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HISTÓRIA ECONÔMICA DO BRASIL

Caio Prado Jr.

PRELIMINARES (1500-1530)

1. O meio geográfico
Prado no início do livro descreve o palco sobre o qual se desenrolou a história
econômica brasileira, o seu meio geográfico. Inicialmente, afirma que o litoral
brasileiro, por ter poucas reentrâncias, não é propício para navegação. Mesmo assim, o
país volta-se para o Atlântico, único oceano que possui acesso. O Oeste é barrado pelos
Andes, com terrenos agrestes e de penetração e ocupação difíceis.
A faixa litorânea foi a primeira ocupada e é a mais importante. Os solos
próximos ao litoral são férteis e propícios à agricultura tropical (base econômica do país
desde a colonização).
Quanto à fixação da população, Prado afirma que os terrenos semiáridos,
imprestáveis à agricultura corrente, do Nordeste, mantiveram a população no litoral,
dentro do possível.
No Sudeste, o relevo impede e opõe a penetração, já na Amazônia, composta
por florestas semiaquáticas, o interior se abre para o mar pelos rios, com as povoações
se fixando no leito dos rios. Já o planalto Centro-Meridional oferecia ótimas condições
para a instalação do homem, a saber, solo fértil, clima temperado e rios normais. Região
com bom potencial mineral.
Acerca do centro-sul, Caio Prado o dividiu em três setores: 1) setentrional, de
grande altitude e relevo acidentado (Minas Gerais); 2) meridional, de relevo uniforme,
florestas e campos naturais (de São Paulo ao Rio Grande do Sul) e 3) ocidental, com
planícies herbosas e terrenos alagadiços, sem grandes recursos naturais, onde no futuro
se desenvolveria a pecuária.
No Extremo-Norte, há o contato com o Atlântico pela bacia amazônica, imenso
sistema hidrográfico. A ocupação dessa região se deu mais às margens dos rios, devido
à dificuldade de se adentrar na mata densa.
Em relação aos habitantes originários, pode-se dizer que os indígenas
brasileiros, diferentemente dos andinos e mexicanos, não tinha um nível de organização
avançado. Por isso, não se adaptaram ao modo sedentário do trabalho escravo
português. Bons nômades, eles preferiram morrer brigando a se adaptar. Certamente,
esse foi um dos fatores que influenciaram na ocupação demorada do território brasileiro.

2. O caráter inicial e geral da formação econômica


O caráter inicial da formação do Brasil foi ditado pelo contexto internacional.
Com a expansão marítima europeia / revolução comercial na Europa deslocou-se a
primazia comercial para os países litorâneos como a Inglaterra, Holanda, Espanha e
Portugal. Ao invés de lançar-se à exploração comercial das oportunidades que se lhe
abriam no continente, Portugal partiu para a conquista de áreas sem concorrência como
a África e as Ilhas do Atlântico. Contornaria a África para alcançar as índias com o
Périplo Africano, tentando superar os italianos, que possuíam o controle da rota das
índias e abasteceu a Europa por muito tempo com pimenta. Ao mesmo tempo os
espanhóis alcançavam a América e os ingleses povoavam a América do Norte. Aí, a
colonização só ocorreu por consequência dos cercamentos (destinação dos campos para
a produção de lã), e a sociedade foi pouco mais do que um prolongamento da Inglaterra.
Na América tropical e subtropical, a ocupação e o povoamento tomaram outro
rumo. Os povos europeus tiveram dificuldade com o clima dessa região, as doenças e a
natureza pesada. O europeu só vem para os trópicos para coordenar, ser dono de grandes
terras. As colônias temperadas eram mais desejadas pelos colonos devido à proximidade
com os hábitos europeus. No Brasil, nem se cogitou o trabalhador branco.
Na América temperada: povoamento. Na tropical: empresa de colono branco
recrutando trabalho de “raças inferiores”.

3. Primeiras atividades. A extração de pau-brasil

Em toda a América por muito tempo ficou-se mais na exploração da madeira,


peles e da pesca. Quanto ao Brasil, a princípio só se cogitou explorar produtos
extrativos, a ideai de povoar não ocorre a nenhum. É o comércio que interessa. As
índias eram muito mais atrativas do que uma terra deserta recém-descoberta sem
perspectivas econômicas alentadoras. A ideia de povoas só surgiu quando por
contingência precisaram criar um povoamento capaz de abastecer e manter feitorias e
organizar a produção de gêneros de comércio para a exportação.
O primeiro produto extrativo a ser explorado aqui foi o pau-brasil. Em 1501,
Fernando de Noronha recebeu uma concessão de exploração, mas três anos depois
passou a ser monopólio real (precisava de autorização real para explorar). Franceses e
portugueses traficavam esse produto do território brasileiro. A indústria extrativa de
pau-brasil tinha que ser nômade, dada a dispersão das árvores pela terra, e assim não
tinha condições de fixar povoamento. Para a exploração, construíram-se fortins para se
defender dos índios e dos exploradores estrangeiros, que eram abandonados logo em
seguida e guardavam as mercadorias enquanto não vinham os navios recolhê-las. Eles
serviam também como mão-de-obra, recebendo quinquilharias como pagamento. 

OCUPAÇÃO EFETIVA (1530 a 1640)


 
4. Início da agricultura
Descreve o período em que o Brasil começou a ser ocupado e povoado. A
ocupação começou devido à ameaça dos franceses de tomar o território. Ninguém
queria morar aqui. O rei dividiu o território em 12 capitanias hereditárias. Os titulares
eram dotados de grande poder político nas terras, nomeando autoridades etc. Em regra,
a produção econômica era baseada na produção de cana-de-açúcar. A mão-de-obra era
indígena.
O caráter inicial da nossa formação foi agrícola, em particular voltada para a
produção do açúcar. Foram características da nossa agricultura: a escravidão, o
latifúndio, a monocultura e a produção voltada para o mercado externo. Ou seja,
baseou-se no regime de plantation (grande propriedade trabalhada por escravos). A
grande propriedade se explica pelo fato de o açúcar ser rendoso apenas em grandes
terras - na América temperada, a ocupação de se deu em pequenas propriedades, do tipo
camponês -. Valeram-se da mão-de-obra servil, pois não se podia empregar mão-de-
obra inferior em culturas diversificadas e com alto teor técnico.
Assim, toda a costa de presta ao cultivo de cana, com Pernambuco e Bahia
prosperando. O Rio de Janeiro e São Paulo mantiveram-se apagados como produtores
de açúcar até o século XVIII por causa da sua posição excêntrica.
No início a agricultura valeu-se do índio para o trabalho servil, mas com a
afluência dos colonos diminui a sua disposição para o trabalho, ficando cada vez mais
difícil vencer sua resistência. Depois disso, foi mais comum a utilização do trabalho
indígena em regiões mais pobres, em que não se podia pagar o preço dos escravos. Em
1570 uma carta régia limitou a escravidão aos prisioneiros apenas em “guerras justas”.
Visto sua inadaptação, foi introduzido o negro, que já era usado no reino, o que
resolveria esse problema. O seu preço de compra era caro, só os locais mais florescentes
suportaram. Já os trabalhadores livres foram utilizados nas funções de chefia ou de
especialidade.
Durante mais de um século e meio, a produção de açúcar foi a única base
econômica brasileira. Até 1650 fomos os maiores produtores mundiais de açúcar,
sofrendo apenas depois concorrência das Antilhas e da América Central. Nem todos os
senhores tinham engenhos próprios. Houve também várias fazendas obrigadas (cede-se
terras, mas o processamento em açúcar se dá no engenho do cedente). O tabaco também
foi relativamente importante, principalmente na região de Cachoeira. Também foi
plantado em maior escala em Sergipe e Alagoas. Foi usado na troca por escravos
africanos, assim como a aguardente.

