado, designava ao neto a função de consertar a cerca
do pequeno pedaço de terra em que viviam. E considerava: “Por mim tudo bem [ele
frequentar a escola] mas aquela não é a escola do Sinhor e assim o minino nunca vai consertá
as cerca” (Vô de Pic no livro: 08).

8
Tolnay et. al (2018) ao falar sobre as dificuldades de acesso à educação para crianças negras no início no século
XX no sul dos Estados Unidos, apontam que o acesso à educação se deu pela construção de escolas específicas
para crianças afro-americanas, que funcionavam de acordo com o calendário da agricultura, de modo a
possibilitar que as crianças negras pudessem estudar sem deixar de trabalhar nas lavouras.

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O texto ao mesmo tempo em que é leve pela inocência da infância, é denso pela
profusão de pensamentos e lembranças de Pictorial que preenchem a narrativa com detalhes
de diálogos e paisagens. Se tomarmos emprestado as categorias de “bifurcações” e
“enchimentos” de Moretti (2003) – respeitando as especificidades que separam nossos objetos
(de um lado os romances europeus do século XIX e de outro lado a literatura americana de
meados do século XX) –, podemos considerar que a história de Pic está repleta de
enchimentos: aspectos tangenciais que colorem a narrativa, mas que não significam nenhuma
mudança de rumo.
Segundo Moretti (2003), as bifurcações representam as mudanças na trama. Os
acontecimentos decisivos e que abrem caminhos onde a história pode mudar. Ao passo que os
enchimentos são tudo aquilo que acontece no entre, são os detalhes a princípio irrelevantes:
“uma maneira de passar de uma bifurcação a outra, nada mais” (MORETTI, 2003: 09). No
entanto, de irrelevantes os enchimentos não têm nada, pois são os detalhes ordinários – os
modos de falar, os gestos, a paisagem cultural – e acontecimentos cotidianos que se sucedem
uns aos outros que fazem a história desenrolar.
PIC se divide em duas bifurcações, momentos-chave capazes de transformar a vida de
Pictorial. O primeiro – que se passa logo no segundo capítulo – é a morte de seu avô. Nesse
momento Pic se vê entre duas possibilidades: a) morar com sua Tia Gastonia, que era irmã de
sua mãe; e b) “ir morar numa 'casa direita'” (Pic no livro: 31). Na casa de sua tia, Pic é
considerado um pária, o motivo das pragas na plantação e de tudo de ruim que venha a
acontecer, pois é filho de Alpha Jackson, homem que cegou o vô Jekley (sogro de Gastonia)
há aproximadamente 10 anos. Contudo, sua tia decide que o lugar de Pic é ao seu lado e o
menino segue uma vida materialmente limitada acrescida dos desentendimentos familiares
que se desenrolam em função de sua presença na casa.
A segunda bifurcação, que ocorre no capítulo 6 (seis), é marcada pela aparição de seu
irmão mais velho, Slim Jackson, que retorna de Nova York para buscar Pic e levá-lo com ele
para a cidade. Embora Gastonia proíba Slim de partir com o irmão mais novo, ambos fogem
juntos, pegando a estrada no meio da noite. Excetuados estes dois momentos de virada, os
capítulos restantes são preenchidos com diálogos entre os dois irmãos, com pensamentos de
Pic, com detalhes da paisagem e com a aparição de uma ou outra nova personagem. De Nova
York, Pic e Slim seguem, então, para São Francisco, Califórnia, em busca de oportunidades.
Diferentemente dos romances sérios de que trata Moretti (2003), os enchimentos em
PIC não são os meros detalhes cotidianos, mas a experiência supra ordinária da estrada. São

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os acontecimentos da estrada que abrem os olhos de Pic para o mundo e os nossos para a
sociedade de sua época – os Estados Unidos das décadas de 1940 e 1950. Mas o que esse
“mundo” significava?

Os EUA de Pictorian e Kerouac


A estrada – como a reveladora das dicotomias da cultura e sociedade estadunidenses
das décadas de 1940 e 1950 – coloca a Pic e a nós em contato com mitos fundadores e
paradigmas da América.
A migração para o norte

Aí [quando estavam dentro de um ônibus na Filadélfia] o Slim disse “A


gente pode sentá aqui na frente agora porque a gente já atravesso a linha
Mason Dixie” e eu [Pic] perguntei para ele que linha era essa, e ele me
explicô que era a linha da lei pro Jim Crow, e quando perguntei pra ele quem
era o Jim Crow ele disse “Esse é você, Garoto”. “Não sô Jim Crow
nenhum”, eu disse pra ele, “caso cê não saiba o meu nome é Pictorial
Jackson”. “Ah”, disse o Slim [...] “cê não conhece a lei que diz que cê não
pode sentá na frente dos ônibus quando ele tá abaixo da linha Mason Dixie?
[...] essa linha existe, o único detalhe é que ela não existe no chão, e também
não existe no ar, só na cabeça do Mason e do Dixie, como todas as otras
linhas, as linha das frontera, as linhas do país, dos parelelo 30 e 38 e as linha
da cortina na Europa9 são tudo linha imaginária nas cabeças das pessoa e
num tem nada a vê com o chão”. (Pic e Slim no livro: 49-50)

A Mason-Dixon Line, que a bem da verdade, norteou nosso interesse em trabalhar as


diferentes linhas divisórias na narrativa de Pic representa (talvez) a cisão mais importante da
obra, onde aparece como linha imaginária “Mason Dixie” da Filadélfia. Ela é central em um
livro que tem como narrador uma criança negra, neta de ex escravo, que sai do interior rural
do Sul dos Estados Unidos e “cai na estrada” rumo ao Norte “livre” e ao Oeste “próspero”
norte-americanos. No trecho supracitado, Slim Jackson explica jocosamente a Pic que eles
não podem sentar no banco da frente do ônibus abaixo da Mason-Dixon Line10: linha

9
A bibliografia especializada sobre a Geração Beat tende a considerar que como movimento social, esta geração
se configura como uma espécie de reação à sociedade opressora norte-americana de meados do século XX,
marcada pela coexistência pacífica da Guerra fria, no plano internacional, e pela política Macarthista no plano
nacional. Em outras obras, como em “On the road”, Kerouac não apresenta propriamente uma agenda política de
combate e reivindicações, que ironiza como baixo astral. Em PIC - Uma Novela, o comentário de Slim
representa, à sua maneira, uma crítica ao cenário político e à divisão entre leste comunista e oeste capitalista, no
cenário internacional: após 1945 o “medo” do comunismo seria o maior inimigo dos Estados Unidos.
(HOBSBAWM, 1995). Essa dicotomia se reafirma no livro quando Slim considera que depois da Califórnia, e
dos EUA como um todo, só existe a Rússia.
10
A Mason-Dixon Line foi originalmente criada no século XVIII, para fins de resolução de conflitos familiares,
associados a cobrança de taxas, na Colônia. A linha divisória traçada delimitava a separação entre o Norte e o
Sul da região da Pensilvânia, determinando os limites de terra das famílias Penn e Clavert. Com a Guerra Civil
(1861-65) a Mason Dixon-Line passou a designar a separação dos Estados Unidos entre o Norte livre e

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imaginária que, em termos políticos, separa historicamente o Norte e o Sul estadunidenses e


que simboliza a segregação racial demarcada (BOYD, 2013; BLACK; ARKLES, 2016).
Se a história de Pic retrata a segregação racial nos Estados Unidos da década de 1940,
é possível retomar, aqui, a onda da migração de negros do Sul dos EUA para as cidades do
Norte em busca de oportunidades. Desse modo, a partida de Slim (ao deixar a Carolina do
Norte pela primeira vez quando jovem) poderia ser compreendida dentro do contexto da
Great Migration (BOYD, 2013; TOLNAY et al, 2018) – no início do século XX.11
Segundo Boyd (2013), o sonho da “Metrópole Negra” norte-americana – ou das
comunidades negras urbanas dos Estados Unidos – acompanhou o ideal de que o Norte livre
era a terra prometida dos negros estadunidenses do Sul. Ainda que tais comunidades possam
ser encontradas em cidades tanto no Sul como no Norte da América. A metrópole negra – que
em termos numéricos é uma comunidade acima de 50 mil habitantes – conformava uma
cidade dentro da cidade, na qual a população negra migrante do Sul poderia formar e
desenvolver suas próprias instituições econômicas, políticas e culturais.

Thus, there were high aspirations for the northern Black Metropolis (e.g.
Sowell, 1981; Massey and Denton, 1993; Gregory, 2005). The northern
Black Metropolis would generate a flourishing ‘group economy’ in which
black professionals and entrepreneurs sold goods and services to a lucrative
market of black consumers and, in the process, created additional jobs for
black workers. The northern Black Metropolis would nurture the emerging
social worlds of black artists, musicians and writers, who were developing
exciting new forms of cultural expression and, in doing so, were captivating
audiences far beyond the black community. The northern Black Metropolis
would encourage the rise of a formidable bloc of black voters that would be
leveraged to help blacks obtain official positions in local government
agencies––positions that would, in turn, be used to deliver necessary public
services to black neighborhoods. (BOYD, 2013: 131)

industrializado e o Sul escravista e agrícola (BLACK; ARKLES, 2016). Após a proclamação do Ato de
Emancipação em 1863 (e do 13º ato institucional em 1865) os negros passaram a ter os mesmos direitos que os
brancos, mas os conflitos raciais persistiram e se intensificaram com a promulgação de leis na década de 1870,
que garantiam direitos iguais a negros e brancos, mas o mantinham separados. Com a segregação racial
institucionalizada pelas leis raciais a nível local e estadual – Jim Crow Laws – negros e brancos frequentavam
diferentes bares, restaurantes, escolas, banheiros, utilizavam diferentes bebedouros e transportes públicos
(UROBSKY, 2017; TOLNAY et al, 2018).
11
A primeira fase da Grande Migração de negros do Sul para o norte se deu entre 1915 e 1940. De acordo com
Tolnay et. al (2018), enquanto para os negros migrantes ir para o norte representava uma forma de resistência à
opressão das leis Jim Crow no sul dos EUA, sua migração também atendia a necessidade de mão-de-obra para
trabalhar no setor industrial devido à queda da imigração associada à restrição de imigrantes na Primeira Guerra
Mundial. Entre 1940 e 1970, ocorreu uma segunda onda de migrantes negros, desta vez para o norte e para o
oeste, também associada as necessidades da economia de guerra (2ª Guerra Mundial).

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Contudo, a realidade empírica – ao contrário do ideal – aprofundou os mecanismos de


segregação social, dificultando a inserção social do negro nas cidades ao Norte dos Estados
Unidos; um dos fatores dificultadores do sonho da metrópole negra no Norte teria sido a
migração de negros sem formação e qualificação, além disso, o crescente número de negros
nas cidades mudou o comportamento da população branca acima da Mason-Dixon Line da
indiferença para a hostilidade (BOYD, 2013). O resultado teria sido a segregação da
população negra nos guetos.
O Harlem – onde Slim vivia com sua esposa, e para onde levara Pic – era a maior
metrópole negra dos Estados Unidos. “Eu e o mano descemos na Rua Cento e Vinte e Cinco
no Harlem. ‘A nossa casa fica na próxima esquina’, o Slim me disse ‘então cê já pode sabê
que a gente chegô.’” (Pic e Slim no livro: 57). “Depois a gente dobro a esquina e foi até uma
rua meio escura mas tamém muito alegre e cheia de gente no escuro e correu escada acima
por um velho corredor decrépito e bateu na porta e entrô [em casa]” (Op. cit.: 58).
Segundo Boyd (2013), embora as condições de moradia e família para os negros
originários do Norte e os negros migrantes do Sul fossem similares nas comunidades acima da
Mason-Dixon Line, estes últimos tendiam a obter empregos subalternos em comparação aos
demais negros.

Bom, ele trabalhava tão depressa [na fábrica de biscoitos] que nem me viu, e
quando viu tudo o que pôde fazê foi gritá. O Slim se inclino pra frente com a
pá e cavô num tonel de cobertura, e largô uma pazada numa estera que corria
numas roda e levava a cobertura até o otro lado da fábrica. Antes que a
cobertura chegasse até um cilindro o Slim achatava ela com as mão, e depois
o cilindro transformava tudo aquilo numa camada fina de cobertura, e depois
ela era cortada por uma máquina cortante que baxava e fazia os biscoito. [...]
Quando ele espalhava a cobertura com as mão ele olhava pra frente e dizia
“Ufa!” porque essa era a única chance que tinha pra endireitá as costa e fala
sozinho. Aquele era um trabalho duro e eu sabia.
O Slim grito pra mim [que observava pela janela da fábrica] “Se eu pará por
um segundo os meus braço vão se enrolá em volta do meu pescoço de tanta
cãibra!” e voltô correndo pra cobertura. Uma hora ele disse “Ai!” e uma hora
ele disse “Ui!” e outra hora eu ovi ele dizê “Deus tenha piedade, nunca mais
eu vô comê um biscoito”. (Pic e Slim no livro, p. 68-9, grifo nosso).
[Ao deixar o trabalho antes do horário Slim disse:] “Não posso mais trabalha
hoje, meus braço não aguento mais”. E ele não disse mais nada, e a gente
voltô pra casa com o pagamento por uma manhã de trabalho num envelope,
$3,50. [...] Bom, foi a primeira fez que eu vi o Slim triste.
“Bom, eu vô dizê uma coisa”, ele disse depois do jantar, enquanto
mergulhava as mão numa água quente, “Eu não gosto de empregos como
esse que eu tive hoje.” (Pic e Slim no livro: 70)

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A despeito da literatura sobre as “Black Metropolis”, Boyd (2013) demonstra, em


pesquisa com dados do US Census Bureau’s, que a cidade de Nova York – e a comunidade
negra do Harlem – apresentava baixos índices de oportunidades profissionais em ocupação e
empreendedorismo; com vantagens apenas para mulheres negras empreendedoras no setor de
beleza e homens negros em cargos públicos municipais. No entanto, a cidade de Nova York
pode ser considerada a metrópole negra com maior oportunidade para a população negra no
setor de “Artes, Entretenimento e Mídia de Massas” para homens e mulheres artistas e
músicos, e para homens atores/apresentadores, escritores e fotógrafos.
A propósito, no mesmo dia em que deixou o emprego na fábrica de biscoitos, Slim
conseguiu um novo emprego como saxofonista. Um amigo de Slim, Charley, aparece em sua
casa e pergunta: “Você sabe por que eu tô aqui cara? [...] Isso meso eu tenho um emprego,
mas não é só isso, eu tamém arranjei um sax pra você.” (Charley no livro: 73, grifo do autor).

“Bom”, o Slim disse com uma risada, “vambora tocá!”E aí a gente foi todo
mundo junto pro Pink Cat Club com ou sem terno [pois o terno de Slim
estava velho e descosturado], e chegamo na hora ou adiantado ou de qualqué
jeito, enfim, sacomé. [...] Ele soprava aquele sax e mexia os dedo magro e vô
ele tirava daquele instrumento os som mais grave e mais bonito, que nem
quando você ove um barco em Nova York à noite no rio, ou que nem um
trem, só que ele fazia aquilo cantá várias melodia. Ele dexava aquele som
tremulo e triste, e soprava com tanta força que todo o pescoço dele tremia e
todas as veia saltavo na testa enquanto continuava a soprá em frente ao
piano, e o outro home roçava a bateria de leve com a vassorinha. E assim
eles continuaro. (Pic no livro: 73)

E tudo o que o Slim queria era:

...anrranjá um emprego num clube tocando sax tenor pra ganha a vida assim,
e me expressá com esse sax. Mostrá pra todo mundo como eu me sinto com
meu jeito de tocá, e mostra o quanto eu posso sê feliz e o quanto todo mundo
pode. Fazê as pessoa aprendê a aproveitá a vida e fazê o bem na vida e
entendê o mundo.[...] Já andei por todo esse país, e não gostaro de mim
porque eu era preto. [...] O sax é único jeito de fazê as pessoa me escutá.
Elas não falo comigo na rua, mas tão disposta a batê palma e gritá quando eu
tô no palco com a banda, e também a sorri. (Slim no livro: 61-2)

Isso porque o jazz pode ser entendido, como propõe Hobsbawm (2017), como um
protesto e uma música democrática. Não demanda de seus músicos executores e de seu
público, que o aprecia, uma formação musical erudita: sendo inicialmente tocado e apreciado
pelas pessoas menos privilegiadas ou educadas, e mais oprimidas, e tendo, gradualmente,
alcançado a crítica intelectual (branca e de classe média). Desse modo, para o autor, o jazz
pode ser protesto e rebelião. Essa ideia de rebelião e liberdade no jazz aparece muitas vezes

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associadas ao som dos trens e dos navios, como lembram as analogias de Pic a respeito do
“som mais grave e mais bonito” tocado pelo irmão. Slim “segurava e empurrava aquele sax
como se estivesse lutando pela própria vida, e tudo era muito solene e triste. [...] O Slim tinha
no coração o que todo mundo queria tê no seu e por isso todo mundo escutava ele, para tê um
pouquinho daquilo também” (Slim no livro: 75-6, grifo do autor).

...o jazz não é simplesmente música comum, ligeira ou séria, mas também
uma música de protesto e rebelião. Não necessariamente ou sempre uma
música de protesto consciente e declaradamente política, e menos ainda um
tipo especial de protesto político [...] O importante não é saber que o jazz
pode ser enquadrado neste ou naquele compartimento da política ortodoxa,
embora geralmente possa [...] mas registrar que essa música se presta a
qualquer tipo de protesto e rebelião, mais do que qualquer outra forma de
arte. (HOBSBAWM, 2017: 328-9)

É ao jazz como forma de protesto que Kerouac e a Geração Beat recorrem para
distanciarem-se das amarras da cultura dominante estadunidense. Seus poemas e prosas
espontâneos prezam pelo improviso livre característico das performances jazzísticas.
Conforme Bueno e Góes (1985), o termo beat, que dá nome à geração, está associado à
batida, ao ritmo do jazz.
Contudo, o desenvolvimento de Slim como saxofonista não foi suficiente para mantê-
lo empregado no Pink Cat Club. Para o dono do estabelecimento, a despeito do público “ir à
loucura”, ele não podia empregar um músico que não tinha como se vestir adequadamente.
Após perder o segundo emprego em um único dia, Slim decide que o Oeste era a melhor
opção e no dia seguinte pega a estrada com Pic rumo à São Francisco, Califórnia. Para além
da dicotomia marcadamente presente entre o Norte e o Sul estadunidenses, PIC - Uma Novela
dá espaço a outro macro divisão sociocultural: a construção do Oeste como o lugar da
prosperidade, da liberdade e da democracia norte-americana.
A migração para o oeste
Historicamente os Estados Unidos são um país cindido, marcado por uma linha
divisória, a fronteira, que se expande e permeia os diferentes espaços e dimensões da vida
social. No livro “Oeste americano”, que reúne quatro ensaios do importante historiador
estadunidense Frederick Jackson Turner, a expansão da fronteira para o Oeste é compreendida
como “um dos temas da identidade nacional nos EUA” (KNAUSS, 2004: 13). Desse modo, o
Oeste, mais do que um lugar ou uma área geográfica, pode ser entendido como uma dinâmica
social.

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A expansão da fronteira para o Oeste é um fenômeno social que funda as bases da


sociedade americana e que foi amplamente disseminado pelo cinema e pela literatura
(KNAUSS, 2004; OLIVEIRA, 2000). “Essa expansão rumo ao Oeste com suas novas
oportunidades” (TURNER, 1893: 24) funda o caráter americano, pois “a fronteira [flexível ao
se expandir] é a mais rápida e mais efetiva forma de americanização” (Op. cit.: 25). A
princípio, o desenvolvimento da fronteira teria colaborado para o individualismo – a ideia de
liberdade individual – e, assim, fomentado a democracia nos EUA.
Segundo Oliveira (2000), são dois os imaginários estadunidenses consolidados sobre o
Oeste: o primeiro estabelece relações diretas com a concepção de fronteira elaborada por
Frederick J. Turner; e o segundo está associado às ideias de Theodore Roosevelt12. Para
Turner:

O self-made man – o homem [fazendeiro] que se faz por conta própria – era
o ideal do homem do Oeste, era o tipo de pessoa que todos poderiam ser. A
partir de sua experiência em meio ao território remoto e inóspito de
wilderness, em meio à liberdade de suas oportunidades, ele modelou a
fórmula da regeneração social – a liberdade de o indivíduo procurar o que é
seu. (TURNER, 1896: 61-2)

Apesar de sua natureza rude e grosseira, esse homem do Oeste dos primeiros
tempos [o herói fundador] era um idealista a despeito de tudo. Acalentava
sonhos e tinha visões. Ele tinha fé no homem, esperança na democracia,
crença no destino da América, confiança ilimitada em sua capacidade de
transformar seus sonhos em realidade. (Op. cit.: 63)

A migração para o Oeste, em Turner, aparece como uma espécie de redenção: uma
americanização do indivíduo que ao entrar em contato com a Natureza e a terra livre do Oeste
se distancia do europeu. E mesmo quando o Oeste já não pode ser geográfica e politicamente
compreendido como terra virgem, sua compreensão como dinâmica social (a fronteira flexível
em expansão) permanece um fato simbólico no imaginário americano da aventura e da
coragem. “A tese da fronteira [de Turner] é a invenção de uma América una. É a invenção de
um mito reificado na palavra Oeste, como lugar no tempo que junta passado, presente e futuro

12
Na primeira página do último capítulo do livro – “14 - Como a gente enfim chegô na Califórnia” – Pic narra o
diálogo que ele e seu irmão teriam ouvido em um bar em Harrisburg, Pensilvânia, onde dois homens estariam
conversando. Um dos homens ao ouvir que ele não era índio, reivindica suas origens como Pottzawattomy do
Canadá e diz que sua mãe teria sangue de origem Cherokee. O outro responde que se a origem do colega era
mesmo essa, então ele era o “James Roosevelt Turner”. A conversa amigável tornou-se, então, uma briga com
garrafas de vidro quebradas e muita gritaria. Ao associarmos este diálogo com o imaginário do Oeste nos
Estados Unidos, nos parece curiosa a escolha dos nomes feita por Kerouack: Roosevelt e Turner.

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e, acima de tudo, como um lugar no espaço capaz de revitalizar energias nacionais”


(OLIVEIRA, 2000: 140).
Para Roosevelt, o homem do Oeste é essencialmente o cowboy anglo saxão, corajoso e
moralmente engajado com a defesa da honra nacional. Segundo Oliveira o Oeste americano
de Roosevelt é o lugar “onde as raças se enfrentam e vencem as melhores” (Op.cit.: 145), sob
este ponto de vista os índios e os negros são considerados inferiores.
Nos parece que a concepção do Oeste como espaço de oportunidades e de liberdade,
que foi historicamente construída, se faz presente em livros como PIC - Uma Novela e On the
Road. Afinal, “foi assim que a gente acabô resolvendo ir pra Califórnia, no dia em que o Slim
perdeu dois empregos [em Nova York]” (Pic no livro: 78). E o Slim diz que:

As pessoa de Nova York sempre têm medo de se mudá do lugar onde tão. A
Califórnia é o lugar pra se morá, não Nova York. Cês [a família de sua
esposa, Sheila] nunca oviro aquela música que diz Californy Here I Come,
Open Up That Golden Gate? Todo aquele sol, toda aquela terra e todas
aquelas fruta, e também o vinho barato, as pessoa loca, não é muito
assustador quando cê não arruma um emprego porque cê pode sempre dá um
jeito nem que seja comendo as uva que caem dos caminhão de vinho pela
estrada. Em Nova York cê não pode juntá uva do chão, nem nozes. [...] Eu vô
dizê uma coisa – lá é o lugar. Não existe nenhum outro praonde a gente
possa ir em todo os Estados Unidos e lá também é o último lugar do mapa –
depois não existe mais nada além do oceano e da Rússia. [...] O futuro dos
Estados Unidos sempre vai sê a Califórnia e tudo sempre vai vim de lá, pra
sempre. (Slim no livro: 79-81)

Contudo, nas obras de Kerouac, os negros, índios e as figuras dissidentes são o oposto
de fracassados. É contra a cultura dominante – branca, anglo saxã e protestante – que os
poetas e escritores da Geração Beat se colocam. De acordo com Bueno e Góes

Os Beats, ligados na existência real das ruas, interessados nos becos e vielas
da cidade, entenderam e buscaram força na cultura negra, ou na cultura das
minorias raciais em geral, como forma de expressão de um ritmo de vida, de
um protesto, de um desejo, de uma batida (Beat) sob todos os aspectos
fascinantes. (1984: 18)

Segundo Tolnay et. al (2018), conforme descrito acima, a migração e a mobilização


coletiva eram formas de resistência dos negros estadunidenses – sobretudo do Sul – às
restrições e opressão das Jim Crow Laws. Se no início do século XX (entre 1915 e 1940)
houve uma grande migração de negros do sul para o norte, de 1940 a 1970 a segunda onda de
migrantes (Great Migration) distribuiu os migrantes entre o norte e o oeste americanos. A

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economia de guerra gerou a necessidade de mão-de-obra não apenas no Norte, mas também
no Oeste.
Se o Oeste se construiu historicamente como o lugar da possibilidade de se obter a
liberdade e de prosperar, a partir da ocupação das terras livres e selvagens, nos anos 1940 a
1970 pôde ser considerado como um espaço de possibilidades para a ascensão econômica de
negros, a princípio mal formados, que necessitavam de oportunidades de emprego e que viam,
também no Oeste, um caminho para fugir à opressão das leis segregacionistas. Nesse sentido,
reafirma-se uma concepção de Oeste como o lugar onde as “raças” se enfrentam e qualquer
homem pode conquistar o que é seu.

Explicando explicações
Os enchimentos (MORETTI, 2003) a priori irrelevantes, que recheiam a história de
Pic – ao narrar suas aventuras pelas estradas e cidades dos Estados Unidos –, nos fornecem
algumas pistas e indícios da sociedade estadunidense de 1940 e 1950. Seu trajeto passa pelos
lugares onde nasce simultaneamente o movimento literário beat – a Carolina do Norte, Nova
York e a cidade de São Francisco – considerado pela crítica um movimento sociocultural de
contestação da ordem social dominante.
Ao que pudemos perceber, a partir de textos sociológicos e historiográficos que nos
auxiliaram na leitura dos indícios e pistas deixados por Kerouac, essa ordem dominante era
marcada por dicotomias historicamente construídas, tais quais a diferenciação entre o Leste e
o Oeste no imaginário nacional e à segregação racial, mas que se associam de diferentes
formas ao panorama sócio histórico e cultural dos Estados Unidos das décadas de 1940 e
1950.
Desse modo, podemos reconstruir partes da teia ou do sistema entrelaçado de
significados que, obviamente, não representa um todo monolítico da história ou da cultura da
“América”. São partes fragmentadas dos muitos aspectos que compõem a história dos Estados
Unidos; aquelas que, por um motivo ou por outro, tocavam aos escritores da Geração Beat,
como Jack Kerouac. Ao colocar a América como questão, o autor, ao mesmo tempo que a
exalta, expõe seus problemas e suas rachaduras socioculturais.
Este texto é o primeiro esforço de refletir e escrever acerca de nosso universo de
pesquisa na pós-graduação. No mestrado buscamos compreender os sentidos e os significados
da viagem como uma prática social a partir das obras literárias da Geração Beat. Aqui, não
buscamos propriamente esse propósito, contudo estar na estrada, em PIC - Uma Novela é uma

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jornada de conhecimento. Pic, ao conhecer o mundo, se depara com as condições de


existência do negro nos EUA, onde mover-se é uma forma de autoconstrução e
“emancipação”.

Referências
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Pennsylvania Magazine of History and Biography. v. 140, n. 1, 2016. pp. 83-101.

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Harlen, Bronzeville and Beyond. International Journal of Urban and Regional Research. 2013. pp.
129-144.

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GEERTZ, C. A interpretação das culturas. Rio de Janeiro: LTC, 2008.

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Horizonte: Ed. UFMG, 2000.

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Dissertação de Mestrado. Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São
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https://www1.folha.uol.com.br/fsp/1995/9/17/mais!/4.html>.

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Os públicos das artes visuais e as novas formas de contato:


Notas para uma abordagem

Sara R. de Andrade1

Resumo: O objetivo do presente trabalho é pensar em maneiras de abordar os públicos de arte


como objeto de pesquisa na conjuntura da popularização da tecnologia e das redes sociais.
Partindo de um caso que chamou a atenção por sua repercussão, o encerramento prematuro da
exposição Queermuseu em Porto Alegre, proponho com este trabalho pensar os novos
públicos da cultura em no contexto do fenômeno da domesticação do consumo cultural. Nesse
sentido, na medida em que as novas tecnologias se popularizam, o consumo da cultura passa a
integrar os o cotidiano das pessoas no interior de suas casas, não é absurdo pensar na
transformação substancial dos públicos. Assim, faço uma reflexão sobre essa categoria de
análise enquanto penso as transformações do contato dos públicos com a arte.

Palavras-chave: Público difuso; arte; mediação.

A exposição “Queermuseu”: debates e mobilizações


O Santander Cultural está sediando a exposição Queermuseu,
na cidade de Porto Alegre. São cerca de 270 obras que
promovem a pedofilia, a pornografia e os mais variados
ataques à moral e aos bons costumes que se possa imaginar.2

Assim começa o texto de César Cavazzola Júnior, advogado e professor de Direito que
escreve para uma coluna no portal Lócus, um site local de Passo Fundo. Publicado as 8:21 da
manhã do dia 6 de setembro, o texto do advogado, que havia visitado a exposição dias antes
acompanhado de três amigos, discorre sobre “os ataques à moral e aos bons costumes
cometidos pela exposição” e a confusão que se dava, segundo sua opinião entre “processo
criativo e a necessidade de expor intimidades”. Segundo César, ele havia feito as imagens,
publicadas em sua coluna, e o texto porque algumas crianças e adolescentes circulavam pelo
local que não mostrava restrição ou indicação etária3. Embora o portal em que foi publicado o
texto de César tenha um alcance consideravelmente pequeno, a publicação foi rastreada como

1
Sara R. de Andrade é formada em Belas Artes pela UFRRJ e mestre em sociologia pela UFF. Atualmente é
estudante de doutorado da UFRJ.
2
Santander Cultural promove pedofilia, pornografia e arte profana em Porto Alegre. Disponível em:
<http://www.locusonline.com.br/2017/09/06/santander-cultural-promove-pedofilia-pornografia-e-arte-profana-
em-porto-alegre/>.
3
Como movimentos ultraconservadores conseguiram encerrar a exposição Queermuseu. Disponível em:
<https://epoca.globo.com/brasil/noticia/2017/09/como-movimentos-ultraconservadores-conseguiram-encerrar-
exposicao-queermuseu.html>.

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a primeira de uma série de ataques, manifestações e protestos, nas redes sociais e em frente ao
prédio do Santander Cultural que levantaria nas semanas seguintes um debate polêmico sobre
censura, liberdade de expressão artística e a defesa de ideais morais.
A mostra “Queermuseu – cartografias da diferença na arte brasileira” era composta por
246 trabalhos de 85 artistas, entre eles alguns consagrados modernos, como Lygia Clark,
Alfredo Volpi e Candido Portinari, e contemporâneos como Adriana Varejão e Bia Leite e
tinha a intenção de refletir, de acordo com seu curador Gaudêncio Fidélis, a questão da
diferença sob uma perspectiva queer, aliada à abordagem canibalista do manifesto
antropofágico de Oswald de Andrade. Ainda segundo Fidélis, o Queermuseu se pretendia um
“museu ficcional e metafórico onde a expressão de gênero e a diferença são exercidas em sua
plena liberdade. Nele, os parâmetros restritivos do cânone artístico não são mais dominantes,
e o aparato museológico mostra-se desestabilizado”4.
Aberta ao público no dia 15 de agosto, a exposição tinha data de encerramento
prevista para 8 de outubro e média de público de 700 pessoas por dia; o material de
divulgação incluía 2 mil catálogos de 400 páginas com reproduções das obras e explicações
sobre elas. A mostra seguiu sem grandes repercussões até a publicação do texto de César.
Ainda no dia seis5, o gaúcho Felipe Diehl visitou a exposição e gravou um vídeo intitulado
“Pedofilia, zoofilia e hóstia de vagina”; o vídeo tem início com uma afirmação contundente de
Diehl: “O que eu vou mostrar agora é só putaria, só sacanagem, mas que em Porto Alegre, no
Santander Cultural, é reconhecido como arte”. Ao longo da filmagem, o gaúcho percorre a
exposição, filmando as obras e debatendo o seu conteúdo e encerra: “a exposição de
pornografia, incentiva a pedofilia, incentiva a putaria, sacanagem e até a zoofilia6”. A
descrição do vídeo contém a mesma citação do texto de César que abre este capítulo, o que
indica que Felipe teve contato com o texto, possivelmente antes de visitar a mostra.
Fechada no dia 7 de setembro em razão do feriado nacional, a exposição reabre no dia
8 e recebe nova visita, desta vez do blogueiro Rafael Silva Oliveira, conhecido como Rafinha
BK. Usando um roteiro parecido com de Diehl, Rafael tem logo sua filmagem interrompida

4
Gaudêncio Fidélis sobre “Queermuseu - cartografias da diferença” Disponível em:
<https://gauchazh.clicrbs.com.br/cultura-e-lazer/artes/noticia/2017/08/c>.
5
Embora a data de publicação do vídeo seja 8 de setembro, o vídeo não poderia ser feito nesta data, uma vez
depois da repercussão iniciada no dia seis, o Santander Cultural proíbe a filmagem da exposição a partir da
manhã do dia 8. A tentativa de fazer vídeos no local da mostra por outro blogueiro é barrada no dia oito por
monitores e seguranças do local. (Vídeo “DENÚNCIA: SANTANDER INCENTIVA A PEDOFILIA!
”https://www.youtube.com/watch?v=OWNQNFuSKBY).
6
Pedofilia, zoofilia e hóstia de vagina (parte 4). Vídeo. Disponível em:
<https://www.youtube.com/watch?v=9tbgX20Wi6g>.

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por um dos monitores do Santander Cultural, que afirma ter recebido ordens da instituição
para impedir a gravação de imagens. Ignorando a interrupção, Rafael segue a filmagem sendo
novamente abordado duas vezes seguidas por outros dois funcionários que também são
ignorados, sendo em seguida conduzido para fora da exposição por dois seguranças. O vídeo é
publicado em seu canal no youtube na sexta feira dia 8. A partir deste dia, os vídeos feitos por
Felipe Diehl e Rafael Oliveira viralizam, ou seja, recebem um número grande de
visualizações e compartilhamentos nas redes sociais.
Depois do dia 9 de setembro as manifestações contrárias à mostra Queermuseu
ganham corpo com a publicação de uma nota no Jornal Livre, site vinculado ao MBL –
Movimento Brasil Livre intitulada “Santander Cultural promove pornografia e até pedofilia
com base na Lei de Incentivo à Cultura”; O texto, que usa as imagens feitas por César
Cavazzola, referencia o texto do advogado e busca chamar atenção para o fato de que a
mostra foi desenvolvida com o apoio do Ministério da Cultura7. A partir de então, a página do
Santander Cultural no Facebook passa a receber ataques e manifestações contrárias ao
conteúdo da mostra, chegando a 20 mil o número de avaliações negativas que a página recebe
em dois dias. Levando em consideração a grande repercussão negativa nas redes sociais e os
ataques presenciais ao público da exposição, que se iniciaram na quarta feira dia 6 e
prosseguiram durante o final de semana8, o Santander Cultural divulga em nota, na página no
Facebook, domingo dia dez, o encerramento prematuro da mostra.
Na nota de encerramento, a instituição afirma ter recebido diversas manifestações
críticas sobre a exposição, e se desculpa pelas pessoas que se sentiram ofendidas por alguma
obra que fazia parte da mostra.
As acusações sobre a mostra, que alcançou a esfera pública e atingiu inclusive a mídia
internacional, feitas ao Santander Cultural, através da página da instituição, que apontavam a
incitação à pedofilia e pornografia e o desrespeito à fé cristã foram, no entanto, desmentidas
pela atuação de dois promotores do Ministério Público Federal, que visitam a exposição no
dia seguinte a seu encerramento e afirmam não haver crime de pedofilia nas obras expostas 9.
A nota parecer emitida pelo MPF no dia 28 de setembro viria a confirmar sua versão. Embora
considerando os ataques sofridos pela instituição e o grande impacto exercido pelos meios de

7
Disponível em: <https://jornalivre.com/2017/09/09/santander-cultural-promove-pornografia-e-ate-pedofilia-
com-base-na-lei-de-incentivo-a-cultura/>.
8
'Não há pedofilia', diz promotor após visitar exposição de diversidade sexual cancelada em Porto Alegre.
Disponível em: <https://g1.globo.com/rs/rio-grande-do-sul/noticia/nao-ha-pedofilia-diz-promotor-apos-visitar-
exposicao-de-diversidade-sexual-cancelada-em-porto-alegre.ghtml>.
9
Ver nota anterior.

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comunicação virtual sobre as pessoas, o MPF alega que as “obras que trouxeram maior
revolta em postagens nas redes sociais não têm qualquer apologia ou incentivo à pedofilia”10
como divulgado por diversos meios de comunicação e recomenda a imediata reabertura da
exposição, sem prejuízo de adotar medidas informativas no que diz respeito a representações
de nudez, violência ou sexo nas obras expostas e medidas protetivas a segurança das obras e
dos visitantes.
Sem desconsiderar a grande mobilização pública que foi favorável ao encerramento da
exposição, é importante notar que grande parte dos protestos contrários à mostra foi feito em
ambiente virtual. Embora alguns protestos presenciais tenham acontecido em Porto Alegre, a
repercussão e consequente posicionamento massivo contra o Santander Cultural se deu nas
redes sociais, em especial, no Facebook. Nesse sentido o que fica evidente é que, a despeito
da abrangência da celeuma em território nacional, grande parte daqueles que se manifestaram
contra a mostra não constitui seu “público”, ou seja, não visitou a exposição e não teve
contato com as obras que ela abrigava; quando muito, conheceram fotografias virtuais que
isolavam as obras de seu contexto curatorial e eram transpassadas por sites, postagens e textos
de opinião.
Acompanhado os debates suscitados pela exposição “Queermuseu”, o presente
trabalho tem a intenção de pensar a aplicação de categorias da sociologia da arte e da
recepção nos eventos relatados, bem como entender as novas formas que, impulsionadas pela
disseminação da tecnologia e uso das redes sociais, interferem e transformam o contato entre
espectador e obra. Assim, busco levantar questões que norteiam o trabalho da dissertação
acerca de relação das pessoas com a arte contemporânea e as novas “mediações” que
possibilitadas pela tecnologia e pela internet.

Para pensar os públicos de arte


Se de acordo com Duchamp, são os contempladores que fazem os quadros, só
poderíamos extrair da arte alguma função ou significado se considerássemos o produto da
experiência dos públicos. A sociologia da arte, liberada de um projeto explicativo que teria
por análise última compreender o significado/sentido das obras, dirige seu olhar para outras
questões do mundo da arte, que não aquelas pautadas pela estética; assim, a sociologia da
recepção, sem tencionar traduzir a arte através do “olhar do público”, volta seu interesse para

10
RECOMENDAÇÃO PRDC/RS Nº 21/2017 Disponível em: <http://www.mpf.mp.br/rs/sala-de-
imprensa/docs/recomendacoes/2017/recomendacao-queermuseu-porto-alegre/view>.

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as diferentes categorias de públicos, sua morfologia, comportamentos, motivações e emoções,


buscando nada mais que o conhecimento da relação dos atores com os fenômenos artísticos
(HEINICH, 2008:71).
Embora os estudos sobre a recepção venham afirmando a necessidade da inclusão da
atividade do público como parte constitutiva da esfera artística, Vera Zolberg (1990:137)
afirma que dois conjuntos de ideias sobre a audiência vêm confundindo os analistas desse
objeto. Enquanto o primeiro deles toma o público como constituído de atores autônomos e
individuais – essa visão se apoia fortemente na pesquisa quantitativa -, o segundo o considera
uma massa manipulável. Ainda de acordo com a autora, nenhuma dessas formulações é
pertinente com a observação empírica; embora frequentemente assumido como um grupo de
atores individuais que atomisticamente usam a arte para o prazer particular, diversos trabalhos
apontam para um comportamento em termos de membros de um grupo, que usam as artes
para fins que ultrapassam apenas a contemplação estética.
Nesse sentido, seu comportamento pode ser orientado para objetivos mais complexos
que articulam fins sociais, econômicos e simbólicos. Enquanto comportamento dos públicos é
mediado por diversos fatores que não se limitam ao prazer estético individual, tomar a
natureza dessa mediação como objeto de estudo bem como a organização que os públicos
assumem no contato com as artes – em pares, grupos de amigos, ou seja, pensar o contato
também com interação social – é fundamental para afastar da análise a noção de público
construído por atores autônomos; considerar a natureza heterogênea em características sociais
e preferencias estéticas faz com que os públicos emerjam como uma categoria que não se
adequa ao modelo de massa.
Nem composto por indivíduos atomizados que usam o prazer estético como fim último
do consumo das artes, nem massa maleável e uniforme: Ainda que desmistificar essas
categorias não seja o foco de sua pesquisa, Lígia Dabul (2001) questiona a tendência a
conceber a presença do público em exposições como parte de uma relação indivíduo/obra e,
assim, tomar essa presença como prática individual. Normalmente tratada pela literatura como
“visita”, esse enfoque reduz a participação dos públicos à uma atividade atomizada,
irrelevante a atenção sociológica por não constituir em si um objeto rico, coletivo e
significativo.
Ao concentrar o foco de análise na presença do público em exposições, a autora chama
a atenção para o fato de que não necessariamente, nem fundamentalmente, o que é
experimentado pelos públicos é “receber” ou produzir sentidos/significados sobre as obras.

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Mesmo que os estudos sobre a arte como vida social apontem a recepção como atividade
característica ou explicativa e substantiva de toda presença do público nas exposições, Dabul
vai mostrar que a visita pode se construir como ocasião em que sociabilidades são atualizadas
ou instauradas em práticas que nem sempre estão voltadas para a contemplação das obras
expostas (DABUL, 2001:16).
A partir da observação empírica de espectadores em exposições de objetos de artes, a
autora verifica que o público costuma efetuar suas visitas não individualmente; esse fato, que
pode ser pensado como aparentemente banal ou apenas mais um índice no elenco de uma
pesquisa quantitativa, se mostrou crucial para a compreensão do que consiste e o que significa
a presença do público nessas exposições (Dabul, 2001:169) e vai de encontro com a crença,
grande parte veiculada pela literatura sobre públicos, de um público individual e de visitas
particulares. Dabul chama a atenção, no entanto, que o enfoque da sociabilidade dos atores
sociais em contato com as obras não está propriamente negligenciado pelos autores, mas
constando simplesmente, fora da pauta das preocupações dessas pesquisas; essa não-
abordagem corresponde a uma não-problematização de dimensões que são sociologicamente
relevantes no contato entre público e obras de arte e contribui para a construção de uma noção
de público que suprime a sociabilidade (Op. cit.: 174)
Dessa forma, ao contrário de pensar o contato com a obra de arte como uma prática
particular e individual, a autora nos apresenta uma variedade de práticas que o público
experimenta durante o tempo da exposição, ressaltando a sociabilidade como valor associado
a essa prática, uma vez que grande parte dos visitantes se dirigem às exposições
acompanhados do outro, com quem vão interagir ao longo dela. Para além da compreensão da
inclusão do público no fenômeno social da arte partindo da consideração da experiência de
recepção/contemplação da obra como um processo socialmente determinado ou socialmente
significativo se faz necessário reconhecer como socialmente determinado ou socialmente
significativo às circunstâncias de contato dos atores que conformam os públicos com as obras
de arte (Op. cit.: 94).
Dabul afirma que enfatizar as interações entre os atores durante as visitas consistiu em
acentuar a tentativa de afastar a concepção do público como massa; o trabalho etnográfico
permitiu observar a heterogeneidade de comportamentos e interações entre os visitantes
durante o tempo da exposição; nesse sentido, a autora demonstra que tanto a concepção dos
públicos como unidades atomizadas quanto como “massa” fica desestabilizada frente a uma
aproximação qualitativa desse objeto.

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Assim como Dabul, Fleury (2009) questiona a falta de análises feitas sobre a noção do
próprio público, seja em termos do que a palavra significa ou das questões que ela suscita nos
discursos políticos e artísticos que se referem incessantemente a ela. O autor reflete sobre a
conceituação de público feita pela chamada sociologia da recepção, considerando a
pluralidade do objeto que nem sempre é abordada pela definição tradicional de público,
levando em conta ainda a razão histórica pela qual os públicos da cultura se tornaram objeto
de estudo na França – a existência, nesse país, de políticas públicas sobre a cultura. Segundo
Fleury, sem pensar, o público é visto como algo que não é apenas óbvio, mas também natural
(FLEURY, 2009: 17).
Pensada pelo autor como metonímia de “povo”, o termo “público” no singular, é
problematizado em sua discussão por cristalizar a falsa noção de um conjunto homogêneo e
unitário de leitores, ouvintes ou espectadores e mantém correspondência, tanto com a
metáfora do corpo político unificado, quanto à ideia, trazida da esfera literária e mais próxima
da noção clássica de público, que considera espectadores enquanto receptores, destinatários.
Não há um público, há vários, tão heterogêneo quanto são os gêneros artísticos e as
expectativas afetivas e intelectuais dos indivíduos.
Assim, o autor busca responder

Com o que estamos lidando quando lidamos com essa palavra, seus
significados e usos? A que tipos de comunidades se refere, que tipo de
destino descreve? A que necessidades simbólicas ela responde? Que
identidades imaginárias permite? E que lugar tem nos discursos políticos e
sociológicos? (FLEURY, 2009:17)

O recurso ao “público” atualiza o fato de que a realidade não é apenas real, mas
também imaginada. Nesse sentido, “o público” é uma categoria que oferece suporte
metafórico para uma concepção que reduz as representações a instrumentos de análise que
contribuem para disseminar a noção de unidade que, no próprio termo, prescreve aquilo que
descreve.
Fleury fala ainda de uma outra categoria que incorre no mesmo risco de prescrição: a
noção de “não público”. Essa noção, introduzida pela primeira vez em meio às convulsões de
maio de 1968, após duas reuniões - a primeira entre diretores de teatro e a segunda entre
profissionais do teatro e cientistas sociais – quarenta diretores de teatro assinaram a
Declaração de Villeurbanne, que apresentava a noção de “não-público”. Segundo Francis
Jeanson, autor do documento, a ideia de “não-público”, uma massa de pessoas que não tem

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acesso e nem a oportunidade de acessar a cultura, em oposição ao público, real ou potencial


(FLEURY, 2009: 19).
Separando “cultos” e “não cultos” a declaração que emerge de tal encontro postula
uma desigualdade de atitudes culturais dos indivíduos. A noção de “não público” introduz a
negação que ela sugere, apontando em si mesma, um processo de marginalização e até mesmo
de exclusão.
Pela primeira vez desde o século XVII, quando se constitui o público literário, vê-se
implicitamente negar uma parcela da população a possibilidade formal de fazer parte disso.
Declara-se a intenção de se conduzir esse público ao teatro, mas essa intenção corresponde a
uma negação na medida em que a categoria de “não público” corra o risco de permanecer
enquanto tal; a invenção da noção de “não público” participa da naturalização de uma
construção social.
Assiste-se a uma fabricação de irredutível alteridade: o “não público” representa um
Outro que é completamente outro; há a formação de uma exterioridade radical, elaboração de
uma categoria naturalizada; esse processo discursa a favor da segregação identitária que
repousa na recusa da identidade do outro a quem se recusa qualquer possibilidade, mesmo a
de formação. Fenômenos sociais de reprodução se formam, oferecendo espaços de
identificação negativa que favorecem a interiorização do sentimento de indignidade diante dos
equipamentos culturais.
Do evento do encontro já citado ao advento de uma categoria, Fleury retira duas
observações: A primeira diz respeito aos efeitos da difusão dos saberes de ciências sociais
que, como no caso de “não-público”, ao contrário de emancipador veicula um efeito
ideológico, dissimulando desacordos sociais e políticos. Uma segunda observação refere-se à
armadilha nominalista: Descobre-se o poder de nomear, as palavras anunciam aquilo que
enunciam, possuem efeitos políticos e veiculam normas sociais (Op. Cit.: 21). Ao contrário do
que se pode imaginar, a introdução dessa categoria não promoveu uma mudança na condução
da ação ou mediação cultura, uma vez que esse corte em si era inexistente. A crença no corte,
no entanto, existe e é atuante.
A noção de público é ainda encorajada pelo uso linguístico cotidiano; para o autor,
cabe analisar os vários tipos de relacionamentos entre obras de arte, agentes culturais e
espectadores para que se desconstrua a noção de público unitário. Assim, Fleury afirma que
não há público no geral, mas coalizões efêmeras ou agrupamentos que o individualismo
moderno tornou precário; o mundo dos públicos, a despeito da observação sociológica das

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regularidades que caracterizam as relações, é de permanente mudança e realinhamento. É


nesse sentido que o autor defende o emprego de “públicos”, no plural, na tentativa de abarcar
a multiplicidade de indivíduos, expectativas e relações que o “tornar-se público” envolve.
Tanto Dabul quanto Fleury refletem e discutem sobre a natureza do público em si, seu
comportamento em exposições de arte, no sentido de evidenciar as práticas que efetivamente
se desenrolam durante as visitas, desconstruindo a visão da sociologia da recepção que
concebe o público como uma soma de indivíduos atomizados, orientados unicamente pelo
prazer estético, esvaziando assim o contexto do contato entre espectador e obra de toda
sociabilidade que o acompanha. Ao questionar a categoria público, no singular, Fleury
ressalta a pluralidade do objeto, que, diminuído pelo uso linguístico transporta com o termo a
noção errônea de homogeneidade e unidade. A pesquisa empírica que ambos abordam, Dabul
partindo de uma aproximação etnográfica e Fleury se baseando nas enquetes realizadas com
públicos de festivais e em pesquisadores dos públicos, aponta para o lado contrário daquele
demonstrado pela literatura da recepção: plural, heterogêneo, social e nem sempre orientado
exclusivamente pelo prazer estético, as recentes pesquisas sobre os públicos o apresenta como
um corpo social heterogêneo e pautado pelo movimento de identificação e reagrupamento.
Olivier Donnat (2004) aponta que muitos resultados da investigação sobre práticas
culturais são difíceis de relatar partindo do quadro da teoria da legitimidade, iniciada pelo
pensamento de Bourdieu e Darbel (1969) com a pesquisa sobre a frequentação de museus de
arte na Europa. As últimas décadas, marcadas na França pela democratização das escolas e de
produção e difusão culturais e no resto do mundo pelo aumento da influência da tecnologia e
consequentemente ao aumento considerável de consumo cultural no espaço doméstico,
testemunham à tendência do enriquecimento dos mundos culturais e diversificação desse tipo
de consumo, o que torna a análise que considera apenas noções de cultura popular, média e
erudita, complicada. A partir dessa constatação, o autor sugere uma outra forma de abordar os
públicos e sua relação com a cultura - que não àquela da teoria da legitimação – que permitiria
pensar a complexidade das relações entre posições sociais e trajetórias de um lado e consumo
e preferencias culturais de outro.
Assim o autor propõe, ao invés de três “níveis” para o consumo cultural, sete
universos culturais, de fronteiras mais ou menos marcadas, supondo que certas categorias da
população apresentam uma configuração particular de atitudes, habilidades e preferencias que
podem ser aproximadas, fazendo com que essas pessoas façam parte de um mesmo universo
cultural. Podemos exprimir, a partir dessa afirmação, que adolescentes estão mais próximos

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uns dos outros, ainda que variando em classe social, do que adolescentes e adultos de uma
mesma classe. É pertinente salientar que a pesquisa realizada pelo autor se restringe aos
públicos da França. Embora transpor os resultados dessa pesquisa para um outro contexto seja
delicado, talvez seja interessante pensar que, para além do viés de classe, os públicos sejam
mobilizados por ideais e atitudes outras que aproximam pessoas com diferentes acúmulos de
“capital cultural” sob uma mesma opinião. Assim, talvez não faça tanto sentido, por exemplo,
aproximar indivíduos a partir do cruzamento de informações como origem social, nível de
estudos e faixa etária, quanto pensar uma afinidade que surge na experiência e participação de
determinado universo cultural.
Ainda que Donnat trate exclusivamente dos públicos franceses da cultura, alguns
fenômenos como a democratização do ensino básico, maior facilidade de acesso ao ensino
superior e disseminação do acesso à internet, podem ser observados em outros contextos e
contribuem para modificar radicalmente aquela primeira conjuntura, observada por Bourdieu
e Darbel, e alterar a maneira como os indivíduos se relacionam com a cultura. O aumento da
influência das tecnologias digitais e do consumo cultural no âmbito doméstico é, no entanto,
fator crucial para pensarmos de que forma os públicos acompanham, se expressam e se
relacionam com a produção cultural, de maneira geral e com a opinião veiculada pelas mídias
digitais sobre arte e arte contemporânea em específico.

O poder da “cultura em domicílio” ligada ao equipamento das casas e ao


desenvolvimento das tecnologias digitais deslocou o centro de gravidade da
dinâmica artística e cultural, transformando radicalmente as condições de
produção, conservação, difusão e apropriação das obras. Por conseguinte,
ela deslocou também o centro de gravidade da política cultural, obrigando-a
a intervir em dinâmicas de desenvolvimento grandemente dominadas pela
lógica do mercado e por comportamentos que pertencem essencialmente à
esfera doméstica. (DONNAT, 2011: 31)

O crescente movimento de equipar os domicílios com tecnologia audiovisual fez com


que, hoje, grande parte de nossas práticas culturais aconteçam no espaço doméstico (Op. cit.:
30); por outro lado, esse movimento impulsionou o embaçamento das fronteiras entre público
e privado, fenômeno fundamental para compreender as mobilizações que proponho como
objeto de estudo.
Pautados por grande afluxo de pessoas não orientadas pelo prazer ou crítica da
estética, as mobilizações responsáveis por encerrar a mostra “Queermuseu” apresentam forte
componente social e uma grande diversidade de intenções e opiniões dos espectadores, que

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faz com que o público constatado contraste radicalmente com a ideia de unidade e
homogeneidade. Aqui, mesmo a noção de público pode ser contestada, uma vez que as
mobilizações foram em grande parte compostas por pessoas que não participaram das mostras
como espectadores no sentido tradicional do termo.
Nesse sentido, apresentei a proposta de pensar, para as questões com as quais lido na
dissertação, em um “público real”, ou seja, aquele que esteve nos eventos e participou como
público de maneira presencial, da exposição ou da performance, e em um “público virtual” ou
“difuso” que, mesmo não participando ou conhecendo as exposições, se juntou às
mobilizações contra ou a favor, a partir do material veiculado pelas mídias e redes sociais,
opinião de personalidades e amigos. Esse segundo público, mais amplo, parte já de uma
análise enviesada do conteúdo das manifestações artísticas, escolhendo um lado baseando-se
em uma concepção moral ou política pessoal. Esses casos permitem observar uma confluência
entre arte, política e moral, em que as orientações pessoais para a moral e a política
influenciam e norteiam a experiência do contato com a arte.
Já não é possível pensar em uma “sociologia da recepção” uma vez que “receber” o
objeto de arte foi exceção na exposição em questão. Diferente de “receber” a obra de arte no
contexto pensado para ela, ou seja, a proposta da curadoria, grande parte das pessoas que se
envolveram na mobilização, seja a favor ou contra o encerramento da mostra, tiveram o
contato com os objetos de arte mediados, seja pela mídia, seja pela opinião de pessoas que se
manifestaram sobre o assunto. Nesse sentido, há uma nova “curadoria” onde algumas obras
são recortadas da proposta da exposição e reorganizadas para criar uma nova narrativa.
Assim, não é possível falar em “público” nos sentidos já discutidos pela sociologia da
arte, uma vez que grande parte das mobilizações em torno da mostra se deu por pessoas que
não estiveram na exposição, virtual ou presencialmente, mas se deu através de uma mediação,
muitas vezes enviesadas, responsáveis por construir novos sentidos, diferentes daqueles
propostos pela curadoria oficial.

Considerações Finais
De maneira preliminar, tentei apresentar neste trabalho os eventos que cercaram a
exposição “Queermuseu” em Porto Alegre e o debate da sociologia da arte para pensar os
públicos. No entanto, diferente de uma “recepção” ou do “público” como objeto da sociologia
da arte até então, é notável que o caso sob análise se desvia desses conceitos, apresentando
novas formas de contato com a arte e produção de sentido, que perpassam ainda a

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democratização e polarização da tecnologia e das redes sociais. Nesse sentido, a proposta é


pensar, para os limites dessa pesquisa, no surgimento de novas formas de contato e produção
de sentido, bem como rastrear e reconhecer a influência de novos “mediadores”, como
páginas e personalidades nas redes sociais, capazes de mobilizar a opinião pública a partir de
sua interpretação e discurso dos eventos.
Dada a influência da tecnologia e das redes sociais, cada vez mais presentes no
cotidiano, uma vez que já não é possível pensar a internet como um espaço separado da
interação, na medida em que as pessoas incorporam o espaço online como uma extensão do
cotidiano, a rede, e principalmente as redes sociais, se tornam cada vez mais o depositário de
ideias, expressão de opiniões e pontos de vista. É a partir dessa perspectiva que Christine Hine
(2016: 16) argumenta em favor de compreender a internet como um fenômeno corporificado:
estar online não constitui uma forma distinta de experiência diante de outras formas
materializadas de ser e atuar no mundo, ao contrário, ocorre paralelamente e as complementa.
Uma experiência online tem a mesma capacidade de produzir em nós uma resposta emocional
quanto qualquer outra forma de experiência; assim, ao mesmo tempo que a experiência on e
off-line não é distinguível a priori por nossos corpos, a tentativa de separar essas duas
dimensões pelo etnógrafo constituiria uma investida problemática.

Referências
BOURDIEU, Pierre e DARBEL, Alain. O amor pela arte: os museus de arte na Europa e seu público.
São Paulo: Ed. da Universidade de São Paulo: Zouk, 2003 (1969).

DABUL, Lígia, O público em público: práticas e interações sociais em exposições de artes plásticas.
Tese (Doutorado) Departamento de Ciências Sociais, Universidade Federal do Ceará, Fortaleza, 2001.

DONNAT, Olivier. Les univers culturels des Français. Sociologie et sociétés, 36(1), 87–103.
doi:10.7202/009583ar, 2004

____________, Olivier Democratização da cultura: Fim e Continuação In: BOTELHO, Isaura (Org.)
Revista Observatório Itaú Cultural, n. 12 (maio/agosto), – São Paulo: Itaú Cultural, 2011.

FLEURY, Laurent Sociologia da cultura e das práticas culturais, Editora Senac : São Paulo, 2009.

HEINICH. A sociologia da arte. / Nathalie Heinich. Tradução de Maria Ângela Caselatto e revisão
técnica de Augusto Capella. Bauru, SP: Edusc, 2008.

HINE, Christine. Estratégias para etnografia da internet em estudos de mídia in: Etnografia e consumo
midiático: novas tendências e desafios metodológicos / organização Bruno Campanella, Carla Barros.
1. ed. - Rio de Janeiro: E-papers, 2016.

ZOLBERG, Vera L. Constructing a Sociology of the Art, Cambridge University Press, 1990.

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Barravento e Der Leone Have Sept Cabeças:


Cota e Marlene causam súbitas mudanças no mar e na terra

Leonardo Corrêa Figueira1

Resumo: O objetivo deste trabalho é abordar os filmes Barravento e Der Leone have sept
cabeças do diretor do Cinema Novo, Glauber Rocha, a partir de suas respectivas articulações
do conceito de gênero, por intermédio de duas de suas personagens: Cota para Barravento, e
Marlene para Der Leone have sept cabeças. Destarte, objetiva-se, através da bibliografia
selecionada (sobretudo, nos textos Gênero: uma categoria útil para a análise histórica de
Joan Scott; e O poder simbólico de Pierre Bourdieu (mais especificamente, o capítulo VI,
Espaço social e gênese das classes)), apreender a articulação do conceito de gênero e a
interseccionalidade não só entre racismo e sexismo, mas também entre estrutura e agência,
tais como estas se apresentam nas narrativas alegóricas de ambos os filmes.

Palavras-chave: Barravento; Der Leone have sept cabeças; Marlene; Cota; Opressão.

Introdução
Segundo Adriana Piscitelli em Interseccionalidades, categorias de articulação e expe-
riências de migrantes brasileiras, “As insatisfações com a centralidade concedida à categoria
gênero suscitaram ainda outras problematizações. As feministas do Terceiro Mundo e/ou que
trabalham com teoria pós-colonial chamaram a atenção para a necessidade de articular gênero
não apenas a sexualidade, raça, classe, mas também a religião e nacionalidade” (PISCITELLI,
2008: 266). E esta articulação do conceito de gênero se apresenta muito bem explicada em
Tudo é Interseccional? Sobre a relação entre racismo e sexismo, de Ina Kerner, no trecho:

A discussão sobre interseccionalidade tem ocupado um espaço importante na


pesquisa de gênero. O reconhecimento de que formas sexuais de injustiça
são, por um lado, análogas e, por outro, empiricamente entrelaçadas com ou-
tras formas de injustiça – como as relacionadas a raça, etnia e religião – en-
contra nesse conceito sua expressão teórica. Se levarmos em consideração
razões histórico-linguísticas, a importância de refletir com maior precisão
sobre a relação entre racismo e sexismo é evidente por si só. A palavra alemã
Sexismus tem origem no inglês norte-americano. O termo de origem sexism
foi, por sua vez, criado por analogia com o termo racism na segunda metade
dos anos 1960 (Kerner, 2012: 45).

1
Mestrando do Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade Federal Fluminense (PPGS-UFF).

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A articulação do conceito de gênero e a interseccionalidade não só entre racismo e se-


xismo, mas também entre estrutura e agência; tais serão os elementos abordados a partir dos
filmes Barravento e Der Leone have sept cabeças, do diretor do Cinema Novo, Glauber Ro-
cha. Assim sendo, planejo basear a minha abordagem de Barravento e Der Leone have sept
cabeças, sobretudo, nos textos Gênero: uma categoria útil para a análise histórica de Joan
Scott; e O poder simbólico de Pierre Bourdieu (mais especificamente, o capítulo VI, Espaço
social e gênese das classes), respectivamente. Desse modo, começarei tratando de Der Leone
have sept cabeças. Em seguida, passarei à análise de Barravento para tratar, posteriormente,
da articulação do conceito de gênero em ambos os filmes.

Der Leone Have Sept Cabeças


Isto posto, gostaria de começar examinando Der Leone have sept cabeças justamente
com um trecho de O Poder Simbólico de Pierre Bourdieu.

