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CAPA

TÍTULO ORIGINAL:
RETURN TO ZERO
(LORIEN LEGACIES REBORN #3)

EQUIPE DE TRADUÇÃO:
JOHN DC
DAVID SOUZA
ISABELA LOURENÇO

REVISÃO E CRIAÇÃO DO E-BOOK E ARTE DE CAPA:


DAVID SOUZA

2019
Os últimos sobreviventes de Lorien – a Garde – foram enviados
à Terra ainda crianças. Espalhados através dos continentes, eles de-
senvolveram seus poderes extraordinários, conhecidos como Lega-
dos, e se prepararam para defender o planeta que os adotou.
A Garde frustrou a invasão Mogadoriana na Terra. Durante esse
processo, eles mudaram a natureza do planeta. Os Legados começa-
ram a se manifestar nos seres humanos.
Essa nova Garde assusta algumas pessoas, enquanto outras
procuram uma forma de manipular a forma como eles devem usar
seus dons.
E embora os Legados tenham o propósito de proteger a Terra,
não são todos os Gardes que vão usar seus poderes para o bem.
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DANIELA MORALES
SEDE DA GARDE TERRESTRE, NOVA IORQUE
“OPERAÇÃO LIMPEZA EM ANDAMENTO. SUBSTÂNCIA EXTRATER-
RESTRE DESCONHECIDA EM GRANDE ESCALA”
1
Método utilizado pelos policiais de Nova York em que eles param as
pessoas, sem precisar dar explicações ou pedir permissão, para revistá-
las em busca de ilícitos ou armas.
TAYLOR COOK
A.G.H. – POINT REYES, CALIFÓRNIA
DUAS SEMANAS ANTES

Taylor piscou e desviou o olhar da janela. Do outro lado do


corredor da nave, aquela garota da Garde Terrestre que apareceu
com Caleb estava encarando-a com um olhar preocupado. Taylor
acha que ela se chama Daniela.
— O que? – Taylor respondeu com um tom de cansaço na
voz. Os olhos dela doíam, as bochechas dela ainda estavam quentes.
— Eu perguntei se você está bem – Daniela disse. — Você
estava rangendo os dentes.
Taylor tocou a boca. — Eu estava? – ela estava? Jesus. Ela
fez um grande esforço para liberar a pressão da mandíbula. — Tem
sido longos... – dias? semanas? — Estou muito exausta – Taylor
concluiu. — E muito brava para dormir.
— Acabamos de presenciar uma loucura – Daniela disse,
rindo incredulamente. — Foi a situação mais doida que eu presen-
ciei desde a invasão.
— Pois é – Taylor respondeu. — Foi uma doideira mesmo.
O Professor Nove apareceu no corredor, saindo da cabine
de comando, com uma expressão sombria no rosto. Ele assentiu
para Taylor antes de se dirigir para Daniela.
— A Garde Terrestre já está me enchendo o saco – ele disse.
— Tem uma equipe de transporte na Academia esperando por você
e Melanie. Eles querem que vocês voltem para Washington...
Taylor se desligou deles, voltando a encarar a janela en-
quanto a espaçonave de Lexa descia. Quando a Academia entrou
no campo de visão dela, Taylor viu Maiken Megalos treinando seu
Legado de supervelocidade na quadra, dando voltas ultra rápidas.
Maiken parou o treinamento quando avistou a espaçonave, enca-
rando-a com os olhos estreitos. Então, ela olhou para o prédio dos
estudantes. Maiken era bem conhecida como uma intrometida de
galocha. Ela queria dar a notícia de que o Professor Nove e os ou-
tros haviam voltado para o campus. Ela queria contar a todos.
O que significava que Taylor não tinha muito tempo até en-
contrar Miki, se é que ele ainda está no campus. Acabaram por des-
cobrir que o tweeb estivera escondendo o seu Legado que o permite
se transformar em vento e que ele também era um espião da Fun-
dação. Ele ajudou Taylor a escapar do campus assim que ela con-
venceu a Fundação de que estava do lado deles. Ela queria dar uns
tapas nele.
Ela poderia fazer isso, pelo menos. Uma pequena vitória no
meio de tantas derrotas.
Os motores da espaçonave de Lexa ainda estavam ligados e
a rampa de saída mal havia tocado a terra quando Taylor saiu às
pressas da nave em silêncio, seguindo direto para o prédio dos es-
tudantes. A maioria dos outros estavam cansados demais para no-
tar. Nove tinha um pequeno grupo de Pacificadores esperando,
provavelmente prontos para levarem Melanie e Daniela de volta à
sede da Garde Terrestre. Nigel estava preocupado com a mãe dele
– Bea – já que as manchas se movimentando abaixo da pele dela se
pareciam muito com o que Taylor havia visto nos soldados da
Blackstone na Sibéria. A mulher não estava nada bem, mas Taylor
não estava de bom humor para oferecer ajuda com seu Legado de
cura. E também havia aquela mulher espiã – Agente Walker – a
responsável por “cuidar” de Ran e Kopano para aquele grupo au-
todenominado Watchtower, que agia nas sombras e que estava ope-
rando junto com a Garde Terrestre. Walker estava focada em pro-
curar Rabiya, a Garde com o Legado de teleporte da Fundação, que
agora estava abertamente do lado deles, e Walker, a nova recruta,
estava vasculhando os campos da Academia com os olhos brilhan-
tes como se esperasse vê-la aqui.
E com isso não restou ninguém para seguir Taylor.
Bem, com exceção de Kopano.
— Eu conheço esse andar – Kopano disse, as pernas longas
dele alcançando Taylor rapidamente. — Estamos prestes a fazer al-
guma coisa irada.
Taylor olhou para ele, exausta demais para piadas. Franca-
mente, ela não entendia como ele podia estar agindo de maneira tão
alto astral depois de ter sido sequestrado, ter tido um chip instalado
à força no cérebro dele e depois ter participado de uma batalha
contra um Lorieno de verdade. Mas o Kopano seria o Kopano.
— Tenho que achar o Miki – Taylor disse, o tom de voz
ríspido.
— Sim, falamos sobre isso durante o voo – Kopano respon-
deu.
— Eu sei.
— E decidimos não fazer nada sem pensar duas vezes.
Taylor aumentou a velocidade. — Quem decidiu isso? Não
foi eu.
Todas as vozes no prédio dos estudantes desapareceram
quando Taylor escancarou a porta dupla com sua telecinese. Ali es-
tava Maiken, bem no meio, provavelmente acabando de contar para
todo mundo que ela viu a nave Lexa pousar. A garota olhou para
Taylor com um olhar nervoso.
Taylor não podia culpá-los pelos olhares. O rosto dela estava
péssimo, sem nem falar do cabelo. Ela estava vestindo um traje para
neve preto e pesado, totalmente inapropriado para a Califórnia, pa-
recendo que ela tinha acabado de voltar de uma escalada no Hima-
laia ou, para ser mais preciso, que ela havia caído dessa montanha.
O traje estava rasgado em várias partes e cheirava lodo e sangue,
sendo que a maioria não era dela.
Taylor olhou o salão. Maiken, Nicolas Lambert, Omar
Azoulay, Simon Clement, uma garota de cabelo azul marinho cujo
nome Taylor desconhecia e mais uns quarenta estudantes.
Onde ele estava?
Simon, o garoto francês que tinha o Legado de transferência
de conhecimento, finalmente quebrou o silêncio. — Mon Dieu. Tay-
lor, o que aconteceu com você?
Ela não respondeu. Os olhos dela pulavam de mesa para
mesa.
— Minha nossa, Kopano – Nicolas exclamou. — Eles sol-
taram você da prisão?
Kopano havia seguido Taylor e adentrado no prédio, já sem
fôlego por tentar manter o passo com ela. Ele estava vestindo uma
camisa e uma calça, não um traje como o da Taylor, mas as roupas
dele estavam igualmente rasgadas e com manchas de sangue. Ao
contrário de Taylor, ele imediatamente percebeu o fato de que eles
estavam fazendo uma cena.
— Olá, pessoal – ele disse. — Estou de volta. E.. hum.. eu
não estava na prisão. É uma longa história.
— Eu acho que falo por todos quando digo que amamos
ouvir suas histórias – Maiken disse para Kopano, ainda evitando
olhar para Taylor.
Lá.
Lá nos fundos havia uma mesa só com tweebs.
— Bem – Kopano começou a dizer.
— Você – Taylor disse, apontando para Miki.
Isso surpreendeu a todos, com exceção, talvez, do próprio
Miki. Todos os tweebs que estavam sentados na mesa com ele o
encararam, mas logo começaram a gritar e a sair correndo quando
Taylor, telecineticamente, virou a mesa deles de ponta cabeça. Tay-
lor foi até lá, ignorando as perguntas e exclamações, até estar em
cima de Miki. Ele nem se levantou do chão.
— Eu não vou brigar com você – Miki disse. Todos estavam
trocando olhares, menos os dois, como se se perguntassem “por
que Taylor iria querer brigar com Miki?”
— Ótimo – Taylor disse. — Se você estiver pensando em
fugir, nem tente. Tudo o que fizemos durante a viagem de volta foi
em pensar numa forma de detê-lo.
Miki estreitou os olhos para ela, depois sorriu. — Eu acho
que você está blefando. Mas eu não vou fugir também.
— Não fugiria correndo, para ser mais exato – Kopano
disse, um alívio na voz. Brisa. É um verbo mais preciso.
— Brisa – Mike disse. — Eu gosto. Mas também não vou
fazer isso.
— Quem se importa em como chamamos? – Taylor respon-
deu. — Você vai vir de forma voluntária, então?
— Sim – Miki respondeu. — Para onde vamos?
— O Professor Nove quer conversar com você.
Atrás deles, Nicolas exclamou um exagerado “ohhhhh” e que
ninguém ligou. Taylor agarrou Miki pelo antebraço e o guiou para
fora do prédio dos estudantes sem dizer qualquer outra palavra.
Kopano esfregou as mãos.
— Então – ele disse. — O que tem para o almoço?
Do lado de fora, Miki tentou se livrar de Taylor.
— Você não precisa me arrastar até lá – ele disse enquanto
Taylor o empurrou pelo campus, na direção do prédio de adminis-
tração. Quando ela não respondeu, ele acrescentou: — Você está
me machucando.
Taylor lançou um olhar para Miki. Os olhos dele estavam
cheios de lágrimas. Ela nem havia percebido que estava empre-
gando força demais no antebraço fino do garoto. A mente dela es-
tava completamente focada em colocar um pé na frente do outro.
Ela estava parecendo uma zumbi. Era difícil fazer contas básicas
por conta do fuso horário, mas ela tinha certeza que estava lutando
contra Mogadorianos na Sibéria há apenas alguns dias. Da Sibéria
para a Suíça. Ela viajou metade do mundo, tirando apenas pequenos
cochilos durante as viagens.
O que todo esse estresse trouxe de bom? Para começo de
conversa, ela perdeu três amigos. O grande plano de infiltração dela
na Fundação acabou com apenas um membro em custódia – um –
e era a mãe de Nigel. Sem mencionar que a mulher praticamente se
deixou ser capturada.
E agora, ela tinha o Miki. Sem mais infiltrados na Academia.
Pelo menos isso era alguma coisa. Uma pequena vitória.
Mas o quão isso importava?
Quanto mais Taylor olhava para o mundo fora da Dakota
do Sul, menos ele fazia sentido. Tudo estava uma bagunça, e as pes-
soas corruptas no comando de tudo isso continuavam a escapar
com mais planos secretos para serem postos em prática – levando
pessoas boas como ela, Isabela, Caleb e Ran – cada vez mais à ponta
do abismo. O quão longe ela terá que ir para vencer essa luta contra
as organizações como a Fundação que desrespeitam totalmente a
ética e a moral? O que seria essa “vitória”?
— Nossa – Miki disse. — Taylor, qual é.
Taylor percebeu que estava cravando as unhas na pele dele.
Ela o soltou.
— Me desculpe – ela murmurou.
— Tudo bem – Miki disse, roçando o braço. — Então, o
que aconteceu? Você pegou eles?
Taylor encarou Miki novamente. Ela sabia que ele podia es-
capar se quisesse. Ela estava blefando quando disse que sabia como
detê-lo. O máximo que eles conseguiram pensar foi em usar aspira-
dores de pó ultra tecnológicos para prendê-lo. Se Miki quisesse fu-
gir dali, ela não teria como impedi-lo.
Mas ele parecia aliviado por ter sido pego.
— Nós pegamos... – Taylor esfregou as mãos no rosto. —
Nós pegamos um deles. Um dos que estava no comando. Mas eu
não tenho certeza se isso é importante.
— Oh – Miki disse, desanimado. — Eu estava esperando
que você me dissesse que tudo acabou.
— Me desculpe... mas você poderia me lembrar por que se
importa? – Taylor respondeu. — Você não trabalha para aqueles
idiotas?
— Não de forma voluntária – Miki disse. — Eu poderia ter
dito a eles sobre seu plano. Suas reuniões secretas com o Professor
Nove e com os outros. Mas eu não contei.
— Ou talvez isso seja apenas uma estratégia sua para se apro-
ximar mais de nós e depois causar um dano maior.
Miki sorriu. — Isso é sério? Você está muito além da para-
noia, Taylor.
— Você estaria paranoico se tivesse visto metade das merdas
que eu vi.
— Eu não culpo você por não confiar em mim – Miki disse.
— Eu também não confiaria. Mas se isso te faz se sentir melhor, eu
deixou vocês me trancarem nas celas abaixo do prédio da adminis-
tração. Eu não vou tentar escapar, embora nós sabemos que eu
conseguiria. Eu vou ficar lá até você estar pronta para confiar em
mim.
Enquanto eles se aproximavam da fachada reluzente do pré-
dio da administração, Taylor diminuiu o passo.
— Como você sabe que existem celas lá embaixo? – ela per-
guntou.
— Eu sou o vento. Eu explorei cada centímetro desse lugar.
Você não sabia disso?
Taylor mexeu a cabeça. — Não.
— Eu presumo que seja o lugar onde o Professor Nove vai
me trancar. Eles já trancaram a Dra. Linda lá e aquele mercenário
bastardo, o Alejandro – Miki sorriu. — Acho que a Isabela deu um
jeito nele. Foi legal da parte dela. Ele era meu contato da Fundação.
Ele mereceu o que aconteceu com ele.
Da mesma forma como na noite em que ele ajudou Taylor a
escapar da Academia, ela se surpreendeu com a franqueza de Miki.
Apesar de tudo, ela estava começando a gostar dele.
— Por que você fez isso? – ela perguntou. — Trabalhar para
eles, quero dizer.
Miki suspirou. — Você já ouviu falar do Nome Nove?
— Uma versão menor do Professor Nove?
Ele riu. — Não gnome com g. Nome com n. É de onde eu
sou lá no Alaska.
— Nunca estive lá – Taylor disse.
— Imaginei. Quase ninguém esteve lá. É um lugar protegido
por povos indígenas. Há alguns anos, uma das grandes companhias
de combustível encontrou petróleo no oceano a apenas alguns me-
tros depois do limite das nossas águas. Meus pais ficaram de fato
convencidos que eles haviam falsificado o relatório e que o petróleo
estava, na verdade, dentro dos limites das nossas terras, mas o go-
verno ignorou e abafou o caso, permitindo que a companhia se-
guisse com a construção das plataformas, mesmo tendo a possibi-
lidade de vazamento e ignorando o fato do meu povo depender
daquelas águas para... bem... para tudo.
Taylor assentiu. — Tá? Então teve um vazamento?
— A coisa é que o vazamento nunca ocorreu de fato porque
meus pais e alguns amigos explodiram o lugar. A imprensa os
chama de Nome Nove.
— Oh – Taylor respondeu. — Que intenso.
— Eles foram presos, tipo, uma semana antes das naves Mo-
gadorianas aparecerem, então a história meio que ficou esquecida.
O governo me mandou para a casa de uma família qualquer, que
me acolheram, e, nesse meio tempo, desenvolvi meu Legado. E foi
então que a Fundação me encontrou – Miki gesticulou com a mão
no ar para afastar a memória, achatando a grama à frente com uma
explosão de telecinese. — Um advogado apareceu e disse que ele
poderia tirar meus pais da prisão, embora eles fossem praticamente
terroristas. Não só isso, ele também disse que poderia garantir que
a companhia de combustível não voltasse para reconstruir a plata-
forma.
Taylor já sacou como a história terminaria. — Tudo o que
você precisaria fazer em troca seria trabalhar para eles.
— Bingo – Miki disse. — Eu não sabia o que a Fundação
era até então. A Garde Terrestre nem havia sido formada ainda,
muito menos a Academia. Eu não ligava para qual lado eu estava.
Eu só queria ajudar meus pais e salvar nossa terra.
Taylor colocou as mãos dentro dos bolsos de seu casaco de
neve volumoso. Ela se sentiu um pouco culpada por ter sido tão
rude com Miki.
— Provavelmente eu teria feito a mesma coisa – ela admitiu.
— A coisa é que estive pensando muito sobre o que meus
pais teriam feito se estivessem no meu lugar. Ou o que eles teriam
pensado se eu lhes contasse sobre o acordo que fiz com a Fundação
– Miki olhou para os sapatos. — Eu cheguei à conclusão de que
eles estariam putassos comigo. Tão envergonhados que provavel-
mente insistiriam em voltar para a prisão. Eles são duros e bravos.
Eu finalmente estou pronto para fazer o que meus pais teriam me
encorajado a fazer desde o começo. E isso seria explodir a coisa
toda. Acabar com a Fundação. Estou farto de ser uma das mario-
netes deles.
A história de Miki tinha muita coisa para processar de uma
vez só. Taylor esteve rodeada por muitos mentirosos nos últimos
dias, mas ele pareceu estar sendo sincero.
Momentos depois, eles estavam parados em frente ao prédio
da Administração. O Professor Nove estava esperando por eles ali,
flexionando os dedos da sua mão cibernética. Ele parecia querer
socar alguma coisa, como sempre. Ele estava com essa expressão
azeda dede que voltaram da Suíça, onde ele teve uma briga com seu
velho amigo Número Cinco. Taylor sentiu Miki se encolher depois
de perceber o olhar de Nove.
— Tudo bem, você aí – Nove disse, apontando para Miki.
— Vamos ver.
— Ver o quê?
— Você sabe o que – Nove tamborilou os dedos. — Ouvi
dizer que você esteve nos espionando, wendigo.
— Ah, aquilo.
Com um olhar incerto para Taylor, Miki se transformou.
Num segundo ele estava parado do lado de Taylor, no outro ele
havia desaparecido – mas de não por completo. Estreitando os
olhos, Taylor ainda podia ver as partículas de átomos de Miki espa-
lhadas pelo ar. Ele parecia uma pequena nuvem de poeira. Imitando
uma brisa agora, Miki flutuou pelo ar ao redor da cabeça de Nove,
reaparecendo do outro lado de Taylor em seguida.
— Fofo – Nove disse, passando a mão no cabelo. — Pode-
mos ajudá-lo isso. Treiná-lo. Descobrir do que você é capaz.
— Eu sei – Miki disse. — Eu aceito essa ajuda.
Nove colocou sua mão cibernética no ombro de Miki. —
Vamos entrar – ele olhou para Taylor. — A Garde Terrestre quer
falar com você. Eles querem falar com todos nós. Eu disse a eles
que isso pode esperar. Você pode descanar nesse meio tempo.
— Ainda não – ela disse. — Ainda preciso conversar com
algumas outras pessoas.
Nove estreitou os olhos para ela. — Como é? Quem?
Taylor gesticulou para o prédio dos estudantes. — Meu
povo.
— Seu povo... – Nove ergue uma sobrancelha ao ouvir isso.
— Eu não sei o que você tem em mente. Talvez devemos conversar
sobre o que falar antes. Ou, pelo menos, eu poderia ir com você...
— Sem ofensa – Taylor respondeu, — mas eu acho que isso
é algo que nós, Gardes Humanos, precisamos conversar entre nós.
Os lábios de Nove se comprimiram. Essa era a expressão
que o Grande Nove fazia quando tentava descobrir algo obser-
vando todos os ângulos. O professor autodeclarado era daqueles
que preferia partir para a agressão, porém, naquele momento, ele
estava realmente tentando ser mais circunspecto. Tentando ver a
situação como um todo.
— Você não está pensando em incitar uma rebelião em
massa, está? – Nove perguntou. — Eu só posso dar conta de rebe-
liões se elas acontecerem, tipo, uma vez por mês.
— Eles já sabem que alguma coisa está acontecendo – Tay-
lor disse. — Não podemos mantê-los no escuro para sempre.
Nove pensou sobre isso. — Confio em você – ele disse, fi-
nalmente. — Faça o que tem que ser feito.
Taylor voltou para o prédio dos estudantes. Desta vez, ela
não fez uma grande entrada. Em vez disso, ela decidiu entrar sem
ser notada pela porta lateral. Todo mundo estava focado em Ko-
pano, que estava sentado em uma mesa central com uma enorme
tigela de burritos na frente dele. Eles estavam todos falando ao
mesmo tempo, então Taylor apenas observou e escutou.
— Eles nos disseram que você foi levado daqui para sua pró-
pria proteção – Lisbette disse para Kopano. — Isso foi uma men-
tira?
Taylor se pegou olhando Lisbette de cima a baixo. Ela é da
Bolívia. Ela tinha a habilidade de criar e manipular gelo. Porém, ela
gostava mais de usar seu Legado para criar esculturas reluzentes,
mas ainda assim demonstrava bom controle sobre a habilidade. Ela
poderia ser útil.
— Hum... eu acho que esse é um dos lados da moeda – Ko-
pano respondeu. Ele levou um pouco de arroz e feijão até a boca,
usando a comida para ganhar tempo enquanto pensava no que di-
zer. — Desculpe gente, estou com muita fome...
— Nossa, eu também – Maiken disse. — Sempre ficou fa-
minta após uma corrida – ela pegou um pouco das tortilhas do
prato de Kopano, comendo-as rapidamente. — Sério, Kopano,
você precisa nos contar o que está acontecendo...
Maiken é da Grécia. Chata e falante. Rápida que nem a luz.
— Eu não tenho certeza do quanto posso contar para vocês
– Kopano respondeu, engolindo em seco. Taylor percebeu que
parte dele estava gostando da atenção. — É meio que sigiloso.
— Ninguém vai falar nada sobre Taylor ter arrastado Miki
dali como se ela fosse algum tipo de autoridade? – Danny disse, um
tweeb do Canadá, que teve o almoço arruinado quando Taylor der-
rubou a mesa em que eles estavam.
— Ela parecia muito irritada – disse Greta Schmidt, uma
Garde alemã que tinha como Legado a habilidade de ver em todos
os espectros de luz.
— Ela sempre parece estar irritada – Danny respondeu.
— Eu não sei – Anika Jindal se manifestou, colocando a
bandeja de plástico de almoço na mesa. — Taylor sempre foi muito
gentil enquanto me curava. Se ela está irritada com Miki, provavel-
mente ela tem um bom motivo.
Anika era nova na Academia, mais nova até que Taylor. Ela
veio de Delhi e seu Legado consistia em magnetismo. Ela ainda não
sabia controlá-lo, então ela estava frequentemente atraindo objetos
de metal pontudos na direção do próprio corpo. Taylor precisou
curá-la diversas vezes.
— Esqueçam Taylor e Miki – Nicolas Lambert disse, o ga-
roto belga com o Fortem, enquanto ele se inclinava na direção de
Kopano. — Eu quero saber mais sobre essas missões secretas que
vocês são designados quase que mensalmente.
— A primeira vez não foi uma missão secreta – Kopano res-
pondeu de forma inocente. — Apenas nos envolvemos em proble-
mas depois de escapar do campus.
— Merde, Nic... deixe o cara comer – disse Simon. Ele estava
sentado na frente do marroquino que absorve e expele fogo, Omar
Azouley, ambos entretidos num jogo de xadrez. Omar estava mais
focado no seu próximo movimento no jogo do que nas conversas
ao redor dele.
— Não te incomoda o fato deles não nos contarem nada? –
Nic perguntou para Simon.
— Na verdade, não incomoda não – Simon respondeu.
— Me incomoda – Maiken disse.
— Tipo, estudamos aqui também – Nic continuou, olhando
para Kopano, que continuou comendo. — Merecemos saber o que
está acontecendo lá fora.
— Xeque-mate, francês bobão – Omar disse.
— Nem era sua vez de jogar – Simon respondeu, distraído.
Ele esticou o braço e pegou o bracelete de Omar. — Você se es-
queceu de como jogar? Espera eu recarregar isso aqui.
— Eu gostaria de poder contar mais a vocês, pessoal – Ko-
pano disse. — Eu...
— Você pode nos contar mais – Nic o interrompeu. — Você
só não quer. Vocês são assim. Tentam manter toda ação para vocês
mesmos.
— Faz quanto tempo que você chegou aqui, Nic? – a per-
gunta veio de uma garota com cabelo tingido de turquesa que Tay-
lor nunca viu antes.
— Desde que a Academia foi inaugurada, “Nemo” – Nic
respondeu, fazendo aspas no ar ao pronunciar o nome da garota.
— Por que isso importa?
— Então você esteve seguro aqui por quase dois anos. Você
não faz ideia de como a vida lá fora está uma loucura, no mundo
real – Nemo respondeu. — O que quer que Kopano e os outros
estiveram fazendo, tenho certeza que foi para ajudar as pessoas
como nós.
— Ainda assim acho que não é justo nos manterem no es-
curo – Nic respondeu com um franzido. — Parece que não sou
bom o suficiente para as missões secretas que são designadas? Olhe
para mim. Pelo menos eu posso fazer bem mais do que nadar por
um longo período de tempo sem me afogar.
Nemo revirou os olhos. — Fazendo bullying com Legados.
Legal da sua parte.
Alguém pigarreou ao lado de Taylor. Ela virou a cabeça e viu
que Nigel havia se esgueirado para o lado dela perto da parede. Os
olhos dele estavam vermelhos, a postura parecida com uma flor
murcha. Se alguém passou por mais perrengues nas últimas sema-
nas do que Taylor, foi Nigel. Ela se preparou para dizer algo e para
colocar uma mão no ombro dele, mas ele gesticulou com o queixo
na direção de Kopano.
— Você vai deixar o grandão ficar com toda a atenção?
Taylor voltou a olhar para Kopano, que estava encostado na
cadeira e passou a limpar a boca com um guardanapo enquanto Nic
continuava a pressioná-lo.
— Meus amigos, de verdade, eu queria muito poder contar
mais a vocês sobre as nossas aventuras – Kopano declarou amiga-
velmente, — mas elas são ultra secretas.
— Ah, essa porcaria de novo – Nic reclamou. — Quem disse
isso?
— Deveríamos dizer algo para o Professor Nove ou para
outra pessoa da administração – Maiken disse. — Essa situação está
realmente me distraindo ao ponto de eu não conseguir melhorar
meu Legado.
Taylor suspirou. Ela se desencostou da parede. Olhando
além das mesas lotadas com alunos conversando, Taylor percebeu
que havia alguns membros da equipe da cozinha andando em volta
do bufê, além de um pacificador guardando a saída dos fundos. Ela
não sabia se eles podiam ouvi-los. Não podia correr nenhum risco.
Ela se virou para Nigel. — Será que você podia nos colocar
numa bolha de som para que ninguém fora dela nos ouvisse?
— Você e eu?
— Não – Taylor disse, mexendo a cabeça. Ela gesticulou
para os Gardes que estavam ao redor de Kopano. — Todos nós.
— O que você pretende fazer?
— Há segredos demais – Taylor respondeu. — Estou de
saco cheio disso.
Em seguida, eles caminharam para a frente, parando no meio
dos outros Gardes. Eles ficaram gradualmente em silêncio quando
perceberam que Taylor esteve ali por boa parte da conversa. Nic se
afastou de Kopano e a avaliou.
— O que você fez com Miki? – ele perguntou.
Taylor levanto um dedo. Ela esperou até sentir uma mu-
dança no ar ao redor e não poder mais ouvir os pássaros cantando
do lado de fora do prédio dos estudantes. Nigel criou a bolha de
anti-som.
— Vocês querem saber o que está acontecendo? – Taylor
olhou diretamente para Nic, e depois para todos os rostos dentro
da bolha.
— Hum... quero dizer... você pode ir tomar um banho an-
tes... — Lisbette disse baixinho. — Podemos esperar.
Taylor a ignorou, suspirando. Ela percebeu que todos os
Gardes ali estavam prestando atenção nela.
— Descobrimos sobre a Fundação quando eles me seques-
traram... – ela começou.
Taylor contou tudo para eles.
Sobre a Fundação e Bea Barnaby.
Sobre o espião na Academia.
Sobre a Watchtower, a organização clandestina que estava tra-
balhando dentro da Garde Terrestre.
Sobre a Sydal Corp e o designer de armas que trabalhava tanto
para a Garde Terrestre quanto para a Fundação.
Sobre todas as facções que estavam interessadas em con-
trolá-los ou simplesmente erradicá-los.
E Taylor contou o que pode vir a acontecer.
O sol estava prestes a se pôr quando Taylor finalmente ter-
minou de responder o que pareceu ser um interrogatório intermi-
nável de seus colegas de classe. Cada vez mais Gardes chegavam, o
pessoal ali saindo para buscar seus colegas de quarto ou amigos,
para que eles soubessem que grandes coisas estavam acontecendo.
As aulas foram ignoradas. Eventualmente, todos os alunos do cam-
pus estavam ali. Ela sentiu que estava explicando a mesma coisa
repetidas vezes, mas permaneceu paciente. Em determinado mo-
mento, o Professor Nove e o Dr. Goode apareceram para observá-
los, mas ficaram respeitosamente fora da bolha anti-som de Nigel.
A boca dela estava seca de tanto falar. Ainda com seu traje
para neve rasgado por conta da última batalha, agora aberto até a
cintura, Taylor se arrastou de volta para o dormitório sentindo
como se pudesse dormir por um ano. Por sorte, Kopano estava ao
lado dela e parecia feliz em deixá-la se apoiar no ombro dele.
— Aquilo foi bem legal da sua parte – ele disse.
Taylor coçou o queixo. — Estou exausta.
— Sabe, quando a primeira geração de Gardes Humanos de-
senvolveram os Legados, John Smith nos puxou para dentro de
uma visão e explicou tudo sobre os Mogadorianos. Durante muito
tempo, eu pensei que havia sonhado aquilo.
— Sim – Taylor disse, exausta, — você me já me contou.
— Você me fez lembrar dele há pouco – Kopano disse.
Taylor bufou. — De John Smith? Sério? Seu ídolo?
— Você é minha nova ídolo.
Taylor apertou o braço dele. — Estou feliz que você tenha
pensado nele, porque durante o tempo todo eu estive pensando no
Einar.
— Eca. Por quê?
— Por conta de todo o discurso dele sobre nos unirmos.
Sobre nos tornarmos livres. Ele é um assassino insano e monstru-
oso, mas algumas das coisas que ele disse fazem sentido. Ele queria
expor tudo o que está acontecendo.
— Eu prevejo um “mas,” – Kopano disse. — Eu espero que
tenha um “mas,” vindo.
Enquanto eles se aproximavam da entrada dos dormitórios,
Taylor sentiu seus olhos pesarem. A cama dela. Tão perto. Ela pau-
sou por um longo período, juntando os pensamentos.
— Mas – ela disse, finalmente, — ele estava errado sobre um
ponto em específico. Sobre nos tornarmos livres. Não precisamos
disso. Nós já temos um lugar onde podemos ser livres.
— Temos?
Taylor gesticulou com a mão na frente dela, abrangendo os
terrenos, as luzes piscando nos prédios, os Gardes rondando em
pequenos grupos, provavelmente discutindo todas as coisas loucas
que ela havia acabado de lhes contar.
— Aqui – ela disse. — Esse é o nosso lugar. E vamos lutar
até o fim por ele.
CALEB CRANE
ROMA, ITÁLIA

principal, que era aproximadamente do mesmo tamanho de todo


o primeiro andar de sua casa em Nebraska, Caleb ficou impres-
sionado ao ver como cada centímetro da casa parecia brilhar. Ele
leu em algum lugar que todo o ouro extraído da história humana
se encaixaria em apenas três piscinas olímpicas. Caleb imaginou
que esse lugar deveria ser responsável em ter pelo menos o valor
de uma piscina. Os ladrilhos de mármore estavam cobertos de
ouro. Veias de ouro corriam pelas colunas de madeira da cama
maciça. Uma pintura bizarra na parede – anjos sem camisa com
espadas flamejantes perseguindo um homem sorridente em um
carro de corrida cintilante – estava alojada em uma moldura
dourada ornamentada.
Caleb não conseguia entender esse estilo. O cara que mo-
rou aqui era super rico. Ok. Entendido. Mas por que ele sentiu a
necessidade de se lembrar constantemente disso? Algo estava
definitivamente errado com alguém que precisava ser tão cha-
mativo.
Mais uma vez, o dono da casa era um membro da Funda-
ção, então o mau gosto era apenas a ponta do iceberg de seus pro-
blemas psicológicos.
O quarto estava vazio, assim como todos os outros cômo-
dos que Caleb havia verificado até agora. O andar de cima estava
limpo. Ele estava prestes a ir procurar os outros quando algo o
espetou nas costas.
— Pare de olhar para peitos – ordenou uma voz atrás dele.
— Estamos tentando nos infiltrar aqui.
Caleb se virou e encontrou Isabela sorrindo para ele. Ela
segurava uma nectarina em uma mão e uma faca na outra, o cabo
ainda apontado para ele.
— Você não deveria estar me espionando – disse Caleb,
corando quando ele percebeu o que deve ter parecido para Isa-
bela: como se ele estivesse admirando aquela pintura sarcástica.
— Um dos meus clones poderia ter atacado você.
— Ah, por favor, todos os seus clones me amam – ela res-
pondeu, passando por ele. — Enfim. O lugar está vazio. Nós ve-
rificamos todos os cômodos.
— Assim como o último – disse Caleb amargamente.
Duas semanas se passaram desde a Suíça. Duas semanas
desde que Caleb virou as costas para a Garde Terrestre e se jun-
tou a Einar (um psicopata), Cinco (também um psicopata) e Du-
anphen (surpreendentemente normal em comparação a eles).
Depois de alguns dias descansando na espaçonave apertada de
Einar, eles tentaram rastrear mais de seus ex-contatos da Fun-
dação. Mesmo depois da confusão na Suíça, todos concordaram
que levar os membros da Fundação à justiça era o melhor uso do
tempo deles. Bem, Isabela pensou que eles deveriam estar se di-
vertindo e aproveitando a riqueza que eles acumularam, mas o
resto deles queria fazer algo produtivo.
Na Grécia, encontraram uma propriedade de algum cons-
pirador deserta. Eles tentaram outro nome em outra mansão,
desta vez na Croácia. Ninguém em casa. E então, eles vieram
para cá, para a casa de um ex-piloto de Fórmula 1 que virou um
investidor, aparentemente um grande consumidor do mercado
negro da Garde Humana. Mas ele também se foi.
— Tenho a impressão que Roma vai ser mais divertido do
que Creta. – disse Isabela alegremente. — Mas a outra mansão
era muito melhor. Este lugar é meio desprezível, não acha?
— Dói meus olhos – disse Caleb, sempre feliz por poder
concordar com Isabela sobre alguma coisa. Ele pigarreou. — Fa-
lando nisso, eu não estava olhando para os peitos. Só para cons-
tar.
Isabela considerou a pintura como se estivesse em um mu-
seu, batendo de leve com a faca no queixo. — Por que não? Você
não gosta deles?
Caleb abriu a boca, mas não conseguiu encontrar uma res-
posta.
Roupas aleatórias estavam no chão do quarto ou pendu-
radas em gavetas entreabertas. A porta do guarda-roupas estava
entreaberta, cabides vazios empilhados em um canto. Pelo que
parece, o piloto do carro de corrida deve ter feito as malas às
pressas. Talvez ele tenha pressentido que os anjos vingadores
de sua pintura estavam finalmente alcançando-o.
Isabela pegou uma camisa de seda de lavanda do chão e
jogou no rosto de Caleb.
— Veste isso aí e estaremos prontos para ir para a boate
– disse Isabela.
Caleb se desfez da camisa e fez uma careta. — Você pre-
cisa levar isso mais a sério.
— Oh, certo, nós estamos em uma missão – Isabela abai-
xou o tom de voz para um sussurro e balançou os dedos para ele.
— Puff. Eu teria ficado na Academia se quisesse ter aulas, Caleb.
— Não te incomoda que nenhuma das pistas de Einar so-
bre a Fundação tenha dado certo? Que não conseguimos nada?
Que somos basicamente fugitivos sem um plano?
— Temos uma nave extraterrestre cheia de dinheiro.
Para que precisamos de um plano? – ela roçou sua faca contra o
estrado da cama. — Acha que isso é ouro de verdade?
— Isabela. Qual é.
— Você deveria estar feliz por não termos encontrado
ninguém da Fundação – disse Isabela, com os olhos escurecidos
enquanto se concentrava em Caleb. — Einar e Cinco provavel-
mente iriam querer matá-los, você e Ran discordariam e eu teria
que ouvir vocês brigando.
— Dissemos que não mataríamos ninguém – respondeu
Caleb. — Nós não somos assassinos. Estamos tentando levar es-
sas pessoas à justiça.
Isabela zombou. — Você é uma doçura.
— Você está sendo irônica.
— Obviamente – Isabela gesticulou com a faca no ar en-
quanto falava. — Quem você acha que vai fazer essa 'justiça',
hmm? A Garde Terrestre quer nos prender. Todos os governos
pensam que somos terroristas. A Fundação consegue se livrar de
qualquer problema. Se você quer justiça, matá-los é realmente o
melhor que podemos fazer.
— Você não acredita realmente nisso – Caleb disse baixi-
nho.
Ela colocou a última fatia de fruta em sua boca e jogou o
caroço fora. — Olha, eu concordo com você. Matar é um grande
desperdício de esforço. Nós temos um ditado – se correr o bicho
pega; se ficar o bicho come. Se você correr, o bicho te pega; se você
ficar, o bicho come você. Entendeu?
— Ferrado se fizer, ferrado se não fizer.
— Exatamente! Então, se não há nada que possamos fazer
sem nos ferrarmos, nossa melhor opção é nos ferrar.
— Não tenho certeza se isso significa o que você acha que
significa.
— Esqueça toda essa coisa de justiça. Nós podemos fazer
qualquer coisa – ela pulou na cama. — Nós temos dinheiro; nós
temos poderes; nós podemos — Ah! – Isabela perdeu o equilíbrio
quando a cama se moveu estranhamente sob seus pés. Ela teria
caído, mas Caleb pulou para frente e ela se apoiou no ombro dele.
— Um colchão d'água – declarou Isabela, pisando no col-
chão ondulante. — Que ridículo. Agora sabemos que este ho-
mem é mau.
Isabela se soltou dos ombros de Caleb e navegou pelas
cama ondulante até chegar nos travesseiros, que estavam dire-
tamente abaixo da pintura. Ela virou a faca e a segurou firme.
— Ele deve encomendado essa pintura, né? O que você
acha que ele pediu? Tipo a Capela Sistina, mas para um perdedor
excitado?
Caleb soltou um sorriso e tentou pensar numa piada. Ele
não era o melhor quando se tratava de improviso, especialmente
com Isabela. Antes que ele pudesse formular algo espirituoso,
Isabela cortou a faca na tela.
Caleb se estremeceu.
— Quero dizer, alguém passou um bom tempo pintando
isso... – ele disse fracamente.
— Sim, e foram pagos e, em seguida, provavelmente pas-
saram uma semana lavando os olhos – Isabela caiu em uma po-
sição sentada, o movimento "acidentalmente" fazendo com que
sua faca mergulhasse no colchão de água. Ela a deixou lá, um
fluxo constante de água borbulhando ao redor da alça. — Oops.
— Então... viramos vândalos agora – disse Caleb. — Foi
para isso que nós deixamos a Garde Terrestre.
Ela se levantou e gentilmente deu um tapinha na boche-
cha dele, os dedos ainda grudentos por conta da nectarina. — Eu
não sei por que você os deixou – disse Isabela. — Eu? Eu estava
cansada de receber ordens. Talvez você não admita, mas eu acho
que você também gosta de receber ordens – ela deu um chute
enfático na cama, que estava vazando. — Você está cansado de
ordens. Mas você tem aquela coisinha aí dentro – uma consciên-
cia ou o que quer que seja – que continua dizendo que você pre-
cisa fazer algo importante. Quanto mais cedo você parar de ouvir
essa coisa, mais feliz você será.
Mais uma vez, a mente de Caleb se encheu de frases meio
formadas, nenhuma das quais serviria como respostas para Isa-
bela. A boca dele estava aberta e ele fez um esforço consciente
para fechá-la para que não parecesse um completo idiota.
Isabela não percebeu. Ela já havia começado a atravessar
a sala, em direção à suíte.
— Você verificou aqui? – ela perguntou por cima do om-
bro enquanto abria a porta.
— Não, ainda não. Eu—
O grito de Isabela o interrompeu. Caleb deu um pulo para
frente, se apressando na direção do banheiro e parando bem
atrás dela. Ele meio que esperava encontrar algum assassino da
Fundação à espreita no chuveiro ou uma bomba afixada no bidê
cintilante. Mas não havia ameaça alguma.
Havia apenas uma Jacuzzi.
Isabela apertou o braço dele. — Você está vendo isso? Eu
acho que tem hidromassagem – ela passou os dedos pelos cabe-
los. — Você tem noção do quão nojenta eu me sinto por ficar
confinada naquela espaçonave?
Ela não parecia nojenta para Caleb. Como de costume, a
pele dela estava perfeita, o cabelo impecável. Mas tudo isso era
graças ao Legado de Isabela.
Caleb já viu a verdadeira aparência de Isabela, as cicatri-
zes de queimadura que ela ganhou graças a um acidente antes da
invasão. Ele olhou para ela, tentando enxergar através da más-
cara. Ela poderia realmente ser tão cínica sobre a situação deles?
Será que ele seria realmente mais feliz se ignorasse a pressão de
sua consciência e adotasse o VSVUV2 como Isabela recomen-
dou? Ele era capaz disso? As pessoas ainda diziam VSVUV? Só
de pensar no acrônimo ele já ficava ansioso.

2
N. T. – Acrônimo para “Você Só Vive Uma Vez” – em inglês, YOLO, “you
only live once”.
Isabela abriu o zíper da capa da Jacuzzi e empurrou-a para
o lado. Ela ligou os jatos, o vapor começando a subir imediata-
mente. Os espelhos de parede a parede incrustados de ouro sobre
a pia começaram a embaçar. Ela estendeu a mão até o quadril e
abriu o zíper da saia, levando a mão com o mesmo movimento
fluido para tirar a blusa.
Caleb engoliu em seco.
Ela olhou por cima do ombro para Caleb como se tivesse
esquecido completamente dele, embora isso obviamente era ape-
nas mais um dos joguinhos dela.
— Vai entrar? – ela perguntou, um braço envolto ao peito
del.
— Não, uh, eu—
— Então feche a porta – disse ela, fazendo um gesto com
a cabeça. — Você está deixando o frio entrar.
Com as bochechas coradas, Caleb saiu do banheiro. En-
quanto ele fechava a porta, ele jurou que ouviu Isabela rindo
dentro banheira borbulhante.
— Sério, cara? Você vai deixar passar essa?
Um clone estava ao lado dele. Quando ele escapou?
— Lembra quando ela saiu com a gente na praia? – o clone
perguntou. — Aquilo foi show de bola.
— Eu lembro – disse Caleb. — Agora cale a boca.
Caleb absorveu o clone e foi procurar Ran e os outros, que,
esperançosamente, estariam completamente vestidos. Ele en-
controu quase todos reunidos no térreo da ampla sala de estar
da casa – ou talvez o cara rico que morou aqui a chamasse de
algo chique como uma “sala de visitas” ou simplesmente “salão”.
Havia uma TV gigantesca instalada em uma parede, um sofá em
“L” de couro e um bar. Isso era a sala de estar, não importasse
quantas esculturas nuas estivessem enfeitando os cantos.
Duanphen gesticulou para Caleb enquanto ele entrava no
cômodo. Ela estava sentada no bar, as longas pernas cruzadas,
preguiçosamente roçando os dedos sobre o cabelo escuro cres-
cendo em seu couro cabeludo que antes fora raspado. Desde que
começou a viajar com ela, Duanphen não tinha falado muito. Ela
era difícil de ler, aparentemente satisfeita em seguir o fluxo dos
outros. Como Isabela, ela parecia feliz apenas por estar fora de
sua vida passada e do mundo descontrolado. Mesmo sentada, ha-
via uma prontidão sobre ela, como se ela pudesse entrar em ação
a qualquer momento.
— Encontrou alguma coisa? – ela perguntou a Caleb.
Ele balançou sua cabeça. — E vocês, pessoal?
Duanphen passou o dedo pelo bar, fazendo um rabisco na
poeira. — Este homem está desaparecido há semanas. Até a em-
pregada parou de vir.
— Outro beco sem saída – disse Caleb com um suspiro.
— O que devemos—
— Idiotas! Mentirosos!
Caleb e Duanphen se voltaram para o grito. Do outro lado
da sala, Einar andava de um lado para o outro atrás do sofá. Ele
passou a mão pelo cabelo e deixou um tufo para cima. O garoto
islandês parecia ser tão meticuloso quando Caleb o viu pela pri-
meira vez em sua coleção de camisas caras e calças folgadas, mas
desde a Suíça ele tinha parado de se orgulhar tanto de sua apa-
rência. De volta à Grécia, quando eles descansaram numa man-
são abandonada, Caleb foi até Einar enquanto estava passando
uma de suas camisas. Perdido em pensamentos, ele deixou o
ferro em cima da peça de roupa, e acabou por queimar a manga.
Irritado, ele jogou o ferro na parede. Caleb tinha saído da sala
antes que Einar possa ter percebido sua presença.
— Eu pensei que havíamos concordado em não deixá-lo
assistir TV – disse Caleb.
— Você pode tentar impedi-lo – disse Duanphen, pregui-
çosamente.
A tela grande estava sintonizada na BBC. Ali estava Ei-
nar, falando diretamente para a câmera, o olhar dele sem falhar,
apaixonado ou desequilibrado, dependendo da sua interpretação.
Caleb já viu esse vídeo antes. Ele estava presente quando foi fil-
mado. O vídeo foi gravado com o celular de Isabela logo antes
do início da batalha. Eles nunca haviam discutido sobre colocá-
lo no YouTube. Einar tinha tomado a iniciativa e feito aquilo
sem pedir falar com os outros, roubando o celular de Isabela en-
quanto o resto deles dormia. Ele esperava que o discurso fosse
um chamado à revolução para os Gardes que estavam sofrendo
sob regimes repressivos – pela Fundação ou não – ao redor do
mundo.
— “É assim que nós fazemos. Se reunindo. Não cumprindo
qualquer lei que os permitam nos controlar. Nós não seremos os peões
deles. Eles não serão nossos mestres” – disse o Einar na tela.
Caleb desejou poder excluir o vídeo da internet, mas já era
tarde demais. Uma vez na internet, para sempre na internet. Re-
produzido por todos os canais de notícias do mundo. No início,
Einar estava praticamente bobo por sua mensagem estar sendo
impulsionada pela grande mídia.
Agora, entretanto, Einar percebeu seu erro. Todos eles
perceberam.
Ele parecia um louco.
O que, Caleb supôs, era bastante preciso.
O vídeo congelou no momento em que Einar salpicava um
pouco de cuspe em seus lábios. Essa imagem permaneceu no
canto superior da tela enquanto a transmissão voltava para o es-
túdio, onde um âncora estava sentado atrás de uma mesa.
— O Garde terrorista conhecido como Einar continuaria
a descrever a humanidade como 'sanguessugas' antes que ele e
seus lacaios, um dos quais acreditamos ser um dos verdadeiros
extraterrestres de Lorien, assassinassem o inventor e filantropo
Wade Sydal. A Garde Terrestre assegurou à BBC que medidas
estão sendo tomadas para levar esses perpetradores à justiça e
que vão prevenir novos incidentes. Duas semanas se passaram e
o ladino Garde permanece foragido...
— Terrorista! – Einar gritou, abafando o resto da trans-
missão. — Eles nem sequer mencionaram a substância do meu
argumento. Eles não entenderam nada.
— Eu não sou um lacaio – Número Cinco resmungou.
O Lorieno estava sentado no sofá, de braços cruzados so-
bre si mesmo, envolto no mesmo moletom folgado que usava
sempre, com manchas desbotadas nos joelhos devido a briga na
Suíça. Caleb não podia dizer com certeza, mas achava que Cinco
parecia mais magro desde então. Honestamente, ele tentava não
olhar na direção do Lorieno com muita frequência. Cinco era
sensível quando se tratava das manchas escuras que o desfigu-
rava, tinha um temperamento mais curto que Einar e quase ma-
tara Caleb há duas semanas. Ele não estava ansioso para provo-
car o Garde.
Um terrorista e um Garde psicótico. É por quem ele aban-
donou a Garde Terrestre. No calor do momento, depois daquela
sangrenta batalha, parecia fazer muito sentido...
Caleb se pegou com as mãos no frasco da gosma negra
que ele havia pego na Suíça, e que agora estava escondido em
seu casaco. Sydal estava prestes a comprar uma mala inteira
dessa gosma de Bea Barnaby – a mãe de Nigel, membro da Fun-
dação; e a ficha ainda não tinha caído sobre essa parte. A subs-
tância tinha impulsionado Cinco à uma raiva imensurável, o que
Caleb supôs não ser surpreendente, já que parecia ser a mesma
gosma que o havia desfigurado e ainda se contorcia debaixo da
pele dele. Caleb não disse aos outros que ele tinha roubado um
frasco. Ele nem sabia por que ele havia feito isso para início de
conversa. Apenas Isabela sabia e ela manteve o segredo.
— Além disso, não fomos nós que explodimos a nave de
Sydal – continuou Einar. — Não que eu esteja com pena por ter
acontecido. Mas esses jornalistas estão falando tudo errado – Ei-
nar notou que Caleb estava na sala e o olhou com raiva. — Se ao
menos nosso plano não tivesse descarrilado...
Caleb olhou de volta para ele, sem dizer nada. Foi Caleb
quem quebrou o controle psicológico de Einar sobre Wade
Sydal e os outros, impedindo-o de levá-los como prisioneiros.
Obviamente Einar ainda estava chateado quanto a isso, e tam-
bém sobre a surra que Caleb havia dado nele. Além disso, o fato
de que Caleb podia usar seus clones para contornar o Legado de
manipulação emocional de Einar certamente não o fazia se dar
bem com ele. Einar estava acostumado a estar no controle.
— Caleb – uma voz suave disse. — Você pode vir aqui?
Com um suspiro de alívio, Caleb se virou e viu Ran. Aqui,
pelo menos, havia alguém que ele podia confiar que não faria
nada maluco. Se Ran não tivesse se juntado à equipe de Einar na
Suíça, Caleb não achava que ele teria coragem de fazer o que fez
por conta própria. Caleb sabia que, para Ran, essa aliança era
uma questão de conveniência. Ela queria sair da Garde Terres-
tre e Einar tinha transporte e as habilidades para fugir de seus
perseguidores.
Caleb entendeu a posição de Ran. Ela tinha sido tratada
de uma forma horrível – implantada com um chip inibidor e for-
çada a trabalhar num programa de espionagem com a missão de
incapacitar Einar. Caleb pensou que era estranho que a Garde
Terrestre não tivesse se incomodado em tentar derrubar Einar
antes que ele começasse a matar membros da Fundação. Será
que eles não sabiam sobre Einar quando ele estava por aí rap-
tando Gardes com o Legado de cura para a Fundação? Será que
a Fundação simplesmente cobriu seus rastros ou a Garde Ter-
restre fez vista grossa? A julgar pela relação simbiótica entre a
Garde Terrestre, a Sydal Corp e a Fundação, Caleb achou que
era um pouco dos dois.
Todos os dias desde a Suíça, Caleb temia que Ran deci-
disse que ela ficaria melhor sozinha. Ele engoliu em seco en-
quanto a seguia para fora da sala de estar e de volta pelo corredor
de onde ela emergiu, esperando que eles não estivessem prestes
a ter essa conversa. Ela olhou na direção dele e deve ter lido a
preocupação em seu rosto, porque ela estendeu a mão até o om-
bro dele.
— O que há de errado? – ela perguntou.
— Nada, eu... – Caleb verificou atrás dele para se certificar
de que eles estavam fora do alcance dos outros. — Apenas ten-
tando descobrir o que estamos fazendo aqui.
— Na Itália?
— Com essas pessoas.
— Ah.
— Você acha que cometemos um erro? – Caleb pergun-
tou. — Duas semanas se passaram e nós não fizemos nenhum
progresso. Não sei ao certo como seria o progresso...
— Eles são um meio para um fim – respondeu Ran. — Eu
nunca vou confiar em Einar depois do que ele fez com Nigel.
Mas ele está certo sobre uma coisa: temos uma chance melhor
de sobreviver juntos do que separados.
Caleb assentiu e ficou em silêncio. Ele refletiu sobre o dis-
curso que Einar havia feito, aquele que estavam usando agora na
TV para rotulá-lo como terrorista. O engraçado era que Caleb
realmente concordou com o que Einar havia dito sobre a Garde
precisar encontrar seu próprio caminho, sobre eles não serem
capazes de confiar nas pessoas que detêm poder. Isso realmente
inspirou Caleb a escolher o lado de Einar.
Não que ele fosse dizer isso a Einar algum dia. Era a men-
sagem certa vinda do pior mensageiro.
Ran levou Caleb pela sala de jantar e saiu para um amplo
terraço com vista para uma rua de paralelepípedos. A casa ficava
a poucos quarteirões da Piazza di Spagna, cheia de turistas, mas
calma ao mesmo tempo. Aninhado do outro lado da rua havia
um pequeno café e uma loja de massas, nenhuma delas lotada. O
sol do meio da tarde estava brilhando e Caleb respirou fundo o
ar vivo.
Um sino tocou à distância.
— É bom aqui fora – disse ele. — Pena que o resto do
lugar é uma droga.
— No café – Ran disse calmamente. — Consegue ver
aquela mulher? Cuidado, não deixe óbvio que a notamos.
Caleb se aproximou do corrimão do terraço, espiando o
café. Lugares ao ar livre. É claro que ele viu a mulher – ela era a
única ali. Ela era de meia-idade, cabelos escuros, vestindo calças
e um pesado suéter de tricô. Totalmente comum.
— O que tem ela? – Caleb perguntou.
— Ela não pediu nada – disse Ran. — Antes dela, havia
um homem sentado ali. Ele também não pediu nada. Ele saiu e
ela veio minutos depois. Sentou-se exatamente no mesmo lugar.
— Hmm – Caleb grunhiu.
Ele deu uma olhada mais de perto na mulher e, quando o
fez, os olhos dela voaram na direção dele. Caleb recuou para que
ela não pudesse vê-lo.
— Definitivamente estranho – disse Caleb. — Mas eu me
sinto paranoico desde que deixei a Garde Terrestre. Então tal-
vez não devemos tirar conclusões precipitadas sobre qualquer
coisa.
— Se a Fundação soube o suficiente para conseguir eva-
cuar as pessoas que estivemos procurando por causa de Einar,
não seria um motivo para eles colocarem sentinelas aqui para
prendê-lo? Para nos pegar?
— Nós não tivemos nenhum problema na Grécia – disse
Caleb pensativamente. Ele deu outra olhada para a mulher. Ela
estendeu as mãos a sua frente, e olhou para elas, como se esti-
vesse verificando as próprias unhas.
— Eu tenho um mau pressentimento – disse Ran. — Eu
sei que Isabela quer ficar aqui. Todos nós poderíamos tirar um
tempo para passar fora daquela nave. Mas algo está errado.
— O que está acontecendo? – Einar apareceu no terraço,
Cinco e Duanphen atrás dele. Caleb podia dizer que ele ainda
estava irritado com a reportagem e reprimindo uma cara feia.
— Acho que estamos sendo vigiados – disse Ran.
Einar ficou ao lado de Caleb para poder dar uma olhada
na mulher. Quando Einar apareceu, ela olhou diretamente para
ele, descaradamente, sem nem mesmo se preocupar em discrição.
— Ela poderia ser qualquer um – disse Caleb cautelosa-
mente, de repente mais preocupado com a segurança da mulher
do que a sua própria. — Ou ninguém.
Cinco colocou a mão no ombro de Einar. — Fica mais
para trás. Ela pode te reconhecer.
— É apenas uma mulher – disse Einar, olhando para Ran.
— Isso é tudo?
Ran hesitou. — Havia um homem antes. Mesmo lugar.
Parecia vigilância.
— Entendi – respondeu Einar. Ele bateu palmas, um vi-
gor perturbador em seus olhos. — Vamos lá dar um oi?
Ele deixou a varanda sem esperar por uma resposta. Ran
e Caleb trocaram um olhar, mas foram atrás dele.
— Não vamos exagerar – disse Caleb.
— Você não está reclamando que todas as nossas pistas
da Fundação não dão em nada? – Einar perguntou. — Bem, ali
está uma nova pista, lá embaixo.
Caleb já percebeu que seria impossível tentar convencer
Einar a não se aproximar daquela mulher. Mas pelo menos ele
poderia garantir de que ninguém se machucaria e que eles não
teriam problemas mais sérios.
— Uh, Cinco... – Caleb começou, pigarreando para impe-
dir que sua voz fracionasse. — Sem ofensa, mas você é bem re-
conhecível. Talvez seja melhor você vigiar de cima. Há muitas
ruas estreitas por aqui. Se houver uma emboscada, você poderá
identificá-la e nos tirar dela.
Cinco olhou para Caleb com seu único olho, sem piscar.
— Einar? – ele perguntou, depois de um momento.
— Sim, sim – respondeu Einar. — Isso parece um bom
plano. Nossa nave ainda está pairando lá em cima. Vamos preci-
sar que você traga ela até nós, caso uma saída antecipada se tor-
nar necessária.
— E eu? – Duanphen perguntou. Caleb levou um mo-
mento para perceber que ela estava falando com ele e não com
Einar.
— Chame a Isabela – disse Caleb. — Ela está na Jacuzzi.
— É claro que ela está lá – Ran murmurou.
— Vigiem nossa retaguarda do terraço – Caleb prosse-
guiu a Duanphen. — Diga a ela para se preparar para mudar de
aparência para causar uma distração. Ser o papa ou algo assim.
Duanphen assentiu e correu para as escadas. Cinco foi
com ela, indo para o telhado, um lugar mais discreto do que a
varanda para ele levantar voo.
Segundos depois eles já estavam na rua, Einar liderando
o caminho, Ran e Caleb em seu encalço.
— Não vamos machucar ninguém – disse Caleb, tentando
alcançar o passo determinado de Einar.
— Isso vai depender dela, né? – ele respondeu.
A mulher no café se levantou enquanto eles desciam as
escadas. Ela já estava na metade da rua, indo para a praça lotada.
Ela andou de costas, os olhos neles, os lábios curvados em um
sorriso. Atraindo-os.
— Chega! – disse Ran. — É uma armadilha. Nós seremos
estúpidos se prosseguirmos.
O alerta de Ran não parou Einar. Ele continuou pela rua
estreita com os punhos cerrados ao lado do corpo.
— Onde você está indo? – Einar chamou a mulher. — Por
que você não fica para batermos um papo?
— Ah, eu sei que você gosta de falar, falar, falar – respon-
deu a mulher. Ela parou no final do beco. — Acho que não estou
afim de dar uma palavrinha com você, Einar.
O inglês dela era perfeito. Na verdade, ela soou para Caleb
como se tivesse um sotaque sulista.
— Se você me conhece, – Einar disse entre os dentes en-
quanto continuava a andar na direção dela, — então você sabe
que eu vou fazer você falar. Mas eu não quero perder meu tempo
perseguindo um lacaio qualquer. Diga-nos quem lhe enviou e
onde podemos encontrá-los e posso deixar você sair daqui res-
pirando.
— Você não é tão assustador como na TV – a mulher
cheirou o ar. — Mas você fede. Eu posso sentir seu cheiro no-
jento daqui.
Um homem velho e curvado virou a esquina e quase es-
barrou na mulher. Ela estendeu a mão e apertou a mão dele em
desculpas. E então, para grande surpresa de Caleb, todo o in-
ferno começou.
A mulher começou a gritar. — Dove sono? Dove sono? – os
olhos dela se arregalaram. – Un diavolo mi ha posseduto!
— Que diabos? – disse Caleb.
Einar parou de avançar quando a mulher caiu de joelhos,
as pessoas da praça começando a correr para a rua para ver o
motivo da comoção.
— Devemos ir – disse Ran. — Ela está chamando muita
atenção.
Enquanto isso, o velho continuou descendo a rua em di-
reção a eles como se nada tivesse acontecido, completamente
alheio à comoção. Na verdade, ele parecia mais interessado nos
três Gardes do que na mulher em pânico atrás dele. Era o sorriso
do velho homem – um estranho toque de seus lábios rachados –
que alarmou Caleb.
— O que há com ele? – disse Caleb, apontando o octoge-
nário se aproximando.
Ran e Einar, ambos distraídos pela mulher, voltaram sua
atenção para o velho apenas quando ele estava quase em cima
deles. Ele estendeu a mão retorcida para o rosto de Einar.
— O julgamento chegou para você, abominação – o velho
disse, seu sotaque de alguma forma exatamente como o da mu-
lher antes de começar a gritar em italiano.
Einar se retraiu, empurrando Ran e Caleb para longe do
homem. Então, com uma força telecinética que fez o cabelo nos
braços de Caleb se arrepiarem, Einar mandou o velho voando
para a parede mais próxima.
— Jesus! – gritou Caleb. — O que você fez?
— Vai! – disse Einar. — Corram!
O velho caiu na entrada do café, sua estreita caixa torácica
subindo e descendo, a respiração saindo pelo nariz. E ainda as-
sim, ele ainda estava com aquele sorriso demente e continuava a
olhar para os Gardes.
Ran correu até Einar, os olhos arregalados. — Porque
você fez isso? Você poderia tê-lo matado!
— Precisamos sair daqui imediatamente! – insistiu Einar.
Ele estava certo. A rua tranquila do lado de fora da casa
era agora uma confusão completa. A mulher que primeiro os
atraiu até aqui ainda estava tremendo e se segurando enquanto
um grupo de pessoas tentava entender o que ela estava dizendo.
Perto dali, um punhado de clientes de dentro do café olhava o
velho. Um italiano de avental examinou a Garde.
— Lo hai attaccato? – perguntou ele para o velho.
Enquanto Caleb observava, o velho procurou a perna do
homem de avental e, quando a tocou, o rosto do jovem mudou.
Ele não estava mais fazendo acusações em italiano. Ele começou
a sorrir para eles e a falar em inglês.
— Só um pouco de diversão, amigo – ele disse, sorrindo
para Einar. — Da próxima vez, você não vai me ver chegando.
— Vamos! – Einar gritou para Ran e Caleb. Ele se virou
e correu de volta para a casa.
Enquanto ele e Ran seguiam Einar, um pensamento ocor-
reu a Caleb que o deixou ainda mais desconfortável com este en-
contro bizarro. De volta à Suíça, Einar foi baleado na garganta
por Bea Barnaby e quase sangrou até a morte.
E ainda assim, Caleb nunca viu Einar tão apavorado en-
quanto estava agora.
TAYLOR COOK
A.G.H. – POINT REYES, CALIFÓRNIA

teatralmente. — Esse Holden Caulfield é um verdadeiro chorão,


huh?
Taylor se mexeu. Ela estava tão perdida em seus pensamen-
tos que havia esquecido até de piscar e agora os olhos dela estavam
secos e ardentes enquanto ela encarava o céu azul claro sem nuvens.
Ela também havia perdido a noção de que Kopano estava ali com
ela, embora a cabeça dela estava apoiada na coxa dele. Ambos esta-
vam no gramado do campus da Academia, perto do prédio dos es-
tudantes. Qualquer um que passasse por ali que não os conhecesse
diria que eles pareciam bem: um casal normal aproveitando o sol
brilhante num dia agradável.
Taylor teria rido se isso acontecesse. Como se ela tivesse
tempo para aproveitar o dia. O único motivo que a fez deitar na
grama e aproveitar o dia foi a insistência de Kopano. Sem dúvidas
que ela preferiria estar abaixo do centro de treinamento, obser-
vando os monitores de segurança e esperando.
Pelo quê? Bem, ela ainda não tinha certeza. A próxima coisa
ruim.
Ela olhou para Kopano. — Eu não conheço Holden. Qual
é o Legado dele? Ele é novo?
Kopano riu e pegou o livro, gesticulando-o para ela. — Ele
é fictício. Você não está lendo o livro? É para a aula de literatura.
— Essa aula foi cancelada – ela respondeu. — O professor
Kelloog ficou muito assustado para continuar trabalhando aqui, as-
sim com a metade dos outros funcionários.
— Ainda acho melhor lermos o livro.
Taylor rolou os olhos. — Existem coisas mais importantes
acontecendo para fazermos lição de casa, Kopano. Além disso, eu
já li esse livro na minha antiga escola. Eu acho que você precisa ser
um jovem angustiado para conseguir aprender algo daí.
Kopano olhou para o livro. — Talvez seja por isso que eu
não estou gostando. Não estou com raiva o suficiente. Eu só quero
dizer para esse Holden – “Relaxe, cara! – e então dar uns chutes no
traseiro dele assim como todos os americanos jocks fazem.
— Quero dizer, você deveria estar com raiva, no fim das
contas – Taylor disse. — A Garde Terrestre forçou você a entrar
num programa de espionagem secreta e colocou um chip dentro da
sua cabeça contra a sua vontade – ela deu um sorriso amargo. —
Aquele pessoal da Watchtower não se importam com suas notas.
Eles só querem que você faça o trabalho sujo para eles. Por que se
importar em continuar lendo?
— Estou aqui até a Agente Walker decidir que devemos nos
reportar – Kopano respondeu, abaixando sua voz como se estivesse
contando para Taylor um segredo. — E eu não acho que ela planeja
fazer isso. Agora que as pessoas como o Professor Nove e o Mal-
colm sabem sobre a Watchtower, provavelmente vão se desfazer.
Então o que eu vou fazer enquanto espero? Eu gosto da aula de
literatura. Eu não quero ficar atrasado com a matéria quando as
coisas voltarem ao normal.
— Voltarem ao normal – Taylor repetiu e desviou o olhar.
Ela cobriu os olhos com a mão, mais para evitar que Kopano
visse o desdém em sua expressão do que para escondê-los do sol.
Ele era tão ingênuo. Ele de fato acreditava que as coisas iriam sim-
plesmente voltar a ser como eram quando ambos chegaram pela
primeira vez na Academia. Ele acreditava que a qualquer momento
voltaria a ter que frequentar aulas como antes.
Kopano se recusava a aceitar o fato de que ele basicamente
era um fugitivo. Ou, pelo menos, um dissidente. Até o momento, a
Agente Walker conseguiu protegê-lo. Ela continuava a fazer relató-
rios para a Watchtower por telefone dizendo que ela e Kopano esta-
vam investigando pistas para descobrir o paradeiro Einar e ir caçá-
lo, enquanto, na verdade, ambos estavam se escondendo na Acade-
mia, não fazendo nada, literalmente. Depois do PR pesadelo da Su-
íça, Taylor tinha a sensação de que a Garde Terrestre tinha coisas
mais importantes para se preocupar do que o paradeiro de Kopano,
mas eventualmente eles voltariam a procurá-los. Nunca as coisas
vão voltar a ser como foram antes.
— Por que parece que você ficou toda brava de repente? –
Kopano perguntou.
Taylor se sentou. — Honestamente? Sua constante positivi-
dade está me deixando doida.
Kopano não pareceu levar isso para o lado pessoal. — Você
se lembra da promessa perpétua que eu fiz para você quando che-
gamos aqui?
— Você prometeu fazer com que minha experiência na Aca-
demia fosse o mais chata o possível – Taylor disse. Então, ela gen-
tilmente passou os dedos na testa de Kopano. — Você realmente
se preocupa com isso, né?
O sorriso de Kopano falhou. — Sim, mas...
— Tudo bem – Taylor disse, se sentindo culpada agora por
fazê-lo se sentir mal. Ela esfregou os ombros dele. — Eu libero
você daquela promessa. Eu não quero mais ter uma experiência
chata. Eu não quero mais isso desde aquela noite que o Einar me
sequestrou.
— Obviamente a chatice está fora de questão – Kopano res-
pondeu, estufando o peito. — Mas talvez não iria fazer mal relaxar
às vezes, né? Aproveitar um dia ensolarado na companhia de um
jovem bonitão admirador.
Taylor encenou uma procura exagerada ao redor deles. —
Onde eu encontro um desses?
Kopano olhou para ela. — Você não me leva a sério, mas eu
tenho muita sabedoria. Você precisa aprender a respirar, Taylor.
Aproveitar os pequenos momentos. Se você se tornar focada de-
mais em todas as coisas sérias que devemos fazer, você vai acabar
se desgastando por conta da pressão. O pessoal aqui acredita em
você. Eles precisam que você os guie. E para guiá-los, você precisa
se manter sã.
Jesus. Taylor respirou fundo. Kopano estava certo, mas
ainda assim era estranho demais ouvir aquilo.
Quando ela havia se tornado uma líder?
Kopano deve ter percebido a incerteza estampada nos olhos
dela. — Eu sei melhor do que qualquer pessoa que você não veio
para cá com intenções de estar no comando – ele disse, então sor-
riu. — Você nem queria vir, para começo de conversa.
— Desde o dia que nos conhecemos, você sempre discursou
sobre como devemos ser heróis e sobre nossa responsabilidade
quanto a usar nossos Legados para fazer o bem – Taylor disse. —
Você deve ter me convencido.
Kopano piscou para ela. — Talvez carisma em demasia seja
algum outro Legado que eu desenvolvi.
— Talvez seja super-modéstia.
— É, isso também, definitivamente – Kopano respondeu.
— De qualquer forma, como eu estava dizendo, talvez você não
tivesse intenções de se tornar uma líder, mas você é uma agora. E
quando se é uma líder, importa a forma que os outros interpretam
suas ações. Todo mundo aqui viu as notícias, os vídeos do Einar,
os falantes que acham que nós deveríamos ser aprisionados. Isso os
faz ficarem nervosos. Até assustados, pode-se dizer. Mas se eles ve-
rem você aqui, relaxando nos meus braços absurdamente musculo-
sos...
Taylor bufou.
— ... eles vão pensar, “ei, as coisas não são tão terríveis as-
sim”. Eles vão pensar “oh, tudo bem, a vida é boa aqui na Academia
e eu estou fazendo algo certo e vale a pena lutar por esse lugar”.
— Eles vão pensar tudo isso só por verem nós dois juntos,
é?
— Seria mais efetivo se fizéssemos uma ceninha, mas sim...
– Kopano disse, pensativo.
Taylor sorriu e olhou ao redor. Mais à frente no gramado,
dois tweebs jogavam frisbee usando apenas a telecinese. Depois de-
les, Lisbette Flores e Nic Lambert anotavam as medidas de uma
árvore para um projeto da aula e biologia. Nic disse alguma coisa –
provavelmente algo estúpido – e Lisbette o bateu com força no
braço usando sua prancheta.
— Você está certo – Taylor disse para Kopano. Ela suspirou
fundo o ar fresco. — Tudo bem se relaxarmos um pouco.
E então, como se fosse ironia do destino, já que nada pode
ficar bom por mais de cinco segundos, Taylor viu Nigel. Os ombros
magros do garoto britânico estavam caídos mais do que o normal
desde que eles voltaram da Suíça há algumas semanas. Se Kopano
achava que Taylor precisava relaxar, ela mal podia imaginar o que
ele pensava sobre Nigel, que estava perpetuamente carrancudo, ma-
tando aulas e mal cuidando de si mesmo.
— Uh-oh – Kopano disse quando viu Nigel.
Taylor e Kopano se levantaram. Ambos perceberam de ime-
diato que Nigel não estava aqui fora para relaxar.
— Vi um monte de Pacificadores na entrada – Nigel disse
sem cumprimentá-los. — Greger Karlsson está com eles. Estão en-
trando. Alguma coisa está prestes a acontecer.
— Talvez eles vieram para nos dizer o ótimo trabalho que
estamos fazendo – Kopano sugeriu.
— Procurem por Rabiya – Taylor disse imediatamente. —
Peça para ela criar algumas pedras de Loralite para que possamos
nos teleportar para o caso das coisas ficarem complicadas. E vocês
dois fiquem fora de vista. Vocês não deveriam estar aqui e não que-
remos dar a Greger mais desculpas para causar uma cena.
— É pra já – Kopano disse, e foi direto para os dormitórios
à procura de Rabiya.
— Junte todos – Taylor pediu para Nigel. — Como havía-
mos conversado.

