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Os Indivíduos como Sujeitos do Direito Internacional

OS INDIVÍDUOS COMO SUJEITOS


DO DIREITO INTERNACIONAL1

···················
Antônio Augusto Cançado Trindade
Juiz da Corte Internacional de Justiça (Haia); ex-Presidente da Corte Interamericana de Direitos Humanos; Profes-
sor Emérito de Direito Internacional da Universidade de Brasilia; Professor Honorário da Universidade de Utrecht;
Membro Titular do Institut de Droit International, do Curatorium da Academia de Direito Internacional da Haia e da
Academia Brasileira de Letras Jurídicas; Presidente Honorário do Instituto Brasileiro de Direitos Humanos.

I. INTRODUÇÃO: BREVES PRECISÕES internacionais de direitos humanos, e sua partici-


pação direta no procedimento ante estes últimos,
PRELIMINARES com atenção especial à natureza jurídica e ao al-
Há muitos anos venho dedicando minhas cance do direito de petição individual. Por último,
reflexões ao importante tema da personalidade e abordarei os desenvolvimentos pertinentes recen-
capacidade jurídicas do indivíduo como sujeito do tes e mais notáveis nos sistemas internacionais de
Direito Internacional. Integra um capítulo funda- proteção da pessoa humana, apresentando enfim
mental do Direito Internacional, que tem passado minhas reflexões derradeiras sobre a matéria.
por uma evolução considerável nas últimas déca- Ao longo do presente estudo, referir-me-ei
das, a requerer assim uma atenção bem maior e frequentemente aos conceitos de personalidade
mais cuidadosa do que a que lhe tem sido dispen- e capacidade jurídicas no plano internacional. A
sada até o presente por grande parte da doutrina título de introdução à matéria, podemos, no pre-
jurídica, aparentemente ainda apegada a posições sente contexto, entender por personalidade a ap-
dogmático-ideológicas do passado. A consolidação tidão para ser titular de direitos e deveres, e por
da personalidade e capacidade jurídicas do indiví- capacidade a aptidão para exercê-los por si mesmo
duo como sujeito do Direito Internacional cons- (capacidade de exercício). Encontra-se, pois, a ca-
titui, como o tenho afirmado em sucessivos foros pacidade intimamente vinculada à personalidade;
nacionais e internacionais, o legado mais precioso no entanto, se por alguma situação ou circuns-
do pensamento jurídico do século XX, e que tem tância um indivíduo não disponha de plena capa-
logrado novos avanços no século XXI. cidade jurídica (para exercer seus direitos por si
Ao retomar a presente temática, buscarei re- próprio), nem por isso deixa de ser sujeito de direi-
capitular em resumo os pontos principais de meus to. Com estas precisões preliminares em mente,
trabalhos anteriormente publicados sobre a maté- passo ao exame deste tema recorrente no Direito
ria,2 e abordar novos desenvolvimentos, consoan- Internacional, de tanta significação e importância
te o seguinte plano de exposição: examinarei, de e de perene atualidade.
início, a subjetividade internacional do indivíduo
no pensamento dos autores clássicos, e, a seguir, II. O INDIVÍDUO COMO SUJEITO DO DI-
a exclusão do indivíduo do ordenamento jurídi- REITO DAS GENTES, NO PENSAMEN-
co internacional pelo positivismo jurídico estatal,
assim como o resgate do indivíduo como sujeito TO DOS AUTORES CLÁSSICOS
do Direito Internacional na doutrina jurídica do Ao considerar a posição dos indivíduos no
século XX, e sua projeção na atualidade. Direito Internacional, não há que se perder de vis-
Ressaltarei, em sequência, a atribuição de ta o pensamento dos chamados “fundadores” do
deveres ao indivíduo diretamente pelo Direito direito das gentes. Há que recordar a considerável
Internacional, e a necessidade da legitimatio ad importância, para o desenvolvimento do tema,
causam dos indivíduos no Direito Internacional sobretudo dos escritos dos teólogos espanhóis as-
(subjetividade ativa). Passarei, em seguida, ao sim como da obra grociana. No período inicial de
estudo da capacidade jurídica internacional do formação do direito internacional era considerá-
indivíduo, concentrando-me nos fundamentos vel a influência exercida pelos ensinamentos dos
jurídicos do acesso do ser humano aos tribunais grandes mestres, - o que é compreensível, dada

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Revista do Instituto Brasileiro de Direitos Humanos, v. 12, n. 12, 2012.
Antônio Augusto Cançado Trindade

a necessidade de articulação e sistematização da de seus cidadãos de forma absoluta (imperativo do


matéria.3 Mesmo em nossos dias, é imprescindí- bem comum); assim, na visão de Grotius, a ra-
vel ter presentes tais ensinamentos. zão de Estado tem limites, e a concepção absoluta
É amplamente reconhecida a contribuição desta última torna-se aplicável nas relações tanto
dos teólogos espanhóis Francisco de Vitoria e internacionais quanto internas do Estado.9
Francisco Suárez à formação do Direito Interna- No pensamento grociano, toda norma jurídi-
cional. Na visão de Suárez (autor do tratado De ca - seja de direito interno ou de direito das gen-
Legibus ac Deo Legislatore, 1612), o direito das tes - cria direitos e obrigações para as pessoas a
gentes revela a unidade e universalidade do gêne- quem se dirigem; a obra precursora de Grotius, já
ro humano; os Estados têm necessidade de um no primeiro meado do século XVII, admite, pois, a
sistema jurídico que regule suas relações, como possibilidade da proteção internacional dos direi-
membros da sociedade universal.4 Foi, no entan- tos humanos contra o próprio Estado.10 Ainda an-
to, o grande mestre de Salamanca, Francisco de tes de Grotius, Alberico Gentili (autor de De Jure
Vitoria, quem deu uma contribuição pioneira e Belli, 1598) sustentava, em fins do século XVI,
decisiva para a noção de prevalência do Estado de que é o Direito que regula a convivência entre os
Direito: foi ele quem sustentou, com rara lucidez, membros da societas gentium universal.11
em suas aclamadas Relecciones Teológicas (1538- Há, pois, que ter sempre presente o verda-
1539), que o ordenamento jurídico obriga a todos deiro legado da tradição grociana do Direito Inter-
- tanto governados como governantes, - e, nesta nacional. A comunidade internacional não pode
mesma linha de pensamento, a comunidade in- pretender basear-se na voluntas de cada Estado
ternacional (totus orbis) prima sobre o arbítrio de individualmente. Ante a necessidade histórica de
cada Estado individual.5 regular as relações dos Estados emergentes, sus-
Em sua célebre De Indis - Relectio Prior tentava Grotius que as relações internacionais
(1538-1539), advertiu: - “(...) No que toca ao di- estão sujeitas às normas jurídicas, e não à “razão
reito humano, consta que por direito humano po- de Estado”, a qual é incompatível com a própria
sitivo o imperador não é senhor do orbe. Isto só existência da comunidade internacional: esta últi-
teria lugar pela autoridade de uma lei, e nenhuma ma não pode prescindir do Direito.12 O ser huma-
há que tal poder outorgue(...). Tampouco teve o no e o seu bem estar ocupam posição central no
imperador o domínio do orbe por legítima suces- sistema das relações internacionais.13 Nesta linha
são, (...) nem por guerra justa, nem por eleição, de pensamento, também Samuel Pufendorf (autor
nem por qualquer outro título legal, como é pa- de De Jure Naturae et Gentium, 1672) também
tente. Logo nunca o imperador foi senhor de todo sustentou “a sujeição do legislador à mais alta lei
o mundo.(...).”6 Na concepção de Vitoria, o direito da natureza humana e da razão.”14 Por sua vez,
das gentes regula uma comunidade internacional Christian Wolff (autor de Jus Gentium Methodo
constituída de seres humanos organizados social- Scientifica Pertractatum, 1749), ponderava que
mente em Estados e coextensiva com a própria assim como os indivíduos devem, em sua asso-
humanidade; a reparação das violações de direitos ciação no Estado, promover o bem comum, a seu
humanos reflete uma necessidade internacional turno o Estado tem o dever correlativo de buscar
atendida pelo direito das gentes, com os mesmos sua perfeição.15
princípios de justiça aplicando-se tanto aos Es- Lamentavelmente, as reflexões e a visão dos
tados como aos indivíduos ou povos que os for- chamados fundadores do Direito Internacional
mam.7 Decorridos mais de quatro séculos e meio, (notadamente os escritos dos teólogos espanhóis
sua mensagem retém uma notável atualidade. e a obra grociana), que o concebiam como um
A concepção do jus gentium de Hugo Gro- sistema verdadeiramente universal,16 vieram a
tius - cuja obra, sobretudo o De Jure Belli ac Pacis ser suplantadas pela emergência do positivismo
(1625), é situada nas origens do Direito Interna- jurídico, que personificou o Estado dotando-o de
cional, como veio a ser conhecida a disciplina, - “vontade própria”, reduzindo os direitos dos seres
esteve sempre atenta ao papel da sociedade civil. humanos aos que o Estado a estes “concedia”. O
Para Grotius, o Estado não é um fim em si mes- consentimento ou a vontade dos Estados (o positi-
mo, mas um meio para assegurar o ordenamento vismo voluntarista) tornou-se o critério predomi-
social consoante a inteligência humana, de modo nante no direito internacional, negando jus standi
a aperfeiçoar a “sociedade comum que abarca toda aos indivíduos, aos seres humanos. Isto dificul-
a humanidade.”8 Os sujeitos têm direitos vis-à-vis tou a compreensão da comunidade internacional,
o Estado soberano, que não pode exigir obediência e enfraqueceu o próprio Direito Internacional,

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Os Indivíduos como Sujeitos do Direito Internacional

reduzindo-o a direito estritamente inter-estatal, Os monistas descartaram todo antropomorfis-


não mais acima mas entre Estados soberanos.17 mo, afirmando a subjetividade internacional do
As conseqüências desastrosas desta distorção são Estado por uma análise da pessoa jurídica;23 e os
sobejamente conhecidas. dualistas - a exemplo de H. Triepel e D. Anzilotti -
não se contiveram em seus excessos de caracteri-
III. A EXCLUSÃO DO INDIVÍDUO DO zação dos Estados como sujeitos únicos do Direito
ORDENAMENTO JURÍDICO INTER- Internacional.24
Toda uma corrente doutrinária, - do positi-
NACIONAL PELAS DISTORÇÕES DO vismo tradicional, - formada, além de Triepel e
POSITIVISMO JURÍDICO ESTATAL Anzilotti, também por K. Strupp, E. Kaufmann,
A personificação do Estado todo-poderoso, R. Redslob, dentre outros, passou a sustentar que
inspirada na filosofia do direito de Hegel, teve somente os Estados eram sujeitos do Direito In-
uma influência nefasta na evolução do Direito In- ternacional Público. A mesma postura foi adotada
ternacional em fins do século XIX e nas primeiras pela antiga doutrina soviética do Direito Interna-
décadas do século XX. Esta corrente doutrinária cional, com ênfase na chamada “coexistência pa-
resistiu com todas as forças ao ideal de emancipa- cífica” interestatal.25 Contra esta visão se insurgiu
ção do ser humano da tutela absoluta do Estado, uma corrente oposta, a partir da publicação, em
e ao reconhecimento do indivíduo como sujeito 1901, do livro de Léon Duguit L’État, le droit ob-
do Direito Internacional. Contra esta posição re- jectif et la loi positive, formada por G. Jèze, H.
acionária se posicionou, dentre outros, Jean Spi- Krabbe, N. Politis e G. Scelle, dentre outros, sus-
ropoulos, em luminosa monografia intitulada tentando, a contrario sensu, que em última aná-
L’individu en Droit international, publicada em lise somente os indivíduos, destinatários de todas
Paris em 1928:18 a contrário do que se depreen- normas jurídicas, eram sujeitos do Direito Inter-
dia da doutrina hegeliana, - ponderou o autor, - o nacional (cf. infra).
Estado não é um ideal supremo submisso tão só a A idéia da soberania estatal absoluta, que le-
sua própria vontade, não é um fim em si mesmo, vou à irresponsabilidade e à pretensa onipotência
mas sim “um meio de realização das aspirações e do Estado, não impedindo as sucessivas atrocida-
necessidades vitais dos indivíduos”, sendo, pois, des por este cometidas contra os seres humanos,
necessário proteger o ser humano contra a lesão mostrou-se com o passar do tempo inteiramente
de seus direitos por seu próprio Estado.19 descabida. O Estado - hoje se reconhece - é res-
No passado, os positivistas se vangloriavam ponsável por todos os seus atos - tanto jure gestio-
da importância por eles atribuída ao método da nis como jure imperii - assim como por todas suas
observação (negligenciado por outras correntes de omissões. Criado pelos próprios seres humanos,
pensamento), o que contrasta, porém, com sua por eles composto, para eles existe, para a realiza-
total incapacidade de apresentar diretrizes, linhas ção de seu bem comum. Em caso de violação dos
mestras de análise, e sobretudo princípios gerais direitos humanos, justifica-se assim plenamente
orientadores.20 No plano normativo, o positivis- o acesso direto do indivíduo à jurisdição interna-
mo se mostrou subserviente à ordem legal esta- cional, para fazer valer tais direitos, inclusive con-
belecida, e convalidou os abusos praticados em tra o próprio Estado.26
nome desta. Mas já em meados do século XX, a
doutrina jusinternacionalista mais esclarecida se IV. A PERSONALIDADE JURÍDICA DO
distanciava definitivamente da formulação hege- INDIVÍDUO COMO RESPOSTA A UMA
liana e neo-hegeliana do Estado como repositório NECESSIDADE DA COMUNIDADE
final da liberdade e responsabilidade dos indivídu-
os que o compunham, e que nele [no Estado] se INTERNACIONAL
integravam inteiramente.21 O indivíduo é, pois, sujeito do direito tanto
A velha polêmica, estéril e ociosa, entre mo- interno como internacional.27 Para isto tem con-
nistas e dualistas, erigida em falsas premissas, tribuído, no plano internacional, a considerável
não surpreendentemente deixou de contribuir evolução nas últimas décadas não só do Direito
aos esforços doutrinários em prol da emancipa- Internacional dos Direitos Humanos, como do
ção do ser humano vis-à-vis seu próprio Estado. mesmo modo do Direito Internacional Humani-
Com efeito, o que fizeram tanto os dualistas como tário. Também este último considera as pessoas
os monistas, neste particular, foi “personificar” o protegidas não como simples objeto da regula-
Estado como sujeito do Direito Internacional.22 mentação que estabelecem, mas como verdadeiros

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Antônio Augusto Cançado Trindade

sujeitos do direito internacional. É o que se depre- Ademais, os indivíduos e as organizações


ende, e.g., da posição das quatro Convenções de não-governamentais assumem um papel cada vez
Genebra sobre Direito Internacional Humanitário mais relevante na formação da opinio juris inter-
de 1949, erigida a partir dos direitos das pessoas nacional. Se, há algumas décadas atrás, era pos-
protegidas (e.g., III Convenção, artigos 14 e 78; IV sível abordar o processo de formação das normas
Convenção, artigo 27); tanto é assim que as qua- do direito internacional geral com atenção volta-
tro Convenções de Genebra proíbem claramente da tão só às “fontes estatais” e “interestatais” das
aos Estados Partes derrogar - por acordos espe- “formas escritas do direito internacional,”32 em
ciais - as regras nelas enunciadas e em particular nossos dias não é mais possível deixar de igual-
restringir os direitos das pessoas protegidas nelas mente reconhecer as “fontes não-estatais”, decor-
consagrados (I, II e III Convenções, artigo 6; e IV rentes da atuação da sociedade civil organizada no
Convenção, artigo 7).28 Na verdade, as primeiras plano internacional. No plano global, artigo 71 da
Convenções de Direito Internacional Humanitá- Carta das Nações Unidas tem servido de base ao
rio (já na passagem do século XIX ao XX) foram status consultivo das organizações não-governa-
pioneiras ao expressar a preocupação internacio- mentais (ONGs) atuantes no âmbito da ONU, e a
nal pela sorte dos seres humanos nos conflitos ar- recente resolução 1996/31, de 1996, do Conselho
mados, reconhecendo o indivíduo como beneficiá- Econômico e Social (ECOSOC) das Nações Uni-
rio direto das obrigações convencionais estatais.29 das, regulamenta com detalhes as relações entre a
Com efeito, já há muito vem repercutindo, no ONU e as ONGs com status consultivo.33
corpus e aplicação do Direito Internacional Huma- No plano regional, a Convenção Européia so-
nitário, o impacto da normativa do Direito Inter- bre o Reconhecimento da Personalidade Jurídica
nacional dos Direitos Humanos: as aproximações das Organizações Não-Governamentais Interna-
e convergências dentre estas duas vertentes do Di- cionais (de 24.04.1986), e.g., dispõe sobre os ele-
reito, e também a do Direito Internacional dos Re- mentos constitutivos das ONGs (artigo 1) e sobre
fugiados, nos planos tanto normativo como herme- a ratio legis de sua personalidade e capacidade ju-
nêutico e operacional, têm contribuído a superar rídicas (artigo 2). Nos últimos anos, os particula-
as compartimentalizações artificiais do passado, e res e as ONGs têm participado nos travaux prépa-
a aperfeiçoar e fortalecer a proteção internacional ratoires de determinados tratados internacionais
da pessoa humana - como titular dos direitos que (e.g., a Convenção das Nações Unidas sobre os
lhe são inerentes - em todas e quaisquer circuns- Direitos da Criança de 198934, e a Convenção de
tâncias.30 Assim, o próprio Direito Internacional Ottawa sobre a Proibição de Minas Anti-Pessoal
Humanitário gradualmente se desvencilha de uma de 199735).
ótica obsoleta puramente interestatal, passando a A crescente atuação, no plano internacio-
dar ênfase crescente - à luz do princípio de huma- nal, das ONGs e outras entidades da sociedade
nidade - às pessoas protegidas e à responsabilidade civil tem tido um inevitável impacto na teoria dos
pela violação de seus direitos. sujeitos do Direito Internacional, contribuindo
Carecem, definitivamente, de sentido, as a tornar os indivíduos beneficiários diretos (sem
tentativas do passado de negar aos indivíduos a intermediários) das normas internacionais, e su-
condição de sujeitos do Direito Internacional, por jeitos do Direito Internacional, e a por um fim à
não lhe serem reconhecidas algumas das capaci- anacrônica dimensão puramente interestatal des-
dades de que são detentores os Estados (como, te último; ademais, sua atuação têm contribuído
e.g., a de celebrar tratados). Tampouco no plano à prevalência de valores comuns superiores no
do direito interno, nem todos os indivíduos parti- âmbito do Direito Internacional.36 Os indivíduos,
cipam, direta ou indiretamente, no processo legi- as ONGs e demais entidades da sociedade civil
ferante, e nem por isso deixam de ser sujeitos de passam, assim, a atuar no processo tanto de for-
direito. O movimento internacional em prol dos mação como de aplicação das normas internacio-
direitos humanos, desencadeado pela Declaração nais37. Em suma, o próprio processo de formação
Universal de Direitos Humanos de 1948, veio a e aplicação das normas do Direito Internacional
desautorizar estas falsas analogias, e a superar deixa de ser apanágio dos Estados.
distinções tradicionais (e.g., com base na naciona- Na verdade, o reconhecimento da persona-
lidade): são sujeitos de direito “todas as criaturas lidade jurídica dos indivíduos veio atender a uma
humanas”, como membros da “sociedade univer- verdadeira necessidade da comunidade internacio-
sal”, sendo “inconcebível” que o Estado venha a nal38, que hoje busca guiar-se por valores comuns
negar-lhes esta condição.31 superiores. A expansão da personalidade jurídica

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Os Indivíduos como Sujeitos do Direito Internacional

internacional atende efetivamente à necessidade de.42 Mas ainda que, pelas circunstâncias da vida,
da comunidade internacional de prover proteção certos indivíduos (e.g., crianças, enfermos men-
aos seres humanos que desta necessitam. A dou- tais, idosos, dentre outros) não possam exercitar
trina mais lúcida e a jurisprudência internacional plenamente sua capacidade de exercício (e.g., no
pertinente sustentam que os próprios sujeitos de direito civil), nem por isso deixam de ser titula-
direito em um sistema jurídico são dotados de res de direitos, oponíveis inclusive ao Estado.43
atributos que atendem às necessidades da comu- Independentemente das circunstâncias, o indiví-
nidade internacional.39 duo é sujeito jure suo do Direito Internacional,
Daí que, - como assinalou com perspicácia tal como sustenta a doutrina mais lúcida, desde a
Paul de Visscher, - enquanto “o conceito de pessoa dos chamados “fundadores” da disciplina.44 Os di-
jurídica é unitário como conceito”, dada a unida- reitos humanos foram concebidos como inerentes
de fundamental da pessoa humana que “encontra a todo ser humano, independentemente de quais-
em si mesma a justificação última de seus pró- quer circunstâncias.
prios direitos”, a capacidade jurídica, por sua vez, Poder-se-ia argumentar que o mundo con-
revela uma variedade e multiplicidade de alcan- temporâneo é inteiramente distinto do da época
ces40. Mas tais variações do alcance da capacidade dos chamados fundadores do Direito Internacio-
jurídica, - inclusive suas limitações em relação, nal (supra), que propugnaram por uma civitas
e.g., às crianças, aos idosos, às pessoas com faltas maxima regida pelo direito das gentes. Ainda que
de capacidade mental, aos apátridas, dentre ou- se trate de dois cenários mundiais diferentes (nin-
tros, - em nada afetam a personalidade jurídica guém o negaria), a aspiração humana é a mesma,
de todos os seres humanos, expressão jurídica da qual seja, a da construção de um ordenamento
dignidade a eles inerente. Em seu recente Pare- internacional aplicável tanto aos Estados (e orga-
cer n. 17, de 28.08.2002, por exemplo, a Corte nizações internacionais) quanto aos indivíduos,
Interamericana de Direitos Humanos (CtIADH) consoante certos padrões universais de justiça.
assinalou que “em conformidade com a norma- Constantemente tem se identificado um “re-
tiva contemporânea do Direito Internacional dos nascimento” contínuo do direito natural, ainda
Direitos Humanos, na qual se situa o artigo 19 da que este último jamais tenha desaparecido. Isto
Convenção Americana sobre Direitos Humanos, se tem dado ante o conservadorismo e a degene-
as crianças são titulares de direitos e não só objeto ração do positivismo jurídico, consubstanciando
de proteção.”41 o status quo, com sua subserviência típica ao po-
Assim, em suma, toda pessoa humana é do- der (inclusive nos regimes autoritários, ditatoriais
tada de personalidade jurídica, a qual impõe limi- e totalitários). Não mais se trata de um retorno
tes ao poder estatal. A capacidade jurídica varia ao direito natural clássico, mas sim da afirmação
em razão da condição jurídica de cada um para ou restauração de um padrão de justiça, pelo qual
realizar determinados atos. No entanto, ainda que se avalia o direito positivo45. O “renascimento”
varie tal capacidade de exercício, todos os indiví- contínuo do direito natural reforça a universali-
duos são dotados de personalidade jurídica. Os di- dade dos direitos humanos, porquanto inerentes
reitos humanos reforçam este atributo universal a todos os seres humanos, - em contraposição às
da pessoa humana, dado que a todos os seres hu- normas positivas, que carecem de universalidade,
manos correspondem de igual modo a personali- por variarem de um meio social a outro46. Daí se
dade jurídica e o amparo do Direito, independen- depreende a importância da personalidade jurídi-
temente de sua condição existencial ou jurídica. ca do titular de direitos47, inclusive como limite às
manifestações arbitrárias do poder estatal.
V. O RESGATE DO INDIVÍDUO COMO O “eterno retorno” do jusnaturalismo tem
SUJEITO DO DIREITO INTERNACIO- sido reconhecido pelos próprios jusinternacio-
nalistas48, contribuindo em muito à afirmação e
NAL NA DOUTRINA JURÍDICA DO consolidação do primado, na ordem dos valores,
SÉCULO XX das obrigações estatais em matéria de direitos
Ao reconhecimento de direitos individuais humanos, vis-à-vis a comunidade internacional
deve corresponder a capacidade processual de como um todo49. Esta última, testemunhando a
vindicá-los, nos planos tanto nacional como in- moralização do próprio Direito, assume a vindi-
ternacional. É mediante a consolidação da plena cação dos interesses comuns superiores50. Os ex-
capacidade processual dos indivíduos que a pro- perimentos internacionais que há décadas vêm
teção dos direitos humanos se torna uma realida- outorgando capacidade processual internacional

