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exatamente a imortalidade, mas a O mesmo Castro Alves que

perenidade de quase clássicos. abençoou quem semeia livros


Todos esses seis cavalheiros e “manda o povo pensar”.
EDITORIAL têm em comum mais do que a Pernambuco tem contado
indiscutível qualidade de suas ao longo do tempo com muitas
Um homem do obras: o fato de que foi em Per- publicações periódicas e es-
porádicas de literatura, mas
nambuco nasceram, ou definiram
seu tempo sua vocação para a literatura, e muito poucas monográ­ficas.
aqui escreveram seus livros, to- Hexágono preenche não
Da cultura popular-erudita dos ou uma parte deles. Desses, uma lacuna, mas uma ne-
à erudita-popular, ação e a dois foram “pernambucanizados” cessidade dos novos e velhos
reflexão cominham sempre e “recifencizados”, para usar uma leitores: o saber mais profun-
juntas na obra de Hermilo expressão tão cara a Gilberto damente quem foram e o que
Borba Filho Freyre. Ariano Suassuna, parai- fizeram esses autores.
bano; César Leal, cearense, ambos Quando escrevemos “pro-
viram e sentiram o que o baiano fundamente” não queremos
Castro Alves viu, sentiu e cantou dizer aquele tipo de aborda-
no século anterior ao deles: gem que tem como algo um
“Pernambuco! Um dia eu vi-te público muito restrito, de ini-
Dormindo imenso ao luar, ciados. “Profundamente” aqui
Com os olhos quase cerrados, quer dizer algo mais simples
Com os lábios — quase a falar... e menos pretensioso: o con-
Do braço o clarim suspenso, trário do superficial. O sério.
— O punho no sabre extenso O concentrado. O dedicado.
De pedra — recife imenso, Mas com uma linguagem a
Que rasga o peito do mar... “ mais clara, didática e atual.
Não tem Hexágono a am-
bição de esgotar nenhum as-
Um país se faz com ho- sunto. O ensaio é longo, sim,
mens e livros: esta frase mas não em demasia; mais
reverberou em várias ge- ou menos do tamanho do
rações. Seria um excelente que costumam ser os artigos
mote para campanha de in- acadêmicos. Mas, de propó­
centivo à leitura. Mas talvez, sito, escrito numa linguagem
para quem não a ignora, te- não acadêmica.
nha de ser completada: um É bom que um leitor que
país se faz com homens, mu- nunca leu César Leal, nem
lheres, e todos os demais gê- Ariano Suassuna, nem Os-
neros existentes e por existir, man Lins, nem Hermilo Bor-
e com livros, revistas, blogs, ba Filho, nem João Cabral,
websites, redes sociais etc. nem Luís Jardim, encontre no
Sim, o mundo, o Brasil e ensaio um guia seguro para
Pernambuco são mais com- uma iniciação. Que acom-
plexos do que nos tempos de panhe na cronologia o que
Luís Jardim, João Cabral de houve de principal na vida e
Melo Neto, César Leal, Hermilo Conscientização e luta. na obra do autor, no aspecto
Obra que trata intelectual, obviamente. Que
Borba Filho, Ariano Suassuna
do cotidiano do povo
e Osman Lins. Mas o fato de encontre na fortuna crítica
brasileiro é uma das
suas obras continuarem vi- uma espécie de “sumo”, ou
principais marcas
vas para as novas gerações e na trajetória do de “síntese” dos muitos exer-
o novo século é uma das pro- pernambucano cícios de interpretação sobre
vas de que alcançaram não Hermilo Borba Filho. o autor. Que a bibliografia
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Com palavras de ordem,
2 os gritos e os gestos, os insatisfeitos
com o golpe civil-militar decretado
no Brasil em 1964, todos os que tinham ou O percurso de Hermilo
não coração de estudantes, Hermilo Borba Filho:
em direção ao centro
resistiram e insistiram em derrubar uma cronologia
a ditadura, tendo a liberdade de sua geração
como a grande bandeira.
Ensaio de Thiago Corrêa
Hermilo e a força
me o projeto original, de pelo menos duas política da arte

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gerações. Com isto ampliamos o horizonte
Entrevista com
do olhar, de modo a termos pelo menos um
esboço de mapa da literatura que se fez e Luís Augusto Reis
se faz em Pernambuco.
Uma literatura que se faz com todos os
gêneros, como dissemos. Por isso, adian­
tamos o boa notícia: a segunda série de
Hexágono cuidará de seis autoras, das
mais variadas áreas da Litera­tura como
o romance, o conto, a crítica literária, o
teatro, a poesia e a crônica. Clarice Lis- Bibliografia comentada:
pector, Maria do Carmo Barreto Campello
ensaios, artigos

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de Mello, Celina de Holanda, Francisca Izi-
dora Gonçalves da Rocha, Edwiges de Sá e livros de & sobre Hermilo Borba Filho:
Pereira e Ladjane Bandeira, analisadas Hermilo Borba Filho Fortuna crítica
também pela crítica conceituada de Per-
nambuco de, pelo menos, duas gerações.
Hermilo Borba Filho viveu apenas 58
anos. O seu centenário de nascimento,
completado neste 2017, serviu para lem-
brar da extraordinariamente rica obra
que ele escreveu como romancista, dra-
maturgo, ensaísta, jornalista, tradutor. E
sirva tanto para que conhe- cronistas, críticos literários. também seu trabalho como encenador, ou,
ça o que publicou o autor e Sempre que possível aspec- num sentido mais amplo, na cultura, eru-
alguns dos que se ocuparam tos não óbvios, ou mesmo no- dita-popular, popular-erudita.
de analisar sua obra, mas vos, são trazidos à tona. Como certos autores do início das van-
também como um ponto de Temos em Hexágono, um guardas russas, era homem de ação, e
partida para que possa rea- convite à viagem com auto- não só de reflexão e especulação. Mostrou
lizar a própria pesquisa. Que res que têm também outro que a beleza não “foi feita somente para
na entrevista aprenda, de ponto em comum: são nacio- se contemplar” (a despeito do verso de Fer-
modo mais coloquial e infor- nais e internacionais, a par- nando Pessoa). A beleza não é uma musa
mal, aspectos os mais varia- tir de Pernambuco. Não há inatingível e abstrata, é uma mulher de Hexágono, revista literária em seis volumes, agradece, nesta edição, aos colaboradores Thiago Corrêa, pelo ensaio crítico; Luís
dos em torno desses escrito- nisto nem o complexo de can- carne e alma, carnavalesca, séria e bur- Augusto Reis, pela entrevista; a Patrícia Cruz Lima, pela direção de Arte, a Halina Beltrão pela ilustração da capa, Miguel Falcão
tar ou contar a aldeia para lesca, com uma inteligência viva e irre- pela caricatura de Hermilo Borba Filho e a Joãomiguel Pinheiro pela fotografia. Hexágono é uma publicação da Somnium Editora, e tem
res que elegemos.
cantar ou contar o mundo, incentivo do Funcultura, Fundarpe, Secretaria de Cultura e Governo do Estado, com produção-executiva da Nós Pós, de Alexandre
Conquanto modesta em verente. As novas gerações de leitores
Melo. A edição-geral, pesquisa e projeto gráfico são de Sidney Rocha. Esta publicação não tem ânimo financeiro de nenhuma espécie
sua proposição, Héxagono mas a natural ressonância a encontrarão em Hermilo um “igual”, um
e é distribuída gratuitamente para estudantes e professores de escolas públicas, além de bibliotecas das redes estadual e municipal.
não se limita a listar o mais partir da estética. “irmão”, se é a excelência que buscam. Em Buscou-se ao máximo se encontrar a autoria de reproduções de fotografias, fotomontagens ou obras de arte, e fazemos chegar nossos
evidente e reconhecido so- Os críticos convidados a Hexágono tem um bom ponto de partida agradecimentos aos seus autores ou autoras. Se você encontrar este exemplar em lugar impróprio à leitura, ou se é seu e
bre esses poetas, romancis- escrever ou conceder depoi- para descobri-lo ou reencontrá-lo: Hermi- terminou de lê-lo, favor repassá-lo a outro leitor. Impresso pela Cepe Editora, no Recife, no bicentenário da Revolução Pernambucana.
tas, contistas, dramaturgos, mentos à revista são, confor- lo sempre, bem vivo.
4 O PERCURSO DE HERMILO 5