5. Atividades acessórias
Ao lado da agricultura exportadora desenvolveram-se atividades subsidiárias
para tornar possível a realização desse objetivo principal, economia de subsistência,
para suprir os colonos. Elas foram principalmente encontradas nos próprios domínios da
lavoura açucareira, em terrenos a parte e entremeados. Foi marca do período colonial o
fato de a sociedade viver num estado contínuo de subnutrição.
Os centros urbanos, especialmente, careceram dos gêneros básicos para a
alimentação. Alguns proprietários foram inclusive, a contragosto, obrigados a plantar
mandioca para atender as condições mínimas de alimentação. Por isso, em alguns
lugares criaram-se plantações especializadas. No início, eles recorriam aos índios para o
trabalho nessas plantações, mas com a fixação deste na cidade e sua consequente
sedentarização terminou por engrossar a classe intermediária (caboclos) entre a servil e
a senhoril. Entre os hábitos alimentares do povo estava largamente a fruta, sendo as
verduras pouco consumidas dada a abundância das primeiras.
Essencial: produzir gêneros tropicais de grande expressão econômica para a
Europa. Secundária: alimentar os trabalhadores da colônia.
Nesse setor de subsistência, compreende-se a pecuária. As fazendas pecuárias no
período inicial da ocupação do Brasil multiplicaram-se rapidamente por dois motivos
principais: o consumo crescente de carne e a facilidade em se levantar uma fazenda. A
atividade, dada a sua baixa densidade de renda e o seu caráter subsidiário, foi empurrada
ao interior pela cultura da cana. No Nordeste, o senhor era absentista e a fazenda era
dirigida pelo vaqueiro. Na primeira fase de ocupação, o Rio de Janeiro era abastecido
pelo Campo dos Goitacazes e São Paulo recebia dos Campos Gerais.
 

EXPANSÃO DA COLONIZAÇÃO (1640 a 1770)

6. Novo sistema político e administrativo na Colônia 


            O novo sistema político que se desenvolveu na época da expansão da
colonização foi marcado pela instauração do aparato que tornava mais forte o controle
sobre as atividades da colônia. O contexto que levou Portugal a tomar essas atitudes foi
marcado pelo enfraquecimento de suas colônias no oriente, bem como a situação de
arraso em que Portugal ficou com o fim da União Ibérica, com sua frota comercial
arrasada. Além disso, Portugal perdeu algumas de suas possessões para os Países Baixos
e para a Inglaterra. Agora, Portugal só tinha o Brasil e a África, onde teria que apostar
todas as suas fichas. Por isso, nesse período foi grande a emigração de portugueses do
Reino para o Brasil.
            Portugal com o tempo foi resgatando as capitanias hereditárias e dando mais
poder aos governadores reais. Havia liberalismo com os estrangeiros, tanto de comércio
quanto de moradia. Depois da União Ibérica, no entanto, passou-se a criar os
monopólios e as companhias privilegiadas. Surgiram, nos últimos anos do século XVII,
atritos entre os locais e os imigrantes. Proibiu-se a produção e venda de oliveira, vinho,
pimenta, canela, e sal, para não concorrer com o comércio português, foram tomadas
medidas contra a produção de aguardente, que também prejudicava o comércio de vinho
do porto.
A primeira companhia privilegiada de comércio foi montada em 1647, com o
monopólio sobre toda a costa. Além do direito de vender vinho, azeite e bacalhau. Em
1682 criou-se a Companhia de Comércio do Maranhão e do Grão-Pará, que resultou na
revolta do Beckmann.
O que foi dito basta para caracterizar a nova política econômica da metrópole
portuguesa, que ao liberalismo do passado substituía um regime de monopólios e
restrições destinados a dar maior amplitude possível à exploração e ao aproveitamento
da colônia, e canalizar para o Reino o resultado de todas suas atividades.

7. A mineração e a ocupação do Centro-Sul


            Foi no início do século XVIII que se descobriram as primeiras jazidas de ouro,
tendo durado as atividades de mineração aproximadamente três quartos de século. Para
organizar a vida caótica que se desenvolvia na região das Minas e garantir o
recolhimento dos devidos impostos pelo governo foi montado um forte aparato
administrativo. O setor foi bem controlado, diferentemente do que ocorreu nos outros
ciclos econômicos.
O seu órgão máximo foi a Intendência das Minas, subordinado apenas à Coroa.
Determinou-se a livre exploração do ouro com o pagamento do quinto. A Fazenda Real
também recebia datas na repartição delas, mas não chegou a explorá-las. Tentou-se em
seguida instituir a capitação, mas não funcionou, partindo o governo então à construção
de casas de fundição, onde se recolhia o quinto. Foi decretado também o pagamento da
derrama, caracterizada pelos violentos abusos na cobrança, mas que com a decadência
das atividades mineradoras tornou-se cada vez mais espaçada a cobrança.
           Lavras: extração em produção abundante, possui grande quantidade de
trabalhadores. Faiscadores: pequena extração realizada por indivíduos isolados.
Motivos da decadência da mineração: esgotamento das jazidas e baixa
tecnologia na exploração. A decadência do sistema se deu pelo esgotamento das jazidas
(as rochas matrizes eram escassas) e pela técnica deficiente na mineração, marcada pela
ignorância e pela desorganização. A Coroa por sua vez, preocupou-se apenas em
garantir a arrecadação do impostos. Ao invés de enviar técnicos enviava fiscais. As
consequências da era do ouro no Brasil foi o deslocamento da primazia econômica do
nordeste para o centro-sul do país, a ocupação do centro do país e o surgimento de
vários núcleos separados entre si por imensas áreas desertas.
Nessa época, explorava-se também diamantes. Chegou a ter o monopólio dessa
produção, mas o peso dessa atividade na economia era bem menor que o do ouro. A
exploração dos diamantes pode ser dividida em três fases. Quando começou em 1729,
houve a livre exploração, na segunda o arrendamento aos exploradores, e depois o
monopólio real. Neste último período, mesmo com a depreciação das pedras pela
concorrência dos diamantes descobertos em outras áreas, a crise portuguesa os levou a
ofertá-los em grande quantidade no mercado, obtendo lucros bem menores do que
teriam se houvessem aguardado um pouco mais ou regulado a quantidade que
ofertavam. A decadência da exploração de diamantes é concomitante à do ouro.
Outra consequência foi a transferência da capital do Brasil para o Rio de Janeiro
em 1763 já que a comunicação das Minas com o exterior se faziam por lá.
No entanto, essa constituição desordenada dificultou o estabelecimento de um
sistema de transporte eficiente, que integrasse a população do país. Com o surgimento
desses novos núcleos de povoamento surge a necessidade de abastecimento que
estimulará as regiões de Minas Gerais, São Paulo e Rio de Janeiro a desenvolver a
agricultura e a pecuária, principalmente no Sul de Minas.
 
8. A pecuária e o progresso do povoamento do Nordeste 
A pecuária nordestina desenvolveu-se às margens do São Francisco, no Piauí e
no Maranhão, nas perizes, confluindo no Ceará e no Maranhão. Os fazendeiros eram
atraídos pelos olhos-d’água para montar suas fazendas. O Piauí nessa fase tornou-se a
mais importante região pecuarista do Nordeste, fornecendo à Bahia. O seu apogeu foi
no meio do século XVIII, em que abastecia sem concorrência do Maranhão até a Bahia,
decaindo com as secas no final do século. As principais dificuldades enfrentadas pela
pecuária nordestina foram as difíceis comunicações com os centros consumidores, as
secas constantes e a concorrência com o sul da Minas, cuja carne era de qualidade muito
melhor e era mais próximo aos centros mineradores, e com a carne seca do Sul.
No São Francisco também se explorou o sal, que abasteceu os sertões baiano,
mineiro e goiano.

