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DIREITO INTERNACIONAL PRIVADO (práticas)

Livro “conflitos de leis” de Florbela Almeida Pires – Coimbra Editora. Contém anotações aos artigos 14º a 22º do
Código Civil, artigos que vamos aprofundar nas aulas

Legislação – coletânea de Dário Moura Vicente ou fazer a própria + Código Civil

Casos práticos:

1. Matéria sobre o reenvio e qualificação – livro da Associação


2. Livro de casos da Elsa (MUITO importante)

Avaliação: teste que vale 20% + 30% participação + 50% exame

Ano4.subturma12@aafdl.pt – mail da subturma

Ramo do Direito que tem por função a regulação de situações transnacionais e a sua regulação – definição de DIP. Os
problemas de DIP surgem quando a situação é privada e internacional

Situação transnacional – tipicamente são 3:

1. Saber qual o direito aplicável


a. Resolvido pelas normas de conflitos
2. Quem tem competência (tribunal)
3. Reconhecimento de decisões estrangeiras
a. Resolvido pelas normas de reconhecimento que integram o direito de reconhecimento, setor
também do DIP
b. Problema que só se põe quando há ordem proferida no estrangeiro que se queira que seja
reconhecida em Portugal
i. O único problema que surge sempre em DIP é o primeiro, do direito que é competente

Qual o tribunal competente? – normas de competência internacional

Qual a lei competente? – normas de leis de conflito

Normas de reconhecimento em caso de perguntas sobre uma decisão estrangeira proferida no estrangeiro que se
quer que seja reconhecida em Portugal ou noutro Estado que não o da decisão

CASO PRÁTICO Nº1

Norma de conflito – norma que pode não dar a solução para o caso concreto mas dá-nos a lei/ordenamento jurídico
que se vai ter que utilizar para responder ao mesmo. Não é sinal de que há conflito de soberanias mas sim entre
competências legislativas de vários Estados. Resolve problemas para situações que não estão ligadas unicamente a
um Estado soberano. Perante situações ligadas a vários ordenamentos jurídicos. Por exemplo, se fosse um
casamento entre portugueses em Portugal não haveria problema nenhum. A norma de conflitos não toca no poder
legislativo de cada Estado soberano mas sim no caso concreto, no que respeita a Estados soberanos diferentes e
para o qual não se tem ainda uma regra definida

Questão da lei alemã apresentar solução diferente da francesa e da portuguesa apresenta-nos um conflito de
sistemas

Lei da residência habitual – norma de conexão (liga uma situação da vida a determinado ordenamento jurídico):
característica das normas de conflito, juntamente com a característica da norma formal e da norma de regulação
indireta

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Na alínea A) é-nos referido que não existem normas de conflito e é aplicado o direito material comum como método
de regulação de situações privadas internacionais

Aplicação do direito material comum – tratar uma situação transnacional como se direito interno se tratasse.
Aplicando-se o direito material comum, se a questão se colocasse em Portugal, aplicar-se-ia o direito português. Se
se colocasse em França, o francês. Já se se colocasse na Alemanha, aplicava-se o alemão.

Vantagem: tribunais não têm que aplicar o direito das normas de conflito. Técnica de regulação direta que
prescinde de normas de conflito + maior familiarização dos órgãos de aplicação do Direito com o seu direito material
interno do que com o estrangeiro

Desvantagens: admitindo que a lei alemã impede o casamento de António, ao contrário da lei francesa e da
lei portuguesa que o permitem, isto iria violar o princípio da confiança dos nubentes que queriam o seu casamento
válido, caso se utilizasse a lei alemã + frustração de expetativas dos interessados + Direito aplicável não previsível,
levando a desarmonia internacional de soluções

Aula de 03-10-2017

Direito Internacional Privado – ramo do direito que regula as situações transnacionais

No núcleo/base do DIP estão as situações transnacionais. Daqui resulta logo que, se a situação é interna, não há que
chamar o DIP a atuar. Durante o curso inteiro temos resolvido situações internas. Agora, é diferente. Já não
recorremos só ao direito material português.

É preciso que a situação seja transnacional para que se possa aplicar o DIP

Os problemas que se põem por a situação ser transnacional e serem resolvidos pelo DIP têm que ver com:

1. O tribunal competente
a. Normas de competência internacional. O Direito da competência internacional é um dos setores do
DIP
b. Problema que nem sempre se põe
2. A lei aplicável
a. Perante situação transnacional isto é preciso para descobrir o regime jurídico. Problema resolvido
pelas normas de conflitos (Direito de Conflitos – setor do DIP)
b. Há DIP que não é Direito de Conflitos porque é direito da competência internacional ou direito do
reconhecimento
c. Problema que se põe sempre
3. O reconhecimento
a. Efeitos proferidos num ordenamento jurídico por decisão de outro ordenamento jurídico. Resolvido
pelas normas de reconhecimento (Direito do reconhecimento, também setor do DIP)
b. As normas de reconhecimento necessitam, desde logo, de uma decisão proferida no estrangeiro. Se
não houver, não se aplica o Direito do Reconhecimento

A situação tem que ser transnacional mas também litigiosa para que se possa chamar o DIP

Art. 46º - Norma de conflitos. Responde apenas à pergunta de qual é o direito competente. Nunca o tribunal

Porque é que há normas de competência internacional e normas de conflitos? Porque há diferenciação? – Porque
são dois problemas muito diferentes. Para se atribuir competência a um tribunal muitas vezes basta que se tenha
que responder a questões, por exemplo, de interesse de assegurar a competência de um tribunal que está próximo
da prova. Os problemas da competência de um direito (lei aplicável) são muito diferentes. Os interesses subjacentes
a uma coisa não são os mesmos interesses subjacentes a outra
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Caso da empresa com sede em França e Portugal: admitindo que se tratava de contrato de compra e venda. França é
vendedora. Portugal, comprador. O tribunal português queria saber se o contrato tinha sido incumprido, como se
aplicava, etc. Todo o regime seria em princípio aplicado pelo Direito Francês por ser a lei da residência habitual da
sede vendedora. Teria que se ver as normas de conflitos porque falamos na lei aplicável, não no tribunal.

Em determinados casos há, no entanto, uma relação de perfeita harmonia entre o direito de conflitos e o de
competência internacional. No entanto, são situações excecionais. Por exemplo, o tribunal ser competente porque é
atribuída competência a um direito que nele vigora (ex: art. 62º/c) CPC – tribunal português competente se houver
norma de conflitos a atribuir competência ao direito português). Noutros casos pode acontecer ser atribuída
competência a um direito em função do tribunal competente (ex: art. 276º CIRE)

Só vamos falar em DIP no direito de conflitos. O direito da competência internacional foi dado em Processo Civil, o
direito do reconhecimento é de DIP II.

Direito de Conflitos – setor do DIP, tendo este por objeto situações transnacionais e a regulação da mesma. Esta
regulação é feita através da determinação do direito competente, do direito aplicável.

A noção de situação transnacional varia de setor em setor, no DIP. Para efeitos de competência internacional, uma
situação transnacional não é necessariamente o mesmo para situações de normas de conflitos ou normas de
reconhecimento. Quando estudamos o direito de conflitos, é a propósito deste que vamos definir “situação
transnacional” e não para todo o DIP.

Situação transnacional (para efeitos do Direito de Conflitos) – pode dizer-se que estas correspondem às situações
que têm contactos juridicamente relevantes com dois ou mais ordenamentos jurídicos soberanos. Estão sempre em
causa dois ou mais Estados soberanos. A nota da soberania é importante porque, muitas vezes, o problema de
determinação do direito competente põem-se não em situações transnacionais mas do mesmo Estado, que estão
em contacto com o mesmo ordenamento jurídico. Isto não é resolvido pelo DIP. É o que acontece, por exemplo, nos
Estados federais. Se um cidadão que vive em Nova Iorque quiser casar com cidadã com residência habitual na
Califórnia e quiser casar-se noutro Estado, o oficial do casamento tem que determinar qual a lei a aplicar. No
entanto, isto passa-se dentro do mesmo Estado soberano. Assim, usava-se normas de conflitos mas não do DIP,
porque não estamos perante situação transnacional mas sim situação interna plurilocalizada/conflitos interlocais.
São sim também resolvidos por um direito de conflitos, o direito de conflitos interlocal. O oficial que ia celebrar o
casamento teria que atender a este direito.

Direito de conflitos interlocal – art. 20º/1 CCivil

Tem de haver “contactos com dois ou mais ordenamentos jurídicos soberanos”. Estes contactos, apesar de já terem
defendido que bastava qualquer contacto factual por mais leve que fosse, bastavam. No entanto, esta ideia é
criticada. Supondo que um português vive em Faro e envia através de uma empresa de transportes uma carta
armadilhada dirigida a português em Bragança. O segundo abre a carta e ela explode. Pretende responsabilizar o
primeiro. No entanto, a empresa de transportes fez todo o trajeto por Espanha por ser mais fácil ir por lá. Isto não é
um contacto relevante. É um contacto factual mas não é relevante para a situação em causa. Estamos perante,
então, nitidamente uma situação interna. O DIP não teria que intervir. Porquê, resumidamente? O português queria
intentar ação contra outro português. Queria uma indemnização (responsabilidade civil extracontratual). Teria que
ser ver qual a regra de conflitos aplicável à responsabilidade civil extracontratual. Relativamente a esta matéria não
há nenhum elemento de conexão que coincida com uma questão de algo que passou por um ordenamento jurídico
estrangeiro (contacto factual). Local – Portugal; residência dos sujeitos – Portugal; nacionalidade – Portuguesa. Tudo
aponta para Portugal. Assim, estamos perante situação interna e não situação transnacional

Quando é que os contactos são relevantes? – Quando são juridicamente relevantes. Quando é que são
juridicamente relevantes? Quando são relevantes para as normas de conflitos. Quais são os contactos relevantes

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para o direito de conflitos? São aqueles que correspondem aos elementos de conexão usados pelas normas de
conflitos do foro, ou pelo direito de conflitos dos Estados em contacto com a situação ou pelo direito de conflitos
dos Estados mais representativos do DIP. Tendo em causa estes elementos de conexão, estaremos de certeza
perante uma situação transnacional

Temos de recorrer às normas de conflitos aplicáveis à matéria em causa. Daqui deriva que a situação transnacional,
para além de variar de setor em setor no DIP, também no Direito de Conflitos varia de matéria em matéria. É preciso
recorrer às normas de conflito aplicáveis à matéria em causa (ex: cabo verdiano vive a 30 anos em Portugal e nunca
adquiriu nacionalidade portuguesa. Decidiu tirar o curso de Direito. Vai à livraria da Associação (empesa com sede
em Portugal) e compra lá um livro. Teríamos que recorrer às normas de conflitos do contrato e ver se estas
atribuíam ou não relevância à nacionalidade. Em 98% dos casos a nacionalidade não tem relevância nenhuma para
efeitos de determinação destas situações. O contrato era interno.

A nacionalidade pode, em alguns casos, ter relevância no domínio dos contratos, apesar de muito excecionalmente
(art. 7º/3 c) regulamento nº1)

Se quiséssemos saber, no caso do cabo verdiano, não algo sobre o contrato de compra e venda do livro mas sim se
ele tem capacidade, isto já era situação transnacional

Função do Direito de Conflitos:

Determinação do direito aplicável – determinação do direito material aplicável, isto é, as normas de conflito, quando
remetem para um direito/uma lei, é sempre para um direito ou para a lei material

Se o Direito de Conflitos tem por função determinar o direito material competente não estamos a falar de direito
processual. É claro que o tribunal português, diante situação transnacional, não tem que determinar o direito
processual competente. O tribunal cível português, diante de uma situação transnacional, aplica a nossa lei
processual civil

A norma de conflitos remete sempre para direito material e nunca processual

Lex-fori – lei do foro

Foro – lugar onde a situação está/vai ser resolvida. O Estado do foro pode ser o Estado em que a situação
transnacional vai ser resolvida. O tribunal do foro é o tribunal em que a situação vai ser resolvida

Não confundir tribunal do foro ou lei do foro com tribunal português ou lei portuguesa. Tanto podem ser
portugueses como estrangeiros

Lex-causal – lei da causa, lei competente, é sempre lei material. Não confundir a lei da causa com a lei estrangeira. A
lex causal pode ser estrangeira ou portuguesa. A norma de conflitos portuguesa pode remeter, em alguns casos,
para a lei portuguesa, sendo ela a lex causal

Admitindo que a questão está a ser resolvida em Portugal – como vamos interpretar os casos práticos porque
partimos sempre do princípio que a lex-fori é em Portugal

Resolução do caso prático nº1

A. Aplicação direta de direito material comum


a. Não havendo direito de conflitos, António podia casar em Portugal aplicando-se o direito material
comum português, tendo em conta a lei da residência habitual
b. Não havendo direito de conflitos, António, sendo aplicada a lei da nacionalidade que não permitia o
seu casamento na Alemanha, não podia casar neste país

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c. Não havendo direito de conflitos e permitindo a lei da residência habitual a António casar na França,
este podia casar na França aplicando o direito material comum deste país
i. Técnica de regulação das situações transnacionais pelo direito material comum. O que se
aplica a situações internas também se aplica a transnacionais
ii. Teoricamente inaceitável e ilícita. Só tem relevo na prática
iii. Numa sentença é objeto de recurso. No ato de um conservador/notário muito facilmente se
pode impugnar este caso
iv. A aplicação do direito material comum tem desvantagem principal: desarmonia
internacional (frustração de expetativas, insegurança jurídica, fórum shopping) mas também
tem vantagens óbvias (ex: mais fácil, prescinde de normas de conflito)
B. Existem normas de conflito/aplicar direito de conflitos existente:

a., b, e c) Aplicar a norma de conflitos portuguesa que regula a matéria da capacidade para celebrar
casamento (art. 49º + 31º/1 que remetem para a lei da nacionalidade). Em Portugal, o conservador
português aplicaria, então, a lei alemã. Mas imaginemos que o António, em vez de se dirigir ao
conservador português dirigia-se ao alemão. Este remetia também para a lei da nacionalidade, logo
direito alemão. Se se dirigisse a conservador francês (direito do foro era o direito francês) o conservador
francês aplicava a norma de conflitos francesa que mandava aplicar também o direito da nacionalidade,
logo a lei alemã

Resolução do caso prático nº2

a) Estado do foro seria o português. Em Portugal aplicar-se-ia norma de conflitos portuguesa (49º + 31º/1). Lei
portuguesa remetia para a lei da nacionalidade que seria a brasileira
b) Admitindo que o direito brasileiro é o direito do foro. Luisão dirigia-se a conservador brasileiro que aplicaria
a norma de conflitos brasileira (CCivil brasileira) que diz que é competente a lei do domicílio/da residência
habitual, logo a portuguesa

Em matéria de estatuto pessoal é sempre lei da nacionalidade menos nos Estados da América Latina que pretendem
sempre que se use a sua própria lei

Para que haja harmonia internacional é preciso que o elemento de conexão seja o mesmo e seja interpretado e
aplicado da mesma maneira

Solução final do caso não era que a portuguesa remetia para a brasileira e a brasileira para a portuguesa. Por força
do artigo 18º CCivil e por força do reenvio, aplicava-se a lei portuguesa, que serve para conseguir situações de
harmonia internacional

Nota sobre o caso de António: Supondo que o António era alemão e português, podia acontecer que em Portugal
não se aplicava a lei alemã, mesmo tendo dupla nacionalidade, aplicando-se a portuguesa porque é uma das suas
nacionalidades.

