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04/05/2016 A Visão Marxista do Estado | Artigos JusBrasil

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04 de maio de 2016  

A Visão Marxista do Estado
Publicado  por  Luiz  Claudio ­  11  meses  atrás

Por: Luiz Cláudio Lima Costa ­ Filósofo e Advogado
(luislima_vb@hotmail.com)

Resumo: O presente trabalho tem o intuito fundamental de analisar os
contornos teóricos de Marx sobre a questão do Estado, para tanto, necessitará de
perfazer suas análises sobre questões econômicas e sociais, para assim, se
entender o surgimento do Estado e seu ocaso dentro da teoria marxista.

Palavras Chaves: Estado; Marxismo; Luta de Classes; Hegel; Socialismo
Utópico.

I­ INTRODUÇÃO

Pouco difundido dentro da obra de Karl Marx, a questão do Estado fica relegado
aos acontecimentos determinantes das estruturas produtivas da sociedade. Todo
seu arcabouço teórico girou em torno dos fatores reais de poder, como diria
Ferdinand Lassalle, inscritos na produção da existência humana.

Desde os escritos de juventude, passando pela Crítica da Filosofia do Direito de
Hegel de 1843 Manuscritos econômicos e filosóficos de 1844, A Ideologia Alemã
de 1846 e o reconhecidíssimo Manifesto do Partido Comunista de 1848, até
chegar a sua obra de maturidade, como O Capital de 1867, Marx não se esmerou
em declinar proposições afetas ao Estado, propriamente dita, mas, centrando sua
discussão em categorias, eminentemente, econômica e social.

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Todavia, não chegou ao ponto de vilipendiar por não ver nele sua importância na
regência política dos conflitos inerentes, instados na base produtiva da sociedade.
De sorte que, este tinha uma função importante dentro da ordem estabelecida,
como forma de legitimar a classe vencedora na gerência social, inserta na obra do
pensador alemão.

Sendo assim, Marx tinha que construir seu arquétipo teórico com o fito de colocar
o Estado, a serviço da ordem estabelecida e, como manifestação ontológica, das
contradições fundamentais das classes emulantes.

Para tanto, deteve­se em descrever como o sistema produtivo arriba seus
desideratos, posto em constantes conflitos e, com isso dando sentido a história.
Desta maneira, observou fenômenos importantes da história, como o surgimento
de forma de governos e modelos econômicos, sobretudo.

Conquanto, não se podem olvidar das contribuições importantes de movimentos
políticos e filosóficos que deram azo ao surgimento de uma crítica fulcral dos
sistemas reinantes à época, a exemplo, sobretudo, do socialismo utópico, que em
determinado momento na história da obra de Marx, fez frente argumentativa.

Resgata­se disto, as conclusões tiradas por Marx acerca dos problemas
econômicos e sociais, que era imantado pela figura onipresente do Estado,
garantindo com isso, o apaziguamento das tensões sociais.

Com essa tônica, vislumbramos na obra de importantes autores do campo da
Filosofia, Sociologia e do Direito, a contribuição marxista para a compreensão do
Estado contemporâneo. Sem embargos, que tudo isso servirá de aporte teórico
para depreender as formulações essenciais que conduziram Marx a criar uma
teoria com o escopo de sucumbir com a figura do Estado e, que terá como centro
argumentativo, do presente trabalho.

Ademais, repise­se, que mesmo Marx não se detendo com maior circunspecção
acerca do Estado, este viu nesse uma variável de fundamental importância para
manter amalgamado as classes sociais dentro da bolha infensa do capitalismo

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moderno.

Com efeito, é por isso que seu esforço teórico, cujo objetivo principal está em
deslindar com as estruturas materiais da sociedade, é no sentido de abolir com a
figura do Estado, tendo em vista, ser este o representante da classe vitoriosa no
poder, e o corolário da luta de classes, onde seu centro de gravitação converge
para o interesse dos barões da economia, numa sociedade calcificada em
contradições.