9. A colonização do Vale Amazônico


A ocupação da Amazônia iniciou-se com o objetivo de expulsar holandeses e
ingleses com a fundação de Belém em 1616. A região possuía condições naturais
extremamente desfavoráveis à fixação do homem como a vegetação equatorial e as
florestas semiaquáticas que dificultavam a agricultura, que aqui apenas se ensaiou
(cana-de-açúcar). O homem procurou sempre as margens do rio para fixar-se, pois eles
lhes permitiam fácil deslocamento pela região na procura pelos produtos extrativos. Sua
economia se sustentou pela exploração desses produtos como a salsaparrilha, o cravo,
canela, castanha, cacau, o peixe, o óleo de tartaruga. A pesca foi sedentária, surgindo
alguns pesqueiros particulares e reais. Os índios se adaptaram bem a esse trabalho, pois
diferentemente da mineração e da agricultura, eram atividades que já desempenhavam.
Havia somente duas atividades que se podia desenvolver: pegar os produtos ou
acompanhar as embarcações que os carregavam. Os colonos aproveitavam as épocas de
colheita para laçarem-se em expedições, disputando a força de trabalho do índio com as
obras do governo como fortes, comissões de limites e com os jesuítas.
Jesuítas disputavam com os bandeirantes e com os colonos leigos.
Destacamos o papel de relevo desempenhado pelos jesuítas, cujo poder foi
abolido em 1755, culminando na sua expulsão em 1759, que desbravaram o território e
fundaram suas missões, ajudando a pacificar o índio na região. Os carmelitas e outras
ordens mais dóceis puderam ficar. Além da expulsão dos jesuítas, o Marques de Pombal
implementou o fim da escravidão indígena e sua equiparação aos demais trabalhadores,
inclusive com recebimento de salário. Na verdade, semi-trabalhadores. Havia um forte
traço servil nessa relação.

 
APOGEU DA COLÔNIA (1770 a 1808)

10. O renascimento da agricultura

O período que marca o apogeu da colônia foi ditado pelo contexto externo que
se desenvolveu. Foi nessa época que Portugal coloca em prática plena o pacto colonial.
Primeiro, tomava força na Inglaterra a revolução industrial, com o incremento do
comércio e das atividades econômicas, o aumento da população europeia e a
consequente valorização dos produtos colônias por causa das guerras e do colapso das
Antilhas em 1792, apesar de as índias ocidentais holandesas levarem vantagem sobre
nós por serem mais recentes. Portugal por ter ficado neutro nos conflitos que se
desenrolaram na Europa durante o século XVIII pode concentrar-se mais em colocar em
prática a política do pacto colonial do Brasil, servindo-se do contexto externo favorável
para tal.
O algodão serviu também como moeda de troca, e preferiu o interior ao litoral,
como Caxias no Maranhão, o agreste e a Bacia do Jaguaribe no Ceará. Não exigia mão-
de-obra abundante. A partir de 1760 saiu do Maranhão passando a ser cultivado em
várias outras regiões em menor escala. Continuando o traço brasileiro de economia
exportadora. Deu-se inclusive a criação da Companhia de Comércio do Pará e
Maranhão, que foi extinta em 1777. A produção algodoeira caiu com a concorrência
internacional e o não aperfeiçoamento técnico brasileiro nessa produção e a consequente
queda no preço, provocando um colapso nas regiões produtoras.
O açúcar, graças ao contexto externo fez reerguerem-se a Bahia e Pernambuco,
além de surgirem novos produtores, os Campos dos Goitacazes e o litoral de São Paulo,
bem como e principalmente no seu planalto no final do século. Começa aqui o começo
da prosperidade de São Paulo.
O Arroz também teve destaque, chegou a ser o segundo produto mais exportado
pela colônia. O indigoeiro também teve destaque, mas representou pouco na exportação
brasileira e logo desapareceu, devido à péssima qualidade do anil brasileiro.
No final do século XVIII, o café começou a ser produzido em larga escala.
Internamente, as regiões mineradoras voltaram-se para a agricultura e para a
pecuária. Minas se tornou a melhor região pecuária, iniciando-se também na produção
de queijo e desenvolvendo plantações de tabaco na região do Sul de Minas. O Rio
Grande do Sul superou o sertão nordestino, que entrou em queda livre com as secas.
O centro econômico saiu do interior e voltou-se novamente para a faixa
litorânea, região mais propícia à agricultura. Coube à pecuária e à mineração a
interiorização do território brasileiro.
Analisemos as técnicas segundo as quais se desenvolveram nossas atividades
econômicas. Nessa época, já se sentiam os efeitos devastadores causados pelos
processos bárbaros e destrutivos empregados até então no cultivo do solo, como o uso
indiscriminado da lenha, as queimadas, o não aproveitamento do bagaço da cana e a
separação entre a agricultura e pecuária, que havia privado o solo do adubo. Assim,
contamos apenas com os solos férteis e com os recursos naturais abundantes para
obtermos nossos produtos agrícolas. Além disso, os processos eram altamente
improdutivos, o colono, pelo próprio sistema, era isolado do mundo, não tinha
oportunidade de conhecer novas tecnologias. A força hidráulica não era comum,
dependendo-se da força do homem e dos animais.
 
11. Incorporação do Rio Grande do Sul – estabelecimento da pecuária
 
            A região no extremo-sul do país apenas começará a contar economicamente a
partir de 1750. Para a integração dessa região no eixo colonial o governo tomou
algumas ações depois do fim da União Ibérica, com o aumento das tensões entre
portugueses e espanhóis. A primeira foi fundação da Colônia de Sacramento em 1680,
tendo-a perdido de acordo com o Tratado de Madri em 1750. Também, procedeu à
colonização por açorianos. Enviou também à região uma corrente migratória que veio
de São Paulo, além da vinda de tropas de defesa. De certa forma, difere do restante da
ocupação do território, pois o Estado pagou o transporte, loteou as terras em pequenas
áreas e forneceu maquinário e sementes.
            A principal atividade econômica na região foi a pecuária. Inicialmente, se
baseava na exploração do couro, cuja carne era desprezada e que até o final do século
seria a maior mercadoria de exportação e as charqueadas, que se iniciaram em 1780,
coincidindo com a decadência da pecuária nordestina. A técnica seria semelhante a do
interior nordestino, baixa, mas as condições naturais são bem melhores. Depois,
também se baseou na venda de cavalos e muares, que forneciam às Minas, apesar de
utilizarem os cavalos como bestas de carga. A pecuária sulina não tinha nada de
cuidadosa, apenas desenvolveu-se graças às generosas condições naturais de que
gozava.
A propriedade fundiária assumiu gigantes latifúndios, sob a forma de estâncias,
levadas por capatazes e peões, cujos hábitos eram nômades dada a natureza dispersa dos
animais. Era forte também o elemento militar na região, sendo a relação entre o
estancieiro e os peões mais como de chefe militar e soldado. Depois do Tratado de
Santo Idelfonso em 1777, que acertou as fronteiras nacionais a região se pacificou.
 