Aula de 12-10-2017

Plataforma E-learning – programa desenvolvido + legislação principal + bibliografia á disponíveis

Esquema sobre planos, processos e técnicas:

4 planos de regulação:

1. Plano estadual – situações reguladas por órgãos fundados no direito de um Estado e esses órgãos aplicarem
direito que vigora nesse Estado; normalmente é o Direito de Conflitos mas pode também ser o direito
material especial, o direito material de fonte internacional, etc. É o plano que vamos estudar
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a. Aplicação do direito de Conflitos
b. Aplicação do direito material comum
c. Aplicação do direito material especial de fonte interna
d. Aplicação de direito material de fonte estadual, independentemente de uma ligação com um dos
Estados contratantes
i. Em regra direito unificado ou então direito uniforme (aplica-se tanto a situações internas
como situações internacionais)
e. Normas autolimitadas/de aplicação imediata
f. Normas de reconhecimento
2. Plano DIP
3. Plano DUE
4. Plano direito autónomo e comércio internacional

Identificamos estes planos olhando para o órgão que vai resolver a questão e para o direito que vai aplicar

Processos da regulação:

a) Direta – aplicação direta do direito material


a. Utilizado direito material comum
b) Indireta – traduz-se na aplicação/utilização de normas de conflitos
a. Utilizado direito de conflitos
b. Na grande maioria dos casos a aplicação de direito material especial de fonte interna é indireta mas
há casos excecionais em que é direta
c. Na grande maioria dos casos a aplicação de direito material de fonte internacional também é
regulação indireta apesar de haver exemplos históricos de regulação direta
d. Aplicação de normas autolimitadas (opinião de Lima Pinheiro e tradicional, apesar de haver quem
entenda que é regulação direta)
e. Aplicação de normas de reconhecimento

Regulação direta presente em todas as técnicas menos na aplicação de direito material comum

AULAS:

1. 3 aulas normas de aplicação imediata


2. Meia aula ao direito de reconhecimento

Normas de conflitos principais que vigoram no nosso ordenamento jurídico, de caráter geral, constam do CCivil e dos
Regulamentos que vamos estudar (Roma 1, 2, 3 e 5). No CCivil interessam os artigos 14º a 65º. São as normas que
vamos utilizar para resolver os próximos casos práticos.

No entanto, nem todas as normas dos artigos 14º a 65º são normas de conflitos. Há algumas que são normas de
Direito de Conflitos mas apenas como auxiliares das verdadeiras normas de conflitos.

Art. 14º a 23º não são normas de conflitos. Sim, estamos no domínio de direito de conflitos mas não são normas de
conflitos

Art. 15º - matéria de qualificação. (Maria Inês Colaço – ver)

Art. 16º, 17º, 18º e 19º - matéria do reenvio

art. 23º - interpretação e averiguação do direito estrangeiro mandado aplicar pelas normas de conflitos

Normas de conflitos propriamente ditas – arts. 25º a 65º (quase todas)

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Há uma sistematização da secção dos arts. 25º a 65º decalcada do plano do direito subjetivo do CCivil.

Arts. 25º a 33º - lei aplicável em matéria de estatuto pessoal. Pessoas singulares – 25º a 32; pessoas coletivas – 33º

Teoria geral do direito civil – arts. 35º a 40º

41º a 45º - obrigações

46º a 48º - reais

49º a 61º - família

62º a 65º - sucessões

Muitas destas normas já têm âmbito de aplicação muito limitado. O art. 25º é uma norma de conflitos de caráter
geral. Raramente se aplica porque em regra há sempre normas de caráter especial que prevalecem sobre ele

Arts. 28º a 30º, 47º, 49º e seguintes, 62º e seguintes – normas especiais que acabam quase sempre por se sobrepor
à regra geral do art. 25º

Art. 27º - com relevância prática mas há leis internacionais que o afastam

Art. 28º - em tempos com aplicação relevante mas hoje em dia com aplicação muito mais limitada

Art. 30º - convenções muitas vezes o afastam

Art. 31º - continua a aplicar-se plenamente. Não é uma norma de conflitos, mas completa todas as normas de
conflitos que remetem para a lei pessoal. Quando se diz que é aplicada a lei pessoal temos que ir a este artigo

Art. 32º - convenção relativa ao estatuto dos apátridas (1954) em vigor em Portugal a 30 de Dezembro de 2012 (lei
pessoal neste caso é a lei do domicílio)

Art. 33º/1 – generalidade das pessoas coletivas menos sociedades comerciais (art. 3º CSC derroga o 33º/1 para as
sociedades comerciais)

Art. 33º/2 – aplica-se em termos gerais mesmo para sociedades comerciais

Art. 35º - âmbito de aplicação reduzido

Art.36º - por força do art. 11º Roma 1 de aplicação também reduzida

Art. 39º - praticamente não se aplica (porque se aplica a convenção de Haia (???) 11º e 14º prevalecem)

Art. 41º e 42º - âmbito de aplicação limitado por força do regulamento Roma 1 e convenção da Haia

CASOS PRÁTICOS SOBRE REGULAMENTOS ROMA I, II, III E V

Caso II. Visita guiada (obrigações contratuais, extracontratuais, divórcio e sucessões)

Questão principal) Em 30 de Janeiro de 2013, ABM, sociedade comercial com sede no Texas (EUA), vendeu à
BoaBase, sociedade comercial com sede em Portugal, 10 computadores.

O contrato foi celebrado em Portugal e os computadores foram entregues em Portugal.

No contrato, as partes incluíram a seguinte cláusula “É aplicável ao contrato a lei brasileira”.

Qual a lei aplicável à questão, admitindo que a questão é colocada perante os tribunais portugueses?

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Plano da situação: contrato de compra e venda internacional; duas sociedades: compradora com sede no Texas e
vendedora com sede em Portugal; lugar da execução: Portugal; lugar da celebração: Portugal

“admitindo que a questão é colocada em tribunais portugueses” – vamos sempre partir deste princípio, mesmo que
não apareça no caso prático

1º - identificar a questão (aqui, contrato, mais especificamente de compra e venda). As normas de conflitos são
diferentes de matéria em matéria

Art. 15º - qualificação – método para identificar a questão

Lei portuguesa – artigos 41º e 42º

Âmbito de aplicação do regulamento Roma 1 – art. 1º - “regulamento aplicável a obrigações contratuais (…)”

Art. 3º - liberdade de escolha das partes. Lei que regia o contrato era a brasileira

No entanto, não há nenhuma conexão relevante com a lei brasileira. MAS o artigo 3º não estabelece limites quanto
às ordens jurídicas estaduais que podem ser designadas. Com efeito, este preceito não subordina a escolha a
qualquer laço objetivo entre o contrato e a lei escolhida nem à demonstração de um interesse sério na escolha. Não
era preciso então qualquer conexão com a lei brasileira

NOTA: justificação para a não exigência de laço objetivo em casos de escolha das partes.

1. A exigência de laço não corresponde às necessidades do comércio internacional e


2. Na falta do laço até se evita dificuldades de averiguação de interesse sério e
3. A falta de laço torna mais certa a determinação do Direito aplicável

Assim, se as partes escolhessem a lei brasileira, tudo bem. Exigências que até podiam fazer sentido em 1996 mas
hoje em dia não.

Parte do interesse sério difícil de perceber mas podia ser para evitar que uma das partes impusesse o que queria à
parte mais fraca (ex: proteção do trabalhador). Podia acontecer que a parte mais forte impusesse uma lei que não
titulasse o interesse da parte mais fraca mas só da mais forte. Aí o professor assistente entende que talvez se
pudesse usar a questão do “interesse sério”.

Se há contrato em 1990 – Ccivil; se cair no âmbito de aplicação da Convenção de Roma e for celebrado em 1995 –
Convenção de Roma; se cair no âmbito de aplicação do Regulamento Roma e for a partir de 2009 – Regulamento
Roma I

Alguma doutrina tende a fazer interpretações restritivas da questão da escolha de lei sem conexão relevante. Mas a
doutrina tradicional e a europeia estão de acordo de que de facto estamos no domínio da autonomia privada,
portanto a lei competente é aquela que as partes designaram como competente, haja ou não conexão relevante,
compreendendo que há interesse sério ou não

Art. 3º/3 – Preceito complicado. Não se aplica ao caso. Pressupõe que todos os outros elementos relevantes da
situação se situem num país (1). Assim, não se aplica porque neste caso os elementos relevantes estão em dois sítios
(Portugal e Texas). Então, este artigo só se aplicaria se, por exemplo, todos os elementos relevantes estivessem só
em Portugal, ou todos só no Texas. Se fosse contrato puramente interno em Portugal e as partes escolhessem a lei
brasileira este artigo aplicava-se. A lei brasileira aplicava-se mas não podia derrogar as disposições imperativas do
direito das obrigações da nossa lei. Só afastava as supletivas – não era exigível e até era errado falar neste preceito
no nosso caso prático, nem para dizer que não se aplicava porque dá ideia de ter havido uma confusão na cabeça do
aluno

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Art. 3º/4 também não se aplicava ao nosso caso. Aplica-se apenas a casos em que o contrato é puramente Europeu.
Todos os contactos se verificam com os Estados Membros e é escolhida lei de 3º Estado. Esta lei não pode por em
causa as disposições europeias

No caso aplicava-se apenas o art. 3º/1 e 3º/2, relativamente ao artigo 3º. (referir sempre, também, os âmbitos de
aplicação do Regulamento)

Notas relevantes:

1. Quando resolvemos casos temos que identificar logo os contactos da situação com os Estados e identificar a
questão em causa
2. O regulamento Roma I aplica-se apenas às obrigações contratuais, à lei aplicável a estas. Se a pergunta fosse
“qual a lei aplicável à questão da transferência da propriedade dos computadores” não se aplicava o
regulamento. De acordo com muitos direitos nacionais os contratos têm efeitos reais. Aplicamos o Roma I
para ver a lei aplicável a um contrato: conteúdo, interpretação, aplicação, extinção, etc. do contrato. Se a
pergunta fosse “quando é que se deu a transferência dos computadores” não se usava o Roma I mas uma lei
de direitos reais – art. 46º CCivil (isto é um exemplo)
3. Art. 3º CSC – se fosse problema transnacional sobre sociedades comerciais não se aplicava também o Roma I
(outro exemplo)

Sub-hipóteses

Alínea a) Imagine que as partes não tinham escolhido a lei aplicável. Qual é a lei reguladora do contrato?

Primeiramente, teríamos que verificar se o caso prático preenchia os âmbitos material, temporal e espacial do
Regulamento Roma I para que se pudesse afastar a aplicação do Código Civil e aplicar o mesmo Regulamento.

Efetivamente, o caso prático preenche os três âmbitos:

1. Âmbito material – art. 1º/1 Regulamento Roma I. Âmbito preenchido porque se trata de uma “obrigação
contratual em matéria civil” (compra e venda de computadores)
2. Âmbito temporal – art. 28º + 29º - regulamento aplicável aos contratos celebrados após 17 de Dezembro de
2009 (neste caso, o contrato foi a 30 de Janeiro de 2013)
3. Para além de preencher os âmbitos do regulamento, estamos perante um conflito de leis, podendo então
definitivamente ser aplicado o Roma I, apesar de isto não ser pressuposto só do regulamento mas de
qualquer norma de conflitos
4. Âmbito espacial – a questão tem que estar a ser resolvida num Estado vinculado ao Regulamento – não
havendo escolha de lei aplicável pelas partes, neste caso já não se aplicava o artigo da liberdade de escolha
das mesmas – artigo 3º.
a. Ainda neste âmbito, teríamos que ir ao artigo 4º sobre a lei aplicável na falta de escolha, mais
precisamente ao número 1, alínea a) por estarmos perante um contrato de compra e venda de
mercadorias. Neste caso, este seria regulado pela lei do país em que o vendedor tem a sua
residência habitual, ou seja, onde a sociedade ABM tinha a sua residência habitual
i. Devíamos conjugar este artigo com o art. 19º/1; 1ª parte, que nos diz que “a residência
habitual de sociedades (…) é o local onde se situa a sua administração central”. Tendo a
sociedade ABM sede no Texas, à partida aplicar-se-ia então a lei do Texas.
5. No entanto, o Texas não é um Estado-Membro. Poder-se-ia então aplicar o regulamento Roma I? – sim. Este
tem caráter/aplicação universal segundo o artigo 2º do mesmo.
6. No entanto e para finalizar, segundo o artigo 4º/3, “caso resulte claramente do conjunto das circunstâncias
do caso que o contrato apresenta uma conexão manifestamente mais estreita com um país diferente do
indicado nos números 1 e 2, é aplicável a lei desse outro país”. Assim, efetivamente verificamos uma

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conexão manifestamente mais estreita com Portugal do que com o Texas (critério geral da conexão). Tendo
em conta a conexão por laços de natureza objetiva e espacial podemos logo concluir esta maior relação: a
sede de uma das partes é em Portugal, o lugar da execução e celebração do contrato foi em Portugal. A
única relação com o Texas é por ser a sede da empresa ABM. Assim, deveria então aplicar-se não a lei do
Texas mas sim a lei portuguesa.

Art. 4º/1 – normas de conflitos para certos tipos de contratos

Art. 4º/2 – se não se aplicar o número 1 (contrato típico ou contrato misto)

Quando não se aplica nem o número 1 nem o número 2, aplica-se o número 4

Só se não se aplica o número 1, 2 e 4 é que se vai para o número 3. O número 4 fala em só se aplicar o critério da
conexão mais estreita quando não se aplica o número 1 e 2 e o número 3 fala dessa aplicação

Aplicar também o art. 22º - cada um dos Estados federados é um Estado soberano para efeitos de aplicação do
Regulamento

Art. 4º/3 – se do conjunto do caso resulta conexão manifestamente mais estreita que a lei do Texas era essa que
íamos aplicar. Esta cláusula é um desvio à lei primariamente designada como competente

Alínea b) Imagine que, nos termos do contrato celebrado, a ABM se obrigava a entregar à BoaBase, para gozo
temporário desta, 10 computadores, bem como a prestar serviços de manutenção in site dos referidos
computadores, mediante o pagamento de uma renda mensal pela BoaBase. Os computadores e os serviços de
manutenção deviam ser entregues e prestados em Portugal. As partes não escolheram a lei aplicável. Qual é a lei
reguladora do contrato?

Primeiramente, teríamos que verificar se o caso prático preenchia os âmbitos material, temporal e espacial do
Regulamento Roma I para que se pudesse afastar a aplicação do Código Civil e aplicar o mesmo Regulamento.

Efetivamente, o caso prático preenche os três âmbitos:

1. Âmbito material – art. 1º/1 Regulamento Roma I. Âmbito preenchido porque se trata de uma “obrigação
contratual em matéria civil” (compra e venda de computadores)
2. Âmbito temporal – art. 28º + 29º - regulamento aplicável aos contratos celebrados a partir de 17 de
Dezembro de 2009 (neste caso, o contrato foi a 30 de Janeiro de 2013)
3. Âmbito espacial – a questão tem que estar a ser resolvida num Estado vinculado ao Regulamento
4. Para além de preencher os âmbitos do regulamento, estamos perante um conflito de leis, podendo então
definitivamente ser aplicado o Roma I, apesar de isto não ser pressuposto só do regulamento mas de
qualquer norma de conflitos

Tendo em conta que não houve escolha da lei aplicável pelas partes e que a situação transnacional não se insere no
âmbito de nenhuma norma especial no presente regulamento (art. 5º a 8º), teríamos que recorrer à norma
subsidiária prevista no artigo 4º Roma I. Primeiramente teríamos que ver que tipo de contrato tínhamos:

Era um contrato misto. Tínhamos uma prestação de serviços (“prestar serviços de manutenção in site dos referidos
computadores”) com um empréstimo (“obrigava-se a entregar à BoaBase, para gozo temporário desta, 10
computadores”)

Efetivamente, recorrendo ao artigo 4º/1, podemos verificar que está abrangido neste mesmo preceito o contrato de
prestação de serviços (alínea b)). Mas, relativamente à parte do empréstimo, não temos qualquer referência a este
nas alíneas do mesmo número.

