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CURSO DE ANTROPOLOGIA

1 - A CRIAÇÃO DO HOMEM

INTRODUÇÃO

Não devemos confundir essa matéria com a antropologia cultural, ou a


ciência da raça, que inclui todas as outras ciências ligadas ao homem, como por
exemplo: psicologia, sociologia, lingüística, etc. Neste capítulo estudaremos uma
antropologia bíblica e teológica, não uma antropologia filosófica ou cultural. O
homem sempre foi o centro das preocupações filosóficas, mas não será esta a
preocupação deste estudo. Veremos o homem à luz do que Deus pensa dele. Esta
é uma abordagem desafiadora, especialmente num tempo quando as opiniões de
Deus não entram na conta dos homens, quando estes se estudam a si mesmos.
Vamos analisar como o homem veio de Deus, qual foi seu comportamento no
Éden, quais foram as causas da sua queda, os resultados dela, e a redenção do
homem em Cristo, no pacto da graça, tudo com base na revelação de Deus como
está registrado nas Santas Escrituras.
Na antropologia bíblica vamos estudar o homem no seu relacionamento com
Deus, com seu semelhante, e com a natureza. É uma tolice tentar conhecer o
homem sem que o conheçamos à luz da revelação divina. Por causa da tentativa
de se estudar o homem à parte das informações que o próprio Deus dá do ser
humano, muitos erros são cometidos na avaliação do homem pelo homem.
Portanto, o estudo da antropologia tem que ser feito à luz da teologia que é
baseada na revelação da Escritura.
O estudo da antropologia é extremamente importante, especialmente dentro
da esfera teológica. A teologia cristã foi elaborada quando, cientificamente, o
homem ainda pensava geocentricamente, isto é, que a terra era o centro de tudo.
O grande astro girava em torno da terra, e tudo servia a terra. Com a entrada do
pensamento de Nicolau Copérnico, o mundo passou a pensar heliocentricamente.
O sol, então, passou a ser visto corretamente como o centro do nosso universo.
Com essa mudança do geocentrismo para heliocentrismo, diz Verduin, a terra, a
habitação do homem, pareceu muito menos importante. Com o advento do
heliocentrismo, com a revolução Copérnica, a terra perdeu o seu lugar central.
"Esta mudança tendeu a diminuir o lugar e a importância do homem; esta
mudança fê-lo sentir-se pequeno e menos importante". 1 A enormidade do
universo veio à tona com a implementação das descobertas telescópicas. Cada vez
mais a terra tornou-se menor, e menor ainda a importância daquele que foi feito
"menor do que Deus". De lá para cá, pouca atenção tem sido dada ao estudo do
homem, como parte da criação de Deus.
A diminuição da importância do homem devido à descoberta do tamanho do
universo, e a diminuição de sua existência tão curta, em vista da suposta longa
duração e existência do universo material, não devem desanimar o homem no
estudo sério das suas origens e do seu comportamento. E este estudo tem
crescido nestes últimos dois séculos, mas sem as devidas precauções. Os
cientistas têm desprezado as informações que Deus dá das origens e do
comportamento dos homens na Sua Palavra. Isto tem levado a distorções sérias
no estudo da antropologia.
O estudo do homem deveria merecer uma atenção maior da parte de todos
nós, não que o homem seja o centro absoluto do universo, mas pela dedicação e

1 Leonard Verduin, Somewhat Less than God, (Eerdmans, 1970), 9-10.

1
atenção que o próprio Deus lhe deu, quando o criou à sua própria imagem e
semelhança. Essa atenção deveria ser dada, ao menos, pelos psicólogos,
antropólogos e outros cientistas cristãos. Deveríamos devolver ao estudo da
teologia, uma boa base de antropologia bíblica.
Fazemos jus a uma boa antropologia bíblica, quando estudamos as origens
do homem dentro da Escritura. Por essa razão, a primeira parte da antropologia
tem a ver com a criação do homem.

A DOUTRINA DO HOMEM NA SISTEMÁTICA


É perfeitamente natural a transição do estudo do ser de Deus (Teontologia)
para o estudo do ser humano (Antropologia). Este não é somente a coroa da
criação, mas é o objeto especial da preocupação de Deus. A Escritura mostra essa
preocupação de Deus nos muitos textos que tratam da criação, da queda e da
redenção do homem. Na Escritura, o homem sempre é visto nas suas relações
com Deus e, como ato reflexo, em suas relações com os seus semelhantes. Estas
relações mostram a grande importância para todos nós do estudo da
antropologia.
A transição da teontologia para a antropologia é absolutamente necessária,
porque a primeira prepara o terreno para a segunda. A visão que temos do
homem dependerá, em última instância, do conceito que tivermos de Deus.
Ninguém se conhecerá a si mesmo de forma correta, antes de conhecer Deus, o
seu criador. Os departamentos da sistemática estão absolutamente interligados,
de tal forma que o conceito que temos de um, determina o conceito de outro.

ANTROPOGENIA
O livro do Gênesis, que é o livro dos começos, não trata simplesmente da
cosmogonia, que é a vinda à existência do cosmos material, mas também de
antropogenia, que é o vir à existência do ser humano. A criação do mundo
material foi em função da criação do dominador dele. Deus colocou o homem
como governador e dominador de toda a criação, conforme nos diz o Salmo 8.
Depois do propósito da glória de Deus, todas as coisas foram feitas para que o
homem desfrutasse delas. O nosso planeta e o restante do cosmos foram
designados para o bem-estar do último dos seres criados, o homem. Por isso, é
dito do homem como sendo a coroa da criação. O homem é apresentado na
Escritura como o capeamento ou o acabamento da empreitada criadora total do
Todo-Poderoso. Da criação do homem Leonard Verduin diz: "Antes de o homem
entrar em cena, no fim de cada dia da atividade criadora de Deus, o Artífice
Divino chama o produto da Sua criação "bom"; mas só após o homem entrar em
cena ele é chamado "muito bom". 2

02 - O HOMEM NO ESTADO DE INOCÊNCIA


Doutrina da Justiça Original do Homem no Estado de Santidade no Éden
(ver The Complete Works of Thomas Boston, vol. 8, 9-25

2 Leonard Verduin, Somewhat Less than God, (Eerdmans, 1970), 9.

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1. O HOMEM EDÊNICO ERA UM SER PESSOAL


A inteligência, a consciência, o senso moral, o poder de auto-determinação,
etc., mostram que o homem não foi derivado, por um processo natural de
desenvolvimento, a partir de criaturas inferiores, como ensina o evolucionismo.
Somos compelidos a crer segundo o que prescreve a Palavra de Deus, quando diz:
"Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança..." (Gn 1.26).
A pessoalidade é uma das características do homem criado à imagem de
Deus. Essa característica distancia enormemente o homem das suas outras
criaturas.

DISTINÇÕES ENTRE O HOMEM E OS OUTROS ANIMAIS INFERIORES


Berkhof diz que "com respeito aos peixes, aves, e as bestas lemos que Deus
os criou segundo a sua espécie, a saber, de uma forma típica própria. Sem
dúvida, o homem não foi criado desse modo e muito menos conforme o tipo de
uma criatura inferior. Com respeito a ele, Deus disse: "Façamos o homem a nossa
própria imagem, segundo a nossa semelhança". 3
A despeito de o homem ser considerado um animal, a diferença entre ele e os
outros animais é enorme, como conseqüência da maneira especial como Deus o
criou.
As enormes diferenças entre eles podem ser consideradas desta forma:
Um ser relacional
Um ser inteligente

O animal não é capaz de raciocínio, de ligar os fatos, de saber que isto vem
daquilo, acompanhado de um sentimento de que a seqüência é necessária. A
associação de idéias sem juízo é o processo típico da mente animal.

Um ser auto-consciente
O animal é consciente, mas não tem auto-consciência. O animal não se
reconhece a si mesmo, não tem nenhum conceito sobre mesmo. Jamais qualquer
macaco pensaria de si mesmo: "Eu sou um macaco", porque se isso acontecesse,
ele deixaria de ser um macaco. Um animal não distingue a si mesmo de suas
sensações.

Um ser com afeições


Um ser com auto-determinação

Um ser com concepções


Um animal percebe, mas somente o homem concebe. Os animais conhecem
as coisas brancas, mas não sabe o que é a alvura. Ele lembra coisas, mas não as
pensa. Só o homem tem o poder de abstração, o poder de derivar idéias abstratas
de coisas particulares ou da experiência.

Um ser que se comunica


O animal não tem linguagem. Linguagem é a expressão de noções gerais
através de símbolos. As palavras são símbolos de conceitos. Onde não há
conceitos, não há palavras. Visto que a linguagem é sinal, ela pressupõe a
existência de um intelecto capaz de entender o sinal. Por que os animais não

3 Berkhof, p. 215 (edição castelhana).

3
falam? Porque eles não têm nada a dizer. Eles não possuem idéias gerais que
possam ser expressas em palavras.

Um ser capaz de estabelecer julgamento


O animal não é capaz de estabelecer um julgamento. Não sabe diferenciar
uma coisa de outra. O animal não sabe associar idéias e nem tem senso do
ridículo.

Um ser religioso
O animal não é um ser religioso, não tem idéia para o sobrenatural, nem é
um ser moral.

2. O HOMEM EDÊNICO ERA UM SER MORAL


AS FONTES DE INFORMAÇÃO SOBRE A NATUREZA MORAL DO HOMEM

A. ESCRITURA
A quem Adão era semelhante antes da queda? A única fonte de informação
que possuímos nesta matéria é a Escritura. Partindo de uma perspectiva da
teologia cristã, não há nenhuma outra fonte de informação confiável temos à
nossa disposição no que respeita à origem moral do homem, para a nossa
pesquisa. Se cremos nas Escrituras, então temos de admitir que o homem foi
criado à imagem e semelhança de Deus. Logo, podemos concluir que a nossa
natureza moral vem daquele que nos criou, pois ele é o Ser Moral por excelência.
Segundo a Escritura, a condição de nossos primeiros pais era de perfeição
natural. Estes podiam perfeitamente cumprir todas as exigências de Deus. Adão,
por um certo tempo, foi um exemplo de vida natural perfeita e normal (relativo à
norma), o que exatamente Deus queria de todos os seus descendentes. A única
cousa anormal no Paraíso foi o pecado. Pecar era anormalidade, e ainda o é,
embora seja extremamente comum. Foi por causa dessa anormalidade que Jesus
Cristo teve que vir ao mundo. Ser normal para o homem é estar em Cristo, dizer o
que Ele diz e fazer o que Ele faz.

B. OBSERVAÇÃO
O SIGNIFICADO DE NATUREZA MORAL
O homem foi originalmente criado num estado de perfeição, maturidade e
liberdade. Isso não quer dizer que a humanidade em Adão, antes da queda,
estava no seu mais alto estado de excelência. É bem possível que o estado de
maior excelência seja aquele em que os homens estiverem após a conclusão da
redenção deles, porque nem mesmo serão expostos ao pecado, em virtude de sua
união com Cristo. Serão os homens, certamente, elevados a uma condição de
maior glória do que aquela que Adão teve antes da queda. Contudo, é importante
ter-se em mente que essa glória futura do homem é devida à sua união com
Cristo, o redentor dos filhos de Deus.
Quando dizemos que Adão foi criado num estado de maturidade, estamos
dizendo que ele não foi criado num estado de infância, como todos os outros
seres humanos que vieram ao mundo. Diferentemente dos outros humanos, Adão
não teve um desenvolvimento de sua inteligência ou de outras das suas
faculdades, como nós o temos. Deus fê-lo completo, sem lhe acrescentar nada
posteriormente.

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Quando dizemos que Adão foi criado perfeito, estamos querendo dizer que ele
era perfeitamente adaptado ao fim para o qual foi criado e na esfera na qual foi
designado viver. Seu corpo e alma eram perfeitamente adaptados um ao outro.
Adão era perfeito na sua criação. Era livre de qualquer corrupção ou deficiência.
Não havia nada na sua natureza que pudesse dar a idéia de fraqueza ou falha.
O estado primeiro de nossa raça, não foi como os livros chamados científicos
dizem, de primitivismo ou de barbarismo, que se evoluiu até se tornar o homo
sapiens, desenvolvido, como o conhecemos hoje. De forma alguma! Deus criou o
homem perfeito que, com o passar dos tempos e levado pela queda, veio a sofrer
algum tipo de involução, passando a viver em estado de "barbarismo".
Quando dizemos que Adão foi criado num estado de liberdade, estamos
querendo dizer que Ele possuía tanto a capacidade de permanecer na condição
em que foi criado, isto é, santo, mas de tal forma que também pudesse cair do
estado em que foi criado, agindo contra a sua natureza.
Adão era livre de qualquer corrupção, doença ou morte. Não havia nada na
sua constituição que pudesse denotar fraqueza ou falha. O estado primitivo de
nossa raça, portanto, não foi de barbarismo, ou o produto de um processo de
desenvolvimento longo e gradual.
Pelo ensino geral das Santas Escrituras e das ciências, podemos concluir:
— que o homem foi criado na perfeição de sua natureza. Por perfeito não
queremos dizer num estado de pleno desenvolvimento, mas perfeito no sentido de
não haver qualquer falha na sua natureza. Esta é uma matéria decisiva para os
cristãos;
— que as tradições de todas as nações falam de uma "era dourada", da qual
os homens caíram. Tem havido uma involução da raça no sentido ético e moral,
não uma evolução para um estado melhor. O estado primitivo de homem segundo
a narrativa da Escritura, está em harmonia com as melhores tradições de nações
antigas;
— que os mais antigos registros em escritos e monumentos têm
demonstrado a existência de nações no mais alto grau de civilização em períodos
bem antigos da história humana;
A teoria de que a raça humana passou através da idade da pedra, bronze,
ferro, estágios de progresso do barbarismo para a civilização, é destituída de
comprovado fundamento científico.
Tem sido crença universal de que o estado original do homem é aquele que a
Bíblia ensina. Seu mais alto estado começou no Éden. O que existe hoje são
civilizações que vão se deteriorando, como já aconteceu no passado com muitas
delas.
É verdade que as civilizações mais modernas têm tido a oportunidade de
desenvolver suas potencialidades nas áreas das ciências e da filosofia, mas nunca
houve um desenvolvimento na personalidade ou nas faculdades da alma
humana. O homem foi sempre o mesmo em todas as épocas.

O homem edênico era imortal


O termo imortal aqui não deve ser entendido como significando que o homem
nunca morreria. É verdade que, se ele não pecasse, ele jamais morreria, mas o
pecado entrou no mundo causando-lhe a morte. Deus fez o homem perfeito em
sua composição material e imaterial, e isso o tornaria apto para viver
eternamente na presença de Deus (não apenas mera existência, mas existência
em comunhão com Deus). Thomas Boston diz que “a perfeita constituição de seu
corpo, que veio da boa mão de Deus, e a retidão e santidade de sua alma,

5
removeram todas as causas interiores da morte; nada sendo preparado para a
boca devoradora da sepultura, exceto o vil corpo e aqueles que pecaram.”4 Deus
fez a sua criatura mais importante de modo perfeito de forma que o homem
deveria existir em comunhão perene com ele, mas a queda trouxe prejuízos para
o homem que foi afastado dessa comunhão, morrendo todos os tipos de morte a
que nos referiremos mais tarde: espiritual, física e eterna.
Mas ainda assim, o homem pode ser considerado como um ser imortal. Por
imortal aqui nós queremos dizer que Deus fez o homem com existência
continuada. Uma vez vindo à existência, ele nunca mais deixaria de existir. Não é
sem razão que o Pregador diz que “Deus botou a eternidade no coração do
homem” ().

3. O HOMEM EDÊNICO ERA SANTO


A Confissão de Fé de Westminster, com tradição Agostiniana5 e Calvinista,
assevera que o homem foi criado no estado de "inocência". Por “inocência” os
padrões de Westminster querem dizer que o homem, quando criado, não tinha
qualquer mancha ou pecado, nem propensão para pecar, embora pudesse cair do
estado em que foi criado.6 Shedd contesta que a palavra inocência seja a melhor
para explicar o estado de Adão antes da queda. Com precisão ele diz que
"santidade é mais do que inocência. Não é suficiente dizer que o homem foi
criado no estado de inocência. Isto seria verdadeiro, se ele houvesse sido
destituído de sua disposição moral, para o errado ou para o certo. O homem foi
criado não somente negativamente inocente, mas positivamente santo". 7
Deus fez o homem positivamente santo no seu caráter. Nada errado poderia
ter saído das mãos de Deus. Deus dotou os homens de "inteligência, retidão e
perfeita santidade, segundo a Sua própria imagem."8 Estas coisas têm sido cridas
pelos grupos de tradição Agostiniana e Calvinista, mas têm sido negadas em
movimentos teológicos na história da Igreja, como o Pelagianismo 9 e o Semi-
Pelagianismo.10 O Semi-Pelagianismo, que, com algumas variações, no
protestantismo assume o nome de Arminianismo, através de alguns de seus

4 Thomas Boston, Human Nature in its Fourfold State (Edimburgo: The Banner of Truth Trust,
1997), 52.
5 Agostinho disse: "A natureza do homem, de fato, foi criada sem qualquer falha e sem nenhum
pecado; mas aquela natureza do homem na qual cada um é nascido de Adão, necessita agora do
Médico, porque ela não é sadia mais." (On Nature and Grace, 3, citado por Norman Geisler, What
Augustine Says, (Baker, 1982), p. 96.
6 Ver CFW, IX, ii.
7 W. G. T. Shedd, Dogmatic Theology, vol. 2, (Nashville: Thomas Nelson Publishers, 1980 edition),
p. 96.
8 CFW, IV,ii.
9 Os Pelagianos não aceitam a santidade congênita do homem. A idéia do pelagianismo era que a
vontade do homem era neutra, sem qualidades morais em si mesma. Através de um ato da
vontade, o homem se torna bom ou mau. A neutralidade moral é característica do Pelagianismo.
Shedd diz que "a posteridade de Adão é nascida como ele, sem santidade e sem pecado." (Shedd,
vol. 2, p. 96).
10 O Semi-Pelagianismo também sustenta quase a mesma posição, embora considere os efeitos
da queda, que o Pelagianismo não considera. O Semi-Pelagianismo crê que o homem tem a
iniciativa nos atos maus, tanto quanto nos bons. Nestes últimos, ele tem a cooperação
conseqüente de Deus. Shedd diz que o "Semi-Pelagiano assevera que a santidade, igual ao
pecado, deve ser auto-originada em cada indivíduo. A antropologia Tridentina é uma mistura de
Pelagianismo e Agostinianismo." (Shedd, vol. 2, p. 96).
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defensores, nega o caráter original santo do homem por sustentar a tese do


donum superadditum 11 à natureza constitucional do homem.
O Calvinismo, contudo, afirma categoricamente a santidade original do
homem, em consonância com as Sagradas Escrituras.12

DEUS FEZ O HOMEM RETO


Análise de Texto
Ec 7.29 – “Eis o que tão-somente achei: que Deus fez o homem reto, mas ele
se meteu em muitas astúcias.”
Por “homem” aqui devemos entender a raça humana representada por
nossos primeiros pais, que são também a raiz de todos os outros seres humanos.
Por “reto” devemos entender “santo”, não simplesmente como entenderam os
pais da fé reformada do passado, dizendo que Adão foi criado no “estado de
inocência”. Na verdade, Adão foi feito sem qualquer mancha, sem qualquer
defeito, sem qualquer corrupção ou imperfeição, tanto no corpo como na alma.
Ele foi criado puro, refletindo a justeza e retidão do seu Criador. Adão foi em alta
medida o que Davi o foi numa medida bem menor: Adão foi feito “o homem
segundo o coração de Deus”. Certamente essa citação bíblica cabe muito melhor
no Adão edênico do que no Davi remido, porque quando ela foi dita a respeito de
Davi, este ainda era um pecador.
A justiça original era parte integrante da imagem de Deus que Adão portava.
Deus soprou nele a vida e lhe deu toda a santidade para viver num lugar santo
que ele havia criado para o deleite de sua criatura.
“Mas ele se meteu em muitas astúcias”. Esta frase coloca um fim na
retidão humana. Ela aponta para a queda humana que foi a sua ruína. Por causa
de sua atitude Adão foi lançado para fora do lugar santo, perdeu a comunhão
vital com Deus, arruinou toda a sua vida, e a vida de sua progênie. Todavia, Deus
logo prometeu a restauração do homem no descendente da mulher, porque o
plano de Deus era que o homem, num determinado momento da história, fosse
trazido de volta à sua condição de retidão e santidade plenas.
“Eis o que tão somente achei” – O escritor sacro não precisou fazer
excessiva pesquisa para descobrir o que havia acontecido com os nossos
primeiros pais e com a sua progênie. Nos dois versos anteriores, o Pregador diz:
Ec 7.27-28 - “Eis o que achei, diz o Pregador, conferindo uma coisa com
outra, para a respeito delas formar o meu juízo, juízo que ainda procuro e não o
11 Qual é a razão desse posicionamento Semi-Pelagiano? A razão está no fato de a santidade ser
algo acrescido posteriormente à criação do homem, não fazendo parte originalmente dela. A isso
eles chamam "donum superadditum". O que é o donum superadditum? É um dom gracioso de
Deus que foi acrescido após a criação, mas antes da queda. O conceito surge da dificuldade de se
explicar o problema da capacidade hipotética de Adão e Eva de reterem a sua justiça original. Sem
essa graça adicional, Adão não seria capaz de resistir no estado de retidão. Na verdade não houve
uma concordância absoluta entre os teólogos medievais sobre se o donum superadditum fazia
parte da natureza original do homem. Tomás de Aquino sustentava que o donum superadditum
era parte da constituição original do homem, e que sua perda foi a perda da capacidade original
para a justiça. Visto que essa graça acrescentada não foi merecida no começo, ela não poderia ser
reconquistada por mérito após a queda. A teologia Franciscana, particularmente aquela orientada
no final da Idade Média por Scotus, argumentava que o donum superadditum não era parte da
constituição original do homem ou sua justiça original, mas foi considerado como um dom
merecido pelo primeiro ato de obediência da parte de Adão, apresentado por ele de acordo com
sua capacidade puramente natural. Visto que Adão podia, num ato finito ou mínimo, merecer o
dom inicial da graça de Deus, o homem caído deveria, por apresentar um ato mínimo, também
merecer o dom da primeira graça (Richard A. Muller, Dictionary of Latin and Greek Theological
Terms, (Baker, 1986), p. 96.
12 Ver, como exemplo, Ec 7.29; Cl 3.10.
7
achei: entre mil homens achei um como esperava, mas entre tantas mulheres não
achei nem sequer uma.”
O Pregador apenas conferiu os fatos. Estava difícil encontrar um homem e
uma mulher do jeito que ele esperava achar. A causa da falta de homens
“segundo o coração de Deus” estava na loucura dos nossos primeiros pais. Não é
necessário se ler muitos livros para descobrir a loucura que os homens vivem
hoje. A experiência e o estudo da Palavra de Deus nos mostram muito claramente
a situação calamitosa em que hoje nos encontramos devido às “astúcias” em que
Adão se meteu.
No entanto, não é essa a opinião que os homens de nosso tempo têm de si
mesmos. Eles não se acham a si mesmos ímpios. O julgamento que emitem sobre
si mesmos é muito acima da realidade deles. Pensam de si mesmos muito além
do que convém. É porque eles não olham o que a Escritura diz a respeito da
pecaminosidade deles. Quando a pregação da Palavra lhes cai nos ouvidos, a
verdade da corrupção humana é dolorida, mas a finalidade da pregação é
também a de pregar que um dia, em Cristo, o homem que veio das mãos do
Criador vai voltar a ser o que originalmente foi – reto!

ADÃO ERA RETO EM SEU ENTENDIMENTO


O conhecimento tem a ver com o entendimento. A fim de que o homem seja
santo ele tem que entender e apreender as coisas de Deus. O conhecimento que
Adão e Eva possuíam antes da queda era diferente daqueles que tiveram depois
da queda. Isto é provado por Gn 2.5 - "Ora, um e outro, o homem e sua mulher,
estavam nus, e não se envergonhavam". - Eles estavam conscientes da sua
santidade, e não possuíam nenhuma consciência de pecado. Mas quando eles se
apartaram de Deus, o conhecimento do mal veio. Gn 3.7 diz: "Abriram-se, então,
os olhos de ambos; e, percebendo que estavam nus, colheram folhas de figueira, e
fizeram cintas para si."
Deus, então, após a queda do homem disse em Gn 3.22: "Eis que o homem
se tornou como um de nós, conhecedor do bem e do mal".13 Deus conhece o bem
conscientemente, mas o mal intuitivamente, através de sua onisciência. E seu
conhecimento do bem e do mal é perfeito, embora Ele nunca tenha conhecido
este último experimentalmente.
Antes da queda, contudo, o homem conhecia o bem conscientemente e o mal
apenas especulativa e teoricamente. Nesse sentido, o seu conhecimento do mal
foi imperfeito, porque ele não possuía a mesma onisciência de Deus. Depois da
queda, contudo, o homem passou a conhecer o mal conscientemente e o bem
apenas especulativa e teoricamente (Gn 3.7-8; 1 Co 2.14). Com respeito ao
conhecimento do pecado e da santidade no homem antes da queda e depois dela,
Shedd diz:
“Assim parece, que em Adão a consciência do conhecimento experimental da
santidade implicava somente em um conhecimento inadequado e especulativo do
pecado; e o conhecimento experimental consciente do pecado implicou somente
num conhecimento especulativo e inadequado da santidade. O homem santo era
ignorante do pecado, e o pecador era ignorante da santidade.” 14

13 Através de Sua apostasia, Adão veio a ter um conhecimento do mal, similar ao de Deus
(embora Deus nunca tivesse pecado), e foi um conhecimento completo do pecado, pois ele o
experimentou. Foi um conhecimento do mal consciente e idêntico ao de Satanás, porque foi
conhecimento experimental e consciente.
14 Shedd, vol. 2, p. 98

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CURSO DE ANTROPOLOGIA

Quando ainda estava no Éden, Adão tinha um entendimento perfeito da lei


de Deus. Feito à imagem do Criador, Adão conhecia perfeitamente a vontade de
Deus, porque esse conhecimento da lei de Deus era parte da imagem divina
estampada nele. Em princípio, ele cumpriu todas as exigências de Deus,
obedecendo suas ordens. Ele entendeu perfeitamente o que Deus queria dele,
dando um nome inteligente a todos os animais que lhe foram trazidos por Deus
(Gn 2.17). Além de dar nome aos animais todos, porque conhecia a natureza
deles, Adão recebeu a capacidade de domínio sobre toda a natureza, o que
implica no conhecimento das leis da natureza. “Além de tudo isso, o seu perfeito
conhecimento da lei prova o seu conhecimento na administração dos afazeres
civis, que, com respeito da lei de Deus, um bom homem guiará com discrição.” 15
Não somente Adão havia recebido ordens expressas de Deus, mas também
em sua alma estavam gravados os princípios morais de vida que, mais tarde,
viriam a nortear o povo no tempo de Moisés (Rm 2.14). Deus havia impresso em
seu santo entendimento as suas prescrições para que houvesse vida santa no
jardim de Deus. Mesmo depois da queda ele não perdeu a lei gravada, mas
perdeu o entendimento dela. É por essa razão que, em Cristo, o pecador remido
tem restaurado o conhecimento de Deus, que é segundo a imagem de Deus (cf. Cl
3.10).

ADÃO ERA RETO EM SUAS AFEIÇÕES


Boston, Fourfold State, p. 42-43)
ADÃO ERA RETO EM SUAS VOLIÇÕES
Adão não somente entendia as ordens de Deus corretamente, nem somente
tinha suas afeições ordenadas e ajustadas às leis de Deus, mas as volições de
Adão estavam perfeitamente concordes com seu entendimento e afeições. Ele
fazia o que combinava com o seu entendimento e com as suas afeições. Não havia
em seu coração reto qualquer inclinação para o pecado, mas somente para o que
era santo. Ele desejava somente coisas santas e tinha capacidade de fazê-las
(diferentemente de Paulo e de todos nós hoje, cf. Rm 7.18, que lutamos com a
inclinação pecaminosa que ainda nos molesta!) Enquanto no Éden, Adão nunca
foi molestado por qualquer desejo de fazer coisas impuras. As suas volições eram
santas.
“Uma inclinação para o mal é realmente uma fonte de pecado, e, portanto,
inconsistente com essa retidão e santidade que o texto expressamente diz de que
ele era revestido em sua criação. A vontade do homem, então, era dirigida e
naturalmente inclinada para Deus e para a bondade, embora fosse mutável.” 16
À semelhança de Jesus Cristo, do qual Adão é o tipo, originalmente a vida
dele era fazer a vontade de Deus, pois suas volições eram inclinadas somente
para o bem. Como a sombra acompanha os movimentos do corpo, assim Adão
acompanhava os movimentos divinos. Era perfeito em sua capacidade de fazer a
vontade de Deus.
Continuar Boston, p. 41

15 Thomas Boston, Human Nature in its Fourfold State (Edimburgo: The Banner of Truth Trust,
1997), 41.
16 Thomas Boston, Human Nature in its Fourfold State (Edimburgo: The Banner of Truth Trust,
1997), 41.
9
A fim de que o homem seja santo, ele deve desejar e ter prazer em Deus e
nas coisas divinas. 17 Quando Deus criou a vontade no homem, Ele criou,
portanto a inclinação, porque vontade e inclinação são inseparáveis.
A vontade humana é por criação voluntária, como o entendimento humano
por criação é cognitivo. Quando Deus cria o entendimento, ele o capacita com
idéias inatas, e leis de pensamento, por virtude do qual ela é uma faculdade
inteligente. Este é o conteúdo do entendimento. E quando ele cria a vontade
humana, ele a capacita com uma inclinação, ou disposição, ou uma auto-
determinação...em virtude da qual ela é uma faculdade voluntária. 18
Essa inclinação era originariamente santa. O homem não era
originariamente um ser moral neutro, mas possuía inclinações que refletiam
Aquele que o havia criado.
A inclinação e a disposição moral com a qual o homem foi criado, consistiam
numa harmonia perfeita de sua vontade com a lei Divina. A concordância era tão
perfeita e total, que não havia distinção entre as duas na consciência do Adão
santo. A inclinação era um dever, e o dever era uma inclinação... Numa perfeita
condição moral a lei e a vontade eram uma coisa só, como na esfera da natureza
física, as leis da natureza e as forças da natureza são idênticas. 19
Na verdade, o homem santo não precisa de lei do mesmo modo que os caídos
precisam. A lei, no fundo, é dada para aqueles que estão no estado de
desobediência, mas para os que estão em santidade a lei e o desejo de cumprir a
lei são a mesma coisa (Ver 1 Tm 1.8-9).
A santidade positiva, com que o homem foi capacitado na criação, consistia
de um entendimento iluminado no conhecimento espiritual de Deus e de Suas
coisas, e uma vontade totalmente inclinada para elas.

ASPECTOS DA SANTIDADE DE ADÃO

Santidade Derivada e Finita


A santidade em Deus é essencial e infinita. Diferentemente de Deus, a
santidade no homem é derivada e finita.
É derivada porque não faz parte da essência do homem, embora
originariamente ela tenha sido dada ao homem. Deus tem santidade essencial,
sem a qual Ele não pode ser o que é. O homem originalmente possuía santidade,
mas ele a perdeu, mas assim mesmo ele continuou sendo exatamente o que é:
homem. Ele não continuaria sendo homem se a santidade fosse essencial nele.
É finita porque é santidade de criatura dependente. Por essa razão é uma
santidade mutável. A santidade no homem é dependente, em última instância, da
ação do Criador. Deus a deu às Suas criaturas racionais, homens e anjos, mas
eles a perderam voluntariamente, porque a santidade neles é algo finito e
dependente de uma ação direta, imediata do Criador. Se o Criador decide
definitivamente não mantê-las em santidade, elas voluntariamente a perdem.
Este aspecto da santidade de Adão será tratada mais detidamente no
capítulo sobre a Imagem de Deus, quando tratarmos da Justiça original.

17 Idéias tiradas de Shedd, vol. 2, pp. 97-98.


18 Shedd, vol. 2, p. 100.
19 Shedd, vol. 2, p. 98.

10
CURSO DE ANTROPOLOGIA

4. O HOMEM EDÊNICO ERA UM SER LIVRE


Quando estudamos sobre a responsabilidade do ser humano, não podemos
deixar de tocar no delicado assunto do livre-arbítrio. É uma pena que poucos
volumes tocam seriamente neste assunto, à luz da Escritura. Grande
desentendimento tem havido entre os estudiosos desta matéria por causa da
impropriedade no entendimento e no uso desses termos, mesmo nos círculos
Reformados.
Neste estudo fazemos uma diferença entre os dois termos usados acima. O
primeiro foi uma propriedade singular de nossos primeiros pais; o segundo é
propriedade inalienável de todos os seres humanos.
Livre Arbítrio - Se por livre-arbítrio entende-se a liberdade que a vontade
tem, sendo independente dos outros movimentos da alma humana, ou seja, da
razão e das afeições, devemos negar a existência dele. A vontade, como uma das
faculdades da alma humana, não é soberana ou independente das outras, mas
depende do julgamento da razão ou das disposições afetivas que a influenciam.
Uma pessoa não toma nenhuma decisão sem que seja levada pelo crivo da razão
ou das emoções.
Se por livre-arbítrio entende-se a escolha livre que a vontade faz,
independente das outras partes da alma humana, temos que negar esse livre-
arbítrio, porque a vontade humana não controla as outras faculdades, mas é
serva delas. As decisões da vontade são sempre calcadas nas disposições das
outras faculdades.
Então, quer dizer que os Reformados negam a doutrina do livre-arbítrio?
Não. A fé Reformada não nega o livre-arbítrio. A resposta a essa pergunta
depende, portanto, do entendimento que temos dele. A fé Reformada afirma o
livre arbítrio, mas o entende da seguinte forma: é a capacidade que nossos
primeiros pais tiveram, quando criados, de escolherem as coisas que combinavam
com a sua natureza santa, mas que, mutavelmente, pudessem escolher aquilo
que era contrário à sua natureza santa.
A Confissão de Fé de Westminster traduz essa idéia assim:
"O homem, em seu estado de inocência, tinha a liberdade e o poder de querer
e fazer aquilo que é bom e agradável a Deus, mas mudavelmente, de sorte que
pudesse decair dessa liberdade e poder." (IX, 2)
Adão possuiu essa capacidade de fazer tudo o que era justo e santo, mas
também foi dotado com a capacidade de fazer alguma coisa que era contrária à
santidade com que foi originalmente criado. Ele possuiu aquilo que ninguém hoje
mais possui, isto é, a capacidade de fazer algo que é contrário à sua natureza
moral. Ele teve, nesse sentido, a capacidade para uma escolha contrária, isto é,
com natureza santa, escolheu o que era mau.
Livre Agência - Esta é uma capacidade que todos os seres humanos
possuem. Ninguém pode prescindir dela, pois esta é uma característica de um ser
racional. É essencial no homem a livre-agência. Sem ela o homem deixa de ser o
que é: um ser racional. Homens e anjos agem de acordo com a natureza deles,
sendo para eles impossível agir de modo contrário a ela.
A livre agência, então, poderia ser definida como a capacidade que todos os
seres racionais têm de agir espontaneamente, sem serem coagidos de fora, a
caminharem para qualquer lado, fazendo o que querem e o que lhes agrada,
sendo, contudo, levados a fazer aquilo que combina com a natureza deles.
A CFW traduz este pensamento nestas palavras: "

11
"Deus dotou a vontade do homem de tal liberdade, que ele nem é forçado
para o bem ou para o mal, nem a isso é determinado por qualquer necessidade
absoluta de sua natureza."(IX,1)
Os agentes livres agem espontaneamente, com a auto-determinação da
vontade deles. Eles não são seres amorais. Sempre penderão para um lado ou
para outro, dependendo de como são interiormente. Os seres racionais são seres
morais que agem conforme as suas disposições interiores. A vontade deles não
age independentemente da natureza deles. A vontade deles é sempre inclinada a
pender para um lado ou para o outro em termos morais. Ela não existe num
equilíbrio de indiferença. Anselmo contende que "se a vontade do homem ou de
um anjo é suposta ser criada num estado de indiferença, sem qualquer inclinação
para nada, então, não poderia começar qualquer ato de forma alguma. Ela
permaneceria indiferente para sempre, e nunca teria qualquer inclinação." 20 Se a
vontade do homem está em indiferença moral, nenhum homem pode ser
responsabilizado por nada do que faz, porque ele não começa nenhum ato. Mas a
Escritura apresenta o homem de uma outra maneira. Ele foi criado com
disposição e com inclinação, e sua disposição ou inclinação está sempre ligada à
sua condição moral. Adão foi criado não somente com a livre agência, mas
também com o livre-arbítrio, com a capacidade de escolha contrária que nenhum
de seus descendentes veio a possuir. Ela foi perdida com a queda. Nesse sentido,
nossos primeiros pais foram singulares. Os seus descendentes, agora, não mais
podem agir de modo contrário à sua natureza.
Mas é importante que não percamos de vista este ponto: o ser racional é
sempre movido pelo seu ego. Nunca ele é movido por outra coisa que não seja por
seu próprio ego. Quando ele faz coisas pecaminosas, ele obedece ao seu ser
interior pecaminoso. Quando ele faz coisas santas e justas, ele o faz mediante o
seu eu interior que foi renovado pelo Espírito Santo. A responsabilidade dele
sempre estará diretamente ligada à voluntariedade do seu ato. Todos os atos dele
devem ser auto-inclinados e auto-determinados. O homem possui
responsabilidade em tudo que faz, porque tudo que faz é produto das disposições
de sua natureza interior.
Para fins didáticos é bom que se distinga a inclinação do ato volitivo. Shedd
faz essa distinção que ajuda bastante:
A ação central da vontade está na pronta inclinação; e a ação superficial em
sua volição momentânea está numa instância particular. O ódio de um assassino
é a atividade central da sua vontade; o ato do assassinato é superficial. Ambos
são auto-movidos, para que haja responsabilidade e culpa. E ambos são auto-
movidos. O assassino não é forçado a odiar. Ele é desejoso no seu ódio, e em
todos os seus desejos morais e sentimentos;...Todavia, enquanto a atividade
central e superficial são iguais no que diz respeito ao livre-movimento, elas são
diferentes no que diz respeito à capacidade para coisas contrárias. A atividade
superficial, ou o ato volitivo, é acompanhado com este poder; a atividade central,
ou a inclinação, não é. O assassino pode refrear-se no ato de matar, por uma
ação volitiva, mas ele não pode refrear o seu desejo interior, o ódio que pode levar
ao assassinato. Uma volição pode parar uma outra volição, mas uma volição não
pode parar uma inclinação. Um homem pode reverter sua volição pecaminosa,
mas não pode reverter sua inclinação pecaminosa. 21
Portanto, para que haja responsabilidade, não é necessário que haja o poder
de escolha contrária, mas sim, que haja o poder de auto-determinação, que a ação
20 Citado por W.G.T. Shedd, Dogmatic Theology, vol. 2, p. 101.
21 Shedd, vol. 2, p. 103-104.

12
CURSO DE ANTROPOLOGIA

seja nascida nas inclinações do ser racional. "A fim de responsabilizar o pecador
por uma inclinação pecaminosa, não é necessário que ele seja capaz de reverter
sua inclinação pecaminosa. É necessário somente que ele seja capaz de originar a
ação, e que ele de fato a origine".22
Para ser responsável por seus atos, portanto, o homem tem que
simplesmente agir de acordo com sua vontade, espontaneamente, sem ser
forçado de fora por ninguém. Apenas ele age de acordo com as suas disposições
interiores.
Originalmente, antes da queda, o homem teve tanto o livre arbítrio como a
livre agência. Depois da queda o homem ficou somente com a livre agência, pois
perdeu tanto o desejo quanto a capacidade de fazer o bem, isto é, o poder de agir
contrariamente à sua natureza pecaminosa.

A LIBERDADE E A MUTABILIDADE PARA O PECADO


Deus criou o homem com capacidade de auto determinar-se, um agente
livre, para agir sempre de acordo com as disposições do seu coração. Ele poderia
fazer tanto o bem, que era próprio de sua natureza, mas também poderia,
mudavelmente, fazer o que era contrário à sua natureza, pecando contra o
Senhor Deus e Suas leis.
Novamente a CFW diz:
O homem, em seu estado de inocência, tinha a liberdade e o poder de querer
e fazer aquilo que é bom e agradável a Deus, mas mudavelmente, de sorte que
pudesse decair dessa liberdade e poder. (IX.2)
Deus criou o homem com uma santidade mutável. Como já foi dito acima, a
santidade no homem não era parte essencial nele, como o é em Deus. Santidade
não é um atributo constitucional do homem. A prova disso é que ele a perdeu e,
ainda assim, continua sendo homem. Deus é livre na expressão da Sua
santidade, e ela é sempre a mesma, por causa da própria natureza imutável de
Deus. Deus nunca vai fazer alguma coisa diferente daquilo que Ele é. Por isso Ele
não pode pecar. Sua vontade quer sempre aquilo que a Sua natureza determina.
Na Sua infinitude há a exclusão da idéia de mudança na vontade. Deus não tem
o poder de escolha contrária, isto é, de fazer algo que vá de encontro à Sua
natureza. Deus é um ser moral livre, todavia só faz aquilo que é próprio da Sua
natureza. Portanto, em Deus liberdade e necessidade moral são a mesma coisa.
Para que haja liberdade, não há a necessidade de haver o poder de escolha
contrária.
A liberdade em Deus é uma auto-determinação imutável, mas no homem,
como ser finito que é, a capacidade de auto-determinação ou seja, a capacidade
de fazer as coisas de acordo com a natureza, é mutável. Deus deu ao homem, no
princípio, aquilo que Ele próprio não possuía, a capacidade de escolha contrária.
O homem era livre para expressar a santidade com a qual Deus o havia criado,
mas de tal modo que pudesse também fazer algo contrário à sua santidade. Para
que Adão fosse livre, ele não precisava ter o poder de fazer algo reverso. "O poder
de reverter a auto-determinação existente não é a substância da liberdade, mas é
um acidente dela." 23 Deus é livre sem esse acidente. Mas Deus deu à criatura
essa capacidade de escolha contrária, e ela a usou para a sua própria vergonha.
Por isso é possível entender como uma pessoa santa como Adão poderia fazer
o que fez. Ele usou a capacidade de escolha contrária que lhe foi dada por Deus.

22 Shedd, vol. 2, p. 105.


23 Shedd, vol. 2, p. 107.

13
Há que se olhar essa atitude de Adão de um outro prisma. Ele era
simplesmente uma criatura perfeita. Como criatura, contudo, dependia de Deus
para todas as coisas da vida natural, como dependia de Deus para que sua vida
de comunhão com Ele continuasse. É próprio de toda a criação essa dependência
de vida. Vida é algo que é dado, mantido e renovado por Deus. E Adão era santo,
mas apenas uma criatura, desprovida de qualquer senso de onisciência, passível
de ser enganada, que poderia pensar no mal como algo que não fosse tão mal
assim. Embora a condição moral do homem fosse de excelência, sem tendência
para o mal, todavia, poderia cair desse estado.
Toda a criatura tem algo que Deus não tem — mutabilidade. Esta é uma das
grandes distinções entre Deus e a criatura. Imutabilidade e impecabilidade são
atributos do Criador, não das criaturas, sejam elas homens ou anjos.
A liberdade de Adão e Eva consistia no fato de fato deles poderem escolher
ou abraçar aquilo era bom e agradável ao seu entendimento, como Deus queria,
ou para colocar de outro modo, em recusar aquilo que era mau. Eles tinham o
poder de continuar no estado em que foram criados. Era só agirem de acordo com
a natureza santa que Deus lhes havia dado. Mas não foi assim que fizeram.
Simplesmente puseram em ação a capacidade de fazer aquilo que era contrário à
natureza deles. Contudo, desobedeceram a Deus, agindo voluntariamente,
constituindo-se numa situação singular em toda a história humana. Usaram da
liberdade de escolha contrária que tiveram para perderem-se a si mesmos,
imergindo-se a si mesmos e toda a raça na escravidão da miséria.

5. O HOMEM EDÊNICO ERA UM SER DEPENDENTE E RESPONSÁVEL

Esta parte trata do homem como criatura e como pessoa. São dois aspectos
distintos e muito importantes para que compreendamos as peculiaridades da
“coroa da criação”. Como criatura o homem é dependente e como pessoa o
homem é livre e responsável. Esta matéria pode ser desenvolvida da seguinte
maneira:
Deus criou o homem à sua própria imagem e semelhança. Uma
característica importante dessa criação é que o homem é uma pessoa humana
"que não existe autonomamente ou independentemente, mas como uma criatura
de Deus".24
O fato de o homem ser uma criatura o torna absolutamente dependente.
Para colocar de uma forma diferente, Shedd diz: "A natureza dependente da
santidade finita implica que ela é criada."25 Todas as coisas criadas têm um
sentido de absoluta dependência do Criador (Ne 9.6). Não há nada que não
precise da assistência providencial de Deus.
Mas como uma pessoa que é, o homem tem um certo grau de independência,
"não uma dependência absoluta, mas relativa. Ser uma pessoa significa ser
capaz de fazer decisões, de estabelecer metas e de mover-se em direção às metas
estabelecidas. Isto significa possuir liberdade — ao menos no sentido de ser
capaz de fazer suas próprias escolhas. O ser humano não é um robot cujo curso é
totalmente determinado por forças externas. Ele tem o poder de auto-determinar-
se e de auto-dirigir-se". 26

24 Anthony Hoekema, Created in God's Image, (Grand Rapids: Eerdmans, 1986), 5.


25 W.G.T. Shedd, Dogmatic Theology, vol. 2, (Nashville: Thomas Nelson Publishers, 1980 ed.),
101.
26 Hoekema, 5.
14
CURSO DE ANTROPOLOGIA

O homem é, portanto, uma criatura e uma pessoa. Como criatura é


dependente totalmente de Deus, e como pessoa possui uma independência
relativa no sentido de poder tomar decisões, que não é o caso de outra criatura
não racional.
"Ser uma criatura, portanto, significa que eu não posso mover um dedo ou
emitir uma palavra sem a ajuda de Deus; Ser uma pessoa significa que quando
meus dedos são movidos, eu os movi, e quando as palavras são emitidas dos
meus lábios, eu as emiti. Ser criatura significa que eu sou barro e que Deus é o
oleiro (Rm 9.21); ser uma pessoa significa que somos aqueles que moldamos
nossas vidas pelas nossas decisões (Gl 6.7-8)".27
É importante que se faça essa distinção para que vejamos a grande diferença
que há entre nós e os seres irracionais, que agem instintivamente, e para que se
tenha clara na mente a idéia de que dependência e liberdade não são conceitos
incompatíveis entre si. Os dois conceitos estão claramente presentes na
Escritura. Estas duas verdades devem ser preservadas para o correto
entendimento do que seja o homem. Alguns conceitos antropológicos e
soteriológicos são distorcidos justamente porque os estudiosos não distinguem
corretamente o fato de o homem ser criatura e pessoa. Há que se guardar ambas
as idéias juntas, em equilíbrio.
Se enfatizarmos em excesso o fato do homem ser criatura, subordinando sua
pessoalidade, haveremos de cair num determinismo, onde o homem não tem
qualquer participação na realização da sua própria história. Deus é o Senhor da
história, mas os homens, nesse caso, seriam meros robots. Nesse caso o homem
"é desumanizado".28 Quando damos ênfase exagerada na pessoalidade, em
detrimento do caráter de criatura do homem, "o homem é divinizado e a
soberania de Deus é comprometida."29 Neste caso a ênfase na pessoalidade
tornaria Deus um servo do homem. Estes extremos devem ser evitados. Temos
que ter uma visão equilibrada e bíblica da constituição da alma humana.
Estes conceitos são muito importantes para que compreendamos o problema
da responsabilidade do homem nos pecados e nos atos bons que são a expressão
da santificação, assunto esse que já vimos no estudo da providência de Deus.

27 Hoekema, 6.
28 Ver Hoekema, 7.
29 Ver Hoekema, 6
15
3 - A NATUREZA CONSTITUCIONAL DO HOMEM

Houve sempre dois conceitos predominantes na história da igreja com


respeito à composição da natureza essencial do homem: dicotomia e tricotomia.
Historicamente, especialmente nos círculos cristãos, concebeu-se o homem
composto de duas partes: corpo e alma. No decorrer do desenvolvimento do
pensamento cristão, contudo, apareceu outro conceito que compunha o homem
de três partes: corpo, alma e espírito — a tricotomia.
Este último movimento apareceu por causa da influência da filosofia grega,
que concebeu a relação entre o corpo e o espírito ligados entre si por meio de uma
terceira substância, ou um terceiro elemento, que é a alma. A alma era
considerada, por um lado, como imaterial quando relacionada com o espírito e,
por outro lado, material, quando se relacionava com o corpo. "A forma mais
familiar e mais crua da tricotomia é a que toma o corpo como a parte material
humana, a alma como o princípio da vida animal, e o espírito como o elemento
racional e imortal que há no homem para relacionar-se com Deus." 30 Berkhof
ainda diz: "A alma se apropriava do "nous" (ou pneuma) se fosse considerada
como imortal; mas se fosse relacionada com o corpo, ela era carnal e mortal." 31
O pensamento tricotômico encontrou apoio em vários pais da igreja grega,
nos primeiros séculos da era cristã. O pensamento dicotômico já teve seus
adeptos na igreja ocidental ou latina, como por exemplo, em Agostinho. Na Idade
Média, foi crença comum a dicotomia. Na Reforma aconteceu o mesmo, exceto
uns poucos estudiosos.

BASE ESCRITURÍSTICA DA NATUREZA CONSTITUCIONAL DO HOMEM


A apresentação que a Escritura dá do homem não é a de uma tricotomia
(embora haja dois textos que pareçam favorecer essa corrente), nem da dicotomia
(embora muito mais textos favoreçam, como veremos, a apresentação dicotômica),
mas é a da unidade do homem. Cada ato do homem contempla-se como sendo
um ato do homem completo. Não é a alma que peca, mas o homem que peca; não
é o corpo que morre, mas o homem que morre; não é a alma que Cristo redime,
mas o homem. O homem é uma unidade. Portanto, quando a Escritura fala do
corpo, ela está falando do homem; quando fala da alma, está falando do homem;
ou quando fala do coração, está falando do homem. A concentração das
Escrituras não é nas partes que compõem o homem, mas na unidade que cada
parte apresenta.

Temos sempre que ver o homem como uma unidade. É assim que a Bíblia o
apresenta.

Analisaremos o material bíblico debaixo dos seguintes tópicos:


1. O homem é Corpo ( Adão foi criado um ser material)
2. O homem é Alma (Adão foi criado um ser espiritual)
3) O homem é Coração.

Antes da exposição destes três tópicos, vejamos as palavras hebraicas e


gregas usadas para os termos:
a) Corpo VT — rfpf( ( 'apar) = pó
rf&fB (basar) = carne
30 Berkhof, p. 225, (edição castelhana).
31 Berkhof, p. 225 (edição castelhana).
16
CURSO DE ANTROPOLOGIA

hfl"b:n (nebhlah) = corpo (cadáver)


NT — sw=ma
b) Alma VT — $epeNi (nephesh)
NT — yuxh\n
c) Espírito VT — axUr (ruah)
NT — pneu=ma
d) Coração VT — bfb"l (lebhabh)
b"l (lebh)
NT — kardi/a

1. O HOMEM É CORPO (ADÃO FOI CRIADO UM SER MATERIAL OU FÍSICO)


A) CONSIDERE A ÊNFASE SOBRE HOMEM NOS SEGUINTES TEXTOS:
Gn 2.7 — "Então, formou o Senhor Deus ao homem do pó (rfpf() da terra, e
lhe soprou nas narinas o fôlego da vida, e o homem a passou a ser alma vivente."
Esta é a primeira informação a respeito da natureza constitucional do
homem. Neste verso é-nos dito que o ser humano possui uma natureza física ou
material. Antes dele ser “alma vivente”, já é dito que ele é homem. Contudo,
quando o autor sagrado fala dessa natureza ele não está pensando numa parte
do homem, mas do homem na sua unidade.
Gn 3.19 — "No suor do rosto comerás o teu pão, até que tornes à terra, pois
dela foste formado: porque tu és pó (rfpf() e ao pó tornarás."
Este outro verso de Gênesis mostra a materialidade que o homem é. Antes de
botar a “alma vivente” Deus fez o homem. Novamente posso afirmar que o autor
quis mostrar a natureza terrena do homem, não enfatizar que ele tem um corpo.
Esse corpo (pó) é o homem. Esse elemento de unidade não pode ser perdido de
vista quando se estuda este verso.
Nesses textos acima, embora se esteja falando da parte física do homem, que
é o seu corpo, a ênfase é no homem como uma unidade.
Jó 34.15 — "Toda a carne juntamente expiraria, e o homem voltaria ao pó."
Novamente aqui a ênfase recai sobre o elemento físico ou material do
homem, considerando-o como uma unidade. A verdade é que quem expira é o
homem, não o corpo. A morte é do homem, não do corpo.

EXEMPLO DE DIFICULDADE
Essa é a grande dificuldade que muitos ministros da Palavra enfrentam
quando vão oficiar uma cerimônia fúnebre. Consideremos que a pessoa que
morreu seja cristã. O oficiante geralmente fala de Fulano que foi estar com Cristo,
como se a pessoa consistisse unicamente da sua alma. “O corpo do Fulano”, diz o
oficiante, “vai ser enterrado, mas o Fulano já está no céu”, como se o corpo não
fosse o homem, ou como se o homem não fosse corpo.
Embora a morte separe o homem (alma) de si mesmo (corpo), devemos
sempre pensar no ser humano como uma unidade. Quem morre é o homem (não
o corpo) e quem ressuscita é o homem (não o corpo). A morte é a separação do
homem de si mesmo, enquanto que a ressurreição é reunião do homem consigo
mesmo. Isto se dará somente no dia final, quando haverá o completamento da
salvação do pecador.
B) CONSIDERE A EXPRESSÃO: "O HOMEM É ESPÍRITO, MAS ELE TEM UM
CORPO".
Não seria mais próprio dizer que o "homem é corpo"? A Escritura indica que
o corpo representa o homem como uma unidade e também como um ser total,

17
completo. O corpo não é um mero acessório (apêndice, departamento), nem é a
prisão da alma (ou espírito). Se dizemos que o ser humano é um espírito que tem
um corpo, o corpo não tem muita importância.
Mas não é esta a idéia que a Escritura dá do corpo, como já vimos acima.