12. Súmula geral econômica no fim da era colonial
 
A Era Colonial termina propriamente em 1808, com a vinda da família real para
o Brasil, e não em 1822, o que trouxe mudanças efetivas no rumo da economia
brasileira. Vimos no final da era colonial três núcleos de importância: Bahia,
Pernambuco e Rio de Janeiro. Em segundo plano estava o Pará e o Maranhão e São
Paulo começava a se destacar na produção de açúcar.
            Como já vimos, a economia brasileira no momento da autonomia política e
administrativa girava em torno da exportação de produtos tropicais de alto valor
mercantil, metais e pedras preciosas. As demais atividades eram secundárias e serviam
de suporte para a realização das atividades principais.
O comércio entre o Brasil e os mercados de consumo foi intermediado sempre
por Portugal, mas uma forte característica dessa atividade foi o contrabando,
principalmente por ingleses. O ramo mais importante, responsável por três quartos do
volume de negócios, foi o tráfego negreiro. Com o desenvolvimento da navegação a
vapor intensificou-se a cabotagem do comércio, inclusive do charque.
            Os transportes e as comunicações contribuíram para a sedimentação dos
povoamentos interiores no momento em que lhes garantiam o consumo de bens
importados e o escoamento de sua produção. Essas comunicações tendiam a convergir
para o interior, principalmente no Nordeste. O transporte de cargas se fazia
principalmente no dorso de animais, que encarecia os artigos volumosos e pesados. O
principal eixo se dava no litoral.
A navegação no Brasil é muito complicada, os rios possuem forte correnteza,
quedas e corredeiras. Além disso, muitos são irregulares/temporários. A maior parte da
movimentação das cargas se dá pelo mar.
Havia também pequenas manufaturas na colônia. Poucas, pois essa era
centralizada na metrópole. As artes e manufaturas foram simples acessórios da
mineração ou dos estabelecimentos agrícolas quando desenvolvidas longe dos centros
urbanos. Sua existência completava a autonomia dos grandes domínios rurais. Nos
centros urbanos surgiram as corporações, levadas por homens livres, que eram em geral
mulatos ou mestiços e eram auxiliados por escravos. Isso dispensou a aprendizagem de
meninos e adolescentes, que sofreriam no futuro com a exclusão econômica.
Os principais setores foram a cerâmica, a têxtil e de ferro. A cerâmica foi mais
comum nas regiões do gado, e a cordoaria na Amazônia. As manufaturas têxteis
tendiam a se tornarem autônomas no Rio e em Minas, mas foram sufocadas pela Coroa
sob Dona Maria em 1785, quando mandou extinguir tal indústria. O ferro contava com
matéria prima abundante a amplo mercado, mas não foi aproveitado como deveria, não
desenvolvendo o potencial que tinha por conta das dificuldades impostas. Assim,
quando a conjuntura se tornou favorável preferiram não assumir os riscos de novas
restrições do governo colonial.
           No campo extrativista, além da mineração de ouro e diamantes, e da coleta de
produtos naturais na Amazônia, destacaram-se também a extração de madeira (para
moradias e embarcações), da pesca da baleia, do sal, da erva-mate e do salitre.
Explorou-se a madeira para a construção naval com estaleiros na Bahia e no Maranhão,
mas tornou-se mais intensa a sua exploração depois de 1810 com os ingleses. A pesca
da baleia desenvolveu-se pela faixa litorânea que ia da Bahia até Santa Catarina,
decaindo futuramente com a concorrência americana e inglesa nas Ilhas Falkland. O sal
era monopólio da Coroa, o que não nos permitiu aproveitar as jazidas de sal do Rio
Grande do Norte, apenas o marinho, do Maranhão até o Rio. O salitre foi explorado por
iniciativa particular num afluente do São Francisco, na Bahia e no norte de Minas. A
erva-mate foi produzida no Paraná e também por jesuítas nas missões, mas foi mais
apreciada em regiões platinas como Montevidéu e Buenos Aires.
 

LIBERTAÇÃO ECONOMICA (1808)

13. Libertação econômica 


            Quando da vinda da família real para o Brasil, apresentávamo-nos sob o seguinte
contexto: a indústria portuguesa não havia se desenvolvido. Suas atividades giravam em
torno do comércio colonial brasileiro, atuando como mero intermediário, pois não era
nem consumidor dos gêneros tropicais e nem fornecedor dos consumidos aqui. Portugal
nos impedia com isso de garantirmos a nossa subsistência com recursos próprios. Além
disso, Portugal tinha sua marinha arruinada desde o final da União Ibérica. O
aparecimento do capitalismo industrial causa a falência do pacto comercial e se volta
contra os monopólios, fazendo desaparecer o artesão e requerendo o acesso aos
mercados consumidores por parte dos países produtores de bens manufaturados, como a
Inglaterra. Portugal, por outro lado, só tinha o nosso comércio para se sustentar
economicamente.
            A abertura dos portos às nações amigas cedeu à Inglaterra toda a liberdade de
ação que Portugal tinha no Brasil com o Tratado de Comércio e Navegação, segundo o
qual os produtos ingleses concorriam com imensa vantagem até sobre os produtos
portugueses, além de possuírem variedade e qualidade muito acima daquela das
mercadorias do reino e pela facilidade de transporte pela quantidade. A abertura dos
portos atendeu a circunstâncias do momento, pois o comércio português estava
interrompido por Napoleão e a colônia estava desabastecida. Foi portanto, a abertura, a
grande precursora da independência do Brasil, pois rompiam-se irrevogavelmente os
laços que nos ligavam à metrópole. Outras conseqüências foram as melhorias nas
estruturas portuárias, construção de estradas e a imigração. O Rio virou centro de
atração e atenção. A corte fiou aqui por 13 anos, e muitos dos seus membros criaram
laços com a terra e passaram a investir aqui. O Brasil passou a ser uma opção mais
promissora depois disso.
            Um dos principais efeitos no Brasil foi a criação de serviços como estradas,
higiene, saneamento, escolas, exército. Em Minas Gerais surgiram várias manufaturas
têxteis.Vimos surgir um estímulo às necessidades de consumo que aqui cresceu em uma
proporção vertiginosamente maior do que a nossa capacidade produtiva, incentivando as
importações a fazendo surgir um equilíbrio financeiro abalado, visto que os nossos
déficits eram saldados por empréstimos internacionais, colocando-nos sob a
dependência estrutural dos empréstimos internacionais, o que os agravava ainda mais.
Com o alto volume de importações o governo viu como fonte de renda mais fácil o
imposto alfandegário, mas que com os tratados com a Inglaterra não nos permitiu por
um tempo aumentá-los. Por isso, não conseguimos desenvolver uma produção nacional
capaz de atender o nosso mercado interno. Para tornar as coisas piores, desapareceu
assim a classe dos artesãos, causando graves animosidades contra os estrangeiros e
graves conflitos sociais.
 
9. ABOLIÇÃO DO TRÁFICO (1808 a 1856)
 
Antes e depois da independência a escravidão constituía mola mestra na
economia. Com a ascensão do proprietário rural como classe dominante reforçaram-se
as posições escravistas, mas também ela foi perdendo a base moral até nos círculos mais
conservadores através de um longo processo. Argumentava-seque o maior perigo da
independência eram os escravos pela contradição que cindia as classes em castas.
Até a chegada da Corte ao Rio, ninguém pensava na ilegitimidade da escravidão.
Esta e o tráfico de escravos estavam visceralmente ligados, a dissolução de uma
implicaria no desmantelo do outro. Porém, surgiam correntes de pensamento que
defenderam a homogeneidade e a liberdade do povo para que nos tornássemos uma
nação una e forte, como Bonifácio. O Correio Brasiliense teve um importante papel na
condenação do sistema. O escravo não teve um papel ativo na luta pela extinção da
escravidão. Esse fato era alimentado pela renovação de massas de escravos pelo tráfico,
todas heterogêneas e hostis entre si. Na Bahia, no entanto, algumas manifestações foram
comuns.
            De acordo com o Tratado de Aliança e Comércio assinado em 1810, o Rei se
comprometia a combater o tráfico em territórios portugueses, mas pouco se viu na
prática, causando abusos por parte da Inglaterra. Com o Tratado de Viena que
reorganizou a Europa depois de Napoleão em 1815 instituiu-se o fim do tráfico ao norte
da linha do Equador e a Inglaterra conseguiu o direito de visita em alto mar por 15 anos
em 1817. Com a Independência em 1822 ratificaram-se os acordos anteriores e em 1831
foi proibido o tráfico por D. Pedro I. Durante a Regência, como ninguém por aqui
parecia querer aplicar as proibições, a Inglaterra redobrava sua vigilância, aumentando
os abusos e atacando até navios que não estavam envolvidos. Assim, o Brasil sentiu a
sua soberania ameaçada, principalmente depois da Bill Aberdeen em 1845, em que a
Inglaterra se dava direito total de vigilância e apreensão. Isso nos colocou sob um
iminente estado de guerra. Por fim, em 1850 foi decretada a expulsão dos traficantes e
abolido o tráfico negreiro.
            Como conseqüência, encerrava-se a fase de transição iniciada em 1808,
tornando-nos um Estado soberano e aberto à livre concorrência. Restabeleceram-se as
relações com a Inglaterra. Além disso, põe em xeque todo o conjunto daquela estrutura
assente na produção extensiva, pois desestruturou sua base. Como principal
conseqüência vimos a ativação dos negócios de outros setores pela liberação de capital
atrelado ao tráfico negreiro, que representava um quarto do comércio, enriquecendo a
população, aumentando a demanda agregada por bens e serviços e fazendo-se sentir
uma forte inflação, que já vinha aumentando desde a abertura dos portos e do aumento
das necessidades internas de consumo. Nos anos de 1857 e 1864 enfrentaríamos sérias
crises financeiras por causa disso. Uma outra conseqüência era o prenúncio do fim da
escravatura, por ser indissolúvel o binômio tráfico-escravidão.
 