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Assim, passaríamos para o número 2. “Caso os contratos não sejam abrangidos pelo nº1” aplicar-se-ia aqui. Está
abrangida parte do contrato, mas não todo. Assim, supostamente o contrato misto teria que ser regulado “pelo país
em que o contraente que deve efetuar a prestação característica do contrato tem a sua residência habitual”, logo, o
contrato deveria ser regulado pela lei do Texas (referir art. 22º - ordenamentos jurídicos plurilegislativos) porque é a
empresa ABM que tem o dever da prestação característica (art. 19º/1) – atenção! Aqui está mal, devo referir
primeiro o art. 19º (“administração central”) e só depois o 22º

Prestação característica – prestação que individualiza o contrato. Neste caso, é a prestação de serviços. É esta
prestação característica que depois nos faz conseguir identificar a lei aplicável

No entanto, no enunciado é referido que “os computadores e os serviços de manutenção deviam ser entregues e
prestados em Portugal”. Assim, resultava claramente do conjunto das circunstâncias do caso que o contrato
apresenta uma conexão mais estreita com um país indicado no nº2, havendo uma maior conexão com Portugal.
Tínhamos então que aplicar a norma de exceção, o número 3 do art. 4º, aplicando-se afinal a lei portuguesa.

Atenção: sempre que aplicamos o 4º/1 ou 2 temos que ver a seguir se há aplicação do art. 4º/3 que deixe de lado a
norma aplicável pelo número 1 ou 2

Alínea c) Imagine que, nos termos do contrato celebrado, a ABM se obrigava a entregar os 10 computadores à
BoaBase e a BoaBase obrigava-se a entregar à ABM 20 smartphones. Os computadores e os smartphones foram
entregues na Espanha. As partes não escolheram a lei aplicável. Qual é a lei reguladora do contrato?

Primeiramente, teríamos que verificar se o caso prático preenchia os âmbitos material, temporal e espacial do
Regulamento Roma I para que se pudesse afastar a aplicação do Código Civil e aplicar o mesmo Regulamento.

Efetivamente, o caso prático preenche os três âmbitos:

1. Âmbito material – art. 1º/1 Regulamento Roma I. Âmbito preenchido porque se trata de uma “obrigação
contratual em matéria civil” (compra e venda de computadores)
2. Âmbito temporal – art. 28º + 29º - regulamento aplicável aos contratos celebrados após 17 de Dezembro de
2009 (neste caso, o contrato foi a 30 de Janeiro de 2013)
3. Âmbito espacial – a questão tem que estar a ser resolvida num Estado vinculado ao Regulamento
4. Para além de preencher os âmbitos do regulamento, estamos perante um conflito de leis, podendo então
definitivamente ser aplicado o Roma I, apesar de isto não ser pressuposto só do regulamento mas de
qualquer norma de conflitos

Tendo em conta que não houve escolha da lei aplicável pelas partes, teríamos que recorrer ao artigo 4º Roma I.
Primeiramente teríamos que ver que tipo de contrato tínhamos:

Tínhamos um contrato de permuta. A ABM obrigava-se a entregar os 10 computadores à BoaBase e a BoaBase


obrigava-se a entregar à ABM 20 smartphones.

Tendo em conta o artigo 4º, primeiro teríamos que recorrer ao número 1 do mesmo. Efetivamente, este contrato
não corresponde a nenhuma das alíneas do mesmo.

Relativamente ao número 2, também não se aplicava uma vez que, claramente, as partes do contrato nem eram
abrangidas por mais do que uma das alíneas a) a h), nem uma das partes era abrangida pelo número 1. (“Caso os
contratos não sejam abrangidos pelo número 1” pressupõe que uma das partes o é e a outra não)

Assim, iríamos recorrer ao número 4 porque “a lei aplicável não pode ser determinada nem em aplicação do nº1
nem do nº2”, sendo o contrato regulado pela lei do país com o qual apresenta uma conexão mais estreita, logo,
neste caso, Espanha (art. 4º/4)

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Não se aplicava o 4º/2 não porque o contrato não possa ser incluído mas neste caso não é possível identificar a
prestação característica porque estamos perante um contrato de permuta, havendo duas prestações características
(porque são a mesma), o que é o mesmo que dizer que não há nenhuma prestação característica

Ter em conta o lugar da celebração e o lugar da execução. O lugar da execução do contrato é mais importante. O
lugar da celebração era muito importante há muito tempo mas hoje em dia já não interessa muito

Quando se vai ao art. 4º/4 já não se vai ao artigo 4º/3. O primeiro já nos diz que há conexão mais estreita.

Caso nº4

Em Janeiro de 2016, o veículo de Armande, cidadão francês com residência habitual na França, que se encontrava
a passar férias em Portugal, colide frontalmente na EN 125 com o veículo de Benito, cidadão espanhol com
residência habitual na Espanha.

Benito propõe ação junto de tribunais portugueses para ser ressarcido dos danos sofridos.

Qual é a lei que vai regular a pretensão de Benito?

Regulamento Roma II – caso de responsabilidade civil extracontratual

1. Âmbito material – art. 1º e, em segunda linha, o art. 2º


2. Âmbito temporal – 31º e 32º (factos danosos que ocorrem a partir de 2009. Se a ação ocorrer em 2005 e a
ação for proposta em 2010, não se aplica)
3. Âmbito espacial – questão de direito da união europeia. Os regulamentos são vinculativos para todos os
EM’s salvo aqueles que não tenham admitido vincular-se a eles (menos Dinarmarca + considerandos 39 e 40)
4. Situações que envolvam conflito de leis apesar de isso não ser específico do regulamento mas sim de
qualquer norma de conflitos

Aplicar-se-ia a regra geral prevista no art. 4º/1, sendo a lei do foro a lei portuguesa quanto à indemnização face ao
dono do carro

Não é o lugar da prática do facto, é o lugar do dano (atenção!)

O artigo 4º diz “regra geral”, no entanto não contém a conexão primária, que está no art. 14º. O 4º também não se
aplica quando há normas especiais (arts. 5º a 12º)

Não se aplicando o art. 14º nem os artigos 5º a 12º era o artigo 4º, que remete para a lei do lugar da verificação do
dano, dizendo expressamente que isso é assim “independentemente do país em que tenha ocorrido o facto”.

Pode acontecer o facto acontecer num Estado e o dano noutro. Aí, os países começaram a escolher aquilo a que
dariam mais relevância. Nós temos isso no art. 45º.

Então mas e se o acidente ocorresse em Portugal, o dano em Espanha mas tivesse danos de, por exemplo, faltar ao
trabalho porque estava internado e fez muitas despesas com o acidente – art. 4º/1 “consequências indiretas”

Contudo, caso o lesado queira suscitar questões não patrimoniais (âmbito material) resultantes do acidente, poderá
levantar-se a questão de será que esta questão extravasa o âmbito do regulamento, nomeadamente o art. 1º/2 g).
se alguém pedir uma indemnização por violação do seu direito à imagem ou à palavra ou honra ou bom nome, esse
problema não é regulado pelo Roma II em Portugal. É regulado pelo art. 45º CCivil.

Elsa Oliveira defende na tese de doutoramento que o regulamento ainda se aplica a direitos de personalidade como
a vida, integridade física e psíquica. Lima Pinheiro concorda. Deverá realizar-se uma interpretação restrita desta

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alínea. Assim, devemos ter em conta os considerandos nº 17 e 33. Portanto, podemos aplicar o regulamento
relativamente à questão do direito à vida, à integridade física e psíquica

Alínea a) Imagine que, durante a pendência da ação, Armande e Benito acordam entre si que a lei que deve
regular o ressarcimento dos danos é a lei alemã. Quis júris?

As partes convencionaram/escolheram uma lei – art. 14º/1 a)

“Durante a pendência da ação” é para percebermos que a escolha foi posterior ao facto que deu origem ao dano

Assim, a lei do foro seria a alemã porque foi a convencionada por Armande e Benito. Não se aplicava o art. 14º/2
nem o 14º/3. Estes correspondem ao 3º/3 e 3º/4 do Roma I. O 14º/2 só se aplica a casos de situação puramente
interna em que é escolhida uma lei estrangeira.

O 14º é uma norma de conflitos revolucionária porque a tradição já de séculos é a de não aplicar a lei escolhida
(basta ler o 45ºCCivil que diz que a autonomia privada não tem relevância nenhuma)

Alínea b) Considere que Armande tem residência habitual na Espanha. Qual é a lei aplicável?

Nesta situação, aplicar-se-ia o artigo 4º/2, visto que Armande e Benito têm a sua residência habitual no mesmo país,
sendo a lei do foro a lei espanhola e a aplicável. Atribui-se competência à lei da residência habitual quer do lesante
quer do lesado

Quanto ao art. 4º/3, sempre que se aplique o 4º/1 ou 4º/2 temos que ver se não há conexão manifestamente mais
estreita por força do 4º/3. A conexão manifestamente mais estreita não existe nem na hipótese do caso nem na
alínea b) do mesmo

Alínea c) Considere que Armande é nacional espanhol. Qual é a lei aplicável?

A nacionalidade é comum. Lei competente é a lei portuguesa porque é a do lugar do dano. O 4º/2 não se aplicava
porque não tinham residência habitual mas podíamo-nos perguntar se em vez da lei portuguesa se deveria aplicar a
lei espanhola por força do 4º/3? Tem-se entendido que não, que a nacionalidade comum não releva. No âmbito do
artigo 4º, esta nacionalidade não tem relevância. Ela pode ter relevância ponderada com outros fatores. No nosso
caso o facto de as duas partes terem nacionalidade espanhola, uma ter residência em Portugal e outra na Espanha e
o facto ser em Portugal não é suficiente para afastar a lei portuguesa

A nacionalidade não foi muito tida em consideração pelo legislador quando foram feitos os Romas.

Alínea d) Imagine que Armande e Benito residem habitualmente em território inglês e que o choque frontal se
deveu ao facto de Armande se encontrar a circular pelo lado esquerda da faixa de rodagem e Benito pelo lado
direito da faixa de rodagem. De acordo com o Código da Estrada português, “a posição de marcha dos veículos
deve fazer-se pelo lado direito da faixa de rodagem”, mas, de acordo com o Direito rodoviário inglês, a posição de
marcha dos veículos deve fazer-se pelo lado esquerdo da faixa de rodagem. Qual é a lei aplicável: (i) à
determinação do montante da indemnização e (ii) à determinação da ilicitude?

Em princípio, a lei competente seria a inglesa por força do art. 4º/2 + art. 25º Roma II. No entanto, o raciocínio do
Armande era que de acordo com a lei inglesa devia circular pela esquerda por isso estava a fazer tudo bem e o
culpado é o Benito.

O raciocínio de dizer que a lei competente é a inglesa e por isso está a cumprir a lei não faz sentido do ponto de vista
da solução porque do ponto de vista logico ate se compreende. No entanto, de facto há conjunto de normas que são
de aplicação territorial, tendo âmbito de aplicação diferente do das normas de conflitos em geral: normas de
clausulas. Há um âmbito de aplicação no espaço diferente do do Roma II. Há norma do Código da Estrada que afasta

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a norma de conflitos geral (no nosso ordenamento, permitido pelo art. 17º/2). O 17º do Roma II aqui permitia de
facto aplicar para determinar por onde devem circular os carros no território português.

Lei aplicável seria a inglesa para traçar o regime da responsabilidade civil em geral. Já o problema concreto de saber
se ele estava a violar norma legal quando estava a circular pela esquerda esse problema temos que resolver ao
abrigo do art. 17º e portanto ao abrigo da lei portuguesa

Caso nº5

Ana, cidadã portuguesa e brasileira, com residência habitual na França, e Bernardo, cidadão marroquino com
residência habitual na Espanha, casaram-se em 1 de Agosto de 2009, em Leiria. Após o casamento passaram a
viver na Alemanha.

No dia 1 de Maio de 2013, após uma violenta discussão, Bernardo abandona a casa de morada de família e, a
partir de 20 de maio de 2013, passa a viver sozinho em Lisboa.

Em 24 de Maio de 2014, Bernardo intenta uma ação no tribunal de comarca de Lisboa pedindo que seja decretado
o divórcio.

Determine a lei reguladora do divórcio SIM

Aplicação do regulamento Roma III: (se não houvesse Roma III aplicava-se o 55º CCivil mas não aplica)

1. Âmbito material: matéria de divórcio e separação judicial (art. 1º/1 e 2 Roma III)
2. Âmbito temporal: art. 18º e 21º (a partir de 21 de Julho de 2012)
3. Âmbito espacial: vinculados os países que aderiram ao regulamento (art. 3º/1 + considerando 6);
regulamento estabelece uma cooperação reforçada no domínio da lei aplicável ao divórcio e separação
judicial; o Roma I e II aplica-se a todos os EM’s menos os que não querem. Este não. Este só se aplica aos que
querem estar vinculados
a. Art. 3º/1 remete para uma decisão. Esta decisão é que identifica quais são os Estados vinculados por
uma cooperação reforçada. Portugal está. O regulamento aplicava-se neste caso concreto porque a
ação foi intentada em Portugal, em Lisboa

Neste caso, a lei aplicável seria a lei portuguesa (conexão subsidiária) aplicando-se o art. 8º/d). Isto porque não
houve escolha da lei aplicável pelas partes, usando-se assim o artigo 8º e não o art. 5º, e neste artigo (8º) não se
conseguiria aplicar nenhuma das alíneas anteriores à d), que se aplica na falta destas mesmas.

Assim, as normas de conflitos fundamentais são o art. 5º e o 8º. No 5º permite-se a escolha de lei. Quando não há
escolha de lei funciona o art. 8º (conexão subsidiária). As alíneas do art. 8º também intervêm subsidiariamente

No nosso caso não se conseguia aplicar nenhuma das alíneas para alem da alínea d), sendo a lei do Estado onde o
processo foi instaurado

Sub-hipóteses

a) Imagine que Bernardo tinha ido viver sozinho para a Lituânia e tinha intentado a ação nesse país. A sua
resposta alterava-se?

Considerando 6 – a Lituânia não fazia parte na altura mas aderiu posteriormente (decisão 2012/714/UE). O
Regulamento aplica-se na mesma à Lituânia mas a lei aplicável seria a lei da lituânia e não a portuguesa

Tinha que se ver se a Lituânia estava vinculada ou não. No entanto, tínhamos que referir o art. 3º/1.

No teste, se houver Estado que só aderiu posteriormente têm que dizer.

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No caso concreto, para responder teríamos que dizer que o Regulamento passou a aplicar-se à Lituânia a partir de
2014 (decisão 2012/714)

Então, sendo a ação proposta na Lituânia e estando ela vinculada no Regulamento também se aplicava o
Regulamento Roma III, aplicando-se o direito do Estado em que corria o processo, o direito da Lituânia (art. 8º/d)
Roma III)

b) Imagine que no dia 10 de maio de 2013, Ana e Bernardo consultam-no porque pretendem escolher a lei
brasileira como lei reguladora de um eventual divórcio. Determine se tal é possível e, em caso afirmativo,
quais os requisitos formais aplicáveis, tendo presente que o artigo 46º-D/1 da Lei de Introdução ao Código
Civil Alemão obriga a registar no notário os acordos de escolha de lei em matéria de divórcio SIM

Era possível nos termos do art. 5º/1 c) que regula a lei aplicável ao divórcio e à separação judicial em situação de
escolha pelas partes da lei aplicável, os cônjuges acordarem em designar a lei do Estado da nacionalidade de um dos
cônjuges à data da celebração do acordo, sendo a nacionalidade brasileira uma das nacionalidades de Ana (cidadã
portuguesa e brasileira). Pelo artigo 55º do CCivil isto seria impensável (autonomia privada). No entanto, o art. 5º
Roma III traz norma revolucionária que permite a escolha de lei, mas escolha de lei limitada, só se podendo escolher
entre certas leis.

