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INSTITUTO SUPERIOR MONITOR

EMPREENDEDORISMO

Unidade IV

EMPREENDEDORISMO EM MOÇAMBIQUE

Instituto Superior Monitor


ABRIL 2011
2 UNIDADE IV – EMPREENDEDORISMO EM MOÇAMBIQUE

Ficha Técnica:

Título Empreendedorismo - Empreendedorismo em Moçambique


Autor: Ali Amade
Revisor: Tânia Cristina Fafetine
Execução gráfica e paginação: Instituto Superior Monitor
1ª Edição: 2011
© Instituto Superior Monitor

Todos os direitos reservados por:

Instituto Superior Monitor


Av. Samora Machel, nº 202 – 2.º Andar
Caixa Postal 4388 Maputo
MOÇAMBIQUE

Nenhuma parte desta publicação pode ser reproduzida ou


transmitida por qualquer forma ou por qualquer processo,
electrónico, mecânico ou fotográfico, incluindo fotocópia ou
gravação, sem autorização prévia e escrita do Instituto Superior
Monitor. Exceptua-se a transcrição de pequenos textos ou passagens
para apresentação ou crítica do livro. Esta excepção não deve de
modo nenhum ser interpretada como sendo extensiva à transcrição
de textos em recolhas antológicas ou similares, de onde resulte
prejuízo para o interesse pela obra. Os transgressores são passíveis
de procedimento judicial
EMPREENDEDORISMO

Índice
INTRODUÇÃO ................................................................................................................. 5
ESTRUTURA DA UNIDADE IV .................................................................................... 6
CONTEXTUALIZAÇÃO ................................................................................................. 6
RESULTADOS DE APRENDIZAGEM DA UNIDADE IV ........................................... 7

UNIDADE IV – EMPREENDEDORISMO EM MOÇAMBIUE 7


CAPÍTULO I – EMPREENDEDORISMO EM MOÇAMBIQUE ................................... 7
OBJECTIVOS ESPECÍFICOS DO CAPÍTULO .................................................... 7
1.1 BREVE PERSPECTIVA HISTÓRICA ............................................................. 8
1.2 VARIÁVEIS QUE CONTRIBUEM PARA O DESENVOLVIMENTO DO
EMPREENDEDORISMO EM MOÇAMBIQUE ................................................... 8
1.3 CARACTERÍSTICAS DO EMPREENDEDOR MOÇAMBICANO ............. 11
1.4 CLASSIFICAÇÃO DOS EMPREENDEDORES ........................................... 12
1.5 OS SECTORES PARA EMPREENDER ........................................................ 13
QUADRO SINÓPTICO ......................................................................................... 14
TRABALHO PRÁTICO ........................................................................................ 15
CAPÍTULO II – O FRANCHISING ................................................................................ 16
OBJECTIVOS ESPECÍFICOS DO CAPÍTULO: ................................................. 16
2.1 HISTÓRIA DO FRANCHISING .................................................................... 16
2.2 ETIMOLOGIA DO TERMO ........................................................................... 17
2.3 TERMINOLOGIAS DO SISTEMA DE FRANCHISING ............................... 17
2.4 TIPOS DE FRANCHISING ............................................................................. 17
2.5 MODALIDADES DO FRANCHISING ........................................................... 18
2.6 VANTAGENS E DESVANTAGENS DO FRANCHISING ........................... 20
2.6.1 VANTAGENS DO FRANCHISING ................................................... 20
2.6.2 DESVANTAGENS DO FRANCHISING............................................ 21
2.7 EMPREENDER VIA FRANCHISING EM MOÇAMBIQUE ........................ 22
2.7.1 AS DIFERENTES MODALIDADES DE FRANCHISING EM
MOÇAMBIQUE .......................................................................................... 22
2.7.2 TAXAS A PAGAR ............................................................................. 23
2.7.3 FRANCHISING VERSUS NEGÓCIO INDEPENDENTE ................. 23
QUADRO SINÓPTICO ......................................................................................... 25
TRABALHO PRÁTICO ........................................................................................ 26
CAPÍTULO III – A SOCIEDADE EMPREENDEDORA ............................................. 27
OBJECTIVOS ESPECÍFICOS DO CAPÍTULO: ................................................. 27
3.1 INTRODUÇÃO ............................................................................................... 27
3.2 A VISÃO DO GOVERNO .............................................................................. 28
3.3 EMPREENDEDORISMO E CULTURA ........................................................ 29
3.4 EDUCAÇÃO EM EMPREENDEDORISMO ................................................. 30
QUADRO SINÓPTICO ......................................................................................... 34
TRABALHO PRÁTICO ........................................................................................ 35
CAPÍTULO IV: CASOS DE SUCESSO ........................................................................ 36
OBJECTIVOS ESPECÍFICOS DO CAPÍTULO .................................................. 36
4.1 INTRODUÇÃO ............................................................................................... 36

3
4 UNIDADE IV – EMPREENDEDORISMO EM MOÇAMBIQUE

4.2 PROBLEMAS ENFRENTADOS E CAUSA DAS MORTES DE


EMPRESAS RECÉM CRIADAS .......................................................................... 36
4.3 CASOS DE SUCESSO .................................................................................... 37
4.3.1 ROBERTO MUNHEMESE ................................................................ 37
4.3.2 ARMANDO MANGUELE ................................................................. 38
BIBLIOGRAFIA ............................................................................................................. 41
EMPREENDEDORISMO

INTRODUÇÃO
Caro Estudante,
Seja Bem-vindo(a) à unidade IV da disciplina de Empreendedorismo
Para ter sucesso nesta unidade necessita de estudar com atenção todo o manual, não
deixando de rever as unidades anteriores. Para complementar os seus conhecimentos
recomenda-se que realize uma leitura pelos recursos auxiliares recomendados ao longo
desta unidade, não só pela bibliografia indicada como pelos websites sugeridos. Para aceder
a outras bibliotecas faça-se acompanhar do seu cartão de estudante.
A biblioteca virtual do ISM inclui livros digitalizados, artigos, websites e outras referências
importantes para esta e outras disciplinas, que deverá utilizar na realização de casos práticos.
A biblioteca virtual pode ser consultada em biblioteca.ismonitor.ac.mzO aluno pode ainda
recorrer a outras bibliotecas virtuais, como por exemplo em:
www.saber.ac.mz
www.books.google.com
Recomenda-se que o aluno não guarde as suas dúvidas para si e que as apresente ao tutor,
sempre que achar pertinente. Recomenda-se que entre em contacto com o respectivo tutor,
caso ainda não tenha o contacto do mesmo poderá obtê-lo através do site:
www.ismonitor.ac.mz ou através da página facebook: https://www.facebook.com/ismonitor/.
Os exercícios práticos têm como objectivo a consolidação do conhecimento dos temas
apresentados nesta unidade. O Instituto Superior Monitor fornece as soluções de muitos
desses exercícios de forma a facilitar o processo de aprendizagem, mas atenção caro
estudante, você deve resolver os exercícios de auto-avaliação antes de consultar as
soluções fornecidas. No final desta unidade encontra-se o teste de avaliação. A avaliação
deve ser submetida ao Instituto Superior Monitor até 30 (trinta) dias após a recepção da
unidade. A avaliação da unidade pode ser submetida por e-mail (testes@ismonitor.ac.mz) ou
entrega directa na instituição sede ou centros de recursos. É da responsabilidade do aluno
certificar-se da recepção do teste no exacto número de páginas.
Esta unidade pressupõe que a realização de 37,5 horas de aprendizagem, distribuídas da
seguinte forma:
 Tempo para leituras da unidade: 22 horas;
 Tempo para trabalhos de pesquisa: 5 horas;
 Tempo para realização de exercícios práticos: 8,5 horas;
 Tempo para realizar avaliações: 2 horas.
A presente unidade é válida por 12 (doze) meses. Os estudantes que não tenham obtido
aproveitamento na disciplina (por terem interrompido o curso ou reprovado) devem
contactar o Instituto Superior Monitor. Esta recomendação deve-se ao facto de os materiais
serem periodicamente revistos e actualizados, de forma a se adaptarem às mudanças do
mundo actual e às dinâmicas da produção de conhecimento no seio da própria disciplina.

5
6 UNIDADE IV – EMPREENDEDORISMO EM MOÇAMBIQUE

ESTRUTURA DA UNIDADE IV
A unidade é composta por três (4) grandes capítulos e visa dotar os estudantes de
conhecimentos indispensáveis para a sua formação empreendedora.
O primeiro capítulo fornece aos estudantes, um conjunto de elementos sobre o
empreendedorismo em Moçambique. Faz-se uma breve perspectiva histórica, dá-se a
conhecer as variáveis que contribuem e que inibem o empreendedorismo em
Moçambique. Apresenta-se as características e a classificação dos empreendedores
moçambicanos e quais os sectores para empreender.
No segundo capítulo, os estudantes tomam conhecimento sobre uma alternativa cada vez
mais utilizada no que respeita ao empreendedorismo - o Franchising. Dá-se a conhecer os
seus tipos, modalidades, vantagens e desvantagens, e faz-se uma comparação entre esta
alternativa e o negócio independente.
O terceiro capítulo incide sobre a sociedade empreendedora. Dá-se a conhecer a visão do
governo sobre o empreendedorismo, a relação entre empreendedorismo e cultura e
discute-se a necessidade e importância da implantação de um sistema de educação voltado
para a formação de empreendedores.
O quarto e último capítulo versa sobre os casos de sucesso em empreendedorismo no
nosso país. Inicia com as principais dificuldades e causas das mortes de empresas recém
criadas para terminar com alguns exemplos de homens que ousaram e tiveram
determinação para lutar pelos seus sonhos.
O enfoque na leccionação teórica e prática dos capítulos que constituem esta unidade
continua a ser no desenvolvimento e aperfeiçoamento de uma capacidade prática dos
estudantes, para a análise e resolução de casos concretos neste domínio.

CONTEXTUALIZAÇÃO
Grande parte do que foi ensinado nas unidades anteriores versou essencialmente sobre
aspectos que retratam realidades diferentes da de Moçambique. Pretende-se nesta unidade,
retratar o contexto moçambicano e suas características particulares.
A ênfase na realidade actual é importante pois permite que o estudante esteja
minimamente inteirado do que se passa á sua volta no que toca ao empreendedorismo.
Infelizmente e por razões que se prendem com a falta de informações, não foi possível
trazer uma unidade mais rica. Por essa razão, não se deve considerá-la como completa,
profunda e terminada mas, espera-se que a mesma sirva de inspiração e possa suscitar um
debate que se pretende enriquecedor sobre a actividade empreendedora no país.
EMPREENDEDORISMO

RESULTADOS DE APRENDIZAGEM DA UNIDADE IV

Ao concluir o estudo dos temas desta unidade, denominada “Empreendedorismo em


Moçambique”, os estudantes serão capazes de:

 Entender a evolução do empreendedorismo desde a altura da independência até os nossos


dias;
 Identificar as variáveis que contribuem e inibem o empreendedorismo em Moçambique;
 Relacionar cultura e empreendedorismo;
 Apontar os traços específicos do empreendedor moçambicano;
 Conceituar o franchising e compreender a sua importância no desenvolvimento da
actividade empreendedora;
 Perceber a importância da educação empreendedora;
 Diferenciar e caracterizar um negócio via franchising e um independente.
 Conhecer casos de sucesso em Moçambique

UNIDADE IV – EMPREENDEDORISMO EM MOÇAMBIUE

CAPÍTULO I – EMPREENDEDORISMO EM MOÇAMBIQUE

OBJECTIVOS ESPECÍFICOS DO CAPÍTULO

Findo este capítulo o estudante será capaz de:


1. Perceber as raízes do empreendedorismo em Moçambique;
2. Identificar as variáveis que contribuem para o desenvolvimento do empreendedorismo em
Moçambique;
3. Caracterizar o empreendedor moçambicano;
4. Classificar o empreendedor moçambicano;
5. Identificar os sectores de actividade para empreender