10. REVOLUÇÃO AGRÍCOLA
 
            A abolição do tráfico impôs um novo contexto geral à nação. Quem sofreu
maiores impactos foi o Nordeste, que já sentia a decadência das lavouras tradicionais
com a concorrência do açúcar da beterraba e do açúcar do sul. O sul, mais próspero com
o café, sentiu menores impactos pois aproveitou-se da crise no norte para comprar os
escravos de lá, além de trazer imigrantes. O café foi introduzido no Brasil em 1727 no
Pará. Era uma planta delicada e permanente, demorava cerca de 4 anos para dar o fruto.
Tornou-se o principal alimento de luxo no comércio internacional no correr do século
XVIII. Seus maiores produtores haviam sido as colônias inglesas e neerlandesas –
Índias Ocidentais, Insulásia (Java e Sumatra). Aqui, só surgiu com a queda da
mineração e foi estimulada pela abertura do mercado norte-americano, agora desligado
da Inglaterra, que não queria mais comprar dos fornecedores ingleses. Contávamos com
uma posição geográfica favorável para suprir o mercado americano.
Vimos seu desenvolvimento em três fases: a primeira foi no Rio de Janeiro,
sendo rapidamente levado ao Vale do Paraíba, estendendo-se ao norte de São Paulo. Lá
condensou lavouras e povoamentos. Sua exploração foi descuidada, esgotando
rapidamente os solos e partindo para a região de Campinas. Lá, os solos de terra roxa
deram vida a enormes superfícies uniformes, os mares de café. A produção passou a se
orientar pelo porto de Santos, e contou-se com uma boa rede de estradas. De Campinas
o café prosseguiu sua marcha até a região de Ribeirão Preto, onde teve as melhores
condições e foi plantado em maior abundância. Por isso, foi menos acessível ao
produtor modesto, requerendo grandes investimentos.
 Com a cultura do café, sentimos um reajustamento da vida econômica do país,
com uma ascensão do padrão de vida da população. Instalaram-se manufaturas, estradas
de ferro, procedeu-se à mecanização da indústria rural, muitas delas com capital inglês
(principalmente os de infra-estrutura). A partir de 1860 observamos em nosso comércio
exterior crescentes superávits. Em 1844 o governo promoveu uma modificação na
política tarifária, mais para obter uma renda maior com as tarifas alfandegárias do que
para proteger a produção local. Esse aumento foi para 30 por cento para qualquer
mercadoria estrangeira, abrindo precedente, subindo depois para 50 por cento. A partir
de 1860, com a taxa de importação a 50 por cento, começaram a surgir manufaturas de
vulto.
As principais conseqüências da riqueza cafeeira foi o reforço da estrutura
tradicional da economia brasileira, de sua condição de fornecedor de gêneros em alta
para o consumo externo, com sua economia ligada a interesses exógenos e alheios,
estruturando toda a sua força e meios produtivos em função disso, dependente de uma
conjuntura internacional favorável. Outra foi o surgimento da última aristocracia do
país, tornando os fazendeiros de café a elite social.
11. DECADÊNCIA E ABOLIÇÃO
 
A oposição franca contra a abolição da escravatura só se inicia depois de 1850,
com o fim do tráfico negreiro, e sempre em segredo. Na lavoura já se sentia a falta de
braços – compravam-se escravos do norte para completar os quadros – e o sul se tornou
um dos maiores freios do movimento libertador. Vimos depois de 1850 se intensificar a
vinda de imigrantes, que conviviam na lavoura junto com os escravos. Viu-se falhar
essa primeira tentativa. Paralelamente, com o início da indústria manufatureira, a
aplicação do escravo era ineficiente, sendo mais vantajoso pagar salário, o que se
opunha ao seu desenvolvimento por falta de braços.
            Depois de 1865, éramos o único país a manter a escravidão, havendo
diversas tentativas de conciliação entre os interesses dos escravocratas e dos
libertadores, mas com a organização de um ministério escravocrata dissolveu-se a
Câmara e as forças conservadoras e reformistas se polarizaram. A Guerra do Paraguai
serviu como pretexto para adiar o debate franco sobre o tema. Com a Lei do Ventre
Livre em 1871, o governo aplicava uma manobra de diversão, tentando deslocar os
olhares sobre a escravidão. A partir de 1880 formam-se sociedade abolicionistas e os
próprios escravos começam a tomar parte na luta. A Lei de 28 de setembro de 1885 deu
liberdade aos maiores de 60 anos, o que era uma piada, pois raramente se chegava a essa
idade e mesmo se chegasse, não teria condições de arrumar seu sustento se fosse livre.
 
12. IMIGRAÇÃO
 
Depois da transferência da Corte para o Rio é que a imigração e a colonização
provocada tiveram finalidade demográfica. O sistema de colonização teve mais sucesso
no Extremo-Sul do país. Durante os 13 anos de permanência da Corte foram instalados
alguns núcleos de colonos alemães, suíços e açorianos no Espírito Santo, Rio de Janeiro
e Santa Catarina, cujo o objetivo era fortalecer a região devido às questões do Prata,
pois Portugal precisava reformar seu exército. As dificuldades enfrentadas foram o
clima desfavorável, a organização social pouco atraente e as restrições religiosas.
Outra onda de imigração foi acentuada depois do fim do tráfico de escravos,
passando a ser prioridade na política do governo, trazendo-os às fazendas em regime de
parcerias, só depois introduzindo o salário. Contudo, devido às condições de imigração,
houve campanhas na Europa contra a emigração para o Brasil, interrompendo a vinda de
trabalhadores para cá.
Por volta de 1870 quando a escravidão sofreu duros golpes, se passou a
estimular a imigração novamente, através da imigração subvencionada. Isso foi
favorecido pelas restrições à imigração nos EUA, fazendo o Europeu procurar o Brasil.
Em 1876 a Itália entrou como grande fornecedora de braços para cá. O trabalho livre
ajudou a enterrar de vez a escravidão, pois se abriam perspectivas de produção aos
senhores do café. A partir de 1880, as fazendas de café contarão quase que unicamente
com trabalhadores livres.
 
