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UERJ — Campus Regional de Resende

FEN07-02162/2 — Introdução à Engenharia Ambiental Prof. Eduardo Bessa Azevedo

Módulo 01

Entendendo o Nosso Meio Ambiente 02


Condições Atuais 02
Norte/Sul: Um Mundo Dividido 05
Desenvolvimento Humano 07
Finalizando: Conhecendo os Nossos Vizinhos 09

Fundamentos de Ecologia 11
A Importância da Ecologia 11
Das Espécies aos Ecossistemas 11
O Ecossistema: A Unidade Biológica 12

Energia, Matéria e Vida 15


Energia 15
Matéria 16

Os Biomas 21
A Influência do Clima sobre a Distribuição dos Vegetais 21
Os Biociclos, as Biocoras e os Biomas 22
Os Principais Biomas Brasileiros 22

Meio Ambiente e Toxicologia 29


Envenenando Bopal 29
Produtos Químicos Tóxicos 29
Movimento, Distribuição e Destino das Toxinas 31

Impactos Ambientais das Atividades Antrópicas 33


O Homem e a Natureza 33
Crescimento Populacional 33
Modificações Ambientais Provocadas pelo Homem 35

Bibliografia 40

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Entendendo o Nosso Meio Ambiente


Os seres humanos sempre habitaram dois mundos. Um deles é o mundo natural de plantas, animais, solos, ar
e água que existe há bilhões de anos e do qual somos parte. O outro é o mundo das instituições sociais e dos artefa-
tos que criamos para nós mesmos usando a ciência, a tecnologia e a organização política. Ambos são essenciais
para as nossas vidas, mas integrá-los com sucesso causa tensões duradouras.
Enquanto as civilizações antigas tinham uma habilidade limitada para alterar as suas vizinhanças, nós temos
agora o poder de extrair e consumir recursos, produzir rejeitos e modificar o nosso mundo de maneiras que amea-
çam tanto a nossa existência quanto a de muitos outros organismos com os quais dividimos este planeta. Para asse-
gurar um futuro sustentável para nós mesmos e para as gerações futuras, precisamos entender um pouco de como o
nosso mundo funciona, o quê nós estamos fazendo com ele e o quê nós podemos fazer para protegê-lo e melhorá-lo.
Meio Ambiente (do francês environner: circundar, rodear) pode ser definido como (1) as circunstâncias ou
condições que circundam um organismo ou grupo de organismos, ou (2) o complexo de condições sociais ou cultu-
rais que afetam um indivíduo ou comunidade. Já que os seres humanos habitam o mundo natural assim como o
mundo “construído” ou tecnológico, social e cultural, todos constituem partes importantes do nosso meio ambiente.
Como aponta a famosa economista Barbara Ward, para um crescente número de problemas ambientais, a
dificuldade não é identificar as soluções. As soluções são hoje em dia bem conhecidas. O problema é torná-las
social, econômica e politicamente aceitáveis. Os engenheiros florestais sabem como plantar árvores, mas não como
estabelecer condições para que aldeões em países em desenvolvimento possam manejar as plantações por si pró-
prios. Engenheiros ambientais sabem como controlar a poluição, mas não sabem como persuadir as fábricas a ins-
talarem os equipamentos necessários. Arquitetos e engenheiros sabem como projetar casas e sistemas de tratamen-
to de água potável, mas não sabem como torná-los disponíveis para os membros mais pobres da sociedade. As
soluções para estes problemas cada vez mais envolvem os sistemas sociais humanos bem como as ciências naturais
e exatas.

Condições Atuais
Imagine que você é um astronauta retornando a Terra após uma longa viagem à Lua ou a Marte. Que alívio
seria voltar para este planeta lindo e generoso após experimentar o meio ambiente hostil e desolado do espaço.
Embora aqui existam perigos e dificuldades, vivemos em um mundo extraordinariamente prolífico e hospitaleiro e
que é, até onde sabemos, único no universo. Comparadas às condições dos outros planetas no nosso sistema solar,
as temperaturas na Terra são amenas e relativamente constantes. Enormes reservas de ar fresco, água potável e
solo fértil são espontaneamente regenerados incessantemente pelos ciclos biogeoquímicos.
A rica diversidade de vida que existe aqui é talvez a característica mais admirável do nosso planeta. Milhões
de belas e intrigantes espécies povoam a Terra e ajudam a sustentar um meio ambiente habitável. Esta vasta multi-
dão de vidas cria comunidades complexas e inter-relacionadas nas quais árvores gigantes e animais de grande porte
convivem e dependem de pequenas formas de vida, tais como vírus, bactérias e fungos. Juntos, todos estes orga-
nismos compõem comunidades agradavelmente diversas e auto-sustentáveis, incluindo florestas densas e úmidas,
amplas savanas ensolaradas e recifes de coral ricamente coloridos. De tempos em tempos, devemos parar e le m-
brar que, apesar dos desafios e complicações da vida na Terra, somos incrivelmente afortunados por estarmos aqui.
Devemos nos perguntar: qual é o nosso lugar na natureza? O quê devemos e podemos fazer para proteger este
habitat insubstituível que nos produziu e mantém?

Dilemas Ambientais
Embora existam muitas coisas para serem apreciadas e celebradas no mundo em que vivemos, muitos pro-
blemas ambientais urgentes clamam a nossa atenção. As populações humanas têm crescido a taxas alarmantes
neste século. Cerca de 6 bilhões de pessoas ocupam hoje a Terra e estamos adicionando cerca de 100 milhões a
cada ano. A maioria deste crescimento se dará nos países mais pobres, onde os recursos e serviços já são escassos
para a atual população.
A fome e o racionamento de comida são já bastante comuns em muitos locais e podem aumentar em fre-
qüência e intensidade se o crescimento populacional, a erosão do solo e a exaustão de nutrientes continuarem, no
futuro, com mesma taxa do passado. Entretanto, tem-se percebido que o acesso à comida está mais relacionado

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com pobreza, democracia e distribuição eqüitativa, do que com a quantidade de


comida disponível. Faltas d’água e a contaminação das reservas existentes
ameaçam serem problemas ambientais críticos no futuro, tanto para a produção
agrícola quanto para os usos domésticos e industriais. Muitos países já sofrem
sérias faltas d’água, fazendo com que mais de um bilhão de pessoas não tenham
acesso à água potável ou saneamento básico. Conflitos viole ntos por causa do
controle de recursos naturais podem ser iniciados em muitos locais se não a-
prendermos a viver dentro do orçamento da natureza.
A maneira através da qual nós obtemos e usamos a energia é de fundamental
importância para o futuro do nosso meio ambiente. Os combustíveis fósseis
(petróleo, carvão e gás natural) fornecem atualmente cerca de 80% da energia usada
nos países industrializados. As reservas destes combustíveis estão diminuindo a
taxas alarmantes e os problemas associados com a sua aquisição e uso — poluição
do ar e das águas, danos devidos à mineração, acidentes de navio e insegurança
política — podem limitar onde e como usaremos as reservas restantes. Fontes de
energia mais limpas e renováveis — energia solar, eólica e de biomassa — além da conservação, podem substituir
fontes de energia ambientalmente destrutivas se investirmos na tecnologia apropriada nos próximos anos.

100

Combustíveis fósseis
80

60
As reservas de combustíveis fósseis estão diminuindo a
%

taxas alarmantes. Elas podem ser substituídas por


fontes renováveis tais como energia solar, eólica e de
40 biomassa, energia que poderia ser mais eqüitativamente
Renováveis distribuída e seria menos poluente do que as nossas
fontes de energia atuais.
20 Hidroelétrica e nuclear

0
1990 2000 2010 2020 2030 2040 2050
Ano

À medida que queimamos combustíveis fósseis, liberamos dióxido de carbono e outros gases que absorvem
calor e causam o aquecimento global, podendo gerar um aumento no nível dos oceanos e mares e mudanças climá-
ticas catastróficas. Os ácidos formados no ar como resultado da combustão dos combustíveis fósseis, têm causado
danos extensos aos materiais das construções e a ecossistemas sensíveis em muitos locais. O uso continuado dos
combustíveis fósseis sem as medidas de controle da poluição pode vir a causar danos ainda mais extensos. Os
compostos clorados, tais como os clorofluorcarbonos usados em refrigeração e no condicionamento do ar, também
contribuem para o aquecimento global, além de danificar a camada de ozônio estratosférico que nos protege da
radiação ultravioleta causadora de câncer contida na luz solar.
A destruição de florestas tropicais, recifes de corais, terrenos alagadiços (pântanos, manguezais etc.) e outras
paisagens biologicamente ricas, está causando uma perda alarmante de espécies e uma redução da variedade e da
abundância biológica, o que pode limitar severamente as nossas opções futuras. Muitas espécies raras estão sendo
ameaçadas de extinção direta ou indiretamente pelas atividades humanas.
Tóxicos atmosféricos e poluentes aquáticos, juntamente com montanhas de resíduos sólidos e perigosos,
estão se tornando problemas de vulto nos países industrializados. Centenas de milhões de toneladas destes materi-
ais são produzidas anualmente e a maioria é disposta de maneira perigosa ou irresponsável. Os efeitos à saúde da
poluição, dos resíduos tóxicos, do estresse e de outros males ambientais da nossa sociedade moderna, têm se torna-
do uma ameaça maior do que as doenças infecciosas para muitos dos habitantes dos países industrializados.
Estes e outros sérios problemas similares ilustram a importância das ciências ambientais e da educação am-
biental para todos. O quê nós estamos fazendo com o nosso mundo e a sua significação para o nosso futuro e o das
nossas crianças, é uma preocupação capital da virada deste século.

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Solos sensíveis Áreas atualmente problemáticas

Emissões atuais Áreas potencialmente problemáticas

Tanto emissões quanto solos sensíveis

Este mapa mostra as regiões que apresentam hoje problemas de acidificação relacionados à poluição e aquelas nas quais, baseado no
tipo de solo e nas expectativas de industrialização futuras, a acidificação possa ser tornar severa no futuro.

Sinais de Esperança
O sombrio cortejo de problemas que acabamos de revisar parece bastante opressivo, não é? Mas, há espe-
rança de que possamos achar soluções para esses problemas? Acreditamos que sim. Progressos têm sido feitos em
muitas áreas, como no controle da poluição do ar e das águas e na redução do uso indiscriminado das nossas reser-
vas. Muitas cidades na América do Norte e na Europa são mais limpas e menos poluídas do que há uma geração
atrás. A população está estabilizada na maioria dos países industrializados e até mesmo em países muito pobres,
têm sido estabelecidas a seguridade social e a democracia. Ao longo dos últimos vinte anos, a média de crianças
nascidas por cada mulher no mundo diminui de 6,1 para 3,4. Ainda estamos acima da taxa de crescimento popula-
cional zero de 2,1 crianças por casal, mas este é um progresso encorajador. Se esta tendência continuar nos próxi-
mos vinte anos, a população mundial poderá estar estabilizada no início do século XXI.
A incidência de doenças infecciosas letais tem sido diminuída drasticamente na maioria dos países durante o
último século, enquanto a expectativa média de vida quase dobrou. Muitas novas reservas foram descobertas e
maneiras mais eficientes de usar as atuais foram inventadas, permitindo-nos aproveitar os luxos e as conveniências
que pareceriam miraculosas apenas há algumas gerações atrás. Embora a vida moderna tenha muitos estresses e
tensões, poucas pessoas gostariam de retornar às condições existentes há 10.000, 1.000 ou mesmo 100 anos atrás.
Ainda assim, podemos fazer muito mais, tanto individual quanto coletivamente, para proteger e restaurar o
nosso meio ambiente. Estarmos alertas para os problemas que enfrentamos é o primeiro passo na direção de achar
soluções para eles. A crescente cobertura da imprensa trouxe os problemas ambientais à atenção do público. Mais
de 80% dos americanos entrevistados em pesquisas de opinião pública concordam que “proteger o meio ambiente é
tão importante, que as regulamentações e padrões estabelecidos não são excessivamente restritivos e o melhora-
mento continuado do meio ambiente deve ser feito a despeito do custo”. Esta preocupação e compreensão crescen-
tes são por si próprias sinais de esperança. Os jovens hoje podem estar numa posição única para enfrentar esses
problemas porque, pela primeira vez na história, temos agora os recursos, a motivação e o conhecimento para fazer
alguma coisa acerca dos nossos problemas ambientais. Infelizmente, se nós não agirmos agora, talvez não tenha-
mos uma outra chance de fazê-lo.

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Norte/Sul: Um Mundo Dividido


Vivemos em um mundo dos que têm e daqueles que não têm; poucos de nós vivem em luxo crescente en-
quanto para muitos outros falta o básico para uma vida decente, saudável e produtiva. O Banco Mundial estima
que mais de um bilhão de pessoas — um quinto do mundo — vive em pobreza aguda, não tendo acesso a uma
dieta adequada, moradia decente, saneamento básico, água potável, educação, cuidados médicos e outros itens es-
senciais à existência humana. 70% destas pessoas são mulheres e crianças. De fato, quatro em cada cinco pessoas
no mundo vivem no que poderia ser considerado de pobreza nos Estados Unidos e no Canadá. O nosso compro-
misso com as pessoas pobres não é apenas uma questão humanitária. Os governantes estão se conscientizando de
que a eliminação da pobreza e a proteção do nosso meio ambiente estão inextricavelmente interligadas.
As pessoas mais pobres do mundo têm se tornado as vítimas e os agentes da degradação do meio ambiente.
Elas são muito freqüentemente forçadas a lutar pela sobrevivência a curto prazo, às expensas da sustentabilidade de
longo prazo. Desesperados por terras cultiváveis para alimentá-los e às suas famílias, muitos provocam o desma-
tamento de florestas e cultivam solos passíveis de erosão, nos quais os nutrientes se exaurem em poucos anos.
Outros migram e passam a viver em barracos desmantelados nas favelas imundas e superpovoadas que circundam a
maioria das grandes cidades no mundo em desenvolvimento. Sem terem uma maneira de disporem o seu lixo, os
residentes freqüentemente poluem ainda mais o meio ambiente e contaminam o ar que respiram e a água da qual
dependem para beber e para limpeza.
O ciclo de pobreza, doença e oportunidades limitadas pode se tornar um processo auto-sustentável, passando de
geração para geração. As pessoas que são mal nutridas e doentes não podem trabalhar produtivamente para obter comi-
da, abrigo ou remédios para si próprios ou para as suas crianças, que também são mal nutridas e doentes. Cerca de 200
milhões de crianças — principalmente no sul e sudeste asiático e algumas abaixo de 4 anos de idade — são forçadas a
trabalhar sob condições de trabalho escravo tecendo tapetes, fazendo cerâmicas e jóias ou no comércio do sexo. Crescer
nestas condições leva a deficiências mentais e culturais que condenam estas crianças a perpetuar este ciclo.
Acuadas entre as necessidades imediatas de sobrevivência e as poucas opções disponíveis, estas infelizes
pessoas freqüentemente não têm outra escolha a não ser exaurir os recursos; entretanto, fazendo isto, elas reduzem
não apenas as suas próprias opções, mas também aquelas das gerações futuras. E, num mundo cada vez mais inter-
ligado, os ambientes e recursos danificados pela pobreza e pela ignorância estão diretamente conectados àqueles
dos quais nós dependemos. É de nosso próprio interesse ajudar a todos a encontrarem melhores maneiras de viver.

Linha Brandt
Países menos desenvolvidos
Países em desenvolvimento
Países mais desenvolvidos

O mundo do subdesenvolvimento. A linha Brandt, criada pela Comissão Internacional para os Assuntos do Desenvolvimento Internacional,
separa as nações mais ricas e industrializadas da Europa, América do Norte, Japão, Austrália e Nova Zelândia dos seus vizinhos do sul no
mundo em desenvolvimento. Os 42 países “menos desenvolvidos”, de acordo com o Programa de Desenvolvimento das Nações Unidas,
encontram-se principalmente na África e na Ásia.