C) VEJA AS SEGUINTES OBSERVAÇÕES SOBRE ESTA DOUTRINA:


Quando a Bíblia ensina que Adão foi feito "do pó da terra" (Gn 2.7), está
claramente afirmada a natureza material do homem. Desde o princípio houve
uma identificação, harmonia e continuidade da composição humana com este
mundo. O homem é terreno.
Portanto, todas as noções gnósticas da criação material como pecaminosas,
devem ser terminantemente rejeitadas. Deus não somente declarou a criação
material "muito boa" (Gn 1.31), mas fez o homem de elemento material. Vários
textos do NT são respostas às heresias gnósticas, nas quais o universo material
era mau. Veja a luta de Paulo e João contra as heresias gnósticas em Cl 1.19;
2.9; 1 Jo 1.1; 4.2; 5.6-8. Esta é a razão porque Paulo, quando fala da morte, diz a
respeito do anelo próprio do crente em assumir um outro corpo, porque seria algo
anormal não querê-lo (2 Co 5). A morte é um estado anatural para o homem. É
natural para o homem sempre ser corpo. Na morte, o homem fica sem o que é
muito importante nele, o corpo, que é a devida expressão da alma. É de grande
importância para nós o estado de Cristo ressuscitado ser corporal, e o nosso
estado final vai ser similar ao dele. No novo céu e na nova terra, viveremos em
plenitude a nossa humanidade perfeita.
"O corpo não é para ser considerado, como os antigos filósofos pensaram
dele, como a prisão material, da qual o homem deveria ficar feliz se pudesse
escapar na morte. Ele ( o corpo) é parte de si mesmo: uma parte integral de sua
personalidade total, e corpo e a alma em separação, não completam o homem." 32
O ser humano não funciona melhor sem o corpo. O corpo é o veículo
adequado para a expressão da alma. Essas duas realidades são o homem e o
homem é essas duas realidades. É verdade que a criação material foi
amaldiçoada por causa do pecado, )tanto os elementos da natureza como o corpo
humano), mas não por causa da materialidade dele (porque os anjos foram
pecaminosos, sem terem qualquer forma corporal). A materialidade humana
nunca deve ser considerada (como infelizmente alguns o fazem) como uma parte
mais baixa da natureza humana, e a parte espiritual (imaterial) a mais elevada.
Ambas as criações, material e espiritual, são igualmente boas e igualmente
importantes, porque ambas vieram de Deus e vão para Deus (1 Co 6.14-15).
Ambas as partes, igualmente, foram corrompidas pelo pecado e têm que ser
redimidas.
Freqüentemente, num pensamento pecaminosamente distorcido, o espiritual
é identificado com Deus e o material com o diabo. É bom ser lembrado que
Satanás é espiritual (imaterial), e que sua esfera de ação é no mundo material. A
materialidade humana, portanto, jamais deve ser identificada com o mal, pois a
matéria não é má. Ela é criação de Deus.
Corpo e espírito não são antitéticos (isto é, opostos entre si). Não há
necessariamente qualquer conflito entre esses dois aspectos da natureza
humana.

32 James Orr, God's Image in Man, ( Grand Rapids: Eerdmans reprint, 1948), p. 251-52.

18
CURSO DE ANTROPOLOGIA

2. O HOMEM É ALMA (ADÃO FOI CRIADO UM SER IMATERIAL OU ESPIRITUAL)


Não podemos deixar de fazer referência a esse aspecto tão importante da
composição da natureza humana. Este é o outro lado da mesma moeda. Ambos
os elementos, o material e o imaterial, aparecem na narrativa da criação: Adão foi
formado do pó da terra, mas somente quando o espírito foi soprado é que Adão foi
tornado "alma vivente". O fato de Adão ser "alma vivente" não foi único. Em Gn
1.21, 24 e 30 o mesmo é dito de outras criaturas vivas não-humanas. O único
ponto digno de nota na criação do homem é a maneira pela qual Deus fez isso:
Ele soprou em Adão o espírito da vida. Este ato da parte de Deus foi pessoal,
direto, singular, que distinguiu a criação humana (e a vida humana) das outras
vidas animadas (Gn 2.7). O homem pertence aos dois mundos, ao espiritual e ao
físico.
O sopro da vida animada mostra que o homem é mais do que corpo. O
próprio Deus deu vida ao corpo por soprar o espírito nele. Este ato especial
aponta para um caso especial. Este soprar do espírito é a fonte da vida animada,
e sem ela o homem propriamente pode ser chamado de morto (Tg 2.26).
Há uma referência óbvia a Gn 2.7 em Ec 12.7 onde se lê: "e o pó volte a terra
como o era, e o espírito volte a Deus, que o deu."— Está claro que o uso que o
autor de Eclesiastes fez do Gênesis refere-se à natureza dupla do homem.
Diferentemente dos animais, Adão foi formado de um elemento tomado da terra
(pó) e um elemento que veio diretamente de Deus, que Ele "deu". Na morte, estes
dois elementos novamente se tornam distintos, e retornam às suas fontes
distintas. Está claro também que o autor de Eclesiastes entendeu que a vida
humana diferiu da vida animal em sua fonte e composição.
Ec 3.20-21 diz: "Todos vão para o mesmo lugar; todos procedem do pó, e ao
pó tornarão. Quem sabe que o fôlego de vida dos filhos dos homens se dirige para
cima, e o dos animais para baixo, para a terra?" —
Aqui, o princípio que anima é mencionado e usado para ambos os casos, mas
há uma clara distinção entre os dois, o homem e os animais: o espírito do homem
vai para cima, para Deus que o deu (Ec 12.7), enquanto que a "alma" do animal
desce para a terra, de onde veio (Gn 1.24 - "produza a terra seres viventes (hfYax
$epen) conforme a sua espécie..."). O espírito humano, então, é separado do
corpo humano na morte por causa dos aspectos singulares que ele recebeu na
criação (ele veio diretamente de Deus, de cima), enquanto que o poder animador
das outras criaturas é preso aos seus corpos, e ambos deixam de existir como
constituintes daquele animal, sendo sepultados na terra.
Este assunto, o da natureza dual do homem, tem conduzido os estudiosos
àquilo que, infelizmente, tem sido chamado de dicotomia e tricotomia.
A questão do número dos elementos distintos que compõe a natureza
humana é muito importante, mas o foco tem sido o da separação, como os termos
dicotomia e tricotomia claramente indicam.

A UNIDADE DO HOMEM
A ênfase das Escrituras, portanto, é sobre a unidade desses elementos. O
homem não é o que é sem o corpo, e nem pode ser o que é sem a alma.
"Corpo e alma existem somente em e um para o outro; o corpo não é um
corpo, mas o corpo da alma; a alma não é uma alma, mas a alma do corpo; na
nossa consciência do 'eu' os dois são um... O homem é uma unidade, não uma

19
junção de duas partes separadas ou mesmo faculdades separadas, e a Bíblia
trata com ele como tal." 33
É por isso que neste estudo preferiremos o termo duplo ou duplex, ao nos
referirmos à natureza humana, ao invés da idéia tradicional da dicotomia. Os
termos duplo ou duplex enfatizam a unidade dos elementos, antes que sua
separação.
O número desses elementos que compõem a natureza humana é importante,
por causa das diferenças práticas que resultam em problemas sérios,
dependendo da posição que uma pessoa toma a respeito da matéria. O psicólogo
cristão Clyde Narramore, por exemplo, mostra que sua tricotomia o levou a um
ponto insustentável biblicamente. No aconselhamento ele diz que o corpo deve ser
tratado pelo médico, o espírito pelo pastor, e a alma pelo psicólogo. É estranha tal
separação na Escritura.
A Escritura não permite a visão triplex (tríplice) do homem. Quando há
separação é só por causa da morte, mas a ênfase é sobre a unidade. Além disso,
na separação da morte, só há dois elementos. Em adição a Gn 2.7, examine Mt
10.28.
Nesse verso de Mateus, é ensinado que o todo (a totalidade) do homem sofre
no inferno. A verdadeira ênfase é sobre a totalidade (unidade) do homem sofrendo
e não apenas o corpo ou a alma. A afirmação "alma" e "corpo" mostra que a
natureza humana é duplex (veja outro exemplo em 1 Co 7.34b). Bultmann diz
que
“O homem não consiste de duas partes, muito menos de três: psyche e
pneuma não são faculdades ou princípios especiais (dentro do soma) de uma vida
mental mais elevada que sua vida animal. Em vez disso, o homem é uma unidade
viva. Ele é uma pessoa que pode tornar-se um objeto de si mesmo. Ele é uma
pessoa que tem relação comigo mesma (soma). Ele é uma pessoa que vive em sua
intencionalidade, sua busca de algum propósito, seu desejo de saber (psyche,
pneuma). Esse estado de vida em direção a algum objetivo... pertence à própria
natureza humana.”34

Vejamos este ensino de maneira sistemática:


A) A ESCRITURA FREQUENTEMENTE DISTINGUE ENTRE CORPO- ALMA E/OU CORPO-
ESPÍRITO.
(1) O AT SUGERE UMA DISTINÇÃO CORPO-ALMA (ESPÍRITO),
Contudo, esta distinção só entrou em uso mais tarde, debaixo da filosofia
grega. A idéia é de que as duas partes formam uma unidade, um conjunto
harmonioso — o homem, um ser que vive.
Gn 3.19 — (após a queda com respeito à maldição) — "...tu és pó e ao pó
tornarás."
A ênfase neste verso cai na parte física, mas o intento de Deus é tratar o ser
humano como uma unidade. O particular é tomado como sendo a totalidade.
Ec 12.7 — "e o pó ( rfpf( - corpo) volte à terra, com o era, e o espírito (axUrf)
volte a Deus, que o deu."
Este verso já mostra o homem com uma composição duplex, mostrando a
sua origem. Ambas as partes, material e imaterial vieram de Deus.
Jó 32.8 — "Na verdade há um espírito no homem (corpo), e o sopro do
Todo-Poderoso o faz entendido."

33 James Denny, Studies in Theology, (Grand Rapids: Baker reprint, 1967), p. 76.
34 Rudolf Bultmann, Theology of the New Testament, vol. I (SCM, 1952), 209

20
CURSO DE ANTROPOLOGIA

Neste verso de Jó a ênfase cai sobre a parte material (corpo), que é chamada
de “homem”. Contudo, a parte imaterial, o espírito, foi colocado no homem por
Deus. Portanto, este verso trata da composição duplex da natureza humana,
embora dê mais força ao aspecto material. A mesma ênfase vem neste verso
seguinte, do mesmo autor: (Jó 33.4) — "O Espírito de Deus me fez: e o sopro do
Todo-Poderoso me dá vida."

(2) O NT TAMBÉM SUGERE A DISTINÇÃO CORPO-ALMA (ESPÍRITO):


1 Co 2.11 — "Porque qual dos homens sabe as cousas do homem, senão o
seu próprio espírito que nele (corpo) está? "
A mesma ênfase dada no VT está agora no NT. A parte enfatizada aqui é o
corpo porque ela é chamada de “homem” e que “nele” está o espírito. Contudo, o
intento de Paulo é falar da unidade, embora os dois elementos apareçam
claramente nesse verso. Certamente o propósito de Paulo é tratar da capacidade
perscrutadora do espírito humano, mas deixa evidente a composição dual da
natureza humana.
Mt 10.28 — "Não temais os que matam o corpo (soma) e não podem matar a
alma (yuxh\n); temei, antes, aquele que pode fazer perecer no inferno tanto a
alma como o corpo."
Jesus Cristo está ensinando neste verso sobre o poder de Deus em contraste
com o poder dos homens. Obviamente, ele usa o linguagem comum das pessoas
quando fala da morte do corpo, pois o corpo fica inerte sem a presença da alma.
Contudo, quando Deus exerce o seu poder ele pode fazer perecer tanto o aspecto
físico como o aspecto espiritual do homem. A idéia de morte aí é de separação,
não de extinção. O mesmo acontece se fala da morte do corpo: é a separação dele
da alma — por isso o homem fica sem vida. Sem entrar mais do mérito desta
questão, o texto mostra essa distinção entre as duas partes constituintes da
natureza humana. É exatamente essa mesma idéia que Tiago mostra no verso a
seguir:
Tg 2.26 — "Porque, assim como o corpo sem espírito é morto, assim também
a fé sem as obras é morta."
Mesmo embora ele esteja falando da morte do corpo (que é a separação do
homem de si mesmo), o texto nos ensina sobre a composição dual da natureza
humana.
1 Co 7.34 — "...Também a mulher, tanto a viúva quanto a virgem, cuida
das cousas do Senhor, para ser santo, assim no corpo como no espírito."
A pureza de uma mulher, segundo Paulo, em qualquer estado civíl que possa
estar, deve produzir uma vida que evidencie a santidade cristã na totalidade do
seu ser: no material e no espiritual.
2 Co 7.1 — "Tendo, pois, ó amados, tais promessas, purifiquemo-nos de
toda impureza, tanto da carne (sarko\j) como do espírito (pneu/matoj),
aperfeiçoando a nossa santidade no amor de Deus."
Este verso de Paulo aos Coríntios é muitíssimo claro quanto à obra
santificadora do Senhor que é feita na totalidade do homem, isto é, na sua parte
material como na imaterial. Deus realiza a obra da redenção. Assim como a
santificação é uma obra de Deus, também ela é um dever do homem que deve ser
puro tanto na sua natureza física quanto na sua natureza espiritual.
Mt 26.41 — "...o espírito, na verdade, está pronto, mas a carne é fraca."
Jesus ensina sobre o dever de orar e vigiar e, ao fazê-lo, ensina sobre a
fraqueza da natureza humana. É provável que espírito esteja ligado com uma
nova natureza e que carne significa as fraquezas de nosso ser. Seja como for, a

21
idéia da composição duplex não deve ser deixada de lado, mesmo neste texto que
pode ter dupla interpretação.

B)A ESCRITURA PARECE, AO MESMO TEMPO, DISTINGUIR OS TERMOS ALMA E ESPÍRITO.


Sem dúvida, há duas passagens que parecem contradizer a idéia da
apresentação da composição dual da natureza humana. São os dois únicos textos
usados pelos chamados tricotomistas: 1 Co 5.23 e Hb 4.12.
A pergunta levantada é esta: "Não ensinam estes dois textos sobre a
separação de alma e espírito, o que indica uma tríplice concepção do homem?" A
resposta é enfaticamente, "não"!!!

a) Vejamos, primeiro, Hb 4.12


"Porque a palavra de Deus é viva e eficaz, e mais cortante do que qualquer
espada de dois gumes, e penetra até o ponto de dividir alma e espírito (yuxh=j
kai\ pneu/matoj), juntas e medulas, e apta para discernir os pensamentos e os
propósitos do coração."
A Palavra de Deus, a Escritura, é como uma espada aguda, de dois gumes,
que penetra bem fundo, ao ponto de dividir alma e espírito, juntas e medulas. Diz
o tricotomista: "Se a Bíblia afirma a possibilidade de separar alma de espírito, por
que não podemos fazer?" — O fato é que o pensamento grego não está dizendo
realmente isso. O problema não é de tradução. O texto grego não diz que a alma é
separada do espírito, ou que as juntas podem ser separadas das medulas. Ao
contrário, o que é dito é que a Palavra de Deus divide o espírito e também a alma,
assim como as juntas e as medulas. O escritor, de mentalidade hebraica, está
usando paralelismos, utilizando-se de sinônimos para reforçar a idéia da
natureza tanto material como espiritual do homem. Ele fala de “alma” e “espírito”
e de “juntas” e “medulas”, mostrando a composição dual, não tríplice da natureza
humana.
Esse paralelismo também se evidencia na idéia básica do texto de que a
Palavra de Deus penetra profundamente, o suficiente para discernir no ser mais
interior do homem, que é o coração, onde o autor usa duas idéias similares — os
seus pensamentos e propósitos (vv. 12c e 13).
O quadro aqui fala em dividir as juntas, medulas, alma e espírito. Observe
que há duas categorias básicas aqui: material (juntas e medulas) e imaterial
(alma/espírito), não três. Exatamente como os "pensamentos e propósitos" do
coração não podem ser divididos, mas são colocados juntos, abrangentemente, a
fim de expressar o aspecto total do intelecto, assim espírito e alma são
mencionados para mostrar que nenhum aspecto do interior do homem está além
do poder penetrante da palavra de Deus.

b) Vejamos agora 1 Ts 5.23


"O mesmo Deus vos santifique em tudo; e o vosso espírito, alma e corpo,
sejam conservados íntegros e irrepreensíveis na vinda de nosso Senhor Jesus
Cristo."
Novamente a ênfase do texto não está sobre o número dos elementos que
compõem a natureza humana, nem como podemos dividi-la. Antes, está sobre a
totalidade do homem. Poderíamos traduzir este verso, da seguinte maneira:
1Ts 5.23 - "O mesmo Deus vos santifique em tudo (completamente); e o vosso
ser total (corpo, alma e espírito), seja conservado íntegro e irrepreensível na vinda
de nosso Senhor Jesus Cristo."

22
CURSO DE ANTROPOLOGIA

Paulo aqui não está dividindo, mas unindo. Se você não se conforma com
essa argumentação, mas crê que Paulo está somando ao corpo a alma e o
espírito, formando três partes, o que você faria com os seguintes textos: Mt 22.37;
Mc 12.30; Lc 10.27? Estes textos falam de alma, coração, força e entendimento.
Você acresceria essas partes mencionadas à composição do homem?
Naturalmente que não!
A Escritura usa freqüentemente dois, três ou até quatro termos sobre a
natureza imaterial do homem, para enfatizar a idéia de totalidade. É necessário
que observemos o sentido da passagem à luz de toda a verdade, vê-la à luz de seu
propósito e não daquilo que queremos que o texto diga.

C) A ESCRITURA USA, FREQÜENTEMENTE, OS TERMOS ALMA E ESPÍRITO


INDISTINTAMENTE

(1) Alma e espírito são usados indistintamente quando a referência é a


uma pessoa desincorporada.
a) Nos texto abaixo as pessoas desincorporadas são chamadas de espírito:
Todas as pessoas que morrem, isto é, que têm a sua natureza material
separada da sua natureza imaterial, são consideradas como “espíritos”. Na morte
de qualquer ser humano, aplica-se a velha máxima de sábio Salomão em Ec 7.12
— "E o pó ( 'apar) volte à terra, como o era, e o espírito volte a Deus que o deu."
Tanto os homens comuns como o Salvador deles provaram a mesma experiência:
Lc 23.46 — "Então, Jesus clamou em alta voz: Pai, nas tuas mãos entrego o
meu espírito! E, dito isto, expirou."
Desde a encarnação, o Redentor é vere Deus e vere homo, possuindo as duas
naturezas — a divina e a humana. Como homem, ele possuía os dois aspectos da
natureza humana — o material e o espiritual. Quando o Redentor morreu, seu
corpo foi para a sepultura e o seu espírito (que não é o Espírito Santo) voltou para
Deus, até que ele ressurgiu ao terceiro dia. Nesse período essa pessoa
desincorporada era um espírito.
At 7.59 — "E apedrejavam a Estevão que invocava e dizia: Senhor Jesus,
recebe o meu espírito ((pneu=ma/ mou)."
Quem morreu apedrejado foi Estevão, seu corpo ficou inerte porque foi
separado do seu espírito. Essa parte, que veio diretamente de Deus, voltou para
Deus onde goza da alegria até que a redenção se complete. Mas é o espírito de
Estevão é que está com Deus.
Hb 12.23 — "...e igreja dos primogênitos arrolados no céus, e a Deus, o juiz
de todos, e aos espíritos dos justos (pneu/masi dikai/wn) aperfeiçoados."
Todos aqueles que fazem parte dos remidos, que já morreram com Cristo,
estão na presença de Deus gozando de suas delícias, sendo “justos e
aperfeiçoados”, são chamados de “espíritos”
b) Nos textos abaixo uma pessoa desincorporada também é descrita na
Escritura como alma:
Esta observação cabe tanto aos homens comuns como ao Redentor deles.
At 2.27 — “Porque não deixarás a minha alma ( yuxh/n ) na morte, nem
permitirás que o teu santo veja corrupção."
Como humano que também era, Jesus possuía o seu corpo que foi
sepultado, separado de sua alma até o terceiro dia. Perceba que o texto fala da
morte da alma. Ora, morte significa separação. O que o escritor bíblico
profeticamente diz é que o Senhor Deus não haveria de deixar a alma humana do
Redentor no estado de morte, isto é, no estado de separação do seu corpo. Nem o

23
seu corpo haveria de experimentar corrupção. A razão dessa incorrupção física e
da alma não poder ficar par sempre no estado de morte é que ambos os aspectos
da natureza humana do Redentor estavam indissoluvelmente ligadas à sua
natureza divina, ao Logos. Portanto, quando houve a morte do Redentor, estando
desincorporado, ele foi chamado de “alma”, que é a mesma coisa que “espírito”.
Ap 6.9 — "...vi as almas ( yuxa\j ) daqueles que tinham sido mortos por
causa da palavra de Deus."
Ap 20.4 — "....vi ainda as almas ( yuxa\j ) dos decapitados por causa do
testemunho de Jesus..."
Esses dois textos acima falam da situação dos remidos do Redentor. Quando
eles morrem, e nestes textos há o motivo de suas mortes, eles são separados de si
mesmos. O físico deles repousam na sepultura e espírito deles vai estar com
Deus. No entanto, quando desincorporados eles são chamados de “almas”, o que
equivale a “espíritos”.
Obs: a) Note que a Escritura apresenta a pessoa desincorporada como
espírito que é, auto-consciente, cônscio de sua identidade pessoal: Lc 23.43; Lc
16.19-31; Fp 1.22-23; 2 Co 5.1-10 (especialmente vv.6-8).
b) quando se fala de almas ou espíritos das pessoas desincorporadas, deve se ter
em mente que o escritor bíblico tem como meta falar de pessoas em sua
unidade, não somente uma das partes delas.

(2) Alma e espírito são usados indistintamente quando a referência é a


expressões de emoção e de devoção.
Esta argumentação que se segue destrói qualquer possibilidade de alguém
reivindicar a tese tricotomista. A Escritura é a intérprete de si própria. Ela mesma
dá as respostas às nossas inquirições.
(a) A Dor faz alusão tanto à alma como ao espírito: isto está claro nos
ensinamentos sobre a pessoa de Jesus Cristo:
Este ponto pode e deve tanto ser aplicado aos homens comuns como ao
Redentor deles. Vejamos primeiro sobre Jesus:
Jo 12.27 — "Agora está angustiada a minha alma (yuxh/), e que direi eu?...
Jo 13.21 — (após lavar os pés dos discípulos) - "Ditas estas cousas,
angustiou-se Jesus em espírito (pneu/mati)."
Esses dois textos acima falam de uma situação de sofrimento angustiante de
nosso Redentor. De acordo com o ensino geral dos tricotomistas, somente a alma
deveria ser a portadora dessa angústia. Contudo, como esses termos são usados
indistintamente, tratando da mesma natureza espiritual do homem, é dito
também que o espírito estava angustiado.
Mt 26.38 — (No Getsêmani) - "Então lhes disse: a minha alma (yuxh/ mou )
está profundamente triste até a morte..."
Mc 8.12 — (quando os fariseus pediram um sinal) - "Jesus, porém, arrancou
do íntimo do seu espírito ( pneu/mati au)tou= ) um gemido, e disse: por que pede
esta geração um sinal? ..."
O mesmo caso se aplica nestes dois textos acima. A emoção chamada
“tristeza” que normalmente é atribuída pelos tricotomistas à alma, a Escritura
atribuí ao espírito, porque as duas palavras são indicativas da mesma coisa — a
natureza imaterial do homem.
(Obs: note que o uso que Marcos faz de espírito é menos intenso do que na
situação de Mateus, quando este usa a palavra alma. Isto é uma grande
dificuldade para quem pensa tricotomísticamente).

24
CURSO DE ANTROPOLOGIA

Também no caso dos homens comuns, a dor é atribuída tanto a alma como
ao espírito.
At 17.16 — "Enquanto Paulo os esperava em Atenas, o seu espírito
( pneu=ma au)tou= ) se revoltava em face da idolatria reinante na cidade."
2 Pe 2.8 — (Sobre Ló em Sodoma) - "Porque este justo, pelo que ouvia e via
quando habitava entre eles, atormentava a sua alma justa (yuxh\n dikai/an), cada
dia, por causa das obras iníquas daqueles."
Tanto Paulo como Ló, ao contemplar o mal, num reflexo da imagem de Deus
que já havia sido restaurada neles, pois eram justos, sentiram dor que lhes
atormentava a “alma” (ou “espírito”- pois essas duas palavras são usadas
indistintamente) deles, pois é essa sensação dolorida que o pecado causa na vida
dos redimidos.
Veja-se ainda Sl 77.3; 142.3; 143.7 - aplicando a dor ou a tristeza ao
espírito.
(b) Alegria e Ação de Graças estão relacionadas tanto à alma como ao
espírito:
O escritor sacro narra uma ocasião quando Maria deixa os tricotomistas
numa situação muito embaraçosa, pois ela inverte a ordem estabelecida por eles
na distribuição dos elementos distintos na natureza não material do homem. Veja
o que Maria, a mãe do Redentor, diz:
Lc 1.46-47 — "Então disse Maria: a minha alma ( (yuxh/ mou ) engrandece
ao Senhor, e o meu espírito (pneu=ma/ mou ) exulta em Deus meu salvador."
Segundo a teoria geral dos tricotomistas, o que é próprio da alma é o
sentimento, é atribuído ao espírito — “o meu espírito exulta em Deus meu
salvador”. E o que é próprio do espírito, a adoração cristã, é atribuído a alma —
“a minha alma engrandece ao Senhor”.
Por que Maria faz esse uso “indevido” dessas palavras? Obviamente, não há
uso indevido. O que acontece é que não há nenhuma autorização nas Escrituras
para considerarmos essas duas palavras — alma e espírito — como elementos
distintos na composição da natureza humana.
Na adoração dos crentes comuns é muito usada a expressão do Salmista no
Sl 42.1-2 — "Como a corça suspira pelas correntes das águas, assim, por ti, ó
Deus, suspira a minha alma. A minha alma (yi$:pan) tem sede de Deus, do Deus
vivo..." — Todos os verdadeiros cristãos adoram a Deus com todos os anelos de
sua alma. Eles poderiam perfeitamente usar duas outras palavras para expressar
a mesma idéia. Eles poderia dizer que suspiram pelo Senhor com todo o seu
coração ou com todo o seu espírito. São termos usados indistintamente para
expressar o mesmo sentimento de adoração num desejo ardente por Deus.
(b) Adoração e Devoção são também atribuídas a ambos: alma e espírito.
Os textos abaixo criam uma dificuldade enorme para aqueles que possuem
uma mentalidade tricotomista, pois se a regra for aplicada literalmente, os
tricotomistas não mais poderiam ser tricotomistas, mas pentatomistas, pois o
verso abaixo fala de quatro partes. Uma delas obviamente, se refere ao corpo
(“toda a tua força”). As três restantes dizem respeito às partes imateriais do
homem que deveriam ser consideradas distintas se fôssemos aplicar a tese
tricotomista. Veja o texto
Mc 12.30 — (pergunta sobre o 1o. grande mandamento) - "Amarás, pois, o
Senhor teu Deus de todo o teu coração ( kardi/aj sou ), de toda a tua alma (
yuxh=j sou), de todo o teu entendimento (dianoi/aj sou), e de toda a tua força (
i)sxu/oj sou ).

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Observe os outros textos paralelos:
Mc 12.30 - coração, alma, entendimento, força
Mt 22.37 - coração, alma, entendimento,
Lc 10.27 - coração, alma, entendimento, força
Dt 6.5 - coração, alma, força
Obs: Uma observação que não pode deixar de ser feita é esta: A parte mais
importante no nosso culto a Deus e na expressão de nosso amor a Deus, segundo
o entendimento tricotomista é o espírito do homem. Contudo, a ausência de
espírito nestes textos é um problema sério para o tricotomista.
Perceba no verso abaixo que o que é dito de um (espírito) é dito do outro
(alma) no que respeita ao esforço do cristão em preservar o corpo de doutrinas
que ele recebe, que aqui é chamado de “fé evangélica”. Isto é assim porque não se
trata de elementos distintos, mas do mesmo elemento. Paulo, obviamente, está
usando um paralelismo hebraico.
Fp 1.27 — "Vivei, acima de tudo, por modo digno do evangelho de Cristo,
para que, ou indo ver-vos, ou estando ausente, ouça, no tocante a vós outros, que
estais firmes em um só espírito ( pneu/mati ), com uma alma ( yux$= ), lutando
juntos pela fé evangélica."
Ef 6.5-6 — "Quanto a vós outros, servos, obedecei a vossos senhores,
segundo a carne com temor e tremor, na sinceridade do vosso coração ( kardi/aj
u(mw=n ), como a Cristo, não servindo à vista, como para agradar a homens,
mas como servos de Cristo, fazendo de coração (e)k yuxh=j ) a vontade de Deus."
Note: de todas as referências à dor, alegria, adoração, perceba que o lugar
dos exercícios espirituais de um homem regenerado está, tanto na alma como no
espírito. Nenhum exercício espiritual da alma deve deixar de ser atribuído ao
espírito, porque ambos os termos significam a mesma coisa — o aspecto imaterial
do ser humano.
É importante ser observado que é a alma que tem anelos de Deus em vários
textos da Escritura (Sl 42.1-2; 62.1, 5, 8; 84.2; 86.4; 130.5-6; 143.6; Is 26.9.
Observe-se ainda que é a alma que é devota a Deus (Sl 103.1, 2, 22; 104.1,
35; 108.1; 119.175; 143.8).

(3) Alma e espírito são usados indistintamente para descrever o objeto


da obra redentora e santificadora de Cristo.
(a) Quem vai para o céu ou para o inferno é a alma ou o espírito.
A existência humana no futuro, seja em vida ou em morte, isto é, em
comunhão com Deus ou em separação de Deus, é dita pertencer à alma ou ao
espírito.
Os dois textos paralelos abaixo demonstram que a existência em morte
pertence à alma.
Mt 16.26 — "Pois que aproveitaria o homem se ganhar o mundo inteiro e
perder a sua alma ( yuxh\n )? Ou o que dará o homem em troca de sua alma (
yuxh=j au)tou= )? (cf Mc 8.36)
Lc 12.20 — "Mas Deus lhe disse: Louco, esta noite te pedirão a tua alma (
yuxh/n ), e o que tens preparado, para quem será?"
Nos textos abaixo é dito que a existência em vida dos cristãos pertence à
alma. É curioso que, na concepção tricotomista, quem vai para o céu é o espírito,
não a alma. No entanto, a Escritura usa o termo alma como equivalente a
espírito.
Lc 21.19 — "É na perseverança que ganhareis as vossas almas (yuxa\j
u(mw=n)."

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CURSO DE ANTROPOLOGIA

Hb 10.39 — "Nós, porém, não somos dos que retrocedem para a perdição;
somos, entretanto, da fé para a conservação da alma (peripoi/hsin yuxh=j )".
Tg 1.21 — "Portanto, despojando-vos de toda impureza e acúmulo de
maldade, acolhei com mansidão a palavra em vós implantada, a qual é poderosa
para salvar as vossas almas ( yuxa\j u(mw=n )."
Tg 5.20 — "Sabei que aquele que converte o pecador do seu caminho errado,
salvará a alma dele ( yuxh\n au)tou= ), e cobrirá multidão de pecados."
1 Pe 1.9 — "Obtendo o fim da vossa fé, a salvação das vossas almas (
u(mw=n swthri/an yuxw=n )."
Ez 3.19 — "Mas, se avisares o perverso, e ele não se converter da sua
maldade e do seu caminho perverso, ele morrerá na sua iniquidade, mas tu
salvaste a tua alma (!:$:pan) )."
Nos dois textos abaixo é mostrado que um cristão que morre vai para a vida
com Jesus. No entanto, a palavra usada aqui é “espírito” não “alma”, como nos
textos anteriores.
At 7.59 — "E apedrejavam a Estevão que invocava e dizia: Senhor Jesus,
recebe o meu espírito ( \(pneu=ma/ mou)."
1 Co 5.5 — "....seja entregue a Satanás para a destruição da carne ( sarko/j ),
a fim de que o espírito ( pneu=ma swq$=) seja salvo no dia do Senhor."
(b) A Santificação é da alma (ou espírito).
A salvação é alguma coisa que já aconteceu no passado, mas ainda é uma
realidade presente. Deus continua ainda a nos salvar. A isto a Escritura chama
“santificação”. O processo da santificação acontece com a totalidade do seu
humano, tanto da sua parte material como da imaterial. Escrevendo aos
Coríntios, Paulo deixa bem claro esta verdade. A parte material ele chama de
“carne” e a parte imaterial ele chama de “espírito”. Estes são os únicos dois
elementos que compõem a natureza humana.
2 Co 7.1 — "Tendo, pois, ó amados, tais promessas, purifiquemo-nos de toda
impureza, tanto da carne (sarko\j ), como do espírito ( pneu/matoj ), aperfeiçoando
a nossa santidade no temor de Deus."
Pedro, no entanto usa, nos textos abaixo, a palavra “alma” como sendo o
locus da santificação que Deus opera em nós, e que nós operamos mediante
nossa obediência à verdade.
1 Pe 1.22 — "Tendo purificado as vossas almas ( yuxa\j ), pela vossa
obediência à verdade, tendo em vista o amor fraternal não fingido, amai-vos de
coração uns aos outros, ardentemente."
1 Pe 2.11 — "Amados, exorto-vos como peregrinos e forasteiros que sois, a
vos absterdes das paixões carnais que fazem guerra contra a alma ( yuxh=j ).
Is 38.16-17 —"Senhor, por estas disposições tuas vivem os homens, e
inteiramente delas depende o meu espírito ( yixUr ); portanto, restaura-me a
saúde, e faze-me viver. Eis que foi para a minha paz que tive eu grande
amargura; tu, porém, amas a minha alma ( yi$:pan ) e a livraste da cova da
corrupção porque lançaste para trás de ti todos os meus pecados."
O ensino dos profetas do Antigo Testamento não é diferente dos escritores do
Novo Testamento. A contaminação da “alma” torna necessária a purificação dela.
Da mesma forma a saúde do “espírito” do homem depende da obra santificadora
de Deus. Analise com propriedade estes dois textos abaixo e verifique que alma
ou espírito são o locus da obra santificadora de Deus, pois são termos usados
indistintamente.
Ez 4.14 — "Então, disse eu: Ah! Senhor Deus! eis que a minha alma (
yi$:pan ) não foi contaminada, pois desde a minha mocidade até agora, nunca

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comi animal morto de si mesmo nem dilacerado por feras, nem carne abominável
entrou na minha boca."
Is 38.16-17 —"Senhor, por estas disposições tuas vivem os homens, e
inteiramente delas depende o meu espírito ( yixUr ); portanto, restaura-me a
saúde, e faze-me viver. Eis que foi para a minha paz que tive eu grande
amargura; tu, porém, amas a minha alma ( yi$:pan ) e a livraste da cova da
corrupção porque lançaste para trás de ti todos os meus pecados."
(c) O Perdão de Deus é para a Alma
Na concepção tricotomista, o perdão de Deus deveria ser para o espírito
humano, não para a alma. Contudo, a Escritura diz em vários lugares que a alma
humana é objeto da compaixão perdoadora de Deus.
Sl 41.4 — "Disse eu: compadece-te de mim, Senhor; sara a minha alma,
porque pequei contra ti."
Sl 102.2-3 — "Bendize, ó minha alma ao Senhor, e não te esqueças de
nenhum só de seus benefícios. Ele é quem perdoa todas as tuas iniqüidades."
Observe: É muito importante que se leve em conta que, quando a Escritura
se refere ao perdão da alma, ao fato dela ir para o céu, a ênfase não está na
divisão da pessoa, mas na unidade dela. Portanto, é salutar pensar que Deus
perdoa a pessoa, e não apenas o lado imaterial dela; que é a pessoa que vai para
o céu, não um pedaço dela.
Explicação: O fato de que a Escritura usa alma e espírito indistintamente em
muitos contextos, como sinônimos básicos em tais contextos, não implica que
não possa haver outro sentido do seu uso em outros contextos; o mesmo
acontece com carne e corpo.

3. O HOMEM É CORAÇÃO
Numa tentativa de compreender a doutrina bíblica do homem, atenção foi
dada às referências ao corpo, tanto quanto às variações no uso com respeito à
alma e espírito. Entretanto, a Escritura também apresenta o homem como
coração. Este termo enfoca a unidade da natureza básica do homem.
A) A ABRANGÊNCIA DO SIGNIFICADO DO TERMO "CORAÇÃO" NA ESCRITURA:
O livro de Provérbios é abundantemente rico no uso do termo “coração”
especialmente quando fala que ele é a sede da personalidade humana.

(1) Referência a "coração" no Livro de Provérbios


Pv 2.10 — "Porquanto a sabedoria entrará no teu coração, e o conhecimento
será agradável à tua alma."
3.5 — "Confia no Senhor de todo o teu coração, e não te estribes no teu
próprio entendimento."
4.23 — "Sobretudo o que se deve guardar, guarda o teu coração, porque
dele procedem as fontes da vida."
12.25 — "A ansiedade no coração do homem o abate, mas a boa palavra o
alegra."
14.10 — "O coração conhece a sua própria amargura, e da sua alegria não
participará o estranho."
14.13 — “Até no riso tem dor o coração, e o fim da alegria é a tristeza."
14.14 — "O infiel de coração dos seus próprios caminhos se farta..."
15.13 — “O coração alegre aformoseia o rosto, mas com a tristeza do
coração, o espírito se abate."
Ver também: 15.14; 15.30; 16.5; 18.12, 15; 19.3; 23.17.

28
CURSO DE ANTROPOLOGIA

(2) Referências a coração no uso de Jesus Cristo


Mt 5.8 — "Bem aventurados os limpos de coração, porque verão a Deus."
Mt 5.28 — "Eu, porém, vos digo: qualquer que olhar para uma mulher com
intenção impura, no coração já adulterou com ela."
Mt 15.19 — Porque do coração procedem maus desígnios, homicídios,
adultérios, prostituição, furtos, falsos testemunhos, blasfêmias."
Mt 22.37 — "Respondeu-lhes Jesus: Amarás o Senhor teu Deus de todo o
teu coração, de toda a tua alma, e de todo o teu entendimento."
Lc 8. 11-15 — (Parábola do Semeador) "A que caiu na boa terra são os que,
tendo ouvido de bom e reto coração, retém a palavra; estes frutificam com
perseverança." (v.15).
Observação: Há dezenas de outras referências de Jesus a coração como a
essência da natureza humana, como o âmago de nosso interior, e são referências
usadas indistintamente para descrever não somente toda a personalidade, mas
as coisas da própria alma (ou espírito).

(3) Referências a "coração" na mensagem de Paulo


H. Wheeler Robinson, em seu livro "Christian Doctrine of Man" resume o
ensino de Paulo como se segue:
15 vezes — Personalidade, ou vida interior em geral. Cf 1 Co 14.14, 24,
25 - "Porém se todos profetizarem, e entrar algum incrédulo ou indouto, é ele por
todos convencido, e por todos julgado; tornam-se-lhes manifestos os segredos do
coração e, assim, prostrando-se com a face em terra, adorará a Deus,
testemunhando que Deus está de fato no meio de vós."
13 vezes — lugar do estado emocional da consciência, cf Rm 9.1-3 "Digo
a verdade em Cristo, não minto, testemunhando comigo, no Espírito Santo, a
minha própria consciência: que tenho grande tristeza e incessante dor no
coração, porque eu mesmo desejaria ser anátema, separado de Cristo, por amor
de vós, meus irmãos, meus compatriotas segundo a carne."
11 vezes — lugar das atividades intelectuais. Cf Rm 1.21-22 "Porquanto,
tendo conhecimento de Deus, não o glorificaram como Deus, nem lhe deram
graças, antes se tornaram nulos em seus próprios raciocínios, obscurecendo-lhes
o coração insensato. Inculcando-se por sábios, tornaram-se loucos."
13 vezes — lugar da vontade. Cf Rm 2.4-5 "Ou desprezas a riqueza da
sua bondade, e tolerância, e longanimidade, ignorando que a bondade de Deus é
que te conduz ao arrependimento? Mas, segundo a tua dureza e coração
impenitente, acumulas contra ti mesmo ira para o dia da ira e da revelação do
justo juízo de Deus."

B) A ESCRITURA USA O TERMO CORAÇÃO COMO INDICATIVO DE:


Pensamento = intelecto
Querer = vontade (volição)
Sentimento = emoção (afeições)
1. Coração como Indicativo de Atividade Intelectual
Dt 29.4 — "Porém o Senhor não vos deu coração para entender, nem
olhos para ver, nem ouvidos para ouvir, até o dia de hoje."
Lc 5.22 — "Jesus, porém, conhecendo-lhes os pensamentos, disse-lhes:
que arrazoais em vossos corações?"
Jo 12.40 — "Cegou-lhes os olhos e endureceu-lhes o coração, para que
não vejam com os olhos, nem entendam com o coração, e se convertam e sejam
por mim curados."

29
At 8.22 — "Arrepende-te, pois, da tua maldade, e roga ao Senhor; talvez
que te seja perdoado o pensamento ( ( e)pi/noia ) do coração."
2. Coração como Indicativo de Atividade Volitiva
Mt 15.19 — "Porque, do coração, procedem maus desígnios, homicídios,
adultérios..."
Ex 25.2 — "Fala aos filhos de Israel que me tragam ofertas; de todo homem
cujo coração o mover para isso, dele recebereis a minha oferta."
1 Cr 22.19 — "Disponde, pois, o vosso coração, e a vossa alma para
buscardes ao Senhor vosso Deus...."
Dn 1.8 — "Daniel, porém, propôs no seu coração, não se contaminar com
as finas iguarias do rei..."
At 11.23 — "Tendo ele chegado e, vendo a graça de Deus, alegrou-se, e
exortava a todos que, com firmeza de coração, permanecessem firmes no Senhor."
1 Co 7.37 — Todavia, o que está firme no seu coração, não tendo
necessidade, mas domínio sobre o seu próprio arbítrio, e isto bem firmado no seu
ânimo ( kardi/# ), para conservar virgem a sua filha, bem fará."
3. Coração como Indicativo de Atividade Emocional
Ex 4.14 — "Então se acendeu a ira do Senhor contra Moisés, e disse: Não é
Arão, o levita, teu irmão? Eu sei que ele fala fluentemente; e eis que ele sai ao teu
encontro e, vendo-te, se alegrará em seu coração."
Ne 2.2 — "O rei me disse: porque está triste o teu rosto, se não estás
doente? Tem de ser tristeza do coração. Então temi sobremaneira."
Sl 28.7 — "O Senhor é a minha força e o meu escudo; nele o meu coração
confia; nele fui socorrido; por isso o meu coração exulta."
Jo 14.1 — "Não se turbe o vosso coração...."
At 2.26 — "Por isso se alegrou o meu coração e a minha língua exultou..."
2 Co 2.4 — "Porque no meio de muitos sofrimentos e angústias do coração
vos escrevi, com muitas lágrimas, não para que ficásseis entristecidos, mas para
que conhecêsseis o amor que vos consagro em grande medida."
C) A ESCRITURA APRESENTA O CORAÇÃO COMO A SEDE DO PECADO

No Antigo Testamento
Pv 6.14 — "No seu coração há perversidade; todo o tempo maquina o mal;
anda semeando contendas."
Pv 6.18 — "Coração que trama projetos iníquos..."
Pv 6.25 — "Não cobices no teu coração a sua formosura, nem te deixes
prender com as suas olhadelas."
Pv 7.10 — "Eis que a mulher lhe sai ao encontro, com vestes de prostituta,
e astuta de coração."
Pv 12.20 — "Há fraude no coração dos que maquinam o mal, mas alegria
têm os que aconselham a paz."
Pv 12.23 — O homem prudente oculta o conhecimento, mas o coração dos
insensatos proclama a estultícia."
Jr 17.9 — "Enganoso é o coração; mais do que todas as coisas e
desesperadamente corrupto. Quem o conhecerá?"
No Novo Testamento
Jesus é absolutamente claro quando trata da pecaminosidade que atribuída
ao coração humano:

30
CURSO DE ANTROPOLOGIA

Mc 7. 21-23 — "Porque de dentro, do coração dos homens, é que procedem


os maus desígnios, a prostituição, furtos, os homicídios, os adultérios....; ora,
todos esses males vêm de dentro e contaminam o homem."

Paulo é o apóstolo que mais trata desta matéria:

Ef 4.17-18 — ver outros textos sobre o coração endurecido.


Obs: averiguar esta matéria no Livro de Provérbios.
D) A ESCRITURA APRESENTA TAMBÉM O CORAÇÃO COMO O CENTRO DA OBRA
REDENTORA DA GRAÇA.
Sl 51.10 — "Cria em mim, ó Deus, um coração puro, e renova dentro de
mim um espírito reto."
Ez 36.26 — "Dar-vos-ei um coração novo, e porei dentro de vós um espírito
novo."
At 16.14 — (Sobre Lídia) "...e o Senhor lhe abriu o coração para atender às
coisas que Paulo dizia."
Rm 2.29 — "Porém justo é aquele que o é interiormente, e circuncisão a que
é do coração."
Rm 10.9-10 — "Porque, com o coração se crê para a justiça..."
Ef 3.17 — "E assim, habite Cristo em vossos corações, pela fé...."
"O coração é o ponto de concentração, a raiz religiosa de nossa existência
humana total. Dele surgem todos os nossos pensamentos, ações, sentimentos e
desejos. Em nossos corações damos respostas às mais profundas e definitivas
questões, e em nossos corações o nosso relacionamento com Deus é determinado.
A regeneração, a renovação do coração pelo Espírito Santo, faz-nos voltar para
Deus e redirige-nos o coração do caminho da apostasia para Deus. O coração, ou
alma do homem, jamais pode ser identificado com qualquer outra função vital, tal
como sentimento ou fé. Ele é mais profundo do que qualquer outra função vital e
transcende o temporal. O coração é o ponto do homem que determina o seu
relacionamento com Deus. Não é possível dar um conceito ou uma definição
científica do coração, porque como o centro de nossa existência em seu todo, o
coração é a pressuposição mais profunda de nosso pensamento. Nós podemos
somente repetir através da fé o que Deus nos tem revelado em Sua Palavra a
respeito do centro de nossa vida." 35
Resumo — A fim de ajudar-nos a compreender melhor o significado bíblico
de coração, perguntamos: O que deve ser oposto ao coração, na Bíblia? A
resposta é sempre, sem exceção, aquilo que é visível, o homem exterior. A
adoração que uma pessoa pode prestar com seus lábios (exterior, visível,
adoração audível), é contrastada com a adoração do coração (interior, invisível,
inaudível) ilustrada em Mt 15.8. Uma outra maneira de se ver esse contraste é
observar 1 Sm 16.7 - "aparência exterior" e "coração" (Rm 10.8-10).
Sempre a Escritura usa a palavra "coração" para falar do interior do homem (
ou do homem interior - 1 Pe 3.4; 2 Co 4.16). O coração é a parte interior de nossa
vida diante de Deus e de si mesmo, uma vida desconhecida dos outros, porque
ela é escondida deles (Mt 5.28).
É bom que se lembre aos tricotomistas de que tudo o que é dito da alma e do
espírito, é também dito do coração (Dt 11.13; Mt 22.37; 1 Rs 4.48; 1 Cr 22.19; At
4.32; Sl 32.2; Mc 14.38; 8.12; Ef 4.23; Hb 4.12-13; 1 Pe 3.4; Sl 64.6; 13.2).
Pode haver alguma distinção entre alma e espírito? Por que essas duas
palavras são usadas para descrever uma só entidade? Como essas duas palavras
35 J. M. Spier, An Introduction to Christian Philosophy, 15-16.

31
estão ligadas a coração? Como já foi visto, o coração é a parte interior, não-
observável, imaterial do ser humano.
ALMA — fala do homem em unidade dos elementos material e imaterial como
um ser vivo (1 Pe 3.20; Gn 46.22; alma também diz respeito ao "eu " do homem
(Sl 42.1; 103.1, etc.).
ESPÍRITO — sempre pinta o aspecto imaterial da natureza humana, fora da
relação do corpo. O espírito fala do estado desincorporado. Deus, por exemplo,
nunca é chamado Alma (embora nephesh seja atribuída a Ele), mas sempre ele é
chamado Espírito (Jo 4.24). A terceira pessoa da Trindade é o Espírito Santo, não
a Alma Santa. Quando Jesus disse que Deus é Espírito, Ele enfatizou o fato de
que a adoração requerida deveria ser mais do que exterior (física); Deus deveria
ser adorado em espírito e em verdade. Quando Cristo discutiu e definiu um
espírito, Ele disse: "...apalpai-me e verificai, porque um espírito não tem carne
nem ossos, com vedes que eu tenho"(Lc 24.39). Um espírito é uma pessoa sem o
corpo. Assim, como a palavra alma (de uma forma ou outra) sempre descreve o
aspecto não-material da natureza humana em relação ao (ou em unidade)
material, assim a palavra espírito refere-se ao mesmo aspecto imaterial da
natureza humana, mas fora de sua ligação com o corpo (o material).
CORAÇÃO — refere-se ao aspecto imaterial do homem em contraste com o
aspecto material (usualmente enfatizando sobre a visibilidade deste último e a
invisibilidade do primeiro).
São três palavras distintas, contudo, todas elas referem-se à mesma
entidade: a pessoa imaterial.

4 - A IMAGEM DE DEUS NO HOMEM

Hoekema diz que "o conceito da imagem de Deus é o coração da antropologia


cristã." 36 Essa doutrina é fundamental para o entendimento de outros aspectos
da antropologia, como por exemplo, o do efeito do pecado na vida do homem,
especialmente quando estudamos a imagem de Deus após a queda.
Segundo Herman Bavinck, o homem não carrega ou tem simplesmente a
imagem de Deus, mas ele é a imagem de Deus, e diz também que a imagem de
Deus não é um acidente, mas algo essencial a ele, sem a qual ele não pode ser o
que é.
"Da doutrina de que o homem foi criado à imagem de Deus segue-se a
implicação clara de que a imagem de Deus estende-se ao homem em toda a sua
inteireza. Nada no homem é excluído da imagem de Deus. Todas as criaturas
revelam traços de Deus, mas somente o homem é a imagem de Deus. E ele é a
imagem totalmente, na alma e no corpo, em todas as faculdades e poderes, em
todas as condições e relacionamentos. O homem é a imagem de Deus porque e ao
grau em que ele é verdadeiro homem, e ele é homem, homem verdadeiro e real,
porque e ao grau em que ele é a imagem de Deus." 37
Isto quer dizer que a imagem de Deus não é acidental, mas algo
extremamente importante e essencial à natureza humana. O homem não pode
ser homem sem a imagem de Deus. Por isso o homem é a imagem de Deus, não
simplesmente a tem, como algo que foi acrescentado depois de sua formação.
Quando criado, portanto, o homem era:

36 Anthony Hoekema, Created in God's Image, (Eerdmans,1986), p. 66.


37 Herman Bavinck, Dogmatiek, 2:595-96, citado por Hoekema, p. 65.

32
CURSO DE ANTROPOLOGIA

a) O espelho de Deus — Antes da queda, o homem refletia perfeitamente o


seu Criador. Bastava olhar para ele para ver a perfeição de Deus refletida nele.
Tudo era harmonia. Hoekema diz que
"Deus era o homem tornado visível na terra. Para ser exato, outras criaturas,
e mesmo os céus, declaram a glória de Deus, mas somente no homem Deus
torna-se visível. Os teólogos Reformados falam da revelação geral de Deus, na
qual ele revela a sua presença, poder e divindade através das obras de suas
mãos. Mas na criação do homem, Deus revelou-se a si mesmo de um modo
singular, por tornar alguém que era uma espécie de espelho, uma imagem de si
próprio. Nenhuma honra mais alta poderia ter sido dada ao homem do que a do
privilégio de ser a imagem de Deus que o fez".38
Esta imagem foi deformada pela queda, mas foi restaurada por Cristo, e será
aperfeiçoada até que volte de novo a ser como era.
b) O representante de Deus — O domínio que Deus deu ao homem sobre
todas as obras de Sua criação, indica que Deus deixou o homem como seu
representante e governador da criação. Deus governa através do homem, a quem
deu o domínio sobre tudo. Por essa razão, a responsabilidade do homem
aumenta, pois ele tem que fazer exatamente o que Deus faria, como um
embaixador de Deus que é.

SOBRE O SIGNIFICADO DAS PALAVRAS


"IMAGEM" E " SEMELHANÇA"
As duas palavras aparecem juntas e Gn 1.26, mas não se referem a coisas
diferentes, como, por muito tempo, creu-se na história da igreja. 39
As duas palavras, imagem e semelhança, são sinônimas e usadas
indistintamente. Em Gn 1.26 aparecem as duas palavras, enquanto que em Gn
5.1 aparece somente a "semelhança", e em Gn 5.3 as duas novamente. Em Gn
9.6 aparece somente a palavra "imagem", como que indicando a idéia total do
homem. Hoekema assevera que "se estas palavras pretendessem descrever
aspectos diferentes do ser humano, elas não seriam usadas, como as temos visto
sendo usadas, isto é, quase indistintamente".40 Berkhof observa que
"a opinião corrente é que a palavra 'semelhança' foi acrescentada à 'imagem'
para expressar a idéia de que a 'imagem' foi extraordinariamente parecida, uma
imagem perfeita. A idéia é que, mediante a criação, aquilo que era arquetípico em
Deus, se transformou em cópia no homem. Deus foi o original de onde se tirou a
cópia que é o homem." 41

38 Hoekema, p. 67.
39 Irineu (175...) e Tertuliano (160-225) pensaram que "imagem" e "semelhança" fossem coisas distintas. A
primeira tinha a ver com as características físicas, enquanto que a segundo com a natureza espiritual do
homem;
Clemente de Alexandria (155-220) e Orígenes (185-254) pensaram que "imagem" denotava as características
do homem como homem, enquanto que "semelhança" dizia respeito às qualidades essenciais que se podem
perder ou cultivar;
Os escolásticos, com algumas variações, conceberam a "imagem" como sendo as capacidades intelectuais e
da liberdade do homem, enquanto que "semelhança"dizia respeito à justiça original. Num desenvolvimento
desse conceito, acrescentou-se posteriormente que a "imagem" era um dom natural de Deus ao homem,
enquanto que a "semelhança", ou a justiça original, é um dom sobrenatural que foi acrescentado ao homem,
para que fosse freio para a natureza baixa do homem. Este é o donum superadditum.
40 Anthony Hoekema, Created in God's Image,(Eerdmans, 1986), p. 13.
41 Berkhof, p. 240, (edição em castelhano)

33
A palavra hebraica para "imagem" é (tselem) derivada de uma raiz que
significa "esculpir" ou "cortar". Portanto, podemos entender "imagem" como sendo
o homem uma representação de Deus.42
A palavra hebraica para
"semelhança" é (demuth), que vem de uma raiz que significa "ser igual".
"Alguém poderia dizer que em Gn 1.26 a palavra imagem é igual a semelhança,
uma imagem que é igual à nossa. As duas palavras juntas dizem-nos que o
homem é uma representação de Deus, que é igual a Deus em certos aspectos." 43

SOBRE A REFLEXÃO DA IMAGEM DE DEUS


Gn 1.26 — "Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa
semelhança..."
A relevância deste verso está no fato de Deus usar a expressão "nós", uma
expressão plural que anuncia o conselho triunitário da criação do homem. "Isto",
diz Hoekema, "indica novamente a singularidade da criação do homem".44
Neste tópico, vamos analisar a imagem do homem teologicamente, tanto
quanto possível, baseado no ensino geral das Escrituras sobre o homem.
De que consiste o reflexo da imagem de Deus?

QUALIDADES ESSENCIAIS DA IMAGEM DE DEUS


O homem reflete a imagem de Deus por ter atributos que chamamos
"essenciais" nele, sem os quais ele não poderia continuar sendo o que é:
pessoalidade, domínio, poder intelectual, afeições naturais, liberdade moral,
espiritualidade, imortalidade e o aspecto físico.

