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2  | A EVOLUÇÃO TECNOLÓGICA DO SETOR DE CELULOSE E PAPEL NO BRASIL

CAMPOS, Edison da Silva


FOELKEL, Celso

A evolução tecnológica do setor de celulose e papel no Brasil. Edison da Silva Campos,


Celso Foelkel – ABTCP – Associação Brasileira Técnica de Celulose e Papel. São Paulo,
Brasil. 2016.
(224) p.

1. Celulose e Papel. 2. Evolução tecnológica. 3. Indústria Brasileira. 4. Novas rotas


para o setor I. Título.

Fotos: Banco de imagens ABTCP, Acervo de fotos do Professor Celso Foelkel e Banco de
imagens IPEF - Instituto de Pesquisas e Estudos Florestais

CDD
EDISON DA SILVA CAMPOS
INTRODUÇÃO  |   5
CELSO FOELKEL

A EVOLUÇÃO TECNOLÓGICA DO SETOR DE CELULOSE E PAPEL NO BRASIL

1ª edição

São Paulo
ABTCP – Associação Brasileira Técnica de Celulose e Papel
2017
INTRODUÇÃO  |   7

EQUIPE DE PRODUÇÃO

Coordenação de produção de conteúdo técnico: Viviane Nunes


Coordenação de produção editorial: Patrícia Capo – MTb. 26.351-SP
Projeto gráfico e criação de capa: Fmais Comunicação
Revisões de Texto: Mônica Reis
Colaboradores: Renato Martins Freire,, Gisele F. S. Ribeiro e Thais Santi
Fotos: Fausto Takao, Banco de Imagens do IPEF – Instituto de Pesquisas e Estudos Florestais, Banco
de Imagens da ABTCP – Associação Brasileira Técnica de Celulose e Papel, Banco de Imagens do
Professor, Doutor Celso Foelkel e imagens cedidas por empresas do setor de celulose e papel.
Pré-impressão e impressão: BMF Gráfica

Editora ABTCP – Associação Brasileira Técnica de Celulose e Papel


Rua Zequinha de Abreu, 27 – Pacaembu – São Paulo – CEP 01250-050
Prefixo Editorial na Agência Brasileira do ISBN: 61701
Número ISBN: 978-85-61701-02-4
Título: A evolução tecnológica do setor de celulose e papel do Brasil

Tiragem: 1.700 exemplares


Distribuição: Gratuita

DIREITOS AUTORAIS

Os autores Celso Foelkel e Edison da Silva Campos cederam seus direitos autorais das partes 1, 2 e 3
deste livro para a Editora ABTCP. É permitida pelos autores a reprodução de trechos essas partes ou
capítulos, desde que citada a referência dos autores e da editora, conforme a ficha catalográfica.

A Fundação Espaço ECO (FEE) autorizou a publicação decorrente de seus estudos divulgados neste
livro, na Quarta Parte, sob o título “A Sustentabilidade no Setor de Celulose e Papel”, bem como
colaborou na elaboração do infográfico ilustrativo sobre os resultados do estudo por ela desenvolvido. É
proibida a reprodução de informações deste capítulo sem prévia autorização da ABTCP e da FEE.
8  | A EVOLUÇÃO TECNOLÓGICA DO SETOR DE CELULOSE E PAPEL NO BRASIL

Prefácio

A
indústria brasileira de celulose e papel conquistou, em pouco mais de cinco déca-
das, uma incontestável posição de liderança na produção de celulose de mercado
de fibras curtas de eucalipto e a admiração por sua qualificação e competência
também na fabricação de outros tipos de celulose e de inúmeros papéis. Algumas
das empresas do setor têm-se destacado como exemplos de eficiência, produtivi-
dade, capacitação tecnológica e qualidade de seus produtos. Algumas razões para
esse sucesso têm sido: a modernização tecnológica de seus parques industriais
produtivos, a competência para gerenciar e operar os mesmos com adequados níveis de sustentabilidade
e a produtividade florestal de seus recursos fibrosos.

A ideia de escrever um livro sobre a evolução tecnológica do setor de celulose e papel no Brasil surgiu
a partir de uma demanda interna na própria Associação Brasileira Técnica de Celulose e Papel (ABTCP),
em 2008. Para materialização desse objetivo, a ABTCP manteve interações com o Ministério de Ciência
e Tecnologia, baseando-se em experiências desse órgão com outros setores para pesquisas similares. A
partir daí, a entidade iniciou esse projeto, que perdurou até 2010, quando um protótipo inicial deste livro
foi disponibilizado.

Identificou-se, logo no início desse projeto, a carência de informações sobre quanto o setor de celulo-
se e papel havia se desenvolvido no Brasil e de que forma isso havia ocorrido. Com o objetivo de fornecer
fundamentos para discussões e negociações com o governo, com a sociedade e com outras entidades e
partes interessadas, que fazem interface com as empresas e associações do setor, era vital se ter uma obra
e pesquisa deste tipo. Por conta disto, foi apresentado um projeto para o Conselho Nacional de Desenvol-
vimento Científico e Tecnológico (CNPq) para financiar o estudo e as pesquisas requeridas. A proposta
foi prontamente aceita devido à sua relevância para o histórico evolutivo da indústria nacional.

Na época, o então gerente técnico da ABTCP, engenheiro Afonso Moraes de Moura, convidou o
engenheiro Edison da Silva Campos para executar este projeto de pesquisa devido ao seu perfil de pes-
quisador e pelo seu conhecimento significativo de processos relacionados à fabricação tanto de celulose
quanto de papel, contemplando suas inúmeras interfaces. O seu desafio seria grande em encontrar as in-
formações que estavam distribuídas em diferentes empresas e fontes confiáveis de informação (revistas,
teses acadêmicas, livros, websites etc.).

Originalmente a intenção era reunir as informações sobre o desenvolvimento dos equipamentos e


processos de fabricação de celulose e papel para organizá-las em ordem cronológica e separando por
áreas dos processos de fabricação. No entanto, como as fontes desse tipo de pesquisa no Brasil possuíam
lacunas com respeito ao desenvolvimento tecnológico, decidiu-se dividir o trabalho em três partes. A
primeira estaria relacionada ao desenvolvimento dos vários tipos de processos de fabricação de celulose
e papel em âmbito mundial, enquanto a segunda parte mostraria avanços tecnológicos e empresariais
que aconteceram no Brasil, tendo como referência o que foi mostrado na primeira parte. Finalmente,
a terceira parte sumarizaria as razões que foram responsáveis pela transformação tecnológica do setor
brasileiro de celulose e papel ao longo do período.

Como foi um projeto financiado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnoló-
gico houve a decisão de disponibilizar a obra após sua finalização para a Sociedade.

O texto da pesquisa foi concluído ao final de 2010, ficando inicialmente disponível para a ABTCP
para os fins iniciais a que se propunha. Havia também a disposição da ABTCP de converter os resulta-
dos dessa pesquisa em um livro de fácil entendimento pelas partes interessadas, mas essa ideia acabou
não vingando naquele momento. Em 2016, a ABTCP decidiu por atualizar o estudo com a finalidade de
lançar uma obra técnica na forma de um livro comemorativo aos 50 anos da associação, materializando
assim o compromisso de divulgar o resultado do estudo para a Sociedade. Para isso, a ABTCP solicitou
a colaboração do engenheiro Celso Foelkel, para revisar e atualizar a obra. Numa parceria de Edison
Campos, Celso Foelkel e Viviane Nunes (ABTCP) e outros qualificados técnicos do setor, que contribuí-
ram para o texto com sugestões e revisões, finalmente, a obra pode ser concluída em meados de 2017. O
grupo de revisores foi constituído por conceituados técnicos do setor: Afonso Moraes de Moura, Alfredo
Mokfienski, Carlos Augusto Soares do Amaral Santos, Erico de Castro Ebeling, Fernando José Borges
Gomes, Osvaldo Vieira e Sílvia Bugajer.

Os autores agradecem toda a colaboração recebida não apenas da ABTCP e dos acima mencionados
revisores tecnológicos, mas também de todos os autores das quase três centenas de artigos, teses, livros
e outros materiais que serviram de base para que a obra mostrasse todos os detalhes tecnológicos que
conseguiram ser reunidos e apresentados no texto. A ABTCP e os autores agradecem também o apoio,
incentivo e confiança oferecidos pelo CNPq e pelos patrocinadores para que esse estudo e livro se
tornassem possíveis de realização e disponibilidade pública.

Espera-se que esta obra sirva de referência a todos aqueles que acreditam que a melhor maneira de
desenvolver tecnologicamente um setor industrial, garantindo o seu futuro, passa inevitavelmente por
conhecer melhor o seu passado, as tecnologias e as pessoas que ajudaram a construí-lo e a desenvolvê-lo
com adequado nível de sustentabilidade. Dessa forma, torna-se possível continuar alavancando o seu
desenvolvimento em direção ao futuro.

ABTCP & Autores


Autores
FAUSTO TAKAO

Edison da Silva Campos

Edison da Silva Campos graduou-se em Engenharia Elétrica pela Pontifícia Universidade Católica do Rio
Grande do Sul (PUC-RS), em agosto de 1985. Durante o curso, atuou como professor de matemática e física,
o que lhe permitia custear sua faculdade. O seu estágio de engenharia foi realizado na CPS (Companhia
Papeleira do Sul) que pertencia ao grupo De Zorzi e que havia sido construída com uma nova proposta: seria
uma empresa de papel conectada a uma fábrica de celulose, a Riocell, pertencente a outro grupo, no caso, a
holding KIV (Klabin, Iochpte e Votorantim), como se fosse um processo integrado.
Quando Edison iniciou o estágio na área de Manutenção Elétrica, a fábrica de papel ainda estava em cons-
trução, e ele pôde acompanhar algumas etapas da montagem da máquina de papel, o que o deixou fascinado.
Quando a direção da empresa tomou conhecimento de que já havia atuado como professor, passou-lhe a
incumbência de planejar um curso que seria oferecido ao público externo com o objetivo de selecionar mão
de obra para trabalhar na nova fábrica. Em função disso, precisou aprender alguma teoria sobre fabricação de
papel. Essa oportunidade fez com que ele buscasse mais e mais informações sobre o assunto, motivando-o a
pensar em seguir carreira nessa área.
Após formar-se, Edison passou a trabalhar na empresa, que já estava em pleno funcionamento, como res-
ponsável pela área de acabamento. Foi o início de sua trajetória no setor de celulose e papel. Posteriormente,
a Riocell assumiu o controle da CPS e, durante os 15 anos que permaneceu nesta última empresa, Edison
passou pelas áreas de máquina de papel, fabricação de celulose, assessoria da qualidade, P&D – Pesquisa &
Desenvolvimento – (ocasião em que trabalhou com Celso Foelkel) e assistência técnica a clientes de papel.
Durante o período em que trabalhou com P&D, Edison teve a oportunidade de cursar seu mestrado em En-
genharia Florestal (Produtos Florestais: Celulose e Papel) na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM),
dividindo seu período de trabalho com o tempo dedicado aos estudos.
Posteriormente, trabalhou mais cinco anos no grupo VCP (atual Fibria), unidade Luiz Antônio, como en-
genheiro de processo da fabricação de celulose. Trabalhou também na ABTCP por cerca de um ano como
coordenador técnico, mas teve que voltar para Guaíba-RS, devido a problemas de saúde na família. Durante
muitos anos, continuou trabalhando indiretamente para a ABTCP como professor independente por meio de
sua empresa, a Campos Consultoria e Treinamento. Atualmente voltou a se dedicar ao ensino das disciplinas
de matemática e física, retornando às suas origens de professor.
FAUSTO TAKAO

Celso Foelkel

Celso Foelkel graduou-se em Engenharia Agronômica, com especialização em silvicultura e florestas, pela
Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz”, da Universidade de São Paulo (USP), em 1970. Continuou
seus estudos na State University of New York, em Syracuse, onde se graduou Mestre em Ciências em Tecnolo-
gia de Celulose e Papel, em 1973. Em 1997, foi honrado com a titulação de “Doutor Honoris Causa”, pela Uni-
versidade Federal de Santa Maria (UFSM), por seus relevantes serviços aos setores brasileiros da engenharia
florestal e da celulose e papel. Foelkel começou sua carreira profissional como professor de tecnologia de ce-
lulose e papel na Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz” (ESALQ/USP). De 1976 a 1979, trabalhou
como gerente de qualidade, pesquisa e meio ambiente na Celulose Nipo Brasileira, e também como professor
visitante na Universidade Federal de Viçosa (UFV).
Nessa universidade, foi o responsável direto pela criação do curso de pós-graduação (mestrado) em tecnolo-
gia de celulose e papel, em 1977, um programa de sucesso até hoje naquela instituição de ensino.
Entre 1979 e 1998, trabalhou como gerente de qualidade, pesquisa e meio ambiente, e depois foi diretor de tec-
nologia e ambiente na Riocell S.A. De 1999 a 2000 atuou como professor visitante na UFSM, lecionando cursos
nas áreas de tecnologia da madeira, celulose e papel. Em 1998, iniciou-se como empresário em negócios ligados
ao conhecimento, com sua empresa Grau Celsius / Celsius Degree. Foelkel tem uma vasta carreira como autor de
centenas de trabalhos técnicos e científicos em revistas e congressos, no Brasil e internacionalmente. Em termos
de participação em congressos e conferências, foram mais de 600 ao longo de sua carreira, na maioria deles como
palestrante. Foelkel tem sido muito ativo em associações de classe, tendo sido, ou ainda sendo, membro em mais
de 40 delas, relacionadas aos setores florestais, empresariais, celulose e papel, meio ambiente, qualidade, gestão
da tecnologia, competitividade e administração de empresas. Também tem tido participação intensa em temas
ligados ao meio ambiente no setor de celulose e papel em diversos países da América Latina, como Brasil, Chile,
Argentina, Uruguai, Peru e Colômbia. Seu trabalho muito dedicado ao setor de florestas, madeira, celulose e
papel tem sido reconhecido, principalmente pelas características de atuar com foco em ganhos de competitivi-
dade, em tecnologias limpas e em transferência de conhecimentos nesses setores. Sua competência no setor de
celulose e papel, da floresta ao produto papeleiro final, tem sido reconhecida internacionalmente, tanto por suas
consultorias internacionais como em palestras em eventos e publicações de textos técnicos. Atualmente, tem
se dedicado a promover, divulgar e esclarecer a todos os interessados sobre as utilizações dos Eucalyptus e dos
Pinus: suas árvores, madeiras, fibras e produtos diversos.
Para isso criou e procura disseminar a milhares de pessoas as edições de suas publicações em mídia
eletrônica: Eucalyptus Online Book & Newsletter e PinusLetter, por meio dos seus dois websites: www.
eucalyptus.com.br e www.celso-foelkel.com.br. Nesses dois websites, o objetivo é promover e divulgar
meios para que as atividades relacionadas às florestas plantadas e à produção de celulose e papel sejam
ambientalmente corretas, socialmente justas e economicamente viáveis.
Revisores técnicos
AFONSO DE MORAES MOURA
Master of Science em Tecnologia de Fabricação de Celulose. Master in Business Administration em Gestão Empre-
sarial e Especialista em Gestão de Projetos.
Iniciei minhas atividades no setor de C&P como operador de área na Riocell S.A. em 1978. Durante 20 anos,  tive a
oportunidade de evoluir em diferentes funções e áreas de produção e de manutenção. A seguir atuei durante 10 anos
como Gerente Técnico da ABTCP e neste período participei de diversos fóruns nacionais e internacionais em defesa
dos interesses técnicos do nosso setor. Desde 2012 represento a Andritz como Gerente de Contrato junto a clientes
da empresa em contratos de manutenção.

ALFREDO MOKFIENSKI
Nascido em Castro-PR, em 20/12/1945 é Engenheiro Químico pela UFPR, Mestre pelo Lowell Tech Institute, Lowell,
MA, USA e Doutor pela UFV. Tornou-se sócio da ABTCP ainda estudante de Engenharia (1966-1970) e da TAPPI
durante o mestrado (1971-1974). Fez estágios e trabalhou na Klabin do Paraná, na IMPCO e na Modo-Chemeti-
cs em processos, na CELPAG (hoje International Paper – Fábrica de Luís Antônio-SP) no projeto da fábrica e na
Aracruz Celulose S/A em engenharia, projeto da Fábrica B e pesquisa. Concluiu o doutorado em 2004, tornou-se
professor da UFV e ABTCP e consultor técnico. Apresentou trabalhos em eventos técnicos nacionais e internacio-
nais, contribuiu com a ABTCP, recebeu o título de Sócio Honorário e aposentou-se em 2016. Mora em Coqueiral,
Aracruz-ES, onde se dedica a atividades socioculturais. 

CARLOS AUGUSTO SOARES DO AMARAL SANTOS


Engenheiro Químico graduado pela Escola Superior de Química “Oswaldo Cruz” em 1979. Especializou-se em
papel e celulose pela Universidade Federal de Viçosa (latu sensu) e pela Fundação Dom Cabral, MBA em Negócios.
Com 37 anos de experiência no setor, iniciou sua carreira em 1979, na indústria química Peróxidos do Brasil Ltda.
(Grupo Solvay). Em 1993, transferiu-se para a Bahia Sul Celulose S.A. Em meados de 1998 transferiu-se para a Ara-
cruz Celulose S.A. Desde 2011 está na Klabin S.A. Nas duas primeiras empresas do setor foi gerente de desenvolvi-
mento de processos e produtos e hoje está como gerente corporativo de P&D+I na Klabin S.A.
ERICO DE CASTRO EBELING
Com formação em Engenharia Mecânica Aeronáutica pelo Instituto Tecnológico de Aeronáutica e em Engenharia de Papel
(Diplom-Ingenieur) pelo Institut für Papierfabrikation da Universidade Técnica de Darmstadt – Alemanha, tem mais de 35
anos de vivência no segmento Industrial de Papel e Celulose, nas áreas de Produção, Desenvolvimento de Produto / Proces-
so e Inovação Tecnológica em empresas como Klabin, Suzano e Ripasa. Além de formação complementar em cursos como
o “Industry Executive Development Institute” da Auburn University / University of Alabama, “Stanford Paper Machine
Management” de Stanford e Curso de Gestão Técnica de Máquinas de Papel da OMNI Continental – Vancouver, possui
Especialização em Gestão de Inovação Tecnológica pela UNICAMP e MBA em Gestão Empresarial pela FGV.

FERNANDO JOSÉ BORGES GOMES


Possui formação acadêmica junto a Universidade Federal de Viçosa sendo Mestre em Tecnologia de Celulose e Papel (2010)
e Doutor (2013) – tendo a sua tese de doutoramento sido desenvolvida com foco em processos de Biorrefinaria integrados
à indústria de Celulose e Papel. Também possui Pós-doutorado em Tecnologia de Celulose e Papel pela mesma universi-
dade. Autor de vários artigos científicos, palestras e apresentações em congressos nacionais e internacionais. Atualmente é
Professor do Departamento de Produtos Florestais da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, onde atua no ensino
de graduação e pós-graduação. Também atua junto à Universidade Federal de Viçosa como orientador e docente em pro-
gramas de pós-graduação.

OSVALDO VIEIRA
Possui graduação em Engenharia Química pela Universidade Estadual de Maringá, Mestrado e Doutorado em Engenharia
Química pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Atualmente é Engenheiro Especialista em Desenvolvimento de Pro-
cessos de Produção de Celulose e Papel em Klabin S/A e Coordenador do curso de Engenharia Química da Faculdade de
Telêmaco Borba (FATEB).

SILVIA BUGAJER
Doutora em Engenharia Química e Master of Science em Tecnologia de Celulose e Papel.
Iniciei minhas atividades no Setor de C&P, no Instituto de Pesquisas Tecnológicas .
Na Companhia Suzano de Papel e Celulose fui responsável pela Área de P&D, cujo objetivo principal era a busca de novas
tecnologias que pudessem ser implantadas, visando reduzir custos operacionais, através do uso de novas matérias-primas
ou insumos, ou de processos operacionais; e de novos produtos que pudessem ser desenvolvidos, possibilitando maior
competitividade ou destaque para a Empresa.
Na Simons Consultoria e Projetos, atuei no gerenciamento de Projetos Básicos para Implantação de Unidades Industriais
de Fábricas de Celulose e de Papel.
Vasta experiência em treinamento, tendo sido responsável por ministrar Cursos de Especialização em Fabricação de Papel
e de Branqueamento de Celulose, na Universidade de São Paulo (USP) e in Company.
ÍNDICE

17 Introdução
20 Primeira parte
A EVOLUÇÃO TECNOLÓGICA MUNDIAL DOS
PROCESSOS DE FABRICAÇÃO DE CELULOSE E PAPEL

21 Capítulo 1 - Como tudo começou...

27 Capítulo 2 - A evolução do processo de fabricação de celulose

37 Capítulo 3 - O processo kraft de fabricação de celulose

53 Capítulo 4 - Preparação de massa: uma fase intermediária para a


fabricação do papel

59 Capítulo 5 - A evolução das máquinas de fabricação de papel

85 Capítulo 6 - Controle e tratamento de poluentes

93 Capítulo 7 - Empresas mundiais fabricantes de máquinas, equipamentos,


produtos químicos e acessórios

97 Capítulo 8 - Novas rotas e novos negócios para o setor de celulose e papel por
meio das biorrefinarias
102 ASegunda parte
EVOLUÇÃO TECNOLÓGICA DOS PROCESSOS
DE FABRICAÇÃO DE CELULOSE E PAPEL NO BRASIL

103 Capítulo 1 - Divisões da linha do tempo com início em 1808 e término em 2016

123 Capítulo 2 - A evolução tecnológica dos processos de fabricação de celulose


e papel no brasil, por meio da análise e da história tecnológica de
algumas empresas líderes em diversos dos principais segmentos
do setor celulósico-papeleiro do país

173 Capítulo 3 - A pesquisa e o desenvolvimento do conhecimento científico e


tecnológico no Brasil para o setor de celulose e papel por do
pioneirismo e da liderança de algumas instituições

182 Terceira parte


A EVOLUÇÃO TECNOLÓGICA DO SETOR: DO “QUASE NADA”
AO “QUASE TUDO” EM TERMOS DE AVANÇOS TECNOLÓGICOS NA
FABRICAÇÃO DE CELULOSE E PAPEL NO BRASIL

190 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS


202 LINHA DO TEMPO HISTÓRICA DA ABTCP 50 ANOS
205 Quarta parte
A SUSTENTABILIDADE NO SETOR DE CELULOSE E PAPEL
Apoio - FUNDAÇÃO ESPAÇO ECO

212 Quinta parte


PATROCINADORES

212 AHLSTROM-MUNKSJÖ; 219 MD PAPÉIS;


213 CENIBRA; 220 MELHORAMENTOS;
214 CMPC CELULOSE RIOGRANDENSE; 221 OJI PAPÉIS ESPECIAIS;
215 FIBRIA; 222 PAPIRUS;
216 INTERNATIONAL PAPER 223 SUZANO.
217 IRANI; 224 VERACEL
218 KLABIN;
INTRODUÇÃO  |   17

INTRODUÇÃO

E
m princípio, o título deste livro pode- formar e secar folhas e formar fardos nas fábricas
ria despertar alguns questionamentos, produtoras de celulose.
como, por exemplo, por que referir-se Nas etapas iniciais da fabricação do papel,
à celulose e ao papel e não somente também ocorrem processos de depuração e lim-
ao papel, que representa o produto peza dessa pasta, sempre com objetivo de elimina-
final, sendo a celulose tão somente uma matéria- ção de impurezas, as quais prejudicam a qualida-
-prima para fabricá-lo (embora seja a principal)? de da fina folha de papel. Na sequência, as fibras
O Brasil tem alguma participação relevante na passam por um processo chave para a obtenção de
evolução tecnológica global do setor de celulose propriedades necessárias para cada tipo de papel:
e papel quando comparado a outros países tradi- a refinação. No decorrer desse processo, ocorre a
cionais desse segmento industrial? Haveria tipos adição de componentes químicos também especí-
de processos ou produtos em que o Brasil tenha se ficos para cada tipo de papel, encerrando-se, as-
destacado em termos de liderança setorial e tecno- sim, a etapa de preparação da massa.
lógica? Respostas a estas inquietudes serão apre- Esta massa de fibras, que foi devidamente re-
sentadas aqui na sequência dos capítulos . finada e complementada por aditivos químicos, é
Com algumas variações específicas ditadas por enviada então para uma máquina de papel cujas
condições regionais, a fabricação do papel começa etapas básicas são: formação da folha e drenagem,
com a obtenção de sua principal matéria-prima: as prensagem e secagem. Obviamente, cada tipo de
fibras vegetais, que são normalmente denomina- máquina de papel possui suas particularidades,
das de celulose, polpa ou pasta celulósica. Como que na medida do possível serão relatadas e deba-
essas fibras são oriundas principalmente da ma- tidas ao longo desse texto.
deira dos troncos de árvores, torna-se necessária A fabricação de celulose no Brasil, seguindo a
uma etapa inicial que individualize essas fibras da tendência de alguns países fornecedores de fibras
madeira. Para isso, como no caso das polpações vegetais para a produção de papel, passou a ser,
químicas, a madeira é transformada em fragmen- a partir dos anos 1970, um processo praticamen-
tos ou cavacos, os quais são cozidos, amolecidos te independente da fabricação de papel, isso por
e parcialmente desmanchados, individualizan- visar, principalmente, os mercados internacionais.
do-se as fibras que formam, em conjunto, o que A evolução da indústria brasileira de celu-
normalmente se chama de polpa marrom ou pas- lose de fibra curta branqueada de eucalipto tem
ta marrom. Essas fibras são, a seguir, depuradas, colocado o Brasil como principal produtor deste
lavadas, branqueadas e armazenadas em tanques tipo de commodity ou mercadoria (de base flores-
pulmões para posterior envio às máquinas de pa- tal). Historicamente, a produção de celulose de
pel em fábricas integradas; ou para as máquinas de eucalipto não se iniciou no Brasil, mas o desen-
18  | A EVOLUÇÃO TECNOLÓGICA DO SETOR DE CELULOSE E PAPEL NO BRASIL

volvimento das propriedades desta celulose e de interessadas de outros lugares, desde que também
sua utilização na fabricação de inúmeros tipos de seja compensatório como investimento para gera-
papel teve forte participação nacional, tanto por ção de resultados. É sabido que são altos os inves-
meio da pesquisa acadêmica quanto da aplicação timentos realizados nas plantas de celulose e papel,
prática nos processos fabris, garantido sua rele- tanto para novas fábricas como para a moderniza-
vância no panorama mundial. ção de plantas antigas. É por causa disso, que ain-
Não é errado afirmar que o desenvolvimen- da há tantas plantas antigas em funcionamento e
to atual do setor de celulose e papel é baseado no outras que fecham suas portas por não compensar
aprimoramento dos equipamentos de processo e financeiramente sua modernização para continui-
matérias-primas, buscando sempre produtivida- dade de operações.
de, qualidade, eficiência, economia de energia e de Quando se fala em fornecimento de equipa-
escala produtiva, além do cumprimento das nor- mentos, tanto para a fabricação de celulose como
mas ambientais. Entretanto, este desenvolvimento
pode ter início em diferentes locais, não obede-
cendo a uma lógica de inovação tecnológica como
costuma ser previamente definida pelos estudiosos
da inovação, por exemplo, partindo de laborató-
rios de universidades e empresas, plantas pilotos e
com as experiências práticas das fábricas.
Devido à intensa globalização, tanto do co-
nhecimento como também das melhores práticas
industriais, aquilo que surge de inovação com re-
sultados visivelmente compensadores em algum
lugar do mundo, logo é absorvido pelas partes Produção de madeira para uso industrial

Florestas plantadas em mosaicos ecologicamente sustentáveis


INTRODUÇÃO  |   19

Da fibra celulósica à folha de papel

para papel, pensa-se logo em fabricantes da Alema- e papel no Brasil não se concentra em equipamen-
nha, Finlândia, Estados Unidos, Canadá e Suécia, tos, embora existam algumas inovações nacionais
dentre outros, mas não se pode esquecer que a in- interessantes, como o refinador tricônico da em-
dústria brasileira teve e tem participação no forneci- presa Pilão (atual Andritz), por exemplo, mas no
mento de máquinas e equipamentos para o setor já desenvolvimento do conhecimento tecnológico,
há algumas décadas como, por exemplo, com as em- principalmente quando se refere à obtenção, bene-
presas: Máquinas D’Andrea, Cia. Nacional de Fun- ficiamento e utilização da fibra curta de eucalipto.
dição, Cavallari, Pilão e, mais recentemente, com a Como trata-se de um setor com caracterís-
Hergen. De modo complementar, também existem ticas globalizadas, não se pode falar da evolução
as empresas internacionais de equipamentos como brasileira sem antes mostrar a evolução mundial
a antiga Beloit, a Voith, a Andritz e a Valmet, que se ao longo do tempo e situar o Brasil neste contex-
instalaram no Brasil até mesmo com centros de de- to. Portanto, a primeira parte deste livro mostra-
senvolvimento tecnológico, sabedoras do potencial rá a evolução global dos processos de fabricação
de desenvolvimento brasileiro em papel, mas prin- de celulose e papel desde o seu início, ficando a
cipalmente em celulose de mercado. Com isso, atin- segunda parte para discorrer sobre a efetiva par-
gem não apenas esse crescente setor industrial bra- ticipação do Brasil nesta evolução, também por
sileiro, mas também o restante da América Latina. meio da análise de algumas empresas e entidades
Entretanto, a evolução tecnológica em celulose de pesquisa e ensino.

Madeiras em cortes macro (Pinus) e cortes microscópicos (Eucalyptus)


20  | A EVOLUÇÃO TECNOLÓGICA DO SETOR DE CELULOSE E PAPEL NO BRASIL

PRIMEIRA PARTE

A evolução tecnológica mundial dos


processos de fabricação de celulose e papel
CAPÍTULO 01 - COMO TUDO COMEÇOU...  |   21

CAPÍTULO 01
COMO TUDO COMEÇOU...

O
O pioneirismo chinês
s mais variados textos que falam principalmente, bocados de seda (os quais chama-
sobre a criação do papel se ini- vam chih) ou filetes de bambu. Entretanto, como a
ciam contando a busca do homem seda era onerosa e o bambu pesado, estes dois ma-
por um substrato em que pudesse teriais não eram convenientes para uma utilização
registrar seus pensamentos ou ex- em larga escala (265)*.
periências com o objetivo de reportá-los às gera- Para a obtenção da matéria-prima para a fa-
ções posteriores. Hoje, sabemos, que mesmo ten- bricação desse substrato, o inventor chinês frag-
do sido a escrita um dos principais motivos, senão mentou em uma tina de água cascas de amoreira,
o único, de ter surgido o papel, existem incontá-
veis aplicações para esse que é um dos principais
produtos da engenharia, com múltiplas aplicações,
como materiais de embalagens, para fins sanitários
e hospitalares, para impressão e escrita, para usos
especiais como filtros, fraldas, rótulos etc.
Embora a evolução dos processos de fabricação
de celulose e papel retratados nesse livro tenha um
enfoque mais geral, sem se preocupar em direcio-
nar para esse ou aquele tipo específico de papel, é
inevitável que, ao falarmos sobre os primórdios da
fabricação do papel, tenhamos em mente sua neces-
sidade como substrato para a escrita e que, portan-
to, o desenvolvimento de suas características tenha
tido como objetivo esta finalidade inicial vital.
O papel, tal como o conhecemos hoje, foi in-
ventado na China antiga por Ts’ai Lun, por volta
de 105 D.C. Ts’ai Lun, que havia sido designa-
do para a guarda imperial durante o reinado de
Chien Ch’u e passou a ser conselheiro no reinado
de Ho Ti, presenteou este último com amostras de
um substrato bastante interessante, que historica-
mente recebeu o nome de papel. A China que, na
época, passava por um período de florescimento
cultural, utilizava como suportes para a escrita,

* Nota: Números entre parênteses de 1 até 277 se referem aos correspondentes números das referências bibliográficas
relacionadas no final do livro.
22  | A EVOLUÇÃO TECNOLÓGICA DO SETOR DE CELULOSE E PAPEL NO BRASIL

pedaços de bambu, rami e roupas usadas, cal (para gura 1). É possível que, já nessa época, ao se retirar
ajudar no desfibramento), formando assim uma a fôrma da água, fosse realizado um movimento
pasta em suspensão. Depois de serem retiradas as oscilatório lateral para que as fibras pudessem
partes mais grosseiras, essa pasta era transferida se assentar melhor, produzindo assim uma folha
para uma grande tina com água, à qual se seguia mais plana e menos rugosa. Essa era a etapa de for-
agregando material até que toda a massa adqui- mação e drenagem, e a folha fina resultante era re-
risse a consistência suficiente para formar o papel. movida e a seguir estendida sobre uma mesa (195).
Percebe-se que, no início, não havia uma fonte A cada repetição desta operação, um material
única de fibras e, obviamente, como todo processo era colocado entre uma folha e outra, evitando,
em desenvolvimento, muitas experiências devem inclusive, que uma folha grudasse na outra. Após
ter sido realizadas para se chegar a um produto de certo número de folhas, elas eram então prensa-
qualidade aceitável (195). das (Figura 2) com o objetivo de se retirar a maior
Após a obtenção dessa pasta, um quadrado de parte da água, que não foi possível retirar na dre-
madeira (fôrma) revestido de fino tecido de seda nagem. Estava, portanto, finalizada a etapa de
era submergido na tina que a continha. A fôrma prensagem (195).
era retirada da tina de maneira para que o excesso Finalmente as folhas eram expostas à luz so-
de água fosse drenado através da tela de seda (Fi- lar, que por irradiação recebiam o calor necessário

Figura 1 – Formação manual da folha Figura 2 – Prensagem das folhas


(Fonte: Revista Anave. São Paulo, ano 8, n. 36 – Dezembro, 1984) (1) (Fonte: Revista Anave. São Paulo, ano 8, n. 36 – Dezembro, 1984) (1)
CAPÍTULO 01 - COMO TUDO COMEÇOU...  |   23

para que a água remanescente fosse quase que to- Quanto mais jovem era a planta de bambu,
talmente removida por evaporação. Então, após a melhor resultava a qualidade do papel que dela era
necessária exposição ao sol, a última etapa básica obtido. Os talos de bambu eram cortados próxi-
da fabricação de papel estava cumprida (265). É mos ao solo, eram escolhidos em lotes de acordo
importante salientar que cada folha de papel pos- com sua idade e maciez, e logo eram juntados em
suía ainda certo percentual de umidade, que depen- pequenos maços. Os maços eram lançados dentro
deria do seu processo de fabricação e das condições de um recipiente com lodo e água, e eram enterra-
de umidade relativa do ar e temperatura a que era dos na lama durante umas duas semanas. Isto se
exposta posteriormente, podendo variar esse teor fazia com o objetivo de amolecê-los. Logo eram
conforme fossem alteradas essas condições. retirados, cortados em pedaços de comprimento
Outras maneiras de secar a folha de papel fo- apropriado e colocados com um pouco de água
ram desenvolvidas posteriormente, o que permitia dentro de uns vasos largos, para moê-los com
se abreviar ou eliminar a etapa de prensagem, indo grandes peças de madeiras até convertê-los em
direto para a etapa de secagem. A cada lado da tina pasta ou polpa (155).
construía-se um forno com um arremate inclina- No caso da utilização inicial do bambu, ain-
do de argila. Colocava-se, então, uma folha sobre da não havia o processo de cozimento (Figura 3),
o forno, tirando-lhe a borda do molde (caixilho) e mas há registros da utilização da casca interna da
deixando o papel em forma plana sobre o forno, ao
qual se aderia (155).
Logo, retirava-se a folha que havia sido posta
previamente sobre o outro forno e o processo se
repetia. Depois de seu processo inicial de manufa-
tura, passava-se sobre as folhas uma ligeira camada
de solução de cola de pescado ou de outros aditi-
vos. Era assim obtida uma folha de papel mais lisa
em sua superfície. Os papéis finos para escrever
eram polidos, esfregados com pedras lisas (155).
Os chineses também aprenderam que colocar
a parte mais áspera do papel sobre uma superfície
lisa enquanto era feito o polimento, permitia que
o verso da folha aproveitasse a ação de polimento.
Tal ação comprimia para baixo todas as fibras e au-
xiliava o fechamento dos poros para fazer o papel
mais viável ao uso da pena e da tinta. A folha, po-
rém, ficava com uma aparência listrada devido ao
pequeno tamanho da pedra (155).
Obviamente que o processo original de fabri-
cação de papel proposto pelo Ts’ai Lun foi aper-
feiçoado pelos seus contemporâneos. Uma prova
disso é que se pode ver, em pinturas antigas chine-
sas, a produção de papel utilizando uma única fon-
te de fibras como o bambu. Esse tipo de evolução
foi muito importante porque, ao se possuir uma
fonte única de fibras, produzia-se um papel mais
homogêneo e pouco sujeito às variações finais de Figura 3 – Cozimento do bambu
qualidade (155). (Fonte: Revista Anave. São Paulo, ano 8, n. 36 – Dezembro, 1984) (1)
24  | A EVOLUÇÃO TECNOLÓGICA DO SETOR DE CELULOSE E PAPEL NO BRASIL

amoreira também como matéria-prima. Esse ten- de linho e algodão, que eram postos a fermentar e
ro material era macerado em água quente com li- depois fervidos em uma lixívia aquosa de cinzas
xívia de cinzas vegetais de características alcalinas de madeira, o mesmo processo básico chinês, para
e lama, pois essas cinzas continham carbonatos e amolecimento e para a remoção de materiais gor-
hidróxido de sódio. Independente da matéria-prima, durosos e pigmentos (254).
o fato é que todos estes processos de obtenção e Esses trapos eram muito disputados em fun-
preparação da massa resultavam em uma massa ção do crescimento dessa produção papeleira. Por
fibrosa em suspensão, que se tornava apropriada vezes, foram até mesmo retirados de múmias egíp-
para a fabricação do papel. cias como fonte de matéria-prima. Portanto, du-
Um dos grandes méritos – e talvez o principal rante um período longo da história, o uso de fibras
desta invenção – é que este suporte era facilmente vegetais naturais foi simplesmente abandonado,
manufaturável (195). A invenção de Ts’ai Lun só foi embora haja registros de que fibras vegetais, como
registrada no século V pelo sábio Fan Ceh, mas des- o cânhamo e a juta, também eram usados como
de o seu início e por mais de 1700 anos, o papel foi matérias-primas secundárias (248). Apesar de os
produzido manualmente de forma idêntica ou mui- tecidos de linho e algodão serem constituídos de
to similar ao processo descrito originalmente (151). fibras vegetais previamente processadas, a fabrica-
A partir dessa invenção de Ts’ai Lun, a utili- ção do papel se constituía em um processo de reci-
zação do papel se alastrou pela China, tornando, clagem das mesmas, às quais provinham de outro
inclusive, esse país um exportador de papel para tipo de processo industrial, no caso, o têxtil.
outros países da Ásia. A civilização chinesa, que Após conquistarem a península ibérica, os
ficara até o século II atrasada em relação ao Oci- mouros levaram a arte para a Espanha e instalaram
dente, pôde crescer enormemente em termos de uma fábrica em Xátiva por volta de 1100 (266). Ali
progresso, permanecendo em evidência por, pelo se usava um moinho de martelos, movido à for-
menos, seis séculos (155). ça hidráulica para triturar trapos (266; 195). Este
processo foi utilizado até a invenção das máquinas
Os árabes entram em cena Holandesas, cerca de 500 anos mais tarde. Nos 500
Havia um total desconhecimento dos ociden- anos seguintes a fabricação de papel havia se espa-
tais sobre a utilização do papel até meados do sé- lhado por toda a Europa (254).
culo VIII (195). Em 751, os chineses atacaram os A civilização ocidental, depois de já conhe-
árabes que ocupavam Samarcanda (cidade do Uz- cer a fábrica de Xátiva, precisou de 700 anos mais
bequistão). A invasão foi repelida, mas os árabes (meados do século XIX) para redescobrir o que já
capturaram dois peritos em papel e aprenderam a se sabia, ou seja, que as fibras vegetais naturais re-
fabricá-lo, iniciando a produção em sua primeira presentavam a matéria-prima mais prática, abun-
oficina de fabricação de papel (206). Uma segunda dante e conveniente para se fazer o papel (254). A
oficina foi aberta em Bagdá, cerca de quarenta anos partir daí, a técnica de fabricação do papel evo-
mais tarde. A partir de então, a fabricação de papel luiu em pouco tempo, empregando-se amido, por
expandiu-se para Damasco, Trípoli, Iêmen, Egito e exemplo, derivado de farinha de trigo, para a me-
Marrocos. Os árabes monopolizaram a fabricação lhoria das características do papel na preparação
de papel por cerca de cinco séculos, antes que fosse da massa (206).
introduzida na Europa no século XII (266). Durante a Idade Média, a Espanha participava
Entretanto, quando os árabes começaram a ativamente dos processos de desenvolvimento, já
produzir papel, viram-se desprovidos das tradi- que era uma das principais culturas que compu-
cionais matérias-primas usadas então no Orien- nham aquela época. A Itália iniciou-se na fabrica-
te: a casca interna da amoreira e os brotos ten- ção de papel quando os árabes ocuparam a Sicília.
ros do bambu. Isso fez com que eles utilizassem Destes dois países, a fabricação de papel se espa-
outro tipo de material fibroso tal como os trapos lhou por toda a Europa. Apesar da aceitação, não
CAPÍTULO 01 - COMO TUDO COMEÇOU...  |   25

foi rápido o seu uso. Primeiro, porque até então te o século XVI por influência da reforma religiosa
eram usados o papiro e o pergaminho, considera- protestante conduziu rapidamente auma grave cri-
dos satisfatórios; segundo, porque o papel fabrica- se de matéria-prima e à regulamentação do comér-
do no princípio era feio, grosseiro e frágil (223). cio do trapo. A procura sistemática por substitutos
para o trapo durante e após o século XVIII pouco
A invenção que aumentaria sucesso teve (55). A indústria atravessou períodos
significativamente a demanda por papel de grande escassez dessas matérias-primas.
Por volta de 1450, aconteceu o que tem sido Como o papel sempre teve enorme importân-
o evento mais significativo na história do homem cia administrativa e estratégica, nos governos e nas
moderno: Johannes Gutenberg inventou os tipos guerras, a sua história é uma verdadeira revelação
móveis para impressão e os usou para produzir o das condições socioeconômicas das nações mais
livro da Bíblia. Em menos de cinquenta anos, isto desenvolvidas. Além disso, a demanda de papel
é, ainda antes de 1500, quase todos os países da para fins educacionais, culturais, noticiosos e ou-
Europa tinham lojas de impressão. Estima-se que tros, aumentava exponencialmente (55).
o número de livros aumentou de umas poucas Com a consequente maior demanda de trapos,
dezenas de milhares para mais de 10 milhões no era comum encontrar-se na Europa e na América
mesmo período curto de tempo (223). avisos do governo implorando à população para
Uma das grandes mudanças revolucionárias não desperdiçar trapos e juntá-los para venda.
na história estava tendo lugar. A comunicação de Uma fábrica de Massachusetts, em 1799, frente
ideias para um grande número de pessoas torna- às grandes dificuldades em obter matéria-prima,
va-se então fácil e possível. Mas, por que isto não chegou a produzir papel para escrever com uma
aconteceu já há mil anos antes na China, onde significativa mensagem em marca d’água: Save
meios similares estavam disponíveis? Uma razão Rags! (Preservem os trapos!) (55).
pode ter sido o fato de que a escrita chinesa (ide- Em 1666, na Inglaterra, foi proibido o uso
ogramas) não estava disponível para os tipos mó- desses tecidos em pessoas mortas nos enterros, a
veis. Pode-se especular sobre as razões, mas o fato fim de preservar todas as quantidades disponíveis
permanece: a Europa estava pronta para dissemi- para a fabricação de papel. Quase 200 anos depois
nar a comunicação impressa (223). (em 1859), a empresa gráfica Times ainda ofere-
Como uma segunda onda da civilização, as cia um substancial prêmio a quem encontrasse
comunicações ganharam força e amplitude. Jor- uma solução para o grave problema de escassez
nais, que apareceram já no século XVII com uma de fibras papeleiras. As dificuldades com o supri-
função semelhante à atual, tornaram-se maiores mento das matérias-primas tornaram o papel um
e aumentaram sua circulação, carregando uma produto com escassez crônica, sendo que, em cer-
enorme quantidade de informação para um ve- tas épocas, a sua falta foi sentida de modo muito
loz crescimento do número de leitores. Os servi- agudo, como teria sido o caso dos Estados Unidos
ços postais governamentais também já estavam da América (EUA) durante a guerra de secessão
operantes. Uma enorme necessidade de papel foi (1861 e 1865) (55).
outra consequência do rápido crescimento das co- Augustus Stanwood, do Maine, durante a
municações e dos jornais, e novas tecnologias pre- guerra civil americana, realizou a proeza de im-
cisavam ser inventadas (223). portar vários carregamentos de trapos de múmias
Após a invenção da tipografia por Gutenberg egípcias, com a finalidade de produzir papel a par-
e até a última parte do século XVII, o consumo tir das faixas que envolviam os corpos, pois, de-
de papel tornou-se crescente e as matérias-pri- finitivamente, havia enorme falta de trapos. Mas
mas para sua fabricação – notadamente o linho o papel feito desse material era grosseiro, de cor
e o algodão – foram se escasseando. Aliado a isto, escura, quase marrom e foi usado apenas como pa-
também, o incremento no fabrico de papel duran- pel de embrulho (195).
26  | A EVOLUÇÃO TECNOLÓGICA DO SETOR DE CELULOSE E PAPEL NO BRASIL
CAPÍTULO 02 - A EVOLUÇÃO DO PROCESSO DE FABRICAÇÃO DE CELULOSE  |   27

CAPÍTULO 02
A EVOLUÇÃO DO PROCESSO
DE FABRICAÇÃO DE
CELULOSE
Experimentos sobre a utilização da

E
madeira como fonte de fibras
m meados do século XVIII, o sur- uma série de livros entre 1734 e 1765 chamando a
gimento de grandes químicos, tais atenção para a disponibilidade de árvores em seu
como Lavoisier e Gay-Lussac, con- país para se produzir papel. Em 1741, Jean Ettién-
tribuiu para o desenvolvimento e ne Guettard publicou trabalhos técnicos sobre a
a descoberta de novos produtos substituição de trapos acompanhados de amostras
e processos que possibilitaram a de papel produzido com madeira, casca e folhas de
substituição das matérias-primas utilizadas na in- árvores (254).
dústria papeleira. Um exemplo disso foi a substi- Entre 1765 e 1771, Jacob Christian Schäffer,
tuição dos trapos de tecidos por matérias-primas um clérigo de Regensburg (sul da Alemanha),
mais abundantes, inicialmente as palhas de cereais considerado um pioneiro no uso da madeira e de
e posteriormente as madeiras. É desta época o de- outras fibras vegetais, publicava suas experiências
senvolvimento de processos de produção de polpa com papéis produzidos com as mais diversas es-
celulósica a partir de vegetais plantados e colhidos pécies vegetais, como fios das sementes de certas
para essa finalidade (248). árvores (material este empregado na construção
O primeiro a sugerir o uso da madeira para a de vespeiros), serragem, madeira de abeto, palha,
fabricação de papel foi o naturalista e físico fran- resíduos agrícolas, folhas vegetais etc. (265). Nes-
cês René-Antoine Ferchault de Réaumur, em 1719. sa publicação, Schäffer apresentava as amostras
Singularmente, Réaumur o fez pela observação do experimentais de papel com fibras de madeira re-
material de ninhos de vespas, que para isso usa- sultantes de cozimento com cal usando, entre ou-
vam filamentos lenhosos e produziam um mate- tras espécies arbóreas, o pau-brasil. Tais tentativas
rial com a aparência de uma folha de papel (254). foram feitas antes da invenção do branqueamento
Réaumur chegou a transformar em experimento a e seus produtos eram de cor natural, o que não im-
sua sugestão (248). pediu que os papéis produzidos fossem usados na
Essas investigações deram certa direção a ou- impressão de alguns livros (254).
tros cientistas europeus. Albertus Seba, um farma- A necessidade de novas matérias-primas para
cêutico holandês, nascido na Alemanha, publicou papel era tão premente que, em 1787, a Sociedade
28  | A EVOLUÇÃO TECNOLÓGICA DO SETOR DE CELULOSE E PAPEL NO BRASIL

para o Progresso das Artes, Manufaturas e Comér- ção indiferente por parte dos fabricantes ingleses
cio na Inglaterra oferecia um prêmio de 10 guinéus de papel. Juntamente com diversos outros, ele
(1,1 libra esterlina da época) a qualquer pessoa que construiu uma grande fábrica que acabou indo à
viesse a produzir a maior quantidade, não inferior falência, causando muitos transtornos às pessoas
a 10 resmas (pacotes de papel em folhas), do me- envolvidas nesse empreendimento (44).
lhor e mais útil papel feito, exclusivamente, a partir Tecnologicamente, essa série de eventos envol-
de materiais vegetais. Esse incentivo parece não ter vendo a utilização de palhas e madeira é de gran-
surtido efeito, pois não apareceu qualquer inven- de importância: as palhas contêm cerca de 16%
tor que reclamasse o prêmio (254). de lignina com deslignificação relativamente fácil,
A história da fabricação de papel na Europa e quando sujeitas a cozimentos em lixívias alcalinas,
nos EUA está cheia de registros de especulações mesmo fracas, ao ponto de ebulição, mas que for-
e experimentações realizadas com o propósito de necem polpas celulósicas muito sujas e fracas, com
vencer as limitações impostas ao papel por depen- coloração escura. Deve-se lembrar que no tecido
der exclusivamente de trapos. Há registros de que vegetal a lignina é o constituinte que fornece a sus-
mais de 500 diferentes materiais foram experimen- tentação ao mesmo (254).
tados como fonte de matéria-prima para essa in- As madeiras contendo maior quantidade de
dústria (155). lignina, entre 20% a 30%, apresentaram maiores
Talvez a monumental obra em seis volumes dificuldades de deslignificação, problema que foi
de Schäffer, foi que induziu Mathias Koops a fa- resolvido pelo processo Koops, por meio do uso de
zer experiências na Inglaterra nos finais do século lixívias mais fortes, temperaturas mais altas e siste-
XVIII. Pouco se sabe sobre a sua história, mas se mas pressurizados. Estava aberto o caminho para
credita a Koops o primeiro uso de fibras vegetais o processo Soda, que surgiria cerca de 50 anos de-
em escala comercial. A maior parte da nossa in- pois, graças aos trabalhos de Burgess e Watt, tam-
dústria de celulose atual está baseada na obra e nas bém na Inglaterra (254).
descobertas de Koops, um grande pesquisador e Os trabalhos feitos por Koops sobre desligni-
homem de visão (44). ficação da madeira utilizando produtos químicos,
Em 1800, Koops publicou um notável texto em no início do século XIX, representaram um marco
papel composto apenas de fibras de palha e madei- na obtenção de fibras celulósicas. Contudo, nessa
ra, comentando no seu livro que: “a arte de fabricar época, substituía-se um problema por outro: a es-
papel deveria ser considerada como uma das mais cassez de trapos pela carência de produtos quími-
úteis que jamais foram inventadas em qualquer cos. Essa situação levou a indústria a desenvolver
época ou país, pois é evidente que qualquer outra materiais celulósicos por meios mecânicos, sem a
descoberta deverá continuar inútil à sociedade se adição de produtos químicos (254).
não for disseminada por manuscritos ou pela im- Apesar dos avanços no século XVIII, até a se-
prensa” (44). gunda metade do século XIX, o papel continuava
Em 1801, o mesmo livro era novamente fa- sendo feito de algodão e trapos de linho ou pela
bricado com papel reciclado de palha e com um mistura destes materiais. Entretanto, com a revolu-
apêndice de 16 páginas de papel feito a partir da ção industrial e o avanço da leitura de um público
madeira (254). O desenvolvimento de Koops para crescente maior, a demanda por fibras para a fabri-
novas matérias-primas para fabricar papel sobre- cação de papel de impressão e escrita ultrapassava
puja o de todos os seus predecessores, porque isso em muito o suprimento de fibras de trapos (44). A
é fundamental para a indústria de papel, como ela demanda era imensa e o potencial de crescimento
é hoje; isso a despeito do insucesso que acabou da indústria do papel era promissor e inevitável.
levando Koops à falência (254). Pela sua própria Na época, as máquinas contínuas para pro-
natureza, o pesquisador estava muito à frente de duzir papel vieram a se disseminar rapidamente,
sua época; dessa maneira, Koops teve uma recep- passando a exigir fontes estáveis e abundantes de
CAPÍTULO 02 - A EVOLUÇÃO DO PROCESSO DE FABRICAÇÃO DE CELULOSE  |   29

matéria-prima. Essa fonte – a madeira – já era óbvia A pasta mecânica e as de alto


para os pesquisadores da época, mas as dificuldades rendimento
de se separar as fibras a partir da madeira manti- Após a falência dos empreendimentos de Koops,
nham o problema da falta de matéria-prima (44). o caminho então ficou aberto para que Friedrich
Havia também a palha como possível fonte de Gottlob Keller, na Alemanha, se beneficiasse dos
fibras. Como visto, a palha foi o primeiro material estudos de Réaumur e Koops. Verificando melhor o
novo que complementou o trapo em quantidade trabalho das vespas, anteriormente observadas por
e qualidade. Usou-se primeiramente como maté- Réaumur, Keller constatou que elas raspavam as fi-
ria-prima para papéis de escrever, porém, logo se bras para poder separá-las mais convenientemente
concluiu que se adaptava melhor para papéis de da madeira. Assim, ele utilizou este princípio na in-
embalagem e cartão para capa de livros (44). venção de uma máquina desfibradora (44).
A palha foi de fato uma alternativa interes- Por sugestão de Keller, um fabricante de papel
sante devido à situação agravada pela introdução e maquinista prático, chamado Voelter, construiu
das primeiras máquinas de papel verdadeiramen- uma máquina e inventou um processo para con-
te eficientes a partir de 1825, mas não conseguiu verter, por moenda, a madeira em polpa, proces-
se impor por causa da baixa qualidade do papel so que passou a ser conhecido como Keller-Voel-
produzido. Somente a invenção da pasta mecânica ter (Figura 4). Esse processo, também conhecido
de madeira pelo alemão Keller e da pasta química como processo de pasta mecânica ou pasta de ma-
(primeiras patentes em 1854) vieram resolver este deira, foi o primeiro a obter uma pasta fibrosa e
problema (44). viável a partir da madeira (155).

Figura 4 – Máquina desfibradora de Keller


(Fonte: WIKI 2 – https://wiki2.org/en/File:FG_Keller’s_original_grinding_machine__Museum_(Germany)_jpg) (277)
30  | A EVOLUÇÃO TECNOLÓGICA DO SETOR DE CELULOSE E PAPEL NO BRASIL

os primeiros moinhos neste país. O surgimento


da pasta mecânica de desfibrador (SGW –Stone
Groundwood) acabava com a extrema escassez de fi-
bras que, na época, representava um empecilho para
um aumento significativo da produção de papel (155).

Polpas semiquímicas
Outro processo de polpação que surgiu após
a segunda metade do século XIX foi o das polpas
semiquímicas. A obtenção dessas polpas iniciou-se
comercialmente por intermédio do desenvolvimen-
to de um processo para utilizar cavacos de madeiras
de folhosas (dicotiledôneas arbóreas ou arbustivas).
Casualmente, o processo passava a ter franco desen-
Aviso oferecendo uma recompensa para quem inventasse um
volvimento em função de três eventos que coincidi-
substituto para as fibras de algodão e linho na fabricação do papel ram na indústria de polpa nos EUA. Estes eventos
foram (155):
Em 1840, Friedrich Keller registrava, na Ale- 1. O convencimento de que a demanda de
manha, a patente de seu invento. Essa máquina, matérias-primas fibrosas por parte da crescente
um moinho de pedra, estava destinada ao sucesso indústria de papel, necessitava do uso das madei-
a partir do momento em que a patente foi adquiri- ras duras das folhosas, que estavam disponíveis em
da em 1847, pelo fabricante de máquinas, também grandes quantidades e representavam um proble-
alemão, I. M. Voith que, aperfeiçoando o invento, ma florestal pela sua não utilização;
veio mais tarde a abrir caminho para a fabricação 2.  O reconhecimento de que o uso dessa ma-
de papel jornal, em grande escala, passando o mes- deira poderia causar uma inflação nos custos da
mo a ser feito com 40% de trapos e 60% de pastas madeira para polpa, o que estimulou um aprovei-
mecânicas, ao invés de 100% de trapos (254). tamento mais eficiente da madeira, por meio de
Sessenta e sete anos depois do prêmio ofereci- maiores rendimentos da polpa;
do sem resultados pela Sociedade para o Progresso 3.  A intensa expansão da indústria do cartão
das Artes, Manufaturas e Comércio na Inglaterra, e papelão, incluindo a do corrugado, resultante da
em 1854, o jornal The Times, de Londres, voltava explosão do mercado da indústria para embala-
a oferecer uma recompensa, agora de mil libras, a gens. O cartão corrugado de polpas semiquímicas
quem descobrisse os meios para obter um substi- de madeiras de folhosas (hardwoods), adaptou-se
tuto barato e abundante para materiais de linho e perfeitamente bem a essas necessidades.
algodão, usados na fabricação de papel. O prêmio A ideia da produção de polpa semiquímica
foi concedido a Thomas Routledge e John Evans, aparentemente foi expressa primeiro por Mits-
em 1861, que com a introdução da celulose de ca- cherlich, em 1874, em um processo que implica-
pim de esparto conseguiam minimizar o problema va no amolecimento dos cavacos de madeira com
crônico de falta de trapos na Inglaterra (254). ácido sulfuroso ou bissulfito, seguido por fricção
Em 1861, o inglês Thomaz Routledge iniciou na na moenda para convertê-las em polpa. Um pouco
Europa a produção de papel a partir exclusivamente depois , em 1880, C. F. Cross referiu-se ao uso de
de fibras vegetais. Em 1867, este foi introduzido nos sulfito de sódio para a obtenção de polpa (155).
EUA e teve um êxito imediato. Os direitos america- Este reagente teve algum êxito comercial na
nos de patente para este processo foram comprados década de 1920 para produzir polpas resistentes,
pelos irmãos Pagenstecher, os quais edificaram uma de cores claras, a partir de madeiras de folhosas
fábrica em Curtisville, Massachusetts e instalaram (hardwoods) e de madeiras de coníferas (softwoods),
CAPÍTULO 02 - A EVOLUÇÃO DO PROCESSO DE FABRICAÇÃO DE CELULOSE  |   31

porém os problemas da recuperação do reativo e o equilíbrio entre a oferta e a procura de trapos


de corrosão dos equipamentos não puderam ser (que continuou ainda em uso por algumas déca-
resolvidos naquele tempo. O desenvolvimento da das), dando maior estabilidade nas principais ma-
obtenção de polpas semiquímicas, para as quais térias-primas para a indústria.
o sulfito de sódio era particularmente adequado,
teria feito com que este produto químico ficasse, O processo sulfito
então, muito importante para essa indústria (155). O ímpeto para a fabricação em grande esca-
A primeira fábrica de polpa semiquímica, que la comercial de celulose para papel, por processos
possuía uma modesta capacidade de 10 t/d, foi químicos, até hoje chamada em inglês por chemical
estabelecida em 1925 pela Southern Extract Co, pulp, continuava a ser impulsionado pelas deman-
em Knoxville, Tennessee, nos EUA, para utilizar a das da Revolução Industrial e pelo grande surto de
madeira residual de um processo de extração de progresso que o mundo experimentou no século
taninos utilizando o castanheiro (Castanea sativa). XIX (125). Surge, então, em 1857, o pioneiro ame-
Empregou-se o processo semiquímico ao sulfito ricano Benjamin Tilghman que, pesquisando ou-
neutro (NSSC) e a polpa foi usada para produção tras vias químicas de deslignificação – o processo
do cartão corrugado (155). ácido –, inventou o processo sulfito, que deu início
Posteriormente, foram construídas seis fá- a era moderna de fabricação de celulose (44).
bricas para aproveitar os cavacos do castanheiro Em Paris, Benjamin Tilghman montara um
ainda que essas fábricas fossem mudando gradual- laboratório para investigar a ação do ácido sulfu-
mente para outras madeiras, quando o forneci- roso sobre as graxas – um estudo completamente
mento de madeira de castanheiro esgotou-se devi- estranho à fabricação de polpa. A solução ácida era
do ao ataque de uma praga florestal. As condições mantida num barril de madeira, e o sentido apu-
de operação para o processo foram obtidas no La- rado de Tilghman permitiu a ele notar que o barril
boratório de Produtos Florestais dos EUA (United estava se tornando macio e felpudo. Poucos anos
States Forest Products Laboratory), em Madison, após, ao visitar a fábrica de polpa soda em Ma-
Wisconsin, em experimentos iniciados em 1921 e nayunk, Tilghman relembrou suas experiências
terminados com a publicação de artigos na revista em Paris. Isso o levou a estudar os efeitos do ácido
Paper Trade Journal, considerados clássicos para o sulfuroso na madeira sob altas pressões e tempera-
uso do sulfito e bissulfito de sódio, elaborados por turas. O princípio do processo sulfito, empregando
Rue, Wells, Rawling, e Staidl, em 1926/1927, e com a cal (cálcio) como base foi então ensaiado numa
a expedição de patentes públicas, em 1932 (155). grande autoclave (44).
A indústria de polpa semiquímica exibiu um A experimentação com a polpação sulfito foi
crescimento espetacular desde quando se iniciou conduzida durante 1866 nas fábricas de W.W. Har-
em 1925. Pelo ano de 1939, esta indústria havia ding & Sons, em Manayunk, próximo de Filadélfia,
se expandido a uma capacidade diária de 355 t/d, e em 5 de novembro de 1867 foi outorgada a paten-
correspondendo a maior parte ao histórico cartão te n.º 70485, dos EUA, denominada “Tratamento
corrugado de cavacos de castanheiro (155). de substâncias vegetais para a fabricação de papel”.
Durante os anos da depressão americana não A patente revela o seguinte: “[...] o processo para
houve crescimento dessa indústria, apesar dos co- tratar substâncias vegetais, que contenham fibras,
nhecimentos desenvolvidos para a pasta NSSC. com uma solução de ácido sulfuroso, em água,
A primeira grande fábrica somente iria entrar em com ou sem a adição de sulfitos e outros sais de
operação em 1944, quando o processo converteu-se propriedades equivalentes, para dissolver a ligni-
em uma realidade industrial plena. Por volta de na, o constituinte intercelular incrustante ou ‘ci-
1945, a capacidade diária aproximava-se da cifra mentante’ de ditas substâncias vegetais, de modo a
de 1.000 t/d, e este valor cresceu de maneira ex- deixar o produto não dissolvido em estado fibroso,
traordinária para 6.425 t/d em 1957 (155). apropriado para a manufatura de papel, polpa para
A madeira permitiu um crescimento fenome- papel, celulose, ou para outros fins, de acordo com
nal da indústria de papel; permitiu por um tempo a natureza do material empregado.” (155).
32  | A EVOLUÇÃO TECNOLÓGICA DO SETOR DE CELULOSE E PAPEL NO BRASIL

Entretanto, Tilghman encontrou dificuldades mento. O processo Ritter-Kellner foi estabelecido


insuperáveis na operação prática de seus métodos, no Canadá em 1885 por Governor Russel e Charles
muitas vicissitudes e grandes perdas financeiras Riordon, os quais construíram a primeira planta
(254). Após lutar durante meses contra vazamen- em Merritton, Ontario (155).
tos no digestor, causados por revestimentos defi- Depois desses inícios promissores, a tecnologia
cientes de chumbo e outros vazamentos, causados de obtenção de polpa ao sulfito praticada nos EUA
por encanamentos defeituosos, Tilghman aban- e Canadá, mais ou menos se estabilizou por alguns
donou a obra, desencorajado, tendo perdido suas anos, tempo durante o qual a base usada foi o cálcio
economias e dois anos de trabalho duro (265). junto com o ácido sulfuroso (155). O processo sul-
O processo sulfito foi retomado pelo sueco fito foi o método dominante da produção de pasta
Carl Daniel Ekman que, em 1872, conseguiu re- química até o princípio da década de 1960, devido
sultados industriais satisfatórios com o processo aos preços extremamente baixos da pedra calcária
ácido ao bissulfito de magnésio e com esse aperfei- e do enxofre, não havendo, assim, motivos para a
çoamento pôs este processo em prática comercial. recuperação dos reagentes químicos utilizados no
Em 1874, em Bergvik, Suécia, Ekman construiu a licor de cozimento (248).
primeira fábrica de polpa ao sulfito. Nesta instala- O processo clássico ao sulfito ácido de cálcio
ção, utilizaram-se pequenos digestores rotatórios, possui três principais defeitos (155):
aquecidos internamente (155). 1. Somente se usa com êxito para processar es-
Mudando-se para a Inglaterra, em 1883 (quan- pécies de madeira que contenham resinas em pe-
do o sueco Folin já havia introduzido na Suécia os quenas quantidades;
digestores com revestimentos cerâmicos), Ekman 2. Os processos de recuperação de calor têm
uniu seus esforços ao do inglês George Fry e juntos comparativamente maiores desvantagens devido
introduziram o processo Ekman-Fry, constituindo aos problemas de incrustações na evaporação;
diversas fábricas que estavam em plena operação 3. Não existe processo de recuperação de pro-
em 1886. Ekman, como engenheiro consultor, es- dutos químicos, a não ser como cinzas, que têm o
teve nos Estados Unidos e Canadá em 1844, proje- inconveniente de serem muito finas e apresentarem
tando diversas fábricas e iniciando a indústria nor- problemas de eliminação.
te-americana de celulose em grande escala (254). Por essas e, talvez, por outras razões adicionais,
O processo sulfito teve uma variável importante ao longo do tempo foram observadas mudanças
desenvolvida pelo professor alemão Alexander Mi- fundamentais nos produtos químicos do processo
tscherlich, em 1880, utilizando bissulfito de cálcio e e nos métodos utilizados para a produção de pol-
aquecimento indireto por meio de serpentinas de va- pa ao sulfito. Quase todas as fábricas de polpa ao
por. Tratava-se de um digestor cilíndrico, horizontal, sulfito ácido que surgiram por último têm sistemas
estacionário e as serpentinas eram feitas de chumbo e com base de magnésio (desenvolvidos substituindo
cobre. O cozimento era levado a cabo a temperaturas o carbonato de cálcio por óxido de magnésio), com
e pressões mais baixas, e por períodos de tempo mais processos completos de recuperação de calor e pro-
prolongados que anteriormente (254). dutos químicos (155).
O processo Mitscherlich é uma modificação Nesse novo quadro histórico, entre matérias-pri-
alemã do processo americano ao sulfito e não deve mas e processos, constatava-se o fato de que o processo
ser considerado por isso um processo distinto. A sulfito apresentava problemas sérios de qualidade do
primeira fábrica Mitscherlich estabeleceu-se em produto que precisavam ser corrigidos, pois os papéis
Alpena, Michigan, e durante a primeira parte do não eram muito resistentes (254).
século XX, o processo foi usado em um considerá- Os carboidratos ou polissacarídeos (celulose e he-
vel número de fábricas (254). miceluloses) dos vegetais são instáveis em ambiente
A adição direta de vapor dentro do digestor, ácido devido a sua maior degradação neste meio. Por
aparentemente foi praticada pela primeira vez no isso, as polpas ácidas possuem menores teores de he-
ano de 1878 pelos austríacos Eugen Ritter e Carl miceluloses e são mais degradadas do que as polpas
Kellner, com o objetivo de conseguir as vanta- obtidas por processos alcalinos. O uso de papéis fa-
gens do menor tempo requerido para aquecer o bricados com celulose ao sulfito ácido pode ser uma
digestor, bem como redução do tempo de cozi- das causas da elevada degradação dos documentos
CAPÍTULO 02 - A EVOLUÇÃO DO PROCESSO DE FABRICAÇÃO DE CELULOSE  |   33

produzidos no século XIX. O processo ácido tam- os jornais da época ridicularizavam os inventores,
bém pode degradar as moléculas de celulose em sua estimulando-os a que se retirassem aos Estados Uni-
fração amorfa e hemiceluloses, originando papéis dos. O sistema melhorado de patentes dos Estados
que se degradam mais facilmente em função da aci- Unidos já estava vigorando a diversos anos, possi-
dez, possuindo baixa permanência ou duração com bilitando a Burgess e a Watt que patenteassem sua
o passar do tempo (248). invenção em julho de l854 (44).
Logo após a Segunda Grande Guerra, a polpa- A recusa do governo britânico ao processo soda
ção sulfito base cálcio era o processo que preva- pode ter sido devido à ausência de um método eficaz
lecia nos EUA, principalmente em New England de recuperação do licor preto residual do cozimen-
e Wisconsin. Os principais produtos químicos to. Naquela época, como agora, era essencial para
utilizados no licor desse tipo de polpação, o car- o sucesso comercial do processo, que existisse um
bonato de cálcio e o enxofre, eram abundantes e método eficaz de recuperação dos químicos do licor
baratos nessa época. Ainda não havia sido desen- (248). Outro fator que dificultou a aceitação do pro-
volvido um sistema adequado de recuperação des- cesso soda (e também do processo Kraft, que será
ses produtos químicos e o licor de polpação usado apresentado a seguir) está relacionado com a menor
era descartado diretamente nos rios, causando um alvura das polpas oriundas desse processo, quando
efeito ambiental desastroso. Atualmente, as fábri- comparadas com as polpas resultantes dos processos
cas de polpa sulfito base cálcio em sua forma ori- sulfito (149).
ginal deixaram de existir devido às regulamenta- Burgess sugeria, na patente, que o licor preto,
ções ambientais e à menor competitividade (194). residual da deslignificação, poderia ser evaporado e
Entretanto, o processo sulfito permitiu que se de- queimado para regeneração dos produtos químicos
senvolvesse o conceito das primeiras biorrefinarias utilizados a polpação. Porém, ele não descreve deta-
integradas no setor de produção de papel. A lixívia lhes metodológicos deste procedimento. Na Améri-
residual do cozimento, para não ser descartada ca, Burgess e Morris L. Keen patentearam, em 1865,
como poluição, passou a ser utilizada para produ- um processo, no qual 85% do álcali poderiam ser
ção de lignossulfonatos, álcoois, vanilina, xilitol e recuperados por meio de queima e aproveitamen-
outros açúcares e biomateriais (93). to do material fundido. Esse conceito é mantido até
hoje (248).
O processo soda Em 1855, grandes fábricas ergueram-se em
A segunda parte da revolução industrial ingle- Royer’s Ford e Manayunk, Filadélfia, Pensilvânia,
sa do século XVIII impulsionou a descoberta de para a produção de polpa pelo processo soda. Entre-
novos processos de produção de celulose (248). tanto, não foi fácil superar os prejulgamentos contra
Quase simultaneamente a Keller – que na época a nova polpa. Durante longo tempo, muitos fabri-
estava trabalhando no desenvolvimento da pasta cantes sustentaram obstinadamente a opinião de
mecânica –, dois ingleses, Burgess e Watt, estavam que se a fibra de madeira podia ser um bom enchi-
experimentando a deslignificação da madeira com mento (filler), entretanto, não era considerada uma
diversas substâncias químicas. Em 1851, puderam boa fibra (155).
obter uma polpa com boas características, por um Gradualmente, a polpa à soda foi ganhando
novo método, fervendo madeira em álcali a uma aceitação, mas comparada com a polpa sulfito e
temperatura alta, dando início ao que se conhece com a pasta mecânica não fez grandes progressos
atualmente como processo soda (6; 155). no número de fábricas ou quantidade de produtos
Neste período, o desenvolvimento industrial de- e sua produção entrou em decadência ao longo do
mandava uma quantidade enorme de papel nas suas tempo. Nos dias atuais, esse tipo de polpação ainda
variadas aplicações, principalmente para as embala- costuma ser usado devido aos vários avanços tec-
gens mais resistentes, na comunicação, na dissemina- nológicos feitos no processo, usando aditivos como
ção de ideias e informações. A descoberta do proces- a antraquinona, que facilita o processo de polpa-
so soda foi marcante porque representava um avanço ção. Entretanto, o processo soda perdeu espaço
nos métodos de obtenção de polpa celulósica (248). para um processo que é considerando de longe o
Entretanto, há relatos de que o processo soda mais utilizado pelo setor até hoje: o processo sulfa-
mostrou-se tão pouco apreciado pelos ingleses que to ou Kraft (155).
34  | A EVOLUÇÃO TECNOLÓGICA DO SETOR DE CELULOSE E PAPEL NO BRASIL

O nascimento do processo sulfato ou Kraft sistente que recebeu o nome de Kraft, que em sueco
Experiências inglesas realizadas durante as guerras e alemão significa forte (155).
napoleônicas de 1805 a 1814 mostravam que a adição O processo descoberto por Dahl foi logo adaptado
de enxofre e sulfetos poderia acelerar a deslignificação para coníferas e em 1885 foi instalada na Suécia a pri-
alcalina das palhas (248). Por outro lado, as dificulda- meira fábrica para produzir papel por esse processo, o
des com o processo sulfito e a maior disponibilidade de qual tomou impulso a partir de 1930, predominando
produtos químicos alcalinos (carbonatos e hidróxidos) no mercado até os dias atuais (254; 37). No entanto,
estimularam outros pesquisadores a desenvolver e a desde o seu desenvolvimento, diversas modificações
procurar outros processos alcalinos além do processo vêm sendo implementadas de forma a melhorar sua
soda. Em 1871, o americano Eaton registrou a patente eficiência, tanto em termos de rendimento, como de
para a adição de enxofre e sulfetos ao processo alca- propriedades da polpa obtida (37). Também os aspec-
lino para cozimento de palhas, baseado em trabalhos tos de recuperação química dos reagentes e da energia
do inglês Strachan que, em 1810, havia constatado a contida no licor preto foram significativamente me-
aceleração do processo com esses ingredientes (254). lhorados, sendo que as perdas de reagentes e energia
O processo Kraft de polpação foi desenvolvido são mínimas nas fábricas atuais (155).
em 1879 pelo químico alemão C. F. Dahl e tornou- Praticamente, qualquer espécie de madeira pode
-se o principal processo de produção de celulose no ser convertida em polpa pelo processo Kraft, o qual
mundo. A principal inovação desse processo paten- pode ser considerado como um processo universal
teado por Dahl, em 1884, foi a substituição das per- de obtenção de polpas. Outro fator importante é que
das químicas por sulfato de sódio em vez do carbo- essa nova técnica só se tornou convenientemente
nato de sódio (254). rentável devido à recuperação dos químicos utili-
Dahl em um esforço de achar um substituto para zados no processo e à geração de energia necessária
o caro carbonato de sódio experimentou adicionar para a deslignificação da madeira (155).
sulfato de sódio à caldeira de recuperação como um As resinas, como as existentes nos pinheiros e ou-
substituto para as perdas químicas durante as opera- tras coníferas, se saponificam rapidamente no álcali
ções de polpação a soda. O sulfato foi quimicamente empregado (que consiste em uma mistura de hidróxi-
reduzido a sulfeto, pela ação da fornalha em ambiente do e sulfeto de sódio), e a lignina se solubiliza colabo-
semirredutor, sendo esse novo químico introduzido no rando para que os carboidratos (celulose e hemicelu-
sistema de licor. Com isso, Dahl descobriu que o sulfe- loses) permaneçam relativamente estáveis. Por muitos
to acelerava bastante a deslignificação e produzia uma anos, essa polpa foi considerada de difícil branquea-
polpa com maiores propriedades de resistência físico- mento, mas, com o desenvolvimento das tecnologias,
-mecânicas e melhor rendimento de polpação (253). foi possível branqueá-la a altos níveis de alvura, de
Outra versão histórica sobre os primeiros anos modo que possa ser utilizada em praticamente qual-
da polpação Kraft se atribui à tomada de decisão de quer tipo de papel, desde os não branqueados (ou
um operário de digestores, na Suécia, que trabalha- marrons) até os completamente brancos (155).
va em uma fábrica produtora de polpa sulfato de As fibras de madeira, inicialmente obtidas pela pol-
acordo com as patentes outorgadas a C. F. Dahl, na pação mecânica e, mais tarde, pelos processos NSSC
Alemanha, em 1884. Por um erro operacional, um (Neutral Sulfite Semi-Chemical – Sulfito Neutro Semi-
dos digestores foi descarregado antes que os cava- químico), sulfito, soda e Kraft passaram a ser dominan-
cos estivessem completamente cozidos, e quando a tes para a fabricação de papel. Os processos de polpa-
madeira parcialmente cozida estava a ponto de ser ção mecânica e sulfito produziam fibras que eram mais
descartada no rio, o superintendente da fábrica de- fracas que as fibras de trapo e de moderada alvura. Os
cidiu passar os cavacos por um moinho Kollergang processos soda e Kraft produziam polpas mais resisten-
com o objetivo de fazer um papel de qualidade infe- tes, mas substancialmente mais escuras, sendo bastante
rior (155). O resultado, contudo, foi um papel que adequados à polpação de madeiras (155).
ultrapassava a resistência de qualquer papel feito A história do papel vem sendo construída com
anteriormente, e o cozimento incompleto chegou a muita criatividade e conquistas, desde os seus pri-
ser, tempos depois, a prática regular em muitas fá- mórdios, com a fabricação manual e artesanal, até os
bricas para a produção de um papel de embalagem dias de hoje, com fábricas competitivas e suas mo-
que, em comparação com outros papéis, era tão re- dernas máquinas.
CAPÍTULO 02 - A EVOLUÇÃO DO PROCESSO DE FABRICAÇÃO DE CELULOSE  |   35