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8 UNIDADE IV – EMPREENDEDORISMO EM MOÇAMBIQUE

1.1 BREVE PERSPECTIVA HISTÓRICA1


Entre 1974 e 1983 Moçambique assistiu a profundas alterações no panorama político e
económico. Com a tomada do poder pela Frelimo (Frente de Libertação de Moçambique),
houve uma fuga massiva de colonos que levaram consigo os conhecimentos técnicos e de
gestão, criando uma grande quebra em todos os sectores da economia. Por força da ideologia
adoptada (o socialismo) houve um processo de nacionalização das empresas e criação de
estruturas colectivistas.
Apesar do esforço empreendido para manter estas empresas muitas delas fecharam as portas
pois não havia capacidade técnica para as manter operacionais. Neste período, só as empresas
estatais usufruíam de proteccionismo político, sendo os seus gestores políticos e militares
apoiados pela elite do estado no poder. As empresas privadas que se conseguiram manter
eram geridas por brancos ou indianos, sempre com níveis baixos de investimento e
exportação de lucros para o estrangeiro.
A partir dos meados da década de 80, iniciou-se um processo para inversão desta situação.
Com os níveis de produção e comércio muito em baixos, optou-se por abrir o mercado à
iniciativa privada e ao investimento estrangeiro, facto que contribuiu para o crescimento do
sector informal. Passou-se então de uma economia centralmente planificada para uma
economia de mercado, onde o Estado deixa de ser agente produtor, passando a ser apenas
facilitador e regulador da actividade económica.
É a partir deste momento que se pode falar de empreendedorismo em Moçambique. Lado a
lado com os estrangeiros, os moçambicanos começaram a intervir na produção e no comércio
de acordo com as oportunidades que iam surgindo, com maior realce na área de construção
civil. Os ex-combatentes com base no seu capital político, de conhecimento e de informação,
tiveram acesso a linhas de crédito significativas e em condições muito favoráveis, o que lhes
permitiu investir na economia informal de comércio e de transportes. Algumas mulheres
conseguiram também ocupar lugares importantes, umas pelo seu capital de conhecimentos,
outras pela sua inserção em redes sociais, em cooperativas, muitas através de iniciativas no
comércio informal.
Desde então, embora de forma tímida, as iniciativas empreendedoras foram se multiplicando
nas mais diversas áreas sendo que hoje estas acções ocupam lugar de destaque na economia
moçambicana e são estimuladas quer através de políticas públicas, quer através de iniciativas
privadas.

1.2 VARIÁVEIS QUE CONTRIBUEM PARA O DESENVOLVIMENTO DO


EMPREENDEDORISMO EM MOÇAMBIQUE
Em quase todos os países a volta do mundo, os governos têm procurado
encorajar o empreendedorismo e Moçambique não é excepção. No âmbito
do programa de combate a pobreza absoluta definido pelo governo as
acções empreendedoras tem sido estimuladas como forma de combater o
desemprego e alavancar o desenvolvimento económico. Várias são as
variáveis que contribuem para o desenvolvimento do empreendedorismo
(Aboobakar, 2006):

1
Para mais detalhes vide Feliciano (1994)
EMPREENDEDORISMO

1. Factores económicos
a) Produto Interno Bruto (PIB)
A evolução do PIB resulta do comportamento passado e influencia o comportamento futuro
dos agentes económicos. O crescimento sustentado do PIB induz à maiores níveis de
investimento e consumo privado, à abertura e alargamento de mercados e, à identificação de
oportunidades de negócio, o decréscimo deste gera redução da procura de bens e serviços,
veda oportunidades de negócios e, por consequência, a diminuição da dinâmica
empreendedora.
Moçambique tem registado nos últimos anos e, apesar da crise financeira internacional, um
desempenho económico satisfatório. O crescimento do PIB tem se situado em média nos 7%.
De 2002 a 2004, o PIB cresceu cerca de 7,4% valor que se situa acima da média da região da
África Austral (4,2%). Grande parte deste crescimento é resultado da actuação dos mega
projectos como a Mozal e o Gás de Pande (Sasol). (Jornal O País)
Este crescimento favorece o crescimento do empreendedorismo através da criação de novas
oportunidades de negócio, como é o caso de serviços de outsorcing nas áreas de limpeza e
alimentação que os referidos mega projectos requisitam. A Vale do Rio Doce e a Riversdale
na província de Tete, a Kenmare no projecto de áreas pesadas de Moma são também
referências muito positivas no que toca ao favorecimento do desenvolvimento do
empreendedorismo pois tem provocado e em grande medida, o surgimento e
desenvolvimento de pequenas e médias empresas que fornecem serviços para elas nas mais
diversas áreas.
b) Taxa de Inflação
Apesar da subida de preços que se verifica nos últimos tempos e que é resultado directo da
crise mundial, a taxa de inflação acumulada de Moçambique no período anterior a crise era
aceitável.
Em Dezembro de 2004 esta taxa situou-se em 9,3 %, valor inferior em 2,1 pontos percentuais
a observada no período homólogo de 2003. Para esta desaceleração contribuíram factores
como o bom desempenho da economia, a estabilidade do metical, a oferta regular de produtos
alimentares e a apreciação do metical face ao rand e ao dólar americano que muito
contribuíram para a estabilidade dos preços dos bens importados.
O mundo inteiro está a braços com uma crise que faz lembrar a de 1929 e 1930. No entanto,
existe um velho ditado que diz que é no meio das crises que surgem as verdadeiras
oportunidades. É preciso estar de olhos bem abertos.
c) Taxas de juro
Taxas de juro baixas proporcionam ao empreendedor maior confiança e tornam o mercado
mais atractivo para o negócio. As taxas activas e passivas em moeda nacional no período
anterior a crise apresentavam uma trajectória decrescente iniciada em 2001. Esta tendência
decrescente constitui, de certo modo, um atractivo para novos investimentos, pois tornam a
estrutura de custos da empresa mais sustentável, embora ainda se considere que as taxas em
vigor sejam proibitivas.
d) Processos administrativos
O relatório “Doing Business” citado pelo jornal Noticias afirma que Moçambique é um dos
piores países para se fazer negócios devido a burocracia e a corrupção existente. Numa lista

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10 UNIDADE IV – EMPREENDEDORISMO EM MOÇAMBIQUE

de cerca de 155 países, Moçambique ocupou em 2006 o 110º lugar tendo vindo desde então a
melhorar como resultado da reforma do sector público encetada pelo governo. O objectivo é
reduzir a burocracia actualmente existente e tornar a tramitação dos processos mais célere.
A burocracia e a corrupção constituem um grande entrave ao desenvolvimento do país pois
desencorajam a abertura de mais empresas bem como atitudes empreendedoras. Por essa
razão, a redução das barreiras administrativas tem sido um dos pontos mais debatidos
actualmente em Moçambique.
e) Desemprego
As estatísticas relativas ao desemprego são muito poucas existindo uma grande escassez de
dados sobre a matéria. Entretanto, sabe-se que a taxa de desemprego em Moçambique é
muito elevada. Dados de 2005 do Instituto Nacional de Estatística apresentados no jornal
Notícias mostram que a taxa de desemprego era de aproximadamente 18% da população
activa dos quais 18% eram do sexo feminino. Esta situação faz com que muitas pessoas para
conseguirem sobreviver optem pelo auto-emprego.
Embora o desemprego possa estimular o empreendedorismo, o empreendedor deve estar
devidamente preparado para entrar no mercado com sucesso.
f) Incentivos de mercado
Incentivos de mercado são as novas necessidades sociais que o empreendedor pode tentar
satisfazer de novas maneiras. São novas oportunidades que surgem e que desenvolvem o
empreendedorismo. O transporte de passageiros é o caso mais visível destes incentivos. Com
a abertura do sector aos operadores privados, muitos empreendedores aderiram e daí surgiram
os transportes semi colectivos de passageiros vulgo “chapa 100” e os “txopelas”.

2. Factores político-legais
Moçambique atravessa actualmente um período de estabilidade política e tem sido
referenciado como um exemplo de democracia em África. Este facto é muito importante para
a atracção de investimento nacional e estrangeiro.
Outras medidas como reformas no sector público, revisão da lei do trabalho por forma a
torná-la menos humanista e trazendo mais benefícios ao empregadores são apontadas como
aspectos importantes para o desenvolvimento do empreendedorismo no país.
Acontecimentos como a aprovação do novo código comercial, o protocolo comercial da
SADC (Comunidade para o Desenvolvimento da África Austral) e a introdução de medidas
para aumentar a competitividade das pequenas e médias empresas como o Projecto para o
Desenvolvimento Empresarial (PODE) fazem da situação politico legal em Moçambique
propícia para o desenvolvimento do empreendedorismo.
Entretanto, existem também barreiras à actividade empreendedora no país. Algumas de
natureza económica, outras de cunho sócio-cultural (Aboobakar, 2006):
a) Poupança
A maior parte dos moçambicanos não possui um rendimento que os permita fazer alguma
poupança vivendo abaixo da linha da pobreza. O salário mínimo nacional não consegue
satisfazer as necessidades básicas de um cidadão nem permite ter um cabaz de bens e
serviços aceitável. Esta situação pode comprometer a actividade empreendedora pois muitos
que optam pelo empreendedorismo confiam em recursos próprios ou de familiares
descartando o financiamento bancário visto que as taxas de juro são consideradas proibitivas.
EMPREENDEDORISMO

b) Mercado de capitais
A existência de um mercado de capitais desenvolvido é crucial para o desenvolvimento do
empreendedorismo. O problema que muitos empreendedores encarram no início da sua
actividade é a falta de financiamento pela dificuldade de acesso ao crédito e pelas garantias
exigidas.
c) Aversão ao risco
A aversão ao risco é um aspecto que está presente em qualquer indivíduo; em alguns com
mais intensidade que noutros. Do ponto de vista sócio-cultural, a aversão ao risco, o medo
social do fracasso e a recusa no desenvolvimento de carreiras pessoais independentes, são
aspectos muito marcantes na personalidade de muitos moçambicanos. Este facto constitui um
grande bloqueio ao desenvolvimento do empreendedorismo.
d) Cultura de dependência
A maior parte dos moçambicanos são socializados numa estrutura de valores que considera
inserção no mercado de trabalho de forma assalariada. Desde os primeiros anos de idade, as
crianças vêm seus pais irem trabalhar por conta de outrem como médicos, professores,
empregados domésticos, etc. Deste modo, elas crescem naquela realidade e tem as mesmas
ocupações como referência para o seu futuro.
De modo diferente, as crianças de raça indiana que nascem e vivem em Moçambique vêm
seus pais, familiares e amigos a dirigirem negócios. Eles tem como referencia estes modelos e
em tenra idade já demonstram uma certa queda para seguirem estes passos.
O círculo onde a pessoa cresce é determinante para tornar o indivíduo empreendedor pois
como foi dito na primeira unidade, o empreendedorismo é fenómeno cultural.
e) Estabilidade emocional
Ser empreendedor significa muitas vezes, estar apto a ter um rendimento incerto, trabalhar
muitas horas semanais e abdicar da vida pessoal e social para se dedicar ao negócio. As
algemas de ouro (ter um salário no final do mês e um horário de trabalho fixo) fazem com
que muitas vezes os moçambicanos não apostem no empreendedorismo.

1.3 CARACTERÍSTICAS DO EMPREENDEDOR MOÇAMBICANO


Em termos gerais, o empreendedor moçambicano não difere dos empreendedores do resto do
mundo no que toca às suas características e personalidade. No entanto, há certas
particularidades que merecem um destaque especial. Em entrevistas feitas para um estudo,
pôde-se verificar que o empreendedor moçambicano possui as seguintes características
(Aboobakar; 2006):
 Iniciativa: não espera que alguém venha dar-lhe uma ideia ou venha ajudar-lhe a resolver
os seus problemas;
 Auto confiança: acredita naquilo que faz e nas decisões que toma;
 Energia: é preciso muita energia para se lançar novas realizações que exigem muito
esforço no início;
 Optimista e persistente: acredita que poderá vencer quando empreende e, é capaz de
persistir até que os seus objectivos sejam alcançados;

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12 UNIDADE IV – EMPREENDEDORISMO EM MOÇAMBIQUE

 Necessidade de realização: sente uma necessidade de maximizar o seu potencial, de


vencer todos os desafios que lhe aparecem pela frente;
 Determinado e dinâmico: ao implementar suas acções, é bastante determinado em
conseguir os seus objectivos;
 Bem relacionado: tem uma rede de contactos que o ajuda, sempre que necessário, a
atingir os seus objectivos;
 Cria valor para a sociedade: cria empregos, aumenta a produção interna e paga impostos.