A QUALIDADE DA PESSOALIDADE
O homem reflete a imagem de Deus como um ser pessoal que é. Nesse
sentido ele se assemelha a Deus. Ele não pode viver isolado, como Deus não vive
em solidão 45, mas sempre em relacionamento. Não existe a pessoalidade sem a
noção de companheirismo. Foi por isso que Deus fez uma companheira para o
homem, pois como pessoa que ele é, não poderia ficar só. Nessa capacidade de
pessoalidade o homem reflete Aquele que o criou.
A QUALIDADE DA CAPACIDADE DE DOMÍNIO
O homem reflete a imagem de Deus pela capacidade de domínio sobre as
outras coisas criadas. Esta é a indicação mais clara que a Escritura dá da
imagem de Deus no homem.
Há divergência entre os teólogos sobre se o domínio da criação é parte
essencial da imagem de Deus. Alguns dizem que o domínio sobre a criação é
resultado de o homem ser criado à imagem de Deus46, enquanto que outros
afirmam que isso é essencial ao conceito de imagem de Deus. 47 Neste estudo,
assumimos esta última posição.
42 Hoekema, p. 13.
43 Hoekema, p. 13.
44 Hoekema, p. 12.
45 Eternamente Deus é tripessoal. Antes de haver a criação, Ele já se comunicava consigo mesmo, nas
pessoas da Trindade. A prova disto está no fato de Deus usar a frase plural "Façamos o homem", numa
espécie de conselho, um acordo de pessoas que se entendem relacionando-se.
46 Vide J. Skinner, Critical and Exegetical Commentary on Genesis, (New York: Scribner, 1910), p. 32;
Berkouwer, Man: The image of God, (Eerdmans, 1984), pp. 70-72.
47 Vide Berkhof, Systematics; L. Verduin, Somewhat Less Than God, (Eerdmans, 1970), pp.27-48.

34
CURSO DE ANTROPOLOGIA

O domínio do homem é parte essencial da sua natureza. A palavra domínio


vem da palavra latina dominus, que quer dizer "Senhor". O homem foi colocado
como o "senhor" da terra. Nesse sentido, ele é o imitador de Deus, como o Senhor
absoluto e supremo. Deus, quando estampou a Sua imagem no homem, colocou
o senso de domínio sobre todas as obras da criação, e ordenou esse domínio ao
homem. Obviamente, é um domínio subordinado, não absoluto como o do seu
Senhor.
O texto de Gênesis 1 demonstra fartamente esta verdade:
Gn 1.26-28 — "Também disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem,
conforme a nossa semelhança; tenha ele domínio sobre os peixes do mar, sobre
as aves do céus, sobre os animais domésticos, sobre toda a terra e sobre todos os
répteis que rastejam pela terra. Criou Deus, pois, o homem à sua imagem, à
imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou. E Deus os abençoou, e lhes
disse: Sede fecundos, multiplicai-vos, enchei a terra e sujeitai-a; dominai sobre os
peixes do mar, sobre as aves do céus, e sobre todo animal que rasteja pela terra".
Este texto de Gn 1.26-28 dá-nos uma idéia vaga, mas correspondente com a
real, da imagem de Deus. É o domínio do homem sobre a criação, especialmente
sobre os seres vivos. Quando o homem exerce devidamente esse domínio, ele está
se portando como Deus, refletindo o domínio que Deus tem sobre todas as coisas.
O Salmo 8 é uma "linguagem poética imponente" 48 que descreve o conteúdo
de Gn 1.26, mostrando o poder e o domínio do homem. "O homem é um rei, e não
um rei sem território; o mundo em derredor, com as obras da sabedoria criadora
que o enchem, é o seu reino". 49 Segundo este Salmo, o homem foi feito, por um
pouco, menor do que Deus, e foi coroado de glória e de honra, pelo domínio sobre
a criação (vv.5-9). A glória e honra do homem está, na verdade, no fato dele ser
parecido com Deus no domínio sobre toda a criação. Nisto o homem reflete a
imagem de Deus, como nenhuma outra criatura racional, mesmo os próprios
seres celestiais.
Esse domínio é chamado por alguns teólogos o "mandato cultural", isto é, a
ordenação para o governo da terra no lugar de Deus, como representante de
Deus.

PODER INTELECTUAL
Por Poder Intelectual queremos dizer a faculdade do raciocínio, inteligência, e
outras capacidades intelectivas em geral, que refletem aquilo que Deus tem.
Se o homem perde as suas capacidades intelectivas, ele deixa de ser o que é.
A racionalidade é o aspecto distintivo dos outros seres criados. Estas capacidades
foram afetadas, mas não extintas pela Queda.

AFEIÇÕES NATURAIS
Por Afeições Naturais queremos dizer as capacidades que o homem tem de
ligar-se emocional e afetivamente a outros seres ou coisas. Deus tem essa
capacidade e a passou para os seres humanos.

LIBERDADE MORAL
Por Liberdade Moral queremos a capacidade que o homem tem de fazer todas
as coisas de acordo com os princípios morais que nele existem, de acordo com as
leis que Deus implantou no seu coração (Rm 2). Os teólogos também dizem que a
48 Esta é uma expressão usada por Franz Delitzsch, em seu comentário sobre o Salmo 8.7-9.
49 C. F. Keil and Franz Delitzsch, Commentary on the Old Testament , vol. 9, (Eerdmans,1982), p. 155.

35
liberdade moral está vinculada à Libertas Naturae que o homem possui,
independentemente de sua queda. Ele é capaz de agir sempre de acordo com a
sua natureza, também chamada de liberdade de agência. Essa é a liberdade
própria do ser humano, sem a qual ele não pode ser o que é.

ESPIRITUALIDADE
Por Espiritualidade queremos dizer a natureza imaterial do homem, com a
qual ele foi criado. A Escritura diz que o homem foi feito "alma vivente" (Gn 2.7).
Deus é Espírito, e num certo sentido, o homem tem traços dessa espiritualidade,
embora ele não seja completo sem o corpo.

IMORTALIDADE
Por Imortalidade queremos dizer que o homem, depois de criado, não mais
cessa de existir. Não é somente a alma do homem que é imortal, mas o seu ser
completo. A morte, não é para o corpo, mas para o homem. Morte é separação,
não cessação de existência. A imortalidade é singular para Deus (1 Tm 6.16) no
sentido de ser essencial para Ele. O homem a possui num caráter secundário e
derivado. A imortalidade é um dom que o homem recebe de Deus.

FISICALIDADE
Por Aspecto Físico queremos nos reportar ao texto de Gênesis 9.6 que diz:
"Se alguém derramar o sangue do homem, pelo homem se derramará o seu;
porque Deus fez o homem segundo a sua imagem". Um assassinato é a
destruição do corpo, mas o texto diz que é a destruição da imagem de Deus.
"Portanto, quando alguém mata o ser humano, não somente ele tira a vida de
uma pessoa, ele ofende o próprio Deus — o Deus que foi refletido naquele
indivíduo. Tocar na imagem de Deus é tocar no próprio Deus; matar a imagem de
Deus é fazer violência ao próprio Deus." 50
Não podemos deduzir de Gn 9.6 que o Senhor Deus tenha uma aparência
física, mas temos que entender que quando a Escritura fala do corpo, do aspecto
físico, ela está falando do homem completo, que é a imagem de Deus. Hoekema
diz com grande acerto que "deveríamos dizer não somente que o homem tem a
imagem de Deus, mas que o homem é a imagem de Deus. Do ponto-de-vista do
Antigo Testamento, ser humano é carregar consigo a imagem de Deus." 51
Não podemos menosprezar a idéia do corpo, como sendo algo descartável,
que não faz parte da imagem de Deus. Quando Deus fez o homem à sua imagem
e semelhança, o corpo estava incluso, porque o homem total é a imagem de Deus.

QUALIDADES NÃO-ESSENCIAIS DA IMAGEM DE DEUS


O homem reflete a imagem de Deus por ter atributos que consideramos "não
essenciais" a ele.
A rigor, o que não é essencial, é aquilo que alguém pode não ter, e mesmo
assim, continuar a ser o que é. Estes atributos dos quais vamos falar, o homem
perdeu na queda e, contudo, continuou a ser homem. O homem não poderia
perder as faculdades que o fazem ser o que é, mas perdeu as capacidades éticas
de suas faculdades. Berkhof diz que o homem

50 Hoekema, p. 16.
51 Hoekema, p. 18.

36
CURSO DE ANTROPOLOGIA

"era, por natureza, dotado com aquela justiça original que é a glória
culminante da imagem de Deus e vivia, consequentemente, num estado de
santidade positiva. A perda dessa justiça significou a perda de algo que
correspondia à verdadeira natureza do homem em seu estado ideal. O homem
poderia perdê-la e continuar sendo homem, mas não poderia perdê-la e continuar
sendo homem no seu sentido ideal. Em outras palavras, sua perda significaria a
deterioração e ruína da natureza humana." 52

JUSTIÇA ORIGINAL
CONHECIMENTO VERDADEIRO
JUSTIÇA
SANTIDADE

OS ESTÁGIOS DA IMAGEM DE DEUS


Neste capítulo vamos tratar da imagem de Deus nos seus vários estágios,
isto é, antes da queda, depois da queda, depois da regeneração e no estado de
glória.
1. A IMAGEM ORIGINAL
Neste ponto vamos falar de um aspecto extremamente importantíssimo, que
os teólogos, com o suporte das Escrituras, chamam de "justiça Original".
Nesse tempo, antes da queda, no estado de integridade, o homem refletia
perfeitamente a imagem de Deus. Ele era capaz de viver perfeitamente de acordo
com as prescrições de Deus. Agostinho disse que ele era capaz de não pecar. A
famosa frase latina posse non peccare expressa bem a capacidade do homem em
viver de acordo com a vontade preceptiva de Deus explicitada ali no Éden.
Adão e Eva possuíam a justiça original. Esta justiça original é uma
terminologia teológica, que não é encontrada na Escritura para os nossos
primeiros pais. Contudo, podemos deduzir claramente do ensino bíblico que os
nossos primeiros pais a possuíam, porque estas coisas perdidas, são restauradas
posteriormente.

Composição da Justiça Original


Essa justiça original que os nossos primeiros pais possuíram, é composta de:
A) "CONHECIMENTO VERDADEIRO"
O NT indica que o conhecimento de Deus é restaurado no homem. Paulo,
escrevendo a pessoas nascidas de novo, diz: "E vos revestistes do novo homem
que se refaz para o pleno conhecimento, segundo a imagem daquele que o criou"
(Cl 3.10). Este conhecimento restaurado no homem através de Cristo (2 Co 4.6),
havia sido perdido na queda. Após o Éden, o homem perdeu a comunhão e,
portanto, o conhecimento de Deus, porque foi expulso do lugar que revelava
perfeitamente a presença de Deus.

B) "JUSTIÇA"
Novamente, falando do novo homem, do homem renovado em Cristo, Paulo
diz: "E vos revistais do novo homem, criado segundo Deus, em justiça e retidão
procedentes da verdade" (Ef 4.24). Por justiça, portanto, entendemos a
conformidade com a lei divina. Antes da queda havia uma harmonia perfeita
52 Berkhof, p. 246 (edição castelhana).

37
entre a natureza moral do homem e todas as santas exigências da lei de Deus. A
regra de conduta estabelecida por Deus era cumprida perfeitamente antes da
queda. A Bíblia diz em Ec 7.29, que Deus fez o homem reto (justo), referindo-se à
sua excelência moral.

C) "SANTIDADE"
Aqui, santidade é sinônimo de "retidão" de Ef 4.24. Essa santidade diz
respeito à pureza imaculada do ser humano quando criado. Ele possuía uma
comunhão direta com o seu Criador. A santidade não era simplesmente advinda
da comunhão com Deus, mas uma qualidade moral deles. Os nossos primeiros
pais não eram apenas separados do mal, mas possuíam o bem. Eram limpos de
coração.
Esta é a imagem moral de Deus que foi perdida no Éden, mas o homem não
deixou de ser homem, por perdê-la.

O homem, portanto, por causa da imagem moral de Deus estampada nele, a


justiça original, possuía um relacionamento triplo perfeito:

Relacionamento Tríplice Perfeito


A) RELACIONAMENTO COM DEUS
A harmonia com Deus originalmente era patente. Ele respondia
perfeitamente aos apelos da revelação natural de Deus. A comunhão dele com
Deus no Éden era perfeita. A Escritura diz que Deus "andava no jardim pela
viração da tarde" (Gn 3.8). Não há erro em dizer que Adão amava a Deus "sobre
todas as coisas", e dependia totalmente dele. No sentido mais pleno da palavra,
podemos dizer que Adão vivia coram Deo, isto é, na presença de Deus.
Deus criou o homem capaz de responder ao Seu amor e providência. E foi
assim no Éden, até que o homem decidiu voluntariamente desobedecer.
Esse relacionamento perfeito com Deus determinava os outros
relacionamentos. Os relacionamentos horizontais eram diretamente relacionados
com o relacionamento vertical. Do nosso relacionamento com Deus dependem
todos os outros relacionamentos.

B)RELACIONAMENTO COM O SEMELHANTE


Como um resultado de andar bem com Deus, era perfeito o relacionamento
de Adão com sua mulher. Gn 2.18 diz que não era bom para o homem viver só.
Por isso Deus quis uma vida ainda melhor para ele, uma vida que incluía o
relacionamento com um semelhante. Certamente, a vida com Eva foi de perfeição
relacional. Este foi o propósito de Deus para os seres humanos. Uma pessoa,
como pessoa, não pode viver em isolamento e, por isso, Deus fez a mulher, para
ser sua companheira, sua ajudadora, seu par, de tal forma que um não seria
completo sem o outro. As palavras de Gn 2.18 indicam
"que a mulher complementa o homem, suplementa-o, completa-o, é forte
onde ele pode ser fraco, supre suas deficiências e preenche suas necessidades. O
homem é, portanto, incompleto sem a mulher. Isto vale tanto para o homem
quanto para a mulher. A mulher também é incompleta sem o homem; o homem
suplementa a mulher, complementa-a, preenche suas necessidades, e é forte
onde ela é fraca." 53

53 Hoekema, p. 77.

38
CURSO DE ANTROPOLOGIA

O casamento indica o melhor relacionamento que pode haver entre dois


seres humanos, e ilustra como podem ser os outros relacionamentos com os
nossos semelhantes. O que queremos dizer é que o ser humano não é completo
sozinho. Ele precisa de outros seres humanos para se realizar. O ser humano não
alcança a sua plena satisfação sem o relacionamento, porque Deus nos fez
pessoas, e estas não podem viver em isolamento. Somos seres psicológicos,
afetivos e sociais, diferentemente de outros seres criados. Não podemos viver sem
as afeições do relacionamento. E os primeiros seres humanos viviam em perfeito
relacionamento entre si, antes da queda. Quando Jesus estava tratando da
quebra do casamento, do divórcio, em Mt 19, Ele disse, em palavras bem claras:
"Não foi assim desde o princípio". Isso quer dizer que, no Éden, havia um perfeito
relacionamento entre os seres humanos.

C)RELACIONAMENTO COM A NATUREZA


Este também era perfeito. Gn 1.26-28 descreve como Deus quis que os seres
humanos vivessem com a natureza.
Deus colocou o homem no mundo para viver em perfeita harmonia com a
sua criação. Deus o colocou para ter domínio sobre a vida vegetal e animal. É isto
o que está claro em Gn 1.28-29. Tudo estava colocado para o bem-estar do
homem, que a tudo dominava. A natureza foi feita para servir ao homem, e este
deveria viver em perfeita harmonia com ela, cuidando dela. Do cuidado dela
dependeria toda a sua subsistência.
"O homem é chamado por Deus para desenvolver todas as potencialidades
encontradas na natureza e na raça humana como um todo. Ele deve procurar
desenvolver não só a agricultura, horticultura, afazeres domésticos com os
animais, mas também a ciência, tecnologia e arte. Em outras palavras, nós temos
aqui o que é freqüentemente chamado de mandato cultural: a ordem para
desenvolver uma cultura que glorifica a Deus." 54
Mas não foi assim até o fim. O pecado fez com que essa harmonia fosse
quebrada, e subsistência do homem ficou prejudicada pela desarmonia com a
natureza.

Posse Non Peccare


O posse non peccare de Agostinho, era a condição natural do homem antes
da queda. Ele poderia perfeitamente viver sem transgredir as leis de Deus, porque
ele possuía a habilidade para tal. Ele não possuía natureza pecaminosa, e nada
no seu interior que o levasse a pecar. A obediência plena era perfeitamente
possível para Ele. Ele poderia agir perfeitamente de acordo com a sua natureza.
Os escolásticos chamaram essa condição de libertas naturae. Adão possuía o
potentia non peccandi. No jardim, enquanto não pecou, Adão, portanto, refletia
perfeitamente a imagem de Deus, com a qual havia sido criado.
Mas o posse non peccare, não era uma condição imutável. Hoekema diz que -
"a integridade na qual Adão e Eva existiram, não foi um estado de perfeição
consumada e imutável. Para ser exato, o homem foi criado à imagem de Deus no
começo, mas ele não era ainda um "produto terminado". Ele ainda necessitava
crescer e ser testado. Deus desejou determinar se o homem seria obediente a Ele
livre e voluntariamente, em face de real possibilidade de desobediência. Por esta
razão, Deus pôs Adão à prova (Gn 2.16-17). Se Adão e Eva houvessem guardado
aquela ordem, quem sabe igual a quê seria a história humana. Mas é triste dizer,

54 Hoekema, p. 79.

39
eles desobedeceram a ordem, e lançaram-se a si mesmos, e toda a raça humana
que veio depois, no estado de pecaminosidade." 55
É esta também a opinião da Confissão de Fé de Westminster:
"O homem, em seu estado de inocência, tinha a liberdade e o poder de querer
e fazer aquilo que é bom e agradável a Deus, mas mudavelmente, de sorte que
pudesse decair dessa liberdade e poder." (IX, 2)
Adão foi criado de tal forma que pudesse cair desse estado. E foi exatamente
isso o que aconteceu, com todas as suas conseqüências.

2. A IMAGEM DESFIGURADA
A imagem de Deus permanece depois da queda, mesmo embora não vejamos
mais os vestígios da justiça original. Todas as suas capacidades intelectuais,
afetivas, sua liberdade moral, seu domínio sobre a criação, etc., foram afetados
pela Queda, mas mesmo depois da Queda, é dito que o homem é a imagem de
Deus (Tg 3.9 e Gn 9.6).
A condição da humanidade agora caída, portanto, é a da impossibilidade de
não pecar. Neste estado o non posse non peccare é uma realidade indiscutível.
Não há forças no pecador para fugir do pecado. Nesse estado, é também dito que
o homem tem impotentia bene agendi, isto é, ele é incapaz de fazer o bem.
Calvino diz "mesmo embora concedamos que a imagem de Deus não tenha
sido totalmente aniquilada e destruída no homem, ela foi tão corrompida que,
qualquer coisa que permaneça, é uma deformidade horrenda". 56 Possivelmente
pensando na justiça original, Calvino acrescenta:
"Agora, a imagem de Deus é a excelência perfeita da natureza humana que
brilhava em Adão antes da queda, mas que subseqüentemente foi viciada e quase
apagada, de tal forma que nada permanece após a ruína, exceto que ela é
confusa, mutilada e doentia." 57
Com a queda, a imagem ficou pervertida, e o homem quebrou os
relacionamentos com os quais Deus o havia dotado: O homem quebrou o
relacionamento com Deus, com o seu semelhante e com a natureza.

A Quebra do Relacionamento Tríplice


A) O HOMEM QUEBROU O RELACIONAMENTO COM DEUS
Depois da queda, ele passou a adorar a criatura ao invés do Criador (Rm
1.20-23). A idolatria antiga era bastante primitiva, pois o homem adorava
estátuas de barro, madeira, coisas bastante rudimentares. Hoje, não existe
diferença de idolatria, apenas a confecção mais elaborada dos ídolos modernos.
Hoje os homens fazem outros tipos de idolatria sem se ajoelharem literalmente
diante delas, mas têm o dinheiro, a fama, o poder, os prazeres, as posses, etc.,
como objetos de culto. Não podemos, contudo, nos esquecer, de que mesmo nesta
nossa sociedade contemporânea, ainda há idolatria à moda antiga, ou seja, o
curvar-se diante de ídolos feitos à imagem e semelhança de homens e animais.
O homem se esqueceu daquele de quem foi feito imagem e semelhança.

B)
O HOMEM QUEBROU O RELACIONAMENTO COM SEU SEMELHANTE
Ao invés de ser bênção para o seu semelhante, agora o homem perdeu a
verdadeira comunhão com eles. Hoekema diz que ao invés de ser útil para eles, os

55 Hoekema, p. 83.
56 Institutes, I, xv, 4.
57 Institutes, I, xv, 4.

40
CURSO DE ANTROPOLOGIA

"homens caídos agora usam o dom do relacionamento para manipular outros


como ferramentas para os seus propósitos egoístas. Ele usa o dom da linguagem
para falar mentiras ao invés da verdade, para ferir o seu vizinho ao invés de
ajudá-lo." 58
O relacionamento entre os caídos tornou-se altamente prejudicado. O amor
não mais é a tônica, e sim o ódio. O real interesse pelo bem estar dos outros
tornou-se em indiferença e descaso. Apenas nos interessamos pelos que são do
sangue, e ainda assim quando eles não nos decepcionam. Ninguém ama
ninguém, porque a imagem de Deus está terrivelmente desfigurada.
Se as ciências dos homens estudassem o homem antes da queda, elas
haveriam de entender muito melhor os relacionamentos dos homens pós-queda.
As ciências humanas que não prestam atenção ao que Deus diz dos homens na
Escritura, não são sábias, e podem perfeitamente ser chamadas de não-
científicas, porque sempre ficarão sem analisar os verdadeiros problemas dos
homens. As antropologias que não estudam o homem à luz da revelação divina,
não são simplesmente não-cristãs, mas anti-cristãs.
"Todas as concepções do homem que não levam em conta o ponto-de-partida
da doutrina da criação e, que, portanto, olham para ele como um ser autônomo e
que pode chegar ao que é verdadeiro e reto totalmente à parte de Deus, ou da
revelação de Deus na Escritura, devem ser rejeitadas como falsas." 59

C)
O HOMEM QUEBROU O RELACIONAMENTO COM A NATUREZA
Como os outros dois relacionamentos, este também é fácil de ser percebido.
O homem foi colocado no mundo para ser o guardador da terra que belamente
Deus havia criado, mas depois da queda, o mundo vem sendo estragado e suas
riquezas têm sido usadas para propósitos tremendamente egoístas. A exploração
das riquezas tem sido somente para o enriquecimento de alguns mais "espertos",
em prejuízo da grande maioria de desfavorecidos. A natureza que deveria ser para
o bem de toda a humanidade, tem sido estragada para o benefício de alguns
exploradores poderosos. Isso é tremendamente triste, porque o homem está se
alienando de seu próprio habitat. Modernamente, o homem pensa no futuro, mas
não sem pensar antes em seus próprios interesses, sem levar em conta os
interesses do Criador. O interesse da humanidade está aquém de Seus próprios
interesses.
Embora possamos ver resquícios da imagem de Deus, é fácil perceber que ela
está bem distorcida, pervertida, desfigurada. E o homem revela muito bem essa
condição de pecador com a imagem de Deus desfigurada. Por isso uma grande
Providência foi tomada para recuperar aquilo que havia sido quase totalmente
perdido.

Non Posse Non Peccare


Nesta altura o homem perdeu a capacidade de fazer o bem (o que é agradável
a Deus). Agora, escravo do pecado, faz com que o pecado seja uma necessidade
nele. A condição pecaminosa dele o obriga a pecar porque é a única coisa que ele
sabe fazer, pois de agora em diante, como um livre-agente que é, só poderá fazer
o que está de acordo com a sua natureza. Como ele só possui a natureza
pecaminosa, ele só fará o que lhe é próprio. Por isso que ele não tem capacidade
de viver sem pecar. Daí a expressão latina non posse non peccare.

58 In God's Image, p 84.


59 Hoekema, p. 76.

41
3. A IMAGEM RESTAURADA
Cristo Jesus é considerado na Escritura a imagem perfeita de Deus. Em
vários lugares é dito que Ele reflete Seu Pai de maneira perfeita. 60
Por isso é dito na Escritura que Deus nos predestinou para sermos
"conformes à imagem" de Jesus Cristo. Ser igual a Jesus é ter de volta a imagem
de Deus.
Rm 8.29 — "Porquanto aos que de antemão conheceu, também os
predestinou para serem conformes à imagem de Seu Filho, a fim de que Ele seja o
primogênito entre muitos irmãos."
Os eleitos foram predestinados para se parecerem com Jesus Cristo, para
refletirem a Sua perfeita varonilidade, a humanidade plena de Jesus Cristo. Este
texto de Romanos indica que alguma coisa errada aconteceu com a imagem de
Deus no homem após a queda, imagem essa que precisava ser refeita. A
conformidade com a imagem de Jesus Cristo é o mesmo que ser feito à imagem
de Deus. Jesus é a imagem e o reflexo exato do ser de Deus. A meta final da obra
redentora de Cristo é devolver ao homem aquilo que foi perdido na queda, isto é,
a imagem de Deus. Ser conformado à imagem de Jesus Cristo, é ser conformado
à imagem de Deus. E é para isso que fomos destinados de antemão. O
completamento da obra da redenção será o sermos semelhantes a Cristo, nosso
Redentor. Esta restauração da imagem já começou, mas ainda não está
completada. Ainda temos sementes do pecado em nós que impedem que a
imagem de Deus seja completamente vista em nós. À medida em que Deus
completa a sua salvação em nós, restaurando-nos, Sua imagem será plenamente
vista, e Cristo será visto em nós.
2 Co 3.18 — "E todos nós com o rosto desvendado, contemplando, como por
espelho, a glória do Senhor, somos transformados de glória em glória, na Sua
própria imagem, como pelo Senhor, o Espírito."
No tempo do VT as pessoas se aproximavam de Deus com o rosto vendado,
para não verem a glória de Deus. Opostamente, nos tempos do NT, as pessoas
não mais precisam tapar os seus rostos, como medo de verem a glória de Deus.
Essa glória de Deus, de alguma forma, vai ser revelada na vida dos crentes, que
estão sendo transformados pela obra redentora de Cristo, para refletirem, de
novo, a imagem de Deus que foi desfigurada na queda.
Perceba-se que essa transformação é paulatina, pouco a pouco,
"transformados de glória em glória", até que reflitamos perfeitamente, amanhã, a
glória de Jesus Cristo. Assim como Cristo reflete a glória de Seu Pai, como Ele é a
expressão exata do Seu Ser, também nós haveremos de refletir perfeitamente a
imagem daquele que nos redimiu.
Embora tenhamos a imagem do Senhor restaurada em nós, ainda não
podemos vê-la plenamente, porque há embaraços, há ainda pecaminosidade em
nosso ser. Mas não podemos negar que, de algum modo, já refletimos algo de
nosso Senhor. O texto em português diz que nós "com o rosto desvendado,
contemplando, como por espelho, a glória do Senhor..." - Essa tradução pode, às
vezes, dar uma interpretação falseada. Ela pode dar-nos a impressão de que por
contemplarmos a glória é que somos transformados à imagem de Cristo. A idéia
não é bem esta. A melhor tradução do texto diz que nós estamos como que com "o
rosto desvendado, refletindo a glória do Senhor, somos transformados...na sua
própria imagem". Hoekema diz que

60 Cl 1.15; Hb 1.3;

42
CURSO DE ANTROPOLOGIA

"A palavra grega é derivada de katoptron, que significa "espelho".


Literalmente, portanto, katoptrizo/menoi significa espelhando. A palavra poderia
significar tanto "contemplando como num espelho" como "refletindo como um
espelho". Eu prefiro o segundo significado, visto que ele se encaixa tão bem no
contexto. A face de Moisés estava refletindo a glória de Deus, após ele ter estado
face a face, em comunhão com Ele. Visto que esta glória estava brilhante demais
para os Israelitas olharem para ela, ...Moisés teve que esconder a face. Mas hoje,
Paulo aponta, nós podemos refletir a glória do Senhor Jesus Cristo, com as faces
desvendadas. É deste modo que vemos a superioridade do novo pacto sobre o
antigo." 61
O processo de transformação pelo qual passamos, até que reflitamos
perfeitamente a imagem de Cristo, é paulatino, pois o verbo grego
metamorfou/meqa ("estamos sendo transformados") indica essa idéia. O verbo dá
a idéia de um processo contínuo, ainda não acabado. Já refletimos a imagem de
Cristo, mas ainda não fomos transformados completamente à sua imagem.
O primeiro texto analisado, o de Rm 8.29, aponta a meta de Deus para nós
— destinados para refletir a imagem de Cristo; o segundo texto, o de 2 Co 3.18,
indica o caráter progressivo dessa transformação. Embora o Pai nos tenha
destinado para sermos conformes à imagem de Jesus, é dito que o Espírito nos
transforma nesse continuado processo.

Com a imagem de Deus restaurada em nós, Cristo restaura também em nós


os relacionamentos perdidos:
A) RESTAURA A NOSSA COMUNHÃO COM DEUS;
B) RESTAURA A NOSSA COMUNHÃO COM OS SEMELHANTES;
C) RESTAURA A NOSSA COMUNHÃO COM A NATUREZA.

Posse non peccare (?)

4. A IMAGEM APERFEIÇOADA
Os textos analisados na seção anterior, Rm 8.29 e 2 Co 3.18 indicam que a
queda causou aos homens a necessidade de serem transformados para terem de
volta aquilo que perderam quando da sua criação. A meta final de Deus para os
redimidos é a perfeição de Cristo.
Que esta condição se dará somente depois da nossa ressurreição, está claro
de alguns textos da Escritura.
1 Co 15.49 — "E, assim como trouxemos a imagem do que é terreno,
devemos trazer também a imagem do celestial".
"Terreno" aqui se refere ao primeiro Adão. "Celestial" refere-se ao segundo
Adão, Jesus Cristo. O contexto dessa passagem está no ensino sobre a
ressurreição. Somente depois do completamento de nossa salvação é que
refletiremos a perfeição da imagem de Jesus Cristo. A glorificação do homem é o
estado final da redenção do pecador por quem Cristo morreu. Somente no estado
de glorificação é que o remido refletirá perfeitamente a imagem de Cristo. Por
enquanto, ele ainda está no processo, mas então, o processo já estará terminado.

61 Anthony Hoekema, In God's Image, p. 24.

43
Nesse tempo, até o corpo refletirá aquilo que Cristo já é. Teremos um corpo
semelhante ao corpo de Sua glória (Fp 3.21).
Hoje não somos o que seremos, mas quando Cristo se manifestar, isto é, na
completamento de nossa salvação, haveremos de refletir perfeitamente Jesus
Cristo. Por essa razão, João diz: "ainda não se manifestou o que haveremos de
ser. Sabemos que, quando Ele se manifestar, seremos semelhantes a Ele, porque
havemos de vê-lo como Ele é." (1 Jo 3.2). A idéia de imagem de Cristo, está
perfeitamente delineada nesse verso. Após a nossa ressurreição, haveremos de
exibir tudo aquilo para o que fomos destinados de antemão.
Non Posse Peccare
A reflexão da imagem de Cristo, nessa época, será vista na capacidade de
não pecar. Não teremos a impecabilidade 62 de Cristo, porque continuaremos a
ser homens, mas o Senhor Deus nos livrará da presença do pecado e o non posse
peccare de Agostinho, será uma grande e maravilhosa realidade.

A IMAGEM DE DEUS NA TEOLOGIA CRISTÃ


1) CATOLICISMO
A justiça original dentro do catolicismo é uma espécie de donum
superadditum, algo que Deus acresceu ao homem depois da sua criação. O
homem foi criado com uma justiça natural (justitia naturalis), que é composta dos
dons naturais que recebeu de Deus. Mas ainda assim, com a justiça natural, o
homem estava sujeito a paixões baixas e apetites indevidos. Esta tendência é
chamada concupiscência, que em si mesma, não é pecado, mas oferece elementos
para acontecer o pecado. Essa concupiscência é uma espécie de combustível para
o pecado, quando a ação se torna voluntária. Para refrear impulsos pecaminosos,
Deus acrescentou, então, aos dons naturais os dons sobrenaturais (dona
supernaturalia), que inclui a justiça sobrenatural. Este é o donum superadditum.
Originalmente, portanto, a justiça original não fazia parte do homem, mas foi
acrescentada como uma recompensa pelo uso dos dons naturais. Mas esses dons
sobrenaturais, incluindo a justiça original, foram perdidos com a queda.
A dedução clara desse ensino é que o homem hoje é exatamente o mesmo
que Adão antes de receber a justiça original, ainda que agora tenha uma
tendência muito mais forte em direção ao mal, especialmente porque não tem o
freio da justiça original, que é o donum superadditum.

2) SOCINIANISMO
Segundo os socinianos, a imagem de Deus consistia, quase que unicamente,
do domínio do homem sobre os outros elementos da criação.
Os socinianos, assim como os arminianos primitivos, descartam qualquer
possibilidade de o homem ter sido criado num estado de santidade. Eles não
criam que o homem foi feito pecador, mas não criam que a justiça original fizesse
parte deles na criação. Eles apenas criam que o homem foi criado num estado de
neutralidade moral, capacitado com uma vontade livre, para poder ir para
qualquer direção. O homem era inocente, sem pecado, mas não santo. Por essa
razão, eles colocaram a imagem de Deus apenas na esfera do domínio sobre a
criação.

62 Impecabilidade que advém do fato de Sua natureza humana estar inseparavelmente unida á natureza
divina.
44
CURSO DE ANTROPOLOGIA

3) LUTERANISMO
Os luteranos, às vezes, tentam distinguir a imagem de Deus num sentido
mais estrito e num mais amplo. No sentido mais estrito, o luteranismo viu a
imagem de Deus como sendo a justiça original. Sendo assim, o homem perdeu
totalmente a imagem de Deus, por causa do pecado. No sentido mais amplo, a
existência do intelecto e da vontade, que ainda existem no homem, que o diferem
dos outros seres animais, nada tem a ver com o religioso ou teológico. Por essa
razão Piepper diz que "chamar a imagem de Deus porque ele possui razão e
vontade é não levar em consideração o que o homem está para se tornar em
Cristo." 63 Portanto, é muito mais comum para os luteranos enfatizarem o aspecto
justiça original do que os outros aspectos geralmente considerados dentro da
teologia Reformada.
"Os teólogos luteranos são concordes em que imagem de Deus, que consiste
no conhecimento de Deus, santidade da vontade, está faltando no homem depois
da queda...Eles diferem, contudo, sobre a questão se em Gênesis 9.6 a imagem
divina é ainda atribuída ao homem após a Queda." 64
Lutero preferiu esta interpretação, de que a queda aniquilou a imagem de
Deus, em seu comentário sobre Gênesis 9.6.

4) CALVINISMO
Há idéias diferentes entre os vários teólogos Reformados: Robert Dabney
insiste "que a imagem de Deus não consiste de algo absolutamente essencial à
natureza do homem, mas unicamente em alguns acidentes. 65 É provável que
Dabney estivesse pensando aqui somente na justiça original.
Alguns teólogos Reformados limitam a imagem de Deus apenas à justiça
original, enquanto que outros incluem toda a natureza racional e moral. Outros
ainda incluem o corpo como parte da imagem de Deus, como já vimos.
De qualquer modo, o conceito de imagem de Deus é extremamente
importante para a teologia reformada, porque essa imagem é o que há de mais
distintivo no homem em sua relação com Deus. O conceito reformado de imagem
de Deus é muito mais abrangente e inclusivo do que o luterano e o católico
romano. O homem não perdeu a imagem de Deus, pois se a tivesse perdido,
haveria deixado de ser o que é — homem.

5 - O HOMEM NO PACTO DAS OBRAS

Teologia do Pacto ou Teologia Federal 66


A Teologia Reformada é conhecida como a Teologia do Pacto, porque desde os
seus primórdios, creu-se no estabelecimento de pactos da parte de Deus. Do
começo ao fim, a Escritura mostra que Deus estabeleceu relacionamentos com os
homens através de pactos. As alianças de Deus com Israel é um tema dominante
através de toda a Escritura.

63 Francis Pieper, Christian Dogmatics, vol. 1, (Saint Louis: Concordia Publishing House, 1950), p. 520.
64 Francis Pieper, Christian Dogmatics, vol. 1, (Saint Louis: Concordia Publishing House, 1950), p. 518-19.
65 Systematic and Polemic Theology, p. 293.
66 O termo Federal vem do latin "foedus", que significa "pacto". A doutrina do foedus operum pressupõe que
Adão conhecia a lei moral de Deus, tanto a da natureza (lex naturalis que foi impressa no seu coração desde
sua criação) quanto àquela que foi expressamente ordenada por Deus (lex paradisiaca, lei do Paraíso).
45
Deus estabeleceu pactos para relacionar-se amorosamente com as Suas
criaturas, porque, doutra forma, não poderia haver ligação entre Ele e elas. Eis o
que diz a Confissão de Fé de Westminster:
"Tão grande é a distância entre Deus e a criatura, que, embora as criaturas
racionais lhe devam obediência como ao seu Criador, nunca poderiam fruir nada
dele como bem-aventurança e recompensa, senão por alguma voluntária
condescendência da parte de Deus, a qual foi ele servido significar por meio de
um pacto." (VII, 1).

1. O SIGNIFICADO DO TERMO “PACTO”


Não é simples definir em nossa língua o termo hebraico tyir:b (berith), que
traduzimos como "pacto". Etimologicamente é muito improvável que consigamos o
seu significado fundamental. Robertson diz que
"investigações extensivas na etimologia do termo do Antigo Testamento para
o termo "pacto" (tyir:b) têm se provado inconclusivas na determinação do
significado da palavra." 67 Ela tem muitas conotações dadas na própria Escritura.
Robertson define que "pacto é um vínculo de sangue administrado
soberanamente". 68 Ele sempre contém a idéia de vínculo ou relacionamento, antes
que a idéia de "obrigação" ou "compromisso". McCoy diz:
"Enquanto os pactos divinos envolvem invariavelmente obrigações, o
propósito definitivo deles vai além do cumprimento garantido de um dever. Ao
invés disso, é uma inter-relação pessoal de Deus com seu povo que está no
coração do pacto. Este conceito do coração do pacto foi percebido na história dos
investigadores do pacto logo cedo no tempo de Coceius, como também foi visto
por sua ênfase sobre o efeito de um pacto como o que estabelece a paz entre as
partes." 69
Portanto, o estabelecimento de pacto é sempre o estabelecimento de um
relacionamento "em conexão com" ou "entre" pessoas. O elemento essencial de
um pacto é que alguém fica vinculado a outrem pelo estabelecimento de um
compromisso. O vínculo leva a obrigações graciosas da parte de Deus para com o
homem, e de uma resposta obediente da parte deste último.
Essas obrigações ou compromissos são decorrentes do vínculo estabelecido.
Por essa razão, muitas vezes há a menção de "juramentos" 70 nos pactos divinos.
Um pacto faz com que uma pessoa seja comprometida com outra. Isto mostra que
um pacto é em essência um vínculo. Robertson diz:
“A Escritura sugere não meramente que um pacto geralmente contém um
juramento. Ao invés disso, pode ser afirmado que um pacto é um juramento. O
compromisso da relação pactual liga as pessoas com a solidariedade equivalente
aos resultados alcançados pelo processo de um estabelecimento formal de
juramento. "Juramento" adequadamente capta a relação efetuada pelo "pacto" de
tal forma que os termos podem ser permutáveis (cf Sl 89.3, 34 sgts; 105.8-10). O
processo de formalização da tomada de juramento pode estar ou não presentes.
67 O. Palmer Robertson, The Christ of Covenants, (P&R, 1982), p. 5.
68 Ibid., p. 4.
69 Ver Charles Sherwood McCoy, The Covenant Theology of Johannes Coceius, (New Haven, 1965), p. 166),
citado por Robertson, p. 5, nota de rodapé 4.
70 Em quase todos os pactos estabelecidos por Deus há a menção de "juramentos" de Deus, embora esses
juramentos formais não devam ser considerados como conditio sine qua non dos pactos. Robertson diz que
"embora o juramento apareça repetidamente em relação a um pacto, não está claro que uma cerimônia
formal de tomada de juramento seja absolutamento essencial para o estabelecimento de um relacionamento
de pacto" (Robertson, p. 6, nota de rodapé 7).
46
CURSO DE ANTROPOLOGIA

Mas o compromisso pactual inevitavelmente resultará numa obrigação muito


solene." 71
A quase identidade entre os termos pacto e juramento mostram estas duas
palavras enfatizam a idéia de relacionamento, de estreito vínculo, que é parte
essencial do que a Escritura chama de Pacto. As partes contratantes de um pacto
estão profundamente comprometidas entre si.
Na sua definição Robertson disse que pacto é "vínculo em sangue
administrado soberanamente." A idéia de sangue é porque pacto sempre envolve
uma questão de vida ou morte, e quase que sempre mostra o derramamento de
sangue de uma vítima.

2. O NOME “PACTO DAS OBRAS”


Vários nomes têm sido dados ao relacionamento entre Deus e o homem no
Éden: Pacto da Criação, Pacto da Natureza, Pacto Edênico, Pacto Adâmico, mas o
que prevaleceu foi o nome Pacto das obras. Embora não me agrade pessoalmente
desse nome, vou usá-lo porque é este que os nossos símbolos de fé usam.
Portanto, o primeiro dos pactos estabelecido historicamente, segundo os
símbolos de Westminster, é o pacto de obras.
“O primeiro pacto feito como o homem era um pacto de Obras; nesse pacto
foi a vida prometida a Adão e nele à sua posteridade, sob a condição de perfeita
obediência pessoal." (VII, 2)
Nesse pacto de Obras Deus viu Adão, não como um indivíduo simplesmente,
mas como o "cabeça federal" de toda a humanidade, debaixo da obrigação de
obedecer as leis estabelecidas por Deus através da natureza e das Suas
asseverações verbais. Tem sido chamado pacto das obras para enfatizar a
responsabilidade de Adão.

3. EVIDÊNCIA BÍBLICA DO PACTO DAS OBRAS


O termo "pacto" (tyir:b) não aparece nos eventos do Éden. Isto tem dado
motivo a alguns teólogos Reformados para desistirem da teologia do pacto, tão
fortemente sustentada pela tradição Reformada. Contudo, há uma passagem na
Escritura que considera o que se passou entre Deus e Adão, como sendo um
pacto. Oséias 6.7 diz: "Mas eles transgrediram o pacto (tyir:b), como Adão
(({fdf):K); eles se portaram aleivosamente contra mim."
Alguns teólogos têm tentado dar uma outra interpretação a este texto,
alterando o sentido de "como Adão" para "em Adão". "Adão" significaria o nome de
uma cidade. Portanto, a idéia é a de que os homens do tempo de Oséias
transgrediram o pacto como os homens de Adão fizeram. Isso altera o sentido do
texto, invalidando assim, a doutrina do pacto lá no Éden. Esta interpretação
dificilmente encontraria apoio. Robertson diz:
"Somente uma pura suposição pode proporcionar uma ocasião concreta de
pecado nacional em Adão, localizada no Jordão, cerca de 12 milhas ao norte de
Jericó. A narrativa de um transbordamento do Jordão a Adão não faz qualquer
menção de um pecado da parte de Israel." 72
Essa é uma interpretação tendenciosa. Há um único registro de uma cidade
chamada "Adão", mas não há nenhuma menção de os homens terem violado o
pacto de Deus. "Além disso, esta interpretação pareceria requerer uma emenda

71 Robertson, p. 6, nota de rodapé 7.


72 O. Palmer Robertson, The Christ of the Covenants, (P&R, 1982), p. 22. O texto ao qual Palmer Robertson se
refere de um transbordamento do Jordão está registrado em Josúe 3.15-16.
47
ao texto massorético. Este verso não deve ser traduzido "em Adão", mas "como
Adão".73 Há outros dois versos na Escritura que possuem a mesma conotação e
são traduzidos “como Adão” (Jó 31.33 e Sl 82.6-7), sem que alguém tente afirmar
que Adão ali signifique um lugar ou cidade.
Uma outra possibilidade de interpretação tem sido esta: que Israel tenha
quebrado o pacto "como homem" ou "igual a raça".74 De qualquer forma, esta
interpretação tem que estar ligada à queda da raça ou do homem, o que não faz
muita diferença se comparada com a interpretação tradicional que assumimos
neste trabalho.
Tradicionalmente, os teólogos do pacto, sejam eles Reformados ou não, têm
traduzido as palavras hebraicas "como Adão" relacionando-as ao pecado do
primeiro homem. Esta é a tradução que oferece menos dificuldade que as outras.
"Como Adão transgrediu os arranjos pactuais estabelecidos pela criação, assim
Israel tem transgredido o pacto designado no Sinai". 75
De qualquer forma, as duas últimas interpretações falam de um pacto que
foi quebrado por um Adão indivíduo, ou por um Adão representativo da raça.
Robertson diz:
"Se 'Adão' é tomado genericamente, o termo se referiria a uma obrigação
pactual mais ampla que recai sobre o homem que lhe dá uma responsabilidade
solene no mundo de Deus pela criação. Em qualquer caso, Oséias 6.7 pareceria
referir-se a uma terminologia pactual na relação de Deus com o homem
estabelecido pela criação."76
Ninguém duvida do pacto da graça, porque ele está afirmado explicitamente
nas Escrituras, mas porque não aparece explicitamente em Gênesis, há os que
tentam destruir a noção de pacto de obras ali. Charles Hodge, um partidário da
teologia do pacto, coloca nestes termos a sua crença no pacto de obras feito entre
Deus e Adão, por comparação ao que aconteceu no pacto da graça:
“Embora a palavra pacto não seja usada em Gênesis... o plano de salvação é
constantemente representado como o novo pacto, novo, não meramente em
antítese ao que foi feito no Sinai, mas novo em referência a todos os pactos legais
quaisquer que fossem... Está claro que a Bíblia apresenta o arranjo feito com
Adão como uma transação verdadeiramente federal. A Escritura não conhece
nenhum outro além dos dois métodos de se obter a vida eterna: um é aquele que
exige perfeita obediência, e o outro é aquele que exige fé. Se o último é chamado
pacto, o primeiro é declarado ser da mesma natureza.” 77
Portanto, queiramos reconhecer ou não, a idéia de pacto de obras está
presente no Gênesis, embora ali não esteja o termo próprio.

O PACTO DAS OBRAS E A LEI DE DEUS


Não há como se questionar que Deus deu lei para Adão. A lei foi dada para
Adão como um princípio regulador para a sua vida. Ela declara ao homem o que é
bom e o que não é bom e, por virtude de ser de autoridade divina, ela obriga o
homem à obediência.

73 Ibid., p. 22.
74 Robertson argumenta que a Septuaginta traduz a expressão hebraica {fdf):K como w(j a)/nqrwpoj, o
que favoreceria esta interpretação. Calvino também sugere esta interpretação em seu Commentaries on the
Twelve Minor Prophets, (Edinburgh, 1846), 1:233, 235. (Robertson, p. 23, nota de rodapé 4).
75 Ibid., p. 23.
76 Ibid., p. 24.
77 Systematic Theology, vol. II, 117.

48
CURSO DE ANTROPOLOGIA

A lei dada no Éden indica que o homem é um ser moral, não um ser
moralmente neutro ou indiferente.
Deus deu duas espécies de lei a Adão no Éden: a lei da natureza e a lei
expressa em palavras.

1. DEUS DEU AO HOMEM UMA LEI NATURAL.


Paulo nos diz que há uma lei impressa nos corações dos homens desde que
foram criados (Rm 2.14-15). Esta é a lei da natureza. Essas leis não foram
escritas nos corações dos homens depois da Queda, mas na criação do homem.
Se o homem depois da Queda ainda possui essas leis, quanto mais o homem
antes da Queda! Essas leis fazem parte da natureza constitucional do homem, e o
tornam um ser absolutamente moral, com padrões a serem seguidos.
Essas leis naturais refletem não somente o caráter moral de Adão, mas
também a natureza de Deus. A natureza de ambos exige a presença de leis,
porque um reflete o primeiro reflete a imagem do segundo. Se Deus é um ser
moral, o homem também tem que ser e, portanto, há algumas normas dadas por
Deus que refletem a moralidade do Criador na criatura. Por virtude de Sua
natureza, Deus está acima da criatura e tem a prerrogativa de estabelecer leis
para ser obedecido. Deus é soberano e o homem é criatura dependente dele em
todas as coisas, sendo sujeito a Ele em tudo.
Essas leis naturais são uma sombra daquilo que foi posteriormente dado em
forma escrita no tempo de Moisés. Elas refletem os 10 Mandamentos quase que
na sua inteireza. Essas leis naturais são perfeitas, e Adão estava em posse dela.
Ainda é possível perceber a impressão delas na alma humana, embora os homens
tenham sido afetados moralmente pela Queda, mesmo os homens que vivem
numa civilização muito distante daquela que conhecemos como "civilização cristã
ou ocidental". Todos eles têm noções básicas das leis morais de Deus, a quem
devem obedecer. Após a Queda, Paulo diz, essa lei tornou-se enferma por causa
da natureza pecaminosa do homem que obsta o homem de obedecê-la
plenamente (Rm 8.3). A inadequacidade não é da lei, mas daquele que se torna
incapaz de obedecê-la, mas há algo claro no texto: essa lei, se obedecida,
concederia vida, porque ela é espiritual.
Portanto, desde a sua criação, Adão tinha deveres de obediência, embora
estas leis impressas não revelem um caráter pactual.

2. DEUS DEU AO HOMEM UMA LEI EXPRESSA EM PALAVRAS.


Elas estão afirmadas nas proibições de Gn 2.15-17. A lei natural dada na
criação expressão o caráter moral de Deus. Estas leis são a expressão da Sua
soberania que agora é formalmente declarada. Elas são expressão de Sua
soberania porque Ele não precisava dá-las se não quisesse. Ao homem foi
ordenado o cuidado do jardim e a proibição de não comer da árvore do
conhecimento do bem e do mal.
Por quê Deus deu esta ordem a Adão? Se Deus não a houvesse dado, Adão
não teria pecado. A resposta a esta objeção é que Deus não costuma dar
justificativa de todos os Seus atos, e Ele agiu assim conforme o conselho da Sua
vontade. Além disso, uma lei não significa necessariamente que alguém deva
desobedecê-la.
De uma coisa podemos todos estar absolutamente certos: Com essa ordem
Deus declara formalmente a Sua soberania, que Ele era o Senhor, e que Ele
requeria a obediência da criatura de maneira inequívoca, sem que esta lhe
pedisse qualquer justificativa. Era dever do homem obedecer à lei e fazer a

49
vontade de Deus desejosamente, pois esta era a maneira de continuar em boas
relações com o Criador. A alegria e a santa comunhão só poderiam continuar e
tornar-se ainda num grau maior e definitivo com a continuada obediência da lei.
Isto significava que o homem deveria estar contente com aquilo que o Criador lhe
havia dado até então, sem desejar qualquer coisa superior a ela.
A resposta à pergunta feita logo acima não pode, portanto, ser respondida, a
menos que a entendemos à luz da soberania divina, que faz todas as coisas
segundo o conselho da sua vontade.

4. OS ELEMENTOS DO PACTO DAS OBRAS


Embora no Éden não apareça o termo, os elementos do pacto estão presentes
nos atos reveladores de Deus. Há as partes contratantes, há a promessa de vida
sob a condição de obediência, e há a penalidade fixada no caso da desobediência
à lei estabelecida.

1. PARTES CONTRATANTES
Sempre há o envolvimento de duas partes num pacto. Neste caso são Deus,
como soberano e supremo Senhor e Adão. Este foi feito à imagem e semelhança
daquele. Foi tornado cabeça e representante de toda sua progênie.
Deus prescreveu todas as coisas a Adão com poder absoluto, de forma que
todas as condições e promessas do pacto foram unilaterais, estando Adão apenas
na posição de aceitar e obedecer todas as exigências de Deus. Deus estabelece
todas as condições virtude da sua absoluta soberania, supremacia, majestade e
eminência, que são Seus atributos essenciais. O profeta Jeremias mostra esses
atributo de Deus de uma forma bem simples e resumida, que colocam o homem
na posição de obedecer todas as prescrições divinamente enviadas:
Jr 10.6-7 - “Ninguém há semelhante a ti, ó Senhor; tu és grande, e grande é
o poder do teu nome. Quem te não temeria a ti, ó Rei das nações? pois isto é a ti
devido; porquanto entre todos os sábios das nações, e em todo o seu reino,
ninguém há semelhante a ti.”
Dessa idéia de Deus, segue-se que o homem está sob o dever de obedecer
todas as estipulações. Adão acatou todas as exigências divinas e, como criatura
finita, não discutiu as exigências de Deus porque conhecia o seu papel de
criatura e das responsabilidades como mordomo do jardim que Deus lhe havia
confiado.

2. PROMESSA DE VIDA ETERNA CONDICIONADA À OBEDIÊNCIA


Nenhum pacto é estabelecido por Deus sem promessas. A promessa deste
pacto das obras é a de vida eterna, que está implícita no texto de proibição de
comer da árvore do conhecimento do bem e do mal. No pacto das obras, “a Adão
foi prometida a mesma vida eterna a ser obtida pela justiça que é da lei, da qual
os crentes são tornados participantes através de Cristo.” 78 A promessa de vida
prometida no evangelho aos que crêem em Cristo é exatamente da mesma
natureza da que foi feita no Éden a Adão. Os dois tipos de vida prometidos são
absolutamente iguais. Quando Jesus disse: “Aquele que crê em mim tem a vida
eterna”, é a repetição da idéia que Moisés disse: “Faze isso, e viverás”.
Essa idéia de vida plena está no bojo de todos os homens. É isso o que todos
desejam. O desejo de felicidade eterna é algo que está ainda presente em todos os

78 Herman Witsius, The Economy of the Covenants between God an Man, vol. 1,(Phillispsburg,
New Jersy: Presbyterian and Reformed Publishing House, 1990), 75.
50
CURSO DE ANTROPOLOGIA

homens, mesmo nos mais ímpios. Todos eles sabem que a felicidade está
vinculada ao fazer o que é bom como a infelicidade no fazer o que é mau. É uma
noção universal a idéia de recompensa para os que obedecem e punição para os
que não obedecem as leis estabelecidas. Isso advém das leis naturais impressas
na alma humana, sem que ninguém ensine aos homens.
Contudo, a noção de vida eterna é muito mais claramente percebida pela
ordem dada por Deus como expressão da Sua Soberania no Éden. Se o pagão
ainda hoje tem a noção de recompensa para os que fazem o bem e a punição para
os que fazem o mal, quanto mais Adão! Ele possuía o conhecimento advindo dois
tipos de lei que Deus lhe havida dado no Éden. O seu conhecimento dessas leis
era perfeito, então.
O ensino de que a vida eterna vem pela obediência é uma tônica de toda a
Escritura.

ESTE É O ENSINO DE MOISÉS


O pacto das obras, num sentido estrito, tem relação absoluta com a Lei de
Deus. A vida eterna de Adão, assim como de toda a sua posteridade, estava
vinculada à sua obediência estrita à lei estabelecida por Deus. Mesmo após a
desobediência, Deus não retirou a idéia de que a vida eterna vem pela mesma
obediência. Veja algumas sugestões da Escritura no tempo em que o homem já
havia caído:
Lv 18.5 - “Portanto os meus estatutos e os meus juízos guardareis;
cumprindo os quais, o homem viverá por eles: Eu sou o Senhor”.
Deus poderia ter retirado o mandado de ter vida pela obediência, pela
simples razão de que ele é o Senhor. No pacto das obras a ordem é “Faze isto” e a
promessa “e viverás”. Deus ainda coloca uma ameaça: “Se não fizeres isto,
morrerás”.

ESTE É O ENSINO DE DAVI


Davi é um outro famoso escritor sacro. A sua ênfase na importância da
obediência à lei é conhecida nos salmos que escreveu. O Salmo 119 mostra o seu
apego à lei de Deus. Veja também como se se porta falando sobre a perfeição da
lei do Senhor:
Sl 19.7-11 - “A lei do Senhor é perfeita e restaura a alma... Além disso, por
eles se admoesta o teu servo...; os preceitos do Senhor são retos... e em os
guardar há grande recompensa.”
Todo homem que guarda perfeitamente a lei do Senhor é recompensado com
a vida eterna, com a comunhão imperdível. Contudo, mesmo embora saibamos
que a lei do Senhor é perfeita, não existe perfeição em nós para que a guardemos
perfeitamente, a fim de que recebamos a recompensa da vida eterna.