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Antônio Augusto Cançado Trindade

aos indivíduos51 refletem, com efeito, o reconheci- estatal, - abaixo do qual a comunidade internacio-
mento de valores comuns superiores consubstan- nal não devia permitir que recaísse o Estado.55 Em
ciados no imperativo de proteção do ser humano sua visão, a “horrível experiência de nosso tempo”
em quaisquer circunstâncias. demonstrava a urgência da consagração necessá-
Todo o novo corpus juris do Direito Inter- ria desse mínimo jurídico, para por um fim ao
nacional dos Direitos Humanos vem de ser cons- “poder ilimitado” do Estado sobre a vida e a liber-
truído em torno dos interesses superiores do ser dade de seus cidadãos, e à “completa impunidade”
humano, independentemente de seu vínculo de do Estado violador dos “direitos mais sagrados do
nacionalidade ou de seu estatuto político. Daí a indivíduo.”56
importância que assume, nesse novo direito de Em seu celebrado Précis du Droit des Gens
proteção, a personalidade jurídica do indivíduo, (1932-1934), Georges Scelle se investiu contra a
como sujeito do direito tanto interno como in- ficção da contraposição de uma “sociedade inter-
ternacional52. A aplicação e expansão do Direito -estatal” a uma sociedade de indivíduos (nacio-
Internacional dos Direitos Humanos, por sua vez, nal): uma e outra são formadas de indivíduos, su-
vem a repercutir, não surpreendentemente, e com jeitos do direito interno e do direito internacional,
sensível impacto, nos rumos do Direito Interna- sejam eles simples particulares (movidos por inte-
cional Público contemporâneo53. resses privados), ou investidos de funções públi-
Ora, se o Direito Internacional Público con- cas (governantes e funcionários públicos), encar-
temporâneo reconhece aos indivíduos direitos e regados de velar pelos interesses das coletividades
deveres (como o comprovam os instrumentos in- nacionais e internacionais57. Em uma passagem
ternacionais de direitos humanos), não há como particularmente significativa de sua obra, Scelle,
negar-lhes personalidade internacional, sem a ao identificar (já no início da década de trinta) “o
qual não poderia dar-se aquele reconhecimento. O movimento de extensão da personalidade jurídica
próprio Direito Internacional, ao reconhecer direi- dos indivíduos”, ponderou que “le seul fait que des
tos inerentes a todo ser humano, desautoriza o ar- recours super-étatiques sont institués au profit de
caico dogma positivista que pretendia autoritaria- certains individus, montre que ces individus sont
mente reduzir tais direitos aos “concedidos” pelo désormais dotés d’une certaine compétence par
Estado. O reconhecimento do indivíduo como le Droit international, et que la compétence des
sujeito tanto do direito interno como do direito gouvernants et agents de cette société internatio-
internacional, dotado em ambos de plena capa- nale est liée corrélativement. Les individus sont à
cidade processual (cf. infra), representa uma ver- la fois sujets de droit des collectivités nationales
dadeira revolução jurídica, à qual temos o dever et de la collectivité internationale globale: ils sont
de contribuir. Esta revolução vem enfim dar um directement sujets de droit des gens”58.
conteúdo ético às normas tanto do direito público O fato de serem os Estados compostos de
interno como do Direito Internacional. seres humanos individuais - com todas as suas
Com efeito, já nas primeiras décadas do sé- consequências - não passou despercebido de ou-
culo XX se reconheciam os manifestos inconve- tros autores, que destacaram a importância da
nientes da proteção dos indivíduos por intermédio atribuição aos indivíduos de recursos (remedies)
de seus respectivos Estados de nacionalidade, ou no âmbito dos mecanismos internacionais de pro-
seja, pelo exercício da proteção diplomática dis- teção de seus direitos59. Há os que chegam mes-
cricionária, que tornava os Estados “demandan- mo a afirmar que “a atribuição da personalidade
tes” a um tempo “juízes e partes”. Começava, em de direito internacional ao indivíduo” constitui o
consequência, para superar tais inconvenientes, a domínio em que “este ramo do Direito mais pro-
germinar a idéia do acesso direto dos indivíduos grediu nas últimas décadas”60.
à jurisdição internacional, sob determinadas con- Ainda no período do entre-guerras, Albert de
dições, para fazer valer seus direitos contra os Es- La Pradelle ponderou que o droit des gens trans-
tados, - tema este que chegou a ser efetivamente cende as relações inter-estatais, ao regulá-las para
considerado pelo Institut de Droit International proteger os seres humanos (e permitir que sejam
em suas sessões de 1927 e 1929.54 estes mestres de seu próprio destino), e assegu-
Em monografia publicada em 1931, o jurista rar o cumprimento pelos Estados de seus deve-
russo André Mandelstam alertou para a necessi- res vis-à-vis os indivíduos sob suas respectivas
dade do reconhecimento de um mínimo jurídico jurisdições.61 A visão estritamente inter-estatal é
- com a primazia do Direito Internacional e dos particularmente perigosa, devendo-se as atenções
direitos humanos sobre o ordenamento jurídico centrar-se nos princípios gerais do direito, ema-

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Os Indivíduos como Sujeitos do Direito Internacional

nando da consciência jurídica, consoante o pen- aplicação do Direito Internacional Humanitário.


samento jusnaturalista, conformando um verda- Ainda há pouco, na Corte Internacional de Justi-
deiro “droit de l´humanité”, a assegurar o respeito ça, no caso das Imunidades Jurisdicionais do Es-
aos direitos da pessoa humana.62 tado (Alemanha versus Itália, com intervenção da
Também no continente americano, mes- Grécia, Sentença de 03.02.2012), em meu recente
mo antes da adoção das Declarações Americana e extenso Voto Dissidente, tive ocasião de resgatar
e Universal de Direitos Humanos de 1948, flo- este pensamento doutrinário (pars. 32-40), esque-
resceram manifestações doutrinárias em prol da cido em nossos dias, particularmente os escritos
personalidade jurídica internacional dos indivídu- de A. de La Pradelle, M. Huber e A. Álvarez, a
os. Dentre as que sustentaram tal personalidade, ressaltar os valores humanos fundamentais.
situa-se, e.g., as obras de Alejandro Álvarez63 e Por sua vez, em seu curso ministrado na
Hildebrando Accioly.64 Do mesmo modo se posi- Academia de Direito Internacional da Haia, em
cionou Levi Carneiro a respeito, ao escrever que 1953, Constantin Eustathiades vinculou a subje-
“não subsiste obstáculo doutrinário à admissão de tividade internacional dos indivíduos à temática
pleitos individuais perante a justiça internacional. da responsabilidade internacional (dos mesmos, a
(...) Ao Direito Internacional o indivíduo interessa par da dos Estados). Como reação da consciência
cada vez mais”, mesmo porque “o Estado, criado jurídica universal, o desenvolvimento dos direitos
no interesse do indivíduo, a este não se pode so- e deveres do indivíduo no plano internacional, e
brepor.”65 E Philip Jessup, em 1948, ponderou que sua capacidade de agir para defender seus direitos,
a velha acepção da soberania estatal “não é con- encontram-se vinculados a sua capacidade para o
sistente com os princípios da interdependência ou delito internacional; a responsabilidade interna-
interesse da comunidade e do status do indivíduo cional abarca, assim, em sua visão, tanto a pro-
como sujeito do direito internacional.”66 teção dos direitos humanos como a punição dos
A seu turno, não hesitou Hersch Lauterpa- criminosos de guerra (formando um todo).72
cht, em obra dada a público em 1950, em afirmar Dada, pois, a capacidade do indivíduo, tanto
que “o indivíduo é o sujeito final de todo direito”, para mover uma ação contra um Estado na prote-
nada havendo de inerente ao direito internacional ção de seus direitos, como para cometer um delito
que o impeça de tornar-se sujeito do law of na- no plano internacional, não há como negar sua
tions e de tornar-se parte em procedimentos pe- condição de sujeito do Direito Internacional.73 À
rante tribunais internacionais.67 O bem comum, mesma conclusão chegou Paul Guggenheim, em
nos planos tanto nacional como internacional, curso ministrado também na Academia da Haia,
está condicionado pelo bem-estar dos seres huma- um ano antes, em 1952: como o indivíduo é “su-
nos individuais que compõem a coletividade em jeito de deveres” no plano do Direito Internacio-
questão.68 Tal reconhecimento do indivíduo como nal, não há como negar sua personalidade jurídica
sujeito de direitos também no plano do Direito In- internacional, reconhecida inclusive pelo próprio
ternacional acarreta uma clara rejeição dos velhos direito internacional consuetudinário.74
dogmas positivistas, desacreditados e insustentá- Ainda em meados do século XX, nos primei-
veis, do dualismo de sujeitos nos ordenamentos ros anos de aplicação da Convenção Européia de
interno e internacional, e da vontade dos Estados Direitos Humanos, Giuseppe Sperduti escrevia
como fonte exclusiva do Direito Internacional.69 que os particulares haviam se tornado “titulares
Em outro estudo perspicaz, publicado tam- de interesses internacionais legítimos”, porquan-
bém em 1950, Maurice Bourquin ponderou que a to já se iniciara, no Direito Internacional, um
crescente preocupação do direito internacional da processo de emancipação dos indivíduos da “tu-
época com os problemas que afetavam diretamen- tela exclusiva dos agentes estatais.”75 A própria
te o ser humano revelava a superação da velha experiência jurídica da época contradizia catego-
visão exclusivamente inter-estatal da ordem jurí- ricamente a teoria infundada de que os indivíduos
dica internacional.70 Em livro escrito pouco antes eram simples objetos do ordenamento jurídico in-
de sua morte, e publicado em 1954, Max Huber, ternacional, e destruía outros preconceitos do po-
ao constatar a “desvalorização” da pessoa humana sitivismo estatal.76 Na doutrina jurídica de então
e as “degradações” sociais no interior dos Estados, se tornava patente o reconhecimento da expansão
de 1914 até então, sustentou um jus gentium, da proteção dos indivíduos no ordenamento jurí-
na linha do pensamento jusnaturalista, centra- dico internacional.77
do nos seres humanos e não nos Estados, recor- Em um artigo publicado em 1967, René Cas-
dando o ideal dos jusfilósofos da civitas maxima sin, que participara do processo preparatório da
gentium.71 M. Huber tinha em mente a correta

29
Antônio Augusto Cançado Trindade

elaboração da Declaração Universal de Direitos - acrescentou, - e os teóricos que só vislumbra-


Humanos de 1948,78 acentuou com eloqüência vam os Estados como tais sujeitos simplesmen-
que o avanço representado pelo acesso dos indiví- te distorciam a realidade, deixando de tomar em
duos a instâncias internacionais de proteção, asse- conta as transformações por que tem passado a
gurado por muitos tratados de direitos humanos: comunidade internacional, ao vir a admitir esta
- “(...) Se ainda subsistem na terra grandes zonas última que atores não-estatais também possuem
onde milhões de homens ou mulheres, resignados personalidade jurídica internacional83. Com efei-
a seu destino, não ousam proferir a menor recla- to, estudos sucessivos sobre os instrumentos
mação ou nem sequer a conceber que um recurso internacionais de proteção e as condições de ad-
qualquer seja possível, estos territórios diminuem missibilidade das petições individuais no plano
a cada dia. A tomada de consciência de que uma internacional passaram a enfatizar precisamente
emancipação é possível torna-se cada vez mais a importância histórica do reconhecimento da
geral. (...) A primeira condição de toda justiça, personalidade jurídica internacional dos indivídu-
qual seja, a possibilidade de encurralar os podero- os como parte demandante.84
sos para sujeitar-se a (...) um controle público, se
satisfaz hoje em dia muito mais frequentemente VI. A ATRIBUIÇÃO DE DEVERES AO
que no passado. (...) O fato de que a resignação INDIVÍDUO DIRETAMENTE PELO DI-
sem esperança, de que o muro do silêncio e de que
a ausência de todo recurso estejam em vias de re- REITO INTERNACIONAL
dução ou de desaparecimento, abre à humanidade Como já assinalado, à doutrina jurídica do
em marcha perspectivas alentadoras (...).”79 século XX não passou despercebido que os indi-
Na articulação de Paul Reuter, a partir do víduos, ademais de titulares de direitos no plano
momento em que se satisfazem duas condições internacional, também têm deveres que lhe são
básicas, os particulares se tornam sujeitos do Di- atribuídos diretamente pelo próprio Direito In-
reito Internacional; estas condições são, primei- ternacional.85 E, - o que é mais significativo, - a
ramente, “ser titulares de direitos e obrigações violação grave desses deveres, configurada nos
estabelecidos diretamente pelo Direito Interna- crimes contra a humanidade, acarreta a respon-
cional”, e, em segundo lugar, “ser titulares de di- sabilidade penal individual internacional, inde-
reitos e obrigações sancionados diretamente pelo pendentemente do que dispõe a respeito o direito
Direito Internacional.”80 Para o jurista francês, a interno.86 Os desenvolvimentos contemporâneos
partir do momento em que o indivíduo dispõe de no direito penal internacional têm, efetivamente,
um recurso a um órgão de proteção internacional incidência direta na cristalização tanto do princí-
(acesso à jurisdição internacional) e pode, assim, pio da jurisdição universal como do princípio da
dar início ao procedimento de proteção, torna-se responsabilidade penal internacional individual,
sujeito do Direito Internacional.81 Na mesma li- componente da personalidade jurídica internacio-
nha de pensamento, “a verdadeira pedra de toque nal do indivíduo (este último como sujeito tanto
da personalidade jurídica internacional do indi- ativo como passivo do Direito Internacional, ti-
víduo”, no dizer de Eduardo Jiménez de Arécha- tular de direitos assim como portador de deveres
ga, reside na atribuição de direitos e dos meios emanados diretamente do direito das gentes).
de ação para assegurá-los. A partir do momento Recorde-se que as decisões do Conselho de
em que isto ocorre, como efetivamente ocorreu Segurança das Nações Unidas de estabelecer os
no plano internacional, - agregou o jurista uru- Tribunais Penais Internacionais ad hoc para a Ex-
guaio, - fica evidenciado que “nada há de inerente -Iugoslávia87 (1993) e para Ruanda88 (1994), so-
à estrutura do ordenamento jurídico internacio- madas à iniciativa das Nações Unidas de criação
nal” que impeça o reconhecimento aos indivíduos do Tribunal Penal Internacional permanente, para
de direitos que emanam diretamente do Direito julgar os responsáveis por violações graves dos di-
Internacional, assim como de recursos internacio- reitos humanos e do Direito Internacional Huma-
nais para a proteção desses direitos.82 nitário, deram um novo ímpeto à luta da comuni-
Em estudo publicado em 1983, J. Barberis dade internacional contra a impunidade, - como
ponderou que, para que os indivíduos sejam su- violação per se dos direitos humanos,89 - além de
jeitos de direito, mister se faz que o ordenamento reafirmarem o princípio da responsabilidade penal
jurídico em questão lhes atribua direitos ou obri- internacional do indivíduo90 por tais violações, e
gações (como é o caso do direito internacional); buscarem assim prevenir crimes futuros.91
os sujeitos de direito são, assim, heterogêneos,

30
Os Indivíduos como Sujeitos do Direito Internacional

O processo de criminalização das violações Ninguém ousaria tampouco negar que os


graves dos direitos humanos e do Direito Inter- atos de genocídio, o trabalho escravo, as práti-
nacional Humanitário92 tem, com efeito, acom- cas da tortura e dos desaparecimentos forçados
panhado pari passu a evolução do próprio Direito de pessoas, as execuções sumárias e extralegais,
Internacional contemporâneo: o estabelecimen- e a denegação persistente das mais elementares
to de uma jurisdição penal internacional é visto garantias do devido processo legal, afrontam a
em nossos dias como um elemento que fortalece consciência jurídica universal, e efetivamente co-
o próprio Direito Internacional, superando uma lidem com as normas peremptórias do jus cogens.
carência básica e suas insuficiências do passado Toda esta evolução doutrinária aponta na direção
quanto à incapacidade de punir criminosos de da consagração de obrigações erga omnes de pro-
guerra.93 Os travaux préparatoires94 do Estatuto teção,102 ou seja, obrigações atinentes à proteção
do Tribunal Penal Internacional permanente, ado- dos seres humanos devidas à comunidade inter-
tado na Conferência de Roma de 1998, como era nacional como um todo.103 A consolidação das
de se esperar, a par da responsabilidade do Estado, obrigações erga omnes de proteção, em meio à
contribuíram ao pronto reconhecimento, no âm- incidência das normas de jus cogens, é imprescin-
bito de aplicação do Estatuto, da responsabilidade dível aos avanços na luta contra o poder arbitrário
penal internacional individual, - o que represen- e no fortalecimento da proteção do ser humano
ta um grande avanço doutrinário na luta contra contra os atos de barbárie e as atrocidades con-
a impunidade pelos mais graves crimes interna- temporâneas.104
cionais95. Este avanço, em nossos dias, se deve à
intensificação do clamor de toda a humanidade VII. A CAPACIDADE JURÍDICA INTERNA-
contra as atrocidades que têm vitimado milhões CIONAL DO INDIVÍDUO
de seres humanos em todas as partes, - atrocida-
des estas que não mais podem ser toleradas e que A par da construção de sua personalidade ju-
devem ser combatidas com determinação.96 rídica internacional, o acesso dos indivíduos aos
Cabe chamar a atenção para os valores uni- tribunais internacionais contemporâneos para a
versais superiores, e subjacentes a toda a temática proteção de seus direitos revela uma renovação do
da criação de uma jurisdição penal internacional direito internacional - no sentido de sua já assina-
em base permanente. A cristalização da respon- lada humanização,105 - abrindo uma grande bre-
sabilidade penal internacional dos indivíduos (a cha na doutrina tradicional do domínio reservado
par da responsabilidade do Estado), e o processo dos Estados106 (ou competência nacional exclusi-
da criminalização das violações graves dos direitos va), definitivamente ultrapassada: o indivíduo é
humanos e do Direito Internacional Humanitá- elevado a sujeito do Direito Internacional107, dota-
rio97, constituem elementos de crucial importân- do de capacidade processual. Perante os tribunais
cia ao combate à impunidade,98 e ao tratamento a internacionais, o ser humano se defronta consigo
ser dispensado a violações passadas, na proteção mesmo, para proteger-se da arbitrariedade estatal,
dos direitos humanos. sendo protegido pelas regras do direito internacio-
nal108. Em última análise, todo o Direito existe
Em uma intervenção nos debates de para o ser humano, e o direito das gentes não faz
12.03.1986 da Conferência de Viena sobre Direito exceção a isto, garantindo ao indivíduo seus direi-
dos Tratados entre Estados e Organizações Inter- tos e o respeito de sua personalidade.109
nacionais ou entre Organizações Internacionais,
me permiti advertir para a manifesta incompati- A questão da capacidade processual dos in-
bilidade com o conceito de jus cogens99 da con- divíduos perante a Corte Internacional de Justiça
cepção voluntarista do Direito Internacional.100 (CIJ), e sua predecessora a Corte Permanente de
À responsabilidade internacional objetiva dos Justiça Internacional (CPJI), foi efetivamente con-
Estados corresponde necessariamente a noção de siderada por ocasião da redação original, por um
ilegalidade objetiva (um dos elementos subjacen- Comitê de Juristas designado pela antiga Liga das
tes ao conceito de jus cogens). Em nossos dias, Nações, do Estatuto da Corte da Haia, em 1920.
ninguém ousaria negar a ilegalidade objetiva de Dos dez membros do referido Comitê de Juristas,
práticas sistemáticas de tortura, de execuções su- apenas dois - Loder e De Lapradelle - se pronun-
márias e extralegais, e de desaparecimento força- ciaram a favor de que os indivíduos pudessem
do de pessoas, - práticas estas que representam comparecer como partes perante a Corte (jus stan-
crimes contra a humanidade, - condenadas pela di) em casos contenciosos contra Estados (estran-
consciência jurídica universal,101 a par da aplica- geiros). A maioria do Comitê, no entanto, se opôs
ção de tratados. firmemente a esta proposição: quatro membros110