Se a probabilidade de reunir realmente ou nominalmente – pelo poder do de-


legado – um conjunto de agentes é tanto maior quanto maior é a sua proxi-
midade no espaço social e quanto mais restrita, logo mais homogênea, é a
classe construída a que eles pertencem, a aproximação dos mais chegados
nunca é necessária, fatal (pois que os efeitos da concorrência imediata po-
dem fazer barreira) e a aproximação dos mais afastados nunca é impossível:
se há mais probabilidade de mobilizar no mesmo grupo real o conjunto dos
operários do que o conjunto dos patrões e dos operários, pode-se, graças a
uma crise internacional, por exemplo, conseguir um agrupamento baseado
em liames de identidade nacional. (BOURDIEU, 1989: 137, grifo do autor)

Antes de mais nada, urge estabelecer a identidade das personagens do filme. Primei-
ramente, tem-se o pregador católico que, mesmo não sendo introduzido antes de todas as ou-
tras personagens, abre o filme com um diálogo sobre a “besta”, claramente extraído da Bíblia
(mais especificamente, do livro do Apocalipse). Como representante da Igreja Católica no
continente africano, procura e tem êxito em converter vários nativos para sua causa. É perti-
nente ressaltar que suas falas enfatizam muito mais a condenação, a acusação e o terror da
danação do que quaisquer noções de paciência, perdão ou temperança para com seus ouvintes.
De fato, no início do filme, ele parece muito mais um louco do que um pregador, pondo-se a
desferir golpes de sua marreta contra a própria terra, como que para punir a blasfêmia do pró-
prio continente africano, para o espanto daqueles que o observam. Em segundo lugar, tem-se
Zumbi, introduzido em meio à dança e ao canto de nativos que conservam suas crenças e ritu-
ais africanos. Ele é um guerreiro que, encarnando os chefes africanos que foram assassinados

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pela barbárie sem precedentes dos brancos, procura libertar a África dos carrascos que a
oprimem, respondendo o ódio com o ódio, e o fogo com o fogo. Ele, entretanto, encontrará
dificuldades em mobilizar os africanos em prol de sua causa, pois não são poucos aqueles que
defendem a conciliação com os espoliadores estrangeiros. Estes, com as palavras de ordem “É
necessário que o bom senso triunfe”, desejam negociar a independência por intermédio da
burguesia local, encarnada na figura do doutor Xobu que, não obstante suas vestimentas tradi-
cionais num primeiro momento, logo adota, numa paródia desconcertante, as roupas e os ma-
neirismos euro-americanos dos séculos XVIII e XIX.
Em seguida, é apresentada a personagem de Pablo, um guerrilheiro comunista que
busca mobilizar os africanos numa resistência contra o imperialismo euro-americano. Passará
a maior parte do filme, entretanto, como prisioneiro do pregador, de Marlene, e dos três repre-
sentantes do imperialismo na África: o mercenário alemão, o agente americano e o comerci-
ante português. Por hora, entretanto, basta esclarecer que Pablo faz frente ao imperialismo
mediante a luta armada, condenando o seu inimigo como uma ferramenta dos países ricos
para justificar a sua espoliação dos países pobres através da colonização religiosa, econômica,
cultural, e política, que ocasiona a alienação nacional. Doravante, o principal problema da luta
anticolonialista se traduz na destruição do complexo de inferioridade nacional, bem represen-
tado na personagem do doutor Xobu. Prontamente, urge falar do mercenário alemão, do agen-
te americano e do comerciante português. Os três se apresentam oficialmente como defenso-
res da moral familiar, do comércio privado, e do poder militar, em oposição às milícia, propri-
edade e devassidão populares, representadas por Pablo, que traz a anarquia, o ódio, o sangue e
a morte para o continente africano. As suas não passam de declarações vazias, visto que os
três fazem no âmbito privado as mesmas coisas que condenam quando falam a seu público.
Censuram a milícia popular de Pablo quando eles mesmos fazem uso de mercenários para
oprimir os africanos. Denunciam a devassidão popular quando o próprio filme começa com o
agente americano simulando atos sexuais com Marlene que, a propósito, compartilha com o
comerciante português e o mercenário alemão por toda a extensão do filme. Reprovam o fim
do comércio particular e o advento da propriedade popular, mas não detêm quaisquer progra-
mas próprios para o futuro do continente africano, se limitando a reproduzir o dito “novo pro-
grama” de Marlene para o mesmo. Tecem essas justificativas para conseguirem aquilo que
realmente lhes interessa: o petróleo, os diamantes, o urânio, o manganês, o estanho, o sal, a
banana, o cacau, o ouro, o magnésio, o ferro, o tomate, e, sobretudo, agradar a Marlene.

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Finalmente, quem é, afinal, Marlene, chamada por Pablo de “A Besta de Ouro da Vio-
lência”? Marlene personifica o próprio colonialismo europeu, que coordena os esforços do
mercenário alemão, do agente americano e do comerciante português no continente africano.
Talvez a cena que melhor descreva quem de fato é Marlene seja a de seu banquete com os três
representantes do imperialismo na África. Sobre as costas do mercenário alemão, que se en-
contra de quatro no chão, Marlene age como se estivesse montada em um cavalo. O agente
americano e o comerciante português estão à sua direita e esquerda, respectivamente. Abaixo
dos quatro, várias frutas estão distribuídas sobre o corpo de um africano morto. É Marlene
quem distribui as frutas entre eles. Em meio a este farto e animalesco banquete, aparece o
doutor Xobu, a esta altura já havendo interiorizado completamente as representações ou cate-
gorizações de seus opressores, para entregar a Marlene o “osso”. O “osso” (os ossos da África)
causa uma reação inusitada nos quatro. Põem-se de pé, e começam a implorar a Marlene que
dê o “osso” a cada um deles. Aqui, de fato, agem como animais. Faz-se uma clara oposição
entre seu comportamento e os de Pablo e Zumbi: estes demonstram muito mais disciplina e
sobriedade para com seus objetivos, ainda mais quando comparados ao excesso e à vulgarida-
de de seus inimigos. É exatamente isto que personifica Marlene: concomitante às analogias
bíblicas, ela é a mãe do excesso e da degradação que toma da África suas riquezas, seus recur-
sos, ou seja, seu sangue, para satisfazer seus próprios desígnios; e não demonstra qualquer
preocupação com o sofrimento e a miséria daqueles de quem rouba a terra e a vida, visto que
deseja até mesmo os seus ossos. Ela é “A Besta de Ouro da Violência”, dado que rouba da
África suas riquezas e suas vidas sem se preocupar com nada nem ninguém além de si mesma.
Agora, tendo estabelecido a identidade das personagens do filme, faz-se necessário in-
dicar o enredo do filme e o desenrolar da narrativa contida nele. Como já foi dito antes, o pre-
gador católico procura pela “Besta de Ouro da Violência”. Acaba por encontrar a “Besta Ines-
perada” ou, em outras palavras, Pablo, o guerrilheiro comunista. Pune-o severamente e entre-
ga-o aos três representantes do imperialismo na África: o mercenário alemão, o agente ameri-
cano e o comerciante português. Estes torturam-no e humilham-no constantemente, amarran-
do uma corda em seu pescoço e tratando-o como se fosse um reles animal. Enquanto isso,
Zumbi, que encarna os líderes africanos assassinados pela barbárie colonialista, tenta mobili-
zar seus irmãos e irmãs para a luta armada. É traído pelos colaboracionistas, encarnados na
figura do doutor Xobu. Este se torna um simples presidente fantoche, que interioriza e vulga-
riza todos os aspectos das representações ou categorizações que lhe são impostas pelos espoli-
adores estrangeiros. O pregador finalmente encontra a “Besta de Ouro da Violência”, Marlene,

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e lhe declara que “voltará para casa”. À medida que o tempo passa, e mais africanos são mor-
tos pela opressão colonialista, Zumbi se reúne cada vez mais com os líderes das tribos para
conseguir começar a revolução contra os representantes do imperialismo na África. Também
liberta Pablo para, juntos, conseguirem homens e armas. Conseguem, em seguida, capturar e
matar o agente americano e o comerciante português. O doutor Xobu, que deseja negociar a
paz com os dois, é morto pelo mercenário alemão, um ex-nazista. Este declara que vai agir
pelas armas. Tem-se início, portanto, a luta armada. De um lado, as forças do mercenário, e do
outro, as de Zumbi e Pablo. O pregador crucifica Marlene no chão, uma vez que a sua cruz é a
própria terra que tanto devastou. O filme se encerra com Zumbi, Pablo e seus homens em tri-
lha pelas matas africanas, tendo começado a luta armada pela libertação do continente africa-
no.

A política é o lugar, por excelência, da eficácia simbólica, acção que se exer-


ce por sinais capazes de produzir coisas sociais e, sobretudo, grupos. [...] O
porta-voz é aquele que, ao falar de um grupo, ao falar em lugar de um grupo,
põe, sub-repticiamente, a existência do grupo em questão, institui este grupo,
pela operação de magia que é inerente a todo o acto de nomeação. É por isso
que é preciso proceder a uma crítica da razão política, intrinsecamente dada
a abusos de linguagem que são abusos de poder, se se quer pôr a questão pe-
la qual toda a sociologia deveria começar, a saber, a da existência e do modo
de existência dos colectivos. (BOURDIEU, 1989: 159)

Tal como posto por Pierre Bourdieu acima, Der Leone have sept cabeças oferece uma
crítica da razão política para se pensar a existência e o modo de existência dos coletivos. Nes-
se caso específico, dos coletivos presentes na África da exploração colonialista e da libertação
que se avulta cada vez mais. As personagens da obra são, sobretudo, porta-vozes. O pregador
católico institui, evidentemente, o movimento de conversão dos nativos para o cristianismo;
Zumbi, também evidentemente, institui a mobilização dos africanos para a libertação de toda
a África; Pablo institui a aliança de Zumbi com o comunismo para que este auxilie na luta
pela libertação; o doutor Xobu institui a conversão da burguesia nacional em elite colaboraci-
onista, que apoiará a dominação e a exploração dos representantes do imperialismo na África;
cada um destes representantes institui diferentes facetas da dominação e da exploração do
continente africano: o mercenário alemão institui a opressão pela força das armas de seus ho-
mens, fazendo valer a vontade dos exploradores por meio da violência física; o agente ameri-
cano institui a dominação pela força da imposição e da propaganda das representações ou
categorizações euro americanas; e o comerciante português institui a exploração econômica

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da África; e Marlene institui a própria colonização, o próprio imperialismo euro-americano


que busca sobretudo a satisfação de seus interesses político-econômicos no continente africa-
no. A narrativa de Der Leone have sept cabeças é sintomática da crítica da razão política apre-
sentada por Bourdieu: Zumbi e Pablo terão êxito em dar início à luta armada pela descoloni-
zação e matarão o agente americano e o comerciante português; o doutor Xobu será assassi-
nado pelo mercenário alemão, que prosseguirá com a opressão pela força das armas, agravan-
do o conflito mais ainda; e Marlene será crucificada pelo pregador católico, simbolizando o
fim da estabilidade de seus planos na África, e o começo de um novo período de turbulência
sociopolítica para o continente. São por essas e outras razões (que serão tratadas mais adiante)
que Der Leone have sept cabeças manifesta-se como uma crítica da razão política que põe em
questão a existência e o modo de existência dos coletivos presentes na África do período da
descolonização.
Antes de terminar o meu exame de Der Leone have sept cabeças, gostaria de chamar a
atenção para um trecho de Raça: o significante flutuante de Stuart Hall que acredito dizer
respeito também à crítica da razão política implicada em Der Leone have sept cabeças, pois
este também oferece um discurso e uma prática humanos eticamente responsáveis sobre raça:

De fato, acredito que sem esse tipo de garantia teríamos que recomeçar. Re-
começar em um outro espaço, com um conjunto diferente de pressupostos
para tentar nos perguntar o que é na identificação humana, na prática huma-
na, na construção de alianças humanas que [...], sem qualquer garantia, pode-
ria nos possibilitar a condução de um discurso e de uma prática humanos eti-
camente responsáveis sobre raça em nossa sociedade. Como seria conduzi-lo,
sem ter às nossas costas um toque de certeza, mesmo que parecêssemos estar
errados, se tivéssemos acesso ao código, algo que tivesse nos dito o que fa-
zer, desde o início? [...] Quando adentramos a política do fim da definição
biológica de raça, mergulhamos de cabeça no único mundo que temos: o
abismo do debate e da prática políticos permanentemente contingentes e sem
garantias. Uma política crítica contra o racismo, que é sempre uma política
da crítica. (HALL, 2013: 06)

Barravento
Firmino, ex-morador de uma comunidade de pescadores de xaréu, retorna para confra-
ternizar com seus irmãos e irmãs e matar a saudade de casa. Contudo, carrega consigo um
objetivo um tanto quanto inquietante: deseja libertar os pescadores do julgo do candomblé,
encabeçado pelas mães de santo (que obedecem à Yemanjá, a rainha das águas, a deusa do
mar). Ao lado destas, encontra-se Mestre, antigo protegido de Yemanjá e porta-voz dos pesca-
dores. A crença local determina que a pesca farta e o tempo bom são garantidos pelo protegido

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de Yemanjá, que, devido aos ciúmes da deusa, jamais pode se relacionar com qualquer mulher.
Por já estar velho, entretanto, o papel de protegido exercido por Mestre é passado à Aruã, um
jovem que trouxe da cidade para a comunidade. A constante crítica de Firmino à passividade
com a qual atuam seus conterrâneos perante a miséria, o analfabetismo e a exploração faz
com que seja censurado por todos. Somente a viúva Cota decide abordá-lo, e acaba por se
tornar sua confidente e amante. No decorrer do filme, Firmino fará frente ao misticismo trági-
co e fatalista de sua ex-comunidade (marcado pela espera do reino divino) usando todo e
qualquer meio que estiver ao seu alcance para convencer seus irmãos e irmãs que Aruã não é,
de fato, “santo”, e que, portanto, a pesca de xaréu e o bom tempo não dependem da boa von-
tade de Yemanjá.
Tudo começa com a volta de Firmino para a comunidade. Mal chega para cumprimen-
tar seus velhos amigos e já tem início o conflito. Os pescadores (particularmente Aruã) sentem
que Firmino tem outras razões para visitá-los, e quando ele revela que realmente está aprovei-
tando para se esconder da polícia, só consegue acalmar os ânimos de seus amigos ao lhes ofe-
recer cachaça. É então que se depara com Cota, uma bela viúva que também já tentou a sorte
na cidade, mas decidiu voltar para a comunidade. Enquanto isso, se avulta um desentendimen-
to entre Mestre e o representante do dono da rede de pesca. A rede já está velha e precisa ser
trocada, mas o representante faz pouco da sugestão de Mestre, dizendo-lhe que não haverá
lucro naquele ano se eles comprarem uma rede nova. Na mesma noite, Firmino declara a Cota
que pretende encomendar um feitiço para matar Aruã. Aparentemente, os dois já não se en-
tendem desde longa data. E assim o faz. Sem embargo, Aruã, que parecia ter morrido quando
a rede furou, acaba por sobreviver ao mar. Vendo que seu plano não deu certo, Firmino diz
que esta foi a primeira e última vez que acreditou no poder de um feitiço, e que agora vai le-
vantar um barravento na ponta da faca. É aí que chega um outro representante do dono da
rede, ameaçando retirar a rede caso não haja mais peixe pela manhã. Acaba sendo resolvido
que os pescadores se encarregarão de remendar a rede. Firmino, ainda determinado a fazer
seus conterrâneos resistirem à opressão do dono da rede, destrói a rede com sua navalha. Cota,
que testemunhou sua ação, pergunta-lhe porque ainda não arrumou sua vida na cidade. Chega
até a oferecer-lhe uma das duas jangadas que “o velho” lhe deixou. Firmino lhe diz que não
vai ser pescador porque ele não é índio e porque não estão na África, e sim no Brasil. Assim
como ele, Cota não abaixa a cabeça para ninguém. Segundo Firmino, a situação de Aruã é a
situação do povo brasileiro; é por causa disso que cortou a rede (“A barriga precisa doer
mesmo, porque quando tiver uma ferida bem grande, então todo mundo grita de vez! Pra mim,

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Princesa Isabel é ilusão! ”). Cota lhe fala de sua experiência na cidade, que lhe falta coragem
para deixar a terra e que agora, com a rede destruída, será uma desgraça na comunidade.
Na manhã seguinte, o dono da rede vem, acompanhado de um soldado, buscar a rede.
Os pescadores, mais uma vez, reagem com indiferença às palavras de Firmino, que ainda tenta
convencê-los a resistir. Logo, ao invés de procurar uma rede nova, Mestre decide pôr Aruã à
prova, e ver se ele realmente é protegido de Yemanjá. Aruã passa a noite no mar com os ou-
tros pescadores. No dia seguinte, eles retornam tendo sido bem-sucedidos em pescar muitos
peixes. Firmino perde completamente a compostura, e implora a Cota que quebre o “encanto”
de Aruã, dormindo com o rapaz. Ele acredita que se Aruã se libertar de sua posição como
“santo” da comunidade, ele poderá ajudar a libertar muitos outros negros de suas vidas, de
seus caminhos já determinados. Na mesma noite, Cota seduz e dorme com Aruã. Enquanto
isso, Firmino convence Vicente, pai de Naína, a acompanhá-lo até o mar, onde diz ter visto
Yemanjá. No dia seguinte, o tempo piora. Aruã e Chico vão buscar Vicente no mar. O vento
forte e o trovejar da chuva anunciam barravento, “... o momento de violência, quando as coi-
sas de terra e mar se transformam, quando no amor, na vida e no meio social ocorrem súbitas
mudanças”. Aruã, ao voltar, dá as más notícias: Chico e Vicente morreram. Firmino não perde
tempo em culpar Aruã pela morte dos dois, pois diz a todos que testemunhou ele com Cota na
noite anterior e que é preciso mudar a vida de Aruã. Ele também culpa Mestre por ter acredito
no feitiço de Aruã, uma “coisa de gente atrasada” na qual é preciso dar um fim. Tem-se início
uma luta de capoeira entre Aruã e Firmino, da qual este é o vencedor. Firmino diz a Aruã que
o deixará vivo para “salvar o povo”, e que o povo deve seguir Aruã e não Mestre, porque
Mestre é o “escravo”. Firmino deixa a comunidade, satisfeito por ter conseguido libertar Aruã
do seu papel de “santo”. Mestre, depois de falar que Aruã não vale nada e que ninguém deve
encostar nele, deseja oferecer o corpo de Chico como presente para acalmar o “santo” e, desse
modo, restaurar a proteção da comunidade. Aruã, já sem seu “encanto”, rebate anunciando
que pesca é com rede e tarrafo no mar, não com reza, mas, assim como Firmino, é ignorado
por Mestre e pelos outros pescadores. Concomitante à procissão de Chico, Naína, que há pou-
co havia sido iniciada pelas mães de santo, aparece fugindo da comunidade. Aruã a impede de
ir embora, dizendo-lhe que vai trabalhar na cidade para conseguirem uma rede nova e que
Firmino tinha razão. Afinal de contas, “Ninguém liga pra quem é preto e pobre. ”. Agora com
coragem, Aruã se dirige à cidade, determinado a conseguir sustento para si mesmo, Naína, e
os pescadores.

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A complexidade crescente das realidades locais torna mais necessária do que


nunca a abordagem situacional das culturas e das identidades como um ins-
trumento de compreensão das lógicas observadas diretamente, e também
como um princípio de vigilância antiexótica da antropologia. A atenção
principal do observador deve se colocar antes sobre as interações e as situa-
ções reais nas quais os atores se engajam, do que nas representações formu-
ladas a priori das culturas, tradições ou figuras ancestrais em nome das quais
se supõe que eles agem. É a partir dos contextos e das questões em jogo nas
situações de interação que a memória é solicitada seletivamente. (AGIER,
2001: 12, grifo do autor)

Este trecho de Distúrbios identitários em tempos de globalização, escrito por Michel


Agier, resume muito bem a essência daquilo que é apresentado em Barravento: a complexida-
de da realidade de uma localidade específica que, como o caminho da cultura à identidade,
não é única, nem transparente, e tampouco natural. À título de exemplo, tem-se as próprias
mentalidades de Firmino e Cota. Firmino encomenda um feitiço para matar Aruã no início do
filme e, quando este não funciona, diz a Cota que só o fez porque quis e que sempre soube
que não ia dar certo. Ainda assim, reage com muita raiva ao fracasso de seu plano. Cota, por
sua vez, reage negativamente quando Firmino lhe pede que seduza e durma com Aruã. Não
por causa da gravidade do pedido em si, mas porque todo mundo sabe que as mulheres que
encostam em Aruã morrem. Tanto Firmino quanto Cota se destacam de seus conterrâneos,
mas mesmo assim não deixam de carregar consigo as crenças da comunidade de pescadores
de xaréu, que intercalam com as outras crenças e elementos presentes em seus respectivos
“celeiros de significações”, de acordo com as situações que se lhes apresentam. Uma das ca-
racterísticas mais marcantes de Barravento é, para além disso, a questão dos ciclos viciosos.
Já na metade do filme, depois da rede ter sido recolhida, os pescadores, as mães de santo e
Aruã passam a se indagar a respeito da miséria e do desespero presente em suas vidas. Para
eles, a situação é sempre ruim. Uma das mulheres lembra que fugiu da seca do Norte porque
achava que era melhor nas redondezas da comunidade, mas acabou que era tudo igual. Os
pescadores lembram de como as coisas eram quando de sua infância: os mais velhos passa-
vam o dia inteiro pescando nas jangadas e só voltavam à noite, sem qualquer garantia de tra-
zerem peixes ou retornarem com vida. Com a rede, conseguiram mais segurança. Em com-
pensação, os peixes deixaram de ser seus. E Aruã não consegue entender a indolência de todos.
Se sempre houve tanta miséria, porque ficar dependendo de milagres e de “santos” quando
isso em nada altera a situação da comunidade? É como se todas e todos estivessem prisionei-
ros da miséria sem se darem conta disso. Porventura, Firmino consegue ver essa prisão e tenta
fazer alguma coisa além de reclamar da dureza da vida. Contudo, é tratado como um pária

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pela comunidade, que nada quer com um encrenqueiro. O que não quer dizer, porém, que não
concordem com o que ele diz. O que se apresenta em Barravento não é tanto a noção de um
poder social unificado, coerente e centralizado quanto a de um espaço marcado pela possibili-
dade de negação, transformação e reinterpretação.
A narrativa alegórica de Barravento vai exatamente na direção do conceito foucaultia-
no de poder, com constelações dispersas de relações desiguais sendo constituídas pelo discur-
so no “campo de forças” que é a comunidade de pescadores de xaréu. No transcorrer do filme,
ficam claras as divergências, a capilaridade das relações de poder entre os habitantes da loca-
lidade. Formalmente, são as mães de santo que detêm a prerrogativa sobre as vidas dos pesca-
dores, servindo como mediadoras entre a vontade de Yemanjá e as decisões dos mesmos. To-
davia, quem intercede em nome dos pescadores com os representantes do dono da rede é Mes-
tre, que tem a palavra final quanto à rede e à distribuição dos peixes para todos. E, acima de
todos, está Aruã. Não porque suas palavras tenham preeminência sobre as dos demais, mas
porque personifica as crenças, os dogmas do candomblé implicados nas atitudes e nas deci-
sões daqueles que de fato detêm a preeminência. Firmino, mesmo sendo segregado e forte-
mente censurado por todos, não é rebatido em momento algum por seus conterrâneos, conse-
guindo até mesmo que alguns concordem com seus pontos, ainda que não com suas ações.
Cota também aparece como uma mulher que detém seu próprio discurso, repreendendo Fir-
mino em pelo menos duas ocasiões ao longo do filme (quando ele demonstra felicidade pela
aparente morte de Aruã, no início do filme, e quando ele destrói a rede, já em meados do fil-
me). Em ambos os momentos, Cota reafirma perante Firmino que ela não é alguém que se
submete à sua vontade. Em suas palavras, “A carne é minha, e quem faz o preço sou eu! ”.
Nota-se claramente, ao longo do filme, “o jogo de invenção metafórico e de imaginação. ”.
Ainda mais porque o filme realmente é alegórico. É na hora em que Aruã e Chico vão salvar
Vicente que se dará “... o momento de violência, quando as coisas de terra e mar se transfor-
mam, quando no amor, na vida e no meio social ocorrem súbitas mudanças”. Aruã terá a per-
da de seu “encanto” revelada e, sendo assim, serão desestabilizadas as constelações dispersas
do “campo de forças” da comunidade. As mães de santo e Mestre oferecerão o corpo de Chico
como uma oferenda para que lhes seja preservada a proteção do “santo”. Isto garantirá a pre-
servação de sua preeminência (mesmo que isto seja uma consequência indireta da oferenda).
E Aruã, já desiludido quanto ao candomblé, deixará a comunidade para tentar a sorte na cida-
de. Por mais que as coisas aparentem não ter mudado, os acontecimentos que tiveram lugar na
comunidade servem como prova da existência do “campo de forças” que perpassa as relações

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entre as personagens de Barravento. Mesmo com o fracasso de Firmino em libertar a comuni-


dade do predomínio do candomblé, ele ainda consegue convencer um dos pescadores (Aruã) a
escapar do ciclo vicioso de miséria e desespero que permeia a vida dos pescadores para, por
menor que sejam as suas chances, tentar melhorar de vida na cidade. Barravento, sendo uma
obra que aborda a recorrente miséria, analfabetismo e exploração dos negros (visto que os
antepassados dos pescadores vieram escravos da África para o Brasil) a partir da confluência
mútua das divergências de raça, classe, etnicidade e religião, contém aquilo que falta, segundo
Joan Scott, à perspectiva teórica de Teresa de Lauretis, qual seja,

Se nós pensarmos a construção da subjetividade em contextos históricos e


sociais como sugere a teórica de cinema Teresa de Lauretis, não há meio de
precisar estes contextos nos termos propostos por Lacan. De fato, mesmo na
tentativa de Lauretis a realidade social (isto é, ‘as relações materiais, econô-
micas e interpessoais que são de fato sociais, e numa perspectiva mais ampla,
históricas’) parecem se situar à revelia do sujeito. Falta uma maneira de con-
ceber a ‘realidade social’ em termos de gênero. (SCOTT, 1995: 16-7)

A articulação do conceito de gênero em ambos os filmes


A “Realidade social” de Joan Scott é muito bem apreendida por Barravento e por Der
Leone have sept cabeças. Não se tratam de narrativas que lidam apenas com uma comunidade
de pescadores de xaréu e com personagens alegóricas em desventuras pelo continente africano,
respectivamente. Em ambas, os sujeitos, que em Lauretis permanecem à revelia da “realidade
social”, detêm autonomia e consciência suficientes para atuarem sobre “as relações materiais,
econômicas e interpessoais que são de fato sociais, e numa perspectiva mais ampla, históri-
cas”, em seus respectivos meios. Sendo assim, Barravento apresenta a “realidade social” da
condição de exploração e desespero dos negros a partir do microuniverso de uma comunidade
de pescadores de xaréu no litoral baiano, e Der Leone have sept cabeças apresenta a mesma a
partir do macrouniverso do continente africano quando da luta pela descolonização. Isto posto,
já havendo sido trabalhada a questão da interseccionalidade entre estrutura e agência, o que
resta à articulação do conceito de gênero e à interseccionalidade entre racismo e sexismo?
Para aquele, vale introduzir mais um trecho de Gênero: uma categoria útil para a análise
histórica:

O gênero se torna, aliás, uma maneira de indicar as ‘construções sociais’ – a


criação inteiramente social das idéias sobre os papéis próprios aos homens e
às mulheres. É uma maneira de se referir às origens exclusivamente sociais
das identidades subjetivas dos homens e das mulheres. O gênero é, segundo

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essa definição, uma categoria social imposta sobre um corpo sexuado. Com a
proliferação dos estudos do sexo e da sexualidade, o gênero se tornou uma
palavra particularmente útil, porque ele oferece um meio de distinguir a prá-
tica sexual dos papéis atribuídos às mulheres e aos homens. Apesar do fato
dos (as) pesquisadores (as) reconhecerem as relações entre o sexo e (o que os
sociólogos da família chamaram) ‘os papéis sexuais’, estes (as) não colocam
entre os dois uma relação simples ou direta. O uso do ‘gênero’ coloca a ênfa-
se sobre todo um sistema de relações que pode incluir o sexo, mas que não é
diretamente determinado pelo sexo nem determina diretamente a sexualidade.
(SCOTT, 1995: 07)

Sobre todo o sistema de relações abarcado pelo uso do termo “gênero”, que pode ou
não incluir o sexo e que, portanto, não é diretamente determinado por ele e nem determina
diretamente a sexualidade, têm-se as personagens de Marlene em Der Leone have sept cabe-
ças, e de Cota em Barravento. O peso de ambas para as narrativas alegóricas de seus respecti-
vos filmes está intimamente relacionado às questões da política e da religião. Marlene, “A
Besta de Ouro da Violência”, é quem detém a prerrogativa sobre as políticas colonialistas para
o continente africano, com os três representantes do imperialismo na África dependendo su-
mamente de seus caprichos para alcançarem seus objetivos ao longo do filme. A sua associa-
ção com o simbolismo do livro do Apocalipse bíblico aparece, sobretudo, do ponto de vista
dos povos africanos e daqueles que opõem sua vontade na África (o pregador católico, Pablo
e Zumbi). Entretanto, malgrado todo o seu poder, toda a sua prerrogativa no decorrer de Der
Leone have sept cabeças, Marlene acaba por ser crucificada pelo pregador católico. Para além
da extrema adequação poética de sua morte, o fim de Marlene contém um detalhe muito im-
portante: mesmo com a morte simultânea do agente americano e do comerciante português
pelas mãos de Pablo e Zumbi, o mercenário alemão sobrevive. Se antes, com o programa de
Marlene, a opressão era efetuada pela negociação, pela conversão, e pela manipulação dos
povos africanos e de seus aliados, com uma menor preeminência do elemento armado, agora,
com o mercenário alemão, haverá o oposto: nenhuma negociação, nenhuma conversão, e ne-
nhuma manipulação; somente os disparos das armas. Não é por acaso que o doutor Xobu e os
diversos povos africanos são mortos pelos homens do mercenário recorrentemente. Mais uma
vez, também não é por mero acaso que a luta pela descolonização só pode ter início quando
da eliminação do elemento da negociação, da conciliação, e da substituição do mesmo pelo
elemento armado.
É fato que Marlene se apresenta ao longo do filme como, à título de exemplo, muito
mais passiva em termos de ação e agressividade do que os três representantes do imperialismo
na África. Contudo, a ideia da passividade, da submissão feminina, é posta em questão quan-

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do se torna evidente que estes, malgrado certos momentos de insubordinação (provenientes


exatamente do mercenário alemão), dependem da presença e da boa vontade de Marlene para
terem aquilo que desejam. Até o último momento, quando de sua crucificação pelo pregador
católico, Marlene detém o domínio direto do continente africano como “A Besta de Ouro da
Violência” que a tudo e a todos tem sob o seu controle. A posição de supremacia do homem só
é realmente enfatizada quando o mercenário alemão já não se encontra mais sob o seu julgo. E,
ainda assim, esta também é posta em questão quando se lembra da submissão tão completa
com a qual a recebeu antes disso. O entendimento da quase constante supremacia de Marlene
no transcorrer de Der Leone have sept cabeças depende da compreensão de que sua preemi-
nência está intimamente relacionada às questões da política e da religião, tal como apresenta-
das no decorrer do filme.
Cota, viúva e amante de Firmino, põe em questão a ideia da passividade, da submissão
feminina, a partir de seu próprio corpo e de seu peso como mulher na tradição do candomblé
da comunidade. Primeiramente, como já foi dito antes, quando Cota reage à arrogância e à
agressão de Firmino lhe dizendo que “A carne é minha, e quem faz o preço sou eu! ”. É im-
portante ressaltar a oposição entre as ações e a agressividade de Firmino ao longo de Barra-
vento quando comparadas às de Cota. Firmino encomenda um feitiço para matar Aruã; depois,
corta a rede para que os pescadores decidam resistir à sua condição de miséria e desespero;
em seguida, implora a Cota que seduza e durma com Aruã para roubar-lhe o “encanto”; e,
finalmente, parte para uma luta de capoeira com Aruã. Ora, a maior parte de suas ações e de
sua agressividade são planejadas de modo a que não seja possível atribuir-lhe diretamente a
culpa. Destarte, Firmino passa a maior parte do filme evitando, ou pelo menos não procurando
ativamente, o confronto físico. Cota, por sua vez, tem seu próprio corpo como centro de suas
ações e de sua agressividade. Ela ameaça Firmino ao dizer-lhe que pode se virar sozinha, pois
não tem homem que passe pela comunidade sem ficar de queixo caído por ela; depois, lhe diz
que tem alguma fonte de sustento graças as duas jangadas que recebeu após a morte “do ve-
lho”; e, finalmente, rouba o “encanto” de Aruã após seduzi-lo. O foco em seu corpo, ao con-
trário de limitar a sua personagem a um aspecto em particular, serve para complexificá-la.
Cota está ciente da beleza de seu corpo. Longe de se submeter às expectativas dos homens
com os quais se relaciona, ela exige não só o respeito deles, como também a satisfação das
expectativas que tem a respeito de um relacionamento sério (“Para ser cachorro de dia e mu-
lher de noite, prefiro comer peixe aqui mesmo”). Cota, tendo consciência do poder de seu
corpo, consegue atribuir sentido a si mesma sem se perder em seus atributos físicos, ou seja,

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seu corpo não é um fim em si mesmo, mas antes um meio para atingir os fins que almeja.
Nesse sentido, suas ações e sua agressividade são muito mais diretas do que as de Firmino no
transcorrer do filme. São as ações e a agressividade de Cota, justamente por terem um sentido
diferente das de Firmino, que precipitam barravento ao final do filme: somente a sedução e o
roubo do “encanto” de Aruã são capazes de provocar súbitas e drásticas mudanças no meio da
comunidade de pescadores de xaréu. É somente ela, enquanto mulher e segundo as crenças do
candomblé, que pode realmente mudar o escopo das relações materiais, econômicas e inter-
pessoais no seio da comunidade. Isto se dá, pois, mesmo com a aparente continuidade da hie-
rarquia e do misticismo ao final do filme, Aruã vai tentar a sorte na cidade. Por menor que
seja, eis não apenas a mudança decorrente de sua ação, como também a possibilidade de mu-
dança para toda a comunidade. Para compreender-se a importância da personagem de Cota
para a narrativa de Barravento deve-se, portanto, entender que a sua preeminência também
está intimamente relacionada às questões da política e da religião, tal como apresentadas no
decorrer do filme.

Considerações finais
Em conclusão, tanto Barravento quanto Der Leone have sept cabeças promovem toda
uma estética, toda uma técnica cinematográfica que proporciona a apreensão da questão do
conceito de gênero a partir de novas perspectivas que incluem, para além do sexo, a classe, a
raça, a etnicidade e a religião. Ao tratar tanto de períodos históricos (a descolonização do con-
tinente africano) quanto de estados socioeconômicos nos quais se encontram grupos específi-
cos (a condição de miséria e desespero dos negros), ambos os filmes de Glauber Rocha permi-
tem o esclarecimento da interseccionalidade entre estrutura e agência por intermédio de narra-
tivas alegóricas nas quais as personagens, mesmo não tendo quaisquer relações com pessoas
vivas ou mortas, ainda representam e se encontram no meio de fatos reais. Fatos estes que,
para os casos específicos de Barravento e Der Leone have sept cabeças, são: a exploração
socioeconômica dos negros na África e no Brasil; o ciclo vicioso da sua espoliação que se
perpetua no decorrer de várias gerações; o papel do Estado tanto na África quanto no Brasil, e
a sua intervenção ou não-intervenção neste âmbito; a reação ou não-reação dos negros contra
seus opressores; a falta de perspectiva dos negros quanto a seu futuro, com poucas oportuni-
dades de melhora de vida, seja no meio rural ou no âmbito urbano; o peso da religião na vida
dos negros; o papel da mulher em ambos os filmes; e, finalmente, a complexidade de uma
“realidade social” que não se encontra à revelia do sujeito mas que é, antes, influenciada em

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maior ou menor grau pelo mesmo. Neste último caso, em outras palavras, Barravento e Der
Leone have sept cabeças encerram, em maior ou menor grau, narrativas alegóricas nas quais o
desenrolar da narrativa depende das ações e das atitudes das personagens que, fazendo valer
os seus interesses e as suas perspectivas, não se encontram alheias do processo de produção
das categorizações ou representações culturais e dos entendimentos normativos. Eis a princi-
pal contribuição de Barravento e Der Leone have sept cabeças para o entendimento da inter-
seccionalidade entre estrutura e agência e para a articulação do conceito de gênero, cuja ótica
proporciona novas maneiras de se conceber a “realidade social” a partir das trajetórias dos
sujeitos, das personagens de ambos os filmes. Consequentemente, como exposto, mais uma
vez, por Joan Scott em Gênero: uma categoria útil para a análise histórica,

A exploração dessas perguntas fará emergir uma história que oferecerá novas
perspectivas a velhas questões (como por exemplo, é imposto o poder políti-
co, qual é o impacto da guerra sobre a sociedade), redefinirá as antigas ques-
tões em termos novos (introduzindo, por exemplo, considerações sobre a
família e a sexualidade no estudo da economia e da guerra), tornará as mu-
lheres visíveis como participantes ativas e estabelecerá uma distância analíti-
ca entre a linguagem aparentemente fixada do passado e nossa própria ter-
minologia. Além do mais, essa nova história abrirá possibilidades para a re-
flexão sobre as estratégias políticas feministas atuais e o futuro (utópico),
porque ela sugere que o gênero tem que ser redefinido e reestruturado em
conjunção com a visão de igualdade política e social que inclui não só o sexo,
mas também a classe e a raça. (SCOTT, 1995: 29)

Referências
AGIER, Michel. Distúrbios identitários em tempos de globalização. Mana [online], n. 2, p. 7-33,
2001.

BOURDIEU, Pierre. Esboço de uma teoria da prática – procedido de três estudos sobre etnologia
cabila. Oeiras: Celta, 2002.

BOURDIEU, Pierre. Espaço social e gênese das classes. In: BOURDIEU, Pierre. O poder simbólico.
Lisboa: Difel, 1989.

HALL, Stuart. Raça, o significante flutuante. Revista Z Cultural, ano 8, n. 2, 2013.

KERNER, Ina. Tudo é interseccional? Sobre a relação entre racismo e sexismo. Novos Estudos, São
Paulo, n. 93, p. 45-58, 2012.

PISCITELLI, Adriana. Interseccionalidades, categorias de articulação e experiências de migrantes


brasileiras. Sociedade e Cultura, Goiânia, v. 11, n. 2, p. 263-274, jul./dez. 2008.

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SCOTT, Joan. Gênero: uma categoria útil para a análise histórica. 2. ed. Recife: SOS Corpo, 1995. p.
5-22.

Vídeos

BARRAVENTO. Direção: Glauber Rocha. Salvador: Iglu Filmes, 1962. Película (78 min), son., pb, 35
mm.

DER LEONE HAVE SEPT CABEÇAS. Direção: Glauber Rocha. Mapa Filmes, 1970. Película (103
min), son., cor, 35mm.

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Os ecos de 68 em três acordes: I.S, Juventude e Sex Pistols

Thiago Mendes Crespo1

Resumo: O artigo se debruça sobre a importância da Internacional Situacionista (I.S) para o


movimento denominado “Maio de 68”, ou seja, sua influencia nos jovens estudantes franceses
que tomaram as ruas da França. Se na história a I.S teve um papel atuante, este trabalho
também pretende mostrar que seus ecos vibraram na Inglaterra de Thatcher e ajudaram a criar
a banda síntese do movimento punk: os Sex Pistols. Os dois momentos que serão percorridos
neste artigo tem como temática a não aceitação do status quo, seja pelo sexo, seja pelo corpo.
A juventude rebelde que já foi vista de forma pejorativa, pode ser tratada, através de um viés
sociológico, como construção social, mesmo que para isso precisem fazer barricadas ou usar
piercings. A análise sociológica não ficará restrita a dados bibliográficos, mas também, a
questões audiovisuais. Principalmente o filme de Guy Debord, um dos pensadores seminais
da I.S, e o documentário, The Filth and the Fury, dirigido por Julien Temple. Maio de 68 e o
movimento punk através dos Sex Pistols foram utópicos em busca de um mundo melhor. Sua
duração foi rápida como os três acordes da música punk, mas sua influencia ainda se sente
pelo mundo afora.

Palavras-chave: Maio de 68; Punk, Cultura; Sociedade; Pós-modernismo.

Reverberações

Chegará o dia, meu amor, em que pentearão nossos moicanos.


E que ordenarão nossa anarquia e podarão a árvore mágica dos nossos
jardins.
Como se ela fosse leprofagia.
O que faremos nesse dia, amor?
Quando nos vestirem calças de linho e pesados ternos sobre nossos ombros;
E arranharem nosso semblante com rugas de preocupação...
O que faremos quando corromperem nosso éden virgem com suas negras
vertigens?
E quando condenarem nossos deuses mutantes
Como se eles fossem demônios relutantes...
Eles hão de impor sua cartilha de infundada coerência estafante.
(Gin Margot, in Carta de uma anarquista suicida).

O eco é uma reflexão do som que chega ao ouvinte pouco tempo depois do som direto.
Chama-se reverberação o fato de muitas reflexões que não se pode distinguir uma das outras.
A partir dessas analogias com a acústica proponho neste trabalho refletir sobre o movimento

1
Mestrando do Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade Federal Fluminense (PPGS-UFF).
Bolsista CNPQ – CAPES. Email: cmendesthiago@gmail.com

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de maio de 68, em especial a contribuição da Internacional Situacionista para os fatos


ocorridos na França.

Cada segundo tem a espessura de uma eternidade2


Além disso, usando livremente a metáfora do eco, demonstrar que uma de suas
reverberações, entre muitas, foi o movimento punk, em especial com o surgimento da banda
Sex Pistols na Inglaterra. Um trabalho deste gênero necessita de uma pesquisa bibliográfica e
dados consistentes, pois estamos falando de história, porém aqui pretendo cometer um
“pequeno desvio” como estratégia situacionista, ou seja, reconstruir este artigo
recontextualizando-o com imagens de documentários e filmes, entre os quais destaco a
“Sociedade do Espetáculo” de Guy Debord, um dos pensadores fundamentais da Internacional
Situacionista e o documentário The Filth and the Fury dirigido por Julien Temple, que retrata
a história da banda Sex Pistols.

Quaisquer elementos, não importa de onde forem tirados, podem ser usados
para fazer novas combinações. As descobertas da poesia moderna a respeito
da estrutura analógica das imagens demonstram que quando dois objetos são
unidos, não importa quão distante os seus contextos originais, uma relação é
sempre formada. Se restringir a um arranjo pessoal de palavras é mera
convenção. A interferência mútua de dois mundos sensíveis, ou a união de
duas expressões independentes, supera os elementos originais e produz uma
organização sintética de grande eficácia. Qualquer coisa pode ser usada.
(DEBORD & WOLMAN,1956:02)

A história de do movimento de maio de 68 vai se repercutindo como uma lembrança


cada vez mais distante. As comemorações, feriados, festas, memórias, criação de artigos e
seminários em intervalos. Estamos em 2019, mais um momento especial nessa escala para a
produção de exercícios de reminiscência. Estamos nos 50 anos depois. Na construção de um
conhecimento pertinente, deixando de lado “uma dissecação do cadáver” (MORIN, 1978
apud CARDOSO, 1998:10) que seria uma miscelânea absurda de dados descontextualizados
produzidos pela acumulação retrospectiva sobre o evento de 68. De forma mais simplista diria
que podemos aqui descomplicar as coisas, evitando um caráter acadêmico engessado demais.
Tomemos algumas liberdades e alguns tropeços, pois dessa forma podemos ser mais
generosos com os movimentos históricos e com essas hiperpalavras: maio de 68 e punk.

2
Todas as frases soltas em negrito foram retiradas do filme “Sociedade do Espetáculo” de Guy Debord e do
documentário “No Intenso Agora” de João Moreira Salles.

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Neste sentido usaremos como fio condutor altamente possível de choques, as obras
pós-modernas do sociólogo francês Michel Maffesoli. Uma de suas obras é Homo Eroticus,
onde o sociólogo nos recorda que “o pensamento autêntico sabe contentar-se em ser o eco das
coisas da vida das quais se trata, com serenidade, de revelar o essencial” (MAFFESOLI,
2014:9). E talvez não seja didático demais lembrar que nas reclamações entre os estudantes
franceses estava à questão dos dormitórios separados e também, que a loja onde surge a banda
Sex Pistols era nomeada de Sex. Em dois momentos distintos a juventude , seja ela formada
por estudante, ou composta por roqueiros, estava cansada de uma moralidade burguesa. Um
eco: Moral, sexo, arte e moda.
Além do uso e abuso das imagens da filmografia utilizada na construção deste texto.
As imagens tem a qualidade de contextualizar os dados e nesse caso não deixar que aquela
realidade seja distorcida, ou parafraseando Castells “Pero una realidade sin imágenes es una
realidade apagada”(CASTELLS, 2016:222) . Usando de mais uma metáfora para captar o
espirito contestador, “é preciso saber identificar além ou aquém do chefe vigente, qual é o rei
clandestino de dada época” (SIMMEL, 1981 apud MAFFESOLI, 2014: 10) Seja escrevendo
em muros ou tocando com três acordes, esse artigo é sobre esses espíritos endiabrados que
ousaram destituir o(a) coroas1.

Sejamos realistas; exijamos o impossível

Não esqueçamos o Goofus Bird, pássaro que constrói seu ninho ao avesso e que voa
para traz, porque ele não se preocupa em saber para onde vai, mas de onde vêm.
(Jorge Luís Borges)

A Internacional Situacionista (I.S) foi fundada em 1957 e resultou de uma unificação


de grupos de artistas europeus; O comitê Psicogeográfico de Londres, a Internacional Letrista
e o Movimento por uma Bauhaus Imaginarista. Esses grupos tinham em comum, discussões
sobre arte, cotidiano, urbanismo e arquitetura na cidade. Embora bebessem na fonte do
surrealismo, já era nítida sua ideia de superação. Numa passagem final de “A Miséria do Meio
Estudantil” temos:

Transformar o mundo, e alterar a vida são para ele uma única e a mesma
coisa, as inseparáveis palavras de ordem que acompanharão a sua supressão
enquanto classe, a dissolução da sociedade presente enquanto reino da
necessidade, e o acesso por fim possível ao reino da liberdade. A crítica
radical e a reconstrução livre de todos os procedimentos e valores impostos
pela realidade alienada são o seu programa máximo, e a criatividade liberta
na construção de todos os momentos e acontecimentos da vida constitui a
única poesia que poderá reconhecer, a poesia feita por todos, o iniciar da

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festa revolucionária. As revoluções proletárias serão festas ou não serão


coisíssima nenhuma, porque a vida que anunciam será ela também criada
sob o signo da festa. O jogo é a racionalidade última desta festa; viver sem
tempos mortos e gozar sem impedimentos são as únicas regras que poderá
reconhecer. (I.S, 1966:13)

O movimento dadaísta e o surrealismo seriam apenas meras projeções de dois lados no


que seria uma verdadeira superação da arte. Os dadaístas não tinham um projeto presente da
arte (alterar a vida) e os surrealistas reconheciam a poetização da vida, mas essa poesia, presa
aos processos burocráticos, limitava-a, ou seja, não era para todos. Dessa forma os
situacionistas sempre exploraram a totalidade de suas ações; “A critica radical do mundo
moderno precisa ter agora por objeto e como objetivo a totalidade”. (I.S, 1966:10), que seria o
triunfo para a superação da racionalidade que permeava o meio estudantil. E, apesar de toda a
sua boa vontade, voltam a cair na moral dos professores, na inevitável ética kantiana duma
democratização real através duma racionalização real do sistema de ensino, quer dizer, do
ensino do sistema.
A revolta dos estudantes de Maio de 68 foi influenciada pelos inúmeros panfletos da
I.S, além de algumas obras, das quais cabe destacar: A Miséria do Meio Estudantil (Texto
colaborativo da IS), “A Arte de Viver Para Novas Gerações”, de Raoul Vaneigem, e o
clássico “A Sociedade do Espetáculo“, de Guy Debord.
Essa mazela estudantil atinge os campos da produção, do poder, mas também na
questão sexual. Como são lembrados, no documentário do Silvio Tendler - Utopia e Barbárie
- os estudantes franceses possuíam entre suas reivindicações a questão dos dormitórios
masculino e feminino separados. O movimento começa porque os estudantes de Nanterre se
declararam contra a universidade que insista em legislar sobre assuntos de namoro e sexo.
Essa revolta contra uma moral burguesa se espalhou nas universidades, nas fábricas,
nos muros que com suas frases que ficaram marcadas no imaginário social. Estudantes,
operários, pessoas que queriam participar daquela festa revolucionária. Utopia que não cessou
de participar da vida dos revoltos pelo sistema quo do mundo afora.
Utopia que nas palavras do pensador francês Michel Foucault: “As utopias proletárias
socialistas que têm a propriedade de nunca se realizarem, e as utopias capitalistas que têm a
má tendência de se realizarem frequentemente” (FOUCAULT, 2002:110).
As cenas dos documentários e filmes post festum nos recordam desse período na
França. Foi tudo um sonho – para alguns um pesadelo – onde estudantes e operários

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“pararam” a França e deixaram o velho general sem palavras. O tempo parece ter congelado
como numa fotografia e o presente parecia ser um horizonte para um futuro melhor.

É contra o fraseado melódico dessa temporalidade dialética que se coloca e


se impõe a irrupção do emocional. A erótica social evoca uma outra
temporalidade , ao do Kairos, isto é , da oportunidade, da aventura, sucessão
de instantes centrados na intensividade do momento, a jubilação do efêmero,
a alegria de viver e de gozar do que se apresenta aqui e agora. Ressurgência,
sempre e de novo, atual, o eterno carpe diem. Mas um tal hedonismo popular
que constitui a atmosfera do momento evoca uma outra concepção do tempo:
o presenteísmo.(MAFFESOLI,2014: 22).

Os muros pichados e os carros queimados. As pedras não estão mais no chão, foram
jogadas. Os estudantes fazem comitês. Sorriem embriagados como se acordassem de um
sonho muito bom.

O espetáculo é o mau sonho da sociedade moderna acorrentada, que não exprime


senão o seu desejo de dormir. O espetáculo é o guardião deste sono.

Essa efervescência cultural e social, ou diríamos societal, repercute na pós-


modernidade de Maffesoli, que vai reafirma-la como nosso presente. Presente das novas
tribos que se unem por afetos e desejos. Os políticos e os caretas repetiam: o momento francês
é um exemplo de anomia da sociedade. O sociólogo francês nos recorda: “o anômico de
ontem (hoje) sendo (muito frequentemente) o canônico de amanhã” (MAFFESOLI, 2014:91)
Os situacionistas nos recordam que a arte tem por finalidade a transformação do social em sua
totalidade.

Letristas, situacionistas continuaram tal projeto encarnando-o na vida


cotidiana (...) esses movimentos entendiam ampliar o real em “surreal”.
Stricto Sensu, favorecer uma comunhão com o mundo a partir de todas as
possiblidades oferecidas pelo sonho, pela fantasia e por diversas
fantasmagorias. Isso era um projeto de vanguardista. Ele se capilarizou
amplamente na vida banal. (MAFFESOLI, 2014:65)

Só mesmo a revolução é capaz de nos livrar do peso morto da tradição.

Nas ruas é onde emerge a revolta e onde tudo fica revirado de cabeça pra baixo. O
cotidiano muda porque mudas são as pessoas que não conseguem acompanhar as mudanças,
mesmo que breves, de suas vidas. A arte resplandece nas pichações contra as velhas palavras
nos livros esquecidos nos gabinetes. Como é descrito no documentário “No Intenso Agora”:

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“A vida cotidiana mudou. As mulheres não querem mais voltar pra casa, os
homossexuais não querem mais se esconder, os operários não se sentem mais obrigados a tirar
a boina toda vez que passam diante de um capataz”.
Tudo é decidido na rua

A totalidade neste sentido se reflete em que todos têm o poder da palavra, sejam eles
estudantes, operários ou garçons. Os que não ficaram mudos tem muito que falar. Nas
palavras de Daniel Cohn Bendit: “Ter uma identidade antiautoritária significa introduzir o
prazer na vida cotidiana”.

Esse cotidiano recheado de banalidades como muitos discursos acadêmicos insistem


em reproduzir, essa felicidade e alegria de se aventurar no social. De se agrupar em torno de
uma ética que não condiz com uma hierarquia engessada. Tudo isso ecoa na obra de
Maffesoli.

Esta proposta é prospectiva para falar do momento em que os atos banais da


vida cotidiana se mostram de maneira ostensiva diante do nosso olhar. Mais
do que um simples espetáculo, um show explode diante de nós. A partir do
momento em que o progresso, a ordem linear e racional do mundo não são
mais considerados como imperativos categóricos, a existência social é
devolvida a ela própria. Desta maneira, uma nova forma de viver o cotidiano
vai se formando. (MAIA, 1997: 01)

Alguém escreveu que a revolução deve menos a Marx do que aos surrealistas. Porém
essa afirmação conteria uma contradição clara. Os situacionistas estavam totalmente a par das
obras marxistas. O que eles propõem era fazer um desvio das obras de Marx. Isso fica bem
claro no filme “Sociedade do Espetáculo” de Guy Debord.

O trabalhador não se produz a si próprio, ele produz um poder independente.


O sucesso desta produção, a sua abundância, regressa ao produtor como
abundância da despossessão. Todo o tempo e o espaço do seu mundo se
tornam estranhos para ele, com a acumulação dos seus produtos alienados.
As próprias forças que nos escaparam mostram-se a nós em todo o seu
poderio. O homem separado do seu produto produz cada vez mais,
poderosamente todos os detalhes do seu mundo, e assim, encontra-se cada
vez mais separado do seu mundo. Quanto mais a sua vida é agora seu
produto, tanto mais ele está separado da sua vida.(A Sociedade do
Espetáculo, 1973)

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Quando Sartre entrevistou Daniel Cohn Bendit - no filme “No Intenso Agora” - e
questionou sobre o estranhamento de os jovens estudantes não terem um programa claro,
sendo responsáveis por uma serie de atos de desordem social. Daniel “Le Rouge” respondeu:

A força do nosso movimento é justamente que ele se apoie numa


espontaneidade incontrolável. Todo o programa é paralisante. Nossa única
chance é essa desordem que permite que todo mundo fale livremente. O
importante não é ter um plano para reformar o sistema capitalista. O
importante é dar corpo a uma experiência que rompe radicalmente com esta
sociedade. Uma experiência que não dura, mas que permite entrever uma
alternativa. A gente se dá conta de alguma coisa e num piscar de olhos essa
coisa se apaga. Mas é o que basta para provar que essa coisa pode existir.
(No Intenso Agora, 2017)

Embora o situacionismo tenha sido o motor imaginário de Maio de 68 e suas ações


tenham se repercutido pelo mundo, ainda assim a IS entrou em crise e se desfez em 1972,
porém nas palavras de Debord: “O movimento das ocupações [Maio de 1968] foi o início da
revolução situacionista, mas foi só o começo, como prática da revolução e como consciência
situacionista da história. É só agora que toda uma geração, internacionalmente, começou a ser
situacionista”. (DEBORD, 1972 apud JACQUES, 2003:2).
A pós- modernidade de Maffesoli pode ser um ruído no mundo, nos cantos das
paredes, mas esse barulho diz sempre Sim! Sim para o que é anódino, sim para o bem e para o
mal “Em poucas palavras, isso significa prestar atenção ao que, de um modo espantoso,
levando em conta as diversas imposições sociais, equivale a dizer “sim, apesar de tudo”, para
a vida” (MAFFESOLI, 1996:11).
O mesmo sim que Carlos Heitor Martinez vai reafirmar sobre o aqui e o agora no
documentário do Silvio Tendler. Quando perguntaram ao Maister Eckhart o que ardia no
fundo do inferno, ele respondeu: o que arde no fundo do inferno é o Não!
O velho general francês De Gaulle em seu discurso no rádio em 30 de maio de 68
disse Não. Não iria renunciar e a França não iria cair nas mãos de uma ditadura pelo
desespero da nação. Esse simples jogo de palavra sintetiza bem os dois polos. Sim a vida em
sua totalidade e Não ao prazer da vida.

Considerando segundo os seus próprios termos, o espetáculo é a afirmação da aparência


e a afirmação de toda a vida humana, isto é, social, como simples aparência. Mas a
crítica que atinge a verdade do espetáculo o descobre como a negação visível da vida;
como uma negação da vida que se tornou visível.

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Do It Yourself
O ruído se eletrificou e intensificou-se de tal maneira que seria impossível tapar os
ouvidos e olhos para o que se apresentava a frente da sociedade londrina. Era sujo, malvado,
debochado e mal se entendiam algumas de suas palavras, mas uma delas ficou marcada na
memória de todos aqueles que vivenciaram aquele espetáculo: Estamos falando do punk.
Na chuvosa Londres de 1976 encontramos desemprego, desesperança e pobreza. Um
monte de lixo se acumulava pela cidade. Distúrbios e greves aumentavam o caos social e esse
foi germe - nas palavras do vocalista Johnny “Rotten” - que deu vida aos Sex Pistols. A
banda era composta originalmente pelo vocalista Johnny Rotten, o guitarrista Steve Jones, o
baterista Paul Cook e o baixista Glen Matlock. Matlock foi substituído por Sid Vicious no
início de 1977. Estava formado o grupo seminal do punk inglês.
O punk que nasce neste caldeirão shakespeariano iria contra o cenário musical
soberano, a indústria musical e a “estética padronizada reinante” (GUERRA & STRAW,
2017:5). Se na França os jovens escreviam nos muros e paredes, na Inglaterra os jovens
queriam cuspir na cara dos caretas. Não era apenas música, mas sim uma estética, moda e
contracultura. Não soa tão estranho saber que tudo começa numa loja de roupas.
A loja em questão pertencia a Viviane Westwood e Malcolm Mclaren. Esse casal tinha
concepções bastante subversivas sobre a moda juvenil e muitos antes da formação da banda,
seus integrantes já visitavam a loja. Mais do que um lugar de venda, um ponto de encontro, ou
nas palavras de Maffesoli: “o lugar cria ligação” (MAFFESOLI, 2014:54).
O casal começou sua empreitada com roupas estilo teddy boy que com suas lapelas
aveludadas e bolsos com abas se diferenciando dos outros jovens. Seu topete estilo Elvis
Presley era uma marca dessas tribos. Nas palavras do próprio Malcolm Mclaren, as roupas
pareciam de um pavão real cortejando. A loja foi mudando com o tempo sua própria moda, e
ficando cada vez mais ousada. Roupas fetichistas, camisas com citações situacionistas,
correntes e cadeados. Na frente do estabelecimento, um painel acolchoado de plástico rosa
escrito: SEX. Nesse período germina a semente dos Sex Pistols. Um eco situacionista vibra
em guitarras e em roupas de couro.

Na Inglaterra um grupo de situacionistas associa-se sob o nome de King


Mob. Dentre os situacionistas destacamos Jamie Reid e Malcolm Mclaren. O
trabalho gráfico de Jamie Reid tem uma grande ocorrência com os objetivos
da banda e de Mclaren, que é a busca constante de choque e escândalo.
(GUERRA & STRAW, 2017: 08)

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A banda se forma ao redor do empresário Malcolm que previamente escolheu todos os


integrantes. Nenhum deles sabia realmente tocar algum instrumento. Isso é a síntese do faça
você mesmo. É essa vontade de mudar a vida e ir contra uma sociedade dominante é a força
motriz do punk. Embora existam inúmeras discussões sobre o caráter oficial do movimento
punk como uma cultural musical é imprescindível essa sensação nos jovens de que algo não
esta indo nada bem. Isso repercute em quaisquer épocas, sejam os punks ingleses, sejam os
punks paulistas. Se o Sex Pistols estavam cantando “Não há futuro na Inglaterra” os punks
paulistas estavam berrando: “Abaixo a globo!” (PUNKS, 1983).

Vamos nos repetir um pouco para que o som se faça presente e alguma indigesta razão
se desfaça. É contra certa moral burguesa que os estudantes franceses vão se rebelar e é
querendo destruir uma moral inglesa que os punks vão se agrupar. Essas formações coletivas
giram em torno de uma ética fundada em outros valores.

Às vezes, ela exprime-se enquanto morale stricto sensu, isto é, assume a


forma de uma categoria dominante, universal, rígida, e privilegia com isso, o
projeto, a produtividade e o puritanismo, numa palavra, a lógica do deve-ser.
Às vezes, ao contrário, vai valorizar o sensível, a comunicação, a emoção
coletiva, e será então mais relativa; completamente dependente dos grupos
(tribos) que estrutura enquanto tais será então uma ética, um ethos que vem
de baixo. (MAFFESOLI, 1996:25).

Diz que me ama com paralelepípedos

Vem debaixo dos paralelepípedos ou nas camadas mais pobres, vem da periferia, não
importa o meio e sim a ligação. Podem ser passageiras, porém sua intensidade reverbera. Para
uma boa sociologia talvez possamos dizer que é preciso ter bons ouvidos.

A intuição penetrante, e isso é uma constante nas mudanças de época,


permitem captar quais são as molas escondidas ou o real intimo de certa
sociedade (...). Simmel, numa expressão concisa, tinha chamado isso de <rei
clandestino> Verdadeira potência instituinte que, para além, aquém, ao lado
do poder instituído, rege na totalidade a realidade
social.(MAFFESOLI,2014:99)

Cuidado com seus ouvidos eles tem paredes

Paula Guerra em seu artigo “Punk, ação e contradição em Portugal” define bem a
partir de entrevistas o caráter do punk e do (D.I.Y) para os envolvidos nesse meio.

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Se, por um lado, a nível internacional, os atores entrevistados associam a


bandas como os Ramones e os Sex Pistols o início do movimento, por outro
o punk é visto como algo que sempre existiu, seja enquanto atitude (...) seja
enquanto música praticada nas garagens a partir de um exercício de
mimetismo dos discos que chegavam (GUERRA, 2013:119).

Os Sex Pistols não são a primeira banda punk numa cronologia musical e tiveram um
tempo de duração bem curto - quase um curto circuito - Todavia o choque que causaram não
deixa dúvidas sobre o projeto punk naquele período, mais do que música , eles importunaram
toda a sociedade inglesa se tornando um inimigo público. O rei clandestino chacoalhava ao
som punk.

Para não finalizar


“Acordei na estrada
Rodando como um cigano
Imerso nos seus encantos
Pagando pra não parar
Bebendo com os meninos
Totalmente entregue a Dionísio...”
Tata Aeroplano, Entregue a Dionísio.

O mercado quase como um polvo cheio de tentáculos englobou tudo. As frases


situacionistas já fazem parte do espetáculo publicitário. Camisas com Che Guevara desfilam
por Orlando. O punk foi enterrado vivo e seus suspiros podem ser ouvidos debaixo da terra. O
eco perdeu intensidade e oco é seu contorno.
Algumas críticas foram e devem ser feitas. Pensemos em Maio de 68 e na sua
reprodução imagética. Lembremos-vos das palavras de Daniel “Le Rouge” Cohn Bendit - no
contexto do filme “No Intenso Agora” - para que prestássemos atenção aos cabelos

O que mais chama atenção quando vemos filmes e fotos de Maio de 68 é um


aspecto conversador dos anos 50. Todo mundo tem cabelo curto. Para ele o
movimento estudantil americano foi mais radical e libertário do que o
movimento francês. Em Paris os lideres são todos homens. As mulheres mais
escutam do que falam. Maio de 68 foi essencialmente masculino e nesse
aspecto reproduziu as relações de poder da sociedade. E, além disso, há os
negros. Aqueles que aparecem ao longo das imagens, mesmo os que
aparecem junto aos estudantes estão sempre na extremidade do quadro
(foco). Invariavelmente calados e quase sempre de terno. Nunca são
protagonistas. Nem mesmo atores coadjuvantes, mas figurantes que se
esforçam para nos chamar a atenção. (No Intenso Agora, 2017)

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É penoso ver as imagens de Sid Vicious - um dos integrantes do Sex Pistols - e não
desorientar com sua camisa com o símbolo da suástica nazista. Mesmo numa famosa
entrevista que eles deram ao programa The Bill Groundy Show na BBC é possível ver um dos
asseclas da banda com uma faixa nazista no braço. Tomando por apropriação um trecho do
documentário “Guia Pervertido da Ideologia”, com roteiro do filosofo e sociólogo, Slavoj
Zizek, onde ele nos mostra um show da banda alemã Rammstein, numa de suas músicas:
Reise, Reise.
Onde o filosofo analisa que a banda, famosa por flertar com uma ideologia nazista, na
verdade está tomando alguns elementos ideológicos e liberando eles das suas ligações
nazistas. Isto permite apreciar a banda no seu estado pré-ideológico. A maneira de lutar contra
o nazismo – prossegue Zizek – “é desfrutar desses elementos, ridículos como eles aparentam,
porém, suspendendo o horizonte de significados nazistas. Assim você diminui a importância
do nazismo desde o seu interior” (ZIZEK, 2012). Não sei se é possível usar dessa análise para
o caso do Sid Vicious e de uma forma geral ainda há muitas perguntas a se fazer nesse
horizonte.
Embora nesse humilde artigo estivéssemos tratando de uma ligação – através da arte –
entre os situacionistas e a banda punk Sex Pistols, não podemos afirmar, ou conceituar, que o
punk seria música situacionista, pois os próprios já tinham delimitado essa questão em suas
obras:

Desvio. Emprega-se como abreviação da seguinte formula: desvio de


elementos estéticos pré-fabricados. Integração de produções artísticas atuais
ou antigas numa construção superior do meio ambiente. Neste sentido, é
impossível existir uma pintura ou música situacionista, o que pode ocorrer é
uma utilização situacionista destes meios (I.S, 1997 apud HERMANN,
2005:6874)

O que nos sobra então?


O cotidiano.

Devemos estar à altura do cotidiano. (WEBER apud MAFFESOLI, 2014:31).

O punk não morreu, mas sim se adaptou, ou em outras palavras, ele de forma
antropofágica, em cada local, reiniciou, com as características de cada lugar. Olhemos
embaixo dos paralelepípedos, escutemos no underground, as bandas punks. Seu discurso
continua vivo e sua chama dionisíaca permanece acesa. O punk não pertence àlguma banda
em especial e sua forma não foi assimilada pela indústria cultural. O movimento punk no seu

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apanágio é faça você mesmo, Ele pertence a todos e não é de ninguém. Conforme Guerra e
Straw: “Cultura, cena, estética, forma musical; o punk é subversão e estilhaço. É tudo ou
nada: um cosmo de possibilidades” (GUERRA & STRAW, 2017:11).
A arte dos situacionistas pode ter sido engolfada pelos movimentos publicitários, mas
o que dizer da arte do dia a dia? Dos muros das nossas cidades que nos lembram, para bem e
para mal, que a técnica da arte é de todos. A totalização tão cara aos situacionistas não se
encontra justamente nas situações cotidianas?

