ESTADO, MERCADO E SOCIEDADE CIVIL: O TERCEIRO SETOR EM EVIDÊNCIA1

Juliana Costa Meinerz Zalamena2

RESUMO: A expressão Terceiro Setor tem sido usada para designar aquelas instituições privadas, mas sem fins lucrativos, que tenham finalidades públicas, porém não estatais. O que parece uma iniciativa de participação social e rompimento de amarras regulatórias do Estado, no sentido de estabelecer uma inocente e promissora parceria da sociedade civil com o Estado, seria somente mais um instrumento capitalista em nome da instituição do Estado mínimo e da expansão do livre mercado também nas esferas estatais? PALAVRAS-CHAVE: Estado, mercado, sociedade civil, organizações sociais, terceiro setor.

1. O QUE É E POR QUE SURGIU O TERCEIRO SETOR: UM INSTRUMENTO CAPITALISTA? Existem estudiosos e suas respectivas teorias que criticam a transferência de muitas responsabilidades estatais para a sociedade civil, em forma do chamado Terceiro Setor. Dizem que esta é uma estratégia do capitalismo para disseminar a idéia de Estado incapaz de sanar com suas responsabilidades, ultrapassado e arcaico, que precisa ser superado e substituído por instituições mais dinâmicas, inovadoras e com aparato moderno para suprir as necessidades que as esferas estatais não dão conta. Estes estudiosos classificam o fortalecimento do terceiro setor como um instrumento do capitalismo para introduzir a idéia de Estado mínimo e de regulação partindo do mercado. A transferência de responsabilidades para as entidades do terceiro setor, seria então, nesse ponto de vista nada mais que uma forma de enfraquecer o Estado,
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Artigo elaborado para fins de avaliação no componente curricular de Estado, Sociedade e Nova Esfera Pública, Professor Doutor Suimar João Bressan. 2 Acadêmica do 5º semestre do curso de Serviço Social da Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul – Unijuí, Campus Santa Rosa.

como uma instituição arcaica e ultrapassada. as ações seriam. e em vista disso. o Estado. . inclusive emprestando a lógica mercantil para serem adotadas na gestão das instâncias estatais. Para superar essa suposta crise do Estado.provando de uma vez que o mesmo é incapaz de dar conta de suas obrigações. e que precisa ser superado por alternativas mais modernas. foram formadas também teorias que subsidiassem essas afirmações. que seu funcionamento fosse então pensado a partir da lógica de mercado. Com base nessa receita. Para a ótica neoliberal. por exemplo. e sim. o papel do estado quanto as políticas sociais seria completamente alterado. entendidos estos em um sentido amplio” (Buchanan. através da privatização de setores estatais estratégicos. e no caso das políticas serem mantidas no controle do Estado. Para que essa teoria fosse colocada em prática. dois fatores: o excessivo gasto do governo ocasionado pela necessidade de se legitimar através de políticas sociais que atendam a população. J. Para a teoria neoliberal. a receita neoliberal era de racionalizar os gastos. cuja idéia central seria adequar as práticas do Estado a uma racionalidade econômica visivelmente ligada às teorias 3 Corrente teórica que busca aplicar “la aplicación de los instrumentos de análisis de la Teoría Económica neoclásica al estudio de los fenômenos políticos. e mais recentemente na Public-Choice3. a imagem e semelhança do mercado. além do amplo aparato ideológico que o capitalismo tece ressaltando a ineficácia e incapacidade do Estado. Tendo em vista que a superação de tal crise estava centrada na reforma do estado. elabora-se uma estratégia de superação dessa crise com base na diminuição da sua atuação. centradas especialmente na economia neoclássica. e por conta do papel regulador do Estado que atrapalhava o livre andamento do mercado. 1984). os neoliberais colocam como condição a capacidade do mercado em superar as falhas do primeiro. suprimindo a questão das políticas sociais e esvaziando o poder das instituições governamentais.. não é o capitalismo que se encontra em crise. as esferas estatais se tornariam mais eficientes e produtivas. o Estado entrou em crise em decorrência de pelo menos. como na esfera social. e assim. Assim. basicamente: transferir a responsabilidade de gestão de políticas sociais para o mercado.