ESTE É O ENSINO DE PAULO


A mesma vida eterna que alguém recebe pela fé em Cristo é prometida
àqueles que obedecem perfeitamente à lei de Deus. Paulo reafirmou o
pensamento de Moisés de que a vida eterna vem pela obediência irrestrita à lei de
Deus.
Rm 10.5 - “Ora, Moisés escreveu que o homem que praticar a justiça
decorrente da lei, viverá por ela.”
Gl 3.12 - “Ora, a lei não procede da fé, mas: aquele que observar os seus
preceitos, por eles viverá.”

51
Rm 7.10 - “E o mandamento que me fora para a vida, verifiquei que este
mesmo se me tornou para morte.”
Obviamente, Paulo sabe da impotência do pecador para cumprir a lei de
Deus perfeitamente. Por essa razão, ele trata abundantemente da justiça da fé
(Rm 10.6-9). Ele ainda argumenta que, porque “ninguém pode ser justificado
pelas obras da lei” (pela impotência de pecador em cumprir todos os preceitos),
Cristo teve que “nos resgatar da maldição da lei” (Gl 3.10-13). Paulo argumenta
que a lei tornou-se impotente de dar vida ao homem, mas o problema não estava
na lei, mas na impotência humana (Rm 8.3-4).
Mas ninguém pode negar que a vida eterna de um homem vem pela
obediência. Os mesmos preceitos que Deus propôs a Adão, que produzem vida
eterna, e sobre os quais o pacto das obras está fundado, são repetidos e
reforçados na Lei de Moisés. Há uma continuação entre a lei dada a Adão e a lei
repetida a Moisés. A mesma lei que estava em vigor no Éden, antes da entrada do
pecado no mundo, ainda permanece em vigor. Se devidamente observada, ela
produz vida. Basicamente é a mesma lei à qual todos os homens devem
obediência, se querem ter vida eterna.
Paulo confirmou isso, mas reconheceu a incapacidade humana dessa
obediência irrestrita a todos os preceitos da lei. Por essa razão, Cristo obedeceu
perfeitamente todos os preceitos, para que Deus nos concedesse vida eterna.
Cristo veio fazer o que o primeiro Adão não fez: obedecer para conseguir vida
eterna para os seus representados.

ESTE É O ENSINO DE JESUS


Jesus confirmou o ensino do VT de que a vida eterna dos homens vem pelo
cumprimento da lei estabelecida por Deus no Éden e na confirmação dela por
Moisés
A lei natural dada no Éden era uma sombra da lei que haveria de ser dada
de forma escrita muito tempo depois, no Monte Sinai. É a lei dos 10
Mandamentos. Essa lei contém uma noção de vida eterna para aqueles que
obedecem a Deus. Jesus admitiu claramente que a obediência à lei produz vida
eterna. Isto está registrado em Mt 19.16-21 O jovem perguntou:
"Mestre, que farei eu de bom, para herdar a vida eterna? Respondeu-lhe
Jesus: Por que me perguntas acerca do que é bom? Bom, só existe um. Se
queres, porém, entrar na vida, guarda os mandamentos. E ele lhe perguntou:
Quais? Respondeu Jesus: Não matarás, não adulterarás, não furtarás, não dirás
falso testemunho; honra a teu pai e a tua mãe, e amarás o teu próximo como a ti
mesmo."
Está claro que a obediência à lei produz vida. Os homens podem ganhar a
vida eterna no céu pela plena obediência à lei de Deus. O verso 21 afirma esta
verdade inequivocamente. Jesus, portanto, afirma a concessão da vida eterna por
meio da obediência, e nisso, tem o apoio de muitos outros escritores sagrados.

ESTE É O ENSINO DOS PADRÕES DE FÉ DE WESTMINSTER


A promessa do pacto é uma promessa condicional, porque a os benefícios
dela dependem do cumprimento de uma condição: a da obediência. A CFW deixa
a idéia de obediência para se obter vida como uma condição absoluta no pacto
das obras:
“Deus deu a Adão uma lei como um pacto de obras. Por este pacto Deus o
obrigou, bem como toda a sua posteridade, a uma obediência pessoal, inteira,
exata e perpétua; prometeu-lhe a vida sob a condição dele cumprir com a lei e o

52
CURSO DE ANTROPOLOGIA

ameaçou com a morte no caso dele violá-la; e dotou-o com o poder e a capacidade
de guardá-la.” (XIX, 1)
A obediência à lei era condição para o homem obter a imperdibilidade da
vida. Adão possuía vida natural perfeita quando foi criado. Ele ainda não possuía
a eternidade dela, que é sinônimo de comunhão imperdível. Se ele a possuísse,
obviamente ele não a perderia. A palavra "eterna" implica em algo que não pode
ser perdido.
Adão poderia ter vida eterna se ele obedecesse aos preceitos de Deus. Por um
tempo (não fixado na Escritura) ele ficaria debaixo de prova. Se passasse no teste,
poderia ter acesso à vida eterna pelo comer da árvore da vida. O texto de Gn 3.22
mostra-nos claramente que ele ainda não havia se apossado da vida eterna,
porque não havia ainda comido da árvore que estava no meio do jardim (Gn 2.9).
Porque desobedeceu, não pode ter acesso a essa árvore (Gn 3.22).

3. A AMEAÇA DE MORTE EM CASO DE DESOBEDIÊNCIA


Ao mesmo tempo que o pacto incluía uma promessa de vida, ele apresentava
uma ameaça de morte. Por causa desse castigo de morte, toda a humanidade
está, por natureza, debaixo da culpa do pecado de Adão (Rm 5.12). Todas as
pessoas estão debaixo da maldição da lei, mesmo antes de terem cometido
qualquer pecado voluntário. Todos devem a Adão a culpa de seus pecados, pois o
pecado dele foi imputado a todos os homens. Por essa razão, todos nascem “por
natureza, filhos da ira” (Ef 2.3).
A idéia de obediência como condição para se obter vida eterna está deduzida
do ensino da Escritura de que Jesus Cristo teve que obedecer toda a lei para
garantir-nos vida eterna (Rm 5.19). Por causa da nossa incapacidade de cumprir
a lei por nós mesmos79, Cristo teve que morrer “para resgatar os que estavam sob
a lei” (Gl 4.5), a fim de que a lei não os condenasse. Onde não há a obediência
perfeita da lei, há o castigo da lei. Certamente a punição da lei vem sobre todos
aqueles que não são obedientes perfeitos dela. Se guardamos toda a lei, mas
tropeçamos num só preceito dela, tornamo-nos culpados de toda a lei. Este foi o
ensino de Jesus Cristo () e o de Paulo (Gl 3.10). Por essa razão, a fim de livrar-nos
do castigo dessa lei, Ele obedeceu a lei, sofrendo a penalidade dela, porque todos
nós nos tornamos violadores do pacto com Adão e em Adão.
Gl 3.13 - “Cristo nos resgatou da maldição da lei, fazendo-se ele próprio
maldição em nosso lugar, porque está escrito: Maldito todo aquele que for
pendurado em madeiro.”

4. O SACRAMENTO DO PACTO
Em todos os pactos estabelecidos por Deus houve a colocação de sinais e
selos neles.80 Deus não somente nos instrui através das Suas Palavras, mas Ele
também nos dá símbolos visíveis para que aprendamos com eles. Deus nos
ensina também através dos olhos, dando-nos um ensino aprofundado pelo que
vemos. Os nossos sentidos todos têm que ser exercitados no aprendizado. Aquilo
que vemos com os olhos causam profunda impressão em nós. Deus tem-nos

79 Paulo disse com muita clareza sobre a impotência do pecador em cumprir a lei de Deus. Por
essa razão, ninguém pode ser justificado pelas obras da lei. A impotência, na verdade, não está na
lei. Ela é a mesma lei, santa, justa e boa, mas a inadequacidade está na condição do pecador, por
sua pecaminosidade. Por isto, Paulo diz: “É evidente que pela lei ninguém é justificado diante de
Deus...” (Gl 3.11).
80 No Pacto com Noé, houve a colocação do arco nas nuvens (Gn 9.12-13); O pacto com Abrão
possuía o sinal da circuncisão (Gn 17.10-11); no Novo Pacto, o batismo.
53
ensinado pelas palavras, mas ele também nos ensina pelos sacramentos de forma
visível a mesma verdade. Foi assim com a ceia e com o batismo.
O pacto das obras, que foi o primeiro estabelecido por Deus historicamente,
não fugiu à regra. No pacto de obras Deus também usou o recurso dos
sacramentos para ensinar através daquilo que os nossos primeiros pais viam.
Assim como Deus estabeleceu um pacto com Adão, também Ele se agradou em
colocar um selo a esse pacto: a árvore da vida (Gn 3.22).
Não existe harmonia entre os teólogos reformados quanto ao número de
sacramentos. Alguns falam em quatro: Paraíso, árvore da vida, árvore do
conhecimento do bem e do mal e o sábado.81 Outros falam em apenas 3
sacramentos: as duas árvores e o paraíso; outros dois: as duas árvores; enquanto
que outros preferem um só: a árvore da vida. Esta é a mais comum das opiniões
da fé reformada, segundo Berkhof.82
Há algumas menções sobre a árvore da vida na Escritura: Gn 2.2; 3.22; Ap
2.7; 22.2. Juntamente com essa última há uma referência em Ez 47.12, que
parece indicar que essa árvore tem as mesmas propriedades da árvore da vida,
embora o seu nome não apareça.
Essa árvore da vida parece possuir elementos medicinais, mas atribuir a ela
essas virtudes medicinais para a cura de doenças não parece ser uma idéia
razoável, se examinarmos o contexto geral da Escritura. No Éden, antes da
queda, o homem não possuía enfermidades. Depois da redenção completada, na
nova terra, os remidos não terão qualquer enfermidade a ser curada. As
enfermidades são, em última instância, os efeitos do pecado.
A árvore da vida, portanto, deve ser entendida como símbolo e indicativa de
Jesus Cristo, o Filho de Deus encarnado. Ele é a vida encarnada, tendo vida em
Si mesmo, e sendo o doador dela. Todo aquele que se apropriar dele tem a vida
eterna. A árvore da vida no jardim do Éden (tanto no Gênesis como no
Apocalipse) aponta para Cristo, que é a cura de todos os povos. Ele é o salvador e
médico das gentes de todas as nações. Os que são da posteridade de Adão, a fim
de que sejam curados de seus pecados, têm que se apropriar da Vida, que é
Jesus. Assim como no novo pacto, o sacramento da ceia, com o pão e o vinho,
aponta para Cristo, a Vida, assim, no pacto das obras a árvore no jardim
apontava para a vida eterna. O sacramento é uma figura que trata de uma
verdade, mas atinge os olhos, não somente os ouvidos com a mensagem falada. É
o evangelho visível que Deus nos deu.
Deus criou originalmente o homem com vida natural perfeita, mas a fim de
que ele se apropriasse da vida eterna ele teria que obedecer e tomar da árvore a
vida (Gn 3.22).

5. A VIOLAÇÃO DO PACTO DAS OBRAS


Alguns cristãos mal informados pensam que a transgressão de nossos
primeiros pais foi algo sem muita importância, ou que Deus tenha sido muito
severo no julgamento da atitude deles. Precisamos estar de acordo com as
Escrituras, sem tentar suavizar o que Deus considera algo extremamente sério.

A GRAVIDADE DA VIOLAÇÃO DO PACTO


Os 6.7 diz que Adão quebrou o pacto. Tratando dessa matéria, Paulo diz que
o pecado entrou no mundo através de um homem (Adão) e, por causa disso, a
81 Herman Witsius trata abundantemente desta idéia quádrupla dos sacramentos do pacto das
obras (The Economy of the Covenants Between God and Man, 105-117).
82 Louis Berkhof, Teologia Sistematica, 257 (edição castelhana).
54
CURSO DE ANTROPOLOGIA

morte passou a todos os homens. No texto de Rm 5.12-21, Paulo usa algumas


expressões bastante fortes para expressar o ato de Adão: Pecado (v.12);
transgressão (v.13); ofensa (v.14,15,16,17,18, 20); desobediência (v.19). Todas
essas expressões mostram a gravidade do ato de Adão ao violar o pacto.

A CONSEQÜÊNCIA DA VIOLAÇÃO DO PACTO


A conseqüência imediata da violação do pacto foi a entrada do pecado no
mundo (Rm 5.12).
Com a entrada do pecado no mundo a harmonia dele se foi. Até então, o
mundo criado havia considerado “muito bom” por Deus, e não havia qualquer
iniqüidade nele. Havia perfeita comunhão entre o universo criado e o homem, a
criatura mais elevada de Deus, sob quem tornou sujeitas todas as coisas.
Quando o pecado entrou no mundo, essa harmonia absoluta entre as coisas
criadas desapareceu: Desapareceu a harmonia entre o homem e os animais;
desapareceu a harmonia entre o casal; desapareceu a harmonia entre irmãos
carnais; desapareceu a harmonia entre os próprios animais; mas acima de tudo
desapareceu a harmonia entre a criatura e o Criador.
Com a entrada do pecado no mundo apareceu a maldição de Deus sobre a
natureza e sobre o ser humano. A terra tornou-se maldita e agora o homem tinha
que trabalhar com pesar para ganhar o pão de cada dia, e a mulher haveria de
sofrer dores para ter filhos, e as relações de sexo ficaram prejudicadas, pois o
prazer ficou mais voltado para o homem. Tudo por causa da entrada do pecado
no mundo.
Com a entrada do pecado no mundo não ficou ninguém sem ser afetado por
ele. A morte passou a todos os homens (Rm 5.12). A conseqüência mais séria do
pecado, a morte, bateu à porta de todos os homens, sem exceção.
A violação do pacto certamente foi um ato muito grave contra Deus para Ele
mostrar tão fortemente o seu desgosto contra o universo criado e, principalmente,
contra o homem.

6. A IDÉIA DE REPRESENTATIVIDADE NO PACTO DAS OBRAS


No pacto das obras Adão foi constituído uma pessoa pública, que agiu não
somente em seu próprio nome, mas foi considerado como agindo como
representante de toda a raça.
A dedução desta matéria é claramente retirada do texto de Paulo aos
Coríntios, onde fica absolutamente evidente a presença de dois homens: o
Primeiro Adão, e o Segundo Adão.
1Co 15.45-49 - “Pois assim está escrito: O primeiro homem, Adão, foi feito
alma vivente. O último Adão, porém, é espírito vivificante. Mas não é primeiro o
espiritual, e, sim, o natural; depois o espiritual. O primeiro homem, formado da
terra, é terreno; o segundo homem é do céu. Como foi o primeiro homem, o
terreno, tais são também os demais homens terrenos; e como é o homem
celestial, tais também os celestiais. E, assim como trouxemos a imagem do que é
terreno, devemos trazer também a imagem do celestial.”

Conforme o texto acima, Adão possui conosco um relacionamento duplo:


ADÃO É O CABEÇA NATURAL DA RAÇA
Dele todos os homens descendem. Ele é o primeiro duma série enorme, todos
derivados naturalmente dele por propagação. No discurso em Atenas Paulo disse:
Deus “de um só fez toda a raça humana para habitar sobre toda a face da terra”

55
(At 17.26) e, citando provavelmente o poeta Arato, segundo o entendimento de
Calvino, ele continua: “Porque dele também somos geração” (At 17.28b). O livro
de Gênesis indica que Eva, a esposa de Adão (Gn 2.21-24), “é a mãe de todos os
seres humanos” (Gn 3.20). Dessa forma, Adão foi o pai de todos os seres
humanos.
ADÃO É O CABEÇA REPRESENTATIVO DA RAÇA
Contudo, Adão não foi somente o primeiro de uma série de indivíduos, que
constituíram a raça humana, mas ele foi o primeiro e o representante de todos
eles, de tal forma que o ato dele foi considerado o ato de todos. A posição de Adão
foi única com relação aos seus descendentes. Ele foi considerado uma pessoa
pública e agiu no lugar de todos representando-os. Toda a raça humana foi
representada por ele de forma que o seu ato foi considerado por Deus o ato de
todos. A Escritura mostra que Adão agiu em favor e no lugar de seus
descendentes. O que ele fez foi considerado como se todos eles fizessem. 83
Não há nenhuma dúvida de que todos os descendentes do primeiro casal
receberam a culpa e a corrupção do pecado de Adão, que em teologia é conhecido
como o pecado original.
Com base em qual critério os descendentes receberam a culpa de Adão? Pelo
processo da imputação de culpa do representante aos representados.
O texto de Romanos 5.12 começa indicando que o pecado de um é o pecado
de todos. O texto diz “que todos pecaram”. Este verso não pode indicar o pecado
individual de cada um porque eles ainda não existiam quando Adão pecou. A
morte passou a todos os homens que ainda não eram historicamente existentes.
Mas o pecado deles está no pecado de um, Adão. Todos eles pecaram em Adão,
representativamente.
Os versos subseqüentes de Romanos 5 mostram que o ato do representante
é considerado o ato dos representados.
O v.15 diz que “ofensa de um só” causa a morte de sua posteridade;
O v.16 trata do pecado “de um só”, e do “julgamento que derivou de uma só
ofensa”, trazendo a condenação sobre a posteridade.
O v.17 fala que “pela ofensa de um, e por meio de um só”, a morte veio a
reinar sobre a sua posteridade.
O v.18 diz que o juízo de Deus veio sobre todos os da posteridade de Adão,
por causa de “uma só ofensa”.
O v.19 diz que o fato de a posteridade de Adão ser pecaminosa se deve “à
desobediência de um só homem”.
Com estas cousas em mente, não é possível ignorar o assunto da
representatividade, onde a imputação da culpa do pecado e de suas

83 Há duas ressalvas a serem feitas nesta matéria: (1) Cristo não estava incluído nesta representação. No
texto de 1Co 15.45-49 Cristo está em oposição ao Primeiro Adão. Se Adão houvesse guardado o pacto, Cristo
não teria vindo, porque a Sua obra foi fazer exatamente o que o primeiro Adão não fez — obedecer, para
conseguir vida eterna para o seu povo. Embora Cristo seja, em última instância, descendência natural de
Adão, via Maria, Ele não é representado por Adão, não recebendo, portanto, a culpa e a herança pecaminosa
dele; (2) Não podemos afirmar de modo dogmático que Eva estava inclusa nessa representação. Contudo, há
indícios de que Adão era o cabeça da família, porque era o varão e o primeiro a ser formado. Gn 2.16-17 dá-
nos uma perfeita idéia de que o pacto foi feito com Adão, antes mesmo de Eva ter sido formada. O pacto foi
feito exclusivamente com Adão e Eva, ao que nos parece, foi inclusa nessa representação. A razão disso está
no fato de Eva ter pecado primeiro e Adão ter sido responsabilizado por Deus. É verdade que ela caiu pela
sua própria transgressão, mas a ruína da raça só veio a ser anunciada depois de Adão caiu, porque o pacto
havia sido estabelecido com ele. Adão foi o primeiro a ser convicto do seu pecado, embora Eva fosse a
primeira a ter caído. A culpa do pecado é atribuída a Adão como representante da raça. Deus foi ajustar
contas com ele, quando disse: “Comeste da árvore de que eu te ordenei que não comesses?” (Gn 3.11).
56
CURSO DE ANTROPOLOGIA

conseqüências são absolutamente nítidas. Somente aqueles que não crêem que
Deus estabeleceu um pacto de obras é que são capazes de fechar os olhos para
tão grande verdade. É o estabelecimento do pacto com Adão que nos dá o direito
de pensar que ele foi tornado o representante da sua posteridade, agindo em
lugar deles. O seu ato foi considerado por Deus o ato de todos aqueles que ele
representou. Fechar os olhos para essa verdade é ignorar o modo de Deus de
tratar o pecado. Se fizermos assim, teremos também de fechar os olhos para o
modo como Deus fez com que a justiça de Cristo fosse imputada a nós. O
processo é o mesmo. Este é o assunto do ponto seguinte.

PARALELO ENTRE O PRIMEIRO ADÃO E O ÚLTIMO ADÃO


Os textos de Rm 5 e de 1Co 15 são absolutamente claros em mostrar o
paralelo entre o primeiro Adão e o último Adão. Vejamos o paralelo nos dois
textos mencionados:
1Co 15. 21-22 - “Visto que a morte veio por um homem, também por um
homem veio a ressurreição dos mortos. Porque como em Adão todos morrem,
assim também todos serão vivificados em Cristo.”
Como o primeiro Adão está para a morte, assim o último homem está para a
vida. O primeiro traz morte e o segundo traz ressurreição, que é o mesmo que
vida. Perceba que há um paralelo absoluto entre eles. O que um faz traz
conseqüência na vida de todos. O princípio da representatividade está revelado
em ambos. O primeiro Adão representa toda a raça humana, e o outro representa
todo o seu povo. Dessa forma podemos entender que todos morrem em Adão
assim como todos vivem em Cristo.
1Co 15.45-49 - “Pois assim está escrito: o primeiro homem, Adão, foi feito
alma vivente. O último Adão, porém, é espírito vivificante. Mas não é o primeiro o
espiritual, e, sim, o natural; depois o espiritual. O primeiro homem, formado da
terra, é terreno; o segundo homem é do céu. Como foi o primeiro homem, o
terreno, tais são também os demais homens terrenos; e como é o homem
celestial, tais também os celestiais. E, assim como trouxemos a imagem do que é
terreno, devemos trazer também a imagem do celestial.”
Estes versos mostram que tanto o primeiro Adão como o último Adão eram
pessoas públicas, não simples indivíduos. Eles não agiram em favor de si
próprios, mas o ato deles foi considerado o ato de todos aqueles que eles
representaram.
1) A idéia de representação está patente no fato de Paulo falar no primeiro
Adão e no último Adão.
v.45 -“Pois assim está escrito: o primeiro homem, Adão, foi feito alma vivente.
O último Adão, porém, é espírito vivificante.
v.47 - O primeiro homem, formado da terra, é terreno; o segundo homem é do
céu.”
É verdade que linearmente falando Adão foi o primeiro homem, mas
seqüencialmente não podemos dizer que Jesus Cristo foi o último, ou mesmo o
segundo Adão. É óbvio que Paulo está tratando de duas pessoas especiais que
agiram pactualmente. O primeiro Adão agiu como representante do pacto das
obras, agindo em lugar de toda a sua posteridade, enquanto que Cristo agiu como
representante do pacto da graça, atuando em favor e no lugar de todos aqueles
que o Pai lhe havia entregue.
2) A idéia de representação está patente do fato de Paulo fazer um contraste
entre o que é natural e o que é espiritual.

57
v.46 - “Mas não é o primeiro o espiritual, e, sim, o natural; depois o
espiritual.”
O que é natural vem primeiro. O que é espiritual vem depois. Perceba que
quando Paulo fala do primeiro, o natural, ele está se referindo a um homem, não
a um princípio. Quando fala do espiritual a mesma coisa. Isto significa que antes
da redenção está a queda; que antes da ressurreição está a morte; antes do
segundo o primeiro. Ambos são representantes das coisas diametralmente
opostas: o primeiro, do pecado e o segundo, da salvação.
É importante que se observe que assim como natural (v.46) está para terreno
(v.48), o espiritual (v.46) está para celestial (v.48).
3) A idéia de representação está patente no fato de Paulo estabelecer as
conseqüências para os naturais assim como para os espirituais.
v.48 - “Como foi o primeiro homem, o terreno, tais são também os demais
homens terrenos; e como é o homem celestial, tais também os celestiais.”
O estado do representante reflete o estado dos representados. Todos os da
descendência de Adão refletem a situação baixa dele. Os da progênie de Cristo
refletem também o estado dele. Por isso que Paulo chama de terrenos os de Adão
e celestiais os de Cristo. Isso indica que o que Um é os outros o são, seja do
primeiro Adão ou do último Adão.
4) A idéia de representação está patente do fato de a nossa participação ser
tanto no natural como no celestial.
v.49 - “E, assim como trouxemos a imagem do que é terreno, devemos trazer
também a imagem do celestial.”
Isto significa que todos aqueles que estão em Cristo, estiveram em Adão.
Certamente nem todos os que estiveram em Adão vieram a estar em Cristo, pois
este agiu somente em favor do Seu povo, mas indubitavelmente, todos os que
estão em Cristo hoje, já estiveram em Adão. Todos os que possuem a imagem do
que é celestial já refletiram a imagem do terreno. Usando o próprio raciocínio de
Paulo, posso concluir: todos os que são de Adão refletem a imagem das coisas
pecaminosas, assim como devem refletir a santidade de Cristo todos os que estão
nele. A imagem nossa reflete aquele de quem somos.

Rm 5.12-21-84
O verso 14 diz que Adão era tipo daquele que haveria de vir. Há um paralelo
perfeito entre ambos. Nos versos subsequentes, os dois aparecem em paralelo
representando cada um o seu povo. O primeiro Adão representando a velha
humanidade, e o último Adão, Cristo, representando a nova humanidade.
O primeiro Adão foi tornado representante de todos por causa do pacto das
obras; o segundo Adão, Cristo, foi tornado representante por causa do pacto da
graça. O primeiro desobedeceu o pacto, o segundo obedeceu todas as prescrições
estabelecidas pelo primeiro pacto. Cristo cumpriu todas as exigências do pacto de
obras, obedecendo em nosso lugar. E a obediência dele é considerada por Deus
como nossa obediência, assim como a desobediência de Adão também é
considerada nossa desobediência. Nós recebemos todas as coisas gratuitamente
por meio de Jesus Cristo (por isso é chamado de pacto da graça), mas para Jesus
Cristo foi um pacto de obras, porque Ele, como segundo Adão, teve que fazer
todas as cousas por seu povo, que o primeiro Adão não fez. Logo, como a culpa de
Um é atribuída a todos, assim a justiça de Um também atribuída a todos.

84 A análise deste texto aparecerá em detalhes quando tratarmos do Capítulo sobre o Pecado
Original.
58
CURSO DE ANTROPOLOGIA

7. FUNÇÃO ATUAL DO PACTO DAS OBRAS


SENTIDOS EM QUE O PACTO DAS OBRAS AINDA VIGORA
O Pacto das obras não foi anulado. São evidentes as amostras de que ainda
ele vigora. Contudo, esse não é o pensamento sustentado pelos arminianos.
O Pensamento Arminiano
O próprio Armínio afirma que os pecadores não têm mais nada a ver com o
pacto das obras. Eis alguns dos argumentos arminianos 85:
1) Quando o homem está no estado de pecado, ele não está pactuado com
Deus. Portanto, não há mais nenhum contrato entre Deus e o homem, pelo qual
Deus possa requerer obediência;
2) Deus tem privado o homem da capacidade e do poder de cumprir a lei, por
causa do pecado. Por essa razão, Deus não mais pode requerer do homem o
cumprimento das exigências do pacto, o que seria injustiça, a menos que ele
devolva ao homem a sua capacidade de obedecê-lo;
3) Deus não pode exigir do pecador que ele O ame, respeite e O obedeça no
estado de maldição em que o pecador se encontra. Deus não pode exigir do
pecador que cumpra algo, se o pecador está fora do seu favor.
Basicamente por estas razões, todos os segmentos arminianos rejeitam a
idéia de que o pacto está ainda em vigor.

O Pensamento Reformado
Respondendo as objeções arminianas, podemos dizer o seguinte:
1) Quanto ao primeiro argumento: o fato de uma das partes violar o contrato
não implica que o contrato deva ser desfeito. Num contrato humano a parte
lesada pode ou não desfazer o contrato, não quem lesa. Muito mais sério é o
pacto de Deus com a criatura. Acima de tudo isso, porém, temos que considerar
que a parte ofendida é Deus, o Supremo Legislador e Soberano. O homem não
pode afrontar o soberano e ainda ficar impune pela desobediência.
2) Quanto ao segundo argumento: o fato de o homem ficar impotente por
causa do pecado não retira de Deus o direito de continuar exigindo dele a
obediência. A perda da capacidade de obedecer não foi uma decisão arbitrária.
Deus havia avisado ao homem que, se ele desobedecesse, ele haveria de morrer. A
impotência do homem é uma das conseqüências dessa morte. Como a parte
ofendida no pacto, Deus pode ainda exigir que o homem continue debaixo da
obrigação de obedecer. Deus não retirou essa exigência, ainda que os homens
não mais sejam capazes dela.
3) Quanto ao terceiro argumento: Novamente o argumento arminiano esbarra
na idéia da soberania divina. É bom que nos lembremos de que Deus é quem
estabeleceu todas as condições e estipulações do pacto. Somente ele pode pô-las
ou retirá-las. Ninguém mais. Não é a situação do homem que vai alterar as
exigências de Deus.
Passemos agora à argumentação positiva que os Calvinistas fazem a respeito
dos sentidos em que o pacto das obras ainda vigora:
1) Deus ainda afirma que se alguém obedecer a lei de Deus obtém vida
eterna. Deus não retirou essa lei.
Lv 18.5 diz: “Portanto os meus estatutos e os meus juízos guardareis;
cumprindo os quais, o homem viverá por eles: Eu sou o Senhor”. Deus poderia,
se quisesse, ter retirado esta obrigação, mas Ele não o fez. Os homens ainda
podem obter vida eterna se obedecerem à lei. Embora os homens sejam incapazes

85 Idéia retiradas de Witsius, p.152.


59
de cumprir essa lei, Deus não a retirou. Paulo deixou este ensino bem claro,
quando recordou os seus leitores dessa lei de Moisés (Rm 10.5; Gl 3.12).
2) Deus ainda afirma que os homens estão debaixo da obrigação de obedecer
à Sua lei de modo perfeito.
Mesmo depois da promulgação do evangelho da graça de Jesus Cristo,
aqueles que violaram o pacto das obras não estão livres de guardar toda a lei, se
aventuram a querer guardar um só princípio para obter vida. Essa lei exige deles
absoluta obediência, e que, por causa da impotência do pecado, continuaram a
ser devedores de toda a lei (Gl 5.3). Deus não facultou aos homens guardarem
apenas alguns dos Seus princípios, mas toda a lei.
3) Deus ainda afirma que o homem continua a morrer por causa da violação
do pacto das obras.
Paulo diz: “E o mandamento que me fora dado para a vida, verifiquei que
este mesmo se me tornou para morte.” (Rm 7.10). Lembremo-nos de que Paulo
está falando milênios depois do evento do Éden. Ainda continua a lei de morte
para o transgressor dos preceitos divinos. A alma que pecar ainda morre. A lei
que originariamente foi dada para que, por sua obediência, houvesse a vida
eterna, continua matando os homens.
Portanto, diferentemente dos arminianos, os calvinistas afirmam que o pacto
das obras ainda vigora.

SENTIDOS EM QUE O PACTO DAS OBRAS NÃO MAIS VIGORA


Há algumas coisas que indicam que nenhum homem mais pode ter vida
eterna pelo pacto das obras:
O Apóstolo Paulo declara que Deus, por enviar seu único Filho ao mundo, fê-
lo porque a lei não podia fazer mais nada pelo homem. Este tornou-se impotente
para cumprir a lei. Por essa razão, “o que fora impossível à lei, no que estava
enferma pela carne, isso fez Deus enviando o seu próprio Filho...” (Rm 8.3). Por
“carne”, entenda-se a inclinação pecaminosa. Por causa da “carne”, o homem não
mais pode observar todos os preceitos a lei. Por essa razão a lei é impotente para
dar vida. A vida que vem da lei depende da obediência absoluta do homem. Como
isto é impossível pela condição pecaminosa do homem, a lei torna-se ineficaz. Se
não fosse pelo pecado, todo homem poderia obedecer perfeitamente a lei e possuir
vida eterna.
Se Adão houvesse obedecido a lei estabelecida por Deus, ele haveria de
receber a herança da vida eterna, que é equivalente à vida que Jesus Cristo nos
traz. A lei sempre foi compatível com a vida eterna. Paulo trata desse assunto,
sem qualquer constrangimento:
Gl 3.21 - “É, porventura, a lei contrária às promessas de Deus? De modo
nenhum. Porque se fosse promulgada uma lei que pudesse dar vida, a justiça, na
verdade seria procedente da lei.”
Mas a justiça não procede realmente da lei, mas da obediência à lei, que o
pecador não mais tem condição de prestar. Por essa razão, não mais estão
debaixo do pacto das obras para conseguir a vida eterna aqueles em favor de
quem Cristo obedeceu. Aqueles que são beneficiários do pacto da graça, não mais
estão na obrigação de guardar a lei perfeitamente para obterem vida, pois Cristo
já a obteve por eles e no lugar deles. Todas as obrigações que devíamos, Cristo as
satisfez por nós.
Daquele que está em Cristo já não mais se pode dizer que está sob o pacto
das obras no que concerne à obtenção da vida eterna.

60
CURSO DE ANTROPOLOGIA

6 - A ORIGEM DO MAL MORAL

O fato de Adão possuir a liberdade de escolha contrária, não explica todos os


mistérios relacionados ao problema da entrada do mal no mundo. Há que se
pensar que o mal moral é anterior à queda do homem.
Há, na verdade, dois grandes problemas praticamente impossíveis de serem
explicados: O primeiro problema, que tem a ver com a entrada do mal no
universo, é a dificuldade de entender a queda dos anjos sem haver tentador
externo e sem que eles tivessem natureza propensa para o mal; o segundo
problema, que tem a ver com a entrada do pecado no mundo dos homens, é a
dificuldade de explicar como Adão veio a pecar já que não possuía natureza
pecaminosa. Este é um problema da teodicéia, que estudaremos neste capítulo.
O problema da origem do mal tem sido considerado como um dos mais
profundos dentro da filosofia e da teologia. Não se pode fechar os olhos para o
problema do mal que é universal. Ele é uma mancha indelével que caiu sobre o
universo e sobre a vida em todas as suas manifestações, e tem sido a tônica
diária de cada membro da raça humana. Os estudiosos têm tentado encontrar
uma resposta para o problema do mal no universo, mas sem sucesso,
especialmente quando a resposta é procurada fora da esfera da revelação divina.

A QUESTÃO DA VONTADE PERMISSIVA DE DEUS


A fé reformada, ainda que em alguns círculos tenha usado essa expressão,
“seguindo Agostinho, nunca se satisfez com a idéia de permissão.” 86 Essa
expressão pode fornecer a idéia errônea de que a entrada do pecado no mundo
era inevitável e, então, Deus fez concessão, permitindo-a. Ela pode denotar ainda
a idéia da sugestão do pecado vinda de outra pessoa que pediu permissão para
deixar o pecado entrar e Deus permitiu.
Para os propósitos deste trabalho é preferível não usar a expressão “decreto
permissivo”, para evitar enganos. Se é um decreto, então ele partiu de decisão
divina. Se é de decisão divina, as coisas aconteceram porque Deus assim o quis.
Todavia, esta explicação ainda deixa no ar algumas perguntas.
As grandes e freqüentes perguntas feitas são estas: "Se Deus é bom como Ele
permitiu a entrada do mal no mundo? Se Deus é bom, por que Ele não tira todas
as manifestações do mal no mundo?"
Há algumas respostas bíblicas e teológicas a essas perguntas, que são
delineadas com o maior temor diante de tão grande mistério, à luz de algumas
sugestões que a Escritura dá sobre o assunto.

1. DADOS BÍBLICOS SOBRE A ORIGEM DO MAL


A primeira grande descoberta no tratamento deste assunto é reconhecer a
nossa pequenez diante de tão grande problema e, a segunda grande descoberta é
reconhecer a soberania divina em todas as coisas que existem no mundo em que
Ele nos colocou.
A CFW diz categoricamente:
Pela Sua muito sábia providência, segundo a sua infalível presciência e o
livre e imutável conselho da Sua própria vontade, Deus, o grande Criador de
todas as coisas, para o louvor da glória da Sua sabedoria, poder, justiça, bondade
e misericórdia, sustenta, dirige, dispõe e governa todas as Suas criaturas, todas
as ações e todas as cousas, desde a maior até a menor" (V,1).

86 BAVINCK, Hermann. Reformed Dogmatics, vol. III (Grand Rapids: Baker Academics, 2006), 28.
61
Este é um ponto-de-partida sem o qual vamos ter sérios problemas. Deus é o
governador de todas as coisas. Não somente ele as traz à existência, mas ele
controla todas as coisas conseqüentes, desde a menor até a maior. Ao invés de
ser criticado ou desprezado por esse seu governo, Deus deveria ser louvado,
admirado e amado pelos que pertencem ao seu povo.
A abordagem acima da Confissão de Fé de Westminster é um ponto
indispensável e a condição sine qua non para se ter alguma luz sobre este
assunto.
A Escritura ensina que Deus é bom, mas que também exerce a Sua
soberania. Estes dois atributos parecem não poder existir juntas na mente de
muitos crentes, como se fossem atributos incompatíveis. É por isso que esta
pergunta surge freqüentemente: "Se Deus é bom, como pode permitir a entrada
no mal no mundo?"
Para que tenhamos resposta a perguntas como essa, precisamos ir ao profeta
Isaías, no capítulo 45, quando ele trata da soberania de Deus, onde o próprio
Deus é quem Se dirige a Ciro, o rei da Pérsia.
Neste capítulo, Isaías enfrentou corajosamente um assunto que muitos
teólogos relutam em aceitar hoje, mesmo depois de vários séculos de reflexão
teológica, onde muitas vezes a teologia deles tem sido controlada pelos seus
pressupostos, sem que estes sejam submetidos ao crivo da totalidade própria
Escritura. Isaías enfrentou a questão que freqüentemente nos assedia: "Quem é o
responsável pelo mal no mundo?" A resposta a essa pergunta vai, de algum
modo, definir a nossa teologia sobre quem Deus realmente é.

ANÁLISE DE ISAÍAS 45.1-7


Há algumas coisas preliminares que precisam ser ditas deste texto: Primeira,
temos que ver quem é o autor destas palavras. Claramente Deus é o sujeito delas
e Ele fala, em todos os versos, na primeira pessoa do singular; Segunda, temos
que ver a quem Deus se dirige. Ele se dirige a Ciro, rei da Pérsia. Ele era um rei
de uma terra onde se cria num dualismo, isto é, cria-se num deus do bem e num
deus do mal; Terceiro, Deus está mostrando a Ciro que só existe um Deus (v.5,
6), isto é, que não há o chamado dualismo persa, e que, como Deus, Ele faz tudo
o que Lhe apraz (v.7), inclusive usa os homens ímpios para cumprir os seus
propósitos (v.1).
No ponto culminante desta passagem majestosa de Isaías, há um verso que
trata de frente o problema do mal, encarando-o à luz da soberania divina (v.7).
Nada pode ser mais claro do que este verso. Esta é uma palavra inspirada pelo
Espírito Santo, palavra que Deus quis que fosse registrada para o nosso
conhecimento. O profeta narra aquilo que Deus quer que enfrentemos com o
maior santo temor: o problema do mal. Mesmo não compreendendo todas as
razões de Deus, porque Deus é, pelo que faz, um "Deus misterioso" (v.15), temos
que admitir que este texto lança alguma luz sobre o tão importante e
incomodante problema do mal. O texto não trata das razões últimas de Deus. Não
podemos entender porque Deus faz o que faz, mas podemos crer que Ele faz o que
faz.
Nos capítulos 40 a 45, o tema de Isaías é a soberania divina. Aliás, este é um
tema que atravessa toda a Escritura, mas Isaías dá uma atenção especial a ele.
Há um só Deus e Ele está sobre todas as coisas.
Como Paulo, Isaías declarou todo o conselho de Deus e, fazendo isto,
proclamou que Deus está acima e sobre todas as coisas. A declaração pelo

62
CURSO DE ANTROPOLOGIA

próprio Deus sobre a origem do mal nas palavras do v.7 nos dá algumas idéias
sobre as quais passamos a discorrer: 87
Em que sentido Deus é o criador do mal? O que Ele quer dizer com Is 45.7?
Será que o mal do v.7 diz respeito apenas aos castigos, aos flagelos, às
penalidades que Ele impinge aos homens? Ou será muito mais que isso?
Não temos todas as respostas às perguntas sobre a origem do mal, mas
cremos que o mal referido no texto de Isaías seja o problema do mal moral. De
qualquer forma, de algumas coisas, temos absoluta certeza:

1) DEUS NÃO FOI TOMADO DE SURPRESA PELA PRESENÇA DO MAL NO


MUNDO
Não creio que Deus seja o autor do mal no sentido dele envolver-se
pessoalmente no mal, mas sabemos que o mal não é produto do acaso, como
veremos mais tarde. A expressão de Isaías, “crio o mal” não deve ser entendida
com a clássica frase que torna Deus "o autor do mal" ou "o autor do pecado".
Deus é santo e não pode pecar, não se envolve pessoalmente com aquilo que é
moralmente mau. Podemos admitir que Deus pode expor o homem para ser
tentado, induzindo-o à tentação ( ), mas não podemos dizer que Deus leva os
homens ao pecado, tentando-os, porque isto está claramente afirmado nas
Escrituras (Tg 1.13, 14). Isaías 45.7 não está dizendo essas coisas. Do Deus da
Escritura não pode ser dito que faz coisas moralmente más, embora faça coisas
que sejam contrárias à lei que ele estabeleceu como regra de vida para nós, e ele
está acima dessa lei, não sujeito a ela. Se ele viola uma dessas leis, ele não se
torna pecador, porque a lei é para homens, e não para ele.
O mal existente no universo de Deus é parte de um plano maior que Deus
estabeleceu, plano esse que Ele não deu a conhecer aos homens em todos os seus
detalhes. Com certeza, o decreto eterno de Deus tornou segura a entrada do
pecado no universo. Nada é mais verdadeiro do que isso. Não existe nada que
acontece neste mundo que não seja parte dos desígnios de Deus.
O que é dito pelo profeta para confortar Ezequias, que havia sido ameaçado
pelo rei Senaqueribe, serve para ilustrar que Deus faz todas as coisas na história
do mundo como produto de um plano previamente traçado.
2 Rs 19.25 - “Acaso não ouviste que já há muito dispus eu estas cousas, já
desde os dias remotos o tinha planejado? Agora, porém, as faço executar, e eu
quis que tu reduzisses a montões de ruínas as cidades fortificadas.”
Todas as coisas que Deus executa na história são o produto de um plano
previamente estabelecido. Todos os eventos, os grandes e os pequenos, vêm como
produto do cumprimento dos desígnios eternos de Deus. Não é diferente com o
decreto da entrado do pecado no mundo.
A entrada do mal no universo angelical e humano serve para um propósito
previamente estabelecido, especialmente se entendemos o plano da salvação que
foi proclamado e anunciado antes da fundação do mundo (Tt 1.2).

A segunda verdade neste assunto é que, no texto de Isaías,

87 Fundamentalmente, essas idéias estão incluídas no livro de William Fitch, Deus e o Mal, (São
Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 1984), 9-21.
63
2) DEUS ASSUME A RESPONSABILIDADE PELA PRESENÇA DO MAL NO
MUNDO
Quando Deus fala que "crio as trevas e faço o mal", Ele assume
perfeitamente a responsabilidade pela entrada do mal no mundo. Esta é uma
revelação que não devemos desprezar para justificar a nossa teologia, porque,
fazendo assim, estaremos andando de (não ao) encontro à Sua revelação.
Ele não conta as razões pelas quais ele se responsabiliza pela presença do
mal no mundo, mas é obvio que Ele não foi apanhado de surpresa pela presença
do pecado no Seu universo.

Com certeza, sabemos que Deus rejeita algumas idéias errôneas a respeito
da origem do mal:
a) Neste texto de Isaías Deus rejeita a doutrina do Dualismo. 88
O dualismo ensina sobre deuses rivais, de igual poder. Hughes define
dualismo como “a teoria de que por dentro e por detrás de toda a realidade há a
presença não de um, mas de dois princípios eternos e absolutos que são
irreconciliáveis, opostos um ao outro,” 89 especialmente quando se trata do difícil
problema da coexistência do bem com o mal neste mundo.
A presença do mal coexistindo com o bem teve uma solução simplista na
teologia das religiões do oriente. É assim que o livro sagrado do zoroastrismo, a
mais elevada das religiões não-bíblicas, contorna a dificuldade da presença do
mal no universo. O zoroastrismo apregoa dois deuses — Ormuz e Arimã. Ambos
criaram o mundo. O bom deus Ormuz criou as coisas boas; o mau Arimã criou
todas as coisas más. O primeiro era o deus da luz, e o segundo o das trevas, que
sempre lutaram num conflito ininterrupto. Hughes nos diz que
“foi este tipo de dualismo que tornou-se um elemento proeminente na
filosofia sincretista do Maniqueísmo, fundado por um persa chamado Mani, no
terceiro século da era cristã, pelo qual Agostinho sentiu-se muito atraído antes de
sua conversão para a fé cristã.”90
Esse tipo de dualismo pairava na Pérsia, onde reinava o rei Ciro, quando
Deus se lhe dirigiu, porque este cria dualisticamente. Foi por essa razão que
Deus disse várias vezes: "Eu sou Deus. Além de mim não há outro...".
Esta solução dualista para explicar a coexistência do bem com o mal é uma
solução anti-escriturística porque ata o princípio do mal como algo inseparável do
universo que Deus fez. Em última instância, a religião do dualismo nunca dará a
vitória ao bem, porque os dois princípios são eternos e igualmente poderosos. “A
religião dualista é uma religião sem esperança da eliminação definitiva do mal e
do triunfo do bem.”91 A teoria dualista é absolutamente incompatível com a

88 Dependendo do ponto-de-vista, vários "dualismos" podem ser identificados na teologia. Um


deles, é o dualismo relacionado à matéria e ao espírito, muito comum no gnosticismo que a
Escritura combateu, logo no primeiro século da era cristã. Esta seita ensinava que havia dois
poderes supremos, o da luz e o das trevas. Ela ensinava que a luz não poderia abordar as trevas, que
era irreconciliavelmente oposto a ela. A fim de ligar esse abismo entre luz e trevas, tinha que
haver seres intermediários. Jesus era um desses seres intermediários (eons). Por ele ser da luz, ele
não poderia ser matéria, não poderia ter vindo em carne. É esse tipo de erro que João combate na
sua carta (I Jo 1.1-2).
89 Philip Edgcumbe Hughes, The True Image, (Grand Rapids: William Eerdmans Publishing
Company, 1989), 83.
90 Hughes, 85.
91 Hughes, 85.

64
CURSO DE ANTROPOLOGIA

teologia do cristianismo. Por essa razão, Deus rejeita a possibilidade do dualismo


no texto de Isaías 45.

b) Neste texto de Isaías Deus rejeita a idéia da espontaneidade do mal.


Este teoria da teodicéia de alguns estudiosos diz que o mal apareceu sem
que alguém o trouxesse à existência. Se o mal surgisse assim, Deus não teria tido
qualquer controle sobre as coisas deste mundo. O mal sendo gerado
espontaneamente tira Deus do trono de sobre todas as coisas. Mas Deus diz: "Eu
faço todas as coisas...".
Sendo espontâneo, portanto, fora do controle de Deus, o mal nunca poderá
ser eliminado do universo.

c) Neste texto de Isaías Deus rejeita as idéias deterministas que


apresentam o pecado como uma necessidade inerente na natureza íntima de
todas as coisas.
O filósofo alemão G.W. Leibniz (1646-1716) ensinou em sua teodicéia que
existe uma imperfeição metafísica que é inerente na real constituição de todas as
coisas criadas.92 A presença do mal é parte constituinte e está embutida na
estrutura de todas as cousas. Leibniz admitiu claramente que “há uma
imperfeição original na criatura, mesmo antes de o pecado ser cometido, porque a
criatura é limitada em sua essência.”93 Nesse ponto, Barth assimila algo de
Leibniz, porque sustenta que o problema do homem é o fato dele ser criatura. O
pecado apenas complica esse problema. O mal está inerente e necessariamente
presente no mundo pelo fato dele ser criação. Leibniz falou ainda do “verdadeiro
pecado necessário de Adão que é cancelado pela morte de Cristo!”94
Hegel sustenta que o aparecimento do mal é algo necessário para que o
homem chegue à sua humanidade plena. A idéia de Hegel é que “a queda em si
mesma foi um desenvolvimento necessário para a realização pelo homem de sua
humanidade autêntica.”95 Hegel não nega que o homem foi criado bom, mas
afirma que a vinda do mal era necessária para que o homem se tornasse
completo. “Assim, Hegel supôs que ambos, o bem e o mal, foram necessários se o
homem estava para desenvolver para a plenitude de sua humanidade, e que o
alcance da síntese fosse possível somente pelo modo da confrontação entre a tese
e a antítese.”96
Estas teorias tornariam Deus o autor direto do mal, porque Ele teria criado
todas as coisas como necessitadas do mal. A teodicéia cristã não pode admitir
tais teorias. Deus criou todas as coisas e disse que elas eram muito boas! "E viu
Deus tudo o que criou e disse: Eis que tudo é muito bom" (Gn 1.31).

d) Neste texto de Isaías Deus rejeita a idéia da eternidade do mal.


A idéia da eternidade do mal geralmente surge da idéia do dualismo dos
deuses rivais. Assim como houve sempre o bem, da mesma forma houve o mal.
Mas a Escritura rejeita essa teoria. O mal veio a existir no universo e no
mundo dos homens. Houve um tempo quando não havia a presença do mal no

92 Hughes, 93.
93 G. H. Leibniz, Theodicy: Essays on the Goodness of God, the Freedom of Man, and the Origin of
Evil, (London, 1951), parágrafo 20-21.
94 G. H. Leibniz, Theodicy: Essays on the Goodness of God, the Freedom of Man, and the Origin of
Evil, (London, 1951), parágrafo 40.
95 Hughes, 96.
96 Hughes, 97.
65
universo criado. O mal apareceu primeiro no mundo angelical e, depois, no
mundo dos homens. O mal não é eterno. Eterno é Aquele que é o bem, por isso o
bem deve ser considerado como eterno.
Portanto, quando Deus diz que "cria o mal", Ele está aceitando a
responsabilidade pela presença do mal no meio da Sua criação. Não basta dizer,
como Calvino 97 e outros, que disseram que o “mal” mencionado por Isaías se
refere aos males dos juízos e punições que Deus envia aos homens. O texto
parece ir muito mais profundo do que isso. A palavra usada para "criar" aqui em
Isaiás 45.7, é )frfB, exatamente a mesma que foi usada em Gênesis, quando da
criação das coisas sem ter qualquer material pré-existente. Portanto, Deus
também chamou o mal à existência, mas Ele fez com que ele viesse ao mundo
através da agência das criaturas racionais, tanto anjos como Adão e Eva, que
agiram livremente, isto é, sem compulsão exterior ou interior. Eles foram
capacitados a desejar e a praticar o mal por uma liberdade que Deus lhes havia
dado, que é a liberdade de escolha contrária. Essas criaturas através de quem o
mal veio à existência podem ser chamadas em teologia de “causas secundárias”.
Vejamos alguma coisa relacionada com o contraste entre as palavras usadas
em Is 45.7. Deus disse: "Eu faço a paz e formo a luz". Não havia necessidade de
Deus "criar" a paz e a luz, porque Deus é luz e paz (1 Jo 1.5; Gl 5.22). Deus
compartilha a Sua vida com os homens quando lhes dá o dom da luz e da paz.
Mas o mal é cousa muito diferente. Ele ainda não existia, e, por razões
desconhecidas de nós, Deus resolveu dar origem ao que não havia antes. Por
isso, o mal requer uma criação especial e, assim, as Escrituras inspiradas
empregam a palavra )frfB, para referir-se à criação do mal.
Todas as respostas não estão, obviamente, aqui, mas não podemos fugir de
um assunto que Deus aceita tratar abertamente, embora não nos revele todos os
seus detalhes.

Alguns axiomas sobre o Mal Moral


Após ver a análise de Isaías 47.1-7, vejamos algumas conclusões axiomáticas
que devem fazer parte da Fé Reformada, e que devem ser entendidas de maneira
clara a fim de que sejam evitados algumas idéias errôneas sobre a relação entre
Deus e o mal.

Eis o resumo:
1. DEUS NÃO É O AUTOR DO MAL
As idéias colocadas neste capítulo podem parecer ao leitor desatento que
assumimos a idéia de que Deus é o autor do mal. Longe de nós esteja este
pensamento vil. Todavia, trabalhamos com o princípio de que a origem do pecado
“nunca é isolada do governo de Deus, nem excluída do seu conselho.”98

97 No seu comentário de Isaías, Calvino interpreta o mal como sendo "aflições, guerras e outras
ocorrências adversas". Isto ele faz para livrar-se daqueles que ele chama de "fanáticos, que
torturam a palavra mal, como se Deus fosse o autor do mal; mas é muito óbvio quão
ridiculamente eles abusam desta passagem do profeta...Deus é o autor do mal de punição, não do
mal de culpa". (Ver John Calvin, Commentary on the Book of the Prophet Isaiah, (Baker, 1981
edition), p.403.
98 Bavinck, Reformed Dogmatics, vol. III, 29.