Talvez, para falar dessa estetização galopante, do ambiente especifico que


ele segrega, fosse preciso retomar a expressão alemã <Gesamtkunstwerk>,
obra de arte total. Uma arte que vai ser observada na ultrapassagem do
funcionalismo arquitetural ou na do objeto usual. Do quadro de vida, até a
propaganda do design doméstico tudo parece se tornar obra de criação, tudo
pode ser compreender como a expressão de uma experiência estética
primeira. A partir de então, a arte não pode ser reduzida unicamente a
produção artística, entendida aqui como a dos artistas, mas torna-se um fato
existencial. Fazer de sua vida uma obra de arte, não se tornou uma injunção
de massa?(MAFFESOLI, 1996:12)

Faça você mesmo.


Esse é som do eco.
Essa é a máxima das palavras nos muros.
Essa é a violência dos riffs de guitarra.

Para não concluir com conceitos e fórmulas e apenas deixar claro o papel desse artigo
na sua construção de noções, se podemos descobrir - ou tirar a coberta - que uma ética
atravessou tanto os situacionistas e os punks ingleses, pois essa ética segundo Maffesoli é a
argamassa que do ser/estar no mundo. A estética como uma forma de descrever tingindo o
estilo de uma época. O estilo dos punks.
Para o sociólogo francês essas duas palavras andam juntas em seu trajeto pós-
moderno. Uma ética da estética. A razão tenta organizar o caos, mas o cotidiano sempre está
lá pulsando e não pode ser reduzido a conceitos artísticos ou domesticado por uma moral
burocrática. Esse mundo de afetos e desafetos, essas festas e comunhões, revoltas e crises,
tudo isso faz a ligação. Unindo estudantes franceses. Agrupando jovens ingleses.

É Isso que pode servir de pano de fundo à estética e a sua função ética. O
fato de experimentar em comum suscita um valor, é vetor de criação. Que
esta seja macroscópica ou minúscula, que ela se ligue aos modos de vida, à
produção, ao ambiente, á própria comunicação, não faz diferença. A
potência coletiva cria uma obra de arte: a vida social em seu todo, e em suas
modalidades. É portanto, a partir de uma arte generalizada que se pode

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compreender a estética como faculdade de sentir em


comum.(MAFFESOLI,1996:28)

Sentir em comum, comunidade, comunhão.


Participar de uma revolução foi o sonho dos estudantes franceses.
Cuspir na moralidade foi o ato dos ingleses.
Ambos de forma coletiva.
Nas ruas.
Nas roupas.

Sejamos francos e consideremos que tudo isso é apenas utopia, que todo esse
parafraseado é mera distração social. Que a arte é apenas uma mercadoria, um luxo de
poucos. Um fetiche que nos aliena. Sejamos um pouco brandos, ou em outras palavras, com
certa ausência de rigidez moralista ou escolástica. Recordemos desses breves momentos de
Maio de 68 ao som de uma banda punk. Afinal para que serve essas utopias? Fiquemos com
as palavras de Fernando Birri, citadas, pelo falecido escritor uruguaio Eduardo Galeano:

A utopia está lá no horizonte. Me aproximo dois passos, ela se afasta dois


passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu
caminhe, jamais alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: para
que eu não deixe de caminhar.

Caminhemos!

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Encontro de Geógrafos da América Latina. Março de 2005. Universidade de São Paulo. Disponível
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“Utopia e Barbárie”. Direção de Silvio Tendler. 2009. Brasil.

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GT 2

Estado e
Poder:
Ditadura
Brasileira

Organizadores:
Marcos O. Bezerra (PPGS/UFF)
Joana Ferraz (GSO/UFF)
87

Corporativismo e movimentos sociais: Movimento estudantil na era Vargas


(1930-1945)

Miguel Lima da Silva1

Resumo: Este trabalho faz uma investigação acerca das relações entre Corporativismo e
Movimentos Sociais ocorridas durante a Era Vargas (1930-1945), estabelecendo uma
comparação entre o controle social do Estado sobre o Movimento Sindical e sobre o
Movimento Estudantil do país ao longo do período.

Palavras-Chave: Corporativismo; Movimento Estudantil; Era Vargas.

Introdução
O presente trabalho tem por objetivo analisar a atuação do Movimento Estudantil ao
longo da Era Vargas (1930-1945) em comparativo com o Movimento Sindical e o
Corporativismo ao qual este foi submetido pelo Estado Varguista, em base de atuação urbana.
Pretende-se investigar se as lutas pautadas pelos estudantes estavam em consonância com as
lutas sindicais, bem como se foram ou não cooptadas pelos regimes do Governo Provisório
(1930-1934), Governo Constitucional (1934-1937) e Estado Novo (1937-1945). Através do
comparativo entre Movimento Estudantil e Movimento Sindical por base no Corporativismo,
à pesquisa busca estabelecer um panorama entre a relação Estado e Movimentos Sociais,
ampliando a discussão acerca do controle social vigente na Era Vargas. A hipótese deste
trabalho é de que o Movimento Estudantil, assim como o Sindical, foi cooptado pela ação
corporativista do Estado à época, estendendo a atividade de controle social a todos os
Movimentos Sociais já existentes ou que estivessem começando a se organizar e existir.
atuação do Movimento Sindical em meio ao Corporativismo e, por outro, a atuação do
Movimento Estudantil, de modo a correlacionar teoricamente se houve ou não um controle
por parte do Estado Varguista sobre o Movimento Estudantil vigente à época.

Pré-revolução de 1930
Em finais da década de 1920 o Brasil possuía como principal política econômica a
exportação de produtos agrícolas, evidenciadas pelo cacau, algodão, couro e peles e

1
Graduando do curso de Bacharelado em Ciências Sociais pela Universidade Federal Fluminense (UFF).
E-mail: miguel_lima@id.uff.br

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especialmente o café, que às vésperas da Revolução de 1930 representava 72,5% do total de


produtos exportados pelo país, ao passo que o Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro, no ano
de 1930, marcava 30,6% para a participação econômica da Agricultura. Esse panorama
econômico era tanto causa quanto consequência do arranjo político conhecido como “Política
do Café-com-Leite”, que ao longo dos anos da Primeira República (1889-1930), a iniciar com
o governo de Campos Sales (1898-1902), revezou na presidência da república as oligarquias
de São Paulo e de Minas Gerais ligadas ao setor agroexportador, através de representantes do
Partido Republicano Paulista (PRP) e do Partido Republicano Mineiro (PRM), contando ainda
com o apoio das elites agrárias de outros estados do Brasil. Essa política, além de determinar
a vigência do regime que alternava paulistas e mineiros, devido ao poder que o setor da
agricultura representava na economia nacional, fez também com que a agricultura se tornasse
cada vez mais prioritária e privilegiada pelas políticas econômicas.
Esse laço político, porém, tornou-se um conflito político nas eleições de 1930, quando
os oligarcas paulistas decidem romper laços com os oligarcas mineiros e lançar o candidato
Júlio Prestes à presidência, uma vez que era o momento dos mineiros indicarem o presidente,
visto que o vigente era Washington Luiz (1926-1930), também lançado pelos paulistas. A
elite de Minas Gerais decidiu, então, apoiar a candidatura de Getúlio Vargas, reconhecido
político sulista, junto com o apoio de políticos do Rio Grande do Sul, da Paraíba e de outros
estados descontentes com o regime, no que ficou conhecido como Aliança Liberal. Além
disso, economicamente o país se encontrava em uma fase instável, vítima da crise mundial de
1929, que refletiu no Brasil com a queda do preço internacional do café e a consequente crise
de superprodução cafeeira, acentuando-se ainda a progressiva diminuição do poderio da
agricultura no PIB brasileiro que vinha desde décadas anteriores, passando de 35,8% em 1910
para 32,0% em 1920 e 30,6% em 1930. Com a vitória de Júlio Prestes tendo vários indícios de
fraudes eleitorais e o alto descontentamento popular gerado pelo governo de Washington Luiz
e suas políticas protecionistas ao café frente uma crise de superprodução cafeeira e crise
externa de 1929 que geraram alto desemprego, a Aliança Liberal organizou junto ao Exército
e à Marinha um levante que destituiu o paulista da presidência e entregou o cargo a Getúlio
Vargas, então visto como liderança pelos descontentes (LEOPOLDI, 2003).
O Movimento Sindical até 1930 constituiu certa consolidação, com base nas lutas que
foram travadas até aquele momento, principalmente por bases materiais (redução da jornada
de trabalho, aumento salarial, melhores condições de trabalho) e por meio de greves. Essas
movimentações geraram o primeiro registro de lei a respeito de Movimentos Sindicais

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Urbanos, o Decreto-lei n. 1.637 de 05 de janeiro de 1907, que oficializam os sindicatos


enquanto associações livres de trabalhadores e sem vínculo com o Estado. Não obstante, o
Movimento Sindical ao longo das décadas seguintes à sua oficialização por decreto
evidenciou atuação de alcance nacional, a partir de greves gerais, principalmente no período
de 1917 a 1920, e começou a assumir forte cunho ideológico, ao passo que a ideologia
anarquista foi vanguarda dessas greves gerais e, consequentemente, foi amplamente difundido
entre os trabalhadores do país (pois até aquele momento permanecia concentrada na parcela
de trabalhadores estrangeiros) e, também através dessa relação com a base, funda-se o Partido
Comunista Brasileiro (PCB) em 1922 (BATISTELLA, 2015).
Já a participação estudantil na história do Brasil até 1930 nunca chegou a ser de fato
constituída enquanto um movimento político coletivo e nacional. Segundo Antonio Mendes
Junior (1981), as participações estudantis costumavam ser mais voltadas às atividades
culturais e intelectuais e, quando políticas, resumiam-se a levantes individuais ou coletivos
que não conseguiam se firmar e perpassar as gerações. Os grandes centros de onde provinham
ações políticas de estudantes no país eram as Universidades, nacionais ou exteriores (filhos
das elites brasileiras iam estudar fora), geralmente as Faculdades de Direito e as Escolas
Militares. Ainda assim, o anseio de um movimento estudantil unificado e nacional fez com
que em 13 de agosto de 1929, um grupo de estudantes universitários de todas as escolas
superiores do Rio de Janeiro (então Distrito Federal), mais os representantes das escolas
Naval e Militar, em assembleia promovida pelo Centro Acadêmico Cândido de Oliveira
(CACO), da Faculdade Nacional de Direito, fundasse a Casa do Estudante do Brasil, a
primeira entidade estudantil de âmbito nacional visando à assistência social aos estudantes e a
promoção, difusão e intercâmbio de obras e atividades culturais. No mais, a única
participação que merece nota nessa época é a dos estudantes das Escolas Militares, que
enquanto tenentes desempenharam papel considerável no apoio a Revolução de 1930 e na
destituição do governo de Washington Luiz, pondo fim à “Política do Café-com-Leite”.
(FIEGENBAUM; SCHEINEIDER; MACHADO, 2012)

Governo provisório (1930-1934)


Ao assumir a presidência logo após a Revolução de 1930, Getúlio Vargas busca
primeiramente equilibrar a situação do café no mercado internacional, comprando boa parte
das safras do produto dos estoques paulistas, estabelecendo cotas de café inferior para serem
queimadas de forma a estabilizar o preço do produto no mercado internacional, e

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estabelecendo acordos com inúmeros novos países para a exportação de café. Ainda assim,
Vargas decide combater o protecionismo à produção cafeeira e o predomínio do modelo
agroexportador, respondendo a crise com o apoio ao crescimento industrial, tanto com
investimento estatal quanto fomentando o investimento do empresariado nacional
(LEOPOLDI, 2003). Dessa maneira, Getúlio tenta estabelecer todo um aparato estatal de
modo a atrair as classes ligadas com a produção industrial e a vida urbana, incluindo os
movimentos sociais. A partir disso, o governo começa a intervir no Movimento Sindical
através do Ministério do Trabalho, Indústria e Comércio, com o Decreto nº 19.770, de 19 de
Março de 1931, que estabelece que os sindicatos só funcionariam com a aprovação oficial do
Ministério, aparelhando-os para evitar que se opusessem politicamente ao regime. Não
obstante, o mesmo é feito com o Movimento Estudantil através da Casa do Estudante do
Brasil, através de seu reconhecimento pelo Ministério da Educação com o Decreto nº 20.559,
de 23 de outubro de 1931, como a “iniciativa de filantropia privada que mais de perto consulta
aos interesses da nacionalidade de vez que os seus fins abrangem as mais justas
reivindicações da classe acadêmica”.
Mesmo assim, todo o aparato estatal construído não conseguiu impedir a eclosão da
Revolução Constitucionalista de 1932, onde estudantes participaram ativamente. Esse
movimento se constituiu a partir do descontentamento popular proveniente dos paulistas com
o desfavorecimento da política econômica cafeeira em prol da industrialização nacional,
acrescentada da falta de legitimidade do regime de Governo Provisório varguista, que ao
assumir dissolveu o Congresso Nacional e destituiu a constituição federal anterior e até aquele
momento não havia promulgado uma nova, nem convocado novo Congresso Nacional,
governando apenas por decretos e nomeando para os estados interventores não eleitos e,
especificamente para o estado de São Paulo, um interventor não-paulista. Portanto, em 1932,
diversas pessoas se mobilizaram, principalmente no estado de São Paulo, para exigir uma
Assembleia Constituinte, e entre essas ações estavam estudantes de diversos Centros
Acadêmicos e Ligas Acadêmicas das Universidades paulistas, destacando-se quatro
estudantes: Euclides Miragaia, Mário Martins de Almeida, Dráusio Marcondes de Sousa e
Antônio Américo de Camargo Andrade, que foram assassinados ao investirem contra a sede
do Partido Popular Paulista, que estava ao lado do governo varguista. A morte desses
estudantes foi o estopim para o confronto armado entre os revolucionários constitucionalistas
e o governo, culminando também com a criação da sigla para a principal organização criada
pelo Movimento Constitucionalista: MMDC (Miragaia, Martins, Dráusio e Camargo)

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(POERNER, 2004). O conflito terminou ainda em 1932 com a rendição do Movimento


Constitucionalista e seu exército. Mesmo assim, algumas de suas reivindicações foram
atendidas pelo governo federal, como a nomeação de um interventor civil e paulista no Estado
de São Paulo, a convocação de uma Assembleia Constituinte e a promulgação de uma nova
constituição, em 1934. Ainda sobre o Movimento Constitucionalista, deve-se ressaltar que ele
não envolvia pautas especificamente estudantis, mas que a participação de movimentos
ligados aos estudantes foi fundamental para fortalecer a ação e trazer à tona uma pauta
estudantil sobre a fundação e institucionalização de uma organização de base, que atendesse o
movimento estudantil e as reivindicações sociais consideradas importantes.
Em relação ao Movimento Sindical, é importante anunciar que o Corporativismo
estatal atuante sobre ele ficou restrito à regra de enquadramento sindical, já citada
anteriormente, e na atuação do Estado enquanto mediador dos acordos entre sindicatos de
patrões e de trabalhadores pela Justiça do Trabalho. Acerca do controle sobre os sindicatos,
até esse período predominava a lógica da repressão (VIANNA, 1976; GOMES, 1988).

Governo constitucional (1934-1937)


Com a nova Constituição aprovada em 1934, Getúlio Vargas passa a ser o presidente
constituinte e com agora garantias constitucionais de permanecer no cargo até 1938, quando
deveria convocar novas eleições. Destaca-se durante o Governo Constitucional a grande
acentuação político-ideológica que tomou conta do país, tanto em consequência da
turbulência interna devido à Revolução Constitucionalista de 1932, quanto aos
acontecimentos externos como a evidência da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas
(URSS) enquanto potência global e a chegada ao poder dos Partido Nacional Fascista na Itália
e Partido Nazista (Nacional-Socialista) na Alemanha. Devido a sua inserção, ainda que
pequena, no cenário internacional, o Brasil sofreu consequências dada a disparidade que se
criou ideologicamente no mundo, com a criação da Ação Integralista Brasileira (AIB), de
cunho fascista, em 1932, que a partir do Movimento Estudantil e da juventude criou a
Juventude Integralista em 1934; e a criação da Ação Nacional Libertadora (ANL), em
resposta a AIB, de cunho anti-imperialista, antifascista e anti-integralista, apoiada pelo
Partido Comunista Brasileiro (PCB), que se organizava por meio do Movimento Estudantil e
da juventude nas Juventude Comunista, União Democrática Estudantil, Federação Vermelha
dos Estudantes e Frente Democrática da Mocidade. Essa politização da juventude e dos
estudantes, ainda que conflituosa entre si, foi amadurecendo a ideia da criação de uma

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entidade que pudesse representá-los a nível nacional. Observando esse panorama da classe
estudantil, a Casa do Estudante do Brasil convocou para o ano de 1937 o I Conselho Nacional
de Estudantes, tendo em vista assumir a posição de agremiação estudantil em âmbito nacional.
Porém, devido ao seu caráter pouco democrático (não houve eleições para a diretoria desde
sua fundação), sua falta de diálogo com a base estudantil, além de sua ligação com o governo
e sua tentativa de despolitização do movimento (a entidade se negou a realizar debates
políticos no Conselho), a Casa do Estudante do Brasil foi recusada enquanto instituição e o I
Conselho Nacional de Estudantes foi um fracasso nesse ponto, mas serviu de aprendizado
enquanto ponto de partida para que as entidades estudantis presentes pudessem se organizar e
convocar, para o ano de 1938, o II Congresso Nacional de Estudantes, que mudaria
definitivamente os rumos do Movimento Estudantil Brasileiro (MENDES JUNIOR, 1981;
POERNER, 2004). Paralelamente ao fracasso do I Conselho Nacional de Estudantes, as
respectivas juventudes da AIB e da ANL ainda efervesciam politicamente e efetivaram
inúmeros conflitos no período, em manifestações contrárias entre si e contra o governo. Ao
passo que, descontente com o Congresso Nacional e com o receio de que houvesse uma
crescente instabilidade política a partir dos enfrentamentos entre integralistas e comunistas,
Getúlio Vargas decide dar um Golpe de Estado, destituindo o Legislativo, e dissolvendo tanto
a Ação Integralista Brasileira quanto a Ação Nacional Libertadora.
Tanto a Constituição de 1937, quanto o golpe do Estado Novo em 1938 demarcaram,
para a relação entre Estado e Movimento Sindical, uma mudança estratégica que colocou o
trabalho enquanto um dever de todos e a desocupação como crime contra o Estado, investindo
na figura do cidadão-trabalhador e na implementação da organização sindical. Foi justamente
nesse momento que começou a surgir um forte controle social através do Corporativismo
(VIANNA, 1976; GOMES, 1988).

Estado novo (1937-1945)


A partir do Golpe de Estado dado por Getúlio Vargas em 1937, institui-se o Estado
Novo, ditadura que perduraria por 8 anos, até 1945. Vargas justificou a instituição do Estado
Novo de maneira a organizar a estrutura política de acordo com as necessidades econômicas
do país.
Ainda que com a instauração de um regime antidemocrático, o II Congresso Nacional
de Estudantes não foi desmarcado e ocorreu ao final do ano de 1938. Destacam-se no
Congresso, que ocorreu na cidade do Rio de Janeiro com mais de 80 entidades estudantis

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universitárias e secundaristas, o definitivo rompimento dos estudantes com a Casa do


Estudante Brasileiro e fundação da União Nacional dos Estudantes (UNE), constituída de
forma mais democrática e pela base, como reivindicação estudantil. Ao longo do congresso,
inúmeros debates políticos foram traçados, demonstrando que os estudantes buscavam inferir
e influenciar nas tomadas de decisão da vida social, política e até governamental. Ainda
assim, a participação das juventudes da AIB e da ANL foram extremamente tímidas, e o
caráter político do congresso não chegou a ser de crítica antigovernamental pela instauração
da ditadura do Estado Novo, pelo contrário, Getúlio Vargas foi aclamado presidente de honra
do congresso e o Ministério da Educação, na figura de Gustavo Capanema, ajudou a presidir
sessões, de maneira que ambos se posicionaram totalmente favoráveis a acolher e estudar as
sugestões de ordens econômicas, sociais e culturais colocadas pelos estudantes ao longo do
congresso (POERNER, 2004).
Após sua definitiva criação e a eleição de sua diretoria, os anos seguintes da UNE
foram de vida política pouco acentuada, seja em lutas nacionais ou internacionais, e ainda que
com Congressos anuais, assim como as eleições de diretorias, os anos de 1939 a 1942 se
destacaram apenas com a criação da carteira única do estudante (1939), a criação do teatro da
UNE (1940), e principalmente com a movimentação dos estudantes em prol da siderurgia
nacional, apoiando a criação da Companhia Siderúrgica Nacional, tese inclusive tirada no II
Congresso Nacional de Estudantes, em 1938. Mesmo com a eclosão da Segunda Guerra
Mundial (1939-1945), o máximo que a entidade se posicionou sobre o conflito foi um
manifesto, em 1939, pedindo paz entre as nações em guerra. O cenário de marasmo político
dentro da entidade começou a mudar a partir do V Congresso Nacional de Estudantes, em
1942, que com a nova gestão posicionou-se em relação à Segunda Guerra Mundial, fazendo
passeatas e campanhas para pressionar o governo brasileiro a se colocar em favor dos Aliados
e contra o Eixo e a ideologia nazifascista. Uma das passeatas, inclusive, culminou na
ocupação do prédio do Clube Germânia (local de encontro entre nazistas e base de
espionagem alemã) no Rio de Janeiro pelos estudantes, que reivindicaram ao presidente
Getúlio Vargas e conquistaram o prédio para sede da UNE. A entidade também fez
campanhas para arrecadação de dinheiro para as Forças Armadas, assim como em prol do
alistamento na Força Expedicionária Brasileira (MENDES JUNIOR, 1981; POERNER,
2004). Ainda em 1942, Getúlio Vargas lança o Decreto-Lei nº 4105, de 11 de Fevereiro de
1942, que institucionaliza a União Nacional dos Estudantes enquanto entidade representativa
do corpo discente nacional.

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A entrada oficial do Brasil ao lado dos Aliados em 1942 na Segunda Guerra Mundial
fragilizou internamente o governo ditatorial de Vargas e abriu espaço para a luta pela
redemocratização e crescimento das oposições frente a essa postura contraditória de combate
ao nazi-fascismo no cenário internacional e maior proximidade de fato com o fascismo nas
práticas e posturas internas. À vista disso, o aparato estatal varguista buscou acionar
dispositivos que fossem além da repressão para manter o Movimento Sindical sob controle
com a consolidação do projeto político trabalhista de disciplinamento dos trabalhadores. Aí
nasceria o Corporativismo Sindical na Era Vargas (VIANNA, 1976; GOMES, 1988; COSTA,
1999). Para tanto, articulou-se uma poderosa campanha de propaganda política pelo
Departamento de Imprensa e Propaganda, com discursos de valorização que se apropriaram e
procuraram ressignificar os símbolos da própria classe trabalhadora, na tentativa de
apagamento das conquistas e lutas dos trabalhadores em favor de uma ideologia de outorga.
Além disso, buscou-se atrair mais trabalhadores para os sindicatos, de forma a torná-los
instrumentos efetivos de representação, a partir de chamadas para a sindicalização por meio
de discursos presidenciais, a criação de iniciativas que promovessem a sindicalização e
principalmente através de práticas assistencialistas. O que conquistou o apoio dos próprios
empresários, visando à contenção dos avanços de organizações de trabalhadores, a essas
pautas governamentais que atrelaram os sindicatos ao Estado e os mantiveram privados de
liberdade e autonomia. Essa dinâmica de mobilização e repressão, que ao mesmo tempo em
que garantia direitos também limitava a organização dos trabalhadores, fortaleceu-se com a lei
de esforço de guerra, onde a batalha de produção foi usada na construção de um discurso
patriótico que buscou convencer os trabalhadores do seu papel como soldados e da
necessidade de certos sacrifícios. Nesse contexto, inúmeros direitos trabalhistas foram
suspensos, entre os quais a jornada de trabalho que foi estendida para dez horas, a ausência no
trabalho a partir do oitavo dia passou a ser considerada como abandono de emprego e as
greves foram consideradas crimes contra a segurança nacional. Essas posições do governo
ocasionaram a insatisfação dos trabalhadores, de modo que foram organizadas greves que
continuaram até 1945 (VIANNA, 1976; GOMES, 1988; COSTA, 1999).
Não obstante, em 1943, o governo federal buscou criar a Juventude Brasileira,
instituição que fosse subordinada ao Estado e com moldes de cunho fascista, para cooptar
também o Movimento Estudantil. A UNE se posicionou contrária a esta formulação e
inclusive fez o governo recuar de sua proposta. Portanto, paralelamente à sua atuação perante
o combate ao nazi-fascismo na Segunda Guerra Mundial, a UNE fez movimentos em prol da

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democracia e da anistia dos presos políticos pelo regime do Estado Novo, realizando uma
passeata em 1943 criticando a falta das eleições previstas para aquele ano e permanecendo em
atividade crítica ao regime com passeatas e comícios até 1945, com a vitória da campanha
pela anistia (MENDES JUNIOR, 1981; POERNER, 2004).
Com o fim da Segunda Guerra Mundial em 1945, tanto as greves do Movimento
Sindical quanto as passeatas do Movimento Estudantil tomaram contornos maiores junto ao
clamor popular em busca da redemocratização do país. As greves foram veementemente
condenadas pelos sindicatos corporativistas, que apesar disso diziam reconhecer as
dificuldades financeiras enfrentadas pela população, a necessidade de um salário razoável, a
estabilização dos preços e a defesa dos direitos conquistados pelos trabalhadores. Muitos
trabalhadores em greve, então, reivindicaram negociar diretamente com a empresa em que
trabalhavam, não aceitando negociações por parte dos sindicatos ou do Estado, insistindo em
acompanhar o andamento das negociações e até negociando sem a presença dos sindicatos,
demonstrando a desconfiança nutrida por eles em relação à entidade de classe, o que gerou
uma desconfiança mútua. Isso demonstra que foram os trabalhadores organizados nos seus
locais de trabalho que deram o tom das grandes manifestações operárias no período de
democratização do país.
O protagonismo social e político dos sindicatos nesse período e nos anos subsequentes
dependeu da capacidade de traduzirem para a ação sindical as múltiplas demandas nascidas no
espaço fabril. Ainda assim, a classe trabalhadora se viu dividida pela redemocratização em
1945, ao passo que Vargas buscava realizar uma redemocratização de forma que se
mantivesse no poder (inclusive em busca de reorganizar os aparatos estatais ligados aos
trabalhadores) e posteriormente à afirmação do fim da Segunda Guerra Mundial, e o general
Eurico Gaspar Dutra, Ministro da Guerra, buscava realizar o quanto antes as eleições, tendo
em vista que pela Constituição de 1937 elas já deveriam ter ocorrido em 1943, mas sendo
adiadas pela inserção do país na Guerra. A partir daí, enquanto setores ligados ao Partido
Comunista Brasileiro (PCB) aderiram à campanha queremista sustentada pelos partidários de
Getúlio Vargas e a condenação dos movimentos grevistas, encarados como um estopim
perigoso a ser usado pelos setores reacionários contrários à democratização que se processava
no país, outros movimentos de trabalhadores defendiam o quanto antes as eleições
presidenciais, que acabaram sendo o rumo tomado pela política no país (VIANNA, 1976;
GOMES, 1988; COSTA, 1999).

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Já o Movimento Estudantil, com a vitória da companha pela anistia em 1945 e a


libertação de diversas lideranças políticas, teve uma reorganização da política em plano
nacional, afetando inclusive a UNE, e também se viu dividida com a cisão entre o Movimento
Estudantil até então bem unificado entre forças políticas comunistas que apoiavam Luís
Carlos Prestes, secretário-geral do PCB, e o movimento queremista por ele apoiado, que
reivindicava a permanência de Getúlio Vargas como presidente, e as forças políticas que
exigiam o imediatismo de novas eleições, que representavam a maior parte dos estudantes e
que acabaram apoiando a União Democrática Nacional (UDN), que representava,
aparentemente, uma nova alternativa política (MENDES JUNIOR, 1981; POERNER, 2004).
Esse se constituiu o novo arranjo do Movimento Estudantil até o fim do Estado Novo e a
destituição de Getúlio Vargas da presidência da república.

Considerações finais
Em um comparativo até 1930, percebe-se que o Movimento Estudantil ainda carecia
de uma coletividade e abrangência nacional, ao passo que o Movimento Sindical já possuía
em suas bases essa articulação. Isso foi primordial para que dada a Revolução de 1930,
Getúlio Vargas utilizasse Decretos para estabelecer relações de controle entre o Estado e os
Movimentos Sociais, sendo que para o Movimento Sindical, por conta de seu histórico,
estabeleceu um controle social maior, determinando quais sindicatos eram oficiais ou não,
enquanto que para o Movimento Estudantil, apenas estabeleceu a afirmação de um
movimento com abrangência nacional, quase como um incentivo, denotando pouca
preocupação, mas sem deixar de lado o controle social sobre tal. Não obstante, o Governo
Provisório (1930-1934) e o Governo Constitucional (1934-1937) denotaram uma política
maior de repressão estatal sobre os Movimentos Sociais do que propriamente de controle
social por meio de corporativismo. Os Movimentos Sociais assumiram pautas regionalistas, o
que também foi o estopim para motivar o Governo Federal a se utilizar do corporativismo
para centralizar mais seu poder.
Essa centralização de poder é representada pelo Governo do Estado Novo (1937-
1945), que institui fortemente corporativismo como pauta para controle dos Movimentos
Sociais. Em um primeiro momento essa atuação surte efeito ao conseguir controlar a classe
trabalhadora por meio dos sindicatos oficiais e ao conseguir participar politicamente do II
Congresso Nacional de Estudantes e da Fundação da União Nacional dos Estudantes (UNE)
em 1938. Porém, em meados de 1942, esse controle corporativo começa a decair, devido às

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disputas ideológicas vigentes na Segunda Guerra Mundial, que incidiram diretamente na


relação entre Estado e Movimentos Sociais, de modo que foram feitas greves e passeatas
pelos Movimento Sindical e Movimento Estudantil para reivindicar a redemocratização do
país. Aqui denota uma comparação importante entre o Movimento Sindical, que devido ao
corporativismo foi contra as greves e atuou ao lado do Governo Federal, enquanto o
Movimento Estudantil impediu o corporativismo estatal de controlar seu movimento e
pressionou fortemente o Governo Federal para a redemocratização, o que contraria a hipótese
inicial deste trabalho.
A partir da discussão da redemocratização em si que os Movimentos Sociais se
tornaram ainda mais conflituosos, ao passo que se dividiram entre aqueles que apoiavam o
Getúlio Vargas e uma redemocratização com a manutenção dele no poder, e entre aqueles que
reivindicavam o imediatismo das eleições presidenciais.

Referências
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1. Joaçaba: UNOESC, jan./jun. 2015.

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Disponível: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto-lei/1937-1946/Del4105.htm>. Acessado
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FIEGENBAUM, Jones; SCHENEIDER, Patrícia; MACHADO, Neli T. G.. Movimento Estudantil


Universitário: história do Diretório Central de Estudantes da Univates. Lajeado: Editora da
Univates, 2012.

História da UNE. São Paulo: Portal União Nacional dos Estudantes, 2011. Disponível:
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1945): a política econômica em tempos de turbulência. In: O Brasil Republicano: O tempo do
nacional-estatismo – do início da década de 1930 ao apogeu do Estado Novo. Livro 2. Rio de Janeiro:
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MENDES JUNIOR, Antonio. Movimento Estudantil no Brasil. São Paulo: Brasiliense, 1981.

POERNER, Arthur José. O poder jovem: história da participação política dos estudantes
brasileiros. 5. ed. Rio de Janeiro: Booklink, 2004.

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GT 3

Identidades

Organizadores:
Jair de Souza Ramos(PPGS/UFF)
Flávia Rios (PPGS/UFF)
100

Estigmas e violências: a construção social da categoria “envolvido” em


Campos dos Goytacazes e seus efeitos na vida do jovem que busca o seu
des-envolvimento

Emili Senra da Silva1


Ewerlane Tavares de Oliveira2

Resumo: O presente artigo apresenta resultados parciais de uma pesquisa qualitativa


realizada com grupos de jovens de Campos dos Goytacazes em suas manobras para fugir da
rotulação de envolvimento-com o crime (CECCHETTO, MUNIZ e MONTEIRO, 2018a:
99) no qual entende o termo “envolvido” como categoria elástica que pode classificar
pessoas em diferentes situações. Contudo, no caso do envolvido com o tráfico justifica-se
sua execução extrajudicial, ao contrário do envolvido nos crimes de colarinho branco.
Utilizou-se literatura sociológica para reflexões sobre rotulação, violências e identidade
social. Apresentaremos como se produz e reproduz esta categoria em Campos, assim como
arranjos de jovens envolvidos para driblarem o estigma, além da pesquisa qualitativa em
favelas, projetos sociais e socioesportivos, pré-vestibulares sociais e associação de
moradores.

Palavras- chave: Envolvimento; estigmas; juventude; violências; controle social.

Introdução
Esse artigo é resultado de um trabalho etnográfico que foi iniciado em 2017 no
município de Campos dos Goytacazes sob a orientação do professor Rodrigo Monteiro do
Departamento de Ciências Sociais da UFF/ESR em parceria com as professoras Jacqueline
Muniz (DSP/UFF) e Fátima Ceccheto (FIOCRUZ/RJ). A cidade de Campos, região do
Norte Fluminense, tem aproximadamente 463.731 habitantes (IBGE, 2010), 4.032,435 km²
de extensão territorial (IBGE, 2017) e possui quinze distritos. As três equipes13 buscam
entender como se dá a construção social da categoria “envolvido-com”, “acionada em
contextos atravessados por sociabilidades alimentadas por desconfiança e suspeição”
(CECCHETTO, MUNIZ e MONTEIRO, 2018a: 99), como o submundo do crime. De

1
Graduanda em Ciências Sociais pela Universidade Federal Fluminense/ESR. Pesquisadora do Laboratório
de Pesquisa e Ensino em Ciências Sociais (LAPECS), bolsista de desenvolvimento acadêmico da UFF/ESR
(PROAES) e de iniciação científica (FAPERJ). Email: emillysenra@gmail.com
2
Graduanda em Ciências Sociais pela Universidade Federal Fluminense/ESR e Pesquisadora do Laboratório
de Pesquisa e Ensino em Ciências Sociais (LAPECS). Email: ewerlane07@gmail.com
3
Cada equipe é formada por um grupo de alunos bolsistas e voluntários que desenvolvem a mesma pesquisa
em três localidades diferentes: A equipe do professor Rodrigo Monteiro da qual fazemos parte realiza a
pesquisa em Campos dos Goytacazes e em Macaé - RJ, a equipe da professora Jacqueline Muniz realiza a
pesquisa na cidade de Niterói- RJ e a equipe da professora Fátima Ceccheto realiza a pesquisa na cidade do
Rio de Janeiro.

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101

acordo com Ceccheto, Muniz e Monteiro (2018a: 100) ela comporta intensidade e
flexibilidade em sua aplicação aos indivíduos. É usada para justificar a morte dos rotulados
envolvidos com o crime, que são geralmente os que fazem parte da tríade definida por
D’elia Filho (2007:24) como os “Acionistas do Nada”: os pretos, pobres e favelados. Esse
trabalho também pretende demonstrar que a rotulação de “envolvido-com” o crime não é
concomitante ao comprometimento com o crime, pois de acordo com os dados obtidos em
grupos focais com agentes de segurança, basta conhecer a dinâmica deste para carregar o
estigma. A categoria “envolvido-com” é nativa e utilizada no cotidiano urbano, dessa
forma, pretendemos desconstruí-la ao longo do artigo. Sendo os “envolvido-com” sujeitos
que possuem sua identidade deteriorada (GOFFMANN, 1988: 04) esse trabalho também
busca compreender quais estratégias eles utilizam para driblar ou mobilizar esse rótulo em
diferentes contextos.
A investigação tem se dado pelas discussões acerca dos temas como estigma,
rotulação, legalismos e ilegalismos. Além disso, utilizamos o método de pesquisa
qualitativa em Ciências Sociais, através de observação participante, entrevistas formais e
informais e grupos focais. A pesquisa tem sido realizada com agentes de segurança pública,
jovens de movimentos culturais e jovens de projetos sociais e socioesportivos.
O artigo está dividido em duas partes: a primeira trata como a categoria “envolvido-
com” é construída e a segunda mostra como os jovens rotulados buscam fugir do
envolvimento e se des-envolverem. Os três principais grupos focais realizados que guiam
a nossa discussão na primeira etapa desse artigo foram realizados em meados de 2017, são
eles: grupo focal dos jovens de movimentos culturais do rap4 composto por quatro jovens
do sexo masculino com idades que variam entre quatorze a dezoito anos, sendo três desses
jovens negros moradores de periferias de Campos dos Goytacazes e um não negro morador
da região central de Campos; o grupo focal com jovens do projeto social São Pedro da
Favela da Linha5foi composto por duas meninas e três meninos negros com idades que
variam entre treze a dezessete anos, moradores da Favela da Linha ou outro local para onde
foram removidos6. A favela da Linha localiza-se às margens da linha férrea, da antiga Rede

4
Os jovens fazem parte do Coletivo Viaduto, movimento cultural realizado embaixo da ponte Leonel Brizola,
popularmente conhecida como “ponte da Rosinha”, da Batalha São Salvador – batalha de rima que acontece
na Praça de São Salvador em Campos dos Goytacazes- RJ e do Rap da Ponte, movimento cultural que ocorre
na cidade de Macaé - RJ.
5
O Centro Juvenil São Pedro da Rede Salesiano e propõe a luta por direitos dos moradores da Favela da
Linha, comunidade estabelecida na margem de uma malha ferroviária em Campos dos Goytacazes.
6
A remoção de algumas famílias da Favela da Linha para outro bairro foi efetuada em decorrência da
construção de conjuntos habitacionais municipais.

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Ferroviária Federal, por onde circulava o trem de carga que fazia a ligação entre Campos
dos Goytacazes e Rio de Janeiro, cruzando terras pertencentes à antiga Usina do Queimado.
De acordo com Inácio, Pereira e Santos (2014), citando Gomes (2013), “na década de 1970
parcelas da antiga Usina do Queimado eram ocupadas pela família proprietária e pelos
moradores da vila operária existentes no entorno da usina” (INÁCIO, PEREIRA,
SANTOS, 2014:02). Para os autores, a área onde se constitui a favela foi ocupada
inicialmente por moradores da antiga vila operária.
Por último, o grupo focal dos agentes de segurança pública foi constituído por
quatro agentes de segurança pública, sendo três homens e uma mulher, além de um policial
militar. O PM e um agente de segurança são brancos e moradores de regiões centrais em
Campos, enquanto os três agentes de segurança pública restantes são negros e moradores de
regiões mais periféricas.
Em 2018, o campo se deu em Custodópolis, bairro localizado no subdistrito de
Guarus em Campos dos Goytacazes no Rio de Janeiro, considerado violento no imaginário
social dos campistas. “Possui um território de 213 mil km² onde uma população de 123 mil
habitantes está distribuída em seus vinte e seis bairros” (PINHEIRO, 2018:21) e nele está
localizado Custodópolis. Para a autora um grande preconceito se construiu a respeito de
Guarus graças a seu processo histórico de ocupação, onde num primeiro momento foi
território indígena e área de quilombos e hoje é habitado de forma geral por pessoas de
estratos sociais mais baixos. Segundo ela, citando Assis (2016), “estas categorias
diferenciam os campistas como os do ‘lado de lá’, ou seja, moradores de Guarus, e os do
‘lado de cá’, moradores do lado direito do Rio Paraíba” (PINHEIRO, 2018: 24).
Dentro do contexto apresentado, a pesquisa tem se dedicado ao projeto
socioesportivo e o campeonato disputado entre bairros de Guarus intitulado “Champions
League Guarus” do bairro de Custodópolis.
Fotografia 1- Muro localizado no Jardim carioca ao lado de Guarus. Fonte: Pinheiro (2018: 07).

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Como identificar o envolvido e quais suas estratégias de não reconhecimento


Identificando o envolvido
Nos grupos focais foram identificados símbolos, traduzidos na estética e na
linguagem verbal e corporal, interpretados como próprios de jovens estigmatizados
envolvidos-com. Foram mencionados a cor de pele negra, o uso de mochilas, bonés,
acessórios extravagantes como cordões, relógios e roupas de determinadas marcas,
linguagem que se distancie da norma culta e que remeta a ostentação e o andar “largado”,
com o braço acompanhando o movimento do quadril, como mencionado por dois agentes
de segurança pública:

A maneira de vestir tem que mudar, bermuda arriada, cordão de coleira de


cachorro, boné, cabelo louro, maneira de falar...Infelizmente a sociedade
é assim, se eu me vestir dessa maneira aí e entrar em um Shopping, os
seguranças desses Shopping vão me acompanhar, tenho certeza absoluta
(...) Se ele conseguir também mudar a cor dele, porque mesmo que ele
estiver bem vestido e for negro, tiver aquele cabelo pintado de louro... ele
pode estar de terno mas vão olhar ele… (Agente de segurança pública)
Há pouco tempo no Farol tivemos o bonde do Toddy, porque todos eles
eram moreninhos de cabelo amarelo, e realmente... todos eles eram... a
descrição que passavam, na ocorrência...realmente, a descrição batia... era
um grupinho de 20 garotos... uns foram detidos, outros não. Eles têm essa
forma mesmo de se portar, a postura corporal e a fala são muito
importantes. (Agente de segurança pública)

Estratégias de não reconhecimento


Segundo Ceccheto, Muniz e Monteiro, driblar o estigma “depende de muitas outras
marcas que eles precisam manobrar nos jogos de aparência, fazendo uso da
performance gestual e falada mais adequada ao interrogatório do momento”
(CECCHETTO, MUNIZ e MONTEIRO, 2018b: 2807).
A partir de grupos focais com os jovens foi possível identificar estratégias para fugir
do rótulo, como o uso da camisa da escola e do projeto social, evitar o uso de mochilas e
também de acessórios chamativos, pois, do contrário, a informação social transmitida
(GOFFMAN, 1988:39) pode ser dissonante com a imagem do pobre honesto, como
mencionado por um dos jovens do movimento do rap da ponte:

eu não consigo mudar meu estilo, cara. Todo rolê que eu vou eu só boto
blusão, ber... às vezes eu coloco uma calça, tipo como... só para disfarçar
que eu saí de casa de calça mesmo... mas às vezes eu saio mesmo... jogo
uma bermudinha lá no joelho, um blusão... sem mochila… (Jovem de
movimento cultural).

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Pais (2008:09) ao tratar dos significados dos símbolos das máscaras e dos estilos
juvenis, afirma fazer-se necessário decifrá-los através de sua contextualização e de suas
relações de uso. Ainda, para Pais (2008:11), as máscaras sociais, assim como as culturas
juvenis, podem caracterizar “soluções” a problemas e contradições presentes no contexto
em que vivem. Assim, se faz necessário entender quais estratégias os jovens utilizam,
através dos símbolos, para driblar ou mobilizar o rótulo de envolvido-com em diferentes
contextos.

Envolvido versus comprometido


Percebemos a categoria “envolvido” como sendo utilizada por alguns agentes de
segurança para se distinguir, acusar e justificar atos, como de execução extrajudicial em
favelas e comunidades periféricas. Porém, considerando as observações cotidianas de
veículos de comunicação e mídias sociais isso não é percebido com o envolvido nos crimes
de colarinho branco, como os casos da Operação Lava Jato e Cadeia Velha. Questionamos
os agentes de segurança pública no grupo focal, o que significa para eles ser envolvido. Em
uma das respostas surge a distinção entre o envolvido e o comprometido:

Essa palavra é bem ampla né... Eu li um livro (...) que chama-se “o monge
e o executivo”, e nesse livro o autor consegue diferenciar, é... envolvido e
comprometido. Eu achei muito interessante a colocação dele... ele usa
como exemplo, é... é... um lanche americano muito comum, que é bacon
com ovos. E ele diz o seguinte (...) que o porco está comprometido porque
não existe bacon de porco vivo, entendeu?! Para ter o bacon o porco
morreu, e a galinha está envolvida, ela colocou o ovo lá e a vida segue.
(...) Pra mim, só do cara morar na Baleeira ou na Tira Gosto7 ele já é
envolvido, e não necessariamente ele esteja comprometido, já é um
estigma já, porque eles sabem o funcionamento do crime”. (Agente de
segurança pública)

Segundo os agentes, todo mundo que mora na favela é envolvido, porque


indiretamente todos os moradores sabem da dinâmica criminal do local, como por exemplo,
sabem quem são os chamados “donos da boca” que nesse caso, são as pessoas que
controlam/comandam em alguma medida algum tipo de droga ilícita que circula no bairro.
O fato dos moradores saberem, a princípio, do funcionamento do crime organizado e não
fazerem nada a respeito por não poderem ou quererem, os tornam “envolvidos-com” por
habitarem aquele local e consequentemente terem conhecimento de suas relações. Isso,
7
A Baleeira e a Tira Gosto são favelas de Campos dos Goytacazes, conhecidas pela presença do tráfico de
drogas.

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porém, não significa que eles sejam comprometidos com o crime organizado: estar
comprometido é fazer ativamente parte do crime organizado. Com base nessa distinção, foi
possível evidenciar o entrelaçamento entre identidade pessoal e identidade social que
consiste, para Goffman, naquilo que entendemos por biografia do indivíduo – resultado
precário das múltiplas relações sociais de que participa e da informação disponível a seu
respeito, sempre desigualmente distribuída (CASTRO, 2014: 60).

Envolvidos e a questão feminina


A partir dos dados obtidos, observamos que a mulher envolvida é subalternizada,
pois ela está limitada a ser “mulher de traficante” e a se importar com sua aparência, como
é evidenciado por essas falas do grupo focal dos agentes de segurança pública ao serem
perguntados como se identifica a “envolvida”:

muito comum as meninas novinhas terem orgulho de dizer que são


namoradas desses traficantes, com orgulho de se auto afirmar naquela
comunidade, e como se ela fosse a princesa. “Óh, eu sou esposa do chefe”
(Agente de segurança pública)
A mulher que se acha, a maneira de andar, de vestir, de falar, a unha... As
jóias... A unha de mulher de traficante é a unha de quem não lava louça
(risadas), unha de diva, toda pintada, desenhada, cuidada. O tribunal do
tráfico para elas funciona com cortar cabelo (fica careca). (Agente de
segurança pública)

A identificação da envolvida é logo vista como apenas a “mulher do traficante” e


não como alguém que faz parte ou que sabe do funcionamento do crime organizado como
dito quando se falava dos “envolvidos- com”.
Como a mulher não é vista como envolvida e nem comprometida, há uma estratégia
por parte de alguns comprometidos com o crime organizado, onde puxam para perto uma
jovem e fingem que estão com ela para se proteger da polícia. Assim, utilizam a mulher
como escudo, se protegendo das possíveis consequências de uma dura policial, como é
evidenciado por uma fala da jovem do projeto social:

Os meninos tavam [sic] assim, de “junte” [sic], aí vinha o carro de polícia,


aí eles pagavam vinham pros policiais não desconfiarem que eles era
coisa, aí vinham, dava a mão a você, pra dizer que é casado com você,
que eu sou namorada (…) e pega mal até pra gente, quando a gente tiver
saindo sozinha na rua, os policial vão falar que “ah, mulher de bandido”.
(Jovem do Centro Juvenil São Pedro)

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Circulação pela cidade


Baseado nos dados obtidos constatou-se que a circulação pela cidade dos jovens
estigmatizados de envolvidos se dá de maneira conflituosa, cercada de estratégias e
barreiras que são marcadas pela competição dos espaços públicos entre os jovens e os
“oficiais de fronteiras” (CECCHETO, MUNIZ E MONTEIRO, 2018b: 2809). Isso se
evidencia quando o jovem do movimento cultural do rap da ponte disputa o espaço da
ponte com o policial militar que monitora e/ou impede as rodas de rima. A disputa se dá
também com instituições, como a Prefeitura, que através da burocratização, pode dificultar
a utilização daquele espaço público por esses jovens. Diante disso, observamos a tensão
entre legal e ilegal, a partir da construção de tramas com porosidades pelos tecidos sociais
que demarcam fronteiras nas cidades, por dispositivos de controles assimétricos mas
horizontalizados e pelo debate da noção de sujeição criminal (MISSE, 2010:33).
Ademais, as jovens do Projeto Social da Favela da Linha têm dificuldades para
transitar no Shopping que fica bem próximo ao projeto que elas frequentam. Segundo os
relatos, elas eram seguidas pelos seguranças do shopping, e levadas para a “salinha”- local
onde vão as pessoas suspeitas. Sendo assim, falar em juventudes estigmatizadas é falar
também de violências, sejam elas violências físicas ou simbólicas (SOUZA, 2017: 363).

Fuga do rótulo a partir da lógica da produção de tutela e controle


Buscamos entender como se dá a construção de um novo habitus (BOURDIEU,
2007: 162) nos “jovens de projeto” (NOVAES, 2006: 112) a partir da lógica de produção
de tutela e controle observada em campo. Para Ceccheto, Muniz e Monteiro os destinatários
dos projetos sociais “seriam jovens caracterizados ora como vulneráveis aos riscos do
envolvimento, ora como envolvidos-com” (CECCHETO, MUNIZ E MONTEIRO, 2018a:
284). Isso é verificado quando os gestores do projeto socioesportivo de Custodópolis
afirmam que o projeto serve como uma alternativa para esse jovem classificado por eles
como vulnerável.
A classificação do envolvido-com como vulnerável se dá a partir dos símbolos que
o indivíduo carrega consigo, identificados no seu local de moradia e nas suas relações
sociais. Além da cor da pele, estética e na linguagem verbal e corporal. A importância dos
símbolos é evidenciado pelas falas dos gestores do projeto socioesportivo de Custodópolis,
onde apontaram a “importância de tirar os meninos da rua”, “evitar que fiquem à toa” e que
“andem com más companhias”.

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O projeto também se lança como um possível caminho para mobilidade social dos
jovens que ali treinam, considerando que seus gestores costumam relembrar em conversas
no campo que alguns deles fizeram testes em grandes clubes e chegaram a se tornar
jogadores profissionais. Contudo, para um dos gestores “muitos jovens talentosos se
perdem por causa das drogas”. De acordo com Ceccheto, Muniz e Monteiro (2018b: 2807)
“espera-se dos elegíveis como vulneráveis que financiem o seu próprio resgate social”,
promovendo seu des-envolvimento pelo autocontrole e auto policiamento. Dessa forma, o
indivíduo obedeceria à lógica neoliberal do indivíduo-empresa (DARDOT e LAVAL,
2016:140).

[... ]A gente sabe que o meio não determina, mas influencia. Porque se o
meio determinasse a favela só tinha bandido e na Pelinca só teria gente
boa. Não é verdade?! (risadas) E não é verdade... Então, o meio
influencia, mas o meio não determina. O que tem de gente boa nas
favelas… (Agente de segurança pública)

Assim, ao mesmo tempo que o jovem é estigmatizado pelo meio, é esperado que, através da
gestão de si, supere o estigma imposto.

Estratégias de des-envolvimento
As tentativas de fugas dos estigmas, ou a construção de uma espécie de “rótulo para
fugir do rótulo”, como no caso dos “jovens de projetos” (NOVAES, 2006:112), são
percebidas. Portanto, é necessário compreender a construção de rótulos a partir de tramas
profundas em teias de relações socialmente orientadas e dependentes (ELIAS, 2011).
Nos grupos focais com os jovens da Favela da Linha e do movimento do rap da
ponte e nas entrevistas individuais com os jovens de Custodópolis foi observado que o
projeto social e socioesportivo e o movimento cultural pode ser uma forma de buscar o des-
envolvimento.

E ajuda a conviver mais com outras pessoas (…) ter mais educação,
conviver muito mais com outras pessoas tendo respeito, é muito bom.
(Jovem do Centro Juvenil São Pedro)
E conviver com a família, dentro de casa (…) Tipo, como adolescente,
tem mania de ficar desrespeitando os pais, quando eu entrei aqui não
respeitava minha mãe direito, agora eu tô respeitando minha mãe bem pra
caramba. (Jovem do Centro Juvenil São Pedro)

Uma fala de um jovem do movimento do rap da ponte evidencia como o

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movimento cultural pode ser utilizado como uma saída.

Se a gente não fazer o movimento do hip hop, os menor não vão ficar
sabendo que existe e, consequentemente esses menor vão estar fazendo
outra coisa... então, o movimento hip hop é uma válvula de escape para
essa menozada [sic] que está sem perspectiva… (Jovem de movimento
cultural)

Além da educação, da incorporação de um novo habitus (BOURDIEU, 2007:162) e da arte,


os jovens do projeto socioesportivo de Custodópolis também apontaram que o projeto, para
eles, significa lazer e uma possibilidade de se profissionalizarem como jogadores de
futebol.

Considerações finais
O campo da pesquisa apresentada segue em andamento e os dados ainda estão
sendo coletados a fim de futuras comparações com as pesquisas realizadas pelas outras
equipes em Niterói e no Rio de Janeiro. Não obstante, as análises expostas já permitem
identificar alguns efeitos da categoria envolvido-com nas juventudes subalternizadas.
O maior medo dessa juventude apresentada neste trabalho é o “medo de morrer”
(NOVAES, 2006:110). Isso se deve ao contexto social em que estão inseridos, que pode ser
evidenciado por uma fala de um jovem do movimento cultural do rap:

mano... eu saio por aí para um rolê... eu sei que um dai eu vou morrer,
mano... mas não carrego isso na minha mente, porque senão, tipo como...
vai afetar. Minha mãe fica falando que onde eu ando é perigoso, eu falo
para ela: mãe, eu não coloco na minha mente (...) eu sei que um dia todos
vão morrer, tá ligado?! E ela fala, que já falaram para mim que não sei
quem, não sei quem morreu... Meu medo maior é morrer (jovem de
movimento cultural)

O estigma contribui para desigualar juventudes já bastante desiguais, contudo,


podemos pensar que os jovens, através das estratégias de des-envolvimento mencionadas,
manobram os seus maiores medos, sendo eles o “medos de sobrar” no mercado de trabalho
e o “medo de morrer” (NOVAES, 2006:110). Entender essas juventudes é essencial para
pensar seu des-envolvimento e na elaboração de políticas públicas.
Referências
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Usuário ou traficante? Uma análise sobre as representações de juízes e


policiais civis da Lei 11.343/06

Marilha Gabriela Reverendo Garau 1


Paulo Roberto Leite Júnior2

Resumo: O presente trabalho lança mão do método de entrevista para a realização de


pesquisa de campo a fim de coletar dados a partir do diálogo com operadores do direito,
especificamente policiais civis e juízes, no intuito de melhor identificar e, posteriormente,
refletir sobre as respectivas representações no que se refere à lacuna presente na lei 11.343/06,
principalmente no que tange a distinção de usuários e traficantes de drogas. Isso porque, a
referida legislação tornou o tratamento a usuários de drogas mais brando, sobretudo no que se
refere à impossibilidade de pena privativa de liberdade, enquanto que sujeitos sentenciados
como traficantes podem ser punidos com penas-base de 5 até 15 anos. Entretanto, a lei não
adotou critérios objetivos na diferenciação de traficantes e usuários, deixando-os a cargo
daqueles que participam do processo de construção da verdade jurídica.

Palavras-chave: Justiça criminal. Lei 11.343/06. Verdade judicial. Poder discricionário.

Introdução: Contexto histórico


No Brasil, a primeira iniciativa legal no que se refere à punição da venda de drogas
ocorre em 1924 a partir da instituição do Decreto n°4.294. Tal legislação voltava-se mais
especificamente para o comércio de cocaína e do ópio e seus derivados. A iniciativa
legislativa guarda relação direta com a aderência à Convenção de Haia, a qual historicamente
apresenta-se como o primeiro documento internacional que determina controle direto sobre a
venda das substancias ópio, morfina, heroína e cocaína. Alguns anos depois, em 1932, a
maconha passa a integrar essa lista de substâncias passíveis de controle.
Em 1936 foi criada a Comissão Nacional de Fiscalização de Entorpecentes (CNFE).
A comissão se revela enquanto um primeiro esforço de institucionalização da política de
controle às drogas. O objetivo, neste sentido, era estabelecer parâmetros legislativos
específicos para produção normativa sobre o tema (FIORE, 2014). A partir desse marco
histórico o Brasil passou a adotar o modelo proibicionista eminentemente repressivo no que
tange à sua política interna de drogas, o qual estava alinhado às ideologias internacionais
daquele tempo (BOITEUX, 2008: 144).

1
Doutoranda do Programa de Pós- Graduação em Sociologia e Direito da Universidade Federal Fluminense
(PPGSD/UFF) e integrante do Laboratório de Estudos sobre Conflitos, Cidadania e Segurança Pública (LAESP).
Contato: marilha_garau@hotmail.com.
2
Mestrando do Programa de Pós- Graduação em Justiça e Segurança da Universidade Federal Fluminense
(PPGJS/UFF) e integrante do Laboratório de Estudos sobre Conflitos, Cidadania e Segurança Pública (LAESP).
Contato: 5prljunior@gmail.com.

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112

No âmbito nacional, em 1976 o assunto passa a ser tratado especificamente por


normativa jurídica, a partir do advento da Lei 6.368 que surge com o objetivo de propor
medidas preventivas e repressivas tanto para o tráfico quando para o uso de substâncias
entorpecentes em território nacional. O crime inclusive é tratado como equiparado a
hediondo, razão pela qual nos termos da legislação sobre o assunto, Lei 8.072/90, torna a
condução do caso, do ponto de vista de processamento da ação penal, bem como de execução
da pena, mais gravoso quando comparado a crimes sem natureza e/ou equiparação a
hediondez.
As primeiras mudanças significativas começaram a acontecer apenas nas duas últimas
décadas. Embora permaneça a tendência em direcionar a maior parte dos investimentos no
âmbito das políticas públicas de segurança para o trato repressivo, dá-se início à uma
ampliação das iniciativas com enfoque médico. Em 2002 surge uma proposta de mudança
legislativa, lançada como uma reforma psiquiátrica. Tal medida tinha por objetivo extinguir
tratamentos vinculados ao asilo de pessoas nessas condições, evidenciando um interesse
massivo de promoção de um serviço de saúde até então inexistente (POLICARPO, 2010), a
partir da criação do Centro de Atendimento Psicossocial de Álcool e Drogas (Caps/AD).
Posteriormente a essa proposta, a relação entre os campos médico e jurídico,
conformam um movimento complementar às políticas de controle de drogas no país que
acena com o endurecimento das práticas repressivas e o acréscimo do uso da violência contra
os traficantes e, ao mesmo tempo, assume uma perspectiva da saúde para os usuários de
drogas ilícitas. Embora a legislação formal só tenha sido editada em quatro anos depois, no
âmbito da Administração Pública em 1998 já haviam sido institucionalizados a Secretaria
Nacional Antidrogas (SENAD) e o Conselho Nacional Antidrogas (CONAD), através do
Decreto n. 2632. Ambos órgãos formam o Sistema Nacional Antidrogas.
Baseada nesse modelo dual de tratamento de indivíduos que interagem com
substâncias entorpecentes surge a mudança legislativa mais significativa no que tange à
política de drogas no país. Assim, em 2006, é editada a Lei 11.343 que instituiu o Sistema
Nacional de Políticas Públicas sobre drogas e alterou o antigo texto da Lei 6.368/1976 que
até então ainda regulamentava o assunto. A grande novidade na legislação é a ausência de
punição com pena de prisão para usuários de droga. Apesar de não ser passível de pena
punitiva de liberdade, o uso de substâncias entorpecentes permanece proibido. Assim,
embora em um primeiro momento a nova lei pareça mais tolerante em relação ao usuário,
deixando o tema a cargo da área da saúde pública, os procedimentos criminais adotados no

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113

trato desses assuntos continuam os mesmos, o que caracteriza a despenalização do usuário,


mas ignora a descriminalização do uso de drogas (POLICARPO, 2010).

Apresentação da situação problema


A Lei 11.343/2006 é um exemplo à medida que prevê tratamentos penais
diferenciados para o comércio ilícito de psicoativos e o consumo, aumentando a punição para
o tráfico e modulando a punição para o uso. Para além do marco legal, encontramos o “Plano
Nacional sobre Drogas” que reconhece nos seus pressupostos “as diferenças entre o usuário,
a pessoa em uso indevido, o dependente e o traficante de drogas” (LEGISLAÇÃO E
POLÍTICAS SOBRE DROGAS, 2006: 13) designando abordagens diferenciadas para cada
um. Boiteux (2008) sinaliza que o tratamento diferenciado entre traficante e usuário é um
retrato da política brasileira que se caracteriza por uma “política criminal de proibicionismo
moderado”. De todo modo, apesar das mudanças de governos, as políticas públicas de
controle das drogas foram, e ainda são, marcadas por fortes investimentos em ações
repressivas e de combate ao comércio e ao consumo de substâncias ilícitas.
Verifica-se então, que a nova legislação ainda considera o uso de drogas como um
ilícito penal do ponto de vista material, uma vez que este continua inserido no conjunto de
leis que integram a legislação penal brasileira. Sendo assim, embora não exista previsão de
pena restritiva de liberdade à infração em questão, a mesma permanece prevista enquanto
crime. Nestes termos de acordo com o artigo 28 da Lei de Tóxicos aquele que, “adquirir,
guardar, tiver em depósito, transportar ou trouxer consigo, para consumo pessoal, drogas sem
autorização ou em desacordo com determinação legal ou regulamentar” e também quem
“semeia, cultiva ou colhe plantas destinadas à preparação de pequena quantidade de
substância ou produto capaz de causar dependência física ou psíquica” estará sujeito à
“advertência sobre os efeitos das drogas; prestação de serviços à comunidade; medida
educativa de comparecimento à programa ou curso educativo.”
Entretanto, no caso dessas condutas descritas no rol do artigo 28 não há previsão de
prisão em flagrante, o que significa dizer que não há lavratura do auto de prisão em flagrante
nem recolhimento do sujeito ao cárcere. Inobstante, a justiça criminal segue como
responsável pela administração destes conflitos. Porém, nesses casos em específico, a
ocorrência será encaminhada e processada pelos Juizados Especiais Criminais. Embora os
procedimentos criminais sejam os mesmos para indivíduos classificados como usuários e
traficantes – ambos devem ser encaminhados à Delegacia – no caso específico daquele

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classificado enquanto usuário, será iniciado um termo circunstanciado3 em sede policial e,


posteriormente, em sede judicial, será celebrada uma transação penal4.
Desse modo, a lei atual estabeleceu novas relações que se baseiam na manutenção da
proposta repressiva até então vigente, embora, tal comoção seja direcionada ao traficante,
haja vista a elevação das penas cominadas em abstrato. Ou seja, o padrão de enquadramento
como usuário e traficantes de drogas distanciou-se consideravelmente. Ainda que a lei
estabeleça uma menor rigidez no trato com usuários de substâncias entorpecentes, no que se
refere ao tráfico de drogas, as penas tornaram-se mais rígidas em relação a normativa
antecessora. A pena mínima passou de 3 (três) para 5 (cinco) anos, e a máxima de 12 (doze)
para 15 (anos) de reclusão.
É exatamente no que se refere à distinção de ambas figuras previstas que a lei
apresenta uma lacuna peculiar que oferece a delegados, promotores e magistrados imensa
discricionariedade referente ao enquadramento e classificação do indivíduo enquanto usuário
ou traficante (GRILO, POLICARPO e VERÍSSIMO, 2013). A caracterização dos sujeitos
que flutua entre essas categorias, ocorre geralmente a partir de um flagrante, o qual
basicamente é presenciado pela figura de dois ou mais policiais militares. Luciana Boiteux
(2008) enfatiza que, neste contexto, os flagrantes conduzidos pelos agentes policiais,
geralmente envolvem pessoas portando pouca quantidade de droga e nenhum armamento,
ademais, os réus nesses casos não teriam qualquer antecedente criminal.
Ou seja, para concluir pelo tráfico são levados em consideração elementos como lugar
e outras circunstâncias relacionadas à conduta, aos antecedentes e até mesmo circunstâncias
sociais e pessoais do acusado. A própria legislação sugere uma avaliação “caso a caso”,
embora “registrando-se que a dúvida entre uma hipótese e outra (tráfico e consumo) deve
resolver-se em favor da hipótese mais benéfica ao acusado” (BOITEUX, 2009: 37). A
consequência, diante das indefinições legais, segundo pesquisa recente de Boiteux (2009), é a
aplicação das sentenças por tráfico a casos que poderiam ser interpretados enquanto situações
de uso de drogas. Entre os anos de 2006 e 2008 a pesquisadora voltou-se para a análise dos
acórdãos julgados no Rio de Janeiro e no Distrito Federal, onde concluiu que o texto da lei,
ao furtar-se da apresentação de critérios mais objetivos para diferenciar os tipos penais do

3
Termo Circunstanciado de Ocorrência. Termo Circunstanciado de Ocorrência (TCO) é um registro de um fato
tipificado como infração de menor potencial ofensivo, ou seja, os crimes de menor relevância, que tenham a
pena máxima cominada em até 02 (dois) anos de cerceamento de liberdade ou multa.
4
Nos crimes considerados de menor potencial ofensivo (pena menor de 2 anos, seguem o procedimento
sumaríssimo do JECrim) dependendo de fatores legalmente previstos (art. 76, lei 9.099/95), pode o Ministério
Público negociar com o acusado sua pena.