A lei brasileira correspondia à lei de uma das nacionalidades de Ana. Podiam escolher a lei de uma das
nacionalidades de Ana? Tem-se entendido que sim segundo o art. 5º/1 c) para pessoas com dupla nacionalidade

Quanto à segunda parte da questão relativa aos requisitos formais, teríamos que aplicar o art. 7º/1 que refere que
“o acordo referido nos nºs 1 e 2 do artigo 5º é reduzido a escrito, datado e assinado por ambos os cônjuges”.
Também teríamos que aplicar o art. 7º/2. Sendo que a lei Alemanha, lei do Estado-Membro participante no qual
ambos os cônjuges têm a sua residência habitual no caso (sendo que Ana estava na casa de morada de família e
Bernardo só passou a viver em Lisboa a 20 de Maio de 2013), prevê requisitos formais suplementares para este tipo
de acordos, obrigando a que fosse registado no notário os acordos de escolha de lei em matéria de divórcio, isto
teria que acontecer ao escolherem Ana e Bernardo a lei brasileira

c) Imagine que as partes escolheram como lei aplicável o Direito marroquino, que concede ao cônjuge
homem o direito de se divorciar através do repúdio unilateral (talak). Bernardo intenta ação de divórcio
em Portugal, fundamentando o seu pedido no direito de repúdio unilateral (talak). Como deve o juiz
atuar? SIM

Efetivamente, eles podiam escolher como lei aplicável o Direito marroquino nos termos do artigo 5º/1 c) Roma III,
porque era a nacionalidade de Bernardo. No entanto, esta lei discrimina em razão do sexo (só o cônjuge homem
tinha o direito a divorciar-se através do repúdio unilateral), sendo uma lei que “não concede igualdade de acesso ao
divórcio ou à separação judicial em razão do sexo” de um dos cônjuges, neste caso a mulher. Assim, de acordo com o
artigo 10º, não se aplicaria o direito marroquino mas sim a lei do foro, retirando o 10º competência à lei marroquina,
sendo uma cláusula de ordem pública especial

Caso nº 6

António, que nasceu em Londres e é nacional francês e do Reino Unido, veio viver a sua reforma para o Algarve.
Desde 2010 que vive em Albufeira, tendo anteriormente vivido em Paris. Em 2011, adotou plenamente Bernardo,
cidadão português com residência habitual em Portugal. António falece, em 20 de Agosto de 2017, com bens
imóveis em Portugal. Deixou testamento no qual estipulou que à sua sucessão deve ser aplicado o direito material
inglês.

Diga qual é a lei aplicável à sua sucessão.

Aplicação do Regulamento Roma V:


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Os artigos 56º a 61º do CCivil continuam a ter alguma aplicação. Agora, os artigos 62º a 65º hoje em cada vez mais
têm um campo de aplicação muito limitado. Ainda continua a aplicar-se a muitas sucessões mas a tendência é a que
perca relevância porque Portugal tem o Regulamento Roma V, que interfere com a aplicação desses artigos do
Código Civil

1. Âmbito material: art. 1º/1 (“aplicável às sucessões por morte”) + 3º/1


2. Âmbito temporal: art. 84º e 83º: pessoas falecidas em 17 de Agosto de 2015 ou após essa data – os artigos
62º a 65º CCivil ainda se aplicam a sucessões anteriores a esta data
3. Âmbito espacial: regulamento aplica-se à generalidade dos Estados-Membros (considerando 82 e 83) menos
Irlanda, Reino Unido e Dinarmarca (não vinculados); não é um regulamento de cooperação reforçada, como
o Roma III. É como o Roma I e II: estão vinculados todos os EM’s menos aqueles que dizem que não querem
estar vinculados

Problema sucessório está a ser resolvido em Portugal, que está vinculado pelo Regulamento. Assim, aplica-se o
mesmo de acordo com o âmbito espacial

Ter em atenção artigos 21º e seguintes. No caso diz-se que foi escolhido como competente o direito material inglês.
É possível a escolha de lei? Segundo o CCivil não era. No entanto, o Roma V também traz norma revolucionária e
admite a escolha de lei de forma limitada (ainda mais que o regulamento do divórcio). O artigo 22º diz que é possível
a escolha da lei do Estado de onde o autor é nacional

3º/1 a) + 22º - Permitida a escolha de lei

Art. 22º/1 – Podia escolher a lei inglesa porque tem dupla nacionalidade sendo uma delas a do Reino Unido
(Inglaterra). Assim, a lei inglesa seria competente, podendo também escolher a lei francesa se quisesse

Art. 36º - Ordenamentos complexos + art. 34º/2 – admitido o reenvio. Temos então que ver se havia ou não reenvio.
Tínhamos que ver se a lei inglesa remetia para outro direito ou não. Porém, quando a lei designada pelo autor é a lei
escolhida, mesmo que esta remeta para outro direito, o reenvio está excluído

Assim, o Regulamento Roma V admite o reenvio mas não o admite quando haja escolha de lei (art. 34º/2)

Em geral, sempre que há escolha de lei não é permitido o reenvio

Sub-hipótese

A sua resposta seria a mesma se António tivesse falecido intestado?

Se ele tivesse falecido intestado não havia testamento e consequentemente não havia escolha de lei. Teria que se
ver o art. 21º e ver qual era a lei subsidiariamente aplicável: lei do Estado onde o falecido tinha residência habitual
no momento do óbito (Portugal). Era a lei portuguesa que se aplicava, então

Neste caso também não haveria reenvio. Teria que se ver o art. 34º e era evidente que não havia reenvio porque
quando remete para a lei portuguesa é impensável o reenvio

Cláusula de exceção do 34º/2 – conexão mais estreita – neste caso não parecia haver

Nota final: o Roma V regula 3 questões diferentes: direito da competência internacional, direito de conflitos e direito
de reconhecimento. Aqui só nos interessa os artigos 21º e seguintes sobre o direito de conflitos

Art. 46º 47º 49º 50º 51º CCivil ainda são aplicáveis hoje em dia

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Art. 52º, 53º, 54º, CCivil ainda aplicáveis mas vão ser afetados em 2009 pelo Regulamento Roma IV. Este
Regulamento vai aplicar-se aos cônjuges casados em 29 de Janeiro de 2009 ou a partir dessa data. Vai regular o
regime de bens

Artigo 55º respeito ao divórcio. No entanto já prevalece sobre ele o Regulamento Roma III

OBJETO E FUNÇÃO DAS NORMAS DE CONFLITOS

Objeto e função das normas de conflitos bilaterais

Objeto da norma – realidade que a norma regula

Função da norma – o fim que a norma prossegue; o problema jurídico que a norma tem por missão resolver e o
processo por que o resolve (função jurídica ou técnico-jurídica)

Normas unilaterais: só determinam a aplicação do Direito do próprio foro (ex: art. 3º/3 CC)

Normas bilaterais: tanto remetem para o direito do foro como para o Direito estrangeiro (ex: art. 50º CC

As teses clássica e da escola nacionalista italiana – objeto das normas de conflitos

Universalistas – objeto das normas de conflitos são conflitos de soberanias. Aplicando lei estrangeira estaria em
causa o reconhecimento da soberania do Estado de onde essa lei promana; em causa interesses dos Estados, sendo
a função das normas de conflitos resolver esses conflitos de interesses dos Estados mediante a repartição de
competência legislativa entre eles

Escola nacionalista italiana – normas de conflitos não têm objetivo de resolver verdadeiros conflitos de leis, dada a
impossibilidade de conceber uma norma de Direito interno com esta função; objeto das normas de conflitos –
relações interindividuais; nada a ver com interesses dos Estados mas sim interesses individuais, isto porque as
normas de conflitos são normas reguladoras de relações interindividuais

Escola nacionalista italiana – também entende a norma de conflitos como norma de incorporação, fazendo valer na
ordem local uma norma estrangeira, “nacionalizando-a”; incorporar o Direito estrangeiro na ordem jurídica do foro

Posição adotada. Objeto da norma de conflitos. Teleologia da norma de conflitos. Função técnico-jurídica da norma
de conflitos em geral

Não está em causa um problema de conflito de soberanias entre Estados. Não vem determinar que só um Estado
tem competência legislativa para regular determinada situação

Objeto das normas de conflitos – o mesmo que o DIPrivado: a situação transnacional

Função técnico-jurídica das normas de conflitos – regulação das situações transnacionais mediante um processo
conflitual ou indireto

Diferentes tipos de normas de conflitos:

a) Normas bilaterais
b) Normas unilaterais gerais
c) Normas unilaterais ad hoc

CASOS SOBRE REGRAS DE CONFLITOS BILATERAIS E UNILATERAIS

Caso prático nº7

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António, argelino, encontrando-se em Portugal a trabalhar, compra um computador topo de gama num
estabelecimento comercial localizado em Portugal.

Quando viu que fez um mau negócio, pediu a anulação do contrato com fundamento em que, de acordo com a lei
argelina, a maioridade se adquire aos 23 anos e ele tem apenas 21.

António tem razão?

Aplicar artigo 25º + 31º/1 para remeter para a lei argelina (CCivil)

Artigo 13º Roma I para afastar a aplicação da lei argelina e aplicar a portuguesa porque o negócio tinha sido
celebrado em Portugal e em Portugal seria considerado capaz por ter 21 anos

Roma I não se aplica a estado e capacidade das pessoas singulares, sem prejuízo do art. 13º que já se aplica. O artigo
13º é uma norma com uma função muito parecida com a do 28º CCivil. Portanto, o art. 13º é muito parecido com o
28º, tendo função equivalente apesar de os pressupostos não serem exatamente os mesmos

Como se aplica o art. 13º?

Saber se ele tinha capacidade para celebrar o negócio ou não. A matéria da capacidade é regulada pelo 25º CCivil
dizendo que se aplica a lei pessoal (+ 31º/1). Ele tinha nacionalidade argelina remetendo a lei portuguesa para a
argelina. Segundo esta, António era incapaz. O art. 13º Roma I vem dizer que num contrato celebrado entre pessoas
no mesmo pais, uma pessoa singular considerada capaz segundo a lei desse país só pode invocar a sua incapacidade
que resulte da lei doutro país (neste caso, a lei pessoal) mediante os pressupostos do mesmo artigo. Ora, no nosso
caso António era incapaz segundo a lei pessoal, a lei argelina. Portanto, verificam-se todos os pressupostos do artigo
13º. Não temos elementos para dizer que a outra parte tinha conhecimento da incapacidade ou desconhecia por
negligência, aplicando-se a lei portuguesa porque não nos parece que se podia afastar porque não nos parece que o
outro contraente tivesse conhecimento dessa incapacidade ou a desconhecia por negligência

A lei competente não era então a lei da Argélia mas a lei portuguesa ao abrigo do art. 13º do Roma I

Era assim preciso que a lei designada nos termos do 25º considere a pessoa incapaz e a lei do lugar da celebração o
considere capaz

Normas de conflitos unilaterais remetem apenas para a lei do foro. As normas de conflitos bilaterais tanto podem
remeter para a lei do foro como para lei estrangeira. Neste caso as normas de conflito são bilaterais. O art. 25º
remete para a lei 31º, que remete para a lei da nacionalidade, que tanto pode remeter para lei estrangeira como
para uma lei do foro

Todas as normas de conflitos do CCivil à exceção do art. 28º são normas de conflitos bilaterais perfeitas

O artigo 28º é norma de conflitos unilateral. Apesar de estar formulado como está, o artigo 28º traduz-se nesta
estatuição: aplica-se se a pessoa for capaz à luz da lei portuguesa e incapaz à luz da lei pessoal. Remete
exclusivamente para a lei portuguesa. É a única unilateral

O sistema de conflitos base gerais do nosso direito são bilaterais (25º e seguintes e normas de conflitos do CCivil).
Todas as normas dos regulamentos são bilaterais porque se põem sempre num plano acima de um Estado. Podem
remeter para a lei do foro que pode ser lei nacional ou estrangeiro. Assim, o nosso sistema de conflitos é bilateral, o
que não quer dizer que haja normas de conflitos unilaterais: há, mas no nosso direito não termos normas de
conflitos unilaterais gerais. Há mais especiais

25º + 31º/1 – lei portuguesa remetia para a lei argelina. No entanto, a lei portuguesa, por força do artigo 13º Roma I
acabava por se considerar a si mesma competente por considerar o rapaz do caso capaz

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Distinção rápida:

1. Normas unilaterais – só remetem para a lei do foro, designando-a competente


2. Normas bilaterais – tanto podem remeter para a lei estrangeira como para a lei do foro (25º e 31º/1 CCivil;
13º Roma I; etc.)
a) Normas unilaterais gerais
b) Normas unilaterais especiais
c) Normas unilaterais ad hoc

Sub-hipótese

Suponha que não existem os artigos 25º a 32º do Código Civil e que, em vez deles, a nossa norma de conflitos era a
seguinte “as normas relativas ao estado e capacidade das pessoas aplicam-se aos portugueses, mesmo que
residentes em países estrangeiros”.

António tinha razão?

Através da bilateralização desta norma unilateral passaria a ser “às normas relativas ao estado e capacidade das
pessoas aplica-se a lei da nacionalidade, mesmo que residentes em países estrangeiros”

Norma de conflitos unilateral geral não se aplicava, havendo lacuna que seria resolvida através da bilateralização,
detetando uma norma implícita

Unilateralismo tem desvantagem: é muito limitado. Sempre que a questão foge à respetiva previsão, o juiz já não
pode utilizar a norma. Isto dá origem a lacunas, resolvidas pela bilateralização das normas unilaterais

Assim, através da bilateralização aplicar-se-ia a lei da nacionalidade, sendo a nacionalidade de António a lei argelina

Os sistemas predominantes agora são bilaterais dadas as insuficiências das normas de conflitos unilaterais

Normas de conflitos unilaterais podem ser gerais ou especiais:

1. Gerais – categoria ampla de situações jurídicas. Não existem em Portugal.


2. Especiais – há muitas em Portugal. São de 3 espécies:
a. As que se reportam a uma categoria de situações jurídicas só que estão numa relação de
especialidade com normas de conflitos bilaterais mais amplas (ex: art. 3º/1, 2ª parte CSC)
b. As que respeitam a questões parcelares e que, por isso, são reguladas em geral por outras normas
de conflitos.
i. Estas normas de conflitos também existem em Portugal mas não em tão grande quantidade
(ex: art. 28º/1 CCivil)
c. Ad hoc – reportam-se a uma única norma material num conjunto individualizado de normas
materiais (ex: 61º Lei da Arbitragem Voluntária – diz “a presente lei aplica-se nas arbitragens
internacionais àquelas que tenham lugar em território português” – limita o âmbito de aplicação no
espaço, sendo unilateral. É ad hoc porque só remete para o direito do foro)

Saber, relativamente ao objeto das normas de conflitos, a posição de Lisboa e de Coimbra – LP gosta disto

Normas bilaterais com dupla função: por um lado, remetem para o direito competente; por outro lado, se remetem
para direito estrangeiro também lhe atribuem um título de competência para ser aplicado. Se a norma de conflitos
bilateral remeter para o direito do foro não entra em atuação a sua segunda função, assim

Caso prático nº 8

19
Alberto, português, celebrou, mediante troca de correspondência, um contrato de prestação de serviços, que devia
ser executado em Portugal, com a empresa AFS, S.A., que tem sede estatutária e sede da administração na África
do Sul.

A AFS, S.A., quando viu que fez um mau negócio, intenta ação nos tribunais portugueses pedindo a anulação do
contrato com fundamento em que, segundo a lei da sua sede da administração, a sociedade só se vincula
mediante a assinatura de dois administradores e o contrato está apenas assinado por um dos três administradores
da AFS, S.A.

Supondo que:

a) A lei material da África do Sul estabelece que as sociedades anónimas só se vinculam mediante a
assinatura de dois dos seus administradores;
b) As leis materiais portuguesa e brasileira não têm idêntica limitação, admitindo que as sociedades
anónimas se vinculam mediante a assinatura de apenas um dos seus administradores.

A sociedade tem razão?

Primeiro, identificar os contactos relevantes – português que celebra contrato com empresa com sede estatutária e
da administração na África do Sul

Questão: vinculação da sociedade. A sociedade só se vincula com a assinatura de dois administradores e só foi
celebrado por um. Regulado pelo art. 33º CCivil se não houvesse norma de conflitos especial. O art. 33º remete para
o 3º/1, 1ª parte do CSC: sede principal e efetiva da administração (norma bilateral)

Sub-hipótese 1

E se a empresa tivesse sede estatutária em Portugal e sede principal e efetiva da administração na África do Sul?