66
CURSO DE ANTROPOLOGIA

2. DEUS FEZ COM QUE O MAL VIESSE À EXISTÊNCIA

3. DEUS CRIOU O HOMEM COM A POSSIBILIDADE DE PECAR


Como parte do seu governo sobre o mundo Deus fez com que essas criaturas
viessem à existência (por obra sua) e ele as criou com a possibilidade de pecar.
Essa idéia está estabelecida em sua revelação especial.
“Não somente ele fez a humanidade de tal modo que ela pudesse cair, mas
ele também plantou a árvore do conhecimento do bem e do mal no jardim,
confrontou Adão com uma opção moral por meio de uma ordem probatória, cuja
decisão teve a maior importância para ele próprio e para toda a sua
posteridade...”99
Deus criou não somente anjos pecáveis, mas muito certamente homens com
a mesma capacidade, ainda que tenham sido criados santos. “Foi decisão de
Deus colocar a humanidade no caminho perigoso da liberdade ao invés de elevá-
lo por um simples ato de poder acima da possibilidade de pecado e morte.” 100

4. DEUS SEMPRE FAZ USO DE CAUSAS SECUNDÁRIAS

A terceira verdade que devemos apresentar sobre este assunto é:


5) DEUS RESTRINGE A OPERAÇÃO DO MAL EM SUA CRIAÇÃO
A Bíblia afirma que Deus restringe o pecado. Não há nenhum ponto nas
Escrituras em que a vitória seja concedida às forças das trevas. Muitos crentes
podem até perguntar: "Até quando, Senhor, até quando o mal reinará?" — Mesmo
em suas horas mais sombrias, quando das profundezas do seu ser eles suplicam
ao trono nas alturas, os filhos de Deus ainda se mantêm confiantes em que a
justiça haverá de triunfar e que, finalmente, o bem será visto claramente como o
supremo vencedor, porque crêem que Deus é poder e justiça.
O livro do Apocalipse fala do sangue do martírio dos filhos do povo de Deus,
fala da mutilação dos corpos deles, mas de forma alguma esse livro profético fala
da vitória e do domínio do mal no universo de Deus. O universo é de Deus, não
do diabo. Deus ainda está no trono. Deus não perdeu o controle de nada. Tudo o
que acontece de mal é para o cumprimento dos Seus santos e eternos propósitos,
mesmo que as razões últimas deles sejam escondidas de nós.
A Escritura acentua que Deus nunca permite que o mal Lhe escape das
mãos. Ele o controla, restringindo-o. Satanás não tem o poder de frustrar os
desígnios de Deus. O inimigo dos filhos de Deus pode acarretar grandes prejuízos
para nós, causando um dano considerável em nosso meio, mas o seu governo não
é absoluto sobre o mal. Ele opera debaixo da ordem expressa de Deus. Nada de
mal é executado neste mundo sem que seja da vontade decretiva de Deus, que
está no controle da história. Se Deus não estivesse no leme do barco que caminha
para o fim da história, como poderia Deus ter certeza de que vai chegar onde
determinou que haveria de chegar? É fácil perceber nas Escrituras que, para que
o fim chegue, muita coisa má ainda tem que acontecer. O mal que ainda vai
acontecer está determinado por Deus, que o executará através da agência de suas
criaturas racionais, mas tudo acontecerá sempre debaixo do controle
restringente dele
Deus está executando um plano de redenção, e é redenção do mal, e resgate
das forças do Maligno. Para que sejamos confortados no meio de grandes males
99 Bavinck, Reformed Dogmatics, vol. III, 29.
100 Idem, 29.
67
que o mundo enfrenta, é necessário que olhemos a história do ponto-de-vista de
Deus que a determina, ainda que nós sejamos os agentes dela. Deus haverá de
eliminar o mal do Seu mundo, e a implantação da justiça é uma questão apenas
do "tempo" de Deus.
É interessante notar o otimismo da Escritura, quando ela observa o
contraste entre o bem e o mal. A Escritura
é completamente realista acerca do mal, porém jamais concede vitória ao
mal. Os poderes do mal são mantidos em constrição. As suas áreas de operação
são delineadas e delimitadas por Deus. Quando Cristo morreu na cruz, parecia
que o mal triunfara realmente. Mas, veja! — no terceiro dia Cristo ressurgiu dos
mortos. Satanás e suas legiões são frustrados e a sua fraqueza básica é exposta.
E é sobre isso que Isaías canta neste grande capítulo, qual Monte Everest:
"Destilai vós, céus, dessas alturas, e as nuvens chovam justiça; abra-se a terra, e
produza-se salvação, e a justiça frutifique juntamente” (Is 45.8). Eis aqui o
otimismo bíblico em sua máxima e melhor expressão. Deus não está
desamparado no meio da aparente ruína da Sua criação. Deus está realizando os
Seus propósitos, ano após ano; e os seus propósitos estão muito além da
compreensão do homem mortal. Todavia, isto é claro. Naquele propósito
soberano, Deus usará o mal para a Sua glória. Ele fará com que a ira dos homens
o louve (Sl 76.10). Ele não descansará enquanto o mal não se queimar totalmente
e toda a criação não for libertada para o glorioso dia em que o pecado não mais
existirá. 101

A sexta verdade sobre este assunto é que


6) DEUS SEMPRE PROPORCIONA UM ESCAPE PARA O MAL
Deus diz: "Eu formo a luz" e "Eu faço a paz". Deus toma a iniciativa na
provisão de um meio de escape do domínio do mal. Veja que doce promessa para
o escape do mal:
"Israel, porém, será salvo pelo Senhor com salvação eterna; não sereis
envergonhados, nem confundidos em toda a eternidade. Porque assim diz o
Senhor que criou os céus, o único Deus que formou a terra, que a fez e que a
estabeleceu; que não a fez para ser um caos, mas para ser habitada: Eu sou o
Senhor e não há outro. Não falei em segredo, nem em lugar algum de trevas da
terra; não disse à descendência de Jacó: Buscai-me em vão; eu, o Senhor, falo a
verdade, e proclamo o que é direito" (Is 45.17-19).
Parece que as promessas do Senhor demoram para ser cumpridas, mas Deus
tem se mostrado fiel a todas as Suas promessas, e também não falhará nesta.
Jesus é a provisão de Deus para a redenção do pecador do mal. Ele é a luz que,
vinda ao mundo, dá vida aos homens (Jo 1.9; 8.12). O calvário é a fonte onde
somos lavados de todas as nossas imundícies da natureza pecaminosa. O pecado
já não mais tem domínio sobre nós (Rm 6.14). Essa é a promessa que temos de
que Deus está no trono, sendo vitorioso sobre o mal, proporcionando um escape
para ele. O pecado não mais reinará sobre os nossos corpos mortais, porque
Cristo já conseguiu a vitória por nós e no nosso lugar, e bem logo, veremos estas
coisas claramente, quando o Senhor Jesus se manifestar em glória.
A sétima verdade sobre esta matéria é que

101 Fitch, p. 18-19.


68
CURSO DE ANTROPOLOGIA

7) DEUS INSTA AOS HOMENS PARA QUE FUJAM DO MAL E SE REFUGIEM


NELE.
Veja o que Deus diz nesse mesmo capítulo de Isaías:
"Olhai para Mim e sede salvos, vós, todos os termos da terra; porque Eu sou
Deus e não há outro. Por mim mesmo tenho jurado; da minha boca saiu o que é
justo, e a minha palavra não tornará atrás. Diante de mim se dobrará todo o
joelho, e toda língua. De mim se dirá: tão somente no Senhor há justiça e força;
até Ele virão e serão envergonhados todos os que se irritarem contra Ele. Mas no
Senhor será justificada toda a descendência de Israel, e nele se gloriará." (Is
45.23-25).
A verdade é vista de forma duplamente completa: os do Seu povo têm
salvação do mal nele e nele serão justificados, e os ímpios haverão de prestar
contas a Ele de suas maldades, porque ele é o Deus da justiça.
Deus continua no trono. É do Seu trono que ele está falando aqui. E é para o
Seu trono que somos convocados a olhar. O homem terá que ser libertado do
pecado, e isso acontecerá por Jesus Cristo, em quem o homem deverá olhar com
fé. A Escritura sempre encoraja os homens a buscarem refúgio e socorro nele,
afastando-se do mal. É isso que o Senhor deseja que façamos e, para isso,
necessitamos de Seu auxílio!

2. DADOS BÍBLICOS SOBRE O CARÁTER DO PECADO


1) O PECADO É UMA CLASSE ESPECÍFICA DE MAL 102
Muito se fala na atualidade a respeito do mal, mas pouco se tem dito a
respeito do pecado. Esta é uma palavra omitida na maioria das publicações ou
conferências científicas que tratam dos problemas da raça humana.
Contrariamente, a Escritura fala muito a respeito do pecado, que tem a ver com a
transgressão de uma lei divina, mas é preciso ter em mente que nem todo o mal é
pecado. O pecado não deve ser confundido com os males físicos que provocam as
calamidades e prejuízos, que tantas dores têm trazido à raça humana. Estes
últimos, na maioria das vezes, vêm como manifestação do julgamento parcial de
Deus sobre os pecados dos homens. Aquele, entretanto, é um mal moral, porque
afeta e viola uma lei moral de Deus, é uma oposição deliberada àquilo que Deus
estabeleceu. No seu cerne, o pecado é sempre um ato positivo de oposição a
Deus, que envolve culpabilidade pessoal, e é produto de uma ação voluntária da
parte do homem, como agente livre que é (Gn 3.1-6; Rm 1.18-32; 1 Jo 3.4).

2) O PECADO TEM UM CARÁTER ABSOLUTO 103


Na esfera ética o contraste entre o bem e o mal é absoluto. Não há um
intervalo de neutralidade entre ambos. Ainda que haja graus em ambos, não há
grau entre um e outro. A transição de um para o outro não é de caráter
quantitativo, mas qualitativo. Um ser moral que é bom não se converte em mau
por diminuir a sua bondade, mas unicamente por uma mudança qualitativa
radical volvendo-se para o pecado. O pecado não é um grau menor de bondade,
mas um mal positivo. A Escritura não reconhece qualquer posição de
neutralidade entre o bem e o mal. O homem está do lado do justo ou do ímpio.
Mt 12.30 - “Quem não é por mim, é contra mim; e quem comigo não ajunta,
espalha.”

102 Ver Berkhof, p. 276 (edição em castelhano).


103 Ver Berkhof, p. 277 (edição em castelhano).
69
O que Jesus está querendo dizer neste verso é que se Ele merece o nosso
respeito, merece que o recebamos de todo o coração. Se não rendemos todo o
coração a Cristo, não lhe estamos rendendo cousa alguma. Não existe a idéia de
estar indiferente com respeito a Cristo. A indiferença é considerada oposição a
Ele. Ou lhe damos a honra, a adoração e o amor que Ele merece, ou o
desonramos, cultuamos o demônio e odiamos ao Filho de Deus. Trata-se de ser
oito ou oitenta com Jesus. Não existe equilíbrio no sentido de ficar entre Jesus e
Satanás. Não há posição de indiferença ou neutralidade. Por isso, Ele disse:
“Quem não é por mim, é contra mim.”
Não há forma de ser neutro nas coisas espirituais. Se alguém não é seguidor
de Jesus Cristo, certamente estará do lado do maligno. Aqueles que não estão
fazendo a obra de Deus estão fazendo as obras do diabo. Não-estar do-lado-de-
Deus significa estar-do-lado-de-Satanás. Não existe meio termo ou neutralidade
na esfera espiritual.

3) O PECADO TEM A VER COM A TRANSGRESSÃO DA LEI


A Escritura afirma categoricamente que o pecado “é a transgressão da lei”
(1Jo 3.4). O pecado propriamente não existiria para o homem se não houve uma
lei estabelecida. Desde o começo do mundo, no pacto de obras do Éden, Deus
estabeleceu leis para serem cumpridas pela sua criatura racional. Para que não
houvesse dúvida quanto ao conceito de que pecado tem a ver com a lei, Deus
colocou duas leis para o homem: uma interna, quando imprimiu as suas leis nos
corações deles (Rm 2.12-15); a outra ele a transmitiu em palavras, quando no
jardim deu as devidas ordens (Gn 2.15-16). Posteriormente, Deus formalizou
essas leis gravando-as em tábuas no tempo de Moisés, para que ninguém
pudesse alegar falta de conhecimento.
Portanto, quando o homem peca, ele transgride uma lei que Deus
estabeleceu.

3. A ORIGEM DO PECADO NO MUNDO ANGELICAL


A Bíblia deixa absolutamente claro que o pecado não começou no Éden, com
a queda dos nossos primeiros pais. O pecado vai além de Gn 3. Deus havia criado
as hostes angelicais, e todos as cousas que Deus fez eram boas quando vieram
das mãos do seu Criador (Gn 1.31; 2.1).
2 Pe 2.4 diz que "Deus não poupou a anjos quando pecaram, antes,
precipitando-os no inferno, os entregou a abismos de trevas, reservando-os para
juízo". A queda dos anjos ocorreu quando legiões deles "abandonaram o seu
estado original" (Jd 6). O tempo exato dessa queda não se sabe, mas Jo 8.44 diz
que o Diabo foi "homicida desde o princípio", e 1 Jo 3.8 diz que ele vive "pecando
desde o princípio".
Estas passagens mostram que houve um primeiro estado, um estado original
no qual eles eram santos, estado de criação esse que eles abandonaram. Eles
caíram e foram tornados instrumentos de ruína para os outros seres racionais, os
homens. A Escritura, contudo, não diz quase nada sobre a queda dos anjos. É
possível que o "orgulho" tenha sido o pecado de Satanás 104, mas não há
nenhuma outra indicação que nos dê mais luz sobre a queda de Satanás.
Vários estudiosos da Escritura usam as passagens de Is 14.12; Ez 28.12-15
e 31.1-18 para explicar a queda de Satanás. Creio que estas passagens se
104 Esta é uma inferência sacada de 1 Tm 3.6, onde se supõe que Satanás é orgulhoso, soberbo,
porque quis ser igual ou superior a Deus. O mesmo pode deduzir-se das palavras que ele usou
para tentar Eva, em Gn 3, onde ele a induziu a ser como Deus.
70
CURSO DE ANTROPOLOGIA

referem a homens que viveram em nossa história, e não se referem a Satanás.


Contudo, podemos ver nessas passagens a respeito de homens orgulhosos, uma
ilustração do que aconteceu a Satanás, mas seria injusto com a Escritura afirmar
estas passagens são um registro do que aconteceu a Satanás. Assumo esse
ponto-de-vista, pelas seguintes razões:
1) Porque estas passagens não são vaticínios, isto é, elas não estão dizendo
que os reis são tipos de Satanás, porque este é anterior àqueles;
2) Porque o NT não lança luz sobre essas passagens, explicando-as como fez
com outras. Se houvesse uma alusão do Novo Testamento àquelas passagens,
então, poderíamos, com certeza, afirmar a queda de Satanás, porque a Bíblia
teria interpretado a si mesma;
3) Porque a Escritura fala claramente que os personagens são seres
humanos reais que viveram em nossa história.

4. A ORIGEM DO PECADO NO MUNDO DOS HOMENS


Não há outra maneira de se explicar o que está acontecendo à raça humana,
se não através do episódio do Jardim do Éden. A revelação divina é a única que
dá uma resposta para o problema dos pecados no pecado do homem. Os
antropólogos, sociólogos e psicólogos ficam totalmente perdidos quando começam
a tratar do problema do pecado, embora essa palavra quase nunca apareça nos
seus escritos. Ficam totalmente perdidos nessa matéria porque não levam em
conta o registro bíblico sobre a origem e a queda do homem. Se o fizessem, muito
mais luz haveria entre os homens que estudam e lêem e ensinam sobre
antropologia, psicologia e sociologia. A ignorância da Palavra de Deus traz a
ignorância da origem dos males nos corações dos homens.
A filosofia também não tem respostas a perguntas como estas: Qual é a fonte
das imperfeições da natureza humana? Por que há tantos males que infestam a
vida dos homens? Por que o homem é sempre avesso à lei que lhe é imposta? Por
que o homem sempre se opõe a um código de ética que é útil para os seus
semelhantes e, por conseguinte, para si próprio? Estas perguntas não são
respondidas, a não ser por aquele que estuda a Palavra de Deus, a única fonte
confiável de informação sobre a real condição humana. Nenhum cientista ou
filósofo pode negar as inclinações pecaminosas do ser humano, mas eles não
sabem como ele se tornou assim. O problema da hereditariedade não responde
muito às indagações, porque deixa por explicar como nossos ancestrais originais
vieram a ser o que foram. Não há como fechar os olhos para o que está diante de
nós. Pink diz:
"Olhe não somente para os nossos presídios, hospitais, cemitérios, mas
também para a antipatia entre o justo e o ímpio, entre aqueles que temem a Deus
e os que não O temem. O antagonismo entre Caim e Abel, Ismael e Isaque, Esaú e
Jacó, é repetidamente duplicado em todas as épocas e lugares. Mas a Bíblia,
somente a Bíblia, indica a fonte de todas essas coisas." 105
A Escritura tem a resposta para os males no mundo dos homens, e seu
terrível comportamento, em Gn 3.1-6.

ANÁLISE DE GN 3.1-6
Este texto descreve o evento que deu origem aos males que há no mundo dos
homens. O que Moisés narra nestes versos diz muito mais do que todos os
homens poderiam dizer juntos sobre o pecado, se tivessem que descobrir a razão

105 A.W. Pink, Gleanings from the Scriptures, (Chicago: Moody Press, 1977), p. 14.

71
do comportamento deles por si próprios. Este é um dos capítulos mais
importantes da Escritura, porque é a chave para o entendimento da
pecaminosidade humana. Aqui começa o grande drama da miséria humana, e
Deus é muitíssimo claro quando trata da origem do pecado em nossa raça e, ao
mesmo tempo, mostra a Sua provisão para a miséria humana.

Análise de Texto
Vejamos a análise, verso por verso:
Gn 3.1 — "Mas a serpente, mais sagaz que todos os animais selváticos que o
Senhor Deus tinha feito, disse à mulher: É assim que Deus disse: "Não comereis
de toda árvore do Jardim?"
Devemos ter muito cuidado ao interpretarmos este verso. Cremos que a
afirmação do texto refere-se a uma serpente literal como sendo instrumento 106 de
um ser superior. Cremos que esta narrativa é histórica, e não alegórica, como
sugerem alguns estudiosos. Observe outras referências ao episódio de Gn 3.1 e
veja que outros autores bíblicos a consideram como a narração de um fato
histórico (Jó 31.33; Is 43.27; Os 6.7; Rm 5.12, 14; 1 Tm 2.13, 14). Estes versos
que dizem respeito ao livro de Gênesis não devem ser interpretados
figuradamente, mas como que narrando eventos que realmente aconteceram.
Perceba que Paulo trata de dois personagens históricos: Adão e Cristo. A menos
que Cristo tenha sido um mito, Adão deve ser considerado um personagem
histórico.
A serpente deve ser vista como um animal entre as criaturas de Deus. Não
seria boa exegese substituir "serpente" por "Satanás". Satanás não é igual
serpente. O castigo mencionado em Gn 3.14, 15, pressupõe uma serpente
verdadeira, e Paulo não imagina uma serpente de outra maneira. 107 Houve, de
fato, um poder sobre-humano na serpente, que não é mencionado em Gênesis 3.
Mas a Escritura deixa claro que a serpente era unicamente o instrumento de
Satanás, e que o verdadeiro tentador estava operando em e por meio da serpente,
do mesmo modo que posteriormente operou nos homens e nos porcos. A serpente
foi o instrumento adequado de Satanás para que fizesse o que fez. A serpente
simboliza a natureza sutil e enganosa do pecado, e tem um aguilhão venenoso
que mata o homem. É por isso que Satanás, por sua astúcia e sagacidade, é
chamado de a "antiga serpente" ( Ap 12.9; 20.2).
O leitor atento haverá de perceber que a narrativa abrupta, que começa no
verso 1, dá a entender que a serpente estava replicando a alguma cousa que Eva
havia dito antes. Com toda a probabilidade, quando a serpente chegou, Eva já
estava observando a árvore proibida.
Concordamos com aqueles que têm concluído que Adão não estava com Eva
quando a serpente conversou com ela, embora saibamos que, logo após, ele
juntou-se a ela. Eva estava só, portanto, quando confrontou-se com a serpente. A
base dessa afirmação está em 1 Tm 2.13-14, onde o Espírito Santo deixou
enfático o fato de Eva ter sido enganada, não Adão. Ela foi quem seduziu Adão,
não a serpente. Pode muito bem ser dito que Satanás tentou Eva que, por sua
vez, seduziria Adão; assim Satanás tentou Jó por sua esposa e Cristo através de
Pedro. Esta é a sua política: enviar tentações por mãos insuspeitas, isto é, por
aqueles que têm interesse e influência sobre nós.

106 Ver esta idéia desenvolvida por Berkhof, p. 266 (edição em castelhano).
107 Compare Gn 3.1 com 2 Co 11.3 onde Paulo temia que "assim como a serpente enganou Eva
com a sua astúcia, assim sejam corrompidas as vossas mentes, e se apartem da simplicidade e
pureza devidas a Cristo."
72
CURSO DE ANTROPOLOGIA

A serpente, então, tentou Eva, na ausência do marido. O fato de Eva estar


só, lança luz sobre o que ocorreu. Ela não havia recebido pessoalmente a ordem
de Deus, e, sim, Adão. Sozinha, ela não teria ninguém para lembrá-la da ordem
divina e, assim, foi presa mais fácil para Satanás. Ela aproximou-se da árvore,
brincando assim com a ordem de Deus. Como conseqüência, recebeu o ataque da
serpente sagaz. Ela entrou em território inimigo e foi ferida por ela.
É por essa razão que a Escritura nos adverte para não andarmos no
território do inimigo, "para que Satanás não alcance vantagem sobre nós, pois
não lhe ignoramos os desígnios" (2 Co 2.11), porque quem "anda no caminho dos
ímpios, detém-se no caminho dos pecadores e acaba assentando-se na roda dos
escarnecedores" (Sl 1.1; ver também Pv 4.14-15).
A serpente disse à mulher: "É assim que Deus disse: Não comereis de toda
árvore do jardim?"
Nessa pergunta da serpente percebemos a astúcia e a malícia de um inimigo.
Sua alusão à restrição divina é muito maior e mais severa do que parece ser. O
Senhor havia feito alusão, de fato, a uma provisão para a alimentação de nossos
primeiros pais, dizendo que eles poderiam comer "livremente de todas as árvores
do jardim", com uma simples exceção (Gn 2.16). Mas Satanás alterou as
providências de Deus na sua pergunta. Ele tentou não somente fazer com que
Eva duvidasse da veracidade de Deus, mas que também suspeitasse da ordem
divina. Satanás está sempre procurando injetar veneno em nossos corações: fazer
com que desconfiemos da bondade e da veracidade de Deus — especialmente em
conexão com Suas proibições e preceitos. Isto é o que realmente está por detrás
de toda desobediência: um descontentamento com aquilo que Deus nos dá. Este
descontentamento a serpente plantou no coração de Eva. O veneno já havia sido
injetado. As palavras iniciais da conversa da serpente foram designadas para
produzir em Eva um espírito de descontentamento.
Observe, agora, que a reação de Jesus ante o tentador foi muito diferente.
Ele recusou-se a debater com Satanás, justamente porque Ele queria fazer a
vontade Deus. Cada vez que o inimigo atacava, simplesmente Ele se apegava à
Palavra de Deus. Satanás tentou torcer a verdade, mas Cristo conhecia muito
bem as ordens de Deus. O que a mulher não foi capaz de fazer, a Semente da
mulher, Cristo, o fez.
Gn 3.2-3 — "Respondeu-lhe a mulher: do fruto das árvores do jardim
podemos comer, mas do fruto da árvore que está no meio do jardim, disse Deus:
Dele não comereis, nem tocareis nele, para que não morrais."
Ao invés de fugir do encontro com a Serpente, Eva entabulou conversa com
ela, o que lhe foi fatal. Satanás é muito mais hábil e inteligente do que nós, e se
tentamos dialogar com ele em seu próprio território, o resultado será desastroso.
Sua influência má já tinha começado a afetar Eva perigosamente, como podemos
deduzir da primeira parte da resposta dela à serpente. O Senhor havia dito: "De
toda árvore do jardim comerás livremente" (2.16), mas ela omitiu a palavra
"livremente". Isso é indicativo de que a generosidade de Deus já estava sendo
questionada. Na sua resposta parece-nos que Eva acrescentou à ordem de Deus,
a expressão "nem tocareis nele". Isto não é um acréscimo necessariamente,
porque dificilmente ela poderia comer do fruto sem tocar nele.
Há um princípio importante que deve ser notado aqui: quando Deus proíbe
qualquer ato, Ele, ao mesmo tempo, proíbe tudo o que encoraja a realização dele.
Esse princípio Ele deixou bem claro no Sermão do Monte, quando combateu o
legalismo dos escribas e fariseus. Jesus insistiu que "não matarás" não é restrito
a um gesto físico de violência, mas já é crime o exercício da mente precedente ao

73
ato, como o ódio, por exemplo. De igual modo, Jesus declarou que o "não
adulterarás" inclui muito mais do que simplesmente as relações sexuais. Os
desejos e imaginação impuros já constituem o adultério.
Eva, portanto, estava totalmente certa em concluir que a ordem divina a
proibia de comer da árvore do conhecimento do bem e do mal, inclusive tocá-la,
porque o ato de comer envolve não somente o desejo e a intenção, mas também o
tocar, manusear, e colocar o fruto na boca.
Gn 3.4 — "Então a serpente disse à mulher: É certo que não morrereis."
Percebendo sua vantagem, agora que havia ganho a atenção de Eva, o
tentador tentou contraditar a ordem da ameaça divina. o tentador começou por
semear a dúvida (v.1). Agora, ele negou que havia qualquer perigo no comer do
fruto. Fazendo assim, o tentador difamou o caráter de Deus e, agora disse que
Deus era mentiroso. É possível que a serpente tivesse comido o fruto na presença
de Eva e, então, teria muita força a sua palavra do v.4 diante de Eva. Foi como se
Satanás tivesse dito a Eva: "Você não precisa hesitar. Deus só está tentando
assustar você. Averigüe você mesmo que esse fruto é totalmente inofensivo,
porque eu comi e não aconteceu nada." — Assim, o inimigo de nossas almas
procura persuadir os homens de que eles podem desafiar Deus ficando impunes
(veja Dt 29.19).
Gn 3.5 — "Porque Deus sabe que no dia em que dele comerdes se vos abrirão
os olhos e, como Deus, sereis conhecedores do bem e do mal."
Eva, ao invés de fugir da conversa, continuou a dar ouvidos à fala de
Satanás. Este não somente sugeriu que ela não sofreria punição qualquer, com
insinuou que ela se beneficiaria ao comer do fruto, por três razões: Primeiro, por
comer do fruto, a capacidade dela de discernimento e o de percepção seriam
sensivelmente aumentados. Este é o sentido de "se vos abrirão os olhos". Os
olhos físicos de Eva e Adão já estavam abertos, portanto, esta referência deve ter
sido aos olhos do entendimento; Segundo, o seu poder seria aumentado, e sua
posição melhorada. Eles seriam como "Deus" ou anjos; Terceiro, a sabedoria seria
aumentada em muito, "sendo conhecedores do bem e do mal como Deus". Isto era
algo altamente desejável!
É interessante que Satanás não dirigiu seus ataques aos apetites físicos de
Eva, mas à parte mais nobre do seu ser, isto é, aos apetites da alma humana —
querer ser mais sábio, inteligente, poderoso, ser uma criatura celestial, ser um
ser independente, auto-suficiente, agir independentemente de Deus.
De lá para cá, Satanás tem tentado fazer o mesmo com todos os homens,
tentando-os a tornarem-se independentes de Deus, o que é uma falácia, mas
muitos têm caído nessa esparrela.
Gn 3.6 — "Vendo a mulher que a árvore era boa para se comer, agradável
aos olhos, e árvore desejável para dar entendimento, tomou-lhe do fruto e comeu,
e deu também ao marido, e ele comeu."
Antes de examinar os detalhes deste trágico verso, analisemos
cuidadosamente duas perguntas:
Primeira: Por que a soberania da divina ameaça em Gn 2.17 não deteve Eva?
Davi declarou: "Guardo no coração as tuas palavras, para não pecar contra ti" (Sl
119.11). É claro de Gn 3.3 que a palavra de Deus estava na mente de Eva ao
menos, quando ela foi acossada por Satanás. Como, então, se explica que ela não
se preservou de pecar? Certamente, a resposta é que ela não fez uso da Palavra,
mas namorou com a tentação, parlamentou com o inimigo de Deus, e acabou
crendo na sua mentira. Aqui está a mais solene advertência para nós: se
desejamos que Deus nos liberte do tentador, devemos evitar toda ocasião do mal

74
CURSO DE ANTROPOLOGIA

e, como José do Egito, fugir da tentação. Então, poderemos livremente, orar: "Não
nos deixes cair em tentação, mas livra-nos do mal."
"Eva viu que a árvore era boa para se comer (porque provavelmente Satanás
a tinha comido na frente dela) e que ela era "agradável aos olhos".
Observemos a ordem das duas cláusulas: esperaríamos encontrar, pela
lógica, a frase "agradável aos olhos" primeiro que "boa para se comer". Por que
estariam elas mencionadas inversamente? Isto capacita-nos a entender melhor o
significado da frase "vendo a mulher que a árvore era boa para se comer". O
elemento tempo não pode ser ignorado aqui. Cremos, porque está implícito, que a
serpente comeu do fruto na presença de Eva. Como ela poderia perceber que a
árvore era "boa para se comer", se alguém não a tivesse provado? Como Eva
poderia saber que o fruto era "desejável para dar entendimento" a menos que
alguém tivesse previamente testemunhado através de uma demonstração visual
do fato?
É evidente que as palavras "vendo a mulher que a árvore era boa para se
comer" significam que ela havia visto a serpente comê-la sem morrer ou sofrer
qualquer punição. Então, ela seguiu o exemplo da serpente. Este fato interferiu
no raciocínio de Eva. Ao invés de crer na Palavra de Deus, Eva andou pelo que
viu — como seus filhos e filhas fazem ainda hoje — e as aparências enganam.
Eva viu que a árvore "era agradável aos olhos". Não havia nada na aparência
exterior do fruto que indicasse que ele era impróprio para ser comido. Ao
contrário, ele parecia atraente. Em Gn 2.9 lemos: "Do solo fez o Senhor Deus
brotar toda sorte de árvores agradável à vista e boa para o alimento..." - Como o
texto mostra, a árvore do conhecimento do bem e do mal não era exceção. Toda a
criação foi bela e agradável aos sentidos. Mas Eva, por entregar-se à tentação da
serpente, notou que aquela árvore era particularmente bela. Eva teve o desejo
secreto e cobiçou-a.
Se houvesse havido qualquer incerteza na mente de Eva, ela poderia ter
consultado seu marido. Segundo a Escritura, este é o dever e o privilégio de uma
esposa. Mas ela quis ter "entendimento" como Deus. Ela fez o juízo pelo que a
serpente disse, e não pelo que Deus havia dito ao seu marido. Ela preferiu a falsa
esperança que o inimigo lhe havia dado, mas ela foi enganada.
Primeiro, ela deu crédito ao "é certo que não morrereis" (v.4); depois foi
atraída pela perspectiva de tornar-se igual a "Deus" ou anjo. E, então, sob essa
crença, comeu do fruto.
A palavra hebraica fdfm:xen:w para "desejável" (v.6), tem a mesma raiz
(dom:xat) em Ex 20.17, e é traduzida aqui por "cobiça". A mesma palavra é
chamada "concuspicência" em Rm 7.8, e "cobiça" em Tg 1.15. De fato, esta última
passagem, de algum modo, traça o caminho em detalhes da desobediência final
de Eva, mesmo embora ela não possuísse natureza pecaminosa, como nós hoje a
possuímos.
O estatuto do Éden, tanto quanto o dos Dez Mandamentos, envolvia ambos,
os desejos interiores e os atos exteriores. Aquele que deseja o mal proibido, de
fato já o escolheu, como aquele que odeia antes de violar o sexto mandamento,
embora nunca chegue a uma violência física. Eva não poderia nem desejar o
fruto, porque Deus a havia proibido de comê-lo. Ao invés de desejá-lo, ela deveria
fugir dele. Cobiçar o que Deus proíbe já é pecaminoso, é preferir a criatura ao
invés do Criador. Esta é a grande advertência para nós todos. Se estimamos
coisas apenas levados pelos sentidos, ou pelo que outros dizem delas, ao invés de
aceitarmos o que Deus diz a respeito, certamente erraremos em nosso juízo. Nada
é bom para nós exceto aquilo que vem das mãos de Deus.

75
Eva, então, "tomou-lhe do fruto e comeu" — sem consultar Adão. Tão forte
foi o desejo do seu coração, que ela não quis ouvir a opinião de ninguém. Assim,
ela completou a transgressão. A serpente não colocou o fruto na boca de Eva. O
diabo pode tentar, mas não pode forçar ninguém a pecar. Por sua própria
determinação, obedecendo a desejos interiores, ela comeu do fruto. Ela, e nem
nós, podemos culpar quem quer que seja pelos nossos próprios atos
pecaminosos.
A essa altura, Adão juntou-se a Eva, porque é dito que Eva deu o fruto ao
seu marido, "e ele comeu". Este é o progresso do pecado: alguém entrega-se à
tentação e, então, torna-se o tentador de outras pessoas. Ao invés de recusar o
fruto, Adão comeu. O texto da Escritura diz "que Adão não foi enganado"(1 Tm
2.14), o que o torna um maior culpado. Ele apenas "atendeu a voz de sua mulher"
(Gn 3.17), e isto foi o bastante para ele apostatar de Deus. Foi uma revolta contra
o Criador, uma insurreição à Sua supremacia, uma rebelião contra a Sua
autoridade. Deliberadamente Adão resistiu à vontade revelada de Deus, desertou
do Seu caminho. Em conseqüência, ele perdeu sua primitiva excelência e toda a
sua alegria. Assim, Adão lançou-se a si mesmo, e a toda sua posteridade, na
ruína espiritual. Esta foi a origem do pecado na raça humana. Gn 3 dá-nos uma
narrativa inspirada de como o pecado invadiu o território dos homens, e também
nos dá a única resposta para os males e as misérias que permeiam este nosso
mundo.
Resumo: A queda do ser humano foi ocasionada pela tentação da serpente,
que semeou na mente de nossos primeiros pais a desconfiança e da
incredulidade. Ainda que, sem dúvida, o propósito da serpente tenha sido o de
fazer Adão cair, ele se dirigiu a Eva provavelmente pelas razões que se seguem: a)
Ela não era a cabeça do pacto e, portanto, não teria o mesmo sentido de
responsabilidade; b) Ela não havia recebido o mandato de Deus diretamente, mas
de forma indireta, através de Adão e, por conseguinte, seria mais suscetível ao
argumento da dúvida; c) Com segurança ela seria o agente mais eficaz para
chegar ao coração de Adão.
Assim, portanto, deu-se a história da queda do homem, o início do pecado no
mundo.

O PECADO ORIGINAL

O que é o pecado original? Deve ser observado que o termo “pecado


original” pode ser confuso, “porque ele não se refere primariamente ao pecado
original de Adão, ou ao primeiro pecado de um indivíduo, mas somente ao estado
em que nós nos encontramos quando vimos ao mundo como membros da raça
humana.”108
Alguns preferem usar nomes diferentes para esse pecado com o intuito de
evitar mal entendido, usando nomes como “pecado inato” ou “pecado da raça”.
Ainda que nem todos concordem com a terminologia, tanto a Escritura como a
experiência humana atestam da veracidade do pecado que milita dentro dos
homens desde a sua tenra infância. Este estado corrupto envolve uma prontidão
para o pecado que conduz o ser humano, quase que inevitavelmente, ao pecado
atual. Portanto, o modo de pensamento mais simples desta doutrina é considerá-
la como a explicação teórica para o fenômeno patentemente óbvio da
universalidade do pecado entre os seres humanos. Dessa forma, E. J. Bicknell
108 E. L. Mascall, no verbete “Sin” Encyclopaedia Britannica (1968), 556.

76
CURSO DE ANTROPOLOGIA

afirma que o pecado original “é no fundo a tentativa de expressar o fato de que


todos os homens caem em pecado.”109
Berkhof diz que este pecado se chama "pecado original" por algumas razões:
“1) Por que se deriva do tronco original da raça humana; 2) Porque está presente
na vida de cada indivíduo desde o momento do seu nascimento e, portanto, não
pode ser considerado como resultado de imitação; 3) Por que é a raiz interna de
todos os pecados atuais que mancham a vida do homem".110 Berkhof ainda
adverte que desse nome "pecado original", jamais deve ser pensado que ele
pertença à natureza constitucional do homem, pois tornaria Deus o autor do
homem pecador.111
O pecado original tem sido visto como o pecado herdado, mas herança não
explica tudo daquilo que chamamos peccatum originale. A culpa, por exemplo,
não é uma matéria de herança.

7 - ELEMENTOS DO PECADO ORIGINAL


O pecado original pode ser dividido basicamente em dois elementos: Culpa
Original e Corrupção Original.

A CULPA ORIGINAL
OS TIPOS DE CULPA
A palavra "culpa" tem que ser corretamente entendida. Aqui, neste estudo,
não estudaremos nada a respeito do "sentimento de culpa", que é um elemento
emocional do pecado, nem da imputação dela 112, mas estudaremos o aspecto
judicial ou forense da palavra, ou ainda, a relação que o pecado tem com a lei.
A culpa é o estado no qual se merece a condenação, ou na qual se sente
merecer o castigo pela violação da lei ou de qualquer exigência moral.
Podemos falar de culpa de dois modos:
REATUS CULPAE
Essa expressão latina significa réu de culpa. Esta culpa Turretin chama de
Culpa Potencial.113 É a culpa moral intrínseca do pecador, inerente a ele, que não
pode ser separada dele. Ela faz parte da essência do pecado. Essa culpa nunca se
encontra em alguém que não é pessoalmente pecador. Essa culpa é permanente
de tal forma que não é tirada nem com o perdão. Ela pertence à essência do
pecado e é parte inseparável do pecado. Pertence unicamente àqueles que são
pessoalmente pecadores, e lhes acompanha permanentemente. Os méritos de
Jesus Cristo não tiram essa culpa do pecador porque lhe é inerente. Mesmo
tendo suas penas pagas, essa culpa ainda permanece com o pecador. O fato de
Jesus Cristo ter morrido pelo pecador, não o torna inocente, apenas livre da
penalidade da lei, justificado, portanto. Essa culpa não pode ser transferida para
outro.
Jesus Cristo nunca teve essa culpa, porque nunca foi pessoalmente
pecador. Ela é própria somente de nós. Mesmo quando entrarmos no céu,
109 E. J. Bicknell, A Theological Introduction to the Thirty Nine Articles (London, Longmans, Green, 1955), 177.
110 Berkhof, p. 291 (edição castelhana).
111 Berkhof, p. 291 (edição castelhana).
112 O assunto da culpa já foi estudado em capítulos anteriores, quando se estudou sobre a "Imputação
Imediata" (páginas......)
113 Francis Turretin, Institutes of Elenctic Theology, vol. 1, ( New Jersey: Presbyterian & Reformed, 1992
edition), p. 595.
77
haveremos de ir com essa culpa, embora sem os sentimentos dela. É essa idéia de
culpados, que nos acompanha para sempre, que nos fará adorar Jesus como
nosso Redentor, eternamente.

REATUS POENAE
Esta expressão latina significa réu de pena. Esta “culpa” Turretin chama de
Culpa Real 114, que denota o castigo ou pena que vem sobre o transgressor da lei.
Ela tem a ver com o edito penal do Legislador que fixa o castigo da culpa. Esta
pena, ou castigo, não é inerente ao pecador. Ela pode ser paga pelo próprio
pecador ou removida pela misericórdia de Deus, através da remissão pelo
Substituto dos pecadores. Nessa culpa o pecador tem a obrigação de render
satisfação à Justiça por causa da violação da lei. Nesse sentido, a culpa não é a
essência do pecado, mas antes, uma relação com a sanção penal da lei.
É nesse sentido que Jesus levou as nossas culpas, isto é, pagando a
penalidade do réu. Nesse sentido, nunca mais seremos culpados, isto é,
merecedores do castigo, porque não mais temos dívidas com a lei. Seremos
santos e limpos, porque essa culpa pode ser removida pela satisfação da Justiça.

A CORRUPÇÃO ORIGINAL
Por corrupção podemos entender a poluição ou contaminação inerente à qual
todo o pecador está sujeito. Esta é a mais inegável das verdades a respeito do ser
humano caído: é o estado pecaminoso que se torna a base do hábito pecaminoso,
do qual surgem os atos pecaminosos.
A corrupção pode também ser vista como uma conseqüência imediata da
culpa com a qual o indivíduo entra no mundo. Todo homem é culpável em Adão,
como já vimos, e, portanto, nascido com uma corrupção original.
A corrupção original do homem inclui duas coisas: a) A ausência da justiça
original e b) A presença de um mal verdadeiro.
A) AUSÊNCIA DE JUSTIÇA ORIGINAL
É a perda da imagem moral de Deus, com a qual o homem foi originalmente
criado. A justiça original do homem consistia de três coisas mencionadas na
Escritura (Ef 4.24; Cl 3.10), que foram completamente perdidas na queda:
JUSTIÇA
Ela diz respeito à conformidade com a lei divina. Antes da queda havia total
harmonia entre a natureza moral do homem e todas as exigências da lei de Deus,
que sempre foi "santa, justa e boa" (Rm 7.12). Havia concordância perfeita entre a
constituição natural de nossos primeiros pais e a regra de vida estabelecida por
Deus para as Suas criaturas. Na parte mais interior do ser humano havia uma
santa inclinação. A Escritura diz que Deus "fez o homem reto" (Ec 7.29),
referindo-se à sua natureza moral, mas esta retidão moral foi perdida pela queda.
Todavia, ela vem a ser restaurada na regeneração do Espírito, mas todos os
descendentes de Adão já nascem sem ela.
SANTIDADE
Esta diz respeito à pureza imaculada do ser que Deus criou. Como a justiça
estava em relação à lei divina, a santidade era a relação direta com o Criador.
Nossos primeiros pais possuíam comunhão plena com Deus. A santidade não era
advinda somente da comunhão com Deus, mas era a natureza moral deles. Não
era uma simples separação do mal, mas uma santidade positiva, uma possessão
de tudo o que é bom. No verdadeiro sentido, nossos pais eram "puros de coração",
114 Turretin, p. 595.

78
CURSO DE ANTROPOLOGIA

pois eles viam a Deus (Mt 5.8). Assim eram nossos primeiros pais. Mas esse
princípio de santidade foi perdido, e é restaurado somente na redenção do povo
de Deus. Contudo, não se pode esquecer que todos os descendentes de Adão já
nascem sem qualquer noção dessa santidade.
CONHECIMENTO VERDADEIRO
Deve entender-se como o conhecimento do próprio Deus. Por ser reto e
santo, Adão podia "ver" Deus no sentido espiritual da palavra. Havia intimidade
entre ele e seu Criador. Adão foi criado espiritualmente maduro. Ele foi
capacitado a aprender a apreciar aquilo que Deus é. Ele possuía um
conhecimento intuitivo e verdadeiro das perfeições divinas, pois Deus Se revelou
a Adão no Éden. Este conhecimento foi perdido pela queda, mas é restaurado na
regeneração (2 Co 4.6). Todavia, todos a posteridade de Adão nasce sem qualquer
conhecimento verdadeiro de Deus.

B) PRESENÇA DE UM MAL VERDADEIRO


O pecado original não é meramente negativo, a simples ausência do bem,
mas é positivo, isto é, manifesta-se numa disposição para o mal verdadeiro.
Esta disposição para a manifestação de um mal verdadeiro pode ser
chamada de Depravação Total, que resulta numa Incapacidade Total.

8 - A TRANSMISSÃO DO PECADO

O pecado original (que é a culpa e a conseqüente corrupção) tem sido a


experiência de todos os homens. Tanto a Bíblia quanto a experiência humana têm
mostrado a universalidade do pecado. Segundo a Escritura, a origem disto tudo
está na queda de Adão. Neste capítulo vamos ver qual é a conexão que há entre o
pecado de Adão com o da humanidade em geral.
É pensamento geral entre os Reformados a teoria da imputação. As
palavras usadas nas línguas originais que são traduzidas como "imputação” são
bo$:xay (Sl 32.2 do verbo hebraico b$x)) e logi//shtai ( Rm 4.8 do verbo
logizomai).115 A imputação é o método de Deus para explicar a conexão do pecado
de Adão com os nossos pecados, mas nem todos os cristãos têm concordado
nesta matéria.
Diferentes conceitos têm surgido no decorrer da história da igreja a respeito
de como a culpa de Adão passou até nós.

CONEXÃO DO PECADO DE ADÃO COM O DA POSTERIDADE


A. OS QUE NEGAM ESTA CONEXÃO
Houve alguns movimentos na história da igreja que tentaram negar a
conexão entre o pecado do primeiro pai e os pecados dos seus descendentes. A
negação é total no primeiro grupo e parcial no segundo e terceiro.
1) OS PELAGIANOS
Pelágio, monge inglês do séc. IV, adversário teológico de Agostinho, partiu
do ponto-de-vista da habilidade natural do homem. Seu axioma fundamental é:
"Deus mandou o homem fazer o que é bom; disto, deduz-se que o homem deve ter
a capacidade de fazê-lo." Isto quer dizer, na teologia de Pelágio, que todos os
homens possuem o livre arbítrio, ou seja, a vontade livre no sentido absoluto da
palavra, de tal forma que é possível para eles irem tanto para o mal quanto para o
bem, como resultado da sua constituição natural. Na verdade, dentro do conceito
115 Ver também 2 Co 5.19; Gl 3.6; Tg 2.23.

79
pelagiano, o homem é um ser moralmente neutro. Ele não tem tendência alguma.
A decisão do homem não depende do seu caráter moral, visto que a vontade do
homem está inteiramente indeterminada tanto de dentro como de fora. Seja o que
for que o homem faça, o bem ou o mal, dependerá unicamente de sua vontade
livre, isto é, da natureza moral neutra dela. Os atos bons ou maus são ações
soltas do homem, não estão vinculadas à natureza moral do homem. O pecado
consiste de atos independentes ou soltos da sua vontade. A vontade não tem
conexão com o coração do homem. É nesse sentido que ele entende vontade livre.
É a independência da vontade. Não há uma natureza pecaminosa no homem que
o leva a pecar. O pecado é sempre uma escolha deliberada do homem, e ele peca
porque ele resolve imitar Adão que pecou. Segue-se, portanto, que Adão não foi
criado num estado de verdadeira santidade, mas em um equilíbrio ou
neutralidade moral. Não era bom nem mau, portanto, não possuía caráter moral.
Escolheu livremente a carreira do mal, mas isto não fez que seus descendentes
nascessem pecaminosos.
Para o pelagianismo, não há nenhuma conexão entre o pecado de Adão e os
pecados dos descendentes. Não há o pecado original. As crianças nascem num
estado de neutralidade, começando exatamente onde Adão começou, exceto no
sentido em que estão numa situação de desvantagem, pois já nascem com maus
exemplos ao seu redor. Os homens hoje pecam porque resolvem imitar Adão e,
como conseqüência, o hábito de pecar vai se formando.
O conceito de livre arbítrio de Pelágio, em algum sentido, foi tirado de um
livro apócrifo das Escrituras, o livro de Eclesiástico, que tem dado margem a
alguns eruditos posteriores, inclusive Erasmo de Roterdã, a formularem sua
teologia libertária.
Pelágio defendeu um libertarismo muito extremo. Ele creu que
"todo infante vem ao mundo na mesma condição que Adão estava antes da
queda. Seu princípio principal era que a vontade do homem era absolutamente
livre. Daí, segue-se que todos têm o poder, dentro deles mesmos, para crer no
evangelho tanto como para guardar perfeitamente a lei de Deus. " 116
Pelágio "vê a liberdade humana como um dom de Deus. Portanto, a prova
desta liberdade tem que ser buscada na Escritura Sagrada. É a conhecida
passagem de Eccli XV, 17 117 que proporcionou a Pelágio a mais exata definição da
liberdade da vontade." 118 Comentando sobre 1Tm 2:4 - "...que deseja que todos
os homens sejam salvos", Pelágio diz: "Disto é provado que Deus não força
ninguém a crer, nem que Ele tira a liberdade da vontade." 119 Agostinho cita
Pelágio em sua obra On the Grace of Christ, capítulo XXIV: "O homem que se
apressa para o Senhor e deseja ser dirigido por Ele, que faz sua própria vontade,
116 David N. Steele, The Five Points of Calvinism, Philadelphia: Presbyterian and Reformed Publishing
Company, 1967), p. 20.
117 Eclesiástico 15.14-18 (que diz: "Ele mesmo fez o ser humano no princípio e, então, deixou-o livre para
fazer suas próprias decisões. Ele lhe deu mais os seus mandamentos, e os seus preceitos; se tu quiseres
observar estes mandamentos, e guardar sempre com fidelidade o que é do agrado de Deus, eles te
conservarão. Ele pôs diante de ti a água e o fogo: lança a tua mão ao que quiseres. Diante do homem estão a
vida e a morte, o bem e o mal: o que lhe agradar, isso lhe será dado.") dá a base para muitos escritores
formularem sua concepção de livre-arbítrio. Juan P. Valero diz: "Pelágio é um dos primeiros escritores
eclesiásticos, sem se excetuarem Tertuliano e Orígenes, que se utilizou desta passagem como fundamento da
liberdade do homem." Las Bases Antropologicas de Pelagio, (Madrid, Publicaciones de La Universidad
Pontificia Comillas, 1980), p. 315.
118 Ibid.
119 Alexander Souter. The Earliest Latin Commentaries on the Epistles of St. Paul, (Oxford: At the Clarendon
Press, 1927), p. 224.
80
CURSO DE ANTROPOLOGIA

depende do Senhor, que além disso, apega-se tão proximamente ao Senhor


tornando-se (como diz o apóstolo), 'um espírito com Ele', faz tudo isto por nada
mais do que pela liberdade da vontade." 120 "Livre Arbítrio" era o principal tema de
Pelágio, e ele determinou a totalidade de seu sistema teológico nas áreas de
antropologia e soteriologia.
Os modernos pelagianos foram ressuscitados especialmente no tempo de
Jean J. Rousseau, que dizia que as crianças são uma espécie de tabula rasa, ou
um papel branco, que vai se sujando ou manchando pela influência externa.
Vejamos este ensinamento colocado numa forma mais sistemática:
— Pelágio enfatizou a plena liberdade da vontade, a vontade como
independente das outras faculdades da alma humana. A vontade possuía plena
liberdade para querer e para fazer. O princípio de Pelágio era: "Se eu devo, eu
posso".
— O pecado consistia, portanto, somente na escolha deliberada do mal. Ele
pressupõe o conhecimento daquilo que o mal é, mas o homem tem poder de
escolhê-lo ou de rejeitá-lo.
— Não há pecado original ou corrupção herdada. Todos os homens são
nascidos na mesma condição em que Adão foi criado.
— O pecado de Adão é apenas um mau exemplo que foi seguido por seus
descendentes. Pelágio negou que houvesse qualquer conexão de relação causal
entre o pecado de Adão e o da raça, ou que a morte tenha sido a pena do pecado.
Adão morreu por causa da constituição da sua natureza, e isto aconteceria
mesmo que ele não houvesse pecado.
— Adão não foi o representante da raça humana, nem o seu cabeça.
— Como o descendente de Adão vem ao mundo sem a contaminação do
pecado, ele tem pleno poder para fazer tudo o que Deus quer, inclusive viver sem
pecar. Ele tem a possibilidade de não pecar. Alguns pelagianos ensinaram que
alguns homens não precisavam orar: "Perdoa-nos as nossas dívidas".
— Uma conseqüência do ensino de Pelágio foi o ensino de que o homem
poderia ser salvo sem o evangelho. Com a vontade plenamente livre, ele poderia
obedecer perfeitamente a lei de Deus e ser salvo, e ter vida eterna. A única
diferença é que, debaixo da luz do Evangelho, esta perfeita obediência é tornada
mais fácil.
— Pelágio nega a necessidade da graça como nós a entendemos, como a
atuação sobrenatural do Espírito Santo. Ele crê na graça, mas com uma outra
conotação. Graça, portanto, para Pelágio, é entendida como cada coisa que deriva
da bondade de Deus. Nossas faculdades naturais como a razão, o livre-arbítrio,
revelação da verdade, etc., é que são a graça divina.

2) OS SEMI-PELAGIANOS
O Semi-Pelagianismo é a doutrina dos católicos-romanos desde o tempo em
que a igreja se posicionou entre Agostinho e Pelágio.
Após a controvérsia Agostinho-Pelagiana, a igreja cristã decidiu tomar uma
posição mediana. Ela evitou os pontos extremos de Pelágio e de Agostinho. Esta
posição é historicamente conhecida como Semi-Pelagianismo que tomou
elementos de ambos. Segundo George Smeaton, João Cassiano (A.D. 360-435),
um contemporâneo de Agostinho,

120 Whitney J. Oates. (Editor) Basic Writings of Saint Augustine, vol. 1, (New York, Random House
Publishers, 1948), p. 599. Neste capítulo On the Grace of Christ, Agostinho cita diversas vezes o pensamento
de Pelágio sobre as capacidades da vontade livre do homem.
81
“foi o fundador dessa posição mediana, que veio a ser chamada SEMI-
PELAGIANISMO, porque ela ocupou um terreno intermediário entre Pelagianismo
e Agostinianismo, e tomou elementos de ambos. Ele reconheceu que o pecado de
Adão estendeu-se a sua posteridade, e que a natureza humana era corrompida
pelo pecado original. Mas, por outro lado, ele sustentou um sistema de graça
universal para todos os homens igualmente, fazendo com que a decisão final no
caso de cada indivíduo fosse dependente do exercício do livre arbítrio.”121
Cassiano, como Agostinho, viu a universalidade da graça, mas
“ele casa isto com uma certa admissão do poder cooperador da vontade livre
do homem. Isto se aplica mesmo à graça primeira, a graça da conversão... Para
Agostinho a primeira graça é estritamente preveniente, para Cassiano ela é, como
as outras graças, cooperante.”122
Ele diz em suas Collationes que a graça cooperante vem "ajudar as fracas
aspirações e veleidades que são espontâneas ou movimentos não-causados da
vontade humana." 123 A conclusão óbvia deste pensamento é que Cassiano não
cria numa real depravação da alma humana como o fez seu contemporâneo
Agostinho. Sua concepção "do estado presente da natureza humana caída é
perceptivelmente mais suave do que aquela sustentada por Santo Agostinho." 124
Agostinho, que havia sido vitorioso em sua controvérsia com Pelágio, não
teria ficado satisfeito com o caminho que a igreja tomou posteriormente. Um
voluntarismo libertário triunfou na teologia do Semi-Pelagianismo. A graça de
Deus vinha conforme os méritos dos homens, isto é, de acordo com o bom uso ou
com a melhora correta dos poderes naturais da vontade livre, mesmo embora o
Semi-Pelagianismo tenha sido condenado pelo Sínodo de Orange (A.D. 529) 125,
presidido pelo bispo de Arles, um teólogo agostiniano. O sumário da doutrina de
Orange sobre a capacidade do homem está asseverado na afirmação concludente
como apêndice aos Cânones:
Isto nós devemos ambos pregar e crer - que através do pecado do livre
arbítrio do primeiro homem foi tão deformada e atenuada, que daí por diante
nenhum homem pode mesmo amar a Deus como ele deve, ou crer em Deus, ou
121 The Doctrine of the Holy Spirit, (Edinburgh: T & T Clark, 1889), p. 338. N.P. Williams in The Grace of God,
(London: Hodder and Stoughton, 1966) pensa que "seria mais justo descrever o sistema que Cassiano
advogou como "Semi-Agostinianismo'", porque Williams pensa que Cassiano crê em muitas coisas a respeito
do pecado original, como Agostinho, e Cassiano discordou somente sobre a "Irresistibilidade da graça, que
torna a volição humana um mero modo da auto-expressão da vontade divina." (p. 54)
122 Williams, p. 57.
123 Collationes XIII, II (citado por Williams, p. 58).
124 Williams, p. 58.
125 Alguns Canones de Orange que condenaram o Semi-Pelagianismo mostram a teologia em vigor naquela
época na Igreja Cristã: "Se qualquer um afirma que a totalidade do homem, alma e corpo, não tem sido
corrompida pela transgressão de Adão, mas que o corpo somente está sujeito a corrupção, enquanto a
liberdade da alma permanece intacta, que tal pessoa, seduzida pelos erros de Pelágio, contradiz a Escritura
que diz: "A alma que pecar, essa morrerá."; "4) Se qualquer homem afirma que Deus espera pela nossa
vontade de tal forma que nós podemos ser eximidos de pecar, e que não confessa que é devido a infusão e
operação dos Santo Espírito sobre nós que nós desejamos ser limpos, ele resiste ao Espírito Santo..."; "6) Se
qualquer homem afirma que a misericórdia é comunicada a nós quando, sem a graça de Deus, cremos,
decidimos, desejamos, nos esforçamos, observamos e trabalhamos, oramos, procuramos e batemos, e que
não confessa que é pela inspiração e infusão do Espírito de Deus que nós cremos, desejamos....- que meramente
afirma que a ajuda da graça é acrescentada à humildade e obediência do homem..."; "7) Se qualquer homem
afirma que pode, pela força da natureza, pensar qualquer coisa boa pertencente a salvação da vida
eterna...ou escolher ou consentir diante da pregação evangélica salvadora, sem a iluminação e inspiração do
Espírito Santo, que dá a todos o doce sabor em consentir e crer na verdade, ele está enganado por espírito
herético...." (See Smeaton, pp. 340-42, e Williams, pp. 63-65).
82
CURSO DE ANTROPOLOGIA

apresentar qualquer boa obra em nome de Deus, a menos que a graça da


misericórdia divina tenha se antecipado nele. 126
Muitos teólogos, contudo, não têm dado atenção à sã doutrina nem à
condenação pronunciada por Orange. Eles minimizaram a posição de Orange
sobre a queda e as conseqüências que foram óbvias: eles tiveram uma atitude
benevolente em relação ao homem não-regenerado, o que tornou fácil crer em
qualquer espécie de liberdade da determinação, ambos, da influência externa e,
especialmente, da interna.
O Semi-Pelagianismo, com sua teologia sinergista, cruzou todos os períodos
da igreja cristã. Ele ganhou muitos seguidores, visto que esta é a posição da
igreja de Roma até hoje, mesmo embora ela não o declare oficialmente.
O voluntarismo libertário teve seu grande campeão na pessoa de Duns
Scotus, perto do final da Idade Média. Ele "representa um estágio de transição no
movimento de uma teoria do apetite da volição humana para a teoria da causa
eficiente." 127 Duns Scotus escreveu:
Qual é a fonte desta escolha determinada? Ela pode vir somente de um poder
distinto da razão que é capaz de escolher. Porque a razão não é um fator
determinante, visto que ela tem a ver com os opostos com respeito ao qual ela
não pode determinar a si mesma, muito menos determinar alguma coisa além de
si mesma... Propriamente falando, o poder executivo não está num poder
contraditório ao efeito que ele carrega, visto que ele é racional por participação.
Mas o sentido pleno de um poder pelos opostos é encontrado formalmente na
vontade." 128
É fácil perceber nesta citação o voluntarismo de Scotus. Toda determinação
vem da vontade sem qualquer ligação com os poderes intelectuais. A vontade tem
a primazia sobre todas as outras faculdades do homem e tem conotacão
libertária. Aqui o voluntarismo libertário de Scotus triunfou sobre o
intelectualismo em vigor em seus dias.
Com Duns Scotus o intelectualismo de Tomás de Aquino, que ensinou que
a vontade é um apetite racional, é "descartado e substituído (durante o século
XIV e até o tempo presente) na maioria dos escritos dos filósofos e teólogos
católicos." 129 Uma nova ênfase foi posta nas capacidades da vontade humana,
mesmo embora não tenha sido uma volta completa aos ensinos de Pelágio.
Bourke diz que a teoria do "livre-arbítrio" é basicamente Scotista. 130 Nada pode
causar a ação da vontade, exceto ela mesma. Como ele próprio diz: "Nada além da
própria vontade é a causa total da volição na vontade." 131 A senha de Duns
Scotus é, portanto, liberdade. 132Dessa forma, Berard Vogt concluiu corretamente
um estudo das idéias de Duns Scotus com estas palavras:
Assim, então, é a teoria da liberdade como esboçada por Duns Scotus. Ela é
dominada por sua alta consideração pela vontade como a rainha e a soberana

126 Williams, p. 66
127 J. Vernon Bourke. Will in Western Thought, (New York: Sheed and Ward, 1964), p. 84.
128 Duns Scotus, Duns Scotus on the Will and Morality, selected and translated with an introduction by Allan
B. Wolter, (Washington, D.C.: The Catholic University of America Press, 1986), p. 161.
129 Bourke, p. 88.
130 Ibid.
131 Duns Scotus, "quod nihil aliud a voluntate est causa totalis volitionis in voluntate." (Op. Ox. II, 25, q. 1,
n.766 ), como está citado por Bourke, p. 98.
132 Josef Pieper. Scholasticism-Personalities and Problems of Medieval Philosophy, (New York: Pantheon Books,
1960), p. 146.
83
das faculdades do homem. De fato, sua característica distintiva e a sua defesa da
soberania e autonomia absoluta da vontade. 133
Duns Scotus introduziu em sua teologia a
noção interessante de prima indifferentia para explicar a condição inicial da
vontade quando ela está livre. O primeiro ato do entendimento não é livre, mas
uma vez que um objeto intelectual seja apresentado à vontade, a vontade é
indiferente (i.e., não determinado de qualquer modo) em direção a este objeto. A
vontade pode dirigir o intelecto para considerar este objeto ou outro, e a vontade
pode aceitá-lo ou rejeitá-lo. 134
Assim, o voluntarismo libertário do Semi-Pelagianismo ganhou a batalha
contra o intelectualismo daquele período em diante, mesmo embora o
intelectualismo tenha sido revivido no período do neo-tomismo e no
escolasticismo protestante. Mas a vontade nunca perdeu o seu lugar de domínio
porque isto foi fortemente favorecido pela tendência natural do homem. 135 É
natural para os seres humanos enfatizarem suas próprias capacidades
espirituais. É natural para eles desejarem ser participantes em sua própria
salvação. Sinergismo, portanto, é o modo natural dos seres humanos
expressarem sua própria teologia.
Os Semi-Pelagianos, portanto, enfatizaram que o homem herdou de Adão
uma incapacidade natural, mas que não é responsável por ela, de maneira que o
homem não pode ser culpado por ela. Portanto, não será condenado por causa
dessa incapacidade natural. Alguns chegam a ponto de concluir que Deus, de
alguma forma, está obrigado a proporcionar cura para essa incapacidade.
Dentro do Semi-Pelagianismo do catolicismo, admitiu-se que a justiça
original era um dom sobrenatural, e que efeitos do pecado de Adão sobre a sua
posteridade, foi a perda dessa justiça. A alma, portanto, é deixada no estado em
que foi originalmente criada, com a justiça natural. Os homens hoje nascem do
modo como Adão foi originalmente feito: com a justiça natural. O pecado original,
então, não está ligado à perda da justiça original. Não há nenhuma corrupção
hereditária inerente, nenhum caráter bom ou mau. De acordo com o semi-
pelagianismo, a perda da justiça original é apenas pena e não culpa.