A par destas características que são comuns a todos os empreendedores, o empreendedor


moçambicano possui as seguintes particularidades (Aboobakar, 2006):
 Aversão ao risco: a maior parte dos empreendedores moçambicanos prefere apostar em
empreendimentos de serviços de baixo valor de modo a não incorrer grandes perdas caso o
negócio não dê certo. Preferem investir em pequenos negócios com baixo custo de
investimento e baixa rentabilidade, mas que permite ter um nível de rendimento que
possibilite a manutenção no mercado.
 Limitada capacidade de gestão: grande parte dos empreendedores moçambicanos tem
fraca capacidade de gestão e liderança, falta de agressividade nos negócios e hábito de fuga
ao fisco;
 Falta de conhecimentos e habilidades empresariais: muitos empreendedores
moçambicanos têm pouco domínio das habilidades empresariais e de instrumentos
financeiros e fraca capacidade de previsão. Não distinguem lucro de receita, não fazem
amortizações do imobilizado, tem uma política de crédito descuidada, não olham para o ciclo
de caixa, o que rapidamente provoca problemas de descapitalização.
Apesar disto, é cada vez maior o número de empreendedores a ter sucesso no mercado e a
afirmar-se cada vez mais. A chave nestes casos é contar com uma equipa que possui os
conhecimentos básicos de gestão.

1.4 CLASSIFICAÇÃO DOS EMPREENDEDORES


Um estudo levado a cabo, permitiu identificar três faixas ou níveis de empreendedores a
operar em Moçambique (Aboobakar, 2006):
 Micro empreendedor: este empreendedor vê o negócio como uma pequena contribuição
familiar. O negócio é importante, mas o empreendedor não direcciona todas as suas forças
para o sucesso do mesmo;
 Médio empreendedor: está mais interessado no lucro, no crescimento e no sucesso em
relação ao micro empreendedor. Sempre que possível procura inovar como forma de
melhorar os seus produtos e serviços já existentes. No entanto, ele não procura novas
abordagens por as considerar menos seguras;
 Macro empreendedor: está mais envolvido no negócio e prefere investir em grandes
negócios e que aparentam ter retornos altos. Ele vê a sua posição ou seu envolvimento no
negócio como veículo principal para a sua auto realização e tem como objectivo o sucesso e
domínio do mercado onde se encontra.
Cada um à sua maneira, estes empreendedores lutam a cada dia que passa para tornar a sua
vida, dos seus e do país em geral, um pouco melhor.
EMPREENDEDORISMO

1.5 OS SECTORES PARA EMPREENDER


Na escolha do sector de actividade para empreender, é importante ter em atenção critérios
como risco associado, o volume de investimento necessário e a capacidade técnica exigida
(Fafetine, 2009).

1. Agricultura
A agricultura é a base da segurança alimentar (principalmente nas zonas rurais) e de renda
para grande parte da população moçambicana, sendo considerada como a base para o
desenvolvimento do país.
De acordo com dados do Instituto Nacional de Estatística (INE), a agricultura registou em
2007 um crescimento de 8,6% (derivado da produção agrícola, pecuária e silvicultura) com
um volume de negócios na ordem dos 1.908 milhões de meticais, tendo contribuído com
25,9% para o PIB.
Apesar deste importante contributo, o sector continua estruturalmente débil, com fracas infra-
estruturas, baixa produtividade e mercados fragmentados, o que afecta a comercialização dos
excedentes das províncias do norte para as regiões deficitárias do sul que são abastecidas com
maior competitividade a partir da África do Sul.
Com o objectivo de inverter esta situação, o governo tem vindo a implementar um conjunto
de medidas tais como: geração de tecnologias agrárias adaptadas, produção de sementes
melhoradas, intensificação e diversificação da actividade agrária e treino de técnicos locais
especialistas no sector, com resultados já visíveis sobretudo no que toca ao aumento da
produção e da área produtiva.
Entretanto, a dependência em relação ao clima, as dificuldades na obtenção de financiamento
para o sector resultante do facto de a terra ser propriedade do Estado e não poder ser dada
como garantia entre outros constrangimentos fazem com que as perspectivas para o sector
sejam incertas.
Literatura especializada advoga que o desenvolvimento de Moçambique passa
necessariamente pela exploração rentável e sustentável do potencial existente nas zonas
rurais. Por essa mesma razão, o presidente Samora Machel afirmava que o nosso ouro,
petróleo e diamantes estavam no campo. Tudo dependerá da capacidade efectiva de actuação
do empreendedor no terreno.

2. Indústria
Ao sector industrial é atribuído o papel de impulsionador da economia. Este papel deve-se ao
facto de que ligações, externalidades e possibilidades de integração intra e intersectorial
potenciam a economia e sem as quais esta não se pode desenvolver.
Com um peso limitado na economia moçambicana (12% de contribuição no PIB em 2007), o
sector começa a caminhar para uma efectiva consolidação, facto demonstrado pelo crescente
número de investimentos tanto estrangeiro como nacional (INE).
A parcela do sector industrial que mais se desenvolve é sem dúvida a mineira e extractiva,
representado por empresas como Vale do Rio Doce, Riversadale e Mozal. Entretanto, outros
sectores industriais também começam a dar os seus passos tais como as agro-industrias, a
produção de materiais de construção, bens de consumo e de bebidas.

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14 UNIDADE IV – EMPREENDEDORISMO EM MOÇAMBIQUE

Apesar desta evolução, o sector contínua com fraca produção e relações intersectoriais
desenvolvidas, tecnologia atrasada, falta de fundos financeiros para aquisição da maquinaria
necessária e técnicos especializados, e a ser penalizado pelos altos custos de endividamento e
novo crédito, pela burocracia institucional e pela fraca rede de vias de comunicação e de
transporte.
Entretanto, e fazer jus às palavras do governo, afiguram-se dias melhores para o sector.

3. Serviços
É considerado um dos sectores mais importantes da economia pela sua contribuição no
emprego. De acordo com o Ministério da Industria e Comércio, este sector emprega mais de
60% da população moçambicana.
Nos últimos anos, o sector de serviços cresceu de uma forma muito rápida como resultado da
flexibilidade acrescida, conhecimento e emergência de novos tipos de serviços e o papel
crescente de novas tecnologias de informação e comunicação. Estes factores dinamizam a
quantidade e qualidade dos serviços prestados, o que permitiu ao sector ter em 2007 uma
participação de cerca de 40% no PIB (INE).
O sector de serviços possui um grande número de pequenas e médias empresas, consideradas
o motor de crescimento e desenvolvimento quer em termos de unidades empresariais quer em
termos de unidades empregadoras.
Moçambique é um país com beleza natural imensa e que ainda não está ser explorada no seu
potencial. As belas praias, as reservas naturais, monumentos históricos, paisagens incríveis e
locais que são considerados património histórico da humanidade e que fazem as delícias de
turistas de todo o mundo, são ainda um diamante por lapidar. Daí que uma das áreas que pode
ser investida e de retorno quase certo é o turismo.

QUADRO SINÓPTICO
Crescimento do PIB, estabilidade da taxa
Variáveis favoráveis ao de juros e da inflação, melhoria dos
empreendedorismo em processos administrativos, desemprego,
Moçambique incentivos de mercado e factores político-
legais
Barreiras ao Falta de poupança, mercado de capitais
desenvolvimento do pouco desenvolvido, aversão ao risco,
empreendedorismo em cultura de dependência e estabilidade
Moçambique emocional
Características do Aversão ao risco, limitada capacidade de
empreendedor gestão, falta de conhecimento de
moçambicano habilidades empresariais
Classificação dos Micro empreendedor, médio
empreendedores empreendedor e macro empreendedor
Áreas para investir Agricultura, indústria e serviços
EMPREENDEDORISMO

TRABALHO PRÁTICO
1. A partir de que período histórico se pode falar de empreendedorismo em Moçambique? (se
tiver dúvidas consulte o ponto 1.1).
2. Indique as variáveis que contribuem para o empreendedorismo em Moçambique (se tiver
dúvidas consulte o ponto 1.2)
3. Enumere e explique as características particulares dos empreendedores moçambicanos (se
tiver dúvidas consulte o ponto 1.3)
4. Cite os três níveis dos empreendedores que operam em Moçambique. (se tiver dúvidas
consulte o ponto 1.4)
5. Quais são os sectores nos quais o empreendedor moçambicano pode investir? (se tiver
dúvidas consulte o ponto 1.5)

15
16 UNIDADE IV – EMPREENDEDORISMO EM MOÇAMBIQUE

CAPÍTULO II – O FRANCHISING

OBJECTIVOS ESPECÍFICOS DO CAPÍTULO:

No final deste capítulo o estudante será capaz de:


1. Conceituar e caracterizar o franchising;
2. Identificar os tipos, modalidades, vantagens e desvantagens do franchising;
3. Identificar as taxas relacionadas ao franchising pagas em Moçambique;
4. Comparar o negócio independente e negócio em franchising.

2.1 HISTÓRIA DO FRANCHISING


O termo Franchising foi usado inicialmente na época medieval, sendo de proveniência
normanda. Começou por ser uma expressão de determinadas liberdades concedidas a certas
cidades, associações ou corporações profissionais em relação aos demais. Estes privilégios
eram atribuídos por reis, condes ou outros governantes e poderiam traduzir-se em benefícios
fiscais até a atribuição de monopólios em actividades profissionais concretas. Por exemplo,
os governantes poderiam conceder a determinada associação o monopólio da produção do
trigo, ou o exclusivo de importação ou exportação de seda a uma certa região.
Este tipo de acções, de uma forma ou outra apresentavam características próprias do sistema
de franchising moderno nomeadamente: a delegação de um poder originariamente exclusivo,
a delimitação territorial e temporal, exclusividade atribuída a uma entidade, a aceitação do
desenvolvimento de uma actividade em nome de outrem. Nesse período, algumas entidades
privadas iniciaram um processo de licenciamento de suas actividades a terceiros.
Foi na igreja católica, no período compreendido entre o século XII e o Concilio do Vaticano
II, que aparece o primeiro sistema organizacional com todas as características do franchising
moderno. Toda a estrutura e sistema organizativo eram padronizados: igrejas e capelas
seguiam a mesma arquitectura, o vestuário adoptado era o paramento, os símbolos e logótipos
como cruzes, imagens de santos, altares eram iguais, os produtos usados nas missas e actos
litúrgicos como funerais, casamentos, baptismos e procissões eram os mesmo e até a língua
(o latim) era comum e exclusiva.
A partir da segunda metade do século XIX, algumas empresas provenientes da Revolução
Industrial iniciaram processos originais de distribuição. A Singer Sewing Machine Company
e, mais tarde a General Motor e a Ford, como forma de suprir as dificuldades nas vendas,
criaram sistemas de revenda autorizada e em exclusivo, chamado “franchising de marca ou
de produto”. No início do século XX, a Coca-Cola e a Pepsi também aderiram a este modelo.
Nos anos 20, a Laniere de Roubaix, uma empresa francesa, criou uma rede de lojas de
comercialização das suas lãs com a marca Les Laines de Pingouin, tendo depois outras
empresas adoptado este modelo.
No entanto, só no final da segunda guerra mundial é que se dá um assinalável
desenvolvimento e uma rápida expansão, através de redes e marcas industriais e de
restauração. Nos anos 60, o franchising é adoptado pelo sector de serviços e, desde então,
EMPREENDEDORISMO

todos os sectores de actividade económica, conhecem ou trabalham com o franchising.


Actualmente, cerca de 30 % dos estabelecimentos comerciais retalhistas nos EUA funcionam
em sistema de franchising.

2.2 ETIMOLOGIA DO TERMO


O termo franchising provém do francês arcaico. Na idade média, o vocábulo “franchise”, era
semelhante a palavra condescendência, ou seja, concessão de um privilégio; na época, a
cidade “franchise” oferecia as pessoas passe livre para circularem e comercializarem bens. O
verbo "francher", que também provém do francês arcaico, significa conceder privilégio,
isentar do pagamento de um tributo.
Os senhores conferiam parte da sua autoridade a pessoas ou burgos e como contrapartida,
recebiam dinheiro. Essa operação era realizada através de uma carta de franchise concedida
aos burgos pelos senhores.
Com o fim do período medieval, o vocábulo franchise foi esquecido até 1850, quando a
Singer Sewing Machine Company, decidiu conceder vários franchises a comerciantes
independentes interessados em comercializar os seus produtos.