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Países Ricos e Pobres


Onde os pobres e ricos vivem? Cerca de um quinto da população do mundo vivem nos vinte países mais
ricos, onde a renda média “per capita” é acima de US$ 10.000 por ano. A maioria destes países está na América do
Norte ou na Europa Ocidental, mas o Japão, Austrália, Nova Zelândia, Hong Kong, Arábia Saudita e os Emirados
Árabes também se encontram dentro deste grupo. Entretanto, quase todos os países, mesmo os mais ricos, têm
pessoas pobres. A Suécia tem o menor grau de pobreza, com 7%, seguida da Holanda (8,3%) e Alemanha (10,4%).
Os Estados Unidos estão em último lugar no ranking, com 16,5%. O Reino Unido e a Irlanda figuram com índices
de 15,1 e 15,3%, respectivamente.
Os outros quatro quintos do mundo vivem 60
em países com rendas médias ou baixas, onde
quase todas as pessoas são pobres em 1985
comparação com os padrões dos países ricos. 50
1990
Mais de 3 bilhões de pessoas vivem nas nações

% Vivendo na Pobreza
2000
mais pobres, onde a renda média “per capita”
40
está abaixo de US$ 580 por ano. Dentre estas, a
China e a Índia são os dois maiores países, com
uma população combinada de 2 bilhões de 30
pessoas. Entre as outras 40 nações nesta
categoria, 31 estão no continente africano.
20
Todas as outras nações com baixa renda, com
exceção do Haiti, se encontram na Ásia.
Felizmente, os níveis de pobreza no sul e no leste 10
da Ásia têm caído nos últimos anos e espera-se
que continuem a declinar no futuro. Por outro
0
lado, na África e na América do Sul, a
Sul Asiático Leste Asiático África América Latina
porcentagem da população vivendo na pobreza
está aumentando. Os efeitos desestabilizadores e empobrecedores do recente colonialismo nestes locais continuam
a ter um papel importante nos problemas atuais desses desafortunados países.
Em 1995, os dez países mais pobres do mundo eram (do mais pobre para o menos pobre): Moçambique,
Tanzânia, Etiópia, Butão, Guiné-Bissau, Malaui, Serra Leoa, Bangladesh e Madagascar. Cada um destes países
tem um PIB “per capita” menor que US$ 200 por ano. Eles também têm baixos níveis de reservas de comida, bem-
estar social e qualidade de vida, como indicado na tabela abaixo.

Indicadores Médios da Qualidade de Vida para as dez nações


mais ricas e as dez mais pobres

Indicador Países Pobres Países Ricos

PIB “per capita” $ 176 $ 22.634


Expectativa de vida 49 anos 77 anos
Mortalidade de recém-nascidos* 122 6,4
Mortalidade infantil* 208 7,9
% das calorias necessárias 95 130
para uma vida saudável
Gramas de proteína por dia 50 95
Água potável 36% 100
Mulheres alfabetizadas 20% ~ 100
Taxa de nascimento* 45 12,7
*em mil indivíduos

Em comparação, os dez países mais ricos do mundo — Suíça, Luxemburgo, Japão, Finlândia, Noruega, Sué-
cia, Islândia, Estados Unidos, Dinamarca e Canada (do mais rico para o menos rico) — tem um PIB “per capita”
anual cerca de 100 vezes maior do que o dos países pobres. Como pode ser visto na tabela anterior, existem outras
condições dos países ricos que refletem a enorme disparidade na distribuição da riqueza.

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Uma Divisão Justa de Recursos?


O estilo de vida das pessoas dos países ricos consome uma fatia absurda dos recursos naturais mundiais e
produz uma parcela altamente chocante dos poluentes e rejeitos. Os Estados Unidos, por exemplo, com menos de
5% da população total do globo, consome cerca de um quarto da maioria dos bens comercializados e produz um
quarto da maioria dos rejeitos industriais.
Para manter o estilo de vida de um ame- Os Estados Unidos, com 4,5%
ricano médio (durante um dia), são consumi- da população mundial...
dos cerca de 450 kg de matérias-primas, inclu-
indo 18 kg de combustíveis fósseis, 13 kg de Consomem Produzem
outros minerais, 12 kg de produtos de fazen-
da, 10 kg de madeira e papel e 450 litros de 26% de todo o petróleo 50% de todos os rejeitos tóxicos
água. A cada ano, são jogados 160 milhões 24% do alumínio 26% dos óxidos de nitrogênio
de toneladas de lixo, incluindo 50 milhões de 20% do cobre 25% dos óxidos de enxofre
toneladas de papel, 67 bilhões de latas e garra- 19% do níquel 22% dos clorofluorcarbonos
fas, 25 bilhões de copos descartáveis, 18 bi- 13% do aço 22% do dióxido de carbono
lhões de fraldas descartáveis e 2 bilhões de
barbeadores descartáveis.
Com este nível de consumismo e de geração de rejeitos, os sistemas da Terra que dão suporte à vida ficam
necessariamente comprometidos. Se, com o desenvolvimento do planeta, todos tentarem viver desta maneira, os
resultados seriam desastrosos. A menos que encontremos maneiras de conter os nossos desejos e de produzir as
coisas das quais realmente necessitamos menos destrutivamente, a sustentabilidade da vida humana no nosso pla-
neta é questionável.

Desenvolvimento Humano
Todos os anos, as Nações Unidas divulgam um relatório classificando os países através do Índice de Desen-
volvimento Humano (IDH), baseado principalmente na expectativa média de vida, na porcentagem de adultos
alfabetizados, na média de anos de freqüência à escola e na renda anual “per capita”. Alguns outros indicadores
embutidos neste índice incluem as taxas de mortalidade de recém-nascidos, fornecimento calórico diário, desnutri-
ção infantil e acesso à água potável. O valor do IDH varia de 1,0 a 0,0. De acordo com o relatório de 1999, o Ca-
nadá é o primeiro colocado pelo sexto ano consecutivo, com um índice de 0,960 e o último, mais uma vez, é Serra
Leoa com 0,254. É óbvio que existe uma estreita correlação entre riqueza e desenvolvimento humano. As 15 na-
ções com índices mais elevados (todas acima de 0,9) estão localizadas na América do Norte e na Europa Ocidental,
com exceção do Japão e da Austrália. Em contrapartida, as 15 nações com os menores índices (abaixo de 0,275),
estão todas no continente africano.

Discrepâncias no Desenvolvimento
É claro que números agregados como esse escondem pontos importantes. Um deles é a desigualdade dos
sexos. Os homens geralmente saem-se melhor do que as mulheres em quase todos os indicadores sócio-
econômicos. Entre os poucos países que mantêm este tipo de dados, o Japão tem a menor razão entre as remunera-
ções de homens e mulheres (51%), enquanto a Suécia tem a maior (90%).
A raça é outra variável que determina a posição sócio-econômica em muitos países. Se a África do Sul bran-
ca fosse um país separado, ela estaria classificada como a 24ª no mundo em termos de desenvolvimento humano
(logo abaixo da Espanha). Por outro lado, a África do Sul negra estaria classificada em 123ª no mundo (logo acima
do Congo). Em alguns países, diferenças regionais ou étnicas criam disparidades. Na Nigéria, o estado de Bendel,
com um IDH de 0,66, é equivalente a Cuba, ao passo que o estado pobre de Borno, com um IDH de 0,156 seria o
último da lista.
As Nações Unidas afirmam que estas vastas discrepâncias e a opressiva pobreza experimentada pelo mais
pobres entre os pobres, são as maiores ameaças à estabilidade política, à coesão social e à saúde do meio ambiente
do nosso planeta. Elas alertam que uma série de países, tais como Egito, África do Sul, Nigéria e Brasil, correm o
risco de entrar para a lista dos países falidos por causas destas grandes disparidades.
A seguir, são apresentados alguns dados constantes do Relatório de Desenvolvimento Humano 1999 da O-
NU. Ela aperfeiçoou o cálculo do IDH este ano, com mudanças propostas pelo Prêmio Nobel de Economia de
1998, Amartya Sen. O relatório deste ano se baseia em dados de 1997.

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Classificação dos Países de Acordo com o IDH

ELEVADO MÉDIO BAIXO

1º - Canadá 9º - Islândia 71º - Rússia 79º - BRASIL 160º - Angola 168º - Guiné-Bissau
2º - Noruega 10º - Reino Unido 72º - Equador 80º - Peru 161º - Guiné 169º - Moçamb ique
3º - EUA 11º - França 73º - Macedônia 81º - Santa Lúcia 162º - Chade 170º - Burundi
4º - Japão 12º - Suíça 74º - Letônia 82º - Jamaica 163º - Gâmbia 171º - Burkina Faso
5º - Bélgica 13º - Finlândia 75º - São Vicente 83º - Belize 164º - Ruanda 172º - Etiópia
6º - Suécia 14º - Alemanha 76º - Cazaquistão 84º - Paraguai 165º - Rep. Centro-Africana 173º - Niger
7º - Austrália 15º - Dinamarca 77º - Filipinas 85º - Geórgia 166º - Mali 174º - Serra Leoa
8º - Holanda 78º - Arábia Saudita 167º - Eritréia

45 países 94 países 35 países

O poder econômico das empresas*


Empresas Faturamento O capital está fi-
Fortuna líquida dos 200 mais ricos ou PIB cando cada vez
Renda de US$ 500 por segundo no período General Motors 164 mais concentrado
Tailândia 154 no mundo, com as
1,2 Noruega 153 fusões de mega-
Ford Motor 147 corporações. De
1,042
1,0 Mitsui & Co. 145 1990 a 1997, o
Arábia Saudita 140 número anual de
US$ (trilhões)

0,8 Mitsubishi 140 fusões e aquisições


Polônia 136 mais do que dupli-
0,6
Itochu 136 cou, de 11.300
0,4 0,44 África do Sul 129 para 24.600. O
Royal Dutch/Shell Group 128 poder econômico
0,2 Marubeni 124 dessas empresas
Grécia 123 gigantes ultrapassa
0,0 Sumitomo 119 o de alguns gover-
1994 1998 Exxon 117 nos.
Anos Toyota Motor 109
Wal Mart Stores 105 *Em US$ bilhões

O BRASIL: Disparidades entre países ricos e pobres


• IDH = 0,826
• A renda “per capita” dos mais ricos equivale a 100
32,1 vezes a renda dos mais pobres 90
• 28,7% da população vive com menos de US$ 1 80
70
por dia (1994)
60
• PIB “per capita” dos 20% mais ricos: US$ 18.563
50
• PIB “per capita” dos 20% mais pobres: US$ 578 40
• Expectativa de vida: 66,8 anos 30
• Taxa de alfabetização: 84% 20
• Taxa de matrícula nos três níveis de ensino: 80% 10
• Renda “per capita”: US$ 6.480 0
Participação no Investimentos Usuários da Linhas
PIB mundial externos diretos Internet telefônicas

Ricos Intermediários Pobres

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Boas e Más Notícias


Ao longo dos últimos trinta anos, o PIB mundial cresceu mais de sete vezes durante o período: de US$ 3
trilhões para US$ 22 trilhões. Apesar da população global ter dobrado, a renda anual “per capita” real média cres-
ceu três vezes entre 1960 e 1990. Infelizmente, nem todo esses aumento de riquezas foi canalizado para o desen-
volvimento humano, mas têm havido significativos avanços nesta área. Em 1960, cerca de três quartos da popula-
ção do mundo vivia em condições abismais (IDH abaixo de 0,5). Em 1992, somente 34,5% ainda estavam neste
baixo nível de desenvolvimento.
Alguns dos mais bem sucedidos programas de desenvolvimento social têm sido a Malásia, a República da
Coréia, a Tailândia e Portugal, pois todos passaram da posição de baixo para alto desenvolvimento em apenas 30
anos. Botswana, Tunísia, Síria e Turquia também aumentaram o seu IDH de 0,4 ou mais durante o período. Ape-
sar desses fatos, se a prosperidade geral cresceu, assim também aconteceu com a disparidade entre os ricos e os
pobres em todo o mundo. Em 1960, a razão de rendas entre os 20% mais ricos do mundo e os 20% mais pobres era
de 30 para 1. Em 1992, esta razão era de 61 para 1.

Desenvolvimento Sustentável
Uma das mais importantes questões relacionadas ao meio ambiente é como podemos continuar a aumentar a
prosperidade humana dentro dos limites dos recursos naturais da Terra. Uma solução possível para este dilema é o
desenvolvimento sustentável, um termo popularizado pelo Our Common Future, o relatório de 1987 da Comissão
Mundial sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, presidida pela primeira-ministra norueguesa Gro Harlem
Brundtland (conseqüentemente chamada de Comissão Brundtland). Nas palavras deste relatório, desenvolvimento
sustentável significa “satisfazer as necessidades do presente sem comprometer a habilidade das gerações futuras de
satisfazer às suas próprias necessidades”.
Uma outra maneira de dizer isto é que desenvolvimento significa melhorar a vidas das pessoas. Portanto,
desenvolvimento sustentável significa o progresso do bem-estar humano que pode ser estendido ou prolongado por
muitas gerações, ao invés de apenas alguns anos. Para serem verdadeiramente duradouros, os benefícios do desen-
volvimento sustentável devem ser avaliados para todos os seres humanos, e não apenas para os membros de um
grupo privilegiado.

Finalizando: Conhecendo os Nossos Vizinhos


Imagine o mundo como uma aldeia de 1.000 pessoas: quem são nossos vizinhos?
• Etnicamente, esta aldeia global tem 385 asiáticos orientais, 209 sul-asiáticos, 129 africanos, 91
europeus, 78 latino-americanos, 52 indivíduos da antiga União Soviética, 51 dos Estados
Unidos e Canada e 5 da Oceania (Austrália, Nova Zelândia e Ilhas do Pacífico).
• Cerca da metade dos residentes falam uma ou mais das seis principais línguas do mundo
(mandarim, inglês, hindu/urdu, espanhol, russo e árabe — nesta ordem), enquanto o resto fala
uma das outras 600 línguas conhecidas.
• As crianças abaixo de 15 anos constituem 32% da aldeia, enquanto os indivíduos acima de 65 anos somam 6%.
O número de cidadãos idosos está crescendo rapidamente enquanto o número de crianças está caindo lentamen-
te. Em algum momento no futuro, existirão mais aposentados do que trabalhadores na aldeia, levando o sistema
de seguridade social à falência.
• A cada ano, nascem 26 crianças na aldeia e 9 pessoas morrem. Um terço das mortes anuais são de crianças com
menos de 5 anos, principalmente devidas a doenças infecciosas agravadas pela desnutrição. Uma pessoa morre
de doença coronária, duas de doenças pulmonares agudas ou crônicas e duas devido à violência, a acidentes e a
várias doenças infecciosas.
• A expectativa média de vida é de 63 anos para as mulheres e 67 anos para os homens, mas existe uma conside-
rável variação na longevidade. Nas famílias mais ricas, as mulheres vivem até uma idade média de 78 anos e os
homens até uma média de 76 anos, enquanto nas famílias mais pobres a expectativa de vida é de menos de 43
anos tanto para os homens quanto para as mulheres.
• A renda anual média da aldeia é de US$ 3.790, mas esta média também mascara grandes discrepâncias. Mais da
metade das famílias da aldeia vivem com rendas anuais menores do que US$ 580 por pessoa, enquanto os 100
cidadãos mais ricos (principalmente americanos, canadenses, europeus e japoneses) desfrutam de rendas anuais
acima de US$ 22.000 cada.

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• Como uma conseqüência desta disparidade de renda, os 200 aldeões mais ricos possuem ou controlam
80% dos recursos e consomem 80% de todos os produtos vendidos no comércio, enquanto as outras
800 pessoas vivem com 20% dos bens e mercadorias disponíveis para venda.
• Metade dos 620 adultos da aldeia são analfabetos. Sem ter acesso à educação, a maioria destas pessoas traba-
lham por dia ou apenas nas épocas de colheitas. Entre as famílias mais pobres, as meninas têm metade da pro-
babilidade dos meninos de freqüentarem a escola.
• Mulheres e meninas somam um pouco mais da metade da população da aldeia. Elas realizam dois terços de
todo o trabalho manual, recebem um décimo dos salários e possuem menos do que um centésimo das proprieda-
des. 70% dos membros mais pobres da população são mulheres e cria nças.
• Cerca de 400 aldeões sofrem com problemas de saúde. Muitas das doenças estão relacionadas à falta de água
limpa, saneamento e comida. Cerca de 250 dos seus vizinhos não têm água limpa para beber ou saneamento a-
dequado. Cerca de 150 são famintos crônicos, prescindindo das calorias e nutrientes necessários para o cresci-
mento e o desenvolvimento normais das crianças ou para uma vida saudável e produtiva dos adultos.
• Somente 452 pessoas realmente moram na aldeia propriamente dita; as outras 548 vivem nas áreas rurais cir-
cunvizinhas. 60% das famílias rurais não possuem terras ou as têm numa quantidade insuficiente para a sua
subsistência. Elas perfazem uma maioria para os quais falta água limpa, saneamento, comida, moradia e cuida-
dos médicos.
• Geralmente os piores problemas de poluição são gerados por aqueles que vivem nas partes mais pobres da al-
deia, onde a poluição do ar e da água, o barulho, os congestionamentos e os lixos tóxicos são mais comuns.
Aqueles que vivem nas melhores partes da cidade, realmente desfrutam hoje de um ambiente mais limpo e segu-
ro do que o dos seus pais há algumas décadas atrás.
• No passado, as pessoas não viajavam muito freqüentemente de uma parte para outra da aldeia. Hoje em dia, as
viagens são mais fáceis e baratas. Além disso, 90% da população têm acesso à televisão, de forma que as cla s-
ses menos favorecidas são expostas tanto às pressões de consumo quanto às notícias de como as classes abasta-
das vivem.
.