A história do papel vem sendo construída com muita criatividade e conquistas, desde os seus primórdios com a fabricação manual e arte-
sanal até os dias de hoje, com fábricas competitivas e suas modernas máquinas
36  | A EVOLUÇÃO TECNOLÓGICA DO SETOR DE CELULOSE E PAPEL NO BRASIL
CAPÍTULO 03 - O PROCESSO KRAFT DE FABRICAÇÃO DE CELULOSE  |   37

CAPÍTULO 03
O PROCESSO KRAFT DE
FABRICAÇÃO DE CELULOSE
O cozimento ou processo de polpação

A
sulfato ou Kraft
s primeiras fábricas de celulose (batch) ou contínuos, e a escolha apropriada leva
utilizando digestores com co- em consideração fatores relevantes. Entretanto, ao
zimentos por batelada ou batch longo do tempo, os digestores por bateladas foram
pelo processo Kraft, na América dando lugar aos digestores contínuos, devido prin-
do Norte, foram construídas no cipalmente à praticidade e economicidade desses
Canadá, em East Angus, Quebec, equipamentos e pela obtenção de polpas com ca-
pela Brompton Pulp and Paper Co., em 1907, e nos racterísticas estáveis (37).
Estados Unidos, em 1911. Por outro lado, existe Nos digestores contínuos, a matéria-prima e
certa incerteza com relação à primeira fábrica que os cavacos são introduzidos ininterruptamente
produziu polpa Kraft nos EUA (37). por meio de válvulas especiais, sendo os produtos
A Halifax Paper Co. em Roanoke Rapids, N.C., descarregados de maneira simultânea – em função
iniciou em 1907 a construção de uma fábrica de da carga contínua de cavacos, a descarga de polpa
12 t de polpa/dia, que veio a realizar o primeiro também o é. Os digestores contínuos cilíndricos
cozimento de polpa Kraft de pinheiro do sul, em verticais são os predominantes no mercado. O ci-
26 de fevereiro de 1909. Essa fábrica de polpa con- clo de operação do cozimento nesses digestores é
sistia de dois digestores rotatórios, soldados, de iniciado com a introdução dos cavacos e do licor
30 m3, e de seis difusores soldados, de 32 m3, feitos no digestor, seguido do aquecimento do conjun-
na Alemanha, servindo esses últimos para lavar a to até a temperatura estabelecida, comumente em
polpa até deixá-la isenta de licor residual (37). torno de 160-170 ºC, sob pressão (37).
Pouco antes da fábrica de Roanoke Rapids en- A primeira instalação comercial de um digestor
trar em operação, uma fábrica de polpa pelo pro- contínuo do tipo Kamyr foi concretizada em 1950.
cesso soda foi construída em Pensacola, Flórida, Esse primeiro digestor contínuo, instalado em uma
a qual não teve êxito em produzir uma boa pasta fábrica da Suécia, tinha a capacidade de 30 t/dia.
comercial. Finalmente, a Letcher-Moore Lumber Quando os digestores contínuos tornaram-se ope-
Co. comprou a fábrica e a deslocou para Orange, racionais no final da década de 1950 e o início da
Texas. Em 1911, o processo foi mudado de soda de 1960, inúmeras vantagens tornaram-se conheci-
para Kraft e, a partir daí, a fábrica teve êxito em das, dentre as quais se destacaram o menor custo de
obter um produto comercial e seguro (37). energia e a redução da poluição (253).
Uma polpa de adequada qualidade pode ser A partir de 1960, observou-se um crescente
produzida usando-se digestores por bateladas aumento no número de unidades contínuas em
38  | A EVOLUÇÃO TECNOLÓGICA DO SETOR DE CELULOSE E PAPEL NO BRASIL

uso (37). Para se ter uma referência sobre a evolu- to, a vantagem de aceleração do processo de pol-
ção da capacidade produtiva do digestor contínuo, pação era vista como muito positiva por permitir
após se terem passados 55 anos da primeira ins- aumentos de produção nas fábricas (248).
talação, um digestor com capacidade de produção Por outro lado, tanto nos processos contínuos
cem vezes maior (3.000 t/dia) foi iniciado (start como descontínuos, surgiram desenvolvimentos
up) na ilha Hainan, no sul da Província de Cantão, direcionados a estender a deslignificação dentro
China. Na época (2005), o projeto Jiang Lin para a do digestor, seguido por estágios separados de
Asia Pulp & Paper’s (APP) orgulhava-se em ser a deslignificação por oxigênio e fases de lavagem e
maior fábrica com uma só linha de fibras (single-li- prensagem de alta eficiência (44). Também sur-
ne fiber line) do mundo (231). Atualmente, moder- giram com sucesso as etapas de pré-impregnação
nas fábricas de celulose de mercado de eucalipto dos cavacos com uma mistura de licores de cozi-
no Brasil são desenhadas com base em digestores mento e licor preto, o que reduziu a geração de
contínuos que operam produzindo mais de 4.000 rejeitos da polpação e aumento dos rendimentos.
toneladas de celulose por dia. Também foi possível se reduzir as temperaturas
A partir da década de 1980, as fábricas passa- e pressões dentro do digestor, o que resultou em
ram a demandar produções maiores de celulose menores níveis de degradação dos constituintes da
com mais baixo custo. Isso foi possível ser concre- madeira e maiores rendimentos na polpação.
tizado aumentando-se o rendimento em polpa ce- O resultado destes avanços tecnológicos tem
lulósica, buscando-se assim solucionar os proble- propiciado também uma queda no número kappa
mas de restrições de produção do digestor. (que mede indiretamente o conteúdo residual de
Essas melhorias foram possíveis a partir de (248): lignina na polpa e, portanto, a eficiência da des-
1. Modificações na distribuição do licor de co- lignificação) para ofertar uma polpa mais adequa-
zimento e extrações de licor residual ao longo do da para a área de branqueamento. No início, esses
cozimento (cozimentos modificados); ganhos permitiram às fábricas reduzirem e mesmo
2. Adição de produtos químicos auxiliares do eliminarem o uso de cloro molecular no branquea-
cozimento Kraft, originando os cozimentos modi- mento, atendendo assim progressivamente a legis-
ficados e catalisados, pela inclusão de substâncias lação rigorosa de AOX (nível de organoclorados)
químicas, como antraquinona (AQ) ou polissulfe- em países ao redor do mundo (44).
to de sódio (PS). A metodologia de melhoria da polpação Kraft
Essas adições de químicos deram origem aos com baixos custos e maiores rendimentos foi con-
processos Kraft-AQ, Kraft-PS, ou com as duas seguida por cozimento Kraft contínuo, em con-
substâncias juntas como o Kraft-AQ/PS, por dições mais suaves, ou seja, com menores tempe-
exemplo. Mais recentemente começaram a existir raturas ou concentrações de químicos, como nos
barreiras ambientais e relacionadas à saúde dos processos MCC (Modified Continuous Cooking
usuários da celulose pela presença de residuais – Cozimento Contínuo Modificado), EMCC (Ex-
de antraquinona, o que está reduzindo o seu uso, tended Modified Continuous Cooking – Cozimento
apesar das inúmeras vantagens operacionais na Contínuo Modificado Estendido), ITC (IsoTher-
polpação Kraft. O uso de AQ, PS e os cozimentos mal Cooking – Cozimento Modificado Isotérmi-
modificados mostraram, em alguns casos, bene- co), Lo-Solids, RDH (Rapid Displacement Heating
fícios à durabilidade dos papéis produzidos com – Aquecimento com Rápido Deslocamento) etc.;
esta celulose, devido às fibras menos degradadas os quais fornecem polpas com maior rendimento e
e com maior índice de viscosidade, mas represen- menor número kappa; adequando-se às restrições
tava um custo muito alto que parecia não com- ambientais da época (anos 1990). Nesses processos
pensar o custo-benefício desejado – principal- também ocorrem benefícios à qualidade das celu-
mente no caso da AQ que, atualmente, não tem loses, que se transmitem aos papéis produzidos a
sido usada nos processos de cozimento. Entretan- partir das mesmas (248).
CAPÍTULO 03 - O PROCESSO KRAFT DE FABRICAÇÃO DE CELULOSE  |   39

Um digestor contínuo do tipo MCC tem ca- madeira e condições específicas de operação, mas
pacidade normal de cozinhar simultaneamente as fábricas assim equipadas têm condições de
na porção de cima do vaso reator (cavacos e licor garantir uma operação estável e números kappa
movem-se na mesma direção) por mais ou me- mais constantes e menores. Esses números baixos
nos uma hora. Os cavacos se movem então para de kappa podem ajudar para reduzir a deman-
dentro da seção do MCC, que é uma zona con- da de reagentes químicos no branqueamento, ao
tracorrente de cozinhar, isto é, o licor move-se mesmo tempo mantendo adequadas as resistên-
para cima, enquanto os cavacos movem-se para cias da polpa celulósica (ou várias outras combi-
baixo, por aproximadamente mais uma hora. Este nações dos dois) (37).
é seguido por uma zona de lavagem Hi-Heat (por O objetivo básico do processo Lo-Solids © (Figu-
volta de uma hora) (37). ra 5) é minimizar a concentração de sólidos presen-
Com as características de cozimento modifi- tes e dissolvidos durante a deslignificação principal
cado, o licor branco pode ser também adicionado e final, enquanto se mantêm as condições requeri-
no meio ou no fundo do digestor e flui para cima. das para o cozimento modificado. Estas condições
Assim, usa-se o digestor completo para o cozimen- são atingidas com múltiplos pontos de injeção e ex-
to e primeira etapa de lavagem, o que produz um tração de licor ao longo do digestor, aliados ao uso
cozimento mais suave, resultando em uma celulo- de informações para aumento da seletividade do
se com um número kappa mais baixo e em uma re- processo, como manter concentrações mínimas de
sistência maior do que a produzida por cozimento álcali e mínimas temperaturas de cozimento, míni-
convencional Kraft (37). mas concentrações de lignina no final do cozimento
Os números kappa, resultantes dos diges- e máxima sulfidez no início do cozimento (37).
tores contínuos modificados com tecnologias Na produção de pasta química também fo-
EMCC-ITC, variam de acordo com a espécie de ram desenvolvidos alguns outros processos, como

Cavacos 50% LB
(MAD) Zona de
Impregnação
Final da Impregnação
LN (FI)

30% LB
Zona de
Metade do cozimento superior
Cozimento
(MCS)
Superior

Final do cozimento superior


LN (FCS)

20% LB Zona de Metade do cozimento inferior


Cozimento (MCI)
Inferior
Final do cozimento
(FC)

Figura 5 – Regiões do digestor Lo Solids ©


(Fonte: Ahlstrom Machinery Processes – 1997)
40  | A EVOLUÇÃO TECNOLÓGICA DO SETOR DE CELULOSE E PAPEL NO BRASIL

Digestores para polpação: dos reatores tipo bola aos modernos e eficientes digestores contínuos

Organosolv ou ASAM (Alkaline Sulfite Anthraqui- licores mais limpos, vindos em contracorrente
none Methanol – Sulfito Alcalino Antraquinona e no processo. Os componentes solúveis, que estão
Metanol), mas um avanço realmente significativo próximos à superfície, são eliminados facilmente.
não pôde ser ainda atingido, principalmente devi- Entretanto, os componentes solúveis, que estão no
do aos problemas de recuperação e de qualidade interior das fibras (lúmen e paredes), devem se di-
da celulose, que não foram ainda solucionados de fundir durante a lavagem para fora da fibra, neces-
forma efetiva, apesar dos inúmeros estudos neles sitando um tempo adequado que permita que este
colocados (128). fenômeno, relativamente lento, seja levado a cabo
de maneira mais completa possível (11).
A lavagem pode ser feita em diferentes tipos de
Lavagem e depuração da polpa não equipamentos, dependendo da natureza dos mate-
branqueada riais a lavar e da necessidade de que a lavagem seja
A polpação e o branqueamento, com um pro- mais ou menos rigorosa. Depois da lavagem, ainda
cesso intermediário de lavagem e depuração, têm que também possa ser praticada anteriormente,
como objetivo principal a remoção da lignina. às vezes se requer uma operação de prensagem da
Essa lignina ou ainda está presente aderida nas pasta, com a finalidade de eliminar a maior quan-
paredes celulares das fibras ou dissolvida no licor tidade possível de licores ou “filtrados”, tanto as re-
residual de cozimento, que deve ser removido com siduais de cozimento como as procedentes da lava-
a melhor e mais alta eficiência. gem em contracorrente. Isso pode ser conseguido
A partir da segunda metade do século XX, ini- mediante a utilização de filtros do tipo prensa com
ciaram-se os desenvolvimentos de processos menos uso de pressão ou de vácuo (11).
agressivos ao ambiente e à celulose. O processo de O lavador convencional de tambor a vácuo
polpação ao sulfito, que restringia a recuperação permanece sendo usado numa grande variedade
dos produtos químicos utilizados, foi sendo subs- de aplicações, em especial em fábricas de pequeno
tituído pelo processo Kraft para reduzir os impac- e médio porte, apesar do sucesso de outros tipos
tos ambientais das fábricas de celulose, por meio da de lavadores com muito maior grau de eficiência.
adoção da recuperação do licor preto (248). Os equipamentos de lavagem desenvolvidos
Os licores usados ou residuais, que contêm em a partir dos anos 1970 incluem os lavadores por
forma solúvel os derivados de lignina e carboidra- difusão Kamyr à pressão constante que eram ins-
tos da madeira, são eliminados da polpa mediante talados logo após o digestor contínuo e, a partir
a operação de lavagem das fibras com água e com de 1980, passaram a ser seguidos pela etapa de
CAPÍTULO 03 - O PROCESSO KRAFT DE FABRICAÇÃO DE CELULOSE  |   41

Filtro tambor a vácuo

Filtro Drum Displacer - DD - washer Prensa de rolo duplo


Filtro Compaction Baffle
(Ahltrom) (Sunds)
(Beloit/IMPCO)

Figura 6 – Filtros típicos de lavagem de polpa marrom


(Processo Kraft – Fonte: Fundamentos de Lavagem da Polpa – Alfredo Mokfienski) (188)

deslignificação com oxigênio. Lavadores de difu- fabricação das folhas de papel, seja durante o pró-
são atmosférica e tambores lavadores, pressuri- prio processo de fabricação, seja na qualidade dos
zados ou não, ainda são usados extensivamente papéis resultantes (188).
em aplicações de lavagem de branqueamento da
celulose (44).
Um grande sucesso comercial foi o lavador A recuperação química e energética do
DD (Drum Displacer) que pode ser configurado licor preto Kraft
para incluir de um a quatro estágios de lavagem. O maior objetivo das várias etapas no processo
Entretanto, parece ser uma tendência mundial de recuperação química do processo de polpação
utilizar em toda a lavagem, incluindo branquea- Kraft é minimizar, da forma mais eficiente possí-
mento, as prensas lavadoras, com maior efetivi- vel, as perdas e a subsequente reposição de quími-
dade na remoção de licor, exatamente pelo efeito cos usados na preparação do licor de cozimento
de prensagem. A Figura 6 ilustra alguns tipos de (licor branco). Os químicos utilizados são hidróxi-
lavadores (44). do de sódio, enxofre, sulfeto de sódio e cal (óxido
A operação de depuração de pastas é realiza- de cálcio). A Figura 7 mostra, de forma simplifi-
da normalmente depois das operações de cozi- cada, o sistema de recuperação de químicos, que
mento, desagregação e lavagem. O objeto dessa inclui como partes principais: evaporação, caldeira
purificação é eliminar as possíveis impurezas que de recuperação e caustificação (incluindo a calci-
acompanham a suspensão fibrosa, sejam elas pe- nação). Todo o processo se inicia no digestor, no
sadas (com peso específico superior ao das fibras qual é misturado o licor branco com os cavacos da
e que podem ser separadas mediante depuradores madeira (160).
dinâmicos, baseados na força centrífuga sobre as As etapas seguintes têm como objetivo recuperar
partículas), sejam volumosas (com um volume es- o catalisador da reação (Sulfeto de sódio – Na2S) e o
pecífico maior do que os das fibras e que podem reagente cáustico (Hidróxido de sódio – NaOH).
ser retidas por uma peneira). Assim, a depuração A reposição de enxofre costuma ser na forma de
pode usar ciclones, centrífugas, peneiras, crivos sulfato de sódio, porém, também pode ser feita
etc. (188). na forma de enxofre elementar (S). O enxofre de
Na depuração também se removem feixes de reposição pode ser inserido no tanque de disso-
fibras (shives) e cavacos mal cozidos, areia, plásti- lução ou diretamente no licor preto (como sul-
cos, resinas, fragmentos metálicos etc. Com isso, fato de sódio) que vai ser enviado à caldeira de
a celulose poderá ter melhor desempenho para a recuperação (160).
42  | A EVOLUÇÃO TECNOLÓGICA DO SETOR DE CELULOSE E PAPEL NO BRASIL

Água de Lavagem

Cavacos LAVADORES Polpa TANQUE DE


DIGESTOR
POLPA MARROM ESTOCAGEM

Licor Negro Fraco Condensado


Vapor CALDEIRA DE
EVAPORADORES Vapor
RECUPERAÇÃO
Licor Negro
Forte
Condensado GNC Fundido
contaminado p/ Incineração
p/ Coluna de
Destilação TANQUE DE
Licor Branco DISSOLUÇÃO DE FUNDIDO
Fraco
Licor Branco Licor Verde
(NaOH, Na2S) PLANTA DE (Na 2CO3, Na2S)
CAUSTIFICAÇÃO
Lama de Cal Cal
(CaCO3 ) (CaO)
FORNO DE CAL
CaO + H2O " Ca (OH) 2
Ca(OH)2 + Na2CO3 DNaOH + CaCO3$

Figura 7 – Diagrama de cozimento e recuperação de químicos no processo Kraft


(Fonte: Tecnologia e Química da Produção de Celulose – José Lívio Gomide) (118)

A Figura 8 mostra um fluxograma do processo de origem florestal, que é o licor preto Kraft. Esse
Kraft incluindo a recuperação de reagentes quí- licor residual é rico em uma fase orgânica resul-
micos e da energia primária disponível nesse bio- tante da dissolução de aproximadamente 50% do
combustível que é o licor preto Kraft (44). peso seco da madeira, que é convertida em polpa
A outra vantagem excepcional desse processo celulósica no digestor. Com isso, e apenas com essa
de recuperação é que a queima do licor na caldeira fonte de biocombustível, muitas das modernas fá-
de recuperação se vale do combustível renovável e bricas de celulose conseguem a autonomia energé-

Floresta Cozimento
Lavagem e Deslignificação
Secagem da polpa
depuração com oxigênio

Enfardamento
Branqueamento

Preparação da
madeira
Preparação do
licor branco Evaporação

Controle das
emissões aéreas
Caustificação
Planta de oxigênio

Forno de cal Cald. de


recup.
Planta química
Geração de energia
(turbina a vapor)
Caldeira de força

Figura 8 – Componentes principais do processo Kraft


(Fonte: Fabricação de celulose Kraft – Alfredo Mokfienski) (187)
CAPÍTULO 03 - O PROCESSO KRAFT DE FABRICAÇÃO DE CELULOSE  |   43

tica na produção de vapor e eletricidade, por meio do de forma sustentável em um queimador ou cal-
de processos conhecidos como cogeração (produ- deira. Quando o licor preto sai das operações de
ção simultânea de calor e eletricidade). lavagem da polpa, sua concentração costuma estar
Esse sistema de recuperação do licor talvez entre 14% a 16% de sólidos secos, portanto, sem
seja o principal fator de competitividade que o nenhuma condição de ser queimado. A solução é
processo Kraft oferece ao setor de produção de ce- a remoção de grandes quantidades de água, para
lulose e papel, permitindo o atingimento de custos trazer o mesmo a uma concentração acima de 60%
competitivos e minimização dos riscos ambientais de sólidos, quando ele já consegue ser queimado
em geração de poluentes. isoladamente ou com o auxílio de algum outro
De forma simplificada, estão apresentadas combustível mais calorífico, o que garante quei-
a seguir algumas considerações sobre as princi- mas mais estáveis e de melhores rendimentos.
pais etapas do sistema de recuperação do licor Os sistemas mais comuns de evaporação do
no processo Kraft e como tem acontecido sua licor preto são baseados em efeitos múltiplos, nos
evolução tecnológica. quais o licor vai sendo concentrado aos poucos
passando por 4 a 7 unidades de evaporação ou
efeitos concentradores. Costuma-se adicionar va-
A evaporação do licor preto por vivo para aquecer e evaporar o licor em apenas
A primeira etapa da recuperação do licor preto um ou dois desses efeitos. Nos demais, a evapora-
tem como objetivo converter o licor ainda bastante ção se faz com o vapor gerado pela evaporação em
diluído em um combustível capaz de ser queima- outros efeitos. Esse efeito é obtido a partir do con-

Sistema de evaporação do licor preto


44  | A EVOLUÇÃO TECNOLÓGICA DO SETOR DE CELULOSE E PAPEL NO BRASIL

trole do vácuo na cabeça dos efeitos evaporadores eficiente e em larga escala dos reagentes químicos
– o que permite o abaixamento das temperaturas e do poder calorífico presente nos licores residuais
de ebulição do licor em cada um dos efeitos. Esse dos processos de polpação. (155).
conceito oferece a excepcional possibilidade de se As modernas caldeiras de recuperação permi-
evaporar entre 4 a 6 toneladas de água por tonela- tem o aproveitamento da energia presente na fase
da de vapor vivo oferecido ao sistema. orgânica do licor preto, reduzem de forma expres-
Nas últimas décadas, os sistemas de evaporação siva o potencial de contaminação de água e ar, pro-
evoluíram substancialmente a ponto de se obter duzem vapor superaquecido para geração de ele-
licores concentrados com teores de secos acima tricidade e vapor de processo, bem como também
de 80%. Essa evolução foi conseguida não apenas permitem o fechamento do circuito de produtos
nos próprios efeitos, mas também nos sistemas químicos utilizados para o processo de polpação
de bombeamento e transferências de licores com dos cavacos de madeira.
elevadas concentrações de sólidos secos, além de Particularmente, desde os anos 1960, a caldei-
altíssimas viscosidades. Tecnologias alternativas ra de recuperação tradicional tem experimentado
de evaporação existem, com mesmos níveis de uma significativa evolução, ainda que basicamente
eficiência, como a evaporação baseada em filmes inalterada na teoria geral e prática. A maioria dos
descendentes. desenvolvimentos está concentrada em:
Essas tecnologias, orientadas para elevadas 1. Aumento da capacidade de produção;
concentrações de sólidos secos nos licores concen- 2. Melhoria metalúrgica;
trados, colaboraram para melhores eficiências tér- 3. Melhoria nos dispositivos de injeção de licor (144).
micas no processo de recuperação como um todo, Isto é devido principalmente à necessidade de
redução de poluentes aéreos e aproveitamentos uma maior eficiência térmica e pela redução do
dos condensados ou como fonte de calor ou águas impacto ambiental. Outros fatores que agregaram
de lavagem nos processos de produção da celulose. vantagem e eficiência tem sido a redução de perdas

Caldeira de recuperação Kraft


Até o ano de 1925, o tipo mais popular de equi-
pamento utilizado para a operação de recuperação
de reativos era composto de um forno rotatório e
um dispositivo de fundição. O forno rotatório era
grande, incômodo, poluente e ineficiente. Duran-
te os anos de 1925 a 1930 foi introduzido o forno
Wagner e isto constituiu uma melhora substancial
sobre a combinação de forno rotatório com o dis-
positivo de fusão. O forno Wagner representou
uma melhora efetiva sobre a prática anterior (155).
Entretanto, a recuperação de produtos quími-
cos (sódio e cálcio) e de energia térmica, se bem que
datando de 1887, teve como seu grande impulsio-
nador o americano Tomlinson que, a partir de 1927,
colocou em operação fornos rotativos e caldeiras de
recuperação de licor preto e instalações eficientes
de caustificação e calcinação em Cornwall, Ontario
(254; 155). Estas tecnologias pioneiras foram pre-
cursoras das práticas modernas para a recuperação Caldeira de recuperação Kraft
CAPÍTULO 03 - O PROCESSO KRAFT DE FABRICAÇÃO DE CELULOSE  |   45

de cinzas, a redução de incrustações, a melhoria na recuperação, em soda cáustica. Isso acontece no


prevenção de impactos de explosão, bem como o setor de caustificação, através da reação desse car-
aumento da temperatura e do vapor superaqueci- bonato de sódio com hidróxido de cálcio. Como
do produzido e enviado aos turbogeradores. resultados se obtêm: soda cáustica ou hidróxido
A principal característica de evolução das cal- de sódio e carbonato de cálcio – que se precipita
deiras de recuperação são indiretamente medi- como lama. Para que se consiga um licor para co-
das pelo aumento de sua capacidade de queima. zimento em condições adequadas, esse licor, agora
Durante os anos 1970, as caldeiras queimavam de cor branca, precisa ser filtrado e ter suas impu-
quando muito 1.500 toneladas de sólidos secos rezas removidas.
por dia. Já em meados dos anos 2010, a capacidade O precipitado de carbonato de cálcio se mos-
de queima tem atingido cerca de 8.000 toneladas tra bastante contaminado com reagentes do licor
de sólidos secos diários, e isso continua crescen- branco, como soda cáustica e sulfeto de sódio. Para
do. Também a evolução aconteceu na geração de sua eficiente recuperação, esse carbonato de cálcio,
vapores superaquecidos a maiores temperaturas e conhecido como lama de cal, é lavado, secado e de-
pressões de vapor, o que eleva os rendimentos na pois queimado em um forno de cal, para se con-
geração de eletricidade. verter em cal virgem. A cal obtida, após hidratação
Enquanto as unidades baseadas nos conceitos de em um apagador de cal, recompõe o hidróxido de
Tomlinson continuam a ser melhoradas, tecnologias cálcio requerido para continuar cumprindo seu
alternativas também estão sendo desenvolvidas. Vá- papel na caustificação do licor verde.
rias destas abordagens novas envolvem as técnicas de Os principais avanços nesse setor se localiza-
gaseificação do licor preto (Black Licor Gasification – ram na capacidade dos fornos de cal, na lavagem
BLG) e a circulação do leito fluidizado (Circulating da lama e na secagem da mesma. Originalmente,
Fluidized Bed – CFB). Talvez essas novas tecnologias a secagem da lama acontecia dentro do próprio
possam ser alavancadas em função dos novos negó- forno de cal, mas isso gerava instabilidades ope-
cios que surgiram no setor através da integração com racionais, perdas de continuidade operacional e
as biorrefinarias para produção de outros produtos aumento de cargas poluentes nas emissões aéreas
a partir da biomassa florestal, como lignina, gás de liberadas pelo forno de cal. Atualmente, as ins-
síntese, hemiceluloses etc. (93). talações modernas possuem secadores de lama
externamente ao forno, no que se denomina de
LMD, ou Lime Mud Dryer. Definitivamente, essa
Caustificação e forno de cal solução tecnológica tem permitido aos fornos de
Essa etapa tecnológica finaliza o processo de cal atingir melhores valores em eficiências térmi-
recuperação do licor. Seus equipamentos têm a cas e também em se habilitarem a queimar múlti-
missão de converter o carbonato de sódio presente plos combustíveis gerados como gases de processo
no licor verde, que é produzido pela caldeira de (metanol, hidrogênio, terebintina etc.) e capazes
de serem também incinerados no forno de cal, li-
berando energia para a calcinação da lama de cal.

O branqueamento das polpas celulósicas


Outro processo importante relacionado com
a matéria-prima para a fabricação de inúmeros
tipos de papel é o de branqueamento das polpas
(ou das fibras). No segmento têxtil, os panos de fi-
bras de algodão e linho já eram branqueados desde
Caustificação e forno de cal
46  | A EVOLUÇÃO TECNOLÓGICA DO SETOR DE CELULOSE E PAPEL NO BRASIL

tempos antigos. Theophrastus, 300 anos a.C., rela- tistas famosos que morreram durante experimen-
ta uma história de um navio carregando cal para tos, ou anos após, por exposição ao cloro (63).
branqueamento sendo destruído quando a água, Muitos cientistas ingleses foram envolvidos
acidentalmente, foi infiltrada na cal. Plínio, 100 em desenvolvimentos posteriores da utilização do
anos d.C., descreveu a virtude do linho branco e cloro para branqueamento. Davie, por exemplo,
sua produção por limpeza alternativa com álcali de mostrou que o novo gás era um elemento e deu-lhe
cinzas vegetais ou cal, seguido por lavagem e expo- o nome de chloros (cloro), significando verde (63).
sição ao sol. O leitelho (leite ácido semidesnatado) Do ponto de vista de um branqueamento prático e
e sucos ácidos de frutas eram usados para algum econômico, também fez sucesso o descobrimento
tipo de tratamento ácido. Esta prática continuou de Charles Tennant, de Glasgow, Escócia. Tennant
inalterada até o ano de 1800 (63). não desfrutou do monopólio a que teria direito
O branqueamento era um assunto sério nos pela publicação de sua patente em 1798, e che-
tempos medievais. Em certo ponto, os regulamen- gou a estar profundamente implicado em litígios
tos proibiram o uso de cal e os violadores pagavam de patente (155). Contudo, em 1799, obteve uma
com a penalidade máxima: “qualquer branqueador patente sobre a produção de um pó branqueador
(profissional do branqueamento) que usasse ma- de hipoclorito de cálcio, pela ação do cloro sobre
teriais impróprios seria considerado culpado de a emulsão de cal. Dessa maneira, ele assegurou
crime e deveria ser morto” (63). transportar cloro em forma sólida (em tonéis de
Os panos eram dispostos em prados gramí- madeira, em barris grandes, ou em outras formas)
neos (bleaching-greens) para exposição à luz solar; desde as fábricas de produtos químicos até as fá-
o processo era, às vezes, referido como grassing bricas têxteis e papeleiras (63).
(arrelvamento). Os roubos nos prados gramíneos Este pó branqueador tornou-se o agente bran-
eram um problema sério, assim a Sociedade dos queador padrão no século seguinte (1800). No iní-
Branqueadores criou uma proteção contra tais cio, ele foi usado em combinação com a exposição
roubos. Os ladrões eram, vez por outra, executa- à luz solar e estava apto para diminuir dramatica-
dos com a pena de morte (63). mente o tempo de exposição, de muitas semanas
O processo de branqueamento com cloro foi para poucos dias. Até hoje o pó de hipoclorito tem
descoberto pelo químico sueco Karl Wilhelm mercados e utilização para inúmeras finalidades,
Scheele em 1774 (254). Scheele observou que o como alvejante, bactericida, oxidante etc.
gás cloro tinha uma poderosa ação branqueadora
sobre as fibras vegetais (155). Depois do descobri- Desenvolvimento de equipamentos para
mento de Scheele, o químico francês Claude Louis o branqueamento
Berthollet (em 1785) concluiu que o cloro podia Os primeiros sistemas de branqueamento esta-
ser absorvido em soluções de potássio ou carbo- vam limitados a consistências de 3% a 4%, e qual-
natos cáusticos para dar origem a soluções que quer intenção para branquear mais rapidamente
teriam uma ação branqueadora satisfatória e que ou para tratar as polpas cozidas a rendimentos
seriam mais facilmente manuseados e menos pe- satisfatórios requeria elevação de temperatura de
rigosos (a qual ele deu a o nome de eau de Javelle, grandes volumes de polpa, a valores entre 38 ºC e
fabricando, a partir disso, os hipocloritos de cál- 50 ºC (155).
cio, sódio e potássio, usados no branqueamento de Já em 1895, os irmãos Bellmer, na Alemanha,
trapos tingidos). (63; 254). O primeiro branquea- desenvolveram um novo tipo de tina de branquea-
mento com cloro em escala industrial foi realizado mento que leva seu nome: o reator Bellmer. Neste
em 1804 (62). Experimentos no qual o cloro em equipamento, a operação a 7% de consistência era
estado gasoso era adicionado diretamente à água possível se as cubas forradas com cerâmicas tives-
resultavam em tragédias em muitos casos, devido sem formas hidrodinâmicas apropriadas (155).
à extrema toxicidade desse gás. Há relatos de cien- Pouco depois da introdução da pia ou tina
CAPÍTULO 03 - O PROCESSO KRAFT DE FABRICAÇÃO DE CELULOSE  |   47

Bellmer, um trabalho experimental realizado na com o branqueamento em uma só etapa; e as pol-


fábrica Burgess de polpa ao sulfito, em Berlin, N. pas produzidas estavam menos degradadas (155).
H., convenceu o grupo de operações dessa fábrica Finalmente, concluiu-se que era conveniente
que consistências ainda maiores teriam vantagens empregar ainda mais de duas etapas no processo
bem definidas. A polpa, perfeitamente mesclada de branqueamento; a prática posterior chegou a
com o licor de branqueamento, era alimentada a utilizar até sete etapas com diferentes combina-
uma consistência de aproximadamente 12% ao ções, em várias faixas de consistências, com fre-
primeiro tanque de branqueamento e, a essa con- quência utilizando cloro somente na primeira
sistência, transportadores alimentavam o sistema etapa, seguida por uma etapa de extração alcalina
com esta polpa (155). com lavadores, e terminando com uma série de
No entanto, a notável melhoria em limpeza, passos de hipoclorito com eficientes lavagens com
cor e qualidade de polpa branqueada a esta maior água, intermediárias e finais (155).
consistência, dirigiu os esforços a se consegui- Como exemplo, pode-se citar a sequência onde
rem consistências ainda maiores. Isto conduziu o hipoclorito (H) era aplicado primeiro, seguido
ao desenvolvimento do branqueador horizontal pelo estágio de extração alcalina (E) e, então, por
Wolf, no qual foi possível operar a consistências outro estágio de hipoclorito (H), em sequência
de 15% a 25%. Posteriores ao desenvolvimento do HEH. Esta abordagem, junto com a lavagem en-
branqueador Wolf e às vantagens comprovadas do tre os estágios, diminuía muito os requisitos por
branqueamento a altas consistências, construíram produtos químicos (63). A extração alcalina (E) da
outros tanques branqueadores que usavam este polpa pode ser considerada uma parte integral de
princípio, entre os que se contavam o Fletcher, o uma sequência de branqueamento de múltiplos es-
Collins e o Thorne (155). tágios por ela ter o objetivo de remover os compo-
No período em torno de 1900 até 1930, novos nentes coloridos da polpa parcialmente branquea-
equipamentos foram desenvolvidos para tornar o da, que se tornam solúveis em soluções alcalinas
branqueamento mais eficiente (63). Torres, bom- diluídas mornas (248).
bas e sistemas mais eficientes de mistura e de lava- Numa sequência de branqueamento o estágio
gem entre estágios passaram a ser desenvolvidos E, no geral, é realizado após um tratamento ácido
para branqueamentos sendo executados em con- ou oxidante para remover os compostos modifi-
sistências entre 3% a 15% e em temperaturas va- cados e coloridos, formados anteriormente. Esta
riando de 35 ºC a 80 ºC. metodologia promove uma limpeza de preferência
nas superfícies das fibras de modo a expor novas
As sequências de branqueamento regiões aos reagentes empregados na etapa seguin-
Por muitos anos, o processo de branqueamen- te (248). Foram descobertas maneiras de usar clo-
to tinha apenas um estágio. Porém, no ano de 1920, ro como gás em vez de hipoclorito e, depois, eco-
concluiu-se que as vantagens do branqueamento nomias resultaram da aplicação da sequência CEH
em várias etapas eram ainda maiores no caso da de branqueamento (63). A polpa, que era obtida
polpa de madeira. Não somente se conseguia um pelo processo sulfito-ácido, era facilmente bran-
maior grau de alvura, como também que o consu- queada por esta metodologia (248).
mo de produtos químicos de branqueamento fosse O branqueamento de polpas celulósicas sul-
muito menor (155). fato e sulfito com cloro correspondiam ao estado
Os sistemas em duas etapas tornaram-se es- da arte por volta de 1920. Já o branqueamento em
pecialmente vantajosos para o branqueamento de dois ou mais estágios era o que de mais desenvolvi-
polpas feitas pelos processos à soda ou Kraft, nos do ocorria no final da década de 1940 (128).
quais a quantidade de reativos requerida para al- O cloro elementar (gás cloro) é um produto
cançar um grau de padrão de alvura podia ser re- eficiente na deslignificação, no entanto, ele não
duzida até mesmo para a metade em comparação ataca só a lignina, pois produz radicais que são os
48  | A EVOLUÇÃO TECNOLÓGICA DO SETOR DE CELULOSE E PAPEL NO BRASIL

principais responsáveis pela degradação dos car- Isso levou ao desenvolvimento nos anos 1950
boidratos no estágio de cloração (248). Soma-se da sequência de branqueamento com cinco está-
a isto, a formação de compostos organoclorados gios CEDED, a qual permitiu a fabricação de pro-
(AOX), alguns do grupo das dioxinas e furanos, dutos de alta alvura de polpa Kraft com a mínima
que possuem elevada toxidez e são mutagênicos e perda de resistência da polpa (63). Ainda em 1975,
carcinogênicos em efluentes de fábricas de celulose era comum o branqueamento por deslocamento
química branqueada, que gerou a procura por um para a sequência CEDED (62).
branqueador substituto do cloro elementar. Nas O aumento do uso de dióxido de cloro nas se-
décadas de 1980 a 1990, uma restrita legislação de quências de branqueamento também causou con-
proteção ambiental começou a aparecer levando as siderável redução no uso de hipoclorito (usado
fábricas de polpa a gradualmente eliminarem o gás ainda em alguns casos), por possuir diversas ca-
cloro como um agente de branqueamento (248). racterísticas adversas. Esse produto necessitava de
Para reduzir a deterioração da celulose pelo clo- um rigoroso controle das condições operacionais,
ro molecular, o primeiro alvejante utilizado para esta como pH, tempo, temperatura e concentração,
finalidade foi o dióxido de cloro (D), descoberto por para atuar principalmente como clareador, sem
Humphrey Davy em 1811. Entretanto, o crédito de degradar a celulose e sem produzir papéis com
sua descoberta foi dado a Schimidt e aos descobri- baixas propriedades físico-mecânicas (248).
dores da polpação alcalina, Watt e Burgess, por eles Confirmados os benefícios do dióxido de clo-
mencionarem na sua patente o uso de cloro e dióxido ro em proteger os carboidratos, a primeira e fun-
de cloro como agentes branqueadores da polpa (248). damental etapa de branqueamento CE foi inicial-
Embora a substancial vantagem na substituição mente substituída pela etapa CDE (pela adição de
do gás cloro pelo dióxido de cloro, que é gerado a pequena quantidade de dióxido de cloro ao cloro),
partir do clorato de sódio, fosse conhecida desde visando à redução do uso do cloro e da toxidez do
a metade dos anos 1960, ela só teve um tremendo efluente. Posteriormente, as etapas CE e CDE fo-
aumento de popularidade nos anos 1970. Isso ocor- ram completamente substituídas por um método
reu devido à sua habilidade em reagir com a ligni- no qual o dióxido de cloro passou a ser o produto
na sem atacar a celulose. Outra vantagem do dió- principal, originando a sequência DEDED (248).
xido de cloro sobre o cloro tornou-se plenamente Atualmente, existem diversas variações nas se-
evidenciada em meados dos anos 1990 devido ao quências de branqueamento, com alterações de
melhor resultado em relação aos compostos orga- tempos, cargas, etapas e pH. Há ainda etapas ini-
noclorados formados durante o branqueamento ciais de purificação ácida de compostos consumi-
com cloro (276). Entretanto, assim como o cloro, dores de reagentes químicos (ácidos hexenurôni-
o dióxido de cloro também produz compostos or- cos) e etapas finais para estabilização maior da
ganoclorados, porém, em uma concentração muito alvura final da pasta celulósica.
menor e de menor nível de periculosidade.
A fabricação e o branqueamento com dió- O grande impacto da utilização do
xido de cloro (D) em fábricas de celulose foram oxigênio na deslignificação da polpa
inicialmente praticadas nos anos 1940 (63). Re- As restrições ambientais a partir da década de
lata-se que o primeiro uso comercial do dióxi- 1970 obrigaram as fábricas de celulose a se torna-
do de cloro em fábricas de celulose ocorreu em rem mais limpas, reduzindo a toxidez e a quanti-
1946. Com isso, a sequência CEH foi substituída dade de poluentes em seus efluentes. Uma tecno-
pelo método CEDH que causa menor deterio- logia encontrada para reduzir a emissão e geração
ração nas fibras e consequentemente no papel, de produtos tóxicos foi estender a deslignificação
devido à maior eficiência do dióxido de cloro para auxiliar na remoção da lignina residual pre-
em atuar como protetor da degradação dos car- sente nas polpas após digestor, com mínima de-
boidratos, no início do tratamento (248). gradação dos carboidratos (248). Essa tecnologia
CAPÍTULO 03 - O PROCESSO KRAFT DE FABRICAÇÃO DE CELULOSE  |   49

permitia ainda reter parte dessa lignina removida queamento de polpa Kraft livre de cloro elemen-
no processo, impedindo-a de ir aos efluentes. tar atuando de forma complementar ao estágio de
Dos métodos desenvolvidos os mais impor- pré-deslignificação com oxigênio (63).
tantes foram: a deslignificação com oxigênio, antes
do início do branqueamento, a chamada Pré-O2, e Os processos ECF e TCF
a extração alcalina reforçada (Eo, Ep, Eop ou EH). Na No início dos anos 1990, as inquietudes dos
deslignificação com oxigênio, a remoção da ligni- mercados consumidores estimularam o desenvolvi-
na é realizada por um produto oxidante (oxigênio) mento das sequências de branqueamento que não
mais seletivo que o processo de cozimento (248). usavam cloro elementar para produzir polpas bran-
Nesta etapa (Pré-O2), consegue-se remover queadas. A completa substituição do cloro por dió-
cerca de 40% a 50% da lignina residual da polpa xido de cloro – o assim chamado processo de bran-
não branqueada. Isso possibilita uma redução tan- queamento ECF (Elemental Chlorine Free – livre ou
to do número kappa da polpa como do consumo isento de cloro elementar) – desenvolveu-se rapida-
de químicos no branqueamento. Por possibilita- mente, tornando-se a tecnologia de branqueamento
rem maior limpeza da polpa e atuar na remoção dominante, primeiro na Suécia, depois no Canadá
das substâncias coloridas, estas ações promovem e em muitos outros países, inclusive no Brasil (63).
significativa redução na carga tóxica do efluente Um desenvolvimento simultâneo, mas sem
das fábricas. Com isso, a partir do final da década tanto sucesso comercial, levou ao processo de
de 1970 surgiram sequências do tipo OCEoDED, branqueamento que não usa cloro nem compostos
OCEpDED ou OCEHDED, por exemplo (248). contendo cloro, denominado como processos TCF
Ao final dos anos 1970, o branqueamento (Totally Chlorine Free – totalmente livre de cloro).
com oxigênio (O) já era comercializado e crescia O desenvolvimento de tecnologias de branquea-
em importância também no Brasil. A primeira mento com peróxido de hidrogênio (P) e ozônio
instalação de branqueamento em alta consistên- (Z) foram fatores essenciais para o surgimento
cia com oxigênio teve lugar na África do Sul em dessas novas rotas de processo (63). Estes proces-
1970. Uma década mais tarde, o uso de oxigênio sos, que substituem o dióxido de cloro por ozônio,
nos estágios de extração alcalina era comerciali- ácidos (A) e outros oxidantes enérgicos, podem
zado em muitos locais e países. Nos anos 1980, contribuir para o fechamento pleno do circuito hí-
muitos outros desenvolvimentos tiveram lugar: drico das fábricas de celulose devido à possibilida-
a introdução dos misturadores de polpas com de de completa recuperação dos efluentes gerados
médias a altas consistências, bombas centrífugas no setor de branqueamento. Porém, alguns destes
de média consistência e sensores residuais on-line químicos oxidantes podem colaborar ainda mais
óticos e químicos (62; 63). para a degradação da celulose durante o bran-
A deslignificação com oxigênio possui alguns queamento, devido à sua baixa especificidade em
aspectos negativos, pois durante o processo são ge- degradar apenas a lignina (seletividade). Isto pode
rados alguns radicais extremamente reativos, que originar polpas e papéis com menores proprieda-
podem degradar os carboidratos e consequente- des de resistência e durabilidade (248).
mente reduzir a viscosidade da polpa. Mesmo as- Na década de 1990, o dióxido de cloro estava
sim, não ocorre redução sensível nas propriedades sendo gradualmente substituído por peróxido à
de resistência mecânicas da polpa, porque a cisão medida que as fábricas estavam interessadas em
das moléculas de carboidratos é mais ou menos utilizar sequências TCF, principalmente pelas em-
homogênea. Além disso, o oxigênio oxida também presas suecas e finlandesas. Em 1992, as sequên-
o grupo terminal redutor da celulose, bloqueando cias OZED e OZP foram praticadas em diversas
as reações de degradação dos carboidratos (63). empresas. Os estágios ácidos surgiram em 1994. O
No princípio dos anos 1980, o peróxido de hi- uso de peróxido tem crescido bastante em tempos
drogênio passou a ser muito utilizado para o bran- recentes (2000 a 2015) (221).
50  | A EVOLUÇÃO TECNOLÓGICA DO SETOR DE CELULOSE E PAPEL NO BRASIL

As Figuras 9 e 10 mostram exemplos de uma sequências, contendo cloro elementar, estão prati-
sequência de branqueamento ECF e uma TCF, res- camente em extinção.
pectivamente. Algumas fábricas de celulose estão também
A Figura 11 mostra as tendências de evolução experimentando tratamentos enzimáticos para
da química de branqueamento de celulose desde melhorar o branqueamento da celulose e nos la-
1990 a 2012, como uma projeção feita em 1993. boratórios industriais estão sendo feitas investiga-
Como se pode notar, uma tendência importante ções sobre enzimas mais específicos e resistentes
começou entre os anos 1970 e 1989, com o crescen- a condições extremas de alcalinidade e tempera-
te uso de oxigênio, peróxido de hidrogênio, ozônio turas altas (257). Há registro, por exemplo, que as
e dióxido de cloro e um correspondente colapso
no consumo de cloro e hipoclorito. Espera-se que

Quantidade Relativa
o consumo específico do dióxido de cloro para se
branquear uma tonelada de celulose decline, fren-
te ao possível desenvolvimento de novos químicos
para o branqueamento e de formas mais eficientes
de se branquear e lavar as polpas (44).
Já na Figura 12, veem-se detalhes do cresci-
mento do branqueamento ECF na produção glo-
bal de celulose branqueada no planeta, confirman-
do a rápida conversão dos branqueamentos para
1930 1940 1950 1960 1970 1980 1990 2000 2010
as dominantes sequências ECF. Apesar disso, as
Figura 11 – Utilização ao longo do tempo dos principais químicos do
polpas obtidas por sequências TCF ainda mantêm branqueamento
certo nicho em mercados especiais. Já as demais (Fonte: P&P/PPI Celulose e Papel Panorama Mundial – 1993) (44)

Branqueamento DualD (OP)D

5a Prensa 6a Prensa 7a Prensa

Polpa da
VMP
deslignificação
VMP O2 ClO2

ClO2

Estágio DualD Estágio OP Estágio D1 Estocagem

Figura 9 – Exemplo de uma sequência ECF


(Fonte: Redução do consumo de água na etapa de branqueamento via reutilização de efluentes industriais – Alexandre Augusto de Andrade) (13)

Deslignificação Deslignificação Branqueamento


estendida com com ozônio em com peróxido
oxigênio alta consistência

Figura 10 – Sequência TCF


(Fonte: Tappi Journal – Outubro, 1995 – pg. 56 – Modificada pelos autores) (43)
CAPÍTULO 03 - O PROCESSO KRAFT DE FABRICAÇÃO DE CELULOSE  |   51

90 ECF
TCF
80
Other
70

60

50

40

30

20

10

0
1990 1995 2000 2005 2010
2012
Figura 12 – Milhões de toneladas de celulose branqueada produzidas anualmente por diversos tipos de sequências de branqueamento
(Fonte: AET – Alliance for Environmental Technology, 2013 – http://www.aet.org/science_of_ecf/eco_risk/2013_pulp.html)

enzimas xilanase foram empregadas pela primeira


vez em 1980 (25). As enzimas, porém, são caras,
exigentes em condições processuais e muito difí-
ceis de controlar, até o momento (257).
O branqueamento enzimático necessita um
processo muito estável e admite modificações míni-
mas. Uma troca brusca de pH ou temperatura pode
eliminar as enzimas e chegar a perder grande parte
do produto. Nos dias atuais, as altas temperaturas e
os circuitos de filtro fechados também limitam as
probabilidades dos tratamentos enzimáticos. Po-
rém, estes obstáculos podem ser solucionados com
o tempo, de modo que tais tratamentos possam vol-
tar muito efetivos na melhor preparação da madeira
para o processo de fabricação de celulose (257).
Celuloses não branqueadas (folhas úmidas prensadas)

Celuloses plenamente branqueadas prontas para consumo papeleiro. Fardos de celulose branqueada de mercado
(folhas úmidas prensadas)
52  | A EVOLUÇÃO TECNOLÓGICA DO SETOR DE CELULOSE E PAPEL NO BRASIL
CAPÍTULO 04 - PREPARAÇÃO DE MASSA  |   53

CAPÍTULO 04
PREPARAÇÃO DE MASSA:
Uma fase intermediária
para a fabricação do papel
As etapas da preparação da massa Refinação da massa,

E
pasta ou polpa celulósica
importante ressaltar que as operações O processo de refinação ou refino consiste em
que têm influência sobre a qualidade transferir energia para as fibras por meio da ação
do papel iniciam antes da máquina do impacto das barras de um equipamento gene-
de papel, desde a desagregação, de- ricamente chamado refinador ou moinho. Esses
puração e refinação da polpa até impactos sucessivos modificam as fibras de modo
adição de produtos químicos. Indo que sejam processadas facilmente na máquina de
mais longe nessa linha conceitual, poder-se-ia di- papel e confiram ao produto final as propriedades
zer que a qualidade e a produtividade na fabricação que lhe sejam desejáveis (156).
do papel se inicia desde a preparação e formação A necessidade da refinação vem do fato de que
da floresta e da madeira na qualidade adequada, as fibras virgens não são muito convenientes à ma-
seguindo-se pelo cozimento dos cavacos de madei- nufatura do papel; são rígidas, têm baixa capaci-
ra, lavagem, depuração e branqueamento da polpa, dade de formar ligações entre elas e, embora pos-
para se finalizar na fábrica de papel. sam ser usadas em seu estado original para alguns
Entretanto, por uma questão de foco, dar-se-ão
ênfases neste trabalho: à refinação da polpa celuló-
sica, por representar a principal etapa da preparação
da massa e mesmo da fabricação de papel; à adição
de alguns produtos químicos fundamentais a alguns
tipos de papéis de grande utilização. Convém res-
saltar, porém, que certos papéis possuem pouca ou
nenhuma refinação como é o caso, por exemplo, de
alguns papéis sanitários. Outros papéis, no entanto,
necessitam desenvolver propriedades, como baixa
resistência à passagem do ar conjugada com uma alta
resistência a tração e ao arrebentamento, as quais são
obtidas com refinação em alta consistência (maior
que 8%). Neste texto, porém, se colocará ênfase na
refinação em baixa consistência (4,5% a 5,5%) por ser
a mais comum e amplamente pesquisada. Disco de refinação de polpa celulósica
54  | A EVOLUÇÃO TECNOLÓGICA DO SETOR DE CELULOSE E PAPEL NO BRASIL

produtos, geralmente sem refinação não podem hidráulica que os moinhos de martelo. Tratava-se
conferir ao papel as propriedades de resistência de um tanque oblongo, dividido por uma parede
exigidas nas operações de conversão (156). central, tendo ainda em um dos lados um meca-
O processo de refino começou também com nismo de moagem. Esse mecanismo consistia de
T’sai Lun ao bater as fibras molhadas de amoreira um rolo cilíndrico móvel de madeira, tendo barras
com um porrete a fim de amolecer as mesmas e de ferro assentadas sobre a sua superfície (210).
melhorar suas características de conformação na O rolo tinha uma série de barras metálicas fi-
folha (39). É possível ver esta etapa do processo em xadas na sua superfície externa e em posição pa-
uma antiga fábrica japonesa de papéis mostrada à ralela ao eixo. Por baixo do rolo ficava uma placa
esquerda na parte superior da Figura 13 (52). metálica, munida, na sua face superior de barras
Em 750 d.C., os árabes já produziam papel de semelhantes às do rolo, sendo que a distância entre
linho, batendo e macerando suas fibras úmidas, as barras do rolo e as da placa podia ser ajustada
com martelos de madeira. Na Espanha, por volta convenientemente. Com a movimentação em giro
do ano de 1150 d.C., moinhos feitos com toras de do rolo, o material disperso e em suspensão, co-
madeira maçavam e batiam (refinavam) as fibras locado no tanque, era forçado a se deslocar pelo
dos trapos de algodão com altas proporções de vão entre o rolo e a placa, onde a ação das barras
água (39). Um cilindro dentado de madeira mo- móveis sobre as fixas levava à desintegração (moa-
vido por força hidráulica fazia com que as toras gem) dos trapos em fibras (210).
caíssem várias vezes (efeito pilão) sobre o mate- O tipo de moagem é determinado principal-
rial fibroso transformando-o em pasta (Figura 14) mente pelo número, largura e tipo de facas, tanto
(248). No final do século XI, este moinho hidráu- do rolo como da placa de assento, e ainda pela in-
lico de martelo foi o primeiro equipamento cons- tensidade do processo, que é controlada pela pres-
truído para a maceração e refino de fibras (248). são mantida entre o rolo e a placa (210). A Ho-
landesa foi o primeiro equipamento de produção
A invenção da Holandesa de papel que introduziu significativo aumento na
Os holandeses, motivados pela escassez de re- ação mecânica sobre as fibras, pois, dependendo
cursos hídricos, desenvolveram em 1640 o moi- da posição de suas facas, ela pode cortar, desfibri-
nho hoje denominado de Máquina Holandesa (Fi- lar e colapsar as fibras, reduzindo algumas pro-
gura 15), que necessitava de muito menos energia priedades de resistência mecânica, embora melho-

Figura 13 – Antigo tratamento mecânico das fibras Figura 14 – Tratamento mecânico das fibras em um moinho hidráulico
(Fonte: Pulp Technology and Treatment for Paper – CLARK, 1985) (52) (Fonte: Pulp Technology and Treatment for Paper – CLARK, 1985) (52)
CAPÍTULO 04 - PREPARAÇÃO DE MASSA  |   55

Figura 16 – Refinador cônico


(Fonte: Hengbon Industrial Co. – http://ec91107192.buy.xpandrally.
com/pz620283c-conical-refiner-for-paper-machine.html) (123)

da carcaça; fluxo que é diferente do que ocorre nos


moinhos, onde a direção da massa é perpendicular
Figura 15 – A Máquina Holandesa à disposição das facas. Esse detalhe provoca menos
(Fonte: Papermaking Resources
http://www.papermakingresources.com/articles_beater.html) (41) corte nas fibras (39).
O refinador cônico atendia às exigências da
rando a maioria das outras propriedades por essa época muito bem, porque ele era eficiente para
ação mecânica de refino (248). cortar as fibras longas, tão em uso no mercado.
Devido ao seu alto consumo de energia por to- Esses refinadores continuaram a ser utilizados
nelada de massa preparada, resultados diferentes para a refinação de pastas mecânicas até os anos
em cada batelada, necessidade de grande espaço e 1960, porque pastas mecânicas eram produzidas
falta de controle da ação de refino, as Holandesas em grande parte com madeiras de coníferas com
foram substituídas por equipamentos contínuos fibras longas e, em alguns casos, era desejável o
de refinação. O estudo das Holandesas possibilitou corte de fibras. Entretanto, o sistema de conjun-
o desenvolvimento dos refinadores, já que exis- tos cônicos dos velhos refinadores limitava a ca-
te certa afinidade conceitual entre eles, inclusive pacidade de fibrilar sem cortar. Isso se tornou um
quanto ao controle da ação de refino (210). prejuízo, à medida que as fibras curtas de folhosas
(hardwoods) participavam mais das misturas na
Os refinadores cônicos preparação de massas (210).
Em 1850, Joseph, Jordan e Thomas Eustico As fibras curtas requerem fibrilação com o mí-
patentearam os refinadores cônicos, chamados nimo corte para atingir seu melhor potencial na fa-
assim pela sua forma. Os refinadores cônicos ou bricação de papel. Os refinadores cônicos originais
Jordans (Figura 16) consistem basicamente de também apresentavam diversos problemas opera-
um rotor cônico, equipado com facas metálicas cionais. Eles necessitavam de significativa quan-
(ou barras) assentadas sobre a superfície cônica tidade de energia, tornando-se assim ineficientes
deste rotor, o qual é acionado dentro de uma car- quanto à energia utilizada. As trocas dos conjuntos
caça também cônica, provida de facas ou barras cônicos levavam, normalmente, mais de oito horas;
por toda sua superfície interna. O ângulo do cone eram muito caras e requeriam um longo tempo de
utilizado situa-se entre 15 º e 17 ° (39). espera entre a parada do refinador devido à troca
A massa fibrosa ou pasta, sob pressão, é ali- e a volta do refinador ao trabalho. Para compensar
mentada pela extremidade menor do equipamento este tempo de parada, para a troca dos conjuntos
e passa entre o rotor (cone) e a carcaça, saindo pela cônicos, era muito comum instalar-se cerca de 30%
extremidade maior. As fibras da massa fluem para- a mais de capacidade de refinação (210).
lelamente à direção das facas, tanto do cone como Os refinadores de alta velocidade ou de grande
56  | A EVOLUÇÃO TECNOLÓGICA DO SETOR DE CELULOSE E PAPEL NO BRASIL

Figura 17 – Refinador Conflo Figura 18 – Refinador de discos


(Fonte: Papermaking – PAULAPURO et al., 2000) (210) (Fonte: Revista Twogether n. 8 – Setembro, 1999) (247)

ângulo são também refinadores cônicos que apre- Os refinadores de disco


sentam as facas com uma inclinação de cerca de 60 Em 1856, Kingsland inventou o refinador de
°C com um eixo axial do rotor. Eles são mais curtos disco, o qual, atualmente, ainda é muito utilizado
que os Jordans originais e trabalham com rotações pela indústria de papel (248). Podem ser enqua-
superiores a estes. Por cortar menos e hidratar mais drados como refinadores de disco os seguintes ti-
as fibras, estes equipamentos acabaram substituin- pos: de disco simples (com um disco móvel e um
do tanto as holandesas como os refinadores Jordans estacionário); de contrarrotação (com os dois dis-
(39). Este tipo de refinador apresenta as seguintes cos móveis, um girando contra o outro) e de disco
vantagens em relação a um Jordan clássico: para duplo (com dois discos estacionários e um móvel,
uma mesma área refinadora, ocupa menos espaço; central e de face dupla de refinação). Este último,
permite a utilização de facas mais altas; as chances também é denominado Tridisc (210).
de atrito entre o rotor e a carcaça são menores; as Quanto ao tipo de fluxo da massa no refina-
características de fluxo são melhores; para uma dor, aparecem vários tipos, como os pressurizados
mesma rotação do cone conseguem-se as velocida- ou não, de fluxo simples; os pressurizados, de du-
des periféricas mais altas (39). plo disco, com fluxo simples (mono-flux) ou duplo
A Jylhävaara e depois a Sunds, quando adqui- (duo-flux). A massa é alimentada sob pressão por
riu a Jylhävaara, reintroduziram o refinador côni- meio de um orifício que está no centro dos discos
co nos anos 1980 com seu novo conceito Conflo estatores e, em seguida, é obrigada a passar entre
(Figura 17) – um refinador com dois cones e com os discos, onde é refinada (210). Na Figura 18 apre-
um ângulo pequeno e com menor intensidade do sentam-se detalhes deste tipo de equipamento.
que os antigos Jordans (210). Há outros equipamentos e processos de refinação,
Resultados de campo iniciais com o refina- como refinadores de multidiscos, refinadores em alta
dor Conflo mostraram uma habilidade de con- consistência etc., e processos, como refinação ultras-
seguir melhorias no desenvolvimento das fibras; sônica, refinação por processo com favorecimento da
tratamento melhor, mais completo e homogê- biotecnologia pelo uso de enzimas etc., que não serão
neo; além de melhoria da eficiência de energia tratados neste trabalho em função dos seus objetivos.
para desenvolvimento idêntico, ou seja, para o Os principais tipos de evolução na refinação
tratamento das fibras. Considerou-se, inclusive, da massa ocorreram mais recentemente nos di-
por um tempo, o refinador cônico de pequeno mensionamentos das barras e espaços entre barras
ângulo como, possivelmente, o mais eficiente dos discos, nos materiais metalúrgicos de confec-
refinador para o tratamento de Kraft de madeira ção dos discos e na distribuição da energia aplica-
de coníferas (210). da sobre as fibras.
CAPÍTULO 04 - PREPARAÇÃO DE MASSA  |   57

Adição de produtos químicos do papel como sua principal causa de degrada-


Uma grande quantidade de produtos químicos ção, isto é, o papel produzido com uso do alume
é utilizada nas receitas de fabricação de papel com destrói gradualmente a si próprio, devido à acidez
o intuito de conferir ou acentuar propriedades es- residual. O papel fica frágil e quebradiço (128);
pecíficas da folha e para redução do custo de pro- Ÿ  A primeira colagem alcalina foi feita em 1936,
dução (130). Os produtos químicos também são mas grande número de pesquisas e desenvolvi-
chamados muitas vezes de aditivos químicos. Estes mentos adicionais foi necessário para introduzir
aditivos estão divididos em aditivos funcionais e a colagem neutra e depois alcalina na indústria.
auxiliares. Em meados de 1950, houve o desenvolvimento
Os aditivos funcionais são aqueles que agregam das colas sintéticas, que possibilitavam a colagem
ou modificam alguma propriedade do papel, enquan- interna em meio alcalino, com carga de carbonato
to os aditivos auxiliares são importantes para o bom de cálcio (CaCO3), isto é, retornando a fabricação
desempenho do processo de fabricação de papel. São de papéis com colagem alcalina como eram produ-
aditivos funcionais os seguintes: cargas minerais, zidos até meados do século XIII. Posteriormente,
agentes de colagem interna, agentes de resistência a descobriu-se que este sistema de colagem, que foi
seco, agentes de resistência a úmido, agentes modifi- intensificado a partir dos anos 1980, possibilitava a
cadores de cor e brancura etc. Os aditivos auxiliares redução dos custos industriais de produção (128);
incluem: antiespumantes, desaerantes, aditivos de Ÿ  Os alvejantes óticos foram usados pela primei-
retenção, agentes condicionadores de telas e feltros, ra vez em 1936 (128);
agentes para controle de depósitos, microbicidas etc. Ÿ  Nos anos 1940, resinas sintéticas de resistência
A ordem de adição (pontos de aplicação) dos a úmido começaram a ser usadas na produção
aditivos deve ser levada em conta para promover de papel higiênico e de embalagem (128);
a correta interação dos produtos e aperfeiçoar sua Ÿ  Nos anos 1950, amido nativo era produzido
retenção na folha de papel. em escala industrial (128);
Neste texto serão apresentadas algumas con- Ÿ  Corantes líquidos passaram a ser comercializa-
siderações a somente alguns destes aditivos consi- dos nos anos 1960 (128);
derados fortemente relevantes para o desenvolvi- Ÿ  Os auxiliares de retenção reduzem a consistên-
mento da indústria do papel como: cia da água branca, contribuindo, assim, para
Ÿ  Caulim como carga mineral já estava em uso um fechamento adicional dos circuitos de água,
antes de 1900 (146); um dos grandes objetivos da indústria papeleira;
Ÿ  Carbonato de cálcio natural (GCC) foi intro- Ÿ  Enzimas estão tendo desenvolvimento mais
duzido pela primeira vez em 1925, enquanto acentuado em tempos recentes em função das
nos anos 1980 chegaram ao mercado cargas vantagens potenciais para limpeza dos siste-
orgânicas e carbonato de cálcio precipitado mas de máquina, refinação e melhoria na qua-
(PCC), o que possibilitou a produção de cargas lidade das fibras.
para fins específicos (146);
Ÿ  Em 1806, a colagem ácida com resina de breu
mais alume foi inventada pelo químico alemão
Morriz Illig, tornando-se uma inovação pioneira
naquela época, pois os agentes de colagem eram
facilmente disponíveis a baixo custo. Ela foi man-
tida e enormemente utilizada na indústria pape-
leira por quase dois séculos, sendo ainda válida
sua utilização para alguns tipos de papéis e pa-
pelões. Em 1937, a TAPPI (Technical Association
of the Pulp and Paper Industry) apontou a acidez Fibras ligeiramente refinadas e compondo uma folha de papel sanitário
58  | A EVOLUÇÃO TECNOLÓGICA DO SETOR DE CELULOSE E PAPEL NO BRASIL
INTRODUÇÃO  |   59

CAPÍTULO 05
A EVOLUÇÃO DAS MÁQUINAS
DE FABRICAÇÃO DE PAPEL
Apresentando a máquina de papel

O
conceito utilizado inicialmen- da a seguir uma máquina moderna de fabricação
te por Ts’ai Lun, mesmo sendo de papel plano para impressão e escrita (Figura
aquele um processo de fabri- 19), a qual foi dividida em sete etapas distintas,
cação manual, foi transferido que estão descritas abaixo:
para a máquina de papel: a 1. Caixa de entrada: consiste em um tanque de
partir de uma pasta celulósica fluxo contínuo com alta movimentação da mas-
com baixa consistência (alta diluição com água), a sa, para manter homogênea a mistura das fi-
folha é formada sobre uma tela e, a partir daí, a re- bras, produtos químicos e água. Ela correspon-
tirada do excesso de água corresponde ao restante de à parte inicial da máquina, sendo uma etapa
do processo, até a obtenção da umidade final do importante para a boa formação da folha. Ob-
papel. A dificuldade em retirar a água nas várias viamente, o que vem antes da caixa de entrada,
seções da máquina de papel sempre representou quase sempre denominado de circuito de apro-
um empecilho ao aumento de velocidade e conse- ximação ou approach flow, favorece ou não o
quente aumento de produção (156). seu desempenho. Um dos grandes enfoques da
Antes de iniciar a descrição de como a má- caixa de entrada, independente do tipo de papel
quina de papel foi criada e quais foram as prin- que fabrica, é a qualidade do jato de massa que é
cipais etapas evolutivas ao longo de sua história, entregue à etapa de formação da folha. Um jato
é interessante descrever uma máquina de papel uniforme de massa bastante diluída em direção
utilizada nos dias atuais. Devido aos vários tipos à tela em movimento, com consistência unifor-
de papel que existem, com inúmeras aplicações, me, será responsável por menores variações de
como papel para impressão e escrita, papel im- características do papel no sentido transversal
prensa, papéis sanitários (tissue), papéis para e longitudinal da folha, produzindo assim um
embalagens e papéis especiais, entre outros, papel de melhor qualidade.
existem também diferentes tipos de máquinas 2. Formação da folha de papel sobre uma tela
em operação cumprindo suas respectivas finali- em movimento, seguindo-se de um desagua-
dades. Mas para se ter uma ideia das diferentes mento utilizando as características hidrodinâ-
partes de uma máquina de papel será apresenta- micas do líquido. Há vários tipos de formado-
60  | A EVOLUÇÃO TECNOLÓGICA DO SETOR DE CELULOSE E PAPEL NO BRASIL

res, com desenhos e desempenhos variados, trazidos algumas alterações na concepção de


podendo ocorrer com telas planas horizontais outros tipos de máquinas.
ou inclinadas, telas simples ou duplas etc. É 5. Colagem superficial: usada em alguns tipos
importante lembrar que variações de carac- de papéis, como para impressão e escrita, fi-
terísticas observadas nessa etapa dificilmente cando em uma fase intermediária entre a pré e
poderão ser minimizadas, depois. pós-secagem. Outros tratamentos superficiais
3. Seção de prensas úmidas: para desaguamento com a aplicação de tinta cuchê (do francês cou-
da folha úmida por compressão mecânica. O ché) que eram feitos fora da máquina de papel,
objetivo nesta etapa é retirar o máximo de água em equipamentos específicos, estão sendo uti-
possível antes de entregar a folha para a seção de lizados em máquina com resultados positivos.
secagem, isso porque a secagem por evaporação 6. Calandragem: para uniformizar a lisura e a
tem um custo muito alto por utilizar vapor em densidade das folhas. Ela pode variar de má-
seu processo. Ao longo do tempo, tem-se feito quina para máquina – dois rolos coquilhados,
grandes avanços no desenvolvimento de novos soft, calandra etc. -, sendo que algumas máqui-
tipos de prensas, sempre acompanhados de per- nas não possuem calandragem, como as má-
to pelo estudo das consequências desses avan- quinas para papéis tissue, por exemplo.
ços sobre as características do papel. 7. Enrolamento da folha: fase final da máquina
4. Secagem: para desaguamento por evapora- de papel, onde passa a se constituir o rolo jum-
ção da água contida na folha. Nesta etapa, o bo da máquina de papel. Entre essa etapa e a
avanço tecnológico foi durante muito tempo anterior, a calandragem, tem-se normalmen-
pouco significativo. Mas, nos últimos anos, li- te um sistema de varredura tipo scanner para
ções aprendidas em alguns tipos de máquinas medição das variações qualitativas da folha
como as para papéis tissue, por exemplo, têm (perfis de umidade, gramatura, espessura etc.).