31
Antônio Augusto Cançado Trindade

objetaram que os indivíduos não eram sujeitos do los em 1928, não é mais que uma “questão de
Direito Internacional (não podendo, pois, a seu tempo”, por “impor-se como consequência neces-
ver, ser partes perante a Corte) e que somente os sária da evolução da organização internacional”
Estados eram pessoas jurídicas no ordenamento dos novos tempos118. O indivíduo deve, assim,
internacional, - no que foram acompanhados pe- ser capaz de defender ele próprio seus direitos no
los demais membros.111 plano internacional, “independentemente de toda
A posição que prevaleceu em 1920 - que sur- tutela de seu Estado”, e “mesmo contra seu pró-
preendente e lamentavelmente tem sido mantida prio Estado”119. Sem a outorga aos indivíduos de
no artigo 34(1) do Estatuto da Corte da Haia até o ação direta no plano internacional, - prosseguiu,
presente - foi pronta e duramente criticada na dou- - seus direitos continuarão “sem proteção sufi-
trina mais lúcida da época (já na própria década de ciente”; somente com tal ação direta ante uma
vinte). Assim, em sua memorável monografia Les instância internacional, - acrescentou, - se logra-
nouvelles tendances du Droit international (1927), rá uma proteção eficaz dos direitos humanos, em
Nicolas Politis ponderou que os Estados não pas- conformidade com “o espírito da nova ordem in-
sam de ficções, compostos que são de indivíduos, ternacional”1. Há que estabelecer “certos limites”
e que o verdadeiro fim de todo o Direito é o ser à autoridade do Estado, - concluiu, - o qual não é
humano, e nada mais que o ser humano112: trata- um fim em si mesmo, mas antes um meio para a
-se de algo “tão evidente”, acrescentou, que “seria “satisfação das necessidades humanas.”120
inútil insistir nisto se as brumas da soberania não O caráter exclusivamente inter-estatal do
tivessem obscurecido as verdades mais elementa- contencioso ante a CIJ definitivamente não se
res.”113 E prosseguiu Politis em defesa da outorga tem mostrado satisfatório. Ao menos em alguns
do recurso direto aos indivíduos às instâncias in- casos, relativamente à condição de indivíduos,
ternacionais para fazer valer seus “interesses legíti- a presença destes últimos (ou de seus represen-
mos”, o que apresentaria a vantagem, por exemplo, tantes legais), para apresentar, eles próprios, suas
de despolitizar o procedimento clássico, o do con- posições, teria enriquecido o procedimento e fa-
tencioso interestatal (a proteção diplomática dis- cilitado o trabalho da Corte. Recordem-se, como
cricionária).114 E, enfim, adiantou um prognóstico, exemplos a esse respeito, o caso clássico Notte-
no sentido de que a ação direta dos indivíduos no bohm sobre dupla nacionalidade (Liechtenstein
plano internacional logrará realizar-se, mais cedo versus Guatemala, 1955), e o caso relativo à Apli-
ou mais tarde, porque “responde a uma verdadeira cação da Convenção de 1902 sobre a Guarda de
necessidade da vida internacional.”115 Menores (Holanda versus Suécia, 1958), e, mais
Outra crítica à solução adotada a respeito pelo recentemente, os casos do Julgamento dos Prisio-
Estatuto da Corte da Haia (artigo 34(1), cf. supra) neiros de Guerra Paquistaneses (Paquistão versus
foi formulada por Spiropoulos, também nos anos Índia, 1973), dos Reféns (Pessoal Diplomático e
vinte, para quem não havia qualquer impedimen- Consular dos Estados Unidos) em Teerã (Estados
to a que o direito internacional convencional asse- Unidos versus Irã, 1980), do Timor-Leste (Portu-
gurasse aos indivíduos uma ação direta no plano gal versus Austrália, 1995), da Aplicação da Con-
internacional (havendo inclusive precedentes neste venção contra o Genocídio (Bósnia-Herzegovina
sentido no período do entre-guerras); se isto não versus Iugoslávia, 1996), ou ainda os casos Breard
ocorresse e se se limitasse às ações judiciais no pla- (Paraguai versus Estados Unidos, 1998), LaGrand
no do direito interno, não raro o Estado se tornaria (Alemanha versus Estados Unidos, 2001), e Ave-
“juiz e parte” ao mesmo tempo, o que seria uma na (México versus Estados Unidos, 2004).
incongruência.116 Para o autor, o ordenamento ju- Casos do gênero, atinentes sobretudo à si-
rídico internacional pode formular normas visan- tuação concreta dos seres humanos afetados, têm
do diretamente os indivíduos (como exemplificado se intensificado nos últimos anos perante a CIJ.
pelos tratados de paz do período do entre-guerras), Recorde-se, e.g., que, no caso das Atividades Ar-
alçando-o desse modo à condição de sujeito do madas no Território do Congo (R.D. Congo versus
direito internacional, na medida em que se esta- Uganda, 2007) a CIJ se confrontou com violações
belece uma relação direta entre o indivíduo e o graves dos direitos humanos e do Direito Interna-
ordenamento jurídico internacional, que o torna cional Humanitário; do mesmo modo, no caso da
“diretamente titular de direitos ou de obrigações”; Fronteira Terrestre e Marítima entre Camarões e
não há, pois, como deixar de admitir a personalida- Nigéria (1996), viu-se a CIJ diante de vítimas de
de jurídica internacional do indivíduo.117 conflitos armados. Exemplos mais recentes em que
A gradual emancipação do indivíduo da tute- as preocupações da CIJ têm se estendido bem além
la do Estado todo-poderoso, antecipou Spiropou- da dimensão inter-estatal encontram-se nos casos

32
Os Indivíduos como Sujeitos do Direito Internacional

recentes das Questões Relativas à Obligação de Jul- respectivamente) de direitos humanos125. O direito
gar ou Extraditar (Bélgica versus Senegal, 2009 e de petição individual, mediante o qual é assegurado
2012) atinente ao princípio da jurisdição univer- ao indivíduo o acesso direto à justiça em nível in-
sal sob a Convenção das Nações Unidas contra a ternacional, é uma conquista definitiva do Direito
Tortura, o caso de A.S. Diallo (Guiné versus R.D. Internacional dos Direitos Humanos.126
Congo, 2010 e 2012) sobre detenção e expulsão de Com efeito, é da própria essência da proteção
estrangeiro, o caso das Imunidades Jurisdicionais internacional dos direitos humanos a contraposi-
do Estado (Alemanha versus Itália, com interven- ção entre os indivíduos demandantes e os Estados
ção da Grécia, 2010-2012), o caso da Aplicação da demandados em casos de supostas violações dos
Convenção Internacional sobre a Eliminação de direitos protegidos127. Três séculos de um orde-
Todas as Formas de Discriminação Racial (Geórgia namento internacional cristalizado, a partir dos
versus Federação Russa, 2011), o caso do Templo tratados de paz de Westphalia (1648), com base
de Préah Vihéar (medidas provisórias de proteção, na coordenação de Estados-nações independentes,
Camboja versus Tailândia, 2011). na justaposição de soberanias absolutas, levaram
Encontram-se, ademais, em seus dois Pare- à exclusão daquele ordenamento dos indivíduos
ceres mais recentes, a saber, o Parecer Consultivo como sujeitos de direitos128. Três séculos de um
sobre a Declaração de Independência do Kossovo ordenamento internacional marcado pelo predo-
(2010), e o Parecer Consultivo sobre a Revisão de mínio soberanias estatais e pela exclusão dos indi-
Sentença do Tribunal Administrativo da OIT, por víduos foram incapazes de evitar as violações ma-
Reclamação do FIDA (2012). Em todos estes ca- ciças dos direitos humanos, perpetradas em todas
sos e pareceres recentes, não há como deixar de as regiões do mundo, e as sucessivas atrocidades
reconhecer que o elemento predominante é preci- de nosso século, inclusive as contemporâneas.129
samente a situação concreta de seres humanos, e Tais atrocidades despertaram a consciência
não meras questões abstratas de interesse exclu- jurídica universal para a necessidade de reconcei-
sivo dos Estados litigantes em suas relações in- tuar as próprias bases do ordenamento interna-
ter se. A artificialidade do caráter exclusivamente cional, restituindo ao ser humano a posição cen-
inter-estatal do contencioso ante a CIJ122 é, pois, tral de onde havia sido alijado. Esta reconstrução,
claramente revelada pela própria natureza de de- sobre bases humanas, tomou por fundamento
terminados casos submetidos a sua consideração. conceitual os cânones inteiramente distintos da
A solução adotada pelo Estatuto da anti- realização de valores comuns superiores, da ti-
ga CPJI, e fossilizada com o passar do tempo no tularidade de direitos do próprio ser humano, da
Estatuto da CIJ até a atualidade, é ainda mais garantia coletiva de sua realização, e do caráter
criticável, se considerarmos que, já na primeira objetivo das obrigações de proteção.130 A ordem
metade do século XX, houve experimentos de di- internacional das soberanias cedia terreno à da
reito internacional que efetivamente outorgaram solidariedade (cf. supra).
capacidade processual internacional aos indivídu- Esta profunda transformação do ordenamen-
os. Exemplificam-no o sistema de navegação do to internacional, desencadeada a partir das Decla-
rio Reno, o Projeto de uma Corte Internacional rações Universal e Americana de Direitos Huma-
de Presas (1907), a Corte Centro-Americana de nos de 1948, não se tem dado sem dificuldades,
Justiça (1907-1917), assim como, na era da Liga precisamente por requerer uma nova mentali-
das Nações, os sistemas das minorias (inclusive dade. Passou, ademais, por etapas, algumas das
a Alta Silésia) e dos territórios sob mandato, os quais já não mais suficientemente estudadas em
sistemas de petições das Ilhas Aaland e do Sarre e nossos dias, inclusive no tocante à consagração do
de Danzig, além da prática dos tribunais arbitrais direito de petição individual. Já nos primórdios do
mistos e das comissões mistas de reclamações, da exercício deste direito se enfatizou que, ainda que
mesma época.123 motivado pela busca da reparação individual, o di-
Esta evolução se desencadeou na era das Na- reito de petição contribui também para assegurar
ções Unidas, com a adoção do sistema de petições o respeito pelas obrigações de caráter objetivo que
individuais sob alguns dos tratados contemporâne- vinculam os Estados Partes.131 Em vários casos o
os de direitos humanos de caráter universal124, e so- exercício do direito de petição tem ido mais além,
bretudo no plano regional, sob as Convenções Eu- ocasionando mudanças no ordenamento jurídico
ropéia e Americana sobre Direitos Humanos, que interno e na prática dos órgãos públicos do Es-
estabeleceram tribunais internacionais (as Cortes tado.132 A significação do direito de petição indi-
Européia e Interamericana [CtEDH e CtIADH], vidual só pode ser apropriadamente avaliada em
perspectiva histórica.

33
Antônio Augusto Cançado Trindade

Esta transformação, própria de nosso tempo, templados no mencionado artigo 25.135 Resulta,
corresponde ao reconhecimento da necessidade de pois, claríssima a autonomia do direito de petição
que todos os Estados, para evitar novas violações individual no plano internacional vis-à-vis dispo-
dos direitos humanos, respondam pela manei- sições do direito interno136. Os elementos singula-
ra como tratam todos os seres humanos que se rizados nesta jurisprudência protetora aplicam-se
encontram sob sua jurisdição. Esta prestação de igualmente sob procedimentos de outros tratados
contas simplesmente não teria sido possível sem de direitos humanos que requerem a condição de
a consagração do direito de petição individual, “vítima” para o exercício do direito de petição in-
em meio ao reconhecimento do caráter objetivo dividual.137
das obrigações de proteção e à aceitação da garan- No sistema interamericano de proteção dos
tia coletiva de cumprimento das mesmas: é este direitos humanos, o direito de petição individu-
o sentido real do resgate histórico do indivíduo al tem se constituído em um meio eficaz de en-
como sujeito do Direito Internacional dos Direi- frentar casos não só individuais como também de
tos Humanos (cf. supra). violações maciças e sistemáticas dos direitos hu-
A apreciação do direito de petição individu- manos138. Sua importância tem sido fundamental,
al como método de implementação internacional e não poderia jamais ser minimizada. A consagra-
dos direitos humanos tem necessariamente que ção do direito de petição individual sob o artigo 44
levar em conta o aspecto central da legitimatio ad da Convenção Americana sobre Direitos Huma-
causam dos peticionários e das condições do uso nos revestiu-se de significação especial. Não só foi
e da admissibilidade das petições (consignadas sua importância, para o mecanismo da Conven-
nos distintos instrumentos de direitos humanos ção como um todo, devidamente enfatizada nos
que as prevêem)133. Tem sido particularmente sob travaux préparatoires daquela disposição da Con-
a Convenção Europeia de Direitos Humanos que venção139, como também representou um avanço
uma vasta jurisprudência sobre o direito de peti- em relação ao que, até a adoção do Convenção em
ção individual tem se desenvolvido, reconhecen- 1969, se havia logrado a respeito, no âmbito do
do a este último autonomia, distinto que é dos Direito Internacional dos Direitos Humanos.
direitos substantivos enumerados no título I da A outra Convenção regional então em vigor,
Convenção Européia. a Convenção Européia, só aceitara o direito de pe-
Qualquer obstáculo interposto pelo Estado tição individual originalmente consubstanciado
Parte em questão a seu livre exercício acarreta- em uma cláusula facultativa (o artigo 25 da Con-
ria, assim, uma violação adicional da Convenção, venção), condicionando a legitimatio ad causam à
paralelamente a outras violações que se compro- demonstração da condição de vítima pelo deman-
vem dos direitos substantivos nesta consagrados. dante individual, - o que, a seu turno, propiciou
Reforçando este ponto, tanto a antiga Comissão um notável desenvolvimento jurisprudencial da
como a Corte Européias de Direitos Humanos noção de “vítima” sob a Convenção Européia. A
esposaram o entendimento no sentido de que Convenção Americana, distintamente, tornou o
o próprio conceito de vítima (à luz do artigo 25 direito de petição individual (artigo 44 da Conven-
[original] da Convenção) deve ser interpreta- ção) mandatório, de aceitação automática pelos
do autonomamente sob a Convenção Européia. Estados ratificantes, abrindo-o a “qualquer pessoa
Este entendimento encontra-se hoje solidamen- ou grupo de pessoas, ou entidade não-governa-
te respaldado pela jurisprudence constante sob a mental legalmente reconhecida em um ou mais
Convenção. Assim, em várias decisões, a [então] Estados membros da Organização” dos Estados
Comissão Européia advertu consistente e invaria- Americanos (OEA), - o que revela a importância
velmente que o conceito de “vítima” utilizado no capital atribuída ao mesmo.140
artigo 25 [original] da Convenção deve ser inter- Foi este, reconhecidamente, um dos grandes
pretado de forma autônoma e independentemen- avanços logrados pela Convenção Americana, nos
te de conceitos de direito interno, tais como os planos tanto conceitual e normativo, assim como
de interesse ou qualidade para interpor uma ação operacional.141 A matéria encontra-se analisada
judicial ou participar em um processo legal134A detalhadamente em meu Voto Concordante no
CtEDH, por sua vez, no caso Norris versus Irlanda caso Castillo Petruzzi versus Peru (Exceções Preli-
(1988), ponderou que as condições que regem as minares, 1998)1. Há que ter sempre presente a au-
petições individuais sob o artigo 25 da Convenção tonomia do direito de petição individual vis-à-vis
“não coincidem necessariamente com os critérios o direito interno do42s Estados. Sua relevância
nacionais relativos ao locus standi”, que podem não pode ser minimizada, porquanto pode ocor-
inclusive servir a propósitos distintos dos con- rer que, em um determinado ordenamento jurídi-

34
Os Indivíduos como Sujeitos do Direito Internacional

co interno, um indivíduo se veja impossibilitado, O complemento indispensável e inelutá-


pelas circunstâncias de uma situação jurídica, a vel do direito de petição individual internacional
tomar providências judiciais por si próprio. Nem reside na intangibilidade da jurisdição dos tribu-
por isso estará ele privado de fazê-lo no exercício nais internacionais de direitos humanos.145 Nas
do direito de petição individual sob a Convenção duas históricas sentenças sobre competência de
Americana, ou outro tratado de direitos humanos. 24.09.1999, nos casos do Tribunal Constitucio-
Mas a Convenção Americana vai mais além: nal e de Ivcher Bronstein versus Peru, a CtIADH
a legitimatio ad causam, que estende a todo e advertiu corretamente que sua competência em
qualquer peticionário, pode prescindir até mes- matéria contenciosa não podia estar condiciona-
mo de alguma manifestação por parte da própria da por atos distintos de suas próprias atuações.
vítima. O direito de petição individual, assim Acrescentou que, ao reconhecer sua competência
amplamente concebido, tem como efeito imedia- contenciosa, um Estado aceita a prerrogativa da
to ampliar o alcance da proteção, mormente em Corte de decidir sobre toda questão que afete sua
casos em que as vítimas (e.g., detidos incomuni- competência, não podendo depois pretender reti-
cados, desaparecidos, entre outras situações) se rar-se dela subitamente, o que minaria todo o me-
vêem impossibilitadas de agir por conta própria, canismo internacional de proteção. A pretendida
e necessitam da iniciativa de um terceiro como “retirada” unilateral do Estado demandado com
peticionário em sua defesa. “efeito imediato” não tinha qualquer fundamento
jurídico, nem na Convenção Americana, nem no
A desnacionalização da proteção e dos re-
direito dos tratados, nem no direito internacional
quisitos da ação internacional de salvaguarda dos
geral. Não podia um tratado de direitos humanos
direitos humanos, além de ampliar sensivelmente
como a Convenção Americana estar à mercê de
o círculo de pessoas protegidas, possibilitou aos
limitações não previstas por ela, impostas subita-
indivíduos exercer direitos emanados diretamente
mente por um Estado Parte por razões de ordem
do direito internacional (direito das gentes), im-
interna. Tal pretensão, - como o determinou a
plementados à luz da noção supracitada de garan-
CtIADH, - era, pois, inadmissível.
tia coletiva, e não mais simplesmente “concedi-
dos” pelo Estado. Com o acesso dos indivíduos à Com sua importante decisão nos referidos
justiça em nível internacional, por meio do exercí- casos, a CtIADH salvaguardou a integridade da
cio do direito de petição individual, deu-se enfim Convenção Americana sobre Direitos Humanos,
expressão concreta ao reconhecimento de que os que, como todos os tratados de direitos humanos,
direitos humanos a ser protegidos são inerentes baseia-se na garantia coletiva na operação do me-
à pessoa humana e não derivam do Estado. Por canismo internacional de proteção. Posteriormen-
conseguinte, a ação em sua proteção não se esgota te, a CtIADH voltou a preservar a integridade do
- não pode se esgotar - na ação do Estado. mecanismo de proteção da Convenção Americana
em suas Sentenças sobre exceções preliminares, de
Cada um dos procedimentos que regulam o
01.09.2001, nos casos Hilaire, Benjamin e Cons-
direito de petição individual sob tratados e ins-
tantine versus Trinidad e Tobago; nestes últimos
trumentos internacionais de direitos humanos,
casos, a CtIADH rejeitou a pretensão do Estado
apesar de diferenças em sua natureza jurídica,
demandado de interpor uma restrição, não previs-
tem contribuído, a seu modo, ao gradual fortale-
ta no artigo 62 da Convenção Americana (e que
cimento da capacidade processual do demandante
subordinaria esta à Constituição nacional), à acei-
no plano internacional.143 Com efeito, de todos
tação de sua competência em matéria contenciosa.
os mecanismos de proteção internacional dos di-
Com isto, a CtIADH afirmou o primado da nor-
reitos humanos, o direito de petição individual é,
mativa internacional de proteção do ser humano.
efetivamente, o mais dinâmico, ao inclusive atri-
buir a iniciativa de ação ao próprio indivíduo (a Dada a importância da questão da capaci-
parte ostensivamente mais fraca vis-à-vis o poder dade processual dos indivíduos sob estas duas
público), distintamente do exercício ex officio de Convenções regionais, cabe ter em mente estes
outros métodos (como os de relatórios e investi- desenvolvimentos em perspectiva histórica, de
gações) por parte dos órgãos de supervisão inter- fundamental importância ao estudo do próprio
nacional. É o que melhor reflete a especificidade acesso do indivíduo à justiça no plano interna-
do Direito Internacional dos Direitos Humanos, cional146. Como já assinalado, a própria evolução
em comparação com outras soluções próprias do normativo-institucional dos sistemas interame-
Direito Internacional Público.144 ricano e europeu de proteção dos direitos huma-