Quando Greger Karlsson e seus Pacificadores chegaram no prédio


da administração, o Professor Nove estava esperando por ele com
duas dúzias de Gardes às suas costas. Duas dúzias de alunos que
Taylor havia escolhido por conseguirem tomar conta de si mesmos.
Duas dúzias de alunos que a ouviram. Além disso, outros estavam
observando dos dormitórios para o caso de se tornarem necessários
embaixo. Ela disse para eles que talvez seja necessário mostrarem
suas forças. Ela planejou isso e seus amigos se mobilizaram rapida-
mente.
— Você não é bem-vindo aqui Greger – Nove disse, abrindo
a conversa. — Não depois da merda que você fez com Ran e Ko-
pano.
— Irônico – Greger respondeu. — Por que é você quem
não é bem-vindo.
Taylor estava a alguns passos atrás de Nove, sua expressão
indecifrável. Durante as duas últimas semanas – enquanto eles re-
passavam aquele vídeo do Einar nas notícias de novo e de novo,
enquanto o mundo lamentava a perda trágica da vida de Wade
Sydal, enquanto gritavam sobre como a Garde deveria ser discipli-
nada – Taylor havia se preparado para isso. Na verdade, ela havia
começado a se preparar no dia que chegou da Suíça.
Greger estendeu um envelope com o selo oficial das NU.
Ele se encolheu quando Nove arrancou o envelope da mão dele.
— É das Nações Unidas – Greger disse, dando um passo
para trás rapidamente. — Você foi demitido do cargo de diretor da
Academia.
— Besteira.
Os pelos da nuca de Taylor se arrepiaram. Ela teve uma sen-
sação repentina de que estava sendo observada. Entretanto, Greger
e os Pacificadores estavam encarando Nove. Ela deve ter sentido a
tensão no ar, apenas isso. Não seria surpresa, considerando que eles
eram um bando de adolescentes resistindo contra uma organização
massiva governamental.
— Não seja denso, Nove – Greger disse. — Depois de tudo
o que aconteceu, você honestamente acreditou que eles o mante-
riam aqui? Você deixou esse lugar sair do controle. A população
não tem mais fé em você.
Nove abriu o envelope mas não fez nada além de espiar a
carta. Ele a rasgou enquanto olhava fixamente para Greger, e então
deixou o vento levar os pedaços de papel rasgado. Isso fez Taylor
sorrir.
— Se você me quer fora – Nove rosnou, — precisará de um
exército.
— Isso pode ser arranjado – Greger respondeu.
Os Pacificadores que estavam com Greger não pareciam
querer se envolver num confronto físico em nenhuma hipótese. A
Garde atrás de Nove – Taylor, Nigel, Nicolas, Maiken e os demais
– não faziam nada além de piscar. Ela havia dito para eles ficarem
estoicos e quietos, para não começarem uma confusão, mas tam-
bém deixar claro que eles não estavam brincando. Isso não era uma
aula. Isso não seria o jogo de pegar a bandeira.
Greger olhou para um dos Pacificadores, e Taylor percebeu
que se tratava do Coronel Ray Archibald, o comandante dos então
denominados protetores da Academia. Ela não havia o reconhecido
por conta da armadura.
— E então, Coronel? O Lórico conhecido como Número
Nove está agora na propriedade da Academia de forma ilegal – Gre-
ger se pronunciou como se Nove não estivesse de pé a alguns me-
tros dele com um sorriso no rosto. — Como devemos proceder?
As narinas de Archibald se moviam enquanto Greger falava.
Ele deu uma longa olhada para Nove e para a Garde atrás dele.
Então, respondeu Greger, seu tom de voz neutro e estável.
— Você pediu uma escolta para o campus para entregar uma
mensagem – Archibald disse. — Isso é tudo o que meu pessoal irá
fazer por enquanto, Sr. Karlsson. Qualquer outra coisa precisa ser
requerida antes de ser comandada. Se não há nenhum tipo perigo
aqui que possa nos preocupar, vamos voltar para a base.
Archibald não era estúpido. Ele percebe que as chances es-
tavam contra seus Pacificadores. Mas Taylor pensou perceber outra
coisa no tom de voz dele. Ele não gostava de Greger. Ele não apro-
vava a demissão de Nove.
Taylor percebeu um pouco de raiva se manifestar nos olhos
de Greger após Archibald se manifestar, mas ele a afastou rapida-
mente. Ele arrumou a gravata e voltou sua atenção para os alunos
atrás de Nove.
— Eu gostaria de lembrá-los que todos aqui estão sob o co-
mando da Garde Terrestre – Greger disse. — O que devem ou não
devem fazer está regulado no acordo que fizeram. Qualquer tenta-
tiva de obstruir essa mudança na liderança da Academia será inter-
pretada como uma séria violação de contrato. Haverá consequên-
cias e...
A voz de Greger foi ficando cada vez mais baixa até desapa-
recer por completo, embora a boca dele continuasse a se movimen-
tar. Demorou alguns segundos para Taylor perceber que Nigel ha-
via mutado ele.
— O que foi, Greger? – Nove perguntou entre uma risadi-
nha. — Não consigo te ouvir.
O representante da Garde Terrestre bateu com os pés no
chão fazendo um movimento de corte com as mãos, mas a voz dele
ainda estava muda. Alguns dos Gardes riram.
Archibald suspirou e mexeu a cabeça. — Pacificadores! – ele
gritou. — Comigo!
O Coronel se virou bruscamente e guiou os Pacificadores de
volta para a entrada do campus. Greger os seguiu, voltando a ser
ouvido por Archibald assim que ele saiu do raio de alcance de Nigel.
Quando sumiram do campo de visão, houve um suspiro co-
letivo da Garde. Alguns começaram a rir, imitando o jeito que Gre-
ger bateu com os pés no chão. Nove se virou para olhar seu alunos,
tirando os fios de cabelo do rosto.
— Eu agradeço o apoio, pessoal – ele disse.
— Estamos com você, Professor – Nic disse.
— Tenho esperanças de nossa mensagem vai ser entregue –
Nove continuou. — Com sorte, a Garde Terrestre vai colocar a
cabeça no lugar novamente, demitir Karlsson e nós poderemos vol-
tar ao treinamento diário.
O Dr. Goode, que esteve parado em silêncio ao lado de
Nove durante a discussão, coçou o queixo. — Eu não tenho tanta
certeza de que isso será tão fácil.
— Pois é – Nigel concordou. — Aquele cuzão foi trocar a
cueca depois de tê-las borrado de raiva e então eles vão voltar.
— Se isso acontecer – Taylor disse, — estaremos prontos.
NIGEL BARNABY
CELAS DE CONTENÇÃO
A.G.H. – POINT REYES, CALIFÓRNIA

— —
aula hoje?
Nigel revirou os olhos. Ela havia lhe perguntado a
mesma coisa ontem. E no dia anterior.
— Muda o disco, mamãe – ele respondeu, enquanto
arrastava uma cadeira até a cela de sua mãe, esticando as
pernas de um jeito que ele esperava ser extra insolente.
— Não é isso que uma mãe deve perguntar quando o
seu filho volta pra casa? – Bea perguntou, com a cabeça
inclinada. Ela segurava uma revista feminina amassada,
que Nigel lhe dera na semana anterior depois que ela pe-
diu algo para ler. — Eu li essa reportagem sobre como ser
uma mãe que fica em casa umas três vezes, mas suponho
que eu ainda não tenha dominado o conteúdo.
— É o que tá dizendo, né? Que você começou a pensar
neste lugar como se fosse sua casa?
— Hmm. Você também pensa assim, não pensa? –
Bea sorriu. — Estou apenas satisfeita por estarmos juntos.
Nigel franziu a testa. A princípio, foi uma sensação
ótima ver sua mãe trancada nesta cela subterrânea, o es-
tilo de vida luxuoso da mulher poderosa reduzido a um lo-
cal desconfortável, uma pia de aço inoxidável e um vaso
sanitário. No entanto, Bea não parecia perturbada pelo
ambiente ao redor dela. Ela se sentou na cama com as per-
nas cruzadas e as costas eretas, imperiosa até com calças
rasgadas e um capuz que pegou do achados e perdidos,
como se esta prisão fosse seu domínio e se dignou permitir
que Nigel a visitasse.
Duas semanas. A mulher estava aqui há duas sema-
nas e não parecia nem um pouco abalada.
— Certo, podemos brincar de ser uma família, – Ni-
gel disse, sentando-se de frente para sua mãe. — A aula foi
boa, eu acho. Aprendi muito.
Isso não era exatamente verdade. A aula de Nigel em
conversação chinesa – que ele estava indo mal – havia sido
cancelada, para seu grande alívio. Enquanto isso, sua aula
de estudos sociais havia sido dada pela Dra. Susan Chen,
a reitora dos alunos, que estava substituindo o pequeno
historiador difuso que costumava lecioná-las. Enquanto a
aula dela era mais afiada do que nunca, Nigel percebeu
que pela quantidade de café gelado que ela havia tomado
e pela trança mal feita que ela usava, que a Dr. Chen es-
tava exausta. Ela estava lecionando todos os nove períodos
agora, além de seus deveres normais de aconselhamento.
Metade do corpo docente havia renunciado ou fal-
tado de forma súbita nas últimas duas semanas. Mais saí-
ram ontem, depois que Greger fez demitiu Nove. Nigel não
sabia quantas pessoas trabalhavam na cozinha e na ma-
nutenção, mas ele percebeu que as equipes também dimi-
nuíam consideravelmente.
Muitas lacunas na população adulta por aqui, tudo
desde que a notícia da morte de Wade Sydal se tornou pú-
blica e o vídeo de Einar reclamando da situação como um
pequeno Hitler islandês se tornou viral. As pessoas que ti-
nham trabalhado na Academia desde que ela abriu de re-
pente não estavam tão ansiosas para continuar por aqui.
A coisa toda incomodava Nigel profundamente. Os
alunos aqui sempre tiveram poderes incríveis, e que, no
mínimo, os tornaram capazes de pelo menos mutilar qual-
quer ser humano normal. Isso não era novidade. A única
coisa que mudou foi a forma como a mídia passou a descre-
ver o quão perigosa a Garde poderia ser se não fosse con-
trolada.
Obrigado, Einar.
Então sim. A escola não estava bem. Mas Nigel não
ia dizer nada disso para Bea.
— Eu conversei com Jessa hoje – disse Nigel, mu-
dando de assunto.
Os olhos de Bea se iluminaram com a menção do
nome de sua filha. — Como ela está? – ela perguntou. A
expressão dela mudou meio segundo depois. — O que você
disse a ela?
Nigel se deixou apreciar o desconforto de Bea por um
momento. Sua irmã, Jessa, não sabia nada sobre os laços
da mãe com a Fundação e estava claro que Bea preferia
que continuasse assim. Nigel supôs que era importante
para Bea que pelo menos um de seus filhos pensasse nela
como uma boa mãe.
— Bem, para começar, eu disse a ela que estamos
vivos – disse Nigel categoricamente.
No processo de sequestro de Nigel e da fuga para a
Suíça, Bea conspirou para matar a escolta da Garde Ter-
restre de Nigel e depois incendiou a propriedade de sua
própria família. Jessa estava completamente no escuro so-
bre esse plano e passou o último mês acreditando que sua
família estava morta. Nigel tinha demorado a contatá-la
até que Lexa pudesse fornecer uma linha externa segura –
já que eles tinham certeza que a Garde Terrestre estava
espionando todas os meios de comunicação da Academia.
Nigel estava neutro sobre o quanto dizer a Jessa. No co-
meço, ele queria desabafar, desmascarar os pais de uma
vez por todas. Mas ele finalmente decidiu que seria apenas
cruel. Jessa teve uma vida feliz e normal. Ela merecia con-
tinuar assim.
— Eu disse a ela que alguns terroristas anti-Garde
tentaram nos matar em Londres, – Nigel continuou. — E
disse também que você está comigo e que estamos sob cus-
tódia da Garde Terrestre, para proteção. O que não é total-
mente uma mentira.
— Mas e quanto ao dinheiro? – perguntou Bea. —
Ela conseguiu?
— Isso é tudo que importa, não é? – Nigel respondeu.
O dinheiro em questão era a grande quantia que
Wade Sydal pagou a Bea por uma mala cheia da Gosma
Mogadoriano. Sydal acabou explodindo em sua espaçonave
momentos depois, graças a uma bomba disparado por um
dos mercenários de Bea. No ramo empresarial feminino,
Nigel imaginou que Bea era a que tinha mais sangue frio
entre elas.
— Eu me preocupo em garantir que nossa família so-
breviva ao mundo que está por vir – respondeu Bea. — Nós
fazemos mais do que sobreviver. Nós temos os meios para
florescer.
— Você estava no ProMog, sua burra – disse Nigel,
se referindo a organização secreta de seres humanos em
apoio aos Mogadorianos, onde a Fundação tinha nascido.
— Você pensou que nossa família e o resto da humanidade
floresceriam sob Setrákus Ra?
— Dada a informação que tínhamos na época, acre-
ditávamos que estávamos apoiando o lado vencedor – Bea
respondeu com um movimento da mão. — Infelizmente, to-
das as variáveis eram desconhecidas por nós. Ninguém
previu que Lorien armaria nossos próprios filhos, por
exemplo. A Fundação tem uma compreensão muito mais
forte da situação atual. Estão melhores informados. Mais
capacitados a lucrar.
Nigel olhou em volta da cela de Bea. — Mãe, eu não
acho que você tenha uma noção da sua própria situação,
muito menos do que está acontecendo no mundo.
— Isso? – Bea sorriu, puxando uma das cordas des-
gastadas do seu moletom. — Isso é apenas temporário.
Fico feliz em permanecer sob sua custódia por enquanto.
Com Einar e seu pequeno show, minha posição na Funda-
ção ficou bastante instável. Eu pensei que eles iriam me
matar, apenas para limitar a exposição deles. É o que eu
teria feito, afinal de contas. É por isso que eu precisava
acabar com aquele acordo com Sydal, para resguardar algo
para vocês, filhos.
— E então você o matou – disse Nigel.
— Bem, apesar de todas as suas grandes ideias, o
homem era um simplório. Ele nunca foi realmente parte
da Fundação. Ele simplesmente gostava dos recursos que
poderíamos fornecer a ele. Ele se aproximou de nós e da
Garde Terrestre, tocando os dois lados. Era só uma ques-
tão de tempo até que alguém o tirasse de cena. Permanen-
temente, por assim dizer.
— Eu ainda não entendo o porquê.
— Eles estão dizendo que eu o matei? – Bea pergun-
tou com uma inclinação divertida de sua cabeça. — Nos
noticiários, quero dizer. Eles estão culpando Bea Barnaby?
Os mercenários da Blackstone? Eles estão falando sobre a
Fundação? Essa é a história? Não é?
Nigel olhou para ela. Ela sabia. É claro que ela sabia
que o nome dela não havia sido relacionado com Sydal.
Embora o discurso de Einar estar sendo reproduzido em
todos os lugares, as partes em que ele se queixava da cons-
piração tinham sido interpretadas como os delírios de um
adolescente que não havia tomado seus remédios.
— Eis o que eu penso que está acontecendo, – Bea
continuou, seus olhos brilhando, como se ela estivesse es-
perando por isso. — A Garde está sendo culpada pelo que
aconteceu na Suíça. As pessoas estão com medo. O público
está percebendo como uma seleção aleatória de adolescen-
tes superpoderosos pode ser um perigo para a sociedade.
Eles estão percebendo que uma escola particular boba su-
pervisionada por um corpo impotente como a ONU sim-
plesmente não é suficiente para proteger o mundo que co-
nhecemos. Como resultado, a visão preciosamente idea-
lista daqueles que primeiro fundaram a Garde Terrestre
está desmoronando. Quão perto estou?
— Nem um pouco – Nigel mentiu. — Seu rosto está
em todos os noticiários. E eles também não escolheram
uma boa foto. Mostra um pouco do seu queixo duplo, hã? A
própria rainha veio na televisão para chamá-la de uma
desgraça para a Inglaterra. Até os outros conservadores
acham que você é escória.
Bea riu. — Meu querido, a Fundação era apenas
uma organização secreta porque isso era mais lucrativo em
um mundo pós-invasão, onde todos queriam acreditar que
os Lorienos e seus Legados nos levariam à utopia. Uma
Terra unida onde todos nós damos as mãos e nos unimos
contra invasores alienígenas não é um lugar onde os capi-
talistas de livre mercado antiquados como o seu pai e eu
podíamos prosperar ao ar livre. Nós reconhecemos isso.
Entendemos que sempre haveria um período feliz em que
todos os países do mundo fingiam se dar bem. Afinal, nós
derrotamos uma ameaça alienígena juntos, não é mesmo?
Mas esse tempo está acabando. Diga-me, Nigel, quando a
Garde Terrestre e a Academia se separarem, quem os líde-
res do mundo livre chamarão para consertar as coisas?
Talvez uma organização bem financiada com uma infraes-
trutura mundial já em vigor e um histórico comprovado de
controle da perigosa Garde? E se essa mesma organização,
através de uma série de aquisições de ações e uma morte
tragicamente prematura, agora possuísse uma participa-
ção controladora na maior fabricante mundial de tecnolo-
gia anti-Garde, hmm?
Nigel olhou para ela, querendo acreditar que eram
todas as mentiras de uma mulher desesperada tentando
entrar na cabeça dele. — Você está falando asneiras.
— Eu dou mais duas semanas antes de me liberta-
rem – disse Bea. — Seja um bom menino e, depois de ter-
minar seu dever de casa, vá até o prédio do corpo docente
e me escolha um bom escritório. Eu acho que o ar da Cali-
fórnia vai concordar com...
Bea se inclinou para frente de repente, vencida por
um ataque de tosse. Sua postura desapareceu assim como
a revista que caiu no chão. Nigel se levantou, encolhendo-
se aos sons que ela fez. Ele tinha que parar de se deixar
levar para o lado dela. Embora todo o ódio que sentia, ela
ainda era a mãe dele. Não foi fácil vê-la doente.
Depois de um minuto, Bea recuperou o fôlego. Ela
arrastou as costas da mão pela boca. Nigel lhe entregou
um lenço de papel e ela enxugou o nariz e os cantos dos
olhos.
Ele podia ver as veias negras agora. Os traçados es-
curos se movendo sob a pele de Bea como vermes. Na Su-
íça, o Número Cinco quebrou um frasco daquela gosma vis-
cosa no rosto de Bea, esfregando-a nos machucados dela. A
coisa ainda estava dentro dela, deixando-a doente.
— Nós podemos curar você – disse Nigel, de pé gora,
fazendo um esforço para manter sua voz firme. — Tudo o
que você precisa fazer é nos fornecer uma lista com nomes.
De todos os membros da Fundação. Conte-nos todas as ma-
neiras que eles utilizaram para se infiltrarem na Garde
Terrestre e nós vamos curá-la antes que o veneno te mate.
Bea olhou para o filho e Nigel ficou surpreso com o
que viu nos olhos dela. Ela aprovou sua técnica de negoci-
ação.
— Uma oferta interessante – disse Bea. — Mas eu
vou tentar aguentar até surgir um acordo melhor.
— É o único que você vai receber.
— Receio que minha resposta ainda seja não, que-
rido, – disse Bea. — Talvez se eu realmente acreditasse
que você me deixaria morrer, eu estaria mais aberta a bar-
ganhas. Mas você e a menina Cook não deixaram nem
mesmo aquela merda horrível do Einar morrer, depois de
tudo o que ele fez na Islândia. Depois que ele matou seu
pai.
— Ele vai pagar por seus crimes – disse Nigel. — E
você também vai.
— Talvez. Mas, nesse meio tempo, dificilmente acre-
dito que você vai deixar sua própria mãe morrer.
— Não sabemos o que essa coisa pode estar fazendo
com você – Nigel respondeu, tentando uma nova aborda-
gem.
— A Fundação realizou experimentos – disse Bea. —
Eu sei quanto tempo tenho. Eu não estou preocupada. Você
não deveria estar também. Como eu disse, duas semanas.
No máximo. E então um dos meus Gardes com o Legado de
cura virá aqui e me curará, isso se sua amiga Taylor não
ceder antes.
Nigel deixou escapar um suspiro pelas narinas. Ela
não se dará por vencida. Hoje não. Talvez nunca. Sua mãe
preferia deixar que a Gosma Mogadoriano corroesse em
suas entranhas do que trair alguns de seus amigos ricos.
— Certo, então – Nigel disse, fazendo um esforço
para manter sua voz alegre. — Vamos ver como você estará
se sentindo amanhã. Até logo.
A mãe dele disse se despediu de uma forma insupor-
tavelmente agradável, mas Nigel não pôde ouvi-la por
conta do som dele arrastando a cadeira para fora dali. Ele
fechou a porta de vidro à prova de balas atrás dele sem dar
nenhuma olhada para Bea. Ele não suportava ver a ex-
pressão presunçosa dela.
Nigel seguiu pelo corredor de celas antes de soltar
um grito e atirar a cadeira para longe dele. Ela atingiu ino-
fensivamente a porta de uma cela e Nigel ouviu um sus-
piro. Ele virou a cabeça e viu, em uma sala estreita, idên-
tica à de sua mãe, a Dra. Linda Matheson. A psicóloga re-
sidente da Academia, orientadora e espiã da Fundação.
Com o cabelo em bagunçado e olhos inchados, ela estava
pressionada contra as costas de sua cela, claramente as-
sustada pela violenta explosão que ele teve. Linda relaxou
um pouco quando percebeu que era Nigel ali fora com uma
birra e não algum assassino vindo para matá-la.
— Nigel... – Linda começou, tendo alguma dificul-
dade em expressar um tom de voz calmante que ela domi-
nara durante sua semana sessões. — Está tudo bem?
— Cala a boca, Linda – respondeu Nigel, e conti-
nuou.
Ele passou por outra cela, onde viu que Miki estava
dormindo de frente para a parede, roncando suavemente.
A pequena prisão secreta da Academia foi construída para
resistir às habilidades telecinéticas da Garde, mas não foi
projetada para ser hermética. A Garde Terrestre obvia-
mente não queria que ninguém se sufocasse. Portanto, Ni-
gel imaginou que Miki poderia sair sempre que quisesse,
mas ele não tinha tentado nada ainda e Taylor não achava
que ele tentaria. Como aquela garota Rabiya que eles trou-
xeram da Suíça, Miki queria ser bom.
Alejandro Regerio, por outro lado, parecia ansioso
para escapar. O caçador de recompensas de Gardes da
Fundação ficou de pé contra o vidro enquanto Nigel pas-
sava pela cela onde ele estava. O rosto do cara ainda estava
cortado graças à Isabela, que o machucou quando estava
fingindo ser a Dra. Linda. Nigel adoraria ter visto essa
cena. Depois que Isabela escapou da Academia, ela disse
para o professor Nove a localização de Alejandro – tran-
cado no porta-malas do carro da Dra. Linda. Nove trouxe-
o sob custódia, mas hesitou em relatar sua existência para
a Garde Terrestre porque isso traria perguntas sobre o mo-
tivo de Isabela estar fora do campus novamente.
— Você não pode me manter aqui – Alejandro gritou
para Nigel, batendo sua mão contra o vidro. — Deixe-me
sair, seu punk magricela.
— Companheiro, ninguém dá a mínima para você –
respondeu Nigel, usando seu Legado para fazer com que
sua voz viesse de trás de Alejandro. Ele abriu um sorriso
quando o homem se encolheu e se virou, apenas para des-
cobrir que não havia ninguém ali. Tudo poderia estar uma
merda, mas pelo menos ele ainda podia humilhar esse per-
dedor.
Nigel ignorou os gritos cheios de palavrões de Ale-
jandro. Ele digitou o código-chave que recebera de Malcolm
e passou pela pesada porta de segurança, a única saída da
pequena prisão da Academia. Ou área de detenção.
Aparentemente, foi essa denominação que a Garde
Terrestre usou quando insistiram em instalá-la. É claro
que Nove e Malcolm estavam cientes das celas, mas em
mais de um ano operando na Academia nunca viram a ne-
cessidade de usá-las.
Engraçado que agora a maioria dos ocupantes eram
humanos.
Ainda assim, a Garde Terrestre os queria aqui, pen-
sou Nigel. Se Nigel estivesse com um humor mais otimista,
ele teria visto isso como se a organização tivesse sentido
que era melhor prevenir do que remediar. Mas, no humor
que ele estava agora, Nigel acreditava ser outro exemplo
da humanidade tendo medo da Garde. Ele se perguntou,
não pela primeira vez, o que Ran pensaria dessas celas.
Sua melhor amiga havia perdido tanta confiança na Aca-
demia e na Garde Terrestre que ela se juntou ao cara que
quase assassinou Nigel, que matou seu pai com sucesso e
que todos no mundo estavam falando sobre o perigo que a
Garde oferecia a humanidade. E, insanamente, ele nem
culpou Ran por abandoná-lo. Ele não conseguia se irritar
com ela. Ele só sentia falta dela.
Tudo que Ran queria fazer era optar por não lutar.
Tudo o que Nigel queria fazer era ajudar as pessoas. E pa-
recia que tudo o que a Garde Terrestre queria fazer, com
exceção das boas pessoas da Academia, era colocá-las em
jaulas.
Talvez a mãe dele estivesse certa. Talvez uma
guerra com a humanidade fosse inevitável. Talvez ele es-
tivesse se enganando em querer pensar de outra forma.
Droga. Ela tinha conseguido entrar na cabeça dele
novamente.
Além da área de detenção havia uma passagem fria
com paredes de aço corrugado e iluminação fraca. Nigel
passou por ela rapidamente – corredores subterrâneos o
faziam se lembrar de Patience Creek e ao terror que ele
enfrentara ali. Ele preferia estar num lugar aberto o mais
rápido possível.
A prisão estava escondida abaixo do prédio da admi-
nistração. Nigel fez uma série de curvas através dos túneis
de manutenção sombrios, imaginando-se caminhando
acima do solo, ao sol. Ele estava pegando o caminho da ad-
ministração, como se fosse um espião indo para o centro de
treinamento.
Ele passou por outra série de portas de segurança
até se encontrar na câmara aberta sob a amada pista de
obstáculos de Nove. A sala sempre cheirava a gordura, as
engrenagens e a fiação das muitas armadilhas sádicas de
Nove visíveis no teto. Não muito tempo atrás, Nigel tinha
gostado de se esgueirar até ali com o resto dos Seis Fugiti-
vos, criando seus planos para derrubar a Fundação. Havia
a mesa em que eles refletiam com o chá fornecido por Mal-
colm. Havia o quadro de avisos sobre o qual eles haviam
colocado todas as pistas e informações.
Quase parecia um jogo.
A sala parecia maior agora sem todos os outros reu-
nidos aqui. Ou talvez não esteja maior, exatamente. Mais
vazia.
Desde a Suíça, Lexa instalou uma série de monitores
e laptops na mesa que – Lexa, Nove e Malcolm – mudaram
de posição. Não havia mais ninguém no corpo docente em
quem pudessem confiar e, embora Nigel tivesse se ofere-
cido para ajudar, os adultos (e, bem, Nove) não pareciam
ansiosos para sobrecarregar seus alunos com essa respon-
sabilidade. As telas estavam sintonizadas em um conjunto
de câmeras instaladas ao redor da Academia. As imagens
incluíam a prisão subterrânea de onde Nigel acabara de
chegar, mas essa não era a maior preocupação. A maioria
das câmeras estava focada no perímetro da Academia, es-
pecificamente no acampamento dos Pacificadores e nas ro-
tas patrulhadas pelos soldados do coronel Ray Archibald.
Nove e os outros não disseram exatamente isso, mas esta-
vam definitivamente esperando que os Pacificadores, em
algum momento, tomassem uma medida mais severa com
a administração da Academia. Até agora, os soldados não
mudaram sua rotina. Eles não estavam apontando suas
armas por aí. Mas havia muitos deles. E mais chegando de
ônibus todos os dias.
Eles estavam acumulando um exército lá fora. Assim
como Greger havia prometido. Taylor tinha o corpo estu-
dantil preparado para resistir ao que quer que viesse, mas
Nigel não tinha certeza de quanto tempo poderiam aguen-
tar. É por isso que ele precisava obter informações sobre a
Fundação de sua mãe – armados com isso, talvez pudes-
sem expor a verdade e fazer o público ver que a Garde não
era o verdadeiro inimigo.
Ugh Agora ele estava começando a pensar como Ei-
nar.
Malcolm estava vigiando os monitores. Ele lançou
um olhar na direção de Nigel, mas não o cumprimentou de
outra forma. Malcolm segurou o celular na frente dele, com
um olhar perplexo no rosto.
— Não estamos no clima para tirar selfies, Dout...
Nigel fechou a boca quase tão rápido quanto abriu,
sua voz se tornando um sussurro estranho ao final de sua
frase. Algo não parecia certo.
— Você está sozinho, Dr. Goode? – uma voz pergun-
tou.
Nigel fechou a boca de vez quando percebeu que Mal-
colm estava em uma chamada de vídeo.
— Sim, Greger, estou sozinho – Malcolm mentiu,
propositadamente não olhando na direção de Nigel.
— Onde você está, exatamente? – Greger perguntou.
— Não parece o seu escritório.
— Estou fazendo uma manutenção no centro de trei-
namento – Malcolm respondeu. Nigel apreciou a facilidade
com que o velho cientista mentia. Ali estava um homem
que uma vez foi interrogado por Mogadorianos; ele não ia
dar nada para um mero contador chato como o Greger.
— Boa. Você está ocupado – disse Greger. — É muito
importante para nós manter um senso de normalidade em
torno da Academia durante esses tempos difíceis.
— Desculpe-me, Greger – Malcolm disse, aprovei-
tando a deixa. — Mas como exatamente você conseguiu
esse número?
Mesmo que ele não pudesse ver Greger, Nigel pôde
ouvir o sorriso desprezível do homem. Ele ignorou comple-
tamente a pergunta de Malcolm. — Eu sempre achei que
você era um homem pragmático e inteligente, Dr. Goode.
É por isso que o nomeei para assumir as operações na Aca-
demia.
As sobrancelhas de Malcolm se elevaram. — Como
é?
— Você e eu sabemos que o Número Nove está fora
de controle – Greger continuou. — Ele nunca deveria ter
recebido uma posição tão poderosa, mas, após a invasão,
todos nós sentimos que tínhamos uma dívida enorme com
os Lorienos. Embora certamente apreciemos o que a espé-
cie dele fez por nós, considerando o desempenho recente
dele, simplesmente não é prático mantê-lo na mesma posi-
ção por mais tempo.
— Eu não concordo com essa avaliação – respondeu
Malcolm friamente.
— Nós dois sabemos como isso vai terminar – disse
Greger com um suspiro. — Você gostaria de estar no co-
mando, Dr. Goode? Em vez de deixar a Garde Terrestre
nomear um estranho? Seria uma transição tranquila. Sem
mencionar que o seu apoio nessas questões ajudará muito
a garantir que toda a nossa Garde continue feliz e saudá-
vel.
— Eu não respondo gentilmente às ameaças, Greger.
— Eu não ameaçaria você, Malcolm. Eu gosto de
você. Estou apenas tentando lhe impressionar com a gra-
vidade da situação.
— Eu entendo – respondeu Malcolm. — Considere-
me não impressionado, Greger. Por favor, pegue seu tra-
balho e enfie no seu...
Malcolm desconectou. Assim que ele fez isso, soltou
um suspiro irregular e tateou atrás de si por uma cadeira.
Nigel se aproximou, sacudindo a cabeça.
— Boa jogada, Doutor – disse Nigel, finalmente
avançando. — Coloque esse idiota no lugar dele.
Malcolm assentiu, seu olhar distante enquanto
olhava para o seu telefone em branco. Ele se jogou para
trás na cadeira, como se tivesse levado um soco no estô-
mago.
— Dr. Goode? – Nigel perguntou. — Qual é o pro-
blema?
Malcolm levantou o telefone. O número da chamada
desconectada ainda estava sendo exibido ali.
Sam.
— Aquele filho da puta – disse Malcolm em voz
baixa. — Ele acabou de me ligar pelo telefone do meu filho.
Nigel engoliu em seco. — Ah.
— Pois é – disse Malcolm, enquanto jogava o telefone
sobre a mesa na frente dele. — Parece que a Garde Terres-
tre o prendeu.
Sam Goode. Pelo que Nigel sabia, o cara estava tra-
balhando para a Watchtower, uma divisão secreta, aliada
da Garde Terrestre, que havia levado Ran e Kopano. Sam
e a Número Seis estavam trabalhando com o grupo de bom
grado, no entanto. Sam havia seguido as regras e agora
parecia que Greger estava usando-o como chantagem. En-
tão talvez não fossem apenas os alunos da Academia que
estavam em apuros com a Garde Terrestre.
— Tenho certeza que seu filho está bem, doutor – Ni-
gel disse, tentando soar tranquilizador e sincero, sempre
uma tarefa difícil para ele. — Eu o vi em ação uma vez ou
duas. Ele tem jeito com as coisas.
— Sim, Nigel, obrigado... – Malcolm respondeu de
maneira distante. — Eu só... pensei que os anos que pas-
samos fugindo tentando encontrar um ao outro trancados
nas celas ficariam para trás. Eu...
Algo em um dos monitores distraiu Malcolm. Ele se
inclinou para frente, estreitando os olhos para um monitor
com imagem infravermelha de uma câmera apontada para
o oceano.
— Você viu isso? – ele perguntou a Nigel. — Aquela
marca de calor?
Nigel se inclinou sobre o ombro de Malcolm. Ele no-
tou algo estranho no ar sobre o oceano. Havia algo lá fora,
deixando escapar rajadas esporádicas de calor, embora
nada visível a olho nu.
— O que é isso? – perguntou Nigel. — Uma tempes-
tade?
— Não – respondeu Malcolm, pegando seu walkie-
talkie. — Aquilo está vindo rápido demais para ser uma
tempestade. É outra coisa. E está vindo para cá.
KOPANO OKEKE
PRÉDIO DOS ESTUDANTES
A.G.H. – POINT REYES, CALIFÓRNIA

seu segundo sanduíche de bolo de carne gorduroso, lambeu a


ponta de todos os dedos e se inclinou nas costas da cadeia com
um arroto satisfatório. — Tão bom!
Do outro lado da mesa, Simon comia uma salada. — Isso
foi horrível de se ver.
— Me sinto ótimo – Kopano declarou, coçando as laterais
de sua barriga.
— Como você tem uma namorada? – Simon respondeu,
mexendo a cabeça.
A cozinha só servia bolo de carne mais ou menos uma vez
por mês e, enquanto a maioria dos estudantes detestava esse em
específico, Kopano amava. O sabor remetia à kafta que ele cos-
tumava comprar de uma barraca de rua perto do apartamento
da família dele em Lagos. Geralmente os cozinheiros não esquen-
tavam as sobras da noite anterior para servir no almoço do dia
seguinte, mas a equipe diminuiu e Kopano supôs que eles impro-
visaram. Quem quer que tenha sido a pessoa que deu a ideia
brilhante de colocar o bolo de carne entre dois pães torrados
com cheddar à vontade merecia um Prêmio Nobel. A América es-
tava sendo incrível.
A euforia de Kopano pelo sanduíche de bolo de carne di-
minuiu exponencialmente quando ele viu a Karen Walker en-
trando no refeitório. A Agente estava passando a maior parte
do tempo dela trancada dentro do prédio da administração
desde que ambos chegaram na Academia. Kopano sabia que ela
estava ajudando Malcolm e Lexa com os sistemas de segurança
da Academia e que ela continuava a reportar desculpas esfar-
rapadas para a Watchtower enquanto pensava em como agir
dali para frente. Em como agiriam dali para a frente, tecnica-
mente. Supostamente ela deveria ser a responsável por Kopano,
embora Walker parecia bem confortável em abdicar essa res-
ponsabilidade para que Kopano pudesse voltar a ter a vida nor-
mal dele na Academia. Entretanto, se baseando pelo olhar som-
brio no rosto dela e pela forma que ela se aproximou da mesa,
ele percebeu que alguma coisa havia mudado.
— Eu preciso conversar em particular com Kopano – Wal-
ker disse para Simon. O garoto francês pegou suas coisas da
mesa e se levantou, dando o lugar para ela se sentar.
— O que houve, Karen? – Kopano perguntou com um sor-
riso. — Você deveria comer um desses sanduíches. Parece que
você emagreceu.
Walker ignorou a sugestão. — Recebi um chamado oficial
para voltar para Washington – ela disse. — O caos pós-Suíça
deixou a Garde Terrestre bem desestabilizada, mas pelo menos
parece que alguém finalmente leu meus relatórios. Eles sabem
que seu Inibidor não está mais funcionando e que não estamos
mais com Ran. Eu preciso ir para lá para ser interrogada. Defini-
tivamente serei demitida. Talvez presa. Você precisa ir comigo.
Provavelmente eles irão designá-lo outro responsável e implan-
tarão novamente o Inibidor.
— Entendi – Kopano disse, desfazendo o sorriso que es-
tava no rosto.
Ele tem recebido muitos comentários negativos de Taylor
sobre a positividade dele. Ela achava que ele deveria estar com
raiva sobre o que aconteceu com ele. Ela não estava errada, mas
Kopano também não se sentia feliz por ter sido sequestrado e
recrutado contra sua vontade. Ele estava com raiva. Demonstrá-
la, entretanto, o mudaria, e era exatamente isso que os inimigos
queriam.
— Acho que vou ficar aqui – Kopano disse depois de um
momento. Ele fitou Walker nos olhos e estreitou seus lábios para
demonstrar seriedade na frente dela.
— Imaginei que diria isso – Walker respondeu. — Eu não
posso forçá-lo a ir, mesmo se eu quisesse. Mas vou deixar avisado
que cedo ou tarde eles virão atrás de você. Pode significar pro-
blemas para a Academia.
— Talvez – Kopano disse. — Mas eu acredito na Garde
Terrestre. Eu acredito que essas conspirações vão acabar e que
vamos voltar a ajudar as pessoas, que é o nosso propósito desde
o início.
— Espero que você esteja certo – o tom de voz que Wal-
ker usou era o mesmo que Taylor e Nigel usavam às vezes – ce-
ticismo puro – como se ele fosse um idiota por ser otimista. Ainda
assim, ele se manteve firme.
— Você deveria ficar aqui também – Kopano sugeriu. —
Os instrutores estão se demitindo. Você poderia dar aulas sobre
espionagem. Isso seria útil.
Walker coçou a ponta do nariz. — Eu tenho muito a res-
ponder—
— Eu também – disse uma voz atrás de Kopano.
Rabiya estava atrás dele, vestida com uma roupa de trei-
namento roxa e um hijab de lycra. Walker claramente estreme-
ceu ao ver Rabiya, talvez se lembrando de ter sido cumplice na
fuga da Garde dos Emirados Árabes Unidos, um território fora
da jurisdição da Garde Terrestre.
— Eles vão vir atrás de mim também? – Rabiya perguntou.
Obviamente ele escutou a conversa deles.
— Surpreendentemente nem mencionaram seu nome –
Walker disse. — Eu acho que seu pai não reportou sua... sua
emancipação.
— Que ótima notícia – Kopano disse, abrindo os braços.
— Vê? Todos podemos ficar na Academia. Eventualmente a
Garde Terrestre vai entender que não somos perigosos. Tudo isso
vai acabar.
Walker franziu a testa. Ela claramente discordava, mas
não disse nada. Rabiya colocou uma das mãos no ombro de Ko-
pano.
— Vamos – ela disse. — Temos treinamento.
— Eu pensei que vocês, alunos da Academia, deveriam sempre
estar em boa forma – Rabiya provocou por cima do ombro. —
O que há de errado com você?
Debruçado com as mãos sobre os joelhos, Kopano recupe-
rava o fôlego, gesticulando com seu dedo indicador de que pre-
cisava de um minuto de descanso. O vício de Kopano pelos san-
duíches estava atrapalhando ele no treinamento, fazendo-o se
sentir fatigado a apenas um quilômetro após o início da corrida
que deve ser de pelo menos quatro quilômetros, sentindo seu es-
tômago revirar. Ele poderia usar seu Legado para deixar seu
corpo mais leve, mas já haviam chamado a atenção dele com
relação a isso antes – não era exatamente um exercício físico se
ele trapaceasse.
Rabiya deu meia volta e correu até ficar do lado dele. A
roupa de treinamento dela emanava um som engraçado en-
quanto ela corria. Ela nem havia suado.
— Você não parece nada bem – ela observou.
— Eu comi demais – Kopano respondeu, se espreguiçando
com um bocejo demorado enquanto coçava a lateral do quadril.
— Eu sie. Eu vi você no almoço. Como você chama? Com-
bustível para seus músculos em fase de crescimento?
— Eu não me lembro de ter dito isso – Kopano disse, de-
safivelando o cinto.
Rabiya gesticulou em torno de si mesma. Não havia mais
ninguém na pista corrida e eles estavam numa parte que aden-
trava a floresta. — Pelo menos não tem ninguém para ver você
caso você precise cagar nas calças.
— Eu não—! – Kopano protestou. — Nojento.
Rabiya levou um pé à mão para se alongar. — Então, va-
mos correr ou não?
O estômago de Kopano embrulhou ao ouvir a pergunta.
— Talvez seja melhor só andarmos por enquanto.
— Por mim tudo bem – Rabiya respondeu. — Eu não acho
que alguém vai se importar se não fizermos os exercícios corre-
tamente nos dias de hoje.
— Pois é – Kopano concordou. — Parece que não.
O personal trainer australiano – um corredor de longa dis-
tância conhecido e medalhista nas Olímpiadas que normalmente
dirigia os treinamentos – deixou o campus junto com outras pes-
soas depois que Greger anunciou a demissão do Professor Nove.
O próprio Nove estava ocupado demais com suas aulas, princi-
palmente trabalhando com os tweebs para tentar fazê-los desen-
volver seu Legado principal, então ele disse para Kopano e os
amigos fazerem o próprio treinamento.
Apenas Rabiya e Kopano apareceram na pista de corrida.
Ambos eram os únicos que estavam levando as aulas à sério e
eles nem eram alunos de verdade.
Depois da Suíça, o Professor Nove mal piscou quando Ko-
pano apresentou ele para Rabiya. Kopano explicou o acordo
que fizeram contra a vontade da Agente Walker e Nove basi-
camente concordou. Depois de perder dois alunos e uma pessoa
da Garde Terrestre, aceitar Rabiya não era grande coisa. Nove
nunca cadastrou Rabiya de fato na base de dados da Academia,
mas permitiu que ela participasse das aulas. Para os demais alu-
nos, era ela nada mais além de uma novata.
Com Ran e Isabela fora, Nove colocou Rabiya no quarto
de Taylor. — Sua namorada faz o tipo americano perfeito, como
aquelas garotas dos filmes – Rabiya comentou com ele durante
uma das corridas anteriores, um comentário que fez Kopano co-
rar, principalmente porque ele Taylor não haviam discutido sobre
o status do relacionamento deles. Entretanto, Kopano sabia que
Taylor ainda nutria um pouco de rancor por conta do papel de
Rabiya na emboscada contra eles quando ela ainda fazia parte
da Fundação, e por Kopano ser o único que dizia que Rabiya
não precisava ficar presa nas celas abaixo do prédio da admi-
nistração com Miki e a Sra. Barnaby. Taylor estava ocupada or-
ganizando os alunos para a rebelião que estava prestes a acon-
tecer. Ela não tinha tempo para fazer novos amigos.
Então o próprio Kopano se ofereceu para mostrar os ar-
redores para Rabiya. Ele gostava dela. Ela tinha um senso de
humor que o surpreendeu. E, diferente de Nigel e de Taylor, ela
não estava constantemente falando sobre como eles seriam sub-
jugados por um assassino cabal.
— É uma boa notícia seu pai não ter reportado seu desa-
parecimento, né? – Kopano disse, relembrando da conversa que
tiveram com Walker. — Você pode ficar aqui agora.
— Sim. Boas notícias – Rabiya disse. Ela tentou fazer suas
palavras soarem felizes, mas havia um tom de dor na voz dela.
— Estou começando a pensar que o Sheikh talvez esteja feliz por
eu ter desaparecido.
Kopano coçou o queixo. — Sabe, quando meu pai desco-
briu que eu havia desenvolvido Legados, ele imediatamente co-
meçou a esquematizar como ele poderia lucrar a partir disso. Me
manteve um segredo para com a Garde Terrestre por meses até
nos envolvermos em problemas com uns homens maus...
— Pelo menos você foi valorizado – Rabiya disse, me-
xendo a cabeça. — Homens como o meu pai tem uma reputação
por serem superprotetores com suas filhas. Ele costumava me mi-
mar tanto... pelo menos até eu começar a mover objetos com a
mente. Depois disso, ele mal conseguia me olhar. Acho que inco-
modava ele o fato de que havia deixado de ser a pessoa mais
poderosa da casa. Quando meu irmão ficou doente e a Fundação
se aproximou de nós, acho que ele viu como uma oportunidade
de tirar toda essa doideira sobre Gardes debaixo do teto dele.
— Como foi trabalhar para eles? – Kopano perguntou.
— Eles nos tratavam como astros do cinema... pelo menos
enquanto fazíamos o que eles mandavam – Rabiya respondeu.
— Eu conheci tantas partes do mundo em tão pouco tempo do
que eu poderia imaginar conhecer minha vida toda. No começo,
foi divertido. Tudo o que eu fazia era transportar as pessoas de
um lugar para o outro. E eu estava ajudando a salvar a vida do
meu irmão...
— Ações ruins por bons motivos – Kopano disse. — Meu
pai costumava dizer isso.
— Foi só depois de começarmos a sequestrar os Gardes
com Recupero que eu percebi o como a Fundação nos via de ver-
dade – Rabiya continuou. — Descartáveis. Propriedade. Quando
Einar me deixou para trás e ninguém da Fundação veio para me
resgatar, eu percebi o quão pouco eu valia para eles – Rabiya
suspirou. — Quando você e seus amigos apareceram e me res-
gataram, eu percebi o quanto vocês se importavam uns com os
outros. Einar sempre falou mal da Academia e como as NU estava
tentando nos controlar. Talvez isso seja verdade em alguns as-
pectos. Mas pelo menos aqui vocês podem defender uns aos ou-
tros.
O estômago de Kopano resmungou quando ele estufou o
peito, mas ele o fez mesmo assim. — As intenções desse lugar são
boas – ele disse. Parou, pensando da demissão de Nove. — Bom,
costumavam ser.
— Uma fruta madura sempre vai chamar a atenção das
minhocas – Rabiya disse. — Meu pai costumava dizer isso. Acho
que ele se referia sobre o fato de me manter longe dos garotos,
mas o significado da expressão é geral. Enfim. Eu gosto daqui.
Mesmo que não seja como eu imaginava.
— Não é?
— Não. Primeiro porque não me vejo correndo – Rabiya
disse com um sorriso. — Não sei. Entendo que deram o nome de
academia, mas eu não pensei que seria tão parecido com uma
escola normal. Eu esperava ver jovens Gardes brilhantes usando
seus incríveis Legados para criar invenções que mudassem o
mundo. Em vez disso, todos aqui jogam jogos idiotas em que vocês
tentam arrancar os cabelos uns dos outros com telecinese.
— Thrust, é o nome do jogo – Kopano disse com um sorriso.
— Sabe, no meu primeiro dia aqui, esse cara chamado Lofton
quebrou o punho jogando esse jogo. Agora ele já se formou da
Garde Terrestre.
— Parece ser um dos nossos melhores.
Kopano abaixou o tom de voz, embora não houvesse mais
ninguém ali perto. — Não é como eu imaginava também. Eu pen-
sei que viajaríamos o mundo ajudando pessoas e lutando contra
vilões. Como super-heróis – ele pausou. — Bem, na verdade, acho
que tem sido mais ou menos assim ultimamente. Mas tudo é mais
complicado. Mais desagradável. Quando você percebe que os
vilões não são personagens de HQ e sim pessoas de verdade, as
coisas tendem a ficar mais intensas.
— Eu entendo o que quer dizer – Rabiya respondeu. O
tênis dela emitiu um barulho enquanto ela se virou e foi até a
cerca que dava para o lado leste da Academia. — Como eu
disse, pareceu um jogo quando eu estava com a Fundação. Até
eu estar presa num frigorifico com aqueles dementes ameaçando
me queimar viva.
Kopano fez um barulho com o nariz. — Sinto muito isso ter
acontecido com você.
— Todo mundo aqui já passou por algo assim, de um jeito
ou de outro – Rabiya disse, depois de um momento. Ela se apro-
ximou e apertou a mão de Kopano. — A única forma de supe-
rarmos essas experiências ruins é nos recusando a deixá-las nos
mudar, mas...
— Isso! – Kopano concordou alegremente. — Isso é exa-
tamente o que eu venho tentando dizer para Nigel e Taylor,
mas...
Demorou alguns segundo para ele perceber que Rabiya
não havia soltado a mão dele. Ele ergueu a sobrancelha em con-
fusão, olhando para a garota, que era mais baixa que ele. Ela
estava olhando fixamente para a frente, no ponto onde o Oce-
ano Pacífico desaparecia no horizonte, uma expressão pacífica
no rosto, como se ela nem tivesse percebido que estava segu-
rando a mão de Kopano.
— Rabiya, ei... – Kopano disse, soltando a mão dela.
— Desculpa, desculpa – ela respondeu rapidamente, le-
vando a mão até a cabeça e puxando seu hijab, talvez dese-
jando cobrir seu rosto e esconder a vermelhidão crescente ali. —
Eu só estava pensando no quão legal você se esforça para ser
meu amigo aqui por eu não conhecer ninguém... nada além disso.
— Tudo bem – Kopano respondeu. Ele pensou que ela di-
ria algo a mais para dissipar a estranheza que pairou sobre eles,
mas ele interrompeu os pensamentos quando percebeu algo tre-
meluzente no horizonte além do oceano. Ele foi até sua faixa na
pista de corrida.
— Ei, vamos continuar – Rabiya disse por cima do ombro.
— Prometo não deixar as coisas estranhas outra vez.
Mas a estranheza, pelo que parecia, já estava a caminho.
Kopano apontou na direção do oceano.
— Vê aquilo?
Kopano estreitou os olhos, tentando olhar melhor para o
fragmento do céu onde a luz do sol se arqueava de uma forma
nada natural. O ar estava trêmulo, se parecendo com as ondas
de calor que subiam das ruas quentes durante do verão. E estava
se aproximando.
— O que... – Rabiya soltou um gritinho de surpresa en-
quanto uma crepitação emitida de uma energia avermelhada foi
ouvida a partir da parte trêmula do ar, e, logo em seguida, se
repetiu. Era como se fosse um relâmpago rápido numa pequena
tempestade.
Kopano piscou e, de repente, a ondulação havia sumido.
No lugar dela apareceu um Escumador Mogadoriano. A nave em
forma de inseto estava danificada e coberta de marcas provo-
cadas por fogo. Claramente, o sistema de camuflagem havia fa-
lhado. A nave passou raspando sobre o topo das árvores e então
começou a descer na direção da pista de corrida, rápido demais
para um pouso de emergência.
— Será que é o Einar e os outros? – Rabiya perguntou.
Kopano estremeceu. Ele teve a oportunidade de olhar de
perto a nave de Einar na Suíça. Estava em péssimo estado, assim
como essa, mas em pontos diferentes. Esse Escumador parecia ser
de um modelo levemente diverso daquele que está com Einar.
— Não – Kopano disse. — Não. São outras pessoas.
— Outras pessoas? – Rabiya aumento o tom de voz, alar-
mada. — Mogadorianos?
O nó no estômago de Kopano voltou a incomodá-lo. Claro.
Quem mais estaria pilotando uma dessas naves? Taylor disse que
havia se encontrado com alguns deles na visita infernal da Sibé-
ria...
— Volte para o campus – Kopano disse. — Avise os outros!
— E você?
Kopano comprimiu seus músculos, deixando a pele dele
dura como diamante. — Essas coisas não podem me machucar.
Rabiya não argumentou. Um brilho azul surgiu da mão
dela, um pedaço de Loralite se formando perto de seus pés na
pista de corrida. Ela o tocou e, num vislumbre, ela foi teletrans-
portada para uma das outras pedras instaladas no campus.
Kopano poderia esperar Rabiya voltar com o reforço. Se-
gurança. Era a coisa mais inteligente a se fazer.
Mas... qual é. Mogadorianos. Os verdadeiros vilões. Aven-
tura. Ação.
É para isso que ele veio para a Academia.
Ele deu alguns passos para frente, os pés batendo contra
a pista de corrida suja.
O Escumador cambaleou enquanto descia, chamas de
energia carmesim sendo liberadas de um painel cromado que
havia sido arrancado da asa esquerda. O nariz da nave balan-
çava para cima enquanto o piloto tentava freá-lo, o que foi em
vão, pois o Escumador atingiu a pista de corrida em alta veloci-
dade, pedaços de pedra e nuvens de poeira se erguendo no ar,
com a carcaça gritando em protesto enquanto ela se arrastava
pelo chão.
Pelo menos, Kopano pensou, ele não teria que voltar a
correr por um bom tempo.
Enquanto a nave se estabilizava, Kopano estava pronto
para quem quer que saísse dali. Detritos ricochetearam em sua
pele endurecida enquanto ele esperava. Ele não podia ver atra-
vés das janelas frontais do Escumador, mas conhecia o design des-
sas naves. Ele sabia que a cabine ficava bem na frente.
Kopano relaxou suas moléculas assim que chegou na nave
e a atravessou, passando através do metal, dos circuitos aliení-
genas superaquecidos e de partes do motor, seguindo direto
para a cabine. Ele sorriu ao ver a surpresa estampada no rosto
da piloto Mogadoriana. Deve ter sido uma visão estranha, sua
forma fantasmagórica emergindo dos controles. Ela até soltou um
grito de surpresa.
— Boo! – Kopano disse.
Ele endureceu suas moléculas por tempo suficiente para
agarrar a piloto pelos ombros – ela usava uma espécie de ar-
madura de obsidiana que era fria ao toque – para então os
tornar transparentes. Ele percebeu, rapidamente, que não havia
mais Mogadorianos por ali. Na verdade, o Escumador parecia
vazio. Estranho.
Ainda segurando a piloto Mogadoriana, Kopano manteve
seu ritmo. Ele os colocou em linha reta e atravessou a cadeira do
piloto, da qual ela nem havia desafivelado o cinto, e então saiu
pela parede lateral da nave.
A Mogadoriana gritou novamente, mas dessa vez num tom
de raiva. — Me larga, imbecil!
— Como quiser.
De volta na pista, Kopano os tornou sólidos e empurrou a
Mogadoriana para o chão. Ela aterrissou com força no ombro e
Kopano pensou ter ouvido um osso quebrando.
— Olá – Kopano disse, parado em cima da Mogadoriana.
— Faço parte do Comitê de Boas-Vindas. Fique aí e eu não vou
machucá-la de novo.
Enquanto dizia essas palavras – maneiríssimas, ele pensou
– se ao menos houvesse mais pessoas por perto para ouvi-las,
teria sido mais legal. Kopano estava tentando não encarar des-
caradamente a garota Mogadoriana. Ele nunca tinha visto um
dos alienígenas pessoalmente antes.
A pele dela era cinza pálida, quase da cor das pedras.
As laterais da cabeça dela estavam raspadas, uma mecha de
cabelos negros que provavelmente chegavam até a cintura
quando soltos partiam do topo da cabeça. Uma tatuagem irre-
gular começava em seu colarinho, se estendia até o pescoço e
finalizava em torno da orelha dela. Ela usava uma armadura
preta irregular que estava amassada vários pontos e que não
parecia ser muito eficaz, incluindo um buraco no peitoral onde o
usuário anterior provavelmente foi baleado ou esfaqueado dire-
tamente no coração. A Mogadoriana também era jovem. Prova-
velmente a idade de Kopano, assumindo que os Mogadorianos
envelhecessem da mesma forma que os humanos. Dezesseis ou
dezessete, no máximo. Aquilo era estranho também. Ele nunca
tinha visto um Mogadoriano tão jovem antes... apenas as coisas
calvas e agressivas que explodiram em cinzas em todas as bata-
lhas exibidas pelos jornais.
A Mogadoriana rolou para longe dele e conseguiu ficar
de pé. Ela era tão alta quanto ele e extremamente magra, a
armadura dela com muitas folgas nas articulações. A Mogadori-
ana fez algo no braço em que se apoiou depois da queda, tor-
cendo o ombro como se estivesse colocando ele de volta no lugar.
Ela fez uma careta e flexionou os dedos.
— Aí... – ela disse secamente.
— Eu disse para você ficar no chão – Kopano respondeu,
sua voz um pouco trêmula compara à última. Ela era bem intimi-
dadora.
Em resposta, a Mogadoriana desafivelou o que parecia
ser um pequeno cabo de seu cinto. Ela o agitou e o cabo se es-
tendeu em ambas as direções. Uma extremidade se abriu como
uma flor, e a outra parecia ser feita obsidiana pura. Ela fez al-
guns movimentos giratórios com a arma, passando de uma mão
para a outra.
— Eu não vim aqui para lutar com você – a Mogadoriana
disse, mas então pareceu reconsiderar. — A menos que seja
parte?
— Você não... – Kopano coçou a cabeça. — Espera aí.
Parte do quê?
— Do treinamento – ela respondeu, sorrindo, os caninos
expostos. — Claro. Uma iniciação. Da mesma forma que aconte-
cia no meu planeta.
E então ela avançou na direção dele, girando o cabo e
mirando-o no peito de Kopano. Ele endureceu suas moléculas e
deixou a pancada acontecer, sorrindo de forma confiante.
Pang! – o cabo ricocheteou no peito de Kopano, emitindo
um som parecido com um címbalo. A pele dele não se feriu, mas
doeu. Uma sensação de várias pontadas se espalhou pelo torso
dele, fazendo-o cambalear para trás.
— Nossa – Kopano bufou. — Do que essa coisa é feita?
Em resposta, ela avançou novamente com o cabo, mas
desta vez Kopano ficou intangível. O cabo passou através dele
e – de alguma forma – foi ainda mais doloroso do que o último
golpe. Ele sentiu um frio congelante se espalhar por todo o corpo.
A sensação o chocou e era tudo que ele podia fazer para não
ficar sólido enquanto o cabo ainda estivesse atravessando ele.
Kopano saltou para trás, ofegando e com a mão no peito.
— Já chega – ele disse. — Me passa isso aí.
Com sua telecinese, Kopano arrancou o cabo da Mogado-
riana. Ela soltou um gritinho de surpresa enquanto o objeto se
desprendia dos dedos dela. A arma voou na direção de Kopano,
que estava sob o controle.
E então ele parou. Pairando no meio do ar.
Ele encarou a Mogadoriana. A mão dela estava esten-
dida, o olhar focado no cabo. Ela estava puxando de volta para
ela.
— Você tem... telecinese – Kopano sussurrou. Ele não sabia
porque estava sussurrando.
— Você sempre fala demais durante as batalhas? – a Mo-
gadoriana perguntou.
Eles lutaram pela arma, que estava balançando no ar en-
tre eles. Ela era forte. Talvez tão forte quanto Kopano, ele pen-
sou. Talvez mais forte.
— Tudo bem, já basta, vocês dois.
A voz veio de trás dos ombros de Kopano, onde estava o
Escumador. A Mogadoriana não estava sozinha, no fim das con-
tas.
Uma rampa se estendeu a partir da parte debaixo do Es-
cumador – mas não alcançou o caminho até o chão – enquanto a
nave destruída continuava a soltar a fumaça. O garoto pulou da
rampa e se aproximou. Ele não era Mogadoriano. Ele parecia
humano, com cabelos loiros desgrenhados e uma barba para fa-
zer, combinando. Havia um corte na sobrancelha dele que ele só
notou quando um fio de sangue escorreu perto dos olhos. Ele ges-
ticulou com a mão sobre a ferida, curando-a.
— Pouso desagradável – o garoto disse.
— Eu avisei você que todos os Escumadores estavam da-
nificados – a Mogadoriana disse.
— Tudo bem. Não houve danos.
Ele parecia humano, mas não era. Kopano sabia exata-
mente quem o passageiro da Mogadoriana era, pois o reconhe-
ceria em qualquer lugar. Ele ouviu um barulho de metal quando
a arma da Mogadoriana voou de volta para a mão dela, Ko-
pano chocado demais para se preocupar em manter sua teleci-
nese.
— Ei, eu sou—
— John Smith – Kopano deixou escapar. — O John Smith.
— Pois é – John respondeu, coçando a nuca timidamente.
— Você se importaria em nos levar até o Professor Nove?
TAYLOR COOK
PRÉDIO DA ADMINISTRAÇÃO
A.G.H. – POINT REYES, CALIFÓRNIA