Caixa de entrada Formador Seção de prensas Pré-secagem

Colagem superficial Pós-secagem “Soft” Calandra Enroladeira

Figura 19 – Visão das principais etapas de uma máquina de papel


(Fonte: Revista Twogether n. 8 – Setembro, 1999, modificada pelos autores) (27)
CAPÍTULO 05 - A EVOLUÇÃO DAS MÁQUINAS DE FABRICAÇÃO DE PAPEL  |   61

Máquinas de papel são excessivamente caras Para um entendimento das mudanças, a confi-
e o retorno de investimento para a maquinaria guração de uma máquina de papel se analisada de
papeleira é historicamente baixo, o que significa um ponto de vista básico, sem levar em conta as
que eficiências operacionais devem ser extrema- características qualitativas do papel, é uma máqui-
mente altas ou não haveria nenhuma razão para na que irá retirar o excesso de água presente des-
investir em equipamentos novos. Muitas empresas de a massa fibrosa inicial até a folha de papel final
de papel, mesmo as grandes, ficaram conhecidas pronta para o uso.
por investirem em novas tecnologias de máquina
de papel que não foram bem-sucedidas, gerando A invenção da máquina plana
problemas financeiros. Em geral, é mais barato e Até o final do século XVIII, o papel continua-
menos arriscado, pelo menos em curto prazo, re- va a ser produzido quase que totalmente de forma
construir e modernizar uma máquina de papel manual, artesanal ou com baixa agregação tecno-
existente do que construir uma nova (25). lógica. Algumas invenções melhoraram a matéria-
Algumas das maiores mudanças na tecnologia -prima para a fabricação de papel e tinham aper-
das máquinas de papel nos últimos trinta anos in- feiçoado a etapa intermediária entre sua obtenção
cluem (25): e seu processamento em folha, conhecida como
• Telas formadoras, feltros úmidos e telas seca- preparação de massa. A Holandesa é um exemplo
doras sintéticas. Sem o desenvolvimento das disso. Na maioria dos casos se valiam de formas
modernas vestimentas, os maiores desenvolvi- manuais para formar a folha e existiam enormes
mentos em formação, prensagem e tecnologia dificuldades para se processar o desaguamento e a
de secagem não teria sido possível. secagem das folhas produzidas (248).
• Caixas de entrada hidráulicas e controle do perfil Em 1798, o francês Nicolas-Louis Robert in-
por variação de consistência. As caixas de entra- ventou um equipamento para a formação da folha
da hidráulicas tornaram possíveis os formadores de papel que iria revolucionar todo esse processo
de tela dupla. O controle de perfil por consistência a partir de então. Tratava-se de um equipamento
(Consistency profiling) finalmente resolveu muitos que produzia papel de maneira contínua, resultan-
dos problemas de alinhamento de fibras. do em um rolo teoricamente sem fim. A primeira
• Formadores de dupla tela (twin-wire formers). máquina era somente de formação, mas já existia
Esses formadores resolveram os assuntos de ve- um sistema rudimentar de prensagem. A ideia foi
locidade e de dupla-face, ou diferença de pro- brilhante, uma vez que visava aumentar significa-
priedades do papel em seus dois lados planos. tivamente a produtividade na fabricação da folha,
Essas dificuldades limitavam muito as máqui- embora o principal motivo de ter surgido essa
nas de mesa plana com tela única. ideia estivesse ligado a outras causas (145).
• Prensas com nip estendido. Essas prensas for- Robert trabalhava como inspetor de pessoal na
neceram uma mudança de passo (marcha) no fábrica de papel Essomes pertencente a Leger Di-
desaguamento, permitindo maiores aumentos dot, após ter passado por outras funções. Segundo
de velocidade em muitos tipos de papéis. relatos, a ideia de produzir papel de maneira contí-
• Seções de prensas e secagem sem passes abertos. nua e, supostamente automática, estava relaciona-
Isso eliminou os passes abertos das folhas na par- da com o fato de Robert estar descontente com o
te inicial da máquina de papel, reduzindo quebras comportamento dos trabalhadores manuais e com
e permitindo maiores aumentos em velocidade. a falta de disciplina entre os membros da associa-
Ainda há espaço para outras inovações nesta área. ção de fabricantes de papel (145).
• Controle de processo. Modificou completa- A invenção de Robert visava a mecanizar o
mente o papel do operador e propiciou a estabi- processo de fabricação de papel e, com isso, evi-
lidade do processo e qualidade do produto, que tar administrar a mão de obra produtora de papel
de outra maneira não seria possível. manual. A respeito desse invento, Robert deixou
62  | A EVOLUÇÃO TECNOLÓGICA DO SETOR DE CELULOSE E PAPEL NO BRASIL

registrada a seguinte declaração: “durante vários Nesse ínterim, Robert teve um conflito legal
anos eu fui empregado em uma das principais fá- com Didot devido à sua invenção e acabou, pos-
bricas da França. Tem sido meu sonho simplificar teriormente, reconciliando-se com ele e venden-
a operação de fazer papel de tal forma que sua for- do-lhe seus direitos à patente. Deixou, então, a in-
mação represente infinitamente menos despesa e, dústria papeleira e tornou-se um professor escolar
acima de tudo, produza folhas de um comprimen- e, mais tarde, diretor do colégio. Robert morreu
to extraordinário, sem a ajuda de qualquer traba- pobre, apesar de sua tremenda contribuição para
lhador, usando só meios mecânicos” (145). a evolução da fabricação de papel, talvez a maior
O trabalho inicial de construção da máquina de todas (145).
foi encorajado por Didot, que sentia como nin-
guém a disputa com os trabalhadores manuais, Os aperfeiçoamentos de Bryan Donkin
cuja intensidade havia praticamente arruinado a Em 1801, Leger Didot comprou a patente de
fábrica com suas petições e pretensões. Incitados Robert e, junto com seu cunhado John Gamble,
pela Revolução Francesa, esses funcionários con- levou o projeto da máquina de papel para a Ingla-
sideravam-se indispensáveis (145). terra (145; 121). Lá, com a ajuda de um mecâni-
Carpinteiros, encarregados da manutenção co, Bryan Donkin, e a ajuda financeira de Henry e
de máquinas e demais recursos foram colocados Sealy Fourdrinier (os irmãos que compraram um
à disposição de Robert que trabalhou arduamente terço dos direitos da patente), eles desenvolveram
no aperfeiçoamento de seu projeto, culminando o antepassado da moderna máquina de papel a
em 9 de setembro de 1798 com sua solicitação de partir da patente de Robert (145).
patente da primeira máquina contínua de fabrica- A invenção de Robert foi aproveitada nos anos
ção de papel da história (145). de 1803 a 1808 pelos irmãos Fourdrinier, que ti-
A máquina, cujo modelo foi utilizado pela nham direitos proprietários da patente, em cola-
primeira vez na fábrica de papel Essonnes, tinha boração com a fábrica inglesa de maquinarias Hall,
cerca de 3 metros de comprimento e era operada de Dartford, em Kent, e concretamente com Bryan
manualmente por uma manivela (Figura 20). Um Donkin, que estava empregado na fábrica. Já em
tambor coletava a massa do barril posicionado 1803, Donkin pôs em marcha, na fábrica de papel de
abaixo da mesa formadora e lançava esta massa Dartford, a primeira máquina de ensaio, segundo a
sobre a tela em movimento. A água era prensada ideia original de Robert, com uma largura de 76 cm,
para fora da folha por meio de rolos posicionados que não fora satisfatória, mas que mostrava o cami-
sobre a tela (145). nho a ser seguido desde então (121).
Criar uma máquina de folha contínua, além
de aumentar a escala de produção, diminuiria a
dependência dos papeleiros manuais. Só que esse
processo não foi assim tão simples, e finalmente,
só com Bryan Donkin, a ideia primitiva de Robert
tomou forma prática. Na máquina de Robert, o
papel era removido manualmente da superfície da
tela formadora passando então por rolos de prensa
e, logo após, por um feltro ou flanela sem fim. So-
bre este suporte havia a prensagem de um segundo
par de rolos de prensa com o objetivo de receber
uma maior pressão (121).
À maneira incerta, na qual a folha era forma-
Figura 20 – A máquina de papel de Louis Robert da e o estado úmido do papel ocasionava muitas
(Fonte: 200th Anniversary of the Paper Machine – Tappi Journal, quebras de folha e desperdícios de papel, Donkin
1997) (121)
CAPÍTULO 05 - A EVOLUÇÃO DAS MÁQUINAS DE FABRICAÇÃO DE PAPEL  |   63

Figura 21 – Máquina de papel Fourdrinier


(Fonte: 200th Anniversary of the Paper Machine – Tappi Journal, 1997) (121)

adicionou uma tela formadora superior para for- Posteriormente, Donkin foi para Londres e
çar a drenagem da água e consolidar a folha. Ele lá estabeleceu sua própria fábrica de maquinaria.
adicionou limitadores de formato da tela para pre- Começou a melhorar a máquina de Robert e a se
venir o derramamento lateral da suspensão fibrosa dedicar com energia e afinco à construção de má-
e permitir mudanças na largura do papel que esta- quinas planas. Com isso, Donkin se tornou um
va sendo produzido. A polpa era alimentada sobre grande construtor de máquinas de papel, as quais
a tela a partir de uma tina posicionada no início da foram sendo montadas por toda a Europa, até por
tela formadora ao invés de abaixo dela; surgindo volta de 1837 (121).
assim a caixa de entrada (121). Em 1827, a primeira máquina Fourdrinier foi
Donkin notou ainda que na máquina trazida da erguida nos Estados Unidos por Bryan Donkin
França, os meios usados para depositar a polpa so- em Saugerties, Nova Iorque. Ela foi colocada em
bre a tela formadora eram tão ruins que não havia operação em 24 de outubro em uma fábrica per-
nenhuma chance de fazer papel com uma espessura tencente à Beach, Hommerken e Kearney. Havia
uniforme. Melhorias no projeto de Robert para pro- uma significativa oposição para a exportação
duzir um sacudimento (shake) resultaram em uma desta máquina para os Estados Unidos pelos pa-
agitação uniforme aplicada à máquina. Adicional- peleiros ingleses por medo de competição com a
mente, a folha úmida passava entre dois rolos e era América do Norte. A Figura 22 mostra o aumen-
transferida a um feltro sem fim automaticamente. to de produção de papel em função da evolução
O papel úmido era então enrolado em um rolo no tecnológica, acentuando-se a partir da consolida-
final da máquina. Com estas melhorias, a máquina ção da máquina de papel (121).
de papel resultante tinha pouca semelhança com a
máquina de Robert de 1798 (121).
Em 1804, uma nova máquina foi construída
na Two Water Mill, Newbury (Berkshire), Ingla-
terra, com melhorias na formação, transferência
de polpa e uma tela superior. A máquina de papel
Fourdrinier havia então nascido e foi patenteada
em 1806 (Figura 21). Em 1810, os irmãos Four-
drinier junto com John Gamble e Bryan Donkin
fizeram novos aperfeiçoamentos na máquina de
papel. Em 1811, Donkin construiu a prensa couch
com os rolos sobrepostos em posição oblíqua e em
1812, o rolo superior da prensa couch foi revestido Figura 22 – Principais etapas da fabricação de papel ao longo do tempo
com feltro por sugestão de T. Kobb (121). (Fonte: Handbook of Paper and Board – Herbert Holik, 2006) (126)
64  | A EVOLUÇÃO TECNOLÓGICA DO SETOR DE CELULOSE E PAPEL NO BRASIL

Figura 23: O modelo de máquina contínua de Robert


(Fonte: Frogmore mill – http://frogmoremill.com/paper-machine-model-built-by-oskars-pantelejez/) (260)

Pelo ano 1896, praticamente 100 anos após tiplas. A partir de 1952 com a utilização de vácuo
Robert ter concebido a ideia, as máquinas de pa- interno na forma, conseguia-se um aumento po-
pel já excediam a velocidades de 150 m/min. e se tencial de produção. Outras modificações surgiram
assemelhavam às modernas máquinas de hoje. Es- como o formador não imerso a partir de 1964, mas
távamos finalmente atingindo a era da máquina de nesse texto apenas será feita referência ao surgimen-
papel contínua, eficiente e produtiva. to deste tipo de máquina, uma vez que se dará enfo-
que às máquinas que surgiram como uma evolução
A máquina de forma redonda da máquina original de Louis Robert, que passaram
Pouco depois da invenção da máquina plana a serem denominadas, posterior e simplesmente, de
por Robert foi criada a máquina de forma redon- máquinas Fourdrinier de fabricar papel (145).
da ou formadora de forma redonda. Foi John Di- Vale salientar que os formadores a vácuo e
ckinson quem recebeu uma patente pela máquina os formadores de rolo cabeceira de sucção foram
de molde de cilindro em 1809, a qual operava em bastante utilizados para a produção de cartão, pa-
uma fábrica em Hertfordshire, Inglaterra. A Figu- péis de embalagem e papéis tissue. Neste tipo de
ra 24 mostra uma máquina de forma redonda de máquina múltipla estavam dispostas várias formas
Dickinson instalada por ele em 1830 (145). redondas em série, das quais se tomavam as folhas,
No início, essas máquinas possuíam apenas um sobrepondo-as uma as outras. Nessa configuração
formador único por máquina, mas em 1903 surgiu é possível empregar nas capas superiores e inferio-
uma máquina formadora de formas redondas múl- res uma pasta de boa qualidade, e como recheio
uma pasta de qualidade inferior. Estavam sendo
assim criados os papéis multicamadas (128).
Entretanto, essa que era uma vantagem da má-
quina de forma redonda foi, com o tempo, sendo
também incorporada nas máquinas Fourdrinier.
Em 1934, uma caixa de entrada secundária é intro-
duzida para formação da folha em duas camadas,
possibilitando a substituição da máquina de cilin-
dro (forma redonda) na produção de cartão reves-
tido. Com a evolução desse processo, as máquinas
chegavam a ter várias mesas planas para cartões de
multicamadas. Mesmo assim, há várias máquinas
Figura 24 – Máquina de forma redonda de forma redonda ainda em operação em várias
(Fonte: www.thepapertrail.org.uk) (260) partes do mundo (128).
CAPÍTULO 05 - A EVOLUÇÃO DAS MÁQUINAS DE FABRICAÇÃO DE PAPEL  |   65

Lábio com poço / Pond slice Colchão de ar (anos 50/60) Hidráulica (anos 60/70)
Air padded (1950/1960) Hydraulic (1960/1970ies)
100 m/min 100 m/min 2000 m/min
– 0,14 m ca/wc – 0,14 m ca/wc – 0,55 m ca/wc
rolos distribuidores, pressurizada, colchão
de ar / evener rolls, pressurized, air pad
(1909, 1912, 1936)

a b c
Figura 25 – A evolução das caixas de entrada
(Fonte: Revista O Papel, Herbert Holik – Setembro, 2010) (127)

A evolução da caixa de entrada turbulência adequada para evitar a floculação das


A caixa de entrada de uma máquina de pa- fibras e descarregar um fluxo de pasta constante e
pel é um elemento situado justamente antes da com um ângulo correto sobre a mesa formadora
unidade de formação da folha de papel, e está da máquina de papel (11).
encarregada de fornecer a massa previamente As caixas de entrada atuais estão constituídas
preparada, por meio de uma injeção a jato dessa por diferentes elementos: repartidor, dispositivos
suspensão fibrosa em uma geometria laminar. A de equalização de velocidades e geração de tur-
operação que se realiza na caixa de entrada con- bulência e dispositivos de formação do jato. Po-
siste em transformar um fluxo circular da pasta dem-se distinguir entre caixas de entrada abertas e
procedente da bomba de diluição (bomba de mis- pressurizadas. As caixas pressurizadas podem ain-
tura) em um fluxo retangular coincidente com a da ser de colchão de ar e hidráulicas, totalmente
largura da máquina de papel, ao mesmo tempo cheias de líquido (11).
em que lhe imprime uma velocidade uniforme. Em tempos mais remotos a suspensão era ali-
Os sistemas de distribuição tiveram várias mentada à (estreita) tela formadora por meio do
concepções diferentes para tentar minimizar as poço do lábio da caixa de entrada por um distribui-
variações na distribuição de massa, quais sejam: dor difusor e, por exemplo, uma sequência de três
difusor plano, difusor dobrado, difusor transversal barras para equalizar o fluxo de suspensão sobre a
de contra corrente, tubulação ramificada, distri- largura da tela (Figura 25 – item a). Para velocidade
buidor tubular e tanque distribuidor (127). da máquina de 100 m/min era necessária uma pres-
A operação da caixa de entrada é de funda- são de 0,14 metro de coluna d’água antes do lábio.
mental importância, dado que a formação e a Nessa época, o conhecimento sobre a influência da
uniformidade do papel formado dependem de velocidade jato/tela era limitado. As caixas de entrada
uma dispersão uniforme das fibras e outros cons- com colchão de ar e as caixas hidráulicas aparecem
tituintes do papel, pelo que as missões da caixa na sequência (Figuras 25 item b e 25 item c) (127).
de entrada são as de estender a pasta uniforme- O controle da gramatura transversal era feito
mente e igualar os fluxos e a consistência à largura por deflexão pontual da lâmina do lábio da cai-
da máquina de papel, uniformizar o gradiente de xa de entrada por meio de pinos com sistema de
velocidade da pasta ao longo da máquina, criar a rosca ou hastes acionadas eletricamente. Caixas
66  | A EVOLUÇÃO TECNOLÓGICA DO SETOR DE CELULOSE E PAPEL NO BRASIL

Figura 26 – Controle do perfil transversal por diluição Figura 27 – Exemplo de caixa de entrada multicamada
(Fonte: Revista Twogether, n. 2 – Junho, 1996) (31) (Fonte: Revista Twogether, n. 3 – Fevereiro, 1997) (274)

de entrada modernas usam controle por diluição maioria das vezes) a 1%, deposita-se sobre um
(Figura 26) ou ambos (127). suporte de formação (forming board ou mesa de
Desde os anos 1980 foram desenvolvidas cai- formação), constituído por uma tela tecida por
xas de entrada multicamadas (Figura 27) para um filamento metálico ou sintético, que possui um
instalação em máquinas de papéis tissue, papéis tamanho de malha compatível em dimensão ao
para cópias, e certos papéis de embalagem na dé- comprimento das fibras utilizadas (10).
cada de 1990. Estas caixas de entrada consistem A partir deste momento, exerce-se de uma ma-
de duas ou três caixas de entrada, cada qual con- neira contínua ou descontínua, uma diferença de
trolável separadamente, combinadas num equi- pressão no amparo da suspensão fibrosa; esta dife-
pamento único (127). rença de pressão faz com que uma grande parte da
água que acompanha o jato de entrada seja elimi-
Formação da folha na mesa plana nada por filtração, estando as fibras entrelaçadas
As primeiras seções de formação foram a mesa entre si formando um manto ou colchão mais ou
plana e o formador de forma redonda. Ambos ain- menos estratificado – a folha úmida de papel (10).
da estão em uso em nossos dias. A formação da Industrialmente, utilizam-se, na atualidade,
folha (no caso da mesa Fourdrinier) de papel con- diferentes tipos de unidades de formação: mesas
siste, basicamente, em uma operação de drenagem planas, formas redondas, formadores de dupla tela
de água, ao mesmo tempo induzindo forças de ci- e híbridos (que são mesas planas com uma tela de
salhamento e turbulência (127). formação superior). A Figura 28 mostra uma mesa
O jato de suspensão fibrosa procedente da cai- plana com seus principais elementos de desagua-
xa de entrada, com uma consistência inferior (na mento e rolos da tela (10).

Atenuador de
pulsações
Caixa de entrada

“Forming board” “Hidrofoils” “Vacuum foils” Caixas de alto vácuo Rolo “couch”

Rolos guia da tela Rolos tensionadores da tela Rolo de retorno da tela Rolo acionador da tela

Figura 28 – Elementos principais da mesa plana


(Fonte: Apostila Curso Fabricação Básica de Papel – ABTCP, 2010) (34)
CAPÍTULO 05 - A EVOLUÇÃO DAS MÁQUINAS DE FABRICAÇÃO DE PAPEL  |   67

Nas mesas planas, o suporte de filtração cons-


titui uma tela sem fim que se desloca por cima de
uma série de peças, que eliminam água da suspen-
são fibrosa até conseguir uma estrutura formada
por fibras entrelaçadas, compactadas e com um
teor de umidade suficientemente apto para permi-
tir o translado da folha de papel formado para a
operação posterior, que se produz nas prensas, de
onde se continua eliminando umidade (10).
Em tempos passados, em algumas máqui-
nas, a seção da tela apresentava uma inclinação
regulável no sentido longitudinal da máquina. Figura 29 – Mesa plana com rolos desaguadores
(Fonte: 200th Anniversary of the Paper Machine – Tappi Journal, 1997) (122)
Isso para acelerar a suspensão livre sobre a tela,
influenciando, assim, a formação e a orientação drenagem e geração de turbulência mediante a ge-
das fibras. Na década de 1920, foi introduzido o ração de pulsos de pressão e vácuo. Mas acima de
sacudidor da tela com ação apenas no rolo cabe- determinada velocidade (cerca de 500 m/min) e
ceira (em vez de oscilação de toda a seção tela), em certo diâmetro, a quantidade de água drenada
de modo que frequência e extensão das oscilações pelo rolo ganha muito volume e parte dessa água
podiam ser controladas. O sacudidor da tela me- volta acompanhando o rolo para o nip de entrada.
lhora a formação e ainda é usado em baixas veloci- Essa água passa pela tela devido à pressão formada
dades de máquina (127). no nip e desmancha a manta de fibras prejudican-
Nas máquinas antigas, estreitas e de baixa ve- do a formação (253).
locidade, a mesa plana possuía rolos desaguadores As dificuldades de formação, o salto da massa
e, nesta área, usava-se também um pequeno rolo (jumping), a forte remoção de aditivos ou finos no
desaguador como suporte. O primeiro rolo desa- lado tela da folha, a baixa retenção de finos devido
guador (egoutter) foi construído em 1827 por T. à ação de lavagem causada pelos rolos desaguado-
J. Marshall, de Londres, e, em 1830, a mesa plana res apesar de cuidadosas instalações dos defletores
recebeu seus primeiros rolos desaguadores. Es- e, sobretudo, a limitação na velocidade de opera-
tes rolos serviam, originalmente, somente como ção foram as razões que levaram ao desuso desses
apoio para a tela. Entretanto, verificou-se que para rolos (211).
velocidades mais altas, uma força de vácuo era Os defletores podem ser considerados sepa-
criada pela ação de bombeamento da água no ân- radores entre rolos de mesa, com a tarefa de dar
gulo divergente entre a tela e o rolo desaguador. apoio à tela, reduzindo-lhe a flexão induzida pelos
Isso ajudava na remoção de água da folha úmida rolos e, com isso, ajudando a diminuir o jumping.
suportada pela tela (211; 253). São usados para aparar a água que um rolo na sua
À medida que as máquinas foram se tornando rotação lançaria no rolo seguinte aumentando o
mais largas e rápidas, o diâmetro do rolo cabeceira efeito de lavagem da face inferior da folha. Embora
aumentou, impossibilitando a instalação na posi- pouco efetivos, o grande mérito dos defletores aca-
ção ideal de um rolo desaguador como suporte, bou sendo a sua contribuição ao desenvolvimento
devido ao problema do espaço vazio (15). dos foils por questão de afinidade de comporta-
A Figura 29 mostra uma máquina de papel dos mento (211).
anos 1930 com rolos desaguadores (122). O forming board foi inventado e patenteado
Com isso, os rolos desaguadores eram usa- por Thomas Sweetapple em 1838, da fábrica Col-
dos quase exclusivamente dentro da área livre de teshall, em Godalming, Surrey, Inglaterra. Este
drenagem da tela Fourdrinier para remover água melhoramento era uma resposta à velocidade ini-
e manter fixada a folha na tela, assegurando boa cial e indesejada de desaguamento sobre a tela. O
68  | A EVOLUÇÃO TECNOLÓGICA DO SETOR DE CELULOSE E PAPEL NO BRASIL

Figura 30 – Forming board ou placa de formação Figura 32 – Vacuum foils


(Fonte: Kadant – http://www.kadant.com/en/products/ (Fonte: CanAm Machinery – http://www.canammachinery.com/domtar/ ) (36)
drainage-structures/forming-board-assemblies/) (143)

desaguamento ocorria muito rápido para propi- guamento, permitindo o aumento de velocidade
ciar uma boa formação e para o sacudimento ter das máquinas (15). Esses elementos desaguadores
uma boa influência (121). foram, portanto, os sucessores glorificados dos
Assim, o forming board (Figura 30), como pri- rolos desaguadores de mesa, embora tivessem sua
meiro elemento estático sob a tela, serve para lhe afirmação dificultada no início pela então inexis-
dar suporte em relação ao rolo cabeceira represen- tência de materiais adequados às condições de
tando, ao mesmo tempo, o primeiro equipamento trabalho (61).
de drenagem. Outra razão para a instalação desse A partir de 1962, com a introdução da tela sin-
dispositivo foi o de direcionar parte significativa tética e de materiais apropriados, a aplicação de
da água branca drenada para a calha da tela. A es- foils aumentou, mas o crescimento mais marcante
trutura da mesa de formação recebe uma lâmina foi a partir de 1967 (211). Mediante diferentes ân-
larga (lâmina líder) seguida por uma, duas ou três gulos, a intensidade dos pulsos pode ser regulada.
lâminas mais estreitas (15). Materiais cerâmicos para a superfície dos foils e as
Os foils (Figura 31) foram desenvolvidos nos novas telas formadoras feitas com material sintéti-
anos 1950 e utilizados pela primeira vez em uma co melhoraram ainda mais a situação (128).
máquina de papel em 1962 para auxiliar no desa- Houve, a posteriori, uma tendência de substi-
tuir os rolos desaguadores e os foils, na área ime-
diatamente anterior à das caixas de alto vácuo, por
elementos com baixo vácuo denominados de va-
cuum foils (Figura 32). Tais caixas são definidas
como as que ocorrem até a linha úmida (espelho)
por meio da diferença de pressão gerada mecani-
camente (15). Esses elementos são bastante carac-
terizados por vácuo na faixa de algumas polegadas
de água, sendo capazes de remover mais água do
que seus antecessores (15).
Finalmente, quando a folha úmida atinge um
conteúdo de sólidos de 4% a 7%, o ar começa a
fluir através dela, caracterizando a linha-seca so-
bre a tela. Neste ponto, pode ser visualizada uma
camada – ou folha – de fibras, e a consolidação é
Figura 31 – Foil o processo dominante, sendo este o início da zona
(Fonte: Tecnoconsult – http://www.tecnoconsult.info/robadur.html) (259) de desaguamento a vácuo (158).
CAPÍTULO 05 - A EVOLUÇÃO DAS MÁQUINAS DE FABRICAÇÃO DE PAPEL  |   69

Figura 33 – Caixas de sucção e rolo de sucção Figura 34 – Rolo couch


(Fonte: HOLIK, Hebert. Handbook of paper and board, modificada (Fonte: Hyjix – http://www.hyjix.com/sale-8493631-couch-roll-for-
pelos autores) (126) paper-machinery-in-the-wire-part.html) (130)

Uma zona que se estende desde a linha-seca até imprensa de grande velocidade (122). O padrão
o rolo de sucção é também definida como a zona de inicial correspondia ao uso para telas de camada
alto vácuo ou zona de vácuo seco (158). Algumas única feitas de bronze (128).
invenções possibilitaram a criação dessas zonas de Inicialmente, o rolo couch desempenhava duas
vácuo: em 1826, Canson solicitou a patente para tarefas essenciais, a de ser o principal ou único
bombas de sucção para aumentar a remoção de acionador da tela e o de completar o desaguamen-
água na máquina de papel. Em1836, James Brown to da folha na seção formadora da máquina antes
patenteou as caixas de sucção, adicionadas à tela das prensas úmidas. Em máquinas Fourdrinier, da
para melhorar a drenagem da folha (121). década de 1980 em diante, o rolo acionador da tela
A selagem que permite o nível de vácuo é (indicado no esquema da Figura 28) já fazia parte
obtida passando-se a folha úmida sobre caixas de das máquinas de papel, recebendo a maior parte
sucção e sobre o rolo de sucção (couch) (Figura da carga do acionamento da tela. O rolo de sucção
33), cujo detalhe da zona de vácuo é mostrado na não tem seu nível de vácuo limitado por questões
Figura 34. As caixas de sucção têm cobertura per- de atrito como acontece com as caixas planas, pois
furada ou com fendas, de cerâmica ou de outros sua camisa é rotante. Este rolo já existia na máquina
materiais de baixo coeficiente de atrito. Ao passar de papel, mesmo antes de ter sido aplicado vácuo,
sobre as caixas de sucção estacionárias, a folha neste que é o último rolo que dá sustentação à fo-
úmida e a tela são submetidas a uma série de pul- lha. Em máquinas de velocidade superior a 700 m/
sos de sucção, enquanto sobre o rolo de sucção são min, o desaguamento da folha nesse rolo deixa de
submetidas a pulso de vácuo constante (158). ser relevante pelo pequeno intervalo do tempo de
No ano de 1908, o americano Millspaugh con- residência da folha sobre a zona de vácuo, sendo
seguiu construir um cilindro de sucção apto para o que em algumas novas máquinas mesa plana, não
trabalho, que em pouco tempo foi melhorado até a é utilizado vácuo no rolo couch.
máxima perfeição (122). Neste mesmo ano, o rolo Em 1958, chegou ao mercado a primeira tela
couch de sucção foi patenteado por Millspaugh, e plástica e começou a substituir as telas de bron-
em 1909, o primeiro rolo couch de sucção desen- ze (de camada única) durante os dez e vinte anos
volvido por ele foi instalado em uma máquina na subsequentes. Telas plásticas (Figura 35) são feitas
Cliff Paper Company, em Niagara Falls, Nova Ior- de polietileno ou poliamida e foram sendo aperfei-
que (122). Algumas fontes dizem, no entanto, que çoadas durante a década de 1970 e 1980. Isso resul-
foi George Dickinson quem adicionou o primei- tou em telas com duas ou três camadas, com fios
ro rolo couch com vácuo à máquina de papel, em de diferentes dimensões no lado papel e no lado
1897 (121). A introdução do cilindro de sucção se operação. Dessa forma pôde ser obtida uma super-
impôs relativamente rápido nas máquinas de papel fície mais lisa do papel e vida útil mais longa da
70  | A EVOLUÇÃO TECNOLÓGICA DO SETOR DE CELULOSE E PAPEL NO BRASIL

Lisura superficial
Surface smoothness Comprimento das fibras 0,1 - 1,0 mm
Resistência ao desaguamento Fibre lenght 0.1 - 1.0 mm
Dewatering resitance Espessura das fibras 0,03 mm
Desgaste / Wear Fibre thickness 0.03 mm
Transporte de água Espessura do fio da tela formadora
Water carrying Forming wire yarn thickness
Figura 35 – Estruturação de uma tela plástica
(Fonte: Revista O Papel, Herbert Holik – Setembro, 2010) (127)

tela, assim como elevada estabilidade dimensional Com isso, o desaguamento ocorre em ambas as
da tela no sentido transversal (128). direções. A quantidade de suspensão que pode
Na seção de mesa plana, a folha é desaguada ser desaguada para o lado superior é de cerca de
somente numa direção, sendo, por isso, assimétri- 30% (128). Desse modo a simetria na direção-z é
ca na direção-z (vertical ou de espessura da folha). melhor do que para a mesa plana. O primeiro for-
A velocidade máxima de uma seção de mesa plana mador híbrido foi o Inverform (St. Anne’s Board
em geral é de cerca de 1000 a 1200 m/min (128). Mill, 1956) (128).
Ainda com relação à mesa plana, surgiram Nas máquinas de tela dupla ou gap formers, o
algumas invenções bastante interessantes como o jato da pasta é espirrado diretamente no meio de
dandy roll (rolo bailarino), patenteado por John e duas linhas convergentes; e isso permite que a fo-
Christopher Phipps da Inglaterra, em 1825. Esse lha de papel seja drenada pelos dois lados. Rolos
rolo foi adicionado ao sistema de formação para formadores e lâminas são usados para controlar a
permitir a produção de papel vergê e, eventual- formação. Dessa forma, a tela dupla evita os pro-
mente, conceder uma marca d’água (patente de blemas de formação em um só lado (causando o
Thomas Barrett, em 1826) (121). fenômeno de dupla face), que apresentam as mesas
planas e as formadoras híbridas. Os fabricantes de
Formação da folha em formadores híbridos papel devem assim se beneficiar de uma formação
(hybrid formers) e com dupla tela (twin-wire a alta velocidade mais consistente e melhorar as
formers e gap formers) propriedades do papel (44). A Figura 36 mostra
Os formadores híbridos consistem de uma um exemplo de gap former, mais precisamente o
mesa plana com uma segunda tela sobre ela. Duoformer-D da empresa Voith.

Figura 36 – Duoformer D da empresa Voith


(Fonte: Voith – http://www.voith.com/en/products-services/paper/duoformer-d-3261.htm) (271)
CAPÍTULO 05 - A EVOLUÇÃO DAS MÁQUINAS DE FABRICAÇÃO DE PAPEL  |   71

Figura 37 – Exemplos de máquinas de telas duplas gap formers


(Fonte: Papiermacher Taschenbuch) (270)

Embora com a evolução da ideia da dupla tela, da estavam úmidas. Estes experimentos geraram
que se acredita ter iniciado entre os anos 1940 e pesquisas adicionais e trabalhos de desenvolvi-
1950, sabe-se que a ideia de formar uma folha de mento, primeiro na fabricação de cartões para em-
papel pelo desaguamento através de duas telas é balagens em máquinas de forma redonda e, mais
bem anterior a estas duas datas. A primeira tela tarde, na fabricação de outros tipos de papéis na
dupla foi desenvolvida em 1813 e muitas máquinas máquina Fourdrinier (200).
Donkin eram adaptadas com uma unidade de tela Nas pesquisas da máquina de forma redonda,
superior, como mencionado anteriormente (200). tais desenvolvimentos vieram com o cilindro de
No final dos anos 1860, acredita-se que J. F. sucção (suction cylinder), o semirotoformer, o ro-
Jones tenha projetado uma máquina com arranjo toformer, o dry vat, o ultra-former, e nas pesquisas
similar àquelas tentadas na parte inicial do sécu- sobre a Fourdrinier vieram as modernas máquinas
lo XIX. Diz-se, inclusive, que a máquina original de duplas telas. A Figura 37 mostra alguns tipos de
de Louis Robert tinha duas telas. Provavelmente, duplas telas que foram desenvolvidos ao longo do
devido ao fato de que a habilidade em construir tempo (200).
máquinas naquele tempo não era bastante adequa- A invenção do formador twin-wire pode ser
da para fazer estes trabalhos de projeto, a ideia foi creditada a David Webster da empresa Conso-
derrubada depressa e nenhuma dessas ou outras lidated Paper of Canada, que, no início de 1953,
tentativas iniciais viram aplicação prática (200). tinha desenvolvido o modelo de um formador de
Alguns registros afirmam que a primeira e verda- rolo, no qual a massa era injetada entre duas telas.
deira máquina de telas duplas (twin wire former Webster conduziu experimentos privados pela en-
machine) foi desenvolvida em 1884 pela empresa trada de uma suspensão de polpa entre um rolo
Escher Wyss (121). rotativo e uma tela envolvendo o rolo, a fim de
Entretanto, pelos anos 1940, a ideia da dupla conseguir um desaguamento pelos dois lados da
tela recebeu ímpeto novamente, quando algumas folha (200).
fábricas na Europa produziam cartão para embala- Em 1953, Webster solicitou uma patente para
gens pelo arranjo de um número de seções forma- sua invenção no Canadá e nos EUA. Entretanto,
doras separadas umas das outras. Nelas, as folhas sua aplicação não foi garantida nem no Canadá
individuais podiam ser combinadas enquanto ain- nem nos EUA, até 1961 e 1962, respectivamente,
72  | A EVOLUÇÃO TECNOLÓGICA DO SETOR DE CELULOSE E PAPEL NO BRASIL

Figura 38 – Crescent former


(Fonte: VEGA – http://www.vegahsh.com/news/modern-technology-tissue-with-crescent-former/) (268)

após ele novamente ter solicitado a patente em Outras funções são: reduzir o volume específico,
1959. A primeira máquina comercial twin-wire melhorar a lisura e suavizar o perfil irregular de
teve seu start-up em 1957. Tratava-se de uma In- umidade da folha de papel (10).
verform resultante do desenvolvimento de Brian A importância de remover a água está associa-
Attwood e seus associados na St. Anne’s Board da à resistência mecânica da folha – que aumen-
Mill, Bristol, Inglaterra (200). ta na medida da remoção da água – e também à
Atualmente, um gap former moderno é cons- economia no uso de vapor na seção de secagem,
truído no sentido vertical, com a caixa de entra- cujo custo por tonelada de água removida é muito
da situada na parte inferior. A tendência dos ele- superior ao da prensagem. Há várias configura-
mentos desaguadores é geralmente rolo/lâmina/ ções para uma seção de prensagem, dependendo
rolo (128). Há o caso do Crescent Former, utilizado do tipo de papel, da velocidade de operação e da
para a fabricação de papéis tissue cuja formação da eficiência do equipamento (10).
folha se dá entre uma tela e um feltro, conforme Em 1817, John Dickinson patenteou a segunda
Figura 38. prensa na Inglaterra. Com isso, a seção de prensas
possibilitaria aumento da resistência da folha e in-
Prensagem úmida cremento do conteúdo de sólidos (121). A Figura
Após a formação da folha, ela é transferida 39 mostra uma prensa tri-nip compacta seguida
para a prensagem úmida, normalmente, com a de uma quarta prensa cuja configuração foi defi-
utilização do rolo pick up, que foi introduzido em nida a fim de evitar passes muito abertos. O nip é
1953, permitindo aumento na velocidade das má- a região onde há o contato prensa, feltro e papel,
quinas, pois ele ajuda a remover a folha da tela e constituindo efetivamente a região de prensagem
a transferir para a seção de prensagem (122). A da folha ou onde se tem a máxima aplicação da
função principal da prensagem úmida é remover pressão (127). Uma das funções do feltro é absor-
a máxima quantidade possível de água da folha ver a água que é liberada pela prensagem da folha
de papel, antes de submetê-la à secagem por calor. úmida do papel.
CAPÍTULO 05 - A EVOLUÇÃO DAS MÁQUINAS DE FABRICAÇÃO DE PAPEL  |   73

Em 1864, os primeiros feltros tecidos eram ratura e às forças centrífugas (devido a velocidades
usados nos Estados Unidos e eram feitas as pri- de operação mais altas), e são também limitadas
meiras coberturas de borracha nos rolos da seção em tamanho (127).
de prensas (121). As prensas originais eram do Introduzida pela Beloit, em 1963, a prensa ra-
tipo de rolos planos (prensas lisas). Estas pren- nhurada foi outra inovação em projetos de prensa
sas estavam limitadas severamente pelos fluxos transversal. Outra inovação foi a prensa de furos
porque a água podia somente sair do lado de en- cegos. Uma vez que somente a cobertura destas
trada do nip por movimento lateral. Embora não prensas é perfurada, elas podem ser facilmente
reconhecida como tal, originalmente, a prensa de distinguidas dos rolos de sucção. Os furos são me-
sucção desenvolvida no início dos anos 1900 foi nores e mais próximos um dos outros, reduzindo
a primeira aproximação para a prensa de fluxo assim os deslocamentos laterais (253).
transversal (253). Em comparação com a prensa ranhurada, a
A água contida nos furos por uma caixa de vá- prensa de furos cegos possui maior volume em
cuo estacionária dentro do rolo é liberada no lado vazio e maior área de superfície aberta. A pren-
de saída do nip, que é tornado limpo por meio de sa fabric (fabric press) foi outro desenvolvimento
força centrífuga. Alguma água está apta a fluir di- (1987) de uma prensa transversal, a qual desfrutou
retamente para os furos, mas muita água tem que considerável popularidade na Europa, sendo me-
se deslocar lateralmente como tal (253). nos usada na América do Norte (253). Esta prensa
Em 1909, foi inventada a borracha sintética, começou sendo usada para máquinas de cartão,
que substituiu aplicações de borracha dura. Na dé- mas tem sido utilizada em outros tipos de máqui-
cada de 1980, foram introduzidos os revestimen- nas, inclusive para papéis de baixa gramatura. O
tos de poliuretano. Estes novos materiais permiti- desenvolvimento de novos tipos de feltros e siste-
ram elevada carga no nip e também a perfuração e mas de condicionamento procurou acompanhar
ranhuramento dos revestimentos (127). esta evolução da prensagem (255).
No início da década de 1990, rolos de aço re- Os investimentos na seção de prensas das má-
vestidos com cerâmica substituíram os rolos de quinas de papel desde a década de 1970 foram
granito, que são sensíveis às diferenças de tempe- direcionados para se obter um maior teor de seco

Figura 39 – Prensa Tri-nip


(Fonte: CERIG – http://cerig.pagora.grenoble-inp.fr/histoire-metiers/machine-a-papier/annexe03.htm) (47)
74  | A EVOLUÇÃO TECNOLÓGICA DO SETOR DE CELULOSE E PAPEL NO BRASIL

A substituição de feltros de lã para feltros sin-


téticos agulhados teve início na década de 1960.
Com a nova técnica, os feltros puderam ser mais
bem projetados para uma finalidade específica,
como a posição da prensa, e foram otimizados
de forma contínua. Eles oferecem alta capacidade de
desaguamento, boa lisura superficial para alta qua-
lidade do papel, baixo desgaste e boa estabilidade
dimensional (127).
Cintas de transferência foram desenvolvidas
no final do século XX para a passagem segura da
Figura 40 – Prensa NipcoFlex da Voith
folha do último nip de prensagem para a seção se-
(Fonte: Revista Twogether, n. 2 – Junho, 1996) (66) cadora. A cinta de transposição é um feltro sem
emendas com revestimento de poliuretano ou bor-
na entrada da seção de secagem a vapor. Houve um racha no lado papel (ou em ambos os lados) (127).
aumento do diâmetro dos rolos e consequentemente
do tempo de permanência no nip, mas o grande salto Seção de secagem
foi feito com a prensa de nip estendido ou prensa de Após a prensagem, a eliminação da água re-
sapata (shoe press) desenvolvida pela Beloit Corpora- manescente só se conseguirá mediante o aporte
tion e introduzida em 1981. A Figura 40 mostra uma de calor na secagem ou secaria. Nesta operação de
shoe press desenvolvida pela Voith, na qual se pode secagem se termina de eliminar a água do papel até
notar que a linha de prensagem do nip se estende alcançar uma umidade entre 5% e 7%. Esta opera-
nela como uma área de prensagem (253). ção realiza-se normalmente pondo em contato a
Os feltros úmidos são de vital importância folha de papel úmida com a superfície exterior de
para a prensagem, pois grande parte da água que cilindros metálicos (secadores), que são aquecidos
sai da folha úmida de papel é transferida para os interiormente com vapor. Para melhorar o contato
feltros. Esta denominação era importante no pas- da folha de papel com a superfície quente dos ci-
sado para que fossem diferenciados dos feltros se- lindros, e ao mesmo tempo diminuir a contração
cos usados na secagem. Com a substituição dos do papel, utilizam-se telas secadoras permeáveis.
feltros secos por telas secadoras, costuma-se cha- A Figura 41 apresenta um sistema tradicional de
má-los simplesmente de feltros (127). secagem com monotela (11).

Figura 41- Bateria de secagem (Dryer section)


(Fonte: Machinery Lubrication – http://www.machinerylubrication.com/Read/588/paper-machine-lubrication) (161)
CAPÍTULO 05 - A EVOLUÇÃO DAS MÁQUINAS DE FABRICAÇÃO DE PAPEL  |   75

Em 1820, Thomas Bonsor Crompton paten-


teou a primeira secaria com cilindros aquecidos
a vapor. A parte seca com cilindros aquecidos foi
desenvolvida a fim de eliminar a necessidade de
secar a folha ao ar. Antes desse desenvolvimento,
a máquina conhecida naquela época consistia so-
mente na parte úmida, mas a parte seca foi tratada
durante muito tempo ainda como um processo se-
parado relativamente à parte úmida. Figura 42 – Bolsões e ventilação de bolsões
(Fonte: TAPPSA –http://www.tappsa.co.za/archive/Journal_papers/
Desenvolvimentos no processo refletiram Dryer_clothing/dryer_clothing.html) (258)
a gradual integração da parte úmida e da parte
seca na máquina de papel conhecida atualmente. flava ar da lateral para o interior da máquina (sis-
A primeira utilização de cilindros secadores em tema Grewin, 1927) (253).
uma máquina de papel data de 1833, na França. Em 1955, a primeira ventilação dos bolsões na se-
Em 1839, Robert Ranson desenvolveu melhorias cagem é introduzida em máquina de papel na França
nos cilindros secadores para sua máquina de pa- para melhorar a extração uniforme de ar úmido e
pel. Em 1843, Lamuel Wright inventou o cilindro intensificar a secagem. O método empregado era
monolúcido (Glazed Machine Cylinder) para a se- instilar um pequeno jato de ar comprimido no
cagem do papel dando brilho em somente um lado meio do bolsão, o que induzia a um fluxo de ar por
da folha (121). meio do bolsão para expulsar a umidade. Infeliz-
Com a finalidade de economizar energia, os mente, este sistema não era efetivo em máquinas
cilindros secadores são isolados do exterior encer- de maiores larguras (253).
rando-os em dispositivos denominados capotas, No início dos anos 1960, fabricantes de ves-
nas quais se introduz uma corrente de ar seco que timentas começaram a introduzir tecidos sintéti-
absorve e transporta a umidade desprendida pela cos de construção para oferecimento de melhor
folha de papel até o exterior da instalação (11). Em permeabilidade. Estes tecidos mais abertos foram
tempos passados a seção de secagem não era co- concebidos para fornecer ventilação levando ar es-
berta. Ela estava na sala da máquina onde havia pontaneamente para dentro e para fora do bolsão
alguma espécie de chaminé no teto para exaustão como mostra a Figura 42 (253).
d’água evaporada, frequentemente com o auxílio A ventilação dos bolsões teve maior sucesso
de ventiladores. O clima da sala de máquinas foi ainda com a adoção da capota fechada. Ambos
melhorado com a introdução da capota aberta na eram urgentemente necessários em função da lar-
década de 1920. Nos anos 1950 a capota fechada gura e velocidades crescentes das máquinas de pa-
tornou-se cada vez mais comum, contribuindo pel. Para máquinas com velocidades mais altas fo-
para menor consumo de energia e melhor perfil ram instalados estabilizadores da folha, baseados
transversal de umidade da folha. Também facilitou em princípios da dinâmica dos fluídos, na seção de
a recuperação de calor a partir dos gases quentes e secagem, assim estabilizando a condução da folha
úmidos (127). e ao mesmo tempo ventilando o bolsão (127).
Antes de 1960, os feltros da secagem eram A concepção da secagem utilizando duas fi-
construídos com lã e pouco permeáveis. Quan- leiras de cilindros secadores para que haja contato
do os secadores eram vestidos com estes feltros da folha, ora de um lado, ora de outro, não sofreu
“convencionais”, os bolsões de ar entre os cilindros mudanças desde a sua invenção e por boa parte
eram essencialmente lacrados (selados), exceto do século XX. Entretanto, nos anos 1980, surgiu
nos terminais (pontas), e a ventilação para remo- a seção de secagem com fileira simples (single tier
ver a umidade do ar era dificultada. A ventilação dryer section), a qual tem sido o método preferido
dos bolsões teve início com um sistema que insu- para a maioria dos tipos de papéis e permite as al-
76  | A EVOLUÇÃO TECNOLÓGICA DO SETOR DE CELULOSE E PAPEL NO BRASIL

Figura 43 – Sistema de secagem em fileira simples – Single tier


(Fonte: http://www.paper-machine-papcel.com/products/paper-amp-board/gypsum-board/) (203)

tas velocidades requeridas nos novos projetos sem dro secador para melhorar a transmissão de calor;
perda de eficiência (Figura 43) (251). a secagem por passagem de ar quente através da
A folha mantém-se inteiramente suportada, folha (TAD –Through Air Drying – Figura 44) no
permitindo aos secadores serem operados sem caso dos papéis tissue, o sistema Condebelt (Figu-
passes entre as seções do primeiro ao último seca- ra 45) etc., mas ainda há muito espaço para novos
dor. O número de secadores tende a decrescer, mas desenvolvimentos nessa etapa do processo, que,
há a tendência do aumento de tamanho em diâme- como todos sabem, representa o maior custo ope-
tro. Desde o surgimento da seção de secagem mul- racional de uma máquina de papel (25; 127; 216).
ticilindros até os dias atuais, os cilindros variaram
de 1,2 metro até 2,2 metros em seu diâmetro (127).
As baterias de secadores podem ser substituídas,
para alguns tipos de papéis, total ou parcialmente,
por um secador de grande diâmetro ou por outras
técnicas de secagem, como capotas de alto rendi-
mento, que utilizam convecção externa, mediante
circulação do ar quente através da folha (convecção
interna), radiação por infravermelho etc.
Durante a secagem, uma vez formadas as li-
gações definitivas entre as fibras, a maneira de se
levar a cabo esta operação repercute de forma im-
portante sobre as propriedades da folha de papel e
depois na sua reciclagem (127).
Outras inovações foram feitas na secagem,
como por exemplo, a substituição de cordas para
a passagem da ponta da folha (que vigorava desde
Figura 44 – Sistema de secagem TAD – Through Air Drying
1925) por condução a ar, vácuo ou cintas; a utiliza-
(Fonte: Novos desenvolvimentos no campo da secagem – Revista
ção de barras de turbulência no interior do cilin- O Papel – Fevereiro, 2003) (216)
CAPÍTULO 05 - A EVOLUÇÃO DAS MÁQUINAS DE FABRICAÇÃO DE PAPEL  |   77

Na aplicação de revestimento na superfície do


papel, uma dispersão semifluida de adesivos e pig-
mentos é aplicada à folha a fim de melhorar sua
qualidade superficial. Atualmente, a aplicação do
revestimento é feita off-machine (fora da máquina)
ou on-machine (na própria máquina de papel).
A aplicação do revestimento foi desenvolvi-
da e aplicada nos EUA a partir do século XIX.
O verdadeiro surto mundial em aplicação de re-
Figura 45 – Sistema Condebelt
(Fonte: Novos desenvolvimentos no campo da secagem – Revista vestimento se deu na segunda metade do século
O Papel – Fevereiro, 2003) (216) XX. A aplicação do revestimento é parcialmente
feita com equipamentos em que se usam rolos
ou aplicadores de jato de tinta. A tinta de reves-
Colagem superficial e revestimento do papel timento é nivelada por faca de ar, lâmina ou bar-
O objetivo, tanto da colagem superficial ra dosadora (127).
como do revestimento, é aumentar a qualidade Algumas etapas do desenvolvimento estão re-
superficial da folha de papel. Durante a colagem lacionadas a seguir (127):
uma suspensão é aplicada à superfície da folha • No século XIX, assim como no século XX, a
para melhorar a resistência e as propriedades tinta de revestimento era aplicada por escova.
superficiais. São basicamente dois os princípios • A aplicação do revestimento por rolos foi in-
de aplicação (127): troduzida em 1933. Com esse princípio a se-
• Na prensa de colagem por imersão, a folha era paração da tinta entre rolo aplicador e papel
passada através de um banho com o agente de se torna um grave problema a altas velocida-
colagem situado acima do nip dos rolos apli- des (cerca de 1.500 m/min).
cadores. Isso foi padrão durante muito tempo. • O revestimento por faca de ar é aplicado des-
Com velocidades de máquina mais altas a tur- de 1938.
bulência no banho tornou-se inaceitável. O li- • Revestimento por lâmina é usado desde
mite é de aproximadamente 1000 m/min. Para 1945. As altas forças aplicadas à folha ume-
reduzir essas turbulências podem ser aplicados decida pelo atrito entre lâmina e tinta de re-
foils que mergulham no banho. Desta maneira, vestimento constituem, neste caso, limitação
pode-se até mesmo elevar o nível do banho. para velocidades mais altas devido ao maior
• A prensa de transferência de filme de cola su- risco de quebras da folha.
perficial foi introduzida nos anos 1980 e supera • Nos anos 1990 foi introduzida a prensa de pe-
as limitações de velocidade da prensa de cola- lícula como aplicador on-machine para papéis
gem com banho. Aqui, a quantidade necessária gráficos, aplicando forças menores à folha.
de agente de colagem é pré-dosada na forma de • O revestimento tipo cortina, com cerca de 50
película nos rolos e em seguida transferida à instalações bem-sucedidas, surgiu muito an-
folha de papel no nip de prensagem. A pré-do- tes do ano 2000, e atualmente continua a ter
sagem para altas velocidades é feita nos rolos de melhoramentos e mais aplicações.
prensa com uma barra medidora perfilada (ou • O revestimento por aspersão (por volta do
ranhurada). ano 2000) não foi ainda bem-sucedido na
• A colagem por aspersão (semelhante ao re- indústria papeleira. O princípio pode ser
vestimento por aspersão) está em rápido de- aplicado em aspersão de amido (conhecida
senvolvimento e poderia ser aplicada como na seção da tela) e pode substituir a prensa
solução de colagem de baixo custo em rápido de colagem superficial com amido em algu-
espaço de tempo. mas aplicações.
78  | A EVOLUÇÃO TECNOLÓGICA DO SETOR DE CELULOSE E PAPEL NO BRASIL

Figura 46 – Sistemas de colagem superficial e revestimento


(Fonte: Revista O Papel, Herbert Holik – Setembro, 2010) (127)

A Figura 46 mostra alguns tipos de equipa- A calandragem industrial também tem sua
mentos usados para colagem superficial e para re- longa história no século XX (127):
vestimento: • Os rolos com nip ajustável (a partir dos anos
1950) abriram o campo de operação tanto para
Calandragem e supercalandragem calandras de máquina como para supercalan-
A calandragem tem como objetivos uniformi- dras, em função da flexibilidade de carga.
zar a espessura e reduzir a rugosidade do papel. • O rolo Nipco F de pressão autoajustável (1975)
Dependendo da formação da folha, a calandragem permitiu, em caráter adicional, configurações
pode ressaltar as diferenças de densidade da folha, simplificadas de calandras e supercalandras, já
ocasionando problemas de impressão caso o papel que não requer dispositivos externos de carga.
seja utilizado para esse fim. A supercalandragem • No final dos anos 1970 (1978) e no início dos
tem como objetivo dar brilho ao papel. anos 1980 passou a ser usada a calandra macia
Normalmente, a calandragem é realizada na (soft calander), que consiste de um rolo aquecido
própria máquina de papel (on machine), enquanto e de um rolo (geralmente rolo de nip variável)
a supercalandragem é realizada fora de máquina com revestimento macio feito de material sinté-
(off-machine). tico. São habitualmente combinadas duas dessas
Em 1867, os primeiros rolos coquilhados para máquinas com configuração invertida dos rolos.
calandra foram postos em uso. As primeiras ca- • Em 1994, foi construída a primeira superca-
landras de máquina tinham diversos rolos em sua landra em que todos os rolos resilientes eram
estrutura, mas com o passar do tempo houve uma revestidos com material sintético especial. O
tendência de se utilizar apenas dois rolos visando efeito da calandragem para a maior parte dos
ao melhor controle do perfil de espessura (121). papéis de altas exigências foi comparável aos da
Cerca de uma década mais tarde foi introduzida supercalandra.
a supercalandra, que tem um grande número de ro- • Em consequência, foi instalada uma superca-
los alternando rolos duros e resilientes. Esses últimos landra on-machine, equipada com esse novo
são muito sensíveis a desgaste e danos. Supercalan- tipo de rolo, para classes de papéis altamente
dras têm cerca de 25% a 30% de tempo ocioso (121). exigentes (nos anos 1990).
CAPÍTULO 05 - A EVOLUÇÃO DAS MÁQUINAS DE FABRICAÇÃO DE PAPEL  |   79

Figura 47 – Calandras na máquina e fora da máquina


(Fonte: Revista O Papel, Herbert Holik – Setembro, 2010) (127)

• Na década de 1990, foi introduzida a calandra A Figura 47 mostra alguns tipos de calandras
de sapata. Como no caso da prensa de sapa- de máquina e supercalandras:
ta, a folha é pressionada por uma sapata con-
tra o rolo oposto, que, neste caso, é aquecido. Enrolamento da folha (rolo Jumbo)
Outros princípios de desenho e engenharia O enrolamento da folha de papel sobre uma
conceitual trabalham com cinta sob alta ten- bobina (Figura 48) é a última das operações que se
são e pulso de um rolo de pressão (calandra- realizam na máquina de papel. A partir do rolo da
gem com cinta metálica). máquina (rolo Jumbo) ou “bobina mãe”, serão ob-

Figura 48 – Rebobinadeira, enroladeira ou bobinadeira Pope


(Fonte: PAULAPURO, H., et all, Papermaking Part 2, 2000) (209)
80  | A EVOLUÇÃO TECNOLÓGICA DO SETOR DE CELULOSE E PAPEL NO BRASIL

tidas em uma operação de bobinagem mediante a


utilização de uma rebobinadeira (ou bobinadeira),
as bobinas definitivas, bobinas fixas, que serão en-
viadas ao mercado ou a uma seção de transforma-
ção ou conversão em formatos, ou papel cortado,
na própria fábrica (10).
A finalidade desta etapa final do processo
é enrolar com a devida qualidade (por exem-
plo, dureza, conformação, controle de quebras e
emendas) a folha de papel produzida continua-
mente. Durante o enrolamento, a qualidade do Figura 49 – Acionamento em uma máquina de papel antiga
papel não pode ser melhorada, somente mantida (Fonte: Revista Twogether, n. 7 – Fevereiro, 1999) (3)
– ou até mesmo reduzida.
Os esforços de desenvolvimento foram tími- tinuaram limitadas devido à elevada fricção dos
dos no passado e por muitos anos (127): mancais e à elevada potência necessária para mo-
• Em tempos mais remotos, o papel era enrolado vê-las. A largura das telas, geralmente, não passa-
em carretéis, que podiam ser regulados no diâ- va dos 2,5 a 3,4 metros e a velocidade de trabalho
metro. Por longo tempo, tal sistema permane- ficava limitada a 200 m/min. Isto consistia em um
ceu em uso para classes de papéis finos. grande obstáculo para a indústria de papel, apesar
• A patente para a enroladeira Pope foi emitida das buscas de soluções para sobrepor a tais limi-
em 1917. Constituiu a solução de enrolamento tações. O problema foi resolvido em 1922, com a
por muitas décadas, pois permitia dureza con- invenção dos rolamentos de esferas (275).
trolada e troca automática da bobina. A primeira máquina de papel equipada com ro-
• Foi somente nos anos 1990 que o enrolamen- lamentos foi uma máquina para papel tissue, que foi
to em bobinas foi reconhecido como questão posta em marcha com grande êxito no ano de 1922.
importante de economia e qualidade. As enro- A força necessária para mover uma máquina de pa-
ladeiras de acionamento central atuais aplicam pel foi reduzida consideravelmente, abrindo espaço
o torque de acionamento ao tambor de enrola- para evoluções importantes das máquinas de papel.
mento durante todo o processo de enrolamen- As larguras das telas começaram a aumentar. Por
to. O resultado é uma dureza mais uniforme da exemplo, entre os anos de 1922 e 1942, as velocidades
bobina. É possível obter bobinas de até 4,5 m de de trabalho das máquinas para papel tissue aumenta-
diâmetro. O sistema também é o mais adequa- ram de 200 para 460 m/min, e a largura das telas de
do para papéis com superfícies sensíveis. 3,4 para 5,0 metros. Na Figura 49 pode-se ver o sis-
tema de acionamento de uma máquina antiga (275).
Acionamento da máquina de papel Com o uso da eletricidade, o acionamento pôde
Em épocas passadas, o acionamento das máqui- ser descentralizado usando motores de corren-
nas de papel era feito por uma roda hidráulica ou te contínua, que permitiam velocidades variáveis.
turbina hidráulica ou uma máquina a vapor, con- Esses motores foram instalados em 1919 (Westin-
jugadas com um longo eixo acionador a velocidade ghouse Electric & Manufacturing Company), bem
constante. Os ajustes de velocidade para as diferen- como os transformadores Leonard (128).
tes máquinas ou partes da máquina eram feitos por As aplicações de acionamento eram operadas,
correias acionadoras e polias ou cones (128). em sua maior parte, com engrenagens. Atualmente,
Os motores elétricos foram introduzidos na já está introduzido o acoplamento direto dos motores
indústria nos princípios de 1900 e se esperava com aos eixos dos rolos. E acionamentos regenerativos
eles aumentar a velocidade das máquinas. No en- produzem eletricidade em aplicações com sucessivos
tanto, a velocidade e a largura das máquinas con- ciclos de aceleração e desaceleração (frenagem) (128).
CAPÍTULO 05 - A EVOLUÇÃO DAS MÁQUINAS DE FABRICAÇÃO DE PAPEL  |   81

O aumento de largura e de velocidade refugo, bem como a integração de revestimento e


das máquinas calandragem em máquinas de alta velocidade. Ve-
A largura e a velocidade de uma máquina de locidades máximas da máquina dependem do tipo
papel, associadas à gramatura do papel produzido, de papel (127).
determinam a capacidade produtiva da máquina Os desafios das máquinas largas são, por
de papel. Devido ao aumento dos custos de in- exemplo (127):
vestimentos em máquinas de papel ao longo dos • A uniformidade do produto de papel no sentido
anos, assim como em outros tipos de maquinários, transversal;
a tendência tem sido produzir em maior capacida- • O dimensionamento das peças da máquina (já
de e eficiência possíveis a fim de minimizar o custo que a deflexão aumenta com a largura na razão
de investimento por tonelada de papel produzido. de expoente 3, a deflexão é 8 vezes maior quando
Pela mesma razão, a tendência tem sido aumentar a largura da máquina dobra);
a disponibilidade da máquina, i.e., reduzir as per- • A fabricação dos equipamentos da máquina,
das de produção devido às paradas programadas como: fundição dos cilindros secadores, tecela-
para trocas de telas etc., quebras da folha de pa- gem de telas e feltros com alta uniformidade etc.;
pel, mudanças de fabricação, ou por outras razões, • O manuseio das grandes e pesadas peças da má-
como qualidade inaceitável do papel e geração de quina (por exemplo, capacidade de ponte rolan-
refugos (255). te) na operação diária e manutenção (127).
Alguns dos desafios de máquinas de alta velo- A largura da máquina foi igualmente amplia-
cidade são a condução segura da folha, e estabili- da, as máquinas mais largas atingem agora cerca
dade do fluxo da suspensão fibrosa e a frequência de 12 metros. Tudo isto foi possibilitado pelo pro-
(vibração) natural dos componentes da máquina. gresso feito, por exemplo, em tecnologia papelei-
O aumento de velocidade também significa que ra, desenho de máquina, controles automatizados,
todas as etapas do processo, como desaguamen- vestimentas da máquina e ciências básicas.
to, secagem, calandragem ou colagem superficial A Tabela 1 mostra as velocidades máximas
e revestimento, devem ser realizadas em tempo aproximadas no ano base 2010 para máquinas de
mais curto. Caso contrário, por exemplo, o com- papel para diferentes tipos de produtos.
primento das seções cresceria proporcionalmente
à velocidade. Da mesma forma, certos princípios
Tabela 1 – Velocidades de máquinas de papel
técnicos adotados a baixas velocidades já não são
Tipos Velocidade
mais aplicáveis (127).
de papel máxima aproximada
Com o aumento da velocidade e largura da (m/min)
máquina de papel, visando a incrementos de pro-
Tissue 2100
dução e redução de custos fixos, surgiram gargalos
relacionados aos processos de desaguamento (for- Imprensa 2000
mação, prensagem e secagem) vistos anteriormen- Supercalandrado 1900
te, além da própria estrutura da máquina e siste-
mas de acionamento, levando sempre em conta a LWC 1900
qualidade final do papel (156). Revestido, sem pasta mecânica 1750
Alguns dos melhoramentos econômicos na
Não revestido, sem pasta mecânica 1700
operação da máquina de papel foram, por exem-
plo, desenhos de máquinas especiais para diferen- Miolo ondulado 1600
tes tipos de papéis – atribuindo um tipo de papel
Testliner 1400
a uma máquina especial (produção de produto
único) – para melhor aperfeiçoar as oportunida- Cartão 950
des, poucas trocas de produtos e, portanto, menos (Fonte: Revista O Papel – Herbert Holik – Setembro, 2010)
82  | A EVOLUÇÃO TECNOLÓGICA DO SETOR DE CELULOSE E PAPEL NO BRASIL

A tecnologia da informação servindo as sua sala de controle central equipada com um


máquinas de papel painel de comando de até 30m de largura; sur-
Assim como vários outros processos contí- gia o sistema de detecção de defeitos da folha
nuos de produção, a fabricação de papel, em má- de papel;
quinas de papel, contou com as muitas vantagens • Anos 1980: sistema de controle livremente pro-
dessa área do conhecimento tecnológico, como: gramável;
meios aperfeiçoados de medição, controle, docu- • Anos 1990: sistema de modelo preditivo de
mentação e análise, simulações, balanços materiais controle, modelando o processo ou o sistema
e energéticos etc. em causa. O sistema atinge mais rapidamente
Eis alguns exemplos dessa evolução nas má- a condição pré-fixada e é usado, por exemplo,
quinas de papel (121; 122; 127; 128): para mudanças rápidas de fabricação na má-
• 1950: a consistência e o nível passaram a ser quina de papel;
controlados automaticamente, isso mediante • Desde 1995: sistemas de modelagem e de infor-
dispositivo hidráulico atuando sobre a válvula mações gerenciais e tecnológicas da produção,
de regulagem; integrando valores técnicos e econômicos.
• 1952: foi instalado o primeiro sistema de con- • Desde o ano 2000: desenvolvimento de sen-
trole de gramatura (Accuray); sores virtuais para a medição indireta on-line
• Anos 1960: sala de controle central, controle de propriedades que não podem ser medida
por relés com fiação fixa e regulador pneumáti- diretamente. Mediante a combinação lógica
co, controle de gramatura e umidade com gran- de propriedades mensuráveis on-line, o va-
des computadores; lor provável da propriedade desconhecida
• Anos 1970: sistema de controle com fiação fixa, pode ser previsto.

Paper mill Machine


CAPÍTULO 05 - A EVOLUÇÃO DAS MÁQUINAS DE FABRICAÇÃO DE PAPEL  |   83
84  | A EVOLUÇÃO TECNOLÓGICA DO SETOR DE CELULOSE E PAPEL NO BRASIL
CAPÍTULO 06 - CONTROLE E TRATAMENTO DE POLUENTES  |   85

CAPÍTULO 06
CONTROLE E TRATAMENTO
DE POLUENTES

O
setor de fabricação de celulose taminados e elevadas gerações de resíduos sólidos,
e papel tem forte relação com a que costumavam ser dispostos em aterros indus-
utilização de recursos naturais, triais ou mesmo dispostos em lixões a céu aberto.
como: terras para plantações de Essa situação persistiu durante décadas, pois
florestas, água e consequente tanto o processo Kraft como o processo sulfito
geração de efluentes, ar e con- são potenciais geradores de emissões aéreas que
sequente produção de emissões atmosféricas e in- causam desconforto para as pessoas. O processo
sumos, que acabam gerando resíduos sólidos em Kraft é reconhecido como potencial gerador de
função de perdas de processos. O setor é ainda um emissões de compostos de enxofre de muito mau
grande usuário de energia na forma de vapor (ca- odor, como o gás sulfídrico e as mercaptanas. Já
lor) e eletricidade. o processo sulfito, em todas as suas versões, pode
Outro elemento que eleva as possibilidades de ter lançamento à atmosfera de dióxido de enxofre,
efeitos ambientais, sejam positivos ou negativos, é que além de ser de odor ácido e desagradável, cau-
a elevação da capacidade produtiva das fábricas, sa irritação nas mucosas, alergias, tosse e efeitos de
em função do aumento de escala produtiva. O re- sensação desagradável.
sultado desse aumento enorme de capacidade aca- Também o consumo de água é enorme, ape-
ba concentrando em uma mesma área geográfica sar das reduções significativas que o setor con-
uma grande utilização desses recursos naturais e seguiu, por meio de processos tecnologicamente
geração de poluentes, mesmo que as fábricas es- mais eficientes e de gestão para reuso de água.
tejam adotando as melhores e mais ecoeficientes Há pouco mais de 50 anos, eram necessários
tecnologias. Por essas e outras razões, a gestão mais de 200 m3 de água captada nas fontes de
ambiental e a mitigação de impactos ambientais e abastecimento (rios, lagos) por tonelada de ce-
sociais são elementos vitais para que seja um setor lulose e/ou de papel sendo produzida nas fábri-
ambientalmente correto e bem aceito pela socie- cas integradas de fabricar papel, fosse no Brasil
dade. Até mesmo porque o papel é um produto da ou em outros países líderes na fabricação desses
vida diária dos cidadãos do planeta e a imagem produtos. Hoje, as fábricas de celulose mais mo-
que as pessoas devem ter dele é a de um produto dernas captam apenas cerca de 20 (110). Mesmo
limpo, renovável, biodegradável, reciclável e fabri- assim, é uma necessidade elevada de captação,
cado em condições adequadas de sustentabilidade. pois uma fábrica moderna pode estar produ-
zindo 4.000 toneladas de celulose por dia, o que
Por que as emissões precisam ser daria uma captação diária de água na ordem de
controladas e minimizadas 80.000 m3. Mesmo considerando que cerca de
A fabricação de celulose e de papel sempre este- 90% dessa água retorne aos cursos de água na
ve associada à geração de impactos ambientais, que forma de efluentes tratados, esse nível de de-
por muito tempo foram sinônimos de uma ima- manda a ser captada é elevado. Por isso, o tema
gem inapropriada e longe da desejada pelo setor. água sempre está em constante processo de mo-
Os principais efeitos sentidos pelas comunidades nitoramento, controle e estudo para melhorias
eram: odor desagradável, geração de efluentes con- tecnológicas e redução de consumos.
86  | A EVOLUÇÃO TECNOLÓGICA DO SETOR DE CELULOSE E PAPEL NO BRASIL

A partir dos anos 1990, os setores industriais Consumo de água e geração de efluentes
passaram a encontrar mercados cada vez mais O consumo de água durante o processo de fa-
exigentes em termos de desempenho ambiental bricação da celulose e papel é alto, uma vez que a
dos produtos, em quaisquer que fossem as áreas: água se constitui no veículo de transporte das fibras,
alimentos, automóveis, calçados, combustíveis, reagentes químicos e calor. Como consequência da
construção civil etc. Essas exigências resultaram contaminação dessa água com materiais orgânicos e
em mecanismos legais restritivos (licenciamentos íons minerais, a geração de efluentes (despejos, esgo-
e parâmetros de legislação mais rigorosos), bem to) é também alta nos processos industriais. A água,
como em mecanismos incentivadores ao bom de- retirada de rios, deve ser devolvida em condições de
sempenho em busca de sustentabilidade (certifica- utilização pré-determinadas por lei, visando a causar
ções ambientais e florestais, selos verdes etc.). o menor impacto possível sobre o meio ambiente e
A partir desse período, o setor de celulose e sobre a vazão e qualidade dos cursos de água.
papel abraçou a causa ambiental como poucos ou- Os efluentes gerados podem apresentar conta-
tros e os resultados foram rapidamente sentidos. minantes de diversos graus de impacto aos corpos
As fábricas que estão em dia com a utilização de de água, a começar pelas temperaturas altas, como
avanços tecnológicos e adequada gestão ambiental também pelos sólidos em suspensão, compostos
possuem impactos ambientais de pouca percepção orgânicos e inorgânicos dissolvidos etc. Por essa
pelas comunidades, seja em odor, contaminação razão, existem sistemas para tratar, monitorar e
de águas e de solo (devido aos resíduos sólidos). gerenciar os efluentes antes e após tratamento. O
Além disso, a maioria das empresas atende com- monitoramento existe para avaliar a eficácia dos
pletamente aos parâmetros legais – elas estão cer- tratamentos e comprovar que os efluentes estão
tificadas tanto em suas áreas florestais como in- atendendo o rigor das exigências legais de forma a
dustriais. Com isso, as relações mercadológicas e causar mínimos danos aos outros usuários dessas
com as partes interessadas da sociedade evoluíram águas, sejam plantas, animais ou seres humanos.
a um nível de respeito, diálogo e transparência, o As principais ações para minimização dos efeitos
que tem sido extremamente importante para que a do consumo de águas e geração de efluentes pelo setor
evolução tecnológica e a gestão empresarial conti- de fabricação de celulose e papel podem ser resumidas
nuem a privilegiar os temas socioambientais. como as apresentadas na Tabela 2, a seguir (110).