3) OS ARMINIANOS CONSISTENTES 136


Os arminianos consistentes são aqueles que ensinam quase a mesma coisa
que o semi-pelagianismo ensina dentro do catolicismo.
O próprio fundador do movimento que leva o seu nome, teve muita
dificuldade de admitir a idéia de que o nosso pecado tem conexão com o de Adão,
manifestando enorme indecisão quando tratou da matéria de imputação.
É passível de discussão se Deus poderia ficar irado por causa do pecado
original que foi nascido conosco, visto que pareceu ser impingido sobre nós pelo

133 Citado por Bourke, p. 88


134 Ibid., p. 85.
135 Por tendências naturais eu quero dizer aquelas capacidades que o homem tem sem a necessidade de um
aprendizado especial. Faz parte do homem pensar o melhor de si mesmo, a menos que ele seja o objeto da
graça de Deus. O homem, sem a graça de Deus sobre si, nunca pensará monergisticamente. Esta é uma
tendência do pensamento do homem desde o começo dos estudos teológicos. Somente uma compreensão
correta da graça de Deus dá ao homem o senso de um monergismo soteriológico.
136 Eu uso a expressão "Arminianos Consistentes" porque há aqueles que são inconsistentes na sua teologia,
afirmando o livre-arbítrio, mas ao mesmo tempo a fé como um dom de Deus, o que quebra a harmonia do
sistema deles. Este é apenas um exemplo.
84
CURSO DE ANTROPOLOGIA

próprio Deus, como uma punição pelo pecado atual que havia sido cometido por
Adão e por nós nele. 137
Nesse mesmo lugar Armínio fez a distinção entre o "pecado atual" e "a
causa dos outros pecados". Fazendo isto, segundo Meeuwsen, 138 Armínio quebrou
a idéia da unidade adâmica. Após analisar e citar os documentos dos
Remonstrantes, Shedd assevera que
estes extratos são suficientes para provar que os teólogos Arminianos não
criam que a unidade entre Adão e sua posteridade, que eles asseveravam em sua
Confissão e Declaração, era de tal natureza que tornava o primeiro ato
pecaminoso de Adão, um ato comum da raça, e através disso justificam a
imputação do pecado original como verdadeira e propriamente pecado. Embora
empregassem uma fraseologia Agostiniana respeitando a conexão Adâmica, eles
punham uma interpretação diferente daquela que é encontrada nos símbolos de
ambas as tradições, Luterana e Reformada. A objeção deles à doutrina de que o
pecado original é a culpa, procede da suposição de que o ato de apostasia de
Adão foi puramente individual, e que a posteridade não estava no progenitor em
nenhum sentido real como a fraseologia de suas próprias afirmações doutrinárias
implicariam, se tomadas em sua aceitação estrita e literal. 139
Por esta razão, George Curtiss diz que
com relação ao pecado original, Armínio ensina que o homem, descendendo
de Adão, foi corrompido pelo pecado de Adão, mas não é culpado. Adão foi tanto
culpado como corrupto. Ninguém jamais estará na condição de perdição por
causa da transgressão de Adão, mas todos estão na escravidão da corrupção, por
causa do cabeça federal da raça. 140
Eu não estou absolutamente certo de que a opinião de Curtiss se encaixa
exatamente na própria teologia de Armínio, porque ele não foi claro na sua
exposição, e ele não deu nenhuma explicação dos termos que ele empregou.
Todavia, esta observação de Curtiss certamente está bem de acordo com a
teologia dos seguidores de Armínio.
Os teólogos Remonstrantes negaram, em sua antropologia, qualquer
conexão federal real entre Adão e sua posteridade de tal modo, que não pode
haver qualquer imputação do primeiro ato de Adão à raça. O pecado de Adão não
foi o pecado da raça, segundo a teologia dos Remonstrantes, porque não havia
nenhuma base Bíblica ou teológica para Deus imputar lhes o pecado do nosso
primeiro pai.
Episcopius, um dos formuladores da Confessio Remonstrantium,
Arminiana, revelou suas opiniões a respeito do pecado original na Apologia. Ele
disse:
Os Remonstrantes não consideram o pecado original como é propriamente
chamado, que torna a posteridade de Adão merecedora do ódio de Deus; nem o
consideram como um mal que, pelo método de punição propriamente chamado
(per modo proprie dictae poenae) passa de Adão para sua posteridade; ...Mas que
o pecado original (peccatum originis) não é um mal em qualquer outro sentido

137 Arminius, The Writings..., vol. 1, pp. 374-75.


138 Meeuwsen. "Original Arminianism and Methodistic Arminianism Compared", p. 22.
139 Shedd, pp. 185-86.
140 George L. Curtiss. Arminianism in History, (New York: Hunt and Eaton, 1894), p. 12. O termo "federal" é
relacionado com pacto. A palavra latina para pacto é foedus. Assim, "federal" é derivativo de foederatus,
confederado, uma parte no pacto. Uma conexão federal é o mesmo que uma conexão de pacto. Ver Richard
A. Muller. Dictionary of Latin and Greek Theological Terms, (Grand Rapids: Baker, 1985), pp. 119-22.
85
além disto — que ele não é mal no sentido de implicar em culpa de abandono de
punição (malum culpae, aut malum poenae), — está claro. 141
Um pouco mais tarde, Episcopius continua:
"Mas não há nenhuma base para a asserção de que o pecado de Adão foi
imputado à sua posteridade, no sentido de que Deus realmente julgou a
posteridade de Adão como culpada e acusável do mesmo crime (culpa) e pecado
que Adão havia cometido. Nem a Escritura, nem a verdade, nem a sabedoria, nem
a benevolência divina, nem a natureza do pecado, nem a idéia de justiça e
eqüidade, permitem que seja dito que o pecado de Adão foi, assim, imputado à sua
posteridade. A Escritura testifica que Deus ameaçou punir a Adão somente, e
impô-la sobre Adão somente; a benevolência divina, Sua veracidade e sabedoria,
não permitem que o pecado de uma pessoa seja imputado, estrita e literalmente,
a uma outra pessoa." 142
Os Remonstrantes aceitaram a transmissão do pecado através da
propagação. A posteridade de Adão herda a sua condição maligna. Ela herda os
efeitos da natureza caída, mas não a imputação do pecado. A posteridade de
Adão não é culpada por causa do pecado de Adão, mas recebe a conseqüência de
seu pecado, sendo a posteridade do pai da raça. Isto parece soar igual à
imputação do pecado, mas a teoria da imputação de Armínio parece ser
imputação somente no sentido em que Deus quis que os descendentes de
Adão fossem sujeitos ao mesmo mal ao qual Adão sujeitou-se através de uma
participação deliberada no pecado. É pecado somente na medida em que o mal é
permitido. Deus permite uma tendência má a ser imputada. Isto é a mesma coisa
que foi imposta sobre o primeiro homem como punição, mas que é transmitida à
sua posteridade na forma de um mal propagado, não como verdadeira punição
em qualquer sentido da palavra. 143
Shedd assevera que, segundo o Arminianismo,
"não há qualquer base a asserção de que o pecado de Adão tenha sido
imputado à sua posteridade no sentido em que Deus realmente julgou a
posteridade de Adão como culpada dele, e acusada com o mesmo pecado e crime
que Adão havia cometido." 144
Todos os Arminianos consistentes negam a imputação do pecado de Adão
por três razões: (1) Porque eles pensam que a doutrina da imputação é uma
doutrina que rompe com os princípios fundamentais da justiça eterna; (2) Porque
eles dizem que a culpa pode ser atribuída somente àqueles que pecam pessoal e
voluntariamente; (3) Porque do conceito que eles possuem de graça preveniente.

B. OS QUE AFIRMAM ESTA CONEXÃO


Todos os sinergistas, de alguma forma, negam que haja conexão entre o
pecado de Adão e o da posteridade, mas todos os de tendência Luterana e
Reformada afirmam essa conexão inequivocamente, mas a diferença entre os
Reformados está no processo que Deus usou para estabelecer essa conexão. Há,
pelo menos, três teorias nos círculos Reformados, que têm vigorado até agora:
1) OS QUE SUSTENTAM A TEORIA REALISTA
O método primitivo para se explicar a conexão entre o pecado de Adão com
a culpa e a corrupção de sua posteridade foi a teoria realista.

141 Citado por Shedd, pp. 181-82.


142 Episcopius in his Apology Pro Confessione Remonstrantium, cap. VII, (Ibid., pp. 183-84).
143 Meeuwsen, p. 23.
144 Shedd, pp. 183-84.

86
CURSO DE ANTROPOLOGIA

Segundo W.G. T. Shedd,


"o Realismo foi a filosofia adotada pela Igreja, quando ela construiu as
doutrinas da Trindade e do Deus-Homem. O traducianismo faz a mesma
distinção em antropologia. O homem foi originalmente uma única natureza
humana que, por propagação, tornou-se milhões de pessoas". 145
O Realismo supõe que a humanidade, a natureza humana como princípio
geral ou uma forma de vida, existe antecedentemente (cronológica ou
logicamente) aos homens individuais. A "humanidade (ou gênero humano) existe
antes das gerações da humanidade. A natureza é anterior aos indivíduos
produzidos dela." A natureza existe também independente e fora dos indivíduos.
A humanidade existe antes dos indivíduos e independentemente deles, como a
eletricidade existe mesmo antes dela ser coletada e usada.
Conforme os primitivos realistas, o indivíduo é somente um modus
existendi subseqüente. O modo primeiro e antecedente (no caso do homem) é a
humanidade genérica da qual este modo subseqüente é apenas um outro aspecto
ou manifestação. Conforme a doutrina realista
"A natureza humana é uma substância geral ou específica criada em e com
os primeiros indivíduos da espécie humana, que não é, todavia, individualizada,
mas que por geração ordinária, é subdividida em partes, e estas partes são
formadas em indivíduos separados e distintos da espécie. A substância única e
específica, através da propagação, é metamorfoseada em milhões de substâncias
individuais, ou pessoas. Um homem individual é uma parte fracional da natureza
humana separada da massa comum, e constituída uma pessoa particular, tendo
todas as propriedades essenciais da natureza humana." 146
Segundo Hodge, um adversário do realismo traducianista,
"o que Deus criou, portanto, não foi um homem individual, mas a espécie, a
humanidade genérica — uma essência inteligente, racional e voluntária. Os
indivíduos são as manifestações dessa substância numérica e especificamente
uma e a mesma, em conexão com suas organizações corpóreas. As almas deles
não são essências individuais, mas uma essência comum revelada e agindo em
muitos organismos separados." 147
A natureza humana é numericamente uma e a mesma. Nós e Adão somos
um e o mesmo. Somos uma parte dividida da natureza que Adão possuía. Somos
uma fração da natureza humana. Todos indivíduos compõem a mesma natureza
humana que é fracionada em milhões de indivíduos. Portanto, quando Adão
pecou, quem pecou foi a natureza humana. Logo, se somos parte dessa mesma
natureza humana que numericamente é uma e a mesma, todos pecamos em
Adão. O ato de Adão foi nosso ato, feito voluntariamente. Por isso somos
culpados, porque estávamos lá no Éden, porque éramos um com Adão, que não
era um indivíduo, mas a raça.
Objeções: Todos somos da mesma natureza, a humana, mas não
numericamente um, isto é, compostos da mesma substância fracionada. Somos
da mesma natureza, mas não da mesma essência numérica.
A idéia de que agimos milhares de anos antes de sermos nascidos, ou que
somos pessoalmente responsáveis por aquele ato sem estarmos pessoalmente
presentes lá, é algo muito estranho.

145 W.G.T. Shedd, Dogmatic Theology, vol. II, p. 77.


146 Shedd, Dogmatic Theology, vol. II, p. 72.
147 Charles Hodge, Systematic theology, vol. II, p.54.

87
Se éramos um com Adão, por que não nos tornamos responsáveis também
pelas suas transgressões subsequentes? Por quê nos tornamos responsáveis pelo
pecado de Adão, e não pelo de Eva, pois foi ela quem pecou primeiro?

2) OS QUE SUSTENTAM O PACTO DAS OBRAS


Estes crêem na teoria da imputação imediata. No pacto das obras Adão
ocupou uma relação dupla com seus descendentes, a saber, como o cabeça
natural de toda a humanidade, e como o cabeça representativo de toda a raça. Por
causa da relação pactual, a culpa de Adão foi imputada 148 aos homens.
Na linguagem escriturística e teológica, imputar pecado significa imputar a
culpa do pecado. E, por culpa, não se quer dizer o crime em si, nem a sua
poluição moral, mas obrigação judicial para satisfazer a justiça. Por conseguinte,
o mal conseqüente da imputação não é uma imposição arbitrária; não é
meramente uma desgraça ou calamidade; nem um castigo no sentido próprio da
palavra, mas uma punição. Quando a alguém é imputado o pecado, esse alguém
paga a penalidade do pecado, a dívida com a justiça sobre base legal.
Para que se entenda a idéia de imputação de pecado de Adão sobre nós, é
necessário que entendamos primeiro a imputação de nossos pecados a Cristo.
Tanto a imputação do pecado de Adão a nós como de nossos pecados a Cristo, e o
da justiça de Cristo a nós, são da mesma natureza. Um caso ilustra o outro.
Quando dizemos que os nossos pecados foram imputados a Cristo, ou que Ele
levou sobre Si os nossos pecados, não quer dizer que Ele realmente cometeu os
nossos pecados ou que foi moralmente criminoso por causa deles. Ele
simplesmente assumiu o nosso lugar tomando a nossa maldição sobre Si.
De igual modo, quando dizemos que a justiça de Cristo é imputada aos
crentes, não queremos dizer que eles obram aquela justiça, ou que eles foram
agentes dos atos de Cristo na obediência à lei; nem que o mérito da justiça de
Cristo foi mérito deles; nem que isto constitua o caráter moral deles; mas
simplesmente significa que a justiça de Cristo, tendo sido elaborada de acordo
com os planos divinos, para o benefício do Seu povo, em nome deles, por Ele,
como representante deles, foi atribuída por Deus aos pecadores.

Vejamos a base do princípio representativo nas Escrituras:


a) A Relação Natural de Adão com a Raça
Adão foi o pai de toda a raça humana. Como pai da raça, era seu dever
obedecer todas as prescrições dadas por Deus, para que fosse merecedor de um
estado definitivo e, assim, conquistasse para si mesmo e para seus descendentes,
uma condição de vida eterna, que ainda não possuía. Se a possuísse, não a
perderia. Se pecasse, haveria de perder não só o direito de comer da árvore da
vida (e foi o que aconteceu - Gn 3.22) como seria culpado por seus erros e
receberia a corrupção que o pecado traz. Nesse caso, o pecado seria somente dele,
de ninguém mais. Os seus descendentes não poderiam levar a culpa do seu
pecado, apenas a corrupção deles, pois de uma árvore má não pode haver bom
fruto. Mesmo sendo corruptos, os seus descendentes não poderiam ser culpados
de sua corrupção, pois eles eram apenas filhos de alguém que veio antes deles,
filhos do primeiro pai. A relação era apenas de descendência natural, nada mais.
Mas a relação que Adão teve com sua posteridade foi mais do que natural.
Ele tornou-se o cabeça representativo por causa da relação de pacto. Adão foi

148 Imputar significa atribuir algo a uma pessoa, sobre base adequada, como razão meritória ou judicial de
recompensa ou punição.
88
CURSO DE ANTROPOLOGIA

mais do que um pai da raça humana, ele foi o agente legal deles, falando e agindo
em lugar de todos eles.

b) A Relação Pactual de Adão com a Raça


Adão não agiu simplesmente como uma pessoa particular, ou como um
indivíduo isolado. Quando ele pecou, ele o fez em nome e como representante de
toda a sua posteridade. Os resultados da sua ação tiveram resultado sobre todos
os filhos dos homens porque Adão não agiu simplesmente como uma pessoa
particular, mas como uma pessoa pública. Aquilo que ele fez envolveu
judicialmente outras pessoas.
Qual é a base para essas afirmações? Deus entrou numa relação pactual
com Adão, e isto o tornou o cabeça representativo da raça humana. O termo
pacto não aparece no começo de Gênesis, embora a referência a pacto com Adão
apareça posteriormente, em Os 6.7. Os elementos gerais de um pacto estão
presentes em Gn 2.16-17: Primeiro, há duas partes contratantes; Segundo, há
condições definidas que são aceitas; Terceiro, há uma penalidade prescrita em
caso de desobediência; Quarto, há uma promessa implícita em caso de
obediência.
Adão foi colocado não simplesmente debaixo da lei de Deus, mas ele estava
sob uma condição pactual. Estas duas coisas devem ser absolutamente distintas:
como uma pessoa individual, na relação natural, ele poderia obedecer a lei por si
mesmo, sem qualquer conseqüência para os outros. Ele poderia estar debaixo da
lei e, se obedecesse, apenas ficaria sem a punição da lei, mas o pacto daria a ele
não somente o livramento da penalidade, em caso de obediência, mas o direito de
desfrutar da vida eterna para si e para os seus descendentes, como em caso de
desobediência a culpabilidade para si e para toda a raça. Seria absolutamente
óbvio que Adão obtivesse a promessa de vida, se obedecesse, pois a ameaça de
morte ( "no dia em que comeres, certamente morrerás") implica necessariamente
no reverso. É como se Deus lhe houvesse dito: "Se não comeres, não morrerás e,
certamente, poderás comer da árvore da vida, como recompensa por tua
obediência" (ver Gn 3.22). A promessa de vida incluía muito mais do que
simplesmente não morrer. Adão haveria de ter vida eterna, aquilo que Cristo veio
dar ao Seu povo, uma comunhão imperdível com Deus, uma qualidade de vida
superior à que Adão possuía, mesmo quando não havia pecado, uma qualidade
de vida que Adão teria, se houvesse obedecido e comido da árvore da vida.
Os 6.7 diz que houve um pacto que Adão transgrediu e, fazendo isso,
imergiu a si mesmo e toda a raça na desgraça e miséria, sujeitando todos os
homens ao estado de culpados e merecedores do castigo divino.
"O fato de Adão ter permanecido como o cabeça da raça no relacionamento
de pacto, é demonstrado conclusivamente pelos males penais que vieram sobre
seus filhos, em conseqüência de sua queda. Da maldição terrível que cai sobre
todos os seus descendentes, somos compelidos a inferir a relação pactual que
existia entre ele e eles; porque o Juiz de toda a terra, sendo justo, nunca punirá
onde não há crime. "Em Adão todos morrem" porque nele todos pecaram." 149
A culpa do pecado de Adão foi imputada a toda a sua posteridade. O
princípio da imputação permeia toda a Escritura. Se alguém age em favor ou em
nome de outros, então estes estão legalmente representados, e são também
contados como responsáveis nos atos de quem os representou, e sofrem as
conseqüências da conduta dele, seja ela boa ou má.

149 A.W. Pink, Gleanings from the Scriptures, (Chicago: Moody Press, 1977), p. 43.

89
Os teólogos Reformados, em geral, aceitam a teologia federal 150, mas há
aqueles que relutam aceitar o fato de que Deus estabeleceu um pacto com Adão
151
no Éden. A teologia federal é perfeitamente passível de ser sustentada, pois há
diversos elementos na Escritura que nos autorizam a elaborar uma teologia
pactual que dá base para a representatividade de Adão.

c) Distinção de sentido nas Palavras JUSTO e INJUSTO


Algumas vezes essas duas palavras expressam o caráter moral das pessoas.
Um homem justo é um homem reto, honrado, bom. Outras vezes, estas palavras
expressam não simplesmente o caráter moral, mas relação de justiça.
Nesse sentido, um homem justo é aquele com quem as demandas da
justiça são satisfeitas. Ele pode ser pessoalmente um injusto e legalmente justo.
Se isto não fosse assim, nenhum pecador poderia ser salvo. Não há um crente na
face da terra que não tenha sido pessoalmente injusto, merecedor da ira de Deus.
Sendo ele, portanto, injusto, Deus, através da obra expiatória de Cristo, declara-o
legalmente justo, não moralmente, à vista de Sua justiça.
Quando, portanto, Deus declara o injusto justo, Ele não o declara ser o
que, na realidade, ele não é, mas simplesmente declara que o débito dele, com
relação à justiça, foi pago por Outro.
Portanto, quando é dito que o pecado de Adão é imputado à sua
posteridade, não quer dizer que a humanidade toda estava presente
pessoalmente quando Adão pecou, ou que voluntariamente todos foram culpados
de seu ato. Mas esta imputação significa que, em virtude da união federativa de
Adão com os seus descendentes, o pecado de Adão é a base judicial da
condenação da raça, de igual modo como a justiça de Cristo é a base judicial da
justificação do Seu povo.
A doutrina da imputação tem sempre sido uma grande dificuldade para o
entendimento das pessoas. A mente humana tem sido torturada na resolução
deste problema.
A solução escriturística desse difícil problema tem sido esta: Deus colocou
Adão como cabeça federal-representativa da raça. Deus o colocou sob prova não
somente para si próprio, mas também para toda a sua posteridade. Tivesse Adão
mantido a sua integridade, ele e todos os seus descendentes teriam permanecido
sem pecado e teriam tido vida eterna, uma comunhão imperdível com Deus,
felizes para sempre! Como ele caiu do estado em que foi criado, ele levou consigo
toda a sua posteridade, de tal modo que a penalidade dele passa a ser deles,
também. Todos os descendentes de Adão, passam, portanto, a ser, por natureza,
filhos da ira.
Os males que a posteridade de Adão sofreu não foram imposições
arbitrárias, nem conseqüências naturais da apostasia de Adão, mas imposições
judiciais.

d) A Base Bíblica da Imputação do Pecado de Adão

150 O termo "federal" vem de foedus, uma palavra latina que quer dizer "pacto". A teologia federal é a
teologia do pacto.
151 O texto clássico usado como base para o estabelecimento do pacto de Deus com Adão está em Os 6.7,
que diz: "Mas eles transgrediram o pacto como Adão; eles se portaram aleivosamente contra mim." - Qual é a
objeção deles? Eles não discutem o termo pacto, mas a expressão "como" que eles insistem em traduzir "em"
(que é uma tradução possível), para justificar o fato de que eles transgrediram o pacto num lugar chamado
Adão. Adão, portanto, não seria uma pessoa nesse caso, mas uma cidade, onde um pacto foi estabelecido.
90
CURSO DE ANTROPOLOGIA

A base da imputação do pecado de Adão, ou razão pela qual a penalidade


do seu pecado vem sobre a sua posteridade, é a união entre Adão e nós. O pecado
não poderia ser imputado de um homem para outro a menos que houvesse
conexão racial entre eles, para justificar essa imputação.
As Escrituras nunca falam da imputação do pecado dos anjos aos homens,
ou a Cristo, ou da Sua justiça aos anjos, pela simples razão de que não há
qualquer conexão racial entre eles. Portanto, pela ausência de qualquer conexão
racial, os benefícios de Cristo não podem ser imputados aos anjos e, pela mesma
razão, os pecados dos anjos não podem ser imputados aos homens ou vice-versa.
Não havendo qualquer conotação racial entre os seres, não pode haver
conseqüências judiciais de pecado ou de justiça de um para o outro.
A união federal entre Adão e sua posteridade é a base para a imputação de
seu pecado a ela. Adão foi o cabeça representativo da raça e, por isso, seu ato foi
considerado o ato da raça, assim como Cristo, sendo o representante dos
pecadores, teve o Seu ato considerado como ato daqueles por quem morreu. Por
isso, o pecado de um é atribuído a outros, e também a justiça de Um é atribuída
a outros.
Não é possível entendermos a teoria da imputação de pecado e de justiça,
esse processo assombrosamente maravilhoso de Deus, a menos que estudemos
detalhadamente o texto de Rm 5.12-21.

Análise do texto de Rom 5.12-21:


O primeiro verso a ser analisado é o v.14, porque ele nos dá a base para a
teoria da imputação imediata do pecado, em virtude da posição que Adão ocupou
em relação a Cristo Jesus.
Rm 5.14 - “Entretanto, reinou a morte desde Adão a Moisés, mesmo sobre
aqueles que não pecaram à semelhança de Adão, o qual prefigurava aquele que
havia de vir.”
O verso 14 diz que Adão era um tu/poj de Cristo. Essa palavra grega indica
a idéia de ser padrão, de aponta para alguém que serve de modelo para outros.
Adão prefigurava aquele que haveria de vir. Adão é chamado o primeiro Adão, e
Cristo é chamado o segundo Adão.152 Adão prefigura Cristo. Do modo como vemos
os homens em Jesus Cristo, deveríamos vê-los em Adão.
Adão, quando tentado, foi derrotado. Cristo, quando tentado, resistiu e
venceu. O primeiro foi amaldiçoado por Deus, e o último foi agradável a Deus. O
primeiro foi a fonte do pecado e da corrupção para toda a sua posteridade, mas o
segundo foi a fonte de santidade para todos os que pertenciam ao Seu povo.
Através de Adão, a condenação veio, mas a redenção veio através de Jesus Cristo.
Em que sentido Adão foi o tu/poj do Redentor? A palavra grega significa
"figura" ou "tipo", e no significado escriturístico do termo, um tipo consiste de
algo mais do que uma similaridade causal entre duas pessoas, ou um paralelo
incidental. Há algo mais que Deus queria nos mostrar. É claro que desde a
eternidade Deus pré-ordenou que o primeiro homem deveria prefigurar o Filho
encarnado de Deus. Mas em que sentido? Certamente não na sua conduta. O

152 Ver 1 Co 15.45-49. Adão foi chamado o "primeiro homem" não simplesmente porque ele foi o primeiro
a ser criado, mas porque ele foi o primeiro a agir como o representante legal da raça humana. Neste sentido,
segundo a teologia Reformada, ele é o representante no pacto das obras. Cristo é chamado o "segundo
homem", mesmo embora ele tenha vivido muitos milênios mais tarde, porque Ele foi o segundo homem a
agir como um representante legal. Ele é também chamado "o último Adão" porque não haveria de haver
nenhum outro pacto. Neste sentido, segundo a teologia Reformada, Ele é o representante do Pacto da Graça,
fazendo o que o primeiro Adão não fez, no chamado Pacto das Obras.
91
contexto de Romanos 5 torna claro que Adão se tornou o tipo de Jesus em uma
posição oficial que ele assumiu, isto é, como cabeça federal, como o representante
legal de outros. Está claro de Rm 5.12-19 que um age em favor (ou no lugar) de
muitos, afetando o destino deles. O que um fez é considerado a base judicial 153
para o que aconteceu a muitos. Como a desobediência e a culpa de Adão
trouxeram a condenação para todos que foram representados por ele, assim, a
obediência de Um, Cristo, garantiu a justificação de todos aqueles que foram
representados por Ele.
Assim, a despeito de contraste entre o tipo e o Anti-Tipo, eles possuíam algo
em comum: eles foram certamente representantes de dois povos. O Primeiro Adão
foi representante de cada membro da raça, e o Segundo Adão foi o representante
de cada membro do Seu povo. No primeiro todos morrem, no segundo todos
vivem; no primeiro todos são condenados, no segundo todos são justificados, a
justificação que traz vida.
Rm 5.12-19 mostra que todos os membros da raça experimentam o fato de
que eles são culpados por alguma coisa que eles não fizeram pessoalmente. Em
Adão nós ofendemos a Deus em sua ofensa, e cometemos a transgressão em sua
transgressão.
Rm 5.12 — "Portanto, assim como por um só homem entrou o pecado no
mundo, e pelo pecado a morte, assim também a morte passou a todos os homens
porque todos pecaram."
À luz do que aconteceu em Gênesis 3, é estranho que Paulo tenha dito que
o "pecado entrou no mundo por um só homem", quando é dito na Bíblia que Eva
foi o primeiro ser humano a pecar. Por que Paulo não disse: "Portanto, assim
como por uma só mulher entrou o pecado no mundo"? A resposta é totalmente
óbvia: porque o pacto foi feito com Adão. Ele era o representante da raça
humana, não Eva. Foi Adão que recebeu a ordem de Deus, não Eva. Por esta
razão aprendemos a respeito do "pecado de Adão", não a respeito do "pecado de
Eva". Paulo não tratou do pecado de Eva, porque ele estava tratando da matéria
da representação neste texto.
Uma outra palavra importante neste verso 12 é ( a(marti/a (pecado). Aqui,
"pecado" não significa o ato de desobediência pessoal de Adão ou a depravação
com a qual os homens são nascidos. Aqui ele significa culpa. Paulo está tratando
de matéria judicial, não simplesmente dum ato pessoal de Adão. Ele está
tratando da ira de Deus que vem sobre todos os homens porque todos eles são
culpados. O texto diz que "a morte passou a todos os homens porque todos
pecaram". Paulo não está tratando dos pecados pessoais deles, mas da culpa que
todos têm em Adão. Murray diz que quando Paulo diz que "um pecou" e "todos
pecaram", ele se refere ao mesmo pecado visto em seu aspecto duplo: como o
pecado de Adão, e com o pecado de toda sua posteridade. 154 É um assunto
judicial.
"Assim também a morte passou a todos os homens". A morte é uma
conseqüência penal para pessoas culpadas. A meta principal de Paulo era
mostrar a conexão entre Adão e sua posteridade. Todos são considerados
culpados por causa da transgressão de um só homem. Por esta razão Paulo diz
em 1 Co 15.22 que "em Adão todos morrem". Eles morrem em virtude de sua
relação pactual, a união legal entre Adão e a raça, a quem ele representa.
153 Na posição de representante, Adão (ou Cristo) foi tratado legalmente, como uma pessoa legal, não como
um simples ser humano isolado. Os dois Adões foram cabeças de dois povos diferentes, como veremos mais
tarde na análise de Rm 5.12-19.
154 Murray, first article, p. 164.

92
CURSO DE ANTROPOLOGIA

Morremos porque estamos unidos a Adão no mesmo sentido em que vivemos


porque estamos unidos a Cristo, pelo mesmo processo de representação. Todos os
homens vêm ao mundo sem pecados pessoais, mas porque eles são
representados em Adão, eles são nascidos culpados, debaixo da ira de Deus.
Cada ser humano, seja homem, mulher ou criança, é considerado culpado
diante de Deus. A base de nossa condenação está extra nos 155, mesmo embora
não devamos nos esquecer de que a Escritura diz que o pecado de Adão é nosso
pecado. 1 Co 15.22 diz que "em Adão todos morrem". Murray assinala
que a morte é o salário do pecado (Rm 6.23) e que a morte não pode ser
concebida como existindo ou exercendo sua função à parte do pecado. Este é o
princípio Paulino: Quando ele diz que "em Adão todos morrem" é impossível, sob
as premissas de Paulo, excluir a antecedência do pecado e o único modo no qual
a antecedência neste caso poderia obter, é que todos são concebidos dele são
considerados como tendo pecado nele. 156
A corrupção interior e a alienação de Deus que nós experimentamos são
meramente a conseqüência e não a causa de nossa condenação. A causa é o fato
de nossa culpa em Adão. Antes de qualquer ato pessoal, todos nós somos
amaldiçoados pela lei de Deus. Visto que a morte veio como resultado do
"pecado", porque o primeiro é a conseqüência penal do segundo, esta sentença
pode somente ser imposta sobre pessoas culpadas. Se a morte "passou" a todos
os homens, é porque todos eles são culpados, todos deles participaram
legalmente (judicialmente) do pecado de Adão. A base de nossa condenação está
extra nos no sentido de que nós não pecamos voluntariamente nem pessoalmente
em Adão.
Paulo afirma que "a morte passou a todos os homens porque todos
pecaram". As palavras gregas e)f %( são costumeiramente traduzidas como
"porque", e os comentadores Arminianos, a fim de negar a imputação imediata,
usualmente tratam desta matéria dizendo que todos morrem por causa de seus
pecados pessoais, não porque eles estão representados em Adão. Godet não toca
na matéria da imputação, porque ele sustenta uma espécie de posição Arminiana.
Ao invés de tratar da imputação, ele diz que
a solidariedade dos indivíduos com o cabeça da primeira humanidade não se
estende além do domínio da vida natural. Aquilo que pertence à vida mais alta do
homem, sua existência espiritual e eterna, não é uma matéria de espécies, mas
de indivíduos. 157
Com isto, ele nega a doutrina da imputação. A única explicação para Godet,
a respeito da relação entre o indivíduo e a espécie é dizer que este "é o mistério
mais impenetrável na vida da natureza." 158 Alguns outros comentadores,
incluindo Calvino, tendem a interpretar este verso dizendo que todos morrem por
causa de sua corrupção natural. Eles enfatizam a corrupção mais do que a culpa.

155 Ambos, a base de nossa condenação (o pecado de Adão) e a base de nossa salvação (a obra de Cristo)
estão fora de nós (extra nos). O processo é o mesmo. É obvio que Jesus Cristo também morreu por nossos
pecados atuais, e aqueles que não crêem em Cristo já estão condenados também por seus pecados pessoais,
mas a culpa de Adão imputada aos homens é bastante para condená-los.
156 John Murray. "The Imputation of Sin", third article, The Westminster Theological Journal, 19, (May 1957), p.
168.
157 Frederic Louis Godet, Commentary on Romans, (Grand Rapids: Kregel Publications, 1977), p. 209.
158 Ibid.

93
159
Outros comentadores adotam uma idéia realista-traducianista, como já vimos
anteriormente. 160
A razão pela qual todos morrem é que todos pecaram. Novamente, Paulo
não está levando em conta os pecados individuais deles, mas o pecado deles em
Adão. A fim de provar isto, não precisamos traduzir e)f %( como "em quem", do
modo como alguns escritores antigos fizeram. 161 A idéia de imputação está clara
neste texto.
O que Paulo tem em mente é a idéia de um homem. Corretamente Godet
assevera: "Deve ser permitido que a idéia de
di e(no\j a)nqrw/pou, "por um só homem", com que o verso começa, controla
assim a mente do apóstolo, de tal forma que ele não vê necessidade de repeti-la
expressamente". 162 A idéia de um homem controla o pensamento de Paulo
através de seu argumento todo. Ele quer enfatizar a idéia de representação.
Mesmo embora Paulo creia que os homens sejam culpados por causa de seus
pecados pessoais, ele não está dizendo neste texto que "todos os homens" tenham
pecado pessoalmente, mas representativamente. A maldição da lei cai sobre eles,
não (somente) porque eles sejam pessoalmente pecaminosos, mas porque eles são
(também) federalmente culpados, quando o cabeça de pacto deles pecou.
Se aceitamos a crença de que a "morte" é o resultado de nossos pecados
pessoais (o que se pode dizer a respeito da morte das criancinhas no ventre de
suas mães?), nós destruímos a idéia de que Adão era o "tu/poj" dAquele que
haveria de vir mais tarde. Se todos morrem porque eles pecaram pessoalmente,
deveria eu crer que todos vivem porque ele são justos pessoalmente?
Absolutamente, não! É fácil observar em Cristo o mesmo princípio de
representação. Se todos nós fomos salvos é porque todos estávamos
representados em Cristo; do mesmo modo todos os homens morrem porque eles
estão representados em Adão.
O princípio da representação está claramente expresso neste texto. Isto
forma a base para a imputação do pecado. O método de imputação controla, em
algum sentido, a antropologia cristã e a soteriologia. Vejamos: O pecado de Adão
é imputado a nós; nossos pecados são imputados a Cristo; e a justiça de Cristo é
imputada a nós. O princípio é o mesmo nos três exemplos.
Se continuamos na análise deste texto pode ver o mesmo princípio
ilustrado:
Rm 5.16 — "O dom, entretanto, não é como no caso em que somente um
pecou; porque o julgamento derivou de uma só ofensa, para a condenação; mas a
graça transcorre de muitas ofensas, para a justificação."
Apenas uma ofensa cometida por um homem traz condenação, uma
sentença judicial, que significa "morte" ou "condenação". O contraste é que Jesus
Cristo morreu não simplesmente por aquela única ofensa, mas também morreu
por muitas ofensas, nossos pecados pessoais, que tiveram o seu nascedouro

159 Calvino diz: "Todos nós, portanto, temos pecado, porque todos estamos revestidos de uma corrupção
natural, e assim nos tornamos pecaminosos..." (Commentary upon the Epistle of Saint Paul to the Romans,
Edinburgh: printed for the Calvin Translation Society, 1844), p. 135. Ver também, Robert Haldane,
Commentary on Romans, (Grand Rapids: Kregel Publications, 1988 edition), p. 216.
160 Ver W.G.T. Shedd, Critical and Doctrinal Commentary upon the Epistle of St. Paul to the Romans, (New York:
Charles Scribner's Sons, 1879), pp. 127-28.
161 A Vulgata traduz "in quo" (em quem) e assim também fizeram Pelágio e Agostinho. Outros teólgos
Reformados, como Beza e Owen, também traduziram a expressão grega acima como sendo equivalente a
"em quem".
162 Godet, p. 208.

94
CURSO DE ANTROPOLOGIA

naquela única ofensa. O que Paulo está dizendo aqui é que não há necessidade
alguma de pecados pessoais para que sejamos condenados, mesmo embora Deus
também condene os homens por causa de seus pecados pessoais. O pecado de
Adão, a única ofensa, é o bastante. Mas a nossa salvação transcorre de "muitas
ofensas".
Rm 5.17 — "Se pela ofensa de um, e por meio de um só, reinou a morte,
muito mais os que recebem a abundância da graça e o dom da justiça, reinarão
em vida por meio de um só, a saber, Jesus Cristo."
Ambos, a morte e a vida, vem através de um só homem. A "morte" é a
sentença judicial sobre todos os homens, por causa do pecado de Adão. O texto
diz que a "morte reinou" por causa de apenas uma ofensa. De um lado, todos os
homens morrem porque eles receberam a imputação da culpa. Do outro lado, se
todos vivem, é por causa do ato de um só homem, Jesus, que traz vida. Isto é
também imputação, mas de justiça, porque para nós ela é o "dom da justiça". O
modus operandi de Deus é o mesmo em ambas, a condenação e a justificação.
O uso da linguagem de imputação, não é por imputação mediata que os
crentes entram em posse da justiça de Cristo na justificação. Seria contraditória
da doutrina da justificação de Paulo, supor que a justiça e obediência de Cristo
se tornassem nossas para a justificação por causa da santidade que é
comunicada a nós da parte de Cristo ou que a justiça de Cristo é mediada a nós
através da santidade gerada em nós pela regeneração. A única base sobre a qual
a imputação da justiça de Cristo se torna nossa é a união com Cristo. Em outras
palavras: a pessoa justificada é constituída justa pela obediência de Cristo, por
causa da solidariedade estabelecida entre Cristo e a pessoa justificada. A
solidariedade constitui o laço pelo qual a justiça de Cristo se torna a do crente."
163

É justo dizer que o mesmo em relação a Adão e sua posteridade. A


solidariedade entre ele e toda a raça é a base para a imputação do pecado. Ambos
os atos, o de Adão e o de Cristo, são imputados, isto é, eles são transferidos de
uma pessoa para as outras. O mesmo princípio está evidente nos versos 18 e 19.
Nesta passagem de Paulo, portanto, podemos ver o princípio da
representação e a imputação conseqüente, em ambos os aspectos enfatizados
nela: condenação e salvação. Nele podemos ver a velha humanidade em Adão, e a
nova humanidade em Cristo. Nele estão presentes as duas principais
personagens da história humana: Adão e Cristo, símbolos da desobediência e da
obediência, representantes de dois pactos, o das obras e o da graça.

O princípio da Representação na Escritura Ilustrado


O princípio representativo penetra toda a Escritura. A imputação do pecado
de Adão não é um fato isolado. Ele é somente uma ilustração de como Deus trata
outros assuntos. Vejamos alguns exemplos do princípio da representação que
tornam possível a imputação:
— Por causa de Esaú, no caso do direito da primogenitura, toda a sua
descendência ficou fora das promessas do pacto (Gn 25.27-34). Jacó recebeu os
benefícios de filho mais velho, e sua descendência foi abençoada, enquanto que a
de Esaú ficou fora dos privilégios pactuais (Gn 27).
— Os filhos de Moab e Amon foram excluídos da congregação do Senhor
para sempre, porque seus ancestrais se opuseram aos israelitas quando eles
saíram do Egito (Dt 23.3-4).

163 Murray, third article, p. 169.

95
— Por causa do pecado de Acã, toda a família, inclusive as criancinhas, foi
morta (Js 7.24-26).
— Por causa dos pecados de Coré, Datã e Abirão, pereceram muitas
pessoas, sobretudo mulheres e crianças. Deus imputou a culpa dos líderes nos
liderados (Nm 16.22-33).
— Por causa da maldade dos pais, as gerações dos filhos, especialmente os
pequeninos de peito, sofrem as conseqüências (Dt 32.18-25).
— Por causa do pecado de Davi com Batseba e Urias, Deus disse: "Agora,
pois, não se apartará a espada jamais da tua casa, porquanto me desprezaste, e
tomaste a mulher de Urias o heteu, para ser tua mulher" (2 Sm 12.10).
— Por causa da incredulidade dos judeus nos tempos de Jesus, ficou
validada a imprecação dos judeus que disseram: "Seu sangue caia sobre nós e
nossos filhos"- e isto tem sido uma terrível verdade até hoje.
— Por causa do pecado de Faraó, o Senhor imputou o pecado dele sobre a
vida de todos os primogênitos na noite que precedeu a saída dos israelitas do
Egito (Ex 13.15).
— Por causa do pecado de Amaleque todo o povo, inclusive as mulheres e
crianças, sofrem (1 Sm 15.2,3).
— Veja-se o mesmo caso em Ez 9.3-6; 23.46-48.
— Observe como Deus procede nestes versos paralelos dos Dez
Mandamentos (Ex 20.5-6; 34.6-7; Nm 18.14; Dt 5.9-10).
Este princípio da representação é, também, aplicado inversamente. Deus
imputa suas bênçãos a outros, por causa da obediência de um. Quando Deus
entrou em pacto com Abraão, não foi para ele somente, mas para a sua
posteridade. Seus descendentes haveriam de ser abençoados por causa do crente
Abrãao. Todo o plano da Redenção descansa sobre esse princípio representativo:
Cristo é o representante do Seu povo e, age por eles, no lugar deles. Por causa
disso, os pecados do seu povo são imputados a Ele, e Sua justiça é imputada a
eles.
Tanto a maldição como a bênção são imputadas. A imputação é o método
de Deus. Embora este assunto seja difícil de aceitar (sobretudo no caso da
imputação de pecado), não há que se duvidar de que essa é uma verdade
afirmada inquestionavelmente na Escritura.
Quando esta pergunta — "Por que as pessoas sofrem as conseqüências se
elas não são culpadas pessoalmente?" — aparecer, a resposta sempre deverá ser
esta: A Bíblia diz que as conseqüências não são por causa de faltas pessoais, mas
é uma conseqüência judicial, por causa do princípio da representação. As penas
impostas são penas de lei. O problema não é a culpa voluntária, pessoal, mas a
culpa atribuída por causa da representação. Observe a imputação da justiça de
Cristo, por exemplo. As pessoas por quem Ele morreu, estavam pessoalmente na
cruz? Não! Por que, então, ninguém reclama desse mesmo processo de Deus? Por
que apenas isso nos favorece, Não há injustiça no método de Deus porque o
princípio da imputação é o mesmo em ambos os casos: pecado e bênção. Se
temos que reclamar, que reclamemos também do modo como Deus nos salvou em
Cristo Jesus! Parece-me que ninguém está disposto a fazer tal reclamação.

3) OS QUE SUSTENTAM A TEORIA DA IMPUTAÇÃO MEDIATA


Em meados do séc. XVII La Place (Placaeus), um teólogo francês da escola
de Saumur, introduziu profundas modificações em várias doutrinas Reformadas,
como por exemplo: decretos, eleição, expiação, e sobre a doutrina da imputação
do pecado de Adão.

96
CURSO DE ANTROPOLOGIA

La Place ensinou que a nossa natureza corrupta derivou-se de Adão, e que


essa natureza corrupta, e não o pecado de Adão, é a base da condenação que vem
para toda a raça.
A crença de La Place era que todos nós somos inerentemente depravados e,
portanto, somos envolvidos na culpa do pecado de Adão. Não há nenhum tipo de
imputação direta ou imediata do pecado de Adão à sua posteridade, mas somente
uma imputação mediata ou indireta, com base no fato de que somos moralmente
corruptos.
La Place inverteu a ordem das coisas: a base da imputação não foi o pecado
de Adão, mas corrupção herdada dele. Os descendentes de Adão herdam dele sua
corrupção inata, mediante um processo de geração natural, e unicamente sobre a
base dessa depravação inerente que partilham com ele, é que os torna culpáveis
de apostasia. Não nascem em corrupção porque sejam culpados em Adão, mas
são considerados culpados porque já estão corrompidos. Sua condição não se
baseia num estado legal, mas seu estado legal se baseia em sua condição moral.
Obs: É possível que La Place tenha tentado justificar o seu pensamento em
virtude de encontrar apoio em alguns teólogos bem antigos, que não deram muita
ênfase à imputação e, sim, à corrupção. Mesmo os Reformadores, parece-nos,
deram mais ênfase à corrupção (em virtude de sua luta contra a corrupção do
clero romano) do que à imputação de culpa. É curioso notar que a doutrina da
imputação do pecado de Adão é mais clara no Catecismo Maior e Breve do que na
própria Confissão de Fé de Westminster.

Objeções:
(a) A corrupção é uma espécie de punição de Deus. Portanto, para que haja
punição é necessário primeiro, que haja culpa. A culpa precede a punição. A
depravação (ou morte espiritual) é a punição de Deus. Então, a imputação do
primeiro pecado de Adão precede a depravação, e não é a conseqüência dela.
(b) Se essa teoria fosse consistente, deveria ensinar a imputação mediata
dos pecados de todas as gerações anteriores àquelas que lhes seguiram, porque a
corrupção transmite-se por meio de geração ordinária.
(c) Se a corrupção inerente que está presente nos descendentes pode ser
considerada como o fundamento legal para a explicação de alguma outra cousa,
já não há necessidade de qualquer imputação mediata.

9 - AS CONSEQUÊNCIAS DO PECADO NA VIDA DA RAÇA HUMANA

Ninguém poderá encontrar a chave do mistério da miséria humana se não


recorrer aos ensinos das Sagradas Escrituras. Nenhuma ciência humana haverá
de dar respostas às mais cruciais perguntas feitas sobre a condição em que vive o
ser humano desde que dele se tem notícia da história. Se quisermos ter
respostas, haveremos de encontrá-las somente na revelação divina como
registrada na Bíblia.
O que aconteceu do Éden é chave para entendermos a condição atual do
homem. Neste capítulo estudaremos sobre as terríveis conseqüências do pecado
para Adão e para a sua posteridade. Adão é considerado na Escritura o protótipo
de toda a humanidade, e seu pecado está intimamente relacionado com a sua
descendência, pois ele agiu, não como um homem particular, mas como o
representante da raça, por causa da sua relação pactual. Se Adão não houvesse
sido o cabeça representativo da raça, os nossos pecados atuais não teriam

97
qualquer relação com Adão, apenas uma simples imitação, como pensam os
pelagianos. Mas a Escritura trata deste assunto muito seriamente, e não
podemos fechar os olhos ao que ela nos diz.

As conseqüências do pecado para ele e para a sua posteridade:


1. CONSEQUÊNCIAS PARA ADÃO
A Confissão de Fé de Westminster diz da conseqüência do pecado dos
primeiros pais para eles próprios:
"Por este pecado eles decaíram da sua retidão original e da comunhão com
Deus, e assim se tornaram mortos em pecado e inteiramente corrompidos em
todas as suas faculdades e partes do corpo e da alma" (V, ii).
Consideraremos aqui apenas as conseqüências imediatas do pecado na
vida de nossos primeiros pais. A ofensa de Adão não deve ser medida pelo ato
externo de comer do fruto proibido, mas pela afronta terrível que foi feita à
Majestade de Deus.
Nesse único pecado de nossos primeiros pais houve uma ramificação de
crimes: Houve ingratidão contra Aquele que os havia abençoado e capacitado
para exercer a grande obra de cuidar de toda a criação; houve incredulidade na
verdadeira palavra de Deus que havia sido claramente dirigida a Adão, e uma
certa crença na palavra de Satanás; houve o repúdio das obrigações impostas por
Deus; houve insatisfação pelo modo como Deus os havia feito; houve o orgulho
em querer ser igual ou maior do que Deus; houve um desafio à solene ameaça de
Deus; e por fim, a desobediência que foi a reta final do pecado de nossos
primeiros pais.
Muita coisa está envolvida na transgressão de Adão, que foi, em última
instância, a quebra dos mandamentos de Deus, que fez com que ele morresse.
Segundo o que a Escritura indica, Adão pereceu por causa do seu pecado.
Pessoalmente, não compartilho da idéia popularizada por alguns teólogos de que
o Senhor salvou a Adão após a queda. Não há qualquer base escriturística para
se afirmar tal cousa. A única tentativa que esses teólogos fazem é afirmar a
salvação de Adão pelo fato de Deus ter matado um animal e feito roupa para
cobrir a nudez dele, o que indicaria a provisão salvadora de Deus cobrindo-os
com as vestes da justiça de Cristo. Este tipo de interpretação é tentar achar nas
Escrituras o que elas próprias não autorizam a respeito da vida pessoal de Adão e
Eva.
As informações todas da Escritura pesam contra Adão. Todas as vezes que se
ela se refere a Adão, tem uma palavra negativa de sua atitude. 164 Não há
nenhuma palavra elogiosa a ele, ou qualquer menção de seu arrependimento,
muito menos o registro de uma confissão sua. Ao contrário, quando acusado,
tentou desculpar-se, colocando a culpa na sua esposa. Nada na Escritura dá
qualquer crédito a Adão, ou que ele tenha recebido a misericórdia de Deus.
Vejamos agora, a análise do texto de Gênesis que é chave para a
compreensão dos resultados imediatos do pecado na vida de nossos primeiros
pais.