II – DESENVOLVIMENTO

Para se entender o surgimento do Estado e seu modo de estruturação dentro de
um modelo de produção, na obra de Marx, deve­se caminhar, embrionariamente,
em sua obra de juventude, mas precisamente, na Crítica da filosofia do direito de
Hegel de 1843.

Na citada obra, Marx trava uma discussão com o idealista alemão, demonstrando
como este havia, arbitrariamente, ontologizado o Estado sem proposições reais. O
Estado estava erigido por premissas, Concessa Vênia, abstrata e sem ligação
fundamental com o tecido social que articula e desenvolve a origem do Estado,
propriamente dito. Afinal, “o Estado é produto da sociedade ao chegar a uma
determinada fase de desenvolvimento” (BONAVIDES, 2012, p. 179).

Por outro lado, na perspectiva hegeliana, “a ideia é subjetivada e a relação real da
família e da sociedade civil com o Estado é apreendida como sua atividade interna
imaginária” (MARX, 2005, p. 30), de sorte que “segundo Hegel” o Estado tem
seu nascedouro da “Ideia real” (MARX, 2005, p. 30), que necessariamente, é
construto do Espirito Absoluto hegeliano que forja toda existência concreta a
partir de pressupostos filosóficos.

A Razão, derivado ontológico do Espírito Absoluto hegeliano, tem o condão de
estruturar todas as variáveis concretas das relações sociais, posto que, é na
consciência do Ser que brota as contingências da vida real, sendo a consciência os
rebentos, não só lógico, como ontológico da formação social.

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Ideia esta, rebatida por Marx e Engels em A Ideologia Alemã, no qual infirmava
tal posicionamento da seguinte maneira, “não é a consciência que determina o ser
social, mas é seu ser social que determina sua consciência” (MARX e ENGELS,
2002, p. 04), numa alusão, clara, de sua preferência ao materialismo histórico,
inaugurado naquela obra.

É de curial sabença, que Hegel engendrou seu pensamento sob pressupostos
eminentemente idealista, onde suas teses eram retiradas de sua própria mente e
acondicionada, ou melhor, dizendo, adequada à realidade social, sem nenhuma
pedra de toque, como diria Kant em sua A Crítica da Razão Pura,
consubstanciando, na ótica marxista, um dogmatismo filosófico.

Dado vislumbrado por Marx como místico e nebuloso, pois como havia da
realidade se estruturar no mundo sem as ligações fundamentais de categorias
práticas e imediatas, que determina o homem a mover­se na história, como a
produção de sua existência, fato este, tido pelo comunista alemão, como
genealógico para entender qualquer variável político­social, devendo, portanto,
entende­las, como sucedâneos das vicissitudes produzidas a partir da base
econômico­social.

Althusser discorrendo sobre a questão da superestrutura, no qual o Estado é um
dos seus corolários, teoria esta, declinada por Marx e Engels na A Ideologia
Alemã, indica sua subordinação aos ditames da estrutura econômica da sociedade,
afirmando que, “pode­se dizer que os andares da superestrutura não são
determinantes em última instância, mas que são determinados pela eficácia da
base; que se eles são a seu modo (ainda não definido) determinantes, apenas o
são enquanto determinados pela base” (ALTHUSSER, 1985, p. 61).

Assim fica configurado o caráter reflexivo do papel do Estado, uma vez que,
patente está o liame fático com a estrutura material da sociedade, conduzindo­nos
a pensar “que é a partir da reprodução que é possível e necessário pensar o que
caracteriza o essencial da existência e natureza da superestrutura” (ALTHUSSER,
1985, p. 62).

Este é o primeiro dado importante para se entender a crítica que Marx declina
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sobre o Estado, sobretudo, o Estado burguês, onde as relações sociais têm um
caráter meramente abstrato, pouco substantivo, e grandiloquentemente formal.
Aliás, nisso está consubstanciado todo poder do Estado que subsumiu a realidade
contraditória da sociedade, a um documento solene (leis) e de pouca serventia
para corrigir estas distorções sociais, capitaneada da base econômica da
sociedade.