13. SÍNTESE DA EVOLUÇÃO ECONÔMICA DO IMPÉRIO
 
No final do Império, a indústria se apresentava ainda sem um mercado amplo,
concentrando suas atividades principalmente nas manufaturas têxteis no Rio de Janeiro,
Minas, Pernambuco, Bahia e Maranhão, pois essas regiões tinham uma maior densidade
demográfica e melhor proximidade das fontes de matéria prima. Permitiu-se com isso
entrosar no trabalho uma camada da população que vivia à margem da sociedade.
            A situação econômica do país foi marcada pela inflação de crédito e pela
inversão de capitais engessados anteriormente no tráfico para inúmeros novos
empreendimentos. A partir daí, houve coincidência entre os déficits crônicos e os
momentos de maior prosperidade econômica, o que evidenciava o caráter especulativo
dos investimentos internacionais aqui. O governo procedeu a continuas emissões de
moeda, refletindo em oscilações no poder aquisitivo do povo. Passamos por sérias crises
em 1857 e em 1864, sendo a mais séria da história a decorrente da Guerra do Paraguai,
entre 1865 e 1870, que garantiu a navegação nos rios Paraguai e Paraná, importantes
para o Mato Grosso do Sul, condição que perdeu a importância com a estrada de ferro
que o liga ao litoral Atlântico.
A década entre 1870 e 1880 representou o momento de maior prosperidade
nacional, com o acumulo de capital graças à agricultura, fazendo surgir um surto de
novos negócios. O trabalho assalariado agora movimenta o capital e o investimento
estrangeiro flui para cá. Multiplicam-se as empresas financeiras para dar suporto ao
novo sistema dependente do giro de capital. O progresso se mostrava com a navegação
a vapor, desbancando as comunicações terrestres e as estradas de ferro.
 
14. REPÚBLICA BURGUESA (1889 a 1930)
 
            A introdução do trabalho livre proporcionou o desmantelamento do
sistema antigo, a duras penas é verdade. As novas condições de vida forçaram uma
readaptação da estrutura agrária para atender o novo contexto demográfico do país.
Assim, proporcionou-se em algumas áreas o desmembramento dos latifúndios. A
adaptação do trabalhador livre não foi fácil por causa da instabilidade e do estado
permanente de atritos, pois o senhor não estava acostumado com a condição livre do seu
empregado. Isso gerou alta repercussão internacional dando nascimento na forma de um
aparato judicial de vigilância sobre o tratamento dos senhores com os trabalhadores.
            O Brasil passava a ser o maior produtor mundial de matérias primas.
Esse enriquecimento causou a explosão de atividades econômicas e uma mudança de
mentalidade, em que a ambição ao lucro era um alto valor social. O homem de negócios
era agora uma figura central na sociedade, e a política girava em torno de interesses
particulares. Com o problema interno de mão-de-obra resolvido, o alargamento dos
mercados mundiais para os produtos tropicais e o forte desenvolvimento da população
européia e americana, trouxe um liberalismo geral.
            Em nossas finanças vimos grandes inversões de capital internacional e o
incremento da lavoura cafeeira, que não teria sido possível sem tais inversões. Com
isso, ao tempo em que se fomentava a produção gerava-se uma forte dependência em
torno do negócio de uns poucos gêneros exportáveis, e na medida em que se investia
mais para garanti-lo tornava os empresários ainda mais dependentes desse negócio. A
isso somou-se uma maior autonomia dos Estados, que começaram a fazer empréstimos
em nome próprio, elevando a dívida externa de 30 milhões para 250 milhões de libras
em apenas 30 anos. Tudo isso gerou um forte desequilíbrio das finanças, com o
pagamento de juros de capital aos estrangeiros, com os pagamentos ao exterior pela
compra de gêneros alimentícios e pelo envio de dinheiro pelos imigrantes aos países de
origem. No entanto, esse desequilíbrio acabou por contribuir para a diversificação de
atividades, motivando o crescimento da indústria manufatureira e alguns campos de
experimentação em São Paulo, com a produção de variados gêneros agrícolas.
            Diante desse novo contexto, o governo procedeu à emissão de moeda
para atender à demanda por capital graças ao aumento do volume de negócios e para
auxiliar com crédito os produtores afetados pela abolição. A receita da União diminuiu
com a descentralização do poder, aumentando o déficit público. Ao mesmo tempo,
cresceram os encargos com as insurreições armadas. Essas constantes emissões de
moeda geraram um estado geral de especulação, com duas fortes crises em 1891 e 1898.
Em 1891, com a queda no preço do café devido à superprodução, teve lugar a
penetração da finança internacional como intermediários entre os produtores e os
consumidores. Estes não percebiam nenhuma alteração de preços, o que deixava a maior
parte dos lucros com os intermediários. Vimos um grande número de falências e a
retração do capital internacional, com a desvalorização da moeda e a queda na taxa de
câmbio. 
Em 1898 procedeu-se a uma moratória das dívidas, adiando o pagamento de
juros aos franceses e ingleses pela construção de estradas. O London & River Plate
Bank foi o intermediário entre o Brasil e os credores e saiu-se como maior beneficiado.
Houve então retração da moeda e o Brasil tornou-se um campo seguro para inversões
estrangeiras. Assim, aumentaram-se as exportações, melhoraram-se os portos,
construíram-se usinas de energia, reforçando ainda mais nossa dependência ao capital
externo.
 
15. CRISE DO CAFÉ
 
            O café havia progredido até então graças a uma série de fatores. São
Paulo encontrou vantagens topográficas, de solo e de transportes extremamente
favoráveis, mas a cultura cafeeira não acompanhou os progressos qualitativos que se
impunham. O Espírito Santo também desenvolveu sua lavoura mas esbarrou na escassez
de terras. A imigração européia foi outro fator essencial para esse progresso, tendo
resultado de um persistente esforço e organização do governo.
            A crise cafeeira foi resultante especialmente da superprodução, pois
como foi dito anteriormente, os altos lucros estimulavam maior investimento na
produção, o que tornava os investidores ainda mais dependentes do sistema.
Acumularam-se estoques invendáveis do produto e intensificou-se a especulação através
dos intermediários. A partir de então a economia cafeeira foi marcada por crises
sucessivas e grandes oscilações.
Em 1906 com a queda nos preços e a valorização da moeda, os preços caem
abaixo do custo de produção e o governo interveio com uma Política de Valorização,
comprando a produção para forçar o preço a subir. Criou-se a Comissão do Café para
gerir a valorização, e depois os produtores teriam que arcar com as dívidas contraídas
através de um imposto sobre as sacas. Assim, entraram como financiadores vários
grupos financeiros, que ajudaram a retirar do mercado entre 1906 e 1910 cerca de 8
milhões e meio de sacas. Eram eles que ganhariam mais com os lucros da revenda.
Alcançou-se um certo equilíbrio de preço com a Primeira Guerra entre 1914 e
1918, ajudado por uma grande geada.
Com o fim da guerra, houve um novo boom, e entre 1918 e 1924 aumentou-se
mais uma vez a produção, com novo surto de negócios e de emissões de moeda, além da
ativação financeira da economia. Novamente, a superprodução esboçava uma crise, e
criou-se o Instituto do Café em São Paulo, que controlava a oferta e a demanda, apenas
regulando as entregas. Os produtores eram ajudados com um financiamento de até 50
por cento do valor da produção pelos bancos. Paralelamente, formavam-se grandes
trustes que dominavam todo o mercado financeiro, como a Lazard Bros., adiantavam
recursos necessário para outros Estados para ajudar a regular as entregas.
A partir de 1926 já tínhamos um acúmulo de estoques retidos e mesmo assim, a
alta nos preços estimulava novas dívidas para financiar a produção que não era vendida.
Como o Brasil era responsável por 60 por cento da produção mundial, tentou-se
manobras para forçar alta dos preços, mas que não funcionou por causa do aumento da
participação da concorrência, em especial a Colômbia. Com o craque da bolsa de Nova
Iorque em 1929 estancou-se o crédito externo, suspendeu-se o financiamento do café
retido e procedeu-se à liquidação dos débitos.
Uma região em que observamos um certo progresso depois da quebra geral foi a
de Minas Gerais.
 