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Fundamentos de Ecologia

A Importância da Ecologia
A Ecologia é uma ciência relativamente nova. O termo ecologia apareceu pela primeira vez em 1870, num
trabalho do biólogo alemão Ernst Häckel. Ele provém de duas palavras gregas: oikos (casa) e logos (estudo). En-
tão, literalmente, a palavra significa o “estudo da casa”, ou seja, o estudo do ambiente que cerca o animal. Citamos
abaixo algumas palavras de Häckel:
“Pela palavra ecologia, queremos designar o conjunto de conhecimentos relacionados com a economia da
natureza — a investigação de todas as relações entre o animal e seu ambiente orgânico e inorgânico; incluindo
suas relações, amistosas ou não, com as plantas e animais que tenham com ele contato direto ou indireto — numa
palavra, ecologia é o estudo das complexas inter-relações, chamadas por Darwin de condições de luta pela vida.”
A palavra ecologia está definitivamente incorporado ao nosso vocabulário de todos os dias, aparecendo fre-
qüentemente nos jornais. É compreensível, de fato, a necessidade cada vez maior de entender-se as leis que regem
a natureza, se quisermos nela intervir sem resultados negativos. Em conseqüência da industrialização de grande
parte do planeta e da necessidade cada vez maior de alimentos para populações em crescimento, o homem tem in-
terferido cada vez mais no ambiente em que vive e, na maioria das vezes, com resultados desastrosos para si pró-
prio. Esses resultados desfavoráveis, na maioria dos casos, provêm da ignorância das complexas leis que regem as
relações entre os seres vivos e seu ambiente. Essas inter-relações complexas podem ser comparadas a uma teia;
mexer numa das malhas da teia pode ter resultados totalmente imprevisíveis, exatamente pelo fato de haver tantas
variáveis envolvidas. Um exemplo poderá ilustrar muito bem esse perigo:
Numa campanha para controle de mosquitos, em Bornéu, foram utilizadas grandes quantidades de DDT, o
conhecido inseticida. No entanto, o DDT matou também as vespas, que normalmente se alimentavam de determi-
nadas lagartas. A morte das vespas permitiu que as lagartas, insensíveis ao DDT, proliferassem livremente. As
lagartas devoraram a palha existente nos telhadas das casas dos nativos, fazendo com que eles caíssem. Por outro
lado, as moscas dentro das casas também absorveram o DDT; os lagartos, que normalmente se alimentavam de
moscas, morreram em grande número. Dessa forma, os gatos domésticos se alimentaram de lagartos com maior
facilidade e receberam o DDT que havia sido concentrado por lagartos e moscas. Na falta de gatos, a população de
ratos cresceu sem controle e invadiu muitas casas à procura de alimento. Além disso, os ratos nessa ilha são fre-
qüentemente portadores da peste negra, ameaçando assim a saúde da população.
Essa cadeia de eventos ilustra bem o problema das “teias” de relações entre os seres vivos na natureza. Sem
dúvida nenhuma, sabemos muito mais coisas sobre anatomia e fisiologia humanas do que sobre anatomia e fisiolo-
gia (estrutura e função) da natureza. O homem está apenas começando a entender os princípios ecológicos básicos,
sendo necessárias cada vez mais pesquisas nesse campo, já que ele está alterando progressivamente seu ambiente.
A ecologia é uma ciência muito complexa e depende do conhecimento de muitas outras ciências; assim, a Biologi-
a, a Química, a Física, a Geologia, a Etologia (estudo do comportamento) e a Meteorologia contribuem para a boa
compreensão dos fenômenos ecológicos.

Das Espécies aos Ecossistemas


Enquanto os biólogos celulares e moleculares estudam os processos vitais a nível microscópico, os ecolo-
gistas estudam as interações nos níveis das espécies, populações, comunidades bióticas ou ecossistemas. Em latim,
espécie significa literalmente tipo. Em biologia, espécie se refere a todos os organismos de um mesmo tipo que são
geneticamente semelhantes o suficiente para gerar descendentes saudáveis e férteis. Existem várias qualificações e
algumas exceções importantes a esta definição de espécie (especialmente entre as plantas), mas para os nossos pro-
pósitos, esta é uma definição bastante útil.

Populações, Comunidades e Ecossistemas


Uma população consiste de todos os membros de uma espécie vivendo em uma determinada área ao mesmo
tempo. Todas as populações de organismos que vivam e interajam em uma área em particular constituem uma
comunidade biológica.

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Um sistema ecológico ou ecossistema é composto de uma comunidade biológica e do seu ambiente físico.
O ambiente inclui fatores abióticos (clima, água, minerais e luz solar) e fatores bióticos (organismos), seus produ-
tos (secreções, rejeitos e restos) e seus efeitos em uma determinada área.
Ampliando a nossa perspectiva de comunidade biológica para comunida-
de mais vizinhanças, somos induzidos a estudar as maneiras pelas quais a
energia e a matéria são obtidas, processadas, armazenadas ou recicladas
através dos componentes do ecossistema. Esta abordagem sistêmica ESPÉCIE
tende a focalizar mais os papéis desempenhados pelos vários membros
da comunidade e menos os próprios indivíduos. A observação da
organização e das funções de um sistema ajuda-nos a ter valiosas idéias
de como ele funciona.
A maioria dos ecossistemas são abertos, o sentido de que trocam
matéria e organismos com outros ecossistemas. Um ecossistema fluvial
é um exemplo extremo. Água, nutrientes e organismos entram a
montante e são perdidos a jusante. As espécies e o número de
organismos presentes podem permanecer relativamente constantes, mas
eles são compostos de indivíduos que são trocados constantemente.
Alguns ecossistemas são relativamente fechados, no sentido de que
muito pouco entra ou sai deles. Um aquário equilibrado é um bom
exemplo de um ecossistema fechado. As plantas aquáticas, os animais e
os decompositores podem equilibrar os ciclos de matéria dentro de um
aquário se forem tomados cuidados para equilibrar as suas populações.
Entretanto, por causa da segunda lei da termodinâmica, todo ecossistema
POPULAÇÃO
tem que possuir um fluxo de energia entrando constantemente e uma
maneira de dispor do calor. Portanto, pelo menos no que diz respeito ao
fluxo de energia, todo ecossistema é aberto.
Muitos ecossistemas têm mecanismos que mantêm a composição e
as funções dentro de certos limites. Um floresta tende a permanecer uma
floresta e a ter as condições necessárias a uma floresta se ela não for
perturbada por forças exteriores. Alguns ecologistas sugerem que os
ecossistemas — ou talvez todas as formas de vida na Terra — podem
funcionar como superorganismos.

O Ecossistema: A Unidade Biológica


Um Exemplo de Ecossistema: A Lagoa
Uma pequena lagoa é um ótimo exemplo de ecossistema. Nela, a
comunidade biótica divide-se em três categorias de organismo:
• os produtores, assim chamados por produzirem alimento por COMUNIDADE
fotossíntese, utilizando energia luminosa, são representados pelas
plantas verdes da margem e do fundo e pelas algas microscópicas
flutuantes, cujo conjunto é denominado fitoplâncton. Todas as outras
formas vivas existentes na lagoa dependem dos produtores,
fundamentais em qualquer ecossistema. ECOSSISTEMA
• os consumidores na lagoa são representados pelos animais que
dependem direta ou indiretamente das plantas; assim, os animais
microscópicos flutuantes (zooplâncton), os caramujos e os peixes
herbívoros, por se alimentarem diretamente de vegetais verdes, são
ditos consumidores de primeira ordem; peixes carnívoros, insetos e
cágados, que se alimentam dos consumidores de primeira ordem, são
chamados consumidores de segunda ordem; algumas aves da
margem, que se alimentam de consumidores de segunda ordem, são
ditas consumidoras de terceira ordem.

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• os decompositores formam a terceira categoria importante de organismos existentes na lagoa. São representa-
dos por bactérias e fungos, seres microscópicos e heterotróficos, que usam como alimento restos de plantas e de
animais. Ao mesmo tempo em que obtêm energia de seu alimento, degradam-no de forma a devolver ao ambi-
ente minerais e outras substâncias nutritivas, que serão novamente utilizados pelos produtores. Os agentes da
decomposição podem estar em qualquer parte da lagoa, mas são mais freqüentes no fundo, onde se depositam
restos de animais e plantas. Você percebe que sem os decompositores, todo o material existente nos cadáveres
de animais e plantas, como carbono e nitrogênio, ficariam imobilizados, não sendo mais reciclados no ecossis-
tema.
Os fatores abióticos da lagoa podem influenciar de maneira decisiva o tipo de vida que se desenvolverá nela;
assim, a temperatura da água, que influi na taxa de gases dissolvidos (O2 e CO2 ), e a composição das rochas, que
por sua vez afeta o pH da água, poderão determinar que espécies vegetais e animais farão parte da comunidade.
Fatores como luz, ventos, índices de pluviosidade também participam desta “escolha”.
Da mesma forma que fatores não vivos influenciam a comunidade biótica, os componentes vivos do ecossis-
tema também interferem e modificam os fatores abióticos. Assim, por exemplo, na lagoa, os restos de animais e
plantas, ao se depositarem no fundo, tornam a lagoa cada vez mais rasa.

Cadeias e Teias Alimentares


Ficou claro no item anterior que matéria e energia fluem dos produtores aos consumidores de várias ordens,
e de todos eles para os decompositores. Existem, então, entre os produtores, consumidores e decompositores com-
plicadas relações alimentares, que são também objeto de estudo do ecólogo.
Por exemplo, podemos descrever o fluxo de matéria e energia na lagoa, porém restringindo-nos a alguns
organismos: sabemos que algumas plantas aquáticas constituem alimento para os caramujos, que raspam a superfí-
cie de suas folhas e caules. Os caramujos são comidos por peixes carnívoros, que por sua vez podem ser captura-
dos e ingeridos pelas aves que constroem seu ninho nas margem da lagoa.
Pode-se, então, esquematizar as relações alimentares descritas por meio de uma cadeia alimentar:
PLANTAS AQUÁTICAS → CARAMUJOS → PEIXES CARNÍVOROS → AVES DA MARGEM
Você percebe, porém, que a cadeia alimentar não mostra toda a complexidade das “relações alimentares” que
existem na lagoa. Uma maneira mais completa de se descrever esta complexidade é mostrada na figura abaixo, que
representa a teia alimentar no ecossistema lagoa.

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Dessa forma, as mesmas plantas aquáticas que servem de alimento para os caramujos, podem nutrir larvas de
insetos e peixes herbívoros. Os peixes carnívoros comem não apenas caramujos, mas também peixes herbívoros e
pequenos crustáceos. Peixes carnívoros, peixes herbívoros e rãs são comidos pelas aves da margem.
Repare ainda que determinados organismos, dependendo do que comem, podem ser considerados consumi-
dores de vários níveis ao mesmo tempo. As aves da margem, por exemplo, ao comerem peixes herbívoros, funcio-
nam como consumidores de segunda ordem; quando ingerem rãs, são consideradas consumidores de terceira or-
dem. Assim, ocupam ao mesmo tempo dois níveis tróficos (alimentares).
Os decompositores, como se percebe pelo esquema, podem ser considerados consumidores de várias ordens,
de acordo com a origem dos restos que eles degradam.
Estabelecer uma teia alimentar representa uma tentativa de compreender ao máximo as relações entre os
componentes da comunidade; já a cadeia alimentar representa uma visão parcial da teia, mais especificamente,
apenas um dos caminhos pelos quais fluem matéria e energia no ecossistema.

Habitat e Nicho Ecológico


O lugar do ecossistema em que vivem um organismo é chamado habitat. Assim, na lagoa, o habitat de uma
alga microscópica ou de uma larva de inseto é a superfície da água; uma determinada espécie de peixe tem por
habitat as águas próximas às margens, entre a vegetação. O habitat de uma bactéria decompositora é a lama do
fundo.
Por outro lado, cada um dos organismos que vivem na lagoa desempenham um certo papel no ecossistema,
que chamamos nicho ecológico. Na idéia de nicho ecológico estão incluídas informações como: o que come o
organismo; onde, como e a que momento do dia isso ocorre; quais são seus inimigos naturais; de que forma e em
que época do ano se reproduz; enfim, todas as informações sobre a função, o papel da espécie no ecossistema.
Uma imagem interessante de um ecólogo americano, Odum, compara o habitat de uma espécie no ecossistema a
seu endereço, enquanto o nicho ecológico é representado como sua profissão.
Organismos de espécies diferentes podem ter o mesmo habitat, possuindo, no entanto, nichos ecológicos
completamente diferentes. Assim, as algas microscópicas e os microcrustáceos vivem ambos nas águas superficiais
da lagoa; a alga atua como produtor, utilizando luz e fabricando carboidratos, enquanto o microcrustáceo age como
consumidor. Duas espécies de insetos podem conviver na faixa de água rasa nas bordas da lagoa; uma delas no
entanto alimenta-se de pequenos animais, enquanto a outra come restos orgânicos decompostos. As duas espécies
de insetos têm então um habitat idêntico, porém nichos ecológicos diferentes.
Duas espécie s de animais ou plantas não podem ter exatamente o mesmo nicho ecológico por muito tempo.
Quando isto ocorre, há competição entre as duas espécies em todos os níveis, o que leva uma das espécies a desapa-
recer, cedendo lugar à outra.

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Energia, Matéria e Vida

Energia
A Fonte de Energia dos Ecossistemas
Ficou claro pelo que foi dito até agora, que a luz solar representa a fonte de energia externa sem a qual os
ecossistemas não conseguem manter-se. Ainda assim, e por mais eficientes que eles sejam, os ecossistemas só
conseguem aproveitar uma parte muito pequena da energia radiante que chega a Terra.
Alguns dados interessantes: calcula -se que apenas 1/50.000.000 da energia solar alcança as camadas superi-
ores da atmosfera. Isto não é de estranhar, se considerarmos o diminuto tamanho da Terra no sistema solar e quão
longe do Sol ela se encontra. Calcula -se que, em média, a Terra recebe do Sol 1.372 W/m2 (1 W = 1 J/s). Ainda
assim, mais da metade dessa energia não chega à superfície da Terra. Vejamos o esquema abaixo:

Estima-se que cerca de 25% da luz seja refletida por nuvens e poeira; aproximadamente 25% é absorvida
por nuvens, ozônio e vapor d’água. Assim, 45% da luz que chega à superfície é absorvida, já que 5% é refletida
pela superfície. Fic a claro que esses valores são apenas médios, podendo variar conforme a latitude da região e
mês do ano.
Grande parte da energia que alcança realmente a superfície é absorvida e utilizada na evaporação da água, no
aquecimento da superfície do solo, condicionando assim o clima e os processos atmosféricos.
Apenas uma pequena parcela da energia total (1 a 2%) que alcança uma floresta ou uma plantação é utilizada
na fotossíntese.

O Fluxo de Energia no Ecossistema


Percebemos então que a energia entra no ecossistema através das plantas verdes, que, na realidade, funcio-
nam como conversores de energia: elas transformam a energia luminosa em energia química. A energia química é
a única modalidade de energia utilizável pelas células dos produtores, consumidores e decompositores. A trans-
formação de energia luminosa em energia química, que fica armazenada nos carboidratos, faz-se no processo de
fotossíntese:

6 CO2 + 6 H2 O + luz  
→ C6 H12 O6 + 6 O2
clorofila

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A partir dos carboidratos produzidos na fotossíntese, são sintetizadas as outras substâncias orgânicas que
fazem parte do corpo do vegetal, como lipídios e proteínas.
Em parágrafos anteriores, foi apresentada a noção de níveis tróficos, ou alimentares. A planta verde ocupa o
nível trófico de produtor, o herbívoro o de consumidor de primeira ordem. Já os carnívoros ocupam os níveis de
consumidores de segunda, terceira ou quarta ordem. Mencionou-se também que a energia fixada pelo produtor é
transferida aos níveis tróficos seguintes, nas cadeias ou teias alimentares.
Para se entender bem a transferência de energia ao longo das cadeias alimentares, é indispensável ressaltar
uma idéia básica:
A quantidade de energia disponível diminui à medida que é transferida de um nível trófico para outro.
Assim, no ecossistema da lagoa, o caramujo que come a planta aquática recebe dela energia química, porém
esta energia é muito menor que a energia solar recebida pela planta. Quando um peixe come um caramujo, recebe
uma quantidade de energia bem menor do que aquela que o caramujo recebeu da planta. O mesmo ocorre com a
ave que come o peixe.
O motivo básico pelo qual a quantidade de energia decresce em cada nível trófico é o seguinte: os organis-
mos utilizam grande parte da energia para se manterem vivos. Assim, divisão celular, movimento, reprodução são
atividades que consomem energia, que é conseguida pelos organismos através da respiração, ao oxidarem combus-
tíveis orgânicos como a glicose.
Assim sendo, percebe-se que há necessidade de uma grande quantidade de plantas aquáticas para sustentar
um único caramujo, muitos caramujos são necessários para alimentar um único peixe e vários peixes alimentam
uma única ave da margem.
Alguns ecologistas consideram que, de modo geral e aproximado, cada elo da cadeia alimentar recebe apenas
10% da energia que o elo anterior recebeu. O fato de haver esta redução em cada um dos níveis tróficos permite
que se estabeleça esta regra básica: uma cadeia alimentar não pode ter mais de quatro ou cinco elos.
Quanto mais curta for uma cadeia alimentar, maior será a quantidade de energia disponível para os níveis
tróficos mais elevados. Nos países pobres, o homem utiliza-se desse fato, alimentando-se principalmente de cere-
ais, como arroz e trigo, ao invés de comer alimentos de origem animal. Calculou-se que uma superfície de 40.000
m2 pode produzir, em condições adequadas, arroz em quantidade suficiente para alimentar vinte e quatro pessoas
durante um ano. Se, ao invés da plantação de arroz, fosse criado gado na mesma área de terra, a carne produzida
alimentaria apenas uma pessoa nesse mesmo período.