Seria então. como aponta Antunes (1999.neoliberalistas. 79). o Estado continua pensando que tem o controle. É uma terceira via no sentido de que é uma tentativa de transcender tanto a social democracia do velho estilo quanto o neoliberalismo”. As limitações a implantação dessa lógica deram origem então. o aumento da eficiência das ações governamentais como forma de afirmar a competencia do mesmo na sociedade de mercado. adaptados as mudanças na configuração social e econômica mundial. isso representaria a construção de um novo Estado democrático. p. Segundo ele: “terceira via se refere a uma estrutura de pensamento e de prática política que visa adaptar a social-democracia a um mundo que se transformou fundamentalmente ao longo das últimas duas ou três décadas. sem alterar a propriedade do mesmo. e que muitos autores convencionam chamar de “Terceira Via”.(Giddens. seria uma forma de redesenhar o Estado. p. Esse quase mercado seria basicamente introduzir as práticas de gestão privada dentro do aparato estatal. O governo pode agir em parceria com instituições da sociedade civil para fomentar a renovação e o desenvolvimento a comunidade”. Ou seja. como batizou Antony Giddens. mas sem abandonar os objetivos neoliberais. Para Giddens. de não romper de forma alguma com os princípios do neoliberalismo. no sentido da descentralização do poder do Estado. sem ferir os preceitos do poder público. Então surge o que aqui adotamos como Terceiro Setor.(Giddens. nem no Estado e nem no Mercado. 2001. Sendo assim: "a reforma do estado e do governo deveria ser um princípio orientador básico da política da terceira via . como aponta Oliveira e Souza (2003). O Terceiro Setor seria uma forma inteligente. mas o mercado sorrateiramente passa a enfraquecê-lo. preservando os elementos básicos da social democracia. a integração de outras esferas no sentido da transparência estatal. preconizado pelo então ministro Tony Blair. 2001. Essa “Terceira Via”. como adotou Tony Blair no seu New Labor4. estrategicamente. 95). a aceitação e a manutenção de novos parceiros na 4 Novo Trabalhismo Inglês. através de entidades e organizações que não se enquadrariam em nenhum dos dois segmentos.um processo de aprofundamento e ampliação da democracia. a um quase mercado. 36). p. .

Em outras palavras. em se tratando de algo recente e que causa polemica e posições opostas em autores estudados até o momento. p. ou seja. que alerta para a demasiada redução do conceito de Terceiro Setor: (. Fernandes (1984) tenta ser mais ponderado ao imaginar um “público não estatal”. . p. podemos resgatar Montaño (2002. o 'econômico' ao âmbito do mercado e o social remetesse apenas à sociedade civil". mais recentemente. e ainda. 2003. poderia-se afirmar. Conceituar o terceiro setor ainda não é uma tarefa fácil.127). Dentre as definições encontradas. proteger o patrimônio ecológico brasileiro” (Szazi.) “como se o 'político' pertencesse à esfera estatal.22). aqueles que apresentam conceitos voltados para valores como solidariedade e ajuda mútua. é possível realizar uma definição aproximada do que significa essa expressão. Dada a diversidade de compreensões a respeito do que é e o que engloba o Terceiro Setor. outros como função social em resposta as necessidades sociais. a iniciativa de particulares em prol de um objetivo público (p. identificados na sociedade civil. outras que denotam um formato jurídico de instituição privada. sinteticamente que se trata de todas as esferas da sociedade que não se enquadram no formato de mercado e tampouco de Estado. Entretanto. restringindo-o as instituições de caráter filantrópico ou assistencial. No entanto.oferta e na gestão das políticas sociais: esses parceiros. existem as que se aproximam de uma genérica designação de sociedade civil. 182).. alguns trazem a ideia de atividades públicas desenvolvidas por particulares.. na prática. cujos programas visavam atender direitos sociais básicos e combater a exclusão social e. e por hora. seriam as organizações que compõem o que hoje entendemos como Terceiro Setor. Szazi define como o “conjunto de agentes privados com fins públicos. Montaño ressalta que dentre os muitos autores que trabalham com o tema.