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tráfico e do uso – e por objetivos entenda-se a definição de uma quantidade específica de


drogas para uso – sugere um aumento da discricionariedade jurídica. O resultado é que além
de aplicar uma lei punitiva e desproporcional, a normativa concede, na visão da pesquisadora,
amplos poderes ao policial o qual torna-se responsável por filtrar os casos que chegam ao
conhecimento do Judiciário.
Parafraseando Foucault, Paes (2010) ressalta que o processo de construção de
conhecimento sobre o que de fato ocorreu é algo que concede poder aos encarregados de tal
construção. Trata-se de uma atividade de saber e poder decidir sobre o cotidiano das pessoas
a partir do controle de informações e manipulação das categorias e procedimentos baseados
nas fronteiras daquilo que está ou não regulamentado. Sendo assim, o discurso sobre os fatos
revela-se enquanto uma forma de exercício do poder e, por conseguinte, de controle,
consolidados a partir de interesses individuais, grupos específicos, ou ainda de segmentos
sociais mais amplos (Foucault, 2002). É neste contexto que toma forma a hipótese de que a
partir do advento da Lei 11.343/06, houve uma valorização da mercadoria política
classificação por tráfico de drogas, enquanto que, inversamente, ocorreu uma desvalorização
da classificação por uso de drogas. O que explicita a formação de um eficiente sistema de
seleção e gestão de corpos com características específicas, cuja legitimidade reside na forma
como o poder soberano é democraticamente construído e autoritariamente operacionalizado.
Tendo em vista que o direito penal da política de combate às drogas está direcionado
às pessoas mais indefessas e frágeis quanto à proteção do Estado repressor, não por acaso é
percebido “no cotidiano do sistema punitivo, o encarceramento massivo da juventude negra
das periferias” (CARVALHO, 2016: 152) e identificado desde a implementação da nova lei
brasileira de psicoativos um “processo de feminização da pobreza e seletividade de gênero
em crimes relacionados às drogas”, já que de acordo com o relatório da PNUD (1995) “a
pobreza tem o rosto de uma mulher- de 1.3 bilhão de pessoas pobres, 70% são mulheres”
(CHERNICHARO, 2016: 169). Observar tais recortes de classe como os de renda, gênero,
cor e residência são importantes, pois eles apontam à existência de uma desigualdade jurídica
institucionalizada pelo Estado na aplicação de uma Lei que não está colocada para todos.
Vilma Bokany reitera este pensamento quando afirma que “a criminalização as drogas não se
dá desvinculada do contexto social mais amplo, ao contrário, é determinada por ele” e que
“muitos dos conflitos atribuídos às drogas refletem problemas sociais de outra natureza,
como a violência, desemprego, falta de educação, cultura, lazer e acesso a melhores
oportunidades” (BOKANY, 2015: 08).

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Sendo assim, a partir do reconhecimento de que “a proibição das drogas é uma


política falida, que gera mais danos que os efeitos da política em si”, onde através dela
“milhares de pessoas morrem suspeitas de traficar droga e a morte em decorrência do uso não
chega nem perto daquelas que buscam combater o controle de produção, distribuição e
consumo dessas substâncias” (FILEV, 2015: 111), pode-se afirmar, a partir das palavras de
Alessandro Barata (1992: 12) que “o Estado, sob o pretexto de cumprir o dever de prestar
proteção, está na verdade, de forma simbólica, sobrepondo a política criminal à política
social, ou, em outras palavras, está criminalizando a política social”.
Dados do relatório “Política de drogas no Brasil: a mudança já começou” divulgados
pelo Instituto Igarapé (2015: 2) informam que “o Brasil é campeão mundial em números
absolutos de homicídio por ano- são mais de 56.000 mortes violentas, das quais se estima que
50% sejam relacionadas à guerra às drogas.” Além disso, o país aparece como “o terceiro
maior encarcerador de pessoas no mundo” tendo cerca de 30% das prisões relacionadas a
crimes de drogas. Isso porque, conforme Salo de Carvalho (2016: 155), “ao mesmo tempo
em que encarcera muito, encarcera muito mal, no sentido de que inúmeras condutas não
lesivas (crimes sem violência ou grave ameaça) não demandariam o uso da prisão” além de
que “conforme as lições da crítica criminológica, o cárcere é o instrumento mais caro
disponibilizado pelo Estado para tornar as pessoas piores”.
A partir da compreensão desse caótico cenário de guerra aos pobres, grupos de
ativismos e importantes estudiosos da academia universitária têm veiculado pelas mídias
nacionais e internacionais pautas consideradas pertinentes para criar mecanismos de defesa
no Estado contra o hiperencarceramento da juventude negra periférica, o qual é
instrumentalizado majoritariamente pela lei proibicionista das drogas. A regulamentação de
todos os narcóticos através da descriminalização dos psicoativos e a exigência de critérios
objetivos capazes de distinguir usuários de traficantes são duas das principais reivindicações
existentes como soluções imediatistas para conter a mão pesada do Poder Público sobre as
classes mais vulneráveis. Todavia, é importante refletir até que ponto tais medidas podem de
fato ser eficazes para atingir as metas esperadas.
Por essa razão, é que este trabalho preocupa-se em melhor compreender e identificar
os argumentos mobilizados por aqueles que participam do processo de construção de verdade
judiciária a fim de refletir sobre as propostas discursivas já existentes em relação ao tema em
discussão, para tentar repensá-las a partir do apontamento de novas medidas sugestivas.
Nesse sentido, a partir dos pontos elencados será analisada e considerada a interpretação dos

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atores entrevistados, sobre a questão apresentada no modus operandi do exercício de


aplicação da norma vigente em suas atividades de trabalho, assim como também
problematizadas as principais pautas de defesas concernentes à busca por redução dos danos
do proibicionismo, percebidas como quase hegemônicas dentro do âmbito acadêmico
universitário.
As seguintes perguntas serão respondidas e problematizadas: I- Quais são os critérios
adotados pelos operadores do direito no enquadramento jurídico de determinado enquanto
uso ou tráfico de drogas?; II- Como esses profissionais avaliam o impacto da nova legislação
sobre o sistema penal e sobre a sociedade?; III- Quais suas representações e expectativas no
que se relaciona ao poder discricionário que lhes foram atribuídos para a aplicação da
legislação?; e IV- Como os discursos de legalização das drogas e de adoção de critérios
objetivos para a distinção entre usuário ou traficante se demonstram eficazes para romper
com a desigualdade institucionalizada pelo Estado na aplicação da Lei 11:343/06?

A lei de drogas na visão de operadores do direito: da política proibicionista


É importante elucidar que o trabalho transita entre dois campos distintos e
complementares: delegacia de polícia civil e a justiça criminal. De modo que, o presente
artigo é resultado de reflexões conjuntas entre dois pesquisadores que estão em fases
conclusivas de seus respectivos projetos de pesquisa. A primeira autora atualmente
desenvolve sua tese de doutorado para o programa de Pós Graduação em Sociologia e Direito
da Universidade Federal Fluminense, com foco na temática do processo de construção de
verdade na Lei 11.343/06 a fim de compreender de que forma os operadores do sistema de
justiça criminal recepcionam os testemunhos de policiais militares responsáveis pela
ocorrência; enquanto que o segundo autor, bacharelando em Segurança Pública e Social pela
Universidade Federal Fluminense, concluiu sua iniciação científica pela FAPERJ cuja
temática é “Investigação Policial e a Nova Lei de Drogas- Que Consequências para a
Elucidação?”, pesquisa esta realizada a fim de compreender os impactos da nova lei de drogas
sobre o conteúdo do trabalho da polícia civil.
Com base nas cinco entrevistas com os agentes policiais e sete realizadas com
magistrados, foi possível identificar argumentos comuns que perpassam por ambos os
campos. As perguntas foram semiestruturadas, com o intuito de identificar e compreender os
discursos que circulavam entre esses atores. Desse modo, três questões semelhantes entre as
duas pesquisas foram destacadas para nortear as reflexões a serem provocadas no presente

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trabalho, as quais giraram em torno de: qual a percepção sobre a política de drogas
atualmente vigente; qual a opinião sobre a lacuna existente na legislação; e, finalmente,
quais os critérios utilizados para distinguir usuários de traficantes diante desta
subjetividade?
Inicialmente, já é possível identificar uma cisão de entendimentos no que se relaciona
à política de drogas vigente no país. Se por um lado todos os entrevistados foram unânimes ao
declararem que “a política de drogas no Brasil é um fracasso e um esforço pouco eficaz”, em
contrapartida os argumentos que fundamentaram esse entendimento foram diversos. Enquanto
determinados interlocutores associaram o fracasso da política ao modelo proibicionista, como
gerador de danos maiores à sociedade, sobretudo quando comparado ao ônus do assunto à
saúde pública, outros interlocutores entenderam a legislação como ineficaz à seletividade
daqueles que serão punidos. A seguir, destacados trechos das entrevistas que embasam tais
afirmativas.

Aqui na minha realidade de polícia civil é só pobre que vai preso entendeu?
Assim, o grande traficante mesmo nessa lei de drogas aí, pelo menos no
âmbito da polícia civil, de delegacia distrital eu nunca fiz uma prisão de um
cara assim, de um cara importante de tráfico. Essa lei de drogas aí, ela é
importante, eu acho que é importante, mas assim. Ela sozinha, ela de certa
forma é meio injusta. Porque ela, não sei se isso aí é mais também da cultura
policial de você fazer essa incursão, essas incursões em favelas quando a
droga já está lá sendo vendida. Geralmente quem está vendendo essa droga,
o cara, o cara não representa nada absolutamente pro tráfico. (Policial Civil,
08 anos de carreira).

Essa mudança legislativa é um retrocesso, eu como magistrado preciso


cumprir a lei, mas concordar eu não concordo não. No meu ponto de vista
não faz o menor sentido punir a pessoa que vende a substância se eu não
punir o comprador. Antes a gente punia e funcionava melhor. E quando eu
falo em punir estou falando em mandar prender, porque nós sabemos que o
que a nova lei de drogas fez foi trazer pra dentro do judiciário o usuário pra
ele tomar um sustinho, né? Eu estou te falando de cadeia. Acompanhe meu
raciocínio, no crime de receptação, por exemplo, a legislação me impõe
punir tanto aquele que repassa o produto objeto de crime, quanto aquele que
o compra, sabendo tratar-se de um objeto de crime. Qual é a diferença entre
aquela pessoa que está vendendo e aquele sujeito que vai lá comprar e está
sustentando o mercado ilegal? (Juiz de Direito, 22 anos de carreira).

Eu gosto da mudança que a lei 11.343/06 trouxe para o ordenamento


jurídico, encarcerar o usuário de drogas realmente não é a solução. A
possibilidade de firmar acordos desafogou as prisões. O país precisa oferecer
aquele que usa drogas prevenção geral e tratamento sim. A nova legislação
abriu margem pra pensar em uma justiça terapêutica, preocupada com o bem
estar do usuário que também é uma vítima do tráfico de drogas. (Juiz de
Direito, 10 anos de carreira).

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Diante da afirmação de que a política de drogas é ineficaz, os interlocutores acabaram


por refletir e comentar sobre a possibilidade de legalização das substâncias entorpecentes,
sendo identificado mais uma vez discursos diversos. Apareceram inicialmente, pensamentos
relacionados à descriminalização e proibição das drogas, vinculados à questão da segurança e
ordem pública, sendo inclusive, algumas vezes, citados países estrangeiros como exemplo de
fracasso da legalização. Logo em seguida, argumentos atrelados à saúde pública também
foram surgindo apresentando-se como necessários para tratar de questões específicas ao
usuário, dando-lhe o devido tratamento às suas questões, do mesmo modo em que foram
apontados como cuidados a serem tomados para proteger a sociedade de maiores danos.

Precisamos conversar sobre a legalização. Debater, levar para a sociedade


dados reais sobre os índices de pessoas que são mortas todos os anos por
conta da guerra ao tráfico. Não podemos concordar que em nome da
proibição as pessoas continuem morrendo. As pessoas usam cigarro, usam
bebida alcoólica, usam medicamentos tarja preta e convivem normalmente
com as outras pessoas, pegam ônibus, metrô, vão à festas e interagem
normalmente em sociedade. Essa política só fortalece o grande traficante.
(Juíza de Direito, 6 anos de carreira).

Não tenho opinião formada sobre a legalização das drogas, pois não tenho
conhecimento dos efeitos pra sociedade onde ela é permitida. Sei que na
Europa é um tiro no pé. (Policial Civil, 17 anos de carreira).

Isso aí (legalização) não adiantaria nada. Você já foi à Amsterdã, eu já fui e


essa imagem maravilhosa que vendem da cidade pra gente é absurda. Há
bairros completamente abandonados, parecem com as nossas cracolândias
daqui. O tráfico não acabou em Amsterdã, eu estava parado numa praça
tomando sol com minha esposa e um rapaz me ofereceu drogas. Imagina
como vai ser isso no Rio de Janeiro? O mercado vai vender mais caro porque
vamos ter que colocar taxas de imposto, aí vamos fortalecer ainda mais o
tráfico nas favelas porque o produto deles é mais barato. Vai ser igual a
pirataria, você vai descer nessas estações de trem periféricas e vai ter um
monte de gente vendendo no camelô droga mais barata do que nas lojas.
(Juiz de Direito, 14 anos de carreira).

Acho fundamental, mas tem que ter um acompanhamento melhor. Não


adianta legalizar resolvendo problema da segurança e piorando a saúde. Tem
que interligar a saúde e a segurança. Oferecer tratamento e a segurança
combater tráfico, consumo. (Policial Civil, 05 anos de carreira).

Mesmo havendo opiniões divergentes relacionadas à legalização das drogas como


medida de redução de danos à sociedade houve consenso na leitura social concernente aos
prejuízos da política proibicionista bélica e principalmente na percepção dos indivíduos que
mais são afetados pelo sistema penal a partir da Lei 11.343/06. No entanto, a constatação dos

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entrevistados sobre os alvos do sistema carcerário no Brasil condenados a partir da normativa


em questão não é um dado que se apresenta como novidade nem tampouco destoante da
realidade constantemente denunciada por estudiosos sobre o assunto, já que o presente
diagnóstico é compatível com inúmeras pesquisas acadêmicas às quais demonstram que os
mais vulneráveis nas redes do tráfico são “os selecionados pelo sistema punitivo formal,
devido o fato de serem absolutamente descartáveis, não representarem nenhuma grande
função ou poder de mando na hierarquia do negócio e, quando presos ou mortos, serem
facilmente substituíveis” (BOITEUX, 2009).

A visão dos operadores sobre os critérios legislativos e a elaboração de critérios


subjetivos
Em relação aos critérios adotados pela legislação, dois argumentos são
mobilizados pelos operadores do direito no sentido de concordar ou discordar da distinção dos
crimes elencados a partir da utilização do poder discricionário sobre as subjetividades em
questão.
Se for nessa ninguém vai preso. Tem que ser por mais, por menos o real
efeito dessa lei não será cumprido. No momento atual não se pode pensar
por menos. Todo mundo diz que está comprando, por isso criaram o artigo
trinta e cinco, associação pro tráfico. Nem todo mundo que está envolvido
com tráfico está tudo como traficante. Não necessariamente ele precisa estar
com a droga para ser tipificado na lei 11.343, é a conduta do cara. O pessoal
comete crimes com a certeza da impunidade. Tem que acabar com a soltura.
(Policial Civil, 17 anos de carreira).

Acho interessante, fica a cargo da autoridade policial essa sensibilidade. Nós


fazemos a apreciação do fato: dinheiro trocado (nota de dois), rádio
transmissor, lugar que foi preso que já é conhecido como lugar de venda. Se
travar uma quantidade cometerão muitas injustiças. (Policial Civil, 05 anos
de carreira).

Critérios objetivos podem ser injustos, é melhor deixar a cargo do julgador.


Porque é a quantidade não quer dizer nada. Muitas vezes vemos casos aqui
de pessoas que foram apreendidas com pequenas gramas, mas que
evidentemente são traficantes, até no modo de falar a gente percebe que é
traficante. Nós magistrado, depois de tantos anos de trabalho, lidando com
todo o tipo de criminoso, já identificamos de longe um traficante, o critério
objetivo atrapalharia, não estaríamos ‘fazendo justiça’. (Juíza de Direito, 18
anos de carreira).

O discurso quase unânime entre os interlocutores é no sentido de que a lacuna foi


acertada, uma vez que a mesma garante a sensibilidade de interpretação individual de cada
caso, algo que, na visão dos próprios entrevistados é positivo, já que a partir da criação de

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elementos objetivos é bem provável que a incriminação de usuários e traficantes seja ainda
mais prejudicada. Isso porque quando os fatos praticados pelos sujeitos não forem
correspondente ao crime que a quantidade selecionada lhes impugnar, nada poderá ser feito
pelos agentes para reverter o erro de tipificação infracional, pois não haverá mais espaço para
uma avaliação contextualizada sobre os casos, apenas a aplicação literal da normativa vigente.
Diante dessa lacuna, os operadores passam a criar seus próprios critérios para
diferenciar traficantes de usuários. É interessante observar que, apesar de algumas nuances
entre tais entendimentos, argumentos diferenciadores circulam entre as instituições.

Eu avalio da seguinte forma, sempre faço perguntas no início da audiência,


de qualquer interrogatório de qualquer réu, de drogas ou não, são perguntas
padrão: qual a idade, onde mora, trabalha com o que, estudou até qual série,
se tem filhos, se já foi julgado e/ou condenado por algum outro crime antes.
Assim eu já consigo saber quem é aquele sujeito antes mesmo de conhecer o
fato em si. A partir daí fica mais fácil de decidir se ele é ou não parte do
tráfico. Depois eu deixo o MP questionar sobre os fatos propriamente ditos,
nesse caso eu vou ver se esse sujeito que tem (ou não) perfil de potencial
traficante, estava em situação de tráfico. Daí aquilo que os policiais dizem é
fundamental, porque são eles que conhecem os locais onde há tráfico.
Algumas coisas não abrem margem pra pensar diferente, se apreenderam
arma, sacos plásticos com o nome da facção, o rádio transmissor
antigamente usavam muito também, agora é mais o celular, aí nem sempre
conseguimos as conversas... mas tudo isso é considerado como critério, é um
caso a caso meio que padronizado. (Juiz de Direito. 18 anos de carreira).

No caso dos policiais civis os elementos de tipificação elencados são parecidos, os


entrevistados fazem referência à apreensão de indivíduos com rádio comunicador, pequenas
quantias de notas de valores muito baixos e, principalmente, o local onde aconteceu o
flagrante. Segundo os agentes tais características são previamente mapeadas e já integram o
vocabulário de conhecimento daqueles profissionais. Em relação aos magistrados, a questão
sócio econômica aparece ainda como uma questão central na decisão. Uma das juízas
entrevistadas que atua há seis anos na área criminal, explicou que seu critério para decisão é,
nas palavras dela, muito simples:

Eu vou ser sincera com você. Eu levo vários indícios em consideração, mas
você sabe que são só indícios, né? Estou sendo sincera. Eu decido sempre
que eles me respondem quanto é a renda mensal pessoal deles, depois pra ter
certeza eu pergunto qual é a renda mensal da família. Se ganha menos de
dois salários mínimos eu já tenho certeza que é traficante. Pobre não pode se
dar ao luxo de ser maconheiro, você acha que vai preferir comprar arroz,
feijão e carne ou vai preferir manter o vício? (Juiz de Direito. 06 anos de
carreira).

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122

Ainda no que concerne na busca por critérios materiais para distinção de usuários de
traficantes como forma de reparar a lacuna existente na Lei 11.343/06, nas entrevistas com
policiais civis uma outra resposta levantou um pensamento importante a ser considerado. A
cristalização de uma quantidade de substâncias psicoativas na normativa vigente capaz de
caracterizar literalmente e distintamente os diferentes crimes de drogas em questão não
implicará necessariamente na redução do hiperencarceramento que se pretende combater,
nem tampouco as injustiças arbitrárias do sistema penal. Isso porque a partir do momento em
que se retirar o poder discricionário dos operadores do direito, os indivíduos que forem
flagrados com a quantidade delimitada pela lei, independente do que sejam de fato, serão
enquadrados conforme aquilo que estiver previsto juridicamente e não pela análise individual
dos casos. Sendo assim, traficantes poderão ser tipificados como usuários caso vendam seus
produtos de acordo com a quantidade autorizada para consumo, enquanto usuários correrão o
risco de ser incriminados como traficantes caso sejam apreendidos com um quantitativo de
drogas superior ao que estiver sido estipulado.
A criação de uma previsão normativa referente a critérios materiais que hoje estão
ausentes na nova lei de drogas facilitaria muito mais o trabalho dos agentes públicos do
direito penal que, mas não necessariamente eliminariam as injustiças que se pretende
combater, isso porque uma normativa jurídica não deve se propor em reduzir dinâmicas
sociais complexas a definições de categorias que não dão conta de tipificar condutas sem que
haja prejuízos danosos à veracidade e preservação dos fatos na tentativa de aproximar a lei da
realidade. Luciana Boeteux (2009) explicita as nuances mercantis do tráfico de drogas ao
apresentar que o mesmo “obedece a uma complexa estrutura que segue padrões
hierarquizados, envolvendo diferentes graus de participação e importância, o que aponta para
‘diferentes papéis em suas redes, desde as atuações mais insignificantes até as ações
absolutamente engajadas e com domínio do fato final”.
De acordo com a estimativa feita pelo UNODC apontado no relatório da Global
Commission on drug policy (2014: 13), a proibição das drogas fomentou um mercado global
ilegal estimado em centenas de bilhões. “Em 2005, a produção era avaliada em U$ 13
bilhões, a indústria do atacado em U$ 94 bilhões e o varejo estimado em U$ 332 bilhões. A
valorização do mercado de drogas no atacado é mais alta que o equivalente global para
cereais, vinho, cerveja, café e tabaco juntos”. Mediante a constatação da grandiosidade dessa
atividade, tanto em lucros quanto em sua forma de organização que abrange sujeitos da mais

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baixa camada da sociedade até a mais alta, não é justo que a mesma seja tratada pela
legislação de forma única e integral, sem que haja critérios de diferenciação que deem conta
de distinguir escalas de envolvimento, grau de importância e exercício de poder capazes de
estabelecer um julgamento proporcional que não coloque megaempresários e “acionistas do
nada” (FILHO, 2007), os pequenos vendedores de varejo, na mesma balança.
Todavia, considerando os critérios apontados pelos operadores como cruciais na
definição de usuários e traficantes, a questão que insiste em permanecer sem resposta é se
continuaríamos a punir pessoas por sua condição de pobreza, ignorando essa condição de
vulnerabilidade dentro do sistema que os precede.

Possíveis conclusões
O presente artigo identificou que, embora haja divergências na opinião dos
entrevistados no que se refere à legalização das drogas, é possível identificar no discurso dos
operadores do direito, seja quando questionados sobre a política de drogas ou sobre os
critérios utilizados por cada um deles, que a política proibicionista é voltada para a punição de
um determinado sujeito. Tanto o processo de criminação, quanto o de incriminação (Misse,
1999) é voltado para certo estereótipo que se constrói desde o momento de elaboração da lei
penal e se consolida na aplicação dessa mesma norma. Ora, se na Lei 11.343/06 não existe
nenhuma especificação que restrinja seus crimes aos pequenos varejistas de substâncias
proibidas e impeça a captação dos grandes traficantes envolvidos com esquemas de tráfico em
larga escala, o que nos faz pensar que a sua extinção irá corroborar para o término da opressão
estatal aos mais pobres, já que ficou claro que o Poder Público institucionaliza essa agenda
através da aplicação da normativa jurídica e não diretamente pela sua confecção? Em outras
palavras, sendo a nova lei de drogas um instrumento utilizado pelo Estado para exercer
domínio e controle sobre populações consideradas por ele “indesejáveis”, através da
imputação penal seletiva específica à determinada camada da sociedade, por que pensar que
extirpar uma norma que é abrangente acabará com este comportamento sistêmico?
Quando se tem ciência que majoritariamente os encarcerados em crimes de drogas são
sujeitos cuja classe social é a mais baixa da pirâmide, sendo essa o perfil de pessoas pobres,
desempregadas e de baixa escolaridade; e que essa população é alcançada pelo direito penal a
partir de aplicações desproporcionais da lei, quando comparado a outros perfis de atores
sociais blindados e não a partir de promulgações jurídicas editadas formalmente para serem
seletivas e desiguais, há de se presumir que a perseguição aos mais vulneráveis é uma lógica

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de funcionamento do Estado que emerge das próprias práticas dos operadores do direito.
Aparentemente o mecanismo responsável por orientar o Estado à seletividade penal emerge
das práticas institucionais para lei.
A reivindicação pela legalização das drogas como forma de restringir a já conhecida e
tão discutida atuação desigual do Estado em operar seus mecanismos de incriminação,
revela-se frágil. Isso porque em longo prazo, ou talvez nem tanto, é bem possível que a
mesma lógica de opressão aos vulneráveis, já existente dentro do Poder Público, se utilize de
outras ilegalidades como instrumentos eficazes de legitimação capazes de fundamentar
práticas institucionais arbitrárias e discriminatórias a mesma população indesejada. Existem
outros crimes, como vendas de produtos clandestinos ou falsificados que de forma
semelhante ao tráfico de drogas, geram lucro a megaempresários e sustentam pequenos
ambulantes, sendo estes também os mais alcançados pelas incursões policiais.
A noção de que não existe guerra às drogas, mas sim uma guerra aos pobres, aponta
para o risco de se projetar na descriminalização das substâncias psicoativas a eliminação de
um problema que não está promulgado em uma normativa jurídica, mas sim
institucionalizado na aplicação das normas. Tal constatação não anula os benefícios que
poderão ser alcançados com o rompimento imediato do maior instrumento atual de controle
social do Estado, mas sim possibilita a reflexão sobre a complexidade do problema e fomenta
o estímulo ao pensamento de novas estratégias de combate a seletividade penal do Estado.
Não desconsiderando a problemática referente ao poder da lei e da força utilizada por
policiais militares do Rio de Janeiro em forjar flagrantes e conseguir confissões via práticas
de tortura para depois legitimar seus falsos casos inventados através do uso da súmula 70 do
Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro, a qual lhes confere através da fé pública
imbuída, poder de validação de prova tão somente a partir do testemunho exclusivo policial
de dois agentes: “o fato de restringir-se a prova oral a depoimentos de autoridades policiais e
seus agentes não desautoriza a condenação.” Também não ignorando conforme retrata Torres
(2015: 36) que:

(...) a legislação de drogas está violando os princípios da lesividade,


proporcionalidade, exigência de tratamento isonômico, individualização da
pena, vedação de dupla punição pelo mesmo fato, estado de inocência,
contraditório, direito de não se autoincriminar, devido processo legal, direito
à liberdade e à vida privada e, ainda, o princípio da legalidade.

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O que se pretende enfatizar é que tais subjetividades podem ser enfrentadas por outros
mecanismos de contenção à mão punitivista estatal sobre as classes mais baixas, sem que se
limite às dadas soluções de descriminalização das drogas ou definição quantitativa para
distinção de usuários e traficantes.
É possível manter o já outorgado poder discricionário ofertado aos operadores do
direito para avaliarem as circunstâncias dos fatos concernentes aos crimes de drogas
referentes ao consumo e venda das substâncias sem que pequenos vendedores de varejo ou
populares que exercem outras baixas funções nesse negócio continuem sendo vítimas da
desigualdade impugnada pelo Estado. Da mesma maneira em que foi cabível despenalizar
usuários no advento da Lei 11.343/06 a partir da noção de que esses indivíduos são casos
específicos a ser tratado com a saúde pública, a compreensão dos inúmeros problemas sociais
presentes no entorno da maioria dos crimes de tráfico já registrados até então, considerados de
menor importância, tem que ser capaz de criar meios de atenuar penas e até mesmo
desencarcerá-las quando constado, pelos mesmos operadores do direito que reconhecem a
blindagem da lei aos megaempresários, já que atualmente as inúmeras precariedades
identificadas no contexto social do sujeito acusado não são proporcionais as mesmas punições
dadas a infrações hediondas.
Sendo assim, defende-se que muitos dos critérios informais já utilizados para
fundamentar o crime de tráfico de drogas sejam institucionalizados na norma jurídica, mas de
forma que receba um tratamento mais brando, se não o igual, ao mesmo garantido aos
usuários. Conclui-se que a materialidade a ser defendida como acréscimo a nova lei de drogas
não seja para diferenciar traficantes de usuários, mas sim para fragmentar o crime de tráfico, o
qual atualmente não compreende as especificidades das dinâmicas sociais brasileiras.
Critérios que apontam as vulnerabilidades dos indivíduos, como pobreza, baixa escolaridade e
desemprego, por exemplo, devem ser adotados não do modo atual, o qual sustenta o perfil do
monstro humano e anormal (Foucault, 2001), mas da maneira em que se reconheça a
fragilidade dessas pessoas devido aos contextos sociais as quais estão inseridas e submetidas,
para que as mesmas possam receber a devida atenção do Estado correspondente as suas
necessidades, assim como penas proporcionais a gravidade de seus atos.

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O Processo Penal no Governo do Estado do Rio de Janeiro: contribuição de


um estudo situacional dos mandados coletivos

Michael Batista Lima1

Resumo: A análise histórica e jurídico-política sobre os enunciados em mandados de busca e


apreensão, os mandados coletivos, visa demonstrar violações a regras de direito processual e
material feitas por juízes (as) em suposta “continuidade descendente” a práticas policiais
históricas de PMs sobre favelados. Como elemento coexistente a outros, interna e
externamente, numa ordem pública e estatal governamentalizada, a sua descrição contribuirá
para a demonstração de relações institucionais que possibilitaram a situação desta teratologia
jurídica e social, numa conjuntura de “pacificação” das UPPs com gestão armada da vida,
com introdução duma economia nas favelas, as expectativas da imprensa, etc., a formar a
condição de possibilidade para as suas formações.

Palavras Chave: Enunciado; Governamentalidade; Mandado de busca e apreensão.

Introdução
A principal pergunta da nossa de pesquisa é por que os juízes (as) do plantão judiciário
expediram mandados de busca e apreensão sem a individualização de casas, localizadas em
favelas? Seguinte a esta questão, a partir da previsão do inquérito policial (art. 144, § 1º, IV e
§ 4º do CF. art. 4º do CPP), procedimento administrativo destinado a apurar infrações penais,
pode o operador dispensar-se do inquérito como medida liminar vez que convencido da
suficiência de provas da autoria e materialidade do crime, em favor do mandado coletivo
como medida liminar à persecução do fato criminoso? Se não, a circularidade de quatro casos
de mandados coletivos tratar-se-iam de desvios excepcionais ou gerais? Como as autoridades
judiciais justificaram a tomada destes mandados como medida liminar de apuração do crime?
Para tanto, o método e as respectivas hipóteses referente às respostas elaboradas para
atendimento das questões que nos inquietam, segue o modo como vimos desenvolvendo-as
em pesquisa.

Desenvolvimento
O intento na aproximação por extenso “O Processo Penal no Governo do Estado do
Rio de Janeiro” tem o objetivo de elaborar uma tese que considere o judiciário como esteio de

1
Doutorando do Programa de Pós-Graduação em Ciência Política da Universidade Federal Fluminense (PPGCP-
UFF). E-mail: mchmoore755@gmail.com.

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políticas públicas do Estado-administração voltadas para a segurança pública militarizada. Na


determinação de mandados de busca e apreensão sem a individualização de endereços e
domicílios para a instauração de procedimento de apuração dos fatos [persecutio criminis],
consta na peça dos mandados que, fatal e com inconteste evidência, que dos quatro casos
envolvendo mandados coletivos, dos anos 2000, em dois até agora analisados o processo
penal desdobrou-se através de violações de regras preestabelecidas que lhes dão forma e
limite.
A partir da noção de governo consideramos um eixo da governamentalidade
[gouvernamentalité], ligado a esta, segundo consta, como parte das análises sobre o tema
“poder” desenvolvida por Michel Foucault2, na primazia de atribuirmos tal conceito aos
elementos componentes da ordem do Estado fluminense para conter o estudo situacional
proposto, como método que visa dar conta de respostas às questões feitas ao problema
referido.
Por sua vez, o que se entende por análise situacional nesta proposta de pesquisa,
passará com o significado daquilo que um antropólogo chamado Van Velsen demarca. A
“análise situacional” se refere à coleta efetuada pelo etnógrafo cuja implicância do modo
específico em que a informação é usada na análise esteja na “tentativa de incorporar o conflito
como sendo ‘normal’ em lugar de parte ‘anormal’ do processo social” (VELSEN, 1987:345).
Além de considerações referentes à coleta de dados pelo trabalho do etnógrafo em campo,
Van Velsen também desenvolve uma reflexão sobre o modo específico em que a informação
do que é coletado é usada na análise (Idem). O fato do autor não considerar somente como
importante a observação de indivíduos, ações, comportamentos e/ou categorias nativas, etc.,
no fazer etnográfico pelo trabalho de campo, mas, considerar que as normas escritas de uma
cultura e a interpretação que o etnógrafo deve fazer do que está escrito e do que é praticado,
igualmente, se encontram em um contexto social mais amplo e específico de cada instituição,
é o encaminhamento da visão deste teórico da antropologia que vem nos auxiliando na
manipulação do material empírico da presente pesquisa3.

2
Em consonância com os eixos da noção de “governo” que Michel Foucault sistematiza e dentre as duas ideias
de governamentalidade elaboradas, a que nos interessa desdobra-se por um conjunto definido pelas instituições,
procedimentos, análises, reflexões, cálculos e táticas que permitem exercer essa forma de exercício do poder que
tem, por objetivo principal, enquadrar uma população e identificar indivíduos; por forma central, a economia
política, e por instrumento técnico essencial, os dispositivos de segurança. Para mais, consultar FOUCAULT
(2008a; 2006).
3
Do que tange à “coleta” de material empírico para esta pesquisa – os autos dos processos respectivos
movimentando mandados coletivos – iniciou-se a partir de um e-mail enviado para o Núcleo de Direitos
Humanos da Defensoria Pública do Estado do Rio de Janeiro (NUDEDH-DPRJ); quem nos forneceu os números

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Embora seja deslocada para a área de concentração da teoria política, valendo-se da


respectiva teoria antropológica para pensar elementos da experiência de uma ordem estatal
histórica e jurídico-política, nossa apropriação vem imprimindo uma análise situacional dos
mandados coletivos como um enunciado, um elemento existente e coexistente a outros
elementos4. Noção e hipótese atribuída ao Estado fluminense para o fim de tecer observações
e análises sobre o poder do Estado em suas três racionalidades (procedimentos de controle da
população e economia política – em terras sem regularização fundiária e com déficit
habitacional – e dispositivos de segurança – mídia e processo criminal em suas respectivas
correlações de forças em torno do combate às drogas do varejo) a nos servir de pano de fundo
da formação e/ou circularidade destas medidas judiciais, no limite, a considerar na proposta
de elaboração e descrição do contexto de cada caso a expectativa, crescente ou decrescente,
iminente ou longínqua, da realização de megaeventos na cidade.
Com as três características que definem a governamentalidade do Estado/da política
carioca de segurança pública, a servir-nos de background para um “estudo situacional”
partindo de um elemento cuja condição de existência signifique a violação de regras e o
conflito delas, o que dá realidade à teoria antropológica que embasamos, todavia, com
deslocamento para a área de concentração de teoria política, visa dar forma e corpo a um
método cujo objetivo seja elaborar hipóteses das questões do porquê as ordens foram
despachadas; se as condições, o contexto de cada caso, nos permitiria interpretá-las como
desvios, gerais ou excepcionais; e como suas formações e circularidades seriam “justificadas”
pelos seus autorizantes, do Plantão Judiciário do Tribunal do Rio de Janeiro. Na suspeita de

de processos respectivos de cada caso. Com posse destes, foi possível o acesso imediato aos autos destas
instruções criminais através de contato com um dos assessores do desembargador da 8ª Câmara Criminal do
Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro. Pois, nossa metodologia que tem base em teoria da etnografia,
mas que, por condições limitadas de possibilidade de realização de trabalho de campo em suposto ambiente
judicial, conta com a objetividade dos discursos enunciados nas peças, em especial nas ordens de busca
despachadas, de tal modo a nos viabilizar “modalizar” um tipo de análise de discurso de uma área social (poder
judiciário), paralelamente, tendo em vista descrever a organização do campo que tornou e/ou torna possível o
aparecimento e a circulação de enunciados, além do que formou o denominado “mandado coletivo”, e dos que
constam nas referidas decisões: “ordem pública e “cidadão de bem”.
4
O “enunciado” [énoncé] é uma proposição ou uma frase considerada desde o ponto de vista de suas condições
de existência, não como proposição ou como frase, mas, como a modalidade de existência de um conjunto de
signos: referir-se a objetos e sujeitos, entrar em relação com outras formulações, e ser repetível. O levantamento
por análise do enunciado para a descrição da lei e/ou das práticas estratégicas que o regem não busca descrever
remetendo-o a alguma instância fundadora, não. Mas, apenas os remete a outros enunciados para mostrar suas
correlações (lei de sua coexistência com outros), a sua condição de emergência e materialidade, a sua forma
específica de ser, os princípios segundo os quais se substituem ou transformam-se, suas exclusões, etc. Para
mais, consultar FOUCAULT (2008b:105).

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131

determinado acontecimento5, enquanto regularidade ou novidade do enunciado “mandado


coletivo”, vimos desenvolvendo um método que propõe “modalizar” um tipo de análise de
discurso capaz de definir a hipótese da coexistência de regularidade histórica de práticas em
conjunção à do acontecimento discursivo “mandados coletivos”. A experiência desta ordem
que conta com a implementação de UPPs em solo carioca, implicaria em descrevermos a
economia política de ambos os casos, o conjunto de procedimentos, táticas, análises e cálculos
estatais, etc., que visam controlar condutas da população das favelas, assim como a descrição
das atividades de três de seus dispositivos de segurança (mídia, polícia e sistema penal) – se
não for a “descrição”, pelo menos a resenha sobre o comportamento destes elementos –, haja
vista tratarem-se de elementos desta ordem estatal dispostos nas condições de possiblidade de
implementação da mesma política de “pacificação” de favelas. Então, trata-se de propor três
perguntas e uma metodologia para o alcance de respectivas respostas a partir da análise de
cada caso, na primazia de compará-los e aproximá-los de uma linha de investigação de cariz
policial-punitiva e de área de concentração teórico-política.
Os enunciados componentes do título aludem a três interrogações de caráter
velseneano, a partir dos autos dos processos envolvendo como medida liminar os mandados
coletivos coletados, a formar nossas questões de pesquisa. A primeira interrogação visa tratar
do porquê respectivos juízes (as) do Plantão Judiciário (Resolução CNJ n. 71/2009) de Varas
Criminais do Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro (TJ-RJ) acionaram mandados de
busca e apreensão sem a individualização de casas ou endereços, em contrapartida, sob
violação do previsto no art. 243 do CPP, sem investigação prévia, mas admitindo indícios da
polícia na representação de delegados, constando a “imprescindibilidade da prisão de
investigados, protegendo-se as diligências que surgirem em seu curso, notadamente a busca e
apreensão domiciliar e nos locais específicos de confronto”6. A segunda interrogação inquiri
se as medidas dos mandados coletivos tratar-se-iam de medidas desviantes gerais ou

5
Na noção de acontecimento [événement] pode-se distinguir dois sentidos: acontecimento como novidade ou
diferença e o acontecimento como prática histórica. O primeiro é acontecimento arqueológico e quer dar conta
da novidade histórica; o segundo é acontecimento discursivo e quer dar conta da regularidade histórica das
práticas. De modo que Foucault descreve os enunciados como acontecimentos, opondo a análise discursiva em
termos de acontecimento àquelas que descrevem o discurso desde o ponto de vista da língua, do sentido, da
estrutura ou do sujeito, porque a descrição em termos de acontecimento, em lugar das condições gramaticais ou
das condições de significação, leva em consideração as condições de existência que determinam a materialidade
própria do enunciado (o conjunto de instâncias que possibilitam e regem a repetição do enunciado), e/ou as
correlações que compõem um domínio de associações deles (enunciados que compartilham um mesmo estatuto).
Para mais, Op., cit. p. 25-28, 52, 67-68.
6
BRASIL. Governo do Estado do Rio de Janeiro. Delegacia de Combate às Drogas (DCOD). Representação por
Prisão Cautelar Temporária e por Busca e Apreensão. Autos do Processo n. 0208558-76.2017.8.19.0001.
CASTRO, Gustavo de Mello; DOMINGOS, Vinícius Ferreira. Rio de Janeiro: 16 ago. 2017. p. 07.

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excepcionais, enfim, se tornadas, ou não, regra de conduta da judicância nestes casos,


tentando discutir a possibilidade de dispensabilidade do procedimento do inquérito policial
quando da autoridade policial deter provas de autoria e materialidade da infração. A terceira
questão de nossa problemática, porquanto da proposta de estudo situacional, configura-se de
tal modo a interpretar como os magistrados justificaram estes supostos desvios, em primeiro
lugar, a uma regra de direito processual (art. 243 do CPP), cuja violação esteja no cerne da
formação dos mandados coletivos.
Nossas hipóteses, ainda parciais, porquanto criadas para teste de um projeto de tese,
com a primazia de metodologizar nossas respostas, suspeitas explicativas que pretendem
partir de uma análise sobre um elemento judicante, tendo como pano de fundo uma conjuntura
de governamentalidade do estado, de nossa primeira questão, a hipótese é a seguinte:
a dos juízes (as) do plantão judiciário terem apostado na visibilidade da atuação estatal
investigatória – a partir do comportamento da imprensa em tornar os respectivos confrontos
entre polícia e tráfico, diga-se de passagem, em causa pública e urgência de momento da
segurança militarizada do Estado. Para além da proteção da imagem de autoridade da
interpretação dogmática em promover a extinção e a punição do conflito em momento de
encaminhamento de expectativas declinantes acerca do futuro das UPPs, os mandados
coletivos supostamente tratar-se-iam duma espécie de imposição de punição mais rigorosa
pelas autoridades “superiores” do sistema criminal como resposta ao nível de afronta e de
prejuízo proporcionado pelas facções criminosas aos agentes da lei – na Cidade de Deus, com
a morte de quatro policiais militares na queda de uma aeronave da PM, e no Jacarezinho, com
a morte de um policial civil, em confronto, da Coordenadoria de Recursos Especiais (CORE)
da Polícia Civil –, da forma mais imediata em apelação ao direito penal como “solução”, a
partir da força moral que o espírito de corpo destes profissionais atualizam com regras
pessoais de defesa corporativa; sob pena de passar-se como um juiz “mal visto” pelos
operadores reacionários do sistema e no tribunal, a começar pelos delegados que
representaram determinação de ordem de busca.
Além do conflito institucional não poder ser visto “como um sintoma de crise no
sistema, mas como uma revolta que deve e precisa ser reprimida” (DAMATTA, 1997:185), o
que entendemos se tratar de um pressuposto da instituição judicial na administração do
conflito entre tráfico e polícia, segundo consta numa das diligências inclusive, com a visão de
afronta decorrente de “animus associativo” para formação de bandos com intuito de infringir

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normas [societas sceleris]7 dos membros do primeiro, constando ainda como pressuposto
deste órgão, pelo menos para alguns operadores, sendo emblemática a visão da presidenta do
Superior Tribunal de Justiça (STJ), a ministra Laurita Vaz, de que os espaços das favelas
tratam-se de regiões de crime permanente8, são constatações que, além de ter o que dizer do
vivente que simboliza o oposto ao valorizado “cidadão de bem”9, como temos visto, são
constatações que “batem” com os encaminhamentos das representações que delegados de
delegacias de combate às drogas despacharam aos plantões judiciários.
Entendemos que o elogio das juízas feito à polícia militar nas duas diligências que até
agora analisamos, seguida de anuência com os indícios encaminhados na representação de
delegados para a determinação de ordens de busca genéricas, por conseguinte, demonstra
nada mais de que, por detrás da moral que sustenta o direito e o processo criminal na cultura
jurídica fluminense, o valor do espírito de corpo do judiciário – mesmo cientes da prática de
invasão de domicílios, seja por traficantes como esconderijos, seja por PMs sem ordem de
autoridade natural competente ou consentimento do morador – vem se estendendo ao seu
aparelho de repressão: a Polícia Civil. Fato que nos licita a declarar que, tanto levando em
conta o percentual de julgados de favelas a figurar PMs como única testemunha sobre
flagrantes delitos, segundo pesquisa de Dzimas Haber10, quanto partindo da própria formação
dos mandados coletivos, são práticas que “qualificam” um judiciário que tornam PMs e
policiais civis juízes de si mesmos. Os cinco mandados coletivos, desde o “caso Tim” (2002)
até o caso Maré (2014), nos parecem acontecimento díspares (FOUCAULT, 2008b: 6), isto é,
que ocorre numa sequência ora regular, ora diferente, temporalmente falando, onde o uso da
autoridade aplica a lei recorrendo à novas violências processuais na primazia de ordenar e
resgatar a tal “ordem pública” para o “cidadão de bem”. É um pressuposto desta instituição e

7
BRASIL. Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro. Decisão do Processo n. 0397891-81.2016.8.19.0001.
Juízo de Direito da 2ª Vara Criminal (JAC) do Plantão Judiciário Noturno: COSTA, Angélica dos Santos. Rio de
Janeiro: 21 nov. 2016.
8
Cf. BRASIL. Superior Tribunal de Justiça. HC 267.968/RJ do Processo 0076922-29.2014.8.19.00210. Relatora
Ministra Laurita Vaz, j. 15 ago. 2013.
9
Cf. BRASIL. Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro. Decisão do Processo n. 0397891-
81.2016.8.19.0001.
10
A pesquisa de Dzimas Haber, da Defensoria Pública do Rio em parceria com a Secretaria Nacional de Drogas,
constatou a cifra de 94,98% de sentenças em que PMs figuraram como testemunhas absolutas dos flagrantes de
traficância de drogas em favelas; a cifra de 65,85% dos acusados terem sido apreendidos sozinhos, e a ocorrência
de 40,92% das sentenças como objeto de convicção dos magistrados de que os réus integrem associação
criminosa por causa do local do flagrante, tido de “locais suspeitos”. Carolina Dzimas Haber declara que sob o
dispositivo e efeito da súmula 70 do Tribunal de Justiça aplicado às instruções em que a palavra de policiais
militares são testemunhas absolutas nas apurações criminais de tráfico em favelas, são decisões que os tornam
“juízes de si mesmos”. Ver HABER (2018).

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da sociedade determinada hierarquicamente pôr “‘cada qual no seu lugar’” (DAMATTA,


1987: 184).
Como se vê, as juízas do Plantão deferiram as representações dos delegados, de um
lado, sim, baseadas em investigações prévias, onde num caso, por exemplo, lê-se:

(...) e em vista da constatação de que os principais e mais violentos


confrontos têm ocorrido em uma área delimitada da favela do
JACAREZINHO e das comunidades limítrofes (BANDEIRA 2 e
CONJUNTO HABITACIONAL MORAR CARIOCA), conforme as
declarações prestadas pelos policiais militares com grande vivência na
comunidade, bem como em vista dos registros de ocorrência acostados aos
autos, tem-se como imprescindível o deferimento da busca e apreensão
nestes locais (...)11.

Fica, assim, evidente que os indícios fornecidos pela polícia militar, conjugados a
investigações de inquéritos anteriores sobre a área, foram decisivos para a determinação das
respectivas ordens de busca e apreensão.
Quanto às suspeitas da segunda questão, temos que:
com maior evidência no caso Jacarezinho12, mas, não descartando-se a respectiva
hipótese de ambos os casos, o que pode haver de geral em cada situação de formação de
mandado coletivo, além do que esta pesquisa inquiri sobre suposta dispensabilidade do
inquérito quando da autoridade policial deter provas do fato, e do mesmo tornado causa de
interesse da opinião pública midiática, são as possíveis relações pessoais entre as autoridades
das instituições (das delegacias especializadas e dos plantões judiciários noturnos); e o que

11
BRASIL. Governo do Estado do Rio de Janeiro. Delegacia de Combate às Drogas (DCOD). Representação
por Prisão Cautelar Temporária e por Busca e Apreensão. Autos do Processo n. 0208558-76.2017.8.19.0001.
CASTRO, Gustavo de Mello; DOMINGOS, Vinícius Ferreira. Rio de Janeiro: 16 ago. 2017. p. 7-8.
12
Na mesma esteira do Ministério Público, a magistrada do plantão do dia 12 de agosto de 2017, a juíza de
direito Maria Izabel Pena Pieranti, que apesar de ter acolhido os pedidos de prisão temporária do delegado da
DCOD, indeferiu o pedido de devassa genérica salientando o não preenchimento dos requisitos para o
deferimento da busca domiciliar, especialmente com valor atribuído à imprescindibilidade de investigações e
provas concretas que justificassem a respectiva necessidade. Após a distribuição do feito ao juiz natural, em 14
de agosto de 2017, a representação seria renovada ou reiterada, ao juízo da 39ª Vara Criminal, de modo a ser
indeferida novamente, haja vista o mencionado juízo ter-se declarado incompetente à apreciação do pedido. No
dia seguinte, pela terceira vez, a autoridade policial buscou junto ao plantão judiciário noturno a decretação do
mandado coletivo; o qual, finalmente, fora concedido pelo juízo do plantão do dia 16 de agosto de 2017. O que
se diz com isso é que a violação processual deu no ato de reiteração de representação pretérita, conforme
previsão do art. 1º da Resolução do Conselho Nacional de Justiça (CNJ n. 71/2009), que dispõe sobre o regime
de plantão judiciário em primeiro e segundo graus. Senão, vejamos: “§1º do art. 1º. O Plantão Judiciário não se
destina à reiteração de pedido já apreciado no órgão judicial de origem ou em plantão anterior, nem à sua
reconsideração ou reexame ou à apreciação de solicitação de prorrogação de autorização judicial para escuta
telefônica”. Cf. BRASIL. Conselho Nacional de Justiça. Resolução n. 71, de 31 mar. 2009. Dispõe sobre regime
de plantão judiciário em primeiro e segundo graus. Brasília, DF. 31 mar. 2009. p. 1-2; BRASIL. Defensoria
Pública do Estado do Rio de Janeiro. Habeas Corpus com Pedido de Liminar do Processo n. 0208558-
76.2017.8.19.0001. LOPES, Daniel Lozoya Constant et., al. Rio de Janeiro: 24 ago. 2017: 06.

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pode haver de excepcional, porém, como uma espécie de novidade dentro duma regularidade
temporalmente díspar, pois, são as violações a regras de direito processual: a própria
existência do elemento “mandado coletivo” senão pelo ato de violação do art. 243 do CPP.
Suposta repetição desta regularidade, a partir dos anos 2000, se manifesta com o caso Elias
Maluco (2002), cuja prova de que traficantes usam domicílios de pessoas sem vínculo com o
movimento de drogas como esconderijo é evidente. O que, ao ingressar na memória das
instituições criminais, supostamente, o seu domínio e assimilação formar-se-ia numa espécie
de “tipo ideal” jurisprudencial para casos de busca e apreensão de delitos que interessem à
Justiça com emergência.
Por sua vez, de como delegados de polícia de Delegacia de Combate às Drogas
(DCOD) e juízes (as) do Plantão Judiciário (Resolução CNJ n. 71/2009) agiram perante as
normas processuais, e em nome de quem discursaram – especificamente os juízes (as) dos
plantões de forma discricionária – perante a principal fonte do Direito, temos que:
o que se pode dizer acerca desta teratologia jurídica e social denominada de “mandado
coletivo” é que, a sua forma e condição de existência pode se tratar dum signo cujas práticas,
sujeitos e objetos coexistentes ou relacionados, se trate de um produto ou dum processo de
uma repetição. Uma repetição, pois, de práticas policiais sobre populações pobres, negras, em
espaços urbanos estigmatizados pelo próprio estado que as “expulsou”13 do centro do Rio em
dado momento dentro da existência de um século das favelas, para os morros e periferias,
através de remoções em defesa de locais valorizados. Mas, outrossim, de práticas em
“metamorfoses” em conjunção com o movimento do tempo histórico, transformando-se até
consolidar-se nas invasões de casas sem autorização ou consentimento legal por PMs, após o
percurso histórico de remoções de favelas. A análise que propomos, segundo a qual não busca
descrever remetendo os enunciados atuais a alguma instância fundadora, mas, sim, apenas a
outros enunciados históricos dentro desta questão “favela” face “política de gestão armada”
ou “favela” face “sistema criminal”, visa desenvolver uma hipótese concreta da existência de
uma condição histórica enunciativa coexistente ao enunciado dos atuais casos de mandados
coletivos. Condição histórica a propósito da formação e das práticas discursivas que
mantenham correlações e concomitâncias determinadas com as práticas discursivas atuais,
mesmo que impertinentes a nossa época. Não se trata de designar a condição de validade dos
juízos, nem buscar estabelecer o que torna legítima uma asserção, mas sim estabelecer e
propor, hipoteticamente, as condições históricas possíveis dos enunciados presentes; as suas

13
Cf. CHALLOUB (1986:30).

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condições de emergência, os princípios segundo os quais se substituem ou transformam-se, a


lei de sua coexistência com outros; as estratégicas que os regem e/ou regeram (FOUCAULT,
2008b: 67-68).
Sem investigação prévia a partir do fato criminoso, mas, com inquérito instaurado,
simultaneamente, em conjunção ao despacho dos mandados coletivos, ambas as diligências
começam com a ordem de “prisão temporária” dos acusados, seguido de informações destes
prestadas pela PM, de tal modo a serem confrontadas “com pesquisas e informações
levantadas pelo setor de inteligência do DCOD”14, para chegar-se a nomes de investigados
com “o fito de identificar e prender os indivíduos responsáveis pelos atuais confrontos contra
policiais militares”15. A exemplo dum dos casos, seguinte a dignificação dos serviços
prestados pela PM carioca e da atribuição de circularidade de notícias veiculadas pela
imprensa sobre ações criminosas regulares de traficantes, a autoridade policial declara que a
“vivência nas investigações de tráfico de drogas revela que traficantes obrigam moradores a
guardarem drogas e armas em suas residências, uma vez que isso evita a descoberta da
localização de seu poderio pelo Estado”16. Em outro caso, que ainda se encontra sob
levantamento do número do processo, a juíza plantonista Renata Palheiros Mendes de
Almeida, “justificou” a autorização de agentes violarem domicílios, porquanto a
impossibilidade da “exata individualização das residências a serem vistoriadas, já que se
trata de comunidades sem ruas definidas e cujas casas não têm numeração”17.

(...). Segundo o princípio da proporcionalidade deve o julgador sopesar os


bens jurídicos envolvidos, no momento de proferir sua decisão (...) os
direitos individuais não são absolutos merecendo a sua relativização quando
em conflito com interesses maiores. O interesse coletivo deve preponderar
sobre o interesse individual quando (...) estiver servindo de ‘escudo’ para a
prática de crimes (...) os criminosos não se estabelecem em um único local,
mas vão ocupando casas, inclusive de moradores de bem, ficando difícil
apontar uma residência em específico. Em tempos excepcionais medidas
também excepcionais são exigidas, com o intuito de restabelecer a Ordem

14
Cf. por exemplo, BRASIL. Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro. Decisão do Processo n. 0397891-
81.2016.8.19.0001. Juízo de Direito da 2ª Vara Criminal (JAC) do Plantão Judiciário Noturno: COSTA,
Angélica dos Santos. Rio de Janeiro: 21 nov. 2016.
15
IDEM.
16
BRASIL. Governo do Estado do Rio de Janeiro. Delegacia de Combate às Drogas (DCOD). Representação
por Prisão Cautelar Temporária e por Busca e Apreensão. Autos do Processo n. 0208558-76.2017.8.19.0001.
CASTRO, Gustavo de Mello; DOMINGOS, Vinícius Ferreira. Rio de Janeiro: 16 ago. 2017. p. 7.
17
Cf. Paula Bianchi. Justiça suspende mandados de busca e apreensão na Penha e Alemão. Rio de Janeiro, Folha
de S. Paulo, 27 dez. 2011, Cotidiano. Disponível em:
<https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2011/10/998024-justica-suspende-mandados-de-busca-e-apreensao-
na-penha-e-alemao.shtml>; acesso em: 11 mar. 2017.

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Pública aviltada (...) DEFIRO a expedição dos competentes MANDADOS


DE BUSCA E APREENSÃO (grifos nosso)18.

Ambas as “justificativas” das juízas plantonistas dos casos, não só dão evidência de
violação à regra específica prevista para os mandados de busca e apreensão (art. 243 do CPP),
violação a regra de direito processual e depois, material, como se exige a elaboração duma
discussão significativa sobre alguns dos princípios do processo penal, por exemplo, o da
proporcionalidade e o da verdade real, como proposta de discutibilidade n’alguma das etapas
desta pesquisa.
Descrever a organização do campo que tornou e/ou torna possível o aparecimento e a
circulação de enunciados, visando mostrar a situação do elemento “mandado coletivo”, é
descrever a sua materialidade cujo domínio associado pode estar na alusão de duas frases
correlatas à sua determinação: “ordem pública e “cidadão de bem”. Enunciados, cujo objeto
nos parece ter sua respectiva condição de emergência numa área social jurídico-política; tendo
em conta práticas das últimas décadas de gestão estatal armada da vida nas favelas. Dentro
desta problemática que entende o controle social do direito penal associado a uma sociedade
determinada por divisão de classes e hierarquias de distinção sob uma racionalidade política
declarada de “guerra às drogas”, “guerra do Rio”, etc., as práticas destes discursos podem ter
o que ver com a época da Operação Rio (1994). Condição histórica na cidade do Rio em que a
situação do judiciário do estado, com seus juízes, apoiou as Forças Armadas, disponibilizando
vários mandados de busca e apreensão dentro e a partir da criação de um Plantão
Extraordinário do Poder Judiciário do Estado do Rio, a pedido das autoridades militares para
as operações em favelas. A propósito de discursos ou acréscimos, como ‘e nas demais casas
circunvizinhas, em desdobramento ao cumprimento deste mandado’19 ou ‘e adjacências’, nas
determinações judiciais não-individualizadas20, tratar-se-iam de práticas discursivas
determinadas de uma época cuja materialidade e condição histórica merece consideração
analítica em correlação aos mandados coletivos dos anos 2000.

18
BRASIL. Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro. Decisão do Processo n. 0397891-
81.2016.8.19.0001. Juízo de Direito da 2ª Vara Criminal (JAC) do Plantão Judiciário Noturno: COSTA,
Angélica dos Santos. Rio de Janeiro: 21 nov. 2016.
19
Cf. Jorge da Silva. Operação Rio: antes da Rio+20, para não esquecer o papel da mídia, In: Criminologia
Crítica: segurança e política. 2ª ed. Rio de Janeiro: Forense, 2008. Disponível em:
<http://www.jorgedasilva.com.br/artigo/52/>; acesso em: 16 dez. 2018.
20
Cf. Maurício Ferro. O que pensa o general que coordenou operação de combate ao crime em 1994 no Rio. Rio
de Janeiro, O Globo, 22 fev. 2018. Disponível em: <https://oglobo.globo.com/rio/o-que-pensa-general-que-
coordenou-operacao-de-combate-ao-crime-em-1994-no-rio-22421979>; acesso em: 22 fev. 2018.

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Um aspecto desta condição que pode estar relacionado aos desdobramentos das
relações sociais envolvendo a divisão da sociedade em favor e regularidade do discurso
“ordem pública” e “cidadão de bem”, contra, por exemplo, as “classes perigosas”, é uma
problemática que nos licita a propor como chave para análise autores como Juliana Rezende
(1995) e Cecília Coimbra (2001), Luíz Alexandre Fuccille (1990) e Jorge Zaverucha (2000).
Na expectativa crescente de que ambos os autores disponham de objetividade crítica sobre os
ditames do establishment, sito é, sobre os discursos da ordem de interface exclusão/opressão
em posição antagônica com as exigências da equação Direitos Humanos/Segurança Pública.
A exemplo de Cecília Coimbra (2001), é certo a tomada de conhecimento das “matrizes
(des)informadoras dos meios de comunicação”, ao explicitar-nos a economia midiática face a
ação repressiva do Estado do Rio na fracassada Operação Rio (1994). Época em que a
chamada “guerra no Rio” se deflagraria oficialmente21. Se regeneramos de nossa memória
histórica os fragmentos de um passado jurídico-político, cumprir-nos-á encontrar um
equilíbrio entre acontecimento como novidade e acontecimento como regularidade, mesmo
que numa “população de acontecimentos” diversos, para definirmos o acontecimento
discursivo de nossa problemática: os mandados coletivos.
Sem pretensão de resgate do desgastado esquema de “infra” e “superestrutura”,
inclusive desacreditada por Nicos Poulantzas22, no direito penal brasileiro é decisivo advertir-
se para a ‘essência econômica’ que subjaz às definições jurídicas abstratas, haja vista as
relações econômicas, por seu turno, não se constituírem estruturalmente apenas de relações
sociais, mas, também de relações marcadamente políticas e jurídicas 23. As relações
econômicas não se constituem estruturalmente apenas de relações sociais, mas, também de
relações marcadamente políticas e jurídicas24. Na consideração da finalidade do direito penal
envolta duma racionalidade política permanente de combate militarizado ao tráfico varejista
em favelas, algumas indagações nos ocorrem: sobre a chamada “guerra no Rio”, cujo
enunciado circula desde os anos 1990, supostamente, tratar-se-ia duma guerra de todos contra
todos, ou, pelo contrário, duma guerra de alguns contra outros? Se o direito é operado por
homens, qual seria a posição dos homens que o operam nessa guerra? O direito “seria”

21
Cf. Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 1 nov. 1994. Apud: Marcos Barreira e Maurilio Lima Botelho. O Exército
nas Ruas: da Operação Rio à ocupação do Complexo do Alemão. Notas para uma reconstituição da exceção
urbana. In: BRITO, F; OLIVEIRA, P. R. de (Orgs.). Até o Último Homem. visões cariocas da administração
armada da vida social. São Paulo: Boitempo, 2013: 118.
22
Cf. POULANTZAS (1980:19).
23
Cf. Santos (1986:73) apud Batista (2007:18).
24
IDEM.

Anais do VII Seminário Fluminense de Sociologia – 2018


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139

autônomo com respeito ao contexto histórico em que o mesmo fora produzido? Qual direito o
direito tem de compor um conjunto de noções universalmente válidas nesta condição? Só o
direito penal evita que se prorrompa tal guerra? Evitada a guerra, quem ganha e quem perde
com a “paz” da finalidade que o direito penal, em tese, prevê assegurar?

Conclusão
Das respostas à questão sobre o modo como juízes (as) “justificaram” a determinação
de mandados coletivos para favelas da cidade do Rio de Janeiro, que uma vez sistematizadas
comporão uma das etapas desta pesquisa, vimos que a metodologia proposta sobre os
enunciados questionados está em reconstruí-los a partir de hipóteses das práticas militares-
policiais de invasão de domicílios em favelas a partir de suas condições históricas de
existência, econômica e jurídico-política, a nos possibilitar a descrição de sua formação
(emergência), regularidade e/ou diferença e situação, mais recente, que na imprensa e no meio
jurídico são enunciados de “mandados coletivos”.
Com a tarefa de descrever o suposto campo que organiza e regula, estrategicamente, a
condição possível de circulação dos enunciados “mandados coletivos”, “ordem pública” e
“cidadão de bem”, a partir de uma instituição estatal do direito sob um corporativismo
estendido a práticas policiais, envolto de uma administração pública-estatal de conflitos sob
gestão armada da sociedade25, outrossim, esta pesquisa visa propor outro tipo de medida de
prova no processo penal que, simultaneamente, disponha de celeridade e de eficácia àquilo
que interesse à Justiça no sentido de evitar que desapareçam as provas do crime – já que não
são eternas porque sujeitas ao tempo, tampouco as pessoais já que sujeitas ao
desaparecimento por falecimento ou paradeiro ignorado –, de tal modo a evitar que o tempo
as tornem difíceis de serem aproveitadas; porém, desde que a regra da inviolabilidade do
domicílio das favelas seja respeitada e garantida. Assim como se visa considerar os direitos e
garantias dos favelados, pensar em sugestões para o aprimoramento das técnicas de defesa
jurídica da sociedade civil, e em decifrar os enigmas da dogmática jurídica para torná-los
acessíveis aos movimentos sociais de vínculo e confiança fortes das favelas cariocas, na
primazia de resistir às implementações de décadas de políticas militarizadas de segurança
pública voltadas para as comunidades.