2.3 TERMINOLOGIAS DO SISTEMA DE FRANCHISING


Apresenta-se a seguir alguns dos termos mais usados e associados ao franchising (Pamplona,
1999):
Franchising é o sistema de venda de licença onde o franqueador (detentor da marca) cede ao
franqueado (autorizado a explorar a marca) o direito de uso da sua marca ou patente,
infraestrutura, know-how e direito de distribuição exclusiva ou semi-exclusiva de produtos ou
serviços.
Franqueado é a pessoa física ou jurídica que adquire a licença, cuja finalidade está na
distribuição do objecto de franchising. As obrigações estão discriminadas no contrato e no
Manual de Franchising.
Franqueador é a pessoa física ou jurídica que concede e vende a licença. É aquele que
detém a marca e o know-how (experiência técnica) de comercialização de um bem ou serviço
e, que cede através de um contrato os direitos de uso e/ou de revenda, fornecendo assistência
técnica operacional e administrativa na organização e gestão do negócio para o franqueado.

2.4 TIPOS DE FRANCHISING


O sistema de franchising apresenta-se em duas perspectivas principais (Pamplona, 1999):

1. Franchising de produto e marca (Product and trade mark franchising ou Product and
Trade Name Franchising)
É o conceito mais primitivo do Franchising. Caracteriza-se pela concessão do uso da marca e
fornecimento de produto e/ou serviços. O nível de compromisso é mais simples em relação
aos demais estágios do sistema. Ex: Coca-cola, Pepsi, etc.

17
18 UNIDADE IV – EMPREENDEDORISMO EM MOÇAMBIQUE

2. Franchising de negócio formatado (Business format franchising)


Neste modelo a empresa franqueadora licencia desde produtos e/ou serviços e marca até os
recursos de ordem administrativa. Estes recursos representam de forma conjunta, um pacote
técnico de assistências e assessorias, que permitirá um bom desempenho da empresa
franqueada, trazendo implicações em nível operacional, administrativo e de mercado.
Exemplo: KFC, McDonald´s, etc.
A caracterização plena do Business Format Franchising faz-se com a utilização das seguintes
directrizes, a serem conduzidas pela franqueadora aos franqueados (Pamplona, 1999):
 Identidade corporativa (uso da marca, logótipo, design de ponto de venda);
 Assistência pré-operacional: compra de equipamentos, instalações, contratações, aspectos
legais, aspectos económico-financeiros e, aspectos de mercado;
 Propaganda e promoção conjunta;
 Apoio logístico;
 Assessoria permanente em operações financeiras, aspectos legais, marketing, recursos
humanos, administração e operações em geral;
 Treinamento do franqueado e/ou de seus empregados;
 Sistema de compras cooperadas;
 Protecção territorial do empreendimento franqueado;
 Utilização de uma unidade piloto.

2.5 MODALIDADES DO FRANCHISING


As modalidades do franchising distinguem-se em (Valada, 1995):

1. Por tipo de actividade


a) Franchising de industria: é aquele em que o franqueado, sob autorização do franqueador,
opera uma unidade industrial utilizando tecnologia e um know-how exclusivo transferido
pelo franqueador, produzindo e vendendo sob a marca deste último, determinados produtos.
O próprio fabrico, obedece geralmente às técnicas e processos determinados pelo
franqueador. Ex: Coca-cola, Pepsi, etc.
b) Franchising na distribuição: o franqueado limita-se a vender em estabelecimento próprio,
produtos adquiridos ao franqueador ou a fornecedores indicados pró este mas, utilizando o
nome e a marca do franqueador, o seu logótipo, a sua imagem comercial, as suas técnicas de
comercialização, bem como os métodos de assistência e outros serviços prestados ao cliente.
No franchising de serviços, o franqueado disponibiliza aos clientes, serviços em nome e sob
supervisão do franqueador, utilizando normalmente procedimentos e formas de actuação
padronizados. Ex: revendedores autorizados de telefones e outros equipamentos.

2. Quanto a forma de relacionamento


a) Directo: o franqueador concede ao franqueado, directamente, um conjunto de produtos,
tecnologias e técnicas para que este, como comerciante independente, possa exercer um
EMPREENDEDORISMO

negócio, sob a marca e insígnias daquele, beneficiando da actividade promocional


desenvolvidas em proveito de toda a rede.
b) Indirecto: quando o franqueador opta por constituir uma ou mais filiais, geralmente fora
do país ou região onde desenvolve o grosso da sua actividade, de modo que essa filial seja
responsável pelo desenvolvimento de novas redes através de acordos com empresários locais,
visando estabelecer cada uma rede de comercialização sob seu controle e orientação. Trata-se
de um método para descentralizar a gestão do negócio e da própria imagem da marca ou
produtos, sobretudo quando as diversidades regionais, impõem certas adaptações a
campanhas publicitárias e culturas locais.
c) Associativo: o franqueador e o franqueado constituem uma sociedade jurídica responsável
pelo desenvolvimento da rede assumindo as funções que originalmente pertenceriam ao
franqueador. Esta modalidade está mais difundida nos Estados Unidos.

3. Por ordem de grandeza


a) Franchising singular: a concessão respeita a abertura de um único estabelecimento ou
ponto de venda numa determinada área territorial;
b) Franchising múltiplo: o franqueador autoriza o franqueado a criar um número (fixo ou
não) de estabelecimentos ou pontos de venda, dentro da área territorial definida durante o
período de vigência do contrato.

4. Quanto à exclusividade
a) Franchising integral: o franqueado é obrigado a comercializar exclusivamente produtos e
serviços próprios da rede de negócios a que o contrato respeita seja ou não fornecidos pelo
próprio franqueador. O franqueado deve apenas comercializar o abrangido pela marca ou
insígnias da cadeia, não podendo extravasá-la.
b) Corner franchising: é o exploração de um ponto de venda de área reduzida (quiosque, mini
loja) integrado num estabelecimento maior com o objectivo de comercializar produtos e/ou
serviços específicos que tenham sinergia, com o negócio principal.

5. Franchising internacional
a) Master franchising: a franqueadora concede a franqueada o direito de vender sua licença
em uma determinada região. À empresa master franchisada é concedido o direito de explorar
num determinado território uma rede de franchising como se ela fosse a própria
franqueadora;
b) Área development franchise: a área de actuação geográfica está definida possibilitando ao
franqueado abrir tanto unidades próprias quanto unidades em parcerias em sua área de
actuação. Os contratos são feitos individualmente pelo franqueador principal. Os franqueados
do franqueado intermediário desenvolvem e multiplicam as suas bases.
c) Área controllership: esta modalidade tem como característica a gestão licenciada a
empresas intermediárias, contratadas com a finalidade de fazer cumprir tais funções. Isto
levará a uma maior eficiência quanto aos objectivos firmados entre o franqueador e o
franqueado.

19
20 UNIDADE IV – EMPREENDEDORISMO EM MOÇAMBIQUE

2.6 VANTAGENS E DESVANTAGENS DO FRANCHISING


O empreendedor que opta pelo franchising inicia o seu negócio com uma marca conhecida no
mercado. No entanto, o controlo sobre as suas operações é constante e permanente. Conheça
as vantagens e desvantagens do franchising.

2.6.1 VANTAGENS DO FRANCHISING


Ao optar pelo franchising, o franqueado tem as seguintes vantagens (Pamplona, 1999):
 Grandes estruturas, pequenos investimentos: ao entrar no negócio, o franqueado é
contemplado com o direito de uso de uma marca forte e de qualidade, livrando-se por vezes
de dificuldades encontradas pelas pequenas empresas. O franqueado poderá entrar no
esquema do franqueador, obtendo os mesmos preços que o fornecedor aplica para o este e
ainda ganhar com a publicidade que este ultimo faça, significando que o franqueado possuirá
uma pequena empresa com estrutura de uma grande empresa. Se esta toda estrutura fosse
convertida em custos reais, o franqueado poderia ter seu negócio inviabilizado, pois os gastos
iniciais poderiam ultrapassar a sua disponibilidade financeira, tornando-se economicamente
inviável;
 Apoio de mercado: a experiência vivida pela empresa franqueadora bem sucedida, e o
estágio actual da empresa, constituirão referência para o franqueado sobre o possível nível de
aceitação do produto no mercado. A marca que o franqueado utilizará é forte ou possui uma
certa representatividade no mercado, reflectindo-se numa melhor qualificação da empresa
franqueada junto ao mercado;
 Sistemas de compras cooperadas: o franqueado fará parte de uma rede, em que todos os
envolvidos usarão os mesmos produtos, provenientes dos mesmos fornecedores, com os
preços mais baixos que podem ser conseguidos graças ao poder negocial do franqueador que
é forte devido ao aumento de unidades pertencentes a mesma rede e que compram com o
mesmo fornecedor;
 Pequenas empresas, grandes estruturas: o franqueado beneficiar-se-á de uma estrutura
administrativa, financeira, contabilística e jurídica, previamente elaborada e testada pelo
franqueador, além de receber acessórias para implantação do sistema de franchising;
 Baixa taxa de mortalidade: o índice de mortalidade das empresas franqueadas é muito
baixo, proporcionando estabilidade às micro, pequenas e médias empresas. Portanto, as
chances de um franqueado obter sucesso em seu negócio, utilizando o franchising são bem
maiores do que no negócio independente;
 Preços competitivos: devido a redução de custos por entrarem num sistema de compras
cooperadas, a pequena empresa ganha vantagens que só as grandes possuem, proporcionando
uma forte redução de custos que poderá se reflectir na baixa de preços permitindo que este
possa competir com as grandes empresas;
 Garantia de retorno em menor tempo: o facto de o franqueado poder contar com os
custos reduzidos no início do negócio, fará com que haja um equilíbrio de custos nas contas
da empresa franqueada, proporcionando-lhe um retorno mais curto do investimento realizado;
 Protecção geográfica do mercado: o franqueador assume compromissos e
responsabilidades para com o franqueado, reservando-lhe protecção geográfica para que não
haja inserção de outros na mesma rede;
EMPREENDEDORISMO

 Transferência de know-how: o resultado das experiências acumuladas pelo franqueador


relativos a produção e comercialização de bens, são aproveitadas pelo franqueado, sobretudo
as formas e técnicas de apresentação e venda de produtos e serviços, relação com clientes,
técnicas de gestão financeira e administrativa e de relacionamento com fornecedores;
 Reconhecimento público: o facto de associar a sua actividade a uma marca já conhecida,
dá ao franqueado uma credibilidade junto a fornecedores e instituições financeiras. O
franqueado poderá ter acesso a uma clientela logo a partir do momento da abertura da sua
unidade, em consequência da experiência prévia do franqueador e da sua rede, para além das
acções específicas de marketing;
 A prestação de assistência: faz parte dos deveres essenciais do franqueador para com o
franqueado, e este último, ao beneficiar-se dessa assistência, fica com mais tempo para se
concentrar na actividade principal do negócio. Essa assistência pode-se revestir de realização
de estudos de mercado, projectos de arquitectura, assistência jurídica, formação inicial e
assistência técnica.

2.6.2 DESVANTAGENS DO FRANCHISING


As desvantagens que podem ser encontradas no sistema de franchising são (Pamplona, 1999):
 Pouca liberdade: quanto mais complexo for o sistema de franchising, maior será a
necessidade de assessorias, criando uma maior dependência do franqueado em relação ao
franqueador, implicando uma baixa capacidade de decisão;
 Restrição a uma única marca: o franqueado fica sujeito a representar uma só marca,
tendo como consequência a redução da sua rentabilidade, ou até mesmo uma liquidação da
empresa caso haja um declínio qualitativo e/ou quantitativo nos meios de produção da
franqueadora. O franqueado fica impedido de diversificar produtos ou substituí-los por outros
similares ou de outra marca, mesmo que seja para satisfazer a procura que momentaneamente
o franqueado não está conseguindo satisfazer;
 Risco de ocorrência de falhas no sistema: se o franqueado escolher uma rede de
franchising problemática, como por exemplo com atrasos na entrega de produtos ou pouca
inovação, poderá estar a entrar numa aventura desagradável que provocará problemas no
futuro;
 Taxas a serem pagas pelo franqueado: a incidência de várias taxas sobre o negócio
poderá torná-lo inviável se não estiverem dentro da realidade do mercado. Isto pode
acontecer quando o franqueador não calcula correctamente a relação entre a rentabilidade e a
viabilidade económico-financeira;
 Localização forçada: embora o franqueado possa ter opinião sobre a localização do
ponto de venda, quem decide no final é o franqueador. Muitas vezes o franqueado possui um
bom imóvel para a sua instalação, mas o estudo realizado para a localização da unidade
indica que o local não é apropriado;
 Saturação do mercado: embora alguns franqueadores ofereçam protecção territorial,
nem todos os franqueados conseguem com que os franqueadores cumpram com as suas
palavras, fazendo com que numa determinada região, haja muitos franqueados saturando
deste modo o mercado.

