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PODER JUDICIÁRIO

TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO

Agravo de Instrumento nº 2067319-87.2019.8.26.0000


Comarca: SÃO PAULO
Agravante: JUSCILENE SOUSA GASTÃO e OUTROS
Agravada: PREFEITO REGIONAL DE PARELHEIROS DA
PREFEITURA DO MUNICÍPIO DE SÃO PAULO

Vistos.

Inconformados com a decisão copiada às fls. 111/112, proferida


originariamente nos autos do mandado de segurança nº 1012957-
90.2019.8.26.0053, pela MM. Juíza de Direito da 9ª Vara de Fazenda
Pública da Capital, por meio da qual foi indeferido o pedido liminar de
suspensão imediata do procedimento de remoção administrativa de
moradias situadas em loteamento clandestino até que o processo de Reurb-
S, em trâmite na SEHAB-CRF, seja apreciado, contra ela se insurgiram os
agravantes supramencionados às fl. 1/3, arrazoando o recurso às fls. 4/14.
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Alegam os ii. recorrentes, em síntese, que “adquiriram de boa-fé, em


meados de 2014, os terrenos onde hoje habitam (Documento. 1). Por
intermédio da GR Imobiliária, que realizou todas as operações de compra e
venda dos terrenos, inclusive recebendo os pagamentos, foram
disponibilizados 37 lotes no local e todos foram vendidos na época. Tal
imobiliária mantinha placas com anúncios no local e, também, uma sede,
que foi desmontada após a venda dos lotes. As famílias investiram suas
economias de vida para comprar a casa própria, tendo feito-o por meio de
uma imobiliária, regularmente constituída na junta comercial, com” (fls. 4/18)
assistência de Gerson Antônio da Silva, profissional portador de registro no
CRECI, com contratos reconhecidos em cartório, tudo sob aparência de
legalidade. Entretanto, foram terrivelmente surpreendidas ao descobrirem
que foram enganadas pela imobiliária, recebendo, no dia 21 de maio de
2015, notificação para desocuparem suas casas em razão da irregularidade
do loteamento. Foram, portanto, vítimas de loteadores clandestinos. Por
esta razão, ajuizaram ação de fazer e não fazer com pedido de liminar,
autuada sob o número 1019823-56.2015.8.26.0053, livremente distribuída à
C. 9ª Vara da Fazenda Pública, e cuja pretensão consistia essencialmente
em compelir o Município de São Paulo a proceder à regularização fundiária
do imóvel, preservando-se as moradias de qualquer remoção administrativa.
Importa consignar que a pretensão então veiculada esteava-se em regime
jurídico atualmente alterado pela Lei Federal 13.465, tendo sido o pedido
autoral fundamentado especificamente no art. 40 da Lei 6.766/79, assim
como o processo administrativo e as defesas nele apresentadas. Em
respeitável sentença de fls. 1338 a 1340 daqueles autos, foi julgada
improcedente a demanda, com fundamento no fato de que 'o terreno está
incluído em uma ZEPAM (Zona Especial de Preservação Ambiental), em
uma SUCt (Subárea de Urbanização Controlada) da Área de Proteção e
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Recuperação de Mananciais da Guarapiranga, bem como inserida na Área