Matéria
Os Ciclos da Matéria
Ao contrário da energia, que flui num só sentido e se degrada ao passar pelos vários elos das cadeias alimen-
tares, muitos nutrientes circulam no ecossistema de forma cíclica. Nesses nutrientes incluem-se a água, o carbono,
o nitrogênio, o cálcio, o potássio, o enxofre e alguns outros minerais requeridos em quantidade pequena, como o
cobalto.
Esses ciclos são chamados também biogeoquímicos, porque incluem componentes biológicos (produtores,
consumidores e decompositores) e componentes geológicos (atmosfera, litosfera e hidrosfera).
É fundamental a atividade dos decompositores nestes ciclos, já que, ao degradarem restos orgânicos animais
e vegetais, devolvem ao solo, à água e à atmosfera os materiais que constituem estes restos e que entrarão nova-
mente nos corpos de animais e plantas, reiniciando os ciclos.

O Ciclo do Carbono
Na quase totalidade das substâncias componentes dos seres vivos, entram átomos de carbono como constitu-
intes. O elemento carbono circula nos ecossistemas, passando por organismos vegetais, animais e é finalmente
devolvido ao meio, fechando assim o ciclo.
Comecemos pelo CO2 atmosférico, que funciona como reservatório de carbono. O fato de a concentração de
CO2 no ar permanecer constante é uma boa indicação de que há um equilíbrio entre o seu consumo e a sua produ-
ção. O CO2 é absorvido pelas plantas, no processo de fotossíntese. O carbono agora faz parte das substâncias or-
gânicas do vegetal (açúcares, lipídios, proteínas, ácidos nucléicos).

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Se parte da planta for ingerida por um animal, o carbono passa a fazer parte também de seus tecidos. Tanto
plantas quanto animais devolvem o carbono ao ar sob forma de CO2 , subproduto da respiração.
A morte de vegetais e animais leva ao aparecimento de restos orgânicos, que contêm carbono. Os microrga-
nismos decompositores, ao degradarem esses restos, devolvem também CO2 ao ar. Por fim, parte dos restos de
animais e vegetais pode não sofrer decomposição e transformar-se em combustíveis fósseis, como carvão e petró-
leo. Já que o homem vem queimando quantidades cada vez maiores destes combustíveis fósseis, boa parte do car-
bono que estava preso durante milhões de anos nessas substância s, está sendo devolvido à atmosfera.
Em conseqüência destas queimas, a concentração de CO2 na atmosfera parece ter aumentado aproximada-
mente 12% nos últimos 120 anos. É provável que, por causa desse aumento, a produtividade das plantas terrestres
tenha aumentado em proporção nesse mesmo período.
Enormes quantidades de carbono encontram-se fixadas na forma de carbonato de cálcio (CaCO3 ), usado para
construir as conchas e esqueletos dos organismos marinhos, desde pequenos protozoários até os corais. A maioria
destes depósitos estão no fundo dos oceanos. Os extensos depósitos superficiais de pedra calcária foram formados
biologicamente a partir do carbonato de cálcio presente nos oceanos primitivos, expostos ao eventos geológicos. O
carbono presente nas pedras calcárias esteve aprisionado por milênios, sendo este provavelmente o destino do car-
bono que está presentemente sendo depositado nos sedimentos oceânicos. Eventualmente, mesmo os mais profun-
dos depósitos oceânicos são reciclados ao caírem em profundas camadas fundidas e liberados através da atividade
vulcânica. Os geólogos estimam que cada átomo de carbono da Terra foi reciclado cerca de 30 vezes ao longo dos
últimos 4 bilhões de anos.

O Ciclo do Nitrogênio
O nitrogênio é um elemento indispensável à vida, pois faz parte das moléculas de aminoácidos, proteínas e
bases nitrogenadas dos ácidos nucléicos. A atmosfera é um imenso reservatório de nitrogênio (N2 ), pois contém
78% deste gás. Porém, a maior parte dos seres vivos é incapaz de utilizar o nitrogênio sob forma gasosa para in-
corporá-lo aos seus compostos orgânicos.
Nesse caso, é fundamental entender que a incorporação do nitrogênio às substâncias dos seres vivos, sua
circulação pelos ecossistemas e sua devolução à atmosfera dependem, basicamente, de algumas poucas espécies de
bactérias, algas e fungos.
O nitrogênio atmosférico é transformado em nitratos por bactérias fixadoras de nitrogênio e cianofíceas, que
vivem no solo ou em associação com raízes de certas plantas leguminosas. Os nitratos produzidos são absorvidos
pelas raízes das plantas, que os utilizam na síntese de aminoácidos e proteínas. É dessa forma que o nitrogênio
atmosférico incorpora-se às proteínas.

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As proteínas vegetais podem, pelas cadeias alimentares, passar a animais herbívoros e carnívoros. Resíduos
nitrogenados tais como amônia, uréia e ácido úrico são liberados pela excreção animal. Por outro lado, vegetais e
animais, ao morrerem, devolvem ao meio compostos nitrogenados. As bactérias e fungos da decomposição atuam
sobre as substâncias orgânicas nitrogenadas da excreção e dos cadáveres, transformando-as em amônia (NH3 ).
A amônia pode agora seguir dois caminhos diferentes: pode ser convertida em nitrogênio (N2 ) pelas bactérias
desnitrificantes, que assim devolvem esse elemento à atmosfera; ou pode ser transformada em nitritos (NO2 – ) e a
seguir em nitratos (NO3 – ), que podem novamente ser utilizados pelas plantas. Repare ainda no ciclo que os próprios
nitratos, da mesma forma que a amônia, podem ser convertidos em nitrogênio pelas bactérias desnitrificantes.

O Ciclo do Fósforo
Os minerais se tornam disponíveis aos organismos após terem sido liberados das rochas. Dois ciclos mine-
rais particularmente importantes para os organismos são o do fósforo e o do enxofre. No nível molecular, o ATP e
outras compostos fosforados e altamente energéticos, são os participantes primários nas reações de transferência de
energia. A quantidade de fósforo disponível em um ambiente pode, portanto, ter um efeito dramático na produtivi-
dade. A abundância de fósforo estimula o crescimento luxuriante de plantas e algas, tornando-se uma das princi-
pais contribuições para a poluição das águas.
O ciclo do fósforo começa quando os compostos de fósforo são lixiviados das rochas e minerais por longos
períodos de tempo. O fósforo inorgânico é absorvido pelos organismos produtores, incorporado a moléculas orgâ-
nicas e então passado adiante para os consumidores. Ele retorna ao meio ambiente pela decomposição. Um aspec-
to importante do ciclo do fósforo é o longo tempo necessário a que os átomos de fósforo passem por ele. Os sedi-
mentos profundos dos oceanos são reservatórios significativos de fósforo com uma longevidade extrema. Os miné-
rios contendo fosfatos que hoje são minerados para fazer os detergentes e fertilizantes inorgânicos, representam
sedimentos oceânicos expostos com milênios de idade. Pode-se pensar no nosso uso presente dos fosfatos, que são
carreados para os sistemas pluviais e eventualmente para os oceanos, como uma mobilização acelerada do fósforo
da fonte para o reservatório. Os ecossistemas aquáticos são freqüentemente afetados dramaticamente neste proces-
so, porque o excesso de fosfatos pode estimular o crescimento explosivo de populações de algas e bactérias fotos-
sintéticas, perturbando a estabilidade do ecossistema.

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O Ciclo do Enxofre
O enxofre possui um papel vital nos organismos, especialmente como um componente menor mais essencial
das proteínas. Os compostos sulfurados são determinantes importantes da acidez da chuva, das águas superficiais e
do solo. Além disso, o enxofre em particulados e em gotículas no ar, pode agir como regulador crítico do clima
global. A maioria do enxofre da Terra está combinado em rochas e minerais subterrâneos, tais como dissulfeto de
ferro (pirita) o sulfato de cálcio (gesso). Este enxofre inorgânico é liberado para a atmosfera e para as águas pelo
intemperismo, por emissões de vulcões marinhos e por erupções vulcânicas.
O ciclo do enxofre é complicado pelo grande número de estados de oxidação que este elemento pode assu-
mir, incluindo o sulfeto de hidrogênio (H2 S), dióxido de enxofre (SO 2 ), sulfato (SO 4 2– ) e ácido sulfúrico (H2 SO4 ),
entre outros. Os processos inorgânicos são responsáveis por muitas destas transformações, mas os organismos
vivos, especialmente as bactérias, também seqüestram o enxofre em depósitos biogênicos ou o liberam para o meio
ambiente. Qual dos vários tipos de bactérias irão prevalecer em uma determinada situação irá depender da concen-
tração de oxigênio, do pH e do nível de luminosidade.
As atividades humanas também liberam grandes quantidades de enxofre, principalmente através da queima
de combustíveis fósseis. As emissões totais de enxofre de origem antropogênica por ano são equivalentes àquelas
vindas de processos naturais, sendo a chuva ácida causada pelo ácido sulfúrico produzido como resultado do uso de
combustíveis fósseis, um sério problema em muitas áreas. O dióxido de enxofre e os aerossóis contendo sulfatos
causam problemas à saúde humana, danificam prédios e vegetações e reduzem a visibilidade. Eles também absor-
vem radiação UV e criam nuvens que resfriam as cidades e contribuem para o efeito estufa.
É interessante notar que as emissões biogênicas de enxofre pelo fitoplâncton oceânico, podem desempenhar
um importante papel na regulação do clima global. Quando a água dos oceanos está quente, pequenos organismos
unicelulares liberam sulfeto de dimetila (conhecido como DMS) que é oxidado a SO 2 e então a SO 4 2– na atmosfera.
Agindo como núcleos de condensação das gotas de chuva, estes aerossóis contendo sulfatos aumentam o albedo
(refletância) da Terra e resfriam o planeta. As temperaturas dos oceanos caem porque menos luz solar chega até

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eles, diminuindo a atividade do fitoplâncton; a produção de DMS cai e as nuvens desaparecem. Portanto, o DMS,
que corresponde à cerca da metade de todas as emissões biogênicas de enxofre, pode ser um mecanismo de retroa-
limentação que mantém a temperatura da Terra em níveis apropriados para todos os tipos de vida.

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Os Biomas

A Influência do Clima sobre a Distribuição dos Vegetais


Basicamente, são dois os fatores climáticos que determinam a paisagem vegetal de uma certa região: a
quantidade de luz que nela incide e a incidência de chuvas que ela recebe. Já foi dito que toda a energia que flui
pelo ecossistema provém, em última análise, da luz solar que as plantas verdes convertem em energia química ar-
mazenada nos alimentos orgânicos. Por outro lado, a água foi descrita como sendo uma das matérias-primas da
fotossíntese. Fica fácil entender então que áreas do globo terrestre que recebem taxas de insolação e pluviosidade
diferentes tenham uma produtividade vegetal diferente.
Vamos analisar alguns dos motivos que fazem com que a quantidade de luz recebida seja diferente nos diver-
sos pontos do globo.
Lembre-se de início que, para chegar a Terra, a luz precisa atravessar a
atmosfera, que absorve boa parte dela. Quanto maior a camada de ar atravessada,
maior a absorção. Examine agora o esquema ao lado. Nele, você verifica que os
raios que chegam perpendicularmente à superfície atravessam menos ar do que
aqueles que chegam obliquamente. É por este motivo que o Sol, ao meio-dia,
aquece muito mais do que ao entardecer. Por outro lado, observando o esquema,
verifica-se que a luz que incide obliquamente se espalha por uma área maior do que
aquela que incide perpendicularmente. Mais um motivo que determina maior
recebimento de energia nas regiões em que a luz incide de maneira vertical.
Verifica-se que a radiação recebida é muito maior na região equatorial e
decresce em direção aos pólos. Porém, nem sempre é o Equador que recebe os
raios solares perpendicularmente; isso ocorre porque o eixo da Terra é ligeiramente
inclinado, o que vai determinar as estações.
Um ponto tem que ser frisado: quando se diz que chega energia radiante à
superfície da Terra, fala -se de energia luminosa e não em energia térmica (ou mais
corretamente, energia cinética). Porém, intuitivamente, as pessoas tendem a
confundir estes dois tipos de energia e a aceitar que regiões muito iluminadas serão
também muito quentes. De que modo um tipo de energia é transformado no outro?
Pode-se comparar o que ocorre na atmosfera terrestre aos fenômenos que
permitem que o ar de uma estufa se aqueça. Numa estufa, a luz visível atravessa
livremente o vidro e é absorvida pelos objetos que a reirradiam sob forma de luz infravermelha (capaz de aumentar
a temperatura dos corpos). Ocorre que o vidro é “opaco” ao infravermelho, não deixando que os raios escapem e,
portanto, permanecendo eles dentro da estufa. Da mesma forma, a atmosfera terrestre permite a entrada de luz
visível, porém impede que o infravermelho escape, devido principalmente à presença de CO2 e vapor d’água. Esse
fenômeno é chamado de efeito estufa.

A variação da quantidade de energia recebida segundo a latitude, assim como a rotação da Terra, influem na
circulação do ar no planeta. Lembre-se que o ar quente é menos denso que o ar frio. Aquele sobe, enquanto este
desce. Formam-se então correntes de ar, ou ventos. Além disso, a capacidade de retenção de vapor d’água pelo ar
varia de acordo com a temperatura: o ar quente pode conter maiores quantidades de vapor do que o ar frio. A in-

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teração de vários fatores como a temperatura, os ventos, a taxa de vapor d’água e a topografia do terreno determi-
nam o regime de chuvas de uma dada região.
Então a paisagem vegetal de uma determinada região vai depender basicamente da quantidade de energia
solar recebida e do regime das chuvas que nela incidem. Os tipos de solos da região têm também certa influência
sobre a vegetação. Portanto, não é de se estranhar que as regiões de vegetação mais luxuriante, como a floresta
tropical, estejam localizadas próximas da linha do Equador. Já uma região como a tundra, muito pobre em vegeta-
ção, fica próxima ao pólo, no hemisfério norte, e recebe pouca luz e pouca precipitação.

Os Biociclos, as Biocoras e os Biomas


O conceito de biosfera não é novo: representa a parte do planeta que contém a vida e é, em última análise, o
conjunto de todos os ecossistemas da Terra. Para haver vida, as condições básicas são: luz, água e uma temperatu-
ra acima do ponto de congelamento da água.
Uma maneira de sistematizar os grandes padrões de vida que existem na Terra é dividir a biosfera em bioci-
clos. Assim, reconhecem-se três biociclos:
• Biociclo terrestre (Epinociclo)
• Biociclo de água doce (Limnociclo)
• Biociclo marinho (Talassociclo)
Cada biociclo representa então um dos três modos de vida na biosfera: vida em terra firma, vida na água
doce e vida no mar.
Por sua vez, um biociclo comporta subdivisões menores, chamadas biocoras ; assim, no biociclo terrestre,
existem as biocoras floresta, campo e deserto. Zonas particulares dentro de uma biocora são chamadas bioma. Na
biocora floresta encontramos os biomas floresta tropical, floresta decídua temperada, e ainda floresta de coníferas.
O termo bioma é preferencialmente utilizado para caracterizar os grandes ecossistemas terrestres, de aspecto
mais ou menos homogêneo e com condições climáticas semelhantes. Não é preciso frisar que cada bioma é por sua
vez constituído por ecossistemas menores; numa floresta, podemos então ter lagos, lagoas, rios, regiões rochosas
etc.

Os Principais Biomas Brasileiros


O Brasil, pela sua extensão, possui diferentes e grandes biomas, os quais estão indicados na figura seguinte:
floresta amazônica, cerrados, caatinga, mata atlântica, floresta de araucárias, pantanal, campos, além da vasta zona
costeira.
Como será demonstrado, muitos desses biomas compõem uma rica biodiversidade , assim entendido o con-
junto de espécies animais e vegetais que existem em uma determinada área.
Ao longo do tempo, o homem tem provocado muitas alterações nesses ecossistemas, com prejuízos para as
espécies existentes nos mesmos, para si próprio, e para o planeta como um todo.
A seguir, são apresentadas as principais características de cada ecossistema, destacando-se as alterações pro-
vocadas pelo homem.

