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UNIVERSIDADE ESTADUAL DE CAMPINAS

INSTITUTO DE ESTUDOS DA LINGUAGEM


CEFIEL
Centro de Formação Continuada de Professores
Alfabetização e Linguagem
Rede Nacional de Formação Continuada de
Professores de Educação Básica

A ortografia no tempo
Todas as línguas mudam com o passar do tempo, embora geralmente não
nos demos conta disso. Essa dificuldade em perceber as mudanças se deve ao
fato de elas ocorrem muito lentamente, além de não atingirem todos os aspectos
da língua. Deste modo, algumas formas mais antigas são mantidas, ao passo que
outras acabam se modificando (cf. Faraco, 1991, Cap.2). Uma forma de perceber
isto é através da comparação de escritas, ou seja, da análise da grafia de textos
mais antigos.
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Vejamos um trecho do romance Helena (1876), de Machado de Assis,


numa edição publicada em 1929:

Estacio buscou animal-a, mas a voz morreu-lhe ás primeiras expressões, e elle


saiu. Melchior acompanhou-o.
- Uma cousa poderia talvez salval-a, disse affiicto o moço; era o presença do pae.
Vou mandal-o procurar por toda a parte. Havemos de achal-o; é preciso que o achemos.
Melchior approvou a idéa do mancebo; e não lhe disse que o remedio viria talvez
tarde, se viesse. Estacio ordenou as cousas para a seguinte manhã. Voltaram á alcova da
enferma. Esta fechara os olhos, como se dormisse. Houve então entre aquellas quatro
paredes meia hora de silencio, interrompido apenas, de quando em quando, pelos
movimentos que a doente fazia, como a querer mudar de posição. No fim desse tempo,
abriu os olhos e murmurou algumas palavras. Chegou o medico, viu-a e desenganou a
familia.
Enquanto Melchior dava as ordens precisas para que Helena tivesse os soccorros
espirituaes, Estacio saiu dalli; para ir, longe, desabafar o desespero; desceu á chacara,
vagou por ella delirante, a soluçar como uma creança, ora abraçado a uma arvore, ora
ajoelhado e pedindo a Deus a vida de Helena. O coração do moço não conhecia o fervor
religioso; mas a imagem da morte deu-lhe o que a vida lhe levara, e elle resou, resou
sósinho, sem hypocrisia nem duvida. Mendonça veiu achal-o nessa lucta derradeira entre
a realidade e a esperança. Não o consolou; não tinha consolações que distribuir, porque
tambem a dôr lhe devastara o coração. Nos braços um do outro, choraram o mesmo bem
que se lhes ia embora.

(Collecção dos Autores Celebres da Litteratura Brasileira, p. 294, Livraria Garnier, Rio de Janeiro)

Como se pode ver, muitas palavras conservam a grafia que já tinham em


1929, ao passo que outras tiveram sua grafia alterada. Essas mudanças
ocorreram principalmente por conta das reformas ortográficas de 1943 e 1971.
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Deste modo, as diferenças encontradas no trecho extraído da obra Helena


(publicada em 1929) ficam bastante evidentes quando se coteja esse texto com
uma edição mais recente, de 2003:63