21
22 UNIDADE IV – EMPREENDEDORISMO EM MOÇAMBIQUE

2.7 EMPREENDER VIA FRANCHISING EM MOÇAMBIQUE


O mercado do franchising é um dos sectores que mais cresce na economia mundial,
registando uma taxa de crescimento anual de 20%. Um dos factores que mais propicia e
continua motivando este crescimento é a diminuição de risco que este confere aos negócios.
De acordo com Pamplona (1999:4) “de cada 10 empresas criadas na França, apenas uma
sobrevivia após cinco anos de actividade; já com as empresas oriundas do sistema de
franchising aconteceu o inverso: de cada 10 empresas, uma desaparece no mesmo intervalo
de tempo, o que torna o franchising mais promissor para o crescimento económico e as
estabilidades das empresas”.
Em Moçambique, o mercado de franchising ainda é emergente, tendo pouco operadores. Este
facto justifica-se por duas razões: (1) grande parte dos empreendedores não conhece bem o
sistema nem as suas vantagens e desvantagens e (2) entrar para o negócio do franchising não
é fácil. O candidato a franqueador deve ser elegível e obter uma licença. Esta elegibilidade é
definida pelo franqueador e todos os candidatos devem preencher esse perfil. Algumas
condições para ser elegível são: experiência profissional do candidato, capacidade financeira,
existência de um mercado e estar apto para a aceitar todas as condições impostas pelo
franqueador como as inspecções periódicas e não periódicas (Aboobakar, 2006).
Para Aboobakar (2006) um factor que incomoda os franqueados moçambicanos é a falta de
liberdade. Estes devem seguir o modelo de funcionamento da empresa mãe, usando as
mesmas cores, mesmos uniformes, mesma estratégia de marketing, produção ou distribuição
de um único produto, sem falar da presença de um consultor para fazer o estudo de
viabilidade e de visitas periódicas de inspectores para fiscalizar as actividades do franqueado.
Ainda de acordo com o autor, o grande “calcanhar de Aquiles” dos moçambicanos que
operam no sistema de franchising é a falta de uma legislação sobre o sistema. Os contratos
assinados são considerados atípicos, ou seja, baseados no formato do país franqueador e
depois adaptados à realidade moçambicana, pois sabe-se de antemão que no nosso país os
procedimentos são muito morosos sendo imprescindível que alguns itens sejam adaptados a
realidade moçambicana.
Para o caso de litígios, alguns operadores optam por estabelecer no contrato, uma comissão
de arbitragem que se rege segundo o direito civil moçambicano, e para outros, é resolvido
pela mester franchisada, ou em situações mais graves pelo franqueador no seu país de
origem, ficando o franqueado sujeito, portanto, a lei do país franqueador.
O autor afirma que os operadores do mercado de franchising em Moçambique concordam
que a existência e divulgação de uma lei sobre o sistema faria com que muitos
empreendedores optassem por operar em franchising o que contribuiria para o
desenvolvimento do mesmo.

2.7.1 AS DIFERENTES MODALIDADES DE FRANCHISING EM MOÇAMBIQUE


De acordo com um estudo feito por Aboobakar (2006), em Moçambique são encontradas as
seguintes modalidades de franchising.
a) Quanto ao tipo de franchising: encontra-se o franchising de marca e produto (ex:
distribuidores de acessórios para automóveis e marca “Bosch”) e franchising de formato de
negócio (aquando da assinatura de alguns contratos, uma das cláusulas comportava o
fornecimento do sistema completo de gerir o negócio do franqueador ao franqueado);
EMPREENDEDORISMO

b) Por tipo de actividade: encontra-se o franchising de indústria (o caso da licença


fornecida ao franqueado para operar no ramo de refrigerantes) e o franchising de distribuição
(o operador fornece acessórios de marca “Bosch”);
c) Quanto a forma de relacionamento: encontra-se apenas o relacionamento directo. Do
estudo feito, não houve nenhum operador com forma de relacionamento indirecto ou mesmo
associativo com o seu franqueador;
d) Por ordem de grandeza: encontrou-se o franchising singular e o franchising múltiplo;
e) Quanto a exclusividade: encontrou-se apenas o franchising integral, não havendo
nenhum caso de corner-franchising.
Para operar no mercado de franchising o franqueado deve pagar algumas taxas. O
empreendedor deve tomar algum cuidado especial ao pagar as taxas cobradas pelo
franqueador.

2.7.2 TAXAS A PAGAR


As taxas cobradas ao franqueado moçambicano são (Aboobakar, 2006):
a) Taxa de franchising (franchising fee) ou taxa inicial: é a taxa cobrada pelo franqueador
ao franqueado para que este tenha o direito de fazer parte da sua rede de franchising, de
explorar a marca e o know-how deste e de negociar seus produtos e serviços. Esta taxa é
normalmente paga de uma única vez no início do contrato e não dá direito a reembolso caso
haja desistência por parte do candidato;
b) Taxa periódica de franchising (taxa de royalties: é valor que o franqueado paga
periodicamente ao franqueador, que lhe dará direito de exploração da marca e know-how, e
será quantificada de acordo com a quantidade de assessoria que serão oferecidas. É
representada por um percentual estabelecido no contrato podendo ser definida de duas
formas: na primeira, o franqueador inclui o custo gerado pelas assessorias no preço da
mercadoria; na segunda, a taxa é estabelecida através de um percentual que incidirá sobre o
volume das vendas do franqueado declarado à Repartição de finanças. Se o franqueado fizer a
promoção de produtos a vendê-los a um certo preço, a taxa de royalties incidirá sobre as
vendas totais.
c) Taxa de publicidade: é a taxa paga periodicamente pelo franqueado para a formação de
um fundo financeiro cujo objectivo é o fomento comercial do franchising pela divulgação da
sua marca, produtos e serviços, e fomento da própria rede de franchising;
d) Outras taxas (serviços extras): representam o valor cobrado pelo franqueador pelos
serviços extraordinários eventualmente prestados ao franqueado. São também usadas para
sanar as dificuldades que o franqueado encontra em conseguir capital para o investimento
inicial, quando o franqueador reduz a taxa inicial, transportando parte do capital para uma
taxa paralela estimada, servindo de instrumento para minimizar os custos iniciais.

2.7.3 FRANCHISING VERSUS NEGÓCIO INDEPENDENTE


Ao decidir entrar num dado negócio, o empreendedor pode optar por um negócio de marca
própria ou pelo sistema de franchising. Em ambos casos deve-se avaliar determinados

23
24 UNIDADE IV – EMPREENDEDORISMO EM MOÇAMBIQUE

aspectos. No caso moçambicano e de acordo com Aboobakar (2006), as principais diferenças


entre um empresa com negócio independente e outra no sistema de franchising são:

1. Quanto ao produto ou serviço:


a) Franchising
 Oferece produtos ou serviços já desenvolvidos, testados e implantados no mercado;
 Oferece de imediato, marca de produtos ou serviços, muitas vezes com boa aceitação de
mercado;
 O franqueado tem liberdade limitada na escolha de produtos e serviços;
b) Negócio independente
 É necessário haver um know-how para criar produtos e serviços, desenvolver, testar e
implantar no mercado;
 A aceitação no mercado, da marca e dos produtos e/ou serviços a serem comercializados
pela empresa levam o seu tempo;
 O empreendedor pode escolher produtos e/ou serviços que quer comercializar.

2. Quanto a localização
a) Franchising: fornece consultoria para a escolha do local e arranjo físico da empresa;
b) Negócio independente: há necessidade de contratação de consultoria externa caso o
empreendedor seja inexperiente;

3. Quanto ao mercado
a) Franchising: fornece consultoria para pesquisa e conhecimento do mercado específico nos
seguintes termos: área de actuação do produto ou serviço, publico potencial, concorrentes,
fornecedores, preços e comercialização, propaganda, publicidade, promoções e planeamento
de marketing;
b) Negócio independente: caso o empreendedor seja inexperiente, haverá uma necessidade de
uma consultoria externa para a realização de pesquisas e estudos de mercado;

4. Quanto ao fornecimento de máquinas e equipamentos


a) Franchising
 Fornece consultoria para especificar material, máquinas e equipamentos e administrar a
relação comercial com fornecedores, incluindo jurídica;
 Compra por volumes, com menor custo unitário para o franqueado;
 A liberdade do franqueado é menor, porém, com menores riscos no mercado de
fornecedores.
b) Negócio independente
 Na administração da relação comercial com fornecedores, em caso de problemas
jurídicos, o empresário assume responsabilidade integral;
EMPREENDEDORISMO

 Compras em volumes reduzidos, com maior custo unitário para o empreendedor,


 O empreendedor tem total liberdade para selecção e aquisição, podendo enfrentar maiores
riscos no mercado de fornecedores.
Segundo estudos feitos, a opção de empreender via franchising oferece menor risco de
falência pois o empreendedor encontra de antemão uma marca já estabelecida no mercado.
De forma diferente acontece se este mesmo empreendedor optar por um negócio
independente pois ele terá que criar uma nova marca e fazer esforços para fortalece-la no
mercado e passar por todas as dificuldades inerentes a qualquer actividade económica.
Para Aboobakar (2006) a opção pelo franchising reduz o risco de o negócio ser mal sucedido,
sendo por isso uma das soluções para incentivar e desenvolver o empreendedorismo.

QUADRO SINÓPTICO
Sistema de venda de licença onde o
franqueador (detentor da marca) cede ao
franqueado (autorizado a explorar a marca) o
Franchising direito de uso da sua marca ou patente, infra-
estrutura, know-how e direito de distribuição
exclusiva ou semi-exclusiva de produtos ou
serviços
Franchising de produto e marca e franchising
Tipos de franchising
de negócio formatado
Apoio de mercado, sistema de compras
cooperadas, baixa mortalidade de empresas,
preços competitivos, garantia de retorno em
Vantagens do franchising
menor tempo, protecção geográfica do
mercado, reconhecimento público,
transferência de know-how
Pouca liberdade, restrição a uma única marca,
Desvantagens do risco de ocorrência de falhas no sistema,
franchising taxas a serem pagas pelo franqueado,
localização forçada, saturação do mercado
Taxas pagas pelos
Taxa inicial, royalties, taxa de publicidade,
franqueados em
outras
Moçambique

25
26 UNIDADE IV – EMPREENDEDORISMO EM MOÇAMBIQUE

TRABALHO PRÁTICO

1. Defina franchising e refira-se aos seus diferentes tipos (se tiver dúvidas consulte o ponto
2.3 e 2.4).
2-Enumere as modalidades de franchising que conhece (se tiver dúvidas consulte o ponto
2.4)
3. Disserte sobre as vantagens e desvantagens do franchising. (se tiver dúvidas consulte o
ponto 2.5.)
4. Indique as taxas que os operadores em franchising em Moçambique têm de pagar. (se tiver
dúvidas consulte o ponto 2.6.2)
5. Na sua opinião, qual é a melhor alternativa: abrir um negócio independente ou em sistema
de franchising (se tiver dúvidas consulte o ponto 2.6.3.)
EMPREENDEDORISMO

CAPÍTULO III – A SOCIEDADE EMPREENDEDORA

OBJECTIVOS ESPECÍFICOS DO CAPÍTULO:

No final deste capítulo o estudante será capaz de:


1. Conhecer a visão do governo sobre o empreendedorismo;
2. Compreender a relação entre cultura e empreendedorismo;
3. Entender a importância da educação em empreendedorismo