Outro dado fundamental, e de importante relevo, é a concepção utopista dos
movimentos políticos e filosóficos do século XVIII, sobre a realidade econômica,
social e política da sociedade europeia, que na perspectiva marxista, não
confrontaria com o status quo concretamente constituído.

Portanto, o movimento socialista utopista não convergia para uma crítica dos
aspectos econômicos, propriamente dito, mas delineava­se em categorias
filosóficas, como um dever ser de uma sociedade futurística[1]. Isso:

Ocorre, além do mais que a crítica socialista utópica é crítica filosófica. Deixa
de ser um retrato social vivo, autêntico, no que tange à reforma dos aspectos
negativos da sociedade industrial. É nessa ocasião que os utopistas do
socialismo propõem a nova sociedade, a sociedade ideal, a sociedade que
deveria ser (BONAVIDES, 2012, p. 175).

Desta maneira, Marx aportou­se destas perspectivas, diga­se de passagem,
inacabadas, como todo projeto, para alçar sua teoria materialista da sociedade e,
conseguintemente, pontua­la de modo positivo para tocar, concretamente, os
modus operandis da ordem estabelecida socialmente.

Nesse baldrame, Marx inaugura essa modalidade sociológica de apreciar os
fenômenos sociais que instam a formação política de um Estado, defenestrando,
com isso, toda metafísica dogmática, tanto do hegelianismo, quanto do socialismo
utópico do século XVIII. Assim, “Karl Marx, partindo de postulados sociais,
intenta a reconstrução da teoria do Estado em bases nitidamente políticas e
econômicas” (BINAVIDES, 2012, p. 177).

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Nesse diapasão, nasce a proposta marxista do socialismo científico de investigar
as potências que anima o interior das sociedades, e que buscam, a todo momento,
modificar suas relações de produções, causando assim, impactos no processo
civilizador e, consequentemente, mudanças históricas.

Sua finalidade, ao contrário dos socialistas utópicos e da filosofia hegeliana, não
buscava um paradigma de sociedade ideal, mas, tão somente, uma explicação
lógica que denunciasse um novo modelo societal que adviesse de sua narrativa
histórica, inscrita em tensões incessantes das classes emulantes.

Conquanto, suas pesquisas centravam­se em categorias reais, a exemplo da força
de trabalho[2], da família, e da sociedade de modo geral, tendo em vista, que
estas estruturam e fundamentam o Estado moderno. Contrariamente a Hegel,
Marx aduzia que a “família e sociedade civil são os pressupostos do Estado; eles
são os elementos propriamente ativos” (MARX, 2005, p. 30).

Bonavides (2012, p. 178) aludindo ambas as perspectivas aduz que:

Diverge Marx profundamente de Hegel em ver no Estado ordem exterior à
sociedade, da qual, todavia, se deriva. A concepção hegeliana era orgânica; a
de Marx, mecanicista. Em Hegel o Estado é fim em sim mesmo, totalidade
racional ou ética; em Marx, instrumento de poder, arma temível e poderosa
em mãos de determinada classe, utilizada, segundo ele, não a favor da
sociedade, mas da classe fortes e privilegiadas, contra as classes fracas e
oprimidas.

Com isso, infere­se que “o Estado provém delas de um modo inconsciente e
arbitrário. Família e sociedade civil aparecem como o escuro fundo natural donde
se ascende a luz do Estado” (MARX, 2005, p. 29), servindo­lhe como nutriente de
seu corpo social e político que se interagem com finalidades homogêneas.

Por isso, que o entendimento do Estado está calcado no entendimento da
sociedade civil de modo geral, já que, nela se instala todo mecanismo de atuação
social capaz de engendrar sobressaltos rumo a outros ares sociais.