35
Antônio Augusto Cançado Trindade

nos cuidou de acentuar a necessidade, funcional respeito, ao longo do século XX, encontra raízes,
e ética, de dar expressão concreta à titularidade - como não poderia deixar de ser, - em algumas re-
dos direitos inerentes ao ser humano e a sua ca- flexões do passado, no pensamento jurídico assim
pacidade jurídico-processual para vindicá-los (cf. como filosófico149, - a exemplo, inter alia, da con-
supra). Esta evolução tem-se mostrado conforme cepção kantiana da pessoa humana como um fim
à concepção segundo a qual todo o Direito existe em si mesmo. Isto é inevitável, porquanto reflete
para o ser humano, e o direito das gentes não faz o processo de amadurecimento e refinamento do
exceção a isto, garantindo ao indivíduo os direitos próprio espírito humano, que torna possíveis os
que lhe são inerentes, ou seja, o respeito de sua avanços na própria condição humana.
personalidade jurídica e a intangibilidade de sua Com efeito, não há como dissociar o reco-
capacidade jurídica no plano internacional. nhecimento da personalidade jurídica internacio-
nal do indivíduo (supra) da própria dignidade da
VIII. O DIREITO SUBJETIVO, OS DIREI- pessoa humana. Em uma dimensão mais ampla,
TOS HUMANOS E A NOVA DIMEN- a pessoa humana se configura como o ente que
encerra seu fim supremo dentro de si mesmo, e
SÃO DA TITULARIDADE JURÍDICA que o cumpre ao longo do caminho de sua vida,
INTERNACIONAL DO SER HUMANO sob sua própria responsabilidade. Com efeito, é a
A titularidade jurídica internacional do ser pessoa humana, essencialmente dotada de digni-
humano, tal como a anteviam os chamados fun- dade, a que articula, expressa e introduz o “dever
dadores do direito internacional (o direito das gen- ser” dos valores no mundo da realidade em que
tes), é hoje uma realidade. Ademais, a subjetivi- vive, e só ela é capaz disso, como portadora de tais
dade (ativa) internacional dos indivíduos atende a valores éticos. A personalidade jurídica, por sua
uma verdadeira necessidade de sua legitimatio ad vez, se manifesta como categoria jurídica no mun-
causam, para fazer valer seus direitos, emanados do do Direito, como expressão unitária da aptidão
diretamente do Direito Internacional. No âmbito da pessoa humana para ser titular de direitos e de-
do Direito Internacional dos Direitos Humanos, veres no plano do comportamento e das relações
nos sistemas europeu e interamericano de pro- humanas regulamentadas.150
teção - dotados de tribunais internacionais em Cabe recordar, no presente contexto, que a
operação - se reconhece hoje, a par da persona- concepção de direito subjetivo individual tem já
lidade jurídica, também a capacidade processual uma ampla projeção histórica, originada em par-
internacional (locus standi in judicio) dos indi- ticular no pensamento jusnaturalista nos séculos
víduos. É este um desenvolvimento lógico, por- XVII e XVIII, e sistematizada na doutrina jurídica
quanto não se afigura razoável conceber direitos ao longo do século XIX. No entanto, no século
no plano internacional sem a correspondente ca- XIX e início do século XX, aquela concepção per-
pacidade processual de vindicá-los; os indivíduos maneceu situada no âmbito do direito público in-
são efetivamente a verdadeira parte demandante terno, emanado do poder público, e sob a influên-
no contencioso internacional dos direitos huma- cia do positivismo jurídico.151 O direito subjetivo
nos. Sobre o direito de petição individual se ergue era concebido como a prerrogativa do indivíduo
o mecanismo jurídico da emancipação do ser hu- tal como definida pelo ordenamento jurídico em
mano vis-à-vis o próprio Estado para a proteção de questão (o direito objetivo).152
seus direitos no âmbito do Direito Internacional Não obstante, não há como negar que a cris-
dos Direitos Humanos,147 - emancipação esta que talização do conceito de direito subjetivo indivi-
constitui, em nossos dias, uma verdadeira revolu- dual, e sua sistematização, lograram ao menos
ção jurídica, a qual vem enfim dar um conteúdo um avanço rumo a uma melhor compreensão do
ético às normas tanto do direito público interno indivíduo como titular de direitos. E tornaram
como do Direito Internacional. possível, com o surgimento dos direitos humanos
Na base de todo esse notável desenvolvimen- em nível internacional, a gradual superação do di-
to, encontra-se o princípio do respeito à dignidade reito positivo. Em meados do século XX, ficava
da pessoa humana, independentemente de sua clara a impossibilidade da evolução do próprio Di-
condição existencial. Em virtude desse princípio, reito sem o direito subjetivo individual, expressão
todo ser humano, independentemente da situação de um verdadeiro “direito humano.”153
e das circunstâncias em que se encontre, tem di- Como me permiti sustentar em meu Voto
reito à dignidade.148 Todo o extraordinário desen- Concordante no histórico Parecer n. 16 da CtIA-
volvimento da doutrina jusinternacionalista a esse DH sobre o Direito à Informação sobre a Assistên-

36
Os Indivíduos como Sujeitos do Direito Internacional

cia Consular no Âmbito das Garantias do Devido nológico sem precedentes acompanhado de pade-
Processo Legal (de 01.10.1999), atualmente tes- cimentos humanos indescritíveis.157 Ao longo do
temunhamos “o processo de humanização do di- século XX de trágicas contradições, do divórcio
reito internacional, que hoje alcança também este entre a sabedoria e o conhecimento especializa-
aspecto das relações consulares. Na confluência do, da antinomia entre o domínio das ciências e
destas com os direitos humanos, tem-se cristali- o descontrole dos impulsos humanos, das oscila-
zado o direito individual subjetivo à informação ções entre avanços e retrocessos, gradualmente
sobre a assistência consular, de que são titulares se transformou a função do direito internacional,
todos os seres humanos que se vejam na neces- como instrumental jurídico já não só de regulação
sidade de exercê-lo: tal direito individual, situado como sobretudo de libertação.158 Reconhece-se
no universo conceitual dos direitos humanos, é hoje a necessidade de restituir ao ser humano a
hoje respaldado tanto pelo direito internacional posição central - como sujeito do direito tanto in-
convencional como pelo direito internacional terno como internacional - de onde foi indevida-
consuetudinário” (par. 35).154 mente alijado, com as conseqüências desastrosas
A emergência dos direitos humanos univer- de triste memória.
sais, a partir da proclamação da Declaração Uni- Em nossos dias, o modelo westphaliano do
versal de 1948, veio a ampliar consideravelmente ordenamento internacional afigura-se esgotado e
o horizonte da doutrina jurídica contemporânea, superado.159 O ordenamento jurídico internacio-
desvendando as insuficiências da conceitualização nal já não mais comporta a visão restritiva inter-
tradicional do direito subjetivo. As necessidades -estatal, que levou a tantos abusos, e atrocidades,
prementes de proteção do ser humano em mui- no passado recente; passa a ocupar-se, com o re-
to fomentaram esse desenvolvimento. Os direitos nascimento do jusnaturalismo, da condição dos
humanos universais, superiores e anteriores ao seres humanos, e das questões que afetam a hu-
Estado e a qualquer forma de organização político- manidade como um todo160. O reconhecimento da
-social, e inerentes ao ser humano, afirmaram-se centralidade dos direitos humanos corresponde a
como oponíveis ao próprio poder público. um novo ethos de nossos tempos. Nesta linha de
A personalidade jurídica internacional do ser evolução também se insere a corrente atual de
humano se cristalizou como um limite ao arbítrio “criminalização” de violações graves dos direitos
do poder estatal. Os direitos humanos liberaram da pessoa humana, paralelamente à consagração
a concepção do direito subjetivo das amarras do (em novos instrumentos internacionais) do prin-
positivismo jurídico. Se, por um lado, a categoria cípio da jurisdição universal. Neste início do sé-
jurídica da personalidade jurídica internacional do culo XXI testemunhamos o acelerar do processo
ser humano contribuiu a instrumentalizar a vin- histórico de humanização do direito internacio-
dicação dos direitos da pessoa humana, emanados nal,161 - para o qual constitui um privilégio poder
do Direito Internacional, - por outro lado o corpus contribuir, - que passa a se ocupar mais direta-
juris dos direitos humanos universais proporcio- mente da realização de metas comuns superiores.
nou à personalidade jurídica do indivíduo uma di- O supracitado Parecer histórico (de
mensão muito mais ampla, já não mais condicio- 01.10.1999) da CtIADH, que reconheceu a cris-
nada ao direito emanado do poder público estatal. talização de um verdadeiro direito subjetivo à in-
formação sobre assistência consular,162 de que é
IX. A SUBJETIVIDADE INTERNACIONAL titular todo ser humano privado de sua liberdade
DO INDIVÍDUO COMO O MAIOR LE- em outro país163, rompeu com a ótica tradicional
puramente inter-estatal da matéria,164, amparan-
GADO DO PENSAMENTO JURÍDICO do numerosos estrangeiros pobres e trabalhadores
DO SÉCULO XX migrantes. Paralelamente, a plena participação
dos indivíduos, sobretudo no procedimento con-
Os grandes pensadores de décadas passadas
tencioso, tem se mostrado imprescindível. Sua
que se dispuseram a extrair as lições deixadas pela
importância, como última esperança dos esqueci-
história do século XX coincidem em um pon-
dos do mundo, vem de ser ilustrada, e.g., pelo con-
to capital:155 nunca como no século passado, se
tencioso dos assassinatos dos “Meninos de Rua”
verificou tanto progresso na ciência e tecnologia
(caso Villagrán Morales e Outros) ante a mesma
acompanhado tragicamente de tanta destruição e
CtIADH. Neste caso paradigmático, as mães dos
crueldade156. O crepúsculo do século XX desven-
meninos assassinados (e a avó de um deles), tão
dou um panorama de progresso científico e tec-
pobres e abandonadas como os filhos (e neto), ti-

37
Antônio Augusto Cançado Trindade

veram acesso à jurisdição internacional, compare- parecem não se dar conta de que os indivíduos já
ceram a juízo165, e, graças às sentenças da Corte começaram a participar efetivamente no processo
Interamericana166, que as ampararam, puderam de elaboração de normas do Direito Internacio-
ao menos recuperar a fé na Justiça humana. nal, que hoje se mostra muito mais complexo do
O reconhecimento do acesso direto dos indi- que há algumas décadas. Este fenômeno decorre
víduos à justiça internacional revela, nestas duas da democratização, que, em nossos dias, passa a
primeiras décadas do século XXI, o novo primado alcançar também o plano internacional167. Ilustra-
da razão de humanidade sobre a razão de Estado, -o, como já assinalado, a presença e atuação cres-
a inspirar o processo histórico de humanização do centes de entidades da sociedade civil (ONGs e
Direito Internacional. A consciência humana al- outras), como verificado nos travaux préparatoires
cança assim em nossos dias um grau de evolução de tratados recentes assim como ao longo do ciclo
que torna possível, - como ilustrado pelo caso pa- das grandes Conferências Mundiais das Nações
radigmático dos “Meninos de Rua” decidido pela Unidas durante a década de noventa.
CtIADH, dentre outros, - fazer justiça no plano Há casos em que tais entidades da socieda-
internacional mediante a salvaguarda dos direi- de civil têm se dedicado inclusive a monitorar a
tos dos marginalizados ou excluídos. A titulari- observância e o cumprimento da normativa inter-
dade jurídica internacional dos indivíduos é hoje nacional, rompendo assim o monopólio estatal de
uma realidade irreversível, e o ser humano irrom- outrora neste domínio. O certo é que, neste como
pe, enfim, mesmo nas condições mais adversas, em tantos outros domínios da disciplina, já não é
como sujeito último do Direito tanto interno possível abordar o Direito Internacional a partir
como internacional, dotado de plena capacidade de uma ótica meramente inter-estatal. Os sujeitos
jurídico-processual. do Direito Internacional já há muito deixaram de
A parte da doutrina que insiste em negar aos reduzir-se a entes territoriais; há mais de meio-
indivíduos a condição de sujeitos do Direito Inter- -século, a partir do célebre Parecer da Corte Inter-
nacional se estriba em uma rígida definição destes nacional de Justiça sobre as Reparações de Danos
últimos, deles exigindo não só que possuam di- (1949), as organizações internacionais romperam
reitos e obrigações emanados do Direito Interna- o pretendido monopólio estatal da personalidade e
cional, mas também que participem no processo capacidade jurídicas internacionais, com todas as
de criação de suas normas e de cumprimento das consequências jurídicas que daí advieram.168
mesmas. Ora, esta rígida definição não se susten- Resulta hoje claríssimo que nada há de in-
ta sequer no plano do direito interno, em que não trínseco ao Direito Internacional que impeça ou
se exige - jamais se exigiu - de todos os indivíduos impossibilite aos indivíduos desfrutar da perso-
participar na criação e aplicação das normas jurí- nalidade e capacidade jurídicas internacionais.
dicas para ser titulares de direitos, e vinculados Ninguém em sã consciência ousaria hoje negar
pelos deveres, destas últimas emanados. que os indivíduos efetivamente possuem direitos
Ademais de insustentável, aquela concepção e obrigações que emanam diretamente do Direito
se mostra imbuída de um dogmatismo ideológico Internacional, com o qual se encontram, portan-
nefasto, que teve como consequência principal alie- to, em contato direto. E é perfeitamente possí-
nar o indivíduo do ordenamento jurídico interna- vel conceitualizar -inclusive com maior precisão
cional. É surpreendente - se não espantoso, - ade- - como sujeito do direito internacional qualquer
mais de lamentável, ver aquela concepção repetida pessoa ou entidade, titular de direitos e portadora
mecanicamente e ad nauseam por uma parte da de obrigações, que emanam diretamente de nor-
doutrina, aparentemente pretendendo fazer crer mas do Direito Internacional. É o caso dos indi-
que a intermediação do Estado, entre os indivíduos víduos, que têm, assim, estreitados e fortalecidos
e o ordenamento jurídico internacional, seria algo seus contatos diretos - sem intermediários - com
inevitável e permanente. Nada mais falso. No breve o ordenamento jurídico internacional.
período histórico em que vingou aquela concepção Esta evolução deve ser apreciada em uma di-
estatista, à luz - ou, mais precisamente, em meio mensão mais ampla. Em reação às sucessivas atro-
às trevas - do positivismo jurídico, cometeram-se cidades que, ao longo do século XX, vitimaram mi-
sucessivas atrocidades contra o ser humano, em lhões e milhões de seres humanos, em uma escala
uma escala sem precedentes. até então desconhecida na história da humanidade,
Há outro ponto que passa despercebido aos se insurgiu com vigor a consciência jurídica uni-
arautos da visão estatista do Direito Internacio- versal169, - como fonte material última de todo o
nal: em sua miopia, própria dos dogmatismos, Direito, - restituindo ao ser humano a sua condi-

38
Os Indivíduos como Sujeitos do Direito Internacional

ção de sujeito do direito tanto interno como inter- X. REFLEXÕES FINAIS: NOVOS AVAN-
nacional, e destinatário final de todas as normas
jurídicas, de origem tanto nacional como interna-
ÇOS DA SUBJETIVIDADE INTERNA-
cional. Com isto se beneficiam os seres humanos, CIONAL DO INDIVÍDUO NO SÉCU-
e se enriquece e justifica o Direito Internacional, LO XXI
desvencilhando-se das amarras do estatismo e, de
certo modo, reencontrando-se com o verdadeiro di- À medida em que as atenções da doutri-
reito das gentes, que, em seus primórdios, inspirou na jurídica contemporânea sobre a expansão da
sua formação e evolução históricas. personalidade jurídica internacional se voltam à
posição central hoje ocupada pelos indivíduos vi-
Na construção do ordenamento jurídico in-
timados, dando testemunho inequívoco do novo
ternacional deste novo século, testemunhamos,
jus gentium de nossos tempos176, - como busquei
com a gradual erosão da reciprocidade, a emergên-
demonstrar no Curso Geral de Direito Internacio-
cia pari passu de considerações superiores de ordre
nal Público que ministrei em 2005 na Academia
public170, refletidas, no plano normativo, nas con-
de Direito Internacional da Haia177, - ainda mais
cepções das normas imperativas do direito inter-
insustentável se afigura um apego impensado e
nacional geral (o jus cogens), e dos direitos funda-
imobilista a dogmas infundados do passado. Mas
mentais inderrogáveis, e no plano processual, na
como não vivemos em um mundo racional, há que
concepção das obrigações erga omnes de proteção.
nos mantermos atentos para evitar um eventual
A consagração destas obrigações representa a su-
contágio de certa nostalgia do imobilismo, ainda
peração de um padrão de conduta erigido sobre
em nossos dias (em que cada vez menos se lê e
a pretensa autonomia da vontade do Estado, do
menos se reflete). Assim, à medida em que nos
qual o próprio Direito Internacional buscou gra-
adentramos na segunda década do século XXI, afi-
dualmente se libertar ao consagrar o conceito de
gura-se deveras surpreendente encontrar os que,
jus cogens.
ao admitir a abertura do direito internacional à
Estamos ante uma ordre public humanizada expansão da personalidade jurídica internacional
(ou mesmo verdadeiramente humanista) em que (estendendo-se aos indivíduos), não obstante in-
o interesse público ou o interesse geral coincide sistem, de forma contraditória, na permanência
plenamente com a prevalência dos direitos huma- da tradicional visão estato-cêntrica, fora da qual
nos171, - o que implica o reconhecimento de que os parecem se sentir perdidos.178
direitos humanos constituem o fundamento bási-
Sua posição é insustentável: nada mais fa-
co, eles próprios, do ordenamento jurídico. No do-
zem do que se apegar arbitrariamente um ponto
mínio do Direito Internacional dos Direitos Hu-
de desenvolvimento doutrinário do passado, no
manos, movido por considerações de ordre public
século XIX, e tentar projetá-lo – tentando dotá-lo
internacional, estamos diante de valores comuns
de “perenidade” - ao presente, fazendo abstração
e superiores,172 que lhe são subjacentes, e que se
da evolução do direito internacional de mais de
afiguram verdadeiramente fundamentais e irredu-
um século. O mundo estato-cêntrico sonhado por
tíveis.173 Podemos aqui visualizar um verdadeiro
E. de Vattel já deixou de existir há muito tempo.
direito ao Direito, ou seja, o direito a um ordena-
Muito ao contrário, a evolução do direito das gen-
mento jurídico que efetivamente salvaguarde os
tes segue seu curso no século XXI, com o acesso
direitos inerentes à pessoa humana174.
à justiça internacional hoje assegurado inclusive
Há, em conclusão, que dar seguimento à a pessoas que se encontravam em situações de
evolução auspiciosa da consagração das normas grande vulnerabilidade, e até mesmo inteiramen-
de jus cogens e obrigações erga omnes, buscando te indefesas (cf. supra).
assegurar sua plena aplicação prática, em benefí-
Os que se aferram ao dogmatismo ultrapas-
cio de todos os seres humanos175, dotados de per-
sado, - a ponto de tentar fazer crer que o direi-
sonalidade e capacidade jurídica, como verdadei-
to internacional, “tal como hoje o conhecemos”,
ros sujeitos do Direito Internacional. Estas novas
teve “início” no século XIX, - estão simplesmente
concepções se impõem em nossos dias, e de sua
faltando à verdade. O direito internacional ante-
fiel observância dependerá em grande parte a evo-
cedeu em muito o ordenamento inter-estatal esta-
lução futura do próprio Direito Internacional. É
belecido no século XIX, com suas raízes históricas
este o caminho a seguir, para que não mais tenha-
remontando ao pensamento de seus “fundadores”,
mos que continuar a conviver com as contradi-
os jusinternacionalistas dos séculos XVI e XVII,
ções trágicas que marcaram o século XX.
como recapitulado no presente estudo179. O direi-

39
Antônio Augusto Cançado Trindade

to internacional em muito evoluiu desde o século década, um ciclo de casos de massacres, com cir-
XIX, acompanhando as profundas transformações cunstâncias agravantes, em que foram planejadas
do mundo, e afigurando-se hoje inteiramente dis- e perpetradas violações graves de direitos humanos
tinto do que então era180. em execução de políticas estatais formando uma
Em reação à sucessão de atos de barbárie e prática sistemática de extermínio de seres huma-
dos horrores que se sucederam ao longo do sécu- nos. A adjudicação destes casos foi desencadeada
lo XX e início do século XXI, o direito a cuidou pela Sentença histórica da CtIADH no caso do
de abrir-se à expansão da personalidade jurídica massacre de Barrios Altos atinente ao Peru (2001).
internacional, e, por conseguinte, da correspon- A esta se seguiram as Sentenças subsequen-
dente capacidade jurídica, assim como significati- tes da CtIADH nos casos dos massacres do Cara-
vamente, da responsabilidade internacional. O jus cazo concernente à Venezuela (reparações, 2002),
gentium contemporâneo tem passado por um pro- de Plan de Sánchez referente à Guatemala (2004),
cesso histórico de humanização181, precavendo-se dos 19 Comerciantes versus Colombia (2004), da
e instrumentalizando-se contra as manifestas in- Communidade Moiwana relativo ao Suriname
suficiências e os perigos da visão estato-cêntrica (2005), de Mapiripán atinente à Colômbia (2005),
ou do superado enfoque estritamente interestatal. de Ituango versus Colômbia (2006), de Monte-
Para isto em muito tem contribuído o Direito In- ro Aranguren e Outros (Centro de Detenção de
ternacional dos Direitos Humanos, a ponto de o Cátia) versus Venezuela (2006); de La Cantuta
fenômeno desta evolução transcender os parâme- versus Peru (2006), e da Prisão Castro Castro ,
tros deste último, e permear em nossos dias o cor- também atinente ao Peru (2006). Também hou-
pus juris do Direito Internacional como um todo. ve casos, como o de Myrna Mack Chang versus
A jurisprudência internacional contemporâ- Guatemala (2003), de assassinatos planificados
nea contém ilustrações eloquentes do acesso da ao mais alto nível do poder estatal e executados
pessoa humana à justiça internacional em cir- por ordem deste.
cunstâncias de grande adversidade, em casos re- Assim, massacres e crimes de Estado (per-
lativos, e.g., migrantes indocumentados, crianças petrados por agentes estatais como parte de uma
abandonadas nas ruas (cf. supra), membros de política estatal), que há algumas décadas tendiam
comunidades de paz e outros civis em situações a recair no esquecimento, têm mais recentemen-
de conflito armado, pessoas internamente deslo- te sido levados ao conhecimento de tribunais
cadas, indivíduos (inclusive menores de idade) sob internacionais de direitos humanos (tais como
condições infra-humanas de detenção, membros as Cortes Interamericana e Européia), a fim de
de comunidades indígenas despossuídas, entre determinar a responsabilidade do Estado (sob as
outros. Em tais circumstâncias, a centralidade do Convenções regionais respectivas) por violações
sofrimento das vítimas tem se tornado notória graves dos direitos humanos protegidos184. No-
com seu acesso à justiça em nível internacional. vos desenvolvimentos têm ocorrido nos últimos
Em nossos dias, tem-se feito uso do direito anos, nos procedimentos legais internacionais185,
de petição individual internacional, com eficá- tais como os atinentes à determinação da respon-
cia, também em tais situações182, - algo que di- sabilidade agravada dos Estados em questão, e a
ficilmente poderia ter sido antecipado, em seus identificação das vítimas em distintas etapas do
dias, pelos redatores dos tratados e instrumentos procedimento.
internacionais de direitos humanos, dotados de Uma circunstância agravante reside na in-
sistemas de petições. Por outro lado, estes avan- tencionalidade do dano (a revelar a coexistência
ços recentes em nada surpreendem, pois o Direito da responsabilidade objetiva com a responsabili-
Internacional dos Direitos Humanos encontra-se dade com base na falta ou culpa). A história mo-
essencialmente orientado às vítimas. Este desen- derna está repleta de exemplos em que os autores
volvimento se deve ao despertar da consciência intelectuais e materiais de massacres pretende-
humana ao imperativo de proteção da pessoa hu- ram caracterizar suas vítimas – não raro inocentes
manas nessas circunstâncias de extrema vulnera- e indefesas – como “inimigos” a ser eliminados,
bilidade. É em tais circunstâncias que tal proteção e também “desumanizá-las” (inclusive por usos
alcança sua plenitude. indevidos da linguagem e mediante distorsões
Com efeito, a esta notável evolução dedico mediante neologismos e eufemismos) antes de as-
um recente livro meu (de 2011), sobre a matéria, sassiná-las.186 Em reação a crueldades do gênero,
publicado em Oxford183. Nele examino alguns ca- podem-se constatar, na adjudicação internacional
sos adjudicados pela CtIADH ao longo da última de tais casos, a centralidade e expansão da noção