EM DIREÇÃO AO CENTRO
DA SUA GERAÇÃO
Diante das recentes rado pouco fértil para as
conquistas dos prosa­ narrativas em prosa.
dores nascidos e radica- Essa pecha só co-
dos em Pernambuco nos meçou a ser vencida
principais prêmios na- graças a uma geração
cionais (aí estão Sidney de autores que reunia
Rocha e Marcelino Frei- nomes como Gastão de
re com seus Jabutis; Rai­ Holanda (1919-1997), Gil-
mundo Carrero, Miche- van Lemos (1928-2015),
liny Ve­runschk, Débora Osman Lins (1924-1978),
Ferraz e Ronaldo Correia Ariano Suassuna (1927-
PALMARES
de Brito com o Prêmio São 2014), e Hermilo Borba
Paulo de Literatura; Eve-
rardo Norões e José Luiz
Passos com o Prêmio Por-
1917/ Filho (1917-1976) [os três
últimos, somados a João
Cabral de Melo Neto, fa-
tugal Telecom e Mário zem parte desta série
RECIFE
Rodrigues com o Prêmio de Hexágono]. Hermilo,
Sesc para provar); chega
a ser estranho constatar
que nem sempre tenha
1976 ainda que seja o mais
velho desse apanhado
e, junto com Gastão de
sido esta a narrativa nas Holanda, talvez já não
páginas da história. cana não conseguia se do ba­iano Jorge Amado pudesse ser encaixado
Embora o passado firmar aos olhos da críti- e do paraibano José Lins no conjunto da geração;
te­nha nos rendido um ca publicada nos jornais do Rêgo (ainda que este, Hermilo se alinha cro-
autor como Carneiro Vi- da época, agonizando em boa medida, tenha nologicamente a eles
“[...] o nome de Her- lela, conhecido por sua em meio a comparações se formado intelectual- devido à sua estreia
milo Borba Filho parece obra-prima A empareda- que revelavam distân- mente na Faculdade de tardia como escritor. De
tragado pelo fluxo das da da Rua Nova, publicada cias e abismos. Direito do Recife). Espre- todos eles, é o penúltimo
águas dos rios poluídos em livro pela primeira De um lado, intimida- mida entre essas duas a ter um livro de prosa
que cortam a capital vez em 1886; Pernam- va-se pela largura dos forças, a produção ficcio- publicado, já aos 40 anos
pernambucana, ora afo- buco era visto apenas versos de Ascenso Fer- nal pernambucana pas- de idade. Quando Os ca-
gado no fundo em meio a
como uma terra de poe- reira, Manuel Bandeira sou despercebida pela minhos da solidão (que
garrafas e copos plásti-
cos jogados às margens
tas. Até as décadas de e das lâminas afiadas e crítica da época, crista- marcou a estreia de
do Capibaribe; ora 1950 e 1960, a produção a pleno vapor de João Ca- lizando a ideia de que o Hermilo no campo da
descoberto, evocando em prosa pernambu­ bral de Melo Neto. Do ou- nosso solo era conside­ literatura) saiu em 1957
certo passado glorioso tro, perdia-se em meio
da cultura que hoje se às sombras longilíneas POR THIAGO CORRÊA.
encontra coberto de projetadas pelas obras Jornalista, escritor e edi-
lama, revelando-se de dos nossos vizinhos, tor. Mestre em Teoria da
tempos em tempos de como a do alagoano Gra- Literatura, pela Universi-
acordo com as ciliano Ramos, da cea- dade Federal de Pernam-
alternâncias da buco. Atual­mente, edita a
rense Rachel de Queiroz,
maré.” [TC] Revista literária Vacatussa.
fim de continuar os es- Electra no circo, depois Sol- Com a experiência
6 tudos, seguiu para o Re- dados da retaguarda junto prática de ter partici­ 7
cife, com a indicação de com Valdemar de Oli- pado tanto do Grupo Nos-
Miguel Jasselli para in- veira (que lhe rendeu o sa Gente de Samuel Cam-
gressar no Grupo Gente prêmio Agamenon Ma- pelo e do TAP, somada à
Nossa, dirigido por Sa- galhães, concedido pelo bagagem cultural acu-
muel Campelo. Lá, tra- Ministério do Trabalho), mulada desde os tempos
balhando como ponto O círculo encantado e Vi- de Palmares; tornava-se
(ganhando 2 mil réis por das cruzadas; todas em natural para Hermilo
semana), ele conhece e 1944. Mais do que ter a exercer esse papel de
estreita amizade com oportunidade da prá­ mestre. Pri­ meiro atra-
pela editora José Olympio; Gastão onde entrou aos 7 anos de idade, Valdemar de Oliveira, tica num grupo produti- vés do TEP, onde, exer-
de Holanda já havia conquistado além das lições para ler e escre- que anos depois, com o vo como o TAP, a experi­ cendo a função de diretor
o Prêmio Centenário de São Pau- ver, ele aprendeu a se defender. encerramento das ati- ência dá – pela negação artístico a partir de 1945,
lo pelo romance Os escorpiões em Numa das suas lembranças, com- vidades do Gente Nossa, – a Hermilo uma cons- Hermilo passa a convi-
1954, Osman Lins publicara O visi- partilhada pela professora Sônia fundaria o Teatro de ciência dos problemas ver com Gastão de Holan-
tante, em 1955 que havia ganhado Maria van Dijck Lima, ele conta Amadores de Pernam- enfrentados e do papel da e Ariano Suassuna.
o Prêmio Fabio Prado e dividido que, seguindo os conselhos do ir- buco (TAP). que o teatro deveria Em conversa com
o segundo lugar de um con­curso mão Ruy, apelou para a violência Nesse período de exercer na sociedade, o jornalista Urariano
promovido pela Secretaria de no intuito de se defender de um transição, entre o Gen- fomentando, ali, o que Mota, em 1989, Ariano
Educação e Cultura de Pernam- colega que havia lhe alisado as te Nossa e o TAP, Her- viria a ser o seu projeto descreve Hermilo como
buco, em 1952, junto com Gilvan pernas. milo aceita o convite do artístico, devolvendo o a um guru da sua ge­
Lemos, que por conta própria Aos poucos, na medida em que Grupo Cênico Espinhei- teatro ao povo, recons- ração, revelando que
publicaria Noturno sem música em foi se alfabetizando, a violência rense, de Augusto de truindo-lhe a sua função fora ele quem o apresen-
1956, mesmo ano em que Ariano cedeu espaço a novos recursos de Al­meida, para dirigir o política e não apenas tara à obra de Federico
Suassuna concluía o romance A defesa e expressão. Já no ginásio, espetá­culo Fruto proibido, como mero entreteni- García Lorca: “Hermilo
história de amor de Fernando e Isaura em 1932, ele ingressa no grupo de Oduvaldo Viana. Já mento burguês. foi uma espécie de guru,
(obra que só viria ganhar a forma teatral Sociedade de Cultura de como membro do TAP a A ideia lhe rendeu o para mim e para a mi-
de livro em 1994). Palmares sob a batuta do seu en- partir de 1942, Hermi- convite para se tornar o nha geração. O Teatro do
Apesar da estreia tardia na tão professor de francês Miguel lo trabalha como ator, diretor artístico do Tea- Estudante, os meus pri-
literatura, Hermilo exerceu um Jasselli, que exerceu um impor- traduz peças e escreve tro do Estudante de Per- meiros trabalhos, têm
papel central nessa geração. tante papel na sua formação, com seus próprios espetá- nambuco (TEP). De modo muito a ver com essa re-
Nascido em 8 de julho de 1917, a orientação de leituras, conver- culos, começando por que, ao ingressar no TEP lação muito rica que eu
no Engenho Verde, localizado no sas e incentivos. Uma relação que em 1945, apesar da pou- possuía com Hermilo. Eu
município de Palmares, Zona da encontrava complemento nos ho- ca diferença de idade devo muito a Hermilo”.
Mata Sul de Pernambuco, Her- rizontes do acervo do então Clube em relação a alguns dos Depois, já como pro-
milo Borba Carvalho Filho era o Literário de Palmares, nutrindo a seus colegas da Facul­ fessor do curso de Teatro
filho mais novo do casal Hermilo fome de aprendizagem e leituras dade de Direito do Recife da Escola de Belas Artes
Borba de Carvalho e Irinéa Por- do jovem Hermilo. Enquanto se (Gastão de Ho­landa era da Universidade do Re­
tela de Carvalho. Ao nascer, a embrenhava em tragédias gre- apenas dois anos mais cife, cargo que ele pas-
família já amargava os sinais de gas e clássicos da literatura, na jovem), Hermilo já tinha sa a ocupar a partir de
decadência da economia cana- Sociedade de Cultura de Palma- seu lugar reservado no 1958, Hermilo conhece
vieira, de modo que pouco pode res ele, aos poucos, foi tendo opor- meio intelectual do Re- Osman Lins, que figura-
desfrutar do status de menino de tunidade de se colocar em prática. Lígia Nunes e Luiz cife, visto como um pro- va como aluno da pri-
engenho. Do passado glorioso de É lá onde ele dá início a sua longa Pinho em João sem missor homem de tea- meira turma de drama-
outrora, o que lhe chegava eram relação com o teatro, primeiro co- terra. A peça, de tro, com experiência de turgia, embora já fosse
Hermilo Borba Filho, palco como ator, di­retor, um escritor premiado e
apenas histórias embebidas no meçando como ponto, depois como
inaugurou o Teatro dramaturgo e pensador, estivesse às voltas com
tom amarelado da nostalgia. ator e finalmente como drama-
Duse, em 1952. protagoni­zando muitos o desenvolvimento do
Sem a autoridade do sobre­ turgo e diretor, levando aos pal-
nome que um dia evocara, Her- cos a peça Felicidade, em 1935. embates em artigos com seu terceiro livro. Um
Fotógrafo não
milo aprendeu desde cedo a se vi- No ano seguinte, quando pre­ Valdemar de Oliveira, convívio que se revelou
identificado.
rar. Na Escola do Professor Pinho, cisou se mudar para o Recife, a Cedoc/Funarte do TAP. protocolar no início e,
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UM HOMEM DO TEATRO
posteriormente, já por meio nacional, autor da monu- discussões tensas (a exem- Esquecido nos acervos escuros e empoeirados de teatro, com experiência de palco como ator no
de correspondências, apro- mental obra “Um cavalhei- plo dos relatos sobre os de- dos sebos ou, quando muito, pela simples refe­rência Teatro de Amadores de Pernambuco (TAP), encena-
fundou-se em diálogos, con- ro da segunda decadência”, bates acirrados com Ariano a um dos teatros capengas do centro do Recife; o dor, tradutor e autor de peças. O tipo de espetá­culo
fissões, análises e explicações tetra­logia que veio confir- nos bastidores do TEP, assim nome de Hermilo Borba Filho parece tragado pelo realizado pelo TAP no palco do Teatro de Santa Isa-
sobre os projetos de ambos mar sua posição de um dos como a já citada constatação fluxo das águas dos rios poluídos que cortam a capi- bel para distrair a sociedade recifense, fomenta-
ao longo de 16 anos. “Faláva- maiores romancistas bra- de Osman Lins), a presença tal pernambucana, ora afogado no fundo em meio ram em Hermilo certa angústia. Tal qual uma ostra,
mos de nossos planos, do que sileiros”, es­creveu Gilvan, de Hermilo sempre sus­citou a garrafas e copos plásticos jogados às margens do ele absorveu essa impureza de espírito e, a partir
estávamos reali­zando, opiná- em artigo sobre os 20 anos certa influência, mesmo Capibaribe; ora descoberto, evocando certo passa- dela, passou a construir novos caminhos para o tea-
vamos – nunca de maneira da morte de Hermilo. que tenha sido por oposição, do glorioso da cultura que hoje se encontra cober- tro. “Eu tinha chegado à conclusão de que o reper-
extensa – sobre os trabalhos Apesar do curto convívio ajudando os interlocutores to de lama, revelando-se de tempos em tempos de tório eclético do TAP estava marcando passo, não
do outro, às vezes eu ques- deles, o brilho de Hermilo a repensarem suas ideias acordo com as alternâncias da maré. progredia. Eu estava então estudando mais seria-
tionava as suas diretrizes e ainda é capaz de iluminar e fortalecerem seus pontos Uma displicência que parece negar a impor- mente, mais profundamente, e achei que o caminho
ele as minhas, mas sempre o inseguro Gilvan, ajudan- de vista. De uma maneira tância das suas realizações como homem de tea- não era aquele”, recordou Hermilo em entrevista
aceitando com respeito às do-o na publicação de A ou de outra, assumindo uma tro, pensador e escritor. Por ser este o ano do seu publicada no Suplemento Cultural.
mútuas diferenças”, relem- noite dos abraçados com seus posição central que se deve,
centenário de nascimento, talvez 2017 seja um pe- Essas discordâncias ganharam corpo durante a
braria Osman Lins no artigo contatos na editora Globo, em boa medida, à experiên-
ríodo de maré baixa capaz de nos permitir entre- participação de Hermilo como conferencista da Se-
“O invencível Hermilo”, escri- na divul­ gação de O defunto cia singular de vida de Her­
ver o cadáver na lama. É bem provável que essa mana de Arte Popular, ocorrida no Recife, em meados
to após a morte de Hermilo. aventu­reiro e Os olhos da treva milo. A trajetória que ele
importante efeméride abra novamente janelas da década de 1940. Apesar da chuva que desaguou
Já no fim da vida, num através de sua coluna sobre per­correu dentro e fora dos
encontro fortuito na casa livros no Diario de Pernam­ palcos lhe fornecia o peso ne- no jornalismo cultural da cidade para os feitos de dos céus naquele dia, Hermilo apresentou suas ideias
do também escritor Renato buco e no aconselhamento cessário para orientar os co- Hermilo Borba Filho, engrossando o coro a esta re- para uma escassa plateia no Gabinete Português de
Carneiro Campos, Hermilo que fi­zeram Gilvan cortar legas e se tornar item indis- vista que você, leitor(a), tem em mãos. Leitura. Com o título de “Teatro, arte do povo”, a confe-
conhece Gilvan Lemos. “Con- um capítulo de Os olhos da tre- pensável à análise dos seus O que possivelmente virá a reboque de outras rência ressoou nas mentes que não se intimidaram
fesso que sua presença, de va. Ainda que esse convívio feitos para entender os fei- ações, servindo como tema de debates, homena- com a chuva e dali surgiu a ideia de retomar as ati-
início, me assustou. (...) Her­ não tenha sido exatamente tos de sua geração e, por que gens e lançamentos. Talvez assim, quem sabe, vidades do TEP, dando-lhe um caráter mais engajado
milo era Hermilo Borba um mar de rosas, mas per- não?, da cultura pernambu- seja possível ressuscitá-lo no campo das ideias, politicamente e com preocupações mais voltadas aos
Filho, escritor de projeção meado por divergências e cana no século 20. tra­zendo-o novamente para o debate, para as temas regionais, ao mesmo tempo em que se propu-
discussões acadêmicas e, tomara, devolvê-lo aos nha atualizar o teatro brasileiro em relação ao que
co­chichos maliciosos ao pé de orelha e às conver- vinha se apresentando na Europa, instaurando por
sas em mesas de bar, regadas a cerveja, uísque, aqui os princípios da modernidade.
cachaça e copos de gim tônico. No romance A porteira do mundo, segunda par-
Mas afinal, o que há por trás desse nome? Por que te da tetralogia “Um cavalheiro da segunda de-
a necessidade de despertá-lo dos mortos? O que ele cadência”, onde Hermilo faz uma espécie de ba­
fez de tão importante no passado para ter seu cente- lanço da sua vida e do seu tempo histórico, ele
nário lembrado? Por que ele virou nome de teatro? assim explica o seu entendimento sobre o teatro,
O Teatro do Estudante
E, principalmente, o que tudo isso diz respeito ao meu confessando as influências do poeta e dramaturgo
acreditava em
duas coisas:
tempo? Para falar da importância de Hermilo Borba espanhol Federico García Lorca: “O teatro era uma
não se podia falar em Filho, não se pode deixar de passar pelo seu trabalho arte popular, com o seu caráter de coletividade,
teatro nacional sem no teatro, nem ignorar pontos como o Teatro do Es- arte de um homem para a massa, devendo ser di-
autores brasileiros; tudante de Pernambuco (TEP) e do Teatro Popular do rigido ao povo, cujo instinto do espetáculo é muito
naquele estágio, era mais Nordeste (TPN). Do mesmo jeito que, para se falar do desenvolvido (...). Já não estávamos mais na época
aconselhável levar teatro em Pernambuco, e mesmo no Brasil, não pode da torre de marfim, quando prevalecia a concep-
teatro ao povo do que se deixar de pontuar o nome de Hermilo. ção da arte pela arte, o artista não podendo ficar
esperar que o povo Quando, em 1945, Hermilo aceita o convite para indiferente às aspirações da humanidade, à luta,
viesse ao teatro ser o diretor artístico do TEP, ele já era um homem ao sofrimento” (p. 171).
Com a retaguarda de uma geração que logo digamos, trincheiras inimigas, enxergando os ar- de Oswald de Andrade e do en- e A Cabra Cabriola, estas encena- tudos que fiz”, reconheceu Her-
10 encandearia a cultura pernambucana com seu tifícios e estratagemas dessa arapuca em que a gajamento de teóricos do quilate das num só espetáculo e escritas milo em entrevista. 11
talento, reunindo nomes como Joel Pontes, Capiba, economia estava se metendo. de um Tristão de Ataíde, Sergio por Hermilo em parceria com Ao mesmo tempo, o contato
Lula Cardoso Ayres e Aloisio Magalhães – além Algo que Hermilo combateu durante toda a Buarque de Holanda e Graça José de Moraes Pinho e Pelópidas com essas produções também
dos já citados Gastão e Ariano – entre os mem- vida e, mesmo já beirando a morte, tinha a lu­ Aranha, dando “consistência, sín- Soares. fez com que Hermilo, como um
bros do TEP, Hermilo pode colocar em prática cidez para assim sintetizá-la, em entrevista à re- tese e nitidez” ao movimento; por Com as dificuldades finan- bom crítico, filtrasse aquele
suas ideias. No dia 13 de abril de 1946, o grupo vista Veja em 1975, publicada uma semana depois outro ele reconhecia que, justa- ceiras do TEP, o grupo encerra conteúdo e, diante das suas dis-
ence­nava na Faculdade de Direito do Recife suas da sua morte: “Os caminhos para se combater o mente por não ter tido esse esco- suas atividades. Hermilo então cordâncias, fortalecesse a sua
primeiras peças sob a batuta do novo diretor ar- que os ensaístas já vêm chamando de “cultura de- po crítico, o regionalismo se de- se muda para São Paulo em luta no desenvolvimento de um
tístico: O urso, de Anton Tchekhov e O segredo, do pendente” são longos e difíceis. Eu tento lutar con- senvolveu de maneira natural. 1953. Nessa temporada, ele tra- teatro nacional. Algo que fica
espanhol Ramón José Sender. A escolha servia, tra isso, mas estou como que num poço de lama, “O que ele criou – se na verdade balha nos jornais Última hora, explícito nessa passagem do ro-
como se verificaria no futuro, um bom cartão de cada vez mais envolvido, ou metido em areias criou alguma coisa – foi apenas Correio Paulista e na revista Visão mance O cavalo da noite: “o teatro
apresentação do que foi o TEP, respondendo logo movediças, que, a cada movimento, engolem uma uma espécie de atmosfera nova, como crítico teatral; o que lhe embrenhando-se cada vez mais
de início a duas propostas do grupo, como a mo- parte do meu corpo. Os trustes e as multinacio- que fez muitos dos homens novos permite acompanhar de perto num caminho burguês nause­
dernização da arte teatral no país a partir da en- nais (forma eufemística de trustes) me envolvem do Nordeste – e mesmo alguns o que estava sendo produzido ante, a técnica desenvolven-
cenação de clássicos (a exemplo de Tchekhov) e do por todos os lados. (...) É por isso que à pasta de den- dos velhos – começarem a ver no país. Em especial, as ações da do-se graças à importação de
seu viés político, aproveitando o palco como pla- tes eu oponho o mistério noturno do Bumba-meu- sob uma nova luz a gente e as companhia Teatro Brasileiro de encenadores estrangeiros, mas
taforma para a discussão de ideias e problemas -boi. À lâmina de barbear, um boneco que fala. coisas, a paisagem e o passo de Comédia. “Esse meu contato com a dramaturgia nacional mar-
do seu tempo (a exemplo da obra de Sender, que Aos molhos e aos enlatados, um doente de amor sua região e do seu país; e tam- os diretores estrangeiros que cando passo ou arremedando os
se passava num campo de concen­tração nazista e que se atira da torre da igreja e se vê voando, bém os problemas do seu tempo”, vieram para cá, tudo isto me modelos franceses e norte-ame-
dialogava bem com o clima de acirramento políti- atravessando o rio, pairando, desaparecendo no avaliava Freyre. deu uma perspectiva muito boa ricanos” (p. 144).
co do Brasil após o Estado Novo). horizonte.” O fato é que, em seu es­forço do que seria a problemática de E foi lá mesmo, em São Paulo,
Aos poucos, outra preocupação passa a nortear Para o pesquisador Luís Reis, contudo, esse para estimular o surgi­ mento uma encenação, ao lado dos es- que ele passa a pôr em prática
as ações do grupo. “Depois o Teatro do Estudante interesse pela cultura popular que norteou as de dramaturgos brasileiros
partiu para um repertório que se preocupava ações do TEP é reflexo também das ideias lança- e obras que falassem sobre a
com os clássicos e o autor nacional, principalmente das pelo sociólogo Gilberto Freyre no seu Mani- realidade daquela época, o TEP
o nordestino. O Teatro do Estudante acreditava em festo Regionalista. “Procuramos defender esses dava continuidade ao propó­
duas coisas: primeiro, que não se podia falar em valores e essas tradições, isto sim, do perigo de sito do Movimento Regionalista:
teatro nacional sem autores brasileiros; segundo, serem de todo abandonadas, tal o furor neófilo de “pretendíamos uma arte teatral
que, naquele estágio, era mais aconselhável levar dirigentes que, entre nós, passam por adianta- nova para o Nordeste. E não so-
teatro ao povo do que esperar que o povo viesse dos e ‘progressistas’ pelo fato de imitarem cega e mente uma nova arte teatral,
ao teatro”, explicou Hermilo em entrevista ao Ser- desbragadamente a novidade estrangeira”, afir­ mas um novo romance, uma
viço Nacional de Teatro, nos anos 1970. mava Freyre em seu Manifesto, de 1926. nova poesia, uma nova música,
Na tentativa de ampliar esses dois vetores, Embora não fosse bem uma influência direta uma nova pintura”, explica o
de desenvolver um teatro de caráter nacional, nem explícita por parte dos integrantes do TEP, narrador-personagem Hermilo
ao mesmo tempo em que revigorava o propósito essa busca pelas tradições acompanhavam os em A porteira do mundo.
do palco em sua origem grega, encarando a arte ventos modernos soprados pela Semana de Arte Para isso, o TEP se valeu tan-
cênica como uma ferramenta política e social, Moderna de 1922, que foram desviados, a seu to de um concurso para peças
Hermilo enxergou na cultura popular uma saí- modo, por Freyre, incluindo aí uma preocupação teatrais, com a sugestão de que
da viável para estabelecer contato com o povo, com as peculiaridades e os costumes regionais. os concorrentes tratassem de
já acostumado com essa linguagem e possivel- Uma abrangência que, duas décadas mais tarde, temas nordestinos; como de con-
mente mais interessado em temas que fizessem em 1947, sem citar especificamente o trabalho do versas com mestres da cultura
parte do seu ambiente, do seu cotidiano, compac- TEP (até porque esse ainda era incipiente na épo- popular e de peças es­critas pelos
tuando com as suas preocupações diárias. ca), em artigo para o Diario de Pernambuco, o pró- próprios integrantes. Em meio a
Nesse sentido, as manifestações populares se prio Freyre atestava, ao fazer uma comparação montagens de espetáculos de Ib-
tornavam, aos olhos de Hermilo, a solução para do movimento modernista com o regionalismo, sen, Lorca, Sófocles e Shakespea-
a teia que o capitalismo vinha tecendo no Brasil, reconhecendo algumas fraquezas frente aos re- re; o TEP encena Cantam as harpas
com suas multinacionais e apelos publicitários sultados obtidos pelos paulistas. de Sião, de Ariano Suassuna; Haja
para o fortalecimento das marcas, que ele tão Se de um lado ele observava uma adesão qua- pau, de José de Moraes Pinho; O
bem denuncia em algumas passagens de “Um ca- se de seita (o que, para Freyre, não era visto com vento do mundo e Três cavalheiros
valheiro da segunda decadência”, valendo-se das bons olhos) por parte dos modernistas, devido ao a rigor, ambas de Hermilo; mais
experiências profissionais do personagem em, empenho de Mario de Andrade, da genialidade a tríade O galo capeta, Mãe da Lua Razor blade (1976), de James Nitsch.
.
“Para o pesquisador
12 Luís [Augusto] Reis, esse 13
interesse pela cultura
popular que norteou
as ações do TEP é reflexo
também das ideias
lançadas pelo sociólogo
Gilberto Freyre
no seu Manifesto
Regionalista.