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Depreende­se, como isso, que “(...) o Estado político é uma abstração da
sociedade civil” (MARX, 2005, p. 96), que, nos dizeres de Lênin, ele, em linhas
gerais, é um epifenômeno de todo arranjo social interagindo dentro de interesses
mútuo. Sendo assim, “o Estado é o produto e a manifestação do antagonismo
inconciliável das classes” (LÊNIN, 2007, p. 25).

E tão somente, nesse sentido, que:

O Estado não é, pois, de modo algum, um poder que se impôs à sociedade de
fora para dentro; tampouco é “a realidade da ideia moral”, nem “a imagem e a
realidade da razão”, como afirma Hegel. É antes um produto da sociedade,
quando esta chega a um determinado grau de desenvolvimento; é a confissão
de que essa sociedade se enredou numa irremediável contradição como ela
própria e está dividida por antagonismos irreconciliáveis que não consegue
conjurar. Mas para que esses antagonismos, essas classes com interesses
econômicos colidentes não se devorem e não consumam a sociedade numa luta
estéril, faz­se necessário um poder colocado aparentemente por cima da
sociedade, chamado a amortecer o choque e a mantê­lo dentro dos limites da
“ordem”. Este poder, nascido da sociedade, mas posto acima dela se
distanciando cada vez mais, é o Estado. (ENGELS, 2000, P. 191).

Circunscrito desta forma, o Estado surge da vontade de manutenir, não as
liberdades individuais ou coletivas, mas de servir, essencialmente, de instrumento
de opressão e dominação de classes recrudescida de seus desideratos sociais, no
intuito de perfazer seu lograr histórico de modo plácido. “O Estado é uma
máquina de repressão que permite às classes dominantes (no século XIX à classe
burguesa e à classe dos grandes fundiários) assegurar a sua dominação sobre a
classe operária, para submetê­la ao processo de extorsão da mais­valia”
(ALTHUSSER, 1985, p. 62).

Lênin em sua brochura O Estado e a Revolução de 1917 pontificou que o
capitalismo, manifestado na forma de imperialismo, está, única e exclusivamente,
a serviço da riqueza privada, endossando o que Marx e Engels haviam
preconizados em tempos pretéritos. Todavia, apontando aquele, pontualmente,
quais instituições, encarregadas estavam de realizar tal desiderato.
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“Atualmente, o imperialismo e o reinado dos bancos têm ‘desenvolvido’, uma arte
requintada, em todas as repúblicas democráticas, esses dois meios de manter e
exercer a onipotência da riqueza” (LÊNIN, 2007, p. 31). E os meios aos quais
Lênin estava se referindo para ossificar o projeto do capital, dentro da esfera
estatal são “a corrupção pura e simples dos funcionários (...) e aliança entre
Governo e a Bolsa” (LÊNIN, 2007, p. 31), sobretudo, porque “a repúlica
democrática é a melhor crosta possível do capitalismo” (LÊNIN, 2007, p. 31).

Com isso Lênin informou a importância do proletariado em encampar o terreno
da política, para submeter toda ordem social e política a seu projeto
revolucionário, e assim, efetivar o trajeto da dialética marxista. “As classes
exploradas precisam da dominação política para o completo aniquilamento de
qualquer exploração, no interesse da imensa maioria do povo contra a ínfima
minoria dos escravistas modernos, ou seja, os proprietários fundiários e os
capitalistas” (LÊNIN, 2007, p. 43).

Portanto, a serventia do Estado, em nenhum momento histórico, registre­se, não
pode contradizer os interesses da classe dominante, que lhe instituiu como forma
de legitimar toda fraude jurídica aterrissada no bojo da sociedade, até porque, “as
ideias dominantes de uma época sempre foram às ideias da classe dominante”
(MARX e ENGELS, 1998, p. 26).