40
Os Indivíduos como Sujeitos do Direito Internacional

de vítima (direta), e a relevância de seu direito à podem sequer se escudar por detrás da respon-
reparação pelos danos sofridos. É altamente signi- sabilidade (penal) internacional dos indivíduos
ficativo que, em nossos dias, vítimas sobreviven- infratores; subsiste sempre a responsabilidade do
tes de massacres, e familiares de vítimas fatais, Estado190. As responsabilidades de uns e de outro
tenham tido acesso à justiça internacional. não se autoexcluem, mas se complementam. O
Os próprios Estados hoje reconhecem e se novo ordenamento jurídico internacional de nos-
dão conta de que já não podem dispor, como sos tempos tem emergido da consciência huma-
bem entendam, dos seres humanos que se en- na, - a consciência jurídica universal, como fonte
contrem sob suas respectivas jurisdições.187 Seu material última de todo o Direito. A expansão
poder de ação não é ilimitado, deve estar guiado da personalidade jurídica internacional tem-se
pela fiel observância de certos valores fundamen- dado em benefício de todos os sujeitos de direito,
tais, e dos princípios gerais do direito.188 Devem inclusive os indivíduos como sujeitos do Direito
responder por eventuais danos causados aos se- Internacional.
res humanos sob suas respectivas jurisdições, e
prover as devidas reparações.189 Os Estados não Haia, 28.07.2012

41
Antônio Augusto Cançado Trindade

NOTAS

1. O presente trabalho de pesquisa serviu de base Droit international au droit des gens - L’accès
às duas conferências magnas proferidas pelo des particuliers à la justice internationale:
Autor, respectivamente, nos atos acadêmicos le regard d’un juge, Paris, Pédone, 2008, pp.
de lançamento de seu livro “The Access of 1-187.
Individuals to International Justice” (Oxford, 3. A.A. Cançado Trindade, Princípios do Direito
Oxford University Press, 2011), realizados, em Internacional Contemporâneo, Brasília, Edito-
um primeiro momento, na Universidade de Pa- ra Universidade de Brasília, 1981, pp. 20-21.
ris (Sciences-Po), em Paris, França, aos 11 de Para um relato da formação da doutrina clás-
maio de 2012, e, em um segundo momento, na sica, cf., inter alia, e.g., P. Guggenheim, Traité
Universidade de Cambridge, em Cambridge, de droit international public, vol. I, Genève,
Reino Unido, aos 19 de maio de 2012. Georg, 1967, pp. 13-32; A. Verdross, Derecho
2. A.A. Cançado Trindade, “A Emancipação do Internacional Público, 5a. ed., Madrid, Agui-
Ser Humano como Sujeito do Direito Interna- lar, 1969 (reimpr.), pp. 47-62; Ch. de Visscher,
cional e os Limites da Razão de Estado”, 6/7 Théories et réalités en Droit international pu-
Revista da Faculdade de Direito da Universida- blic, 4a. ed. rev., Paris, Pédone, 1970, pp. 18-
de do Estado do Rio de Janeiro (1998-1999) pp. 32; L. Le Fur, “La théorie du droit naturel de-
425-434; A.A. Cançado Trindade, “El Acceso puis le XVIIe. siècle et la doctrine moderne”,
Directo de los Individuos a los Tribunales In- 18 Recueil des Cours de l’Académie de Droit
ternacionales de Derechos Humanos”, XXVII International de La Haye (1927) pp. 297-399.
Curso de Derecho Internacional Organizado 4. Cf. Association Internationale Vitoria-Suarez,
por el Comité Jurídico Interamericano - OEA Vitoria et Suarez - Contribution des Théolo-
(2000) pp. 243-283; A.A. Cançado Trindade, giens au Droit International Moderne, Paris,
“Las Cláusulas Pétreas de la Protección Inter- Pédone, 1939, pp. 169-170.
nacional del Ser Humano: El Acceso Directo
5. Cf. Francisco de Vitoria, Relecciones - del Es-
de los Individuos a la Justicia a Nivel Inter-
tado, de los Indios, y del Derecho de la Guerra,
nacional y la Intangibilidad de la Jurisdicción
México, Porrúa, 1985, pp. 1-101; A. Gómez
Obligatoria de los Tribunales Internacionales
Robledo, op. cit. infra n. (11), pp. 30-39.
de Derechos Humanos”, El Sistema Interame-
ricano de Protección de los Derechos Humanos 6. Francisco de Vitoria, De Indis - Relectio Prior
en el Umbral del Siglo XXI - Memoria del Se- (1538-1539), in: Obras de Francisco de Vitoria
minario (Nov. 1999), San José de Costa Rica, - Relecciones Teológicas (ed. T. Urdanoz), Ma-
Corte Interamericana de Derechos Humanos, drid, BAC, 1960, p. 675.
2001, pp. 3-68; A.A. Cançado Trindade, El 7. A.A. Cançado Trindade, “Co-existence and Co-
Acceso Directo del Individuo a los Tribunales -ordination of Mechanisms of International
Internacionales de Derechos Humanos, Bilbao, Protection of Human Rights (At Global and
Universidad de Deusto, 2001, pp. 17-96; A.A. Regional Levels)”, 202 Recueil des Cours de
Cançado Trindade, “A Consolidação da Perso- l’Académie de Droit International de La Haye
nalidade e da Capacidade Jurídicas do Indiví- (1987) p. 411; J. Brown Scott, The Spanish
duo como Sujeito do Direito Internacional”, 16 Origin of International Law - Francisco de Vi-
Anuario del Instituto Hispano-Luso-Americano toria and his Law of Nations, Oxford/London,
de Derecho Internacional - Madrid (2003) pp. Clarendon Press/H. Milford - Carnegie Endo-
237-288; A.A. Cançado Trindade, A Humani- wment for International Peace, 1934, pp. 282-
zação do Direito Internacional, Belo Horizonte/ 283, 140, 150, 163-165 e 172; A.A. Cançado
Brasil, Edit. Del Rey, 2006, pp. 107-172; A.A. Trindade, “Totus Orbis: A Visão Universalista
Cançado Trindade, “The Emancipation of the e Pluralista do Jus Gentium: Sentido e Atua-
Individual from His Own State - The Histori- lidade da Obra de Francisco de Vitoria”, in 24
cal Recovery of the Human Person as Subject Revista da Academia Brasileira de Letras Jurídi-
of the Law of Nations”, in Human Rights, De- cas - Rio de Janeiro (2008) n. 32, pp. 197-212.
mocracy and the Rule of Law - Liber Amico-
rum L. Wildhaber (eds. S. Breitenmoser et alii), 8. P.P. Remec, The Position of the Individual in In-
Zürich/Baden-Baden, Dike/Nomos, 2007, pp. ternational Law according to Grotius and Vat-
151-171; A.A. Cançado Trindade, Évolution du tel, The Hague, Nijhoff, 1960, pp. 216 e 203.

42
Os Indivíduos como Sujeitos do Direito Internacional

9. Ibid., pp. 219-220 e 217. 24. Para uma crítica à incapacidade da tese dualista
10. Ibid., pp. 243 e 221. de explicar o acesso dos indivíduos à jurisdição
internacional, cf. P. Reuter, “Quelques remar-
11. A. Gómez Robledo, Fundadores del Derecho In- ques sur la situation juridique des particuliers
ternacional, México, UNAM, 1989, pp. 48-55. en Droit international public”, in La techni-
12. Cf., a respeito, Hersch Lauterpacht, “The Gro- que et les principes du Droit public - Études
tian Tradition in International Law”, 23 Bri- en l’honneur de G. Scelle, vol. II, Paris, LGDJ,
tish Year Book of International Law (1946) pp. 1950, pp. 542-543 e 551.
1-53. 25. Cf., e.g., Y.A. Korovin, S.B. Krylov, et alii, Inter-
13. Por conseguinte, os padrões de justiça aplicam- national Law, Moscow, Academy of Sciences of
-se vis-à-vis tanto os Estados como os indivídu- the USSR/Institute of State and Law, [s/d], pp.
os. Hersch Lauterpacht, “The Law of Nations, 93-98 e 15-18; G.I. Tunkin, Droit international
the Law of Nature and the Rights of Man”, 29 public - problèmes théoriques, Paris, Pédone,
Transactions of the Grotius Society (1943) pp. 1965, pp. 19-34.
7 e 21-31. 26. Stefan Glaser, “Les droits de l’homme à la lu-
14. Ibid., p. 26. mière du droit international positif”, in Mé-
langes offerts à H. Rolin - Problèmes de droit
15. C. Wolff vislumbrou os Estados-nação como
des gens, Paris, Pédone, 1964, p. 117, e cf. pp.
membros de uma civitas maxima, conceito
105-106 e 114-116. Daí a importância da com-
que Emmerich de Vattel (autor de Le Droit des
petência obrigatória dos órgãos de proteção in-
Gens, 1758), posteriormente, invocando a ne-
ternacional dos direitos humanos; ibid., p. 118.
cessidade de “realismo”, pretendeu substituir
por uma “sociedade de nações” (concepção 27. Sobre a evolução histórica da personalidade ju-
menos avançada); cf. F.S. Ruddy, International rídica no direito das gentes, cf. H. Mosler, “Ré-
Law in the Enlightenment - The Background of flexions sur la personnalité juridique en Droit
Emmerich de Vattel’s Le Droit des Gens, Dobbs international public”, Mélanges offerts à Hen-
Ferry/N.Y., Oceana, 1975, p. 95; para uma crí- ri Rolin - Problèmes de droit des gens, Paris,
tica a esse retrocesso (incapaz de fundamentar Pédone, 1964, pp. 228-251; G. Arangio-Ruiz,
o princípio de obrigação no direito internacio- Diritto Internazionale e Personalità Giuridica,
nal), cf. J.L. Brierly, The Law of Nations, 6a. Bologna, Coop. Libr. Univ., 1972, pp. 9-268; G.
ed., Oxford, Clarendon Press, pp. 38-40. Scelle, “Some Reflections on Juridical Persona-
lity in International Law”, in Law and Politics
16. C.W. Jenks, The Common Law of Mankind,
in the World Community (ed. G.A. Lipsky),
London, Stevens, 1958, pp. 66-69; e cf. tam-
Berkeley/L.A., University of California Press,
bém R.-J. Dupuy, La communauté internatio-
1953, pp. 49-58 e 336; J.A. Barberis, Los Sujetos
nale entre le mythe et l’histoire, Paris, Econo-
del Derecho Internacional Actual, Madrid, Tec-
mica/UNESCO, 1986, pp. 164-165.
nos, 1984, pp. 17-35; J.A. Barberis, “Nouvelles
17. P.P. Remec, The Position of the Individual..., op. questions concernant la personnalité juridi-
cit. supra n. (8), pp. 36-37. que internationale”, 179 Recueil des Cours de
18. J. Spiropoulos, L’individu en Droit internatio- l’Académie de Droit International de La Haye
nal, Paris, LGDJ, 1928, pp. 66 e 33, e cf. p. 19. (1983) pp. 157-238; A.A. Cançado Trindade,
“The Interpretation of the International Law
19. Ibid., p. 55; uma evolução nesse sentido, agre- of Human Rights by the Two Regional Human
gou, haveria de aproximar-nos do ideal da civi- Rights Courts”, in Contemporary International
tas maxima. Law Issues: Conflicts and Convergence (Proce-
20. Cf. L. Le Fur, “La théorie du droit naturel...”, edings of the III Joint Conference ASIL/Asser
op. cit. supra n. (3), p. 263. Instituut, The Hague, July 1995), The Hague,
Asser Instituut, 1996, pp. 157-162 e 166-167;
21. W. Friedmann, The Changing Structure of In-
C. Dominicé, “La personnalité juridique dans
ternational Law, London, Stevens, 1964, p.
le système du droit des gens”, in Theory of In-
247; E. Weil, Hegel et l´État [1950], 4a. ed.,
ternational Law at the Threshold of the 21st
Paris, Librairie Philosophique J. Vrin, 1974, pp,
Century - Essays in Honour of K. Skubiszewski
11, 24, 44-45, 53-56, 59, 62, 100 e 103.
(ed. J. Makarczyk), The Hague, Kluwer, 1996,
22. Cf. C.Th. Eustathiades, “Les sujets du Droit pp. 147-171; A.A. Cançado Trindade, “The
international...”, op. cit. infra n. (72), p. 405. Emancipation of the Individual from His Own
23. Ibid., p. 406. State...”, op. cit. supra n. (2), pp. 151-171; A.A.

43
Antônio Augusto Cançado Trindade

Cançado Trindade, “The Human Person and tico da democratização das relações internacio-
International Justice” [W. Friedmann Memo- nais, a par de uma crescente conscientização
rial Award Lecture 2008], 47 Columbia Journal dos múltiplos atores atuantes no cenário inter-
of Transnational Law (2008) pp. 16-30. nacional contemporâneo (Ph. Sands, “Turtles
28. S. Glaser, op. cit. supra n. (26), p. 123. and Torturers: The Transformation of Interna-
tional Law”, 33 New York University Journal of
29. K.J. Partsch, “Individuals in International International Law and Politics (2001) pp. 530,
Law”, Encyclopedia of Public International 543 e 555-559), em prol de valores universais.
Law (ed. R. Bernhardt), vol. 2, Elsevier, Max
Planck Institute/North-Holland Ed., 1995, p. 38. Tal como reconhecido já há décadas; cf. A.N.
959. Mandelstam, Les droits internationaux de
l’homme, Paris, Éds. Internationales, 1931, pp.
30. A.A. Cançado Trindade, Derecho Internacional 95-96, 103 e 138; Ch. de Visscher, “Rapport
de los Derechos Humanos, Derecho Internacio- - `Les droits fondamentaux de l’homme, base
nal de los Refugiados y Derecho Internacional d’une restauration du Droit international’”,
Humanitario: Aproximaciones y Convergen- Annuaire de l’Institut de Droit International
cias, Ginebra, Comité Internacional de la Cruz (1947) pp. 3 e 9; G. Scelle, Précis de Droit des
Roja, 1996, pp. 1-66. Gens - Principes et systématique, parte I, Paris,
31. R. Cassin, “L’homme, sujet de droit internatio- Libr. Rec. Sirey, 1932 (reimpr. do CNRS, 1984),
nal et la protection des droits de l’homme dans p. 48; Lord McNair, Selected Papers and Biblio-
la société universelle”, in La technique et les graphy, Leiden/N.Y., Sijthoff/Oceana, 1974, pp.
principes du Droit public - Études en l’honneur 329 e 249.
de Georges Scelle, vol. I, Paris, LGDJ, 1950, pp. 39. Corte Internacional de Justiça, Parecer sobre
81-82. as Reparações de Danos, ICJ Reports (1949) p.
32. Cf. R. Pinto, “Tendances de l’élaboration des 178: - “The subjects of law in any legal system
formes écrites du Droit international”, in are not necessarily identical in their nature or
L’élaboration du Droit international public in the extent of their rights, and their nature
(Colloque de Toulouse, Société Française pour depends upon the needs of the community.
le Droit International), Paris, Pédone, 1975, Throughout its history, the development of
pp. 13-30. international law has been influenced by the
requirements of international life, and the pro-
33. Para um estudo geral, cf., e.g., F. Hondius, “La
gressive increase in the collective activities of
reconnaissance et la protection des ONGs en
States has already given rise to instances of
Droit international”, 1 Associations Transna-
action upon the international plane by certain
tionales (2000) pp. 2-4; J. Ebbesson, “The No-
entities which are not States”.
tion of Public Participation in International En-
vironmental Law”, 8 Yearbook of International 40. P. de Visscher, “Cours Général de Droit inter-
Environmental Law (1997) pp. 51-97. national public”, 136 Recueil des Cours de
l’Académie de Droit International (1972) p. 56,
34. Para um estudo geral, cf. S. Detrick (ed.), The
e cf. pp. 45 e 55.
United Nations Convention on the Rights of
the Child - ‘A Guide to the Travaux Préparatoi- 41. Ponto resolutivo n. 1 do supracitado Parecer
res’, Dordrecht, Nijhoff, 1992, pp. 1-703. (ênfase acrescentada).
35. Cf. K. Anderson, “The Ottawa Convention 42. Cf., no tocante à proteção internacional, A.A.
Banning Landmines, the Role of International Cançado Trindade, “The Consolidation of the
Non-governmental Organizations and the Idea Procedural Capacity of Individuals in the Evo-
of International Civil Society”, 11 European lution of the International Protection of Hu-
Journal of International Law (2000) pp. 91- man Rights: Present State and Perspectives at
120. the Turn of the Century”, 30 Columbia Hu-
man Rights Law Review - New York (1998)
36. R. Ranjeva, “Les organisations non-gouverne-
pp. 1-27; A.A. Cançado Trindade, “The Pro-
mentales et la mise-en-oeuvre du Droit inter-
cedural Capacity of the Individual as Subject
national”, 270 Recueil des Cours de l’Académie
of International Human Rights Law: Recent
de Droit International de La Haye (1997) pp.
Developments”, in K. Vasak Amicorum Liber -
22, 50, 67-68, 74 e 101-102.
Les droits de l’homme à l’aube du XXIe siècle,
37. M. Bettati e P.-M. Dupuy, Les O.N.G. et le Droit Bruxelles, Bruylant, 1999, pp. 521-544; A.A.
international, Paris, Economica, 1986, pp. 1, Cançado Trindade, “L’interdépendance de tous
16, 19-20, 252-261 e 263-265. Isto é sintomá- les droits de l’homme et leur mise en oeuvre:

44
Os Indivíduos como Sujeitos do Direito Internacional

obstacles et enjeux”, 158 Revue internatio- Alegre, S.A. Fabris Ed., 1999, pp. 23-194; A.A.
nale des sciences sociales - Paris/UNESCO Cançado Trindade, O Direito Internacional em
(1998) pp. 571-582; A.A. Cançado Trindade, um Mundo em Transformação, Rio de Janeiro,
“El Derecho de Petición Individual ante la Ju- Ed. Renovar, 2002, pp. 1048-1109; A.A. Can-
risdicción Internacional”, 48 Revista de la Fa- çado Trindade, El Derecho Internacional de los
cultad de Derecho de México - UNAM (1998) Derechos Humanos en el Siglo XXI, Santiago,
pp. 131-151. Editorial Jurídica de Chile, 2001, pp. 15-58 e
43. P.N. Drost, Human Rights as Legal Rights, Ley- 375-427.
den, Sijthoff, 1965, pp. 226-227. 54. S. Séfériadès, “Le problème de l’accès des par-
44. Cf. ibid., pp. 223 e 215. ticuliers à des juridictions internationales”, 51
Recueil des Cours de l’Académie de Droit Inter-
45. J. Maritain, O Homem e o Estado, 4a. ed., Rio national de La Haye (1935) pp. 23-25 e 54-60.
de Janeiro, Ed. Agir, 1966, p. 84, e cf. pp. 97-98
e 102; C.J. Friedrich, Perspectiva Histórica da 55. A.N. Mandelstam, Les droits internationaux de
Filosofia do Direito, Rio de Janeiro, Zahar Ed., l’homme, Paris, Éds. Internationales, 1931, pp.
1965, pp. 196-197, 200-201 e 207. E, para um 95-96, e cf. p. 103.
estudo geral recente, cf. Y.R. Simon, The Tra- 56. Ibid., p. 138.
dition of Natural Law - A Philosopher’s Reflec- 57. G. Scelle, Précis de Droit des Gens - Principes
tions (ed. V. Kuic), N.Y., Fordham Univ. Press, et systématique, parte I, Paris, Libr. Rec. Sirey,
2000 [reprint], pp. 3-189; e cf. também A.P. 1932 (reimpr. do CNRS, 1984), pp. 42-44.
d’Entrèves, Natural Law, London, Hutchinson
Univ. Libr., 1970 [reprint], pp. 13-203. 58. Ibid., p. 48.
46. Vicente Ráo, O Direito e a Vida dos Direitos, 5a. 59. Lord McNair, Selected Papers and Bibliography,
ed., São Paulo, Ed. Rev. dos Tribs., 1999, pp. 85 Leiden/N.Y., Sijthoff/Oceana, 1974, pp. 329 e
e 101. 249.
47. Ibid., p. 641. 60. A. Gonçalves Pereira e F. de Quadros, Manual
de Direito Internacional Público, 3a. ed. rev.,
48. A. Truyol y Serra, “Théorie du Droit interna- Coimbra, Almedina, 1995, p. 405, e cf. pp.
tional public - Cours général”, 183 Recueil des 381-408.
Cours de l’Académie de Droit International de
La Haye (1981) pp. 142-143; J. Puente Egido, 61. A. de La Pradelle, Droit international public
“Natural Law”, in Encyclopedia of Public In- (cours sténographié), Paris, Institut des Hautes
ternational Law (ed. R. Bernhardt/Max Planck Études Internationales/Centre Européen de la
Institute), vol. 7, Amsterdam, North-Holland, Dotation Carnegie, 1932-1933, pp. 49, 80-81,
1984, pp. 344-349. 244, 251, 263-266 e 356.
49. J.A. Carrillo Salcedo, “Derechos Humanos y 62. Ibid., pp. 33-34, 230, 257, 261, 264 e 412-413.
Derecho Internacional”, 22 Isegoría - Revista 63. A. Álvarez, La Reconstrucción del Derecho de
de Filosofía Moral y Política - Madrid (2000) p. Gentes - El Nuevo Orden y la Renovación So-
75. cial, Santiago de Chile, Ed. Nascimento, 1944,
50. R.-J. Dupuy, “Communauté internationale et pp. 46-47 e 457-463, e cf. pp. 81, 91 e 499-500;
disparités de développement - Cours général A. Álvarez, El Nuevo Derecho Internacional en
de Droit international public”, 165 Recueil des Sus Relaciones con la Vida Actual de los Pue-
Cours de l’Académie de Droit International de blos, Santiago de Chile, Edit. Jurídica de Chi-
La Haye (1979) pp. 190, 193 e 202. le, 1962 [reed.], pp. 49, 57, 77, 155-156, 163,
292, 304 e 357.
51. Cf. item VII, infra.
64. H. Accioly, Tratado de Direito Internacional
52. M. Virally, “Droits de l’homme et théorie géné- Público, vol. I, 1a. ed., Rio de Janeiro, Imprensa
rale du Droit international”, René Cassin Ami- Nacional, 1933, pp. 71-75.
corum Discipulorumque Liber, vol. IV, Paris,
Pédone, 1972, pp. 328-329. 65. L. Carneiro, O Direito Internacional e a De-
mocracia, Rio de Janeiro, A. Coelho Branco Fo.
53. Cf. A.A. Cançado Trindade, Tratado de Direi- Ed., 1945, pp. 121 e 108, e cf. pp. 113, 35, 43,
to Internacional dos Direitos Humanos, vol. I, 126, 181 e 195.
Porto Alegre, S.A. Fabris Ed., 1997, pp. 17-30;
A.A. Cançado Trindade, Tratado de Direito In- 66. Ph.C. Jessup, A Modern Law of Nations - An
ternacional dos Direitos Humanos, vol. II, Porto Introduction, New York, MacMillan Co., 1948,
p. 41.