Tabela 2 – Ações para minimização dos efeitos do consumo de águas e geração de efluentes
Estratégias gerenciais e tecnológicas Ações no processo industrial
Fechamento de circuitos
Uso de tecnologias mais eficientes e menos
Redução do consumo específico da
consumidoras de água
água pelos produtos sendo fabricados
Manutenção adequada
Redução de perdas e escapes de água

Recirculação de efluentes
Tratamento primário para remoção de partículas
grosseiras (areia, restos vegetais, fibras, etc.)
Tratamento dos efluentes
Tratamentos para minimização da carga orgânica
e cor (nível secundário e terciário)
Tratamentos de efluentes setoriais, permitindo reuso das águas

Certificações ambientais
Pegada hídrica
Gestão ambiental dos recursos hídricos
Ênfase em pesquisas para minimização de consumo
Efetividade na participação dos programas de gestão de bacias

Análises físicas e químicas dos efluentes e das águas


Monitoramento
Análises biológicas (bioensaios e biomonitoramento)
CAPÍTULO 06 - CONTROLE E TRATAMENTO DE POLUENTES  |   87

Entre as diversas etapas que compõem o pro- penhos das sequências ECF. Além disso, persistem
cesso Kraft, a unidade de branqueamento da celulo- dúvidas acerca dos benefícios ambientais que tais
se se constitui na maior fonte de geração de efluen- sequências TCF poderiam propiciar em relação às
tes líquidos, os quais contêm alto teor de matéria sequências ECF (249).
orgânica, cor, residuais de compostos oxidantes, e, A força por trás dessa mudança inclui não so-
sobretudo, compostos organoclorados. Tais com- mente pressões ambientalistas, mas potenciais vanta-
postos originam-se da ligação do átomo do cloro gens como a possibilidade do fechamento de circuito
com os precursores orgânicos presentes na madei- dos efluentes da área de branqueamento. A área de
ra, quando compostos clorados são utilizados como branqueamento de ciclo fechado com descarga mí-
agentes de branqueamento (249). nima de efluentes tem sido um objetivo ainda difícil
Ao final da década de 1960, os pesquisadores de se atingir para a indústria de celulose (44). Atual-
Howard Rapson e Douglas Reeve, ambos da Uni- mente, a área de branqueamento gera cerca de 50%
versidade de Toronto, desenvolveram um processo dos efluentes de uma fábrica de celulose moderna e
pioneiro de recirculação dos efluentes do bran- provém dela a maior contribuição de compostos or-
queamento para o setor de recuperação. O sistema gânicos clorados ou não clorados e que se apresen-
foi implantado como alternativa ao sistema secun- tam dissolvidos nas águas residuais dessas fábricas.
dário de tratamento de efluentes, no início da déca- Talvez, a maior atração do branqueamento sem
da de 1970, na unidade industrial da antiga Great cloro seja a eliminação da acumulação do corrosivo
Lakes Forest Products Ltd., em Thunder Bay, Ca- íon cloreto no ciclo de reciclagem, o que ofereceria
nadá. Muitos problemas foram detectados devido à a possibilidade do fechamento quase que completo
reutilização dos efluentes, impossibilitando sua re- do circuito de águas das fábricas. Isso poderia não
circulação total. Apesar dos vários aspectos negati- somente resolver alguns dos principais obstáculos
vos, muito se aprendeu com esta experiência (249). ambientais, mas poderia também reduzir significa-
Ainda nos anos 1970, induzida por pressões tivamente a quantidade de equipamentos e custos
ambientalistas e de legislação, a indústria de celu- de operação. Entretanto, vários problemas do fecha-
lose e papel e, em particular, a sueca e finlandesa, mento do sistema de efluentes continuariam existin-
adotou a estratégia de modificar e aperfeiçoar o do – incluindo o manuseio e eliminação de outros
processamento da celulose como forma de obter íons metálicos, que podem se acumular nos sistemas
melhor deslignificação antes do branqueamento. internos da fábrica (44). Por isso, vários obstáculos
Consequentemente, a prática dessas regras redu- ao fechamento permanecem. Problemas associados
ziu o consumo de insumos químicos e de água com a recirculação de filtrados da área de branquea-
nesta fase do processo (249). mento mesmo sem cloro ao circuito de recuperação
Entre as tecnologias desenvolvidas, merece terão que ser resolvidos antes que um ciclo fechado
destaque a da introdução do cozimento estendido de água seja possível. Estes incluem a acumulação de
modificado e o pré-branqueamento com oxigênio. metais pesados, o aumento dos resíduos sólidos do
Outras tecnologias de controle interno, como os processo de produção de celulose, e o distúrbio do
sistemas de controle de derrames, o tratamento de equilíbrio (balanço) entre sódio e enxofre (44).
condensados contaminados em colunas de destila-
ção e o descascamento a seco contribuíram, sobre- Geração e controle das emissões
maneira, para a melhoria do desempenho ambien- atmosféricas
tal das plantas industriais (249). As emissões aéreas continuarão a existir em fá-
Atualmente, sequências ECF são amplamente bricas de celulose e papel, uma vez que existem di-
aplicadas na indústria mundial do setor. Sequên- versos processos de combustão em atividade nessas
cias TCF, no entanto, até o momento não têm tido fábricas, gerando gases de combustão contendo par-
grande sucesso tecnológico e comercial devido ao tículas, gás carbônico, óxidos de enxofre, óxidos de
alto custo de branqueamento e qualidade ainda in- nitrogênio e outros poluentes de maior ou menor
ferior das polpas, quando comparadas aos desem- periculosidade. Também existem diversos processos
88  | A EVOLUÇÃO TECNOLÓGICA DO SETOR DE CELULOSE E PAPEL NO BRASIL

químicos que ocorrem em reatores e digestores com lose sulfito e/ou Kraft. Atualmente, embora mini-
aplicação de temperaturas e pressões. As reações com mizados, os impactos à atmosfera ainda oferecem
a madeira ou com a celulose também acabam geran- muitas oportunidades para melhorias adicionais.
do poluentes que se liberam para a atmosfera em A Tabela 3, a seguir, apresenta as principais
fases seguintes do processo. Residuais de compostos fontes geradoras de emissões e os potenciais po-
químicos utilizados nos processos também podem luentes que contaminam os ambientes atmosféri-
ser liberados. Muitas vezes, esses contaminantes se cos de fábricas de celulose e/ou papel, obtidos com
situam nas proximidades das fontes geradoras. Ou- base no processo Kraft de produção (109).
tras vezes, são lançados pelas chaminés e tendem a se As estratégias para redução de poluentes aéreos
dispersar na atmosfera, podendo ter impactos mes- sendo praticadas nas empresas e no setor estão resu-
mo a alguns quilômetros das fontes geradoras (109). midamente apresentadas na Tabela 4 a seguir (109).
Durante muitos anos, esses impactos foram Os resultados têm sido bastante animadores
percebidos e causavam desconforto e reações ne- conforme tem sido observado por meio da maior
gativas por parte das comunidades em relação ao interação das empresas produtoras com as comu-
setor, em especial em relação às fábricas de celu- nidades circunvizinhas às fábricas, graças ao diá-

Tabela 3 – Principais fontes geradoras de emissões e os potenciais poluentes


Fontes de geração
Tipos de poluentes atmosféricos
de poluentes aéreos ou atmosféricos
Serragem e pó de madeira
Preparação da madeira
Odor de resinas
Mercaptanas
Polpação Kraft Gás sulfídrico
Metanol
Branqueamento da celulose Residuais de gases utilizados como oxidantes (dióxido de cloro, ozônio)
Partículas de cinzas minerais
Mercaptanas
Gás sulfídrico
Dióxido de enxofre
Metanol
Terebintina
Recuperação do licor preto Monóxido de carbono
Óxidos de enxofre
Óxidos de nitrogênio
Ácido sulfúrico
Ácido clorídrico
Dioxinas e furanos gerados em processos de combustão
Gases não condensáveis
Cinzas volantes
Monóxido de carbono
Caldeiras de biomassa Óxidos de enxofre
Óxidos de nitrogênio
Dioxinas e furanos gerados na combustão
Compostos orgânicos voláteis
Tratamento de efluentes e
Gás sulfídrico
resíduos sólidos
Metano
Monóxido de carbono
Incineração de gases Óxidos de enxofre
Óxidos de nitrogênio
CAPÍTULO 06 - CONTROLE E TRATAMENTO DE POLUENTES  |   89

Tabela 4 – Estratégias para redução de poluentes aéreos


Estratégias gerenciais e tecnológicas
Ações no processo industrial
para minimização de emissões atmosféricas
Redução da geração de poluentes Uso de tecnologias mais eficientes
Melhores práticas operacionais
Manutenção adequada
Redução de perdas e escapes de poluentes
Eficiência nas operações

Tratamento e dispersão de poluentes Lavagem de gases


Captação de partículas por precipitadores eletrostáticos,
ciclones, filtros
Incineração de gases de mau odor
Dispersão atmosférica controlada (chaminés altas e
estudos de dispersão)
Gestão ambiental dos recursos atmosféricos Certificações ambientais
Pegada de carbono
Ênfase em pesquisas para minimização de geração de
poluentes aéreos
Monitoramento Análises físicas e químicas
Análises biológicas (bioensaios e biomonitoramento)
Monitoramento da dispersão de gases na atmosfera

logo sempre presente e às ações rápidas em situa- fábricas de papéis que usam aparas como fontes de
ções emergenciais, quando exigidas. fibras, em típicos processos de reciclagem do papel.
Durante décadas, as fábricas e seus gestores no
Geração e controle dos resíduos sólidos setor de celulose e papel apenas se preocupavam
gerados no processo fabril em dispor esses resíduos em aterros da forma mais
As quantidades geradas de resíduos sólidos nos adequada e que achassem convenientes. Quando
processos de fabricação de celulose e papel são sig- as exigências ambientais para os aterros industriais
nificativas. O processo Kraft, mesmo tendo excelen- ficaram mais rigorosas, tornou-se extremamente
te desempenho conceitual quanto à recuperação de caro se aterrar resíduos. Além disso, as pessoas do
seus insumos químicos e energia, oferece diversos setor passaram a descobrir que a maior parte dos
pontos onde resíduos são necessariamente gerados. resíduos representavam matérias-primas que eram
O somatório de todos os resíduos de processo em descartadas como resíduos, como as perdas de
base úmida pode variar entre 200 a 600 kg por tone- madeira nos pátios de toras e preparação dos ca-
lada de celulose produzida (107). Apesar de na refe- vacos; ou de fibras desperdiçadas nas depurações
rência base seca essa geração ser significativamente e lavagem, licores em transbordos de tanques e em
inferior, entre 100 a 250 kg/tonelada de celulose, o águas de lavagem descartadas etc. (107).
importante para o controle exigido pela legislação é A partir dos anos 1980, diversas empresas se
a quantidade total de resíduos sendo liberada pelo mobilizaram individual ou coletivamente na bus-
processo de fabricação para aterros ou reciclagem. ca de soluções para os problemas dessas gerações
A base seca é importante para avaliação de balanços altas de resíduos sólidos. Os resultados aparece-
de massa e a base úmida é uma forma de sensibili- ram logo, com algumas empresas apresentando
zação colocada aos fabricantes de celulose e papel taxas de recuperação, reuso e reciclagem de mais
para que não permitam que seus resíduos se mo- de 90% de todos os resíduos gerados pelos seus
lhem nas operações antes da disposição (107). processos. As empresas passaram a ganhar com a
No setor de papel as gerações também são al- redução de áreas perdidas com onerosos aterros,
tas, podendo atingir números similares em casos de com o melhor aproveitamento de seus insumos
90  | A EVOLUÇÃO TECNOLÓGICA DO SETOR DE CELULOSE E PAPEL NO BRASIL

e matérias-primas, reduzindo perdas valiosas de A Tabela 5, apresentada a seguir, mostra quais os


materiais. Também foram significativos os resul- principais resíduos de processo de fábricas integra-
tados econômicos com a venda de resíduos trans- das de celulose e papel operando pelo processo Kraft.
formados em biocombustíveis, biomateriais e até As estratégias para redução de geração de
mesmo como fibras papeleiras de segunda quali- resíduos sólidos de processo e que vêm sendo pra-
dade. O mesmo tem acontecido na área de fabrica- ticadas com mais rigor e intensidade nas empresas
ção do papel, com redução na geração de refugos e e no setor são aquelas baseadas no que se costuma
perdas de fibras. definir como “Estratégias dos 4 R’s”, ou seja: Redu-
As tecnologias e os processos encontrados para zir, Reusar, Reaproveitar internamente, Reciclar ex-
minimização de resíduos têm variado conforme as ternamente – e nessa ordem de prioridades (107).
empresas, níveis de geração, idade das tecnologias Reduzir consiste em:
de processo e potenciais mercados para consumir • Prevenir a geração;
os resíduos recuperados. Em geral, os primeiros • Otimizar a seleção e o consumo de
clientes a usarem os materiais que anteriormente matérias-primas;
eram convertidos em resíduos têm sido as próprias • Racionalizar o uso dos insumos;
áreas fabris das empresas. • Reduzir perdas e desperdícios, focando os pon-
Algumas outras empresas convertem seus re- tos onde elas estão ocorrendo;
síduos em compostos fertilizantes organominerais • Reduzir e controlar o teor de umidade dos re-
para disposição em suas florestas, elevando os teo- síduos, pois a geração é medida base úmida em
res de nutrientes nos solos florestais, principalmente função da legislação e dos custos de manuseio
em termos de cálcio, magnésio, potássio etc.(107). e disposição.

Tabela 5 – Principais resíduos de processo de fábricas integradas de celulose e papel


Setores industriais com geração significativa de resíduos sólidos Tipos de resíduos sólidos
Toras e fragmentos de madeira
Casca suja
Preparação da madeira
Cavacos descartados
Areia e terra
Rejeitos do cozimento
Polpação Kraft
Fibras descartadas
Branqueamento da celulose Fibras descartadas
Resíduos da caustificação (Grits)
Resíduos da filtração do licor verde (Dregs)
Recuperação do licor preto Lama de cal
Cal virgem
Cinzas da caldeira de recuperação
Cinzas da combustão da biomassa
Caldeira de força
Restos de biomassa contaminada e descartada
Sulfato ácido de sódio
Planta química
Resíduos de salmoura
Lodos (primário, secundário e terciário)
Tratamento de água e efluentes Lodo do tratamento de água
Areia e terra
Lodo fibroso
Lodo mineral das cargas do papel
Preparação de massa do papel
Lodo do destintamento
Refugos de papel contaminado
Perda de fibras
Máquinas de formar e secar folhas
Refugos secos e úmidos descartados
CAPÍTULO 06 - CONTROLE E TRATAMENTO DE POLUENTES  |   91

Reusar significa:
• Detectar onde estão ocorrendo as perdas e • Aumento da vida útil dos aterros industriais de
reintroduzi-las no processo de forma que sejam disposição final de resíduos sólidos;
consumidas como deveriam sê-lo. Exemplo: • Redução das fragilidades potenciais de passivos
uma perda de licor preto é devolvida ao pro- ambientais;
cesso, seguindo para a evaporação e caldeira de • Maiores garantias de atendimento às exigências
recuperação. legais;
• Redução de gastos com remediação de áreas
Reaproveitar (internamente) consiste em:
degradadas;
• Utilizar um material descartado em alguma ou-
• Respeito à cidadania dos indivíduos que traba-
tra operação. Exemplo: varreduras de material
lham com os lixos e das comunidades circun-
orgânico sendo enviados para queima na caldei-
vizinhas;
ra de biomassa; recuperação de fibras perdidas
• Garantia de menores impactos ambientais e so-
no branqueamento e enviadas para a fabricação
ciais na área de influência do empreendimento;
de um papel de segunda dentro da própria fábri-
• Diversificação na cadeira produtiva, gerando
ca; recuperação dos restos de obras para aterros
novos negócios a partir da comercialização dos
internos dentro da empresa etc.
resíduos;
Reciclar (externamente) significa: • Maior respeito à Natureza e aos recursos naturais;
• Desenvolver subprodutos ou vendas a partir • Etc, etc.
dos resíduos gerados de forma que possam ser
comercializados externamente a clientes inte-
ressados, atendendo todos os requisitos legais
para essas novas destinações.

Com essas práticas e uso de tecnologias mais


ecoeficientes as empresas do setor vêm conquis-
tando vantagens ambientais, sociais e econômicas
(107), como:
• Muito menor geração de resíduos sólidos nos
processos industriais;
• Redução nos gastos de matérias-primas, insu-
mos e energia, com consequentes menores cus- Lodo compostado vendido para agricultura e jardinagem
(Celulose Riograndense, Guaíba)
tos de fabricação;

Estação de reciclagem de resíduos sólidos (Suzano, Limeira)


92  | A EVOLUÇÃO TECNOLÓGICA DO SETOR DE CELULOSE E PAPEL NO BRASIL
CAPÍTULO 07 - EMPRESAS MUNDIAIS FABRICANTES DE MÁQUINAS,  |   93
EQUIPAMENTOS, PRODUTOS QUÍMICOS E ACESSÓRIOS

CAPÍTULO 07
EMPRESAS MUNDIAIS
FABRICANTES DE MÁQUINAS,
EQUIPAMENTOS, PRODUTOS
QUÍMICOS E ACESSÓRIOS

A
tendência principal no desenvolvi- com nip estendido) e secadores de folhas. Voith,
mento da tecnologia de maquiná- Valmet, Hergen e inúmeros outros fabricantes de
rios para celulose e papel é o de- sistemas destinados à formação e secagem da fo-
senvolvimento em automação e em lha, depuração, refinação etc. disputam os merca-
escala de produção, o que passou a dos globais, agora muito mais acirrado devido aos
acontecer com maior intensidade a fabricantes de equipamentos localizados na China.
partir dos anos 1960. Em todos os casos, as inovações buscaram a
Tornou-se possível graças à automação e avan- excelência em uso de energia (vapor e eletricida-
ços tecnológicos nas máquinas de papel se aumentar de), a redução de desperdícios, a continuidade
a velocidade de máquinas de formar as folhas de papel operacional e o aumento em escala de produção
de 500 m/min nos anos 1950 para mais de 2.000 m/min – tudo com foco em minimização de consumos
nos anos atuais. Já nas fábricas de celulose, as produ- específicos, eficiência e continuidade operacional
ções diárias de uma fábrica que estavam por volta de e redução de custos. Nada mais do que se pode es-
1.000 toneladas por dia, chegam atualmente a mais perar em casos de indústrias de processo.
de 4.000 t/dia em uma única linha de fibras. Diversas empresas de excelente renome interna-
As inovações de tecnologia mais significativas cional acabam sendo absorvidas por outras em
na fabricação de celulose foram: os digestores con- processos típicos de fusão, aquisição e consolidação.
tínuos, as prensas lavadoras de polpa, os sistemas Assim, as famosas Kamyr, Kvaerner, Sunds, Beloit,
de recuperação de licor preto, as máquinas de se- Rauma Repola, Impco, Bauer, Escher Wyss, Tampella,
car celulose e os sistemas de controle de poluentes. Defibrator, Jylhävaara, Wärtsilä, Ahlstrom, KMW,
Valmet e Andritz dominam esses mercados, prin- Black Clawson, entre outras, acabaram sumindo dos
cipalmente para as grandes unidades de fabricação mercados, sucedidas pelos concorrentes vencedores
de celulose de mercado, que atingem produções ou com mudanças de seus nomes comerciais em
anuais entre 1 a 2 milhões de toneladas. função de mudanças de donos ou de investidores, ou
Na área de fabricação de papel destacaram-se: mesmo por processos de fusão e consolidação.
máquinas com telas múltiplas, papéis multicama- Também a tecnologia de materiais tornou muitas
das, refinação de massa, sistemas de depuração, inovações possíveis, mas ninguém ganhou qualquer
secadores, prensagem da folha úmida (prensas vantagem competitiva especial a partir delas (263).
94  | A EVOLUÇÃO TECNOLÓGICA DO SETOR DE CELULOSE E PAPEL NO BRASIL

O número de máquinas de papel entregues Voith emparelhou com a escandinava Valmet no


diminuiu de 200 por ano nos anos 1960 para cer- começo dos anos 2000 (263). Valmet e Voith ga-
ca de 50 (ou menos) nos anos 2000. Ao mesmo nharam juntas 70% do mercado depois da bancar-
tempo, o mercado de maquinários para papel tem rota da Beloit no começo dos anos 2000. O nome
se consolidado. Os dois maiores fornecedores ti- Valmet foi mudado para Metso em 1999 e mais
veram 30% da parcela de mercado baseado em recentemente voltou a Valmet, em função de rees-
produção nos anos 1970, mas chegaram a 70% nos truturações na empresa global.
anos 2000. Valmet e Voith dominam o mercado Com raras exceções, os atuais produtores de
de maquinaria de papel com parcelas similares de bens de capital para a indústria de celulose e papel
mercado (127). instalados no Brasil são empresas filiais ou contro-
O mercado de polpa reciclada aumentou em ladas por empresas multinacionais, dependendo
período de tempo semelhante de 40 milhões de to- da engenharia desenvolvida por essas empresas
neladas anuais a 140 milhões de toneladas, o qual a globais, sendo, portanto, dependentes em relação
Voith utilizou do melhor modo, com ajustes e enge- às patentes e às tecnologias.
nharia de seus equipamentos para esse setor (127). Dentre esses fabricantes globais de bens de ca-
Historicamente falando, Kvaerner, Andritz pital e de insumos químicos e fornecedores de ser-
(Ahlstrom na ocasião) e Metso (Sunds) devem ter viços e engenharia para o setor de celulose e papel
alcançado cerca de 95% da fatia de mercado em se destacam: Valmet, Andritz, Voith, GL&V, CBC,
todas as linhas de fibras nos anos 1990. A Andritz Pöyry, Fisher, Akzo Nobel, Xerium, AFT, Albany,
adquiriu a Ahlström em duas etapas, 2000 e 2001 Perini, Siemens, Kemira, Solenis, Buckman, Met-
(263). Atualmente, Andritz e Valmet (ex-Metso) so, Veólia etc. Algumas empresas brasileiras se po-
dominam na construção de equipamentos de fá- sicionam relativamente bem em qualidade e com-
bricas de celulose no estado da arte tecnológico e petitividade, como Demuth, Hergen, Weg, Irmãos
em escalas gigantescas de produtividade e efici- Passaúra, dentre outras.
ência operacional. Enfim, é um jogo em contínuas mudanças nos
Pela Figura 50, pode-se ver que a Beloit do- players, em nível local ou global. Difícil antecipar
minou o mercado de máquinas de papel até o fim quais serão as empresas ou os novos nomes dos
dos anos 1980. Por outro lado, a Valmet dominou que irão estar nesse ou em outros tipos de negó-
o mercado nos anos 1990, mas a empresa alemã cios em poucas décadas (ou anos) mais.

Figura 50: Dominâncias nos mercados de máquinas de papel


(Fonte: TOIVANEN, Heikke – Tese de Doutorado, 2005) (263)
Fábricas de celulose e papel podem se
converter em fábricas ou empresas âncoras de
arranjos industriais multiprodutos em função
da implantação das biorrefinarias
CAPÍTULO 08 - NOVAS ROTAS E NOVOS NEGÓCIOS PARA O  |   97
SETOR DE CELULOSE E PAPEL POR MEIO DAS BIORREFINARIAS

CAPÍTULO 08
NOVAS ROTAS E NOVOS
NEGÓCIOS PARA O SETOR DE
CELULOSE E PAPEL POR MEIO
DAS BIORREFINARIAS

E
m anos recentes, parece que o se- custos baixos, qualidade estável, escala elevada de
tor global de celulose e papel pas- produção e altos níveis de eficiência operacional
sou a amadurecer a ideia de que a (102). Essa nova ótica mercadológica está sendo
biomassa produzida pelas florestas confirmada pelos inúmeros projetos de pesquisa
(plantadas ou naturais) poderia ser tecnológica, artigos, teses acadêmicas e notícias
muito mais valiosa do que vem sen- que aparecem diariamente nas revistas, websites e
do até então, pois essas florestas podem oferecer jornais especializados sobre o setor.
muito mais do que apenas madeira a custos com- Muito embora as poucas fábricas que se apoiam
petitivos para se obter fibras para celulose e papel. na fabricação de celulose pelo processo sulfito já
Há décadas se conhecem as inúmeras possibilida- estivessem há décadas usufruindo do conceito
des de uso industrial e comercial para os diversos das biorrefinarias, produzindo biocombustíveis e
componentes físicos e químicos das árvores. En- bioprodutos químicos a partir de seus licores re-
tretanto, o setor vinha regularmente negligencian- siduais de cozimento e condensados da evapora-
do essas dezenas de oportunidades com a biomas- ção, as fábricas de celulose Kraft e de papéis não
sa florestal e até mesmo com os resíduos de base integradas parece que não estavam enxergando
florestal gerados nas fábricas atuais (lodos, fibras e essas oportunidades de negócios a partir de suas
biomassas perdidas, gases residuais da combustão, biomassas. Quando mais recentemente o setor de
resíduos sólidos orgânicos e minerais etc.). Muitos produção de celulose Kraft branqueada de merca-
desses componentes biomássicos poderão em bre- do passou também a atuar na venda de eletricida-
ve mudar de status, passando a se tornar matérias- de de seus excedentes de geração, aparentemente
-primas ou produtos para novos processos e novos se descortinaram aos dirigentes visões novas sobre
negócios sob a mesma base florestal (102). produtos e mercados que existem e que poderiam
Apesar das incertezas em relação a cenários ser conquistados pelas fábricas Kraft.
futuros, uma coisa é certa: o setor já se enxerga de Em verdade, o conceito de biorrefinarias é anti-
outra maneira. Parece que uma nova cultura co- go, pois, como mencionado, há décadas já vem sen-
meça a ser criada, privilegiando novos usos para do praticado pelas fábricas de celulose sulfito, mesmo
a biomassa florestal em substituição à cultura tra- em algumas de pequeno porte. Conceitualmente,
dicional de poucos e volumosos produtos, cuja “uma biorrefinaria de base florestal é uma planta
competitividade precisa ser mantida graças aos industrial que integra processos de conversão da
98  | A EVOLUÇÃO TECNOLÓGICA DO SETOR DE CELULOSE E PAPEL NO BRASIL

biomassa florestal em celulose e/ou papel com os quais muitas vezes são mais afetados por taxas
outras tecnologias para produção de eletricidade, de câmbio do que por efetivas ações de eficiências
vapor, biocombustíveis e bioprodutos para uso in- de uso ou de aquisição de insumos. Além disso, a
terno ou para comercialização direta aos consumi- competição global tem sido extremamente acirra-
dores ou a outras cadeias produtivas integradas ou da em alguns tipos de papéis como de imprimir e
não em agregados produtivos na mesma localiza- escrever, papéis Kraft naturais, papel jornal ou de
ção dessa planta” (93). imprensa, dentre outros (102).
As biorrefinarias de base florestal têm sido A tendência é para um contínuo achatamen-
vistas como essenciais pela maioria dos técnicos to da curva de custos variáveis de produção e um
e empresários do setor, que apostam alto em uma acirramento da competição global nos mercados
reinvenção da indústria para tornar a mesma mais de celulose e papel. Espera-se ainda que em médio
competitiva. Porém, é vital para o sucesso desses prazo ocorra uma aceleração na tendência de pre-
novos negócios que os novos bioprodutos tenham ços declinantes de inúmeros produtos, e, com isso,
valor agregado. Eles precisam ser tratados como uma redução nas margens unitárias de contribui-
especialidades e não como resíduos ou mesmo ção. Isso tem sido uma característica de toda a in-
subprodutos secundários. Cada um deles deverá dústria global, mas com certeza é mais acentuada
agregar sua parcela de valor para o negócio, mes- em produtos do tipo commodities (102).
mo que seja produzido em quantidades pequenas A solução para a manutenção da competiti-
em relação aos demais (94, 97). vidade das empresas do setor deverá estar muito
Existem diversas evidências comprovadas de mais na inovação dos negócios do que no esforço
que algumas das plataformas de negócios com o para ganhos econômicos marginais ou de escala
papel estão se saturando e atingindo a maturida- nos atuais processos de produção. Novas platafor-
de em seus mercados e utilizações pela sociedade. mas de negócios estão em evolução no Hemisfério
Quase todos os fabricantes globais de celulose de Norte e em alguns países do Hemisfério Sul (como
mercado que estavam classificados como produ- Brasil e Chile), com ênfase nos produtos das bior-
tores de altos custos de fabricação já saíram do refinarias integradas à fabricação de celulose e pa-
negócio em função da acirrada competição com pel. Há enorme esforço sendo alocado nesse novo
os produtores de baixo custo. Com isso, os atuais tipo de industrialização conjugada e há grandes
concorrentes estão atuando com muito maior si- evidências de que alguns negócios se tornarão vi-
milaridade em seus custos variáveis de produção, toriosos em curto ou médio prazo (102).

A visão de futuro do setor de celulose e papel inclui as biorrefinarias e as biotecnologias


CAPÍTULO 08 - NOVAS ROTAS E NOVOS NEGÓCIOS PARA O  |   99
SETOR DE CELULOSE E PAPEL POR MEIO DAS BIORREFINARIAS

As novas oportunidades ao setor estão visuali- refinarias integradas. Isso pode acontecer atra-
zadas para acontecerem em inovações com a bio- vés de (92):
massa florestal, tanto com as biomassas internas • Novas rotas tecnológicas para os atuais proces-
das fábricas de celulose e papel (licor preto Kraft, sos de fabricação de celulose e papel ou para
lodos das estações de tratar efluentes, residuais processos desruptivos a serem criados pelas
de madeira e casca etc.) como com resíduos flo- inovações tecnológicas;
restais (da colheita e manuseio de madeira). Em • Novas rotas tecnológicas para a biomassa dos
caso de sucesso, até mesmo se cogitam de planta- resíduos florestais ou para os resíduos orgâni-
ções florestais dedicadas à produção de biomas- cos das fábricas de celulose e papel;
sa para essas unidades de biorrefinarias. Seria o • Novas rotas tecnológicas para as florestas plan-
caso, por exemplo, de suprimento de biomassa tadas pelo aumento de funcionalidades para a
florestal para unidades de pirólise rápida (produ- biomassa florestal.
ção de bioóleo) ou de gaseificação de biomassa • Novas rotas tecnológicas para outros tipos de
(produção de syngas). biomassa vegetal, integrando-as à biomassa flo-
Existe também uma concordância entre to- restal ou não.
dos do setor de que o processo Kraft de produção
de celulose ainda oferecerá novas oportunidades Esse é definitivamente o novo cenário que de-
ao setor e se manterá saudável por mais algumas mandará enormes esforços em inovações tecnoló-
décadas. Entretanto, ele deverá sofrer incorpora- gicas em processos, produtos e aplicações merca-
ções e modificações conceituais e operacionais. dológicas.
Acredita-se que inovações tecnológicas disponi- Espera-se que as novas opções de negócios
bilizarão novas oportunidades de negócios com com base nos conceitos de biorrefinarias aconte-
subprodutos do processo Kraft nas áreas de lig- çam em um horizonte temporal relativamente cur-
nina, hemiceluloses, metanol, terebintina, gases, to. Há muito esforço sendo colocado no desenvol-
tall oil etc. (92). vimento de tecnologias no Hemisfério Norte, pois
Paralelamente, existem forças impulsionado- lá existem pressões importantes que estão estimu-
ras importantes para o desenvolvimento de produ- lando essa rota tecnológica (92):
tos com base em matérias-primas renováveis e não • Necessidade do desenvolvimento de combus-
fósseis, com efeitos favoráveis no ciclo do carbono tíveis renováveis devido às políticas derivadas
e, portanto, nas mudanças climáticas. Trata-se de das ações para mitigação das mudanças climá-
uma onda tecnológica e mercadológica conhecida ticas;
como “era da bioeconomia” em que a biomassa é • Desenvolvimento de novas aplicações para as
uma aposta e esperança em praticamente todos os biomassas, de quaisquer origens;
países desenvolvidos do Hemisfério Norte. Nesses • Custos crescentes das matérias-primas e dos
países, existem fortes investimentos em desenvol- combustíveis;
vimento de rotas tecnológicas para produtos bio- • Preços reais declinantes para os produtos celu-
energéticos, com importantes apoios do setor go- lósico-papeleiros;
vernamental. Algumas vezes, esses apoios são até • Preocupações em relação ao desempenho futu-
mesmo surpreendentes, como foi o recente caso ro de muitos tipos de papéis;
do subsídio do governo norte-americano à coge- • Potencialidade de serem aproveitados os ativos
ração de eletricidade e vapor a partir do licor preto fabris de unidades produtoras de celulose e pa-
Kraft para as fábricas daquele país (92). pel para a produção conjunta de novos produ-
Existe hoje uma certeza praticamente global tos em novos e surpreendentes negócios. A uti-
de que a competitividade do setor de celulose e lização das infraestruturas dessas fábricas em
papel deverá ser garantida pela inclusão dos no- arranjos produtivos locais tem merecido enor-
vos negócios com produtos gerados pelas bior- me atenção frente aos potenciais que oferece.
100  | A EVOLUÇÃO TECNOLÓGICA DO SETOR DE CELULOSE E PAPEL NO BRASIL

As mais prováveis opções de biorrefinarias in- Acredita-se que a implantação dos conceitos
tegradas ao setor de base florestal, em específico de biorrefinarias acelerará a reorientação dos ne-
no setor de celulose e papel, possivelmente serão gócios em plataformas multiprodutos (celulose e/
as seguintes (92; 93): ou papel, eletricidade e bioprodutos/biocombustí-
• Extração de parte da lignina do licor preto para veis). As parcerias e consórcios de empresas den-
permitir aumento de capacidade na área de re- tro do setor e com outros setores já começaram a
cuperação do licor. Essa lignina poderá ser usada ser anunciadas, sejam em nível local, regional ou
tanto como combustível no forno de cal (menos internacional. Com forças aceleradoras dadas pe-
interessante) como também para purificação e los mercados, indústria e políticas industriais, o
venda para as indústrias química ou energética segmento de celulose e papel terá maior capacida-
para produtos de maior valor agregado. de para atingir os requeridos quesitos tecnológicos
• Pirólise rápida da biomassa florestal para pro- e mercadológicos. As tecnologias que mostram
dução de bioóleo, um valioso produto para co- maiores potenciais para o curto e médio prazo já
mercialização para inúmeras finalidades; estão sendo avaliadas. As empresas estão atentas e
• Produção de diversos tipos de nanocelulose monitorando esse campo de potencialidades, para
(nanocristais e celulose nanofibrilada); que ele não se converta em um campo minado de
• Gaseificação da biomassa florestal para gera- ameaças ou de frustrações (93; 170).
ção de combustível renovável para alimentar o O futuro vai então depender muito das toma-
forno de cal, eliminando a dependência de óleo das de decisão empresariais e governamentais e
combustível e do gás natural de origem fóssil; dos graus de investimento no desenvolvimento de
• Gaseificação de parte do licor preto Kraft para au- tecnologias para extrair, produzir, purificar e modi-
mentar a capacidade da fábrica de celulose sem ter ficar os diversos tipos de materiais que podem ser
que se investir em nova caldeira de recuperação; obtidos nas biorrefinarias integradas do setor de ce-
• Produção de alguns subprodutos já disponi- lulose e papel. Os potenciais de novos negócios são
bilizados pelo processo industrial atual, como enormes, bem como as possibilidades de agregação
metanol, terebintina, tall oil, hidrogênio, eletri- de valor aos atuais negócios do setor (93).
cidade, cal queimada, compostos fertilizantes Em geral, quando empresas do setor decidem
orgânicos de lodos fermentados etc. mudar estratégias, elas pensam quase sempre em
• Produção de dimetil éter a partir do gás da ga- verticalizações (na cadeia produtiva) e quase nun-
seificação; ca em lateralizações (na rede de valor). Vertica-
• Produção de biodiesel, biogasolina a outros lização e lateralização precisam estar integradas
derivados de carbono a partir da utilização do e caminharem de forma coordenada sob novos
syngas e por meio do processo de síntese co- paradigmas empresariais. A verticalização pode
nhecido como processo de Fischer Tropsch; acontecer tanto no sentido para cima (com pro-
• Produção de péletes e/ou briquetes de biomas- dução de nanocristais de celulose, por exemplo)
sa adensada para comercialização; como para baixo (com a venda de clones florestais,
• Produção de eletricidade a partir da biomassa para mudas, genes, pólen etc.). Já as lateralizações po-
venda como energia limpa para o grid elétrico ou dem permitir a atuação em mercados de produtos
para consumidores de arranjo industrial que tenha químicos, gases, fertilizantes orgânicos, biocom-
a empresa de celulose/papel como empresa âncora; bustíveis, eletricidade, implementos agrícolas e
• Produção de etanol celulósico de segunda geração; florestais etc. (102; 103).
• Produção de derivados das hemiceluloses, que Novos negócios só se viabilizarão com ade-
podem ser extraídas da madeira, resíduos flo- quadas tecnologias competitivas, alto nível de ino-
restais ou do licor preto; vações e muita parcerização com outras empresas,
• Produção de biogás pela digestão anaeróbica de inclusive de outros setores produtivos (setores quí-
resíduos orgânicos etc. mico, energético, agrícola, bens de capital etc.).
CAPÍTULO 08 - NOVAS ROTAS E NOVOS NEGÓCIOS PARA O |   101
SETOR DE CELULOSE E PAPEL POR MEIO DAS BIORREFINARIAS

As novas rotas com muita certeza vão incluir vos (clusters), onde a biomassa florestal e produ-
maior grau de diversificação de produtos, com al- tos e resíduos gerados por essa fábrica abastecerá
guns produtos inusitados, em quantidades varia- um grupo diversificado de parceiros de outras
das com as demandas e com forte busca em agre- empresas, que usarão insumos comprados da
gação de valor à biomassa florestal. Possivelmente, empresa âncora para gerar produtos nessas bior-
o setor poderá se fragmentar em outras unidades refinarias integradas, a exemplo do que acontece
de negócios, mas que precisarão estar intimamen- no setor petroquímico, em seus polos industriais
te integradas, em novos tipos de arranjos produ- (170). Trata-se de mundos novos e alguns desco-
tivos locais, regionais ou mesmo internacionais nhecidos, que vão exigir criatividade, talento e
(102; 103). mudança de cultura e de paradigmas. Mas o setor
É bem possível que as grandes e modernas fá- está se fortalecendo tecnológica e gerencialmen-
bricas de celulose e papel deverão ser desenhadas te para atingir sucesso nesses novos desenvolvi-
na forma de fábricas âncoras de arranjos produti- mentos (102; 103; 242).
102  | A EVOLUÇÃO TECNOLÓGICA DO SETOR DE CELULOSE E PAPEL NO BRASIL

SEGUNDA PARTE

A evolução tecnológica dos processos de


fabricação de celulose e papel no Brasil
SEGUNDA PARTE - A EVOLUÇÃO TECNOLÓGICA DOS  |  103
PROCESSOS DE FABRICAÇÃO DE CELULOSE E PAPEL NO BRASIL

CAPÍTULO 01
DIVISÕES DA LINHA DO
TEMPO COM INÍCIO EM
1808 E TÉRMINO EM 2016
P ara melhor acompanhar a evolução tecnológica do setor de celulose e papel no Brasil, dividiu-se a
linha de tempo em cinco fases. O critério de seleção dessas fases toma como base acontecimentos
históricos, econômicos e tecnológicos, mas, principalmente, procura separar períodos de tempo em que
ocorreram saltos ou avanços significativos dos processos de fabricação de celulose e papel.

PRIMEIRA FASE: 1808 A 1929


(Da vinda da Família Real Portuguesa ao Brasil à Grande Depressão)

A
história da indústria de celulose
e papel no Brasil se inicia com a
vinda da família real portuguesa
para o Brasil, em 1808, quando
surgiu a necessidade de se pro-
duzir, internamente, papel para a impressão de
cédulas bancárias, jornais e documentos oficiais
do governo monárquico (264). Entretanto, a pri-
meira fábrica de papel só iniciaria operações por
volta de 1810 no Rio de Janeiro. Essa fábrica foi
construída no bairro de Andaraí Pequeno, Rio
de Janeiro, por dois industriais portugueses, que
haviam se transferido para o Brasil: Henrique
Nunes Cardoso e Joaquim José da Silva (213).
Provavelmente tenha começado a funcionar en-
tre 1810 e 1811, e a intenção era trabalhar com
fibras vegetais (111). Histórica peça de uma molaça de desagregação de trapos e/ou aparas de papel
104  | A EVOLUÇÃO TECNOLÓGICA DO SETOR DE CELULOSE E PAPEL NO BRASIL

A segunda fábrica foi montada em 1837, tam- sil só começou a se desenvolver realmente a partir
bém no Rio de Janeiro, por André Gaillard, e, em de 1880, em sintonia com a expansão da economia
1841, Zeferino Ferraz instalou a sua fábrica na fre- cafeeira. O crescimento e a diversificação da in-
guesia do Engenho Velho (111). Estas primeiras dústria, impulsionada pelo setor cafeeiro, geraram
de várias fábricas construídas nas matas da Tijuca riqueza e melhoria da vida econômica das pessoas,
sobreviveram até a década de 1920 e se limitaram, resultando em um aumento da demanda por pro-
quase que exclusivamente, a produzir papel de em- dutos manufaturados (141).
brulho (120). No Engenho da Conceição, Bahia, Outro fator importante é que o capital e o em-
foi fabricado papel-jornal com talo de bananeira, presariado da indústria de papel têm suas raízes nas
em 1943 (51). Embora a máquina contínua de pa- atividades de importação e comércio de papéis, ati-
pel já tivesse sido inventada, todas essas primeiras vidades realizadas principalmente por imigrantes.
fábricas produziam papel pelo processo manual, As principais empresas iniciaram suas atividades a
algo quase artesanal (120; 213). partir da comercialização de papel importado, pas-
Entre 1851 e 1852, foi construída em Ponta da sando por atividades gráficas até evoluírem para a
Areia, nos arredores de Petrópolis, Rio de Janeiro, fabricação própria e internamente de papel (125).
a fábrica de Orianda por Guilherme Schuech, Ba- Entre 1885 e 1925, empresas de significân-
rão de Capanema (120; 213). Essa fábrica de papel cia histórica e tecnológica são instaladas no País,
imprensa, construída por esse mineiro de origem como a Fábrica de Papel Paulista, a Companhia
austríaca, funcionou até 1861 [algumas fontes fa- Fábrica de Papel e Papelão de Bom Retiro de
lam em 1874 (198)] quando a aplicação de tarifas Guaíba, a Companhia Melhoramentos de São
mais baixas para o papel importado tornou a sua Paulo, a Companhia Fabricadora de Papel, a fá-
atividade economicamente inviável. Dizia-se que o brica da Companhia de Papel Simão, a Indústria
papel produzido por essa fábrica era de qualidade de Papelão Limeira S.A., entre outras. Nesta épo-
melhor que os produzidos em Paris (120), razão ca, a pasta de madeira e a celulose eram quase
pela qual de 1852 a 1856 os jornais do Rio de Ja- que totalmente importadas e a atividade florestal
neiro (Correio da Tarde, Diário do Rio de Janeiro era completamente desvinculada da indústria de
e Correio Mercantil) utilizaram esse papel (162) e papel (125).
que eram produzidos pela primeira máquina Four- Dentro desse período, aconteceria um fato que
drinier instalada no Brasil (198), muito provavel- teria grande impacto sobre a indústria nacional
mente de pequeno porte. de celulose e papel: a Primeira Guerra Mundial
Muito embora no século XIX tenham sido fei- (PGM), que durou de 1914 a 1918. Com o início
tas experiências com fibras de plantas brasileiras da PGM, houve a quase total suspensão do fluxo
na fábrica de Salvador e pelo Barão de Capanema de matérias-primas e maquinários importados,
na fábrica de Orianda, o papel brasileiro era feito criando sérias dificuldades para as indústrias na-
de trapos velhos de algodão ou de linho, o que o cionais. Mas, por outro lado, acredita-se que isso
tornava mais caro (embora melhor) do que os pa- tenha também favorecido a indústria papeleira,
péis produzidos a partir da madeira e importados, estimulando seu crescimento e desenvolvimento
principalmente, da Bélgica (120). Algumas fábricas técnico no País. Antes de 1914, nenhuma das fá-
faziam uso de papéis descartados para a produção bricas de papel operava à plena capacidade e mui-
de novos papéis, em um processo de reciclagem. É tas delas se encontravam em sérias dificuldades
importante acrescentar que nessa ocasião muitas financeiras (141).
das necessidades brasileiras dos diferentes tipos de Com a interrupção da oferta de produtos de
papéis eram supridas por fornecedores externos, a origem europeia e com o aumento de preços nos
maioria europeus (4). EUA, além da elevação do custo dos fretes, as em-
As primeiras fábricas de papel têm sua impor- presas que operavam no Brasil puderam aumentar
tância histórica, mas a indústria papeleira no Bra- seus preços e vender toda a quantidade produzi-
SEGUNDA PARTE - A EVOLUÇÃO TECNOLÓGICA DOS  |  105
PROCESSOS DE FABRICAÇÃO DE CELULOSE E PAPEL NO BRASIL

da, pois passaram a deter o monopólio dos pro- e os de embalagem de segunda. Para manter a sua
dutos papeleiros. Em 1917, praticamente todas as competitividade com relação às importações, as
fábricas trabalhavam à plena capacidade e, mesmo empresas precisariam ser beneficiadas com um ní-
assim, os preços haviam praticamente dobrado de vel adequado de proteção tarifária, o que em geral
valor. Os principais produtos fabricados no Brasil acontecia (141).
eram o papel de embrulho e os cartões não bran- Apesar de possuir muitas florestas e água em
queados (141). abundância, fatores essenciais para a fabricação
A partir do início da PGM, algumas das fábri- de celulose e papel, a falta de condições adequa-
cas locais iniciaram a produção de papel impren- das de transporte (para madeira, matérias-primas
sa, papel mata-borrão e papel de escrever, mas os e produtos acabados), a necessidade de importar
produtos não eram de boa qualidade e os preços maquinários e produtos químicos e a falta de ope-
eram ainda maiores do que os dos papéis impor- rários qualificados condenavam a indústria pa-
tados. As principais pastas celulósicas utilizadas peleira do Brasil à produção de produtos menos
pelas fábricas eram pastas de madeira, a sulfito nobres e a um lento progresso (141).
ou sulfato, importadas de países da Escandinávia, A exploração de madeira nativa estava volta-
mas usavam-se também trapos e aparas de papel, da, no início dos anos 1920, para a exportação de
obtidos no mercado interno. A pequena quanti- toras que seriam utilizadas na construção civil. A
dade de pasta de celulose fabricada no País, prove- madeira mais exportada era o pinheiro do Paraná.
niente de palha de arroz, bagaço de cana e bambu, Internamente, os principais consumidores eram as
era usada em quantidade limitada. O mercado de empresas de ferrovias, que utilizavam toras como
pasta celulósica era ainda muito restrito (141). dormentes, e as empresas que a utilizavam para
Após o término da PGM, os investimentos vol- fins energéticos. Preocupado com a situação, o go-
taram a crescer no setor. Em 1917, havia 14 fábri- verno instituiu, a partir de um decreto de 18 de
cas em operação no País e outras três em constru- março de 1918, um incentivo para plantar outras
ção. Dessas empresas, a Cia. Industrial Itacolomy, espécies, como o eucalipto e outras árvores nativas
a Klabin Irmãos e Cia., a Cia. Melhoramentos, ou exóticas (141).
a Cia. Industrial de Papéis e Cartões e José S. de Na verdade, embora a produção de pasta de
Araújo eram consideradas fábricas bem equipa- madeira estivesse crescendo gradualmente, o de-
das, tendo em vista que cada uma possuía de duas senvolvimento das fábricas de papel, utilizando
a quatro máquinas de papel em operação. As res- matéria-prima nacional (aparas, trapos, palha de
tantes eram pequenas fábricas, produzindo papéis arroz, bambu, bagaço de cana, lírio, capim e o pró-
com máquinas obsoletas. Não existem registros prio pinho do Paraná), enfrentava ainda significa-
de produção de celulose em qualquer uma dessas tivas limitações, sobretudo quanto à produção de
fábricas. A disponibilidade de equipamentos ne- celulose em larga escala (141).
cessários à fabricação de celulose, como picadores Adicionalmente, todos os esforços dos pro-
de madeira, digestores, entre outros, praticamente dutores estavam voltados para buscar o aumento
não existiam, exceto no caso da Klabin, conforme da proteção tarifária ao setor. Envolvidos em uma
se relata (141). campanha de combate ao contrabando de papel,
Embora a indústria de papel estivesse regis- os produtores dedicavam boa parte do seu tempo a
trando progressos, inclusive com o surgimento convencer parlamentares e o Executivo da necessi-
de novos projetos de fábricas de papel, suas pers- dade de aumentar a fiscalização sobre as importa-
pectivas para os anos seguintes eram limitadas. ções de papel imprensa (livres de impostos para os
Acreditava-se que muitas das empresas em funcio- jornais e periódicos), que era comercializado ile-
namento ou em vias de iniciar seus trabalhos, di- galmente pelos importadores, substituindo outros
ficilmente poderiam estender suas operações para tipos de papéis produzidos internamente e redu-
outros tipos de papéis, além do papel de embrulho zindo seus mercados (141).
106  | A EVOLUÇÃO TECNOLÓGICA DO SETOR DE CELULOSE E PAPEL NO BRASIL

Secadores ao ar de folhas de papel produzido manualmente

As importações de celulose continuavam queda das importações de papel e de produtos ma-


crescendo. Apesar de haver interesse de algumas nufaturados de papel (141).
empresas em fabricá-la, a falta de proteção tari- No caso da celulose, no entanto, havia o re-
fária inviabilizava a instalação de plantas indus- gistro de apenas uma fábrica em funcionamento
triais de celulose no País. Mas os incentivos à no Estado de São Paulo, utilizando pinheiro do
produção de pasta de madeira e papel imprensa Paraná como matéria-prima para a produção de
começavam a aparecer. Alguns anos mais tarde, vários tipos de papel de baixa e média gramatu-
em um dispositivo da lei orçamentária de 1922, ra. A falta de gerentes experientes e de operários
o governo concedeu a isenção de direitos de im- qualificados, ao lado de uma produção interna in-
portação para máquinas e acessórios destina- suficiente de celulose, que precisava ser misturada
dos à instalação de fábricas de papel a partir da com celulose importada, e os custos excessivos dos
celulose obtida de matérias-primas nacionais e fretes, ainda eram apontados como os principais
também para a produção de pasta de madeira. obstáculos à implantação da indústria de celulose.
Outra medida adotada, desta vez pelo Senado Mesmo assim, também como no caso do papel, as
Federal, foi um subsídio para as empresas que importações de celulose estavam decrescendo pelo
construíssem uma fábrica de papel de imprimir início de maior oferta de produtos locais (141).
utilizando-se de matéria-prima nacional, sob a No final da década de 1920, a indústria é atingida
forma de garantia de empréstimo de até 50% do pela crise de 1929, a qual teve efeitos devastadores so-
valor total da planta (141). bre o preço do café, nosso principal gerador de divi-
A partir de meados dos anos 1920, o maior sas daquela época. Uma vez que parte significativa da
controle sobre as importações, devido à aprovação economia brasileira dependia do desempenho deste
da legislação que exigia uma marca d’água no pa- produto, vários setores foram afetados, incluindo a
pel imprensa importado sem impostos e o cresci- indústria de papel, que acabou reduzindo seu cresci-
mento da capacidade de produção, levaram a uma mento e ímpeto de desenvolvimento (125).
SEGUNDA PARTE - A EVOLUÇÃO TECNOLÓGICA DOS  |  107
PROCESSOS DE FABRICAÇÃO DE CELULOSE E PAPEL NO BRASIL

SEGUNDA FASE: 1930 A 1959


(Os grandes empreendedores pioneiros no Brasil)

D
iante da crise de superprodução de caso dos papéis de qualidade inferior, destinados a
café e das grandes dificuldades fi- embrulhos e embalagens simples – e para fabricar
nanceiras atravessadas por muitas papéis que, embora passíveis de importação, pres-
empresas, o governo proibiu a im- sionavam de modo negativo o saldo da balança
portação de máquinas para a insta- comercial, como, por exemplo, os papéis para im-
lação de novas fábricas de papel e criou um fundo pressão e escrita. Somente num segundo momen-
especial para socorrer as empresas em dificulda- to, quando a produção nacional de papéis passou
des. O resultado desse processo foi a concentração a demandar uma quantidade de celulose, que jus-
de capacidade de produção nas maiores empresas tificasse a instalação de fábricas, é que começaram
existentes na época (125). a surgir as primeiras unidades, próximas aos locais
Por outro lado, as dificuldades no balanço em que havia a matéria-prima fibrosa (125).
de pagamentos e a elevação do preço da celulose O Estado Novo de Getúlio Vargas e a Segunda
importada, causada pela desvalorização da moe- Guerra Mundial foram fatores motivadores para a
da nacional, fizeram aparecer condições para o intensificação do movimento rumo à integração
surgimento de um segmento nacional produtor vertical da indústria de base florestal. A política de
de pastas celulósicas no País. Em 1933, o Estado Getúlio Vargas de intervenção estatal nos setores
concedeu isenção de impostos de importação e ta- da economia – visando ao processo de substitui-
xas alfandegárias às máquinas, acessórios e todos ção de importações –, bem como a longa duração
os insumos necessários para empresas organizadas da guerra e as dificuldades decorrentes no comér-
com a finalidade de produzir celulose (125). cio internacional, resultaram na decisão estatal
Assim, as fábricas de papel obedeceram à lógi- de se produzir internamente celulose e papel im-
ca geral do modelo de substituição de importações, prensa. O então presidente, temendo uma crise no
sendo criadas para atender às faixas de demandas abastecimento de papel imprensa, decide apoiar o
que não podiam ser atendidas por importações – investimento no sentido da produção de celulose

Araucaria angustifolia – A base inicial da industrialização do setor florestal


108  | A EVOLUÇÃO TECNOLÓGICA DO SETOR DE CELULOSE E PAPEL NO BRASIL

integrada com a produção de papel, convidando pel imprensa. No entanto, importava mais de 70%
Assis Chateaubriand, maior empresário do ramo da celulose de que necessitava (125). Além disso,
da imprensa no Brasil, para liderar o empreendi- a guerra na Coreia, que durou de 1950 a 1953, fez
mento. Recusando a incumbência, Chateaubriand com que o preço da celulose disparasse no merca-
indica o Grupo Klabin (244). do internacional (8).
Em 1934, o Grupo Klabin adquiriu do Banco do Não obstante, no início da década de 1950, co-
Estado do Paraná a fazenda Monte Alegre e iniciou meçaram a surgir preocupações quanto à dispo-
a implantação de uma fábrica de papel imprensa, nibilidade de matéria-prima fibrosa para suprir a
que também produziria pasta mecânica e celulose demanda mundial de celulose, pois as florestas de
sulfito semibranqueadas, dando origem ao processo coníferas das regiões temperadas não seriam su-
de integração vertical na indústria. Inaugurada em ficientes para atender à crescente demanda, con-
1946, essa passou a ser a maior fábrica integrada de forme projeções da época. Frente a isso, os países
celulose e papel do País, usando recursos florestais desenvolvidos voltaram-se com interesse para o
nacionais – no caso, o pinheiro do Paraná (Arauca- aproveitamento de novas espécies florestais tro-
ria angustifolia). Este foi o primeiro projeto no qual picais e temperadas, adaptando novas técnicas de
aparece uma relação forte entre o Estado e a inicia- produção e proporcionando ao Brasil a possibilida-
tiva privada, por meio de uma política pública deli- de de lançar-se como grande produtor de celulose,
berada de apoio ao desenvolvimento do setor (125). e o eucalipto era a opção mais interessante (125).
O desenvolvimento do setor papeleiro esti- Antevendo as necessidades futuras de matéria-
mulou a que outros grandes grupos industriais do -prima, diversas fábricas de papel já existentes senti-
País também ingressassem nessa atividade produ- ram a necessidade de integrar uma fábrica de celulo-
tiva, como foram os exemplos dos seguintes casos: se a uma unidade produtora de papel. Isso motivou
Indústrias Reunidas Francisco Matarazzo (IRFM), o aparecimento de diversas unidades produtoras de
com algumas fábricas no Estado de São Paulo, polpa, a maioria de pasta mecânica, para atender o
onde se destacava a da Fazenda Amália, em Santa consumo próprio, sendo sempre dimensionadas em
Rosa do Viterbo; Grupo João Santos, com fábricas função do consumo da fábrica de papel, sem se pen-
em Pernambuco e Maranhão; entre outros. sar no possível fornecimento a terceiros. Contribuí-
No ano de 1950, o Brasil era praticamente au- ram também para a limitação da capacidade, o ele-
tossuficiente na produção de papel, exceto de pa- vado investimento requerido e a pouca experiência

Secando folhas de celulose de fibras longas em máquina do tipo Fourdrinier


SEGUNDA PARTE - A EVOLUÇÃO TECNOLÓGICA DOS  |  109
PROCESSOS DE FABRICAÇÃO DE CELULOSE E PAPEL NO BRASIL

disponível no País, naquela época, para a produção Corporation. Essas duas empresas, que operavam
dessa matéria-prima fibrosa (150). principalmente no Estado de Santa Catarina, usa-
Em razão da resistência física adequada e das vam como matéria-prima a fibra longa do pinhei-
boas propriedades de opacidade e formação de fo- ro brasileiro e, depois, de plantações próprias de
lha das polpas de eucalipto e obviamente pressiona- Pinus. Neste mesmo ano, também surgiu no País
dos pelo custo e carência de polpas de fibra longa, os a Champion Papel e Celulose Ltda., subsidiária
fabricantes de papel em pouco tempo aprenderam a da Champion Papers Incorporation, que iniciou
fabricar papéis com 100% dessa celulose, utilizan- suas atividades industriais em 1960, produzindo
do, inclusive, melhores técnicas de refinação, com papéis com celulose de fibra curta de eucalipto.
um baixo consumo de energia. Esse fato, de que se Relata-se que a Champion foi a primeira empre-
orgulham particularmente os papeleiros brasileiros, sa a exportar papel fabricado integralmente com
acabou sendo resultante certamente das condições essa celulose (125).
locais de carência de polpas de fibras longas e a cria- Em 1952, foi criado o Banco Nacional de De-
tividade de nossos técnicos (150). senvolvimento Econômico (BNDE), representan-
A produção de celulose de fibra curta, no Bra- do um fator de extrema importância para o setor
sil, passou de 1.590 toneladas em 1950 para 51.900 de celulose e papel no País, vistos os grandes em-
toneladas em 1956. Este aumento de produção ba- preendimentos de que foi parceiro junto ao em-
seou-se fundamentalmente no eucalipto. Em 1955, presariado brasileiro ao longo do tempo. O BNDE
a Cia. Suzano iniciou, em fase experimental, a pro- desenvolveu novos instrumentos financeiros para
dução de celulose de fibra curta de eucalipto, já em dar suporte à indústria, às economias de escala e
1961 foi produzido no Brasil, conforme relata a his- também suporte à melhoria do conhecimento tec-
tória contada pela empresa, e pela primeira vez no nológico da indústria (262).
mundo, o primeiro papel feito integralmente a partir Posteriormente, o Banco mudou a denomi-
de celulose de fibra curta de eucalipto. O governo nação para BNDES. O “S” foi adicionado à sigla
de São Paulo possuía reservas florestais, que foram somente em 1982, quando o governo instituiu o
plantadas desde o início do século XX para alimentar Finsocial e repassou recursos desse fundo para
as caldeiras das locomotivas e fornecer dormentes e o Banco, com a finalidade de financiar projetos
postes para as vias férreas. Quando, após a Segunda sociais (125). (No presente texto, será utilizada,
Guerra Mundial, as locomotivas passaram a usar a partir de agora, a sigla BNDES, independente-
óleo diesel e tração elétrica, tais reservas começaram mente da data em que ocorreram os fatos).
a ser aproveitadas também na fabricação de celulose Até meados da década de 1960, o BNDES prio-
e papel, entre outras utilizações. Assim, a importação rizava o setor de transportes, a expansão dos en-
de celulose, que era de 73,7% do consumo aparente trepostos de armazenagem e a geração de energia
em 1950, reduziu-se a 28,8% em 1960 (125). elétrica. Mesmo assim, em 1955, o Banco conce-
O primeiro programa governamental de inves- deu seu primeiro financiamento à Celulose e Papel
timentos específicos para o setor de celulose e papel Fluminense S.A. (125). Ainda no mesmo ano, ou-
surgiu na segunda metade da década de 1950, inse- tro projeto foi contemplado com o apoio financei-
rido no Plano de Metas. Tal plano fixava, entre ou- ro do BNDES, a Celubagaço Indústria e Comércio,
tras coisas, a autossuficiência do País na produção situada na cidade de Campos, no Rio de Janeiro.
de celulose, mas, em 1959, as metas iniciais foram As duas empresas industriais tinham como objeti-
revistas para um patamar menos audacioso (125). vo produzir celulose a partir da cana, mas as duas
Neste período, algumas empresas de capital iniciativas não foram bem-sucedidas.
estrangeiro entraram no setor, juntando-se à Ri- Estes insucessos, porém, não prejudicaram a
gesa, antiga subsidiária da West Virginia, Pulp visão do Banco sobre o potencial do setor, embora
and Paper Company, fundada em 1953. Em 1958, entre 1955 e 1965, o financiamento ao setor tenha
foi constituída a Manville, subsidiária da Manville sido esporádico e ocasional (125; 65).
110  | A EVOLUÇÃO TECNOLÓGICA DO SETOR DE CELULOSE E PAPEL NO BRASIL

Pequena história do eucalipto damente, tolerar cortes sucessivos e fornecer maté-


O eucalipto foi descoberto ou encontrado por ria-prima para diversos fins, o eucalipto tornou-se
expedicionários ingleses em suas idas à Austrália, uma das árvores mais comumente cultivadas no
tendo isso acontecido por volta de 1788. Algumas Brasil e em inúmeros países (40).
publicações fazem referência também à Nova Ze- No começo da utilização da celulose de eucalipto,
lândia, à Tasmânia e a ilhas vizinhas. A dissemina- esta era vista como fibra secundária, apenas de enchi-
ção de sementes de eucaliptos no mundo começou mento, de pouco valor; porém, com o passar do tem-
no início do século XIX. Na América do Sul, acre- po, passou a ser muito requisitada pela indústria de
dita-se que o primeiro país a introduzir o eucalipto celulose e papel, em função das características únicas
foi o Chile em 1823 e, posteriormente, a Argentina das fibras. As polpas de eucaliptos são recomendadas
e o Uruguai. Por volta de 1850, países como Portu- para a fabricação de um grande número de papéis de-
gal, Espanha e Índia começaram também a plantar vido às excelentes qualidades que elas podem conferir
o eucalipto. As primeiras mudas chegaram ao Bra- aos mesmos, como, por exemplo, volume específico
sil por volta de 1868, sendo que a introdução do aparente, opacidade, formação, maciez, porosidade,
gênero tomou impulso no início do século XX (40). lisura, absorção, estabilidade dimensional etc. (79).
Os eucaliptos correspondem a cerca de 700 O eucalipto foi introduzido de forma mais mas-
espécies descritas, correspondentes a três gêneros siva no Brasil no início do século XX e as primeiras
vegetais (Eucalyptus, Corymbia e Angophora). As plantações produziram dormentes para ferrovias
espécies mais comuns no Brasil atingem de 20 a 50 e lenha para locomotivas. O trabalho científico
metros de altura, mas há espécies de porte maior sistemático para descobrir a espécie de eucalipto
como o Eucalyptus regnans, cujo caule pode chegar mais adequada ao ambiente biológico brasileiro
a ter 90 metros de altura, com 7,5 metros de circun- e sua exploração industrial para usos específicos
ferência na base. Os eucaliptos se desenvolvem com começou com o engenheiro agrônomo Edmundo
grande rapidez no Brasil e, por volta do sexto ano, já Navarro de Andrade, conhecido no Brasil como o
permitem um primeiro corte do tronco para o apro- “pai da silvicultura brasileira” (218). Educado na
veitamento da madeira, e depois voltam a revegetar, Europa, Edmundo Navarro de Andrade deu par-
pois as cepas brotam e, com isso, pode-se conseguir tida ao trabalho experimental para identificação
novas árvores a partir da original. Por crescer rapi- das melhores espécies de eucalipto para plantação

O fantástico crescimento do eucalipto


SEGUNDA PARTE - A EVOLUÇÃO TECNOLÓGICA DOS  |  111
PROCESSOS DE FABRICAÇÃO DE CELULOSE E PAPEL NO BRASIL

industrial em larga escala e adequadas à produção ser produzida em escala industrial pela Associated
de variados produtos de madeira (262). Pulp and Paper Mills Ltd. (APPM), em Burnie, na
No Brasil do início do século XX, as produ- Tasmânia, em 1938, utilizando o processo soda. No
ções de celulose e papel eram irrelevantes para as ano seguinte, já pelo processo sulfato, a celulose de
madeiras de eucalipto devido à falta de tecnologia eucalipto começou a ser produzida pela Australian
correta para a fabricação de celulose a partir dessa Paper Manufacturers Ltd., em Maryvale, Victoria
espécie de árvore. O padrão vigente, a celulose sul- (74). No Brasil, em 1927, foi iniciada por Gordinho
fito, permitia a utilização de madeira mole (de co- Braune S.A. Indústria de Papel, uma produção de
níferas, como da Araucaria angustifolia, ou pinhei- 10 toneladas por dia de celulose alvejada de euca-
ro brasileiro) ou de fibra longa de abeto nórdico na lipto, pelo processo sulfito, em complementação à
Europa, que produzia papel da melhor qualidade produção de celulose de fibra longa que a empresa
(na época considerada excepcional). As soluções costumava produzir. A Cia. Melhoramentos tam-
tecnológicas para se produzir celulose e papel a bém foi uma das pioneiras na fabricação de celulose
partir do eucalipto, sem mencionar a resultante de de eucalipto no Brasil, também pelo processo sulfi-
viabilidade econômica, eram desconhecidas (262). to, em meados dos anos 1940 (150).
Em 1925, Navarro de Andrade enviou quantida- É importante considerar que, nessa época, es-
des de madeira de eucaliptos (Eucalyptus tereticornis sas celuloses de eucalipto eram utilizadas apenas
e Eucalyptus saligna) de 13 a 15 anos de idade, produ- como enchimento, isto é, elas preenchiam peque-
zidas nas plantações da Cia. Paulista de Estradas de no percentual da receita de fibras devido ao seu
Ferro, para o Forest Products Laboratory, Madison, menor preço, sendo as fibras longas, principal-
Wisconsin, EUA, a fim de estudar a viabilidade de mente as de araucária, as que predominavam nessa
se produzir papel com esse tipo de fibra. Obteve-se, receita (177; 43). Outro motivo pelo qual não se
então, uma pequena quantidade de papel para jornal utilizava predominantemente fibra curta é o fato
que mostrou boas propriedades de impressão (150). de que os equipamentos de preparação de massa
Embora Navarro de Andrade tivesse sugerido e as máquinas de papel eram feitos para trabalhar
o desenvolvimento de processos de produção de exclusivamente com fibra longa (166).
celulose de eucalipto na esperança de desenvolver
uma nascente indústria de celulose e papel brasi-
leira, o sonho levou décadas para se realizar. A ce-
lulose de eucalipto permaneceu como uma curio-
sidade e objeto de pesquisa até a Segunda Guerra
Mundial, quando a escassez de matéria-prima e a
dependência da importação de celulose motivaram
o Governo Brasileiro a introduzir incentivos para
pesquisas em novas fontes de fibras (262).
A primeira celulose de eucalipto, produzida
experimentalmente em escala industrial, foi obti-
da pelo processo sulfito na fábrica Caima, Alber-
garia, Portugal, em 1906. Mas, naquele momen-
to, não despertou maiores interesses. Somente
a partir de 1920 é que Caima passou a produzir
comercialmente esse tipo de celulose, cerca de 600
toneladas por ano. Na Espanha, por volta de 1919,
foi fabricada pasta mecânica utilizando Eucalyptus
Capas do histórico livro O Eucalipto, de autoria do
globulus e Eucalyptus camaldulensis (150). engenheiro agrônomo Edmundo Navarro de Andrade
Na Austrália, a celulose de eucalipto começou a (Primeira edição, 1939, e Segunda edição, 1961)
112  | A EVOLUÇÃO TECNOLÓGICA DO SETOR DE CELULOSE E PAPEL NO BRASIL

TERCEIRA FASE: 1960 A 1979


(O surgimento das empresas exportadoras de celulose)

E
m 1960, o País já produzia mais de 70% oportunidades para as empresas brasileiras. Con-
de seu consumo aparente de celulose, tudo, o sucesso de sua aplicação exigiu aprendi-
baseando-se fundamentalmente na zado tecnológico industrial intensivo do novo
produção de celulose de fibra curta. processo e a sua adaptação às fontes brasileiras
Nesse período, surgiram os primei- de fibra virgem: a Araucaria angustifolia e, mais
ros excedentes exportáveis. No entanto, o País notavelmente, ao novo potencial celulósico pape-
continuava deficitário na produção de celulose leiro, que era o eucalipto (262).
de fibra longa (125). Em 1961, algumas empresas A aprendizagem da indústria como um todo
nacionais já produziam celulose para atendimen- das novas tecnologias de polpação a partir da dé-
to do mercado nacional, embora em quantida- cada de 1950 alavancou a participação da fibra
des reduzidas. Os produtos celulósicos em geral curta, composta praticamente apenas de eucalip-
eram obtidos de fibras longas ou curtas: Celulose to, partindo de uma produção total da celulose
Cambará, Champion, Klabin etc. (125). brasileira para uso no País de minúsculos 4% nos
Com a possibilidade de usar as reservas flo- anos 1950 para mais de 60% nos anos 1960 (262).
restais de eucaliptos, passou-se a pesquisar a pos- Além disso, numerosas novas instituições edu-
sibilidade de utilização do processo sulfato para cacionais, universidades e institutos de pesquisa se-
a obtenção de celulose branqueada. Dos bons torial, privados e públicos, começaram a contribuir
resultados obtidos em laboratórios e plantas pilo- com o setor de celulose e papel. Um importante
tos, nasceram as primeiras fábricas de celulose de marco foi a inauguração da primeira Escola Nacio-
eucalipto pelo processo sulfato ou Kraft: Suzano- nal de Florestas para ensino e pesquisa em ciências
-Feffer (início em outubro de 1957), Papel Simão florestais na atual Universidade Federal de Viçosa
(início de dezembro de 1957), Champion (início (antiga Universidade Rural do Estado de Minas
em janeiro de 1960) e Cícero Prado (início em Gerais), em 1960. Por razões diversas, em especial
agosto de 1961) (150). com as parcerias internacionais, o curso foi transfe-
A introdução da produção em larga escala de rido para a Universidade Federal do Paraná, porém
celulose sulfato de eucalipto propiciou grandes Viçosa decidiu também manter o curso, surgindo

Evolução na apresentação das folhas de celulose


De folhas úmidas e não embaladas para eventual uso doméstico até fardos embalados e secos orientados para mercados globais
SEGUNDA PARTE - A EVOLUÇÃO TECNOLÓGICA DOS  |  113
PROCESSOS DE FABRICAÇÃO DE CELULOSE E PAPEL NO BRASIL

outras universidades em curto espaço de tempo cisavam ser expandidas (65). O estudo apontava
para investir na educação florestal no Brasil. Muitas para a necessidade de se realizar novos investi-
outras lançaram cursos de engenharia florestal rela- mentos direcionados à implantação de fábricas de
cionados à silvicultura do eucalipto. As escolas trei- celulose capazes de atingir escalas de produção e
naram força de trabalho avançada, técnica e cienti- de gerar excedentes para exportação. Até aquele
ficamente, aceleraram a difusão do conhecimento e momento, o suprimento interno insatisfatório de
da tecnologia e melhoram os contatos internacio- celulose, aliado às dificuldades de produção de
nais para os brasileiros (262). celulose de boa qualidade em locais distantes dos
A partir da segunda metade de 1960, o BN- maciços florestais fez com que surgissem muitas
DES muda de atitude em relação ao setor de ce- unidades de pequeno e médio porte produzindo
lulose e papel (125). O fato marcante que possibi- celulose de qualidade inferior (125).
litou o Banco vir a conceder prioridade ao setor Houve a preocupação de se estabelecer escalas
ocorreu a partir de um estudo realizado pela de produção adequadas e com os objetivos de re-
empresa José Carlos Leone & Associados por su- duzir custos, aumentar a qualidade e produtividade,
gestão da Associação Paulista de Fabricantes de com a aplicação de técnicas mais modernas de ges-
Papel e Celulose (APFPC), para fazer um diag- tão. Foram estabelecidas, então, as condições para
nóstico sobre fábricas em operação no País. O merecer o apoio financeiro da instituição: que as
BNDES arcou com dois terços dos custos desse unidades de celulose deveriam ter a capacidade mí-
estudo, cabendo à APFPC a parte complementar. nima de 100 toneladas diárias e as máquinas de pa-
O trabalho levou dois anos para ser concluído (de pel deveriam ter capacidade mínima de 50 tonela-
1966 a 1967), sendo publicado em 1968 e, tornan- das diárias (65). A importância dessa medida pode
do-se, assim, o primeiro levantamento do setor ser compreendida quando se observa que o estudo
de celulose e papel do País (65). encomendado pela APFPC indicava que, em 1967,
O Banco, de posse das informações contidas apenas seis fábricas de celulose no País tinham ca-
nesse estudo, pôde estabelecer critérios para dire- pacidade produtiva maior que 100 t/dia (125).
cionar o seu apoio a partir do dimensionamento Outra exigência do Banco, como condição
adequado das novas fábricas e daquelas que pre- de apoio, era somente àqueles projetos de pro-

Da floresta plantada ao cliente de celulose de mercado...