3.1 INTRODUÇÃO
O tema “Empreendedorismo” tem despertado nos últimos anos, o interesse de diversos
grupos da sociedade. Considerado um dos mais novos paradigmas das ciências
administrativas, muito desse interesse é resultado do entendimento de que pequenas e médias
empresas sob a direcção de empreendedores, contribuem significativamente para a geração de
empregos e desenvolvimento económico.
Tal percepção, partilhada por economistas, políticos e uma parcela cada vez mais crescente
da sociedade é, na verdade, a razão pela qual se busca promover a actividade empreendedora,
em reconhecimento às evidências da sua contribuição para o crescimento económico e seus
subsequentes efeitos no campo social.
Estudos recentes comprovam que novas organizações produzem postos de trabalho e riqueza
numa proporção bem superior à de organizações já estabelecidas. A rede de inter-relações
que a actividade empreendedora cria na dinâmica de crescimento é uma das consequências
mais importantes porém nem sempre visíveis.
Da acção do empreendedor, constantemente inovando e transformando, surgiu o
empreendedorismo como uma verdadeira revolução social que altera a percepção e as
atitudes em relação às forma tradicionais de emprego e dos meios disponíveis para a geração
de renda e a auto-sustentento.
Por estas razões e pela importância do empreendedorismo no desenvolvimento económico e
social, verifica-se actualmente, a necessidade de se construir uma sociedade empreendedora.
De acordo com Drucker (1987:349) “a inovação e o espírito empreendedor são portanto
necessários na sociedade tanto quanto na economia; na instituição pública tanto quanto em
empresas privadas. E precisamente porque a inovação e o empreendimento não constituem
algo radical, mas um passo de cada vez, um produto aqui, uma directriz lá, um serviço
público acolá; são enfocados nesta oportunidade e naquela necessidade; o empreendimento
é pragmático e não dogmático, e se propõe manter qualquer sociedade, economia, industria,
serviços públicos, ou empresas, flexíveis e auto-renovadoras. O espírito empreendedor e a
inovação realizam o eu Jefferson esperava realizar por meio de uma revolução em cada
geração, e eles fazem isso sem derramamento de sangue, guerra civil, ou campos de

27
28 UNIDADE IV – EMPREENDEDORISMO EM MOÇAMBIQUE

concentração, sem catástrofe económica, deliberadamente, com direccionamento, e sob


controlo.”
O tempo em que vivemos, caracterizado por crises económicas, globalização, concorrência
cada vez mais acirrada, exige uma sociedade empreendedora na qual a inovação e o espírito
empreendedor sejam normais, estáveis e contínuos como uma actividade vital, permanente e
integral na nossa sociedade. É preciso que cada indivíduo faça da inovação e do
empreendedorismo uma actividade normal do dia-a-dia e transforme essa prática em sua
própria maneira de pensar, agir e ser.

3.2 A VISÃO DO GOVERNO


O governo moçambicano, preocupado com o desenvolvimento do país, algo indispensável
para o alinhamento no mercado globalizado, tem os seus olhos voltados para o
empreendedorismo que é visto como uma forma de solucionar o desemprego e estimular o
crescimento gerando novas tecnologias, produtos e serviços.
O executivo do presidente Armando Guebuza que tomou posse em Fevereiro de 2005, definiu
como prioridades o combate a pobreza e ao desemprego que vai aumentando de ano para ano,
contribuindo para a degradação do tecido social e aumento da criminalidade, principalmente
nas grandes cidades.
No seu discurso de tomada de posse, o presidente da república referiu que através dos seus
empreendimentos, os empreendedores produzem riqueza, criam novos postos de trabalho,
aumentam receitas para o Estado e promovem Moçambique como um destino privilegiado
para os investimentos de todos os quadrantes do mundo.
Na mesma linha de pensamento, o presidente referiu nas celebrações do 10º aniversário das
Cervejas de Moçambique que, “o surgimento de novas empresas e maior competitividade dos
nossos produtos no mercado nacional e internacional, concorrem para assegurar, por um
lado, a oferta de emprego a um crescente numero de cidadãos. Por outro lado, criam
condições para que postos de trabalho se mantenham, pelo menos por muito mais tempo,
face à concorrência. Nestas condições, os cidadãos estão melhor habilitados para contribuir
para o Orçamento do Estado, através dos impostos e para se empenharem ainda mais na luta
contra a pobreza que travamos em Moçambique” (In Noticias).
Estas duas passagens mostram claramente a importância que o governo de Moçambique vê
no empreendedorismo. A tónica marcante ao longo das presidências abertas do presidente
Guebuza, que são mais ou menos replicadas pelos governadores, ministros e todos os
governantes do país são resumidas numa única palavra: empreendedorismo. É preciso deixar
a mão pedinte, arregaçar as mangas, aumentar a produção para que se possa combater a
pobreza. Não apenas aquela que provoca a fome e outros males, mas também e sobretudo a
pobreza mental.
Os moçambicanos precisam arriscar mais e procurarem com os recursos que tem a
disposição, arranjar uma solução para os problemas que os afligem. Esta tarefa não é fácil,
mas também não é impossível e para demonstrar isso, há inúmeros casos de sucesso que
embora não sejam publicitados, mostram que com paciência e persistência, é possível
alcançar a tão desejada segurança.
Entretanto, o empreendedorismo não se exige só do povo. O economista e professor
universitário Nuno Castelo Branco falando numa conferência económica em Maputo, afirma
que o Estado também deve ser empreendedor. Para o economista, se o Estado constrói uma
EMPREENDEDORISMO

estrada, esta deve ser feita com sentido empreendedor e não apenas para fornecer um bem
público.
Para sustentar a sua opinião, o economista afirma que “as decisões que são tomadas pelo
Estado, do ponto de vista político, tem que estar ligadas com visão específica e concreta de
desenvolvimento no seu todo, e, não decisões que são tomadas com base em ideias como
combater a pobreza absoluta em si, por que essas são coisas muito vagas, muito gerais, que
não dão um foco concreto de organização da actividade económica e social dentro da acção
pública”(In Noticias).
Branco, acérrimo opositor a um desenvolvimento do país com base em grandes empresas
como a Mozal, apelou para um investimento de base alargada "uma base que cobre o país
interagindo e articulando diferentes áreas, entre grandes, pequenas e médias empresas".
Um dos responsáveis seniores do Millennium bim, organizador do evento, o economista
Mário Machungo, disse que a escolha do tema pobreza para o debate impunha-se pelo facto
de se tratar de um assunto de actualidade e que preocupa os moçambicanos. "É um tema que
merece ter uma abordagem mais reflectida com enfoque mais técnico e científico", assinalou
Machungo, antigo primeiro-ministro no executivo de Samora Machel.
Machungo esclareceu que a pobreza deve ser vista como um processo que se transforma.
"Uma pessoa é pobre hoje e, amanhã com outros aspectos de desenvolvimento pode ter uma
outra pobreza", anotou Machungo concluindo que o tema exigia maior envolvimento e maior
sentido de responsabilidade no pensamento dos problemas e na forma para a sua resolução.
O apelo a iniciativas empreendedoras não se limita apenas ao governo. O sector privado, as
instituições de ensino tem nos últimos anos feito um grande esforço no sentido de despertar e
valorizar os empreendedores que o país possui. Através de feiras de empreendedorismo,
conferências e outras actividades, procura-se promover e fomentar uma sociedade e cultura
empreendedora.
Uma das iniciativas notáveis do sector privado na promoção do empreendedorismo é o
“Prémio Empreendedor do Ano” criado em 2007 pela Ernst & Young o qual durante a sua
trajectória já homenageou vários homens e mulheres que vencendo dificuldades, muitas
frustrações e um ambiente de incertezas, tiveram a coragem de transformar os seus sonhos
em empreendimentos bem sucedidos.
Ao valorizar e dar projecção aos empreendedores que se destacam no país, o prémio aponta
exemplos a serem seguidos, modelos que inspiram e estimulam outras iniciativas.

3.3 EMPREENDEDORISMO E CULTURA


A dinâmica do empreendedorismo é influenciada por diversos aspectos seja económicos,
políticos, geográficos e sociais. O factor cultural, apesar de se encontrar presente nos estudos
sobre o assunto, tem sido por vezes esquecido na aplicação prática.
Por definição, empreendedores são indivíduos e não organizações. Logo, é natural que sejam
influenciados por aspectos culturais relacionados à sua formação ou pelo contexto em que
vivem (Lundstrom& Stevenson, 2001).
O peso do factor cultural foi identificado por McClelland (1961:34), segundo o qual seja
inata ou adquirida, a capacidade empreendedora depende do contexto social. Ainda segundo

29
30 UNIDADE IV – EMPREENDEDORISMO EM MOÇAMBIQUE

o autor, a capacidade para realizar iniciativas económicas depende da sociedade e da cultura a


que se pertence.
“Na verdade, aprende-se a ser empreendedor através da convivência com outros
empreendedores. Empresários de sucesso são influenciados por empreendedores do seu
círculo de relações (família, amigos, lideres, figuras importantes tomadas como modelo).
Famílias de empreendedores tem maior chance de gerar novos empreendedores e que
empreendedores de sucesso tem quase sempre um modelo a que admiram e imitam.”
Culturalmente, o moçambicano está ainda arraigado ao conceito de emprego e salário. E
grande parte das actividades empreendedoras que se verificam não acontecem porque o
empreendedor detectou uma oportunidade mas porque perdeu o emprego e/ou não consegue
um, sendo empurrado, forçado a empreender. Surgem então inúmeras empresas caseiras,
informais ou de garagem. Trata-se de um empreendedorismo por necessidade. É preciso que
se mude esta situação.
Outros factores sócio-culturais que inibem a actividade empreendedora e que já foram citados
anteriormente estão relacionados com a aversão ao risco e a estabilidade emocional. Segundo
o relatório do Banco Mundial (1995) citado por Aboobakar (2006), a aversão ao risco em
Moçambique manifesta-se através da atitude dos trabalhadores assalariados, dos micro-
empresários e dos operadores do comércio informal, onde mesmo que reconheçam
oportunidades preferem manter os seus empregos, por ser mais seguro, e os micro-
empresários e os comerciantes informais preferem manter os seus negócios a níveis
relativamente baixos e no informal isto porque não tem competências para administrar
empreendimentos maiores e competir com os já existentes no mercado.
É natural ser-se averso ao risco, todo mundo é em menor ou maior grau. No entanto, quando
esta aversão constitui uma barreira para o empreendedorismo ainda que a oportunidade de
negócio seja realmente boa, há que se repensar a situação. O empreendedor é aquele que faz
as coisas acontecerem, antecipa-se aos factos e tem uma visão futura da organização, dedica-
se à geração de riquezas, seja na transformação de conhecimentos em produtos ou serviços,
na geração do próprio conhecimento ou na inovação (Dolabela, 1999).
No âmbito da presidência aberta por todo o país, o presidente Armando Guebuza tem
exortado inúmeras vezes para que o povo abandone o hábito de pedir esmola o que se tornou
cultura e que vai se replicando um pouco por todo lado e aos mais diversos níveis e estratos
da sociedade. Só com uma atitude empreendedora e positiva perante as adversidades da vida
é que o moçambicano poderá ultrapassar as dificuldades que o rodeiam.
Nesta batalha para a criação de uma sociedade empreendedora algo que é fundamental para a
sobrevivência das nações no mundo globalizado em que se vive, a educação tem um papel
fundamental a desempenhar.

3.4 EDUCAÇÃO EM EMPREENDEDORISMO


O ensino do empreendedorismo é uma questão bastante debatida na literatura internacional.
Uma das questões mais controversas é sobre a possibilidade ou não do ensino do
empreendedorismo.
No passado, acreditava-se que o empreendedorismo não podia ser ensinado; que as
habilidades empreendedoras eram inatas ao ser humano e só podiam ser herdadas
geneticamente. Empreendedores eram indivíduos que possuíam um “dom” inato, tendo
nascido com características especiais que favoreciam o sucesso no mundo dos negócios. As
EMPREENDEDORISMO