de Proteção Ambiental Municipal APA Bororé Colônia', regularização
fundiária da área. Ocorre que em julho de 2017 a Lei Federal 13.465
promoveu alterações substanciais no regime jurídico da Regularização
Fundiária, especialmente no que tange às restrições de natureza ambiental.
Assim, já sob a vigência do novo regime jurídico aplicável ao processo
administrativo de regularização fundiária, os ora Agravantes protocolaram o
pedido na modalidade Reurb-S, esteado na Lei Federal 13.465/17, junto à
Secretaria Municipal de Habitação (Sehab), especificamente em sua
Coordenadoria de Regularização Fundiária (CRF), no qual tratam
pormenorizadamente da possibilidade de regularização em 'área de
preservação permanente ou em área de unidade de conservação de uso
sustentável ou de proteção de mananciais' (art. 11§ 2° da Lei). O processo
administrativo ainda não foi apreciado. No entanto, as famílias residentes
vêem-se agora, mais uma vez, ameaçadas pela remoção administrativa por
parte da Prefeitura Regional de Parelheiros. No dia 14/03/2019, descobriu-
se que tramita um procedimento administrativo na Prefeitura Regional de
Parelheiros cujo objeto é justamente a demolição de todas as moradias do
local. Portanto, concomitantemente à análise administrativa da
regularização fundiária, com fundamento em legislação superveniente e em
questões não apreciadas pela respeitável sentença de improcedência da
ação nº 1019823-56.2015.8.26.0053, o Município de São Paulo pretende
remover as famílias do local, conduta contraditória, descabida e
amplamente rechaçada pela jurisprudência do E. Tribunal de Justiça de São
Paulo. Assim, com a ameaça iminente de remoção administrativa, impetrou-
se Mandado de Segurança com pedido liminar, autuado sob o n° 1012957-
90.2019.8.26.0053, para tutelar o Direito líquido e certo à apreciação do
pedido administrativo de regularização fundiária esteado na nova legislação
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federal, impedindo-se neste ínterim a remoção administrativa dos


Impetrantes ora Agravantes. Porém, remetendo-se a r. sentença da ação n°
1019823-56.2015.8.26.0053, o MM. Juízo a quo indeferiu o pedido liminar”
(fl. 4/6).

Ante o exposto, requer a antecipação dos efeitos da tutela recursal


“para que a remoção administrativa seja suspensa até o devido
arquivamento do processo de Reurb-S em andamento na Prefeitura de São
Paulo” e, no mérito, a convalidação do pedido liminar (fl. 13).

É o relatório.

O recurso é tempestivo, deixando os agravantes de recolher o


preparo em razão de serem beneficiários da “Justiça Gratuita” em Primeiro
Grau, de modo que, presentes os requisitos legais, e não se constatando os
motivos impeditivos a que se referem os incisos III e IV do artigo 932 do
CPC/2015, não há óbice ao seu processamento.

JUSCILENE SOUSA GASTÃO e outros interpuseram o presente


agravo de instrumento em face da decisão proferida pela MM. Juíza de
Direito da 9ª Vara de Fazenda Pública da Capital que, nos autos do
mandado de segurança nº 1012957-90.2019.8.26.0053, indeferiu o pedido
liminar de suspensão imediata do procedimento de remoção administrativa
de moradias situadas em loteamento clandestino até que o processo de
Reurb-S, tramitando na SEHAB-CRF, fosse apreciado.

Por meio da r. decisão reproduzida nestes autos às fls. 22/24, o i.


Julgador de Primeiro Grau consignou que [sem destaque no original]:
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“Alegam os impetrantes que residem em terrenos situados na Rua Professor