essas ideias, principalmente, ao dirigir o Auto preocupação estética em relação – não mais
da Compadecida, de Ariano Suassuna para apenas ao texto em si – mas à encenação: “a
o Studio Teatral de Nélson Duarte. “Eu não busca do espetáculo não ilusionista, mas mui-
tinha dúvidas de que a peça inaugurava o to menos baseado em Brecht do que nos mes-
até então inexistente teatro popular, popular tres do Bumba, e nos leguedelas de pastoris, e
não significando o fácil ou meramente políti- nos capitães de fandango, e assim por diante.
co”, aponta Hermilo em sua versão ficcional Quer dizer, espetáculos que se baseassem ain-
em O cavalo da noite. da em autores clássicos e da região, mas com
Quatro anos depois, Hermilo retorna para o espírito e a técnica dos espetáculos popula-
o Recife, para lecionar no Curso de Teatro da res do Nordeste”. Nessa fase, foram encena-
Universidade do Recife. Em 1960, junto com das peças de Dias Gomes, Gogol, Ibsen, Antônio
antigos parceiros do TEP, a exemplo de Aria- José, Sílvio Rabelo, Osman Lins, José Bezerra e
no Suassuna, Gastão de Holanda e Capiba, dos próprios membros do TPN, Ariano e Her-
Hermilo funda o Teatro Popular do Nordeste. milo (este, como o espetáculo O cabo fanfarrão).
No TPN, eles primeiro retomaram os princí- Além de responder – ainda que indireta-
pios do TEP, dedicando-se a obras clássicas e mente – aos sopros do Regionalismo, os tra-
abrindo espaço para dramaturgos nordes- balhos promovidos por Hermilo no TEP e no
tinos. Nesse momento, encenam A pena e a TPN para a inclusão de elementos da cultura
lei, de Ariano; A mandrágora, de Maquiavel; popular no diálogo com outras matrizes cul-
O processo do diabo (conjunto de três peças de turais, dava movimento a uma roda que, de-
um só ato, escritas por Ariano, José Carlos pois, voltaria a ser retomado em novos ciclos
Cavalcanti Borges, José de Moraes Pinho e artísticos, a exemplo do Movimento Armorial,
Hermilo, responsável pelas ligações entre as de Ariano Suassuna, nos anos 1970; e o Man-
peças), Município de São Silvestre, de Aristóte- guebeat de Chico Science e Fred Zeroquatro,
les Soares e A bomba da paz, de Hermilo, que na década de 1990. Cada qual em seu tempo,
depois a classificaria como um erro. respondendo aos anseios da época, com suas
Numa segunda etapa, segundo o próprio características e propostas específicas; todos
Hermilo, após cinco anos de estudos sobre a eles buscaram nas manifestações culturais
arte dramática popular, o TPN ganha uma uma forma de se inserirem no mundo.
QUANDO A LITERATURA SE IMPÕE
14 15

Em entrevista concedida nos anos 1970 ao Ser­ sua cidade natal, Palmares. Em de- por conflitos de terra e disputas nalista de 1926, reconhece, em
viço Nacional de Teatro, realizada pelos atores Mar- terminado momento, ele afirma: políticas, em meio à promessa de artigo para a revista O Cruzeiro,
cos Siqueira, Carlos Reis e o jornalista Celso Marconi; “Eu sentia que estava no caminho instalação de uma estrada de fer- as diferenças exploradas por
Hermilo Borba Filho afirma: “de repente, descobri certo pelo menos na tentativa de ro na região. Hermilo. Mas, ao contrário de As-
que não era realmente um dramaturgo”. Apesar renovar o romance nordestino” Pela recepção que Os ca­minhos sis Brasil, não deixa de abraçá-lo
da vida dedicada ao teatro, dos feitos realizados no (p. 97), depois diz: “tudo ainda era da solidão alcançou, tem-se a im- como regionalista, observando
Teatro do Estudante de Pernambuco e no Teatro Po- muito confuso em minha cabeça, pressão de que Hermilo conse- que as mudanças, na prática, não
pular do Nordeste, e já com diversas peças escritas e os personagens fugidios, as situa- guiu pôr em prática suas inten- interferiam no seu fim de valo-
publicadas, Hermilo, humildemente, reconhecia que ções apenas esboçadas, a certeza ções. Franklin de Oliveira, no rizar o regional, em seus temas,
“tinha, sem dúvida, um certo talento para dirigir es- somente de que meu livro teria Correio da Manhã (RJ), atenta justa- personagens e ambientes: “um
petáculos”, porém logo enfatizava novamente: “Mas de fugir à linha naturalista do mente para os esforços do autor romance que, nada tendo de es-
não era dramaturgo”. Segundo ele, essa constatação romance nordestino, interessan- em se distinguir do romance re- treitamente regionalista no sen-
coincide com o início de suas atividades de escritor: do-me mais o homem que o meio, gionalista: “Em vez de aprofundar tido de caipirista, é regional no
“Na verdade, eu era muito mais romancista do que mais seus fantasmas que suas a sondagem do social através do sentido telúrico. Sente-se nele não
dramaturgo”. anedotas, mais seu monólogo inte- sociológico, seguindo a tradição só o Nordeste, em geral, como Per-
Embora tenha levado quase 40 anos para des­ rior que seus diálogos, o persona- mais viva da ficção do Nordeste, o nambuco em particular. Mas um
cobrir isso, a experiência com o teatro permitiu que gem seria muito mais que o sim- sr. Hermilo Borba Filho aprofunda Pernambuco que não se apresen-
Hermilo pavimentasse os seus horizontes como es- ples fundador de uma cidade: um a análise do social lançando os da- ta: faz-se sutilmente sentir”.
critor, impulsionando sua estreia em altos voos, inau- homem que desse nascimento a si dos da análise psicológica”. O mes- Do alto da sabedoria do tempo,
gurando-se como autor de ficção já pela importante mesmo” (p. 128). mo raciocínio faz José Condé, uma ao escrever O cavalo da noite, uma
editora carioca José Olympio. O que garantiu ao ro- A obra é marcada por uma semana depois, em sua coluna no década após a sua estreia literá-
mance Os caminhos da solidão (1957), desde o início, uma temática rural. No romance, mesmo jornal carioca: “embora a ria, Hermilo observava que seu
boa distribuição e divulgação, rendendo visibilidade Hermilo conta a história de An- trama do romance se desen­volva esforço para fazer de Os caminhos
em jornais locais e veículos nacionais e boas venda- dré Monte, numa tentativa de no ambiente rural nordestino, da solidão uma obra de ruptura
gens. O romance, por exemplo, aparece duas vezes contar a história de formação de perfeitamente caracterizado em acabou se perdendo enquanto
na lista dos livros de autores nacionais mais vendi- Palmares, a cidade natal do au- felizes descrições, estamos diante desenvolvia o livro: “atormentava-
dos no Rio de Janeiro, publicada pelo jornal Tribuna tor. Após se envolver numa rede de drama psicológico, de um em- me com a possibilidade de fazer
da Imprensa, em dezembro de 1957, em meio a nomes vinganças da família, contada em bate de almas angustiadas, tan­ do meu romance aquilo que eu
como Érico Verissimo e Rachel de Queiroz. trechos de monólogo interior; ele gidas por um destino impiedoso”. imaginara a princípio, quando as
O fato viria a ser analisado pelo próprio Her­milo começa a vagar pelo mundo, até De maneira semelhante, mas letras não estavam no papel, meus
anos depois e figura nas páginas da sua série de ro- que decide se instalar nas mar- com efeito diferente; o escritor fantasmas não eram uma força
mances confessionais “Um cavalheiro da segunda gens de um rio, nas terras de um piauiense Assis Brasil compar­tilha viva, as palavras não me obede-
decadência”. No terceiro volume, O cavalo da noite, o coronel. Apesar da tensão inicial, da mesma opinião que Oliveira e ciam, as situações me escapavam,
autor, metamorfoseado em personagem, revela que ele passa a trabalhar para o co- Condé sobre o desvirtuamento de tudo porque estava cheio de livros,
está escrevendo um romance sobre a fundação da ronel, numa rotina permeada Os caminhos da solidão em relação construindo um romance com os
ao regionalismo. Contudo, entende mesmos termos de Dumas, Ham-
que essa mudança seja um ponto sun, Tolstói, Faulkner, intoxicado de
negativo: “Livro que não continua influências com os olhos fitos na
Henry Miller (1891 – 1980).
O escritor norte-americano
a tradição dos romancistas do crítica e não na vida, somente o
com quem Hermilo Borba Nordeste, não por ser um avanço, título se salvava, Os caminhos da so-
Filho era frequentemente e sim por representar um retro- lidão, indicando-me que o romance
comparado. Ambos cesso, uma quase volta às origens era o homem” (p. 198).
tinham um estilo marcado dessa escola literária”. O curioso é que Hermilo pare-
pela mistura de Gilberto Freyre, por sua vez, ce explicar essa tomada de cons-
autobiografia com ficção. como autor do Manifesto Regio- ciência não a partir das críticas
recebidas pelo livro, mas às opi- por parte dos colegas: “Você não ideal tirar sua arte do ambiente Pelos comentários escritos sobre o livro na época, observa-se que a tendência do realismo má-
16 niões de um grupo a que o perso- é você mesmo, fica procurando intelectual, Hermilo, em vez de que a mira de Hermilo se aproximava daquilo que ele pretendia. gico vinha alcançando no Brasil, 17
nagem é convidado a participar, gente a quem copiar e o resulta- relevar essas críticas, atribuin- Ainda que o romance insista numa divisão de tempos narrativos, devido ao sucesso de Cem anos de
através de Mário, um dos operá- do é uma barafunda dos seiscen- do-as apenas ao desconhecimento como observa o crítico Walmir Ayala (“A narrativa explica-se em solidão (1967) do colombiano Ga-
rios da gráfica da revista onde tos mil diabos”, diz um deles após dos operários em relação às téc­ dois tempos através de uma viagem em que metade é presente e briel García Márquez.
Hermilo trabalhava. o autor tentar se explicar citando nicas literárias e ao “analfabe­ metade é memória”); o autor parece já apresentar algumas carac- Ainda assim, mesmo com essa
Verídico ou não, esse encontro Joyce e Virginia Woolf, “tudo isto é tismo” interpretativo que lhes terísticas que mais tarde serviriam de matéria-prima para a sua nova roupagem, a atitude política
revela a preocupação artística do coisa de intelectual e o que a gen- incapacitavam de diferenciar tetralogia. Por exemplo, a maneira de narrar o sexo (elogiada na não esmorece em Hermilo.
autor, mais afeito aos comentários te quer é uma literatura que fale ficção de realidade; ele as enca- coluna Revista dos Livros, publicada no Correio da Manhã: “As cenas O que se revela com certa
do povo do que a opinião dos críti- do homem, dos homens”, afirma ra como uma aprendizagem, co- de amor entre Jó e Júlia, descritas sem vulgaridade, aproximam-se timidez no jogo de aparências
cos e acadêmicos. outro, “Seu livro é reacionário!”, locando em xeque sua postura do real”), o conflito moral em que se encontra o personagem (algo da primeira novela, O almirante,
Em oposição à quase totali­ acusa um já embebido em vinho, como autor, incapaz de se fazer que se torna evidente na última parte da tetralogia) e, novamente, onde o velho Siri, trajado em seu
dade das críticas “oficiais” terem “Se é que posso dar um conselho, entender pelo povo, traindo-se ao na sua não adesão total aos preceitos regionalistas, como aponta a uni­forme para representar seu
sido favoráveis, ele se mostra diria para você não imitar nin- responder apenas a anseios do pesquisadora Sônia Maria van Dijck Lima: “Ainda que a paisagem papel no folguedo natalino do fan-
constrangido diante do choque guém e escrever um livro com a seu meio intelectual. seja nordestina, a obra afasta-se da classificação regionalista à me- dango, é confundido com um almi-
de realidade causado pelas ob- sua própria marca, um livro que Lições que Hermilo só conse- dida que mergulha nos conflitos humanos, na análise dos comporta- rante da marinha.
servações do grupo. “Acho que ajudasse o povo e não que doesse guiria concretizar em narra­tiva mentos diante da transgressão de valores”. E, de forma mais explícita, em
vocês, escritores, vivem muito na cabeça como esse doeu na mi- quase dez anos depois. Entre Os ca- Com esses testes realizados, Hermilo então parte para a série de O general está pintando. Nessa nove-
no mundo da lua”, diz Mário, que nha”, aponta o mais velho. minhos da solidão e o início da tetra- quatro romances que compõem “Um cavalheiro da segunda deca­ la, o final abrupto, em justaposição
depois afirma: “seu livro não vai O que era motivo de exaltação logia “Um cavalheiro da segunda dência”, onde ele finalmente consegue dar corpo aquilo que pretendia, com uma narrativa mais lenta
dizer nada ao povo”, dando iní- por parte da crítica, a exemplo da decadência”, o escritor ainda per- afinando questões literárias com políticas. A experiência de catarse (desdobrando-se em aconteci-
cio uma rajada de reprimendas inserção de trechos de monólogo correria um longo caminho. parece ter sido tão marcante para a carreira de Hermilo que, depois, mentos que despertam a curiosi-
interior para tratar do passado Primeiro em 1958, quando lan- ele abandona esse estilo e reaparece com O general está pintando, em dade dos moradores de uma cida-
do personagem André; mostra o ça História de um Tatuetê, que, publi- 1973, dando início ao que depois seria chamado de “trilogia de novelas de do interior.
distanciamento que essa técnica cado pelo Gráfico Amador, quase fantásticas”, completada por Sete dias a cavalo (1975) e As meninas do so­ De tão surreal, ela nos permi-
impunha aos operários, gerando não foi comentado no noticiário brado (publicado postumamente, em 1976). te a leitura de apontar para a crí-
dúvidas e confusões. Com a gran- nacional. E depois, em 1964, com Diferente do que ele construíra na tetralogia, O general está pin- tica da ironia, denuncia a empáfia
deza de um artista que tinha por Sol das almas, onde Hermilo conta tando reúne 12 novelas, escritas com tom mais ameno, misturando dos militares, seu distanciamento
a história do pastor protestante humor, tipos humanos peculiares e histórias que flertam com o clima em relação aos interesses da so-
Jó, dividido pelos ensinamentos provinciano típico das cidades do interior. ciedade e da brutalidade do seu
de Deus e a paixão pela mulher Outra mudança significativa é a aparição de elementos fantásti- autoritarismo.
de um amigo. A narrativa é con- cos, como nas novelas O arrevesado amor de Pirangi e Donzela ou o morce- E isso, vale ressaltar, em plena
duzida seguindo os trilhos de uma go da meia-noite e de Sete dias a cavalo, talvez como reflexo da projeção ditadura militar.
viagem de trem, de fato realizada
pelo pastor, como uma espécie de
fuga física e subjetiva.