Floresta Amazônica
A floresta amazônica ocupa uma área de cerca de 5,5 milhões de quilômetros quadrados, sendo que, aproxi-
madamente, 60% situam-se no Brasil, o que corresponde à cerca de 40% da área do território brasileiro. É uma
densa floresta tropical úmida, caracterizada por um solo pobre, por altas temperaturas, chuvas constantes e um ele-
vado grau de umidade.
A floresta amazônica é constituída por uma enorme variedade de espécies, sendo a biodiversidade a sua mai-
or riqueza.
A Amazônia pode ser caracterizada por duas subdivisões: terras firmes, nunca inundadas pelas águas dos
rios, na grande maioria coberta por densa vegetação; terras de várzeas, situadas às margens dos rios, e periodic a-
mente inundadas, onde predominam as espécies típicas de regiões pantanosas. Na área, podem ser encontradas
manchas de cerrados e campinas.
Devido à falta de luz no interior da mata, as árvores, normalmente, não possuem ramagem nos caules, é es-
cassa a vegetação rasteira e existem poucos animais de maior porte na floresta.

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Ao contrário do que possa parecer ao observar-se a exuberância da vegetação, o solo da região é muito po-
bre, sendo fértil apenas em uma fina camada superficial, formada pela decomposição das folhas, frutos, dejetos etc.
Com a retirada da vegetação, essa camada é perdida e não renovada, tornando o solo estéril.
A fauna amazônica é rica em animais frugívoros (que se alimentam de frutos) e fitófagos (que se alimentam
de folhas), destacando-se os insetos e animais insetívoros, como diversos anfíbios e répteis. Predominam as espé-
cies que voam (pássaros) ou que vivem sobre as árvores (macacos, roedores, preguiças). Não há a presença de
grandes herbívoros e carnívoros. Destaque-se a grande quantidade de espécies de peixes que vivem nos rios.
Além da vegetação, a região é caracterizada por um complexo sistema fluvial, incluindo o Rio Amazonas,
que constitui o seu eixo principal.
O conjunto atmosfera, floresta e rios contribui para a caracterização do clima tropical, típico da região ama-
zônica, definindo, no ecossistema, dois sistemas fundamentais ao equilíbrio: balanço hídrico e balanço energético,
os quais são interdependentes.
Na floresta, a transpiração da água através das plantas contribui com mais da metade do volume de água
atmosférica, de onde se originam as chuvas. A água que existe em grande quantidade sob a forma de vapor, na
atmosfera, é responsável pelo amortecimento das variações de temperatura, evitando que a mesma seja muito alta
durante o dia, ou muito baixa, à noite.
Grande parte das radiações mais quentes é absorvida no processo de fotossíntese. Por outro lado, a transpi-
ração vegetal consome mais da metade da energia solar incidente.
A vegetação tem, portanto, um papel muito importante sobre o clima. O desmatamento conduz à redução da
transpiração e, conseqüentemente, da umidade e das chuvas, bem como ao aquecimento do ar, com impactos na
vegetação remanescente, que tenderá a desaparecer. O resultado disso tudo é a transformação climática, dando
lugar a um clima com características de regiões semi-áridas, que poderá levar ao surgimento de um novo tipo de
bioma (savana ou semideserto).
As mudanças no clima de uma região ampla como a da Amazônia poderão afetar as condições climáticas de
outras áreas do planeta.
A retirada da vegetação expõe o solo à incidência direta do Sol, fazendo com que, devido ao aumento da
temperatura, sejam destruídos o húmus e a flora de fungos e outros organismos, reduzindo a sua fertilidade. O solo
descoberto fica mais sujeito ao processo erosivo, com o carreamento do material para os rios, assoreando-os.
A queima da vegetação resulta na emissão de gás carbônico para a atmosfera, contribuindo para o agrava-
mento de um problema do mundo atual, qual seja o aquecimento gradual do planeta (efeito estufa).

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Uma das atividades que tem provocado grande devastação na Amazônia é a exploração agropecuária, que
causa o desmatamento de extensas áreas. Segundo BRANCO (1989), “o processo de colonização foi (e continua
sendo) sempre o mesmo, altamente nocivo à natureza da região: a mata original é derrubada e queimada, seguindo-
se o cultivo de mandioca, milho, arroz, cana-de-açúcar, algodão ou tabaco, em roças que dão até duas ou, excep-
cionalmente, três colheitas. Esgotada, assim, sua capacidade produtiva, o terreno abandonado é ocupado progressi-
vamente por capoeiras, isto é, vegetação secundária muito pobre que, ao fim de oito a dez anos pode ser novamente
cortada e queimada, dando margem a novo plantio com uma única colheita e tornando-se definitivamente estéril,
com raras exceções. Tal procedimento vem provocando a formação de extensas áreas semidesérticas em plena
Amazônia.”.
Outras atividades humanas são responsáveis por grandes impactos nesse bioma: garimpo de ouro; minera-
ção; urbanização; industrialização; abertura de rodovias; construção de reservatórios e usinas hidrelétricas. Eis
um resumo:
• Garimpo de ouro: erosão, assoreamento e poluição dos cursos d’água; problemas sociais; degradação da paisa-
gem e da vida aquática; contaminação por mercúrio, com conseqüências sobre a pesca e a população.
• Mineração industrial (ferro, manganês, cassiterita, cobre, bauxita etc.): degradação da paisagem; poluição e
assoreamento dos cursos d’água; esterilização de grandes áreas e impactos sócio-econômicos.
• Grandes projetos agropecuários: incêndios, destruição da fauna e da flora; erosão, assoreamento e contamina-
ção dos cursos d’água por agrotóxicos; destruição de reservas extrativistas.
• Grandes usinas hidrelétricas: impacto cultural e sócio-econômico (povos indígenas) e sobre a fauna e a flora;
inundação de áreas florestais, agrícolas, vilas etc.
• Indústrias de ferro gusa: demanda de carvão vegetal da floresta nativa — desmatamento; exportação de energia
a baixo valor e alto custo ambiental; poluição da água, ar e solo.
• Pólos industriais e/ou grandes indústrias: poluição do ar, água e solo; geração de resíduos tóxicos; conflitos
com o meio urbano.
• Construção de rodovias: destruição das culturas indígenas; propagação do garimpo e de doenças endêmicas;
grandes projetos agropecuários; explosão demográfica.
• Caça e pesca predatórias: extinção de mamíferos aquáticos; diminuição de populações de quelônios, peixes e
animais de valor econômico-ecológico.
• Indústrias de alumínio: poluição atmosférica e marinha; impactos indiretos pela enorme demanda de energia.

Cerrados
Os cerrados constituem uma extensa área de cerca de 200 milhões de hectares, caracterizada pela presença de
árvores pequenas e arbustos, com troncos retorcidos, esparsas, em meio a uma vegetação rasteira e rala.
A área dos cerrados representa cerca de um quarto da extensão do território brasileiro, sendo considerada
própria para a produção de alimentos, em função de suas características de clima, água e relevo, desde que bem
manejada.
O solo dos cerrados é muito pobre, havendo necessidade da utilização de calcário e adubo para aumentar sua
produtividade. Alguns organismos que vivem na terra, tais como as minhocas, fungos e bactérias, são importantes
para a fertilização do solo.
As espécies vegetais predominantes são o pau-santo, a sucupira, o pequizeiro, o araçá, a gabiroba, o barbati-
mão, a catuaba, o indaiá, o pau-terra e o buriti, sendo que este último predomina nos brejos. Sob as árvores, exis-
tem vários tipos de capins.
A fauna é composta pela ema, seriema, gavião-carcará, urubu-rei, periquitos, tucano, lobo-guará, onça-
pintada, anta, tamanduá, tatu, raposa, veados, macacos, além de saúvas e cupins.
Os cerrados são caracterizados pela abundância de água subterrânea, que abastece os rios da região. Algu-
mas árvores têm grandes raízes, possibilitando-lhes obter água do subsolo, a elevadas profundidades.
A ocupação da área, pelo homem, nem sempre tem considerado as peculiaridades desse rico ecossistema,
ocasionando sérios danos. Extensas áreas têm sido desmatadas para a incorreta utilização agrícola ou para a produ-
ção de carvão vegetal, provocando o desaparecimento da flora e da fauna nativas.
A ocupação urbana, especialmente nas grandes cidades, tais como Belo Horizonte, Brasília e Goiânia, tem resultado
em vários problemas ambientais, destacando-se a poluição dos recursos hídricos por esgotos domésticos e industriais.
Outros impactos ambientais têm sido causados pelo homem, nos cerrados, como indicado abaixo:
• Grandes projetos agropecuários: desmatamento de áreas nativas e grandes queimadas; drenagens — erosão; alte-
ração da vazão dos cursos d’água; assoreamento; monocultura extensiva — desequilíbrio ecológicos; uso de gran-
des quantidades de agrotóxicos — poluição das águas; uso da mecanização intensiva — compactação dos solos.

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• Expansão urbana desordenada: destruição de nascentes de cursos d’água que formam a bacia do Pantanal; des-
truição da paisagem; poluição por falta de saneamento básico; destruição da rede de drenagem; abertura de
cascalheiras; áreas decapeadas, áreas de extração de areia, estradas, cortes de morros, aterros e drenagens, vo-
çorocas; desmatamento para obtenção de lenha e escoras para construção e fornos; aumento da poluição das
águas com esgoto e do solo com lixo; expansão do tráfego de veículo e conseqüente poluição atmosférica e so-
nora; intensificação da descaracterização da paisagem e biota nativa, pela expansão das áreas ocupadas com
plantas e animais exóticos.
• Invasão de reservas indígenas: impacto cultural e social sobre populações indígenas; desmatamento.
• Olarias, fábricas de tijolos: demanda de carvão vegetal; desmatamento.
• Garimpo de ouro e pedras preciosas: erosão, assoreamento e contaminação dos cursos d’água; impactos sócio-
econômicos.
• Indústria de transformação: destruição de cavernas calcárias para a produção de cimento e calcário agrícola;
desmatamento para a produção de carvão vegetal.

Caatinga
A caatinga situa-se no Nordeste brasileiro, cobrindo cerca de 70% dessa região, o que representam 11% da
área do país.
Sua vegetação é constituída por árvores de pequeno porte e arbustos, e por cactáceas, adaptadas às caracterís-
ticas da região, onde a água é escassa durante grande parte do ano.
Nos meses secos, a maioria das plantas perde suas folhas, para reduzir a transpiração, como uma forma de
adaptar-se à falta de água. Algumas plantas têm folhas muito finas, chegando ao extremo das cactáceas, na forma
de espinhos. Outras dispõem de dispositivos de armazenamento próprio da água. Algumas espécies de plantas,
como o juazeiro e a oiticica, conseguem passar os períodos de estiagem sem perder as folhas.
Com as primeiras chuvas, geralmente em dezembro ou janeiro, o verde volta a predominar rapidamente,
surgindo, sob as árvores e arbustos, pequenas plantas e gramíneas.
O solo da caatinga é raso e pedregoso, dificultando a acumulação de água durante o período de precipitação,
que se concentra em três a quatro meses do primeiro semestre. O clima seco e a temperatura elevada causam gran-
de evaporação da água. Assim, grande parte dos rios seca durante a maior parte do ano e o armazenamento super-
ficial e subterrâneo da água é pequeno, com exceção de algumas áreas, havendo a necessidade da adoção de solu-
ções artificiais para acumulação do líquido precipitado e para a irrigação de culturas.
Na caatinga, encontram-se as seguintes plantas: sabiá, jurema, aroeira, angico, catingueira, marmeleiro, mi-
mosa, amburana, juazeiro, baraúna, xiquexique, mandacaru, oiticica, quixambeira, entre outras.
A fauna típica da região compreende o veado, tatu, raposa, preá, peba, camaleão, sagüi, macacos, lagartos,
cobras, roedores, vários tipos de aves etc.
As peculiaridades da caatinga tornam a sua ocupação vulnerável a impactos ambientais, os quais se agravam
devido às formas incorretas como o homem a utiliza.
O desmatamento, as queimadas, o cultivo excessivo, o sobrepastoreio, a urbanização, a mineração e as práti-
cas inadequadas de irrigação, são as principais causas da degradação que ocorre nessa região semi-árida.
Já há evidências de que algumas áreas encontram-se suscetíveis a processos de desertificação, como conse-
qüência da retirada da cobertura vegetal, seguida da erosão do solo, com a remoção da camada fértil, que é carreada
para os mananciais, gerando um outro problema da região, que é o assoreamento de rios e reservatórios superficiais
de água. Há locais em que a degradação da cobertura vegetal e do solo já alcançou condições de irreversibilidade,
formando-se pequenos “desertos”, os quais tendem a se expandir para as áreas vizinhas.
Resumem-se abaixo os principais impactos da ação antrópica sobre a caatinga:
• Grandes latifúndios: desmatamento da vegetação nativa; controle dos recursos naturais por grandes grupos
econômicos, com destaque para os recursos hídricos; êxodo rural para as capitais nordestinas e outras regiões;
desertificação de grandes áreas.
• Prospecção e exploração de lençóis d’água subterrâneos e de combustíveis fósseis — petróleo e gás natural:
contaminação de cursos d’água superficiais; desmatamento de áreas.
• Siderúrgicas, olarias e outras indústrias: corte da vegetação nativa para a produção de lenha e carvão vegetal;
desertificação.
• Formação de pastagens: devastação da cobertura vegetal; erosão; perda progressiva da matéria orgânica do
solo.

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Mata Atlântica
A mata atlântica, que originalmente cobria cerca de 1,3 milhão de quilômetros quadrados, hoje ocupa apenas
aproximadamente 52 mil quilômetros quadrados. É uma floresta tropical úmida, que cobre parte da cadeia de mon-
tanhas situadas, principalmente, próximas ao litoral do país.
As florestas que ainda restam têm uma rica biodiversidade, com muitas espécies de plantas e animais, que se
encontram ameaçadas pelo acelerado processo de degradação desse rico conjunto de ecossistemas.
O processo de utilização da mata atlântica começou com os exploradores europeus, inicialmente com a reti-
rada do pau-brasil, seguindo-se com a plantação de cana-de-açúcar, obtenção do ouro, exploração do carvão e ou-
tras atividades degradadoras, que continuam até hoje.
A ocupação da área por grandes cidades, extensas fazendas, indústrias e atividades de mineração, entre ou-
tras, tem contribuído para graves impactos ambientais, como indicado a seguir:
• Grandes concentrações urbanas: degradação da paisagem; poluição de águas interiores e costeiras; contamina-
ção do solo, escassez de espaço; problemas sócio-econômicos; poluição sonora.
• Grandes concentrações industriais e pólos industriais: poluição do ar, das águas e do solo; degradação da pai-
sagem; geração de resíduos sólidos perigosos.
• Atividade portuária : poluição das águas costeiras; poluição atmosférica; geração de resíduos sólidos perigo-
sos; risco de acidentes.
• Agroindústria de açúcar e álcool, papel e celulose e siderúrgicas: utilização de madeiras nobres, de carvão
vegetal; poluição de cursos d’água, dos solos e do ar; desequilíbrio ambiental — monocultura.
• Transporte de combustíveis em oleodutos e gasodutos: desmatamento; erosão; riscos de acidentes, com prejuí-
zos para a fauna, a flora e a vida humana.
• Expansão urbana desordenada na faixa litorânea: destruição de ecossistemas fundamentais à vida marinha —
manguezais e restingas; degradação de paisagens; poluição as praias; prejuízos sócio-econômicos para o lazer,
turismo e pesca.
• Mineração de granito, calcário e areia : degradação de grandes áreas; poluição e assoreamento dos cursos
d’água; degradação da paisagem e problemas sócio-econômicos graves.