E ao mesmo tempo em que isso acontece. é restrita as organizações sociais que se dediquem a garantia de direitos sociais. em outras palavras. sejam elas fundações. no qual a organização deve apresentar um plano de trabalho a ser avaliado para concessão dos recursos. mas a modalidade. passadas para os níveis locais das esferas governamentais. Essa parceria. em transferência de recursos públicos para instâncias privadas. se encaixando em pelo menos uma das prerrogativas dispostas no Art. nos termos da lei federal supracitada. etc. regulamentada pelo Decreto nº 3100). observe-se. qualificada como Organização da Sociedade Civil de Interesse Público – OSCIP.790/99. Sob este ponto de vista. que busca atendê-las através da ajuda. Essa qualificação. as políticas sociais de responsabilidade do Estado são descentralizadas. é feita através de um contrato de gestão. como entende Montaño (2002). voluntariado. Assim. na legislação atual brasileira (Lei nº 9. p. ou ainda. preliminarmente. já que o Terceiro Setor não tem condições de auto sustentabilidade. o desenvolvimento do Terceiro Setor parece indicar que o “que na realidade está em jogo não é o âmbito das organizações. generalizando o impasse. existe um certo consenso quanto a transferência da responsabilidade do Estado em relação a oferta de políticas sociais para instâncias de natureza privada. como se o Estado estivesse contribuindo financeiramente e também legalmente para a própria participação da sociedade civil. solidariedade.Embora o conceito de Terceiro Setor não se encontre pronto e acabado.790/99: . associações. desde que essa organização social já esteja. 2002). organizações não governamentais. 3º da Lei nº 9. ou seja. a responsabilidade do Estado em atender as demandas sociais é passada aos próprios indivíduos. o Termo de Parceria. Isso tudo implica. descaracterizando o caráter universalista (Montaño. fundamentos e responsabilidades inerentes à intervenção e respostas para questão social” (Montaño. 185). 2002. os municípios. Essa transferência é entendida ideologicamente como uma parceria entre a esfera pública e as entidades da sociedade civil. a sociedade civil.

o tema que mais nos . não seriam mais.promoção do voluntariado. o cidadão “cliente” do Estado seria aquele contemplado pelo núcleo estratégico. Por privatização. IV .promoção de direitos estabelecidos. V . No Brasil. a terceirização e publicização dos serviços prestados pelo Estado. a primeira e maior iniciativa de reforma estatal com base nas prerrogativas neoliberalistas esteve centrado no Plano Diretor da Reforma do Aparelho de Estado. desenvolvimento de tecnologias alternativas. produção e divulgação de informações e conhecimentos técnicos e científicos que digam respeito às atividades mencionadas neste artigo. de novos modelos sócio-produtivos e de sistemas alternativos de produção. VIII . a terceirização como a transferência de serviços considerados de apoio às atividades desenvolvidas pelo Estado. exclusividades do Estado. emprego e crédito.I . sob a coordenação do então Ministro Bresser Pereira.estudos e pesquisas. se entende a transferência direta da propriedade de determinado setor para a iniciativa privada. III . As estratégias desse plano seriam baseadas em três eixos: a privatização. II . O Terceiro Setor então. durante o primeiro mandato do.promoção gratuita da educação. comércio.promoção do desenvolvimento econômico e social e combate à pobreza. IX . pressupondo a adoção de atividades extremamente exclusivas. da paz. X .promoção da cultura. As políticas sociais assumiriam outra conotação. defesa e conservação do patrimônio histórico e artístico.defesa.promoção da ética. da cidadania. observando-se a forma complementar de participação das organizações de que trata esta Lei. através das pautas compostas pelas teorias neoliberais de reforma do Estado. VI . não lucrativa. sociólogo Fernando Henrique Cardoso. construção de novos direitos e assessoria jurídica gratuita de Interesse suplementar. XII . XI . VII . Essa lei institui e regulamenta então a emergência e inserção do “quase mercado” na gestão pública.promoção da segurança alimentar e nutricional.experimentação. e a publicização. da democracia e de outros valores universais. observando-se a forma complementar de participação das organizações de que trata esta Lei. sendo de propriedade e de responsabilidade pública não-estatal ou mesmo privada. coincidentemente ou não.promoção da assistência social. Neste plano diretor. conforme o Plano Diretor. dos direitos humanos. se torna co-responsável pelo atendimento das demandas sociais.promoção gratuita da saúde. preservação e conservação do meio ambiente e promoção do desenvolvimento sustentável.