Hermógenes de Freitas Leitão Filho, no. 3000, Jardim Herplin, em São Paulo (SP),
que adquiriram, em 2014, de boa-fé, por intermédio da GR Imobiliária, representada
por Gerson Antônio da Silva. Ocorre que, em maio de 2015, foram surpreendidos com
uma notificação da Subprefeitura de Parelheiros para desocuparem suas casas em
razão da irregularidade do loteamento. Sustentaram que foram vítimas de loteadores
clandestinos e, anteriormente, ingressaram com ação de obrigação de fazer, que
tramitou nesta Vara (processo 1019823-56.2015.8.26.0053) para compelir o Município
de São Paulo a proceder à regularização fundiária do imóvel, com base no art. 40 da
Lei no. 6766/79, porém, não conseguiram êxito, sob o fundamento segundo o qual o
terreno está incluído em uma ZEPAM (Zona Especial de Preservação Ambiental), em
uma subárea de urbanização controlada, da Área de Proteção e Recuperação de
Mananciais da Guarapiranga, inserida na Área de Proteção Ambiental Municipal, APÁ
Bororé Colônia.
'Contudo, entendem que com o advento da Lei Federal no. 13.465/2017, que
promoveu alterações no regime jurídico da regularização fundiária, especialmente em
relação às restrições de natureza ambiental, têm direito à regularização (art. 11, § 2o.)
e ingressaram com pedido na via administrativa, mas ainda não foi apreciado.
'Alegando iminente ameaça de remoção por parte da Prefeitura Regional de
Parelheiros requereram, como medida liminar, a suspensão imediata do procedimento
de remoção administrativa até que o processo de Reurb-S, tramitando na Sehab
CRF, seja apreciado.
'Em que pesem as alegações, não verifico a presença dos requisitos
ensejadores da tutela preventiva, pois conforme sentença proferida na ação
anteriormente ajuizada pelos autores (processo 1019823-56.2015.8.26.0053), não é
possível aferir, nesta fase, se a área por eles ocupada pode ser regularizada,
nos termos da Lei Federal no. 13.465/2017, tendo em vista que está em zona de
proteção e recuperação da bacia hidrográfica do Guarapiranga, em São Paulo,
nos termos da Lei Estadual no. 12.233/06 e Decreto 51.686/07 e, na esfera
municipal, está incluída em uma ZEPAM (Zona Especial de Preservação
Ambiental), em uma SUCt (Subárea de Urbanização Controlada) da Área de
Proteção e Recuperação de Mananciais da Guarapiranga, bem como inseria na
Área de Proteção Ambiental Municipal - APÁ Bororé Colônia (fl. 671).
'Foi apurado, naquela referida ação, mediante diligências e vistorias dos
agentes fiscais do Município de São Paulo, que os impetrantes avançaram na área,
sem qualquer respeito às posturas e limitações da legislação ambiental e de uso de
proteção do solo, com a supressão e danos à vegetação nativa colocando em risco a
manutenção não só das espécies arbóreas da região, mas também da sobrevivência
e conservação do ecossistema da bacia do Guarapiranga.
'Sendo assim, no mínimo, a instauração do contraditório é necessária, bem
como a oitiva do Ministério Público, diante da natureza dos interesses envolvidos.
'Indefiro a liminar.
'Defiro a gratuidade processual. Anote-se”.

O pedido liminar deve ser deferido.

No sistema processual vigente, o deferimento de tutela provisória de


urgência é possível quando se verifica a concorrência dos requisitos da
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probabilidade do direito e o perigo de dano ou, de forma alternativa, o risco


ao resultado útil do processo, nos termos do artigo 300 do Código de
Processo Civil, requisitos esses que dimanam dos documentos trazidos
pelos Agravantes.

Com efeito, os agravantes anexaram a estes autos instrumento de


Regularização Fundiária Urbana de Interesse Social, que fora protocolado
junto a Secretaria Municipal de Habitação de São Paulo, em 17 de julho de
2018 (fl. 107).

O pedido foi formulado com fulcro na Lei nº 13.465/17 e 12.651/02,


que prevêem a possibilidade regularização fundiária em área de proteção
de mananciais, in verbis [sem destaque no original]:

“Lei nº 13.465/17:
'(...)
'Art. 11. Para fins desta Lei, consideram-se:
'(...)
'VIII - ocupante: aquele que mantém poder de fato sobre lote ou fração ideal
de terras públicas ou privadas em núcleos urbanos informais.
'§ 2º Constatada a existência de núcleo urbano informal situado, total ou
parcialmente, em área de preservação permanente ou em área de unidade de
conservação de uso sustentável ou de proteção de mananciais definidas pela União,
Estados ou Municípios, a Reurb observará, também, o disposto nos arts. 64 e 65 da
Lei nº 12.651, de 25 de maio de 2012, hipótese na qual se torna obrigatória a
elaboração de estudos técnicos, no âmbito da Reurb, que justifiquem as melhorias
ambientais em relação à situação de ocupação informal anterior, inclusive por meio de
compensações ambientais, quando for o caso.”