45
Antônio Augusto Cançado Trindade

67. H. Lauterpacht, International Law and Human 74. P. Guggenheim, “Les principes de Droit in-
Rights, London, Stevens, 1950, pp. 69, 61 e ternational public”, 80 Recueil des Cours de
51. E cf. também, no mesmo sentido, H. Lau- l’Académie de Droit International (1952) pp.
terpacht, “The Revision of the Statute of the 116, e cf. pp. 117-118.
International Court of Justice”, in Internatio- 75. G. Sperduti, “L’individu et le droit internatio-
nal Law, Being the Collected Papers of Hersch nal”, 90 Recueil des Cours de l’Académie de
Lauterpacht (ed. E. Lauterpacht), vol. 5, Cam- Droit International de La Haye (1956) pp. 824,
bridge, Cambridge University Press, 2004, pp. 821 e 764.
164-166.
76. Ibid., pp. 821-822; e cf. também G. Sperduti,
68. H. Lauterpacht, International Law and Human L’Individuo nel Diritto Internazionale, Milano,
Rights, op. cit. supra n. (67), p. 70. Giuffrè Ed., 1950, pp. 104-107.
69. Cf. ibid., pp. 8-9. Para uma crítica à concepção 77. C. Parry, “Some Considerations upon the Pro-
voluntarista do direito internacional, cf. A.A. tection of Individuals in International Law”,
Cançado Trindade, “The Voluntarist Concep-
90 Recueil des Cours de l’Académie de Droit
tion of International Law: A Re-assessment”,
International de La Haye (1956) p. 722.
59 Revue de droit international de sciences di-
plomatiques et politiques - Sottile (1981) pp. 78. Como rapporteur do Grupo de Trabalho da [en-
201-240. tão] Comissão de Direitos Humanos das Na-
ções Unidas, encarregado de preparar o projeto
70. M. Bourquin, “L’humanisation du droit des
da Declaração (maio de 1947 a junho de 1948).
gens”, La technique et les principes du Droit
public - Études en l’honneur de Georges Scelle, 79. R. Cassin, “Vingt ans après la Déclaration Uni-
vol. I, Paris, LGDJ, 1950, pp. 21-54. verselle”, 8 Revue de la Commission Interna-
71. M. Huber, La pensée et l´action de la Croix- tionale de Juristes (1967) n. 2, pp. 9-10.
-Rouge, Genève, CICR, 1954, pp. 26, 247, 270, 80. P. Reuter, Droit international public, 7a. ed., Pa-
286, 291-293 e 304. ris, PUF, 1993, p. 235, e cf. p. 106.
72. C.Th. Eustathiades, “Les sujets du Droit in- 81. Ibid., p. 238.
ternational et la responsabilité internationale - 82. E. Jiménez de Aréchaga, El Derecho Interna-
nouvelles tendances”, 84 Recueil des Cours de cional Contemporáneo, Madrid, Tecnos, 1980,
l’Académie de Droit International de La Haye
pp. 207-208. - Para A. Cassese, o status jurídico
(1953) pp. 402, 412-413, 424, 586-589, 601 e
internacional de que hoje desfrutam os indiví-
612. Tratava-se, pois, de proteger o ser huma-
duos representa um notável avanço do direito
no não só contra a arbitrariedade estatal, mas
internacional contemporâneo, mesmo que a ca-
também contra os abusos dos próprios indiví-
pacidade jurídica dos indivíduos ainda comporte
duos; ibid., p. 614. Cf., no mesmo sentido, W.
limitações; ademais, quanto a suas obrigações os
Friedmann, The Changing Structure..., op. cit.
indivíduos se associam aos demais membros da
supra n. (21), pp. 234 e 248.
comunidade internacional, pois também deles
73. C.Th. Eustathiades, “Les sujets du Droit inter- se exige o respeito a certos valores fundamentais
national...”, op. cit. supra n. (72), pp. 426-427, hoje universalmente reconhecidos; A. Cassese,
547 e 610-611. Ainda que não endossasse a te- International Law, Oxford, Oxford University
oria de Duguit e Scelle (dos indivíduos como Press, 2001, pp. 79-85.
únicos sujeitos do direito internacional), - tida
como expressão da “escola sociológica” do di- 83. J. Barberis, “Nouvelles questions concernant
reito internacional na França, - Eustathiades la personnalité juridique internationale”, 179
nela reconheceu o grande mérito de reagir à Recueil des Cours de l’Académie de Droit In-
doutrina tradicional que visualizava nos Esta- ternational de La Haye (1983) pp. 161, 169,
dos os únicos sujeitos do direito internacional; 171-172, 178 e 181.
o reconhecimento da subjetividade internacio- 84. Cf., e.g., R. Cassin, “Vingt ans après la Décla-
nal dos indivíduos, a par da dos Estados, veio ration Universelle”, 8 Revue de la Commis-
transformar a estrutura do direito internacio- sion internationale de juristes (1967) pp.9-17;
nal e fomentar o espírito de solidariedade in- K. Vasak, “Le droit international des droits
ternacional; ibid., pp. 604-610. Os indivíduos de l’homme”, 140 Recueil des Cours de
emergiram como sujeitos do direito interna- l’Académie de Droit International de La Haye
cional, mesmo sem participar do processo de (1974) pp. 374-381 e 411-413; H. Lauterpacht,
criação de suas normas; ibid., p. 409. International Law and Human Rights, Lon-

46
Os Indivíduos como Sujeitos do Direito Internacional

don, Stevens, 1950, pp. 54-56 e 223-251; A.A. Ambos, “Defensa Penal ante el Tribunal de la
Cançado Trindade, Tratado de Direito Interna- ONU para la Antigua Yugoslavia”, 25 Revista
cional dos Direitos Humanos, vol. I, Porto Ale- del Instituto Interamericano de Derechos Hu-
gre, S.A. Fabris Ed., 1997, pp. pp. 68-87; A.A. manos (1997) pp. 11-28.
Cançado Trindade, The Application of the Rule 88. Cf. Roy S. Lee, “The Rwanda Tribunal”, 9 Lei-
of Exhaustion of Local Remedies in Internatio- den Journal of International Law (1996) pp. 37-
nal Law, Cambridge, University Press, 1983, 61; [Vários Autores,], “The Rwanda Tribunal:
pp. 1-445; A.A. Cançado Trindade, “Co-Exis- Its Role in the African Context”, 37 Internatio-
tence and Co-Ordination of Mechanisms of nal Review of the Red Cross (1997) n. 321, pp.
International Protection of Human Rights (At 665-715 (estudos de F. Harhoff, C. Aptel, D.
Global and Regional Levels)”, 202 Recueil des Wembou, C.M. Peter, e G. Erasmus e N. Fou-
Cours de l’Académie de Droit International de rie); O. Dubois, “Rwanda’s National Criminal
La Haye (1987) pp. 1-435; W.P.Gormley, The Courts and the International Tribunal”, 37 In-
Procedural Status of the Individual before In- ternational Review of the Red Cross (1997) n.
ternational and Supranational Tribunals, The 321, pp. 717-731.
Hague, Nijhoff, 1966, pp. 1-194; C.A. Norga-
ard, The Position of the Individual in Interna- 89. W.A. Schabas, “Sentencing by International Tri-
tional Law, Copenhagen, Munksgaard, 1962, bunals: A Human Rights Approach”, 7 Duke
pp. 26-33 e 82-172; P. Sieghart, The Interna- Journal of Comparative and International Law
tional Law of Human Rights, Oxford, Claren- (1997) pp. 461-517.
don Press, 1983, pp. 20-23; P.N. Drost, Human 90. Cf., a respeito, e.g., D. Thiam, “Responsabilité
Rights as Legal Rights, Leyden, Sijthoff, 1965, internationale de l’individu en matière crimi-
pp. 61-252; M. Ganji, International Protection nelle”, in International Law on the Eve of the
of Human Rights, Genève/Paris, Droz/Minard, Twenty-First Century - Views from the Interna-
1962, pp. 178-192; A.Z. Drzemczewski, Euro- tional Law Commission / Le droit international
pean Human Rights Convention in Domestic à l’aube du XXe siècle - Réflexions de codifica-
Law, Oxford, Clarendon Press, 1983, pp. 20- teurs, N.Y., U.N., 1997, pp. 329-337.
34 e 341; G. Cohen-Jonathan, La Convention 91. Os antecedentes destes esforços de estabeleci-
européenne des droits de l’homme, Aix-en- mento de uma jurisdição penal internacional re-
-Provence/Paris, Pr. Univ. d’Aix-Marseille/Eco- montam às antigas comissões internacionais ad
nomica, 1989, pp. 29 e 567-569; D.J. Harris, hoc de investigação (a partir de 1919), e sobre-
M. O’Boyle e C. Warbrick, Law of the European tudo aos célebres Tribunais de Nuremberg (esta-
Convention on Human Rights, London, But- belecido em agosto de 1945) e de Tóquio (esta-
terworths, 1995, pp. 580-585 e 706-714; D. belecido em janeiro de 1946). Cf. M.R. Marrus,
Shelton, Remedies in International Human Ri- The Nuremberg War Crimes Trial 1945-1946
ghts Law, Oxford, University Press, 1999, pp. - A Documentary History, Boston/N.Y., Bedford
14-56 e 358-361. Books, 1997, pp. 1-268; M.C. Bassiouni, “From
85. Como vimos, e.g., já há mais de meio-século, Versailles to Rwanda in Seventy-Five Years: The
C. Eustathiades, ao vincular a subjetividade in- Need to Establish a Permanent International
ternacional dos indivíduos à temática da res- Criminal Court”, 10 Harvard Human Rights
ponsabilidade internacional, atentou para a Journal (1997) pp. 11-62.
dimensão tanto ativa como passiva de tal sub- 92. Cf. G. Abi-Saab, “The Concept of `Internatio-
jetividade, esta última em razão da capacidade nal Crimes’ and Its Place in Contemporary In-
do indivíduo para o delito internacional (sujei- ternational Law”, International Crimes of State
to passivo da relação jurídica - cf. supra). - A Critical Analysis of the ILC’s Draft Article
86. M.Ch. Bassiouni, Crimes against Humanity in 19 on State Responsibility (eds. J.H.H. Weiler,
International Criminal Law, 2a. ed. rev., The A. Cassese e M. Spinedi), Berlin, W. de Gruyter,
Hague, Kluwer, 1999, pp. 106 e 118. 1989, pp. 141-150; B. Graefrath, “Internatio-
nal Crimes - A Specific Regime of International
87. Cf. K. Lescure, Le Tribunal Pénal International
Responsibility of States and Its Legal Conse-
pour l’ex-Yougoslavie, Paris, Montchrestien,
quences”, in ibid., pp. 161-169; P.-M. Dupuy,
1994, pp. 15-133; A. Cassese, “The Interna-
“Implications of the Institutionalization of
tional Criminal Tribunal for the Former Yugos-
International Crimes of States”, in ibid., pp.
lavia and Human Rights”, 2 European Human
170-185; M. Gounelle, “Quelques remarques
Rights Law Review (1997) pp. 329-352; Kai
sur la notion de `crime international’ et sur

47
Antônio Augusto Cançado Trindade

l’évolution de la responsabilité internationale gação, perseguição, captura, julgamento e con-


de l’État”, in Mélanges offerts à P. Reuter - Le denação dos responsáveis pelas violações dos
droit international: unité et diversité, Paris, Pé- direitos protegidos pela Convenção Americana,
done, 1981, pp. 315-326. uma vez que o Estado tem a obrigação de com-
bater tal situação por todos os meios legais dis-
93. B. Broms, “The Establishment of an Interna-
poníveis já que a impunidade propicia a repeti-
tional Criminal Court”, 24 Israel Yearbook on
ção crônica das violações de direitos humanos
Human Rights (1994) pp. 145-146.
e a total vulnerabilidade (indefensión) das víti-
94. Precedidos pelo Projeto de Código de Crimes mas e de seus familiares” (Série C, n. 37, par.
contra a Paz e Segurança da Humanidade (pri- 173). Afirmou, ademais, a CtIADH, o dever do
meira versão, 1991), preparado pela Comissão Estado (sob o artigo 1(1) da Convenção Ameri-
de Direito Internacional das Nações Unidas, cana sobre Direitos Humanos) de “organizar o
a qual, em 1994, concluiu o seu Projeto de poder público para garantir às pessoas sob sua
Estatuto de um Tribunal Penal Internacional jurisdição o livre e pleno exercício dos direitos
permanente. humanos”, dever este - agregou significativa-
95. Para um estudo substancial e pioneiro, cf. mente a Corte - que “se impõe independente-
C.Th. Eustathiades, “Les sujets du droit in- mente de que os responsáveis pelas violações
ternational et la responsabilité internationale destes direitos sejam agentes do poder público,
- Nouvelles tendances”, 84 Recueil des Cours particulares, ou grupos deles” (ibid., par. 174).
de l’Académie de Droit International de La 99. Sobre a formação e o desenvolvimento do con-
Haye (1953) pp. 401-614; e sobre a responsa- ceito de jus cogens no direito internacional
bilidade individual por um ilícito cometido no contemporâneo, cf., e.g.: J. Sztucki, Jus Co-
cumprimento de “ordem superior” (ilegal), cf. gens and the Vienna Convention on the Law
L.C. Green, Superior Orders in National and of Treaties - A Critical Appraisal, Wien/N.Y.,
International Law, Leyden, Sijthoff, 1976, pp. Springer-Verlag, 1974, pp. 1-194; C.L. Ro-
250-251 e 218; Y. Dinstein, The Defence of zakis, The Concept of Jus Cogens in the Law
`Obedience to Superior Orders’ in Internatio- of Treaties, Amsterdam, North-Holland Publ.
nal Law, Leyden, Sijthoff, 1965, pp. 93-253. Co., 1976, pp. 1-194; A. Gómez Robledo, El
96. Neste propósito, a adoção do Estatuto do Tri- Jus Cogens Internacional (Estudio Histórico
bunal Penal Internacional pela Conferência Crítico), México, UNAM, 1982, pp. 7-227; G.
de Roma de 1998 constitui uma conquista da Gaja, “Jus Cogens beyond the Vienna Conven-
comunidade internacional como um todo, na tion”, 172 Recueil des Cours de l’Académie
luta contra a impunidade e em defesa da digni- de Droit International de La Haye (1981) pp.
dade da pessoa humana. 279-313; Ch. de Visscher, “Positivisme et jus
cogens”, 75 Revue générale de Droit interna-
97. Assim, começa a florescer a jurisprudência dos
tional public (1971) pp. 5-11; A. Verdross, “Jus
Tribunais ad hoc tanto (a partir de 1995) para a
Dispositivum and Jus Cogens in International
ex-Iugoslávia (casos Tadic, Erdemovic, Blaskic,
Law”, 60 American Journal of International
Mucic, Delic, Delalic e Landzo, Karadzic, Mla-
Law (1966) pp. 55-63; A.A. Cançado Trindade,
dic e Stanisic, Zeljko Meakic et alii [19 mem-
Princípios do Direito Internacional Contempo-
bros das forças sérvias], Djukic, Lajic, e caso da
râneo, Brasília, Editora Universidade de Brasí-
Área do Vale do Rio Lasva [27 líderes militares e
lia, 1981, pp. 13-15; H. Mosler, “Ius Cogens im
políticos bósnio-croatas; 1995], - como (a partir
Völkerrecht”, 25 Schweizerisches Jahrbuch für
de 1997) para Ruanda (casos Ntakirutimana e
internationales Recht (1968) pp. 1-40; K. Ma-
Kanyabashi). O estudo desta temática passa a
rek, “Contribution à l’étude du jus cogens en
assumir crescente importância, à medida em
Droit international”, Recueil d’études de Droit
que se desperta a consciência para o velho ideal
international en hommage à P. Guggenheim,
da realização da justiça a nível internacional.
Genebra, IUHEI, 1968, pp. 426-459.
98. No caso Paniagua Morales e Outros versus
100. Cf. U.N., United Nations Conference on the
Guatemala (também conhecido como caso da
Law of Treaties between States and Interna-
“Panel Blanca”), a CtIADH teve ocasião de for-
tional Organizations or between Internatio-
mular uma clara advertência quanto ao dever
nal Organizations (Vienna, 1986) - Official
do Estado de combater a impunidade. Em sua
Records, vol. I, N.Y., U.N., 1995, pp. 187-188
Sentença quanto ao mérito (de 08.03.1998)
(intervenção de A.A. Cançado Trindade, Sub-
naquele caso, a CtIADH conceituou como im-
chefe da Delegação do Brasil). Com efeito, a
punidade “a falta em seu conjunto de investi-
referida concepção voluntarista se mostra in-

48
Os Indivíduos como Sujeitos do Direito Internacional

capaz de explicar sequer a formação de regras Conferência Mundial de Direitos Humanos


do direito internacional geral e a incidência (Viena, 1993), da legitimidade da preocupação
no processo de formação e evolução do direito de toda a comunidade internacional com as
internacional contemporâneo de elementos violações de direitos humanos em toda parte e
independentes do livre arbítrio dos Estados. a qualquer momento. Os esforços neste senti-
101. Em estudo publicado em livro comemorativo do certamente se prolongarão nestas primeiras
do cinquentenário do Alto-Comissariado das décadas do século XXI, dada a dimensão do de-
Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR), safio do estabelecimento de tal monitoramen-
busquei conceituar o que me permito deno- to contínuo, que vem afirmar a universalidade
minar de consciência jurídica universal; cf. dos direitos humanos nos planos não só con-
A.A. Cançado Trindade, “Reflexiones sobre el ceitual como também operacional.
Desarraigo como Problema de Derechos Hu- 104. Há que dar seguimento à evolução alentadora
manos frente a la Conciencia Jurídica Univer- da consagração das normas de jus cogens, im-
sal”, in La Nueva Dimensión de las Necesida- pulsionada sobretudo pela opinio juris como
des de Protección del Ser Humano en el Inicio manifestação da consciência jurídica univer-
del Siglo XXI (eds. A.A. Cançado Trindade e sal, em benefício de todos os seres humanos;
J. Ruiz de Santiago), San José de Costa Rica, A.A. Cançado Trindade, “A Emancipação do
ACNUR, 2001, pp. 19-78. Ser Humano como Sujeito do Direito Inter-
102. A.A. Cançado Trindade, Tratado de Direito nacional e os Limites da Razão de Estado”,
Internacional..., op. cit. supra n. (53), vol. 6/7 Revista da Faculdade de Direito da Uni-
II, pp. 412-420. - Já é tempo de desenvolver versidade do Estado do Rio de Janeiro (1998-
as primeiras indicações jurisprudenciais a 1999) pp. 425-434; e cf., recentemente, A.A.
respeito, avançadas já há mais de quatro dé- Cançado Trindade, “Jus Cogens: The Deter-
cadas, no cas célèbre da Barcelona Traction mination and the Gradual Expansion of Its
(1970), e perseverar nos esforços doutrinários Material Content in Contemporary Interna-
já envidados. Recorde-se que, naquele caso, a tional Case-Law”, in XXXV Curso de Dere-
Corte Internacional de Justiça pela primeira cho Internacional Organizado por el Comité
vez distinguiu, por um lado, as obrigações Jurídico Interamericano - 2008, Washington
inter-estatais (próprias do contentieux diplo- D.C., Secretaría General de la OEA, 2009,
matique), e, por outro, as obrigações de um pp. 3-29. – E cf., sobre as relações do jus co-
Estado vis-à-vis a comunidade internacional gens com as obrigações erga omnes de pro-
como um todo (obrigações erga omnes). Estas teção, e.g., A.A. Cançado Trindade, Tratado
últimas -agregou a Corte - derivam, e.g., no de Direito Internacional..., op. cit. supra n.
direito internacional contemporâneo, inter (56), vol. II, pp. 412-420; Y. Dinstein, “The
alia, dos “princípios e regras referentes aos Erga Omnes Applicability of Human Rights”,
direitos fundamentais da pessoa humana”, - 30 Archiv des Völkerrechts (1992) pp. 16-37;
sendo que determinados direitos de proteção A.J.J. de Hoogh, “The Relationship between
“têm-se integrado ao direito internacional ge- Jus Cogens, Obligations Erga Omnes and In-
ral”, e outros se encontram consagrados em ternational Crimes: Peremptory Norms in
instrumentos internacionais de caráter uni- Perspective”, 42 Austrian Journal of Public
versal ou quase universal; caso da Barcelona and International Law (1991) pp. 183-214; C.
Traction (Bélgica versus Espanha, 2a. fase), Annacker, “The Legal Regime of Erga Omnes
ICJ Reports (1970) p. 32, pars. 33-34. Obligations in International Law”, 46 Aus-
trian Journal of Public and International Law
103. Já é tempo de desenvolver sistematicamente (1994) pp. 131-166; M. Byers, “Conceptuali-
o conteúdo, o alcance e os efeitos jurídicos sing the Relationship between Jus Cogens and
das obrigações erga omnes de proteção no Erga Omnes Rules”, 66 Nordic Journal of In-
âmbito do Direito Internacional dos Direitos ternational Law (1997) pp. 211-239.
Humanos, tendo presente o grande potencial
de aplicação da noção de garantia coletiva, 105. A.A. Cançado Trindade, “A Emancipação do
subjacente a todos os tratados de direitos hu- Ser Humano como Sujeito do Direito Inter-
manos, e responsável por alguns avanços já nacional...”, op. cit. supra n. (104), pp. 427-
logrados neste domínio. O reconhecimento 428 e 432-433; e cf. A.A. Cançado Trindade,
das obrigações erga omnes de proteção repre- “El Nuevo Reglamento de la Corte Intera-
senta, em última análise, a resposta, no plano mericana de Derechos Humanos (2000): La
operacional, do reconhecimento, obtido na II Emancipación del Ser Humano como Sujeto
del Derecho Internacional de los Derechos