academia for resolvido – é de mim que ele está falando, eu sou o
problema – seria prudente que toda a equipe da Academia perma-
necesse fora do campus. Os salários serão pagos integralmente du-
rante esta paralisação.
Nove tirou os olhos do e-mail que estava sendo exibido em
seu computador, balançando a cabeça. Taylor, que estava sentada
na cadeira em frente à mesa dele, mastigou o interior de sua boche-
cha.
— Quando Greger enviou isso? – ela perguntou.
— Esta manhã – respondeu Nove, fechando o notebook com
mais força do que necessário. — Isso é besteira. Eu lutei contra um
líder intergaláctico e agora estou sendo subordinado por um cara
de terno com um iPhone.
— Quantos pessoal nós perdemos?
— Eu não sei – Nove estalou, levantando-se e indo até a
janela. — A Dra. Chen e o Malcolm estão tentando manter as pes-
soas trabalhando. Imaginei que o pedido para ficar soaria melhor se
viesse de um... de um humano – ele disse amargamente.
— Pelo menos os Pacificadores ainda não vieram te buscar
– Taylor disse.
— Sim. Ainda não, pelo menos. Não até que Karlsson tire
todos do campus. – ele bateu os dedos de metal no vidro. — Eu
me pergunto quantos Pacificadores eu posso derrotar.
— Quantos nós podemos derrotar – corrigiu Taylor. —
Deixe o pessoal irem, se quiserem ir. Nós não precisamos deles.
Vocês, Gardes lóricos, se deram muito bem treinando e vivendo
sozinhos.
Nove voltou a olhar para ela. Ela estava esperando ver a cos-
tumeira raiva no rosto de Nove, a agressividade que ela estava tão
acostumada a ver. Inesperadamente, porém, havia uma profunda
tristeza nos olhos dele.
— O que vou dizer vai soar como se eu fosse um vovô –
disse Nove. — Mas eu realmente quero uma vida melhor para vo-
cês do que a que tivemos.
— Você está tentando...
O walkie-talkie no quadril de Nove vibrou. — Nove? Entre.
Era Malcolm. Três pequenas palavras, mas Taylor não gos-
tou da tensão.
— Eu li sua mensagem, – Nove respondeu no dispositivo.
— Tá tudo bem?
— Um Escumador Mogadoriano simplesmente caiu na pista
de corrida.
As sobrancelhas de Nove se levantaram. — Você está ti-
rando uma com minha cara.
Taylor se aproximou. — Poderia ser Isabela e os outros?
Será que eles voltaram?
— Temos um sinal visual – disse o Dr. Goode. — Kopano
parece estar envolvido lutando contra uma soldado Mogadoriana.
A mão mecânica de Nove aumentou o aperto ao redor do
walkie-talkie, fazendo o plástico ranger. — Uma merda aconte-
cendo atrás da outra, é para acabar.
Taylor já estava indo na direção da porta. — Temos que ir
para lá agora.
— Pelo elevador vamos demorar demais – disse Nove, ges-
ticulando para Taylor voltar para dentro enquanto ele abria a janela.
— Por aqui.
Nove a pegou pela cintura e, com sua antigravidade, desceu
o mais rápido possível pela parede lateral do prédio. Depois viajar
por aí, transformando-se em vento, Taylor nem piscou.
No chão, Maiken derrapou até parar bruscamente na frente
deles, tufos de grama sendo levantados por conta da fricção. Rabiya
estava nas costas de Maiken.
As palavras de Maiken saíram rápidas e sem fôlego. — Aqui
estão vocês! Rabiya! Kopano! A pista! Mogadorianos!
— Porra, devagar, já sabemos! – disse Nove. — Rabiya? Nos
leve até lá.
— Sim, senhor – ela respondeu liberava seu Legado no chão,
um pedaço de Loralite surgindo.
Os olhos de Maiken estavam arregalados enquanto ela
olhava para Taylor. — Estamos sendo atacados novamente?
Taylor pensou em sua experiência na Sibéria. Mogadorianos
uivantes saindo da escuridão com suas armas de energia, atirando
nos soldados ao lado dela enquanto ela corria pela neve, o sangue
morno de outras pessoas em seu rosto. Ela estremeceu, mas tentou
não deixar Maiken perceber.
— Se eles estão invadindo, eles escolheram o lugar errado –
disse Taylor friamente.
— Pronto – anunciou Rabiya.
Todos eles deram as mãos – Maiken relutantemente – en-
quanto Rabiya tocava a recém-formada estalagmite de Loralite.
Houve um lampejo de azul, uma sensação desorientadora e então,
de repente, eles estavam na pista. Vinte metros à frente deles, uma
fumaça negra subia de um Escumador destruído.
Havia uma garota Mogadoriana bem na frente de Taylor. Ela
deve ter inspecionado a pedra de Loralite porque ela saltou para trás
com um grito de surpresa quando os quatro se materializaram em
torno dela. A Mogadoriana era alta, magra e parecia brava. Ela car-
regava uma arma que parecia uma versão daqueles que os caçadores
de cabeças medievais utilizavam.
Reagindo por instinto, Taylor tentou empurrar a Mogadori-
ana com sua telecinese. Mas então ela notou Kopano. Ele estava
parado atrás da Mogadoriana, um sorriso estúpido no rosto. Havia
um cara com ele, loiro e com uma barba desalinhada, estranha-
mente familiar.
— Oh, ali está ele – o cara loiro disse a Kopano, acenando
para Nove. — Na hora certa!
— Gente! – Kopano gritou, levantando os braços em
triunfo. — Olhem! É o fodão do John Smith!
Por um minuto, quando John e Nove estavam abraçados e
rindo, Taylor realmente achou que as coisas estavam melhorando.
— Droga, John, é bom te ver – declarou Nove. Ele olhou
para a garota Mogadoriana. – Tenho a sensação de que isso vai ser
uma maldita longa história.
— É – respondeu John. — Resumindo, preciso da sua ajuda.
Podemos ir para algum lugar longe da nave em chamas?
Ele precisava da ajuda deles.
John Smith precisava da ajuda deles.
Talvez se ela fosse mais parecida com Kopano – uma faná-
tica total – essa simples declaração a teria emocionado.
Mas isso só irritou Taylor.
Eles deixaram o Escumador para trás e se teletransportaram
de volta ao campus. Taylor pegou John olhando para ela da mesma
maneira estranha e melancólica que antes, quando ela o encontrou
brevemente na Dakota do Sul.
— Eu me lembro de você – disse John, quando Taylor per-
cebeu que ele a estava encarando. — Você tem o Recupero.
— Taylor Cook – disse ela, lembrando-o de seu nome.
— Isso mesmo – disse John. — Como está indo?
Taylor bufou, sem ideia de como responder a essa pergunta.
Ela optou pela honestidade. — Tudo uma droga, na verdade. Há
uma conspiração global em andamento para escravizar o nosso
povo.
John coçou a bochecha, desviando o olhar. — É. Devemos
falar sobre isso.
— Depois que você nos contar do que precisa – disse Taylor
secamente. — Que eu tenho certeza que é muito importante.
Kopano alcançou eles, jogando um braço ao redor do ombro
de Taylor.
— Taylor me contou tudo sobre como você a salvou dos
Ceifadores – ele disse, sorrindo brilhantemente para John. — Foi
muito foda. Queria ter estado lá só para ver a expressão na cara
deles.
— Nem foi tudo isso – disse John. — Eu só estava de pas-
sagem.
— É, nem foi tudo isso – Taylor concordou, afastando o
braço de Kopano, aproveitando a deixa. — Eu tenho tido proble-
mas muito piores desde então. Nós todos temos. Mas eu acho que
você não estava só "passando por aqui".
Kopano a olhou de forma incrédula. John engoliu em seco,
sem responder. Ele não falou muito durante o resto do caminho
até o prédio da administração.
Todos eles lotaram o escritório de Nove no último andar.
Lexa, Malcolm e Nigel vieram do subsolo para se juntar a eles. Os
adultos abraçaram John e o saudaram calorosamente, como se um
parente há muito tempo desaparecido tivesse voltado para casa. A
agente Walker também se juntou a eles, embora ela tenha dado a
ele um aperto de mão rápido em vez de um abraço.
Nove se acomodou atrás de sua mesa. John, Malcolm e Lexa
sentaram-se nas cadeiras à sua frente. Kopano se jogou no sofá de
couro, bem ao lado da garota Mogadoriana, como se ele tivesse es-
quecido completamente que eles estavam lutando dez minutos
atrás. Walker ficou de pé ao lado de Kopano. A Mogadoriana, para
seu alívio, parecia tão ansiosa em relação a toda essa situação quanto
Taylor.
Maiken e Rabiya ficaram na porta do escritório de Nove, sem
saber se deviam ficar ou sair, não querendo perder nada. Nigel en-
costou-se à parede, com os braços cruzados, sem fazer nenhum co-
mentário amargo pela primeira vez. Taylor, enquanto isso, ficou
atrás de Nove. A imagem de uma câmera de segurança no compu-
tador de Nove mostrou uma equipe de Pacificadores sobrevoando
a cerca para investigar o Escumador em chamas e estabelecer um
perímetro.
— Agora Greger tem um novo motivo para explodir isso
aqui – resmungou Taylor.
Nove olhou para ela. — Ele já tem todas as razões que ele
precisa. Relaxe.
— Meu plano original era pousar a nave inteira aqui – disse
John timidamente, após ouvir o comentário. — Mas então eu decidi
utilizar outra abordagem mais inteligente, considerando tudo o que
acontecia com a Garde Terrestre.
— O que você quer dizer com “a nave inteira”? – Nove per-
guntou.
Antes que John pudesse responder, a Mogadoriana soltou
um rosnado baixo e ameaçador. Todos se viraram na direção dela.
Taylor levou um momento para perceber que o barulho não era
uma ameaça; era o estômago dela roncando.
— Eu... peço desculpas – disse a Mog. Ela se mexeu descon-
fortavelmente, sua armadura arranhando o estofamento. — Seria
possível conseguir comida?
Nove olhou para a Mogadoriana por um momento. — Mai-
ken? Você pode ver o que sobrou do almoço?
— Claro – respondeu Maiken, e saiu correndo.
Taylor sabia como Maiken funcionava. Na hipervelocidade,
pode levar apenas um ou dois minutos para ela fazer um lanche e,
em seguida, ela passava o mesmo tempo fofocando. Do jeito que
ela fofocava, logo todos saberiam que John Smith estava aqui com
uma estranha menina Mogadoriana.
Isso realmente pode melhorar a moral, pensou Taylor. Nada
de ruim poderia acontecer com eles se o próprio John Smith esti-
vesse por perto. Pelo menos, é nisso que muitos estudantes acredi-
tam.
— Nós provavelmente devemos começar sobre sua nova
amiga – disse Nove. — Estou tentando muito ser cordial, mas você
sabe que tenho uma política permanente de acabar com qualquer
Mogadoriana que eu vejo.
— Seu guerreiro já tentou isso – disse a Mogadoriana com
um olhar lateral dirigido a Kopano. — Não foi nada bom para ele.
— "Guerreiro" – Nigel repetiu, rindo. — Todos os Moga-
dorianos falam como aristocratas? Não admira que minha mãe te-
nha gostado tanto deles.
Kopano franziu o cenho para a Mogadoriana. — Hum, eu
acho que eu estava ganhando.
— Você não estava ganhando – afirmou.
— Cale a boca, todos vocês – disse Nove, olhando para
John. — Por que você trouxe um deles aqui, cara? O que está acon-
tecendo?
— Ela pode falar por si mesma – respondeu John.
A Mogadoriana ficou de pé. Os olhos de todos a rastrearam,
prontos para problemas – bem, exceto John, que parecia mais em-
polgado. Ela curvou-se profundamente na cintura.
— Eu sou Vontezza Aoh-Atet, filha verdadeira do falecido
general Aoh-Atet, co...
— Comandante da nave de guerra Mogadoriana Osíris – ter-
minou Taylor, nem percebendo que estava falando em voz alta até
que todos na sala estavam olhando para ela.
Vontezza inclinou a cabeça. — Você me conhece, humana?
— Sim, sou uma grande fã do seu podcast – disse Taylor. —
Na verdade, eu estava em uma nave de guerra Mogadoriana – ou o
que restou dela, na Sibéria. Sua nave estava escondido atrás da lua,
enviando uma transmissão em loop – ela olhou na direção de John.
— Perguntando por ele.
John assentiu. — Sim. Eu também ouvi. Eventualmente.
O olhar de Vontezza permaneceu em Taylor, avaliando-a.
Taylor olhou de volta. Depois de um momento, Vontezza pareceu
satisfeita e voltou-se para Nove, retomando seu discurso excessiva-
mente formal.
— Número Nove da formidável Garde Lórica. Sua miseri-
córdia é lendária.
Nove riu. — Ah é?
— Eu disse a ela que não precisava falar essa parte – disse
John. — Ela insistiu.
Vontezza ignorou os comentários. — Peço humildemente
para que você me deixe treinar na sua Academia os dons que me
foram concedidos pelo seu povo e usá-los para o bem da humani-
dade, começando com a reparação dos danos causados pelos Mo-
gadorianos no último século.
— Jesus – disse Nove. — Pode repetir?
— Isso é absolutamente loucura – Nigel murmurou, belis-
cando a ponta do nariz.
— Dons? – Malcolm perguntou. — Você quer dizer...?
— Ela tem Legados, doutor – disse Kopano. — Telecinese,
pelo menos.
— Isso não é possível – disse Rabiya.
— Ela não seria a primeira, na verdade – disse Walker.
Nove gesticulou com a mão para Vontezza. — Ok, ok,
sente-se. Você está me assustando com toda essa cordialidade.
— Como você quiser – respondeu Vontezza, sentando-se
no braço do sofá ao lado de Kopano.
Malcolm virou-se na cadeira para poder ver Vontezza dire-
tamente. — Isso é fascinante. Quando você desenvolveu seus Le-
gados?
Vontezza encontrou os olhos de Malcolm, sua postura rígida
como se estivesse sob algum tipo de inspeção militar. — Eu desen-
volvi minha telecinese junto com os humanos.
— Espera. Durante a invasão? – Kopano perguntou. —
Você foi uma das primeiras?
— Sim.
— Lorien escolheu você – disse Kopano, com reverência em
sua voz. — Mesmo que você estivesse em uma das naves de guerra
inimiga.
— Estou surpreso por não ter visto você em terra tentando
nos matar – disse Nigel.
— Esta é na verdade a primeira vez que saí da minha nave
de guerra em anos – Vontezza disse. Seus pés se moveram e Taylor
teve a impressão que ela estava apertando os dedos dos pés dentro
de suas botas. — Meu pai era general, comandando um regimento
que se preparava para atacar a Terra. Minha mãe era sacerdotisa e
estudiosa.
Nove riu. — Os Mogadorianos tinham estudiosos?
— Sim – respondeu Vontezza, não ofendida pelo sarcasmo.
— Ela ensinava sobre o Grande Livro, os escritos de Setrákus Ra.
Quando lhe mostrei meus Legados, ela ficou cética em relação à sua
fé em nosso Adorado Líder. Pois bem, ele escreveu que Legados
seriam impossíveis de se manifestar em nosso povo sem que fosse
através dos experimentos Dele. Foi a justificativa que usamos para
invadir Lorien e depois a Terra. Acreditávamos de fato que essas
outras raças estavam acumulando a energia lórica para seus pró-
prios fins egoístas e que nunca poderíamos progredir como povo a
menos que a controlássemos...
Enquanto Vontezza continuava, Taylor não pôde deixar de
pensar em quão semelhantes os objetivos da Fundação soavam aos
dos Mogadorianos. Bem, a organização surgiu a partir do que so-
brou do ProMog. Fazia sentido que eles compartilhassem uma vi-
são de mundo corrompido.
— E então fui puxada para a visão telepática de John Smith
– continuou Vontezza. — Onde a história de Setrákus Ra foi reve-
lada. De que ele era Lorieno e que havia traído seu povo, e que
depois havia manipulado os Mogadorianos na guerra...
— Eu estava nessa visão! – Kopano disse, batendo na perna.
— Foi massa.
— Que bom que você gostou – John disse ironicamente.
Kopano olhou para Vontezza. — Eu não te vi lá, no en-
tanto...
— Eu também não te vi, grandão – ela respondeu simples-
mente. — Muitos jovens humanos estavam ocupados demais res-
mungando ou entrando em pânico para perceber minha presença.
— Uma Mogadoriana durona numa sala cheia de adolescen-
tes humanos – disse Nigel. — Você não surtou?
— Presumi que fosse algum tipo de armadilha e tentei uma
retirada tática – Vontezza respondeu. — Mas a porta dos fundos
da câmara não se abriu.
— Ah, então você estava escondida no fundão – disse Ko-
pano.
— Retirada tático – retrucou Vontezza.
— Está bem, está bem. O que aconteceu depois? – Taylor
perguntou.
— Logo depois disso, Setrákus Ra ficou gravemente ferido
em batalha. Havia um boato de que ele estava morto. Por causa da
minha telecinese, minha mãe acreditava que eu era a legítima her-
deira do poder. Ela convenceu meu pai e eles lideraram um motim
contra o capitão da nossa nave de guerra. A tripulação foi dividida
praticamente pela metade. Houve uma batalha – Vontezza roçou
uma mancha no ombro de sua armadura. — Minha mãe foi morta
nos combates, mas o lado dela – o meu lado – acabou vencendo.
Taylor não sabia ao certo o que dizer quando um Mogadori-
ano lhe conta que sua mãe havia morrido. Kopano foi o primeiro a
falar.
— Sinto muito por sua mãe – disse ele.
Nove fez uma careta. — Você sabe quantas pessoas perde-
ram famílias por causa dos Mogadorianos? Eles destruíram um pla-
neta inteiro e teriam feito o mesmo aqui.
Lexa assentiu em concordância. John manteve sua expressão
neutra, sem pesar.
— Mas ela não destruiu nenhum planeta – disse Rabiya da
porta. — Você não pode culpá-la pelas ações do povo dela.
— Nem sempre podemos escolher de onde viemos – Nigel
murmurou.
— Você tem alunos espertos – disse John a Nove.
— Dá um tempo – respondeu Nove, cruzando os braços.
— Então, por que você acabou se escondendo atrás da lua
por uns dois anos? – Kopano perguntou.
Havia um cansaço nos olhos escuros de Vontezza que Tay-
lor percebeu estar aumentando, mas ela respondeu Kopano obedi-
entemente.
— Após o motim, de repente me vi no controle da nave de
guerra. Eu ainda não entendia completamente o que estava aconte-
cendo comigo, muito menos o que tudo isso significava para a so-
ciedade Mogadoriana. Eu escolhi recuar para uma posição defen-
siva até poder decidir o que fazer – ela fez uma pausa. — Quando
meus companheiros da nave descobriram que Setrákus Ra ainda
estava vivo, houve um segundo motim daqueles que desejavam vol-
tar à luta. Quando recuperei o controle da nave, a invasão terminou
e Setrákus Ra estava morto.
Taylor notou como os dedos de Nove cavaram seu braço
cibernético enquanto Vontezza falava. Setrákus Ra poderia estar
morto, mas o dano que ele causou não foi esquecido.
— Droga – disse Kopano. — Quantos motins uma nave
pode ter?
— Sete – respondeu Vontezza com uma expressão séria. —
Houve sete no total no meu tempo como capitão da Osíris.
A condição da armadura dela fazia mais sentido agora. Pare-
cia que ela esteva lutando sem parar. Taylor se viu encarando o furo
no peitoral de Vontezza, onde parecia que uma espada havia sido
encravada.
Nesse momento, Maiken voltou para a sala carregando uma
bandeja de comida. Uma muffin de mirtilo, frango, pretzels e uma
maçã. Ela estendeu a bandeja para Vontezza, tomando cuidado para
não chegar muito perto.
— Desculpe, eu realmente não sei o que vocês comem –
disse Maiken.
Vontezza pegou a bandeja. — Obrigado. Isto é perfeito.
— Como você sobreviveu a todas essas batalhas? – Kopano
perguntou, querendo despejar mais perguntas antes que Vontezza
começasse a comer.
— Meu Legado – respondeu ela, tocando o buraco em sua
armadura. — Eu já estaria morta se não fosse por ele.
— Então, você desenvolveu um Legado primário? – pergun-
tou Goode. — Qual é? Você pode controlá-lo?
Vontezza sorriu. — Eu não preciso controlá-lo. Funciona
por conta própria.
Sem aviso, Vontezza pegou um garfo da bandeja e enfiou na
carne macia do antebraço. Taylor ofegou. Kopano se encolheu para
trás. Maiken pareceu que ia desmaiar.
A Mogadoriana retirou o garfo e levantou o braço, exibindo
três buracos escuros com sangue fresco. Enquanto eles observa-
vam, as feridas se fecharam por conta própria. Vontezza pegou um
guardanapo e limpou o sangue. Era como se nunca tivesse aconte-
cido.
— Você poderia ter escolhido uma maneira menos dramá-
tica de mostrá-lo – John disse a ela.
Ela inclinou a cabeça em resposta. — Descobri que tinha
desenvolvido esse Legado quando meu próprio pai encravou a es-
pada no meu peito enquanto eu dormia. Isso foi no sexto motim.
De acordo com minha equipe, eu fiquei morta por cinco horas an-
tes da minha carne se regenerar – ela olhou para John. — Isso é
menos dramático?
Nove riu incrédulo. — Uma Mogadoriana que não pode ser
morta. Perfeito.
— Por que você ficou lá tanto tempo? – Taylor perguntou.
Seu olhar deslizou para John Smith. — E por que vieram aqui
agora?
— Eu tenho procurado a Garde desde que a invasão acabou
– Vontezza respondeu. — Mas passei a maior parte do tempo ten-
tando manter minha tripulação viva e impedi-los de matarem uns
aos outros. Você ficaria surpreso como o tempo voa quando se está
preso a bordo de uma espaçonave com uma população que não
sabe fazer nada exceto lutar – ela suspirou. — Nesse momento,
estamos quase sem combustível e suprimentos. Não temos mais a
capacidade de usar nossos escudos e nem o nosso suporte de vida.
Grande parte do nosso equipamento está danificado. A Osíris deve
pousar agora ou o que resta da minha tripulação está condenada –
o estômago dela roncou novamente e Vontezza olhou ansiosa-
mente para a bandeja de comida no colo. — Perdoe-me, mas eu
gostaria muito de parar de falar agora.
— Eu continuo a partir daqui – John disse. Vontezza assen-
tiu Agradecidamente e imediatamente começou a devorar uma coxa
de frango gelada.
Nove se inclinou para frente, ficando mais perto de John. —
Por que eu estou com o pressentimento de que não vou gostar do
que você vai dizer agora?
John deu de ombros. — Eu ouvi o podcast de Vontezza en-
quanto eu estava vasculhando os escombros de uma nave de guerra
na China. Fizemos um acordo.
— Você fez um acordo – Nove repetiu.
— A nave de guerra dela vai pousar em segurança e o res-
tante da tripulação dela irão se render para as autoridades e serão
enviadas para o Alaska para se juntarem aos outros. Com exceção
de Vontezza. Ela fica aqui. Para que possa ser treinada.
— Você quer que nós admitimos uma Mogadoriana – Nove
disse secamente, e então riu. — Você tem ideia da nossa situação
atual? Tecnicamente, esse nem é mais meu escritório. Eu fui demi-
tido. E, sem ofensas garota – Nove gesticulou para Vontezza, que
estava ocupada demais comendo para perceber — mas eu não me
importo com os Mogadorianos agora, eles tendo desenvolvido Le-
gados ou não.
— Eu não vou permitir que a enviem para o Alaska – John
declarou. — Nunca deveríamos ter deixado o Adam ir para lá e—
— É por isso então? – Nove perguntou. — Você se sente
mal pelo Adam e está tentando fazer alguma aleatória para se sentir
melhor? Ele escolheu ficar preso lá com os outros.
— John me contou sobre esse tal de Adamus e ele me parece
honrável – Vontezza disse, engolindo a comida. — O restante da
minha tripulação concordou em serem levados para essa prisão no
Alaska para serem reeducados junto com o restante do nosso povo.
Convencê-los não foi nada fácil.
— Você deixou isso bem claro quando nos contou sobre os
motins – Nigel comentou secamente.
— Se os Mogadorianos vão algum dia encontrar um lar nesse
planeta e coexistirem com a humanidade, então temos que mostrá-
los que nós somos capazes de sermos bons – Vontezza continuou.
— Eu queria dar o exemplo vindo estudar aqui na Academia e, tal-
vez um dia, me juntar à Garde Terrestre. Eu quero recompensar a
Terra pela violência causada à ela pelo meu povo.
Nigel bufou. — Acho que você não acompanha as notícias
do espaço. Não somos bem vistos pelas pessoas da Terra nesse mo-
mento.
— Hum... eles gostam mais da gente do que dos Mogadori-
anos, pelo menos – Maiken disse, fazendo uma careta.
— Você disse que fez um acordo – Taylor disse para John,
os olhos estreitos. — O que você ganha com isso?
— Eu preciso da tecnologia de campos de força que está na
nave de guerra de Vontezza.
Malcolm entortou os lábios. — Para quê, John?
— Para o que estou construindo – ele respondeu.
John enfiou a mão por baixo da camisa e mostrou um pin-
gente com o brilho azul de Loralite. Nove deixou escapar um som
de reconhecimento, abriu uma gaveta em sua mesa e pegou o seu
próprio pingente idêntico. Taylor se pegou segurando o colar que
Kopano fez para ela no Natal, que também continha um pedaço de
Loralite, imaginando o significado desses itens.
— Eu o chamo de Nova Lorien – John disse. — É um lugar
onde nosso povo pode viver em segurança. Especialmente quando
eu tiver os geradores de campo de força. Com o de Vontezza, terei
três.
— Você vai selar o lugar – Nove disse, um tom incrédulo na
voz dele. — Como a base de Setrákus Ra em West Virginia.
— Isso aí – John respondeu. — Esse é o plano.
Taylor ficou agradecida por Kopano levantar a mão e inter-
vir. — Estou perdido. O que é a Nova Lorien?
— É uma caverna, não é? – Nove disse com desdém. —
Uma caverna nos Himalaias Indianos onde um de nossos amigos
mortos usava para se esconder. Agora o John passa o tempo livre
dele lá praticando a cítara ou algo do tipo.
— É mais do que uma caverna – John retrucou, encarando
Nove. Ele respirou e calmamente se virou para Kopano. — É mais
do que uma caverna. É um santuário que os Lorienos usaram em
suas visitas anteriores à Terra. Estamos reconstruindo ele. Eu, Ma-
rina e Ella ...
— Essa é a Número Sete e, hum, a outra – disse Kopano
complementou para aqueles que já sabiam disso ou que estavam
mais interessados no que John tinha a dizer.
— Há uma pequena vila próxima que é muito acolhedora da
nossa espécie – John continuou. — Estive em negociações com o
governo indiano. Na semana passada, eles concordaram em nos
conceder o status de território autônomo.
— Eles o quê? – Lexa exclamou.
Walker tapou seus ouvidos. — Eu não deveria estar ouvindo
isso.
— Você é uma de nós, Karen – disse Nove. — Goste você
ou não.
— Eles te deram um país – disse Malcolm a John, os olhos
arregalados. — É isso que você está nos dizendo?
— Território autônomo – John o corrigiu, esfregando timi-
damente a parte de trás do pescoço. — Mas sim.
— Nossa, que show! Quando posso ir fazer uma visita? –
disse Kopano.
— Quando você quiser – respondeu John. — Todo Garde
será bem-vindo uma vez que tivermos certeza que o lugar é seguro.
Espero que possamos dar aulas e treinar lá – ele olhou para Nove.
— Mais ou menos como o que você faz por aqui.
— Mas sem a ONU olhando por cima do seu ombro – disse
Nove, sua voz neutra.
— Isso.
— Eles sabem disso? – Malcolm perguntou. — A ONU,
quero dizer. A Garde Terrestre.
— Essa foi uma daquelas situações em que pensei que vai
ser melhor implorar perdão do que pedir permissão – respondeu
John. — Estou tentando manter o local em segredo até que seja
seguro.
Nove bateu palmas. — Legal, parece ótimo, John. Obrigado
por nos visitar e por nos informar que você está abrindo uma Aca-
demia concorrente.
John suspirou. — Nem sempre é uma competição, Nove.
Estou tentando pensar no futuro. Você não acha que é bom termos
um lugar onde possamos treinar para caso as coisas derem errado?
Sei que você não tem o controle total sobre esse lugar nesse mo-
mento...
— Ei! – Taylor deu um passo à frente antes que Nove pu-
desse responder, ficando de pé ao lado de seu professor. — Quem
é você para aparecer aqui assim? Onde diabos você estava? Eu sei,
eu sei... todo mundo adora o Todo-Poderoso-Número-Quatro.
Meu namorado provavelmente pensou em tatuar seu rosto na
bunda dele.
— Namorado – Kopano repetiu com um sorriso. — Espe-
rar. Como é?
— Você deveria ser o fodão no comando – continuou Tay-
lor, ganhando força e coragem. — Mas pelo que ouvi até agora,
você está se escondendo em alguma montanha enquanto o resto de
nós está aqui sofrendo. Você sabia que existe um grupo de idiotas
ricos que se autodenominam a Fundação que estão tentando nos
escravizar? Você ao menos se importa?
— Por favor, Taylor, isso não é produtivo – disse Goode, na
tentativa de acalmá-la.
— Não, Dr. Goode, com todo o respeito, mas Taylor está
certa – acrescentou Nigel, afastando-se da parede para poder olhar
para John. — Você se lembra de mim, companheiro? Você me
manteve preso naquele complexo durante a invasão para minha
própria proteção. Se libertou depois daquilo, não é? – Nigel gesti-
culou na direção do Dr. Goode. — O velho aqui não está lhe di-
zendo tudo por algum motivo, mas saiba que o filho dele foi preso
pela Garde Terrestre. Está trancafiado em algum lugar por aí. Lem-
bro que vocês dois era amigos muito próximos. Já se esqueceu
desse relacionamento, não é?
John se virou para Malcolm. — Isso é verdade?
— Acredito que sim – disse Malcolm. Ele levantou as mãos.
— Acabamos de descobrir isso, John. Você sabe tão bem quanto
eu que Sam e Seis conseguem cuidar de si mesmos.
— Oh, não o livre da responsabilidade, Dr. Goode – disse
Taylor.
John se virou para Walker. — Você sabe onde eles podem
estar mantendo-os presos?
Ela balançou a cabeça. — Quando a Watchtower recrutou
Kopano e Ran, eu os encontrei numa instalação secreta na Nova
Escócia. Aquele lugar estava sendo fechado. Ouvi falar de um novo
centro de detenção, mas a informação era secreta e, se não me con-
taram antes, eles certamente não vão me contar agora que estou
afastada.
Taylor estalou os dedos para chamar a atenção de John. —
Você sabe o que ela quer dizer com 'recrutamento’? A Garde Ter-
restre implantou forçadamente chips inibidores no Kopano e na
Ran. Os forçaram a partir para uma missão que contra a vontade
deles. Então agora estamos pensando que talvez essa coisa de
Garde Terrestre para a qual estamos treinando não seja tão nobre,
afinal. O único lugar que temos que qualquer um de nós se sente
perto de ser seguro é aqui, esta Academia, e se você não notou a
vibração geral desde que entrou, eu digo: estamos a um fio. E você
está aqui falando sobre a Índia e campos de força e ajudando Mo-
gadorianos. Me permita imitar minha amiga Isabela quando digo:
Amada, por favor.
Os olhos de Kopano se arregalaram e Rabiya sorriu. Von-
tezza continuou a comer, basicamente inconsciente. Malcolm e
Lexa olhavam discretamente para o nada, enquanto Maiken pulava
de um pé para o outro como se mal pudesse esperar para compar-
tilhar os detalhes de Taylor repreendendo o herói da invasão. John
apenas olhou para ela, digerindo tudo.
Nove pigarreou, quebrando o silêncio. — Eu concordo com
tudo isso.
John olhou para as mãos, que estavam sobre o colo dele,
organizando seus pensamentos. Ele de fato parecia ter sido atingido
brutalmente quando finalmente encontrou o olhar de Taylor.
— Eu sei que eu estive ausente. Que eu cometi erros.
Quando a invasão acabou, eu me senti tão cansado de lutar. Não
pude encarar a possibilidade de que alguém com quem eu me im-
portasse pudesse se machucar de novo. Mas, é claro, as pessoas es-
tão se machucando, e eu ficar de fora não está ajudando... – ele
balançou sua cabeça. — Eu não vou inventar desculpas. Estou aqui
agora e compreendo o que você está dizendo. Eu pensei que pode-
ria levar o tempo que fosse com a Nova Lorien. Eu não achava que
precisaríamos de um porto seguro – pelo menos ainda não. Espero
que nunca. Mas parece nós precisamos. Nós abrimos mão de mui-
tas coisas quando assinamos o Acordo Garde. Eu pensei que pode-
ríamos confiar na ONU, mas...
— Só podemos confiar uns nos outros – disse Taylor, enco-
lhendo-se interiormente quando percebeu que soando como o Ei-
nar.
— Eu concordo – disse John. — É por isso que vim aqui.
Preciso da ajuda de vocês.
RAN TAKEDA
EM ALGUM LUGAR SOBRE O MAR TIRANÊS


o que diabos aconteceu lá? – Caleb irrompeu, não se impor-
tando em demonstrar impaciência.
— Nós observamos da janela – Duanphen disse. — Eu não
sei explicar o que vi.
— Eu estava lá embaixo e também não consigo explicar –
Caleb disse a ela.
— Ugh, não consigo acreditar que já estamos de volta
nessa nave fedorenta – Isabela acrescentou de forma inútil.
Ran concordava com todas as declarações, mas sempre
achou mais útil ficar quieta e observar, em vez de se juntar ao
coro confuso. Ela estava na porta da cabine do Escumador,
apoiando o ombro contra o metal frio, os braços cruzados. To-
dos estavam reunidos ali de forma apertada. Cinco pilotava a
nave, mantendo-os camuflados e em alta velocidade enquanto
fugiam da Itália. Os outros estavam de pé ao redor de Einar, que
estava ajoelhado no chão, meia dúzia de tablets espalhados di-
ante dele.
— Vou mostrar para vocês – Einar murmurou, paginando
os arquivos dos tablets com frustração, os dedos tremendo. —
Sei que está aqui em algum destes.
Os tablets pertenceram aos membros da Fundação. Ran
não se interessava saber exatamente como Einar os adquiriu,
embora pudesse supor. Eles continham as identidades de ou-
tros membros da Fundação, seus contatos e capangas, coorde-
nadas e históricos de lances sobre os Gardes que haviam com-
prado em leilão. Mas nem todos os tablets continham todas as
informações. Não havia um código que desbloquearia toda a
rede obscura. A Fundação era mantida separada em vários gru-
pos de propósito – nenhum membro teve acesso a mais do que
um fragmento de todos os segredos da organização. Ao viaja-
rem pela Europa, descobriram que os tablets estavam rapida-
mente se tornando obsoletos. A Fundação sabia que alguns de
seus membros haviam sido comprometidos e estavam se ajus-
tando.
— Você poderia simplesmente nos dizer – Caleb disse. —
Use suas palavras. Normalmente você ama fazer isso.
— É melhor que vejam por si mesmos o que estamos en-
frentando – Einar respondeu sem olhar para cima.
— Você só diz isso.
— Sim – Einar concordou. — Porque você fica me obri-
gando a repetir.
— E começa tudo de novo... – Isabela disse, rolando os
olhos, expressão que Ran previu da mesma forma que a discus-
são entre Caleb e Einar. — Me avisem quando pousarmos em
algum lugar boom. Estarei no meu quarto questionando as de-
cisões da minha vida.
Isabela passou por Ran enquanto saia da cabine, partindo
para a sala de armazenamento que ela transformou em quarto.
Caleb mantinha seu saco de dormir contra uma antepara perto
da rampa de saída. Cinco dormia na cabine. Einar, que não dor-
mia o suficiente, ficou no arsenal da nave, que não tinha armas,
mas que agora tinha muito dinheiro roubado, obras de arte e
joias. Duanphen e Ran dividiam a área de passageiros – bem
apertada – que na verdade era composta apenas dois bancos
duros ao longo das paredes opostas. Eles estavam pratica-
mente um em cima do outro o tempo todo e Isabela estava
certa sobre o fedor. A nave inteira cheirava a axilas, ar poluído
e nuggets de frango. Estes Escumadores foram construídos ex-
clusivamente com o propósito de transportar Mogadorianos de
suas naves de guerra ao combate de solo na Terra. Eles não
eram casas. Eles não eram nem dormitórios.
Ran não ia ficar reclamando igual Isabela, mas definitiva-
mente estava ansiosa para passar algum tempo fora do nave
novamente. A claustrofobia era a culpada por todos ficarem as-
sim uns com os outros.
— Você quase matou um homem velho – Caleb disse
para Einar.
— Mas não matei – Einar respondeu. — Acredite em mim.
Eu poderia ter pegado mais pesado com ele.
— Ah, então tudo estava sob controle?
— Sim.
— Por que será que não acredito nisso?
— Eu não estou nem aí para o que você acredita ou não,
Caleb – Einar disse entre os dentes. Ele empurrou um dos ta-
blets para o lado, pegando outro com a mesma raiva. — Pare de
reclamar por cinco segundos para que eu consiga me concen-
trar e encontrar o que estou procurando.
Duanphen olhou de um garoto para o outro, como se não
tivesse certeza sobre o motivo de eles estarem discutindo ou se
ela deveria intervir. Quando ela olhou na direção de Ran, Ran
apenas mexeu a cabeça em resposta. Não se incomode. Deixei
acontecer.
Esse cabo-de-guerra por controle entre Einar e Caleb es-
tava rolando desde que esse novo grupo foi formado. Na avali-
ação de Ran, os dois estavam passando sérias crises existen-
ciais. Caleb abandonara o que Isabela chamava de “estilo de
vida de escoteiro” e agora tentava constantemente justificar
essa decisão confrontando Einar e mantendo-os em missão –
mesmo que fosse frequentemente tão ilusória quanto a Funda-
ção. Enquanto isso, a abundância de confiança de Einar havia
diminuído desde que seu grande discurso na Suíça não conse-
guiu transformá-lo em um ícone para os Gardes humanos. Em
vez disso, ele ficou taxado como terrorista. Ninguém se uniu à
sua causa exceto aqueles a bordo deste Escumador, e, mesmo
para eles, juntar-se a Einar foi uma questão de necessidade. Ei-
nar quase foi morto. Ele não tinha plano. Ele estava delirando.
Fazer uma tempestade num copo d’água sobre o que aconte-
ceu na Itália era sua maneira de exercer algum controle, mesmo
que fosse totalmente equivocado.
Por isso que Ran deixava os dois discutir. Se algum dia
precisasse escolher um lado, obviamente apoiaria o Caleb. Não
fazia muito tempo que Einar havia usado a telecinese dele para
quebrar as costelas dela e quase matar sua melhor amiga. Mas,
por ora, as diferenças eram tão sérias quanto as reclamações de
Isabela sobre as condições de vida que estavam levando. Aju-
dava a diminuir a pressão.
— Aha! – Einar exclamou, levantando o tablet com as
mãos. — Eu disse para vocês que estava em algum dos tablets!
— Finalmente – Caleb murmurou. Ele se levantou e ficou
de pé ao lado de Einar para conseguir ler o que estava na tela.
Duanphen e Ran se aproximaram também e, logo depois, o Es-
cumador estava com o piloto automático ativado para que
Cinco pudesse se juntar a eles.
Tendo a atenção de todos, Einar pareceu um pouco mais
aliviado, autoritário.
— Esse tablet pertenceu a um mercenário da Blackstone
que eu matei na Islândia – Einar explicou. — Sem o conheci-
mento da Fundação, às vezes eles gravavam alguns dos com-
bates em que se envolviam. Esse foi gravado logo após a inva-
são, quando a Fundação estava apenas no começo...
— Reproduza-o, por favor – Ran disse, tendo ouvido o su-
ficiente. Os lábios de Einar se curvaram, mas ele fez o que ela
pediu.
A tela ganhou vida com um vídeo granulado e de cor
verde. Um grupo de mercenários em armaduras de metal apa-
receu – a que o pessoal de Blackstone usava e que Ran estava
bem familiarizada – amontoados no que parecia ser uma sala
de estar suburbana com paredes revestidas de madeira, car-
pete felpudo e móveis estampados com flores. Havia cinco
mercenários no total, todos usando luvas e capacetes com vi-
seiras, e todos dedicados a lutar com um adolescente magro e
contorcido.
— “Meu filho está possuído!” – uma voz marcante gritou
atrás da câmera. — “Tem um demônio dentro do meu filho!”.
— “Será que alguém pode calar o pastor?” – um dos mer-
cenários grunhiu.
Ran focou no garoto no centro da cômodo. Ele vestia pi-
jamas, manchas de acne visíveis em seus ombros estreitos. Pro-
vavelmente tinha mais ou menos quinze anos de idade. Ele ti-
nha cabelos castanhos ondulados e selvagens que estava amar-
rado em um rabo de cavalo até os mercenários começarem a
lutar com ele.
Como esse garoto estava aguentando lutar contra um
grupo de adultos treinados para combate? Telecinese. Não ti-
nha o controle nem a precisão que Ran adquiriu após praticar
bastante na Academia, mas sim a força nua, crua e desesperada
de um novo Garde lutando por sua vida. Homens adultos foram
atirados para trás ou contra o teto por repentinas explosões de
força. Objetos aleatórios de todo o cômodo giravam no ar – an-
jos de cerâmica, principalmente – mas também um grande cru-
cifixo de metal que atingiu o rosto de um mercenário com força
suficiente para cortá-lo.
— “Não é um demônio, pai!” – o garoto gritou. — “É um
presente! Eu pude ver dentro do seu coração quando te toquei! Eu
vi seus pecados—“
— “Mentiras!” – o pai que estava atrás de câmera gritou
em resposta.
Enquanto os dois discutiam, os mercenários tentavam
colocar o garoto numa camisa de força. Aparentemente, isso
aconteceu antes da invenção dos Inibidores.
Farto dos gritos e dos objetos que se estilhaçavam em
seus ombros, o mercenário que teve o rosto cortado se lançou
para frente e deu um gancho de direita na mandíbula do garoto.
O golpe o fez cair de joelhos e imediatamente alguns dos caras
de Blackstone prenderam os braços dele pra trás.
— “Tenha cuidado com ele, Crenshaw” – um dos outros
homens alertou o golpeador. — “Eles o querem inteiro”.
— “Alguém tinha que socá-lo” – disse Crenshaw. — “Estou
farto de pegar leve com esses caipiras”.
— “Você está exposto a perigo, se afaste imediatamente”
– repetiu o primeiro. — “Se lembre, sem contato corpo-a-corpo—

Uma explosão repentina de telecinese jogou para longe
os dois mercenários que estavam próximos ao garoto, permi-
tindo que ele se levantasse e atacasse Crenshaw pela viseira
quebrada. A boca do garoto estava sangrando, o que fez o sor-
riso dele ficar muito macabro.
E, então, de repente, o corpo do garoto vacilou, caindo
no chão como uma marionete que teve as cordas cortadas.
Um dos mercenários começou a gritar. — “Dominem o
Crenshaw! Dominem—!”
Mas era tarde demais. O mercenário Crenshaw agora es-
tava com o mesmo sorriso macabro do garoto. Ele rapidamente
puxou uma arma reserva da sua cintura e abriu fogo contra seus
companheiros.
O vídeo acabou quando o capanga de Blackstone que es-
tava gravando caiu para trás após ter levado um tiro no peito.
Caleb quebrou o silêncio na cabine. — O que...? O que
aquele garoto acabou de fazer?
— A Fundação descreveu o Legado dele como sendo uma
transferência de consciência tática – Einar respondeu, reprodu-
zindo novamente o vídeo no tablet, dessa vez no mudo.
— Ele é um possessor – Cinco disse. — Pula de corpo em
corpo.
— Exato – Einar confirmou. — O nome dele é Lucas San-
ders e com apenas um toque ele pode transferir a consciência
dele para outro corpo. Uma vez possuindo esse novo corpo, ele
pode se transferir para outro, e assim sucessivamente, tudo
com apenas um toque.
Ran pensou na mulher que os observou na pequena vila
italiana, como ela foi substituída por um homem, que foi o mo-
tivo que Ran percebeu a presença dela, para começo de con-
versa.
— Eu pensei que era uma equipe de segurança – ela disse.
— Mas era apenas ele. Exercendo controle sobre os locais.
— Bingo – Einar disse. — Tivemos sorte de você ter per-
cebido a presença dele a tempo. Se ele tivesse se aproximado
mais para tentar nos tocar... – Ran percebeu quando o olhar de
Einar piscou na direção de Cinco, como se tivesse imaginando
o dano que poderia ter sido causado caso Lucas tomasse o con-
trole do Lorieno. — Enquanto dentro do corpo hospedeiro, Lu-
cas perde sua telecinese. Entretanto, ele consegue acessar as
memórias desse hospedeiro. Colher informações através delas.
É por isso que a Fundação queria usá-lo. Por razões mesqui-
nhas, como por exemplo descobrir se algum deles era traído
pela esposa. Ou para obter lucros, a partir de informações de
transição ou segredos roubados de um inventor. Mas Lucas se
provou ser muito instável para ser útil. Pelo menos foi isso que
eu ouvi.
— O que acontece com as pessoas que ele possui? – Ca-
leb perguntou.
— Eles relatam estarem conscientes de suas ações mas
ao mesmo tempo incapazes de controlá-las. Eles descrevem
como se estivessem sonhando acordados.
— Você sabe bastante sobre esse garoto – Caleb disse.
— Lucas foi um dos primeiros recrutas da Fundação,
junto comigo – Einar disse, falando de forma franca. — Éramos
mantidos separados na maior parte do tempo, com exceção de
alguns exercícios de treinamento, mas eu vi o suficiente para
perceber que ele era extremamente louco.
Caleb olhou para Ran expressando a ironia de Einar ao
chamar outra pessoa de louca. Ran não interpretou como iro-
nia, entretanto. Ela interpretou como preocupação.
— Eu nunca ouvi sobre ele enquanto trabalhava para a
Fundação – Duanphen disse.
— Não, porque você foi recrutada muito tempo depois –
Einar respondeu. — Àquela altura, Lucas estava morto. Ou, pelo
menos, deveria estar.
— O que quer dizer? – Cinco perguntou.
— Lucas era insano. Ele é insano – Einar se corrigiu. — O
pai dele era um cristão fundamentalista que acreditava que os
Legados era uma praga enviada pelo Diabo. Lucas também
acreditava nisso, adicionando a desilusão de que ele era um ar-
canjo, enviado pelos céus para parar aqueles que desenvolve-
ram Legados. Ou, para falar a verdade, qualquer um que ele não
gostasse. Houve rumores sobre coisas que ele fez durante as
missões da Fundação – mortes muito além das ordenadas. Ata-
que a outros Gardes. Tudo em nome à sanidade.
— Espera um pouco – Caleb interveio. — Por que toda
essa coisa religiosa me soa tão familiar?
— O pai do Lucas é – bem, era, o Reverendo James Ro-
bert Sanders. Reverendo Jimbo. O Líder dos Ceifadores.
— Você matou ele – Ran disse.
— Sim – Einar concordou. — E mataria de novo.
Caleb beliscou a ponta do nariz. — Jesus Cristo.
— É exatamente quem Lucas acha que é – Einar disse.
— Um Garde que odeia seus semelhantes – Ran murmu-
rou. — Uma arma valiosa nas mãos de uma organização como
a Fundação.
Cinco grunhiu em assentimento.
— A Fundação passa a maior parte do tempo explorando
a Garde para obter lucro – continuou Einar. — Mas eles também
não têm vergonha de eliminar aqueles de nós que eles acham
ser um perigo para a humanidade. Eu ouvi dizer que o Lucas –
abre aspas – se aposentou – fecha aspas. Muitas tentativas de
escapar, muito difícil de ser controlado. Eu pensei que eles ti-
nham-no matado. Eu deveria saber que eles nunca descarta-
riam um recurso tão valioso. Ele deve ter sido preso em algum
lugar até eles terem um motivo para soltá-lo.
— Você é um bom motivo – Caleb disse.
— Sim, parece que a melhor maneira de controlar Lucas
é deixá-lo fazer o que ele ama – Einar disse, torcendo os lábios.
— Caçar os Gardes e julgá-los.
— Mas como ele nos encontrou? – Duanphen perguntou.
Caleb olhou para os tablets que ainda estavam espalha-
dos no chão, perto dos pés de Einar. — Será que eles estão ras-
treando esses tablets?
Einar mexeu a cabeça. — Não. Nesse ponto é onde a pa-
ranoia da Fundação nos dá uma vantagem. Para a própria segu-
rança deles, os computadores e tablets não podem ser rastrea-
dos.
— Se eles estivessem nos rastreando, seríamos atacados
mas 24 horas do dia em todos os dias da semana – Cinco disse.
— Eles sabem quais pessoas que faziam parte da Funda-
ção nós já identificamos – Caleb respondeu. — Se eles foram
espertos o suficiente para evacuá-los das mansões, pode ser
que eles estejam vigiando aqueles locais também.
— Talvez se fossem os membros da Blackstone que esti-
vessem esperando por nós da última vez, eu concordaria – Ran
disse. — Mas foi somente aquele garoto. Como ele saberia que
estávamos na Itália? Deve ser mais do que um chute certeiro.
— Então, eles estão nos rastreando – Caleb disse com
uma expressão nada gentil no rosto. — Mas não de forma cons-
tante.
— Não faz sentido – Cinco grunhiu.
Ran se virou para Einar. — Um ponto importante: se nos
encontrarmos de novo com esse garoto, como vamos pará-lo?
— Bem, não deixe ele tocar em você, obviamente – Einar
respondeu. — Se o corpo hospedeiro ficar inconsciente, o Lucas
vai voltar para o próprio corpo. Foi por isso que eu bati com
tanta força naquele senhor de idade—
— Isso é doentio – Caleb disse, olhando para Einar. — É
pior do que as coisas que você já faz. Não podemos ficar nocau-
teando os hospedeiros só porque eles não tiveram sorte e dei-
xaram Lucas tocá-los.
— Esse Legado tem um limite de alcance? – Duanphen
perguntou. — Ele precisa manter uma certa distância do pró-
prio corpo?
— Não – Einar respondeu. — Além disso, a probabilidade
do corpo verdadeiro de Lucas estar sob a guarda da Fundação
em algum lugar escondido é enorme. Pelo menos, se nocaute-
armos os hospedeiros, podemos mandá-lo de volta para lá.
Pode nos ganhar algum tempo.
— O que deveríamos estar fazendo é procurar pela loca-
lização do corpo verdadeiro do Lucas – Cinco disse. — Decapitar
o monstro – Caleb lançou um olhar de reprovação tão forte para
Cinco que fez o Lorieno levantar as mãos e dizer: — Metaforica-
mente.
— Não é uma má ideia – Ran disse. — Se o Lucas escolher
nos ameaçar, devemos responder da mesma forma.
— E se conseguirmos encontrar esse esconderijo, pode-
mos desenterrar alguns podres da Fundação que pode nos aju-
dar – Caleb disse, começando a acolher a ideia.
Einar sorriu. Ele parecia energizado. Por fim eles tinham
uma missão que não era apenas tropeçar por mansões gigan-
tes. Ele se curvou para recolher os tablets. — Eu tenho uma ideia
de onde podemos começar. Só preciso de um tempo para fazer
umas pesquisas.
— Eu ajudo – Duanphen se ofereceu, pegando alguns ta-
blets e seguindo Einar para fora da cabine.
Caleb encheu as bochechas com ar. — Bom, acho que
vou contar para a Isabela tudo o que conversamos. Avisar para
ela não deixar quaisquer homens estranhos tocá-la.
Ran ergueu uma sobrancelha.
— É melhor você não usar essas palavras exatamente...
Caleb saiu da cabine. Ran não pôde deixar de sorrir en-
quanto o observou tentando arrumar o cabelo loiro enquanto
seguia pelo corredor. O garoto parecia uma mariposa perse-
guindo a luz quando se tratava de Isabela.
Com um grunhido, Cinco voltou para o assento do piloto.
Eles estavam sozinhos. Ran permaneceu ali por um momento,
sem saber como abordar o Lorieno intimidador. Havia algo em
sua mente, um pensamento que a incomodava há meses, que
só se tornara mais persistente com a descoberta desse tal de
Lucas. Ela tinha uma pergunta e Cinco era o único capaz de res-
ponder.
Ela avançou e se sentou no assento do copiloto. O único
olho de Cinco olhou para ela, mas ele não disse nada.
— Posso te perguntar uma coisa?
Cinco se virou completamente para ela, uma expressão
de surpresa no rosto. A testa dele franziu. A boca dele abriu e
fechou. Ran ficou olhando fixamente para ele, a própria expres-
são impassível. Ela sabia que Cinco estava machucado; que as
interações sociais nem sempre eram fáceis para ele. Ela deu a
ele tempo para responder.
— Uma pergunta – ele repetiu, finalmente. — Claro.
— A Entidade Lórica viajou para a Terra após a morte do
seu planeta, correto?
Cinco olhou para ela com uma expressão esquisita. — É
sobre isso que você quer conversar? História antiga?
— É um ponto inicial. Para ser honesta, eu tenho algumas
perguntas – Ran respondeu. — Elas surgiram há algum tempo,
na verdade, mas nunca organizei meus pensamentos o sufici-
ente para poder pergunta-las. Tive bastante tempo para fazer
isso aqui na nave.
— Tudo bem – Cinco grunhiu. Obviamente ele estava
bastante confuso com a aproximação de Ran – ele não sabia ex-
plicar porque ela escolheu aquele momento ou porque esse Lo-
rieno em específico para conversar – mas ele decidiu continuar.
— Isso mesmo. A Entidade Lórica veio para a Terra durante a
aniquilação de Lorien. Um pequeno pedaço dela já estava aqui
graças aos Anciãos que anteciparam o que Setrákus Ra estava
planejando, mas.... sim. O que você quer saber sobre essa por-
caria toda?
— Aqueles que não estudam história estão condenados a
repeti-la – Ran respondeu.
— Uh-uh. Já ouvi isso antes.
Ran relaxou um pouco no assento, ficando mais confor-
tável e sabendo que Cinco não iria encerrar a conversa de re-
pente ou enlouquecer outra vez.
— Essa Entidade é um ser de pura energia. Seu povo não
a compreendeu por completo. O meu certamente não faz ideia.
Mas todos concordamos que ela é capaz de conceder Legados.
Cinco se virou para olhar as nuvens passantes através do
para-brisas. — Um resumão bem feito – ele respondeu com um
bocejo.
— E você acredita que essa Entidade é inteligente?
Cinco curvou os lábios. — O que você quer dizer com
isso?
— Que não é um fenômeno como um terremoto ou um
tornado. Que tem consciência. Que sabe o que está fazendo.
Cinco tamborilou os dedos no metal gelado, pensando
sobre aquilo. — Eu não tenho muitas lembranças de Lorien. Eu
era muito pequeno quando meus pais me jogaram num viagem
através do universo. Mas eu sei que meu povo adorava a Enti-
dade como se fosse um deus. Não da mesma forma que os hu-
manos têm um deus que vive no céu e que julga as pessoas de-
pois que elas morrem. É mais como a Mãe Natureza. Uma força
nutritiva de bondade ou algo do tipo.
— Então não é algo que se comunica ou pensa como nós
– Ran disse. — É algo que apenas existe.
— Eu não diria que não se comunica – o olhar de Cinco
ficou sombrio e Ran se preocupou que talvez ele parasse de
conversar. Ele encarou um ponto negro em uma de suas mãos,
onde a gosma negra Mogadoriana o havia infectado. — Alguns
dos outros Gardes – os iguais a mim, os que têm Números – eles
falaram com a Entidade. Um deles até carregou uma pequena
porção do poder dela por aí durante um período de tempo.
Eles... eles não gostam muito de mim. Eles nunca me disseram
o que a Entidade disse para eles ou o que eles viram.
— Entendi.
Cinco pigarreou. — Setrákus Ra alegava que a energia
Lórica não era nada mais do que um recurso que podia ser apro-
veitada e usada. Aquela gosma que você viu na Suíça – aquilo
foi criado a partir da corrupção da energia Lórica. Setrákus Ra
pensou que se ele conseguisse dominar o processo, ele poderia
dar e tirar Legados. Eliminar a aleatoriedade de tudo isso.
Cinco esticou o braço para que Ran pudesse ver os pon-
tos negros que cobriam seu corpo. Ela não podia afirmar, mas
achava que a condição de Cinco havia piorado desde a luta na
Suíça, tendo em vista que ele transformou o corpo inteiro na-
quela gosma viscosa. A coisa estava devorando ele de dentro
para fora.
— Legal, né? – Cinco perguntou, se referindo à própria
pele. — Esse é o resultado de todo o trabalho duro de Setrákus
Ra.
— Sinto muito isso ter acontecido com você – Ran disse.
Cinco mal grunhiu em resposta e puxou as mangas do
moletom até os nós dos dedos. Ran ficou em silêncio por um
momento, tentando descobrir a melhor maneira de expressar
seu próximo pensamento.
— Eu sei que ele foi um homem horrível e atroz – Ran
disse. — Mas eu posso entender o desejo de Setrákus Ra de con-
trolar os Legados.
Os lábios de Cinco se curvaram. — Você pode – ele repe-
tiu, sem rodeios.
— Se a Entidade é uma forma de vida inteligente, por que
ela concederia um Legado para um garoto com tanto ódio no
coração?
Cinco franziu a testa. — Nem sempre eu fui assim.
— Não, não – Ran disse rapidamente. — Não você. O ga-
roto do vídeo.
— Oh. Ele.
— Por que ele receberia um Legado? – Ran perguntou no-
vamente. — E aquele poder... de tomar o controle de outra pes-
soa. Fazê-los prisioneiros dentro dos próprios corpos. O que de
bom aquilo possivelmente pode trazer para o mundo? Por qual
propósito... – Ran olhou sub-repticiamente por cima do ombro.
— Que benefício um Garde como o Einar traz? Manipular as
pessoas—
— Ele me acalma – Cinco interrompeu, embora sem ne-
nhuma malicia. — Eu sei o que vocês pensam dele. Eu sei que
ele já feriu vocês. Especialmente aquele amigo britânico irri-
tante de vocês. Mas eu... eu nunca fui capaz de controlar mi-
nhas emoções. Às vezes fica até pior do que era antes depois do
que aconteceu comigo... durante a invasão. Eu sinto dor e raiva
e... perco o controle. Quando chego nesse ponto, Einar me
ajuda, me fazendo ficar calmo novamente. Ele me ajuda a es-
quecer o quão lixo minha vida está sendo.
Cinco falou baixinho, com pouca inflexão. Foi a primeira
vez que Ran o ouviu falar tanto de uma única vez. Ela esperou
conseguir algumas respostas sobre a natureza dos Legados que
receberam com seu companheiro Lórico. Mas nunca imaginou
que ele fosse se abrir com ela. Não com a reputação brutal que
ele possui. Ela pensou em colocar a mão no braço dele, mas de-
cidiu não fazer nada. Melhor manter uma distância amigável.
Ela olhou para o céu, para onde Cinco estava olhando.
— Eu não sabia – ela disse. — Talvez tenha alguma utili-
dade e eu apenas não consigo vê-la...
— Você está falando daquele tal de Lucas? Ou de você
mesma?
Ran sorriu timidamente. — Ficou tão óbvio?
— Eu prestei bastante atenção enquanto estávamos na
Suíça – Cinco disse. — Você disse que não queria ser a arma de
ninguém.
— Eu... – Ran olhou para as mãos.
Ela lembrou a forma como o teto do apartamento que ela
morava desmoronou quando os Mogadorianos abriram fogo
em Tóquio. Ela lembrou do choro de seus irmãozinhos. Em pâ-
nico, ela empurrou detritos para longe com sua recém-desco-
berta telecinese – ela nem sabia o que estava fazendo, o quão
forte ela estava empurrando. Ela conseguiu se libertar dos de-
tritos. Mas seus irmãos pararam de chorar depois disso.
— Eu machuquei pessoas com esse Legado – ela disse,
quase em silêncio. — Pessoas que eu não queria machucar. Eu
de fato trouxe meu amigo de volta à vida mas foi... foi sorte. E,
da mesma forma, eu simplesmente poderia tê-lo matado. Eu
não entendo por que a Entidade me deu esses poderes. Eu não
entendo qual o meu propósito nisso tudo.
Cinco expirou lentamente. — Eu costumava amar voar.
Então Setrákus Ra me disse que em Lorien, voar era quase tão
comum como ter telecinese. Ele disse que não tinha nada de
poderoso nisso. Depois disse que meu Legado mais forte, o que
importa de verdade, é esse... – uma lampejo de metal prata se
manifestou enquanto Cinco rapidamente transformou sua pele
no mesmo metal que o da direção da nave. — Minha pele. Qual
a utilidade além de absorver danos e dispersar a dor?
— Você também já pensou nisso – Ran disse.
— Já, eu tive muito tempo para pensar depois da invasão.
Eu estava numa ilha, certo de que eu morreria a qualquer ins-
tante. Uma garota que me odeia até os fios de cabelo estava me
vigiando, preocupada de que eu pudesse estar fazendo alguma
coisa ruim – ele bufou. — Até ela perdeu o interesse e seguiu
com a vida. Eu estava sozinho até Einar aparecer e me contar
sobre a Fundação e como eles queriam escravizar a Garde.
Como você disse antes sobre história... era o ciclo começando
novamente.
— Então você acredita que temos esses Legados para lu-
tar contra a Fundação? – Ran perguntou. — Que esse é o nosso
propósito.
— Não, não exatamente – Cinco disse. — Eu acho que so-
mos – que os Gardes são – um mecanismo de auto defesa. A
Entidade se importava com os Lorienos e com Lorien ou com a
humanidade e a Terra até o ponto em que Ela continue exis-
tindo. Ela precisa de um lugar para viver. Recebemos Legados
para protegê-la. Não estamos aqui para melhorar a vida ou para
salvar a sociedade ou qualquer coisa feliz que você possa ima-
ginar. Estamos aqui para garantir que uma bola de energia an-
tiga continue viva. Ponto final.
— Isso é... – Ran pausou. — Isso é triste.
Cinco exibiu os dentes, num quase sorriso. — Você sabe
quem governava Lorien? Um conselho de Anciãos – os mais ve-
lhos e mais poderosos da Garde. Era um lugar pacífico antes do
fim. Quase uma utopia, segundo os outros dizem. Mas Setrákus
Ra me contou como era antes do Conselho de Anciãos ser for-
mado.
Ran não tinha certeza se queria ouvir o que Cinco iria di-
zer em seguida. Ela estava tendo mais respostas do que havia
pedido.
— Setrákus Ra era um mentiroso – ela disse baixinho.
— Com certeza era – Cinco concordou. — E talvez isso
também seja uma mentira. Mas ele me contou que haviam mui-
tos Lorienos sem Legados que queriam controlar a Garde, ou
que simplesmente não gostavam de idiotas aleatórios desen-
volvendo superpoderes. Houve uma guerra.
— O que aconteceu? – Ran perguntou, embora ela pu-
desse chutar uma resposta.
— A Garde tomou o controle do planeta e todos os Lori-
enos sem Legados que se opuseram foram dizimados – Cinco
respondeu de forma bem simples. — Como você disse, a histó-
ria se repete.
NIGEL BARNABY
PRÉDIO DOS ESTUDANTES
A.G.H. – POINT REYES, CALIFÓRNIA

dormitório, Nigel conseguia ouvir Kopano roncando do ou-


tro lado da porta do quarto dele. Ele não entendia como o
grandalhão conseguia dormir tão profundamente o tempo
todo. Nigel estava com ciúmes. Ele não tem uma boa noite
de descanso há semanas. Fica esperando acordar e encon-
trar Bea em pé ao lado da cama dele, bebendo uma xícara
de chá e segurando um inibidor contra o pescoço de Nigel.
Ran sofria de insônia, não? Costumava correr pelo
campus à noite até se cansar, vencendo a batalha contra
seu corpo. Esse não era o estilo de Nigel. Às vezes, ele subia
à sala vazia que ele e Caleb usavam para ensaiar e tocava
sua guitarra até seus dedos doerem. Isso não o ajudava a
dormir.
Pensar nos amigos que o deixaram para sair por aí
com um assassino sempre piorava a situação. Surpresa,
surpresa.
Sapatos no pé, Nigel saiu do quarto. Já estava quase
amanhecendo mesmo. A Academia estava começando a ga-
nhar vida. Ele ouviu chuveiros sendo ligados e estudantes
sonolentos resmungando enquanto se dirigiam para a es-
cada. As primeiras aulas do dia começarão em uma hora.
Nigel tinha certeza que uma das aulas do seu horário era
Física dos Legados naquele dia. Essa era uma aula espe-
cial que foi projetada pelo Dr. Goode, onde eles estudavam
as leis da física que seus Legados violavam, na tentativa
de entender melhor seus poderes. Ele havia sido colocado
nessa turma para aprender mais sobre as ondas sonoras.
Era meio interessante, apesar de ser sobre muitas linhas
onduladas e fórmulas sem sentido.
Ele havia matado as últimas aulas. Ninguém disse
nada. Ninguém o repreendeu. Até o Dr. Goode e os demais
professores que restaram estavam dando-lhe espaço.
Talvez ele vá à aula hoje. Estar lá pode ajudá-lo a
tirar um cochilo. A esperança é a última que morre.
Do lado de fora, o ar da manhã estava úmido e frio.
O céu estava começando a clarear, lançando o campus em
uma névoa cinza onírica. Nigel atravessou a grama mo-
lhada do jardim em direção ao prédio dos estudantes. No
outro dia, sua mãe do mal havia comentado que ele estava
"mais magro que o normal" e, quando Nigel se olhou no
espelho naquela manhã, notou que suas maçãs do rosto es-
tavam mais visíveis do que nunca. Melhor tentar comer
alguma coisa.
Nigel encontrou um pequeno grupo de alunos ali
dentro, todos com os olhos turvos e os ombros caídos, assim
como ele. Os alunos estavam amontoados perto da onde se
fazia a fila da cafeteria, envolvidos em uma discussão. Algo
não estava certo.
Todas as manhãs, desde que ocuparam esse lugar, o
prédio dos estudantes cheirava a café e bacon. Mas não
hoje.
A cozinha estava vazia.
— O que está acontecendo? – Nigel perguntou ao se
juntar aos outros alunos.
— Não temos comida – Omar Azoulay respondeu.
— Estou faminto – reclamou Danny, um tweeb cana-
dense de catorze anos, seus cabelos castanhos e longos re-
beldes como os de um integrante de uma banda adoles-
cente. — O que vamos fazer?
Nigel suspirou. O resto da equipe da cozinha deve ter
ido embora. Ele não podia culpá-los por isso. Havia muitos
trabalhos de nessa área por aí que não exigiam uma auto-
rização de segurança. A falta de recursos para os estudan-
tes parecia ser o plano de Greger para fazer com que Nove
aceitasse sua demissão. O representante da Garde Terres-
tre não deve ter percebido o quanto o Nove é teimoso – ou
o quanto o corpo discente o apoia.
— Se acalme – Nigel disse para o tweeb enquanto ele
pulava o balcão da cafeteria e entrava na cozinha. — Só
porque eles foram embora não significa que a dispensa es-
teja vazia.
Nigel vasculhou os armários, rapidamente encon-
trando onde a equipe guardava os muffins embalados e os
cereais. Ele pegou as caixas e as direcionou com sua tele-
cinese até o balcão.
— Me ajudem com isso – ele pediu aos outros, que
estavam parados olhando pra ele.
— Eles disseram que teriam responsáveis por nós
caso viéssemos para cá – Danny disse. Ele parecia assom-
brado. — Agora estamos... estamos por nossa conta?
A palavra “idiota” estava na ponta da língua de Ni-
gel, mas ele conseguiu se conter e ficar em silêncio. O cara
não estava chateado apenas com a falta de funcionários.
Ele estava com medo. A maioria desses Gardes não fize-
ram nada além de assistir a invasão da TV. Desde então,
eles ficaram embaixo das asas da Garde Terrestre. Eles
nunca enfrentaram nada parecido com o que Nigel e seus
amigos enfrentaram.
— Caramba. Você só dá desculpas – Nigel disse, cru-
zando os braços. — Você é um Garde. Um dos seres mais
temidos do planeta. Deveria agir como tal. Proteger o
mundo. E aqui eu encontro você encolhido como se fosse
um bebê chorão, com medo de fazer seu próprio café da ma-
nhã? Eu tenho vergonha de estudar no mesmo lugar que
você.
— Já chega, Nigel, já entendemos – Lisbette disse.
— O que vamos fazer?
— Alguém dá uma olhada nas geladeiras para ver se
temos suco. Se tiver, coloquem eles naquelas coisas de vi-
dro chiques.
— Jarras – Lisbette disse. — Se diz jarras.
— Eu não me importo em como se diz – Nigel respon-
deu. Ele gesticulou para o espaço vazio no buffet onde as
bebidas geralmente são colocadas. — Você faz gelo, não
faz? Encha aquilo ali e pegue os sucos.
Lisbette fez uma careta mas obedeceu. Omar levan-
tou a mão.
— Minha família já foi dona de um restaurante –
Omar disse. — Eu posso fazer ovos mexidos.
Nigel levantou as mãos como se estivesse agrade-
cendo por uma bênção divina. — Então, o que está espe-
rando? Pode ir lá para ajudar. Você pode até usar seu Le-
gado para assar as salsichas. Eu vou pedir para o Nove te
dar alguns pontos extras por ter praticado.
— Eca – Lisbette protestou. — Eu não quero comer
comida feita com fogo que saiu da boca dele.
— Alguém distribua os pratos e os talheres. E al-
guém coloque a água do café no fogo, caso contrário os pro-
fessores vão ficar loucos... – enquanto Nigel dividia as ta-
refas entre os outros, a ironia ainda estava com ele. Ele
não sabia fazer ovos mexidos ou nem mesmo fazer o café.
As habilidades culinárias dele se resumiam em cortar pães
para fazer sanduíches de pasta de amendoim e geleia. Pelo
menos o aristocrata dentro dele sabia como liderar as pes-
soas para que todos ajudassem de alguma forma.
Depois de pouco tempo, o prédio dos estudantes es-
tava zumbindo em atividade. Quase pareceu normal. Vá-
rios outros alunos chegavam com o passar dos minutos, al-
guns cansados demais para perceber que era o Omar que
estava fazendo os ovos mexidos.
— Pequenas batalhas de cada vez – Nigel murmu-
rou.
Do outro lado do refeitório, Nigel percebeu que a
Dra. Susan Chen estava ali. A reitora dos estudantes pa-
recia ter se vestido às pressas. Ela estava sem seu copo
térmico de café usual, indo diretamente para o quadro de
avisos onde várias informações eram disponibilizadas. Ni-
gel a encontrou lá.
— E aí, Susan, você e os outros já estão sabendo que
o pessoal da cozinha saíram de férias?
A Dra. Chen lançou a ele um olhar cansado. — O Sr.
Karlsson da Garde Terrestre disparou um aviso ontem à
noite demandando que nenhum funcionário humano está
autorizado a trabalhar até que o problema com a liderança
da Academia seja resolvido. A equipe da cozinha e de ma-
nutenção não vivem no campus – ao contrário dos profes-
sores – então eu duvido que os Pacificadores os deixariam
entrar mesmo se eles escolhessem ignorar o aviso do Gre-
ger.
— Essa é a estratégia dele, então – Nigel disse, bu-
fando. — Tirar as nossas panquecas.
No quadro de avisos, a Dra. Chen pegou um aviso
sobre as aulas canceladas. Nigel deu uma lida rápida no
conteúdo. Parecia que quase a metade da equipe da Aca-
demia não estava presente.
— Nós tivemos uma reunião antes do amanhecer.
Nem todo mundo que trabalha aqui quer ver o Nove subs-
tituído por um burocrata qualquer. E existem alguns de
nós, como eu, que acreditam nossa responsabilidade prin-
cipal é com vocês, Gardes. O que estamos fazendo aqui é
importante.
— Boa, Dra. Chen – Nigel disse, dando uns tapinhas
de leve no braço da mulher. — Apenas assegure de que
você e o restante dos professores fiquem fora de perigo caso
essa merda de situação continuar do jeito que está.
A Dra. Chen arregalou os olhos para Nigel. Ela es-
tava tentando manter-se calma, mas Nigel percebeu que
ela estava agitada, assim como os demais. Não foi por
acaso que Greger havia utilizado a palavra “evacuar”
quando se dirigiu aos professores. O que se evacua são
campos de batalha, não escolas.
— Eu espero que não chegue a esse ponto – ela res-
pondeu. — Eu e alguns outros professores escrevemos car-
tas para as Nações Unidas, protestando contra a remoção
de Nove. Somando à resistência do corpo estudantil, eu es-
pero que eles reconsiderem. Sei que o incidente na Suíça
está pesando na cabeça de todo mundo, mas, com o devido
tempo, espero que a Garde Terrestre veja a razão. Além
disso, Ray Archibald é um bom homem. Ele sabe que a mis-
são dele é proteger vocês, Gardes, e não concordar com os
desejos de um burocrata.
Pareceu um pouco que a Dra. Chen estava tentando
se convencer de que as coisas não chegariam a um ponto
nocivo. Nigel coçou o queixo, tentando manter a voz de sua
mãe e as promessas obscuras dela sobre o futuro da Aca-
demia longe dos pensamentos dele.
— Vamos torcer que todos na Garde Terrestre te-
nham o seu bom senso, Dra. Chen – ele disse.
— Olhem isso! Eles estão falando sobre nós!
Alguém havia ligado a televisão do refeitório, onde
uma transmissão de um dos noticiários matinais já estava
sendo exibido plenamente na costa leste dos Estados Uni-
dos. Nigel se irritou ao ver Melanie Jackson na tela. A úl-
tima vez que ele viu a garota propaganda da Garde Ter-
restre foi na Suíça, com os olhos lacrimejantes e o nariz
entupido, chorando pela morte do tecnocrata Sydal, que
tentava comprar a gosma negra Mogadoriana da mãe de
Nigel. Nigel lembrou que, no voo de volta da Suíça, Mela-
nie não aceitaria ouvir uma única palavra negativa sobre
Sydal. Ela basicamente estava em estado de choque, então
Nigel lhe deu uma folga. Ainda assim, ele não conseguia
esquecer como os olhos dela haviam varrido o comparti-
mento dos passageiros, olhando para os colegas Garde
como se fossem monstros.
Melanie parecia estar muito melhor na TV do que
estava há algumas semanas atrás. Seus cabelos loiros
amarrados para trás num rabo de cavalo, seu rosto maqui-
ado para as câmeras, a garota basicamente brilhando. Ela
usava um suéter pastel e uma proeminente cruz de ouro.
— Com licença, Dra. Chen – Nigel disse, gesticu-
lando para a TV. — Mas eu estou com um pressentimento
de que vão falar alguma besteira na televisão.
Nigel se aproximou da TV, a Dra. Chen no seu en-
calço. Todos os outros no refeitório já haviam parado de
fazer o que estavam fazendo para olhar para a TV.
— “Sou plenamente agradecida por ter a oportuni-
dade de me sentar com você nessa manhã, George, para
esperançosamente acabar com algumas das preocupações
atuais” – Melanie dizia, em resposta a uma pergunta do
âncora paciente e sorridente. — “Eu estava na Suíça, como
sabe. Eu vi em primeira mão o que acontece quando uma
pessoa como eu, com minhas habilidades, fica louco. As
pessoas têm razão em ficarem preocupadas. Mas nós da
Garde Terrestre estamos tomando as providências neces-
sárias para assegurar que um episódio como aquele nunca
mais se repita”.
— “Que tipo de providências?” – o âncora perguntou.
— “Antes da...” – o lábio inferior de Melanie tremeu
enquanto ela tentava se recompor. — “Antes da morte pre-
matura dele, Wade Sydal estava trabalhando num dispo-
sitivo capaz de interromper os Legados de um Garde. Nós
temos certeza de que esse foi o motivo do assassinato dele.
Esse chip é do tamanho de uma unha – incrível, né? – e
pode prevenir – com segurança e de forma remota – que
um Garde use seus Legados”.
— Queimando os nossos cérebros – Nigel murmurou.
— “Na verdade, eu já passei pelo procedimento e es-
tou com o Inibidor instalado” – Melanie continuou, jogando
os cabelos para trás e apontando para o âncora onde fora
feito a incisão. — “Você consegue ver a cicatriz?”
O âncora se inclinou para frente. — “Eu não vejo
nada”.
Ela sorriu. — “Claro que não. A cirurgia é rápida e a
Garde Terrestre têm ótimos voluntários que podem agili-
zar a cicatrização e também ajudar com a recuperação pós-
cirúrgica. A minha cirurgia durou por volta de uma hora e
já estou completamente recuperada”.
— Eles vão... eles vão nos obrigar a fazer essa cirur-
gia? – Lisbette perguntou, olhando ao redor com os olhos
arregalados.
— Isso é Orwelliano – a Dra. Chen disse.
— “Você mencionou que esses chips podem ser con-
trolados remotamente” – o âncora disse. — “Quem vai es-
tar no controle? A Garde Terrestre, presumo. Mas quem,
especificadamente?”
— “Grande pergunta” – Melanie respondeu. — “Na
verdade, estamos pegando emprestado um conceito dos Lo-
rienos para isso. No planeta deles, eles tinham pessoas que
eram denominadas como Cêpans. Essas pessoas não de-
senvolviam Legados e elas eram treinadas para treinar um
Garde. Eram como professores, guarda-costas e amigos.
Começando pela Academia, cada Garde será designado a
um Cêpan, que irá treiná-lo e monitorá-lo para o caso de
manifestação de indícios perigosos”.
— Eu vou causar uns indícios bem perigosos nos ros-
tos deles se tentarem implantar um desses chips em mim
– Nigel disse.
A Dra. Chen mexeu a cabeça. — O que ela está di-
zendo enfraquece tudo o que construímos aqui. Estamos
tentando dar a vocês uma experiência escolar o mais pró-
xima do normal possível. Não essa coisa de... de babá.
— “E essas providências já estão sendo tomadas?” –
o âncora perguntou.
— “Estão” – Melanie respondeu. — “Todos que fazem
parte da Garde Terrestre já tiveram seu Inibidor implan-
tado e já tiveram um Cêpan designado. O próximo passo é
fazer o mesmo com o pessoal da Academia, só estamos tra-
balhando com a logística.
— “O que acontece com o Garde que se recusar a esse
procedimento? Como um do tipo do Einar Magnusson?”
— “Bom, pessoas como Einar e seus capangas estão
claramente violando o Acordo Garde” – Melanie disse fria-
mente. — “Eles serão caçados, terão o chip implantado à
força e ficarão em detenção até for determinado que não
são mais um perigo para eles mesmos e para os demais”.
O âncora pareceu considerar o que acabou de ouvir
por um momento. O tom e voz dele mudou inesperada-
mente: — “Com todo respeito, Srta. Jackson – eu estou me
borrando de medo como todo mundo com a possibilidade de
existirem Gardes à la Einar – mas isso soa para mim algo
exagerado e perigoso. O que você disse se resume numa
cirurgia em alta escala em adolescentes antes mesmo deles
terem feito algo errado”.
Nigel bateu palmas. — Aí sim! Esse cara sabe do que
tá falando!
O sorriso de Melanie continuava estampado no rosto
dela. — “Posso lhe contar uma coisa que muitas pessoas
não sabem, George? Vai parecer um pouco louco porque,
bem, vivemos em um mundo bem louco agora. Quando re-
cebi meus Legados – e qualquer outro Garde da primeira
geração poderá confirmar isso – eu tive uma visão da his-
tória Lórica. Um aviso, basicamente. E quer sabe de uma
coisa? Setrákus Ra, o monstro doente que invadiu nosso
planeta e matou quantos? Dois milhões de pessoas? Ele era
Lorieno. Ele tinha Legados. Ele era louco, obviamente,
sendo o oposto dos Lorienos que nos salvaram e assinaram
o Acordo Garde – que criou a Garde Terrestre. Mas ainda
assim, imagine se o Lorienos tivessem tido o bom senso de
colocar um simples microchip na cabeça de Setrákus Ra
quando ele dando indícios de que seria um louco. Imagine
quantas pessoas ainda estariam vivas. Caramba, eu talvez
nem teria Legados, porque nunca teria havido uma inva-
são, caso esse povo tivesse demonstrado um pouco de bom
senso”.
— Nossa! – Nigel disse, passando a mão no seu moi-
cano. — Ela estava lá de fato.
— “Isso... isso é muita coisa para digerimos – o ân-
cora respondeu, de pé agora. — E precisamos de um inter-
valo comercial. Mas estaremos de volta com—”
De repente, ouviu-se um barulho estridente, aba-
fando o som da TV e do comercial que estava sendo exibido.
Demorou alguns segundos para Nigel perceber que o sis-
tema de comunicação da Academia havia sido acionado.
Esse sistema era controlado a partir do campo dos Pacifi-
cadores e tinha como objetivo principal notificar os alunos
de ameaças próximas. Além dos testes de incêndio e outras
coisas que eles faziam semestralmente, o sistema nunca
havia sido usado com outra finalidade desde que Nigel che-
gou na Academia.
— Atenção, alunos da Academia da Garde Humana
– essa era a voz de Greger, fria e autoritária, explodindo
nos alto-falantes. — Os alunos que eu chamar deverão se
reportar imediatamente para os Pacificadores para acata-
rem a ordem da Garde Terrestre. Daniel Abernathy, Omar
Azoulay, Nigel Barnaby...”
Todo mundo no refeitório ficou paralisado enquanto
Greger pronunciava dez nomes em ordem alfabética. Nigel
olhou pela janela da frente, onde pôde ver luzes piscando
nos dormitórios, todos os outros que ainda estavam dor-
mindo agora estavam acordando graças ao anúncio estri-
dente. Ele imaginou que pôde ouvir o professor Nove
caindo do teto – Nigel sempre imaginou que Nove dormisse
de cabeça para baixo por conta de seu Legado antigravi-
dade – vestindo roupas e xingando muito. Os idiotas da
Garde Terrestre estavam “tomando as providências”.
Um silêncio estranho pairou sobre o refeitório até
Greger terminar de chamar os nomes e simplesmente in-
terromper a transmissão. Todos deram um pulo quando
ouviram gritos vindos da TV de um comercial com crianças
implorando para os pais comprarem nuggets e quase ma-
tando os Gardes de susto.
Omar estava encarando Nigel da cozinha. Ele estava
com uma frigideira na mão e uma espátula coberta com
ovo na outra. A cabeça dele estava inclinada em incerteza,
como se quisesse perguntar para Nigel se eles realmente
teriam de obedecer. Nigel mexeu a cabeça negativamente.
O som de uma cadeira sendo movimentada do outro
lado do refeitório chamou a atenção de Nigel, que virou e
viu Danny se levantando nervosamente do lugar onde es-
tava.
— Ei – Nigel disse. — O que você está fazendo, cara?
— Eu... – Danny apontou para o teto, um temor no
tom de voz como se tivesse sido Deus que tivesse falado
com eles. — Ele disse o meu nome. Eu deveria...
Nigel correu até a porta para bloquear a saída. —
Oh, Danny boy... – ele cantou. — Your ass, your ass is sho-
wing...3
Ninguém riu. Todos estavam encarando ele. Nigel
coçou a parte de trás da orelha, envergonhado. Talvez as

3
N.T – “Oh, garoto Danny... sua bunda, sua bunda está aparecendo...”
paródias ridículas das baladas de quinta categoria da Ir-
landa não funcionassem aqui.
— Certo, então pessoal, escutem... Danny e todos os
outros... independentemente se Greger falou o nome de vo-
cês ou não – Nigel começou, usando o Legado dele para au-
mentar o volume da sua voz um pouquinho, como se esti-
vesse falando num microfone. — Alguns de nós foram cha-
mados para ir até a sala do diretor, né? Normalmente, isso
acabaria em detenção, mas do jeito que as coisas estão, pa-
rece que os nossos “responsáveis” têm algo um pouco mais
drástico em mente. Tipo lobotomia. Agora, eu não conheço
a maioria de vocês, mas ultimamente eu não tenho feito
nada além de ser bom com os Gardezinhos que obedecem
os professores e tudo mais.
A Dra. Chen, ainda de pé a alguns metros de Nigel,
levantou uma das sobrancelhas, mas não o interrompeu.
— Eu não concordei em vir para a Academia para
deixar alguém brincar com um bisturi no meu cérebro. E
aposto que vocês também pensam assim. Eu não tô nem aí
se a Rainha em pessoa aparecer aqui e gaguejar pra mim
que é para o bem da humanidade. A Garde Terrestre sim-
plesmente não pode mudar as regras sobre nós de uma
hora para outra.
Vários alunos – incluindo Omar e Lisbette – concor-
daram com a cabeça. Mas da mesma forma, muitos aguar-
davam com olhos vidrados e ombros encolhidos, parecendo
que queriam correr para o quarto e se esconder debaixo da
cama.
Nigel gesticulou para a Dra. Chen. — Até a reitora
dos alunos – aqui presente – não concorda com isso. Não é
mesmo, Susan?
A Dra. Chen encarou Nigel por um momento antes
de se voltar para os outros alunos, as mãos na cintura, ado-
tando uma postura parecida com a que estampava na sala
de aula.
— Essa inteira... mudança na política não foi pro-
posta nem anuída por mim ou pelos outros administrado-
res. Eu sugeriria a vocês para se manterem inertes até que
a equipe da Academia possa ter uma oportunidade para
discutir essa questão.
Internamente, Nigel sentiu um alívio por ter conse-
gui o apoio da Dra. Chen. Até Danny, que estava mais ner-
voso que os demais, acalmou-se quando alguém com auto-
ridade falou. A vibe na sala mudou. Embora alguns fossem
mais brilhantes que outros, Nigel pôde ver faíscas de de-
terminação nos olhos desses alunos.
— Certo – Nigel concluiu, batendo palmas uma vez.
— Espalhem a recomendação da Dra. Chen. Vamos cuidar
uns dos outros – o olhar dele pairou inicialmente em
Danny e então passou pelos outros que pareciam dar indí-
cios de que iriam se apresentar para Greger, fazendo com
que eles pensassem melhor antes de fazer algo, o que Nove
teria aprovado. — Qualquer um que se entregar para a
Garde Terrestre estará se sacrificando à toa.
ISABELA SILVA
LE ROYAL MANSOUR – CASABLANCA, MARROCOS


4
Forma popular dos americanos para se referirem às Forças Armadas
Especiais do Exército deles. N.T.
TAYLOR COOK
A.G.H – POINT REYES, CALIFÓRNIA

— Eu acordei – porque, desculpe, eu precisava dormir.


Quero dizer, eu mal consigo dormir ultimamente por conta de toda
essa porcaria de situação que fica tomando conta dos meus pensa-
mentos, mas eu fechei os olhos, tá bom? Eu acordei com esse idiota
do Greger anunciando o nome dos meus alunos, então eu corri para
o meu escritório para tentar descobrir o que estava acontecendo. E
ali estava o John. Sentado na minha cadeira, atrás da minha mesa.
Lendo meus arquivos.
Taylor estava na frente do depósito de ferramentas da Aca-
demia, um lugar que nunca havia ido antes. Ela deu um empurrão
na porta antes de perceber que a equipe de manutenção não havia
aparecido para trabalhar naquela manhã e que haviam trancado a
porta com um cadeado. Ela olhou por cima do ombro para Nove,
que estava encarando a distância e resmungando.
— Ele me olhou como se quisesse dizer... Por que não está
resolvendo essa situação? – Nove continuou. — Por que esse Greger
está intervindo na Academia?
Taylor suspirou. — Você tem as chaves desse cadeado?
— Como é? – Nove disse, procurando nos bolsos. —
Droga. Eu não sei onde as coloquei.
Nove pegou o cadeado e, com pouco esforço, o arrancou da
porta do galpão. Ele triturou o pedaço inútil de metal com sua mão
cibernética e lançou os pedaços no ar, na direção do jardim do cam-
pus. Taylor se encolheu.
— Se isso acertar alguém na cabeça, eu vou ter que curá-los
– ela disse.
Nove a ignorou. — O cara aparece do nada e no mesmo dia
já acha que está no comando – ele murmurou.
Taylor deu uma olhada dentro do barracão, que basicamente
parecia o mesmo que ela tinha no quintal de casa, só que maior. Ela
começou a pegar as ferramentas que eles iriam precisar – martelos
e pregos, um maçarico, algumas tábuas de madeira que estavam jo-
gadas no chão.
Enquanto isso, do lado de fora, Nove esvaziou a carriola que
estava perto do balcão. Trinta alto-falantes numa pilha com os fios
emaranhados, alguns deles ainda com pedaços do gesso da parede
de onde foram arrancados. Derrubar o sistema de comunicação da
Academia o mais rápido possível se transformou em uma espécie
de competição naquela manhã. Taylor não estava prestando aten-
ção na contagem, mas achou que Maiken vencera. Agora, os anún-
cios de Greger chegavam ao campus apenas pelos sistema de comu-
nicação distantes instalados no acampamento dos Pacificadores.
Isso não o impediu. Os anúncios de Greger continuaram,
listando os nomes dos alunos em ordem alfabética, um anúncio a
cada hora.
— Ele não está no comando – Taylor disse enquanto ela
carregava a carriola. — Ele é apenas um convidado intrometido.
— Eu sei o que as pessoas pensam de mim – Nove disse,
quase em silêncio. — Eu sou o cabeção da Garde original. Eu en-
tendo. Mas eu também sou aquele que ficou por aqui. Que tentou
construir algo. E o John... – as juntas da mão metálica de Nove
estalaram. — O cara sempre planejou seus movimentos sozinho e
fez as coisas do jeito dele, independentemente do resto de nós con-
cordar ou não. Ele é o grande herói, né? Só que ninguém sabe de
todas as vezes que o heroísmo dele foi por água abaixo e quase
matou todos nós. E isso acontecia... toda semana.
Taylor deu uns tapinhas no ombro de Nove. — Você vai se
sentir melhor se quebrar algumas coisas?
— Sim. Com certeza.
Então eles começaram a trabalhar.

