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11/01/2019 Ernst Nolte e a historiografia revisionista | Blog Junho

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DEMIAN MELO HISTÓRIA POLÍTICA


Reinventar a esquerda

Ernst Nolte e a historiografia revisionista Na Europa, na Ásia, na Am


blogjunho.com.br
20 de agosto de 2016 8 min atrás 1,213 Visualizações
17 de out d

Demian Melo
Blog Junho
@BlogJunho
Neste 18 de agosto de 2016 morreu o historiador alemão Ernst Nolte (1923-2016), um dos mais Facebook nos disse que vocês andam com
importantes especialistas na história do fascismo no período entre guerras, autor da tese de que saudades...

entre 1917 e 1945 houve uma longa guerra civil europeia, a “segunda guerra de trinta anos”, 17 de out d
provocada pelo “bolchevismo”. E se essa última ideia alcançou grande repercussão mesmo entre
historiadores de esquerda,[1] sua interpretação tanto do fascismo quanto do comunismo é mais Blog Junho
controversa.[2] Não por acaso, nos anos imediatamente posteriores à dissolução da União Soviética @BlogJunho

aproximou-se da leitura do também conservador François Furet, para quem o comunismo e o A i h i l d


Incorporar Ver n
fascismo seriam “gêmeos totalitários” do século XX.

Nos anos 1980 a interpretação de Nolte do nazismo gerou uma importante polêmica pública na
República Federal Alemã, envolvendo historiadores, jornalistas e filósofos, sendo uma das
Selecione por colaborado
controvérsias mais visitadas nos debates sobre memória que inflacionam a historiografia
contemporânea desde aquela década até hoje. Conhecido como Historikerstreit (“A querela dos
Selecione
historiadores”), o debate foi provocado pela reação a um artigo que Nolte publicou no jornal
conservador Frankfurter Allgemeine Zeitung (FAZ). Publicado em junho de 1986, em “O passado
que não quer passar” Nolte apresentou sua tese de que o nazismo e mesmo o Holocausto foram
“cópias do bolchevismo”.[3] Publicizando teses que já vinha elaborando há algum tempo, o Últimos artigos
historiador alemão afirmava que o “nexo causal” entre as duas experiências seria uma suposta
similitude entre o “extermínio de classe” dos bolcheviques, face ao “extermínio de raça” dos Um feminismo para os 99%: as mu
nazistas, numa formulação que inegavelmente tem pontos de contato com a teoria do totalitarismo entrarão em greve em 2018
de Hannah Arendt, mas é preciso lembrar que o autor possuía uma conceituação própria sobre o
O feminejo feminista de Marília Me
assunto.
Como os Bolcheviques vencera

“Não foi o arquipélago Gulag anterior a Auschwitz? Não foi a ‘morte à classe’ dos bolcheviques o O papel da Fundação Roberto Mari
antecedente (Prius) lógico e fático da ‘morte à raça’ dos nacional-socialistas?”[4], indagou Nolte busca do consenso capitalista
no artigo de 1986. Além do mais, argumentou que massacres de massa foram comuns no século
XX, de que eram exemplos os realizados pelos Estados Unidos no Vietnã, por Pol Pot no Camboja A comuna de Baku

e o próprio Gulag soviético. Deste modo, em vez de ficarem com a eterna culpa face ao
Holocausto, os alemães (ocidentais) deveriam ficar em “paz consigo mesmos” e deixar o “passado
passar”. O sentido apologético deste procedimento revisionista é evidente. Temas

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Excêntrico de direita, discípulo do filósofo Martin Heidegger, Nolte já possuía uma influente obra Arte e Cultura
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sobre o fascismo quando publicou seu famoso artigo nos anos 1980, de que são exemplos os livros
Economia
Der Faschismus in seiner Epoche, de 1963, e Theorien über den Faschismus, de 1972. No livro de
1963, apresentou um conceito do fascismo como um fenômeno metapolítico (ou “transpolítico”), História
que compreendia uma resistência contra a modernidade, combinada à resistência ao que chama de
LGBTs
“transcendência prática”, o comunismo/marxismo.[5] Após 1968, sua obra teve uma inflexão
importante, tendo assumido posição central o argumento da precedência do “Terror Vermelho” à Meio Ambiente
Auschwitz. De acordo com Pier Paolo Poggio, o renascimento do marxismo nas universidades da
Movimentos Sociais
Alemanha Federal nos anos 1960 havia surpreendido Nolte, que, por esta época, teve constantes
choques com a juventude estudantil de esquerda.[6] Combater o marxismo para ele era uma Mulheres
urgência.
Negros(as)