Referências

25
Sobretudo da população das favelas, para ser mais específico.

Anais do VII Seminário Fluminense de Sociologia – 2018


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140

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Transposição didática entre os três mundos: a interculturalidade nos


princípios da educação escolar

Fred Luiz de Souza1

Resumo: O presente trabalho analisa o mito histórico que a escola é um direito de todos,
problematizando a qualidade na educação no Brasil. Partindo das escrevivências populares,
vistas como potências de inventividades desse país, busca-se refletir sobre a branquitude da
linguagem que domina o ensino brasileiro. Sabendo-se que esta estrutura de poder, provoca
MAAFA nos negros e indígenas, objetiva-se discorrer sobre uma Educação De-colonial,
dialogando com o termo quebrada oriundo das periferias e do Rap. Dessa forma, compreende-
se que a experiência dos Mcs, marcada por cosmogonias negras, é um elemento fundamental
para desvelar as realidades sociais brasileiras. Por fim, este empreendimento analítico, visa
ampliar o escopo da educação brasileira, onde a escolar seja um dever de todxs, valorizando
as múltiplas potências socioculturais que formam o Brasil. Mas que são historicamente
alijadas e extorquidas da “educação formal”.

Palavras-chave: Transposição. Didática. Antirracista.

Quebradão
As escrevivências2 evocadas3 nestas quebradas4 formam uma parte de minha
monografia aprovada no curso de Ciências Sociais na Universidade Federal Fluminense
(UFF) em 2018\1, com orientação do Drº Prof. Julio Cesar de Tavares. Este artigo contou
com o incentivo do Doutorando (UFF) em Antropologia Vítor Pimenta.
Em primeiro lugar, gostaria de sublinhar que o texto apresenta-se em uma linguagem
simples, direta, coloquial. Assim, chamo cada tópico de quebrada. O objetivo dessa escrita,
próxima à língua falada, é para homenagear as memórias dos meus avós paternos, bem como
os outros ancestrais de cor. Ao saudá-los neste trabalho, indico o véu da estrutura colonial que
negou o direito dos afrodescendentes de expressar sua cultura, nas formas de escrever e ler, e

1
Licenciado em Ciências Sociais (2018) pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Bacharelando no curso
de Ciências Sociais (UFF). Auxiliar de pesquisa no Laboratório de Etnografia e Estudos em Comunicação,
Cultura e Cognição (LEECCC) e articulação política da Nova Frente Negra Brasileira (NFNB/RJ).
2
O conceito “ESCREVIVÊNCIA” foi cunhado pela escritora Conceição Evaristo em 1995. A partir das palavras
“escrever” e “viver” Têm com a ideia de “escrita de si”, com o fato de que a subjetividade de qualquer escritora
ou escritor contamina a sua escrita. Por: Jacqueline Ribeiro Cabral (UFF).
3
Evocadas sinônimo de Evoco. Refere-se aqui sentido dos orixás chamar os deuses para iluminar.
4
Na linguagem informal, a palavra quebrada pode ser usada como gíria para um lugar alternativo, casa, área,
bairro, vizinhança ou conversas. Normalmente, esta gíria é utilizada por pessoas de comunidades periferias das
cidades. Exemplo: “Aparece hoje na minha quebrada” ou “Eu conheço uma quebrada muito legal” ou “o que
está rolando nesta quebrada”. “Nas quebradas já é”, utilizando o termo sociologia das quebradas, pelos Raps, que
reivindicam direitos em suas letras de música, trazendo soluções para seu dia a dia.

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142

até mesmo proibindo o acesso à escola eurocêntrica. Essa estrutura pode-se caracterizar como
um plano sistematicamente macabro, racista, eugênico, burro, existente em todo território
brasileiro e em outras partes no mundo.
Como crítica a esse “sistema colonial”, busco tecer um diálogo entre o a escrita da fala
da sociologia das quebradas e as religiões de matrizes africanas.
Essa escrita exigida nas universidades dissimula com esplendor o véu (DU BOIS, 1999), a
face do racismo brasileiro, na escrita acadêmica que legitimando o poder na estrutura social
brasileira. Essas estruturas racistas, movidas e perpetuadas, são praticadas por muitos agentes
(GIDDENS, 1978), que contraditoriamente, deveriam promover o debate acerca da
diminuição do racismo estrutural do país. Para manter seus privilégios, os agentes da
branquitude5 fazem de tudo, para perpetuar sua dominação, através de suas práticas, que são,
tristemente, reproduzidas por agentes de pele preta, mas de pensamento branco dominante,
vestindo assim, o que Frantz Fanon, denomina no título do seu livro Pele negra máscaras
brancas.
Há escrita intelectual no tempo e espaço serviu para os meus ancestrais sequestrados
em África é os indígenas assassinados na própria terra, muito sofrimento. Para os negros, essa
escrita torna-se iguais aos porões dos navios negreiros, sem luz, sujo, sem direção; ao chegar
dor, chibatadas, cárcere privado, estupros, decapitações, medo, torturas e horror. Para os
indígenas, perda da terra, estupro, doenças, holocausto e quase sua extinção de sua população.
Então essa escrita torna-se um código incompreensível, que fez e faz aos de cor, ser arruinado
das relações uns com os outros e com seu meio. Esses horrores são praticados pelo
pensamento colonial da branquitude, “erudito” ensinados nas escolas e nas universidades
brasileiras.
Este trabalho é fruto das minhas inquietações sobre o sistema educacional brasileiro,
com suas implicações para todxs6. Seguindo neste mesmo panorama, uma breve analise sobre
a história do sistema escolar brasileiro, sua origem, concepção do período colônia até o
império, com panorama racial (cor) de fundo. Visando a base do discurso onde escola e “um

5
A branquitude é um lugar de privilégios simbólicos, subjetivos, objetivo, isto é, materiais palpáveis que
colaboram para construção social e reprodução do preconceito racial, discriminação racial “injusta” e racismo.
No entanto, W. E. B. Du Bois, talvez seja o precursor em teorizar sobre a identidade racial branca com sua
publicação 1935 em Black Reconstruction in the United States. Em 1952, Frantz Fanon, com seu livro Peau
noire, masques blancs. Defendeu o argumento de abolição da raça. geledes.org. br, 10 de set de 2011. Retirado
em, 13/07/2018.
6
Referem-se a todos como “todxs” para não destacar gênero. A palavra “todo” foi substituída por “todx” - o uso
da letra x para suprimir gênero, no entanto, não é novidade, e é uma prática comum entre movimentos feministas
e LGBTs (lésbicas, gays, bissexuais, transexuais e travestis).

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143

direito de todos”. Compreendendo o ponto de vista histórico, vamos poder indicar se tal
promessa de fato ocorreu, para toda população de ontem e hoje. Também analisar quais
grupos carregaram as mesmas marcas identitárias de exclusão ou privilégio via educação
escolar desde o período colonial até os dias de hoje.
Este texto discutirá também sobre as implicações do lugar de fala entre a branquitude e
negros e Índios na educação brasileira. Para tanto, falar na academia para os indivíduos afro-
brasileiros e indígenas e disputar espaços de poder e desconstrução das narrativas de ponto
vista da história única (NGOZI, 2009) que desde sempre, esteve estabelecida em todas as
faculdades desse país. Neste sentido vou usar as falas dos Mcs nas citações por entender que
seus apontamentos são de grande valor para este trabalho. Como também as falas das religiões
de matrizes africanas.
Este trabalho tem como ponto apreciável o entrecruzamento do multiculturalismo
entre os três mundos existentes na formação social do Brasil. Por isso utilizo o conceito
transposição didática entre os três mundos.
Esses processos culturais cruzados7 no Brasil evocam potencias transformadora na
cosmovisão da verdadeira cara da sociedade brasileira. Essas cosmogônicas encruzadas e
compartilhadas em uma política educacional responsiva podem contribuir em certas verdades
que poderiam levam a uma sociedade menos desigual e acolhedora das diferenças existentes
no seu espaço social. Assim os privilégios mantidos pela colonização nas estruturas
educacionais sejam minimizados para os descendentes dos roubopeus8. Caso essas estruturas
sejam diluídas os três mundos formadores do Brasil, mudaram brutalmente as relações do seu
meio e como eles vivem seus dia a dia.
A partir desse panorama introdutório, pretende-se responder algumas inquietações que
serão as diretrizes para este artigo e minhas pesquisas futuras. A base para essa escrevivências
vem da minha trajetória como cidadão, onde a escola e um termo caro em minha vida.

7
Adjetivo. Atravessado. Esses termos e aqui, (Cruzo). Encruzamento. Encruzar: Utilizado como ferramenta
metodológica, político e epistemológico. O conceito dessa palavra vem do livro Fogo no Mato: A Ciência
Encantadas da Macumba. Autores: Luiz Antonio Simas e Luiz Rufino. Editora Mórula, Março de 2018.
8
Conceito em desenvolvimento… Roubopeus são todos os aculturamentos ensinados, reproduzidos com base no
colonialismo. Introduzidos, primeiramente, pelos portugueses no primeiro assalto (descobrimento das terras de
Vera Cruz) a mão armada no futuro Brasil. Também são uma marca identitária de cor da pele, o racismo que
mais adiante se tornaram política eugênica, contra os indígenas e os negros trazidos da África. Sua continuidade
é o que se tornou o maior MAAFA (holocausto) da história humana. Essa corrente de pensamento é perpetuada
até os dias de hoje, quando nossos direitos são roubados por essas políticas de modelo único centro. Como
escrevo essa monografia, no ano 2018 pela lei vigente neste ano, a essas práticas caberiam acusações de crimes,
visto pelo código penal brasileiro. Refiro-me a “roubopeus” como “europeus”. A palavra “europeus” foi
substituída por “roubopeus” – o uso da palavra “roubo” e pelo motivo de que ainda somos roubados em nossos
direitos como indivíduos iguais aos outros.

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Primeiro, recebendo os conselhos de minha mãe: vai estudar meu filho, pra ser alguém na
vida. Segundo minha trajetória escolar, parecida e diferente de muitos meninos negros
brasileiros, com encontros e desencontros com a educação escolar. Sendo assim fui aluno de
quase todas as modalidades do sistema escolar brasileiro. Em primeiro escola de freiras
particular. Segunda pública municipal. Terceira particular. Quarta CIEP9 o famoso Brizolão.
Quinta particular com bolsa. Sexta EJA10 no SESI11. Sétima EJA particular. Oitava e última, a
universidade na UFF.
Então, a escola esteve circulando diversas vezes ao longo de minha vida, seja como
aluno, parentes e amigos professores. De qualquer forma às práticas educacionais estavam
entorno da minha vida. E por esse motivo, a educação escolar e crucial em minha vida.
Seguindo os caminhos cruzados com a educação escolar, buscar a neutralidade
axiológica, tanto exigida na academia, é uma tarefa impossível papa mim. Mesmo assim
tentei, já sabendo que falhei… Assumindo o ônus de errar, mas tendo a possibilidade de um
novo acerto, continuarei…
Hoje formado com professor de sociologia e por acreditar em uma educação
multicultural responsiva compartilhada por todxs para todxs no Brasil, vejo que esse caminho
seja a iluminação da nação brasileira.

Quebrada 1
Educação escolar sempre foi um direito para os indígenas e negrxs?

Europeus a pensarem no teu poder e glória


Ocuparam a África e escreveram a nossa história
Com a Bíblia numa mão e noutra uma pistola
Ergueram uma Igreja e negaram-nos uma Escola
(Mc Azagaia, Parte da música Maçonaria part. Guto & Banda Likute, 2013).

Nun-nun-nunca deu nada pra nóis, caralho, caralho, caralho


Nun-nun-nunca lembrou de nóis, ca-ca-caralho, caralho
Nun-nun-nunca deu nada pra nóis, caralho, caralho

9
Os Centros Integrados de Educação Pública (CIEPs), popularmente apelidados de Brizolões, fazem parte de um
projeto educacional de autoria do antropólogo Darcy Ribeiro, que os considerava “uma revolução na educação
pública do País”. Implantado inicialmente no Estado do Rio de Janeiro, no Brasil, ao longo dos dois governos de
Leonel de Moura Brizola (1983 – 1987 e 1991– 1994), tinha como objetivo, oferecer ensino público de
qualidade em período integral aos alunos da rede estadual.
10
Educação de Jovens e Adultos tem o objetivo de firmar um pacto social, para melhorar e fortalecer a educação
de jovens e adultos (EJA) no Brasil.
11
O Serviço Social da Indústria (SESI) é uma rede de instituições paraestatais brasileiras e de atuação em âmbito
nacional. Foi criado em 1 de julho de 1946 com a finalidade de promover o bem-estar social, o desenvolvimento
cultural e a melhoria da qualidade de vida do trabalhador que atua nas indústrias, de sua família e da comunidade
na qual estão inseridos, em geral. Como também escola.

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145

Nun-nun-nunca lembrou de nóis, ca-ca-caralho, caralho.


(Mc Emicida, parte da música Mandume, 2015)

Do ponto de vista histórico, nosso sistema educacional brasileiro se pronunciou


excludente, colocando à margem da sociedade, os corpos Indígenas e dos Negros Desde o
século XV, esses dois grupos sofreram com o detrimento, animalização da população
roubocêntrica12 que se diz dona da terra e do pensar. Assim, construíram todo pensamento
social brasileiro ao seu privilégio. A educação serviu como ferramenta primordial para esse
processo, de blindagem cognitiva13 (TAVARES, 2014) e assim caracterizando os primeiros
problemas sociais no novo mundo, onde:

Educação é negada
Jogaram as sementes
A terra foi regada
Brotaram os indigentes
Pra resolver geladeira vazia tão enchendo o pente
A fome consome um prato com rango bem no ninho de serpente
Pegando água do poço
Andando a pé porque não tem carro
Sem energia, casa de taipa
Melhor estilo João-de-barro
Oito da noite já tá o breu
O candeeiro já acendeu
O quilombo ainda existe
Saiba que ele não morreu
Falta água porque não choveu
Pedindo pra Deus, fazendo louvor
Quem vive na extrema pobreza
Tem em comum o escuro na cor
Vivendo de favor
Na terra que é seca não tem flor
Na zona do sofredor, pobreza desfila sem pudor. Vivona!
(Mc Rincon Sapiência, 2017).

“O sistema educacional típico roubocêntrico” tem como princípios em sua afirmação


que, a escola e o motor de uma sociedade com mais equilibrada, crítica e reflexiva sendo a
escola um direito para todxs. Portanto, no papel e no discurso, são lindas e promissoras essas
ideias. Mas, até os dias de hoje, o efeito mais produzido e reproduzido neste modelo
educacional de “direito”, foi o total apagamento dos saberes outros, como o ponto de partida
para os múltiplos problemas sociais existentes na sociedade brasileira. Criando nos negros e
indígenas o que a Conceição Evaristo chama de Olhos D´água:

12
Conceito em construção… Sinônimo de roubopeus.
13
Conceito, explicado pelo Dr. Prof. Tavares, Julio em sala de aula em 2014.

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146

Uma noite, há anos, acordei bruscamente e uma estranha pergunta explodiu


de minha boca. De que cor eram os olhos de minha mãe? Atordoada custei
reconhecer o quarto da nova casa em que estava morando e não conseguia
me lembrar de como havia chegado até ali. E a insistente pergunta,
martelando, martelando. Então, eu não sabia de que cor eram os olhos de
minha mãe? E naquela noite a pergunta continuava me atormentando. Havia
anos que eu estava fora de minha cidade natal. Saíra de minha casa em busca
de melhor condição de vida para mim e para minha família: ela e minhas
irmãs que tinham ficado para trás. Mas eu nunca esquecerá a minha mãe.
Reconhecia a importância dela na minha vida, não só dela, mas de minhas
tias e todas as mulheres de minha família. E também, já naquela época, eu
entoava cantos de louvor a todas nossas ancestrais, que desde a África
vinham arando a terra da vida com as suas próprias mãos, palavras e sangue.
Não, eu não esqueço essas Senhoras, nossas Yabás, donas de tantas
sabedorias. Mas de que cor eram os olhos de minha mãe? E foi então que,
tomada pelo desespero por não me lembrar de que cor seriam os olhos de
minha mãe, naquele momento resolvi deixar tudo e, no dia seguinte, voltar à
cidade em que nasci. Vi só lágrimas e lágrimas. Entretanto, ela sorria feliz.
Mas, eram tantas lágrimas, que eu me perguntei se minha mãe tinha olhos ou
rios caudalosos sobre a face. E só então compreendi. Minha mãe trazia,
serenamente em si, águas correntezas. Por isso, prantos e prantos a enfeitar o
seu rosto. A cor dos olhos de minha mãe era cor de olhos d’água. Águas de
Mamãe Oxum! Rios calmos, mas profundos e enganosos para quem
contempla a vida apenas pela superfície. Sim, águas de Mamãe Oxum.
Abracei a mãe, encostei meu rosto no dela e pedi proteção. Senti as lágrimas
delas se misturarem às minha. (EVARISTO, 2016: 15).

Mesmo mantendo a maior parte da população marginalizada e sofrida, como olhos


D’água o sistema de educação colonial brasileiro sempre representado por uma só parte da
cultural da sociedade, seguiu seu curso ao longo de nossa história. Perpetuando os privilégios
dos roubopeus e as misérias de centenas de milhares de negros e indígenas até hoje, por só
representar e aceita a cultura roubocentrica excludente:

À problemática das culturas presentes na escola, mesmo que, como tais, não
sejam consideradas. Configurando comportamento racista e discriminador. É
fato, também, sua força naturalizaste, sua disseminação e usos enquanto
representação social e nação que migra do biológico para o político para
fortalecer, por exemplo, movimentos racistas e de intolerância (TOSTA,
2011: 238).

Nos dias de hoje, essa problemática cultural e mantida pela elite do atraso brasileira
(SOUZA, 2017), que continua com os mesmos pensamentos escravocratas do século XV. Não
querem e nem admitem uma escola plural para todxs. Movem toda estrutura social para uma
escola pública de má qualidade para os pobres, onde seus filhos não pisam nela. Assim a
escola torna-se o maior mecanismo de dominação e exclusão social desde os tempos colonial
até hoje.

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O epistemicídio promovido via educação escolar, pela estrutura da elite, impondo sua
cultura roubocêntrica, não estimulam e nem aceitam uma escola mais igualitária que seja de
pensamento diverso, onde toda cultura existente na sociedade brasileira participe dela. Ao
longo dos séculos, os “donos do poder” vêm reproduzindo, (BOURDIEU e PASSERON,
1992), esses mecanismos, em primeiro momento, essa dominação, contou com a escravidão.
A educação escolar era literalmente negada para os de cor:

O período colonial brasileiro, baseado na grande propriedade e na mão de


obra escrava neste medieval europeu da cultura transmitida pelos jesuítas,
correspondia às exigências necessárias para a sociedade que nascia do ponto
de vista da minoria dominante. O principal objetivo da Companhia de Jesus
era o de recrutar fiéis e servidores. A catequese assegurou a conversão da
população indígena à fé católica e sua passividade aos senhores brancos. A
educação elementar foi inicialmente formada para os curumins, mais tarde
estendeu-se aos filhos dos colonos. Havia também os núcleos missionários
no interior das nações indígenas. A educação média era totalmente voltada
para os homens da classe dominante, exceto as mulheres e os filhos
primogênitos, já que estes últimos cuidavam dos negócios do pai. A
educação superior na colônia era exclusivamente para os filhos dos
aristocratas que quisessem ingressar na classe sacerdotal; os demais
estudaram na Europa, na Universidade de Coimbra. Estes seriam os futuros
letrados, os que voltariam ao Brasil para o administrá-lo (RIBEIRO, 1993:
15).

A Administração das escolas de hoje mantém esses mesmos mecanismos do período


colonial, que segundo Bourdieu & Champagne (1998), exclui mais que inclui. Toda sua
estrutura é planejada para quem detêm o capital cultural escolar, adquirido dentro de casa,
assim garantindo melhores condições de vida e posições trabalhos fazendo sentido da teoria
bourdiana com implicações na estrutura econômica brasileira que:

A estrutura econômica e social baseada em grandes propriedades e na


família patriarcal que se caracterizava latifundiária escravocrata e
aristocrática teve profunda influência na organização do poder político,
econômico e cultural do país (GONÇALVES, 2005: 20).

Esse aculturamento escolar é econômico e primeiramente adquirido na família,


segundo na escola, terceiro na universidade. Assim o modelo colonial é mantido, sempre
privilegiando as pessoas de cor branca, lembrando que o racismo tem seu posicionamento nas
aquisições de melhores condições de conhecimento culturais diversos, onde a riqueza e o
poder e a pobreza e servidão “sempre” ficam nas mesmas mãos ou cor.

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O caráter formador da escola faz que os negros e indígenas já saiam perdendo por não
ter os hábitos históricos adquiridos nas famílias assim sua formação fica deficitária ao ponto
de vista da cultura exigido nas escolas:

O aluno é formado na aquisição da arte de utilização do conhecimento,


inscrita numa ideologia de resultado”, isto é, uma ideologia que entende o
processo educacional como uma monitorização técnica do processo de
controle da qualidade, tal como é demonstrável pelas políticas de
accountability (PACHECO, 2014: 33-34).

A promessa que todo o sistema educacional brasileiro esta moldado por uma educação
igualitária que garante o direito a todxs, não passa de propaganda barata da elite e classe
média escrota brasileira. A tabela abaixo nos permite validar com números os apontamentos
acima mencionados, apontando que a educação escolar nunca foi um direito de todxs e os
resultados para os negros e indígenas alijados dessa formação são dramáticos. Onde a cor
influência em uma maior qualidade de educação escolar.

Figura 1: Taxa de analfabetismo por grupos de cor pessoas com mais de 25 anos de idade.
Fonte: IBGE, 2016. Acessado em 06/07/2018.

Tendo em vista os números na tabela acima, onde a maior parte da população fica à
margem do ensino escolar, segundo os dados do IBGE14, sendo os grupos mais atingidos são
negros e também os indígenas, que não foram demonstrados no gráfico acima, com o seu
nome, mas sua cor nos indica que o índice entre eles também são alto em relação à população
branca.

14
O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística é um instituto público da administração federal brasileira
criada em 1934 e instalada em 1936 com o nome de Instituto Nacional de Estatística.

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Saviani diz; “Num segundo grupo as teorias que entendem ser a educação um
instrumento de discriminação social, logo, um fator de marginalização” (SAVIANI, 1944, p.
15.) Com essas duplas afirmativas apontadas pelo autor, à primeira tabela mostra que os
negros e indígenas são levados para as condições de analfabetismo ou semianalfabetíssimo e
marginalização no Brasil.
Seguindo neste mesmo panorama a segunda tabela abaixo permite certificar, que as
taxas de analfabetismo e o abismo regional ainda são muito grandes, principalmente no
Nordeste, que registrou a maior taxa entre as regiões dessa exclusão social via educação.

Figura 2: Taxa de analfabetismo da população de 15 anos ou mais por região.


Fonte: Agência Brasil. Acesso em 06/07/2018.

Mesmo com essas grandes taxa de analfabetismo a sociedade brasileira avançou na


primeira década de 50 até os anos 2000. O Brasil vem de forma lenta, mais crescente,
promovendo políticas públicas em educação escolar de qualidade, para que, em alguns anos,
alavancar o IDH15 do país. Mesmo assim, e comprovadamente, pelos gráficos a realidade

15
Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) é uma medida comparativa usada para classificar os países pelo
seu grau de “desenvolvimento humano” e para ajudar a classificar os países como desenvolvidos

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social brasileira via educação escolar e asquerosa e que nunca, nunca foi um direito de todxs,
mais sim um privilegio de poucos.
Uma escola que não versar um currículo inclusivo que atenda as três civilizações
formadora de sua sociedade, faz que a escola seja um fato monocultural, que não leva em
conta os negros e indígenas que para terem uma vida melhor desdém a fazer muito esforços
para conseguir um lugar melhor na vida. O sociólogo da quebrada Mc Emicida diz para nos
negros e indígenas que:

Por mais que você corra, irmão


Pra sua guerra vão nem se lixar
Esse é o xis da questão
Já viu eles chorar pela cor do orixá?
E os camburão o que são?
Negreiros a retraficar
Favela ainda é senzala, Jão!
Bomba relógio prestes a estourar”
“Aê, nessa equação, chata, polícia mata, plow!
Médico salva? Não!
Por quê? Cor de ladrão
Desacato, invenção, maldosa intenção
Cabulosa inversão, jornal distorção
Meu sangue na mão dos radical cristão
Transcendental questão, não choca opinião
Silêncio e cara no chão conhece?
(Mc Emicida, 2015).

A formação da cultura educacional brasileira nasceu na violência física e simbólica e


inclusão deixando nos corpos negros o simbolismo que a educação não e para nós.
O modelo cultural das raízes fundacionais da sociedade brasileira, forjada na violência
múltipla colonial ao longo da história, que ainda se perpetua na beira do terceiro milênio,
continuamos presos no modelo de estrutura educacional escravocrata, racista eugênico que
estabelece todas as relações estrutural e estruturante da sociedade brasileira, autorizando
pedagogicamente os corpos que deviam ser deixados nas ruas, valas, barracos e abatidos em
todo o país, sendo eles predominantemente de cor preta.
Para acabar com o alijamento dos corpos de cor, evoco para essa quebrada, a
transposição didática entre os três mundos na escola. Utilizando das três potencialidades

(desenvolvimento humano muito alto), em desenvolvimento (desenvolvimento humano médio e alto) e


subdesenvolvidos (desenvolvimento humano baixo). A estatística é composta a partir de dados de expectativa de
vida ao nascer, educação e PIB (PPC) per capita (como um indicador do padrão de vida) recolhidos em nível
nacional. Cada ano, os países-membros da ONU são classificados de acordo com essas medidas. O IDH também
é usado por organizações locais ou empresas para medir o desenvolvimento de entidades subnacionais como
estados, cidades, aldeias, etc.

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cosmogônicas, formadora do encontro. Assim fazer parte verdadeiramente da escola


brasileira. Neste sentido a definição do termo transposição didática feita pelo Philipe (1993) é
a essência do ensinar, ou seja, a ação de fabricar artesanalmente os saberes, tornando-os
ensináveis, exercitáveis e passíveis de avaliação no quadro de uma turma, de um ano, de um
horário, de um sistema de comunicação e trabalho.
Nesta quebrada e colocar na prática, as três culturas no currículo escolar, e logo sendo
aplicada em aula pelos professores, assim respeitando a maior parte da população brasileira
que na história educacional brasileira nunca tinha sido representada nem mesmo representada
nos livros didáticos. A inclusão dessas vertentes culturais na educação brasileira pode ajudar
nossa população saber suas origens, retirando o véu e se aceitar melhor:

Infeliz do povo que não sabe de onde vem


Pequeno é o povo que não se ama, o povo que tem na grandeza da mistura o
preto, o índio, o branco, a farra das culturas
Pobre do povo que, sem estrutura, acaba crendo na loucura de ter que ser
outro para ser alguém
Não vem que não tem, com a palavra eu bato, não apanho.
(Mc Emicida, Elisa Lucinda\ Compositores: Leandro Roque De Oliveira.
Música, Milionário do sonho. 21 de agosto de 2013)

Com a aceitação de abrir os caminhos para suprir essas lacunas educacionais, podemos
mudar as estruturas simbólicas estabelecidas na educação brasileira desde seu modelo de
encontro:
As discussões sobre a origem e o crescimento das sociedades afro-
americanas no Novo Mundo têm costumado envolver um modelo, implícito
ou explícito, dos modos como ocorrem os encontros entre africanos e
europeus e das consequências das “culturas”, uma africana e uma europeia,
postas em contato no Novo Mundo por colonos brancos e escravos negros.
(MINTZ e PRICE, 2003: 25).

As lutas promovidas pelos movimentos negros e outros movimentos sociais resultaram


na Lei 10639\03 alterada pela Lei 11645\08 que torna obrigatório o ensino da história e
cultura afro-brasileira e africana e Indígena em todas as escolas, pública e particular, do
ensino fundamental até o ensino médio no Brasil, desta forma o sistema educacional brasileiro
deixa de lado o caráter eurocêntrico racista nas escolas, caso a Lei seja cumprida e exigida por
todxs.
Na próxima quebrada, vamos analisar a linguagem, e seus efeitos nas escolas muda as
relações do negro e indígena entre eles mesmo e também com o branco. Assim a branquitude
mantém sua estrutura de dominação através da fala e escrita.

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Quebrada 2
Sobre o ensino e a linguagem

“Se em algum momento a comunicação do pessoal daqui falhou, vai pagar o preço.
Porque a comunicação é alma. Se não tá conseguindo falar a língua do povo, vai perder
mesmo. Deixou de entender o povão, já era.”.(Mano Brown discurso no RJ em 23 outubro
2018).

A fala e o instrumento fundamental da compreensão de um para o outro, por não


fazermos essa afirmativa no campo da educação, vivemos nesta agonia educacional e política
de hoje. Por isso a fala do sociólogo da quebrada Mano Brown é fundamental para esse
entendimento para o povo brasileiro e principalmente para os de cor.
Na caminhada da desconstrução da hipocrisia na educação, o não falar a língua do
povo nas escolas brasileiras continuou com péssimas qualidades estruturais tanto para os
alunos e professores, deixando espaços aberto para reforma tresloucada na educação, exemplo
a escola sem partido. Esse projeto é contraditório em seu nome, diz sem partido, mas já
tomando partido. Para uma escola que não leva a possibilidade das multiplicidades da
população brasileira. Quando a escola não compreender essa diversidade, deixando pessoal
que não são especialistas em educação tomar partido de sua direção, contínua o processo
colonial de negligenciar as falas de milhões de seres, levam ao que o Preto16 velho Aimé
Césaire descreve abaixo: “Falo de milhões de homens em quem deliberadamente inculcaram
o medo, o complexo de inferioridade, o tremor, a prostração, o desespero, o servilismo”
(CÉSAIRE, 1950).
E neste sentido o outro Preto velho Fanon, atribui adequadamente a fala como
fenômeno que marca a existência do outro, mas, sobretudo e especificamente no contexto

16
Conceito em desenvolvimento: Esse termo atribuindo o Fanon como Preto Velho, foi caracterizado via oral
por Luiz Rufino, no seminário novos agenciamentos sócios político em 2017 promovido pelo LEECCC\UFF. Eu
acrescentando esse conceito Chamo aqui o Frantz Fanon de Preto Velho, por ele trazer muita sabedoria e ser
considerados uns dos fundadores dos estudos pós-coloniais, hoje no Orum, ele se se torna um Preto Velho. Na
umbanda os Pretos Velhos são espíritos que se apresentam em um corpo fluídico de um senhor idoso negro e
usualmente fumando seu cachimbo. São espíritos de antigos ancestrais africanos que trabalharam e viveram em
senzalas e viram muitas coisas acontecerem. São dotados, por conta dessa vivência, de uma sabedoria gigantesca
perante a vida terrena e, por isso, sempre são capazes de indicar direções, ajudar em situações específicas e
renovar as energias de seus filhos, como chama os seguidores da Umbanda.

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colonial, onde a escola está inserida, a fala estabelece para os negros, indígenas uma dupla
dimensão que consiste na relação com seu semelhante e outra com o homem branco.
Até então a ciência (universidade) é, de fato, o lugar onde é estabelecido que o negro
fosse o meio do caminho no desenvolvimento do macaco (inumano) até o homem (FANON,
2008: 33). Mantendo as representações racistas de algumas décadas atrás. Fanon sugere que,
este fato dá conta de uma objetividade criada para a produção de uma realidade, esta
afirmativa está associada sua frase:

Atribuímos uma importância fundamental ao fenômeno da linguagem. É por


esta razão que julgamos necessário este estudo, que pode nos fornece um dos
elementos de compreensão da dimensão para-o outro do homem de cor. Uma
vez que falar é existir absolutamente para o outro (FANON, 2008: 33).

Assim com sua frase o Preto velho Fanon nos abre caminhos de resolver; “O problema
não é mais conhecer o mundo, mas transformá-lo” (FANON, 2008: 33). E neste sentido que o
cruzamento entre os três mundos, tem a capacidade de habitar um conflito entre uma escola
de pensamento único, para uma escola de pensamento múltiplo, e, assim, reivindicar outra
possibilidade de existir no encruzamento das culturas brasileiras na escola.
Em definição da análise sobre a linguagem entre os três mundos por acreditá-la como
entidade cultural a serem incorporados nos sujeitos através da educação, dessa forma, os
meios de produções existentes assumirem uma cultura, que suportar o peso das diversidades
das civilizações que formaram a sociedade brasileira no encontro.
A afirmativa acima, nos leva a questão da linguagem (cultura) não ser única
(Eurocêntrica) a ser usadas nas escolas por essa leva o negro e indígena o quanto mais adotar
a língua do colonizador mais do homem “verdadeiro” eles ficam na medida em que,
reproduzirem uma linguagem única. Para Fanon isso transforma os colonizados presos ao
pensamento do outro (colonizador). Assim levando ao sepultamento de sua originalidade
cultural, través da imposição da linguagem da nação “civilizadora”.
Esse fenômeno cria-se um complexo de inferioridade em todo povo colonizado, ao
quanto mais assimilar os valores culturais coloniais, como alocução diante da língua
colonizadora, assim seu pensamento e prática mais branco fica.
Neste caminho do branqueamento da fala, as escolas e universidades brasileiras
principalmente as públicas torna o pensamento colonial é ainda mais forte, mantendo os
negros e indígenas alijados desses espaços de poder de fala são escuta, por uma formação

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completamente roubocentrica. Sendo assim, o que mais ajuda neste processo são muitos
professores completamente arrogantes e alheios às histórias de vida dos alunos e não
comprometidos com as diversidades cosmogônicas outras, aconselham os alunos de vertentes
que não seja ideal (roubocentrica) a sair da universidade, falando que aquele lugar não e dele.
Isso e o epistemicídio acadêmico da população negra e indígena.
Esse panorama e prática em todos os países onde houve colonização, as línguas
oficialmente falada, escrita e ensinada nas escolas são do colonizador, assim inutilizando-se,
matando-se as línguas das civilizações nativas, que entram em processo de MAAFA17.
Temos que enfrentar com firmeza e disputa desses espaços de poder, assim promover
uma (Des) construção do negro e indígena na sociedade de cor (classes). onde esses dois
grupos se atribuem de diversas formas e categorias de mudanças linguísticas, para entrar na
psicopatia do branco para ser reconhecido como humano: “Falar uma língua é assumir um
mundo, uma outra cultura. O antilhano que quer ser branco, o será tanto mais na medida em
que tiver assumido o instrumento cultural que é a linguagem” (FANON, 2008: 50).
O choque cultural através da linguagem é a ferramenta seminal da construção da
identidade de nação e poder. O rito principal de passagem neste processo se dá através das
escolas, universidades e a vida prática. Por isso, para os negros e indígenas, como seres
colonizado, quanto mais perfeito o domínio da língua portuguesa, em suas relações aumentam
o seu auto-ódio (NEUSA SANTOS, 1983).
Entre esses dois grupos, adquiridos pela dominação praticada pela branquitude assim,
quando ganha “poder” e reproduz as mesmas práticas da branquitude fazem com ele, os
coloque suposição de poder, através do habitus com a branquitude, acabam se tornando
capitão do mato do terceiro milênio18.
O preto velho Fanon, chama essas práticas colonizadoras da fala, de falecimento da
cultura original (negra e indígena) elas vão ser tornando inferior em detrimento da cultura
roubocêntrica, que através da linguagem manter o poder em cima dos dois grupos. Utilizando-
se desta como arma seminal de dominação no mundo colonial, assim para os negros e

17
O uso do termo MAAFA virou conceito acadêmico pela antropóloga Marimba Ani em seu livro de 1994, Let
the Circle Be Unbroken: As Implicações da Espiritualidade Africana na Diáspora. Maafa, também expressa
como um holocausto Africano ou holocausto da escravidão, refere-se aos 500 anos de sofrimento do povo
Africano e da diáspora africana, causada pela escravidão, imperialismo, colonialismo, invasão, opressão,
desumanização e exploração.
18
Conceito em construção: Refere-se à nova roupagem do antigo capitão do mato. Onde antes caçavam os de cor
que fugiam das fazendas nas matas e os açoitavam. Agora esses são embranquecidos pelo pensamento colonial,
múltiplas vezes negando suas origens e fazer com os seus semelhantes sejam diminuídos pelas práticas da
branquitude.

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155

indígenas muitas vezes sobra ser outro para ser alguém vestindo assim as máscaras brancas,
através do aculturamento da linguagem.
Com nossa formação identitária e forjada na privação do direito da fala do outro:
“Todo povo colonizado — isto é, todo povo no seio do qual nasceu um complexo de inferioridade
devido ao sepultamento de sua originalidade cultural — toma posição diante da linguagem da nação
civilizadora, isto é, da cultura metropolitana” (FANON, 2008: 34).

Esse contato com a metrópole faz o falecimento cognitivamente do mundo africano e


indígena através do falar, deixando de lado saberes extremamentes potentes e sofisticados da
vida social. Os saberes dessas duas culturas vêm de milhares de anos atrás influenciaram a
linguagem que usamos nos dias de hoje, sofrendo influências de várias civilizações aos longos
dos séculos. Essas potências do passado são escondidas pela branquitude, por vir de origens
africanas ou ameríndias. Abaixo, podemos ver como essa linguagem africana teve muita
influência em outras línguas ao longo dos séculos:

Por causa da escrita Afrakana de 6.300 anos de idade, Mdu Ntchr, que o
alfabeto romano que você está usando atualmente para ler isto existe.Por
volta do século 8 AC, a 25ª Dinastia Kushita desenvolveu a versão mais
eficiente do hierático, que os “egiptólogos” chamam de demótico (que
significa “idioma dos sacerdotes” em grego). A escrita demótica foi
espalhada por caravanas Kemeticas de camelos na Arábia. Foi influente na
escrita aramaica (Afro fenícia) usada pelos árabes jordanianos (nabateus),
que mais tarde se tornou a escrita árabe e que parece quase idêntica. Assim,
a escrita europeia ocidental baseada na romana, a escrita europeia oriental
baseada na grega e a escrita árabe da Ásia Ocidental, estão todas ligadas aos
Afrakanos do Vale do Hapi (Nilo). (ZAUS, via facebook 2018/1).

Nesta retórica de MAAFA, sendo construída através da educação da linguagem a 2018


anos atrás. A forma organizacional de reprodução de mundo foi tiranamente, reproduzida na
dominação do poder através de mentiras que se tornaram verdade única ao logo do século,
deixando quase morrer outras possibilitar de verdades de mundo.
Neste sentido termino este artigo na esperança que um dia a transformação
educacional brasileira seja na prática a verdadeira representação cultural entre os três mundos
que se forjou no encontro. Onde todxs tenham o compromisso com a educação escolar
múltipla. Levando o processo educacional brasileiro a ser digno de respeito quando for
diverso igualmente na potência cultural de sua população. Promovendo uma participação e
construção responsiva das múltiplas vertentes culturais são o melhor do Brasil: “A explosão
não vai acontecer hoje… Ainda é muito cedo… ou tarde demais.” (FANON, 2008: 25).

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156

Assim com essas premissas, sobre o estudo da linguagem na educação no Brasil, e


importantíssima às aplicações de outras linguagens no ensino brasileiro. Para uma educação
multicultural, acolhimento e compartilhamento em nossa sociedade é importantíssimas as
transformações nas praticas educacionais escolares sejam um dever para todxs no Brasil.

Referências
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Curitiba: IBPEX, 2005.

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Gravadora Laboratório Fantasma, 2015.

Mc Azagaia. Música: Maçonaria. Album: Cubaliwa. Guto & Banda Likute, 2013.

MINTZ, S.; PRICE, R. O nascimento da cultura afro-americana:uma perspectiva antropológica.


Rio de Janeiro: Pallas/Universidade Cândido Mendes, 2003.

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Associados, 1999.

SOUZA, Jessé: A elite do atraso: da escravidão à lava jato. Rio de Janeiro: Editora: Leya, 2017.

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157

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Cotas raciais e disputas de narrativas: por uma sociologia das marcas1

Wallace Cabral Ribeiro2

Resumo: Este trabalho tem por objetivo analisar sociologicamente as disputas de narrativas
entre as diferentes concepções sobre o perfil dos candidatos que têm direito a participar das
cotas raciais nos processos seletivos das universidades públicas. Esse conflito se desencadeou
a partir das diversas denúncias de fraudes nas cotas raciais. Os denunciantes alegam que para
participar o candidato deve ser reconhecido socialmente como negro e isso só ocorre por suas
características fenotípicas, os denunciados invocam o argumento da árvore genealógica,
alegando que o fato de terem negros na composição familiar os caracteriza como pardos,
independentemente das características fenotípicas. Para pensar sobre o cerne desse debate,
temos como principal referencial teórico o sociólogo Oracy Nogueira e sua concepção de
preconceito racial de marca e preconceito racial de origem. Para debater esse tema de forma
mais ampla e aprofundada, recorremos a reflexões desenvolvidas por pesquisadores e
pesquisadoras de diferentes perspectivas, como Virgínia Bicudo, Silvio Almeida, Stuart Hall,
Pierre Bourdieu, Jessé Souza, entre outros. Utilizamos também material jornalístico, dados
estatísticos, documentos jurídicos e, em menor escala, registros literários e iconográficos.

Palavras-chave: Preconceito racial de marca; preconceito racial de origem, cotas raciais.

Introdução
O Brasil viveu, desde o ano zero, a escravidão, essa instituição existiu formalmente
por 388 anos, o que representa 75% de toda história do Brasil. Sua existência foi decisiva para
a formação da sociedade brasileira e durante séculos compenetrou outras instituições. Mesmo
após a abolição formal da escravidão em 1888, seus efeitos nefastos permanecem ao longo do
tempo. O fator raça continua a ser um dos elementos estruturantes das relações sociais, que
fornece critérios na administração da exclusão e inclusão social.
A implementação de políticas afirmativas visa quebrar a lógica racista de
funcionamento de certas instituições. A política de cotas raciais nos processos seletivos das
universidades públicas tem essa finalidade, romper com a lógica interna racista de
funcionamento das instituições de ensino superior, aumentando a representatividade e a

1
A realização desse trabalho se deu pela interlocução direta do autor com algumas pensadoras, neste sentido,
gostaria de agradecer a Quézia Lopes, Daniela Perutti, Janaína Damasceno e Flávia Rios.
2
Mestrando do Programa de Pós-graduação em Sociologia da Universidade Federal Fluminense (PPGS-UFF),
bacharel em Sociologia pela mesma instituição, consultor da Revista Ensaios, membro do Núcleo de Estudos
Friedrich Engels (NEFE) e do Núcleo de Estudos Cidadania, Trabalho e Arte (Nectar-UFF). Bolsista Capes.
Email: cabralwallaceribeiro@yahoo.com.br

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diversidade. No entanto, isso tem gerado alguns descompassos, pessoas brancas têm se
candidatado a vagas destinadas a cotas raciais, alegando serem pardas por conta de sua
ancestralidade. Diversas organizações do movimento negro vêm denunciando essas práticas,
alegando fraude no sistema de cotas, uma vez que essas pessoas não teriam perfil para
participar. Pontuam que, quem estaria apto, seriam aqueles que são socialmente reconhecidos
como negros a partir de suas características fenotípicas. Temos, então, uma disputa de
narrativas sobre quem tem e quem não tem perfil para participar da política de cotas raciais.
Para compreender os principais argumentos mobilizados pelos os atores envolvidos nos
conflitos, iremos empreender um debate sobre como se configura o racismo na sociedade
brasileira.
O artigo se divide em duas partes, a primeira tem por objetivo discutir em poucas
linhas alguns aspectos gerais do complexo racismo brasileiro, a fim de ressaltar elementos que
nos ajudem compreender melhor a discussão que se desenvolverá no segundo tópico; a
segunda parte tem por objetivo discutir sobre as disputas de narrativas a respeito de quem tem
ou não direito de participar das políticas de cotas raciais nos processos seletivos das
universidades públicas.
A principal referência teórica que nos ajuda a pensar sobre essa batalha político-
ideológica em torno da política de cotas raciais é o sociólogo Oracy Nogueira, com os
conceitos preconceito racial de marca e preconceito racial de origem. Além desse autor, nos
apoiamos em outras pesquisas sobre relações étnico-raciais, de autores e autoras como
Florestan Fernandes, Virgínia Bicudo, Marcelo Badaró Mattos, Silvio Almeida, Pierre
Bourdieu, Stwart Hall, Jessé Souza, entre outros.
Este artigo traz uma abordagem sociológica sobre seu objeto de estudo, no entanto,
nossa análise é atravessada por um intenso diálogo com diversos campos do conhecimento,
como estatística, história, literatura, direito, pedagogia, ciência política, arte etc. O que marca
a interdisciplinaridade desse artigo é a diversidade de suas fontes, pois recorremos a uma série
de pesquisas quantitativas, como as do censo demográfico do IBGE e o Mapa da Violência.
Utilizamos material jornalístico e documentos jurídicos e, em menor escala, recorremos à
literatura e à iconografia.

Racismo brasileiro: da escravidão às ações afirmativas


O Brasil foi o último país a aderir abolição do tráfico atlântico e o último a abolir
formalmente a escravidão. Em toda América, o Brasil era o país que mais tinha escravizados.

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O site Slave Voyage (2013) calcula que, entre os anos de 1501 e 1876, tenham desembarcados
nos portos brasileiros cerca de 5.850.000 africanos escravizados. Portugal foi o país que mais
contribuiu para o deslocamento forçado de africanos durante esse período. De acordo com
Jessé Souza (2017: 40), “no Brasil, desde o ano zero, a instituição que englobava todas as
outras era a escravidão”.
De acordo com o historiador Luiz Felipe de Alencastro (2018), da Fundação Getúlio
Vargas (FGV), o Brasil e o sul dos Estados Unidos eram as duas únicas regiões da América
que dependiam do sistema escravocrata. Havia escravidão em todo continente americano, mas
somente essas duas regiões eram dependentes desse modelo econômico. Isso explica porque
as elites econômicas brasileiras, principalmente de cafeicultores, teriam lutado contra a
abolição da escravatura, e por que teria ocorrido uma guerra civil (Guerra de Secessão, 1861-
1865) entre o sul e o norte dos Estados Unidos. A grande diferença entre Brasil e Estados
Unidos é que, no primeiro, a escravidão era nacional, enquanto que, no segundo, era regional.
Abolição da escravidão no Brasil não significou integração dos negros à sociedade,
mas, ao contrário, permaneceram marginalizados, pois o Império já vinha financiando a vinda
de europeus pobres e, após a assinatura da Lei Áurea em 1888, essa política se intensificou.
Nesse período, o Brasil estava se incorporando à ordem capitalista. Sobre essas mudanças na
ordem econômica, Florestan Fernandes elabora a seguinte pergunta: “o negro ou o mulato que
se inseriu na ordem social competitiva, como ‘trabalhador braçal assalariado’, ‘operário’,
‘artesão por conta própria’ e ‘pequeno empreendedor’, no campo ou na cidade, estava de fato
ajustado às exigências da situação?” (FERNANDES, 2008: 67). Os recém-libertos não
estavam plenamente habilitados a operar em uma ordem social competitiva, mas a exercerem,
dentro do regime servil, “papeis econômicos e sociais que eram vitais para seu equilíbrio
interno” (Ibidem). A liberdade formal não livrou os negros do racismo, da vulnerabilidade
econômica, do ostracismo político e da segregação espacial, por isso, era necessário lutar pela
“segunda abolição”.
Seis dias após a abolição (19 de maio de 1888), Machado de Assis publica uma
crônica no periódico Gazeta de Notícias em que ironiza este feito. Alegando que as coisas não
mudariam muito para o liberto, que ficaria sem direitos e, por isso, se submeteria a qualquer
relação, desde que fosse para sobreviver. O personagem Pancrácio (liberto) teria aceitado
todas as condições impostas pelo seu senhor, uma vez que não tinha escolhas.

Pancrácio aceitou tudo; aceitou até um peteleco que lhe dei no dia seguinte,
por me não escovar bem as botas; efeitos da liberdade. Mas eu expliquei-lhe

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que o peteleco, sendo um impulso natural, não podia anular o direito civil
adquirido por um título que lhe dei. Ele continuava livre, eu de mau humor;
eram dois estados naturais, quase divinos. (ASSIS, s.d: 07)

Não havia políticas de integração, mas, pelo contrário, existiam políticas que
dificultavam o acesso dessas populações aos meios de produção, como a chamada Lei da
Terra, que previa que só se poderia adquirir terras comprando-as, e os que já ocupavam as
terras receberiam o título de posse, as terras que por ventura não estivessem ocupadas
pertenceriam ao Estado, que as venderia em leilões, ou as concederia. Tudo isso determinou a
marginalização socioeconômica dos novos libertos, que, sem acesso a terras, passariam então
a ser protagonistas dos processos de favelização nas cidades ou da exploração violenta dos
campos (BENEDITO, 2013).
A todas essas problemáticas, soma-se a emergência do movimento eugenista3, que, em
linhas gerais, defendia a superioridade da raça branca e buscava a pureza racial para melhorar
a sociedade. Em um artigo publicado em 1874, Gobineau afirmava que “os brasileiros seriam
uma raça extinta em menos de duzentos anos. Isso por serem, em sua maioria, uma população
mestiça, fruto da mestiçagem entre índios, negros e um pequeno número de portugueses”
(SANTOS DE SOUZA, 2013: 21). Para que a extinção fosse evitada, era necessário substituir
a população “degenerada” por uma “racialmente superior”, afirmava Gobineau. Seria
necessário embranquecer a população para retirar o Brasil de seu atraso econômico, cultural e
civilizacional.
O gobineauismo influenciou intelectuais brasileiros, como, por exemplo, João Batista
Lacerda, este representou oficialmente o Brasil no Congresso Universal das Raças, realizado
em Londres, em 1911, apresentou um trabalho no qual afirmava que

A importação, em uma vasta escala, da raça negra ao Brasil, exerceu uma


influência nefasta sobre o progresso deste país; ela retardou por muito tempo
seu desenvolvimento material, e tornou difícil o emprego de suas imensas
riquezas naturais. O caráter da população ressentiu os defeitos e os vícios da
raça inferior importada4. (LACERDA, 1911: 29-30)

O negro era compreendido como um neurastênico, assim como o indígena, e, por este
motivo, teria que ser totalmente eliminado da sociedade brasileira. Lacerda argumenta que,
em cem anos, de 1911 a 2011, a população brasileira seria majoritariamente branca, atingindo

3
No Brasil o representante mais destacado foi Raimundo Nina Rodrigues (1862-1906).
4
Tradução de Eduardo Dimitrov, Íris Morais Araújo e Rafaela de Andrade Deiab.

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162

quase a totalidade, sobrando alguns poucos mestiços. Isso se daria através de dois
mecanismos: a importação sistemática de brancos da Europa e o casamento inter-racial. Sobre
este segundo aspecto, Lacerda argumenta que a lei de seleção sexual das raças, fará com que
os genes da raça branca prevaleçam em detrimento dos genes da raça negra, contribuindo
paulatinamente para o embranquecimento da população brasileira. Esse processo é
exemplificado na pintura a óleo A Redenção de Cam, de 1895, do pintor espanhol Modesto
Brocos5.

Figura 1: A redenção de Cam (1895), Modesto Brocos.


Fonte: Enciclopédia Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. Disponível em:
<http://enciclopedia.itaucultural.org.br/obra3281/a-redencao-de-cam>.

Nessa imagem, temos três gerações de uma família, a avó negra, a filha mulata e o
neto fenotipicamente branco – próximo está um homem branco, que é o pai da criança. A avó
ergue as mãos agradecendo a Deus pela redenção, que se deu pelo branqueamento da família.
Essa pintura se baseia no mito de Cam, que se encontra no livro de Genesis (capítulo nove,

5
A imagem dessa obra compõe a publicação do trabalho Sur le métis au Brésil, com os dizeres: Le Nègre
passant au blanc, à la troisième génération par l'effect du croisement des races (O negro passando para branco,
para a terceira geração pelo efeito do cruzamento de raças).

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163

versículos 18 a 27), no velho testamento. Segundo esse mito, Cam, seria um dos filhos de
Noé, e este teria zombado de seu pai ao encontra-lo desacordado, nu e embriagado, Noé
enfurecido amaldiçoa Cam e seus descendentes, tornando-o “servo dos servos”.
No interior de certas “crenças populares”, esse mito é invocado para justificar a
escravidão, que compreendia que a África e os africanos seriam descendentes de Cam e que
por isso a escravidão seria parte da maldição de Noé, mas, segundo a própria bíblia, Cam seria
o patriarca de Canaã, essa região se localiza no oriente médio. Outra linha interpretativa
popular diz que a negritude seria uma marca da maldição e por isso o branqueamento
geracional seria uma quebra dessa maldição, seria uma reabilitação, um resgate de algo que se
perdeu, uma redenção.
Diferentemente das concepções eugenistas, Gilberto Freyre fez uma leitura da
miscigenação brasileira em uma chave positiva e não negativa. A obra Casa Grande e
Senzala, de 1933, é um ponto de inflexão. É nessa obra que se afirma, pela primeira vez, que
o negro deu uma contribuição à nação brasileira, e que, em diversos aspectos, o negro seria
superior ao indígena e ao português colonizador: “a ideia extravagante para os meios
ortodoxos e oficiais do Brasil, essa do negro superior ao indígena e até ao português, em
vários aspectos da cultura material e moral. Superior em capacidade técnica e artística” (1986:
308). Em outros momentos, Freyre afirma a superioridade no que tange à higiene, à
gastronomia e à personalidade, uma vez que o negro era extrovertido, enquanto que o
indígena era introvertido e o português melancólico. “A risada do negro é que quebrou essa
‘apagada e vil tristeza’” (Op. cit.: 476). Em outro trecho, afirma que “os negros trabalharam
sempre cantando: seus cantos de trabalho, tanto quanto de xangô, os de festa, os de ninar
menino pequeno, encheram de alegria a vida brasileira” (Op. cit.: 475).
Freyre conclui que, no Brasil, existia uma integração entre as raças, o negro, o branco
e o indígena, sendo o negro o elemento mediador entre o branco e o indígena. A miscigenação
criou “zonas de confraternização”, e foi responsável por “corrigir a distância social, que
doutro modo se teria conservado enorme entre a casa grande e a mata tropical; entre a casa
grande e a senzala” (Op. cit.: 13). Tudo isso teria acontecido por meio do intercurso sexual.
Para Sergio Costa, “Freyre rompe com o biologicismo, mas não com a ideia de raça” (2002:
41) e, por conta da influência do iluminismo francês, Freyre apresenta “uma ideologia
nacional, com múltiplas dimensões” (Op. cit.: 44), que procura romper com o passado
opressivo através da “construção de uma identidade voltada para o futuro” (Op. cit.: 43).

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164

A perspectiva de que o Brasil teria ausência de conflitos raciais, se constituindo em


uma democracia racial foi adotada como ideologia oficial do Estado tanto pelo governo de
Getúlio Vargas quanto pela ditadura empresarial-militar de 1964. Em uma entrevista, em
1977, o general Ernesto Geisel - considerado, entre todos os generais, o mais progressista -
afirmou que o Brasil seria, “de fato, um país que se caracteriza, singularmente, por não ter
questões raciais. (...) Aqui, vivem brancos, negros, índios, asiáticos, árabes, judeus, numa
convivência sem problemas, sem conflitos, não se tem memória de conflitos raciais no Brasil”
(1978: 147). A teoria da mestiçagem de Freyre gera uma ambiguidade “de um lado, o racismo
biologicista perde sua legitimidade imanente; de outro, o racismo presente nas relações e nas
estruturas sociais permanece intocado” (COSTA, 2002: 45).
As concepções freyrianas obtiveram um impacto enorme no universo acadêmico e nos
círculos intelectuais dentro e fora do Brasil. Sua teoria surge no período de ascensão do
nazismo na Alemanha. Após o holocausto dos judeus, protagonizado pelo regime nazista,
impulsionada por questões raciais, a Organização das Nações Unidas para a Educação,
Ciência e Cultura (UNESCO) empreendeu um projeto de pesquisa, no início dos anos de
1950, que ficou conhecido como Projeto UNESCO, inspirado nas reflexões de Freyre sobre as
relações raciais no Brasil. O objetivo desse empreendimento era compreender como se dava,
na prática, a harmonia racial no Brasil e o que de positivo a comunidade internacional poderia
extrair da experiência societária brasileira.
As pesquisas desenvolvidas no projeto da UNESCO começaram a desconstruir as
formulações de Freyre. Foi a partir dessas investigações que ficou mais evidente que a
democracia racial, na prática, não existia, e por isso se tratava de um mito6. Entre os
pesquisadores que participaram desse projeto estavam Fernando Henrique Cardoso, Otavio
Ianni, Florestan Fernandes, Roger Bastide, Oracy Nogueira, Virgínia Leone Bicudo, entre
outros.
Apesar de ter sido desconstruída cientificamente, a democracia racial de Freyre,
inclusive com pesquisas de Carlos Hasenbalg e outros pesquisadores nos anos de 1970,
produziu concepções que perduraram como ideologia oficial do Estado durante a ditadura
empresarial militar brasileira – ainda que a Constituição Federal de 1988 reconhecesse a
existência do racismo no Brasil, no artigo quarto, parágrafo VIII, no qual afirma que tem

6
É importante frisar que já existiam estudos anteriores ao Projeto Unesco que apontava a inexistência da
integração entre as raças, como por exemplo: Atitude desfavorável de alguns anunciantes de São Paulo em
relação aos empregados de cor (1942), de Oracy Nogueira, e Atitudes Raciais de Pretos e Mulatos em São Paulo
(1944), de Virgínia Leone Bicudo.

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165

como princípio, em suas relações internacionais, combater o racismo, e no quinto artigo,


parágrafo XLII, estabelece que “a prática do racismo constitui crime inafiançável e
imprescritível, sujeito à pena de reclusão, nos termos da lei”.
Além disso, no artigo 68, passa reconhecer as comunidades quilombolas, e que as
terras ocupadas por elas sejam reconhecidas como “propriedade definitiva, devendo o Estado
emitir-lhes os títulos respectivos”. Já no artigo 216, parágrafo 5º, reconhece as antigas
comunidades quilombolas como parte do patrimônio cultural material e imaterial da formação
da identidade brasileira, devendo ser tombados pelo poder público. Com todos esses avanços
jurídicos, ainda assim, a ideologia da democracia racial prevalece no imaginário popular, nos
meios acadêmicos, na literatura, no jornalismo, no meio artístico, na política, entre outros
espaços.
Um exemplo paradigmático é a publicação, em 2006, do livro Não Somos Racistas, do
cientista social e jornalista Ali Kamel. Essa obra conta com prefácio da antropóloga,
pesquisadora e professora da UFRJ, Yvonne Maggie. Kamel argumenta que estão querendo
dividir o Brasil transformando-o em uma nação bicolor, entre brancos e não brancos. Segundo
o autor, o Brasil é diverso, mas que o termo censitário negro, aplicado nas pesquisas do IBGE,
incorporaria todos que não são brancos, como mameluco, cafuzo, caboclo e pardo. “De
repente, nós que éramos orgulhosos da nossa miscigenação, do nosso gradiente tão variado de
cores, fomos reduzidos a uma nação de brancos e negros. Pior: uma nação de brancos e
negros onde os brancos oprimem os negros” (KAMEL, 2006: 18). Além disso, Kamel é
enfático ao afirmar que “após a Abolição, nunca houve barreiras institucionais a negros ou a
qualquer outra etnia. E para combater as manifestações concretas do racismo (...) criaram-se
leis rigorosas para punir os infratores” (Op. cit.: 20). O autor faz uma defesa da obra Casa
Grande e Senzala e resgata a ideia de que a miscigenação é a principal virtude da sociedade
brasileira. E vai além, diz que certas manifestações racistas não são a regra e sim a exceção,
trata-se de “manifestações minoritárias em nosso modo de viver” (Op. cit.: 22).
Apesar da permanência de ideias retrógradas, advinda de diversos lados, em 2003, o
governo federal sancionou a lei n° 10.639, que prevê a obrigatoriedade da inclusão do ensino
de história e cultura afro-brasileira e dos africanos no currículo dos ensinos fundamental e
médio. Uma vez que a escola acaba por reforçar e naturalizar as estruturas sociais e os valores
racistas da sociedade, esta lei visa romper com lógica interna de funcionamento das
instituições escolares trabalhando entre os docentes e discentes os aspectos históricos das
culturas africanas e suas contribuições para a humanidade e a sociedade brasileira. O

Anais do VII Seminário Fluminense de Sociologia – 2018


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documento afirma que “é preciso valorizar devidamente a história e cultura de seu povo,
buscando reparar danos, que se repetem há cinco séculos, à sua identidade e a seus direitos”
(BRASIL, 2004: 17).
7
A escritora Chimamanda Adichie nos alerta sobre os perigos da “história única”
como estimulador de preconceitos, estereótipos e de visões unilaterais que não reconhecem a
capacidade do Outro de ser autêntico, original, belo, de produzir, de criar, de inventar, de
conceber algo complexo e benéfico à sociedade. Neste sentido, a aprovação da lei 10.639 é
um esforço pedagógico que se orienta por descortinar os efeitos nocivos irradiados pelas
imagens estereotipadas, reducionistas e simplistas sobre as culturas africanas e afro-
brasileiras. Ou seja, se contrapor à “história única” pela apresentação da diversidade étnico
racial e do exercício de desnaturalizar o olhar e assim promover um ataque frontal ao racismo
e à discriminação na sociedade brasileira. Outra importante ação afirmativa que combate o
racismo através da ruptura da lógica interna racista de funcionamento das instituições são as
cotas raciais implementadas nos processos seletivos das universidades públicas. Passemos
agora para o próximo tópico.

Disputas narrativas: entre a genética e o fenótipo


No dia 26 de abril de 2012, o Supremo Tribunal Federal (STF) decide, por
unanimidade, que a política de cotas raciais é constitucional. O julgamento teria ocorrido por
conta de uma ação movida pelo partido Democratas (DEM), que questionava o método de
avaliação aplicado aos candidatos no sistema de cotas raciais na Universidade de Brasília
(UNB), alegando existir nesta instituição um “tribunal racial”. Inicialmente, a UNB adotou o
método de avaliação fenotípica do candidato por fotografia, esse método foi abandonado
desde que passou a vigorar o sistema de autodeclaração em 2013.
A UNB foi uma das primeiras instituições a implementar uma política de cotas raciais.
Em 2004, passou a reservar 20% de suas vagas para negros e indígenas. O projeto foi
idealizado para durar por dez anos, mas o tempo de sua duração poderia ser revisto. Um dos
aspectos que contribuíram para a adoção de cotas raciais na UNB foi às discussões que se
seguiam a reprovação de Arivaldo de Lima Alves8 em uma disciplina obrigatória no
doutorado em antropologia social, no ano de 1998. Após a reprovação, constatou-se que

7
Chimamanda Adichie: O perigo da História Única. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=EC-
bh1YARsc&t=327s>.
8
Atualmente, é professor titular da Universidade do Estado da Bahia e também do Programa de Pós-Graduação em Crítica
Cultural da mesma instituição.