Fatores-chave para o sucesso dessa rede industrial
114  | A EVOLUÇÃO TECNOLÓGICA DO SETOR DE CELULOSE E PAPEL NO BRASIL

dução de celulose que possuíssem parte cativa de celulose e papel. Este significativo aumento
de suprimento de madeira, estimulando-se, é explicado pelo apoio ao projeto Borregaard, o
dessa forma, atividades de reflorestamento e de qual teve uma grande importância para a evo-
manejo econômico das florestas, visando uma lução posterior de todo o setor. A dimensão do
fonte segura de matéria-prima renovável. Mais projeto (500 t/dia) mostrava, em primeiro lu-
tarde, o BNDES viria a colaborar na criação de gar, que o mercado mundial passava a apostar
uma política fiscal que estimularia a implanta- na evolução futura do mercado de fibra curta
ção de reservas florestais, junto ao Instituto Bra- de eucalipto e, em segundo lugar, evidenciava
sileiro de Desenvolvimento Florestal (IBDF), o a necessidade de apropriação das economias de
que impulsionou muito o crescimento das in- escala como fonte principal da competitividade
dústrias (65). O Programa de Incentivos Fiscais internacional (125).
ao Reflorestamento (PIFR), uma iniciativa do A formação de uma parceria dos setores pú-
Governo Federal, que permitia converter parte blico e privado para o desenvolvimento técnico
da dívida com o imposto de renda em projetos da indústria de base florestal teve como primei-
florestais estimulou, a partir de 1968 e por cerca ro exemplo o Instituto de Pesquisas e Estudos
de 20 anos, a produção de florestas plantadas Florestais (IPEF) estabelecido em 1968 A Es-
no País. Com isso, formou-se uma sólida base cola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz”
florestal para impulsionar a indústria de con- (ESALQ), da Universidade de São Paulo (USP).
versão da madeira em celulose, papel, painéis O IPEF surgiu e deu origem a uma joint-ventu-
de madeira, madeira tratada, madeira serrada, re em pesquisa e desenvolvimento desde a base
móveis etc. florestal até a indústria. O instituto caracterizou
Em 1966, surgiu o projeto da primeira em- um modelo para parcerias público-privada na
presa de grande porte para a produção de ce- área de P&D florestal e outras universidades se-
lulose de mercado para a exportação. Tratava- guiram este exemplo (264).
-se da Indústria de Celulose Borregaard S.A., No final dos anos 1960, os elementos ne-
subsidiária de uma firma norueguesa e que foi cessários para o rápido crescimento da in-
implantada com uma capacidade inicial de 500 dústria de celulose e papel no Brasil estavam
toneladas diárias de celulose de fibra curta. A prontos e alinhavados para implantação, in-
partir de 1967, houve o surgimento de três im- cluindo a tecnologia de produção em grande
portantes novos projetos com foco em reflores- escala de celulose sulfato, plantações florestais
tamento e visão futura de produção de celulose de espécies de eucalipto selecionadas, grupos
com a madeira: a Cia. Florestal Monte Doura- de trabalho tecnológica e cientificamente
do, que adquiriu as empresas controladoras da avançados, sistemas de inovação setorial am-
área do projeto Jari com a finalidade de colo- plo, capital e economia política vantajosa. A
car em prática um projeto de reflorestamento produção nacional de celulose de fibra curta
e posterior fábrica de celulose; a Aracruz Flo- estava aumentando rapidamente e a indústria
restal, que surgiu como uma empresa de pres- de papel poderia então, praticamente, elimi-
tação de serviços na área de reflorestamento, e nar a sua dependência da importação de celu-
a Florestas Rio Doce, controlada pela Cia. Vale lose, mantendo importações apenas para tipos
do Rio Doce. de celuloses especiais (262).
A partir de 1968, graças à prioridade dada Os anos 1970 vieram para causar uma revi-
pelo BNDES aos projetos no setor de celulose e ravolta no setor de celulose e papel, com o au-
papel, praticamente todos os grupos líderes do mento do valor das matérias-primas no merca-
setor obtiveram financiamento do Banco (125). do internacional e os choques provocados pela
No ano de 1968 foram destinados 10,7% alta do preço do petróleo (1973). O aumento
das operações aprovadas pelo Banco ao setor do déficit em conta corrente exigiu do País um
SEGUNDA PARTE - A EVOLUÇÃO TECNOLÓGICA DOS  |  115
PROCESSOS DE FABRICAÇÃO DE CELULOSE E PAPEL NO BRASIL

novo ciclo de substituição das importações e um de financiamento público e de vantagens fis-


maior volume de exportações. O primeiro gran- cais, à expansão da capacidade produtiva, à
de ciclo de investimentos no setor de celulose e formação de maciços florestais, à melhoria da
papel tem início com o segundo Plano Nacional eficiência e à melhoria da produtividade nas
de Desenvolvimento (II PND), e com o primeiro unidades fabris, visando o autoabastecimento
Plano Nacional de Papel e Celulose (I PNPC), e a inserção do País no cenário internacional.
durante o governo Geisel (1974-1979) (159). Como resultado dessa política, formaram-se e
Elaborado num momento de euforia da eco- consolidaram-se ao longo dos anos seguintes
nomia brasileira e de alta no preço da celulose as grandes empresas que existem hoje no setor,
no mercado internacional, o I PNPC previa a como Fibria, Klabin, Suzano, Cenibra, Celulose
instalação de 13 grandes plantas de produção de Riograndense, entre outras (159).
celulose e/ou papel até 1980, baseando-se num Com respeito à pesquisa relacionada à ma-
modelo tripartite com igual participação do Es- téria-prima fibrosa, alguns fatos interessantes
tado, capital privado nacional e capital privado aconteceram na década de 1970. Em 1973, a
estrangeiro. Contudo, somente cinco projetos Aracruz Florestal criou seu centro de pesqui-
chegaram a ser instalados, e coube ao Estado a sas, dada a necessidade de adaptação às condi-
responsabilidade pela maior parte do investi- ções ambientais encontradas no Espírito San-
mento (125). to, estado onde se situavam seus cultivos, que
Assim, novamente o governo, por meio do sofreram grandes problemas fitossanitários
BNDES, desempenhou um papel importante na no início das plantações, com o surgimento de
execução de investimentos no setor de celulose séria doença em suas florestas (o cancro do
e papel, proporcionando uma série de vantagens eucalipto). No ano de 1978 surgia a unidade
para as empresas do setor, como crédito subsi- da Embrapa, especializada em pesquisa flores-
diado de longo prazo, participação direta no ca- tal em Colombo, Paraná, a Unidade Regional
pital das empresas e auxílio à capitalização das de Pesquisa Florestal Centrosul, que na déca-
empresas privadas nacionais por intermédio de da de 1980 passaria a se chamar Centro Nacio-
programas especiais (125). nal de Pesquisa de Florestas (CNPF), e depois
Na década de 1970 começaram a operar Embrapa Florestas (244).
três grandes empresas produtoras de celulose A Escola Superior de Agricultura “Luiz de
de mercado: a Borregaard entra em operação Queiroz” (ESALQ), da Universidade de São
em 1972; a Celulose Nipo-Brasileira (Cenibra) Paulo (USP), já apresentava um departamento
é fundada em 1973 e inicia as operações em de Silvicultura e depois de Ciências Florestais,
1977; a Aracruz Celulose inicia suas operações desde o início dos anos 1960. Porém, a escola
em 1978, com uma capacidade de produção passou a contar com uma carreira de Engenha-
que representava, naquela época, 25% da ca- ria Florestal somente no início dos anos 1970.
pacidade nacional de produção de celulose de Em 1978, já apresentava seus primeiros resul-
fibra curta. Além disso, a Cia. Monte Dourado tados na pós-graduação em nível de mestrado
iniciou o processo para a importação do Japão florestal (244).
de uma fábrica para a produção de celulose de Do ponto de vista da transformação da ma-
fibra curta (125). deira em celulose, o Instituto de Pesquisas Tec-
O objetivo de fortalecer o empresariado nológicas do Estado de São Paulo (IPT), que
nacional, aliado a uma estratégia de integração desde a década de 1950 estudava as aplicações
competitiva, fizeram o governo realizar uma da madeira nativa para tal produção, passou a
injeção relevante de recursos no setor para os partir de meados dos anos 1970 a se concentrar
projetos considerados prioritários. A política nas pesquisas usando as fibras das árvores exó-
industrial incentivava e dava foco, por meio ticas, por meio do Centro Técnico de Celulose e
116  | A EVOLUÇÃO TECNOLÓGICA DO SETOR DE CELULOSE E PAPEL NO BRASIL

QUARTA FASE: 1980 A 1999


(A consolidação da indústria de celulose e papel no Brasil)

A
Papel (CTCP) (244). Por outro lado, a indústria de papéis não presen-
pesar de a economia brasileira ciou um ambiente tão favorável quanto à de celulose,
ter se estagnado durante a dé- uma vez que o principal mercado de papéis brasilei-
cada de 1980 – considerada por ros é o mercado interno, com exceção dos papéis para
muitos a década perdida (191) embalagem e impressão, fazendo com que a maior
– devido aos altos índices de in- parcela dos recursos destinada a fortalecer o setor de
flação e ao impacto da dívida externa (8), a in- celulose e papel fosse direcionada à indústria de celu-
dústria brasileira de celulose alcançou sua ma- lose de mercado. Entre 1982 e 1989, em média, 69,26%
turidade, consolidou-se e expandiu-se graças da quantidade produzida de papéis foi destinada para
à utilização do eucalipto como matéria-prima a venda doméstica e somente 14,54% para as expor-
que, há muito tempo, já era obtida por reflo- tações, as quais foram direcionadas, principalmente,
restamento (8; 125). A indústria brasileira era para a Europa. O restante (16,2%) foi direcionado para
então, nessa época, autossuficiente na produção o consumo próprio das empresas integradas a outras
de matéria-prima florestal plantada (125). atividades de conversão, impressão etc. (191).
A maturidade também se dava pelo domínio A crise econômica geral, que marcou esse pe-
da tecnologia e pela utilização de equipamentos de ríodo, não impediu que o BNDES continuasse a fi-
ponta. Esses equipamentos estavam compatíveis com nanciar investimentos no complexo de base florestal
o estado da arte da tecnologia mundial e integrados (125), representando nas décadas de 1980 e 1990, a
com a produção florestal (125). Esses dois fatores, o autorização de 98 operações financeiras ao setor de
eucalipto como matéria-prima e a adequada tecnolo- celulose e papel (8). Entretanto, diferentemente do I
gia produtiva, passaram a dar sólidas vantagens com- PNPC, lançado em 1974, o segundo Programa Na-
petitivas à indústria brasileira de celulose e papel (8). cional de Papel e Celulose (II PNPC), vigente nesse
A estagnação econômica na primeira metade da dé- período, não foi uma iniciativa do governo e, sim,
cada contraiu o mercado interno, fazendo com que do próprio empresariado setorial (125).
as empresas destinassem uma parte maior da produ- Elaborado em 1986, pela Associação Nacio-
ção para as exportações (159), pois a conjuntura de nal dos Fabricantes de Papel e Celulose (ANFPC),
mercado internacional era favorável, capitalizando o II PNPC (8) previa investimentos de cerca de
ainda mais as empresas do setor (186). US$ 9,6 bilhões para o período de 1987 a 1995, dos

Florestas de Eucalyptus e Pinus


Alicerces da atual indústria brasileira de celulose e papel, inclusive dos papéis reciclados, que também contêm fibras dessas matérias-primas
em suas composições
SEGUNDA PARTE - A EVOLUÇÃO TECNOLÓGICA DOS  |  117
PROCESSOS DE FABRICAÇÃO DE CELULOSE E PAPEL NO BRASIL

quais dois terços destinavam-se para a ampliação produtos acabados aos inúmeros mercados globais.
da produção de celulose. Além disso, incluiu tão No início dos anos 1990, um novo governo
somente uma programação de investimentos pro- tomou posse, definindo uma nova política indus-
dutivos sem contemplar um conjunto articulado trial no Brasil. Com um discurso fundamentado
de medidas como aconteceu na década de 1970. no neoliberalismo, essa política afastava o Estado
Na realidade, o principal objetivo do II PNPC era da participação mais efetiva no processo. Com o
favorecer a obtenção de linhas de financiamento objetivo de melhorar a competitividade do pro-
de longo prazo junto ao BNDES para viabilizar um duto nacional em relação ao importado, surgiu o
novo ciclo de investimentos (125). Programa de Incentivo a Competitividade Empre-
Na segunda metade dos anos 1980 registram-se sarial (PICE) – que impunha a melhoria na com-
novas adições na capacidade produtiva nacional do petição do produto nacional para fazer frente aos
setor de papel de impressão e escrita, sendo marcan- competidores globais. Com isso, as empresas brasi-
te para o período o início das atividades da Celpav, leiras obrigavam-se a melhorar a qualidade de seus
do Grupo Votorantim – futura Votorantim Celulose produtos e processos, assim como a aperfeiçoar a
e Papel (VCP), em 1988, e a Inpacel, do Grupo Ba- sua produtividade, eficiência e eficácia (186).
merindus, em 1989. Ambas se caracterizam pelo uso O setor de celulose e papel teve que se adaptar
dos cultivos de florestas incentivadas nos anos 1960 aos novos tempos, o que na prática significou pro-
e 1970, ou pelas aquisições de massas falidas de em- mover um esforço frenético em busca de compe-
presas do setor, em leilões promovidos pelo Estado. titividade, mantendo ativos apenas os setores que
Do ponto de vista tecnológico, a década de 1980 realmente pudessem agregar valor aos resultados
foi marcada pelo avanço na genética florestal. Os pro- gerais de cada empresa, cortando custos e despe-
cessos de seleção de materiais genéticos são, a partir sas, instalando novos sistemas e repensando pro-
de então, potencializados pela clonagem e hibridiza- cessos, por meio do que se chamava na época de
ção, em especial para o caso dos eucaliptos (244). reengenharia empresarial (250).
Com isso, o início da década de 1990 marcou Também no início dos anos 1990, houve uma
uma fase de grandes desembolsos do BNDES ao estagnação internacional do setor de celulose e
setor. Foi dentro do II PNPC, que se viabilizou a papel, comprometendo a saúde financeira de algu-
duplicação da capacidade da Aracruz Celulose e o mas empresas ao ponto de muitas delas terem que
projeto Bahia Sul Celulose, em que o BNDES en- encerrar suas atividades mesmo nos EUA, que era
trou com capital de risco (125), e projetos como considerado o mercado mais estável (8). Aliado a
o da Inpacel e da Pisa, entre outros (159). Na se- isso, para as grandes exportadoras, houve também
gunda metade da década, iniciou-se um novo ciclo a crise dos preços internacionais entre1995-1996,
de investimentos na modernização e ampliação da que se prolongou ao longo de 1997 (186).
capacidade produtiva na indústria (125). O setor de celulose representou, porém, uma
Com a implementação do II PNPC, a posição exceção a esse cenário de recessão econômica,
brasileira se consolidou no mercado internacional cujos motivos foram o preço competitivo da ma-
devido, mais uma vez, ao incentivo proposto no que deira das florestas plantadas com tecnologia bra-
diz respeito ao aumento da capacidade, à melhoria sileira e a desvalorização do real frente ao dólar.
dos padrões de qualidade, à uniformidade dos pro- A significativa desvalorização do real, em 1999,
dutos, à proteção ambiental, à melhoria do processo favoreceu o livre mercado, tornando as empresas
produtivo e à melhoria dos controles de processo, brasileiras do setor mais competitivas (8).
por intermédio da introdução de novos equipa- Aliado a isso, também, a qualidade da fibra
mentos e, consequentemente, do aumento da com- curta de eucalipto foi destaque na produção de
petitividade das empresas (159). Foram muito im- papéis absorventes (tissue) mais macios e papéis
portantes também: a modernização da logística de de impressão e escrita mais opacos. Ao serem
manuseio, transporte, estocagem e a destinação dos superados os obstáculos iniciais, o crescimento
118  | A EVOLUÇÃO TECNOLÓGICA DO SETOR DE CELULOSE E PAPEL NO BRASIL

dessa commodity foi vertiginoso nos anos seguin- prejuízos devido às flutuações de preços (191).
tes, conduzindo o Brasil às primeiras posições do Seguindo essa tendência internacional daquela
ranking mundial dos produtores de celulose. época, o segmento de celulose de mercado realizou
Outro fator que tornou a celulose de eucalipto um amplo processo de ampliações, fusões e aquisi-
mais competitiva foi a entrada em vigor das exigên- ções entre os maiores produtores brasileiros (Ara-
cias ambientais. A restrição ao consumo de pro- cruz, Cenibra, Klabin, VCP, Riocell e Bahia Sul), bem
dutos com cloro elementar devido à poluição dos como no caso do segmento de papéis. Basicamente,
efluentes líquidos, que também degradava as fibras, ocorreram as seguintes reestruturações durante esse
deu lugar a outros processos mais seletivos, pre- período da linha de tempo: a associação da Klabin ao
servando mais as propriedades físicas da celulose grupo americano Kimberly-Clark Corporation, com
(166). As empresas se adequaram fortemente às de- a finalidade de instalar uma fábrica de papéis descar-
mandas ambientais, obtendo as requeridas certifi- táveis na Argentina; a compra da Indústria de Papel
cações ambientais (ISO 14.001) e florestais – Forest Simão pela VCP, e a compra da Indústria de papel
Stewardship Council (FSC) e Sistema Brasileiro de Arapoti S.A. (Inpacel) e da Bamerindus Agroflorestal
Certificação Florestal (CERFLOR) –, entre outras. (BAF) pela Champion (191).
O Plano Real, iniciado em 27 de fevereiro de Importante ainda ressaltar durante esse pe-
1994, com a estabilização da economia, contendo a ríodo da linha do tempo o crescimento expressivo
hiperinflação até então presente, permitiu um cresci- das fábricas domésticas de papel que começaram
mento acelerado do mercado interno e a consequen- a se valer de fibras recicladas, obtidas a partir da
te recomposição da situação econômico-financeira crescente reciclagem de papéis usados, em especial
de algumas empresas nacionais, criando, assim, um papéis gráficos (livros, revistas, jornais), papelão
equilíbrio frente às dificuldades externas (186). ondulado e outros tipos de embalagens de papel,
Durante toda a década de 1990 houve uma ten- como cartões, sacos de papel etc.
dência mundial de concentração produtiva e reestru- O incentivo à reciclagem passou a ser uma das
turação patrimonial por meio de fusões e aquisições principais vertentes de uma cultura dos cidadãos que
entre grandes empresas, buscando sinergias para obter se fortaleceu a partir do grande evento internacional
redução de custos, aumento de escala e maior poder (Eco 92 ou Conferência das Nações Unidas sobre o
competitivo, frente aos grandes competidores globais, Meio Ambiente e o Desenvolvimento), promovido
concentrando as produções e diminuindo os riscos de pela Organização das Nações Unidas (ONU) e que
aconteceu na cidade do Rio de Janeiro, em 1992.

A reciclagem de aparas de papel passou a ser uma das mais significativas fontes de fibras para a indústria brasileira de papel
SEGUNDA PARTE - A EVOLUÇÃO TECNOLÓGICA DOS  |  119
PROCESSOS DE FABRICAÇÃO DE CELULOSE E PAPEL NO BRASIL

QUINTA FASE: 2000 A 2016


(Fusões, aquisições e megaprojetos)

S
papel em Piracicaba-SP à Oji Papéis Especiais (75).
eguindo a tendência já observada nos Além dessas mudanças em controles e dimen-
anos 1990, a quinta fase foi marcada sões de empresas surgiram novas plantas produtivas
por constantes mudanças. As empre- como é o caso da fábrica de celulose da Fibria em
sas tornaram-se cada vez mais concen- Três Lagoas-MS, que foi posta em funcionamento
tradas e dominadas por empresas com em março de 2009, com uma capacidade de 1,3 mi-
alta capacitação técnica e capacidades instaladas, lhão de toneladas anuais, já prevendo uma amplia-
via fusões e aquisições. Associadas a essas rees- ção da planta com uma segunda linha para produ-
truturações, foram construídas novas unidades ou zir adicionalmente 1,75 milhão de toneladas anuais.
linhas produtivas com tecnologias das mais avan- Desde 2009, em torno de 15% da celulose produzi-
çadas e disponíveis globalmente, as quais permiti- da por essa fábrica da Fibria está sendo convertida
ram grandes ganhos de escala (191). em papel pela International Paper em uma fábrica
Em 2003, para fazer frente ao aumento da de- de papel integrada onde as duas plantas (celulose e
manda por madeira superior à oferta, anuncia- papel) pertencem a grupos diferentes (264). Isto é
do pela indústria e pelo próprio governo como algo bastante interessante e já havia acontecido an-
“Apagão Florestal”, o Governo Federal lançou o tes com a Fibria na Unidade de Jacareí-SP, em que
Programa Nacional de Florestas, com o objetivo existe uma planta de fabricação de papel (Ahlstrom,
de ampliar o ritmo de expansão das plantações depois Munksjö), que pertencia à antiga VCP (67).
de árvores pelas empresas e ampliar a participa- Ainda em Três Lagoas, a empresa Eldorado Bra-
ção de pequenas e médias propriedades rurais nos sil Celulose construiu o que se classificou na época
plantios florestais. Essas propriedades, que já eram como a maior planta de celulose no mundo em uma
objeto de programas de fomento florestal do setor única linha de fibras, com capacidade de 1,5 milhão
privado, passaram a contar com financiamento de toneladas por ano, colocada em operação no final
público por meio de programas como o PRONAF de 2012. O suprimento de madeira para essas plantas
Florestal e PROPFLORA, além de programas pú- está sendo produzido na região circunvizinha (264).
blicos estaduais de fomento (230). E, finalmente, outros grandes projetos entra-
No final da primeira década do século XXI ram em operação nos últimos anos: a fábrica de
ocorreram movimentos de expansão e consolidação celulose da Suzano em Imperatriz-MA, em dezem-
significativos no Brasil como a incorporação da Ara- bro de 2013 (174) e o Projeto Puma da Klabin, em
cruz Celulose S.A. pela VCP. A Fibria, empresa resul- Ortigueira-PR, em 2016 (171). Dois projetos gran-
tante dessa fusão, que iniciou suas operações em se- diosos que, como seus recentes antecessores, re-
tembro de 2009, tornou-se a empresa líder mundial presentam uma evolução significativa do setor de
na produção de celulose de mercado. Por ocasião da celulose e papel brasileiro. Em adição a esses dois
fusão, o total previsto de produção anual de celulose grandes projetos, ocorreu também a entrada em ope-
pela megaempresa somava em torno de 5,2 milhões ração da ampliação da CMPC – Celulose Riogran-
de toneladas, o que correspondia a 38,9% do total dense em 2015, na cidade de Guaíba-RS, elevando
da produção brasileira. Esses números contemplam, a capacidade de produção da fábrica para cerca de
também, a participação da Fibria na Veracel (re- 1,8 milhão de toneladas de celulose de mercado.
tendo 50% da joint-venture com a Stora Enso). Em Do total de celulose produzida no Brasil em
2009, a Fibria vendeu sua planta de Guaíba à CMPC 2005, 51% eram exportados, sendo que em 2015
(empresa chilena) e, em 2011, sua quota de 50% na essa participação cresceu para próximo a 70%, in-
Conpacel (Limeira-SP) à Suzano (264) e a fábrica de dicando forte tendência do setor em atuar no mer-
120  | A EVOLUÇÃO TECNOLÓGICA DO SETOR DE CELULOSE E PAPEL NO BRASIL

cado externo (71). lução do mercado de papel (71). Apesar disso, com
No período entre 2005 e 2015, a produção bra- a entrada do Projeto Puma da Klabin, a celulose de
sileira de celulose cresceu a uma taxa de 5,9% ao fibra longa branqueada também começa a iniciar
ano. Nos últimos anos, o consumo interno tem seu trajeto como polpa de mercado no País.
refletido a grave crise econômica que interfere no No período de 2000 a 2015, a produção de pa-
País, com estagnação ou decréscimo do consumo. péis no Brasil cresceu cerca de 2,5% ao ano, acom-
Os projetos da Klabin Ortigueira (fibra longa) e da panhando o crescimento da demanda no mercado
Suzano (fibra curta) produzem também celulose doméstico. Nos últimos dez anos, o maior desta-
fluff para substituir a celulose atualmente impor- que de crescimento na indústria brasileira ficou
tada. A Suzano também começa a diversificar sua por conta dos papéis para embalagem e os para
atuação, passando a produzir não apenas celulose fins sanitários ou tissue (71).
de mercado e papéis de impressão e escrita, mas Devido às melhorias nas condições de higiene
também papéis sanitários, lignina e polpa fluff. e saúde em âmbito mundial e ao número cada vez
O Brasil tem se destacado no panorama in- maior de pessoas que saem das condições de po-
ternacional como o maior produtor de celulose breza absoluta, o consumo de papéis tissue deverá
de fibra curta branqueada para mercado, com a continuar crescendo em todo o mundo e especifica-
Bleached Hardwood Kraft Pulp (BHKP). A figura mente na América Latina, fato que irá impactar po-
51 a seguir mostra a produção dos principais fabri- sitivamente o aumento no consumo de BHKP (71).
cantes de celulose, com destaque para as empresas Mesmo com o baixo ou estagnado crescimen-
brasileiras e seus projetos de expansão (71). to da produção industrial brasileira, nos últimos
A produção de celulose no Brasil, como men- anos, as embalagens de papelão estão se manten-
cionado acima, tem se concentrado na expansão da do como um mercado promissor, atraindo in-
capacidade de BHKP de eucalipto para o mercado. vestimentos tanto em produção como em desen-
No caso dos demais tipos de celulose, a produção é volvimento e aumentando a competitividade em
quase toda integrada, tendo acompanhado a evo- relação aos demais materiais utilizados nas emba-

Figura 51: Principais produtores mundiais de celulose de mercado


(Fonte: Guia ABTCP de Fornecedores & Fabricantes. Celulose e Papel 2016/2017) (7)
SEGUNDA PARTE - A EVOLUÇÃO TECNOLÓGICA DOS  |  121
PROCESSOS DE FABRICAÇÃO DE CELULOSE E PAPEL NO BRASIL
122  | A EVOLUÇÃO TECNOLÓGICA DO SETOR DE CELULOSE E PAPEL NO BRASIL

A modernização tecnológica e empresarial no setor


SEGUNDA PARTE - A EVOLUÇÃO TECNOLÓGICA DOS  |  123
PROCESSOS DE FABRICAÇÃO DE CELULOSE E PAPEL NO BRASIL

CAPÍTULO 02
A EVOLUÇÃO TECNOLÓGICA DOS
PROCESSOS DE FABRICAÇÃO DE
CELULOSE E PAPEL NO BRASIL, POR
MEIO DA ANÁLISE E DA HISTÓRIA
TECNOLÓGICA DE ALGUMAS
EMPRESAS LÍDERES EM DIVERSOS DOS
PRINCIPAIS SEGMENTOS DO SETOR
CELULÓSICO-PAPELEIRO DO PAÍS

N
essa etapa serão apresentados da- dimensão, segmento de produto ou participação
dos históricos e tecnológicos de de cada empresa, tomando como base o surgi-
algumas empresas das quais a pre- mento das empresas com enfoque na produção
sença no setor de celulose e papel de celulose e/ou papel. Algumas dessas empre-
brasileiro contribuiu ou tem con- sas não mais existem, porém seu relevante papel
tribuído para o desenvolvimento tecnológico como instigadoras de desenvolvimento tecnoló-
nacional. Obviamente, não seria possível incluir gico merecem o justo destaque.
aqui todas as empresas cuja contribuição mol- Além de empresas produtoras de celulose e
dou o cenário tecnológico setorial porque tor- papel, foram também apresentadas duas empresas
naria esse trabalho muito extenso, mas as que nacionais fabricantes de máquinas e equipamen-
foram selecionadas para essa análise represen- tos e que tiveram significância histórica no País:
tam uma amostra significativa do que foi esse a Pilão e a Cavallari/Hergen, ambas pioneiras em
desenvolvimento. A sequência de apresentações suas atividades: equipamentos para preparação de
procura seguir uma ordem cronológica e não de massa e máquinas de papel, respectivamente.
124  | A EVOLUÇÃO TECNOLÓGICA DO SETOR DE CELULOSE E PAPEL NO BRASIL

COMPANHIA PAPEL DE na. Isso possibilitou a autossuficiência do País na


SALTO / FEDRIGONI PAPÉIS produção de seu próprio dinheiro. Os avanços
Por ocasião do desenvolvimento do café, coin- tecnológicos introduzidos na fábrica permitiram a
cidindo com a chegada de muitos imigrantes eu- produção de outros tipos de papéis de segurança.
ropeus, o Estado de São Paulo atingiu um grande Após passar por vários donos, nomes e mesmo
desenvolvimento industrial. Alguns grandes em- por arrendamentos, a empresa atualmente perten-
preendimentos surgiram, como é o caso de um ce ao Grupo Fedrigoni (Fedrigoni Brasil Papéis),
grupo de empreendedores de origem europeia, líder na produção e venda de papéis finos, papel
que construiu uma fábrica de papel em um local que moeda e produtos de segurança (225).
ficava às margens do Rio Tietê, na região de Itu. A
energia hidráulica utilizada para o funcionamento MELHORAMENTOS / MD PAPÉIS /
da máquina de papel era produzida por uma hi- CMPC MELHORAMENTOS
drelétrica movida pelas águas do rio. (213). Essa O progresso promovido pelo café fez com que
fábrica usava trapos como matéria-prima (178). surgissem alguns empresários dispostos a investir
A Companhia de Papel de Salto, fundada em no desenvolvimento industrial do Estado de São
1889, pelos irmãos Antônio e Carlos Melchert, foi Paulo. Um dos grupos de investidores que conduziu
uma das primeiras fábricas bem equipadas de que a construção de um conjunto fabril no estado tinha
se tem notícia no Brasil. Estava preparada para como expoente uma espécie de Barão de Mauá pau-
produzir papéis para impressos e para invólucros. lista, o Coronel Antônio Proost Rodovalho, que não
Entre os equipamentos que a fábrica possuía havia apenas sonhou, mas também trabalhou fortemen-
cinco holandesas para 500 kg cada, uma máquina te em favor de São Paulo (22). Em 1877, o coronel
contínua de papel, uma bobinadeira e uma calan- Rodovalho se uniu a alguns sócios para desenvol-
dra com dez cilindros para acetinar papel. Além ver uma empresa que pudesse, entre outras coisas,
disso, ainda havia dois picadores, um desfibrador propiciar melhorias para seus empregados, para o
de madeira e um digestor rotativo para 2,5 tone- Brasil e para o Estado de São Paulo. Essa empresa
ladas, o que mostra que a fábrica também estava ficou conhecida nacionalmente como Companhia
aparelhada para fabricar celulose (141). Melhoramentos de São Paulo, localizada na cidade
Na edição do dia 19 de setembro de 1889, o de Caieiras, nesse estado (140).
jornal Imprensa Ytuana (Itu, São Paulo), noticiava No início, a Melhoramentos produzia mate-
a entrada em funcionamento da “primeira máqui- rial para construção (cal e cerâmica – tijolos e
na de papel de grande porte”, do tipo Fourdrinier, telhas), mas, em pouco tempo, dava vazão à sua
instalada em território nacional: “Effectou-se no vocação ao pioneirismo, tornando-se a primeira
dia 16, pelas 10 horas da manhã, a inauguração da empresa brasileira a fabricar papel em grande es-
primeira fábrica de papel na Villa do Salto de Ytu, cala industrial e caráter permanente (15). O País
pelos Srs. da Melchert & Cia” (204). dependia da importação de papel e Rodovalho
Em 1897, a então Cia. Papel de Salto é adqui- desejou atender às necessidades paulistas e brasi-
rida pelo general Couto de Magalhães e por Leo- leiras do setor (22).
poldo Couto de Magalhães, recebendo na época a Dessa forma, a Cia. Melhoramentos deixou
denominação de Fábrica de Papel Paulista (8). No de lado a produção destinada à construção e
início, a empresa fabricava vários tipos de papéis, concentrou-se na fabricação de papel, adquirin-
mas no futuro tornar-se-ia a maior fabricante de do máquinas e tecnologia, construindo também
papéis de segurança da América Latina (204). a primeira vila para a residência do pessoal. Foi
Em 1978, a então empresa Indústria de Papel pioneira também na ideia de usar o refloresta-
de Salto iniciou a fabricação do papel moeda no mento como fonte de fibras e de combustível.
Brasil, tornando-se, assim, a única produtora de Em função da atividade inicial, que tinha sido a
papel para cédulas de dinheiro na América Lati- produção de cal, o povo da região chamou-a de
SEGUNDA PARTE - A EVOLUÇÃO TECNOLÓGICA DOS  |  125
PROCESSOS DE FABRICAÇÃO DE CELULOSE E PAPEL NO BRASIL

Caieiras, nome que foi adotado pelo município Segunda Guerra Mundial, que impediria o forneci-
onde está a fábrica. Em 1887 foi produzido papel mento dessa matéria-prima, a Cia. Melhoramentos
experimentalmente, mas a partir de 1890 a Cia. resolveu construir sozinha a fábrica de celulose (22).
Melhoramentos se tornaria uma das principais Foi feita uma pesquisa sobre as tentativas de se
produtoras de papel do País (22). obter celulose de fibra longa no País, onde bambu
Quanto ao maquinário, a Cia. Melhoramen- e Pinus foram considerados. Para ganhar tempo, a
tos possuía duas máquinas de papel contínuas companhia plantou a araucária ou pinheiro brasi-
com 1,84 metro de largura e velocidade de 40 m/min, leiro. Hasso Weiszflog foi à Europa buscar conhe-
com capacidade de produzir até 6 toneladas diárias cimentos tecnológicos relacionados ao cozimen-
de papel. Além desses equipamentos, possuía ainda to da madeira. Em Caieiras, foi dado o início às
dois trituradores de madeira, dois classificadores, instalações justamente na época em que a guerra
cinco amalgamadores, quatro cubos para misturar a paralisava o tráfego internacional de muitas mer-
massa e duas prensas hidráulicas que funcionavam cadorias, entre elas a celulose (22).
movidas por força hidráulica de 350 CV (141). Assim, depois de muitas dificuldades, a Cia.
No ano de 1921, a Weiszflog Irmãos, empresa Melhoramentos iniciou, em 1943, a produção
que se dedicava às atividades gráficas e editoriais, de celulose alvejada, pelo processo sulfito ácido,
assumiu o controle acionário da Cia. Melhoramen- utilizando coníferas e eucaliptos alternadamen-
tos. Englobando-se a produção gráfica e editorial ao te, passando a produzir 15 toneladas diárias em
setor de papéis, concretizou-se o desenvolvimento 1949; 35 toneladas diárias em 1953 e 75 tonela-
da empresa, impulsionado por iniciativas pioneiras das diárias a partir de 1963 (183; 184). Para re-
e apoiado no slogan: “Do pinheiro ao livro”. duzir os problemas de poluição hídrica resultante
Em Caieiras, a Cia. Melhoramentos desen- da lixívia residual foi instalada uma espécie de
volveu a produção, reflorestou, criou variedades biorrefinaria para produção de lignossulfonatos,
de produtos e ofereceu, de forma pioneira, papéis que se denominou Melbar Produtos de Lignina.
para documentos, livros, cadernos, serpentina e A celulose de eucalipto era utilizada para a
confete para o carnaval, papel crepom para sacos fabricação de papel higiênico. A partir de 1960,
de cimento, coador para café e chá, papel para car- a fábrica conseguiu também produzir celulose de
tas de baralho etc. (22; 140). eucalipto branqueada, ótima para papéis de im-
Foi a primeira empresa a fabricar papel higiê- pressão e escrita. O escritor Pietro Maria no seu
nico no País. Como era um produto novo, que as livro, A Madeira desde o Pau-Brasil até a Celulose,
pessoas não estavam habituadas a usar, foram ne- na página 92, salientou: “a utilização de celulose de
cessárias palestras educacionais bancadas pela em- fibra curta de eucalipto na produção de papel para
presa para divulgar o papel higiênico. O resultado imprimir representou a maior contribuição brasi-
foi considerado bom e, aos poucos, as pessoas fo- leira para esta indústria” (22).
ram se acostumando ao produto até considerá-lo Durante os anos 1970, em função de novas exi-
imprescindível (22). gências ambientais, a empresa resolveu optar por
Nos primórdios da empresa, com as crescen- um novo processo de fabricação de celulose. Tra-
tes solicitações do mercado e as dificuldades in- tava-se da produção de pastas Thermo Mechanical
ternacionais, a Cia. Melhoramentos sentiu crescer Pulp (TMP) ou Chemi-Thermo-Mechanical Pulp
a necessidade de produzir celulose. A diretoria da (CTMP). Após testes com madeiras disponíveis na
empresa considerou que não poderia continuar Cia. Melhoramentos, em laboratórios e em plan-
dependente do exterior, uma vez que a cada ano ta piloto, foi tomada a decisão de construir a pri-
as importações aumentavam. Durante anos tentou meira fábrica de celulose TMP/CTMP destinada
obter do governo, via associação dos fabricantes de a disponibilizar fibras para a fabricação de papéis
papel, ajuda para implantar uma fábrica de celulo- absorventes (tissue); as operações dessa fábrica de
se. Como não houve apoio e com a aproximação da celulose aconteceram em início dos anos 1980 (22).
126  | A EVOLUÇÃO TECNOLÓGICA DO SETOR DE CELULOSE E PAPEL NO BRASIL

É interessante salientar aqui que a Cia. Melho- A história da Klabin S/A, anteriormente, In-
ramentos fabricava papéis para impressão, papéis dústrias Klabin do Paraná de Celulose (IKPC), ini-
especiais e papéis absorventes. No ramo de papéis cia em 1899, quando a família Klabin-Lafer (nomes
especiais, a empresa se uniu a MD Papéis em 1972, diferentes, mas, na verdade, a mesma família) inau-
formando a Meliorpel. A Cia. Melhoramentos reti- gura suas atividades no setor de papel, fundando a
rou-se da sociedade em 1978. A fábrica, as máqui- empresa Klabin Irmãos e Cia., em São Paulo (134).
nas de papel e 139.077 m² de área fabril foram ven- No início, dedicaram-se à importação de material
didas a MD Papéis, constituindo-se então a MD de escritório e ao setor de tipografia. Entretanto,
Nicolaus (179). Assim, e a partir de então, a Cia. em 1906 arrendaram a Fábrica de Papel Paulista,
Melhoramentos deu enfoque exclusivo à produção em Salto, marcando a entrada da família Klabin na
de papel tissue (22). era industrial (8). Era uma fábrica pequena, com
Durante muitos anos, a empresa utilizou como capacidade anual de 700 toneladas (147).
matéria-prima fibrosa as fibras longas de conífe- Em 1909, a Klabin cria mais uma empresa, que
ras, principalmente Pinus patula, Cunninghamia se tornou histórica para o grupo, a Companhia Fa-
lanceolata, Araucaria angustifolia e Cupressus lu- bricadora de Papel (CFP) (147), instalada na Pon-
sitanica. Essas árvores eram bem adaptadas ao te Grande, à margem do Rio Tietê (178). A CFP,
processo sulfito ácido, inicialmente utilizado na indústria moderna para os padrões da época, era
produção de celulose. A partir de 1985 iniciam-se equipada com máquinas importadas da Europa e
os testes para a substituição integral dessas madei- possuía pessoal técnico especializado em monta-
ras por eucalipto, cujos resultados, tendo como gem, operação e fabricação (147). Esta indústria
enfoque os papéis tissue foram surpreendentes. trabalhava com celulose importada, que em alguns
A aquisição de instalações da Kimberly-Clark no casos era misturada com polpas obtidas de trapos,
Brasil, em 1994, mostrou a opção da empresa pela aparas e pastas feitas de vários materiais (bagaço
fabricação de tissue. Essa aquisição permitiu à em- de cana, lírio, madeira e tecidos) (141). Posterior-
presa, inclusive, entrar no mercado de folha dupla mente, essa fábrica veio a se chamar Klabin Fabri-
e produtos da linha institucional (22). cadora de Papéis S.A. (134).
Em 2009, a Cia. Melhoramentos vende sua uni- Embora naquela época não existisse uma
dade de tissue, denominada Melhoramentos Papéis, política adequada ao setor de fabricação de papel,
ao grupo das empresas Compañía Manufacturera a indústria papeleira crescia, mas crescia com
de Papeles y Cartones (CMPC S.A.), com sede no dificuldade. A matéria-prima era importada e o
Chile, e que faz parte de uma holding controlada governo não dava isenção aos artigos estrangeiros.
pelo Grupo Matte. A nova denominação da empre- Isso criava uma série de obstáculos ao crescimento
sa passa a ser CMPC Melhoramentos (182). do setor (147). Depois de vários anos gastos para
A Cia. Melhoramentos continua sua produção superar as dificuldades inerentes à introdução de
de pastas de alto rendimento a partir de florestas uma indústria nova, Maurício Klabin começou
plantadas de Eucalyptus e Pinus por meio de sua a sonhar com uma fábrica de celulose. Com essa
empresa afiliada Melhoramentos Florestal, em Ca- finalidade, realizou experiências com eucalipto,
manducaia-MG, tornando-se a maior produtora bambu, palmeiras e até capim (178). Nessa ocasião,
independente nesse segmento no Brasil. em que quase ninguém considerava o refloresta-
mento como sendo necessário, ele já compreendia
KLABIN a sua importância. Várias florestas de eucalipto fo-
A Klabin, uma das maiores produtoras e ex- ram plantadas por ele em São Paulo (178).
portadoras de papéis do Brasil, é líder na produ- Maurício F. Klabin faleceu em 1923, em Heil-
ção de papéis e cartões para embalagens, emba- delberg, na Alemanha, onde estava em tratamento
lagens de papelão ondulado, sacos industriais e de saúde. Não pôde realizar o seu desejo de cons-
celuloses de mercado. truir uma fábrica de celulose, mas as empresas
SEGUNDA PARTE - A EVOLUÇÃO TECNOLÓGICA DOS  |  127
PROCESSOS DE FABRICAÇÃO DE CELULOSE E PAPEL NO BRASIL

fundadas por ele continuaram a prosperar. Em criada uma usina hidroelétrica para fornecer ener-
meados da década de 1920, a empresa Klabin se gia à fábrica (157).
destacava como uma das maiores do setor papelei- Em 1946 iniciou-se a produção de celulose
ro nacional (147). Como exemplo, em 1926, a Kla- sulfito e pasta mecânica e, em seguida, a fabrica-
bin produzia 54 toneladas diárias de papel, repre- ção de papel. Foram apenas 50 toneladas em 1947,
sentando 31% de toda a produção nacional. Com mas estava dado o passo mais importante para que
isso, o Estado de São Paulo passava a produzir 44% a Klabin viesse a se tornar a maior produtora inte-
do total nacional, ultrapassando o Rio de Janeiro, grada de papel e celulose da América Latina (147).
então Distrito Federal (244). A partir desse ano, o Brasil passa a utilizar papel
Na década de 1930, coincidindo com o início imprensa nacional. Na edição do dia 27 de setem-
da industrialização do País, a Klabin já era uma só- bro de 1947, o Jornal do Commércio do Rio de
lida empresa. Com o objetivo de reduzir a depen- Janeiro assinala com destaque: “Toda a edição de
dência da celulose importada, a Klabin retomou as hoje é publicada em papel nacional fabricado pela
pesquisas que visavam produzir essa matéria-pri- Klabin. O Brasil entra, assim, para a lista dos países
ma, com enfoque agora na madeira de araucária capazes de produzir em larga escala papel para a
(Araucaria angustifolia; também conhecida no sul sua imprensa. É-nos grato, registrar nosso aplauso à
do País como pinheiro-do-Paraná) que era abun- Klabin, no momento em que pela primeira vez em
dante nos estados do Sul (134). seus 120 anos de publicação, o Jornal do Commércio
Em 1934, a Klabin deu um salto decisivo. Wolf se imprime em papel nacional”.
Klabin e Horácio Láfer eram muito amigos de As- Além de usar a araucária para obtenção de fi-
sis Chateaubriand, que se preocupava com o fato bras para a fabricação de papel, em seguida a Kla-
de os jornais no Brasil dependerem da importa- bin introduziu o uso regular de espécies exóticas
ção de papel. Chateaubriand, então, intermediou como o Pinus ou pinheiro (Pinus spp.) e o eucalip-
o contato com o presidente Getúlio Vargas, que se to (Eucalyptus spp.). Na época, a produção em lar-
interessou em promover a criação de uma fábrica ga escala da Klabin colocou o Brasil no mapa dos
de papel imprensa (147). Foi nesse ano, então, que produtores de celulose, aproveitando a vantagem
a Klabin Irmãos & Cia. adquiriu a Fazenda Mon- natural de nosso País de oferecer solos adequados
te Alegre no interior do Paraná, às margens do e um ótimo clima para o rápido crescimento das
Rio Tibagi, que representava uma extensa área de árvores (147).
144.000 hectares (134), com uma extensa reserva Como primeiro projeto de expansão, em 1958
de araucárias (157). Essa área seria utilizada para foi instalada uma fábrica de celulose kraft e uma
formar a base florestal necessária para a produção caldeira de recuperação (134). Este feito repre-
de celulose, constituindo-se num dos maiores pro- sentava um marco porque se tratava da primeira
jetos florestais privados do mundo (147). Em 1934 caldeira de recuperação da América do Sul, e, a
nascia a empresa Klabin do Paraná de Celulose, primeira fábrica brasileira de celulose kraft (natu-
depois rebatizada em 1941 como Indústrias Klabin ral e branqueada) a utilizar, com sucesso, madeiras
do Paraná de Celulose (IKPC) (134). mistas. Isso porque as florestas nativas de araucá-
Assim começaram os trabalhos de infraestru- ria eram limitadas em oferta e os reflorestamen-
tura e instalação industrial (134), sendo que de tos com Pinus e eucalipto se desenvolviam bem,
1941 a 1946, apesar das dificuldades impostas pela embora ainda não tivessem atingido sua plenitude
localização, conseguiu-se erigir a primeira fábrica (157). O segundo projeto de expansão, em 1960,
brasileira, que produzia papel imprensa, celulose deu origem à subsidiária Papel e Celulose Catari-
sulfito (157), pasta mecânica, cartolina, cloro e nense S.A., localizada em Correia Pinto-SC (38).
soda cáustica. A celulose sulfito e a pasta mecânica Com o projeto de expansão seguinte, entre 1960
serviam como matéria-prima para a fabricação do e 1963, foi instalada a máquina de papel núme-
papel imprensa (147). Com o projeto, foi também ro 6, elevando a produção de papel imprensa para
128  | A EVOLUÇÃO TECNOLÓGICA DO SETOR DE CELULOSE E PAPEL NO BRASIL

100.000 toneladas anuais. O quarto projeto, iniciado estimula boas relações com a comunidade (148).
em 1975 e concluído no segundo semestre de 1979, Atualmente, a Klabin está dividida em quatro
constituiu-se num grande programa de moderniza- áreas de negócio: florestal (matéria-prima para a
ção. A produção da fábrica foi elevada inicialmen- produção de celulose e comercialização de toras
te de 660 para 1.000 toneladas diárias, chegando a de madeira para serraria e laminadoras), celulo-
meados da década de 1980 a 1.500 toneladas diá- se (celulose de fibra curta, celulose de fibra longa
rias. Com esse projeto, a fábrica de Monte Alegre e celulose fluff), papéis (papel kraft, papel cartão
tornou-se a maior unidade integrada de celulose e e papel reciclado) e conversão (embalagens de
papel da América Latina, com nível de escala igual papelão ondulado e sacos industriais) (148). A
ao das maiores fábricas do exterior (134). maior parte da celulose produzida pela empresa
A máquina número sete (MP-7), instalada em é utilizada nos próprios papéis que fabrica, sen-
1979, foi uma das primeiras máquinas no Brasil a do que o excedente é comercializado em parceria
ser controlada por computadores e produzia 700 com outras empresas (171).
toneladas diárias de papel kraftliner, utilizado na
fabricação de caixas de papelão ondulado no País • O Projeto MA-1100
e no exterior (134). Desde quando se iniciou em 1934 até o século
No início dos anos 1980, das necessidades XXI, a fábrica da Klabin em Monte Alegre passou
energéticas da fábrica, cuja carga média atingia 80 por diversas mudanças de tecnologias e processos
MW, 70% eram provenientes de geração própria. industriais. O projeto de expansão MA-1100 de
A partir de 1983, a empresa substituiu os combus- 2006 possibilitou a reestruturação dos trabalhos e
tíveis derivados de petróleo por biomassa florestal a organização da empresa para a realidade atual de
e carvão mineral, parte do qual é extraído de mi- competitividade industrial. As metas arrojadas da
nas localizadas na Fazenda Monte Alegre. Sempre Klabin, que em 2003 passou por uma reestrutura-
atento à preservação ambiental, o grupo contava já ção e anunciou que iria alcançar uma produção de
com eficiente sistema de tratamento de efluentes. 2 milhões de toneladas de papéis por ano, foram
No primeiro semestre de 1986 havia concluído um o grande impulso para que o projeto MA-1100 se
novo sistema de tratamento secundário com a ins- tornasse realidade (69).
talação de filtro biológico (134). Além da compra de uma nova máquina de
No final da década de 1980, a Klabin possuía as papel, houve uma reestruturação da antiga plan-
seguintes empresas controladas: Klabin Fabricado- ta, incluindo nova linha de preparo de madeira,
ra de Papéis (papéis para fins sanitários, papéis es- novas caldeiras de biomassa e recuperação e sis-
peciais), Papel e Celulose Catarinense (papel kraft, tema de ultrafiltração, e unificação dos controles.
celulose fluff), Celucat (sacos de papel, envelopes), Todas as mudanças foram feitas com a empresa
Papelão Ondulado do Nordeste (papel, caixas de em funcionamento, sem deixar de fornecer pro-
papelão ondulado), Riocell (celulose para papel, dutos ao mercado durante os dois anos de execu-
celulose solúvel) e Cia. Papeleira do Sul (papéis ção do projeto (69).
para impressão e escrita) (134). A partir do final O grande destaque do projeto de expansão da
da década de 1990, a Klabin resolveu dar enfoque, companhia, chamado de MA-1100, foi a chegada
principalmente, ao ramo de embalagens, deixando da máquina de papel n.º 9 (MP9), capaz de produ-
de ter participação societária em algumas empre- zir 350.000 toneladas de papéis por ano. Com ela, a
sas como a Riocell, Bacell etc. (171). unidade passou a ser a décima fábrica de papel do
A Klabin foi a primeira no setor de celulose e mundo, com capacidade de produzir 1,1 milhão de
papel no Hemisfério Sul a obter, em 1998, a certifi- toneladas anuais de papéis para embalagens. Toda
cação florestal Forest Stewardship Council® (FSC®), uma nova ala da fábrica precisou ser construída
que atesta uma gestão que conserva os recursos na- para abrigar o equipamento, que possui 250 m de
turais, proporciona condições justas de trabalho e comprimento (69).
SEGUNDA PARTE - A EVOLUÇÃO TECNOLÓGICA DOS  |  129
PROCESSOS DE FABRICAÇÃO DE CELULOSE E PAPEL NO BRASIL

A MP9 foi projetada para ser uma das máquinas Depois dessa calandra, a seção de revestimento
de papel cartão mais modernas do mundo, sendo possui três aplicadores. O primeiro deposita uma
capaz de produzir Folding Box Board, Carrier Board camada de tinta na parte superior e aplica amido
e Liquid Packaging Board (LPB), este último utiliza- na inferior; o segundo aplicador forma uma nova
do na fabricação de embalagens longa-vida para ali- camada de tinta apenas, mediante aplicador de
mentos líquidos e pastosos. A nova máquina, forne- jato-lâmina. Na última parte, é aplicada uma ter-
cida pela Voith, desenhada para produzir papel de ceira camada de tinta na superfície branca. Toda
múltiplas camadas, foi inspirada na MP7, também essa configuração permite melhorar a impressão
em operação na unidade Monte Alegre (69). da embalagem final (69).
A MP7, que na época já estava em operação há A MP9, além do que já foi falado, também
30 anos, começou produzindo kraftliner e depois conta com uma nova geração totalmente nova de
deu início à fabricação de cartões. Passou por uma equipamentos, tendo um sistema de passamento
série de reformas durante todos esses anos e foi de ponta da folha mais eficiente, além do apoio da
nela que a Klabin desenvolveu seu conhecimento operação e ferramentas de controle mais eficazes,
tecnológico nesse ramo de papéis. Por isso mesmo, como um sistema de monitoramento de quebras.
a MP7 serviu de base para a nova máquina de de- Além dos três tipos de cartão, a MP9 pode fabricar
senho parecido, mas com uma geração totalmente kraftliner se necessário for (69).
nova de componentes e sistemas de controle (69). A linha de processamento de madeira, proje-
A seção de preparação de massa é tradicional. tada pela Metso, é composta por um descascador,
A MP9 produz cartões com três camadas. Para picador, sistema de classificação de cavacos e sis-
isso, possui três caixas de entrada e três mesas tema de transporte. Essa linha comporta 40% da
de formação. A MP7 possui apenas duas caixas produção total da fábrica e é capaz de processar
de entrada e duas mesas de formação. A camada 3 milhões de m3 de madeira por ano. Para se ter
superior é branca, feita de celulose branqueada uma ideia das dimensões dos equipamentos, o tam-
de fibra curta, e a de baixo, marrom, feita a partir bor descascador possui 5,3 metros de diâmetro, 35
de fibra longa com número kappa 80. Já a camada metros de comprimento e cerca de 260 toneladas de
do meio é feita de uma mistura de fibras, ao custo peso. Com essas características, o equipamento pode
mais baixo possível e com a rigidez necessária. A descascar toras de comprimento entre 2,40 e 7,20
composição dessa camada intermediária foi de- metros com diâmetros de 8 a 45 centímetros (69).
senvolvida ao longo dos anos. Nesse projeto ainda Com a introdução da nova linha, a unidade
foi utilizada a tecnologia CTMP de pastas de alto Monte Alegre passou a contar então com quatro li-
rendimento (69). nhas de produção de madeira que somadas são ca-
O setor de prensas é praticamente igual ao pazes de processar 370 m3 sólidos de madeira com
já utilizado na MP7, com duas prensas de sapata casca por hora, sendo que somente a nova linha
e uma alisadora. Na MP7, havia uma de sapata e é responsável por 82,43% desse total de madeira
uma de sucção. A prensa alisadora, que não é co- processada. Outro fator importante é que o novo
mum nesse tipo de máquina, serve para um pri- equipamento permite a obtenção de um cavaco
meiro tratamento superficial na folha, na camada muito uniforme, o que gera rendimento maior no
superior do papel (69). digestor e, consequentemente, maior qualidade da
A secagem ocorre da forma tradicional, com celulose (69).
64 cilindros secadores. Para finalizar, foi monta- No estoque de cavacos é possível observar
da uma calandra com rolos de aço, de nips duros. uma grande pilha circular. Do alto, os cavacos são
Isso também foi um aprendizado com a MP7, pois lançados à pilha como “chuva”, moldando o mon-
nela havia sido usado calandra de rolos macios e te, que pode chegar a 43.000 m3. Braços móveis do
foi identificado que os rolos duros trazem melhor equipamento no chão movimentam o estoque e
resultado para o perfil da folha (69). uma esteira passa sob o equipamento, levando a
130  | A EVOLUÇÃO TECNOLÓGICA DO SETOR DE CELULOSE E PAPEL NO BRASIL

matéria-prima diretamente para a fábrica. O mo- tamento de efluentes, sendo que a grande novida-
delo de stacker reclaimer (empilhador – recupe- de ficou por conta de uma planta de ultrafiltração,
rador), agora usado na Klabin de Monte Alegre, fornecida pela Centroprojekt, que é a maior uni-
permite a prática do First in, First out (FIFO), dade desse tipo de processo do segmento de ce-
que faz com que os primeiros cavacos que che- lulose e papel. Essa planta possibilitaria à Klabin,
gam à estocagem sejam os primeiros a seguirem em futuro, reutilizar grande parte de seu efluente,
para a produção de fibras, mantendo o estoque possibilidade que estava em estudos por ocasião
sempre renovado (69). do início da planta (69).
Na parte energética, uma das grandes transfor- A ultrafiltração é um processo que faz com
mações dentro da Klabin Monte Alegre foi a che- que o efluente passe por uma membrana dotada de
gada de uma moderna caldeira de biomassa. Essa microporos, com diâmetro de 0,025 micrômetros
caldeira permite aproveitar os resíduos florestais e (25 nm). Com isso, praticamente tudo fica retido:
cascas, que eram descartados do processo, geran- bactérias, sólidos suspensos, areia, finos fibrosos e
do energia e substituindo o óleo, anteriormente giárdia, além de vários tipos de coloides e vírus.
usado. A capacidade dessa caldeira é tal que, além Estes capilares ficam dispostos em tubos que retêm
de utilizar os resíduos florestais da fábrica, a Kla- a sujeira. Para manter seu funcionamento, o sis-
bin está também comprando resíduos de empresas tema realiza uma contralavagem a cada 25 minu-
madeireiras da região, que antes eram descartados. tos, e uma vez por dia é feita uma limpeza química
A caldeira produz até 250 toneladas de vapor por com ácido sulfúrico e hipoclorito de sódio (69).
hora, numa pressão de 100 bar e temperatura de Com a ultrafiltração, e de acordo com testes
500 ºC. Esse nível de pressão é um dos mais altos realizados pela Klabin, a água enviada para o Rio
do mundo para fábricas de celulose e papel, sendo Tibagi apresenta apenas um miligrama por litro de
possível pela tecnologia da Austrian Energy, for- concentração de matéria orgânica biodegradável
necida no projeto pela espanhola Babcock (69). – expressa como Demanda Bioquímica de Oxigê-
Com o crescimento da produção de papel, a nio (DBO). O rio possui concentração média de
planta precisou aumentar também a capacidade de 3 miligramas por litro. Outras características dos
produção de celulose, gerando mais licor preto re- efluentes, como cor, turbidez e sólidos suspensos,
sidual. Para manter o circuito fechado foi instalada são também inferiores às mostradas pelo rio. Essa
uma caldeira de recuperação química trabalhan- tecnologia permite que a empresa trabalhe com
do, na mesma pressão, 100 bar. A planta industrial, algo como 60% abaixo dos limites de parâmetros
que queimava 2.000 toneladas de sólidos secos por ambientais estabelecidos pela legislação (69).
dia antes do projeto, passou a queimar 1.700 tone- Na etapa primária do tratamento foi incluído
ladas a mais (69). um clarificador, e o sistema de limpeza das caixas
Como consequência, o tratamento de gases de areia passou a ser automático. No primeiro es-
precisou aumentar, para diminuição do odor. tágio do processo biológico, o sistema anterior foi
Para isso, foi colocado em operação um incinera- transformado em dois: um seletor aeróbico e um
dor de gases, também focado no aproveitamento Moving Bed Bio Reactor (MBBR), reator em cons-
energético. Os gases quentes são enviados para tante movimento, que suporta o desenvolvimento
uma caldeira que aproveita a temperatura para a dos microrganismos. Também foi construído ou-
geração de mais vapor no sistema, algo inovador tro tanque de lodo ativado com o dobro do tama-
no setor (69). nho do anterior, com capacidade para 26.000 m3.
Do total investido no projeto, R$ 300 milhões Saindo dessa etapa, o efluente vai para o decanta-
destinavam-se às melhorias ambientais, já que a dor secundário. Chega ao resfriamento com 50 ºC
Klabin decidiu não aumentar sua geração de re- e passa por um sistema movido a ar comprimido
síduos, apesar do grande aumento de produção. para que seja devolvido ao rio com menos de
Desse montante, R$ 70 milhões foram para o tra- 40 ºC (69).
SEGUNDA PARTE - A EVOLUÇÃO TECNOLÓGICA DOS  |  131
PROCESSOS DE FABRICAÇÃO DE CELULOSE E PAPEL NO BRASIL

Uma das grandes mudanças na área de coor- em seu segmento de embalagens. O fator a moti-
denação de equipamentos foi a criação de uma var o projeto era o interesse em ter matéria-prima
sala de controle que une toda a produção. A fá- para um futuro crescimento da companhia em seu
brica antes tinha seis salas de controle que, ago- principal segmento de atuação – algo permitido
ra, estão centralizadas no mesmo espaço. Da sala pelo planejamento florestal da Klabin, que já vinha
totalmente informatizada, com monitores reple- utilizando toda a sua capacidade de celulose (171).
tos de gráficos, são controladas duas caldeiras de Por trás do portfólio inovador de produção,
recuperação, duas caldeiras de biomassa, quatro contudo, há planejamentos comerciais e estra-
turbogeradores, dois digestores de celulose, uma tégicos distintos. A Klabin, no que diz respeito à
planta de branqueamento, uma planta química e comercialização de fibra longa, tem como meta
uma planta de CTMP, além de todo o sistema de apresentar-se como alternativa à celulose importa-
distribuição de energia e vapor (69). da pelo Brasil. Durante décadas, o Brasil importou
Uma observação interessante sobre a planta de celulose de fibra longa para usos papeleiros e pol-
CTMP é que é a primeira planta desse tipo a usar pa fluff, para a fabricação de absorventes, fraldas
as fibras do eucalipto para produtos de embalagem descartáveis e itens para outras aplicações. A nova
para cartões de produtos alimentícios. No sistema linha de fibra longa e fluff da Klabin tem exata-
CTMP há uma ação muito mais mecânica do que mente o mesmo tamanho da demanda brasileira.
química, envolvendo aplicação também de calor. Ao fazer uma fábrica que atende às necessidades
Com a CTMP de eucalipto, a possível influência do mercado nacional, a empresa almejava substi-
do papel sobre o gosto dos alimentos é muito me- tuir grande parte da celulose importada pelo País
nor, já que o eucalipto tem muito menos resina (171).
que o Pinus (69). Outro diferencial da fábrica está no fato de a li-
nha fluff (PineFluff™) ser especialmente desenhada
para a produção desse tipo de celulose. A Klabin
• O Projeto Puma já fechou acordos comerciais para a venda de fluff
A empresa deu início às operações da sua mais com os principais consumidores do mercado na-
recente fábrica em março de 2016. Localizada em cional e está em estágio avançado de negociação
Ortigueira-PR, a unidade fabril, destinada exclusi- com clientes globais (171).
vamente à fabricação de celulose, tem capacidade No caso da fibra curta, da produção total de
produtiva anual de 1,5 milhão de toneladas, sendo 1,1 milhão de toneladas, 900 mil serão exportadas
1,1 milhão de toneladas de celulose branqueada de com base no acordo de compra e venda firmado
fibra curta (eucalipto), que leva a marca Lyptus- com a Fibria para mercados fora da América do
Cel™, e 400.000 toneladas de celulose branqueada Sul. Após extensas análises, a comparação – inclu-
de fibra longa (Pinus), batizada de PineCel™, parte sive de ordem econômica – apontou essa alterna-
da qual convertida em celulose fluff, denominada tiva como a mais eficaz para a Klabin. Juntou-se
PineFluff™ (171). então a reconhecida competência florestal e in-
As obras do Projeto Puma – que se destacou dustrial da Klabin com a experiência comercial da
por planejar uma unidade industrial para produzir Fibria, em um contrato inédito no setor mundial
os três tipos de celulose – foram executadas em 24 de celulose, que tem como resultado uma opera-
meses, dentro do orçamento previsto. O investi- ção que beneficia ambas as empresas. As 200 mil
mento total somou R$ 8,5 bilhões, incluindo infra- toneladas restantes de celulose de fibra curta serão
estrutura, impostos e correções contratuais (171). comercializadas pela equipe da Klabin no Brasil e
A Klabin estudava a implantação da nova fá- em países da América do Sul, enquanto a comer-
brica de celulose desde a década passada, visando cialização da fibra longa e fluff ficará a cargo da
ao melhor aproveitamento de seu ativo florestal e equipe da Klabin, que atuaria em nível mundial,
preparando-se para ampliar a fabricação de papel incluindo o Brasil (171).
132  | A EVOLUÇÃO TECNOLÓGICA DO SETOR DE CELULOSE E PAPEL NO BRASIL

Em paralelo ao potencial das florestas plan- e eucalipto são tecnologias Andritz, assim como
tadas de que dispunha, a Klabin explorou a ca- as linhas de cozimento e branqueamento de celu-
pacidade de geração de energia da fábrica de lose, e a etapa de recuperação de químicos para
maneira intensiva. A nova unidade fabril tem produção de licor branco e os fornos de cal. Há
capacidade de produzir 270 MW, sendo 120 ainda as duas máquinas da Valmet; as caldeiras de
MW para uso interno e 150 MW excedentes biomassa e de recuperação fornecidas pela CBC,
para comercialização (suficientes para abastecer do Grupo Mitsubishi; as turbinas e os geradores
uma cidade de 500 mil habitantes). Em vez de Siemens; o sistema de distribuição elétrica ABB;
descascar as árvores nas florestas, o descasca- o sistema de controle da planta Invensys, hoje
mento é feito no próprio local da fábrica. As- pertencente ao Grupo Schneider; o fornecimento
sim, será gerado material excedente de biomassa da subestação de energia feito pela WEG, assim
para energia, advindo da casca, dos resíduos do como todos os motores e painéis elétricos da fá-
processamento da madeira e da fabricação dos brica, e ainda as estações de tratamento de água
cavacos para o processo de cozimento (171). (também para caldeira) da Degremont. A Pöyry
Para queimar essa biomassa gerada no pro- Tecnologia ficou responsável por todo o proces-
cesso de preparação da madeira, foi instalada so de integração entre essas áreas às outras áreas
uma caldeira de biomassa, que incrementa bas- associadas. Já o consórcio KSH/AMEC/Time
tante a geração de energia. Então, com base na Now cuidou da implantação da ilha de energia e
queima de licor negro gerado no processo de do sistema de tratamento de efluentes, fornecido
cozimento de Pinus e eucalipto, bem como no pela Enfil (171).
aproveitamento de toda a biomassa que chega à A partida (start-up) da fábrica aconteceu
fábrica, foi alcançado esse resultado significativo: dentro do prazo previsto no início do projeto,
o aproveitamento ampliado da biomassa para ge- com o primeiro fardo já com a certificação Forest
ração de energia (171). Stewardship Council® (FSC®), produzido em 4 de
Na prática, duas plantas químicas instaladas março de 2016 (171).
junto à fábrica são responsáveis pelo fornecimento As duas linhas (fibras longas e curtas) tra-
de produtos químicos para manter as atividades balham distintamente, cada uma com processo
industriais da fábrica da Klabin. A energia exce- de descascamento e picagem, digestor e linha de
dente alimentará outras unidades da companhia à branqueamento e secagem próprios. Há, no entan-
medida que os atuais contratos de compra de ener- to, algumas áreas comuns na fábrica, como a gera-
gia forem expirando. O residual da energia exce- ção de utilidades e energia, tratamento de água e
dente será vendido ao mercado (171). efluentes. A complexidade desse processo está na
Outro diferencial do Projeto Puma se encon- integração dessas duas linhas e todas as áreas que
tra na máquina de secar celulose de Pinus, capaz têm em comum. Outro fator muito positivo fica
de fazer dois tipos de produtos: fardos, no caso de por conta do fato de haver dois sistemas de pro-
celulose de fibra longa de mercado, e bobinas, no dução de celulose. Então, caso haja necessidade de
caso de celulose fluff. Foi investido também em um manutenção em um, o outro continuará operan-
sistema de enrolamento da folha de celulose no fi- do normalmente. Conseguiu-se manter um maior
nal da máquina, além de duas rebobinadeiras e de equilíbrio da fábrica, sem grandes interrupções,
linha de embalagem para bobinas, semelhantes às comparando-se com a rotina operacional de plan-
vistas nas fábricas de papel de embalagem (171). tas em linha única (171).
As tecnologias adotadas no projeto represen- Ao realizar um estudo de macrolocalização
tam o que há de mais avançado em fabricação de para a instalação da nova unidade fabril da com-
celulose. Foram diversos os fornecedores para as panhia, em 2006, a Klabin identificou a região de
distintas áreas de operação. As quatro linhas com Telêmaco Borba como bastante atrativa para o
descascadores, que preparam os cavacos de Pinus crescimento florestal pretendido. De acordo com
SEGUNDA PARTE - A EVOLUÇÃO TECNOLÓGICA DOS  |  133
PROCESSOS DE FABRICAÇÃO DE CELULOSE E PAPEL NO BRASIL

um mapeamento realizado em 2015 pelo Institu- CAVALLARI / HERGEN


to de Florestas do Paraná, o estado tem 1 milhão
de hectares de áreas florestais plantadas, dos quais • Cavallari
650.000 hectares de Pinus e 340.000 de eucalipto. A empresa Irmãos Cavallari & Filhos – que,
Boa parte disso, especialmente de Pinus, já exis- posteriormente, passou a se chamar Indústria Me-
tia na época do estudo de macrolocalização. Além cânica Cavallari – foi a primeira grande empresa
disso, a Klabin tinha excedente de madeira, que especializada na fabricação de máquinas para a in-
foi a base para o projeto. A partir da indicação de dústria de celulose e papel no Brasil. Iniciou suas
tamanho potencial, a empresa realizou fortes in- atividades numa pequena oficina mecânica, no
vestimentos na área de desenvolvimento florestal, bairro da Luz, em São Paulo, em 1905, por inicia-
inclusive introduzindo novos materiais genéticos tiva dos irmãos João Cavallari e Carlos Cavallari.
nos plantios, a fim de produzir mais madeira nas No início de suas atividades, a Cavallari produzia
áreas de que já dispunha (171). máquinas para indústrias envolvidas com tijolos,
Ao todo, a empresa detém no momen- telhas, serras de mármore, borracha etc. A partir
to 239.000 hectares de florestas plantadas e de 1932, com o conhecimento de engenharia que
211.000 de matas nativas preservadas. No Para- haviam adquirido, os irmãos Cavallari resolveram
ná, as florestas se distribuem em 25 municípios, ingressar no setor de celulose e papel, também
entre os quais Telêmaco Borba, Ortigueira, Ti- com a fabricação de máquinas (135).
bagi e Imbaú. O volume próprio representa mais Em 1935 era posta em operação pela fábrica
de 80% da demanda por eucalipto e Pinus da de papel Simão & Cia a primeira máquina de pa-
nova fábrica, mas isso não significa que a Klabin pel projetada e construída no Brasil pela pioneira
seja autossuficiente na produção de madeira. A empresa Cavallari. Esta primeira máquina possuía
empresa mantém um forte programa de fomen- 1,65 metro de largura, velocidade de 100 m/min e
to na região, além de investimento em empresas produzia 8 t/dia de papel. A segunda máquina for-
e profissionais liberais, que plantam florestas, o necida para a Simão, em 1938, possuía 2,40 m de
que permite a aquisição de madeira de qualida- largura, com velocidade de 125 m/min, produzia
de e a custos competitivos (171). de 12 a 15 t/dia de papel. Esta máquina foi monta-
O raio médio entre a operação florestal e a nova da sobre rolamentos e apresentava um sistema de
fábrica é de 72 km, o que desponta como mais um transmissão bastante eficiente para a época (135).
fator competitivo. Não há diferença entre as for- Em 1945, após a Segunda Guerra Mundial,
mas de abastecimento das duas espécies. Eucalipto com a evolução da sua infraestrutura de projetos
e Pinus têm comportamentos parecidos do ponto industriais, a empresa passou a responder por 60%
de vista logístico e não exigem nenhum cuidado dos equipamentos existentes no mercado nacional,
específico. A única questão a demandar atenção apesar do grande volume de importações realiza-
diz respeito ao tamanho dos estoques (171). das pelo País. Nesta época, já estava sendo inau-
Como se trabalha com madeira com casca, gurada a 26.ª máquina contínua que funcionava
evita-se um estoque de campo muito grande na no Brasil, instalada na fábrica de papel Cia. In-
floresta. De fato, o Projeto Puma foi baseado no dustrial Paulista de Papéis e Papelão. Tratava-se de
que há de melhor em termos tecnológicos, tanto uma máquina do tipo Yankee com a largura útil de
na produção de florestas, com os melhores mate- 2 metros. Neste mesmo período, executou-se uma
riais genéticos e a melhor receita de plantio, quan- série de instalações pioneiras para a fabricação de
to no planejamento e nas operações florestais em celulose e pasta mecânica (197).
si. Todos esses aspectos se somam a uma operação A empresa iniciou nos anos 1950 a fundição
de alta produtividade, com pessoal capacitado e de cilindros Yankee, além de realizar a constru-
um modelo de alta interação entre os diferentes ção de cilindros de sucção, sob a licença de uma
processos e pessoas (171). empresa europeia. No final de 1950, a Cavallari
134  | A EVOLUÇÃO TECNOLÓGICA DO SETOR DE CELULOSE E PAPEL NO BRASIL

introduziu em suas máquinas componentes de pelo potencial de crescimento que o Brasil apresen-
fiberglass, um material estrutural composto por tava. Hermann constituiu família no Brasil, estabili-
uma resina plástica e reforços de fibras de vidro zou-se em Santa Catarina e fundou a Hergen, entre
que, na época, foram vistos como um avanço arro- outras empresas do setor florestal (168).
jado em tecnologia. Na década de 1960, a indústria A empresa Hergen S/A Máquinas e Equipa-
começou a fabricar máquinas de grande porte, a mentos iniciou suas atividades produzindo equi-
partir de intercâmbios tecnológicos firmados com pamentos para suprir as necessidades mecânicas
diversas companhias estrangeiras (135). do grupo formado por três empresas: a Induma,
Em 1970 foi feita uma reestruturação organi- a Águas Negras e a própria Hergen, e realizando
zacional pela terceira geração da família Cavallari, pequenos serviços de manutenção para outras fá-
resultando na modernização e ampliação das ins- bricas (168; 181).
talações que permitiu investimentos da empresa A Hergen, em suas metas de crescimento e
na fabricação e comercialização de máquinas de abrangência de mercados, adquiriu o acervo tecno-
médio porte, definido como seu principal produ- lógico e industrial da Indústria Mecânica Cavallari
to. Em 1980, a Cavallari já conseguia suprir com passando, a partir daí, a suprir o Brasil e exterior
sucesso grande parte das necessidades do mercado em peças de reposição Cavallari e produção de
interno. A fábrica acelerou a produção de equipa- novas máquinas. A Hergen, que iniciou suas ativi-
mentos, conseguindo atender às solicitações de dades no ramo madeireiro, deixa então definitiva-
fabricação de novas máquinas com diferentes es- mente este setor para se dedicar ao de celulose e
pecificações de uso e porte (135). papel. Em 1985, inicia a fabricação de discos para
Com base nas perspectivas de consumo das in- refinadores, tornando a Hergen um dos principais
dústrias de celulose e papel, que atravessavam fase fornecedores de discos no Brasil (181).
de expansão, a fábrica estabeleceu projeções rea- O sucesso da instalação da máquina de papel
listas, intensificando a fabricação de equipamen- MP-3 para a Trombini Papéis e Embalagens S/A
tos que atestavam melhores condições de ajuste às (Facelpa), em 1988, com uma produção de apro-
alterações do mercado. Ao mesmo tempo, aprimo- ximadamente 120 t/dia de papel consolida sua
rou sua tecnologia industrial (135). posição como fornecedor nacional de máquinas
A indústria Irmãos Cavallari & Filhos pro- e equipamentos. Em 2000, a Hergen instala o pri-
duziu, durante 56 anos, máquinas adequadas ao meiro formador Crescent Former com tecnologia
contexto nacional para a produção de celulose e 100% nacional para o Grupo CVG, fortalecendo a
papel. A fábrica encerrou suas atividades em 1988, empresa também no setor de tissue (168; 181).
afetada pela crise no setor industrial que atingiu o Ao iniciar a fabricação de máquinas de papel,
País a partir de 1981. A Nova Política Industrial, de a Hergen contava com cilindros secadores de ter-
1988, apresentada pelo governo, foi parcialmente ceiros. A opção de fabricar a máquina adquirindo,
implementada, não surtindo grandes efeitos para porém, o cilindro de outros fornecedores, acabava
a Cavallari. Mesmo assim, no período de sua exis- sendo muito onerosa. A equipe técnica percebeu,
tência, a empresa ocupou uma importante posição então, que estrategicamente seria mais vantajoso
de liderança na indústria brasileira de celulose e fabricar seus próprios cilindros. Para isso, a em-
papel e contribuiu enormemente para o desenvol- presa apostou em uma inovação que já vinha se
vimento do setor (135). fortalecendo na Europa (168). Tradicionalmente,
os cilindros eram feitos de ferro fundido, mas dois
• Hergen fornecedores europeus passaram a produzi-los em
Hermann Hinrich Purnhagen veio da Alema- chapa de aço e começaram a apresentar bons resul-
nha em 1922 como imigrante em uma época de gra- tados. Foi feita uma avaliação pela equipe técnica
ve crise econômica no Brasil. Entre Brasil, Canadá da Hergen, que concluiu ser essa uma alternativa
e Austrália, ele optou por imigrar para o primeiro mais simples de ser executada no Brasil. Foi assim
SEGUNDA PARTE - A EVOLUÇÃO TECNOLÓGICA DOS  |  135
PROCESSOS DE FABRICAÇÃO DE CELULOSE E PAPEL NO BRASIL

que começou a se desenvolver a própria linha de palmente à indústria nacional a produção de papel
cilindros, no início da década de 2000. A fabrica- de embrulho (244).
ção de cilindros Yankee de aço ranhurado no Brasil Em 1934, a empresa foi vendida à Fonseca Pi-
pela Hergen desponta entre os exemplos de incre- res Ltda. A Fonseca Pires representava a British
mentos tecnológicos, que resultaram na atualização American Tobacco (BAT) no Brasil e acredita-se
do portfólio de máquinas tissue do País. Ao se tor- que por essa razão foi montada a Máquina de Pa-
nar fabricante de Yankee de chapa de aço, o grande pel número 2 (MP-2), em 1936, fornecida também
diferencial da empresa passou a se basear na alta pela Fullnewerk, para a produção de papéis de
transferência térmica e na variedade de tamanhos baixa gramatura (12 a 100 g/m2) entre os quais o
dos equipamentos fornecidos. Em 2015, a Hergen papel para cigarros (215).
ocupava o terceiro lugar no ranking mundial de A produção desses papéis exigia fibras espe-
fornecimento de cilindros de chapa de aço (168). ciais e para isso foi montada uma fábrica de celu-
A estratégia comercial da empresa tem foco lose, cuja matéria-prima era constituída por trapos
em três segmentos: papéis tissue, de embalagem de linho cuidadosamente selecionados. Mais tarde
e especiais. Apesar de o tissue vir se destacando (início dos anos 1940), os trapos foram substituí-
pelo desempenho dos últimos anos, os outros dois dos por palha de linho (Linum usitatissimum L.),
seguem também em crescimento. O segmento de plantada e beneficiada em São Borja, Rio Grande
papéis especiais, por exemplo, tem apresentado do Sul, e processada na fábrica de celulose (215).
uma retomada de investimentos, após impactos A Máquina de Papel número 3 (MP-3), cons-
sofridos no período de câmbio baixo. (168). truída pela Cavallari, entrou em operação em
1942, mesmo após uma das peças principais terem
PIRAHY sido perdidas com o torpedeamento do navio, que
A Companhia Industrial Pirahy S.A. foi fun- a trazia dos Estados Unidos. Muito semelhante a
dada no Estado do Rio de Janeiro em 26 de ou- MP-2, a MP-3 produzia papéis leves para cigarros,
tubro de 1925, tendo como sócios e fundadores carbono, bíblia e correspondência aérea. Em 1950
principais Eurípedes Coelho de Magalhães, Sidney entrou em funcionamento a MP-4 com o objetivo
Herbert Lowell Parker e Pedro José Pereira Travas- de aumentar a capacidade de produção de papéis
sos. A fábrica original era localizada em Santané- leves. As características dessa máquina eram se-
sia, Município de Piraí, a 120 km da capital Rio melhantes às da MP-3 (215).
de Janeiro. No local onde está instalada a fábrica A inauguração da MP-5, em 1963, marcou
havia a Cerâmica Sant’Anna, que produzia telhas uma nova orientação para os produtos da Pirahy.
e tijolos a partir de argila abundante na região. A A máquina possuía 270 centímetros de largura útil
fabricação de cerâmica foi reorganizada e manteve e velocidade de 200 metros por minuto, fora fabri-
sozinha a renda da companhia até 1927, quando cada pela Escher Wyss e era considerada bastante
foi iniciada a fabricação de papel (215). evoluída para a época. Com essa máquina, a em-
A primeira máquina (MP-1) foi instalada em presa pôde aproveitar a crescente disponibilidade
1926. Fabricada pela Fullnewerk da Alemanha, de celulose de mercado, incluindo celulose de eu-
a máquina possuía duas telas formadoras de 260 calipto, para produzir papéis de imprimir e papéis
cm de largura. A produção foi iniciada com papel especiais (215).
de impressão, acetinados, jornal, apergaminhados Em 1966 foi criado o departamento agrícola
e segundas-vias. A celulose necessária era total- de Piracicaba-SP, para fomentar a cultura de cro-
mente importada (215). É importante salientar a talária (Crotalaria juncea L.), planta anual seme-
importância da fabricação desses tipos de papéis lhante ao cânhamo, que passou a ser usada no lu-
porque, embora a demanda por papéis de todos os gar do linho para produção de papéis de cigarros.
tipos estivesse em expansão, era atendida majori- Em 1969 foi montada a Máquina de Revestimento
tariamente por papel importado, cabendo princi- n.º 1 para a produção de papéis couchê, autoadesi-
136  | A EVOLUÇÃO TECNOLÓGICA DO SETOR DE CELULOSE E PAPEL NO BRASIL