164 Olhe o testemunho desta verdade no VT — Jó diz que Adão encobriu as suas transgressões (Jó 31.33); O
Salmista Asafe (Sl 82,7) diz que que aqueles que julgam injustamente, morrem como Adão. Obs: a palavra
hebraica para homem é Adão; observe o testemunho da mesma verdade no NT — Aqui Adão é contrastado
em detalhes consideráveis com Cristo (Rm 5.12-21; 1 Co 15.22, 45-47; 1 Tm 2.14. Se Adão tivesse sido salvo, a
antítese falharia no seu ponto principal. Como que aqueles que estavam em Adão foram condenados se o
próprio Adão foi salvo? Falharia Deus em Sua justiça?
98
CURSO DE ANTROPOLOGIA

ANÁLISE DE GÊNESIS 3.7-24 165


Quando Deus colocou Adão do Éden, ele parecia ser cheio de veneração
para com seu Criador, e parecia amá-lo pelo que Ele lhe havia dado. Mas parece-
nos, esse estado de bem-aventurança não durou muito tempo.166 Sua vontade
que havia sido sujeita ao Criador, agora se rebela inexplicavelmente. Sua
constituição moral ficou altamente prejudicada, com tendência para a perversão.
A vida de comunhão com Deus havia sido perdida. É isto que fica evidente dos
versos que vamos analisar:
1) O primeira conseqüência da transgressão dos nossos primeiros pais foi:
tiveram a consciência culpada, e um senso de vergonha se apoderou deles.
Gn 3.7 — "Abriram-se, então, os olhos de ambos; e, percebendo que estavam
nus..."
Não percebemos mudança qualquer quando Eva comeu do fruto, mas
quando Adão o comeu, diz a Escritura que os "os olhos de ambos foram abertos".
Isto nos dá uma base bem forte para mostrar que o pacto havia sido feito com
Adão. Ele era o cabeça, e dele Deus cobra o pecado. Adão era o representante
legal de sua esposa, tanto quanto dos futuros filhos que viriam deles. É por isso
que até hoje conhecemos esse pecado como "o pecado de Adão", não como
"pecado de Eva".
O que significa ter os olhos abertos? Certamente aqui não se refere aos
olhos físicos, porque estes já estavam previamente abertos. Mas o texto se refere
aos olhos do entendimento, ou os olhos da consciência, que vêem, percebem,
acusam e castigam.
O resultado de comerem o fruto proibido não foi a aquisição da sabedoria
sobrenatural, como Satanás havia dito (v.5), mas foi a descoberta triste de que
haviam sido reduzidos a uma situação de miséria.
Agora perceberam que estavam "nus", que tem um sentido bem diferente de
Gn 2.25. Os olhos deles "foram abertos" e seria de se esperar que o texto
dissesse: ""e viram eles que estavam nus", mas ao invés disso o texto diz: "e
perceberam que estavam nus". Este verbo demonstra algo mais do que
simplesmente nudez física. O verbo "perceber" aqui dá o sentido de "sentir". Como
a abertura dos olhos se refere "aos olhos do entendimento" (ou "da consciência"),
concluímos que eles discerniram o sentido de estarem "nus". Eles perderam a sua
inocência. Há a nudez da alma que é muito pior do a de um corpo sem roupa,
porque ela incapacita o homem de perceber a presença de Deus. A nudez de Adão
e Eva foi a perda da justiça original da imagem de Deus. Tal é a condição em que
todos os humanos são nascidos depois deles. É por isso que as Escrituras falam
sobre as "vestiduras brancas" (Ap 3.18), "vestidos de salvação" ou "mantos de
justiça" (Is 61.10), indicando uma justiça original que Cristo nos traz de volta.
"Ele perceberam que estavam nus"— Perceberam que a sua situação física
estava espelhando a sua condição espiritual. Eles foram tornados dolorosamente
conscientes do pecado e de seus terríveis conseqüências.
2) A segunda conseqüência da transgressão deles foi esta: eles ocultaram o
seu real caráter.
Eles estavam mais preocupados em salvar as aparências do que realmente
procurar o perdão de Deus.

165 Análise feita com base nas felizes observações de A.W. Pink, Gleanings, pp.59-68.
166 Não há nenhuma indicação na Escritura sobre o tempo em que Adão ficou no estado de inocência, isto
é, sem pecado.
99
Gn 3.7 — "e, percebendo que estavam nus, coseram folhas de figueira, e
fizeram cintas para si."
Cosendo cintos para si, eles tentaram acalmar a própria consciência. Da
mesma forma os filhos de Adão fazem hoje. Eles têm mais medo em serem
detectados nos seus erros do que cometê-los, e mais preocupados estão ainda em
parecerem bem diante dos homens do que obterem a aprovação de Deus. O
objetivo principal dos homens caídos é aquietar a própria consciência culpada e
parecerem bem diante dos vizinhos. Alguns até assumem o papel de religiosos,
fazendo os outros pensarem que andam decentemente, vestidos.
3) A terceira conseqüência da transgressão deles foi esta : tiveram medo de
Deus.
Gn 3.8 — "Quando ouviram a voz do Senhor Deus, que andava no jardim
pela viração do dia, esconderam-se da presença do Senhor, o homem e sua
mulher, por entre as árvores do jardim."
Até este ponto eles haviam estado preocupados somente consigo mesmos e
com sua vergonha, mas agora tinham Outro com quem se preocupar: o Juiz de
toda a terra. Ao ouvirem a voz de Deus, ao invés de darem boas-vindas a ela,
ficaram terrificados e "esconderam-se da presença do Senhor" 167 Nesta tentativa
percebemos a tolice deles. Quem pode esconder-se da onipresença e da
onisciência de Deus?
Quando eles pecaram, eles cessaram de amar a Deus e de confiar nele.
Deus passou a ser objeto da sua aversão e desprazer. Um senso de degradação
encheu-os e tiveram uma terrível inimizade contra Deus. Assim, esconderam-se
dele por causa do seu pecado, aterrorizados. Temeram ouvir Deus pronunciar
uma sentença formal de condenação sobre si mesmos, porque sabiam bem o que
mereciam.
Adão e Eva não somente trouxeram danos irreparáveis sobre si mesmos,
mas tornaram-se fugitivos do Todo Glorioso Criador. Este é puro e aqueles
pecadores. Portanto, os pecadores evitaram o que era puro. Não é assim que
acontece com os homens hoje? Gostam eles de ficar juntos dos que são
genuinamente cristãos? Gostam eles da santidade?
Todos os homens têm que comparecer perante o Santo e prestar-lhe contas.
Não poderia deixar de ser assim com o primeiro homem. Só não prestarão contas
pessoalmente a Deus aqueles que tiveram as suas contas prestadas por Jesus
Cristo. A menos que o sangue de Jesus Cristo tenha expiado os nossos pecados,
compareceremos perante o Juiz de toda a terra. "Como escaparemos nós se
negligenciarmos tão grande salvação?" (Hb 2.3). Não presuma que você é um
cristão. Examine as suas bases. Peça a Deus para que Ele sonde o seu coração e
lhe mostre a sua real condição.
Gn 3.9 — "E chamou o Senhor Deus ao homem e lhe perguntou: onde
estás?"
Esta pergunta já era parte do juízo divino, para que Adão visse realmente o
que havia feito. Foi uma pergunta para Adão perceber a distância de Deus que o
pecado causou. O pecado separa o homem de Deus. A ofensa de Adão provocou a
perda da comunhão com Deus. Agora, a pergunta de Paulo, vale claramente:
"Que sociedade pode haver entre a e a iniquidade? ou que comunhão da luz com
as trevas?" (2 Co 6.14).
Observe novamente que o Senhor ignorou Eva e dirigiu-se ao cabeça
responsável. Deus havia advertido a Adão a respeito do fruto proibido: "No dia em
que comeres, certamente morrerás". Esta morte não significa aniquilação, mas
167 Ler Jr 23.24.

100
CURSO DE ANTROPOLOGIA

alienação, separação. A morte espiritual é a separação do homem do Deus Santo


(Is 59.2), que culmina com a morte eterna (2 Ts 1.9).
Gn 3.10 — "Ele respondeu: Ouvi a tua voz no jardim e, porque estava nu,
tive medo e me escondi."
Observe quão incapaz é o pecador para encontrar-se diante da inquisição
divina. Adão não poderia oferecer nenhuma resistência adequada. Ouça a sua
admissão: "Tive medo". Sua consciência o condenava. Agora era a dura presença
de Deus que o incomodava. Deus que é o refúgio para a alma do crente, torna-se
o terror para a alma pecaminosa. Adão comparece diante de Deus destituído de
qualquer justiça, justiça essa que nós obtivemos de Cristo e em Cristo. Observe a
colocação de Adão: "Por que eu estava nu, tive medo e me escondi". O coração de
Adão estava cheio de horror e terror. Os cintos de folhas de figueira não haviam
adiantado nada. Isto acontece quando o Espírito Santo descobre a alma humana.
A despeito das roupas religiosas que possamos vestir, o Espírito nos convence da
nossa nudez espiritual. Então, a alma se enche de temor e vergonha, e ela
percebe que vai se haver com Aquele diante do qual "todas as coisas estão
patentes e descobertas" (Hb 4.13).
Gn 3.11 — "Perguntou-lhe Deus: Quem te fez saber que estavas nu?
Comeste da árvore de que te ordenei que não comesses?"
A esta pergunta Adão não teve resposta. Ao invés de humilhar-se perante o
seu Benfeitor, Adão fracassou em responder. Apenas deu uma desculpa
esfarrapada. Se as palavras de Adão no v.10 foram devidamente ponderadas,
uma omissão grande e fatal deve ser observada: ele não disse nada a respeito do
seu pecado, mas mencionou apenas os efeitos dolorosos que ele produziu. Mas
Deus neste v.11 dirige-se para a causa daqueles efeitos. Esta pergunta direta de
Deus abriu o caminho e tornou muito mais fácil para Adão reconhecer
contritamente a sua transgressão, embora sem o precioso senso de
arrependimento.
Deus não fez estas perguntas porque queria ser informado, mas antes, para
providenciar a Adão uma ocasião de rever o que havia feito. Em sua recusa
percebemos a quarta conseqüência do seu pecado.
4) A quarta conseqüência da transgressão de nossos primeiros pais foi esta:
o endurecimento do coração pelo pecado.
Não houve tristeza profunda por sua flagrante desobediência. Portanto, não
houve arrependimento.
Gn 3.12 — "Então disse o homem: a mulher que deste por esposa, ela me
deu da árvore, e eu comi."
Este verso 12 é a resposta à segunda pergunta do verso anterior. Ele não
assumiu as próprias responsabilidades como chefe da família, nem como cabeça
da mulher. Simplesmente transferiu a culpa do pecado para ela. Nem se tocou
de que ele era o principal responsável, e que era dele que Deus cobrava. Esta é a
conseqüência mais comum quando os homens pecam. Eles sempre arranjam
uma justificativa para os seus pecados. Esta foi a outra conseqüência.
5) A quinta conseqüência da transgressão de nossos primeiros pais foi que
eles se auto-justificaram.
Ele tentaram encontrar um culpado pelos seus próprios pecados. Ao invés
de confessar a sua impiedade, Adão tentou lançar a culpa em outro. A entrada do
pecado na vida do homem produz um coração enganoso e desonesto. Ao invés de
culpar-se a Si mesmo, lançou a culpa na mulher. E assim acontece também com
todos os seus descendentes. Eles esforçam-se para tirar a responsabilidade de
sobre os próprios ombros, atribuindo culpabilidade a outro ser ou a alguma outra

101
coisa, como por exemplo, ao diabo. Isto é muito comum acontecer para se fugir
da própria responsabilidade.
6) A sexta conseqüência da transgressão de nossos primeiros pais foi o
insolente desafio ao próprio Deus.
As palavras do v.12 mostram quão insolente foi Adão com Deus. Ele não
disse simplesmente: "A mulher deu-me do fruto e eu comi", mas disse "a mulher
que TU me deste..."- Assim, abertamente, ele culpa ao Senhor pela transgressão
dele. Em outras palavras, Adão disse: "Se Tu não me tivesses dado essa mulher,
eu não teria caído. Por que fizeste isso comigo?" — Observe o orgulho e a dureza
de coração que caracterizam o demônio, agora fazem parte do reino dos homens.
É assim ainda hoje com os filhos dos homens. A diferença é que hoje eles são
tentados pela própria cobiça do coração pecaminoso (Tg 1.13). A natureza
depravada da criatura caída é sempre propensa a pensar que a melhor cousa é
procurar abrigo na desculpa: "Se Deus tivesse feito de outra forma, eu não teria
feito aquilo". Assim, em nossos esforços de auto-justificação, desafiamos ao
próprio Deus corrigindo-o naquilo que ele faz.
Pv 19.3 diz: "A estultícia do homem perverte o seu caminho, mas é contra o
Senhor que seu coração se ira". Esta é uma das formas mais vis na qual a
depravação do homem se manifesta: após comportar-se como um tolo e de
descobrir que o caminho da transgressão é difícil, o homem murmura contra
Deus ao invés de, mansamente, submeter-se à Sua vara. Após pervertermos os
nossos caminhos, não culpemos Deus pelos frutos amargos do nosso proceder.
Visto que somos os autores de nossa miséria, é razoável que fiquemos tristes
conosco mesmos. Mas o orgulho do coração é tal que, evidenciando a nossa
inimizade contra Deus, ficamos irados contra Ele, sendo que nós mesmos somos
responsáveis por nossos pecados. É verdade o que a Escritura diz: "Não se colhe
uvas de espinheiros e nem figos dos abrolhos!" - Não acusemos Deus pelos frutos
de nossa própria perversidade! Se fizermos assim, estaremos repetindo o mesmo
pecado de nossos primeiros pais.
A resposta do v.12 mostra realmente o que aconteceu, mas esta atitude
tornou ainda pior o ato de Adão. Ele era o cabeça e protetor da mulher e,
portanto, deveria cuidar dela melhor, evitando que ela caísse em pecado. Quando
ela foi enganada pela serpente, e ele o soube, ele não deveria seguir o exemplo
dela recusando a oferta.
Aarão, embora tenha reconhecido o seu pecado, culpou o povo por ser
pecaminoso, tentando eximir-se de culpa (Ex 32.22-24); Assim também fez Saul
(1 Sm 15.17-21); Pilatos deu ordem para a crucificação de Jesus, e atribuiu o
crime aos judeus (Mt 27.24).
7) A sétima conseqüência do pecado de nossos primeiros pais foi a quebra
da afeição.
A quebra da afeição entre o homem e o seu próximo — neste caso sua
esposa, a quem ele deveria respeitar, proteger e amar.
Gn 3.13 — "Disse o Senhor Deus à mulher: Que é isso que fizeste?
Respondeu a mulher: A serpente me enganou, e eu comi."
O Senhor perguntou, não propriamente como um juiz, não apontando
condenatoriamente, mas, parece-nos, para dar uma oportunidade a Eva para
defender-se ou confessar o seu pecado. Mas Eva portou-se exatamente como seu
marido. Seguiu exatamente o mesmo curso de Adão. Ela não se humilhou diante
do seu Criador, não deu qualquer sinal de arrependimento, nenhum sentimento
de tristeza ou confissão. Ele tratou de arranjar alguém responsável pelo seu ato.
Culpou a serpente. Foi uma desculpa fraca, porque Deus a capacitou com

102
CURSO DE ANTROPOLOGIA

entendimento para perceber a mentira, e com retidão de natureza para rejeitá-la


prontamente.
Os filhos de Adão fazem o mesmo hoje. É inútil dizer: "Eu não tinha
intenção de pecar, mas o demônio tentou-me". O demônio não pode forçar
ninguém a pecar, nem prevalecer sobre o homem seu seu consentimento.
Gn 3.14-14 — "Então o Senhor Deus disse à serpente: Visto que fizeste isto,
maldita és entre todos os animais domésticos, e o és entre todos os animais
selváticos: rastejarás sobre o teu ventre, e comerás pó todos os dias da tua vida.
Porei inimizade ente ti e a mulher, entre a tua descendência e o seu descendente.
Este te ferirá a cabeça e tu lhe ferirás calcanhar."
Antes de pronunciar sentença sobre Adão e Eva, Deus dirigiu-se à
serpente, que foi a causa instrumental da queda deles. Observe que nenhuma
pergunta foi feita à serpente. Antes, o Senhor a tratou como uma inimiga
declarada. Sua sentença deve ser tomada literalmente com relação à serpente,
mas alegoricamente com relação à Satanás. Estas palavras de Deus implicam
numa punição visível, que é executada sobre a serpente, como instrumento da
tentação, mas a maldição foi dirigida contra o tentador invisível, Satanás.
8) A oitava conseqüência da transgressão de nossos primeiros pais foi
tristeza, sofrimento e morte.
Gn 3.16-19 — "E à mulher disse: Multiplicarei sobremodo os sofrimentos da
tua gravidez; em meio a dores darás à luz filhos; o teu desejo será para o teu
marido, e elete governará. E a Adão disse: Visto que atendeste à voz de tua
mulher, e comeste da árvore que eu te ordenara não comesses: maldita é a terra
por tua causa. Em fadigas obterás dela o sustento durante os dias da tua vida.
Ela produzirá também cardos e abrolhos, e tu comerás a erva do campo. No suor
do rosto comerás o teu pão, até que tornes à terra, pois dela foste formado:
porque tu és pó e ao pó tornarás."
Nestes versos há as sentenças que foram pronunciadas contra Adão, Eva e
a terra: Eva foi condenada a um estado de tristeza, sofrimento e servidão; Adão
foi condenado a uma vida de tristeza e cansaço; e a terra sofre a maldição que até
hoje pesa sobre ela (Rm 8.20-23).
9) A nona conseqüência do pecado de nossos primeiro pais foi que o homem
desceu ao nível dos animais.
Gn 3.20-21 — "E deu o homem o nome de Eva à sua mulher, por ser a mãe
de todos os seres humanos. Fez o Senhor Deus vestimentas de peles para Adão e
sua mulher, e os vestiu."
Adão e Eva foram vestidos como os animais se vestem..
Alguns intérpretes das Escrituras entendem o v.21 como sendo uma
provisão de Deus que indica o sacrifício de um animal para vestir o homem,
apontando para o sacrifício do Cordeiro. Se isto é assim, podemos inferir que
Deus tratou os nossos pais com misericórdia, o que elimina a condenação deles.
As roupas de peles tipificam as vestimentas de justiça, as mesmas que Jesus
Cristo cobre os Seus, sendo vestes de salvação. Mas parece não haver nenhuma
provisão de salvação no Éden. Creio que seria forçar o texto. Se Deus quisesse
falar de salvação a Adão, ele teria feito claramente, como quando anunciou o
proto-evangelho em 3.15.
Obs: Moisés, o narrador destas coisas, recebeu de Deus alguns detalhes
importantes como estes do v.20: Eva ainda não havia dado à luz filhos, senão
somente depois de serem expulsos do Éden (isso ilustra o v.16). Adão deu prova
do seu domínio sobre a criação (1.28), conferindo nome à Eva.

103
10) A décima conseqüência da transgressão de nossos primeiros pais: eles
foram lançados para fora da presença de Deus.
Antes de lançá-los para fora do jardim, Deus usou uma linguagem irônica e
sarcástica a respeito do resultado do pecado de comer o fruto de Adão: A
promessa de Satanás no v.5 era que eles seriam "como Deus".
Gn 3.22 — "Então disse o Senhor Deus: Eis que o homem se tornou como
um de nós, conhecedor do bem e do mal..."
Agora, ao invés, de serem como Deus, conhecedores do bem e do mal,
foram colocados ao nível das bestas-feras, tiveram que vestir-se à moda dos
animais e comer as coisas que os animais comiam, o que originalmente não era
próprio para eles: "comer das ervas do campo".
Então, vem a maldição final:
Gn 3.23-24 — "O Senhor Deus, por isso, o lançou fora do jardim do Éden, a
fim de lavrar a terra de que fora tomado. E, expulso o homem, colocou querubins
ao oriente do jardim do Éden, e o refulgir de uma espada que se revolvia, para
guardar o caminho da árvore da vida."
Estar fora do jardim do Éden era o mesmo que estar longe da presença
benévola, reveladora e agradável de Deus. Ser expulso do jardim significa a
expressão da ira de Deus pelo descontentamento com o pecado de Adão. Este se
tornou estranho ao favor de Deus e à Sua comunhão. Ele foi banido do lugar de
prazer e gozo. Tornou-se errante e fugitivo. Assim como lançou para fora da Sua
habitação os anjos que pecaram (Jd 6), Deus também lançou o homem para fora
do lugar da Sua habitação, como prova do Seu desagrado com o pecado.

2. CONSEQÜÊNCIAS PARA A RAÇA HUMANA


As conseqüências do triste evento do Éden não trouxeram conseqüências
simplesmente para os nossos primeiros pais, mas para toda a raça humana. A
condição com que nascem todos os homens, isto é, em condição pecaminosa, é
chamada na teologia peccatum originale. É uma mancha que atinge a todos sem
exceção.
A Confissão de Fé de Westminster mostra que o pecado dos nossos
primeiros pais trouxe conseqüência para toda a raça, porque o pecado deles é
imputado, pela relação pactual, a toda a posteridade dele.
Sendo eles o tronco de toda a humanidade, o delitos de seus pecados foi
imputado a seus filhos; e a mesma morte em pecado, bem como a sua natureza
corrompida, foram transmitidas a toda a sua posteridade, que deles procede por
geração ordinária (V, iii).
A CFW também mostra que todos os nossos pecados atuais têm
nascedouro no pecado original:
Desta corrupção total pela qual ficamos totalmente indispostos, adversos a
todo o bem e inteiramente inclinados a todo o mal, é que procedem todas as
transgressões atuais. (V, iv)
Portanto, o pecado original, é o grande mal que afeta toda a raça, e não há
cura para ele, a não ser na obra redentora de Jesus Cristo. Este é o assunto do
próximo capítulo.

10 - OS PECADOS ATUAIS

A ORIGEM DOS PECADOS ATUAIS


É crença generalizada entre os Reformados que herdamos a corrupção do
pecado através dos nossos pais, por geração ordinária, o que não é o caso da
104
CURSO DE ANTROPOLOGIA

culpa, pois ela vem por imputação direta do pecado de Adão. Por geração
ordinária, então, toda a raça humana é infectada pelo pecado original, que é a
origem e a fonte de todos os nossos pecados atuais. É do pecado que vêm os
pecados que cometemos consciente ou inconscientemente. A fonte dos pecados
está em nossa natureza corrupta.
Com razão, Paulo fala delas como sendo as “obras da carne”, isto é, as
obras nascidas em nossa natureza pecaminosa, em contraste com o fruto do
Espírito, que é nascido em nossa nova natureza, renovada pelo próprio Espírito
Santo (Gl 5.17-22).

VEJA O ENSINO DE JESUS


Jesus ensina com extrema propriedade a respeito do nascedouro dos
nossos pecados atuais. A lista de pecados que Ele apresenta é apenas uma
demonstração clara de que eles são nascidos numa natureza pecaminosa que
infectou a parte mais interior do ser humano, que é o coração.
Mc 7.15-23 - “Nada há fora do homem que, entrando nele, o possa
contaminar; mas, o que sai do homem é o que o contamina. Se alguém tem
ouvidos para ouvir, ouça. Quando entrou em casa, deixando a multidão, os seus
discípulos o interrogaram acerca desta parábola. Então lhes disse: Assim também
vós não entendeis? Não compreendeis que tudo o que de fora entra no homem
não o pode contaminar, porque não lhe entra no coração, mas no ventre, e sai
para lugar escuso? E assim considerou ele puros todos os alimentos. E dizia: O
que sai do homem, isso é o que o contamina. Porque de dentro, do coração dos
homens, é que procedem os maus desígnios, a prostituição, os furtos, os
homicídios, os adultérios, a avareza, as malícias, o dolo, a lascívia, a inveja, a
blasfêmia, a soberba, a loucura: Ora, todos estes males vêm de dentro e
contaminam o homem.”
Jesus começou ensinando que nada que vem de fora do homem pode
causar-lhe contaminação, porque, para contaminar o homem tem contaminar o
seu ser mais interior, que é o coração. Somente o mais interior pode infectar todo
o ser humano.
Quando a fonte está poluída, tudo o que vem dela também sai poluído. O
ser mais interior do homem está contaminado e como todas as coisas vêm do
coração, todas elas estão também infectadas. Não há como fugir deste raciocínio
que o próprio Senhor nos ensinou. Os pecados que cometemos são nascidos
numa natureza mais interior que é maculada indelevelmente de forma de
contamina tudo o que sai dela. Todos os nossos pecados atuais, segundo Jesus
Cristo, vêm de dentro, do coração dos homens.
O pecado original enraizado no coração corrupto é a fonte de onde
procedem todas as correntes poluídas. Se a fonte é amarga, amargas serão todas
as correntes que se originam nela.
Os frutos são de acordo com a natureza da árvore. É este o ensino de Jesus
Cristo sobre os nossos pecados atuais (Mt 7.16-20; 15.18-20; 12.33-35).

VEJA O ENSINO DE PAULO


Rm 7.5

VEJA O ENSINO DE TIAGO


Os pecados atuais são gerados em nossa natureza corrupta, como
demonstra Tiago: 1.14-15 - “Ao contrário, cada um é tentado pela sua própria

105
cobiça, quando esta o atrai e seduz. Então a cobiça, depois de haver concebido,da
à luz o pecado; e o pecado uma vez consumado, gera a morte.”

OS VÁRIOS NOMES DOS PECADOS ATUAIS


Os pecados atuais, isto é, os pecados que cometemos, tendo como seu
nascedouro a nossa velha natureza, têm vários nomes da Escritura.

Obras da Carne
— Eles são equivalentes às “obras da carne” de Gálatas 5.

Inclinações da nossa carne


— Eles são equivalentes às “inclinações da nossa carne” e à “vontade da
carne e dos pensamentos” de Ef 2.3.

Vontade da carne e dos pensamentos


Feitos do corpo
— Eles também são chamadas de “os feitos do corpo” (Rm 8.13),
porque a nossa natureza velha é chamada de “corpo do pecado” (Rm 6.6). Os
“feitos do corpo” são nascidos no “corpo do pecado”, porque os pecados são
originados no pecado que habita em nós.

OS PECADOS ATUAIS E SUA RELAÇÃO COM A LEI DE DEUS


Todos eles, sem exceção, têm a ver com a “transgressão da lei” (1Jo 3.4).
Uma ação é boa ou má dependendo da sua concordância ou discordância da lei
de Deus. Sempre uma ação deve estar em conformidade ou desconformidade com
ela. A lei divina é o paradigma de comportamento do ser humano. Ela é o único
norte que o homem tem para guiar-se. Portanto, não há forma de se escapar da
lei moral de Deus. Por essa razão, nunca uma ação humana é moralmente
neutra. Não existem ações neutras. Todas elas estão, de algum modo, vinculadas
à lei que Deus estabeleceu. Deus criou o mundo moral de forma que nada escapa
às leis morais estabelecidas por Ele. Portanto, todas as ações dos homens devem
ser consideradas à luz do relacionamento delas com a lei estabelecida. Portanto,
não há neutralidade alguma nas ações dos homens.

A MULTIPLICIDADE DOS PECADOS ATUAIS


São inúmeras as formas em que os pecados atuais se manifestam. Apenas
a título de exemplo, vamos analisar “As obras da carne” mencionadas por Paulo
em Gl 5.19-21 podem ser divididas da seguinte maneira:
Pecados sexuais - Prostituição, impureza e lascívia
Pecados da religião - idolatria e feitiçarias
Pecados de relacionamento - inimizades, porfias, ciúmes, iras, discórdias,
dissensões, facções e invejas.
Pecados da incontinência - bebedices e glutonarias

OS OBJETOS DOS PECADOS ATUAIS


PECADOS DIRETOS CONTRA DEUS
Em última instância, todos os pecados mesmo os cometidos contra os
homens, são pecados contra Deus, porque todos eles estão vinculados com a
transgressão da Sua lei. Certa feita, José foi convidado pela mulher de Potifar a

106
CURSO DE ANTROPOLOGIA

deitar-se com ela. Ao receber essa proposta, José reagiu de maneira corretíssima
porque entendeu que os nossos pecados ofendem a Deus, antes que aos homens
(Gn 39.7-9). Davi também possuía consciência absoluta dessa verdade. Quando
pecou contra Betsabá e contra Urias, ele reconheceu que, antes de pecar contra
eles, ele havia pecado contra Deus. Por essa razão, ao escrever o Salmo 51, disse:
“Pequei contra ti, contra ti somente, e fiz o que é mal perante os Teus olhos...”
Todavia, há certos pecados que são cometidos de uma maneira direta
contra o Ele. São pecados atrevidos, que mostram a irreverência e o destemor de
Deus.
Muitos homens há que perderam todo o senso de temor a Deus e mostram
seus pecados atrevidamente. Em Jó 15.25, Elifaz descreve que o ímpio “estendeu
a sua mão contra Deus e desafiou o Todo-Poderoso”. A Escritura é farta de
exemplos desses pecados diretos contra Deus.
Referindo-se à atitude atrevida e maldosa dos ímpios que prosperam, o
Salmista disse que eles “motejam e falam maliciosamente; da opressão falam com
altivez. Contra os céus desandam a boca, e a sua língua percorre a terra” (Sl
73.8-9)
A maldade e ingratidão de Israel fê-lo portar-se de maneira absolutamente
petulante contra Deus, pois Isaías menciona a hediondez desse pecado, dizendo
que
Is 3.8 - “Jerusalém está arruinada, e Judá caída; porquanto a sua língua e as
suas obras são contra o Senhor, para desafiarem a sua gloriosa presença.”
Os pecados cometidos diretamente contra o Senhor estão enquadrados na
primeira tábua da lei:
1) O pecado de criar outros deuses - Este é o pecado contra o primeiro
mandamento (Ex 20.2). Desde a queda os pecadores procurar criar deuses,
segundo a sua própria imagem e semelhança, para poderem adorar. Uma das
primeiras providências dos pecadores rebelados contra o verdadeiro Deus foi
arranjar outros diante de quem pudessem dobrar-se. Por essa razão, esse é o
primeiro mandamento divino: “Não terás outros deuses diante de mim”. Ninguém
deveria curvar-se diante de outro ser que não o Yaweh. Somente Ele é o Senhor.
Este pecado contra o primeiro mandamento é uma violência direta contra o
Senhor. A violência desse pecado é maior porque os homens fazem isso na
presença do Senhor. Diante do verdadeiro Deus os homens, e até os do seu povo,
erigiram imagens de escultura a quem adoraram.

2) O pecado da idolatria - Este é o pecado contra o segundo mandamento


(Ex 20.4-5). Moisés repete este ensino de maneira mais detalhada em Dt 4.12,
14-19). O ensino deste texto ensina que o próprio Deus não pode ser adorado
com uma representação. Deus proíbe terminantemente a construção de
representações da divindade. Deus pergunta: “Com quem comparareis a Deus?
ou que cousa semelhante confrontareis com ele?” (Is 40.18). Então, Isaías passa a
descrever a respeito da idolatria, que o Senhor abomina (v.19-20). A ereção de
imagens para adoração é uma ofensa direta ao Senhor dos céus. Este é um
pecado muito comum em culturas não cristãs, e uma tendência, mesmo que
disfarçada em meios cristãos.168 A idolatria é, de certa forma, uma conseqüência

168 Diante da acusação dos protestantes, os de tradição Católica tentam fazer uma distinção entre latre/ia
(latréia, que é o culto que se presta a Deus) e doule/ia (douléia, que é reverência ou culto que se presta aos
santos), para justificar as suas atitudes cúlticas. Contudo, não é uma distinção justa, pois ambos os termos
etimologicamente podem ser usados indistintamente, tanto aplicando-se ao Criador como às criaturas (cf At
20.19; Rm 12.11; At 7.42; Rm 1.25). A Escritura não conhece nada desta distinção. Portanto, não podemos
107
dos homens suprimirem a verdade de Deus pela injustiça (Rm 1.18). Por essa
razão, eles “mudaram a glória do Deus incorruptível em semelhança da imagem
de homem corruptível, bem como de aves, quadrúpedes e répteis” (Rm 1.23).
Por causa dos pecados da idolatria, Deus pronuncia maldição: “Maldito o
homem que fizer imagem de escultura, ou de fundição, abominável ao Senhor, e a
puser em lugar oculto. E todo o povo responderá: Amém” (Dt 27.15). A maldição
em algum sentido se manifesta pelo fato desses adoradores viverem sempre em
confusão teológica e espiritual: “Sejam confundidos todos os que servem imagens
de escultura, os que se gloriam em ídolos; prostrem-se diante deles todos os
deuses” (Sl 97.7).

3) O pecado de tomar o nome do Senhor em vão - Este é o pecado contra


o terceiro mandamento (Ex 20.7). As ênfases deste pecado estão ligadas com a) o
juramento falso usando o nome de Deus (Lv 19.2; Zc 5.4); b) com a blasfêmia
contra o nome do Senhor (Lv 24.16). A punição por esse pecado era a morte, tão
grande era a gravidade dele. A gravidade desse pecado direto contra Deus está
ligada ao fato de o Nome de Deus representar o que e quem Ele é. O nome é
revelador da natureza de Deus; c) com a uso indevido do nome de Deus. Por essa
razão, o nome de Deus não poderia ser usado sem um critério absolutamente
rígido.
4) O pecado de desprezo ao dia de descanso - Este é o pecado contra o
quarto mandamento (Ex 20.8-11).

Há outras formas desse pecado, como o do ateísmo, por exemplo. Todos


eles são diretos contra o Senhor. Eles estão ligados, via de regra, aos pecados da
religião, mencionados acima.

PECADOS CONTRA O PRÓXIMO


Todos os pecados ofendem primeiramente a Deus, mas secundariamente
aos homens. Estes pecados têm a ver com a violação da segunda tábua da lei:
1) O pecado de desonra aos pais - Este é o pecado contra o quinto
mandamento (Ex 20.12)

2) O pecado do assassínio - Este é o pecado contra o Sexto Mandamento


(Ex 20.13). O homicídio pode ser manifesto de várias maneiras: matricida (1Tm
1.9), parricidas (1Tm 1.9), fratricidas (Gn 4.8). Após a queda de nossos primeiros
pais, foi a primeira manifestação dos pecados atuais. Caim, matou o seu próprio
irmão, Abel. Esse pecado de tirar a vida do próximo parece ter sido um pecado
abundantemente praticado, desde o princípio da história humana. Justamente
por causa do abuso desse pecado, antes mesmo do período Mosaico, Deus
estabeleceu uma lei que quem mata, deve pagar com a vida. Gn 9.6 - “Se alguém
derramar o sangue do homem, pelo homem se derramará o seu; porque Deus fez
o homem segundo a sua imagem.” A ira de Deus contra esse pecado é tão grande
que Ele preceitua, e nunca desfaz esse preceito: “Quem matar a alguém, será
morto” (Lv 24.17). Somente aquele que dá a vida, e as autoridades constituídas
tem o direito de tirá-la. Ninguém mais o pode individualmente.

3) O Pecado do adultério - Este é o pecado contra o sétimo mandamento


(Ex 20.14). Os pecados sexuais tem inúmeras manifestações.

aceitar a justificativa dessa tradição do cristianismo.


108
CURSO DE ANTROPOLOGIA

4) O Pecado do roubo - Este é o pecado contra o oitavo mandamento (Ex


20.15).

5) O Pecado do falso testemunho - Este é o pecado contra o nono


mandamento (Ex 20.16).

6) O Pecado da cobiça - Este é o pecado contra o décimo mandamento (Ex


20.17).
Todos estes pecados da segunda tábua estão ligados aos pecados de
relacionamento mencionados acima.

PECADOS CONTRA SI PRÓPRIO


Estes pecados podem ter várias manifestações: Os pecados vinculados á
imoralidade sexual, especialmente à prostituição e fornicação. Escrevendo aos
Coríntios, Paulo diz de uma maneira inequívoca:
1Co 6.18 - “Fugi da impureza! Qualquer outro pecado que uma pessoa
cometer, é fora do corpo; mas aquele que pratica a imoralidade peca contra o
próprio corpo.”
Os pecados vinculados à incontinência, como os mencionados acima:
bebedice e glutonaria. A bebedice é um pecado contra o próprio homem, porque
faz com que ele perca o controle sobre si próprio (Ef 5.18), perdendo o exercício
devido sobre a mente. A bebedice leva o homem e sua família à ruína, à pobreza
financeira e à desonra. Faz com que ele perca o seu tempo e o seu físico e psiquê
ficam prejudicados.
O pecado vinculado ao sexto mandamento, que é a violência contra si
próprio, deve encaixar-se neste ponto. Os estóicos, achavam que o suicídio era
uma forma heroísmo, enquanto que alguns psicólogos modernos acham que o
suicídio é uma manifestação de coragem. Contudo, o suicídio é pecaminoso
porque mostra a falta de coragem para enfrentar as lutas desta vida presente. Os
que atentam contra a próprio vida é porque não são suficientemente fortes para
bater de frente contra as tempestades, ou porque não possuem coragem para
assumir as próprias fraquezas ou pecados cometidos. Assim como nenhum
homem pode tirar a vida do outro, também não pode tirar a sua própria vida.
Deus é o doador dela e é também quem a tira.

OS MODOS DOS PECADOS ATUAIS


PECADOS INTERNOS
Estes são os pecados do coração, ou dos pensamentos, como querem
alguns. Na verdade, todos os pecados têm o seu nascedouro no coração, que é o
órgão central da personalidade humana. O assento deles está no ser mais interior
do homem, mas alguns deles ficam somente no coração, sem que sejam
externalizados. Esses pecados atuais são escondidos dos homens e, muitas vezes,
disfarçados de bondade. Os pensamentos dos homens são produto do seu
coração corrompido, assim como as suas imaginações (Pv 6.18). Todos os
movimentos do pecado têm a sua primeira tramitação no interior do homem.
Esses pecados são conhecidos somente por Deus e pelo pecador.
Geralmente, esses pecados são os mais graves, porque são escondidos e,
geralmente, as pessoas têm vergonha de confessá-los publicamente devido à
hediondez deles. A estes o Senhor odeia (Pv 6.18)! Os pensamentos e as
imaginações mais impuras ficam secretas. A grande maioria desses pecados não

109
são convertidos em palavras e ações. Uma pessoa não é conhecida
necessariamente pelo que faz (porque ela pode apresentar atos de bondade para
ser vista pelos outros), nem pelo que diz (porque pode falar hipocritamente), mas
certamente seria conhecido pelo que pensa ou imagina no seu coração. O escritor
de Provérbios diz que “porque, como imagina em sua alma, assim ele é” (Pv 23.7).
O homem é aquilo que o seu coração indica ser, porque o coração humano
sempre haverá expressar inequivocamente o que o homem é em sua natureza.
“Como na água o rosto corresponde ao rosto, assim o coração do homem ao
homem” (Pv 27.19). Portanto, somente pelo raciocínio ou imaginação do coração é
que o homem é verdadeiramente conhecido.

PECADOS EXTERNOS
Estes são cometidos à luz do sol, sem qualquer constrangimento, temor ou
vergonha. Eles são conhecidos dos homens e são, igualmente, condenáveis e
condenados pelos próprios homens, antes que o julgamento de Deus venha sobre
eles. Paulo diz a Timóteo que “os pecados de alguns homens são notórios e levam
a juízo, ao passo que os de outros, só mais tarde se manifestam” (1Tm 5.24).
Estes pecados externos são os pecados da língua e os das ações.
Os pecados da língua são mais freqüentemente cometidos contra os
homens, mas também contra Deus. Contra os homens há maledicências,
linguagem obscena, maldições, mentiras ; contra Deus há as blasfêmias,
zombarias. Os pecados da língua estão resumidos no dito de Jesus, que os
condena veementemente:
Mt 12.36-37 - “Digo-vos que de toda palavra frívola que proferirem os
homens, dela darão conta no dia do juízo; porque pelas tuas palavras serás
justificado, e pelas tuas palavras serás condenado.”
Os pecados das ações podem ser feitos escondidos de muitos homens, mas
são externalizados, saindo do domínio do conhecimento unicamente do pecador.
Estes podem ser descobertos facilmente. Podem ser feitos diretamente contra
Deus e contra os homens. Contra Deus em forma de adoração errônea e
inaceitável; contra os homens ele encontra múltiplas formas.
Os pecados interiores são os mais numerosos. Contudo, os que são
considerados de grande magnitude são os atos, aqueles que os homens podem
ver. A razão dessa magnitude é porque eles estão combinandos com os
pensamentos e, freqüentemente, com as palavras deles.
Contudo, da mesma forma que os pensamentos e as palavras, “Deus há de
trazer à juízo todas as obras até que as que estão escondidas, quer sejam boas,
quer sejam más” (Ec 12.14). Então, Jesus conclui: “Apartai-vos de mim todos vós
que praticais a iniquidade” (Mt 7.23).
Uma outra divisão muito comumente encontrada para esses modos de
pecados é: pecados por pensamentos, palavras e ações.
OS TIPOS DOS PECADOS ATUAIS
PECADOS DE OMISSÃO
O pecado de omissão diz respeito àquilo que deveria ser feito e que não o
foi. É a não apresentação daquilo que está ordenado por Deus. Embora muitos
não prestem atenção a esse pecado, é tão grave quanto os pecados de comissão,
porque procede da indisposição em fazer a vontade preceptiva de Deus. Tiago
menciona claramente esse tipo de pecado quando diz: Tg4.17 - “Portanto, aquele
que sabe que deve fazer o bem e não o faz, nisso está pecando”.

110
CURSO DE ANTROPOLOGIA

Os pecados de omissão são freqüentes, embora ignorados, pois a atenção


dos homens está mais ligada aos pecados de comissão que, em geral, são
considerados mais graves. Mas Jesus mostra que a omissão daquilo que é bom é
tão grave como o fazer daquilo que é mau. Nos seus vários “ais”, um deles é
dirigido aos que pecavam por omissão:
Mt 23.23 - “Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! porque dais o dízimo da
hortelã, do endro e do cominho, e tendes negligenciado os preceitos mais
importantes da lei, a justiça, a misericórdia e a fé; devíeis, porém, fazer estas
coisas, sem omitir aquelas.”
A gravidade do pecado de omissão está patente no fato de Jesus mencioná-
los como motivo de condenação dos homens:
Mt 25.42-43 - “Porque tive fome e não me destes de comer; tive sede e não
me destes de beber; sendo forasteiro, não me hospedastes; estando nu, não me
vestistes; achando-me enfermo e preso, não fostes ver-me.”
Eles são muitíssimo mais comum do que pensamos em nossa vida.
Tenhamos cuidado para que não sejamos pegos deixando de fazer o que
deveríamos fazer!

PECADOS DE COMISSÃO
O pecado de comissão tem a ver com o fazer aquilo que a lei proíbe, ou com
a feitura daquilo que é bom, mas com motivo sujo ou impuro. Em algum sentido
já tratamos deles em partes anteriores deste capítulo.

OS GRAUS DOS PECADOS ATUAIS


Não existe diferença de grau nos pecados atuais se nós os entendermos do
ponto de vista da sua natureza. Todo pecado é uma “transgressão da lei” de
Deus. Nesse sentido, todos eles são iguais.
Contudo, há pecados muito mais sérios que outros pelo estrago que
causam na família ou na comunidade maior pela hediondez deles. O estrago tem
a ver com os homens e a hediondez com Deus. Os pecados diretos contra Deus
são os mais ofensivos do que os cometidos contra os homens. Os pecados da
primeira tábua são mais ofensivos do que os da segunda.
Jesus deixou claro que há pecados onde alguns homens são mais culpáveis
que outros. Quando Pilatos falou a Jesus da sua autoridade de prender e de
soltar, Jesus disse que Pilatos tinha culpa do seu pecado, mas disse que quem o
havia entregue a Pilatos tinha um pecado maior (Jo 19.11). Há pecados mais
graves que outros porque alguns são cometidos deliberadamente, atrevidamente,
insolentemente contra o Senhor.
Os graus de pecados atuais estão em proporção às diferentes espécies de
punições estabelecidas por Deus. Jesus Cristo disse com respeito aos pecados de
algumas cidades judaicas, após ter feito milagres do meio delas:
Mt 11.21-24 - “Ai de ti, Corazim! ai de ti, Betsaida! porque se em Tiro e em
Sidom se tivessem operado os milagres que em vós se fizeram, há muito que elas
se teriam arrependido com pano de saco e cinza. E contudo vos digo: No dia do
juízo haverá menos rigor para Tiro e Sidom, do que para vós outros. Tu,
Cafarnaum, elevar-te-ás, porventura, até o céu? Descerás até o inferno; porque se
em Sodoma se tivessem operado os milagres que em ti se fizeram, teria ela
permanecido até ao dia de hoje. Digo-vos, porém que menos rigor haverá no dia
do juízo para com a terra de Sodoma, do que para contigo”.
O rigor maior e o menor estão vinculados à gravidade de pecados cometidos
á luz das oportunidades recebidas.
111
PECADOS DE IGNORÂNCIA
Há um sentido em que todos os pecados são cometidos na ignorância, se
por ignorância entendemos que o indivíduo está em trevas espirituais. Embora
culpados, aqueles que crucificaram Jesus Cristo, o fizeram na ignorância. Não é
de estranhar, pois, que Paulo tenha dito:
1Co 2.8 - “...sabedoria essa que nenhum dos poderosos deste século
conheceu; porque, se a tivessem conhecido, jamais teriam crucificado o Senhor
da glória.”
Por esta razão, depois de pecarem, essas pessoas não possuem qualquer
reconhecimento de pecado, nem remorso ou qualquer outro tipo de tristeza. É
porque desconhecem os preceitos estatuídos por Deus na sua lei. Paulo fez tudo o
que fez sem sentir qualquer remorso, e fez pensando estar fazendo o que devia
fazer. Ele não se desculpa na ignorância, mas mostra que a ignorância é a causa
de muitos pecados. Ei-lo, argumentando:
1Tm 1.13 - “...a mim que noutro tempo era blasfemo e perseguidor e
insolente. Mas obtive misericórdia, pois o fiz na ignorância, na incredulidade.”
Paulo ainda não possuía a luz. Andava em trevas e praticava todas as
blasfêmias e insolência, em nome de Deus, pensando estar agradando a Deus, a
quem, a seu modo, ele servia.

PECADOS DELIBERADOS
Embora a maioria dos pecados seja cometida na ignorância, há muitos
deles que são cometidos deliberadamente. Em geral, os homens conhecem as leis
gerais de Deus, mas são atrevidos e pecam conscientemente, sabendo que estão
afrontando a Sua lei. Estes pecados são de maior gravidade. A gravidade e a
seriedade desses pecados são mostradas pelo escritor da Carta aos Hebreus:
Hb 10.26 - “Porque, se vivemos deliberadamente em pecado, depois de
termos recebido o pleno conhecimento da verdade, já não resta sacrifício pelos
pecados.”
Provavelmente, o autor sacro esteja se referindo ao conhecimento da
doutrina, criticando aqueles que conscientemente pecam contra Deus
conhecendo a verdade de Deus.
Nestes últimos dias tem havido pessoas que pecam contra Deus de um
modo deliberado esquecendo-se da verdade de que o universo veio à existência
pela palavra de Deus. Por essa razão, eles zombam de Deus, andando em paixões
ímpias.
2Pe 3.3-5 - “Tendo em conta, antes de tudo, que, nos últimos dias, virão
escarnecedores com os seus escárnios, andando segundo as suas próprias
paixões, e dizendo: Onde está a promessa da sua vinda? porque desde que os
pais dormiram, todas as cousas permanecem como desde o princípio da criação.
Porque deliberadamente esquecem que, de longo tempo, houve céus bem como
terra, a qual surgiu da água e através da água pela palavra de Deus.”
Os homens se esquecem destas verdades propositadamente. Eles já foram
informados que o Senhor é o Criador e que Ele há de voltar para julgar o mundo,
mas abusadamente ignoram a verdade de Deus. Isto é grave abominação ao
Senhor.

A gravidade de ambos os pecados:


A gravidade de um pecado tem a ver, em alguma medida, com o fato dele
ser feito deliberada ou ignorantemente. Veja o que Jesus diz sobre eles:
112
CURSO DE ANTROPOLOGIA

Lc 12.47-48 - “Aquele servo, porém, que conheceu a vontade do seu senhor e


não se aprontou, nem fez segundo a sua vontade, será punido com muitos açoites.
Aquele, porém, que não soube a vontade do seu senhor, e fez cousas dignas de
reprovação, levará poucos açoites. Mas àquele a quem muito foi dado, muito lhe
será exigido; e àquele a quem muito se confia, muito mais lhe pedirão.”
Tanto o pecado cometido conhecendo a lei como desconhecendo-a são
passíveis de punição, mas a severidade da punição é que varia. A ignorância não
desculpa ninguém.

DISTINÇÕES DOS PECADOS ATUAIS


PECADOS REMISSÍVEIS E IRREMISSÍVEIS
Todos os pecados do povo de Deus são remissíveis. Deus perdoa todas as
suas iniqüidades, e sara todas as suas enfermidades, com base naquilo que o
Salvador deles fez na cruz.
Contudo, há os pecados daqueles que foram deixados em seus delitos e
pecados. Estes pecados não foram remidos. Eles receberão o salário do pecado
deles, que é a morte (condenação), e não a vida eterna. Esses pecadores sofrerão
pessoalmente a punição de Deus por causa dos seus pecados, mas não serão
remidos deles.
Há ainda, na Escritura, a menção de outro pecado atual, nascido na
natureza pecaminosa do homem, que é chamado em teologia de pecado
imperdoável, constituindo-se na blasfêmia contra o Espírito Santo. Essa
blasfêmia não pode ser perdoada nem neste mundo, nem no porvir (Mt 12.31-32).

11 - A PUNIÇÃO DO PECADO

A palavra “pena” (penalidade) deriva do latim poena, aparecendo já na Idade


Média, como um conceito teológico para denotar a punição por causa do pecado
original.
A ORIGEM DA PUNIÇÃO
Berkhof diz que os castigos têm "a sua origem na retidão, isto é, na justiça
punitiva de Deus, por meio da qual Ele se sustém como o Santo e
necessariamente exige santidade e retidão de todas as Suas criaturas racionais."
169
O pecado é a violação das leis divinamente estabelecidas e, por causa da
santidade divina, merece ser punido. Portanto, a punição denota um castigo
imposto por Deus aos infratores da sua lei.
O pecado não pode ficar sem punição justamente por causa da santidade e
da justiça de Deus. Porque a Sua lei foi infringida, Ele, de necessidade, tem que
punir o pecado.

OS PROPÓSITOS DA PUNIÇÃO DIVINA 170

1. VINDICAR A RETIDÃO OU A JUSTIÇA DIVINA


2. A REFORMA DO PECADOR
3. FAZER COM QUE OS HOMENS DESISTAM DE PECAR

TIPOS DE PUNIÇÃO DIVINA


Teologicamente, costuma-se falar de dois tipos de castigos que o pecado traz:
169 Berkhof, Teologia Sistematica, p. 307 (edição castelhana).
170 Idéias tiradas de Berkhof, pp. 307-309.

113
(A) CASTIGOS NATURAIS
Destes castigos os homens não podem livrar-se nem pelo arrependimento
nem pelo perdão de Deus. Esse tipo de castigo é o resultado natural do pecado.
Há várias maneiras de se ilustrar os castigos naturais: Um homem promíscuo
sexualmente, fatalmente haverá de transmitir as suas doenças venéreas aos seus
filhos, mesmo que ele tenha se arrependido profundamente de sua vida
promíscua; Um homem preguiçoso haverá de levar à penúria sua família, mesmo
que chore ou que Deus perdoe a sua negligência de trabalho (Pv 6.6-11; 13.4;
19.15; 21.25; Ec 10.18); Um homem beberrão trará ruína sobre si e sobre sua
família (Pv 23.21, 29-35). A inevitabilidade desse tipo de castigo natural é algo
incontestável!
A Escritura tem alguns exemplos do fato do homem ceifar aquilo que ele
planta: Jó 4.8; Sl 9.15; 94.23; Pv 5.22

B) CASTIGOS POSITIVOS
Estes castigos não pressupõem simplesmente as leis naturais da vida, mas
revelam uma atitude positiva do Santo Legislador. São imposições judiciais de
Deus sobre o pecador nesta vida. Eles são a expressão do caráter moral de Deus,
que se ira contra aqueles que violam as Suas leis claramente estabelecidas (Lv
26.21; Nm 15.30-31; 1 Cr 10.13; Sl 75.8; Is 1.24, 28) etc. Estes castigos são uma
imposição direta de Deus sobre os homens, sejam eles Seus servos ou não.

A PUNIÇÃO DE MORTE
A morte é uma penalidade imposta por Deus por causa do pecado, embora
esta idéia tenha sido contestada na história da Igreja cristã. Os pelagianos
pensaram que a morte não tinha nada a ver com o pecado. Os homens morreriam
de qualquer forma. A razão da morte dos homens estaria na sua finitude.
Portanto, a morte era parte da natureza criada, não penalidade pelo pecado.
Entretanto, a Escritura afirma expressamente que a morte tem
necessariamente a ver com o pecado. Ela é punição do Santo Legislador sobre os
infratores da Sua Lei. A morte é o julgamento de Deus sobre o pecador (Ez 18.4;
Rm 6.23).

1. O CONCEITO DE MORTE
Antes de tudo, é necessário entender a idéia de morte. Morte não é extinção,
não é aniquilamento, nem cessação de existência, mas separação.
O homem foi criado imortal. Quando ele pecou, ele não deixou de ser imortal,
se por imortalidade entendemos a existência continuada, mas ele morreu, isto é,
ele ficou separado de si mesmo pela morte física e separado de Deus pela morte
espiritual.

2. O PODER SOBRE A MORTE


Quem tem o poder da morte? Deus ou o Diabo? Esta é um pergunta que tem
que ser respondida com muita cautela. A resposta depende do entendimento que
temos sobre o que significa “poder”.
Embora a morte seja o resultado de um pronunciamento judicial de Deus
(como veremos abaixo), há certas passagens que parecem indicar que a morte
tem algo a ver com a hegemonia de Satanás com a morte (Hb 2.14-15). Se nós
distinguimos entre a morte como um evento e morte como um estado, o conflito

114
CURSO DE ANTROPOLOGIA

aparente é resolvido.171 A Escritura uniformemente coloca a morte como um


evento nas mãos de Deus. Deus tem o poder da morte em Suas mãos (Ap 1.18; Lc
12.5), porque é Ele quem concede a vida. Quem tem o poder de dar a vida,
também tem o poder de tirá-la. Quem paga o salário da morte é Deus, não o
diabo. Contudo, temos que entender que Satanás reina no estado de morte,
estando, todavia, sob o domínio de Deus. Satanás não tem poder de impingir
morte sobre ninguém, mas as pessoas que morrem estão sob o domínio dele, até
que esse domínio seja retirado dele, e ele também enfrente o juízo de Deus no
final.

3. A CAUSA JUDICIAL DA MORTE


A Escritura diz
"a morte é o salário do pecado" (Rm 6.23).
A morte é o resultado judicial do pecado, não o resultado natural do pecado
do homem. Também não podemos crer que o homem morreria de qualquer
maneira. A morte não é parte da natureza humana, nem o homem não foi criado
para existir em um estado de morte.
Os Pelagianos afirmaram que o homem morreria de qualquer forma, mesmo
que não houvesse pecado. A morte faz parte da criação. Para o pelagiano a morte
é o seguimento natural na vida do ser humano. Para os pelagianos "as referências
bíblicas sobre a morte como conseqüência do pecado são entendidas como
referências à morte espiritual, separação de Deus, antes do que à morte física." 172
Alguns discípulos de Barth diriam que o problema da morte está vinculado ao
fato do homem ser finito. O pecado apenas complica o problema da finitude do
homem. Embora Pelágio pensasse que o homem morreria de qualquer forma,
mesmo que não houvesse pecado, e que Barth tenha pensado que a morte seja
um problema da finitude do homem, é geralmente aceito entre os cristãos que a
morte é anatural, sendo uma imposição penal de Deus sobre os pecadores. Os
Calvinistas, contudo, afirmam categoricamente que a morte é uma imposição
judicial de Deus sobre o homem pecador.
Desde os primeiros concílios regionais da igreja Cristã tem-se defendido que
a morte é castigo, sendo um elemento anatural na existência humana. Num dos
Concílios de Cartago, lutando contra um pelagianismo presente na vida da igreja,
foi dito: "Se alguém disser que Adão foi criado mortal de tal forma que ele teria
morrido no corpo se tivesse pecado ou não, seja anátema." 173 Portanto, não
podemos aceitar a morte como natural, mas como uma imposição judicial de
Deus por causa do pecado. Lutero foi veemente na sua idéia da causa da morte:
"A morte dos seres humanos é, portanto, diferente da morte dos animais.
Estes morrem por causa da lei da natureza. Nem é a morte do homem um evento
que ocorre acidentalmente ou que tenha meramente um aspecto de
temporalidade. Ao contrário, a morte do homem, se assim posso falar, foi
ameaçada por Deus e é causada por um Deus encolerizado e estranho. Se Adão
não houvesse comido da árvore proibida, ele teria permanecido imortal. Mas
porque ele pecou pela desobediência, ele sucumbe à morte como os animais que
estão sujeitos a ele. Originalmente, a morte não foi parte de sua natureza. Ele

171 The Encyclopedia of Christianity, vol. III, 333.


172 Millard J. Erickson, Christian Theology, (Baker, 1990), p.612.
173 Citado por Custance, The Seed of the Woman, p. 87.