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167

Arivaldo era o primeiro aluno negro, em 20 anos de existência do Programa de pós-


graduação, e isso suscitou debates sobre racismo acadêmico e a exclusão sistemática de
negros e indígenas nas universidades públicas brasileiras. Esse episódio obteve repercussão
midiática e ficou conhecido como o “caso Ari”. Mas a primeira instituição de ensino superior
a aplicar a política de cotas foi a Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), que, em
2003, por meio de um decreto estadual passou a destinar 45% de suas vagas para as cotas, das
quais 20% era destinada a alunos da rede pública, outros 20% para negros e indígenas e 5%
para deficientes físicos.
Como bem coloca Mauricio Tragtenberg, a seleção do vestibular das universidades é
anterior ao próprio vestibular: “o vestibular escolhe os escolhidos” (1982: 130). A ausência de
negros em instituições universitárias decorre de um longo processo histórico de
marginalização, onde a maior parte da história do Brasil é marcada pela escravização de
negros do continente africano.
Somente após 100 anos da abolição formal da escravidão, o Brasil oficializou uma
política contra o racismo na constituição de 1988, conhecida como “constituição cidadã”,
segundo a qual a prática do racismo passa a ser crime inafiançável e imprescritível, sujeito à
pena de reclusão (Constituição Federal de 1988 – Art. 5º, parágrafo XLII), e que reconhece a
contribuição dos aquilombamentos como patrimônio cultural brasileiro (artigo 216, parágrafo
5º), emitindo títulos as propriedades coletivas ocupadas por elas (artigo 68). Não obstante, a
violência contra a população negra continua a crescer no Brasil, o que pode ser constatado
através de alguns apontamentos estatísticos.
Os dados são alarmantes: mais da metade das mortes violentas ocorridas em 2015 no
Brasil atingiu jovens e, desses, 70% são negros. Dados do Mapa da Violência revelam que
“no ano de 2003 foram cometidos 13.224 HAF [homicídios por armas de fogo] na população
branca, em 2014 esse número desce para 9.766, o que representa uma queda de 26,1%; em
contrapartida, o número de vítimas negras passa de 20.291 para 29.813, aumento de 46,9%”
(2016: 55). Ao comparar proporcionalmente os homicídios de negros em relação ao de
brancos, o Mapa da Violência mostra que houve um salto, em 2003, a vitimização de negros
era 71,7% mais que brancos, em 2014 é de 158,9%. (Op. cit.: 60). A maior incidência das
mortes violentas encontra-se entre jovens negros, portanto, podemos concluir que a violência
contra a população negra não é um fenômeno isolado, é sistemática.
No que tange à educação, pretos e pardos representam 57,8% do total de pessoas que
não possuem ensino fundamental completo. Em relação ao total de pessoas que possuem

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ensino superior no Brasil, pretos e pardos representam uma pequena fatia de 24,5%, enquanto
que as pessoas brancas representam 73,3%, de acordo com o último censo demográfico do
IBGE de 2010. Carlos Antonio Costa Ribeiro nos fornece alguns elementos que nos ajudar a
compreender esse fenômeno, “para ingressar na universidade, filhos de profissionais têm 4
vezes mais chances do que filhos de trabalhadores rurais; e brancos têm 2 vezes mais chances
do que não-brancos” (RIBEIRO, 2006: 858). É importante mencionar que a maioria dos
trabalhadores rurais são negros, “61% dos pardos e 56% dos pretos eram filhos de
trabalhadores rurais, apenas 49% dos brancos tinham esta origem familiar. As famílias de
trabalhadores rurais são historicamente as mais pobres no Brasil” (RIBEIRO, 2006: 850)9.
Além disso, devemos levar em consideração que 50,9% da sociedade brasileira são
constituídas por pretos e pardos. Pesquisas quantitativas e qualitativas sobre outras dimensões
da vida também revelam as desigualdade raciais, como na saúde, literatura, ciência, arte,
trabalho, entre outros.
Esses são alguns dos elementos que compõem o quadro de desigualdade racial no
Brasil, a introdução de políticas de cotas raciais em universidades públicas é um esforço no
sentido de minimizar essas disparidades. As cotas raciais estão previstas no Estatuto da
Igualdade Racial de 2010. O documento afirma que as ações afirmativas são “programas e
medidas especiais adotados pelo Estado e pela iniciativa privada para a correção das
desigualdades raciais e para a promoção da igualdade de oportunidades” (artigo 1, parágrafo
6, 2015: 14).
De acordo como Silvio Almeida, a sociedade é racista e por isso as instituições
acabam por produzir e reproduzir o racismo societário, uma vez que “sua atuação [é]
condicionada a uma estrutura social previamente existente (...) o racismo que esta instituição
venha expressar é também parte desta mesma estrutura” (2018: 32). Neste sentido, as políticas
de ações afirmativas têm por objetivo “aumentar a representatividade de minorias raciais e
alterar a lógica discriminatória dos processos institucionais” (Ibidem). As instituições não
criaram o racismo, mas o reproduz sistematicamente.
A implementação dessa política de ação afirmativa tem gerado muitas controvérsias.
Muitos candidatos dos processos seletivos das universidades públicas brasileiras têm sido
denunciados por fraudar as cotas raciais, principalmente em cursos de maior prestígio social,

9
Os estudos de Flávio Gomes (2012) abordam os diversos processos de formação do campesinato negro no
Brasil, de comunidades rurais que se originaram dos aquilombamentos, de terras compradas pelos libertos, de
doações de terras pelo Estado por participação em guerras, doação de antigos senhores, doação de ordens
religiosas, entre outros.

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como medicina e direito. Esse é o caso de 334 candidatos denunciados no vestibular de 2017
da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Os denunciantes alegam que
pessoas brancas têm se autodeclarado pardas para entrar nas universidades por meio do
sistema de cotas raciais. Diante de tantas denúncias, a UFRGS criou uma comissão para
avaliar os candidatos a partir de seu fenótipo. A advogada Wanda Gomes Siqueira, que
defende 20 alunos denunciados por fraudes, afirma que se trata de “um tribunal racial. É uma
prática hitleriana, que lembra o nazismo que media o nariz dos judeus” (VEJA, 06/12/2017).
Uma matéria publicada no Jornal Estado de São Paulo (Estadão), em janeiro de 2018,
revela que um terço das universidades públicas brasileiras são atingidas por denúncias de
fraudes em suas políticas de cotas raciais, “no total, há 595 estudantes investigados em 21
instituições de ensino” (ESTADÃO, 12/01/2018). Essa matéria apresenta casos de candidatos
que se autodeclararam quilombolas, porém sem nunca terem vivido em uma comunidade
quilombola. A maior parte das denúncias é direcionada aqueles que se autodeclaram pardos,
estes “muitas vezes são identificados – e denunciados – como ‘socialmente vistos como
brancos’ e, portanto, não deveriam utilizar o sistema, segundo os movimentos sociais”
(ESTADÃO, 12/01/2018).
No centro dessas controvérsias, fica a interrogação sobre qual é a lógica de
funcionamento do racismo no Brasil. Oracy Nogueira entende que o “preconceito racial [é]
uma disposição (ou atitude) desfavorável, culturalmente condicionada, em relação aos
membros de uma população”, os estigmas podem ser devido à aparência ou toda a “parte da
ascendência étnica que se lhes atribui ou reconhece” (2006: 292). Oracy Nogueira identifica a
existência de dois tipos de racismo, um que se realiza pela a aparência do indivíduo, com base
em suas características fenotípicas, como cor da pele, tipo de cabelo, entre outros, o que se
denomina de preconceito racial de marca. O outro está relacionado à árvore genealógica do
indivíduo, a sua descendência, na qual se exige pureza genética para pertence ao grupo
dominante. Mesmo que fenotipicamente pareça branco, o indivíduo será considerado negro,
bastando ter um negro na composição familiar. Esse seria o caso da estadunidense Meghan
Markle (duquesa de Sussex), que, mesmo tendo pele clara e traços negroides suavizados,
sofreu inúmeros ataques racistas nas redes sociais quando seu casamento com o príncipe
Harry foi anunciado. Em países como Estados Unidos, “o branqueamento, pela miscigenação,
por mais completo que seja não implica incorporação do mestiço ao grupo branco”
(NOGUEIRA, 2006: 294). “Para todos os efeitos sociais, o mestiço continuará sendo um
‘negro’” (Ibidem), e, para ser aceito como branco, é necessário apresentar “pureza genética”.

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Para Oracy Nogueira, o racismo, no Brasil, é de marca, já nos Estados Unidos, é de


origem. Não se trata de diferenças de intensidade entre esses dois tipos de racismo e sim de
qualidades. Em poucas palavras, Oracy Nogueira define qual é a natureza de cada um deles:

Quando o preconceito de raça se exerce em relação à aparência, isto é,


quando toma por pretexto para as suas manifestações os traços físicos do
indivíduo, a fisionomia, os gestos, o sotaque, diz-se que é de marca; quando
basta a suposição de que o indivíduo descende de certo grupo étnico para
que sofra as consequências do preconceito, diz-se que é de origem. (2006:
292)

A ideia de preconceito de marca leva em consideração uma série de fatores, como


cor, classe, região, isso faz com que a concepção de branco e não branco mude em função
dessas variantes (Op. cit.: 294). Um indivíduo pode ser considerado branco em um
determinado lugar e negro em outro, “indivíduos ligeiramente negroides ou completamente
brancos e que, como brancos, sempre viveram, no Brasil, indo aos Estados Unidos, podem ter
a surpresa de serem considerados e tratados como negros” (Op. cit.: 295).
Esse foi ocaso de engenheiro e abolicionista André Rebouças, que ao chegar aos
Estados Unidos percebeu que sua origem fazia toda a diferença no momento em que foi se
hospedar em um hotel de elite. Segundo Lilia Schwarcz, André Rebouças revela em seu diário
que foi nos Estados Unidos que “descobriu-se negro” e “concluiu que sua origem escrava
fazia alguma diferença no jogo da inserção e, sobretudo, da exclusão social” (SCHWARCZ,
2018: 29).
Onde impera o racismo, o branco é uma referência em diversos aspectos, em beleza,
higiene, inteligência, religião, profissão, perfil econômico etc. Onde se desenvolve o racismo
de marca, muitos negros são coagidos a trabalhar suas características físicas (marcas) de tal
maneira que lhe permitam se aproximar do fenótipo branco enquanto referência. Entre os
entrevistados na pesquisa de Virgínia Bicudo, fica evidente em suas falas as diversas
estratégias de trabalhar essas marcas. Em uma determinada passagem, Bicudo afirma que “o
preto luta para anular seu sentimento de inferioridade em face das atitudes de restrições do
branco. Empenha-se então em conseguir características de status superior, através do
casamento, do exercício de profissões liberais, do cultivo intelectual e da ‘boa aparência’”
(2010: 97).
Assim, a fim de se esquivar da violência simbólica estigmatizante do racismo, o negro,
muitas vezes, sente-se obrigado a suavizar seus traços negroides, utilizando recursos como
maquiagem, alisamento capilar, uso de determinadas roupas, procedimentos cirúrgicos,

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perucas, tingimento capilar, uso de chapéus, raspar o cabelo (no caso de homens), prender o
cabelo para disfarçar seu volume, lentes de contatos etc.
Um exemplo paradigmático é o caso do jogador de futebol do Fluminense Carlos
Alberto, que, em 1914, teria passado sobre seu corpo pó de arroz para disfarçar sua negritude.
Ao longo do jogo, a maquiagem foi se dissolvendo com o suor, a torcida adversária, ao
perceber que não se tratava de um jogador branco, passou a gritar: “pó de arroz”. O jogador
Calos Alberto via-se obrigado a responder à “demanda por perder essas características
mestiças que denunciavam sua possível exclusão, e assim tenta se passar por branco, mesmo
que não de uma forma muito eficiente, ou seja, surge a necessidade de embranquecer para se
inserir nesse meio” (HAAG, 2010: 48).
Outro exemplo é o escritor Machado de Assis. Sua mãe era portuguesa e branca e seu
pai era negro e descendia de escravizados alforriados, sua mãe trabalhava como lavadeira e
seu pai como pintor de paredes (NICOLA, 1989). Machado, ao longo de sua vida, teria
utilizado alguns subterfúgios para disfarçar seus traços negroides, como deixar a barba mais
acentuada para esconder a cor de sua pele. Algumas de suas fotografias teriam recebido
tratamento para deixá-lo mais próximo do fenótipo branco; por exemplo, na fotografia em que
se encontra na sede da Academia Brasileira de Letras, “os traços negroides da fisionomia de
Machado de Assis foram habilmente escamoteados” (BARBOSA, 2014: 14). “O racismo no
Brasil é pigmentocrático, e quanto mais traços negroides se tem, mais exposto negativamente
ao racismo será” (DUARTE, 2015: s.p).

Figura 2 Fotografias de Machado de Assis10.

10
Fonte: Esquerda – IFNG. Disponível em: <https://ifnmg.edu.br/noticias-alm/noticias-2016/12580-
pesquisadores-descobrem-novo-texto-de-machado-de-assis-professor-do-ifnmg-e-um-deles-2>. Direita - Folha

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Acima, temos duas fotografias contrastantes de Machado de Assis. A fotografia da


direita é uma das mais conhecidas do escritor, e passou por um processo de “tratamento”.
Nela, é possível perceber um escamoteamento de seus traços negroides. A foto da esquerda
seria a última de Machado de Assis, descoberta pelo pesquisador Felipe Pereira Rissato e
publicada em 25 de janeiro de 1908, na revista argentina Cara y Caretas. Diferentemente da
outra fotografia, essa não passou por uma técnica de tratamento, ficando evidente a diferença
entre elas. Nessa foto, temos um Machado de Assis onde é possível perceber de maneira mais
nítida sua negritude por meio de seus traços fenotípicos.
Tanto o caso do Jogador Carlos Alberto quanto o do escritor Machado de Assis são
exemplos de personalidades que almejavam credibilidade e aceitação social, e neste sentido
suas práticas são atravessadas por atitudes que buscavam se desvincular de qualquer tipo de
associação à negritude. Para Virginia Bicudo, “o mulato é discriminado na medida em que
lembre sua origem africana, principalmente pela cor” (2010: 122). De acordo com uma de
suas entrevistadas, a de número 23, “o que importa é a aparência”. Esse aspecto é o que
justifica as modificações na fotografia, no caso de Machado de Assis, e o uso da maquiagem,
no caso de Carlos Alberto.
Bourdieu apresenta uma interessante reflexão que nos ajuda a pensar as questões
supramencionadas. Ele afirma que “os dominados aplicam as categorias construídas do ponto
de vista dos dominantes às relações de dominação, fazendo-as assim ser vistas como naturais.
O que pode levar a uma espécie de autodepreciação ou até de autodesprezo sistemáticos”
(BOURDIEU, 2012: 46). Isso nos ajuda a compreender o quanto o preconceito racial
cotidiano faz com que os indivíduos passem a negar seus traços negroides, uma vez que estes
consideram os traços africano desprovidos de beleza, por estar fora dos cânones estéticos
impostos pelo racismo. Esse tipo de prática Pierre Bourdieu denomina de capital cultural
incorporado, ou habitus, pois se realizam como “sistemas de disposições duráveis, estruturas
estruturadas predispostas a funcionar como estruturas estruturantes, isto é, como princípio
gerador e estruturador das práticas e das representações” (BOURDIEU, 1983: 60-61).
Dentro de uma perspectiva classista, Florestan Fernandes (2008) apresenta a ideia de
que os trabalhadores negros constituem uma classe em si, mas não uma classe para si, ou seja,
trata-se de uma classe social por conta de sua condição material, e da posição virtual que
ocupa na estrutura social, porém, essa classe olha para si mesma se orientando pelas

de São Paulo. Disponível em: <https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2018/06/pesquisador-encontra-foto-


desconhecida-de-machado-de-assis-em-revista-argentina.shtml>.

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referências, valores, modelos e esquemas universalizados da classe dominante. Como cientista


social de orientação marxista, Florestan Fernandes parte do pressuposto de que “as ideias da
classe dominante são, em cada época, as ideias dominantes, isto é, a classe que é a
força material dominante da sociedade é, ao mesmo tempo, sua força espiritual dominante”
(MARX e ENGELS, 2007: 47). A classe dominante através de diversas formas consegue
validar suas ideias, com força suficiente para influenciar a classe subordinada a pensar
segundo os seus valores. Esse é um dos elementos que ajudam a perpetuar o conjunto das
relações sociais vigentes.
Com base nessa reflexão, podemos entender que o racismo se realiza como um sistema
classificatório que fornece elementos hierárquicos de leitura e interpretação do mundo, que
ajuda a definir as preferências com relação às amizades, relações sexuais, carreira
profissional, religião, literatura etc. De acordo com Renato Ortiz, “o Habitus se sustenta, pois,
através de ‘esquemas generativos’ que, por um lado, antecedem e orientam a ação e, por
outro, estão na origem de outros ‘esquemas generativos’ que presidem a apreensão do mundo
enquanto conhecimento” (ORTIZ, 1983: 16).
O racismo enquanto um sistema de disposições duráveis, estruturador de ações e
representações faz com que alguns atores sociais procurem disfarçar os traços negroides como
uma forma de não sofrer os efeitos nefastos provocados pelo racismo, e não só isso, mas
também alcançar alguns privilégios que são exclusivos de pessoas brancas, como, por
exemplo, associação à beleza e inteligência. No entanto, a adoção de políticas de cotas raciais
trouxe consigo uma coisa inédita no Brasil, pela “primeira vez na nossa história em que ser da
cor concedeu oportunidades e não somente exclusão” (DUARTE, 2015: s.p.). Aqueles, que,
anteriormente, faziam questão de negar sua herança negra e utilizavam subterfúgios para
negar ou omitir sua negritude, agora, com as políticas de cotas raciais, “passaram a
mencionar a herança negra” (Op. cit., s.p.). Pessoas com esse tipo de atitude Leopoldo Duarte
denomina de afroconvenientes.
Isso justificaria, de certa forma, porque a maior parte das denúncias de fraudes
direciona-se àqueles que se autodeclaram pardos. De acordo com os denunciantes, muitos
deles são, na verdade, pessoas brancas que têm se aproveitado de uma brecha interpretativa,
sobre o que é ser pardo, para obter vantagens indevidas. O argumento mais utilizado pelos
candidatos denunciados é que sua árvore genealógica seria composta por pessoas negras,
como pais, avós ou bisavós, ou seja, uma “gota de sangue” negra seria suficiente para
caracterizá-los como pardos mesmo que tenham pele branca, cabelos lisos e olhos claros.

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Leopoldo Duarte argumenta que o racismo brasileiro não exige “uma cópia da árvore
genealógica para identificar quem deve prejudicar, humilhar e exterminar” (Op. cit., s.p.). A
cotidianidade do preconceito racial no Brasil se faz com base no fenótipo, nas características
físicas, nas marcas que o indivíduo acumula, e quanto mais traços negroides o indivíduo
apresentar mais estará exposto aos efeitos violentos do racismo.
Oracy Nogueira afirma que a ascensão social está relacionada às características
fenotípicas que o indivíduo apresenta, pois “onde o preconceito é de marca, a probabilidade
de ascensão social está na razão inversa da intensidade das marcas de que o indivíduo é
portador, ficando o preconceito de raça disfarçado sob o de classe, com o qual tende a
coincidir” (2006: 303). As conclusões de Virgínia Bicudo convergem com as de Oracy
Nogueira quando aquela afirma que “as classes sociais intermediárias aceitam o mulato desde
que se apresente como ‘branco’” (BICUDO, 2010: 120).
Tanto as denúncias quanto à avaliação da comissão que julga cada caso têm se dado
com base nas características físicas dos candidatos. Mas esse método têm gerado
controvérsias, há o caso de um candidato que alega ser pardo, mas que os avaliadores não o
teriam classificado dessa forma. Este argumenta sofrer os efeitos devastadores do racismo:
que não porta os privilégios dos brancos na sociedade; que, inclusive, teria sofrido racismo ao
ser perseguido por seguranças em supermercado e loja de roupas; e que sua mãe, por ser negra
sofria preconceito racial por parte da família de seu pai, que é de origem italiana.

(...) muitas vezes houve implicância com a cor da pele da minha mãe. Piadas
de negro, diminuindo os negros, ofendendo os negros. Eu olhava para a
minha pele e do meu avô e dos meus tios e eu dizia: ‘Espera aí, eu não sou
da cor deles’. Então devo estar sendo incluído nessa piada preconceituosa.
Percebia muito preconceito comigo e com a minha mãe. (ESTADÃO,
12/01/2018)

O racismo de marca se expressa de múltiplas maneiras, isso também está associado à


“concepção de branco e não-branco [que] varia, no Brasil, em função do grau de mestiçagem,
de indivíduo para indivíduo, de classe para classe, de região para região” (NOGUEIRA, 2006:
294).
Segundo Marcelo Badaró Mattos, a utilização de métodos de avaliação fenotípica é
desastrosa e a tentativa de responder às críticas ao modelo de autodeclaração “estabelecendo
critérios de identificação fenotípica, como fotos, entrevistas e análise por especialistas, (...)
levou a erros ainda maiores, pois reintroduziu a perspectiva racialista da virada do século XIX
ao XX” (2007: 180-1). Existe o caso dos irmãos vitelinos, Alan e Alex, que se inscreveram no

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vestibular da UNB. Alex foi aceito para concorrer pelo sistema de cotas, mas o pedido de seu
irmão Alan foi negado, este entrou com um recurso e, como seu caso obteve repercussão
midiática, acabou sendo aceito pelo sistema de cotas (EXTRA, 06/06/2017).
Esse tipo de situação coloca em questão a credibilidade das políticas afirmativas e
também o próprio método de seleção fenotípico adotado pela UNB. Sobre este último item
Badaró Mattos contra argumenta que a autodeclaração se constitui como uma ferramenta
pedagógica de conscientização. Mesmo que esse método não seja perfeito e que possam
ocorrer fraudes, este autor afirma que “a auto-identificação é um processo positivo em curso,
de conscientização sobre o racismo e a necessidade de organização para sua superação e
garantia dos direitos fundamentais” (MATTOS, 2007: 180).
Os denunciantes alegam que, para ser negro, o indivíduo tem que ser reconhecido
socialmente como negro, e ter negros na composição familiar não é suficiente, por isso a
maior parte das “críticas acontecem, principalmente, em relação aos alunos que se
autodeclararam pardos, mas que, no entendimento do movimento negro, não podem ser
considerados negros, mesmo que tenham parentes negros” (ESTADÃO, 12/01/2018). A
advogada Wanda Gomes Siqueira, que defende 20 candidatos indeferidos, afirma “que todos
os alunos defendidos por ela são pardos, conforme indica o edital de seleção para cotas.
Muitos deles têm pais ou avós negros” (VEJA, 06/12/2017).
O argumento da árvore genealógica não é considerado um argumento plausível pelo
movimento negro, uma vez que a pureza genética não é uma característica da formação do
povo brasileiro. Por isso, o preconceito racial brasileiro é de marca e não de origem. Seria
impossível ser de origem, pois ninguém seria considerado branco, haja vista que durante
séculos de escravidão o estupro de mulheres negras por homens brancos era sistemático e
gerou crianças mestiças. É razoalvel fazer essa afirmação a partir dos estudos de Sergio Pena
sobre a origem genômica da população branca brasileira, nas palavras do próprio autor:

a esmagadora maioria das linhagens paternas da população branca do país


veio da Europa, mas que, surpreendentemente, as linhagens maternas no
Brasil como um todo mostraram uma distribuição bastante uniforme quanto
às origens geográficas: 33% de linhagens ameríndias, 28% de africanas e
39% de europeias (PENA, 2005: 331).

Esses valores variam de acordo com a região do Brasil. Na região Norte, a maoiria tem a
ancestralidade amerindia (54%); no Nordeste, a maioria é de origem africana (44%), enquanto
que, na região Sul, a maioria é de origem europeia (66%); a região sudeste apresentou um
equilíbrio entre as ancestralidades.

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Esses dados mostram a existência de casamentos inter-raciais na formação da


sociedade brasileira. Em outras regiões do planeta, isso aconteceu de outras formas, por
exemplo, nos Estados Unidos, na cidade do Novo México, no regime do apartheid na África
do Sul e na Alemanha nazista, haviam leis antimiscigenação (segregacionistas) que proibiam
casamentos inter-raciais. Não há registros de leis dessa natureza na história do Brasil. Isso não
significa dizer que não existiam proibições de matrimônio inter-racial, pois a via jurídica não
é o único fator determinante para esses casos. Oracy Nogueira percebe que, na cidade de
Itapetininga, desde o século XVIII, não se encontrava, a não ser com raras excessões,
“mestiçagem” no núcleo da camada dominante. Uma vez preocupados em preservar seu
patrimônio e seu status, os membros das familias privilegiadas casavam-se, “quase
exclusivamente, dentro do mesmo círculo social, constituído de elementos tradicionalmente
pertencentes à mesma camada e, sempre que possível, dentro dos próprios limites do sistema
de parentesco”, sendo muito comum o casamento “entre primos e primas, tios e sobrinhas”
(1998: 67-8).
Ao mencionar a inexistência de leis que proibiam os casamentos inter-raciais, apenas
queremos enfatizar que as relações étnico-raciais no Brasil se configuraram de forma
diferenciada de outros países, e que a história do Brasil foi inegavelmente marcada por uma
maior flexibilidade nos encontros inter-raciais (isso também não significa dizer que o Brasil é
menos racista do que outros países). Os dados apresentados por Jessé Souza (2017) tornam
mais sólida a sustentação dessa tese. De acordo com este autor, os casamentos inter-raciais
foram responsáveis pelo aumento na proporção de “mulatos”, que passou de 10% no início de
século XIX para 41% no final do mesmo século.
De acordo com Oracy Nogueira, “no Brasil (...) o indivíduo, sendo portador de traços
‘caucasóides’, será considerado branco, ainda que se conheça sua ascendência negra ou o seu
parentesco com indivíduos negroides” (NOGUEIRA, 2006: 294). Para Marcelo Badaró
Mattos,

No Brasil, o preconceito racial não se construiu sobre provas de sangue, mas


sobre uma clara identificação da cor como estigma e toda a luta histórica dos
movimentos sociais anti-racista é pela assunção da identidade de negro, de
forma a superar os traumas sociais provocados pelo estigma. (MATTOS,
2007: 180)

A maneira especifica como o racismo se expressa no Brasil tem como critério as


características fenotípicas dos indivíduos, tendo o branco como referencia. Como já foi

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assinalado, diversos estudos demonstram que a pureza genética não é uma característica da
formação da sociedade brasileira e por isso a cor e os traços físicos se tornam o elemento pela
qual o racismo vai se manifestar.
Alguns pensadores problematizam a ideia de raça. Para Stwart Hall, esse conceito é
um dos mais importantes na organização dos “grandes sistemas classificatórios da diferença
que operam em sociedades humanas” (2013, s.p.). Mas a significação do conceito de raça é
flutuante e “está sujeito [a] a um processo de perda de velhos sentidos, apropriação, acúmulo
e contração de novos sentidos; a um processo infindável de constante resignificação, no
propósito de sinalizar coisas diferentes em diferentes culturas, formações históricas e
momentos” (2013, s.p.). Dentro dessa dinâmica, o conceito de raça acaba se tornando “um
sistema autônomo de referência” sendo muito mais um fator discursivo do que genético.
(Ibidem).
Para Silvio Almeida, o conceito de raça não é estático, está sempre em movimento e o
“seu sentido está inevitavelmente atrelado às circunstancias históricas em que é utilizado”
(2018; 19). Por trás do conceito de raça, há um conjunto de relações de força que torna esse
conceito “relacional e histórico”. As dimensões econômicas, culturais, políticas, religiosas,
espaciais e temporais combinadas de uma forma muito específica fornecem o substrato
material para o sentido singular de raça em cada época histórica.
No caso especificamente do Brasil, o conceito de raça está relacionado à cor da pele.
O pigmento tornou-se, historicamente, um elemento de diferenciação social e um mecanismo
de administração da exclusão, o próprio Oracy Nogueira afirma que a “expressão ‘preconceito
de marca’ não constitui senão uma reformulação da expressão ‘preconceito de cor’” (2006:
292). O elemento “cor”, durante todo o período da escravidão, se constituiu como uma
referência, um ponto chave na administração das diferenças de classe entre dominador e
dominado. As ideias dominantes, que é a visão unilateral da classe dominante, compreendiam
que a cor dos dominados se constituía como signo de inferioridade. A formalização da
abolição da escravatura não removeu as ideias de que os traços negroides são expressões de
inferioridade econômica, intelectual, estética, artística, desportiva, filosófica, científica e
religiosa.
Mesmo após a abolição, a cor continuou sendo um ponto chave de diferenciação e
hierarquização entre os indivíduos. Por isso, os movimentos antirracistas insistem na ideia de
que os que devem ser contemplados nas políticas de cotas são aqueles que são inferiorizados
pelas marcas que acumulam, ou seja, os traços negroides. O elemento cor é um diferenciador

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de corpos nas dimensões de classe social, de raça e de gênero, é um elemento variante das
desigualdades sociais. Neste sentido, o argumento da árvore genealógica, mobilizado pelos
denunciados por fraudes, não se sustenta, pois o preconceito racial no Brasil não se orienta
pela origem dos indivíduos e sim pelas marcas que estes acumulam.

À guisa de uma conclusão


As desigualdades sociais no Brasil são agravadas pelo preconceito racial. O racismo
tem uma lógica estrutural de funcionamento muito específica na sociedade brasileira, se
estrutura com base nas características físicas dos indivíduos. O referencial positivo é o branco,
com suas características físicas (pele branca, cabelos lisos e olhos claros). A intensidade do
racismo varia de acordo com o grau de proximidade e distanciamento que o indivíduo possui
do ponto de referência fenotípica do branco. Pele preta, cabelos crespos, olhos escuros são
características físicas que, quando acumuladas, tornam-se “diametralmente opostas” ao
branco enquanto referência positiva. Por isso, aqueles que acumulam traços negroides são os
que mais sofrem severamente a opressão do racismo. Desse modo, Oracy Nogueira
caracteriza o racismo brasileiro como sendo de marca, ou seja, com base nas características
fenotípicas dos indivíduos.
O racismo brasileiro não é de origem, os estupros sistemáticos das mulheres negras
escravizadas durante todo o período da escravidão e os casamentos inter-raciais contribuíram
para que gerações de famílias fossem compostas por brancos, negros e indígenas. Os estudos
de Sergio Pena sobre os marcadores genômicos da população branca comprova essa
diversidade, principalmente no que tange à linhagem materna. Diante desse quadro, não havia
como se desenvolver um preconceito racial que se baseasse na pureza genética dos
indivíduos.
Muitos daqueles que foram denunciados por fraudar o sistema de cotas raciais alegam
que são pardos exatamente por não terem pureza genética. Os denunciantes alegam, porém,
que o racismo não se dá por provas de sangue e sim com base nas características físicas. Os
corpos que não são marcados por características negroides não são alvos do racismo e, por
isso, não tem perfil para participar das políticas de cotas raciais, mesmo que tenham negros
em sua composição familiar; além disso, o pardo encaixa-se no termo censitário Negro, que
abrange pretos e pardos, portanto, pardo seria o negro com a pele mais clara, e não pessoas
brancas que têm negros na família.

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Nos lugares onde o racismo se desenvolveu com base na pureza genética, grupos
inteiros são marginalizados; onde o racismo se desenvolveu com base no fenótipo dos
indivíduos, a relação de inclusão e exclusão estará associada ao quanto os indivíduos se
aproximam ou se distanciam do branco enquanto referência. Nesse caso, o fenótipo é a base
material na distribuição de privilégios e desvantagens entre os indivíduos.
Os embates que ocorrem em torno das políticas de cotas raciais aplicadas aos
processos seletivos de universidades públicas revelam as diferentes concepções existentes
sobre o racismo, a negritude e a miscigenação. Isso pode ser percebido na lógica
argumentativa apresentada pelos diferentes atores sociais envolvidos nessa disputa de
narrativas. As reflexões de Oracy Nogueira e sua concepção de preconceito racial de marca e
preconceito racial de origem foram fundamentais para pensar o cerne desse debate e a
estrutura interna argumentativa entre denunciantes e denunciados.
Para debater esse tema de forma mais ampla e aprofundada, recorremos a reflexões
desenvolvidas por pesquisadores e pesquisadoras de diferentes perspectivas, como Virginia
Leone Bicudo, Silvio Almeida, Stuart Hall, Pierre Bourdieu, Marcelo Badaró Mattos,
Florestan Fernandes, Sergio Pena, entre outros. Foi utilizado também material jornalístico,
como o Jornal Estado de São Paulo e a Revista Veja. Recorremos a dados estatísticos como,
por exemplo, o Mapa da Violência e Censo demográfico do IBGE. Utilizamos documentos
jurídicos, como a Constituição Federal e o Estatuto da Igualdade Racial. Em menor escala,
recorremos à literatura e a registros iconográficos.

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<https://www.mapadaviolencia.org.br/pdf2016/Mapa2016_armas_web.pdf>.

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<https://extra.globo.com/noticias/brasil/unb-decide-aceitar-gemeo-no-sistema-de-cotas-689507.html>.

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GT 4

Religião

Organizadores:
Christina Vital da Cunha
(PPGS/UFF)
Paola Lins (PPCIS/UERJ)
184

Governo do justo: Um novo trilho para o Brasil

Sergio P. Gil de Alcantara1

Resumo: Neste trabalho, apresento a origem da proposta político religioso denominado de


"governo do justo",objetivando compreensão introdutória sobre os atores que promulgam tal
discurso. Abordo a história da fundação do Ministério Internacional da Restauração, que é o
movimento que dá início e desenvolve a proposta político religiosa, tratando o surgimento do
modelo de evangelização denominado M12. Analiso as intenções do discurso "governo do
justo", assim como a hermenêutica apresentada para legitimidade teológica, deste mesmo
discurso. Promovo diálogo sobre o discurso político religioso, levando em conta o trato da
proposta restauracionista diante do cenário político atual.

Palavras-Chave: Governo; justo; restauração, pentecostal.

Introdução
Os líderes e adeptos do Ministério Internacional da Restauração (MIR), oriundos de
movimentos evangelísticos pentecostais, mencionam utilizar estratégias sustentadas pelo
desempenho em estudos bíblicos. Incentivos à prática intensa de evangelismo, e
sociabilidades desenvolvidas em lares. Estes compreendem que se inspiram no modelo de
crescimento eclesiástico realizado nos primórdios do cristianismo, descrito nos textos bíblicos
do livro de Atos dos Apóstolos. No entanto, o modelo desenvolvido nos lares passaria por
algumas inovações, dadas em diferentes regiões e nações, e em diferentes realidades.
O líder inovador deste modelo de evangelismo, que mais teria tido repercussão, é o
pastor coreano David (Paul) Yonggi Cho, nascido em 1936, ex praticante do budismo,
convertido ao evangelho aos 18 anos, fundador da Igreja Evangelho Pleno de Yoido,
localizada na Coréia do Sul, respeitado por suas conquistas e por pastorear uma das maiores
igrejas evangélicas do mundo. Segundo os próprios participantes desta igreja, depois da
aquisição de uma ilha chamada Yoido, no rio Han, o número de membros chega à 800.000.
Tal modelo de evangelismo nos lares, implantado na década de 1960, tomaria proporção em
várias nações, depois conhecido como "igreja em célula" (CHO, 2008).
O modelo de evangelização logo chegaria à América do Sul, em Bogotá, Colômbia,
por intermédio do pastor Cesar Castellanos Dominguez, que iniciaria a implantação em 1983,
1
Sergio P. Gil de Alcantara é mestre em ciências das religiões (PPGCdR/FUV), especialista em ensino religioso
escolar (ESAB), especialista em teoria psicanalítica (FACEI), bacharel em teologia (EST), bacharel em
sociologia (UFF).

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185

cunhando o nome de Missão Carismática Internacional (MCI), da "igreja da visão de Bogotá",


que proporia a estratégia evangelística do grupo dos 12 (G12), em 1991. O mesmo
desempenho da igreja em célula, mas com o propósito de multiplicações a partir de grupos
menores, com 12 componentes. Tal modelo de evangelismo teria crescimento e atingiria
outras nações próximas, tal qual o Brasil. "Ganhar o Brasil e o mundo para Cristo através do
sistema celular e do modelo dos doze, fazendo de cada membro da igreja um líder capacitado
para reproduzir a obra de Deus” (CASTELLANOS, 1998: 05).

Em 1991, sentimos que se aproximava um maior crescimento, mas algo


impedia que o mesmo ocorresse em todas as dimensões. Estando em um dos
meus prolongados períodos de oração, pedindo a direção de Deus para
algumas decisões, clamando por uma estratégia que ajudasse na frutificação
das setenta células que tínhamos até então, recebi a extraordinária revelação
do modelo dos doze. Deus me tirou o véu. Foi então que tive a clareza do
modelo que agora revoluciona o mundo quanto ao conceito mais eficaz para
a multiplicação da igreja: os doze. Nesta ocasião, ouvi o Senhor dizendo-me:
vais reproduzir a visão que tenho te dado em doze homens, e estes devem
fazê-lo em outros doze, e este, por sua vez, em outros doze. (Opus citatum:
09)

Segundo Castellanos, o modelo foi implantado em sua igreja possibilitando rápido


crescimento, a ponto de mil conversões por semana, somente na igreja sede, a qual se
estruturou em outras congregações para abrigar tamanha expansão. A igreja da visão celular
se tornou a maior da America Latina, com 200 mil membros em 45 mil células
(CASTELLANOS, 1999).
No Brasil, o representante do movimento restauracionista, Renê Terra Nova, nascido
na Bahia, mas tendo mudado para viver em Manaus/MA, foi pastor da Convenção Batista
Nacional, e fundou a Missão Internacional de Restauração em Manaus, nascida após cisão da
Igreja Batista Memorial, na cidade de Manaus, motivada pela liberdade de busca por dons
carismáticos e centralidade do Espírito Santo, em detrimento às tradições e crenças
racionalizadas. No início da década de 1990, o pastor batista Renê Terra Nova, até aquele
momento, instalou na garagem de um de seus seguidores, o que posteriormente se tornou a
Primeira Igreja Batista da Restauração (PIBREM), que já contava com 169 seguidores. Em
1992 esta mesma igreja se torna o Ministério Internacional da Restauração, conhecida pelos

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manauaras como a "igreja da torre" (MINISTÉRIO INTERNACIONAL DA


2
RESTAURAÇÃO, 2018) .
No entanto, Terra Nova, rompe com a liderança colombiana para implantar um
modelo bem próximo do que o precede. O motivo do desligamento do movimento G12,
liderado pelo pastor colombiano, deu-se pela alegação de que Castellanos havia patenteado o
movimento. Por questões de direitos autorais, nasce o Modelo dos 12, uma reedição nacional
do proposto colombiano de visão celular (MIR, 2016).
Segundo Terra Nova, o modelo dos 12é uma sociação desenvolvida a partir de uma
"visão" que rege uma liderança eficiente, com bases nos princípios de "ganhar almas,
consolidá-las, discipulá-las e enviá-las". Tal modelo é amparado em inúmeras passagens nas
Escrituras do Antigo Testamento, referentes aos filhos de Jacó, as tribos de Israel, as doze
portas de Jerusalém, etc. O número 12 é uma orientação sobrenatural. Um avivamento
genuíno que romperia laços com a tradição e legalidades religiosas. Estas, não somente em
meio ao cristianismo na forma institucional eclesiástica, mas concomitantemente na relação
entre a igreja e estado, o cristão e a sociedade, e as demandas da cidadania (TERRA NOVA,
2001).

Figura 01: Logomarca3 do MIR extraída do site do MIR 2017

O MIR atualmente, conta com uma TV web, denominada "TVMIR" com gravações de
cultos ao vivo, reprises, programas com entrevistas, congressos, e outras programações.
Também conta com radio web, denominada de "RADIOMIR", com programações que variam

2
Disponível em: <http://www.mir12.com.br/br/2015/estudos/12/394-conhecendo-as-bases-do-ministerio-
apostolico-parte-1>. Visitado em 23/08/2018.
3
Disponível em: <http://www.mir12.com.br/br/2017/noticias/555-ap-rene-terra-nova-16-anos-de-apostolado>
Visitado em: 08/07/2018.

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em sua totalidade de músicas evangélicas nacionais e internacionais, orações dos pastores do


MIR, e breves sermões dos bispos do Ministério (MIR, 2018).

Figuras 2 e 3: À esquerda, a logomarca da TV web. À direita, a logomarca da rádio web.

Pode-se entender tal importância dada à mídia pela possibilidade de uso em prol a
propagação de seu método de evangelismo, seus congressos, seminário e inclusive o discurso
político religioso denominado de "governo do justo".

Do "governo do justo"
O discurso político religioso "governo do justo" nasceu após uma palestra oferecida
em Manaus pelo presidente do MIR, apóstolo Renê Terra Nova, que incentiva aos adeptos
buscarem conhecimento e posicionamentos políticos, de forma ética e responsável, lidando
com excelência as coisas deste mundo, enquanto se aguardaria a recompensa do mundo
vindouro.
Somos reformistas! Nasceu o Governo do Justo. Com essa declaração, o
Apóstolo Renê Terra Nova profetizou que a nação brasileira vai conhecer
uma nova abordagem política capaz de transformar a realidade
socioeconômica e espiritual do País. (TERRA NOVA, 2017)4

O Apóstolo Renê Terra Nova deixa claro, com esta declaração, as intenções do MIR,
em relação à aproximação mais efetiva no campo político. A frase, para os adeptos tem um
tom de profecia. Segundo o líder do MIR, a nação brasileira vai conhecer uma nova
abordagem política capaz de transformar a realidade socioeconômica e espiritual do país.
Neste mesmo contexto, o Pastor Paulo Vasconcelos, advogado do Partido Reformista
4
MINISTÈRIO INTERNACIONAL DA RESTAURAÇÃO. Disponível em:
<http://www.mir12.com.br/br/2017/congressos/portoseguro/destaques/266-igreja-convocada-a-mudar-o-brasil>.
Visitado em 23/08/2018.

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Democrático (PRD),5 partido em formação, divulgador de propostas parlamentares que


contemplam a não legalização do aborto, a posição contrária a união matrimonial entre homo
afetivos, a conservação da família nos moldes tradicionais, incluso o governo do justo,
destacou a importância da construção política nas igrejas e as influências positivas que o
assunto pode trazer para a sociedade.
O discurso político do MIR propõe acentuação de moralidade na vida pública fazendo
uso de fiscalizações transparentes em combate à corrupção. Também faz valer as
reivindicações que são legítimas das igrejas, amenizando as atuais diferenças entre
denominações evangélicas. Assim como, o incentivo ao respeito da diferença entre
moralidade e legislação. A defesa da família é uma das principais propostas, de forma estável
sob o aspecto econômico. Um impacto em sociedade brasileira na proposta de desempenhos
de cidadania, que funciona como ensaio terreno para o porvir, conservando valores que ainda
encontra adesão da população (TERRA NOVA, 2017).
A despeito de estratégias que organizam a luta partidária e a sobrevivência política, o
discurso político do MIR procura se apoiar em reivindicações que se debruçam sobre as
questões morais, éticas, de justiça e da verdade. Muito respeitado entre os restauracionistas. O
pastor Martin Luther King é lembrado em suas palavras: "Vamos marchar sobre as urnas, até
que enviemos às câmaras municipais, à assembleias legislativas e ao congresso pessoas que
não tenha medo de fazer justiça, amar a misericórdia e andar humildemente com seu Deus"
(KING apud FRESTON, 2006: 32).
Certa preocupação referida pelos líderes do MIR dá-se pelo crescente interesse pelo
movimento denominado de "amazonização" que envolvem grandes proprietários de terras,
madeireiros, mineiros, comunidades nativas, estrangeiras, e também religiosas, no caso da
matriz religiosa Santo Daime6 (GROISMAN, 2004: 23-24).
Sobre o desenvolvimento e crescimento das ideias lançadas sobre a participação mais
efetiva da igreja na esfera pública, efetivamente no campo político, cultivada entre os adeptos

5
O Partido Reformista Democrático, reconhecido pela sigla "PRD", foi organizado nos termos do
art. 17 da Constituição Federal, da Lei nº 9.096/95 e das Resoluções do Tribunal Superior Eleitoral e se
apresenta à sociedade brasileira como uma alternativa de Poder. JUSBRASIL. Disponível em:
<https://www.jusbrasil.com.br/diarios/122135560/dou-secao-3-04-08-2016-pg-146>. Visitado em 24/08/2018.
6
Possui sua matriz religiosa nascida nas florestas amazônicas, obtendo a promulgação de seu estatuto, em 1998,
afirmando caráter sagrado de seus sacramentos, realizados em cerimônias religiosas co distribuição restrita às
filiais de bebida, denominada sacramental, DANTO DAIME. A ingestão ritual do chá da Ayahuasca, ou Santo
Daime, feito de plantas Banisteriopsis Caapi e da Psychotria Viridis produz a "miração", que trata de
experiência de "visões extáticas interiores", insights, e estado de ampliação da consciência e de grande acuidade
mental. Santo Daime. A Doutrina da Floresta. Disponível em:
<http://www.santodaime.org/site/institucional/historico-organizativo>. Visitado em 23/08/2018.

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restauracionaistas, certa estratégia é colocada em prática. “Cada casa uma base para reunião
de 12 aliançados com o Governo do Justo. Cada aliançado um multiplicador de 70 novos
aliançados” (Ap. Walter Cristie, candidato ao Senado Federal pelo PR).7 Para o vereador
Marcel Alexandre Silva (PMDB) da cidade de Manaus, eleito com apoio do Ministério
Internacional da Restauração, “o importante não é a quantidade de parlamentares, mas sim o
volume de votos” (NOTÍCIAS GOSPEL, 2012).

A teologia restauracionista
Nesta seção, o objetivo é apresentar o embasamento hermenêutico atribuído para o
desenvolvimento do discurso político teológico "governo do justo", tratando de alguns
aspectos que abordam o significado teológico que recorrem aos registros bíblicos.
Para o Apóstolo John Kelly, presidente da Coalizão Apostólica Internacional,
presidida pelo apóstolo John Kelly, sediada em Forth Worth, no Texas/EUA, os cristão
precisam se importar mais com as vidas que praticam na terra. Levando-se em conta a
promessa e imaginário religioso de recompensas divinas prometidas para uma vida eterna.
Afirma o apóstolo que Yahweh coroou seus filhos como reis, ou seja, príncipes debaixo da
soberania divina. Os cristãos são o que Yahweh é. Portanto, se o Rei proporciona autoridade,
cuidado e cura, assim também devem os seus filhos agirem em vida terrena. Os cristãos
devem se posicionar para tempos de perdão, cura e restauração.

Vocês precisam se ver como reis, porque vocês (Igreja) são reis debaixo do
Rei. Você é a Noiva de Cristo e embaixador de Deus. E o que Ele é você se
torna. Tudo em Deus é unificado em Cristo. Você é a família de Deus. A
Igreja precisa de postura política para contemplar as transformações sociais e
econômicas na Nação. Os ensinos edificaram a vida das lideranças que
vieram de vários estados brasileiros prestigiarem o 18º Congresso de Resgate
da Nação e aprender sobre "Família no Modelo Bíblico". (John Kelly)8

Em imaginário religioso do adepto ao Movimento Internacional da Restauração, no


que tange ao mito da criação hebraico, descrito no livro bíblico denominado de Gênesis, o
primeiro casal humano discutiria com a “serpente” do Édem, o poder de governabilidade e

conhecimento do bem e do mal, o qual o próprio Yahweh (‫יהוה‬-Hb) Deus Criador, havia
77
GAZETA DO POVO. Eleições 2018. Disponível em:
<https://especiais.gazetadopovo.com.br/eleicoes/2018/candidatos/senador-rj/walter-cristie/>. Visitado em
23/08/2018.
8
MINISTÈRIO INTERNACIONAL DA RESTAURAÇÃO. Disponível em:
<http://www.mir12.com.br/br/2017/congressos/portoseguro/destaques/266-igreja-convocada-a-mudar-o-brasil>.
Visitado em 23/08/2018.

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outorgado ao próprio Adão, mas de forma restritiva. Eva seria induzida pela possibilidade de
ser “igual a Deus”, ou seja, de ter o mesmo poder onisciente, onipresente, e onipotente,
portanto ambos, Adão e Eva, pecariam contra Yahweh. Adão, a quem Yahweh haveria criado
para ser a cabeça do casal, da mulher, seria omisso no seu papel e comeria do fruto da árvore
da vida, uma vez proibido pelo próprio Criador. Segundo os adeptos do MIR, estes mesmos
pecados estariam sendo cometidos pela igreja, em referência à aproximação relacional com o
campo político, desobedecendo às ordens de Yahweh, conquanto a governos sem orientação, e
desprezando o controle divino (TERRA NOVA, 2001). A Igreja Santa seria aquela que no

segundo Adão, Yeshua Hamachiach (‫ישוע‬/ ֵ‫ יעּוׁש‬- Hb), Jesus Cristo recuperaria a essência
caída do primeiro Adão, conforme hermenêutica aplicada ao capítulo cinco, do livro aos
Romanos, dos versos doze a vinte e um (BÍBLIA SHEDD, 1998).
Segundo os líderes do movimento, e aos pentecostais de modo geral, o diabo não tem
poder para criar nada, apenas copiar e fazer de forma errada com suas mentiras e astúcias. "Os
princípios de governabilidade (poder/política) são estabelecidos por Deus exatamente no
mesmo dia (6º dia da criação) em que ele criou o homem e a mulher (Gênesis 1: 26-28). Os
verbos "subjugar" (trazer debaixo de justo juízo) e "dominar" (governar), revelaria exatamente
o princípio de governabilidade" (TERRA NOVA, 2001: 12).
Deus estaria dando sinais de que uma nova ordem irá estabelecer a governabilidade no
mundo. A ordem de Melquizedeque, sacerdote do Deus Altíssimo, rei de justiça e paz, será
restabelecida (Salmo 110: 04 e Hebreus 7: 1) para influenciar o mundo na construção de uma
sociedade melhor, por isso fomos tirados das trevas para a luz (Opus citatum).

O discurso político religioso


A política possui uma linguagem que se apresenta de forma ambígua em diferentes
discursos, com diferentes significações. A política é o conjunto de atitudes que governam
membros de um determinado grupo social, limitando e determinando ações exclusivas e de
determinado território. É entendida também como uma forma de atividades e práxis humana
ligada ao poder. Assim, a política “consiste nos meios adequados à obtenção de qualquer
vantagem”. Por fim, pode ser definida como o “conjunto dos meios que permitem alcançar os
efeitos desejados" (BOBBIO. MATTEUCCI. PASQUINO, 1998: 08).
Alguns termos são fundamentais como a “democracia”, a “aristocracia” e o “déspota”,
os quais são legados dos escritores gregos. O universo da linguagem política não é um

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universo fechado, mas abrange a economia, a sociologia e o direito. Os mesmos autores


descrevem o termo política como:

Derivado do adjetivo originado de pólis (politikos), que significa tudo o que


se refere à cidade, e, consequentemente, o que é urbano, civil, público, e até
mesmo sociável e social, o termo Política se expandiu graças a influencia da
grande obra de Aristóteles, intitulado Política, que deve ser considerada
como o primeiro tratado sobre a natureza, funções e divisão do Estado, e
sobre as várias formas de Governo, isto é, de reflexão, não importa se com
intenções meramente descritivas ou também normativas, dois aspectos
dificilmente discrimináveis, sobre as coisas da cidade (BOBBIO.
MATTEUCCI. PASQUINO, 1998: 964).

Para Hannah Arendt, “a política baseia-se no fato da pluralidade dos homens”. Seria o
que trata da convivência entre os homens. Seria uma forma organizadora entre os diferentes
para certas coisas em comum, essenciais para ligações tanto quanto para separações que
promoveriam a igualdade ou não entre os homens mediante suas diferenças. “O sentido da
política é a liberdade" (ARENDT, 2002: 03).
A política, a partir de uma organização baseada na família, seria responsável por
ligações de graus de parentesco ou por separação por diversos outros motivos. “A ruína da
política em ambos os lados surge do desenvolvimento de corpos políticos a partir da família.
Aqui já está indicado o que se torna simbólico na imagem da Sagrada Família: Deus não criou
perfeitamente o homem como o fez com a família”. Haveria um risco de autorrevestimento
divino quando a família assumisse uma postura de não reconhecimento da diversidade. As
famílias seriam fundamentalizadas em ideias de solidez e abrigo para o indivíduo, daí o passo
para a preferência de direitos para os familiares, o que anularia a qualidade básica para a
pluralidade que levaria à perversão da principal ação da política que seria a concessão
voluntária “de uma reivindicação juridicamente equânime" (ARENDT, 2002: 7).
Aferindo-se conceitos sobre política como forma de organização daquilo que haveria
em comum entre os diferentes a reivindicação da liberdade em respeito à pluralidade, a prática
de meios que obteriam vantagens ou os efeitos desejáveis em determinado grupo social
descrito por Hanna Arendt e Norberto Bobbio. Analisa-se esta construção aplicada à relação
entre os evangélicos e a esfera pública na forma do exercício político.
A conjuntura atual da política brasileira favorece a hipótese de que há espaço para
manifestações religiosas a fim de nortear os rumos confusos de interesses que comprometem a
atual política brasileira, não obstante os escândalos de desvios de erário público, e suas
conseqüentes prisões efetuadas pela justiça, norteadas pela operação "lava a jato". Haveria

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certa insatisfação que ocasiona pautas conservadoras, as quais ganham celeridade, como as
críticas às políticas de ensino público, redução da maioridade penal, contrariedade ao aborto
legalizado e a união civil entre homossexuais, por exemplo, fundamentadas em trechos da
Bíblia. Há um poder de negociação política dos evangélicos, no cenário político nacional,
devido a sua representatividade e seus preceitos que ofereceriam justiça e ordem. O discurso
político "governo do justo", como outros de mesmo tom, relaciona movimentos sociais de
transformação e cidadania com o estado de espiritualidade. Seria a permissão ou concessão de
Deus, diante da impossibilidade humana de resolução de seus próprios problemas (CAMPOS,
2011).
Sendo assim, a solução para os grandes dilemas políticos atuais, seria oferecida através
do ensino, da "restauração" profética, vista pelos adeptos ao MIR como resposta certa e
prática para os problemas éticos e de corrupção que envolve a política brasileira. No entanto,
tal postura implica certa questão sobre o papel exclusivo arbitral do Estado laico em relação
ao direito de todos e o respeito da liberdade religiosa (VITAL, 2012).
Desta feita a solução para os problemas políticos estaria sempre na política, na boa
política, análoga a solução para a má espiritualidade estaria na boa espiritualidade, ou na
construção de uma espiritualidade mais saudável. Do contrário a expectativa messiânica
tornaria em fascínio pelo poder, o que seria conflitante às expectativas dos defensores da
Reforma Protestante nos séculos XVI e XVII, que defendiam o Estado não cristão, não
confessional. Não obstante, há os que defendem que tal solução proposta relacional entre
Igreja e Estado, não seria tão saudável. Para estes, os evangélicos deveriam se envolver em
política, no entanto, não representados pelas igrejas, e sim por grupos políticos que pensariam
semelhantemente compreendendo também a fé cristã (FRESTON, 2006).

Um novo trilho para o Brasil


Independente da visão contrária relacional entre a Igreja e o Estado, os adeptos
restauracionista aceitam para si mesmos certa legitimação, apoiados em hermenêuticas
bíblicas, reforçadas pelo imaginário religioso com o argumentos que englobam missões e
representações do desejo divino de justiça e igualdade. O MIR propõe a "restauração política
nacional", como um ensaio terreno para a cidadania dos céus, declarando o que chamaria de
"restauração" profética, promulgando defesa do estado do Amazonas, como grande potencial
econômico e científico (TERRA NOVA, 2001).

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Marcel Alexandre da Silva, líder político que representa os interesses do MIR,


candidato a uma das vagas para Deputado Federal pelo Estado do Amazonas, pelo Partido do
Movimento Democrático Brasileiro (PHS), participante da coligação denominada "Eu voto no
Amazonas" (PDT / PP / PV / PR / SOLIDARIEDADE / PTB / PHS / PSL),9 defende que os
cristãos precisam indicar os trilhos para a passagem de comboio em prol da justiça e
igualdade para todos. Segundo o candidato, este é o momento propício para que o brasileiro
volte a ter esperança, mediante cenário político decepcionante. "Decepção de ter um ex-
presidente preso, [...] decepção porque a representatividade parlamentar está a dever". Com
base no versículo encontrado no antigo testamento, livro de Samuel, capítulo vinte e três,
versos três e quatro, que os cristãos restauracionistas devem buscar a justiça resplandecente
para a nação brasileira.

Disse o Deus de Israel, a Rocha de Israel a mim me falou: Haverá um justo


que domine sobre os homens, que domine no temor de Deus. E será como a
luz da manhã, quando sai o sol, da manhã sem nuvens, quando pelo seu
resplendor e pela chuva a erva brota da terra. (BÍBLIA SHEDD, 1998)

Marcel Alexandre da Silva afirma que o Brasil se ressente da vergonha em que se


transformou a política brasileira, corrupta e desmoralizada. Somente a verdade mostrará os
caminhos que esta nação deve trilhar10.
O candidato diz que o maior desafio na nação, neste ano eleitoral, é o despertamento
do povo brasileiro como nação sacerdotal. Os cristãos, um povo dentro do povo, precisam
construir consciências políticas, através de fóruns, grupos de trabalhos, e discussões, a fim de
unirmos para eleição de Governadores, Senadores, Deputados Estaduais e Federais que
representem a verdade e a justiça, canalizando propósito, fé e esperança. Precisamos votar na
linha do Governo do Justo (MIR, 2018).
O apóstolo Wagner Pacheco, um dos líderes do Partido Reformista Democrático,
afirma que a criação de uma geografia reformista é uma das metas partidárias. Para isso,
desenvolve o líder do PRD, é preciso que cada estado atinja a sua "meta" de fichas
preenchidas de afiliados para tramites nos Tribunais Regionais Eleitorais. Atingir esta "meta",
afirma o político, só é possível com a insistência dos supervisores, coordenadores de estado, e
9
GAZETA DO POVO. Disponível em:
<https://especiais.gazetadopovo.com.br/eleicoes/2018/candidatos/am/deputado-federal/marcel-alexandre-3131/
Visitado em 23/08/2018.
10
MINISTÉRIO INTERNACIONAL DA RESTAURAÇÂO. Disponível em:
<http://www.mir12.com.br/br/2018/congressos/portoseguro/destaques/682-um-novo-trilho-para-o-brasil>.
Visitado em 30/04/2018.

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a atuação direta do Apóstolo Renê Terra Nova para o alcance da cota estadual, a meta
nacional é alcançada (MIR, 2018).

Figura 04: Candidato a Deputado Federal Marcel Alexandre, representante do MIR.

Bem, ao final deste trabalho entendo que a análise do discurso denominado "governo
do justo" apresentando inicialmente a instituição que o mesmo representa, assim como sua
origem e sua história, dispõe o poder de negociação política dos evangélicos, no cenário
político nacional, devido a sua representatividade e seus preceitos que ofereceriam justiça e
ordem. A proposta do discurso propõe acentuação de moralidade na vida pública fazendo uso
de fiscalizações transparentes em combate à corrupção. O incentivo ao respeito da diferença
entre moralidade e legislação. A defesa da família é uma das principais propostas, de forma
estável sob o aspecto econômico. Um impacto em sociedade brasileira na proposta de
desempenhos de cidadania, que funciona como ensaio terreno para o porvir, conservando
valores que ainda encontra adesão da população.

Conclusão
Na conjuntura atual da política brasileira, há espaço para manifestações religiosas,
com o fim de nortear os rumos confusos de interesses que comprometeriam a atual política.
Levando-se em conta o Estado laico e não laicista. A insatisfação política, nos atuais dias
ocasiona as formações de pautas conservadoras, as quais ganhariam celeridade, como a
redução da maioridade penal e o trabalho terceirizado, por exemplo, fundamentados em
trechos da Bíblia. Há um poder de negociação política dos evangélicos, no cenário político
nacional, devido a sua representatividade e seus preceitos que ofereceriam justiça e ordem.

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A elaboração do discurso político denominado de "governo do justo" reforça a


condição de movimentos sociais de transformação e cidadania, com o estado de
espiritualidade. A permissão ou concessão de Deus, diante da impossibilidade humana de
resolução de seus próprios problemas (CAMPOS, 2011). Sendo assim, a solução para os
grandes dilemas políticos atuais, é oferecida através do ensino, da "restauração profética",
vista pelos adeptos do MIR como solução certa e prática para os problemas éticos e de
corrupção que envolve a política brasileira. No entanto, tal postura implicaria uma questão
sobre o papel exclusivo arbitral do Estado laico em relação ao direito de todos e o respeito da
liberdade religiosa (VITAL DA CUNHA, 2012).
A base empírica desta pesquisa será produzida através da metodologia qualitativa na
qual farei primeiramente, um levantamento da bibliografia sobre projetos políticos
evangélicos, que apresentam mais do que propostas de soluções de problemas do dia a dia,
mas apresenta certa relação entre a significação da ação política e o modo de vida (WEBER,
1993), abordando assuntos, tais como, a participação dos evangélicos em eleições, disputas
religiosas no âmbito político (MACHADO. MARIZ, 2004), a relação da política do Estado
laico brasileiro e as ações partidárias apresentadas pela Frente Parlamentar Evangélica, o
direito de todos e o respeito às diversidades e liberdade religiosas (VITAL DA CUNHA,
2012).

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Programa de Pós-Graduação em Sociologia – Universidade Federal Fluminense
GT 5

Trabalho e
Desenvolvimento

Organizadores:
Cristiano Monteiro (PPGS/UFF)
Valter Lúcio de Oliveira (PPGS/UFF)
199

Crença neoliberal no Sul Fluminense1

Carlos Henrique Moraes dos Santos2

Resumo: A região Sul Fluminense do estado do Rio de Janeiro tem se destacado nos últimos
anos devido à sua importância no cenário automobilístico nacional, apresentando condições
que despertam o interesse de multinacionais desse setor. Dentre as condições oferecidas, o
histórico sindical surge como um fator importante para essa escolha. Diferentemente de
regiões historicamente combativas como, por exemplo, o ABC paulista, os trabalhadores
cariocas demonstram estar mais dispostos a negociar e resolver a suas demandas através de
estratégias diferentes. Essas diferenças sugerem importantes mudanças nas relações de
trabalho e na forma como esses sujeitos constroem a sua própria identidade, uma vez que as
relações com essas empresas multinacionais demandam não só o desenvolvimento de novas
estratégias no âmbito profissional, mas também na forma como esses sujeitos se relacionam
com suas famílias e com o espaço.

Palavras-chave: Sociologia econômica; Neoliberalismo; Indústria automobilística.

Introdução
Este trabalho busca contribuir com o debate que envolve o neoliberalismo e as suas
consequências sociais. Partindo da análise das relações dos trabalhadores com o sindicato
local e com a fábrica, há a pretensão de que seja realizado um trabalho capaz de ajudar a
revelar algumas das características oriundas das relações sociais pautadas pelo neoliberalismo.
O modo como, nas últimas três décadas, a região Sul Fluminense se tornou um polo
da indústria automobilística serve como um ponto de partida como um exemplo concreto das
novas demandas provocadas tanto pelas instituições quanto pelos sujeitos que as compõem.
Isto é, a chegada de novas empresas não foi possibilitada apenas por motivos econômicos e
políticos, existiram movimentos individuais que contribuíram e continuam a contribuir para a
manutenção e constante desenvolvimento desse estado. Tanto os sujeitos quanto as
instituições tiveram de se adaptar a mudanças históricas, políticas, econômicas e sociais. O
1
O presente trabalho foi realizado com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior
(CAPES).
2
Mestrando no programa de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade Federal Fluminense (PPGS-UFF),
membro do Grupo de Estudos em Desenvolvimento do Sul Fluminense (GEDESF).
E-mail: carloshenriquek94@outlook.com

Anais do VII Seminário Fluminense de Sociologia – 2018


Programa de Pós-Graduação em Sociologia – Universidade Federal Fluminense
200

modo como sustentam as relações ajudam a tornar mais inteligível a abrangência dos efeitos
provocados pelo neoliberalismo.
Com base nesse propósito, o trabalho busca traçar, a princípio, um panorama geral do
debate que envolve a questão do neoliberalismo, buscando apresentar os argumentos em voga
e as dificuldades de e trabalhar com um conceito (relativamente) recente. Logo em seguida,
há a apresentação da região analisada, havendo um esforço voltado no sentido de explorar as
suas particularidades regionais e o modo como se relacionam com as empresas
multinacionais. Os efeitos detectados nos trabalhadores são apresentados logo em seguida,
sendo enfatizada a questão da constante necessidade dos sujeitos se aprimorarem. Após a
apresentação desses três elementos, há um esforço voltado para a apreensão dessas
consequência nas relações do sujeito entre si e com as instituições que compõem o espaço
vivido.

Neoliberalismo, um desafio
Falar sobre o neoliberalismo se prova uma tarefa extremamente complicada, uma vez
que, hoje em dia, o termo é usado para significar um variado conjunto de valores, sendo
conceituado de acordo com pressupostos teóricos individuais, isto é, sendo conceituado de
acordo com as preferências pessoais dos analistas, podendo ser definidos e caracterizados de
modos variados. Essa característica provoca certa fluidez, dificultando a construção de
argumento precisos e, consequentemente, dificultando a elaboração de um ponto de partida
comum capaz de possibilitar o desenvolvimento de diálogos produtivos, marcados pela
complexificação dos conceitos e do aumento do número de estudos e pesquisas referentes a
esse tema.