O general está pintando,


de 1973, inicia uma
trilogia, de novelas,
mais ao realismo
mágico, seguida por
Sete dias a cavalo,
publicada em 1975, e
As meninas do sobrado,
publicada em 1976,
depois da morte de
Hermilo Borba Filho. Entrada do campo de concen­tração nazista de Auschwitz-Birkenau. Hermilo encenou peças como O segredo, do
espanhol Ramón José Sender, que dialogava bem com o clima de acirramento político do Brasil após o Estado Novo.
18 A VIDA E A OBRA 19

DO CAVALHEIRO EM
QUATRO VOLUMES
Numa das últimas entre- de Hermilo, investindo as transformações significativas ocorridas no
vistas dada por Hermilo Borba numa linguagem mais Brasil e no mundo ao longo de quase 30 anos
Filho, só sendo publicada uma visceral, nutrindo sua fic- do século 20. Aliado a essa busca por veraci-
semana após a sua morte; o ção com mais veracidade, dade, Hermilo adota uma linguagem fran-
repórter da revista Veja, José através de elementos da ca, mais realista e visceral, que lhe rende a
Maria de Andrade, pergunta: própria vida e fatos histó- alcunha de “escritor maldito”, devido ao uso
“Qual a importância do depoi- ricos que marcaram sua recor­rente de palavrões, cenas de sexo e im-
mento confessional em sua época e formação humana. pressionantes descrições de violência, assim
obra?”. Ao que Hermilo res- Na resposta a José Maria de como comparações, por parte da crítica, com
ponde que, dos seus dez livros Andrade, Hermilo afirma: a obra do escritor americano Henry Miller
publicados até então (outubro “com o ‘Cavalheiro’, eu atingi (autor de Trópico de Câncer), inspi­ração – en-
de 1975), apenas os da série um ponto na vida em que o tre outras – admitida pelo próprio autor,
“Um cavalheiro da segunda enriquecimento chegou a um que viria a escrever Henry Miller: vida e
decadência” foram escritos nível de maturação quase pas- obra, em 1968.
em primeira pessoa. Pela indi- sando para o podre: maturação A origem de “Um cavalheiro da se-
cação de certo cansaço na res- social, sentimental, artística, po- gunda decadência” tem origem entre
posta do escritor, presume-se lítica, tudo o mais que envolve o janeiro de 1965 e fevereiro de 1966, pe-
que o questionamento já era homem”. ríodo em que Hermilo escreve Margem
uma constante em sua vida Em seu projeto artístico de das lembranças, o primeiro volume da
literária (Agá, que também é levar a arte – seja teatral ou li- série. Por abordar justamente a época
escrito em primeira pessoa, terária – para o povo; Hermilo da sua adolescência, o livro adquire o
ainda não havia sido publica- aposta numa relação mais íntima aspecto de um romance de formação.
do na época da entrevista). e transparente com o público. As- Somos apresentados ao personagem
O fato serve para ilustrar a sim como ele se propôs a demolir a Hermilo, filho caçula de uma família
importância conquistada pela chamada quarta parede do teatro, tradicional e decadente da cidade de
tetralogia, colocando em posi- fronteira invisível que separa o Palmares, Zona da Mata Sul de Per-
ção de destaque os ro­mances palco da plateia, durante a segunda nambuco. O fato, apesar de ser real
Margem das lembranças, A por- fase do Teatro Popular do Nordeste a e constar na biografia do escritor,
teira do mundo, O cavalo da noite e partir dos recursos do bumba-meu- é trabalhado no plano simbólico e
Deus no pasto em relação ao res- -boi; com “Um cavalheiro da segunda
tante da obra lite­rária escrita decadência”, ele se propõe a diluir a
por Hermilo. Algo que o próprio barreira entre o real e a ficção, em-
autor reconhece numa das vá- baralhando a fronteira entre autor e
rias passagens de metacrítica personagem numa tentativa de fazer
de “Um cavalheiro da segunda com que a literatura deixasse a sua con- Um cavalheiro da segunda
decadência”, em que analisa a fortável masmorra intelectual e acadê­ decadência cobre um período
própria carreira dizendo que mica e se aproximasse dos leitores me- que compreende o nascimento
nela conseguira realizar o pro- nos escolados. do personagem Hermilo
jeto que perseguia desde Os ca- Para essa missão, nada mais natural (Margem das lembranças),
que se colocar de peito aberto diante de- sua chegada ao Recife
minhos da solidão, a sua estreia
les, oferecendo a sua própria trajetória (A porteira do mundo), o exílio
em 1957. político e cultural em São Paulo
O julgamento tem a ver para conduzir as 1.028 páginas por onde
(O cavalo da noite) e sua volta
com a mudança de postura se estende a narrativa e para costurar
para o Recife (Deus no pasto).
histórico, apontando para um momento de tran- dor em Palmares, ele aos poucos vence os seus
20 sição com o declínio da sociedade açucareira. preconceitos e começa a se interessar pela arte 21
A partir desse elemento da decadência, o au- cênica, ingressando no grupo, primeiro traba-
tor constrói a personalidade do personagem, para lhando como ponto, depois como ator. É um perío-
o bem e para o mal. Ao mesmo tempo em que é do importante de descoberta e aprendizagem,
marcado por surtos da empáfia de uma família mas onde o autor já demonstra certa maturi­
tradicional da cidade e com desvios morais (trai- dade, posicionando-se quase no mesmo patamar
ções amorosas e trambiques), que ele justifica com que a professora, Dona Micaela.
os exemplos dados pelo pai (chamado de Capitão E, depois, encontrando-se através da ativi­
pelo narrador); o personagem também é bene- dade política. Nesse ponto, o autor utiliza o envol-
ficiado por uma sólida formação intelectual (do- vimento do personagem para costurar a narra-
tado de sensibilidade e uma natural capacidade tiva com o seu momento histórico, valendo-se de
ao aprendizado, que o faz se destacar na cidade) fatos como a decapitação do cangaceiro Manoel
e pela necessidade de buscar o seu ganho, não se Isidoro (que provocou um levante da população
acomodando nos tempos de abastança dos pais. de Palmares) e a ascensão dos integralistas, que
Assim, para se virar nesse cenário, o jovem culmina com uma “caça” aos opositores. A narra-
primeiro aparece como escrivão da delegacia tiva, aqui, deixa de ser uma jornada puramente
da cidade, onde passa a entrar em conflito éti- individual e ganha uma dimensão mais coletiva,
co ao presenciar arbitrariedades do delegado fazendo com que o livro ganhe peso e sentido po-
e sessões de tortura. Depois, como ajudante de lítico na medida em que o personagem expurga
uma farmácia, é desmascarado na prática de pe­ seu egoísmo e seu passado de aristocrata.
quenos roubos e por fornecer ampolas de mor- Um processo que tem início por meio da co-
fina a um médico viciado, em troca de relações laboração com a insurreição contra a volante
com sua esposa do doutor. E depois, como ajudante policial que decapitara Isidoro e com movimento
do pai, num cartório. dos operários, mostrando não se tratar de algo
Experiências que são usadas para mostrar a passageiro, resistindo à prisão, ao medo e sessões
inadequação do personagem nesse mundo buro- de tortura. É onde o escritor emprega sua capa-
crático, mesmo que no início ele pareça se inte- cidade narrativa para, através da crueldade dos
ressar pelo universo de regras e nomenclaturas eventos, envolver os leitores na angústia do per-
específicas que ele descobre em cada emprego. sonagem, ao mesmo tempo em que irriga dentro
Com o passar dos dias, porém, a rotina da mes- de nós a força da resistência, fazendo florescer
mice o engole, fazendo com que ele descarregue a consciência política de defender a justiça e a
sua frustração em noitadas boêmias e aventuras liberdade.
amorosas. Um caminho que descobrimos não ser retilí-
A saída então aparece de duas maneiras. Pri- neo, e sim cheio de curvas, entre idas e voltas,
meiro, através da arte. O livro mostra a aproxi- como veremos na sequência de “Um cavalheiro
mação de Hermilo com o teatro, quando, atraído da segunda decadência”, mas que sempre se rea-
pela participação da namorada num grupo ama- firma sempre em momentos de opressão política.
Em A porteira do mundo, o personagem Hermilo se
encontra no Recife. Apesar ter saído fugido de
Palmares, ele parece o mesmo jovem irrespon-
“[....] histórias pas­sadas nas redondezas
de algum lugarejo anônimo sável da parte inicial de Margem das lembranças,
da Zona da Mata pernambucana; com traições a amigos e humilhações a subal-
uma espécie de Macondo nordestina, ternos. Morando numa modesta pensão na rua
povoada de seres e acontecimentos da Aurora, ele mantém sua rotina de aventuras
fantásticos.” sexuais, noitadas na zona portuária e desvios
morais que o levam a uma série de demissões,
João Carlos Pádua, no Jornal do Brasil, trambiques, períodos de fome e dívidas.
em 14 de novembro de 1976. Embora a gravidade dos eventos que o leva-
[Sobre As meninas e o sobrado, de HBF. ram ao Recife soe implausível com esse tipo de con-
duta, a contradição confere um caráter humano ao
Trabalhador da cana, foto de
personagem, que nos conduz por uma jornada pe-
Joãomiguel Pinheiro.
las ruas, bares, festas e cabarés com outros artistas (a exemplo tico ou paixão, promovendo uma Estados Unidos disfarçadas de
22 do Recife dos anos 1940 e início dos de Ariano Suassuna e Gastão nova reviravolta na narrativa. E notícia. Ao se colocar contra a 23
1950. Inicialmente, ele aparece de Holanda) para o desenvolvi- a recuperação dessa queda, que prática e sofrer as consequên-
como funcionário de uma agên- mento do Teatro de Estudantes marca a quarta fase da história, cias, a redenção vem mais uma
cia de empregos, depois passa a de Pernambuco (TEP), com seu geralmente se dá ou pelo viés do vez por meio do teatro.
contínuo de uma multinacional do projeto de levar as artes cêni- teatro ou pela política. Em Deus no pasto, que fecha a
petróleo, representante comer- cas para o povo. Uma postura E é dentro dessa estrutura tetralogia, Hermilo já se encon-
cial de tecidos, contador de um política que o perso­nagem tam- que acompanhamos a jornada tra de volta ao Recife, preparan-
armazém de secos e molhados, bém exerce na prática, assu- de Hermilo em São Paulo, con- do-se para assumir o papel de
crítico teatral, conselheiro espi- mindo o cargo de assessor do tada em O cavalo da noite. Com as professor no recém-criado cur-
ritual para responder cartas dos prefeito do Recife, uma fase que preocupações de um pai de fa- so de teatro. A angústia inicial
leitores do jornal e funcionário permite a ele conhecer as en- mília, desesperado em busca de aqui deixa de ser um problema
público, como assessor do então grenagens da máquina pública, emprego e angustiado por ter financeiro (embora ele apareça
prefeito do Recife. enxergar os reais problemas da que partir do zero numa cida- mais tarde), mas da readaptação
As experiências contribuem popu­lação e perceber as forças de estranha, ele se aventura no ao Recife e ao receio de se tor-
para a formação do narrador, contrárias aos esforços para meio do cinema como avaliador nar professor sem nunca ter tido
que tem acesso a diversos es- uma sociedade menos desigual. de argumentos de filmes para essa experiência. De toda forma,
pectros da sociedade e perspec- Embora cada volume de uma produtora e como roteirista o personagem está mais sereno,
tivas diferentes para entender “Um cavalheiro da segunda de televisão. Apesar de não gos- envolvido com o trabalho, com
as engrenagens do mundo, seja decadência” trate de períodos tar, os empregos lhe dão o sus- a criação do Teatro Popular do
em termos políticos, econômicos distintos, fiel as características tento para a mudança da família Nordeste e com as questões da
ou sociais. É interessante ob­ de cada momento e mostrando a São Paulo e dão acesso ao meio casa, desfrutando das iguarias
servar como, aos poucos, o per- o processo de maturidade do cultural e intelectual da cidade, do Recife, naquele que seria o
sonagem vai amadurecendo ao personagem; os livros seguem rendendo novas amizades. Ain- seu último verão com a esposa
longo da narrativa. Após a mor- uma estrutura narrativa seme­ da que se encontre numa fase de Ruth. Isso porque, atingida a es-
te do pai, uma nova prisão moti- lhante. Num primeiro mo­mento, maturidade, satisfeito com o ca- tabilidade, ela se quebra mais
vada pela instauração do Estado temos essa fase de adequação, samento e dizendo-se monógamo uma vez com o surgimento de
Novo e uma doença grave, ele onde o personagem se lança em a qualquer investida feminina; Leonarda, aluna do curso de tea-
finalmente parece perceber o aventuras e mergulha em fes- o personagem ainda apresenta tro, jogando-o num martírio mo-
seu lugar no mundo, tanto pelo tas, bebedeiras e preocupações seus desvios de caráter, como o ral e numa confusão mental que
seu relacionamento com Ruth, geradas por alguma mudança prazer de se “vingar” contra o o leva a erros artísticos, a uma
como pela sua reaproximação (o pedido de demissão quando amigo que lhe acolheu desde a devoção religiosa repentina e
personagem com o teatro, con- era escrivão em Margem das sua chegada à capital paulista. certo distanciamento dos acon-
quistando seu espaço no meio lembranças, a traição ao amigo A terceira fase ocorre quando tecimentos da época, assistindo
intelectual do Recife. da agência de empregos em A Hermilo já está trabalhando na de longe a ascensão política de
Com essa transição, pode-se porteira do mundo, a chegada a sucursal brasileira da revista Manuel Árias (Miguel Arraes),
dizer que A porteira do mundo São Paulo em O cavalo da noite e o americana Mirante, reconhe­ que culminaria com o golpe de
encerra o ciclo de formação do retorno ao Recife para se tornar cido por seu trabalho de crítico estado de 1964.
personagem e já entra na etapa professor em Deus no pasto). teatral (o que lhe abre as portas Talvez pela proximidade his-
de execução dos seus projetos, Mudam as motivações, os ce- para as principais produções tórica com os acontecimentos e
como homem e artista. Assim, nários e os personagens; mas teatrais e o exige uma postura receio dos estilhaços que ainda
nesse tom confessional, onde o depois vem a etapa de confor- analítica, que o faz negar aquele poderiam lhe atingir; Deus no
autor faz uma espécie de revi- mismo, em que o narrador con- tipo de teatro de entretenimen- pasto seja o volume que mais
são da sua própria trajetória; segue se adaptar ao ambiente to e reafirmar suas convicções destoe do conjunto de “Um cava-
nós acompanhamos momentos e conquista certa estabilidade. artísticas) e já com o livro Os lheiro da segunda decadência”,
fundamentais tanto da carrei- Até que, num processo de bola caminhos da solidão publicado. O fazendo uso de longas citações e
ra de Hermilo Borba Filho como de neve, pequenas discordân- bom salário e o reconheci­mento, passagens em que o autor-per-
da cultura pernambucana, re- cias vão se avolumando no pei- contudo, não são suficientes para sonagem tenta se justificar, não
vivendo as discussões do autor to e o personagem é consumido, calar a coerência política do se redimindo de erros (como o
contra o tipo de teatro feito pelo seja por uma questão de inade­ personagem, cada vez mais in- caso da peça A bomba da paz), ain-
Teatro de Amadores de Pernam- quação à rotina burocrática, des- comodado com a publicação de da que muitas vezes passe pela
buco (TAP), a gênese e o convívio leixo com as finanças, ideal polí- “propagandas ideológicas” dos tangente.
24 Hermilo Borba Filho sempre teve consciência da força 25
política da arte do teatro.. O tempo todo, fez essa traves-
sia suspenso entre uma margem e outra. É o que nos
diz Luís Augusto Reis, dramaturgo e doutor em Teo­ria
da Literatura, nesta entrevista a Thiago Corrêa. Con-
tudo, há mais funambu­lismos e para­doxos no nada or-
todoxo Her­milo, como Reis menciona nos últimos pará-
grafos de sua tese, ao falar dessa fusão, destes Hermilos:
“O Hermilo criador teatral vai se fundindo ao Hermilo
escritor”. Aqui, o Hermilo vário, sempre em cena. [Hx]

HERMILO E A FORÇA
POLÍTICA DA ARTE
26 HERMILO SEMPRE [...] DEFENDEU dizendo: “Volte, nós precisamos de você, nós sempre batalhamos
em trincheiras diferentes, mas contra o mesmo inimigo”. E quando
Hermilo volta, o que ele faz? Vai dirigir várias peças no TAP em
27

QUE A ARTE MAIS PULSANTE, 1958 e 1959. Essa diferença entre eles existia, mas não era tão
determinante nas ações deles. Eles eram parceiros, tanto que no