Campos e Matas de Araucárias


Os campos ocorrem na região Sul do país, em Roraima, nas ilhas de Bananal e Marajó, em algumas monta-
nhas de Minas Gerais e em certos lugares alto da Amazônia.
Nessas áreas, há a predominância da vegetação rasteira, formada de gramíneas e leguminosas nativas.
A criação de gado sob pastoreio, as queimadas, a agricultura, principalmente os extensos plantios de soja e
trigo, são as atividades que mais têm contribuído para a degradação desse ambiente.
Nos campos do Rio Grande do sul, conhecidos como pampas, já existem áreas que sofrem o processo de
desertificação, causado pelo manejo inadequado da vegetação e do solo. Segundo GRAZIANO NETO (1986), o
Rio Grande do Sul exibe uma situação dramática e alarmante, contando com seis mil hectares de desertos já plena-
mente caracterizado, ao lado de manchas esparsas que perfazem um total de 473 mil hectares de solos, de várias
formações, em processo adiantado de desertificação, embora aquelas áreas do sul do Brasil recebam precipitações
pluviométricas anuais entre 1.500 e 1.600 mm, indicando que, em tais circunstâncias, o papel do homem no desen-
cadeamento dos processos de desertificação supera as condições climáticas regionais.
As matas de araucárias, ou dos pinheiros-do-paraná, já ocuparam, aproximadamente, 100 mil quilômetros
quadrados, mas hoje cobrem apenas cerca de 300 mil hectares.
Sob as copas dos pinheiros, desenvolve-se um estrato arbustivo e, mais abaixo, uma estrato herbáceo. Mui-
tas espécies eram encontradas sob as araucárias: a imbúia, o cedro, o angico, a timbúia, a gameleira. No entanto,
esse ecossistema se encontra bastante atingido, com muitas espécies estando em processo de extinção.
A derrubada dos pinheiro ocorreu, e ainda acontece, principalmente para o aproveitamento da madeira (pi-
nho), usada na construção de casas e na confecção de móveis.
Extensas áreas foram desmatadas e reflorestadas com pinus e eucaliptos, visando, principalmente, à produ-
ção de matéria -prima (celulose) para as fábricas de papel, bem como para o fornecimento de lenha, criando-se am-
bientes completamente diferentes dos originais, com graves prejuízos para a flora e a fauna nativas.
Outras atividades que contribuíram para a degradação desses ecossistema foram: agropecuária, urbanização,
mineração, industrialização. Segue-se um resumo dos principais impactos ambientais causados pelo homem nos
biomas campos e matas de araucárias:

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• Criação de gado sob pastoreio: deterioração dos solos pelo pisoteio excessivo, contínuo e extensivo; erosão;
desertificação.
• Plantio de soja e trigo: desaparecimento dos campos e derrubada das matas; erosão; diminuição da fertilidade
dos solos; compactação; perda da matéria orgânica.
• Plantio de espécies vegetais arbóreas exóticas: descaracterização da vegetação primitiva da região; alteração da
flora e da fauna.
• Queimadas: erosão; perda da fertilidade dos solos; desertificação.

Pantanal
O pantanal constitui um complexo ecossistema que combina condições de vida aquática e terrestre. Dos
cerca de 150.000 quilômetros quadrados da área total do pantanal, aproximadamente dois terços constituem áreas
inundáveis.
Nas áreas alagadiças predominam as gramíneas (campos) e nas zonas altas prevalecem as palmeiras (buriti-
zais, carandazais) e outras árvores de frutas silvestres.
O pantanal abriga um grande número de espécies de aves, répteis (jacarés, cobras), além de mamíferos, tais
como os tamanduás, lobos, cervos e vários felinos. A fauna ictiológica é muito rica no pantanal.
Muitas atividades antrópicas, na região do pantanal, têm contribuído para sua degradação: agricultura, pecu-
ária, garimpos de ouro e diamante, usinas de álcool, caça clandestina, principalmente do jacaré, urbanização e tu-
rismo. O uso e a ocupação desordenados desse rico ecossistema brasileiro têm resultado e muitos impactos sobre a
flora, a fauna, a água e o solo, os quais estão listados abaixo:
• Pecuária extensiva: competição com a fauna nativa; desequilíbrios.
• Pesca predatória e caça ao jacaré: diminuição dos estoques pesqueiros; desequilíbrios; riscos de extinção de
algumas espécies de jacaré.
• Garimpo de ouro e pedras preciosas: erosão; assoreamento e contaminação dos cursos d’água nas cabeceiras
dos rios que formam a bacia do rio Paraguai, com impactos indiretos no Pantanal.
• Turismo e migração desordenados e predatórios: estresse e morte de aves devido aos fogos usados para provo-
car revoadas e aos sacos de plástico jogados que, se ingeridos por um animal, podem matá-lo; esgotos de cen-
tros urbanos e hotéis de turismo que se estabelecem nas suas margens.
• Aproveitamento dos cerrados: manejo agrícola inadequado de lavouras, resultando em erosão dos solos, aumen-
tando significativamente o sedimento de vários rios que deságuam no Pantanal; contaminação dos rios com bi-
ocidas e fertilizantes.

Ecossistema Costeiros
O litoral brasileiro tem uma grande extensão, de cerca de 7.400 quilômetros, e é integrado por vários ecossis-
temas, além do oceano: praias, dunas, manguezais, restingas, falésias, recifes, ilhas, estuários, entre outros.
A vegetação do litoral varia, à medida que se afasta do mar para o interior: nas dunas de praias, ocorrem
plantas herbáceas, que são seguidas por uma vegetação tipo moitas; mais distante, podem ser encontradas árvores
com maiores alturas. É comum, também, a presença de áreas de brejo e lagoas, entre dunas.
Um dos ecossistemas costeiros de maior importância, devido à sua alta produtividade, é o manguezal, o qual
será descrito mais adiante.
A zona litorânea brasileira tem sofrido grandes modificações, como conseqüência de sua intensa ocupação e
inadequada exploração. Mais da metade da população do país situa-se no litoral, o que resulta em muitos impactos
sobre os ecossistemas costeiros.
O desmatamento, a extração mineral, as indústrias, a ocupação urbana, as atividades portuárias, o turismo,
entre outras, são as principais ações antrópicas que contribuem para os desequilíbrios nos ecossistemas litorâneos.
• Extração mineral — petróleo, gás natural, sal-gema, carvão etc., e pólos industriais: poluição do ar, água e solo;
ameaça aos manguezais e restingas; conflito entre a indústria, o turismo, a pesca e o lazer.
• Expansão urbana desordenada em áreas naturais do litoral e especulação imobiliária : degradação de ecossiste-
mas fundamentais à vida marinha: manguezais e restingas; degradação de paisagens, enseadas, falésias, pro-
montórios, penínsulas e ilhas; poluição das praias; prejuízos para o turismo e a pesca.
• Atividades portuárias: poluição das águas costeiras; riscos de acidentes; poluição atmosférica.
• Pesca excessiva: esgotamento dos estoques pesqueiros, principalmente lagostas e peixes de valor econômico;
desequilíbrio ecológico da biota marinha; impactos negativos, sócio-econômicos e culturais.

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Manguezais
O manguezal, de acordo com a definição do Conselho Nacional do Meio Ambiente — CONAMA (Resolu-
ção Nº 04/85), “é um ecossistema litorâneo que ocorre em terrenos baixos, sujeitos à ação direta das marés, locali-
zados em áreas relativamente abrigadas, formadas por vazas lodosas, às quais se associam comunidades vegetais e
animais características”. Constitui, portanto, um ecossistema situado na interface entre os meios marinho, fluvial e
terrestre, cuja principal característica é a sua alta produtividade.
A produtividade dos manguezais é transferida para os ambientes adjacentes, contribuindo para a manutenção
dos recursos pesqueiros marinhos e de água doce, e servindo como local de reprodução para várias espécies da
fauna aquática e terrestre.
Grande parte dos peixes, camarões, lagostas e outras espécies animais têm o início de sua cadeia alimentar
nos manguezais. A destruição dos manguezais ameaça, portanto, a vida dos oceanos.
As espécies vegetais dos manguezais brasileiros são cinco: Rhizophora mangle, Laguncularia racemosa,
Avicena shaueriana, Avicena germinans e Cornocarpus erecta.
A fauna dos manguezais é bastante diversificada, sendo composta por diferentes espécies de aves, peixes,
moluscos, mamíferos, crustáceos e outros pequenos animais. Os crustáceos decápodes, especialmente o carangue-
jo-uçá, o guaiamum e o aratu, são os animais mais característicos da fauna dos manguezais, pois, além de desem-
penharem importante papel na manutenção da dinâmica desses ambientes, servem de alimento para a população.
Segundo MIRANDA & NÓBREGA (1992), a importância do manguezal está associada às seguintes razões:
• Os manguezais são ambientes que oferecem condições ideais para o desenvolvimento de inúmeros organismos,
que procuram esses ecossistemas para a sua proteção, alimentação e reprodução.
• Muitos peixes, camarões, caranguejos e ostras que ocorrem nos manguezais são explorados pelas populações
ribeirinhas, constituindo uma importante fonte de renda e alimento.
• A vegetação do mangue possui grande importância na cadeia alimentar, produzindo uma grande quantidade de
matéria orgânica, proveniente da decomposição das suas folhas, pela ação de microrganismos. Toda essa maté-
ria orgânica é carreada para o mar, através dos estuários, enriquecendo suas águas. Desse modo, os organismos
aquáticos que vivem na costa podem se desenvolver melhor, aumentando a produtividade da pesca litorânea.
• Os manguezais agem como fixadores de terra, pois a presença e o entrelaçamento das fortes raízes aéreas do
mangue contribuem para a deposição dos sedimentos provenientes das águas dos rios, da drenagem terrestre e
das correntes das marés. Dessa maneira, evitam o assoreamento do leito dos rios e protegem as área litorâneas
da erosão. O tipo de solo formado por esse processo consegue reter muitos agentes poluentes, como os metais
pesados, o que torna vital sua manutenção em áreas poluídas.
• A existência dos manguezais contribui ainda para que não ocorram modificações nas condições climáticas do
litoral, resguardando suas áreas circunvizinhas dos efeitos danosos das ventanias e tempestades.
Os manguezais estão sujeitos a alterações provocadas por fatores naturais (migração de dunas, pela ação do
vento) e pela atividade humana.
As principais modificações causadas pelo homem são: desmatamento e aterramento das áreas dos mangue-
zais; depósitos de lixo; lançamentos de esgotos domésticos e industriais; pesca e captura predatória dos animais;
canalização, drenagem e barramentos.
As principais conseqüências do uso inadequado das áreas de mangues são, entre outras: prejuízos à cadeia
alimentar, com reflexos sobre a fauna fluvial e marinha; assoreamento do leito dos rios; erosão das áreas litorâ-
neas; redução ou extinção de espécies animais e vegetais; enchentes; prejuízos econômicos e sociais.

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Meio Ambiente e Toxicologia

Envenenando Bopal
Logo após a meia -noite do dia 3 de dezembro de 1984, uma nuvem de gás espessa e acre espalhou-se pelas
silenciosas ruas de Bopal na Índia. No ar noturno sem ventos, o nevoeiro venenoso arrastou-se pelo chão e sorra-
teiramente penetrou nas casas onde famílias dormiam deitadas em tapetes. As pessoas acordaram tossindo, ofegan-
tes e friccionando os olhos que queimavam. À medida que as pessoas emergiam de suas casas, juntavam-se a uma
multidão em pânico que surgia das ruas estreitas tentando escapar da nuvem tóxica. Alguns não conseguiram pas-
sar do portal de suas casas. Outros caíram pelas ruas e morreram ali mesmo. Os hospitais ficaram superlotados
com as vítimas aterrorizadas e sofredoras, muitas das quais eram crianças e idosos.
O gás nocivo que cobriu a cidade era o metilisocia -
nato (MIC), um componente do pesticida Temik, que
estava sendo fabricado na planta da Union Carbide em
Bopal. Havia entrado água em um tanque contendo cerca
de 40 toneladas de MIC, o que iniciou uma reação química
que resultou na erupção explosiva da nuvem tóxica. Os
painéis de controle que deveriam ter detectado o aumento
da temperatura e da pressão estavam desligados para repa-
ros. O equipamento de segurança que deveria neutralizar
ou incinerar o gás falhou. Os trabalhadores culparam a
gerência por cortar custos e criar condições inseguras. A
gerência culpou os empregados e disse que a água deveria
ter sido adicionada ao tanque por um “trabalhador insatis-
feito”.
A luz da manhã revelou uma visão horripilante. Corpos humanos, juntamente com os de cães, gatos, vacas e
pássaros, tomavam as ruas. Famílias inteiras pereceram. O ponto mais atingido foi a superpovoada favela conhe-
cida como Jayprakash Nagar, localizada ao lado da cerca da Union Carbide. Os números oficiais foram 1.754 pes-
soas mortas e 200.000 feridas. Testemunhas oculares e o pessoal médico afirmam que os números reais podem ter
sido tão altos quanto 15.000 mortos e 300.000 — um terço da população total da cidade — feridos.
O MIC é um irritante poderoso, causando a queimadura e o intumescimento de tecidos úmidos tais como os
olhos, boca, passagens nasais e pulmões. Muitas pessoas morreram de ataque do coração derivados da falta de
oxigênio. Alguns tinham tanto líquido nos pulmões que simplesmente se afogaram. Os efeitos de longo prazo
naqueles que sobreviveram ao envenenamento imediato incluem a cegueira permanente, enfisema, asma, defeitos
congênitos e problemas de reprodução. A Union Carbide pagou indenizações de 10.000 rúpias (US$ 330) às víti-
mas confirmadas pelo governo mas, onze anos depois, centenas de milhares de pedidos permanecem não atendidos.
Felizmente, a maioria de nós jamais seremos expostos às mesmas concentrações de produtos químicos tóxi-
cos que os residentes de Bopal. Entretanto, existem muitas substâncias perigosas — naturais ou feitas pelo homem
— no nosso meio ambiente.

Produtos Químicos Tóxicos


Os produtos químicos são divididos em duas amplas categorias: aqueles que são perigosos e aqueles que são
tóxicos. A primeira categoria inclui os inflamáveis, explosivos, irritantes, sensibilizadores, ácidos e cáusticos.
Muitas substâncias que são perigosas em altas concentrações são relativamente inofensivas quando diluídas. As
toxinas são venenosas. Isto significa que reagem com componentes celulares específicos matando as células. Por
causa desta especificidade, elas são freqüentemente danosas mesmo diluídas.
Os irritantes são corrosivos (ácidos fortes), cáusticos (reagentes alcalinos) e outras substâncias que danifi-
cam tecidos biológicos ao contato. Alguns exemplos são os ácidos sulfúrico e nítrico, amônia, hidróxido de sódio,
fumos metálicos tóxicos (tais como berílio ou níquel), ozônio, cloro, enxofre ou óxidos de nitrogênio, formaldeído,
hexaclorobenzeno e dioxina. As doenças de pele causadas pelos irritantes (dermatoses) são as doenças ocupacio-
nais mais comuns.

