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Vieira, Silva, Oliveira, Oliveira, Melo Neto, Araújo & Alves 

SÍTIO ARQUEOLÓGICO “PEDRA DO


MUINHO”, CAETÉS, AGRESTE MERIDIONAL
DE PERNAMBUCO, BRASIL
ARTE RUPESTRE E COMUNICAÇÃO EM
CONTEXTO

Alexandre Gomes Teixeira Vieira teixeira_historia@live.com


Luiz José dos Santos Silva luizjosehis@gmail.com
Rogerio Ferreira de Oliveira prof_rogerio_oliveira@hotmail.com.br
Charles de Souza Oliveira charleskluivert@oltlook.com
Gabriel Barbosa de Melo Neto gabrielveterinario@hotmaiol.com
Marina de Sá Leitão Câmara de Araújo marina.araujo@upe.br
Prof. Dr. Adjair Alves adjair.alves@upe.br

RESUMO: A arte rupestre e sem sombra de dúvida um


importante registro da passagem do ser humano pelo Nordeste
do Brasil. O presente trabalho busca discutir as inscrições
rupestres enquanto agentes comunicadores entre os grupos
caçadores – coletores que habitaram a região Agreste de
Pernambuco, bem como enquanto registro sobre o povoamento
dessa região. Além da revisão bibliográfica sobre arte rupestre
em Pernambuco o trabalho contou com intervenções em campo
visando mapear e registrar as inscrições do sítio Pedra do
Muinho no município de Caetés – PE. Nesse sítio é possível
encontrar inscrições rupestres de tradição Agreste e Itacoatiara
dentro de um mesmo contexto e divididos em vários painéis
tendo três desses painéis um maior destaque visualmente
falando, onde estão inscritas as principais inscrições desse sítio.
Sendo assim este sítio apresenta grande potencial e diversidade
de escritos em um mesmo contexto.
Palavras – chave: Arte rupestre, comunicação, simbologia

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ABSTRACT: The rock art is undoubtedly an important record


of the passage of the human being through the Northeast of
Brazil. This paper aims to discuss the rock inscriptions as
communication agents between hunting-gatherers groups who
inhabited the region of Pernambuco hinterland, as well as to
record of the settlement of this region. Besides the literature
review on rock art in Pernambuco (PE), the work included field
on interventions which aimed to map and record the
inscriptions in the Muinho Stone site, in the municipality of
Caetés - PE. In this site you can find inscriptions of Hinterland
and Itacoatiara tradition within a context and divided into
several panels, with three panels being prominent, where the
main inscriptions of this site are listed. So this site has great
potential and diversity of writings in the same context.

Keywords: Rock art, communication, symbolism.

01.Introdução
A arte rupestre é de longe a principal fonte de registro
histórico e signológico dos grupos caçadores coletores da pré-
história, sendo que o Nordeste brasileiro apresenta um dos mais
ricos acervos de arte rupestre do mundo (MARTIN, 1996;
PESSIS, 2003). O estudo dessas manifestações gráficas é de
vital importância, pois é um registro fidedigno da experiência
de vida dos humanos primitivos (SILVA, 2012). As obras de
arte podem não servir de forma utilitária ao homem, mas
servem ao menos para que expressem seus sentimentos diante

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da vida e sua visão sobre o momento histórico em que viveram


(SANTOS, 2001).
O semiárido nordestino apresenta em quantidade
significativa essas representações rupestres em variadas
técnicas e tradições (MELLATI, 2007). Essa variedade de
representações gráfico-artísticas dos caçadores – coletores que
viveram nessa região semiárida em períodos históricos
passados tem chamado atenção de inúmeros estudiosos, tais
como Ferreira (2001), que inicia sua obra sobre o povoamento
do Agreste pernambucano tendo como ponto inicial sítios
arqueológicos localizados na Serra dos Cachorros nas
proximidades de Caruaru (PE), Laroche (1980), que catalogou
e datou sítios arqueológicos na região do município de Bom
Jardim, MARTIN (1996) que fez trabalhos de prospecção no
município de Venturosa, e AGUIAR (1986), que contribuiu
muito com suas produções bibliográficas para o estudo da arte
rupestre pernambucana, principalmente no que diz respeito à
tradição Agreste.
A região do Agreste Pernambucano foi ocupada por
populações pré-históricas. Isso pode ser constatado pela
variedade de sítios arqueológicos existentes nessa região, que
estão distribuídos por uma grande área. Os primeiros
povoamentos no Nordeste Brasileiro teriam ocorrido por volta