16. OUTROS PRODUTOS (189 a 1930)
 
            Passemos a uma visão geral da agricultura.
            O açúcar enfrentava séria crise com o fim do tráfico de escravos e a
queda de preços. Como agravante, ainda sofria com a concorrência do café por mão-de-
obra. A crise aumentou com a concorrência das regiões arruinadas pelo café, que se
passaram a plantar cana. A produção de açúcar ainda representava a única atividade
econômica de grandes regiões do país. Insistia-se numa atividade que já havia perdido
sentido, ao invés de diversificarem sua economia. Tendo perdido o mercado externo,
sua produção se volta para o interno, principalmente as zonas cafeeiras. Alcançou-se
uma certa estabilidade com a criação do Instituto do Açúcar e do Álcool, que manteve a
alta de preços. As conseqüências da crise foi a transformação dos engenhos e usinas.
Esse processo ocorreu pois os engenhos que não tinham recursos recorriam aos
engenhos centrais, que moíam a cana de várias propriedades. Os donos dos engenhos
centrais passaram a usar matéria prima própria, e devido à irregularidade no
fornecimento de cana, passaram a adquirir os engenhos, tornando-se usineiros.
            O cacau representou durante o período colonial a maior riqueza para a
Amazônia, mas foi na Bahia em meados do século XVIII que encontrou ótimas
condições naturais, chegando a contribuir posteriormente com 90 por cento da produção
mundial. Chegou o cacau a proporcionar novas perspectivas de retorno da riqueza que
se havia perdido na Bahia, com o alargamento dos mercados mundiais no século XIX
com o crescente consumo do chocolate, coincidindo com o aparecimento da borracha
em 1880, mas esbarrou mais uma vez na conjuntura externa. São Tomé era o nosso
principal concorrente, mas foi quando a Costa do Ouro obteve 40 por cento do mercado
mundial é que caímos em uma crise que nos colocou num inexpressivo segundo lugar.
            A borracha decolou na pauta de exportação depois de 1880, depois de
ganhar importância com o desenvolvimento da vulcanização em 1842. A exploração da
borracha foi ainda auxiliada com a vinda de nordestinos à região da Amazônia entre
1877 e 1880 por causa da seca e atingiu seu auge em 1912, sendo responsável por 40
por cento das exportações. Garantiu-se a mão-de-obra através do endividamento do
trabalhador ou até pela força. O avanço das frentes de exploração da borracha chocou-se
com uma frente de militares bolivianos, resultando na questão do Acre, que em 1907 se
tornou o maior produtor de borracha do país.
            A crise da borracha se deu por causa da concorrência oriental no Ceilão e
na Malásia. Éramos apenas produtores de matéria prima mas todo o negócio era alheio a
nós. A Amazônia teve mais caráter de povoamento do que de uma sociedade
organizada. Com a crise, a povoação se dissipa e a riqueza se desfaz.
            Ganhava força no Brasil o surgimento da pequena propriedade. Ela
surgiu principalmente nas áreas onde o café não vingou ou onde faliu a sua produção.
Suas causas principais foram o adensamento da população, que não sustentava mais
aquela estrutura fundiária, a crise da grande propriedade, a partilha hereditária e o
desmantelamento do sistema servil com o advento da imigração. A pequena propriedade
só se difundiu em São Paulo por causa das vicissitudes da lavoura do café, que deixava
para trás terras cansadas, que são aproveitadas pelas comunidades modestas. Além
disso, as crises favoreciam a venda e o retalhamento de fazendas. Foi também um fator
propulsor a crescente industrialização, estimulando-se a diversificação de gêneros
alimentares para atender as necessidades das grandes aglomerações urbanas, resolvendo
o problema da carestia alimentar, que era uma função da importação.
 
17. INDUSTRIALIZAÇÃO
 
Os principais deflagradores da industrialização do Brasil foram o declínio do
câmbio, que favorecia e exportação e encarecia a importação, as altas tarifas
alfandegárias a partir de 1844 com o objetivo principal de obter recursos para sanar o
buraco do Tesouro Público, a disponibilidade de mão-de-obra barata e a produção do
algodão, que estimulou a maquinofatura têxtil. A Primeira Guerra também contribuiu
para o crescimento da nossa indústria pois caía a concorrência estrangeira – crescia o
número de subsidiárias estrangeiras depois da guerra, atuando no setor químico,
elétrico, de veículos, além de impulsionar o produção de carne congelada no Rio
Grande do Sul para exportação. A partir de 1907 as principais atividades industriais
eram a de alimentos e têxtil.
A indústria brasileira viveu parasitariamente das altas tarifas alfandegárias e da
depreciação cambial, assim, onerava-se a aquisição de modernos bens de capital
importados, o que nos deixou sempre um passo atrás dos grandes concorrentes externos,
além de impedir a entrada de novos concorrentes na nossa indústria por causa dos altos
custos dos materiais importados. Essa situação provocava uma inércia nas nossas
indústrias, que não lutavam para conquistar novos mercados, pois eram extremamente
protegidas. Era portanto uma indústria rotineira e sem progresso técnico sustentado, sua
sorte estava ligada às vicissitudes de fatores que não dependem dela: o comércio
externo e as emissões de moeda para cobrir os gastos do governo. Outra característica
foi sua dispersão, não sendo as indústrias inseridas num sistema homogêneo que
promovesse o desenvolvimento sustentável da atividade industrial.
Os investimentos iniciais para o financiamento da indústria vieram
principalmente dos fundos individuais dos fundadores e com a acumulação de capital
graças ao café. Com o tempo, passaram a utilizar os lucros obtidos com a indústria
como reinvestimento.
O crescimento da indústria teve o primeiro ímpeto em 1880 e 1889, com o surto
de novas de atividades no país. Como foi dito antes, sustentou-se na desvalorização
cambial e nas altas tarifas alfandegárias protecionistas. Depois da Primeira Guerra a
metalurgia se desenvolveu com a criação da Belco-Mineira em 1921. Até então a
exploração das jazidas de ferro tinha sido dificultada pelo controle das jazidas por
empresas internacionais. Em São Paulo foi o Estado mais favorecido, graças à riqueza
criada pelo café, à imigração européia e à energia hidráulica em abundância.
As dificuldades encontradas no desenvolvimento da nossa indústria foram a falta
de mercado consumidor, dado o isolamento das regiões e as poucas linhas de
comunicação, e a concorrência das mercadorias estrangeiras antes de 1844, que não
permitiu um surgimento sustentável da nossa indústria. Além disso, contávamos com
poucas reservas de carvão de pedra. Depois da Guerra, vivemos um período sombrio,
principalmente entre 1924 e 1930, quando cresceu a importação de manufaturados.  
 