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Os agentes fibróticos respiratórios são uma classe especial de irritantes que danificam os pulmões, causan-
do a formação de cicatrizes no tecido que diminuem a capacidade respiratória. Este grupo inclui tanto reagentes
químicos quanto materiais particulados. Algumas condições são comuns o suficiente para terem nomes específi-
cos: silicose (causada pelo pó de sílica), bissinose (causada por fibras de algodão), asbestose (causada por fibras de
asbesto), entre outras. Alguns destes problemas de saúde são simplesmente doenças obstrutivas nas quais os pul-
mões ficam cheios de resíduos e tecidos que interferem com a respiração. Outros levam ao câncer.
Os asfixiantes são substâncias que excluem o oxigênio ou interferem ativamente com a sua fixação e distri-
buição no organismo. Nitrogênio puro, metano e dióxido de carbono são exemplos de asfixiantes passivos. Sob
condições normais eles são relativamente inertes, mas podem ser fatais quando preenchem espaços fechados, como
minas, cavernas ou silos de fazenda. Em contrapartida, os asfixiantes ativos reagem quimicamente com o sangue
ou com o tecido pulmonar perturbando a fixação do oxigênio. Alguns exemplos são o monóxido de carbono, o
cianeto de hidrogênio, o sulfeto de hidrogênio e a anilina. Estas substâncias são tóxicas mesmo em baixas concen-
trações e os seus efeitos tendem a ser relativamente irreversíveis.
Os alergênios são substâncias que ativam o sistema imunológico. Alguns alergênios agem diretamente co-
mo antígenos; ou seja, eles são reconhecidos como intrusos pelos leucócitos e estimulam a produção de anticorpos
específicos. Outros alergênios agem indiretamente ao se ligarem a outros materiais e modificarem a estrutura ou
química destes de forma a se tornarem antígenos e causar uma resposta imune.
As neurotoxinas são uma classe especial de venenos metabólicos que atacam especificamente os neurônios.
O sistema nervoso é tão importante na regulação das atividades corporais que a paralisação das suas atividades é
especialmente rápida e devastadora. Diferentes tipos de neurotoxinas agem de diferentes maneiras. Anestésicos
(éter, clorofórmio, halotano etc.), hidrocarbonetos clorados (DDT, Dieldrin, Aldrin) e metais pesados (chumbo,
mercúrio) paralisam o transporte iônico através das membranas celulares necessário para o funcionamento dos ner-
vos. Organofosfatos (Malation, Paration) e carbamatos (Sevin, Zeneb, Maneb) inibem a acetilcolinesterase, uma
enzima que regula a transmissão dos sinais entre os neurônios e os tecidos ou órgãos que enervam (por exemplo,
um músculo). A maioria das neurotoxinas são extremamente tóxicas e de rápida ação.
Os mutagênicos são agentes, tais como produtos químicos e radiação, que danificam ou alteram o material
genético (DNA) das células. Isto pode levar a defeitos congênitos se o dano ocorrer durante o crescimento embrio-
nário ou fetal. Num período posterior da vida, o dano genético pode deflagrar crescimentos neoplásicos (tumorais).
Os teratogênicos são substâncias ou outros fatores que especificamente causam anormalidades durante o
crescimento e o desenvolvimento embrionário. Alguns compostos que não são danosos podem causar problemas
trágicos nos estágios iniciais da vida. Um dos exemplos mais bem conhecidos de teratogênese é do amplamente
utilizado sedativo talidomida. Na década de 60, a talidomida (comercializada sob o nome de Cantergan) era a pílu-
la para insônia mais usada na Europa. Como parecia que ela não apresentava efeitos colaterais, ela era vendida sem
receita médica. Entretanto, quando usada por mulheres grávidas, causava um desenvolvimento fetal anormal co-
nhecido como focomelia, no qual existem mãos ou pés, mas sem braços e pernas. Existe evidência de que a inges-
tão de uma única pílula de talidomida nas primeiras semanas de gravidez é o suficiente para causar estes trágicos
defeitos congênitos. No total, pelo menos 12.000 crianças foram afetadas antes da droga ser recolhida do mercado.
Ironicamente, a talidomida tem o seu lado positivo. A droga é eficaz no tratamento da lepra e está sendo
testada contra AIDS, câncer, degeneração da retina e rejeição de tecidos em transplantes de órgãos. Tragicamente,
estas aplicações benéficas continuam a ter um lado tenebroso. No Brasil, onde a talidomida tem sido la rgamente
utilizada para tratar a lepra, alguns médicos não avisaram às suas pacientes sobre o perigo de ficarem grávidas du-
rante o tratamento. Outras pessoas, ao ouvirem sobre as curas milagrosas com a talidomida, obtiveram-na de labo-
ratórios clandestinos sem conhecer os seus efeitos colaterais. Em 1994, mais de 50 casos de defeitos congênitos
relacionados ao uso da talidomida foram relatados no Brasil.
Talvez o teratogênico mais comum no mundo é o álcool. Beber durante a gravidez pode levar à síndrome
alcóolica fetal — um conjunto de sintomas incluindo anormalidades crânio-faciais, atrasos no desenvolvimento,
problemas comportamentais e defeitos mentais que duram durante toda a vida da criança. Mesmo um único drin-
que por dia durante a gravidez tem sido associado com o decréscimo de peso no nascituro.
Os carcinogênicos são substâncias que causam câncer, o crescimento invasivo e fora de controle de células,
resultando em tumores malignos. As taxas de câncer têm aumentado na maioria dos países industrializados durante
o século XX. Alguns autores culpam os produtos químicos sintéticos tóxicos presentes no nosso meio ambiente e
em nossa dieta por este aumento nos casos de câncer. Outros afirmam que ele é atribuível principalmente ao estilo
de vida (fumo, banhos de Sol, álcool) ou simplesmente ao aumento da longevidade.

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Toxinas Naturais e Sintéticas


Recentemente têm havido notícias tão ruins acerca dos perigos dos produtos químicos industrializados, que
algumas pessoas assumem que todos os compostos feitos pelo homem são venenosos, enquanto todos os materiais
naturais devem ser benignos e inócuos. De fato, muitas substâncias naturais são tão perigosas quanto as sintéticas.
Uma vez que a maioria das plantas e muitas espécies animais não podem escapar dos seus predadores ou defende-
rem-se através da luta, muitos desenvolveram um tipo de guerra química, secretando ou armazenando nos seus
tecidos um vasto arsenal de irritantes, toxinas, paralisantes metabólicos e outras substâncias que desencorajam os
competidores e os predadores. Algumas das defesas químicas empregadas pelos organismos são muito sofisticadas
e específicas. Tanto as plantas quanto os animais fabricam substâncias similares — ou mesmo idênticas — a neu-
rotransmissores, hormônios ou moléculas reguladoras dos predadores ou inimigos em potencial. As nossa células
não distinguem se estas substâncias são naturais ou sintéticas.
O rícino, por exemplo, é uma proteína encontrada na mamona e um dos compostos orgânicos mais tóxicos
que se conhece. Três nanogramas injetadas intravenosamente são suficientes para matar um camundongo médio.
Uma única molécula podem matar uma célula. Ele é cerca de 200 vezes mais letal do que a dioxina.

Movimento, Distribuição e Destino das Toxinas


Existem muitas fontes de substâncias tóxicas e perigosas no meio ambiente e muitos fatores relacionados a
cada substância em si, às rotas ou métodos de exposição e à persistência no meio ambiente, assim como caracterís-
ticas do organismo-alvo, que determinam o quão perigosas é uma substância. Podemos pensar em um ecossistema
como um conjunto de compartimentos interagindo entre si, entre os quais uma substância se move baseada no seu
tamanho molecular, solubilidade, estabilidade e reatividade. As rotas usadas pelas substâncias para entrarem em
nosso corpo também possuem um papel importante na determinação da toxicidade.

Solubilidade
A solubilidade é uma das mais importantes características na determinação de como, onde e quando um ma-
terial tóxico irá se mover através do meio ambiente ou através do corpo até o seu local de ação. As substâncias
podem ser divididas em dois grupos principais: aqueles que se dissolvem mais rapidamente na água (hidrossolú-
veis, hidrofílicos ou liófobos) e aqueles que se dissolvem mais rapidamente em óleo (lipossolúveis, lipofílicos ou
hidrófobos). Os compostos solúveis em água movem-se rápida e amplamente através do meio ambiente porque a
água está em toda parte. Eles também tendem a ter livre acesso à maioria das células do corpo pois são banhadas
por soluções aquosas. As moléculas que são solúveis em óleos ou gorduras (geralmente as moléculas orgânicas)
normalmente necessitam de um carreador para movê-las através do meio ambiente, para dentro e por dentro do
corpo. Entretanto, uma vez dentro do corpo, as toxinas solúveis em óleo penetram prontamente nos tecidos e célu-
las porque as membranas são feitas, em grande parte, de lipídios. Uma vez dentro das células, estes materiais serão
provavelmente acumulados e armazenados em depósitos de lipídios, onde permanecem protegidos contra o metabo-
lismo e persistem por muitos anos.

Bioacumulação e Biomagnificação
As células têm mecanismos para a bioacumulação, a absorção seletiva e o armazenamento de uma grande
variedade de moléculas. Isto permite a elas acumularem nutrientes e minerais essenciais mas, ao mesmo tempo,
elas também podem absorver e armazenar substâncias nocivas através destes mesmos mecanismos. As toxinas que
estão bastante diluídas no meio ambiente podem alcançar níveis perigosos dentro das células e tecidos através do
processo de bioacumulação.
Os efeitos das toxinas também são magnificados no meio ambiente através das cadeias alimentares. A bio-
magnificação ocorre quando a carga tóxica de um grande número de organismos em um nível trófico mais baixo é
acumulada e concentrada por um predador em um nível trófico mais alto. O fitoplâncton e as bactérias em ecossis-
temas aquáticos, por exemplo, absorvem metais pesados e moléculas orgânicas tóxicas da água ou de sedimentos.
Os seus predadores — zooplâncton e pequenos peixes, coletam e retêm as toxinas de muitas presas, criando con-
centrações mais altas de toxinas. Os carnívoros do topo da cadeia alimentar — peixes maiores, pássaros comedores
de peixes e seres humanos — podem acumular níveis tão altos de toxinas, de forma a sofrerem efeitos adversos à
saúde. Um dos primeiros exemplos conhecidos de bioacumulação e biomagnificação foi o DDT. Por volta da dé-
cada de 60, demonstrou-se que, tendo ele sido acumulado através das cadeias alimentares, estava interferindo na
reprodução dos falcões peregrinos, pelicanos e outras aves predatórias no topo das cadeias alimentares.

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Persistência
Alguns compostos químicos são muito instáveis e se degradam rapidamente sob a maioria das condições
ambientais, de forma que as suas concentrações declinam logo após a sua liberação. Alguns dos modernos herbic i-
das, por exemplo, rapidamente perdem a sua toxicidade. Outras substâncias são mais persistentes e duram por mui-
to tempo. Alguns dos produtos químicos mais úteis, tais como clorofluorcarbonos, plásticos, hidrocarbonetos clo-
rados e asbestos, são valiosos porque eles são resistentes à degradação. Esta estabilidade também causa problemas
porque estes materiais persistem no meio ambiente e têm efeitos inesperados em locais muito afastados do seu pon-
to de origem. O DDT, por exemplo, é um pesticida útil porque se degrada muito lentamente, não precisando ser
reaplicado com muita freqüência. Entretanto, os seu efeitos tóxicos podem se espalhar para vítimas indesejáveis,
podendo ser armazenado por longos períodos em organismos que não possuam mecanismos para destruí-lo.

Interações Químicas
Alguns materiais produzem reações antagônicas. Ou seja, eles interferem com os efeitos ou estimulam a
degradação de outros produtos químicos. Por exemplo, as vitaminas A e E reduzem a resposta a alguns carcinogê-
nicos. Outros materiais são aditivos quando ocorrem juntos em exposições. Ratos expostos tanto ao chumbo quan-
to ao arsênio, apresentam duas vezes a toxicidade de apenas um destes elementos. Talvez a maior preocupação
sejam os efeitos sinérgicos. Sinergismo é uma interação na qual uma das substâncias exacerba os efeitos de uma
outra. Por exemplo, a exposição ocupacional aos asbestos aumenta as taxas de câncer de pulmão em 20 vezes. O
fumo aumenta as taxas de câncer de pulmão da mesma quantidade. Entretanto, aqueles que trabalham com asbes-
tos e que também fumam, têm um aumento de 400 vezes nas taxas de câncer.

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Impactos Ambientais das Atividades Antrópicas

O Homem e a Natureza
A utilização que o homem tem feito dos recursos naturais nem sempre ocorreu considerando as característi-
cas e a capacidade de recuperação dos mesmos. Aliás, só mais recentemente ele passou a preocupar-se com os
problemas ambientais. A atitude mais comum do homem era considerar-se o ser superior da Natureza, fazendo uso
da mesma da forma que julgava melhor para ele.
O surgimento de problemas ambientais graves, com reflexos sobre o próprio homem, levou-o a procurar
compreender melhor os fenômenos naturais e a entender que deve agir como parte integrante do sistema natural.
Esta conscientização, infelizmente, ainda não alcançou uma parcela significativa da população, que continua
a provocar mudanças drásticas nos ecossistemas, alterando-os de forma a prejudicar os seus componentes, entre
eles o próprio homem.
A Natureza tem uma grande capacidade de recuperação e os seus recursos existem para proporcionar ao ho-
mem uma satisfatória qualidade de vida. No entanto, essa capacidade não é ilimitada e, muitas vezes, um recurso
natural degradado não tem condições de voltar às suas características originais, causando a destruição de seus com-
ponentes e sérios danos ao ser humano.
Um recurso hídrico, por exemplo, dependendo de sua vazão e de outras características, pode receber uma
certa quantidade de resíduos, autodepurar-se e voltar a oferecer água na qualidade indicada para diversos usos. No
entanto, se a quantidade de esgotos for além da capacidade de absorção pelo manancial, o mesmo não se recupera e
atinge um estágio de degradação tal que não permite a vida de seres aeróbios (peixes e outros), causa doenças ao
homem e tem os seus usos prejudicados.
O mesmo ocorre com a atmosfera, que pode ter capacidade de “absorver” a fumaça de uma determinada
fábrica, mas não conseguir depurar os gases poluidores lançados por uma grande concentração industrial ou pelos
veículos de uma cidade.
Cabe ao homem entender os fenômenos naturais e compreender como os recursos ambientais se recuperam,
antes de utilizá-los. Nesse sentido, os índios sempre foram mais sábios, agindo como parte integrante do sistema na-
tural, observando suas leis. Os próprios animais procuram adequar-se às características dos ambientes onde vivem.
Ao longo de sua história, o homem vem alterando os ecossistemas sem considerar que os recursos disponí-
veis são finitos. Em muitas partes do planeta, já existem situações de degradação tais, seja do solo, da água ou do
ar, onde se torna difícil a sobrevivência dos seres vivos.
Os problemas ambientais agravaram-se nas últimas décadas, como conseqüência do crescimento populacio-
nal, especialmente das áreas urbanas, e da intensificação das atividades antrópicas (humanas), tais como a
industrialização, a agropecuária, a extração de minérios e outras ações degradadoras.

Crescimento Populacional
Durante a maior parte da nossa história, os Crescimento da População Global
seres humanos não éramos muito numerosos quan- e Tempos de Dobra
do comparados às outras espécies. Estudos sobres
as sociedades nômades sugerem que a população Data População* Tempo de Dobra**
mundial era provavelmente de apenas alguns mi-
lhões de pessoas antes da invenção da agricultura e 5000 AC 0,050 ?
da domesticação dos animais a cerca de 10 mil 800 AC 0,100 4200
anos atrás. Os suprimentos de alimentos que, pela 200 AC 0,200 600
revolução da agricultura, se tornaram maiores e 1200 DC 0,400 1400
mais constantes, permitiram que a população hu- 1700 DC 0,800 500
mana crescesse, atingindo em torno de 50 milhões 1900 DC 1,600 200
de pessoas por volta de 5000 AC. Por milhares de 1965 DC 3,200 65
anos, o número de humanos cresceu muito lenta- 1990 DC 5,300 38
mente. Evidências arqueológicas e descrições 2020 DC (estimativa) 8,230 55
históricas sugerem que somente cerca de 300 mi- *em bilhões; **em anos
lhões de pessoas viviam à época do Cristo.

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Até a Idade Média, as populações humanas eram mantidas em cheque pelas doenças, escassez de alimentos e
guerras, que tornavam a vida curta e incerta para a maioria das pessoas. Mais ainda, existem evidências de que
muitas sociedades primitivas regulavam o tamanho da sua população através de tabus culturais e práticas como o
infanticídio. Entre os controles naturais do crescimento populacional, um dos mais destrutivos foram as pestes
bubônicas que periodicamente assolaram a Europa entre os anos de 1348 e 1650. Durante os piores anos da peste
(entre 1348 e 1350), estima-se que pelo menos um terço da população européia pereceu. Note-se, entretanto, que
isto não retardou o crescimento populacional por muito tempo. Em 1650, ao término da última grande peste, exis-
tiam cerca de 600 milhões de pessoas no mundo.
Como pode ser visto na figura abaixo, as populações humanas começaram a crescer rapidamente após o ano
de 1600 DC. Muitos fatores contribuíram para este rápido crescimento. As crescentes habilidades na navegação
estimularam o comércio e as comunicações entre as nações. Os desenvolvimentos na agricultura, melhores fontes
de energia e melhores cuidados médicos e de higiene também tiveram o seu papel. Estamos agora em um padrão
de crescimento exponencial, embora existam indícios de que o crescimento possa estar desacelerando.

O crescimento da população da Terra ocorre sob as seguintes condições:


• A maior concentração das pessoas acontece nos países em desenvolvimento (4,2 bilhões em 1990 e 4,9 bilhões no
ano 2000), ao contrário dos países desenvolvidos (1,2 bilhões em 1990 e 1,2 bilhões no ano 2000). Assim muito
mais gente vive onde são precárias as condições de habitação, alimentação, educação, emprego, saúde e saneamento.
• Cada vez mais é maior a população das áreas urbanas, com as cidades crescendo sem a necessária evolução da
infra-estrutura básica.
• O crescimento da população e, conseqüentemente, das atividades desenvolvidas pela mesma, resultam numa
grande utilização dos recursos naturais — água, ar, solo, vegetação, fauna, energia — provocando mudanças
bruscas e intensas no ambiente.
• A produção de resíduos, nas formas sólida, líquida, gasosa ou de energia, sendo os mesmos lançados na litosfe-
ra, hidrosfera e atmosfera, muitas vezes em grandes quantidades, não permite a recuperação dos ecossistemas,
com danos aos seus componentes, inclusive o homem.
No Brasil, também se constata um Evolução da População do Brasil
elevado crescimento da população, a qual
tem se concentrado nas áreas urbanas. A Ano Pop. Total Pop. Urbana % Pop. Rural %
tabela a seguir mostra a evolução da popula-
ção do país, observando-se que, enquanto 1940 41.236.315 12.880.182 31,2 28.356.133 68,8
em 1940, 68,8% dos brasileiros moravam na 1950 51.944.397 18.782.891 36,2 33.161.506 63,8
área rural, quando do último censo (1991), 1960 70.070.457 31.303.034 44,7 38.767.423 55,3
75,5% residiam nas cidades. 1970 93.139.037 52.084.984 55,9 41.054.053 44,1
Pelos dados ao lado, pode-se concluir que 1980 119.502.706 80.936.409 67,7 38.566.297 32,3
a população rural do Brasil, além de percentual- 1991 146.917.459 110.875.826 75,5 36.041.633 24,5
mente, tem decrescido em número absoluto, sendo menor em 1991 do que em 1980, a qual, por sua vez, foi inferior à de 1970.