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de 40.000 anos AP na região do Piauí. Essas comunidades


seminômades teriam chegado à bacia hidrográfica do São
Francisco e se dispersado pelas bacias menores por volta de
18.000 anos AP (FERREIRA, 2001).
Entre essas bacias está a do Rio Ipanema, na qual está
localizado o vale do Riacho São José, em Pernambuco.
Recentemente nessa área foram encontrados sítios
arqueológicos nunca estudados, portanto sem datação, onde
estão inscritas pinturas rupestres representando imagens
abstratas integradoras da memória de grupos caçadores
coletores do passado pré-histórico do Agreste Pernambucano.
Elas estetizaram o meio ambiente imediato e registraram
momentos de pertença coletiva e/ou fatos relacionados à
natureza e ao seu modo de vida.
Este trabalho tem por objetivo fazer uma abordagem
antropo-arqueológica das pinturas e gravuras rupestres do sitio
“Pedra do Muinho” em Caetés - PE, dentro de seus padrões e
técnicas, partindo de uma análise crono-tecnológica e cultural,
interpretar o sitio correlacionando-o com o meio em que o
mesmo está inserido, bem como fazer um registro aprofundado
das inscrições rupestres nele existentes, tendo como objetivo
específico: interpretar as inscrições rupestres do sítio com base

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em padrões gráficos e crono-estilísticos, com base nas


descrições propostas pela Arqueologia em Pernambuco.

02.Material e métodos
02.1Área de estudo
O sítio arqueológico “Pedra do Muinho” está localizado
na zona rural do município de Caetés, na mesorregião do
Agreste Meridional do estado de Pernambuco e na
microrregião de Garanhuns domo meridional do Planalto da
Borborema, uma das principais áreas de vegetação úmida do
Agreste de Pernambuco segundo Andrade (1998), nas
coordenadas 08°46’22’’ S e 36°37’22’’ W. A área total do
município de Caetés é 329 km² (IBGE, 2010).
O sitio encontra-se nas coordenadas S 08° 46’13.1’’, W
036° 44’03.8’’, com altitude de 850m, em meio à área
remanescente de Caatinga, num afluente do Riacho São José,
conhecido como Filapa. O mesmo escoa para um riacho maior
chamado Firme e, em seguida, deságua no riacho principal, o
riacho São José. Foram encontrados outros sítios de interesse
arqueológico em toda a extensão do Riacho São José e
afluentes, bem como outros possíveis locais de ocorrência
arqueológica que carecem de mais observações.

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Entre as principais características do sitio está a


vegetação em seu entorno. Predominantemente, a vegetação
nos arredores do sitio é correspondente ao bioma Caatinga. As
espécies em destaque são: Braúna (Schinopsis brasiliensis
Engl.), Pau-ferro (Libidibia ferrea (Mart.ex Tul.) L.P.
Queiroz), Catingueira (Poincianella pyramidalis Tul.), Jurema-
preta (Mimosa tenuiflora (Willd.) Poir), entre outras espécies
lenhosas da Caatinga, também é possível observar pastagens e
plantas fluviais, que só ocorrem nos períodos chuvosos.
Evidencia-se a presença de marmitas e caldeirões nas
proximidades do sítio, que localiza-se em um curso d’água.

02.2 Procedimentos em campo


Os procedimentos feitos em campo para o registro do sitio
“Pedra do Muinho” começam com ensaio fotográfico das
inscrições rupestres do sitio e do entorno do mesmo, o que
inclui o registro da vegetação, relevo, formações rochosas além
do próprio sitio e vestígios humanos recentes provocados pela
agricultura nas proximidades do local.
Também foi utilizado o decalque em plástico
transparente, para preservar os grafismos, somando ao acervo
fotográfico. Para as inscrições em baixo relevo outros métodos
de decalque foram utilizados, tais como a utilização de

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marcadores sobre um plástico e papel 40, gravando todas as


marcas aparentes ou não a olho nu, permitindo o entendimento
dos grafismos em sua totalidade.
Informações dadas por moradores locais contribuíram
para esse trabalho, desde a coleta de informações de caráter
etnológico sobre o local até informações sobre a posição
geográfica do mesmo. O geoposicionamento do sitio foi feito
utilizando um aparelho GPS. Posteriormente as informações
foram tratadas, formando um banco de dados para a produção
geocartográfica sobre a área.