Havia apenas um caminho para o campus a partir da área dos Paci-


ficadores. Foi onde eles decidiram que construiriam a barricada.
Eles pregaram tábuas e as colocaram em tiras na calçada. Um
grupo de alunos trouxe mesas das salas de aula para o pátio, onde
eles estavam quebrando-as para conseguir as madeiras necessárias.
Eles cortaram as pernas de metal das mesas e as entortaram, para
depois fundi-las com o maçarico ou com o Legado de Omar. Ou-
tros alunos pegaram mesas onde faziam cerâmicas e as amontoaram
verticalmente na grama onde fariam a barricada, criando um muro
baixo. Eventualmente, John Smith se juntou a eles, ajudando-os em
silêncio com seu Legado Petras, facilitando na construção da bar-
reira de pedras.
— Isso não vai impedir os Pacificadores de avançar pela flo-
resta, mas pelo menos eles não vão conseguir nos atacar pela porta
da frente – Nove disse para Taylor, limpando o suor da testa. Am-
bos estavam perto do prédio dos estudantes, observando a cons-
trução da barricada. — Além disso, o pessoal está mais tranquilo
depois que começamos a agir.
— Você deveria fazer uma programação – Taylor disse, cha-
coalhando a mão por estar cansada de martelar as tábuas. — De-
signar tarefas aos alunos que normalmente seriam realizadas pela
equipe de funcionários. Colocar algumas pessoas para cozinhar.
Designar grupos para fazer patrulha pela Academia.
— Boa ideia – Nove respondeu.
— Eu sei.
— Vamos ver se você continua defendendo essa ideai
quando estiver desentupindo um vaso sanitário cheio de fezes -
Nove disse com um sorriso. — Hmm. Quais são os outros alunos
aqui que odeiam—
Um barulho vindo do bolso de trás de Nove o interrompeu.
O ritmo era familiar. Taylor rapidamente identificou o toque como
sendo uma música da outra Taylor. Ela olhou para Nove de forma
incrédula, enquanto ele rapidamente pegava o celular do bolso.
— Diga algo – ele disse. — Eu te desafio.
Ela levantou as mãos. — Tá tudo bem. Eu também já fui
adolescente um dia.
— Huh – ele disse, tocando no botão para colocar no viva
voz. — Ora, ora, ora – ele disse num tom mais alto. — Já estava na
hora dos meus soldados em campo me contatarem.
Houve uma grande pausa do outro lado da linha. Taylor ex-
pressou um grande sorriso quando ouviu o tom de voz nervoso na
voz de Caleb na resposta.
— Hum... somos soldados de campo agora?
— Estou praticando para quando eu for discursar na frente
das NU – Nove respondeu.
— Não somos soldados de merda, idiota – o sorriso de Tay-
lor ficou ainda maior quando Isabela se manifestou. — Você dei-
xou todo mundo aí ter o cérebro operado, Professor Man-Bun? Es-
tamos ligando tarde demais?
— Isabela! Caleb! – Taylor disse, se aproximando do celular
antes que Nove conseguisse responder alguma coisa entre seus den-
tes cerrados. — Vocês estão bem?
— Ah, ótimo, alguém inteligente está por perto – Isabela
disse. Taylor conseguiu sentir o alívio verdadeiro no tom de voz da
Isabela. — Olá, minha amiga mais linda. Quais as novas?
Taylor sorriu. — Por onde começar...
— Você já transou com o Kopano?
— Isabela! – ela olhou ao redor para se certificar de que Ko-
pano não estava por perto, mas ele estava carregando as mesas
junto com outros alunos.
— O que?
— Estamos bem, Taylor – Caleb interviu. — Todos os seis
estamos bem.
Todos os seis. Então eles estavam juntos. O pessoal da Aca-
demia e a gangue psicopata do Einar.
— Não que eu não queira ouvir mais detalhes sobre a vida
amorosa da Taylor – Nove disse, — mas onde diabos vocês estão?
— Hum... é melhor não dizermos – Caleb respondeu. —
Pois a chance de estarmos sendo monitorados é enorme. Mas nós
vimos o noticiário, vimos o que está acontecendo aí e pensamos
que deveríamos ligar para saber se vocês precisam de ajuda.
— O noticiário está contando mentiras? – Isabela pergun-
tou. — Não parece que vocês sofreram lavagem cerebral.
— Até agora os cachorros só latiram... não morderam ainda
– Nove disse.
— Aqui na Academia só sobrou os alunos e algumas pessoas
da equipe de docentes – Taylor acrescentou. — Basicamente não
temos mais aulas. Você amaria essa situação, Isabela.
— Meu sonho!
— Podemos voltar – Caleb disse firmemente. — Nós deve-
ríamos voltar. Ajudá-los nessa luta.
— Provavelmente não é uma boa ideia – Nove disse. —
Com sorte, tudo isso vai acabar logo. Mas se ficar pior do que já
está, eu me sinto melhor sabendo que vocês estão longe daqui.
— Para podermos salvá-lo depois, você quer dizer.
— Eu nunca preciso ser salvo – Nove respondeu.
Ouviu-se alguém rindo alto no fundo da ligação.
— Além disso, o John Smith resolveu aparecer aqui... do
nada – Taylor disse. — Talvez para ajudar, talvez para intervir. Ig-
norem o Nove. Ele está se sentindo um pouco inseguro.
Isabela deu uma risadinha. — Ele é gostoso pessoalmente
como é na TV?
— Ele precisa fazer a barba – Taylor respondeu.
— Estou feliz por vocês terem ligado – Nove disse. — Se
não estivéssemos presos no campus, eu iria agir por conta própria,
mas já que não posso, vocês terão de fazer por mim. Temos certeza
de que a Garde Terrestre já pegaram algumas pessoas, como Seis e
o filho do Malcolm, Sam.
— O que consegue falar com máquinas – Caleb disse.
— Soa estranho o desaparecimento de um cara com o Le-
gado daquele acontecer um dia antes deles anunciarem que estariam
implantando chips nos nossos cérebros – Taylor disse.
— Talvez eles estivessem trabalhando para a Garde terrestre,
mas de maneira alguma Seis e Sam concordariam com essa porcaria.
Tudo o que Greger disse para Malcolm é que eles estão sendo man-
tidos em custódia em algum lugar. Provavelmente no mesmo lugar
que eles estão prendendo os Gardes que não estão cooperando –
Nove continuou. — Nós da Academia não estamos pedindo para
vocês quebrarem a lei ou resgatarem alguns presos... mas também
não estamos dizendo para vocês não fazerem isso.
— Ah... espera um pouco – Caleb disse, e então ele deve ter
mutado a ligação, pois o som desapareceu. Nove olhou para Taylor,
e então mutou a linha deles também.
— Sendo alguém que não é conhecido por agir por impulso,
deixe-me perguntar algo – Nove disse. — Envolvê-los é uma boa
ideia, né? Não vamos piorar as coisas se deixarmos o louco do Einar
e o meu velho amigo Cinco fazerem algo por nós?
Taylor pensou nas personalidades únicas dos membros do
grupo do outro lado da ligação. — O fato deles não terem matado
uns aos outros ainda ou não terem aparecido na TV por terem ex-
plodido algum lugar é um bom sinal. Além disso, precisamos de
alguém lá fora fazendo as coisas que não podemos fazer.
Caleb voltou a falar. — Então, acontece que talvez já esti-
véssemos procurando por uma prisão secreta ou por algum lugar
onde a Fundação possa estar mantendo preso os Gardes que con-
sideram perigosos.
Taylor levantou uma sobrancelha. — Ah é?
— Bem, não tivemos um progresso muito bom ainda, mas...
— Não diga aquilo para eles – alguém, definitivamente Ei-
nar, disse no fundo.
— Mas se progredirmos ou se encontrarmos Seis e Sam, de-
finitivamente vamos tentar resgatá-los – Caleb disse. — Quero di-
zer, isso é óbvio.
— Bem tranquilizador – Nove disse secamente.
— Espera um pouco – Caleb disse. — Ran quer falar com
vocês.
A conexão chiou enquanto passou entre as mãos e, em se-
guida, a função do viva voz foi desativada, de modo que a voz suave
de Ran pôde ser ouvida de forma mais clara.
— Oi Taylor, oi professor Nove – Ran disse. — O Nigel
está aí com vocês?
Nove emitiu um som quando mexeu seus dedos mecânicos
enquanto usava sua telecinese para deixar o celular mais perto de
Taylor. Claramente ele não queria fazer parte desta conversa.
— Oi, Ran – Taylor disse. — Ele não está aqui conosco.
Quando eu o vi pela última vez, ele estava indo para o centro de
treinamento ou para... para... – interrogar em vão a mãe diabólica
dele? Taylor não sabia como dizer isso, então ela deixou para lá. —
Você quer que eu o chame?
Ran hesitou. — Não. Está tudo bem. Por favor, digam para
ele que eu liguei e que estou pensando nele.
— Pode deixar – Taylor respondeu.
— Isso é tudo— Ran começou a dizer, mas pareceu que al-
guém havia tomado o celular da mão dela. Uma voz áspera disse:
— Está ouvindo, Nove?
A expressão de Nove endureceu. — O que você quer,
Cinco?
— Só queria dizer que estou ansioso para salvar sua Acade-
mia já que você é um bosta de um perdedor que não serve nem pra
fazer isso. Até mais, cuzão.
E desligou. Taylor pegou o celular antes que Nove o atirasse
para longe.
— Bem maduro – Taylor disse.
— Esse cara deveria ter ficado de molho naquela gosma –
Nove respondeu.
Com o celular na mão, Taylor impulsivamente pensou em
ligar para o pai. Ela pensou nisso com frequência nas últimas duas
semanas. Taylor continuou dizendo a si mesma que não ligou por-
que não queria preocupá-lo, mas isso não era verdade – o pai dela
obviamente já estava preocupado. O que ela diria a ele? Ele apoiou
o plano maluco deles de deixá-la se infiltrar na Fundação, o que
envolveu destruir a fazenda da família. Isso fez com que Taylor
fosse aceita de volta na organização secreta, mas não ajudou a der-
rubá-los. De fato, a situação estava pior do que nunca. Como ela
iria dizer a ele que foi tudo em vão? Ela temia essa conversa, então
continuou adiando.
Taylor devolveu o celular para Nove. — Você acha que nos-
sas famílias estão seguras? – ela perguntou. — O que vai acontecer
com eles se não fizermos o que a Garde Terrestre quer?
Nove pausou, respirando fundo. — Cara. Sempre esqueço
que vocês têm família.
— Bem legal da sua parte, Nove.
— Não, quero dizer, isso facilitou para nós, Gardes originais.
Não tínhamos ninguém que eles podiam pegar para nos afetar en-
quanto estivéssemos fugindo. Bem... pelo menos para alguns de nós
– Nove mexeu a cabeça, espantando suas lembranças. — Eu du-
vido que eles farão algo com a família de vocês. Até agora, o dis-
curso deles se baseia nas relações públicas, certo? Como eles iriam
parecer corretos se começassem a ameaçar famílias? Não. Por ora,
eles querem parecer os mocinhos da história, os que têm razão, os
que respeitam as leis.
— Espero que você esteja certo – Taylor respondeu.
Enquanto os dois caíram em silêncio, John deixou um grupo
de alunos empilhando telecineticamente as mesas e veio até eles.
Taylor estava feliz em vê-lo ajudando, mesmo que estivesse claro
que John tinha segundas intenções aqui na Academia. Ela olhou
para o céu, meio esperando ver uma nave de guerra Mogadoriana
pairando acima deles.
— Meio que lembra os velhos tempos, não acha? – John
disse para Nove enquanto ele se aproximava. — Nos juntando para
fazermos o que podíamos, tentando fazer dar certo...
— Nos velhos tempos estaríamos fugindo – Nove disse.
John hesitou. — É uma opção, sabe. Se isso piorar, poderí-
amos...
— Fugir para a Índia com você? – Taylor perguntou, levan-
tando uma sobrancelha. — Está zuando?
— Eu sei que vocês estariam desistindo de muitas coisas –
John disse com cautela. — Mas se eu conseguir deixar a Nova Lo-
rien segura...
— Se fizermos isso, estaríamos voltando às nossas origens –
Nove respondeu. — Sem vida. Fugindo, olhando por cima dos om-
bros a cada passo. Você se lembra de como era viver assim?
— É claro.
Nove olhou para os alunos, a maioria descansando um
pouco agora, passando garrafas de água entre si. — E você quer
isso para todos eles? – ele não deixou John responder. — Não. Eu
sei que não quer.
— Queremos que essa coisa de Garde Terrestre funcione –
Taylor disse. — Mas temos que mostrá-los que não somos propri-
edade de ninguém. Deveríamos ter poder de opinião e de escolha
sobre como as coisas devem funcionar, sobre quem queremos
como instrutores, se queremos ou não implantar um Inibidor no
cérebro...
John assentiu. — Bom, eu vou fazer uma visita para os Pa-
cificadores para avisá-los quando e onde a Osíris vai pousar – John
disse. — Talvez você queira vir.
Demorou alguns segundos para Taylor perceber que John
estava falando com ela e não com Nove. — Oi? Eu?
John deu de ombros. — É preciso que alguém represente a
Academia, não acha? Me parece que você pode falar pelos outros
alunos.
Taylor não sabia o que dizer. Por sorte, Nove estava ali para
quebrar o silêncio.
— Então você simplesmente vai até os Pacificadores e dizer
que uma nave Mogadoriana está programada para pousar no ter-
reno da Academia amanhã – Nove disse secamente. — É o seu
plano?
Enquanto falava, Nove se aproximou e ficou ao lado de
John, em vez de ficar de frente para ele. Isso permitiu que os dois
evitassem contato visual e que, em vez disso, olhassem para o outro
lado do campus. Taylor presumiu que isso fosse algum tipo de ritual
masculino.
— A Garde Terrestre deveria ficar agradecida por ver os úl-
timos Mogadorianos sendo levados à justiça – John disse. — E
ainda vou dizer para eles que negociei a rendição dos Mogadorianos
com a ajuda de alguns alunos da Academia.
— Mas não tivemos nada a ver com essa porcaria – Nove
respondeu.
— Tem certeza? – John respondeu. Ele sorriu para Taylor.
— Você ouviu a transmissão de Vontezza enquanto estava traba-
lhando para Fundação e a reportou para o Nove. Ele me envolveu
no caso porque... bem... porque eu posso voar no espaço?
— Isso é mentira – Taylor disse.
— Que não vai fazer mal a ninguém – John respondeu. —
Enfim, isso pode fazer com que as relações públicas da Academia
melhorem, e me parece que vocês estão precisando disso no mo-
mento – John hesitou por alguns segundos, o que pareceu a Taylor
que ele iria dizer algo que Nove não iria gostar nenhum pouco. —
Eu também poderia levar uns dois ou três dos seus alunos comigo
amanhã. Talvez seja bom para eles ter essa experiência.
Taylor bufou. Era exatamente o que ela tinha previsto. Aí
estava o pedido. Nove havia mencionado que, mais cedo naquele
dia, John estava olhando a lista de alunos da Academia. Ele está
precisando de ajuda.
Nove chegou à mesma conclusão, seu tom brusco. — Se
você precisa de alguns dos meus alunos, pare de inventar desculpas
e só peça, cara.
John estremeceu. — O gerador de campo de força é algo
bem grande. Talvez eu precise de ajuda com isso, especialmente
com os Mogadorianos e com a Garde Terrestre por perto. O Le-
gado de Kopano que o permite atravessar a matéria pode ser útil.
— Você não pode simplesmente copiá-lo? – Nove pergun-
tou.
— Sim, posso, mas eu não consigo estar em todos os lugares
ao mesmo tempo – John disse. — Eu só tenho duas mãos.
Taylor quase disse alguma coisa. Ela não queria Kopano sa-
ísse do campus agora. Mas ele vai ficar tão empolgado em participar
de uma missão com John que ela não conseguiu intervir. Além
disso, ela ainda estava considerando sua própria oferta de John que
a colocaria frente a frente com representantes da Garde Terrestre.
O que ela diria? O que os alunos querem que ela diga?
— E também tem o Miki, que tem uma força telecinética
muito boa e pode se transformar em vento – John continuou. —
Ele conseguiria carregar o gerador com facilidade.
— O Miki está tirando um tempo agora por ter sido um es-
piãozinho de bosta para Fundação – Nove respondeu. Então, ele
deu de ombros. — Mas se você precisa dele, fique à vontade. Mas
fique ciente de que ele pode tentar fugir ou acabar estragando o seu
plano.
— Vou ficar atento – John disse. — Então, sim, preciso de
ajuda.
— Eu vou perguntar para Kopano e para o Miki se eles que-
rem te ajudar – Nove disse. — Mas por mim tudo bem.
John assentiu. — Obrigado. Você disse que o representante
dos Pacificadores das Nações Unidas aqui da Academia é o Ray
Archibald?
— Sim.
— O que você sabe sobre ele?
— Militar. Meio que um idiota. Você conhece o tipo. Mais
ou menos parecido com o nosso velho amigo Lawson.
— Já é o suficiente – John olhou para Taylor. — É com ele
que vamos conversar.
— Você provavelmente vai encontrá-lo perto da onde esta-
cionou seu Escumador. Malcolm foi até lá ontem à noite para avisá-
los que não estamos sob invasão Mogadoriana. Não queríamos dar
a eles nenhum motivo para adentrarem no campus. Ele esclareceu
para eles que era você.
— Então eles devem estar esperando minha visita.
— É. Talvez eles tentem implantar o Inibidor no seu cérebro
enquanto estiverem conversando.
— Isso não vai acontecer.
— Não – Nove concordou. — Acho que o Greger não che-
gou na letra “S” ainda.
— Quer que eu diga algo para ele por você, Nove? – John
perguntou.
Os lábios de Taylor se contorceram por um momento. Em-
bora sua mente estivesse acelerada enquanto ela ensaiava possíveis
conversas com o representante da Garde Terrestre, ela não interviu
na conversa com John por duas vezes, já que ela iria ir com ele. Ela
começou a dizer algo, mas desistiu. Por que agir como se ela fosse
deixar passar essa oportunidade de gritar com alguns idiotas pode-
rosos? Era o passatempo favorito dela.
— Bom, quando você estiver com Archibald, tente fazê-lo
entender que implantar compulsoriamente Inibidores no cérebro
dos meus alunos é uma ideia terrível – Nove disse, olhando para
Taylor.
— Definitivamente – ela concordou.
— Mais uma coisa, peço que, por gentileza, você informe ao
Greger Karlsson que eu vou quebrar todos os dentes dele.
— Eu pensei que depois de começar a trabalhar atrás de uma
mesa você mudaria seu jeito de falar – John disse com um sorriso.
Nove não pareceu surpreso.
— Vamos dizer isso a eles – Taylor se manifestou. — Talvez
eu filtre um pouco essa última mensagem. Mas vamos entregá-las.
— E provavelmente é melhor não mencionar Vontezza –
Nove disse.
— Obviamente – John disse com um suspiro. — Algo mais?
— Diga para eles que você respeita minha autoridade e que
eu estou fazendo um trabalho excelente – Nove disse.
— Fechado – John disse.
Nove apertou de leve os ombros de Taylor. — Boa sorte. E
se você não estiver de volta dentro de uma hora, eu vou estar lide-
rando a festa de busca.
Taylor sorriu para ele, tentando não se sentir nervosa. Esse
era o tipo de chance que Kopano sempre fala – uma oportunidade
para mostrar liderança, para fazer a diferença. Ou, pelo menos, para
ver em primeira mão qual era o real inimigo da Academia.
— Então – Taylor disse, se virando para John. — Vamos ir
voando ou o quê?
— Não é algo tão urgente para um movimento tão dramá-
tico – John disse com um sorriso que fez com que Taylor sentisse
vontade de estrangulá-lo. — Vamos ir andando para dizermos oi.
Ir andando. Para o acampamento de um bando de soldados
que queriam instalar microchips eletrificados no cérebro dos alunos.
Ir andando. De repente, soou como um plano bastante instável para
Taylor.
Mas quando John Smith começou a se afastar, ela o seguiu.
CALEB CRANE
LE ROYAL MANSOUR – CASABLANCA, MARROCOS

do Le Royal Mansour ainda estava com a mesma quantidade de


pessoas de duas horas atrás, quando Caleb chegou na varanda.
No começo, ele sentiu como não se pertencesse àquele lugar. Ele
usava uma calça e uma camisa branca que se encaixavam perfei-
tamente no corpo dele, mas que friccionavam por motivos que
ele não conseguia articular. Ele escolheu uma espreguiçadeira
perto da grade da varanda que lhe proporcionava uma visão de-
sobstruída do cassino abaixo, mas também o fazia ficar reclinado
de uma forma involuntária que ele não escolheria. Exposição em
demasia.
Apoiado nos cotovelos em cima da espreguiçadeira, Caleb
sentiu como se fosse um modelo de uma propaganda de um per-
fume masculino ruim. Ele se sentou e tentou ficar com uma ex-
pressão neutra no rosto.
Ele era um cara descolado que pertencia àquele lugar. To-
talmente.
Caleb continuava com a sensação de que alguém da equipe
de segurança do hotel o iria questionar de alguma forma. Mas
aquele lugar era diferente dos Estados Unidos, onde você não
podia chegar perto de um cassino até ter vinte e um anos com-
pletos. No Marrocos, a pessoa com dezoito anos já era conside-
rada maior de idade e ele teve a impressão de que a lei era pouco
aplicada. Ele tinha certeza de que alguns dos grupos lá embaixo
eram formados por adolescentes que estavam fumando cigarros
e jogando pôquer. Ninguém o incomodou, a menos que ele con-
tasse a garçonete que lhe trouxe uma xícara de chá que ele não
havia pedido.
— Para acalmar seus nervos para que você consiga se
concentrar e ganhar algo grande – a garçonete disse enquanto
colocava a xícara na mesa de canto de vidro que estava posicio-
nada ao lado dele.
Ele parecia estar nervoso? Ele estava dando essa impres-
são? Ah cara. Caleb mastigou a unha do seu polegar, mas parou
porque percebeu que isso passaria uma imagem suspeita. Ele to-
mou um gole do chá rápido demais e queimou a língua.
Ele era ruim nisso. Muito, muito ruim.
Relaxe. Não pareça um idiota. Ninguém está prestando aten-
ção em você.
Ele continuou sentado, inclinando-se para trás e se endi-
reitando novamente e depois reclinando-se mais uma vez, inca-
paz de decidir qual era a posição correta numa piquetagem. Ou
melhor, qual era a posição correta para uma pessoa que não es-
tava numa piquetagem5.
Seu olhar percorreu o feltro verde das mesas de Vinte-e-
Um e o preto e vermelho das roletas. Havia um fluxo constante
6

de jogadores observando, um ciclo previsível – um hóspede de


olhos claros se dirigia para um local à mesa, observava as fichas
dali diminuírem e depois deixava uma nova vítima tomar seu lu-
gar. As nuvens de fumaça de charuto que flutuavam no ar deram
a Caleb a sensação de que ele estava espiando um sonho suado e
febril de alguém.
Depois de ter se acostumado com o clique das fichas e com
o barulho das cartas sendo embaralhadas, e depois dele ter per-
cebido que cada grito vindo de lá debaixo não era porque alguém
o havia identificado, Caleb conseguiu deixar sua mente vagar um
pouco. Ele esperava que seus amigos na Academia estivessem
bem. Caleb relembrou em sua curta conversa telefônica no início
daquele dia.
— Você supostamente deveria saber de todos os segredos
possíveis – Caleb disse para Einar depois colocar a linha no
mudo. — Alguma ideia de onde a Garde Terrestre aprisionaria
Gardes que não cooperarem?
— Não, eu não sei onde a Garde Terrestre estoca os seus
delinquentes – Einar respondeu. Ele coçou o queixo. — Mas eu
tenho um pressentimento de que o Derek King pode saber.
Existe uma razão para a Fundação sempre ter usado os homens
dele para caçar os Gardes. Ele conhece todos os segredos.

5
N.T. Posição que os agentes policiais disfarçados ficam enquanto ob-
servam o alvo num local movimentado.
6
N.T. Jogo de azar dos cassinos, também chamado de Blackjack.
— Se eles têm um complexo seguro o suficiente para man-
ter Seis e Sam, eles podem estar usando o mesmo local para es-
conder aquele jumper de bosta – Cinco disse.
Caleb mexeu a cabeça. — Mas isso significaria que a
Garde Terrestre está trabalhando com a Fundação.
Einar sorriu. — Finalmente você está começando a ver as
coisas – ele gesticulou para o celular. — Diga para seus amigos
que vamos procurar por essa prisão. De fato, nós vamos amar
poder ajudar. Se o King cooperar, teremos algumas informações
para eles no mais tardar hoje à noite.
Derek King. O diretor executivo dos Blackstones. O cara
que deu ordens aos mercenários que tentaram matar Caleb e
seus amigos em várias ocasiões no passado.
O cara parado ali, na ponta da mesa de dados, com um
sorriso estúpido no rosto bonito. King usava um terno marrom
com uma camisa de lavanda desabotoada, o peito bronzeado à
mostra. Uma mulher loira com uma enorme juba de cabelos en-
caracolados segurando uma ampulheta estava debaixo dos om-
bros dele. Ela usava um vestido vermelho e azul decotado e bri-
lhante, parecendo uma versão humana de um fogo de artifício.
Derek colocou o punho na cara da mulher, os dados presos ali
dentro. Ela franziu os lábios e soprou a mão dele.
— Aff – Caleb disse.
Caleb não tinha certeza, mas ele achava que Isabela já ti-
nha tentado mais ou menos seis aparências diferentes antes de
chamar a atenção de King. Ela havia passado pela mesa como
uma deslumbrante mulher do Oriente Médio, retirou-se para um
elevador, mas King não se interessou, então ela voltou como
uma loira de olhos azuis em um terno elegante. Quando isso
também não deu certo, Isabela reapareceu como uma ruiva sar-
denta com um sorriso brincalhão, e depois na forma de uma mu-
lher impressionante claramente inspirada em Lexa, e, eventual-
mente, uma jovem ágil. Essas foram as aparências que ela esco-
lheu que Caleb conseguiu notar, aquelas que olharam na direção
dele e piscaram, ou sopraram um beijo, ou exibiram brevemente
um trecho de perna.
Isabela. Ela não levava nada a sério.
Depois de horas tentando, foi a maravilhosa mulher do
estacionamento que chamou a atenção de King. Aparentemente,
os gostos de King eram clichê. Enquanto Caleb observava, Isa-
bela jogou a cabeça para trás e riu exageradamente de algum
comentário que King fez. Caleb estremeceu.
— Eu apenas vejo um guarda-costas. E você?
Caleb precisou se esforçar para não se levantar em deses-
pero e mais esforço ainda para não deixar um de seus clones es-
caparem. Ran havia se aproximado dele sem que ele percebesse.
Ela estava vestindo aquela roupa justíssima de Isabela, embora
desta vez tenha adicionado um par de meia-calças.
— Jesus – ele disse. — Você me assustou.
— Você estava bem focado.
Caleb pigarreou. — É, bem... eu também só vejo um cara
grandão...
Ele gesticulou discretamente em direção à sombra de
King, onde um homem bastante grande estava parado a uma dis-
tância respeitosa da mesa de jogos, mas que não se mexia desde
que King chegou. Ele usava um terno preto por cima de seu
corpo maciço, tinha o cabelo vermelho escuro que estava pente-
ado para trás em um rabo de cavalo, uma cicatriz que criava um
desfiladeiro em sua barba espessa. Ele parecia um viking mo-
derno.
— Ele não está usando nenhum fone para comunicação –
Ran observou. — Se estivesse, eu iria presumir que haveria mais
guarda-costas. Mas pelo visto ele é o único.
— Einar estava certo – Caleb admitiu de má vontade. —
King se sente seguro aqui. Foi uma boa escolha vir aqui para
pegá-lo – ele desviou o olhar de Isabela por um momento e olhou
para Ran, procurando por segurança no rosto tipicamente se-
reno dela. — Estamos fazendo a coisa certa, né? Quero dizer,
uma parte de mim ainda sente que deveríamos estar correndo e
volta para a Academia.
Como sempre, Ran considerou suas palavras antes de fa-
lar. — Este homem, o King, ele é nosso inimigo. Se pudermos
atingir os Blackstone, vamos prejudicar a Fundação por conse-
quência. Além disso, ele poderia saber algo sobre Sam e Seis.
Caleb assentiu. Eles já haviam discutido isso antes, mas
ele ainda estava procurando um motivo para não concordar com
a ideia de Einar de interrogar King, mesmo que o plano já esti-
vesse em andamento.
Ele voltou sua atenção para a mesa de jogos. King se in-
clinou para a frente e jogou os dados. Eles ricochetearam na pa-
rede dos fundos e uma alegria subiu da multidão reunida. Ele
deve ter conseguido um número alto. Ou não? Caleb não tinha
ideia de como os dados funcionavam. Enquanto Caleb observava,
Isabela se inclinou para sussurrar algo no ouvido de King.
— Isso é nojento – Caleb disse.
Ran bateu nas costas dele levemente. — Faz parte da mis-
são.
Caleb suspirou. — Eu sei, eu sei. É só que... aquele cara é
ruim. E a Isabela é... eu não sei. Esquece. Eu não sei por que isso
está me incomodando tanto.
Ran sorriu. — Você não sabe?
— Por que você está me olhando desse jeito?
— Por motivo nenhum – Ran gesticulou com o queixo
para o andar do cassino. — Está acontecendo.
Caleb olhou para baixo a tempo de ver o crupiê7 passando
para King uma bandeja cheia de batatas fritas bem embaladas.
King entregou elas a seu guarda-costas enorme, abraçou Isabela
e a levou para longe da mesa de jogos. Eles estavam em movi-
mento.
Caleb levantou-se e depois passou a mão para desamassar
sua camisa. Ran passou a mão por baixo do braço dele e os dois
caminharam lentamente ao longo do nível da varanda, seguindo
para o elevador.
Lá embaixo, King se separou brevemente de seu guarda-
costas, o homem enorme parou num caixa para trocar as fichas
por dinheiro. Enquanto esperavam, King deixou suas mãos va-
garem pelas costas de Isabela. Ela disse alguma coisa e King riu
deliciosamente. Caleb se perguntou o que era.
— É sério que esse cara só tem um guarda-costas?
Duanphen disse, se juntando a eles após vir do outro lado
da varanda, onde também esteve observando o andar do cassino.
— Parece que sim – Ran disse.
— Ótimo. Será mais fácil assim.

7
N.T. Pessoa que cuida do cassino ou das mesas de jogos dos cassinos.
— Não diga isso – Caleb respondeu. — Você vai jogar
uma praga em nós.
Eles Isabela, King e o guarda-costas entrarem no eleva-
dor. Caleb relaxou os ombros.
— Parecemos normais o suficiente?
Ran ergue uma sobrancelha. — Sim, Caleb.
— Entraram no último elevador à direita – Duanphen re-
portou.
Todos olharam para a flecha banhada a ouro acima dos
elevadores, observando o último elevador do lado direito subir e
subir até finalmente parar. Décimo quinto andar.
— Um andar abaixo da nossa cobertura – Ran disse.
— Isso será mais fácil ainda – Duanphen disse.
Caleb grunhiu. — A palavra com “f” de novo. Você nunca
participou desse tipo de missão antes? Elas nunca acontecem da
forma que planejamos.
— Na verdade, a nossa tendia a dar muito certo – Duan-
phen disse. — Até vocês da Academia aparecerem na Suíça.
Caleb apertou o botão, chamando outro elevador. Assim
que estavam dentro dele, ele tamborilava os pés compulsiva-
mente, um fato que ele não percebeu até Ran o cutucar de forma
gentil.
— Desculpa – Caleb disse.
Enquanto as portas estavam se fechando, Duanphen in-
clinou sua cabeça para o lado. Caleb seguiu o olhar dela e vis-
lumbrou uma garota de cabelos ondulados com uma mono so-
brancelha passando pelo corredor
— O que foi? – ele perguntou.
— Nada – ela disse. — Pensei ter visto alguém familiar.
As portas se fecharam e o elevador sibilou para cima. Se-
gundos depois, os três entraram em um corredor tipicamente
elegante – detalhes em ouro, iluminação embutida e portas com
aldravas ornamentais. Havia um espelho no teto que Caleb
achou desnecessariamente vertiginoso.
Logo em frente, à porta mais próxima do elevador, o
guarda-costas de King estava começando a sentar seu corpo
enorme numa cadeira de vime absurdamente frágil. O guarda-
costas avaliou os três com olhos cansados e entediados, a bunda
descansando sobre o assento como se não tivesse certeza se de-
veria terminar de se sentar.
Ran passou o braço por baixo do de Caleb novamente e
eles tropeçaram para fora do elevador juntos, como um par de
adolescentes bêbados voltando de uma longa noite. Duanphen
seguiu atrás deles, corpo reto, sem se preocupar com nenhum
tipo de ardil.
— Esse não é o andar de vocês – o guarda-costas disse,
decidindo ficar de pé.
— Não inglês – Ran respondeu enquanto eles se aproxi-
mavam.
O guarda-costas não caiu nessa, nem por um segundo. A
mão dele seguiu rapidamente para dentro do casaco, provavel-
mente procurando por uma arma.
Devagar demais.
Ran e Caleb se separaram e Duanphen se apressou entre
eles. Ela agarrou a garganta do guarda-costas e liberou uma cor-
rente elétrica de alta voltagem nele.
Os joelhos do guarda-costas amoleceram e por um mo-
mento eles pensaram que ele iria apagar de imediato. Mas ele era
um homem corpulento... o suficiente para aguentar uma des-
carga elétrica. Com muito esforço, ele conseguiu atingir Duan-
phen com um soco no rosto.
— Pare... pare... pare... sua... sua... sua... put— o guarda-
costas disse através dos dentes.
Caleb soltou um de seus clones para agarrar o braço do
guarda-costas. O clone se contorceu e estremeceu quando ele
também foi atingido pela descarga elétrica de Duanphen, mas
segurou o guarda-costas o homem ficar inconsciente por conta
do choque. Duanphen continuou mantendo contato com ele por
alguns segundos mesmo depois dele ter apagado.
— Já chega, já chega – Caleb disse. — Ele já está desacor-
dado.
Duanphen parou de dar choque no guarda-costas, mas
não disse nada em resposta. Ela espanou as mãos e esperou.
— Temos que esconder ele – Caleb disse enquanto ele
soltava mais dois clones para carregarem o guarda-costas in-
consciente.
Enquanto isso, Ran tentou abrir a porta do quarto de ho-
tel do King. Estava destrancada. Assim como eles haviam plane-
jado.
— Já estava na hora. Essa aberração é um saco.
Isabela – não mulher loira que parecia uma salva-vidas, a
real – estava parada em cima do corpo caído de Derek King. Ca-
leb se viu sorrindo com uma combinação de alívio e admiração
quando entrou no quarto. Parecia que King havia tentado se des-
pir, mas só conseguiu tirar o cinto e um sapato – o sapato com o
qual Isabela aparentemente o golpeou. Havia um corte decente
na testa dele, sangue escorrendo na direção dos olhos. King es-
tava atordoado e tentando se levantar mas, toda vez que ele ten-
tava, Isabela pisava nas costas dele, pressionando-o contra o
chão.
— Gostosa – disse um dos clones de Caleb enquanto ele
observava Isabela na sua gloriosa pose sobre o direito executivo
caído no chão. Caleb estremeceu quando ouviu o comentário,
mas ele duvidava que Isabela tivesse ouvido.
— Fique aí no chão, babaca – Isabela estava dizendo para
King.
— Quem... quem são vocês? – King murmurou.
— Silêncio – Isabela o reprimiu, afundando a ponta de seu
salto nas costas dele.
Enquanto isso, os clones de Caleb haviam conseguido car-
regar o guarda-costas inconsciente de King até o quarto e o jo-
garam no chão. Ali dentro, eles começaram a rasgar os lençóis e
a usar os restos para prender os pulsos e tornozelos do homem.
Eles não seriam amarras tão seguros para um cara tão grande,
mas eles planejavam estar bem longe quando ele acordar.
Duanphen ficou parada na porta por alguns segundos, ob-
servando e ouvindo se alguém alarmes havia sido disparados nos
quartos vizinhas. Nada. Todo o encontro durou menos de um
minuto. Ela fechou e trancou porta do quarto de King atrás dela.
— Vamos levantá-lo – Ran disse, se aproximando de
King.
Caleb pegou um dos braços, enquanto Ran pegou o outro,
e ambos levantaram King. Os olhos dele estavam arregalados e
piscavam sem parar, ainda se recuperando do golpe na cabeça de
Isabela, que esticou o braço e beliscou a bochecha dele.
— Obrigado por me ensinar a jogar os dados – ela disse.
— Tchau, tchau.
Ran e Caleb arrastaram King em direção à varanda do
quarto. No começo, ele mancou ao lado deles, atordoado demais
para relutar. Mas depois que Ran usou sua telecinese para abrir
as portas da varanda e o ar noturno invadiu o lugar, algo estalou
no cérebro do homem. Ele começou a cravar os calcanhares no
tapete e suas palavras se tornaram mais nítidas.
— O que vocês estão fazendo? – ele perguntou num tom
imperativo. — Parem! Parem!
Caleb ficou se perguntando como seria para King perce-
ber que estava prestes a ser lançado do parapeito de mármore da
varanda.
— Não vamos machucá-lo – Caleb disse, tentando parecer
neutro.
— Já fizeram isso – King respondeu.
— Não vamos mais te machucar, então – Caleb disse. Ele
não queria que esse cara se sentisse confortável, então ele acres-
centou: — A menos que você nos obrigue.
Assim que chegaram na varanda, Ran pegou um cinzeiro
de cerâmica que estava numa mesa e usou o Legado para car-
regá-lo até que brilhasse num tom vermelho. Ela segurou o ob-
jeto brilhante sobre a borda da sacada, acenou-o duas vezes e
depois grunhiu enquanto absorvia a energia de volta ao seu
corpo, não deixando o cinzeiro detonar.
— Que diabos você está fazendo? – King perguntou.
Cinco desceu flutuando do andar de cima. A parte da mis-
são dele era ficar flutuando sobre o hotel e esperar pelo sinal de
Ran. King se encolheu para trás quando o Lorieno caolho o agar-
rou pela gola da camisa.
— Aguenta aí... aguenta – King manejou dizer.
— Você se aguente aí – Cinco grunhiu.
Cinco começou a subir de novo, dessa vez segurando King
pela roupa, mas hesitou quando percebeu que Caleb ainda estava
segurando o braço do velho.
— Você já pode soltá-lo agora – Cinco disse.
— Vou com vocês – Caleb respondeu. — Eu sei que esse
cara é uma escória, mas eu não vou deixá-lo sozinho com vocês
dois por nem um minuto.
Os lábios de Cinco se flexionaram e ele estava prestes a
soltar algum tipo de ameaça, mas Ran colocou uma das mãos no
ombro dele. Isso surpreendeu Caleb.
— Leve o Caleb – ela disse para Cinco. — Vamos limpar
isso aqui e vamos subir para lá logo depois.
De dentro do quarto do hotel, Isabela gritou: — Por
Deus, esse cara tem muitos relógios! – claramente a busca por
alguma coisa nas bagagens de King já havia começado.
Caleb ficou olhando para Cinco, ambos ainda segurando
King, que havia ficado em completo silêncio depois que o Lori-
eno apareceu. Depois de alguns momentos, Cinco deu de om-
bros.
— Que seja. Se segure aí – ele disse.
Caleb não hesitou em passar seus braços ao redor do pes-
coço de Cinco, embora parecesse ridículo e esquisito.
King estava tentando ser estoico agora, mas ele deixou
escapar um gritinho quando Cinco começou a flutuar para cima,
ainda segurando o homem pela parte de frente da camisa. Caleb
pensou ter ouvido o barulho de tecido rasgando. King deve ter
ouvido também, já que ele agarrou os braços de Cinco em se-
guida para se segurar.
Nem parecia um voo, na verdade. Estava mais para um
pulo longo. Cinco os pousou no jardim do telhado que fazia parte
da cobertura que eles haviam reservado. E ali estava Einar, sen-
tado numa pequena mesa de metal com metade de um bife na sua
frente, rodeado por videiras e flores à luz do luar. Uma vela cin-
tilava na mesa, o fogo reluzindo nos olhos de Einar.
— Olá, Derek – Einar disse, com um pedaço do bife com
um pouco de sangue ainda na boca. — Obrigado por aparecer.
Caleb rolou os olhos. Há quanto tempo Einar estava sen-
tado exatamente naquela posição com aquele bife na frente dele
só para fazer essa ceninha?
Cinco empurrou King na direção de Einar. O homem de
negócios tropeçou – ele ainda estava usando somente um par dos
sapatos. Com sua telecinese, Cinco pegou uma cadeira que estava
na mesa na frente de Einar e a inclinou, indicando que King de-
veria se sentar ali.
— Einar, espera aí, espera aí— percebeu-se um tom de
pânico na voz de King enquanto Cinco empurrava a cadeira de
volta para a mesa. Caleb ficou de lado, observando, as mãos para
trás, uma segurando a outra.
— Por que você está tão assustado, Derek? – Einar per-
guntou com um sorriso provocante. — Eu só quero colocar o
papo em dia.
— Eu sei o que você está fazendo com o pessoal da Fun-
dação – King disse. Ele lançou um olhar por cima dos ombros na
direção de Cinco e Caleb, seu pomo de adão tremendo de medo.
Caleb sentiu seu estômago embrulhar por fazer parte desse
grupo de assassinos. — Não trabalho mais para eles – King con-
tinuou. — Eu te conto o que você quiser saber.
Einar levantou uma sobrancelha, expressando surpresa.
Quando estavam discutindo sobre este interrogatório, todos eles
esperaram ter que recorrer a mais ameaças, ou possivelmente
deixar Einar usar seu Legado para manipular King. Einar colo-
cou os talheres na mesa e reconsiderou o homem.
— O que quer dizer com “não trabalho mais para eles”? =
Einar perguntou. — Eu nunca fiz uma missão para a Fundação
que não contasse com os Blackstones como reforço pessoal.
— Eles cancelaram nosso contrato – King disse. — Não
precisam mais de nós. Eles estão com os rapazes na NU agora.
Caleb deu um passo para frente. — O que você quer dizer
com isso?
King olhou por cima do ombro. — Depois do que aconte-
ceu na Suíça, a Fundação passou a se dar bem com a Garde Ter-
restre. Acho que esse sempre foi o objetivo deles. Eles se apre-
sentaram como uma organização sem fins lucrativos que resga-
tava Gardes que eram abusados em outros países que não faziam
parte do grupo da Garde Terrestre.
— As Nações Unidas caiu nessa?
— Com certeza. Aqueles otários caíram direitinho.
— Pelo menos existem pessoas boas na Garde Terrestre...
– Caleb murmurou. — Quero dizer, tem que existir...
Caleb percebeu que ele tinha atrapalhado todo o interro-
gatório. Einar parecia exasperado e até o King olhou para ele
como se ele fosse a pessoa mais burra do mundo.
— É, deve ter uns corações bons nas NU – King disse. —
Mas a maioria daqueles caras participam das mesmas festas que
o pessoal da Fundação – ele lançou um olhar para Einar. —
Quem é esse novo garotão, Einar? Ele parece um pouco bundão
demais para estar andando com você.
— Não se preocupe com ele – Einar disse. — Se preocupe
comigo.
— Oh, eu me preocupo – King tocou uma ferida na testa,
estremeceu e pegou um guardanapo da mesa para secar o san-
gue. — Você tem noção de quantos homens bons eu perdi na-
quelas missões da Fundação? A situação estava ficando tão ruim
que o valor que eles pagavam não era mais suficiente para treinar
novos recrutas. Estou grato por terem cancelado o contrato.
Francamente, sua raça me faz cagar nas calças. Por isso eu vou
te contar o que quiser saber.
— Como podemos achar o Lucas Sanders? – Einar per-
guntou.
— Quem?
— O que se transfere para outros corpos – Einar explicou.
— Os Blackstones apreenderam ele meses atrás.
— O maníaco? – King suspirou profundamente. — Se eu
soubesse, eu diria.
Os olhos de Einar se estreitaram em suspeita, mas Caleb
interferiu antes que ele pudesse fazer outra pergunta.
— Você sabe alguma coisa sobre a prisão construída para
prender Gardes?
King pensou por um momento. — Na verdade, a Funda-
ção de fato tinha uma dessas no México. Bem no meio do deserto
de Chihuahuan. Eles compraram por um preço bem barato do
governo mexicano e estavam fazendo algumas reformas com
para aprimorá-la. Alguns dos meus rapazes foram designados
para trabalharem lá como seguranças, limpar os quarteis, esse
tipo de coisa. Parece que eles estavam a preparando para prender
o maior número de aberrações – sua raça – lá.
— Por que você está falando no passado? – Einar pergun-
tou.
— Eu perdi o contrato de lá há algumas semanas, por isso
estou falando no passado – King respondeu com um tom de ar-
rogância. — Os carinhas das Nações Unidas tomaram o meu lu-
gar.
— Pacificadores – Caleb disse.
— Pois é. A Fundação disse algo sobre um subcontrato
com a Garde Terrestre. Acho que por eles terem se tornado ami-
guinhos, não podem se associar com mercenários como eu. As-
sim conta a história dos grandes negócios, não é mesmo? As coi-
sas são ilegais até eles não serem. Tipo proibição, não é mesmo?
— Nos poupe das aulas de história, King – Einar disse.
— Desculpe, desculpe – King disse com um sorriso ner-
voso, se lembrando de onde estava. — Olhe, se vocês estiverem
tentando rastrear o Lucas Sanders ou qualquer outro Garde que
estiver com a Fundação – bom, pelo menos aqueles que não po-
dem trabalhar nas missões de campo para eles... – King olhou
para Einar. — ... lá seria o primeiro lugar que eu procuraria.
— Como eles estão nos rastreando? – Caleb e Einar fize-
ram essa pergunta em uníssono, então ambos se olharam. Cinco
grunhiu, impressionado.
— Eles não estão rastreando vocês – King respondeu. —
Eles estão rastreando nós. Os membros da Fundação cujo iden-
tidade você comprometeu. Todos tiveram seus futuros lidos por
aquela garota com a Precognição que trabalha para eles.
Einar bufou. — Salma? Aquela que se veste como uma
cigana? Ela só consegue ver o que... duas horas do futuro? Cos-
tumávamos brincar que ela não conseguia ver nada além da so-
brancelha dela, e é esse tipo de gente que estão usando como
seguranças? A Barnaby colocando-a para leilão é uma coisa...
mas usá-la contra nós? É um insulto!
Caleb se lembrou da garota que Duanphen disse ter visto
no lobby. Ele começou a dizer algo, mas King o interrompeu.
— Eu acho que ele praticou bastante desde que você pulou
fora – King disse. — As leituras dela não são precisas, mas ela
nos disse que você iria nos fazer uma visita. Disse que talvez
iriamos querer mudar nossas rotinas se estivéssemos acima de
quarenta e dois por cento. Não tenho certeza de como eles che-
gam a esse número. Se eles estão rastreando vocês, é através
dela. Eles estão vigiando os futuros mais prováveis de vocês.
— Qual era a sua porcentagem? – Einar perguntou.
— Vinte e quatro – King disse com um risinho. — Eu
sempre gostei de dar tiros no escuro.
— Ela está aqui? – Caleb perguntou. — Salma.
— Não – King disse. — Ela leu o meu futuro semanas
atrás. Acho que minha porcentagem aumentou.
O olhar furioso de Einar atingiu King, que estava tambo-
rilando os dedos na mesa. Enquanto isso, King havia relaxado
na cadeira, como se fossem velhos amigos conversando. O ho-
mem estava sendo muito mais cooperativo do que eles espera-
vam. Mas... se você quisesse esconder algo de Einar, sua melhor
chance não seria fazê-lo pensar que ele não precisaria usar seu
Legado?
— Ele está mentindo – Caleb disse. — Cooperou fácil de-
mais.
Einar curvou os lábios. — Droga. Concordo com o Caleb.
King ergueu as mãos. — O que você quer di—
E então, de repente, a linguagem corporal de King mudou.
Ele esticou os braços sobre a mesa, acertando o prato que estava
ali, na tentativa de agarrar as mãos de Einar, que recuou. Cinco
se lançou para frente para empurrar King de volta na cadeira. O
homem de negócios, subitamente em pânico, resolveu agarrar os
lados da mesa.
— Você tem que sair daqui – ele disse para Einar.
— O que você fez com ele? – Caleb perguntou.
— Estou fazendo ele se importar comigo – Einar respon-
deu, forçando mais o seu Legado, ao mesmo tempo que encarava
o King. — Eu sou o centro do mundo dele agora.
— Você é tudo para mim – King concordou. — Mas eu
menti para você há pouco. A louca da Fundação não me deu vinte
quatro por cento. Ela me deu noventa e quatro por cento. E foi
há algumas horas. Eles sabem que você está aqui, Einar.
O estômago de Caleb se embrulhou. Ele olhou para Cinco,
que estava em cima de King. — Você deveria ir pegar a nave –
Caleb disse. — Talvez vamos precisar.
— Ele está certo – Einar disse, se levantando. — É me-
lhor não ficarmos aqui.
— Isso – King disse. — É melhor vocês saírem daqui. Eu
menti sobre outra coisa também. Eu sei onde o Lucas Sanders
está.
Einar se inclinou para frente. — Onde?
— Lá embaixo – King disse. — Dentro do corpo do meu
guarda-costas.
TAYLOR COOK
A.G.H – POINT REYES – CALIFÓRNIA

o caminho da Academia até o acampamento deles, as armas abai-


xadas, os olhos brilhando com vários níveis de reverência, respeito
e medo. Enquanto marchava por entre eles, Taylor não pôde deixar
de endurecer os ombros um pouco. Transmitia uma sensação de
empoderamento, ser visto assim. Kopano adoraria. Embora esses
olhares não fossem realmente direcionados a ela, Taylor pelo me-
nos estava do lado do real foco.
— Sr. Smith! – um Pacificador de cabelos castanhos com um
sotaque forte de Nova York apareceu em meio aos seus compa-
nheiros. Taylor ficou atenta, mas ele não estava armado. Ele veio
direto na direção de John e insistiu em apertar a mão dele. — Eu
estava na cidade durante a invasão. Você salvou minha vida, cara!
Eu sempre quis agradecê-lo. Eu me juntei aos Pacificadores por
causa de você!
— Você não precisa me agradecer – John disse, dando tapi-
nhas no ombro do Pacificador.
— Eu também não concordo com essa ideia de Inibidor – o
Pacificador deixou escapar. — E é provavelmente por isso que es-
tão me transferindo daqui—
— Dê espaço a ele, LaRussa! – um dos outros Pacificadores
gritou. Com um sorriso arrependido, LaRussa voltou para o seu
posto. Os Pacificadores que estavam em seus postos acompanha-
ram John e Taylor adiante, adentrando no campo que Taylor con-
siderava como sendo território inimigo.
— As pessoas sempre têm essa reação com você? – Taylor
perguntou, quase que em sussurro.
— Sim – John respondeu. — E eu nunca me acostumo.
Taylor voltou sua atenção para o acampamento. Ela já esteve
aqui antes, uma vez durante a escapada de seu grupo de amigos para
fora do campus e novamente durante sua reunião supervisionada
com o pai. Lembrou-se dos prédios de metal que serviam de barra-
cões e refeitórios, do arsenal, das cercas altas com suas câmeras de
segurança e da incongruente área para piqueniques e cabines reser-
vadas para visitas familiares.
Mas ela não se lembrava das tendas. Os cercados de lona
preenchiam todos os espaços entre os prédios, a população de Pa-
cificadores no acampamento se espremia para preenchê-los. Taylor
não tinha como ter certeza do número de Pacificadores que esta-
vam ali, mas parecia que havia pelo menos cinco vezes mais solda-
dos designados para cá do que durante sua última visita.
Bem, Greger havia prometido a eles um exército.
A Academia tinha câmeras apontadas para o acampamento
dos Pacificadores. Eles saberiam se os soldados fizessem um movi-
mento, mas não eram capazes de ver o interior do campo. Ela não
fazia ideia de que haveria tantos deles. Quando Taylor voltasse, ela
pensou em sugerir a Nove que infiltrassem alguém ali para terem
mais visão.
Supondo que ela voltará.
Taylor achou que seriam levados ao prédio onde os Pacifi-
cadores realizavam suas reuniões oficiais. Em vez disso, a escolta
silenciosa os levou diretamente a um trailer no meio do acampa-
mento. O aposento particular de Archibald. O pensamento de estar
em um espaço tão apertado alarmou Taylor mais do que estar entre
todos aqueles soldados. Lá fora, pelo menos John poderia voá-los
para longe dali.
— Você consegue nos tirar dali de dentro caso isso seja uma
armadilha, né? – Taylor perguntou ao John enquanto o Pacificador
que liderava a escolta batia na porta de Archibald.
— Espero não precisar fazer nada. Não queremos piorar as
coisas – John disse. Taylor olhou para ele exasperadamente. — Mas
sim. Ficaremos bem.
Eles encontraram Archibald vestindo uma camisa regata e a
calça do uniforme militar, arrastando um barbeador elétrico pelas
bochechas. O velho soldado tinha um rosto inexpressivo, mas Tay-
lor percebeu como os olhos dele se arregalaram um pouco ao en-
contrar John à sua porta.
— Coronel Ray Archibald? – John começou. — Eu sou—
— Eu sei quem você é – Archibald respondeu. — Malcolm
nos contou que você estava aqui no campus. Você veio explicar o
acontecimento com o pouso nada elegante do Escumador Moga-
doriano nos terrenos da minha Academia?
Taylor se arrepiou ao ouvi-lo chamando esse lugar “dele”,
mas ficou em silêncio.
— Sim – John disse educadamente.
Archibald se virou para Taylor. — E você, Srta. Cook. Você
está aqui para se voluntariar na implantação do Inibidor? Eu acho
que você é da década de noventa, não?
— De jeito nenhum – Taylor respondeu.
— Tudo bem, então – Archibald disse. — Entrem.
Archibald se moveu e, ao mesmo tempo, dispensou a escolta
de Pacificadores. Ele queria ficar a sós com eles. Interessante.
O interior do trailer de Archibald era tão espartano e limpo
quanto o próprio homem. As únicas decorações eram uma pilha de
livros sobre táticas de contra insurgência e uma pilha de pratos de
jantar lavadas na pia. Por outro lado, parecia que Archibald mal vi-
via aqui.
— Tiveram sorte de que os Pacificadores que os trouxeram
aqui são leais a mim – Archibald disse enquanto fechava a porta do
trailer. — A maioria dos outros teria levado vocês direto para o
Karlsson.
— O que você quer dizer com isso? – Taylor perguntou. —
Eu pensei que você era o chefe da segurança.
— Eu também – Archibald respondeu. Ele deixou de lado o
barbeador, pegou sua jaqueta e começou a vesti-la. — Minha posi-
ção de que não deveríamos estar antagonizando os alunos da Aca-
demia e criando um ambiente perigoso não caiu muito bem. Os
Pacificadores que estão chegando às ordens de Greger estão mais
propensos a concordarem com as novas políticas da Garde Terres-
tre do que com as minhas.
— Você sabe que essas novas políticas são uma porcaria, né?
– Taylor perguntou, dando um passo à frente de John. — As pes-
soas da Fundação estão manipulando a Garde Terrestre.
Archibald suspirou. — Eu sou um soldado. Ultimamente, eu
só posso seguir ordens. E nesse momento, depois dos aconteci-
mentos na Suíça, a atitude predominante em relação a vocês é a de
que são uma arma perigosa que precisa de regulamentação e con-
trole – o olhar dele mudou de Taylor para John. — Quando te vi
na porta, tive esperanças de que você estava me trazendo boas no-
vas.
Taylor percebeu que, graças a seu desejo de desabafar com
Archibald, acabou por deixar John em segundo plano. Ela se afas-
tou e John lançou-lhe um olhar agradecido.
— Estou aqui para informá-lo que amanhã a Osíris, uma
nave de guerra Mogadoriana que estava escondida atrás da lua, vai
pousar a uma distância segura daqui.
— Jesus Cristo! – Archibald respondeu. — Você sabe que
existe uma ordem para massacrar qualquer nave Mogadoriana que
pousar na Terra, né?
— Sim, e peço que ordene para que eles não façam isso –
John respondeu. — Graças aos esforços da Taylor aqui e de outros
alunos da Academia, os próprios Mogadorianos que estão a bordo
concordaram em se render e em serem transferidos para o Alaska.
A guerra vai finalmente e oficialmente acabar, de uma vez por to-
das.
— Ao passo que outra guerra se inicia – Taylor murmurou.
— Me atualize – Archibald disse. — Me conte tudo.
Taylor se sentou e observou enquanto John desenrolava a
história para Archibald. Foi Taylor quem fez contato com a nave
de guerra durante a missão da Fundação. Foi Taylor quem trouxe
essas informações de volta para Nove, que contatou John. Os alu-
nos da Academia ajudaram a preparar John para negociar com os
Mogadorianos e, finalmente, contribuíram para sua rendição pací-
fica. Quando o fundo terminou, John deu a Archibald as coorde-
nadas do desembarque da nave de guerra.
A maneira sincera de falar de John fez com que a mentira
parecesse verdade. Archibald olhou para Taylor de uma forma res-
peitosa, algo que era novo. E daí se ela não exatamente da forma
que John contou? Ela merecia crédito por tentar parar a Fundação,
mas ninguém na Garde Terrestre iria dar uma medalha para ela por
isso.
— Eu vou passar tais informações para os meus superiores
– Archibald disse. — Vamos mandar seguranças para lá e preparar
o transporte dos Mogadorianos.
— E assegure que eles tenham certeza de que estamos aqui
para ajudar – Taylor acrescentou. — Sabe, para que eles não tentem
implantar o Inibidor em nós durante o acontecimento.
— Okay, Srta. Cook – Archibald respondeu. — Bem lem-
brado.
Um walkie-talkie vibrou em vida na cozinha de Archibald. —
Atenção, senhor – Taylor reconheceu a voz como sendo de La-
Russa, o Pacificador que veio cumprimentar John. — O estático
está a caminho.
Taylor ficou tensa. Isso pareceu um alerta para ela.
— O que isso quer dizer? – John perguntou.
— Que é melhor irmos para fora – Archibald respondeu. —
Karlsson está vindo para cá.
Como esperado, um grande grupo de soldados Pacificadores
se reuniu em um semicírculo na frente do trailer de Archibald. Eles
carregavam uma mistura de armas – os canhões que liberavam as
coleiras eletrificadas que Taylor já vira antes, além de espingardas
tradicionais e rifles de tiro rápido. Era uma visão ameaçadora e Tay-
lor imediatamente sentiu o desejo de recuar quando ela saiu atrás
do coronel. Pelo menos foi animador ver que os olhos de alguns
dos soldados se arregalaram nervosamente quando John surgiu
atrás dela.
Greger estava no meio dos Pacificadores, expondo um sor-
riso brega no rosto excessivamente hidratado. O representante da
Garde Terrestre vestia um colete à prova de balas sob o paletó.
Taylor revirou os olhos. Se eles fossem atacar Greger, com certeza
não usariam armas.
— Coronel Archibald, eu não estava sabendo da sua pe-
quena reunião com o nosso mais estimado convidado – Karlsson
disse, seus olhos na direção de John.
— É sobre uma questão de segurança – Archibald respon-
deu secamente. — Já iria lhe informar.
— Hum – Karlsson respondeu. O sorriso dele aumentou
quando olhou para Taylor. — Olá, Srta. Cook. Eu te anunciei seu
nome há algumas horas, mas eu não esperava que uma adolescente
fosse tão pontual. Pelo menos você apareceu, já seus outros cole-
gas...
Diante de tantas armas e soldados, Taylor levou um mo-
mento para encontrar sua voz. Ela já passou por coisas piores e
mais mortais na Mongólia. Ela não seria intimidada por um valen-
tão e seus capangas.
— Eu não estou aqui para fazer parte da porcaria do seu
procedimento – ela disse, seu tom de voz intencionalmente alto.
— Então você está violando o Acordo Garde e—
Taylor esteve pensando nesse momento desde que John pe-
diu que ela fosse com ele. Ela esteva pensando em tudo o que havia
de errado com a Garde Terrestre e com a Academia, tudo o que
precisava ser consertado. Ela não havia realmente colocado nada
disso em palavras; ela não havia ensaiado um discurso nem consul-
tado os outros alunos. Taylor decidiu improvisar.
— Nem vem – ela interrompeu. — Vocês da Garde Terres-
tre demonstraram que o interesse de vocês não é nos representar e
muito menos querer o nosso bem, então estamos suspendendo essa
coisa de Acordo Garde até que algumas mudanças sejam feitas.
Greger riu. — Você não está em posição para demandar
algo.
— Inicialmente, não queremos nada sendo implantado no
nosso cérebro ou em outras partes do nosso corpo – Taylor conti-
nuou, indiferente. — Queremos ter o direito de dizer não para qual-
quer missão da Garde Terrestre que nos seja designada – da Garde
Terrestre ou de qualquer organização afiliada. Pois é, todos sabemos
o que vocês fizeram com a Ran e com o Kopano, Greg. Isso não
vai rolar de novo.
— Greger – o representante corrigiu. — Isso é ridículo.
Taylor não parou. Ela tinha uma lista de coisas para falar
agora. — Além disso, não queremos que vocês decidam quem está
pronto para se formar ou quais tipos de missões devemos fazer.
Nós queremos uma... uma...
— Uma assembleia – John complementou.
— Uma assembleia – Taylor disse. — Você pode levar al-
guns representantes das Nações Unidas, mas a quantidade de Gar-
des será equivalente a dos representantes. Humanos e Lorienos. Ca-
ras como você provaram que não são capazes de tomar decisões
em nome de pessoas como eu.
— Isso não é um programa de debates – Karlsson disse, bu-
fando. — Você não tem autoridade alguma para sair aqui e começar
a demandar coisas. O mundo não funciona assim.
Novamente, Taylor o ignorou. Archibald estava ouvindo o
que ela dizia. Assim como os Pacificadores. A mensagem seria en-
tregue para os superiores de Greger. Talvez essas pessoas entendes-
sem.
— Até que nossos pedidos sejam atendidos e o Acordo
Garde seja revisto, não vamos sair da Academia – Taylor disse. —
Você não nos assusta. E se você tentar invadir o campus sem per-
missão, estamos preparados para nos defender.
Os lábios de Greger se torceram. — Mocinha, você está co-
locando mais lenha na fogueira do que é necessário. A Garde Ter-
restre determinou o que é necessário para a proteção da humani-
dade contra sua raça. Após ser devidamente regulamentada será,
para todos os efeitos, a melhor convivência com os Gardes.
Ele fez tudo parecer muito sensível.
— Lorotas – Taylor respondeu.
— Você está piorando a situação – Greger disse. Ele se virou
para John, apelando para o Lorieno. — Eu pensei que você tivesse
vindo para cá para tentar colocar um pouco de senso na cabeça do
Nove e dos demais. Ser o exemplo. Para receber seu próprio Inibi-
dor...
As sobrancelhas de John se ergueram ao ouvir aquilo. Pro-
vavelmente ele pensou que essa nova lei da Garde Terrestre não
seria aplicada aos Gardes originais. Depois de um momento, ele
apontou o dedão para Taylor. — Não. Foi mal – John disse. —
Estou com ela.
— Os Inibidores são uma transigência – Greger disse, seu
tom de voz mais lamurioso agora. — Eu sei que aprece invasivo,
mas é para o melhor interesse de todos. O mundo todo se sentirá
mais confortável—
Taylor o interrompeu de novo. — Eu acho que falo por to-
dos os Gardes quando digo que não estamos nem aí para o seu
conforto.
— Hum... a coisa é que... você não fala por todos nós.
Os Pacificadores abriram alas para que Melanie Jackson pas-
sasse por eles. A garota propaganda da Garde Terrestre de cabelos
loiros parecia muito melhor do que da última vez que Taylor a viu
– coberta de sangue e lama, chorando e tremendo. Ela estava de
volta com sua maquiagem e seu brilho pronta para as câmeras, ves-
tida com o uniforme azul e branco da Garde Terrestre. Melanie en-
carou Taylor com um olhar de condescendência, que fez Taylor se
lembrar da época do ensino médio.
E ela não estava sozinha.
Atrás de Melanie vinha a chinesa Jiao Lin, que também tinha
o Legado Recupero, que Taylor viu pela última vez trabalhando
para a Fundação na Mongólia. Ela havia trocado seu estilo de moda
rico que era bancado pela Fundação por um uniforme idêntico ao
de Melanie. Jiao sorriu quando Taylor a notou e mexeu as unhas
recém pintadas.
— Caraca, é tão esquisito ver você dar uma de líder. Quando
eu estava estudando aqui, você tinha medo até da própria sombra.
Quem falou isso foi o Lofton St. Croix. O canadense ma-
grelo não havia se livrado dos dreadlocks desde que se juntou à
Garde Terrestre, nem de seu sorriso de desprezo. O uniforme dele
não se encaixava tão bem quanto o de Melanie ou Jiao, provavel-
mente por causa dos espinhos que saiam de seus antebraços e om-
bros. Assim ele poderia projetar esses pequenos espinhos quando
quisesse. Enquanto olhava para Taylor, Lofton arrancou um de
seus espinhos do braço e começou a limpar os dentes com ele.
— Como está Isabela? – ele perguntou. — Ainda caidinha
por mim?
— Já chega, Lofton, nós concordamos que você não abriria
a boca – Melanie disparou, e Lofton levantou as mãos em resposta.
Ela voltou sua atenção para Taylor. — Estou feliz que esteja aqui,
Taylor. De verdade. Mesmo que você esteja dando uma de má e
tudo mais. Estamos aqui para clarear algumas informações que po-
dem ter sido passadas de forma errada sobre o programa dos
Cêpans e sobre os Inibidores. Eu gostaria de ir até o campus para
falar com os alunos.
— Não – Taylor disse imediatamente. — Não, acho melhor
caírem fora.
— Eu acho que todos os alunos que estão aqui entenderam
bem o que está acontecendo – John disse.
Melanie fez uma cara mal-humorada. — Qual é, pessoal. Es-
tão sendo ridículos. Não acham que os alunos merecem ouvir os
dois lados da história?
Taylor a ignorou, se voltando para Greger. — Já tem nossos
pedidos. Nos avise quando tiver uma resposta.
— Já estão indo? – Jiao perguntou.
Os Pacificadores se reposicionaram e Taylor sentiu que um
pequeno semicírculo havia se formado ao redor deles.
— Com calma aí – Archibald disse. Taylor percebeu que es-
ses soldados respondiam ao Greger e não ao Archibald. Ele não
poderia ajudá-los.
Então ela sentiu uma pontada. Alguém a estava atingindo
com telecinese. Tentando forçá-la a ficar de joelhos.
John deve ter sentido também, já que ele rapidamente pas-
sou os braços ao redor do quadril de Taylor. Então, após um mo-
mento rápido, os Pacificadores e o pessoal da Garde Terrestre fica-
ram para trás. Ela estava voando. Bom, John Smith estava voando,
segurando Taylor contra ele com facilidade, como se ela não pe-
sasse nada.
— Desculpe, eu não quis anunciar o que eu iria fazer – John
disse. — As coisas lá estavam ficando feias.
— Tudo bem, precisávamos ter saído dali mesmo – Taylor
disse contra o vento. Ela conseguia ver o campus todo da Academia
abaixo deles – os dormitórios, o centro de treinamento, os Pacifi-
cadores no extremo canto, a barricada que eles construíram que de
repente pareceu frágil. Os olhos dela lacrimejavam por conta do
vento. — Eles não vão desistir, né?
— Não, eu acho que não – John disse. Ele começou a descer
na direção da grama verde dos campos da Academia. — Eu sei que
você quer construir um lugar seguro para nosso povo. É nobre. Eu
também quero. E eu sei que você acha que esse lugar deve ser a
Academia. Mas você precisa considerar real possibilidade de que
esse lugar pode desmoronar.
Os ombros de Taylor endureceram. Ela se soltou de John
assim que tocou seus pés no chão. — Então, o que você está suge-
rindo? Nossa desistência e a implantação dos Inibidores em nós
pela Garde Terrestre?
— Não. Claro que não.
Ela riu, incrédula. — Então o que? Que eu deveria conven-
cer todos os alunos que estudam aqui a abandonarem esse lugar e
fugirem para a Índia com você?
John Smith nem piscou.
— Sim.
ISABELA SILVA
LE ROYAL MANSOUR – CASABLANCA, MARROCOS


CALEB CRANE
ISABELA SILVA
LE ROYAL MANSOUR – CASABLANCA, MARROCOS

Duanphen também estava inconsciente e parecia quase morta,


apoiada nos braços de Isabela. Muito sangue. Muito, muito san-
gue. E Isabela estava com os olhos arregalados, gritando por ele.
Caleb observou tudo isso em poucos segundos, logo de-
pois de abrir a porta dava para a varanda. Cinco o deixou ali, e
depois voou a toda velocidade para o Escumador. Einar ficou na
cobertura tomando conta de Derek King. Se Lucas ainda esti-
vesse aqui, era muito perigoso arriscar que ele possuísse qual-
quer um deles. Cabia a Caleb evitar isso.
— Ela me atacou – Isabela disse. — Eu fiquei sem reação.
Se Lucas estava possuindo o guarda-costas de King, ele
deve ter se transferido para Duanphen no momento em que ela
o tocou para eletrificá-lo. Então, Caleb ligou os pontos, ele deve
ter usado Duanphen para nocautear Ran, mas, quando chegou a
vez de Isabela, ele falhou. Caleb sabia que Isabela conseguia se
defender sozinha, ela era meio que viciada nisso. Ela provavel-
mente nocauteou Duanphen para enviar Lucas de volta para o
corpo dele.
Ou...
— Eu acho que exagerei um pouco – Isabela disse, seu
tom de voz trêmulo. — Não foi minha intenção. Por favor, Caleb,
me ajude a estancar o sangramento.
Ela não soava como ela mesma, mas isso poderia ser ex-
plicado, já que ela estava com Duanphen sangrando até a morte
nos braços dela.
Ainda assim, só havia uma maneira de descobrir.
— Está tudo bem, linda – Caleb declarou. — Está segura
agora.
Com passos largos, ele chegou do outro lado da sala rapi-
damente, se ajoelhando perto de Isabela. Ela sorriu e agarrou a
mão dele.
No momento em que Isabela pegou a mão dele, a expressão de
medo dela foi por água abaixo e Caleb viu o mesmo sorriso do-
entio que havia visto na Itália. Mas agora, depois de um se-
gundo, esse mesmo sorriso despareceu, substituído por uma ex-
pressão que externava confusão.
— Você... – Isabela soou confusa. Ela falou com um sota-
que sulista. — Você não é humano.
— Que coisa feia de se falar – o clone de Caleb respondeu.
— Eu tenho sentimentos, sabia?
O clone agarrou Isabela num abraço de urso, apertando-a
e levantando-a do chão. Ela gritou em frustração e atingiu o
clone com sua cabeça, pouco se importando com o vergão que se
formou imediatamente na bochecha de Isabela.
— Vão! – o verdadeiro Caleb disse da varanda. — Não
deixem ele machucá-la!
Mais quatro clones correram quarto adentro. Juntamente
com o primeiro, eles rapidamente prenderam os braços de Isa-
bela atrás das costas e seguraram as pernas dela. Um deles pas-
sou um antebraço ao redor do pescoço dela num mata leão
frouxo, ignorando totalmente os dentes que Isabela cravava na
pele dele.
— Demônios! – Isabela gritou. — Tirem suas mãos de
mim!
Objetos giravam no ar – cacos de vidro de uma garrafa de
champanhe, uma cadeira, um vaso cheio de orquídeas. Um dos
clones de Caleb foi atingido com esse bombardeio de detritos
telecinéticos, mas os outras conseguiram manter o controle.
— Protejam o rosto dela – Caleb mandou. — Não deixem
ele machuc—
Um sofá explodiu para fora, quebrando as portas da va-
randa. Caleb conseguiu desviar no último segundo. Um traves-
seiro atingiu a cabeça dele, mas, por outro lado, a maior parte do
móvel o errou. O sofá quebrou a grade da varanda e navegou
pela noite.
Depois de se levantar, Caleb arriscou um olhar abaixo.
Havia luzes vermelhas e azuis piscando na entrada do hotel. Po-
lícia, na melhor das hipóteses. Um esquadrão de mercenários al-
tamente treinado, na pior das hipóteses. De qualquer maneira, a
cobertura deles havia sido destruída. Eles precisavam ir embora.
Onde estava Cinco com aquele Escumador?
Os clones conseguiram cobrir a cabeça de Isabela com
uma fronha, tornando sua mira telecinética menos precisa. Caleb
enviou mais dois clones para dentro do quarto, um para tentar
acordar Ran e o outro para amarrar um torniquete no braço de
Duanphen. A aula de primeiros socorros que todos tiveram na
Academia acabou sendo útil.
— Caleb? – Einar gritou do andar de cima. — Você está
vivo? É você mesmo ou é um clone?
Caleb olhou para cima. Ele só conseguia ver a cabeça de
Einar inclinada para fora da mureta do terraço.
— Estou bem – Caleb disse. — Duanphen e Ran estão
apagadas.
— Mortas?
— Não. Mas muito machucadas. E o Lucas está possuindo
a Isabela.
Houve um whoosh no ar quando o Escumador desceu a
toda velocidade, desarrumando o cabelo meticuloso de Einar,
enquanto pairava diretamente acima dele. Uma escotilha se
abriu na barriga da nave e uma escada de corda foi jogada na
frente do rapaz islandês.
— Nocauteie ela e vamos embora – Einar disse seca-
mente. — Já conseguimos o que viemos buscar.
Relutantemente, Caleb olhou de volta para o quarto de
hotel, onde Isabela continuava a se contorcer contra seus clones.
Ela torceu o corpo de tal maneira que ele estava preocupado que
ela pudesse deslocar alguma coisa, mas os clones fizeram um
bom trabalho em contê-la.
— Eu não quero machucá-la – Caleb disse.
— Ou machuque ela ou deixe ela para trás – Einar disse,
começando a subir na escada. — E decida rápido.
Um dos clones de Caleb puxou Duanphen para a varanda. Ela
ainda estava inconsciente e parecia mortalmente pálida, mas
pelo menos o clone havia conseguido interromper o sangra-