vos e especiais para selo, dando prosseguimento ao manda interna de celulose. Posteriormente, como
processo de diversificação da Pirahy (215). a fábrica de celulose produzia mais celulose do que
Atualmente a fábrica orientou sua linha de consumia para sua fabricação interna de papel, ela
produção para papel de cigarros. Como grande abastecia outras 4 empresas do grupo (2).
compradora se mantém a empresa Souza Cruz, Em 1964, Karam Simão veio a falecer e o co-
que já foi dona da Pirahy, mas que a vendeu em fe- mando das empresas passou para o seu filho Omar
vereiro de 1998 para o grupo americano Schweit- Simão Racy, que faleceu três anos depois. A partir
zer-Mauduit, passando a ser denominada então de de então, a viúva de Karam assumiu o comando
Schweitzer-Mauduit do Brasil Indústria e Comér- do grupo. A Simão expandiu-se bastante ao longo
cio de Papel Ltda. (113). de sua vigência como grupo chegando a congregar
6 empresas: Indústria de Papel Simão S.A., com fá-
bricas nas cidades de São Paulo, Jacareí, Mogi das
SIMÃO / VCP Cruzes e Piracicaba, Indústria de Papel de Salto
Depois de 11 anos em que deixara o Líbano S.A., além da Agropastoril Simão, Florin (Floresta-
para vir ao Brasil, Karam Simão Racy fundou com mento Integrado S.A.), Caulisa (Indústria de Cau-
o sócio Georges Bittar uma pequena empresa para lim S.A.), em Campo Grande-PB, e KSR Comércio
comércio de papel e papelão em março de 1925. e Indústria de Papel S.A., com filiais por todo o
Com capital de 200 contos de reis e menos de dez Brasil e atuando em mais de 60 países (2).
funcionários, a Simão e Cia. instalou-se no bairro Com a criação da Florin em 1970, o gru-
Bom Retiro, em São Paulo. O lema de Karam Si- po se tornou autossuficiente em abastecimen-
mão, então com 27 anos, era um só: Crescer e cres- to de madeira de eucalipto. Em 1974 surge a
cer sempre! (2). Comércio e Indústria de Papel (KSR), destinada
Em 1929, Karam Simão decidiu contratar a a distribuir os produtos do grupo no mercado
fabricação de uma máquina inteiramente nacional nacional. Dois anos depois foi incorporada ao
para produzir papel e papelão, pois o País enfren- grupo a Indústria de Papel e Celulose de Salto,
tava enormes dificuldades para a implantação de a primeira fábrica brasileira a ter uma máquina
maquinários. Em 1935, com a presença do então de produzir papel moeda e papéis de segurança,
presidente da república, Getúlio Vargas, entrava instalada em 1889 (217).
em operação uma máquina de papel e papelão A expansão do grupo levou à aquisição da In-
inteiramente projetada e construída no Brasil (2). dústria de Papel Piracicaba S.A. que, com inves-
Tratava-se de uma máquina pioneira de papel fa- timento de US$ 10 milhões, lançou uma linha de
bricada pela Indústria Irmãos Cavallari & Filhos, papéis especiais, autocopiativos, para equipamen-
que possuía largura de 1,65 metro, velocidade de tos fax e para selos e etiquetas. O grupo passou a
100 metros por minuto e capacidade de produção fabricar papel base para selos de garantia, ações e
diária de 8 toneladas de papel (135). títulos mobiliários, bilhetes de metrô, passaportes
Em 1940, cientes de que uma empresa de celu- e cédulas de identidade (217).
lose exigia vultosos investimentos, a Simão passa Em 1982, a KSR respondeu por 47% das expor-
a produzir pasta mecânica com o objetivo de su- tações brasileiras de papel para imprimir e escre-
prir, em parte, as necessidades de matéria-prima ver. A Simão foi um dos primeiros grupos brasi-
da empresa (2). Em dezembro de 1954, a empresa leiros a se preocupar com a qualidade ambiental,
passa a se chamar Papel Simão S.A. (205). Outro tendo instalado em Piracicaba uma estação de tra-
fato de grande significância para o Grupo Simão tamento que eliminava, ainda em 1987, 92% dos
foi a instalação de uma fábrica de celulose sulfa- efluentes lançados no rio, e no ano seguinte inau-
to de eucalipto na cidade de Jacareí-SP, integrada gurou na unidade de Jacareí um sistema que redu-
a uma fábrica de papel em 1958, em uma época zia em 99,5% dos odores emitidos pela indústria
em que o Brasil importava quase toda a sua de- (217). Para isso, Simão acabou sendo pioneira no
SEGUNDA PARTE - A EVOLUÇÃO TECNOLÓGICA DOS  |  137
PROCESSOS DE FABRICAÇÃO DE CELULOSE E PAPEL NO BRASIL

uso da antraquinona como auxiliar de cozimento ria 14 meses para ser iniciada. Em dezembro de
do processo sulfato, permitindo assim a redução 1939, finalmente, saía da máquina o primeiro lote
da sulfidez e as emissões de compostos de odor de papel da empresa, documentado por uma nota
desagradável. fiscal emitida em 1940. Produziu-se na máquina
O lançamento do Thermocopy, único papel Cavallari 8 toneladas de papel de embrulho HD ou
termorreativo brasileiro, em 1988, tornou o Brasil “manilha” e as bobinas HD (em geral de cor rosa)
um dos quatro fabricantes mundiais do produto. eram seus principais produtos (235). A máquina
Logo em seguida, o Grupo Papel Simão tornou- possuía 2,4 metros de largura e podia chegar a
-se o maior fabricante de papel alto grau cirúrgico, uma velocidade de 125 m/min, podendo em plena
produzido em Salto a partir de 1989. Em 1992, o carga chegar a uma produção entre 12 e 15 tonela-
grupo foi adquirido pela Votorantim. A incorpo- das diárias de papel. (135).
ração das unidades da empresa Papel Simão com a Um aspecto importante nesses primeiros tem-
Celpav deu origem a Votorantim Celulose e Papel pos da Santa Therezinha era a alta qualidade de
(VCP) (217). seus papéis de embrulho produzidos devido ao
fato de que eles tinham em sua composição celulo-
se de fibra longa e pasta de madeira, o que permitia
SANTHER atingir níveis internacionais de desempenho (235).
Durante os anos 1930, Fadlo Haidar, Nicolau Na década de 1940, com a eclosão da Segunda
Srur e Paulo Taufi Maluf observaram que parte Guerra Mundial, tornava-se problemático o tráfe-
dos industriais da cidade de São Paulo, descen- go de navios no Atlântico. Isso causava sérios pro-
dente de árabes como eles, estavam se dedicando blemas às importações de celulose, matéria-prima
à área de tecelagem e fiação. Tal opção se justifica- básica para a fabricação de papel. Obviamente,
va pelo baixo investimento necessário para entrar esse fato causou muitos transtornos à Santa There-
nesse setor, uma vez que a compra de teares po- zinha. Nessa época, Srur havia saído da sociedade
deria ser feita gradualmente, conforme expandia o e, os outros dois sócios, Haidar e Maluf, sem alter-
negócio. Como seus sonhos eram maiores, os três nativa para dar continuidade à fabricação de papel
tornaram-se sócios e começaram a pensar em um com baixa oferta de celulose, resolveram implantar
projeto que fosse viável, rentável e que pudesse ser sua própria fábrica de celulose (235).
implantado o mais rápido possível (235). Como não possuíam técnicas e conhecimentos
Na época, mais precisamente em 1937, a Pa- práticos para produzir celulose, resolveram desen-
pel Simão vinha obtendo um grande sucesso em volver conhecimento especializado para ajudá-los
São Paulo e isso os encorajou a entrar no mercado na empreitada. Haidar ficou responsável pelo pro-
papeleiro, que era bem diferente do competitivo jeto de fabricação de celulose e tentou aprender o
mercado de tecelagem e fiação. Uma vez definido o processo químico de fabricação de celulose, embo-
projeto, os sócios precisavam colocar rapidamen- ra fosse médico por formação (235). Ele havia se
te seus planos em ação. Precisavam adquirir uma formado na Universidade Americana de Beirute,
máquina de papel e encontrar um local adequado Líbano, com especialização em Paris, antes de vir
para sua instalação. A máquina foi encomendada para o Brasil (119). Com todas as dificuldades ine-
à Indústria Irmãos Cavallari & Filhos que, um ano rentes ao processo, finalmente iniciou-se a produ-
antes, havia produzido uma máquina de papel à ção de celulose fibra longa utilizando-se madeiras
própria Papel Simão. E o local foi definido como de plantações de coníferas das cidades de Bragan-
sendo o Bairro Penha, cidade de São Paulo, com ça, Itapeva, Itararé e Camanducaia. Era uma solu-
área ideal e com preço acessível (235). ção caseira para um problema imediato (235).
Em 23 de setembro de 1938, os três sócios A maior dificuldade, no entanto, residia no
inauguraram a Fábrica de Papel Santa Therezinha branqueamento da pasta celulósica. Desprovidos
S.A. Entretanto, a produção de papel ainda leva- de um controle adequado de alvura, não se chega-
138  | A EVOLUÇÃO TECNOLÓGICA DO SETOR DE CELULOSE E PAPEL NO BRASIL

vam aos níveis considerados satisfatórios, princi- Ocorreu então uma busca pela maximização
palmente por causa da falta de uniformidade dessa da produção da máquina Voith encabeçada por
variável. Conta-se, inclusive, que quando era obti- Haidar, que viajou para a Alemanha em busca de
da a alvura ideal, “era uma festa na empresa” (235). know-how. Em 1967, na Alemanha, por ocasião do
Consta, inclusive, que essa unidade produtora de centenário da Voith, ele conseguiu seus primeiros
celulose atrasou em anos o crescimento da Santa resultados alvissareiros. A empresa passou, então,
Therezinha, prejudicando o capital de giro da em- a importar novos componentes para a máquina
presa (119). e também técnicos especializados para transferir
Com o término da Segunda Guerra Mundial, seus conhecimentos e experiências. Dá-se então o
ficou mais fácil importar celulose dos países es- início de uma nova fase de expansão para a Santa
candinavos (principalmente, Suécia), tornando a Therezinha (235).
fabricação de celulose um processo economica- Com o aumento da eficiência da fábrica e,
mente inviável, resultando então em sua desativa- consequentemente, com o aumento dos lucros,
ção (235). Mais tarde, em 1957, aproveitando os foi possível comprar uma segunda máquina em
digestores antes usados para a produção de celu- 1969. Essa máquina era ainda mais eficiente que
lose, iniciou-se o processo de fabricação de pasta a anterior. Projetada para a velocidade de 600 me-
mecanoquímica, que foi precursor ao da pasta de tros por minuto, poderia tanto fazer papéis planos
alto rendimento CTMP. A produção dessa pasta como crepados (235). Em 1972, a Santher começa
foi descontinuada em 1964 (119). a fabricar também papel higiênico e outros papéis
Maluf, por volta de 1945, resolveu sair da so- sanitários (119).
ciedade, vendendo sua parte para Haidar, que se O Projeto Bragança entrou em operação em
tornou com isso descapitalizado. Até seis anos março de 1978. Naquela época, a decisão de cons-
após o término da Segunda Guerra Mundial, a em- truir uma unidade na cidade de Bragança-SP con-
presa endividada não conseguia expandir. Mas, em siderou, entre outros aspectos, a localização estra-
1951, com a aquisição de uma moderna máquina tégica dessa fábrica, que além de estar bem situada,
com capacidade de produção de 20 toneladas di- possui rota acessível às principais rodovias do es-
árias de papel, adquirida por intermédio de um tado. E foi instalada, na unidade de Bragança, em
representante da empresa alemã Voith, ela ganhou 1983, uma planta de preparação de fibras recicla-
um novo impulso e entrou em uma fase de ascen- das a partir de aparas de papel, pioneira no Brasil
são. Para a Santa Therezinha, essa foi uma nego- na área de papéis tissue (119).
ciação favorável porque era a primeira máquina Nessa unidade funcionavam três máquinas
Voith vendida no Brasil após a Segunda Guerra para fabricação de papéis tissue. A terceira má-
Mundial (235). quina, que entrou em operação em 1996, foi a pri-
Pelo fato dessa máquina ter a capacidade de meira máquina tipo Crescent Former instalada na
produzir papéis especiais de baixa gramatura, Santher. Fabricada pela Beloit, a máquina atingia
permitia a conquista de novas faixas de mercado. a velocidade de até 2.000 m/min, um grande feito
Já nessa época, Haidar contava com a ajuda de para a época (119). Hoje, a tendência dos fabrican-
seus filhos Ruy (engenheiro civil) e Plínio (en- tes é, em caso de instalar uma nova máquina, optar
genheiro químico) na direção da empresa. Por pela tecnologia Crescent Former, oferecida por vá-
volta de 1964 resolveram desativar as máquinas rios fornecedores de máquinas no mercado.
obsoletas e apostar seus esforços na melhor pro- A fábrica de Governador Valadares foi adquiri-
dutividade da máquina Voith (menor custo por da em 1984 (antiga IMPASA – Indústria Mineira de
tonelada produzida). Mesmo assim, enxugando Papéis), com o objetivo de aumentar a produção de
seu processo e operando apenas com uma máqui- papéis tissue da Santher. Em 1992 foi também insta-
na, não conseguiram erguer o seu capital ao nível lada uma planta de aparas nessa unidade (119). Em
almejado (235). 16 de novembro de 2016, devido à crise econômica
SEGUNDA PARTE - A EVOLUÇÃO TECNOLÓGICA DOS  |  139
PROCESSOS DE FABRICAÇÃO DE CELULOSE E PAPEL NO BRASIL

do País e à consequente necessidade de reestrutu- A conquista de clientes e de crédito permitiu


ração da Santher, essa unidade foi encerrada (115). que o pequeno empreendimento de Feffer cami-
Atualmente, além da unidade Fadlo Haidar, nhasse ao sucesso e se ampliasse, com a criação
em Bragança Paulista-SP, que produz papel tissue, de uma loja para venda de papel a granel (219),
a Santher possui mais duas unidades produzindo e um pouco mais tarde, uma gráfica para servi-
papéis especiais: a unidade Penha na cidade de São ços de tipografia e litografia junto a uma pequena
Paulo-SP, e a unidade Guaíba, na cidade de mesmo fábrica de sacos de papel, envelopes, embalagens
nome no Rio Grande do Sul (236). de cigarros e cadernos escolares (56; 219). Já em
A Unidade Penha, quando inaugurada em 1930, a Leon Feffer tornar-se-ia uma das maiores
setembro de 1938, tinha capacidade inicial de fabricantes de envelopes do Brasil (219).
2.800 toneladas anuais. Atualmente, atinge 45.000 Foi em 1939 que os sócios-proprietários da
toneladas anuais. Fabrica papéis especiais de bai- Leon Feffer S.A. decidiram se dedicar exclusi-
xa gramatura para revestimentos, laminação, im- vamente à fabricação de papel. A empreitada
pressão, fast food e papel tissue de baixa gramatura exigia dedicação para a implantação da fábrica,
para higiênicos e guardanapos (236). bem como a totalidade dos modestos recursos
A Unidade Guaíba foi adquirida em 1997 do dos sócios (Leon Feffer e Isaac Pistrac) – até uma
Grupo Votorantim, possui uma capacidade de casa de moradia foi vendida. A razão social foi
produção atual de 25.000 toneladas anuais. Fabri- adequadamente alterada para Indústria de Papel
ca papéis monolúcidos para laminação, impressão Leon Feffer S.A. (56).
e parafinação; papéis kraft; papel interleaving ou de A construção da unidade fabril foi concluída
intercalação; papéis base para revestimento; papéis em 1941, dando início à produção de papel com a
revestidos; flor post; e sedas impressão, guardana- máquina então denominada n.º 1 (MP-1), na Ave-
po, crepom e para envoltórios (236). nida Presidente Wilson, no Bairro do Ipiranga, em
São Paulo (56). Tratava-se de uma máquina fabri-
cada pela Indústria Mecânica Cavallari S.A. (124),
SUZANO com capacidade de 20 toneladas diárias (141),
A trajetória da Companhia Suzano de Papel utilizando matérias-primas como pasta mecânica
e Celulose pode ser definida como essencial para e aparas de papel. Em 1942 entrou em operação
a história da celulose e papel no Brasil dentro de uma segunda máquina, que já era usada (74), de
um panorama industrial brasileiro do século XX origem americana [da Companhia Lyddon (124)],
(267). Sendo um dos líderes globais na produção que produzia entre 10 e 15 toneladas diárias.
de celulose de fibra curta, o Brasil deve boa parte A Segunda Guerra Mundial estourou e a im-
desse mérito ao empreendedor Leon Feffer, fun- portação de celulose e de matéria-prima para a fa-
dador da Suzano, que acreditou como poucos nas bricação de papel ficou comprometida. Pastas me-
qualidades do eucalipto (219). cânicas e aparas de papel não eram suficientes para
A origem da Suzano remonta a 1923, quando compensar a redução de oferta de celulose im-
foram lançados os alicerces da empresa com a cria- portada, levando Leon Feffer a começar a pensar
ção da Leon Feffer & Cia., uma revenda de papéis na pesquisa de novas matérias-primas (219). Foi
de grandes empresas, principalmente importados instalada na fábrica, em 1948, uma máquina mais
(56). Na época, Leon Feffer, um imigrante ucrania- moderna, que fora adquirida da empresa Karlstads
no de origem judaica, tinha apenas 21 anos (219). Mekaniska Werkstad (KMW), de Karlstad, Suécia
Para desenvolver o negócio, Feffer contou com o (124). Era, na época, a maior máquina no País para
apoio de alguns amigos como Samuel Lafer, liga- a fabricação de papel para imprimir e escrever (25
do à família Klabin, que lhe abriu um crédito para a 30 toneladas diárias), que passou a ser conhecida
comprar mercadorias e começar a vender nas pa- pelo apelido de Rolls-Royce, pois operava em óti-
pelarias e livrarias (153). mas condições operacionais (141).
140  | A EVOLUÇÃO TECNOLÓGICA DO SETOR DE CELULOSE E PAPEL NO BRASIL

Como referência técnica e histórica, é interes- cia de seu pai de estudar quais os materiais que po-
sante comentar aqui alguns detalhes dessa máqui- deriam usar na fabricação de celulose. Na época,
na da KMW, obtidos por meio de um artigo da no mundo inteiro, o normal era usar fibras longas
revista O Papel da época (por volta de 1949). Na de coníferas. Mas, as florestas de coníferas demo-
seção de formação, a mesa plana era completamen- rariam muito tempo para crescer. Cresceu, cortou,
te revestida de aço inoxidável e havia 33 rolinhos acabou. Era preciso limpar o terreno e plantar de
desaguadores e mais 5 caixas aspirantes (prova- novo. Não era um modelo que atraía os novos in-
velmente vacuum-foils). A largura da tela forma- vestidores em potencial, preocupados com o prazo
dora utilizada na máquina era de 3,02 metros e o do empreendimento (74).
comprimento era de 22 metros. A prensa manchão Max Feffer, conhecedor de iniciativas como a
(prensa montada na mesa de fabricação para au- de Edmundo Navarro de Andrade, divulgador do
mentar a eliminação da água da folha de papel em eucalipto como recurso florestal precioso, come-
formação; função realizada atualmente pelo rolo çou a pesquisar, a partir de 1951, o aproveitamento
de sucção) era do tipo aspirante. Na seção de pren- do eucalipto para a produção de celulose. Os tra-
sagem havia uma prensa dupla constituída de um balhos iniciais, que foram realizados com a cola-
rolo aspirante (de sucção), um rolo revestido de boração do Dr. Arthur Jankauskis no laboratório
borracha e um rolo central revestido de estonite; da Avenida Presidente Wilson, incluíam, além do
uma prensa off-set com um rolo inferior de granito eucalipto, fibras de linho, juta, ráfia, sisal, bambu e
e um rolo superior revestido de borracha. Na seção fórmio, mas que foram logo descartados, tendo em
de secagem, havia 18 cilindros secadores com 1,5 vista os resultados do eucalipto. Em 1954, a equipe
metro de diâmetro e 10 seca-feltros de 0,1 metro seria ampliada, com a participação do engenheiro
de diâmetro. Na parte final de máquina, havia uma sueco Gunnar Krogh, que antes era representante
calandra com sete rolos, sendo que o maior tinha da KMW (267).
500 milímetros de diâmetro, e uma enroladeira. O Com a ajuda de seu filho Max Feffer e do quí-
acionamento das diferentes secções da máquina mico Benjamin Solitrenick, que trabalhou com
era feito por meio de engrenagens cônicas e aco- os Feffer entre 1955 e 1988, Leon Feffer liderou,
plamentos magnéticos. (124). a partir de 1954, a pesquisa que demostrou a via-
Naturalmente, com essas três máquinas pro- bilidade de se produzir papel de alta qualidade a
duzindo a carga plena, um problema maior ainda partir do uso de 100% da celulose de eucalipto, em
persistiu: o abastecimento de matéria-prima fibro- substituição às fibras longas. Os estudos de desen-
sa. Em parte, ele foi resolvido com o uso de pasta volvimento da fabricação de celulose de eucalip-
mecânica, produzida no País, bem como de aparas to foram realizados, com a coordenação de Max
de papel. Nos anos 1950 começaram a pensar mais Feffer, no laboratório da Universidade da Flórida,
seriamente em atingir a independência de abaste- em Gainesville, nos EUA (219). Toras de eucalipto
cimento de matéria-prima por meio da fabricação foram enviadas para lá e uma equipe de técnicos
de celulose (74). qualificados realizou centenas de testes e ensaios
Até a década de 1950 o Brasil era quase total- de cozimento, lavagem e branqueamento que con-
mente dependente da importação de celulose para firmaram os resultados nos laboratórios da Indús-
a produção de papel de boa qualidade. Além disso, tria de Papel Leon Feffer S.A. (219).
outros elementos, como as dificuldades cambiais e Após os estudos sobre a produção de papel
as oscilações da política de importação do gover- com celulose de eucalipto, tornou-se necessária
no, criavam obstáculos para a indústria. Com esse a construção de uma fábrica para essa “celulose
cenário surgiu a determinação da empresa para se nacional”, o que exigiria investimentos. Em 1957,
fabricar celulose no Brasil (267). com a sua empresa já tendo o nome de Cia. Su-
Max Feffer, filho de Leon, que já ocupava o zano de Papel e Celulose, em função da compra,
cargo de diretor da empresa, recebeu a incumbên- em 1956, da Indústria de Papel Euclides Damiani,
SEGUNDA PARTE - A EVOLUÇÃO TECNOLÓGICA DOS  |  141
PROCESSOS DE FABRICAÇÃO DE CELULOSE E PAPEL NO BRASIL

localizada em Suzano, São Paulo, Feffer conseguiu nha sido a grande inovação para que a utilização
demonstrar que a controvérsia daquele período dessa fibra conquistasse o sucesso que conquistou
em relação à celulose de eucalipto poderia ser re- (154). Em 1961, a Cia. Suzano já era a primeira in-
duzida com a adequação do tipo de papel que se dústria a produzir, em escala comercial, papel 100%
pretendia fabricar. O papel fabricado a partir da à base de celulose de eucalipto (267).
celulose de eucalipto, de fibra curta, servia perfei- Diante dos bons resultados, Gunnar Krogh foi
tamente para quem desejasse imprimir e escrever enviado para a Suécia para encomendar uma plan-
e, portanto, em relação a esse objetivo, tinha sua ta para produzir de 100 a 120 toneladas de celulo-
qualidade confirmada (219). se por dia, com a máxima urgência. E assim, um
A empresa comprada era pequena, mas a área ano depois, o grupo tinha uma fábrica de celulose
era de 100 hectares de terra, onde a Suzano resol- pronta (74). A empresa passou a ser responsável
veu, então, instalar a fábrica integrada de celulo- pelo início da produção de celulose de eucalipto
se e papel. Instalaram uma planta-piloto, de 25 em larga escala em nível mundial (219).
toneladas diárias de celulose para poder “sentir Entretanto, surgira um problema: as máquinas
a produção”, como diziam. Iniciaram a produção de papel não tinham condições de absorver toda a
de celulose e a usaram em pequenas quantidades, produção de celulose; era necessário vender uma
misturando com celulose importada. Começaram parte do produto. Tentaram convencer os fabri-
utilizando 30% de celulose de eucalipto, depois au- cantes nacionais de papel de que a celulose era boa
mentaram para 50% e assim sucessivamente (74). e valia a pena experimentá-la, mas encontraram
Essa variação do percentual de fibra de euca- muitas objeções (74). Os fabricantes brasileiros de
lipto nas receitas dos papéis não foi algo fácil de papel não se interessaram de imediato em experi-
lidar. À medida que o teor de eucalipto ia aumen- mentar o novo produto, que ameaçava superlotar
tando, algumas propriedades físico-mecânicas do os depósitos por falta de comercialização (219).
papel iam piorando. Por exemplo, o papel rasgava A solução encontrada por Feffer foi consumir
facilmente e dele saía poeira. A clientela reclamava, em sua própria empresa a celulose de eucalipto ex-
mas não havia alternativas imediatas. Estudavam- cedente, não apenas nas máquinas que já possuía,
-se as curvas de refino da celulose de eucalipto, mas também na Indústria de Papel Rio Verde, es-
simulando todas as condições possíveis. O rasgo tabelecimento que ele praticamente se obrigou a
e a resistência úmida, ao contrário da polpa de fi- adquirir com esse objetivo (219).
bra longa, aumentavam com o grau de refinação. Com o sucesso da utilização da celulose nas
Roberto Barreto Leonardos, que trabalhava para máquinas da Suzano, os fabricantes nacionais de
o grupo, começou com uma equipe de técnicos a papel, que no começo não acreditavam na utiliza-
aumentar a consistência, a pressão dos cilindros e ção efetiva da fibra curta de eucalipto, começaram
o tempo de refino. Com esses estudos foram sendo a acreditar no produto e a experimentá-lo. Mas não
aperfeiçoados os processos de refinação e de de- havia mais excedentes de polpa para vender a es-
sempenho da máquina de papel (154). ses fabricantes (74). A Suzano resolveu, então, au-
Nos refinadores de massa, os papeleiros de ori- mentar a produção de celulose para 300 toneladas
gem estrangeira usavam facas largas para refinar as diárias. Demorou mais um ano e meio para atingir
fibras de eucalipto, para não cortar essas fibras, que esse volume de produção, mas aí a venda já era fácil
já eram muito curtas. A equipe de Roberto Barre- (74). Dessa maneira, Feffer inaugurou a tendência
to Leonardos fez o contrário: propôs a colocação de ampliar alternadamente as instalações de celu-
de facas – as mais finas possíveis e mais próximas. lose e papel. O aproveitamento do eucalipto em lar-
Aumentou a potência dos motores. Deu certo! Esse ga escala, algo que parecia pouco sensato nos anos
sistema passou então a se chamar super-hidratação. 1950, garantiu a autossuficiência em sua principal
Essa melhoria de processo, tão pouco mencionada matéria-prima. Mais do que isso, forneceu as bases
quando se fala em celulose de eucalipto, talvez te- para o desenvolvimento de um dos maiores grupos
142  | A EVOLUÇÃO TECNOLÓGICA DO SETOR DE CELULOSE E PAPEL NO BRASIL

privados nacionais (219). E por que não, do próprio esse desempenho, a unidade produtiva de papel
setor de produção de celulose de mercado de fibra estava integrada à de celulose e, ainda assim, havia
curta de eucalipto do Brasil. um excedente de celulose de mercado para atender
O espírito inovador continuou a acontecer de às necessidades de clientes não integrados e ex-
forma intensa no Grupo Suzano, que foi uma das portadores. A Bahia Sul, na época, seria a terceira
primeiras empresas no Brasil e em alguns casos maior produtora de celulose de mercado do Brasil,
globalmente a usar digestores contínuos, branque- e a segunda de celulose total (29).
ar com dióxido de cloro e depois com sequências O start-up da máquina de papel ocorreu em
ECF (Elemental Chlorine Free), pré-deslignificar a fevereiro de 1993. Trata-se de uma máquina cons-
polpa com oxigênio, extrair lignina do licor preto, truída pela Voith, tipo Duoformer D, com largura
produzir papéis reciclados de altíssima qualidade de 8,5 metros, comprimento de 200 metros, capa-
para impressão, produção de polpa fofa (fluff pulp) cidade para produzir 1.000 toneladas diárias de
com fibras curtas de eucalipto, produzir papéis sa- papel para imprimir e escrever, com velocidade de
nitários tissue de forma integrada à produção de 1.200 m/min (29).
celulose (projeto em andamento) etc. Com o processo de consolidação da empresa,
a Bahia Sul foi totalmente adquirida pela Suzano
e passou a se denominar Unidade Mucuri-BA do
• Bahia Sul Grupo Suzano de Papel e Celulose.
O cenário, no início da década de 1980, era es-
timulante. A indústria de celulose e papel do Brasil
conquistava um espaço cada vez maior no compe- • Fábrica de Celulose em Imperatriz - MA
titivo mercado internacional e todas as projeções Em dezembro de 2013, a Suzano Papel e Celu-
relativas à demanda eram extremamente otimistas. lose colocou em operação sua mais nova unidade
Nesse contexto são lançadas as sementes do Proje- produtiva, com capacidade anual de 1,5 milhão
to Bahia Sul, idealizado pela Companhia Vale do de toneladas de celulose de mercado de eucalipto.
Rio Doce e Cia. Suzano de Papel e Celulose, com A planta, instalada na cidade de Imperatriz-MA,
aportes do BNDESPAR e Banco Mundial, para ser ocupa uma área total de 1,5 milhão de m², sendo
implantado no extremo Sul da Bahia, região onde 96.000 de área construída (174).
a atividade industrial era inexistente (29). Considerado mais que uma realidade para o
Durante o período de maturação, a realidade setor, o projeto reúne as características fundamen-
nem sempre foi fiel às tendências daquela fase tão tais que permeiam para a sua sustentabilidade,
promissora; entretanto, as flutuações de mercado e uma vez que as vantagens reunidas nessa planta
a recessão, que acabou se generalizando mundial- estão embasadas em tecnologias mais eficientes e
mente, não intimidaram os planos de construir limpas. Para colocar a unidade em funcionamento,
uma indústria para operar com tecnologia de a Suzano investiu US$ 3 bilhões na área industrial
ponta e moderna sob todos os aspectos (29). e na formação da base florestal para abastecer as li-
O projeto caminhou e se consolidou. Em mar- nhas de produção de celulose. Os projetos (concei-
ço de 1992, em tempo recorde, chegou ao mercado tuais, básico e detalhado) de engenharia da planta
a primeira celulose produzida na Bahia Sul. Um ficaram a cargo da Pöyry (243).
ano depois, a primeira produção da recém-partida Com localização privilegiada, a logística da
máquina de papel para imprimir e escrever foi co- Suzano Imperatriz para o escoamento da celulose
mercializada (29). foi extremamente favorecida. O ramal ferroviário
O projeto absorveu recursos estimados em próprio de 28 quilômetros, que se interliga com as
US$ 1,4 bilhão e foi estruturado para produzir ferrovias Norte-Sul e Carajás, está entre os grandes
500.000 toneladas de celulose por ano e 250.000 diferenciais da planta. O escoamento 100% ferrovi-
toneladas de papéis para imprimir e escrever. Com ário, com exportação pelo Porto do Itaqui, garante
SEGUNDA PARTE - A EVOLUÇÃO TECNOLÓGICA DOS  |  143
PROCESSOS DE FABRICAÇÃO DE CELULOSE E PAPEL NO BRASIL

até quatro dias de frete em relação aos demais ter- hora de vapor. Para efeito de comparação, vale in-
minais, atendendo com maior rapidez aos merca- formar que a caldeira da Unidade Mucuri da Suza-
dos de destino. Praticamente toda a produção da no produz 738 toneladas por hora de vapor a partir
Suzano Imperatriz (99%) vem sendo negociada de uma queima de sólidos de 4.700 tss/dia (174).
no mercado internacional, sendo que 70% desse Embora a caldeira introduza incrementos
volume têm destinos certos: América do Norte, competitivos importantes para a Suzano, a presen-
Europa e Ásia (243). ça de duas secadoras e dois fornos de cal chama a
A Suzano Imperatriz é autossuficiente em gera- atenção como grande aspecto inovador do projeto.
ção de energia, com capacidade para 250 megawatts Diferentemente da maioria dos projetos do setor,
de potência. Atualmente, a unidade necessita de que atua com apenas um desses equipamentos,
apenas 100 megawatts, dos quais 50 atendem às optou-se pela duplicação para ter maior flexibili-
plantas dos fornecedores-parceiros, ficando o ex- dade operacional, maior estabilidade na produção
cedente sendo comercializado gradualmente pela e menor custo. Na prática, caso uma das secadoras
Suzano na rede de distribuição local (243). ou um dos fornos apresente algum problema ope-
Ao investimento industrial, estimado em US$ racional sério, não há necessidade de parar toda
2,4 bilhões, somou-se outros US$ 575 milhões desti- a linha. Apesar da menor capacidade, a operação
nados à formação da base florestal. O valor foi equa- seguirá (174).
cionado com financiamento de longo prazo, em con- Além das ilhas de processos fornecidas pela
dições competitivas de carência e custo (174). Metso/Valmet, a Suzano contou com a participa-
A linha de fibras dispõe de modernos equipa- ção de outros fornecedores no projeto. A Siemens,
mentos para digestão e polpação kraft, branquea- por exemplo, foi a responsável pelo fornecimento
mento ECF e secagem de folhas que são converti- dos turbogeradores e de toda a parte elétrica da
das em fardos. A tecnologia foi suprida pela Metso, unidade. Cada turbogerador tem cerca de 350 to-
atualmente Valmet. neladas e aproximadamente 20 metros de compri-
O primeiro circuito a entrar em funcionamen- mento. Instalados próximos às caldeiras, os equi-
to na partida da fábrica foi o de utilidades, que in- pamentos têm a função de gerar energia elétrica
clui água, vapor, energia elétrica e ar comprimido, para abastecer o processo de fabricação de celulose
liberando o início de testes nas áreas de processo, e as áreas administrativas, além de transformar o
representadas por caldeiras, evaporação, pátio de vapor de alta pressão em vapor de baixa e média
madeira e outras estruturas (174). pressão para uso no processo produtivo (174).
A queima do licor negro, resíduo proveniente As duas máquinas de gerar eletricidade corres-
do cozimento da madeira no processo de fabrica- pondem a 250 MW de potência, sendo que apenas
ção de celulose, é justamente a função da caldeira uma é suficiente para gerar energia a toda a planta,
de recuperação no processo fabril. A caldeira de ficando a outra responsável pela geração de 100
recuperação da Unidade Imperatriz tem 105 me- MW excedentes, disponibilizados para venda à
tros de altura (o equivalente a um prédio de 35 an- rede elétrica nacional. Esse é um aspecto bastante
dares), destacando-se como o maior equipamento interessante do ponto de vista do balanceamento
da América do Sul. Fornecido pela Metso/Valmet, econômico do projeto (174).
o equipamento não tem o tamanho como único A planta de tratamento de efluentes e a de tra-
diferencial. O monitoramento e as tecnologias de tamento de água foram contratações junto à Cen-
automação usadas foram as mais modernas (174). troprojekt e à Veolia, respectivamente. Toda a parte
A capacidade de geração de vapor também de geração de dióxido de cloro, químico usado no
desponta entre os diferenciais competitivos da cal- processamento da celulose, foi fornecida pela Eka
deira: a partir de uma queima de sólidos de 7.000 Chemicals, do Grupo Akzo Nobel. Sobre essa úl-
toneladas de sólidos secos (tss) por dia, o equipa- tima fornecedora, além do dióxido de cloro para a
mento é capaz de produzir 1.207 toneladas por Suzano, a EKA produz um adicional de produtos
144  | A EVOLUÇÃO TECNOLÓGICA DO SETOR DE CELULOSE E PAPEL NO BRASIL

químicos para outras empresas interessadas, dando branca em 99%, redução das emissões de gases de
enfoque às demandas do mercado da região Norte enxofre reduzido total para cinco ppm (partes por
e Nordeste. O mesmo modelo de produção foi ado- milhão) e redução do odor. A partir da construção
tado pela empresa fornecedora de oxigênio, a Air da central de resíduos sólidos da Rigesa em Três
Liquide, ambas presentes no mesmo arranjo pro- Barras, inaugurou-se uma nova fase em termos de
dutivo e que mantêm uma produção adicional para tratamento final de resíduos, aumentando a susten-
suprir as demandas do mercado regional. (174). tabilidade das operações (186).
Após diversas mudanças de controle acioná-
rio, a recente fusão entre a MeadWestvaco Corpo-
RIGESA / WESTROCK ration, última proprietária da Rigesa, com a Rock-
A história da Rigesa teve início em 1942, no Team Company, em 2015, decidiu-se que o novo
município de Valinhos-SP, com uma fábrica de pa- nome da empresa passaria a ser WestRock.
pel de embalagem. Em 1956, a empresa adquiriu A WestRock possui cinco unidades industriais
áreas de reflorestamento em Três Barras-SC, situa- no Brasil: nos municípios de Valinhos-SP, Blume-
da na região norte do estado, logo transformando nau-SC, Manaus-AM, Pacajus-CE e Três Barras-SC.
essas áreas em enormes plantações de Pinus elliottii A empresa é a segunda maior produtora de caixas
e Pinus taeda que, no seu devido tempo, seriam in- de papelão do País, com participação no mercado
dustrializadas. O Departamento Florestal da Rige- em torno de 14% (186).
sa, localizado em Três Barras-SC, no ano de 1997 Atualmente a fábrica de papel de Três Barras
já estava com áreas plantadas e distribuídas em produz papel dos tipos linerboard, kraftpak e mio-
426 propriedades, localizadas em 14 municípios lo, de várias gramaturas, podendo abastecer todas
da região, com 46.745 hectares de terras. Desse to- as unidades de embalagens da empresa, além de
tal, cerca de 20% eram recobertas por vegetação exportar seus produtos para diversos países (186).
natural. A empresa realizava, ainda, procedimen- A WestRock Florestal é autossuficiente em pro-
tos de seleção de árvores superiores e formação de dução de sementes e mudas de Pinus e de Eucalyptus.
pomares de produção de sementes geneticamente Anualmente são preparados e plantados cerca de
melhoradas, visando a garantir a qualidade e a pro- 1.300 hectares de Pinus e 300 hectares de eucalipto.
dutividade dos plantios comerciais de Pinus (186). Em ambos os casos, são utilizados equipamentos
A Rigesa sempre se caracterizou como produtora e específicos para o plantio de mudas, sendo que no
vendedora também de sementes e agora de clones caso das mudas de eucalipto o plantio é feito uti-
melhorados de Pinus e de Eucalyptus. lizando-se equipamentos e técnicas próprias para
Em 1970 teve início a construção da fábrica de distribuição de mudas e adubo e plantio (186).
papel da Rigesa, à margem direita do Rio Negro, en-
tre os municípios de Canoinhas-SC e Três Barras-SC.
Em 1974, a fábrica de papel de Três Barras-SC pro- CHAMPION
duziu seu primeiro lote de papel, a título de experi- O interesse da Champion Paper & Fiber, de
ência, sendo que, as atividades operacionais tiveram Ohio, EUA, pelo Brasil se originou em meados da
início oficial no mesmo ano (186). década de 1950, quando o presidente da Champion
Em 1994, a Rigesa investiu US$ 54 milhões na (Reuben B. Robertson) voltou para a empresa, de-
construção de uma caldeira de recuperação na sua pois de anos em Washington, D.C. onde havia de-
fábrica de Três Barras, cujo projeto abrangeu caldei- sempenhado o posto de alto escalão do governo
ra de recuperação de licor preto, sistema de queima americano. Robertson acreditava que a indústria
de gases não condensáveis e sistema de recupera- de celulose e papel iria crescer em outros países,
ção de terebintina. Esses investimentos trouxeram além dos EUA, Canadá e países escandinavos, e
benefícios para as atividades operacionais e para a que bem poderia ocorrer que o Brasil se tornasse
comunidade, pela eficiência na remoção da poeira um mercado importante em futuro próximo (48).
SEGUNDA PARTE - A EVOLUÇÃO TECNOLÓGICA DOS  |  145
PROCESSOS DE FABRICAÇÃO DE CELULOSE E PAPEL NO BRASIL

Um dos clientes da Champion no Brasil, o proe- Era um núcleo de comunidade com todos os seus
minente industrialista João Gonçalves informou problemas, inclusive de idioma, e praticamente sem
a Robertson acerca da Panamericana Têxtil S.A., comunicação com São Paulo, a não ser por mala di-
um projeto proposto e destinado a produzir celu- ária, pois telefones não eram disponíveis pelo me-
lose solúvel para rayon. O projeto era financiado nos nos primeiros meses da construção (273).
por um grupo de investidores estrangeiros [ban- Os equipamentos chegavam ao Porto de San-
queiros libaneses (273)] e respaldado pelo Banco tos e, então, eram transportados pela Estrada de
de Fomento Nacional do Brasil, ainda que o ban- Ferro Mogiana, o que, em alguns casos, demanda-
co quisesse, na verdade, que a fábrica produzisse va construção de gôndolas especiais para que os
celulose para papel (48). O grupo libanês não en- digestores pudessem passar pelos túneis. Tudo isso
tendia nada de celulose e precisava de auxílio de coincidia com a construção de Brasília e o cimento
quem era do ramo (273). necessário ficou escasso. John Warren, que nessa
Até o final de 1957, quando a Champion anun- ocasião era o responsável pelas compras locais,
ciou seu interesse parcial na Panamericana Têxtil, encontrava grande dificuldade em executar suas
a meta acordada foi celulose para papel (48). A tarefas (273).
Champion entrou na sociedade com 50% de par- No fim da montagem, em janeiro de 1960,
ticipação e foi incumbida de montar a fábrica em com um investimento de US$ 20 milhões, a fábri-
Mogi Guaçu-SP (273). Posteriormente, a Cham- ca entrou em operação, produzindo celulose não
pion comprou as ações dos outros acionistas da branqueada de eucalipto. Após seis meses, a planta
companhia (48). A ideia original de produzir celu- eletrolítica iniciou sua produção de cloro e soda
lose solúvel havia sido substituída porque a própria cáustica, essenciais para branquear a celulose e,
Champion não tinha na época muito interesse nes- assim, oferecer um produto novo nos mercados
se produto, não incluído em sua produção, que era ávidos por fibras papeleiras branqueadas, embora
de papéis finos para a impressão (273). Também a a preferência fosse por fibras longas (273).
empresa não se mostrou entusiasmada pelas maté- Com o processo de cozimento, lavagem, depu-
rias-primas fibrosas que a Panamericana tinha em ração e branqueamento funcionando, a Champion
mente, entre os quais o Pinus e o bambu. Sua pre- foi uma das primeiras empresas da América do Sul
ferência era pelo eucalipto, já com reconhecimen- a produzir celulose branqueada a partir de madei-
to público na região pela proximidade ao Horto ras de eucalipto. A Champion produzia 150 tone-
Florestal de Rio Claro, onde Edmundo Navarro de ladas diárias, mas pela pouca aceitação inicial des-
Andrade realizara estudos com essas árvores. se produto de fibras curtas pelas fábricas de papel
Naquela época, existia como forma de se ir a não integradas, a celulose acabava ficando parada
Mogi Guaçu a estrada de ferro, pois a estrada de nos seus armazéns de estoque (48). Restava, en-
rodagem era precária e de terra. A firma de en- tão, somente a exportação. A Champion chegou a
genharia Stadler & Hunter, do Canadá, foi con- vender na Europa e nos países da América do Sul,
tratada para montar a fábrica (273). Além dessa, sendo que a Argentina era seu maior consumidor,
participou uma companhia de construção dina- chegando a comprar 50% da produção em 1962
marquesa e muitas entidades brasileiras. A Cham- (273). A Champion, portanto, representou no Bra-
pion, ao longo desse processo de montagem, que sil um dos precursores da exportação de celulose
durou 18 meses, mandou 20 famílias de funcioná- de mercado de eucalipto, abrindo as portas para as
rios de suas fábricas (Carolina do Norte, Texas e atuais fábricas instaladas que dominam esse mer-
Ohio) para o Brasil a fim de auxiliar na montagem cado mundial (273).
e, posteriormente, serem integrados nas áreas di- Durante os primeiros três anos, os negócios
versas de produção (273; 48). também sofreram devido a uma grande queda do
O canteiro da obra chegou a ter 1.800 funcioná- valor da moeda brasileira, um aumento enorme no
rios, muitos morando em barracas na própria obra. custo de vida e uma grande instabilidade política
146  | A EVOLUÇÃO TECNOLÓGICA DO SETOR DE CELULOSE E PAPEL NO BRASIL

(48). Com isso, houve uma estagnação de cresci- de São Paulo e uma no Mato Grosso do Sul. Seus
mento do consumo de papel. Era uma crise, que produtos – as linhas de papéis para imprimir e es-
trouxe como consequência o não pagamento de crever Chamex e Chamequinho, e a linha gráfica
dívidas por parte de seus clientes de celulose. Isso de papéis Chambril – são 100% produzidos a par-
estimulou na aquisição de duas máquinas de papel tir do cultivo de eucalipto certificado (136).
por parte da Champion. O que parecia, à primeira No negócio de embalagens, a empresa é
vista, uma solução para o consumo de grande par- formada por fábricas de papel para embalagens
te da celulose, na realidade era um problema ainda e unidades produtoras de caixas e chapas de pa-
maior porque a Champion estaria concorrendo pelão ondulado, distribuídas por diversos estados
com seus próprios clientes (273). brasileiros (136). Depois de uma associação de al-
Durante mais de três décadas a Champion se guns anos com o Grupo Orsa no setor brasileiro
revelou uma empresa compromissada com a qua- de papéis e embalagens de papel, a IP adquiriu o
lidade de suas florestas e produtos, mantendo uma total das ações que o Grupo Orsa ainda possuía em
postura de inovação e de investimentos em pesquisa 2014, consolidando-se como uma das principais
e desenvolvimento, nas áreas florestal e industrial. empresas também de embalagens no País.
Entre as atividades de diversificação da Cham- A fábrica de Mogi Guaçu-SP, localizada no Es-
pion, esteve sua orientação para se plantar euca- tado de São Paulo, está em operação desde a déca-
liptos em outras regiões do Brasil para futuras da de 1960 e foi a primeira fábrica de papel para
instalações industriais, como o caso de enormes imprimir e escrever adquirida pela IP no Brasil, a
plantações no Estado do Mato Grosso do Sul, na partir da aquisição global da Champion pela Inter-
região de Três Lagoas, por meio de uma subsidiá- national Paper. A capacidade de produção de celu-
ria denominada Chamflora. lose é de 400.000 toneladas anuais e a capacidade
A partir da aquisição global da Champion pela de produção de papel não revestido é de 435.000
International Paper, os ativos da Champion brasi- toneladas anuais sendo produzidos em quatro má-
leira foram transferidos para a nova proprietária e quinas de papel (136).
passaram a ser responsáveis por um aumento sig- A fábrica de Luiz Antônio, localizada no Estado
nificativo da participação da International Paper de São Paulo, que foi incorporada ao portfólio de ne-
no Brasil. gócios da IP, em 2007, em uma troca de ativos com
a Votorantim Celulose e Papel (VCP), possui capaci-
dade de produção de celulose de 410.000 toneladas
INTERNATIONAL PAPER DO BRASIL anuais e capacidade de produção de papel não re-
A International Paper (IP) é uma empresa en- vestido de 360.000 toneladas anuais, produzidos
tre as líderes globais em embalagens e papéis, com em duas máquinas de papel (136). O excedente de
operações de fabricação na América do Norte, celulose branqueada é comercializado na forma de
Europa, América Latina, Rússia, Ásia e Norte da placas semissecas para clientes papeleiros nas cir-
África. Seus negócios incluem embalagens indus- cunvizinhanças.
triais e de consumo juntamente com papéis não A fábrica de Três Lagoas, localizada no Estado
revestidos e diversos tipos de celulose. Com sede do Mato Grosso do Sul, está em operação desde
em Memphis, Tennessee, a empresa está estrategi- 2009. Possui linhas de acabamento com sistema
camente localizada em mais de 24 países atenden- automatizado, capazes de fabricar até 140 resmas
do seus clientes no mundo todo (136). de papel Chamex por minuto, e opera com algu-
No Brasil atua em dois negócios: papéis para mas das tecnologias mais avançadas do mercado.
imprimir e escrever e também embalagens de pa- A capacidade de produção de papel não revestido
pelão ondulado. O sistema integrado de produção é de 234.000 toneladas anuais, produzidas em ape-
de papel para imprimir e escrever da International nas uma máquina de papel (136).
Paper é composto por três fábricas: duas no Estado A área florestal da International Paper abrange
SEGUNDA PARTE - A EVOLUÇÃO TECNOLÓGICA DOS  |  147
PROCESSOS DE FABRICAÇÃO DE CELULOSE E PAPEL NO BRASIL

cerca de 102.000 hectares de terras, sendo 72.000 ra-SP, para atender à demanda de cartões duplex
deles de cultivo de eucalipto para a produção de e tríplex, destinados à fabricação de embalagens,
celulose e papel. A empresa também mantém projetada para 50 toneladas diárias. Em 1973 ocor-
26.000 hectares de áreas preservadas no Estado de reu uma grande reforma administrativa na qual o
São Paulo, para a manutenção das características grupo iniciou uma nova fase de desenvolvimento,
originais das vegetações nativas (136). já com a designação de Papirus Indústria de Pa-
pel S.A. Daí para a frente, os Ramenzoni incor-
poraram definitivamente sua história no setor de
PAPIRUS celulose e papel, não mais sendo conhecidos pela
A história da Papirus começa com a chegada fabricação de chapéus, mas de papéis (208).
de imigrantes italianos ao Brasil no final do século Atualmente, a Papirus é responsável pela pro-
XIX. Entre eles estava Dante Ramenzoni que, após dução de 90.000 toneladas líquidas de papel car-
se estabelecer por conta própria, resolveu dedicar- tão por ano, distribuída por todo Brasil, Europa,
-se à fabricação de chapéus. Em 1894, foi fundada América do Norte, Ásia e, principalmente, América
a Fábrica de Chapéus Dante Ramenzoni Ltda., o do Sul. A Papirus tem uma importante atuação no
embrião da produção de papel da Papirus. Já na mercado de papel cartão, atendendo as principais
terceira geração Ramenzoni expandiram seus ne- empresas brasileiras que embalam seus produtos
gócios para a área de confecções em 1948 (208). com cartões. Seu posicionamento foca na capa-
Foi em 1951, então, que se originou a Papirus cidade de atender com flexibilidade as demandas
como empresa do setor celulósico-papeleiro, por customizadas, que variam do papel 100% recicla-
uma razão muito simples. Os produtos Ramenzo- do a 100% fibra virgem, com todas as certificações
ni tiveram grande aceitação popular. Em consequ- ambientais necessárias. A Papirus recicla 60.000
ência, havia o aumento da demanda por embala- toneladas de aparas de papel, contribuindo consi-
gens para acondicionar os chapéus e as confecções. deravelmente para que a reciclagem do papel seja
A partir desse alto consumo próprio, a direção da efetivada e realizada de forma ambientalmente de-
empresa passou a analisar o mercado de papel e sejável (241). A Papirus é uma das empresas pio-
cartão para embalagem, identificando a existência neiras no uso dessa matéria-prima fibrosa recicla-
de uma boa oportunidade para entrar nesse novo da na produção de papel cartão (226).
segmento (208).
Assim, foi adquirida uma fábrica em Cordei-
rópolis-SP, que recebeu o nome de Papirus, com PILÃO
uma produção inicial de 1,5 toneladas de papelão A empresa Pilão (Pilão S.A. Máquinas e
por dia. Posteriormente, para atender à demanda Equipamentos) foi criada em 1957 por Milton
de papel para revestimento das caixas de papelão Pilão, que desenvolvera uma inovação tecnológi-
de chapéus e camisas, foi encomendada, em 1957, ca enquanto ainda trabalhava no setor de manu-
a máquina dois, com capacidade de produção pre- tenção de máquinas da empresa Spina. Tratava-se
vista para 4 toneladas diárias (208). do desenvolvimento de um processo mais barato
Com o desenvolvimento dessas atividades sur- para refinar polpas celulósicas, em que as lâminas
giu, nesta época, um excedente de produção, que, eram soldadas aos discos e aos cones de refinação,
ofertado ao mercado, foi logo absorvido, devido evitando que se quebrassem tão facilmente como
à sua excelente qualidade. Eram novos clientes, acontecia até então. Esse processo, feito inicial-
representando abertura para mais negócios. Essa mente de maneira rústica, surgiu em 1963 com a
evolução determinou, em 1965, a aquisição da criação do primeiro refinador de cilindro cônico
máquina três, com capacidade de produção de 10 de lâminas soldadas que o mundo conheceu. Essa
toneladas diárias de cartões (208). inovação animou o jovem técnico de tal forma que
Nos anos 1970 foi construída a Papirus Limei- ele resolveu criar sua própria empresa (214).
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O início da empresa foi difícil e seu fundador, Brasil, a Pilão começou a ser conhecida inter-
sem capital e sem veículos, precisava trazer nas nacionalmente. Tanto que a empresa Beloit, de
costas as lâminas de aço, sem conseguir estocar Wisconsin, procurou a Pilão propondo que li-
produtos, por absoluta incapacidade financeira. cenciasse sua tecnologia. Milton Pilão aceitou
Quem primeiro lhe deu crédito, por acreditar este acordo por ser conveniente para a empre-
em seu trabalho, foi o dono da Protil, empresa da sa e iniciou a fabricação de discos, aplicando o
qual comprava as lâminas, tornando mais longo processo de soldagem desenvolvido por ele. Em
(três meses) o prazo para pagamento das peças. 1969, no final do contrato, a Pilão já estava apta
Com isso, a empresa começou a expandir de tal a fabricar discos de melhor qualidade do que os
maneira que o seu produto foi ocupando espaço obtidos com a tecnologia original; havia conquis-
no mercado nacional. Tinha desempenho melhor tado mercados expressivos como toda a América
ou similar aos produtos importados e até então Latina e parte da Europa (214).
conhecidos (214). Em meados de 1990 a Pilão começou um de-
A partir de meados dos anos 1960, pratica- senvolvimento para melhorar os projetos de refi-
mente, mais de 60 fábricas brasileiras de celulose nadores cônicos então existentes no mercado. O
e papel não mais dependiam de importação para objetivo era desenvolver um refinador que combi-
a refinação da celulose. Desde um pouco antes, nasse o desenvolvimento da fibra com as caracte-
já existia na empresa Pilão a indagação de como rísticas de redução de energia de novos refinado-
continuar crescendo. Embora se tenha chegado res cônicos com a maior capacidade e eficiência de
a pensar em diversificar a área de atuação, a op- energia. O resultado desse desenvolvimento foi um
ção foi continuar no mesmo segmento em que a refinador cônico com três cônicos de refinação: o
Pilão tinha domínio tecnológico, buscando, en- TriConic® (Figuras 52 e 53). Em março de 1996, a
tão, a diversificação de mercados (214). Foi uma Pilão apresentou seu invento durante a convenção
decisão arrojada e quase resultou em um fracas- da TAPPI, nos EUA (39; 214).
so. As primeiras exportações para a Argentina A Pilão investiu cerca de R$ 3 milhões durante
mostraram que a Pilão estava despreparada para três anos para desenvolver com tecnologia própria
isso: os surpreendentes impostos praticamente o refinador TriCronic®, paralelamente a outros pro-
eliminavam as chances de sucesso das exporta- jetos. Inicialmente destinado para a indústria de
ções. Isso fez com que a Pilão deixasse de expor- celulose e papel, o equipamento pode ser utiliza-
tar naquela época e só retomasse esta ideia mais do, com ajustes internos, no tratamento de outras
tarde, em condições mais favoráveis (214). fibras, como sisal e bambu, e na reciclagem do ba-
A partir das exportações e do sucesso no gaço de cana. Antes de colocar o equipamento à

Figura 52 – Refinador TriConic® Figura 53 – Refinador TriConic® (vista em corte)


(Fonte: http://polpaepapel.blogspot.com.br/2016/02/tecnolo- (Fonte: http://www.aldus.com.au/AAQ206/pilao.htm) (12)
gias-em-refinadores-de-baixa.html) (33)
SEGUNDA PARTE - A EVOLUÇÃO TECNOLÓGICA DOS  |  149
PROCESSOS DE FABRICAÇÃO DE CELULOSE E PAPEL NO BRASIL

venda, a Pilão fez questão de patenteá-lo no Brasil e incorporada ao grupo. Com a aquisição do con-
e nos Estados Unidos (39; 214). trole acionário, em 1989, da Paperlok S.A., a Igaras
O sistema de refinação compõe-se de um refi- anexou duas unidades industriais à sua base produ-
nador cônico com ângulo de 20º, duplo fluxo com tiva, uma em São Paulo, no bairro de São Miguel
um rotor cônico de dupla face e dois estatores cô- Paulista, e outra em Angatuba-SP (186).
nicos. Tal como os refinadores de discos, o rotor A nova razão social, Igaras Papéis e Embala-
flutua e se posiciona pelo fluxo da pasta mecânica gens, ocorreu em 1992, alteração esta em home-
e pela pressão hidrodinâmica em ambos os lados. nagem à localidade de sua primeira sede (bairro
Como conceito, este refinador pode ser imaginado de Igaras) em Otacílio Costa. Em 1994 houve uma
como um refinador de duplo disco, dobrado para reorganização societária, pela aquisição do Grupo
trás de si próprio. O projeto incorpora cônicos Igaras pela Suzano. Em 1995 o grupo expandiu sua
de pequenos diâmetros com uma área de refina- produção na América Latina, com a criação de
ção comparativamente maior. Por exemplo, para uma unidade na Argentina, Igaras Argentina S.A.,
conseguir a mesma área de refinação de um refi- subsidiária da brasileira Igaras (186).
nador de discos de 34 polegadas, o novo projeto Em 1996 a empresa inaugurou sua primeira
utiliza cônico como o maior diâmetro de somente unidade de conversão de embalagens múltiplas.
540 milímetros (21,25 polegadas) (39; 214). A unidade localizava-se em Jundiaí, com inves-
Uma vez que o diâmetro do rotor é menor, a timento da ordem de US$ 13 milhões. Com o
velocidade periférica no diâmetro externo do ro- start-up da gráfica de embalagens múltiplas de
tor para uma dada rotação é consideravelmente re- Jundiaí em junho de 1996, a Igaras passou também
duzida. Isto permite que a rotação máxima aceitá- a controlar o corte e a impressão de suas emba-
vel do refinador seja aumentada, oferecendo assim lagens múltiplas. No triênio, que se encerrou em
intensidades de refinação mais baixas. Em teoria, 1996, a Igaras investiu US$ 125 milhões para ins-
então, o novo refinador cônico deveria ser melhor talação de uma caldeira alimentada por biomassa
para fibras curtas de folhosas (como as do euca- e um turbogerador de energia elétrica, na Unidade
lipto) e fibras recicladas, por oferecer refinação de de Otacílio Costa. Instalou-se também um preci-
baixa intensidade, equivalente a maior fibrilação e pitador eletrostático, para minimizar a emissão de
menor corte. O total do consumo de energia, in- partículas sólidas na atmosfera (186).
cluindo as necessidades de energia para no-load, Em 1997 a empresa possuía seis unidades fa-
também mostra redução para a área de refinação bris, que funcionavam de forma integrada. As fá-
equivalente (39; 214). bricas de celulose e papel de Otacílio Costa-SC e
Em maio de 2006, o grupo internacional Angatuba-SP forneciam 90% da matéria-prima
Andritz, de Graz, Áustria, adquiriu a Pilão S.A. consumida pelas três fábricas de papelão ondula-
que passou a se chamar Andritz Pilão Equipa- do, de Jundiaí, Itajaí, São Miguel Paulista-SP, além
mentos Ltda. (16). da gráfica de conversão de embalagens múltiplas e
de um centro de desenvolvimento de sistemas de
embalagem, em Osasco-SP. A Igaras contava tam-
IGARAS / KLABIN IGARAS bém com nove escritórios de venda, distribuídos
Em 1958 iniciavam-se as atividades de uma fá- em vários locais do Brasil (186).
brica de papéis de embalagem pela Olinkraft Celu- No ano de 1998, a Igaras adquiriria, do Grupo
lose e Papel Ltda., na cidade de Otacílio Costa-SC, Trombini, a empresa Ponte Nova Papéis e Emba-
localizada na região do Planalto Catarinense, nas lagens Ltda., possuidora de duas fábricas de pape-
proximidades de Lages. A empresa expandiu-se com lão ondulado, localizadas em Itaquaquecetuba-SP
a construção, em 1973, da fábrica de embalagens e Feira de Santana-BA, além de uma unidade de
de papelão ondulado de Jundiaí-SP. Em 1983 seria reciclagem de papel em Ponte Nova-MG (186).
instalada outra unidade industrial, a de Itajaí-SC A Igaras era composta de diferentes divisões,
150  | A EVOLUÇÃO TECNOLÓGICA DO SETOR DE CELULOSE E PAPEL NO BRASIL

que se organizavam a partir de unidades produti- nando-se controladores também da fábrica de


vas, atividades afins e mercados/produtos. Além celulose, do que se originou a consolidação
da Divisão Florestal e de Meio Ambiente, contava inicial da Ripasa. As etapas seguintes foram o
com a Divisão de Celulose e Papel, que fabricava estabelecimento e a implementação de uma
estes produtos para consumo próprio e exporta- política de investimentos, pois o futuro para o
ção. As unidades de Otacílio Costa e Angatuba setor de celulose e papel, no Brasil, se apresen-
eram, na época, responsáveis pela produção de tava bastante promissor (229). Para isso foram
cerca de um quarto do kraftliner produzido no estabelecidas algumas metas. Entre elas estava
Brasil (186). Já o papelão ondulado era destinado a modernização das unidades industriais, bem
para os diversos segmentos de mercado: alimen- como a continuidade de sua expansão, tanto no
tos, bebidas, fumo, químico, metalúrgico, auto- sentido vertical como horizontal. Como parte
motivo, têxtil, entre outros. A Igaras era então desses objetivos, em 1968, foi adquirido o con-
um dos maiores fornecedores brasileiros de em- trole acionário da Companhia Santista de Papel,
balagens para produtos de exportação e o quarto uma empresa tradicional no setor, localizada
maior convertedor do Brasil (196). em Cubatão, na Baixada Santista. Paralelamen-
Em outubro de 2000, a Igaras Papéis e Em- te a isso, começaram os investimentos na área
balagens S.A. foi adquirida pelo Grupo Klabin, florestal visando à formação de uma reserva
passando a denominar-se Klabin Igaras, dentro estratégica de florestas que tornasse a Ripasa
da estratégia deste grupo de aumentar o tama- autossuficiente em madeira para a produção de
nho empresarial para fazer frente à maior con- celulose (229).
corrência e ao processo de fusão e incorporação Em 2004 a unidade fabril de produção de ce-
de empresas em escala internacional, atividade lulose e papel de Limeira foi adquirida em partes
empresarial comum que ocorre neste segmento iguais pela Suzano Papel e Celulose e pela Voto-
(186). A incorporação aumentou a competitivi- rantim Celulose e Papel (VCP), que a operavam
dade da empresa, diversificando mercados e for- em conjunto, formando o que se denominou de
talecendo suas tecnologias. Conpacel (Consórcio Paulista de Papel e Celulo-
se). Toda a produção de celulose e papel era divi-
dida igualmente entre os dois sócios (217).
RIPASA / CONPACEL / SUZANO O mais importante nessa unidade industrial
A Ripasa foi constituída oficialmente no tem sido a preocupação ambiental nas florestas
dia 22 de outubro de 1959. No entanto, a ori- e na fábrica. Na área florestal, a empresa valo-
gem desse complexo empresarial data de 1958, rizava não apenas seu sistema de cultivo míni-
quando as famílias Zarzur, Derani e Zogbi se as- mo, para reduzir a necessidade de preparo da
sociaram para adquirir uma pequena indústria terra, ao deixar galhos e folhas no campo, para
produtora de papel e cartão: a Limeira S.A., lo- reincorporação ao solo, como sua gestão flores-
calizada na cidade de mesmo nome no interior tal com foco na sustentabilidade. Ainda como
do Estado de São Paulo (229). Conpacel, a empresa montou uma excepcional
Próxima a essa fábrica funcionava outra fábri- central de compostagem, para que pelo menos
ca de papel e papelão, que possuía uma unidade de parte do adubo necessário para as florestas fosse
fabricação de celulose, a Ribeiro Parada S.A. Essa produzido com material descartado no processo
fábrica de celulose, cuja capacidade era de 30 to- industrial e também com as cascas (92).
neladas diárias, ganhou personalidade jurídica A Central de Compostagem da antiga Con-
distinta, passando a ser chamada de Ripasa S.A. pacel, hoje Suzano, talvez seja uma das mais inte-
Celulose e Papel (229). ressantes do mundo industrial da celulose e papel,
Em 1965 os sócios da Limeira adquiriram isso em nível global. Ela tem uma base de concre-
a totalidade das ações da Ribeiro Parada, tor- to de 52.000 metros quadrados, sobre a qual são
SEGUNDA PARTE - A EVOLUÇÃO TECNOLÓGICA DOS  |  151
PROCESSOS DE FABRICAÇÃO DE CELULOSE E PAPEL NO BRASIL

acumuladas fibras descartadas, lodo resultante do A capacidade produtiva seria de 720 tonela-
tratamento da água e efluentes, resíduos da causti- das diárias (234), um volume bastante expressi-
ficação e forno de cal, resíduos de madeira e casca vo para os padrões da época (o governo exigia
de eucalipto. A mistura desses materiais é digeri- um mínimo de 100 toneladas diárias), e também
da lentamente por bactérias aeróbicas, que com- demonstrava que para ser competitivo no mer-
pletam o trabalho ao longo de 90 dias. Cada vez cado internacional seria importante a utilização
que a massa atinge 70 ºC, um trator a revolve para de economia de escala. Mas nem tudo trans-
impedir que o excesso de calor elimine os micror- corria tranquilamente. A localização da fábrica,
ganismos. A produção de composto é tão grande próxima a Porto Alegre (cerca de 8 a 10 km em
que significa uma economia de US$ 400 mil/ano linha reta), acarretou problemas sociais e am-
de adubo mineral substituído para distribuição bientais para a população, exigindo tecnologias,
nas florestas, que abastecem a fábrica (217). equipamentos e fortalecimento da legislação de
Para minimizar os problemas dos odores tí- controle ambiental (159).
picos da produção de celulose, a fábrica conta A história da empresa é singular, única e
com instalações modernas para operação e duas diversificada, tendo representado um ponto de
chaminés de 156 metros de altura (quanto mais inflexão na condução dos aspectos ambientais
alta a dispersão dos gases, menos odor ao nível para o setor brasileiro de celulose e papel.
do solo) e uma estação de monitoramento do Na década de 1960, o Grupo Borregaard,
ar. A fábrica é autossuficiente em produção de atuando na manufatura de produtos de madei-
energia, produzindo o vapor e a eletricidade que ra e seus derivados e, também, na produção de
precisa. Tornou-se, em função disso, em uma óleos detergentes, produtos de higiene pessoal,
fábrica bastante ligada aos temas ambientais, o têxteis, químicos e minerais, possuía – apenas
que é demonstrado por suas certificações am- na Noruega – nada menos do que 40 empre-
bientais e florestais (217). sas, além de outras duas na Suíça. A direção
Em 21 de dezembro de 2010, a Fibria (ex-VCP) do conglomerado pensava em expandi-lo ain-
aceitou vender seus ativos da Conpacel à Suzano da mais. Um estudo estratégico, realizado em
pelo valor de R$ 1,45 bilhão. Os ativos envolviam 1965, previa, entretanto, uma escassez de ma-
50% da fábrica de papel e celulose, 76.000 hecta- téria-prima (madeira) na década seguinte, algo
res de terreno e 71.000 hectares de florestas (224). extremamente prejudicial aos planos de intro-
Dessa forma, a Conpacel passou a ser conhecida duzir em curto prazo celulose de fibra curta no
como Suzano, Unidade Limeira. mercado europeu (228).
A partir destas conclusões, outros estudos
foram feitos para determinar o melhor local
BORREGAARD / RIOCELL /KLABIN RIOCELL / para a instalação de uma nova unidade indus-
ARACRUZ / CMPC trial dedicada exclusivamente à produção de ce-
Em 1968, a empresa norueguesa Borrega- lulose. A princípio havia três opções: África do
ard AktieselSkapet, com o apoio e a participa- Sul, América Central e Brasil, A escolha acabou
ção do Governo Brasileiro, passava a instalar recaindo sobra o Brasil, mais precisamente na
uma unidade fabril na cidade de Guaíba-RS, a cidade de Guaíba, no Rio Grande do Sul (228).
32 quilômetros via estrada de rodagem de Porto Razões para justificar essa opção não falta-
Alegre-SC, voltada para a exportação de celulo- vam. Em Guaíba, a Borregaard encontrou dis-
se de fibra curta. Esse projeto é considerado um ponibilidade de terras para o reflorestamento,
marco do desenvolvimento do setor de celulose clima e solo favoráveis ao cultivo do eucalipto
e papel porque demonstrava para os brasileiros e da acácia-negra, estradas em boas condições
que a celulose de fibra curta reunia condições e a privilegiada localização às margens do Rio
competitivas no mercado internacional (159). Guaíba que, além de abastecer a fábrica, ofere-
152  | A EVOLUÇÃO TECNOLÓGICA DO SETOR DE CELULOSE E PAPEL NO BRASIL

cia uma via natural navegável para escoamen- lar no Brasil e, por isso, foi importante contar
to dos produtos para o Porto Marítimo de Rio com a participação de técnicos e engenheiros
Grande. Essas foram as chamadas razões natu- estrangeiros para ajudar no arranque da fábrica.
rais para a escolha. Mas havia outra igualmente O digestor utilizado, por exemplo, era do tipo
importante: o apoio dos organismos financeiros contínuo e foi o primeiro desse tipo instalado no
do Governo Brasileiro para a implantação da fá- Brasil para produção de dois tipos de celulose:
brica no Rio Grande do Sul (228). para papel e para derivados de celulose, ou celu-
Dos estudos realizados na Noruega até a for- lose solúvel (51). Era uma fábrica moderna, com
mação de uma nova empresa da Borregaard não o maior nível de automação para a época (234).
passou muito tempo. Em 15 de março de 1966 A fábrica operaria segundo o processo kraft para
foi criada a Indústria de Celulose Borregaard produção de celulose para papel e com o pro-
Ltda., mas, no ano seguinte, foi transformada cesso pré-hidrólise kraft para produção de polpa
em sociedade anônima. E, na nova composição solúvel ou para dissolução. Os equipamentos,
acionária, além da Borregaard, estavam o então apesar de modernos para a época, desconhe-
Banco Nacional do Desenvolvimento Econô- ciam a presença de um importante núcleo po-
mico (BNDE), atual BNDES, e alguns bancos pulacional a menos de 8 km em linha reta das
e investidores estrangeiros. Quinze dias depois chaminés da fábrica.
da transformação da empresa em S.A., o Go- Depois de todas essas partidas setoriais, o
verno Brasileiro, por meio do Decreto Federal arranque produtivo geral foi o próximo passo. A
n.º 60.803, havia declarado o projeto industrial alimentação do digestor com cavacos de madeira
como de “alto interesse para a economia nacio- deu-se no dia 27 de dezembro de 1971 (234); e,
nal” (228). no dia 29 (228), era então produzida a primeira
A construção da fábrica levou, praticamente, celulose não branqueada, seca em flash dryers,
cinco anos, e enquanto estava sendo construí- ou secadores instantâneos de celulose. Após três
da a Borregaard desenvolviam-se paralelamen- dias de produção, houve uma parada geral para
te projetos de reflorestamento com o cultivo de eliminar gargalos e para que alguns ajustes fos-
eucaliptos e acácias-negras para a futura produ- sem feitos. Assim, havia se dado o start-up na
ção de celulose (228). Apesar dos poucos estu- primeira fábrica de celulose tipo exportação em
dos sobre a utilização da acácia-negra em nível grande escala no Brasil (234). A celulose não
industrial para produção de celulose e papel, branqueada seria exportada para a Noruega, lá
sabe-se que, posteriormente, ela seria utilizada seria depurada, branqueada, reenfardada e ven-
junto com o eucalipto por essa empresa e pelas dida como celulose de eucalipto com o nome co-
outras denominações que se seguiram, durante mercial de Unicell.
cerca de duas décadas (81). Três meses depois, com muita festa e a pre-
O treinamento anterior à operação na fá- sença de autoridades de todos os escalões do
brica havia sido intenso: memorização de dia- Governo, além do embaixador da Noruega, a
gramas, início e paradas emergenciais, teste de Borregaard começava a operar em solo brasi-
equipamentos e lavagem das tubulações. Alguns leiro com uma capacidade nominal de 220.000
funcionários haviam sido treinados também na toneladas anuais e dando emprego para 2.400
Noruega, Suécia e Portugal (234). pessoas (228).
Logo após ter sido montada a fábrica, ini- Com o início do funcionamento da fábrica
ciaram-se os testes de produção, dando-se, num vieram também as primeiras dificuldades. Pro-
primeiro momento, partidas independentes blemas graves frente à comunidade gaúcha sur-
das diversas áreas e não do conjunto todo (234; giram, pois a população não aceitava a poluição
228). Alguns equipamentos não tinham simi- provocada pelos efluentes hídricos e aéreos. Os
SEGUNDA PARTE - A EVOLUÇÃO TECNOLÓGICA DOS  |  153
PROCESSOS DE FABRICAÇÃO DE CELULOSE E PAPEL NO BRASIL

rejeitos despejados no Rio Guaíba e o mau chei- compostos de mau odor, responsáveis pelo mau
ro que atingia a capital gaúcha quase que dia- cheiro que tanto incomodava as pessoas (252).
riamente, colocaram a opinião pública contra A situação financeira piorou tanto que as
a indústria. A revolta era ainda maior porque ações da empresa despencaram de valor, sen-
poluindo o Rio Guaíba, atingia-se algo intima- do que os acionistas governamentais (Banco do
mente ligado à história do Rio Grande do Sul e Brasil e BNDES) assumiram, temporariamente,
da sua gente (228). o controle total da empresa. Posteriormente, o
Paralelamente ao problema da poluição, ha- controle acionário passou para o Montepio da
via outro também muito sério. Os noruegueses Família Militar (MFM), alterando a razão social
montaram em Guaíba uma fábrica para produzir da empresa para Riocell – Rio Grande Compa-
celulose não branqueada deixando o processo fi- nhia de Celulose do Sul, ainda com certa parti-
nal de branqueamento para ser feito em seu país cipação acionária estrangeira, não tendo mais a
de origem, inclusive a comercialização. Isso cau- Borregaard qualquer participação acionária na
sava sérios prejuízos à filial brasileira, que precisa empresa (228).
comprar pelos serviços de branqueamento e nova Nessa ocasião, tornou-se imprescindível a
secagem da polpa (228). instalação de uma unidade de branqueamento
Envolvida nessas duas situações, a Borrega- de celulose para evitar a dependência dos carís-
ard via aumentar a cada dia suas dificuldades. Na simos serviços prestados no exterior ao produto
mesma proporção cresciam também a revolta e da Riocell. Só que isso implicava investimentos
os protestos da comunidade, que logo conseguiu altíssimos e não havia segurança para se obter
um forte aliado: a Secretaria de Saúde do Estado esses recursos, fato que levou o Banco do Brasil e
do Rio Grande do Sul que, após uma série de o BNDES, por meio da Fibase (Insumos Básicos
intimações, determinou, em dezembro de 1973, S.A.) – Financiamentos e Participações, a ad-
a suspensão das atividades da empresa até que quirirem, em junho de 1978, as ações do MFM.
fossem cumpridas todas as exigências no senti- Constituíram assim a holding RASA – Riocell
do de eliminar ou minimizar os efeitos nocivos Administração S.A., que seria a responsável pelo
da poluição à saúde da população e às águas do suprimento do capital injetado na construção
Rio Guaíba (228). Surgiram nomes de ambienta- da nova unidade, já prevendo a transferência da
listas que se destacaram nesse processo, sendo o empresa para o setor privado (228).
principal deles, José Lutzenberger (234). A privatização da Riocell aconteceu em 10
Com isso, a jovem empresa, que ainda não ti- de março de 1982, com a entrada da holding KIV
nha dois anos de funcionamento, foi obrigada a Participações, constituída pelos grupos nacionais
paralisar sua produção por três meses. A antiga Klabin, Iochpe e Votorantim que, reunindo as
Borregaard permaneceu interditada no período condições estipuladas pelo governo, adquiriram as
de 6 de dezembro de 1973 a 14 de março de 1974. ações que estavam em poder do Banco do Brasil.
O problema da poluição foi então minimizado Quando esta operação foi realizada, as obras da
com a instalação de equipamentos mais sofistica- unidade de branqueamento estavam paralisadas
dos de controle, mas permanecia o fato da Borre- e a empresa não conseguia pagar seus fornecedo-
gaard ser norueguesa (228; 252). res. Com a entrada de dinheiro, consequência da
A primeira medida tomada pela empresa, no privatização, e a determinação dos novos sócios,
final de 1973, foi a implantação da planta de oxi- finalmente a unidade de branqueamento entrou
dação do licor preto forte. Tal substância é um em funcionamento no dia 1.º de março de 1983,
subproduto do processo de polpação da madeira, terminando assim com a dependência tecnológica
sendo queimado na caldeira de recuperação. Du- externa da Riocell (228). Em parte essa dependên-
rante a queima, o sulfeto de sódio presente no li- cia tecnológica já havia sido resolvida com a insta-
cor transforma-se em gás sulfídrico (H2S) e outros lação de moderno centro de Pesquisas e Desenvol-
154  | A EVOLUÇÃO TECNOLÓGICA DO SETOR DE CELULOSE E PAPEL NO BRASIL

vimento na própria área fabril, em maio de 1981 Efluentes (ETE). Tal unidade de tratamento repre-
(atual Centro Tecnológico – Aldo Sani). sentou na época um investimento de US$ 19 mi-
O projeto de branqueamento da Riocell per- lhões. A ETE era constituída de modernas instala-
mitiu se branquear a celulose numa planta própria, ções, com tratamento secundário por lodo ativado
sendo que o custo total do projeto chegou a qua- e terciário por clarifloculação com sulfato de alu-
se US$ 240 milhões, dos quais 15% foram desti- mínio. Como complemento à estação, foi constru-
nados à proteção do meio ambiente. Juntamente ída uma lagoa de emergência impermeabilizada,
com o objetivo de completo acabamento do pro- destinada à captação de eventuais piques de carga
duto dentro de um elevado padrão industrial e de ou vazão, evitando choques do tratamento. Com
controle ambiental, foi implantado um complexo vistas a manter a eficiência do sistema, mesmo em
constituído por: centro tecnológico, planta quí- períodos de manutenção, todos os decantadores
mica, turbogerador, caldeira de força, tratamento foram projetados em duplicata (252).
hídrico, unidade de branqueamento por desloca- Em março de 1990 foi finalizada a montagem
mento e máquina de secagem. Como o combus- de uma unidade de deslignificação com oxigênio.
tível escolhido para a caldeira de força foi o carvão Era o primeiro passo para a diminuição da parti-
mineral, a empresa julgou necessária a instalação de cipação do cloro elementar na sequência de bran-
um precipitador de cinco campos, com capacidade queamento, rumo a um sistema ECF (53).
para gases de exaustão em fluxos de 475.000 Nm3. No final da década de 1990, a razão social da
Foi construído, também, um fuste em concreto Riocell foi alterada para Klabin Riocell S.A, pois a
para a chaminé com altura de 126 metros. Estas acionista Klabin integraliza 100% do controle da
medidas reduziram substancialmente as emissões empresa. Em inícios de 2003, finalizou-se a exe-
de particulados (252). cução do Projeto Riocell 2000, que incluía a insta-
Outro passo significativo da Riocell após o fun- lação de uma nova caldeira de recuperação, uma
cionamento da planta de branqueamento foi o pro- nova evaporação e melhorias generalizadas nas
jeto de uma excepcional Estação de Tratamento de áreas de produção e ambiental. A produção anual,