Sede estatutária em Portugal e sede principal e efetiva da administração na África do Sul

Já não se recorria à norma de conflitos da primeira parte do 3º/1 CSC mas à segunda parte que já é norma de
conflitos unilateral. A sociedade ficava vinculada

Esta norma de conflitos é unilateral especial porque está em relação de especialidade com a 1ª parte do art. 3º/1
CSC

Lei da sede estatutária – lei portuguesa. Só remete para a lei portuguesa, daí a unilateralidade

Lima Pinheiro faz interpretação restritiva desta norma. Entende que o que está em causa é a tutela de confiança de
terceiros: quem contrata com a sociedade. Tem razão de ser: quem contrata com a sociedade normalmente tem
conhecimento da sede estatutária desta. O lugar da sede estatutária (que está no registo) é fácil de saber, bastando
olhar para os documentos das sociedades. Portanto, é muito fácil para o terceiro confiar na indicação da sede
estatutária e da sua lei. Pretende-se tutelar a confiança de terceiros que contrataram com sociedade que
apresentam como sede estatutária a sede em determinado país.

O nosso CCivil diz que se a sociedade tiver sede estatutária em Portugal deve-se aplicar a lei portuguesa e não a lei
da sede estatutária e efetiva da administração

Ok, deve interpretar a lei da sede estatutária e não ser que o terceiro pudesse contar com a sede efetiva da
administração referida no art. 33º e 3º/1 CSC

No nosso caso não há razão nenhuma para não tutelar o Alberto

Resumo:
20
Art. 3º/1 1ª parte – regra de conflitos bilateral que remete para a lei da sede principal e efetiva da administração
(tanto podendo ser portuguesa como estrangeira)

Art. 3º/1 2ª parte – regra de conflitos unilateral que se aplica as situações em que a lei da sede estatutária é uma e a
lei da sede principal e efetiva é outra. Diz que se aplica a lei portuguesa (interpretação restritiva – aplica-se a lei da
sede estatutária a não ser que o terceiro pudesse contar com a sede principal e efetiva da administração)

Sub-hipótese 2

E se a empresa tivesse sede estatutária no Brasil e sede principal e efetiva da administração na África do Sul?

Sede estatutária no estrangeiro (Brasil – estado estrangeiro) e sede da administração também (África do Sul – estado
estrangeiro)

Lei competente será em princípio a lei da sede principal e efetiva da administração – lei do Brasil, isto porque se não
cabe na parte especial (art. 3º/1 2ª parte – sede principal em Portugal e sede efetiva no estrangeiro) caberá na parte
geral

Bilateralização – quando a sede estatutária está num país e a sede principal e efetiva está noutro aplica-se a lei da
sede estatutária, desde que o terceiro não pudesse contar com a aplicação da lei da sede principal e efetiva –
problema: estamos perante norma de conflitos unilateral especial. A bilateralização pressupõe a existência de uma
lacuna. No nosso caso não há lacuna no 3º/1 2ª parte porque não o podemos aplicar. Então aplicava-se a lei geral,
não havendo lacuna, não se aplicando então a bilateralização

Isto porque a bilateralização pressupõe que haja uma lacuna. No entanto, isto só acontece com as normas
unilaterais gerais uma vez que, quando se trata de norma especial, não haverá lacuna porque haverá sempre a
norma geral para aplicar quando a especial não se aplique

Quando temos lacuna e não temos então norma de conflitos que regule a situação, aí sim passamos à bilateralização

Estrutura geral das normas de conflitos

Elementos das normas de conflitos:

1. Previsão
a. Delimita o objeto da norma de conflitos (1ª função)
b. Pressupostos de cuja verificação depende a aplicação de normas de conflitos
c. Objeto das normas de conflitos – situações transnacionais
d. Normas do Direito de Conflitos determinam a aplicação de certa norma local a uma categoria de
situações ou a uma dada questão parcial
i. Ex: Roma I – “obrigações contratuais”
ii. 25º CCivil – “estado”, “capacidade”, “relações de família”, “sucessões por morte”,…
e. Ao eleger os elementos de conexão o legislador tem em vista aqueles que, em função da
especificidade das diferentes categorias de situações ou dos seus diferentes aspetos, são os mais
adequados para designar o Direito que vai ser aplicado
f. Art. 15º CCivil – previsão delimita o alcance material da remissão operada pela norma – norma de
conflitos só chama à aplicação as normas e princípio materiais que sejam reconduzíveis a esses
conceitos (2ª função)
g. Normas que regulam questões parciais – não se reportam a situações típicas globalmente
consideradas mas apenas a certos aspetos parcelares (ex: 36º CCivil – não regula o negócio jurídico
na sua globalidade mas apenas a validade formal)
i. Fenómeno de fracionamento das situações transnacionais pelo Direito de Conflitos –
dépeçage
21
2. Estatuição
a. Consequência jurídica que a norma de conflitos desencadeia
b. Tradicionalmente identificada com a conexão (chamamento de um ou mais direitos a regularem a
questão)
i. O elemento de conexão é co-gerador da consequência jurídica concreta/concretização da
estatuição
c. NOTA: nem todas as normas de conflitos são normas de conexão
3. Elemento de conexão

Modalidade de conexão em geral:

A conexão pode ser:

1. Singular – desencadeia a aplicação de um só Direito para reger a questão


2. Plural

A conexão singular pode ser:

1. Simples
a. Designa por forma direta e imediata um único Direito aplicável à questão (ex: 46º/1 CC)
2. Subsidiária
a. Série de elementos de conexão que operam em ordem sucessiva, por forma a que a atuação do
elemento de conexão seguinte dependa da falta de conteúdo concreto do elemento de conexão
anterior (exs: 3º e 4º Roma I; art. 52º CC)
3. Alternativa
a. Dois ou mais elementos de conexão que designam dois ou mais Direitos, sendo aplicado o que, no
caso concreto, se mostrar mais favorável à produção de determinado efeito jurídico (ex: 11º/1 Roma
I – aplica-se até certo ponto a lei mais favorável à validade formal do negócio)
b. Favorece a produção de um efeito jurídico
4. Optativa
a. Dois ou mais elementos de conexão que designam dois ou mais Direitos mas agora será uma
categoria de interessados a escolher (ex: art. 7º Roma II)

Conexão plural pode ser:

a) Simples
a. Exige, para que se produza certo efeito jurídico, a concorrência de dois ou mais Direitos
b. Efeito tem que ser desencadeado ou reconhecido simultaneamente por dois ou mais Direitos
c. Dificulta a produção de um efeito jurídico
d. Ex: art. 33º/3 CC – manutenção da personalidade jurídica depende da concorrência de duas leis
diferentes
b) Condicionante
a. Não há atribuição de competência paritária a dois ou mais Direitos
b. A norma de conflitos chama um Direito como primariamente competente mas atribui a outro
sistema uma função condicionante quanto à produção de certo efeito (ex: art. 60º/1 e 2 CCivil)

Interpretação e aplicação da norma de conflitos

Vigoram essencialmente no Direito de conflitos português normas de fonte supraestadual e interna. Para a sua
interpretação devemos atender:

1. Nas normas de fonte interna – artigos 8º e 9º CC + metodologia desenvolvida pela ciência jurídica

22
a. Interpretação da norma de conflitos como interpretação autónoma relativamente ao Direito
material interno
2. Nas normas de fonte internacional – art. 31º Convenção de Viena sobre o Direito dos Tratados + regras
próprias do Direito Internacional Público
3. Nas normas de fonte europeia – critérios reconhecidos pela jurisprudência e pela doutrina europeias

Casos de integração de lacunas – art. 10º CC:

1. Recorrer-se à norma aplicável a caso análogo (analogia legis)


2. Falta norma aplicável a caso análogo? – Então, concretização dos princípios gerais e ideias orientadoras do
Direito de conflitos (analogia iuris)
3. Não deu para aplicar nenhum dos métodos anteriores? – Então, caberá ao intérprete criar um critério de
decisão “dentro do espírito do sistema”
a. Sob a forma de proposição geral e abstrata, de uma regra de conflitos que seja suscetível de ser
seguida em casos semelhantes

Aplicação das normas de conflitos no tempo e no espaço no capítulo VI, página 465 e seguintes

Elemento de conexão

Lima Pinheiro acha que o elemento de conexão pode ser:

I. Um laço fático entre um dos elementos da situação da vida e um determinado lugar


no espaço que permita individualizar o Direito aí vigente (ex: lugar da situação da
coisa)
II. Um vínculo ou qualidade jurídica que permita individualizar o Direito que o estabelece
(ex: nacionalidade e domicílio)
III. Uma consequência jurídica que se projeta num determinado lugar no espaço
possibilitando a individualização do Direito aí vigente (ex: lugar do efeito lesivo)
IV. Um facto jurídico, tal como a designação pelas partes do Direito aplicável

Elemento de conexão ≠ Conexão

Elemento de conexão – individualiza o Direito a ser aplicado; estabelece uma ponta entre a situação e a ordem
jurídica aplicável

a. Exemplo: 25º e 31º/1 CCivil – submetem o estatuto pessoal à lei individualizada pelo elemento de conexão
nacionalidade

Conexão – chamamento de uma ou mais ordens jurídicas

Classificações dos elementos de conexão:

1. Pessoais VS. Reais


a. Pessoais:
i. Nacionalidade
ii. Domicílio
iii. Residência habitual
iv. Sede da pessoa coletiva
v. …
b. Reais
i. Quanto ao objeto
1. Lugar da situação da coisa
23
2. Lugar do destino das coisas em trânsito
ii. Quanto a factos materiais
1. Lugar onde é praticado o delito
2. Lugar da celebração de um ato
3. Lugar onde se desenrola um processo
2. Modo como os elementos de conexão realizam a sua função de designar o Direito aplicável
a. Via direta
i. Aponta diretamente o Direito aplicável (ex: residência habitual)
b. Via indireta
i. Aponta para um determinado lugar no espaço como via para designar indiretamente o
Direito aplicável (ex: lugar da residência habitual)
3. Estrutura do elemento de conexão
a. Descritivos
i. Lugar da residência habitual
ii. Lugar da situação da coisa
1. Descrevem a situação
b. Técnico-jurídicos
i. Dados normativos ou dados puramente fáticos
4. Modificabilidade temporal do conteúdo concreto do elemento de conexão
a. Móveis
i. Conteúdo concreto suscetível de variar no tempo (nacionalidade, residência habitual, etc.)
b. Imóveis
i. Conteúdo invariável no tempo (lugar da situação de coisas imóveis, lugar onde ocorre um
dano, etc.)

A determinação da remissão em função das circunstâncias do caso concreto:

1. Determinação do Direito aplicável não resulta da concretização do elemento


conexão fixado numa norma de conflitos, mas de critérios flexíveis que deixam uma
margem de apreciação ao intérprete – para levar a uma justiça no caso concreto (ex:
art. 4º/4 Roma I)
2. Critério da conexão mais estreita
a. Altamente indeterminado
b. Carecido de preenchimento valorativo
c. Margem de livre apreciação
d. “Direito mais apropriado ao litígio”

Momentos na interpretação e aplicação do elemento de conexão:

1. Interpretação
a. Determinação do conteúdo do conceito que designa o elemento de conexão (ex: o que se deve
entender por “nacionalidade” enquanto elemento de conexão)
i. Interpretação
1. Dos conceitos técnico-jurídicos
2. Dos conceitos fáticos
2. Concretização
a. Determinação do laço em que se traduz o elemento de conexão (ex: qual o Estado de que António é
nacional)

Interpretação deve ser feita segundo os critérios aplicáveis em função da sua fonte:

24
1. Internacional
2. Europeia
3. Transnacional
4. Interna

Interpretação de norma interna – devem ser determinadas no contexto do sistema em que se inserem mas também
com autonomia relativamente ao Direito material vigente nesse sistema

A concretização do laço em que se traduz o elemento de conexão apresenta 3 problemas para a sua execução:

I. Aspetos gerais da determinação do conteúdo concreto do elemento de conexão


a. Dificuldade de concretização quando diz respeito a um vínculo jurídico. Ex: nacionalidade
i. Questão de saber se o elemento de conexão se concretiza com base na ordem jurídica do
foro ou com base na ordem jurídica cuja designação está em causa
ii. Também nos elementos de conexão que se referem a consequências jurídicas que se
projetam num determinado lugar: determinar se a consequência jurídica se estabelece na
ordem jurídica do foro ou com base na ordem jurídica cuja designação está em causa
II. Casos de conteúdo múltiplo e de falta de conteúdo
a. Conteúdo múltiplo – quando no caso concreto surgem vários laços, que se estabelecem com vários
Estados, reconduzíveis ao mesmo conceito designativo (ex: dupla nacionalidade)
i. Problema resolve-se por norma especial – ex: art. 27º e 28º Lei da Nacionalidade
1. Art. 27º - Entre duplas nacionalidades estrangeira e portuguesa
2. Art. 28º - Entre duplas nacionalidades estrangeiras – se não tiver residência habitual
em nenhuma, então escolhe-se a lei da nacionalidade com a qual ele tenha uma
vinculação mais estreita (princípio da nacionalidade efetiva)
ii. Determinação da vinculação mais estreita – ter em conta todos os laços, de caráter objetivo
ou subjetivo, que exprimam a ligação do sujeito com uma sociedade estadual. Ter
especialmente em conta os laços que exprimam a identidade cultural do plurinacional,
designadamente a língua por ele falada
iii. Página 502 livro LP – aplica-se ou não quando estamos perante uma das nacionalidades
proveniente de um Estado Membro?
iv. Quando não há norma especial o problema deve resolver-se com base na interpretação das
normas de conflito
b. Falta de conteúdo – quando não existe no caso concreto o laço designado (ex: pessoa apátrida)
i. Resolução deste problema:
1. Atender à norma especial que resolva o problema
a. Ex: 12º/1 Convenção de Nova Iorque relativa ao Estatuto do Apátrida – país
do domicílio. Se não te domicílio/residência habitual, então lei do país da
residência ocasional (12º/1 in fine)
2. Não havendo norma especial – critério geral do artigo 23º/2 2ª parte CC – lei que for
subsidiariamente competente
3. Falta de conexão subsidiária – recurso ao Direito material do foro (aplicação
analógica do artigo 348º/3 CC)
c. Em caso de conteúdo incerto (ex: não se sabe bem se alguém é ou não nacional de determinado
Estado e também não se consegue apurar que seja de outro) aplica-se os mesmos critérios que para
a falta de conteúdo
III. Concretização no tempo do elemento de conexão
a. Problema colocado pelos elementos de conexão móveis que são suscetíveis de sofrer alterações no
tempo
b. Exemplo: nacionalidade, residência habitual, lugar da situação da coisa móvel, etc.
25
c. Deslocação da coisa móvel de um Estado para outro muda também a lei designada (sucessão de
estatutos)
d. Resolução do problema de sucessão de estatutos importa distinguir entre duas fases:
i. Determinação do momento relevante da conexão
1. Normalmente, o legislador fixa. No entanto, o problema surge quando não o faz
2. Quando não o faz, releva a conexão no momento da verificação dos factos
(constitutivos, modificativos ou extintivos das situações jurídicas) que estejam em
causa
3. Exemplo: em causa a aquisição de um direito sobre uma coisa móvel que foi
deslocada de um Estado para outro. Atende-se à lei do Estado em que a coisa estava
situada no momento da verificação do facto aquisitivo
ii. Conjugação dos estatutos em presença
1. Princípio da continuidade das situações jurídicas preexistentes – a situação
validamente constituída sob o império do estatuto anterior deve persistir em caso
de mudança de estatuto, a menos que se lhe oponham razões suficientemente
ponderosas. No entanto, nunca é de excluir a tentativa de persistência do direito
constituído mesmo que não haja direito idêntico ou análogo no novo estatuto
2. Ex: art. 29º CC – “a mudança de lei pessoal não prejudica a maioridade adquirida
segunda a lei pessoal anterior”
3. Princípio da continuidade também reclama o desenvolvimento de soluções
materiais especiais para certos problemas de sucessão dos estatutos – ex: nºs 2 a 5
do art. 3º CSC (casos de transferência internacional da sede da sociedade)