02.3. Análise de dados


Para compreender os padrões de comunicação criados,
as dimensões e as suas significações simbólicas, esse estudo
pede um campo multirreferenciado que aproxime
epistemologias, sem, no entanto, abrir mão de uma
racionalidade científica na perspectiva de caracterização das
estruturas simbólicas e suas variadas dimensões.
O método proposto por Aguiar (1986) na interpretação da
arte rupestre e classificação de suas tradições foi aplicado para
descrição e caracterização dos grafismos e gravuras do sítio
arqueológico, bem como os conceitos e descrições propostos
por Carvalho (2003). Os métodos articuladores deste trabalho

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foram baseados na interpretação dos padrões gráficoestilísticos,


correlacionando-os a partir da perspectiva etno-histórica e
promovendo discussões acerca das inscrições rupestres como
elementos de representação e comunicação humana e sua
relação com o meio onde viveram os humanos do passado do
Agreste Pernambucano.
Os dados adquiridos em campo foram analisados
consultando a bibliográfica selecionada dentro das temáticas
próprias da Arqueologia e áreas afins para esse trabalho. O
primeiro passo foi a seleção das imagens para o tratamento em
softwares próprios para tal fim, identificação e “interpretação”
dos signos registrados no sitio. As informações geográficas
coletadas em campo foram analisadas e tratadas, produzindo-se
a partir delas uma cartografia da área do sitio “Pedra do
Muinho”. As informações que resultaram na produção
cartográfica geraram um banco de dados contribuindo para o
trabalho no sítio arqueológico.
Um outro procedimento importante para a interpretação
dessas inscrições rupestres foi o tratamento das imagens
fotografadas através de softwares de edição de imagem,
utilizando ferramentas de realce, inversão e seleção das cores.
Esse tipo de método torna visível aquilo que não está aparente
a olho nu. Muitas das inscrições mais apagadas apresentam

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traços de pigmento avermelhado em seu entorno, apesar desse


pigmento não possuir uma forma aparente. Esse processo de
interpretação utilizando softwares de edição de imagem
permite uma compreensão das formas dos grafismos menos
preservados.

03.Resultados e discussão
03.1 Características do sítio
A descoberta do sítio se deu através de informações
fornecidas pelos moradores locais das comunidades no entorno
dos sítios Serrote, Exu e Montevideo, na zona rural de Caetés,
Agreste pernambucano. Segundo os mesmos, havia um lugar
onde existia um “muinho” (ferramenta rústica de pedra
utilizada para triturar grãos, principalmente milho) gravado na
rocha. Por esse motivo, o lugar é conhecido como Pedra do
Muinho.
Por estar situado num local de difícil acesso, o sítio
permaneceu em um bom estado de conservação. Entretanto,
segundo a comunidade local, um antigo morador teria tentado
arrancar as inscrições em baixo relevo (Itacoatiaras) do local,
pois, segundo a concepção imaginária da comunidade daquele
lugar, por trás da imagem haveria um suposto “reino
encantado” onde existiria ouro. Ao local ainda são atribuídas
características mágicas que tem relação direta com a
religiosidade popular, fazendo com que alguns moradores
tenham receio em ir até o local.

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Figura 1- localização do sitio “Pedra do Muinho”


no município de Caetés – PE

No sítio arqueológico “Pedra do Muinho” as inscrições


estão divididas em três “painéis” principais, cada um com
representações distintas. O primeiro apresenta um grande
painel com um conjunto de inscrições pintadas que toma quase
toda a formação rochosa onde estão os grafismos; também é
possível encontrar manchas e outros vestígios neste painel. O
segundo painel apresenta grafismos isolados, traços e uma
representação provavelmente zoomórfica encontrada também
em baixo relevo em outro painel. E no terceiro, inscrições

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grafadas em baixo relevo, concebidas pela técnica de raspagem


e polimento. Sendo assim, os grafismos do sítio podem ser
descritos como pertencentes às tradições “Agreste” e
“Itacoatiara”.
Além dos três paredões principais, vários outros pontos
da formação rochosa correspondente ao sitio “Pedra do
Muinho” apresentam inscrições rupestres e vestígios de
inscrições rupestres. Sempre em pigmento avermelhado, com
tons alaranjados em alguns pontos, essa coloração depende do
estado de conservação e luminosidade das inscrições em
particular. Dentre outras formas geométricas é possível
encontrar semicírculos, bastões, espirais e formas que lembram
triangulações. Outras formas de representação observadas
facilmente em quase todos os paredões, são linhas organizadas
na vertical e sempre de três em três.
As inscrições grafadas são encontradas sempre em um
pigmento avermelhado que entra em contraste com a cor da
própria rocha, onde ela está dificultando a interpretação de
algumas das inscrições. Os sinais grafados são círculos, linhas,
curvas e conjuntos de três linhas curtas sempre juntas. Também
foi possível identificar outras formas geométricas no sítio,
todas se relacionando umas com as outras. As inscrições em
baixo relevo são polidas. Além da inscrição que dá nome ao

