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Apostila Mini Curso: Saneamento Básico - Introdução ao Tema

MODULO I – Visão Geral


Histórico e Definições

É histórica a relação entre o uso da água e a aglomeração de pessoas em povoados e cidades.


Apesar de ser uma prática antiga com registros de encanamentos e fontes públicas de água
desde a Roma antiga, o tempo revela que o saneamento básico foi tratado de forma
fracionada, tendo o abastecimento de água um maior enfoque, seguido timidamente pelos
serviços de coleta e tratamento de esgoto, e drenagem pluvial urbana. Provavelmente pela
importância primaz que a água representa para a manutenção de todas as formas de vida e
desenvolvimento de atividades humanas, dando prioridade ao “se servir” da água,
desprezando maiores preocupações com consequências do descarte desta água “já servida”,
sem atentar que este recurso é primordial à sobrevivência e sempre foi limitado. Ou seja:
acabou? acabou!

No Brasil, a lei do saneamento básico (lei 11.445/2007) considera em seu artigo 3º que
saneamento básico é um conjunto de ações relativas ao abastecimento de água potável, ao
esgotamento sanitário, à limpeza urbana e manejo de resíduos sólidos e à drenagem e manejo
das águas pluviais urbanas.

Entretanto, é importante frisar o forte vínculo entre saneamento básico e promoção de saúde,
vínculo este que pode ser monitorado através de controle de vetores de doenças entre outros
indicadores de saúde pública, o que auxiliam na manutenção da qualidade da prestação dos
serviços de saneamento básico.

Outrossim, o Manual de Saneamento da Fundação Nacional de Saúde – FUNASA – vinculada


ao Ministério da Saúde aborda dois conceitos importantes sobre saneamento, que
resumidamente define saneamento ambiental como sendo conjunto de ações relativas à
disciplina e uso do ocupação do solo, controle de doenças e proteção das condições de vida
para a promoção da salubridade ambienta, sendo esta relativa ao estado de qualidade do
meio ambiente capaz de prevenir doenças e promover condições favoráveis de saúde e bem-
estar social, tanto no meio urbano quanto no meio rural.

2B Educação – Rogério Pinheiro Borges


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Figura 1 – Ilustração das Definições de Saneamento

Interface com Infraestrutura

Para além do vínculo entre saneamento e saúde contido em disposições gerais da lei que
dispõe sobre saúde pública (lei 8.080/1990); decorre da boa higiene pessoal a mitigação de
doenças transmissíveis por meio hídrico a exemplo de amebíase, hepatite e cólera. Observa-
se também relação intrínseca do saneamento com a preservação do meio ambiente onde
cabe disciplinar o uso e a ocupação do solo, conforme preconiza a lei que dispõe sobre a
política nacional de recursos hídricos (lei 9.433/1997), com ações de controle de erosão para
evitar consequentes assoreamento de cursos d’água, certamente através de ações de
drenagem pluvial entre outras.

Ademais, e independente do exposto no artigo 4º da lei 11.445/2007 que exclui do


saneamento básico os recursos hídricos, é cediço que a propriedade legal dos lagos e rios que
banhem mais de um Estado é da União (art. 20, III da CF-Constituição Federal). Também é
notório a competência comum para União, Estados e Municípios a promoção do saneamento
básico, nestes contidos a prestação de serviço público de água e esgoto (art. 23, IX da CF).
Como se depreende, há o uso de um recurso natural entre diferentes setores de infraestrutura.

Dito isso, o recurso água detém característica de usos múltiplos proporcionando geração de
energia, transporte hidroviário, piscicultura, irrigação para atividades agropecuária, o que
demanda águas limpas. Assim sendo também é instrumento de potencialização do turismo

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com promoção de praias, rios e lagoas em condições de balneabilidade para prática de


esportes, contemplação e lazer.

Daí, pode-se evidenciar a inter-relação do saneamento com vários outros segmentos de


infraestrutura, possibilitando à este uma posição capaz de aglutinar promoção de
sustentabilidade que assegure acesso à água de qualidade para gerações futuras.

Figura 2 – Visão holística do Saneamento

O Ciclo da Água no Saneamento Básico

No que pese apenas os sistemas de água e esgoto, é importante especular no âmbito do


saneamento básico uma filosofia capaz de sustentar a prática deste negócio. Neste contexto,
ilustra-se o ciclo da água fundamentado em duas premissas intrínsecas às características deste
recurso: sua limitação e sua possibilidade de reciclagem. Ou seja, captar ÁGUA para abastecer
um mercado difuso e tratar ESGOTOS gerados por este mesmo mercado. Assim, instiga
representar dois macro processos cíclicos e entrelaçados: um servindo à necessidade de
consumo e outro possibilitando a sua perpetuidade.

Tal filosofia sinaliza envolvimento de um Fornecedor (o meio ambiente), seus Produtos (ÁGUA
e ESGOTO) e um Mercado difuso (consumo humano e outros propósitos).