8
N.T – “Warden” também pode ser traduzido como “Diretor”. Houve
um trocadilho com a palavra no texto original.
mento com o torniquete. Com Einar a bordo, o Escumador per-
deu altitude suficiente para que a escada oscilasse ao lado de Ca-
leb. Ele não tinha certeza de como conseguiria arrastar o corpo
flácido de Duanphen até lá em cima. Felizmente, Cinco escolheu
esse momento para pular do Escumador e flutuar até a varanda.
— Droga – Cinco rosnou, depois de olhar para Duanphen.
— Pronto. Pode deixar que eu levo ela para dentro do Escuma-
dor.
Enquanto Cinco voava de volta para a nave, Caleb voltou
sua atenção para o quarto de hotel. Seus clones ainda estavam
segurando Isabela. Um fluxo abafado de xingamentos saia de
debaixo da fronha que cobria sua cabeça - demônios, pecadores,
julgamento. Caleb não conseguiu entender a maior parte.
Com um dos clones de Caleb sacudindo suavemente os
ombros dela, Ran finalmente voltou à consciência. A primeira
reação dela foi afastar o clone.
— Mal agradecida – o clone disse, passando a mão na bo-
checha.
— Perdão – Ran respondeu. Ela chacoalhou o corpo,
ainda sentindo os efeitos dos choques da Duanphen. Os olhos
dela rapidamente varreram o quarto – o dano, o sangue, a equipe
de clones segurando uma Isabela que não parava de gritar. — O
que aconteceu? O que está acontecendo?
— Lucas – o clone respondeu, também olhando para Isa-
bela. — A maioria dos meus irmãos estão se divertindo enquanto
mantêm ela presa, mas eu tenho uma alma mais pacifica. Eu acho
que deveríamos tentar conversar com esse cara. Talvez entrar
num acordo. Explicar que nós não queremos que ele nos mate.
— Hum – Ran respondeu.
Caleb absorveu o clone que aparentemente estava repre-
sentando um dos lados mais pacíficos dele e gritou para Ran da
varanda. — Vamos, Ran! Temos que dar o fora daqui!
Ela inclinou a cabeça para ver Caleb, assentiu e depois fez
exatamente o oposto. Em vez de ir para a varanda, ela caminhou
até onde Isabela estava e arrancou a fronha da cabeça dela. Ime-
diatamente, os objetos voltaram a chicotear pela sala, lançados
pela telecinesia de Isabela. Caleb se preparou, sem saber quanto
dano seus clones poderiam aguentar, mas pronto para liberar
mais. Ele não precisava se preocupar. Ran golpeou cada lampa-
rina voadora e cada caco de vidro quebrado com seu próprio Le-
gado. Quando um dos sapatos do guarda-costas inconsciente de
King veio disparando na direção da cabeça dela, ela o parou no
meio do ar.
— Já chega – ela disse. — Lucas Sanders. Meu nome é
Ran Takeda. Por que—?
Os olhos de Isabela se arregalaram, o sorriso doentio se
formando através do rosto dela. — A garota que explode as coi-
sas. Oh, eu sei tudo sobre você.
— Por que você age assim? – Ran perguntou, em vão. —
Por que você usaria seu Legado para nos machucar? Por que
você trabalha para a Fundação?
— Vocês são monstros – Isabela respondeu. — Todos vo-
cês. Vocês merecem o que quer que aconteça com vocês.
— Você é um de nós – Ran disse calmamente. — Consi-
dere que seu pai lhe contou apenas mentiras.
— Considere que ainda assim você é um pecado, mesmo
que por acidente – Isabela disse, rindo malvadamente. — Você
sabe que isso é verdade, não sabe, Ran? Eu nem preciso invadir
sua mente para saber que você é. O que você fez. Se alguém como
eu estivesse aparecido lá para te impedir...
Caleb viu a expressão de Ran através dos olhos de seus
clones. Ele não conseguia entender exatamente o que Lucas es-
tava dizendo, mas percebeu que as palavras atingiram Ran com
força.
— Precisamos ir – Caleb disse. — Cubra a cabeça dela e a
traga para cá.
Um segundo depois, Isabela estava olhando furiosamente para
Ran enquanto simultaneamente afastava sua cabeça dos clones
de Caleb. Então, de repente, ela ficou completamente frouxa nos
braços dos Calebs, como se tivesse desmaiado. Caleb se pergun-
tou o que seria essa nova manobra de Lucas. Não importava; ele
não ia cair nessa. Os clones dele colocaram a cabeça de Isabela
dentro da fronha novamente e começaram a levá-la em direção
à varanda.
O corpo de Isabela voltou à vida, embora ela não tenha se
debatido contra os clones com a mesma ferocidade imprudente
de antes. Várias palavras em português que pareciam xingamen-
tos pesados pôde ser ouvido de baixo do tecido.
— Esperem – Caleb ordenou aos clones. — Tirem a fro-
nha da cabeça dela.
Caleb saiu da varanda pela primeira vez, potencialmente
se expondo a um ataque. Mas, depois de ouvir Lucas reclamar e
delirar num sotaque americano sulista, ele sentiu que algo havia
mudado. O Legado de Lucas não parecia torná-lo fluente em ou-
tros idiomas.
Isabela sacudiu a cabeça depois que um dos clones retirou
a fronha. Ela soprou uma mecha de cabelo dos olhos e fixou Ca-
leb com um olhar aguçado.
— Aposto que você está adorando tudo isso – ela disse,
lambendo os lábios para ele.
Caleb encarou Isabela, procurando por algum tipo de si-
nal – mesmo que ele não tivesse certeza do quê. — Você é você?
Isabela largou-se nos braços dos clones, soltando todo o
seu peso sobre eles. Ela até tentou levantar as pernas. De re-
pente, tudo pareceu como se ela e os clones estivessem dançando
e não segurando ela.
— Até que estou gostando disso, na verdade – Isabela de-
clarou. — Eu estive de pé a noite toda.
— É ela – Ran disse.
Com um comando mental, Caleb mandou os clones solta-
rem Isabela. Eles recuaram a uma distância respeitosa, enquanto
ela fazia biquinhos para eles e quase perdia o equilíbrio. Ele não
os absorveu – ainda havia o problema da polícia local, que pro-
vavelmente estava se aproximando. Os clones ainda poderiam
ser necessários.
— Você está bem? – Caleb pergunto. Ele se aproximou de
Isabela e colocou uma das mãos no ombro dela.
Ele esperou levar uma patada usual, mas em vez disso Isa-
bela colocou uma das mãos no ombro dele também. Os dedos
dela estavam tremendo.
— Aquele bastardo... – ela disse. — Isso não foi nada le-
gal.
— O que aconteceu com o Lucas? – Ran perguntou. —
Para onde ele foi.
Os olhos de Isabela se arregalaram. — Para a Academia.
Eles o puxaram de volta para enviá-lo para a Academia.
Antes que Caleb pudesse dizer alguma coisa, todos os seus
clones se voltaram para a porta do quarto. Graças aos seis pares
de ouvidos, Caleb conseguiu ouvir passos pesados no corredor,
o familiar ruído metálico da armadura, o barulho de armas sendo
puxadas dos coldres. Os policiais estavam aqui.
— Precisamos dar o fora daqui – ele disse. — Agora.
Caleb deixou seus clones contra uma parede de frente
para a porta. Enquanto os três se retiravam pela varanda, a porta
explodiu para dentro, sendo destruída desde as dobradiças. Al-
guém jogou uma granada para dentro do quarto, faíscas e fu-
maça branca tomando conta do espaço. Em resposta, Ran carre-
gou e arremessou o sapato do guarda-costas de King por cima
dos clones e na direção aos policiais que arrombaram a porta.
Caleb não conseguia enxergar através da fumaça, mas ouviu gri-
tos de dor em resposta à detonação. Eles atiraram para dentro
do quarto – balas, balas de verdade. Um dos clones levou um tiro
na testa e caiu. Os outros marcharam adiante, levando os tiros
até não aguentarem mais.
Isabela subiu primeiro a escada. Depois Ran. Caleb foi o
último. Ele mal tinha pisado no primeiro degrau quando o Es-
cumador começou a ganhar altitude. Ele se agarrou com força à
escada, o vento chicoteando em seu rosto.
Ele olhou de volta para o hotel, para o jardim da cober-
tura. Ele percebeu que Derek King estava caído sobre a mesa,
uma mancha escura se espalhando pela toalha da mesa abaixo
dele. Havia uma faca de bife encravada na lateral do pescoço dele,
a mão de King ainda agarrada à maçaneta.
Einar mentiu. Einar matou.
E, no entanto, depois de tudo o que essas pessoas fizeram
com ele – com Duanphen, com Isabela – como tentaram ma-
chucá-los a qualquer custo...
Caleb não conseguiu se importar.
KOPANO OKEKE
AGH – POINT REYES, CALIFÓRNIA

Ele quase disse em voz alta, mas de repente ele teve uma visão
de Taylor rolando os olhos em resposta, então ele ficou em silên-
cio. Levou na esportiva.
— Okay, então, você isso aqui? Abaixo do depósito de
armas? É o núcleo da nave de guerra.
Mesmo que ele não tenha se expressado vocalmente, Ko-
pano não conseguiu suprimir o sorriso idiota. Ele lembrou daquele
dia durante a invasão, quando ele foi puxado para uma visão
telepática e declarou à sua família que ele era um Garde, ape-
nas para que eles lhe dissessem que tudo não havia passado de
um sonho. Lembrou-se de como seus Legados se atrasaram, como
ele havia sofrido provocações impiedosas na escola, como seus
colegas o amarraram a um gol de futebol e chutaram bolas, de-
safiando-o a impedi-los com sua telecinese inexistente. Onde es-
tavam aqueles adolescentes agora? De volta a Lagos, correndo
para terminar a lição de matemática para que pudessem jogar
sinuca. Ah, talvez eles ganhem alguns trocados – que incrível.
Muito, muito massa, pessoal.
E onde Kopano estava? Ex-vítima daquelas injúrias e abu-
sos?
Ah, estava apenas planejando uma missão com John Smith.
Nada demais.
— Kopano – John disse. — Está ouvindo?
Ele tirou o sorriso idiota do rosto e assentiu vigorosamente.
— Sim, John Smith.
— Me chama só de John, cara.
— Tá bom, John – Kopano disse, e então pôs uma expres-
são complexa no rosto e voltou sua atenção para o notebook que
John havia emprestado de Lexa.
Uma planta em 3D de uma nave de guerra Mogadoriana
estava sendo mostrada na tela. John tocou o local a que ele es-
tava se referindo – o núcleo – nomeado apropriadamente dessa
forma porque ele estava localizado no ponto central da nave de
guerra, com corredores saindo dali e levando para qualquer
parte da enorme nave.
— Você vai encontrar o gerador de campo de força aqui
– John continuou. — Assim que a Osíris pousar e desligar os mo-
tores, será seguro desativá-lo. Não vamos ter muito tempo com
os Pacificadores em cima de nós, então teremos que ser rápidos.
Miki levantou a mão. Os três estavam numa classe de aula
vazia, amontoados em volta da mesa do professor. O pequeno
Miki parecia cansado e nervoso – Kopano supôs que algumas
semanas preso numa cela faria isso com qualquer pessoa que
estava acostumado a se transformar em vento. Independente-
mente, ele parecia grato por ter sido solto, mesmo depois de uma
séria e ameaçadora conversa com o Professor Nove.
— Eu tenho uma pergunta – Miki disse. — Sem ofensa, mas
por que é que você precisa de nós mesmo? Eu pensei que você
tivesse todos os Legados.
John mexeu a cabeça. — Não, não é assim que funciona.
É verdade que eu posso copiar qualquer Legado que eu ver, mas
eu nunca conheci qualquer Garde que tivesse o Legado de vocês.
Kopano estufou um pouco o peito. — Então você não tem
nossos Legados?
— Não – John respondeu. — Não ainda, pelo menos. E,
de qualquer jeito, não é porque eu posso copiar um Legado que
eu consiga usá-lo de forma eficiente. Sem mencionar que é sem-
pre melhor trabalhar em equipe.
Kopano bateu palmas. — Sim! Então, assim que nossa
equipe estiver dentro do núcleo da nave de guerra, o que nós
precisamos fazer para desligar o gerador de campo de força?
— Bom, eu não vou ir com vocês – John disse. — Eu preciso
ficar de olho na Garde Terrestre e nos Mogadorianos, para ter
certeza que nada vai acontecer durante a rendição. Vocês dois
vão entrar lá enquanto todo o resto estiver acontecendo.
Kopano e Miki trocaram um olhar. Nenhum deles estiveram
dentro de uma nave de guerra Mogadoriana antes, muito menos
destruíram uma. O pensamento amedrontou Kopano, mas Miki
parecia incerto.
— Não se preocupe – John disse. — Eu vou mostrá-los o
caminho.
John tocou novamente a planta em 3D, aumentando-a de
tamanho num objeto do tamanho de um refrigerador que estava
no meio de outros objetos de tecnologia Mogadoriana.
— Esse é o gerador – John explicou. — Obviamente, os
Mogadorianos querem evitar danos nele, por isso que ele é cer-
cado por três camadas de diferentes metais: carbono, titânio e
um mineral nativo de Mogadore – ele olhou para Kopano. —
Você deve tê-lo visto na arma de Vontezza. A coisa que parecia
uma obsidiana?
Kopano assentiu, tocando o peito. — Sim. Doeu quando
ela me acertou com aquilo.
— Então você consegue imaginar a droga que é tentar
tirar aquelas camadas de proteção, mesmo com os meus Legados
– John respondeu. Ele olhou para Kopano. — Eu preciso que você
atravesse as camadas, pegue o gerador e saia de lá com ele.
Kopano estremeceu um pouquinho. Ele havia sentido muita
dor quando a arma de Vontezza o atravessou. Ele não estava
animado para entrar em contato com aquele metal novamente.
John percebeu que ele havia hesitado. — Não vai funcio-
nar? Você consegue mudar a densidade dos objetos, certo?
Kopano forçou um sorriso. Ele não podia decepcionar o
John; não poderia deixar essa chance de fazer algo heroico em
favor da Academia passar. Era exatamente o tipo de coisa pela
qual ele esteve esperando.
— Sim – Kopano disse. — Eu posso fazer isso com os ob-
jetos.
Fazendo uma demonstração, Kopano pegou um notebook
e afrouxou as moléculas dali. Ele gesticulou a mão, passando o
computador inofensivamente através da mesa. Por fim, ele colo-
cou o computador de volta no lugar inicial, restaurando sua den-
sidade. A tela piscou, mas fora isso tudo estava normal.
— Isso foi ótimo – John disse. — Mas o gerador é muito
maior que um notebook. Você acha que consegue fazer o mesmo
com a mesa?
Kopano olhou para a mesa, estalando os dedos. Era volu-
mosa e metálica, com gavetas cheias de material didático. Ko-
pano considerou o tamanho. Sim, ele era forte, e ele podia der-
rubar aquela mesa facilmente, mas era muito grande para ele
levantá-la. Ele colocou a mão em cima da mesa e afrouxou as
moléculas. O notebook começou a cair no chão, mas Miki o pegou
com sua telecinese.
— Eu não vejo como vou conseguir levantar algo desse
tamanho – Kopano disse, franzindo a testa.
— Por que não iria? – John respondeu. — Se estou enten-
dendo corretamente como o seu Legado funciona, você acabou
de mudar a densidade das moléculas da mesa. Você as alterou
o suficiente para que o notebook atravessasse a superfície, mas
não o suficiente para a mesa atravessar o chão. Isso é o seu ins-
tinto falando. Você está se certificando que não vai destruir a
sala enquanto você altera as leis da física. Mas, se você tentasse,
não iria conseguir tirar totalmente o peso da mesa?
Kopano considerou isso. Na maioria das vezes, ele havia
usado o Legado dele para atravessar objetos ou para endurecer
suas próprias moléculas para se tornar resistente a qualquer tipo
de dano. Ele nunca considerou usá-lo para alterar o peso de ob-
jetos para que conseguisse movê-los.
— Eu nunca fiz nada parecido – ele disse.
— Eu tenho certeza que Nove estava pensando em traba-
lhar isso com você – John disse. — Quer tentar?
— Claro que sim, quero – Kopano respondeu.
Ele se agachou para segurar a mesa – costas eretas, joe-
lhos flexionados, forma adequada. Enquanto Kopano se concen-
trava, ele entendeu as moléculas da mesa funcionavam e o que
deveria fazer para separá-las, assim como lutavam para se man-
terem juntas contra a manipulação de seu Legado. O cérebro
dele dizia que a mesa deveria ser pesada, e que seria muito
difícil para ele simplesmente levantá-la. Mas Kopano ignorou a
parte lógica de seu cérebro.
Kopano mostraria a John Smith que ele era capaz de aju-
dar. Que ele era digno de ser um Garde.
Ele levantou a mesa de forma perpendicular ao seu corpo.
Foi fácil, e, para os seus músculos, a sensação era de estar levan-
tando uma caixa de papelão vazia. Miki deu um pulo para trás,
mas John ficou parado, deixando a mesa passar inofensivamente
através do corpo dele enquanto Kopano a manobrava.
— Muito bom – John disse.
Kopano manobrou a mesa ao longo do caminho e a ergueu
por cima de sua cabeça, parte dela desaparecendo no teto. En-
quanto se inclinava, algumas das gavetas se abriram e os papéis
voaram livremente, recuperando suas massas enquanto flutuavam
até o chão.
— Isso é divertido – Kopano disse sorrindo, equilibrando
a mesa sem massa com apenas uma das mãos agora. — Você se
sabe se tem algum carro por aqui para que eu possa tentar nele?
Se exibindo para eles agora, Kopano jogou a mesa de
uma mão para a outra. Se imaginou fazendo malabarismos com
os móveis mais tarde no prédio dos estudantes, não percebendo
que havia perdido o controle até a mesa cair no chão entre ele
e John. As gavetas voaram, o piso rachou e um amassado notável
se formou na mesa. No segundo seguinte em que ele perdeu o
contato com a mesa, ela voltou a ficar sólida.
— Oops – Kopano disse.
— Boa – Miki disse secamente.
John deu uns tapinhas na costa dele. — Quando estiver
fazendo isso com o gerador, não perca a concentração até ele
estiver livre, okay?
Kopano assentiu. — Entendi. Dica anotada.
Miki olhou a mesa e depois olhou para John. — Então,
onde eu entro nisso tudo?
— Transporte – John respondeu. — Vai ter muita movi-
mentação na nave de guerra e vamos precisar tirar o gerador
antes da Garde Terrestre tenha uma chance de colocar seguran-
ças na área. Eles não vão simplesmente nos deixar carregar
aquela coisa por aí. Então, assim que Kopano livrar o gerador
das camadas, eu quero você o transforme em vento até cuidar-
mos das distrações. Depois, vamos teleportá-los de volta para a
Nova Lorien.
— Vamos ir para a Nova Lorien? – Kopano perguntou,
tentando não gritar a perguntar por conta de sua animação.
— Sim, vamos dar uma passada lá para deixar o gerador
– John disse casualmente. Ele mostrou um colar de Loralite, exa-
tamente o mesmo que Nove estava usando na reunião na sala
dele. — Vou usar o colar para nos teletransportar para lá. Essa
pedra está ligada especificamente com uma que temos na Nova
Lorien.
— Chique! – Kopano disse.
— E então vamos voltar para cá o mais rápido possível –
John respondeu. A expressão dele mudou. Kopano ouviu sobre o
que havia acontecido quando ele e Taylor visitaram o acampa-
mento da Garde Terrestre. — Eu tenho a impressão de que as
coisas vão piorarem logo.
— Um problema – Miki disse, dando uns tapinhas na mesa.
— Eu nunca movi nada maior do que uma pessoa enquanto estou
usando meu Legado. Eu não tenho certeza se consigo.
— Bom, temos o resto do dia para—
A porta da sala se escancarou, interrompendo John e fa-
zendo Kopano estremecer. Vontezza entrou na sala, a garota
Mogadoriana ainda vestida com sua armadura amassada. Ko-
pano deu um passo para trás, lembrando-se do confronto do dia
anterior, e Miki simplesmente a encarou. Porém, ela não prestou
atenção a nenhum deles, seu olhar imperioso indo direto na dire-
ção de John.
— Estava procurando você – ela disse, irritada.
— Vontezza, eu pensei que havíamos combinado que você
ficaria fora de vista – John disse diplomaticamente. — Alguns
dos alunos aqui podem não estar preparados para alguém como
você.
— Eu não posso ficar naquela sala tamborilando meus de-
dos enquanto o destino da minha tripulação está em jogo – ela
respondeu. Pela primeira vez, ela notou Kopano e Miki. — Olá
grandão e criança que eu não conheço.
Kopano podia dizer que Miki estava tentando não encará-
la. — Um... olá... – Miki disse. — Eu sou...
Vontezza o ignorou, e, em vez disso, encarou o notebook
que John estava segurando, a planta em 3D da nave sendo exi-
bida na tela. — Você está planejando algo. Sem mim.
— Porque você não vai participar – John respondeu, co-
çando a ponta do nariz. — Não podemos arriscar que a Garde
Terrestre descubra sua existência.
— Eu sou a comandante de Osíris – Vontezza respondeu.
— Talvez minha tripulação tenha concordado em se renderem,
mas eu não posso deixá-los passarem por isso sozinhos. Eu preciso
estar lá para garantir a segurança deles.
— Vontezza—
— Vocês vão precisar de mim – ela disse. — Qual é o
plano? Mandar esses dois Gardes que não sangram enquanto
você posa para as fotos? Eles vão precisar de um guia.
Kopano fez uma careta. — Eu não... eu tenho bastante
sangue. E eu acho que podemos nos virar dentro na nave de
guerra sozinhos.
— Sério? – Vontezza tomou o notebook de John e o jogou
na direção de Kopano. — Aí o mapa. Me mostre qual caminho
vocês vão usar, grandão.
Kopano traçou o dedo de um lado da nave de guerra di-
reto para o centro. — Eu posso atravessar paredes, lembra? Eu
não preciso de uma rota. Eu posso apenas...
Vontezza fez um barulho imitando uma explosão, aparen-
temente a forma Mogadoriana de dizer que a resposta estava
errada.
— O que pretende fazer quanto à radiação? – Vontezza
perguntou. — Você pode atravessá-la também? Ou ela também
vai derreter suas moléculas como fez com as de várias outras
pessoas?
Kopano franziu a testa. Ele nunca considerou o que pode-
ria acontecer com ele se atravessasse algo tóxico. Seu instinto era
de que abrir seus átomos em algum tipo de nuvem venenosa pro-
vavelmente era uma má ideia. No entanto, John falou antes que
ele pudesse expressar essa preocupação.
— Que radiação? – John perguntou. — Você não havia
mencionado isso.
— Seções inteiras da Osíris foram danificadas durante os
motins – Vontezza respondeu. — Existem áreas da nave que são
inabitáveis até para os Mogadorianos nascidos artificialmente.
Meros humanos tropeçando por essas áreas nunca vão chegar ao
núcleo vivos. Viu? Vocês precisam de mim.
— Você simplesmente pode nos dizer como chegar ao nú-
cleo em segurança – Miki murmurou.
— Não – Vontezza rebateu. Ela encarou John. — Eu já
negociei demais até chegar nessa escola que está caindo aos
pedaços. Eu estarei lá amanhã para garantir que minha tripula-
ção será tratada com dignidade.
As narinas de John se alargaram. Kopano percebeu que
ele estava se esforçando para manter a calma. Vontezza era
arrogante, meio malvada e deixava Kopano desconfortável.
Mas ele conseguiu entender o que ela estava tentando fazer. Era,
como sempre, a tendência de Kopano de tentar acalmar as coi-
sas.
— Quero dizer... eu acho que ela é uma boa lutadora –
Kopano falou. — Não vai ser ruim ter alguém nos protegendo lá
dentro.
Vontezza não disse nada, simplesmente ergueu uma das
sobrancelhas escuras e encarou John.
— Tudo bem então – ele disse secamente. — Eu não quero
mais perder tempo discutindo sobre isso. Entretanto, se você for
junto, precisará ser muito mais discreta.
Vontezza olhou para si mesma – a armadura, as longas
tranças negras, a maça no quadril. — Discreta. Claro.
John respirou fundo e se voltou para Miki. — Tudo certo.
Que tal me mostrar como essa coisa de vento funciona? Podemos
descobrir qual o maior objeto você consegue carregar.
— Agora? – Miki perguntou.
— Agora – John respondeu, estendendo uma das mãos.
Miki segurou na mão do Lorieno e ambos se transformaram
em um redemoinho de partículas, passando de um extremo da
sala de aula para o outro. Quando eles reapareceram, John co-
locou as costas da mão na boca e tossiu.
— Que sensação mais esquisita – ele disse.
— Você se acostuma – Miki respondeu.
John gesticulou para uma das mesas pequenas da sala que
os estudantes usam. — Okay, tente carregar aquela mesa com
você. Eu vou dar o meu melhor para ajudar. Vamos descobrir isso
juntos.
Eles se transformaram de novo – dessa vez John não pre-
cisou segurar a mão de Miki – e a mesa desapareceu com eles.
Kopano tentou seguir as partículas de vento, mas logo eles saíram
por uma das janelas – quebrando o vidro – e desapareceram,
aumento a área de treinamento para um local menos confinado.
Kopano percebeu então que ele havia ficado sozinho com
Vontezza. E que ela estava encarando ele.
— Obrigada – ela disse. — Por reconhecer meus direitos.
— De nada – Kopano disse, dando de ombros. Eles fica-
ram parados e um silêncio esquisito pairou sobre eles. — Bom...
vejo você mais tarde então.
Enquanto Kopano seguia para o corredor, Vontezza o se-
guiu.
— O que aquela palavra significa? – perguntou. — Dis-
creta?
— Significa que ele quer que você pareça menos com uma
Mogadoriana e mais como uma de nós – Kopano disse. — Como
um ser humano.
Vontezza olhou para sua armadura. Kopano olhou para
ela também – a pele pálida, os cabelos pretos como tinta, os
dentes levemente afiados. Ela estalou a língua contra o céu da
boca.
— Ah sim, estava querendo fazer isso mesmo – ela disse,
e então pausou. — Mas como?
Kopano coçou uma das orelhas enquanto pensava. — Tal-
vez um bronzeado caísse bem ou...
Ao sair da sala e ver outros alunos, ele não conseguiu ter-
minar a frase. Kopano supôs que eles teriam aula ali e então
começou a abrir caminho entre eles, mas foi parado por Nicolas
Lambert.
— Filho da mãe, Maiken não estava mentindo – Nic disse.
— De fato tem uma Mogadoriana aqui.
Kopano demorou um pouco para perceber a tensão no ar.
Vontezza, entretanto, que estava atrás dele, identificou-a mais
rápido. Ela parou na porta da sala de aula, uma das mãos des-
cendo até a maça no quadril.
Kopano olhou para os outros alunos que estavam atrás do
Nicolas. Ele reconheceu a Anika Jindal, que podia manipular me-
tais; aquele tal de Ben (do Brooklyn), que tinha a pele pegajosa
que o deixava agarrar-se às paredes; e dois tweebs que Kopano
tinha visto pela Academia, mas que não sabia os nomes. Kopano
não consideraria nenhum deles como amigos, mas ele conhecia
todos eles e achou que eram boas pessoas. Ele nunca os tinha
visto como estavam agora – com raiva e céticos, todos olhando
furiosamente para Vontezza, que estava atrás dele.
Isso estava se tornando um motim.
— Pessoal – Kopano disse. — O que estão fazendo?
— Meu irmão mais velho, Nathan, era um piloto de heli-
cóptero da Força Área Bélgica – Nicolas disse, ignorando Ko-
pano e falando diretamente com Vontezza. — Ele estava evacu-
ando algumas pessoas de Berlim quando um dos seus Escumado-
res derrubou o helicóptero dele. Ele morreu.
— Você deveria estar orgulhoso – Vontezza respondeu.
— Seu irmão pereceu nobremente numa vitória pelo planeta
dele. Tal sacrifício é uma grande honra para sua família.
Kopano estremeceu. — Tudo bem. O que ela está ten-
tando dizer é que...
— Eu deveria estar orgulhoso? – Nic exclamou. Ele olhou
de forma incrédula para os outros alunos, todos com expressões
furiosas. — Meu irmão está morto por conta dos animais do seu
planeta e você acha que eu deveria estar orgulhoso?
— Os Mogadorianos mataram minha tia só porque ela
estava na rua – Ben disse. — Eu deveria estar orgulhoso também,
puta?
— Você não pertence aqui – Anika acrescentou. — Você
deveria voltar para o seu planeta.
— Meu planeta está morto – Vontezza disse friamente.
— Exatamente – Anika respondeu. — E é onde você de-
veria estar.
Kopano levantou as mãos. Ele ainda estava entre Von-
tezza e os outros, quase peito a peito com Nicolas no corredor
estreito.
— Pessoal, isso é ridículo – ele disse. — Não estou dizendo
que não devemos ficar com raiva por conta dos acontecimentos
da invasão, mas Vontezza não fez nada daquilo. Ela veio para
nos ajudar.
— Kopano, você é um idiota. Por que é que iriamos preci-
sar da ajuda deles para começo de conversa? – Nicolas cuspiu
as palavras em resposta. — É insano o fato dela estar aqui, como
se já não tivéssemos problemas suficientes – ele ergueu o queixo,
encarando Kopano. — Por que você não se manda daqui, cara?
— É, de que lado você está? – um dos tweebs perguntou.
— A guerra acabou; não existem mais lados – Kopano
não retraiu. — Nenhum de vocês estão pensando direito. Talvez
devêssemos conversar sobre isso com o Professor Nove e com o
John Smith. Eles podem explicar—
— Já chega de conversa – Vontezza interrompeu.
Enquanto Kopano se virava para olhá-la, Vontezza soltou
a maça do quadril e estendeu a arma, os espinhos de obsidiana
brilhando na luz. Todos os estudantes deram um passo para trás,
exceto Nicolas. A garota Mogadoriana passava uma visão inti-
midadora e nenhuma deles havia de fato participado de um com-
bate fora do centro de treinamento. Kopano endureceu suas mo-
léculas, pronto para absorver ataques de qualquer direção.
Ele ficou surpreso quando Vontezza jogou a arma para
Nicolas. O garoto belga também ficou surpreso, mal conseguindo
segurar a maça pelo cabo.
— É seu direito me ferir como retribuição pela sua perda
– Vontezza disse. — Eu entendo e não vou impedi-lo.
— Como é? – Nic respondeu. — Você é maluca?
— Mas devo avisá-lo que sou imortal – Vontezza conti-
nuou, como se ela estivesse lendo um livro na frente da turma da
escola. — Meu Legado me regenera.
Anika olhou para Nic. — Você disse que Maiken estava
exagerando sobre isso.
— É tudo mentira – Nic respondeu, olhando para Von-
tezza. — Não é possível um Mogadoriano desenvolver um Le-
gado.
— É verdade – Kopano disse. — Ela se autorregenera
automaticamente. Eu já vi.
— Isso é um ponto bom para vocês – Vontezza disse para
os alunos, o olhar dela passando por cada um deles. — Vocês
podem me bater o quanto quiserem, eventualmente meu corpo
irá se regenerar. Podem me bater, um de cada vez.
Todo mundo estava a encarando agora. Os olhos negros
de Vontezza mal piscavam. Ela estava falando sério.
Ben e os tweebs já não mais pareciam tão convencidos. Eles
deram alguns passos para trás, engolindo em seco e trocando
olhares nervosos. Anika encarava Vontezza como se a Mogado-
riana tivesse se tornado mais alienígena.
— É sério que você vai simplesmente nos deixar te bater
o quanto quisermos? – Anika perguntou.
— Batam na minha cabeça, cortem meu pescoço, me em-
palem – Vontezza deu essas opções sem hesitar. Ela olhou para
Nicolas. — Então, quer ser o primeiro?
Nicolas não se mexeu. Ele continuou ajustando os dedos no
cabo da maça. Kopano percebeu que as mãos dele estavam su-
adas. Os outros estavam olhando para ele – eles não queriam
levar isso adiante, mas também estavam subordinados ao belga.
Eles não recuariam até ele recuar.
Kopano ficou calado. Ele estava preocupado com o fato
de que qualquer coisa que ele dissesse apenas irritaria Nicolas.
Então, ele ficou esperando a tensão acabar. Ou esperando Ni-
colas dar algum golpe. Ele o impediria, se fosse o caso. Ele não
deixaria o belga com superforça machucar ninguém, mesmo que
Vontezza estivesse literalmente pedindo por isso.
Finalmente, Nicolas bufou.
— Você é uma aberração – ele disse, olhando para Von-
tezza. — Um animal. E não deveria estar aqui. Deveríamos ter
exterminado toda a sua raça no segundo em que perderam a
guerra.
Nicolas jogou a maça no chão, o que causou um barulho e
trincou o piso. Ele olhou para Kopano e começou a andar lenta-
mente de costas. Os amigos dele fizeram o mesmo.
Com sua telecinese, Vontezza pegou a maça de volta. Ela
assentiu para Nicolas.
— Caso você mude de ideia, eu estarei aqui – ela disse.
— Esperando.
Depois que eles se foram, Kopano respirou fundo em alí-
vio. Vontezza, por outro lado, parecia não ter sido afetada pelo
incidente.
— Você realmente iria deixá-los te baterem? – Kopano
perguntou.
Ela olhou para ele, uma pequena veia pulsando no pes-
coço tatuado dela.
— Você não deveria ter ficado contra seus amigos – ela
disse, ignorando a pergunta. — Eles vão se lembrar disso.
— Precisamos cuidarmos uns dos outros até essa bagunça
com a Garde Terrestre acabar. Estamos todos do mesmo lado
aqui – Kopano respondeu. — Eles vão perceber isso eventual-
mente.
— Você é honrável – Vontezza disse. — Mas não serve
como líder.
— Um... obrigado?
— Agora – Vontezza disse, olhando diretamente para Ko-
pano. — Me mostre como posso parecer mais como um ser hu-
mano.
NIGEL BARNABY
AGH – POINT REYES, CALIFÓRNIA


querido – Bea Barnaby disse, mais uma vez sentada na
ponta da cama com as pernas cruzadas elegantemente. —
Eu espero que você não esteja em problemas.
Nigel se sentou de frente para sua mãe, a cadeira de
metal amassada por sua explosão emocional após o encon-
tro anterior. Ele sorriu levemente. Bea ainda não sabia,
mas essa seria a última vez que eles conversariam aqui.
Demorou um dia para assegurar que nenhum de seus co-
legas decidisse fugir do campus, mas Nigel finalmente che-
gou a uma decisão sobre o que fazer com sua mãe.
— Você sabe que eu nunca fui de obedecer as autori-
dades – Nigel disse. — É meu estilo de vida.
— Sim, suponho que esse seja o momento em que eu
devo culpar seu comportamento rebelde por conta daquele
desprezível punk rock que você escuta – disse Bea. Ela
abaixou o tom de voz, como se estivesse contando um se-
gredo para Nigel. — Mas, verdade seja dita, seu pai e eu
nunca fomos de seguir as regras. Você herdou isso de nós.
Nigel se irritou. A mulher sabia exatamente como fa-
zer isso com ele. Saber que essa era a intenção dela e que
ela estava conseguindo não ajudava.
— Não sou como você – ele respondeu de uma forma
menos raivosa do que ele realmente queria.
— Não, claro que não – Bea respondeu com um sor-
riso indulgente. — Está acontecendo da forma que previ,
não está? Essa Academiazinha está sendo tomada à força,
não está? – quando Nigel não respondeu imediatamente,
ela continuou, o tom de voz mais sincero do que provoca-
dor. — Você deve saber que será mais fácil se não resistir.
Mais seguro. Para ambos – ela disse, desviando o olhar de
Nigel.
Taylor estava em pé no fundo da cela com os braços
cruzados.
— Você não vai conquistar esse lugar, Bea – Taylor
disse. — Ou talvez você conquiste. Mas será apenas um
monte de prédios vazios. Você não nos terá aqui.
— Eu gosto de você, srta. Cook – Bea disse. Ela vol-
tou sua atenção para Nigel. — Eu gosto dela. Ela está na
liderança de toda essa resistência, não está? Nossos rela-
tórios diziam que ela era mansa e flexível, com medo dos
próprios Legados. Quando a recrutamos, ficamos surpre-
sos ao descobrir que ela era tão volátil.
— Me sequestraram – Taylor corrigiu.
— Bem, sim, eu admiro uma jovem mulher com suas
convicções, mesmo que discordemos fundamentalmente –
Bea abaixou o tom de voz novamente, falando com Nigel.
— Talvez vocês dois devessem namorar.
Nigel bufou. — Mãe, eu sou gay.
Bea levantou uma sobrancelha e suspirou. — Esses
pequenos atos rebeldes nunca vão cessar, Nigel?
Nigel queria avançar e estrangulá-la. Bea, é claro,
escolheu esse exato momento para se dobrar num acesso
de tosse, as costas da mão pressionadas contra a boca.
Quando ela se endireitou novamente, seus olhos estavam
vermelhos e havia manchas da gosma negra se contor-
cendo em suas bochechas pálidas.
— Última chance de ser útil, hein – Nigel disse quase
em silêncio. — Faça algo bom em troca.
— Última chance antes do que? – Bea perguntou,
sua voz rouca. — Essa é a última chance que você vai ofe-
recer que me curem em troca de informação? É por isso que
a Taylor está aqui? – Bea zombou. — Faça mil favores.
— Diga-nos quem a Fundação infiltrou na Garde
Terrestre – Nigel disse. — Diga-nos o nome de todos que
estiverem lá.
Bea fez uma careta, como se a pergunta fosse boba.
— Temos fontes, tenho certeza. Como aquele idiota desa-
jeitado que vocês estão mantendo trancado no fim do cor-
redor. O coitadinho chora até dormir quase todas as noites
– ela fechou a boca, pensativa, e Nigel notou o ponto preto
morto debaixo da unha. — Talvez haja alguns colaborado-
res de alto escalão dentro da organização. Se eles existem,
sinceramente não sei quem eles são. Se vocês estão procu-
rando algum inimigo mítico que possa prender esses cida-
dãos e acabar com todos os seus problemas, estão perdendo
tempo. A Fundação é uma hidra e vocês nunca terão espa-
das suficientes.
— Nos fale sobre Greger Karlsson – Taylor disse.
— Quem? – Bea respondeu.
Nigel estudou a expressão da sua mãe. Ela parecia
não saber quem ele era. O nome não havia causado ne-
nhum impacto nas expressões dela.
— Ele trabalhara para a Garde Terrestre – Nigel
disse. — Eles colocaram ele no comando da missão que con-
siste em fazer buracos nos nossos cérebros.
— Oh, aquele suíço puxa-saco? – Bea riu. — O que
você quer saber? Se eu me lembro corretamente dos nossos
relatórios, Karlsson era o tipo de homem que nunca seria
promovido. Porém, em última análise, burocratas como ele
não valem nem um centavo. Eles não têm o poder que
acham que têm e podem ser substituídos facilmente. Não
valem o investimento.
— O que você sabe dele? – Taylor pressionou. — Sa-
bemos como a Fundação subordinam as pessoas. O que vo-
cês estão fazendo para que ele aja dessa forma?
Bea inclinou a cabeça. — Às vezes pressionamos sim,
isso é verdade. Mas eu não estava sabendo de nenhuma
missão envolvendo o Karlsson. Se ele está encarregado da
regulamentação da espécie de vocês, considere que ele
acredita honestamente que é a coisa certa a ser feita. É
algo tão difícil de fazer, querida? Você acha que a Funda-
ção está subornando todas as pessoas que acreditam que
Garde é um perigo para a humanidade? Somos ricos, mas
não tão ricos.
Os lábios de Nigel se contorceram. Ele ficou de costas
para Bea para que ele pudesse fazer contato visual com
Taylor.
— Alguma outra coisa que você queira perguntar
para ela? – Nigel disse. — Ou podemos usar nosso tempo
pra outra coisa?
Taylor considerou a pergunta por alguns momentos.
— Você sente remorso? – ela perguntou para Bea. — Com
relação às pessoas que você machucou? Que você matou?
Pela bagunça no mundo que você ajudou a criar?
— Aí, essa é uma pergunta interessante – Nigel
disse, se voltando para Bea. — Basicamente, minha que-
rida amiga aqui está se perguntando se você ainda tem
uma alma, mãe.
Bea não parecia ofendida. — Você sente remorso por
salvar a vida de um assassino, Srta. Cook? – ela respon-
deu. — Não te incomoda o fato de que, ao poupar Einar,
você sem dúvida tenha colocado em risco a vida de inúme-
ras outras pessoas?
— Sim – disse Taylor sem perder o ritmo. — Isso me
incomoda.
Bea assentiu como se suspeitasse disso. — Quando
crescer, você aprenderá a deixar esses sentimentos de lado.
— Talvez – disse Taylor. — Mas até esse dia chegar,
acho que vou me sentir culpada por muitas coisas. Como a
que estou prestes a fazer com você.
— Certo – disse Nigel, se levantando e saindo do ca-
minho. — Toda sua.
Taylor se desencostou da parede e foi na direção de
Bea. Nigel ficou satisfeito em ver sua mãe se encolher,
mesmo que de forma mínima. Mesmo enquanto prisio-
neira, Bea achou que estava no controle. Porém, depois que
Taylor agarrou bruscamente o rosto dela, um breve lam-
pejo de medo nos olhos de Bea pôde ser visto.
— Relaxe, Bea – disse Nigel. — Você ganhou.
Bea soltou um gemido baixo enquanto Taylor a cu-
rava. Nigel podia ver a gosma Mogadoriana estalando em-
baixo da pele da sua mãe, que, de alguma forma, lutava
contra o Legado de Taylor. Demorou alguns minutos – Ni-
gel já viu Taylor curar ferimentos de bala numa velocidade
maior – mas, eventualmente, Taylor soltou Bea, limpando
um pouco de suor da testa. Bea se afundou na cama, res-
pirando pesadamente.
— Se sente melhor agora? – Nigel perguntou. Ele
olhou para Taylor. — Você curou o lado ruim dela en-
quanto curava a gosma Mogadoriana?
— Duvido – disse Taylor.
Bea olhou para ele com uma mistura de surpresa e
decepção. — Por que... por que você fez isso? Minha saúde
era seu único meio de chantagem...
Nigel revirou os olhos. Sempre foi assim com sua
mãe. Ela estava descontente com o fato de Nigel ter per-
dido sua única vantagem, como se estivesse se orgulhando
da postura de negociação do filho.
— Porque já estamos cansados de jogar conversa
fora – Nigel disse a ela. — Eu pensei que se eu mantivesse
você aqui por certo tempo, talvez eu conseguisse algumas
informações. Talvez até avistasse uma centelha de decên-
cia no seu coração obscuro. Mas, além de você ser a perso-
nificação da maldade, é inútil também. Acho que você não
sabe de nada que possa nos ajudar. Eu acho que você está
com medo... talvez de Einar, talvez de alguns de seus ve-
lhos amigos da Fundação que pensam que você enlouque-
ceu. Você estava bem feliz aqui em baixo, enquanto a gente
mantinha você segura. Bem, isso acabou agora, mamãe.
Nigel pegou Bea pelo braço e a levantou.
— O que você planeja fazer? – Bea perguntou, e, pela
primeira vez, Nigel pensou ter detectado um tremor no
tom de voz dela.
— Estamos entregando você para a Garde Terrestre
– disse Nigel. — Você, Linda e aquele chorão que eu sem-
pre esqueço o nome.
Bea deu uma gargalhada. — Estarei livre antes do
pôr do sol.
— Talvez – disse Nigel com um encolher de ombros
descuidado. — Também estamos enviando todas as evi-
dências que coletamos. Taylor e eu gravamos declarações
sobre o que você fez. Sobre a morte daqueles soldados em
Londres, da nave de guerra na Sibéria, a bagunça na Is-
lândia. Como você orquestrou a morte de Sydal. Acho que
cobrimos tudo. Incluímos, também, todas as gravações das
conversinhas que tivemos aqui embaixo. Elas deixam você
numa situação bem complicada.
— Meus advogados—
Nigel calou a mãe abraçando-a e dando-lhe um beijo
na bochecha.
— Bea, eu não tô nem aí – ele disse no ouvido dela.
— Se a Garde Terrestre for tão corrupta quanto você diz
que ela é, então pelo menos vamos ter certeza disso após
eles te soltarem. E, se talvez você estiver superestimando
sua influência e eles a arrastarem para Haia algemada,
bem, será um dia ensolarado, não é? De qualquer forma,
você não será mais meu problema. Estou me emancipando.
A mãe dele, pela primeira vez, ficou em silêncio. Isso
foi bom – Nigel achou que não conseguiria fazer outro dis-
curso.
Nigel e Taylor escoltaram Bea para o corredor onde
os outros estavam esperando. O Professor Nove, Malcolm
e a agente Walker já haviam retirado a Dra. Linda e Ale-
jandro Regerio de suas celas, ambos amarrados juntos dos
pés à cintura. Regerio estava quase agachado, ofegante, e
Nigel rapidamente percebeu que ele provavelmente havia
tentado escapar e que recebeu um soco no estômago de
Nove como recompensa.
— Senhora Barnaby! – Nove exclamou. — Bem-
vindo à festa!
— Essa sua futilidade é falsa – disse Bea, mantendo
o queixo alto e a parte superior lábio bastante rígida.
Nove jogou um par de algemas para Nigel. — Você
quer fazer as honras?
— Com certeza – respondeu Nigel, e levou sua mãe
para se juntar aos outros dois.
Logo depois, Nigel se afastou dos prisioneiros, dei-
xando Nove e Walker assumirem a liderança na escolta do
grupo para fora do subsolo. Pelo menos era engraçado ver
sua mãe andando atrás da Dra. Linda com as pernas agar-
radas.
— Você está bem? – Taylor perguntou, se aproxi-
mando dele.
— Ah, estou ótimo – disse Nigel, tentando manter o
tom sereno contra o olhar de Taylor. — Eu sou oficialmente
órfão. Nunca me senti mais livre.
— Também não sou muito próxima da minha mãe –
disse Taylor. — Quero dizer, ela não é parte de uma cons-
piração global, mas é meio distante e não sabe cumprir
promessas. Mas, sabe, eu compreendo. Eu sempre pensei
que um dia ela apareceria e perceberia como sou uma pes-
soa legal e gostaria de ser mais presente na minha vida.
— Se Bea achar que eu sou uma pessoa legal, vou
pular de uma ponte – disse Nigel. — Mas obrigado. E obri-
gado por curá-la, apesar de tudo.
— Sem problemas. Ao pouparmos ela de uma morte
lenta, nossa, nós realmente mostramos o que somos para
ela – disse Taylor.
Nigel bufou. — Sim. Espero que ela tenha aprendido
a lição.
A caminhada deles saiu do subsolo da Academia e
continuou através da área verde. Eles passaram por um
pequeno grupo de tweebs que estavam treinando o controle
telecinético deles. Nenhum deles disse nada, mas Nigel
pôde senti-los olhando. Os ombros dele caíram, um senti-
mento de vergonha brotando dentro nele. Essa era a mãe
dele. Rainha má da Fundação. Todo mundo dando uma
olhada do ramo da árvore genealógica podre da onde ele
descendeu.
O sol já estava se pondo enquanto eles atravessavam
o gramado e seguiam além da barricada. Omar e Lisbette
estavam de guarda ali e Nigel sabia que havia mais alguns
Gardes escondidos nas árvores, à espreita para sinalizar
caso os Pacificadores tentassem alguma coisa. Eles quase
conseguiram viver um dia normal na Academia. Nigel se
permitiu um pequeno sorriso. Pelo menos a mãe dele esta-
ria errada sobre a previsão de que ela estaria livre ao pôr
do sol.
Ninguém falou nada. O único barulho era o vento
que soprava através do campus e o tilintar das algemas e
correntes. Finalmente, quando a trilha arruinada apare-
ceu, a Dra. Linda pigarreou.
— Quero pedir perdão pelo que fiz – disse ela, sua
voz baixa e rouca. — Sei que não é desculpa, mas fui coa-
gida...
— Incluímos isso em nosso relatório, Linda – disse
Malcolm, de maneira nada cruel. Ele gesticulou para a uni-
dade USB com todas as evidências relacionadas à Funda-
ção salvas ali.
— Sim – acrescentou Nigel. — Talvez os fascistas pe-
guem leve com você, doutora. E, só para você saber, não
acho que nossas sessões foram uma completa perda de
tempo.
— Obrigado, Nigel – respondeu Linda. — É legal da
sua parte dizer isso.
Os destroços do Escumador Mogadoriano se torna-
ram visíveis. Estava cercado por um punhado de Pacifica-
dores em trajes para protegê-los da radiação. Eles aponta-
ram para o grupo vindo da Academia, todos içando os ca-
nhões inibidores com os quais Nigel se familiarizou até de-
mais durante o jogo de captura da bandeira.
— Esperem! – uma voz gritou de perto das árvores.
O coronel Archibald apareceu com outro grupo de Pacifica-
dores, embora esse grupo não tenha levantado as armas.
Archibald deve ter visto a aproximação deles através das
câmeras de segurança e saiu para encontrá-los.
Nove liderou o grupo, mantendo-os a uma distância
segura dos Pacificadores. — Como está indo, Archie? Trou-
xemos um presente para você.
— O que é agora, Nove? – perguntou Archibald, es-
treitando os olhos para os três prisioneiros. — Você sabe
que tenho ordens para capturá-los – ele olhou para Taylor.
— Todos vocês.
Nigel bufou, mas pela primeira vez manteve a boca
fechada. Não há razão para colocar mais lenha na fogueira.
Nove se virou para Walker. — Passo para você, Ka-
ren. Se você acabar na prisão, foi um prazer conhecê-la.
— Sim, boa sorte para você também – respondeu
Walker, aceitando o USB de Malcolm. Então, ela deu um
puxão na corrente de Regerio e puxou o trio de prisioneiros
para a frente. Com a outra mão, ela levantou o distintivo.
— Coronel Archibald! Eu sou a Agente Especial Karen
Walker e estou trabalhando sob as ordens da agência de
inteligência denominada Watchtower. Essas três pessoas
são acusadas de vários crimes capitais. Solicito formal-
mente sua assistência e proteção até que possam ser trans-
feridos para um local apropriado.
Archibald ouviu tudo com seu estoicismo habitual,
depois grunhiu algo para seus homens. Um par de solda-
dos Pacificadores se adiantaram para ajudar Walker com
seus prisioneiros.
— Acha que vão ficar presos? – Taylor murmurou
para Nigel.
— Você acha? – Nigel respondeu.
— Acho que podemos confiar em Archibald – disse
Taylor. — Ele pelo menos vai tentar.
Nigel observou os Pacificadores pegarem sua mãe.
Ele esperou que ela olhasse por cima do ombro ou fizesse
algum comentário malicioso enquanto era levada. Mas Bea
não olhou para ele. Tudo acabou entre eles. Acabou. Nigel
esperava aproveitar a satisfação de ver sua mãe sendo le-
vada, mas tudo o que sentia agora era o mesmo sentimento
de solidão que permeava durante seus dias em Pepper-
pont, quando ficava acordado noites esperando que seus
pais o buscassem.
Ele estava bem e verdadeiramente sozinho agora.
Com uma breve olhada para os soldados, Archibald
atravessou o campo para se aproximar da Garde. Ele man-
teve as mãos levantadas o tempo todo. Nigel notou man-
chas escuras de suor nas axilas do homem. Parecia que
todo mundo estava igualmente nervoso.
— Vou ser transferido amanhã – disse Archibald
sem preâmbulos. — Eles querem que eu supervisione a
rendição Mogadoriana. Depois disso, serei transferido
para outro lugar. A maioria dos Pacificadores que eram le-
ais a mim também foram transferidos.
— Bem, eu gostaria poder dizer que tudo foi mil ma-
ravilhas – Nove disse rispidamente. — Vá em paz.
Archibald expressou um olhar ofendido ao comentá-
rio de Nove. — Eles iriam invadir o campus hoje, mas eu
os impedi. Além disso, a chegada de John Smith assustou
Karlsson. Por enquanto, ele quer deixar você o mais des-
confortável possível, torcendo para que você se renda. Mas
amanhã... quando eu me for e o John também...
— Eles estão vindo – disse Taylor.
— Isso não é nada bom – disse Nigel, gesticulando
com a mão na direção em que os Pacificadores levaram os
três prisioneiros. — Você percebe que a Garde Terrestre
está jogando junto com a Fundação, né? Acabamos de lhe
entregar uma pilha de evidências!
— E farei o possível para garantir que isso sirva para
alguma coisa – respondeu Archibald. — Mas isso é um
alerta, porque eu gostava do trabalho que estávamos fa-
zendo aqui, acredite ou não. O Acordo Garde está desmo-
ronando. Esse pessoal da Fundação que vocês insistem em
procurar, eles estão apenas aproveitando a situação – do
medo, da desconfiança, da corrupção – isso está em toda
parte. E não vai desaparecer da noite para o dia, não im-
porta quantos bandidos vocês nos traga.
— Lindas palavras – disse Nigel.
— Então você está dizendo que teremos que lutar –
disse Nove.
— Ou fugir – acrescentou Taylor.
Caso algo mais tenha sido dito, Nigel não ouviu. Ele
voltou para o prédio dos estudantes. A mãe dele estava sob
custódia, tão condenada quanto alguém como ela poderia
estar. O pai dele estava morto. Seu melhor amigo estava
viajando o mundo com o assassino de seu pai. E aqui, a
Academia, onde finalmente começara a se sentir em casa,
estava prestes a desmoronar.
Medo, desconfiança, corrupção.
E nada mudaria. Isso foi basicamente o que Archi-
bald disse.
Nigel pensou novamente na invasão. Como ele aju-
dou a reunir os primeiros Gardes Humanos para ajudarem
na batalha contra os Mogadorianos. Ele pensou que seria
um herói.
O que Nigel já fez que fez um pouco de diferença?
Ele se viu em pé no prédio dos estudantes. O lugar
estava barulhento e ativo, os alunos iam para lá e para cá,
conversando enquanto preparavam o jantar. Omar Azou-
lay acenou para ele da cozinha. Eles começaram a prepa-
rar o jantar sem que Nigel pedisse dessa vez. Eles estavam
cuidando um do outro.
A TV foi sintonizada no noticiário, onde, é claro, os
âncoras estavam conversando sobre a situação com a
Garde Terrestre. — “Há pouco, ouvimos dizer que há um
grande ceticismo de muitos países europeus com relação ao
chamado Programa Cêpan, já que muitos grupos de prote-
ção estão alegando que a implantação forçada de chips ini-
bidores é uma ação impensada e que talvez beire o abuso
infantil. Embora nada tenha sido confirmado, rumores adi-
cionais dizem que alguns países, como Alemanha e o Ca-
nadá, estão pensando em se retirar do Acordo Garde, apoi-
ado pelas Nações Unidas...”
Nigel respirou fundo e olhou em volta. O lugar chei-
rava a pão e curry. Alguém estava rindo na cozinha.
A mãe dele estava errada. Ela sempre esteve errada.
Ele não podia deixar que o pensamento dela o infectasse;
ele se recusava a herdar o cinismo dela. Ainda havia coisas
boas a serem feitas no mundo. Tudo começou aqui, com a
proteção dessas pessoas, com a garantia de que elas teriam
um lugar seguro para aprender, crescer e se tornar os he-
róis que esse mundo bagunçado precisa.
Nigel bateu palmas. — Ei, pronto para me ensinar a
ferver água? – gritou para Omar. — Tem um avental so-
brando para mim?
Quando Nigel começou a atravessar o salão, a TV
desligou de repente. O mesmo aconteceu com as luzes. Ni-
gel olhou por cima do ombro e viu que as lâmpadas que
iluminavam os jardins da Academia também haviam apa-
gado.
A Garde Terrestre cortou a energia deles.
RAN TAKEDA
ESCUMADOR DO EINAR –
EM ALGUM LUGAR SOBRE O ATLÂNTICO


— Estou respirando – Duanphen respondeu. — É o sufici-
ente.
Duanphen sentou-se contra uma das anteparas, apoi-
ando o braço machucado no colo. Ela ainda parecia mortal-
mente pálida por conta de todo o sangue que perdeu no Marro-
cos. Contusões roxas se espalhavam de sua têmpora até o seu
olho direito, que estava praticamente inchado. Enquanto Ran
se agachava na frente dela, as pálpebras de Duanphen começa-
ram a tremer e sua cabeça pendeu para o lado. Gentilmente,
Ran tocou a bochecha dela.
— Você precisa ficar consciente agora – Ran disse. — Tal-
vez tenha uma concussão.
— A Isabela me acertou com uma garrafa de champanhe
– Duanphen declarou.
— É, eu sei.
— Eu já me desculpei – Isabela disse do outro lado da ca-
bine, onde ela estava sentada no chão agarrando seus joelhos
contra o peito. Caleb estava perto dela, olhando fixamente para
o nada enquanto um de seus clones andava para frente e para
trás na frente dele. Ninguém se importou em dizer para ele que
um dos clones havia escapado. Eles estavam muito cansados
para reclamar ou até mesmo para falar.
— Tudo bem – Duanphen respondeu para Isabela. Então,
ela se lembrou de algo de repente e se inclino na direção de Ran.
— Eu não sou caidinha por você. Aquilo foi uma mentira.
Isabela jogou os cabelos para trás. — Eu não te culparia
se você tivesse.
— Okay – Duanphen disse, se inclinando para trás. —
Ótimo.
— Seríamos um casalzão e tanto – Isabela disse, pensa-
tiva.
O clone parou de andar e olhou de Isabela para Duan-
phen e de volta para Isabela, parecendo considerar o que havia
sido dito. Caleb olhou para cima, percebendo que havia um ou-
tro ele andando por aí e imediatamente o absorveu.
— Como está o braço dela? – Caleb perguntou.
Ran pegou a mão de Duanphen e cuidadosamente virou
o braço dela para que pudesse examinar o corte no antebraço.
Os pontos não eram os mais bonitos que Ran já havia visto –
ninguém os confundiria com médicos de verdade – mas eles es-
tavam retos e limpos e interromperam o sangramento com su-
cesso.
— Parece tudo bem, na verdade – Ran disse.
— Uma das únicas coisas que meu Cêpan idiota me ensi-
nou foi o procedimento dos primeiros-socorros – Cinco disse
enquanto ele levantava do assento do piloto, o Escumador pro-
gramado para ir para o México. Foi o Lorieno que fez os pontos
em Duanphen, as mãos pesadas deles se mostraram supreen-
dentemente gentis. Ele parou sobre os ombros de Ran e olhou
para o resultado. — Você quer que eu fique um pouco aí para
mantê-la consciente?
Ran se levantou, esticando os braços. — Sim. Obrigada.
Cinco ocupou o lugar dela no chão em frente a Duan-
phen, seu único olho a observando atentamente. Eles deram
para Duanphen alguns analgésicos que Einar tinha no Escuma-
dor e ela ficou grogue o suficiente para colocar suas pernas no
colo de Cinco. Ele não as tirou dali. Em vez disso, ele começou
a dar uns tapinhas desajeitados na canela de Duanphen – ele
havia quebrado aquele osso no dia em que se conheceram. De-
pois ele a levou de volta para a nave do Einar e fez uma tala para
ela estabilizar o ferimento.
Lucas os chamou de monstros. Entretanto, Ran não acre-
ditava nisso. Nenhum deles estava além de serem salvos.
— Nenhuma resposta dos amigos de vocês da Academia?
– Einar perguntou. Ele estava sentado no lugar do copiloto, o
corpo dele angulado de uma forma que os outros pudessem vê-
lo. Ele não tirou os olhos do tablet enquanto falou.
Isabela se mexeu apenas o suficiente para verificar o ce-
lular. Agora que eles sabiam que a Fundação estava usando
uma Garde precognitiva para rastreá-los, um pequeno telefone
pré-pago não parecia tão importante. Eles tentaram ligar para
a Academia enquanto fugiam pelo espaço aéreo marroquino,
mas a ligação caiu diretamente no correio de voz. Isabela dei-
xou uma mensagem: “Professor Dum Dum9, é a Isabela. Encon-
tramos um Garde que acredita que trabalha para Jesus arreba-
tando outros Gardes e que está indo na direção de vocês. Ligue de
volta, por favor!” – mas eles não receberam uma resposta. Isso
não era nada bom.
— Sem sinal – Isabela disse. — Talvez assim que chegar-
mos do outro lado do oceano...
— É possível que a Garde Terrestre tenha cortado a co-
municação deles – Einar disse contemplativamente. — É o que
eu faria.
— Não seria melhor irmos para lá? – Caleb perguntou. —
Se eles estiverem em perigo...
— O fato de não estarmos voando diretamente para as
mãos da Garde Terrestre já é de grande valia para eles – Einar
disse secamente.

9
N.T. Referência a um desenho animado chamado “Tartaruga Touche e
Dum Dum”.
— Pois é, em vez disso estamos voando diretamente para
uma prisão de Gardes – Caleb respondeu. Ele olhou para Ran,
provavelmente esperando que ela o apoiasse. Ela pensou em
Nigel e nos outros da Academia, que provavelmente já estavam
cercados por Pacificadores que planejavam escravizá-los, e
agora Lucas estava indo para lá com algum propósito nefasto.
Não era uma escolha fácil de se fazer.
Relutantemente, Ran mexeu a cabeça negativamente. —
Eles podem tomar conta de si mesmos – ela disse para Caleb.
— E, nesse momento, acho que vamos ser mais úteis para eles
aqui de fora.
Caleb não respondeu. Ele olhou para os pés dele, as mãos
balançando para lá e para cá. Claramente alguma coisa ainda
estava incomodando ele, e Ran não achava que era totalmente
sobre o destino dos amigos dele na Academia.
— Já temos algum plano? – Isabela perguntou.
Ran se perguntou a mesma coisa. Ela se aproximou de
Einar, espiando as informações exibidas no tablet dele. Ela viu
uma planta baixa de um grande edifício em forma de cubo que
era dividido em muitos cubos menores. Uma prisão construída
com muita eficiência. Einar deu a Ran um olhar azedo – ele gos-
tava de estar no controle e ainda não estava pronto para tomar
a iniciativa de compartilhar os planos com os demais – mas ce-
deu quando Ran o ficou olhando fixamente.
— Essa é a prisão onde King disse que Lucas estaria sendo
mantido. O pessoal de lá costumavam chamá-la de La Cal-
dera...
— O caldeirão – Isabela disse.
— Eles arrancavam confissões de criminosos lá – Einar
disse, assentindo. — Ou os cartéis alugariam celas para torturar
os inimigos deles. O governo mexicano a fechou por corrupção
há alguns anos e foi assim que a Fundação tomou posse. Desde
então, eles instalaram novos equipamentos e atualizaram o lu-
gar.
— Foi o King que te disse tudo isso? – Ran perguntou.
Einar assentiu novamente. — Ele foi um ótimo colabora-
dor. Até me garantiu acesso integral ao servidor interno da
companhia dele. Os Blackstones ainda tinham algumas infor-
mações detalhadas sobre a prisão de quando eles ficaram no
comando por lá, antes da Fundação fazer uma limpa para que
pudesse alugar para a Garde Terrestre.
— O King vai interromper o seu acesso logo, não vai? –
Ran perguntou. — Ele pode alertar a Fundação.
Einar hesitou. — Sim. Você está certa. Eu vou fazer o
download de tudo o que precisamos e checar se o fiz por com-
pleto. Quanto a ele alertar a Fundação, teremos que arriscar.
Caleb emitiu um som parecido com uma risada solitária.
Ele estava encarando Einar da mesma forma que o fazia antes
de uma discussão irromper entre eles. Mas, pela primeira vez,
ele não disse nada. Ele ficou ali, parado, rangendo os dentes.
Esse silêncio preocupou Ran.
— O que foi, Caleb? – Ran perguntou.
— Sim – Einar acrescentou, olhando Caleb nos olhos. —
Você quer acrescentar alguma coisa?
A pergunta pairou no ar por alguns segundos e alguma
coisa passou entre os garotos; Ran não tinha certeza do quê. O
Escumador balançava para frente e para trás por conta de uma
ventania do lado de fora e Duanphen soltou um gemido baixo.
Finalmente, Caleb falou. — Quem eram aqueles caras?
Os que chegaram atirando?
— Se eu tivesse que adivinhar, diria que era um grupo de
seguranças designados para o King, que ficaram escondidos
para que não percebêssemos que era uma armadilha – Einar
disse, dando de ombros. — Ou eram policiais locais. Interpol.
Pacificadores. Seguranças do hotel super esforçados. Nos dias
de hoje, qualquer um adoraria dar uns tiros em pessoas como
nós. Por que isso importa agora?
— É que eu nunca pensei que chegaria a esse ponto – Ca-
leb respondeu, olhando para o chão de novo. — Para você, tal-
vez. Eu pude ver o por que eles queriam atirar em você. Você
pediu por aquilo. Mas eles não estavam nem aí caso eles acer-
tassem alguém que entrasse por engano no quarto – Caleb co-
locou a mão na nuca. — Um dos meus clones levou um tiro bem
aqui. Poderia ter sido eu.
Ran nem havia considerado isso. Ele já passou por tantas
situações perigosas desde que desenvolveu seu Legado que al-
gumas balas já não mais a assustavam assim.
— E soltarem aquele tal de Lucas em cima de nós... – Ca-
leb continuou, seu olhar pairando na direção de Duanphen. —
Ela poderia ter morrido. Ele a cortou como se ela nem fosse
uma pessoa em carne e osso.
— Ele é doente – Isabela acrescentou. — Mais doente que
qualquer um.
— É por isso que vamos pegá-lo, não é? – Cinco pergun-
tou. — Podemos voltar ao assunto do el caldeirão?
— La Caldera – Einar o corrigiu, mas ainda estava olhando
para Caleb. — O que você diz, Caleb? Podemos voltar com o as-
sunto?
Ran ficou surpresa ao ouvir um pouco de paciência no
tom de voz de Einar. Caleb cruzou os braços e deu de ombros –
Ran pôde notar que ainda havia algo o incomodando, pois ele
parecia assustado demais somente pelo fato de um clone ter le-
vado um tiro – mas ele finalmente concordou. — Continue. Nos
conte como vamos chegar até o Lucas.
— Não vai ser fácil – Einar disse, olhando para a planta da
prisão no tablet. — A prisão fica no meio do deserto, a oitenta
quilômetros ao oeste da cidade mais próxima. Só existe uma
estrada para nos levar até lá. E só tem mato nos arredores.
— Nosso plano é dirigir até lá e tocar a campainha? – Isa-
bela perguntou.
— Eu só estou descrevendo o lugar – Einar disse. — Existe
um muro...
Ran pegou o tablet das mãos de Einar e o virou para que
os outros pudessem ver a planta da prisão. Ele parou por um
momento, pigarreou e continuou.
— Como podem ver, existe um muro há quinhentos me-
tros de distância com uma guarita. Depois, se passarmos por
ela, há um campo aberto que é protegido por atiradores de elite
que ficam nas torres da construção. A entrada principal da pri-
são fica depois desse campo aberto.
— Então não vamos por esse caminho – Cinco disse. —
Temos uma nave que pode ficar invisível. Vamos pousar no te-
lhado e invadir o local.
— Essa parece ser uma opção melhor, mas ainda vamos
ter alguns problemas – Einar disse. — Incialmente, eu roubei
esse Escumador da Fundação. Eles sabem do que ele é capaz.
Eu não tenho certeza se eles podem desabilitar as funções do
nosso Escumador. Mas eu tenho certeza que eles instalaram ar-
mamentos antiaéreos no telhado da prisão. Existe uma chance
de sermos recebidos com tiros.
— Esse Escumador tem algum tipo de arma? – Caleb per-
guntou. — Temos como revidar?
Cinco grunhiu. — Não. As armas foram retiradas. Hones-
tamente, essa nave mal está se aguentando.
Isabela o encarou. — Estamos sobrevoando o oceano e
você escolhe esse momento para nos revelar isso?
— Eu pensei que todos vocês sabiam – Cinco disse. Ele
deu uns soquinhos no chão de metal abaixo dele e o Escumador
pareceu grunhir em resposta. — Vamos ficar bem.
— Para você é fácil falar – Isabela rebateu. — Você pode
voar.
— Então, digamos que vamos pousar no telhado – Caleb
disse. — E depois?
— Bom, mesmo que tivermos o elemento surpresa a
nosso favor, ainda vamos ter que passar por alguns sentinelas.
Mas depois, quando estivermos lá dentro... – Einar aumentou a
imagem no último andar da prisão. — Esse andar é onde o quar-
tel dos guardas foi instalado. A equipe trabalha todos os dias,
em cinco turnos diferentes, dormindo entre eles.
— Estaríamos invadindo pelo ponto mais forte deles –
Caleb disse, franzindo a testa.
— Sim – Einar disse. — Por isso não é uma grande ideia.
— Quantos guardas eles têm? – Cinco perguntou.
— Se baseando no tamanho da prisão de acordo com
essa planta e presumindo que todos estarão em seus postos no
dia que formos invadir? Eu estimaria trezentos.
— Eu dou conta de trezentos – Cinco disse, dando de om-
bros.
Isabela bufou. — Você é igualzinho ao Professor Nove.
Cinco a encarou. — Retire isso agora.
— Esses Pacificadores não vão ser igual aos que guardam
a Academia – Einar disse. — Eu acho que nem você consegue
dar conta de todos sozinho, Cinco.
Cinco murchou um pouco ao ouvir o que Einar disse. —
Eu não vou estar sozinho – ele murmurou. — A Ran é ótima. O
próprio Caleb é pequeno exército. Nós podemos dar conta dos
trezentos.
Ran tocou a tela do tablet. — Depois fica mais fácil? Pre-
sumindo que derrotamos os guardas?
— O segundo andar é onde fica o centro médico, a sala
de controles, a sala do diretor e o depósito de armas – Einar res-
pondeu. — Presumindo que vamos conseguir derrotar os guar-
das, basicamente vamos dar de cara com uma segunda leva de
Pacificadores que são responsáveis pelo depósito de armas.
— O que podemos fazer da sala de controles? – Caleb
perguntou.
— Lá eles recebem todas as imagens das câmeras de se-
gurança. As defesas internas da prisão também são controladas
a partir de lá.
— Que tipo de defesas? – Cinco perguntou.
— Portas de titânio para evitar fugas, mecanismos dis-
persão de gás através do sistema de ventilação e pisos eletrifi-
cados. Eles não querem os Gardes escapem desse lugar, muito
menos que haja uma invasão.
— Ah, existem armadilhas – Isabela disse. — É claro.
— Parece a pista de obstáculos do Nove – Caleb disse.
Einar continuou. — No andar térreo há uma área central
de triagem, uma cafeteria para os prisioneiros e um pequeno
espaço para exercícios. Os dois subníveis são repletos de celas.
É lá que vamos encontrar nosso alvo.
— Assim que chegarmos na sala de controle, vamos ter a
vantagem ao nosso favor – Ran disse.
— Sim e não – Einar respondeu. — Existe uma outra coisa
lá que eles chamam de chave mestra. É um mecanismo remoto
ligado à biometria do diretor que dá a ele o controle dos siste-
mas da prisão. Teremos que rastreá-lo.
Isabela se inclinou para frente, seu tom de voz mais sério
agora. — Eu vi esse diretor. Eu sei qual é a aparência dele. A
Chave mestra é uma luva super fora de moda que ele usa.
Caleb levantou uma sobrancelha. — Como você sabe
disso?
— Alguma coisa deu errada quando Lucas tentou se
transferir para um dos seus clones – Isabela respondeu. — De-
pois disso, eu consegui ver através dos olhos dele. Ele estava
numa cela com o direito e um daqueles Cêpans. O diretor ativou
o Inibidor de Lucas para puxá-lo de volta para o corpo dele.
— Você acha que consegue se transformar no diretor? –
Ran perguntou.
— Claro que sim – Isabela respondeu. — Eu me obriguei a
memorizar o rosto daquele bastardo.
— Talvez essa seja uma opção mais fácil do que invadir-
mos pelo telhado – Ran sugeriu. — Pelo menos para Isabela.
— Eles têm leitores de retina no portão da frente – Einar
disse, olhando para Isabela. — Seu Legado tem essa precisão?
Ela pensou por um momento. — Talvez.
— Talvez – Caleb repetiu. — Você estaria se arriscando
demais.
Isabela se virou para encarar Caleb, e Ran percebeu uma
expressão de determinação no rosto da brasileira que nunca ha-
via visto antes.
— Eu quero pegar esse cara – ela disse secamente. — O
que ele fez comigo... não quero que ele faça com mais ninguém.
Einar pigarreou. — Bom, nossas opções parecem ser ou
usar da força brutal ou da estratégia, nenhuma parecendo que
vai dar certo.
— Por que não usamos as duas? – Cinco perguntou,
olhando para Einar. — Sem ofensa, mas se uma batalha come-
çar, você e Isabela não vão ser de muita ajuda. É melhor tentar-
mos por todos os ângulos.
— Bom, de qualquer jeito estaremos em menor número
– Einar disse. Ele olhou para o tablet, como se ele tivesse o tra-
ído por não ter mostrado uma maneira mais fácil de invadir o
local.
— Parece uma missão suicida – Duanphen disse, a cabeça
inclinada para o lado. — Massa.
— Não podemos pensar assim – Ran respondeu. — Taylor
nos disse que eles podem estar com outros Gardes nesse com-
plexo. Sam Goode, a Número Seis, talvez outros que a Garde
Terrestre e a Fundação prenderam. Se conseguirmos chegar
nas celas e libertá-los, a batalha pode se tornar favorável para
nós.
Caleb começou a tamborilar os dedos. — Vamos entrar
lutando. Vamos dominar a sala de controles. Vamos rastrear o
diretor com sua chave mestra. Vamos ir até as celas e começar
a libertar os Gardes. Vamos encontrar Lucas...
Um silêncio caiu sobre a cabine. Ran sabia que eles não
estavam apenas contemplando a enormidade da missão diante
deles. Eles também estavam lidando com uma pergunta maior,
que estavam evitando discutir, embora todos provavelmente
tivessem pensado nela.
Foi Ran que a perguntou em voz alta. — Quando chegar-
mos até o Lucas, o que vamos fazer com ele?
— Ele precisa ser parado – Isabela disse.
— E como vamos fazer isso? – Ran perguntou. — Especi-
ficamente?
Cinco grunhiu. — Ótimo. Eu vou ser a pessoa que vai di-
zer em voz alta. Vamos matá-lo.
Ran olhou para Cinco, mantendo sua expressão neutra.
— Ele está confuso. Machucado. Isso faz dele um monstro? Nós
temos que ser as pessoas que vão decidir se ele tem ou não sal-
vação?
Cinco encarou Ran por um momento, depois desviou o
olhar. Honestamente, nem Ran tinha certeza das respostas
para suas próprias perguntas. Ela não tinha uma resposta sobre
o que fazer com o filho perturbado dos Ceifadores.
Isabela se manifestou. — Esqueça isso. Eu estive dentro
da mente dele, Ran. Não existe salvação.
— Eu concordo com Isabela – Duanphen disse, soando
fraca.
— Ele tem um Inibidor implantado dentro do cérebro
dele e ele não pode se transferir para dentro dos meus clones –
Caleb disse. — Podemos contê-lo. Levá-lo como prisioneiro.
Isabela se afastou de Caleb. — E se ele escapar? Aí vão
nos culpar por qualquer que seja a próxima vítima dele.
Einar coçou a ponta do nariz. — Eu fiz um juramento de
que não iria machucar ninguém da nossa espécie. Mas o Lu-
cas... eu não sei.
— Qual é o limite? – Ran perguntou. — Quando nos tor-
namos piores do que aqueles contra quem estamos lutando?
Outra forte rajada de vento fez o Escumador balançar
para frente e para trás. Cinco se levantou e foi até os controles,
sem olhar para Ran. Isabela se levantou e se sentou ao lado de
Duanphen para garantir que ela não ficasse inconsciente. Einar
pegou o tablet de Ran e saiu da cabine. Caleb recostou-se na
parede e fechou os olhos, as pernas tamborilando inquieta-
mente. Ran ficou ali, esperando.
Ninguém tinha uma resposta para a pergunta dela.
NA VÉSPERA DA BATALHA
A.G.H. – POINT REYES, CALIFÓRNIA