Em ensaio comemorativo dos 150 anos do O Manifesto do Partido Comunista,
Tarso Genro demonstra essa relação entre os nubentes (Estado e sociedade civil
amalgamada) do capital, atestando que “a ‘descida’ do Estado em direção a uma
plena identificação com os proprietários privados torna­se um ponto de partida
para Marx, pois esta identidade determina uma nova legalidade” (GENRO, 1998,
p. 122).

Mais adiante Tarso pontifica que:

De forma direita ou indireta, tal “descida “do Estado em direção à defesa dos
proprietários privados faz parte da experiência cotidiana atual da grande
parte da população dos centros urbanos, Os desempregados e miseráveis, por
exemplo, são constantemente assediados pela polícia para desocupar bens
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imóveis privados, assim como surge nova arquitetura urbana sem abrigos
externos, para que, à noite, eles não sejam ocupados como “quarto de dormir”
dos excluídos” (GENRO, 1998, p. 122).

No próprio Manifesto Marx deixou consignado esse aporte gerencial do Estado
para manutenir os interesses da burguesia, em pleno albor da modernidade
afluente, para manter sob controle, seus antípodas sociais e, com isso, tornar
ubíqua sua regência social.

Assim, o Estado, como manifestação política da burguesia e como emissário de
regras para conter­se no poder os medalhões da economia, deve ser entendido
como “o poder político propriamente dito é o pode organizado de uma classe para
dominar outra” (MARX e ENGELS, 1998, p. 28).

Em passagem densa, mas esclarecedora, posto que, o filósofo alemão discorre
sobre períodos históricos pelos quais os barões da economia geriam seus negócios,
através, como nos seus dizeres, de um comitê político. Com isso, Marx assim
declinou:

Cada uma dessas etapas de desenvolvimento da burguesia foi acompanhada
por um progresso político correspondente. Segmento social oprimido sob a
dominação dos senhores feudais; organizado em associação armada
autogerida na comuna; aqui república urbana independente, ali terceiro
estado sujeito aos impostos na monarquia; ou, mais tarde, no período
manufatureiro, contrapeso da nobreza na monarquia feudal ou absoluta; no
geral, principal fundamento da grande monarquia – com o estabelecimento da
grande indústria e do mercado mundial a burguesia conquistou, finalmente, o
domínio político exclusivo no Estado representativo moderno. O poder do
estado moderno não passa de um comitê que administra os negócios comuns
da classe burguesa como um todo. (ENGELS e MARX, 1998, p. 09/10).

Na supracitada obra de juventude de Marx e Engels, também ficou consignado o
caráter revolucionário do processo histórico, no qual alçou a burguesia à classe
hegemônica, mas que de uma maneira ou de outra, terá seu ocaso como certo, vez
que, o motor da história está em plena rotação, como telos de dirimir sua
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contradição interna.

Nas primeiras linhas do Manifesto, Marx e Engels vaticinaram que a história é
movida por esses dois grandes blocos (burgueses e proletários) sociais em
constantes conflitos, com o escopo de assumir a regência social[3].

Nesse esteio, conforme Marx e Engels, o proletariado não cessará no seu projeto
de depor a burguesia da regência político­social, e com isso instaurar a ditadura
provisória do proletariado, com a ascensão do socialismo científico.

A importância do proletariado em assumir a gestão do Estado, para com isso dar
seguimento ao seu projeto histórico, consiste no status quo de sua própria
ontologia social, de ser ela uma classe eminentemente revolucionária e capaz de
perfazer os caminhos do império da Razão, como aduziu Hegel com o avento do
Estado Moderno.

Os trabalhadores só têm necessidade do Estado para quebrar a resistência dos
exploradores, e só o proletariado tem envergadura para quebrá­la, porque o
proletariado é a única classe revolucionária até o fim e capaz de unir todos os
trabalhadores e todos os explorados na luta contra a burguesia, a fim de suplantá­
la definitivamente. (LÊNIN, 2007, p. 43).

