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VIII CONGRESSO BRASILEIRO DE REFRIGERAÇÃO,

VENTILAÇÃO E CONDICIONAMENTO DE AR

PROJETO DE CLIMATIZAÇÃO POR RESFRIAMENTO EVAPORATIVO PARA O


CENTRO COMUNITÁRIO DA UNIVERSIDADE DE BRASÍLIA

João M. D. Pimenta* e Wagner P. de Castro

Universidade de Brasília, Campus Universitário Darcy Ribeiro, Faculdade de Tecnologia -


Bloco C, Departamento de Engenharia Mecânica, Asa Norte, Brasília, DF,CEP 70910-900

Resumo. O presente artigo está relacionado ao projeto de um sistema de resfriamento


evaporativo por microaspersão para climatização ambiental do Centro Comunitário da
Universidade de Brasília. Inicialmente, aspectos construtivos, de ocupação e orientação
do recinto são caracterizados. Em seguida, uma metodologia para cálculo da carga de
resfriamento do local durante o dia de verão 21 março, obtido dos dados climáticos do
Ano Teste de Referência (TRY) de Brasília, é apresentada. A componente da carga de
resfriamento devido à radiação no teto em lona foi analisada de forma particular. Uma
discretizaçao numérica da superfície da lona em elementos triangulares e a aplicação de
um balanço de energia em cada parte discreta da superfície foram realizadas a fim de
quantificar o fluxo de calor através de toda a lona. A determinação do sistema de
resfriamento evaporativo baseou-se no pico de carga de resfriamento obtido durante o
dia. Os resultados obtidos mostraram que cerca de 6 % da carga resfriamento sensível do
Centro Comunitário é devido ao ganho de calor por radiação no teto em lona. Alem disso,
observou-se que o sistema evaporativo já existente está mal dimensionado.

Palavras chave: Climatização, Resfriamento Evaporativo, Microaspersores.

1. Introdução

O resfriamento evaporativo é um processo natural que consiste na redução da


temperatura do ar e elevação de sua umidade relativa através de mecanismos
simultâneos de transferência de calor e massa entre o ar e a água. Atualmente os
sistemas de resfriamento evaporativo têm encontrado aplicação nos mais diferentes
campos da engenharia tais como: manutenção de conforto térmico em grandes espaços,
umidificação industrial, resfriamento do ar para turbinas a gás e climatização de aviários.
Quanto à climatização de ambientes, vários estudos envolvendo a aplicação do
resfriamento evaporativo, foram realizados. Em relação ao condicionamento do ar para
grandes ambientes industriais ou comerciais abertos, envolvendo cargas térmicas
elevadas, verificou-se que a utilização de sistemas evaporativos é altamente
recomendável. Estas condições impõem restrições ao uso de sistemas de ar
condicionado convencionais e favorecem o uso do resfriamento evaporativo. Outra
vantagem do uso de sistemas evaporativos para conforto térmico é o fato de apresentar
baixo consumo de energia comparativamente aos sistemas convencionais baseados em
chillers e ter instalação, manutenção e operação simples, sendo facilmente integrável a
sistemas de condicionamento de ar já instalados (Camargo, 2001). Além disso, uma vez
que os sistemas evaporativos trabalham com renovação total do ar, elimina-se a
recirculação e a proliferação de fungos e bactérias, problema comum nos aparelhos de
condicionamento de ar usuais.
*
E-mail: pimenta@enm.unb.br
2. Descrição do Centro Comunitário

O Centro Comunitário Athos Bulcão da Universidade de Brasília é uma edificação


destinada a grandes eventos, como shows e palestras. Trata-se de uma grande tenda
elíptica de aproximadamente 40 m x 80m, composta por perfis, cabos metálicos e uma
lona sintética de cor branca e 0,88 mm de espessura, tensionada em forma de
parabolóides hiperbólicos, que se encontram associados em formato oval, com seis
mastros principais, com ilustrado na Fig. (1). A lona é constituída de poliéster de alta
tenacidade, com acabamento superficial em PVDF, apresentando uma refletividade de
70% e transmissividade e absortividade de 15%. A área de ocupação do local é de cerca
de 37 m x 74 m, comportando, em média, 3000 pessoas sentadas. Contudo, o local
apresenta problemas de sobrecarga térmica e ventilação insuficiente nos períodos de
ocupação. Como é um ambiente totalmente aberto, o que favorece a renovação plena de
ar, e por localizar-se em Brasília, que caracteristicamente apresenta durante o ano
elevadas diferenças entre as temperaturas de bulbo seco e úmido, o uso do sistema
evaporativo para condicionamento do ar do espaço se mostra apropriado.