E,
“Lei 12.651/12
'(...)
'Art. 64. Na Reurb-S dos núcleos urbanos informais que ocupam Áreas de
Preservação Permanente, a regularização fundiária será admitida por meio da
aprovação do projeto de regularização fundiária, na forma da lei específica de
regularização fundiária urbana.
'§ 1o O projeto de regularização fundiária de interesse social deverá incluir
estudo técnico que demonstre a melhoria das condições ambientais em relação à
situação anterior com a adoção das medidas nele preconizadas.
'§ 2o O estudo técnico mencionado no § 1o deverá conter, no mínimo, os
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seguintes elementos:
'I - caracterização da situação ambiental da área a ser regularizada;
'II - especificação dos sistemas de saneamento básico;
'III - proposição de intervenções para a prevenção e o controle de riscos
geotécnicos e de inundações;
'IV - recuperação de áreas degradadas e daquelas não passíveis de
regularização;
'V - comprovação da melhoria das condições de sustentabilidade urbano-
ambiental, considerados o uso adequado dos recursos hídricos, a não ocupação das
áreas de risco e a proteção das unidades de conservação, quando for o caso;
'VI - comprovação da melhoria da habitabilidade dos moradores propiciada
pela regularização proposta; e
'VII - garantia de acesso público às praias e aos corpos d'água.
'(...)”.

A probabilidade do direito encontra amparo, também, no § 8° do


artigo 31 da Lei 11.465/2017, diante da previsão de que “... O
requerimento de instauração da Reurb ou, na forma de regulamento, a
manifestação de interesse nesse sentido por parte de qualquer dos
legitimados garantem perante o poder público aos ocupantes dos
núcleos urbanos informais situados em áreas públicas a serem
regularizados a permanência em suas respectivas unidades
imobiliárias, preservando-se as situações de fato já existentes, até o
eventual arquivamento definitivo do procedimento” [sem destaque no orginal].

Este raciocínio pode ser aqui empregado independentemente de


aprofundamento do exame da real possibilidade de regularização da área
(algo que, como se observa, o r. juízo a quo reconhece não ser possível
aferir nesta altura, inclusive afirmando que “não é possível aferir, nesta fase,
se a área por eles ocupada pode ser regularizada), matéria essa a ser
avaliada pela Coordenadoria de Regularização Fundiária da Secretaria da
Habitação (SEHAB-CRF).

O perigo de dano está consubstanciado na possibilidade de os


agravantes sofrerem prejuízo irreparável, consubstanciado na demolição de
suas moradias.
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Portanto, admitida em tese a hipótese de regularização fundiária,


forçoso reconhecer a imprescindibilidade da análise prévia da sua
possibilidade no caso dos autos, previamente à determinação do
desfazimento das moradias, medida esta extrema e que deve ser tomada
apenas em última hipótese.

Sopesados tais elementos, nos termos do art. 1.019, inciso I,


segunda parte, do CPC/2015, defiro, em antecipação de tutela, a pretensão
recursal, suspendendo o procedimento de remoção administrativa de
moradias situadas no loteamento clandestino objeto do mandado de
segurança subjacente a este agravo, até que, ao menos, seja apreciado o
mérito deste pela C. Turma Julgadora.

Comunique-se ao d. Juízo de Primeiro Grau, para os fins de direito


(art. 1.019, inciso I, parte final, CPC/2015).

No mais, determino à serventia que providencie a intimação da


agravada para apresentação de contraminuta, bem como a requisição de
informações do r. juízo da causa, abrindo vista em seguida à Egrégia
Procuradoria de Justiça de Direitos Difusos e Coletivos para manifestação,
tornando os autos conclusos oportunamente.

Intime-se.

São Paulo, 15 de abril de 2019.

OTAVIO ROCHA
Relator

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