p. seria nas palavras de Bresser Pereira (1997. mas viabilizados pelo mercado” (Bresser Pereira. Essa definição seria. “a transferência para o setor público não-estatal dos serviços sociais e científicos que hoje o Estado presta”.14). nem estatal e nem privada. 1996. 1996). que é social porque mantém suas responsabilidades pela área social. O Estado Social-Liberal. na medida em que as organizações seriam mais flexíveis e competitivas. Essas atividades. E com isso. mais expressamente. atendendo melhor as necessidades e os direitos sociais.interessa nessa discussão. mas é liberal porque acredita no mercado e contrata a realização dos serviços sociais de educação. apontando para uma necessidade de se construir uma nova forma de funcionamento do Estado. que publicização significa a metamorfose de “uma organização estatal em uma organização de direito privado. Portanto. Bresser Pereira (1996) chama de Estado Social Liberal um arranjo políticoadministrativo no qual o Estado continua responsável pelos direitos básicos de saúde e educação da população. cultura e pesquisa científica de organizações públicas não-estatais é que financia a fundo perdido com orçamento público (Bresser Pereira. saúde. 8). no entender de Bresser Pereira. 7). p. assegurados pelo Estado. por receberem um grande aporte financeiro do Estado. pública. Esse modelo pressupõe a maior eficiência na oferta das políticas sociais. tendo a necessidade assim de observar a administração e o controle rigoroso dos resultados. p. constituindo-se mais fortemente no “Quase Mercado”. poderiam adquirir um caráter competitivo entre si. mas não estatal” (BRESSER PEREIRA. o Estado não perderia . ou seja. A concepção passada naquele Plano Diretor andaria de mãos dadas com as teorias do PublicChoice e da Terceira Via. esse Estado “é uma espécie de síntese ou de compromisso entre os direitos individuais. mas que “de forma crescente os executa por intermédio de organizações públicas não. Se entenderia então como uma forma intermediária de propriedade.estatais competitivas”. 1997. a transformação em termo de “Estado Social Liberal”.

O Terceiro Setor. já que cada lei sancionada depende de um tempo de tolerância até ser efetivamente materializada. já que por Primeiro Setor entende-se o Estado. considerando em aspectos jurídicos. pode-se dizer que a Lei nº 9. representado pelas empresas com finalidade lucrativa. A expressão “Terceiro Setor” designa o lugar ocupado pelas organizações da sociedade civil na sociedade como um todo. estando longe de haver uma unanimidade dentre os estudiosos da área.790 data de 1999. Em linhas gerais. completa nesse ano 10 anos de vigência. mas não é estatal. passível de muita adaptação das organizações da sociedade civil e do próprio estado. considerando-a inadequada. e também tem um caráter privado. o conceito de terceiro setor ainda é muito confuso. Primeiro Setor. organizações estas não governamentais e sem fins lucrativos. pois continuaria sustentando financeiramente este atendimento. a denominação Terceiro Setor é utilizada para identificar as atividades da sociedade civil que não se enquadram na categoria das atividades estatais. tem um caráter público. e por Segundo Setor entende-se o Mercado. com origem restritamente na sociedade civil. Entretanto. muitos são os estudiosos das ciências sociais que não adotam essa expressão. A expressão é .totalmente o terreno. pois a Lei nº 9. A LEGISLAÇÃO BRASILEIRA ACERCA DO TERCEIRO SETOR A chamada nova lei do terceiro setor. não deixando totalmente de responder pela sua obrigação e responsabilidade enquanto Estado. como nas ciências econômicas essa designação é utilizada para diferenciar os setores produtivos. Conforme a cartilha da OAB/SP: “No Brasil. visando contribuir com a solução de problemas sociais e em prol do bem comum. representado por entes da Administração Pública ou das atividades de mercado e Segundo Setor. Até por que. 2.” Poderíamos resumir dizendo que o terceiro setor representa a junção das iniciativas privadas de utilidade pública. mas não tendo fins lucrativos. o Terceiro Setor é o espaço ocupado especialmente pelo conjunto de entidades privadas sem fins lucrativos que realizam atividades complementares às públicas. já não é tão nova assim.790 ainda é bastante recente. ou seja. Mas.