MAIS VIBRANTE, VINHA DO POVO TPN, em 1960, o elenco do TAP está presente, com Geninha da Rosa
Borges, o marido dela, Otávio; o irmão de Valdemar, Alfredo de
Oliveira, é um dos sócios fundadores do TPN. As diferenças existiam,
mas não os distanciava, pelo contrário, acho até que instigavam
um diálogo muito rico entre eles.
[hexágono]
[hexágono]
No livro A porteira do mundo, segundo volume da tetralogia, Hermilo
Nos textos sobre Hermilo, é comum encontrar a afirmação de que
aborda a sua participação na cena teatral do Recife. O que, com-
ele foi um dos fundadores do Teatro de Estudante de Pernambuco,
parando com os fatos da sua vida, nos levam a pensar na figura
o TEP. Mas na sua tese, você aponta que ele, na verdade, foi con-
de Valdemar de Oliveira. No livro, ele constrói esse convívio num
vidado para se tornar o diretor artístico. Como foi essa história,
misto de admiração e discordâncias. Como foi de fato essa relação
afinal? Como surgiu o TEP?
entre os dois? Quais a divergências entre eles em torno do teatro,
que culminariam na saída de Hermilo do TAP em 1945? [luís augusto reis]
[luís augusto reis] O TEP já existia, numa pegada amadora, fazendo peças sem gran-
des investimentos estéticos. Já existia desde de meados da década
Já ouvi Reinaldo de Oliveira, que é filho de Valdemar de Oliveira,
de 1930, se não me engano. Então Joel Pontes, que fazia parte desse
dizer que Hermilo e Valdemar eram inimigos íntimos. Eles nunca
grupo, convida Hermilo para dar um novo direcionamento ao con-
romperam, nunca se separaram; embora tivessem programas
junto. Quando ele entra no TEP, em 1945, e estreia com o primeiro
ideológicos e teatrais distintos. Valdemar achava que a arte era
espetáculo em 1946; realmente o TEP ganha um conceito mo­derno
uma manifestação da elite, em várias ocasiões ele diz isso e explica.
de teatro. O que se fazia antes não tinha um relevo artístico maior,
Não é uma elite de dinheiro, apenas. É uma elite de sensibilidade,
era mais uma ação beneficente ou de grêmio estudantil. Com Her-
de intelectualidade, de bom gosto. Hermilo sempre rejeitou esses
milo, aí sim, aquilo ganha um regional, muito inspirado nas ações
argumentos e defendeu que a arte mais pulsante, mais vibrante,
de Pascoal Carlos Magno que já vinha desenvolvendo desde o final
vinha e sempre veio do povo. Esse era o principal ponto de tensão
da década de 1930 com Teatro de Estudantes do Brasil, no Rio de
entre eles. Hermilo querendo tirar o teatro pernambucano dessa
Janeiro. Paschoal é o grande modelo para Hermilo nesse momento,
pecha de colônia do teatro europeu; querendo levar o público da
não só para ele, mas para outros integrantes do TEP, que era uma
periferia a um teatro de qualidade, no qual o povo se reconhecesse.
safra genial, como Ariano Suassuna, Gastão de Holanda, Joel Pontes,
E Valdemar, fincado no Teatro de Santa Isabel, aonde os homens só
José Laurênio de Melo, Aloisio Magalhães...
iam de paletó e gravata e as moças de vestido de noite. No entanto,
eles tinham mutuamente uma admiração enorme. Mesmo nas [hexágono]
polêmicas mais acirradas que eles travam por jornais, como uma
Qual a influência do movimento regionalista de Gilberto Freyre na
que houve no final dos anos 1940 sobre a obra de Lorca (Valdemar
proposta de teatro de Hermilo? Quais os pontos em comuns e di-
dizendo que Lorca era mais poeta do que dramaturgo, e Hermilo
vergentes entre essas propostas de modernização, digamos, local?
defendendo que Lorca era o maior dramaturgo espanhol); eles
No TEP, todos eles recebem uma influência, mais ou menos percep-
sempre mantêm um respeito muito grande. Eles eram dois gran-
tível, mas todos estão imersos no ideia de Regionalismo de Gilberto
des intelectuais, dois grandes homens de teatro, que amavam o
Freyre. E o que era essa concepção regionalista de Gilberto Freyre?
teatro incondicionalmente; e que se reconheciam nessa trincheira
de uma missão civilizatória para Pernambuco por meio do teatro. [luís augusto reis]
Embora tocando em escalas diferentes, ambos sabiam que estavam Era pôr em diálogo a tradição, a região e a modernidade; diferen-
trabalhando pelo desenvolvimento da cultura do Recife. Tanto é ciando-se do Modernismo de 1922, que num primeiro momento
que quando a Universidade do Recife funda o Curso de Teatro, despreza as tradições e as diferenças regionais do país, o Brasil
em grande medida pela atuação de Valdemar de Oliveira, ele es­ era um todo para os modernistas de São Paulo. Gilberto vai criar
creve uma carta para Hermilo, que na época estava em São Paulo, esse contraponto na cabeça da juventude dos anos 1930 e 1940. E
Hermilo faz exatamente isso, ele começa a fomentar uma drama- [hexágono]
28 turgia que fosse vinculada às nossas tradições, e ele as encontra No TEP, Hermilo passou a conviver com diversos intelectuais que,
29
nos temas da cultura popular; mas, sendo moderno, isso tudo é posto mais tarde, se consolidariam como artistas importantes da cultura
em diálogo com as vanguardas teatrais europeias. Então ele vai de Pernambuco. Embora tivesse praticamente a mesma idade
começar a montar, por exemplo, Lorca, Tchekov, Ibsen ao lado de de alguns – dois anos mais velho do que Gastão de Holanda, por
Ariano Suassuna, José de Moraes Pinho e de ele próprio. A mistura exemplo; Hermilo parece ter exercido uma certa influência entre
era tentar uma dramaturgia que fosse brasileira, nordestina; mas seus pares. Queria que você explicasse o porquê desse papel de
que tivesse a sintonia estética com o que tinha de mais avançado liderança de Hermilo nessa geração?
na dramaturgia mundial e que falasse do Brasil profundo, da
cultura, das tradições mais impregnadas no povo.

[hexágono] PARTICULARMENTE, CONSIDERO


Como foi essa relação entre Hermilo e Gilberto Freyre?
[luís augusto reis]
ESSA [SOBRADOS E MOCAMBOS]
Hermilo só vai ter amizade com Gilberto Freyre, de convívio signi-
ficativo, de almoçar de vez em quando, de serem leitores mútuos,
A MELHOR PEÇA DE HERMILO
já no final dos anos 1960 e início dos 1970; quando Hermilo é convi-
dado a trabalhar no Instituto Joaquim Nabuco – atual Fundaj. Mas [luís augusto reis]
na juventude de Hermilo, nos anos do TEP, Gilberto acompanha de A formação de Hermilo no teatro é uma coisa meio milagrosa.
longe e com interesse o desenvolvimento do grupo. Tanto é que Ele teve um envolvimento grande com um professor dele, em
ele está sempre escrevendo coisas, elogiando a atitude dos jovens Palmares, Miguel Jasselli, que dirigia um grupo de teatro, bem
artistas do TEP, chega a presidir o juri do primeiro concurso de amador. Foi com ele que Hermilo, adolescente, começou a fazer
dramaturgia do TEP. É uma presença intelectual, mas não é uma teatro. Palmares tinha uma das melhores bibliotecas do interior
presença física, ele não é propriamente amigo dessas pessoas. Há de Pernambuco. E Hermilo passou a viver dentro dessa biblioteca,
quem critique Gilberto por não ter ajudado mais efetivamente o torna-se um leitor compulsivo, lê de tudo, clássicos e ficção barata
TEP, sobretudo nos momentos de crise do TEP. Mas de fato havia etc. Quando ele vem para o Recife nos anos 1930, a fim de seguir
um incentivo, com críticas favoráveis, só isso - como aliás também nos estudos, começa a trabalhar, por indicação de Miguel Jasselli,
ele vai fazer nos anos 1960 com o TPN, elogiando. como ponto do grupo Gente Nossa, de Samuel Campelo. É lá que ele
vai encontra Valdemar de Oliveira e outros intelectuais do teatro.
[hexágono] O Gente Nossa foi uma escola de teatro para ele, que já tinha uma
Existe registro da reação de Gilberto Freyre quando Hermilo base intelectual, apesar da pouca idade. De tal maneira que na
adapta para o teatro Sobrados e mocambos? década de 1940, Hermilo já era reconhecido como uma pessoa que
[luís augusto reis] entendia de teatro, ele logo vai escrever nos jornais da cidade, e
não demora a se impôr como crítico de teatro, como pensador, e
Sim. Foi um momento relativamente tenso. Quando Hermilo entrega
eis que logo aparece como diretor do TEP. É uma formação não tão
o texto a ele, Gilberto reage por Hermilo ter colocado em evidência
incomum nas pessoas muito apaixonadas pelo que fazem, sobretudo
aspectos que ele talvez não desejasse ver no palco com tanta ênfase.
no mundo do teatro. Hermilo era dez anos mais velho que Ariano
E Gilberto escreve um prefácio dizendo justamente que aquela é
e quase da mesma idade que outros integrantes, mas todos reco-
uma obra de Hermilo, que não representa rigorosamente o ensaio
nheciam nele essa liderança intelectual e artística.
Sobrados e mocambos, ele desenvolve todo um raciocínio, sobretudo em
torno da sexualidade, dizendo que Hermilo teria dado um tratamento [hexágono]
obsceno, vulgar, à sexualidade. Ele faz questão de demarcar uma di-
ferença nesse campo. E Hermilo, por sua vez, pega a peça Sobrados e E a parceria com Ariano?
Mocambos e põe como subtítulo: ‘uma peça segundo sugestões da obra [luís augusto reis]
de Gilberto Freyre nem sempre seguidas pelo autor’. Mas existia Esse é um capítulo extraordinário na vida de ambos. Não são
uma admiração imensa entre eles. Eu, particularmente, considero pessoas simples, a gente está falando de grandes intelectuais,
essa a melhor peça de Hermilo, pela estrutura dramatúrgica, pela de grandes artistas, que não simplificam as relações. Hermilo e
ousadia formal e pelo tratamento dos conteúdos. Ariano são amigos fraternos, como eles dizem, desde sempre. A
relação entre eles é sempre frutífera, mas por vezes muito tensa, [hexágono]
30 de muitas divergências. Há relatos de grandes bates-bocas nos Na sua tese de doutorado, você se debruça sobre a produção crítica
31
ensaios do TEP, são duas pessoas muito intensas. Ariano tinha um de Hermilo, especialmente a partir da coluna que ele escrevia,
apego extraordinário à tradição, ele era o sertão, o profundo do chamada Fora de cena. Depois, Hermilo continuou colaborando com
Brasil, embora como escritor e como dramaturgo apresentasse outras publicações, fazendo crítica teatral no jornal Última Hora,
uma modernidade mais do que aupiciosa; Hermilo era o litoral, Correio Paulista e a revista Visão. Como essa experiência de se posi-
úmido; mais inquieto. Ariano glorificava a coerência; Hermilo cionar, digamos, do outro lado do palco, como observador; contribuiu
tinha mais o ímpeto de jogar as coisas para cima, de recomeçar para o desenvolvimento do dramaturgo Hermilo?
e de fazer diferente.
[luís augusto reis]
[hexágono] Eu acho que ele tem um legado fundamental no processo de mo-
Outro que passou pela vida de Hermilo, embora não tenha sido do dernização do teatro brasileiro. Fora do eixo Rio-São Paulo – peguei
TEP, foi Osman Lins, que sempre nutriu admiração pelo trabalho como brincadeira o nome da coluna dele: Fora de cena – ele foi uma
de Hermilo no teatro. Como foi esse convívio? das pessoas que pensaram, de uma forma bem ampla, os traços
e os rumos do teatro brasileiro. E tudo isso sentindo na pele esse
[luís augusto reis] sentimento de exclusão, por estar longe, por estar na província. Ele
Essas correspondências um dia vão ser publicadas. Osman é aluno possuía um duplo distanciamento, do eixo Europa-Estados Unidos
de Hermilo e de Ariano, no Curso de Teatro da Universidade do Re- e do eixo Rio-São Paulo. Essa posição à margem dava a Hermilo
cife, com habilitação em Dramaturgia. Com a orientação de Ariano um olhar privilegiado. Ele podia conceber a complexidade dessa
e de Hermilo, ele escreve uma peça para conclusão de curso que é entrada do teatro moderno no Brasil e a necessidade de que ele
Lisbela e o prisioneiro. A partir dali, Osman desenvolve um interesse não replicasse os modelos europeus apenas, mas que dialogasse
grande pelo teatro, criando uma produção dramatúrgica que eu com esses modelos, e que pudesse se transformar dentro deste
julgo como uma das mais relevantes dos anos 1970, no Brasil. Acho continente que é o Brasil, com todas as suas especificidades. Então, aí,
que ninguém desenvolveu experiências tão ousadas, tão sofistica- você está vendo ecoar o ideário de Gilberto Freyre nessa geração.
das quanto Osman Lins. É nesse momento que ele vai se relacionar, É Hermilo quem vai falar da necessidade de termos uma voz local,
por meio de cartas, com Hermilo. Um texto de Osman, O auto do salão no Nordeste e no Brasil, de termos uma dramaturgia sintonizada
de automóvel, que é muito ousado, foi encenado pelo TPN em 1970. E com a cultura do povo; isso era muito impactante e inovador. E o
eles têm uma admiração incrível um pelo outro, eles resenham trabalho dele rende frutos que transformam o teatro brasileiro.
seus livros, comentam os seus trabalhos. É engraçado essa relação, Por exemplo, quando o Brasil descobre Ariano Suassuna, que é o
porque Osman tinha aquela coisa do rigor matemático com a es- dramaturgo mais bem resolvido dessa leva, aquilo abre uma nova
crita e Hermilo era o impulso, Leda Alves diz que Hermilo sentava, fronteira para o teatro brasileiro.
escrevia, tirava o papel da máquina e estava pronto, mandava
para publicar. Osman não, o próprio Hermilo ficava rindo, porque [hexágono]
Osman contava as letras de cada linha, tinha aquela preocupação A que se deveu a mudança de Hermilo para São Paulo? Qual a
apolínea com tudo, de ficar trabalhando numa obra por um tem- importância dessa experiência, de ter trabalhado em algumas
po absurdo. Mas vejo-os como complementaridades de uma fase companhias paulistas, no desenvolvimento do seu teatro?
áurea da cultura pernambucana.
[luís augusto reis]
Em 1952 o TEP entra em falência e Hermilo era quem de certa
forma bancava as ações do TEP, porque já tinha uma certa renda,
já trabalhava e a situação dele aqui, no Recife, fica muito difícil. En-
tão ele se manda para São Paulo. Num primeiro momento deixa a