A presença da inovação setorial no Centro Tecnológico Aldo Sani, Guaíba-RS


SEGUNDA PARTE - A EVOLUÇÃO TECNOLÓGICA DOS  |  155
PROCESSOS DE FABRICAÇÃO DE CELULOSE E PAPEL NO BRASIL

com essas modificações, passou de 300.000 para ria a se tornar, mais tarde, a maior unidade fabril de
400.000 toneladas, toda em termos de produção celulose de fibra curta do mundo e também um dos
de celulose branqueada (53). principais fornecedores internacionais de celulose,
Em maio de 2003, o Grupo Klabin anunciou colocando o Brasil entre os produtores de celulose de
a venda da Klabin Riocell para a Aracruz Celulo- maior potencial do mundo (159).
se e em julho de 2003 a Aracruz Celulose assumiu A Aracruz Florestal S.A., que antecedeu a Ara-
a empresa, que passou a ser denominada Aracruz cruz Celulose, foi constituída em 1967, época em
Celulose S.A. – Unidade Guaíba (53). Ainda sobre que ocorreram os primeiros plantios de eucalipto. A
o controle da Aracruz, em 24 de agosto de 2008, foi Aracruz Celulose foi fundada em abril de 1972 (20).
lançada a pedra fundamental do projeto de expan- O programa de melhoramento genético da
são da empresa (53). Aracruz foi iniciado em 1973, visando à obtenção
Entretanto, essa expansão não se concretizou de materiais mais adaptados às suas condições lo-
sob a gestão da Aracruz, pois em 8 de outubro de cais no Estado do Espírito Santo. O primeiro passo
2009 ocorreu a assinatura do compromisso de ven- foi a introdução de 55 diferentes espécies de euca-
da da Unidade Guaíba entre Aracruz Celulose e a lipto, da Austrália e da Indonésia. Após a avaliação
empresa chilena Compañia Manufacturera de Pa- no campo, foram definidas as espécies E. grandis e
peles y Cartones (CMPC). Em dezembro de 2009 E. saligna como as de maior potencial para a utili-
iniciou as operações como CMPC Celulose do zação na Aracruz, em função do rápido crescimen-
Brasil Ltda. e, mais adiante, a razão social mudou to e da adequação ao processo de polpação (250).
para CMPC Celulose Riograndense Ltda. (53). Depois de diversos problemas fitossanitários, que
Em julho de 2013, iniciaram-se as obras do ameaçariam inclusive o futuro suprimento de ma-
Projeto Guaíba 2, que elevaria a produção de deira para a fábrica, a Aracruz Celulose desenvolveu
450.000 toneladas para 1,75 milhão de tonela- uma tecnologia surpreendente para a época, que foi
das anuais de celulose branqueada de fibra curta a clonagem de plantas de eucalipto resistentes à ame-
de mercado e, em agosto de 2013, ocorreu o lan- açadora doença, que era o cancro do eucalipto. Para
çamento da Pedra Fundamental desse projeto. Fi- isso se criou o híbrido entre as espécies E. grandis e
nalmente, em 3 de maio de 2015, as operações da E. urophylla, o E. urograndis, famoso híbrido resis-
segunda linha de produção de celulose da CMPC tente às doenças e adaptado ao clima, cujas caracte-
Celulose Riograndense se iniciaram. Finalmente, rísticas químicas e morfológicas têm dado destaque
a esperada ampliação estava concretizada e em para o setor de celulose do Brasil. O reconhecimen-
níveis tecnológicos no estado da arte. to desse enorme sucesso pode ser comprovado pela
obtenção de diversas premiações, como a mais sig-
nificativa de todas, que foi a recebida da Fundação
ARACRUZ CELULOSE / FIBRIA Marcus Wallenberg, da Suécia, em 1984.
No início da década de 1970 surgiu outro marco A fábrica original, que começou a ser cons-
do desenvolvimento do setor de celulose e papel no truída em 1976, entrou em testes em setembro de
Brasil: o Projeto da Aracruz Celulose S.A., com vo- 1978, obedecendo ao projeto de engenharia desen-
lume de investimentos superior a US$ 400 milhões e volvido pela Jaakko Pöyry, empresa especializada
capacidade de produção de 1.200 toneladas diária de no setor, com capacidade nominal de cerca de
celulose branqueada de eucalipto. O projeto foi ini- 400.000 toneladas anuais (cerca de 1.200 toneladas
cialmente classificado de êxito duvidoso pelo Inter- diárias). Essa unidade está localizada no municí-
national Finance Corporation (IFC) por considerar pio de Aracruz, 60 quilômetros ao norte de Vitó-
que o País não dispunha de experiência para realizar ria, capital do Estado do Espírito Santo (20).
um empreendimento dessa magnitude e que o retor- O projeto estava dividido em oito etapas, co-
no não compensaria. O Governo Brasileiro financiou meçando pelo manuseio da madeira, ainda na flo-
grande proporção do projeto e a Aracruz Celulose vi- resta e terminando com o tratamento de efluen-
156  | A EVOLUÇÃO TECNOLÓGICA DO SETOR DE CELULOSE E PAPEL NO BRASIL

tes, que são despejados por difusão no Oceano recuperação da Götaverken tinha capacidade para
Atlântico. Na fase inicial, de manuseio de madeira, 1.800 toneladas diárias de sólidos secos (tss/dia).
o eucalipto era cortado em toras para facilitar o Os gases passavam em dois precipitadores eletros-
transporte. Chegando à fábrica a madeira era des- táticos para a remoção de partículas suspensas. A
cascada (sendo a casca aproveitada como combus- caustificação era conduzida em duas linhas para-
tível) e picada em cavacos com a utilização de três lelas com capacidade total de 1.650 m3 por dia de
picadores convencionais da KMW, passando esses licor branco, enquanto que o forno de cal possuía
cavacos depois por peneiras classificadoras e esto- capacidade para produzir 305 toneladas diárias de
cando-se os cavacos em silos. Na sequência, utili- cal virgem. Os gases eram lavados em um scrubber
zando-se o processo kraft, os cavacos eram cozidos (ou lavador de gases) de dois estágios, cuja eficiên-
em um digestor contínuo Kamyr com diâmetro de cia era de 98% (20; 78; 150).
6,8 metros e 49,4 metros de altura, fase vapor-líqui- Na penúltima etapa do processo entrava em
do, com sistema Hi-Heat e lavagem contracorrente, ação a caldeira auxiliar, que utilizava dois tipos de
com capacidade nominal de 1.380 toneladas diárias combustíveis: cascas de eucalipto e óleo combustí-
de celulose não branqueada (20; 78; 150). vel. Sua capacidade máxima era de 170 toneladas
O próximo passo na linha de produção era o diárias de vapor, das quais 95 toneladas por hora
da lavagem e depuração. Nessa etapa, a polpa que podiam ser geradas somente com biomassa (20).
saia do digestor era distribuída em duas linhas pa- A última etapa era a de tratamento de efluen-
ralelas constituídas por lavadores difusores Kamyr, tes. Chegava ao fim o processo industrial. Aqui
depuradores centrífugos e dois filtros lavadores e os efluentes que continham fibras eram enviados
engrossadores a vácuo. A fase de branqueamento, para um clarificador, no qual, depois de decanta-
constituído por duas linhas paralelas, cada uma das, eram recuperadas e enviadas ao processo. O
com capacidade de 650 toneladas diárias de celu- restante dos efluentes, após devidamente tratado,
lose branqueada, era definida pela sequência CE- era enviado para o oceano por um emissário ma-
DED e, finalmente, uma lavagem com SO2, com rítimo (20).
o objetivo de chegar a uma alvura de 92% ISO. O No sistema florestal, novas introduções das
clorato e o cloro-soda utilizados nessa parte do espécies E. grandis e E. urophylla foram realiza-
processo industrial eram produzidos pela própria das, tendo em vista a ampliação da Aracruz, de
Aracruz (20; 78; 150). forma que a partir da década de 1980 já eram
A quinta etapa era a de secagem da polpa e produzidas na empresa sementes melhoradas
embalagem. Depois de branqueada, a polpa pas- para consumo próprio e para comercialização.
sava por uma segunda depuração constituída por Com o advento da clonagem em escala comer-
depuradores pressurizados e depuradores hidro- cial, ocorrido na mesma época, grande ênfase
ciclônicos, seguido de um decker (engrossador foi dada à seleção e propagação de árvores su-
de polpa) e filtro de vácuo. Após esse sistema de periores, a maioria delas composta de híbridos
depuração, a polpa era enviada para duas máqui- naturais ou artificialmente criados, derivados
nas Voith, do tipo Fourdrinier e secada em dois de E. grandis e de E. urophylla, entre outras. As
secadores do tipo Fläkt, com capacidade total de florestas clonais, a partir de então, apresentaram
1.400 toneladas diárias, sendo finalmente em- ganhos significativos em produtividade, unifor-
balada em fardos por meio de uma enfardadora midade e qualidade da madeira, o que permitiu
Sunds (20; 78; 150). à Aracruz ampliar sua competitividade (250).
O sistema de recuperação era um processo as- Na virada para os anos 1990, a Aracruz Celulo-
sociado à linha de fibras, como continua sendo nos se contou novamente com o BNDES para o finan-
dias atuais. Na saída do digestor, o licor preto tinha ciamento de U$ 600 milhões para a construção de
15% de sólidos e, para ser convertido em combustí- sua segunda fábrica, ao lado de US$ 80 milhões da
vel, era concentrado por evaporação. A caldeira de International Financial Corporation, órgão do Banco
SEGUNDA PARTE - A EVOLUÇÃO TECNOLÓGICA DOS  |  157
PROCESSOS DE FABRICAÇÃO DE CELULOSE E PAPEL NO BRASIL

Mundial. Para duplicar a sua produção, a Aracruz universidades e instituições científicas do Brasil
construiu, em 36 meses, uma nova fábrica, a fábrica e do exterior, desenvolvidos nos campos da en-
“B”, ao lado da primeira, no mesmo sítio do município tomologia e ambiência, patologia florestal, me-
que leva seu nome no litoral norte do Espírito Santo. lhoramento genético, solo e nutrição de plantas,
Foi um investimento total de cerca de US$ 1 bilhão, entre outros temas, têm sido responsáveis pelos
que implantou novas tecnologias e elevou a capaci- bons resultados obtidos na produtividade dos
dade de produção da empresa para 1 milhão t/ano. plantios e na qualidade da celulose Aracruz.
Além de ser, na época, a principal fornecedora de Suas florestas estão distribuídas pelo Espírito
celulose para as indústrias papeleiras brasileiras Santo e Bahia, sendo que cerca de 40% das áreas
(20% de sua produção), a companhia era a maior são orientadas para preservação e conservação
exportadora de fibra de eucalipto (80% de sua de florestas nativas (21).
produção) (21). A empresa também gastou cerca de US$
Por ocasião dessa duplicação, os sócios con- 120 milhões para substituir o cloro pelos com-
troladores da Aracruz eram os grupos Lorent- postos de oxigênio, como o próprio oxigênio e
zen, Souza Cruz e Safra, cada um com 28% das peróxido de hidrogênio, e dióxido de cloro no
ações, e o BNDES com 12,46%. A holding do branqueamento da celulose. Isso porque cientis-
grupo controlava sete empresas além da Ara- tas europeus e norte-americanos identificaram
cruz Celulose: Aracruz Florestal, responsável o cloro elementar como gerador de substâncias
pelo desenvolvimento de pesquisas florestais, toxicologicamente negativas aos seres vivos, fato
manejo das florestas e fornecimento de madei- que poderia comprometer as vendas dos produ-
ra; Aracruz Internacional e a Aracruz Trading, tos da empresa (21).
sediadas no Exterior, que apoiavam os negócios Em março de 1997 houve o ingresso da em-
externos e o desenvolvimento de novos merca- presa na área de produtos sólidos de madeira
dos; Santa Cruz Urbanizadora, que cuidava da (marca comercial Lyptus), por meio da aquisição
infraestrutura social do empreendimento; Ara- da Gutches International Inc. (144). O produto
cruz Corretora de Seguros; Cristal Destilaria Lyptus vem, então, sendo produzido desde 1999
Autônoma de Álcool S.A. (Cridasa), que produ- pela Aracruz Produtos de Madeira S.A., uma
zia álcool combustível; e a Portocel, encarregada das empresas do Grupo Aracruz. A madeira é
da administração do terminal portuário de Bar- utilizada para fins industriais fora do segmento
ra do Riacho. O terminal portuário, que fica na de celulose e papel (250). Em outubro de 2004
frente da fábrica, é o totalmente especializado houve a venda de dois terços das ações para a
em exportação de celulose (21). Weyerhaeuser, sendo ainda a Aracruz detentora
Parte importante dos recursos e investimen- de um terço das ações (144).
tos da Aracruz foi destinada para a proteção do Em junho de 2000, o conselho de administra-
meio ambiente. Desde que a fábrica entrou em ção aprovou a implantação de nova unidade in-
funcionamento em 1978, a empresa já havia in- dustrial de celulose em Barra do Riacho, fábrica
vestido US$ 200 milhões em projetos ecológicos, “C”, com capacidade nominal de 700.000 tonela-
representando um exemplo de desenvolvimento das anuais, cujo início de operação se deu no final
sustentável. Com a duplicação, a empresa incor- de maio de 2002, atingindo a plena capacidade
porava novas tecnologias em atenção à natureza em 2003 (144).
e mais da metade do investimento de US$ 66,2 Em setembro de 2009, surgia a Fibria, resul-
milhões foi destinado à implantação do sistema tado da consolidação das empresas Aracruz Ce-
de tratamento biológico de efluentes das duas lulose e Votorantim Celulose e Papel, como será
fábricas, envolvendo a construção de sete lagoas mostrado mais adiante. Com isso, a Fibria passou
de reação e estabilização (21). a ser a empresa líder do setor de produção celulo-
Programas de pesquisas e intercâmbio com se de mercado a partir do eucalipto.
158  | A EVOLUÇÃO TECNOLÓGICA DO SETOR DE CELULOSE E PAPEL NO BRASIL

VERACEL que também era na época um dos maiores do


Em 2005 foi inaugurado um dos maiores mundo, foi de responsabilidade da Metso Paper.
investimentos privados realizados no Brasil: a O pátio incluía duas linhas de picagem de cava-
fábrica da Veracel Celulose, financiada com re- cos, um sistema de estocagem de cavacos com
cursos do Banco Nórdico de Investimento (NIB), capacidade de armazenamento de 80.000 m3, as-
do Banco Europeu de Investimento (EIB) e, no- sim como o sistema de conservação de cascas e de
vamente, do BNDES. combustíveis (269).
Com uma capacidade de projeto de 900.000 A Andritz forneceu a linha completa de fabri-
toneladas anuais de celulose kraft de eucalipto cação de celulose, desde o digestor até a celulose
branqueada, a Veracel Celulose era, na época de acabada e convertida em fardos, assim como a
sua inauguração, a maior linha unitária de fabrica- planta de licor branco. A Aker Kvaerner forneceu
ção de celulose de eucalipto do mundo. Nada sur- a caldeira de recuperação e a caldeira de energia
preendente, tendo em conta que seus dois sócios que queima as cascas. A caldeira de recuperação
em partes iguais eram a brasileira Aracruz Celulo- foi projetada para queimar 4.000 toneladas de sóli-
se, que era o maior produtor mundial de pasta de dos secos por dia (269).
eucalipto, e, por outro, a empresa sueco-finlandesa A planta de tratamento biológico dos efluen-
Stora Enso, uma das maiores empresas globais do tes líquidos, com uma capacidade de 96.000 m3
setor (269). por dia foi Projeto da Companhia Centroprojekt
A fábrica foi construída em 17 meses, três me- do Brasil. A ABB forneceu os transformadores de
ses antes do programado, já que os fornecedores distribuição de energia e a Mitsubishi os turboge-
escolhidos foram de primeira linha e devido ao radores para a produção de eletricidade (269).
fato de que essa região do Estado da Bahia, onde
está localizada a fábrica, possuía alta oferta de tra- CENIBRA
balhadores, apesar de sua riqueza florestal, paisa- No início dos anos 1970, interessada em am-
gística e turística (269). pliar o escopo de suas atividades, a Companhia
A planta foi projetada tendo em conta as me- Vale do Rio Doce (CVRD) começava a procurar
lhores tecnologias disponíveis e segundo os parceiros que acreditassem, como ela, na viabi-
melhores padrões internacionais de proteção lidade de um empreendimento novo, que viesse
ambiental, em linha com as recomendações eu- aproveitar todo o potencial e a presença de exten-
ropeias do European Integrated Pollution Pre- sos maciços de eucalipto na região do Vale do Rio
vention and Control Bureau (EIPPC). Deve-se Doce, Minas Gerais (46).
levar ainda em consideração que se tratava de um Assim foi fundada, em 13 de setembro de
megaprojeto, que foi controverso desde as ativi- 1973, a Celulose Nipo-Brasileira S.A. (Cenibra).
dades antecedentes a ele, já que havia desperta- Sua localização no município de Belo Oriente, na
do a atenção dos organismos de meio ambiente região do Vale do Rio Doce, a aproximadamente
do mundo, pois o Estado da Bahia havia perdido 230 quilômetros de Belo Horizonte, é das mais
grandes massas florestais de matas nativas nos úl- privilegiadas, graças a uma eficiente infraestrutura
timos anos, por diferentes razões, e é um estado viária, hídrica e industrial (46).
no qual habitam vários povos indígenas (269). Controlada inicialmente pela CVRD e pela JBP,
Além disso, a região onde se localiza a fábrica que detinham respectivamente 51% e 49% de suas
mostra grande atração turística e paisagística. ações, a Cenibra foi implantada visando abastecer
O complexo industrial da Veracel ocupa uma de forma contínua o mercado japonês de celulose
área total em torno de 2 milhões de m2. A cons- de alta qualidade (46). A Japan Brazil Paper and
trução da fábrica foi dividida em módulos de res- Pulp Resources Development Co. Ltd. (JBP), forma-
ponsabilidade unitária com a finalidade de coor- da por uma trading company, a C. Itoh e mais 14
denar melhor o projeto global. O pátio de madeira, grandes empresas japonesas do setor de celulose
SEGUNDA PARTE - A EVOLUÇÃO TECNOLÓGICA DOS  |  159
PROCESSOS DE FABRICAÇÃO DE CELULOSE E PAPEL NO BRASIL

e papel, que representavam conjuntamente cerca março de 1977, a Cenibra produzia seus primei-
de 80% de toda a produção desses produtos no ros fardos de celulose (46).
Japão (150; 234). Assim, por força de contrato, a Um evento importante para o setor de celulose
empresa deveria vender boa parte de sua produ- e papel no Brasil foi a realização de um convênio
ção – aproximadamente 50% – aos seus próprios entre a Cenibra e a Universidade Federal de Viço-
acionistas japoneses, o que lhe garantiria situação sa, Minas Gerais, a partir de 1977, para a criação
bastante tranquila com relação à comercialização de um curso de pós-graduação em Celulose e Pa-
de seus produtos. Além disso, desde o início de pel, liderado por Celso Foelkel, contando com a
sua montagem, a Cenibra pôde se valer do inter- colaboração do corpo técnico da Cenibra e de pro-
câmbio técnico constante junto aos acionistas e fessores da universidade, como foi o caso do Prof.
fornecedores japoneses, o que, sem dúvida, ser- Dr. José Lívio Gomide (150).
viu para acelerar mais o desenvolvimento de suas Em 13 de setembro de 1993 foi lançada a Pedra
atividades industriais (46). Fundamental do Projeto de Expansão da Fábrica
A produção anual da Cenibra estava prevista e a Linha II. Os investimentos foram de aproxi-
para 250.000 toneladas, ou seja, em torno de 750 madamente de US$ 800 milhões na construção
toneladas diárias. O projeto previa estocagem da da Linha II e outros US$ 298 milhões no projeto
madeira em toras, picadores tradicionais, esto- de ampliação de capacidade da produção da linha
cagem de cavacos em pilhas ao ar livre, digestor original. Esse projeto previa também o cumpri-
contínuo, lavagem, depuração de celulose não mento das exigências ambientais e tecnológicas da
branqueada, branqueamento com sequência de época (240).
estágios CEHDED, depuradores rotativos e ciclô- Outro pilar de sustentação da Cenibra, que
nicos e duas máquinas de secagem de celulose. merece destaque, é a produção com foco no cresci-
Na caldeira de recuperação não seriam utilizados mento da capacidade, na qualidade dos produtos e
evaporadores de contato direto, a fim de evitar a processos, bem como na redução dos custos, inte-
poluição atmosférica, queimando no forno de cal grando anualmente o programa de investimentos
os gases produzidos pelas substâncias voláteis na da empresa. A modernização dos equipamentos,
evaporação e no cozimento (150). associada à expansão da capacidade da planta, que
Aldo Sani que, na época, trabalhou no projeto representou um crescimento de 37% na década
de construção da Cenibra, relatou que a terrapla- de 2000, permitiu que a empresa ultrapassasse as
nagem, treinamento, testes, partidas setoriais da metas originalmente propostas. Em sintonia com
Cenibra foram mais fáceis de serem desenvolvidas esse incremento, a Cenibra tem investido forte-
do que no Projeto da Borregaard, do qual ele havia mente também em tecnologias para aumento de
também participado, porque já havia mais expe- estabilidade da fábrica, por meio da minimização
riência no Brasil e que muitos dos operadores e do consumo de insumos. Aliado a isso, há o resul-
engenheiros, que também trabalharam no Proje- tado das tecnologias nas plantas de branqueamen-
to da Borregaard, tinham ido para a Cenibra. Sani to que, modernizadas, aproximaram o consumo
contou também que houve muitas visitas a fábricas de químicos ao de uma fábrica de tecnologia mais
japonesas de celulose, bem como para a inspeção recente (240).
dos equipamentos fornecidos por indústrias da- No campo florestal, não poderia ser
quele país (234). diferente. O aumento da produtividade das flo-
O treinamento de operadores foi realizado restas representou um investimento em torno
em fábricas brasileiras: na Riocell – Rio Grande de US$ 140 milhões em 2013, mas com retorno
Companhia de Celulose do Sul (ex-Borregaard, garantido. A empresa também opera em áreas
já nacionalizada) e na Suzano. Na partida geral, montanhosas para seus plantios e a colheita flo-
adotou-se o método das partidas parciais, tal restal requer equipamentos adequados e pró-
como havia sido feito na Borregaard (234). Em prios para essas condições (240).
160  | A EVOLUÇÃO TECNOLÓGICA DO SETOR DE CELULOSE E PAPEL NO BRASIL

Além do ganho de competitividade com essa A produção de celulose compreendia as ope-


mecanização, o melhoramento genético da Ce- rações de cozimento de cavacos em oito digestores
nibra busca o aumento da densidade básica da do tipo batch (por bateladas; não contínuo) com
madeira e do rendimento depurado de celulose capacidade de 207 m3 cada um, lavagem, depu-
com o intuito de tornar seu processo de produ- ração, branqueamento, uma máquina Fourdrinier
ção cada vez mais competitivo. Em 2013, a pro- da Black Clawson com 7,6 metros de largura, um
dutividade média era de 40,3 m3 por hectare/ano, sistema de secagem da Svenska Fläkt e sistema au-
resultado da intensificação do plantio de mudas tomático de embalagem (189).
por clones selecionados desde 1998, com a clo- A usina termoelétrica era constituída por três
nagem de seleções feitas nos maciços florestais da caldeiras para geração de 480 toneladas por hora
própria empresa (originalmente eram clones de de vapor, um turbogerador com potência de 55
espécie pura de E. grandis). Os clones híbridos de MW e instalações para recuperação de produtos
E. grandis x E. urophylla, oriundos do processo de químicos utilizados no cozimento (189).
pesquisa por polinização controlada ou aberta, co- A fábrica contava ainda com uma planta quí-
meçaram a ser plantados em 2005, compondo atu- mica, que produzia soda cáustica, cloro, hipoclo-
almente a maior parte do material genético planta- rito, clorato de sódio, dióxido de cloro e ácido
do na empresa (240). sulfúrico, utilizados na produção da celulose bran-
Em 2001 a Japan Brazil Paper and Pulp Re- queada (189). Para os efluentes gasosos e líquidos
sources Development Co. Ltd. (JBP) adquiriu a da operação foi projetado um sofisticado sistema
participação da Companhia Vale do Rio Doce de tratamento e controle, incluindo uma lagoa de
(CVRD), assumindo o controle acionário total da estabilização de 184 hectares, por onde os líquidos
Cenibra (240). industriais percorriam 12 km, antes de desagua-
rem outra vez no rio, portanto com redução em
sua carga poluente (212).
JARI / ORSA / INTERNATIONAL PAPER Parte do complexo agroindustrial da Jari
A fábrica da Jari Celulose, também conhecida compreendia plantação de Gmelina arborea que
como Monte Dourado, foi encomendada por Da- seria usada como matéria-prima para a fabrica-
niel K. Ludwig, criador do Projeto Jari, em uma ção de celulose. A Gmelina arborea, espécie asiá-
fantástica operação que significou o transporte tica de crescimento rápido e potencialmente alto
transcontinental de uma fábrica quase inteira de rendimento de celulose, não se adaptou muito
celulose kraft sobre duas enormes barcaças. Loca- bem ao solo e clima amazônico. Essa espécie viria,
lizada no Rio Jari, a 450 quilômetros de Belém-PA, posteriormente, a ser substituída pelo Pinus e de-
integrada ao porto, a fábrica previa a produção pois pelo eucalipto (49).
anual de 230.000 toneladas de celulose (cerca de Ainda do ponto de vista puramente industrial,
750 toneladas diárias), atendendo aos mercados mais uma das empresas do complexo da Jari, a
interno (30% da produção) e externo (70% da pro- Caulim da Amazônia S.A. (Cadam), tinha especial
dução) (189). interesse para o setor celulósico-papeleiro. Sub-
A fábrica foi construída no Japão e veio rebo- sidiária da holding, a Cadam é uma empresa de
cada ao Brasil, numa viagem que durou mais que mineração que extrai, beneficia e comercializa o
90 dias, atravessando os oceanos Pacífico, Índi- caulim da mina existente no Amapá, na margem
co e Atlântico. Ao chegar ao Brasil, a fábrica foi esquerda do Rio Jari. A partir do caulim, a Cadam
definitivamente assentada em duas plataformas, produz um pigmento branco e fino denominado
medindo 230 metros de comprimento por 45 “Amazon 88”, de grande importância principal-
metros de largura, pesando 30.000 toneladas cada mente para os fabricantes de papéis revestidos. As
uma. O conjunto industrial compreende ainda excelentes especificações do produto o recomen-
uma usina termoelétrica (189). dam preferencialmente para o fabrico de papéis
SEGUNDA PARTE - A EVOLUÇÃO TECNOLÓGICA DOS  |  161
PROCESSOS DE FABRICAÇÃO DE CELULOSE E PAPEL NO BRASIL

tipo couchê, que exigem maior brilho e alvura. O da fábrica. A linha de produção com sua máquina
“Amazon 88” tinha destinos de exportações para a 7 começou a ser construída e passaria a funcionar
Europa Ocidental, Escandinávia, América Latina e em 1993. Nesse mesmo ano, constituiu-se a hol-
Japão (189). ding Nicolaus Paper, que, no Brasil, passou a ope-
Apesar de todos os esforços feitos desde a rar como Nicolaus Papéis Ltda. Em 1995, a fábrica
criação da Jari, de 1982 a 1996, a empresa apre- de Louveira, que fabricava papéis especiais, como
sentou lucro contábil somente uma vez, em 1994. papéis para filtros automotivos, foi vendida para o
Em 1996, ela suspendeu o pagamento da dívida, Grupo Ahlstrom (180).
estimada em US$ 340 milhões, e começou a rene- A empresa foi adquirida pelo Grupo Formitex
gociá-la com os principais credores. Nos últimos em 1997, e passou a se chamar MD Papéis Ltda.
anos, a empresa passou por alguns processos de O início da construção da linha de produção de
modernização e de mudança de tipo de celulose, papéis decorativos de alta qualidade e a moderni-
destinada agora para a indústria de derivados de zação da linha existente ocorreram em 2001. Um
celulose (polpa solúvel). ano após, a máquina de papel MP-3 foi desativada
Em 1999, a empresa Saga Investimentos e Par- e iniciou-se a montagem da máquina Dekor – MP
ticipações, holding que controla o Grupo Orsa, as- 8, destinada à produção de papéis decorativos clas-
sumiu o controle do complexo do Jari, desembol- se mundial. A partida (start-up) dessa máquina
sando o valor simbólico de R$ 1,00 (um real), mas acontece em 31 de julho de 2003 (180).
comprometendo-se a abater, no mínimo, US$ 100 Em 2006, a MD Papéis assumiu o controle
milhões da dívida do complexo, estimada na épo- acionário da Adamas Papéis e Papelões Especiais,
ca em US$ 410 milhões. Pelos planos da empre- localizada na cidade de Osasco-SP; em 2007, ad-
sa, a dívida deveria ser paga até 2010 por meio da quiriu duas fábricas da Ripasa S/A: a Unidade San-
transferência gradual de recursos para os credores tista, localizada em Cubatão-SP, produtora de pa-
(112). Entretanto, esse plano não foi atingido. péis especiais e de impressão e escrita, e a Unidade
Em 2014, a International Paper adquiriu o Limeira, localizada na cidade de Limeira, fabrican-
restante das ações que tinha na parceria que pos- te de cartões duplex e reciclados (180).
suía com o Grupo Orsa, e da qual fazia parte a Em 2012, a MD Papéis reorganizou seus seg-
joint-venture com a empresa de papelão ondulado mentos de atuação, dando enfoque à produção nas
da Jari Celulose, Embalagens e Papel S.A. As ações unidades de Caieiras e Limeira. A Unidade Caiei-
foram negociadas pelo valor de R$ 318 milhões, ras, localizada na cidade de mesmo nome, fabrica
estipulado no início das transações. Com essa papéis para os segmentos decorativos, filtrantes,
transação, a IP passou a ter a propriedade total de autoadesivos, e embalagens flexíveis e tem uma ca-
três fábricas de papel para embalagens e 4 unida- pacidade instalada de 72.000 toneladas anuais. A
des de produção de embalagens de papelão ondu- Unidade Limeira produz cartões duplex e triplex,
lado, que constituem antigos ativos industriais da direcionados aos segmentos gráfico, promocional
Jari em sua linha de embalagens (202). e de embalagens cartonadas, com uma capacidade
instalada de 55.000 toneladas anuais (180).

MD PAPÉIS
Após a saída da Cia. Melhoramentos da socie- PISA
dade Meliorpel, a fábrica, as máquinas de papel A Pisa Papéis de Imprensa foi fundada em
e os 139.077 m² de área fabril foram vendidos à 1979 pela holding Companhia Paranaprint de Em-
MD Papéis constituindo então a MD Nicolaus. Em preendimentos Florestais, que unia o jornal O Es-
1984, a MD Nicolaus comprou a fábrica de Lou- tado de São Paulo e o Jornal do Brasil, contando
veira (antiga Gessner) (180). também com a participação de outros investidores
Em 1991 iniciou-se o projeto para a ampliação e acionistas, entre os quais se destacavam a empre-
162  | A EVOLUÇÃO TECNOLÓGICA DO SETOR DE CELULOSE E PAPEL NO BRASIL

sa florestal Plantar S.A.; o BNDES, sua subsidiária de apoio como duas caldeiras, cujo combustí-
BNDESPar e a Corporação Financeira Internacio- vel era lenha; tratamento d’água, tratamento de
nal (IFC), subsidiária do Banco Mundial. A fábri- efluentes (incluindo estágio de tratamento bioló-
ca, que está localizada no município de Jaguariaí- gico), depósitos de produtos acabados, almoxari-
va, nordeste do Paraná, próximo à divisa com São fado, oficinas etc. (177).
Paulo, foi construída a partir de 1982, e começou a Em 1997, a máquina de papel da Pisa passou
operar no dia 5 de janeiro de 1985 (176; 199). por uma reestruturação e ampliou sua capacidade.
Com uma produção inicial de 115.000 tone- O objetivo era chegar a uma capacidade de pro-
ladas anuais de papel imprensa, produto que era dução de aproximadamente 170.000 toneladas de
importado (e continua sendo) pelo Brasil na épo- papel anuais, e fornecer papel para cerca de 30%
ca, a Pisa proporcionaria ao País uma economia de do mercado nacional de publicações, entre jornais,
US$ 60 milhões anualmente. A previsão era de que gráficas, listas telefônicas e outros (199).
a Pisa alcançasse a produção máxima de 137.000 A Pisa é um belo exemplo de superação de me-
toneladas anuais em 1987. Nessa ocasião, teria tas. A produção de 1998 foi de 181.000 toneladas.
capacidade também para produzir 96.000 tonela- Isso só foi possível com melhoria de eficiência, re-
das de pasta mecânica e 32.000 toneladas de pasta dução dos tempos de parada e projetos de redução
termomecânica (176). Em 1988, o Grupo Fletcher e eliminação de gargalos, que consistem na elimi-
Challenge Ltd., da Nova Zelândia, passou a fazer nação de pontos críticos operacionais durante o
parte do quadro de acionistas (199). processo de industrialização do papel. Na época, a
A composição de matérias-primas fibrosas eficiência global da Pisa era de 90%. Também a es-
para o papel imprensa da Pisa estava previsto trutura de atendimento ao cliente foi decisiva para
ser de 20% de celulose de fibra longa obtida pelo que se atingisse esse grau de eficiência por meio do
processo químico e 80% de pasta mecânica. O estabelecimento de parcerias e com entregas pro-
complexo fabril era constituído basicamente por gramadas com o sistema just-in-time (175).
um pátio de preparação de madeira (para o seu Na época, a máquina de papel da Pisa, forne-
posterior beneficiamento); um prédio para pro- cida originalmente pela Voith, trabalhava a uma
dução de pastas, que possui duas linhas individu- velocidade de 1.150 m/min, tendo 6,75 metros
alizadas de produção: uma para pasta mecânica, de largura de tela, produzindo aproximadamente
que engloba sete desfibradores e todo o sistema de 520 toneladas diárias. O sistema Duoformer (dupla
lavagem e depuração, e outra para a pasta termo- tela) garantia a uniformidade em ambas as faces
mecânica, que é constituída de um refinador pres- do papel produzido (175).
surizado, um refinador atmosférico, um refinador O uso de pastas de alto-rendimento é um pro-
de rejeitos, também incluindo todo o sistema de cesso pouco poluente porque não é baseado no uso
lavagem e depuração (177). É importante salientar de agentes químicos. Mesmo assim, a Pisa possui
que a Pisa não possuía produção própria de celu- eficiente sistema de tratamento de efluentes líqui-
lose química, a qual era importada da Argentina, dos. Contava também, por ocasião da reforma da
Chile e Canadá (199). MP, com 120.000 hectares de área para geração de
A pasta mecânica produzida teria dois destinos florestas, sendo que 60.000 hectares já com plan-
internamente na fábrica e para prédios adjacen- tação de Pinus e 40.000 hectares de mata natural
tes – o primeiro, a máquina de papel, que possui preservada (175).
6,75 metros de largura útil e velocidade potencial O Grupo O Estado de São Paulo e o BNDESPar
de 1.000 m/min; e o segundo, uma máquina desa- venderam suas cotas de ações por US$ 60 milhões
guadora que produziria cerca de 35.000 toneladas em fim de 2000 para a Fletcher. A empresa foi ad-
anuais de pastas, com teor de seco de 48%, que es- quirida posteriormente pela Norske Skog, empresa
tava destinada ao mercado (177). global de produção de papel jornal, que intensifi-
O complexo compreendia também unidades cou o processo de comercialização global desse pa-
SEGUNDA PARTE - A EVOLUÇÃO TECNOLÓGICA DOS  |  163
PROCESSOS DE FABRICAÇÃO DE CELULOSE E PAPEL NO BRASIL

pel para o Brasil. Em junho de 2013, a fábrica da de, com capacidade anual de 205.000 toneladas,
Pisa foi parcialmente adquirida (51%) pelo Grupo o complexo incluía uma serraria, que produzia
Papeles Bio Bio, com matriz no Chile, que se tor- 150.000 m³ de madeira serrada por ano, e 30.000
nou o único dono em fevereiro de 2014 (199). hectares plantados de Pinus e eucalipto, a terceira
Apesar de inúmeras vezes se cogitar da duplica- maior plantação do estado. (38). Outros interes-
ção da fábrica com mais uma máquina de produção sados no negócio dessa aquisição eram os grupos
de papel imprensa, essa duplicação não se materiali- UPM Kymenne, Arauco, RGM e a brasileira Kla-
zou em função da grande capacidade excedente que bin que, segundo fontes do mercado, teria inte-
existe em nível global para esse tipo de papel. resse na área de floresta plantada. As empresas
adquiridas tiveram vendas líquidas de US$ 228
milhões em 2005, sendo 76% resultado da venda
INPACEL de papéis revestidos (38).
A Indústria de Papel Arapoti (Inpacel) é a No início de 2016, a Stora Enso vendeu a tota-
única fábrica no Brasil produtora de papel re- lidade de sua participação na fábrica de papel para
vestido de baixa gramatura, também conhecido a produtora chilena Papeles Bio Bio, que ampliou
como Lightweighted Coated Paper (LWC), para seus negócios no Brasil com mais essa aquisição.
impressão de revistas, catálogos, suplementos e
impressão comercial. Criada em 1992, pertenceu
originalmente ao Grupo Bamerindus, liderado CELPAV / VCP / FIBRIA
pelo Banco Bamerindus. Situada em Arapoti, no Inicialmente, a Celpav havia sido criada e
norte pioneiro do Estado do Paraná, enfrentou idealizada pelo Grupo João Gordo, com o intui-
anos seguidos de prejuízo. Na época, com cerca de to de abastecer de celulose a Refinadora Paulista,
mil funcionários e produção anual de 140.000 to- em Piracicaba-SP que, alguns anos depois, seria
neladas de papel, alcançava faturamento anual de adquirida pela Indústria de Papel Simão. Era conhe-
US$ 150 milhões, mas mantinha constantes e altos cida como Celpag (Celulose e Papel Guatapará),
prejuízos. O Grupo Bamerindus já enfrentava di- e ficava localizada no município de Luiz Antô-
ficuldades e concluiu que precisaria ter produção nio-SP. Mais tarde, foi assumida pelo BNDES,
em escala para tornar a empresa rentável (38). que preservou as florestas e a manutenção dos
A fábrica foi arrematada pelo Grupo equipamentos existentes. A empresa estava aberta
Champion em 1998, em meio ao processo de in- à privatização, e foi então comprada pelo Grupo
tervenção do Banco Central (BC) na instituição Votorantim, em 1988. Nascia assim a Cia. Voto-
financeira do Bamerindus. A empresa norte-ame- rantim de Celulose e Papel (Celpav) (42).
ricana ampliou o processo produtivo e a linha de Nos anos 1980, o Grupo Votorantim era bas-
produtos, direcionada ao mercado de catálogos, tante diversificado, produzindo alumínio, cimento,
revistas e encartes promocionais. A International zinco, níquel, alumínio etc.; enfim, atuava em uma
Paper assumiu a Inpacel em 2000, ao comprar a série de atividades sempre correlatas. Celulose e
Champion (38). papel também estavam no portfólio de produtos
Equipada com uma máquina de papel líder da Votorantim, mas com uma participação discre-
nesse mercado, a Inpacel alcançava índices de ta. Em 1960, o grupo havia adquirido o controle
eficiência global acima de 88%. A empresa pos- das ações da Cia. de Papel e Papelão Pedras Bran-
suía diversas marcas comerciais para seus varia- cas, que produzia papéis para embalagens e uma
dos produtos: Inpacel LWC CoatLight, Inpacel pequena quantidade de papel para impressão e es-
CoatStar, CoatTech e CoatGravure (38). crita, localizada na cidade de Guaíba-RS. A partir
Em 2006, o grupo sueco-finlandês Stora Enso de 1992, o Grupo Votorantim também detinha re-
adquiriu da International Paper o complexo de duzida participação acionária na KIV, controlado-
Arapoti por US$ 415 milhões. Além da unida- ra da Riocell. Além disso, o grupo industrializava
164  | A EVOLUÇÃO TECNOLÓGICA DO SETOR DE CELULOSE E PAPEL NO BRASIL

sacos multifoliados por intermédio da Companhia logo aconteceu: o Plano Collor foi lançado e de
Nordestina de Papel (Conpel) (272). repente não havia mais dinheiro para o projeto,
O funcionamento da fábrica originalmente pois as empresas do grupo ficaram sem recursos,
construída da Celpav foi retardado em função dos tiveram que recompor lentamente o caixa (217).
planos econômicos do Governo Federal da épo- O projeto foi sustado por um ano, até se conse-
ca. A primeira máquina de papel deveria ter sido guir recursos suficientes, conseguindo-se o apoio
acionada em outubro de 1990, juntamente com a do BNDES: passada a crise, o entusiasmo conti-
fábrica de celulose. Em função dos atrasos, houve nuou. Todos no grupo acreditavam no projeto,
inversão na sequência dos investimentos. Normal- um negócio no conceito greenfield, uma fábrica
mente, a planta de celulose é a primeira a entrar integrada e com ciclo completo de manufatura,
em funcionamento e depois as máquinas de papel. da matéria-prima ao produto final. Em 1991, a
No caso da Celpav, foi colocada em funcionamen- fábrica começou a produzir papel com celulose
to primeiro a máquina de papel 1 (MP-1), depois vinda de fora e, no ano seguinte, teve início a pro-
a fábrica de celulose e, finalizando, a máquina de dução própria de celulose. Um ano depois entrou
papel 2 (MP-2) (42). em funcionamento a segunda máquina de papel.
Com a Celpav, o Grupo Votorantim encontra- A planta chegou a ter capacidade para 400.000 to-
va a fórmula ideal para o que necessitava para en- neladas de papel por ano. Para suprir a fábrica, a
trar de vez no negócio da celulose e papel. Além da área de plantio florestal de eucalipto foi ampliada
sua fabricação de alumínio, o grupo não possuía até se chegar a 41.000 hectares efetivamente plan-
outro produto que pudesse exportar. Estava restri- tados (217).
to ao mercado interno, o que não era o modelo de- Em Luiz Antônio-SP foi instaurada a primei-
sejado pelos acionistas. Com a fabricação de papel, ra fábrica a implantar a colagem alcalina no Brasil
o grupo poderia atender tanto o mercado interno (1996) e também uma das primeiras a operar com
quanto o externo. branqueamento ECF com ozônio e oxigênio em
Na época, a Celpav iniciava sua participação uma sequência de branqueamento praticamente
no setor com uma fábrica equipada com moderna única. Também em Luiz Antônio foi implantado
tecnologia na fabricação de celulose e papel. Outra um viveiro para fornecer a imensa quantidade de
vantagem da empresa é que possuía 90% de capital mudas para manter a floresta plantada em pro-
próprio, sendo somente 10% financiado por tercei- dutividade constante (217). Posteriormente, essa
ros (42). A fábrica estava capacitada para fabricar unidade passou a pertencer à Internacional Paper
300.000 toneladas anuais de papel para imprimir em uma troca de ativos com a VCP.
e escrever, sendo que 50% dessa produção seriam
destinados à exportação (272).
O leilão, que marcou a entrada do Grupo Vo- • A VCP assume a Indústria de Papel Simão
torantim no setor de celulose e papel, aconteceu No ano de 1992 foi feita uma operação de
em nove de maio de 1988. Na realidade, a fábrica aquisição (takeover), envolvendo a transferência
adquirida não estava concluída, contava apenas de 100% das ações ordinárias (47,65% do capital
com uma caldeira, uma chaminé, o almoxari- social) da Indústria de Papel Simão para o Grupo
fado e metade do prédio onde mais tarde seria Votorantim. A transação, concluída em setembro
instalada uma máquina de papel. As obras co- daquele ano e avaliada em US$ 190 milhões, em
meçaram, os 25.000 hectares de eucalipto eram um ano marcado pela recessão, poderia ser consi-
insuficientes e por isso foi ampliado o plantio derada no mínimo ousada para aquela época. No
florestal. Contando com US$ 400 milhões para entanto, era a consolidação inicial para o surgi-
investimentos, os equipamentos foram encomen- mento de uma das maiores empresas do setor de
dados e o canteiro de obras passou a trabalhar a celulose e papel do Brasil e no mundo (233).
todo vapor. Entretanto, mais uma adversidade No primeiro momento, já verificou uma
SEGUNDA PARTE - A EVOLUÇÃO TECNOLÓGICA DOS  |  165
PROCESSOS DE FABRICAÇÃO DE CELULOSE E PAPEL NO BRASIL

mudança na posição (ranking) do setor. Na área Pederneiras, num total de 21 municípios no sul
de imprimir e escrever, onde a Suzano detinha a do estado) e de inúmeros municípios do Vale do
liderança, a Simão e a Celpav juntas passaram a Paraíba do Sul (entre os quais Guararema, Jaca-
ocupar o segundo lugar, com uma produção de reí, São Luiz do Paraitinga, Jambeiro, Natividade
500.000 toneladas anuais de papel. No global, da Serra, Redenção da Serra, Jacutinga, Lorena,
considerando papéis de todos os tipos, as duas Piracaia, Roseira, Madre de Deus de Minas, Joa-
empresas estavam em terceiro lugar (233). nópolis, Lavrinhas, Canas, Camanducaia, Pinda-
Ainda em busca de eficiência em termos de monhangaba, Salesópolis) (217). O somatório da
produtividade e qualidade, a Votorantim conclui- área florestal é algo próximo a 90.000 hectares.
ria o seu programa de expansão da Indústria de Da celulose produzida em Jacareí, aproxima-
Papel Simão (P-600), em três etapas. A primei- damente 90% é exportada. O restante ou é ven-
ra fase do projeto, orçada em US$ 300 milhões, dida a compradores domésticos, ou vai para a
compreendia a instalação de uma nova caldeira planta anexa, da Munksjö Papéis, com a qual é
de recuperação e de um novo sistema de autoge- mantida uma parceria voltada para produção de
ração de energia. O passo seguinte resultaria na papéis especiais, autoadesivos e de embalagens
ampliação da produção de celulose de 600 tonela- flexíveis (217).
das diárias para 1.000 toneladas diárias e, na ter- A Unidade Piracicaba tem origem bastante
ceira etapa, essa produção deveria ser integrada antiga. Em 1924, a Refinadora Paulista começou
em papel. A conclusão global do projeto estava a plantar cana na região. A Usina Monte Alegre
prevista para 1995 (233). usava a cana para produzir açúcar e, em decor-
A Unidade Jacareí-SP passou a ser operada rência da grande disponibilidade de bagaço, em
pela Votorantim quando o grupo adquiriu o con- 1953, foi montada uma unidade para produzir
trole acionário da Indústria de Papel Simão, em papel a partir da fibra de cana. Essa unidade se
dezembro de 1992. O negócio envolveu também baseava no processo Celdecor Pomílio, que usa-
a fábrica de papéis especiais de Mogi das Cru- va soda e cloro para deslignificar o bagaço e se-
zes-SP, mais tarde vendida para Emanuel Wolff, parar suas fibras, branqueando-as a seguir. Anos
a Unidade de Piracicaba-SP, a Indústria de Papel depois, a fábrica de Piracicaba foi vendida para o
de Salto, que seria posteriormente alienada para Grupo Silva Gordo, que em 1981 passou ao con-
a ArjoWiggins e a KSR (217). trole à Cia. de Papel Simão; para depois, em 1992,
Nos anos seguintes, ocorreram sucessivas ex- passar ao Grupo Votorantim e, posteriormente, à
pansões de capacidade de produção da Unidade Fibria (217).
Jacareí: o Projeto P-500, que elevou a produção Para que a fábrica atingisse a produtividade
para 500.000 toneladas anuais, tanto de celulose atual, entretanto, foi necessário importante in-
como de papel; o Projeto P-1000, concluído em vestimento, que chegaria a US$ 160 milhões. O
1996; finalmente o Projeto P-2000, que garantiu aporte resultou inclusive na inclusão de um novo
a produção atual de 1,1 milhão de toneladas, vol- sistema para produção de papéis térmicos e a re-
tadas principalmente para a exportação, o que forma da máquina para produção de papel cou-
levou ao ramal ferroviário e à concessão do ter- chê (217).
minal portuário em Santos-SP. Em 2006, a fábrica Como grande centro de produção de papéis
atingiu a autossuficiência em energia (217). especiais na América Latina, a Unidade Piraci-
Para abastecer a unidade fabril de Jacareí, caba passou a produzir papéis autocopiativos,
ocorrem fluxos ininterruptos de caminhões carre- térmicos e couchê. Os papéis autocopiativos são
gados de toras e de cavacos, além de trens, vindos usados na impressão de formulários para notas
de eucaliptais próprios e de fomentados da região fiscais e boletos bancários, principalmente. Sua
de Capão Bonito (que engloba Agudos, Buri, Du- utilização elimina o uso do papel carbono. Os pa-
artina, Votorantim, Ribeirão Branco, Pilar do Sul, péis térmicos são utilizados para recibos de cai-
166  | A EVOLUÇÃO TECNOLÓGICA DO SETOR DE CELULOSE E PAPEL NO BRASIL

xas eletrônicos, de cartões de crédito, emissão de branqueamento estava baseado no modelo ECF
bilhetes aéreos e para etiquetas autoadesivas usa- light, ou seja, com o menor consumo possível de
das em produtos de supermercados. A impressão dióxido de cloro. A expectativa era de que fossem
do papel térmico acontece mediante a reação usados menos de 30 kg de cloro ativo por tonela-
pelo efeito do calor sobre a folha do papel (217). da de celulose, utilizando peróxido de hidrogênio
Em outubro de 2011, a Oji Papéis Especiais no último estágio (67).
assumiu o controle da fábrica de Piracicaba, re- Na área de recuperação química, a caldeira
forçando uma tendência da então Fibria (ex-VCP) Metso/Valmet teria alto desempenho com econo-
em concentrar-se no negócio celulose e sair da mia de energia, queimando licor preto com 80%
produção de papel (173). de sólidos secos. A caldeira auxiliar teria capaci-
dade para 120 toneladas por hora de vapor, com
pressão de 86 bar e de engenharia baseada em lei-
• Os Projetos Horizonte 1 e 2 to fluidizado. A sequência de evaporação funcio-
A entrada da VCP no Mato Grosso do Sul só naria em seis estágios (67).
aconteceu em 2006, quando a empresa oficializou A planta de Três Lagoas concentrava o que
uma troca de ativos com a International Paper havia de mais atualizado em termos de equipa-
(IP), cada uma enfocando em um mercado mais mentos e tecnologia no processo de fabricação
alinhado com seus objetivos de negócio. Com de celulose kraft. O meio ambiente também foi
essa transação, a VCP recebeu a fábrica de celulo- amplamente contemplado. A planta teria, por
se em projeto de construção no valor de US$ 1,15 exemplo, lagoas que coletariam a água da chuva e
milhão, além de terras e florestas. Em troca, a IP que poderia ser usada no processo de tratamento
ficou com a fábrica de celulose e papel e a base de águas. Qualquer transbordo nas ruas não iria
florestal de Luís Antônio, no Estado de São Paulo. para o rio, mas para essas lagoas (67).
Após a entrada em operação, a planta de celulo- O custo da tonelada de celulose na região era
se da VCP em Três Lagoas-MS passou a fornecer considerado um dos mais baixos do Brasil e do
celulose em suspensão para a fábrica de papel da mundo. O custo da madeira, que representa cerca
International Paper, localizada no mesmo sítio de 50% do custo variável da fábrica, pôde assim
industrial, além de utilidades, como água, vapor ser otimizado uma vez que a madeira usada no
e energia elétrica, negociados como em qualquer processo está localizada em um raio médio de 60
fornecimento comum (67). quilômetros de distância da fábrica (67).
Com investimentos de US$ 1,5 bilhão pela Foi feito uma parceria com a ALL Logística,
VCP, o Projeto Horizonte para a fábrica previa, que administra a linha ferroviária até o Porto de
na época, ser a maior em linha única no mundo, Santos, com a criação de um ramal ferroviário
com uma produção estimada em 1,3 milhão de que interliga a fábrica à linha existente em Três
toneladas de celulose por ano. Para atender a Lagoas (67).
essa meta ambiciosa, o Projeto Horizonte foi A produção de celulose de mercado pela Fi-
desenhado com máquinas modernas, eficientes bria em Três Lagoas encontra-se em fase de am-
e adequadas para esse volume de produção. No pliação no que se denominou de Projeto Hori-
pátio de madeira da Demuth foram construídas zonte 2. Como os sítios florestal e industrial são
duas linhas de descascamento, além de uma sem altamente competitivos, a experiência e o sucesso
descascador. O digestor com tecnologia Lo-solids adquiridos com o primeiro projeto recomenda-
da Andritz foi considerado o maior do mundo ram que novas capacidades fossem projetadas e
em uma só linha, na época (67). A linha de bran- implantadas. Dessa forma, o valor destinado ao
queamento assumiu como sequência ADEopDP, Projeto Horizonte 2 somará R$ 7,5 bilhões e será
com a meta de atingir alvura de 92% ISO e teor realizado com recursos próprios provenientes da
de organoclorados (OX) abaixo de 170 mg/kg. O geração de caixa da companhia e com financia-
SEGUNDA PARTE - A EVOLUÇÃO TECNOLÓGICA DOS  |  167
PROCESSOS DE FABRICAÇÃO DE CELULOSE E PAPEL NO BRASIL

mentos de diversas fontes: BNDES, agências de Santo, Mato Grosso do Sul, Rio Grande do Sul
créditos de exportação (ECAs), Fundo de Desen- e São Paulo. Ainda possuía 50% das ações da
volvimento do Centro-Oeste, bancos comerciais Conpacel e da Veracel. A Unidade de Guaíba-
e mercado de capitais. -RS estava em processo de venda para o Grupo
A nova linha de produção em Três Lagoas CMPC do Chile (19).
terá capacidade de 1,95 milhão de toneladas Com a fusão, a empresa também conseguiu
de celulose anuais. Somadas à produção atual, reduzir a dívida adquirida ao longo da crise. A
a Unidade de Três Lagoas deverá chegar a uma ca- oportunidade de venda da Unidade Guaíba, no
pacidade total de 3,25 milhões de toneladas anuais. Rio Grande do Sul, para a chilena CMPC, em de-
Com isso, a capacidade total de produção da zembro de 2009, permitiu a redução da dívida.
Fibria, considerando-se todas as suas unidades, Em março de 2009, tiveram início as operações
passará de 5,3 milhões de toneladas de celulose da Unidade de Três Lagoas, no Mato Grosso do
por ano para mais de 7,0 milhões de toneladas Sul, e, no fim do mesmo ano, já estava com plena
de celulose por ano. capacidade produtiva.
Na atualidade, a Fibria desponta como uma
das maiores empresas globais comercializando
• O nascimento da Fibria celulose. A partir de 2014, a empresa começou a
Resultado da incorporação da Aracruz Celu- selecionar novas rotas tecnológicas, entrando em
lose S.A. pela Votorantim Celulose e Papel S.A. uma nova fase, apostando em alguns novos tipos
(VCP), em 1.º de setembro de 2009, a Fibria pas- de negócios por meio da produção de outros bens
sou a ser a empresa líder brasileira do seu setor, a partir de suas florestas, como bioóleo, nanoce-
na produção de celulose de mercado de eucalipto, lulose e lignina.
com uma capacidade de produção anual de 5,3
milhões de toneladas de celulose de fibra curta e,
também, na época de seu nascimento, de 358.000 ELDORADO BRASIL
toneladas anuais de papel (19). A fábrica da Eldorado Brasil Celulose foi inau-
A companhia operava com cinco unidades in- gurada em 12 de dezembro de 2012. Tratava-se,
dustriais e uma base florestal própria de 875.000 na época, da maior fábrica de celulose em linha
hectares, dos quais 323.000 hectares eram desti- única do mundo. A fábrica, que possuía uma ca-
nados à conservação ambiental e 64.000 destina- pacidade produtiva de 1,5 milhão de toneladas de
dos a outros usos, totalizando mais de 1 milhão celulose branqueada por ano, foi construída em
de hectares. Contava também com o fornecimen- 24 meses, considerado um curto período de tem-
to de madeira por produtores independentes, que po para a execução de um projeto de tal magni-
em 2010 responderam por 115.000 hectares adi- tude (167).
cionais de cultivo de eucalipto (19; 77). A estrutura de capital da Eldorado Brasil
A empresa nasceu em meio a uma crise fi- estava assim dividida: 47,20% da J&B Participa-
nanceira de caráter global, onde havia limitação ções; 16,39% da MJ Empreendimentos; 1,96% da
ao crédito, contração da demanda e consequente FIP Olímpia e 34,45% da FIP Florestal, fundo de
baixa nos preços da celulose, o que gerava au- investimentos em participações formado pelos
mento de estoque do produto. Foi necessário en- maiores fundos de pensão do Brasil como Petros
tão limitar os gastos e realizar paradas técnicas (da Petrobrás) e Funcef (Caixa Econômica Fede-
para equilibrar produção e consumo (19). ral). Essa formação, somada aos empréstimos do
A empresa, por ocasião da fusão, possuía BNDES, Fundo Constitucional de Financiamento
as seguintes unidades industriais: Aracruz-ES, do Centro Oeste (FCO) e Agência de Créditos à
Jacareí-SP, Piracicaba-SP e Três Lagoas-MS, Exportação (ECA), equacionou as necessidades
além das unidades florestais na Bahia, Espírito de aporte de recursos da companhia (167).
168  | A EVOLUÇÃO TECNOLÓGICA DO SETOR DE CELULOSE E PAPEL NO BRASIL

Para suprir a necessidade de matéria-prima do como o maior forno de cal instalado na Amé-
voltada para a produção de 1,5 milhão de tone- rica do Sul (167).
ladas de celulose, o Projeto Florestal da Eldora- Os dois turbogeradores a vapor, do mode-
do Brasil teve início em 2006, antes da constru- lo SST-800, são máquinas customizadas para
ção da fábrica. Nessa época, no entanto, a área atender com alta eficiência aos processos mais
não era suficiente para a capacidade produtiva complexos. A tecnologia foi fornecida por uma
do parque fabril. Foi somente a partir de 2011 parceria entre a Siemens Brasil e a Siemens Ale-
que a empresa passou a plantar eucaliptos para manha (167).
atingir uma área adequada ao suprimento da A caldeira de recuperação destacou-se
fábrica, totalizando 31.500 hectares de florestas como um dos pontos-chave. Responsável por
ao ano (167). recuperar os produtos químicos e gerar energia
Dos R$ 6,2 bilhões previstos para o projeto, (vapor), a caldeira soma 80 metros de altura,
R$ 4,5 bilhões foram destinados à construção da apresenta uma fornalha que tem capacidade
fábrica, R$ 800 milhões à estrutura logística e diária para queimar 6.800 toneladas de sólidos
R$ 900 milhões à composição das florestas pró- secos – quantidade que chega a ser três vezes
prias de eucalipto. e meia maior do que o da capacidade típica
A Andritz Brasil Ltda. foi responsável pelo das caldeiras instaladas no Brasil. Além de ser,
fornecimento de áreas fabris, como pátio de em 2012, a maior caldeira da América do Sul,
madeira, linha de fibras completa, planta de se- o equipamento desenvolvido em parceria com
cagem e enfardamento, planta de licor branco, a Metso também se revela com alta eficiência
abrangendo um total de 70% dos equipamentos térmica, dotado de aparatos tecnológicos, que
que compõem a planta (167). permitem gerar mais energia térmica e elétrica
O pátio de madeira é formado por três li- com a mesma quantidade de combustível. Em
nhas de picagem de madeira, transportadores, operação, a fábrica tem capacidade instalada
sistema de estocagem e recuperação de cava- para produção de 220 megawatts de energia
cos, quatro peneiras e sistema de estocagem de elétrica, dos quais 100 são usados pela Eldora-
biomassa. A linha de fibra compreende digestor do, ficando os 120 excedentes para parceiros,
Lo-Solids©; lavagem, depuração e branqueamen- outras indústrias e incorporação ao sistema
to baseado na tecnologia DD-WasherTM, da An- elétrico (167).
dritz, configuração essa que proporciona níveis Instalada em uma área de 900 hectares às
adequados de rendimento e eficiência, além de margens do Rio Paraná, em Três Lagoas, a El-
baixo consumo de produtos químicos (167). dorado Brasil conta com três alternativas lo-
A planta de secagem, por sua vez, inclui linhas gísticas para receber matéria-prima e escoar
de enfardamento automatizadas. As duas má- sua produção. O objetivo da empresa é utilizar
quinas de secagem, com largura de 6,67 me- combinações dos modais rodoviário/ferroviá-
tros cada uma, tem como base a tecnologia de rio e hidroviário/ferroviário, que apresentam
formadores de tela dupla (Twin Wire Former), maior economia de escala e menor impacto
de comprovada eficiência em diversos proje- ambiental (167).
tos de fábricas de celulose de alta capacidade Na prática, metade da celulose produzida
em todo o mundo. segue de Três Lagoas para o Porto de Santos-SP
Por fim, a linha de licor branco, que soma por transporte rodoferroviário. Tal volume sai da
caustificação e forno de cal, foi projetada para fábrica em caminhões até Aparecida do Taboado
produzir 15.700 m3/dia de licor branco para a (BR-158, MS) e, de lá, segue para o porto no lito-
planta de cozimento, com base nas consagradas ral de São Paulo pela ferrovia administrada pela
tecnologias X-FilterTM, CD-FilterTM, despontan- América Latina Logística (ALL). A outra metade
SEGUNDA PARTE - A EVOLUÇÃO TECNOLÓGICA DOS  |  169
PROCESSOS DE FABRICAÇÃO DE CELULOSE E PAPEL NO BRASIL

da produção parte diretamente da fábrica em um ças a dois projetos. O Projeto P-500 foi implan-
porto à margem da unidade, utilizando o siste- tado gradualmente e em 2006 a fábrica já produ-
ma da hidrovia Paraná-Tietê, até chegar a Peder- zia 210.000 toneladas anuais. No ano seguinte,
neiras-SP, de onde continuará até o litoral pela deu-se início ao Projeto P-700, com novas oti-
ferrovia administrada pela MRS logística (167). mizações, redução e eliminação de gargalos e
Evidentemente, com as variações dos níveis dos aumento de eficiências. Com isso, se atingiram
rios, as proporções costumam receber ajustes nas as atuais 250.000 toneladas anuais.
operações dos diferentes modais. Para atingimento desses níveis produtivos
e para fornecer energia térmica e elétrica tam-
bém à fábrica da Lwart Lubrificantes, a Lwarcel
LWARCEL construiu uma Central Termelétrica à base de
A Lwarcel é uma empresa de celulose de combustíveis renováveis de biomassa (madeira
mercado de médio porte, orientada para a fabri- e casca de eucalipto e licor preto kraft). A di-
cação de celulose branqueada de eucalipto para mensão dessa central é suficiente inclusive para
venda aos mercados doméstico e internacional. venda de eletricidade no mercado livre, com ex-
Está localizada na cidade de Lençóis Paulista-SP cedentes acima de 4.000 MWh por ano (172).
e pertence ao Grupo Lwart, empresas da famí- Um fator tecnológico interessante em rela-
lia Trecenti, que tem como base de negócios a ção à Lwarcel é que, mesmo sendo uma empresa
produção e recuperação de óleos lubrificantes e de médio porte e não intensamente capitalizada,
também a produção de celulose. A fábrica de ce- a sua fábrica de celulose branqueada é uma das
lulose entrou em operações em 1986, com pro- que consomem menor quantidade de água no
dução inicial de 35.000 toneladas anuais de ce- setor no País por tonelada de produto fabrica-
lulose não branqueada de fibras longas de Pinus. do (cerca de 20 m³/t). Isso se deve às ações de
Atualmente, a capacidade de produção atinge ecoeficiência e responsabilidade operacional,
250.000 toneladas anuais, mas existem projetos bem como aos processos de fechamento de cir-
ambiciosos em andamento para que a produção cuitos implantados. Tudo isso tem uma razão vi-
seja ampliada ao nível de 1 milhão de toneladas tal: a fábrica opera com baixa captação de água,
anuais (172). pois não dispõe de uma fonte de alta vazão,
O começo de tudo aconteceu quando o Gru- como são as outras empresas do setor.
po Lwart decidiu diversificar seus negócios e ao
longo dos anos 1980 adquiriu terras e refloresta-
mentos de Pinus, nas proximidades de Lençóis CELULOSE DA BAHIA/ BACELL / BAHIA PULP
Paulista. A construção de uma fábrica de celulose / BAHIA SPECIALTY CELLULOSE
com tecnologias simples permitiu que surgisse a No início da década de 1970 havia grandes
Lwarcel, para utilizar as madeiras de Pinus como turbulências no mundo, com a crise do petróleo,
matéria-prima fibrosa. A partir da base inicial de com a necessidade de encontrar soluções viáveis
Pinus, a Lwarcel foi buscando outras fontes de fi- para recuperação das economias e para geração
bras, como as de eucaliptos e de sisal (172). de empresas para criação de empregos. No Bra-
Diversos projetos de modernização e am- sil, os reflexos também foram grandes, sendo
pliação de capacidade acabaram conduzindo à que o governo havia encontrado as áreas agrí-
necessidade de ampliar a base florestal com eu- colas e de base florestal como alternativas para
caliptos e a fábrica hoje se vale basicamente das alavancagem do desenvolvimento e geração de
madeiras certificadas obtidas em florestas plan- empregos.
tadas de eucalipto na região de atuação. O primeiro Plano Nacional de Papel e Ce-
Os aumentos de produção aconteceram gra- lulose (PNPC) estava sendo orquestrado para
170  | A EVOLUÇÃO TECNOLÓGICA DO SETOR DE CELULOSE E PAPEL NO BRASIL

fazer o País crescer em produção de celulose, A CCB foi construída com base em ade-
mas, em especial, muito mais em polpas de fi- quadas e, até certo ponto, ousadas tecnologias
bras curtas (para exportação) e menos em fibras disponíveis na época para materiais não ma-
longas (para suprimento de mercados internos). deireiros, destacando-se um digestor contínuo
Não havia foco nesse plano para a produção de da Kamyr, com capacidade de produzir celulo-
polpas para especialidades, como para produ- se de sisal pelo processo soda; seguindo-se do
ção de papéis de filtros automotivos, fraldas de branqueamento com sequência contendo dió-
papel, papéis dielétricos, produtos não tecidos xido de cloro, segundo os estágios: CDEDED
etc. Havia um sentimento em nível institucional (220). O objetivo era a produção de celulose de
e empresarial de que empresas menores acaba- mercado com alvura 92% GE e resistências ex-
riam se especializando para produzir esses tipos cepcionais, o que se conseguiu. Diversas pesso-
de celuloses, que tinham menores, mas mais as foram fundamentais nesse processo, em que
exigentes demandas. Naquela época, existiam no alta inovação e determinação foram requeridas,
Brasil algumas empresas produzindo celuloses de destacando-se o diretor industrial Nei Montei-
matérias-primas fibrosas não madeireiras, como ro da Silva, o diretor comercial José Tarcísio
bagaço de cana (Klabin Ponsa e Refinadora Pau- Rebouças, bem como de outras lideranças na
lista), sisal e crotalária (Pirahy), bambu (Grupo gestão, Alberto dos Santos Abade, e na técnica,
João Santos). E, entre essas polpas exóticas, a que Marco Aurélio Luiz Martins.
mostrava grande potencial para especialidades Apesar do sucesso em qualidade da celulose
era o sisal, em função de suas fibras mais longas de sisal, outros fatores acabaram minando a com-
(cerca de 2,5 a 3 milímetros) e de paredes espes- petitividade da empresa, como o custo e a dispo-
sas (cerca de 6 micrômetros) (220). nibilidade da matéria-prima e as demandas de
Em função de diversas razões, houve inte- capital. Com isso, no início de 1990, a empresa
resse governamental para a criação de uma mo- foi vendida para a Klabin do Paraná, mas que
derna fábrica na Bahia para produção de celulo- já atuava na região leste e nordeste do País. O
se branqueada de sisal, com finalidades de atuar objetivo da Klabin era tentar produzir celulose
nos mercados de especialidades, quer fosse no branqueada de eucalipto com as instalações da
Brasil ou internacionalmente. Isso estimulou a CCB, coisa que não acabou acontecendo pelas
que se desenhasse uma fábrica de celulose de si- dificuldades de utilizar instalações criadas para
sal com capacidade diária de 300 toneladas de o sisal com cavacos de madeira, de muito mais
celulose branqueada, para se localizar no Estado difícil polpação. A solução foi levar a fábrica a
da Bahia, mais precisamente, no polo petroquí- outro tipo de especialidade, ou seja, adequar a
mico de Camaçari, proximidades de Salvador, mesma, reconstruindo-a para a produção de ce-
capital do estado. Com isso, se gerariam mui- lulose solúvel destinada à produção de deriva-
tos empregos na área agrícola, em uma região dos de celulose (88).
de alta pobreza, como o conhecido “polígono Na época, a Klabin já possuía uma fábrica
das secas”, além de se utilizar dos recursos de que tinha celulose solúvel em seu portfólio de
utilidades e logística do polo petroquímico. produtos, que era a Riocell, em Guaíba. A Rio-
Surge assim a empresa Companhia de Celulo- cell poderia se tornar maior em escala de produ-
se da Bahia (CCB), com a missão de produzir ção de celulose para papéis se deixasse de pro-
essa celulose, que demandaria muitas inovações duzir celulose solúvel. Não foi difícil encontrar
tecnológicas e muita determinação por parte de um parceiro internacional, que já admirava os
suas equipes técnicas, tanto da área de produção produtos de celulose solúvel produzidos com
como de comercialização de algo novo nos mer- eucalipto pela Riocell. Assim, a empresa austría-
cados (220). ca Lenzing associou-se à Klabin para a constru-
SEGUNDA PARTE - A EVOLUÇÃO TECNOLÓGICA DOS  |  171
PROCESSOS DE FABRICAÇÃO DE CELULOSE E PAPEL NO BRASIL