especialmente em forma de organizações não governamentais. As entidades beneficentes. denominação da qual deriva a sigla ONG. Podem ser citadas as fundações. pois é a tradução literal de Third Sector. Esse terceiro setor tem crescido muito no Brasil. As Organizações não Governamentais. vocábulo usado por lá para designar as organizações que não tem vínculo com o Primeiro e Segundo Setor. esse tipo de fundo unificado na existe em nível nacional. Nos Estados Unidos existe um Fundo Comunitário. em vez das empresas doarem diretamente para as entidades. muito em voga no momento. idosos. que define as prioridades e repassa os recursos distribuindo naquelas situações consideradas mais urgentes. ou seja. fazem de tudo um pouco. ensinam esportes. oriundos de doações. que tem uma gama muito variada de denominações. de Campinas/SP. ajudam na preservação e defesa do meio ambiente. cuidando de crianças. entidades de classe. . que movimentam bilhões em dinheiro. como as associações. prestam serviços de educação e saúde.importada dos Estados Unidos. ou seja. são aquelas que realmente realizam o trabalho. fundações. da prestação de serviços e mesmo da comercialização de produtos. O Terceiro Setor no Brasil compreende diferentes formas de organização. No Brasil. são uma das formas de organização da sociedade civil que fazem parte do Terceiro Setor. e nesse item se enquadram as fundações mixtas. promovem direitos humanos. Freqüentemente se confunde a expressão Terceiro Setor com a expressão ONG. que em geral financiam as ações de outras entidades beneficentes. mas nele também se inserem outras. emancipação humana. o estado e o mercado. cidadania. doam bens materiais principalmente alimentos. adolescentes. que ao mesmo tempo que doam recursos para terceiros tambem executam projetos próprios. etc. combatem a violência. cuidam dos filhos de mães que trabalham. enfim. elas doam para o Fundo. cuidam de pessoas portadoras de deficiência. e a única iniciativa semelhante é a FEAC. populações em vulnerabilidade social.

no sentido de tornar o capitalismo mais “humano”. e trás consigo uma tradição da presença das igrejas cristãs que direta ou indiretamente atuavam prestando assistência à comunidade.21). Originaram-se da participação das entidades sem fins lucrativos no Brasil. O Terceiro Setor. que é datada no final do século XIX. p. um estudioso do tema. “Bens e serviços públicos”.. em uma ação conjunta envolvendo uma iniciativa da sociedade civil. Para ROTHGIESSER (2002. essa iniciativa poderia ser enquadrada na social-democracia. UM POUCO DA HISTÓRIA DO TERCEIRO SETOR NO BRASIL Segundo FERNANDES ( 1994.um conjunto de organizações e iniciativas privadas que visam à produção de bens e serviços públicos. hospitais) eram e são na verdade lucrativas. 3.2). privadas que não visão lucros. em ações que visão ao interesse comum.. formada a partir de iniciativas voluntárias. Pode-se até mesmo citar o exemplo das Santas Casas que remontam mais atrás. ou ainda. Em termos ideológicos. o conceito denota: . sem fins lucrativos. iniciativas na esfera pública que não são feitas pelo Estado. na segunda metade do século XVI. Este é o sentido positivo da expressão. p. era responsável pela maior parte das entidades que prestavam algum tipo de assistência às comunidades mais necessitadas. que com suporte do Estado. no sentido comum. não estatal. universidades.” O conceito mais aceito atualmente.. São cidadãos participando de modo espontâneo e voluntário. que ficavam .Muitas entidades sem fins lucrativos (clubes esportivos. nesse caso implicam uma dupla qualificação: não geram lucros e respondem a necessidades coletivas.2). segundo GONÇALVES (1999. é o de que se trata de uma esfera de atuação pública. p. serviria para suprir as necessidades das pessoas sanando as falhas do estado e do próprio mercado no atendimento dessas necessidades humanas. Terceiro Setor seriam iniciativas “. Toma-se como destaque a Igreja Católica.. atendem apenas o interesse de grupos restritos de pessoas ou apenas de seus associados.