A nacionalidade dos indivíduos, a residência habitual e a designação pelo interessado ou interessados

A nacionalidade dos indivíduos

1. Interpretação:
a. Relevância na determinação do seu estatuto pessoal
b. Elemento de conexão primário nos termos do artigo 31º/1 CC
c. Em matéria de relações de família – arts. 52º e 53º CC; art. 8º/c) Roma III
d. Em matéria de responsabilidade extracontratual (fora do estatuto pessoal) – casos residuais em que
se aplique o art. 45º/3 CC – não sendo sempre a lei da nacionalidade, assim, lei pessoal
e. Quanto à função das normas de conflitos, a noção de “nacionalidade” relevante para o Direito de
Conflitos português é a nacionalidade do Estado soberano (seja ela nacionalidade primária ou
secundária)
2. Concretização
a. Duas possibilidades:
i. Concretização lege fori – aplicação do Direito do foro
ii. Concretização lege causae – aplicação do Direito do Estado cuja nacionalidade está em causa
iii. Impõe-se o princípio da liberdade dos Estados na determinação dos seus nacionais – a
nacionalidade tem que se estabelecer segundo o Direito do Estado cuja nacionalidade está
em causa – lege causae portanto
b. Em causa a aquisição e a perda da nacionalidade portuguesa? – ter em conta o disposto na CRP (arts.
4º e 26º) + Convenção Europeia sobre a Nacionalidade + Convenção de Nova Iorque para a Redução
dos Casos de Apatridia + arts. 1º a 8º da Lei da Nacionalidade
c. Em causa concursos de nacionalidades e falta de nacionalidade? – página 30 destes apontamentos
d. Questão da determinação da nacionalidade
i. Portuguesa casa-se com espanhol em Lisboa, sob a forma civil, durante a vigência da
anterior Lei da Nacionalidade. Esta lei dizia que perdia a nacionalidade portuguesa a mulher
26
que casasse com um estrangeiro e adquirisse a nacionalidade dele. No entanto, a lei
espanhola dizia que só seria considerado válido o casamento realizado religiosamente, sob
pena de irrelevância. Assim, este casamento era considerado inválido perante a ordem
jurídica espanhola e ela não adquiria a nacionalidade espanhola, continuando a ter
nacionalidade portuguesa apesar de o casamento ser válido perante a ordem jurídica
portuguesa (MINDBLOWING na minha cabeça)
1. Aplicação do Direito Internacional Privado do Estado cuja nacionalidade está em
causa (lege causae) – princípio da liberdade de cada Estado na determinação dos
seus nacionais

Residência habitual

1. Geralmente é o elemento de conexão subsidiário geral em matéria de estatuto pessoal


2. Relativamente aos apátridas – art. 32º/1 CC + interpretação autónoma dos preceitos + 12º/1 Convenção de
Nova Iorque Relativa ao Estatuto dos Apátridas + 12º/1 Convenção de Genebra Relativa ao Estatuto dos
Refugiados
3. Falta de nacionalidade comum – elemento releva enquanto residência habitual comum: artigos 52º/2, 53º/2,
54º, 56º/2, 57º/1 e 60º/3 CC
4. Residência habitual comum = residência habitual no mesmo Estado soberano (e não a residência no mesmo
lugar ou em conjunto)
5. Também surge na norma de reconhecimento do art. 31º/2 CC
6. Elemento de conexão mais importante em muitas matérias de estatuto pessoal (ex: Roma III – art. 8º/a) e b)
– residência habitual comum; art. 21º/1 Regulamento sobre sucessões)
7. Fora do estatuto pessoal também é importante:
a. Valor negocial de um comportamento, enquanto residência habitual comum do declarante e do
destinatário – art. 35º/2 e 3 CC
b. Matéria de representação voluntária – art. 39º/2 CC
c. Matéria de contratos obrigacionais – Roma I (art. 4º/1 a) e b) e nº2 e em diversas normas de
conflitos especiais)
d. Matéria de obrigações extracontratuais – Roma II (artigos 4º/2, 10º/2, 11º/2, 12º/2 b))
e. Art. 53º/2 in fine CC – questionável se a “primeira residência conjugal” tem que ser uma residência
habitual ou pode ser uma residência ocasional
i. Vários entendimentos sobre o assunto, no entanto há consenso em que a primeira
residência conjugal não vale como sendo uma localização temporária ou mesmo acidental
dos cônjuges num determinado país sem que aí tenham organizado a sua vida (mero
paradeiro)
f. Residência dos indivíduos – centro efetivo e estável da vida pessoal (independentemente de
autorização de residência); nota de permanência
g. Residência ocasional – centro da vida que, embora dotado de certa permanência, é precário
h. Habitual – exige elevado grau de estabilidade e permanência; dura efetivamente um considerável
lapso de tempo
i. Quando tem mais do que uma residência habitual – problema de conteúdo múltiplo: releva a
residência do Estado a que o indivíduo esteja mais estreitamente ligado
j. Falta de residência habitual – no caso dos apátridas e dos refugiados políticos: residência simples,
convergindo com o disposto no artigo 32º/2 CC que remete para a residência ocasional
k. Relativamente a entes coletivos:
i. Roma I – art. 19º
ii. Roma II – art. 23º
iii. Residência habitual corresponde:

27
1. Ao local onde se situa a administração central
2. Ou, no caso de contrato, o facto danoso ou o dano dizerem respeito a um
estabelecimento situado noutro país – o local onde se situa esse estabelecimento

A designação pelo interessado ou interessados

1. Elemento de conexão primário e mais vasto


2. Matéria de negócios obrigacionais (primário) – art. 3º Roma I; 41º CC; art. 5º Convenção de Haia sobre a lei
aplicável aos contratos de mediação e à representação
3. Matéria de pessoas coletivas internacionais – art. 34º CC
4. Matéria de obrigações extracontratuais (primário) – art. 14º Roma II
5. Arts. 7º e 8º Protocolo de Haia sobre a lei aplicável às obrigações alimentares
6. Roma III – art. 5º - matéria de divórcio e separação
7. Roma sobre sucessões – art. 22º - matéria de sucessão por morte
8. Matéria de arbitragem internacional – art. 52º/1 Lei da Arbitragem Voluntária

Outros elementos de conexão

O domicílio

1. Interpretação
a. Relevam os critérios aplicáveis às fontes das normas de conflitos em causa
b. Quando utilizado em normas de conflitos de fonte interna devem incluir-se
i. Uma nota objetiva – permanência num determinado lugar
ii. Uma nota subjetiva – intenção de aí permanecer
c. De resto, conceito deve ser aberto a vínculos de domicílio diferentes dos estabelecidos pela ordem
jurídica do foro, contanto que comparáveis
2. Concretização
a. Alternativa entre concretização lege fori (domicílio determinado segundo regras do Direito do foro)
e concretização lege causae (lei do Estado em cujo território se situa o domicílio em causa)
b. LP prefere a aplicação da lege causae para normas de fonte interna (designadamente em matérias
de estatuto pessoal, em que a estabilidade é particularmente importante)
c. Exemplos de situações de domicílio nas páginas 518 e 519 do livro do professor (ex: domicílio do
menor – art. 85º/1 CC)

A sede da pessoa coletiva

1. Importante para determinação da lei pessoal das pessoas coletivas


2. Art. 33º CC + art. 3º/1/1ª parte CSC – sede principal e efetiva da administração
3. Sede estatutária também releva em matéria de sociedades comerciais (art. 3º/1/2ª parte CSC) e de pessoas
coletivas internacionais (art. 34º CC)

O lugar da celebração

1. Relevante em matéria de forma do negócio jurídico


a. Arts. 36º (norma geral), 50º e 51º (casamento), art. 11º Roma I, art. 21º Roma II e art. 27º
Regulamento sobre sucessões
b. Obrigações voluntárias – art. 42º/2 CC (muito criticável)

Lugar da situação da coisa

1. Principal elemento de conexão em matéria de posse e direitos reais – art. 46º/1 e 2 CC

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2. Também utilizado em matéria de capacidade para constituir direitos reais sobre imóveis e para dispor deles
– art. 47º CC
3. Representação voluntária (residual, quando esta se refira à disposição ou administração de bens imóveis) –
art. 39º/4 CC

O lugar da produção do efeito lesivo

1. Formalmente, “lugar onde ocorre o dano”


2. Matéria de responsabilidade extracontratual – art. 4º/1 Roma II
3. 45º/1 e 2 CC

Outros elementos de conexão

a) Lugar do comportamento negocial, quanto ao valor negocial do comportamento – 35º/2 CC


b) Lugar da receção da proposta, quanto ao valor negocial do silêncio – 35º/3 CC
c) Lugar onde são exercidos os poderes representativos, em matéria de representação voluntária – 39º/1 CC
d) Lugar da atividade do gestor de negócios – art. 11º/3 Roma II
e) Lugar onde a matrícula tiver sido efetuada no que se refere aos direitos sobre meios de transporte – art.
46º/3 CC
f) Lugar do estabelecimento profissional do “intermediário” – art. 6º/1 e 11º/1 Convenção de Haia sobre a lei
aplicável aos contratos de mediação e à representação
g) Entre outros

Caso prático nº9

Em 1983, António, natural de São Paulo, emigrou para a Suíça e fixou residência em Lausanne. Em 1994, António
casou-se com Elaine, de nacionalidade suíça.

Em 2012, António veio viver para Portugal e fez testamento em que instituiu como seus herdeiros, no que respeita
aos bens imóveis situados em Portugal, a sua mulher Elaine e o seu pai Ricardo. António faleceu em 2014.

Sabendo que António:

1. Era considerado considerado cidadão brasileiro pelo Direito da nacionalidade brasileiro;


2. Era considerado suíço pelo Direito da nacionalidade da Confederação Helvética;
3. Era considerado cidadão do Cantão de Vaud

Identificar a questão – lei aplicável à solução. Teria que se ver se o regulamento Roma V se aplicava ou não, não
regulando porque só regula a morte de pessoas falecidas a partir de 2015, aplicando-se então as normas de conflitos
do CC – art. 62º

62º + 31º/1 – Lei portuguesa remetia para a lei da nacionalidade

Tínhamos aqui duas nacionalidades, tendo a lei suíça e a lei brasileira. Havendo dupla nacionalidade temos que
recorrer às normas que resolvem esse problema de conteúdo múltiplo do elemento de conexão: art. 28º lei da
nacionalidade. Remete para a lei do Estado em que tem residência habitual. Como não tinha residência habitual em
nenhum dos estados da sua nacionalidade (sendo em Portugal que a tinha), aplicava-se o critério residual de aplicar
a lei do Estado com que tivesse uma conexão mais estreita

No entanto, aqui há duas ou três nacionalidades? Inclui-se a nacionalidade do Cantão de Vaud?

Há duas. Não consideramos também a nacionalidade do Cantão de Vaud. Isto porque há distinção muito importante
entre elementos de conexão jurídicos e fáticos. Quando o elemento é fático não levanta problemas: basta atender
aos factos da causa. No entanto, quando os elementos são de conexão jurídicos, como no nosso caso, levanta-se o
29
problema de “o que é a nacionalidade” e “quais são as nacionalidades no nosso caso”. Há problema complexo de
determinação do elemento de conexão. Há distinção importante entre:

1. Interpretação – determinar o sentido e alcance de uma norma, neste caso, do elemento de conexão; definir
o elemento de conexão
a. Se a pergunta for “em que consiste a nacionalidade?” então estamos a interpretar o elemento de
conexão
2. Concretização – determinar o conteúdo concreto do elemento de conexão
a. Pergunta: quais são as nacionalidades desta pessoa? De que Estados esta pessoa é nacional?

Vinculo jurídico político entre pessoa e Estado soberano – nacionalidade (interpretação)

Nacionalidade relevante – sempre aquela que se traduz num vínculo jurídico-político com um Estado
soberano. A nacionalidade relevante para o nosso Direito de conflitos é aquela que une a pessoa jurídica e
politicamente a um Estado soberano. Excluía-se então a nacionalidade do Cantão de Vaud

Concretização – determinar conteúdo concreto do elemento de conexão. Qual é a nacionalidade de Teresa?


Interpretação autónoma cujo ponto de partida é o direito do foro, aquilo que nos diz o nosso direito material sobre a
nacionalidade. Para definirmos o que é nacionalidade vamos buscar o que diz o nosso direito do foro, o nosso direito
material

Concretização é lege fori ou lege causae?

Lege fori – aplicação da lei do foro

Lege causae – lei de cada uma das nacionalidades que está em causa

Quanto ao elemento de conexão nacionalidade a concretização é sempre lege causae. Se fizéssemos a concretização
à luz da lex fori veríamos a lei da nacionalidade e apurávamos os critérios dela para fixar a nacionalidade de António

Princípio da liberdade dos Estados na fixação dos seus nacionais. Assim, teríamos que perguntar aos diversos
ordenamentos jurídicos se consideram que António é seu nacional

No caso concreto, teríamos três ordenamentos em contacto: suíça, Portugal e brasil. A concretização lege causae
significa apurar à luz de cada uma destas potenciais leges causaes se consideram ou não essa pessoa nacional. A
suiça dizia que sim, o brasil dizia que sim e Portugal dizia que não. Assim, ele tinha duas nacionalidades

Podemos utilizar esta metodologia para resolver os nossos casos. A interpretação é fundamental para respondermos
à pergunta inicial de saber se António tem duas ou três nacionalidades.

Recorrer à lei do foro ou recorrer à lei dos Estados das nacionalidades em causa para a concretização (ver na
próxima aula)

Caso prático nº 10

Teresa, de nacionalidade francesa e brasileira, residente habitualmente no Brasil, pretende contrair casamento
com Roberto, brasileiro, residente em Portugal.

Determine à luz de que lei, ou leis, deve ser apreciada pelo conservador do registo civil português a capacidade
dos nubentes para contrair casamento.

Identificação da questão – pessoa com dupla nacionalidade (Teresa), de um Estado-membro e de um Estado


terceiro, residente nesse mesmo estado terceiro, quer contrair casamento com Roberto, nacional de Estado terceiro
e residente em Portugal

30
Aplicar normas de conflitos do Código Civil – no caso da capacidade para contrair casamento: art. 49º CC “a
capacidade para contrair casamento é regulada, em relação a cada nubente, pela respetiva lei pessoal”

Relativamente à “lei pessoal” referida, a lei portuguesa remetia para a lei da nacionalidade (de acordo com o artigo
31º/1 e 25º)

Relativamente a Teresa, com dupla nacionalidade, estávamos perante um caso de conteúdo múltiplo. Assim, em
princípio teríamos que recorrer à norma que resolve o problema de conteúdo múltiplo do elemento de conexão em
matéria de nacionalidade: art. 28º. Este remete primeiramente para a lei do Estado em que a pessoa tenha
residência habitual e, na falta desta, a lei do Estado com o qual mantenha uma vinculação mais estreita. Ou seja,
aplicar-se-ia a Teresa a lei brasileira, pois é lá que reside e tem nacionalidade brasileira.