(a) (b)

Figura1. Centro Comunitário da UnB. (a) Vista interna do Centro. (b) Vista parcial externa
da superfície da lona.

A partir de um balanço térmico aproximado, é calculada a carga de resfriamento


horária da edificação, levando-se em conta aspectos construtivos, de ocupação e
climáticos do local, o qual foi baseado no Ano Teste de Referência (TRY) para Brasília.
Houve uma atenção especial na abordagem do teto em lona, visto que se trata de uma
geometria peculiar, com grande superfície exposta à radiação solar. Com base na
determinação do pico de carga de resfriamento máxima no período considerado, é
dimensionado o sistema evaporativo por microaspersão para climatização de todo o
espaço coberto pela tenda.

3. Modelamento do Teto em Lona

3.1 Discretização da Lona

Para simular as trocas de calor entre a lona do Centro Comunitário e suas vizinhanças,
uma discretização de sua superfície em uma rede de pequenos elementos triangulares
planos, como mostra a Fig. (2), foi realizada.
Figura 2. Modelamento computacional do teto em lona do Centro Comunitário da UnB.

O processo de renderização numérica resultou em uma malha não uniforme de 1914


elementos triangulares com coordenadas no espaço definidas, como mostrado na Fig. (3).

Figura 3. Discretização da lona em elementos triangulares.

Para cada elemento triangular isolado, foi então calculado valores horários da radiação
solar direta, difusa e incidente total, através da implementação computacional do
algoritmo de cálculo da radiação solar incidente (McQuiston e Spitler, 1992), ajustados
para a condição de latitude (15o52’) e longitude (47o55’) de Brasília.

3.2 Balanço de Energia

Para simplificar a análise de transferência de calor na lona, foram feitas as


seguintes considerações: (1) transferência de calor na lona em regime permanente; (2)
capacidade térmica da lona negligenciável; (3) escoamento externo de ar sobre a lona é
aproximado para escoamento externo sobre uma placa plana aquecida; (4) escoamento
interno de ar sobre a lona é aproximado para escoamento em uma superfície inferior
aquecida; (5) transferência de calor radiante entre cada elemento discreto da lona e o piso
é considerado como troca radiante entre um pequeno objeto e uma grande superfície
isotérmica que o envolve. Com base nas considerações descritas acima, a Fig. (4) mostra
os fluxos de energia presentes em um elemento triangular da lona discretizada.
Figure 4. Balanço de energia num elemento triangular da superfície da lona discretizada.

Dessa forma, o princípio da conservação de energia nos fornece o balanço dos fluxos
de calor,

α I t + α sk I sk − E − qconv
''
, o − qconv , i − qrad = 0
'' "
(1)

onde α I t e α sk I sk são, respectivamente, a radiação absorvida pela superfície a partir da


radiação solar incidente e da radiação do ambiente, enquanto que E é fluxo total radiante
'' '' ''
emissivo da superfície e qconv ,o , qconv ,i e qrad correspondem ao fluxo total convectivo

interno e externo à superfície e fluxo de calor radiante entre a superfície e o piso. Os


coeficientes α e αsk são, respectivamente, absortividade da superfície exterior da lona
para o espectro de radiação solar e do céu, respectivamente, os quais foram
considerados com tendo o mesmo valor de 0,15.
No balanço de energia, a radiação ambiente do céu é definida por (Incropera et.al,
1998),

I sk = σ Tsk4 (2)

enquanto que a emissão da superfície externa da lona é dada por,

E = εσ Tsu4 (3)

onde ε é emissividade da superfície (cerca de 0,1) e σ é a constante de Stefan-


Boltzamann (5,67×10-8 W/m2.K4).
Sobre a superfície externa e interna da lona, a condição de fluxo de calor convectivo
livre é assumido, sendo dado por,

, o = ho ⋅ (Tsu − To )
"
qconv (4)
e
, i = hi ⋅ (Tsu − Ti )
"
qconv (5)

onde To e Ti são, respectivamente, as temperatura de bulbo seco ambiente e interna.