49
Antônio Augusto Cançado Trindade

Humanos”, 30/31 Revista del Instituto In- Jennings, “The International Court of Justi-
teramericano de Derechos Humanos (2001) ce after Fifty Years”, 89 American Journal of
pp. 45-71; A.A. Cançado Trindade, “Hacia la International Law (1995) pp. 504-505. Do
Consolidación de la Capacidad Jurídica In- mesmo modo, já em fins da década de sessen-
ternacional de los Peticionarios en el Sistema ta Shabtai Rosenne advertia que “nada há de
Interamericano de Protección de los Derechos inerente no caráter da própria Corte Interna-
Humanos”, 37 Revista del Instituto Intera- cional que justifique a exclusão completa de
mericano de Derechos Humanos (2003) pp. um indivíduo de comparecer perante a Corte
13-52. em procedimentos judiciais de seu interesse
106. F.A. von der Heydte, “L’individu et les tribu- direto”; cf. S. Rosenne, “Reflections on the
naux internationaux”, 107 Recueil des Cours Position of the Individual in Inter-State Liti-
de l’Académie de Droit International de La gation in the International Court of Justice”,
Haye (1962) pp. 332-333 e 329-330; e cf. in International Arbitration Liber Amicorum
A.A. Cançado Trindade, “The Domestic Ju- for M. Domke (ed. P. Sanders), The Hague,
risdiction of States in the Practice of the Uni- Nijhoff, 1967, p. 249, e cf. p. 242. - A atu-
ted Nations and Regional Organisations”, 25 al prática de exclusão do locus standi in ju-
International and Comparative Law Quarter- dicio dos indivíduos interessados ante a CIJ,
ly (1976) pp. 715-765. - acrescentou S. Rosenne, - além de artifi-
cial, em certos casos contenciosos “pode até
107. F.A. von der Heydte, op. cit. supra n. (106), p. mesmo produzir resultados incongruentes”;
345. torna-se, pois, “altamente desejável” que tal
108. Ibid., pp. 356-357 e 302. esquema seja reconsiderado, de modo a per-
mitir que os próprios indivíduos interessados
109. Ibid., p. 301. Cf. também, a respeito, e.g.,
possam comparecer ante a CIJ (locus stan-
E.M. Borchard, “The Access of Individuals to
di) para apresentar diretamente a esta últi-
International Courts”, 24 American Journal
ma seus argumentos em casos contenciosos
of International Law (1930) pp. 359-365.
(ibid., p. 249, e cf. p. 243).
110. Ricci-Busatti, Barão Descamps, Raul Fernan-
123. Para um estudo, cf., e.g.: A.A. Cançado Trin-
des e Lord Phillimore.
dade, “Exhaustion of Local Remedies in In-
111. Cf. relato in: J. Spiropoulos, L’individu en ternational Law Experiments Granting Proce-
Droit international, Paris, LGDJ, 1928, pp. dural Status to Individuals in the First Half of
50-51; N. Politis, op. cit. infra n. (112), pp. the Twentieth Century”, 24 Netherlands In-
84-87; Marek St. Korowicz, “The Problem of ternational Law Review (1977) pp. 373-392;
the International Personality of Individuals”, C.A. Norgaard, The Position of the Individual
50 American Journal of International Law in International Law, Copenhagen, Munks-
(1956) p. 543. gaard, 1962, pp. 109-128; M.St. Korowicz,
112. N. Politis, Les nouvelles tendances du Droit Une expérience de Droit international - La
international, Paris, Libr. Hachette, 1927, pp. protection des minorités de Haute-Silésie, Pa-
76-77 e 69. ris, Pédone, 1946, pp. 81-174; dentre outros.
E, para um estudo geral, cf. A.A. Cançado
113. Ibid., pp. 77-78.
Trindade, O Esgotamento de Recursos Inter-
114. Ibid., pp. 82-83 e 89. nos no Direito Internacional, 2a. ed., Brasília,
115. Ibid., p. 90, e cf. pp. 92 e 61. Editora Universidade de Brasília, 1997, pp.
1-327.
116. J. Spiropoulos, op. cit. supra n. (111), pp. 50-
51. 124. Cf. A.A. Cançado Trindade, Tratado de Direi-
to Internacional..., op. cit. infra n. (136), vol.
117. Ibid., pp. 25, 31-33 e 40-41. I, pp. 68-87.
118. Ibid., pp. 42-43 e 65. 125. Cf., recentemente, A.A. Cançado Trindade, El
119. Ibid., p. 44, e cf. pp. 49 e 64-65. Acceso Directo del Individuo..., op. cit. infra
120. Ibid., pp. 51-52, e cf. pp. 53 e 61. n. (145), pp. 9-104.

121. Ibid., p. 62, e cf. p. 66. 126. A.A. Cançado Trindade, El Derecho Interna-
cional de los Derechos Humanos en el Siglo
122. Tal artificialidade tem sido criticada na bi- XXI, 1ª. ed., Santiago, Editorial Jurídica de
bliografia especializada, já há muitos anos, Chile, 2001, pp. 317-370.
inclusive por um ex-Presidente da CIJ; cf. R.Y.

50
Os Indivíduos como Sujeitos do Direito Internacional

127. Foi precisamente neste contexto de proteção tuam-se verticalmente em nível intra-estatal,
que se operou o resgate histórico da posição do na contraposição entre os Estados e os seres
ser humano como sujeito do Direito Interna- humanos sob suas respectivas jurisdições.
cional dos Direitos Humanos, dotado de plena Por conseguinte, pretender que os órgãos de
capacidade processual internacional (cf. supra). proteção internacional não possam verificar
128. No plano internacional, os Estados assumi- a compatibilidade das normas e práticas de
ram o monopólio da titularidade de direitos; direito interno, e suas omissões, com as nor-
os indivíduos, para sua proteção, foram dei- mas internacionais de proteção, não faria sen-
xados inteiramente à mercê da intermediação tido. Também aqui a especificidade do Direito
discricionária de seus Estados nacionais. O or- Internacional dos Direitos Humanos torna-se
denamento internacional assim erigido, - que evidente. O fato de que este último vai mais
os excessos do positivismo jurídico tentaram além do Direito Internacional Público em
em vão justificar, - dele excluiu precisamente matéria de proteção, de modo a abarcar o tra-
o destinatário último das normas jurídicas: o tamento dispensado pelos Estados aos seres
ser humano. humanos sob suas jurisdições, não significa
que uma interpretação conservadora deva se
129. Como o holocausto, o gulag, seguidos de no-
vos atos de genocídio, e.g., no sudeste asiáti- aplicar; muito ao contrário, o que se aplica é
co, na Europa central (ex-Iugoslávia), na Áfri- uma interpretação em conformidade com o
ca (Ruanda). caráter inovador - em relação aos dogmas do
passado, tais como o da “competência nacio-
130. Com incidência direta destes cânones nos nal exclusiva” ou domínio reservado dos Es-
métodos de interpretação das normas inter- tados, como emanação da soberania estatal,
nacionais de proteção, sem necessariamente - das normas internacionais de proteção dos
se afastar das regras gerais de interpretação direitos humanos. Com o desenvolvimento
dos tratados consagradas nos artigos 31-33 do Direito Internacional dos Direitos Huma-
das duas Convenções de Viena sobre Direito nos, é o próprio Direito Internacional Públi-
dos Tratados (de 1969 e 1986). co que se enriquece, na asserção de cânones
131. Por exemplo, sob o artigo 25 da Convenção e princípios próprios do presente domínio de
Européia de Direitos Humanos; cf. H. Ro- proteção, baseados em premissas fundamen-
lin, “Le rôle du requérant dans la procédure talmente distintas das que têm guiado seus
prévue par la Commission européenne des postulados no plano das relações puramente
droits de l’homme”, 9 Revue hellénique de inter-estatais. O Direito Internacional dos
droit international (1956) pp. 3-14, esp. p. 9; Direitos Humanos vem assim afirmar a apti-
C.Th. Eustathiades, “Les recours individuels dão do Direito Internacional Público para as-
à la Commission européenne des droits de segurar, no presente contexto, o cumprimen-
l’homme”, in Grundprobleme des internatio- to das obrigações internacionais de proteção
nalen Rechts - Festschrift für J. Spiropoulos, por parte dos Estados vis-à-vis todos os seres
Bonn, Schimmelbusch & Co., 1957, p. 121; humanos sob suas jurisdições.
F. Durante, Ricorsi Individuali ad Organi In- 133. Para um exame da matéria, cf. A.A. Cança-
ternazionali, Milano, Giuffrè, 1958, pp. 125- do Trindade, Tratado de Direito Internacional
152, esp. pp. 129-130; K. Vasak, La Conven- dos Direitos Humanos, vol. I, op. cit. supra n.
tion européenne des droits de l’homme, Paris, (53), pp. 68-87.
LGDJ, 1964, pp. 96-98; M. Virally, “L’accès
des particuliers à une instance internationale: 134. Cf. nesse sentido: Comissão Européia de Di-
la protection des droits de l’homme dans le reitos Humanos (ComEDH), caso Scientolo-
cadre européen”, 20 Mémoires Publiés par la gy Kirche Deutschland e.V. versus Alemanha
Faculté de Droit de Genève (1964) pp. 67-89; (appl. n. 34614/96), decisão de 07.04.1997,
H. Mosler, “The Protection of Human Rights 89 Decisions and Reports (1997) p. 170; Co-
by International Legal Procedure”, 52 George- mEDH, caso Zentralrat Deutscher Sinti und
town Law Journal (1964) pp. 818-819. Roma e R. Rose versus Alemanha (appl. n.
35208/97) decisão de 27.05.1997, p. 4 (não-
132. Há que ter sempre presente que, distintamen- -publicada); ComEDH, caso Federação Grega
te das questões regidas pelo Direito Interna- de Funcionários de Alfândega, N. Gialouris, G.
cional Público, não raro levantadas horizon- Christopoulos e 3333 Outros Funcionários de
talmente sobretudo em nível inter-estatal, as Alfândega versus Grécia (appl. n. 24581/94),
questões atinentes aos direitos humanos si- decisão de 06.04.1995, 81-B Decisions and

51
Antônio Augusto Cançado Trindade

Reports (1995) p. 127; ComEDH, caso N.N. de l’Académie de Droit International de La


Tauira e 18 Outros versus França (appl. n. Haye (1987) pp. 243-299, esp. pp. 262-283.
28204/95), decisão de 04.12.1995, 83-A De- Cf. também, a respeito, J.A. Frowein, “La
cisions and Reports (1995) p. 130 (petições notion de victime dans la Convention Euro-
contra os testes nucleares franceses no atol péenne des Droits de l’Homme”, in Studi in
de Mururoa e no de Fangataufa, na Poliné- Onore di G. Sperduti, Milano, Giuffrè, 1984,
sia francesa); ComEDH, caso K. Sygounis, I. pp. 586-599; F. Matscher, “La Posizione Pro-
Kotsis e Sindicato de Policiais versus Grécia cessuale dell’Individuo come Ricorrente di-
(appl. n. 18598/91), decisão de 18.05.1994, nanzi agli Organi della Convenzione Europea
78 Decisions and Reports (1994) p. 77; Co- dei Diritti dell’Uomo”, in ibid., pp. 602-620;
mEDH, caso Asociación de Aviadores de la H. Delvaux, “La notion de victime au sens de
República, J. Mata el Al. versus Espanha (appl. l’article 25 de la Convention Européenne des
n. 10733/84), decisão de 11.03.1985, 41 De- Droits de l’Homme - Le particulier victime
cisions and Reports (1985) p. 222. - Segundo d’une violation de la Convention”, in Actes
esta mesma jurisprudência, para atender à du 5ème. Colloque International sur la Con-
condição de “vítima” (sob o artigo 25 [origi- vention Européenne des Droits de l’Homme
nal] da Convenção) deve haver um “vínculo (Francfort, avril 1980), Paris, Pédone, 1982,
suficientemente direto” entre o indivíduo de- pp. 35-78.
mandante e o dano alegado, resultante da su- 138. Antes mesmo da entrada em vigor da Conven-
posta violação da Convenção. ção Americana sobre Direitos Humanos (i.e.,
135. CtEDH, caso Norris versus Irlanda, Julga- na prática inicial da Comissão Interamerica-
mento de 26.10.1988, Série A, vol. 142, p. na de Direitos Humanos). - Lamento, pois,
15, par. 31. não poder compartilhar a insinuação cons-
136. Sobre a continuada importância do direito de tante em parte da bibliografia especializada
petição individual sob a Convenção Européia, européia contemporânea sobre a matéria, no
mesmo após a entrada em vigor do Protocolo sentido de que o direito de petição individual
n. 11 à mesma, cf. J. Wadham e T. Said, “What talvez não seja eficaz no tocante a violações
Price the Right of Individual Petition: Report sistemáticas e maciças de direitos humanos.
of the Evaluation Group to the Committee of A experiência acumulada no sistema intera-
Ministers on the European Court of Human mericano de proteção aponta exatamente no
Rights”, 2 European Human Rights Law Re- sentido contrário, e graças ao direito de peti-
view (2002) pp. 169-174; E.A. Alkema, “Ac- ção individual muitas vidas foram salvas e se
cess to Justice under the ECHR and Judicial logrou realizar a justiça em casos concretos
Policy - A Netherlands View”, in Afmaelisrit em meio a situações generalizadas de viola-
for Vilhjálmsson, Reykjavík, B. Orators, 2000, ções de direitos humanos.
pp. 21-37; A. Debricon, “L’exercice efficace du 139. Cf. OEA, Conferencia Especializada Intera-
droit de recours individuel”, in The Birth of mericana sobre Derechos Humanos - Actas
European Human Rights Law - Liber Amico- y Documentos (San José de Costa Rica, 07-
rum Studies in Honour of C.A. Norgaard (eds. 22.11.1969), doc. OEA/Ser.K/XVI/1.2, Wa-
M. de Salvia e M.E. Villiger), Baden-Baden, shington D.C., Secretaría General de la OEA,
Nomos Verlagsgesellschaft, 1998, pp. 237- 1978, pp. 43 e 47.
242. E cf. Council of Europe, Report of the 140. A outra modalidade de petição, a inter-esta-
Evaluation Group to the Committee of Minis- tal, só foi consagrada em base facultativa (ar-
ters on the European Court of Human Rights, tigo 45 da Convenção Americana, a contrário
Strasbourg, C.E., 27.09.2002, pp. 7-89. do esquema da Convenção Européia - artigo
137. A evolução da noção de “vítima” (incluindo 24 - neste particular), o que realça a relevân-
a vítima potencial) no Direito Internacional cia atribuída ao direito de petição individual.
dos Direitos Humanos encontra-se examina- Este ponto não passou despercebido da CtIA-
da no curso que ministrei em 1987 na Aca- DH, que, em seu segundo Parecer, sobre o
demia de Direito Internacional da Haia: cf. Efeito das Reservas sobre a Entrada em Vigor
A.A. Cançado Trindade, “Co-existence and da Convenção Americana sobre Direitos Hu-
Co-ordination of Mechanisms of Internatio- manos (de 24.09.1982), invocou esta particu-
nal Protection of Human Rights (At Global laridade como ilustrativa da “grande impor-
and Regional Levels)”, 202 Recueil des Cours tância” atribuída pela Convenção Americana

52
Os Indivíduos como Sujeitos do Direito Internacional

às obrigações dos Estados Partes vis-à-vis os cas - em relação às disposições-chave do artigo


indivíduos, por estes exigíveis sem a interme- 25 (direito de petição individual), e do artigo
diação de outro Estado (par. 32). 46 [original] (aceitação de sua jurisdição em
141. Cf. A.A. Cançado Trindade, “Las Cláusulas matéria contenciosa) da Convenção Européia.
Pétreas de la Protección Internacional del Ser Sustentar outra posição, agregou, “não só de-
Humano: El Acceso Directo de los Individuos bilitaria seriamente a função da Comissão e
a la Justicia a Nivel Internacional y la Intan- da Corte no desempenho de suas atribuições
gibilidad de la Jurisdicción Obligatoria…”, op. mas também diminuiria a eficácia da Con-
cit. supra n. (1), pp. 3-68. venção como um instrumento constitucio-
nal da ordem pública (ordre public) européia”
142. CtIADH, caso Castillo Petruzzi versus
(par. 75). A CtEDH descartou o argumento do
Peru (Exceções Preliminares), Sentença de
Estado demandado de que se poderia inferir a
04.09.1998, Série C, n. 41, Voto Concordante
possibilidade de restrições às claúsulas facul-
do Juiz A.A. Cançado Trindade, pars. 1-46.
tativas dos artigos 25 e 46 [originais] da Con-
143. Em reconhecimento expresso da relevância venção por analogia com a prática estatal sob
do direito de petição individual, a Declaração o artigo 36 do Estatuto da Corte Internacional
e Programa de Ação de Viena, principal docu- de Justiça (CIJ). A CtEDH não só lembrou a
mento adotado pela II Conferência Mundial prática em contrário (aceitando tais cláusulas
de Direitos Humanos (1993), conclamou sua sem restrições) dos Estados Partes na Con-
adoção, como método adicional de proteção, venção Européia, mas também ressaltou o
por meio de Protocolos Facultativos à Con- contexto fundamentalmente distinto em que
venção sobre a Eliminação de Todas as For- os dois tribunais operam, sendo a CIJ “a free-
mas de Discriminação contra a Mulher (já -standing international tribunal which has no
adotado) e ao Pacto de Direitos Econômicos, links to a standard-setting treaty such as the
Sociais e Culturais (já concluído, mas ainda Convention” (pars. 82 e 68). A CIJ, - reite-
não adotado); cf. Declaração e Programa de rou a CtEDH, - dirime questões jurídicas no
Ação de Viena de 1993, parte II, pars. 40 e contencioso inter-estatal, distintamente das
75, respectivamente. Aquele documento re- funções dos órgãos de supervisão de um “tra-
comendou, ademais, aos Estados Partes nos tado normativo” (law-making treaty) como
tratados de direitos humanos, a aceitação de a Convenção Européia. Por conseguinte, a
todos os procedimentos facultativos disponí- “aceitação incondicional” das cláusulas facul-
veis de petições ou comunicações individuais tativas dos artigos 25 e 46 da Convenção não
(cf. ibid., parte II, par. 90). – Para uma avalia- comporta analogia com a prática estatal sob o
ção dos resultados da II Conferência Mundial artigo 36 do Estatuto da CIJ (pars. 84-85).
de Direitos Humanos (Viena, 1993), cf. A.A.
145. Para um estudo, cf. A.A. Cançado Trindade,
Cançado Trindade, “Memória da Conferên-
El Acceso Directo del Individuo a los Tribu-
cia Mundial de Direitos Humanos (Viena,
nales Internacionales de Derechos Humanos,
1993)”, 87/90 Boletim da Sociedade Brasi-
Bilbao, Universidad de Deusto, 2001, pp. 17-
leira de Direito Internacional (1993-1994)
96, esp. pp. 61-76.
pp. 9-57; A.A. Cançado Trindade, “Balance
de los Resultados de la Conferencia Mundial 146. O estudo desta questão não pode fazer abstra-
de Derechos Humanos (Viena, 1993)”, in Es- ção das condições de admissibilidade de peti-
tudios Básicos de Derechos Humanos, vol. ções individuais; cf. A.A. Cançado Trindade,
3, San José de Costa Rica, IIDH, 1995, pp. Tratado de Direito Internacional..., op. cit. su-
17-45; A.A. Cançado Trindade, “A Conferên- pra n. (129) pp. 68-87; e ibid., vol. III, 2003,
cia Mundial de Direitos Humanos: Lições de capítulos XV e XVI.
Viena”, 10 Revista da Faculdade de Direito da 147. Se desse modo não tivesse sido originalmen-
Universidade Federal do Rio Grande do Sul te concebido e consistentemente entendido o
(1994) pp. 232-237. referido direito de petição, muito pouco teria
144. Como se pode depreender da Sentença so- avançado a proteção internacional dos di-
bre exceções preliminares de 23.03.1995 da reitos humanos em mais de meio-século de
CtEDH no caso emblemático Loizidou versus evolução. Com a consolidação do direito de
Turquia, em que a CtEDH descartou a possi- petição individual perante os tribunais inter-
bilidade de restrições - pelas declarações tur- nacionais de direitos humanos, a proteção in-
ternacional alcançou sua maturidade.