No entanto, uma vez que Teresa tinha a nacionalidade de um Estado-membro da União Europeia e de um Estado
terceiro, segundo o acórdão Micheletti, entender-se-ia que não se aplicaria este artigo porque a nacionalidade
relevante seria sempre a do Estado-membro e não do Estado terceiro, em situações como a do caso concreto, de
dupla nacionalidade, uma de um Estado-membro e outra de um Estado terceiro. Assim, aplicando o definido no
acórdão tal como adota Lima Pinheiro e Marques dos Santos, aplicar-se-ia a Teresa a lei francesa. (nacionalidade
extracomunitária – de Estado terceiro VS nacionalidade comunitária – de Estado-Membro)

Aplica-se a decisão do acórdão Micheletti a normas de conflitos por não fazer sentido e ser indesejável que um
plurinacional fosse tratado como nacional de um Estado para uns efeitos e como nacional de outro Estado para
outros

Acórdão do TJ de 7 de Julho de 1992, Micheletti (relativo a questão prejudicial colocada sobre a interpretação de artigos do Tratado
da CEE e Diretiva 73/148/CEE, relativos à supressão das restrições à deslocação e permanência dos nacionais dos EM’s na
Comunidade, em matéria de estabelecimento e prestação de serviços)

“De acordo com esta interpretação, a Directiva 73/148 prevê que os Estados-membros admitam no seu território as pessoas referidas
no artigo 1.° da directiva mediante a simples apresentação de bilhete de identidade ou passaporte (artigo 3.°) e que concedam a
essas mesmas pessoas, bem como às referidas no artigo 4.°, um cartão ou título de residência, nomeadamente mediante a
apresentação do documento ao abrigo do qual entraram no seu território (artigo 6.°).”

“Assim, quando os interessados apresentem um dos documentos referidos na Directiva 73/148 que comprove a sua qualidade de
nacionais de um Estado-membro, os outros Estados-membros não podem contestar essa qualidade pelo facto de os interessados
possuírem igualmente a nacionalidade de um Estado terceiro que, nos termos da legislação do Estado de acolhimento, prevalece
sobre a do Estado-membro.”

Quanto a Roberto, brasileiro, residente em Portugal, também recorreríamos ao artigo 49º para determinar que seria
a lei pessoal que regularia a capacidade para contrair casamento, sendo esta a lei da nacionalidade (art. 31º/1 e 25º).
Assim, aplicava-se a lei brasileira.

Rita o Brasil é um Estado soberano sua otária

Em suma, as leis que deviam ser apreciadas pelo conservador do registo civil português relativamente à capacidade
dos nubentes para contrair casamento eram as leis francesa (Teresa) e brasileira (Robeto).

Neste caso, se tivéssemos já dado o reenvio, iria-se colocar um problema do mesmo, sendo que as medidas deste
caso prático seriam então provisórias. Mas isso iremos dar mais para a frente

Lege fori e lege causae – a qual recorrer para a concretização do elemento de conexão?

Quando os elementos de conexão se reportam a um vínculo jurídico (como a nacionalidade) começam os problemas
de concretização no que diz respeito à utilização da lege fori ou da lege causae.

Lege fori – com base na ordem jurídica do foro; aplicação do Direito do foro, do local onde está a ser tratada a
situação (nos nossos casos será sempre Portugal)
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Lege causae – com base na ordem jurídica cuja designação está em causa; aplicação do Direito cuja nacionalidade
está em causa

No caso da nacionalidade, tem que se atender ao princípio da liberdade dos Estados na determinação dos seus
nacionais. Este princípio defende que a nacionalidade se estabelece segundo o Direito do Estado cuja nacionalidade
está em causa – lege causae, portanto

Já quanto ao domicílio, também se coloca esta questão, correspondendo a duas teses tradicionais na matéria:

1. Tese da “qualificação lege fori”, seguida nos sistemas de Common Law – lege fori
a. Domicílio determina-se sempre segundo as regras do Direito do foro
b. Levanta problemas ocultos – ex: Estado do foro considera a pessoa domiciliada no Estado
estrangeiro X, que a considera domiciliada no Estado Y, que a tem como domiciliada no seu território
(desarmonia internacional de soluções)
2. Tese da “qualificação territorial” (defendida por Zitelmann) – lege causae
a. Atender à lei do Estado em cujo território se situa o domicílio em causa
b. Apesar de também gerar problemas, considera-se mais adequada à harmonia internacional de
soluções
c. Prefere-se então a concretização lege causae do elemento de conexão domicílio quando utilizado
em normas de fonte interna, designadamente em matérias de estatuto pessoal, em que a
estabilidade é particularmente importante
d. Solução que devia valer para o domicílio legal utilizado no artigo 32º/1 CC. O artigo 85º só deveria
ser aplicado quando está em causa o domicílio legal em Portugal. Para se saber se o apátrida está
legalmente domiciliado num Estado estrangeiro teria de se atender ao disposto sobre o domicílio
legal no Direito deste Estado

Caso prático nº11

Catarina, de nacionalidade portuguesa e francesa, residente habitualmente em Paris, propõe nos tribunais
portugueses uma ação de indemnização contra a sociedade Carinhas e Caretas, Lda., com sede estatutária e
efetiva em Lisboa, proprietária da revista Caretas, por violação do seu direito à imaginem em virtude da
publicação, em Portugal, de uma fotografia obtida sem o seu consentimento.

Admitindo que Catarina sempre viveu em Paris e que nenhuma ligação especial tem com Portugal, qual a lei
aplicável à questão de saber se Catarina é titular do direito à imagem?

Sempre viveu em Paris e não tem nenhuma ligação especial com Portugal

Exclusão da aplicação do Regulamento Roma II? – Identificar sempre a questão. Estar atento àquilo que se pergunta.
Qual a lei aplicável à questão de saber se Catarina é titular do direito à imagem? A lei aplicável para saber se existe
direito à imagem protegida. O Roma II versaria sobre estas matérias se a questão principal fosse sobre
indemnização. Aqui o problema está antes disso, estamos perante uma questão de direito de personalidade.

Também não se aplica o art. 45º por não ser questão de indemnização

Artigo importante – o 27º que remete para a lei pessoal, lei da nacionalidade. Ela tinha duas nacionalidades:
portuguesa e francesa – conteúdo múltiplo. No entanto, aqui há uma nacionalidade portuguesa, não se aplicando o
artigo 28º da lei da nacionalidade (como nos outros casos) mas o 27º, que dá preferência à nacionalidade
portuguesa

Assim, a lei competente seria a lei portuguesa para saber se havia direito à imagem ou não

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Professor Marques dos Santos dizia que se devia interpretar o art. 27º da lei da nacionalidade restritivamente à luz
do princípio da nacionalidade efetiva. Se for discutível que a lei portuguesa não é a da nacionalidade efetiva, não
havendo qualquer ligação da pessoa com ela, não se deve aplicar a lei portuguesa mas a lei estrangeira. No entanto,
isto é uma opinião isolada. Lima Pinheiro dá razão ao artigo 27º da lei da nacionalidade e não ao princípio da
nacionalidade efetiva

Caso prático nº12

António, português residente habitualmente em Portugal, intentou contra Bento, francês residente habitualmente
na França, ação judicial pedindo a condenação deste a reconhecer o direito de propriedade que António teria
adquirido, por usucapião, sobre uma valiosa joia. Só quando se preparava para fazer a sentença é que o juiz se
apercebeu de que não tinha sido alegado nem tinha ficado provado nos autos o lugar em que a joia se situava.

Qual a lei aplicável à questão?

Identificação da questão – português residente em Portugal intenta ação contra francês residente na França, para
que lhe seja reconhecido direito de propriedade sobre valiosa joia

Lugar em que a joia se situava não foi provado

Segundo o artigo 46º/1 CCivil “o regime da posse, propriedade e demais direitos reais é definido pela lei do Estado
em cujo território as coisas se encontrem situadas”

No entanto, aqui o juiz apercebeu-se de que não tinha sido alegado nem tinha ficado provado nos autos o local onde
a joia se situava

Elemento de conexão incerto

Estávamos perante um problema de falta de conteúdo do elemento de conexão. Não há concretização do elemento
de conexão, não é possível identificar a lei competente

Quando o juíz se propõe redigir a sentença verifica que não tem factos no processo sobre o lugar da situação da
coisa. Faltam os factos que lhe permitem concretizar o elemento de conexão

Assim, não se conseguindo identificar o lugar da situação da coisa há falta de conteúdo. O juiz não tem factos para
identificar o elemento de conexão e o lugar da situação da coisa. Como resolver?

Em geral, usa-se a lei subsidiariamente competente (art. 23º/2 2ª parte. Não é primeira parte porque nesta sabe-se
qual é a lei competente, não dá é para identificar o seu conteúdo. Na segunda nem dá para identificar a lei – este
caso)

Estatuição do preceito – recorre-se à lei subsidiariamente competente

Problema – não há lei subsidiária competente. O artigo 46º é conexão singular simples

Então, como se resolve? Doutrina – 348º/3 por analogia. Assim, a lei competente seria a lei portuguesa

Porque é que se aplica o 348º/3 por analogia e não diretamente? – Porque este só se aplica diretamente ao primeiro
problema que está no 23º/3 (impossibilidade de determinação do conteúdo da lei competente). Se o problema for
de impossibilidade de concretização do elemento de conexão aplica-se a conexão subsidiária. Não há então norma
que resolva o problema então só se pode usar o 348º/3 como solução

NOTA: 32º não se usa porque há convenção sobre os apátridas de 1964 (isto para a nacionalidade, não tem nada a
ver com o caso)

33
Mais artigos de conexão subsidiária: 31º, 32º, 52º/2

Regulação por normas de Direito comum do foro “autolimitadas” e relevância de normas imperativas estrangeiras

Norma autolimitada – norma material que, apesar de incidir sobre situações reguladas pelo Direito Internacional
Privado, tem uma esfera de aplicação no espaço diferente da que resultaria da atuação do sistema de Direito de
Conflitos

Processo de regulação interna e que só se verifica em casos excecionais

Exemplo: contrato de agência – art. 38º DL 178/86, de 3/7 – aos contratos regulados por este diploma que se
desenvolvam exclusiva ou preponderantemente em território nacional só será aplicável legislação diversa da
portuguesa, no que respeita ao regime da cessação, se a mesma se revelar mais vantajosa para o agente. Assim,
norma de conflitos unilateral alarga a competência atribuída à lei portuguesa pelas normas de conflitos gerais.
Assim, o regime português será aplicado:

a) Quando o contrato for regulado por lei portuguesa


b) Quando o contrato for regulado por lei estrangeira mas se desenvolva exclusiva ou
preponderantemente em território nacional, se tal regime for mais favorável ao agente
que o contido na norma estrangeira

As normas “autolimitadas”

As normas autolimitadas podem resultar:

1. De serem acompanhadas de uma norma de conflitos unilateral ad hoc, que se reporta exclusivamente a uma
norma ou a uma lei material determinada da ordem jurídica do foro
2. De uma valoração casuística, feita pelo intérprete face ao conjunto das circunstâncias do caso

Podem ser divididas em 4 categorias:

I. Normas que têm esfera de aplicação no espaço mais vasta do que aquela que decorreria do
Direito de Conflitos (tipo I)
a. Aplicáveis sempre que o Direito do foro é chamado pelo Direito de Conflitos geral e
ainda noutros casos
b. Ex: contrato de agência dado um bocado acima
c. Mais importantes juntamente com as normas de tipo II
II. Normas que têm esfera de aplicação no espaço que só em parte coincide com aquela que
decorreria do Direito de Conflitos geral (tipo II)
a. Aplicam-se em alguns casos em que o Direito do foro é chamado pelo Direito de
conflitos geral e noutros casos em que o Direito do foro não é competente
b. Ex: normas do Direito da Concorrência
c. Mais importantes juntamente com as normas de tipo I
III. Normas que têm esfera de aplicação mais restrita do que aquela que decorreria do Direito
de Conflitos geral (tipo III)
IV. Normas que têm esfera de aplicação no espaço completamente diferente da que decorreria
do Direito de Conflitos geral (tipo IV)

Normas de aplicação necessária – normas que em determinados casos reclamam aplicação apesar de ser
competente, segundo o Direito de Conflitos geral, uma lei estrangeira (critério formal) – ex: 21º/d) LCCG. Normas de
aplicação imediata são sempre materiais (doutrina concorda toda)

Exemplos:
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1. Art. 9º/1 Roma I – normas aplicáveis “independentemente da lei que de outro modo seria aplicável ao
contrato)
2. Art. 16º Roma II – disposições que “regulem imperativamente o caso concreto independentemente da lei
normalmente aplicável à obrigação extracontratual”

E quanto a um critério material? Divisão doutrinária:

a) Muitos autores defendem que só são de aplicação necessária aquelas normas que prosseguem fins com
determinada natureza ou intensidade valorativa
b) Francescakis – normas de aplicação imediata aquelas “cuja observação é necessária para a salvaguarda da
organização política, social e económica do país”
a. LP discorda. É certo que as normas “autolimitadas” suscetíveis de aplicação imediata estão até certo
ponto relacionadas com o fenómeno da ordenação e intervenção estadual por via normativa das
relações privadas mas não se restringem a estes casos
i. Exemplo: contrato de agência e seu regime de cessão. Nada tem a ver com a “organização
política, social ou económica do país”, mas sim com a proteção do adquirente (proteção da
parte contratual tipicamente mais fraca sem fim coletivo)
c) Doutrina dominante na Alemanha – art. 7º Croma permite apenas a aplicação das “normas de intervenção”,
entendidas geralmente como aquelas que tutelam principalmente interesses públicos

LP também diz que as normas “autolimitadas” suscetíveis de aplicação imediata não devem ser caracterizadas pelo
seu conteúdo e fim. Se, por indicação do legislador português, uma norma se sobrepõe à ordem jurídica chamada
pelo Direito de conflitos geral, esta norma será suscetível de aplicação imediata independentemente de outras
considerações, nomeadamente relativas ao seu conteúdo e fim

Critério material – Roma I, art. 9º/1 (+ considerando nº 37 Regulamento) – refere “organização política, social ou
económica” – critério adotado pelo TJUE (com respeito pelo art. 7º CRoma no seu recente acórdão no caso Unamar)

Jurisprudência portuguesa tem respeitado o caráter excecional das normas de aplicação imediata ou necessária –
sobreposição de normas imperativas à lei competente tem sido extremamente rara

Quando é que o intérprete deve entender que determinada regra é “autolimitada”?

1. Se o legislador formula expressamente norma de conflitos ad hoc, como é norma especial, prevalece sobre o
Direito de Conflitos geral, dentro dos limites traçados por normas internacionais ou europeias
2. Na falta de determinação legislativa, surgem duas teses:
a. “Autolimitação” por via interpretativa
i. LP diz que isto suscita muitas dúvidas. Parece-lhe duvidoso que a interpretação de uma
norma possa ser conclusiva quanto à esfera de aplicação no espaço/possa conduzir a uma
solução conflitual (conteúdo e fim podem fornecer indicações importantes para o efeito mas
não parece que uma interpretação possa levar a uma conclusão conflitual)
ii. Assim, quando não há declaração expressa, há 3 vias para qualificar uma regra material
como sendo suscetível de aplicação necessária:
A. Inferência de uma norma de conflitos ad hoc
B. Criação de uma solução conflitual ad hoc à luz da teoria das lacunas da lei*
C. Vigência de uma cláusula geral que permita colocar o problema da aplicabilidade da
norma material em função das circunstâncias do caso concreto
b. Na falta de determinação legislativa, o intérprete não pode qualificar uma norma como sendo de
aplicação imediata

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*Posição de Lima Pinheiro – posição intermédia – a criação de uma solução conflitual pelo intérprete pressupõe a
revelação de uma lacuna que deva ser integrada dessa forma (lacuna oculta na maioria dos casos porque a situação
se encontra em princípio abrangida por uma norma do sistema de Direito de Conflitos)

Caso prático nº 13

Em 20 de Novembro de 2015, Joaquim, português com residência habitual em França, após ter visto um anúncio
da sociedade Painters’R’Us, com sede na Alemanha, no jornal Le Monde, contactou-a com vista a celebrar um
contrato de prestação de serviço de pintura da sua casa de férias situada no Algarve.

O contrato foi celebrado mediante recurso a cláusulas contratuais gerais fixadas pela sociedade Painters’R’Us. Nas
cláusulas contratuais gerais dispunha-se que:

1. “A lei reguladora do contrato é a lei francesa”;


2. “São competentes para dirimir litígios decorrentes deste contrato os tribunais portugueses”;
3. “As partes desde já excluem toda e qualquer responsabilidade que pudesse ser assacada à sociedade
Painters’R’Us, nomeadamente a que pudesse resultar de vícios no cumprimento da prestação a que se
obrigou a sociedade neste contrato”

Joaquim verificou que, por causa da pintura defeituosa efetuada pela sociedade Painters’R’Us, a sua casa de férias
tinha agora problemas graves de infiltrações.