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Figura 3 – Ciclo da Água - pensando fora da caixa

É interessante pensar no Fornecedor de forma estratégica pelo fato da conexão com interesses
socialmente prioritários, economicamente difusos e ambientalmente compartilhados, posto o
abastecimento humano, industrial, irrigação agrícola, dessedentação de animais, geração de
energia (hidroelétricas), transporte hidroviário, controle de enchentes (bacias de detenção),
mitigação de secas (barragens), contemplação, lazer, turismo, esportes, entre outros.

As múltiplas solicitações dos Produtos, tanto na retirada para uso da ÁGUA quanto na
devolução dos ESGOTOS ao meio ambiente em condições de reuso, sugerem estruturar
negócios que sejam qualitativa e quantitativamente eficientes, sem perdas nem desperdícios.

Por fim, o Mercado merece a atenção de sempre: manter o nível de serviço elevado com
qualidade e desempenho capaz de atender ao princípio legal da universalização de acesso
(art 2º da lei 11.445/2007).

Produto e Mercado têm uma relação de saúde e fomento ao desenvolvimento enquanto que
Produto e Fornecedor interagem, vistas à sustentabilidade. Todos em equilíbrio para assegurar
a preservação do ciclo com o maior benefício social e melhor impacto socioeconômico.

Cenários da Água

É notório saber que apenas aproximados 1% da água do planeta encontra-se disponível e


distribuída em rios, lagos e subsolo. Portanto, parcela da água doce e de fácil acesso ao uso.

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Figura 4 –Águas no planeta

Não obstante e aliado à isso, um outro dado. Segundo a Organização Mundial de Saúde,
apenas 68% da população global teve acesso em 2015 a algum tipo de serviço básico de
saneamento (OMS – Organização Mundial de Saúde (relatório de progresso de Água Potável,
Saneamento e Higiene – 2017 - http://www.who.int/mediacentre/news/releases/2017/launch-
version-report-jmp-water-sanitation-hygiene.pdf?ua=1).

Olhando para o Brasil, pesquisas do IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística –


referentes ao ano de 2008 sinalizam percentuais de municípios atendidos com algum tipo de
serviço de saneamento básico. No que pese o quesito água, 99% dos municípios revelaram
ter redes de distribuição, mesmo com atendimento intermitente ou acesso através de fontes
públicas. Sobre esgoto, 55% apresentaram redes coletoras, mesmo que ausente de
tratamento. E 94% dos municípios sinalizaram algum tipo de drenagem, considerando
pavimentação de ruas como forma de manejo de águas pluviais. (IBGE – Pesquisa Nacional do
Saneamento Básico / PNSB (2008 - https://www.ibge.gov.br/estatisticas-
novoportal/multidominio/meio-ambiente/9073-pesquisa-nacional-de-saneamento-
basico.html?=&t=series-historicas).

Dos percentuais expostos percebe-se uma qualificação reduzida do atendimento destes


serviços de saneamento básico a exemplo de municípios com redes de distribuição de água
porém pendentes de cobertura das ligações residenciais, municípios com redes de coleta de
esgoto ausentes de tratamento, e municípios com ruas pavimentadas entretanto pendentes
de sistemas de coleta, transporte e lançamento adequados das águas de chuva.

Isso confirma o histórico de prioridade dada ao sistema de abastecimento de água em


detrimento à baixa cobertura dos demais serviços de saneamento básico, prejudicando a
relação de saúde e sustentabilidade no ciclo do saneamento básico.

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Figura 5 –Cenário Nacional de Sistema de Água (IBGE/PNSB-2008)

Figura 6 –Cenário Nacional de Sistema de Esgoto (IBGE/PNSB-2008)

Figura 7 –Cenário Nacional de Sistema de Manejo de Águas Pluviais (IBGE/PNSB-2008)

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Arcabouço Legal, Atribuições dos Profissionais e Normas Técnicas

Importante conhecer o conjunto legal que aborda o saneamento.

Destaca-se a lei 11.445/2007 que estabelece diretrizes nacionais para o saneamento básico,
onde resumidamente:

 define princípios fundamentais da universalização do acesso para a prestação do


serviço público de saneamento básico (inciso I, art 2o);
 considera universalização do saneamento básico como sendo uma ampliação
progressiva de acesso dos domicílios ocupados (inciso III, art 3o);
 considera como saneamento básico um conjunto de serviços, infra-estrutura e
instalações operacionais para atendimento do abastecimento de água (desde a
captação até as ligações prediais e respectivos instrumentos de medição), do
esgotamento sanitário (desde a coleta, transporte, tratamento e disposição final
adequados com lançamento no meio ambiente), da limpeza urbana e manejo de
resíduos sólidos (desde coleta, transporte, transbordo, tratamento e destino final do
lixo doméstico e do lixo originário da varrição e limpeza de logradouros e vias
públicas), e da drenagem e manejo de águas pluviais (desde de transporte, detenção
ou retenção para o amortecimento de vazões de cheias, tratamento e disposição final
das águas pluviais drenadas nas áreas urbanas). (alíneas a, b, c e d, inciso I, art 3o).