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sítio, que é um círculo com sulcos na direção do centro, onde


existe um polimento arredondado, há outras inscrições que
lembram motivos encontrados nos grafismos, como padrões de
três linhas e picoteamento. E algumas que lembram um motivo
zoomórfico também foram encontradas em destaque no lugar.

Figura 2 – Pinturas rupestres do sítio Pedra do Muinho. 02 –


Itacoatiara que dá nome ao sítio. 03 – um dos três painéis com arte
rupestre do sítio. 04 – Visão geral dos afloramentos rochosos que compõem
o sítio arqueológico e seus arredores.

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Figura 3 – Painel com pinturas rupestres. 02 – inscrição zoomórfica do


segundo paredão. 03 – painel com itacoatiaras. 04 – visão geral do sítio
arqueológico.

A prática gráfica foi a maior resposta do ser humano


primitivo às intempéries do meio onde vivia (CHILDE, 1988;
PESSIS, 2003; COOK, 2005). Dentro da prática gráfica
concebida por arte rupestre, estão impressos elementos
comunicativos próprios do ser humano. Os registros e
representações da memória do ser humano surgem diante de
experiências vivenciadas que possuem algum valor para
aquele(s) que manifesta(m) suas sensações diante de um
determinado momento e de um meio.

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Visto que toda forma de arte implica em um sistema de


linguagem e comunicação, e sendo a linguagem uma
característica essencialmente humana (JOVANOVIC, 1987),
sendo assim, as inscrições rupestres encontradas no sítio Pedra
do Muinho são de fato documentos históricos, testemunhos de
um período histórico e da passagem humana pelo Agreste
Pernambucano, visto, que todo vestígio da presença humana
em um lugar é uma fonte para interpretação de sua história (LE
GOFF e NORA, 1988).
As práticas arqueológicas para a compreensão das
relações sociais não são feitas apenas a partir da coleta de
materiais avulsos, mas de todo o contexto do sítio arqueológico
e das possíveis relações entre o meio e o homem (PROUS,
2006). A vida cotidiana em si não deixa vestígios que podem
ser lidos de fato, apenas os utensílios, marcas, restos biológicos
e as manifestações gráficas deixadas pelos homens e mulheres
da “pré-história” podem apresentar um desenho para
compreender o contexto histórico e social em que viveram,
sobretudo em condições improvaveis.
Esses vestígios e registros de experiências do passado
são encontrados em abundancia na região Agreste de
Pernambuco, e no vale do São José onde está inserido o sítio
Pedra do Muinho, os vestígios de arte rupestre nessa região

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permitem uma leitura e interpretação da história desse lugar,


sendo essas inscrições registros da experiência de grupos que
teriam habitado essa região, de fato isso pode ser observado,
talvez até em um único sitio que apresenta técnicas e grafismos
distintos de um painel para outro (ACENE, 2013).
A arte rupestre é o mais significativo dos registros do
passado humano, principalmente em uma região como a do
vale do São José em Caetés e o Nordeste brasileiro como um
todo, onde todos os grupos étnicos conhecidos com a chegada
dos colonizadores europeus possuíam apenas a oralidade como
ferramenta de perpetuação de conhecimento. Além da fala, é na
arte que o ser humano manifesta toda sua realidade e
identidade cultural e social, além de reconhecer como
pertencente a um determinado espaço social.
À medida que as práticas culturais se ampliam, o ser
humano tende a transformar o espaço intocado ao menos em
objeto de contemplação, o que dá ao grupo que ali vive uma
característica de pertença, transformando o meio em um fruto
próprio da produção histórico-cultural (SANTOS, 1996). No
que hoje corresponde a região Agreste é possível perceber os
espaços trópicos como ambiente hostis à habitação humana.
Porem as inscrições deixadas por seres humanos nessa região
mostram que essa região foi palco para experiências culturais