Ainda nesse período.6-7) Já no século XX. durou todo o período colonial. (RELATÓRIO GESET. que juntamente com a Igreja Católica. concomitante com o Estado. mas também.às margens das políticas sociais básicas de saúde e educação. Além da introdução de novas instituições atuando em setores que até então tinham a atuação de atores tradicionais. de parcerias com fins filantrópicos junto ao Estado. utilizando-se das mesmas práticas da Igreja Católica. Vale destacar a Constituição de 1988. passam a atuar no campo da caridade com fins filantrópicos associadas ao Estado. 2001. beneficiando-se também. na maioria também atreladas ao Estado. Mas. a relação Igreja e Estado mudou. p. uma vez que antes esses dois objetivavam o atendimento e a assistência das questões sociais. 6). surgem outras religiões. cuja representatividade já não era tão definida. começam a aparecer na década de 30 várias entidades da sociedade civil. Começam a surgir movimentos sociais. fazendo com que aumentasse a complexidade dos problemas sociais. assim como reivindicando direitos sociais. 2001. no período republicano. cresce o número de entidades atuando no Terceiro Setor. Dentro desse contexto. até início do século XIX. fruto da industrialização e urbanização da época. A atuação das Igrejas. sem fins lucrativos e de finalidade pública. ou seja. Nessa nova fase. um outro fator que colaborou para essa mudança de relacionamento entre a Igreja e o Estado foi a modernização natural da própria sociedade. passam a atuar outras religiões. opondo-se especialmente às práticas autoritárias do regime militar desse período. de entidades não governamentais. p. não se tratava mais só de Igrejas e Estado. que num amplo processo de mobilização social. (RELATÓRIO GESET. O Estado Novo deu continuidade ao processo de criação de organizações de finalidade pública. promoveu melhorias no que diz respeito ao aumento dos direitos de cidadania política e princípios da descentralização na promoção de políticas . 2001) Uma sociedade tradicionalmente hierarquizada e desigual se acentua nas décadas de 70 e 80. (RELATÓRIO GESET.

foi um marco pela sua abrangência e poder de mobilização. em especial na área social. o Betinho. produzindo instabilidade econômica. Seu crescimento vem em virtude.sociais. especialmente. esse setor tem como premissa básica. coloca que: “A participação dos cidadãos é essencial para consolidar a democracia e uma sociedade civil dinâmica é o melhor instrumento de que dispomos . política e social. citado por BAVA (2000). através dos chamados “lobbies populares” no congresso. sendo assim mais uma opção de recursos para a área do Terceiro Setor. encabeça e dirige recursos para programas e projetos sociais. a Miséria e pela Vida”. na qual visa o lucro. exercendo o direito e o dever de cidadania. de que o Estado e os agentes econômicos não têm interesses ou não são capazes de provê-la. também. tomando a iniciativa. pondo a sua própria capacidade a serviço de todos e. a fim de que emendas populares fossem aprovadas. (GONÇALVES. o Terceiro Setor vem crescendo e se expandindo em várias áreas. através de suas fundações e institutos. houve muitas pressões dos movimentos populares. Dado que. dirigida pelo sociólogo Herbert de Sousa. pensar e praticar a democracia. 2000) Em virtude da atuação ineficiente do Estado. principalmente nos países do terceiro mundo. a eqüidade e a justiça social com as instituições democráticas. que coloca nos seguintes termos: “Vamos sonhar. (TEIXEIRA. pondo a sua própria capacidade a serviço de todos e. requisitados por uma quantidade expressiva da população menos favorecida. cada um fazendo a sua parte. Oliveira citado por FERNANDES (1994. em vários sentidos. Adicionalmente. que funciona com uma lógica diferente. tanto o Estado quanto o mercado não conseguem responder aos desafios do desenvolvimento com eqüidade. É inegável que a Nova Constituição representou um avanço no que diz respeito a política social no Brasil. tomando iniciativa. p. 2002) Adicionalmente. com isso. objetivando atender a demanda por serviços sociais. A Campanha “Ação Contra a Fome.12). de práticas cada vez mais efetivas de políticas neoliberal do capitalismo global. já a partir da década de 90.” Até mesmo o Segundo Setor.