EM SÃO PAULO [...] ELE VAI VIVER COMO família aqui, ele já era casado, pai de filhos; tentar viver. E ele fica
por lá até 1958, quando volta e consegue trabalhar como professor
universitário. A passagem dele por São Paulo é fundamental para
CRÍTICO TEATRAL, NO APOGEU DO o seu projeto artístico porque ele vai viver como crítico teatral
no momento de apogeu do Teatro Brasileiro de Comédia, o TBC.
TEATRO BRASILEIRO DE COMÉDIA, O TBC Então ele vai ver o trabalho de grandes encenadores europeus
que chegam a São Paulo, trazidos pelo TBC. Ele vai conviver com co) de Carella à Argentina, Hermilo, sensibilizado pelo drama vivido
32 esses encenadores e, com o tempo, ele vai questionar esse teatro, por seu colega, toma conhecimento da dimensão artística e huma- 33
ele vai dizer que esse teatro de base psicológica, de interpretação na do autor de Orgia. Por cartas, eles se tornam grande amigos, a
realista-naturalista, não interessa mais a ele. Assim, ele começa a confiança entre eles se sedimenta. Hermilo fala isto em algumas
intensificar a sua admiração pelos artistas populares da cultura entrevistas: o conhecimento da corajosa literatura autobiográfica
nordestina, que ele já conhecia muito bem porque ele era da Zona de Carella foi decisivo para o desenvolvimento da tetralogia “Um
da Mata e crescera vendo o cavalo-marinho, o bumba-meu-boi, o cavalheiro da segunda decadência” – bem como para grande parte
mamulengo. Ele já havia se aproximado desse universo no TEP, dos escritos de Hermilo a partir de então.Hermilo replica recursos
promovendo debates e palestras. Então, quando ele volta ao Recife, estilísticos de Carella, usa pseudônimos iguais etc. Em Deus no pasto,
em 1958, ele diz que vai fazer um teatro diferente do TBC, que vai ele transcreve trechos completos de Orgia.
ser um teatro inspirado em grande medida na força cênica do
artista popular, eis o projeto do TPN. [hexágono]
E aí, nessa volta, ele funda o TPN, Teatro Popular do Nordeste. Quais
[hexágono] eram as propostas de Hermilo como o TPN? Em que ele se diferen-
Hermilo então volta para se tornar professor de teatro na Uni- cia em relação ao que ele colocara em prática no TEP?
versidade do Recife. Como a experiência de lecionar e de pesquisa,
[luís augusto reis]
naturais a um professor, influenciaram Hermilo?
Eles anunciam o TPN, ele e Ariano, como uma continuidade do TEP.
[luís augusto reis] Inegavelmente, há um vínculo, as pessoas se reencontram. Mas
Hermilo era, segundo relatos, um professor absolutamente caris- eram tempos completamente diferentes, eles estavam bastante
mático, capaz de passar esse amor que tinha pelo teatro para todos mudados e o teatro estava completamente mudado. Então o teatro do
os seus alunos; todos ficavam encantados com as aulas. Mas eu TPN não guarda semelhanças imediatas com o do TEP. No TPN, o que
destacaria esse papel formativo de Hermilo para além das aulas importava era a discussão estética da cena; no TEP, a discussão era
da universidade. O TPN foi o braço extensionista do Curso de Teatro muito mais em cima da dramaturgia, de trazer uma dramaturgia
da universidade. Quando digo extensão é a universidade chegando de temática nordestina. Hermilo agora estava muito mais preocu-
à sociedade, e transformando a sociedade e sendo transformada pado em construir um espetáculo nordestino, com ator nordestino,
pela sociedade. Então Hermilo exerce de fato na maior potência o obviamente trabalhando com um texto moderno e nordestino.
seu papel de pedagogo no TPN. O TPN é uma grande escola, para Então o TPN não deixa de ser uma consequência do TEP, mas era
atores, dramaturgos, técnicos, cenotécnicos e, sobretudo, para a diferente. O TEP tinha o fervor amadorístico de jovens estudantes,
plateia. O TPN era uma escola que formava uma sensibilidade. E, e o TPN tinha a pretensão de ser profissional, embora nunca tenha
sendo como uma escola, pagava esse preço porque não era um conseguido esse equilíbrio financeiro, mas eles vão rejeitar a ideia
teatro comercialmente viável, não ia lidar com massas, mas com de amadorismo do TEP. E isso implicava muitas diferenças.
uma pequena parcela da sociedade. E ali era de fato o grande
projeto pedagógico de Hermilo, embora a vida inteira ele tenha [hexágono]
praticado o que hoje é chamado de pedagogia do teatro, que é Além de participar do TAP e se tornar o diretor artístico do TEP;
tentar transformar as pessoas e o mundo por meio do teatro. Hermilo também ajuda a fundar o Teatro Operário do Recife, de-
pois o TPN e o Teatro de Arena do Recife, escrevendo e dirigindo
[hexágono] espetáculos. É possível perceber mudanças de interesses temáticos
Nos anos 1960, Hermilo acaba conhecendo e convivendo com o e abordagens estéticas em seus espetáculos de acordo com o gru-
argentino Tulio Carella, que veio ao Recife para trabalhar na uni- po em que ele trabalhava? Se sim, quais eram essas diferenças?
versidade, como professor, chegando a traduzir o diário ficcional
[luís augusto reis]
escrito por Tulio sobre esses dois anos no Recife, em 1968. Como foi
o convívio entre eles? É possível pensar em reflexos desse diálogo Acho possível ver mudanças nos princípios estéticos e éticos do
com Carella em relação à linguagem crua que Hermilo imprime Hermilo encenador ao longo do tempo. Mas não é fácil notar muitas
na tetralogia? diferenças no trabalho dele em um grupo e noutro. Por exemplo,
entre o TPN da primeira fase e o Arena do Recife, que aconteceram
[luís augusto reis] praticamente ao mesmo tempo, não vejo grandes distinções. Daí,
Durante o tempo em que Carella esteve no Recife, a amizade entre por sinal, certa confusão: muita gente, até mesmo ex-integrantes
ambos não se aprofundou muito. Somente após o retorno (traumáti- desses grupos, às vezes afirma, por exemplo, que Eles não usam
black-tie e A farsa da boa preguiça (estreia) foram produções do TPN,
34 quando, de fato, foram espetáculos feitos para o Arena. 35
[hexágono]
Hermilo nutria uma preocupação social, enxergando o teatro
como uma ferramenta política. Como isso se traduzia em termos
estéticos? Como Hermilo enxergava o papel da cultura popular
nesse sentido?
[luís augusto reis]
Hermilo via no teatro essa evidente ligação com a sociedade. O
teatro é uma arte evidentemente política, nasceu na pólis, é um
grande fórum, desde a Grécia. É o lugar onde o homem se vê, onde
o homem se vê em sociedade, é o lugar de uma grande assem-
bleia, onde valores são negociados, rejeitados ou aplaudidos. Então
Hermilo tinha essa consciência, ele sabia que o teatro era uma
arte política, embora sempre negue o uso político do teatro. Parece
paradoxal, mas não é. Essa força política faz por meio da arte; pois
quando o teatro se arvora a ser partido político, ele se enfraquece
na sua essência artística. Hermilo sempre trabalhou nesse fio,
embora em alguns momentos ele tenha sido mais motivado pela
política do que pelo teatro, como no episódio de A bomba da paz,
peça que ele escreve, sobretudo, para atacar os seus desafetos e
para demarcar as suas diferenças em relação ao Movimento de
Cultura Popular - MCP, iniciativa que ele havia ajudado a fundar,
mas que tomou um rumo do qual ele discordava. Depois ele se
arrepende de A bomba da paz, justamente por ser mais política e
do que arte. Então ele tinha sim essa consciência da força política
da arte, sobretudo do teatro.

Luís Augusto da Veiga Pessoa Reis é Doutor em Letras pela Universidade


Federal de Pernambuco (2008), com a tese Fora de cena, no palco da modernidade:
um estudo do pensamento teatral de Hermilo Borba Filho, e autor de peças
como A filha do teatro (Prêmio Funarte de Dramaturgia, 2003), professor da
Universidade Federal de Pernambuco. Os seus estudos especializados sobre
a obra de HBF destacam o seu pensamento teatral, no conjunto de uma
diversificada obra, que inclui também o romance, o conto e o ensaio.
36 1917 - No dia 8 de julho, no Engenho
Verde, em Palmares, Pernambuco,
Somerset Maugham, A evasão, de
Eugène O’Neil e O leque de Lady
Publica História do teatro. Dirige
O vento do mundo, para o TEP.
1960 - Funda o Teatro Popular do
Nordeste. Com outros intelectuais,
1968 - Publica O cavalo da noite.
Publica a reedição de História do
37
nasce Hermilo Borba Carvalho Windermere, de Oscar Wilde. Com atores do TEP e do TAP, monta funda o Movimento de Cultura teatro, com o título História do
Filho. Como ator, participa de O instinto, A comédia de Balzac, de José Popular. Publica Teoria e prá­ Espetáculo. Publica Henry Miller:
de Henry Kistemaeckers. Carlos Cavalcanti Borges. tica do teatro. Escreve a peça vida e obra,.
1932 - Inicia-se no teatro, como ator,
As moscas.
ponto, autor e diretor na Sociedade 1944 - Com Valdemar de Oli­veira, 1951 - Escreve Noé e Os baila­ 1969 - Cria o Teatroneco. Publica
de Cultura Palmarense. escreve a peça Soldados da re- rinos. Encerra a coluna Fora de 1961 - Dirige, A farsa da boa Cartilha de teatro, escrita em
taguarda. (Prêmio Agamenon cena, na Folha da Manhã. preguiça. Escreve a peça O cabo parceria com B. de Paiva,.
1935 - Escreve A felicidade, sua
Magalhães, do Ministério do Traba- fanfarrão.
primeira peça de teatro. A ence­ 1952 - Escreve Três cavalheiros 1972 - Conclui a tetralogia “Um
lho). Escreve ainda as peças Vidas
nação também marca a sua estreia a rigor, encenada pelo TEP. Publica 1962 - Vence o prêmio Silvino Lopes cavalheiro da segunda deca­
cruzadas e O círculo encantado.
na direção teatral. Teatro, que reúne as peças Elec- de Teatro, da União Brasileira de dência”, com Deus no pasto.
Atua na remontagem de Prime­
tra no circo, João sem terra e Escritores. Escreve A bomba da Es­creve a peça Sobrados e mo-
1936 - Muda-se para o Recife. Passa rose, de Robert Flers, para o TAP.
A barca de ouro. paz, peça que ele mesmo dirige cambos.
a trabalhar como ponto no Grupo
1945 - Despede-se do TAP atuando para o TPN.
Gente Nossa, de Samuel Campelo. 1953 - Muda-se para São Paulo. 1973 - Publica O general está
como ator em O homem que não
Passa a escrever sobre teatro para 1963 - Dirige Onde canta o sabiá pintando (contos).
1940 - Atua no Grupo Cênico Espi- viveu (Jazz) de Marcel Pagnol. As-
os jornais Última hora e Correio e João Farrapo.
nheirense. Ali, dirige as peças Fon- sume a direção artística do TEP. 1974 - Publica o romance Agá.
Paulista, além da revista Visão.
te proibida, de Oduvaldo Vianna e Traduz O segredo de Ramon 1964 - Publica Sol das almas e
1975 - Publica Sete dias a cavalo
Divino Perfume, de Renato Vian- Sender e O urso de Tchekhov, sua 1956 - Adapta A dama das ca- Diálogo do encenador. Conclui a
(contos). Dirige novamente A ca­
na. Escreve a peça O presidente estreia como diretor do TEP. mélias. Escreve Apenas uma ca- peça A donzela Joana.
seira e a Catarina, de Ariano Su-
da república, que seria premiada deira vazia ou um paroquiano
1947 - No TEP, dirige e traduz A 1965 - Ano em que escreve O bom assuna, e encerra sua carreira como
pela União Nacional do Estudantes. inevitável.
sapateira prodigiosa, de Lorca. samaritano. encenador e a trajetória do TPN.

1966 - Inicia “Um cavalheiro 1976 - Publica As meninas do


1942 - Entra para o Teatro de Ama­ Passa a assinar a coluna Fora de 1957 - Publica Os caminhos da so-
da segunda decadência”, com sobrado (contos).
dores de Pernambuco (TAP), atu- cena na Folha da Manhã. Escreve lidão,. Dirige A compadecida e O
o romance Margem das lem-
ando em A exilada, de Henry a peça João sem terra. casamento suspeitoso, de Ariano Morre no dia 2 de junho, às 20h45,
branças. Retoma ao TPN com a
Kistemaeckers. Suassuna. Escreve a peça Nossa devido a um distúrbio circulatório
1948 - Escreve as peças O vento recriação de O Inspetor Geral, de
vida com mamãe. crônico.
1941 - Estreia como escritor com o do mundo, e A cabra cabriola e Nicolai Gogol. Publica Espetáculos
conto As pernas daquela moça, Auto da mula de padre. 1958 - Publica o romance História populares do Nordeste, Fisio­ Seu corpo foi velado na antiga
publicado na revista Renovação. de um Tatuetê. Volta ao Recife. nomia e espírito do mamulengo Escola de Belas Artes, no Derby, e
1949 - Escreve A barca de ouro.
Passa a lecionar no curso de Teatro e A donzela Joana. enterrado no Cemitério de Santo
1943 - Envolve-se na criação do
1950 - Conclui os estudos em Ciên- da Universidade do Recife (hoje, a Amaro, no Recife.
Tea­tro Operário do Recife, para o 1967 - Publica o romance A por­
cias Jurídicas e Sociais pela Facul- UFPE). Dirige, Onde canta o sabiá
qual escreve a peça Parentes de teira do mundo e Apresentação Em edição póstuma, sai a no­
dade de Direito do Recife. Envolve-se e Seis personagens à procura
ocasião. Para o TAP, atua e traduz do bumba-meu-boi. vela Os ambulantes de Deus.
na criação do Cine Clube do Recife. de um autor, de Pirandello.
as peças Oriente e ocidente, de
Os caminhos da solidão de um casco de tatu que é trans- ensinamentos de Deus e a paixão
38 Leitores em uma biblioteca popular
no Rio de Janeiro, 1972. formado em vaso de planta. O pela mulher de um amigo. A 39
Arquivo Nacional. Fundo Correio da Manhã.
Em 1957, Hermilo, já
livro foi originalmente publicado narrativa é conduzida ao longo
nome respeitado no tea-
em 1958, pelo Gráfico Amador. A de uma viagem de trem entre
tro, resolveu se aventu-
edição original contou com ilus- Palmares e Recife realizada
rar na ficção literária,
trações tiradas da História Natural pelo pastor, como uma espécie
lançando Os caminhos da solidão,
de Piso e Marcgrave. Em 1993, a de fuga. Em 1974, o livro ganhou
pela José Olympio. A obra é mar-
obra ganhou reedição pela Baga- nova edição como um dos volu-
cada por uma temática rural e
ço em parceria com a Nor­destal, mes da coleção Literatura Bra-
trata da fundação da cidade de
ambas do Recife, desta vez com sileira Contemporânea, lançada
Palmares. É a história de André
ilustrações de Paulo Rocha. através de uma parceria entre
Monte. Após se envolver numa
a José Olympio, a Civilização Bra-
rede vinganças da família, ele Teoria e prática do
sileira e a editora Três.
começa a vagar pelo mundo, teatro: antologia
até que decide se instalar nas Diálogo do encenador
Resultado de aprofun-
margens de um rio, nas terras
damentos sobre o tea- O volume reúne textos
de um coronel. Apesar da tensão
tro, Her­milo organiza escritos por Hermilo
inicial, ele passa a trabalhar para
este livro, reunindo re- sobre o teatro, como
o coronel, numa rotina permeada
flexões de autores como Bernard Teatro do Povo, Reflexões
por conflitos de terra e disputas
Shaw, Henri Bergson, Federico sobre a Mise-en-scène e
políticas, em meio à promessa
García Lorca e T. S. Eliot. O próprio Diálogo do encenador. Além disso,
de instalação de uma estrada de
Hermilo, além de escrever o pre- o livro traz o roteiro da peça A
ferro na região. O volume ganhou
fácio, assina o capítulo Reflexões donzela Joana. A obra foi publicada
2ª edição em 1983, através de uma
sobre a “mise-en-scène”. O volume foi em 1964 pela Imprensa Univer-
parceria entra a editora Mer­
publicado em 1960, pela editora sitária.
cado Aberto e a Fundação Casa
Íris, de São Paulo.
da Cultura Hermilo Borba Filho. Depois, o título ganhou nova edi-
Sol das almas ção em 2005, pela editora Mas-
História de um Tatuetê
sangana da Fundação Joaquim
Publicado em 1964 pela
Novela com motivos Nabuco, Ministério da Educação,
Civilização Brasileira,
ecológicos, onde o au- em parceria com a Bagaço, ga-
o romance tece a his-
tor humaniza animais nhando prefácio do professor
tória do pastor protes-
da fauna do Nordeste Luís Augusto Reis.
tante Jó, dividido pelos
para contar a história