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únicas fruto da relação que os seres humanos criam entre eles e


o meio onde estão inseridos e, das sensações que esse meio
proporciona.
Assim como a humanidade hoje, atribui significados e
padrões estéticos para o semiárido nordestino, em períodos
passados da história dessa região o ser humano também atribui-
o significados sobre a mesma, criando nesse espaço um
registro, fruto das experiências vividas num contexto territorial.
Esse registro é o da arte rupestre. Um registro de experiências
vividas que conseguiu resistir as intempéries desse meio
apresentado com formas hostis a possibilidade de permanência
e habitação de grupos humanos.
O conjunto signográfico, criado por esses homens em
meio a um contexto único, impôs uma criação estética.
Intersubjetivamente modificaram a natureza em que viviam e
apropriando-se desse meio ambiente inscreveram o “novo”,
uma memória estetizadora do “eu” e/ou do “nós”, consciência
de sua existência. Eles registraram e reproduziram nas rochas
não só o meio imediato, mas todos os elementos coletivos,
elementos esses inimagináveis se tratando dos grafismos puros
do sitio “Pedra do muinho” que apresenta predominantemente
formas sem nenhuma interpretação possível. Outros sítios que
apresentam grafismos de composição e de ação deixam claras

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as experiências religiosas, caçadas, relações sexuais etc., que


foram de fato experiências do coletivo desses grupos e se
tornam aparentes nessas outras técnicas de representação.
Tais registros sígnicos foram produzidos com certa
técnica, porém a partir de um contexto histórico-cultural único,
pois o ser humano interpreta o meio, de modo a satisfazer suas
necessidades, se apropria dos recursos ali existentes e recriando
assim seu ambiente de convívio (BERNARDES e FERREIRA,
2010). Fenomenologicamente, esse estágio tecnológico,
psicológico e comunicativo encontrado nas manifestações
artísticas dos caçadores coletores do vale do São José bem
como em todo Agreste Pernambucano são de fato um relato de
sua experiência vivida.
A área no entorno desse sítio arqueológico é
caracterizada pela vegetação característica da Caatinga, a qual
passou pelo processo de desmatamento, seja para dar lugar à
agricultura de subsistência ou para a pecuária de bovinos e
caprinos, visto que o ser humano se utiliza dos recursos
materiais/naturais segundo às suas necessidades e cria uma
relação direta com o meio onde vive. O aproveitamento e a
relação com o meio são compostos pelos aspectos naturais que
se naturalizam e torna-se agradável ao convívio da
humanidade. Ele absorve, interpreta e cria a realidade imediata,

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e a própria relação diária do ser humano com o meio deixa um


vestígio material.
O espaço sem habitação não tem sentido (SANTOS,
1996). É a capacidade humana de modificar e se modificar em
relação ao meio que permitiu-lhe desenvolver tecnologias e
descobrir meios que permitiram sua evolução biológica, dentro
de um processo cultural, característica que fez o ser humano se
sobressair entre outras espécies.
As práticas agropecuárias levaram à exaustão dos
recursos naturais bem como a modificação intensa da
paisagem, descontextualizando o sítio de sua relação original
com o meio. Esses processos modificaram as feições de toda a
região e permitiram uma ressignificação dos aspectos naturais
existentes no entorno do vale. Com isso a relação
homem/natureza está cada vez mais confusa. O ser humano
necessita dos recursos naturais, mas a não sofisticação das
técnicas de manejo acabam por prejudicar essa relação, com
prejuízo para o meio e o próprio homem.
Em relação ao sítio arqueológico “Pedra do Muinho”,
segundo depoimento de um morador local, “...os mais velhos
acreditavam que lá existia uma chave, e quem descobrisse a
chave encontraria muitas riquezas e um suposto “reino
encantado”. Segundo Costa (1980):

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Perto de Piracuruca, no Piauí, num


ermo, afloram, por entre a rasteira
vegetação do carrascal, inúmeros
rochedos de bizarras formas
esculturadas pelas erosões
milenáres.Com certa dose de
imaginação, o sertanejo nelas vê ruas
alinhadas, arcos de triunfo, catedrais,
estátuas e outras coisas urbanas. Estão
agrupadas em sete posições distintas e
disso lhes veio o nome de “sete
cidades”. Contam que ali jazem sete
belíssimas cidades encantadas por
artes mágicas em tempo remotíssimo. O
mistério daquelas rochas curiosas
naquela região deserta e semi-árida, as
inscrições rupestres betadas de tinta
vermelha, que semeiam as lajes, as
formas arquiteturais que se perfilam no
horizonte, quando a gente se aproxima
do lugar, tudo isso contribuía para a
formação da lenda (COSTA, 1980)
Normalmente, os sítios arqueológicos despertam
diferentes interpretações entre aqueles que os observam com
olhar leigo. O relato vindo do Piauí vem de encontro ao relato
referente ao sítio Pedra do Muinho; atribuições divinas e
mágicas sobre as inscrições rupestres são comuns em todo o
Nordeste brasileiro. Ainda sobre a Pedra do Muinho, um
morador relatou: “...eu acreditava que aquilo tinha sido deixado
por Cristo quando esteve aqui na terra”.