“ONG” (Organização Não Governamental). REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ANTUNES. A lei até então vigente.” Em função do crescimento do Terceiro Setor na década de 90. São Paulo: Boitempo editorial.402/02) e juridicamente constituídas sob a forma de associações ou fundações. No governo federal existem vários programas que são executados com apoio das organizações não governamentais. “instituição”. 9. “instituto” etc. essas denominações servem apenas para designar uma associação ou fundação. Lei nº. apresentada pela OAB/SP na Cartilha do Terceiro Setor. Desenvolvimento Agrário. já estava antiquada. Ricardo. não significa uma expressão juridicamente correta. que se forma a partir da existência de um patrimônio destacado pelo seu instituidor para servir a um objetivo específico. BRASIL. Cultura e Meio Ambiente. Associação é uma pessoa jurídica de direito privado. Apesar de serem comumente utilizadas as expressões “entidade”. destacando-se os dos Ministérios do Desenvolvimento Social. que se forma pela reunião de pessoas em prol de um objetivo comum. As entidades buscam recursos junto a programas governamentais e instituições privadas que apóiam iniciativas da sociedade civil. sem fins econômicos ou lucrativos.790 de 23 de março de 1999. voltado a causas de interesse público”.. Decreto nº. violência e exclusão social que ameaça os fundamentos de nossa vida em comum. Fundação é uma pessoa jurídica de direito privado. Em geral as organizações do Terceiro Setor não utilizam a prática do financiamento bancário. houve a premente necessidade de leis adequadas. 3100 de 30 de junho de 1999. . Os Sentidos do Trabalho Ensaios sobre a afirmação e a negação do trabalho. sem interesse de dividir resultado financeiro entre elas.para reverter o quadro de pobreza. sem fins econômicos ou lucrativos. O termo ONG (Organização Não Governamental). Código Civil de 1917. BRASIL. tamanha a sua importância e expansão na nossa sociedade. é possível afirmar que: “As entidades do Terceiro Setor são regidas pelo Código Civil (Lei nº 10. apesar de ser largamente utilizado pela sociedade. as quais possuem importantes diferenças jurídicas entre si. 1999. De acordo com a conceituação de entidade do Terceiro Setor.

Campinas. A reforma do Estado dos anos 90 crise e reforma. Antony.3ª Edição .BRASIL Ministério da Administração e Reforma do Estado. “As Fundações Privadas e Associações sem Fins Lucrativos no Brasil 2002” Ministério do Planejamento. L. GERÊNCIA DE ESTUDOS SETORIAIS (GESET). . ONGs Identidades e Desafios Atuais.br/ Acesso em: 20 de out. 2000. Sociedade Civil Brasileira e o Terceiro Setor. 2000.bndes.org. Privado porém público o terceiro setor na América Latina. O Terceiro Setor e os Desafios do Estado de São Paulo para o Século XXI. Crise Econômica e reforma do Estado no Brasil. Estudos e Pesquisas Informação Econômica . São Paulo: Cortez. Universidade de Campinas. de 2002. GIDDENS. H. 1995. Via http://wwwmare. Dissertação (Mestrado em Filosofia e Ciências Humanas) – Departamento de Ciência Política do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas.wikipedia. Disponível em: http://www. TEIXEIRA.. São Paulo: Autores Associados. Carlos. 2001. Disponível em: http://www. 41-86.br/reforma. Rio de Janeiro.terceirosetor.gov. 2003. 1997. Rio de Janeiro: Relume-Dumará. Rio de Janeiro: Record. Silvio C. Terceiro setor e questão social crítica ao padrão emergente de intervenção social. 2004. Terceiro Desenvolvimento Social. 1996.org.br/ Acesso em: 20 de Nov.gov. 2ª edição. _____________________. A terceira Via. Rubem Cesar. Identidades em Construção: As Organizações NãoGovernamentais no Processo Brasileiro de Democratização. MONTAÑO. São Paulo: editora 34.número 4. Disponível em: http://www. Eduardo. BAVA. FERNANDES. 166 f. reflexões sobre o impasse político atual e o futuro da social-democracia. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE. In: Cadernos Abong. 2002. Terceiro Setor: Regulação no Brasil . SZAZI. de 2002. 3 jun.org/wiki/Terceiro_setor acessado em 23/05/08 ROTHGIESSER. C. O Estado o Terceiro Setor e o Mercado: Uma Tríade Completa. S.São Paulo: Peirópolis. Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada – IPEA. Brasília. Ana Claudia C. Plano Diretor da Reforma do Aparelho de Estado.br/ Setor e o GONÇALVES. http://pt. 1994. Orçamento e Gestão.rits. BRESSER PEREIRA. Tanya L.

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