ção da Bacell, uma nova e moderna fábrica de national, uma empresa orientada para a produ-
polpa solúvel situada no mesmo sítio da CCB, ção de viscose e de polpa solúvel, com fábricas
em Camaçari-BA (88). na China, Finlândia, Indonésia e, nesse momen-
A fábrica da Bacell incluiu tudo que de mais to, no Brasil. No mesmo tempo da aquisição da
moderno existia na época para se fabricar celu- Klabin Bacell, a Sateri também adquiriu a Cope-
lose solúvel de alta qualidade e com mínimos ner Florestal, garantindo assim o suprimento de
impactos ambientais. A produção anual da fá- madeira para abastecer a fábrica de polpa solú-
brica seria de pouco mais de 100.000 toneladas vel de Camaçari, que passou a se chamar Bahia
de celulose, o que acabou se consolidando em Pulp (239; 88).
algo como 115.000 com as otimizações de pro- Após a mudança de controle acionista, a em-
cesso. A polpação da madeira do eucalipto se presa passou a se preocupar com a construção
dava pelo processo kraft com pré-hidrólise em de uma nova linha de fibras, não apenas para
digestores descontínuos por bateladas; o bran- o segmento de viscose, mas também para espe-
queamento era feito por uma sequência TCF cialidades (nitrocelulose, celulose microcrista-
(Totally Chlorine Free, ou isenta totalmente de lina, acetato de celulose etc.). A nova linha foi
cloro), valendo-se do uso de ozônio e peróxido desenhada e construída e entrou em operações
de hidrogênio, entre outras tecnologias. Toda a em 2008, com produção de 385.000 toneladas de
tecnologia foi desenhada a partir de estudos téc- polpa solúvel por ano. Logo, a capacidade total
nicos e científicos envolvendo as equipes de pes- da fábrica foi consolidada em 485.000 toneladas
quisa da Lenzing, Herbert Sixta e Walter Peter; anuais de produtos celulósicos (239; 88).
da Riocell, Celso Foelkel, Vera Sacon e Alberto Em março de 2010, após a consolidação da
Ferreira Lima; com coordenação da Klabin, de linha 2 e dos novos mercados, a empresa mudou
Taavi Siuko e Eraldo Merlin (88). Inclusive a novamente de nome, passando a se chamar BSC
madeira do eucalipto foi orientada e melhora- (Bahia Specialty Cellulose), como uma indica-
da para a produção de celulose solúvel, na busca ção de ser uma empresa de celulose solúvel com
de melhores resultados tanto para rendimentos, um portfólio diversificado de produtos. Isso se
consumos específicos por tonelada de celulose deveu à incorporação da tecnologia conhecida
produzida, como orientação a polpas destinadas como CCE (Cold Caustic Extraction), que foi
a produtos característicos (261). introduzida para remoção adicional de hemice-
A nova fábrica da Bacell entrou em opera- luloses e produção de tipos de celulose solúvel
ções em 1996 e teve grande sucesso técnico e com altos conteúdos de alfa-celulose (239; 88).
comercial. Entre 1998 e 1999, a Klabin foi as- Pelas características de alta pureza e alta al-
sumindo a quase integralidade do controle da vura, baixos níveis de contaminantes (inclusi-
Bacell por meio de aportes de novos capitais e, ve de íons metálicos), viscosidades controladas
em 2000, a empresa passou a se chamar Klabin em faixas adequadas, a fábrica tem consegui-
Bacell (88). do manufaturar uma maior gama de produtos,
A partir do início dos anos 2000, a Klabin que podem atender as necessidades de grande
decidiu colocar seu foco estratégico em produ- número de clientes com diferentes demandas e
tos de embalagens (sacos kraft, cartões, papel especificações. Os principais usos a que se des-
kraftliner, papelão ondulado e caixas), venden- tina a celulose solúvel da BSC se concentram
do seus negócios minoritários, entre os quais nos seguintes tipos de áreas industriais: têxtil
a Klabin Bacell, em 2003. Nesse ano, a Klabin (viscose), cigarros (fibras de acetato para os fil-
Bacell foi adquirida pelo Grupo Royal Golden tros), cosmética e alimentícia (espessantes para
Eagle International (RGEI), com sede em Cin- líquidos e produtos pastosos, como dentifrícios,
gapura, por intermédio da afiliada Sateri Inter- sorvetes etc.), química (nitrocelulose) etc. (88).
172  | A EVOLUÇÃO TECNOLÓGICA DO SETOR DE CELULOSE E PAPEL NO BRASIL
A PESQUISA E O DESENVOLVIMENTO DO CONHECIMENTO CIENTÍFICO E  |  173
TECNOLÓGICO NO BRASIL PARA O SETOR DE CELULOSE E PAPEL

CAPÍTULO 03
A PESQUISA E O DESENVOLVIMENTO
DO CONHECIMENTO CIENTÍFICO E
TECNOLÓGICO NO BRASIL PARA O
SETOR DE CELULOSE E PAPEL POR
INTERMÉDIO DO PIONEIRISMO E DA
LIDERANÇA DE ALGUMAS INSTITUIÇÕES

A Pesquisa e o Desenvolvimento
Tecnológico Florestal e Industrial em
Celulose e Papel no Brasil

O
eucalipto, com suas florestas e Evidentemente, existem muitos pesquisadores
madeiras, ocupa a maior parte e instituições também dedicando estudos a outras
das atenções e empenhos em espécies florestais, principalmente em relação a
pesquisa científica e tecnoló- espécies como as de Pinus, Araucaria angustifolia,
gica no setor de base florestal Tectona, Acacia etc. Entretanto, em magnitude mui-
do Brasil. Isso tem acontecido to distinta daquela colocada para os eucaliptos.
desde o início do século XX, quando o agrônomo O sistema de inovação setorial mantém dis-
Edmundo Navarro de Andrade dedicou sua car- tinção clara entre as pesquisas básicas e aplicadas,
reira e colocou todo seu talento em estudar as ár- embora os recentes avanços na biotecnologia e
vores, florestas e madeiras dos eucaliptos. A partir na genômica confundam essa distinção. A pes-
dessa época, que se iniciou em 1904, temos mais quisa básica é principalmente desenvolvida em
de um século de estudos tecnológicos aplicados ao universidades, das quais pelo menos doze delas
aperfeiçoamento dessas árvores e de seus produ- são consideradas centros principais de pesquisa
tos e processos, seja na floresta ou nas empresas e de educação profissional superior em celulose
industriais, como as produtoras de celulose, papel, e papel: Universidade Federal de Viçosa (UFV),
painéis e chapas de madeira, madeira serrada, pre- Universidade de São Paulo (USP), Universidade
servada etc. Federal de Lavras (UFLA), Universidade Federal
174  | A EVOLUÇÃO TECNOLÓGICA DO SETOR DE CELULOSE E PAPEL NO BRASIL

do Paraná (UFPR), Universidade Federal do Rio outras áreas de pesquisa para o setor de base flo-
Grande do Sul (UFRGS), Universidade Federal de restal é consideravelmente menor e é posta mais
Santa Maria (UFSM), Universidade Federal de Pe- atenção na construção de capacidade e transferên-
lotas (UFPel), Universidade Federal do Recôncavo cia tecnológica, que permite a rápida adoção de
Baiano (UFRB), Universidade Estadual Paulista inovações desenvolvidas em outras partes, seja em
“Júlio de Mesquita Filho” (UNESP), Universidade processos e em equipamentos.
Federal de Minas Gerais (UFMG), Faculdade de Em 2002, pesquisadores do IPEF e do CGEE
Telêmaco Borba (FATEB) e Faculdades Integra- listaram 54 institutos públicos de pesquisa ativos
das de Aracruz (FAACZ). Já em termos de for- em silvicultura e mais 16 privados (232; 245). Esse
mação técnica, sempre é importante relembrar e número deve ser bem superior nos dias atuais. As
dar destaque ao trabalho do Serviço Nacional de estatísticas mostram que existem mais de 60 uni-
Aprendizagem Industrial (SENAI), com seus cur- versidades com carreiras em Engenharia Florestal,
sos profissionais e edições de livros técnicos para mais de uma centena em Engenharias Química,
as áreas de celulose e papel, mobiliário e artes Mecânica e outras áreas relacionadas ao setor de
gráficas. Existem também alguns cursos técnicos base florestal. Além disso, passamos a contar com
regionais de excepcional valor, em parceria com algumas universidades com uma nova engenharia
empresas do setor, como é o exemplo do Curso especializada, mais focada no uso industrial da
Técnico em Celulose e Papel, criado em Guaíba madeira e com formação de engenheiros indus-
em uma parceria da Riocell (atualmente Celulo- triais madeireiros. Essas instituições têm se des-
se Riograndense) com o Colégio Estadual Gomes tacado na formação de novos profissionais com
Jardim, entre outros. orientação ao uso industrial da madeira. Entre
No âmbito da Política Federal, vários minis- elas se destacam: Universidade Federal do Paraná
térios e suas agências de desenvolvimento têm (UFPR); Universidade Federal de Pelotas (UFPel);
responsabilidades com o sistema de inovação seto- Universidade Federal do Espírito Santo (UFES);
rial da indústria de celulose e papel brasileira. Os Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita
principais ministérios são: Ministério da Ciência Filho” (UNESP).
e Tecnologia, Ministério do Meio Ambiente, Mi- Embora esses institutos atendam a todo tipo
nistério da Agricultura, Pecuária e Abastecimen- de necessidade de conhecimento na área flores-
to e Ministério do Desenvolvimento, Indústria e tal, eles também constituem a espinha dorsal da
Comércio Exterior. Evidentemente que o BNDES base brasileira de conhecimento para a silvicul-
continua a ser de máxima importância para o se- tura industrial. Além do IPEF, os mais impor-
tor, sempre atento a que as fábricas estejam em es- tantes desses institutos são: Sociedade de Inves-
tado da arte tecnológico. tigações Florestais (SIF) na Universidade Federal
Do ponto de vista da política de pesquisa de Viçosa; Fundação de Pesquisas Florestais do
pública e empresarial, a meta da investigação Paraná (FUPEF) na Universidade Federal do Pa-
tecnológica e científica mais importante para o raná; Centro de Pesquisas Florestais (CEPEF) na
setor tem sido o aprimoramento da produtivi- Universidade Federal de Santa Maria; Embrapa
dade e qualidade das florestas plantadas e das Florestas e Instituto de Pesquisas Tecnológicas do
suas madeiras, mais que tudo, das florestas de Estado de São Paulo (IPT).
eucalipto. Essa estratégia se manifestou com Além das instituições acadêmicas, diversas
a ambição de colocar o País como líder global empresas do setor de base florestal se destacam por
no quesito. De forma geral, nos últimos cento e possuírem grupos de pesquisas fortes e dedicados
poucos anos, os cientistas, técnicos e estudiosos à inovação disruptiva (produto ou serviço que
brasileiros, instituições de pesquisa e empresas cria um novo mercado) e à inovação incremental
têm concretizado este grande feito. (otimização de processos existentes). Entre essas
O nível de ambição tecnológica e científica em empresas líderes em desenvolvimento tecnológico,
A PESQUISA E O DESENVOLVIMENTO DO CONHECIMENTO CIENTÍFICO E  |  175
TECNOLÓGICO NO BRASIL PARA O SETOR DE CELULOSE E PAPEL

é possível se destacar algumas empresas que pos- O IPEF foi fundado em 1968 como uma
suem ou possuíram importantes centros de pes- joint-venture da Universidade de São Paulo (USP)
quisas tecnológicas com foco na alavancagem de e de empresas pioneiras em silvicultura florestal e
sua competitividade setorial. E entre elas podem em especial de produção de celulose, papel e cha-
ser citados os reconhecidos esforços em P&D tec- pas de madeira. Assim, estabeleceu-se um modelo
nológico da Aracruz Celulose, Aracruz Florestal, para associações público-privadas para a P&D flo-
Votorantim Celulose e Papel, Fibria, Klabin, Ce- restal e industrial. No caso da USP, ficou acertado,
nibra, Riocell, Celulose Irani, Suzano, Veracel, El- entre outras coisas, que o IPEF teria como sede o
dorado Brasil etc. Diversos processos industriais Departamento de Ciências Florestais (então De-
foram aperfeiçoados e resultaram em ganhos de partamento de Silvicultura) da Escola Superior de
eficiência e produtividade, da mesma forma que Agricultura “Luiz de Queiroz” (ESALQ) (262).
a produtividade florestal e a qualidade da madei- Uma grande dose de idealismo, uma pitada de
ra foram sempre merecedoras das mais dedicadas ousadia, outro tanto de visão empresarial e esta-
atenções nas empresas líderes em desenvolvimen- vam consolidadas as condições para a criação do
to tecnológico. IPEF. O idealismo, misturado à ousadia, ficou por
Como forma de intermediar, integrar e promo- conta dos professores Helládio do Amaral Mello
ver esses avanços, tanto as parcerias com institui- e Ronaldo Algodoal Guedes Pereira, da ESALQ/
ções acadêmicas como o papel vital da Associação USP. A consciência empresarial de que era preciso
Brasileira Técnica de Celulose e Papel (ABTCP) pesquisar, aperfeiçoar e desenvolver novas tecno-
sempre foram relevantes. Algumas instituições pú- logias no setor florestal foi praticada e oferecida,
blicas de apoio ao desenvolvimento tecnológico por exemplo, por gestores florestais de empresas
também sempre se destacaram como importan- como: Aracruz, Klabin, Simão (atualmente Fibria),
tes vetores de desenvolvimento tecnológico, como Champion (atualmente International Paper), Du-
a Financiadora de Estudos e Projetos (FINEP), o ratex, Eucatex, Rigesa, Suzano, Riocell (atualmen-
Conselho Nacional de Desenvolvimento Científi- te CMPC Celulose Riograndense), Belgo-Mineira
co e Tecnológico (CNPq), a Fundação de Amparo (atual ArcelorMittal) e Acesita (atual Aperam). O
à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), a tempo se encarregou ao consolidar o que no final
Fundação de Amaro à Pesquisa do Estado de Minas dos anos 1960 era apenas um ousado projeto, ou
Gerais (FAPEMIG) etc. um sonho (133; 42).
Com esse arcabouço criativo e inovador, foca- Desde essa época foram delineadas as linhas
do em desenvolvimento de novos conhecimentos mestras da integração: o desenvolvimento de pes-
tecnológicos e formação educacional, o setor bra- quisas básicas e aplicadas, estágios de alunos nas
sileiro de celulose e papel se desenvolveu e conti- empresas, o oferecimento de bolsas de estudo e o
nuará trilhando caminhos vencedores em direção estabelecimento de intercâmbio com outras insti-
ao seu futuro. tuições de ensino dentro e fora do Brasil. Além de
concretizar a integração empresas/universidade,
o IPEF é um importante instrumento de integra-
O pioneirismo do IPEF – Instituto de ção das próprias empresas associadas, por meio de
Pesquisas e Estudos Florestais reuniões, seminários e cursos oferecidos. Assim,
O Instituto de Pesquisas e Estudos Florestais contribui para racionalizar a pesquisa no âmbi-
(IPEF) é o exemplo mais clássico e pioneiro no to empresarial, evitando a dispersão de esforços.
Brasil da pesquisa científica e tecnológica consor- Com o respaldo acadêmico, o instituto tem condi-
ciada para o setor de base florestal, com elevados ções de elaborar, acompanhar e analisar os resul-
resultados aos parceiros envolvidos no suporte ao tados de projetos de pesquisas em conjunto com
plano estratégico e programas de pesquisa multi- as empresas. Atualmente, o IPEF ampliou a base
clientes. acadêmica, buscando promover uma integração
176  | A EVOLUÇÃO TECNOLÓGICA DO SETOR DE CELULOSE E PAPEL NO BRASIL

muito mais efetiva entre universidades, centros de mente), aceleram a difusão do conhecimento e da
pesquisa, setor empresarial, instituições governa- tecnologia e melhoram os contatos técnicos inter-
mentais e não governamentais. nacionais para os brasileiros.
Com o aperfeiçoamento do modelo de atua- Inaugurado em dois de dezembro de 1970, o
ção dos Programas Cooperativos, o IPEF envolve Laboratório de Celulose e Papel (LCP) é um dos
os profissionais das empresas em todas as fases, a laboratórios do Departamento de Engenharia Flo-
saber: concepção, planejamento, implantação, con- restal da Universidade Federal de Viçosa (UFV).
dução, obtenção dos resultados e conclusões. Com Os professores que operam e administram o LCP
isso, cria-se um imprescindível sinergismo entre os se dedicam ao ensino, à pesquisa e divulgação das
participantes da academia e das empresas envolvi- ciências de celulose e papel (152).
das, do que resulta uma otimização da interação De 1970 a 1977, o LCP dedicou-se ao ensino
entre as próprias associadas e outras empresas con- de disciplina, ao nível de graduação, em tecnolo-
vidadas em função de relevantes contribuições que gia de celulose e papel e ao desenvolvimento de
possam trazer aos trabalhos em andamento (138). pesquisas de caráter geral nessa área. Em março
Historicamente, o IPEF tem sido responsável de 1977, a UFV, ciente da deficiência de pessoal
pela criação de sofisticadas técnicas para a me- técnico com treinamento de alto nível nas ciências
lhoria da qualidade e produtividade das florestas, de celulose e papel, iniciou, em convênio com a
da madeira e dos produtos derivados das florestas Cenibra, por intermédio do LCP, a opção em Tec-
(138; 232). Em geral, mas não totalmente, o IPEF nologia de Celulose e Papel, no curso de mestra-
tem programas mais direcionados às florestas plan- do em Ciência Florestal. O projeto, na época, por
tadas, sempre orientando as mesmas para o uso parte da Cenibra, foi liderado por Celso Foelkel e
sustentável dos produtos e serviços das florestas. Aldo Sani, em conjunto com o reitor Dr. Antônio
Fagundes de Souza e o professor José Lívio Gomi-
de, pela UFV. Nessa iniciativa ímpar e pioneira no
O pioneirismo da Universidade Brasil, a UFV, procurando responder aos anseios
Federal de Viçosa da indústria nacional de celulose e papel, mobili-
Com a necessidade de se desenvolver pesqui- zou alguns de seus especialistas para participarem
sa de cunho florestal no Brasil, novas instituições do programa de formação de técnicos com conhe-
educacionais, universidades e institutos de pesqui- cimento de pós-graduação, ao nível de mestrado,
sa setorial (privados e públicos) começaram a con- em celulose e papel.
tribuir para isso, também colocando foco no setor Em 1998, o LCP foi reconhecido pelo Ministé-
de celulose e papel. rio da Ciência e Tecnologia como Núcleo de Exce-
Um importante marco para esse setor foi lência, recebendo recursos do Programa de Apoio
a inauguração do primeiro curso de engenha- a Núcleos de Excelência (PRONEX) (152).
ria florestal no Brasil, que aconteceu em 1960 na Seus profissionais (professores e pesquisa-
Universidade Rural do Estado de Minas Gerais dores), por meio de atuação direta ou em cola-
(UREMG), atual Universidade Federal de Viçosa boração com outras entidades locais, estaduais e
(UFV). Rapidamente, o curso evoluiu para além nacionais, atuam não somente no ensino em nível
da simples educação e formação de engenheiros, de graduação, pós-graduação (especialização la-
tornando-se logo um centro de geração e transfe- to-sensu, mestrado e doutorado) e cursos de curta
rência de pesquisa e tecnologia. duração. O LCP, por meio da pesquisa tecnoló-
Outras universidades seguiram esse caminho gica própria e fortemente apoiada pela pesquisa
e lançaram cursos de engenharia florestal, silvicul- de seus estudantes de pós-graduação, procura
tura e outros aspectos da silvicultura de florestas fornecer subsídios às empresas nacionais para a
naturais e plantadas. As universidades treinam solução de seus problemas referentes à matéria-
recursos humanos avançados (técnica e cientifica- -prima, processos e controle ambiental. Também
A PESQUISA E O DESENVOLVIMENTO DO CONHECIMENTO CIENTÍFICO E  |  177
TECNOLÓGICO NO BRASIL PARA O SETOR DE CELULOSE E PAPEL

opera na prestação de serviços, avaliando proces- empenhos, o IPT estabeleceu em 1967 o Centro
sos tecnológicos, matéria-prima, celulose, papel e Técnico de Celulose e Papel (CTCP), e inaugu-
outros materiais, gera informações que auxiliam as rou, em 1981, uma planta piloto para ensaios de
indústrias de celulose e papel e seus fornecedores pastas de alto rendimento com capacidade de 8
na tomada de decisões de natureza técnica (152). t/dia, com recursos do Banco Interamericano de
Desenvolvimento (BID), mediação conduzida
pela FINEP (139).
O pioneirismo do Instituto O Laboratório de Papel e Celulose (LPC)
de Pesquisas Tecnológicas (IPT) realiza ensaios e serviços especializados em
O Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT) é três segmentos principais: fabricantes de papel
vinculado à Secretaria do Desenvolvimento Eco- e celulose, usuários e convertedores de papel, e
nômico, Ciências e Tecnologia do Estado de São fabricantes de insumos e equipamentos para pa-
Paulo. Com mais de cem anos de existência, o IPT pel e celulose. Possui atuação especial no apoio
esteve presente em todas as etapas de desenvolvi- à qualidade e sistemas de controle de produtos
mento nacional, tendo participação importante para o setor público, destacando-se o contro-
nas épocas críticas de nossa história, como a Revo- le da qualidade efetuado nos livros adquiridos
lução de 1932 e a Segunda Guerra Mundial. Sem- anualmente pelo MEC para serem distribuídos a
pre teve também relevante papel em nosso proces- milhares de alunos das escolas municipais e es-
so de industrialização, deixando a sua marca no taduais do Brasil (139).
desenvolvimento do País (139). Na área de metrologia, tem atuação marcante
Combinando tradição e inovação, o IPT é re- por meio do gerenciamento de Programas Interla-
conhecido nos meios técnicos nacionais e interna- boratoriais para ensaios em papel, chapas de pape-
cionais por responder às demandas tecnológicas lão ondulado e pasta celulósica, com participan-
da sociedade e do setor produtivo, focando seus tes nacionais e estrangeiros. O LPC está equipado
negócios em áreas de convergência entre suas para realizar ensaios nos mais diversos tipos de
competências e as prioridades do setor público e papel (impressão e escrita, fins sanitários, embala-
privado (139). gem e especiais) com a qualidade analítica exigida
Como um dos melhores institutos de pesqui- atualmente (139).
sas tecnológicas do Brasil, o IPT conta com labo- O IPT através do CTCP e de sua Divisão Flo-
ratórios capacitados e equipe de pesquisadores e restal teve importante papel no início do desen-
técnicos altamente qualificados, atuando basica- volvimento das fibras de eucalipto para fins pape-
mente nas seguintes grandes áreas: inovação, pes- leiros (anos 1970 e 1980) e também no suporte às
quisa e desenvolvimento, serviços tecnológicos, argumentações técnicas nas relações entre produ-
desenvolvimento e apoio metrológico, informação tores de celulose do País e fabricantes de papéis,
e educação em tecnologia. em nível nacional e internacional.
No início dos anos 1960, o laboratório de celu-
lose e papel foi incorporado à Divisão Florestal do
Instituto, reestruturado em dois laboratórios: um O papel fundamental
de Produtos Florestais e outro de Produtos Deri- da Embrapa Florestas
vados (Resinas e Extrativos). O setor privado da base florestal mostrou di-
Em parceria com a empresa finlandesa Jaakko versas iniciativas para o desenvolvimento de pes-
Pöyry (atual Pöyry), nos anos 1970, a Fundação quisas tecnológicas tanto na base florestal plan-
de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo tada de Eucalyptus e de Pinus como também em
(FAPESP) apoiou a atualização do conhecimen- seus processos de industrialização. Os governos
to, instrumentação e capacitação de pessoal em também responderam bem a essa necessidade de
celulose e papel no IPT. Como resultado desses embasamento tecnológico e inovatividade (inova-
178  | A EVOLUÇÃO TECNOLÓGICA DO SETOR DE CELULOSE E PAPEL NO BRASIL

ção e criatividade) e colocaram esforços em apoiar produtividade e a qualidade florestal poderão ser
instituições federais e estaduais de P&D setorial. melhores ou piores, de acordo com as condições
Em 1978, a Empresa Brasileira de Pesquisa meteorológicas, como frio, calor, déficits hídricos
Agropecuária (Embrapa) estabeleceu, em Colom- etc. As poucas espécies que costumam ser plan-
bo, nos arredores de Curitiba-PR, o Centro Na- tadas em regiões com geada, por exemplo, apre-
cional de Pesquisa de Florestas (CNPF) para de- sentavam baixa produtividade ou problemas com
senvolver tecnologias e conhecimentos técnicos, a forma da árvore. Para resolver esse problema, a
frente ao crescente interesse em plantações flores- partir de 1999, a Embrapa Florestas passou a de-
tais, sustentabilidade e integração socioambiental senvolver a espécie Eucalyptus benthamii para
dos recursos florestais (262). Mais tarde, o produtores da região sul, onde as condições de frio
CNPF acumulou também a denominação de intenso são danosas a outras espécies de eucalip-
Embrapa Florestas, sendo que atualmente ape- tos. Sua madeira é considerada excelente para pro-
nas essa última tem sido apropriada e utilizada dução de lenha e carvão, podendo ser usada ainda
pela instituição. para a fabricação de estacas, postes e mourões, o
Foram inúmeros os desenvolvimentos da que deve atender às necessidades madeireiras dos
Embrapa Florestas em temas como: proteção flo- pequenos produtores rurais instalados na região
restal, inventários e dendrometria florestal, silvi- (262). Também há indicações de adequadas pro-
cultura e manejo florestal, qualidade da madeira, duções e produtividades para o setor de chapas de
planejamento e economia florestal, agrossilvicul- madeira e de celulose e papel.
tura etc. Tanto as plantações de Pinus como as de Como empresa de geração e de transferência
eucalipto e outras espécies florestais contam hoje de conhecimentos tecnológicos para a sociedade, a
com softwares desenvolvidos pelos pesquisadores difusão de técnicas e de conhecimentos via website
do CNPF para maximizar a rentabilidade econô- e publicações digitais de forma ampla e gratuita é
mica das áreas reflorestadas. São simuladores de um dos pontos fortes da Embrapa Florestas.
manejo utilizados no gerenciamento das plan-
tações florestais, que permitem definir o tipo de
desbaste mais adequado, a época e a intensidade Pioneirismo em genômica do eucalipto
ideais para a sua realização, além de indicar qual Gerando alguma polêmica e, ao mesmo tempo,
a idade ideal para o corte final, de acordo com o grandes expectativas no setor florestal, no início
destino a ser dado à madeira (262). Um papel re- dos anos 2000, dois projetos de pesquisa ganha-
levante da Embrapa Florestas tem sido represen- ram a atenção do público, quando se propuseram
tado por seus inúmeros estudos em entomologia a descobrir, mapear, validar e entender a variação
florestal, pelo desenvolvimento de mecanismos genética do genoma do eucalipto. Um desses pro-
de combate biológico de pragas de eucaliptos, jetos foi o Forests – Eucalyptus Genome Sequencing
Pinus, acácia negra etc. Project Consortium –, um projeto voltado ao se-
A Embrapa Florestas é um dos centros tec- quenciamento do DNA do eucalipto, com foco na
nológicos que trabalham com enfoque sistêmico formação de um banco de dados especificamen-
nos programas de eucalipto, detendo diferentes te de genes expressos, que foi iniciado em 2002 e
projetos interligados a uma mesma finalidade: conduzido pela FAPESP, universidades estaduais e
aperfeiçoar o potencial de produção, desde o me- quatro empresas privadas. Ao todo foram sequen-
lhoramento genético, passando pela tecnologia da ciados 120 mil genes da espécie Eucalyptus grandis
madeira até a sustentabilidade das propriedades (237).
rurais e florestais (262). No mesmo período, surgia a Rede Nacional
Nesse segmento, o clima regional é um dos de Pesquisa do Genoma de Eucalyptus (Genolyp-
aspectos mais importantes no cultivo do eucalip- tus), com o apoio do Governo Federal, envolven-
to e tem variação no Brasil conforme a região. A do a Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia
A PESQUISA E O DESENVOLVIMENTO DO CONHECIMENTO CIENTÍFICO E  |  179
TECNOLÓGICO NO BRASIL PARA O SETOR DE CELULOSE E PAPEL

(CENARGEN), sete universidades e 14 empresas O papel tecnológico integrador e


participantes. O projeto gerou informações genô- estimulador da Associação Brasileira
micas integradas ao trabalho de experimentação técnica de Celulose e Papel (ABTCP)
em campo. Além disso, resultados da rede Ge- Ao longo de seus 50 anos de uma rica história,
nolyptus contribuíram de forma expressiva para a Associação Brasileira Técnica de Celulose e Papel
a realização do projeto que realizou o sequencia- (ABTCP) conquistou uma posição relevante e vi-
mento completo do genoma do eucalipto, iniciado tal no setor de papel e celulose brasileiro e obteve
em 2008 pela rede internacional Eucalyptus Geno- destaque, admiração e respeito internacionais. Em
me Network (Eucagen) (237). anos mais recentes, a ABTCP deixou de ser uma
O sequenciamento desse genoma teve a par- associação destinada a atender apenas os anseios
ticipação de mais de 80 cientistas de 30 insti- de seus associados para se tornar um importante
tuições em nove países. Do Brasil, além da li- vetor de desenvolvimento tecnológico e de agrega-
derança da Embrapa, fizeram parte do projeto ção de competitividade para esse importante setor
pesquisadores da Universidade Católica de Bra- industrial e florestal do País. Para atingimento des-
sília (UCB), da Universidade de Brasília (UnB), sa importante posição, a entidade mantém um di-
da Universidade Federal de Viçosa (UFV), da namismo constante para se adequar aos contextos
Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) técnicos competitivos e para se modernizar frente
e da Universidade Federal do Rio Grande do Sul às mudanças dos cenários e tendências setoriais.
(UFRGS). A decodificação da sequência com- Isso se consegue por meio de uma atuação inte-
pleta do genoma do eucalipto resultou na identi- grada entre os diferentes segmentos que compõem
ficação de todos os 36 mil genes da árvore. Além e se interconectam com o setor de celulose e pa-
disso, os pesquisadores dessa rede ressequencia- pel do Brasil, como fabricantes de celulose e pa-
ram o genoma da segunda espécie de eucalipto pel, fabricantes de insumos químicos, energéticos
mais plantada no mundo em climas temperados, e de equipamentos, setor de consultoria e projetos
o Eucalyptus globulus (237). de engenharia, setor gráfico, setor de produtos de
Os próximos passos nessa tecnologia do DNA higiene, embalagem, alimentos etc. Além disso, a
envolvem, entre outros, a geração de um atlas glo- ABTCP coloca esforços na conexão entre todos os
bal (genome-wide) da diversidade genômica das segmentos celulósicos e papeleiros com organiza-
principais espécies plantadas de eucalipto. Para ções e institutos de ensino, pesquisa e divulgação
isso, nos últimos anos a Embrapa ressequenciou o tecnológica, como centros técnicos, universidades,
genoma de outras 240 árvores de 12 espécies dife- escolas de ensino tecnológico, bibliotecas, revistas
rentes, visando construir esse atlas da diversidade e editoras tecnológicas etc.
existente dentro e entre espécies, informação que A ABTCP surgiu oficialmente em janeiro de
vai permitir uma melhor compreensão das dife- 1967 (57), inicialmente como Associação Brasi-
renças que existem no comportamento das espé- leira de Celulose e Papel (ABCP), porém com
cies no campo. rápida e posterior inserção da palavra Técnica
O maior interesse é correlacionar essa diver- em seu nome. Isso tudo aconteceu como for-
sidade genômica dentro e entre espécies não ape- ma de materialização de um sonho ou de um
nas com a susceptibilidade e tolerância a pragas e projeto orquestrado por inúmeros técnicos do
doenças, mas também com a diversidade fenotí- setor, que careciam de uma organização maior
pica e com as relações da árvore com o ambiente, no País para a geração e difusão de conhecimen-
destacando-se alguns pontos de interesse vitais, tos tecnológicos setoriais, por meio de cursos,
como: tolerâncias à seca, à geada, às mudanças congressos, exposições, publicações (revistas e
climáticas; teor de lignina na madeira (para bio- livros), bem como para promoção de networking
energia) ou teor de compostos holocelulósicos entre técnicos e empresas.
(para produção de fibras celulósicas), entre ou- Em 1989 ocorreu a mudança para a sigla e deno-
tros pontos chaves (237). minação atuais, com a criação do seu atual logotipo.
180  | A EVOLUÇÃO TECNOLÓGICA DO SETOR DE CELULOSE E PAPEL NO BRASIL

Para atendimento das demandas que partem • Atuação na prospecção de tendências tecnoló-
das empresas do setor de celulose e papel e de seus gicas e sempre agindo como relevante gerado-
profissionais, a ABTCP vem criando produtos, ao ra de conhecimento e capacitação profissional,
longo de sua existência de cinco décadas, cujos já que é contínua a demanda por novos tipos
principais têm sido os que se identificam com as de competência e conhecimento.
seguintes situações (108):
• Capacitação tecnológica por meio de cursos, Considerando todos esses elementos, ser-
eventos, congressos; viços e produtos mencionados, a ABTCP tem
• Estímulo à geração de pesquisas e desenvolvi- tido atuação com foco estratégico nas seguintes
mentos tecnológicos; linhas de ações em direção ao seu futuro (26):
• Disponibilização e compartilhamento de • Priorização com foco em busca de resultado
conhecimentos técnicos setoriais através de tecnológico de alto nível e para aplicação prá-
revistas próprias, publicação de livros, rela- tica, mantendo forte relacionamento em níveis
tórios, estudos de caso, position papers, we- nacional e internacional;
bsites, webinars, páginas em redes sociais • Atuação integrada com a cadeira florestal, suas
(Twitter, Facebook, entre outras), bibliotecas tecnologias e entidades geradoras de conheci-
especializadas (tradicional na sede e on-line mentos e organizações produtoras de florestas;
no website, conhecida como Acervo Técnico • Atuação institucional em parceria com outras
ou NITOnline), banco de normas e patentes, entidades de classe e com instituições públicas
informativos digitais, brochuras técnicas, ca- e privadas;
tálogos, guias de compras etc.; • Ênfase no resgate e preservação da história do
• Aumento de visibilidade para os associados setor de celulose e papel no Brasil;
(técnicos e empresas) por intermédio dos • Atuação na capacitação dos recursos humanos
meios de comunicação da entidade, bancos setoriais, incluindo atração de novos profissio-
de currículos, exposições, congressos, premia- nais;
ções, guias de fornecedores etc.; • Aperfeiçoamento do relacionamento com o
• Integração entre parceiros e associados, valen- quadro associativo e com os parceiros institu-
do-se de diretórios de sócios, fóruns, comis- cionais;
sões, redes sociais, eventos especializados etc.; • Aprimoramentos e atualizações na gestão e na
• Promoção dos produtos e insumos de interes- governança, em função das mudanças setoriais
se do setor, por meio de exposições, feiras de e globais;
negócios, catálogos de produtos e serviços etc.; • Eficiência na gestão, sustentabilidade financei-
• Participação institucional (nacional e interna- ra e estrutura enxuta;
cional) representando o setor junto a gover- • Foco estratégico para que seu congresso, expo-
nos, entidades de classes empresariais, institu- sição e revistas técnicas sejam referências tec-
tos normativos, órgãos ambientais etc.; nológicas no Brasil e no exterior;
• Atração, promoção e incentivo à capacitação • Significativas contribuições para a estratégia
de novos talentos, com oferta de bolsas de es- tecnológica do setor;
tudo, intercâmbio tecnológico etc.; • Foco na rede de valor da celulose e papel como
• Disponibilização de soluções tecnológicas por um todo, inclusive nas tendências de amplia-
meio de banco de consultores, seções de per- ção dessa rede por meio das biorrefinarias e
guntas e respostas, treinamentos especializa- novos arranjos produtivos etc.
dos sob demanda etc.;
• Integração interpessoal através de eventos téc- O relacionamento entre os técnicos, estimulado
nicos lúdicos (almoços e jantares comemora- atualmente pela ABTCP por meio de novas ferra-
tivos, shows, exposições em museus, eventos mentas digitais e integradoras, dá a oportunidade
esportivos, visitas a empresas do setor etc.). de se relacionar mais e melhor com as pessoas, ex-
A PESQUISA E O DESENVOLVIMENTO DO CONHECIMENTO CIENTÍFICO E  |  181
TECNOLÓGICO NO BRASIL PARA O SETOR DE CELULOSE E PAPEL

pandir o conhecimento sobre o setor e, principal- anos e continue a existir nos próximos 50”, co-
mente, abrir janelas para vislumbrar o futuro. Não menta Lairton Leonardi em recente entrevista
dá para prever como serão os próximos 50 anos de para a revista O Papel. “A troca de conhecimen-
vida da associação. O que se pode antever é que os to, a capacitação e o aperfeiçoamento profis-
desafios serão ainda maiores, a começar pela falta sional são aspectos extremamente necessários
de disponibilidade de tempo, coisa comum hoje em a qualquer setor industrial, mas em especial ao
dia, para os técnicos. Concomitantemente, os pro- nosso”, concluiu Lairton (164).
dutos e ferramentas digitais atuais podem contri- Toda história sobre o passado ajuda no pro-
buir com as formas de manter a ABTCP agregada cesso de enxergar melhor o presente para a cons-
e sendo vital para as pessoas do setor de celulose e trução do futuro. Dessa forma, a ABTCP tem atu-
papel (e novas áreas em desenvolvimento na base ado como um elo entre os tempos, colocando os
florestal), pois as pessoas são as principais forças técnicos dos anos passados para ajudar e orientar
motrizes para a construção do futuro (164). as novas e talentosas gerações por meio do com-
“Uma associação técnica tem como grande partilhamento de suas experiências e conhecimen-
objetivo compartilhar conhecimento. Esse é o tos, em processo recíproco de trocas de conheci-
fator que faz com que a ABTCP exista há 50 mentos e experiências tecnológicas.

BER 2013
V, Nº 10, OCTO
NOLO GIES - YEAR LXXI
AND PAPER TECH
NAL OF PULP
REVISTA MENSAL MONTHLY JOUR
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DE TECNOLOG
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ANO LXXIV Nº
OUTUBRO 2013

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O 2.indd 1
CAPA OPÇÃ

Revistas O Papel
Acompanhando a história da ABTCP e do setor brasileiro de celulose e papel
182  | A EVOLUÇÃO TECNOLÓGICA DO SETOR DE CELULOSE E PAPEL NO BRASIL

TERCEIRA PARTE

A evolução tecnológica do setor:


do “quase nada” ao “quase tudo” em
termos de avanços tecnológicos na
fabricação de celulose e papel no Brasil
DO “QUASE NADA” AO “QUASE TUDO” EM TERMOS DE AVANÇOS TECNOLÓGICOS   |   183

do “quase nada”
ao “quase tudo”

E
mbora a arte e o processo de fabricar muitos desses fatores terem sido descritos com de-
papel e celulose fossem conhecidos, talhes em partes anteriores do presente livro, é in-
praticados e tenham caráter mile- teressante relembrar de forma simplificada e com
nar em alguns países como China e destaques as principais forças motrizes que trou-
Japão, no Brasil essas atividades são xeram o setor brasileiro de celulose e papel para a
jovens, mostrando um espaço temporal de pouco presente posição, para depois tentar antecipar pas-
mais de 150 anos. Durante esse período – rico sos para as próximas fases em direção ao futuro
em desafios, realizações e conquistas – podem ser dessa indústria no País.
separadas épocas e encontrados momentos e si-
tuações que levaram o setor brasileiro de celulose
e papel à atual posição de invejável competitivi-
dade em nível global. Diversas épocas temporais
foram apresentadas na Parte 2 deste livro, com
base em espaços de tempo que se caracterizaram
por similaridades em termos de desempenho e
movimentos desse setor, em função de algumas
forças motrizes importantes.
Em verdade, são os momentos históricos ou
as tomadas de decisões relevantes que podem con-
duzir uma empresa ou um grupo de empresas ao
sucesso ou ao fracasso. Afortunadamente, o soma-
tório de ações e estratégias de dirigentes, técnicos,
pesquisadores, projetistas, investidores e outros
componentes dessa rede de valor, atuando de for-
ma orquestrada com entidades governamentais,
acabaram resultando em um modelo de nível ade-
quado à competitividade setorial no Brasil.
Ao se percorrer essa rica história tecnológica
da indústria de celulose e papel, que foi descrita
nas partes 1 e 2 deste livro, é possível se elencar
diversos fatos de significativa importância que
ajudaram na conquista de uma posição competiti-
No jogo competitivo, as peças sempre se movem para um ou
va admirada que o Brasil detém. Essas conquistas outro lado – por essa razão, o estado de estar competitivo é
aconteceram tanto em termos de produção de ce- absolutamente temporário. O passado é parte da história, o
presente é repleto de estratégias e ações e o futuro pode ser uma
lulose de mercado como em desenvolvimento de ou diversas incógnitas a serem gerenciadas energicamente para
modelos tecnológicos e comerciais para inúmeros que se possa melhorar a posição competitiva atual. (8, 104)
e diversificados produtos papeleiros. Apesar de
184  | A EVOLUÇÃO TECNOLÓGICA DO SETOR DE CELULOSE E PAPEL NO BRASIL

Recentes dados disponibilizados pela entidade fábricas de celulose e de papel no Brasil, do que re-
setorial Indústria Brasileira de Árvores (IBÁ) re- sultou o surgimento de muitas empresas, a maioria
latam que em 1950 – o ano mais distante em que delas ainda em atividade, mesmo que, em muitos
se encontraram estatísticas confiáveis para o setor casos, com outros nomes ou proprietários.
– a produção brasileira atingia um total de 95.359 No início do século XX, tanto a produção bra-
toneladas de celulose e 253.128 toneladas de dife- sileira como o consumo de produtos papeleiros
rentes tipos de papéis. Esses dados do passado são pelos cidadãos eram definitivamente pobres, do
indicações obvias de que as produções no País para que resultou o título desta Parte 3 do livro, em que
esses bens comerciais eram ainda muito baixas e se está tentando mostrar que o País saiu do “quase
que a produção de papel dependia de importações nada” ao “quase tudo” nesse importante segmento
de fibras. Em 1950, esse setor já havia sido estimu- industrial. A expressão “quase nada” tanto se refere
lado a crescer em função de diversos avanços da aos baixos volumes de produção e consumo inter-
indústria local, resultantes do empreendedorismo no de papéis na época, como também às enormes
e audácia de alguns empresários, que perceberam dificuldades que as empresas pioneiras na fabri-
a importância vital do papel, principalmente de- cação desses produtos no País enfrentavam com
pois da Segunda Guerra Mundial, que levou o País deficientes ou incipientes sistemas de logística,
a enfrentar sérios problemas de desabastecimento engenharia, suprimentos de insumos e máquinas,
nesses bens de produção. Entretanto, décadas an- peças de reserva, recursos humanos qualificados,
tes, a produção de papel e celulose era ainda mais mercados e comercialização, qualidade de proces-
diminuta, principalmente por volta dos anos 1920, sos e produtos etc. Eram também escassas as opor-
quando o País também sofreu com os efeitos no tunidades de realização de pesquisas acadêmicas e
comércio exterior da Primeira Guerra Mundial. tecnológicas para o setor por carência em termos
Como resultado dessas duas grandes guerras, ocor- de institutos de pesquisas e universidades especia-
reram estímulos importantes para o surgimento de lizadas em celulose e papel.

Épocas pioneiras onde o “quase nada” tecnológico


representava enormes desafios aos empreendedores do setor:

Fábrica da IKPC – Indústrias Klabin do Paraná de Celulose (Década de 1950)


(Fonte: Acervo Centro de Documentação e Memória da Klabin)

Fábrica da Cia. de Papel de Salto, início das operações no século XIX (1889) (14) Fábrica das Indústrias Reunidas Francisco Matarazzo – Fazenda Amália (Anos 1940) (73)
DO “QUASE NADA” AO “QUASE TUDO” EM TERMOS DE AVANÇOS TECNOLÓGICOS   |   185

Épocas desafiadoras em que o “quase tudo” era o projeto de muitos sonhos a serem conquistados:

Foto de uma das barcaças que trouxe parte da fábrica da Jari em Fábrica da empresa Borregaard, depois Riocell
Monte Dourado (Anos 1970) em Guaíba-RS (Início dos anos 1970)
(Fonte: http://casteloroger.blogspot.com.br/2011/06/municipios-lar- (Fonte: http://www.celuloseriograndense.com.br/exposicao40anos/)
anjal-do-jari.html)

Capa do livro técnico do


evento internacional para
argumentações em favor
da celulose de eucalipto
– PPI International Sympo-
sium on New Pulps for the
Paper Industry – Bruxelas,
1979 (86) Fábrica da Cenibra em 1977
(Fonte: http://www.celso-foelkel.com.br/artigos/news46_CENIBRA.pdf )

Em recentes anos da época do “quase tudo”, o setor mercadológica e empresarial para competir nos mais
brasileiro de celulose e papel tem conquistado vitórias dinâmicos e sofisticados mercados internacionais. Essa
e mostrado excelentes desempenhos em competitivi- posição foi uma conquista planejada e orquestrada, que,
dade. Atualmente, é um setor reconhecido, procurado, pode-se dizer, começou em meados dos anos 1950 e
admirado e vencedor. Seu desenvolvimento foi funda- adquiriu maturidade nesse início do século XXI (104).
mentado em exportação de produtos industrializados Portanto, são cerca de 70 anos de história para sair de
de valor agregado e não de recursos simplesmente ex- uma modesta produção anual de menos de 100.000
traídos da Natureza, o que ajudou a construir, via com- toneladas de celulose para atingir praticamente 20 mi-
petição para conquista de mercados, a requerida e ne- lhões em 2017. A produção de papel em 2017 deve atin-
cessária competitividade global (104). gir cerca de 10,5 milhões de toneladas, o que reflete a
Essa história de sucessos apresenta diversos pon- forte vocação exportadora para a celulose nacional.
tos-chave frequentemente esquecidos – a maioria de- Esse sucesso tem alicerce em alguns pilares básicos
les envolvendo parcerias, construção de competências que são (104):
e de qualificações, cooperação, estratégias e gestão. Ÿ  Apoio continuado do Governo Federal com
Hoje, o setor é um grande gerador de receitas, empre- seus planos de metas e políticas industriais desenvol-
gos, riquezas, oportunidades e colabora decisivamen- vimentistas como: Programa de Incentivos Fiscais ao
te no saldo da balança comercial do País, ajudando Reflorestamento (entre 1966 a 1986), I Programa Na-
em muito o desenvolvimento do Brasil (104). cional de Papel e Celulose (1974); constante apoio do
Graças a uma história de sucessos e de gestão em- BNDES para financiamentos setoriais, apoios da Fi-
presarial bem-sucedida, as empresas brasileiras de ce- nanciadora de Estudos e Projetos (FINEP) para estí-
lulose de mercado possuem capacitação tecnológica, mulo à inovação setorial etc.
186  | A EVOLUÇÃO TECNOLÓGICA DO SETOR DE CELULOSE E PAPEL NO BRASIL

Ÿ  Orientação exportadora e capacidade de Ÿ  Condições climáticas e edáficas (de solo e


conquistar e encantar mercados a partir de uma topografia) favoráveis.
celulose praticamente desconhecida em nível Ÿ  Disponibilidade de extensas áreas de terras
global até início dos anos 1970. Foram de funda- com vocação para a silvicultura.
mental importância para o setor a criação e par- Ÿ  Eficiência no manejo e melhoramento flo-
ticipação em eventos técnicos internacionais para restal.
promoção da celulose do eucalipto, com amplo Ÿ  Homogeneidade e qualidade das plan-
envolvimento de técnicos e especialistas do setor. tações florestais e de seus produtos. Atualmente,
Para se introduzir a nova celulose nos mercados a maioria das florestas é de origem clonal, resul-
exigentes do Hemisfério Norte, decidiu-se por pri- tando em madeiras apropriadas para o processo e
vilegiar as argumentações e orientações tecnológi- para o produto manufaturado. Isso se conseguiu
cas, que foram desenvolvidas a partir de um grupo em função de inúmeros pioneiros e continuados
multidisciplinar de trabalhos denominado Grupo estudos, desenvolvimentos e pesquisas em melho-
de Trabalho para o Eucalipto (GT-EUCA) (86). ramento genético e silvicultura das florestas plan-
Ÿ  Capacidades de negociação e de articula- tadas e das madeiras sendo produzidas.
ção das diversas partes-chaves presentes nesse tipo Ÿ  Utilização das melhores tecnologias flo-
de negócio. restais e industriais disponíveis (tecnologias
Ÿ  Adequadas gestão e orientações estratégicas. BAT - Best Available Technologies).
Ÿ  Flexibilidade para adaptação às alternân- Ÿ  Escalas de produção sendo as maiores dis-
cias desse negócio (exemplos: orientação para a poníveis, principalmente nas fábricas modernas
sustentabilidade, legislações e certificações, inte- de celulose de mercado, que foram e estão sendo
gração com a reciclagem etc.). construídas a partir do início desse século.
Ÿ  Investimentos seguros em fábricas moder- Ÿ  Modernização constante das unidades in-
nas, com escala de produção e estado da arte tec- dustriais produtivas.
nológico. Ÿ  Eficiente atuação nos mercados globais
Ÿ  Inovação constante e foco em pesquisas (logística e relacionamento com clientes).
tecnológicas nas áreas florestal e industrial. Ÿ  Qualificação de recursos humanos em
Ÿ  Integração entre as partes interessadas em ciências florestais e nas tecnologias de produção
relação ao setor para desenvolvimento de recursos de celulose e papel: diversas universidades e es-
humanos qualificados em tecnologia de celulose e colas técnicas possuem disciplinas orientadas e
papel, com participação efetiva da Associação Bra- cursos específicos para o setor (tecnólogos, gra-
sileira Técnica de Celulose e Papel (ABTCP). duação e pós-graduação).
Ÿ  Ênfase colocada pelas empresas em parce-
As principais razões para esse rápido e até rias com universidades, pesquisas cooperativadas
mesmo inusitado sucesso têm sido as seguintes via institutos e em criação de centros tecnológi-
(93; 97; 98; 99; 101; 104): cos cativos.
Ÿ  Crescimento ímpar e inigualável das flo- Ÿ  Forte empenho em desenvolvimento e dis-
restas plantadas de eucalipto que, graças a muita seminação orientada do conhecimento tecnoló-
pesquisa e esforço cooperativo (parcerias universi- gico por meio das associações de classe (ABTCP,
dades/empresas), saltou de valores de incremento SBS, IBÁ etc.), bibliotecas setoriais, redes de disse-
anual de 15 a 20 m³/ha.ano, nos anos 1960, para minação de conhecimentos técnicos, repositórios
valores médios acima de 45 (valores de produtivi- de teses e dissertações acadêmicas, revistas téc-
dade expressos como toras com casca). nicas e científicas setoriais de alta qualidade e ri-
Ÿ  Idem para o crescimento das florestas queza em novos conhecimentos (O Papel, Scientia
plantadas de Pinus, que superam atualmente pro- Forestalis, Ciência Florestal, Revista Árvore, Revis-
dutividades de 30 a 35 m³/ha.ano. ta Cerne, Floresta & Ambiente etc.).
DO “QUASE NADA” AO “QUASE TUDO” EM TERMOS DE AVANÇOS TECNOLÓGICOS   |   187

Educação tecnológica: fator crítico para desenvolvimento


Séries de livros técnicos essenciais sobre papel e celulose, editados pelo Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (SENAI) – Telêmaco
Borba-PR e São Paulo-SP

Ÿ  Integração dos diferentes atores, com estí- Com tudo somado e acontecendo de forma
mulo a movimentos tecnológicos importantes para simultânea, o Brasil tornou-se exemplo de pro-
a rede de valor setorial como: foco na sustentabilida- dutividade florestal, de custos baixos de produção
de, integração com a reciclagem do papel, produção industrial, de produtos de excepcionais qualidades
de tipos especiais de celulose e papel, certificações e de fábricas modernas e com excelentes desempe-
florestais e industriais demandadas pelos mercados, nhos. A eficiência e a continuidade operacional, a
efetividade em parcerias com fornecedores de insu- ecoeficiência e a qualidade ambiental das opera-
mos e equipamentos, produção no País de bens de ções são resultantes de uma orientação na gestão
capital (máquinas e equipamentos) etc. empresarial para que o setor seja benchmarking
Ÿ  Contínua integração internacional de técni- nos fatores-chaves de competitividade. Apesar da
cos, empresários e empresas do setor, para promo- grande maioria dos analistas financeiros conside-
ver visões amplas e diversificadas como forma de rar que o custo baixo da madeira é a maior vanta-
desenvolver oportunidades e minimizar ameaças. gem competitiva que o setor dispõe, não se pode
Ÿ  Apoio e participação efetiva em entidades deixar de valorizar a escala de produção, a moder-
de classe nacionais, sindicatos, confederações, con- nização tecnológica e a gestão orientada a resul-
selhos e associações técnicas setoriais e intersetoriais tados. A modernização tecnológica, por exemplo,
como: Associação Brasileira Técnica de Celulose garante menores consumos unitários de insumos,
e Papel (ABTCP), Indústria Brasileira de Árvores o que também colabora para os mais baixos custos
(IBÁ), Sociedade Brasileira de Silvicultura (SBS), As- operacionais. Sabe-se que as florestas plantadas se
sociação Brasileira do Papelão Ondulado (ABPO), constituem no cerne da competitividade do setor,
Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT), mas apenas com florestas não se conseguiria atin-
Confederação Nacional da Indústria (CNI) etc. gir o estado da arte que o setor brasileiro de celu-
Ÿ  Participação efetiva em entidades e em lose de mercado conquistou (104).
eventos internacionais como Technical Asso- As dinâmicas nas formas de gestão de estraté-
ciation of the Pulp and Paper Industry (TAPPI), gias empresariais e tecnológicas que converteram
Advisory Committee on Sustainable Forest-Based em sucesso esse setor no Brasil podem precisar se
Industries da Food and Agriculture Organization alterar para que o sucesso se mantenha no futuro.
(FAO), International Council of Forest & Paper Existem fortes tendências estruturais, sistêmicas e
Associations (ICFPA), Pulp and Paper Products mercadológicas que estão surgindo para trazer al-
Council (PPPC), Forest Products Industry Resear- terações significativas no setor.
ch and Analysis (RISI) etc. A principal delas é a combinação de estratégias
188  | A EVOLUÇÃO TECNOLÓGICA DO SETOR DE CELULOSE E PAPEL NO BRASIL

de produtos commodities para opções de multipro- tes por meio da Internet. Enfim, são mudanças
dutos, algo que já pode ser observado nas empre- que têm sido englobadas pela denominação de
sas líderes do setor no Brasil, como Fibria, Suza- Indústria 4.0, algo que vem merecendo muita
no e Klabin. Essas novas opções tecnológicas e de atenção do setor de celulose e papel. Complemen-
produtos variados deve resultar em alterações na tarmente a isso, diversas opções de produtos das
qualidade das florestas, em unidades de conversão biorrefinarias integradas estão em vias de efetiva
industrial diferenciadas, em parcerias com outros produção por algumas empresas do setor (169).
tipos de indústrias e em processos de logística es- Produtos novos a serem produzidos e comerciali-
pecíficos para cada produto (170, 242). zados pelo setor devem incluir em futuro próximo:
É bem possível que as atuais fábricas de ce- lignina kraft, bio-óleo, nanocristais de celulose,
lulose passem a se integrar com outras unidades celulose nanofibrilada, biogás, gás de síntese, gás
ou mesmo com outras empresas produtivas em combustível, composto orgânico para fertilização
arranjos industriais que possam ter as fábricas de de solos, fibras têxteis etc. (170, 242).
celulose e papel como empresas âncoras, ofertan- Em função desses cenários variados para o fu-
do: insumos (vapor, eletricidade, água e tratamen- turo do setor, não se pode dizer que o mesmo se
to de efluentes), áreas fabris para implantação de encontra pronto e suficiente. Essa é a razão da fra-
distritos industriais, bem como vendendo resíduos se “quase tudo” no título dessa Parte 3 do presente
próprios e consumindo resíduos e/ou produtos de livro. A indústria brasileira saiu do “quase nada” e
outras empresas localizadas no arranjo industrial atingiu em poucas décadas um nível de liderança,
ou cluster (170, 242). eficácia e efetividade em relação aos seus principais
Além disso, são esperadas grandes alterações competidores globais. Entretanto, não se pode di-
nos processos, com crescente uso de automação, zer que o caminho a ser percorrido em direção ao
mecanização e utilização de sistemas inteligen- seu futuro será fácil e que as conquistas se mante-

Do momento de “quase tudo” da época atual em direção à “Indústria do Futuro”


ACERVO DE IMAGENS DA KLABIN
ACERVO DE IMAGENS DA CMPC CELULOSE RIOGRANDENSE. FOTO DE THOMAS WEDDERBILLE

Fábrica da empresa Celulose Riograndense em Guaíba-RS Fábrica da empresa Klabin – Projeto Puma - em Ortigueira-PR
ACERVO DE IMAGENS DA FIBRIA
ACERVO DE IMAGENS SUZANO

Fábrica da empresa Suzano em Imperatriz-MA Fábrica da empresa Fibria – Projeto Horizonte – em Três Lagoas-MS
DO “QUASE NADA” AO “QUASE TUDO” EM TERMOS DE AVANÇOS TECNOLÓGICOS   |   189

rão saudáveis. Raramente um setor industrial atin- canização, tecnologias de informação, redes de
ge um ápice de desempenho e competitividade que valor, cultura, sustentabilidade sócioambiental,
se mantenha por longos períodos. Portanto, muito certificações, biotecnologia, oportunidades, ame-
mais apropriado se dizer que nessa atual década, aças, riscos, mercados, eficiência e ecoeficiência,
o setor atingiu “quase tudo” em suas expectativas agregação de valor, adequação legal, globalização,
empresariais e institucionais, e que muito esforço atratividade, imagem e, principalmente, respeito e
ainda é preciso ser colocado por todos para man- compromissos com as partes interessadas.
ter essa posição, ou melhorá-la ainda mais. As expectativas para continuidade do perío-
As expectativas são para que as mudanças de ce- do de desenvolvimento até hoje vivenciado pelo
nários, processos, produtos e tecnologias aconteçam setor de base florestal no Brasil, com aprovei-
de maneira muito mais rápida e, às vezes radical, em tamento das novas oportunidades da biomassa
relação ao que se tem visto no passado e no presente. florestal, são enormes. Nesse momento, o setor
Para se manter competitiva e vitoriosa, a indús- não vive mais de sonhos como em anos passados,
tria brasileira de celulose e papel não deverá per- mas em alavancagem de estratégias tecnológicas e
der sua identidade com a base florestal, embora ela empresariais para permitir o crescimento do mes-
deva se introduzir com maior grau de profundida- mo e de sua sustentabilidade.
de em outros tipos de industrializações, como: quí- O mundo florestal deverá continuar a ser o ali-
mica, energética, alimentícia, moveleira, têxtil etc. cerce dessas novas rotas de desenvolvimento, mas
As palavras e frases chaves que deverão ser apenas a floresta não será capaz de por si só garan-
pronunciadas e praticadas com maior ênfase nessa tir o sucesso esperado. Por isso, as palavras mais
rota em direção a futuros ainda incertos deverão importantes talvez sejam: integração, participação,
ser as seguintes: inovação, capacitação, qualifica- competência, respeito e vontade de fazer – e de fa-
ção, estratégias, produtividade, automação e me- zer muito e muito bem.
ACERVO DE IMAGENS DA LWARCEL
ACERVO DE IMAGENS DA IP DO BRASIL

Fábrica da empresa International Paper em Três Lagoas-MS Fábrica da empresa Lwarcel em Lençóis Paulista-SP (172)
ACERVO DE IMAGENS DA VERACEL

Fábrica da empresa Veracel em Eunápolis-BA


190  | A EVOLUÇÃO TECNOLÓGICA DO SETOR DE CELULOSE E PAPEL NO BRASIL

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202  | A EVOLUÇÃO TECNOLÓGICA DO SETOR DE CELULOSE E PAPEL NO BRASIL

LINHA DO TEMPO HISTÓRICA DA ABTCP


Fundação em 16 de janeiro, com sede Mudança da ABCP para sua sede
1967 na Rua Tubarana, no Jardim da Gloria, 1985 própria, na Rua Ximbó, no bairro da
em São Paulo (SP). Aclimação, em São Paulo.
Criação do Código de Ética, de 1986 Primeiro Encontro da Qualidade.
autoria do sócio fundador Francisco
1968 de Almeida Neto, e realização da 1.ª 1987 Criação da Divisão de Marketing.
Convenção Anual de Celulose e Papel. Lançamento do Curso de
Realização do 1.º Curso Básico de Especialização em Celulose e Papel em
1969 1988 convênio com a Universidade de São
Fabricação de Celulose e Papel.
Paulo (USP).
Primeira discussão sobre Normalização
1970 Setorial. Mudança do nome de ABCP para
1989 ABTCP, com novo logotipo.
Publicação do primeiro anuário da
1971 ABCP e venda de espaços para exposição Implantação das Regionais da ABTCP,
durante a quarta convenção anual. Formatura da Turma do Curso de
1990 Especialização em Celulose e Papel
Instituição dos delegados da ABCP nas e Realização do 5.º Congresso da
1972 indústrias. Qualidade de Celulose e Papel.
Criação da Divisão de Ensino na ABCP, Primeiro encontro técnico entre
1973 que se torna entidade de Utilidade 1991 ABTCP e a Associação Brasileira de
Pública Municipal. Tecnologia Gráfica (ABTG).
Lançamento dos primeiros simpósios
1992 Aniversário de 25 anos da ABTCP.
1975 e cursos de operadores de máquina de
papel. Aquisição do título O Papel, revista
Realização do primeiro curso nos 1993 da Editora Orientador, e Criação da
1976 Estados do Rio de Janeiro e Paraná. FICEPA.

Edição do documento técnico Soluções Formação de parceria entre a ABTCP


1977 na Fabricação de Papel. e o Instituto de Pesquisas Tecnológicas
1994 (IPT) para elaboração de normas
Declaração da ABCP como entidade de técnicas.
1978 utilidade pública estadual pelo governo
de São Paulo. Oficialização da Secretaria do ABNT/
CB 29 – Comitê Brasileiro de Celulose
Mudança da sede para a Rua Salvador 1995 e Papel na ABTCP e Lançamento dos
1979 Correia, na Vila Mariana, em São Paulo, eventos in company.
e criação da Divisão Cultural do Papel.
Lançamento da publicação Guia de
Realização do evento Panorama 1996 Compras Celulose e Papel e conquista
1980 Setorial do certificado ISO 9002.
Mudança do nome da Divisão 1997 Aniversário de 30 anos da ABTCP.
de Ensino para Divisão de
1982 Desenvolvimento de Recursos Realização da primeira conferência
Humanos e formação de um convênio sobre tecnologia de papéis revestidos
com a Escola Senai. e mudança do local de realização do
Congresso e da Exposição ABTCP do
Realização do 1.º Congresso Nacional
1983 Anhembi para o Centro Têxtil;
de Automação Industrial (Conai). 1998
Formação do primeiro acordo de
Formação da parceria ABCP–Senai
intercâmbio tecnológico com o Canadá
para a criação do Centro Técnico em
1984 por meio da Pulp and Paper Technical
Conservação e Restauração de Bens
Association of Canada (Paptac); e
Culturais em Papel (Cetecor).
Reunião do TC 6 - Technical
LINHA DO TEMPO  |   203

Renovação do reconhecimento da Exposição/Congresso com realização


ABTCP como entidade de utilidade dentro do Programa Carbono Zero
1999 pública estadual pelo governo de
2009 e Lançamento do Dia da ABTCP nas
São Paulo. empresas.
Realização do Congresso e 1.º Simpósio e Exposição Latino-
Exposição da ABTCP em parceria Americano de Tissue e a ABTCP é
com a International Pulp and Paper
2010 reconhecida pela sua excelência em
Technical Association (Tappi), Normalização pela ABNT.
marcando o início de parcerias Início da reestruturação
2000 internacionais para a realização organizacional: mudança no modelo
do evento; Lançamento do Prêmio de gestão da entidade, com diretrizes
Destaques do Setor pela ABTCP; e de sustentabilidade para o futuro. A
Mudança da Exposição da ABTCP Editora ABTCP lança o título Perini
do Centro Têxtil para o Transamerica 2011 Brasil: a história das histórias..., com
ExpoCenter. projeto gráfico e editorial contratado
Adoção do novo logotipo da ABTCP, pela Fabio Perini, empresa do Grupo
que se torna uma Organização da Körber Paperlink, em comemoração
Sociedade Civil de Interesse Público aos seus 35 anos no País.
2001 (OSCIP) e se muda para sua nova Aniversário de 45 anos da ABTCP,
sede própria, na Rua Zequinha de que registra sua história em livro
Abreu, no Pacaembu, em São Paulo. 2012 produzido pela BB Editora e
Lançamento do Intercâmbio comemora a publicação do seu novo
2003 Tecnológico. Atualmente com o nome estatuto.
de Intercâmbio de Estudantes. Lançamento da 1.ª Semana de
Realização da ExpocelpaSul e
2013 Celulose e Papel Três Lagoas (MS).
lançamento da Universidade Setorial Novo site institucional com área
2004 e do livro A História da Indústria de de relacionamento exclusiva para
Celulose e Papel no Brasil. o associado. Representação do
Lançamento do serviço de soluções setor em eventos internacionais
tecnológicas, para dar consultoria 2014 (PulPaper – Finlândia – junho/2014;
2005 às empresas, e de um novo título: a Projeto Comprador – Expo ABTCP
revista Nosso Papel. – out./2014; Pap-For – Rússia
ABTCP em parceria com a NSK – out./2014; Delegação Suécia –
lança o CCT Móvel – Centro de out./2014)
2006 Capacitação e Treinamento Móvel, a Fortalecimento da ABTCP nas
Carreta ABTCP, para levar conceitos redes sociais (Facebook e LinkedIn).
técnicos às empresas do setor. Representação do setor em eventos
Aniversário de 40 anos da ABTCP 2015 internacionais (100 anos Tappi –
2007 e lançamento do livro A História do Atlanta – EUA – abril/2015; Tissue
Papel Artesanal no Brasil. World Barcelona – março/2015;
MIAC – Itália – out./2015)
Início da atuação da ABTCP
como editora de livros, com ISBN Difusão das atividades da área de
concedido pela Biblioteca Nacional, capacitação técnica e lançamento
2016 de seu novo portal de Educação a
e edição do título A História do
2008 Papel Artesanal no Brasil. Também Distância (EAD)
lançamento dos projetos Dia da Aniversário de
ABTCP nas empresas e o Reciclando 2017
50 anos da ABTCP.
Papéis e Vidas.
SUSTENTABILIDADE  |   205

SUSTENTABILIDADE
A sustentabilidade no setor de celulose e papel

O
conceito de sustentabilidade este- setores que evoluíram no que diz respeito a ações
ve sendo desenhado nas últimas sustentáveis.
duas décadas e passou a ter traços Trata-se de um segmento que, desde o final
mais firmes na conjuntura atual. dos anos 1990, reconheceu seus impactos produti-
Uma busca constante por um de- vos no ambiente em que atua e procurou trabalhar
senvolvimento sustentável, que equilibre aspectos em busca de suas reduções ou eliminação.
sociais, ambientais e econômicos, pode ser vista As evoluções mais expressivas podem ser confe-
nas muitas esferas que englobam a sociedade. ridas em duas frentes: melhoria das práticas flores-
Inserido neste contexto de demandas distin- tais, por meio do avanço de soluções que aumentam
tas (e imediatas), o segmento industrial tem como a produtividade ao passo que diminuem o consumo
meta a aplicação prática da sustentabilidade. A de água e outros insumos nas florestas plantadas, e
indústria de celulose e papel destaca-se entre os pelo aumento da eficiência operacional nos parques
206  | A EVOLUÇÃO TECNOLÓGICA DO SETOR DE CELULOSE E PAPEL NO BRASIL

industriais, a partir de investimentos em tecnologia Os resultados desse estudo apontam que, na


e aprimoramento dos métodos produtivos. visão dos porta-vozes do setor, a sustentabilida-
Diante da relevância do tema e da constatação de de está ligada aos negócios, mais especificamente
que o setor de celulose e papel abrange um conjunto à perenidade ou continuidade dos negócios, em
extenso de atores, a Associação Brasileira Técnica de contrapartida ao discurso clássico do conceito
Celulose e Papel (ABTCP), em parceria com a Fun- de “atender às necessidades da geração atual sem
dação Espaço ECO, tomou a iniciativa de realizar um comprometer a possibilidade de gerações futuras
diagnóstico com diversos stakeholders, a fim de iden- atenderem às suas necessidades”, definido no Re-
tificar a percepção geral a respeito do significado do latório de Brundtland (ou Nosso Futuro Comum),
conceito de sustentabilidade, bem como do estágio de 1987 (ONU, 1987).
atual das ações praticadas pelo setor. Em outras pala- Ainda acerca do entendimento sobre susten-
vras, o estudo teve como objetivo verificar a percep- tabilidade, foi praticamente consenso de que prá-
ção e o grau de maturidade da indústria de celulose e ticas sustentáveis podem gerar valor, em especial
papel quanto à sustentabilidade. em termos de imagem e reputação das empresas
Para englobar os diversos segmentos que com- junto aos consumidores. Como feedback adicional
põem direta e indiretamente essa indústria, a AB- relevante, muitos entrevistados disseram acreditar
TCP selecionou representantes dos segmentos flo- que a sustentabilidade já está deixando de ser um
restal, de celulose e papel, fornecedores, clientes, diferencial para se tornar uma questão de sobrevi-
governo, institutos de pesquisas, universidades e vência dos negócios.
associações, para responder questões relacionadas Entre os temas abordados na pesquisa, a redu-
a um conjunto de 20 temas, cobrindo as vertentes ção do consumo de água foi apontada como uma
econômica, ambiental e social, conforme ilustrado das conquistas do setor nos últimos anos, apesar
na imagem em destaque. dos sistemas de ciclo fechado e reuso de água ain-

   Sociedade
1. Inclusão e diversidade
2. Remuneração
3. Saúde e segurança do trabalho
4. Erradicação de trabalhos escravos e infantil
5. Relacionamento com a comunidade
6. Relacionamento com grupos sem terra e indígenas
7. Relacionamento com Governo, Academia e ONG

       Meio Ambiente
       Economia 13. Desmatamento e queimadas
8. Pesquisa e desenvolvimento 14. Manejo florestal
9. Certificações e selos 15. Gestão da biodiversidade
10. Mercado de carbono e pagamento de 16. Gestão de resíduos
serviços ambientais 17. Gestão de consumo de água
11. Financiamento e crédito 18. Gestão do efluente
12. Desenvolvimento da economia local 19. Gestão das emissões atmosféricas
20. Gestão de energia
SUSTENTABILIDADE  |   207

da serem metas em andamento por grande parte evitar ou minimizar essa relação é fazer com que a
dos players da indústria de celulose e papel. No sustentabilidade seja incorporada na gestão das or-
que se refere aos efluentes, praticamente todas ganizações de forma vertical (cascateado da alta di-
as empresas atendem à legislação. Em termos de retoria até o chão de fábrica) e horizontal (valoriza-
emissões atmosféricas, o setor também se porta de da por todas as áreas e não apenas pelo movimento
maneira satisfatória. independente do setor de sustentabilidade ou afim).
Outra perceção geral entre os entrevistados Um maior incentivo à transferência de know-how
diz respeito ao odor, bem controlado pelas fábricas e boas práticas das grandes empresas para as mé-
mais modernas – inclusive envolvendo a comuni- dias e pequenas faria com que o setor crescesse
dade para alertas em casos de odor fora do padrão como um todo e, por isso, foi apontada como uma
– e apontado como oportunidade de melhoria da das principais estratégias de fortalecimento da sus-
atuação das empresas menos avançadas tecnologi- tentabilidade pelos entrevistados.
camente. A autossuficiência de energia dos parques Como os grandes players notoriamente lide-
fabris de celulose e, em alguns casos, a comerciali- ram o setor e, muitas vezes, já adotam práticas
zação da eletricidade excedente, foi mais um aspec- avançadas em vários dos temas pesquisados (P&D,
to positivo destacado no estudo. Certificação e selos, Manejo florestal, Saúde e segu-
Nas atividades que ocorrem no campo, o rança do trabalho, Remuneração, entre outras), eles
Manejo Florestal foi massivamente elogiado pelos poderiam contribuir com os pares que apresentam
participantes, sendo por muitos considerado re- dificuldades em trabalhar com temas que vão além
ferência mundial quando o assunto é fibra curta. da sobrevivência financeira do negócio.
O fato do Brasil ser um grande exportador impul- Em Relacionamento com Governo, Academia e
sionou o setor a adotar as melhores práticas para ONG foi apontado recorrentemente como oportu-
atender à exigente demanda internacional. nidade de melhorias. Dada a participação da in-
Em se tratando de temas de caráter social, dústria de celulose e papel na economia do País, o
Desenvolvimento da economia local, Remuneração desejo comum é de uma maior aproximação para
e Relacionamento com a comunidade, o setor é vis- explorar melhor todas as possibilidades de avan-
to como um promotor de melhoria da comunida- ços. Os participantes do estudo disseram acreditar
de de entorno e de seus funcionários. que a atuação da IBÁ - Indústria Brasileira de Ár-
Em Gestão de resíduos, o estudo identificou vores – e o envolvimento da ABTCP nessa frente
que há bastante interesse dos stakeholders em des- são indispensáveis para o estreitamento dos laços
viar os resíduos de aterros sanitários para outros entre o setor e o governo, assim como para o forta-
fins, como compostagem e reciclagem. lecimento do diálogo com academia e ONGs.
Essa última prática foi enfatizada como estratégica Ainda falando da importância do incentivo à
para incentivar o relacionamento com cooperativas de pesquisa & desenvolvimento, os temas de Indústria
reciclagem e ampliar campanhas de conscientização 4.0 e Internet das Coisas foram levantados como fun-
do consumidor para a prática de coleta seletiva. damentais para que o setor saia do tradicionalismo
Uma atenção especial deve ser dada para a e acompanhe as maiores tendências tecnológicas,
adequação das empresas à Política Nacional de Re- enfatizado pela opinião que isso pode determinar o
síduos Sólidos que, também, está no radar do setor sucesso das empresas num prazo não tão longo.
e deve despontar nos próximos anos. Quando se trata do tema de Inclusão e diversi-
Reconhecendo que o avanço e a consolidação dade, percebeu-se que os entrevistados deram en-
das práticas de sustentabilidade ainda sofrem in- foque ao fato de o setor de celulose e papel ainda
fluência do cenário econômico, fazendo com que ser predominantemente masculino. A justificativa
esforços relacionados a essa pauta sejam deixados mais recorrente se dá ao fato de trabalhos na fá-
de lado quando a economia não se encontra favorá- brica exigirem grande esforço manual. No entan-
vel, os participantes ressaltaram que uma forma de to, com o avanço da automatização dos processos,
208  | A EVOLUÇÃO TECNOLÓGICA DO SETOR DE CELULOSE E PAPEL NO BRASIL

espera-se que mulheres tenham iguais condições para Logo, mais do que benefícios intangíveis (imagem
executar as funções e, portanto, desfrutarem de mais e reputação), as ações sustentáveis devem refletir bene-
oportunidades. fícios, que tragam diferencial econômico, por meio de
As prioridades apontadas pelos porta-vozes do setor melhorias em eficiência de processo e redução de custos.
mostram que a sustentabilidade não pode mais ficar res- Desta forma promover a comunicação e a divulgação das
trita ao discurso de ser economicamente viável, ambien- diversas ações do setor, com segmentos não ligados à ca-
talmente correto e socialmente justo. Para a maior parte deia produtiva de celulose e papel, e destacando-se como
dos entrevistados, sustentabilidade deve ser empregada uma estratégia indispensável para atingir e contemplar
com vistas a garantir a perenidade dos negócios. todos esses objetivos.

POR DENTRO DA METODOLOGIA QUE LEVOU AOS RESULTADOS


Uma vez estipulada a intenção de conhecer a Para a realização de um estudo de HSA, cinco
percepção do setor de celulose e papel sobre sus- etapas sucessivas são realizadas: definição de obje-
tentabilidade, entendeu-se que a ferramenta mais tivo e escopo; pesquisa da literatura, aplicação das
adequada para chegar aos resultados era a chama- entrevistas; interpretação dos resultados, e levan-
da Hotspots Analysis (H