Como os dados climáticos (TRY) de Brasília, a serem utilizados nas simulações,
apresentam uma temperatura de bulbo seco externa entre 10 e 35 oC e de velocidade
entre 0 e 15m/s, então o escoamento do ar externo e interno são considerados laminares.
Daí, levando-se em conta as considerações “3” e “4”, e adotando um comportamento
aproximado para a análise de transferência de calor, os coeficientes de transferência de
calor médios para as trocas convectivas externa e interna, ho e hi , podem ser obtidas das
correlações empíricas seguintes (Incropera et. al, 1998),

ho = 0,664 ⋅ L−c 1 ⋅ ko ⋅ Re1/ 2 ⋅ Pr1/ 3 (Pr ≥ 0,6) (6)


e
hi = 0,27 ⋅ ( w / 2) −1 ⋅ ki ⋅ Ra1L/ 4 (105 ≤ Ra L ≤ 1010 ) (7)

onde Lc e w são comprimento e largura do elemento de superfície triangular da lona,


respectivamente, com Re, Pr e RaL os números de Reynolds, Prandtl e Rayleigh.
A transferência de calor radiante entre a superfície interior da lona e o piso do Centro
Comunitário é (de acordo com a consideração “5”) dada por (Incropera et. al, 1998),

"
qrad = ε ⋅ σ ⋅ (Tsu4 − T f4 ) (8)

onde Tf é a temperatura do piso, assumida igual à temperatura interna do ambiente.


Introduzindo as Eqs.(2-5;8) na Eq. (1) e rearranjando os termos, chega-se a,

a ⋅ Tsu4 + b ⋅ Tsu + c = 0 (9)

onde os coeficientes a, b e c são dados por: a = 2εσ , b = ho + hi e


c = −α I t − εσ (Tsk4 + T f4 ) − hoTo − hiTi . A Eq. (9) pode ser resolvida para encontrar a
temperatura na superfície da lona do Centro Comunitário ( Tsu ).

4. Carga de Resfriamento

4.1 Carga de Insolação

A introdução da Eq. (9) na Eq. (5), torna possível calcular o fluxo de calor
convectivo para o ar abaixo do elemento de superfície, q " . A repetição desse
procedimento para todos os elementos triangulares da lona permite integrar para toda a
superfície do Centro Comunitário, por meio de,

Q& Lona = ∫ q " ⋅ dA (10)


A

fornecendo o ganho de calor do local horário ou carga de insolação ( Q& Lona ) devido à
grande área de teto em lona exposta à radiação solar.

4.2 Carga Interna

A geração interna de calor no Centro Comunitário foi baseada no calor sensível e


latente liberados pelos ocupantes. O calor sensível e latente liberado por pessoa é de 75
e 55 W, respectivamente, (Ashrae, 1989). Como o local comporta, em média, 3000
pessoas, o calor sensível e latente totais calculados é de 225 e 165 kW. A fonte de
geração interna associada à iluminação foi negligenciada, visto que seu valor é bem
menor que as demais fontes consideradas.

5. Simulação e Resultados

A implementação computacional das Eqs.(1-10), levando-se em consideração a


geração de calor interno devido aos ocupantes, permitiu simular a carga de resfriamento
do Centro Comunitário. As simulações foram realizadas para o dia de verão 21 de março
do Ano Teste de Referência (TRY) em Brasília.
A Fig. (5) mostra as variações diárias nas radiações direta, difusa e incidente total
calculadas para toda as superfície da lona do Centro Comunitário depois da integração
para o dia de simulação considerado. Como esperado, a radiação sobre a superfície
exterior da lona é máxima por volta do meio dia.
3000
total solar radiation incident Brasilia, march 21
direct radiation
2500
difuse radiation
Solar radiation [kW]

2000

1500

1000

500

0
0 5 10 15 20 25
Time [h]

Figura 5. Variação diária na radiação difusa, direta e incidente total para toda superfície
da lona do Centro Comunitário.