pessoas que não nasciam com o dom empreendedor eram desaconselhadas a procurarem abrir
um empreendimento (Dornelas, 2001).
Entretanto, resultados de pesquisas e estudos efectuados revelam outra realidade pois de
acordo com Dornelas (2001:38) “cada vez mais acredita-se que o processo empreendedor
pode ser ensinado e entendido por qualquer pessoa e que o sucesso é decorrente de uma
gama de factores internos e externos ao negócio, do perfil empreendedor e de como ele
administra as adversidades que encontra no dia-a-dia.”
Para Salim citado por Cohen (2001), é um equívoco acreditar que empreendedorismo não se
ensina. É o mesmo que dizer que pintar é uma questão de jeito. Alguns têm mais inclinação, é
claro. Mas outros também podem conseguir fazê-lo se esforçarem-se. Adicionalmente, sabe-
se que a cultura empreendedora pode ser desenvolvida a partir de acções e políticas
específicas para este fim. Saini (2001) menciona que uma das questões básicas do
desenvolvimento económico se refere à promoção do espírito empreendedor na sociedade.
O sistema de ensino no país vem tradicionalmente preparando o estudante para ser
empregado. Ele foi concebido para transformar indivíduos em bons e fiéis empregados pois
os conhecimentos e habilidades são ministrados para construir pessoas que, depois de
formadas, só poderão ter sucesso se estiverem ligadas a um emprego. Com a redução do
quadro de pessoal nas grandes empresas devido a novas reestruturações, privatizações, fusões
e também melhor uso das ferramentas administrativas que provocam um aumento do
desemprego, a concepção da educação de preparar pessoas para trabalharem num local
estabelecido onde alguém as guiará e lhes dirá o que fazer, precisa ser revista.
“Em uma economia movida pelas grandes empresas e pelo Estado, nada mais natural que
formar empregados. No entanto, este modelo, dirigido à criação de empregados para
grandes empresas, cumpriu a sua missão. Esgotou-se diante das profundas alterações nas
relações de trabalho e na produção. Ao ter seu eixo deslocado para pequenos negócios e o
auto-emprego, as sociedades se vêem induzidas a formar empregadores, pessoas com uma
nova atitude diante do trabalho e com uma nova visão do mundo.” (Dolabela, 1999:33)
Recentemente, a Sra. Abiba Tamele, Directora do Instituto Nacional de Emprego e Formação
Profissional de Moçambique (INEFP), veio a público afirmar que a estratégia de emprego e
formação profissional de Moçambique está a falhar. O problema afecta a milhões de
moçambicanos. Os jovens formam-se nas escolas técnicoprofissionais e não encontram
postos de trabalho, não têm facilidades de acesso ao crédito para iniciar uma actividade
económica, e geram-se casos de criminalidade e outros males sociais.
A falta de dados estatísticos fiáveis sobre o emprego não permitem uma boa análise desta
situação em Moçambique mas de acordo com o INEFP, pode-se afirmar categoricamente que
mais de 50 % dos jovens Moçambicanos não têm um emprego formal, percentagem essa que
vem aumentando nos últimos anos. Uma das causas para este cenário assustador é a
“síndrome do empregado” que o sistema educacional vem impregnando nos jovens que
infelizmente, ainda não estão preparados para se inserir profissionalmente no mercado de
forma autónoma e empreendedora. O estudante precisa compreender que o emprego é
importante mas não é o único meio de aplicar os conhecimentos e habilidades adquiridos.
O sistema de ensino precisa mudar o seu enfoque, precisa forjar atitudes empreendedoras nos
estudantes. É preciso valorizar mais o indivíduo que gera o seu próprio sustento sem ter um
patrão, é necessário começar a desenvolver pessoas dotadas de visão de futuro, perseverantes

31
32 UNIDADE IV – EMPREENDEDORISMO EM MOÇAMBIQUE

e preparadas para os processos de sonhar, planear e construir seu próprio caminho (Bolson,
s.d.).
Nesta linha de pensamento, o falecido presidente Samora Machel afirmava que a educação:
“devia desenvolver nos alunos atitudes e práticas coerentes e necessárias para o
desenvolvimento de um Moçambique unitário, coeso, próspero, politica e economicamente
independente, solidário com a luta dos povos africanos e de todo o mundo. Devia formar o
homem moçambicano através da conscientização do poder transformador da sua inteligência
e do seu trabalho, libertando-o do fatalismo e resignação incutidos pela educação
tradicional e colonial. Por isso, a escola devia desenvolver nos alunos uma atitude científica,
aberta e crítica, que superasse qualquer tipo de dogmatismo. Esta era uma condição
fundamental para se implantar no país uma economia próspera e avançada” (Buendia,
2001:86).
A educação tradicional referida por Samora Machel, a que vigora em Moçambique, está
completamente desajustada da realidade do século 21. Ao dar ênfase na aquisição de
conhecimentos e pouco enfoque ao desenvolvimento de habilidades especificas para o uso
práticos desses conhecimentos, as instituições de ensino estão a lançar para o mercado
técnicos que não sabem que caminho seguir visto que nem sempre o estudante sai da
universidade com emprego garantido. É responsabilidade da escola formar um cidadão para o
mercado de trabalho ou com capacidade para criar o seu próprio emprego. Para isso deve-se
apostar na pedagogia empreendedora.
Para Dolabela (1999) a educação tradicional aprisiona, impõe limites, preserva poderes,
exclui, enquanto que a pedagogia empreendedora liberta, pois esta, diferentemente daquela,
não priva os jovens do conhecimento e dos sonhos. O autor acredita que o empreendedor
precisa primeiro sonhar para em seguida realizar e que países subdesenvolvidos ou em
desenvolvimento não podem subsistir sem uma considerável população de empreendedores,
dispostos a correr riscos, implantar novos negócios, adoptar novas tecnologias e competir,
gerando empregos e crescimento em suas comunidades.
Os primeiros esforços para a introdução da educação em empreendedorismo no sistema
escolar americano e britânica datam do fim dos anos 1970 e início dos anos 1980 (Lundstrom
& Stevenson, 2002). Desde a década de 1990, os governos destes dois países e várias outras
nações têm também seguido este caminho através da implementação de programas
semelhantes no ensino básico e médio. Na Dinamarca, o Ministério da Educação lançou um
programa com a intenção de oferecer a 30% – 40% dos jovens, formação em relação ao
empreendedorismo desde o nível básico ao universitário. Os resultados indicam que após o
programa, os estudantes se mostram mais interessados em se prepararem para terem um
negócio próprio ou mesmo em trabalhar em uma pequena empresa.
De acordo com Lundstron & Stevenson (2002) programas desta natureza atendem a pelo
menos duas necessidades: (a) o fortalecimento da cultura empreendedora; e (b) a preparação
dos jovens para as transformações no mercado de trabalho.
Dolabela (1999) apresenta outros motivos que justificam a disseminação da cultura
empreendedora através do sistema de ensino:
 Fortalecer valores relacionados à ética e cidadania, factores intrinsecamente ligados ao
empreendedorismo;
 Aumentar a percepção quanto à importância das pequenas e médias empresas para o
desenvolvimento económico;
 Reduzir as possibilidades de fracasso entre as empresas nascentes;
EMPREENDEDORISMO

 Preparar os jovens para actuarem como intra empreendedores;


 Aproximar as instituições de ensino e empresas; e
 Estimular a auto-realizaçao.

À semelhança do que acontece noutros países, em Moçambique já despontam iniciativas no


sentido de levar o empreendedorismo para a sala de aula, embora de forma tímida e não
consolidada e no nível superior. É preciso que estas iniciativas sejam estendidas para os todos
os níveis de ensino pois há uma percepção que muito pode ser feito nos anos iniciais de
educação formal no sentido de incutir e desenvolver valores empreendedores nas crianças e
adolescentes.
De acordo com Bolson (s.d) o ensino do empreendedorismo para crianças é fundamental. Ele
é o suporte para o início de uma mudança cultural sendo necessário começar desde tenra
idade a forjar atitudes empreendedoras e mentes planeadoras nas pessoas. Para o autor, o
empreendedorismo formaria jovens dotados de mentes mais atentas nas oportunidades, com
visão de futuro e muito mais planeadoras.
Esta posição também é defendida por Dolabela (2003:15) quando afirma que “a educação
empreendedora deve começar na mais tenra idade, porque diz respeito à cultura que tem o
poder de induzir ou de inibir a capacidade empreendedora.” Para o autor, lidar com crianças
é lidar com autênticos empreendedores ainda não contaminados pelos valores anti
empreendedores da educação, nas relações sociais, no figurino cultural conservador a que
somos submetidos. Assim, quanto mais cedo se inculcar nos jovens os valores e o
pensamento empreendedor, mais efectivos serão os resultados.
Outra questão debatida na em relação ao empreendedorismo relaciona-se com como este deve
ser ensinado. As universidades em Moçambique prevêem aulas teóricas e avaliações escritas
que são, muitas vezes, consideradas pelo corpo docente como suficientes para transmitir
conhecimentos e influenciar o comportamento dos alunos. Este modelo de ensino falha
porque apresenta as ferramentas de gestão mas não ensina de que forma essas ferramentas
podem ser aplicadas na prática e quais são os benefícios que essa aplicação pode trazer.
De acordo com Drucker (1986:16) “empreendedorismo não é ciência nem arte. É uma
prática.” Assim, os métodos tradicionais de ensino não oferecem suporte ao aprendizado
uma vez que conteúdos muito teóricos e limitados à sala de aulas não permitem a formação
dos potenciais empreendedores de maneira alinhada à realidade do mercado. Para o autor, a
base de conhecimento necessária a prática de um empreendimento é definida pela própria
prática e experiência.
Dolabela (1999:114) alinha pelo mesmo diapasão ao afirmar que “para haver efectividade
didáctica na área de empreendedorismo, é essencial que o aprendizado seja insistentemente
contextualizado, […] o aluno empreendedor precisa ser submetido a situações similares
àquelas que encontrará na prática.” Ainda segundo o autor, a tarefa da pedagogia
empreendedora não é apenas ensinar, e sim criar um ambiente “cultural” em que o aluno,
auto-suficiente, perceba e desenvolva valores empreendedores, aprendendo sobre si mesmo e
sobre o outro, e a utilizar correctamente suas ferramentas e instrumentos.
Ferreira, Ramos e Gimenez (2006) afirmam que muitos estudos na área de
empreendedorismo apontam para a necessidade de aprimoramento dos professores em todos
os níveis de educação, a fim de que se construa um ambiente empreendedor que envolva os

33
34 UNIDADE IV – EMPREENDEDORISMO EM MOÇAMBIQUE

alunos. Para Haynes (2005) o educador-empreendedor deve agir como um especialista,


instruindo e facilitando o processo de aprendizagem.
Ainda segundo o autor, os aspectos informais devem focalizar a construção de habilidades,
desenvolvimento de atributos e mudança comportamental para atingir os objectivos. Métodos
indutivos e de descoberta devem ser amplamente utilizados: estudos de caso, visitas às
empresas, brainstormings, discussões em grupo, projectos de mini-empresas, etc. permitindo
deste modo, a integração e aplicação da teoria aprendida.
A menos que haja um esforço consciente e planeado no sentido de introduzir conteúdos sobre
empreendedorismo no sistema educacional em Moçambique, os nossos jovens estarão daqui a
muitos anos na mesma situação em que se encontram hoje: despreparados e reticentes quanto
á possibilidade de se lançarem de maneira autónoma e independente à busca dos próprios
sonhos. Adicionalmente, a introdução de metodologias que englobem os problemas e
integrem soluções sobre o mundo empresarial, são absolutamente necessários para que os
alunos não sejam lançados num ambiente inóspito ou mesmo para que não se sintam
intimidados em ultrapassar os limites das salas de aulas por causa de tais adversidades.

QUADRO SINÓPTICO
Os empreendedores produzem riqueza, criam
novos postos de trabalho, aumentam receitas
Visão do governo para o Estado e promovem Moçambique como
um destino privilegiado para os investimentos
de todos os quadrantes do mundo
As decisões que são tomadas pelo Estado, do
Estado ponto de vista político, têm que estar ligadas
empreendedor com visão específica e concreta de
desenvolvimento no seu todo
O empreendedorismo é um factor cultural, ou
Empreendedorismo
seja, é o fruto dos hábitos, práticas e valores das
e cultura
pessoas.
Metodologia de ensino que tem como objectivo
Pedagogia
estimular os alunos e prepará-los para sonhar e
empreendedora
buscar a sua realização.
EMPREENDEDORISMO

TRABALHO PRÁTICO

1. Por quê se diz que o empreendedorismo é um fenómeno cultural? (se tiver dúvidas
consulte o ponto 3.3).

2. Quais os factores culturais que inibem a actividade empreendedora em Moçambique.


(se tiver dúvidas consulte o ponto 3.3)

3. Diga, em termos gerais, qual a visão do governo sobre o empreendedorismo? (se tiver
dúvidas consulte o ponto 3.2)

4. O que significa “o Estado deve ser empreendedor” (se tiver dúvidas consulte o
ponto 3.2)

5. Quais os motivos que justificam a disseminação de conteúdos sobre


empreendedorismo nas escolas? (se tiver dúvidas consulte o ponto 3.4)

35
36 UNIDADE IV – EMPREENDEDORISMO EM MOÇAMBIQUE

CAPÍTULO IV: CASOS DE SUCESSO

OBJECTIVOS ESPECÍFICOS DO CAPÍTULO


No final deste capítulo o estudante será capaz de:
1. Conhecer os principais problemas enfrentados pelos empreendedores moçambicanos;
2. Identificar as causas das mortes das empresas recém criadas; e
3. Conhecer alguns casos de sucesso em empreendedorismo em Moçambique

4.1 INTRODUÇÃO
O potencial empreendedor dos moçambicanos é enorme. Temos visto casos de vendedores
ambulantes, salões de cabeleireiro, barbearias, pequenas lojas de venda de roupa que são
abertos em garagens de prédios, tabacarias, “indústrias” caseiras de confecção de doces e
salgados, o comércio informal sustentado em grande parte pelo “mukhero”2 e muitas outras
actividades que mostram a garra e a criatividade do moçambicano. Pena que só apareça nos
momentos de necessidade.
A maior parte dos empresários moçambicanos não entra no mundo dos negócios porque
detectou uma oportunidade, mas porque foi forçado. A perda do emprego e as dificuldades
em encontrar um, fazem com que cada dia que passa, mais e mais pessoas optem pelo auto
emprego como forma de ganharem o pão e puderem sustentar a sua família. Há casos de
sucesso (embora muitos não sejam divulgados) mas há também casos de fracassos e que
infelizmente abundam na sociedade. Embora não se possa afirmar categoricamente quais aos
principais motivos para os fracassos uma vez que não há estudos realizados sobre a matéria,
algumas razões são visíveis e facilmente detectáveis.