Alguns elementos do contexto político da República Federal Alemã na década de 1980 são Política
importantes para entender o impacto provocado pela intervenção pública do historiador. No dia 8
Questões internacionais
de maio de 1985, quando das comemorações oficiais dos quarenta anos do fim da II Guerra
Mundial, o presidente norte-americano Ronald Reagan visitou as ruínas de um antigo campo de Socialismo
concentração em Bergen-Belsen e um cemitério de guerra de Bitburg, onde estavam enterrados
Teoria
“heróis” nazistas alemães. O episódio ficaria conhecido como “fiasco de Bitburg”, resultante de
uma aparentemente desastrosa intenção dos dois governos ocidentais de esquecer as antigas Trabalho
hostilidades que os levaram à guerra de 1939-1945, com o compromisso coetâneo comum de
combate ao comunismo.[7] Isso se combinaria à iniciativa do governo alemão (presidido desde
1982 pelo neoliberal Helmut Kohl) no sentido de construção do Museu Histórico Alemão em
Berlim e de um Centro de Memória em Bonn, monumentos que, indistintamente, rememorariam os
criminosos nazistas e suas vítimas.[8]

No verão de 1986, quando apareceu “O passado que não quer passar”, a Alemanha Federal estava
em clima pré-eleitoral,[9] e para os círculos oposicionistas (especialmente socialdemocratas) o teor
do texto de Nolte parecia uma grande provocação. O tema sensível do Holocausto judeu, evento
que Theodor Adorno entendia como potencialidade inscrita na dinâmica da modernização
capitalista,[10] mas que clamou para que nunca mais se repetisse,[11] aparecia nessa leitura
revisionista como algo normalizado. Embora distinto do negacionismo (uma mera manipulação), o
revisionismo nolteano não era menos comprometido politicamente.

Foi nesse contexto que o filósofo Jürgen Habermas, discípulo de Adorno, publicaria uma crítica no
semanário Die Zeit denunciando as “tendências apologéticas” do artigo de Nolte, assim como da
historiografia produzida por outros autores, como Michael Stürmer (1938 – ) e Andreas Hillgruber
(1925-1989), cujo propósito comum era o de normalizar o nazismo e o próprio Holocausto na
identidade histórica alemã.[12] Para o filósofo de Frankfurt, ao tornar o comunismo o “mal
absoluto” do século XX, Nolte e demais revisionistas alemães acabavam por tornar o nazismo um
“mal menor”.

Ao lado de Habermas na “querela” apareceram intervenções dos respeitados historiadores da


Escola de Bielefeld, Hans-Ulrich Wehler e Jürgen Kocka, além de Hans Mommsen, Martin
Broszat, Heinrich August Winkler, Wolfgang Mommsen, e até do presidente da Associação de
Historiadores Alemães, Christian Meyer. Como partidários de Nolte, o jornalista, biógrafo de Hitler
e editor do FAZ, Joachim Fest (1926-2006), Stürmer, Hillgruber, além de Klaus Hildebrand e
Hagen Schulze. O termo revisionismo, utilizado por Habermas, seria logo assumido por Nolte em
intervenções posteriores, ainda que para um e outro possuíssem acepções distintas. Sintetizando a
controvérsia, Wehler apontou o propósito dos revisionistas de aliviar a consciência alemã de sua
responsabilidade histórica, transferindo-a para as teorias de Marx, os comunistas e mesmo aos
socialdemocratas.[13]

Voltando ao cerne da argumentação nolteana, sua comparação entre o que Nolte chamou de
“exterminismos”, cujo propósito evidente é do responsabilizar o marxismo pelo nazismo (ainda que
não tenha incorrido na estupidez de afirmar que “o nazismo era de esquerda”)[14] torna-se
embaraçosa quando se constata que o movimento abolicionista do século XIX almejava, nestes
termos nolteanos, “exterminar” duas classes: a dos trabalhadores escravizados e a de seus senhores.
Seria razoável supor que o “exterminismo de classe” dos abolicionistas possa ser considerado um
antecedente das câmaras de gás em Auschwitz? É claro que não.