Neoliberalism is a loose concept largely associated with critical perspectives


on the globalisation discourse. Rather than a succinct, clearly defined
political philosophy, it is linked with various policy positions, economic
interests and cultural practices. Perhaps most commonly, the neoliberal
project is identified with a set of policies that encapsulate the prescriptive
development stance of “Washington Consensus” institutions from the 1980’s
– i.e. the International Monetary Fund (IMF), the World Bank, and the
International Development Bank (IDB). These policies sought retrenchment
in the state’s role, privatization of public assets and cuts in public
expenditure. They identified governments as part of the problem of
underdevelopment, citing corruption, bad distribution of resources and

Anais do VII Seminário Fluminense de Sociologia – 2018


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201

inefficiency. (UNDURRAGA, 2015: 11)

Essa descrição, ao invés de funcionar como um denominador comum que convoca ao


diálogo e à construção coletiva exemplifica a múltipla apropriação de significados e
interpretações postas em prática. Comumente, os dois argumentos que alimentam essa
oposição podem ser resumidos da seguinte forma: o neoliberalismo é visto como a forma mais
racional para se lidar com as novas demandas produzidas pelo mercado de trabalho, sendo um
conjunto de preceitos capazes de superarem as falhas oriundas da burocracia estatal 3; ou então
ele é associado à precarização do trabalho e à redução da proteção estatal, resultando no
aumento significativo da vulnerabilidade dos mais pobres4. Essa dupla caracterização é alvo
constante de críticas e reformulações, estando sempre sujeita a novas considerações e
proposições que tem por objetivo a criação de uma definição que possa ser usada de modo
consensual, que possa funcionar como um ponto de partida para o desenvolvimento de
discussões que não estejam sujeitas a novas caracterizações e reformulações.
A relativa juventude do neoliberalismo e o modo como foi pulverizado e absorvido
por diversas regiões e culturas do planeta aumentam consideravelmente o nível de
características e fenômenos que devem ser analisados. No entanto, há também enorme
influência do campo político, uma vez que os argumentos utilizados são apropriados não
apenas por atores pertencentes ao campo científico, sendo instrumentalizados e utilizados de
modo a possibilitar a realização dos mais diversos objetivos. Nessa medida, as análises que
giram ao redor do debate neoliberal apresentam a reflexividade da contemporaneidade
detectada por Giddens (1991). Por um lado, as conceitualizações e mecanismos detectados
pelos cientistas sociais extrapolam o campo acadêmico e são articuladas com outros campos
(muitas vezes de modos não pensados pelos cientistas sociais), por outro, pressões e
investimentos de outros campos sociais “penetram” no campo acadêmico, influenciando os
resultados e as direções das pesquisas por ele realizadas.

3
El mérito del “modelo neoliberal” consiste en proponer un ajuste estructural que responde a las nuevas
tendencias de la economía capitalista como la globalización acelerada, flexibilidad de los procesos productivos,
independización de los circuitos monetarios y crediticios, incorporación de innovaciones tecnológicas
(LECHNER, 1992: 06).
4
Resumindo, a penalização da pobreza emergiu como um elemento central da implementação doméstica e da
difusão através das fronteiras do projeto neoliberal do “punho de ferro” do Estado penal, unido à “mão invisível”
do mercado, ambas em conjunção com o esgarçamento da rede de seguridade social. (WACQUANT, 2011: 506).

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202

Neoliberalismo, uma crença


Fourcaude-Gourrinchas e Babb (2002) analisam essa dupla relação e os seus efeitos
no México, Chile, Inglaterra e França, demonstrando como os teóricos e analistas sociais são
diretamente influenciados pela opinião pública e pelo governo, da mesma forma que estes são
influenciados pelas suas produções acadêmicas. Essa relação reflexiva produz resultados
variados, além de ser orientada por valores, práticas e estratégias distintos, visto que as
particularidades históricas e culturais surgem como fatores extremamente relevantes para a
definição das características neoliberais. Segundo esse trabalho, não há uma forma universal
de neoliberalismo, ele não é uma receita pré-determinada que pode ser implementada a
qualquer momento e em qualquer situação5. Ao mesmo tempo, o neoliberalismo não está
vinculado, necessariamente, a situações extremas, como foi no caso chileno. A sua
implementação no território francês apresentou características diametralmente opostas, uma
vez que não foi necessária a realização de um golpe que destituísse o presidente, tampouco a
implementação de um regime ditatorial extremamente violento. O neoliberalismo pode se
desenvolver tanto através de meios democráticos quanto de meios autoritários, ele é flexível e
maleável.
Não obstante, apesar dessa fluidez e imaterialidade, o neoliberalismo precisa de atores
que estejam dispostos a implementá-lo, que acreditem na sua veracidade e funcionalidade, na
sua capacidade de sanar problemas que escaparam aos Estados keynesianos. Nessa medida, o
neoliberalismo surge como uma crença, como um conjunto de ideias que extrapolam
postulados lógicos e racionais, tocando na irracionalidade da fé. Essa crença passa a ser
associada à falta e à escassez. À ideia de que a vida está ameaçada e que a única forma de
preservá-la é através da austeridade, do sacrifício individual e da redução das áreas de atuação
do Estado.

A publicidade convoca todos a gozar de privilégios dos consumidores de


elite. Se alternativa fosse acessível a todos, não haveria privilegiados. Como
não é, o que está sendo oferecido como tentação irrecusável é o direito de

5
We show that countries’ heightened vulnerability to international capital movements represented and especially
critical change, which worked in favor of a general realignment of policies and economic representations along
free market lines. Second, we argue that transition to neoliberalism itself was highly uneven in its timing, scope
and nature. Local institutional conditions and dynamics shaped perceptions of the necessity and purposes of
economic liberalization, and the channels through which neoliberal ideas could diffuse and influence policy.
(FOURCAUDE-GOURRINCHAS, BABB, 2002: 534).

Anais do VII Seminário Fluminense de Sociologia – 2018


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203

excluir a maioria. Assim sendo, a lógica da publicidade, hoje, está


visceralmente comprometida com a lógica da violência banal que se expande
como epidemia no mundo contemporâneo. (KEHL, 2004: 62)

O efeito da publicidade caracterizado por Kehl é semelhante ao provocado pela crença


neoliberal nos sujeitos, eles são estimulados a competir por escassos recursos, a se
aperfeiçoarem constantemente motivados pelo medo de que o outro possa lhes tomar o pouco
que possuem. Devem instrumentalizar os seus corpos de modo a agirem como se fossem
empresas, guiados pela crença de que devem estar sempre se aperfeiçoando, se atualizando,
caso contrário, ficarão para trás. Viver em meio às demandas neoliberais é como tentar subir
uma escada rolante que está sempre indo para baixo (VIANA, 2013), a não ação é inaceitável
e, a ação não é garantia de êxito, apenas de que haverá uma possibilidade de vitória (ainda que
ínfima).
É inegável que com esta individualização das tarefas e das trajetórias profissionais
também se assiste a uma responsabilização dos agentes. Cabe a cada um enfrentar
situações, assumir a mudança, e encarregar-se de si mesmo. De uma certa maneira
“o operador” é liberado de constrangimentos coletivos que podiam ser opressivos,
como no quadro da organização tayloriana do trabalho. Mas ele é de alguma forma
obrigado a ser livre, intimado a ser bem-sucedido, sendo ao mesmo tempo
totalmente entregue a si mesmo. (CASTEL, 2005: 47)

O fantasma da escassez reforça a ideia da competição, da necessidade da eliminação


do outro para a garantia da própria sobrevivência. Essa competição contribui para a
individualização, para a atomização do indivíduo, uma vez que ele se vê em um mundo cujos
habitantes estão esperando por qualquer chance de roubar aquilo que ele tem. Sua guarda deve
estar em alta, deve estar disposto a atacar antes de ser atacado. Os interesses são inflados, a
lógica da “sobrevivência do mais forte” é usada como justificativa que absolve os sujeitos das
repercussões morais dos seus atos.

Neoliberalismo no sul fluminense


Os sujeitos influenciados por essas características no seu cotidiano acabam por alterar
o modo como desenvolvem estratégias profissionais e como interagem uns com os outros.
Dado o enfraquecimento de uma narrativa que defende a construção de instituições coletivas
capazes de aumentar a coesão social e o aumento de narrativas que focam na construção de
práticas individuais, os sujeitos se veem obrigados a mudar de acordo com as novas demandas

Anais do VII Seminário Fluminense de Sociologia – 2018


Programa de Pós-Graduação em Sociologia – Universidade Federal Fluminense
204

sociais vividas. Se as instituições públicas diminuem os investimentos e as intervenções


estatais abrindo espaço para iniciativas privadas, os sujeitos têm de ser capazes de se
posicionarem de modo a conseguirem usufruir dos benefícios produzidos pelas iniciativas
privadas. No entanto, esse esforço acarreta dificuldades, desconfortos e mudanças
significativas nas práticas com as quais eles já haviam se habituado.
Dadas essas características, o esforço analítico voltado para o estudo dos impactos
provocados pelo neoliberalismo revela ser de grande importância, uma vez que ele não só
proporciona elementos que podem auxiliar a compreensão de questões próprias do campo
econômico e político, podendo ajudar a explicar algumas das mudanças vividas nas relações
sociais contemporâneas. O neoliberalismo se prova um conjunto de instituições, fenômenos,
práticas e estratégias tão complexos na medida em que ele influencia diretamente e
intensamente uma série de campos da vida social que, a princípio, não deveriam ser
impactados.
Ao mesmo tempo em que há uma imensa riqueza de efeitos provocados e passíveis de
análise, há também uma relativa limitação de trabalhos no Brasil que se propõem a analisar
casos particulares (MASSIMO, 2013), fato que ajuda a aumentar a relevância de trabalhos
que buscam analisar regiões específicas. Dessa forma, esse trabalho tem como objetivo
analisar algumas das consequências da implementação do neoliberalismo, mas
especificamente, das consequências oriundas da chegada de multinacionais da indústria
automobilística na região sul fluminense, não se limitando a buscar efeitos produzidos na
economia local, mas também nos sujeitos e nas relações que compõem a região.

Sul Fluminense: indústria automobilística e chegada neoliberal


A região “Sul Fluminense” ou do “Médio Paraíba” é uma categoria utilizada pelo
Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e se refere ao conjunto das cidades de
Barra Mansa, Itatiaia, Pinheiral, Piraí, Porto Real, Quatis, Resende, Rio Claro e Volta
Redonda. Este trabalho busca enfatizar as relações dos municípios de Resende e Porto Real
com as fábricas da Volksvagen, Nissan e do grupo PSA Peugeot Citröen, tomando como foco
de análise as mudanças sociais e econômicas produzidas pela chegada dessas empresas. Tais
mudanças extrapolam o campo político e econômico, reverberando no espaço físico
(HARVEY, 2004) dos municípios e no modo como os moradores da região interagem uns

Anais do VII Seminário Fluminense de Sociologia – 2018


Programa de Pós-Graduação em Sociologia – Universidade Federal Fluminense
205

com os outros (SENNETT, 1999).


A potência dessas mudanças se deve, em parte, ao fato delas não serem produzidas
unilateralmente, isto é, as fábricas não simplesmente surgiram e começaram a produzir efeitos
na região. Houve um intenso trabalho racional voltado para a atração dessas empresas. Atores
locais uniram forças, mobilizando sujeitos e instituições, investindo imensas quantias de
capital financeiro, político e social nesse esforço (LIMA, 2005; SANTOS, 2018).
Um caso exemplar desse comprometimento está contido na formação do município de
Porto Real. Até o final da década de 1990, Porto Real pertencia ao município de Resende,
mas, através do esforço dos atores locais, a região conseguiu se emancipar, passando a ser um
município independente e abrigar a fábrica do grupo PSA Peugeot Citröen. Esse
comprometimento também pode ser observado através da doação de um território particular
para a instalação da fábrica da Peugeot. Tanto o oferecimento de financiamentos públicos
quanto facilidades oferecidas por atores privados tiveram significativo peso na hora da
escolha da localidade das fábricas. Tais concessões foram necessárias devido ao interesse de
outras regiões pela implementação das fábricas, obrigando os municípios a oferecerem
condições atrativas capazes de superarem as demais ofertas. Houve uma dinâmica que, de
certa forma, se assemelhava a de uma conquista, dados os esforços e o cuidado demandado na
criação dessas ofertas. A semelhança aumenta quando se constata que, mesmo apesar da
implementação das fábricas, a possibilidade de que elas decidam trocar de região por uma que
ofereça condições mais favoráveis continua a existir. Essa possibilidade se deve, em grande
parte, ao exponencial desenvolvimento dos aparatos tecnológicos que possibilitam um sistema
produtivo enxuto, que permite a troca de localidades sem grandes prejuízos. A constante
possibilidade de “abandono” resulta no constante esforço voltado para a manutenção da
relação entre a região e a fábrica. Essa relação depende dos atores responsáveis pela chegada
da fábrica, depende do seu constante esforço para que as condições permaneçam atrativas.
Outro elemento que influencia a escolha do município que irá conquistar a tão
desejada fábrica é a história sindical local. Essas empresas já familiares com o embate com os
trabalhadores (BEAUD; PIALOUX, 2009), buscam novos espaços e novos operários (ou,
como preferem chamar, colaboradores), sujeitos menos inclinados a se unir e formar um
sindicato combativo. Dessa forma, localidades marcadas por um histórico de antagonismo
entre trabalhadores e fábrica seriam menos atrativos do que regiões “menos combativas”.

Anais do VII Seminário Fluminense de Sociologia – 2018


Programa de Pós-Graduação em Sociologia – Universidade Federal Fluminense
206

Desse modo, para poder ser considerada atrativa, a região deve disponibilizar tanto
vantagens econômicas quanto trabalhistas. A complexidade desses requisitos não pode ser
atendida apenas pelo poder público ou por empresários locais, tampouco sua ação conjunta é
suficiente. Para que as condições sejam atendidas, é preciso que os próprios operários estejam
dispostos a se adequar às demandas da montadora, por isso

Veremos um sindicato combativo, porém, com o limite de defender apenas a


sua própria base de representação formal e que, se “necessário”, age
competitivamente contra outros sindicatos metalúrgicos. [...] a
neoliberalização do sindicato (determinada pelo contexto de exploração via
mobilidade e pela atuação de um “Estado empresário”) se converteu numa
forma inovadora de realizar um velho sonho: o projeto corporativista, típico
dos anos 1930, de produzir um sindicato que luta pelos interesses de base
particular, mas que recusa uma conflitividade mais articulada entre capital e
trabalho. (BEZERRA, 2016: 380)

Uma vez que as fábricas tem o seu potencial de barganha aumentado pela
possibilidade de deslocamento, os atores locais orientam as suas estratégias de modo a evitar
essa possibilidade. O Estado neoliberal (HARVEY, 2004) encontra inúmeros atrativos na
implementação da fábrica, a redução dos impostos não é um empecilho nessa equação. Os
empresários locais são impulsionados pela nova dimensão dos negócios, participando de
transações internacionais que movimentam quantias de dinheiro, até então, impensadas. Se,
por um lado, os trabalhadores passam a encontrar trabalhos com maior facilidade, tem de se
adaptar a novas realidades.

Trabalhadores do Sul Fluminense


Durante a década de 1990, a região Sul Fluminense passou por um período de grave
crise financeira:

Em meados dos anos 1990, o Sul Fluminense se encontrava em depressão


econômica e repleto de incertezas. Não somente em função da queda da
renda e do emprego em Volta Redonda. Resende também passava por um
processo de evasão de capitais que haviam se deslocado para regiões onde
pudessem contar com isenções tributárias, num cenário de particular
aguçamento da guerra fiscal no Brasil. (BEZERRA, 2017: 278)

Essa época de penúria incentivou a busca de condições que pudessem deter as

Anais do VII Seminário Fluminense de Sociologia – 2018


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207

dificuldades oriundas da crise econômica. Tanto as instituições da região quanto a população


se tornaram mais propensas a relativizar o preço cobrado por essas grandes multinacionais,
uma vez que se viam entre a escolha da perpetuação das dificuldades econômicas ou a
chegada de milhares de empregos e a dinamização da economia local, condicionados a uma
série de pré-requisitos.
Nessa medida, a região Sul Fluminense não oferecia apenas condições econômicas,
geográficas e políticas atrativas, a mão de obra oferecida também se adequava às demandas
das empresas, estando ciente da importância dos empregos oferecidos e, consequentemente,
da importância de ignorar certos contratempos produzidos pela empresa.
A inexistência de fábricas automobilísticas na região significava a inexperiência com
práticas profissionais voltadas para esse ramo. Não havia uma tradição sindical voltada para
as características específicas desse novo setor. Diferentemente da fábrica francesa analisada
por Beaud e Pialoux, não haviam décadas de acúmulo político e sindical, os trabalhadores da
região ainda estavam começando a formar definições e estratégias para lidar com as novas
fábricas.

Na verdade, este caso desperta curiosidade sociológica pelo fato de se tratar


de uma empresa que se implantou e começou suas atividades aplicando o
modelo de produção enxuta, sem a necessidade de fazer nenhuma
reconversão de sua força de trabalho, como ocorreu na França (cf. Beaud e
Pialoux, 2004). A questão que se impõe para nós, pesquisadores brasileiros,
é investigar como essa nova classe operária constrói novos mecanismos de
resistência, como ela se pensa na qualidade de trabalhadores e constitui uma
identidade operária, e de que modo interfere e altera o padrão de ação
sindical na região sul fluminense. (RAMALHO; SANTANA, 2006: 116)

Na fábrica francesa, os trabalhadores habituados ao sistema taylorista tiveram de se


adaptar às novidades provindas do toyotismo. As estratégias e relações vigentes foram
drasticamente alteradas, os novos rigores voltados à questão do ensino e do preparo técnico
produziu conflitos significativos entre os trabalhadores mais antigos e os mais novos. Ao
mesmo tempo, havia um choque geracional entre aqueles que trabalhavam na fábrica há
décadas e a sua família, mais especificamente os seus filhos, uma vez que estes não
conseguiam imbuir a imagem do operário com um caráter atrativo ou, sequer, digno. Eles
buscavam desesperadamente alternativas a essa profissão, fato que aumentava a tensão com a

Anais do VII Seminário Fluminense de Sociologia – 2018


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208

sua família.
Essas características não são compartilhadas pela região Sul Fluminense, ela ainda é
relativamente jovem no que diz respeito à presença das indústrias automobilísticas, os seus
trabalhadores ainda não passaram por décadas de interações fabris, marcada, muitas das
vezes, por conflitos escancarados.

Efeitos neoliberais: flexibilização, status social e resiliência


O período de fragilidade econômica que caracterizou a década de 1990 deu lugar a
um enorme crescimento econômico, produzido pela chegada das fábricas internacionais. O
PIB de Porto Real se transformou num dos maiores do Brasil. Operários das fábricas podiam
trabalhar com a consciência e a confiança de que pertenciam a uma grande empresa que
fornecia seguridade e benefícios para eles e para a sua família. Mesmo aqueles que não foram
trabalhar nas fábricas puderam contar com o aumento da circulação de dinheiro na região,
usufruindo das suas consequências benéficas.

Segundo o Atlas do Desenvolvimento Humano no Brasil, a renda per capita


média de Porto Real cresceu 125,9% nas últimas duas décadas, passando de
R$ 255,4 em 1991 para R$ 438,1 em 2000 e R$ 577, 07 em 2010. A taxa
média anual de crescimento foi de 71,5% no primeiro período e 31,7% no
segundo. A extrema pobreza (medida pela proporção de pessoas com renda
domiciliar per capita inferior a R$ 70,00) passou de 14,0% em 1991 para
7,2% em 2000 e para 1,3% em 2010. (SANTOS, 2018: 47)

Uma das características mais influenciadas pela chegada das empresas foi o
aumento massivo das taxas de escolaridade da região. Se, num primeiro momento, as fábricas
não demandavam formações específicas dos seus operários, com o decorrer do tempo, elas
passaram a incentivá-los a concluírem os seus estudos e, até mesmo, a buscarem
especializações que pudessem ajudá-los a conquistar novas funções na empresa. Essa
transição se deve, em parte, à criação de novas escolas e à chegada de faculdades privadas
cuja oferta de disciplinas estava diretamente ligada às características comerciais da região.
O aumento das ofertas de cursos e formações técnicas disponíveis na região
(CORDEIRO, 2012) somado ao estímulo das fábricas, resultou na procura pela formação
individual. Os operários passaram a lidar com a ideia de que era necessário investir na sua
formação para serem capazes de arcar com as demandas que surgiam durante o trabalho

Anais do VII Seminário Fluminense de Sociologia – 2018


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209

dentro da fábrica. Diferentemente das experiências profissionais que dispunham até então,
estavam lidando com um conglomerado de empresas cujas mercadorias circulavam pelo
mundo inteiro, suas produções não podiam ser medíocres, tampouco podiam contar apenas
com o conhecimento prático do qual dispunham. A busca pelo aperfeiçoamento pessoal
caminha nessa direção: na confluência da melhoria dos serviços disponibilizados pela fábrica
com a vontade de melhorar as condições de vida.
Essa aceitação racional da necessidade de aperfeiçoamento pessoal é contrastada com
a recepção dos operários franceses. Estes não lidaram tão docilmente com as novas
imposições da fábrica, com o aumento do impacto causado pelas novas tecnologias e com a
necessidade da rotina de trabalho ter de ser significativamente alterada.

Esses jovens técnicos são portadores de um novo estilo de comando que


difere profundamente do estilo do antigo controle de “primeira linha”, uma
vez que se apoia sobretudo na legitimidade de um novo saber técnico. Os
OE, habituados a encarar um controle socialmente próximo deles (a maioria
é de antigos operários da cadeia de produção), cujas falhas e fraquezas eles
conhecem bem, e portanto os meios de trazê-lo para o seu campo ou
neutralizá-lo (por exemplo, convidando-o para “beber um trago” no próprio
local de trabalho), veem-se desnorteados diante das novas formas de
autoridade - muitas vezes impregnada de “condescendência” - que os jovens
técnicos encarnam. Os OE percebem que não poderão enfrentá-los com as
armas tradicionais. (BEAUD; PIALOUX, 2009: 93)

Esse conflito se deve, em grande parte, às diferenças geracionais, uma vez que os
novos operários passaram por um processo educacional bastante diferente, marcado pelo
constante contato com novas tecnologias e pelo esforço de relacioná-las com as tarefas
profissionais. Os trabalhadores mais antigos estavam mais habituados a executar as suas
funções com base no acúmulo obtido através das décadas de experiência de trabalho. A
situação na região Sul Fluminense é diferente, nela, os trabalhadores não contam com o
conflito geracional, além de estarem bastante satisfeitos com a dinamização econômica
possibilitada pela implementação das fábricas.

O “orgulho do uniforme” estava presente nos depoimentos desses


trabalhadores e nos dados disponíveis no survey (2001), no qual a maioria
dos funcionários da Volkswagen indicou ter orgulho de trabalhar ali e nas
empresas do “consórcio modular” (86%). Quando questionados sobre o
significado de trabalhar na VW, afirmaram que o emprego regular na fábrica

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propiciava “serem respeitados como trabalhadores” (66%), darem “a


garantia de um futuro para a família” (76%) além de ser um “estímulo aos
estudos” (49%). Curioso perceber que, mesmo o salário sendo um fator
importante na valorização do emprego, o dado “ter um bom salário” aparecia
em quarto lugar, com 42% das escolhas (Ramalho & Santana, 2002:37). O
trabalho nas fábricas representa uma distinção de status, exercendo
influência na opção por esse caminho, um tanto tortuoso e penoso, de
“terminar os estudos” ou “esforçar-se em fazer uma faculdade” e tentar
“chegar lá”. Para ingressar nesse mercado “tem exigência”, é preciso ter
“escolaridade, qualificação” para crescer na empresa ou mesmo para manter-
se nela; portanto, os trabalhadores incorporam o discurso da importância de
“se qualificar” e “investir no estudo”. (CORDEIRO, 2012: 138)

Essa descrição sugere uma conjuntura consideravelmente diferente da observada no


caso francês. No entanto, a ausência do conflito geracional não é o único elemento que
explica essa diferença. Da mesma forma que os operários e as suas famílias interagiram e
desenvolveram estratégias capazes de lidar com as demandas oriundas das fábricas, as
próprias empresas mudaram. Se, por um lado, o valor atribuído à classe operária pelos seus
próprios familiares mudou, por outro, a organização laboral criada pelas fábricas também
passou por um processo histórico de mudanças. Os sistemas administrativos se tornaram mais
complexos, o modo como os gerentes interpretavam o comportamento dos operários foi,
paulatinamente, sendo “aguçado”, oferecendo alternativas às resistências apresentadas pelos
trabalhadores. A introdução de uma nova geração teve papel importante nessa conjuntura,
mas não se pode cometer o equívoco de atribuir um papel secundário às novas tecnologias
administrativas

O início do ano 1990 também viu “microconflitos” nas oficinas, causados


pela insatisfação crescente dos operários. Do mesmo modo, surgiram
dificuldades no funcionamento dos novos “grupos de trabalho”. Após uma
fase de relativa adaptação ao novo quadro de atividades, estourou uma
recusa latente: recusa de se curvar às novas exigências do grupo, de ser
chamado de você pelos chefes, de conviver em “promiscuidade” com os
agentes de controle. A maioria dos operários tem a sensação de estar sendo
espoliada do espaço em que antes se sentia relativamente mestre, por
exemplo: vê como uma agressão a proibição de trazer objetos pessoais para
o posto de trabalho (a garrafa de água ou geladeirinha instalada ao lado).
(BEAUD; PIALOUX, 2009: 63)

Tal descrição é bem diferente da realizada por Cordeiro

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211

Alguns meses depois da primeira entrevista, Fernando havia conseguido o


emprego na Peugeot, para o qual disse que “não pensaria duas vezes” caso
fosse chamado. Em uma das posteriores visitas à escola onde estudava,
Fernando estava “de turno” – trabalhando até 00h48 – não podia comparecer
à aula naquela semana e, portanto, só pude entrevistá-lo novamente em outra
oportunidade. Na segunda entrevista, foi impossível não reparar em suas
olheiras, provavelmente resultado de seu novo emprego. Na Peugeot os
funcionários trabalham em esquema de revezamento de turnos, o último até
as 00h48 – sem contar horas-extras. Fernando relatou seu cansaço, pois às
vezes chegava em casa às 03h30 e que, apesar de o “correto ser no máximo
duas horas”, muitas vezes fazia três ou quatro horas extras. O ônibus passava
na esquina de sua casa uma hora antes do início do turno; dizia-se cansado,
mas feliz. (CORDEIRO, 2012: 148)

Essa descrição delineia um sujeito comprometido com as demandas que lhe são
propostas, com os desafios que surgem no decorrer da sua trajetória profissional. Um sujeito
capaz de submeter o seu corpo a provações exaustivas, de instrumentalizar o seu tempo de
modo a conquistar os objetivos por ele estabelecidos. Nessa dinâmica, as dificuldades são
vistas como meros contratempos, os obstáculos existem apenas para serem transpostos e
superados. O crescimento está vinculado à capacidade de resistir e se adaptar, de lidar com o
que quer que aconteça de modo “profissional”. O sujeito deve estar apto a sempre competir, a
sempre ter uma resposta pronta para os problemas que surgirem no caminho6.
Essa disposição é facilitada pelas características do trabalho na fábrica e pelas
condições disponibilizadas pelas instituições da região. Por um lado, os operários da fábrica
são cada vez mais estimulados a se habituarem ao trabalho flexível, a regimes de funções que
não possuem horários e tarefas constantes, isto é, se numa semana trabalham durante a tarde,
na outra, podem podem trabalhar pela manhã e, na semana seguinte, podem trabalhar à noite.
Simultaneamente, são estimulados a não apenas dominar uma tarefa específica, tal qual
ocorria no sistema fordista. Os trabalhadores devem ser capazes de compreender e executar
múltiplas tarefas, podendo executar inúmeras funções no decorrer da sua carreira profissional.

6
Como já vimos, superar é atropelar as pedras no caminho, no caso deste participante/candidato a um emprego,
é necessário atropelar a gestação de seu filho para, “no futuro”, colher os frutos de seu investimento no programa
- se não for eliminado, é claro. Do mesmo modo, a “adaptabilidade” significa a renúncia de quaisquer
propriedades que sejam estáveis; é necessário que o capital humano possa circular sem entraves e com rapidez.
Segundo Boltanski e Chiapello, o profissional ideal deve ser desapegado, um nômade. Deve saber renunciar a
amizades que não lhe sejam proveitosas bem como às relações familiares, deve se liberar do “peso de suas
próprias paixões e de seus valores”; por isso não pode ser crítico, deve ser tolerante (VIANA, 2013: 111).

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A especialização flexível é antítese do sistema de produção incorporado no


fordismo. E de uma forma muito específica; na fabricação de carros e
caminhões hoje, a velha linha de montagem quilométrica observada por
Daniel Bell foi substituída por ilhas de produção especializada. Deborah
Morales que estudou várias dessas fábricas flexíveis na auto-indústria,
enfatiza como é importante a inovação em resposta à demanda do mercado,
mudando-se as tarefas semanais, e às vezes até diárias, que os operários têm
de cumprir. (SENNETT, 1999: 60)

Dado o valor simbólico atribuído ao trabalho nas fábricas da indústria automobilística,


as instituições de ensino oferecem alternativas para que haja a possibilidade de que os
operários sejam capazes de trabalhar e completar os seus cursos. Dessa forma, há uma grande
variedade de alternativas que produzem uma espécie de flexibilização das instituições, se
adaptando às demandas individuais dos trabalhadores. Há provas realizadas que, caso o
estudante seja capaz de obter o resultado estipulado, não precisará mais assistir aulas dessa
disciplina específica, diminuindo consideravelmente a sua carga horária. Há também a
possibilidade da realização de tarefas e provas em datas diferentes, caso haja o conflito de
datas com o horário de trabalho. Os professores desempenham um papel muito importante
nessa dinâmica, uma vez que agem como mediadores, possuindo influência para adequar as
suas aulas às situações apresentadas pelos seus alunos. Portanto, quando um dos alunos diz ter
trabalhado tanto no dia que sequer consegue segurar um lápis (Cordeiro, 2012), cabe a esse
professor oferecer opções alternativas que sejam capazes de atender às contingências que
surgem a partir do sujeito que trabalha e estuda simultaneamente.

Considerações finais: Trabalhadores neoliberais, relações contemporâneas


Ora, a descrição dessas relações de trabalho ajudam a delinear as influências da
imposições neoliberais nas relações dos sujeitos em campos que extrapolam a fábrica. O
modo como os operários devem lidar com essas características provoca efeitos que vão muito
além das horas de trabalho vendidas para a fábrica. Um ponto bastante relevante é a sensação
de que é necessário um constante aperfeiçoamento, uma busca infindável pelo aprimoramento
dos conhecimentos técnicos pertinentes às funções realizadas dentro da fábrica. Tal
aprimoramento é obtido através do constante contato com escolas, cursos técnicos e
faculdades, mas esse contato não acontece de modo tradicional, uma vez que esses operários
não deixam de ser trabalhadores e vão ser estudantes, eles tem de ocupar essas duas funções

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simultaneamente.
Antes da chegada dessas fábricas, eles estavam habituados a abandonar seus estudos
para obterem empregos e serem capazes de sustentar as suas famílias, mas, agora, se veem
obrigados a voltar para a escola para serem contratados e, mesmo após a sua absorção no
mercado de trabalho, devem continuar a estudar.
A necessidade dessa continuidade implica num maior desgaste, no investimento de
tempo e energia que extrapola, em muito, as horas vendidas para a fábrica. Essa conjuntura
impõe o surgimento de uma administração racional capaz de aplicar maior controle do tempo,
capaz de dar conta dos inúmeros apontamentos oriundos da vida dupla de estudante e
trabalhador.
Na medida em que o governo e os sistemas peritos (GIDDENS, 1991) ajudam a
difundir o “espectro da escassez” através das medidas de austeridade fiscal e da produção de
saberes científicos, os sujeitos se veem obrigados a se tornarem menos seletivos, mais
dispostos a suportar as dificuldades e as provações que surgem no seu caminho. A disposição
para trabalhar durante a madrugada (muitas vezes sob o regime de hora extra) e de estudar
durante o dia, é uma provação consideravelmente cansativa, o corpo é exaurido em meio à
infinita quantidade de demandas. Contudo, essa situação pode ser vista sob uma perspectiva
mais positiva quando se leva em consideração que há apenas duas opções: a disposição a se
aperfeiçoar constantemente e o desalento e insegurança do desemprego (potencializado pela
diminuição das redes de segurança oferecidas pelo estado neoliberal).
Por outro lado, essa dinâmica de constante movimento e mudança não é caracterizada
somente pelo cansaço e pelo medo de se tornar obsoleto. Os sujeitos são estimulados a ser
ambiciosos, a buscarem por algo mais, a canalizar os seus planos em objetivos claros e buscar
realizá-los de todas as formas possíveis. Um dos argumentos utilizados a favor do
neoliberalismo é o estímulo que provoca nos sujeitos (Massimo,2013), em oposição à letargia
oriunda de um Estado excessivamente paternal. O sujeito nessa condição, é estimulado a não
se arriscar, a contar fielmente com a proteção das instituições públicas. O sujeito neoliberal
seria estimulado a fugir da sua zona de conforto, a investir e se arriscar constantemente, a
sempre buscar pelo novo.
Esse trabalho sustenta uma resistência guiada pelo esforço de não ceder a nenhum dos
dois extremos que caracterizam os debates sobre o neoliberalismo. Por um lado, essas práticas

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são demonizadas e tomadas como sendo a clara manifestação do antagonismo de classe, como
a epítome da dominação de uma classe pela outra. Essa linha argumentativa enfraquece a
agência individual, reduzindo o campo de atuação do sujeito, retratando-o como um corpo que
é explorado e, através das práticas de dominação e da ideologia, impelido a permanecer nesse
estado. Por outro, há o argumento que naturaliza a competição exacerbada e, até certo ponto,
toma a pobreza e miséria como condições aceitáveis do sistema econômico pautado não pela
centralização estatal, mas pela liberdade individual, marcada pela perseguição o interesses
individuais.
A análise das relações não apenas individuais, mas também coletivas (manifestadas no
sindicato), contribui para esse esforço de resistência à polarização conceitual. O sindicato,
visto no passado como foco central das lutas de classe mudou. A defesa de um discurso
combativo voltado para a dinâmica do proletários contra a burguesia foi fortemente
enfraquecido. Há forte ênfase voltada para a defesa do interesses individuais em detrimento
do coletivo.

Como se sabe, as relações entre sindicalismo e neoliberalismo têm sido


examinadas principalmente a partir de seus efeitos, com enorme insistência
sobre o tema da “precarização”. No entanto, o neoliberalismo é, antes, uma
técnica de governar (isto é, de conduzir politicamente a vida social), que
condiciona a cidadania ao mercado, por meio de instituições pautadas pela
racionalidade econômica em sentido estrito (Wacquant, 2012). Assim, não se
pode confundir a análise do neoliberalismo com denúncia, identificado-o,
necessariamente, com a precarização. Esse costuma ser um efeito das
práticas neoliberais dos governos e das firmas sobre multidões, mas a
precarização não define o neoliberalismo. Isso fica mais evidente em
períodos de ciclo econômico favorável, como o vivido pelo Brasil entre 2004
e 2012, quando o avanço social da forma mercado se deu em paralelo ao
avanço do poder sindical. (BEZERRA, 2017: 371)

O “fantasma da escassez” difundido no neoliberalismo contribui fortemente para um


estado de desalento e insegurança, engendrando tanto prejuízos subjetivos (Kehl, 2009)
quanto econômicos. Todavia, as práticas neoliberais também são responsáveis por intensas
mudanças no seio da sociedade. A necessidade da renovação constante, se, por um lado
provoca imenso desconforto, também é responsável por imensos desenvolvimentos e avanços
tecnológicos quanto econômicos. Se há um prejuízo nas relações de trabalho, um aumento da
precarização, há também a melhoria de condições concreta que impactam diretamente a vida

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215

dos sujeitos. Outra questão que não pode ser ignorada, é o aumento do valor próprio oriundo
do constante aprimoramento, isto é, do leque de opções que passa a existir no momento em
que os sujeitos começam a sempre buscar por melhores condições de vida.
Nessa medida, esse trabalho buscou traçar um breve panorama do debate neoliberal e
alguns dos seus impactos na região Sul Fluminense. Tomando uma localidade específica
como ponto de partida, busquei relacionar argumentos utilizados recorrentemente nas
discussões sobre o neoliberalismo com alguns dos efeitos e características observadas na
implementação de fábricas da indústria automobilística. Esse esforço foi orientado de modo a
não cair no equívoco de simplificar demasiadamente o neoliberalismo, isto é, de não tratá-lo
como o mal do século XXI ou tratá-lo como a solução para todos os problemas. Muitas
discussões sobre esse tema recorrem a posições fundamentalistas, além de ignorar as
condições particulares estudadas, generalizando fatos únicos e ignorando características
fundamentais. Houve um esforço ainda mais detido no sentido de que as ideias aqui
apresentadas não ignorassem as estratégias e práticas individuais, isto é, não tratassem os
sujeitos que constituem a região como meros autômatos que reproduzem os valores
produzidos pelas instituições e pelos sistemas peritos.

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Análise das estratégias das multinacionais do setor automobilístico na


década atual: o caso Jaguar-Land Rover

Carolina dos Santos Borges1


Laila Borges da Silva²

Resumo: O presente trabalho visa analisar as estratégias globais da Jaguar Land Rover,
multinacional que começou a produzir no Brasil em 2016. A Jaguar Land Rover é uma
empresa britânica comprada pelo grupo indiano Tata em 2008. A pesquisa teve como objetivo
compreender e comparar o papel dos diferentes países nas estratégias da multinacional, com
foco para o Brasil, tendo como base a literatura sobre cadeias global de valor. Como material
empírico utilizamos os relatórios da própria voltados para os acionistas. Foram usadas seis
dimensões para a análises dos relatórios: financiamento; mercados; manufatura e engenharia;
tecnologia; trabalhadores; e responsabilidade social e sustentabilidade. No total, estão
incluídos nesse trabalho as estratégias da Jaguar Land Rover de 2011 a 2018.

Palavras-chave: Sociologia Econômica; Jaguar Land Rover; Variedades de Capitalismo.

Introdução
A pesquisa tem como objetivo analisar as estratégias globais da Jaguar Land Rover e
compreender o lugar do Brasil nas estratégias da empresa. A pesquisa se baseia na discussão
bibliográfica e teórica em torno de desenvolvimento regional e capital estrangeiro, do
questionamento da relação empresa-território por meio de perspectivas que vão da abordagem
local à global. O presente trabalho se encontra inserido no núcleo de pesquisa GEDESF da
Universidade Federal Fluminense.
Na década de 90 houve uma reestruturação na indústria automotiva, consequência de
uma crise de produtividade em nível internacional e de uma recessão no mercado interno. No
Brasil, graças a incentivos fiscais, tal conjuntura ocasionou na construção de novas fábricas e
reestruturação das antigas, abrindo um processo de re-espacialização da indústria

1
Departamento de Sociologia da Universidade Federal Fluminense, foi bolsista de Iniciação Cientifica pelo
PIBIC/CNPQ/UFF. E-mail: carolsborges@outlook.com
² Mestranda pelo Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade Federal do Ceará (PPGS-UFC), foi
bolsista de Iniciação Cientifica pela FAPERJ. Graduação em Sociologia pela Universidade Federal Fluminense
(UFF). E-mail: lailaborgess@gmail.com

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(RAMALHO, 2005). Foi nesse período que o Sul Fluminense2 se tornou um polo automotivo,
fruto tanto de dinâmicas locais quanto desses movimentos em maior escala. As multinacionais
do setor automobilístico recebidas são: a Volkswagen Caminhões, hoje MAN, em 1995; a PSA
Peugeot-Citroën em 2002; a Nissan-Renault em 2015; e por último a Jaguar Land Rover no
ano de 2016.
Este processo se inseriu em uma mudança mais ampla na qualidade e na estruturação
do comércio global, em decorrência da organização da produção em redes de fornecimento
globais que têm por consequência um processo de fragmentação das várias etapas de produção
e de serviços não apenas entre firmas e fornecedores, mas também entre variados espaços
geográficos. Foi nesse período que o Sul Fluminense se tornou um polo automotivo, fruto
tanto de dinâmicas locais quanto desses movimentos em maior escala.
Uma primeira geração de estudos sobre a indústria automotiva na região foi marcada
por uma ênfase nas dinâmicas e redes sociopolíticas locais (RAMALHO, 2005; LIMA, 2005;
SANTOS, 2006). Estudos mais recentes chamaram atenção para a necessidade de um olhar
mais estrutural (MONTEIRO; LIMA, 2015), perspectiva que norteia este trabalho tendo como
referência a já referida literatura de cadeias globais de valor.
No Sul Fluminense está localizada também a Companhia Siderúrgica Nacional – CSN,
além de estar no principal corredor industrial do país, cortada pela rodovia Presidente Dutra,
ligando as cidades do Rio de Janeiro e São Paulo. Somado a doação de terrenos foi crucial a
presença de uma unidade do Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial – SENAI na região,
o que certifica a existência, criação e manutenção de mãos de obra qualificada. Além do
desenvolvimento regional, um outro ponto para que esses lugares fora das regiões
metropolitanas que recebessem essas multinacionais seria sua inserção no circuito econômico
global (RAMALHO, 2005).
No cenário onde a atenção da literatura se concentra na dimensão local, o território é
uma esfera que ganha destaque. Ramalho (2005), que investiga a formação de novos padrões
de participação a partir das redes sociopolíticas que se estabelecem onde há atividade
industrial, argumenta, a partir do estudo do Sul Fluminense, que é possível cooperação entre

2
A região Sul Fluminense corresponde aos municípios de Angra dos Reis, Barra do Piraí, Barra Mansa, Itatiaia,
Paraty, Pinheiral, Piraí, Porto Real, Quatis, Resende, Rio Claro, Rio das Flores, Valença e Volta Redonda. No
total a região conta com cerca de 1 milhão de habitantes.

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220

agentes locais e capital estrangeiro, o segundo funcionando como indutor da articulação por
desenvolvimento. Somam-se agentes locais e multinacionais, interagindo e engendrando
dinâmicas e trajetórias próprias, em relações políticas e econômicas (Ramalho, 2005). Se por
um lado essas empresas multinacionais se instalam nos mais diversos locais atraídas por
vantagens econômicas, como mão de obra barata e incentivos fiscais, em uma fórmula
aparentemente simples, por outro lado desse estabelecimento podem surgir dinâmicas próprias,
com articulações e disputas um tanto mais singulares.
A mesorregião do Sul Fluminense se transformou ao longo de dez anos no principal
destino de investimentos privados diretos no interior do estado do Rio de Janeiro, como é
destacado por Santos (2006). O autor retoma a questão da relação ator e território, dizendo que
as condições de emergência de processos de desenvolvimento regional são influenciadas pela
coalizão de agentes com atuação regional que vão solidificando um novo ambiente
sociopolítico. Santos trabalha o recebimento de duas global players automobilísticas pela
região das Agulhas Negras e que segundo o autor, alteraram profundamente as características
econômicas dos municípios de Resende e Porto Real, da mesma forma que o processo de
reestruturação da CSN influenciou na redefinição destas feições no eixo Volta Redonda- Barra
Mansa desde o começo da década de 90. Santos aborda a METALSUL como exemplo de
estratégia, pois esta se constitui como um centro conversor de recursos sociais e políticos, em
uma matriz de mobilização de investimentos, foco institucional e cooperação entre agentes.
Para Lima (2005), apesar do ABC Paulista ser a referência brasileira para novo
regionalismo, o Sul Fluminense foi ganhando destaque. Conforme Lima (2005) o que ocorreu
no Sul Fluminense não se explica só pelo Novo Regime Automotivo Brasileiro. O autor
destaca que a criação da região Sul Fluminense como polo automotivo se deu devido a junção
de dois projetos, o da desenvolvida rede de atores locais mobilizada em prol da criação de um
novo município e o de uma elite política interessada em ter uma montadora na região.
Historicamente aquela região passou pela cana de açúcar, pela fabricação de refrigerante e
agora está marcada pela indústria automobilística. O município de Porto Real, no Sul
Fluminense, foi criado em 1995 e conta com indústrias como a montadora multinacional PSA
Peugeot- Citroën. O trabalho de reconstrução histórica feita pelo autor para compreender a
criação do município de Porto Real, antes distrito de Resende, desconstrói a imagem de
município modelo, ressaltando toda a articulação entre agentes públicos e privados.

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221

Depois de desenvolvidos estudos com essa abordagem, percebeu-se a necessidade de


um olhar mais amplo para o fenômeno, que partisse do estrutural (MONTEIRO, LIMA, 2015).
Para a realização do trabalho e entendimento do panorama supracitado, realizamos uma
revisão da literatura já produzida anteriormente, literatura essa que se pautava na questão
regional, focando nos atores locais e em suas relações com as multinacionais.
As análises de Barros e Pedro (2011) e Lima (2015) sobre cadeias globais de valores
mostram as características do processo da globalização produtiva, dando ênfase na
internacionalização da produção, a qual os pesquisadores caracterizam pela expansão do
investimento estrangeiro e as relações contratuais que contribuem para o crescimento da
produção na economia mundial. Segundo os autores, fatores como saturação do mercado, altos
níveis de motorização e pressões políticas sobre montadoras para produzir onde se vende têm
incentivado a dispersão da montagem final, fazendo que a produção aconteça em mais lugares
que há trinta anos.
Barros e Pedro (2011) e Lima (2015), mostram quais são as mudanças que a indústria
automobilística vem sofrendo durante os anos, e indicam três tendências de convergência nas
estratégias das montadoras de veículos pós 1990, são elas: I) produzir onde se vende; II)
desenhar veículos com chassis comuns – plataformas –, capazes de receber carrocerias
adaptadas, diferentes níveis de acabamento e características específicas para as condições
locais, ou seja, adaptação ao mercado; e III) aproveitamento das plataformas globais para criar
capacidade de montagem mais genérica e menos presa a modelos específicos, buscando a
flexibilidade de suas plantas. Barros e Pedro (2011) mostram ainda que com estas três
características, a ascensão de fornecedores globais é a característica mais marcante da indústria
automobilística a partir de 1990.
Considerando todo esse quadro e a agenda já existente sobre o tema, a pesquisa se
pautou numa análise das especificidades das multinacionais. Nessa etapa, a montadora
priorizada na análise foi a Jaguar Land Rover.

Metodologia
Trata-se de uma pesquisa qualitativa de caráter exploratório. Os materiais de pesquisa
foram os relatórios anuais feitos para acionistas e disponíveis nos websites das multinacionais,

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222

além de matérias na imprensa regional, nacional e global. Analisou-se os relatórios dos anos
ficais 2011/12 a 2017/18.
Para a pesquisa e escolha metodológica das categorias que foram usadas analiticamente
foi crucial a leitura do Informe de las Corporaciones: Brasil (SANTOS, 2015) e posterior
confecção de um documento inspirado no mesmo, sobre a Jaguar Land Rover (JLR), que teve
como objetivo analisar a montadora em específico de forma que pudesse ser mapeadas e
discutidas questões, desde de financiamentos até as estratégias globais de negócio. Esse
primeiro exercício contou com a análise de apenas dois dos relatórios até então mais recentes.
O trabalho foi feito em conjunto com o núcleo de pesquisa Desenvolvimento, Trabalho e
Ambiente (DTA) da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro e o GEDESF da
Universidade Federal Fluminense.
Somado a produção do “Informe das Corporações: Jaguar Land Rover” para a escolha
das categorias, esteve a leitura atenta a cada um dos relatórios da JLR, buscando pelos
assuntos recorrentes e suas menções a países, tanto o próprio Reino Unido, onde está a matriz
da multinacional, quanto outras regiões do globo e, sobretudo, o Brasil. Dessa primeira leitura
surgiu um primeiro quadro (ver figura 1), com todos os enfoques e categorias recorrentes nos
relatórios e as seções onde se encontram, além da lista de países mencionados em cada
temática. Posteriormente essa tabela foi reduzida a um modelo mais pragmático, com apenas 6
categorias-síntese com os temas mais interessantes para essa pesquisa, diretamente
relacionados a estratégia global da empresa e seu comportamento nos diferentes países. As
categorias foram: Financiamento; Mercado; Manufatura e Engenharia; Tecnologia;
Trabalhadores; Responsabilidade Social e Sustentabilidade. Desse segundo quadro foi
desenvolvido um extenso relatório sobre cada ano fiscal da empresa, com informações sobre
como cada país ou região é abordado (ou esquecido) em cada um dos relatórios em cada tema.

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Figura 1- Quadro ampliado

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2011/12 2012/13 2013/14 2014/15 2015/16 2016/17 2017/18

Asia China, Asia China, US, China, UK, US, Europa,


Pacific, Russia, Pacific, UK, US, UK and Brazil, China,
Russia, India, US, Brazil, Brazil, Brazil Slovakia, North
India, UK, Russia, Russia and China, America,
China, UK Australia India, Asia Austria and UK and
Mercado and US and Europe China, Pacific India “overseas
Italy, ”
Spain,
Europe,
Canada,
US and UK

China, China, UK, North UK, UK, Arab China, UK, US,
India, UK, North America, Singapore, Emirates, United China,
US, America, Europe, China, United Arab North
Russia, UK, Asia China, Arab States, Emirates, America
Europe, Pacific, Asia Emirates, China China, and
Asia Europe, Pacific, US, Brazil, North Europe
Pacific, US, Brazil, US, Brazil Europe China, US, America,
North South and "all (excluding UK, UK,
Financia
America, Africa, other Russia), Australia, Europe and
mento
Brazil and India and markets" Asia Belgium, "overseas"
South “rest of the Pacific Korea,
Africa world” Russia, Austria and
South other
Africa, markets
Brazil and
“rest of the
world”

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225

UK UK UK and US UK and UK UK UK,


Manufac
Europe China ,
turing &
Brazil
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and
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Slovakia

Responsi India, UK and


ble South China
Business Africa and
e Europe
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UK UK UK and US UK and UK UK UK
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Europe (Irlanda)
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and US

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226

Trabalha UK
dores

Foram feitas também algumas leituras em paralelo a produção do documento,


sobretudo sobre cadeias globais de valor. Foram analisados trabalhos de Monteiro e Lima
(2015), que mostram que uma abordagem local é insuficiente, percebendo-se a necessidade de
um olhar mais amplo que parta do estrutural. Como referências que procuram entender o
fenômeno de um panorama mais estrutural analisando o funcionamento das cadeias globais de
valor, o processo de internacionalização e fragmentação da produção nas multinacionais,
foram utilizados textos de Barros e Pedro (2011) e Lima (2015).
Além desses relatórios anuais, diversas informações foram coletadas de variados sites
oficiais, como os da Bolsa de Valores de Londres, Mumbai, e jornais conhecidos, como o
Financial Times, Reuters e The New York Times e análise de dados financeiros em sites
oficiais da empresa.

Desenvolvimento
Financiamento
Esta seção no geral se mantém estável durante os anos nos relatórios, não apresenta
diferenças muito grandes de um ano para outro, se assemelhando muito em cada relatório. Por
conta disso as informações abaixo são dados que continuaram constantes nos anos.
A empresa negocia suas ações na bolsa de valores de Mumbai desde 2010 (BSEINDIA
2017). E uma grande parte do dinheiro é arrecadado através de international bonds que são
negociadas desde 2014 na bolsa de valores de Luxemburgo (CBONDS). Foram emitidos no
total 5 bonds, o primeiro foi teve emissão em 2014 no valor de 642 900 000 USD e tem
vencimento em 2018, enquanto o último foi emitido em 2015 no valor de 394 000 000 GBP e
tem vencimento em 2023 (Luxembourg Stock Exchange).
A JLR explicita que quase metade (48 por cento) das suas dívidas amadurece após
cinco anos, 28 por cento em três para cinco anos e os restantes 24 por cento dentro de três
anos. Em 15 de março de 2016, a JLR resgata os restantes £ 58 milhões de 8,25 por cento de

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obrigações em libras esterlinas com vencimento em 2020, exercendo uma opção de compra, a
maioria dos quais foi oferecida com sucesso e resgatado em março de 2015. Após um caixa
total de £ 4.651 milhões e endividamento total de £ 2.500 milhões, a companhia obtém caixa
líquido em 31 de março de 2016 de £ 2.115 milhões em comparação com £ 1.713 milhões no
final de Fiscal 2015. Além de arrecadar fundos através da bolsa de valores e bonds, a empresa
também faz negociação de créditos com empresas “família” (retirando créditos de subsidiárias
TATA de outros países).
A Jaguar Land Rover é a principal entidade do grupo utilizada para operações de
tesouraria, a empresa tem uma política de agregar e agrupar saldos de caixa dentro dessa
entidade diariamente. Certas subsidiárias estão sujeitas restrições à sua capacidade de transferir
fundos para a empresa. Por exemplo, Jaguar Land Rover China (JLRC) está sujeita a controles
cambiais e, portanto, é geralmente restrito de transferir dinheiro para outras empresas do grupo
fora da China, mas ela pode pagar dividendos anuais, que estão sujeitos a aprovação
regulamentar e retenção na fonte. A JLRC pagou seu primeiro dividendo em setembro de
2011. Brasil, Rússia e a África do Sul também restringem a capacidade das subsidiárias locais
de participarem na agregação de numerário diário mas permitem dividendos e, no caso da
Rússia e do Brasil, são utilizados empréstimos discretos.
Mercados
Nas seções relacionadas ao tema “mercado”, os relatórios enfocam principalmente os
países que mais compram produtos da empresa, com atenção especial para a China, que
apresenta crescimento constante. Os relatórios tratam especialmente da performance da
empresa nos mercados chave. Em 2011-12, por exemplo, mencionava-se Reino Unido, China,
Estados Unidos, Europa (exceto Rússia), a região da Ásia chamada de “Asia Pacific” e “outros
mercados” (que correspondiam a África do Sul, Brasil e Rússia). Já nos anos de 2013-14, há
uma mudança na categoria do mercado americano, que passa a ser incluído em América do
Norte (EUA e Canadá). Também são mais específicos com Asia Pacific, que explicitam que
inclui Austrália, Coréia do Sul e Japão.
A categoria “Outros Mercados” passa a incluir Rússia, Brasil, África do Sul, Índia e
Middle East. Em 2014-15 as categorias se mantém, são apenas mais explícitos em relação a
Europa: inclui Alemanha, França, Itália, Espanha, Bélgica, Áustria, Portugal, Holanda e outros
importadores. Em “All Other Markets” de 2014-15 consta a queda das vendas no Brasil, África

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do Sul e Rússia, atribuído a condições econômicas mais fracas e, mais uma vez, o crescimento
da China.
Já em 2011-12 a expansão global era mencionada como desejável e ganha especial
destaque a partir do relatório 2012-13. Esse relatório afirma que empresa tem uma presença
significativa no mercado britânico, chinês, norte-americano e europeu, responsáveis por
aproximadamente três quartos das receitas da empresa. É citada a crise econômica global e seu
impacto nos mercados maduros em 2009, afetando a indústria automotiva. A estratégia da
empresa inclui o lançamento de novos produtos e expansão em mercados em crescimento,
como China, Índia, Rússia e Brasil. Assim, a estratégia de crescimento da empresa depende
das operações em outras partes do mundo, incluindo a China, Índia, Rússia, Brasil e outras
partes da Ásia.
No ano fiscal 2014-15 está relatada a recuperação das economias tradicionais e a
desaceleração das economias dos mercados emergentes, e que por esse motivo as previsões de
crescimento futuro nessas economias foram revisadas para baixo. O desempenho também foi
mais tímido na China. O relatório do ano 2014-15 afirma que a empresa mantém cerca 20% do
volume de varejo de cada região-chave, como uma estratégia para evitar uma dependência
excessiva em qualquer mercado. Ao mesmo tempo, a China parece ser a grande aposta da
empresa e é sempre enfatizado o ótimo desempenho desse mercado, com volumes de venda
superiores a todos os outros mercados-chave durante todos os anos estudados.

Tecnologia
Na perspectiva de tecnologia, a Jaguar Land Rover mostra em todos os relatórios o
intuito da empresa de investir em tecnologia para diminuição de emissão de CO2 em seus
carros, mais especificamente a tecnologia de carros híbridos que é mencionada a partir do
relatório de 2011/12. A empresa trabalha em projetos de carros elétricos com energia limpa e
driverless cars, embora a empresa já tenha demonstrado que o foco será nos carros elétricos.
Para os clientes que a empresa denomina de “motoristas do futuro”, atualmente
desenvolve uma gama de tecnologias para o futuro. Estes incluem: controle remoto de
condução off-road, gesto preditivo e ativação de controle de voz, vidro inteligente que
transforma a conectividade da experiência interior e a condução semiautônoma, tanto na
estrada como fora de estrada.

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Os relatórios de 2013/2014 e 2014/2015 mencionam a construção de um novo centro


de desenvolvimento de tecnologia e pesquisa, o Centro Nacional de Inovação Automotiva, no
Reino Unido, o qual seria usado principalmente para que acadêmicos conseguissem melhorar
as ferramentas usadas na fase de produção. Ao mesmo tempo, a empresa mostra-se interessada
em abrir um novo centro de tecnologia na cidade de Portland. Esse centro seria utilizado para
melhorar a parceria entre a Jaguar e a Intel, desenvolvendo assim melhorias nas parcerias
futuras- centro parecido já existe nos Estados Unidos, mas com foco na Apple, onde
desenvolvem os planos de um futuro AppleCar da JLR.
Visualizando os quadros construídas anteriormente, podemos perceber que o foco da
empresa na área de tecnologia se mantém no país de origem da marca, a Inglaterra. Enquanto a
companhia foca seus esforços e investimentos nas construções de centros de desenvolvimento
de pesquisa e inovação em parceria com universidades e escolas inglesas e centros de pesquisa
para exprimir incentivo a jovens cientistas, em países emergentes como o Brasil, a JLR se
limita a construir centros de desenvolvimento de jovens operários. Esse fato nos mostra muito
sobre como a empresa pensa e olha para os países desenvolvidos e emergentes. Enquanto o
desenvolvimento da ciência permanece em países desenvolvidos de potência econômica
consolidada, em países emergentes o foco permanece em desenvolver operários capazes de
manejar a montagem das peças de seus veículos.

Manufatura e engenharia
Nessa seção o assunto mais recorrente é a abertura de uma joint venture com a Chery
na China, a menção a essa fábrica perpassa os relatórios de 2011 a 2018, mostrando a
importância da fábrica para os negócios da empresa. O investimento inclui um novo centro de
R&D, como consta no relatório 13/14. A partir do relatório de 2014, começam a ser
mencionados os projetos de construção da fábrica de Itatiaia no Brasil, a partir desse ano, a
fábrica no Brasil, junto com a joint venture na China foram assuntos recorrentes.
A planta de Solihull fabrica atualmente produtos Land Rover e Range Rover, exceto o
Freelander e Range Rover Evoque, que são produzidos em Halewood. A planta de Castle
Bromwich, é usada para produzir todos os modelos Jaguar da empresa. Já em 12/13 se
menciona a unidade de Pune, na Índia, e os modelos que lá são montados. Além da
reorganização dos centros de design e engenharia da empresa em Whitley e Gaydon (Reino

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230

Unido). Nos relatórios 12/13 e 13/14 são mencionadas reformas e atualizações nas plantas
britânicas, focando na ampliação da capacidade de produção de modelos com novas
tecnologias.
Em 12/13 se menciona um investimento em uma nova fábrica de motores em
Wolverhampton. Em Halewood, em 14/15, é mencionado o investimento de £ 45 milhões em
uma linha de máquinas Aida servo press, foram instalados 260 novos robôs automatizados,
instalações de solda a laser líderes de mercado e um número de monitoramento de
equipamentos de última geração e sistemas de relatórios.
Os novos modelos são projetados e desenvolvidos dos centros de Gaydon e Whitley,
no Reino Unido. Cada centro é equipado com desenho assistido por computador, fabricação e
ferramentas de engenharia. A Jaguar Land Rover se comprometeu a investir no Nationale de £
150 milhões Campus de Inovação Automotiva (NAIC) na Universidade de Warwick, no Reino
Unido.
Em março de 2015, a Jaguar Land Rover anunciou um investimento de £ 400 milhões
em instalações novas e atualizadas em sua planta de Castle Bromwich para apoiar a introdução
do novo Jaguar XF, o que completa uma linha “all-aluminium” em Midlands. A planta tem
visto um investimento significativo em todas as etapas do processo de fabricação, isso inclui
uma linha “Aida press”, atualmente em construção, e uma oficina de alumínio de 320 milhões
de libras. Esta oficina é a mais flexível e versátil de seu tipo em toda a Jaguar Land Rover,
capaz de se alternar dentro do modelo de produção do meio (mid-production) da Jaguar.
Em outubro de 2014, foi inaugurada oficialmente (pela Rainha) £500 milhões da
Jaguar Land Rover, 100.000 m2 do Engine Manufacturing Centre (EMC) próximo a
Wolverhampton. A instalação abriga um centro de teste de motores ao lado de fabricação e
salas de reunião. A planta de Solihull também recebe forte investimento.
A construção da fábrica de Nitra, na Eslováquia, que conta com investimento de £ 1
bilhão, é anunciada no relatório 16/17. Também é anunciado que a fábrica contará com
tecnologia para fabricação de alumínio e especialização em engenharia e que o Land Rover
Discovery será o primeiro modelo a ser fabricado, complementando a produção em Solihull,
UK.

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231

Trabalhadores
Esse tema só aparece dentro de uma categoria específica no ano 12/13, outros relatórios
posteriores mencionam eventualmente alguns dados relacionados ao tema em outras seções.
Sempre se trata exclusivamente dos trabalhadores do Reino Unido. Aborda-se principalmente
os investimentos na formação dos funcionários, além de programas de gestão para o corpo
administrativo e parcerias com universidades, faculdades e treinadores especializados para
criação de programas em lideranças industrial, destinado a equipe de engenharia. A empresa
também menciona sua preocupação com diversidade e dignidade no trabalho, através de
conselhos, programas e eventos. Dessa forma, foi observado o silêncio da empresa sobre o
assunto “trabalhadores”, esse ponto levanta diversos questionamentos, desde o tipo de relação
que a empresa estabelece com seus trabalhadores de modo geral (considerando que pelo menos
no único relatório analisado antes do forte direcionamento global também não existiu uma
categoria específica para contemplar o tema) a esse tratamento em relação exatamente a essa
estratégia de expansão global e seu comportamento em outras regiões que não sua matriz
(considerando que não se aborda trabalhadores de outras regiões que não o Reino Unido).
Acreditamos que essas questões podem ser respondidas através da comparação tanto com anos
fiscais anteriores da empresa, trabalho a ser realizado pela outra bolsista do grupo de pesquisa,
quanto com os relatórios de outras empresas do setor automotivo presentes no Sul Fluminense,
pesquisa a ser continuada pelo grupo.

Responsabilidade social empresarial


O tema aparece como seção apenas em 12/13, eventualmente aparecem informações
relacionadas dentro de “sustentabilidade” ou categorias parecidas. Em relação ao Reino Unido,
em julho de 2013, a Jaguar Land Rover foi nomeada a Empresa de Negócios Responsáveis do
Ano por Negócios em Comunidade (BITC). A Companhia recebeu o prêmio em
reconhecimento ao seu investimento pesquisa, empregos e instalações no Reino Unido,
melhorando sua desempenho ambiental global e aumento as habilidades e oportunidades de
educação para jovens pessoas e funcionários existentes.
Ainda nessa seção, empresa se mostra um pouco turva ao tentar definir o conteúdo principal do
que seria nomeado de “responsible business”. Enquanto em alguns anos a JLR compartilha
com seus acionistas os prêmios recebidos pela marca, em outros a companhia se vangloria de

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ações sociais realizadas em países subdesenvolvidos e com altos índices de pobreza. Fica claro
que a empresa não exprime muita preocupação com esta seção, já que ela se mostra
inconsistente e muitas vezes irrelevante.