Neste estágio, o poder político estará a serviço das massas laboriosas, que
instintivamente, imprimirá seu projeto político­social, e encolherá,
progressivamente, a burguesia em todos os níveis, causando, assim, seu débaclè
social[4].

Como visto, as contendas entre burguesia e proletariado consiste em assumir a
titularidade do poder político, instado no aparelho estatal. A importância deste é
de relevância primordial, tendo em vista, que os conflitos tombados no bojo da
sociedade são por ele absorvido e, sucumbido pelo estado de normalidade que lhe
é peculiar no múnus de sua gestão pública.

Com o desenvolvimento das forças produtivas, e a ocupação do proletariado no
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campo político­estatal, o papel do Estado torna­se despicienda e com o passar do
tempo acaba esvaindo. O período de negação do Estado é posto em movimento
dentro da teoria marxista, com o enfraquecimento das classes sociais, que acabam
por adentrar na quarta fase da dialética engeliana, ou seja, na fase de
transformação da quantidade em qualidade.

Desta maneira, “a intervenção do Estado nas relações sociais se vai tornando
supérflua daí por diante e desaparece automaticamente. O governo das pessoas é
substituído pela administração das coisas e pela direção do processo de produção.
O Estado não é ‘abolido’: morre” (LÊNIN, 2007, p. 34).

No mesmo esteio, Bonavides (2012, p. 181) aduz que, por perder sua finalidade
social, “o Estado não é abolido, extingue­se”, isso porque o proletariado só precisa
do Estado provisoriamente[5], com o fito de educar as massas laboriosas ao
império da Razão, como dito acima, alinhando, assim, o projeto marxista, ao
pensamento kantiano, de uma lógica apodítica, imune de contradições.

De mais a mais, essa abolição ou extinção do Estado não se dá por meio de um
“decreto”, ou por liberalidade das partes (burgueses e proletários), mas pelas
tensões constantes, enredada nas lutas de classes, ao chegarem ao seu ponto de
saturação histórica.

Mészàros, assumindo a vanguarda de reescrever O Capital do século XX,
pontificou que:

O imperativo de abolir o Estado foi colocado em evidência, mas não em termos
voluntaristas. Ao contrário, Marx nunca perdeu a oportunidade para reiterar
a completa futilidade dos esforços voluntaristas. Para ele era claro, desde o
início, que nenhum fator material pode ser “abolido” por decreto, incluindo o
próprio Estado, um dos mais poderosos de todos os fatores materiais.
(MÉSZÀROS, 2002, p. 565).

Conquanto, o abolicionismo do Estado não só está ligado a sua falta de finalidade
social, após a realização da ditadura do proletariado e a consequente destruição

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das classes sociais, mas porque, o projeto racional, como dito acima, kantiano
consignado por Marx, exauriu­se, posto que, o fosso entre o político e o social
feneceu­se.

Nesse supedâneo, “Marx percebeu que a contradição entre o social e o político
seria inconciliável. Dado o caráter antagônico das próprias classes sociais,
perpetuada como tal pela estrutura política, o Estado seria irredimível, portanto
descartado” (MÉSZÀROS, 2002, p. 565).

Assim está inscrito a narrativa histórico­social do proletariado que, tem como
escatologia “(...) a supressão do Estado, isto é, de toda violência organizada e
sistemática, de toda coação sobre os homens em geral” (LÊNIN, 2007, p. 98),
configurando assim, a realização da filosofia marxista de redenção da essência
humana perdida em meio ao projeto obscuro de produção de mercadoria,
capitaneada pelo capitalismo moderno e seu auspício alienatório,
proficientemente declinado na obra de maturidade de Marx, que fora O Capital de
1867.

Por derradeiro, depreende­se que “o Estado (e a política em geral, como um
domínio separado) deve ser transcendido por meio de uma transformação radical
de toda a sociedade” (MÉSZÀROS, 2002, p. 566), através de um conjunto de
medidas adotadas pelo proletariado organizado, afastando, de uma vez por toda,
da regência social, a burguesia, o capital, o sistema produtor de mercadoria e a
subjugação do homem pelo homem, como realização máxima, da filosofia da
história de Marx.