— —
lega de quarto seria a pessoa ideal para isso, muito melhor que eu.
Taylor levantou um espelho para que Vontezza pudesse exa-
minar seu trabalho. Foi necessário aplicar muito corretivo e blush
para dar cor ao rosto de Vontezza, não era fácil maquiar alguém à
luz de velas, ainda mais com Vontezza constantemente se afastando
do pincel. Agora, a Mogadoriano zombou de seu próprio reflexo e
afastou o espelho.
— Que nojo – disse Vontezza. — Eu pareço um palhaço.
Do sofá no lado oposto da área comum do quarto, Kopano
riu. Taylor se afastou de Vontezza para encará-lo. Tudo isso era
culpa dele, já que foi ele que ofereceu Taylor para maquiar uma
Mogadoriana. Como se ela não tivesse problemas suficientes.
Captando o olhar de Taylor, Kopano levantou as mãos em
defesa. — Desculpa. Eu deveria saber que você não seria boa com
maquiagem, já que sua beleza é natural.
Taylor gemeu com a tentativa desajeitada dele de se defen-
der. Rabiya também, que observava toda a situação da porta do
quarto dela.
Vontezza esfregou as duas mãos no rosto, piorando a situa-
ção. Taylor se encolheu e Rabiya abafou uma risada. Ao perceber
que todos estavam olhando para ela, Vontezza se levantou abrup-
tamente e marchou para o banheiro.
— Isso é uma idiotice – ela rosnou. Ela agarrou a frente da
camisa de flanela que ela vestia no lugar de sua armadura. — Essas
roupas também. Eu odeio este planeta.
Talvez ela estivesse exausta por conta dos últimos dias. Tal-
vez estivesse assim por estar seu dormitório, onde ela fez tantas
com Ran e Isabela. Mas quanto mais agitada Vontezza ficava, mais
engraçada a situação se tornava. Taylor se viu relaxando pela pri-
meira vez em algum tempo.
— Eu odeio este planeta – repetiu Taylor, escondendo uma
risada enquanto se jogava no sofá ao lado de Kopano.
— Cuidado – disse Kopano em um sussurro. — Se você
irritá-la ao extremo, ela vai acabar te batendo com a maça.
Vontezza não ouviu os comentários deles. Ela estava muito
ocupada esfregando violentamente o rosto com água e sabão.
No começo, Taylor ficou com raiva por Kopano ter ofere-
cido a ajuda dela para maquiar Vontezza. Mas agora ela se sentia
grata pela distração. Ela se inclinou contra Kopano e ele a abraçou.
— Você tem um coração grande – disse ela, se sentindo re-
pentinamente sincera apesar do furacão de sentimentos que sentia.
— Você é patologicamente determinado a ajudar todos com quem
entra em contato. Inclusive Mogadorianos.
— Não é por isso que estamos aqui? – perguntou Kopano.
— Mas sim, você está certa. Eu sou patologicamente determinado.
Taylor riu baixinho e se inclinou para beijar a bochecha dele.
Ela percebeu que Rabiya entrou de volta para o quarto dela naquele
momento. Mas tudo bem. Esta poderia ser a última noite deles no
campus e este era o quarto dela. Ela agarraria qualquer momento de
felicidade que pudesse.
Vontezza emergiu do banheiro com os cabelos soltos, a
trança enorme desenrolada em uma cortina ondulada de cor preta
que caia até os quadris. Ela empurrou o cabelo para o lado para
cobrir as tatuagens.
— Meu povo viveu entre a população da Terra por anos –
disse ela. — Não deveria ser tão difícil de se misturar.
— É porque naquela época ninguém sabia que os Mogado-
rianos existiam – respondeu Kopano.
— Tinha um professor na minha escola com cabelos escuros
e uma pele pálida – Taylor disse, se lembrando. — Alguém riscou
o carro inteiro dele após a invasão.
— Porque ele era Mogadoriano? – perguntou Vontezza.
— Não, claro que não – respondeu Taylor. — Só porque ele
parecia com vocês.
Vontezza olhou para ela sem entender. — Eu não entendo
o que você quer dizer, loirinha. Eu sou uma Mogadoriana nascida
naturalmente, não um professor fraco. E eu não tenho carro.
Taylor suspirou, inclinando-se contra Kopano. — Você está
pronta para se misturar.
— Não – respondeu Vontezza. — Não estou.
Rabiya saiu do quarto dela e jogou uma trouxa de roupas
para Vontezza. A Mogadoriana as desviou de seu caminho como se
aquilo fosse uma faca sendo atirada contra ela.
— Experimente isso – disse Rabiya.
Vontezza desembaraçou as roupas e as estendeu na frente
dela. Um hijab azul escuro e um cachecol.
— Não que usar hijab não chame a atenção neste país – disse
Rabiya. — Mas pelo menos eles não poderão dizer que você é uma
Mogadoriana.
— Concordo – respondeu Vontezza, enquanto cuidadosa-
mente colocava o hijab por cima do cabelo. — Isso é aceitável.
— Boa ideia – disse Taylor a Rabiya.
— É sim – respondeu Rabiya, desviando o olhar dela e de
Kopano. — Obrigada.
A porta do quarto se entreabriu e a cabeça de Nigel apareceu.
Ele olhou duas vezes quando viu Rabiya parada na porta do antigo
quarto de Ran, depois fez uma careta e olhou para Taylor.
— Então – disse Nigel como forma de cumprimento. —
Reunião geral no prédio dos estudantes. Você está pronta?
Taylor saiu de baixo do braço de Kopano. Foi bom en-
quanto durou.
— Estou pronta.
Quando ficaram sem velas e sem lanternas, os alunos da Acade-
mia fizeram tochas. Cortaram galhos das árvores, enrolam cami-
sas de algodão nas pontas, as mergulham em querosene e dei-
xam Omar soprar nelas. O caminho que ligava os dormitórios ao
prédio dos estudantes ficou iluminado por uma fileira de tochas
e Kopano não pôde deixar de sorrir pela engenhosidade de seus
colegas de classe. Ele puxou uma das tochas do chão e a levan-
tou, acenando para frente e para trás com a tocha na mão.
— Cuidado com isso – disse Nigel.
— Isso é muito legal, você não acha? – Kopano perguntou.
— Parece que estamos num filme.
— Estamos isolados, companheiro. Mas estou feliz que
você esteja se divertindo.
Kopano olhou para o prédio dos estudantes. Ele conseguia
ver sombras circulando por lá, todos os demais alunos e instruto-
res que ficaram no campus – com exceção dos poucos que esta-
vam fazendo a guarda na barricada. Ele sentiu o cheiro de ham-
búrgueres e cachorro-quente.
— Sim, talvez estejamos com problemas – respondeu Ko-
pano a Nigel, dando um tapinha no ombro ósseo do amigo. —
Mas você não sente isso? Estamos juntos. Nós vamos ganhar.
Taylor olhou por cima do ombro para eles. — Ele está
sendo irracionalmente positivo de novo?
— Você sabe – respondeu Nigel. — Kopano, quando im-
plantaram o Inibidor na sua cabeça, você agia tipo “Ah, isso é
ótimo, não dói tanto quanto vocês pensam!
Kopano sorriu. — Isso soa como eu!
Eles estavam tirando sarro dele, mas Kopano pôde sentir
que sua positividade estava funcionando. Ele viu como Nigel ha-
via endireitado sua postura e como Taylor andava com um pouco
mais de confiança. Eles sabiam que ele estava certo. Ao se apro-
ximarem do prédio dos estudantes, esbarraram em John e Nove,
que estava indo para lá também.
— Você está pronta para inspirar a todos? – Nove per-
guntou a Taylor.
— Tem certeza de que você não quer falar? – ela respon-
deu.
— Melhor vir de você, eu acho – respondeu Nove. — Eu
provavelmente xingaria um monte.
— Eu posso dizer algo, se você quiser – John acrescentou.
Taylor hesitou. — Sinceramente, acho que seria melhor se
você apenas ficar lá e parecer...
— Silenciosamente bonito – Nigel completou.
— Isso – continuou Taylor. — Isso mesmo. As pessoas se
sentem confortáveis sabendo que você está aqui. Sua presença
faz com que se sintam seguros. Mas quando se trata de falar
sobre a nossa situação, acho que isso deve vir de um de nós. Tal-
vez depois que eu os acostumar com a ideia, você possa falar
algo.
— Faz sentido – respondeu John, mantendo a porta do
prédio do estudantes aberta para eles. Depois que Taylor entrou,
Kopano percebeu como John a olhava. Ele não estava olhando
de soslaio ou coisa assim – era pior do que isso. John olhava para
Taylor do mesmo jeito que Kopano olhava para Taylor. Com uma
mistura de admiração e saudade. O sorriso de Kopano vacilou
um pouco. Depois que ele passou pela porta, Kopano colocou a
mão no ombro de John.
— Você tem uma namorada na Índia, John Smith?
— Não. Não exatamente – disse John, olhando Kopano
de uma forma estranha. — Eu tive um... bem, tive algo por um
tempo, mas não deu certo. Isso é... é complicado.
— Compli—
Antes que Kopano pudesse fazer a próxima pergunta, Ni-
colas Lambert trombou com ele. O prédio dos estudantes estava
lotado, então Nic tinha uma desculpa, mas Kopano percebeu que
ele havia feito de propósito. John não percebeu e provavelmente
ficou aliviado por se afastar de Kopano. Nic lançou um olhar a
Kopano, depois se aproximou de Anika e Maiken.
Nigel se aproximou de Kopano, olhando para Nic. — O
idiota fez isso porque você defendeu a garota Mogadoriana –
disse ele. Kopano havia contado a Nigel sobre o incidente mais
cedo e viu a raiva surgir nos olhos de seu companheiro de quarto.
Ninguém odiava mais os valentões que seu amigo britânico.
Kopano balançou a cabeça, agradecido por Vontezza ter
se oferecido para guardar a floresta no perímetro da Academia,
em vez de comparecer à assembleia iluminada por tochas.
— Ele vai superar isso – disse Kopano. — O que ele vai
fazer? Trombar em mim e me agredir? Eu posso aguentar isso sem
sentir nada.
— É assim que as merdas começam – Nigel respondeu
sombriamente. — Talvez se torne necessário cortar o mal pela
raiz se quisermos uma frente unificada adequada.
— Está tudo bem – disse Kopano com um aceno de mão.
— Deixa pra lá.
Os olhos de Nigel se estreitaram e continuaram focados
em Nicolas. Kopano respirou fundo e voltou sua atenção para
outra coisa. Miki estava com seus velhos amigos tweebs, assen-
tindo encorajadoramente enquanto um deles mostrava uma pe-
quena faísca saindo da unha – um Legado recém-descoberto. Os
demais professores, incluindo Malcolm e a Dra. Chen, estavam
reunidos no segundo nível, observando os alunos lá de cima. Ko-
pano fez uma contagem rápida. Havia cerca de uma dúzia de
professores lá em cima, menos de um quarto do número normal.
Ainda assim, nada mal. Ele os respeitava por terem ficado.
Todo mundo estava junto. Unidos. Kopano achou isso incrí-
vel. Ele abriu os braços, colocou um em volta do pescoço de Nigel
e o outro em volta de Simon, que por acaso estava ao lado dele,
e os apertou.
— É para isso que treinamos – declarou Kopano. — Pode
parecer que estamos com problemas, como se isso fosse o fim,
mas não é. Este é o começo.
— Tudo bem, cara – respondeu Nigel, dando um tapinha
nas costas dele. — Acalme-se.
A sala ficou respeitosamente em silêncio quando Taylor su-
biu numa mesa no centro. As tochas lançavam sombras dramáticas
no rosto dela enquanto ela olhava ao redor para os alunos ali
reunidos, tentando fazer contato visual com o maior número pos-
sível deles. Kopano havia dito a ela para fazer isso. Contato vi-
sual e boa postura, ele disse a ela. Ela revirou os olhos, é claro,
mas ele estava acostumado a isso.
— Hoje, eu conversei com os representantes das Nações
Unidas e disse o que esperamos deles – disse Taylor. Ela falou
normalmente, mas sua entonação estava diferente. Isso graças ao
Legado de Nigel. — Eu disse a eles que somos contra a implan-
tação de Inibidores em nossos cérebros sem o nosso consenti-
mento. Eu disse a eles que queremos uma participação de escolha
em que tipo de missão nos será designada depois que nos for-
marmos na Academia – ela olhou para a mezanino e acenou com
a cabeça para o professor Nove. — Eu disse a eles que queremos
ser representados por pessoas em quem confiamos, que têm nos-
sos melhores interesses no coração.
— E então eles cortaram a energia – disse Maiken. Alguns
estudantes resmungaram em resposta.
— Sim, eles me disseram que não se trata de uma negoci-
ação – respondeu Taylor. — Eles não se preocupam com o que
queremos. Nós os irritamos por ignorá-los hoje. Tenho certeza que
amanhã eles tentarão nos remover à força.
Um murmúrio ansioso atravessou a multidão. Kopano notou
muitos olhares nervosos entre os estudantes. No entanto, vários
outros alunos pareciam se fortalecer com a notícia.
— Eu sei que parece que estamos contra o mundo agora
– continuou Taylor. — Mas isso não é verdade. Nem todo mundo
nas Nações Unidas é ruim. Olhem para o mezanino...
Ela gesticulou para onde a Dra. Chen e os demais profes-
sores estavam. — Existem pessoas dentro desses muros que con-
cordam conosco e acreditam na Garde. Antes de cortarem a
energia, vi pessoas no noticiário discutindo em nosso nome.
— Muitos deles diziam que deveríamos ser presos – Simon
murmurou. Kopano franziu o cenho para ele.
— Quero acreditar que as pessoas são boas – disse Tay-
lor. — Eu quero acreditar que as Nações Unidas voltará a si. Mas
até que isso aconteça... nós teremos que lutar.
Outra onda de sussurros atravessou a sala. Kopano sentiu
seus colegas se aproximarem um pouco mais.
— Não queremos machucar os Pacificadores. Mas nós va-
mos nos defender – a voz de Taylor ficou um pouco mais alta, um
pouco mais forte. — Vamos mostrar a eles que não seremos tira-
dos à força.
— Aí sim! – alguém gritou, mas Kopano não tinha certeza
de quem. Ele estava observando duas tweebs no fundo do salão,
nenhuma delas com mais de treze anos, as duas se abraçando e
quase chorando.
— Eu sei que isso é pedir muito – continuou Taylor, suavi-
zando seu tom agora. — Alguns de vocês estão a um milhão de
quilômetros de casa. Vocês já sentem falta da família e da vida
antiga que vocês tinham. E agora estou aqui pedindo que vocês
se tornem basicamente desrespeitadores da lei – ela balançou a
cabeça. — É uma loucura, eu sei. Se vocês me dissessem, quando
eu cheguei a esta Academia, que um dia eu estaria dando um
discurso como esse, provavelmente eu faria xixi nas calças.
Algumas risadas leves da multidão. Taylor esperou o ba-
rulho diminuir antes de prosseguir.
— Talvez vocês estejam pensando que o acordo que as
Nações Unidas está oferecendo não parece tão ruim. Eles dizem
que só usarão os Inibidores em último caso. Vocês são pessoas
boas. Eles nunca precisarão dar choque em vocês ou controlá-los
– ela apontou para as portas do prédio dos estudantes e para
a noite escura e além. — Não impediremos ninguém de sair e se
juntar a eles. Eu não vou impedir se alguém quiser escolher o lado
que acha seguro, que não queira correr o risco.
Taylor fez uma pausa, como se estivesse esperando al-
guém levantar e sair pelas portas. Todo mundo olhou em volta,
uns para os outros, esperando a mesma coisa.
Ninguém saiu.
— Mas se algum de vocês estiver considerando isso, me
deixem contar sobre um Garde com o Recupero que eu conheci
quando a Fundação me sequestrou – disse Taylor. — O nome
dele era Bunji, embora não tenha sido ele que me disse isso, já
que Bunji não sabia falar. Ele levou tantos choques com uma ver-
são inicial do Inibidor que ele era basicamente um vegetal. Seus
Legados ainda funcionavam, no entanto. Havia uma mulher com
ele – uma enfermeira, talvez, ou uma dessas pessoas que eles
estão tentando chamar de Cêpan – e ela conseguia fazer com
que Bunji usasse seu Legado de cura. Eles a treinaram para isso.
Ele não era mais uma pessoa. Ele era um meio para um fim.
Kopano já ouvira essa história antes e ainda sentia o estô-
mago revirar sempre que Taylor a repetia. Olhando em volta,
ele percebeu que a história surtiu um efeito semelhante em muitos
de seus colegas de classe.
— Eles fizeram isso com um Garde que tinha um Legado
de cura – continuou Taylor, com a voz baixa. A luz bruxuleante
das tochas fez Kopano pensar que a situação era ideal para
contar histórias assustadoras. — Não alguém com um Legado pe-
rigoso. Apenas alguém que não quis obedecê-los. Alguém que
não quis fazer o que eles pediam. Podemos realmente confiar
que isso não vai acontecer conosco? Não devemos ter uma opi-
nião sobre como vivemos nossas vidas e usamos nossos Legados?
Os murmúrios de concordância estavam mais fortes agora.
Kopano sorriu com vontade.
Nenhum deles olhava mais para as portas.
— Talvez vocês tenham notado que eu continuo dizendo
“Nações Unidas” em vez de “Garde Terrestre" – Taylor disse, seu
tom de voz aumentando novamente. Ela era boa nisso. — Eles
fazem a Garde Terrestre parecer tão boa, né? “Se esforce bas-
tante na Academia e um dia você poderá usar um uniforme legal e
sair com Melanie Jackson” – Taylor bufou. — Há três Gardes por
aí com os Pacificadores que afirmam representar a Garde Ter-
restre. Um deles é a Melanie. A outra é uma garota que traba-
lhava com a Fundação. O outro é um idiota total. Só três. Quantos
de nós existem? – Taylor olhou em volta da sala. Então, ela apon-
tou para Nove e John. — Quantos Lorienos estão lá fora com
eles? Nenhum. E quantos estão aqui conosco?
Taylor fez uma pausa, os lábios comprimidos, os olhos es-
treitados. Uma expressão zangada no rosto.
Uma expressão determinada.
— A Garde Terrestre não está lá fora – disse Taylor. —
Eles não se chamam assim. A Garde Terrestre está bem aqui. So-
mos nós. Nós somos a Garde Terrestre.
— Falou tudo! – Nigel gritou. — Nós somos a Garde Ter-
restre!
Kopano se juntou a ele. — Nós somos a Garde Terrestre!
Maiken. Simon. Miki. — Nós somos a Garde Terrestre!
Nicolas. Omar. Rabiya. — Nós somos a Garde Terrestre!
Todos. — NÓS SOMOS A GARDE TERRESTRE!
— Bom – disse Taylor, depois que os gritos cessaram. —
Então, se vocês estão comigo, eis o que vamos fazer...

— Nosso objetivo é proteger a Academia e impedir que qualquer


um de nós caia nas garras da Garde Terrestre – disse Taylor. Ela
olhou para o mezanino, onde John e Nove estavam sentados lado
a lado. — Mas se percebemos que é uma luta perdida, temos um
plano B. John?
Talvez tenha sido um pouco dramático John ter escolhido
descer do mezanino voando para poder ficar ao lado de Taylor na
mesa, mas ela não se importou. Foi um alívio, na verdade, ter a
atenção voltada para outra pessoa por alguns segundos. Todos
aqueles olhos brilhantes olhando para ela estavam começando a as-
sustá-la.
Eles confiavam nela. Eles realmente pensavam que ela sabia
o que estava fazendo.
John explicou o que ele estava construindo na Índia. Taylor,
ainda um pouco atordoada após discursar, se desligou. Seus olhos
encontraram Kopano na multidão. Ele lhe deu um sinal de positivo.
— Com mais um gerador de campo de força, poderei prote-
ger a área – dizia John. — Mas não queremos que as outras pessoas
descubram sobre a Nova Lorien antes que ela esteja segura, o que
significa que vocês terão que ficar aqui até eu ter tudo pronto – ele
olhou para Taylor e depois para Nove. — Com sorte, não precisa-
remos de nada disso. Queremos manter a Academia aberta. Quere-
mos trabalhar com a Garde Terrestre—
— Mas também queremos viver livres – acrescentou Taylor.
Ela olhou em volta. — Alguma dúvida?
Claro que havia perguntas.
Em algum momento, Taylor e John desceram da mesa. Nove
e Malcolm desceram do mezanino para explicar como as coisas fun-
cionariam.
Eles elegeram líderes de equipe. Algumas pessoas correram
para o serviço de guarda, outras para descansar para trabalhar nas
defesas durante a próxima manhã. Taylor deixou que a atividade
girasse em torno dela e levá-la adiante. Ela conversou com o maior
número possível de alunos. É claro que muitos deles pareciam ner-
vosos, mas também pareciam resolutos e otimistas.
Eles pareciam prontos.

A reunião correu muito bem. Taylor fez um trabalho es-


trondoso. Mas Nigel sabia que, para que um movimento
como o deles fosse bem-sucedido, alguém tinha que estar
disposto a sujar as mãos. Ele ficou feliz em assumir essa
responsabilidade sozinho.
Ele era filho de Bea Barnaby, no fim das contas.
Nigel se lembrou de como caras como Nicolas agiam
em Pepperpont. As pequenas agressões como uma trom-
bada ou um comentário malicioso que não parecia tão ruim
a princípio – nada que você não pudesse tolerar – mas que
gradualmente se transformavam em humilhações e final-
mente em crueldades brutais. Aqueles idiotas de Pepper-
pont machucaram Nigel o suficiente sem nem precisarem
de Legados. Do que eram capazes pessoas como Nicolas e
seus capangas se fossem deixados fizer o que querem?
Então, depois que a reunião terminou, Nigel ficou de
olho em Nicolas.
Ele observou das sombras enquanto Nicolas conver-
sava tranquilamente com Anika e duas tweebs no gramado
em frente aos dormitórios. Ele observou quando o tal do
Ben se juntou a eles, todos juntos, tramando alguma coisa.
Era o mesmo grupo que Kopano havia mencionado;
os aspirantes a valentões que haviam implicado com Von-
tezza. Nigel também não era exatamente favorável sobre
terem uma Mogadoriana no campus, mas se John Smith
deu o aval, ele imaginou que ela devia ser decente o sufici-
ente. Nigel estava mais preocupado com o tipo de dano que
Nicolas e seus amigos poderiam causar à Academia. Será
que contariam tudo para a Garde Terrestre por estarem
desgostosos com a presença de Vontezza no campus?
Quando os seis saíram do perímetro iluminado pelas
tochas e seguiram para o prédio dos estudantes – agora
vazio – Nigel ficou ainda mais desconfiado. Ele ficou junto
com o pessoal da Fundação tempo suficiente para saber
qual era a aparência de uma conspiração.
Nigel silenciou seus passos para que os outros não o
ouvissem indo atrás deles. Graças a todas as luzes apaga-
das, ficou fácil segui-los. Ele observou o grupo entrando em
uma sala de aula vazia no primeiro andar. Presumindo que
não haveria ninguém por perto, Nicolas e seus colegas nem
se deram ao trabalho de fechar a porta.
Nigel avançou pelo corredor, sem saber exatamente
o que deveria fazer. Seria um contra seis. Ele sabia que
deveria procurar ajuda. Seria uma jogada inteligente. Mas
tinha sido um dia longo e algo dentro de Nigel se desgastou
por conta disso. Ele estava cansado de segredos e reuniões
secretas. Ele estava cansado de perder.
— O que ele disse para você antes de ir embora? –
essa era a voz de Anika. Nigel estava do lado de fora da
porta, de costas contra a parede, ouvindo.
— Ele disse que iria nos proteger – respondeu Nico-
las. — Disse que aqueles bastardos nem o veriam chegar.
Era isso então. Outra traição. Nicolas fez contato
com alguém do outro lado e assegurou que seu grupinho
saísse intacto. Eles provavelmente revelaram o segredo so-
bre a Nova Lorien.
Antes de perceber o que estava fazendo, Nigel entrou
na sala. Ele estava tão, tão cansado disso. As memórias
inundaram a mente dele – os rostos sarcásticos dos garotos
de Pepperpont enquanto judiavam dele, os túneis escuros
de Patience Creek, Einar sussurrando em seu ouvido, a
mãe dele de costas para ele enquanto se afastava dali. Ele
queria machucar alguém.
Nigel assobiou. Era um pequeno truque que ele es-
teve trabalhando no centro de treinamento. Ele usou seu
Legado para aumentar o volume no tom de uma sirene.
Então, ele transformou as vibrações sonoras em flechas,
mirou e apontou direto para o tímpano de Nic. Derrube o
maior primeiro, essa era a regra da escola.
Nic uivou e caiu da mesa em que estava sentado, co-
locando as mãos dos lados da cabeça. O grupo, que estava
em um círculo, se levantaram e ficaram atentos. Um saco
de batatas fritas de tortilha que um dos tweebs estava se-
gurando caiu e o conteúdo se espalhou por toda parte. En-
quanto Nic se contorcia no chão, cinco pares de olhos em
pânico se concentraram em Nigel.
— O que você está fazendo? – Anika gritou, perdendo
o equilíbrio quando Nigel redirecionou seu assobio na di-
reção dela. — Pare com isso!
Algo não parecia certo.
De um lado, Anika segurava uma caixa de lenços na
frente dela para afastar Nigel. E havia comida demais
para uma reunião de conspiração. E não era o “urso solidá-
rio” – um antigo brinquedo da Dra. Linda que ela usava
para convencer Nigel a manter uma conversa terapêutica
unilateral – no chão ao lado de Nicolas?
Nigel parou de assobiar, olhando para os outros.
Ninguém tentou atacá-lo. Nic, gemendo, conseguiu se sen-
tar. Ele cuidadosamente tocou sua orelha e estremeceu.
— Certo, então, o que diabos é isso aqui? – Nigel exi-
giu. — Se vocês pensam que vão dedurar o resto de nós
para a Garde Terrestre...
— Do que você está falando? – Nic gritou. Naquele
momento, ele estava ambos bravo e um pouco surdo. —
Nós estamos dedurando ninguém, seu babaca!
— Estamos do seu lado – disse Ben, nervoso. —
Quero dizer, eu pensei que estávamos.
Nigel apontou para Nic. — Eu fiquei sabendo sobre
o que aconteceu com você e a garota Mogadoriana. Vi você
tentando intimidar o Kopano. Eu conheço o seu tipo...
— Sim, tentamos assustar aquele psicopata Moga-
doriana – Nic respondeu bruscamente. — Mas nós não...
aff, você realmente machucou meus ouvidos, cara.
Anika avançou com as mãos levantadas, a voz suave.
— Percebemos que todos nós perdemos pessoas durante a
invasão – disse ela. — Pensamos que, em vez de descontar
nossos sentimentos em outras pessoas – ou alienígenas he-
diondos – que deveríamos conversar sobre o que aconteceu
com cada um de nós.
Nigel passou a mão pelos olhos. — Merda. Acabei de
ferrar com um grupo de apoio.
— Não soe como se isso fosse depressivo – rosnou Ni-
colas.
— Quando você entrou, Nic estava nos contando so-
bre a última conversa que teve com o irmão dele – disse
Anika. — Antes de ele ser morto na invasão.
Nigel deu um passo para trás. Naquele momento, ele
desejou ter o Legado de Kopano, para que pudesse ficar
transparente e afundar no chão. Todos os outros estavam
encarando ele agora, com medo do que ele poderia fazer a
seguir. Paranoia, cinismo, raiva – esse era o legado de sua
mãe para ele. Nigel sentiu como se estivesse doente.
— Me... me desculpem – ele gaguejou. — Eu já vou
embora.
As bochechas dele estavam coradas e os olhos esta-
vam lacrimejando depois que Nigel saiu da sala. Ele queria
correr. Para chegar o mais longe possível.
Enquanto ele tropeçava pelo corredor escuro, Nigel
percebeu que havia algum movimento atrás dele. Uma
mão forte agarrou o braço dele e o virou. Era Nicolas, de
pé, com uma pequena gota de sangue visível saindo da ore-
lha. Nigel se preparou. Ele já havia levado um soco antes.
Ele merecia ser socado novamente.
— Ei, ei, cara, pare... – Nic disse sem jeito.
O garoto belga estava parado na frente de Nigel, mas
ele não parecia zangado. Nigel levou um momento para re-
gistrar a expressão desconhecida no rosto de Nic. Simpa-
tia.
— Eu ouvi sobre o que aconteceu com você – conti-
nuou Nic. — Talvez você devesse ficar. Falar com a gente.
Ou apenas ouvir. Você sabe, se quiser.
De certa forma, Nigel se viu pressionado contra o
peito do outro garoto. Ele estremeceu. Nic deu um tapinha
nos ombros dele e apertou sua nuca.
— Tudo bem – disse Nigel. — Mas não conte a nin-
guém sobre isso.
Nic bufou. — Sim. Nem você.

Horas depois de seu discurso, Taylor espiava através de um emara-


nhado de metal, observando a floresta. Era tarde e tudo estava qui-
eto. Não havia nenhum Pacificador à espreita pelo campus. As qua-
tro horas de serviço de guarda dela – que ela havia se oferecido para
um turno tardio – estavam quase terminando. Ela passou o tempo
todo repensando em seu discurso e nas discussões que sobrevieram.
Será que ela disse as coisas certas? Será que ela esqueceu algum de-
talhe? Será que eles perceberam que ela estava nervosa? De pé, na
frente de seus colegas de classe, fingindo não ser apenas uma garota
do campo que veio da Dakota do Sul, mas sim uma líder, alguém
que sabia do que estava falando.
— Claro que os enganei – ela disse suavemente para si
mesma.
Passos atrás dela interromperam Taylor e seus pensamentos.
Ela se virou e viu Maiken se aproximando. O turno de Taylor aca-
bou.
— Vá dormir um pouco – disse Maiken. — Você está aba-
tida.
— Obrigada – disse Taylor secamente.
Taylor caminhou na direção dos dormitórios ao longo do
caminho iluminado por tochas. Ela olhou para cima, viu uma som-
bra empoleirada na parede perto do telhado e acenou para Nove.
Ele acenou de volta. Conhecendo Nove, ele provavelmente não iria
dormir esta noite. E, apesar do que Maiken disse, Taylor também
sabia que não conseguiria dormir.
Ocorreu-lhe que, pela primeira vez em horas, ela estava livre.
Não havia mais nada para ela fazer. Ela podia respirar.
Ela não perderia esse tempo dormindo.
Taylor bateu suavemente na porta do quarto de Kopano. Ela pre-
sumiu que sua aparência estaria horrível; cabelos ondulados e ema-
ranhados, olhos cansados e com olheiras. Ela não se importou. Afi-
nal, estava escuro.
Kopano atendeu a porta rapidamente. Ele estava vestindo
apenas as calças do pijama, que eram um pouco curtas para ele –
ele havia crescido alguns centímetros desde que chegara na Acade-
mia. Ele segurava uma vela, a pequena luz tintilando nos olhos es-
curos dele. Ele se iluminou quando a viu, um olhar que Taylor
nunca se cansou.
— Ótimo – disse Taylor. — Você ainda está acordado.
— Eu deveria estar dormindo – respondeu Kopano, incli-
nando-se para se apoiar na porta. — Preciso acordar muito cedo
para minha missão com o.... qual-o-nome-dele.
Taylor inclinou a cabeça. — John Smith. Seu ídolo.
Kopano estalou os dedos. — Sim. Ele mesmo.
Taylor mudou de assunto. — Nigel está aí?
Kopano parecia um pouco desanimado por ela estar à sua
porta perguntando sobre seu companheiro de quarto. — Hum, não,
na verdade. Não sei para onde ele foi.
— Ótimo – respondeu Taylor, colocando as duas mãos no
peito de Kopano, empurrando-o de volta para dentro do quarto. —
Vou dormir aqui com você.
— Você—
Antes que Kopano pudesse responder completamente, Tay-
lor ficou na ponta dos pés e o beijou. Ela precisava disso. A mu-
dança estava chegando. O perigo estava no horizonte. Tudo. Taylor
não sabia o que o amanhã poderia trazer para nenhum deles. Esta
poderia ser sua última chance de agir de forma irresponsável. Ela ia
aproveitar.
Kopano a abraçou com um dos braços e as pernas dela abra-
çaram a cintura dele. Ele colocou a vela em uma superfície. Ela fe-
chou a porta do quarto com sua telecinese.
Ninguém conseguiu dormir naquela noite.
KOPANO OKEKE
OSÍRIS – PRAIA PFEIFFER, CALIFÓRNIA


disse Miki, coçando os olhos para afastar o sono.
— Sim, eu concordo – disse Vontezza, seu tom de voz
agudo abafado ligeiramente pelo hijab e pelo cachecol enrolado
em sua cabeça. — O que há de errado com você, grandão? Você
já enlouqueceu?
Kopano respirou fundo o ar frio da manhã. O sol ainda
não tinha nascido e os três estavam do lado de fora do prédio
da administração, esperando John Smith terminar uma reunião de
última hora com o Professor Nove. Kopano tentou diminuir o ta-
manho do seu sorriso idiota, mas não era fácil.
— Desculpe – disse ele. — Mas isso não é emocionante?
Estamos prestes a fazer algo que ajudará a garantir a segurança
de nosso povo. É incrível!
— Meu povo – respondeu Vontezza, sombria, — está
prestes a se render para viver em um centro de detenção.
— É para onde o resto de nós estará indo se as Nações
Unidas conseguir o que quer – Miki acrescentou, igualmente can-
sado.
Kopano suspirou e acenou com as mãos. — Vocês dois.
Tudo vai ficar bem. Eu sei isso. O mundo é bom.
— Idiota – resmungou Vontezza.
É claro que Kopano não podia contar a eles o verdadeiro
motivo de estar sorrindo daquele jeito, apesar das circunstâncias
de vida e morte que eles e seus colegas enfrentarão naquele dia.
Não seria cavalheiro.
— Uma meia na porta não teria matado vocês – Nigel res-
mungou naquela manhã quando Kopano saiu do quarto.
Aquilo também fez Kopano sorrir. Ele não podia evitar.
Era um dia glorioso.
Nesse momento, John emergiu do prédio da administração.
Ao contrário dos outros, ele parecia relativamente bem descan-
sado. Em algum momento, desde a noite anterior, ele aparou a
irregular barba loura. Kopano supôs que ele queria parecer des-
cente e autoritário para suas interações com os militares.
— Prontos pra ir? – John perguntou.
Vontezza apontou o polegar para Kopano. — Este aqui
não para de mostrar os dentes.
John considerou isso por um momento, finalmente decidindo
que não valia a pena comentar. Ele se virou para Miki. — Então,
eu fico responsável pelo voo até o local de pouso para mantê-lo
descansado para que possa trazer o gerador.
Miki tossiu em seu punho. — Tudo bem. Ainda estou um
pouco cansado de ontem.
— Me guie ok? – John disse. — Certifique-se que estou
fazendo tudo certo.
— Claro – respondeu Miki, depois olhou para Kopano e
Vontezza. — Só para vocês saberem, a transformação em vento
pode ser um pouco estranha no começo. Lembre-se de que você
é ar e o ar não precisa respirar.
A testa de Vontezza franziu. — O que?
Kopano assentiu sabiamente. — Mantra legal.
— Não é... – Miki suspirou e estendeu as mãos. — Vamos
logo.
Todos eles deram as mãos. Em um segundo, Kopano pôde
sentir os dedos frios de Vontezza e as palmas suadas de Miki e
no seguinte – uau, seu corpo se desfez, ele estava subindo, gi-
rando no céu, movendo-se rapidamente. Ele queria gritar – não
de medo, mas do jeito que se fazia no topo de uma montanha-
russa –, mas ele não tinha boca para fazê-lo.
Kopano podia ver em 360 graus. O céu escuro acima dele,
a cintilação de um nascer do sol laranja a leste, o oceano a oeste
e a Academia logo abaixo dele. Eles voaram para o sul. Kopano
estava vagamente ciente dos outros, suas partículas se mistu-
rando. Parecia a mesma sensação de quando você sente alguém
parado logo atrás de você. Ele não conseguiu falar com eles. Ele
não podia dizer a Miki o quão incrível era esse Legado. Ele não
podia fazer nada, na verdade. Ele não estava pilotando o per-
curso, era apenas um passageiro. Então, Kopano relaxou e apro-
veitou a vista.
Eventualmente, sua mente voltou para os dormitórios e
para aquela manhã. Taylor em sua cama, dormindo de bruços,
com uma mecha de cabelos loiros na boca. Ela roncou um pouco
e Kopano se perguntou quando foi a última vez que ela real-
mente dormiu. Ele não queria acordá-la, então se inclinou para
beijar sua bochecha e saiu sem dizer uma palavra. Ela merecia
todo o descanso que conseguisse.
— Vou conectar nós quatro telepaticamente agora que es-
tamos chegando mais perto – a voz de John disse em sua cabeça,
trazendo Kopano de volta ao estado de alerta.
Era estranho o suficiente virar vento sem adicionar a estra-
nheza da telepatia de John. Pela primeira vez naquela manhã,
a excitação de Kopano deu lugar ao desconforto. Ele torceu para
que o Lorieno não estivesse lendo a mente dele segundos atrás.
— Eu não estava – John disse em resposta.
— Ah, você me ouviu? – Kopano pensou, concentrando-se
de vez em não manter a mente muito aberta.
— Eu odeio isso! Exijo que meu corpo seja restaurado! – a
voz interior de Vontezza surgiu como um grito que fez a mente
de Kopano latejar.
Kopano sentiu uma repentina sensação de sucção e seu es-
tômago pesou. Isso não deveria ter sido possível, considerando
que ele era vento e não tinha corpo. No entanto, a sensação de
queda durou apenas um segundo, e, de repente, ele voltou a gi-
rar sem peso pelo ar.
— Desculpe, perdi o controle por um segundo – pensou
John.
— Não se preocupe – Miki respondeu, sua mente um sus-
surro. — Eu estou nos segurando.
— Vontezza está surtando um pouco, então eu a tirei da
conexão telepática – acrescentou John.
Kopano escolheu não se preocupar com o fato de quase
ter caído do céu. Em vez disso, ele voltou sua atenção para o que
estava abaixo. Eles haviam partido do norte, na direção do oce-
ano, mas Kopano já podia ver...
— Eles trouxeram um exército – ele pensou para os outros.
— Uau.
— Uma nave de guerra Mogadoriana realmente os faz sair
de casa – John respondeu.
Eles voaram sobre um enorme porta-aviões. Uma dúzia de
jatos esperava no convés, os pilotos e tripulação os circulando,
prontos para a ação. Ao lado do porta-aviões havia meia dúzia
de canhões ameaçadores, seus funis lançando fumaça, as bombas
lado a lado brilhando ao amanhecer.
— Eles vão para a Academia depois disso? – Miki pergun-
tou.
— Vamos torcer que não – John respondeu.
— Tanto armamento – acrescentou Kopano. — Você não
disse a eles que os Mogadorianos estavam se rendendo?
— Eu disse. Mas eles são um pouco exagerados. Provavel-
mente há uma bomba nuclear em algum lugar lá embaixo.
— Sério? – Kopano respondeu. — Isso é intenso.
— Eu vou nos levar para darmos uma volta no perímetro.
Para que possamos ver tudo.
Eles rajaram sobre terra. A praia de Pfeiffer estava iso-
lada, sua areia brilhava roxa em alguns lugares, formações ro-
chosas projetando-se dramaticamente para fora das ondas. Era
cercado por falésias com apenas uma via de acesso viável. John
havia escolhido um bom lugar para a Osíris pousar; se algo desse
errado, os Mogadorianos vão ser facilmente contidos.
Os militares se certificariam disso. Havia milhares de sol-
dados lá em baixo. Kopano reconheceu os capacetes brancos dos
Pacificadores, mas também o verde fadigado do exército e dos
fuzileiros navais dos EUA. Havia tanques no estacionamento. Ko-
pano só podia ver até certo ponto, mas as estradas pareciam
estar bloqueadas por quilômetros.
Um trecho aberto de praia foi marcado e sinalizado como
zona de desembarque. Havia barricadas e trincheiras montadas
ao redor, soldados fortemente armados que as ocupavam. Havia
apenas um caminho claro que se afastava da zona de aterrissa-
gem – será por onde vão levar os Mogadorianos – e esse cami-
nho levava a dezenas de vans blindadas que seriam usadas para
o transporte dos prisioneiros.
— Eles montaram tudo isso em menos de um dia – pensou
Kopano. — Que chance a Academia teria contra um ataque dessa
magnitude?
— Eu não sei. Mas mesmo essa capacidade de ataque não
romperá o campo de força que quero construir – respondeu John.
— Vou nos aproximar, procurar a tenda de comando. Miki, certi-
fique-se de que eu não vou estragar tudo. Não será legal se apa-
recermos aleatoriamente num piscar de olhos.
Eles voaram mais abaixo, em direção ao estacionamento
onde tendas foram montadas a uma distância segura da praia.
Eles circularam por soldados fumando cigarros e bebendo café
em garrafas térmicas. Em seguida, eles invadiram uma área iso-
lada onde repórteres e suas equipes estavam se preparando
para obter cobertura da chegada da nave de guerra.
O acampamento militar foi organizado como um sistema
nervoso, então eles encontraram a tenda de comando no cora-
ção. Um grupo de homens muito sérios estava lá, examinando
imagens de satélite da praia ao redor. Ray Archibald estava en-
tre eles. Nenhum deles notou quando uma rajada de vento dis-
persou seus papéis.
— Ok, vou me separar de vocês aqui – disse John. — Vou
manter o link telepático funcionando o quanto puder. Miki, há al-
gumas rochas com vista para o local de pouso onde eu acho que
vocês podem esperar sem serem notados.
— Eu vi o local – respondeu Miki.
— Você não está preocupado que eles tentem capturar você
ou algo assim? – Kopano perguntou.
— Não. Não até a nave de guerra pousar, pelo menos –
John respondeu.
Ele se separou deles e Miki assumiu o controle total da
transformação em vento. Surpreendentemente, eles se moveram
mais rápido e Kopano se sentiu mais seguro – Miki era melhor
nisso. Quando John apareceu em cima da tenda de comando,
fazendo com que reparassem em sua presença, foi flutuando su-
avemente até o chão com as mãos levantadas, o resto voou até
os penhascos que davam para a praia.
Miki os colocou em uma borda estreita bem acima do local
de pouso. Um afloramento de rochas os impediu de serem vistos
pelos soldados lá embaixo, mas era possível que eles espiassem
e assistissem a demonstração de força do exército. A borda dava
em uma caverna pequena e, quando seu corpo recuperou sua
forma, Kopano notou o sabor do sal e som do bater das asas de
morcego. As pernas de Kopano tremeram embaixo dele. Von-
tezza desabou sobre as mãos e os joelhos, um estremecimento
tomou seu corpo inteiro.
— Ah! Eu odiei isso! – ela choramingou.
— Foi bacana – disse Kopano. — Depois de passar o último
ano presa em uma nave de guerra, achei que você amaria o céu
aberto.
— Achou errado – respondeu Vontezza.
Miki sentou-se nas rochas com uma expiração pesada. Ele
parecia pálido e esgotado. A jornada para o sul havia lhe cus-
tado.
— Você está bem? – Kopano perguntou.
Miki assentiu. — Mesmo com John fazendo a maior parte
do trabalho, esse foi um longo caminho para mim. Eu não andei
praticando muito.
— Você conseguirá nos levar de volta?
Miki mordeu o interior de sua bochecha. — Sim. Sim, não
se preocupe.
Vontezza levantou-se e pressionou-se contra a borda,
olhando para o comitê de boas-vindas da nave de guerra. —
Este exército patético não seria páreo para a Osíris se estivesse
com força total.
Kopano optou por não responder a isso. — Então... O que
fazemos agora?
— Esperamos – respondeu Vontezza. — O céu está fe-
chando. Não vai demorar.
Ela estava certa.
— Gente – a voz telepática de John fez Kopano pular. —
Está descendo.
Kopano olhou para cima. A princípio, a Osíris não passava
de um disco escuro no céu pálido – poderia ter passado por zan-
gão lá em cima, pensou Kopano, ou um super frisbee. Isso não
durou nada. Lá embaixo, Kopano ouviu soldados gritando e o
rangido metálico dos sistemas de mísseis apontando. Aviões de
combate decolavam, voando em formação em direção à nave de
guerra. Pareciam insetos zumbindo na frente da lua.
— É enorme – Miki sussurrou.
Kopano só pôde concordar. Pela primeira vez, ele ficou
sem palavras. A praia escureceu quando a Osíris cobriu o sol. Ver
as naves de guerra em sua minúscula TV em Lagos não tinha feito
justiça à sua grandiosidade. A nave de guerra em forma de es-
caravelho fez os joelhos de Kopano tremerem. À medida que ia
ficando cada vez mais baixa, descendo obedientemente em di-
reção à zona de desembarque, Kopano ficou surpreso por ter
pensado que o exército lá embaixo era impressionante.
Um pensamento assustador lhe ocorreu. — Você tem cer-
teza... você tem certeza de que seu pessoal não vai abrir fogo?
– disse Kopano a Vontezza. — Certo?
A garota Mogadoriana encarou a Osíris com orgulho. —
Desativei a maioria dos sistemas ofensivos antes de sair – disse
ela. Ela passou os dedos pela clava no quadril. — Deixei meu
armeiro Koramu no comando. Ele não trairia meus desejos. Ele
está loucamente apaixonado por mim.
Kopano piscou. — Apaixonado... Você tem um namorado?
— Não – ela disse bruscamente. — Você pode calar a
boca agora? Desejo aproveitar os últimos momentos de liber-
dade do meu povo.
Por mais ameaçador que a Osíris parecesse, Kopano
ainda captava detalhes que sugeriam seu tumultuado ano. Um
dos lado parecia que tinha sido arrancado; farpas irregulares
de metal apontavam para fora indicavam que uma explosão ma-
ciça havia emanado de dentro para for da nave. Ondas negras
de fumaça surgiram de brechas na casca da nave de guerra. O
canhão ao longo da barriga da Osíris estava pendurado inutil-
mente, estalactites grossas pendendo ao longo dos lados.
A nave aterrissou com um gemido que sacudiu o vale. He-
licópteros circularam acima e Kopano voltou para o abrigo da
caverna, tocando o ombro de Miki para que ele fizesse o mesmo.
Vontezza, no entanto, manteve sua vigília nas rochas.
A rendição foi mais rápido do que Kopano pensou. Uma a
voz estrondosa no megafone berrou instruções para a nave de
guerra. Uma rampa se desenrolou do seu lado. Os soldados
abaixo prepararam suas armas. Os Mogadorianos saíram da
nave de guerra em uma coluna regida de dois a dois, desarma-
dos e sem armadura, com as mãos na cabeça. Kopano se apro-
ximou para poder observar com Vontezza. Ele esperava que to-
dos os Mogadorianos fossem eretos e altivos como ela.
Em vez disso, eles pareciam principalmente enlameados,
tristes, magros e mal alimentados. Muitos deles mancavam ou tro-
peçavam enquanto faziam a caminhada pelo passadiço e ao
longo do caminho cercado pela praia. Esses mais fracos foram
recebidos por gritos dos soldados brandindo rifles. Houve um mo-
mento em que Kopano temeu que um soldado pudesse matar
toda a tripulação apenas porque um Mogadoriano faminto des-
maiou.
Quando a linha de Mogadorianos alcançou os soldados,
eles foram manuseados com força – ajoelhados, revistados e al-
gemados e depois levados às pressas em direção aos transportes
blindados. Vontezza respirou fundo. Quando Kopano virou-se
para olhá-la, ela havia escondido o rosto atrás do lenço de Ra-
biya.
— Você está bem? – ele perguntou.
— Cale a boca – ela respondeu. — Sim.
Kopano olhou para a horda de Mogadorianos. — Meio
triste, sério.
— Lembre-se de que eles teriam escravizado nosso pla-
neta inteiro – disse Miki.
— Ainda assim – respondeu Kopano.
— Você é fraco – disse Vontezza em voz baixa.
— Ei – a voz intrusa telepática de John Smith fez todos
eles pularem. — Toda a tripulação já foi retirada da nave, mas os
soldados não vão aquietar até todos os Mogadorianos estiverem
presos dentro dos transportes. Essa é a chance de vocês. Sejam rá-
pidos.
Miki deu um passo à frente, as mãos estendidas. — Ouvi-
ram o chefe. Prontos?
Kopano segurou a mão de Miki, mas Vontezza hesitou.
— Você se lembra do mapa da minha nave, né? – ela
perguntou. Miki assentiu. — Há uma antecâmara perto da en-
trada. Nos leve para lá. Será mais seguro nos aproximarmos do
gerador por lá.
Vontezza segurou a mão de Miki e de repente eles esta-
vam no ar novamente, flutuando dos penhascos, uma brisa suave
com um propósito. Kopano olhou de perto os Mogadorianos –
pálidos, magros e de olhos mortos – enquanto os soldados os co-
locavam sob custódia. — As aberrações não são tão perigosas
agora – disse um soldado. Ele ficou agradecido por terem pas-
sado rápido por eles e adentrarem na Osíris.
O interior da nave de guerra era tão proibitivo quanto
Kopano esperava. Ele tentou captar o máximo de detalhes pos-
sível enquanto Miki os arrastava pelos corredores cavernosos. Os
Mogadorianos não projetaram por conforto, mas por funcionali-
dade. Eles também pareciam extraordinariamente parciais
quando o assunto era painéis cromados e iluminação carmesim.
Havia sinais por toda a parte dos motins que Vontezza havia
descrito – painéis de teto desabados, marcas de queimaduras,
profundas cicatrizes causadas por laser nas paredes. Equipamen-
tos descartados estavam espalhados pelo chão – armaduras, ar-
mas explosivas e outros equipamentos – como se os Mogadoria-
nos tivessem acabado de lançar todo aquele armamento a cami-
nho da porta.
Kopano perdeu a noção dos corredores sinuosos e cheio
de bifurcações. Felizmente, Miki estava prestou atenção no
mapa. Ele os colocou no meio de uma câmara ramificada. Assim
que sentiu suas pernas novamente, o cheiro quase nocauteou Ko-
pano. A nave de guerra fedia – lixo, combustível e carne podre,
tudo misturado. Seus olhos lacrimejaram.
— Lugar maneiro – Miki disse, irônico.
Os olhos de Kopano escanearam o lugar, procurando por
perigo. Surpreendentemente, esta parte da nave parecia ter sido
mantida livre de batalhas que ocorreram no restante do lugar.
Vontezza pegou uma mochila perdida do chão e se apro-
ximou da parede oposta, que estava coberta do chão ao teto
com pequenas gavetas marcadas com letras Mogadorianas. Ela
escolheu uma dessas gavetas, abriu-a e retirou três pequenas
bolsas, depositando-as na mochila. Quando ela se voltou para
abrir outra, Kopano deu um passo à frente.
— Hum... o que você está fazendo?
Ela apontou na direção do corredor. — O gerador fica
naquela direção. Meu povo provavelmente deixou a passagem
livre.
— E aquela história de vazamento de radiação? – Kopano
perguntou.
Vontezza suspirou. — Eu menti sobre isso. Vão. Cumpram
a missão de vocês. Eu alcanço vocês depois.
— Mas—
Ela se virou para encará-lo, sacudindo uma das pequenas
bolsas na direção dele. Kopano percebeu que ela estava cheia
com alguma coisa.
— Estas são as cinzas dos nossos honrados mortos – Von-
tezza disse. — Eu não vou permitir que os restos mortais dessas
pessoas caiam nas mãos dos humanos. Me deixem fazer o que eu
preciso fazer e então eu me juntarei à sua missão.
Kopano trocou um olhar com Miki, que deu de ombros em
resposta. Sem outra palavra, eles correram na direção do gera-
dor.
Eles não encontraram armadilhas ou Mogadorianos perdi-
dos no caminho, apenas mais paredes com cicatrizes de batalha,
sacos de ração descartados e pedaços de armadura quebrados.
Em questão de minutos, Kopano desceu as escadas de aço corru-
gado que levava para a sala de máquinas. Assim como nas plan-
tas, o gerador blindado os esperava no centro da nave. A sala
estava quente – os motores ainda estavam esfriando desde a
descida da nave de guerra – e estranhamente silenciosos.
Kopano estalou os dedos e olhou para Miki. — Pronto?
Miki gesticulou para o gerador. — Todo seu, grandão.
— Eu realmente espero que esse apelido não pegue – Ko-
pano respondeu.
Kopano ficou transparente e passou pelas camadas blin-
dadas do gerador. Ele atravessou as duas primeiras sem proble-
mas, mas parou quando alcançou a terceira, que era feita do
mesmo material de obsidiana que a maça de Vontezza. Ele res-
pirou fundo e se lembrou de que estava fazendo algo heroico
por seus amigos. Então ele avançou.
Kopano ofegou quando uma sensação gelada percorreu
todas as suas moléculas. Era como se milhões de agulhas estives-
sem esfaqueando suas células. O desejo de endurecer sua pele
em legítima defesa tomou conta dele, mas seria mortal fazer isso
agora e deixaria Kopano ligado permanentemente ao metal
Mogadoriano. Ele se concentrou em suportar a dor e instou o
corpo a avançar.
O gerador apareceu. O limite da camada mais interna
era apertada; não havia espaço para Kopano ficar totalmente
sólido. Ele passou os braços em volta do gerador, adentrou o
quanto pôde, abraçando a coisa mais perto. Mesmo assim, suas
costas ainda estavam parcialmente dentro da obsidiana, sua co-
luna uivando de dor.
Kopano concentrou-se. Era como uma cirurgia, de certa
forma. Ele imaginou o esqueleto do gerador, lembrando-se de
quais peças ele precisava levar consigo e quais ele poderia cor-
tar e deixar para trás, exatamente como John havia instruído.
Então, ele se ajustou à maquinaria, alinhando as moléculas do
objeto com as dele, enquanto lutava para não se expor ao ma-
terial perigoso que jazia atrás. Ele tinha certeza de que estava
dando conta do recado.
— Você consegue – ele sussurrou para ele mesmo.
Segurando o gerador, Kopano se jogou para trás. Uma
chuva de faíscas caiu em cascata quando o gerador se desconec-
tou de suas bobinas. Miki teve que sair do caminho enquanto Ko-
pano e o gerador do tamanho de uma geladeira caíam de volta
à relativa segurança da sala das máquinas. Ele se levantou com
cuidado, ainda segurando o gerador – era leve, desde que ele
mantivesse o controle. Agora que ele podia vê-lo por completo,
parecia uma bateria gigante. Ele colocou a peça em uma área
limpa e, com uma expiração feliz, ficou sólido.
— Fácil – Kopano declarou para Miki. — Tudo certo.
Miki apontou para o peito dele. — Você está sangrando.
Kopano olhou para baixo. De fato havia manchas de san-
gue na parte da frente de sua camisa. Ele a afastou do seu corpo
e viu que a pele do seu peito e de seus braços estava cheia de
pequenos furos, tão pequenos que Kopano nem sentia qualquer
tipo de dor. Por um momento, ele pensou que iria desmaiar. O
que teria acontecido se ele tivesse ficado um período maior de
tempo dentro daquela coisa?
— Tudo bem – Kopano suspirou. — Talvez não tão fácil.
Miki foi até o gerador e colocou uma das mãos contra o
objeto, pronto para transformá-los de novo. — Onde estão John
e Vontezza? É melhor a gente dar o fora.
— John Smith – Kopano pensou em voz alta dentro de sua
mente ao mesmo tempo que se conteve para não dizer as pala-
vras. — Estamos prontos.
Não houve resposta. Kopano não percebeu quando acon-
teceu, mas parecia que o link telepático havia sido quebrado.
Miki cheiro o ar. — Você está sentindo o cheiro de—?
Fumaça. O cheiro atingiu as narinas de Kopano antes que
Miki tivesse a chance de terminar a pergunta.
Um eco proveniente de um grito de agonia veio de cima.
Kopano e Miki se viraram rapidamente enquanto Vontezza en-
trou correndo na sala, caindo com força no chão.
Ela estava em chamas. As chamas se alastravam pelas cos-
tas da garota Mogadoriana, as roupas e a pele dela queimando,
derretendo. Os olhos negros dela encararam os dois garotos.
— Vão! – ela gritou roucamente. — Corram!
RAN TAKEDA
ESCUMADOR DO EINAR – DURANGO, MÉXICO

passou o voo inteiro cuidando de Duanphen, o que significava


que nenhuma delas dormira. Duanphen estava deitada em um
dos bancos de metal frio na estreita sala auxiliar anexada à ca-
bine do piloto, e Ran estava sentada no banco oposto com as
pernas dobradas sob ela. A luz do sol entrava através das grades
da parede e Duanphen aproveitou para se sentar um pouco,
protegendo os olhos.
— Como você está se sentindo? – Ran perguntou. Ela to-
cou a testa da outra garota, aliviada por ela não ter febre. Isso
era bom. Significava que o ferimento não havia infeccionado.
— Tonta. Exausta – respondeu Duanphen. — E você?
Ran encolheu os ombros. — Complicada.
Duanphen apertou os olhos. — Isso é... isso é um senti-
mento?
Antes que Ran pudesse responder, o Número Cinco falou
da cabine. — Estamos quase chegando! – ele gritou. — Todo
mundo, arrumem suas porcarias.
Ran ficou de pé. Duanphen terminou de se sentar caute-
losamente, ainda tomando cuidado com o braço ferido – os
pontos improvisados de Cinco estavam vermelhos e inchados.
— Você tem certeza de que está disposta a fazer isso? –
Ran perguntou, falando em voz baixa para que os outros na ca-
bine não escutassem. O plano deles de atacar a prisão da Fun-
dação era desorganizado, na melhor das hipóteses. Era deses-
perado e Ran teve a sensação de que todos a bordo do Escuma-
dor estavam indo na direção da morte.
Duanphen assentiu uma vez. — Eu vou ficar bem. Além
disso, que outra opção existe?
— Nós poderíamos deixar você no caminho – respondeu
Ran. — Se você não estiver pronta lutar...
— A luta vai me encontrar, uma hora ou outra – disse Du-
anphen. — Sempre encontra.
Ran franziu o cenho, mas não argumentou. Todos sa-
biam no que estavam se metendo quando se juntaram a Einar.
A própria Ran estava procurando se livrar do controle da Garde
Terrestre, uma maneira de evitar usar seus Legados que ela fre-
quentemente odiava. Mas hoje ela certamente os usaria nova-
mente. Para machucar pessoas. Será por uma boa causa, disse
a si mesma, libertar outros Garde da Fundação. Para impedir
que Lucas prejudique mais alguém. Isso era motivo suficiente.
Desde a invasão, Ran sentia como se ela tivesse sido lan-
çada ao longo de um rio perigoso. De Patience Creek à Acade-
mia, da Islândia à Suíça e até aqui. E toda vez que ela tentava se
libertar da correnteza, as águas a alcançavam. Talvez esse fosse
o destino dela – os destinos de todos eles – estar sempre lu-
tando.
De repente, o Escumador pareceu muito pequeno. Ela
desejou poder sair e correr até parar de pensar.
— Vou chamar os outros – ela disse para Duanphen.
Ran foi silenciosamente para dentro do compartimento
traseiro, em direção ao armário de armazenamento que Isabela
havia transformado em seu quarto particular, mas parou no
corredor do lado de fora quando ouviu vozes. Caleb estava lá
com ela.
— Você fala enquanto dorme – disse Isabela, a queixa
mais suave que o normal.
— Desculpe – respondeu Caleb calmamente. — Eu... so-
nhei com o hotel.
Ran espiou do corredor. Caleb e Isabela estavam deita-
dos no chão, apoiados em alguns travesseiros, a cabeça de Ca-
leb apoiada no peito dela. Isabela brincava ociosamente com os
cabelos, olhando para o teto. Eles não a notaram, então Ran le-
vantou a cabeça e se encostou na parede externa. De repente,
ela sentiu muita falta de Nigel. Alguém com quem conversar,
alguém em quem se apoiar e confiar. Quando isso terminasse,
ela disse a si mesma, ela teria que fazer as pazes com ele.
— A faca estava cravada no pescoço dele – disse Caleb,
sua voz perto de um sussurro. — Eu continuo vendo aquela
cena.
— Não pense sobre isso – disse Isabela com firmeza. —
Aquele homem teria matado a todos nós. Ele não merece nem
um pouco da sua simpatia.
— Essa é a questão – respondeu Caleb. — Eu não... não
me sinto mal por isso. Eu estou... satisfeito que ele esteja
morto. Isso é o que me assusta. E se eu me transformar em al-
guém como...?
— Para – disse Isabela. — Você nunca será como Einar.
As peças se juntaram para Ran. Durante a briga com Lu-
cas no Marrocos, Einar ficou sozinho com Derek King e aprovei-
tou a oportunidade para matá-lo. Caleb deve ter visto. Agora
fazia sentido por que Einar não estava nem um pouco preocu-
pado com o fato de King relatar suas ações ou interromper seu
acesso ao servidor dos Blackstone. Ele estava fora de cena.
Ran se sentiu fria. Todos eram cúmplices do que Einar ha-
via feito. Eles o ouviram, permitiram que ele ficasse livre, viaja-
ram pelo mundo com ele. Como Caleb, Ran não sabia como se
sentir. Talvez o mundo fosse um lugar melhor sem Derek King.
Talvez agora fosse mais seguro para o seu povo. Mas o que deu
a qualquer um deles o direito de decidir isso? E eles não esta-
vam apenas aproximando o mundo da guerra que Cinco cinica-
mente previu?
Ela pigarreou e entrou pela porta. Isabela e Caleb para-
ram de falar imediatamente e olharam para ela.
— Está na hora – ela disse simplesmente. — Estamos nos
reunindo na cabine.
— Ah, ótimo – respondeu Isabela. — Vamos adiantar
nossa chance diária de morrer.
Ran se permitiu um sorriso tenso, depois se virou para ir
embora. Atrás dela, ela ouviu Isabela falar baixinho com Caleb.
— Sabe, ainda não é tarde para fugir – disse ela.
— Você não quis realmente dizer isso, não é? – Caleb res-
pondeu.
Isabela suspirou. — Não. Eu acho que não.
Ran voltou para a cabine. Como sempre, Cinco estava
curvado no banco do piloto e Einar estava sentado ao lado dele,
grudado a um de seus tablets. Duanphen estava atrás deles, se
alongando, embora devagar.
— Não gosto desse plano – dizia Cinco a Einar quando
Ran entrou. — Você ficará muito exposto. Podemos esperar al-
guns dias para analisar melhor a situação e encontrar uma outra
maneira de entrar.
— Eu vou ficar bem – respondeu Einar com desdém.
Cinco recostou-se de mau humor, mal tirando os olhos de seus
controles quando Einar levantou o tablet para ele. — Olha, seu
velho amigo vai falar.
— Ele sempre amou discursos – murmurou Cinco.
Quando Ran se aproximou, ela pôde ver que Einar estava
assistindo uma transmissão ao vivo de um canal de notícias.
Uma nave de guerra Mogadoriana pousou sobre o que parecia
ser a costa da Califórnia. Ela se inclinou sobre o ombro de Einar
para ver de perto.
— O que está acontecendo? – Ran perguntou.
— Loucura, não é? – Einar respondeu, olhando para ela.
— A última nave de guerra Mogadoriana está se rendendo. Apa-
rentemente, John Smith organizou isso com a ajuda de seus
amigos da Academia. John deve dar uma declaração à im-
prensa em breve sobre seus pensamentos sobre as mudanças
no Acordo Garde. Cheira como um golpe de relações públicas
para mim.
— Espero que ele discurse melhor do que você – disse Isa-
bela ao entrar na cabine, Caleb se aglomerando atrás dela.
Ran percebeu pelo olhar coagulado no rosto de Einar que
o comentário o atingiu. Ele ainda não havia superado a atenção
negativa que recebeu por conta do seu grande discurso na Su-
íça.
— Talvez seja por isso que Taylor e o pessoal não tenham
atendido nossas ligações – ponderou Caleb. — Muito ocupados
com isso.
O canal de notícias mudou da nave de guerra e da fila de
Mogadorianos que sumia na tela, passando para uma área de
imprensa lotada, onde John Smith estava cercado por soldados
e repórteres. Considerando que eles estavam fugindo e haviam
sido o centro das atenções recentemente, era estranho ver
como os soldados reagiam ao John, praticamente se empur-
rando para apertar a mão dele em cumprimento.
— Eu ajudei a derrubar os Mogadorianos também – Cinco
disse em voz baixa. — Ninguém nunca me agradeceu por isso.
— Um dia eles vão nos respeitar assim – disse Einar, sua
voz quase melancólica.
— Não – respondeu Ran. — Eles não vão.
Ela colocou a mão no ombro de Einar e o apertou até sen-
tir os ossos dele sob os dedos. Einar estremeceu e olhou-a brus-
camente, as sobrancelhas erguidas. Cinco também notou a ten-
são e se virou para avaliar Ran. Ela manteve a expressão fria e
neutra.
— Os humanos sabem o que John sacrificou durante a in-
vasão. Eles sabem que ele lutou ao lado deles – disse Ran,
olhando para Einar. — O que você fez que está perto disso?
— Eu sacrifiquei – disse Einar. — Eu...
— Você não fez nada além de machucar as pessoas – con-
tinuou Ran. — Talvez você tenha tido uma criação problemá-
tica. Talvez a Fundação tenha feito uma lavagem cerebral em
você. Talvez agora você pense que está defendendo a Garde.
Todas essas são desculpas que você usa para justificar a destrui-
ção que causa por aí.
Einar olhou para ela. — Por que está falando essas coisas
de repente?
— Quando terminarmos no México, eu vou me separar
de vocês. Você é louco – ela disse, olhando para Caleb e Isabela.
— E você está passando essa loucura para nós.
Einar finalmente se afastou do aperto de Ran e se levan-
tou para que ele ficasse cara a cara com ela. Ele passou o tablet
para Cinco. O Lorieno parecia mais interessado na transmissão
do que no que estava acontecendo entre Ran e Einar. Caleb, Isa-
bela e Duanphen também ficaram em silêncio. Talvez não fosse
o momento mais apropriado para esse confronto, com todos
eles prestes a realizar um ataque a uma prisão secreta, mas Ran
precisava tirar esse peso das costas.
— Eu não preciso de você – disse Einar a Ran. — Todos
vocês pirralhos da Academia só causam problemas desde o dia
em que imploraram para se juntar a nós. Ficarei feliz em não ter
que tomar conta de vocês. Nenhum de vocês têm estômago
para fazer o que realmente precisa ser feito.
— Nem você – disse Ran.
Einar zombou. — Claro, eu—
— Se você realmente quisesse unir os Gardes e mantê-los
a salvo da humanidade, então se entregaria e pagaria pelo que
fez – disse Ran. — Mas você é um covarde. Então, em vez disso,
você quer nos transformar em monstros como você.
Os pelos minúsculos nos braços de Ran se arrepiaram. Os
dentes de Einar estavam cerrados, como se ele estivesse fa-
zendo um esforço para não atacá-la, e ainda assim ela sentiu a
telecinese dele irradiando. Ela sentiu que ele queria despedaça-
la. Caleb e Duanphen avançaram. Isabela assistiu com os olhos
estreitados. E Cinco...
— Ah – Cinco disse — Ah, que merda.
Isso fez a Ran parar. Ela já ouviu Cinco xingar muitas ve-
zes, mas nunca a voz dele pareceu tão baixa, quase como a de
um garotinho.
Ele levantou o tablet onde o discurso de John Smith para
a imprensa havia começado, aumentando o volume. Imediata-
mente, Ran percebeu que havia algo errado com a maneira
como ele falava.
— Sei que algumas pessoas estão dizendo que não gos-
tam das mudanças no Acordo Garde e não acham que os Inibi-
dores sejam o caminho correto – disse John, falando em uma
dúzia de microfones. — Mas acho que é uma ótima ideia
Os olhos de Ran se estreitaram. Na tela, John expressava
um sorriso doentio.
— Se Deus quiser – disse ele, — vou implantar o meu Ini-
bidor no final do dia.
Isso não estava certo. Ran não conhecia John tão bem,
mas ela sabia que ele nunca...
A Fundação tirou Lucas do Marrocos por causa de um
alvo de alta prioridade.
Todos aqueles soldados apertando a mão de John...
— Agora, se vocês me dão licença – disse John, com boas
maneiras. — Existe toda uma Academia rebelde que eu tenho
que colocar sob controle. Incluindo algumas pessoas que estão
bem aqui debaixo do nosso nariz.
John pulou no ar e voou. Foi uma manobra desajeitada,
longe de uma decolagem suave, e ele quase derrubou um cine-
grafista no arranque.
— Era ele – disse Isabela, com a voz trêmula. — Lucas.
Ele... ele...
— Ele possuiu o Quatro – disse Cinco. — Agora ele é in-
vencível.
Ran se lembrou de Patience Creek. Naquela época era
uma mogadoriana com uma arma que a roubava parte do poder
de John. Ela mal sobreviveu a isso.
Lucas estava indo para a Academia. Ele disse, com a voz
de John, que os controlaria. Mas Ran tinha visto a brutalidade
de Lucas, sua apatia pela vida humana. Ele não iria se satisfazer
colocando chips na cabeça de seus ex-colegas de classe. Ele os
mataria.
Ela fez contato visual com Einar, os dois ainda em pé,
desconfortavelmente próximos. Ran deu um passo para trás.
Einar assentiu. Por enquanto, os dois concordaram em deixar
de lado suas diferenças.
— Cinco – disse Einar, tentando encontrar um pouco de
sua pomposa confiança habitual. — Acelere. Temos uma prisão
para atacar.
TAYLOR COOK
NOVA LORIEN – OS HIMALAIAS, ÍNDIA