Estácio buscou animá-la, mas a voz morreu-lhe às primeiras expressões, e ele saiu.
Melchior acompanhou-o.
- Uma cousa poderia talvez salvá-la, disse aflito o moço; era a presença do pai.
Vou mandá-lo procurar por toda a parte. Havemos de achá-lo; é preciso que o achemos.
Melchior aprovou a idéia do mancebo; e não lhe disse que o remédio viria talvez
tarde, se viesse. Estácio ordenou as cousas para a seguinte manhã. Voltaram à alcova da
enferma. Esta fechara os olhos, como se dormisse. Houve então entre aquelas quatro
paredes meia hora de silêncio, interrompido apenas, de quando em quando, pelos
movimentos que a doente fazia, como a querer mudar de posição. No fim desse tempo,
abriu os olhos e murmurou algumas palavras. Chegou o médico, viu-a e desenganou a
família.
Enquanto Melchior dava as ordens precisas para que Helena tivesse os socorros
espirituais, Estácio saiu dali; para ir, longe, desabafar o desespero; desceu à chácara,
vagou por ela delirante, a soluçar como uma criança, ora abraçado a uma árvore, ora
ajoelhado e pedindo a Deus a vida de Helena. O coração do moço não conhecia o fervor
religioso; mas a imagem da morte deu-lhe o que a vida lhe levara, e ele rezou, rezou
sozinho, sem hipocrisia nem dúvida. Mendonça veio achá-lo nessa luta derradeira entre a
realidade e a esperança. Não o consolou; não tinha consolações que distribuir, porque
também a dor lhe devastara o coração. Nos braços um do outro, choraram o mesmo bem
que se lhes ia embora.

(p. 142; Ática, São Paulo)


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Sobre as mudanças encontradas nessas duas versões de Helena, vejamos


algumas delas através do seguinte quadro comparativo:
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MUDANÇA ORTOGRÁFICA

medico médico
arvore árvore As proparoxítonas passaram a
duvida dúvida ser acentuadas na sua antepenúltima
familia família sílaba. E as paroxítonas terminadas
Estacio Estácio em ditongo crescente receberam
remedio remédio acento na penúltima sílaba.
silencio silêncio

elle ele
ella ela
aqquelas aquelas
soccorros socorros Houve o suprimento das
consoantes que antes eram dobradas.
dalli dali
approvou aprovou

pae pai O ditongo “ae” passou a ser


escrito “ai”.
espirituaes espirituais

O “y” (assim como o “k” e o


hypocrisia hipocrisia “w”) deixou de pertencer ao nosso
alfabeto. Deste modo, substituiu-se o
“y” por “i”.

animal-a animá-la
Houve uma mudança na
salval-a salvá-la forma como é feita a hifenização do
achal-o achá-lo pronome pessoal do caso oblíquo.

mandal-o mandá-lo
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O que se pode concluir ao comparar essas duas edições é que, ao reeditar


um texto antigo, faz-se uma adaptação ortográfica, de acordo com as normas
vigentes na época em que o texto é novamente publicado. Desta forma, escrever
“sósinho”, por exemplo, é considerado errado nos dias de hoje, mas estava
absolutamente correto em 1929, como podemos ver no trecho extraído da obra de
Machado de Assis editada nessa época. Analogamente, como também podemos
observar no trecho em questão, escrever “rezou” com “s” era corretíssimo.
No entanto, como saber qual é a forma correta de escrever uma
determinada palavra? Será que simplesmente decorar regras resolve? Embora
muito provavelmente a maioria das nossas dúvidas não sejam relativas às
mudanças que a grafia das palavras sofreu de uma reforma ortográfica e outra,
olhar para elas ajuda a entender a arbitrariedade de algumas formas ortográficas.
Assim, por exemplo, como saber se determinada palavra se escreve com “s” ou
com “z”? Observando os trechos extraídos das duas diferentes edições de Helena,
encontramos as mudanças: resou > rezou. Com base nisto, alguém poderia
perguntar: por que o mesmo não aconteceu com formas parecidas, como “pesou”,
“casou”, entre outros, e continuamos escrevendo-as com “s”?
O fato é que a ortografia, como vimos, é altamente convencional, no sentido
de que não é uma cópia de como se fala. Por isso, a única forma de aprender a
escrever corretamente é a prática constante, seja de leitura, seja de escrita.
Entretanto, mesmo quem escreve e lê muito sempre terá alguma dúvida com
relação à grafia de determinadas palavras. O processo de aprendizagem da
ortografia, longe de limitar-se ao período de alfabetização, na realidade, estende-
se por toda a vida.

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