Em suma, não é muito difícil entender por que Nolte tenha sido lembrado por agências de notícias
como o autor de raciocínios que justificaram historicamente o nazismo, lembrando passagens desse
teor: “como o nazismo era a mais poderosa de todas as forças que se opunham ao bolchevismo, um

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movimento com grande apoio dos judeus, Hitler deve ter tido motivos racionais para atacá-los”.
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[15]

Notas

[1] Eric J. Hobsbawm. Era dos extremos – o breve século XX. São Paulo: Companhia das Letras,
1995. Domenico Losurdo. Il revisionismo storico. Roma-Bari: Laterza, 1996. Enzo Traverso. A
fuego y sangre. De la guerra civil europea, 1914-1945.

[2] Cf. Ernst Nolte. La guerra civil europea, 1917-1945. México: Fondo de Cultura Económica,
2001 [1987].

[3] Ernst Nolte. Vergangenheit, die nicht vergehen will. In Frankfurter Allgemeine Zeitung,
Frankfurt, 06 jun. 1986. Publicado no Brasil em ______. O passado que não quer passar. In Novos
Estudos CEBRAP, São Paulo, n. 25, p. 10-15, 1989.

[4] Nolte, O passado que não quer passar, op. cit., p. 14.

[5] Ver Ernst Nolte. O fascismo enquanto fenômeno metapolítico. In Antônio Edmilson Martins
Rodrigues (org.). Fascismo. Rio de Janeiro: Eldorado, 1974, p. 115-150.

[6] Píer Paolo Poggio. Nazismo y revisionismo histórico. Madrid: Akal, 2006, p. 213-214 e 227.

[7] Geoff Eley. Nazism, Politics and the Image of the Past: Thoughts on the West German
Historikerstreit 1986-1987. Past and Present, n.121, p. 171-208, nov. 1988, p. 175-176.

[8] Jacob Westergaard Madsen. The Vividness of the Past: A Retrospect on the West German
Historikerstreit in the mid-1980s. University of Sussex Journal of Contemporary History, n. 1, pp.
1-9, 2000.

[9] As eleições se realizaram janeiro de 1987, com a vitória dos conservadores e a continuidade do
gabinete de Kohl.

[10] Theodor W. Adorno; Max Horkheimer. Dialética do esclarecimento. Rio de Janeiro: Zahar,
1985.

[11] Theodor W. Adorno. Educação após Auschwitz. In Educação e emancipação. São Paulo: Paz e
Terra, 1995.

[12] Publicado no Brasil em Jürgen Habermas. Tendências apologéticas. Novos Estudos CEBRAP,
São Paulo, n.25, p. 16-27, 1989.

[13] Eley, Nazism, politics and the image of the past, op. cit., p. 177 e passin.

[14] Que é um dos principais ruídos produzidos pela direita nas redes sociais.

[15] Cf. “Morre aos 93 o historiador Ernst Nolte, que tentou justificar o nazismo.” Folha de S.
Paulo, 18/08/2016. http://bit.ly/2bpZoOS

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Wilson De Oliveira Neto


Meus cumprimentos pelo texto extremamente claro e didático.
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Leonardo Couto
Antes acreditava nas bobagens da propaganda oficial,bastou ficar exposto as provas dos revisionistas para mudar
muita coisa,parece que virei um.
Curtir · Responder · 1 a

Lauriston Junior
Quantos campos de concentração o movimento abolicionista do século XIX produziu? Embaraçosa é a tua
comparação esdrúxula.
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