115
morre porque provoca a ira de Deus. A morte é, em seu caso, a conseqüência
merecida inevitável de seu pecado e desobediência." 174
A morte do homem, portanto, tem conexão com a justiça divina. Não
somente é uma tragédia, mas uma penalidade, uma imposição judicial da qual
nenhum pecador foge.

PUNIÇÃO NA EXISTÊNCIA PRESENTE


1. MORTE ESPIRITUAL
A NATUREZA DESSA MORTE
Quando Adão foi criado, ele vivia em perfeita harmonia com Deus, possuindo
uma vida natural perfeita. Havia comunhão da criatura com o Criador. Todavia,
quando Adão desobedeceu, a morte veio sobre ele. Essa morte espiritual é a
ausência da vida, ou seja, a ausência da comunhão com Deus. Por causa do fato
de todos estarem incluídos no pacto das obras, todos eles recebem a imputação
da culpa de Adão, vindo a este mundo na condição de mortos espirituais. Exceto
Cristo, todos os seres humanos são concebidos em estado de morte. Todos vêm
ao mundo separados de Deus, sem a vida dEle. Todos nascem com inclinação
contrária aos preceitos de Deus. Paulo fala claramente que aqueles "que se
inclinam para a carne cogitam das coisas da carne; mas os que se inclinam para
o Espírito, das cousas do Espírito. Porque o pendor da carne dá para a morte,
mas o do Espírito, para a vida e paz" (Rm 8.5-6). Aquele que está morto
espiritualmente está sem a vida de Deus.
O TEMPO DESSA MORTE
Além de Cristo Jesus, Adão foi o único ser humano que veio ao mundo sem
esta morte. Ele veio a morrer depois que ele pecou contra o Senhor Deus. Deus
lhe disse: “No dia em que comeres, certamente morrerás” (Gn 2.17). Esta morte
da qual Deus falou é a morte espiritual, e não a física. Esta última veio
posteriormente, alguns séculos mais tarde. Contudo, no momento em que Adão
pecou, ele perdeu a comunhão com Deus.
Mas quando tratamos da progênie de Adão, a situação é diferente. Lógica e
temporalmente, esta é a primeira morte que acontece nos descendentes de Adão,
por causa do pecado. O ser humano já é concebido com ela. Por natureza, o
homem é um nati-morto, isto é, ele vem ao mundo sem qualquer comunhão com
Deus, porque ele é contado entre os que estão em Adão. Quando o ser humano é
concebido, ele já é separado de Deus, porque, por natureza ele já é "filho da ira"
(Ef 2.2), separado do favor e do amor do Senhor.

O MODO QUE ESSA MORTE CHEGOU ATÉ NÓS


Dentro da história da igreja alguns vieram a crer que Adão foi um exemplo
para todos os homens, de forma que todos os que o imitaram, vieram a morrer
como ele. Assim pensaram os pelagianos; outros vieram a crer que Adão
transmitiu a nós, por geração ordinária, isto é, de pai para filho, uma natureza
enfraquecida, mas não pecaminosa em si mesma. Cada um, individualmente,
vem a morrer por causa dos pecados feitos voluntária e pessoalmente. Assim
pensaram os arminianos 175; uma outra linha de pensamento foi a dos realistas
que ensinaram que a morte espiritual é transmitida pelo fato de todos terem
estado seminalmente em Adão. Quando Adão morreu, todos morreram, porque

174 Martin Luther, Luther's Works - Selected Psalms II, edited by Jeroslav Pelikan,( St. Louis: Concordia
Publishing House, 1965), vol. 13, pp. 94-95, 96.
175 Ver Orton Wiley, Christian Theology, 125.

116
CURSO DE ANTROPOLOGIA

todos estavam voluntariamente presentes no Éden quando Adão foi criado e caiu
176
; Os Reformados ensinam que esta morte espiritual vem pelo fato de todos os
homens, exceto Jesus Cristo, estarem incluídos no pacto das obras, estando,
portanto, representados pelo primeiro Adão. O texto de Rm 5.12-21, que trata da
imputação de pecado, explica como a morte de Adão passou a ser também a
nossa morte.
A INESCAPABILIDADE DESSA MORTE
Não há ninguém que esteja em Adão que não receba esse tipo de morte. Não
há como evitá-la. Quando Deus disse a Adão "No dia em que dela comeres
certamente morrerás" (Gn 2.17), a morte realmente aconteceu. Não houve morte
física imediata, mas morte espiritual. Os nossos primeiros pais perderam a sua
comunhão com Deus, e até fugiram de Sua presença. O texto diz: "Naquele dia
certamente morrerás". Não há como evitar a literalidade deste verso. 177 Adão e sua
companheira, de fato, morreram naquele dia.
A ênfase de Gn 2.17 é na inescapabilidade dessa morte, não no fato dela ser
imediata. Quando Adão pecou, o veneno do pecado o infectou e ele morreu. Com
a sua morte, toda a sua progênie nasce na mesma condição de morte.
Essa é a única morte que o crente experimenta inescapavelmente, pois o fato
de sermos eleitos de Deus não nos isenta dela. Como veremos adiante,
poderemos ser livres da morte física como pagamento de penalidade; poderemos
ser livres da morte eterna, mas não de morrer espiritualmente. Vimos ao mundo
com esta condição, e ninguém escapa de sofrer essa morte, embora possa vir a
escapar de ser morto espiritualmente para sempre, por graça divina.

A DURAÇÃO DESSA MORTE


Não podemos evitar ser mortos espiritualmente, mas podemos ser livres
desse estado de morte, quando recebemos a vida nova implantada em nós através
da obra regeneradora do Espírito Santo. Portanto, essa morte dura até que a
pessoa seja tirada dela pela ação renovadora do Espírito Santo. Paulo disse: “E
estando nós mortos em nossos delitos e pecados, (Ele) nos deu vida juntamente
com Cristo — pela graça sois salvos” (Ef 2.5). Nós somos libertos desse estado de
morte quando o Espírito nos conecta com a vida. Quando essa obra espiritual
acontece, imediatamente saímos do estado de morte, porque a Escritura diz que
aquele “que está em Cristo é nova criatura”, que passou da morte para a vida.

2. OS SOFRIMENTOS DESTA VIDA


Os sofrimentos desta vida são a conseqüência de os homens serem
concebidos no estado de morte espiritual. Eles sofrem as conseqüências externas
e internas da morte espiritual. Os sofrimentos também são uma imposição penal
de Deus sobre eles. Os sofrimentos desta vida afetam a totalidade da
personalidade do homem, seu corpo e todas as faculdades de sua alma. O pecado
trouxe uma afetação para o ser humano por inteiro. Tudo virou desordem depois
da queda.Vejamos os sofrimentos que vêm ao ser humano como um ser material
(que diz respeito ao seu corpo) e como um ser imaterial (que diz respeito à sua
alma ou espírito).

176 Ver W.G.T. Shedd, Dogmatic Theology, vol. II, 30 sgts.


177 Há um exemplo paralelo que trata da morte física de Simei, mas a idéia "daquele dia" é similar à de
Gênesis 2.17 (ver 1 Rs 2.36-46).
117
SOFRIMENTOS NO SER MATERIAL
Os hospitais, as prisões, os manicômios, os asilos e as casas de recuperação
são apenas algumas amostras do sofrimento da raça humana que, em última
análise, se reporta ao pecado humano.
Corpo — Desde que vimos ao mundo, todos somos nascidos em pecado e,
portanto, em miséria física, sujeito às enfermidades desde o ventre materno.
Alguns já herdam males de seus pais, males que haverão de acompanhá-los por
toda a existência terrena. A debilidade física que dia a dia afeta mais duramente o
nosso organismo é uma das humilhações mais duras que o ser humano
experimenta.
Há alguns casos onde as doenças físicas vêm por causa do pecado, como o
próprio Senhor Jesus afirmou (Jo 5.14), embora nem sempre seja esse o caso (Jo
9.2)

SOFRIMENTOS NO SER IMATERIAL


Mente — Depois da queda, a mente humana ficou afetada e já não consegue
raciocinar corretamente, ficando sujeita a distúrbios dos mais variados. A grande
maioria das nossas doenças somáticas tem nascedouro em nossos problemas
mentais. Infelizmente não há a aceitação dessa triste verdade: grande parte dos
humanos sofre de qualquer distúrbio mental, tudo provocado pelos incômodos
desta vida que, numa conclusão bem refletida, reconhece-se que é por causa da
maldade humana, o pecado.
Vontade — A capacidade decisória do homem é afetada pelos distúrbios
mentais, onde a mente já não sabe julgar direito e nem querer as coisas direito.
Portanto, suas decisões são loucas e insensatas.
Emoções — Por causa da afetação da mente, as afeições do homem estão
desordenadas, e os desequilíbrios emocionais tornam-se cada vez mais
constantes. As clínicas de distúrbios emocionais não caberiam se todos
reconhecessem seu sofrimento afetivo-emocional. Cada vez mais o nosso mundo
pecaminoso tende a tornar mais infeliz a vida dos homens.
A corrupção se dirigiu a todas as parte do ser humano. E isto é um
sofrimento terrível do qual todos desejam escapar.
Estes sofrimentos são causados pelo fato do homem estar mergulhado no
pecado, fato que tem a ver com a morte do homem, assunto a ser tratado
posteriormente. É a separação do homem de Deus e de si mesmo que causam
esses sofrimentos e distúrbios na totalidade da vida humana.

SOFRIMENTOS DO SER SOCIAL


Por causa dos pecados toda a sociedade sofre. Os relacionamentos ficam
quebrados e as pessoas tornam-se inimigas umas das outras com a maior
facilidade.
Segundo a Escritura, há outras duas punições por causa do pecado, em
forma de morte: a morte física e a morte eterna.

3. MORTE FÍSICA
Esta morte é a mais conhecida, experimentada e lamentada por todos os
homens, porque todos podem vê-la como uma experiência constante e palpável.
Ela é a que mais afeta emocionalmente as pessoas e é dela que todos têm medo,
porque pensam que ela é o pior que lhes pode acontecer. Em geral, as pessoas
não conseguem ver a morte física como parte da punição divina, pois não levam a
sério as advertências da Escritura. A morte física é freqüentemente a mais temida
118
CURSO DE ANTROPOLOGIA

porque ela separa as pessoas umas das outras, o que causa muita dor, mas não é
este o verdadeiro significado dela. A conseqüência maior é para a pessoa que
morre, pois ela é a separação que acontece na própria pessoa, como veremos logo
abaixo.

A NATUREZA DA MORTE FÍSICA


Lógica e temporalmente, esta é a morte que se segue à morte espiritual. A
morte física é a separação temporária entre o corpo e a alma. É nessa morte que
nós somos separados de nós mesmos, isto é, o nosso eu material é separado do
nosso eu imaterial.
A morte física é uma violência grande e justa da parte de Deus sobre o
homem pecador.
"A morte não é um processo natural, mas algo totalmente anatural — uma
violenta separação das duas partes do seu ser que Deus nunca quis que fossem
separadas; uma ruptura, um despedaçar, uma mutilação de sua personalidade."
178

No estudo sobre a constituição original do homem, vimos que o corpo é visto


como sendo o próprio homem, não um acessório temporal que é descartável.
Quando o corpo se separa da alma, costumamos dizer que o corpo morreu, mas
essa não é a verdade. É verdade que o corpo se tornou inerte, sem anima, sem
vida, mas ele nunca cessa de existir, mesmo que no pó de onde veio. A
imortalidade é algo próprio do homem como um todo. Não somente a sua alma,
mas também o seu corpo é imortal. Portanto, é muito melhor dizer que o homem
morreu, porque no momento do desenlace, o homem (corpo) é separado de si
mesmo (alma). Ambas as partes constituintes da natureza humana vão para
lugares diferentes até o tempo da ressurreição. Tanto o corpo quanto a alma não
cessam de existir, apenas ficam separados como uma forma de castigo de Deus
sobre eles. Esse é o estado de morte que o homem fica até que o dia do juízo
chegue.

O PROCESSO DA MORTE FÍSICA


O texto de Gn 2.17 diz: "No dia em que comeres certamente morrerás". Não
houve uma morte imediata do corpo, mas a semente da morte foi plantada no
homem. Após o comer do fruto proibido, Deus retardou a punição da morte física
de Adão, que veio a acontecer alguns séculos mais tarde, pois Adão viveu mais de
novecentos anos. Esse retardamento da punição da morte física é um ato da
bondade de Deus com a sua primeira criatura, e com todas as outras que já
nascem espiritualmente mortas.
Stephen Charnock, o grande pregador presbiteriano-puritano de Londres,
comentando sobre o texto de Gênesis, disse: "Assim, deve ser entendido, não
como uma morte real do corpo, mas como o merecimento da morte, e a
necessidade da morte." 179 O homem tinha que sofrer a punição dos seus
pecados, também no corpo.
Após a queda, não somente houve a morte espiritual, mas o veneno de morte
foi injetado no corpo humano. A partir do seu ato pecaminoso, Adão começou a
morrer. Após o pecado, a morte começou a fazer parte da existência física do
homem. Esta idéia é refletida na esperança de Paulo, assim como na esperança
de todos os filhos de Deus, que experimentam os efeitos dessa morte. Em 2 Co
5.1-5 Paulo fala da ânsia de ser revestido de uma nova habitação, isto é, de ser
178 James Orr, God's Image in Man, (Eerdmans reprint, 1948), p. 251, 252.
179 Citado por W.G.T. Shedd, Dogmatic Theology, vol. 3, p. 336.

119
revestido de um novo tabernáculo, um corpo novo, uma nova qualidade de vida
física, que se dará na ressurreição. Este corpo que é mortal, isto é, que
experimenta os efeitos da morte, vai ser renovado, ser revestido da vida na
ressurreição. Não anelamos pela morte, mas pelo revestimento que caracterizar-
se-á em forma de vida plena. A nossa natureza plena, corpo e alma, será
restaurada no completamento de nossa salvação. Esta é a esperança de Paulo, e
nossa. Mas até que isso aconteça, estaremos ainda sob o efeito da morte em nós.
Enquanto a morte espiritual foi um evento, a morte física é um processo. O
homem não morre de uma vez, mas ele morre lentamente, até que o corpo seja
separado da alma, no suspiro final.
Desde que nascemos já sentimos os efeitos do pecado em nosso corpo: as
doenças logo aparecem e, depois de alguns anos, o processo de queda já se torna
evidente. Nós morremos aos poucos. Custance disse:
"Assim a Adão e aos seus descendentes imediatos deve ser permitido
sobreviverem o tempo suficiente para o estabelecimento da raça humana. Mas,
uma vez estabelecida, daí por diante a longevidade poderia ser reduzida em nome
da segurança da raça que, por sua vez uma vez mais se destrói a si mesma por
sua potencialidade para invenções ímpias que o fator da vida longa tornou muito
provável." 180
O ser humano não tem morte física instantânea pelo fato de ser pecador,
mas porque a raça precisa ser preservada, e porque assim Deus determinou em
virtude de Sua longanimidade para com os homens. Por causa da Sua natureza,
Deus não destrói o homem de uma só vez. Custance disse: "A penalidade de
comer do fruto não foi o encurtamento de uma vida que possuía um término
determinado de qualquer modo, mas a introdução de uma experiência totalmente
nova — a morte física." 181 A morte física também começou quando o pecado
entrou na vida humana. A consumação da morte física foi apenas uma questão
de tempo.

A INESCAPABILIDADE DA MORTE FÍSICA


A Escritura diz que Jesus Cristo morreu voluntariamente (Jo 10.18). Jesus
escolheu não somente o tempo de Sua morte, mas a morte em si. Ele ofereceu-Se
à morte. A morte para Ele foi algo ativo. Não foi algo que Ele sofreu, impossível de
ser evitado. Ele não precisava morrer, se não quisesse. Ele não era pecador e,
portanto, ele não devia morrer de necessidade. Contudo, Ele voluntariamente
entregou-se à morte, mas os homens pecadores não possuem essa escolha.
A Escritura diz de maneira clara em Hb 9.27 diz que "aos homens está
destinado morrerem uma só vez, e depois disso o juízo". Esse é um decreto divino
que está sobre pecadores. Está ordenado que todos os pecadores venham
infalivelmente à morte, porque ela é o “salário do pecado”. Todos os homens
morrem fisicamente. Deste fato ninguém escapa, exceto aqueles cristãos que
viverem na parousia de Jesus Cristo, porque eles não estarão debaixo da
necessidade de morrer. Sobre isto falaremos mais tarde.
A morte é algo passivo para nós homens, não algo ativo com foi para Cristo.
Não escolhemos morrer. Simplesmente morremos infalivelmente. É algo que
sofremos, uma execução de uma sentença com base na violação da lei
estabelecida pelo santo Legislador. A morte é inevitável para o pecador. Os
pecadores todos estão sujeitos à morte. Cristo humilhou-Se a Si mesmo (Fp 2.8),
mas os seres humanos pecadores são humilhados pela morte. Ele escolheu a
180 Arthur C. Custance, The Seed of the Woman, (Ontario: Doorway Publications, 1980), p. 86.
181 Custance, The Seed of the Woman, p. 161.

120
CURSO DE ANTROPOLOGIA

morte, e a morte tem colhido todos os homens. Por quê? Porque está ordenado
aos homens morrerem (Hb 9.27). Não há alternativa para os seres humanos
caídos. Todos eles morrem, pessoal ou vicariamente 182, porque todos os pecados
deles têm que ser punidos, por causa da necessidade da justiça divina ser
exercida.
Uns morrem mais cedo, prematuramente (em nossa ótica); outros mais
tarde, no tempo conhecido como próprio, mas para todos é apenas uma questão
de tempo. Ninguém escapa dela.

A MORTE FÍSICA DO CRISTÃO


É justo dizer que a morte do cristão é um pagamento de penalidade também?
Quando o cristão morre ele está sofrendo o castigo pelos seus pecados?
Para se responder a esta pergunta, é necessário que tenhamos uma exata
idéia da morte substitutiva de Jesus Cristo.
O cristão, quando morre, já não mais está pagando a penalidade de seus
pecados, mas morre como uma conseqüência inevitável do estado de pecado em
que este mundo se encontra. Ele morre porque ele tem que desfrutar todos os
benefícios da salvação que não podem ser desfrutados plenamente nesta vida, por
causa dos efeitos do pecado, ainda permanentes neste universo de Deus. Temos
ainda as doenças, as tristezas, as angústias, etc., que são conseqüências do
pecado em nossa raça, mas Deus nos livrará desse tipo de morte, desse estigma
que nos afeta a todos os seres humanos, sem exceção. Até que a redenção se
complete no final, ainda sofreremos os resultados do pecado no mundo. Mas não
podemos dizer que a morte física dos redimidos por Cristo seja o salário de seus
pecados (cf Rm 6.23), porque Jesus Cristo já pagou a morte por eles. A morte
deles é apenas o fim das dores e das tristezas da vida presente. A morte para eles
é a porta da comunhão perene com Deus, a porta da vida plena, é o acesso direto
à presença do Salvador deles, na plenitude da comunhão imperdível, que é a vida
eterna. Enquanto o corpo dos redimidos espera receber anima (o que se dará na
ressurreição final), a alma dos redimidos já goza da redenção, mas não em
plenitude, até que a salvação se complete na redenção do corpo.
A morte do cristão, portanto, não deve ser considerada como uma obra
judicial de Deus, pois Deus é justo e não faria com que Seus filhos pagassem
novamente aquilo que já foi pago pelo Seu Filho, o Redentor deles. Os crentes
ainda morrem, mas a morte deles não é mais um julgamento de Deus. Jesus
disse que aqueles que estão em Cristo "já passaram da morte para a vida" (Jo
5.24). Consolando as irmãs, Marta e Maria, que haviam perdido o irmão Lázaro,
Jesus disse: "Eu sou a ressurreição e a vida. Quem crê em mim, ainda que
morra, viverá; e todo o que vive e crê em mim, não morrerá, eternamente. Crês
isto?" (Jo 11.25-26). Lázaro apenas "dormiu", segundo Jesus. A sua morte foi
apenas um descanso das fadigas desta vida, mas Lázaro "vivia" mesmo no estado
de morte, não uma morte judicial, mas com o sabor de alívio do estado em que
vivia, até que a redenção dele fosse completada.
Houve casos de pessoas de Deus que não experimentaram a morte, no
mesmo sentido em que outros a experimentaram, como o de Enoque, Elias, e

182 Nem todos os cristãos têm que morrer necessariamente. Paulo diz aos Tessalonicenses ( 1 Ts 4.13-18)
que os crentes que estiverem vivendo na vinda (parousia) de Cristo não morrerão, mas todos serão
transformados, o que não significa morte. A morte para eles não é mais necessária, porque Jesus Cristo já
pagou as dívidas deles, e este pagamento inclui a morte física. E esta verdade é um consolo para eles. Morte
como necessidade, não mais! Todavia, há aqueles que têm que enfrentar a morte como penalidade. É destes
que este capítulo trata mais detidamente.
121
todos aqueles que estiverem presentes na geração da segunda vinda do Senhor
Jesus Cristo (1 Ts 4.13 sgts). Não há necessidade da morte deles, porque Jesus
Cristo já pagou a penalidade no seu lugar.
Aqueles que não tiveram seus pecados pagos pelo Redentor é que morrerão
como uma penalidade por seus pecados, "porque está destinado aos homens
morrerem uma só vez, e depois disto o juízo" (Hb 9.27). A morte física deles já é
parte do juízo, embora não do juízo final de Deus.
Há algumas razões para se afirmar que a morte do cristão não é parte da
punição divina:
a) Se os sofrimentos físicos e a morte física do cristão são castigo pelos
pecados, estamos negando que Cristo fez uma obra de salvação completa.
Ao contrário, Sua obra foi de tal forma que Ele não deixou nada para os seus
representados pagarem. Nenhuma penalidade cai sobre eles porque por eles
todos Ele entregou-Se a Si mesmo. Através do Seu sacrifício, Deus foi plenamente
reconciliado com o Seu povo e o povo vem sendo reconciliado com Deus. Se Deus
tivesse que punir o seu povo por causa de seus pecados, a obra redentora de
Jesus Cristo não seria completa. Na verdade não seria redenção! Mas Deus
removeu toda a penalidade do pecador e lançou-a sobre o representante deles,
Jesus Cristo.
b) Se os sofrimentos físicos e a morte física do cristão são punição de Deus
pelos pecados, estamos negando que a punição divina é muito mais séria do que
os sofrimentos ou a morte física. A justiça de Deus exige muito mais do que os
sofrimentos desta vida ou a morte física. Se essas duas cousas são punição
divina para o cristão, ele está cooperando no pagamento que Cristo fez, que é
incompleto. Se a morte física é pagamento, a justiça de Deus é pouco exigente.
Por que Cristo haveria de nos livrar somente de parte da punição e não dela toda?
Se estas cousas são penalidade, Cristo deixou algumas contas para serem pagas,
o que diminui o valor da obra de Cristo.
c) Se os sofrimentos físicos e a morte física do cristão são punição pelos
pecados, essa punição varia muito na vida dos homens, independentemente dos
seus pecados. Os sofrimentos temporais e a morte têm tido uma variação muito
grande na existência dos cristãos. Uns pecam mais e sofrem menos e têm até
morte calma e sem sofrimento, enquanto que outros crentes sofrem muito e ainda
têm morte terrivelmente dolorosa. Se estas coisas são pagamento de penalidade,
alguma coisa anda errado com os efeitos da morte de Cristo, uns estão pagando
menos que outros.
d) Se os sofrimentos e a morte física do cristão são punição de Deus,
podemos concluir que o homem tem condição de render satisfação a Deus por
seus pecados. O pecador não-remido pode sofrer a penalidade de seus pecados,
mas não pode ser remido do sofrimento. Se cremos que a morte do cristão é
penalidade, ele está participando do pagamento para ser remido, o que implica na
cooperação humana da sua própria redenção. Se se objeta que participamos de
nossa redenção, por quê se entende que a morte é pagamento? Contudo, se o
homem é capaz de render satisfação pelos seus pecados, pagando com a morte
física, ele poderia, se sofresse um pouco mais, de render satisfação completa por
seus pecados, desfrutando da vida eterna, o que gera um absurdo teológico
inominável!
e) Se a morte fosse um pagamento de penalidade, Enoque e Elias não a
teriam sofrido. Isso implica que eles foram melhores ou que Deus fez vista grossa
aos pecados deles, o que também é absurdo. Se considerarmos a razão da morte

122
CURSO DE ANTROPOLOGIA

dos mártires da igreja tanto do VT como do NT, haveremos de perceber que não
foi o pecado a causa dela, mas o comprometimento deles com o reino de Deus.
f) Se os sofrimentos físicos e a morte física do cristão fossem penalidade,
temos que chegar a uma de duas conclusões: que o sofrimento físico de Cristo e
sua morte física foram em vão e ineficazes (o que é uma inverdade), ou que Ele
removeu a punição temporal (o que é uma verdade). Quando Cristo sofreu essas
coisas, Ele as retirou de nós como punição. “Pelas Suas pisaduras fomos
sarados” (Is 53.5). Não sofremos mais punição. Apenas temos os sofrimentos e a
morte física porque ainda vivemos num ambiente onde estas coisas persistem,
até que a redenção seja completada e o ambiente seja mudado, o que se dará na
nova terra.
g) Se os sofrimentos físicos e a morte física do cristão fossem penalidade,
teríamos que crer que Deus pune os membros do corpo de Cristo, porque Ele
ainda está irado com eles. Tal pensamento é uma injustiça ao amor redentor de
Deus e à justiça de Deus demonstrada em Cristo Jesus. Nós somos santuário do
Espírito Santo, e Deus não haveria de despejar a Sua ira contra os membros do
corpo do Seu Filho (1Co 6.15-20).
h) Se os sofrimentos físicos e a morte física do cristão fossem penalidade dos
pecados, teríamos também que considerar as angústias e ansiedades da alma
como castigo de Deus por causa do pecado, também, porque em todos os
sofrimentos do corpo a alma sofre igualmente, porque existe uma interpenetração
de influências. Se isto é verdade, o que Jesus fez pelos pecadores não resultou
em muitas cousas positivas, pois temos muito sofrimento nesta vida. Os
benefícios da obra de Cristo só serão percebidos depois da morte, o que mostra
que ainda somos os mais infelizes dos homens! Mas tal pensamento é tolice.
Mesmo que sob os efeitos do mundo em queda, ainda somos os mais felizes dos
homens, por causa de Jesus Cristo!
A morte dos filhos de Deus é, na verdade, a entrada deles no reino dos céus
de maneira plena! Nunca ela deve ser vista neles como pagamento de penalidade!

Diferença entre o Cristão e o Ímpio na morte Física


O cristão é um ganhador e o ímpio é um perdedor. Ambos morrem. Nenhum
deles escapa da morte. O Senhor é o mensageiro da morte para ambos. Ela vem
para o regenerado e para o irregenerado. Todavia, a morte para o cristão é a porta
através da qual ele tem acesso ao reino do céu; a morte para o ímpio é a porta
através da qual ele já toma posse parcialmente da condenação. Na morte o cristão
entra na companhia dos remidos glorificados, enquanto que os ímpios já
começam a sofrer a companhia dos pecadores, os que colhem a maldição. Na
morte o cristão entra na plenitude de alegria, e o ímpio na plenitude da tristeza. A
morte faz uma grande diferença entre eles. Os caminhos deles nesta vida são
diferentes, e o destino deles é absolutamente diferente. O ímpio anda em seus
próprios caminhos (Pv 14.14), caminhando para a condenação, tendo a sua vida
escondida no Maligno. O cristão anda nos caminhos do Senhor (Sl 1.1; Sl 119.1),
o caminho da negação e da renúncia do pecado e do “eu”, tendo a sua vida oculta
em Cristo Jesus. Por essa razão, o fim deles é diferente. É a diferença entre luz e
trevas, como o céu é diferente do inferno.
A morte vem para ambos, mas sela o fim diferente deles. Ela é portal de
separação para os ímpios e portal de vida para os cristãos. A morte em si mesma
é o pior pedaço para o cristão, enquanto que para o ímpio ela é apenas o começo.
O pior ainda está por vir. O primeiro é confortado na morte, enquanto que o

123
último é atormentado nela. Por causa do seu sofrimento o cristão pode ter o seu
inferno na terra, e o seu céu está por vir. Opostamente, o ímpio pode ter o seu
“céu” aqui na terra (Sl 73), enquanto que o seu inferno está determinado depois
da morte. O “inferno” do cristão limita-se apenas aos sofrimentos desta vida,
enquanto que o do ímpio os sofrimentos desta não são para compara com os que
vêm depois da morte.

PUNIÇÃO NA EXISTÊNCIA FUTURA


Os castigos até agora analisados têm a ver com esta presente existência, mas
a morte eterna é o único e o mais terrível de todos eles, pois trata-se da plenitude
da punição divina sobre os pecadores, que vem acontecer na existência futura
dos ímpios impenitentes.
Contudo, antes que a morte eterna se manifeste, aquele que morreu
fisicamente sem Cristo, já se encontra debaixo de punição, de maneira provisória,
esperando a sentença final de Deus sobre ele. Enquanto a ressurreição dos
ímpios não acontece, o corpo deles está sob a terra, e a alma deles já se encontra
sob castigo de Deus, mas não desfrutando ainda a plenitude dele. Esta verdade é
ilustrada na parábola do rico e de Lázaro. O texto sagrado diz que o rico, “no
inferno, estando em tormentos, levantou os olhos e viu ao longe a Abraão e Lázaro
no seu seio” (Lc 16.23). O tormento final, todavia, dar-se-á depois da ressurreição
dos ímpios, quando forem lançados no lugar próprio e definitivo dos condenados.

4. MORTE ETERNA
Esta morte eterna tem alguns nomes na Escritura: "Lago de Fogo" (Ap 19.20)
e "segunda morte" (Ap 2.11; 20.6, 14-15; 21.8); “condenação do inferno” (Mt
23.33); “lugar de tormento” (Lc 16.28);“inferno de fogo” (Mt 5.22); “fogo eterno”
(Mt 25.41)
O Lugar desse Castigo
Não sabemos exatamente onde é o lugar desse castigo, onde os condenados
haverão de existir para sempre em sofrimento. Contudo, usualmente, o lugar
desse castigo é chamado na Escritura de “inferno”. Há três palavras gregas na
Escritura que são traduzidas em nossas versões da Bíblia como inferno:
O uso da palavra grega Hades
1) A palavra grega a(/dhj (hades), também é usada pelos pagãos para
descrever inferno.
Na literatura grega, a palavra hades era descritiva de um mundo inferior, o
reino dos mortos, fossem eles bons ou maus. O Hades era descritivo de uma
esfera divida em duas categorias: a do elysium (para onde iam os bons), e a do
tartaro (para onde iam os maus). Embora alguns cristãos tenham assimilado essa
noção grega de hades, não há uma autorização da Escritura para esse
entendimento. A origem dessa divisão dos mortos em compartimentos veio
também de escritos da literatura judaica não canônica, onde os justos estão em
lugar separado dos ímpios, nos quais cada um deles experimenta um antegosto
do seu destino eterno.183
Usualmente a palavra hebraica sheol, que aparece muitas vezes do VT, é
traduzida pela LXX como Hades. “O VT oferece apenas umas poucas informações
a respeito do eterno destino do indivíduo, e maior parte da sua preocupação é

183 Observação de Fred Karl Kuehner, “Heaven or Hell?”, em Fundamentals of the Faith, editado
por Carl F. Henry, (Grand Rapids: Zondervan, 1969), 238. Verificar no livro de Enoch xxii. 1-14.
124
CURSO DE ANTROPOLOGIA

com o futuro dos justos antes do que dos ímpios.” 184 Portanto, não é
absolutamente claro nem único o uso que o VT faz da palavra sheol.
No Novo Testamento a palavra Hades se encontra Mt 16.18 como indicativa
do lugar onde Satanás reina, pois Jesus disse que as “portas do inferno (a)/dhj)
não prevalecem contra ela (igreja)” (Mt 16.18).
Ela também aparece em Lc 16.23, onde fala que o rico estava no “inferno”
(hades), o lugar próprio para onde vão aqueles que não temem a Deus. Ela é
usada para denotar provavelmente o lugar temporário para onde vão os mortos
ímpios que, posteriormente são levados para o seu destino final, que é o lago de
fogo, a segunda morte .
Ap 20.13-14 também menciona o termo hades, que é traduzido na versão
Revista e Atualizada de Almeida como “além” no v.13. No v.14 hades é traduzido
já como “inferno”. Este texto de Apocalipse sugere fortemente que hades se refere
ao lugar intermediário onde estão os espíritos desincorporados, antes de
entrarem no estado absolutamente final, que é o “lago de fogo”. 185

O Uso do Termo Grego Gehenna


A segunda palavra grega que trata do castigo final é gee/nna (gehenna), que
é usada somente na Escritura.186 Seu uso no NT não é descritivo dos tormentos
presentes do estado intermediário, mas refere-se aos tormentos do estado final. É
Jesus Cristo quem faz um uso abundante dessa palavra, todas as vezes em
conexão com os tormentos eternos. O uso dela é derivado do ensino sobre o “vale
dos filhos de Hinnom”, que era um lugar maldito onde os israelitas queimavam
seus filhos no fogo, em honra ao deus Moloque, e que Josias transformou num
vale de horror por causa da abominação ali cometida (2 Rs 23.10).
Jesus usa a palavra gehenna em Mt 5.22 (ge/ennan tou= puro/j) traduzida
como “inferno de fogo”; a mesma palavra aparece também em Mt 5.29-30, sempre
traduzida como “inferno”.187 Em Mt 18.8-9 Jesus torna a expressão grega th\n
ge/enan tou= puro/j (“inferno de fogo” - v.9) equivalente á outra expressão grega
pu=r to\ ai)w/nion ( “fogo eterno”- v.8), e contrasta estas duas expressões à idéia
de “entrares na vida” (v.8-9).
A idéia de sofrimento eterno dos ímpios está ainda mais clara no ensino de
Jesus em Mc 9.43-48. A expressão grega usada por Jesus, que é traduzida como
“inferno” é gehenna (v.43,45,47). Você deve ser recordar do Vale dos filhos de
Hinnon, e da idéia de fogo. Jesus diz com muita clareza que o fogo do Gehenna é
inextinguível (v.43, 48). Novamente estar no gehenna é contrastado com “entrares
na vida” (v.43, 45) e “entrares no reino de Deus”(v.47).
Em Mt 23 Jesus adverte os fariseus por causa da sua hipocrisia e
iniqüidade. Então, faz-lhes uma ameaça, usando para palavra gehenna para
mostrar a inescapabilidade desse tormento: “Serpentes, raça de víboras! Como
escapareis da condenação do inferno (gehenna)?”(v.33).
Não há como escapar ao fato de que estas passagens ensinam claramente a
realidade de um lugar onde os impenitentes haverão de passar eternamente. É
bom recordar que embora os tormentos do inferno sejam absolutamente reais,
devemos entender que alguns nomes usados (como “fogo” ou “verme”) usados
metaforicamente, não com sentido absolutamente literal.

184 Fred Karl Kuehner, “Heaven or Hell?”, em Fundamentals of the Faith, editado por Carl F.
Henry, (Grand Rapids: Zondervan, 1969), 238.
185 Ibid, 238.
186 Gehenna aparece 12 vezes no NT.
187 Das 12 vezes que esta expressão aparece no NT, 11 delas estão contidas no ensino de Cristo.

125
O Uso do Termo Grego Tártaro
A terceira palavra grega que trata do castigo final é ta/rtarw (tártaro - 2Pe
2.4) que, na linguagem pagã também era conhecida como o lugar para onde vão
os ímpios, uma subdivisão do hades pagão, o lugar próprio dos maus.
É importante que se creia que o inferno é um lugar real, não apenas um
estado, ou um ensino produto de uma ficção da igreja no decorrer dos séculos,
especialmente no período da Idade Média. Deus criou um lugar especialmente
para o diabo e seus anjos, mas para lá envia todos os ímpios impenitentes (Mt
25.41), embora não saibamos a localização dele. O inferno é mais do que um
estado. É um lugar, como o céu! Tem que ser um lugar, pois para lá vão pessoas
completas, isto é, pessoas físicas, que ocupam espaço. Não será um simples
mundo espiritual, mas um mundo físico, criado especificamente por Deus para
ser o lugar de habitação dos ímpios, juntamente com o diabo e seus anjos.

A PLENITUDE DESSE CASTIGO


No inferno o homem total sofrerá a manifestação plena da ira de Deus. O
corpo e alma humanos sofrerão a pena dos pecados. Jesus disse que Deus deve
ser temido, pois Ele é o único que pode fazer “perecer no inferno tanto a alma
quanto o corpo” (Mt 10.28). Isto quer dizer que a segunda morte é a morte do
homem total. É a separação final do homem completo de Deus.
É costume dizer que inferno é a ausência de Deus. Ao contrário. Deus estará
presente no inferno, mas será uma presença que infunde terror e ira (Ap 14.11).
É significativo que é dito que o Cordeiro estará presente, com uma presença de
juízo, no lago de fogo, onde existe o sofrimento eterno. É verdade que o texto da
Escritura diz que os ímpios “sofrerão penalidade de eterna destruição, (sendo)
banidos da face do Senhor e da glória do seu poder” (1Ts 1.9), mas eles serão
banidos de uma presença santificante e abençoadora. Deus estará presente
diante deles, porque eles poderão olhar para Deus (Lc 16.23-24), mas terão
sofrimento terrível pela presença aterradora de Deus. Ali não haverá qualquer
coisa doce ou consoladora, para aliviar-lhes. Eles estarão privados da doce
companhia de Deus. A companhia deles será de demônios e de outros espíritos
condenados, e todos juntos sofrerão a penalidade que lhes está reservada,
produto da ira divina sobre eles, por causa de seus pecados. Aos ímpios, Jesus
Cristo, o Cordeiro de Deus cheio de ira, dirá: “Apartai-vos de mim, malditos, para
o fogo eterno, preparado para o diabo e seus anjos” (Mt 25.41).

O TEMPO DESSE CASTIGO


À semelhança da morte física, esta morte eterna também é retardada,
reservada somente para o tempo do fim, depois que Deus colocar um final na
ordem presente das cousas.
Contudo, há um sentido em que os ímpios já assumem o castigo logo após a
morte física, indo para a condenação, à semelhança dos anjos maus. O texto é
claro quando diz que os anjos maus ficarão em “algemas eternas para o juízo do
grande dia” (Jd 1.6-7). Os homens também experimentarão o mesmo tormento, já
de caráter eterno, esperando apenas a completação dele que se dará no grande
dia final, quando terão os seus corpos adaptados para aquele sofrimento.
Esta verdade é ilustrada na parábola do rico e de Lázaro. O texto da
Escritura diz que

126
CURSO DE ANTROPOLOGIA

“aconteceu morrer o mendigo e ser levado pelos anjos para o seio de Abraão;
morreu também o rico, e foi sepultado. No inferno, estando em tormentos, levantou
os olhos e viu ao longe a Abraão e a Lázaro no seu seio” (Lc 16.22-23).
Com clareza o texto afirma que o rico foi sepultado (v.22) e, imediatamente,
afirma que ele estava no inferno, em tormentos. Isso demonstra que, ao mesmo
tempo em que os justos vão imediatamente para o gozo de Deus (que é o caso de
Lázaro - v.22), o rico foi imediatamente para os tormentos sem fim, apenas
esperando o juízo do grande dia.
Contudo, é preciso lembrar que os ímpios sofrem esse castigo parcialmente,
apenas no espírito, pois o corpo deles ainda não participa dele, pois está no pó.
Após a ressurreição final, que é a ressurreição para a vergonha e horror eterno
(Dn 12.2), os ímpios impenitentes serão lançados nesse lago, onde estão
juntamente o diabo e seus anjos.
A Escritura diz que após a morte e ressurreição dos ímpios eles entrarão no
juízo final, “porque está ordenado aos homens morrerem uma só vez e, depois
disto, o juízo” (Hb 9.27).

A DURAÇÃO DESSE CASTIGO


As tristes perdas dos ímpios serão para sempre. Eles não serão somente
miseráveis, mas miseráveis eternamente. Tanto os homens quanto os seres
espirituais caídos haverão de experimentar eternamente esse sofrimento, que é a
morte eterna, que não pode ser destruída (Ap 14.10-11; 20.10; Mt 25.41, 46; Mc
9.43-48; 2Ts 1.9; Hb 6.2; Jd 1.6-7; Ap 14.11).
Judas fala daqueles que são impenitentes como experimentando o amargor
do sofrimento como uma experiência infindável, sendo "duplamente mortos":
"Estes homens são como rochas submersas, em vossas festas de
fraternidade, banqueteando-se juntos sem qualquer recato, pastores que a si
mesmos se apascentam; nuvens sem água impelidas pelo vento; árvore em plena
estação dos frutos, destes desprovidas, duplamente mortas, desarraigadas; ondas
bravias do mar, que espumam as suas próprias sujidades; estrelas errantes, para
as quais tem sido guardada a negridão das trevas, para sempre" (Jd 12-13).
A razão dessa punição eterna pelo pecado é porque o pecado é cometido
contra um Deus eterno e infinito (1Tm 1.17), que requer uma satisfação infinita
e, portanto, eterna. Porque o ímpio pecou contra um Deus infinito, a sua
punição, portanto, é reconhecida como infinita. Nunca o homem terminará de
pagar a sua dívida com Deus, porque é dívida de alguém que continua pecador. O
débito do pecador não pode nunca ser saldado porque somente a obediência a
Deus poderia satisfazer a justiça divina. Todavia, ainda lá, no inferno, na
condenação, o homem haverá de estar contra Deus, insurgindo-se contra a sua
lei. No estado futuro, os ímpios haverão de pecar. Quando mais pecado há, mais
ódio existe contra Deus. João, no Apocalipse, dá uma idéia do que acontecerá no
destino eterno de ambos, dos justos e dos injustos: “Continue o injusto fazendo
injustiça, continue o imundo ainda sendo imundo; o justo continue na prática da
justiça, e o santo continue a santificar-se” (Ap 22.11). Os ímpios pagarão pelos
seus pecados, mas nunca terminarão de pagar porque para sempre se rebelarão
contra o Senhor.
A palavra grega gee/nna, que sempre é traduzida como inferno nas nossas
versões, nunca se refere ao tormento do estado intermediário, mas sempre à
punição eterna.

127
O Sentido da palavra “eterno”
A palavra grega ai)w/nion, que é traduzida como “eterno” aparece diversas
vezes no NT com respeito à vida e à morte. Qual é o sentido dessa palavra grega ?
No caso de combinação com a palavra “vida”, o termo ai)w/nion tem a conotação
de “vida imperdível”. O sentido, todavia, é mais do que de quantidade. Ela é a
vida plena da bondade de Deus, plena da comunhão com Deus. Contudo, não se
pode esquecer que ela contém a idéia de duração sem fim. Observe-se que em
1Co 15.53, as palavras imperecível (ou incorruptível) e imortal são sinônimas.
No caso de combinação com a idéia de “morte”, há a mesma conotação
qualitativa e quantitativa. Estes dois aspectos não podem ser esquecidos.

As Teorias dos Adversários das Penas Eternas


A teoria da Não-Punição
Os defensores dessa teoria não crêem numa punição futura, porque eles não
crêem em qualquer espécie de existência futura. Tudo termina por aqui. Esses
são os materialistas puros. Eles crêem que a alma, s e há alguma, é apenas uma
função do cérebro, ou uma parte de todo o complexo do organismo humano.
Quando o homem morre, tudo se acaba. Nem a recompensa futura existe, na
conta deles. Na verdade, esses não são cristãos. Então, eles não causam um
problema maior, exceto se estivermos em lugares de grande concentração de
materialistas.

A Teoria do Aniquilacionismo
Há outros que pensam que o pecado deve ser punido, mas eles são incapazes
de admitir a idéia de uma punição sem fim. Admitem uma recompensa de bem-
aventurança eterna. Eles são chamados dee aniquilacionistas. Eles crêem numa
ressurreição geral final, numa vida futura de gozo, que é o céu. Segundo eles,
somente os cristãos recebem uma existência eterna. Contudo, os ímpios serão
destruídos após a ressurreição final. A punição deles está em não poderem mais
existir.
Há alguns aniquilacionistas que sustentam que o homem foi feito um ser
mortal. De qualquer forma ele morreria. O pecado veio somente complicar a sua
finitude. A vida eterna é um dom que Deus dá aos que crêem e vivem
piedosamente neste mundo. A punição dos ímpios, contudo, é o fato de Deus se
recusar dar-lhes a vida eterna. A punição, então, é a privação da vida eterna, mas
não há um castigo positivo. Apenas a privação do que é bom.
Há ainda outros aniquilacionistas que admitem uma certa punição, não
aceitando, todavia, a punição sem fim. Esses são cristãos que aceitam todas as
outras verdades do cristianismo, exceto esta. Eles dizem que a doutrina da
punição eterna não está em consonância com o caráter de Deus.
Para eles, o adjetivo “eterno” em relação à punição não deve ser tomado
literalmente, mas somente como indicação de um longo período de tempo. O
outro argumento usado por eles é que as palavras “destruição” e “morte”
implicam numa cessação de existência.

A Teoria da Segunda Chance


Esta teoria é uma outra forma de aniquilacionismo. Após a morte, no estado
intermediário, aqueles que rejeitaram a verdade recebem a outra oportunidade
de fazer as escolhas certas. Porque Deus é um ser muito amoroso, aqueles que
morrem sem se arrepender, terão uma outra chance na existência futura. Os que

128
CURSO DE ANTROPOLOGIA

se recusam a isso na segunda chance, serão aniquilados, sendo lançados na


gehenna, o fogo que consome, ou poderão ter uma forma mais baixa de existência
eterna. No fundo, segundo essa teoria, Deus vai fazendo tentativas para tirar o
máximo de pessoas da destruição. A teoria do purgatório, no catolicismo romano,
é um exemplo bastante claro dessa idéia, mesmo embora, no purgatório as
pessoas não se arrependem, mas completam o sofrimento de Cristo, tendo a
chance de purgar os seus próprios pecados.

A Teoria da Redenção Universal


Estes crêem que no final todos haverão de ser redimidos. Esta é uma das
teorias mais antigas, vindo desde Orígenes, alguns anabatistas e muitos teólogos
do séc.XIX e, em geral, pela teologia moderna, que evita qualquer noção de
punição eterna.
Em geral, essas três últimas teorias usam argumentos como os que se
seguem:
1) O adjetivo eterno na Escritura, quando usado em conexão com punição,
não deveria nunca ser tomado literalmente, mas somente como uma indicação de
um tempo muito longo;
2) Tais palavras como “morte” e “destruição” implicam numa cessação de
existência;
3) A linguagem universalística é freqüentemente usada nas Escrituras.
4) A condenação eterna é contrária ao próprio ser de Deus, especialmente o
seu amor.

Objeções a essas teorias


1) Embora o termo grego ai)w/nioj (que é traduzido em nossas versões como
“eterno”) não signifique literalmente “um tempo interminável”, contudo, quando
usado em contraste com “vida eterna”, não pode significar outra coisa que não
“duração sem fim”. Este argumento está absolutamente claro em Mt 25.46 “E
estes irão para o castigo eterno, porém os justos para a vida eterna”. A menos que
neguemos a duração sem fim da bem-aventurança, teremos que aceitar a
eternidade, ou a duração sem fim da punição.
O texto de Ap 14.11 mostra uma outra conotação de eternidade de uma
outra forma, combinada com outras expressões: A expressão “Tormento pelos
séculos dos séculos” é a tradução da expressão grega ei)j ai)w=naj ai)w/nwn -
Esta expressão grega fala da duração da punição da besta e de todos os seus
adoradores, os ímpios, que é seguida de duas outras expressões que reforçam a
idéia de eternidade.
Ap 14.11 - “A fumaça do seu tormento sobe pelos séculos dos séculos, e não
tem descanso algum, nem de dia nem de noite, os adoradores da besta e da sua
imagem, e quem quer que receba a marca do seu nome.”
Um outro texto de Apocalipse repete as mesmas palavras e as mesmas
idéias, enfatizando a continuidade indefinida do tormento:
Ap 20.10 - “O diabo, o sedutor deles, foi lançado para dentro do lago de fogo
e enxofre, onde também se encontram não só a besta como o falso profeta e serão
atormentados de dia e de noite pelos séculos dos séculos.”
Há uma outra expressão da Escritura, além de ai)w/nioj, que evidencia que a
punição tem um caráter sem fim.

129
A expressão bíblica usa é Fogo Inextinguível - O texto de Mc 9.43, diz: “E se a
tua mão te faz tropeçar, corta-a; pois é melhor entrares maneta na vida do que,
tendo as duas mãos, ires para o inferno (gee/nan), para o o fogo inextinguível.” 188
Observe que gehenna é sempre conectado com penas eternas, nunca com o
sofrimento do período intermediário. Confira este texto com Mt 3.12.
2) As palavras “destruição” e “morte”, usadas pelos três teorias acima para
negar as penas eternas não é um argumento sustentável. A palavra “destruição”
(2Ts 1.9) não pode nunca significar aniquilação porque é alguma coisa que
acontece eternamente. Além disso, e uma expressão que pode indicar a qualidade
da existência sem Deus e sua graça. A palavra “morte” (Ap 2.11; 20.14 e 21.8)
também é indicativa de qualidade de existência sem Deus. Por essa razão, não
pode significar aniquilamento.

A CONDIÇÃO EM QUE SE SUPORTA ESSE CASTIGO


Além de ser um sofrimento de caráter perene, a Escritura dá-nos a entender
que ele será suportado de forma consciente. O texto de Lc 16.19-31, que narra a
parábola do rico e de Lázaro, ilustra de modo inequívoco a consciência em que
vivia nos tormentos do inferno (v.23-24). A conversa do ímpio em tormento com
Deus (v.25-31) reforça a idéia de o ímpio estar na plenitude de suas faculdades
mentais, a despeito da ausência do corpo.

Os sofrimentos desse castigo


Mt 7.23; Lc 13.27-28;
Lc 16.19-31 - Este texto da parábola de Jesus parece indicar que parte do
tormento do ímpio é ver o gozo dos remidos de Deus (ver também Lc 13.27-28). A
condenação tem a ver com uma espécie de privatio boni, a ausência do bem, ou
seja, a ausência dos benefícios da presença bondosa e benévola de Deus. A idéia
não é a de ausência de Deus, mas de ausência da presença confortadora dEle.
Os sofrimentos dos ímpios, contudo, não se limitam à simples ausência da
bondade de Deus, mas inclui um castigo positivo de Deus, onde o pecador sente
dores pela manifestação da ira divina (Mt 8.12; 22.13). Deus estará presente no
inferno não somente por causa do atributo da onipresença, mas porque compete
a Ele trazer punição sobre as criaturas impenitentes. Ele estará no inferno com a
presença de juízo, de ira, de manifestação do seu desagrado com o pecador
impenitente. O lugar de condenação é um lugar de trevas. Mesmo que essas
trevas não sejam consideradas literalmente, a idéia de trevas é dolorida, porque
significa a ausência daquilo que o homem mais aprecia - a luz. Luz é significativo
de vida, enquanto que trevas é de separação. O lugar de condenação, segundo o
texto acima, não é somente de ausência do bem, mas a presença da dor. A
expressão “choro e ranger de dentes” denota o sofrimento que o ímpio vai
experimentar.

Os Objetos desse castigo


Em resumo, podemos dizer que além do diabo, seus anjos, a besta e o falso
profeta (Ap 20.10), todos os pecadores impenitentes, os que não foram remidos
por Jesus Cristo, serão os objetos desse castigo.
João, o profeta, dá algumas sugestões específicas dos participantes deles

188 Os textos de Mc 9.44, 46 e 48 não se encontram nos melhores Manuscritos mais antigos. Por essa razão,
não usaremos como textos-prova do nosso argumento, a fim de não sermos contestados pelos adversários
das penas eternas.
130
CURSO DE ANTROPOLOGIA

Ap 21.8 - “Quanto, porém, aos covardes, aos incrédulos, aos abomináveis,


aos assassinos, aos impuros, aos feiticeiros, aos idólatras e a todos os
mentirosos, a parte que lhes cabe será no lago que arde com fogo e enxofre, a
saber, a segunda morte.”

Covardes (deiloi=j) Impuros (po/rnoij)


Incrédulos (a)pi/stoij) Feiticeiros (farmakoi=j)
Abomináveis (e)bdelugme/noij) Idólatras (ei)dwlola/traij)
Assassinos (foneu=sin) Mentirosos (yeude/sin)

Essa é uma classificação bastante ampla, embora não exaustiva. Mas ela
ilustra bem claramente quão sérios são alguns pecados muito modernos. Paulo
menciona uma outra lista que elimina do reino dos céus algumas classes de
pessoas. Essas, certamente, haverão de herdar a punição das trevas:
1Co 6.9-10 - “Ou não sabeis que os injustos não herdarão o reino de Deus?
Não vos enganeis; nem impuros, nem idólatras, nem adúlteros, nem efeminados,
nem sodomitas; nem ladrões, nem avarentos, nem bêbados, nem maldizentes,
nem roubadores herdarão o reino de Deus.

Injustos (a)/dikoi) Ladrões (kle/ptai)


Impuros (po/rnoi) Avarentos (pleone/ktai)
Idólatras (ei)dwlola/trai) Bêbados (me/qusoi)
Adúlteros (moixoi/) Maldizentes (loi/doroi)
Efeminados (malakoi/) Roubadores (a)/rpagej)
Sodomitas (a)rsenokoi=tai)
Na verdade, muitos crentes já haviam pertencido a algumas dessas
categorias, como o próprio Paulo diz no verso 12, mas foram justificados pelo
nome de Cristo e do Espírito. Contudo, aqueles que não foram remidos por Cristo
experimentarão o peso da ira divina, por causa dos seus pecados. A lista de
Paulo é apenas ilustrativa da multiplicidade de formas em que a maldade
humana se manifesta e é punida por Deus.

A INESCAPABILIDADE DESSE CASTIGO


A inescapabilidade desse castigo pode ser vista em dois sentidos:
1) Depois que alguém entra nessa morte, não mais há meio de sair dela. A
parábola do rico e do Lázaro mostra que é impossível reverter a situação. Deus,
representado na parábola por Abrão, disse ao rico em tormentos: “E além de
tudo, está posto um grande abismo entre nós e vós, de sorte que os que querem
passar daqui para vós outros não podem, nem os de lá passar para nós” (Lc
16.26). A idéia que Judas dá é de uma prisão de segurança absolutamente
máxima. Tanto os anjos maus como os ímpios estão presos em “algemas eternas”
(Jd 1.6-7), de forma que ninguém pode escapar desse lugar e da condição desse
castigo.
2) Todos aqueles que não tiveram os seus pecados pagos, certa e
inescapavelmente enfrentarão a “segunda morte” ou “o lago de fogo”.
Todos aqueles que não foram libertos da morte espiritual pela obra
renovadora do Espírito Santo, certamente haverão de experimentar essa morte
eterna. A única maneira de se evitar esta morte é ser nascido de novo. Quem é
tornado nova criatura é livre da morte eterna, mas dessa morte não há forma de
se escapar quando se entra nela.

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