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No entanto, a taxa de crescimento tem diminuído nas últimas Taxa de Crescimento da População
décadas, conforme se pode concluir pelos dados da tabela ao lado, do Brasil, por Década
prevendo-se que a população do país se estabilize a partir do ano
Década Taxa de Crescimento
2075, quando alcançará 265,5 milhões de habitantes.
Assim como em outras partes do mundo, o crescimento da 1940/50 2,39
população brasileira tem como conseqüência a degradação de seus 1950/60 2,99
recursos naturais, em áreas urbanas e rurais. Em muitos lugares, já 1960/70 2,89
se constatam alterações ecológicas intensas, com graves conseqüên- 1970/80 2,48
cias para o meio e para os organismos vivos. 1980/90 1,89

Modificações Ambientais Provocadas pelo Homem


Para atender às suas necessidades biológicas e desenvolver suas atividades, o homem faz, constantemente,
uso dos recursos naturais. Deles, ele retira: a água, o ar, o alimento, a matéria -prima para execução de seu abrigo,
seus meios de locomoção, seus móveis, utensílios e outros materiais e a energia que precisa para viver e desenvol-
ver suas ações. Neles, ele lança os resíduos decorrentes do seu organismo ou resultantes de suas atividades, nas
formas sólida, líquida, gasosa ou de energia.

AR, ÁGUA, ALIMENTO, MATÉRIA-


PRIMA, ENERGIA

SISTEMA ANTRÓPICO UTILIZA SISTEMA NATURAL


MODIFICA
MEIO FÍSICO: AR, ÁGUA,
ATIVIDADES SOLO
HUMANAS REAGE
MEIO BIOLÓGICO

RESÍDUOS SÓLIDOS, LÍQUIDOS,


GASOSOS, ENERGIA

Assim, o sistema antrópico está constantemente provocando alterações nos meios físico (ar, água, ar) e bio-
lógico, os quais, muitas vezes, reagem, nele causando impactos adversos. O homem também interfere no próprio
sistema antrópico, promovendo modificações, em muitos casos, negativas.
As atividades humanas, de um modo geral, provocam alterações nos meios físico, biológico e antrópico.
Essas modificações são chamadas de impactos ambientais.
Por impacto ambiental, entende-se “a cadeia de efeitos que se produzem no meio natural e social (antrópi-
co), como conseqüência de uma determinada ação”. Ao desmatar, efetuar mudanças no relevo, realizar movimen-
tos de terra, alterar o escoamento natural das águas, impermeabilizar o solo, construir, lançar resíduos, o homem
está constantemente provocando impactos ambientais, os quais podem ser de maior ou menor intensidade, em fun-
ção das características do meio e dos tipos de ações desenvolvidas.
Compete ao homem prever e avaliar os impactos negativos, de modo a adotar medidas visando a evitá-los ou
a minimizá-los, ao mesmo tempo em que sejam maximizados os impactos positivos de uma determinada ação.
A seguir, são comentadas as principais modificações provocadas pelo homem no sistema natural, as quais
estão resumidas na tabela seguinte.

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Ações do Homem e Respectivos Impactos Ambientais

Ações do Homem Impactos Ambientais

DESMATAMENTO • Danos à flora e fauna


• Aumento do escoamento da água
• Erosão do solo
• Assoreamento de recursos hídricos
• Empobrecimento do solo → desertificação
• Deslizamento de encostas
• Enchentes → prejuízos econômicos e sociais
• Alterações climáticas

ALTERAÇÕES NO • Mudanças no escoamento das águas


RELEVO E TOPOGRAFIA • Problemas de drenagem
• Empoçamentos
• Proliferação de insetos → transmissão de doenças
• Erosão do solo
• Desfiguração da paisagem

IMPERMEABILIZAÇÃO • Maior escoamento da água


DO SOLO • Menor recarga dos aqüíferos
• Problemas de drenagem
• Enchentes → danos materiais e sociais
• Redução da evapotranspiração → alterações climáticas

MUDANÇAS NO REGIME • Alterações no escoamento das águas


HIDROLÓGICO • Problemas de drenagem
• Cheias → danos materiais e sociais
• Inundação de áreas de valor econômico, histórico, cultural
ou ecológico
• Desalojamentos e modificações nas atividades da população
afetada
• Impactos nos meios sócio, econômico e cultural
• Impactos no meio biótico (fauna e flora aquáticas)

MODIFICAÇÕES OU • Danos à flora e fauna


DESTRUIÇÃO DE • Desequilíbrios ecológicos
ECOSSISTEMAS • Prejuízos às atividades do homem
• Danos materiais e sociais
• Desfiguração da paisagem
• Alterações no ciclo hidrológico

POLUIÇÃO AMBIENTAL • Prejuízos à saúde do homem


• Danos à fauna e flora
• Danos materiais
• Desvalorização de áreas
• Desfiguração da paisagem
• Prejuízos às atividades sociais, econômicas e culturais

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Desmatamento
Na execução de qualquer empreendimento, a primeira ação do homem é a retirada da cobertura vegetal.
Muitas vezes, o desmatamento é feito de forma inadequada, em locais não indicados, ou em intensidade tal que as
conseqüências sobre o meio são muito graves.
A vegetação tem um papel importante na Natureza, devido aos seus muitos benefícios: biodiversidade, com-
preendendo variedades de espécies vegetais e animais, diferentes para os diversos ecossistemas; protege o solo
contra a erosão provocada pelo vento e pela chuva; abastece o solo com matéria orgânica (folhas, frutos), contribu-
indo para a fertilização do mesmo; produz oxigênio e absorve o gás carbônico; amortece o impacto das águas das
chuvas sobre o solo e regula o escoamento das águas superficiais e a infiltração, favorecendo a recarga dos aqüífe-
ros; produz alimentos para os seres vivos; é fonte de matéria -prima para diversas atividades do homem; integra o
ciclo hidrológico, contribuindo para manter o equilíbrio climático.
A retirada da vegetação provoca o descobrimento do solo, aumentando a erosão causada pelas águas e pelo
vento. Solos sem cobertura vegetal tendem a perder a camada superior, fértil, com graves prejuízos para a ativida-
de agrícola. Em várias partes do mundo, tem sido constatado o empobrecimento do solo, verificando-se o processo
de desertificação.
O solo descoberto é carreado para os mananciais, provocando assoreamento, com suas conseqüências negati-
vas: redução da capacidade de armazenamento ou de escoamento; cheias; aumento da turbidez da água, com re-
dução da infiltração da luz solar e conseqüentes danos à vida aquática; soterramento de ovos de peixes e de outros
organismos aquáticos.
No solo sem vegetação, é maior o escoamento das águas superficiais, o que pode provocar cheias. Há redu-
ção na infiltração da água, diminuindo-se, assim, a recarga dos aqüíferos subterrâneos.
Em terrenos com maior declividade, a remoção da cobertura vegetal resulta em grande aumento do escoa-
mento das águas e da conseqüente erosão do solo, podendo ocorrer sérios problemas de deslizamentos de encostas.
O desmatamento pode ocasionar a destruição de espécies vegetais de grande valor e da fauna original. Mui-
tas vezes, em programas de reflorestamento, a vegetação natural é substituída por uma outra ou por poucas espécies
de plantas. Com isso, os animais perdem as condições que encontravam na mata nativa, de alimentação, abrigo,
reprodução e refúgio, desaparecendo totalmente.
O desmatamento de grandes áreas (florestas) pode provocar alterações no clima, pois as plantas, através da
transpiração, contribuem para aumentar a umidade do ar e amortecer as variações de temperatura. A vegetação
absorve grande parcela das radiações solares, no processo de fotossíntese, e a transpiração consome a maior parte
da energia incidente.

Alterações na Topografia / Relevo


As modificações nas características topográficas de uma determinada área — movimentos de terra, escava-
ções, aterros — podem resultar em vários impactos ambientais:
• alterações no escoamento natural da água, causando problemas de drenagem; possibilidade da ocorrência de
inundações, com prejuízos materiais e sociais;
• formação de empoçamentos, contribuindo para a proliferação de insetos transmissores de doenças;
• aumento da erosão do solo, como resultado da desagregação do terreno natural; assoreamento de recursos hídri-
cos;
• as modificações no relevo, associadas ao desmatamento, causam a desfiguração da paisagem.

Impermeabilização do Solo
A construção de edificações, a execução da pavimentação e a realização de outras obras, resultam na trans-
formação de um solo outrora permeável numa superfície impermeabilizada, com grandes implicações sobre o esco-
amento das águas.
Num terreno em condições naturais, a maior parte da água precipitada infiltra-se e somente uma pequena
parcela escoa sobre a superfície. À medida que vai ocorrendo o desmatamento e o aumento da superfície pavimen-
tada ou construída, essa situação se inverte, havendo o incremento do volume de água escoada.
Nas áreas altamente urbanizadas, poucos são os terrenos permeáveis restantes, estando grande parte do solo
coberta por edificações e vias pavimentadas. Nessas áreas, a maior parcela da água precipitada escoa para o siste-
ma de drenagem pluvial ou par os cursos e reservatórios de água, os quais nem sempre têm capacidade de suportar
o aumento dessa contribuição.

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O que se observa, principalmente nas grandes cidades, é que precipitações pluviais, mesmo de portes peque-
no ou médio, provocam problemas de enchentes em muitos trechos, ocasionando danos materiais e sociais. Os
sistemas de drenagem são, geralmente, dimensionados para determinadas contribuições de água, as quais são ultra-
passadas devido à impermeabilização gradual do solo.
A impermeabilização do solo resulta, também, na redução da recarga dos aqüíferos, com a diminuição do
volume da água subterrânea. Podem ocorrer problemas nas áreas onde o abastecimento é feito a partir do lençol
subterrâneo, se houver redução da superfície permeável nas áreas de recarga dos aqüíferos.
Outro impacto da impermeabilização do solo é a redução na evapotranspiração da água, com reflexos sobre o
micro-clima: diminuição da umidade do ar; aumento da temperatura.

Mudanças no Regime Hidrológico


Além dos impactos sobre o regime hidrológico, causados pelo desmatamento, pelas alterações no relevo e na
topografia e pela impermeabilização do solo, já comentados, o homem tem provocado mudanças no sistema natural
de escoamento da água, através de atividades, tais como: barramentos; alterações nos trajetos de cursos d’água;
aterros; construção de sistemas de drenagem; transposição de bacias.
Essas alterações têm resultado em muitos impactos negativos, destacando-se:
• Problemas de drenagem de águas pluviais.
• Ocorrência de inundações, com seus conseqüentes danos sociais e econômicos.
• Inundação de vegetação, com prejuízos à flora e à fauna.
• Inundação de áreas de valor econômico, social, histórico, cultural, arqueológico ou ecológico.
• Modificações das atividades das populações afetadas. O enchimento de um reservatório, por exemplo, provoca
a remoção da população da área, com impactos sob os aspectos sócio-econômicos e culturais.
• Impactos sobre a vida aquática, devido às regularizações de vazões ou às mudanças nos regimes de escoamento
da água. Peixes e outros organismos aquáticos, adaptados a determinadas vazões ou regimes de escoamento,
podem ser afetados quando se efetuam modificações nessas características de um manancial.
• Problemas de eutrofização e redução do teor de oxigênio dissolvido na água, provocados pela decomposição da
vegetação inundada, com reflexos sobre a vida aquática.
• Diminuição da fertilidade dos terrenos marginais aos cursos d’água, quando se reduzem as áreas de cheias, por
barramentos e regularizações de vazões.
• Proliferação de insetos e moluscos, vetores de doenças, nas águas empoçadas ou armazenadas.
• Impactos sobre o micro-clima: evaporação, evapotranspiração, umidade do ar, temperatura.
• Problemas ambientais (poluição) ocasionados pelos diversos usos da água.
Como se observa, são muitos os impactos que podem resultar das atividades humanas que provocam altera-
ções no regime hidrológico, havendo necessidade de que os mesmos sejam previamente identificados e avaliados,
antes da execução de obras hidráulicas.

Modificações ou Destruição de Ecossistemas


Muitos ecossistemas importantes têm sido alterados pelo homem, resultando em graves problemas ambie n-
tais.
Entre esses ecossistemas, destacam-se: florestas e outras formas de cobertura vegetal, oceanos, lagos e lago-
as, rios e riachos, manguezais, dunas, estuários, alagados e pântanos, restingas, falésias, recifes.
Cada ecossistema tem suas características próprias, as quais precisam ser conhecidas e preservadas, de forma
a manter o necessário equilíbrio.
As atividades do homem, geralmente, provocam impactos negativos sobre os ecossistemas, muitos deles já
comentados. Como conseqüência das alterações realizadas pelo homem, podem ocorrer: danos à flora e à fauna;
desequilíbrios ecológicos; prejuízos às atividades sociais, econômicas e culturais; modificações no regime hidro-
lógico; alterações climáticas; desfiguração da paisagem; desvalorização de áreas.
Como já foi ressaltado, em um ecossistema existe um relativo equilíbrio e uma modificação nele introduzida
pode desencadear uma série de outras alterações, gerando um processo de desequilíbrio ecológico, com prejuízos
para esse meio e para a biosfera como um todo.

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Poluição Ambiental
A poluição resulta do lançamento ou liberação, em um ambiente, de matéria ou energia, em quantidade ou in-
tensidade tais que o tornem impróprio às formas de vida que ele normalmente abriga, ou prejudiquem os seus usos.
A definição legal de poluição (Lei Nº 6.938, de 31 de agosto de 1981 — Política Nacional do Meio Ambie n-
te) é: “degradação da qualidade ambiental resultante de atividades que direta ou indiretamente:
1. prejudiquem a saúde, a segurança e o bem-estar da população;
2. criem condições adversas às atividades sociais e econômicas;
3. afetem desfavoravelmente a biota;
4. afetem as condições estéticas ou sanitárias do meio ambiente;
5. lancem matérias ou energia em desacordo com os padrões ambientais estabelecidos.
Poluição tem, portanto, um sentido amplo, não se restringindo somente à ocorrência de doenças no homem.
Qualquer alteração de um ambiente (ar, água, solo), que resulte em prejuízos aos organismos vivos ou prejudique
um uso previamente definido para ele, é considerado poluição.
Faz-se a distinção entre poluição e contaminação. Um ambiente está contaminado quando o seu estado de
poluição pode provocar doenças no homem. Nem sempre a poluição, no seu sentido amplo, significa riscos de
transmissão de doenças. A contaminação, no entanto, está associada às doenças que o ambiente pode ocasionar.
O homem causa a poluição ambiental pelo lançamento de resíduos de seu próprio processo biológico (deje-
tos), ou resultantes de suas atividades nas formas sólida (lixo), líquida (esgotos), gasosa ou de energia (calor, som,
radioativa). Ao lançar esses resíduos no solo, no ar ou na água, ele provoca alterações que podem ser caracteriza-
das como poluição, ou seja, serem prejudiciais ao homem, a outros seres e aos usos do recurso ambiental.
São várias as modalidades de poluição, destacando-se: do solo, da água, do ar, sonora. Existem outros tipos,
que são citados na bibliografia especializada: poluição térmica, poluição visual, poluição radioativa etc.
Como conseqüências da poluição ambiental, podem ser enumeradas:
• Prejuízos à saúde humana (transmissão de doenças).
• Danos à flora e à fauna.
• Prejuízos materiais.
• Prejuízos às atividades sociais, econômicas e culturais.
• Desfiguração da paisagem.
• Desvalorização de áreas.

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Bibliografia
• Anuário Estatístico do Brasil. IBGE, Centro Editorial. Rio de Janeiro, 1992.

• Atlas do Meio Ambiente do Brasil. EMBRAPA, Ed. Terra Viva. Brasília, 1994.

• Branco, S.M., Rocha, A.A. Elementos de Ciências do Ambiente. CETESB/ACETESB. São Paulo, 1987.

• Cunningham, W.P., Saigo, B.W. Environmental Science: A Global Concern. 4th Edition. WCB — Wm. C.
Brown Publishers. Dubuque, 1997.

• Graziano Neto, F. Questão Agrária e Ecologia. 3ª edição. Editora Brasiliense. São Paulo, 1986.

• Kupchella, C.E., Hyland, M.C. Environmental Science: Living Within the System of Nature. 3rd Edition.
Prentice Hall. New Jersey, 1993.

• Miranda, P.T.C., Nóbrega, R.M.N.A. O que é manguezal. 1ª edição. SEMACE. Fortaleza, 1992.

• Mota, S. Introdução à Engenharia Ambiental. 1ª edição. ABES/ABEAS. Rio de Janeiro, 1997.

• Relatório de Desenvolvimento Humano 1999 da ONU.

• Silva Júnior, C. da, Sasson, S. Biologia. Volume 3. 3ª edição. Atual Editora LTDA. São Paulo, 1981.

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