III – CONSIDERAÇÕES FINAIS

O caminhar intelectual de Marx na busca de explicações acerca da sociedade
moderna, sobretudo, pelo prisma da economia política, como assim nomeou suas
pesquisas, conduz­nos a um confronto com categorias angulares dentro do
processo social.

Sem embargos, a seta indica, pela metodologia traçada pelo filósofo alemão, que

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os indicadores das respostas estão imersos em variáveis econômico­sociais, e que
qualquer resposta amealhada deve se encontrada dentro desse mote
argumentativo.

Com a figura do Estado não é diferente, pois em rota de colisão com a filosofia
hegeliana, Marx traçou um perfil intelectual de cunho eminentemente
materialista, no qual a base produtiva da sociedade fornece os elementos
essenciais para a construção de seus arquétipos sociais.

Desde a obra de juventude, quando trata, especificamente, da temática acima
tombada, mas precisamente, em A crítica da filosofia do direito de Hegel de
1843, quando Marx tinha apenas 25 anos de idade, ele desmantelou com as
proposições idealista encampada por Hegel, mostrando seu fundamento
ontológico, não das hipóstases mentalista hegeliana, mas de uma concatenação de
fatores reais derivados da produção da existência humana.

Esses fatores econômicos que determinam as variáveis a seguir pela sociedade de
maneira geral, padeceria, certamente, não fosse a atuação de categoria
fundamentais para se manter coesa toda a estrutura social, a exemplo, do Estado.

Seu espeque social registra­se na importância de imprimir no tecido social,
sentenças abstratas e universais, capazes de aglutinar todo o tecido social ao seu
projeto de regência política dos conflitos nascentes das relações sociais.

O status de verdade ontológica que imanta a figura do Estado, faz com que as
multidões endossassem suas decisões sem maiores contestações, posto que, nos
dizeres de Hegel, ele é a objetivação da Razão, o resultado acabado de todo o
processo histórico. Em linhas gerais, ele é a personificação do logos e da métrica
imune de intervenções pessoais.

Todavia, nisso que consiste toda a crítica marxista do Estado, vez que, sua
materialização é expediente da classe social vencedora, que lhe institui como
forma de garantir sua supremacia social e política e, com isso venha a perpetuar­
se no poder, através da exploração dos oprimidos, legalmente sancionada.

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Assim, compreende­se, com deveras importância, que o Estado é uma ideologia
incrustada na política representada pelas suas instituições, como bem pontificou
Louis Althusser, em seu livro Aparelhos Ideológicos de Estado, amalgamando as
tensões sociais tombadas no bojo da sociedade civil, sob o manto abstrato de
representante legal de todo o tecido social[6].

De sorte, que o projeto marxista de retomada do controle estatal pelas massas
laboriosas, é no sentido desta instituir seu projeto político, pela deposição da
burguesia da regência social, e assim, manutenir seus interesses econômicos e
sociais, para que, aos poucos, gradativamente, venha a destruir com o Estado,
como manifestação da realização da filosofia marxista com o advento das relações
comunais no bojo do comunismo.

Sem embargos, que a luta incessante travada pela conquista do espaço econômico
e político pelas classes emulantes, é o vórtice da teoria marxista da História, mas
seu “fim” é sem dúvidas, o projeto da Razão marximiniana derivada, não da
filosofia de Hegel, mas certamente, da filosofia kantiana com sua categoria
apodítica, imune de contradição lógica e ontológica, com a unidade das classes
sociais.

BIBLIOGRAFIA

ALTHUSSR, Louis. Aparelhos Ideológicos de Estado. São Paulo: Ed. Graal, 1985

BONAVIDES, Paulo. Teoria Geral do Estado. São Paulo: Ed. Malheiros, 2012.