Em ação intentada perante um tribunal português contra a sociedade Painters’R’Us, Joaquim requer indemnização
pelos danos sofridos e alega que, ao abrigo do Direito português, a cláusula de exclusão de responsabilidade
constante do contrato não é válida.

Na contestação, a sociedade alega que nada deve e que a cláusula de exclusão de responsabilidade é válida à luz
da lei escolhida pelas partes.

Quis júris, admitindo que a lei francesa considera a cláusula de exclusão de responsabilidade válida?

Elementos fundamentais do caso – português que vive na França e sociedade com sede na Alemanha; o que dispõe
as cláusulas contratuais gerais

De acordo com a lei francesa era válido, de acordo com a portuguesa não

Âmbitos de aplicação do Roma I – em causa contrato de prestação de serviços, ponderando logo a hipótese de
aplicação do Roma I. todos os âmbitos de aplicação estão preenchidos e a lei competente em princípio seria de facto
a escolhida (francesa)

A lei francesa diria que a cláusula de exclusão de responsabilidade era válida. A sociedade em princípio teria razão.
Todavia, o contrato foi celebrado com cláusulas contratuais gerais e esta cláusula é proibida à luz da lei portuguesa
(21º d) LCCG). No entanto, isto faz parte da lei portuguesa. Continuamos então no mesmo porque a lei competente é
a francesa e não a portuguesa

No entanto, 23º/1 LCCG – independentemente da lei escolhida (devia ser independentemente da lei competente –
prof.) de acordo com as regras de conflitos gerais, a aplicação das disposições contidas nesta secção não pode ficar
prejudicada se houver conexão estreita com o ordenamento jurídico português (neste caso acontecia – lugar da
execução do contrato). Havendo então esta conexão estreita a lei portuguesa remetia para a lei portuguesa, sendo
competente a lei portuguesa pelo 21º/1 LCCG

No entanto, a lei competente do regime jurídico material do contrato seria a lei francesa. Só o que é excluído pelo
21º/1 d) seria à luz da lei portuguesa – aspeto da validade da cláusula do contrato em causa

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A LCCG diz que o direito português diz que a cláusula não é válida. Todo o resto do contrato será de acordo com a lei
francesa

Resumindo: LEI COMPETENTE É A FRANCESA MAS DE ACORDO COM O 21º/1 D) E 23º A CLÁUSULA DE EXCLUSÃO DE
RESPONSABILIDADE É INVÁLIDA. ISTO ERA REGULADO PELA LEI PORTUGUESA (SÓ ISTO)

21º/1 d) – Norma de conflitos unilateral ad hoc expressa (ad hoc porque remete apenas para um conjunto de
normas materiais individualizadas, para um grupo muito restrito de normas materiais – neste caso o artigo diz
“apenas para as normas desta secção”). O que é norma de aplicação imediata é a norma MATERIAL e não a norma
de CONFLITOS UNILATERAIS. Ou seja, neste caso a norma de aplicação imediata era o 23º e não o 21º

O artigo 23º aqui derroga o art. 3º Roma I. Mas como é que uma norma de conflitos de fonte interna pode
derrogar/afastar uma norma de conflitos de fonte comunitária? Não há primado do Direito Europeu? – É o próprio
regulamento que o permite (art. 9º/2) + 23º Roma I

Tese de Marques dos Santos + tese do Lima Pinheiro relativamente às normas autolimitadas:

Marques dos Santos – normas materiais de aplicação imediata como normas espacialmente autolimitadas adotadas
de especial intensidade valorativa; espacialmente autolimitadas (âmbito de aplicação no espaço diferente do
traçado pelas regras de conflitos gerais); autolimitação espacial sempre através de normas de conflitos unilaterais
especiais ad hoc (do foro, que se reportam a um pequeno conjunto ou apenas a uma única norma material –
PRÓXIMO CASO TEM ISTO)

Normas de conflitos especiais ad hoc podem ser expressas ou implícitas. O art. 23º é expresso mas são
poucas. Normalmente são implícitas. Agora, como encontrar estas normas que não são implícitas mas
expressas? Qual é o método para as encontrarmos?

Lima Pinheiro – normas de aplicação imediata são sempre normas materiais

NOTA: as normas de conflitos unilaterais ad hoc podem ser expressas ou implícitas. Como se interpreta a norma
implícita?

Marques dos Santos – esta norma de conflitos unilateral especial ad hoc implícita resulta de processo de
interpretação da norma material a partir dos fins da função/do conteúdo/das finalidades da norma de aplicação
imediata. Tem que se detetar o âmbito de aplicação espacial da norma especial de aplicação imediata a partir dos
fins desta; defende exatamente o contrário de Lima Pinheiro: normas de aplicação imediata são verdadeiramente
autolimitadas. Regras de conflitos enraíza-se na própria norma material. A norma de conflitos não se concede sem a
norma material e vice-versa; ideia fundamental = normas de aplicação imediata ao serviço de interesses do Estado

Francescakis – normas de aplicação imediata: processo completamente autónomo do regime geral/comum

Lima Pinheiro – posição intermédia entre as duas teses principais:

1. “Autolimitação” por via interpretativa, com recurso a critério teleológico que atenda ao fim político-jurídico
prosseguido pela norma material
a. Duvida que a esfera de aplicação no espaço possa ser deduzida com base em mera interpretação
b. Duvida porque o conteúdo e o fim da norma podem fornecer indicações importantes para o efeito,
mas não parece que a interpretação dela possa por si conduzir a uma solução conflitual
c. Necessário raciocínio conflitual, que valore o significado dos diferentes elementos de conexão
d. Reconhece três vias para qualificar uma regra material como sendo de aplicação necessária:
i. Inferência de uma norma de conflitos ad hoc implícita
ii. Criação de uma solução conflitual ad hoc à luz da teoria das lacunas da lei

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iii. Vigência de uma cláusula geral que permita colocar o problema da aplicabilidade da norma
material em função das circunstâncias do caso concreto
2. Na omissão do legislador, o intérprete não pode qualificar uma norma como sendo de aplicação necessária

Posição intermédia do Lima Pinheiro – fins importantes mas não chegam para identificar a norma material/delimitar
o seu âmbito de aplicação no espaço. É sempre necessária uma valoração conflitual, uma ponderação de contactos
que está por baixo de qualquer formulação de uma norma de conflitos, para se verificar se se deve aplicar a norma
naquele espaço ou não. Quando falamos em normas de aplicação imediata não temos processo de regulação novo
relativo ao direito de conflitos. É uma regulação indireta. Diferença entre as normas de aplicação imediata e o direito
de conflitos geral/comum é apenas uma diferença de técnica de regulação. Mas o processo de regulação é o mesmo
– processo de regulação indireto. Rejeita então a visão de Marques dos Santos, não chamando então “normas de
aplicação imediata”, achando a aplicação mediata/indireta; diz que não concorda com a terminologia “normas
autolimitadas” porque estas normas não são verdadeiramente autolimitadas porque o seu âmbito de aplicação no
espaço não resulta delas próprias, a sua delimitação. Resultam da norma de conflitos unilateral especial ad hoc

Ainda Marques dos Santos – não se deve distinguir entre o âmbito de aplicação possível e o necessário das normas
de aplicação imediata. Estas so se aplicavam única e exclusivamente dentro do seu âmbito de aplicação necessário

Âmbito de aplicação possível – art. 3º/1 (ex)

Caso prático nº 14

Igual ao anterior, mas:

A) A casa de férias situa-se em Marrocos;


B) A lei escolhida pelas partes é a lei portuguesa;
C) A lei marroquina sobre cláusulas contratuais gerais não tem normas equivalentes
aos artigos 21º, 22º e 23º do Regime das Cláusulas Contratuais Gerais português.

Quid juris?

Elementos do caso – português que vive na França e sociedade com sede na Alemanha. Quantos às cláusulas:

1. Designam como lei competente a portuguesa


2. Designam como tribunais competentes os portugueses
3. Excluem toda e qualquer responsabilidade que pudesse ser assacada à sociedade, nomeadamente a que
pudesse resultar de vícios no cumprimento da prestação a que se obrigou a sociedade no contrato

Âmbitos de aplicação do Roma I – em causa contrato de prestação de serviços, ponderando logo a hipótese de
aplicação do Roma I. Todos os âmbitos de aplicação estão preenchidos e a lei competente em princípio seria de facto
a escolhida (portuguesa) – lei portuguesa integralmente aplicada ao contrato (3º/1 – regra de conflitos geral)

Neste caso, iríamos questionar se aplicávamos o artigo 21º/1 d) LCCG. À luz da lei portuguesa a cláusula não era
válida.

Art. 21º/1 d) (norma de aplicação imediata) LCCG: relativo à cláusula de responsabilidade

“São em absoluto proibidas, designadamente, as cláusulas contratuais gerais que:

a) Excluam os deveres que recaem sobre o predisponente, em resultado de vícios da prestação, ou estabeleçam,
nesse âmbito, reparações ou indemnizações pecuniárias predeterminadas”

No entanto, não recorreríamos primeiro ao art. 23º ao contrário do outro caso porque não há uma questão de lei
escolhida mas conexão mais estreita com a ordem jurídica portuguesa (nem há conexão mais estreita com Portugal)
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Nem o 23º/1 nem o 23º/2 se aplicavam. Então discutia-se a norma de aplicação imediata – art. 21º (meter aqui as
teorias do Marques dos Santos e do Lima Pinheiro)

21º/1 d) – Norma de conflitos unilateral ad hoc expressa (ad hoc porque remete apenas para um conjunto de
normas materiais individualizadas, para um grupo muito restrito de normas materiais – neste caso o artigo diz
“apenas para as normas desta secção”).

Lima Pinheiro – não é necessário distinguir o âmbito necessário do âmbito possível. Aplicar-se-á a norma de conflitos
geral. Relação normas gerais – normas especiais. A norma de aplicação imediata tanto pode ser aplicada por força da
regra de conflitos geral como pela regra de conflitos especial

Marques dos Santos – artigos 21º, 22º e 23º já não seriam aplicados, porque os fins prosseguidos por estas normas
já não estariam em causa, visto que o Estado entende que está em causa um interesse público e não se verifica uma
conexão estreita com a ordem jurídica portuguesa. Dizia que a 21º/1 d) só se aplicava no âmbito de aplicação
necessária. Não se aplicava porque não havia conexão estreita com a ordem jurídica portuguesa. Apesar de a lei
competente ser a portuguesa não se aplicava o 21º/1 d) porque estamos fora do âmbito de aplicação necessária da
norma imediata. Neste caso aplicava-se a lei portuguesa menos o 21º/1 d), sendo a cláusula válida a menos que
houvesse outra norma no ordenamento jurídico português que determinasse a nulidade da norma. Apesar de lei
portuguesa ser a competente o 21º/1 d) fazer parte dela não poderíamos aplicar porque a REGRA DE CONFLITOS
ESPECIAL AD HOC (23º) como não se aplicava por não haver conexão mais estreita não permitia que se aplicasse
também o 21º/1 d), NORMA DE APLICAÇÃO IMEDIATA, não se justificando o âmbito de aplicação no espaço especial

Caso prático nº 15

A e B, britânicos nascidos em Londres, casados há 10 anos, vivem em Portugal há 5. Recentemente, A decide


vender, sem o consentimento de B, a casa de morada de família (situada em Portugal). Na ação intentada por B
contra A, este vem dizer que vendeu a casa legitimamente, na medida em que se aplica o direito inglês, que se
considera competente para resolver a questão e não contém regra equivalente à do artigo 1682º-A/2 do CC
português. Quid juris?

Respeita a normas de conflitos unilateral implícita ou não

Situação transnacional – ordens jurídicas em contacto: britânica e portuguesa

Questão em causa – legitimidade da venda de bens dos cônjuges, na constância do matrimónio. Capacidade para
dispor de um bem imóvel situado em Portugal

Normas de conflitos potencialmente aplicáveis – arts. 52º e seguintes e 1682º-A/2

As relações entre os cônjuges, relações matrimoniais, são reguladas pela lei nacional comum (art. 52º/1). Aqui, os
cônjuges têm a mesma nacionalidade, pelo que se aplica a lei britânica (lei portuguesa remete para a lei britânica)

Marques dos Santos – entende que o artigo 1682º-A/2 constitui um exemplo de uma norma de aplicação imediata, à
qual devemos recorrer sempre que a casa de morada de família se situe em Portugal. Di-lo por via interpretativa,
partindo da ratio da norma material, identificando nesta sede uma norma de conflitos implícita, unilateral ad hoc.
Parte sempre dos fins das normas, perguntando-se se se justificava a sua aplicação no espaço em termos gerais ou
em termos especiais

Lima Pinheiro – não concorda com Marques dos Santos. Repudia a criação de normas de conflitos implícitas pela via
interpretativa, como é o caso. As que eventualmente poderão ser identificadas, são implícitas por via do costume, a
partir da análise de princípios de aplicação no espaço ou de integração de lacunas (só se aplicaria o 1682-A/2 se
existissem razões para não se aplicar o 52º CC). Com efeito, em princípio vigorará sempre uma norma de conflitos

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geral, pelo que a conclusão por uma norma de conflitos ad hoc só poderá ser extraída por interpretação restritiva ou
redução teleológica

Caso prático nº 16

Em 20 de Novembro de 2015, Joaquim, português com residência habitual em França, após ter visto um anúncio
da Sociedade Painters’R’Us, com sede na Alemanha, no jornal Le Monde, contactou-a com vista a celebrar um
contrato de prestação de serviço de pintura da sua casa de férias situada na Suíça.

O contrato foi celebrado mediante recurso a cláusulas contratuais gerais fixadas pela sociedade. Nas cláusulas
contratuais gerais dispunha-se que:

1. A lei reguladora do contrato é a lei francesa


2. São competentes para dirimir litígios decorrentes deste contrato os tribunais portugueses
3. As partes desde já excluem toda e qualquer responsabilidade que pudesse ser assacada à sociedade,
nomeadamente a que pudesse resultar de vícios no cumprimento da prestação a que se obrigou a
sociedade neste contrato

Joaquim verificou que, por causa da pintura defeituosa efetuada pela sociedade, a sua casa de férias na Suíça
tinha agora problemas graves de infiltrações.

Em ação intentada perante um tribunal português contra a sociedade, Joaquim requer indemnização pelos danos
sofridos e alega que a cláusula de exclusão de responsabilidade constante do contrato não é válida. Na
contestação, a sociedade alega que nada deve e que a cláusula de exclusão de responsabilidade é válida à luz da
lei escolhida pelas partes.

Quid juris, admitindo que a lei francesa considera a cláusula de exclusão de responsabilidade válida e a lei suíça
sobre cláusulas contratuais gerais, aplicável a contratos executados no seu território, considera a mesma cláusula
inválida?

Respeita a se é norma de conflitos do foro ou estrangeira

Âmbitos de aplicação do Roma I – em causa contrato de prestação de serviços, ponderando logo a hipótese de
aplicação do Roma I. todos os âmbitos de aplicação estão preenchidos e a lei competente em princípio seria de facto
a escolhida (francesa) (+ art. 9º?)

Lei suíça considerava a cláusula inválida. Qual será a relevância de normas de aplicação imediata de Estados
terceiros? – art. 9º/3 Roma I – podia remeter-se para a lei suíça desde que reunidos os pressupostos (normas de
reconhecimento de normas de aplicação imediata de Estados terceiros – Marques dos Santos), sendo de acordo com
este (país de execução) seria ilegal

Deveria, para se saber se se dava prevalência à lei suíça, ter em conta a natureza, objeto e consequências da
aplicação ou não aplicação da sua norma de aplicação imediata (art. 9º/3)

Veja-se o art. 23º/2 LCCG

Sub-hipótese: a resposta seria idêntica se o contrato tivesse sido celebrado em 2008?

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