BIBLIOGRAFIA
COMENTADA
Margem das livro foi reeditado pela Mercado tações populares do Nordeste. No de fome e dívidas. Inicialmente, de televisão e depois como crítico “uma peça segundo sugestões
40 lembranças Aberto e, em 2011, ganhou nova volume, ele faz a descrição de ele aparece como funcionário de teatral na revista Mirante. Aos da obra de Gilberto Freyre nem 41
edição pela Bagaço. quatro folguedos existentes em uma agência de emprego, depois poucos, ele tem acesso ao meio sempre seguidas pelo autor”.
Com o romance, Her-
Pernambuco: o bumba-meu-boi, passa a contínuo de uma multina- cultural e intelectual da cidade, Publicado pela Civilização Brasi-
milo inicia a tetralogia Apresentação do
o mamulengo, o fandango e os au- cional do petróleo, representante rendendo ao livro uma espécie leira, em 1972.
“Um cavalheiro da se­ bumba-meu-boi
tos pastoris. Hermilo se valeu de comercial de tecidos, contador de crônica social desse meio, além
gunda decadência”. Nesse Deus no pasto
O livro é fruto do estudo textos e entrevistas com alguns de um armazém de secos e de nos permitir acompanhar
conjunto de livros, o autor im­
de Hermilo sobre as mestres. Espetáculos populares do mo­lhados, crítico teatral, conse­ marcos importantes da trajetória Última parte da tetra­
prime uma linguagem mais rea-
manifestações popu- Nordeste foi publicado em 1966, lheiro espiritual para responder do autor, como o lançamento do logia. Hermilo já se
lista e visceral, o que lhe rendeu
lares de Pernambuco, pela São Paulo Editora, dentro da cartas dos leitores do jornal e romance Os caminhos da solidão e encontra de volta ao
a alcunha de “escritor maldito”
motivado pelo seu projeto de Coleção Buriti. funcionário público, como asses- da montagem d’A compadecida. O Recife, preparando-se
devido ao uso recorrente de pa-
construir um teatro do Nordeste. O sor do então prefeito do Recife. A personagem já se encontra numa para assumir o papel
lavrões, cenas de sexo e violência. Fisionomia e espírito
título foi publicado pela Imprensa experiência, contudo, contribui fase de maturidade, satisfeito com de professor no recém-criado
O que suscitou comparações, por do mamulengo: o teatro
Universitária, em 1966. E depois para a formação do narrador, o casamento e dizendo-se monó- curso de teatro. A angústia ini-
parte da crítica, com a obra do popular do Nordeste
reeditado, em 1982, pela editora que têm acesso a diversos espec- gamo a qualquer investida femi- cial deixa de ser um problema
escritor americano Henry Mil-
Guararapes. No ímpeto de construir tros da sociedade e perspectivas nina; mas ainda apresenta seus financeiro (embora ele apareça
ler (autor de Trópico de Câncer).
um teatro com o DNA diferentes para entender as ‘desvios de caráter’. A obra foi mais tarde), mas da readaptação
Já beirando os 50 anos quando Arte popular do
do Nordeste, Hermilo engrenagens do mundo, seja em escrita entre junho e de­zembro ao Recife e ao receio de se tornar
iniciou a tetralogia, Hermilo se Nordeste
debruça-se sobre a peculiar for- termos políticos, econômicos ou de 1967, sendo lançada em 1968 professor sem nunca ter tido
propôs a fazer uma análise da sua O livro foi desenvolvido ma de teatro praticada pelo ma- sociais. O livro ainda aborda a pela Civilização Brasileira. Em essa experiência. De toda forma,
vida e do seu tempo, valendo-se sob a coordenação de mulengo, ou, teatro de fantoche reaproximação do personagem 1975, saiu a 2ª edição pela Círculo o personagem está mais sereno,
de elementos biográficos, fatos Hermilo e aponta para ou marionete como é chamado com o teatro, já apontando para o do Livro, de São Paulo. E em 2011, envolvido com o trabalho, com
históricos e imaginação. Nesse o seu envolvimento no em outras partes do país. O livro surgimento de um projeto teatral nova edição pela Bagaço. a criação do Teatro Popular do
primeiro momento, temos uma projeto de descoberta traz informações gerais sobre que se preocupava em levar as Nordeste e com as questões da
espécie de romance de formação. das chamadas artes populares, Cerâmica popular do
esse tipo de teatro, tanto no Brasil, artes cênicas para o povo, que casa, desfrutando das iguarias do
Somos apresentados ao perso­ como expressão da cultura nordes- Nordeste
como no mundo; além de reprodu- seria implementado pelo Teatro Recife, naquele que seria o seu úl-
nagem Hermilo, filho caçula de tina. A edição traz ilustrações de zir cinco peças populares do ma- de Estudantes de Pernambuco Desenvolvido a partir timo verão com a esposa Ruth. Isso
uma família tradicional da cidade Wilton de Souza, também respon- mulengo, a exemplo de Torturas de (TEP); e o momento de repressão de uma pes­q uisa de porque, atingida a estabilidade,
de Palmares (Zona da Mata Sul de sável pela capa. O volume foi publi- um coração, de Ariano Suassuna, proporcionado pela instauração campo dentro da Cam- ela se quebra mais uma vez com
Pernambuco) que se encontra em cado pela Secretaria de Cul­tura da Haja pau, de José Moraes Pinho, do Estado Novo no Brasil, resul- panha de Defesa do o surgimento de Leonarda, aluna
decadência financeira. Para se Prefeitura do Recife, em 1966. As trapaças de Benedito, de Manuel tando em mais uma onda de Folclore Brasileiro, do Ministério do curso de teatro, jogando-o num
virar nesse cenário, o jovem tra-
A donzela Joana: teatro Pinho, As aventuras de uma viúva perseguições, prisões políticas da Educação e Cul­tura. Foi escri- martírio moral e numa confusão
balha como escrivão da delegacia
alucinada e As bravatas do Professor e torturas. A porteira do mundo to em parceria com Abelardo mental que o leva a erros artís-
da cidade, onde passa a entrar O autor aborda o pe­ Tiridá na Usina do Coronel de Javunda, saiu pela Civilização Brasileira Rodrigues e publicado em 1969. ticos, a uma devoção religiosa
em conflito ético ao presenciar ríodo que marcou a ex- ambas de Januário de Oliveira. O em 1967, ganhou reedição pela repentina e certo distanciamento
arbitrariedades do delegado e pulsão dos holandeses Sobrados e mocambos
volume foi publicado pela Com- Mercado Aberto em 1994 e nova dos acontecimentos da época,
sessões de tortura. Entre diver- de Pernambuco. Para Adaptação teatral fei-
panhia Editora Nacional, em 1966. edição pela Bagaço, em 2011. assistindo de longe a ascensão
sos percalços, noitadas boêmias, isso, Hermilo conta a ta pelo autor da obra política de Manuel Árias (Miguel
relações amorosas; o jovem co- história de uma moça humilde – A porteira do mundo O cavalo da noite Sobrados e mocambos de Arraes), que culminaria com o
meça a se interessar por teatro, apesar do sobrenome Orléans –, Segunda parte de “Um Gilberto Freyre, onde
Continuação de “Um golpe de estado de 1964. O livro
primeiro trabalhando como ponto que luta para expulsar os invaso- cavalheiro da segunda o autor procura cons-
cavalheiro da se­gunda foi escrito entre janeiro de 1968 e
e depois como ator. Outro aspecto res e libertar a cidade de Olinda. decadência”. Nessa con- truir um panorama da família
decadência”. Aqui, tra- maio de 1971, sendo publicado pela
importante do livro diz respeito O roteiro ganhou forma de livro, tinuação, encontramos brasileira, abordando temas
ta-se da jornada de Civilização Brasileira, em 1972, e
ao momento político. Em meio à sendo publicado pela editora Vo- o personagem Hermilo como a escravidão, o preconceito
Hermilo em São Paulo. reedição pela Bagaço em 2011.
ascensão dos integralistas, o per- zes, em 1966, dentro da coleção já no Recife, após ter saído fugido contra os negros, os índios e as
Com as preocupações de um pai
sonagem se envolve com política, “Diálogo da Ribalta”. O general está pintando
de Palmares. Morando numa de família, desesperado em busca mulheres, num contexto que en-
colaborando com o movimento modesta pensão na rua da Au- volve o poder da Igreja Católica, Com o término da série
Espetáculos populares de emprego e angustiado por ter
dos operários e termina por ser rora, ele mantém sua rotina de a chegada do capital estrangeiro “Um cavalheiro da segunda
do Nordeste que partir do zero numa cidade
preso e torturado. A obra foi pu- aventuras sexuais, noitadas na e o início da industrialização na decadência”, Hermilo vol-
estranha; ele se aventura no
blicada em 1966 pela Civilização O livro é resultado das zona portuária e desvios morais cultura canavieira. Por conta de ta a publicar em 1973.
meio do cinema como avaliador
Brasileira, chegando a figurar na investigações do au- que o levam a uma série de de- divergências entre o Hermilo e Desta vez, ele aparece
de argumentos de filmes para
lista de mais vendidos organiza- tor sobre as manifes­ missões, trambiques, períodos Freyre, colocou-se como sub­título: com um volume de novelas que
uma produtora, como roteirista
da pelo Jornal do Brasil. Em 1993, o
LIVROS SOBRE
se diferencia bastante do estilo Sete dias a cavalo Os ambulantes de Deus A palavra de Hermilo
42 empregado na tetralogia. Aqui, 43
Nesse seu segundo vo- Hermilo retoma o gê- O volume reúne uma
o autor apresenta histórias mais

HERMILO BORBA FILHO


lume de novelas, Her- nero da novela para série de entrevistas
leves, de tom mais cômico e fan-
milo Borba Filho retoma contar a saga de cin- feitas por vários jor-
tasioso para narrar causos. Nas
o estilo empregado em co personagens numa nais e revistas, locais e
novelas, também se observa uma
O general está pintando. jangada, realizando nacionais, com Hermilo
presença mais constante do autor,
Com histórias em ambientes ru- uma travessia sobre a condição Borba Filho ao longo de sua traje- “Um cavalheiro da Hermilo Borba Filho:
interferindo explicitamente no an-
rais e cidades do interior, o autor humana. A peça O bom samaritano, tória artística, desde os anos 1940 segunda decadência”: fisionomia e espírito
damento da narrativa. No entanto,
faz uso de elementos fantásticos, a que havia sido escrita em 1965, é até a sua morte, em 1976. A edição busca degradada de de uma literatura
apesar da mudança significativa,
exemplo da história que dá título incorporado ao texto da narrati- conta com prefácio do jornalista valores autênticos
os valores de Hermilo perma­ Escrito por Sônia Maria
ao livro e acompanha a jornada va, em prática semelhante ao que Ricardo Noblat e teve como orga-
necem, com suas críticas à socie- É, originalmente, a dis- van Dijck Lima, dentro
de um fiscal nas terras do patri­ ocorrera no Agá. nizadores o poeta Juareiz Correya
dade de aparências (a exemplo sertação de mestrado da ótica da chamada
arca, visitando todos os seus filhos, e Leda Alves, atriz e viúva de
da novela O almirante) e ao estado Os melhores contos de de Sônia Maria van Dijck Lima, crítica genética, que se propõe a
cada um representando um ar- Hermilo. O livro foi publicado pela
autoritário (como na novela que Hermilo Borba Filho que viria a se tornar uma das entender uma obra não como algo
quétipo humano. O volume reúne Cepe, em 2007.
dá título ao livro). O volume reúne principais pesquisadoras da acabado, mas como um processo
12 novelas e foi publicado pela O livro integra a cole-
12 narrativas curtas. O general está Hermilo Borba Filho: obra de Hermilo Borba Filho. de elaboração. O livro foi publi­
editora Globo, em 1975, compondo ção da editora Global e
pintando saiu pela Editora Globo, teatro selecionado Defendida em 1979 na UFPB, a cado em 1986, pela Atual.
a chamada de “trilogia de novelas foi publicado em 1993.
Porto Alegre, e abre o que depois dissertação foi transformada em
fantásticas”. Como o título já diz, o vo- (3 volumes) O diálogo como método:
seria chamada de “trilogia de no- livro pela Editora Universitária
lume reúne dos melhores contos cinco reflexões sobre
velas fantásticas” de Hermilo. As meninas do sobrado Para marcar os 90 anos UFPB, sendo publicada em 1980,
de Hermilo. A seleção é de Silvio Hermilo Borba Filho
de nascimento do dra- ganhando texto do professor
Agá O título fecha a “tri- Roberto de Oliveira, que também
maturgo pernambuca- Neroaldo Pontes de Zavedo como Livro organizado por
logia de novelas fan- assina o prefácio. Na edição, en-
É considerado o ro­ no, a Funarte publicou, em 2007, prefácio. Lúcia Machado, que foi
tásticas” de Hermilo. contram-se textos original­mente
mance mais experi- uma seleção de 12 peças, que fo- publicado pela Funda-
Escrito entre agosto publicados em O general está pin- Gênese de uma poética
mental do autor. Com ram agrupadas em três volumes, ção de Cultura Cidade do Recife,
de 1974 e julho de 1975, tando, Sete dias a cavalo e As meninas da transtextualidade;
ele, Hermilo se aproxi- escritas por Hermilo ao longo da em 2006. A edição traz cinco
no bairro do Derby, As meninas do sobrado. apresentação do
ma novamente do tipo sua carreira. A organização dos ensaios escritos por encenado-
do sobrado foi publicado após a dis­curso hermiliano
de linguagem usado em “Um ca- Palmares e o coração livros foi realizada por Leda Al- res e pesquisadores da obra de
morte a morte do autor, em 1976.
valheiro da segunda decadência”, ves e o pesquisador Luis Augusto É mais uma investida Hermilo. Esse time é composto por
A coletânea reúne 33 novelas Livro de crônicas or-
mas sem o teor confessional que Reis, que optaram por uma ordem da pesquisadora Sônia Fernando Augusto Gonçalves, pelo
curtas, permeadas por persona- ganizado pelo poeta
marca a tetralogia. O romance cronológica dos textos, para dar Maria van Dijck Lima, onde ela professor Luis Augusto Reis e os
gens pitorescos e causos típicos Juareiz Correya, para
reúne histórias que não apresen- uma ideia da trajetória criativa busca analisar a narrativa de diretores Antonio Cadengue, João
das cidades do interior. Apesar homenagear os 80 anos
tam muitas ligações diretas entre de Hermilo. O primeiro volume Hermilo através da crítica ge- Denys e Marco Camarotti.
desse tom, mais voltado ao cô- de nascimento de HBF.
si, sendo costuradas por um per- abrange o intervalo entre 1944 nética. O livro saiu em 1993, pela
mico, as narrativas não negam Nos textos, Hermilo relembra Hermilo, lembrança
sonagem que se metamorfoseia e 1948, reunindo as peças João sem Editora Universitária da UFPB.
o viés lutador do autor, de fazer dos tempos na sua cidade natal, viva de um mestre
em padre, deputado, embaixador, Terra, o Auto da mula-de-padre e as
com que a sua arte incomode Palmares. O livro foi publicado Lendo Hermilo
agente funerário, guerrilheiro e tragédias Electra no circo e O vento Organizado por Lúcia
e sirva como ponto de reflexão em 1997, pela Fundação Casa da Borba Filho
hermafrodito. do mundo. Já a segunda parte traz Machado, o livro traz
sobre o mundo, como fica claro Cultura Hermilo Borba Filho.
obras do fim dos anos 1940 e do iní- A professora Sônia Ma- entrevistas com ami-
O autor se vale da lin­guagem já na apresentação do livro: “Um
Louvações, cio dos 1960, como A barca de ouro, ria van Dijck Lima ana- gos e colegas de Her-
teatral, incluindo boa parte da dedo em riste, apontando para
encantamentos e A cabra cabriola feita para o teatro lisa com detalhamento milo, bem como muitos
peça Um paroquiano inevitável no os poderosos e acompanhado de
outras crônicas de bonecos, o musical As Moscas a presença do popular pesquisadores de sua obra, a
capítulo “Eu, agente funerário”; como insopitáveis convulsões de riso,
e a comédia O cabo fan­farrão. E e do erudito, de elementos do exemplo do Juareiz Correya,
da linguagem dos quadrinhos, eis a imagem apropriada para a Volume de crônicas es-
o terceiro volume se dedica à maravilhoso, da transformação Germano Haiut, José Pimentel,
para desenvolver o capítulo “O marca alucinatória e caricatural critas por Hermilo, se-
produção de meados da década do espaço, da intertextualidade Antonio Cadengue, José Cláudio,
livro dos mortos”, com ilustrações destas narrativas. A denúncia do lecionadas pelos poetas
de 1960 até o início dos anos 1970, e do projeto de valorização da Zoca Madureira e Ronaldo Cor-
do artista plástico José Cláudio. Es- sofrimento, da miséria, da corrup- Jaci Bezerra e Juareiz Correya,
reunindo A donzela Joana, a comé- cultura nordes­tina a partir da reia de Brito, além de Leda Alves.
crito no bairro dos Aflitos, Recife, ção e da violência num tom faceto junto com a atriz e viúva Leda
dia Um paroquiano inevitável e O obra dramatúrgica e literária O livro foi publicado em 2007 pela
no intervalo entre maio de 1970 como só Hermilo Borba Filho con- Alves. A edição saiu em 2000,
bom samaritano, além de Sobrados de Hermilo Borba Filho.. O livro Fundação de Cultura Cidade do
e outubro de 1972. A edição, é da segue imprimir-lhe”. A edição é através de uma parceria entre
e Mocambos, adaptação da obra de foi publicado pela editora Atual, Recife.
Civilização Brasileira, de 1974. da Globo, de Porto Alegre. a Fundação Casa da Cultura Her-
Gilberto Freyre. de 1986.
milo Borba Filho e a Bagaço.
FORTUNA
44 45