mente de bom humor. Quando eles ainda pensaram que poderiam


ganhar. Antes de tudo virar um inferno.
— Todo mundo está me segurando? – Nove perguntou.
Quatro mãos apertaram Nove afirmativamente. No bíceps,
nos ombros e nas costas. Ele deu um pequeno estremeço em res-
posta.
— Eu gosto disso – disse ele. — É relaxante.
Taylor suspirou e beliscou o braço de Nove. Ele parecia estar
no melhor humor dele nesta manhã do que nos últimos dias. Talvez
ele estivesse sentindo a mesma vertigem estranha que Taylor sentia
às vezes, quando ela enfrentava probabilidades impossíveis. Mesmo
assim, ele precisava parar de brincar.
— Anda logo – ela disse a ele. — Temos muito o que fazer.
— Tá, tá – respondeu Nove. — Olhem, eu nunca tentei isso
antes, por isso, se eu nos teletransportar diretamente para dentro
de um vulcão, foi mal.
— Ei – Nigel reclamou. — Você está assustando Simon com
essa conversa.
— Na verdade não – respondeu Simon. — É altamente im-
provável que exista uma pedra de Loralite dentro de um vulcão
ati— Ulp!
Nove levantou a mão e apertou o pingente de Loralite pen-
durado em seu pescoço. Houve um flash de luz azul e aquela verti-
gem desorientadora o suficiente para interromper a frase de Simon.
Em um momento, os cinco estavam amontoados no escritório do
professor Nove e no outro estavam no meio do mundo.
A primeira coisa que Taylor sentiu foi o frio. Era diferente
do frio úmido do norte da Califórnia; forte e cortante. Ela soltou o
braço de Nove para poder se abraçar, esfregando os braços.
— Eu não vesti roupas o suficiente para me aquecer – disse
Rabiya com um olhar de lamentação para Taylor.
Nove estendeu os braços. — Bem, aqui está. A caverna mais
bonita em que viveremos.
Eles estavam dentro de uma caverna abobadada, onde um
grande pedaço de pedra de Loralite se projetava do chão. As pare-
des de rocha eram de um cinza-azulado polido que refletia a cinti-
lante Loralite; Taylor teve a sensação de que as paredes haviam sido
esfregadas ou raspadas recentemente. No centro da caverna havia
uma mesa redonda de madeira, grande o suficiente para acomodar
confortavelmente pelo menos vinte pessoas. Um símbolo Lórico,
que era igual o do pingente de Nove, fora cravado em seu centro.
A luz do sol entrava pela abertura da caverna junto com uma pe-
quena rajada de neve.
Uma garota estava sentada na ponta da mesa, de costas para
eles, com um bloco de desenho no colo. Após Nove fazer sua de-
claração, ela se virou para olhá-los, os olhos atentos. Ela tinha ca-
belos ruivos com mechas brancas que estavam soltas nos ombros.
Ela usava um casaco de inverno completo com detalhes em pele
com o zíper aberto e uma camiseta com um desenho de Vishnu por
baixo. Ficou claro, quando ela levantou da mesa, embora ela não
tivesse mais de catorze ou quinze anos, que a garota era alta e ma-
gra, como se ela tivesse sofrido um surto de crescimento repentino.
— Oh, nossa, oi, Nove – a garota disse, tentando mascarar
sua óbvia animação por vê-lo.
— Ella? – Nove exclamou, praticamente gritando, sem ne-
nhuma intenção de esconder a empolgação. — Puta merda! É você?
E então eles estavam se abraçando, os braços da garota –
Ella – em volta do pescoço de Nove, ele a pegando para que suas
pernas longas chutassem o ar, os dois rindo.
— Um dos Gardes Originais – explicou Nigel ao resto do
pessoal da Academia que claramente não estavam entendendo
nada. — Número Dez, eu acho? Talvez? Telepática e clarividência.
Eu acho que ela morreu uma vez.
— Interessante – disse Simon. Ele empurrou os óculos pelo
nariz enquanto olhava em volta, tomando o cuidado de memorizar
todos os detalhes da caverna.
— É tão bom ver você – disse Nove, segurando Ella pelos
braços. — Nossa. Com o que eles estão te alimentando aqui em
cima? Você está tão alta.
— Pare – disse Ella, fechando o casaco e se afastando. —
Eu odeio essa altura. Todos os dias penso em usar meu Aeternus
para mudar de volta.
— Não – Nove disse com um aceno de desdém. — Você
fica bem assim.
Nove fez o comentário de forma aleatória, pois ele nem es-
tava mais conversando diretamente com Ella, seguindo para ver
melhor a caverna. Taylor percebeu que a garota estava praticamente
desmaiando, como se Nove tivesse acabado de lhe dar o melhor
presente da vida dela. Nove era, obviamente, muito lerdo, tendo
esquecido de os apresentar. Taylor decidiu estender a mão na dire-
ção de Ella.
— Olá – disse ela. — Eu sou Taylor. Nós somos da Acade-
mia.
Ella apertou a mão de Taylor, que rapidamente a apresentou
aos outros. A garota Loriena olhou para cada um deles, estudando-
os, um brilho azul nos olhos que não era o reflexo das Loralites.
— É um prazer conhecê-los pessoalmente – disse Ella. —
John disse que poderíamos ter alguns convidados em breve. Espero
que vocês gostem do lugar.
— Um pouco congelado para o meu gosto – disse Nigel.
— Você se acostuma – respondeu Ella.
— Himalaia – disse Nigel, pensativo. — Eles têm bares que
tocam rock aqui em cima?
Ella riu. — Não. Na verdade, não.
Nove foi até a mesa, onde ele pegou o caderno de desenho
de Ella. O desenho se referia a eles – bem, não exatamente, mas
havia cinco silhuetas ao redor do brilho da pedra de Loralite. Ela
era uma artista muito boa.
— Você sabia que estávamos chegando – disse Nove.
Ella deu de ombros timidamente. — Eu tive um vislumbre.
— Isso está acontecendo muito? – Nove perguntou. — Os
vislumbres do futuro?
Ella puxou uma mecha de cabelo sobre os olhos. — Na ver-
dade, não. Saber o futuro muda o futuro. É muito bagunçado. Eu
tento não colaborar espiando.
— Então você não tem ideia de como nos sairemos hoje –
disse Taylor. — Se vencermos.
Ella balançou a cabeça. — Se eu lhes dissesse que vocês ven-
ceriam, vocês ficariam confiantes demais e não iriam fazer as coisas
que os fizeram vencer em primeiro lugar. E se eu lhes dissesse que
vocês irão perder...
— Todos nós podemos pular da montanha – Nigel inter-
rompeu. — Entendi.
— Mas eu conheço o plano de vocês – disse Ella, sorrindo
para ela de um jeito que Taylor achou um pouco assustador. —
Parece bastante consistente para mim. Não que você tenha pergun-
tado. Mas já que você está preocupada...
— Você sabe o que estamos planejando – repetiu Taylor,
sem acreditar de verdade.
— Vocês planejam usar a Loralite para teletransportar gru-
pos de estudantes pelo campus. Brincar de gato e rato com os Paci-
ficadores até acabar com eles – ela apontou para Rabiya. — Isso
significa confiar muito nela. E você não confia inteiramente nela,
porque ela costumava trabalhar com a Fundação.
Taylor olhou para Rabiya. Ela estava prestes a dizer algo em
contrário, mas sabia que isso seria condescendente. Rabiya a enca-
rou friamente e não disse nada.
— Você pode confiar nela, no entanto – Ella continuou. —
Pelo menos no que diz respeito a essa batalha – falando rapida-
mente, Ella virou-se para Simon. — Você está aqui porque pode
transferir conhecimento. Legado legal, a propósito.
Simon meio que se curvou. — Obrigado. Não tenho reco-
nhecimento suficiente.
— Você vai transferir o que aprender sobre este lugar para
algumas pedras de Loralite, para que os Gardes possam se teletrans-
portar para cá de qualquer Loralite que vocês criarem no campus.
Apenas para o caso de vocês precisarem recuar. É esperto. Pode
salvar algumas vidas.
Finalmente, Ella virou-se para Nigel. — E você está aqui
apenas porque não tem nada melhor a fazer até que a luta comece.
Nigel sorriu. — Na verdade, eu deveria estar limpando os
banheiros, mas parece um desperdício de tempo levando em conta
os acontecimentos de hoje à tarde.
Nove bateu palmas. — Ah cara, Ella, como eu sinto falta
disso! É como um show de mágica.
Taylor fingiu não se incomodar com a facilidade com que
Ella expôs seus pensamentos. Aparentemente, os telepáticos não
eram muito fã em ter limites. — Não sei se vale a pena dizer a pró-
xima parte – começou Taylor.
— Vá em frente – disse Ella. — Conversar é divertido.
— Esperávamos dar uma olhada, já que há cinquenta por
cento de chances de estarmos nos mudando para cá – disse Taylor.
— É mais do que apenas esta caverna, certo? – Nigel per-
guntou. — Temos muitas pessoas...
— Deixe-me fazer um tour – Ella respondeu, passando o
braço dela pelo de Taylor e puxando-a para a saída. — John tem
agido um pouco estranho a respeito deste lugar desde sua visão.
Insiste em que montemos o campo de força antes de permitir que
qualquer um venha para cá. Mas, bem, tenho muito orgulho do que
já construímos e acho que vale a pena mostrar para vocês.
— Espere um segundo – disse Nove, alcançando-os. — Ele
não mencionou nenhuma visão para nós.
— Eu digo para ele manter a cabeça no presente, mas ele
não escuta – disse Ella. — Acho que ele viu algum tipo de explosão
aqui. Como se estivéssemos sendo bombardeados ou algo assim. E
é por isso que ele está tão empenhado no campo de força.
Taylor e Nove trocaram um olhar. Era para esse ser o lugar
seguro para onde se refugiariam; pelo menos foi o que John pro-
meteu a eles. Agora, de repente, havia conversas sobre explosões e
atentados.
— Ei, então vamos sair da Academia para irmos para a pró-
xima Hiroshima? – Nigel perguntou, colocando a ansiedade de Tay-
lor em palavras. — É isso que estou ouvindo?
Ella suspirou. — John poderia ter visto um milhão de futu-
ros possíveis. Isso não significa nada. Além disso, quem iria querer
nos bombardear? Não estamos machucando ninguém.
Taylor franziu o cenho ao ouvir isso. Apesar de ser um
pouco estranha e invasiva, Ella parecia uma garota doce. Ela tam-
bém passou os últimos dois anos vivendo na utopia das montanhas
de John Smith. Ela não sabia mais como era o mundo real.
— O que a Marina acha de tudo isso? – Nove perguntou. —
Ela está por aqui?
Os lábios de Ella se apertaram e olhos dela dispararam para
o lado. Taylor não precisava ser telepática para captar esse sinal; a
menina tinha más notícias.
— Marina, hum, bem, ela e John tiveram uma briga – disse
Ella, tentando parecer diplomática e adulta. — Ela saiu algumas se-
manas atrás. Não tivemos mais notícias dela desde então.
— Sobre o que eles brigaram? – Nove perguntou.
— Quando Marina viu que Cinco estava de volta, ela... – Ella
deu uma olhada para Nove e deu de ombros, como se ele pudesse
preencher os espaços em branco. — De qualquer forma, John não
pareceu se importar. Então, acho que Marina partiu para procurar
o Cinco sozinha.
O drama entre os Garde não interessava muito a Taylor, en-
tão ela seguiu um pouco à frente. Ela enfiou as mãos nos bolsos do
moletom enquanto alcançava a boca da caverna. Como ela foi a
primeira a sair, ela também foi a primeira a pular para trás, gritando
de surpresa quando ficou cara a cara com um monstro. A cabeça
de uma águia no corpo de um leão, com enormes asas que ficavam
se mexendo para sacudir a neve.
Simon derrapou até parar ao lado dela. — Mon dieu! É um
grifo!
E era um grifo. E então não era um grifo. Diante dos olhos
de Taylor, a enorme fera se encolheu e virou um beagle totalmente
adorável. Um Chimaera. Taylor tinha ouvido falar dessas criaturas,
mas nunca havia encontrado nenhum dos animais lóricos. Nos dias
após a invasão, a Garde Terrestre havia levado todos eles sob cus-
tódia. O cachorro ofegou alegremente para ela, depois saltou para
que pudesse bater nas pernas de Nove.
— Bernie Kosar! – Nove gritou. — Meu cara!
— Desculpe por isso – disse Ella a Taylor e para os outros,
que pareciam assustados. — BK mora aqui em cima. Nosso vigia.
Garante que não recebamos visitantes inesperados se teletranspor-
tando.
Taylor assentiu em silêncio. Ela já estava além da presença
de uma Chimaera, muito ocupada sendo impressionada com a vista.
— Lindo – disse Rabiya. Taylor concordou com a cabeça.
Eles estavam no alto da montanha, cercados em todos os
lados por picos de montanhas brancas. Do patamar rochoso em
que estavam, um caminho de retorno levava a uma pequena vila.
Dezenas de casinhas pitorescas estavam espaçadas uniformemente
ao longo do caminho. A princípio, parecia a Taylor que as casas
certamente desmoronariam da encosta da montanha. Então, ela no-
tou as fundações de pedra que as prendiam às rochas abaixo. Não
presas – conectadas. Era como se as bases das casas tivessem se
erguido totalmente das rochas. Essa não era uma construção co-
mum. Legados as construíram.
Havia mais casas de aparência nova na vila, intercaladas entre
as construções originais do vilarejo, se misturando. Espaço sufici-
ente para algumas centenas de novos ocupantes, pelo menos.
— Eu sei que talvez não pareça – disse Ella, — mas as casas
são quentes. Temos água corrente. Eletricidade na maioria das ve-
zes – ela olhou para Nove. — John quer instalar um centro de trei-
namento, mas estava esperando por você para ajudá-lo a construí-
lo.
Nove sorriu com isso, mas não disse nada. Como Taylor, ele
estava olhando para a vista e imaginando as possibilidades.
— O campo de força será grande o suficiente para proteger
tudo isso? – Taylor perguntou.
— Bem, tecnicamente, serão três campos de força – respon-
deu Ella. — Mas sim.
Um caminhão roncou à vista na estrada que levava à vila.
Taylor deu um passo à frente para olhar mais de perto, com o estô-
mago apertando quando viu soldados armados pulando da caçamba
do caminhão.
— Não se preocupe, eles são legais – disse Ella, sentindo sua
agitação. — Eles são os Oito Nacionalistas de Vishnu. Uma pe-
quena milícia dedicada a nos proteger.
Nigel coçou a bochecha. — Hã. Essa não tem sido nossa
experiência com rapazes do exército.
— Sim, bem, os moradores são legais aqui também – Ella
continuou. — Tentamos não abusar da hospitalidade deles. Ajuda-
mos lá em baixo sempre que podemos e eles nos protegem de es-
tranhos.
Taylor olhou para a pitoresca vila. Estava frio e era um local
remoto. Era isolado e seguro. Era mais longe de casa do que ela
jamais esteve. Ela olhou para Nigel e descobriu que ele a estava
observando. Ele levantou as sobrancelhas em dúvida. Ela soltou
um suspiro, sua respiração formando uma pequena nuvem diante
dela.
— Então – disse Ella, já que todos os convidados da Acade-
mia ficaram em silêncio. — O que vocês acham? Vocês morariam
aqui?
— É legal – disse Taylor. — Eu acho que poderia ser bom.
Como um plano B.
A serenidade da vista foi interrompida pelo bolso de Nove
zumbindo incessantemente. Ele pegou seu telefone celular, a testa
franzindo.
— Porra, eu tenho um sinal melhor no Himalaia do que na
Academia – ele resmungou. Nove levantou o telefone para que Tay-
lor pudesse ver. — Recebemos cerca de vinte mensagens de Isabela.

De volta à Academia, Rabiya criou uma pedra de Loralite no centro


do prédio estudantil, a massa de cobalto rompendo os pisos.
— Vamos consertar isso depois – disse Nove.
Ela fez outra perto da entrada dos dormitórios. Outro aflo-
ramento surgiu no centro de treinamento. Ela colocou uma no lado
da barricada improvisada que ficava a Academia, saindo da estrada
central que levava ao campus.
Finalmente, Rabiya criou uma Loralite na praia, escondido
entre algumas pedras. Nesse ponto, ela e Taylor estavam sozinhas.
Todos na Academia estavam em um sistema estrito de parceiros,
então Taylor teve que ficar ali à toa enquanto Rabiya fazia seu tra-
balho. Nove e Nigel partiram para organizar os alunos em grupos,
enquanto Simon estava ocupado carregando pulseiras com tudo o
que aprendeu sobre a Nova Lorien. Essas pulseiras seriam distribu-
ídas para os alunos nos quais eles poderiam confiar para evacuar
outras pessoas se surgisse à necessidade – Maiken, Nemo, Omar e,
por insistência de Nigel, Nicolas.
Caminhando pela praia enquanto esperava, Taylor pensou
na mensagem de Isabela para eles. Um Ceifador louco que por
acaso era um Garde, trabalhando para a Fundação, podia possuir
corpos. E ele foi para a Academia. É claro que eles poderiam adici-
onar isso aos seus problemas. Isabela não atendeu o telefone
quando tentaram ligar de volta, então não havia mais nada que eles
pudessem fazer sobre isso.
— Acho que o melhor plano – dissera Nove, — é não deixar
que estranhos o toquem.
Taylor bateu o dedo em algo duro na areia. Uma garrafa va-
zia de champanhe. Ela se agachou, limpando a areia do vidro verde.
Ela e seus amigos devem ter deixado a garrafa aqui na véspera de
Ano Novo depois de roubá-la da festa dos funcionários. Ela sorriu
suavemente. Essa era uma boa lembrança. Uma boa noite. Bem, até
Nove chegar para contar a Nigel sobre a morte de seu pai.
— Eu terminei – disse Rabiya, vindo atrás dela. Ela olhou
para a garrafa na mão de Taylor. — Vejo que, além de organizar a
defesa da Academia, você também limpa praias.
Taylor não tinha percebido a que distância estava de Rabiya
e da Loralite. — Desculpe – disse ela. — Eu me distrai um pouco.
Rabiya encolheu os ombros despreocupadamente e elas co-
meçaram a voltar ao longo da costa.
— Você realmente gosta daqui – disse Rabiya depois de um
momento, quando ela pegou Taylor olhando para a água. — Você
não quer partir.
— É engraçado, porque eu nunca quis vir pra cá – respondeu
Taylor. — Mas agora estou apegada. É como o lugar onde eu real-
mente cresci.
Rabiya assentiu e ficou em silêncio novamente. Taylor ficou
surpresa com sua própria sinceridade. Ela imaginou que estava se
sentindo mais sentimental no que poderia ser um dos últimos mo-
mentos de tranquilidade do dia. O que Ella disse sobre Rabiya? Que
Taylor podia confiar nela – com relação a batalha de hoje, pelo me-
nos. Isso significava que havia algo que Taylor não podia confiar
nela.
— Você acha que ele está bem? – perguntou Rabiya. — Ko-
pano, quero dizer. Você não está preocupada?
Ah. Ou alguém.
Taylor não sentiu raiva ou possessividade. Talvez ela fosse
uma pessoa melhor do que isso, ou talvez ela tivesse muito mais
para se preocupar com a pequena paixão de Rabiya por Kopano.
Quando chegaram à Loralite, Taylor sorriu para a outra garota de
uma maneira que ela esperava que fosse tranquilizadora.
— Kopano vai ficar bem – disse Taylor. — Nada pode ma-
chucar aquele cara.
KOPANO OKEKE
OSÍRIS – PRAIA PFEIFFER, CALIFÓRNIA

explodiu na sala de máquinas atrás dela, movendo-se a uma ve-


locidade que não era humana.
À luz carmesim da nave Mogadoriana e com o acréscimo
das chamas saltando das costas de Vontezza, Kopano primeiro
confundiu seu agressor com algum tipo de demônio – diretamente
dos quadrinhos bíblicos chatos que a mãe dele costumava trazer
para casa, em vez de coisas boas sobre super-heróis. Esse foi o
pensamento no cérebro de Kopano quando o demônio socou Von-
tezza no lado da cabeça com força suficiente para quebrar o
pescoço dela. O corpo da Mogadoriana desmoronou e rolou so-
bre os degraus, aterrissando em uma pilha ardente aos pés de
Kopano.
No fundo de sua mente, Kopano sabia que Vontezza se
regeneraria. Ela ficaria bem. Provavelmente. Mesmo assim, seus
instintos foram avançar e tentar ajudar a apagar o fogo nas cos-
tas dela.
Ele ficou abismado quando viu quem estava no patamar
acima.
John Smith. John Smith era o demônio.
— Sempre quis matar uma dessas coisas – disse John, sua
voz esquisita e estridente. — Todos esses vermes correndo pelo
nosso belo planeta. Não podemos tolerar.
Kopano ficou olhando. Ele não sabia o que dizer. Essas
palavras não faziam sentido vindas de John. O Lorieno prova-
velmente matou toneladas de Mogadorianos durante a invasão.
Ele também organizou essa rendição pacífica e nunca chamou os
Mogadorianos de "vermes". O que diabos estava acontecendo?
— Estou aqui para aceitar sua rendição – continuou John.
— A de vocês e depois a dos outros rebeldes naquela Academia.
Eles disseram que eu devo lhe mostrar misericórdia – John olhou
para as mãos, flexionando os dedos. Eles brilhavam em branco
quente. — Mas a misericórdia pode ser difícil, devido à quanti-
dade de poder que existe neste corpo.
— John, o que-? – Kopano começou a dizer, mas se con-
teve. Ele não era estúpido. O jeito que John falou, o jeito que ele
sorriu, o jeito que ele havia matado tão insensivelmente Vontezza.
Aquele não era o John. Kopano não sabia como, mas a Garde
Terrestre havia encontrado uma maneira de controlar o Lorieno.
Isso era pior do que um Inibidor. Outra pessoa – alguém clara-
mente demente – estava de posse do corpo de John.
— Não é tão ruim onde eles te colocam – disse John, des-
cendo as escadas para a sala de máquinas. — Um pouco quente.
A comida não é ótima. Mas às vezes eles deixam você livre para
fazer a obra de Deus.
Kopano olhou por cima do ombro. Miki estava ali, conge-
lado, uma mão ainda no gerador de campo de força.
— Miki! – Kopano gritou, chamando a atenção. — Leve
isso de volta para a Academia! Avise-os!
Miki abriu a boca como se quisesse objetar, mas ele deve
ter feito a mesma matemática mental que Kopano. Se eles voas-
sem juntos dali, John estaria logo atrás deles. Ele pode até ultra-
passá-los e chegar à Academia primeiro. Alguém precisava ficar
para trás para detê-lo.
E essa pessoa era Kopano.
— Ora, ora – disse John. Ele apontou a mão aberta para
Miki, uma chama flamejando. Miki se transformou em vento antes
que o fogo o tocasse. O gerador do campo de força desapare-
ceu com ele, tudo em um turbilhão de partículas, Miki indistinguí-
vel da máquina. Kopano percebeu como as chamas ondularam e
ondularam com a súbita corrente de ar que saía da sala de má-
quinas.
— Bichinho escorregadio – disse John, e apontou outra
bola de fogo para Kopano.
Kopano se lançou para frente. Ele ficou transparente, dis-
parando através do fogo e agarrou a escada em que John es-
tava. Os degraus perderam a densidade e John, perdendo o
equilíbrio, caiu dali. Kopano o agarrou enquanto ele caia, segu-
rando a frente da camisa dele e endurecendo as moléculas do
punho. Ele deu um soco na cara de John, quebrando o nariz do
Lorieno e jogando-o contra um dos muitos painéis de controle da
sala.
— Se você estiver aí, John Smith – disse Kopano, tentando
impedir que sua voz tremesse. — Lute! Lute contra essa coisa que
tem controle sobre você!
John se levantou, rindo e aspirando sangue pelo nariz. —
Eu o coloquei em um lugar muito aconchegante. Uma pequena
nave espacial que o assombra algumas vezes, enquanto ele ob-
serva uma garota sangrar. Talvez ele possa ouvi-lo, mas não há
nada que ele possa fazer – disse John. — Fui colocado nesta
Terra para parar coisas como ele. Coisas como você.
Kopano permaneceu firme, pronto para se esquivar a
qualquer momento. Este gostava de conversar. Isso era bom. Isso
poderia garantir alguns segundos preciosos para Miki conseguir
voltar e informar aos outros o que eles estavam enfrentando.
— O que você é? – Kopano perguntou. — Você deve ser...
você deve ser algum tipo de Garde.
— Sou uma benção – respondeu John, nasalmente, agi-
tado. — Esses Legados são profanos. Uma afronta ao Todo-Po-
deroso. Eu fui feito para acabar com eles.
— Você parece minha mãe – respondeu Kopano. — Ela
ora por mim o tempo todo.
Um enorme sorriso se espalhou no rosto de John. — Deve
ser por isso que te encontrei primeiro. As orações de sua mãe
foram atendidas!
John saltou em sua direção. Ele era rápido e super forte,
mas Kopano havia notado algo sobre a maneira como ele manu-
seava o fogo. Era impreciso. Quem controlava John Smith não era
tão habilidoso em usar os Legados dele. Talvez ele nem soubesse
do que John era capaz. Uma pequena vantagem era melhor que
nada.
Kopano deixou John passar por ele, seu punho batendo no
núcleo blindado onde residia o gerador do campo de força. Logo
depois, Kopano o agarrou por trás e deixou os dois transparen-
tes. Ele empurrou John para a frente, para dentro da camada
que protegia o gerador, até o rosto e o peito se sobreporem
àquela liga Mogadoriana. John sibilou de dor. Talvez, Kopano
pensou, se ele pudesse machucá-lo o suficiente, esse possuidor
fugisse do corpo de John.
— Solte-o! – Kopano gritou. — Volte para o seu lugar!
O metal rangeu quando John soltou uma onda poderosa
de telecinese. As camadas do núcleo se abriram para trás como
pétalas de uma flor, depois achataram-se contra o chão, afas-
tando-se dos dois. John se soltou de Kopano, girou e esticou as
mãos, arremessando Kopano pela sala com outra rajada de te-
lecinese. Kopano se tornou transparente para não se chocar em
nenhum dos equipamentos.
— Há muito poder neste corpo – disse John, rindo. —
Nossa, é tão fácil. Tudo o que tenho a fazer é pensar em algo
e...
John estendeu o punho e, num piscar de olhos, ficou envolto
em gelo. Rachando e sibilando à medida que crescia, o gelo se
transformou em uma lança pontiaguda, que ele mirou e mergu-
lhou direto no peito de Kopano.
Kopano deixou o gelo passar através dele, afastou-se e
esmagou-o com um soco no punho endurecido. John mal pareceu
notar. Dos olhos dele já estavam saindo os raios prateados, trans-
formando partes da nave de guerra Mogadoriano em pedra.
Ele estava brincando, Kopano percebeu. Testando seus po-
deres.
— Tanto poder – disse John, olhando para as mãos nova-
mente. — Então é assim que parece ser um deus.
À esquerda de Kopano, um tanque de refrigeração que
havia sido danificado durante a luta de repente explodiu, pulve-
rizando névoa fria até os limites úmidos da sala de máquinas.
Kopano se levantou para sair do caminho. Quando ele olhou
para trás, John havia sumido.
Talvez ele tenha perdido o interesse. Talvez ele tenha aci-
onado acidentalmente o Legado de teletransporte de John e ido
parar do outro lado do planeta. Talvez ele estivesse a caminho
da Academia.
Kopano ouviu vozes e botas vindos da parte de cima da
nave. Os soldados estavam invadindo a Osíris. Talvez eles te-
nham sido atraídos pelos sons da batalha ou talvez John Smith os
tenha trazido até aqui. De qualquer maneira, ele precisava ir.
Kopano agachou-se sobre o corpo ainda fumegante de
Vontezza. Para todos os fins, a garota estava morta. Mas ela iria
voltar, não iria? Ele não podia deixá-la para trás. Kopano apal-
pou os últimos resquícios de fogo das costas de Vontezza e co-
meçou a pegá-la.
O chão de metal rangeu quando algo se moveu atrás dele.
Kopano se virou bem a tempo de ver John reaparecer. Invisibili-
dade, é claro. Ele nunca havia saído da sala. Ele segurava uma
parte quebrada de um cano que havia pego em algum lugar, e
o enfiou direto no peito de Kopano.
Mais uma vez, Kopano ficou transparente. John ficou ali,
segurando o cano no espaço fantasmagórico do ombro de Ko-
pano. Kopano se perguntou quanto tempo esse tolo iria continuar
assim. John tinha muitos truques capazes de causar danos, mas
Kopano só precisava de um movimento para evitar todos eles.
— Eu posso fazer isso o dia todo – disse Kopano com um
sorriso.
— Eu posso ver as cordas que conectam você ao poder –
John disse quase sonhadoramente, seu olhar se tornando desfo-
cado. Ele acenou para o ar, apontando do coração de Kopano
para o chão. — É horrível. Uma luz azul vindo do chão, enviada
do submundo. Eu me pergunto o que aconteceria se eu...
John fez um movimento de corte.
Kopano uivou quando seu ombro explodiu de dor. Ele se
tornara sólido ao redor do cano que John segurava dentro dele.
Osso e músculo foram despolpados quando o corpo de Kopano
reafirmou sua massa. Foi agonizante; foi como levar um tiro de
dentro do corpo dele.
Seus Legados se foram. John os havia arrancado.
— Ah, veja só – disse John. Ele tocou a bochecha de Ko-
pano com a mão livre. — Humano de novo. Isso é legal, não é?
Com a outra mão, John sacudiu o cano que estava agora
mergulhado no ombro de Kopano e saindo pelas costas. A dor
era insuportável. Mesmo assim, Kopano agarrou o pescoço de
John com a mão em movimento. Arranhou-o. Rasgou-o.
O metal emitiu um som molhado quando John usou sua su-
per força para retirá-lo de Kopano. E foi isso. Os olhos de Ko-
pano se reviraram em sua cabeça e ele desmaiou.

Os olhos de Kopano se abriram uma vez enquanto John o arras-


tava pelo tornozelo para fora da nave de guerra Mogadoriana.
A cabeça batia no chão de metal e ele sentia um calafrio por
toda parte. Havia um buraco nele – não apenas o no ombro –
uma parte maior dele estava faltando. Ele tentou usar sua teleci-
nese para afastar John e não conseguiu. Ele ainda estava sem
Legados.
Um lampejo de calor a partir do ombro de Kopano o fez
gemer. John olhou para ele.
— Aguenta ai, cara – disse John. — Nós vamos te conser-
tar.
Kopano cerrou os punhos com força. Ele sentiu algo contra
sua pele, gelado e afiado. Ele precisava se apegar a essa sen-
sação. Mesmo se ele desmaiasse novamente, ele precisava... pre-
cisava...

Kopano acordou novamente, desta vez com o sol brilhando em


seu rosto. Ele sentiu a areia nas bochechas. Mãos firmes o segu-
ravam. Eles estavam fazendo algo em seu ombro ferido. A dor
ainda estava lá, porém era mais fraca agora, uma dor distante,
como se fosse o ombro de outra pessoa que havia sido dilace-
rado. Ele se sentiu drogado e sonolento; foi uma luta permanecer
acordado, focar.
Dois médicos Pacificadores de rosto sombrio estavam ajo-
elhados sobre ele. Um deles percebeu que ele voltando à cons-
ciência e encontrou os olhos dele.
— Você foi gravemente ferido – ele disse simplesmente.
— Não tente se mexer.
Havia um peso em volta de seu pescoço. Um colar. Kopano
olhou além dos médicos e viu um terceiro Pacificador segurando
uma daqueles controles dos Inibidores. Kopano estava preso ao
seu cabo de aço eletrificado. O Pacificador o observou de perto,
com o dedo no gatilho, pronto para chocá-lo com a menor pro-
vocação.
— O que ele tem ai? – perguntou o Pacificador que estava
de pé sobre ele. — Na mão dele?
Um dos médicos abriu os dedos de Kopano e levantou o
colar de John. Kopano havia arrancado dele durante a briga. Ele
não podia deixá-lo se teletransportar para a Nova Lorien. Era
uma pequena vitória, mas talvez protegesse os outros.
— Alguma coisa alienígena estranha – disse o médico, jo-
gando o colar na areia. — Empacote.
Kopano sentiu que poderia escapar se quisesse. Seu Le-
gado estava de volta. Mas ele estava fraco. Tão, tão fraco. Ele
não achava que poderia reunir a energia necessária. Ele perdeu
muito sangue. Talvez demais. Mas espere, se ele pudesse usar seu
Legado novamente, isso significava John Smith... onde estava
John Smith?
— Você tem alguma ideia do que desencadeou aqui? –
uma voz familiar gritou.
Kopano virou a cabeça apenas o suficiente para poder
ver o Coronel Archibald andando de um lado para o outro na
areia, com um telefone via satélite pressionado no ouvido. As bo-
chechas do homem estavam rosadas de raiva.
— Com todo o respeito, senhor, não me importo com o
quanto você quer que a situação da Academia acabe – Archi-
bald latiu ao telefone. — O sujeito que você selecionou é com-
pletamente instável.
Archibald fez uma pausa para ouvir uma resposta. Kopano
percebeu que Archibald não ficou feliz com o que ouviu graças
ao aperto de mão dele contra o telefone.
— Eu não tenho como vigia-lo, senhor. Ele está à solta e se
apoderou de algumas armas pesadas. Nível nuclear. Se você não
impedi-lo agora, está colocando em risco a vida de todos os alu-
nos da Academia.
Archibald rosnou no telefone. Kopano sentiu um aperto em
seu ombro. A escuridão começou a aparecer nas bordas de sua
visão já embaçada. Ele estava desmaiando. Ele cerrou os dentes,
tentou ficar acordado.
A última coisa que ele ouviu antes de voltar à inconsciência
foi o pronunciamento final e sombrio de Archibald.
— Ele é capaz de matar todos eles.
ISABELA SILVA
LA CALDERA – DURANGO, MÉXICO
TAYLOR COOK
A.G.H – POINT REYES, CALALIFÓRNIA

— Professores e alunos que não estão aptos a lutar! Nós ire-


mos teletransportá-los para um lugar seguro. Por favor, juntem o
máximo possível de bagagem que vocês consigam carregar pelos
estudantes que ficarão para trás. Talvez teremos que segui-los com
pressa e não teremos tempo de pegar nossas coisas!
O prédio dos estudantes fervilhava com atividades, princi-
palmente ao redor da recém-criada Loralite no centro da constru-
ção. Uma fila estava se formando – de professores que não pode-
riam ser colocados em perigo e os Gardes mais novos que não se-
riam úteis numa luta. Uma pilha de mochilas estava sendo coloca-
das lá. Nove havia ordenado para que todo mundo empacotasse o
que ele chamou de “mochila para acampar” – roupas quentes, co-
mida, água, qualquer item pessoal que não conseguissem deixar
para trás.
Com um lampejo de luz azul, Rabiya apareceu, retornando
de outra viagem ao Himalaia. Ela havia voltado há apenas alguns
segundos e já se aproximava da Dra. Chen. A professora da Acade-
mia perdeu um pouco o equilíbrio, já que levava diversas mochilas
penduradas em seu ombro, carregando o máximo possível para aju-
dar os alunos. Dois jovens tweebs ajudaram-na, os dois também se
juntando a Rabiya, todos de mãos dadas.
— É um pouco desorientador, então talvez seja melhor vo-
cês fecharem os olhos – Rabiya disso ao grupo, o que logo se tor-
nou seu costumeiro aviso.
— Minha querida, eu sempre quis desafiar o espaço e tempo
– respondeu Dr. Chen. — Bora com isso!
E com isso, Rabiya os teletransportou dali.
Lexa apareceu ao lado de Taylor e Nove, uma bolsa de note-
book balançando em seu ombro. — Com todos os sistemas desliga-
dos, eu não sou de nenhuma serventia aqui – ela disse. — Estou
indo para a Nova Lorien. Vou ficar de olho nos mais novos.
— Ella ficará animada em te ver – Nove disse. Os dois se
abraçaram, e então Lexa seguiu seu caminho até a pedra de Loralite.
O Dr. Good apareceu em seguida. Ele não carregava ne-
nhuma bagagem. Em vez disso, ele segurava um canhão Inibidor,
que ele deve ter estudado em seu laboratório.
— Eu vou ficar – ele disse com firmeza. — Já participei de
várias batalhas antes.
Nove balançou sua cabeça. — Nem, Malcolm. Eu acho que
não. Se alguma coisa der errado aqui, precisamos de você a salvo.
Você tem muita sabedoria e tal – ele baixou a voz a um sussurro,
mas Taylor ainda pôde ouvir. — Diferente de mim, você realmente
sabe como cuidar da Academia. Independentemente de como isso
acabar.
Malcolm franziu a testa, considerando. — Eu posso ser útil.
Talvez eu deva te lembrar de que essas pessoas estão mantendo
meu filho prisioneiro?
— E nós temos pessoas lá fora procurando por ele – Nove
disse. Ele baixou sua voz. — Se as coisas deram errado hoje, eu
direi ao Sam que você disse ‘oi’ quando vê-lo na prisão, então conto
com você para nos resgatar.
Taylor tocou o braço de Malcolm. — Obrigada por tudo,
Dr. Goode. Mas não queremos deixar ninguém ficar, a menos que
tenha o Legado de teleporte e possa fazê-lo sozinho.
Malcolm suspirou. Resignado a partir, ele entregou o canhão
Inibidor para Taylor.
— Tome, então – ele disse. — Dê às sarnas da Garde Ter-
restre um pouco do seu próprio remédio.
Taylor sorriu. — Pode deixar.
A multidão no prédio dos estudantes gradualmente diminuiu
enquanto mais e mais pessoas eram teletransportadas para a segu-
rança. Taylor olhou em volta para os Gardes que ainda estavam ali.
Já não eram tantos agora.
— Você acha que isso é suficiente? – ela perguntou ao pro-
fessor Nove, quase que em silêncio. — Para mantê-los longe?
Nove sorriu para ela. Ela percebeu que ele estava se diver-
tindo com isso. — Mesmo que não seja, nós daremos muito traba-
lho para eles.
As portas do prédio dos estudantes se abriram e Maiken en-
trou rapidamente. Ele havia sido designado para vigiar a barricada
junto com alguns outros Gardes. Taylor sabia o que a presença dele
aqui significava. Antes que Maiken pudesse começar a falar sem fô-
lego, Taylor foi até a porta.
— Está acontecendo! – disse Maiken. — Eles estão vindo!

Havia apenas um caminho que levava direto para a Academia. E


uma única saída. Uma estrada sinuosa que só endireitava quando
emergia da floresta. Taylor havia se chocado com esse fato meses
atrás. Fazia parecer que ela os outros Garde estavam presos dentro
do campus.
Taylor não conseguia contar quantos pacificadores marcha-
vam da floresta em uma linha perfeita. Cem. Talvez duzentos. E ela
sabia que havia mais no acampamento. Esta seria apenas uma pri-
meira leva. Greger Karlsson estava fazendo testes. Mesmo assim,
os Garde estavam em menor número... mais ou menos quatro Pa-
cificadores para um Garde. A barricada que eles montaram ontem
e agora se escondiam atrás parecia repentinamente frágil. O emara-
nhado de mesas e demais móveis não impediria um exército. Não
por muito tempo.
Mas a Garde por trás dela talvez possa.
Os soldados pararam a mais ou menos cinquenta metros de
distância, usando armaduras e carregando Inibidores. Alguns deles
seguravam ganchos presos a cordas, provavelmente destinados a
derrubar a barricada improvisada que eles haviam construído. Os
Gardes espiavam pelas frestas da barricada ou por cima dela. Os
Pacificadores certamente sabiam que eles estavam lá; eles definiti-
vamente podiam vê-los através das frestas. Mas Taylor teve o cui-
dado de garantir que a pedra de Loralite atrás dos estudantes ficasse
escondida atrás de uma mesa de almoço grossa. Ela não queria que
os Pacificadores soubessem disso. Ainda não.
Taylor se lembrou do jogo de capturar a bandeira, como time
após time havia sido derrotado por um esquadrão organizado de
Pacificadores, até Isabela quebrar as regras.
Naquela época, todo mundo estava se exibindo, tentando
chamar a atenção de Greger e ganhar pontos com a Garde Terres-
tre. Eles trabalharam em equipes, é verdade, mas também estavam
trabalhando sozinhos.
Agora eles estavam juntos. Eles eram uma Academia unida.
— VOCÊS ESTÃO VIOLANDO O ACORDO GARDE!
– a voz de Greger soou entre as árvores, ecoando no megafone.
Taylor não conseguia vê-lo. Ele estava sem dúvida a uma distância
segura atrás dos pacificadores. — RENDAM-SE IMEDIATA-
MENTE OU SEREMOS FORÇADOS A USAR... A USAR A
FORÇA!
Taylor tinha seu próprio megafone. Era Nigel, parado ao
lado dela. Quando Taylor gritou de volta, ele amplificou a voz dela.
—NÃO QUEREMOS LUTAR COM VOCÊS! – Taylor
respondeu. — MAS SE VOCÊS NOS ATACAREM, ESTAMOS
DENTRO DO NOSSO DIREITO DE DEFESA ESTABELE-
CIDO NO SEU PRECIOSO ACORDO GARDE!
Com sua mensagem entregue, Nigel apertou o ombro de
Taylor.
— Boa sorte – disse ele.
— Para você também – respondeu Taylor.
Nigel correu para longe da barricada, tocou a pedra Loralite
e se teletransportou. Ele tinha outro papel a desempenhar.
— Lembrem-se, não machuquem nenhum deles demasiada-
mente – disse Taylor, sua voz passando pela fila de Gardes posici-
onados ao lado da barricada. — Concentrem-se em desarmá-los.
Os Inibidores são conectados à sua armadura por cordões elásticos.
Queremos...
— Nós sabemos Taylor – disse Nicolas à sua esquerda. —
Estamos bem. Estamos prontos.
Com um comando sem fala, os Pacificadores começaram a
avançar. Suas expressões eram estoicas e sérias. Taylor não reco-
nheceu nenhum deles. Os que ela conhecia, que trabalharam com
Archibald, foram mandados embora.
— Empurrem! Taylor gritou.
Como se fossem um, os Gardes empurraram os Pacificado-
res com suas telecineses. Para os Pacificadores, deve ter sido como
uma onda de força passando sobre eles. Alguns caíram para trás,
outros lutaram para se manterem em pé. Os demais se agacharam
e resistiram à explosão telecinética como alguém se protegendo de
uma ventania forte, tentando manter as armas erguidas o tempo
todo.
— Me deem granadas! – gritou um dos Pacificadores.
Taylor ouviu o putt-putt de dois lançadores de granadas e, em
seguida, o ar entre os Gardes e os Pacificadores se encheu de peda-
ços de metal e de luzes piscantes. Eles usaram esse truque durante
o jogo da captura da bandeira. Os detritos causaram estragos no
controle de precisão da telecinese dos Gardes. Os olhos de Taylor
doeram só de olhar para a nuvem de fumaça.
Mas eles estavam prontos para isso.
— Maiken! – Taylor gritou. — Anika!
Em um borrão, Maiken passou pela barricada, correndo em
alta velocidade enquanto puxava o ar com sua telecinese. Ela arras-
tou um pouco dos detritos liberados pelas granadas consigo. O
resto Anika grudou ao chão com seu controle magnético. Alguns
pedaços de metal se soltaram da barricada por conta da força de
Anika, mas nada que pudesse atrapalhá-los. Segundos depois, o ar
estava limpo novamente.
Entretanto, os Pacificadores ganharam um pouco de ter-
reno. Eles estavam mais perto.
— Ganchos! – gritou um dos pacificadores. — Quero poder
ver nossos alvos!
Um punhado de soldados avançou para tentar arremessar
seus ganchos na barricada. Foi um desperdício de esforço. Taylor
nem precisou dar qualquer comando; a Garde ao longo da barricada
afastava com facilidade os ganchos, fazendo com que as cordas ca-
íssem na grama.
— Empurrem! – Taylor gritou novamente.
Mais uma vez, os Gardes atingiram os Pacificadores com te-
lecinese. Alguns deles cederam à pressão e recuaram. Outros con-
tinuaram avançando e apontando suas armas. Os colares de choque
nunca conseguiriam passar através das lacunas da barricada, por
isso os Pacificadores não se deram mais ao trabalho de dispará-los.
Por outro lado, os dardos tranquilizantes – pareciam chuva en-
quanto ricocheteavam na barricada de metal já retorcida dos Gar-
des.
Algo assobiou pelo ouvido de Taylor. À sua esquerda, o Ben
do Brooklyn ofegou quando um dardo o acertou no pescoço. Ele
caiu na grama, quase derrubando o Garde que estava ao lado dele.
Ele ficou inconsciente em segundos, o sedativo trabalhando rápido.
Um dos tweebs o agarrou, puxou-o até a pedra Loralite e o tele-
transportou para a segurança. Foi o único dardo que não foi inter-
ceptado pelo bloqueio ou por telecinese.
— Tudo bem, nós avisamos eles – disse Taylor entre os den-
tes. — Desarmar!
Como se fossem um, a Garde parou de empurrar com sua
telecinese e começou a puxar.
Eles arrancaram as armas tranquilizantes e os canhões Inibi-
dores das mãos dos Pacificadores. As armas estavam presas à arma-
dura, mas tudo bem. De fato, foi perfeito. Taylor se concentrou em
dois Pacificadores, arrancou as armas deles e dobrou os cabos. Ela
então puxou a corda dobrada e usou-a para atingir um terceiro sol-
dado. Ao lado dela, Nicolas puxou dois Pacificadores que ele havia
conectado de maneira semelhante a de Taylor, deixando suas cordas
ainda mais retorcidas. Omar usou as cordas dos ganchos para pren-
der mais alguns Pacificadores. Todos os Gardes usaram a mesma
técnica – eles arrancavam armas e as usavam para prender os Paci-
ficadores em um grande grupo.
A essa altura, os soldados estavam mais concentrados em
gritar uns com os outros do que em combater os Gardes. Eles ba-
tiam a cabeça uns nos outros, caíam no chão em montões (dando
chutes) e tentavam empurrar uns aos outros. Alguns dos mais es-
pertos começaram a se soltar da armadura. Era tarde demais para
isso.
A visão fez Taylor sorrir. Eles conseguiram capturar e juntar
praticamente toda a primeira onda. Todos eles estavam amarrados
uns aos outros.
— Puxem! – Taylor gritou. — Agora! Puxem!
Com o poder combinado de suas telecineses, os Garde pu-
xaram os Pacificadores na direção deles. O resultado foi Pacifica-
dores ou rolando pela terra ou tentando (sem sucesso) agarrar as
raízes das árvores. Alguns deles tentaram se livrar das armas que os
prendiam juntos, mas sem sucesso.
— Abra a barricada! – Taylor gritou.
Com sua super força, Nic afastou um trio de mesas que es-
tavam empilhadas, criando uma grande lacuna na barricada. Eles
puxaram os soldados pela abertura. Gritando e se debatendo, al-
guns dos Pacificadores conseguiram agarrar pedaços da barricada,
esforçando-se para parar a jogada dos Gardes. Porém, os Gardes
eram mais fortes.
Taylor recuou enquanto a confusão de soldados aumentava
atrás da barricada. Ela recuou até ficar ao lado da pedra Loralite.
Logo, todo o esquadrão foi arrastado até os pés dela.
Ela se abaixou e agarrou o tornozelo do Pacificador mais
próximo. Então, ela se virou e tocou a pedra Loralite.
Um flash de luz azul tomou conta e, de repente, o som de
uma correnteza forte.
Taylor estava em uma encosta com vista para as Cataratas do
Niágara. Ela esteve lá uma vez com o seu pai quando era criança.
Funcionou exatamente como Nigel disse. “Imagine um lugar onde
haja outra pedra de Loralite e você será teletransportado para lá”.
No caso, ela e os cem soldados Pacificadores que ela trouxe.
Os soldados estavam deitados na encosta, piscando e desorienta-
dos. Um deles virou-se para o lado e vomitou. Outro quase rolou e
caiu na água, mas foi segurado por alguns de seus colegas. Taylor
ficou de pé sobre todos eles.
— Viagem só de ida, pessoal – disse ela. — Aproveitem suas
férias.
Ela imaginou a Academia, tocou na Loralite e se teletrans-
portou de volta. Quando ela reapareceu, apenas alguns segundos
depois, um grito surgiu de outro Garde. À frente deles, as árvores
estavam quase limpas dos pacificadores. Os poucos que Taylor não
havia teletransportado estavam recuando.
— Puta merda! – Nic gritou alegremente. — Não acredito
que funcionou!
— Deveríamos fazer isso de novo – disse Anika.
— Nós poderíamos tentar – disse Taylor. — Mas não acho
que eles vão cair nessa duas vezes. Deixem a barricada selada nova-
mente.
Taylor olhou para seus colegas de classe. Alguns deles, como
Nic e Anika, pareciam animados e prontos para mais ação. Mas ha-
via outros cujos olhos pareciam um pouco afundados ou estavam
suados. Um dos tweebs, talvez chamado Danny, estava curvado de
cintura para recuperar o fôlego. A telecinese era um músculo e nem
todos estavam dispostos para uma luta prolongada.
— Segunda tropa chegando até vocês – disse a voz de Nigel
no ouvido dela. A Garde mais próxima de Taylor deu um pulo ao
ouvir Nigel também. — A maioria a pé, mas agora eles têm alguns
caminhões. Podem querer tentar atravessar.
Taylor se virou para o prédio da administração. A silhueta de
Nigel era visível no telhado, o ponto mais alto da Academia. A par-
tir de lá, ele poderia ficar de olho nas coisas e reportá-las. Com toda
a tecnologia comprometida, ele era a coisa mais próxima que eles
tinham dos walkie-talkies. Taylor acenou para indicar que ela o ou-
viu.
— Tudo bem – disse Taylor. — Há outro grupo chegando
com veículos. Preparem-se.
Taylor espiou por uma brecha na barricada. Os Pacificadores
ainda não haviam aparecido. Eles estavam se aproximando mais de-
vagar. Cautelosamente. Algo zumbiu por cima. Drones. Quatro de-
les saíram do bosque e começaram a circular em formação ao redor
da Garde.
— Derrube-os! – Nic gritou.
Taylor cerrou os olhos, percebendo algo nas árvores. Ela viu
um dos Pacificadores, agachado atrás de um carvalho, esperando.
Ele usava óculos e uma máscara de gás.
— Espere! – Taylor gritou, mas já era tarde demais.
Seus colegas de classe estenderam a mão, com sua telecinese
agarraram facilmente os drones e os esmagaram no chão. Assim
que os robôs caíram, suas cargas explodiram.
Gás lacrimogêneo cor de mostarda se espalhou em uma nu-
vem ao redor do Garde, sufocando-os. O próximo grupo de paci-
ficadores marchou adiante. Óculos, máscaras de gás, armas tranqui-
lizantes e bastões de choque portáteis que eram basicamente casse-
tetes elétricos. Lágrimas escorreram dos olhos de Taylor. O ar quei-
mou sua garganta. Ela ouviu o motor acelerar e os pneus guincha-
rem, mas não conseguiu ver o caminhão através da fumaça. Ela sal-
tou para longe da barricada segundos antes do batida – mesas e
mesas voando pelo ar, vidros quebrados, gritos.
Taylor gritou através da tosse abafada. — Recuar! Voltem
para os dormitórios!
CALEB CRANE
LA CALDERA – DURANGO, MÉXICO

Isabela e Einar se entregaram aos guardas de La Caldera. Assim


que eles estavam razoavelmente certos de que os dois não seriam
executados, Cinco girou a nave em direção à prisão. Eles ganha-
ram velocidade. Um raio na mira dos inimigos.
— Apertem os cintos, estamos aterrissando com força –
alertou Cinco. — Vou nos pousar bem no meio do telhado. Va-
mos descer goela abaixo.
No assento do copiloto, Caleb puxou os cintos sobre o
peito e os apertou. Atrás, nos bancos traseiros, Ran e Duanphen
apartaram os cintos também. A perna de Caleb pulava para cima
e para baixo. Ele estava ansioso. Ele sempre ficava assim antes
de uma luta. As batalhas das quais ele participou antes – Patience
Creek, a sede dos Ceifadores, a Suíça – foram situações que saí-
ram do controle. Ele nunca se voluntariou à morte certa. Seu pai
provavelmente ficaria orgulhoso, mesmo que no momento fosse
necessário todo o autocontrole de Caleb para não soltar um
clone roendo as unhas. O deserto fumegante passou por baixo
deles.
A prisão apareceu. Cada vez mais perto. Suor escoria no
pescoço de Caleb.
Mais perto. Quase lá.
Luzes vermelhas acenderam no console do escumador.
Um alarme soou.
— Merda! – Cinco rosnou — Eles estão mirando na
gente!
— O que isso significa? – Caleb perguntou.
— Isso significa...
Caleb não viu o foguete disparado do telhado da prisão,
mas ele ouviu. Um zunido em alta velocidade e, em seguida, uma
explosão que o puxou contra seus cintos. O ar queimando entrou
na cabine, pinicando os olhos de Caleb.
Nos controles, Cinco soltou um grunhido feroz. Ele ati-
vou sua Externa usando a esfera de aço que ele mantinha guar-
dadas atrás do tapa-olho e a pele dele se tornou metal. Ele lutou
com os controles e os puxou para a esquerda. Caleb estava pen-
durado no assento, apenas os cintos o impediam de cair para a
frente e se chocar com o para-brisa rachado do Escumador. Um
segundo foguete assobiou, roçando-os, mas sem causar mais da-
nos. Uma sirene de aviso ecoava incessantemente no console.
A escrita Mogadoriana inundou a tela. Caleb não preci-
sava entender o idioma para saber o que aquilo significava. Eles
não iriam conseguir sair voando dali. Se Cinco não conseguisse
controlar a nave, isso não seria um problema. Todos estariam
mortos.
Esticando-se contra o cinto de segurança, Caleb olhou
para o compartimento atrás dele. Um enorme buraco havia sido
rasgado na lateral da nave, a poucos metros de onde Ran e Du-
anphen estavam sentadas. Enquanto a nave chacoalhava, o
banco começou a se soltar de seus ancoradouros, sendo puxado
em direção ao ar de sucção do buraco. Ran parecia atordoada,
sangrando através de um corte em sua têmpora. Duanphen a se-
gurava com um braço, usando o outro para soltar o cinto de se-
gurança emaranhado. Alguns pontos no antebraço dela se abri-
ram devido à força. Duanphen rangia os dentes.
— Aguentem firme! – Caleb gritou. Ele liberou um trio
de clones e eles correram para o compartimento traseiro, indo
na direção da meninas nos bancos, sem se preocuparem com a
própria segurança. Um pedaço de estilhaço se soltou da abertura
e rasgou a cabeça de um clone, mas os outros dois conseguiram
chegar lá. Eles jogaram seu peso no banco, seguraram Ran e Du-
anphen e as impediram de voar.
— Se prepare—! – Cinco gritou.
Eles atingiram o telhado com um impacto demasiado
forte e ensurdecedor e a nave saiu rolando. Concreto quebrava
embaixo deles. O console do Escumador piscava e apitava, todos
os tipos de danos catastróficos sendo relatados, mas nada disso
importava. A cabeça de Caleb bateu no teto da cabine e por um
momento tudo ficou preto. Cinco lhe deu um tapa forte na bo-
checha. Caleb piscou de volta à consciência. Ele estava de cabeça
para baixo. Tudo estava de cabeça para baixo.
— Se você está vivo, precisa se mover! – Cinco gritou. —
Estamos expostos!
Tiros. Balas batiam contra a lateral comprometida do Es-
cumador. Minúsculos buracos se abriam a centímetros de Caleb,
raios de sol brilhando através da fumaça e poeira.
Cinco colocou o ombro no para-brisa do Escumador e o
quebrou. Com um rugido, ele voou da nave espacial e atacou os
atiradores. Caleb se soltou e caiu no telhado da nave, que agora
era seu piso.
Agachando-se para evitar balas perdidas, ele se apressou
para o compartimento traseiro e encontrou Duanphen e Ran já
soltas. Elas estavam chamuscadas e cortadas, mas nenhum dos
ferimentos era grave. Os três trocaram olhares. Não havia tempo
para palavras. Eles sabiam o que precisava ser feito.
Saiam daí, Caleb disse para si mesmo. Nos protejam.
Ele fez o máximo de clones que pôde. Encontrou-se
olhando através de quinze pares de olhos.
Os Calebs lideraram o caminho no telhado, atravessando
o buraco no lado do Escumador. Muitos deles foram abatidos
imediatamente quando os guardas da prisão os acertaram com
seus rifles. Sem Inibidores. Sem dardos tranquilizantes. Esses
homens não estavam aqui para manter prisioneiros, apenas para
pará-los. Ran, Duanphen e Caleb seguiram atrás do muro de Ca-
lebs, agachados. Caleb contou pelo menos vinte guardas no te-
lhado, com outros subindo da escada do outro lado. Cada clone
que caía, Caleb tentava substituir. Seus músculos estavam tensos
e desidratados, ele estava com cãibras, mas não por causa calor.
Ele estava se enfraquecendo. Caleb cerrou os punhos e fez mais
clones.
Mais corpos para jogar nesses bastardos. À frente deles,
Cinco se chocou contra um grupo de guardas. Ele arrancou as
armas com sua telecinese, socou as viseiras com os punhos en-
durecidos. Quando alguém tentava fugir, Cinco transformava a
pele emborracha e o agarrava a pessoa pelos pés, levantava-a e
batia-a de cara no telhado.
Enquanto avançavam, Ran pegava pedaços de detritos, os
carregava e os jogava nos grupos de guardas. As explosões que
seguiram derrubou muitos deles, mas também espalhou outros.
Um par de guardas circulou o Escumador acidentado e tentou
emboscar a Garde. Caleb não os viu chegando. Ele estava muito
focado no que estava à frente deles.
Duanphen viu o que estava acontecendo. Ela empurrou as
armas dos guardas para o lado com sua telecinese, agarrou cada
um deles pela garganta e liberou uma corrente elétrica até eles
desmaiarem.
Do outro lado do telhado, um franco-atirador mirava no
Cinco. O primeiro tiro acertou inofensivamente o peito metálico
do extraterrestre, mas o segundo atingiu-o em um dos espaços
escuros e pontilhados que o Legado não cobria, logo abaixo da
clavícula. Através dos ouvidos de seus muitos clones, Caleb ou-
viu o som molhado e sugador da bala quando entrou no corpo
de Cinco.
O Lorieno grunhiu e caiu de joelhos. Ele se machucou.
Caleb quase se convenceu de que isso não era possível. Caleb
enviou uma onda de clones correndo para dar cobertura a Cinco.
Eles se aconchegaram ao redor dele enquanto Cinco ofegava.
— Você está bem? – Caleb perguntou através de cinco
bocas diferentes.
Enquanto os clones de Caleb observavam, a bala reapare-
ceu, empurrada para fora do corpo de Cinco pela gosma negra.
Os lábios dele estavam molhados com sangue, mas ele assentiu
com a cabeça uma vez para Caleb, depois voou para frente em
um borrão. Cinco pegou o atirador, girou e jogou-o para fora do
telhado.
Depois de outra explosão gerada por Ran os guardas co-
meçaram a recuar. Os clones de Caleb atacaram alguns deles en-
quanto tentavam escapar, acurralando-os e espancando-os até fi-
carem inconscientes.
Um guarda na porta da escada atirou furiosamente neles
com sua arma reserva. Com a outra mão, ele gritou em um wal-
kie-talkie.
— Aqui é Lyon! Estamos sendo esmagados aqui em cima!
Precisamos de reforços!
— Como eu sei você é realmente o Lyon? – veio a resposta
sobre o walkie-talkie.
— O quê? – Lyon gritou. — Você está ficando ma...?
Cinco estava em cima dele. Ele pegou o walkie-talkie e ba-
teu no rosto do guarda, depois o empurrou para fora do caminho.
Caleb gostou do que ouviu. A armadilha deles com Isabela
e Einar realmente funcionou. Os guardas estavam desorganiza-
dos e desconfiados.
De repente, o telhado ficou em silêncio. Os tiros haviam
diminuído até cessarem. Ao redor deles, os guardas gemiam de
dor ou estavam inconscientes. Caleb esperava que eles estives-
sem inconscientes, pelo menos. Na verdade, ele percebeu som-
briamente que não se importava.
Eles se esconderam na escada. Caleb lembrou-se do mapa.
O próximo andar abaixo seria o quartel dos guardas. Eles en-
contrariam mais resistência lá.
— Todo mundo está bem? – Caleb perguntou. Ele perce-
beu que estava gritando. Todo o tiroteio o havia ensurdecido um
pouco.
— Sim – disse Duanphen, assentindo. Ela parecia pálida
e um pouco tonta, encostada na parede para recuperar o fôlego.
Caleb não tinha certeza de quanto tempo ela duraria.
— Bem – respondeu Cinco, mas então ele tossiu e mais
sangue borbulhando de seus pulmões saíram para fora. Ele cus-
piu nos degraus. — Tudo bem – disse ele com firmeza, antes que
Caleb pudesse perguntar novamente.
Ran não disse nada. Ela encontrou os olhos de Caleb e
desviou o olhar, sua boca numa linha tênue. Esse ataque foi con-
tra tudo o que ela defendia, mas ela continuou mesmo assim.
Eles desceram as escadas em direção ao quartel. Um dos
clones de Caleb liderou o caminho, pronto para absorver mais
tiros caso algum guarda aparecesse contra eles.
Antes que eles pudessem chegar ao próximo andar, a
porta do quartel se abriu e um esquadrão de guardas encheu a
escada. Cinco rosnou e começou a avançar, mas Ran colocou a
mão no ombro dele para detê-lo. Ela havia notado a mesma coisa
que Caleb notou através dos olhos do clone.
Os guardas não estavam subindo. Eles estavam descendo.
— Protejam o arsenal! – disse um deles. — Então descu-
bram o que aconteceu com o diretor!
Eles esperaram os guardas descerem as escadas, depois
Caleb e os outros entraram no quartel. Eles estavam procurando
o caminho de menor resistência.
— Está tudo muito silencioso no telhado! – gritou um
guarda. — Eu quero olhos lá em cima... Oop!
Um segundo grupo de guardas estava saindo do quartel
assim que Caleb e os outros entraram. Duanphen deu choque em
dois deles antes mesmo de levantarem as armas. Cinco bateu a
cabeça de outro na parede de gesso. Os clones de Caleb e alguns
ataques telecinéticos precisos de Ran cuidaram do resto. Acabou
em segundos sem um único tiro.
— Mísseis, rifles e franco-atiradores – Cinco rosnou em
tom áspero. — Esses idiotas não são tão durões de perto.
O resto do quartel parecia deserto. Eles passaram por ele
rapidamente, passando por beliches, pilhas de revistas e mesas
redondas com vários jogos de pôquer em andamento que foram
abandonados. Segundos depois, chegaram aos chuveiros – du-
chas comuns, piso de ladrilhos, o forte aroma de mofo.
— Este é o lugar – disse Caleb.
Ran assentiu e deu um passo à frente. — Afaste-se.
Ela se agachou e colocou as mãos nos ladrilhos. Logo de-
pois, uma seção inteira brilhou com a energia carmesim do Le-
gado de Ran. O chão vibrou um pouco abaixo deles e Caleb deu
outro passo para trás. Ele sabia que ela estava descendo, energi-
zando mais do que apenas a camada superior do chão. Einar ha-
via notado esse ponto na planta do prédio. Disse a eles que pode
ser um atalho.
Com a carga definida, Ran pulou para trás e se escondeu
no corredor com o resto deles. Foi uma contagem de três até o
chão explodir, enviando uma chuva de azulejos e pedras para o
corredor.
Depois que a poeira se dissipou, Caleb enviou dois clones
para espiar lá dentro. Água vazava dos canos que pareciam ter
sido cortados ao meio pela detonação precisa de Ran. Lá em-
baixo, um corredor vazio os esperava. Eles estariam do lado de
fora do escritório do diretor e da sala de controle.
— Vamos lá – disse Cinco.
Ele flutuou e ajudou os outros enquanto eles pulavam do
andar de cima. Ran foi a última a pular. Caleb pensou que ela
havia hesitado, talvez tenha chegado no limite dela. Energizar o
chão deve ter tirado quase esgotado as forças dela.
Cinco pegou Ran depois que ela pulou. Ela começou a se
afastar dele, mas Cinco a segurou pelo braço.
— Ei – disse Cinco. — Que diabos?
Ele levantou a mão. No local onde ele havia tocado a late-
ral do corpo de Ran, eles viram manchas de sangue.
— Só um arranhão – disse Ran. — Não é nada.
A voz dela soou fraca. Caleb deu um passo em sua direção.
— Ran? Você está...?
Grosseiramente, Cinco levantou a camiseta de Ran, ex-
pondo seu abdômen. Dois buracos escuros e estriados marcavam
seu estômago. Ferimentos de bala. Os olhos de Caleb se arrega-
laram; ela deve ter sido atingida durante a primeira batalha no
telhado.
— Eu estou bem – disse Ran, olhando para os ferimentos.
— Eles nem estão doendo.
Mal ela disse isso, as pernas de Ran falharam. Cinco a se-
gurou pela cintura.
— Não, não, não – rosnou Cinco. — Eu realmente gosto
de você, Ran. Você não vai morrer comigo por perto.
Ran sorriu fracamente. — Isso é legal, Cinco.
Cinco apontou para a sala de controle. — Entre e verifi-
que os monitores – disse ele a Caleb. — Eles devem ter alguém
com o Legado de cura trancado aqui. Eles têm que ter.
— Precisamos encontrar o diretor e essa tal de chave mes-
tra – disse Caleb. — Desbloquear o lugar.
— Einar está cuidando disso – disse Cinco. — Ele vai con-
seguir.
— Deveríamos verificar o escritório dele. Talvez ele te-
nha deixado algo para trás – disse Duanphen.
Eles se separaram. Caleb entrou na sala de controle e os
outros no escritório do diretor.
Assim que ele entrou na sala de controle, um guarda pu-
lou para fora da porta e apontou uma pistola para o peito de Ca-
leb. Ele soltou um clone bem a tempo de absorver o primeiro
tiro e depois arrancou a arma do homem antes que um segundo
tiro pudesse ser disparado. Caleb pegou a arma para si e apontou
para o guarda.
Ele levantou as mãos. — Ok, garoto, ok. Eu sinto muito.
Estou apenas fazendo meu trabalho.
— Você teria me matado – disse Caleb categoricamente.
Ele pensou em Ran, com ferimentos de tiro no outro cômodo,
talvez morrendo se não tivessem sorte de encontrar alguém para
curá-la. — Você mataria todos os meus amigos.
— Estamos apenas nos defendendo – disse o guarda. —
De vocês.
O dedo de Caleb se contraiu no gatilho. Ele não disparou.
Em vez disso, ele ejetou o cartucho da arma e usou sua telecinese
para jogar a arma vazia no rosto do guarda. A arma o atingiu
bem entre os olhos, nocauteando-o.
Duanphen apareceu na porta. — Eu ouvi um tiro.
— Acabou – disse Caleb. — Me ajude a procurar.
Os dois foram confrontados com uma rede esmagadora de
telas e painéis de controle. O primeiro pensamento de Caleb foi
tentar algo em um dos computadores – abrir as celas, por exem-
plo – mas tudo estava protegido por senha. Caleb virou-se para
as telas.
— Onde está o maldito diretor?
— Ali – disse Duanphen, apontando para um dos muitos
monitores que circulavam cada centímetro da prisão. Na tela, o
diretor conduzia um grande grupo de guardas pela área de en-
trada do primeiro andar. O diretor em questão também carre-
gava uma arma Inibidora com Einar preso à coleira. Era Isabela,
um fato que Duanphen percebeu rapidamente também.
— Não, espere, ali – disse Duanphen, apontando para um
monitor diferente. O diretor – o verdadeiro diretor – liderava um
segundo grupo de guardas, todos fortemente blindados. Eles es-
tavam descendo uma escada, em rota de colisão com Isabela e
Einar. Caleb olhou de soslaio para o monitor, tentando vislum-
brar a luva mecânica que controlava os sistemas da prisão. Ele
viu.
— Diga ao Cinco que não há nada para encontrar no es-
critório do diretor – disse Caleb. — Precisamos ajudar os outros.
Quando Duanphen saiu, Caleb levou um momento para
fazer uma varredura nos monitores que transmitiam vistas das
celas, rezando para que ele visse alguém com o Legado de cura
por lá.
Em uma tela, Daniela Morales estava com a orelha pres-
sionada contra a porta do minúsculo compartimento. Ela deve
ter sido capaz de perceber que havia algum tipo de perturbação
na prisão. Caleb fez uma careta, percebendo que sua presença
aqui significava que Garde Terrestre havia se voltado contra
Daniela. Talvez isso tenha sido um pouco culpa dele.
Em outra tela, uma jovem acabava uma série de flexões.
Foi só quando ela se levantou e bateu furiosamente os punhos
contra a porta reforçada que Caleb percebeu quem ela era. Nú-
mero Seis.
Em uma cela diferente, Caleb viu Sam Goode. Ele estava
deitado em sua cama com um acesso intravenoso ligado ao braço.
E lá, em outra tela, Caleb viu o inimigo. Um garoto magricela
com cachos selvagens, também inconsciente em sua cama, en-
quanto uma mulher vestida como uma professora da escola do-
minical vigiava ele. Lucas.
Por fim, Caleb viu um garoto de cabelos escuros e enca-
racolados, encolhido na cama e tremendo. Caleb levou um mo-
mento para lembrar seu nome. Ou, na verdade, o apelido dele.
— Meatballs – disse Caleb. — Inferno, sim, Vinnie Me-
atballs.
Caleb saiu correndo da sala de controle e foi até o escritó-
rio do diretor. Ele chegou bem a tempo de ver Cinco terminar a
bandagem na lateral do corpo de Ran usando um kit de primeiros
socorros que havia encontrado. O escritório do diretor estava
decorado de uma maneira que sugeria que seu dono seria total-
mente a favor de aprisionar e torturar adolescentes – as cabeças
de taxidermia de animais variando de búfalos a leões da monta-
nha, um tapete de pele de urso, uma imagem ampliada do diretor
apertando as mãos de Dick Cheney. Caleb ficou feliz em ver que
o lugar havia sido destruído quando Duanphen e Cinco procu-
raram a Chave Mestra.
— Temos grandes reforços e alguém que pode curá-la, se
conseguirmos libertá-los das celas – relatou Caleb. — O verda-
deiro diretor e muitos guardas estão indo para o primeiro andar.
Einar e Isabela...
Cinco assentiu, depois olhou para Ran. — Está pronta?
Ela não parecia bem para Caleb. Ran estava pálida e pare-
cia incapaz de se endireitar completamente. Cinco teve que su-
portar a maior parte de seu peso.
— Vamos terminar isso – disse Ran.
— Você fica perto de mim – respondeu Cinco. — Exploda
tudo. Eu cuidarei de você.
— Eu posso fazer isso – respondeu Ran.
— Aqui, deixe-me ajudar – disse Caleb. Ele fez um clone
para suportar o outro lado de Ran. Eles podem precisar do Cinco
para lutar, afinal. Ele criou uma segundo clone para liderar o
caminho quando eles saíram do escritório do diretor e seguiram
na direção de uma nova batalha – todos machucados, sangrando,
talvez até morrendo. Mas ainda lutando. Eles só podiam seguir
em frente.
— Espere – disse Duanphen, parando no escritório. — O
que são aquilo?
Caleb não havia percebido aquilo em sua rápida análise do
escritório. Pendurados em um prego ao lado da cabeça de uma
montaria, havia dois pingentes estranhos. Pareciam as últimas
adições à coleção de troféus brutos do diretor. Os dois medalhões
emitiram um leve brilho azul que era inconfundível para Caleb
– Loralite. Cada um deles estava gravado com um símbolo Ló-
rico que ele não compreendia.
— Que diabos? – Cinco disse. Com a mão livre, ele puxou
um dos pingentes da parede. — Meu povo faz isso, eles... – os
dedos de Cinco roçaram a Loralite.
Houve um flash de luz azul. Por um breve momento, atra-
vés dos olhos de seu clone que estava apoiando Ran, Caleb vis-
lumbrou uma caverna estranha. Uma caverna do outro lado do
mundo. Uma caverna cheia de rostos familiares. Os rostos que
Caleb viu estavam em pânico e assustados. Eles estavam fugindo
de alguma coisa.
E então, estando muito longe de Caleb, o clone evaporou.
Sua janela para a Nova Lorien se fechou.
Caleb e Duanphen se entreolharam. O outro pingente
permaneceu na parede, balançando suavemente.
Cinco e Ran sumiram.
NIGEL BARNABY
A.G.H. – POINT REYES, CALIFÓRNIA