18. IMPERIALISMO
 
O capital estrangeiro ocupa uma posição central na história da nossa economia.
Sua primeira participação foi nos empréstimos públicos. Ganhou ímpeto quando a
Inglaterra deixou de se concentrar apenas no comercial para querer tirar proveito de
todas as atividades através do capital financeiro.
Isso foi facilitado pelo caráter da nossa formação, de fonte de matéria prima para
a indústria externa, vulneráveis à penetração do capital estrangeiro por ainda nos
organizarmos em função do mercado externo. Nosso sistema dependia visceralmente do
capital estrangeiro, sendo seu papel inicial a participação em todas as nossas atividades
econômicas, que passa a abrir mercados para a indústria nacional em troca da
exploração de sua mais valia e põe à disposição da indústria as matérias primas de que
precisávamos.
Ganhou ímpeto de várias formas: 1) quando foi empregado no financiamento da
lavoura cafeeira, que a partir daí passou a se apropriar de todas as etapas do negócio; 2)
com a especulação financeira devidos às oscilações cambiais e à carência de capital de
giro, fazendo surgir bancos estrangeiros aqui, que operavam com as disponibilidades do
país no exterior; 3) com os empreendimentos industriais, como os serviços públicos e a
indústria manufatureira e 4) com a instalação dos grandes trustes desde antes da
Primeira Guerra, que assumiram um papel de primeiro plano na nossa economia.
Das grandes matérias primas industriais, só fornecemos a borracha. Apenas
recentemente começamos a figurar como exportadores de minério de ferro. A partir de
1950 começou a crescer a importância do algodão graças à cisão dos blocos mundiais
entre Estados Unidos e Grã-Bretanha de um lado e Alemanha e Japão do outro, fazendo
da Alemanha a maior compradora, com 60 por cento da nossa produção, e fazendo o
Japão investir no negócio a partir de 1930.
O imperialismo representa um sistema amplo e geral da organização econômica
do mundo, não havendo mais história deste ou daquele país. A nossa evolução
econômica sempre se deu em torno dos grandes acontecimentos mundiais. Depois
Primeira Guerra os interesses se voltaram para a descentralização da produção de
matéria prima, o que faz aumentar a nossa concorrência. As conseqüências do
imperialismo no nosso país foram a introdução de novos padrões, exemplos e técnicas,
que seriam aplicados no nosso modo de vida e o estímulo à vida econômica do país com
a realização de inúmeros progressos.
 
19. CRISE DE UM SISTEMA (1930 a 1970)
 
Vimos que o nosso sistema ia-se desenvolvendo oportunisticamente em torno de
embaraços que iam surgindo. Vimos com isso o surgimento de novas necessidades e
exigências econômicas e algumas atividades que conseguiram manter a vitalidade, um
primeiro passo para uma economia nacional, graças ao surgimento do mercado interno
com a abolição, imigração e o progresso dos transportes e das comunicações, além do
crescimento demográfico. Essa expansão a princípio teve que ser atendida por
importações, gerando um desequilíbrio financeiro. A indústria nacional passaria então a
substituir a importação de bens de consumo corrente, estimulando-se assim a produção
interna de bens que depois de 1930 atendia a proporções cada vez maiores. A
importação caiu, restringindo-se a combustíveis, trigo, matérias primas para a indústria,
químicos e máquinas.
Depois da Primeira Guerra, sofremos uma crise passageira, com a situação
financeira favorecendo a importação e fazendo-nos sentir o peso da concorrência
externa, depois a indústria sofre com uma conjuntura favorável à exportação de gêneros
como o café.
            A crise se anunciou quando se tornou evidente a incompatibilidade entre
o novo ritmo de progresso material e a nossa mera condição de exportadores de matéria
prima. Entrávamos numa estagnação permanente.
            Com o craque da bolsa de 1929 interrompeu-se o fluxo de capital
estrangeiro para cá, causando um desequilíbrio de contas externas do país, refletindo-se
no déficit e na desvalorização da moeda, fazendo declinarem as importações. Caiu o
preço do café, além de reduzirem-se as exportações dele. Ao mesmo tempo ganhou
força a produção interna agrícola e industrial, havendo até a tentativa de reintroduzir
alguns produtos exportáveis como a laranja, algodão, banana, minérios e alguns
extrativos vegetais.
            Como conseqüência vimos uma crise do imperialismo diante da nossa
incapacidade de atender à remuneração deles. Isso se evidenciou quando sentimos que a
nossa estrutura agrária, a distribuição da população, a rede de transportes, a disposição
dos centros urbanos, o sistema comercial e financeiro estavam direcionados a um
sistema, mas sendo agora solicitado por outro, sendo sustentados por interesses
fundados na ordem passada e afetados por influências políticas. Nossas perspectivas de
produção de café já estavam circunscritas devido à concorrência de outros países,
mesmo com o surgimento de diferentes formas de amparo e sua expansão
desmensurada, bem como as de fornecedores de matéria prima e gêneros tropicais,
apenas o ferro e o manganês, que não nos dariam lucro pelo baixo valor agregado.
Insistíamos mesmo assim num sistema que estava falido e que não nos permitia um
crescimento fundado em bases voltadas para os interesses próprios de sua população.
 
20. A CRISE EM MARCHA
 
            Até agora, duas foram as marcas do nosso desenvolvimento: 1) Sempre
estivemos à mercê do oportunismo para lucrar com a venda de gêneros exportáveis; 2)
O nosso crescimento industrial se sustentou graças aos embaraços sofridos pela
importação. Durante a Segunda Guerra, aumentou a exportação de gêneros alimentícios
e de matérias primas. Desaparece assim o desequilíbrio da balança comercial. Os Fomos
privados de combustíveis com a redução do tráfego marinho, levando à devastação das
matas para extrair lenha e carvão. Caíram as importações e houve um aumento das
atividades industriais no país, inclusive fornecendo ao mercado externo, favorecido pela
incapacidade dos Estados Unidos em suprir seus mercados externos. Fornecemos
tecidos aos EUA, América Latina e África do Sul. Vimos com isso uma inflação no
nosso meio circulante, dando lugar à especulação e provocando o enriquecimento dos
possuidores graças ao sobrelucro devido às defasagens entro o aumento de preços e o
aumento de salários.
Essa condição favorável no entanto não contrabalançou no pós-guerra o aumento
das importações por causa da necessidade de repor o material desgastado e pelo
aumento do poder aquisitivo do nosso povo, que trazia novas necessidades de consumo.
Por isso, no pós-guerra, recorre-se ao controle de importações com a distribuição de
licenças de importação, o que atinge também setores essenciais para o país que
dependiam delas, e com isso se estimula a alta de preços. Em 1950 melhora a
conjuntura do café e na previsão de uma nova guerra se acumulam os estoques. Mais
uma vez, ignora-se a chance de se implantar um plano de desenvolvimento industrial
concreto para valer-se de uma oportunidade incerta. Os efeitos do pós-guerra foram um
alto processo inflacionário em 1947 com emissões de moeda, controle de importações e
liberação do cambio, além de facilitar a remessa de divisas para fora, o que favorecia a
especulação. Ao mesmo tempo, acumulam-se os atrasados comerciais, o que reduz o
ritmo da produção aqui com a suspensão de remessas para cá.
No fim de 1953 o café tinha uma posição favorável graças à geada e ao acúmulo
dos EUA, mas a procura por moeda nacional aprecia o câmbio e estimula as
importações. No fim do ano a situação se reverteu, prejudicando a indústria local por
causa do alto custo dos bens de capital importados, encarecidos com a alta do câmbio.
Recorreu-se ao capital externo para financiar a nossa industrialização. Modificou-se o
regime cambial com a Instrução nº 70 da SUMOC, com as Promessas de Venda de
Câmbio, que graças à corrupção na CEXIM deram altas margens de lucro. A Instrução
nº 113 permitiu às multinacionais trazerem seus equipamentos para cá e facilitou a
associação de empresas internacionais com empreendimentos nacionais.
Os problemas que a natureza do nosso processo de desenvolvimento causaram
na estrutura da nossa economia foram 1) o fato de as inversões de capitais aqui não
compensarem o que foi subtraído das finanças brasileiras na forma de royalties e lucros.
Essas inversões constituíam antes um agravamento do desequilíbrio de nossas finanças
do que a solução para elas, fazendo desaparecer uma perspectiva de aumento de nossas
exportações e estimula a auto-alimentação desse sistema. Além disso, essa dependência
externa e a penetração dos trustes internacionais não nos dava incentivos à pesquisa de
base, fazendo-nos receber sempre informação de segunda mão, sendo o nosso
desenvolvimento econômico pautado por interesses dos trustes.  
É o uso da técnica moderna que nos dará o aproveitamento da natureza. A ação
do Estado é um elemento essencial na nossa estruturação econômica, sendo importante
com a fundação da Petrobrás e da Companhia Siderúrgica Nacional, porém a vimos se
colocar às ordens do imperialismo como na energia elétrica e nas petroquímicas.