CRÍTICA
[excertos]

embora a trama do romance se desenvolva no


OS CAMINHOS DA SOLIDÃO ambiente rural nordestino, perfeitamente ca-
racterizado em felizes descrições, estamos dian-
“Começaremos por Hermilo Borba Filho, que te de drama psicológico, de um embate de almas
deixando de lado o teatro, onde tem empregado angustiadas, tangidas por um destino impiedoso.
o melhor do seu talento, volta-se para o roman- O herói da história, André, é sem dúvida, um per-
ce com uma segurança de veterano. O teatro sonagem de grande interesse romanesco, cujo
ensinou-lhe o segredo da economia vocabular, a drama não deixa indiferente o leitor.”
capacidade de movimentar, em traços rápidos, José Condé, no Correio da Manhã, em 28 de no-
Fora de cena, no palco pesquisadora Virgínia Celeste Hermilo Borba
concisos, personagens e situações e, sobretudo, a vembro de 1957.
da Modernidade: um Carvalho da Silva, (Teoria da Lite- Filho: Memória
estudo do pensa­mento ratura, Pós-Graduação em Letras de resistência e facilidade do diálogo, sem dúvida uma das prin-
cipais virtudes deste romance. Empregando com “Os caminhos da solidão é um livro muito fraco,
teatral de Hermilo da UFPE, 2009). A autora se propõe resistência da
grande virtuosismo a técnica do contraponto e do justamente porque Hermilo Borba Filho não é um
Borba Filho a analisar como o es­critor constrói história
monólogo interior, Hermilo Borba Filho consegue romancista. Tinha tudo nas mãos para escrever
uma cidade fic­cional usando o
Tese de doutorado de Geralda Medeiros Nó- efeitos realmente surpreendentes. Seu romance um grande livro de ficção que, cremos – madu-
espaço do Recife dos anos 1960, a
Luís Augusto Reis, (Teoria da brega analisa como a obra de HBF está entre os melhores de 57.” reza aliada ao ímpeto da juventude – poderia
partir de um arcabouço teórico
Literatura, Pós-Graduação em atua na ruptura de fronteiras Edgard Cavalheiro, no Suplemento Literário, em ter sido uma excelente estreia na fase final do
que trata de memória, mímesis,
Letras da UFPE). O autor parte dos culturais, por meio da cultura 4 de janeiro de 1958. regiona­lismo. Hoje não. Livro que não continua a
tempo e narrativa.
textos escritos por Hermilo para popular, evidenciando assim o seu tradição dos romancistas do Nordeste, não por ser
a coluna Fora de cena (publicada Hermilo Borba Filho e a papel de negação às hegemonias “Já no teatro Hermilo Borba Filho se vem dis- um avanço, e sim por representar um retrocesso,
no jornal Folha da Manhã). A tese dramaturgia: diálogos culturais. O livro foi publicado tinguindo pela procurar de novas técnicas, e que uma quase volta às origens dessa escola literária”.
ganhou o formato de livro, publi- pernambucanos pela EDUEPB, em 2015. se bem patente, por exemplo, na sua peça Auto da Assis Brasil, no Jornal do Brasil, em 29 de de­
cada pela Editora Universitária Mula do Padre. No romance, verificamos essa mes- zembro de 1957.
Organizado por Lúcia O grotesco e as imagens
da UFPE em 2009. ma tendência, que parece denunciar a influência
Machado sobre a obra do corpo no romance
de alguns autores norte-americanos. Temos aqui “Um homem dedicado e destinado ao teatro,
Memória e ficcionali­ de Hermilo. O livro traz AGÁ, de Hermilo Borba
a narrativa em dois planos, com uns “interlúdios”, cuja recente incursão no romance (Os caminhos
dade em Deus no pasto, textos de Anco Márcio Tenório Filho
estabelecendo um corte naquilo que poderíamos da solidão) é um acidente apenas razoavelmente
de Hermilo Borba Filho Vieira, João Denys Araújo Leite e
Dissertação de mes­ chamar de duração histórica. O processo é usado feliz, o resultado de uma inquietação, talvez uma
Luís Augusto Reis. A edição saiu
É a dissertação de mes- trado de Luiz Roberto com certa habilidade, oferecendo ao autor maio- ingenuidade no gênero daquela injustificável e
pela Fundação de Cultura Cidade
trado defendida pela Leite Farias, (Pós-Graduação em res recursos para a exploração psicológica. Pois secreta ambição de Chaplin, que desejaria fir-
do Recife, em 2011.
Letras da UFPE, 2017).
mar-se em outros planos alheios à sua vocação Utilizando material autobiográfico e nar­ e ritmados de misticismo e jogo se­xual, numa lin- Raimundo Carrero, no Diario de Pernambuco, em
46 autêntica, segundo hipótese de P. E. Sales Gomes, rando a experiência do personagem central na guagem que por sua exuberância desemboca 9 de abril de 1972. 47
em artigo recente.” primeira pessoa, Hermilo estabelece uma acen- muitas vezes na fantasia surrealista.”
Osman Lins, n’O Estado de S.Paulo, em 12 de abril tuada identificação entre autor e protagonista; Roberto Pontual sobre A porteira do mundo, no “Seguindo esses pressupostos, a cidade do Recife
de 1958. mas essa identificação não deve iludir o leitor Correio da Manhã, em 24 de dezembro de 1967. traz em suas ruas não apenas asfalto e gente, mas
quanto à natureza do relato, que é a de um ro- os discursos que essa gente produz sobre ela, seu
“Trata-se de um romance que, nada tendo de mance, isto é, de uma obra de ficção.” cotidiano e sua subjetividade. No romance Deus no
estreitamente regionalista no sentido de caipi- Leandro Konder, no Diario de Pernambuco, em 16 pasto, Hermilo traz esses discursos sobre a cidade e
rista, é regional no sentido telúrico. Sente-se nele
não só o Nordeste, em geral, como Pernambuco
de outubro de 1966. O CAVALO DA NOITE suas pontes; ele a mimetiza e de fatos, ora reais, ora
ficcionais, constrói um Recife que participa inten-
em particular. Mas um Pernambuco que não se “Margem das lembranças desvenda-nos a in- “Já no plano estético, há que realçar-se a lin- samente da estruturação da obra; um Recife em
apresenta: faz-se sutilmente sentir. O mesmo, ali- quietação e o ardor de viver que impulsiona seu guagem. Sem recorrer a processos radicais de movimento que, acompanhando o curso da história
ás, acontece ao autor que acaba de regressar à personagem-narrador, contrapondo-o à vida ar- composição, o autor dá ao idioma desenvolta influ- intelectual, não serve mais de palco a heróis, entre-
sua velha província, depois de vários anos em rastada, descolorida e banal de uma cidade pro- ência, certo desgarramento expressivamente efi- tanto acolhe, de forma até irônica, seus habi­tantes.
São Paulo, para nela se fixar de vez: é um per- vinciana. Nele, nada é meio-termo ou neutro ou caz para a transfiguração onírica da sua visão dos As pessoas empíricas, que pela vida de Hermilo,
nambucano que escreve romance ou peça de cinzento... Todas suas reações frente à vida são acontecimentos. Os delírios dos personagens, nota- desprendem-se, no romance, de sua existência
teatro apoiando-se, sem ostentação nem retó- extremadas e de cores definidas. Todas as expe- damente do herói, resultam de elaborada lingua- “real” e tornam-se atores de um grande espetácu-
rica, na sua infância de menino do interior de riências e descobertas que vão transformando o gem alucinatória, desvairada mesmo, cujos efeitos lo, afinal por Hermilo ser teatrólogo, é perceptível
Pernambuco que se fez homem no Recife. Seu ro- menino em rapaz e o rapaz em homem explodem plásticos e poéticos logo se impedem comovendo o quanto há influências do teatro em sua literatu-
mance é um romance em que experiência e am- de maneira violenta, marcando-lhe o espírito e de imediato o leitor. Hermilo Borba Filho parte do ra. A cidade não é apenas um espaço descrito, mas
biência se juntam para afazer dele a expressão atingindo-lhe o corpo com o êxtase mais arreba- quadro realista e, por intermédio desse surrealis- convive em harmonia com as personagens e com a
inconfundível de um romancista pernam­bucano. tado ou com a repulsa mais nauseante. Tudo nele, mo do desvario, das palavras que se atropelam em noção do tempo da obra.”
Mais do que isto: para dar às suas páginas a for- êxtase ou náusea, são frementes sintomas de vida. atmosfera de sonho ou pesadelo, de vertigem ou Virgínia Celeste Carvalho da Silva, na disser-
ça de um novo desmentido ao mito de que ‘Per- E se por momentos parece brutal ou grosseira, a alumbramento, vence a morosidade do tempo na e tação de mestrado Memória e ficcionalidade em
nambuco não dá romancista’”. verdade é que em nenhum instante perde seu cli- da narrativa, avança para nova cronologia, invade Deus no pasto de Hermilo Borba Filho, 2009.
Gilberto Freyre, na revista O Cruzeiro, em 31 ma de autenticidade e de verdade humana. o terreno da poesia, desloca os protagonistas [de O
de maio de 1958. E é através desse ardor, dessa apologia da vida cavalo da noite] para a vida que devem viver.”
instintiva, intensamente vivida pelos sentidos Mário da Silva Brito, no Diario de Pernambuco,
(numa dimensão que os ultrapassa de muito e os em 8 de setembro de 1968.
O GENERAL ESTÁ PINTANDO
SOL DAS ALMAS irmana às formas primitivas e elementares das
forças cósmicas), que Hermilo nos propõe, sub-rep- “Linguagem que constrói formas inaugurais, a
“Formalmente o livro é incomum, mas não de O general está pintando leva-nos de imedia-
chega a residir nisso a sua especialidade. A nar-
ticiamente, os valores de bem e do mal; do certo
e do errado. Onde estão as fronteiras de um e de
DEUS NO PASTO to ao limiar do Mito, transpondo abertamente o
rativa explica-se em dois tempos através de uma outro? Como julgamos o erro ou o acerto? Nessas “Sua importância não está apenas no fato de domínio da História, onde como dissemos arrai­
viagem em que metade é presente e metade é indagações, latentes na palavra expressa, pare- apresentar uma excelente visão da sociedade garam os livros anteriores do autor. Não que
memória. Uma viagem que é pungente e cheia ce-nos estar a razão essencial deste romance.” brasileira, mas, sobretudo, na notável e descon- Hermilo Borba Filho, escritor de compromisso, te-
de remorso, que rasga o coração ansioso de per- Nelly Novaes Coelho, no Diario de Pernambuco, certante estrutura romanesca. O livro é dividido nha voltado as costas à realidade e esteja sendo
feição, que curva o homem à sua condição mais em 5 de março de 1967. em longos capítulos, aparentemente desassocia- tentado por abstrações. Longe disso, sua matéria
negra, e o entrega à morte com o conforto apenas dos entre si – o que dá uma ideia de desarruma- fic­cional permanece aderida ao mundo concreto
de ter escrito um glorioso réquiem de lágrimas.” ção completa – mas unidos por fios misteriosos onde o homem vive a sua aventura, – grande ou
Walmir Ayala, no Jornal do Commercio (RJ), em 27 que formam, no final, uma espécie de compacto pequena, não importa. O que importa é a tensão
de agosto de 1965.
A PORTEIRA DO MUNDO edifício literário. Tudo isso ao lado de um ‘méto-
do psicológico’ onde o autor levanta aspectos im-
desse viver. A mudança a que aludimos liga-se
a uma mudança na consciência do escritor: não
“O que logo se constata nesse escritor pernam- portantes de sua vida – aspectos de certa forma mais interpretar a realidade autóctone com pa-
bucano, como uma de suas características funda- históricos – e alia-os à ficção, onde eleva-se o seu drões universais, mas revelá-la, defini-la com
MARGEM DAS LEMBRANÇAS mentais, é a afinidade com estilística com Henry
Miller. Já verificamos essa afinidade em Margem
forte poder de criação. Também procura inovar seus próprios e insólitos padrões.”
Nelly Novaes Coelho, no Diario de Pernambuco,
na linguagem utilizando-se em larga escala fra-
“Margem das lembranças marca um inegável das lembranças, primeiro volume de sua tetralogia, em 17 de março de 1974.
ses longas – às vezes cortadas por exclamações e
avanço na produção de romancista do escritor e ela agora se aprofunda em A porteira do mundo. interrogações – mas não desprezando também as
pernambucano Hermilo Borba Filho. (...) É um li- Ambos partem de um caráter diretamente au- frases curtas, incisivas. Estas são utilizadas, prin- “Em O Arrevesado Amor de Pirangi e Donzela ou
vro forte, carregado de sensualidade, desenvol- tobiográfico na elaboração da narrativa, desen- cipalmente, quando Hermilo Borba Filho insere ao o Morcego da Meia-Noite, Hermilo Borba Filho une,
vido num clima de violência, sob o signo das exi- volvendo-a por um caminho no qual se misturam seu romance, partes de diálogos de personagens.” de modo surpreendente, o lírico e o grotesco. Daí
gências místicas. metafísica e erotismo, em mergulhos sucessivos
porque a novela ganha dimensões inusitadas, ca-
48 pazes de causar as mais estranhas sensações no SETE DIAS A CAVALO
leitor não muito acostumado e não muito prepa- “Os contos de Hermilo Borba Filho aproximam-
rado para esse tipo de união. É assim como casar o se, por seu humor caricato e às vezes tão estrondo-
Sol com a Chuva, a Água com o Fogo, o Óleo com a so quanto uma gargalhada rabelaisiana, do teatro
Água. Entretanto, Hermilo não é apenas um escri- popular por motivos nordestinos de Ariano Suas-
tor: é um mágico, é um duende. Toda a composição suna. Ambos foram atraídos, no cancioneiro de cor-
d’O General está pintando é um exemplo disso.” del, por seu aspecto maravilhoso. E, paralelamente
Raimundo Carrero, no Diario de Pernambuco, em a esse maravilhoso, pelo grotesco, pelo cômico, satí-
5 de setembro de 1974. rico, pífio e gaiato. Em suma, a crônica de costumes
desfigurada por um conteúdo fortemente pícaro.”
“Irreverente, zombeteiro, rabelaiseano, bocca- Hélio Pólvora, no Jornal do Brasil, em 12 de no-
ciano, Hermilo Borba Filho vai tecendo os seus en- vembro de 1975.
redos, numa enxúndia de palavras que faz o sertão
virar mar. Sua linguagem chove em catadupas.
Uma pancada intencional de bom e mau gosto. Uma
bacanal descritiva. A prosa é de uma orgia romano-
tropicalista que certas situações de uma sensuali-
AS MENINAS DO SOBRADO
dade erótica mais acentuam. O erotismo, aliás, como “São trinta e três pequenas histórias pas­sadas
veículo de afirmação deste miraculoso mundo nor- nas redondezas de algum lugarejo anônimo da
destino, está no cerne do sonho fantástico.” Zona da Mata pernambucana; uma espécie de
Hélio Pólvora, no Jornal do Brasil, em 12 de de- Macondo nordestina, povoada de seres e aconte-
zembro de 1973. cimentos fantásticos.”
João Carlos Pádua, no Jornal do Brasil, em 14 de
“Esse realismo fantástico, que ora se manifesta novembro de 1976.
puramente maravilhoso e ora chega às raias do
grotesco, é a forma que o autor encontrou para
apresentar um estado de coisas num mundo de-
sencontrado repleto de contrastes chocantes e ab- OS AMBULANTES DE DEUS
surdos inexplicáveis”
“Agudamente consciente das agruras que afli-
Wilson Corrêa, no Tribuna da Imprensa, em 11 de
gem tanto o homem comum quanto a faixa pen-
dezembro de 1973.
sante da sociedade brasileira, Hermilo Borba Filho
consegue fundir a lucidez critica que analisa o social
e o humano em seu realismo, com o pensamento má-
gico que rege o ‘maravilhoso’. Essa intencionalidade
AGÁ crítica que, a nosso ver, enfraquece sobremaneira
“Mas leve-se em conta, a propósito das muitas em seu livro póstumo, Os ambulantes de Deus. Embora
falhas dessa nova obra de Hermilo Borba Filho, sua narrativa flua sem cessar, com o magnetismo
que ela, acima de tudo, inquieta e faz pensar – da linguagem poético-barroca que Hermilo soube
qualidades que, nos dias de hoje, raramente che- tão bem manipular, a interminável (e sem finalida-
gam aos balcões das livrarias. Se Agá não é uma de) travessia da jangada que, com seus ‘ambulantes’
obra acabada, completa e igual, é talvez porque vai de uma à outra margem de um fantasioso rio,
o autor não esteja preocupado em compor um nada mais revela além de fragmentos humanos, so-
romance desse tipo, mas sim, em dar um recado nhos, acontecimentos insólitos e independentes en-
para o qual, além de inegável talento, é preciso tre si, tendendo para o fantástico... tudo imerso em
ter, entre muitas outras coisas, o sentido exato do uma atmosfera fantástico-alegórica que não revela
comício e da grossura.” nenhuma raiz com o Real Cotidiano.”
Aguinaldo Silva, no Opinião, em 29 de novembro Nelly Novaes Coelho, em Movimento, em 6 de ju-
de 1974. nho de 1977.