ENGELS, Friedrich. A Origem da família, da Propriedade Privada e do Estado.
Rio de janeiro: Ed. Bertrand Brasil, 2000.

GENRO, Tarso. O Estado e o Manifesto Comunista. In: O Manifesto Comunista
150 Anos. Rio de janeiro: Ed. Contraponto, 1998.

MARX, Karl. Crítica da Filosofia do Direito de Hegel. São Paulo: Ed. Boitempo,

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2005.

MARX, Karl e ENGELS, Friedrich. A Ideologia Alemã. São Paulo: Ed. Martins
fontes, 2002.

______, ____. ENGELS, Friedrich. O Manifesto do Partido Comunista. Rio de
Janeiro: Ed. Contraponto, 1998.

MÉSZÀROS, István. Para além do capital: Rumo a uma teoria da transição. São
Paulo: Ed. Boitempo, 2002

LÊNIN, V. I. O Estado e a Revolução. São Paulo: Ed. Expressão Popular, 2007.

[1] “Alcançamos assim o momento de caracterização do que seja o socialismo
utópico: em rigor um grito de guerra, uma palavra de protesto contra a sociedade
que foi, contra a sociedade que é e, portanto, um programa da sociedade ideal, um
programa para a sociedade do futuro, a sociedade que deveria ser” (BONAVIDES,
Paulo. Teoria Geral do Estado. São Paulo: Ed. Malheiros, p. 175)

[2] Já em 1844, nos Manuscritos econômicos e filosóficos Marx demonstrava sua
preocupação com a força de trabalho, não declinando, como fizera em sua obra de
maturidade, como O Capital, mas deixou assim pontificado: “O trabalho produz
maravilhas para os ricos, mas produz privação para o trabalhador. Produz
palácios, mas cavernas para o trabalhador. [...] Produz espírito, mas produz
imbecilidade, cretinismo para o trabalhador” (MARX, KarlManuscrito econômico­
filosóficos. São Paulo: Ed. Boitempo, 2004, p. 82).

[3] “A história de todas as sociedades até agora tem sido a história das lutas de
classes” (MARX e ENGELS. O Manifesto do Partido Comunista. Rio de Janeiro:
Ed. Contraponto, 1998).

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[4] “O proletariado vai usar seu predomínio político para retirar, aos poucos, todo
o capital da burguesia, para concentrar todos os instrumentos de produção nas
mãos do Estado – quer dizer, do proletariado organizado como classe dominante
– e para aumentar a massa das forças produtivas o mais rapidamente possível”
(MARX e ENGELS. O Manifesto do Partido Comunista. Rio de Janeiro: Ed.
Contraponto, 1998).

[5] “Nós sustentamos que, para atingir esse objetivo, é indispensável utilizar
provisoriamente, contra os exploradores, os instrumentos, os meios e os processos
de poder político, da mesma forma que, para suprimir as classes, é indispensável
a ditadura provisória do proletariado” (LÊNIN, V. I. O Estado ea Revolução. São
Paulo: Ed. Expressão Popular, 2007, p. 79).

[6] “O caráter do aparelho de Estado e sua posição na luta de classes na estaria no
lugar jurídico que ele ocupa na estrutura na estrutura da sociedade, mas no seu
funcionamento, repressivo ou ideológico. A burocracia, as Forças Armadas, o
Judiciário, o governo, não seriam repressivos porque se encontram em mão de
uma classe dominante ou de seus representantes, mas porque seu funcionamento
é coercitivo, porque são uma máquina de guerra, cujo produto é uma relação de
subordinação entre classes. A mudança de mãos do aparelho repressivo de Estado
não muda nada em seu caráter” (ALTHUSSR, Louis. Aparelhos Ideológicos de
Estado. São Paulo: Ed. Graal, 1985, p. 16). Nesse sentido que o marxismo
ortodoxo pleiteia por sua dissolução.

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