servou tudo o que sua mãe havia prometido sobre a Acade-


mia virar realidade. Estavam perdendo. Assim como ela
havia previsto.
Eles começaram tão bem. Nigel aplaudiu quando
Taylor conseguiu teletransportar todo o primeiro esqua-
drão de Pacificadores, seu plano maluco funcionando com
perfeição. Além disso, houve um grupo de Pacificadores
que tentaram entrar pela praia. Eles deram de cara com
suas lanchas em uma série de icebergs que Lisbette havia
escondido na parte rasa. Com a maioria dos outros Gardes
agrupados com Taylor, Nove pessoalmente se teletrans-
portou para lá para lidar com os Pacificadores enlameados
que aportaram em terra.
Agora, Nigel observava seus colegas correrem para
longe de uma nuvem crescente de gás lacrimogêneo. A bar-
ricada deles estava derrubada, a estrada para o campus
desbloqueada, exceto por alguns detritos espalhados. Os
Gardes iriam se refugiar nos dormitórios. Umas equipes
de soldados com mascará de gás os perseguiram.
Nigel sabia que Taylor tinha outro truque na manga,
mas não achou que fosse o suficiente. Havia muitos solda-
dos. Em um flash de luz, Nove se teletransportou da praia
usando a pedra Loralite no telhado. Ele estava machucado
– juntas ensanguentadas, uma marca de queimadura no
pescoço, mas, além disso, ileso.
— Você se divertiu? – Nigel perguntou.
— Foi bom, não havia treinado pesado assim há al-
gum tempo – respondeu Nove, estalando o pescoço com as
mãos. — Como estamos?
— Ela está tentando a manobra do dormitório – disse
Nigel. — O outro lado tem muito pessoal, Nove. Eles con-
tinuam vindo.
— E eu aqui esperando que eles recuassem depois
que mostrássemos nossas caras bravas – disse Nove.
— Você está se divertindo? – Nigel respondeu. Ele
balançou sua cabeça. — Poderíamos estar jogando capture
a bandeira lá em baixo, companheiro. Eles vão continuar
enviando mais homens. Não há razão para não fazê-lo.
Tudo o que estamos fazendo é incomodá-los. Seria tão efi-
caz quanto acorrentar-nos às árvores ou queimar nossos
sutiãs, certo?
Nove olhou para ele. Nigel sabia o que parecia suge-
rir. Que, a menos que eles machucassem os pacificadores
– realmente os machucassem – não havia como fazer cessar
o ataque à Academia. Mas Nigel não era assim. Ele não
era como Einar, disposto a sacrificar tudo pela causa. Ele
não mataria os soldados, não importa o quanto às coisas
extrapolem.
— Só estou dizendo que não podemos vencer – conti-
nuou Nigel. — O resto de nós deve dar o fora daqui. Deixe
esse lixão para eles.
Nove fez uma careta quando se referiu à Academia
como um lixão, mas deixou para lá. — Se eles souberem
que estamos fugindo, começarão a nos procurar – disse
Nove. — Se eles começarem a nos procurar e encontrarem
a Nova Lorien antes que John tenha todos os campos de
força ligados...
— Sim, sim, eu sei – Nigel interrompeu. — Nós es-
peramos até receber o sinal. Eu sei o que está em jogo. Não
significa que não me sinto um idiota aqui em cima – Nigel
espiou por cima da borda do telhado. Ele já viu tropas en-
trarem nos dormitórios. Ele pigarreou.
— Aguenta aí, o rato está chegando à ratoeira – Ni-
gel sorriu enquanto imaginava os cinquenta ou mais Paci-
ficadores que entraram depois da Garde. Nesse exato mo-
mento, eles provavelmente estavam chutando sofás ou es-
piando debaixo das camas, procurando os Gardes que eles
pensavam estar escondidos lá. Exceto que os Gardes não
estava se escondendo. Assim que a equipe de Taylor che-
gou aos dormitórios, eles usaram a pedra Loralite para se
teletransportar para o centro de treinamento.
— AGORA! – Nigel gritou, canalizando o som para
abalar as janelas do centro de treinamento. Taylor e os ou-
tros Gardes saíram do centro de treinamento com um grito
de guerra e atacaram os dormitórios.
Os poucos Pacificadores vigiando do lado de fora do
prédio pareciam completamente assustados. Logo eles es-
tavam sob empurrões telecinéticos ou foram nocauteados
com dardos redirecionados de suas próprias armas tran-
quilizantes. Um grupo de Gardes, incluindo Nic, partiu
para tombar os caminhões que os pacificadores haviam
atravessado na barricada.
Enquanto isso, Nigel correu para o outro lado do te-
lhado, o mais próximo dos dormitórios. Nove se juntou a
ele e ambos concentraram suas telecineses. Juntos, eles co-
meçaram a derrubar os escudos anti-explosão.
Quando Nigel descobriu sobre a pequena prisão no
subsolo da Academia, ele se perguntou quais outros recur-
sos de "segurança" a escola tinha para potencialmente
manter os alunos na linha. Descobriu que havia painéis de
titânio instalados em todas as janelas dos dormitórios,
caso um Garde perdesse o controle e precisasse ser tran-
cado. Se a energia não estivesse desligada, eles poderiam
ter derrubado esses escudos com apertando um botão. Em
vez disso, eles teriam que usar telecinese.
Nove e Nigel selaram as janelas que eles podiam ver
enquanto Taylor e sua Garde corriam para os lados e pu-
xavam as placas de metal de lá. Logo, todas as janelas do
prédio foram fechadas. Lisbette criou uma espessa bar-
reira de gelo nas portas da frente. Em questão de minutos,
eles prenderam com sucesso cinquenta Pacificadores den-
tro do prédio.
— Certo, então – disse Nigel. — Trabalho bem feito.
Outra pequena vitória sobre os Pacificadores que
eles puderam comemorar exatamente durante o tempo que
Nigel levou para fazer esse comentário. Em seguida, duas
vezes o número de soldados que acabaram de prender nos
dormitórios veio correndo para fora das árvores e da fu-
maça.
— Merda – disse Nove. — Eu tenho que descer lá.
— Me leve com você – disse Nigel. — Eu cansei de
bancar o megafone humano. Todas as nossas armadilhas
já foram. Nós estamos por conta própria daqui em diante.
— Como é que vocês britânicos dizem? – Nove per-
guntou enquanto segurava Nigel. — Mais uma vez para as
vadias?
— Sim – disse Nigel secamente. — É isso aí.
Eles não usaram a Loralite. Em vez disso, Nove cor-
reu direto pela lateral do prédio e eles chegaram rapida-
mente lá embaixo. Bem, Nove chegou. Nigel rapidamente
perdeu o passo se comparado ao Lorieno. Ele era um quase
um dançarino de cabelos pretos com um braço mecânico
brilhante – nocauteando um Pacificador aqui, arrancando
uma arma tranquilizadora de outro ali.
A última onda de Pacificadores encontrou o caos no
chão. Nigel ouviu Taylor gritando por cima dos barulhos
da luta.
— Usem os tranquilizantes contra eles! Fiquem
firme!
Mas ela não conseguia manter a Garde unida. Havia
muitos inimigos. A Garde se espalhou e começou a travar
batalhas individuais ou corriam para um dos edifícios onde
havia uma pedra de Loralite para se teletransportarem.
Os pacificadores invadiam.
Alguns metros à frente de Nigel, Anika enviou uma
nuvem de dardos tranquilizantes voando de volta para os
atiradores. Enquanto fazia isso, outro Pacificador a em-
purrou por trás, a acertando com um cassetete elétrico nas
costas, golpe esse que a eletrocutou. Anika caiu no chão e
o Pacificador puxou um colar de choque do cinto, mas Nigel
assobiou bruscamente em seu ouvido e ele recuou.
Maiken se apressou e arrancou o colar da mão do Pa-
cificador. Enquanto Nigel se ajoelhava ao lado de Anika e
tentava levantá-la, Maiken atravessou as fileiras dos sol-
dados, arrancando seus equipamentos enquanto ela pas-
sava. Isso funcionou bem até que um dos soldados disparou
uma arma de Inibidora no chão – ele não acertou Maiken
com o colar, mas o arame trançado prendeu as pernas dela
e ela caiu de rosto no chão. Os Pacificadores estavam em
cima dela antes que ela pudesse levantar.
— Vamos, vamos – disse Nigel a Anika, tentando
ajudá-la a ficar de pé. — Precisamos tirar você daqui.
Um piscar de olhos depois que Nigel ajudou Anika a
levantar havia três Pacificadores correndo na direção de-
les. Com um grito, Nicolas os interceptou. Amarrou dois
dos soldados e depois chutou o terceiro no peito – a força
enviou o homem voando através dos jardins. Nicolas avan-
çou sobre os outros Pacificadores. Nigel notou três dardos
tranquilizantes nas costas dele. Ele não duraria muito.
— Você consegue atirar? – era Nemo, que de repente
estava ao lado de Nigel. Ela segurava uma pistola tranqui-
lizadora em cada mão e flutuava uma terceira por perto
com sua telecinese. Havia um corte no couro cabeludo dela,
fazendo com que seus cabelos azul-marinho ficassem ro-
xos.
Nigel pegou a arma no ar. — Obrigado—
Um Pacificador estava de repente entre eles, ten-
tando puxar uma Anika quase consciente para longe de
Nigel. Ele apontou a arma que Nemo lhe dera e disparou
um dardo no pescoço do homem. Quando olhou para cima,
Nemo já havia sumido. Outro grupo de Pacificadores es-
tava chegando. Arrastando Anika, Nigel fugiu para o pré-
dio mais próximo. O centro de treinamento. Ele levaria
Anika para lá e depois voltaria para ajudar outra pessoa.
Ele não deixaria nenhum Garde ser levado. Isso seria me-
lhor que ele poderia fazer. Nigel abriu as portas do centro
de treinamento. A pedra de Loralite estava a poucos me-
tros de distância, a sádica pista de obstáculos de Nove pai-
rando atrás dela. Ele estava quase lá enquanto a Loralite
brilhava e...
— Vocês idiotas acham que são os únicos que sabem
usar essas pedras estúpidas?
Woof! Um punho atingiu Nigel bem na barriga, o
soco com força suficiente para tirá-lo completamente do
chão. Ele caiu com as mãos e joelhos, vomitando e ofe-
gando. Anika caiu ao lado dele.
Melanie Jackson tirou a máscara de gás e jogou-a de
lado. Lofton St. Croix havia se teletransportado com ela,
espinhos saindo de seus ombros e braços, prontos para a
batalha. Os uniformes da Garde Terrestre não estavam
nem um pouco sujos.
— Eu sabia que eles colocariam uma pedra aqui –
disse Lofton com orgulho.
Melanie estalou os dedos para ele. — Coloque colares
neles – ela ordenou.
Ela franziu o cenho para Nigel. — Por que vocês es-
tão lutando contra nós? Você sabe que a Garde Terrestre
está fazendo a coisa certa aqui.
Nigel estava sem ar para responder. Não que ele sou-
besse por onde começar com essa tapada. Em vez disso,
quando Lofton se aproximou brandindo um colar de cho-
que, Nigel empurrou-os com sua telecinese. Melanie e
Lofton usaram sua própria telecinese para se estabilizar,
apenas permitindo a Nigel empurrá-los para trás alguns
metros. Mas isso era tudo o que Nigel precisava. Ele só
precisava colocá-los no percurso.
— Pare de ser um idiota – disse Lofton, começando a
avançar novamente.
Nigel conhecia todas as armadilhas de Nove. Ele sa-
bia que havia um tronco de sequoia preso às correntes que
pendiam do teto logo no início. Ele já teve sua bunda arre-
bentada várias vezes para nunca esquecer aquele estúpido
tronco. Ele usou sua telecinese e abriu o compartimento no
teto, deixando o tronco cair...
Mas Melanie viu o que ele estava fazendo. No último
momento, ela simplesmente estendeu a mão e pegou o
tronco, segurando-o acima da cabeça como se ele não pe-
sasse nada.
— Não sei quem construiu esse seu centro de treina-
mento de meia boca – disse Melanie. — Mas o de Washing-
ton é tipo... Hhkk!
O colar Inibidor estalou no pescoço de Melanie e a
sacudiu antes que ela pudesse terminar de falar. En-
quanto seus músculos espasmavam, Melanie perdeu o con-
trole do tronco e o largou em cima de si mesma, prendendo-
a no chão.
— Coloque isso no seu pôster feliz, vadia – disse Tay-
lor.
Taylor estava na porta do centro de treinamento, se-
gurando a arma Inibidora. Ela deu a Melanie um choque
extra para ter certeza de que havia ficado inconsciente e
depois jogou a arma para o lado. Os olhos de Taylor esta-
vam vermelhos; havia vestígios de sangue nos cabelos dela
e manchas de sujeira nas bochechas. Ela tinha duas armas
tranquilizantes enfiadas nas calças e um olhar no rosto
que era selvagem o suficiente para congelar Lofton em seu
caminho.
— Você – disse Taylor.
Lofton parou por um momento, depois largou o ini-
bidor e colocou as mãos na lateral da cabeça. Ele olhou
para Nigel aterrorizado.
— O que você está fazendo? – Lofton gritou. — Seu
ataque sônico está destruindo meu equilíbrio!
Lofton caiu, se virou e ficou imóvel. Nigel conseguiu
respirar fundo pela primeira vez desde que Melanie deu
um soco nele, e se esforçou para levantar. Ele olhou para
Lofton. Ele não fez nada com o cara. — Que porra é essa?
Lofton abriu um olho. — Cara, eles disseram que era
ou lutar aqui ou ir para a prisão Garde. Apenas finja que
você me ferrou e eu vou ficar no chão. Meu Cêpan nunca
saberá a diferença agora que Melanie está apagada.
— Cristo – disse Nigel, batendo na testa. — Você é
um idiota.
Nicolas entrou no centro de treinamento com o corpo
inconsciente de Maiken pendurado no ombro. Ele a colocou
ao lado de Anika, depois caiu de joelhos na frente de Tay-
lor. Ela imediatamente começou a trabalhar puxando dar-
dos das costas dele e curando-o.
— Estamos perdendo – disse Nicolas sem fôlego. —
Para cada um que derrubamos outros dois aparecem. Além
disso, acho que eles têm alguém curando eles. Juro que no-
cauteei o mesmo cara duas vezes.
— É a Jiao – disse Taylor friamente. — Precisamos
encontrá-la, tira-la de cena.
Nigel espiou pela porta. Ainda havia batalhas acon-
tecendo por toda a Academia. Enquanto observava, Omar
acabou com um grupo de Pacificadores embora com seu so-
bro de fogo. Perto dali, ele viu um grupo de tweebs sendo
carregados com dardos tranquilizantes nas costas de al-
guns soldados. Uma nova nuvem de gás lacrimogêneo flo-
resceu perto do prédio dos estudantes, e Nigel observou
Nove emergir de dentro dela com uma máscara de gás rou-
bada no rosto.
— Não podemos vencer – disse Nigel, sem rodeios. —
Precisamos começar a tirar as pessoas daqui—
Um imenso pedaço de metal apareceu do nada em
frente ao centro de treinamento e caiu no chão, arrancando
pedaços de grama quando derrapou até parar em frente a
Nigel. Sua primeira reação foi que os Pacificadores agora
estavam jogando geladeiras invisíveis sobre eles. Feliz-
mente, antes que Nigel pudesse expressar esse pensa-
mento estúpido, Miki apareceu, tropeçando em sua dire-
ção. O garoto estava com uma aparência horrível – olhei-
ras profundas, próximo à exaustão. Ele desabou e Nigel
saltou para frente para pegá-lo.
— John Smith – disse Miki fracamente. — Ele está
vindo para nos matar.
ISABELA SILVA
CALEB CRANE
LA CALDERA – DURANGO, MÉXICO
Caleb e Duanphen avançaram cautelosamente pelo corredor.
Sem Cinco e Ran, eles estariam em menor número se encontras-
sem muitos soldados. Ao olhar para os monitores, Caleb sabia
que havia um monte deles no arsenal, preparados e aguardando
ordens. Infelizmente, a escada estava no outro lado do corredor,
o que significava que eles teriam que improvisar.
Grunhindo, três Calebs forçaram as portas do elevador
para abri-las. Caleb espiou dentro do poço vazio e viu que o carro
estava preso no nível do solo. Um alarme soou – algo lá embaixo
estava impedindo o fechamento das portas. Ele trocou um olhar
com Duanphen.
— Não queremos ficar presos – disse ela.
— Você tem uma ideia melhor? – Caleb perguntou.
Ela balançou a cabeça.
Ao mesmo tempo, Caleb mandou um clone descer pri-
meiro. Quando o clone caiu no teto do elevador, alguém do lado
de dentro gritou. Isso foi estranho.
O clone de Caleb abriu a grade de manutenção e pulou
dentro do carro do elevador. Um soldado inconsciente estava
esparramado entre o vão das portas, que estavam batendo repe-
tidamente na lateral da cabeça dele. Um segundo soldado - acor-
dado, mas enrolado em posição fetal – tremia contra a parede
traseira do elevador.
— Ele se foi? – perguntou o soldado. — Ele se foi?
O clone de Caleb piscou. — Hã?
— Einar chegou até eles – Caleb relatou de volta para
Duanphen. — Vamos. O caminho está livre.
Eles pularam no teto do elevador, o soldado fugindo deles.
Duanphen estendeu a mão e, o mais gentilmente possível, ele-
trocutou o homem aterrorizado até que ele desmaiasse.
— Isso foi realmente necessário? – Caleb perguntou.
— Sim – respondeu Duanphen. — O Legado do Einar não
dura para sempre.
Eles seguiram o corredor pelo andar da prisão, encon-
trando algumas armas descartadas no chão, que os soldados pro-
vavelmente deixaram cair por conta do medo. O caminho até as
celas no porão estava completamente limpo, todos os portões e
portas já estavam destrancados.
— Eles passaram por aqui – disse Caleb. — Devem ter
encontrado o diretor.
— Sim – Duanphen concordou. — Eles—
Eles tiveram a sorte de o primeiro tiro atingir um elo de
correntes e ricochetear, caso contrário Duanphen e Caleb não
teriam tido a chance de se abaixar e correr quando os soldados
abriram fogo. Duanphen estava certa: a manipulação emocional
de Einar não durou muito. Uma dúzia de guardas da La Caldera
já havia se reagrupado. Ou talvez estes fossem os do arsenal. Isso
não importava. Eles estavam atirando.
Os dois correram na direção das celas. Caleb fez dois clo-
nes para tentar desacelerar seus perseguidores, mas eles foram
baleados antes que pudessem fazer qualquer coisa. Felizmente,
havia cantos apertados nas celas, fornecendo cobertura, permi-
tindo que eles avançassem. Apesar de que, se Caleb se não esti-
vesse errado em relação à planta, eles rapidamente ficariam sem
cantos para se esconderem.
— Prisão – disse uma voz. — Faça-me um favor e eletro-
cute qualquer pessoa portando uma arma.
Caleb derrapou até parar na frente de quem estava fa-
lando. Um cara grogue usando um par de óculos remendados. A
voz dele soou tênue. Quase mecânica.
Sam Goode.
Gritos de dor surgiram por trás de Caleb e Duanphen
quando o piso eletrificado da prisão foi ativado sob os soldados
que os estavam perseguindo.
— Recuar! – Caleb ouviu um deles gritar. — Eles estão
no sistema! Alguém chegue à sala principal e controle esses an-
dares!
— Essa é a questão das prisões de alta tecnologia – disse
Sam, cambaleando para frente e esfregando o braço onde um
tubo intravenoso havia acabado de ser removido. — Elas são re-
almente fáceis de acessar.
— Bom trabalho, amor – disse Seis. Ela emergiu de uma
das celas, flexionando os dedos, claramente ansiosa por uma
briga. — Você nos ganhou algum tempo.
— Haverá mais deles – disse Sam com um longo suspiro.
— Sempre há mais soldados em lugares como esses – finalmente,
seus olhos se voltaram para Caleb e Duanphen. — Ah. Aqui
estão mais alguns de nossos salvadores.
— Caleb, certo? – Seis disse.
— Uh, sim, senhora – respondeu Caleb, nunca perdendo
a oportunidade de ser incrivelmente estranho na frente de uma
garota que ele não conhecia.
— Senhora? Merda, você bateu a cabeça ou algo assim? –
Seis olhou para Duanphen. — E você é?
— Duanphen – ela respondeu, depois encostou-se à pa-
rede, segurando o braço onde alguns de seus pontos haviam se
soltado. Caleb tinha esquecido o quanto ela estava machucada.
Merda, até aquele momento, quando ele quase desmaiou na
frente de Sam e Seis, ele não havia percebido o quanto estava
exausto. Seus músculos estavam doloridos, suas células vi-
brando, seus ouvidos zumbindo. Foi um dia e tanto.
— Você está machucada – disse Seis, olhando para Duan-
phen. Ela olhou por cima do ombro. — Há um garoto com o
Recupero, eu acho. Daniela! Traga o garoto com o Legado de
cura! – Seis se virou novamente para espiar pelo corredor. —
Talvez seja melhor que ela faça um muro até que possamos des-
cobrir uma rota de fuga – disse ela, pensativa.
— Você tem uma nave, certo? – Sam perguntou a Caleb.
— Nós batemos ela – respondeu Caleb. — Seu pai espe-
rava que o encontrássemos. Nós achamos que a Garde Terrestre
prendeu você por causa do que você poderia fazer com os Inibi-
dores deles.
Sam tocou sua têmpora. — Sim. Eles colocaram Inibido-
res em todos nós. Me mantinham inconsciente a maior parte do
tempo para que eu não pudesse acabar com eles. Mas eu cuidei
deles assim que fui acordado e me libertei.
— Onde estão os outros? – Seis perguntou. — Einar disse
que você estava com Cinco e Ran.
Caleb a encarrou. Ela disse isso tão casualmente. Seis deve
ter percebido a estranheza na expressão de Caleb, pois ela fran-
ziu as sobrancelhas.
— Ah. Eu estou estranhamente confortável por estar
sendo resgatada pelo Cinco e aquele garoto terrorista que real-
mente parecia legal – disse ela.
— Você falou com ele? Einar? – Caleb perguntou.
— Sim – Sam respondeu pelos dois, depois olhou para
Seis. — Você me chamou de amor um segundo atrás.
— Ugh. Eu chamei? Eu chamei! – Seis balançou a cabeça.
— O que há de errado comigo? Eu me sinto super otimista,
mesmo na situação péssima que estamos.
— Einar deve ter usado o Legado dele em você. Vai aca-
bar logo – disse Caleb. — Onde ele foi?
Seis deu de ombros alegremente. — Eu nem estou brava
com isso – ela apontou por cima do ombro. — Ele foi por ali.
Procurando por alguém. Nos disse para soltar os prisioneiros.
Caleb começou ir naquela direção, depois lembrou que
Seis tinha feito uma pergunta. — Oh. Cinco e Ran se teletrans-
portaram acidentalmente – ele ergueu o outro colar Lórico para
mostrar para ela. — Este é seu?
Seis pegou o colar da mão dele. — Ótimo. Obrigada. Esse
é a nossa passagem para fora daqui.
Daniela apareceu liderando um grupo de Gardes pelo ca-
minho contrário. Com exceção de Vincent, a maioria deles eram
completamente estranhos para Caleb. Todos usavam o mesmo
macacão bege e todos pareciam estar quase morrendo de fome.
— Oh, droga, você está aqui! – Daniela gritou, cumpri-
mentando Caleb ao jogar os braços em volta do pescoço dele e
dando-lhe um abraço. — Einar que disse. Obrigado por nos li-
bertar, meu amigo.
Caleb ficou feliz em ver Daniela, é claro, mas ele não con-
seguiu não se abalar com o jeito que ela falou sobre Einar. Foi o
mesmo tom que Seis usou. Como Einar fosse um velho amigo.
Ele os fez gostarem dele. Dessa forma, nenhum dos outros
Gardes faria perguntas ou atrapalharia enquanto Einar lidava
com Lucas.
Eles nunca chegaram a uma decisão sobre Lucas. Se as
notícias que eles viram forem verdade, o ladrão de corpos estava
na posse de John Smith. Ele poderia estar causando um dano
incalculável naquele exato momento. Caleb sabia que eles ti-
nham que trazer Lucas de volta para o seu próprio corpo. O que
fazer com ele depois disso? Caleb não tinha certeza. Mas ele sa-
bia que não queria que Einar tomasse essa decisão por conta pró-
pria.
— Vou checar os outros – disse Caleb. Ele olhou para Du-
anphen. — Você está bem?
Ela assentiu. Vincent estava nervosamente em pé diante
dela curando os machucados.
— Volte depressa para que eu possa teletransportar todos
daqui – Seis disse a ele, segurando o colar. — E diga a Einar que
eu mandei um oi.
Caleb correu pelo corredor na direção que Einar tinha ido.
Depois de virar alguns corredores, ele encontrou a cela de Lucas.
Caleb sabia disso porque o corpo inconsciente do diretor estava
jogado do lado de fora da porta, ao lado do corpo de uma mulher
contorcida, estranhamente vestida como uma mãe suburbana.
Ela deve ser a Cêpan de Lucas. Caleb supôs que era um bom sinal
eles ainda estarem vivos. Talvez Einar tivesse aprendido a se
conter.
Ele o queria contido, no final das contas? O que deve ser
feito com um Garde como o Lucas? Exausto, Caleb colocou a
mão contra a testa e impediu que um clone se soltasse. Ele não
estava disposto a discutir ética com um de seus clones.
Antes que Caleb pudesse se aproximar, Isabela saiu da
cela. Sozinha. Ela fechou a porta atrás de si e usou a Chave Mes-
tra do diretor – ela usou o objeto agora, o verdadeiro - para tran-
car a porta. Ela pulou quando percebeu que Caleb estava ali, en-
tão sorriu levemente e caminhou em direção a ele.
— Por favor – disse ela, — podemos sair desse lugar? –
Caleb esticou o pescoço para olhar além dela.
— O que está acontecendo? Onde está Einar?
Isabela colocou as mãos no peito de Caleb e gentilmente
o empurrou um passo para longe da cela.
— Deixe isso pra lá – disse ela.
Caleb olhou para ela, tentando discernir se ela estava sob
alguma manipulação emocional. Porém, como sempre, os olhos
dela estavam tão confiantes...
— Acabou, Caleb – disse Isabela. — Ninguém mais está
sairá dessa cela.
ACADEMIA DA GARDE HUMANA
NOVA LORIEN
LA CALDERA
O FIM

ceu e pousou no meio do campus. Pacificadores e Gardes, nenhum


deles sabia o que fazer quando o ser mais poderoso do planeta ater-
rissou no meio deles. Ele emitia um brilho branco vívido – o Lúmen
de John – emanando de sua cabeça e ombros, criando uma espécie
de auréola. O garoto problemático no controle do corpo de John
achou que isso seria legal. O objeto prateado que John carregava
em seus braços fez todos pararem.
A coisa parecia uma bala gigante e, de certa forma, era. Ao
longo da costa, em Pfeiffer Beach, os militares tinham os mísseis à
mão para o caso da nave de guerra Mogadoriana atacar. Embora a
bomba tivesse o aviso nuclear amarelo e preto, não seria poderoso
o suficiente para causar uma explosão em larga escala. Apenas des-
truiria, digamos, dois quarteirões da cidade.
Não que Lucas soubesse disso quando jogou a arma na
grama com um baque, fazendo com que os Pacificadores mais pró-
ximos se afastassem. Tudo o que Lucas sabia era que ele poderia
fazer a coisa explodir. O que era perfeito para o que ele havia pla-
nejado. Enquanto os outros se concentraram no brilho de John ou
em sua bomba, Taylor se concentrou nas manchas de sangue espa-
lhadas na camisa dele. As mãos dela tremiam.
— Kopano – sussurrou Taylor, escondendo-se atrás da
porta do centro de treinamento. — O que... o que ele fez com Ko-
pano?
Nigel apertou o ombro dela. — Ele é um sobrevivente. Te-
nho certeza... tenho certeza que ele está bem – mas Nigel não pa-
recia confiante
Taylor apertou o colar que Kopano lhe dera e tentou se con-
centrar na batalha pela frente. Não demorou muito tempo para eles
entenderem as coisas depois que Miki descreveu que aconteceu na
Osíris. A repentina mudança de John para o lado sombrio. O aviso
de Isabela sobre o Garde que possuía corpos. Tudo fazia um sen-
tido horrível.
— Por que vocês pararam? – as palavras de John se espalha-
ram pelo campus enquanto ele se dirigia aos Pacificadores que ob-
servavam. — Coloquem esses animais na mira! – quando nenhum
dos soldados respondeu imediatamente, John revirou os olhos dra-
maticamente. — Jesus. Eu tenho que fazer tudo, hein?
Os olhos de John se voltaram para a Garde mais próxima –
Lisbette – e ele acenou com o braço na direção dela. Uma bola de
fogo explodiu na mão de John e voou na direção dela, evaporando
rapidamente a parede de gelo que Lisbette invocou para se proteger.
O poder bruto do fogo, toda a fúria sem controle, também envol-
veu alguns Pacificadores. Outros avançaram até Lisbette, não para
levá-la sob custódia, mas para apagar as chamas que queimavam
suas roupas.
— PARE! – uma voz ecoou no megafone. — PARE
AGORA MESMO!
Logo depois, quando Taylor teve a chance de pensar, ela
quase admirou Greger Karlsson por sua coragem. Em algum mo-
mento, assim que os Pacificadores começaram a vencer, ele se apro-
ximou do campo de batalha, vestido com um conjunto de armadu-
ras inadequadas emprestadas de um de seus soldados. Agora, ele
estava a vinte metros de John Smith e batia o pé, tentando ao má-
ximo parecer autoritário.
— Você não está autorizado a colocar esse corpo em com-
bate! – Gritou Greger. — A situação aqui está sob controle. Você
deve retornar à base imediatamente para que possamos instalar um
Inibidor no Número Quatro – ele olhou para a bomba e engoliu
em seco. — Essas são suas ordens! Não essa loucura!
John parou para considerar isso. Um sorriso torto se espa-
lhou por seus lábios. — Há um êxodo debaixo do seu nariz, ho-
menzinho – disse John. — Você não vê isso? Você não sabe o que
está em jogo?
— Eu te dei uma ordem! – Greger gritou de volta. — Você
dev—!
— Não – John disse simplesmente. Os olhos dele brilharam
numa cor prateada.
Taylor ofegou quando o raio de prata atingiu Greger na testa
e sua cabeça se transformou em pedra. O corpo dele oscilou por
um momento, o rosto congelado para sempre em uma máscara de
medo e depois tombou. Antes de parar de usar o Legado, John
olhou na direção de vários outros soldados.
— Ops – ele disse.
A quietude após a chegada de John finalmente acabou. As
pessoas ali corriam em todas as direções – os Pacificadores fugindo
para o acampamento, os Gardes correndo na direção dos prédios
que continham pedras de Loralite. Alguns dos mais corajosos sol-
dados tentaram acertar John com dardos tranquilizantes, mas esses
foram desviados pela telecinese dele e seus atiradores rapidamente
derrubados pela mesma força.
— RECUEM! – Nigel gritou da porta do centro de treina-
mento, sua voz transmitida pelo campus. — SAIAM DAQUI
AGORA!
Um raio chamuscou a terra aos pés de Nigel e o fez voar
para trás, onde Nicolas conseguiu pegá-lo. O céu nublou-se repen-
tinamente com nuvens escuras e ameaçadoras. Mais raios caíram do
céu, rachando edifícios e incendiando a grama, quebrando janelas.
— Este lugar é um monumento à corrupção! – John gritou
com seus braços abertos, comandando a tempestade. — Não pode
ser permitido ficar de pé!
Ele bateu o pé no chão.
O solo começou a tremer poderosamente. Um terremoto
atingiu a Academia. Atrás de Taylor e dos outros, a elaborada pista
de obstáculos começou a rachar perigosamente. Do outro lado, o
dormitório balançava impossivelmente, um edifício inteiro balan-
çando no chão.
— John Smith está se segurando, sabia? – John disse – ou o
garoto que estava controlando o John – enquanto derrubava uma
tweeb em fuga com uma rajada de telecinese. — Ele não quer assus-
tar todos com o que ele pode fazer. Ele não sabe o quão bonito
tudo poderia b—
Um punho de metal atingiu a mandíbula de John e o deixou
sem equilíbrio. Por um momento, os tremores pararam e o céu co-
meçou a clarear.
— Okay, seu filho da puta – disse Nove, se aproximando de
John. — Saia da minha Academia.
No centro de treinamento, Taylor correu até Nigel. Ele se
contorceu e tossiu enquanto Nic o colocava no chão, fumaça su-
bindo de seu colete jeans.
— Estou bem, estou bem – disse Nigel, afastando as mãos
e tentando se levantar. — Temos que ajudar Nove.
— Não – respondeu Taylor rapidamente. — Não. Você pre-
cisa garantir que todos saiam. Teletransporte todos para a Nova
Lorien. Aguarde o máximo de pessoas que puder, mas não espere
muito. Você tem que destruir as Loralites de lá, Nigel. Você não
pode deixar que ele nos siga.
— Ele pode simplesmente voar para lá – disse Miki. — Ele
voa rápido.
Taylor apontou para a porta, para onde o gerador de campo
de força estava sendo atingido por pedras de granizo. — Ele não
pode passar por aquilo – disse ela, esperando que fosse verdade. —
Leve aquilo para a Nova Lorien, Lexa e Malcolm descobrirão como
conectá-lo. Só temos que ganhar tempo e ficar à frente dele. Isabela
e os outros estão procurando esse o corpo desse Garde. Eles vão
conseguir achá-lo.
Miki agarrou Nicolas. — Você é forte, certo? Me ajude a pe-
gar o gerador.
Com um aceno de Taylor, Nicolas avançou na tempestade
que se aproximava para pegar a máquina. Enquanto isso, Taylor
sentiu um movimento atrás dela. Ela se virou a tempo de ver
Lofton, com Melanie nos braços, alcançar a pedra Loralite.
— Desculpe, mas eu não quero morrer – disse Lofton,
pouco antes de se teletransportar para outro lugar. Washington,
provavelmente.
— Idiota – Nigel murmurou. Com Nove distraindo John, o
terremoto havia diminuído um pouco, mas o estrago estava feito.
Uma viga se soltou do teto e caiu na pista de obstáculos. O prédio
não duraria por muito tempo.
— Você precisa ir – disse Taylor para Nigel. — VÁ!
— E você? – Nigel perguntou. — O que você está fazendo?
Com sua telecinese, Taylor pegou uma arma. Um canetão
preto no quadro onde as tarefas de treinamento eram escritas. Ela
começou a rabiscar algo apressadamente na parte interna do ante-
braço.
— Eu sei o que estamos enfrentando – disse ela. — Eu tive
uma ideia.

— Ele fez um terremoto! A Academia inteira está caindo aos pe-


daços!
— Oh Deus! Meu braço! Meu braço está quebrado!
— O professor Nove não pode lutar com ele sozinho... te-
mos que voltar!
— Ele tem uma bomba!
— Isso dói! Dói demais!
Gritos cumprimentaram Cinco e Ran e, brevemente, um
Caleb, depois que eles se teletransportaram para a Nova Lo-
rien. Cinco se preparou para o perigo e abraçou Ran junto ao
seu corpo para protegê-la, mas ninguém estava prestando
atenção neles. Eles não estavam no meio de uma batalha, eles
estavam no meio de um retiro. Havia outras pessoas se tele-
transportando para a caverna através da mesma pedra de Lo-
ralite, novas formas aparecendo a cada poucos segundos.
— Estudantes – Ran disse fracamente, tão perplexa com
a mudança repentina quanto Cinco. — A Academia?
Os olhos de Ran saltaram quando ela reconheceu alguns
dos rostos.
Ela viu Miki desabar contra uma parede. Ela viu um pe-
queno grupo cuidando de Lisbette, que de alguma forma estava
gravemente queimada. Ela teve um vislumbre de Nicolas arras-
tando uma grande peça de maquinaria para fora da caverna, em
uma tempestade de neve tempestuosa, Lexa correndo ao seu
lado.
— John Smith está matando todo mundo! – gritou um
tweeb chamado Danny quando se teletransportou para o lado
deles. — Ele está... – Danny fechou a boca quando viu Cinco, sua
pele manchada coberta de sangue, seu único olho brilhando.
— Oh – Malcolm Goode imediatamente atravessou a
multidão quando notou Cinco e Ran. A boca dele ficou aberta
em choque.
— Cinco? Ran? Como—?
Cinco agarrou Malcolm pela frente da camisa e o empur-
rou para trás até as costas dele bater na grande mesa no meio
da sala. — O que é isso? – Cinco gritou. — Por que estou aqui?
Ofegando um pouco sob o aperto de Cinco, Malcolm no-
tou o pingente ainda apertado em seu punho. Ele cutucou na
mão de Cinco. — Você... você deve ter se teletransportado.
Aqui é Nova Lorien, John que—
— Não quero saber – disse Cinco.
Ele soltou Malcolm e colocou Ran gentilmente sobre a
mesa. Ela estava sangrando através das ataduras que Cinco
aplicara às pressas na sala do diretor. Ela se sentia tonta, mais
fraca. Ainda assim, ela sorriu gentilmente para Malcolm. Ela fi-
cou feliz em ver o rosto dele. Ela ficou feliz em ver todos eles.
— Ela precisa ser curada – disse Cinco rispidamente. —
Agora!
Os olhos de Malcolm olharam ao redor. — Eu não vejo...
– ele balançou sua cabeça. — Taylor ainda está na Academia.
Estamos sob ataque e...
Com um olhar selvagem, Cinco se virou para a pedra de
Loralite por onde todos estavam se teletransportando.
— Eu preciso voltar – ele rosnou. — Meus amigos... meus
únicos amigos estão no meio de batalha também. Tentando sal-
var a bunda de vocês.
— Existe... existe Loralite lá, Cinco? – Malcolm perguntou
cautelosamente. — Porque, se não houver, não há como...
A pele de Cinco ficou metálica e seu punho cerrado. Ele
parecia prestes a perder a cabeça. Mesmo que isso a machu-
casse, Ran se inclinou para frente e colocou a mão em seu om-
bro.
— Pare – disse ela. — Eles precisam da nossa ajuda aqui,
Cinco. Ou na Academia.
Cinco respirou trêmulo. Os lábios dele estavam verme-
lhos com o próprio sangue de uma lesão profunda dentro dele
que ele ainda estava ignorando. Ele olhou para Ran com olhos
lacrimejantes e assustados. Ele estava com medo por ela, ela
percebeu.
— Você precisa ser curada – disse Cinco. — Você pre-
cisa—
— Me disseram que há um médico na vila – disse Mal-
colm. Ele gritou do outro lado da sala para uma garota com um
rosto muito machucado que Ran mal reconheceu como sendo
Maiken. — Maiken! Preciso que você corra...
Em um flash de luz, alguém novo se teletransportou para
a caverna. Um sorriso lento se espalhou pelo rosto de Ran.
— Chamada! – Nigel gritou sem fôlego. — Como nós es-
tamos?
Rabiya gritou de volta para ele da boca da caverna. —
Quase todos! Ainda falta Taylor e Nove...
Uma garota loira e desgrenhada – Ella, Ran percebeu –
levantou-se de onde estava meditando em um dos poucos pon-
tos claros da caverna.
— Eu o sinto – disse Ella, olhando para Nigel. — Ele está
vindo.
Ran reconheceu o olhar no rosto de Nigel. Ele estava em
conflito. Hesitando sobre alguma coisa. Ela não sabia o que –
toda essa situação era basicamente um caos para ela – mas sa-
bia que a decisão o consumia.
— Você tem que fazer isso – disse Miki, sua voz baixa e
fraca. — Não podemos arriscar. Destrua a pedra.
— Espere – Cinco soltou. — O quê?
Ran apertou o braço de Cinco. Destruir a pedra os sepa-
raria da Academia. De alguém que pudesse curá-la.
Mas se é isso que a Garde precisava fazer, então Ran se
arriscaria com o médico da cidade. Nigel respirou fundo. Ran
conhecia esse movimento também e ela sorriu novamente, en-
quanto continuava a sangrar. Era assim que Nigel se preparava
para uma daquelas notas de punk rock que ele tanto amava. O
tipo que poderia quebrar vidro. Ou pedra.
Mas então ele a viu. Os olhos dele se arregalaram. A res-
piração saiu em um assobiou quando ele hesitou.
— Ran? – ele disse.
Atrás dele, a pedra de loralite se iluminou novamente.
John Smith colocou a mão no rosto onde Nove havia quebrado
a mandíbula dele, curando os danos. Então, ele riu, pratica-
mente mostrando todos os dentes para Nove.
— Um verdadeiro demônio em carne e osso – disse John.
— Este dia está cada vez melhor.
— Cara – disse Nove. — Você é louco.
Um raio atingiu o chão, mas Nove se jogou para frente,
avançando em direção ao corpo possuído de seu melhor amigo.
O chão tremeu, mas isso foi de pouca importância para
alguém com o Legado de antigravidade, equilíbrio e velocidade
de Nove, que se atirou através de uma rajada de fogo, desviou-
se de um gelo cortante e acertou um soco na têmpora de John.
Apenas um bom golpe; era tudo o que ele precisava. Isso seria
suficiente para fazer tudo isso acabar.
Ele sentiu sua força sair dele. Seus Legados sumiram.
Desligados. Estupidamente, Nove esperava que esse impostor
não soubesse como fazer isso. John segurou o punho no ar,
apertou os dedos nas juntas metálicas de Nove e o puxou. Em
um momento que Nove achou humilhamente familiar, John ar-
rancou seu braço cibernético das amarras em seu ombro. No
mesmo movimento, ele deu joelhas no estômago de Nove, jo-
gando-o no chão.
— É... – disse John, olhando para ele. — Boa tentativa,
parceiro.
Com sua telecinese, John colocou o braço metálico de
Nove em volta do pescoço dele e começou a sufocá-lo. Nove
agarrou o metal, ofegando e tossindo, tentando passar os dedos
por baixo para conseguir um pouco de ar. Sem a sua força dos
Legados, porém, havia pouco que ele poderia fazer. Nove come-
çou a ficar zonzo, o mundo ficando mais sombrio.
— Louvado seja! – Taylor gritou. — Rezei e graças a Deus
que você veio!
O aperto de John no pescoço de Nove afrouxou quando
ele se virou para olhar Taylor caminhando naquela direção com
os braços erguidos acima da cabeça. Ela tropeçou um pouco – o
chão ainda estava tremendo – e se encolheu com cada pedra de
granizo que a atingia na bochecha. Mas ela continuou, os cabe-
los molhados, os olhos arregalados e lacrimejantes, como algum
tipo de visão apocalíptica.
E no antebraço ela havia desenhado o símbolo dos Ceifa-
dores. A cobra e a foice que ela viu tatuados na fazenda de seu
pai todos aqueles meses atrás, antes que ela soubesse que era
Garde.
— Estou esperando há tanto tempo que os Ceifadores
chegassem! –ela gritou na chuva, tentando se lembrar de todas
as idiotices estúpidas que ouvira no passado. — O abate das co-
bras que rastejam da nossa Terra corrompida! Você pode me
ajudar, certo? Você pode tirar esses terríveis Legados!
John sorriu para ela e deixou Nove cair, se esquecendo
completamente do Lorieno. Ela viu algo no rosto dele – ele era
como uma criança, os olhos brilhando de empolgação, encan-
tado por encontrar alguém igual a ele.
— Eu sabia – disse John. — Eu sempre soube que haveria
outros como eu por aí. Aqueles que entenderam sua própria do-
ença.
John deixou Nove na lama e flutuou na direção de Taylor.
Quando ele chegou, ele usou sua telecinese para pegar a bomba
brilhante que estava nas proximidades.
— Este corpo teve uma visão – disse John, referindo-se a
si mesmo. — Ele me mostrou o que tenho que fazer. Me mos-
trou o caminho.
Taylor lembrou-se do que Ella disse – a visão de John so-
bre uma explosão na Nova Lorien. Como isso o levou a procurar
os geradores de campo de força. Como a intromissão no futuro
só estragou tudo. Ao olhar para o futuro, John apenas assegurou
que esse momento chegasse. Era difícil para Taylor manter seu
sorriso fiel no lugar com o conhecimento do que esse monstro
estava planejando fazer.
— Posso ajudá-lo? – Taylor perguntou.
— Você pode ser minha testemunha – disse John grandi-
osamente. Ele pousou ao lado dela e pegou sua mão. — Venha
agora. Vamos ver para onde o mal fugiu.
— Primeiro – disse Taylor, parando. — Você ora comigo?
John hesitou, então Taylor aumentou a potência do seu
sorriso. A Academia parecia deserta agora, mas ela queria dar
mais tempo a Nigel para deixar todo mundo em segurança e
destruir as Loralites na Nova Lorien.
— É claro – ele disse. Ele fechou os olhos e inclinou a ca-
beça para trás. — Pai Nosso—
Taylor pulou para frente e enfiou um dardo tranquili-
zante no pescoço de John.
A raiva dele foi imediatamente perceptível. O chão tre-
meu violentamente e a frente do edifício dos estudantes desa-
bou, a fachada de pedra desmoronando. Raios irregulares cor-
taram o chão ao lado de Taylor, derrubando-a.
John puxou o dardo do pescoço. Ele piscou os olhos.
Olhou para ela.
— Você não deveria ter feito isso – ele lamentou. — Ser-
pente!
Então ele foi para cima dela. Colocou a mão em volta da
garganta dela e subiram voando, os dedos dele gerando calor
que queimava a pele de Taylor. Ela lutou, mas John era muito
forte e o tranquilizante não estava funcionando rápido o sufici-
ente.
Ele a conduziu para baixo, através do telhado aberto do
prédio dos estudantes e a chocou de costas na pedra de loralite.
Taylor sentiu as costelas quebrarem, no mínimo. Ela perdeu a
respiração. John a segurou ali, depois com sua telecinese puxou
a bomba. Taylor tentou afastá-lo com sua própria telecinese,
mas ela mal conseguia desacelerá-lo. A bomba tocou a palma de
John.
Nigel, pensou Taylor. Por favor. Não o deixe entrar.
Prendendo-a embaixo dele, John pressionou a mão livre
contra as Loralite.
Um flash de luz de azul.
Não, pensou Taylor. Ela gritaria se pudesse. NÃO!
E então, eles estavam na caverna. Nigel estava a poucos
metros de distância. Além dele, os rostos aterrorizados de todos
os outros Gardes. Taylor viu Ran – de alguma forma, Ran estava
lá – sangrando e pálida, cambaleando na direção deles.
— Tarde demais – disse John. De alguma forma, Taylor
sabia que não estava falando com eles. Ele estava conversando
com outra pessoa em outro lugar. — Você está muito atrasado.
John – a coisa que controlando John – não hesitou. Ele
usou todo o seu poder na bomba. Fogo e raios e telecinese pres-
surizada. Raiva pura, canalizada para a bomba.
Ele riu quando explodiu.
A sala se encheu de luz branca.
No México, um tiro.
No Himalaia, John Smith recuperou o controle sobre seu
próprio corpo com um grito frustrado.
Ele lutou contra o sedativo que percorria seu sistema, lu-
tou para retomar a força insana de seus Legados que haviam
sido descarregados de maneira tão descuidada.
Mas era tarde demais. Tarde demais para recuperar todo
esse poder.
Sua caverna se iluminou em branco. Nova Lorien. Desa-
pareceu em poucos segundos.

Ran Takeda respirou fundo. Ela sugou...


Ela puxou.
Ela abriu todas as suas moléculas.
Ela abriu espaço.
Foi um dos primeiros truques que ela aprendeu. Sentada
na praia do lado de fora da Academia, empurrando a energia
furiosa dentro dela para um ovo e, em seguida, puxando-a de
volta. O resultado? Um ovo cozido.
Ela fez isso com Nigel na Islândia. Carregou-o, puxou a
energia de volta. O resultado? O coração de seu melhor amigo
recomeçou a bater.
Ran fez isso agora. Ela puxou energia. Engoliu calor,
força e destruição. Ela deixou tudo se acumular dentro dela.
Mais.
E mais.
Então, silêncio.
A caverna continuou de pé. Calma e fria. A Garde e seus
aliados pestanejaram, baixaram as mãos que estavam prote-
gendo o rosto e se levantaram do chão. Todos eles a encara-
ram.
Ran vibrou. Ela estava muito quente. Ela se sentia como
o sol.
Ela ficou de pé na frente da bomba, que estava fria e va-
zia.
Ela estava dentro de Ran agora. Lutando para se soltar.
Rasgando-a.
Nigel foi o primeiro rosto que viu. Foi sua expressão que
fez Ran saber que estava mal. Ela não sabia dizer se todo o seu
cabelo havia queimado. Ela mal sabia que estava brilhando.
Que havia fissuras na pele dela se abrindo, queimando a energia
brilhante, rasgando-a para tentar se libertar.
Ran? – Nigel disse, com lágrimas nas bochechas. O
que... o que você fez?
Nakama – disse ela, suas palavras crepitando com po-
der. Eu te amo. Sinto muito.
Sem pensar, ela estendeu a mão para tocar a bochecha
de Nigel, para secar as lágrimas dele. Ele deixou, mesmo que o
toque dela deixasse impressões digitais queimadas na boche-
cha dele. Ele tentou não recuar. Ele tentou ser forte como ela.
Não, Ran – disse Nigel. Não.
Eu não posso... – a voz de Ran era apenas um sussurro
agora. Ela não conseguia encontrar ar que não estivesse quei-
mando. Seu interior estava derretendo. Eu não aguento se-
gurar a energia.
Ela viu John Smith tropeçar na direção dela, parecendo
que estava prestes a desmaiar. Mas alguém o segurou pela la-
teral do corpo.
Você não – disse Cinco a John. Faça isso valer a
pena.
E então, os braços de Cinco estavam ao seu redor dela. A
pele de metal dele derreteu assim que ele a tocou, escorrendo
até o chão da caverna. Isso não o impediu. Ele a segurou e eles
voaram para fora da caverna.
Certa vez, havia uma profecia sobre Cinco desenhada em
uma daquelas paredes.
Agora, ele escolheu seu próprio destino.
Para cima, para cima, para cima.
O Himalaia desapareceu embaixo deles. O céu ficou mais
escuro.
Mais alto.
Ran ouviu Cinco estremecer. O aperto dele afrouxou. Ela
podia ver ossos dos braços dele, onde a pele havia derretido. Ela
olhou para ele, queria se desculpar, mandá-lo embora, mas Ran
não conseguia falar. A energia era forte demais. Estava saindo
dela.
Chegou a hora.
Ela procurou o olho de Cinco. Ele olhou para ela. Em paz.
Você estava certa – ele sussurrou. Temos esses Le-
gados por uma razão.
Bem acima do Himalaia, a garota que fazia as coisas ex-
plodirem detonou pela última vez.
UM LABORATÓRIO MUITO SECRETO –
LOCALIZAÇÃO DESCONHECIDA

eram mortas – o homem disse, parecendo entediado.


— Somente os que foram criados artificialmente – res-
pondeu uma mulher. — Você não leu o memorando?
— Apenas olhei – respondeu o homem. — Isso é muito
fascinante. A divisão de clonagem está nisso, certo?
— Sim. Gostaria de ter sido designada para lá, em vez de
tentar descobrir porque esse aqui não está se decompondo
como os outros.
Os olhos de Vontezza Aoh-Atet se abriram. Ela ofegou,
enchendo os pulmões que estavam dormentes por – dias? Se-
manas? – ela não tinha certeza. Ela sentou-se na maca de metal
fria e fez uma rápida avaliação de sua situação. Ela estava nua
em uma sala bem iluminada que cheirava a formol. Havia uma
linha traçada em seu esterno, presumivelmente onde os dois ci-
entistas – naquele momento, afastando-se dela em choque –
planejavam abri-la com a variedade de bisturis que brilhavam
em uma mesa próxima.
— Inaceitável – disse ela, e então se jogou da mesa e deu
um soco na garganta do cientista.
A mulher gritou e procurou um botão na parede. Isso pe-
diria ajuda, provavelmente. Vontezza não podia permitir isso.
Pelo menos, não até encontrar sua armadura. Vontezza deu
uma rasteira nas pernas da mulher com sua telecinese e depois
pulou em cima dela. A mulher balançou um bisturi para ela, mas
ela arrancou-o do ar e pressionou-o no pescoço dela.
— Onde estou? – Vontezza perguntou. Ela notou o estra-
nho emblema no jaleco da mulher. Um logotipo para algo cha-
mado Sydal Corp. — Há quanto tempo estive morta?
— Você está... você em Vancouver – gaguejou a mulher.
— E há algumas semanas, eu acho. Eu não sei. Acabei de ser
transferida para cá.
— Vancouver – disse Vontezza, provando a palavra des-
conhecida. — A que distância fica do Alasca?
A destruição completa da estação de pesquisa de Sydal
Corp em Vancouver não foi noticiada nas notícias.

HAIA – HOLANDA DO SUL


PAÍSES BAIXOS

— Diga seu nome e função para registro.


— Karen Walker. Ex-agente federal investigativa dos
Estados Unidos. Anteriormente um agente da organização
clandestina conhecida como ProMog. Mais recentemente, de-
signada para uma operação secreta conhecida como Watchto-
wer na Garde Terrestre.
— Por favor, comece, Srta. Walker.
— Senhoras e senhores do tribunal, o que tenho na
mão é um frasco de Loralite corrompido, mais conhecida
como gosma Mogadoriana, uma substância criada por Setrá-
kus Ra. Esta amostra foi recuperada por um agente da Garde
Terrestre, Caleb Crane, depois que ele serviu em uma missão
de proteção para o falecido Wade Sydal. Meu testemunho sob
juramento é de que o Sr. Sydal operou fora do Acordo Garde
para promover seu próprio interesse, seus esforços para re-
produzir tecnologia alienígena perigosa. Ele foi financiado
nesses esforços por um grupo de pessoas que se autodenomi-
navam “A Fundação”...

VILA RICA DE ALGUÉM


SANTIAGO, CHILE

Caleb deu uma última volta através da água aquecida, depois


saiu da piscina infinita e se secou. O sol da tarde batia em seus
ombros, um bom alívio do frio da Nova Lorien. A toalha era
grande e macia – macia do tipo que pessoas ricas gostam, Ca-
leb pensou. É claro que a vila era decadente, assim como to-
dos os lugares que Isabela escolheu para ficar. Caleb suspirou.
Ele gostava daqui, mas também o lugar o deixava nervoso. Es-
ses espaços o lembravam demais das mansões abandonadas
dos membros da Fundação pelas quais eles haviam viajado
meses atrás. Ele ainda sentia vontade de olhar por cima do
ombro. Talvez isso nunca vá embora.
— Eu esqueci de perguntar quem você está fingindo
ser dessa vez – disse Caleb enquanto caminhava pelo deck até
uma Isabela reclinada em uma espreguiçadeira.
Ela colocou os óculos escuros no nariz e olhou para ele.
— Você realmente quer saber disso, escoteiro?
Caleb pensou sobre isso. — Não. Eu acho que não.
Esta era a terceira vez que Caleb veio visitar Isabela e a
terceira mansão diferente em que ela estava escondida. Ele
não perguntou como ela havia encontrado esses lugares ou
onde ela conseguiu o dinheiro. Eles tinham um acordo tácito
de que certos tópicos estavam fora das conversas. Como o
México. A única vez que Caleb mencionou isso, uma nuvem
escura se instalou sobre Isabela pelo resto da visita. Ela não
queria pensar sobre isso – sobre responsabilidade, luta ou
qualquer coisa que eles haviam feito. Ela queria viver a boa
vida.
Então, Caleb deixou.
Ele se sentou na espreguiçadeira ao lado de Isabela.
Duanphen levantou-se do lado oposto de Isabela e mergulhou
na piscina. Depois de tudo, Duanphen decidiu ficar com Isa-
bela em vez de ir para a Nova Lorien. Isso deixou Caleb feliz.
Ele se sentia bem sabendo que alguém estava cuidando de
Isabela.
Houve outra mudança que Caleb nunca comentou.
Sempre que Isabela fazia check-in e o convidava para uma de
suas mansões, inevitavelmente havia algum tipo de piscina. E
nessas piscinas, com apenas Caleb e Duanphen por perto, ela
usava sua verdadeira forma. Cicatrizes e tudo.
— Você está me encarando – disse Isabela.
Caleb engoliu em seco. — Desculpa.
Ela sorriu, nunca mais feliz do que quando poderia
deixa-lo desconfortável. — Eu não me importo.
— Você está acompanhado as audiências? – Caleb per-
guntou, ansioso por uma mudança de assunto.
Isabela bufou. — Claro que não. O que eu sou? Entedi-
ante?
— Elas estão indo muito bem, eu acho – continuou Ca-
leb com indiferença. — Poderemos parar de nos esconder em
breve.
— Eu gosto de me esconder – disse Isabela. — Eu acho
que você gosta também.
Caleb pegou sua camisa, vestindo-a. Então, ele pegou
seu colar e o colocou no pescoço. A pedra Loralite com chave
da caverna em Nova Lorien brilhava à luz do sol da tarde.
— Sabe, estamos construindo algo lá – disse Caleb. —
Eu acho que vai ser bom. Poderíamos usar sua ajuda, se você
quiser...
Isabela deu um tapa nele. — Toda vez com isso. Não,
Caleb. Não quero construir nada em alguma caverna de
monge fria sob um campo de força. Eu estou bem.
— Você ainda tem seu colar, certo?
Ela suspirou. — Sim, sim. A coisa feia está embrulhada
em uma meia na minha bolsa.
— Porque você é bem-vinda sempre. Eu sinto su... – ele
desviou o olhar. — Todo mundo sente sua falta.
Isabela levantou-se abruptamente. Caleb pressionou
demais, quebrou um de seus acordos tácitos. — Vou entrar –
disse ela. — Você vem?
— Não – respondeu Caleb. — Eu tenho que voltar.
— Tudo bem – disse ela, e deu um beijo na bochecha
dele. — Vejo você na próxima vez, Caleb.
— Até a próxima – respondeu Caleb.
Caleb observou Isabela caminhar até a piscina. Ele es-
tava prestes a tocar a pedra Loralite e se teletransportar para
casa quando ela se voltou para ele.
— Caleb?
— Sim?
— Não pare de me convidar, ok? –Isabela disse.
Caleb sorriu. Ele poderia fazer isso.

HAIA – HOLANDA DO SUL


PAÍSES BAIXOS

— Diga seu nome e função para registro.


— Coronel Ray Archibald. Ex-chefe de segurança da
Academia da Garde Humana.
— Sua declaração, coronel?
— No meu tempo na Academia, tive o prazer de teste-
munhar vários jovens Gardes talentosos descobrirem seu po-
tencial. É minha convicção que a missão da Academia e da
Garde Terrestre foi pura, pelo menos a princípio. No entanto,
essas instituições foram gradualmente corrompidas por for-
ças externas insidiosas que—
— Com licença, coronel, mas ouvimos testemunhos de
seus homens de que sua opinião possa ser questionável.
Posso perguntar por que você foi dispensado do sua função?
— Eu permiti que um Garde que estava sob minha cus-
tódia fosse libertado.
NOVA LORIEN
HIMALAIAS – ÍNDIA
KOPANO

— Nós nos teletransportamos! Nós nos teletransportamos!


Foi um máximo! Podemos fazer isso de novo?
Obi e Dubem, os dois irmãos mais novos de Kopano, se
lançaram contra ele. Rindo, Kopano envolveu os dois em um
abraço, apertando-os com força. Fazia mais de um ano desde
a última vez que os viu, quando ele fugiu de Lagos na calada
da noite. Agora eles estavam aqui, no alto dessas montanhas
estranhas, olhando-o com olhos arregalados e brilhantes. Era
dia da família em Nova Lorien.
— Lemos todos os seus e-mails – disse Dubem a Ko-
pano rapidamente.
— Repetidas vezes – acrescentou Obi. — Não acredito
que você lutou contra o grande John Smith.
— E quase venceu! – Dubem espetou o esterno de Ko-
pano. — Até que ele quase arrancou seu coração do seu peito!
— Ele já se desculpou? – Obi perguntou. — Ele deveria!
— Quietos sobre isso – disse Kopano, olhando em volta,
certificando-se de que John não estava ouvindo. — John não
gosta de falar sobre esse dia. E, de qualquer maneira, não era
realmente ele.
Kopano esfregou o ombro com a lembrança, qualquer
dor persistente estava em sua mente. John pediu desculpas,
logo depois de curar pessoalmente o ombro de Kopano. Foi
John que veio buscar Kopano depois de todo o caos daquele
dia. O coronel Archibald não discutiu. Ele deixou Kopano ir
sem nem uma pergunta.
Os dois não conversaram muito. Era estranho estar
perto de John. Mesmo não sendo ele quem quase matou Ko-
pano – e tantos outros – vê-lo trazia de volta memórias estra-
nhas. Os Gardes estavam todos aqui, em um lugar que John
construiu, mas o próprio John tendia a manter distância. Ko-
pano esperava que isso ficasse menos estranho com o tempo.
Afinal, John costumava ser seu ídolo. Kopano aprendera que
ser um herói nem sempre era glorioso.
— O que vocês querem ver primeiro? – Kopano per-
guntou a seus irmãos. Ele apontou o caminho para a casa que
havia sido construída recentemente nos limites da vila.
Aquela com CASA DE DIVERSÃO DO PROFESSOR NOVE pin-
tado com spray em letras sinistras ao lado. — Vocês querem
tentar a pista de obstáculos? Vocês podem treinar como um
Garde de verdade!
— Primeiro, eu preciso de um banheiro. Este lugar tem
banheiros?
Isso veio de Udo, o pai de Kopano desceu o caminho da
caverna, esfregando as laterais da sua prodigiosa barriga de
cerveja. Ele deu um tapinha no ombro de Kopano. — Você pa-
rece mais alto. Isso é bom – disse Udo. Ele esfregou os braços.
— Está muito frio aqui. Onde está o alienígena que aquece as
coisas?
Kopano revirou os olhos – com tanta frequência era
quem recebia olhos revirados, era bom fazer isso com outra
pessoa – e olhava além do pai. O caminho atrás dele estava
vazio. Não havia mais ninguém.
— Onde está minha mãe? – Kopano perguntou. Seus ir-
mãos olharam para os sapatos. Udo pigarreou.
— Ela não quis vir – disse Udo francamente. — Ela pen-
sou que a Academia te curaria. Isso—? – ele acenou com os
braços. — Isso, ela não entende de maneira alguma. Eu disse
a ela que eram férias gratuitas, mas não, a mulher não quis
ouvir. Ela me disse que rezará por você.
Kopano forçou o sorriso para não vacilar. — Sim. Vou
rezar por ela também.
Udo cravou o cotovelo nas costelas de Kopano. — A ga-
rota bonita que nos teletransportou para cá, ela falou muito
bem de você. Ela é sua namorada?
— Não, pai – gemeu Dubem, falando em nome de Ko-
pano. — Essa é a Rabiya. Ela é apenas amiga dele. Taylor é a
namorada.
Kopano sorriu para o irmão. Ele realmente era um lei-
tor dos muitos e-mails de Kopano. Ele se afastou da família
por um momento, olhando em volta, e viu Taylor parada em
um mirante lá em cima com o pai dela.
— Ela está lá em cima – disse Kopano. — Todos nós
jantaremos juntos depois. Eu imploro, pai, por favor não fale.

TAYLOR
Lá em cima, Taylor viu Kopano apontando para ela e acenou
de volta. Durante toda a semana, ele esteve enchendo a ca-
beça dela com avisos sobre o pai. Udo não parecia tão ruim de
onde ela estava, andando por aí, fingindo que ele não estava
impressionado com nada. Ela viu o jeito que Udo não parava
de dar tapinhas nas costas de Kopano. Ele estava orgulhoso,
ela diria a Kopano mais tarde, mas simplesmente não queria
mostrar.
Brian Cook assobiou por entre os dentes. Seu próprio
pai chegou mais cedo naquele dia e nunca tentou esconder
seu espanto.
— Muito longe da Dakota do Sul – disse ele. — Até
mesmo da Califórnia.
Taylor assentiu.
Eles estavam no poleiro favorito dela, a uma curta ca-
minhada da entrada da caverna. Ela vinha aqui muitas vezes
para olhar as montanhas e a vila abaixo. Havia novos edifícios
sendo construídos todos os dias – mais casas ao longo da es-
trada, uma nova ala na escola que eles dividiam com os mo-
radores, um hospital maior para que eles pudessem trazer
pacientes de fora. Estavam crescendo. Eles estavam recons-
truindo o que haviam perdido.
Eles também viviam sob o brilho perpétuo de um
campo de força, a fraca luz azul sempre visível no céu acima.
Taylor esperava que não precisassem disso para sempre. O
território que eles receberam pelo governo indiano era um
pouco mais de uma área cinzenta. A ONU não reconheceu sua
existência, mas os países vizinhos sim. Ninguém os havia in-
comodado ainda, especialmente com as audiências em anda-
mento.
— Você gosta mais daqui? – perguntou o pai, que-
brando um silêncio que Taylor não percebeu que se arras-
tava. — Do que da Califórnia, quero dizer.
— Acho que sim – disse Taylor. — É uma mudança. Mas
acho que é bom.
Ela não mencionou o que haviam perdido para salvar
este lugar. Quem eles perderam.
— Bem, é bem longe dos Estados Unidos, assumindo
que sua amiga do teletransporte não me ajude toda vez que
eu queira ver você – disse Brian, suspirando. — Quanto custa
uma passagem de avião para o Nepal, afinal?
— Estamos construindo algo aqui, pai – disse Taylor,
virando-se para ele. — Mas não queremos fazer isso sozinhos.
Os Lorienos tinham essas pessoas chamadas Cêpan. Eles não
tinham Legados, mas ajudaram a treinar a Garde. Ajudavam a
garantir que estavam fazendo a coisa certa. Estamos procu-
rando pessoas assim, que queiram morar aqui e nos ajudar.
Brian assentiu. — Sim. Certo. Parece uma boa ideia –
então, ele entendeu o que Taylor estava realmente dizendo.
— Pera aí. Você quer dizer...
— Eu destruí a fazenda – disse Taylor. Ela apontou a
colina para uma das novas cabanas. — O mínimo que posso
fazer é conseguir para você uma propriedade na montanha.

HAIA – HOLANDA DO SUL


PAÍSES BAIXOS
— Diga seu nome e função para registro.
— Beatrice Barnaby. Sou filantropa.
— Sra. Barnaby, seu nome apareceu bastante em nossa
investigação.
— Não tenho ideia do motivo, de verdade.
— A Fundação, talvez?
— A Fundação era uma organização com a qual eu estava
muito tangencialmente envolvida. Seu objetivo era localizar
Gardes de nações não pertencentes à Garde Terrestre e forne-
cer-lhes meios para escapar das condições terríveis em seus pa-
íses de origem. Desde nossos primeiros dias, tivemos o apoio
total da Garde Terrestre. Nossos propósitos eram estritamente
humanitários. Toda essa conversa sobre conspiração é pura
loucura.

NOVA LORIEN
HIMALAIAS – ÍNDIA
NIGEL

Dia da família.
Depois de meses no Himalaia, foi a primeira vez que a
Garde permitiu que pessoas de fora os visitassem. Foi preciso
planejamento. Eles precisaram entrar em contato com as fa-
mílias, antes de tudo. Então, aqueles que quisessem fazer a
visita, precisavam elaborar planos de fuga. Muitos dos pais
estavam sob vigilância constante. Nigel ajudou de todas as
maneiras que pôde – da logística ao teletransporte. Era bom
para ele estar sempre trabalhando.
Mas então chegou o dia e havia pessoas felizes ao seu
redor e Nigel queria vomitar.
Obviamente, ninguém viria vê-lo.
Então, ele desceu a montanha, atravessou a vila e se-
guiu para um dos caminhos mais escarpados que levavam
mais longe. Ele fez muitas vezes essa caminhada nos últimos
meses. Transformando-se em um verdadeiro amante da na-
tureza. Não muito punk rock.
Ele sabia que Ran teria adorado aqui em cima. Eram
dias como hoje que ele sentia mais a falta dela.
Nigel tocou as cicatrizes na bochecha, onde as impres-
sões digitais dela ainda estavam queimadas. Taylor nem per-
guntou se ele queria ser curado, pois ela entendia.
Eventualmente, Nigel chegou a um riacho azul crista-
lino alimentado pelo gelo no topo da montanha. A água bor-
bulhava e se curvava enquanto corria para baixo sobre o ter-
reno rochoso. Ele seguiu ao longo da curva até chegar ao
campo de força, o mais perto que podia. A água batia contra a
barreira de energia e desviava para a esquerda e direita, cri-
ando uma poça de gelo.
Algo chamou a atenção dele. Um movimento fora do
campo de força. Ele estreitou os olhos.
— Que merda é essa? – Nigel perguntou ao ar.
Nigel entrou na água, sem se importar com o frio, en-
charcando seus tênis. Havia algo familiar lá fora, batendo a
cabeça contra a barreira de novo e de novo. Ele precisava
olhar mais de perto para ter certeza.
— Não acredito – Nigel sussurrou.
Nigel correu de volta para a vila, subiu a encosta da
montanha e entrou na caverna. Os visitantes já haviam sido
teletransportados até lá, então o espaço estava vazio, exceto
por quem estivesse de guarda sobre a pedra. Naquele mo-
mento, era Marina. A loriena havia retornado a Nova Lorien
logo após o êxodo da Academia. Seu status de relacionamento
com John Smith era um tópico popular em torno da monta-
nha, embora eles nunca tenham falado sobre isso quando ela
participava das sessões semanais de terapia no grupo que Ni-
gel e Nic haviam organizado.
Marina ficou de pé quando Nigel entrou. — Ei! Está
tudo bem?
— Eu preciso... – ele respirou fundo. — Eu preciso ir lá
fora.
— Devo chamar o Oito Nacionalista de Vishnu? – Ma-
rina perguntou. — Você precisa de uma escolta?
— Não, não – Nigel ofegou. — Eu vou ser rápido.
Nigel tocou a pedra Loralite e imaginou um dos peda-
ços menores que eles haviam escondido fora dos limites do
campo de força.
Em um flash de luz, ele estava em um bosque nevado
do lado de fora de Nova Lorien.
— Por favor, ainda esteja aqui, por favor, ainda esteja
aqui... – Nigel dizia enquanto corria de volta para a montanha,
em direção ao brilho azul de seu escudo, ao longo do leito seco
do rio.
Foi uma tartaruga gigante que Nigel avistou do lado de
fora do campo de força, embora no momento em que o alcan-
çou, o Chimæra havia se transformado em carneiro, batendo
suas chifres ineficazmente contra a barreira de energia. Nigel
riu e passou a mão nos olhos. A criatura era teimosa. Assim
como seu antigo dono.
Nigel assobiou. — Oi, parceiro. Se lembra de mim?
O Chimæra virou a cabeça, viu Nigel e voltou a se trans-
formar em sua forma de tartaruga. Essa era sua forma prefe-
rida. Era o que Nigel viu pela última vez quando fugiu para o
oceano, antes que os soldados da Garde Terrestre tentassem
prendê-lo.
A tartaruga se aproximou e deitou o queixo sobre os
pés ensopados de Nigel. Lembrou-se dele. Claro que sim. Ni-
gel se abaixou e acariciou a cabeça lisa.
— Olá, Gamora – disse Nigel, sorrindo pela primeira
vez em meses, lembrando-se de como Ran havia nomeado seu
antigo animal de estimação. — Por onde você andou, par-
ceiro?

HAIA – HOLANDA DO SUL


PAÍSES BAIXOS

— Diga seu nome e função para registro.


— Eu...
— Diga seu nome, por favor.
— Einar. Mag—Magnusson.
— Gostaria que o tribunal soubesse que meu cliente está
equipado com um Inibidor que envia um choque de baixa vol-
tagem através de seu sistema a cada seis segundos. Isso torna
extremamente difícil para ele se concentrar por um período
prolongado. Além disso, as condições em que ele está sendo
mantido estão longe do ideal e—
— Obrigado, advogado. Comece, por favor, Sr. Magnus-
son.
— Eu machu... eu machuquei as pessoas. Muitas pessoas.
Sequestrei. Matei. Fui encontrado — a Fundação me encontrou.
Me moldou. Eu estou... estou aqui agora para assumir... assumir
respons—responsabilidade. Eu sei os nomes deles. Aquele...
aqueles que lucraram. Quem me ajudou. Vocês vão finalmente
ouvir?

NOVA LORIEN
HIMALAIAS – ÍNDIA
TAYLOR

— Gostaria de dizer que ainda sou muito contra essa ideia –


disse Malcolm, tirando as luvas de borracha. — Mesmo agora
que eu ajudei você a fazer isso. Eu não gosto disso.
John Smith se sentou onde estava deitado de lado. Foi re-
almente um procedimento simples. Apenas um pequeno corte
em sua têmpora, a inserção do chip e depois feito. Taylor pas-
sou os dedos pela cabeça dele, curando-o. John poderia ter feito
isso sozinho, mas pediu que ela estivesse aqui, para que ela
também participasse.
— Por duas vezes um inimigo foi capaz de usar meus po-
deres contra nosso povo. Não posso deixar que isso aconteça
novamente – disse John.
Malcolm balançou a cabeça. — Bem, como você solicitou,
eu dei controles remotos para Nove, Seis, Sam, Marina e... – ele
se virou para olhar para Taylor.
Ela tocou no bolso da frente, onde enfiara o controle re-
moto fino. O dispositivo que colocaria John Smith em submissão
não era maior que um batom.
— Ainda não entendo o porquê – disse Taylor a John. —
Por que eu? Os outros Lorienos e Malcolm eu entendo, mas...
por que confiar em mim com isso?
— Porque eu confio em você para fazer o que é necessá-
rio – respondeu John. — Eu confio em todos os outros também,
obviamente. Mas nós temos história. Eles podem hesitar, no
momento. Acho que você não teria esse problema.
Taylor riu. — Eu não acho que Nove hesitaria.
— Não – admitiu John. — Estou sinceramente surpreso
que ele não tenha me dado um choque ainda. Por diversão – ele
pulou da mesa. — Nós devemos ir. Eles estão esperando por
nós.
Os três deixaram a cabana de John – apenas uma das mui-
tas ao longo do caminho que levava à caverna, não maior ou
menor que as outras. Havia outros Gardes caminhando na
mesma direção. Lisbette e Nicolas estavam chegando. Eles sor-
riram e acenaram para Taylor, mas diminuíram a velocidade
quando perceberam que ela estava com John. Percebendo a
vibe, John se inclinou e fingiu amarrar o sapato para que eles
pudessem passar.
— Eles vão superar isso – disse Taylor a John, sua expres-
são de mágoa óbvia. — Quero dizer, você quebrou minhas cos-
tas e eu superei.
— Eu sei – John disse calmamente. — Durante um ano,
eu sonhei em encher este lugar com nosso povo. De fazer gran-
des coisas. E agora, vocês estão aqui, está acontecendo e não me
sinto como um de vocês.
— John Smith! Pare de usar seus encantos sombrios na
minha mulher! – Kopano gritou.
Ele se levantou e agarrou Taylor pela cintura, apertando
e beijando seu pescoço até que quase caíram do caminho. Ape-
sar de tudo, John riu.
— Pare, pare, nojento, pare – disse Taylor, batendo em
Kopano. Ele soltou Taylor, só para poder pular para cima e para
baixo e esfregar as mãos.
— Estou tão animado, pessoal! Nós vamos entrar ao vivo!
Qual mundo você acha que vamos salvar primeiro? – Kopano
deu um tapa nas costas de John e depois seguiu em frente.
Taylor virou-se para John. — Viu? Você será novamente
um de nós em breve.
— Bem... – disse John, esfregando o ombro. — Agora não
tenho certeza se quero ser.
Eles entraram na caverna e a encontraram cheia de
Garde, todos reunidos em torno da enorme mesa de madeira
que John havia esculpido. As conversas não pararam quando
John e Taylor entraram.
— Seus pais parecem totalmente durões – Seis estava di-
zendo para Miki.
— Sim, eles são bem legais – respondeu Miki. — Você de-
veria vir dizer oi para eles hoje à noite.
Seis acariciou seu queixo. — Sinto que posso realmente
entrar nisso de ecoterrorismo.
Sam gemeu. — Por favor, não diga coisas assim, Seis.
— Eu realmente gostaria que você parasse de transfor-
mar minhas armadilhas em pedra – disse Nove a Daniela, esfre-
gando o bíceps. — Eu tenho que continuar removendo-as das
engrenagens. É um pé no saco.
— Desculpe, mano – Daniela deu de ombros. — Mas a vi-
são de pedra corrige tudo.
— Além disso – continuou Nove, voltando-se para Ra-
biya, — se teletransportar de um lado para o outro não o quali-
fica como o melhor tempo.
— Isso é você quem diz – respondeu Rabiya.
— Você já ouviu falar dessa banda, Journey? – Caleb per-
guntou a Nigel.
— Sim, cara, eles são péssimos – disse Nigel.
— Eu sei. Meu pai os ama – Caleb disse. — Talvez devês-
semos estragar algumas de suas músicas com covers mal toca-
dos.
Nigel sorriu. — Sim. Reencontro de Nigel e os Clones:
Turnê de vingança, chegando em breve a uma vila muito des-
preparada!
Taylor passou os braços em torno de Nigel e Caleb, sor-
rindo para eles, absorvendo tudo. Havia quase quarenta deles
aqui e mais ainda abrindo caminho para entrar. Era como uma
festa.
— Ok, pessoal! – Lexa gritou, chamando a atenção. Ela se
inclinou sobre um computador conectado a um projetor holo-
gráfico que exibia um globo giratório sobre a grande mesa. Isso
foi ideia de Daniela. — Vamos ficar online!
O site era simples. Digite "GARDE" em qualquer site de
pesquisa e o resultado principal levará você a uma tela preta
lisa com uma única pergunta e uma caixa para inserir texto.
A pergunta: “COMO PODEMOS AJUDAR?”
No início, quando Lexa colocou o site para funcionar,
nada aconteceu. Mas então a caixa de entrada começou a apitar,
as mensagens rolando para baixo mais rapidamente do que
Taylor podia acompanhar. Lexa os mandou um por um no pro-
jetor e eles os leram juntos. Alguns deles eram nojentos e estra-
nhos, outros obviamente falsos, outros simplesmente pergun-
tando se tudo aquilo era real.
Mas havia outros... Uma mãe doente em Gana que estava
sendo chantageada por remédio. Um garoto tentando fugir de
uma gangue na Colômbia. Um conservacionista no Sri Lanka
preocupado com caçadores de elefantes. Qualquer coisa que pa-
recesse real e necessária, Lexa arrastou para o globo e preen-
cheu um ponto com os detalhes da solicitação. Logo, o mapa in-
teiro estava brilhando. Não eram pessoas como as que a Funda-
ção "ajudou". Isso não era por pagamento ou por status. Era
tudo sobre fazer o bem. Sobre servir a humanidade.
A sala ficou em silêncio quando eles lentamente percebe-
ram quanto trabalho havia para fazer. Então, sem perceber que
estavam fazendo isso, todos se voltaram para John. Eles esta-
vam procurando direção. Foi tudo um pouco impressionante.
John estava sorrindo. Ele nem tinha notado todos os olhos nele.
— É perfeito – disse ele calmamente. — Exatamente
como eu imaginava.
Taylor deu um passo à frente e bateu palmas.
— Então – disse Taylor. — Por onde começamos?

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