De acordo como o modelo apresentado para a transferência de calor em cada


elemento triangular discreto da lona, a temperatura média da superfície foi calculada na
simulação, resultando em um valor máximo em torno de 57 oC. Tal condição está
relacionada com a máxima taxa líquida de transferência de calor através da superfície
interior da lona e do piso, que foi de cerca de 25 kW ás 12h.
A carga de resfriamento total proposta é dada pela soma do ganho de calor devido ao
teto em lona e a geração interna de calor pelos ocupantes. A simulação forneceu um pico
máximo de carga de resfriamento no dia de aproximadamente 415 kW.

6. Projeto do Sistema Evaporativo

Para o propósito desse trabalho, o dimensionamento do sistema partiu, primeiramente,


da especificação do tipo de bicos microaspersores a serem utilizados. Considerando que
a rede de microaspersores será disposta horizontalmente ao piso, a uma altura de 8 m,
adotou-se bicos pulverizadores com 0,2 mm de orifício de saída, que podem fornecer uma
vazão nominal de 4 litros/h por unidade (Prime Tech) e são capazes de lançar gotículas
finíssimas de água (10 micra de diâmetro) em suspensão no ar, as quais apresentam
evaporação facilitada. Em seguida, o número de microaspersores, assim como a bomba
que alimenta toda a rede do sistema evaporativo é determinada com base na vazão de
água a ser pulverizada no ar.
Para o pico de carga de resfriamento obtido da simulação, uma vazão mássica de
água a ser borrifada no ambiente de cerca de 608 kg/h foi calculada, considerando a
entalpia latente da água. Requeriu-se, portanto, uma rede de microaspersão com 150
bicos microaspersores e uma bomba centrífuga de 3,73 kW (5 HP) com uma pressão de
trabalho de 800 PSI (Prime Tech).

7. Conclusões

Com base nos resultados obtidos, conclui-se que o ganho de calor devido á lona é
cerca de 6% da carga de resfriamento total do ambiente. Além disso, o número de bicos
microaspersores encontrados é cerca de 50% maior que o já existente, o que sugere um
dimensionamento inadequado do sistema evaporativo presente atualmente no Centro
Comunitário. Entretanto, algumas melhorias na técnica proposta nesse artigo são ainda
necessárias. A declividade de cada elemento triangular sobre a transferência de calor
convectivo abaixo da lona deve ser considerada. Além disso, um modelamento da
transferência de calor e massa nas gotas de água borrifadas no ar ambiente, pode
fornecer uma melhor avaliação da vazão de água necessária para climatizar o ambiente.
Estes aspectos serão mais bem considerados em estudos futuros sobre o tema.

8. Agradecimentos

Agradecemos a Prime Tech de Brasília pelo suporte obtido quanto ao


dimensionamento do sistema evaporativo por bicos microaspersores.

9. Referências Bibliográficas

Ashrae, 1989, Ashrae Handbook Fundamentals-SI, American Society of Heating,


Refrigerating and Air Conditioning Engineers, Inc., Atlanta, USA.
Carmargo, J.R.and Ebinuma, C.D.,2001, “Resfriamento Evaporativo: Poupando a Energia
e o Meio Ambiente”, Jornada de Iniciação Científica e de Pós-Graduação, Unesp/FEG.
Incropera, F.P. and Dewitt, D.P., 1998, “Fundamentals of Heat and Mass Transfer”, Ed.
LTC, Rio de Janeiro, Brazil.
Joudi, K.A. and Mehdi, S.M., 2000, “Application of Indirect Evaporative Cooling to Variable
Domestic Cooling Load”, Energy Conversion and Management, Vol. 41, pp. 1931-
1951.
McQuiston, F.C. and Spitler, J.D., 1994, “Cooling and Heating Load Calculation Manual”,
American Society of Heating, Refrigerating and Air-Conditioning Engineers.
Watt, J., 1984, “Evaporative Air Conditioning Handbook”, Ed. Routledge, Champman and
Hall, New Yorq, United States.