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Como o principal referencial religiosos para as


comunidades do entorno do sitio “Pedra do muinho” é o
referencial cristão, os moradores atribuem um sentido
religiosos a quase todos os fenômenos que não conseguem
explicar. Como pontua Aguiar (1996), não podemos
desvincular as inscrições rupestres do fator religiosos, a autora
ainda aponta de forma indireta que as inscrições de tradição
Itacoatiara podem possuir uma relação com cursos d’água, essa
relação seria de cunho religioso.
Enfim, o sitio arqueológico “Pedra do muinho” conta com
pelo menos seis painéis contendo inscrições rupestres três deles
bem preservados, em todos é possível compreender as formas
registradas nas rochas o que facilita alguma interpretação.
Predominantemente as inscrições do sitio são grafismos de
tradição Agreste, sempre grafismos puros, com poucas
exceções insertas e, apenas um dos painéis com grafismos em
baixo relevo, Itacoatiaras.
Esses signos e, esse tipo de representação são de grande
valor, pois são poucos os sítios que apresentam de forma
sistêmica como é o caso de “Pedra do muinho”, grafismos com
técnicas e de tradições diferentes. Sendo assim, como qualquer
obra de arte as inscrições do sitio arqueológico “Pedra do
muinho” são únicas.

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04.Conclusão
O presente estudo feito na área do vale do São José no
município de Caetés, Agreste Pernambucano, revelou que o
mesmo possui um grande potencial arqueológico, e que com
estudos mais aprofundados. Será possível preencher algumas
lacunas ainda existentes acerca do povoamento do atual Estado
de Pernambuco, pelas comunidades que aqui viveram num
período pré-colonial, bem como incluir mais uma grande área
de ocorrência de material arqueológico nos roteiros de pesquisa
e turismo do estado de Pernambuco.

Desde já fica claro que as manifestações gráfico-


estilísticas encontradas no município de Caetés e sua grande
variedade e quantidade. Isso mostra que essa área ainda sem
estudos, tenha sido intensamente povoada em vários períodos
passados por comunidades seminômades distintas, que
habitaram a região em vários períodos diferentes, e ali
deixaram um riquíssimo acervo de arte rupestres que permite
uma leitura nova das manifestações culturais num passado pré-
histórico no agreste pernambucano.

As inscrições do sítio arqueológico Pedra do Muinho


apresentam diversidade de técnica, diferenciando-o de outros

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sítios com o mesmo tipo de inscrição conhecidos em outras


regiões e também no vale, ainda é preciso um trabalho mais
intenso no local, interpretações e comparações com outras
inscrições rupestres dentro e fora da área de estudo, também
podem contribuir para correlacionar os signos, e em trabalhos
futuros oferecer informações precisas sobre os povos que ali
viveram.

05.Agradecimentos
À Universidade de Pernambuco - Campus Garanhuns e
o programa de bolsa PIBIC/PFA. À Escola de Referência em
Ensino Médio (EREM) Luiz Pereira Junior, por ceder espaço e
acolher a pesquisa. À toda a equipe de trabalho do projeto
“Uma abordagem Antropo-arqueológica, Geográfica e
Biológica de sítios arqueológicos no Agreste meridional de
Pernambuco”. Aos professores: Bruno Câmara, Clovis Gomes.
À Gisele dos Santos, João Luís, Wirlan Pageú, Luiz Gustavo,
Rafael Brasil, Alexandre Silva, Lucian Ferreira, Raidone Luiz,
Marcos Antonio, Jheferson, Daniel, Marcelmo e Jucelino, pelo
apoio em vários momentos da pesquisa e, aos membros das
comunidades do entorno do vale do São José que tem
contribuído para este e outros trabalhos, em especial aos Sr.
João dono da propriedade onde está localizado o sitio
arqueológico “Pedra do Muinho”.

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