Conclusões
De acordo com os resultados apresentados neste trabalho, observamos que embora o
Brasil tenha ampliado seu espaço nas cadeias globais de valor da indústria automobilística (a
abertura da primeira fábrica da JLR fora do Reino Unido é uma evidência disso) o país não
ocupa um papel central do ponto de vista das estratégias globais de negócios da empresa.
Reforçando o que defende a literatura sobre cadeias globais de valor, o investimento e
desenvolvimento da tecnologia pura da JLR permanece no país de origem da marca, assim os
países emergentes se encontram em posição de receptores dessa tecnologia já pronta sob a
forma de peças a serem montadas. A pesquisa e desenvolvimento de tecnologias
impulsionados pela JLR se restringe ao Reino Unido e Estados Unidos e pontualmente China,
mesmo após a expansão global - da produção. Os seus centros de pesquisas estão sua maioria
no Reino Unido, mais precisamente na Inglaterra. Existem nesses centros de tecnologia
europeus forte investimento contínuo.
Em alguns países como a China, os governantes exigem que para que as montadoras se
instalem em seu território, elas levem a produção e o desenvolvimento de tecnologia junto com
elas; apesar de, através do Inovar Auto o Brasil ter feito exigências para as montadoras se
instalarem em seu território, com a JLR o panorama é outro, a empresa não traz consigo sua
bagagem de desenvolvimento tecnológico e se instala no território brasileiro afim de utilizá-lo
como polo de montagem de suas peças, mas não como centro de desenvolvimento dessa
tecnologia produtiva. Isso fica bastante claro se retomarmos a discussão sobre os
investimentos em ciência da JLR. Enquanto em países desenvolvidos a empresa busca fazer
parcerias com universidades e empresas de tecnologia para que seja possível a criação de
novos centros de pesquisa (favorecendo assim o nascimento de novos cientistas), em países
emergentes a companhia prefere focar seus investimentos na construção de centros
profissionalizantes com o objetivo de aproximar adolescentes e crianças do trabalho de
operário fabril.

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É perceptível um crescente movimento de enfoque no mercado chinês com um


enquadramento destoante com o que se tem em outros mercados não tradicionais, a China tem
sido o mercado com melhor rendimento da companhia, com crescimento contínuo, enquanto
outros mercados têm ficado a sombra. O Brasil, por exemplo, nunca saiu da categoria
Overseas ou “outros mercados”, ao contrário de outras regiões que foram se movimentando
nos mercados-chave, ganhando e perdendo destaque ou até categorias únicas.
A Jaguar Land Rover vem mostrando desde 2011 um interesse em se instalar em países
emergentes, e seu principal impulso para fazê-lo vem da recessão de vendas do mercado
automotivo nos países já desenvolvidos, confirmando, no caso dessa empresa específica, o que
demonstra a bibliografia. A empresa notou que investir em países já desenvolvidos não trazia
mais o retorno esperado, e a recessão dos mesmos em conjunto com a desvalorização da
moeda e a crise econômica desses países, fez com que as empresas se voltassem para o globo e
analisassem outras alternativas mais viáveis e lucrativas. Tendo em vista que a recessão não
atingira os países emergentes, a JLR enxergou uma oportunidade de colocar em prática sua
estratégia overseas expandindo suas posses e lucros e se instalando em países como Brasil. A
partir da inclusão do Brasil nas estratégias de expansão da JLR, se antes tinha alguma
centralidade, hoje é posto como ator secundário, e algumas vezes até terciário no pano de
fundo do mercado econômico da empresa. O país foi perdendo sua importância ao mesmo
passo que outros países foram se destacando e ocupando essa posição.
A Jaguar Land Rover nomeia sua estratégia de negócios como overseas, se instalando
em distintos países do globo, porém não se fixa da mesma forma em todos eles, enquanto a
empresa foca seus esforços em investimento de desenvolvimento de ciência, tecnologia, mão
de obra e engenharia em países desenvolvidos, países emergentes ficam de fora dessa redoma,
sendo utilizados como suporte de montagem de peças e mão de obra mais barata. De qualquer
modo não podemos ignorar o aumento de tamanho do mercado automobilístico brasileiro na
década de 2000 e o próprio Inovar Auto, pois trata-se de um mercado que em sua história
recente teve duas intervenções de políticas públicas, primeiro o Regime Automotivo Brasileiro
- NAB (1996) e depois o próprio Inovar Auto (2012), ambas com objetivo de incrementar
dimensões como produtividade e competitividade.

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234

Referências
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236

Estado e indústria de construção naval no Brasil: uma análise das


estratégias de desenvolvimento de 2003 a 2010

Lucas de Brito Muniz1

Resumo: A indústria de construção naval se constituiu como uma importante atividade


econômica no Brasil, tendo o Estado atuando como importante estimulante ao setor. A partir
do final da década de 1980, o setor naval enfrenta dificuldades econômicas que desembocam
em uma proposta liberalizante do mercado marítimo brasileiro na década de 1990, com o
Estado atuando como dispositivo dessa abertura. É apenas a partir de 2003 que um novo ciclo
de investimentos ocorre para a indústria naval, com o Estado assumindo papel direto no
investimento. A partir das contribuições da Sociologia Econômica, a proposta deste trabalho é
sintetizar os resultados obtidos pela retomada dos investimentos no setor, buscando mostrar
como os indicadores socioeconômicos se portaram nesse período e mostrar relevância que o
Estado assume em um quadro de capitalismo globalizado.

Palavras-Chave: Indústria naval, Estado, desenvolvimento.

Introdução
A indústria de construção naval brasileira remonta ao século XIX com os
investimentos do Barão de Mauá na criação do estaleiro Ponta D’ Areia em Niterói (RJ).
Todavia, o início da construção naval pesada no Brasil se inicia na década de 1960 durante o
governo Juscelino Kubitchek com a entrada do capital estrangeiro expressa na vinda dos
estaleiros Verolme, de capital holandês, e Ishibrás, de capital japonês (GOULARTI FILHO,
2014a). Até década de 1970, o Brasil experimentou o crescimento de investimentos no setor,
levando o país ao segundo lugar mundial como construtor naval (GOULARTI FILHO, 2014a;
GITAHY; JESUS, 2009). Após esse período, os anos 80 assinalam uma profunda crise na
indústria de construção de naval do Brasil. O caso mais emblemático que marca essa virada
ficou conhecido como "crise da SUNAMAM", em que foi apurado um grande rombo
financeiro nas contas da autarquia. A partir daí o setor encontraria enormes dificuldades até a
década de 2000, passando pelo desmonte dos principais armadores nacionais: as companhias

1
Mestrando do Programa de Pós-Graduação em Sociologia da UFF (PPGS-UFF). Bacharel em Sociologia pela
UFF (2018). Participa desde 2017 do grupo de pesquisa “De volta ao neoliberalismo: o capitalismo brasileiro no
século XXI” coordenado pelo Prof. Cristiano Monteiro. O presente trabalho foi realizado com apoio da
Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior – Brasil (CAPES) – Código de Financiamento
001. Contato: lucasdebritomuniz1992@gmail.com

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237

de navegação, que sofreram a perda de quase totalidade de seus ativos com os programas de
desestatização da década de 1990 (GOULARTI FILHO, 2014a).
A chegada de Luís Inácio Lula da Silva (PT) à presidência do país em 2003 rearticulou
o papel do Estado junto ao setor, enfatizando a necessidade de um aporte diferente para a
resolução do problema da crise na indústria naval, apostando em uma articulação com outros
setores estratégicos, principalmente o setor de petróleo e gás capitaneado pela Petrobrás,
tendo o Estado o papel de criar as condições de retomada, contrastando com as políticas
adotadas na década de 1990 que apostaram na desregulação do setor e nos mecanismos de
mercado como instrumentos principais de solução da crise. Afinal, o Estado desempenhando
diferentes papéis pode contribuir para o investimento em determinado setor? Cabe ao Estado a
mínima presença na economia para que as forças do mercado se autorregulem e atinja os
melhores resultados?
A partir das contribuições da Sociologia Econômica, a proposta deste trabalho é
sintetizar os resultados obtidos pela retomada dos investimentos no setor, buscando mostrar
como os indicadores socioeconômicos se portaram nesse período e a relevância que o Estado
assume em um quadro de capitalismo globalizado. O exemplo empírico da indústria naval,
guardada as particularidades do próprio setor, pretende contribuir para as discussões e
pesquisas que se tem se debruçado sobre a temática das potencialidades analíticas da relação
Estado e sociedade.
O artigo é dividido em quatro partes. A primeira é referente à atualidade da Sociologia
Econômica e à importância que esse campo do saber tem nas formulações que envolvem a
dinâmica do Estado e mercado, entendendo ambos a partir de uma análise integrativa
(MONTEIRO, 2019). Na segunda parte, discuto o papel que o Estado pôde desempenhar na
indústria de construção naval, contrastando com as teorias que o identificam como entrave ao
investimento no setor. Na terceira parte, apresento os programas de investimento que
tornaram possível a retomada do setor, destacando os programas desenvolvidos pela
Petrobras. E, por último, apresento a sistematização dos dados colhidos na base de dados
RAIS/CAGED disponibilizada pelo Ministério do Trabalho, apresentando os indicadores
econômico-sociais do setor durante o período pesquisado.

Atualidade da Sociologia Econômica


Com as transformações ocorridas no capitalismo a partir da década de 80, tendo a
ascensão do neoliberalismo como força social e intelectual e da globalização como fenômeno

Anais do VII Seminário Fluminense de Sociologia – 2018


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238

que alterou as relações entre nações e mercados, um conjunto de novas discussões emergiu
para a Sociologia (IANNI, 2001). O retorno a antiga fé no mercado se torna o elemento
teórico e ideológico fundamental na resolução dos problemas de ação coletiva que surgem e
ressurgem no amago do mundo globalizado (EVANS, 2004). O Estado é entendido como
portador de uma racionalidade nociva ao investimento (MONTEIRO, 2009), cabendo a ele
apenas um papel subordinado na manutenção dos contratos de propriedade e de troca entre os
atores econômicos por via da livre concorrência e livre comercio (HARVEY, 2008). A partir
de uma perspectiva crítica à essas concepções, a análise das relações e dimensões entre o
Estado e o mercado tornam-se temas fundamentais para a Sociologia Econômica. Buscando
demonstrar que os processos econômicos são imersos socialmente (MONTEIRO;
CARNEIRO 2012), o campo do saber da Sociologia Econômica procura responder os
desafios das novas configurações que o capitalismo contemporâneo tem assumido após o
Consenso de Washington.
É na disputa das concepções sobre mercado e Estado que a Sociologia Econômica se
apresenta como uma possibilidade de pensar a ação econômica enquanto construção social
(MONTEIRO; CARNEIRO 2012). A crítica ao conceito de homo economicus e à
racionalidade econômica como esfera autônoma da política revela uma das dimensões
principais de uma perspectiva clássica que busca mostrar a historicidade da economia de
mercado, na desnaturalização do conceito de propensão ao lucro (POLAYNI, 2000). Ou a
partir de uma perspectiva onde a ação econômica é entendida a partir da teoria dos campos
(BOURDIEU, 2005), ou seja, como realidade perpassada politicamente, encarnando
estruturas de dominação e de hierarquia social no interior da Economia, onde se conformam
disputas entre agentes que buscam se posicionar em novas configurações de poder.
Junto a abordagem da Sociologia Econômica, a proposta institucionalista busca nas
relações entre Estados e mercados as possiblidades de desenvolvimento conjunto, na disputa e
consenso entre os atores que perseguem suas próprias agendas de desenvolvimento (EVANS,
2004). Passa-se, então, a pensar o Estado como elemento portador de dois objetivos
principais: o bem-estar social da população e o crescimento econômico. A questão do
“quanto” o Estado intervém nos mercados é deslocada para uma perspectiva qualitativa, ou
seja, do “como” o Estado estabelece alianças e objetivos em conjunto com as elites industriais
e comerciais na busca por transformação econômica. Logo, as possibilidades de sucesso ou
não em termos econômicos só podem ser compreendidas à medida que se analisa as relações
que as instituições do Estado e do mercado se entrelaçam na busca de objetivos em comum.

Anais do VII Seminário Fluminense de Sociologia – 2018


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239

Tanto a Sociologia Econômica quanto a abordagem institucionalista configuram-se


como esforços teóricos e metodológicos que servem de base para a discussão e elaboração dos
resultados buscados nesse trabalho. A proposta de uma abordagem integradora ao invés da
dicotomia entre Estado e mercado (MONTEIRO, 2009) contribuem para ampliar o horizonte
sociológico para a compreensão das estratégias de desenvolvimento adotadas para a indústria
de construção naval entre 2003 e 2010.

A indústria de construção naval e o papel do Estado no Brasil


A partir da década de 1980, a indústria de construção naval conheceu um longo e
intenso processo de desmobilização das suas forças e capacidades produtivas. A crise de
financiamento do Estado impediu que os Planos de Construção Naval (1975-1980)
conseguissem atingir suas metas de produção de embarcações, somadas às crises do Petróleo
que influenciaram a maioria dos armadores e estaleiros em nível mundial (GOULARTI
FILHO, 2014a).
Na década de 1990, com o avanço da agenda de reformas pró-mercado, os principais
armadores brasileiros – empresas de navegação de logo curso e de cabotagem – são
privatizados, o mercado de navegação é desregulamentado e liberalizado e os estaleiros
nacionais são expostos à concorrência internacional (GITAHY; JESUS, 2009). Sem
capacidade de concorrer com grandes players mundiais da construção naval, a indústria de
construção naval brasileira conhece seu momento mais crítico, chegando perto de desaparecer
completamente (GOULARTI FILHO, 2014b).
É na esteira das reformas pró-mercado que alguns autores identificam na atribuição do
Estado o problema da indústria de construção naval brasileira. Lima e Velasco (1998)
elencam um conjunto de papéis que o Estado desempenhou, segundo a perspectiva dos
autores, desencadearam o declínio do setor. Um deles estaria contida na excessiva proteção do
Estado aos estaleiros nacionais, criando nichos de mercado sem contrapartidas produtivas
deles, o que criou uma acomodação dos estaleiros nacionais que não contavam com nenhum
concorrente. Outra crítica residiria no Estado como fonte principal de financiamento às obras
dos estaleiros, essa prática teria fortalecido uma dependência do capital nacional ao Estado,
com a crise de financiamento dele, os estaleiros nacionais encontrariam dificuldades de
condições de empréstimos às suas demandas.
Com a identificação da conduta do Estado como elemento chave para o recente
insucesso do setor naval brasileiro, as propostas de Lima e Velasco (1998) para a retomada do

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240

setor são localizadas no mercado externo como destino das embarcações brasileiras e na
especialização de algum tipo de embarcação como forma de competir internacionalmente na
busca de novos mercados.
Uma outra condição de expansão do setor naval para o mercado externo em
detrimento do mercado interno é conduzida por Lima e Velasco (1998) numa perspectiva da
alocação dos recursos e da racionalidade econômica sem contrapartidas políticas e sociais. É
nesse sentido, que ambos trataram a questão do emprego como variável para a retomada do
setor naval no Brasil,

É bastante comum a utilização do número de empregos gerados nos "áureos"


tempos da construção naval brasileira (42 mil empregados) para justificar
medidas emergenciais. Devido aos avanços tecnológicos na indústria naval
— automação, utilização do intensiva de informática etc. —, dificilmente o
setor voltara a atingir parcela superior a 50% desse montante de
empregos, mesmo que hipoteticamente volte a funcionar a plena
capacidade. (LIMA; VELASCO, 1998: 230, grifo meu)

Posteriormente, veremos que essa previsão não se confirmará, por hora a questão é
questionar as afirmações dos autores, que os fatores de ordem social não deveriam influenciar
as decisões de caráter econômico. Logo, segundo eles, a retomada do setor pensando as
demandas do mercado interno não deveriam ser levadas em consideração por não serem a
melhor decisão econômica strictu sensu.
Com o boom da exploração de petróleo offshore estimulada pela Lei do Petróleo2
(PASIN, 2002) entrava em cena a Petrobras como demandante principal dos estaleiros
brasileiros em diversos segmentos de embarcação.
A mudança política no executivo federal com a ascensão de Luís Inácio Lula da Silva
(PT) em 2003 buscou modificar as tentativas de promoção de estratégias de desenvolvimento
do setor naval, pensando a articulação da indústria naval com outros setores chave – caso do
setor de petróleo e gás. O evento principal dessa guinada da política econômica para o setor
naval está sintetizado na construção da plataforma P-513.

2
A lei Nº 9.478, de 6 de agosto de 1997 - conhecida como Lei do Petróleo – estabeleceu novas diretrizes
regulatórias para a exploração, refino e produção de petróleo e gás natural no Brasil, sendo o fim do monopólio
da Petrobras nessas operações o fato mais marcante da lei., além da criação da Agência Nacional do Petróleo.
Ver <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/LEIS/L9478.htm>. Consultado em: 08/09/2018.
3
A plataforma P- 51 estava sendo construída inicialmente em um estaleiro em Cingapura. Com a eleição de Luís
Inácio Lula da Silva (PT) em 2003, o edital de construção foi cancelado no exterior, sendo ela construída
integralmente em solo brasileiro, no estaleiro BrasFels -RJ (GOULARTI FILHO, 2014b).

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241

No plano institucional e regulatório, duas iniciativas vão ser importantes para


estimular a retomada do setor: as prerrogativas das rodadas de leilão dos campos de petróleo
promovidas pela Agência Nacional do Petróleo (ANP) e o Programa de Mobilização da
Indústria de Petróleo e Gás (PROMINP). A primeira estabelecia índices de nacionalização de
fornecedores locais de insumos a exploração; e a segunda estabelecia um mínimo de 65% do
índice de conteúdo local na produção embarcações e plataformas da Petrobras e de suas
subsidiárias (GITAHY; JESUS, 2009).
Assim ficava estabelecido as condições de retomada da indústria de construção naval
nacional. Essa retomada contrasta diretamente com as perspectivas e análises de Lima e
Velasco (1998) que identificavam no Estado um entrave ao investimento no setor e na
insuficiência de demanda do mercado interno brasileiro. Dessa forma, o Estado articulando
diversos papéis em conjunto com o mercado conseguiu criar condições necessárias para a
retomada do setor.

Programas de investimento para o setor da indústria de construção naval (2003-2010)


O papel do Estado na retomada da indústria de construção naval pode ser observado
no conjunto de programas de construção de embarcações e plataformas para a Petrobras e
suas subsidiárias durante o período supracitado. Campos Neto (2014) elenca quatro
programas principais que contribuíram para a retomada do setor na criação da demanda de
embarcações:
● Programa de Renovação e Ampliação da Frota de Apoio Marítimo
(Prorefam) iniciado em 1999 para suprir a demanda de navios de apoio marítimo
para as operações offshore da Petrobras. Foram elaboradas 3 etapas: 1999, 2004 e
2008;
● Empresa Brasileira de Navegação (EBN) - Petrobras foi lançado em 2008 com
o objetivo de criar uma frota dedicada ao serviço de cabotagem para o transporte
de óleo bruto e derivados da Petrobras. Foram elaboradas 2 etapas: EBN 1 (2008)
e EBN 2 (2010);
● Programa de Modernização e Ampliação da Frota de Petroleiros (PROMEF)
– Transpetro elaborado a fim de encomendar um conjunto de embarcações para
subsidiária de transportes da Petrobras, a Transpetro, renovar e atualizar seus
ativos. Foram elaboradas 2 etapas: Promef I (2005) e Promef II (2008)

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242

● Contratações de serviços de plataformas e sondas marítimas para atender a


demanda de exploração de novos poços de petróleo potencializada após a
descoberta do Pré-Sal em 2006.
Abaixo, os valores e a quantidade de embarcações e plataformas
contratadas pelos programas:

Tabela 1 – Programas de investimentos


Programas Nº de embarcações Valores (em milhões de
R$)
Prorefam 223 16.275
EBN Petrobras 39 4.400
PROMEF 49 11.000
Plataformas 23 11.590
Fonte: Campos Neto (2014), Sinaval (2007; 2008; 2010).

O impacto dos programas de investimento para o setor pode ser sintetizado nos seguintes
efeitos:
● Aumento da quantidade de embarcações de apoio marítimo no Brasil, deslocando
relativo montante de afretamentos de empresas estrangeiras para empresas
nacionais; (CAMPOS NETO, 2014);
● Ressurgimento do setor de navipeças4 e de investimentos nos estaleiros brasileiros
(CAMPOS NETO, 2014);
● Redução da dependência da Petrobras nos afretamentos de embarcações
(AMARAL; GOMIDE; PIRES, 2014);
● Descentralização do setor da indústria de construção naval do Rio de Janeiro para
outras regiões do Brasil, principalmente o Nordeste e o Sul, impulsionando a
criação de novos e modernos estaleiros (GOULARTI FILHO, 2014).
● Redirecionamento da política de contratação de plataformas para o mercado
interno, proporcionada pela obrigatoriedade da lei de conteúdo local. (GOULARTI
FILHO, 2014).

4
Para uma melhor analise sobre os impactos na indústria de navipeças, ver Campos Neto; Romminger;
Pompermayer (2014).

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243

Todavia, a execução dos programas enfrentou um conjunto de problemas que acentua


algumas das limitações que o setor enfrentou na sua retomada:
● Apesar do aumento das embarcações de apoio marítimo no mercado brasileiro e
uma maior participação de embarcações afretadas em empresas nacionais, 57% das
embarcações desse tipo ainda eram afretadas por empresas estrangeiras no ano de
2012 (CAMPOS NETO, 2014);
● Relativo atraso na entrega de algumas embarcações encomendas aos estaleiros
nacionais, principalmente aquelas firmadas como novos estaleiros. Campos Neto
(2014) coloca que eles foram criados para atender essa demanda não conseguiram
se adequar em termos de “gestão, aprendizado e de treinamento de mão de obra”
(p. 122);
● Apenas 3 plataformas foram construídas integralmente em estaleiros nacionais.
Outras 7 tiveram seus módulos integrados por estaleiros brasileiros e outras 12
foram construídas integralmente em estaleiros internacionais (SINAVAL, 2010).

É possível afirmar que de modo geral, apesar das limitações, os programas


desenvolvidos e elaborados conseguiram alcançar resultados expressivos para o setor entre
2003 e 2010. O papel que o Estado exerceu como formulador de estratégias de retomada para
o setor contrasta com as propostas que o identificam como elemento dotado de ineficiência
para realocar recursos e que a racionalidade política que o conforma seria prejudicial para o
clima de negócios.
Amaral, Pires e Gomide (2014) dão uma importante contribuição nesse sentido. Eles
buscam relacionar os mecanismos de decisão entre atores interessados no desenvolvimento e
o contexto democrático como condições que propiciaram o ressurgimento do setor. Dessa
forma, centram a análise em como o arranjo-institucional é importante para a realização de
políticas públicas voltadas para o desenvolvimento.
Ao comparar com os arranjos institucionais dos governos militares (1964-1985), os
autores demonstram que um contexto democrático, propicia uma maior participação de atores
na definição de políticas públicas para o setor e aumentam a capacidade do Estado de resolver
problemas de ordem coletiva.
É importante para nós agora é esta contribuição da qual ainda localiza o Estado como
ator privilegiado na resolução de problemas da ação coletiva (EVANS, 2004). Os programas
de investimento confirmam a importância do Estado exercendo esse papel de formulador de

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244

estratégias de desenvolvimento, na criação dos estímulos levando em consideração os


objetivos que se condensam no seu interior integrados aos objetivos de crescimento
econômico e oportunidades de negócios dos atores econômicos no mercado.
Para além dos resultados que enfatizam o crescimento econômico do setor é
importante mostrar os indicadores econômico-sociais no período de retomada da indústria de
construção naval brasileira. A análise dos indicadores socioeconômicos revela a extensão do
papel do Estado no sucesso da indústria naval em contextos sociais específicos, mostrando
como ela contribuiu para a melhora dos níveis de bem-estar da população exposta ao
desenvolvimento do setor naval.
Indicadores econômicos-sociais da indústria de construção naval
Os resultados obtidos durante a retomada da indústria de construção naval no Brasil
apontam para um vigoroso crescimento no conjunto dos indicadores do setor durante o
período de 2003 a 2010. Todavia, a observação de resultados positivos referentes às
estratégias de desenvolvimento é acompanhada também de variáveis de ordem social. Foram
elencados dois indicadores que buscam demonstrar os efeitos produzidos pela retomada do
setor: a evolução do emprego, escolaridade e faixa de remuneração média.

Gráfico 1 – Evolução do emprego no setor

Fonte: Ministério do Trabalho e Emprego, RAIS-Vínculos, anos selecionados.

O crescimento do número de trabalhadores contrasta diretamente com as previsões de


Lima e Velasco (1998) relativas as possibilidades da quantidade de mão de obra empregada
no setor. É possível observar o crescimento do número de trabalhadores durante o período de
retomada, com forte ênfase no período pós-2007, coincidindo com a descoberta do Pré-Sal.

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245

Gráfico 2 - Evolução do emprego no setor por região

Fonte: Ministério do Trabalho e Emprego, RAIS-Vínculos, anos selecionados.


A análise a partir da comparação entre regiões permite observar importantes
transformações. Historicamente como principal polo naval do país, o Rio de Janeiro
apresentou crescimento substancial, saltando de 11476 operários para 24829, um crescimento
de 116%. Na região Sul. a região Nordeste saltou de 1342 operários em 2007 para 7021 em
2010, um crescimento de 423%. A região Sul saltou de 2888 operários em 2007 para 4454 em
2010, um crescimento de 54%. A partir de 2007, a criação de novos estaleiros contribuiu para
este crescimento do setor nestas regiões, como foi o caso do estaleiro Atlântico Sul (PE) e do
estaleiro Quip (RS) (GOULARTI FILHO, 2014b).
Gráfico 3 – Escolaridade

Fonte: Ministério do Trabalho e Emprego, RAIS-Vínculos, anos selecionados.

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246

No indicador da escolaridade é possível observar um crescimento do ensino médio


dos trabalhadores da indústria de construção naval. Se em 2003 vemos uma maioria de
trabalhadores com o ensino fundamental completo, em 2010 já vemos uma ampla maioria de
trabalhadores com o ensino médio completo. Isso mostra que a retomada do setor exigiu uma
camada de trabalhadores mais qualificados, impulsionando uma melhor escolaridade deles.

Gráfico 4 – Porcentagem de trabalhadores com nível médio por região

Fonte: Ministério do Trabalho e Emprego, RAIS-Vínculos, anos selecionados.

A análise por região chama atenção a porcentagem de trabalhadores com ensino médio
atingida pela região Nordeste em 2010: 69% do total dos operários navais no setor naval
local. Todas as regiões apresentam melhora nessa variável, o que mostra que a retomada do
setor articulada com o papel do Estado como instrumento de resolução de ação coletiva
acarretou uma melhora dos indicadores sociais da população atingida.

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Gráfico 5 – Faixa Remuneração Média

Fonte: Ministério do Trabalho e Emprego, RAIS-Vínculos, anos selecionados.

Os níveis salariais apresentam certa instabilidade durante a série histórica. No geral, as


faixas médias tendem a se equilibrar em 2010. Todavia, em 2003, 22% dos trabalhadores
ganhavam entre 5 e 7 salários mínimos. Em 2010, 11% ganhavam nessa faixa. É possível
observar uma queda da participação das faixas mais altas em relação às mais baixas, o que
mostra que passar dos bons resultados de uma forma geral nos indicadores econômicos-
sociais, as políticas de desenvolvimento para o Brasil também enfrentam condições objetivas
da própria estrutura social brasileira e das relações políticas e econômicas com outros Estado-
nação em um mundo de econômica competitiva e globalizada.

Conclusão
A partir do trabalho aqui desenvolvido, é possível afirmar que a hipótese de que a ação
do Estado pode criar condições de investimento se confirmou na indústria de construção naval
durante 2003 e 2010. Os resultados alcançados contrastam com o período anterior em que se
prezou por uma ação do Estado subordinada e passiva aos ditames de uma pretensa economia
de livre-mercado.
Do ponto de vista sociológico, o ativismo estatal que caracterizou o período mostrou
que as possibilidades de desenvolvimento são construídas socialmente e que a variável

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248

política não é uma dimensão oposta ao funcionamento das forças econômicas. Foi possível
observar empiricamente a partir da análise do desenvolvimento de indústria de construção
naval, que o Estado ainda pode ser instrumento não só eficiente no sentido da realocação de
recursos, mas também na resolução de problemas de ação coletiva, que coloca o crescimento
econômico e uma agenda de desenvolvimento como realidades pelas quais diversos grupos e
atores sociais participam e influenciam nesse processo.
Em uma primeira aproximação, os indicadores sociais apresentaram uma melhora
revelando um relativo sucesso e que mostram que o ativismo estatal foi determinante para a
retomada do setor não apenas nas resoluções de problemas de acumulação de capital, mas
também das aspirações de grupos sociais mais amplos.
Sendo assim, esse trabalho se propôs a contribuir para uma agenda de pesquisa e de
indagações as quais a Sociologia Econômica se debruça atualmente. Logo, ele se coloca como
um primeiro esforço para futuras pesquisas e aprofundamentos sobre o tema, mostrando que
ainda há um campo aberto para se discutir novas questões que envolvem a indústria de
construção naval e o Estado: como os mecanismos de articulação entre Estado e mercado para
os objetivos do setor naval no Brasil e um maior detalhamento da inserção da indústria de
construção naval brasileira na cadeia produtiva do setor de óleo e gás.

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indústria naval no Brasil democrático. In Capacidades Estatais e Democracia. Brasília: Ipea, 2014.

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brasileira 1990-2010. Economia e Sociedade, Campinas, v. 23, n. 2 (51), p. 287-317, ago. 2014b

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Janeiro: SINAVAL, 2010.

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250

Lembranças de Itaipu: Histórias de Pescador

Ademas Pereira da Costa Junior1

Resumo: O sentido deste artigo se mantém em um vínculo contínuo com as referências


mobilizadas pelos pescadores para justificar a sua perspectiva diante da experiência vivida no
cotidiano em Itaipu. A sensibilidade pesca, em seus laços profundos com a dinâmica da
natureza local, reverbera as transformações aceleradas provocadas pelo crescimento urbano a
partir da década cinquenta e acirrados ao final dos anos setenta. Propulsionadas na Região
Oceânica de Niterói pela especulação imobiliária. As reflexões por meio da metodologia da
história oral buscam compreender, brevemente, o sentido das narrativas, na emanação da sua
relação com o passado e a tradição. Onde ambas as dimensões se refletem como parte da sua
percepção do tempo. Abordando as relações entre os processos históricos nos modos de se
pensar historicamente.

Palavras-Chave: História do Brasil; Tradição; Pescadores de Itaipu; História Oral;


Identidade Narrativa.

Introdução
As próximas páginas estão divididas em quatro partes que delimitam a abordagem
deste artigo. Elas se somam para formar um quadro amplo de reflexões. Orientadas em meio
ao tempo humano vivido e preenchido significativamente pela composição das ações dos
sujeitos envolvidos pelas dinâmicas do cotidiano. Elementos aqui mobilizados se articulam
com o objetivo de reconstituir dos sentidos de existir em comunidade. Na vila dos Pescadores
de Itaipu. Ela, por sua vez, a vila, a comunidade, converge no sentido das suas ações
significativas, no presente, expressando a sua própria historicidade- acessível na elaboração
do pensar historicamente que permeia as suas expressões narrativas. Segue assim num
primeiro momento, em “A margem de Itaipu” uma exposição do um quadro histórico de longa
duração, que se estende aproximando as condições de manutenção da vida e as suas sutilezas
ao passado recente. Expõe-se assim as Faces do cotidiano e o Progresso à vista: especulação e
urbanização a fim de produzir um primeiro contraste. Esse primeiro contraste serve de solo
para a seção que lhe segue. Adentrando concentricamente ao seu cotidiano cujas as
orientações apresentam uma relação o passado da comunidade, na medida em que converge o
narrado ao vivido cotidiano que se expressa como o sentido da sua identidade ligada ao lugar

1
Graduando em História pela Universidade Federal Fluminense-UFF e vinculado ao Laboratório de História
Oral e Imagem –LABHOI/UFF. Email: apcostajunior@id.uff.br

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251

e a prática de pesca de Itaipu. Em as “Faces da Tradição” desdobrarmos a narrativa do mestre


e pescador de arrasto, que explica a relação da comunidade com o lugar e o seu tempo. E
assim problematiza como as transformações ocorridas em Itaipu influenciaram a vivência de
um cotidiano específico. Buscando traçar um plano de descrição e análise que permita ter
acesso a forma como a comunidade reflete sobre a sua própria história.

A margem de Itaipu.
Itaipu é atualmente um dos principais bairros da Região Oceânica. E encontra-se
ligado ao centro da cidade de Niterói, a qual pertence, por cerca de onze quilômetros de
estradas. As novas obras da Transoceânica e a abertura do túnel Charitas-Cafubá, promovidas
pela prefeitura, reforçaram, nos últimos anos, o ideal de desenvolvimento urbano que para ela
se projetou junto à modernização. Principalmente impelido a favorecer aos interesses da
especulação imobiliária, que gera a principal fonte de arrecadação da prefeitura desta cidade.
Dentre as transformações mais nítidas que se deram de um modo acelerado- e em um limiar
de menos de quatro décadas- estão: o surgimento de loteamentos inteiros e de suas vias
expressas, a partir da adesão de projetos de urbanização. Atualmente o seu cotidiano é
marcado pelo movimento sazonal de veículos particulares que caracterizam o perfil
ocupacional da região como uma cidade dormitório. As habitações têm o representativo
padrão de classe média urbana, inclusive sintetizada nos seus famosos condomínios Ubás.
Junto à margem das vias expressas pequenos prédios comerciais criam o cenário da vida local.
Nos fins de semana suas praias se encontram quase sempre lotadas por turistas de outras
regiões, moradores locais e os pescadores. Mas isso- é óbvio- nem sempre foi assim.
As suas provocações no período colonial deram origem a São Sebastião de Itaipu,
elevada com suas fazendas ao grau de freguesia ainda na segunda metade do século XVIII
(WHERS, 1984: 205). Nessa época, a região era reconhecida sobretudo pela produção local
de gêneros agrícolas de subsistência bem como da cana. Surgia ali uma forma aparente do
cotidiano existente, com apresenta-nos em seu horizonte Monsenhor Pizarro:

Alguns engenhos de açúcar subsistem nesse território, produtor de canas


doces, de mandioca, milho feijão arroz e outros legumes, que se exportam à
cidade pelo interior da enseada, ou por fora da barra, em lanchas, quando as
cargas são mais volumosas. Em lugar pouco distante da matriz está a lagoa
notável de Piratininga fertilissima em peixe, e comunicável pelo mar da
costa e longe, quase meia légua dessa, a leste, fica a denominada Itaipu, de
grande notável e largura proporcionada. (SOUZA, 1993: 76)

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252

Assim, em nas suas fazendas garantia-se, sobretudo, a estabilidade de uma produção


interna que possibilitou manutenção da vida e do trabalho empregado nessas terras. Como se
deduz de acordo a presença de gêneros transportados “por fora da barra, em lanchas, quando
as cargas são mais volumosas”. Indica-se que alguns dos aspectos notáveis da vida local
seriam decorrentes de uma interação dos braços envolvidos produção de gêneros agrícolas e o
litoral. Abastecendo assim a população dos centros urbanos-administrativos mais próximos.
Deveremos também destacar aqui, inicialmente, ao menos duas considerações sobre essa
passagem. Primeiro, reconhecia-se uma produtividade garantia não só a subsistência local
como também existência de uma técnica capaz de criar excedentes e produzir canoas ou
“lanchas” adequadas para o transporte. Certamente envolvidas na pesca. Uma outra referência
possível, que bem ilustra as dinâmicas da época está no “Plano Topographico do Porto, e
Entrada do Rio de Janeiro e seus arredores” de mapa autoria de João Roscio 2 (WERHS, 1984:
209). Que em 1778 revelava as rotas internas que atravessavam a região, ligando por terra as
áreas das fazendas do Arrozal, de Piratininga, Piiba Grande e Piiba do Malheiros, do Engenho
Novo e a Fazenda Itaocaia, com outras regiões. Que circunscrevem as lagoas e contornam sua
vasta área litorânea.
O segundo ponto que pode ser refletido por meio desta passagem é que existe nela um
sutil indicativo da presença da especialização, bem característico do mosaico agrícola que
enredou a vida no interior dessas propriedades desde a colonização, e projetou-se até o início
do XX. Assim, confirmando a expressão de Sampaio (2014: 392) “estamos diante de um
sistema agrário diversificado” que permite a conjugação de diferentes atividades técnicas e
modos produtivos e possibilidades de associação, que sejam acessíveis e desejáveis para a
manutenção da vida cotidiana. Nessas circunstâncias a incorporação dos saberes na lavra de
mandioca, a criação de animais e pesca, em suas matas, no mar e nas lagoas era certamente
considerada fundamental. Assim os livros de registro de batismo e óbito de São Sebastião de
Itaipu colocam-nos a pensar.
Acumulados entre as décadas de 1730 e 1790 os registros paroquiais dão testemunho
de uma relativa prosperidade da vida cotidiana no interior dessas fazendas. Para interpretá-los
há primeiro de se reconhecer que a presença indígena e a consolidação dos aldeamentos foi
um elemento essencial para a manutenção do domínio português no entorno da entrada da
Baía de Guanabara durante os séculos anteriores. E possivelmente em São Sebastião de Itaipu,
a sua ocupação até a transição para o setecentos consolidou-se em povoamentos e vilarejos,

2
Extraído da mapoteca do ministério da marinha encontra-se ilustrado no livro Niterói Cidade Sorriso.

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em sua maioria composto por descendentes dos índios e pardos livres. Junto a isso somava-se
à vida colonial, as relações senhoriais, e as disputas ´pelo acesso à terra, em que homens
empobrecidos e os escravizados e suas famílias circulavam amplamente nas esferas das
lavouras nos engenhos e nas roças. Em meio aos percalços da estrutura social esses sujeitos
desenvolviam diferentes laços de solidariedade e espaços de negociações. Neste sentido, a
religiosidade católica abria-se no processo de catequese como uma das vias de contato com
mundo das instituições coloniais, incluindo com isso as possibilidades juramentadas de se ter
acesso à terra e a instrumentos de trabalho. Esses elementos são sugestivos no que diz respeito
às razões da fundação da capela da sua igreja matriz em 1716, tornada paróquia independente
pouco depois em no ano de 1721.
Os registros também reafirmam que em Itaipu realizava-se uma vida cotidiana
próspera e complexa, com minúcias e trivialidades, constituídas com passar dos dias, em suas
dinâmicas internas. Mas que nem por isso deixava de estar inserida em redes comerciais mais
amplas. Uma leitura de tais características nos revela as capilaridades do sistema de
subsistência dedicados na produção de alimentos em roças mescladas a criação de animais era
muito comum entre os séculos XVII e XVIII (LINHARES, 1995). No caso de Itaipu, é
notável que essa especialização de produção para o mercado interno estava associada também
a uma produção excedente de pescado. A esse modo de vida somava-se a possibilidade
generalização de roças que em paralelo a indústria do açúcar e dos engenhos produziria
mandioca, arroz, legumes e frutas. Proporcionando o enraizamento, ainda que provisório, de
unidades familiares em associações produtivas.
Ao final do século XVIII o seu contingente populacional era estável, possuindo “107
fogos; 4 engenhos, com uma produção de 79 caixas e pipas de açúcar de aguardente, e 138
escravos” (Souza, 1993: 75). O número de unidades habitacionais e de escravos aponta para
essa especificidade da formação de núcleos de trabalho em roças domésticas realçando as
razões para estarem dedicadas ao abastecimento interno. Uma vez que também estavam
associadas aos núcleos urbanos em expansão. Como por exemplo o era a Vila Real da Praia
Grande no início do século XIX. Na véspera da fundação da Vila, Aires de Casal descreveria
Itaipu:

Perto de meia légua da Lagoa de Piratininga fica a de Itaipu com milha e


meia de comprida, e largura proporcionada. Entre ela e a costa do oceano
está a paróquia do mesmo nome, cuja a matriz é dedicada a São Sebastião, e
seus habitantes lavradores de farinha e açúcar, e pescadores. (Idem).

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Contudo, ainda que Itaipu fosse reconhecida pela sua produção de farinha e pescado, é
preciso ter clareza que nesse cenário a produção do açúcar voltava-se para a sua realização
mercantil, e as demandas internacionais pelo produto das antigas províncias do Nordeste e do
Rio de Janeiro voltaram a crescer após a revolução haitiana após o ano de 1791, dando
margem a sua valorização até meados 18303 quando enfim foi superada pelo café. Neste
sentido, já durante o ciclo do café novas disputas pelo acesso a terra se tornaram mais
frequentes. A expansão da plantation escravista, como aponta a historiografia especializada,
não só suprimiu as roças de subsistência, bem como avançou sobre as encostas atlânticas e
para o interior da província. Alguns dos dados referentes a Freguesia de Itaipu, anexada a
Imperial Cidade de Niterói em 1840, dão conta que neste cenário a sua capacidade produtiva
expandiu-se significativamente. Entre os seus habitantes encontrava-se 810 brancos, 518
mulatos livres, 193 pretos livres, 86 índios e 1594 escravos. (VALVERDE, 2001: 23).
Todos esses elementos são extremamente sugestivos a respeito das relações entre as
culturas de exportação, produzidas com finalidade mercantil, e as relações de propriedade e
acesso à terra no interior das fazendas. Para os homens empobrecidos e livres acesso à terra
era possível através da posse, nas regiões de fronteira aberta à propriedade fundiária do senhor
local, ou através do seu arrendamento mediante a um acordo entre as partes interessadas. No
caso dos indígenas, era comum estabelecer-se nos povoamentos como aldeados, situação que
constituiu-se como uma possibilidade de reivindicação de dispositivos que garantiriam a eles
os direitos de acesso à terra, sendo recorrentemente submetidos com isso a trabalhos
compulsórios em favor do empreendimento senhorial ou da próprio padroado. Por sua vez,
detinham como parte da sua visão de mundo um saber que envolvia-se com a própria natureza
e o permitia tirar vantagem do expediente com a adaptação e desenvolvimento de técnicas e a
ressignificação de alguns de seus símbolos culturais e dos grupos os quais interagiam
(CELESTINO, 2010: 61). Significava, segundo Maria Regina Celestino, compreender e
situar-se diante do cotidiano elaborando e definindo estratégias conforme as circunstâncias e
os interesses que envolviam o passar dos seus dias.
Mas analisar essas relações em seu pormenor excede as pretensões deste trabalho.
Aqui bastará situá-los nesta dinâmica interna em uma que garantia a especialização e
diversificação produtiva. E cujos modos de vida não estavam ligados exclusivamente aos

3
Sobre as dinâmicas da economia escravista no Brasil do século XIX Cf: LUNA, F. V & KLEIN, H. A
escravidão e a economia no século XIX. In: Escravismo no Brasil. São Paulo: Edusp, 2010, pp.89-128.

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interesses de acumulação capitalista, e eram caracterizados por uma produção familiar.


Incluindo a “brecha camponesa” (GARCIA; BASTOS, 2013) que estava à margem do
horizonte de mobilidade social e participação das famílias dos negros escravizados. Ainda que
precarizada frente ao domínio do latifúndio escravista, e agregado a ele, essa produção de
subsistência proporcionou uma produção de excedente que se inclui ao abastecimento
regional. Essa produção tinha “Segundo Maria N. B. Wanderley, a dupla preocupação com a
garantia de mercado e com o autoconsumo” (PEDROZA, 2014: 407).
Essas características expressam-se antes como um sentido para as reflexões das
dinâmicas da vida no cotidiana de Itaipu. Visto que infelizmente as fontes acessíveis até o
momento pouco nos oferecem para um aprofundamento maior. Os desdobramentos possíveis
colocados aqui em evidência adequam-se com sua análise os dados específicos disponíveis e
referentes às Freguesia de Itaipu entre os séculos XVII até o XIX. Ainda assim um dos
objetivos para o aprofundamento desta pesquisa é a averiguação das condições fundiárias
dessas fazendas após a lei de terras de 1850. O que permitiria esboçar um quadro mais preciso
para o acesso às terras públicas e as de propriedade privada configuradas nos litígios das
fazendas, bem como o arrendamento e as situações de posses 4. No caso do envolvimento do
trabalho escravo com os cafezais e suas respectivas consequências para as suas fazendas,
devemos ter em mente que a partir de 1850, com a proibição do tráfico transatlântico, o
tráfico interno passou a ser frequente. As regiões mais dinâmicas da economia da época
interiorizadas no Vale do Paraíba concentravam-se na exportação do café com base produtiva
alicerçada no escravismo. E com isso passaram absorver a oferta de mão de obra escrava das
regiões menos dinâmicas e competitivas (LUNA; KLEIN, 2010: 89-128).
Itaipu já às vésperas da década de 1890, se tornaria parte de São Gonçalo. Na capital a
vertigem republicana somava-se com a virada século. Na outra margem, os sonhos e efeitos
da modernidade ainda estavam bem distantes. E só afetariam o seu cotidiano a partir da
década de 70. Lá até esse momento os laços de poder e as relações estreitas dos interesses
locais permaneceram. Os efeitos do cotidiano permaneciam, e pareciam moldar a vida em um
ritmo próprio. Esses modos de vida constituídos foram observados por alguns antropólogos, e
chegam esclarecer satisfatoriamente algumas das lacunas deixadas por outras fontes. A partir
de suas observações é possível ter acesso a um cotidiano elaborado na beira da praia, por

4
Sobre as leis de terras e seus significados Cf. MOTTA. M.M.M. “Nas Fronteiras do Poder: conflito e direito à
terra no Brasil do século XIX. EDUFF: Niterói, 2008.

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campanhas de pescadores envolvidos na prática de pesca de arrasto. Formava-se ali como um


saber compartilhado uma tradição com símbolos culturais diversificados e próprios.

Faces do cotidiano
Eu sou remanescente de famílias tradicionais de pescadores. Tanto por parte
do meu pai como minha mãe. Meu pai, meus avós por parte de mãe e por
parte de pai eram todos de famílias tradicionais de pescadores aqui de Itaipu.
Também existe uma relação com o pessoal de Maricá. E eu comecei na vida
da pesca muito garoto. Porque naquela época também a principal atividade
econômica local era a pesca. E tem dois fatores aí: um é que a gente tinha o
estímulo de tá na pesca. A gente se encantava também com a atividade da
pesca, era um encanto para qualquer garoto na época a gente remar,
tarrafear, puxar uma rede, toda aquela técnica que os pescadores faziam nos
atraía muito. Queríamos ter essa habilidade e conhecimento dos mestres;
independente de a gente ter nossos sonhos ou não, outras profissões que
sempre o sangue de pescado correu nas nossas veias. E é um atrativo muito
grande pra qualquer filho ou neto de pescador que conviveu intensamente.
Aqueles momentos ricos da atividade do pescador e de toda uma
tradicionalidade uma cultura. A gente conviveu muito com o fator natureza.
A simplicidade de um lugar meio rural e isso pra gente era um verdadeiro
parque de diversão. Quer dizer, não tinha nada. A gente não tinha uma vida
urbana então a gente brincava e sobrevivia de uns fatores muito naturais.
....Segundo a História, isso aqui era um cafezal. Isso é, uma fazenda, e aqui
produzia café. Até pouco tempo tinha pé. Tens uns pés de cafezinho
espalhado nessa mata aí. E foi modificando né? E quando acabou o ciclo do
café e as fazendas. Tinha as fazenda do Engenho do Mato, que era da Irene
Sodré, devia ser do café também a produção. Depois os sitiantes começaram
a plantar banana, a reforma agrária foi feita. A primeira reforma agrária do
Brasil foi aqui no Engenho do Mato. Então, o sítio do Bonfim, que é o
exemplo do Quilombo do Grotão, que é o Renato que é um líder lá. E as
outras famílias que têm sítio ali. E depois foi urbanizado. Derrubaram lá e
depois urbanizou também. A história é mais ou menos essa aí. (Jairo
Augusto de Souza 22/10/2018)

Ao final da década de 70 Elina Pessanha e Roberto Kant de Lima desenvolveram


estudos etnográficos que descreveram a existência de uma tradição de pesca característica à
região. Essa tradição desenvolvia-se sobretudo ao agregar familiares em torno das campanhas
de pescadores durante o arrasto de praia. As redes extensas e o uso da força requerido na
atividade davam margem à presença de agregados e novos ajudantes. Em Itaipu a reprodução
da técnica de pesca se realizava sobretudo objetivando adquirir ganhos coletivos. Seus
excedentes eram significativos e estavam condicionados a capacidade de interligar os recursos
oferecidos no mar à beira da praia integrando e socializando pessoas e saberes, mobilizando e
executando sentidos e referências naquele espaço. As suas canoas chegavam a possuir 11
metros, e suas redes de malha de algodão chegavam a medir 300 metros. Associados em

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campanhas os mestres e seus ajudantes interagiam criando possibilidades novas de associação


para a execução da técnica. Com ela uma reprodução cotidiana que entrelaça suas dinâmicas
com os fora, os agregados e as novas gerações.

Antes Itaipu… tinha tradição de muito peixe, eo peixe sempre foi muito
valorizado. O pessoal da redondeza, até dez quilômetros, meio-dia de
viagem vinha se abastecer em Itaipu. Vinha de carro-de-boi, tropa de burro,
vinha e dormia porque era certo levar peixe…
Antigamente só se comia carne seca e linguiça. Carne fresca só quando se ia
à cidade. O pão era pão dormido. Os camponeses tinham aipim e batata,
trocavam por peixe. Eles traziam aipim para puxá o saco, mas o aipim se
come por vaidade. O peixe não, economizava a carne seca; que era menos
gostosa inclusive. Vender não se vendia, por aqui, só laranja e banana de vez
em quando...5

O cotidiano desenvolveu-se nas leituras dos seu tempo-espaço vivido em Itaipu. Por
meio dele se socializam os saberes e as leituras dos fenômenos naturais, que os permitia
conjecturar possibilidades de associação entre os fatores naturais, que conduziam o passar dos
dias nas observações das condições do mar, dos ventos, às estações do ano e as suas durações.
Com isso também se distinguiam e se segmentam os saberes, e entre os próprios pescadores,
as relações entre as gerações.
Entre essas práticas e gerações existiam disputas internas pela apropriação dos
recursos naturais que estavam em aberto no mar. Os saberes que conduziam a técnica da
pesca representavam uma disputa pelo espaço da praia, não só entre as associações coletivas
de companheiros de pesca de arrasto munidos das Canoas Grandes e como os mais jovens que
se introduziram no universo da pesca em suas Canoas Pequenas com suas redes de espera e
outras modalidades.
Canoas Grandes: Canoas Pequenas
1-Campanhas 1-Individual ou dupla
2-Pesca de Arrasto 2- Emalhe
3-Beiramar 3- Mar
As campanhas definiam-se em suas atividades regulares, tracejando a orla e dado
início a pescaria. A praia assim era marcada e identificada em seus pontos que correspondiam
aos “lanços” da rede de arrasto. São eles denominados: Canto do Prato, Porto Pequeno, Porto
Grande, Coroa, Volta, Areia Preta, Malha, Caminho Grande, Pegador, Baleia, Camboinhas,
Caminho das Moças e Canto da Ponte (PESSANHA, 2003: 34). Também entre os seus
5
Relato de um pescador na década de 1970, (KANT DE LIMA e FERREIRA, 1997: 54).

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barracões e outros vilarejos situados na beira da praia, as canoas grandes circulavam, subindo
e descendo nos portos, revezando às prioridades de apropriação. Esse “direito a vez”
determinava uma espécie de isonomia entre as diferentes unidades produtivas organizadas em
campanhas. Como um costume local o acordo entre os mestres dessas campanhas definia,
com a indicação do ponto, uma reivindicação à prioridade para o lanço do arrasto.
Realizava-se o cotidiano dos pescadores distintamente daquele dos camponeses.
Despendia-se o tempo dos dias junto às condições de manutenção da técnica complexa, que
detinha em suas partes a associação dos de fatores, naturais e sociais, agregados à uma
margem de cálculo que permitia a sua reprodução. Em seu nicho se faziam hierarquias
particulares, que eram estabelecidas pela possibilidade de realização das tarefas exigidas. Que
iam das mais simples e usuais como ajudar segurar e puxar a rede na beira da praia, como o
ponto de cabo, ao ajudante e agregado, passando a tarefas mais complexas, como assumir um
lugar no remo de uma campanha, lançar o chumbo da rede, ser vigia, até chegar a figura do
mestre. Entre tantas outras ações que poderiam dar sustentáculo e constituir os sentidos desse
cotidiano A sociabilidade e aflorava com a chegada dos grandes cardumes, um momento em
que o pescador de Itaipu poderia apresentar toda a beleza derivada do seu saber e da sua
técnica. Sintetizava-se no seu extenso inverno entre os meses de Maio a Agosto as disputas
mais acirradas pela leitura do cotidiano e dos recursos oferecidos pela natureza sob a qual
elaborava-se estratégias para a sua apropriação. Com isso reproduzia-se nesse cotidiano não
só a técnica, mas também o costume, os seus prazos. A pesca da Tainha, neste sentido era
acontecimento para a comunidade. Elaborava-se um de sistema de trocas e dádivas, em que a
figura do mestre ocupava um papel fundamental. O cerco dos cardumes dependia de um
saber que evidenciava uma leitura apurada dos elementos naturais e dos seus ciclos junto a
sua disposição para a conformação da prática no cotidiano da comunidade.

O “tempo ecológico”, então, é ao mesmo tempo interior e exterior ao grupo


social, que dele se apropria, interpretando-o e classificando-o na infindável
tarefa de sobrepor a cultura a natureza. [...] A visão cíclica da pesca em
Itaipu divide o ano em duas estações que se caracterizam por morfologias
distintas do grupo. “Inverno” e o “Verão” são assim mais que duas estações
do ano. Constituem-se em verdadeiros pólos de atração de significados
sociais. O inverno organiza, aglutina; o verão desorganiza e dispersa. Em
torno do inverno, a pesca da tainha vai-se constituir em verdadeiro “símbolo
nodal” de Itaipu.6

6
KANT DE LIMA; FERREIRA, 1997: 128.

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As potencialidades cumulativas dessa atividade excedia as demais técnicas de pesca


encontradas em Itaipu. Por meio dela a leitura dos ciclos naturais influenciava na própria
constituição do tempo social da comunidade. Definia-se com seus ritmos e suas dinâmicas
uma regularidade, como um-mesmo que era vivido como sentido para as suas ações e
preenchendo os dias do cotidiano de Itaipu, e reforçando e atualizando as suas leituras.
Segundo Kant de Lima havia essa disputa pela assimilação dos componentes era fundamental
para a articulação dos diferentes sentidos das experiências no cotidiano e os seus significados
disponíveis para a orientação aos fins de cálculo. A pesca da Tainha era assim um momento
importante para a composição dessas relações, entre o natural e o social na organização da
cultura da pesca em Itaipu. Como um elemento derivado das observações e descrições
envolvidas na pesca de arrasto o seu “saber naturalísticos”. A organização da praia, em seus
pontos de pesca, nos sugere algumas questões: quantas gerações foram necessárias para
definir e cristalizar seus nomes? Como foi se articulavam as condições sociais e naturais nas
gerações anteriores? Qual o origem histórica dessa pescaria em Itaipu?
De certo modo, como vimos nas seções anteriores a pesca em Itaipu é tão antiga
quanto a sua fundação como freguesia ainda no século XVIII. E os seus habitantes
transitavam nos espaços, buscando acesso à terra e interligados por redes internas de
abastecimento. Com isso não queremos concluir que teriam sido sempre empregadas as
mesmas técnicas com o passar dos séculos ou que não se produzissem certas variações com as
transformações mais amplas da sociedade. Por outro lado, é possível considerar que em certo
sentido a pesca em Itaipu permaneceu acompanhando as transformações que ocorreram de um
modo mais amplo, quer seja reafirmando as suas leituras dos elementos naturais quer seja das
interações constituídas a partir dela com outros grupos. E não por acaso, a comunidade
remanescente de Itaipu, as famílias envolvidas em torno da pescaria de arrasto apresentava
entre seus representantes diversos graus de parentesco. E que as unia ao passado das gerações.

Progresso à vista: especulação e urbanização


Tem muita dificuldade de encontrar companheiro, mas a pescaria não acaba,
nem com esse negócio da Veplan, porque na época da tainha o pessoal que
está trabalhando em outros lugares vem pescar. Só se eles proibirem de
pescar é que a pescaria acaba. Pescaria é assim mesmo, fica uns tempos
fraca, depois melhora, o pessoal volta. Tem sempre uns novos entrando…7

7 KANT DE LIMA; FERREIRA, 1997: 61.

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Nesse momento algumas áreas rurais passaram a se transformar mais rapidamente, por
meio de um processo contínuo de urbanização. E em consequência do desmantelamento
dessas fazendas, surgiam novos loteamentos que formaram os seus atuais bairros. O que
gerava conflitos cada vez mais delicados, em relação à propriedade, com seus antigos
moradores. Em Itaipu, já retomada à parte do segundo distrito de Niterói, um exemplo se dá
em relação à terras da antiga Fazenda Itaipu no ano de 1943 por Francisco Pizarro Nela a
Companhia Territorial de Itaipu, de sua propriedade, visou explorar a região com projeto de
loteamento denominado Cidade Balneária de Itaipu. Prevendo o beneficiamento da área de 6
milhões de km² com sistemas de água e esgoto, junto a de praças, comércio, escolas e
hospitais. Parte desse projeto foi incorporada com a compra de 89% das ações da Companhia
Territorial de Itaipu, na década de 70, pela Veplan uma antiga incorporadora de imóveis que
se fundiu ao renomado escritório de engenharia de H.C Cordeiro Guerra8.
Surgia assim uma nova empresa a Veplan Residência Empreendimentos e Construções
S/A, a qual os jornais da época celebravam como a maior empresa do ramo imobiliário do
Brasil. Uma das diferenças fundamentais do projeto, era a ideia de fazer de Itaipu a primeira
“comunidade planejada”9 em território nacional. A existência de marinas dentro da lagoa de
Itaipu era um ponto mais que notável em meio aos seus projetos. Para ser executado a
Marinha em 197910 emitiu nota concedendo aval para a construção do canal que ainda nos
dias de hoje delimita a divisão da praia de Itaipu em duas. Um dos braços operacionais desta
empresa se dedicava diretamente à esse empreendimento, o seu nome: Veplan Residência
Companhia Territorial de Itaipu. Entre seus diretores contava-se com a presença do ex-
ministro do planejamento Reis Velloso.
Em novembro de 1973 os jornais destacavam Itaipu, com a expectativa de que além de
ser um ponto turístico tradicional os projetos imobiliários que ali surgiam resguardavam a
predestinação do seu “futuro de um grande Bairro”11.No mesmo ano a conclusão das obras da
ponte Rio-Niterói foi o pretexto necessário, como causa eficiente de uma transformação
urbana, para a adesão da “solução urbanística”12, algo que parecia ser uma das únicas

8
Outras informações em: H. C CORDEIRO Guerra e Veplan concluem incorporação. Jornal do Commercio 31
de Julho de 1973.
9
Ver, Comunidade Planejada de Itaipu. Jornal do Brasil 26 de Julho de 1978.
10
Cf, Marinha informa que autorizou as obras da Veplan em Itaipu. O Fluminense. Niterói. 20 de Outubro de
1979.
11
Ver O urbanista Reis Veloso Jornal do Comércio 18 de Maio de 1979. ALMIRANTE Roberval Marques
diretor da Veplan Residência. Jornal do Comércio 12 de Janeiro de 1975.
12
Mais em Ponte provoca crise e prefeitos apontam para solução urbanística. Jornal do Brasil,7 de Janeiro de
1973.

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alternativas possíveis à prefeitura da cidade. Nos mandados de Ronaldo Fabrício e Moreira


Franco foram acentuados os debates sobre a propriedade e o direito de acesso às terras em
Niterói. Por outro lado os mesmos projetos abriam a possibilidade de administrar as
ferramentas institucionais de negociação com a sociedade civil e os demais interessados. De
todo modo essas transformações projetavam a imagem do que a imprensa celebrava como
uma “Cidade Nova”.
Para dar os contornos do projeto o escritório de arquitetura do urbanista Henri Cole foi
contratado para desenhar a “Plano Estrutural de Itaipu”, inspirando-se nos modelos de
comunidade planejada existentes na Europa e nos Estados Unidos. A sua expectativa era
realmente ambiciosa, e com ela os jornais anunciavam a chegada de cinquenta mil novos
habitantes13 . O bairro a ser fundado pela Veplan ainda previa a existência de ilhas artificiais e
marinas construídas dentro da lagoa de Itaipu. O resultado dessas obras é ainda nos dias de
hoje a existência de um contraste, mais que marcante entre os bairros de Itaipu e Camboinhas.
Nesse processo famílias inteiras de pescadores foram retiradas da beira da praia, afetando
permanentemente o cotidiano da pesca em Itaipu.

As Faces da Tradição
Em consequência desse processo atualmente a praia de Itaipu se vê limitada à sua
margem esquerda, que junto ao morro das andorinhas, e circunscrita pelas ilhas do filho da
mãe e do pai. Do outro lado do canal fundou-se, Camboinhas, uma praia reservada aos
interesses da classe média urbana que passou a habitar majoritariamente a região. Os
pescadores e suas famílias foram impactados diretamente por esse processo. Reverberando na
condição de manutenção das suas atividades tradicionais e na forma de se relacionar com a
localidade. Quem nos expõe essas transformações de um modo mais claro é Robson Dutra,
pescador artesanal de família tradicional, que ainda hoje é mestre do Arrasto de Itaipu.

Na década de setenta foi aberto um canal, aqui na praia de Itaipu - que tinha
uma extensão de três quilômetros e setecentos metros ao total. Hoje a praia
de Itaipu ficou resumida a setecentos metros. E por que a gente diz que
Itaipu é uma praia só? O que dividiu, eu não sei, algumas pessoas falam a
divisão do rico do pobre; enfim ou era a especulação imobiliária, cada um
fala uma coisa e a gente não sabe a fundo. Eu sei que cada um tem a sua
opinião. A minha opinião: a causa foi a especulação imobiliária, fizeram esse
canal ai na praia de Itaipu que hoje é uma praia dividida, tanto é que o
loteamento para o outro lado é denominado Camboinhas e o lado de cá ficou
Itaipu. Por intermédio de que? Através de que? Por uma empresa que chegou

13
Cf. Jornal do Brasil. Camboinhas espera por 50 mil pessoas. 05 de dezembro de 1976.

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aí, tirou os pescadores que lá residiam e fez um loteamento. Então quando a


gente fala que Itaipu é uma praia só a gente conhece e reconhece Itaipu
como uma coisa só. Os novatos, as pessoas que estão chegando, hoje talvez
não saibam disso, entendeu? “Você vai a onde? Ah, eu vou em Camboinhas.
Você vai a onde? Eu vou em Itaipu” Mas para o pescador, para a cria de
Itaipu isso é uma coisa só. E com certeza foi a especulação imobiliária que
fez com que essa divisão acontecesse. (Robson Dutra 27/2/2018)

A sua narrativa emprega em diversos momentos não apenas um tom esclarecedor para
essas transformações, mediante a perspectiva que assume para descrevê-las. Mas também
surgem, a partir dela, características mais pontuais sobre um elo vital constituído entre os
pescadores com a sua tradição de pesca, a sua dinâmica e o espaço da praia de Itaipu. A
referência aos impactos e as transformações causadas pela especulação imobiliária, como a
abertura do canal, progride em a uma relação com a vida dos pescadores na praia. Sintetizada
no momento em que Robinho diz: “Então quando a gente fala que Itaipu é uma praia só a
gente conhece e reconhece Itaipu como uma coisa só.” Há também de se considerar que esse
trecho põe em evidência, sobretudo, a condição presente nas expressões possíveis que
justificam o seu posicionamento diante das transformações, e lhe indicam o sentido14.
Por intermédio do advérbio quando15que se incorpora o passado vivido na praia em
referência a sua tradição, revelando a existência, e a possibilidade de leitura da dimensão
temporal que lhe é inerente. Algo que se esclarece enquanto um sentido próprio da
experiência na associação dos eventos que envolviam a pesca e que capacitam um indivíduo a
“conhecer” e “reconhecer” Itaipu como uma praia só. Também é possível notar que a
preservação na memória do tempo dos eventos, ou da sua duração, transporta o quando ao
contexto, que no presente da fala se revela, em um quadro descritivo das transformações. Esse
“modo de aparecimento” “moldura temporal” representada na análise do quando, como
conectivo dessa objetividade imanente, que caracteriza a experiência do tempo humano
vivido.
A composição narrativa dos eventos é preenchida em sequência de sentido por uma
matéria constitutiva de referenciais necessários para que os significados sejam agenciados na
realização das relações que descrevem esse cotidiano. É, portanto a partir da narrativa que o
passado se alinha ao presente, e revela distensão desse tempo imanente correspondente à
vivência subjetiva da duração. Essa vivência se realiza na orientação para o agir cotidiano.

14
A “cultura” aqui é vista como um difusor coletivo da experiência do tempo (RUSEN, 2014).
15
Para saber mais sobre a relação entre a linguagem e a percepção do tempo cf. GELL. Alfred. A Antropologia
do Tempo: construções culturais de mapas e imagens temporais. Petrópolis. Vozes 2014.

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Que é em si a referência inscrita nos significados dos elementos representados cultur