53
Antônio Augusto Cançado Trindade

148. Sobre esse princípio, cf., recentemente, e.g., aumento - estatisticamente comprovado - das
B. Maurer, Le principe de respect de la dig- disparidades econômico-sociais e da pobreza
nité humaine et la Convention Européenne extrema.
des Droits de l’Homme, Aix-Marseille/Pa- 157. Em um ensaio luminoso publicado há mais
ris, CERIC, 1999, pp. 7-491; [Vários Auto- de meio século, no mesmo ano da adoção da
res,] Le principe du respect de la dignité de Declaração Universal de Direitos Humanos, o
la personne humaine (Actes du Séminaire de historiador Arnold Toynbee, questionando as
Montpellier de 1998), Strasbourg, Conseil de próprias bases do que se entende por civiliza-
l’Europe, 1999, pp. 15-113; E. Wiesel, “Con- ção, - ou seja, avanços bastante modestos nos
tre l’indifférence”, in Agir pour les droits de planos social e moral, - lamentou que o domí-
l’homme au XXIe. siècle (ed. F. Mayor), Paris, nio alcançado pelo homem sobre a natureza
UNESCO, 1998, pp. 87-90. não-humana infelizmente não se estendeu
149. Para um exame da subjetividade individual ao plano espiritual; A.J. Toynbee, Civilization
no pensamento filosófico, cf., e.g., A. Renaut, on Trial, Oxford, University Press, 1948, pp.
L’ère de l’individu - Contribution à une histoi- 262 e 64. Outro historiador, Eric Hobsbawn,
re de la subjectivité, [Paris,] Gallimard, 1991, em nossos dias retrata o século XX como um
pp. 7-299. período da história marcado sobretudo pelos
150 Cf., nesse sentido, e.g., L. Recaséns Siches, crimes e loucura da humanidade. E. Hobsba-
Introducción al Estudio del Derecho, 12a. ed., wm, Era dos Extremos - O Breve Século XX,
México, Ed. Porrúa, 1997, pp. 150-151, 153, São Paulo, Cia. das Letras, 1996, p. 561. Que
156 e 159. abusos e crimes tenham sido cometidos em
nome do poder público é injustificável, por-
151. L. Ferrajoli, Derecho y Razón - Teoría del Ga- quanto o Estado foi concebido - não se deveria
rantismo Penal, 5a. ed., Madrid, Ed. Trotta, esquecer - como promotor e garante do bem
2001, pp. 912-913. comum; Jacques Maritain, The Person and
152. Ch. Eisenmann, “Une nouvelle conception the Common Good, Notre Dame, Universi-
du droit subjectif: la théorie de M. Jean Da- ty of Notre Dame Press, 1966 (reimpr. 1985),
bin”, 60 Revue du droit public et de la science pp. 11-105.
politique en France et à l’étranger (1954) pp. 158. O Direito Internacional tradicional, vigente
753-774, esp. pp. 754-755 e 771. no início do século XX, marcava-se pelo vo-
153. J. Dabin, El Derecho Subjetivo, Madrid, Ed. luntarismo estatal ilimitado. Mas em meados
Rev. de Derecho Privado, 1955, p. 64. do século passado reconheceu-se a necessida-
de da reconstrução do Direito Internacional
154. Sobre o impacto deste Parecer Consultivo n.
com atenção aos direitos do ser humano, do
16 (de 1999) da CtIADH na jurisprudência
que deu eloqüente testemunho a adoção da
e prática internacionais contemporâneas, cf.
Declaração Universal de 1948, seguida, ao
A.A. Cançado Trindade, “The Humanization
longo de cinco décadas, por mais de 70 tra-
of Consular Law: The Impact of Advisory
tados de proteção hoje vigentes nos planos
Opinion n. 16 (1999) of the Inter-American
global e regional. Afirmaram-se, assim, com
Court of Human Rights on International Ca-
maior vigor, os direitos humanos universais.
se-Law and Practice”, in 6 Chinese Journal of
Já não se sustentavam o monopólio estatal da
International Law (2007) n. 1, p. 1-16.
titularidade de direitos nem os excessos de
155. Tão bem ressaltado, por exemplo, nos der- um positivismo jurídico degenerado, que ex-
radeiros escritos de Bertrand Russell, de Karl cluíram do ordenamento jurídico internacio-
Popper, de Isaiah Berlin, dentre outros; cf. B. nal o destinatário final das normas jurídicas:
Russell, “Knowledge and Wisdom”, Essays in o ser humano.
Philosophy (ed. H. Peterson), N.Y., Pocket Li-
159. A própria dinâmica da vida internacional
brary, 1960 (2a. impr.), pp. 498-499 e 502;
cuidou de desautorizar o entendimento tra-
K. Popper, The Lesson of This Century, Lon-
dicional de que as relações internacionais se
don, Routledge, 1997, pp. 53 e 59; I. Berlin,
regiam por regras derivadas inteiramente da
“Return of the Volksgeist: Nationalism, Good
livre vontade dos próprios Estados. O posi-
and Bad”, At Century’s End (ed. N.P. Gar-
tivismo voluntarista mostrou-se incapaz de
dels), San Diego, Alti Publ., 1996, p. 94.
explicar o processo de formação das normas
156. E nunca, como em nossos tempos, se verifi- do direito internacional geral, e se tornou
cou tanto aumento da prosperidade acompa- evidente que só se poderia encontrar uma
nhado de modo igualmente trágico de tanto

54
Os Indivíduos como Sujeitos do Direito Internacional

resposta ao problema dos fundamentos e da 168. Cf., para um estudo geral a respeito, A.A.
validade deste último na consciência jurídica Cançado Trindade, Direito das Organizações
universal, a partir da asserção da idéia de uma Internacionais, 5a. ed., Belo Horizonte, Edi-
justiça objetiva. tora Del Rey, 2012, pp. 7-838.
160. A. Truyol y Serra, La Sociedad Internacional, 169. Muito mais do que talvez se possa prima fa-
9ª. ed., Madrid, Alianza Editorial, 1998, pp. cie supor, a consciência jurídica universal
97-98 e 167. tem, efetiva e reiteradamente, sido invocada
161. Cf. A.A. Cançado Trindade, A.A. Cançado tanto nas formulações doutrinárias como na
Trindade, A Humanização do Direito Interna- prática internacional (dos Estados e das or-
cional, Belo Horizonte/Brasil, Edit. Del Rey, ganizações internacionais); cf. A.A. Cançado
2006, pp. 3-409. Trindade, “Le déracinement et la protection
des migrants dans le Droit international des
162. Consagrado no artigo 36 da Convenção de droits de l’homme”, 19 Revue trimestrielle
Viena sobre Relações Consulares de 1963 e des droits de l’homme - Bruxelles (2008) n.
vinculado às garantias do devido processo le- 74, pp. 289-328.
gal sob o artigo 8 da Convenção Americana
sobre Direitos Humanos. 170. Ao referir-me à “ordre public internacional”
no presente domínio de proteção, não utili-
163. Em virtude desse direito, toda pessoa deve zo a expressão no sentido clássico em que foi
ser imediatamente informada pelo Estado re- invocada em outros ramos do direito (como
ceptor de que pode contar com a assistência no direito civil ou no direito administrativo);
do cônsul do país de origem, antes de prestar tampouco a utilizo no sentido da conhecida
qualquer declaração ante a autoridade policial “exceção de ordre public” (de não-aplicação
local. Agregou a Corte que, em caso de impo- pelo juiz de determinadas normas de “direito
sição e execução da pena de morte sem a ob- estrangeiro”), própria do direito internacional
servância prévia do direito à informação sobre privado (em que é tema recorrente). Enten-
a assistência consular, tal inobservância afeta do que, no domínio do Direito Internacio-
as garantias do devido processo legal, e a for- nal dos Direitos Humanos, a noção de ordre
tiori viola o próprio direito a não ser privado public internacional se reveste de sentido
da vida arbitrariamente, nos termos do artigo inteiramente distinto, e de difícil definição,
4 da Convenção Americana e do artigo 6 do porquanto encerra valores que preexistem e
Pacto de Direitos Civis e Políticos das Nações são superiores às normas do direito positivo.
Unidas. Cf., a respeito, e.g., J. Foyer, “Droits inter-
164. Este Parecer, pioneiro na jurisprudência inter- nationaux de l’homme et ordre public inter-
nacional, tem tido notável impacto nos países national”, in Du droit interne au droit inter-
da região, que têm buscado compatibilizar sua national - Mélanges R. Goy, Rouen, Publ.
prática com o mesmo, buscando por um fim Université de Rouen, 1998, pp. 333-348; G.
aos abusos policiais e às discriminações con- Karydis, “L’ordre public dans l’ordre juridi-
tra estrangeiros pobres e iletrados (sobretudo que communautaire: un concept à contenu
os trabalhadores migrantes), frequentemente variable”, 1 Revue trimestrielle de droit eu-
vitimados por todo tipo de discriminação (in- ropéen (2002) pp. 1 e 25. E sobre a evolução
clusive de jure) e injustiça. A CtIADH deu as- da chamada “ordem jurídica comunitária”,
sim uma considerável contribuição à própria cf. também L.S. Rossi, “`Constitutionnali-
evolução do Direito neste particular. sation’ de l’Union Européenne et des droits
fondamentaux”, 1 Revue trimestrielle de droit
165. Audiências públicas de 28-29.01.1999 e
européen (2002) pp. 29-33. No âmbito do Di-
12.03.2001.
reito Internacional Público, a própria comu-
166. Quanto ao mérito, de 19.11.1999, e quanto nidade internacional necessita o conceito de
às reparações, de 26.05.2001. ordem pública (“international public order”),
167. Cf., e.g., A.A. Cançado Trindade, “Democra- de modo a preservar seus princípios jurídicos
cia y Derechos Humanos: Desarrollos Re- básicos; H. Mosler, “The International Socie-
cientes, con Atención Especial al Continente ty as a Legal Community”, 140 Recueil des
Americano”, in F. Mayor Amicorum Liber - Cours de l’Académie de Droit International
Solidarité, Égalité, Liberté - Livre d’Hommage de La Haye (1974) pp. 33-34; e cf. também,
offert au Directeur Général de l’UNESCO à a respeito, G. Jaenicke, “International Public
l’occasion de son 60e. Anniversaire, Bruxel- Order”, Encyclopedia of Public International
les, Bruylant, 1995, pp. 371-390. Law (ed. R. Bernhardt/Max Planck Institute),

55
Antônio Augusto Cançado Trindade

vol. 7, Amsterdam, North-Holland, 1984, pp. 67 Boletín de la Academia de Ciencias Políti-


314-318. cas y Sociales - Caracas (2000-2001) n. 137,
171. Nesse sentido, tem-se sugerido a emergência pp. 593-669.
de um verdadeiro jus commune dos direitos 175. Cf., e.g., A.A. Cançado Trindade, Tratado de
humanos no plano internacional; cf. M. de Direito Internacional dos Direitos Humanos,
Salvia, “L’élaboration d’un `jus commune’ des vol. II, op. cit. supra n. (53), pp. 412-420; J.A.
droits de l’homme et des libertés fondamenta- Carrillo Salcedo, “Droit international et sou-
les dans la perspective de l’unité européenne: veraineté des États”, 257 Recueil des Cours
l’oeuvre accomplie par la Commission et la de l’Académie de Droit International de La
Cour Européennes des Droits de l’Homme”, Haye (1996) pp. 132-146 e 204-207; M. Ra-
in Protection des droits de l’homme: la dimen- gazzi, The Concept of International Obliga-
sion européenne - Mélanges en l’honneur de tions Erga Omnes, Oxford, Clarendon Press,
G.J. Wiarda (eds. F. Matscher e H. Petzold), 2a. 1997, pp. 43-163 e 189-218.
ed., Köln/Berlin, C. Heymanns Verlag, 1990, 176. A.A. Cançado Trindade, Évolution du Droit
pp. 555-563; G. Cohen-Jonathan, “Le rôle international au droit des gens - L’accès des
des principes généraux dans l’interprétation
particuliers à la justice internationale: le
et l’application de la Convention Européen-
regard d’un juge, Paris, Pédone, 2008, pp.
ne des Droits de l’Homme”, in Mélanges en
81-184; R. Portmann, Legal Personality in
hommage à L.E. Pettiti, Bruxelles, Bruylant,
International Law, Cambridge, Cambridge
1998, pp. 168-169.
University Press, 2010, pp. 126-128, 243,
172. Estes valores são perfeitamente identificá- 271-277 and 283.
veis, ao longo da parte operativa dos tratados
177. A.A. Cançado Trindade, “International Law
e instrumentos internacionais de direitos hu-
for Humankind: Towards a New Jus Gentium
manos, mas explicitados sobretudo em seus
- General Course on Public International Law
preâmbulos. Estes últimos tendem a invocar
- Part I”, 316 Recueil des Cours de l’Académie
os ideais que inspiraram os respectivos tra-
de Droit International de la H a y e
tados e instrumentos (de importância para a
(2005), caps. IX-X, pp. 252-317.
identificação do “espírito” dos mesmos), ou
para enunciar seus fundamentos ou princí- 178. Cf., e.g., K. Parlett, The Individual in the In-
pios gerais. Cf., a respeito, e.g., N. Bobbio, ternational Legal System: Continuity and
“Il Preambolo della Convenzione Europea dei Change in International Law, Cambridge,
Diritti dell’Uomo”, 57 Rivista di Diritto Inter- Cambridge University Press, 2011, pp. 367-
nazionale (1974) pp. 437-438. Agrega o autor 372.
que o apelo aos valores, formulado freqüen- 179. Cf. ítem II, cf. supra.
temente nos preâmbulos dos tratados de di-
reitos humanos, “può assumere (...) l’aspetto 180. A.A. Cançado Trindade, O Direito Interna-
di un’indicazione: a) dei fini o degli obiettivi; cional em um Mundo em Transformação, op.
b) delle motivazioni; c) del fundamento della cit. supra n. (53), pp. 1039-1109.
decisione” tomada no processo de elaboração 181. A.A. Cançado Trindade, A Humanização do
do tratado em questão; ibid., pp. 439-440. Direito Internacional, op. cit. supra n. (2), pp.
173. Cf., nesse sentido, F. Sudre, “Existe t-il un 107-172.
ordre public européen?”, in Quelle Europe 182. Cf. A.A. Cançado Trindade, “The Right of
pour les droits de l’homme? (ed. P. Tavernier), Access to Justice in the Inter-American Sys-
Bruxelles, Bruylant, 1996, pp. 41, 50 e 54-67. tem of Human Rights Protection”, 17
- Para um estudo clássico do ordenamento ju- Italian Yearbook of International Law (2007)
rídico, que buscou transcender o puro norma- pp. 7-24; A.A. Cançado Trindade, “Die En-
tivismo, cf. Santi Romano, L’ordre juridique, twicklung des interamerikanischen Systems
Paris, Dalloz, 2002 [reimpr.], pp. 3-163. zum Schutz der Menschenrechte”, 70 Zeits-
174. Para um estudo de caso a respeito, cf. A.A. chrift für ausländisches öffentliches Recht
Cançado Trindade, E. Ferrero Costa e A. Gó- und Völkerrecht (2010) pp. 629-699.
mez-Robledo, “Gobernabilidad Democrática 183. A.A. Cançado Trindade, The Access of Indivi-
y Consolidación Institucional: El Control In- duals to International Justice, Oxford, Oxford
ternacional y Constitucional de los Interna University Press, 2011, pp. 1-236.
Corporis - Informe de la Comisión de Juristas
184. Para um estudo recente, cf. A.A. Cança-
de la OEA para Nicarágua (Febrero de 1994)”,
do Trindade, State Responsibility in Cases

56
Os Indivíduos como Sujeitos do Direito Internacional

of Massacres: Contemporary Advances in Nuits, 2006, pp. 53, 134, 220 e 228-229;
International Justice (Inaugural Address, J.A. Berry e C.P. Berry (eds.), Genocide in
10.11.2011), Utrecht, Universiteit Utrecht, Rwanda - A Collective Memory, Washington
2011, pp. 1-71. D.C., Harvard University Press, 1999, pp.
185. A própria multiplicidade dos tribunais inter- 3-4, 28-29 e 87; B. Bruneteau, Le siècle des
nacionais contemporâneos (um fenômeno génocides, Paris, A. Colin, 2004, pp. 41, 43,
alentador de nossos tempos) tem aumentado 222 e 229; E. Staub, The Roots of Evil - The
em muito o número de justiciables em todo Origins of Genocide and Other Group Violen-
o mundo, fomentando o acesso à justiça in- ce, Cambridge, University Press, 2005 [16th
ternacional na atualidade; cf., a respeito, A.A. printing], pp. 29, 103, 121, 142 e 227; R.J.
Cançado Trindade, “Reflexiones sobre los Tri- Bernstein, El Mal Radical - Una Indagación
bunales Internacionales Contemporáneos y Filosófica, Buenos Aires, Lilmod, 2005, pp.
la Búsqueda de la Realización del Ideal de la 110-111, 145 e 290-291.
Justicia Internacional”, in Cursos de Derecho 187. Cf. o meu Voto Arrazoado (pars. 1-231) no Pa-
Internacional y Relaciones Internacionales recer Consultivo da CIJ sobre a Declaração de
de Vitoria-Gasteiz / Vitoria-Gasteizko Nazio- Independência do Kossovo (de 22.07.2010).
arteko Zuzenbidearen eta Nazioarteko Harre- 188. Cf. o meu Voto Dissidente (pars. 1-214) no
manen Ikastaroak – Universidad del País Vas- caso da Aplicação da Convenção Internacio-
co (2010) pp. 17-95; A.A. Cançado Trindade, nal sobre a Eliminação de Todas as Formas de
“Os Tribunais Internacionais Contemporâne- Discriminação Racial (Geórgia versus Federa-
os e a Busca da Realização do Ideal da Jus- ção Russa, Sentença da CIJ de 01.04.2011); cf.
tiça Internacional”, 57 Revista da Faculdade também o meu Voto Arrazoado (pars. 1-184)
de Direito da Universidade Federal de Minas no caso recente das Questões Relativas à
Gerais (2010) pp. 37-67. Obligação de Julgar ou Extraditar (Bélgica ver-
186. Para relatos pessoais dramáticos, cf. Primo sus Senegal, Sentença da CIJ de 20.07.2012);
Levi, The Drowned and the Saved, N.Y., Vin- e cf. o meu Voto Arrazoado (pars. 1-118) no
tage, 1989 [reprint], pp. 11-203; J. Améry, Parecer Consultivo da CIJ sobre a Revisão de
At the Mind’s Limits, Bloomington, Indiana Sentença do Tribunal Administrativo da OIT,
Univ. Press, 1980, pp. 1-101. E cf. também por Reclamação do FIDA (de 01.02.2012).
os estudos de B.A. Valentino, Final Solutions: 189. Cf. o meu Voto Arrazoado (pars. 1-101) no
Mass Killing and Genocide in the Twentieth caso de A.S. Diallo (Guiné versus R.D. Congo,
Century, Ithaca/London, Cornell University reparações, Sentença da CIJ de 19.06.2012).
Press, 2004, pp. 17, 49, 55, 57, 71 e 235; Y.
Ternon, Guerres et génocides au XXe. siècle, 190. Cf. o meu Voto Dissidente (pars. 1-316) no
Paris, O. Jacob, 2007, pp. 14-15, 81-83, 138, caso das Imunidades Jurisdicionais do Estado
191, 279 e 376; G. Bensoussan, Europe - Une (Alemanha versus Itália, com intervenção da
passion génocidaire, Paris, Éd. Mille et Une Grécia, Sentença da CIJ de 03.02.2012).

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Antônio Augusto Cançado Trindade e a Humanização do Direito Brasileiro

ANTÔNIO AUGUSTO CANÇADO TRINDADE E


A HUMANIZAÇÃO DO DIREITO BRASILEIRO

···················
Antônio Celso Alves Pereira
Professor de Direito Internacional dos Programas de Pós-Graduação em Direito da Universidade do Estado
do Rio de Janeiro e da Universidade Gama Filho; Presidente da Sociedade Brasileira de Direito Internacional.

–I– rajosos e substanciosos votos, trazendo novos


ares à velha Corte, tradicionalmente acomodada
Honrado com o convite para participar do e conservadora, portanto, infensa aos apelos so-
Seminário A Função Judicial no Direito Interna- ciais da contemporaneidade. Em relação ao que
cional e a Humanização do Direito, evento aca- acabamos de afirmar, assevero que, ainda hoje, la-
dêmico promovido pela Faculdade de Direito Mil- mentavelmente, em diversos Tribunais nacionais
ton Campos, em Belo Horizonte, nos dias 2, 3 e e internacionais e, da mesma forma, no âmbito
4 de maio de 2011, em homenagem ao professor das comunidades acadêmicas do mundo, levados
doutor Antônio Augusto Cançado Trindade, juiz por arraigada filiação ao positivismo voluntarista,
da Corte Internacional de Justiça, apresento, em magistrados e autores de obras de Direito Interna-
seguida, a comunicação que tive o prazer de expor cional se mostram, em razão disso, incapazes de
no painel intitulado “Direito Internacional Públi- entender e acompanhar as mudanças sociais, po-
co e a Humanização do Direito Brasileiro”. líticas e culturais do nosso tempo. Não percebem
Caríssimo Professor Doutor Antônio Augus- a extensão das transformações que se operaram
to Cançado Trindade, senhoras e senhores. na natureza do Direito Internacional, a partir da
Preliminarmente, desejo salientar o que é do Declaração Universal dos Direitos Humanos e da
conhecimento de todos os presentes: é impossí- progressiva consolidação do Direito Internacional
vel, nos limites desse seminário, apresentar uma dos Direitos Humanos.2 Em seu voto concordante
completa avaliação da contribuição doutrinária na Opinião Consultiva 16/99 da Corte Interame-
e jurisprudencial do nosso homenageado para o ricana de Direitos Humanos, Cançado Trindade
processo de humanização Direito Internacional ensina o seguinte:
e, da mesma forma, do Direito Brasileiro. Mestre La corriente positivista-voluntarista, con su
incomparável, que, por sua obra doutrinária e por obsesión con la autonomía de la voluntad de
sua produção jurisprudencial, se destaca, inter- los Estados, al buscar cristalizar las normas
nacionalmente, como um dos mais importantes de ésta emanadas en un determinado mo-
construtores do Direito Internacional contem- mento histórico, llegó al extremo de concebir
porâneo, Antônio Augusto Cançado Trindade foi el derecho (positivo) independientemente del
juiz da Corte Interamericana de Direitos Huma- tiempo: de ahí su manifiesta incapacidad de
nos, entre 1994 e 2008. Sua atuação nesse Tri- acompañar los constantes cambios de las es-
bunal, do qual foi presidente entre 1999 e 2004, tructuras sociales (en los planos tanto interno
foi memorável e fundamental para a construção, como internacional), por no haber previsto
consolidação e efetividade do Sistema Interameri- los nuevos supuestos de hecho, no pudiendo,
cano de Proteção dos Direitos Humanos.1 Eleito por lo tanto, dar respuesta a ellos; de ahí su
de forma consagradora, em 2008, pela Assembléia incapacidad de explicar la formación histórica
Geral e pelo Conselho de Segurança das Nações de las reglas consuetudinarias del derecho in-
Unidas, juiz do mais alto tribunal do mundo – a ternacional. Las propias emergencia y conso-
Corte Internacional de Justiça –, Antônio Augus- lidación del corpus juris del Derecho Interna-
to Cançado Trindade, a exemplo de sua atuação cional de los Derechos Humanos se deben a
na Corte Interamericana, prossegue revolucio- la reacción de la conciencia jurídica universal
nando o Direito Internacional por meio de co- ante los recurrentes abusos cometidos contra

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