O artigo 4º desta lei aparta os recursos hídricos da prestação de serviços públicos de


saneamento básico, mas a Constituição Federal (CF) envolve no espectro do saneamento,
quando:

 estabelece em seu inciso III do artigo 20 como bens da União, os rios e lagos em
terrenos de seu domínio ou que banhem mais de um Estado;
 determina em sua alínea b, inciso XII art. 20 como competência da União aproveitar o
potencial hidroenergético dos cursos de água em articulação com os Estados;
 determina também no seu art. 23 como competência comum da União, Estados
Distrito Federal e Municípios, proteger o meio ambiente e combater a poluição em
qualquer de suas formas (inciso VI), e promover o saneamento básico (inciso IX), entre
outras coisas;
 estabelece em seu artigo 30 a competência aos Municípios para prestar serviços
públicos de interesse local (inciso V) - nestes inclusos os de saneamento básico - bem
como promover controle do uso e ocupação do solo urbano (inciso VIII),
 estabelece ao sistema único de saúde participar da formulação da política e da
execução das ações de saneamento básico (inciso IV, art 200)

À luz da hierarquia legal percebe-se na CF uma interação entre o saneamento básico e


questões de saúde, geração de energia, e proteção ambiental que extrapolam os limites
definidos como prestação de serviço público contidos na lei 11.445/2007. Isso corrobora a
necessidade de ter uma visão sistêmica e sinérgica do saneamento com diversas outras áreas.

Diversas outras leis e planos nacionais surgiram ao longo do tempo objetivando adaptar a
evolução natural das necessidades com as regras técnicas e ordenamentos jurídicos.

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Com efeito, percebe-se também a variedade de assuntos que demanda dos profissionais
atuantes no setor, desde planejar ao executar ações de saneamento atendendo não apenas à
prestação dos serviços públicos de saneamento básico, mas respeitando as interações com
demais serviços vinculados à saúde, geração de energia, transporte, proteção do meio
ambiente, controle do uso e ocupação do solo.

Neste sentido, a regulação dos profissionais de engenharia que militam no setor de


saneamento é ampla e se dá através de instrumentos legais, a saber:

 Decreto 23.569/1933 - Regula Exercício das Profissões de Engenheiros, Arquitetos e


Agrimensor;
 Lei 5.194/1966 - Regula Exercício das Profissões de Engenheiros, Arquitetos e
Engenheiro-Agrônomo;
 Resolução Confea nº 218/1973 - Discrimina atividades das diferentes modalidades
profissionais da Engenharia, Arquitetura e Agronomia;
 Resolução Confea nº 310/1986 – Discrimina as atividades do Engenheiro Sanitarista.

Deste bojo, destacam-se competências profissionais da engenharia relativas à elaboração de


projetos, direção, fiscalização e construção de obras, perícia e arbitragem, ensino, elaboração
de orçamento, planejamento e desenhos técnicos, entre outras atribuições.

Figura 8 – Linha do tempo do Arcabouço Legal

Surge então a necessidade de estabelecer normas capazes de descrever procedimentos


conforme limites, premissas e parâmetros técnicos que espelhem a reprodução de tarefas e
ações em diversas áreas da ciência, indústria e serviços, entre elas as atividades de engenharia
vinculadas ao saneamento.

Cria-se então em 1994 para essa finalidade a ABNT – Associação Brasileira de Normas Técnicas
– dedicada a disseminar metodologias consagradas e processos inovadores, contribuindo para
a produção segura, padronizada e confiável.

No que concerne ao saneamento básico, há na ABNT um comitê específico voltado à


normalização de suas atividades, compreendendo desde o tratamento e abastecimento de
água; coleta, tratamento e disposição de esgoto doméstico e de efluentes industriais; e
passando por aterros para resíduos industriais e sólidos. Vai além quando aborda também
sobre especificação de materiais e métodos de ensaio, projetos e procedimentos para
execução, instalação e manutenção de serviços afins.
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Bibliografia

• Manual do Saneamento – Ministério da Saúde – Funasa – Fundação Nacional de


Saúde, 3ª Edição / 2004

http://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/manual_saneamento_3ed_rev_p1.pdf

• Agencia Nacional de Águas – ANA - Ministério do Meio Ambiente (MMA)

http://www3.ana.gov.br/

• IBGE - Pesquisa Nacional de Saneamento Básico - PNSB

https://www.ibge.gov.br/estatisticas-novoportal/multidominio/meio-ambiente/9073-
pesquisa-nacional-de-saneamento-basico.html

• Ministério das Cidades – Secretaria Nacional de Saneamento Básico

http://www.cidades.gov.br/saneamento-cidades

• CONFEA – Conselho Federal de Engenharia e Agronomia

http://www.confea.org.br/

• Planalto da República - Acervo a Legislação

http://www2.planalto.gov.br/conheca-a-presidencia/acervo/legislacao

• ABNT – Associação Brasileira de Normas Técnicas

http://www.abnt.org.br

• INMETRO - Instituto Nacional de Metrologia, Qualidade e Tecnologia

http://www.inmetro.gov.br

2B Educação – Rogério Pinheiro Borges

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