4.2 PROBLEMAS ENFRENTADOS E CAUSA DAS MORTES DE EMPRESAS


RECÉM CRIADAS
Porque os empreendedores moçambicanos entram no mercado por necessidade e não por
terem detectado uma oportunidade, fases importantes do processo empreendedor e que
auxiliariam no crescimento ou manutenção da empresa são negligenciados.
Os problemas que os moçambicanos enfrentam no início do negócio e que levam ao
encerramento de várias pequenas empresas são:

2
Expressão usada para designar o comércio transfronteiro na fronteira com a África do Sul
EMPREENDEDORISMO

 Desconhecimento do mercado;
 Concorrência mais ágil e com preços melhores;
 Desconhecimento técnico;
 Falta de dinheiro;
 Saque de dinheiro para despesas pessoais;
 Descontrolos contabilísticos e administrativos;
 Dívidas insustentáveis;
 Falta de experiência;
 Ausência de planeamento; e
 Incompetência na gestão.
A verdade é que o empreendedorismo no nosso país convive com a falência d e muitas
organizações em decorrência dos baixos níveis de educação e ao desconhecimento de
ferramentas de gestão. A maior parte dos “empreendedores forçados” não recebeu na escola
nem em nenhum outro lugar qualquer formação em gestão de empreendimentos. Entretanto,
nem tudo são desgraças, há casos de sucesso que vale a pena aqui apresentar.

4.3 CASOS DE SUCESSO


Apesar dos problemas, há exemplos de sucesso que serviam muito bem para estudos de caso
nas escolas e universidades. Caso de moçambicanos que contra todas adversidades ousaram
seguir em frente e realizar os seus sonhos. Homens e mulheres, que embora sejam
desconhecidos, não tenham nível superior nem recebido prémio algum, possuem dentro de si
o verdadeiro espírito empreendedor, que começaram do nada e hoje são uma referência para
os seus.

4.3.1 ROBERTO MUNHEMESE3


Roberto Munhemese é natural de Mocuba, mas vive há 20 anos no distrito da Maganja da
Costa, na Zambézia. A procura de emprego para sustentar a si e seus dependentes foi a razão
principal que o levou a abandonar a sua terra natal para se fixar naquele distrito. Trabalhou
durante 15 anos na organização não-governamental Action Aid.
Ganhou dinheiro para comer e resolver problemas sociais, mas uma parte desse dinheiro foi
acumulada porque sabia que um dia o seu emprego havia de acabar. Em 2005, quando
realmente o emprego acabou, abraçou a agricultura e hoje é uma das referências quando se
fala de empreendedorismo agrário no distrito da Maganja da Costa.
Roberto Munhemese tem 54 anos de idade, é casado, tem sete filhos e sete netos. Não
recebeu o dinheiro do Orçamento de Investimento de Iniciativas Locais (OILL) vulgo “sete
milhões”. Conta actualmente com 10 hectares de terra onde produz cajueiros, mandioca,

3
In Notícias 29/04/2011

37
38 UNIDADE IV – EMPREENDEDORISMO EM MOÇAMBIQUE

milho, arroz e amendoim, para além da criação de animais, nomeadamente, suínos, caprinos e
galinhas.
Neste momento não precisa do dinheiro do Fundo de Desenvolvimento Distrital porque desde
2005 vem acumulando reservas financeiras resultantes da comercialização dos seus
excedentes. “Agora não, quando precisar hei-de pedir esse dinheiro. Estou a trabalhar com
recursos próprios” disse Roberto Munhemese, para quem a área de cultivo foi sendo
gradualmente aumentada em função dos recursos disponíveis.
Na última campanha agrícola obteve rendimentos de uma tonelada de arroz e outra de milho.
Depois de comercializados na Maganja da Costa, Mocuba e Quelimane foi possível ganhar
dinheiro para comprar uma viatura, duas motorizadas e construir uma casa melhorada na vila-
sede distrital.
Resolver todos esses problemas e ver seus filhos a estudar em diferentes níveis de ensino sem
muitas dificuldades é o que mais lhe anima. Conta que ele e a sua esposa muitas vezes
desaparecem da vila da Maganja para irem ao campo, localizado a 10 quilómetros. Com os
seus cinco trabalhadores que ganham por mês 800 meticais, mais outros sete sazonais que
ganham 600 meticais, deitam mãos ao trabalho na perspectiva de alargar mais a área de
produção e aumentar os seus rendimentos.
De segunda a sábado praticamente a vida está na sua machamba. Na vila só vai aos fins-de-
semana para arrumar a casa, velar pela educação dos filhos e cumprir deveres religiosos, para
além de visitar familiares.
A sua esposa é a melhor companheira de todos tempos. “É preciso sempre dialogar com a
parceira sobre a vida e novos projectos”, disse Roberto Munhemese, para depois acrescentar
que sempre que olha para trás vê um mundo repleto de coisas boas que durante vários anos
construiu com a sua esposa.
Roberto Munhemese apela aos jovens a seguir o seu exemplo uma vez que o emprego formal
está difícil. Segundo suas palavras, o recurso terra é a nova indústria que pode dar comida e
dinheiro para resolver vários problemas sociais, ao invés de ficar todo o tempo a lamentar.
Afirma que começar uma actividade é difícil, mas não impossível, bastando para isso ser
perspicaz no alcance dos objectivos pretendidos.
No futuro, a sua aposta é criar gado bovino não só para comercializar a carne, como também
para a tracção animal de forma a aumentar a área de cultivo.

4.3.2 ARMANDO MANGUELE4


Ao contrário dos que se deixam abater pelos duros combates da vida, Armando Manguele, de
25 anos de idade, é um visionário. De vendedor ambulante de petróleo, graças ao seu esforço,
hoje passou a ser um pequeno empreendedor que emprega e paga salário a quatro pessoas
através da jardinagem, o seu trampolim para a prosperidade.
A vida, ao lado da sua mãe empregada doméstica e o pai alfaiate, sempre o perseguiu com
uma série de misérias domésticas que nunca o deixaram frequentar uma escola formal.
Tentando ganhar a vida optou pela venda de petróleo de iluminação, nas ruas da Matola
desde o final do dia até a noite, actividade que rendia em média 100 meticais diários.

4
In A verdade 18.02.2011
EMPREENDEDORISMO

Algum tempo depois, abraçou a arte de pedreiro, primeiro como ajudante e posteriormente
como executante principal até o dia em que o avô solicitou uma ajuda da sua parte para cortar
relva. No fim, ganhou 50 meticais.
“Logo percebi que tinha vocação para jardineiro. Além do mais, o dinheiro que ganhei
parecia muito mais que o trabalho feito. Assim, decidi abraçar a actividade de cortar relva”,
conta.
Arrastado pela avidez do lucro, Manguele procurou levar a peito a actividade e arranjou uma
pequena chapa metálica de onde improvisou um instrumento corta-relvas, que foi usando em
diversas casas da Matola. Com os seus próprios meios ia atrás dos clientes e dava-lhes a
conhecer sobre os serviços. “Com os 100 meticais que ganhava, conseguia alimentar a minha
família e os meus caprichos”, comenta.
Volvidos quatro anos a trabalhar com o corta-relva improvisado, comprou outro instrumento
que custou 50 meticais. Assim, convidou o primo Constantino para trabalharem juntos e a
renda diária subiu para os 200 meticais, dos quais separava 100 para pagar ao ajudante e fazer
poupanças com vista a adquirir mais ferramentas de trabalho.
“Com a remuneração diária, passei a guardar 50 meticais. Em 2009 adquiri uma máquina
corta-relvas numa das lojas de Maputo por 15 mil meticais que paguei de uma só vez”, conta
para depois acrescentar: “com a nova máquina chamei dois jovens para trabalharem comigo.
Cada um tinha direito a 75 meticais por dia que eram pagos as sextas-feiras”.
O jovem jardineiro sublinha que uma das coisas que o encorajou a seguir a jardinagem foi um
convite para fazer um jardim na zona VIP do bairro Belo Horizonte. “O patrão gostou
bastante do meu trabalho e deu-me dez mil meticais. Foi uma grande sorte para mim”,
lembra.
Sem se levar deixar pelos caprichos deste mundo, Manguele pegou os 10 mil meticais e
depositou num banco, com o fito de alcançar os 18 mil meticais, preço de um corta-relvas
movido a gasolina. Hoje conta com duas máquinas a gasolina e reforçou a equipa com mais
dois jovens. Com os trabalhadores, gasta 2 mil meticais por semana incluindo o almoço
diário.
Manguele tem uma família. “Tenho uma mulher e um filho, sob minha responsabilidade.
Apesar de vivermos em casa dos meus pais, consigo sustentá-los e para o ano pretendo
habitar na minha própria casa.”
Sempre optimista, diz que a compra dos instrumentos de trabalho não pára por aqui. “Agora
estou a juntar dinheiro para comprar uma máquina que custa 30 mil meticais”. Esta é
segundo ele, a mais potente em relação às outras. Tendo em conta que a pequena empresa
está a crescer, uma das suas metas passa por formalizá-la, criar um escritório e garantir um
espaço fixo para facilitar os seus clientes.
De sonho para sonho, o jovem diz que gostaria de comprar um carro para facilitar as
deslocações. “Não é fácil andar de chapa ou a pé com máquinas pesadas e outros
instrumentos de trabalho. Por isso um carro é necessário.”
Diz-se que Deus não da tudo aos seus filhos e no caso de Manguele, o ditado assenta-lhe que
nem uma luva. É que, se por um lado o jovem se apresenta como um bom empreendedor e o
exemplo de um gestor por lapidar, o seu sucesso escolar não passa de uma miragem.

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Esforça-se por estudar, mas nunca consegue bons resultados, pelo que a vaga de fracassos,
aliada à falta de meio já o levaram a desistir da escola e a ocupar-se em pequenos trabalhos
com ganhos imediatos. Já esteve na vizinha África do Sul, mas logo voltou as raízes.
Porque a desistência é a alternativa dos fracos e a persistência a opção dos fortes, há poucos
anos o jovem voltou aos bancos da escola. Hoje com 25 anos de idade frequenta a sétima
classe no bairro Infulene. “Não estudo para ter um bom emprego, mas para aprender as boas
maneiras com os meus clientes que são de classe alta”, disse.
No fim-de-semana quando as pessoas estão em casa, o trabalho fica mais puxado. Os clientes
querem ver seus jardins caprichados. Graças ao seu emprenho, já foi contactado para prestar
serviços em várias instituições. Neste momento trabalha para duas bombas de combustível da
Matola, onde ganha 1000 meticais numa delas e 1500 noutra por mês.
Roberto Munhemese e Armando Manguele são dois exemplos claros de empreendedorismo.
Indivíduos que partiram do nada, que diante das adversidades da vida não se deixaram abater
e seguiram em frente, em direcção aos seus sonhos, enfrentando situações que a muitos
desanimariam. Com a sua força de vontade hoje proporcionam emprego aos seus
compatriotas e ajudam no desenvolvimento deste grande Moçambique. O país precisa de 20
milhões de indivíduos como estes.
EMPREENDEDORISMO

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42 UNIDADE IV – EMPREENDEDORISMO EM MOÇAMBIQUE

www.educacional.com.br/reportagens/educacaoempreendedorismo/default.asp
http://www.construirnoticias.com.br/asp/materia.asp?id=1361